diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 31509-8.txt | 15815 | ||||
| -rw-r--r-- | 31509-8.zip | bin | 0 -> 223358 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 31509-h.zip | bin | 0 -> 309196 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 31509-h/31509-h.htm | 17637 | ||||
| -rw-r--r-- | 31509-h/images/selo.png | bin | 0 -> 72611 bytes | |||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
8 files changed, 33468 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/31509-8.txt b/31509-8.txt new file mode 100644 index 0000000..79e9b71 --- /dev/null +++ b/31509-8.txt @@ -0,0 +1,15815 @@ +The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II, by +Luís de Camões + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II + +Author: Luís de Camões + +Release Date: March 5, 2010 [EBook #31509] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +Notas de transcrição: + +O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843. + +Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação. + +Nesta versão electrónica, em texto simples, não é possível representar +alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses +caracteres os seguintes marcadores: + +[~e] = e com til por cima, corresponde aproximadamente a "em"; + +[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um"; + + + * * * * * + + + + + + CLASSICOS PORTUGUEZES. + + TOMO II. + + CAMÕES. + + II. + + + +PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, +Rua Racine, 28, junto ao Odeon. + + + +OBRAS COMPLETAS + +DE + +LUIS DE CAMÕES, + +CORRECTAS E EMENDADAS + +PELO CUIDADO E DILIGENCIA + +DE + +J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro. + + +TOMO SEGUNDO. + + +LISBOA. + +ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, +NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, +3, quai Malaquais, près le pont des Arts. + +1843 + + + + +PREFAÇÃO. + + +Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos +os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras. +Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor +da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos +violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se +elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes, +excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos +heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros, +elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem +muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer +que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros: +testimunhas Grecia e Roma. + +Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a +todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças +e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente +de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo +mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e +sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido +o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das +gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia +por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da +grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo +do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde +a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago +e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou +no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se. + +Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem +nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos +feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando +o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no +decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas +primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o +primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo +algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da +Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em +Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo, +como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por +Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da +qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio +particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere.... +Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella +varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse +stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que +fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fué el primero +de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido +principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se +han compuesto._ + +No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão +Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos +noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520. + +No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se +conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um _Da +Misericordia_, outro _Do Regimento da justiça e Officiaes della etc_. Seu +irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente +do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras +politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em +Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e +dedicou a seu irmão Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re +militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi +elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas +poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja +então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte + + ODE + + De pungentes estimulos ferido + O Regedor dos ceos e humilde terra, + Sôbre ti manda, desastrada Lysia, + Effeitos da sua íra. + + A peste armada destruir teu povo + A um seu leve aceno vôa logo: + Estraga, fere, mata sanguinosa, + Despiedada e crua. + + Despenhada no abysmo da ruina, + Fugir pretendes aos accesos raios, + Qual horrida phantasma, porém logo + Desfallecida cahes. + + O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia, + Mas inda muito mais os teus errores + Que provocar fizerão contra ti + Contagião mortal. + + Dos Ceos apagar cuida a justa sanha + Da penitencia com as bastas ágoas, + Ja que revel e surda te mostraste + + A seus mudos avisos. + Então verás ornada a nobre frente, + Como nos priscos tempos que passárão, + De esclarecidos louros, sinal certo + De teus almos triumphos. + +Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara +começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, +escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação +da monarchia. + +No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente +introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. +Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, _O +Palmeirim de Inglaterra_, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o +attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: _Esta palma de +Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella +otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que +la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro, +Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es +muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal. +Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande +arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro +dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de +Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni +cata, perescan_. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o +Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas +d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos +costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se +avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como +Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, +que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a +trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta +sons menos harmoniosos e suaves. + +Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, +mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas +poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais +desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido +tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo +este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e +poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as +penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á +luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção +dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de +muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos +damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando +sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para +nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he, +cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E +se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o +devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que +pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim +desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas +com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim +se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao +prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso +poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o +gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias +bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique +superior o de nenhuma outra nação estranha. + +Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma +sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, +quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72: + + SONETO + + Quando de minhas mágoas a comprida + Maginação os olhos me adormece, + Em sonhos aquella alma me apparece, + Que para mim foi sonho nesta vida. + + Lá n'uma soidade, onde estendida + A vista pelo campo desfallece, + Corro apos ella; e ella então parece + Que de mim mais se alonga, compellida. + + Brado: Não me fujais, sombra benina. + Ella, os olhos em mim co'um brando pejo + Como quem diz que ja não pode ser, + + Torna a fugir-me: tórno a bradar: _Dina_... + E antes que diga _mene_, acordo, e vejo + Que nem um breve engano posso ter. + +Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia +e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse +pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes, +confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas +dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que +o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e nós diremos: _Campos +da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este +maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem +será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos. + +Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a +este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem +quizer comparar umas com outras. + +Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos +estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma +natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado +florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo +as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no +mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos +Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro, +Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por +modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro! +Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico +ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em +todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás +materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e +muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que +hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores +summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta +opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª, +9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára +viciada. + +No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de +a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma, +para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de +Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os +cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns +para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e +Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na +praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de +razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes +para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos, +passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não +mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico. + +Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que +emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico, +dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxalá pudera humilhar +a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_ +Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre +Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as +cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se +tem razão. + +Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava +pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não +tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no +julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas +para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a +pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores +poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da +natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente +a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da +natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura +Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes +poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores. +Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria +tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico, +lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava +melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he +permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de +quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque. + +Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia +seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra +ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o +throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril +pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe +o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se +propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle. + + _Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._ + +Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim +o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica. + + _L'Églogue quelquefois + Rend dignes du Consul la campagne et les bois._ + +E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem +sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não +possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios. + +Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha +e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro +amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de +tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e +elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção, +até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as +transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o +estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e +figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara +vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem +vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar +do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga: + + _Ipsae te, Tityre, pinus, + Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._ + + Estes pinheiros, Tityro, estas fontes, + Estes mesmos arbustos te chamavão. + +e não se hade consentir a Camões dizer: + + Canta agora, pastor, que o gado pasce + Entre as humidas hervas socegado, + E lá nas altas serras onde nasce, + O sacro Tejo á sombra recostado + Com seus olhos no chão, a mão na face, + Está para te ouvir apparelhado; + E com silencio triste estão as Nymphas + Dos olhos destillando claras lymphas? + +Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma +cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª + +Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle +foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que +desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo +esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador +sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza +da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto +puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta +Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia +domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este +juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa +facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a +outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas +Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos +olhos. + +Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres +deste modo: + + AGRARIO. + + Vós, semicapros deoses do alto monte, + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; + E vós, deosas do bosque e clara fonte, + E dos troncos que vivem largos anos; + Se tendes prompta um pouco a sacra fronte + A nossos versos rusticos e humanos, + Ou me dai ja a capella de loureiro, + Ou penda a minha lyra d'um pinheiro. + +Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador + + ALICUTO. + + Vós, humidas deidades deste pégo, + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo; + Vós, Nereidas do sal em que navego, + Por quem do vento a furia pouco temo; + Se a vossas sacras aras nunca nego + O congro nadador na pá do remo, + Não consintais que a musica marinha + Vencida seja aqui na lyra minha. + +Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são +demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples, +a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes +demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores. +Vejamos com que despejo entrão na lide. + + AGRARIO. + + Pastor se fez um tempo o moço louro + Que do pae as carretas move e guia; + Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro, + Que o seu claro inventor alli tangia. + Io foi vacca, Jupiter foi touro + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria + Guardou formoso Adonis, e tornado + Em bezerro Neptuno foi ja achado. + +A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a +seguinte, exaltando a sua profissão. + + ALICUTO. + + Pescador ja foi Glauco, e deos agora + He do mar, e Protêo phocas guarda; + Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora + Do amoroso prazer, que sempre tarda. + Se foi bezerro o deos que cá se adora, + Tambem ja foi delphim. Se se resguarda, + Vê-se que os moços pescadores erão, + Que o escuro enigma ao primo vate derão. + +Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora +recebe as suas finezas. + + AGRARIO. + + Formosa Dinamene, se dos ninhos + Os implumes penhores ja furtei + Á doce philomela, e dos murtinhos + Para ti (fera!) as flores apanhei; + E se os crespos madronhos nos raminhos + Com tanto gosto ja te presentei, + Porque não dás a Agrario desditoso + Um só revolver d'olhos piedoso? + +Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo +os preceitos do canto amebeo, ou alternado. + + ALICUTO. + + Para quem trago d'ágoa em vaso cavo + Os curvos camarões vivos saltando? + Para quem as conchinhas ruivas cavo + Na praia, os brancos buzios apanhando? + Para quem de mergulho no mar bravo + Os ramos de coral vou arrancando, + Senão para a formosa Lemnoria, + Que co'um só riso a vida me daria? + +Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de +ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa. + + AGRARIO. + + Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno, + D'átras nuvens vestido, horrido e feio, + Ennegrecendo á vista o ceo superno, + Quando os troncos arranca o rio cheio; + Raios, chuvas, trovões, um triste inferno + Que ao mundo mostra um pallido receio: + Tal o amor he cioso a quem suspeita + Que outrem de seu trabalho se aproveita. + + ALICUTO. + + Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante + Furor lançando flammas e bramidos, + Quando as pasmosas serras traz diante, + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos; + A braços derribando o ja nutante + Mundo co'os elementos destruidos; + Assim me representa a phantasia + A desesperação de ver um dia. + +Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as +estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. +Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do +alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as +furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o +mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento +não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se +lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas +figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte, +que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está +toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento +traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra +etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_, +diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta +_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto +não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e +palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de +pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se +espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se +estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque +não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o +devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar +os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento. +Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o +que inda ha pouco era rio caudaloso. + + AGRARIO. + + Minha alva Dinamene, a primavera + Que os deleitosos campos pinta e veste, + E rindo-se uma côr aos olhos gera, + Que em terra lhes faz ver o Arco celeste; + As aves, as boninas, a verde hera, + E toda a formosura amena agreste + Não he para os meus olhos tão formosa, + Como a tua, que abate o lirio e rosa. + + ALICUTO. + + As conchinhas da praia, que presentão + A côr das nuvens, quando nasce o dia; + O canto das Sirenas, que adormentão; + A tinta que no murice se cria; + O navegar por ondas, que se assentão + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. + + AGRARIO. + + A deosa, que na Lybica lagôa + Em fórma virginal appareceo, + Cujo nome tomou, que tanto sôa, + Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: + Garços os tem; mas uma, que a corôa + Das formosas do campo mereceo, + Da côr do campo os mostra graciosos. + Quem não diz que são estes os formosos? + + ALICUTO. + + Perdoem-me as deidades, mas tu diva + Que no liquido marmore es gerada, + A luz dos olhos teus, celeste e viva, + Tens por vicio amoroso atravessada: + Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva + De luz o dia, baixa e socegada + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego, + E com toda esta luz sempre estou cego. + +Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em +Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio +igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as +duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler +muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que +ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de +Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o +estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais +nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos +de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem +capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o +merecimento e preço das obras dos grandes homens. + +Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que +um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da +nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e +com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o +verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos +ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se +recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte, +aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os +louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que +parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a +selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como +oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões +do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros +mestres, lhe assinou o mesmo Apollo. + +Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á +de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do +homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras +Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta +edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem +propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era +excellente. + +Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno +Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões, +que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma +composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não +podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso +confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos +que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não +para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas +para divertimento particular. + +E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas +peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor +(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle, +se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por +consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas +heroicos e lyricos de Hespanha. + +Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como +Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos +talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta +facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da +paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a +penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe +impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque +nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos +escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a +militar. + +Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio +tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas +desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação +subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira +parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda; +que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da +antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça, +tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria, +que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas, +brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada +póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do +nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor +cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e +vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas: +na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que +assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia +resurgir os mortos. + + + + +VIDA DE LUIS DE CAMÕES. + + +Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que +nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades +disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em +tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o +primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte +mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de +Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o +poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os +seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e +computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo +55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois +comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de +Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar +a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli +presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem +seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se +tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu +nascimento. + +Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui +pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e +verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util; +como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima +do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos +com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua +genealogia. + +A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu +Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas +regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia, +fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a +seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se +malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e +passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por +seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete, +Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em +Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de +Portalegre e membro do seu conselho. + +Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão +mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo +depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua +honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a +inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na +guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da +successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes +seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as +armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom +Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as +herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em +Alemquer. + +João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser +Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes +serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com +Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo +Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João +1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste +matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da +Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que +casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E +destes nasceo o nosso poeta. + +Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa +memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser +insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se +empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto +se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua +velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores +estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de +Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então +restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob +a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que +este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes +disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de +fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi. + +Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio +das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo +com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E +desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu +primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se +entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em +todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se +infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão. + +Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se +apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo +de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida. +Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo +aquella maviosa Canção que principia: + + Vão as serenas ágoas + Do Mondego descendo etc. + +Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava +Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento +do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara +belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de +maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e +123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido +de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver +vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a +maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais +notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella +Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não +satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel +subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel +saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia. +Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente +Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez +se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor +insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que +manifesta na Canção 15 onde diz: + + Des que com gentil arte + Vestís de flores bellas + A terra, que tocais co'a bella planta, + Quantas vezes com vê-las, + Quiz n'uma dessas flores transformar-me! + Porque vendo pisar-me + Desse candido pe, que a neve espanta, + Póde ser que na flor mudado fòra + Que deo a Juno irada a linda Flora. + +não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira +por que Marte foi gerado. + +Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim, +amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco +acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa, +Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida, +foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão +sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo +estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas +vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este +desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido +Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo +depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu +pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval +com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de +Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra +aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel, +mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como +elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª + + Agora exprimentando a furia rara + De Marte, que nos olhos quiz que logo + Visse e tocasse o acerbo fructo seu. + E neste escudo meu + A pintura verão do infesto fogo. + +Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras +amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que +para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que +o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como +dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de +Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir, +arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava +a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro +impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu +destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro +assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa: +e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de +quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no +mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão +anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que +disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo) +as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. + +Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse +aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso +alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o +acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente +refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do +seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro +Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia +das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do +Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como +verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as +consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a +Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma +carta com data de Janeiro de 1555. + +E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que +nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo: +_Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços +que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta, +onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a +cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou +muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro +Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era +affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e +tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu +commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na +China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo +Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela +fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que +miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma +opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado +para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel +Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal +Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este +Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de +Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião +festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou +por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno +de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em +tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado +por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar. + +Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei +Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle +voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a +Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em +que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se +prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa +occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões +provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos +defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem +sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como +conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em +Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno, +como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a +Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que +perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime, +não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o +podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo +ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de +1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e +capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro +Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de +Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso, +dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque +se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua +plena liberdade. + +Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel +Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das +Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na +India_. + +Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi +reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se +poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que +nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a +seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do +mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao +mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena +constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que +para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa; +prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a +tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um +fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das +Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas +que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a +vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde +descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além +desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta +Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos +ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa +Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel +segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e +se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer +alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não +apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos +inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia +necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda +esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra +escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de +escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser +desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das +mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de +lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira +occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por +ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos, +que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á +enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição, +ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem +com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde +não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o +segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por +causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em +Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de +que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco +Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo, +que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se +Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de +que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem +um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um +tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos +lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81. + + E ainda, Nymphas minhas, não bastava + Que tamanhas miserias me cercassem, + Senão que aquelles que eu cantando andava + Tal premio de meus versos me tornassem! + A trôco dos descansos que esperava, + Das capellas de Louro que me honrassem, + Trabalhos nunca usados me inventárão, + Com que em tão duro estado me deitárão. + +e na Canção XI: + + Emfim, não houve trance de fortuna, + Nem perigos nem casos duvidosos, + Injustiças daquelles, que o confuso + Regimento do mundo, antigo abuso, + Faz sobre os outros homens poderosos, + Que eu não passasse, atado á fiel columna + Do soffrimento meu, que a importuna + Perseguição de males em pedaços + Mil vezes fez á força de seus braços. + +e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136, +compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro +de Babylonia: + + A pena deste desterro, + Que eu mais desejo esculpida + Em pedra ou em duro ferro etc. + +Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo: + + No grão dia singular + Que na lyra em douto som + Hierusalem celebrar, + Lembrai-vos de castigar + Os ruins filhos de Edom. + Aquelles que tintos vão + No pobre sangue innocente, + Soberbos co'o poder vão, + Arrazá-los igualmente: + Conheção que humanos são. + +Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida, +porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma +sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as +leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou +peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79, +fallando com as Tagides: + + Olhai que ha tanto tempo que cantando + O vosso Tejo e os vossos Lusitanos + A fortuna me traz peregrinando, + Novos trabalhos vendo e novos danos. + +e Est. 80: + + Agora com pobreza aborrecida + Por hospicios alheios degradado. + +Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da +Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em +expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque +se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer: + + Aqui me achei gastando uns tristes dias, + Tristes, forçados, maos e solitarios, + De trabalho, de dor, e de ira cheios. + +porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião +_forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não +havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde +nascer de alguma injúria ou violencia soffrida. + +Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns +annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª + + Aqui minha ventura + Quiz qu'uma grande parte + Da vida que não tinha se passasse, + Para que a sepultura + Nas mãos do fero Marte + De sangue e de lembranças matizasse. + +E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não +só porque isso mesmo consta do remate della + + Canção, neste desterro viverás, + Voz nua e descoberta, + Até que o tempo em eco te converta. + +mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como +ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se +sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia. + +De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi +existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o +poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido +crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a +este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha +de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e +trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu +merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua +vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto +havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver +perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que +não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de +gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de +Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das +suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou, +deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e +calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria +boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz +nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII: + + Trabalhos nunca usados me inventárão, + Com que em tão duro estado me deitárão. + +Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque, +tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa +cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a +nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide, +censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição +que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos +ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a +Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo +daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer +a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido? + +Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou +algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que +exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma +fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e +que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle +Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal, +fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque +isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz: + + Agora da esperança ja adquirida + De novo mais que nunca derribado. + +Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a +nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda +a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como +Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi +recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est. +128, onde diz, fallando do rio Mecom: + + Este receberá placido e brando + No seu regaço os Cantos, que molhados + Vem do naufragio triste e miserando, + Dos procellosos baixos escapados, + Das fomes, dos perigos grandes, quando + Será o injusto mando executado[1] + Naquelle, cuja lyra sonorosa + Será mais affamada, que ditosa. + +Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou +por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase +do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que +tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para +Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado +de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a +innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja +administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe +dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes +etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o +exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu +proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da +calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da +India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa) +escreveo outra sobre o desconcerto do mundo. + +Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na +precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo! + + O Valor e o Saber pedindo vão + Ás portas da cubiça e da vileza! + +Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do +Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia +amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe +movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão, +que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da +Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no +governo de Francisco Barreto, diz: + + A piedade humana me faltava + A gente amiga ja contraria via + No perigo primeiro; e no segundo + Terra em que pôr os pés me fallecia, + Ar para respirar se me negava. + +Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui +grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores +tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e +que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem +fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando +a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe +emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo +embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens, +recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso +requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura. + +Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão +perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem +nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de +maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu +valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de +tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para +terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E +nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como +dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para +Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a +Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando +meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu +intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus, +como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela +honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão +passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos +ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados, +que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida: +do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e +satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria +e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos +cruzados foi vendida. + +Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso +de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do +Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço, +cheia de erudição e philosophia. + +No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que +chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha +todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se +restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que +ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella +encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas +succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua +guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle +expressamente nos diz (Egloga XI): + + Tinha lá para mim que a vida tinha + Mais socegada cá e mais segura + Entre os meus, que com gosto a buscar vinha. + Foi de outro parecer minha ventura: + Discordias sos achei, achei dureza + Em lugar de socêgo e de brandura. + Achei as boas leis da natureza + Vencidas do interesse, e a gente cega + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. + Dizem que quando o mar bonança nega, + Correndo vai aquella nao mor p'rigo. + Que á desejada terra mais se chega. + Assi me aconteceo a mi comigo: + Seguro sempre ao longe, sempre ledo; + Triste ao perto, e tratado como imigo. + +E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O +escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama, +poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os +commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido +necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou +cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos +contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de +não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e +não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de +publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de +succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois +que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim +do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar +aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78): + + Mas oh cego! + Eu que commetto insano e temerario + Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego, + Por caminho tão arduo longo e vario! + Vosso favor invoco, que navego + Por alto mar com vento tão contrario, + Que, se não me ajudais, hei grande medo + Que o meu fraco batel se alague cedo. + +e depois (Estancia 83): + + Pois logo em tantos males he forçado + Que se vosso favor me não falleça, + Principalmente aqui, que sou chegado + Onde feitos diversos engrandeça. + Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado + Que não o empregue em quem o não mereça, + Nem por lisonja louve algum subido, + Sob pena de não ser agradecido. + +Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama +posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria, +cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque +dous annos esteve sem sahir com elle á luz. + +Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina, +sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia +originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque, +estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de +1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do +poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte +revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que +poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas +suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no +mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle +emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande +familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da +Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho +dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe +fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de +toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys, +e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82): + + Porque eu, Saturno e Jano, + Jupiter, Juno, somos fabulosos, + Fingidos de mortal e cego engano; + +a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e +seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II, +Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não +he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he +permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente! + +Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572 +sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como +queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e +póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as +duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que +desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse +cansar-se com a revisão das provas. + +Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe +fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita +de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na +Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque +no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que +parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o +Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se +dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por +caridade, como se vê dos seguintes versos: + + Estes humildes versos, que pregão + São destes vossos Reinos com verdade, + Tenhão, se não merecem galardão, + Favor sequer da Regia Magestade: + Assim tenhais de quem ja tendes tanto, + Com o nome e reliquia, favor santo. + +E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os +monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e +pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de +Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra +o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe, +tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão +arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de +andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que +jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$ +reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della. +Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os +commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus +foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte, +não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava +mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte: + + Oh inimigos maos da natureza, + Que injuriais a propria geração! + Degenerantes, baixos! Que fraqueza + De esforço, de saber e de razão + Vos fez que a clara estirpe, que se préza + De leal, fido e limpo coração, + Esqueçais dessa sorte? Mas respeito, + Que este dos nobres he o menor defeito. + +E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido +a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de +Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o +sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de +Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia +todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em +quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que +desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes +achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus +eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella +incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no +mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza. + +Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores +contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos +Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha +tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete +Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa +tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me +não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis. +_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses +versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e +agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso +me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a +pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este +Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos +sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma +esmola. + +Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom +Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão +levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse +testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava +homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e +magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma +Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios +promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não +convertesse o canto em chôro. + +Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito +peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco +depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe +morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus +dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á +sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que +morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois +da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como +todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por +caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida +que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa +casa, ahi achão mortalha e sepultura. + +Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido +sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos +tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do +pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da +justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates +contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte +debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade +de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos +tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi +mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não +abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e +depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em +degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia, +cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a +submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer +elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o +que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte +muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em +cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas, +conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o +merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas +pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que +não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder +comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras +de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de +Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a +impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a +Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o +denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre +Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que +mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um +folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado: + +_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden +de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el +Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y +judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y +profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico +ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._ + +Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos +aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja +com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este +grande homem e todos os que o ousárão louvar: + +_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento +no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa +cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son +enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los +celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á +entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del +Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios +contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y +á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le +persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á +imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden +viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió +en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba +escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la +representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por +quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los +Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._ + +_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si +bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por +ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un +Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria +de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo +ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á +una mano publican la excelencia de sus obras._ + +Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima +censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo +mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos +de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas +as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre +Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e +inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com +calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não +sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de +derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez +umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes +se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer +outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta, +cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua +natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu +Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas +cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a +Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V: + + Quando uma noute estando descuidados + Na cortadora prôa vigiando. + +Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia! +Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião +indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão +vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume +dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes +não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia +a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões? + +Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria +nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação, +e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem +recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas +impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della +como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que +quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos +vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o +perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos +Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo +cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos +possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas +que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males +particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era +conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem +dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e +populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de +homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos +Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha +algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para +que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel +(Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste +desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os +Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e +inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por +lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias +se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus +compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem +apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil +preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos +ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem +lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse. + +Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros, +que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e +grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da +fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na +conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os +amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos +perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna +conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da +morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer, +que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna +representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me +ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males, +pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi +ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e +desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou +em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della, +como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos +parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que +nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira +aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque +julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua +patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na +sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento, +vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom +Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma +carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e +aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de +morrer nella, quiz tambem morrer com ella._ + +Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta +Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos +com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo +Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e +nella gravar este letreiro: + + AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES, + PRINCIPE + DOS POETAS DE SEU TEMPO. + VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE, + E ASSI MORREO + ANNO DE MDLXXIX. + ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR + DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE + NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA. + +Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da +Camara o seguinte Epitaphio: + + _Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus, + Hic jacet heroe carmine Virgilius. + Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam. + Unam nobilitant Mars et Apollo manum. + Castalium fontem traxit modulamine: at Indo + Et Gangi telis obstupefecit aquas. + India mirata est, quando aurea carmina, lucrum + Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit. + Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense: + At plus, dum calamo bellicosa facta refert. + Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam: + Quaelibet hunc vellet terra vocare suum. + Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni + Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._ + +Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu +correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e +quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse +licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um +tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da +Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta, +talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão +grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno +de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio +os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida +erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de +tão insigne varão. + + + + +RIMAS. + + + + +RIMAS. + + +SONETOS. + + +I. + + Em quanto quiz fortuna que tivesse + Esperança de algum contentamento, + O gosto de hum suave pensamento + Me fez que seus effeitos escrevesse. + Porém temendo Amor que aviso désse + Minha escriptura a algum juizo isento, + Escureceo-me o engenho co'o tormento, + Para que seus enganos não dissesse. + Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos + A diversas vontades! quando lerdes + N'hum breve livro casos tão diversos; + (Verdades puras são, e não defeitos) + Entendei que segundo o amor tiverdes, + Tereis o entendimento de meus versos. + + +II. + + Eu cantarei de amor tão docemente, + Por huns termos em si tão concertados, + Que dous mil accidentes namorados + Faça sentir ao peito que não sente. + Farei que Amor a todos avivente, + Pintando mil segredos delicados, + Brandas iras, suspiros magoados, + Temerosa ousadia, e pena, ausente. + Tambem, Senhora, do desprêzo honesto + De vossa vista branda e rigorosa, + Contentar-me-hei dizendo a menor parte. + Porém para cantar de vosso gesto + A composição alta e milagrosa, + Aqui falta saber, engenho, e arte. + + +III. + + Com grandes esperanças ja cantei, + Com que os deoses no Olympo conquistára; + Depois vim a chorar porque cantára, + E agora chóro ja porque chorei. + Se cuido nas passadas que ja dei, + Custa-me esta lembrança só tão cara, + Que a dor de ver as mágoas que passára, + Tenho por a mór mágoa que passei. + Pois logo, se está claro que hum tormento + Dá causa que outro na alma se accrescente, + Ja nunca posso ter contentamento. + Mas esta phantasia se me mente? + Oh ocioso e cego pensamento! + Ainda eu imagino em ser contente? + + +IV. + + Despois que quiz Amor que eu só passasse + Quanto mal ja por muitos repartio, + Entregou-me á Fortuna, porque vio + Que não tinha mais mal que em mi mostrasse. + Ella, porque do Amor se avantajasse + Na pena a que elle só me reduzio, + O que para ninguem se consentio, + Para mim consentio que se inventasse. + Eis-me aqui vou com vário som gritando. + Copioso exemplario para a gente + Que destes dous tyrannos he sujeita; + Desvarios em versos concertando. + Triste quem seu descanso tanto estreita, + Que deste tão pequeno está contente! + + +V. + + Em prisões baixas fui hum tempo atado; + Vergonhoso castigo de meus erros: + Inda agora arrojando levo os ferros, + Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado. + Sacrifiquei a vida a meu cuidado, + Que Amor não quer cordeiros nem bezerros; + Vi mágoas, vi miserias, vi desterros: + Parece-me que estava assi ordenado. + Contentei-me com pouco, conhecendo + Que era o contentamento vergonhoso, + Só por ver que cousa era viver ledo. + Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo, + A Morte cega, e o Caso duvidoso + Me fizerão de gostos haver medo. + + +VI. + + Illustre e digno ramo dos Menezes, + Aos quaes o providente e largo Ceo + (Que errar não sabe) em dote concedeo, + Rompessem os Maometicos arnezes; + Desprezando a Fortuna e seus revezes, + Ide para onde o Fado vos moveo; + Erguei flammas no mar alto Erythreo, + E sereis nova luz aos Portuguezes. + Opprimi com tão firme e forte peito + O Pirata insolente, que se espante + E trema Taprobana e Gedrosia. + Dai nova causa á côr do Arabo Estreito; + Assi que o Roxo mar, daqui em diante + O seja só com sangue de Turquia. + + +VII. + + No tempo que de amor viver sohia, + Nem sempre andava ao remo ferrolhado; + Antes agora livre, agora atado, + Em várias flammas variamente ardia. + Que ardesse n'hum só fogo não queria + O Ceo porque tivesse exprimentado + Que nem mudar as causas ao cuidado + Mudança na ventura me faria. + E se algum pouco tempo andava isento, + Foi como quem co'o pêzo descansou + Por tornar a cansar com mais alento. + Louvado seja Amor em meu tormento, + Pois para passatempo seu tomou + Este meu tão cansado soffrimento! + + +VIII. + + Amor, que o gesto humano na alma escreve, + Vivas faiscas me mostrou hum dia, + Donde hum puro crystal se derretia + Por entre vivas rosas e alva neve. + A vista, que em si mesma não se atreve, + Por se certificar do que alli via, + Foi convertida em fonte, que fazia + A dor ao soffrimento doce e leve. + Jura Amor, que brandura de vontade + Causa o primeiro effeito; o pensamento + Endoudece, se cuida que he verdade. + Olhai como Amor gera, em hum momento, + De lagrimas de honesta piedade + Lagrimas de immortal contentamento. + + +IX. + + Tanto de meu estado me acho incerto, + Que em vivo ardor tremendo estou de frio; + Sem causa juntamente chóro e rio; + O mundo todo abarco, e nada apérto. + He tudo quanto sinto hum desconcêrto: + Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio; + Agora espero, agora desconfio; + Agora desvarío, agora acérto. + Estando em terra, chego ao ceo voando; + N'hum'hora acho mil annos, e he de geito + Que em mil annos não posso achar hum'hora. + Se me pergunta alguem, porque assi ando, + Respondo, que não sei: porém suspeito + Que só porque vos vi, minha Senhora. + + +X. + + Transforma-se o amador na cousa amada, + Por virtude do muito imaginar: + Não tenho logo mais que desejar, + Pois em mim tenho a parte desejada. + Se nella está minha alma transformada, + Que mais deseja o corpo de alcançar? + Em si somente póde descansar, + Pois com elle tal alma está liada. + Mas esta linda e pura semidea, + Que como o accidente em seu sojeito, + Assi com a alma minha se confórma; + Está no pensamento como idea; + E o vivo e puro amor de que sou feito, + Como a materia simples busca a fórma. + + +XI. + + Passo por meus trabalhos tão isento + De sentimento grande nem pequeno, + Que só por a vontade com que peno + Me fica Amor devendo mais tormento. + Mas vai-me Amor matando tanto a tento, + Temperando a triaga co'o veneno, + Que do penar a ordem desordeno, + Porque não mo consente o soffrimento. + Porém se esta fineza o Amor sente + E pagar-me meu mal com mal pretende, + Torna-me com prazer como ao sol neve. + Mas se me vê co'os males tão contente, + Faz-se avaro da pena, porque entende + Que quanto mais me paga, mais me deve. + + +XII. + + Em flor vos arrancou, de então crescida, + (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte + Donde fazendo andava o braço forte + A fama dos antiguos esquecida. + Huma só razão tenho conhecida + Com que tamanha mágoa se conforte: + Que se no Mundo havia honrada morte, + Não podieis vós ter mais larga vida. + Se meus humildes versos podem tanto + Que co'o desejo meu se iguale a arte, + Especial materia me sereis. + E celebrado em triste e longo canto, + Se morrestes nas mãos do fero Marte, + Na memoria das gentes vivireis. + + +XIII. + + N'hum jardim adornado de verdura, + Que esmaltavão por cima várias flores, + Entrou hum dia a deosa dos amores, + Com a deosa da caça e da espessura. + Diana tomou logo h[~u]a rosa pura, + Venus hum roxo lyrio, dos melhores; + Mas excedião muito ás outras flores + As violas na graça e formosura. + Perguntão a Cupido, que alli estava, + Qual de aquellas tres flores tomaria + Por mais suave e pura, e mais formosa. + Sorrindo-se o menino lhes tornava: + Todas formosas são; mas eu queria + Viola antes que lyrio, nem que rosa. + + +XIV. + + Todo animal da calma repousava, + Só Liso o ardor della não sentia; + Que o repouso do fogo, em que elle ardia, + Consistia na Nympha que buscava. + Os montes parecia que abalava + O triste som das mágoas que dizia: + Mas nada o duro peito commovia, + Que na vontade de outro posto estava. + Cansado ja de andar por a espessura, + No tronco de huma faia, por lembrança, + Escreve estas palavras de tristeza: + Nunca ponha ninguem sua esperança + Em peito feminil, que de natura + Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza. + + +XV. + + Busque Amor novas artes, novo engenho + Para matar-me, e novas esquivanças; + Que não póde tirar-me as esperanças, + Pois mal me tirará o que eu não tenho. + Olhai de que esperanças me mantenho! + Vêde que perigosas seguranças! + Pois não temo contrastes nem mudanças, + Andando em bravo mar, perdido o lenho. + Mas com quanto não póde haver desgôsto + Onde esperança falta, lá me esconde + Amor hum mal, que mata e não se vê. + Que dias ha que na alma me t[~e]e posto + Hum não sei que, que nasce não sei onde; + Vem não sei como; e doe não sei porque. + + +XVI. + + Quem vê, Senhora, claro e manifesto + O lindo ser de vossos olhos bellos, + Se não perder a vista só com vellos, + Ja não paga o que deve a vosso gesto. + Este me parecia preço honesto; + Mas eu, por de vantagem merecellos, + Dei mais a vida e alma por querellos; + Donde ja me não fica mais de resto. + Assi que alma, que vida, que esperança, + E que quanto for meu, he tudo vosso: + Mas de tudo o interêsse eu só o levo. + Porque he tamanha bem-aventurança + O dar-vos quanto tenho, e quanto posso, + Que quanto mais vos pago, mais vos devo. + + +XVII. + + Quando da bella vista e doce riso + Tomando estão meus olhos mantimento, + Tão elevado sinto o pensamento, + Que me faz ver na terra o Paraiso. + Tanto do bem humano estou diviso, + Que qualquer outro bem julgo por vento: + Assi que em termo tal, segundo sento, + Pouco vem a fazer quem perde o siso. + Em louvar-vos, Senhora, não me fundo; + Porque quem vossas graças claro sente, + Sentirá que não póde conhecellas. + Pois de tanta estranheza sois ao mundo, + Que não he de estranhar, Dama excellente, + Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas. + + +XVIII. + + Doces lembranças da passada gloria, + Que me tirou fortuna roubadora, + Deixai-me descansar em paz hum'hora, + Que comigo ganhais pouca victoria. + Impressa tenho na alma larga historia + Deste passado bem, que nunca fôra; + Ou fôra, e não passára: mas ja agora + Em mi não póde haver mais que a memoria. + Vivo em lembranças, morro de esquecido + De quem sempre devêra ser lembrado, + Se lhe lembrára estado tão contente. + Oh quem tornar pudéra a ser nascido! + Soubera-me lograr do bem passado, + Se conhecer soubera o mal presente. + + +XIX. + + Alma minha gentil, que te partiste + Tão cedo desta vida descontente, + Repousa lá no Ceo eternamente, + E viva eu cá na terra sempre triste. + Se lá no assento Ethereo, onde subiste, + Memoria desta vida se consente, + Não te esqueças de aquelle amor ardente, + Que ja nos olhos meus tão puro viste. + E se vires que póde merecer-te + Alg[~u]a cousa a dor que me ficou + Da mágoa, sem remedio, de perder-te; + Roga a Deos que teus annos encurtou, + Que tão cedo de cá me leve a ver-te, + Quão cedo de meus olhos te levou. + + +XX. + + N'hum bosque, que das Nymphas se habitava, + Sibella, Nympha linda, andava hum dia; + E subida em huma árvore sombria, + As amarellas flores apanhava. + Cupido, que alli sempre costumava + A vir passar a sésta á sombra fria, + Em hum ramo arco e settas, que trazia, + Antes que adormecesse, pendurava. + A Nympha, como idoneo tempo víra + Para tamanha empresa, não dilata; + Mas com as armas foge ao moço esquivo. + As settas traz nos olhos, com que tira. + Ó Pastores! fugi, que a todos mata, + Senão a mim, que de matar-me vivo. + + +XXI. + + Os Reinos e os Imperios poderosos, + Que em grandeza no mundo mais crescêrão; + Ou por valor de esfôrço florecêrão, + Ou por Barões nas letras espantosos. + Teve Grecia Themistocles famosos; + Os Scipiões a Roma engrandecêrão; + Doze Pares a França gloria derão; + Cides a Hespanha, e Laras bellicosos. + Ao nosso Portugal, que agora vemos + Tão differente de seu ser primeiro, + Os vossos derão honra e liberdade. + E em vós, grão successor e novo herdeiro + Do Braganção Estado, ha mil extremos + Iguaes ao sangue, e móres que a idade. + + +XXII. + + De vós me parto, ó vida, e em tal mudança + Sinto vivo da morte o sentimento. + Não sei para que he ter contentamento, + Se mais ha de perder quem mais alcança. + Mas dou-vos esta firme segurança: + Que postoque me mate o meu tormento, + Por as aguas do eterno esquecimento + Segura passará minha lembrança. + Antes sem vós meus olhos se entristeção, + Que com cousa outra alguma se contentem: + Antes os esqueçais, que vos esqueção. + Antes nesta lembrança se atormentem, + Que com esquecimento desmereção + A gloria que em soffrer tal pena sentem. + + +XXIII. + + Chara minha inimiga, em cuja mão + Poz meus contentamentos a ventura, + Faltou-te a ti na terra sepultura, + Porque me falte a mi consolação. + Eternamente as águas lograrão + A tua peregrina formosura: + Mas em quanto me a mim a vida dura, + Sempre viva em minha alma te acharão. + E se meus rudos versos podem tanto, + Que possão prometter-te longa historia + De aquelle amor tão puro e verdadeiro; + Celebrada serás sempre em meu canto: + Porque em quanto no mundo houver memoria, + Será a minha escriptura o teu letreiro. + + +XXIV. + + Aquella triste e leda madrugada, + Cheia toda de mágoa e de piedade, + Em quanto houver no mundo saudade + Quero que seja sempre celebrada. + Ella só, quando amena e marchetada + Sahia, dando á terra claridade, + Vio apartar-se de huma outra vontade, + Que nunca poderá ver-se apartada; + Ella só vio as lagrimas em fio, + Que de huns e de outros olhos derivadas, + Juntando-se, formárão largo rio; + Ella ouvio as palavras magoadas, + Que puderão tornar o fogo frio, + E dar descanço ás almas condemnadas. + + +XXV. + + Se quando vos perdi, minha esperança, + A memoria perdêra juntamente + Do doce bem passado e mal presente, + Pouco sentira a dor de tal mudança. + Mas Amor, em quem tinha confiança, + Me representa mui miudamente + Quantas vezes me vi ledo e contente, + Por me tirar a vida esta lembrança. + De cousas de que apenas hum signal + Havia, porque as dei ao esquecimento, + Me vejo com memorias perseguido. + Ah dura estrella minha! Ah grão tormento! + Que mal póde ser mor, que no meu mal + Ter lembranças do bem que he ja passado? + + +XXVI. + + Em formosa Lethea se confia, + Por onde vaidade tanta alcança, + Que, tornada em soberba a confiança, + Com os deoses celestes competia. + Porque não fosse avante esta ousadia, + (Que nascem muitos erros da tardança) + Em effeito puzerão a vingança + Que tamanha doudice merecia. + Mas Oleno, perdido por Lethea, + Não lhe soffrendo Amor que supportasse + Duro castigo em tanta formosura, + Quiz a pena tomar da culpa alhea: + Mas, porque a Morte Amor não apartasse, + Ambos tornados são em pedra dura. + + +XXVII. + + Males, que contra mim vos conjurastes, + Quanto ha de durar tão duro intento? + Se dura, porque dure meu tormento, + Baste-vos quanto ja me atormentastes. + Mas se assi porfiais, porque cuidastes + Derribar o meu alto pensamento, + Mais póde a causa delle, em que o sustento, + Que vós, que della mesma o ser tomastes. + E pois vossa tenção com minha morte + He de acabar o mal destes amores, + Dai ja fim a tormento tão comprido. + Assi de ambos contente será a sorte; + Em vós por acabar-me, vencedores, + Em mim porque acabei de vós vencido. + + +XXVIII. + + Está-se a Primavera trasladando + Em vossa vista deleitosa e honesta; + Nas bellas faces, e na boca e testa, + Cecens, rosas, e cravos debuxando. + De sorte, vosso gesto matizando, + Natura quanto póde manifesta, + Que o monte, o campo, o rio, e a floresta, + Se estão de vós, Senhora, namorando. + Se agora não quereis que quem vos ama + Possa colher o fructo destas flores, + Perderão toda a graça os vossos olhos. + Porque pouco aproveita, linda Dama, + Que semeasse o Amor em vós amores, + Se vossa condição produze abrolhos. + + +XXIX. + + Sete annos de pastor Jacob servia + Labão, pae de Raquel, serrana bella: + Mas não servia ao pae, servia a ella, + Que a ella só por premio pertendia. + Os dias na esperança de hum só dia + Passava, contentando-se com vella: + Porém o pae, usando de cautella, + Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. + Vendo o triste Pastor que com enganos + Assi lhe era negada a sua Pastora, + Como se a não tivera merecida; + Começou a servir outros sete annos, + Dizendo: Mais servíra, senão fôra + Para tão longo amor tão curta a vida. + + +XXX. + + Está o lascivo e doce passarinho + Com o biquinho as pennas ordenando; + O verso sem medida, alegre e brando, + Despedindo no rustico raminho. + O cruel caçador, que do caminho + Se vem callado e manso desviando, + Com prompta vista a setta endireitando, + Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho. + Desta arte o coração, que livre andava, + (Postoque ja de longe destinado) + Onde menos temia, foi ferido. + Porque o frecheiro cego me esperava, + Para que me tomasse descuidado, + Em vossos claros olhos escondido. + + +XXXI. + + Pede o desejo, Dama, que vos veja: + Não entende o que pede; está enganado. + He este amor tão fino e tão delgado, + Que quem o t[~e]e, não sabe o que deseja. + Não ha cousa, a qüal natural seja, + Que não queira perpétuo o seu estado. + Não quer logo o desejo o desejado, + Só porque nunca falte onde sobeja. + Mas este puro affecto em mim se dana: + Que, como a grave pedra t[~e]e por arte + O centro desejar da natureza; + Assi meu pensamento por a parte, + Que vai tomar de mi, terreste e humana, + Foi, Senhora, pedir esta baixeza. + + +XXXII. + + Porque quereis, Senhora, que offereça + A vida a tanto mal como padeço? + Se vos nasce do pouco que eu mereço, + Bem por nascer está quem vos mereça. + Entendei que por muito que vos peça, + Poderei merecer quanto vos peço; + Pois não consente amor que em baixo preço + Tão alto pensamento se conheça. + Assi que a paga igual de minhas dores + Com nada se restaura; mas devêsma + Por ser capaz de tantos desfavores. + E se o valor de vossos amadores + Houver de ser igual comvosco mesma, + Vós só comvosco mesma andai de amores. + + +XXXIII. + + Se tanta pena tenho merecida + Em pago de soffrer tantas durezas; + Provai, Senhora, em mi vossas cruezas, + Que aqui tendes huma alma offerecida. + Nella experimentai, se sois servida, + Desprezos, desfavores e asperezas; + Que móres soffrimentos e firmezas + Sustentarei na guerra desta vida. + Mas contra vossos olhos quaes serão? + He preciso que tudo se lhes renda; + Mas porei por escudo o coração. + Porque em tão dura e aspera contenda + He bem que, pois não acho defensão, + Com meter-me nas lanças me defenda. + + +XXXIV. + + Quando o sol encoberto vai mostrando + Ao mundo a luz quieta e duvidosa, + Ao longo de huma praia deleitosa + Vou na minha inimiga imaginando. + Aqui a vi os cabellos concertando; + Alli co'a mão na face, tão formosa; + Aqui fallando alegre, alli cuidosa; + Agora estando quêda, agora andando. + Aqui esteve sentada, alli me vio, + Erguendo aquelles olhos, tão isentos; + Commovida aqui hum pouco, alli segura. + Aqui se entristeceo, alli se rio: + E, em fim, nestes cansados pensamentos + Passo esta vida vãa, que sempre dura. + + +XXXV. + + Hum mover de olhos, brando e piedoso, + Sem ver de que; hum riso brando e honesto, + Quasi forçado; hum doce e humilde gesto, + De qualquer alegria duvidoso: + Hum despejo quieto e vergonhoso; + Hum repouso gravissimo e modesto; + Huma pura bondade, manifesto + Indicio da alma, limpo e gracioso: + Hum encolhido ousar; huma brandura; + Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno; + Hum longo e obediente soffrimento: + Esta foi a celeste formosura + Da minha Circe, e o magico veneno + Que pôde transformar meu pensamento. + + +XXXVI. + + Tomou-me vossa vista soberana + Adonde tinha as armas mais á mão, + Por mostrar a quem busca defensão + Contra esses bellos olhos, que se engana. + Por ficar da victoria mais ufana, + Deixou-me armar primeiro da razão. + Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão, + Que contra o Ceo não val defensa humana. + Com tudo, se vos tinha promettido + O vosso alto destino esta victoria, + Ser-vos ella bem pouca está entendido. + Pois, indaque eu me achasse apercebido, + Não levais de vencer-me grande gloria, + Eu a levo maior de ser vencido. + + +XXXVII. + + Não passes, caminhante. Quem me chama? + H[~u]a memoria nova e nunca ouvida, + De hum que trocou finita e humana vida + Por divina, infinita, e clara fama. + Quem he, que tão gentil louvor derrama? + Quem derramar seu sangue não duvida, + Por seguir a bandeira esclarecida + De hum capitão de Christo que mais ama. + Ditoso fim, ditoso sacrificio, + Que a Deos se fez e ao mundo juntamente! + Pregoando direi tão alta sorte. + Mais poderás contar a toda a gente + Que sempre deo na vida claro indicio + De vir a merecer tão santa morte. + + +XXXVIII. + + Formosos olhos, que na idade nossa + Mostrais do Ceo certissimos signais, + Se quereis conhecer quanto possais, + Olhai-me a mim, que sou feitura vossa. + Vereis que do viver me desapossa + Aquelle riso com que a vida dais: + Vereis como de Amor não quero mais, + Por mais que o tempo corra, o damno possa. + E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes, + Como em hum claro espelho, alli vereis + Tambem a vossa angelica e serena. + Mas eu cuido que, só por me não verdes, + Ver-vos em mim, Senhora, não quereis: + Tanto gôsto levais de minha pena! + + +XXXIX. + + O fogo que na branda cera ardia, + Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo, + Se accendeo de outro fogo do desejo + Por alcançar a luz que vence o dia. + Como de dous ardores se encendia, + Da grande impaciencia fez despejo, + E remettendo com furor sobejo, + Vos foi beijar na parte onde se via. + Ditosa aquella flamma que se atreve + A apagar seus adores e tormentos + Na vista a quem o sol temores deve! + Namorão-se, Senhora, os Elementos + De vós, e queima o fogo aquella neve + Que queima corações e pensamentos. + + +XL. + + Alegres campos, verdes arvoredos, + Claras e frescas águas de crystal, + Que em vós os debuxais ao natural, + Discorrendo da altura dos rochedos: + Sylvestres montes, asperos penedos + Compostos de concêrto desigual; + Sabei que sem licença de meu mal + Ja não podeis fazer meus olhos ledos. + E pois ja me não vêdes como vistes, + Não me alegrem verduras deleitosas, + Nem águas que correndo alegres vem. + Semearei em vós lembranças tristes, + Regar-vos-hei com lagrimas saudosas, + E nascerão saudades de meu bem. + + +XLI. + + Quantas vezes do fuso se esquecia + Daliana, banhando o lindo seio, + Outras tantas de hum aspero receio + Salteado Laurenio a côr perdia. + Ella, que a Sylvio mais que a si queria, + Para podê-lo ver não tinha meio. + Ora como curára o mal alheio + Quem o seu mal tão mal curar podia? + Elle, que vio tão clara esta verdade, + Com soluços dizia (que a espessura + Inclinavão, de mágoa, a piedade): + Como póde a desordem da natura + Fazer tão differentes na vontade + Aos que fez tão conformes na ventura? + + +XLII. + + Lindo e subtil trançado, que ficaste + Em penhor do remedio que mereço, + Se só comtigo, vendo-te, endoudeço, + Que fôra co'os cabellos que apertaste? + Aquellas tranças de ouro que ligaste, + Que os raios do sol t[~e]e em pouco preço, + Não sei se ou para engano do que peço, + Ou para me matar as desataste. + Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, + E por satisfação de minhas dores, + Como quem não t[~e]e outra, hei de tomar-te. + E se não for contente o meu desejo, + Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores + Por o todo tambem se toma a parte. + + +XLIII. + + O cysne quando sente ser chegada + A hora que põe termo á sua vida, + Harmonia maior, com voz sentida, + Levanta por a praia inhabitada. + Deseja lograr vida prolongada, + E della está chorando a despedida: + Com grande saudade da partida, + Celebra o triste fim desta jornada. + Assi, Senhora minha, quando eu via + O triste fim que davão meus amores, + Estando posto ja no extremo fio; + Com mais suave accento de harmonia + Descantei por os vossos desfavores + _La vuestra falsa fe, y el amor mio._ + + +XLIV. + + Por os raros extremos que mostrou + Em sábia Pallas, Venus em formosa, + Diana em casta, Juno em animosa, + Africa, Europa e Asia as adorou. + Aquelle saber grande que juntou + Esprito e corpo em liga generosa, + Esta mundana máchina lustrosa, + De sós quatro elementos fabricou. + Mas fez maior milagre a natureza + Em vós, Senhoras, pondo em cada h[~u]a + O que por todas quatro repartio. + A vós seu resplandor deo sol e l[~u]a: + A vós com viva luz, graça e pureza, + Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio. + + +XLV. + + Tomava Daliana por vingança + Da culpa do pastor que tanto amava, + Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava + O êrro alheio, e perfida esquivança. + A discrição segura, a confiança + Das rosas que o seu rosto debuxava, + O descontentamento lhas mudava; + Que tudo muda huma aspera mudança. + Gentil planta disposta em sêcca terra; + Lindo fructo de dura mão colhido; + Lembranças de outro amor, e fé perjura, + Tornárão verde prado em serra dura; + Interêsse enganoso, amor fingido, + Fizerão desditosa a formosura. + + +XLVI. + + Grão tempo ha ja que soube da Ventura + A vida que me tinha destinada; + Que a longa experiencia da passada + Me dava claro indicio da futura. + Amor fero e cruel, Fortuna escura, + Bem tendes vossa fôrça exprimentada: + Assolai, destrui, não fique nada; + Vingai-vos desta vida, que inda dura. + Soube Amor da Ventura, que a não tinha, + E porque mais sentisse a falta della, + De imagens impossiveis me mantinha. + Mas vós, Senhora, pois que minha estrella + Não foi melhor, vivei nesta alma minha; + Que não t[~e]e a Fortuna poder nella. + + +XLVII. + + Se somente hora alguma em vós piedade + De tão longo tormento se sentíra, + Amor sofrêra mal que eu me partíra + De vossos olhos, minha Saudade. + Apartei-me de vós, mas a vontade, + Que por o natural na alma vos tira, + Me faz crer que esta ausencia he de mentira; + Porém venho a provar que he de verdade. + Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento + Lagrimas tristes tomarão vingança + Nos olhos de quem fostes mantimento. + Desta arte darei vida a meu tormento; + Que, em fim, cá me achará minha lembrança + Sepultado no vosso esquecimento. + + +XLVIII. + + Oh como se me alonga de anno em ano + A peregrinação cansada minha! + Como se encurta, e como ao fim caminha + Este meu breve e vão discurso humano! + Mingoando a idade vai, crescendo o dano; + Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha: + Se por experiencia se adivinha, + Qualquer grande esperança he grande engano. + Corro apoz este bem que não se alcança; + No meio do caminho me fallece; + Mil vezes caio, e perco a confiança. + Quando elle foge, eu tardo; e na tardança, + Se os olhos ergo a ver se inda apparece, + Da vista se me perde, e da esperança. + + +XLIX. + + Ja he tempo, ja, que minha confiança + Se desça de huma falsa opinião: + Mas Amor não se rege por razão; + Não posso perder, logo, a esperança. + A vida si; que huma aspera mudança + Não deixa viver tanto hum coração, + E eu só na morte tenho a salvação: + Si: mas quem a deseja não a alcança. + Forçado he logo que eu espere e viva. + Ali dura lei de Amor, que não consente + Quietação n'hum'alma que he captiva! + Se hei de viver, em fim, forçadamente, + Para que quero a gloria fugitiva + De huma esperança vãa que me atormente? + + +L. + + Amor, com a esperança ja perdida + Teu soberano templo visitei: + Por signal do naufragio que passei, + Em lugar dos vestidos, puz a vida. + Que mais queres de mi, pois destruida + Me t[~e]es a gloria toda que alcancei? + Não cuides de render-me; que não sei + Tornar a entrar-me onde não ha sahida. + Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança, + Doces despojos de meu bem passado, + Em quanto o quiz aquella que eu adoro. + Nellas podes tomar de mi vingança: + E se te queres inda mais vingado, + Contenta-te co'as lagrimas que chóro. + + +LI. + + Apollo e as nove Musas, descantando + Com a dourada lyra, me influião + Na suave harmonia que fazião, + Quando tomei a penna, começando: + Ditoso seja o dia e hora, quando + Tão delicados olhos me ferião! + Ditosos os sentidos que sentião + Estar-se em seu desejo traspassando! + Assi cantava, quando Amor virou + A roda á esperança, que corria + Tão ligeira, que quasi era invisibil. + Converteo-se-me em noite o claro dia; + E se alguma esperança me ficou, + Será de maior mal, se for possibil. + + +LII. + + Lembranças saudosas, se cuidais + De me acabar a vida neste estado, + Não vivo com meu mal tão enganado, + Que não espere delle muito mais. + De longo tempo ja me costumais + A viver de algum bem desesperado: + Ja tenho co'a Fortuna concertado + De soffrer os tormentos que me dais. + Atada ao remo tenho a paciencia + Para quantos desgostos der a vida; + Cuide quanto quizer o pensamento. + Que pois não posso ter mais resistencia + Para tão dura quéda, de subida, + Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento. + + +LIII. + + Apartava-se Nise de Montano, + Em cuja alma, partindo-se, ficava; + Que o pastor na memoria a debuxava, + Por poder sustentar-se deste engano. + Por huma praia do Indico Oceano + Sôbre o curvo cajado se encostava, + E os olhos por as águas alongava, + Que pouco se doião de seu dano. + Pois com tamanha mágoa e saudade, + (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro, + Por testimunhas tómo ceo e estrellas. + Mas se em vós, ondas, mora piedade, + Levai tambem as lagrimas que chóro, + Pois assi me levais a causa dellas. + + +LIV. + + Quando vejo que meu destino ordena + Que, por me exprimentar, de vós me aparte, + Deixando de meu bem tão grande parte, + Que a mesma culpa fica grave pena; + O duro desfavor, que me condena, + Quando por a memoria se reparte, + Endurece os sentidos de tal arte + Que a dor da ausencia fica mais pequena. + Mas como póde ser que na mudança + D'aquillo que mais quero, estê tão fóra + De me não apartar tambem da vida? + Eu refrearei tão aspera esquivança: + Porque mais sentirei partir, Senhora, + Sem sentir muito a pena da partida. + + +LV. + + Despois de tantos dias mal gastados, + Despois de tantas noites mal dormidas, + Despois de tantas lagrimas vertidas, + Tantos suspiros vãos vãamente dados, + Como não sois vós ja desenganados, + Desejos, que de cousas esquecidas + Quereis remediar mortaes feridas. + Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados? + Se não tivereis ja longa exp'riencia + Das semrazões de Amor a quem servistes, + Fraqueza fôra em vós a resistencia. + Mas pois por vosso mal seus males vistes, + Que o tempo não curou, nem larga ausencia, + Qual bem delle esperais, desejos tristes? + + +LVI. + + Naiades, vós que os rios habitais, + Que os saudosos campos vão regando, + De meus olhos vereis estar manando + Outros que quasi aos vossos são iguais. + Dryades, que com setta sempre andais + Os fugitivos cervos derribando, + Outros olhos vereis, que triumphando + Derribão corações, que valem mais. + Deixai logo as aljavas e águas frias, + E vinde, Nymphas bellas, se quereis, + A ver como de huns olhos nascem mágoas. + Notareis como em vão passão os dias; + Mas em vão não vireis, porque achareis + Nos seus as settas, e nos meus as ágoas. + + +LVII. + + Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades, + Muda-se o ser, muda-se a confiança: + Todo o mundo he composto de mudança, + Tomando sempre novas qualidades. + Continuamente vemos novidades, + Differentes em tudo da esperança: + Do mal ficão as mágoas na lembrança, + E do bem (se algum houve) as saudades. + O tempo cobre o chão de verde manto, + Que ja coberto foi de neve fria, + E em mi converte em chôro o doce canto. + E afora este mudar-se cada dia, + Outra mudança faz de mor espanto, + Que não se muda ja como sohia. + + +LVIII. + + Se as penas com que Amor tão mal me trata + Permittirem que eu tanto viva dellas, + Que veja escuro o lume das estrellas, + Em cuja vista o meu se accende e mata; + E se o tempo, que tudo desbarata, + Seccar as frescas rosas, sem colhellas, + Deixando a linda côr das tranças bellas + Mudada de ouro fino em fina prata; + Tambem, Senhora, então vereis mudado + O pensamento e a aspereza vossa, + Quando não sirva ja sua mudança. + Ver-vos-heis suspirar por o passado, + Em tempo quando executar-se possa + No vosso arrepender minha vingança. + + +LIX. + + Quem jaz no grão sepulchro, que descreve + Tão illustres signaes no forte escudo? + Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo: + Mas foi quem tudo pôde e tudo teve. + Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve: + Poz na guerra e na paz devido estudo. + Mas quão pezado foi ao Mouro rudo, + Tanto lhe seja agora a terra leve. + Alexandro será? Ninguem se engane: + Mais que o adquirir, o sustentar estima. + Será Hadriano grão Senhor do mundo? + Mais observante foi da Lei de cima. + He Numa? Numa não, mas he Joane. + De Portugal Terceiro sem segundo. + + +LX. + + Quem póde livre ser, gentil Senhora, + Vendo-vos com juizo socegado, + Se o menino, que de olhos he privado, + Nas meninas dos vossos olhos mora? + Alli manda, alli reina, alli namora, + Alli vive das gentes venerado; + Que o vivo lume, e o rosto delicado, + Imagens são adonde Amor se adora. + Quem vê que em branca neve nascem rosas + Que crespos fios de ouro vão cercando, + Se por entre esta luz a vista passa, + Raios de ouro verá, que as duvidosas + Almas estão no peito traspassando, + Assi como hum crystal o sol traspassa. + + +LXI. + + Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? + Foi voluntaria, ou foi por innocencia? + He que Amor fazer só quiz exp'riencia + Se podia eu soffrer tirar-me a vida. + E com teu proprio sangue te convida + A que faças á morte resistencia? + He que costume faço da paciencia, + Porque o temor morrer me não impida. + Pois porque estás comendo fogo ardente, + Se a ferro te costumas? He que ordena + Amor que morra, e pene juntamente. + E t[~e]es a dor do ferro por pequena? + Si; que a dor costumada não se sente; + E não quero eu a morte sem a pena. + + +LXII. + + De tão divino accento em voz humana, + De elegancias que são tão peregrinas, + Sei bem que minhas obras não são dinas; + Que o rudo engenho meu me desengana. + Porém da vossa penna illustre mana + Licor que vence as águas Caballinas; + E comvosco do Tejo as flores finas + Farão inveja á cópia Mantuana. + E pois, a vós de si não sendo avaras, + As filhas de Mnemosine formosa + Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras; + A minha Musa, e a vossa tão famosa, + Ambas se podem nelle chamar raras, + A vossa de alta, a minha de invejosa. + + +LXIII. + + Debaixo desta pedra está metido, + Das sanguinosas armas descansado, + O Capitão illustre e assinalado + Dom Fernando de Castro esclarecido. + Este por todo o Oriente tão temido, + Este da propria inveja tão cantado, + Este, em fim, raio de Mavorte irado, + Aqui está agora em terra convertido. + Alegra-te, ó guerreira Lusitania, + Por est'outro Viriato que criaste, + E chora a perda sua eternamente. + Exemplo toma nisto de Dardania; + Que se a Roma com elle anniquilaste, + Nem por isso Carthago está contente. + + +LXIV. + + Que vençais no Oriente tantos Reis, + Que de novo nos deis da India o Estado, + Que escureçais a fama que hão ganhado + Aquelles, que a ganhárão de infieis; + Que vencidas tenhais da morte as leis, + E que vencesseis tudo, em fim, armado, + Mais he vencer na patria, desarmado, + Os monstros e as Chimeras que venceis. + Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo, + E por armas fazer que sem segundo + No mundo o vosso nome ouvido seja; + O que vos dá mais fama inda no mundo, + He vencerdes, Senhor, no Reino amigo, + Tantas ingratidões, tão grande inveja. + + +LXV. + + Vossos olhos, Senhora, que competem + Com o sol em belleza e claridade, + Enchem os meus de tal suavidade, + Que em lagrimas de vê-los se derretem. + Meus sentidos prostrados se submetem + Assi cegos a tanta magestade; + E da triste prisão, da escuridade, + Cheios de medo, por fugir, remetem. + Porém se então me vêdes por acêrto, + Esse aspero desprêzo com que olhais + Me torna a animar a alma enfraquecida. + Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto! + Que dareis co'hum favor que vós não dais, + Quando com hum desprêzo me dais vida? + + +LXVI. + + Formosura do Ceo a nós descida, + Que nenhum coração deixas isento, + Satisfazendo a todo pensamento, + Sem que sejas de algum bem entendida; + Qual lingoa póde haver tão atrevida, + Que tenha de louvar-te atrevimento, + Pois a parte melhor do entendimento, + No menos que em ti ha se vê perdida? + Se em teu valor contemplo a menor parte, + Vendo que abre na terra hum paraiso, + Logo o engenho me falta, o esprito míngoa. + Mas o que mais me impede inda louvar-te, + He que quando te vejo perco a lingoa, + E quando não te vejo perco o siso. + + +LXVII. + + Pois meus olhos não cansão de chorar + Tristezas não cansadas de cansar-me; + Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me + Pôde quem eu jamais pude abrandar; + Não canse o cego Amor de me guiar + Onde nunca de lá possa tornar-me; + Nem deixe o mundo todo de escutar-me, + Em quanto a fraca voz me não deixar. + E se em montes, se em prados, e se em valles + Piedade mora alguma, algum amor + Em feras, plantas, aves, pedras, agoas; + Oução a longa historia de meus males, + E curem sua dor com minha dor; + Que grandes mágoas podem curar mágoas. + + +LXVIII. + + Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos, + Porque a guarde sobpena de enojar-vos; + Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos + Fara que fique em lei de obedecer-vos. + Tudo me defendei, senão só ver-vos + E dentro na minha alma contemplar-vos; + Que se assi não chegar a contentar-vos, + Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos. + E se essa condição cruel e esquiva + Que me deis lei de vida não consente, + Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte. + Se nem essa me dais, he bem que viva, + Sem saber como vivo, tristemente; + Mas contente estarei com minha sorte. + + +LXIX. + + Ferido sem ter cura perecia + O forte e duro Télepho temido + Por aquelle que na agua foi metido, + E a quem ferro nenhum cortar podia. + Quando a Apollineo Oraculo pedia + Conselho para ser restituido, + Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido + Por quem o ja ferira, e sararia. + Assi, Senhora, quer minha ventura; + Que ferido de ver-vos claramente, + Com tornar-vos a ver Amor me cura. + Mas he tão doce vossa formosura, + Que fico como o hydropico doente, + Que bebendo lhe cresce mór seccura. + + +LXX. + + Na metade do ceo subido ardia + O claro, almo Pastor, quando deixavão + O verde pasto as cabras, e buscavão + A frescura suave da agua fria. + Com a folha das árvores, sombria, + Do raio ardente as aves se amparavão: + O módulo cantar, de que cessavão, + Só nas roucas cigarras se sentia. + Quando Liso pastor n'hum campo verde + Natercia, crua Nympha, só buscava + Com mil suspiros tristes que derrama. + Porque te vás de quem por ti se perde, + Para quem pouco te ama? (suspirava) + E o eco lhe responde: Pouco te ama. + + +LXXI. + + Ja a roxa e branca Aurora destoucava + Os seus cabellos de ouro delicados, + E das flores os campos esmaltados + Com crystallino orvalho borrifava; + Quando o formoso gado se espalhava + De Sylvio e de Laurente por os prados; + Pastores ambos, e ambos apartados, + De quem o mesmo amor não se apartava. + Com verdadeiras lagrimas Laurente, + Não sei, (dizia) ó Nympha delicada, + Porque não morre ja quem vive ausente; + Pois a vida sem ti não presta nada. + Responde Sylvio: Amor não o consente: + Que offende as esperanças da tornada. + + +LXXII. + + Quando de minhas mágoas a comprida + Maginação os olhos me adormece, + Em sonhos aquella alma me apparece, + Que para mi foi sonho nesta vida. + Lá n'huma soidade, onde estendida + A vista por o campo desfallece, + Corro apoz ella; e ella então parece + Que mais de mi se alonga, compellida. + Brado: Não me fujais, sombra benina. + Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo, + Como quem diz, que ja não póde ser) + Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_... + E antes que diga _mene_, acórdo, e vejo + Que nem hum breve engano posso ter. + + +LXXIII. + + Suspiros inflammados que cantais + A tristeza com que eu vivi tão ledo, + Eu morro e não vos levo, porque hei medo + Que ao passar do Letheio vos percais. + Escriptos para sempre ja ficais + Onde vos mostrarão todos co'o dedo, + Como exemplo de males; e eu concedo + Que para aviso de outros estejais. + Em quem, pois, virdes largas esperanças + De Amor e da Fortuna, (cujos danos + Alguns terão por bem-aventuranças) + Dizei-lhe, que os servistes muitos anos, + E que em Fortuna tudo são mudanças, + E que em Amor não ha senão enganos. + + +LXXIV. + + Aquella fera humana que enriquece + A sua presunçosa tyrannia + Destas minhas entranhas, onde cria + Amor hum mal, que falta quando crece; + Se nella o Ceo mostrou (como parece) + Quanto mostrar ao mundo pretendia, + Porque de minha vida se injuria? + Porque de minha morte se ennobrece? + Ora, em fim, sublimai vossa victoria, + Senhora, com vencer-me e captivar-me: + Fazei della no mundo larga historia. + Pois, por mais que vos veja atormentar-me, + Ja me fico logrando desta gloria + De ver que tendes tanta de matar-me. + + +LXXV. + + Ditoso seja aquelle que somente + Se queixa de amorosas esquivanças; + Pois por ellas não perde as esperanças + De poder n'algum tempo ser contente. + Ditoso seja quem estando ausente + Não sente mais que a pena das lembranças; + Porqu'inda que se tema de mudanças, + Menos se teme a dor quando se sente. + Ditoso seja, em fim, qualquer estado, + Onde enganos, desprezos e isenção + Trazem hum coração atormentado. + Mas triste quem se sente magoado + De erros em que não póde haver perdão + Sem ficar na alma a mágoa do peccado. + + +LXXVI. + + Quem fosse acompanhando juntamente + Por esses verdes campos a avezinha, + Que despois de perder hum bem que tinha, + Não sabe mais que cousa he ser contente! + E quem fosse apartando-se da gente. + Ella por companheira e por vizinha, + Me ajudasse a chorar a pena minha, + E eu a ella tambem a que ella sente! + Ditosa ave! que ao menos, se a natura + A seu primeiro bem não dá segundo, + Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. + Mas triste quem de longe quiz ventura + Que para respirar lhe falte o vento, + E para tudo, em fim, lhe falte o mundo! + + +LXXVII. + + O culto divinal se celebrava + No templo donde toda criatura + Louva o Feitor divino, que a feitura + Com seu sagrado sangue restaurava. + Amor alli, que o tempo me aguardava + Onde a vontade tinha mais segura, + Com huma rara e angelica figura + A vista da razão me salteava. + Eu crendo que o lugar me defendia + De seu livre costume, não sabendo + Que nenhum confiado lhe fugia; + Deixei-me captivar: mas hoje vendo, + Senhora, que por vosso me queria, + Do tempo que fui livre me arrependo. + + +LXXVIII. + + Leda serenidade deleitosa, + Que representa em terra hum paraiso; + Entre rubis e perlas doce riso, + Debaixo de ouro e neve côr de rosa; + Presença moderada e graciosa, + Onde ensinando estão despejo e siso + Que se póde por arte e por aviso, + Como por natureza, ser formosa; + Falla de que ou ja vida, ou morte pende. + Rara e suave, em fim, Senhora, vossa, + Repouso na alegria comedido; + Estas as armas são com que me rende + E me captiva Amor; mas não que possa + Despojar-me da gloria de rendido. + + +LXXIX. + + Bem sei, Amor, que he certo o que receio; + Mas tu, porque com isso mais te apuras, + De manhoso mo negas, e mo juras + Nesse teu arco de ouro; e eu te creio. + A mão tenho metida no meu seio, + E não vejo os meus damnos ás escuras: + Porém porfias tanto e me asseguras, + Que me digo que minto, e que me enleio. + Nem somente consinto neste engano, + Mas inda to agradeço, e a mi me nego + Tudo o que vejo e sinto de meu dano. + Oh poderoso mal a que me entrego! + Que no meio do justo desengano + Me possa inda cegar hum moço cego? + + +LXXX. + + Como quando do mar tempestuoso + O marinheiro todo trabalhado, + De hum naufragio cruel sahindo a nado, + Só de ouvir fallar nelle está medroso: + Firme jura que o vê-lo bonançoso + Do seu lar o não tire socegado; + Mas esquecido ja do horror passado, + Delle a fiar se torna cobiçoso: + Assi, Senhora, eu que da tormenta + De vossa vista fujo, por salvar-me, + Jurando de não mais em outra ver-me; + Com a alma que de vós nunca se ausenta, + Me tórno, por cobiça de ganhar-me, + Onde estive tão perto de perder-me. + + +LXXXI. + + Amor he hum fogo que arde sem se ver; + He ferida que doe e não se sente; + He hum contentamento descontente; + He dor que desatina sem doer; + He hum não querer mais que bem querer; + He solitario andar por entre a gente; + He hum não contentar-se de contente; + He cuidar que se ganha em se perder; + He hum estar-se preso por vontade; + He servir a quem vence o vencedor; + He hum ter com quem nos mata lealdade. + Mas como causar póde o seu favor + Nos mortaes corações conformidade, + Sendo a si tão contrário o mesmo Amor? + + +LXXXII. + + Se pena por amar-vos se merece, + Quem della estará livre? quem isento? + E que alma, que razão, que entendimento + No instante em que vos vê não obedece? + Qual mor gloria na vida ja se offrece, + Que a de occupar-se em vós o pensamento? + Não só todo rigor, todo tormento + Com ver-vos não magôa, mas se esquece. + Porém se heis de matar a quem amando, + Ser vosso de amor tanto só pretende, + O mundo matareis, que todo he vosso. + Em mi podeis, Senhora, ir começando, + Pois bem claro se mostra e bem se entende + Amar-vos quanto devo e quanto posso. + + +LXXXIII. + + Que levas, cruel Morte? Hum claro dia. + A que horas o tomaste? Amanhecendo. + E entendes o que levas? Não o entendo. + Pois quem to faz levar? Quem o entendia. + Seu corpo quem o goza? A terra fria. + Como ficou sua luz? Anoitecendo. + Lusitania que diz? Fica dizendo... + Que diz? Não mereci a grã Maria. + Mataste a quem a vio? Ja morto estava. + Que discorre o Amor? Fallar não ousa. + E quem o faz callar? Minha vontade. + Na Corte que ficou? Saudade brava. + Que fica lá que ver? Nenhuma cousa. + Que gloria lhe faltou? Esta beldade. + + +LXXXIV. + + Ondados fios de ouro reluzente, + Que agora da mão bella recolhidos, + Agora sôbre as rosas esparzidos + Fazeis que a sua graça se accrescente; + Olhos, que vos moveis tão docemente, + Em mil divinos raios incendidos, + Se de cá me levais a alma e sentidos, + Que fôra, se eu de vós não fôra ausente? + Honesto riso, que entre a mór fineza + De perlas e coraes nasce e apparece; + Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse! + Se imaginando só tanta belleza, + De si com nova gloria a alma se esquece, + Que será quando a vir? Ah quem a visse! + + +LXXXV. + + Foi ja n'hum tempo doce cousa amar, + Em quanto me enganou huma esperança: + O coração com esta confiança + Todo se desfazia em desejar. + Oh vão, caduco e debil esperar! + Como, em fim, desengana huma mudança! + Que quanto he mor a bem-aventurança, + Tanto menos se crê que ha de durar. + Quem ja se vio com gostos prosperado, + Vendo-se brevemente em pena tanta, + Razão t[~e]e de viver bem magoado. + Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado, + Não o magôa a pena, nem o espanta; + Que mal se estranhára o costumado. + + +LXXXVI. + + Dos antigos Illustres, que deixárão + Hum nome digno de immortal memoria, + Ficou por luz do tempo a larga historia + Dos feitos em que mais se avantajárão. + Se com suas acções se cotejárão + Mil vossas, cada huma tão notoria, + Vencêra a menor dellas a mor gloria + Que elles em tantos annos alcançárão. + A gloria sua foi: ninguem lha tome: + Seguindo cada qual varios caminhos + Estatuas mereceo no heroico Templo. + Vós honra Portugueza e dos Coutinhos, + Clarissimo Dom João, com melhor nome + A vós encheis de gloria, a nós de exemplo. + + +LXXXVII. + + Conversação doméstica affeiçoa, + Ora em fórma de limpa e sãa vontade, + Ora de huma amorosa piedade, + Sem olhar qualidade de pessoa. + Se despois, por ventura, vos magôa + Com desamor e pouca lealdade, + Logo vos faz mentira da verdade + O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa, + Não são isto que fallo conjecturas + Que o pensamento julga na apparencia, + Por fazer delicadas escripturas. + Metida tenho a mão na consciencia, + E não fallo senão verdades puras + Que me ensinou a viva experiencia. + + +LXXXVIII. + + Esfôrço grande, igual ao pensamento, + Pensamentos em obras divulgados, + E não em peito timido encerrados, + E desfeitos despois em chuva e vento; + Ánimo da cobiça baixa isento, + Digno por isto só de altos estados, + Fero açoute dos nunca bem domados + Povos do Malabar sanguinolento; + Gentileza de membros corporaes + Ornados de pudica continencia, + Obra por certo da celeste altura: + Estas virtudes raras e outras mais, + Dignas todas da Homerica eloquencia, + Jazem debaixo desta sepultura. + + +LXXXIX. + + No mundo quiz o Tempo que se achasse + O bem que por acêrto, ou sorte vinha; + E por exprimentar que dita tinha, + Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse. + Mas porque o meu destino me mostrasse + Que nem ter esperanças me convinha, + Nunca nesta tão longa vida minha + Cousa me deixou ver que desejasse. + Mudando andei costume, terra, estado, + Por ver se se mudava a sorte dura; + A vida puz nas mãos de hum leve lenho. + Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado, + Ja sei que deste meu buscar ventura + Achado tenho ja que não a tenho. + + +XC. + + A perfeição, a graça, o doce geito, + A Primavera cheia de frescura, + Que sempre em vós florece; a que a ventura, + E a razão entregárão este peito; + Aquelle crystallino e puro aspeito, + Que em si comprehende toda a formosura; + O resplandor dos olhos e a brandura, + Donde Amor a ninguem quiz ter respeito; + S'isto que em vós se vê, ver desejais, + Como digno de ver-se claramente, + Por muito que de Amor vos isentais; + Traduzido o vereis tão fielmente + No meio deste espirito onde estais, + Que vendo-vos sintais o que elle sente. + + +XCI. + + Vós, que de olhos suaves e serenos, + Com justa causa a vida captivais, + E que os outros cuidados condemnais + Por indevidos, baixos e pequenos; + Se de Amor os domesticos venenos + Nunca provastes, quero que sintais + Que he tanto mais o amor despois que amais, + Quanto são mais as causas de ser menos. + E não presuma alguem que algum defeito, + Quando na cousa amada se apresenta, + Possa diminuir o amor perfeito: + Antes o dobra mais; e se atormenta, + Pouco a pouco desculpa o brando peito; + Que Amor com seus contrarios se accrescenta. + + +XCII. + + Que poderei do mundo ja querer, + Pois no mesmo em que puz tamanho amor, + Não vi senão desgôsto e desfavor, + E morte, em fim; que mais não póde ser? + Pois me não farta a vida de viver, + Pois ja sei que não mata grande dor, + Se houver cousa que mágoa dê maior, + Eu a verei; que tudo posso ver. + A Morte, a meu pezar, me assegurou + De quanto mal me vinha: ja perdi + O que a perder o medo me ensinou. + Na vida desamor somente vi, + Na morte a grande dor que me ficou: + Parece que para isto só nasci. + + +XCIII. + + Pensamentos, que agora novamente + Cuidados vãos em mi resuscitais, + Dizei-me: E ainda não vos contentais + De ter a quem vos t[~e]e tão descontente? + Que phantasia he esta, que presente + Cad'hora ante os meus olhos me mostrais? + Com huns sonhos tão vãos inda tentais + Quem nem por sonhos póde ser contente? + Vejo-vos, pensamentos, alterados, + E não quereis, de esquivos, declarar-me + Que he isto que vos traz tão enleados? + Não mo negueis, se andais para negar-me; + Porque se contra mi 'stais levantados, + Eu vos ajudarei mesmo a matar-me. + + +XCIV. + + Se tomo a minha pena em penitencia + Do error em que cahio o pensamento, + Não abrando, mas dóbro meu tormento, + Que a tanto, e mais, obriga a paciencia. + E se huma côr de morto na apparencia, + Hum espalhar suspiros vãos ao vento + Não faz em vós, Senhora, movimento, + Fique o meu mal em vossa consciencia. + Mas se de qualquer aspera mudança + Toda vontade isenta Amor castiga, + (Como eu vejo no mal que me condena) + E se em vós não se entende haver vingança, + Será forçado (pois Amor me obriga) + Que eu só da culpa vossa pague a pena. + + +XCV. + + Aquella que, de pura castidade, + De si mesma tomou cruel vingança + Por huma breve e subita mudança + Contrária á sua honra e qualidade; + Venceo á formosura a honestidade, + Venceo no fim da vida a esperança, + Porque ficasse viva tal lembrança, + Tal amor, tanta fé, tanta verdade. + De si, da gente e do mundo esquecida, + Ferio com duro ferro o brando peito, + Banhando em sangue a fôrça do tyrano. + Oh ousadia estranha! estranho feito! + Que dando breve morte ao corpo humano, + Tenha sua memoria larga vida! + + +XCVI. + + Os vestidos Elisa revolvia, + Que Eneas lhe deixára por memoria; + Doces despojos da passada gloria; + Doces quando seu fado o consentia. + Entre elles a formosa espada via, + Que instrumento, em fim, foi da triste historia; + E como quem de si tinha a victoria, + Fallando só com ella, assi dizia: + Formosa e nova espada, se ficaste + Só porque executasses os enganos + De quem te quiz deixar, em minha vida; + Sabe que tu comigo te enganaste; + Que para me tirar de tantos danos + Sobeja-me a tristeza da partida. + + +XCVII. + + Oh quão caro me custa o entender-te, + Molesto Amor que, só por alcançar-te, + De dor em dor me tens trazido a parte + Donde em ti odio e íra se converte! + Cuidei que para em tudo conhecer-te + Me não faltava experiencia e arte; + Mas na alma vejo agora accrescentar-te + Aquillo que era causa de perder-te. + Estavas tão secreto no meu peito, + Que eu mesmo, que te tinha, não sabia + Que me senhoreavas deste geito. + Descubriste-te agora; e foi por via + Que teu descobrimento e meu defeito, + Hum me envergonha e outro me injuria. + + +XCVIII. + + Se despois de esperança tão perdida, + Amor por causa alguma consentisse + Que inda algum'hora breve alegre visse + De quantas tristes vio tão longa vida; + Hum'alma ja tão fraca e tão cahida + (Quando a sorte mais alto me subisse) + Não tenho para mi que consentisse + Alegria tão tarde consentida. + Nem tamsomente o Amor me não mostrou + Hum'hora em que vivesse alegremente, + De quantas nesta vida me negou; + Mas inda tanta pena me consente, + Que co'o contentamento me tirou + O gôsto de algum'hora ser contente. + + +XCIX. + + O raio crystallino se estendia + Por o mundo da Aurora marchetada, + Quando Nise, pastora delicada, + Donde a vida deixava se partia. + Dos olhos, com que o sol escurecia, + Levando a luz em lagrimas banhada, + De si, do fado, e tempo magoada, + Pondo os olhos no Ceo, assi dizia: + Nasce, sereno sol, puro e luzente; + Resplandece, purpurea e branca aurora, + Qualquer alma alegrando descontente; + Que a minha, sabe tu que desde agora + Jamais na vida a podes ver contente, + Nem tão triste nenhuma outra pastora. + + +C. + + No mundo poucos annos e cansados + Vivi, cheios de vil miseria e dura: + Foi-me tão cedo a luz do dia escura, + Que não vi cinco lustros acabados. + Corri terras e mares apartados, + Buscando á vida algum remedio ou cura: + Mas aquillo que, em fim, não dá ventura + Não o dão os trabalhos arriscados. + Criou-me Portugal na verde e chara + Patria minha Alemquer; mas ar corruto, + Que neste meu terreno vaso tinha, + Me fez manjar de peixes em ti, bruto + Mar, que bates a Abássia fera e avara, + Tão longe da ditosa patria minha. + + +CI. + + Vós, que escuitais em Rimas derramado + Dos suspiros o som que me alentava + Na juvenil idade, quando andava + Em outro em parte do que sou mudado; + Sabei que busca só do ja cantado + No tempo em que ou temia ou esperava, + De quem o mal provou, que eu tanto amava, + Piedade, e não perdão, o meu cuidado. + Pois vejo que tamanho sentimento + Só me rendeo ser fábula da gente, + (Do que comigo mesmo me envergonho) + Sirva de exemplo claro meu tormento, + Com que todos conheção claramente + Que quanto ao mundo apraz he breve sonho. + + +CII. + + De amor escrevo, de amor trato e vivo; + De amor me nasce amar sem ser amado; + De tudo se descuida o meu cuidado, + Quanto não seja ser de amor captivo: + De amor que a lugar alto voe altivo, + E funde a gloria sua em ser ousado; + Que se veja melhor purificado + No immenso resplandor de hum raio esquivo. + Mas ai que tanto amor só pena alcança! + Mais constante ella, e elle mais constante, + De seu triumpho cada qual só trata. + Nada, em fim, me aproveita; que a esperança, + Se anima alguma vez a hum triste amante, + Ao perto vivifica, ao longe mata. + + +CIII. + + Se da célebre Laura a formosura + Hum numeroso cysne ufano escreve, + Huma angelica penna se te deve, + Pois o Ceo em formar-te mais se apura. + E se voz menos alta te procura + Celebrar, (oh Natercia!) em vão se atreve: + De ver-te ja a ventura Liso teve, + Mas de cantar-te falta-lhe a ventura. + No ceo nasceste, certo, e não na terra: + Para gloria do mundo cá desceste: + Quem mais isto negar, muito mais erra. + E eu imagino que de lá vieste + Para emendar os vicios que elle encerra, + Co'os divinos poderes que trouxeste. + + +CIV. + + Esses cabellos louros e escolhidos, + Que o ser ao aureo sol estão tirando; + Esse ar immenso, adonde naufragando + Estão continuamente os meus sentidos; + Esses furtados olhos tão fingidos + Que minha vida e morte estão causando; + Essa divina graça, que em fallando + Finge os meus pensamentos não ser cridos; + Esse compasso certo, essa medida + Que faz dobrar no corpo a gentileza; + A divindade em terra, tão subida; + Mostrem ja piedade, e não crueza, + Que são laços que Amor tece na vida, + Sendo em mi sofrimento, em vós dureza. + + +CV. + + Quem pudéra julgar de vós, Senhora, + Que huma tal fé pudesse assi perder-vos? + Se por amar-vos chego a aborrecer-vos, + Deixar não posso o amar-vos algum'hora. + Deixais a quem vos ama, ou vos adora, + Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos? + Mas eu sou quem não soube merecer-vos, + E esta minha ignorancia entendo agora. + Nunca soube entender vossa vontade, + Nem a minha mostrar-vos verdadeira, + Indaque clara estava esta verdade. + Esta, em quanto eu viver, vereis inteira; + E se em vão meu querer vos persuade, + Mais vosso não querer faz que vos queira. + + +CVI. + + Quem, Senhora, presume de louvar-vos + Com discurso que baixe de divino, + De tanto maior pena será dino, + Quanto vós sois maior ao contemplar-vos. + Não aspire algum canto a celebrar-vos, + Por mais que seja raro, ou peregrino; + Pois de vossa belleza eu imagino + Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos. + Ditosa esta alma vossa, a que quizestes + Pôr em posse de prenda tão subida, + Qual esta que benigna, em fim, me déstes. + Sempre será anteposta á mesma vida: + Esta estimar em menos me fizestes, + Se antes que ess'outra a quero ver perdida. + + +CVII. + + Moradoras gentis e delicadas + Do claro e aureo Tejo, que metidas + Estais em suas grutas escondidas, + E com doce repouso socegadas; + Agora esteis de amores inflammadas, + Nos crystallinos paços entretidas; + Agora no exercicio embevecidas + Das télas de ouro puro matizadas; + Movei dos lindos rostos a luz pura + De vossos olhos bellos, consentindo + Que lagrimas derramem de tristura. + E assi com dor mais propria ireis ouvindo + As queixas que derramo da Ventura, + Que com penas de Amor me vai seguindo. + + +CVIII. + + Brandas águas do Tejo que, passando + Por estes verdes campos que regais, + Plantas, hervas, e flores, e animais, + Pastores, Nymphas, ides alegrando; + Não sei, (ah doces águas!) não sei quando + Vos tornarei a ver; que mágoas tais, + Vendo como vos deixo, me causais, + Que de tornar ja vou desconfiando. + Ordenou o destino, desejoso + De converter meus gostos em pezares, + Partida que me vai custando tanto. + Saudoso de vós, delle queixoso, + Encherei de suspiros outros ares, + Turbarei outras águas com meu pranto. + + +CIX. + + Novos casos de Amor, novos enganos, + Envoltos em lisonjas conhecidas; + Do bem promessas falsas e escondidas, + Onde do mal se cumprem grandes danos; + Como não tomais ja por desenganos + Tantos ais, tantas lagrimas perdidas, + Pois que a vida não basta, nem mil vidas, + A tantos dias tristes, tantos anos? + Hum novo coração mister havia, + Com outros olhos menos aggravados, + Para tornar a crer o que eu vos cria. + Andais comigo, enganos, enganados; + E se o quizerdes ver, cuidai hum dia + O que se diz dos bem acutilados. + + +CX. + + Onde porei meus olhos que não veja + A causa de que nasce o meu tormento? + A qual parte me irei co'o pensamento, + Que para descansar parte me seja? + Ja sei como se engana quem deseja + Em vão amor fiel contentamento; + E que nos gostos seus, que são de vento, + Sempre falta seu bem, seu mal sobeja. + Mas inda, sôbre o claro desengano, + Assi me traz esta alma sobjugada, + Que delle está pendendo o meu desejo. + E vou de dia em dia, de anno em ano, + Apoz hum não sei que, apoz hum nada, + Que quanto mais me chego, menos vejo. + + +CXI. + + Ja do Mondego as águas apparecem + A meus olhos, não meus, antes alheios, + Que de outras differentes vindo cheios, + Na sua branda vista inda mais crecem. + Parece que tambem forçadas decem, + Segundo se detem em seus rodeios. + Triste! por quantos modos, quantos meios, + As minhas saudades me entristecem! + Vida de tantos males salteada, + Amor a põe em termos, que duvida + De conseguir o fim desta jornada. + Antes se dá de todo por perdida, + Vendo que não vai da alma acompanhada, + Que se deixou ficar onde t[~e]e vida. + + +CXII. + + Que doudo pensamento he o que sigo? + Apos que vão cuidado vou correndo? + Sem ventura de mi! que não me entendo; + Nem o que callo sei, nem o que digo. + Pelejo com quem trata paz comigo; + De quem guerra me faz não me defendo. + De falsas esperanças que pertendo? + Quem do meu proprio mal me faz amigo? + Porque, se nasci livre, me captivo? + E pois o quero ser, porque o não quero? + Como me engano mais com desenganos? + Se ja desesperei, que mais espero? + E se inda espero mais, porque não vivo? + E se vivo, que accuso mortaes danos? + + +CXIII. + + Hum firme coração posto em ventura; + Hum desejar honesto, que se engeite + De vossa condição, sem que respeite + A meu tão puro amor, a fé tão pura; + Hum ver-vos de piedade e de brandura + Sempre inimiga, faz-me que suspeite + Se alguma Hyrcana fera vos deo leite, + Ou se nascestes de huma pedra dura. + Ando buscando causa, que desculpe + Crueza tão estranha; porém quanto + Nisso trabalho mais, mais mal me trata. + Donde vem, que não ha quem nos não culpe; + A vós, porque matais quem vos quer tanto, + A mim, por querer tanto a quem me mata. + + +CXIV. + + Ar, que de meus suspiros vejo cheio; + Terra, cansada ja com meu tormento; + Agua, que com mil lagrimas sustento; + Fogo, que mais accendo no meu seio; + Em paz estais em mim; e assi o creio, + Sem esse ser o vosso proprio intento; + Pois em dor onde falta o soffrimento, + A vida se sostem por vosso meio. + Ai imiga Fortuna! ai vingativo + Amor! a que discursos por vós venho, + Sem nunca vos mover com minha mágoa! + Se me quereis matar, para que vivo? + E como vivo, se contrarios tenho + Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa? + + +CXV. + + Ja claro vejo bem, ja bem conheço + Quanto augmentando vou o meu tormento; + Pois sei que fundo em água, escrevo em vento, + E que o cordeiro manso ao lobo peço; + Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço; + Que a tigres em meus males me lamento; + Que reduzir o mar a hum vaso intento, + Aspirando a esse ceo que não mereço. + Quero achar paz em hum confuso inferno; + Na noite do sol puro a claridade; + E o suave verão no duro inverno. + Busco em luzente Olympo escuridade, + E o desejado bem no mal eterno, + Buscando amor em vossa crueldade. + + +CXVI. + + De cá, donde somente o imaginar-vos + A rigorosa ausencia me consente, + Sôbre as azas de Amor, ousadamente + O mal soffrido esprito vai buscar-vos. + E se não receára de abrazar-vos + Nas chammas que por vossa causa sente, + Lá ficára comvosco e, vós presente, + Aprendêra de vós a contentar-vos. + Mas, pois que estar ausente lhe he forçado, + Por senhora, de cá, vos reconhece, + Aos pés de imagens vossas inclinado. + E pois vêdes a fé que vos offrece, + Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado, + E dar-lhe-heis inda mais do que merece. + + +CXVII. + + Não ha louvor que arribe á menor parte + De quanto em vós se vê, bella Senhora: + Vós sois vosso louvor: quem vos adora + Reduz somente a este o engenho e arte. + Quanto por muitas damas se reparte + De bello e de formoso, em vós agora + Se junta em modo tal, que pouco fôra + Dizer que sois o todo, ellas a parte. + Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos, + Ver incapazes todos os louvores, + Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos. + Seja a culpa de vossos resplandores; + E a que elles t[~e]e vos dou, só para dar-vos + O mor louvor de todos os maiores. + + +CXVIII. + + Não vás ao monte, Nise, com teu gado; + Que lá vi que Cupido te buscava: + Por ti somente a todos perguntava, + No gesto menos placido que irado. + Elle publíca, em fim, que lhe has roubado + Os melhores farpões da sua aljava; + E com hum dardo ardente assegurava + Traspassar esse peito delicado. + Fuge de ver-te lá nesta aventura, + Porque se contra ti o tens iroso, + Póde ser que te alcance com mão dura. + Mas ai! que em vão te advirto temeroso, + Se á tua incomparavel formosura + Se rende o dardo seu mais poderoso! + + +CXIX. + + A violeta mais bella que amanhece + No valle por esmalte da verdura, + Com seu pallido lustre e formosura, + Por mais bella, Violante, te obedece. + Perguntas-me porque? Porque apparece + Em ti seu nome, e sua côr mais pura; + E estudar em teu rosto só procura + Tudo quanto em beldade mais florece. + Oh luminosa flor! Oh sol mais claro! + Unico roubador de meu sentido, + Não permittas que Amor me seja avaro. + Oh penetrante setta de Cupido! + Que queres? Que te peça por reparo + Ser neste valle Eneas desta Dido? + + +CXX. + + Tornae essa brancura á alva assucena, + E essa purpurea côr ás puras rosas; + Tornae ao sol as chammas luminosas + De essa vista que a roubos vos condena. + Tornae á suavissima sirena + D'essa voz as cadencias deleitosas: + Tornae a graça ás Graças, que queixosas + Estão de a ter por vós menos serena: + Tornae á bella Venus a belleza; + A Minerva o saber, o engenho, e a arte; + E a pureza á castissima Diana. + Despojae-vos de toda essa grandeza + De dões; e ficareis em toda parte + Comvosco só, que he só ser inhumana. + + +CXXI. + + De mil suspeitas vãas se me levantão + Trabalhos e desgostos verdadeiros. + Ai que estes bens de Amor são feiticeiros, + Que com hum não sei que toda alma encantão! + Como serêas docemente cantão + Para enganar os tristes marinheiros: + Os meus assi me attrahem lisongeiros, + E despois com horrores mil me espantão. + Quando cuido que tomo porto ou terra, + Tal vento se levanta em hum instante, + Que subito da vida desconfio. + Mas eu sou quem me faz a maior guerra, + Pois conhecendo os riscos de hum amante + Fiado a ondas de Amor, dellas me fio. + + +CXXII. + + Mil vezes determino não vos ver, + Por ver se abranda mais o meu penar: + E se cuido de assi me magoar, + Cuidai o que será, se houver de ser. + Pouco me importa ja muito soffrer, + Despois que Amor me poz em tal lugar; + E o que inda me doe mais he só cuidar, + Que mal sem esta dor posso viver. + Assi não busco eu cura contra a dor, + Porque, buscando alguma, entendo bem + Que nesse mesmo ponto me perdi. + Quereis que viva, em fim, neste rigor? + Somente o querer vosso me convem. + Assi quereis que seja? Seja assi. + + +CXXIII. + + A chaga que, Senhora, me fizestes, + Não foi para curar-se em hum só dia; + Porque crescendo vai com tal porfia, + Que bem descobre o intento que tivestes. + De causar tanta dor vos não doestes? + Mas a doer-vos, dor me não sería, + Pois ja com esperança me veria + Do que vós que em mi visse não quizestes. + Os olhos com que todo me roubastes + Forão causa do mal que vou passando; + E vós estais fingindo o não causastes. + Mas eu me vingarei. E sabeis quando? + Quando vos vir queixar porque deixastes + Ir-se a minha alma nelles abrazando. + + +CXXIV. + + Se com desprezos, Nympha, te parece + Que podes desviar do seu cuidado + Hum coração constante, que se offrece + A ter por gloria o ser atormentado. + Deixa a tua porfia, e reconhece + Que mal sabes de amor desenganado; + Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece, + Crescendo em mi de ti mais desamado. + O esquivo desamor, com que me tratas, + Converte em piedade, se não queres + Que cresça o meu querer, e o teu desgosto. + Vencer-me com cruezas nunca esperes: + Bem me podes matar, e bem me matas; + Mas sempre ha de viver meu presupposto. + + +CXXV. + + Senhora minha, se eu de vós ausente + Me defendêra de hum penar severo, + Suspeito que offendêra o que vos quero, + Esquecido do bem de estar presente. + Traz este, logo sinto outro accidente, + E he ver que se da vida desespero, + Perco a gloria que vendo-vos espero; + E assi estou em meus males differente. + E nesta differença meus sentidos + Combatem com tão aspera porfia, + Que julgo este meu mal por deshumano. + Entre si sempre os vejo divididos; + E se acaso concordão algum dia, + He só conjuração para meu dano. + + +CXXVI. + + No regaço de mãe Amor estava + Dormindo tão formoso, que movia + O coração que mais isento o via; + E a sua propria mãe de amor matava. + Ella, co'os olhos nelle, contemplava + A quanto estrago o mundo reduzia: + Elle porém, sonhando, lhe dizia + Que todo aquelle mal ella o causava. + Soliso que, graduado em seus amores, + De saber de ambos mais teve a ventura, + Assi soltou a dúvida aos pastores: + Se bem me ferem sempre sem ter cura + Do menino os ardentes passadores, + Mais me fere da mãe a formosura. + + +CXXVII. + + Este terreste caos com seus vapores + Não póde condensar as nuvens tanto, + Que o claro sol não rompa o negro manto + Cum suas bellas e luzentes côres. + A ingratidão esquiva de rigores + Opposta nuvem he, que dura em quanto + Nos não converte o Ceo em triste pranto + Suas vãas esperanças, seus favores. + Póde-se contrapôr ao ceo a terra, + E estar o sol por horas eclipsado; + Mas não póde ficar escurecido. + Póde prevalecer a vossa guerra; + Mas, a pezar das nuvens, declarado + Ha de ser vosso sol, e obedecido. + + +CXXVIII. + + Huma admiravel herva se conhece, + Que vai ao sol seguindo de hora em hora, + Logo que elle do Euphrates se vê fóra, + E quando está mais alto, então florece. + Mas quando ao Oceano o carro dece, + Toda a sua belleza perde Flora, + Porque ella se emmurchece e se descora: + Tanto co'a luz ausente se entristece! + Meu sol, quando alegrais esta alma vossa, + Mostrando-lhe esse rosto que dá vida, + Cria flores em seu contentamento. + Mas logo, em não vos vendo, entristecida + Se murcha e se consume em grão tormento: + Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa. + + +CXXIX. + + Crescei, desejo meu, pois que a Ventura + Ja vos t[~e]e nos seus braços levantado; + Que a bella causa de que sois gerado + O mais ditoso fim vos assegura. + Se aspirais por ousado a tanta altura, + Não vos espante haver ao sol chegado; + Porque he de aguia Real vosso cuidado, + Que quanto mais o soffre, mais se apura. + Ánimo, coração; que o pensamento + Te póde inda fazer mais glorioso, + Sem que respeite a teu merecimento. + Que cresças inda mais he ja forçoso; + Porque se foi de ousado o teu intento, + Agora de atrevido he venturoso. + + +CXXX. + + He o gozado bem em água escrito; + Vive no desejar, morre no effeito: + O desejado sempre he mais perfeito, + Porque t[~e]e parte alguma de infinito. + Dar a huma alma immortal gôzo prescrito, + Em verdadeiro amor, fôra defeito: + Por modo sup'rior, não imperfeito, + Sois excepção de quanto aqui limito. + De huma esperança nunca conhecida, + Da fé do desejar não alcançada, + Sereis mais desejada, possuida. + Não podeis da esperança ser amada; + Vista podereis ser, e então mais crida; + Porém não, sem aggravo, comparada. + + +CXXXI. + + De quantas graças tinha a natureza + Fez hum bello e riquissimo thesouro; + E com rubis e rosas, neve e ouro, + Formou sublime e angelica belleza. + Poz na boca os rubis, e na pureza + Do bello rosto as rosas, por quem mouro; + No cabello o valor do metal louro; + No peito a neve, em que a alma tenho accesa. + Mas nos olhos mostrou quanto podia, + E fez delles hum sol, onde se apura + A luz mais clara que a do claro dia. + Em fim, Senhora, em vossa compostura, + Ella a apurar chegou quanto sabia + De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura. + + +CXXXII. + + Nunca em amor damnou o atrevimento; + Favorece a Fortuna a ousadia; + Porque sempre a encolhida covardia + De pedra serve ao livre pensamento. + Quem se eleva ao sublime Firmamento, + A estrella nelle encontra, que lhe he guia; + Que o bem que encerra em si a phantasia + São humas illusões que leva o vento. + Abrir se devem passos á ventura: + Sem si proprio ninguem será ditoso: + Os principios somente a sorte os move. + Atrever-se he valor, e não loucura. + Perderá por covarde o venturoso + Que vos vê, se os temores não remove. + + +CXXXIII. + + Doces e claras águas do Mondego, + Doce repouso de minha lembrança, + Onde a comprida e perfida esperança + Longo tempo apos si me trouxe cego, + De vós me aparto, si; porém não nego + Que inda a longa memoria, que me alcança, + Me não deixa de vós fazer mudança, + Mas quanto mais me alongo, mais me achego + Bem poderá a Fortuna este instrumento + Da alma levar por terra nova e estranha, + Offerecido ao mar remoto, ao vento. + Mas a alma, que de cá vos acompanha, + Nas azas do ligeiro pensamento + Para vós, águas, vôa, e em vós se banha. + + +CXXXIV. + + Senhor João Lopes, o meu baixo estado + Hontem vi posto em grao tão excellente, + Que sendo vós inveja a toda a gente, + Só por mi vos quizereis ver trocado. + O gesto vi suave e delicado, + Que ja vos fez contente e descontente, + Lançar ao vento a voz tão docemente, + Que fez o ar sereno e socegado. + Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto + Ninguem diria em muitas: mas eu chego + A espirar só de ouvir a doce fala. + Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego! + Elle, que os corações obriga a tanto; + Ella, porque os estados desiguala. + + +CXXXV. + + A Morte, que da vida o nó desata, + Os nós, que dá o Amor, cortar quizera + Co'a ausencia, que he sôbre elle espada fera, + E co'o tempo, que tudo desbarata. + Duas contrárias, que huma a outra mata, + A Morte contra Amor junta e altera; + Huma, Razão contra a Fortuna austera; + Outra, contra a Razão Fortuna ingrata. + Mas mostre a sua imperial potencia + A Morte em apartar de hum corpo a alma, + O Amor n'hum corpo duas almas una; + Para que assi triumphante leve a palma + Da Morte Amor a grão pesar da ausencia, + Do tempo, da Razão, e da Fortuna. + + +CXXXVI + + Árvore, cujo pomo bello e brando + Natureza de leite e sangue pinta, + Onde a pureza, de vergonha tinta, + Está virgineas faces imitando; + Nunca do vento a ira, que arrancando + Os troncos vai, o teu injúria sinta; + Nem por malícia de ar te seja extinta + A côr que está teu fructo debuxando. + E pois emprestas doce e idoneo abrigo + A meu contentamento, e favoreces + Com teu suave cheiro a minha gloria; + Se eu não te celebrar como mereces, + Cantando-te, se quer farei comtigo + Doce nos casos tristes a memoria. + + +CXXXVII. + + O filho de Latona esclarecido, + Que com seu raio alegra a humana gente, + Matar pôde a Phytonica serpente + Que mortes mil havia produzido. + Ferio com arco, e de arco foi ferido, + Com ponta aguda de ouro reluzente: + Nas Thessalicas praias docemente + Por a nympha Penea andou perdido. + Não lhe pôde valer contra seu dano + Saber, nem diligencias, nem respeito + De quanto era celeste e soberano. + Pois se hum deos nunca vio nem hum engano + De quem era tão pouco em seu respeito, + Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano? + + +CXXXVIII. + + Presença bella, angelica figura, + Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado; + Gesto alegre de rosas semeado, + Entre as quaes se está rindo a Formosura: + Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura + Em crystal puro o negro marchetado, + Que vemos ja no verde delicado + Não esperança, mas inveja escura: + Brandura, aviso, e graça, que augmentando + A natural belleza co'hum desprezo, + Com que mais desprezada mais se augmenta: + São as prizões de hum coração, que prêzo, + Seu mal ao som dos ferros vai cantando, + Como faz a serêa na tormenta + + +CXXXIX. + + Por cima destas águas forte e firme + Irei aonde os Fados o ordenárão, + Pois por cima de quantas derramárão + Aquelles claros olhos pude vir-me. + Ja chegado era o fim de despedir-me; + Ja mil impedimentos se acabárão, + Quando rios de amor se atravessárão + A me impedir o passo de partir-me. + Passei-os eu com ânimo obstinado, + Com que a morte forçada gloriosa + Faz o vencido ja desesperado. + Em qual figura, ou gesto desusado, + Póde ja fazer medo a morte irosa + A quem t[~e]e a seus pés rendido e atado? + + +CXL. + + Tal mostra de si dá vossa figura, + Sibela, clara luz da redondeza, + Que as fôrças e o poder da natureza + Com sua claridade mais apura. + Quem confiança ha visto tão segura, + Tão singular esmalte da belleza, + Que não padeça mal de mais graveza, + Se resistir a seu amor procura? + Eu, pois, por escusar tal esquivança, + A razão sujeitei ao pensamento, + A quem logo os sentidos se entregárão. + Se vos offende o meu atrevimento, + Inda podeis tomar nova vingança + Nas reliquias da vida que ficárão. + + +CXLI. + + Na desesperação ja repousava + O peito longamente magoado, + E, com seu damno eterno concertado, + Ja não temia, ja não desejava; + Quando huma sombra vãa me assegurava + Que algum bem me podia estar guardado + Em tão formosa imagem, que o traslado + N'alma ficou, que nella se enlevava. + Que credito que dá tão facilmente + O coração áquillo que deseja, + Quando lhe esquece o fero seu destino! + Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente; + Pois, postoque maior meu damno seja, + Fica-me a gloria ja do que imagino. + + +CXLII. + + Diversos dões reparte o Ceo benino, + E quer que cada huma alma hum só possua; + Por isso ornou de casto peito a Lua, + Que o primeiro orbe illustra crystallino; + De graça a Mãe formosa do Menino, + Que nessa vista t[~e]e perdido a sua; + Pallas de sciencia não maior que a tua: + T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino. + Mas junto agora o largo Ceo derrama + Em ti o mais que tinha, e foi o menos + Em respeito do Autor da natureza. + Que a seu pezar te dão, formosa dama, + Seu peito a Lua, sua graça Venos, + Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza. + + +CXLIII. + + Gentil Senhora, se a Fortuna imiga, + Que contra mi com todo o Ceo conspira, + Os olhos meus de ver os vossos tira, + Porque em mais graves casos me persiga; + Comigo levo esta alma, que se obriga + Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra, + A dar-vos a memoria, que suspira + Só por fazer comvosco eterna liga. + Nesta alma, onde a fortuna póde pouco, + Tão viva vos terei, que frio e fome, + Vos não possão tirar, nem mais perigos. + Antes, com som de voz trémulo e rouco + Por vós chamando, só com vosso nome + Farei fugir os ventos, e os imigos. + + +CXLIV + + Que modo tão subtil da natureza + Para fugir ao mundo e seus enganos! + Permitte que se esconda em tenros anos + Debaixo de hum burel tanta belleza! + Mas não póde esconder-se aquella alteza + E gravidade de olhos soberanos, + A cujo resplandor entre os humanos + Resistencia não sinto, ou fortaleza. + Quem quer livre ficar de dor e pena, + Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria, + Na mesma razão sua se condena. + Porque quem mereceo ver tanta gloria + Captivo ha de ficar; que Amor ordena + Que de juro tenha ella esta victoria. + + +CXLV + + Quando se vir com água o fogo arder, + Juntar-se ao claro dia a noite escura, + E a terra collocada lá na altura + Em que se vem os ceos prevalecer; + Quando Amor á Razão obedecer, + E em todos for igual huma ventura, + Deixarei eu de ver tal formosura, + E de a amar deixarei depois de a ver. + Porém não sendo vista esta mudança + No mundo, porque, em fim, não póde ver-se, + Ninguem mudar-me queira de querer-vos. + Que basta estar em vós minha esperança, + E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se, + Para dos olhos meus nunca perder-vos. + + +CXLVI. + + Quando a suprema dor muito me aperta, + Se digo que desejo esquecimento, + He fôrça que se faz ao pensamento, + De que a vontade livre desconcerta. + Assi de êrro tão grave me desperta + A luz do bem regido entendimento, + Que mostra ser engano, ou fingimento, + Dizer que em tal descanso mais se acerta. + Porque essa propria imagem, que na mente + Me representa o bem de que careço, + Faz-mo de hum certo modo ser presente. + Ditosa he, logo, a pena que padeço, + Pois que da causa della em mi se sente + Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço. + + +CXLVII. + + Na margem de hum ribeiro, que fendia + Com liquido crystal hum verde prado, + O triste pastor Liso debruçado + Sôbre o tronco de hum freixo assi dizia: + Ah Natercia cruel! quem te desvia + Esse cuidado teu do meu cuidado? + Se tanto hei de penar desenganado, + Enganado de ti viver queria. + Que foi de aquella fé que tu me déste? + D'aquelle puro amor que me mostraste? + Quem tudo trocar pôde tão asinha? + Quando esses olhos teus n'outro puzeste, + Como te não lembrou que me juraste + Por toda a sua luz que eras só minha? + + +CXLVIII. + + Se me vem tanta gloria só de olhar-te, + He pena desigual deixar de ver-te; + Se presumo com obras merecer-te, + Grão paga de hum engano he desejar-te. + Se aspiro por quem es a celebrar-te, + Sei certo por quem sou que hei de offender-te; + Se mal me quero a mi por bem querer-te, + Que premio querer posso mais que amar-te? + Porque hum tão raro amor não me soccorre? + Oh humano thesouro! oh doce gloria! + Ditoso quem á morte por ti corre! + Sempre escrita estaras nesta memoria; + E esta alma viverá, pois por ti morre, + Porque ao fim da batalha he a victoria. + + +CXLIX. + + Sempre a Razão vencida foi de Amor; + Mas, porque assi o pedia o coração, + Quiz Amor ser vencido da Razão. + Ora que caso póde haver maior! + Novo modo de morte, e nova dor! + Estranheza de grande admiração! + Pois, em fim, seu vigor perde a affeição, + Porque não perca a pena o seu vigor. + Fraqueza, nunca a houve no querer; + Mas antes muito mais se esforça assim + Hum contrário com outro por vencer. + Mas a razão que a luta vence, em fim, + Não creio que he razão; mas deve ser + Inclinação que eu tenho contra mim. + + +CL. + + Coitado! que em hum tempo chóro e rio; + Espero e temo, quero e aborreço; + Juntamente me allegro e me entristeço; + Confio de huma cousa e desconfio. + Vôo sem azas; estou cego e guio; + Alcanço menos no que mais mereço; + Entaõ fallo melhor, quando emmudeço; + Sem ter contradiçaõ sempre porfio. + Possivel se me faz todo o impossivel; + Intento com mudar-me estar-me quedo; + Usar de liberdade, e ser captivo; + Queria visto ser, ser invisivel; + Ver-me desenredado, amando o enredo: + Taes os extremos são com que hoje vivo! + + +CLI. + + Julga-me a gente toda por perdido, + Vendo-me, tão entregue a meu cuidado, + Andar sempre dos homens apartado, + E de humanos commercios esquecido. + Mas eu, que tenho o mundo conhecido, + E quasi que sôbre elle ando dobrado, + Tenho por baixo, rustico, e enganado + Quem não he com meu mal engrandecido. + Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento, + Honras busque e riquezas a outra gente, + Vencendo ferro, fogo, frio e calma. + Que eu por amor sómente me contento + De trazer esculpido eternamente + Vosso formoso gesto dentro da alma. + + +CLII. + + Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura + Quiz dar de seu poder claros signais, + Se quizerdes ver bem quanto possais, + Vêde-me a mi que sou vossa feitura. + Em mi viva vereis vossa figura + Mais propria que em purissimos crystais, + Porque nesta alma he certo que vejais + Melhor que em hum crystal tal formosura. + De meu não quero mais que o meu desejo, + Se acaso por querer-vos mais mereço, + Porque o vosso poder em mi se asselle. + Do mundo outra memoria em mi não vejo: + Com lembrar-me de vós, delle me esqueço, + Com triumphardes de mi, triumpharei delle. + + +CLIII. + + Criou a natureza Damas bellas, + Que forão de altos plectros celebradas; + Dellas tomou as partes mais prezadas, + E a vós, Senhora, fez do melhor dellas. + Ellas diante vós são as estrellas, + Que ficão com vos ver logo eclipsadas. + Mas se ellas t[~e]e por sol essas rosadas + Luzes de sol maior, felices ellas! + Em perfeição, em graça e gentileza, + Por hum modo entre humanos peregrino, + A todo bello excede essa belleza. + Oh quem tivera partes de divino + Para vos merecer! Mas se pureza + De amor vai ante vós, de vós sou dino. + + +CLIV. + + Que esperais, esperança? Desespéro. + Quem disso a causa foi? H[~u]a mudança. + Vós, vida, como estais? Sem esperança. + Que dizeis, coração? Que muito quero. + Que sentis, alma, vós? Que amor he fero. + E, em fim, como viveis? Sem confiança. + Quem vos sustenta, logo? Huma lembrança. + E só nella esperais? Só nella espero. + Em que podeis parar? Nisto em que estou. + E em que estais vós? Em acabar a vida. + E ténde-lo por bem? Amor o quer. + Quem vos obriga assi? Saber quem sou. + E quem sois? Quem de todo está rendida. + A quem rendida estais? A hum só querer. + + +CLV. + + Se como em tudo o mais fostes perfeita, + Foreis de condição menos esquiva, + Fôra a minha fortuna mais altiva, + Fôra a sua altiveza mais sujeita. + Mas quando a vida a vossos pés se deita, + Porque não a acceitais, não quer que eu viva: + Ella propria de si ja a mi me priva; + Que, porque me engeitais, tambem me engeita. + Se nisso contradiz vossa vontade, + Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim + Á minha profundissima tristeza. + Pois ella não mo dá, porque piedade + Tenha deste meu mal, mas porque em mim + Possais assi fartar vossa crueza. + + +CLVI. + + Se algum'hora essa vista mais suave + Acaso a mi volveis, em hum momento + Me sinto com hum tal contentamento, + Que não temo que damno algum me aggrave. + Mas quando com desdem esquivo e grave + O bello rosto me mostrais isento, + Huma dor provo tal, hum tal tormento, + Que muito vem a ser que não me acabe. + Assi está minha vida, ou minha morte + No volver de esses olhos; pois podeis + Dar co'huma volta delles morte, ou vida. + Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte, + Que ou vida, para dar-vo-la, me deis, + Ou morte, para haver morte querida! + + +CLVII. + + Tanto se forão, Nympha, costumando + Meus olhos a chorar tua dureza, + Que vão passando ja por natureza + O que por accidente hião passando. + No que ao somno se deve estou velando, + E venho a velar só minha tristeza: + O chôro não abranda esta aspereza, + E meus olhos estão sempre chorando. + Assi de dor em dor, de mágoa em mágoa, + Consumindo-se vão inutilmente, + E esta vida tambem vão consumindo. + Sôbre o fogo de amor inutil ágoa! + Pois eu em chôro estou continuamente, + E do que vou chorando te vás rindo. + Assi nova corrente + Levas de chôro em foro; + Porque de ver-te rir, de novo chóro. + + +CLVIII. + + Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo, + Quando menos temia esta partida; + E se a minha alma vai entristecida, + Nos olhos o vereis com que vos vejo. + Pequenas esperanças, mal sobejo, + Vontade que razão leva vencida, + Presto verão o fim á triste vida, + Se vos não tórno a ver como desejo. + Nunca a noite entretanto, nunca o dia, + Verão partir de mi vossa lembrança: + Amor, que vai comigo, o certifica. + Por mais que no tornar haja tardança, + Me farão sempre triste companhia + Saudades do bem que em vós me fia. + + +CLIX. + + Vencido está de amor Meu pensamento + O mais que póde ser, Vencida a vida, + Sujeita a vos servir e Instituida, + Oferecendo tudo A vosso intento. + Contente deste bem Louva o momento, + Ou hora em que se vio Tão bem perdida; + Mil vezes desejando, Assi ferida, + Outras mil renovar Seu perdimento. + Com esta pretenção Está segura + A causa que me guia Nesta empreza + Tão sobrenatural, Honrosa, e alta. + Jurando não querer Outra ventura, + Votando só por vós Rara firmeza, + Ou ser no vosso amor Achado em falta. + + +CLX. + + Divina companhia, que nos prados + Do claro Eurotas, ou no Olympo monte, + Ou sôbre as margens da Castalia fonte + Vossos estudos tendes mais sagrados; + Pois por destino dos immoveis fados + Quereis qu'em vosso número me conte, + No eterno templo de Belorofonte + Ponde em bronze estes versos entalhados: + Soliso (porque em seculos futuros + Se veja da belleza o que merece + Quem de sábia doudice a mente inflama) + Seus escritos, da sorte ja seguros, + A estas aras em h[~u]a mão offrece, + E a alma em outra á sua bella dama. + + +CLXI. + + Á la margen del Tajo, en claro dia, + Con rayado marfil peinando estaba + Natercia sus cabellos, y quitaba + Con sus ojos la luz al sol que ardia. + Soliso que, cual Clicie, la seguia, + Lejos de sí, mas cerca della estaba: + Al son de su zampoña celebraba + La causa de su ardor, y así decia: + Si tantas, como tú tienes cabellos, + Tuviera vidas yo, me las llevaras + Colgada cada cual del uno dellos. + De no tenerlas tú me consolaras, + Si tantas veces mil, como son ellos, + En ellos la que tengo me enredaras. + + +CLXII. + + Por gloria tuve un tiempo el ser perdido; + Perdíame de puro bien ganado; + Gané cuando perdí ser libertado; + Libre agora me veo, mas vencido. + Vencí cuando de Nise fuí rendido; + Rendíme por no ser della dejado: + Dejóme en la memoria el bien pasado; + Paso agora á llorar lo que he servido. + Servia al premio de la luz que amaba; + Amándola esperábale por cierto; + Incierto me salió cuanto esperaba. + La esperanza se queda en desconcierto; + El concierto en el mal que no pensaba; + El pensamiento con un fin incierto. + + +CLXIII. + + Revuelvo en la incesable fantasía + Cuando me he visto en mas dichoso estado, + Si agora que de Amor vivo inflamado, + Si cuando de su ardor libre vivia. + Entonces desta llama solo huia, + Despreciando en mi vida su cuidado; + Agora, con dolor de lo pasado, + Tengo por gloria aquello que temia. + Bien veo que era vida deleitosa + Aquella que lograba sin temores, + Cuando gustos de Amor tuve por viento. + Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa, + Hallo en esta prision glorias mayores, + Y en perderlas por libre hallo tormento. + + +CLXIV. + + Las peñas retumbaban al gemido + Del misero zagal, que lamentaba + El dolor que á su alma lastimaba, + De un obstinado desamor nacido. + El mar, que las batia, su bramido + Con los retumbos dellas ayuntaba; + Confuso son el viento derramaba, + En cavernosos valles repetido. + Responden a mi llanto duras peñas, + Ai de mí! (dijo) la mar brama y gime; + Los ecos suenan de tristeza llenos: + Y tú, por quien la muerte en mí se imprime, + De oir las ansias mias te desdeñas; + Y cuando lloro mas, te abrando menos. + + +CLXV. + + En una selva al dispuntar del dia + Estaba Endimion triste y lloroso, + Vuelto al rayo del sol, que presuroso + Por la falda de un monte descendia. + Mirando al turbador de su alegría, + Contrario de su bien y su reposo, + Tras un suspiro y otro, congojoso, + Razones semejantes le decia: + Luz clara, para mi la mas escura, + Que con esse paseo apresurado, + Mi sol con tu teniebla escureciste; + Si allà pueden moverte en esa altura + Las quejas de un pastor enamorado, + No tardes en volver á dó saliste. + + +CLXVI. + + Orfeo enamorado que tañia + Por la perdida Ninfa que buscaba, + En el Orco implacable donde estaba, + Con la arpa, y con la voz la enternecia. + La rueda de Ixion no se movia, + Ningun atormentado se quejaba; + Las penas de los otros ablandaba, + Y todas las de todos él sentia. + El son pudo obligar de tal manera, + Que en dulce galardon de lo cantado, + Los infernales Reyes condolidos, + Le mandáron volver su compañera, + Y volvióla á perder el desdichado; + Con que fueron entrambos los perdidos. + + +CLXVII. + + Eu cantei ja, e agora vou chorando + O tempo que cantei tão confiado: + Parece que no canto ja passado + Se estavão minhas lagrimas criando. + Cantei; mas se me alguem pergunta, quando? + Não sei; que tambem fui nisso enganado. + He tão triste este meu presente estado, + Que o passado por ledo estou julgando. + Fizerão-me cantar manhosamente + Contentamentos não, mas confianças: + Cantava, mas ja era ao som dos ferros. + De quem me queixarei, se tudo mente? + Porém que culpas ponho ás esperanças, + Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros? + + +CLXVIII. + + Ai amiga cruel! que apartamento + He este que fazeis da patria terra? + Ai! quem do amado ninho vos desterra, + Gloria dos olhos, bem do pensamento? + His tentar da fortuna o movimento, + E dos ventos crueis a dura guerra? + Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra + Levantado de hum vento e de outro vento? + Mas ja que vós partis, sem vos partirdes, + Parta comvosco o Ceo tanta ventura, + Que se avantaje áquella qu'esperardes. + E só desta verdade ide segura, + Que fazeis mais saudades com vos irdes, + Do que levais desejos por chegardes. + + +CLXIX. + + Campo! nas syrtes deste mar da vida, + Apos naufragios seus taboa segura; + Claras bonanças em tormenta escura, + Habitação da paz, de amor guarida; + A ti fujo: e se vence tal fugida, + E quem mudou lugar, mudou ventura, + Cantemos a victoria; e na espessura + Triumphe a honra da ambição vencida. + Em flor e fructo de verão e outono; + Utilmente murmurão claras ágoas; + Alegre me acha aqui, me deixa o dia. + Amantes rouxinoes rompem-me o sono + Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas + Que ja forão sepulcros de alegria. + + +CLXX. + + Ah minha Dinamene! assi deixaste + Quem nunca deixar pôde de querer-te! + Que ja, Nympha gentil, não possa ver-te! + Que tão veloz a vida desprezaste! + Como por tempo eterno te apartaste + De quem tão longe andava de perder-te? + Puderão essas ágoas defender-te + Que não visses quem tanto magoaste? + Nem somente fallar-te a dura morte + Me deixou, qu'apressada o negro manto + Lançar sôbre os teus olhos consentiste. + Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte! + Qual vida perderei que valha tanto, + Se inda tenho por pouco o viver triste? + + +CLXXI. + + Guardando em mi a Sorte o seu direito. + Em verde me cortou minha alegria. + Oh quanto feneceo naquelle dia, + Cuja triste lembrança arde em meu peito! + Quando mais o imagino, bem suspeito + Que a tal bem tal desconto se devia, + Por não dizer o mundo que podia + Achar-se em seus enganos bem perfeito. + Pois se a Fortuna o fez por descontar-me + Aquelle gôsto, em cujo sentimento + A memoria não faz senão matar-me; + Que culpas póde dar-me o pensamento, + Se a causa qu'elle t[~e]e de atormentar-me, + Tenho eu de soffrer mal o seu tormento? + + +CLXXII. + + Cantando estava hum dia bem seguro, + Quando passava Sylvio, e me dizia: + (Sylvio, pastor antiguo que sabia + Por o canto das aves o futuro) + Liso, quando quizer o fado escuro, + A opprimir-te virão em hum só dia + Dous lobos; logo a voz e a melodia + Te fugirão, e o som suave e puro. + Bem foi assi; porque hum me degolou + Quanto gado vacum pastava e tinha, + De que grandes soldadas esperava. + E por mais damno o outro me matou + A cordeira gentil, qu'eu tanto amava, + Perpétua saudade da alma minha. + + +CLXXIII. + + O ceo, a terra, o vento socegado, + As ondas que se estendem por a areia, + Os peixes que no mar o somno enfreia, + O nocturno silencio repousado; + O Pescador Aonio que, deitado + Onde co'o vento a água se meneia, + Chorando, o nome amado em vão nomeia, + Que não póde ser mais que nomeado, + Ondas, (dizia) antes que Amor me mate, + Tornae-me a minha Nympha, que tão cedo + Me fizestes á morte estar sujeita. + Ninguem responde; o mar de longe bate; + Move-se brandamente o arvoredo; + Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita. + + +CLXXIV. + + Ah Fortuna cruel! ah duros Fados! + Quão asinha em meu damno vos mudastes! + Com os vossos cuidados me cansastes, + E agora descansais co'os meus cuidados. + Fizestes-me provar gostos passados, + E vossa condição nelles provastes: + Singelos em hum'hora mos levastes, + Deixando em seu lugar males dobrados. + Quanto melhor me fôra que não vira + Os doces bens de Amor? Ah bens suaves! + Quem me deixa sem vós, porque me deixa? + De queixar-te, alma minha, te retira: + Alma, de alto cahida em penas graves, + Pois tanto amaste em vão, em vão te queixa. + + +CLXXV. + + Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento + Vos hei de ver tão tristes e aggravados? + Não bástão meus suspiros inflammados, + Que sempre em mi renovão seu tormento? + Não basta consentir meu pensamento + Em mágoas, em tristezas e em cuidados, + Senão que haveis de andar tão maltratados, + Que lagrimas tenhais por mantimento? + Não sei porque tomais esta vingança, + Mostrando-vos na ausencia tão saudosos, + Se sabeis quanto póde huma esperança. + Olhos, não aggraveis outros formosos, + Tornando hum puro amor em esquivança, + Pois ficais por esquivos desdenhosos. + + +CLXXVI. + + Lembranças, que lembrais o bem passado + Para que sinta mais o mal presente, + Deixae-me, se quereis, viver contente, + Morrer não me deixeis em tal estado. + Se de todo, comtudo, está do Fado, + Que eu morra de viver tão descontente, + Venha-me todo o bem por accidente, + E todo o mal me venha por cuidado. + Que muito melhor he perder-se a vida, + Perdendo-se as lembranças da memoria, + Pois fazem tanto damno ao pensamento. + Porque, em fim, nada perde quem perdida + A esperança t[~e]e ja daquella gloria + Que fazia suave o seu tormento. + + +CLXXVII. + + Quando os olhos emprégo no passado, + De quanto passei me acho arrependido; + Vejo que tudo foi tempo perdido, + Que tudo emprêgo foi mal empregado. + Sempre no mais damnoso mais cuidado; + Tudo o que mais cumpria, mal cumprido; + De desenganos menos advertido + Fui, quando de esperanças mais frustrado. + Os castellos que erguia o pensamento, + No ponto que mais altos os erguia, + Por esse chão os via em hum momento. + Que erradas contas faz a phantasia! + Pois tudo pára em morte, tudo em vento, + Triste o que espera! triste o que confia! + + +CLXXVIII + + Ja cantei, ja chorei a dura guerra + Por Amor sustentada longos anos; + Vezes mil me vedou dizer seus danos, + Por não ver quem o segue o muito que erra. + Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra; + Vós que fazeis á morte mil enganos, + Concedei-me ja alentos soberanos + Para que diga o mal que Amor encerra: + Para que aquelle, que o seguir ardente, + Veja em meus puros versos hum exemplo + De quanto em glorias promettidas mente. + Qu'inda qu'em triste estado me contemplo, + Se neste assumpto me inspirais, contente + Darei a minha lyra ao vosso templo. + + +CLXXIX + + Os meus alegres, venturosos dias + Passárão, como raio, brevemente; + Movem-se os tristes mais pezadamente + Apos das fugitivas alegrias. + Ah falsas pretenções! vãas phantasias! + Que me podeis ja dar que me contente? + Ja de meu triste peito a chamma ardente + O tempo reduzio a cinzas frias. + Nellas revolvo agora erros passados; + Que outro fructo não deo a mocidade, + A quem vergonha e dor minha alma deve + Revolvo mais de toda a mais idade, + Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados, + Para que leve tudo o tempo leve. + + +CLXXX. + + Horas breves de meu contentamento, + Nunca me pareceo, quando vos tinha, + Que vos visse mudadas tão asinha + Em tão compridos annos de tormento. + As altas tôrres, que fundei no vento, + Levou, em fim, o vento que as sostinha: + Do mal, que me ficou, a culpa he minha, + Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento. + Amor com brandas mostras apparece, + Tudo possivel faz, tudo assegura; + Mas logo no melhor desapparece. + Estranho mal! estranha desventura! + Por hum pequeno bem que desfallece, + Hum bem aventurar, que sempre dura! + + +CLXXXI. + + Onde acharei lugar tão apartado, + E tão isento em tudo da ventura, + Que, não digo eu de humana criatura, + Mas nem de feras seja frequentado? + Algum bosque medonho e carregado, + Ou selva solitaria, triste e escura, + Sem fonte clara, ou placida verdura; + Em fim, lugar conforme a meu cuidado? + Porque alli nas entranhas dos penedos, + Em vida morto, sepultado em vida, + Me queixe copiosa e livremente. + Que, pois a minha pena he sem medida, + Alli não serei triste em dias ledos, + E dias tristes me farão contente. + + +CLXXXII. + + Aqui de longos damnos breve historia + Verão os que se jactão de amadores: + Reparo póde ser das suas dores + Não apartar as minhas da memoria. + Escrevi, não por fama, nem por gloria, + De que outros versos são merecedores, + Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores + A quem de mi logrou tanta victoria. + Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto + Que em número me fez, alheio de arte, + Dizer do cego Amor, que me venceo. + Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto; + E dando a penna á mão, esta só parte + De minhas tristes penas escreveo. + + +CLXXXIII. + + Por sua Nympha Céphalo deixava + A Aurora, que por elle se perdia, + Postoque dá principio ao claro dia, + Postoque as roxas flores imitava. + Elle, que a bella Procris tanto amava, + Que só por ella tudo engeitaria, + Deseja de tentar se lhe acharia + Tão firme fé, como ella nelle achava. + Mudado o trage, tece hum duro engano; + Outro se finge, preço põe diante; + Quebra-se a fé mudavel, e consente. + Oh subtil invenção para seu dano! + Vêde que manhas busca hum cego amante + Para que sempre seja descontente! + + +CLXXXIV. + + Sentindo-se alcançada a bella esposa + De Céphalo no crime consentido, + Para os montes fugia do marido; + E não sei se de astuta, ou vergonhosa. + Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa, + Da cegueira obrigado de Cupido, + Apos ella se vai como perdido, + Ja perdoando a culpa criminosa. + Deita-se aos pés da Nympha endurecida, + Que do cioso engano está aggravada; + Ja lhe pede perdão, ja pede a vida. + Oh fôrça d'affeição desatinada! + Que da culpa contr'elle commettida, + Perdão pedia á parte que he culpada! + + +CLXXXV. + + Seguia aquelle fogo, que o guiava, + Leandro, contra o mar e contra o vento; + Quebravão-lhe ondas o animoso alento, + Por mais e mais que Amor lho renovava. + Com sentir ja que quasi lhe faltava, + Sem nada esmorecer, no pensamento + (Não podendo fallar) de seu intento + O fim ao surdo mar encommendava. + Ó mar, (dizia o moço só comsigo) + Ja te não peço a vida; só queria + Que a d'Hero me salvasses: não me veja: + Este defunto corpo lá o desvia + D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo, + Pois no meu maior bem me houveste inveja. + + +CLXXXVI. + + Os olhos onde o casto Amor ardia, + Ledo de se ver nelles abrazado; + O rosto onde com lustre desusado + Purpurea rosa sôbre neve ardia; + O cabello, que inveja ao sol fazia, + Porque fazia o seu menos dourado; + A branca mão, o corpo bem talhado, + Tudo aqui se reduz a terra fria. + Perfeita formosura em tenra idade, + Qual flor, que antecipada foi colhida, + Murchada está da mão da morte dura. + Como não morre Amor de piedade? + Não della, que se foi á clara vida; + Mas de si, que ficou em noute escura. + + +CLXXXVII. + + Ditosa penna, como a mão que a guia + Com tantas perfeições da subtil arte, + Que quando com razão venho a louvar-te, + Em teus louvores perco a phantasia. + Porém Amor, que effeitos varios cria, + De ti cantar me manda em toda parte, + Não em plectro belligero de Marte, + Mas em suave e branda melodia. + Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo, + Voando se levanta e te pregoa, + Agora que ninguem te levantava. + E porque immortal sejas, eis Apolo + Te offerece de flores a coroa, + Que ja de longo tempo te guardava. + + +CLXXXVIII. + + Espanta crescer tanto o crocodilo + Só por seu limitado nascimento; + Que, se maior nascêra, mais isento + Estivera de espanto o patrio Nilo. + Em vão levantará meu baixo estilo + Vosso Pontifical, novo ornamento; + Pois no ventre o immortal merecimento + Vo-lo talhou, para despois vesti-lo. + Tardou, mas veio; que a quem mais merece + Vir o premio mais tarde he sempre certo, + Inda que vez alguma venha cedo. + Os ceos, que do primeiro estão mais perto, + Mais devagar se movem. Quem conhece, + Sôbre aquelle segredo, este segredo! + + +CLXXXIX. + + Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante, + Com qu'a celeste máchina sustenta; + Honrou a Homero o engenho, com que intenta + Grecia do quarto ceo passá-lo avante; + Coroou claro Amor de amor constante + A Orpheo, na paz firme e na tormenta; + Inspirou a Fortuna, em tudo isenta, + A Cesar, de quem foi hum tempo amante; + Exaltaste tu, Fama, a gloria alta + De Alcides lá no monte em que resides; + Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama, + Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta, + Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides, + Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama. + + +CXC. + + Despois que vio Cibele o corpo humano + Do formoso Atys seu verde pinheiro, + Em piedade o vão furor primeiro + Convertido, chorava o grave dano. + E, á sua dor fazendo illustre engano, + A Jupiter pedio, que o verdadeiro + Preço da nobre palma e do loureiro + Ao seu pinheiro désse, soberano. + Mais lhe concede o filho poderoso + Que, crescendo, as estrellas tocar possa, + Vendo os segredos lá do ceo superno. + Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso + Quem se vir coroar da rama vossa, + Cantando á vossa sombra verso eterno! + + +CXCI. + + Pois torna por seu Rei e juntamente + Por Christo a governar aquella parte + Onde se t[~e]e mostrado hum Numa, hum Marte + O famoso Luis, justo e valente; + O Tejo espere ver de todo o Oriente, + Onde tão raros dões o Ceo reparte, + Render a tanto esfôrço, aviso e arte, + Mil palmas, mil tributos novamente. + Os que bebem no Gange, os que no Indo, + A quem pouco valêrão lança e escudo, + O render-se terão por bom partido. + O Euphrates temerá, seu nome ouvindo; + Que para delle ver vencido tudo, + Ja vio do braço seu tudo vencido. + + +CXCII. + + Agora toma a espada, agora a pena, + Estacio nosso, em ambas celebrado, + Sendo, ou no salso mar de Marte amado, + Ou n'água doce amante da Camena. + Cysne sonoro por ribeira amena + De mi para cantar-te he cobiçado; + Porque não podes tu ser bem cantado + De ruda frauta, nem de agreste avena. + Se eu, que a penna tomei, tomei a espada, + Para poder jogar licença tenho + Desta alta influïção de dous Planetas; + Com huma e outra luz delles lograda, + Tu com pujante braço, ardente engenho, + Serás pharo a Soldados e a Poetas. + + +CXCIII. + + Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente + Em minha perdição se conjurárão: + Os erros e a Fortuna sobejárão; + Que para mi bastava Amor somente. + Tudo passei; mas tenho tão presente + A grande dor das cousas, que passárão, + Que ja as frequencias suas me ensinárão + A desejos deixar de ser contente. + Errei todo o discurso de meus anos; + Dei causa a que a Fortuna castigasse + As minhas mal fundadas esperanças. + De Amor não vi senão breves enganos. + Oh quem tanto pudesse, que fartasse + Este meu duro Genio de vinganças! + + +CXCIV. + + Cá nesta Babylonia donde mana + Materia a quanto mal o mundo cria; + Cá donde o puro Amor não t[~e]e valia; + Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; + Cá donde o mal se affina, o bem se dana, + E póde mais que a honra a tyrannia; + Cá donde a errada e cega Monarchia + Cuida que hum nome vão a Deos engana; + Cá neste labyrintho onde a Nobreza, + O Valor e o Saber pedindo vão + Ás portas da Cobiça e da Vileza; + Cá neste escuro caos de confusão + Cumprindo o curso estou da natureza. + Vê se me esquecerei de ti, Sião! + + +CXCV. + + Correm turbas as águas deste rio, + Que as rapidas enchentes enturbárão; + Os florecidos campos se seccárão; + Intratavel se fez o valle e frio. + Passou, como o verão, o ardente estio; + Humas cousas por outras se trocárão: + Os fementidos fados ja deixárão + Do mundo o regimento, ou desvario. + Ja o tempo a ordem sua t[~e]e sabida; + O mundo não; mas anda tão confuso, + Que parece que delle Deos se esquece. + Casos, opiniões, natura, e uso, + Fazem que nos pareça desta vida + Que não ha nella mais do que parece. + + +CXCVI. + + Vós outros, que buscais repouso certo + Na vida, com diversos exercicios; + A quem, vendo do mundo os beneficios, + O regimento seu fica encoberto; + Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto + Novas honras e cegos sacrificios; + Que, por castigo igual de antiguos vicios, + Quer Deos que andem as cousas por acêrto. + Não cahio neste modo de castigo + Quem poz culpa á Fortuna, quem somente + Crê que acontecimentos ha no mundo. + A grande experiencia he grão perigo: + Mas o que a Deos he justo e evidente + Parece injusto aos homens e profundo. + + +CXCVII. + + Para se namorar do que criou, + Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura. + Vêde que tal seria esta feitura + Que para si o seu Feitor guardou! + No seu alto conceito te formou + Primeiro que a primeira criatura, + Para que unica fosse a compostura + Que de tão longo tempo se estudou. + Não sei se digo em tudo quanto baste + Para exprimir as raras qualidades + Que quiz criar em ti quem tu criaste. + Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste + Huma só, tres tão altas dignidades, + Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste. + + +CXCVIII. + + Desce do ceo immenso Deos benino + Para encarnar na Virgem soberana. + Porque desce o divino a cousa humana? + Para subir o humano a ser divino. + Pois como vem tão pobre e tão menino, + Rendendo-se ao poder da mão tyrana? + Porque vem receber morte inhumana + Para pagar de Adão o desatino. + He possivel que os dous o fructo comem + Que de quem lhes deo tanto foi vedado? + Si; porque o proprio ser de deoses tomem. + E por esta razão foi humanado? + Si; porque foi com causa decretado, + Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem. + + +CXCIX. + + Dos ceos á terra desce a mor Belleza, + Une-se á nossa carne, e a faz nobre; + E, sendo a humanidade d'antes pobre, + Hoje subida fica á mor riqueza. + Busca o Senhor mais rico a mor pobreza; + Que, como ao mundo o seu amor descobre, + De palhas vis o corpo tenro cobre, + E por ellas o mesmo ceo despreza. + Como? Deos em pobreza á terra dece? + O qu'he mais pobre tanto lhe contenta, + Qu'este somente rico lhe parece. + Pobreza este Presepio representa; + Mas tanto por ser pobre ja merece, + Que quanto mais o he, mais lhe contenta. + + +CC. + + Porque a tamanhas penas se offerece + Por o peccado alheio, e êrro insano, + O Trino Deos? Porque o sogeito humano + Não póde co'o castigo que merece. + Quem padecerá as penas que padece? + Quem soffrerá deshonra, morte e dano? + Quem será, se não for o Soberano + Que reina, e servos manda, e obedece? + Foi a fôrça do homem tão pequena, + Que não pôde soster tanta aspereza, + Pois não sosteve a Lei que Deos ordena. + Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza + Por amor puro; que a mortal fraqueza + Foi para o êrro, e não ja para a pena. + + +CCI. + + Despois de haver chorado os meus tormentos, + Quer Amor que lhe cante as suas glorias. + Canto de huma belleza os vencimentos, + De hum longo padecer chóro as memorias. + Porém, se as minhas penas são victorias, + Por a causa, a meus altos pensamentos; + Dilatem-se em larguissimas historias + Estes meus gloriosos rendimentos. + Mova-se em todo o mundo unico espanto + De qu'he, por a belleza qu'eu adoro, + Do que cantado tenho premio o pranto. + Contente offreço a amor tão triste foro: + Que se chôro não ha como o meu canto, + Não sei canto melhor qu'este meu chôro. + + +CCII. + + Onde mereci eu tal pensamento + Nunca de ser humano merecido? + Onde mereci eu ficar vencido + De quem tanto me honrou co'o vencimento? + Em gloria se converte o meu tormento, + Quando vendo-me estou tão bem perdido; + Pois não foi tanto mal ser atrevido, + Como foi gloria o mesmo atrevimento. + Vivo, Senhora, só de contemplar-vos; + E pois esta alma tenho tão rendida, + Em lagrimas desfeito acabarei. + Porque não me farão deixar de amar-vos + Receios de perder por vós a vida; + Que por vós vezes mil a perderei. + + +CCIII. + + De frescas belvederes rodeadas + Estão as puras águas desta fonte; + Formosas Nymphas lhes estão defronte, + A vencer e a matar acostumadas. + Andão contra Cupido levantadas + As suas graças, que não ha quem conte: + D'outro valle esquecidas, d'outro monte, + A vida passão neste socegadas. + O seu poder juntou, sua valia + Amor, ja não soffrendo este desprêzo, + Somente por se ver dellas vingado; + Mas, vendo-as, entendeo que não podia + De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo, + E ficou-se com ellas desarmado. + + +CCIV. + + Nos braços de hum Sylvano adormecendo + Se estava aquella Nympha qu'eu adoro, + Pagando com a boca o doce foro, + Com que os meus olhos foi escurecendo. + Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo + Que a maior formosura do teu côro + Em hum poder tão vil perca o decoro + Que o merito maior lhe está devendo? + Eu levarei daqui por presupposto + Desta nova estranheza que fizeste, + Que em ti não póde haver cousa segura. + Que, pois o claro lume, o bello rosto + Áquelle monstro tão disforme déste, + Não creio qu'haja Amor, senão Ventura. + + +CCV. + + Quem diz que Amor he falso, ou enganoso, + Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, + Sem falta lhe terá bem merecido + Que lhe seja cruel, ou rigoroso, + Amor he brando, he doce, e he piedoso: + Quem o contrário diz não seja crido; + Seja por cego e apaixonado tido, + E aos homens, e inda aos deoses odioso. + Se males faz Amor, em mi se vem; + Em mi mostrando todo o seu rigor, + Ao mundo quiz mostrar quanto podia. + Mas todas suas iras são d'Amor; + Todos estes seus males são hum bem, + Qu'eu por todo outro bem não trocaria. + + +CCVI. + + Formosa Beatriz, tendes taes geitos + N'hum brando revolver dos olhos bellos, + Que só no contemplá-los, se não ve-los, + Se inflammão corações e humanos peitos. + Em toda perfeição são tão perfeitos, + Que o desengano dão de merecê-los: + Não póde haver quem possa conhecê-los, + Sem nelle Amor fazer grandes effeitos. + Sentirão, por meu mal, tão graves danos + Os meus, que com os ver cegos e tristes + Ficarão sem prazer, co'a luz perdida. + Mas ja que vós com elles me feristes, + Tornai-me a ver com elles mais humanos, + E deixareis curada esta ferida. + + +CCVII. + + Alegres campos, verdes, deleitosos, + Suaves me serão vossas boninas, + Em quanto forem vistas das meninas + Dos olhos de Ignez bella tão formosos. + Dos meus, que vos serão sempre invejosos + Por não verem estrellas tão divinas, + Sereis regados d'águas peregrinas, + Soprados de suspiros amorosos. + E vós, douradas flores, por ventura + Se Ignez quizer fazer de meus amores + Exp'riencias na folha derradeira, + Mostrai-lhe, para ver minha fé pura, + O bem que sempre quiz, formosas flores; + Qu'então não sentirei que mal me queira. + + +CCVIII. + + Ondados fios de ouro, onde enlaçado. + Continuamente tenho o pensamento; + Que quanto mais vos sólta o fresco vento, + Mais preso fico então de meu cuidado; + Amor, d'huns bellos olhos sempre armado, + Me combate co'as fôrças do tormento, + Provando da minha alma o soffrimento + Que á justa lei da paz trago obrigado. + Assi que em vosso gesto mais que humano + Amo a paz juntamente e o perigo; + E em amar hum e outro não me engano. + Muitas vezes dizendo estou comigo + Que, pois he tal a causa de meu dano, + He justa a guerra, he justa a paz que sigo. + + +CCIX. + + Amor, que em sonhos vãos do pensamento + Paga o zêlo maior de seu cuidado, + Em toda condição, em todo estado, + Tributario me fez de seu tormento. + Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento + De quanto tenho a Amor sacrificado, + Nas mãos da ingratidão despedaçado + Por prêza vai do eterno esquecimento. + Mas quando muito, em fim, cresça o perigo, + A que perpetuamente me condena + Amor, que amor não he, mas inimigo; + Tenho hum grande descanso em minha pena, + Que a gloria do querer, que tanto sigo, + Não póde ser co'os males mais pequena. + + +CCX. + + Nem o tremendo estrépito da guerra + Com armas, com incendios espantosos + Que despachão pelouros perigosos, + Bastantes a abalar huma alta serra, + Podem pôr medo a quem nenhum encerra, + Despois que vio os olhos tão formosos, + Por quem o horror nos casos pavorosos + De mi todo se aparta e se desterra, + A vida posso ao fogo e ferro dar, + E perdê-la em qualquer duro perigo, + E nelle, como phenix, renovar. + Não póde mal haver para comigo, + De qu'eu ja me não possa bem livrar, + Senão do que me ordena Amor imigo. + + +CCXI. + + Fiou-se o coração, de muito isento, + De si, cuidando mal que tomaria + Tão illicito amor, tal ousadia, + Tal modo nunca visto de tormento. + Mas os olhos pintárão tão a tento + Outros que vistos t[~e]e na phantasia, + Que a razão, temerosa do que via, + Fugio, deixando o campo ao pensamento. + Ó Hippolyto casto, que de geito + De Phedra tua madrasta foste amado, + Que não sabia ter nenhum respeito; + Em mi vingou Amor teu casto peito: + Mas está deste aggravo tão vingado, + Que se arrepende ja do que t[~e]e feito. + + +CCXII. + + Quem quizer ver d'amor huma excellencia + Onde sua fineza mais se apura, + Attente onde me põe minha ventura, + Porque de minha fé faça exp'riencia. + Onde lembranças mata a larga ausencia, + Em temeroso mar, em guerra dura, + A saudade alli'stá mais segura, + Quando risco maior corre a paciencia. + Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado, + Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição, + Ou em sublime e próspera ventura; + Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado; + Que até na dura morte me acharão + Na lingua o nome, e n'alma a vista pura. + + +CCXIII. + + Los ojos que con blando movimiento + Al pasar enternecen la alma mia, + Si detener pudiera solo un dia, + Pudiera bien libraria de tormento. + Deste tan amoroso sentimiento + El importuno mal se acabaria; + Ó tambien su accidente creceria + Para acabar la vida en un momento. + Oh! si ya tu esquivez me permitiese + Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso, + A manos de tus ojos yo muriese! + Oh si los detuvieras! cuan dichoso + Seria aquel momento en que me viese + Vida en ellos cobrar, cobrar reposo! + + +CCXIV. + + No bastaba que amor puro y ardiente + Por términos la vida me quitase; + Mas que la muerte así se apresurase + Con un deshumanisimo accidente? + No pretendió mi alma, aunque lo siente, + Que el riguroso curso se atajase, + Porque nunca morir se exprimentase + Desamado el que amó tan dulcemente. + Mas vuestra voluntad tan poderosa + Con esas gracias vuestras ordenaron + Crueldad asi imposible, ó nunca oída. + Aquel frio desden, y la amorosa + Furia, de un golpe solo, me quitaron + Con dós contrarias muertes una vida. + + +CCXV. + + Ayudame, Señora, á hacer venganza + De tal selvatiquez, de tal rudeza, + Pues de mi poquedad, de mi bajeza + Osado á ti elevaba la esperanza. + Á esa tu perfeccion, que no se alcanza, + Á esas sublimes cumbres de belleza, + Donde una vez llegó naturaleza, + Mas de volver perdió la confianza. + Aquello que en ti miro contemplando, + (Que apenas contemplarlo me consiente) + Contemplándolo mas, menos lo espero. + Si gloria de mi pena en ti se siente, + Derrama en mí tus iras, desamando; + Que al ofenderme mas yo mas te quiero. + + +CCXVI. + + O claras águas deste blando rio, + Que en vos al natural estais pintando + El frondífero adorno con que alzando + Se vá á los cielos este bosque umbrio; + Así las lluvias, así el Austro frio + Jamás puedan veniros enturbiando, + Que os vais del seco estio preservando + Con socorreros deste llanto mio. + Y cuando en vos Marfisa se mirare, + Mi figura, cual veis desfallecida, + Ante sus claros ojos puesta sea. + Y si por mí de vos los apartare, + De verme alli mostrándose ofendida, + En pena de no verme no se vea. + + +CCXVII. + + Mil veces entre sueños tu figura, + O bella Ninfa, claramente veo; + Y cuando mas la miro, mas deseo + Gozar libre de sueños su hermosura. + En tanto que este dulce engaño dura, + Vivo en la vana gloria que poseo: + Mas cuanto allí se eleva mi deseo, + Viene a caer despierto en sombra escura. + Duéleme el despertar por contemplarte; + Que si bien sé te huelgas de no verme, + Huélgome de ser ciego por mirarte. + Mas si quiero de engaños mantenerme, + Y tú quieres me pierda por amarte, + Sin gran ganancia no podré perderme. + + +CCXVIII. + + Mi gusto y tu beldad se desposaron, + Terceros por mi mal mis ojos fueron: + Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron + Un hijo hermoso á quien amor llamaron. + Tan fuera de compás le regalaron, + Que cuando mas alegres estuvieron, + Sin entender el mal que produjeron, + Perdidos por amores se miraron. + La beldad desposada deste duelo, + Vino á parir un monstro con dós alas; + La madre es la soberbia, el niño el zelo. + Oh madre que á tu hijo en todo igualas! + Quien mortal hace al inmortal abuelo, + Y al padre mortal da inmortales zalas? + + +CCXIX. + + Si el fuego que me enciende, consumido + De algun mas suelto Aquario ser pudiese; + Si el alto suspirar me convertiese + En aire por el aire desparcido; + Si un horrible rumor siendo sentido, + La alma á dejar el cuerpo redujese; + Ó por estos mis ojos al mar fuese + Este mi cuerpo en llanto convertido; + Nunca podria la fortuna airada, + Com todos sus horrores, sus espantos, + Derrocar la alma mia de su gloria. + Porque en vuestra beldad ya transformada, + Ni del Estigio lago eternos llantos + Os podrian quitar de mi memoria. + + +CCXX. + + Que me quereis perpétuas saudades? + Com qu'esperanças inda me enganais? + O tempo, que se vai, não torna mais, + E se torna, não tornão as idades. + Razão he ja, ó annos, que vos vades, + Porque estes tão ligeiros que passais, + Nem todos para hum gôsto sois iguais, + Nem sempre são conformes as vontades. + Aquillo a que ja quiz he tão mudado, + Que quasi he outra cousa; porque os dias + T[~e]e o primeiro gôsto ja damnado. + Esperanças de novas alegrias, + Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado, + Que do contentamento são espias. + + +CCXXI. + + Oh rigorosa ausencia desejada + De mi sempre, mas nunca conhecida! + Saudade, n'outro tempo tão temida, + Como em meu damno agora exprimentada! + Ja rigorosamente começada + Tendes vossa esperança em minha vida; + Mas tanto, que ja temo que opprimida + Sejais com ella cedo, ou acabada. + Os dias mais alegres me entristecem; + As noites, com cuidados as desconto, + Em que sem vós sem conto me parecem. + Eu desejando espero, e os annos conto; + Mas com a vida, em fim, elles fallecem: + Nem basta á carne enfêrma esprito pronto. + + +CCXXII. + + Ay! quien dará á mis ojos una fuente + De lágrimas que manen noche y dia? + Respirara si quiera la alma mia, + Llorando lo pasado, y lo presente. + Quien me diera apartado de la gente, + De mi dolor siguiendo la porfia + Con la triste memoria y fantasia + Del bien por quien mal tanto así se siente! + Quien me dará palabras con que iguale + El duro agravio que el amor me ha hecho, + Donde tan poco el sufrimiento vale? + Quien me abrirá profundamente el pecho, + Dó está escrito el secreto que no sale, + Con tanto dolor mio, á mi despecho? + + +CCXXIII. + + Con razon os vais, aguas, fatigando + Por llegar dó sereis bien recebidas; + Y en aquel mar inmenso convertidas, + Que ya de tantos dias vais buscando. + Triste de aquel que siempre anda llorando + Las vanas esperanzas ya perdidas, + Y con dolor las lágrimas vertidas + Nunca al fin pretendido van llegando! + Vosotras sin traer derecha via, + Al término llegais tan deseado, + Por mas que os embarace el gran rodeo; + Mas yo siempre afligido noche y dia, + Por un camino, que no llevo errado, + Jamás puedo llegar donde deseo. + + +CCXXIV. + + Oh cese ya, Señor, tu dura mano! + No llegues tanto al cabo con mi vida; + Baste el estar por ti tan consumida, + Que ya no se halla en ella lugar sano. + Ay estraña hermosura! ay deshumano + Hado, á que nunca puedo hallar salida! + Si tú de tu piedad no eres movida, + Roto el hilo vital verás temprano. + Un blando desamor, un amor blando, + Bien basta para un hombre tan perdido, + Que de su mal ningun remedio espera. + Y si estimas en poco el ver cual ando, + Aqui me tienes ante ti rendido: + Viva tu gusto, mi esperanza muera. + + +CCXXV. + + Dulces engaños de mis ojos tristes, + Cuan vivo despertais mi pensamiento! + Aquello que pudiera dar contento, + En sombra de pintura lo volvistes. + De blando sobresalto enternecistes + Con vista arrebatada el sentimiento; + Mas no le asegurastes un momento + Aqueste vano bien que le ofrecistes. + Veo que la figura era fingida, + Y no aquella que en sí mi alma esconde, + Aunque en esto se llega al natural: + Así escucha mi llanto, así responde, + Así se condolece de mi vida, + Como si fuera el propio original. + + +CCXXVI. + + Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste, + Como si alguno alegre yo esperara? + Como, o Tajo, al pasar esa tu clara + Agua, no la alteraste, y no me hundiste? + El paso me cerraste, el pecho abriste, + O mi ventura, de mi bien avara! + Á Dios, montañas de hermosura rara; + Á Dios, mi corazon, que no partiste. + Si adonde quedas en dichosa suerte + No bebieres las aguas del olvido, + En tanto bien no quieras olvidarme. + Cantando mi dolor llora mi muerte; + Porque hasta el hueco monte sin sentido + Suelta su ronca voz por consolarme. + + +CCXXVII. + + Levantai, minhas Tagides, a frente, + Deixando o Tejo ás sombras nemorosas; + Dourai o valle umbroso, as frescas rosas, + E o monte com as árvores frondente. + Fique de vós hum pouco o rio ausente, + Cessem agora as lyras numerosas, + Cesse vosso lavor, Nymphas formosas, + Cesse da fonte vossa a grã corrente. + Vinde a ver a Theodosio grande e claro, + A quem 'stá offrecendo maior canto + Na cithara dourada o louro Apolo. + Minerva do saber dá-lhe o dom raro, + Pallas lhe dá o valor de mais espanto, + E a Fama o leva ja de pólo a pólo. + + +CCXXVIII. + + Vós, Nymphas da Gangetica espessura, + Cantae suavemente, em voz sonora, + Hum grande Capitão que a roxa Aurora + Dos filhos defendeo da noite escura. + Ajuntou-se a caterva negra e dura, + Que na Aurea Chersoneso affouta mora, + Para lançar do charo ninho fóra + Aquelles que mais podem que a ventura. + Mas hum forte leão, com pouca gente, + A multidão tão fera como necia, + Destruindo castiga e torna fraca. + Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente + Mais do que Leonidas fez em Grecia, + O nobre Leoniz fez em Malaca. + + +CCXXIX. + + Alma gentil, que á firme eternidade + Subiste clara e valerosamente, + Cá durará de ti perpetuamente + A fama, a gloria, o nome e a saudade. + Não sei se he mor espanto em tal idade + Deixar de teu valor inveja á gente, + Se hum peito de diamante, ou de serpente, + Fazeres que se mova a piedade. + Invejosa da tua acho mil sortes, + E a minha mais que todas invejosa, + Pois ao teu mal o meu tanto igualaste. + Oh ditoso morrer! sorte ditosa! + Pois o que não se alcança com mil mortes, + Tu com huma só morte o alcançaste. + + +CCXXX. + + Debaixo desta pedra sepultada + Jaz do mundo a mais nobre formosura, + A quem a morte, só de inveja pura, + Sem tempo sua vida t[~e]e roubada, + Sem ter respeito áquella assi estremada + Gentileza de luz, que a noite escura + Tornava em claro dia; cuja alvura + Do sol a clara luz tinha eclipsada. + Do sol peitada foste, cruel morte, + Para o livrar de quem o escurecia; + E da lua, que ante ella luz não tinha. + Como de tal poder tiveste sorte? + E se a tiveste, como tão asinha + Tornaste a luz do mundo em terra fria? + + +CCXXXI. + + Imagens vãas me imprime a phantasia; + Discursos novos acha o pensamento; + Com que dão á minha alma grão tormento + Cuidados de cem annos n'hum só dia. + Se fim grande tivessem, bem sería + Responder a esperança ao fundamento: + Mas o fado não corre tão a tento, + Que reserve á razão sua valia. + Caso e Fortuna pódem acertar; + Mas se por accidente dão victoria, + Sempre o favor da Fama he falsa historia. + Excede ao saber, determinar: + Á constancia se deve toda a gloria: + O ânimo livre he digno de memoria. + + +CCXXXII. + + Quanta incerta esperança, quanto engano! + Quanto viver de falsos pensamentos! + Pois todos vão fazer seus fundamentos + Só no mesmo em qu'está seu proprio dano. + Na incerta vida estribão de hum humano; + Dão credito a palavras que são ventos; + Chórão despois as horas e os momentos, + Que rírão com mais gôsto em todo o ano. + Não haja em apparencias confianças; + Entendei que o viver he de emprestado; + Que o de que vive o mundo são mudanças. + Mudai, pois, o sentido e o cuidado, + Somente amando aquellas esperanças + Que durão para sempre com o amado. + + +CCXXXIII. + + Mal, que de tempo em tempo vás crescendo, + Quem te visse de hum bem acompanhado! + A vida passaria descansado, + Da morte não temêra o rosto horrendo. + Se os vãos cuidados fôra convertendo + Em suspiros que dão outro cuidado, + Oh quão prudente, oh quão affortunado + A capella do louro irá tecendo! + Tempo he ja de esquecer contentamentos + Passados, co'a esperança que passou, + E de que triumphem novos pensamentos. + A fé, que viva n'alma me ficou, + Dê ja fim aos caducos ardimentos + A que o passado bem se condemnou. + + +CCXXXIV. + + Oh quanto melhor he o supremo dia + Da mansa morte, que o do nascimento! + Oh quanto melhor he hum só momento, + Que livra de annos tantos de agonia! + De alcançar outro bem cesse a porfia; + Cesse todo applicado pensamento + De tudo quanto dá contentamento, + Pois só contenta ao corpo a terra fria. + O que do seu fez Deos seu despenseiro, + T[~e]e mais estreita conta que lhe dar: + Então parece rico o ovelheiro. + Triste de quem no dia derradeiro + T[~e]e o suor alheio por pagar, + Pois a alma ha de vender por o dinheiro! + + +CCXXXV. + + Como podes (oh cego peccador!) + Estar em teus errores tão isento, + Sabendo que esta vida he hum momento, + Se comparada com a eterna for? + Não cuides tu que o justo Julgador + Deixará tuas culpas sem tormento, + Nem que passando vai o tempo lento + Do dia de horrendíssimo pavor. + Não gastes horas, dias, mezes, anos, + Em seguir de teus damnos a amisade + De que despois resultão mores danos. + E pois de teus enganos a verdade + Conheces, deixa ja tantos enganos, + Pedindo a Deos perdão com humildade. + + +CCXXXVI. + + Verdade, Amor, Razão, Merecimento, + Qualquer alma farão segura e forte; + Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte, + T[~e]e do confuso mundo o regimento. + Effeitos mil revolve o pensamento, + E não sabe a que causa se reporte: + Mas sabe que o que he mais que vida e morte + Não se alcança de humano entendimento. + Doctos varões darão razões subidas; + Mas são as exp'riencias mais provadas: + E por tanto he melhor ter muito visto. + Cousas ha hi que passão sem ser cridas: + E cousas cridas ha sem ser passadas. + Mas o melhor de tudo he crer em Christo. + + +CCXXXVII. + + De Babel sôbre os rios nos sentámos, + De nossa doce patria desterrados, + As mãos na face, os olhos derribados, + Com saudades de ti, Sião, chorámos. + Os orgãos nos salgueiros pendurámos, + Em outro tempo bem de nós tocados; + Outro era elle, por certo, outros cuidados; + Mas por deixar saudades os deixâmos. + Aquelles que captivos nos trazião + Por cantigas alegres perguntavão: + Cantai (nos dizem) hymnos de Sião. + Sôbre tal pena, pena tal nos dão, + Pois tyranicamente pretendião + Que cantassem aquelles que choravão. + + +CCXXXVIII. + + Sôbre os rios do Reino escuro, quando + Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão, + Lagrimas nossos olhos derramárão, + Por ti, Sião divina, suspirando, + Os que hião nossas almas infestando, + De contino em error, as captivárão; + E em vão por nossos Psalmos perguntárão; + Que tudo era silencio miserando. + Dizendo estamos: Como cantaremos + As acceitas canções a Deos benino, + Quando a contrarios seus obedecemos? + Mas ja, Senhor só Santo, determino, + Deixando viciosissimos extremos, + Os cantos proseguir de Amor Divino. + + +CCXXXIX. + + Em Babylonia sôbre os rios, quando + De ti, Sião sagrada, nos lembrámos, + Alli com grã saudade nos sentámos, + O bem perdido, miseros, chorando. + Os instrumentos musicos deixando, + Nos estranhos salgueiros pendurámos, + Quando aos cantares, que ja em ti cantámos, + Nos estavão imigos incitando. + Ás esquadras dizemos inimigas: + Como hemos de cantar em terra alhea + As cantigas de Deos, sacras cantigas? + Se a lembrança eu perder que me recrea + Cá nestas penosissimas fadigas, + _Oblivioni detur dextra mea._ + + +CCXL. + + Aponta a bella Aurora, luz primeira, + Que a grã nova nos deo do claro dia: + Vesti-vos, corações, ja de alegria, + E recebei da vida a Mensageira. + Da humana Redempção nasce a Terceira: + Alegra-te, Divina Monarchia; + Da terra terás cedo a companhia, + Do ceo verás tambem a nossa feira. + De tal obra se espanta a natureza, + Confuso fica de temor o inferno, + Vendo a que nasce isenta da defeza. + Lei geral era posta desde eterno; + Mas o Senhor da Lei toda limpeza + Para o Sacrario seu guardou Materno. + + +CCXLI. + + Porque a terra no ceo agasalhasse, + O ceo na terra Deos agasalhou: + Lá não cabendo, cá se accommodou, + Porque lá, de cá indo, se alargasse. + Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse, + Por o homem a ser homem Deos chegou: + Seu divino poder tanto humanou, + Porque o humano em divino se tornasse. + Vêde bem o que deo e recebeo: + Não se perca hum bem tanto da memoria: + Deo-nos a vida, a morte padeceo. + Trocou por nossa pena a sua gloria; + Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo; + Porque amor foi auctor desta victoria. + + +CCXLII. + + Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo. + Para quem? Para o genero he humano. + Que faz delle? Hum remedio soberano. + Para que? Para a culpa e triste pranto. + E que obra? Reduzir Lusbel a espanto. + Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano. + Que foi? A morte deo com hum engano. + Tanto pôde? Sem falta pôde tanto. + Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo. + A que desce? A subir a creatura. + Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo. + He escada para ir lá? E a mais segura. + Quem o obrigou? De amor só se venceo. + Que amava este Feitor? Sua feitura. + + +CCXLIII. + + Oh Arma unicamente só triumphante, + Propugnaculo só de nossas vidas, + Por quem forão ganhadas as perdidas + Com que o Tartaro horrendo andava ovante! + Sigua-se esta bandeira militante + Por quem são taes victorias conseguidas, + Por quantas almas, della divertidas, + No Ponente errão cá, lá no Levante. + Oh Arvore sublime, e marchetada + De branco e carmesi, de ouro embutida, + Dos rubis mais preciosos esmaltada, + E de trophéos mais claros guarnecida! + Á vida a morte vimos em ti dada, + Para qu'em ti se désse á morte a vida. + + +CCXLIV. + + Aos homens hum só homem poz espanto, + E o poz a toda a humana natureza; + Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza, + Porqu'antes que nascesse era ja Santo. + Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto, + Qu'entre os nascidos houve a mor alteza; + Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza, + Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto. + Aquella voz foi elle sonorosa, + No concavo dos Orbes resonante, + E que a Carne inculpavel baptizou; + Quem do mor Pae ouvio a voz amante; + Quem a subtil pergunta industriosa + Com sincera resposta socegou. + + +CCXLV. + + Vós só podeis, sagrado Evangelista, + Angelico abrazado Seraphim, + E na sciencia mais alto Cherubim, + Do que he mais sabio Amor ser Coronista. + Divina e real Aguia, cuja vista + Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim, + De Jacob mais querido Benjamim, + Quem mais campêa de Joseph na lista. + Apostolo, e Propheta, e Patriarca, + Ao Principe dos Ceos o mais acceito, + Qu'em seu seio dormindo então mais via. + A quem o mesmo Deos por irmão marca; + Quem por filho da Mãe unica feito, + Em corpo e alma goza o claro dia. + + +CCXLVI. + + Como louvarei eu, Seraphim santo, + Tanta humildade, tanta penitencia, + Castidade, e pobreza, e paciencia, + Com este meu inculto e rudo canto? + Argumento que ás Musas põe espanto, + Que faz muda a grandiloqua eloquencia. + Oh imagem, qu'a Divina Providencia + De si viva em vós fez para bem tanto! + Fostes de Santos huma rara mina; + Almas de mil a mil ao ceo mandastes + Do mundo, que perdido reformastes. + E não roubaveis só com a doutrina + As vontades mortaes, mas a Divina; + Pois os seus rubis cinco lhe roubastes. + + +CCXLVII. + + Ditosas almas, que ambas juntamente + Ao ceo de Venus e de Amor voastes, + Onde hum bem que tão breve cá lograstes, + Estais logrando agora eternamente; + Aquelle estado vosso tão contente, + Que só por durar pouco triste achastes, + Por outro mais contente ja o trocastes, + Onde sem sobresalto o bem se sente. + Triste de quem cá vive tão cercado, + Na amorosa fineza, de hum tormento + Que a gloria lhe perturba mais crescida! + Triste, pois me não val o soffrimento, + E Amor para mais damno me t[~e]e dado + Para tão duro mal tão larga vida! + + +CCXLVIII. + + Contente vivi ja, vendo-me isento + Deste mal de que a muitos queixar via: + Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria + Discordia e semrazão, guerra e tormento. + Enganou-me co'o nome o pensamento: + (Quem com tal nome não se enganaria?) + Agora tal estou, que temo hum dia + Em que venha a faltar-me o soffrimento. + Com desesperação, e com desejo + Me paga o que por elle estou passando, + E inda está do meu mal mal satisfeito. + Pois sôbre tantos damnos inda vejo + Para dar-me outros mil hum olhar brando, + E para os não curar hum duro peito. + + +CCXLIX. + + Deixa Apollo o correr tão apressado, + Não sigas essa Nympha tão ufano: + Não te leva o amor, leva-te o engano + Com sombras de algum bem a mal dobrado. + E quando seja amor, será forçado; + E se forçado for, será teu dano. + Hum parecer não queiras mais que humano + Em hum sylvestre adôrno ver tornado. + Não percas por hum vão contentamento + A vista que te faz viver contente; + Modera em teu favor o pensamento. + Porque menos mal he, tendo-a presente, + Soffrer sua crueza, e teu tormento, + Que sentir sua ausencia eternamente. + + +CCL. + + Nas Cidades, nos bosques, nas florestas, + Nos valles, e nos montes, teus louvores + Sempre te cantem musicos pastores + Nas manhãas frias, nas ardentes sestas. + E neste Templo donde manifestas + E repartes agora teus favores, + Com Psalmos, hymnos, e com varias flores + Sejão celebres sempre as tuas festas. + Estes te offreção pés, ess'outros mãos; + D'aquelles pendão sôbre os teus altares + Monstros do mar, de servidão prisões. + Que eu cuidados, enganos e affeições, + Muito maiores monstros, e milhares + Te deixo aqui de pensamentos vãos. + + +CCLI. + + Vi queixosos de Amor mil namorados, + E nenhuns inda vi com seus louvores; + E aquelle que mais chora o mal de amores, + Vejo menos fugir de seus cuidados. + Se das dores de Amor sois mal tratados, + Porque tanto buscais de Amor as dores? + E se tambem as tendes por favores, + Porque dellas fallais como aggravados? + Não queirais alegria achar alg[~u]a + No Amor, porque he composto de tristeza, + Na fortuna que acheis mais agradavel. + Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a, + Em quem nunca se vio outra firmeza, + Que não seja a de ser sempre mudavel. + + +CCLII. + + Se lagrimas choradas de verdade + O marmore abrandar podem mais duro, + Porque as minhas que nascem de amor puro + Hum coração não rendem a piedade? + Por vós perdi, Senhora, a liberdade, + E nem da propria vida estou seguro. + Rompei desse rigor o forte muro, + Não passe tanto avante a crueldade. + Ao prezar de desprezos dae ja fim: + Não vos chamem cruel; nome devido + A quem se ri de quem suspira e ama. + Abrandai esse peito endurecido, + Por o que toca a vós, ja não por mim, + Que eu aventuro a vida, e vós a fama. + + +CCLIII. + + Ja me fundei em vãos contentamentos, + Quando delles vivi todo enganado + De hum phantastico bem, e de hum cuidado, + De que só cuidão cegos pensamentos. + Passava dias, horas e momentos, + Deste enleio de amores tão pagado, + Que tinha só por bem-aventurado + Quem só por elles mais bebia os ventos. + Mas agora que ja cahi na conta, + Desengana-me quanto me enganava; + Que tudo o tempo dá, tudo descobre. + O Amor mais caudaloso menos monta. + Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava, + Aquelle que de amores he mais pobre. + + +CCLIV. + + Em huma lapa toda tenebrosa, + Adonde bate o mar com furia brava, + Sôbre h[~u]a mão o rosto, vi qu'estava + Huma Nympha gentil, mas cuidadosa. + Igualmente que linda, lastimosa, + Aljofar dos seus olhos distillava: + O mar os seus furores applacava + Com ver cousa tão triste e tão formosa. + Alguma vez na horrivel penedia + Os bellos olhos punha com brandura, + Bastante a desfazer sua dureza. + Com angelica voz assi dizia: + Ah! que falte mais vezes a ventura + Onde sobeja mais a natureza! + + +CCLV. + + Se em mim, ó alma, vive mais lembrança + Que aquella só da gloria de querer-vos, + Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos, + E de ver-vos tambem toda a esperança. + Veja-se em mi tão rustica esquivança, + Que possa indigno ser de conhecer-vos; + E, quando em mor empenho de aprazer-vos, + Vos offenda, se em mi houver mudança. + Confirmado estou ja nesta certeza: + Examine-me vossa crueldade, + Exprimente-se em mi vossa dureza. + Conhecei ja de mi tanta verdade; + Pois em penhor e fé desta pureza + Tributo vos fiz ser o que he vontade. + + +CCLVI. + + Ilustre Gracia, nombre de una moza, + Primera malhechora en este caso + Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso, + Sugeto digno de immortal coroza; + Si en medio de la Iglesia no reboza + El manto á vuestro rostro tan devaso, + Por vos dirán las gentes recio y paso: + Veis quien con el demonio se retoza. + Puede mover los montes sin trabajo; + Con palabras el curso al agua enfrena; + Por las ondas hará camino enjuto. + Averguenza su patria y rico Tajo, + Que por ella hombres lleva, mas que arena, + De que paga al infierno gran tributo. + + +CCLVII. + + Qual t[~e]e a borboleta por costume, + Qu'enlevada na luz da acesa vella, + Dando vai voltas mil, até que nella + Se queima agora, agora se consume: + Tal eu correndo vou ao vivo lume + D'esses olhos gentis, Aonia bella; + E abrazo-me, por mais que com cautella + Livrar-me a parte racional presume. + Conheço o muito a que se atreve a vista, + O quanto se levanta o pensamento, + O como vou morrendo claramente; + Porém não quer Amor que lhe resista, + Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento, + Qual em gloria maior está contente. + + +CCLVIII. + + Lembranças de meu bem, doces lembranças + Que tão vivas estais nesta alma minha, + Não queirais mais de mi, se os bens que tinha + Em poder vêdes todos de mudanças. + Ai cego Amor! ai mortas esperanças + De qu'eu em outro tempo me matinha! + Agora deixareis quem vos sostinha; + Acabarão co'a vida as confianças. + Co'a vida acabarão, pois a ventura + Me roubou n'hum momento aquella gloria, + Que, quando tão grande he, tão pouco dura. + Oh se apoz o prazer fôra a memoria! + Ao menos estivera a alma segura + De ganhar-se com ella mais victoria. + + +CCLIX. + + Formosos olhos, que cuidado dais + Á mesma luz do sol mais clara e pura; + Que sua esclarecida formosura, + Com tanta gloria vossa, atraz deixais; + Se por serdes tão bellos desprezais + A fineza de amor que vos procura, + Pois tanto vêdes, vêde que não dura + O vosso resplandor quanto cuidais. + Colhei, colhei do tempo fugitivo + E de vossa belleza o doce fruto; + Qu'em vão fóra de tempo he desejado. + E a mi, que por vós morro, e por vós vivo, + Fazei pagar a Amor o seu tributo, + Contente de por vós lho haver pagado. + + +CCLX. + + Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes, + En lágrimas tratais la noche el dia, + Mirad si es lágrima esta que os envia + Aquel sol por quien vos tantas vertistes. + Si vos me asegurais, pues ya la vistes, + Que es lágrima, será ventura mia; + Por empleadas bien desde hoy tendria + Las muchas que por ella sola distes. + Mas cualquier cosa mucho deseada, + Aunque viendo se esté, nunca es creida; + Y menos esta, nunca imaginada. + Pero della aseguro, si es fingida, + Que basta ser por lágrima enviada, + Para que sea por lágrima tenida. + + +CCLXI. + + T[~e]e feito os olhos neste apartamento + Hum mar de saudosa tempestade, + Que póde dar saudade á saudade, + Sentimentos ao proprio sentimento. + Em dor vai convertido o soffrimento, + Em pena convertida a piedade; + A razão tão vencida da vontade, + Qu'escravo faz do mal o entendimento. + A lingua não alcança o qu'a alma sente. + E assi, se alguem quizer em algum'hora + Saber que cousa he dor não comprehendida, + Parta-se do seu bem, porque exprimente + Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra + Partir-se do viver para ter vida. + + +CCLXII. + + A peregrinação d'hum pensamento, + Que dos males fez hábito e costume, + Tanto da triste vida me consume, + Quanto cresce na causa do tormento. + Leva a dor de vencida ao soffrimento; + Mas a alma está, de entregue, tão sem lume, + Qu'enlevada no bem que haver presume, + Não faz caso do mal qu'está de assento. + De longe receei (se me valêra) + O perigo que tanto á porta vejo, + Quando não acho em mi cousa segura. + Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!) + Qu'entendimentos presos do desejo + Não t[~e]e remedio mais que o da ventura. + + +CCLXIII. + + Acho-me da fortuna salteado; + O tempo vai fugindo presuroso, + Deixando-me da vida duvidoso, + E cada instante mais desesperado. + Trocou-se o meu descuido em tal cuidado, + Que donde a gloria he mais, he mais penoso. + Nem vivo de perder-me receoso, + Nem de poder ganhar-me confiado. + Qualquer ave nos montes mais agrestes, + Qualquer fera na cova repousando, + T[~e]e horas de alegria: eu todas tristes. + Vós, saudosos olhos, que o quizestes, + (Pois com tormento Amor me está pagando) + Chorai, como que vêdes, o que vistes. + + +CCLXIV. + + Se no que tenho dito vos offendo, + Não he a intenção minha de offender-vos; + Qu'inda que não pretenda merecer-vos, + Não vos desmerecer sempre pretendo. + Mas he meu fado tal, segundo entendo, + Que, por quanto ganhava em entender-vos, + Não me deixa atégora conhecer-vos, + Por a mi proprio m'ir desconhecendo. + Os dias ajudados da ventura + A cada qual de si dão desenganos, + E a outros soe da-lo a desventura. + Qual destas sirva a mi, dirão os danos + Ou gostos que eu tiver, em quanto dura + Esta vida, tão larga em poucos anos. + + +CCLXV. + + Doce contentamento ja passado, + Em que todo o meu bem só consistia, + Quem vos levou de minha companhia, + E me deixou de vós tão apartado? + Quem cuidou que se visse neste estado + Naquellas breves horas d'alegria, + Quando minha ventura consentia + Que d'enganos vivesse meu cuidado? + Fortuna minha foi cruel e dura + Aquella que causou meu perdimento, + Com a qual ninguem póde ter cautella. + Nem se engane nenhuma creatura; + Que não póde nenhum impedimento + Fugir o que lh'ordena sua estrella. + + +CCLXVI. + + Sempre, cruel Senhora, receei, + Medindo vossa grã desconfiança, + Que désse em desamor vossa tardança, + E que me perdesse eu, pois vos amei. + Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei, + Pois n'outro amor ja tendes esperança. + Tão patente será vossa mudança, + Quanto eu encobri sempre o que vos dei. + Dei-vos a alma, a vida e o sentido; + De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora. + Prometteis, e negais o mesmo Amor. + Agora tal estou, que de perdido, + Não sei por onde vou, mas algum'hora + Vos dará tal lembrança grande dor. + + +CCLXVII. + + Se a fortuna inquieta e mal olhada, + Que a justa lei do Ceo comsigo infama, + A vida quieta, qu'ella mais dasama, + Me concedêra honesta e repousada; + Pudéra ser que a Musa, alevantada + Com luz de mais ardente e viva flama, + Fizera ao Tejo lá na patria cama + Adormecer co'o som da lyra amada. + Porém, pois o destino trabalhoso, + Que m'escurece a Musa fraca e lassa, + Louvor de tanto preço não sustenta; + A vossa, de louvar-me pouco escassa, + Outro sogeito busque valeroso, + Tal qual em vós ao mundo se apresenta. + + +CCLXVIII. + + Este amor, que vos tenho limpo e puro, + De pensamento vil nunca tocado, + Em minha tenra idade começado, + Tê-lo dentro nesta alma só procuro. + D'haver nelle mudança estou seguro, + Sem temer nenhum caso, ou duro fado, + Nem o supremo bem, ou baixo estado, + Nem o tempo presente, nem futuro. + A bonina e a flor asinha passa; + Tudo por terra o inverno e estio deita; + Só para meu amor he sempre Maio. + Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa, + E qu'essa ingratidão tudo me engeita, + Traz este meu amor sempre em desmaio. + + +CCLXIX. + + A formosura desta fresca serra, + E a sombra dos verdes castanheiros, + O manso caminhar destes ribeiros, + Donde toda a tristeza se desterra; + O rouco som do mar, a estranha terra, + O esconder do sol pelos outeiros, + O recolher dos gados derradeiros, + Das nuvens pelo ar a branda guerra: + Em fim, tudo o que a rara natureza + Com tanta variedade nos offrece, + M'está (se não te vejo) magoando. + Sem ti tudo me enoja, e me aborrece; + Sem ti perpetuamente estou passando + Nas mores alegrias môr tristeza. + + +CCLXX. + + Sustenta meu viver huma esperança + Derivada de hum bem tão desejado, + Que quando nella estou mais confiado, + Mor dúvida me põe qualquer mudança. + E quando inda este bem na mór pujança + De seus gostos me t[~e]e mais enlevado, + Me atormenta então ver eu qu'alcançado + Será por quem de vós não t[~e]e lembrança. + Assi que, nestas redes enlaçado, + A penas dou a vida, sustentando + Huma nova materia a meu cuidado. + Suspiros d'alma tristes arrancando, + Dos silvos d'huma pedra acompanhado, + Estou materias tristes lamentando. + + +CCLXXI. + + Ja não sinto, Senhora, os desenganos, + Com que minha affeição sempre tratastes, + Nem ver o galardão, que me negastes, + Merecido por fé ha tantos anos. + A mágoa chóro só, só chóro os danos + De ver por quem, Senhora, me trocastes; + Mas em tal caso vós só me vingastes + De vossa ingratidão, vossos enganos. + Dobrada gloria dá qualquer vingança, + Que o offendido toma do culpado, + Quando se satisfaz com causa justa; + Mas eu de vossos males e esquivança, + De que agora me vejo bem vingado, + Não a quizera tanto á vossa custa. + + +CCLXXII. + + Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse + Essa grã perfeição e gentileza, + Logo deo por sentença, que a crueza + Em vosso peito amor accrescentasse. + Determinou, que nada me apartasse, + Nem desfavor cruel, nem aspereza; + Mas qu'em minha rarissima firmeza + Vossa isenção cruel se executasse. + E, pois tendes aqui offerecida + Est'alma vossa a vosso sacrificio, + Acabai de fartar vossa vontade. + Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida; + Acabará morrendo em seu officio, + Sua fé defendendo e lealdade. + + +CCLXXIII. + + Eu vivia de lagrimas isento, + N'hum engano tão doce e deleitoso, + Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso + Não valião mil glorias hum tormento. + Vendo-me possuir tal pensamento, + De nenhuma riqueza era invejoso; + Vivia bem, de nada receoso, + Com doce amor e doce sentimento. + Cobiçosa a Fortuna, me tirou + Deste meu tão contente e alegre estado; + E passou-se este bem, que nunca fôra: + Em trôco do qual bem só me deixou + Lembranças, que me mátão cada hora, + Trazendo-me á memoria o bem passado. + + +CCLXXIV. + + Indo o triste pastor todo embebido + Na sombra de seu doce pensamento, + Taes queixas espalhava ao leve vento, + Co'hum brando suspirar d'alma sahido: + A quem me queixarei, cego, perdido, + Pois nas pedras não acho sentimento? + Com quem fallo? A quem digo meu tormento? + Que onde mais chamo, sou menos ouvido. + Ó bella Nympha, porque não respondes? + Porque o olhar-me tanto m'encareces? + Porque queres que sempre me querelle? + Eu quanto mais te busco, mais te escondes! + Quanto mais mal me vês, mais te endureces! + Assim que co'o mal cresce a causa delle. + + +CCLXXV. + + Dizei, Senhora, da belleza idêa, + Para fazerdes esse aureo crino, + Onde fostes buscar esse ouro fino? + De qu'escondida mina ou de que vêa? + Dos vossos olhos essa luz Phebêa, + Esse respeito, de hum Imperio dino? + Se o alcançastes com saber divino, + Se com encantamentos de Medéa? + De qu'escondidas conchas escolhestes + As perlas preciosas Orientais, + Que fallando mostrais no doce riso? + Pois vos formastes tal, como quizestes, + Vigiai-vos de vós, não vos vejais, + Fugi das fontes; lembre-vos Narciso. + + +CCLXXVI. + + Na ribeira do Euphrates assentado, + Discorrendo me achei pela memoria + Aquelle breve bem, aquella gloria, + Que em ti, doce Sião, tinha passado. + Da causa de meus males perguntado + Me foi: Como não cantas a historia + De teu passado bem, e da victoria + Que sempre de teu mal has alcançado? + Não sabes, que a quem canta se lhe esquece + O mal, indaque grave e rigoroso? + Canta pois, e não chores dessa sorte. + Respondi com suspiros: Quando crece + A muita saudade, o piedoso + Remedio he não cantar, senão a morte. + + +CCLXXVII. + + Chorai, Nymphas, os fados poderosos + Daquella soberana formosura. + Onde forão parar? na sepultura? + Aquelles Reaes olhos graciosos? + Oh bens do mundo falsos e enganosos! + Que mágoas para ouvir! Que tal figura + Jaza sem resplandor na terra dura + Com tal rosto e cabellos tão formosos! + Das outras que será! pois poder teve + A morte sôbre cousa tanto bella, + Que ella eclipsava a luz do claro dia. + Mas o mundo não era digno della, + Por isso mais na terra não esteve, + Ao ceo subio, que ja se lhe devia. + + +CCLXXVIII. + + Senhora ja desta alma, perdoae + De hum vencido de Amor os desatinos, + E sejão vossos olhos tão beninos + Com este puro amor, que d'alma sae. + A minha pura fé sómente olhae, + E vêde meus extremos se são finos; + E se de alguma pena forem dinos, + Em mim, Senhora minha, vos vingae. + Não seja a dor que abraza o triste peito + Causa por onde pene o coração, + Que tanto em firme amor vos he sujeito. + Guardae-vos do que alguns, dama, dirão, + Que sendo raro em tudo vosso objeito, + Possa morar em vós ingratidão. + + +CCLXXIX. + + Doce sonho, suave e soberano, + Se por mais longo tempo me durára! + Ah quem de sonho tal nunca acordára, + Pois havia de ver tal desengano! + Ah deleitoso bem! ah doce engano! + Se por mais largo espaço me enganára! + Se então a vida misera acabára, + De alegria e prazer morrêra ufano. + Ditoso, não estando em mi, pois tive + Dormindo o que acordado ter quizera. + Olhae com que me paga meu destino! + Em fim, fóra de mim ditoso estive. + Em mentiras ter dita razão era, + Pois sempre nas verdades fui mofino. + + +CCLXXX. + + Diana prateada, esclarecida + Com a luz que do claro Phebo ardente, + Por ser de natureza transparente, + Em si, como em espelho, reluzia, + Cem mil milhões de graças lhe influia, + Quando me appareceo o excellente + Raio de vosso aspecto, diferente + Em graça e em amor do que sohia. + Eu vendo-me tão cheio de favores, + E tão propinquo a ser de todo vosso, + Louvei a hora clara, e a noite escura, + Pois nella déstes côr a meus amores: + Donde collijo claro que não posso + De dia para vós ja ter ventura. + + +CCLXXXI. + + Em quanto Phebo os montes accendia + Do ceo com luminosa claridade, + Por conservar illesa a castidade + Na caça o tempo Delia despendia. + Venus, qu' então de furto descendia + Por captivar de Anchises a vontade, + Vendo Diana em tanta honestidade, + Quasi zombando della, lhe dizia: + Tu vás com tuas redes na espessura + Os fugitivos cervos enredando; + Mas as minhas enredão o sentido. + Melhor he (respondia a deosa pura) + Nas redes leves cervos ir tomando, + Que tomar-te a ti nellas teu marido. + + +CCLXXXII. + + N'hum tão alto lugar, de tanto preço, + Este meu pensamento posto vejo, + Que desfallece nelle inda o desejo, + Vendo quanto par mi o desmereço. + Quando esta tal baixeza em mi conheço, + Acho que cuidar nelle he grão despejo, + E que morrer por elle me he sobejo + E mór bem para mi, do que mereço. + O mais que natural merecimento + De quem me causa hum mal tão duro e forte, + O faz que vá crescendo de hora em hora. + Mas eu não deixarei meu pensamento, + Porque inda qu'este mal me causa a morte, + _Un bel morir tutta la vita honora._ + + +CCLXXXIII. + + Quantas penas, Amor, quantos cuidados, + Quantas lagrimas tristes sem proveito, + De que mil vezes olhos, rosto e peito, + Por ti, cego, me viste ja banhados; + Quantos mortaes suspiros derramados + Do coração por tanto a ti sujeito, + Quantos males, em fim, tu me tens feito, + Todos forão em mi bem empregados. + A tudo satisfaz (confesso-te isto) + Huma só vista branda e amorosa + De quem me captivou minha ventura. + Oh sempre para mi hora ditosa! + Que posso temer ja, pois tenho visto, + Com tanto gôsto meu, tanta brandura? + + +CCLXXXIV. + + Posto me t[~e]e fortuna em tal estado, + E tanto a seus pés me t[~e]e rendido! + Não tenho que perder, ja de perdido, + Nem tenho que mudar, ja de mudado. + Todo bem para mi he acabado: + D'aqui dou o viver ja por vivido; + Que aonde o mal he tão conhecido, + Tambem o viver mais será'scusado. + Se me basta querer, a morte quero, + Que bem outra esperança não convem: + E curarei hum mal com outro mal. + E pois do bem tão pouco bem espero, + Ja que o mal este só remedio tem, + Não me culpem em qu'rer remedio tal. + + +CCLXXXV. + + Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes, + Y en lágrimas pasais la noche y dia, + Mirad si es llanto este que os envia + Aquella por quien vos tantas vertistes: + Sentid, mis ojos, bien esta que vistes; + Y si ella lo es, oh gran ventura mia! + Por muy bien empleadas las habria + Mil cuentos que por esta sola distes. + Mas una cosa mucho deseada, + Aunque se vea cierta, no es creida, + Cuanto mas esta, que me es enviada. + Pero digo, que aunque sea fingida, + Que basta que por lágrima sea dada, + Porque sea por lágrima tenida. + + +CCLXXXVI. + + Que póde ja fazer minha ventura, + Que seja para meu contentamento? + Ou como fazer devo fundamento + De cousa que o não t[~e]e, nem he segura? + Que pena póde ser tão certa e dura, + Que possa ser maior que meu tormento? + Ou como receará meu pensamento + Os males, se com elles mais se apura? + Como quem se costuma de pequeno + Com peçonha criar por mão sciente, + Da qual o uso ja o t[~e]e seguro: + Assim de acostumado co'o veneno, + O uso de soffrer meu mal presente + Me faz não sentir ja nada o futuro. + + + + +ECLOGAS + + +ECLOGA I. + + +INTERLOCUTORES. + +UMBRANO, FRONDELIO, AONIA. + + Que grande variedade vão fazendo, + Frondelio amigo, as horas apressadas! + Como se vão as cousas convertendo + Em outras cousas várias e insperadas! + Hum dia a outro dia vai trazendo + Por suas mesmas horas ja ordenadas; + Mas quão conformes são na quantidade, + Tão differentes são na qualidade. + Eu vi ja deste campo as várias flores + Ás estrellas do ceo fazendo inveja; + Adornados andar vi os pastores + De quanto por o mundo se deseja; + E vi co'o campo competir nas côres + Os trajes, de obra tanta e tão sobeja, + Que se a rica materia não faltava, + A obra de mais rica sobejava. + E vi perder seu preço ás brancas rosas + E quasi escurecer-se o claro dia + Diante de h[~u]as mostras perigosas, + Que Venus mais que nunca engrandecia. + As pastoras, emfim, vi tão formosas, + Que o Amor de si mesmo se temia; + Mas mais temia o pensamento falto + De não ser para ter temor tão alto. + Agora tudo está tão differente, + Que move os corações a grande espanto; + E parece que Jupiter potente + Se enfada ja d'o mundo durar tanto. + O Tejo corre turvo e descontente, + As aves deixão seu suave canto, + E o gado, inda que a herva lhe fallece, + Mais que da falta della se emmagrece. + FRONDELIO. + Umbrano irmão, decreto he da natura, + Inviolavel, fixo e sempiterno, + Que a todo bem succeda desventura, + E não haja prazer que seja eterno: + Ao claro dia segue a noite escura, + Ao suave verão o duro inverno; + E se ha cousa que saiba ter firmeza, + He somente esta lei da natureza. + Toda alegria grande e sumptuosa + A porta abrindo vem ao triste estado: + Se hum'hora vejo alegre e deleitosa, + Temendo estou do mal apparelhado. + Não vês que mora a serpe venenosa + Entre as flores do fresco e verde prado? + Ah! não te engane algum contentamento; + Que mais instavel he que o pensamento. + E praza a Deos que o triste e duro fado + De tamanhos desastres se contente; + Que sempre hum grande mal inopinado + He mais do que o espera a incauta gente: + Que vejo este carvalho que queimado + Tão gravemente foi do raio ardente. + Não seja ora prodigio que declare + Que o barbaro cultor meus campos are. + UMBRANO. + Em quanto do seguro azambujeiro + Nos pastores de Luso houver cajados, + Como valor antiguo, que primeiro + Os fez no mundo tão assinalados, + Não temas tu, Frondelio companheiro, + Qu'em algum tempo sejão sobjugados, + Nem que a cerviz indomita obedeça + A outro jugo qualquer que se lhe offreça. + E postoque a soberba se levante + De inimigos a torto e a direito, + Não crêas tu que a fôrça repugnante + Do fero e nunca ja vencido peito, + Que desde quem possue o monte Atlante + Adonde bebe o Hydaspe t[~e]e sujeito, + O possa nunca ser de fôrça alheia, + Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia. + FRONDELIO. + Umbrano, a temeraria segurança + Qu'em fôrça, ou em razão não se assegura, + He falsa e vãa; que a grande confiança + Não he sempre ajudada da ventura. + Que lá junto das aras da esperança, + Némesis moderada, justa e dura, + Hum freio lhe está pondo e lei terribil, + Que os limites não passe do possibil. + E se attentares bem os grandes danos + Que se nos vão mostrando cada dia, + Poras freio tambem a esses enganos + Que te está figurando a ousadia. + Tu não vês como os lobos Tingitanos, + Apartados de toda cobardia, + Mátão os cães do gado guardadores, + E não somente os cães, mas os pastores? + Pois o grande curral, seguro e forte, + Do alto monte Atlas não ouviste + Que com sanguinolenta e fera morte + Despovoado foi por caso triste? + Oh triste caso! oh desastrada sorte, + Contra quem fôrça humana não resiste! + Que alli tambem da vida foi privado + O meu Tionio, ainda em flor cortado! + UMBRANO. + Em lagrimas me banha rosto e peito + Desse caso terrivel a memoria, + Quando vejo quão sabio e quão perfeito, + E quão merecedor de longa historia + Era esse teu pastor, que sem direito + Deo ás Parcas a vida transitoria. + Mas não ha hi quem d'herva o gado farte, + Nem de juvenil sangue o fero Marte. + Porém, se te não for muito pezado, + (Ja qu'esta triste morte me lembraste) + Canta-me desse caso desastrado + Aquelles brandos versos que cantaste, + Quando hontem, recolhendo o manso gado, + De nós-outros pastores te apartaste; + Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia, + Não te podia ouvir como queria. + FRONDELIO. + Como queres renove ao pensamento + Tamanho mal, tamanha desventura? + Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento, + Para os que tristes são, he falsa cura. + Mas, pois te move tanto o sentimento + Da morte de Tionio, triste e escura, + Eu porei teu desejo em doce effeito, + Se a dor me não congela a voz no peito. + UMBRANO. + Canta agora, pastor, que o gado pace + Entre as humidas hervas socegado; + E lá nas altas serras, onde nace, + O sacro Tejo á sombra recostado, + Co'os seus olhos no chão, a mão na face, + Está para te ouvir apparelhado; + E com silencio triste estão as Nymphas + Dos olhos destillando claras lymphas. + O prado as flores brancas e vermelhas + Está suavemente presentando; + As doces e solícitas abelhas, + Com susurro agradavel vão voando; + As candidas, pacíficas ovelhas, + Das hervas esquecidas, inclinando + As cabeças estão ao som divino + Que faz, passando, o Tejo crystallino. + O vento d'entre as árvores respira, + Fazendo companhia ao claro rio; + Nas sombras a ave garrula suspira, + Sua mágoa espalhando ao vento frio. + Toca, Frondelio, toca a doce lira; + Que d'aquelle verde alamo sombrio + A branda Philomela entristecida + Ao mais saudoso canto te convida. + FRONDELIO. + Aquelle dia as águas não gostárão + As mimosas ovelhas; e os cordeiros + O campo enchêrão d'amorosos gritos. + E não se pendurárão dos salgueiros + As cabras, de tristeza; mas negárão + O pasto a si, e o leite a os cabritos. + Prodigios infinitos + Mostrava aquelle dia, + Quando a Parca queria + Princípio dar ao fero caso triste. + E tu tambem (ó corvo) o descobriste, + Quando da mão direita em voz escura, + Voando, repetiste + A tyrannica lei da morte dura. + Tionio meu, o Tejo crystallino, + E as árvores que ja desamparaste + Chórão o mal de tua ausencia eterna. + Não sei porque tão cedo nos deixaste! + Mas foi consentimento do Destino, + Por quem o mar e a terra se governa. + A noite sempiterna, + Que tu tão cedo viste + Cruel, acerba e triste, + Sequer de tua idade não te dera + Que lográras a fresca primavera? + Não usára comnosco tal crueza, + Que nem nos montes fera, + Nem pastor ha no campo sem tristeza. + Os Faunos, certa guarda dos pastores, + Ja não seguem as Nymphas na espessura, + Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho. + Tudo, qual vês, he cheio de tristura: + Ás abelhas o campo nega as flores, + Como ás flores a aurora nega o orvalho. + Eu que cantando espalho + Tristezas todo o dia, + A frauta que soia + Mover as altas árvores tangendo, + Se me vai de tristeza enrouquecendo; + Que tudo vejo triste neste monte: + E tu tambem correndo + Manas envolta e triste, ó clara fonte. + As Tagides no rio, e na aspereza + Do monte as Oreádas, conhecendo + Quem te obrigou ao duro e fero Marte; + Como em geral sentença vão dizendo, + Que não póde no mundo haver tristeza + Em cuja causa amor não tenha parte. + Porqu'elle, enfim, dest'arte + Nos olhos saudosos, + Nos passos vagarosos, + E no rosto, que Amor com phantasia + Da pallida viola lhe tingia, + A todos de si dava sinal certo + Do fogo que trazia; + Que nunca soube amor ser encoberto. + Ja diante dos olhos lhe voavão + Imagens e phantasticas pinturas, + Exercicios do falso pensamento; + Ja por as solitarias espessuras + Entre os penedos sós, que não fallavão, + Fallava e descobria seu tormento. + Em longo esquecimento + De si, todo embebido, + Andava tão perdido, + Que quando algum pastor lhe perguntava + A causa da tristeza que mostrava, + Como quem para penas só vivia, + Sorrindo, lhe tornava: + Se não vivesse triste, morreria. + Mas como este tormento o sinalou, + E tanto no seu rosto se mostrasse, + Entendendo-o ja bem o pae sisudo, + Porque do pensamento lho tirasse, + Longe da causa delle o apartou; + Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo. + Oh falso Marte rudo, + Das vidas cobiçoso! + Que donde o generoso + Peito resuscitava em tanta gloria + De seus Antecessores a memoria, + Alli, fero e cruel, lhe destruiste, + Por injusta victoria, + Primeiro que o cuidado, a vida triste. + Parece-me, Tionio, que te vejo, + Por tingires a lança cobiçoso + Naquelle infido sangue Mauritano, + No Hispanico ginete bellicoso, + Que ardendo tambem vinha no desejo + De atropellar por terra ao Tingitano. + Oh confiado engano! + Oh encurtada vida! + Que a virtude opprimida + Da multidão forçosa do inimigo + Não pôde defender-se do perigo: + Porqu'assi o Destino o permittio; + E assi levou comsigo + O mais gentil pastor que o Tejo vio. + Qual o mancebo Euryalo enredado + Entre o poder dos Rutulos, fartando + As íras da soberba e dura guerra; + Do cristallino rosto a côr mudando, + Cujo purpureo sangue, derramado + Por as alvas espaldas, tinge a serra; + Que como flor, que a terra + Lhe nega o mantimento, + Porque o tempo avarento + Tambem o largo humor lhe t[~e]e negado, + O collo inclina languido e cansado: + Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito + A quem to tinha dado; + Qu'este he somente eterno e infinito. + Da congelada boca a alma pura, + Co'o nome juntamente da inimiga + E excellente Marfida, derramava. + E tu, gentil Senhora, não te obriga + A pranto sempiterno a morte dura + De quem por ti somente a vida amava? + Por ti aos ecos dava + Accentos numerosos; + Por ti aos bellicosos + Exercicios se deo do fero Marte. + E tu ingrata o amor ja n'outra parte + Porás, como acontece ao fraco intento: + Que, emfim, emfim, dest'arte + Se muda o feminino pensamento. + Pastores deste valle ameno e frio, + Que de Tionio o caso desastrado + Quereis nas altas serras que se conte; + Hum tumulo, de flores adornado, + Lhe edificai ao longo deste rio, + Que a vela enfreie ao duro navegante: + E o lasso caminhante, + Vendo tamanha mágoa, + Arraze os olhos d'ágoa, + Lendo na pedra dura o verso escrito, + Que diga assi: _Memoria sou, que grito_ + _Para dar testimunho em toda parte + Do mais gentil Esprito + Que tirárão do mundo Amor e Marte_. + UMBRANO. + Qual o quieto somno aos cansados + Debaixo de algum'árvore sombria; + Ou qual aos sequiosos encalmados + O vento respirante e a fonte fria: + Taes me forão teus versos delicados, + Teu numeroso canto e melodia: + E ainda agora o tom suave e brando + Os ouvidos me fica adormentando. + Em quanto os peixes humidos tiverem + As areosas covas deste rio, + E correndo estas águas conhecerem + Do largo mar o antiguo senhorio; + E em quanto estas hervinhas pasto derem + Ás petulantes cabras, eu te fio + Que em virtude dos versos que cantaste + Sempre viva o pastor que tanto amaste. + Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta, + E dos montes as sombras se accrescentão; + De flores mil o claro ceo se esmalta, + Que tão ledas aos olhos se presentão; + Levemos por o pé desta serra alta + Os gados, que ja agora se contentão + Do que comido t[~e]e, Frondelio amigo: + Anda; que até o outeiro irei comtigo. + FRONDELIO. + Antes por este valle, amigo Umbrano, + Se t'aprouver, levemos as ovelhas; + Porque, se eu por acêrto não me engano, + De lá me sôa hum eco nas orelhas: + O doce accento não parece humano. + E, se em contrário tu não m'aconselhas, + Eu quero descobrir que cousa seja; + Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja. + UMBRANO. + Comtigo vou, que quanto mais me chego, + Mais gentil me parece a voz que ouviste, + Peregrina, excellente; e não te nego + Que me faz cá no peito a alma triste. + Vês como t[~e]e os ventos em socêgo? + Nenhum rumor da serra lhe resiste: + Nenhum passaro vôa, mas parece + Que, do canto vencido, lhe obedece. + Porém, irmão, melhor me parecia + Que não fôssemos lá; que estorvaremos; + Mas sobidos nest'árvore sombria, + Todo o valle de aqui descobriremos. + Os çurrões e cajados, todavia, + Neste comprido tronco penduremos: + Para subir fica homem mais ligeiro. + Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro. + FRONDELIO. + Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres: + Subirás sem trabalho e sem ruido; + E despois que subido lá 'stiveres, + Dar-me-has a mão de cima; que he partido. + Mas primeiro me dize, se o puderes + Ver, donde nasce o canto nunca ouvido; + Quem lança o doce accento delicado. + Falla; que ja te vejo estar pasmado. + UMBRANO. + Cousas não costumadas na espessura, + Que nunca vi, Frondelio, vejo agora: + Formosas Nymphas vejo na verdura, + Cujo divino gesto o ceo namora. + Huma de desusada formosura, + Que das outras parece ser Senhora, + Sôbre hum triste sepulcro, não cessando, + Está perlas dos olhos destillando. + De todas estas altas semidêas, + Qu'em tôrno estão do corpo sepultado, + Humas, regando as humidas arêas, + De flores t[~e]e o tumulo adornado; + Outras, queimando lagrimas Sabêas, + Enchem o ar de cheiro sublimado; + Outras em ricos pannos, mais avante, + Envolvem brandamente hum novo infante. + Huma, que d'entre as outras se apartou, + Com gritos, que a montanha entristecêrão, + Diz, que despois que a morte a flor cortou + Que as estrellas somente merecêrão, + Este penhor charissimo ficou + Daquelle, a cujo imperio obedecêrão + Douro, Mondego, Tejo e Guadiana, + Até o remoto mar da Taprobana. + Diz mais, que se encontrar este menino + A noite intempestiva, amanhecendo, + O Tejo, agora claro e crystallino, + Tornará a fera Alecto em vulto horrendo. + Mas que, a ser conservado do Destino, + As benignas estrellas promettendo + Lh'estão o largo pasto de Ampelusa, + Co'o monte que em mao ponto vio Medusa. + Este prodigio grande Nympha bella + Com abundantes lagrimas recita. + Porém, qual a eclipsada clara estrella, + Qu'entre as outras o ceo primeiro habita: + Tal coberta de negro vejo aquella, + A quem só n'alma toca a grã desdita. + Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver + Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer. + FRONDELIO. + Oh triste morte, esquiva e mal olhada, + Que a tantas formosuras injurías! + Áquella deosa bella e delicada + Sequer algum respeito ter devias. + Esta he, por certo, Aonia filha amada + Daquelle grã Pastor, qu'em nossos dias + Danubio enfreia, manda o claro Ibero, + E espanta o morador do Euxino fero. + Morreo-nos o excellente e poderoso, + (Que a isto está sujeita a vida humana) + Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo. + Ah lei dos fados, aspera e tyrana! + Mas o som peregrino e piedoso, + Com que a formosa Nympha a dor engana, + Escuta hum pouco. Nota e vê, Umbrano, + Quão bem que sôa o verso Castelhano. + AONIA. + Alma, y primero amor del alma mia, + Espíritu dichoso, en cuya vida + La mia estuvo en cuanto Dios queria! + Sombra gentil de su prision salida, + Que del mundo á la patria te volviste, + Donde fuiste engendrada y procedida! + Recibe allá este sacrificio triste, + Que te offrecen los ojos que te vieron; + Si la memoria dellos no perdiste. + Que, pues los altos Cielos permitieron, + Que no te acompañase en tal jornada, + Y para ornarse solo á ti quisieron; + Nunca permitirán, que acompañada + De mi no sea esta memoria tuya, + Que está de tus despojos adornada. + Ni dejará, por mas que el tiempo huya, + De estar en mí con sempiterno llanto, + Hasta que vida y alma se destruya. + Mas tú, gentil Espíritu, entretanto + Que otros campos y flores vas pisando, + Y otras zampoñas oyes, y otro canto; + Agora embevecido estés mirando + Allá en el Empireo aquella Idea, + Que el mundo enfrena y rige con su mando; + Agora te posuya Citherea + En el tercero asiento, ó porque amaste, + Ó porque nueva amante allá te sea; + Agora el sol te admire, si miraste + Como vá por los Signos, encendido, + Las tierras alumbrando que dejaste: + Si en ver estos milagros no has perdido + La memoria de mí, ó fué en tu mano + No pasar por las aguas del olvido; + Vuelve un poco los ojos á este llano, + Verás una, que á ti con triste lloro + Sobre este mármol sordo llama en vano. + Pero si entraren en los Signos de oro + Lágrimas y gemidos amorosos, + Que muevan el supremo y santo coro; + La lumbre de tus ojos tan hermosos + Yo la veré muy presto: y podré verte; + Que á pesar de los hados enojosos + Tambiem para los tristes hubo muerte. + + +ECLOGA II. + + +INTERLOCUTORES. + +ALMENO e AGRARIO. + + Ao longo do sereno + Tejo, suave e brando, + N'hum valle d'altas árvores sombrio + Estava o triste Almeno + Suspiros espalhando + Ao vento, e doces lagrimas ao rio. + No derradeiro fio + O tinha a esperança, + Que com doces enganos + Lhe sustentára a vida tantos anos + N'h[~u]a amorosa e branda confiança; + Que quem tanto queria, + Parece que não erra, se confia. + A noite escura dava + Repouso aos cansados + Animaes esquecidos da verdura; + O valle triste estava + Co'huns ramos carregados, + Qu'inda a noite fazião mais escura. + Offrecia a espessura + Hum temeroso espanto: + As roucas rãas soavão + N'hum charco de água negra e ajudavão + Do passaro nocturno o triste canto: + O Tejo com som grave + Corria mais medonho que suave. + Como toda a tristeza + No silencio consiste, + Parecia que o valle estava mudo. + E com esta graveza + Estava tudo triste, + Porém o triste Almeno mais que tudo: + Tomando por escudo + De sua doce pena, + Para poder soffrella, + Estar imaginando a causa della; + Qu'em tanto mal he cura bem pequena. + Maior o he o tormento, + Que toma por allívio hum pensamento. + Ao rio se queixava + Com lagrimas em fio, + Com que as ondas crescião outro tanto. + Seu doce canto dava + Tristes águas ao rio, + E o rio triste som ao doce canto. + Ao sonoroso pranto, + Que as águas enfreava, + Responde o valle umbroso. + De tanta voz o accento temeroso + Na outra parte do rio retumbava; + Quando, da phantasia + O silencio rompendo, assi dizia: + Corre suave e brando + Com tuas claras ágoas, + Sahidas de meus olhos, doce Tejo; + Fé de meus males dando, + Para que minhas mágoas + Sejão castigo igual de meu desejo: + Que, pois em mim não vejo + Remedio, nem o espero; + E a morte se despreza + De me matar, deixando-me á crueza + Daquella por quem meu tormento quero; + Saiba o mundo meu dano, + Porque se desengane em meu engano. + Ja que minha ventura, + Ou a causa qu'a ordena, + Quer qu'em pago da dor tome o soffrella; + Será mais certa cura + Para tamanha pena + Desesperar d'haver ja cura nella. + Porque se minha estrella + Causou tal esquivança, + Consinta meu cuidado + Que me farte de ser desesperado, + Para desenganar minha esperança: + Pois somente nasci + Para viver na morte, e ella em mi. + Não cesse meu tormento + De fazer seu officio, + Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada: + Nem falte o soffrimento, + Porque parece vício + Para tão doce mal faltar-me nada. + Oh Nympha delicada, + Honra da natureza! + Como póde isto ser, + Que de tão peregrino parecer + Pudesse proceder tanta crueza? + Não vem de nenhum geito + De causa divinal contrário effeito. + Pois como pena tanta + He contra a causa della? + Fóra he do natural minha tristeza. + Mas a mi que m'espanta? + Não basta (ó Nympha bella) + Que podes perverter a natureza? + Não he a gentileza + De teu gesto celeste + Fóra do natural? + Não póde a natureza fazer tal: + Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste; + Porém, porque tomaste + Tão dura condição, se te formaste? + Por ti o alegre prado + Me he penoso e duro; + Abrolhos me parecem suas flores. + Por ti do manso gado, + Como de mi, não curo, + Por não fazer offensa a teus amores. + Os jogos dos pastores, + As lutas entr'a rama, + Nada me faz contente: + E sou ja do que fui tão differente, + Que quando por meu nome alguem me chama, + Pasmo, porque conheço + Qu'inda comigo proprio me pareço. + O gado, que apascento, + São n'alma os meus cuidados; + As flores, que no campo sempre vejo, + São no meu pensamento + Teus olhos debuxados, + Com qu'estou enganando o meu desejo. + Do frio e doce Tejo + As águas se tornárão + Ardentes e salgadas, + Despois que minhas lagrimas cansadas + Com seu puro licor se misturárão; + Como quando mistura + Hyppanis co'o Exampêo sua água pura. + Se ahi no mundo houvesse + Ouvires-me algum'hora, + Assentados na praia deste rio; + E d'arte te dissesse + O mal que passo agora, + Que pudesse mover-te o peito frio!.. + Oh quanto desvario, + Qu'estou imaginando! + Ja agora meu tormento + Não póde pedir mais ao pensamento, + Qu'este phantasiar, donde penando + A vida me reserva. + Querer mais de meu mal será soberba. + Ja a esmaltada Aurora + Descobre o negro manto + Da sombra, que as montanhas encobria. + Descansa, frauta, agora, + Pois meu escuro canto + Não merece que veja o claro dia. + Não canse a phantasia + D'estar em si pintando + O gesto delicado, + Em quanto traz ao pasto o manso gado + Esse pastor, que lá só vem fallando. + Callar-me-hei somente; + Que o meu mal nem ouvir se me consente. + AGRARIO. + Formosa manhãa clara e deleitosa, + Que, como fresca rosa na verdura, + Te mostras bella e pura, marchetando + As Nymphas, espalhando teus cabellos + Nos verdes montes bellos; tu só fazes, + Quando a sombra desfazes triste e escura, + Formosa a espesura e a clara fonte, + Formoso o alto monte e o rochedo, + Formoso o arvoredo e deleitoso, + E emfim tudo formoso co'o teu rosto + D'ouro e rosas composto e claridade; + Trazes a saudade ao pensamento, + Mostrando em hum momento o roxo dia, + Com a doce harmonia nos cantares + Dos passaros a pares, que voando + Seu pasto andão buscando nos raminhos, + Para os amados ninhos que mantém. + Oh grande e summo bem da natureza! + Estranha subtileza de pintora, + Que matiza em hum'hora de mil côres + O ceo, a terra, as flores, monte e prado! + Oh tempo ja passado! quão presente + Te vejo abertamente na vontade! + Quão grande saudade tenho agora + Do tempo que a pastora minha amava, + E de quanto prezava a minha dor! + Então tinha o amor maior poder, + Quando em hum só querer nos igualava; + Porque quando hum amava a quem queria, + Logo eco respondia d'affeição + No brando coração da doce imiga. + Nesta amorosa liga concertavão + Os tempos, que passavão com prazeres. + Mostrava a flava Ceres por as eiras + Das brancas sementeiras ledo fruto, + Pagando seu tributo aos Lavradores; + E enchia aos pastores todo o prado + Pales do manso gado guardadora. + Hião Zéphyro e Flora passeando, + Os campos esmaltando de boninas; + Nas fontes cristallinas triste estava + Narciso, qu'inda olhava n'água pura + Sua linda figura e delicada: + Mas Eco, namorada de tal gesto, + Com pranto manifesto, seu tormento + No derradeiro accento lamentava. + Alli tambem se achava o sangue tinto + Do purpureo Jacintho; e o destrôço + De Adonis bello moço; morte fêa + Da bella Cytherêa tão chorada; + Toda a terra esmaltada destas rosas. + Hião Nymphas formosas por os prados; + E os Faunos namorados apos ellas, + Mostrando-lhes capellas de mil côres, + Ordenadas das flores que colhião: + As Nymphas lhe fugião espantadas, + As faldas levantadas, por os montes. + Via-sea água das fontes espalhar-se; + Vertumno transformar-se alli se via; + Pomona, que trazia os doces fruitos; + Alli pastores muitos, que tangião + As gaitas que trazião, e cantando + Estavão enganando as suas penas, + Tomando das Sirenas o exercicio. + Ouvia-se Salicio lamentar-se; + Da mudança queixar-se crua e fêa + Da dura Galathêa tão formosa: + E da morte invejosa Nemoroso + Ao monte cavernoso se querella, + Que a sua Elisa bella em pouco espaço + Cortou inda em agraço. Ah dura sorte! + Oh immatura morte, que a ninguem + De quantos vida t[~e]e jamais perdoas! + Mas tu, tempo, que voas apressado, + Hum deleitoso estado quão asinha + Nesta vida mesquinha transfiguras + Em mil desaventuras, e a lembrança + Nos deixas por herança do que levas! + Assi que se nos cevas com prazeres, + He para nos comeres no melhor. + Cada vez em peor te vás mudando: + Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas, + Logo á manhãa reprovas com instancia. + Oh perversa inconstancia e tão profana + De toda cousa humana inferior, + A quem o cego error sempre anda annexo! + Mas eu de que me queixo? ou eu que digo? + Vive o tempo comigo? ou elle tem + Culpa no mal que vem da cega gente? + Por ventura elle sente, ou elle entende + Aquillo que defende o ser divino? + Elle usa de contino seu officio, + Que ja por exercicio lhe he devido: + Dá-nos fructo colhido na sazão + Do formoso verão; e no inverno, + Com seu humor eterno congelado, + Do vapor levantado co'a quentura + Do sol, a terra dura lhe dá alento, + Para que o mantimento produzindo, + Estê sempre cumprindo seu costume. + Assi que não consume de si nada, + Nem muda da passada vida hum dedo: + Antes sempre está quedo no devido, + Porqu'este he seu partido e sua usança; + E nelle esta mudança he mais firmeza. + Mas quem a Lei despreza, e pouco estima, + De quem de lá de cima está movendo + O ceo sublime e horrendo, o mundo puro, + Este muda o seguro e firme estado + Do tempo, não mudado de verdade. + Não foi naquella idade d'ouro claro + O firme tempo charo e excellente? + Vivia então a gente moderada; + Sem ser a terra arada dava pão; + Sem ser cavado o chão as fructas dava; + Nem águas desejava, nem quentura; + Suppria então natura o necessario. + Pois quem foi tão contrário a esta vida? + Saturno, que, perdida a luz serena, + Causou, qu'em dura pena, desterrado, + Fosse do ceo lançado, onde vivia; + Porque os filhos comia, que gerava. + Por isso se mudava o tempo igual + Em mais baixo metal: e assi descendo + Nos veio, emfim, trazendo a este estado. + Mas eu, desatinado, aonde vou? + Para onde me levou a phantasia? + Qu'estou gastando o dia em vãas palavras? + Quero ora minhas cabras ir levando + Ao Tejo claro e brando; porque achar + No mundo qu'emendar, não he d'agora: + Basta que a vida fóra delle tenho: + Com meu gado me avenho, e estou contente. + Porém, se me não mente a vista, eu vejo + Nesta praia do Tejo estar deitado + Almeno, que enlevado em pensamentos, + As horas e os momentos vai gastando: + Vou-me a elle chegando, só por ver + Se poderei fazer que o mal que sente, + Hum pouco se lhe ausente da memoria. + ALMENO. + Oh doce pensamento! oh doce gloria! + São estes por ventura os olhos bellos, + Que t[~e]e de meus sentidos a victoria? + São estas, Nympha, as tranças dos cabellos, + Que fazem de seu preço o ouro alheio, + Como a mi de mi mesmo só com vellos? + He esta a alva columna, o lindo esteio, + Sustentador das obras mais que humanas, + Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio? + Ah falso pensamento, que me enganas! + Fazes-me pôr a boca onde não devo, + Com palavras de doudo, ou quasi insanas! + Como a alçar-te tão alto assi me atrevo? + Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás? + Levas-me tu a mi, ou eu te levo? + Não poderei eu ir onde tu vás? + Porém, pois ir não posso onde tu fores, + Quando fores, não tornes onde estás. + AGRARIO. + Oh que triste successo foi de amores, + O que a este pastor aconteceo, + Segundo ouvi contar a outros pastores! + Tanto emfim, por seu damno se perdeo, + Que o longo imaginar em seu tormento, + Em desatino Amor lh'o converteo. + Oh forçoso vigor do pensamento, + Que póde em outra cousa estar mudando + A fórma, a vida, o siso, o entendimento! + Está-se hum triste amante transformando + Na vontade daquella, que tanto ama, + De si a propria essencia transportando. + E nenhum'outra cousa mais desama, + Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido, + Que deste fogo insano não se inflama. + Almeno, que aqui 'stá tão influido + No phantastico sonho, que o cuidado + Lhe traz sempre ante os olhos esculpido, + Está-se-lhe pintando, de enlevado, + Que t[~e]e ja da phantastica pastora + O peito diamantino mitigado. + Em este doce engano estava agora + Fallando como em sonho, mas achando + Ser vento o que sonhava, grita e chora. + Dest'arte andavão sonhos enganando + O pastor somnolento, que a Diana + Andava entre as ovelhas celebrando; + Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana, + O vão pae dos Centauros enganava: + (Que Amor quando contenta, sempre engana) + Como este, que comsigo só fallava, + Cuidando que fallava, de enleado, + Com quem lhe o pensamento figurava. + Não póde quem quer muito, ser culpado + Em nenhum êrro, quando vem a ser + Este amor em doudice transformado. + Amor não será amor, se não vier + Com doudices, deshonras, dissensões, + Pazes, guerras, prazer e desprazer; + Perigos, linguas más, murmurações + Ciumes, arruidos, competencias, + Temores, nojos, mortes, perdições. + Estas são verdadeiras penitencias + De quem põe o desejo onde não deve, + De quem engana alheias innocencias. + Mas isto t[~e]e o amor, que não se escreve + Senão donde he illicito e custoso; + E donde he mais o risco, mais se atreve. + Passava o tempo alegre e deleitoso + O Troiano pastor, em quanto andava + Sem ter alto desejo e perigoso. + Seus furiosos touros coroava, + E nos álamos altos escrevia + Teu nome (Enone) quando a ti só amava. + Os álamos crescião, e crescia + O amor qu'elle te tinha: sem perigo, + E sem temor, contente te servia. + Mas despois que deixou entrar comsigo + Illicito desejo e pensamento, + De sua quietação tão inimigo; + A toda a patria poz em detrimento + Com mortes de parentes e de irmãos, + Com crú incendio, e grande perdimento. + Nisto fenecem pensamentos vãos: + Tristes serviços mal galardoados, + Cuja glória se passa d'entre as mãos. + Lagrimas e suspiros arrancados + D'alma, todos se pagão com enganos: + E oxalá forão muitos enganados! + Andão com seu tormento tão ufanos, + Que gastão na doçura d'hum cuidado + Apos huma esperança muitos anos. + E talha tão perdido namorado, + Tão contente co'o pouco, que daria + Por hum só volver d'olhos todo o gado. + Em todo povoado e companhia, + Sendo ausentes de si, se vem presentes + Com quem lhes pinta sempre a phantasia. + Co'hum certo não sei que andão contentes, + E logo hum nada os torna, ao contrário, + De todo ser humano differentes. + Oh tyrannico Amor, oh caso vario, + Que obrigas a hum querer que sempre seja + De si contínuo e aspero adversario! + E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja, + Senão quando do seu despôjo amado + Sua inimiga estar triumphando veja. + Quero fallar com este, qu'enredado + Nesta cegueira está sem nenhum tento. + Acorda ja, pastor, desacordado. + ALMENO. + Oh porque me tiraste hum pensamento, + Que agora estava aos olhos debuxando, + De quem aos meus foi doce mantimento? + AGRARIO. + Nesta imaginação estás gastando + O tempo e vida, Almeno? Perda grande! + Não vês quão mal os dias vás passando? + ALMENO. + Formosos olhos, ande a gente e ande; + Que nunca vos ireis dest'alma minha, + Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande. + AGRARIO. + Quem poderá cuidar que tão asinha + Se perca o curso assi do siso humano, + Que corre por direita e justa linha? + Que sejas tão perdido por teu dano, + Almeno meu, não he por certo aviso; + He só doudice grande, grande engano. + ALMENO. + Ó Agrario meu, que vendo o doce riso, + E o rosto tão formoso, como esquivo, + O menos que perdi foi todo o siso. + E não entendo, desque sou captivo, + Outra cousa de mi, senão que mouro: + Nem isto entendo bem, pois inda vivo. + Á sombra deste umbroso e verde louro + Passo a vida, ora em lagrimas cansadas, + Ora em louvores dos cabellos d'ouro. + Se perguntares porque são choradas, + Ou porque tanta pena me consume, + Revolvendo memorias magoadas; + Desque perdi da vida o claro lume, + E perdi a esperança e causa della, + Não chóro por razão, mas por costume. + Jamais pude co'o fado ter cautella; + Nem houve nunca em mi contentamento, + Que não fosse trocado em dura estrella. + Que bem livre vivia e bem isento, + Sem qu'ao jugo me visse submettido + De nenhum amoroso pensamento! + Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido + Tão fóra d'amor tinha, que me ria + De quem por elle via andar perdido. + De várias côres sempre me vestia; + De boninas a fronte coroava; + Nenhum pastor cantando me vencia. + A barba então nas faces me apontava; + Na luta, na carreira, em qualquer manha, + Sempre a palma entre todos alcançava. + Da minha idade tenra, em tudo estranha, + Vendo (como acontece) affeiçoadas + Muitas Nymphas do rio e da montanha; + Com palavras mimosas e forjadas, + De solta liberdade e livre peito, + As trazia contentes e enganadas. + Mas não querendo Amor, que deste geito + Dos corações andasse triumphando, + Em quem elle criou tão puro affeito; + Pouco a pouco me foi de mi levando + Dissimuladamente ás mãos de quem + Toda esta injuria agora está vingando. + AGRARIO. + Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem + O princípio e o fim; que Nemoroso + Contado tudo isso, e mais, me tem. + Mas (quero-to dizer) se este enganoso + Amor he tão usado a desconcertos, + Que nunca amando fez pastor ditoso; + Ja que nelle estes casos são tão certos, + Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa + Te chorão valles, montes e desertos? + Vejo-te estar gastando em viva fragoa, + E juntamente em lagrimas; vencendo + A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa. + Vejo que as tuas cabras, não querendo + Gostar as verdes hervas, se emmagrecem, + As tetas aos cabritos encolhendo. + Os campos, que co'o tempo reverdecem, + Os olhos alegrando descontentes, + Em te vendo, parece, se entristecem. + De todos teus amigos e parentes, + Que lá da serra vem por consolar-te, + Sentindo na alma a pena, que tu sentes, + Se querem de teus males apartar-te, + Deixando a choça e gado vás fugindo, + Como cervo ferido, a outra parte. + Não vês que Amor, as vidas consumindo, + Vive só de vontades enlevadas + No falso parecer d'hum gesto lindo? + Nem as hervas das águas desejadas + Se fartão; nem de flores as abelhas; + Nem este Amor de lagrimas cansadas. + Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas, + Chorou Phebo de Daphne as esquivanças, + Regando as flores brancas e vermelhas? + Quantas vezes as asperas mudanças + O namorado Gallo t[~e]e chorado + De quem o tinha envolto em esperanças? + Estava o triste amante recostado, + Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso, + Que o falso Amor lhe tinha destinado. + Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso, + Na fonte de Aganippe destillando, + Se fazião de lagrimas hum vaso. + O intonso Apollo o vinha alli culpando, + A sobeja tristeza perigosa + Com asperas palavras reprovando. + Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa + Nympha, que tanto amaste, descobrindo + Por falsa a fé, que dava, e mentirosa; + Por as Alpinas neves vai seguindo + Outro bem, outro amor, outro desejo; + Como inimiga, emfim, de ti fugindo. + Mas o misero amante, que o sobejo + Mal empregado amor lhe defendia + Ter de tamanha fé vergonha ou pejo; + Da falsífica Nympha não sentia + Senão que o frio do gelado Rheno + Os delicados pés lhe offenderia. + Ora se tu vês claro, amigo Almeno, + Que d'Amor os desastres são de sorte, + Que para matar basta o mais pequeno, + Porque não pões hum freio a mal tão forte, + Qu'em estado te põe, que sendo vivo, + Ja não se entende em ti vida nem morte? + ALMENO. + Agrario; se do gesto fugitivo, + Por caso de fortuna desastrado, + Algum'hora deixar de ser captivo; + Ou sendo para as Ursas degradado, + Adonde Boreas t[~e]e o Oceano + Co'os frios Hyperboreos congelado; + Ou donde o filho de Climene insano, + Mudando a côr das gentes totalmente, + As terras apartou do trato humano; + Ou se ja por qualquer outro accidente + Deixar este cuidado tão ditoso, + Por quem sou de ser triste tão contente; + Este rio, que passa deleitoso, + Tornando para traz, irá negando + Á natureza o curso pressuroso. + As cabras por o mar irão buscando + Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura + Das hervas os delfins apascentando. + Ora se tu vês, n'alma quão segura + Deste amor tenho a fé, para qu'insistes + Nesse conselho e prática tão dura? + Se de tua porfia não desistes, + Vae repastar teu gado a outra parte; + Qu'he dura a companhia para os tristes. + Huma só cousa quero encomendarte, + Para repouso algum de meu engano, + Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte: + Que s'esta fera, qu'anda em traje humano, + Por a montanha vires ir vagando, + De meu despôjo rica e de meu dano, + Comos vivos espritos inflammando + O ar, o monte e a serra, que comsigo + Continuamente leva namorando; + Se queres contentar-me, como amigo, + Passando, lhe dirás: Gentil pastora, + Não ha no mundo vício sem castigo. + Tornada em puro marmore não fôra + A fera Anaxarete, se amoroso + Mostrára o rosto angelico algum'hora. + Foi bem justo o castigo rigoroso: + Porém quem te ama (Nympha) não queria + Nódoa tão feia em gesto tão formoso. + AGRARIO. + Tudo farei, Almeno, e mais faria + Por algum dia ver-te descansado, + Se s'acabão trabalhos algum dia. + Mas bem vês como Phebo ja empinado + Me manda que da calma iniqua e crua, + Recolha em algum valle o manso gado. + Tu nessa phantasia falsa e nua, + Para engano maior de teu perigo, + Não queres companhia mais que a sua. + Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo; + E ficarás melhor acompanhado. + ALMENO. + Elle comtigo vá, como comigo + Me fica acompanhando o meu cuidado. + + +ECLOGA III. + + +INTERLOCUTORES. + +ALMENO e BELISA. + + Passado ja algum tempo que os amores + D'Almeno, por seu mal, erão passados, + Porque nunca Amor cumpre o que promette; + Entr'huns verdes ulmeiros apartado, + Regando por o campo as brancas flores, + Em lagrimas cansadas se derrete: + Quando a linda pastora, que compete + Co'o monte em aspereza, + Co'o prado em gentileza, + Por quem o pastor triste endoudecia, + Por a praia do Tejo discorria + A lavar a beatilha e o trançado: + O sol ja consentia + Que sahisse da sombra o manso gado. + Ja acordado daquelle pensamento + Que tão desacordado sempre o teve, + Vio por acêrto o bem, que incerto tinha. + E porque donde amor a mais se atreve, + Alli mais enfraquece o entendimento, + Não lhe soube dizer o que convinha. + Como homem que á aprazada briga vinha, + A quem de fóra engana + A confiança humana, + E despois, vendo o rosto a quem resiste, + Treme, e teme o perigo e não insiste; + Ja se arrepende, a audacia lhe fallece: + Dest'arte o pastor triste + Ousa, receia, esforça e enfraquece. + E tendo assi ja attonito o sentido, + Cometteo com furor desatinado, + E tirou da fraqueza coração. + Comettimento foi desesperado: + Qu'huma só salvação t[~e]e hum perdido, + Perder toda a esperança á salvação. + As mágoas, que passárão, se dirão: + Mas as qu'ella dizia, + Lembrando-lhe que via + As águas murmurar do Tejo amenas, + Remetto a vós, ó Tagides Camenas; + Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto; + Porqu'em tamanhas penas + Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto. + BELISA. + Que alegre campo e praia deleitosa! + Quão saudosa faz esta espessura + A formosura angelica e serena + Da tarde amena! Quão saudosamente + A sesta ardente abranda, suspirando, + De quando em quando o vento alegre e frio! + No fundo rio os mudos peixes sáltão; + Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde, + E Phebo perde a fôrça da quentura. + Por a espessura levão, passeando, + O gado brando ao som das çanfoninas, + Pizando as finas e formosas flores, + Os Guardadores, que cantando o gesto + Formoso e honesto das pastoras qu'amão, + Por o ar derramão mil suspiros vãos. + Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos, + Outro os cabellos d'ouro, em som suave: + E a amorosa ave leva o contraponto. + Mas oh que conto e saudosa historia + Que na memoria aqui se m'offerece! + Se não m'esquece, ja deste lugar + Ouvi soar os valles algum dia, + E respondia o eco o nome em vão + N'hum coração, _Belisa_ retumbando. + Estou cuidando como o tempo passa, + E quão escaça he toda alegre vida; + E quão comprida, quando he triste e dura. + Nesta 'spessura longo tempo amei: + Se m'enganei com quem do peito amava, + Não me pezava de ser enganada. + Fui salteada, emfim, d'hum pensamento, + Que hum movimento tinha casto e são. + Conversação foi fonte dest'engano + Que, por meu dano, entrou com falsa côr. + Porque o amor na Nympha, que he segura, + Entra em figura de vontade honesta. + Mas que me presta agora dar desculpa? + Pois se houve culpa, foi do firme amor + Só, n'hum pastor, que nunca sol nem l[~u]a, + Ou serra alg[~u]a, desde o Ibero ao Indo, + Outro tão lindo vírão, tão manhoso. + Nest'amoroso estado, e fé que tinha + Nest'alma minha tão secretamente, + Vivi contente, amando e encobrindo. + Elle fingindo mentirosos danos, + Que são enganos que não custão nada; + Tendo alcançada ja no entendimento + A fé e intento meu só nelle pôsto; + (Que logo o rosto mostra os corações, + E as affeições co'os olhos se praticão + Que mais publicão muito, que palavras) + Com suas cabras sempre á parte vinha, + Ond'eu mantinha os olhos do desejo. + Tu, manso Tejo, e tu, florído prado, + Do mais passado, emfim, que aqui não digo, + Sereis, m'obrigo, testimunho certo; + Pois descoberto vos foi tudo e claro. + Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual! + Quão grande mal quereis á humana gente! + Porque hum contente estado assi trocastes? + Vós me tirastes do meu peito isento + O pensamento honesto e repousado, + Ja dedicado ao côro de Diana; + Vós n'huma ufana vida me puzestes, + E alli quizestes que gozasse o dano + Do doce engano, que se chama amor, + Com cujo error passava o tempo ledo: + E vós tão cedo me tirais hum bem, + Que Amor ja tem impresso n'alma minha, + Despois qu'a tinha envolta em esperanças; + E com lembranças tristes me deixais? + Mal me pagais a fé que sempre tive. + Mas assi vive quem sem dita nace. + Mas ja a face alegre o sol esconde; + E não responde alguem a tantas mágoas, + Senão as ágoas, que dos olhos sahem. + As sombras cahem; vão-se as alimarias, + Fartas das várias hervas, seu caminho; + Buscão seu ninho os passaros sem dono: + Ja por o sono esquecem o comer. + Quero esquecer tambem tão doce historia, + Pois he memoria que traz mor cuidado. + Isto he passado; e se me deo paixão, + Os dias vão gastando o mal e o bem; + E não convém querer-me magoar + Do qu'emendar não posso ja com mágoas. + Nas claras ágoas deste rio brando, + Que vão regando o valle matizado, + Este trançado lavar quero emfim; + Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança + Desta mudança, qu'esquecer não sei: + Bem qu'eu verei mudar a opinião, + Pois homens são: a quem o esquecimento + Depressa faz mudar o pensamento. + ALMENO. + Se a vista não m'engana a phantasia, + Como ja m'enganou mil vezes, quando + Minha ventura enganos me soffria; + Parece-me, que vejo estar lavando + Huma Nympha algum véo no claro Tejo, + Que se m'está Belisa figurando. + Não póde ser verdade isto que vejo; + Que facilmente aos olhos se figura + Aquillo que se pinta no desejo. + Oh acontecimento, qu'a ventura + Me dá para mor damno! Esta he, certo; + Que não he d'outrem tanta formosura. + Se poderei fallar-lhe de mais perto? + Mas fugir-me-ha. Não póde ser; qu'o rio + Para acolá não t[~e]e caminho aberto. + Oh temor grande! oh grande desvario, + Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente + Assi m'está tornando, e o peito frio! + De quanto me sobeja, estando ausente, + Que para lhe fallar sempre imagino, + Tudo me falta quando estou presente. + Oh aspecto suave e peregrino! + Pois como? tão asinha assi s'esquece + Huma fé verdadeira, hum amor fino? + BELISA. + Oh altas semideas! pois padece + Em vosso rio a honra delicada + De quem tamanha fôrça não merece: + Ou seja por vós, Nymphas, preservada; + Ou em arvore alguma, ou pedra dura + Me deixai velozmente transformada. + ALMENO. + Ah Nympha! não te mudes a figura: + Nem vós, deosas, queirais qu'eu seja parte + De se mudar tão rara formosura. + Porqu'a quem falta a voz para fallar-te, + E a quem falta o despejo da ousadia, + Tambem faltarão mãos para tocar-te. + BELISA. + Que me queres, Almeno, ou que porfia + Foi a tua tão aspera comigo? + Minha vontade não to merecia. + Se com amor o fazes, eu te digo, + Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo, + Não póde ser amor, mas inimigo. + Não es tu de saber tão falto e rudo, + Que tão sem siso amasses, como amaste. + ALMENO. + Onde viste tu, Nympha, amor sisudo? + Porque ja não te lembra que folgaste + Com meus tormentos tristes, e algum'hora + Com teus formosos olhos ja m'olhaste? + Como t'esquece ja (gentil pastora) + Que folgavas de ler nos freixos verdes + O que de ti 'screvia cada hora? + Porqu'a memoria tão á pressa perdes + Do amor que me mostravas, qu'eu não digo, + Se o vós, ó altos montes, não disserdes? + E como te não lembras do perigo, + A que só por m'ouvir t'aventuravas, + Buscando horas de sesta, horas d'abrigo? + Co'a maçãa da discordia me tiravas; + Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura, + Tu, como mais formosa, lha ganhavas. + E escondendo-te logo na'spessura, + Hias fugindo, como vergonhosa + Da namorada e doce travessura. + Não era esta a maçãa d'ouro formosa + Com qu'encoberta assi d'astucia tanta + Cydippe s'enganou por cubiçosa, + Nem a que o curso teve d'Atalanta; + Mas era aquella, com que Galathêa + O pastor captivou, como elle canta. + Se más tenções puzerão nodoa fêa + Em nosso firme amor, d'inveja pura, + Porque pagarei eu a culpa alhea? + Quem desta fé, quem dest'amor não cura, + Nunca teve sujeito o coração; + Queo firme amor com a alma eterna dura. + BELISA. + Mal conheces, Almeno, huma affeição; + Que s'eu desse amor tenho esquecimento, + Meus olhos magoados to dirão. + Mas teu sobejo e livre atrevimento, + E teu pouco segredo, descuidando, + Foi causa deste longo apartamento. + Vês as Nymphas do Tejo, que mudando + Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto + N'outra mais dura fórma traspassando. + Hum só segredo meu te manifesto: + Que te quiz muito em quanto Deos queria; + Mas de pura affeição, d'amor honesto. + E pois de teus descuidos e ousadia + Nasceo tão dura e aspera mudança, + Fólgo; que muitas vezes to dizia. + Fica-te embora, e perde a confiança + De ver-me nunca mais, como ja viste: + Que assi se desengana huma esperança. + ALMENO. + Oh duro apartamento! oh vida triste! + Oh nunca acontecida desventura! + Pois como, Nympha? assi te despediste? + Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!) + Nesta sylvestre e aspera rudeza + Tão branda e excellente formosura? + Tua nunca entendida gentileza, + E teus membros assi se transformárão, + Negando-se-lhe a propria natureza? + Dest'arte os teus cabellos se tornárão + (Deixando ja seu preço ao ouro fino) + Em fôlhas, que a côr t[~e]e do que negárão? + S'este consentimento foi divino, + Consinta-me tambem que perca a vida, + Antes que a mais m'obrigue o desatino. + Pois se a fortuna sempre embravecida + Em meu tormento tanto se desmede, + Não viva mais hum'alma tão perdida. + E vós, feras do monte, pois vos pede + Minha pena o remedio derradeiro, + Fartae ja de meu sangue vossa sêde. + E vós, pastores rudos deste outeiro, + Porque a todos, emfim, se manifeste + Que cousa he amor puro e verdadeiro; + Á sombra deste funebre cypreste + Me fareis hum sepulcro sem arrêo + De boninas que o prado ameno veste. + As desusadas musicas de Orphêo + Aqui me cantareis; e desta sorte + Não haverei inveja ao mausolêo. + E porqu'a minha cinza se conforte, + Em vossos metros doces e suaves + As exequias direis de minha morte. + Alli responderão as altas aves, + Não módulas no canto nem lascivas, + Mas de dor ora roucas, ora graves. + Não correrão as águas fugitivas, + Alegres por aqui, mas saudosas, + Que pareça que vem dos olhos vivas. + Nascerão por as praias deleitosas + Os asperos abrolhos em lugar + Dos roxos lirios, das pudicas rosas. + Não trarão as ovelhas a pastar + De redor do sepulcro os guardadores; + Pois nada comerião de pezar. + Virão os Faunos, guarda dos pastores, + Se morri por amores, perguntando; + Responderão os ecos: _Por amores_. + Dos que por aqui forem caminhando, + Hum epitaphio triste se lerá, + Qu'esteja minha morte declarando. + E no tronco de huma árvore estara, + N'huma rude cortiça pendurado + Escripto co'huma fouce, e assi dirá: + _Almeno fui, pastor de manso gado, + Em quanto o consentio minha ventura, + De Nymphas e pastores celebrado. + Se algum dia, por caso, na 'spessura + Se perder o amor e a affeição, + Tirem a pedra desta sepultura, + E em figura de cinza os acharão._ + + +ECLOGA IV. + + +INTERLOCUTORES. + +FRONDOSO e DURIANO. + + Cantando por hum valle docemente + Descião dous pastores, quando Phebo + No reino Neptunino se escondia: + De idade cada qual era mancebo; + Mas velho no cuidado, e descontente + Do que lh'elle causava parecia. + O que cada hum dizia + Lamentando seu mal, seu duro fado, + Não sou eu tão ousado, + Que o pretenda cantar sem vossa ajuda: + Porque se a minha ruda + Frauta deste favor vosso for dina, + Posso escusar a fonte Caballina. + Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso; + Em vós tenho Calliope e Thalia; + E as outras sete irmãas, co'o fero Marte; + Em vós deixou Minerva sua valia; + Em vós estão os sonhos do Parnaso; + Das Pierides em vós s'encerra a arte. + Com qualquer pouca parte, + Senhora, que me deis d'ajuda vossa + Podeis fazer qu'eu possa + Escurecer ao sol resplandecente: + Podeis fazer que a gente + Em mi do grão poder vosso s'espante; + E que vossos louvores sempre cante. + Podeis fazer que cresça d'hora em hora + O nome Lusitano, e faça inveja + A Esmirna, que d'Homero s'engrandece. + Podeis fazer tambem que o mundo veja + Soar na ruda frauta o que a sonora + Cithara Mantuana só merece. + Ja agora me parece, + Que podem começar os meus pastores + A cantar seus amores. + Porqu'inda que presentes não estejão + As qu'elles ver desejão, + Mudança de lugar, menos d'estado, + Não muda hum coração do seu cuidado. + Ja deixava dos montes a altura, + E nas salgadas ondas s'escondia + O sol, quando Frondoso e Duriano, + Ao longo d'hum ribeiro, que corria + Por a mais fresca parte da verdura + Claro, suave e manso, todo o ano, + Lamentando seu dano, + Vinhão ja recolhendo o manso gado. + Hum estava callado, + Em quanto hum pouco o outro se queixava; + Apos elle tornava + A dizer de seu mal o que sentia; + E em quanto este fallava, aquelle ouvia. + Vinhão-se assi queixando aos penedos, + Aos sylvestres montes e á aspereza, + Que quasi de seus males se doião. + Alli as pedras perdião a dureza; + Alli correntes rios estar quedos, + Promptos ás suas queixas, parecião. + Somente as que podião + Estes males curar, pois os causavão, + O ouvido lhes negavão, + Por perderem de todo a esperança: + Mas elles, que mudança + D'amor com tantos damnos não fazião, + Com ellas fallando inda, assi dizião: + FRONDOSO. + Isto he o que aquella verdadeira + Fé, com que t'amei sempre, merecia, + Sem nunca te deixar hum só momento? + Como (cruel Belisa) t'esquecia + Hum mal, cuja esperança derradeira + Em ti só tinha pôsto o seu assento? + Não vias meu tormento? + Não vias tu a fé, com que t'amava? + Porque não t'abrandava + Est'amor, que me tu tão mal pagaste? + Mas pois ja me deixaste + Co'a esperança de ti toda perdida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Se os males que por ti tenho soffrido + (Oh Silvana, em meus males tão constante!) + Quizesses que algum'hora te dissera; + Inda que, qual durissimo diamante, + Fôra o teu cruel peito endurecido, + Creio que a piedade te movêra. + Ja agora em branda cera + Os montes são tornados e os penedos; + E os rios, qu'estão quedos, + Sentírão meus suspiros, minhas queixas. + Tu só, cruel, me deixas, + Qu'es mais, que montes e penedos, dura, + E fugitiva mais qu'a fonte pura. + FRONDOSO. + Ond'está aquella falla, que sohia + Só com seu doce tom, que me chegava, + Avivar-me os espiritos cansados? + Onde está o olhar brando, que cegava + O sol resplandecente ao meio dia? + Ond'estão os cabellos delicados, + Que ao vento espalhados + Escurecião o ouro, a mi matavão; + E a quantos os olhavão, + Causavão tambem novos accidentes? + Porque, cruel, consentes + Qu'outro goze da gloria a mi devida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Nenhum bem vejo, que a meu mal espere, + Se não fosse esperar que morte dura + Me venha emfim a dar a saudade. + Vejo faltar-me a tua formosura; + A vontade me diz que desespere, + Contradiz-me a razão esta vontade. + Diz qu'em huma beldade, + Em quem mostrou o cabo a natureza, + Não ha tanta crueza, + Qu'hum tão constante amor desprezar queira, + E fé tão verdadeira; + Mas tu, que de razão jamais curaste, + Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste. + FRONDOSO. + A quem, Belisa ingrata, t'entregaste? + A quem déste, cruel, a formosura, + Qu'a meu tormento só, só se devia? + Porqu'huma fé deixaste, firme e pura? + Porque tão sem respeito me trocaste + Por quem só nem olhar-te merecia? + O bem que t'eu queria, + E que não perderei se não por morte, + Não he de maior sorte, + Que quanto a cega gente estima e preza? + Só a tua crueza + Foi nisto contra mi endurecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Levaste-me o meu bem n'hum só momento; + Levaste-me com elle juntamente + De cobrá-lo jamais a confiança: + Deixaste-me em lugar delle sómente + Huma contínua dor, hum grão tormento, + Hum mal, de que não póde haver mudança. + Tu, qu'eras a esperança + Dos males que, cruel, tu me causaste, + De todo te trocaste, + Com Amor conjurada em minha morte. + Porém se a minha sorte + Consente que por ti seja causada, + Morte não foi mais bem-aventurada. + FRONDOSO. + Não nasceste d'alguma pedra dura; + Não te gerou alguma Tigre Hyrcana; + Não te criaste, não, entre a rudeza, + A quem, cruel, sahiste deshumana? + No ceo formada foi tal formosura, + Onde a mesma brandura he natureza. + Pois, logo, essa dureza + Donde teve princípio, ou a tomaste? + Porque, dura, engeitaste + De hum verdadeiro amor, que tu bem vias, + A fé, que conhecias, + Por outra de ti nunca conhecida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Vai-se co'o seu pastor o manso gado, + Porque d'amor entende aquella parte, + Qu'a natureza irracional lh'ensina. + O rustico leão sem algum'arte, + Do natural instincto só ensinado, + Aonde sente amor, logo se inclina. + E tu, que de divina + Não tens menos queVenus e Cupido, + Porque sequer co'o ouvido + Hum amor verdadeiro não soccorres? + Ah! porque te não corres + De que o leão te vença em piedade, + Se não te vence Venus na beldade? + FRONDOSO. + A mi não me faltava o que se preza + Entre os celestes deoses, que formárão + A tua mais que humana formosura: + Em mi os voluntarios ceos faltárão; + Em mi se perverteo a natureza + D'huma cruel formosa creatura. + Mas, pois, Belisa dura, + Que do mais alto ceo a nós vieste, + E em teu peito celeste + Hum tal contrário pôde aposentar-se, + Não he contrário achar-se + Tamanha fé tão mal agradecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Por ti a noite escura me contenta; + Por ti o claro dia m'aborrece; + Abrolhos me parecem frescas flores; + A doce Philomela m'entristece: + Todo contentamento m'atormenta + Com a contemplação de teus amores; + As festas dos pastores, + Que podem alegrar toda a tristeza. + Em mi tua crueza + Faz que o mal cada hora vá dobrando. + Oh cruel! até quando + Ha de durar em ti tal pensamento, + E a vida em mi, que soffre tal tormento? + FRONDOSO. + Fugiste d'hum amor tão conhecido, + Fugiste d'huma fé tão clara e firme; + E seguiste a quem nunca conheceste, + Não por fugir d'amor, mas por fugir-me; + Pois bem vês, quanto eu tinha merecido + Esse amor que tu a outro concedeste. + A mi não me fizeste + Alguma sem razão; que bem conheço + Que tanto não mereço: + Fizeste-a áquelle bem firme e sincero + Que sabes que te quero, + Em lhe tirar a gloria merecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Cresce cad'hora em mi mais o cuidado, + E vejo qu'em ti cresce juntamente + Cad'hora mais de mi o esquecimento. + Oh Silvana cruel! porque consente + Esse peito formoso e delicado + Que s'esqueça hum tão aspero tormento? + Tal aborrecimento + Merece hum capital teu inimigo: + Não eu, que só comtigo + Estou contente, e nada mais desejo, + Se algum'hora te vejo. + Tu es hum só meu bem, huma só gloria, + Que nunca se m'aparta da memoria. + FRONDOSO. + Olhos, que vírão tua formosura; + Vida, que só de ver-te se sostinha; + Vontade, qu'em ti'stava transformada; + Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha, + Tão unida comsigo, quanto a pura + Alma co'o debil corpo está liada; + E que agora apartada + Te vê de si com tal apartamento, + Qual será seu tormento? + Qual será aquelle mal que t[~e]e presente? + Maior he que o que sente + O triste corpo em última partida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Regendo em outro tempo o manso gado, + Tangendo a minha frauta nestes vales, + Passava a doce vida alegremente: + Não sentia o tormento destes males; + Menos sentia o mal deste cuidado; + Que tudo então em mi era contente. + Agora não somente + Desta vida suave m'apartaste. + Mas outra me deixaste, + Que ao duro mal que sinto ca no peito, + Me t[~e]e ja tão affeito, + Que sinto ja por gloria a minha pena, + Por natureza o mal, que me condena. + FRONDOSO. + Juntamente viver compridos anos, + Os fados te concedão, que quizerão + Ajuntar-te com tal contentamento. + Pois os bens para ti todos nascêrão, + Nascêrão para mi todos os danos, + Logra tu tua gloria, eu meu tormento. + Nenhum apartamento, + Belisa, me fara deixar d'amar-te; + Porqu'em nenhuma parte + Poderás nunca estar sem mi hum'hora. + Consente pois agora, + Qu'em pago desta fé tão conhecida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Veja-t'eu, crua, amar quem te desame, + Porque saibas que cousa he ser amada + De quem tanto aborreces e desprezas. + Veja-t'eu ser ainda desprezada + De quem tu mais desejas que te ame, + Porque sintas em ti tuas cruezas, + Sintas tuas durezas, + E quanto póde o seu cruel effeito + N'hum coração sujeito. + Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora, + Espero qu'algum'hora + Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te, + Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te. + FRONDOSO. + Mil annos de tormento me parece + Cad'hora que sem ti, sem esperança + Vivo de poder mais tornar a ver-te. + A vida só me dá tua lembrança; + A vida sôbre tudo m'entristece; + A vida antes perdêra, que perder-te. + Mas eu se, por querer-te + Hum bem qu'em ti só t[~e]e seu firme assento, + Padeço tal tormento, + Qu'esperará de ti quem te desama, + Ou quem ao menos te ama + Com algum falso amor, ou fé fingida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Então, cruel, verás se te merece + Com tamanho desprêzo ser tratada + Hum'alma, que d'amar-te só se preza. + Mas como poderás ser desprezada, + Se o menos qu'em ti fóra se parece, + Póde abrandar dos montes a aspereza? + Porque se a natureza + Em ti o remate poz da formosura, + Qual será a pedra dura, + Qu'a teu valor resista brandamente? + Que fará a fraca gente, + Se ao humano parecer não se defende, + E a mesma Venus deosa ao teu se rende? + FRONDOSO. + E pois fé verdadeira, amor perfeito, + Tormento desigual e vida triste, + Junta com hum contino soffrimento, + E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste, + Não puderão mover teu duro peito + A mostrares sequer contentamento + De ver o meu tormento; + Antes tudo soberba desprezaste, + E a outrem t'entregaste + Por nada me ficar em qu'esperasse, + Senão quando acabasse + A vida, a pezar meu, ja tão comprida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Longo curso de tempo, e apartado + Lugar a hum coração, que vive entregue, + Não podem apartar de seu intento. + Porque foges, cruel, a quem te segue? + Não vês que teu fugir he escusado, + Pois sem mim não estás hum só momento? + Nenhum apartamento, + Inda que a alma do corpo se m'aparte, + Poderá ja ausentar-te + Dest'alma triste, que continuamente + Em si te t[~e]e presente. + Torna, cruel; não fujas a quem t'ama: + Vem a dar vida, ou morte a quem te chama. + A noite escura, triste e tenebrosa, + Que ja tinha estendido o negro manto, + D'escuridade a terra toda enchendo, + Fez pôr a estes pastores fim ao canto, + Que ao longo da ribeira deleitosa + Vinhão seu manso gado recolhendo. + Se aquillo, qu'eu pretendo + Deste trabalho haver, que he todo vosso, + Senhora, alcançar posso; + Não será muito haver tambem a gloria + E o louro da victoria, + Que Virgilio procura e haver pretende, + Pois o mesmo Virgilio a vós se rende. + + +ECLOGA V. + +_Falla hum só pastor._ + + A quem darei queixumes namorados + Do meu pastor queixoso e namorado? + A branda voz, suspiros magoados, + A causa porque n'alma he magoado? + De quem serão seus males consolados? + Quem lhe fara devido gasalhado? + Só vós, Senhor famoso e excellente, + Especial em graças entr'a gente. + Por partes mil lançando a phantasia, + Busquei na terra estrella, que guiasse + Meu rudo verso; em cuja companhia + A santa piedade sempre andasse + Luzente e clara, como a luz do dia, + Que o rudo engenho meu m'allumiasse; + E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo + Ainda além cumprido o meu desejo. + A vós se dem, a quem junto se ha dado + Brandura, mansidão, engenho e arte, + D'hum esprito divino acompanhado, + Dos sobrehumanos hum em toda parte: + Em vós as graças todas se hão juntado; + De vós em outras partes se reparte. + Sois claro raio, sois ardente chama; + Gloria e louvor do tempo, azas da fama. + Em quanto eu apparelho hum novo esprito, + E voz de cysne tal, que o mundo espante, + Com que de vós, Senhor, em alto grito + Louvores mil em toda parte cante; + Ouvi o canto agreste em tronco escrito, + Entre vaccas e gado petulante: + Que quando tempo for, em melhor modo + Ha de m'ouvir por vós o mundo todo. + As vãas querellas, brandas e amorosas, + Sejão de vós tratadas brandamente; + Verdades d'alma pouco venturosas, + Sahidas com suspiro vivo e ardente: + Em vossas mãos s'entregão valerosas, + Porqu'ao futuro vivão entr'a gente, + Chorando sempre a antigua crueldade, + Para mover as almas a piedade. + Ja declinava o sol contra o Oriente, + E o mais do dia ja era passado, + Quando o pastor co'o grave mal que sente, + Por dar allívio em parte a seu cuidado, + Se queixa da pastora docemente, + Cuidando de ninguem ser escutado. + Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia + As mágoas que cantou; e assi dizia: + Ou tu do monte Pindaso es nascida, + Ou marmor te pario formosa e dura: + Não póde ser que fosse concebida + Dureza tal de humana creatura: + Ou quiçá qu'es em pedra convertida, + Ou tens da natureza tal ventura; + Porém não fez em ti boa impressão, + Só de marmor tornar-te o coração. + Ja, ja com minha voz rouca e chorosa + A gente mais austera moveria; + E com esta corrente lagrimosa + Os tigres em Hyrcania amansaria. + Se não fosses cruel, quanto formosa, + Meu longo suspirar t'abrandaria: + Mas suspirar por ti, mas bem querer-te, + Que fazem senão mais endurecer-te? + Se deixáras vencer a crueldade + De tua tão perfeita formosura; + Hum pouco víras bem minha vontade, + E víras a fé minha, limpa e pura, + Por ventura, que houveras ja piedade, + E tivera eu quiçá melhor ventura: + Mas nunca achou igual tua belleza, + Se não se foi em ti tua dureza. + Ja hum peito abrandára, que não sente, + Este meu grave mal, segundo he forte; + Se descêra do inferno ao Polo ardente, + A piedade movêra a propria morte. + Pois se huma gotta d'agua brandamente + Torna brando hum penedo, duro e forte, + Tantas lagrimas minhas não farão + Hum pequeno sinal n'hum coração? + Na testa fonte viva tenho d'ágoa, + Que por meus olhos tristes se derrama; + E no peito de fogo viva fragoa, + Que tudo em si converte, tudo inflama: + Amor em de redor, por maior mágoa, + Voando mais accende a ardente chama. + Se queres ver se ardentes são seus tiros, + Ólha se são ardentes meus suspiros. + Quando grita e rumor grande se sente, + Porque fogo se ateia em casa, ou torre, + De pura compaixão vai toda a gente, + Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre. + Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente, + E com a ágoa dos olhos se soccorre; + Que quem me abraza, outra ágoa me defende, + Porque com esta o fogo mais se accende. + Quando vemos que sahe lá no Oriente + O sol, seu curso antigo começando, + Formoso, intenso, puro, refulgente, + O monte, o campo, o mar, tudo alegrando; + Quando de nós s'esconde no Ponente, + E em outras terras sahe, allumiando, + Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro, + Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro. + Caminha o dia todo o caminhante, + E, emfim, lhe chega a noite, em que descança; + Trabalha na tormenta o navegante, + Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança; + Recobra o fructo fertil e abundante + Da terra o lavrador, se nella cança: + Mas eu de meu cuidado e mal tão forte + Tormento espero só, só crua morte. + D'ouvir meu damno as rosas matutinas, + Condoidas se cerrão, s'emmurchecem; + Com meu suspiro ardente as côres finas + Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem. + Co'a roxa aurora as pallidas boninas, + Em vez de se alegrarem, s'entristecem: + Deixão seu canto Progne e Philomena; + Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena. + Responde o monte concavo a meus ais, + E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido; + Os indomitos feros animais, + Sem humano sentir, mostrão sentido: + Mas em ti minhas dores desiguais + Nunca movem o peito endurecido: + Por muito que te chame, não respondes; + E quanto mais te busco, mais t'escondes. + Naquella parte donde costumavas + Apascentar meus olhos e teu gado; + Alli donde mil vezes me mostravas, + Qu'era o pastor de ti mais desejado, + Vezes mil te busquei, por ver se davas + Algum breve descanso a meu cuidado. + Busco-te em vão no valle, em vão no monte, + Qual o ferido cervo busca a fonte. + Este lugar de ti desamparado, + Com cujas sombras frias ja folgaste, + Agora triste, escuro he ja tornado; + Que todo o bem comtigo nos levaste. + Eras tu nosso sol mais desejado; + Não temos luz, despois que nos deixaste. + Torna, meu claro sol; torna, meu bem: + Qual he o Josué que te detém? + Despois que deste valle t'apartaste, + Não pasce ja algum gado, com seccura; + Seccou-se o campo, des que lhe negaste + Dos teus formosos olhos a luz pura; + Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste, + Quando menos, que agora, aspera e dura; + Nega sem ti a terra, ouvindo gritos, + Ás cabras pasto e leite a os cabritos. + Sem ti, doce cruel minha inimiga, + A clara luz, escura me parece: + Este ribeiro, quando a dor m'obriga, + Com meu chorar por ti contino crece. + Não ha fera, a que a fome não persiga; + Algum prado sem ti ja não florece: + Cegos estão meus olhos; nada vem, + Porque não podem ver seu claro bem. + O campo, como d'antes, não s'esmalta + De boninas azues, brancas, vermelhas; + Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta + As candidas pacíficas ovelhas: + Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta + As doces e solícitas abelhas: + Com lagrimas, que manão dos meus olhos, + A terra nos produz duros abrolhos. + Torna pois ja, pastora, ao nosso prado, + Se restituir-lhe queres a alegria: + Alegrarás o valle, o campo, o gado, + E aquelle espelho teu da fonte fria. + Torna, torna, meu sol tão desejado, + Faras a noite escura, claro dia; + E alegra ja esta vida magoada, + Em que só tua ausencia he Parca irada. + Vem, como quando o raio transparente + Deste nosso horizonte, qu'escondido, + Deixa hum certo temor á mortal gente, + Causado de ver o Orbe escurecido; + E quando torna a vir claro e luzente, + Alegra o mundo todo entristecido: + Que assi he para mi tua luz pura + Claro sol, como a ausencia noite escura. + Mas tu 'squecida ja do bem passado, + E do primeiro amor, que me mostraste, + Teu coração de mi t[~e]es apartado, + Não menos que do valle t'apartaste. + Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado? + Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste? + Onde o meu êrro viste, ou desvario, + Que pôde merecer-te hum tal desvio? + Bem vês que por Amor se move tudo, + E que delle não ha quem seja isento; + O mais simple animal, mais baixo e rudo, + O demais levantado pensamento: + Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo + Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento. + Pois as aves, que no ar cantando vôão, + Não menos humas d'outras s'affeiçôão. + A musica do leve passarinho + Que sem concêrto algum sólta e derrama, + De hum raminho saltando a outro raminho, + Mostra que por amor suspira e chama. + Em quanto no secreto amado ninho + Não acha aquelle, que só busca e ama, + No canto, a nós alegre, triste chora, + Porque teme perder a quem namora. + A fera, que he mais fera, e o leão, + Sempre acha outro leão, sempre outra fera, + Em quem possa empregar huma affeição, + Que o conversar no peito seu lhe gera: + Tambem sabe sentir sua paixão, + Tambem suspira, morre, desespera; + Acena, salta, brada, ferve e geme; + E não temendo a nada, a Amor só teme. + O cervo, qu'escondido e emboscado, + Temendo ao cobiçoso caçador, + Está na selva, monte, bosque, ou prado, + Alli donde anda e vive, vive amor. + De temor e d'amor acompanhado, + Com justa causa amor t[~e]e e temor: + Temor a quem para feri-lo vinha, + Amor a quem ja, ja ferido o tinha. + Pois se a fera insensivel, que não sente, + Tambem sente d'Amor a frecha dura, + Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente, + Que procede da tua formosura? + Porqu'escondes a luz do sol á gente, + Que nesses olhos trazes bella e pura? + Mais pura, mais suave, mais formosa, + Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa. + Póde ser, se me visses, que sentiras + Ver liquidar hum peito em triste pranto; + E bem pouco fizeras, se me viras, + Pois eu só por te ver suspiro tanto: + As mágoas, os suspiros, que m'ouviras + Te puderão mover a grande espanto, + A dor, a piedade, a sentimento, + E a mais, que para mais he meu tormento. + Os pensamentos vãos, que o vento leve: + O suspirar em vão tambem ao vento; + Hum esperar á calma, á chuva, á neve, + E nunca poder ver-te hum só momento; + Tormento he, que somente a ti se deve. + E se póde inda haver maior tormento, + Quem te vio, e se vê de ti ausente, + Muito mais passará mais levemente. + Faz mossa a pedra dura em sua dureza + Com a ágoa que lhe toca brandamente; + Abranda o ferro forte a fortaleza, + Se lhe toca tambem o fogo ardente: + Em ti só desconheço a natureza; + Que, a ser de pedra ou ferro totalmente, + Ja teu peito cruel fôra desfeito + Das ágoas e das chammas do meu peito. + Quando a formosa Aurora mostra a fronte, + Alegra toda a terra, vendo o dia; + Quando Phebo apparece no horizonte, + Manifesta tambem grande alegria; + Contente pasce o gado ao pé do monte, + Contente a beber vai na fonte fria: + Está tudo contente, alegre tudo; + Eu só, só pensativo, triste e mudo. + Se ja d'alma e do corpo tens a palma, + E do corpo sem alma não tens dó, + Ha dó do corpo só, qu'está sem alma, + Pois sem alma não vive o corpo só. + Nas chammas e no ardor, no fogo e calma, + Na affeição, no querer eu sou hum só: + Não acharás vontade tão captiva; + Nem outra como a tua tão esquiva. + Se te apartas por não ouvir meu rôgo, + Onde estiveres te hei d'importunar: + Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo, + Comtigo em toda parte m'has d'achar; + Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo, + Emquanto eu vivo for, hão de durar; + Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte, + Que não se ha de soltar em vida, ou morte. + Neste meu coração sempr'estaras, + Emquanto a alma estiver com elle unida: + Tambem o meu esprito possuirás + Despois que a alma do corpo for partida. + Por mais e mais que faças, não faras + Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida: + Impossivel sera qu'eternamente + Ausente estês de mim, estando ausente. + Cá m'acompanhará vossa memoria, + Se o rio, que se diz do esquecimento, + Da minha não borrar tão longa historia, + Tão grave mal, tão duro apartamento. + Até quando vos veja entrar na gloria, + Viverei n'hum contino sentimento: + E ainda então vereis (s'isto ser possa) + Esta minh'alma lá servir a vossa. + Aqui com grave dor, com triste accento, + Deo o triste pastor fim a seu canto: + Co'o rosto baixo e alto o pensamento, + Seus olhos começárão novo pranto: + Mil vezes parar fez no ar o vento, + E apiedou no ceo o coro santo: + As circumstantes sylvas s'inclinárão, + Condoidas das mágoas qu'escutárão. + Com h[~u]a mão na face, reclinado, + Tão enlevado em sua dor estava, + Que, como em grave somno sepultado, + Não via que ja o sol no mar entrava. + Berrando andava em roda o manso gado, + Que o seguro curral ja desejava: + Nas covas as raposas, e em seus ninhos + Se recolhem os simples passarinhos. + Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto + O mocho com funesto e triste canto: + Ao som delle o pastor ergueo o rosto, + E vio a terra envolta em negro manto. + Quebrando então o fio de seu gôsto, + E o fio não quebrando de seu pranto, + Por não se descuidar de seu cuidado, + Levou para os curraes o manso gado. + + +ECLOGA VI + + +INTERLOCUTORES + +AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador. + + A rustica contenda desusada + Entr'as Musas dos bosques, das areias, + De seus rudos cultores modulada; + A cujo som attonitas e alheias + Do monte as brancas vaccas estiverão, + E do rio as saxatiles lampreias; + Desejo de cantar. Que se movêrão + Os troncos ás avenas dos pastores, + E ja sylvestres brutos suspendêrão. + Não menos o cantar dos pescadores + As ondas amansou do fundo pégo, + E fez ouvir os mudos nadadores. + E se por sustentar-se o moço cego + Nos trabalhos agrestes a alma inflama, + O que he mais proprio no ocio e no socêgo; + Mais maravilhas dando á voz da fama, + No mesmo mar undoso e vento frio + Brazas roxas accende a roxa flama. + Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio, + Cuja frondente coma ja cobrio + De Luso todo o gado e senhorio; + E cujo são madeiro ja sahio + A lançar a forçosa e larga rede + No mais remoto mar que o mundo vio; + E vós, cujo valor tão alto excede, + Que, a cantá-lo com voz alta e divina, + A fonte do Parnaso move a sêde; + Ouvi da minha humilde çanfonina + A harmonia, que vós ja levantais + Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina. + Mas se agora que affabil m'escutais, + Não ouvirdes cantar com alta tuba + O que vos deve o mundo, que dourais; + E se os Reis avós vossos, que de Juba + Os Reinos debellárão, não ouvis + Que nas azas do excelso verso suba; + Se não sabem as frautas pastoris + Pintar de Toro os campos semeados + D'armas e corpos fortes e gentis; + Por hum Moço animoso sustentados, + Contra o indomito Rei de toda Hespanha, + Contra a fortuna vãa e injustos fados: + Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha, + Do Olympo fez descer o duro Marte, + E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha; + Se não sabem cantar a menor parte + Do sapiente peito e grão conselho, + Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te; + Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho, + Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas, + Porque a elle se affeitem como a espelho; + Saberão bem cantar, em nada vãas, + D'Alicuto as contendas e d'Agrario; + Hum d'escamas coberto, outro de lãas. + Vereis, Duque sereno, o estylo vário, + A nós novo, mas n'outro mar cantado + De hum, que só foi das Musas secretario: + O pescador Sincero, que amansado + T[~e]e o pégo de Prochyta co'o canto + Por as sonoras ondas compassado. + Deste seguindo o som, que póde tanto, + E misturando o antigo Mantuano, + Façamos novo estylo, novo espanto. + Partira-se do monte Agrario insano + Para onde a fôrça só do pensamento + Lh'encaminhava o lasso pêzo humano. + Embebido em hum longo esquecimento + De si, e do seu gado e pobre fato, + Apos hum doce sonho e fingimento, + Rompendo as sylvas horridas do mato, + Vai por cima d'outeiros e penedos, + Fugindo, emfim, de todo humano trato. + Ante os seus olhos leva os olhos ledos + Da branca Dinamene, qu'enverdece + Só co'o meneo valles e rochedos. + Ora se ri comsigo, quando tece + Na phantasia algum prazer fingido; + Ora falla; ora mudo s'entristece. + Qual a tenra novilha, que corrido + T[~e]e montanhas fragosas e espessuras, + Por buscar o cornigero marido; + E cansada nas humidas verduras + Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro, + Ja quando as sombras vem cahindo escuras; + E nem co'a noite ao valle seu primeiro + Se lembra de tornar, como sohia, + Perdida por o bruto companheiro: + Tal Agrario chegado, emfim, se via + Onde o grão pégo horrisono suspira + N'huma praia arenosa, humida e fria. + Tanto que ao mar estranho os olhos vira, + Tornando em si, de longe ouvio tocar-se + De douta mão não vista e nova lira. + Fez-lhe o som desusado desviar-se + Para onde mais soava, desejando + D'ouvir e conversar, e de provar-se. + Muito não tinha proseguido, quando + Em a concavidade d'hum penedo, + Que pouco a pouco fôra o mar cavando, + Topou hum pescador, que prompto e quedo, + N'huma pedra assentado, brandamente + Tangendo, faz o mar sereno e ledo. + Mancebo era d'idade florecente, + Pescador grande do alto, conhecido + Por o nome de toda humida gente: + Alicuto se chama: que perdido + Era por a formosa Lemnoria; + Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido. + Por ella as redes lança noite e dia; + Por ella as ondas tumidas despreza; + Por ella soffre o sol e a chuva fria. + Co'o seu nome mil vezes a braveza + D'irados ventos amansou co'o verso, + Que remove das rochas a dureza. + E agora em som de voz, suave e terso, + Está seu nome aos ecos ensinando + Por estylo do agreste som diverso. + Ouvindo Agrario, attonito, affroxando + Da phantasia hum pouco seu cuidado, + Suspenso esteve os numeros notando. + Mas Alicuto, vendo-se estorvado + Por hum pastor da musica divina, + O rosto levantou bem socegado, + E disse assi: Vaqueiro da campina, + Que vens buscar ás arenosas praias, + Onde a bella Amphitrite só domina? + Que razão ha, pastor, para que saias + A este nosso escamoso e vil terreno + Dos teus floridos myrtos e altas faias? + Pois s'agora o mar vês brando e sereno, + E estender-se estas ondas por a areia, + Amansadas das mágoas, com que peno, + Logo verás o como desenfreia + Eolo o vento por o mar undoso, + De sorte que Neptuno se receia. + Responde Agrario: Oh musico e amoroso + Pescador! eu não venho a ver o lago + Bravo e quieto, ou vento brando e iroso; + Mas o meu pensamento, com que apago + As flammas ao desejo, me trazia + Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago: + Até que a tua angelica harmonia + M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas + A tua perigosa Lemnoria. + Mas se de ver-me cá no mar t'espantas, + Eu m'espanto tambem do estylo novo + Com que as ondas horrisonas quebrantas. + Porém se com verdade o louvo e approvo, + Desejo de o provar contra o sylvestre + Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo. + E tu, que no tocar pareces mestre, + Bem julgarás se ha clara differença + Entr'o canto maritimo e o campestre. + Não ha (disse Alicuto) em mi detença: + Alvorôço antes ha, por mais que veja + Que a tua confiança só me vença. + Mas, porque saibas que nenhuma inveja + Os pescadores temos aos pastores + Do som que pelo mundo se deseja, + Toma a lyra na mão, que os moradores + Do vitreo fundo vendo estou juntar-se + Para ouvir nossos rusticos amores. + Bem vês por essa praia presentar-se + Nas conchas vária côr á vista humana; + E o mar vir por entr'ellas e tornar-se. + Socegada do vento a furia insana, + Encrespa brandamente o ameno rio, + Que seu licor aqui mistura e dana. + Estepenedo concavo e sombrio, + Que de cangrejos ves estar coberto, + Nos dá abrigo do sol, quieto e frio. + Tudo nos mostra, emfim, repouso certo, + E nos convida ao canto, com que os mudos + Peixes sahem ouvindo ao ar aberto. + Assi se desafião estes rudos + Poetas, nos officios discrepantes; + Nos engenhos porém subtis e agudos. + Eis ja mil companheiros circumstantes + Estavão para ouvir, e apparelhavão + Ao vencedor os premios semelhantes. + As bem sonantes lyras se tocavão; + Agrario começava, e da harmonia + Os pescadores todos s'admiravão; + E dest'arte Alicuto respondia. + AGRARIO. + Vós semicapros deoses do alto monte, + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; + E vós, deosas do bosque e clara fonte, + E dos troncos que vivem largos anos; + Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte + A nossos versos rusticos e humanos, + Ou me dae ja a capella de loureiro, + Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro. + ALICUTO. + Vós humidas deidades deste pégo, + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo; + Vós, Nereidas do sal em que navego, + Por quem do vento as furias pouco temo; + Se ás vossas sacras aras nunca nego + O congro nadador na pá do remo, + Não consintais, que a musica marinha + Vencida seja aqui na lyra minha. + AGRARIO. + Pastor se fez hum tempo o moço louro, + Que do sol as carretas move e guia; + Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro, + Que o seu claro inventor alli tangia. + Io foi vacca; Jupiter foi touro: + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria + Guardou formoso Adonis; e tornado + Em bezerro Neptuno foi ja achado. + ALICUTO. + Pescador ja foi Glauco, e deos agora + He do mar; e Protêo Phocas guarda. + Nasceo no pégo a deosa, que he senhora + Do amoroso prazer, que sempre tarda. + Se foi bezerro o deos, que cá se adora, + Tambem ja foi delfim. Se se resguarda, + Vê-se que os moços pescadores erão, + Que o escuro enigma ao primo Vate derão. + AGRARIO. + Formosa Dinamene, se dos ninhos + Os implumes penhores ja furtei + Á doce Philomela; e dos murtinhos + Para ti (fera!) as flores apanhei; + E se os crespos madronhos nos raminhos + Com tanto gôsto ja te presentei, + Porque não dás a Agrario desditoso + Hum só revolver d'olhos piedoso? + ALICUTO. + Para quem trago d'ágoa em vaso cavo + Os curvos camarões vivos saltando? + Para quem as conchinhas ruivas cavo + Na praia, os brancos buzios apanhando? + Para quem de mergulho no mar bravo + Os ramos de coral vou arrancando, + Senão para a formosa Lemnoria, + Que co'hum só riso a vida me daria? + AGRARIO. + Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno, + D'atras nuvens vestido, horrido e feio, + Ennegrecendo á vista o ceo superno, + Quando os troncos arranca o rio cheio; + Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno, + Que ao mundo mostra hum pallido receio: + Tal o amor he cioso, a quem suspeita + Que outrem de seus trabalhos se aproveita. + ALICUTO. + Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante + Furor lançando flammas e bramidos, + Quando as pasmosas serras traz diante, + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos: + A braços derribando o ja nutante + Mundo, co'os elementos destruidos: + Assi me representa a phantasia + A desesperação de ver hum dia. + AGRARIO. + Minha alva Dinamene, a primavera, + Que os deleitosos campos pinta e veste, + E rindo-se huma côr aos olhos gera, + Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste; + As aves, as boninas, a verde hera, + E toda a formosura amena agreste + Não he para os meus olhos tão formosa, + Como a tua, que abate o lirio e rosa. + ALICUTO. + As conchinhas da praia, que presentão + A côr das nuvens, quando nasce o dia; + O canto das Sirenas, que adormentão; + A tinta, que no Murice se cria; + O navegar por ondas, que se assentão + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. + AGRARIO. + A deosa, que na Lybica lagôa + Em fórma virginal appareceo, + Cujo nome tomou, que tanto sôa, + Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: + Garços os t[~e]e; mas huma, que a corôa + Das formosas do campo mereceo, + Da côr do campo os mostra graciosos. + Quem diz, que não são estes os formosos? + ALICUTO. + Perdoem-me as deidades; mas tu, diva, + Que no liquido marmore es gerada, + A luz dos olhos teus, celeste e viva, + T[~e]es por vício amoroso atravessada: + Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva + De luz o dia, baixa e socegada + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego; + E com toda esta luz sempre estou cego. + Assi cantavão ambos os cultores + Do monte e praia, quando os atalhárão; + A hum pastores, a outro pescadores. + E quaesquer a seu Vate coroárão + De capellas idoneas e formosas, + Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão: + A Agrario de murtinhos e de rosas; + A Alicuto d'hum fio de torcidos + Buzios, e conchas ruivas e lustrosas. + Estavão n'ágoa os peixes embebidos + Com as cabeças fóra; e quasi em terra + Os musicos delfins estão perdidos. + Julgavão os pastores que na serra + O cume e preço está do antigo canto; + Que quem o nega, contra as Musas erra. + Dizem os pescadores que outro tanto + T[~e]e na sonora frauta, quanto teve + O monte pastoril da antigua Manto. + Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve + Molhava n'ágoa amara, e compellia + A recolher a roxa tarde e breve: + E foi fim da contenda o fim do dia. + + +ECLOGA VII. + + +INTERLOCUTORES. + +SATYRO I. SATYRO II. + + As doces cantilenas, que cantavão + Os semicapros deoses, amadores + Das Napêas, que os montes habitavão, + Cantando escreverei: que se os amores + A sylvestres deidades maltratárão, + Ja ficão desculpados os pastores. + Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão + O claro Apollo e Marte hum ser perfeito, + Em quem suas altas mentes assinárão; + Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito, + Bem sabe onde se salva, pois pretende + Levantar com a causa o baixo effeito. + Em vós minha fraqueza se defende; + Em vós instilla a fonte do Pegáso, + O que o meu canto por o mundo estende. + Vêdes que as altas Musas do Parnaso + Cantando vos estão na doce lira, + Tomando-me das mãos tão alto caso. + Vêdes o louro Apollo, que me tira + De louvar vossa estirpe, e escurece + O que a vosso louvor meu canto aspira. + Ou por me haver inveja me fallece, + Ou por não ver soar na frauta ruda + O que a sonora cithara merece. + Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda, + Em quanto Progne triste o sentimento + Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda; + E em quanto Galatea ao manso vento + Sólta os cabellos louros da cabeça, + E Tityro nas sombras faz assento; + E em quanto flor aos campos não falleça, + (Se não recebeis isto por affronta) + Fará que o Douro e o Ganges vos conheça. + E ja que a lingua nisto fica pronta, + Consenti que a minha Ecloga se conte, + Em quanto Apollo as vossas cousas conta. + No cume do Parnaso, duro monte, + De sylvestre arvoredo rodeado, + Nasce huma crystallina e clara fonte, + Donde hum manso ribeiro derivado, + Por cima d'alvas pedras mansamente + Vai correndo suave e socegado. + O murmurar das ondas excellente + Os passaros incita, que cantando + Fazem o verde monte mais contente. + Tão claras vão as ágoas caminhando, + Que no fundo as pedrinhas delicadas + Se podem, huma e huma, estar contando. + Não se verão em derredor pizadas + De fera ou de pastor, que alli chegasse, + Porque de espesso monte são vedadas. + Herva se não verá, que alli criasse + O monte ameno, triste ou venenosa, + Senão que lá no centro as igualasse. + O roxo lirio a par da branca rosa, + A cecem pura, a flor que dos amantes + A côr t[~e]e magoada e saudosa; + Alli se vem os myrtos circumstantes + Que a crystallina Venus encobrírão, + Escondendo-a dos Faunos petulantes. + Hortelãa, mangerona, alli respirão, + Onde nem frio inverno, ou quente estio, + As murchárão jamais, ou sêccas vírão. + Dest'arte vai seguindo o curso o rio, + O monte inhabitado e o deserto + Sempre com verdes árvores sombrio. + Aqui huma linda Nympha, por acêrto + Perdida da fragueira companhia, + A quem este lugar era encoberto; + Cansada ja da caça vindo hum dia, + Quiz descansar á sombra da floresta, + E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria. + A novidade vendo manifesta + Do sítio, e como as árvores co'o vento + As calmas defendião da alta sesta; + Das aves o lascivo movimento, + Qu'em seus modulos versos occupadas + As azas dão ao doce pensamento; + Tendo notado tudo, ja passadas + As horas da grã sesta, se tornou + A buscar as irmãas, no centro, amadas. + Despois que largamente lhes contou + Do não visto lugar, que perto estava + E tanto por extremo a namorou, + Que ao outro dia fossem, lhes rogava, + A lavar-se em aquella fonte amena, + Que tão formosas ágoas destillava. + Ja tinha dado hum giro a luz serena + Do grão pastor d'Admeto, e já nascia + Aos ditosos amantes nova pena, + Quando as formosas Nymphas em porfia + Para o lugar do monte caminhavão, + Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria. + D'huma os louros cabellos s'espalhavão + Por o formoso collo sem concêrto, + E com mil nós suaves s'enlaçavão; + Outra, levando o collo descoberto, + Por mais despejo em tranças os atára, + Havendo por pezado o desconcêrto. + Dinamene e Ephyre, a quem topára + Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão + Seus delicados corpos n'ágoa clara; + Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão + Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa, + Destras nos arcos mais que quantas tirão; + A linda Daliana, com Belisa, + Ambas vindas do Tejo, que como ellas + Nenhuma tão formosa as hervas pisa: + Todas estas angelicas donzellas, + Por o viçoso monte alegres hião, + Quaes no ceo largo as nitidas estrellas. + Mas dous sylvestres deoses, que trazião + O pensamento em duas occupado, + A quem de longe mais que a si querião, + Não lhes ficava monte, valle ou prado, + Nem árvore, por onde quer que andavão, + Que não soubesse delles seu cuidado. + Quantas vezes os rios, que passavão, + Detiverão seu curso ouvindo os danos, + Que aos proprios duros montes magoavão! + Quantas vezes amor de tantos anos + Abrandára qualquer vontade isenta, + Se em Nymphas corações houvesse humanos! + Mas quem de seu cuidado se contenta, + Offereça de longe a paciencia; + Que Amor d'alegres mágoas se sustenta. + Que o moço Idalio quiz nesta sciencia + Que se compadecessem dous contrários. + Diga-o quem tiver delle experiencia. + Indo os deoses, emfim, por montes varios + Exercitando os olhos saudosos, + Ao crystallino rio tributarios; + Topárão dos pés alvos e mimosos + As pizadas na terra conhecidas, + As quaes forão seguindo pressurosos. + Mas, encontrando as Nymphas que despidas + Na clara fonte estavão, não cuidando + Que d'alguem fossem vistas ou sentidas, + Deixárão-se estar quedos, contemplando + As feições nunca vistas, de maneira + Que vissem, sem ser vistos, espreitando. + Porém a espessa mata, mensageira + Da cilada dos dous, com o rugido + Dos raminhos d'huma aspera aveleira, + Manifestando claro o escondido, + Todas huma alta grita levantárão, + Que o monte pareceo ser destruido. + Assi despidas logo se lançárão + Por a espessura tão ligeiramente, + Que mais que o proprio vento então voárão. + Qual o bando das pombas quando sente + A rapida aguia, cuja vista pura + Não obedece ao sol resplandecente; + Empresta-lhe o temor da mortedura + Nas azas novo alento; e, não parando, + Veloz rompendo o ar fugir procura: + Dest'arte as deosas timidas, deixando + De seu despôjo os ramos carregados, + Nuas por entre as sylvas vão voando. + Mas os amantes ja desesperados, + Que para as alcançar, emfim, se vião + Nada dos pés caprinos ajudados; + Com amorosos brados as seguião. + Hum só (que o outro ainda não tomava + Folego algum da pressa que trazião) + Desta sorte sentido se queixava: + SATYRO PRIMEIRO. + Ah Nymphas fugitivas, + Que só por não usar humanidade + Os perigos dos matos não temeis! + Para que sois esquivas? + Qu'inda de nós não peço piedade, + Mas dessas alvas carnes, que offendeis. + Ah Nymphas! não vereis + Que Eurydice, fugindo dessa sorte, + Fugio do amante, e não da fera morte? + Tambem assi Eperie foi mordida + Da vibora escondida. + Olhae a serpe occulta na herva verde. + Quem o rigor não perde, perde a vida. + Que tigre, ou que leão, + Que peçonhenta fera venenosa, + Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo? + D'hum brando coração, + Que preso dessa vista rigorosa + De si para vós foge, andais fugindo? + Olhae que em gesto lindo + Não se consente peito tão disforme; + Se não quereis que tudo se conforme. + Posto que bellas n'ágoa vos vejais, + Á fonte não creais, + Que vos traz enganadas por vingança + Desta nossa esperança, que enganais. + Mas ah! que não consinto + Que nem palavra minha vos offenda, + Postoque me desculpe a mágoa pura. + Digo, Nymphas, que minto: + Pois mal póde haver nunca quem pretenda + Negar-vos essa rara formosura. + Se amor de tanta dura + Por tanto mal tão pouco bem merece, + Não estranheis, minh'alma se endoudece: + Que se doudices falla d'improviso + Sem tento e sem aviso, + Queira Deos, que dureza tão crescida + Me não prive da vida além do siso. + Cousas grandes e estranhas + Por o mundo t[~e]e feito e faz natura, + Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão. + Nas Libycas montanhas + As Scitales são feras, de pintura + Tão singular, que só co'a vista encantão. + As hienas levantão + A voz tão natural á voz humana, + Que a quem as ouve, facilmente engana. + E vós (ó gentis feras) cujo aspeito + O mundo t[~e]e sujeito, + Tendes de natureza juntamente + A vista e voz de gente, e fero o peito. + Das amorosas leis, + Com que liga natura os corações, + Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura? + Como? E não vos correis + D'haver em vós tão duras condições, + Que possão mais que a próvida natura? + Se vossa formosura + He sobrenatural, não he forçado + Que assi tenha tambem o peito irado: + Antes ao puro Amor, em cuja mão + Os corações estão, + Por vossa gentileza tão formosa + Lhe deveis amorosa condição. + Amor he hum brando affeito, + Que Deos no mundo poz e a natureza, + Para augmentar as cousas que creou. + De Amor está sugeito + Tudo quanto possue a redondeza: + Nada sem este affecto se gerou. + Por elle conservou + A causa principal o mundo amado, + Donde o pae famulento foi deitado. + As cousas elle as ata e as confórma + Com o mundo, e reforma + A materia. Quem ha que não o veja? + Quanto meu mal deseja sempre fórma. + Entre as plantas do prado + Não ha machos e femias conhecidas, + Que junto huma da outra permanece? + Não estão carregados + Os ulmeiros das vides retorcidas, + Onde o cacho enforcado amadurece? + Não vêdes que padece + Tanta tristeza a rôla por a morte + Da sua amada e unica consorte? + Pois lá no Olympo, a quantos captivou + Cupido e maltratou? + Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella, + Que ja na sua téla o debuxou. + Ah caso grande e grave! + Ah peitos de diamante fabricados, + E das leis absolutos naturais! + Aquelle amor suave, + Aquelle poder alto, que forçados + Os deoses obedecem, desprezais? + Pois quero que saibais, + Que contra o fero Amor nunca houve escudo: + Costume he seu tomar vingança em tudo. + Eu vos verei lançar em hum momento + Suspiros mil ao vento, + Lagrimas, triste pranto e nova dor + Por quem tenha outro amor no pensamento. + Mais quizera dizer + O desditoso amante, que ajudado + Se via então da mágoa e da tristeza; + Mas foi-lho defender + O outro companheiro, como irado + Com tão disforme e aspera dureza. + Aquillo que a rudeza + D'huma sciencia agreste lh'ensinára, + Disse, qual se em tal ponto despertára + D'horrendo sonho com pezado grito. + O mais que alli foi dito, + Vós, montes, o direis, e vós penedos; + Qu'em vossos arvoredos anda escrito. + SATYRO SEGUNDO. + Nem vós nascidas sois de gente humana, + Nem foi humano o leite que mamastes, + Mas de alguma disforme fera Hyrcana: + Lá no Caucaso horrendo vos criastes: + Daqui trouxestes a aspereza insana; + Daqui os calidos peitos congelastes. + Sois Esphinges nos gestos naturais, + Que de humanas os rostos só mostrais. + Se vós fostes criadas na espessura, + Onde não houve cousa que se achasse, + Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura, + Qu'em seu passado tempo não amasse, + Nem a quem a affeição suave e pura + Nessa presente fórma não mudasse; + Porque não deixareis tambem memoria + De vós em namorada e longa historia? + Olhae como, na Arcadia soterrando + O namorado Alpheo su'ágoa clara, + Lá na ardente Sicilia vai buscando + Por debaixo do mar a Nympha chara. + Assi tambem vereis passar nadando + Atys, que Galatêa tanto amára, + Por onde do Cyclopea grande mágoa + Converteo do mancebo o sangue em ágoa. + Virae os olhos, Nymphas, á Erycina + Espessura; vereis alli mudar-se + Egeria, e em fonte clara e crystallina + Por a morte de Numa distillar-se. + Olhae que a triste Byblis vos ensina, + Com perder-se de todo e transformar-se + Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto, + Que accrescentarão sempre o verde manto. + E s'entre as claras ágoas houve amores, + Os penedos tambem forão perdidos. + Olhae os dous conformes amadores + Lá no monte Ida em pedra convertidos: + Lethêa, por cahir em vãos errores + De sua formosura procedidos; + Oleno, porque a culpa em si tomava, + Por escusar a pena a quem amava. + Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella, + Por quem Iphis no laço poz a vida. + Tambem vereis em pedra a Nympha bella, + Cuja voz foi por Juno consumida, + E, se queixar-se quer de sua estrella, + A voz extrema só lhe he concedida. + E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste + Primeiro ao monte o doce verso agreste! + Tamanho amor lhe tinha a branda amiga, + Que em inimiga, emfim, se foi tornando: + Porque outra Nympha estranha ja o sogiga, + Suas magicas hervas vai buscando. + Olhae a quanto a crua dor obriga! + Por vingar-se, assi irada transformando + O foi em pedra. Oh dura confusão! + Despois lhe pezaria; mas em vão. + Olhae, Nymphas, as árvores alçadas, + A cuja sombra andais colhendo flores, + Como em seu tempo forão namoradas; + Do qu'inda agora o tronco sente as dores. + Vereis, entre as de fructo matizadas, + Como a côr das amoras he de amores: + O sangue dos amantes na verdura + Testimunha de Tisbe a sepultura. + E lá por a odorifera Sabêa + Não vêdes que de lagrimas daquella, + Que com seu pae se junta e se recrêa, + Arabia s'enriquece, e vive della? + Lembrai-vos da verde árvore Penêa, + Que foi ja n'outro tempo Nympha bella, + E Cyparisso angelico mancebo; + Ambos verdes com lagrimas de Phebo. + De Phrygia vêde o moço delicado + No mais alto arvoredo convertido, + Que tantas vezes fere o vento irado; + Galardão de seus erros merecido: + Pois, da alta Berecynthia sendo amado, + Por huma Nympha baixa foi perdido; + E a deosa, a quem perdeo do pensamento, + Quiz que tambem perdesse o entendimento. + O subito furor lhe figurava + Que as árvores e os montes se cahião; + Ja dos pudicos membros se privava, + Que os horrores a tanto o constrangião; + Ja indignado no monte se lançava: + De sua morte as feras se doião. + Dest'arte perdeo Atys na espessura, + Despois de tantas perdas, a figura. + Lembre-vos quando as gentes celebravão + Em Grecia as grandes festas de Liêo, + Onde as formosas Nymphas se juntavão, + E os sacros moradores do Licêo. + Todos em doce somno se occupavão + Por o monte, despois que anoiteceo; + Mas o deos do Hellesponto não dormia; + Que hum novo amor o somno lh'impedia. + Mas ella emfim, os braços estendendo, + Em ramos se lhe forão transformando; + Em raizes os pés se vão torcendo; + E o nome Loto só lhe vai ficando. + Vêde, Napêas, este caso horrendo, + Que vos está de longe ameaçando. + Assi tambem daquella, a quem seguia + O sacro Pan, a fórma se perdia. + Que vos direi de Filis, pois perdida + Da saudosa dor com que vivia, + Á desesperação emfim trazida + Do comprido esperar de dia em dia, + Por desatar do corpo a triste vida + Atava ao collo a cinta que trazia. + Mas o tronco sem fôlha por o monte + Rhodope abraça o lento Demophonte. + Nas boninas, tambem vereis Jacinto, + Porquem Phebo de si se queixa em vão; + Vereis o monte Idalio em sangue tinto + Do neto de seu pae, da mãe irmão. + Chora Venus a dor do moço extinto, + Maldiz o ceo e a terra, com razão; + A terra, porque logo não se abrio; + O ceo, porque tal morte permittio. + E tu, constante Clycie, a quem fallece + A fé de teus amores enganosos, + No louro amante, que de ti s'esquece, + S'esquecem os teus olhos saudosos. + Nenhum alegre estado permanece; + Que são do mundo os gostos mentirosos; + E á tua clara luz, por quem suspiras, + Ainda agora em herva os olhos víras. + Trago-vos estas cousas á lembrança, + Porque s'estranhe mais vossa crueza + Com ver que a criação e longa usança + Vos não perverte e muda a natureza. + Dou as lagrimas minhas em fiança, + Qu'em tudo quanto está na redondeza, + Cousa d'Amor isenta, se attentais, + Em quanto vos não virdes, não vejais. + Ja disse, que d'Amor sempre tiverão + As cousas insensiveis pena e gloria. + Vêde as sensiveis como se perdêrão. + E dir-vos-hei das aves larga historia: + As penas, qu'em su'alma se soffrêrão, + Nas azas lhes ficárão por memoria; + E aquelle altivo e leve movimento + Lhes ficou do voar do pensamento. + O doce rouxinol e a andorinha, + Donde lhes veio o ir-se transformando, + Senão do puro amor que o Thracio tinha, + Qu'em poupa ainda a amada vai chamando? + Clama sem culpa a misera avezinha, + Que n'areia de Phasis habitando, + Do rio toma o nome; e quando clama, + Cruel á mãe, ao pae injusto chama. + Vêde a que engeitou Pallas por fallar, + (Que dos amores he maior defeito) + E aquella, que succede em seu lugar, + Ambas aves; de amor usado effeito; + Huma, porque fugia ao deos do mar; + Outra, porque tentára o patrio leito: + E Scylla, que a seu pae poz em perigo, + Só por ser muito amiga do inimigo. + E Pico, a quem ficárão inda as côres + Da purpura Real, que antes vestia; + Esaco, que o seguir de seus amores + O trouxe a ver tão cedo o extremo dia: + Ou vêde os dous tão firmes amadores, + Que amor aves tornou na praia fria. + Do Rei dos ventos era genro o triste; + Mas contra o fado, emfim, nada resiste. + Estava a triste Halcyone, esperando + Com longos olhos o marido ausente; + Mas os ventos indomitos soprando, + Nas ágoas o affogárão tristemente. + Em sonhos se lh'está representando; + Que o coração preságo nunca mente: + Só do bem as suspeitas mentirão, + Mas as do mal futuro certas são. + Ao pranto os olhos seus a triste ensaia; + Buscando o mar com elles hia e vinha: + Quando o corpo sem alma achou na praia. + Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha! + Ó Nereidas do Egêo, consolai-a, + Pois este pio officio vos convinha. + Consolai-a; sahi das vossas ágoas; + Se consolação ha em grandes mágoas. + Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando + Das avezinhas mansas e amorosas? + Pois tambem teve Amor natural mando + Entr'as feras montezes venenosas. + O leão e a leoa, como, ou quando + Taes formas alcançárão temerosas? + Sabe-o da deosa Dindymene o templo, + E a que a Adonis o dava por exemplo. + Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia; + Mas o grão Nilo o diga, pois a adora. + Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia + Do Pólo Boreal, onde ella mora. + O caso d'Acteon tambem diria + Em cervo transformado; e melhor fôra + Se dos olhos perdêra a vista pura, + Que em seus galgos achar a sepultura. + Tudo isto Acteon vio na fonte clara, + Onde a si d'improviso em cervo vio: + Que quem assi dest'arte alli o topára, + Que se mudasse em cervo permittio. + Mas, como o triste Principe em si achára + A desusada fórma, se partio. + Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando; + E, tendo-o alli presente, o vão buscando. + Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava; + Que a voz humana ja perdida tinha. + Qualquer delles por elle então chamava, + E a multidão dos cães contr'elle vinha. + Hum cervo acude a ver (qualquer gritava) + Acteon, donde estás? acude asinha, + Que tardar tanto he este? (repetia) + _He este, he este_, o eco respondia. + Quantas cousas em vão estou fallando + (Oh Napêas esquivas!) sem que veja + O peito de diamante hum pouco brando + De quem meu damno tanto só deseja. + Pois, por mais que de mi me andais tirando, + E por mais longa emfim que a vida seja, + Nunca em mi se verá tamanha dor, + Que Amor a não converta em mais amor. + Aqui (formosas Nymphas) vos pintei + Todo d'amores hum jardim suave; + D'ágoas, de pedras, d'árvores contei, + De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave. + Se este amor, que no peito aposentei, + Que dos contentamentos t[~e]e a chave, + Por dita em tempo algum determinasse + Que de tão longos damnos vos pezasse, + Quanto mais devagar vos contaria + De minha larga historia e não alheia? + E com quanta mais ágoa regaria, + Que o rio, de contente, a branca areia? + Novo contentamento me seria + Formar de meu cuidado a nova ideia: + E vós, gostando deste estado ufano, + Zombarieis então de vosso engano. + Mas com quem fallo ja? que estou gritando, + Pois não ha nos penedos sentimento? + Ao vento estou palavras espalhando; + A quem as digo, corre mais que o vento. + A voz e a vida a dor m'está tirando, + E o tempo não me tira o pensamento. + Direi, emfim, ás duras esquivanças + Que só na morte tenho as esperanças. + Aqui, sentido, o Satyro acabou, + Com huns soluços que a alma lhe arrancavão. + Os montes insensiveis, que abalou, + Nas ultimas respostas o ajudavão. + Então Phebo nas ágoas se encerrou + Co'os animaes que o mundo allumiavão; + E co'o luzente gado appareceo + A candida pastora por o ceo. + + +ECLOGA VIII. + + +PISCATORIA. + +_Sereno._ + + Arde por Galatêa branca e loura + Sereno pescador pobre, forçado + D'huma estrella, que quer á míngoa moura. + Os outros pescadores t[~e]e lançado + No Tejo as redes: elle só fazia + Este queixume ao vento descuidado: + Quando virá (formosa Nympha) hum dia, + Em que te possa dar a conta estreita + Desta doudice triste e vãa porfia? + Não vês, que me foge a alma e que m'engeita, + Buscando em hum só riso d'essa boca, + Nos teus olhos azues mansa colheita? + Se ao teu esprito alg[~u]a mágoa toca, + Se d'amor fica nelle huma pégada, + Que te vai, Galatêa, nesta troca? + Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada: + Não ta demandarei: dá-me por ella + Huma só volta d'olhos descuidada. + Se muito te parece, e minha estrella + Não consentir ventura tão ditosa, + Dou-te as azas do Amor perdidas nella. + Que mais te posso dar, Nympha formosa, + Inda que o mar d'aljofar me cubríra + Toda esta praia leda e graciosa? + Amansão-se ondas, quebra o vento a ira: + Minha tormenta só nunca socega; + O meu peito arde em vão, em vão suspira. + Anda no romper d'alva a nevoa cega + Sôbre os montes d'Arrabida viçosos, + Em quanto o solar raio lhes não chega. + Eu, vendo apparecer outros formosos + Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão, + Se os olhos cegos vi, vejo saudosos. + Quantas vezes as ondas se encrespárão + Com meus suspiros! quantas com meu pranto + As fiz parar de mágoa e me escutárão! + Se na fôrça da dor a voz levanto, + E ao som do remo, que ágoa vai ferindo, + Perante a lua meu cuidado canto; + Os maviosos delfins m'estão ouvindo; + A noite socegada; o mar callado: + Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo. + Estranhas, por ventura, o mar cercado + Da fraca rede; a barca ao vento solta; + E hum pobre pescador aqui lançado? + Antes que o sol no ceo cerre huma volta + Se póde melhorar minha ventura, + Como a outros succede, n'ágoa envolta. + Igual preço não he da formosura + D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia, + Mas hum amor, que para sempre dura. + Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia; + Verás teu nome na mimosa areia. + Nunca sôbre elle o mar com furia saia! + Vento algum atégora o não salteia: + Tres dias ha que escripto aqui o deixou + Amor, e o veda a toda fôrça alheia. + Elle com suas mãos proprio ajudou + A escolher estas conchas, affirmando + Que o sol para ti só as matizou. + Hum ramo te colhi de coral brando: + Antes que o ar lhe désse, parecia + O que de tua boca estou cuidando. + Ditoso se o soubesse inda algum dia! + + +ECLOGA IX. + + +PISCATORIA. + +_Palemo._ + + Despois que o leve barco ao duro remo, + Onde menos das ondas se temia, + Atou o pescador pobre Palemo; + Em quanto as negras redes estendia + Seu companheiro Alcão na branca arêa, + E Lico as longas cordas envolvia; + De cima d'huma rocha, a qual rodêa + O mar, quebrando nella de contino, + Começou a chamar por Galatêa. + Deixa o molle licor e crystallino, + (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja + Enxugar teu cabello d'ouro fino. + Inda que t[~e]e de ti tão grande inveja, + Não temas que te queime o rosto brando: + Basta para abrandar-se que te veja. + Não te detenhas mais, vem ja cortando + Com teu candido peito as brancas ondas, + Escumas menos brancas levantando. + Dar-te-hei (com condição que não t'escondas + De mi lá nessas humidas moradas, + E que algum'hora, branda me respondas) + Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas, + Todas d'huma feição; não d'huma côr, + Pois dellas são azues, dellas rosadas. + Indaque seja pobre pescador, + Não sei se em desprezar-me muito acertas, + Pois rico do amor teu me fez Amor. + Para ti n'outras praias mais desertas + Irei pescar por entre pedras duras, + Que sempre verde musgo t[~e]e cobertas, + As pardas ostras, onde gottas puras + De fresco orvalho, dentro endurecidas, + Não podem da cobiça estar seguras. + Porque deixas de vir? porque duvídas? + Por ventura d'algum meu companheiro? + Inda as redes ao sol t[~e]e estendidas. + Toda a noite pescárão, e primeiro + Querem dormir a sesta nesta praia, + Que o barco polo mar levem ligeiro. + Eu, vigiando aqui como atalaia, + Te chamarei, até que de cansado + Hum dia desta rocha abaixo caia, + Deixando este lugar tão infamado + Com minha morte, que dos marinheiros + Com o dedo de lá será mostrado. + Dirão os naturaes e os estrangeiros: + Alli morreo Palemo. Ai triste historia! + Guardae a nao de alli, ventos ligeiros. + Antes que tal succeda, vê que gloria + Alcanças com deixar aos navegantes + Da tua ingratidão esta memoria. + Da nossa differença não te espantes: + Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso, + Qual eu agora sou, tal era d'antes. + Tambem eu entre as hervas achar posso + Aquella, a quem o ceo deo tal virtude, + Que muda n'outro ser este ser nosso. + Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude, + Inda que vá a morar lá nessas ágoas, + Não temas que a mudança em mi o mude. + Serão as vivas ondas vivas frágoas, + Em que estarei ardendo noite e dia, + Se não tiveres dó de tantas mágoas. + As horas naturaes da pescaria + Não vês que vão passando? Como as passas? + Quem deste passatempo te desvia? + Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças + Dar em vão tantos gritos: vem; iremos + Ambos a levantar as verdes naças. + Ambos os anzoes curvos cobriremos + De mentirosas iscas, com que os peixes + A todo prazer nosso prenderemos. + Assi d'Amor cruel nunca te queixes, + E dessa formosura as mais formosas + Nymphas do mar azul vencidas deixes; + Que venhas (pois por ti com saudosas + Lagrimas vou gastando a vida e alma) + A tirar-me esperanças duvidosas. + A praia está callada, o mar em calma; + Por cima desta rocha brandamente + Zephyro respirando a desencalma. + Aqui não sinto cousa certamente + Porque deixes de vir, como sohías, + Senão, que não es tu disso contente. + Se desgostas das grossas pescarias, + Marisco appetitoso aqui não falta, + Ja sejão luas cheias, ja vazias. + Polos pés desta rocha dura e alta + Irei eu despegando huns como pés + D'hum pequeno animal, que nella salta. + E vivos te darei (se delles es + Amiga) mil cangrejos vagarosos, + Que verás ir andando de revés. + Não te darei ouriços espinhosos, + Porque te quero tanto, que receio + Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos. + Faz d'aqui perto o mar hum largo seio, + Onde de ameijoas lisas, sem trabalho, + Podemos apanhar hum cesto cheio. + Mas além de tudo isto hum crespo galho + De vermelho coral te darei logo, + Que por dita arrastou o meu tresmalho. + Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo; + Que nem tu a meus rogos tens respeito, + Nem eu, por mais que grite, desaffógo. + Hum coração em lagrimas desfeito + Como ja não te abranda? quem encerra + Crueza tal em tão formoso peito? + Não reina Amor no mar, como na terra? + Bem sabes que mil vezes ja venceo + A Neptuno teu Rei em clara guerra. + Sua formosa mãe onde nasceo, + Senão no proprio mar em que te banhas? + Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo? + Se das pedras nascesses nas montanhas, + Se com leite de tigres te criáras, + Mais duras não tiveras as entranhas. + Apparecêras tu, e então tornáras + Logo a esconder-te, logo, se quizeras + Nas ondas, que de ti me são avaras. + Com h[~u]a mostra só que de ti deras, + A vida, que me foge em não te vendo, + Co'os teus formosos olhos detiveras. + Então víras os meus, donde correndo + De lagrimas se vem dous largos rios, + Que o mar tambem em si vai recolhendo. + Ah nescio pescador! que desvarios + Me deixo aqui dizer! a quem os digo! + A surdas ondas ja, ja a ventos frios. + Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo + O barco vejo: ai! ei-lo combatido. + Ellas e elles o levão ja comsigo. + Olhos, que lá me tendes o sentido, + A culpa he vossa só, que me não vêdes. + Mas, pois o pescador anda perdido, + Perca-se o barco seu, percão-se as redes. + + +ECLOGA X. + + +PISCATORIA. + +_Meliso._ + + Encheo do mar azul a branca praia + Meliso pescador de mil querellas; + Meliso, que por Lilia arde e desmaia. + Despois que á luz da lua e das estrellas, + Sôbre dura fatexa o barco pôsto, + As redes recolheo, remos e velas: + Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto + Te move a me negar, vendo qual ando, + Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto? + Se tu queres que pene desejando, + Se queres que no mar em fogo viva; + Ardendo sempre estê, sempre penando. + Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva) + Que não merece ser tão mal tratada + Hum'alma desses olhos tão captiva. + Vives dos meus cuidados descuidada: + Coitado de quem traz a duvidosa + Vida no mar e terra aventurada! + Bem podes com razão ser piedosa + Com quem não quer mor bem, que bem quererte, + Não sendo tão cruel como es formosa. + Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te + A meus cansados olhos, que de tantas + Lagrimas são movidos, sem mover-te. + Se tu me vences, e se tu m'encantas + Com tua doce falla, doce riso, + Porque foges de mi? porque te espantas? + Lembre-te a formosura de Narciso, + E qual pago lhe deo seu desamor: + Ólha que com amor disto te aviso. + Mas quando essa crueza tanta for, + Que mereça do ceo novo castigo, + Qual herva será digna de tal flor? + Amor que me persegue, Amor que sigo, + Me faz d'hum grave mal andar temendo; + D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo. + Quanto mais ledo ja te estive vendo + Aqui as mansas ondas esperando, + Que por chegar a ti vinhão correndo, + E da molhada areia despegando + Com a candida mão roxas conchinhas, + A fórma do teu pé nella deixando? + Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas, + Muitas te trago aqui, postoque temo + Que menos o terás por serem minhas. + Hum temor tal me chega a tal extremo, + Que, vencido d'hum triste esquecimento, + No mar me cahe da mão o duro remo. + E quando a branca vela sólto ao vento, + Tão descuidado vou do fiel leme, + Que me leva a perder meu pouco tento. + Mas quem arde por ti, quem por ti treme, + Os seus maiores riscos não receia, + Os teus que sente mais, muito mais teme. + Despois que te não vi, (não sei que creia + Desta tardança tua e morte minha) + Sendo a lua vazia, he quasi cheia. + O tempo, que nos gostos passa asinha, + Detem-se neste mal da saudade, + Por me dobrar a dor que d'antes tinha. + Não desprezes, ó Lilia, huma vontade, + Que por te contentar tudo despreza, + Tudo julga, sem ti, por pouquidade. + Se pretendes amor, ja tens certeza + Que não podes ser nunca mais amada + Dos que vencidos traz tua belleza. + Se por ventura estás affeiçoada + A gentil parecer, a bom engenho, + A ninguem nestas partes devo nada. + Se fazes caso d'honra, ólha que venho + De geração d'honrados pescadores; + Se de riqueza, barco e redes tenho. + Por erros julgarás estes louvores; + E oxalá não os julgues por doudice! + Mas quem siso quer ter não tenha amores. + E mais tudo foi pouco quanto disse, + Pondo os olhos no muito que meu fado + Nos teus, que ver desejo, quiz que visse. + Aconteceo-me hum caso desusado, + (Inda que d'huma cousa n'outra salto) + Digno, por ser de amor, de ser contado. + Pescando hontem á tarde no mar alto, + Suspenso nessa rara formosura, + A quem com mil lembranças nunca falto, + Comecei a cantar: Lilia, mais dura + Que a mais inculta rocha rodeada + Do mar, de cujo encontro está segura; + Mais alva que jasmins, e mais córada + Que purpureas serejas polo Maio; + Mais loura que manhãa desentrançada; + Não vês... dizer queria que desmaio, + Quando (cousa que mal me será crida) + No mar, vencido d'hum, do barco caio? + Alli tivera fim a triste vida, + Se d'hum brando delfim, que me escuitava, + Não fôra, por ser tua, soccorrida. + Parece que tambem vencido estava + Do mal, de que me via andar vencido, + Quem em tamanho risco m'ajudava. + Trouxe-me sôbre si adormecido, + Nadando ao som das ondas mansamente, + Até que me sentio em meu sentido. + Livre deste mortal, bravo accidente, + Tal foi o espanto meu, tal meu temor, + Que d'outro me livrei escaçamente. + Mas logo o amoroso nadador + Me poz junto do barco, que tão perto + Esteve de ficar sem pescador. + O sol era de todo ja coberto, + Quando eu, entrando nelle, sahi fóra + Do perigo, onde tive o fim tão certo. + Porém outro maior me cansa agora, + De que mal sahirei, se te não vir + Amanhecer aqui co'a nova aurora. + Não póde ella tardar em descobrir + As suas louras tranças dasatadas, + Das quaes as tuas bem se podem rir. + Pois por cima das ondas, acordadas, + As Halcyoneas ouço lamentar-se, + Do seu antigo damno inda lembradas. + E sinto o fresco orvalho derramar-se + Mais congelado e frio; e Venus bella + Polo Oriente ja vejo levantar-se. + Bem podes, Lilia, competir com ella, + E com Pallas e Juno em gentileza; + Em amor não, pois elle nasceo della: + Desterrou-o de ti tua aspereza, + Que desterra de mi prazer e vida, + Deixando em seu lugar mágoa e tristeza. + No silencio da noite, que convida + A descanso commum, tanto me cança, + Que não sei se remedio ou morte pida. + Se tu quizesses dar-me huma esperança + De te servir de mi ou tarde, ou cedo, + Nunca me negaria o mar bonança. + Polas inchadas ondas, que põe medo, + Eu só, sem mais ajuda, levaria + Sempre á fôrça de braço o barco quedo. + Tão seguro por ellas andaria, + Como polo seu campo o lavrador + No mais quieto, claro e bello dia. + Ólha que não ha destro pescador, + Que mais manhoso as redes desencolha, + Nem os tortos anzoes isque melhor. + Os peixes deixarei em tua escolha: + Aquelles de que fores mais amiga, + Nunca te faltarão de fôlha a fôlha. + Não sei, Lilia formosa, que mais diga, + Que mova amor em ti, que mova mágoa; + Sei que mágoa, e que amor a mais obriga. + Mas antes que o sol dê naquella frágoa, + Onde meus ais dilata a triste Ecco, + Vou-me segurar mais o barco na ágoa, + Porque de baixa mar não fique em sêcco. + + +ECLOGA XI. + + +INTERLOCUTORES. + +ANZINO e LIMIANO. + + Parece-me, pastor, se mal não vejo, + Que ja te vi mais ledo andar outr'hora + Nos largos campos do famoso Tejo. + LIMIANO. + Podia ser; que muito tempo fóra + Andei desta ribeira, patria minha, + Onde triste me vez andar agora. + Tinha lá para mi, que a vida tinha + Mais socegada cá e mais segura, + Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha. + Foi d'outro parecer minha ventura: + Discordias sós achei, e achei dureza, + Em lugar de socêgo, e de brandura. + Achei as boas leis da natureza + Vencidas do interesse; e a gente cega, + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. + Dizem que quando o mar bonança nega, + Correndo vai aquella não mor prigo, + Que á desejada terra mais se chega. + Assi m'aconteceo a mi comigo; + Seguro sempre ao longe, sempre ledo; + Triste ao perto, e tratado como imigo. + ANZINO. + Sempre (podes-me crer este segredo) + Desejei de te ver; mas com desgôsto, + Inda te não quizera ver tão cedo. + Prestando para cousas de teu gôsto, + Como camaleão não mudo côres; + Qual he meu coração, tal he meu rosto. + LIMIANO. + Não são logo assi, não, outros pastores, + Que de promessas vãas te fazem rico, + E nunca fructo dão: tudo são flores. + Mas desejo saber com quem pratíco, + Porque não caia em falta, e porque entenda + A quem tamanho amor devendo fico. + ANZINO. + Antes que tempo nisso se dispenda, + Busquemos hum lugar mais fresco e frio, + Que da calma, que cahe, bem nos defenda. + LIMIANO. + Vamos alli, que alli bosque sombrio + Nos dara fresco abrigo, assento o prado, + Formosa vista o valle, o monte, o rio: + O rio, que verás tão socegado, + Que te parecerá que se arrepende + De levar ágoa doce ao mar salgado. + Nem cabra, nem ovelha alli offende + Herva, folha, nem flor, ou ferro duro: + A planta polo ar livre se estende. + Verás cahindo em gottas crystal puro + No vão d'huma caverna carcomida, + Por entre o musgo molle, verde-escuro. + ANZINO. + Quem traz á saudade a alma rendida, + A saudade busca, onde descansa; + Maso descanso della encurta a vida. + Com tudo, quem do ceo na terra alcansa + Poder gozar-se desta liberdade, + Que mais deseja ter? que mais o cansa? + Affirmo-te de mi esta verdade, + Que muitos valles vi, muitas ribeiras; + Mas esta me dobrou a saudade. + Oh que viçosas murtas! que oliveiras! + Que freixos! como estão d'hera cingidos! + Quantas voltas lhes dá de mil maneiras! + Os lirios junto d'ágoa bem nascidos + Quanta graça que t[~e]e entre as boninas, + Sem ordem, com mais graça, entremetidos! + Vem encrespando as ágoas crystallinas + A branda viração; a fôlha treme; + O movimento apenas determinas. + A rôla seu amor suspira e geme; + Escondida se queixa Philomella: + Parece que do campo inda se teme. + Espanta a quem se atreve, ver aquella + Rocha por cima d'ágoa pendurada + Como ja se não deixa cahir nella. + Ó ribeira do Lima, celebrada + De mil brandos espritos sempre sejas, + Sempre de brandas Nymphas povoada. + Fujão longe de ti duras invejas; + Peçonha de pastores, morte sua: + Tudo sintas amor, tudo amor vejas. + De dia o claro sol, de noite a lua, + Em teu favor inspirem de maneira, + Que sempre fertil seja a praia tua. + Tornando, emfim, á prática primeira, + Por dar-te, como queres, de mi conta, + Larga ta quero dar e verdadeira. + Apartar-te do gado leva em conta; + Que, pois com elle fica o pegureiro, + Que te detenha hum pouco, pouco monta. + O meu nome he Anzino: fui vaqueiro + Na grã serra da Estrella, que não tive; + Não sei se natural, ou se estrangeiro. + Hum pastor me criou, que ja não vive; + De todos por seu filho era julgado; + E eu tambem neste engano hum tempo estive. + Até que delle soube ser achado + Em huma anzina envolto em pobres panos; + E daqui veio, que Anzino fui chamado. + Neste meu desengano outros enganos + Fundou de novo a pouca dita minha, + Com que o vim a servir mais de sete annos. + Tinha muito de seu, e mais não tinha + De filhos, que huma filha bem formosa, + Á qual por morte delle tudo vinha. + Conversação doméstica e damnosa, + Na livre formosura e tenra idade, + Em ambos accendeu chamma amorosa. + Como ella de mi soube esta verdade, + Com outro amor, com outros exercicios, + Nella ganhei de novo outra vontade. + Amor mestre me fez de mil officios + Para meio do fim que desejava; + E delle sinal davão mil indicios. + Tecia alvos cestinhos, quando andava + Com as vaccas no prado: á noite hum cheio + De fructa, outro de flores lhe levava. + Nas mangas muitas vezes e no seio + As nozes lhe levei com as castanhas, + Quer do souto do pae, quer d'outro alheio. + Nos intricados bosques, nas montanhas, + Por seu amor as feras perseguia, + Fôrças agora usando, agora manhas. + Vivos os mansos cervos lhe trazia; + Vivas medrosas lebres fugitivas: + Ligeireza de pés não lhes valia. + Mas, se lhe dava as mansas feras vivas, + Mortas lhe dava as que por natureza, + Sem domar-se, são bravas, ou esquivas. + Certo dia achei eu n'huma aspereza, + Sem mãe, hum cervo branco e pequenino; + Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza. + Ou ja criação seja, ou ja destino, + Tanto que não o vê, geme e suspira. + Como menos fara o triste Anzino? + Tangia mal na frauta, mal na lira; + Despois tão bem tangia, qu'era espanto + A quem antes d'amor tanger m'ouvíra. + Ouvia celebrar sempre em meu canto + Ulina a sua rara formosura: + (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.) + Contava-lhe meus males por figura: + Ficava eu, de medroso, frio e mudo; + Ficava ella suspensa; a historia escura. + Assi com tal temor, com tal estudo, + Amor fui grangeando longamente, + Á conta deste amor perdendo tudo. + Ella, dos meus desejos innocente, + O mesmo amor me tinha, tanto, digo; + Que no ser era todo differente. + Praticava seus gostos só comigo; + Seus desgostos tambem, seus pensamentos, + Com rara graça e com saber antigo. + Outras vezes, confusa nos intentos, + Os modos me notava, e me dizia: + Entre irmãos de que servem comprimentos? + Eu quizera, Senhora, (respondia) + Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo, + Não com menos amor te serviria. + Tornou-me: Essa resposta não entendo: + O que não quiz o ceo, queres que seja? + Que castellos no vento andas fazendo? + Se me queres ver leda, não te veja + Soltar essas palavras ociosas: + Materia mais honesta nos sobeja. + Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas + Naquellas proprias suas, sôbre a neve + Das suas faces mais que o sol formosas. + Destas quebras comigo algumas teve; + Cujas fôrças amor quebrava logo + N'outra conversação mais branda e leve. + Cresceo desta maneira o vivo fogo, + Que ardendo dentro na alma encurta a vida; + Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo. + Mas ella neste tempo era pedida + De muitos a seu pae em casamento; + Nova dor para mi, mortal ferida! + Elle lhe nomeava mais de cento: + Delles paternamente lhe rogava + Hum escolhesse a seu contentamento. + Com mil razões fingidas s'escusava, + Sendo só a razão, não ser contente; + Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava. + Estando nós por huma sesta ardente + Á sombra d'huns madronhos repousando, + Affastados da casa e mais da gente, + Ja d'huma e d'outra cousa praticando; + Soltou com hum suspiro estas palabras: + Desde hontem para cá em mi não ando. + Logo que nosso pae tornou das labras, + Me disse que assentára de casar-me + Com Tityro, pastor de muitas cabras. + Que não buscasse causas d'escusar-me, + Como por muitas vezes ja fizera, + Pois tinha muitas mais de contentar-me. + Que afóra esta tenção, que a sua era, + O mesmo seus parentes lhe dizião, + A quem de seus intentos conta dera. + As ágoas, que dos olhos me corrião, + Em quanto elle me disse o que te digo, + Por mi, que fiquei muda, respondião. + Com seu chôro abrandou ao pae amigo; + Qu'emfim, deixando-a menos magoada, + Lhe disse que fallasse isto comigo. + Assi me disse; e que determinada + Estava a qualquer mal que lhe viesse. + Antes que ser com Tityro casada. + Que por mais de mil cabras que tivesse, + Jamais esta vontade mudaria; + Que buscava saber, não interesse. + E que de melhor mente casaria + Com hum qualquer pastor, pobre de gado, + Se nelle as partes visse, que em mi via. + Por extremo de mi lhe foi louvado + O pensamento seu; e sem detença + Tal resposta lhe dei acautelado: + Se a dar meu parecer me dás licença, + Hum pastor te darei de qualidade, + Que em nada de mi tenha differença; + Nem de menos saber, nem mais idade; + Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto: + Da fazenda não sei a quantidade. + Se esse me fazes bom, daqui protesto + De não receber outro por marido: + Me respondia com sembrante honesto. + Pois sabe (respondi) que ja admittido + Me tens com gôsto teu por teu esposo; + Que com dar-te-me dou o promettido. + Não pude dizer mais, de vergonhoso, + Nem ella me deixou com ouvir tal, + Suspeitando de mi amor vicioso. + Logo me respondeo: Ah desleal! + Ah deshonesto irmão! isso pretendes? + Mas não irmão, imigo capital. + O ceo, que com injusto amor offendes, + Tome, cruel, de ti justa vingança, + Antes que de tamanho error t'emendes. + Andavas-me enganando na esperança + Com esses falsos e indevidos meios + Ao sangue nosso e minha confiança? + Fizeste verdadeiros os receios, + A que confusamente me levavas + De sombras enganosas com rodeios. + Desejo no teu peito agasalhavas + Tão torpe, tão infame, tão alheio + Do puro amor, a que obrigado estavas? + Não te desculpes, não; que ja não creio + Lagrimas, nem palavras, nem desculpas + De quem imaginou caso tão feio. + Timido respondi: De que me culpas? + Se ouvido me não dás, não tens razão; + Acaba de me ouvir o fim das culpas. + T[~e]e-me, Ulina, por teu, não por irmão: + Se me não queres crer esta verdade, + De teu pae saberás se minto, ou não. + Por filho me criou: a flor da idade + Gastei em o servir por teu respeito: + Ólha o que te merece esta vontade. + Se com ser isto assi tenho êrro feito + Em grangear-te; que a ti só desejo; + Eis este ferro aqui, eis este peito. + Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo, + Pondo os olhos no chão, formosa e branda; + E cuido qu'inda assi nos meus a vejo. + Disse-me: Em que revoltas o amor anda! + No bem, como no mal, tambem me enleia: + Inda agora o senti, ja reina e manda. + Como queres, Anzino, qu'eu te creia + Cousa que nem sonhada foi tégora? + Não sabes de quem ama, o que receia? + Fallarei com meu pae: fica-t'embora: + No desengano seu teu bem consiste; + Da palavra que dei não estou fóra. + Com isto me deixou alegre e triste. + O comêço ja ouviste de meu dano, + Amigo Limiano: o fim amargo, + Em que não serei largo, escuita agora. + Fulgencia, outra pastora, que vizinha + Era d'amada minha e grande amiga, + (Não sei como isto diga que não moura) + Pastora branca e loura, que na serra + Era a segunda guerra dos pastores, + Por mal dos meus amores me quiz bem. + Fundava-se porém em casamento; + E deste fundamento lhe nascia, + Que, como me não via, o valle, o monte, + O bosque, o rio, a fonte rodeava. + Em busca minha andava aquella sesta; + Entrou pola floresta, onde nos vio; + E tudo nos ouvio quanto fallámos, + Entre huns espessos ramos escondida. + Cruelmente ferida dos ciumes, + Foi-se a fazer queixumes (descobrindo + Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina. + Eis logo desatina o triste velho; + Eis que sem mais conselho a filha entrega, + Que com chôro se nega e com palabras, + Ao simple guarda cabras, por esposa. + Ah hora desditosa! ah sorte dura! + Daquella formosura desusada, + De tantos desejada, e de mi tanto + Servida com espanto e puro amor, + Quizeste, por mais dor, enriquecer + Quem não sabe entender o preço della? + Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste, + Como te não abriste; e no teu centro + Me não cerraste dentro, estando vivo, + Porque mal tão esquivo não sentíra? + Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido! + Para me ver perdido me criaste? + Porque me não deixaste no deserto? + Menos crueza, certo, então usáras, + Inda que me deixáras (não te aggraves) + Ás cruas feras e aves da montanha. + Não vês que o ceo estranha isso que tratas? + Não vês que a ti te matas cobiçoso? + Na porta o novo esposo tropeçou; + Na casa não entrou co'o pé direito: + Gritou sobolo teito a noite inteira + A ave, qu'he mensageira de fins tristes. + O mesmo vós sentistes, cães da aldeia, + Quando por má estreia, juntos todos, + Com differentes modos huiviastes. + Serranas, qu'esperastes nestas vodas + Cantar alegres todas Hymeneos, + Dos vossos alvos seios, alvas flores, + Em lugar dos licores mais custosos, + Por cima dos esposos derramando; + Ou vendo estar bailando, estando quedas, + Ao som das gaitas ledas no terreiro + O moço tão ligeiro á maravilha, + Que quasi o pé não trilha o junco mole; + Qual será que console a triste amiga, + A quem a fôrça obriga do pae duro, + A quem o Amor puro obriga tanto, + Que n'hum contino pranto se consume? + Assi do grande cume da esperança + Com subita mudança derribado, + Me poz em tal estado a triste nova, + Como sabe por prova quem bem ama. + Levou a leve fama a minha dor + A Sincero pastor, meu grande amigo, + Que com rogos comsigo me levou, + Do monte, onde me achou, ja noite escura, + Chorando a desventura em que me via. + As vaccas, vindo o dia, derramadas, + De mi desamparadas, vem bramando, + Sinal n'aldeia dando em seu bramido + De qu'era ja perdido o pastor seu. + Tamanha pena deo á bella Ulina + (Bella, porém mofina) a pena minha, + Sôbre quantas ja tinha no seu peito, + Que mais do triste leito não s'ergueo. + Seu pae adoeceo tambem de nojo: + Da morte foi despojo ao dia quinto. + A dor que daqui sinto he sem medida. + Pois m'apartou da vida, a vida acabe, + Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa. + Fulgencia, que foi causa destes males, + Des que montes e valles descobrio, + Despois que me não vio em toda a serra, + Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais, + Que della nunca mais novas souberão. + Emfim, tal fim tiverão meus amores. + Chorárão os pastores juntamente + D'Ulina descontente a triste sorte, + Do pae a breve morte, e de Fulgencia + A vingadoura ausencia de seu êrro; + De mi este destêrro em que me pôs. + Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes, + Quando de vossa luz, sem a do dia, + Por terras tão estranhas vos partistes. + Cuido que meia noite então seria; + Cantando os gallos ja na triste aldeia, + Chorava só quem della se partia. + Casa de meus suspiros sempre cheia, + (Disse eu, quando passei pela de Ulina) + Tal fructo colhe quem amor semeia! + Fortuna, a mi cruel, sempre benina + Em tudo seja áquella, que em ti mora, + Indaqu'em outros braços se reclina. + Fica-te aqui, minha alma, fica embora, + Que, pois assi o quiz fado inimigo, + Jamais te não verei dia nem hora. + Dalli nos ricos campos dei comigo, + Que das ágoas do Tejo são regados; + Onde te vi mais ledo, como digo. + Por ver se posso agora a meus cuidados + Achar algum repouso, algum socêgo, + Atravessando vou montes e prados. + Passei as claras ágoas do Mondego, + Das Lusitanas Musas charo ninho; + As do Douro despois em turvo pégo. + Daqui continuando meu caminho, + Espero ver a casa aos ceos acceita, + Na terra que da nossa aparta o Minho. + Onde vou visitar na urna estreita + Os santos ossos do Varão divino, + Que pretendeo do Mestre o mão direita. + Assi, d'hum lugar n'outro de contino, + O bem que ja cantei, chorando venho; + Tornei-me de vaqueiro, peregrino: + Tal hábito me vês, tal vida tenho. + LIMIANO. + Anzino, he breve o dia + Para poder contar + O que sinto de tua desventura. + E sei bem qu'erraria, + Se quizesse louvar + O grave estylo teu, tua brandura. + Aquella formosura, + Por quem alegre fôras; + Que tu ledo cantaste, + E que despois choraste + Tão triste, qu'ind'agora triste choras; + Vivendo eterna nella, + Será mágoa commum, e louvor della. + As mágoas deixo enfim; + Tambem louvores deixo, + Por grandes ellas, elles por pequenos. + Tu, por amor de mim, + (Dir-te-hei de que me queixo) + Repousa hoje comigo, quando menos: + Assi vejas serenos + Esses teus tristes lumes. + Abranda a dura mágoa, + Que tira fontes de ágoa + Do fogo em que chorando te consumes; + Dar-te-hei conta mais larga + Da vida que aqui passo tão amarga. + E mais saber desejo + Se a fama nos engana, + Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos, + Com todos os do Tejo, + E com fato e cabana, + Reside ja nos campos Africanos; + Onde mil soberanos + Triumphos, delle dinos, + Lh'ordena a fatal sorte, + Com grande estrago e morte + Dos brutos mal nascidos Sarracinos, + Que de si despejados + Os curraes deixão ja cheios de gados. + Que sendo assi, te digo + Que não espero mais + Nesta para mi sempre ingrata terra. + Quem traz guerra comsigo + Entre seus naturais, + Não deve d'estranhar estranha guerra. + Sem mi de serra a serra + (O ceo assi o queira) + Logrem meus inimigos + Os valles e pacigos + Desta, donde nasci, fresca ribeira; + Na qual (se não m'engano) + Inda será chorado Limiano. + ANZINO. + Limiano, ja bem tenho entendido + Quanto sentes meu mal; mas eu te digo + Que o teu mal he de mi menos sentido. + Ácerca de ficar hoje comtigo, + Farei pois (ja qu'assi nos detivemos) + Tudo o que tu quizeres, como amigo. + E, pois o dia ja passado temos, + Vamos-nos mais chegando para o gado; + E lá nas outras cousas fallaremos. + Todavia de funda e de cajado + Te vai apercebendo a som de guerra; + Que não foi tal pastor cá do ceo dado, + Para não dar ao ceo tão larga terra. + + +ECLOGA XII. + + +INTERLOCUTORES. + +DELIO, ALCIDO, GALASIO. + + DELIO. + Agora, Alcido, em quanto o nosso gado + Pasce diante nós manso e seguro, + Sentemos-nos aqui neste abrigado. + Logremos este sol sereno e puro, + Que livre se nos dá, antes que venha + A noite fria com seu manto escuro. + O rico com seu ouro lá se avenha; + Não se farta a cobiça co'a riqueza: + Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha. + Com pouco se contenta a natureza. + Quem isto bem olhasse, certifico + Que não fugisse tanto da pobreza. + O sol tambem m'aquenta, como ao rico; + A fonte ágoa me dá, fructos a terra: + Com pouco mantimento farto fico. + Ah! que a má vaidade nos faz guerra! + (Para que gasto tempo em mais palabras?) + Os olhos da razão esta nos cerra. + Alcido, tens ovelhas, e tens cabras, + De que tiras da lãa, tiras do leite; + E não te faltão campos em que labras. + Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te + De fallar claro e sem lisongerias: + Não hajas medo tu, qu'eu as affeite) + Tu cantavas amor, amor tangias; + Faltava a tua frauta; agora he muda: + Que mal te mudou tanto em poucos dias? + ALCIDO. + Muda-se a idade, Delio; e se se muda + Com ella a condição, nada m'espanto; + O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda. + Se ja cantei amor, se amor não canto, + Culpas do tempo são, que vai mudando + O meu cantar alegre em triste pranto. + O tempo, que tão leve vai voando, + Delio, não torna mais; e assi fugindo, + Mil claros desenganos nos vai dando. + Pouco a pouco se veio descobrindo + O mal d'huma esperança vãa e incerta, + Que me deixou chorando, e foi-se rindo. + Quem nasce sem ventura, ou quem acerta + De fazer fundamento em peito alheio, + De mil contas que faz nenhuma he certa. + DELIO. + Pois se isso entendes tu, donde te veio + Sentir tão de verdade as sem-razões, + Não sendo d'outra cousa o mundo cheio? + ALCIDO. + Não queres tu que sintão corações + Obrigados com dor a sentimento, + Vendo a razão vencida d'affeições? + DELIO. + Emfim, todas as cousas querem tento: + Encobre a dor, e guarda-te d'extremos; + Que sempre trazem arrependimento. + Ao nosso doce canto nos tornemos: + Das nossas Nymphas, bellas inimigas, + Crueza e formosura celebremos. + ALCIDO. + Como cantarei eu novas cantigas + Em terra tão esteril, cheia d'ira, + Que nega flores, e que nega espigas? + Pendurei n'hum salgeiro a minha lira: + Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mágoa: + Em lugar de tanger, geme e suspira. + A Amarilia pintei, pintada trago-a + Aqui neste meu seio, e tambem chora: + Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa. + Mas vejo vir Galasio. + DELIO. + Venha embora. + Galasio, queres tu cantar comigo? + GALASIO. + Eu nunca me roguei: menos agora. + DELIO. + Cantaremos d'Amor cruel imigo, + Ou brando e amoroso, em razão pôsto, + Tyranno e cego, e cego até comsigo? + GALASIO. + Cada qual cante do que for seu gôsto; + Quer mimos, quer rigores d'Amor fero; + Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto. + ALCIDO. + Em quanto vós cantais, recolher quero + O gado; que são horas de ordenhar: + Á noite na malhada vos espero. + GALASIO. + Isso não: has d'ouvir para julgar + Qual de nós melhor canta e melhor sente. + DELIO. + Eu ja não cantarei, sem apostar. + Aposto o meu rafeiro, que Valente + Se chama, e com razão; que o lobo affasta, + Se não cantar mais branda e docemente. + GALASIO. + Hum cervo manso aposto. + DELIO. + Isso não basta: + Põe mais hum par da cabras. + GALASIO. + Deos me guarde; + Porque, Delio, este gado he da madrasta. + ALCIDO. + Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde? + Ora cantae sem preço e sem inveja; + E seja logo, porque ja he tarde. + DELIO. + Learda minha, branca mais que a neve, + E muito mais corada que a grãa fina; + S'inda Amor a vencer-te não se atreve, + Que fara quem d'Amor por ti se fina? + Eu morro; e tu meu mal julgas por leve? + Não vês tu como ja me desatina? + Ai triste! que me vem valles e montes, + Regados de meus olhos feitos fontes. + GALASIO. + Marfida, branca mais que o branco leite; + Vermelha muito mais que a rosa pura; + Assi descuido em ti nunca suspeite, + Assi me trates inda com brandura; + Que a cabana, que a vida e a alma engeite + Por ti, quando tu mais que marmor dura. + Testimunhas serão montes e valles, + A quem dou larga conta de meus males. + DELIO. + Quando a minha Learda desencolhe + Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado, + O sol, de pura inveja, se recolhe, + Corrido de se ver menos dourado. + Livre pastor não ha, que bem os olhe, + Sem se achar logo nelles enlaçado. + Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos, + Pois tanto prendem quantos ousão vellos. + GALASIO. + Os tristes corações se tornão ledos, + Ouvindo de Marfida o doce canto; + Os furiosos ventos estão quedos; + Não guia o claro sol seu carro em tanto. + Converte-se a dureza dos penedos + Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto, + Vencido dessa voz, doce Marfida; + Mas tu nunca d'Amor foste vencida. + DELIO. + O campo de verdura vejo pobre; + O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio; + Da sua leve folha a terra cobre + O bosque, que foi ja verde e sombrio. + Mas se Learda o rosto seu descobre, + Logo desapparece o tempo frio: + Comsigo a primavera traz Learda. + Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda! + GALASIO. + A triste Progne ja despareceo; + A toda flor o frio foi imigo; + A doce Philomela emmudeceo, + Rouca de lamentar seu mal antigo. + Mas venha por aqui quem me venceo + Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo, + Que as aves tornem logo a seus amores, + E os campos se matizem de mil flores. + DELIO. + A viva chamma, aquelle vivo ardor, + Que brando sinto ja pelo costume, + De noite dá de si tal resplandor, + Que os pastores vem delle a tomar lume. + Pasmados ficão, vendo em mi d'amor + O fogo, que me queima e não consume: + E tu, por quem eu ardo noite e dia, + Quando vês tal ardor ficas mais fria! + GALASIO. + Eu sempre chóro, e tanto ja chorei, + Vencido da grã dor que n'alma tinha, + Que mil vezes de lagrimas fartei + Meu gado, quando a fonte a buscar vinha. + Chorando as duras pedras abrandei; + Mas nunca a ti, cruel imiga minha, + Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa, + Nenh[~u]a mágoa tens de minha mágoa. + DELIO. + Quando vires, Learda, o nosso Lima, + Que lá vai de meu chôro acompanhado, + Tornar com suas ágoas para cima, + De seu curso esquecido, costumado; + Então embora julga, então estima + Que tenho n'outra parte o meu cuidado. + Mas deixarão os rios de correr, + Primeiro que deixe eu de te querer. + GALASIO. + Estas serras, Marfida, por certeza + De minha firme fé só quero dar-te: + Quando com espantosa ligeireza + Daqui correr as vires a outra parte, + Então cuida que falta em mi firmeza, + Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te. + Mas mudar-se daqui bem podem ellas, + E eu não mudar de mi graças tão bellas. + ALCIDO. + Se esta vontade minha não deseja + A vossos versos dar justos louvores, + Hora nunca na vida alegre veja. + Acceitae meu desejo, meus pastores: + Mais vos não póde dar quem traz o esprito + De todo entregue a damnos, mágoas, dores. + Mas porque dê de vós público grito + A leve fama, como vêdes, deixo + O vosso canto e o meu juizo escrito + No liso tronco deste verde freixo. + Delio neste lugar doce cantou + Com Galasio, que doce respondia: + Hum Learda, Marfida outro louvou, + Com inveja de qual melhor diria. + Alcido, que o seu canto bem notou + Por ver quem a victoria levaria, + Como livre juiz, deo por sentença, + Que não havia entr'elles differença. + + +ECLOGA XIII. + +_Phyllis._ + + Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto + Aquelle passarinho canta ou chora, + Chamarei Corydon com triste pranto. + Se entre vós, bellas plantas, amor mora + (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa + De mi, pois que m'ouvis queixar agora. + Ai cruel Corydon! cruel a frágoa + Em que vivo por ti! Não tens piedade + Dever meu peito fogo, os olhos ágoa? + Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade! + Ai triste! E que farei? Em poucos dias + Mudaste tu de mi tua vontade. + A Phyllis ja deixaste, a quem trazias + No formoso verão formosas fruitas, + Sinal do grande bem que me querias? + Sabes, cruel, que tenho causas muitas + Para te convencer, de que queixar-me; + Por isso vás fugindo e não me escuitas. + Puderão os teus rogos abrandar-me: + Os meus (triste de mi!) mais te endurecem. + Ja não acho em que possa confiar-me. + Aquelles doces versos ja t'esquecem, + Que tu nos lisos álamos cortavas, + Onde com teus enganos inda crescem? + Arder por meu amor nelles mostravas: + Eu, crendo que era assi, não entendia + Quanto fingiste amar, quão pouco amavas. + Tristes meus fados forão, triste o dia + Em que nasci: coitada de mi triste, + Qu'em mágoa se tornou minha alegria! + Logo que a tua Galatêa viste, + Vi eu deste meu mal grandes agouros; + E tu da parte esquerda hum corvo ouviste. + E não t[~e]e Galatêa mais thesouros, + Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja + Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros. + Á negra violeta t[~e]e inveja + O branco lirio, porque tal não tem + O cheiro, que vencido não se veja. + Tityro arde por mi; Tityro, a quem + Mil Nymphas dão capellas de mil flores; + Mas elle a mi só chama, a mi quer bem. + Eu desprézo por ti muitos pastores, + E tu por Galatêa me desprezas! + Tal pago dás, cruel, a meus amores? + Em que te mereci tantas cruezas, + Quantas usas comigo? Por ventura + Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas? + Prouvera a Deos que tão isenta e dura + Me víras para ti, que nunca víras + Em mi sinal d'amor, ou de brandura! + S'eu fugíra de ti, tu me seguiras; + Por mi ardêras, não por huma ingrata, + Por quem choras em vão, em vão suspiras. + Bem me vinga de ti, pois te maltrata: + Mas eu te quero tanto, que desamo + (Por mais que tu me mates) quem te mata. + Respondem-me estes montes, quando chamo + Por ti com triste voz; Ecco responde + Das lagrimas, movida, que derramo. + E tu não me respondes, nem sei onde + Te leva esse desejo; mas bem sei + Que amor e desamor de mi t'esconde. + Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei + Remedio a tanto mal? O fogo puro + Em que m'abrazo, com que abrandarei? + Ja fugíra daqui por mais que duro + Fosse o deixar o ninho em que nasci: + Mas não ha contra Amor lugar seguro. + A morte só (mil vezes isto ouvi + Á nossa Celia) por remedio espere + Aquelle que a Amor fez senhor de si. + Então, porque de todo desespere, + Este cego, a quem cegos nós seguimos, + A mi por ti, e a ti por outra fere. + S'eu morrêra no ponto em que nos vimos, + Não víra tanto mal. Mas que da sua + Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos. + Eu me queixo de ti, e tu da tua + Galatêa te queixas; e não vês + Que mais piedosa te he, quando mais crua. + Sendo tu tão cruel, (tão cego es!) + Queres achar piedade? Como queres + Que te creião teu mal, se o meu não crês? + Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres, + Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes, + Ou ledos ambos, si: mais não esperes. + Selvas, que n'outro tempo nos cobristes + Com frescas sombras lá do ardor de cima, + Dizei, se a Corydon dizer ouvistes: + Primeiro ha de tornar o brando Lima + As ágoas de crystal á fonte clara, + Que no meu peito novo amor s'imprima. + Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara, + Me ha de deixar a mi a propria vida. + Mas quem, por não deixar-te, a não deixára! + Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida + A tenho a teu querer; tu della ordena + Como, doce amor meu, fores servida. + Por ti me será branda a dura pena; + Por ti suave a dor, leve o tormento, + A que m'inclina o fado, ou me condena. + Ah falso Corydon! teu pensamento + Era enganar-me: dada a fé me tinhas; + E a fé co'as palavras leva o vento. + Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas + O vento vai levando. O sol he pôsto. + Porque, ligeira luz, te não detinhas, + Em quanto em meu queixume achava gôsto? + + +ECLOGA XIV. + + +INTERLOCUTORES. + +ERGASTO, DELIO, LAURENO. + + ERGASTO. + Agora, ja que o Tejo nos redeia, + Neste penedo, donde mansamente + Murmurando se quebra a branda veia, + Espera, Delio, até que do Occidente + D'azul deixe a ribeira matizada + O sol, levando o dia a outra gente. + Entretanto daqui verás pintada + A praia de conchinhas d'ouro e prata, + E a ágoa dos mansos sopros encrespada. + Verás como do monte se desata + A vagarosa fonte por penedos, + Que pouco a pouco cava e desbarata; + E como move os frescos arvoredos + Favonio, que de flores pinta o prado; + E como s'estão rindo os campos ledos. + Ditoso o que do Ceo foi tão amado, + Que no campo alcançou passar a vida, + Livre de pena, livre de cuidado. + O rouxinol na vara, que vestida + De verdes folhas, sombra faz ao rio, + Lhe canta o doce verso sem medida. + Agora ao pé d'hum alamo sombrio + Vê como dous carneiros s'offerecem, + Os cornos inclinando, a desafio. + Como ao que vence todos obedecem + E folgão de o ver fóra de perigo; + E outros com face esquiva o aborrecem. + Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo + Lavra os campos do pae, e se contenta, + Nos seus mólhos atando o louro trigo! + Este a furia do mar não exprimenta, + Nem corre, por achar a pedra rica, + A estranha praia, que outro sol aquenta. + Onde, quando a esperança o fortifica + Em adquirir mais ouro e mais riqueza, + Ouro, esperança, e vida a muitos fica. + Este vive quieto na pobreza; + E deste confiarei que a anteponha + A quanto o mundo mais procura e préza. + Comendo em mesa vil, não s'envergonha: + Antes bebe nas mãos a fonte pura, + Qu'em precioso metal cruel peçonha. + Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura, + Inda conversa aqui com os humanos + A Justiça, fugindo á gente impura! + Quem visse bem tão claros desenganos, + E quanto mal nos vicios se apparelha, + No campo gastaria bem os anos. + Ao dia a nossa vida se assemelha, + Porque quando no mar o sol se banha + Se costuma tingir de côr vermelha. + Assi, se olharmos bem, sempre se ganha + Lá no occaso da mal gastada vida + Rubicunda vergonha em mágoa estranha. + DELIO. + A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida, + Nunca sabe de nós ser tida em preço: + Só despois que se perde he conhecida. + E desta vida os bens, qu'eu não mereço, + Quando os perco e o mal da outra ja m'espera, + Com grandes mágoas d'alma os reconheço. + Oh se em ditosa sorte me coubera + Por favor ou destino das estrellas, + Qu'entre pastores, eu pastor vivêra! + Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas + Cantar da linda Nise, nas quaes arde + Teu peito, sempre ufano d'arder nellas. + Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde; + Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte, + E despois vos recolha, sôbre a tarde. + Nãovos verei saltar junto da fonte, + Cabras minhas, ja meu querido gado, + Nem da rocha pender no verde monte. + ERGASTO. + Consente agora, ó Delio, que chorado + Em triste verso seja apartamento, + Que assi me deixa triste e magoado. + DELIO. + Não: que se dobrará meu sentimento. + Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça + Partida, que lembrada he só tormento, + Canta aquelle Soneto, que começa: + _Quantas vezes do fuso s'esquecia_. + Que digas hum dos teus, não sei se o peça. + ERGASTO. + Se com m'ouvir, a dor se te allivia, + Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno, + Que a cantar vezes mil me desafia. + Cantando venceo ja Tityro e Almeno: + E eu, inda que sei certo ser vencido, + Apostar a cantar com elle ordeno. + LAURENO. + Ergasto, pois o tempo se ha offrecido, + Celebremos amor e formosura, + Emquanto o gado á sombra está acolhido. + ERGASTO. + Postoque ja a victoria tens segura, + Não cantarei sem preço, porque saia + Mais ledo quem cantar com mais brandura. + LAURENO. + Eu hum vaso porei de lisa faia, + Divina obra de Alceo, que celebrado + Será sempre por claro nesta praia. + A vide, de que em roda está cercado, + Os roxos cachos cobre; e primor teve + Em pôr no meio a Dama e Pan cansado. + Parece que a beija-la o deos se atreve, + E que ainda dos beijos mal soffridos + Inclinado lhe foge o tronco leve. + ERGASTO. + Outro vaso porei d'hera cingido, + No qual Orpheo das aves esquecidas + E dos suspensos bosques he seguido. + Não cuido que de faia são sahidas + De tal arte, lavor de tal maneira: + Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas. + Esta, das que me deo, foi a primeira; + Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda, + Ouvindo-me cantar nesta ribeira. + Ouvio-m'então, estando desta banda; + E dando-ma, dizia-me: Este seja + O premio, Ergasto, dessa Musa branda. + LAURENO. + Delio o nosso cantar pondere, e veja + Qual dos dous a voz dá mais docemente; + Que huma tal causa tal juiz deseja. + DELIO. + Se o meu juizo cada qual consente, + Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço; + Tu responde, Laureno, juntamente: + E eu fico que nenhum perca o seu preço. + ERGASTO. + Alcida, que na côr o leite puro, + E a rosa da manhãa deixas vencida, + Culpa he dos olhos teus, nelles o juro, + Est'amor de qu'estás tão offendida. + Castiga-os com me verem; qu'eu seguro + Que a vingança será delles sentida: + Nem temas tu d'os meus alegres serem, + Vendo tristes taes olhos por me verem. + LAURENO. + Violante minha, cuja côr iguala, + Mas antes vence os cravos, vence a neve; + Desta dor, que atéqui minha alma cala, + Teu amoroso riso a culpa teve. + Se só por viver della e por amá-la, + Julgas que algum castigo se me deve, + A ver-te sempre rindo me condena, + Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena. + ERGASTO. + Com a mãe, que maçãas colhendo andava, + Inda pequena, a bella Alcida vinha: + Eu os ramos da terra ja tocava, + Ja facil para amar o tempo tinha. + Não sei que fogo ou neve se passava + Daquelles olhos seus a est'alma minha, + Que me deixárão pôsto em tal extremo, + Que até de cuidar nelles ardo e tremo. + LAURENO. + No bosque a Violante vi hum dia, + Doce princípio destas doces dores; + A flor cahia nella, e parecia + Dizer cahindo: Aqui reinão amores. + Humilde em tanta gloria ella se ria, + E errando hião sôbre ella as várias flores: + Eu, que vencido fui d'hum error cego, + Áquelle honesto riso est'alma entrego. + ERGASTO. + Pastores deste bosque, que buscais, + Anoitecendo, o lume por costume; + Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais, + Que destes meus suspiros leveis lume. + Accesos sahem d'alma os doces ais + No ardor, que pouco a pouco me consume; + Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito, + Accendérão jamais hum frio peito. + LAURENO. + Pastores, que buscais na sombra amada + A fonte, por fugir o ardor do estio, + Vinde a mi, porque d'ágoa destillada + Por meus olhos, se sólta hum largo rio; + Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada, + Fartá-la ja de lagrimas confio. + Mas com chôro de tanta quantidade + Não movo aquelles olhos a piedade. + ERGASTO. + Se quando a minha Alcida est'alma visse + Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada; + Se quando a grave dor fóra sahisse + Entre suspiros mil rôta e quebrada, + Sequer com brandos olhos m'admittisse, + Ficando de vergonha mais córada; + Ditoso fôra, vendo-a, juntamente + Com ser mais bella, deste amor contente. + LAURENO. + Se á vista de Violante derramadas + As lagrimas d'amor, que vive nellas, + Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas + Lhe ficassem de dor ambas estrellas, + E as rosas entre a neve semeadas, + Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas; + Ditoso me fizera. Hora ditosa, + Se a víra ser mais bella e ser piedosa! + ERGASTO. + Claros olhos, que ao sol fazeis inveja, + Que brandos vos mostreis ja vos não peço; + Mas que poder-vos ver paga me seja, + Se por tamanho amor tanto mereço: + Armados d'esquivança então vos veja + Cheios d'hum não sei que, com que pereço; + Que doce me será tal esquivança. + Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança! + LAURENO. + Olhos, que vos moveis tão docemente, + Que traz vós todo o mundo ides levando, + Eu não sei se tomais do ceo luzente + O movimento seu, se lho estais dando: + Sei certo (e não m'engano,) sei somente + Que a vós de mi minh'alma ides passando: + Mas não posso entender como deixais + Ao descuido o que vós em vós levais. + ERGASTO. + Por mais que a minha soberana Alcida + (Minha não, porque só sua belleza + Vem a ser minha em ser de mi querida) + Me trate vezes mil com aspereza; + Huma só vez que della acho admittida + Minha pequena vista na grandeza + Da luz do rosto seu, sinto tal gloria, + Que de todo o penar perco a memoria. + LAURENO. + Quando a minha mais que unica Violante + (Se minha póde ser a que he tão sua) + Aquella santa luz hum breve instante + Me deixa ver, por mais que a veja crua; + A vista tanto em mi vejo a diante, + Que não he muito, não, que m'attribua + A soberba de ser hum'aguia nova, + Que do ceo no ôlho claro a vista prova. + DELIO. + Pastores, que alcançar pudestes tanto + Com vossa branda Musa, que ja nesta + Idade renovais o antigo canto; + Para vosso louvor, que verso presta? + Qu'hera digna será? que louro dino + Qu'em premio a cada qual adorne a testa? + Em parte paga Amor, se de contino + Por dentro a cada hum gasta os espritos, + Pois co'o divino canto o faz divino. + Nós veremos por annos infinitos + Nos altos troncos destas faias bellas + Os nomes vossos por memoria escritos. + De unicas flores mereceis capellas: + T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores; + E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas. + Os vossos premios recolhei, pastores: + Cada qual igualmente o seu merece; + E ambos d'Apollo os mereceis maiores. + Recolhamos o gado; que anoitece. + + +ECLOGA XV. + + +INTERLOCUTORES. + +SOLISO e SYLVANO. + + SOLISO. + De quanto alento e gôsto me causava + A vista da manhãa resplandecente, + Com que toda a tristeza s'alegrava; + Que quando vinha o sol claro e luzente, + Bem claro então em mi se conhecia + Huma nova alegria differente; + Tanto agora me offende o novo dia, + Vendo que me não mostra a formosura, + De que só me mantinha e só vivia. + E não me quiz deixar triste ventura + Esperanças de mais tornar a vella! + Oh destino cruel! oh sorte dura! + Oh querida Natercia! oh Nympha bella, + Em quem, emfim, mostrou a natureza + O mais que se podia esperar della! + Se lá no assento da maior alteza + Te lembras de quem viste cá na terra, + Para te magoar sua tristeza; + Lembre-te de contino a cruel guerra, + Que contínua me faz tua lembrança, + Esquecido do gado, valle e serra. + Lembre-te que perdi a confiança + De ver os olhos teus, e juntamente + De todo o bem d'Amor toda a esperança. + Lembre-te que por ti de mi ausente + A crystallina fonte me he nojosa, + Com que ja n'outro tempo fui contente. + Que por ti a manhãa clara e formosa + Males cada momento me accrescenta; + Sendo-me em outros dias deleitosa. + Por ti o puro sol me descontenta; + Com seu canto m'offende a Philomella: + Mas, porque nelle chora, me contenta. + Por ti, Natercia pura, Nympha bella, + Na verdura suave deste prado + Os males multiplico só com vella. + Por ti não curo ja do manso gado: + Com o mesmo qu'então meu bem crescia, + Agora vai crescendo o meu cuidado. + Não sou ja, ja não sou quem ser sohia; + Mudou-se-me a vontade co'a ventura; + Mudou-se co'os tormentos a alegria; + Trocou-se o claro dia em noite escura: + Nem he muito que tudo se mudasse, + Pois se mudou a tua formosura. + Não via outro reparo, que cuidasse + Poder aproveitar ao meu tormento, + Nem outra gloria alguma em qu'esperasse, + Senão em quanto o triste pensamento + Se punha a contemplar tua beldade, + Sem lhe lembrar tão longo apartamento. + Agora que me falta a claridade, + Que de ver-te a minha alma recebia, + Ficando-me só della a saudade; + Qual ficará hum'alma, que sabía + Somente desta gloria contentar-se? + Gloria de que gozar não merecia! + Qual poderá ficar quem com lembrar-se + Mortalmente do bem qu'he ja passado, + Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se? + E qual se póde ver quem hum cuidado + Sostem, que he só da dor certa morada, + E nelle vive só desesperado? + Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada, + Hum'alma que te via; e em te vendo + O fio lhe cortou a Parca irada? + A causa deste mal eu não a entendo: + Só entendo que, perdida essa luz pura, + Por perdida a não ver, vivo morrendo. + Vejo que me roubou fortuna escura + Hum bem por quem meu mal me contentava: + Lembra-te tu de tanta desventura. + Lembra-te tu, que só de ti'sperava + Remedio aos males meus; e então verás + Qual ficou quem em ti só confiava. + Lembre-te adonde estou, adonde estás, + E que tudo sem ti cá m'aborrece: + Dest'arte o estado meu entenderás. + SYLVANO. + Não sei por que razão nos amanhece + Este dia dos outros differente, + Com que toda a alegria s'entristece. + O manso gado vejo, que contente + Buscando hia nos campos a verdura, + E dos rios a limpida corrente: + Agora triste errar pola espessura, + Alheio d'herva verde e d'ágoa fria; + Sinal d'alguma grande desventura. + Suspensa está das aves a harmonia; + E em certo modo mostra que lá chora + A mesma sequidão da penedia. + A candida, rosada, bella aurora, + Que sempre os altos montes vem dourando, + Com hum pallor mortal se mostra agora. + Está-se nestas hervas enxergando + Tão triste côr, que della se conhece + Que algum mal se nos vai apparelhando. + Emfim, vejo que tudo s'entristece; + A causa ignoro. O ceo piedoso queira + Que menos seja o mal, do que parece. + Porque, desde que habíto esta ribeira, + Não m'acórdo de a ver tão carregada, + Nem de a ouvir murmurar desta maneira. + Não m'acórdo que visse outra alvorada + Tão confusa sahir, como esta vejo, + De profunda tristeza acompanhada. + Agora aqui tomára quem sem pejo + A causa, se a soubesse, m'ensinasse, + Para satisfazer a meu desejo. + Porque não posso eu crer que resultasse + D'alguma baixa causa hum tal effeito, + Que até nos duros montes se enxergasse. + O coração cá dentro no meu peito + M'assegura, que tanta novidade + Não traz a origem de commum respeito. + Mas, por entre a confusa claridade, + Lá vejo vir Soliso com seu gado: + Delle espero entender toda a verdade. + Mas não posso cuidar neste cuidado, + Que nos olhos não mostre onde me chega + A dor de o ver de dores traspassado. + Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega, + Não he muito que passe hum tal tormento; + Porque todo mal dá, todo bem nega. + Em quanto este pastor o pensamento + Logrou, sem qu'em amores o empregasse, + Senão só em buscar contentamento; + Festa não se fazia em que faltasse + A sua frauta, qu'elle assi tangia, + Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse. + Ja agora não he aquelle que sohia; + Vejo-o na condição todo mudado; + Mudada tambem delle está a alegria. + Não cura ja do seu querido gado; + Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores; + Aborrece-lhe a gente e o povoado. + Não lhe lembrão as festas dos pastores; + Apartando se vai pola espessura, + Enlevado somente em seus amores. + Contenta-se da noite triste e escura; + Odio t[~e]e com o sol puro e luzente. + Quem vio nunca tamanha desventura? + Com esta vai passando tão contente, + Que diz que, quando o mal mais o atormenta, + Se gôsto sentirp óde, então o sente. + Neste bosque huma Nympha se aposenta, + Por quem elle na vida anda morrendo; + E he causa desta dor que lhe contenta. + E segundo o que delle agora entendo, + Se a vista não m'engana o pensamento, + Ou de vãa phantasia estou pendendo; + Quando fôra maior o grão tormento, + Que Soliso padece, não pudera + Igualar-se com seu merecimento. + Quero chegar-me a elle, em quanto espera + Que vá descendo o vagaroso gado: + Saberei delle o que saber quizera. + Venho, Soliso, a ti com hum cuidado, + Que todo m'entristece; e com grão medo + De grão mal sôbre nós inopinado. + Vês tu como está agora este arvoredo + Triste e pezado, lugubre e sombrio? + Como o vento parece que está quedo? + Vês a commum corrente deste rio + Que ora tanto se pára, ora anda tanto, + Deixando de seu curso o certo fio? + Vês como a Philomella deixa o canto, + Com que incita os pastores namorados, + E multiplica Progne o triste pranto? + E vês, emfim, por todos esses prados + Desmaiadas as hervas, que sohião + Viçoso pasto dar aos nossos gados? + Todos estes sinaes, que não se vião + Nas Auroras a esta antecedentes, + Algum damno mortal nos annuncião. + Eu não sinto o que seja: se o tu sentes, + Não te seja o dizer-mo mui penoso; + E entenderei por ti taes accidentes. + SOLISO. + N'outro tempo me fôra deleitoso + Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te; + Mas todo gôsto agora me he nojoso. + Bem quizera poder communicar-te + A causa deste horror; mas antes quero + Anojar-me a mi proprio, que anojar-te. + Porém ja sinto o fado tão severo, + Que quanto mais me ponho a declará-lo, + Mais então d'entendê-lo desespero. + E se acaso o entender para contá-lo, + Se quero começar, quer a ventura + Á fôrça de soluços atalhá-lo. + Que despois que me falta a formosura + Daquella illustre Nympha, que contente + Pudera bem fazer a noite escura, + Foi-me faltando o esprito juntamente: + Em suspirar só gasto a noite e dia, + Sem me fartar de ver-me descontente. + SYLVANO. + Novidade maior em mi sería + O espantar-me de ver-te estar queixando, + Que o ver em ti desejos d'alegria. + Responde-me ao que t'hia perguntando + Da causa desta singular tristeza: + Não gastes todo o tempo lamentando. + SOLISO. + Sempre em ti conheci huma dureza, + E austera inclinação, que bem declara + Quão conforme he teu nome á natureza. + Porque se o meu tormento t'alcançára, + O mor bem para ti o mor mal fôra; + E todo o mal maior te contentára. + Deixa que chore quem com gôsto chora: + Deixa-me lamentar meu triste fado; + Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora. + Tu não trazes agora outro cuidado + Mais que buscar no valle a sombra fria, + Quando te offende o sol mais empinado. + Coitado de quem passa a noite e dia + Porfiando em morrer, e a sorte dura + Em fugir-lhe co'a morte só porfia! + Oh formosa Natercia! a excelsa altura + Do glorioso Olympo andas pizando; + E eu ausente da tua formosura! + SYLVANO. + Qu'he isso, que do ceo estás fallando? + Parece-me que ja não es Soliso, + Ou que de puro amar vás delirando. + SOLISO. + Quem ja perdeo aquelle doce riso, + Que siso produzia e dava vida, + Não he muito que perca a vida e siso. + SYLVANO. + Declara-me que cousa tens perdida, + De que tanto te queixas; que ao que sento, + Natercia destes valles he partida. + SOLISO. + Quão livre falla aquelle que o tormento + Alheio vê de fóra, mas não sente + Onde chega tamanho sentimento! + A gloria qu'eu perdi não me consente + Palavras naturaes, razões expertas, + Que possão declarar a dor presente. + Mas nesse teu error vejo que acertas; + Porque com nenhum mal deve turbar-se + Quem só delle esperanças logra certas. + SYLVANO. + A quem, Soliso meu, de declarar-se + Com outro em casos taes falta vontade, + Nunca faltão razões para escusar-se. + Não sei donde te vem tal novidade; + Pois negando-me agora o que te peço, + Suspeito que me negas a amizade. + Se pola que te guardo te aborreço, + Sabe que só hum cego entendimento + Ás amizades faz perder o preço. + Eu te deixarei só com teu tormento; + Mas não sem dor de ver que tanto a peito + Tomes hum tão damnoso pensamento. + SOLISO. + Outra he, certo, a razão, outro o respeito + Que negar-te me fez o que pedias: + Não creias que de ti tão mal suspeito. + Bem sei que o meu descanso pretendias; + E a mesma confiança faz negar-te + O que destes sinaes saber querias. + SYLVANO. + Não queiras mais, Soliso, prolongar-te; + Pois pende o gôsto meu da tua vida: + Se corre risco, dá-me delle parte. + SOLISO. + De todo a sinto ja desfallecida + Nas lembranças daquella breve historia, + Que foi para meus males tão comprida. + Ja me vence a tristissima memoria + Da gloria que presente me animava. + Quem pudera voar traz tanta gloria! + Natercia qu'estes montes alegrava, + E que á casta Diana fez inveja, + E que com sua vista o sol cegava; + Aquella a quem render-se só deseja + Aquelle que de bella mãe presume, + E a quem as armas dá com que peleja; + Natercia, que no mundo foi hum lume, + Onde a belleza de maior estado + Incendios aprendia por costume; + Natercia, por quem ando acompanhado + De mágoa tal, que só da morte dura + Espero o feliz fim de meu cuidado; + Ao ceo se foi co'aquella formosura, + Qu'era mostra do ceo, gloria da terra; + Qu'era o sogeito mor da mor ventura. + Ja não fara no prado ás almas guerra + Com a vista, senão com a lembrança; + Guerra em que o damno mais cruel s'encerra. + Ja de vê-la não tenhas esperança; + Qu'esta vida trocou de mal cercada + Por outra, em que do bem não ha mudança. + E a causa vês aqui de que a alvorada + Visses desta manhãa tão differente + De outra qualquer, de ti mais ponderada. + Dizer-te o mais não posso, porque sente + Est'alma no que disse tal tormento, + Qu'esta memoria apenas me consente. + O espirito ja debil, sem alento, + No pouco que te tenho referido, + Nas azas se sostem do pensamento. + Oh mundo! qual he aquelle tão perdido, + Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano, + Vendo-te todo em damno instituido? + Deixas passar hum gôsto d'anno em ano, + Porque, com nosso opprobrio e tua gloria, + Nos faças mais patente o teu engano. + Sempre assi vai comtigo a mor victoria, + Deixando-nos somente por herança + D'hum possuido bem triste memoria. + Quem faz de ti alguma confiança, + Sabendo ja que quem de ti confia, + D'hum engano penoso emfim se alcança? + Aquelle da belleza novo dia + Cegaste, quando mais resplandecente + Triumphos mil d'Amor nos promettia. + De qual tigre cruel peito inclemente + Não se rompe de mágoa, morta aquella, + Que a tristeza mil vezes fez contente? + Quem, que vê eclipsada a vista bella, + Despois de visto haver sua beldade, + E não sabe morrer por hir traz ella? + Como não te applacou tão tenra idade + Ao cortar do seu fio, ó Parca dura, + Que agora o mundo matas de saudade? + Deixae, deixae, pastores, a verdura; + As frautas deixae ja, e os mansos gados; + E chorae todos vossa desventura. + E vós, sylvestres Faunos namorados, + Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão + O objecto mais gentil vossos cuidados. + Nymphas, a quem os deoses concedêrão + Destes sagrados bosques a morada, + E em quem tamanhas graças escondêrão; + Se aquella piedade costumada, + De que mais vos prezais, não esquecestes, + Que sempre foi de vós tão venerada; + Se ja d'alheio damno vos doestes, + Do vosso proprio vos doei agora, + Pois com Natercia todo o bem perdestes. + Oh Naiades! das ágoas sahi fóra; + E de vós ágoa saia em mal tão forte, + Pois de vê-lo tambem o monte chora. + Oh Napêas! chorae a triste sorte + Dos miseros pastores, a quem nega + O fado por mais pena o mortal córte. + Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega, + Tomae todo o cuidado deste pranto, + Pois sabeis onde a causa delle chega. + Deixae, ó Amadryas, entretanto + As plantas que guardais, por ajudar-me, + Pois deixa a Philomella o doce canto. + E vós, ó vida minha, pois curar-me + Ja não podeis, deixae-me juntamente, + Porque lembranças taes possão deixar-me. + Mas se dellas morreis, morro contente. + + + + +CANÇÕES. + + +CANÇÃO I. + + Formosa e gentil Dama, quando vejo + A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito, + A boca graciosa, o riso honesto, + O collo de crystal, o branco peito, + De meu não quero mais que meu desejo, + Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto. + Alli me manifesto + Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo + Nas lagrimas que chóro; + E de mi que vos amo, + Em ver que soube amar-vos me namóro; + E fico por mi só perdido de arte, + Qu'hei ciumes de mi por vossa parte. + Se por ventura vivo descontente + Por fraqueza d'esprito, padecendo + A doce pena qu'entender não sei, + Fujo de mi, e acolho-me correndo + Á vossa vista; e fico tão contente, + Que zombo dos tormentos que passei. + De quem me queixarei, + Se vós me dais a vida deste geito + Nos males que padeço, + Senão de meu sogeito, + Que não cabe com bem de tanto preço? + Mas inda isto de mi cuidar não posso, + D'estar muito soberbo com ser vosso. + Se por algum acêrto Amor vos erra + Por parte do desejo, commettendo + Algum nefando e torpe desatino; + E s'inda mais que ver, emfim, pretendo; + Fraquezas são do corpo, qu'he de terra, + Mas não do pensamento, qu'he divino. + Se tão alto imagino + Que de vista me perco, ou pecco nisto, + Desculpa-me o que vejo. + Porém como resisto + Contra hum tão atrevido e vão desejo, + Faço-me forte em vossa vista pura, + Armando-me da vossa formosura. + Das delicadas sobrancelhas pretas + Os arcos com que fere Amor tomou, + E fez a linda corda dos cabellos: + E porque de vós tudo lhe quadrou, + Dos raios desses olhos fez as settas + Com que fere quem alça os seus a vellos. + Olhos que são tão bellos + Dão armas de vantajem ao Amor, + Com que as almas destrue. + Porém se he grande a dor + Com a alteza do mal a restitue; + E as armas com que mata são de sorte, + Que ainda lhe ficais devendo a morte. + Lagrimas, e suspiros, pensamentos, + Quem delles se queixar, formosa Dama, + Mimoso está do mal que por vós sente. + Qual bem maior deseja quem vos ama, + Qu'estar desabafando seus tormentos, + Chorando, imaginando docemente? + Quem vive descontente + Não ha de dar allívio a seu desgôsto, + Porque se lhe agradeça; + Mas com alegre rôsto + Soffra seus males, para que os mereça: + Que quem do mal se queixa, que padece, + O faz porqu'esta gloria não conhece. + De modo que se cahe o pensamento + Em alguma fraqueza, de contente, + He porqu'este segredo não conheço. + Assi que com razões não tãosomente + Desculpo ao Amor de meu tormento, + Mas inda a culpa sua lh'agradeço. + Por esta fé mereço + A graça qu'esses olhos acompanha, + E o bem do doce riso. + Mas ah! que não se ganha + Co'hum paraiso, outro paraiso. + E d'enleada assi minha esperança + Se satisfaz co'o bem que não alcança. + Se com razões escuso meu remedio, + Sabe, Canção, que só porque o não vejo, + Engano com palavras o desejo. + + +CANÇÃO II. + + A instabilidade da fortuna, + Os enganos suaves d'Amor cego, + (Suaves se durárão longamente) + Direi, por dar á vida algum socêgo; + Que pois a grave pena m'importuna, + Importune meu canto a toda gente. + E se o passado bem co'o mal presente + M'endurecer a voz no peito frio; + O grande desvario + Dara de minha pena sinal certo; + Que hum êrro em tantos erros he concêrto. + E pois nesta verdade me confio, + (Se verdade se achar no mal que digo) + Saiba o mundo d'Amor o desengano, + Que ja com a razão se fez amigo, + Só por não deixar culpa sem castigo. + Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma; + Ja se tornou de cego razoado, + Só por usar comigo semrazões. + E se em alguma cousa o tenho errado, + Com siso grande dor não vi nenhuma: + Nem elle deo sem erros affeições. + Mas, por usar de suas isenções, + Buscou fingidas causas de matar-me: + Que para derribar-me + A este abysmo infernal de meu tormento, + Nunca soberbo foi meu pensamento, + Nem pretendeo mais alto levantar-me + D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena + Qu'eu pague seu ousado atrevimento, + Saibão que o mesmo Amor, que me condena, + Me fez cahir na culpa e mais na pena. + Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia + Que descêrão ao baixo pensamento, + N'alma os aposentei suavemente; + E pretendendo mais, como avarento, + O coração lhe dei por iguaria, + Que a meu mandado tinha obediente. + Mas, como lhes esteve alli presente, + E entendêrão o fim do meu desejo, + Ou por outro despejo, + Que a lingua descobrio por desvario, + Morto de sêde estou pôsto em hum rio, + Onde de meu servir o fructo vejo; + Mas logo se alça se a colhê-lo venho, + E foge-me a ágoa s'em beber porfio. + Assi qu'em fome e sêde me mantenho: + Não t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho. + Despois que aquella, em quem minh'alma vive, + Quiz alcançar o baixo atrevimento, + Debaixo d'este engano a alcancei: + A nuvem do contino pensamento + Ma figurou nos braços, e assi tive + Sonhando, o que acordado desejei. + E porque a meu desejo me gabei + De conseguir hum bem de tanto preço; + Além do que padeço, + Atado em huma roda estou penando, + Qu'em mil mudanças me anda rodeando; + Onde, se a algum bem subo, logo deço. + E assi ganho, e assi perco a confiança; + E assi de mi fugindo traz mim ando; + E assi me t[~e]e atado huma vingança, + Como Ixião, tão firme na mudança. + Quando a vista suave e inhumana + Meu humano desejo, de atrevido, + Commetteo, sem saber o que fazia, + (Que da sua belleza foi nascido + O cego moço, que com setta insana + O peccado vingou desta ousadia) + Afora este penar, qu'eu merecia, + Me deo outra maneira de tormento: + Que nunca o pensamento, + Voando sempre d'huma a outra parte, + Destas entranhas tristes bem se farte, + Imaginando como o famulento, + Que come mais e a fome vai crescendo, + Porque de atormentar-me não se aparte. + Assi que para a pena estou vivendo: + Sou outro novo Ticio, e não m'entendo. + De vontades alheias, qu'eu roubava, + E que enganosamente recolhia + Em meu fingido peito, me mantinha. + O engano de maneira lhes fingia, + Que despois que a meu mando as sobjugava, + Com amor as matava, qu'eu não tinha. + Porém logo o castigo que convinha + O vingativo Amor me fez sentir, + Fazendo-me subir + Ao monte da aspereza qu'em vós vejo, + Co'o pezado penedo do desejo, + Que do cume do bem me vai cahir: + Tórno a subi-lo ao desejado assento; + Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo. + Sisypho, não t'espantes deste alento, + Que ás costas o subi do soffrimento. + Dest'arte o summo bem se m'offerece + Ao faminto desejo, porque sinta + A perda de perdê-lo mais penosa. + Bem como o avaro, a quem o sonho pinta + O achado d'hum thesouro, onde enriquece, + E farta a sua sêde cobiçosa; + E acordando, com furia pressurosa + Vai o sítio cavar com que sonhava; + Mas tudo o que buscava + Lhe converte em carvão a desventura; + Alli sua cobiça mais se apura, + Por lhe faltar aquillo qu'esperava: + O Amor assi me faz perder o siso. + Porque aquelles qu'estão na noite escura + Não sentirião tanto o triste abisso, + Se ignorassem o bem do Paraisso. + Canção, não mais; que ja não sei que diga: + Mas, porque a dor me seja menos forte, + Diga o pregão a causa desta morte. + + +CANÇÃO III. + + Ja a roxa manhãa clara + As portas do Oriente vinha abrindo; + Os montes descobrindo + A negra escuridão da luz avara. + O sol, que nunca pára, + Da sua alegre vista saudoso, + Traz ella pressuroso + Nos cavallos cansados do trabalho, + Que respirão nas hervas fresco orvalho, + S'estende claro, alegre e luminoso. + Os passaros voando, + De raminho em raminho vão saltando; + E com suave e doce melodia + O claro dia estão manifestando. + A manhãa bella, amena, + Seu rosto descobrindo, a espessura + Se cobre de verdura + Clara, suave, angelica, serena. + Oh deleitosa pena! + Oh effeito d'Amor alto e potente! + Pois permitte e consente + Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja, + O seraphico gesto sempre veja, + Por quem de viver triste sou contente. + Mas tu, Aurora pura, + De tanto bem dá graças á ventura, + Pois as foi pôr em ti tão excellentes, + Que representes tanta formosura. + A luz suave e leda + A meus olhos me mostra por quem mouro, + Com os cabellos d'ouro, + Que nenhum ouro iguala, se os remeda. + Esta a luz he que arreda + A negra escuridão do sentimento + Ao doce pensamento; + Os orvalhos das flores delicadas + São nos meus olhos lagrimas cansadas, + Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento; + Os passaros que cantão, + Meus espiritos são, que a voz levantão, + Manifestando o gesto peregrino + Com tão divino som, que o mundo espantão. + Assi como acontece + A quem a chara vida está perdendo, + Qu'em quanto vai morrendo, + Alguma visão santa lh'apparece; + A mim em quem fallece + A vida, que sois vós, minha Senhora, + A est'alma, qu'em vós mora + (Em quanto da prisão s'está apartando) + Vos estais justamente apresentando + Em fórma de formosa e roxa Aurora. + Oh ditosa partida! + Oh gloria soberana, alta e subida! + Se me não impedir o meu desejo; + Porque o que vejo, emfim, me torna a vida. + Porém a natureza, + Que nesta pura vista se mantinha, + Me falta tão asinha, + Como o sol faltar soe á redondeza. + Se houverdes qu'he fraqueza + Morrer em tão penoso e triste estado, + Amor será culpado, + Ou vós, ond'elle vive tão isento, + Que causastes tão largo apartamento, + Porque perdesse a vida co'o cuidado. + Que se viver não posso, + Homem formado só de carne e osso, + Esta vida que perco, Amor ma deo; + Que não sou meu: se morro, o damno he vosso. + Canção de cysne, feita em hora extrema, + Na dura pedra fria + Da memoria te deixo em companhia + Do letreiro da minha sepultura; + Que a sombra escura ja m'impede o dia. + + +CANÇÃO IV. + + Vão as serenas ágoas + Do Mondego descendo, + E mansamente até o mar não parão; + Por onde as minhas mágoas + Pouco a pouco crescendo, + Para nunca acabar se começárão. + Alli se me mostrárão + Neste lugar ameno, + Em qu'inda agora mouro, + Testa de neve e d'ouro; + Riso brando e suave; olhar sereno; + Hum gesto delicado, + Que sempre n'alma m'estará pintado. + Nesta florída terra, + Leda, fresca e serena, + Ledo e contente para mi vivia; + Em paz com minha guerra, + Glorioso co'a pena + Que de tão bellos olhos procedia. + D'hum dia em outro dia, + O esperar m'enganava: + Tempo longo passei; + Com a vida folguei, + Só porqu'em bem tamanho s'empregava. + Mas que me presta ja, + Que tão formosos olhos não os ha? + Oh quem me alli dissera + Que d'Amor tão profundo + O fim pudesse ver eu algum'hora! + E quem cuidar pudera + Que houvesse ahi no mundo + Apartar-me eu de vós, minha Senhora! + Para que desde agora, + Ja perdida a esperança, + Visse o vão pensamento + Desfeito em hum momento, + Sem me poder ficar mais que a lembrança; + Que sempre estará firme + Até no derradeiro despedir-me. + Mas a mor alegria + Que daqui levar posso, + E com que defender-me triste espero, + He que nunca sentia + No tempo que fui vosso, + Quererdes-me vós quanto vos eu quero. + Porque o tormento fero + De vosso apartamento, + Não vos dará tal pena + Como a que me condena; + Que mais sentirei vosso sentimento, + Que o que a minh'alma sente. + Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. + Tu, Canção, estarás + Agora acompanhando + Por estes campos estas claras ágoas; + E por mi ficarás + Com chôro suspirando; + Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas, + Como huma larga historia + Minhas lagrimas fiquem por memoria. + + +CANÇÃO V. + + S'este meu pensamento, + Como he doce e suave, + D'alma pudesse vir gritando fóra; + Mostrando seu tormento + Cruel, aspero e grave, + Diante de vós só, minha Senhora; + Pudera ser que agora + O vosso peito duro + Tornára manso e brando. + E então eu, que sempre ando + Passaro solitario, humilde e escuro, + Tornado hum cysne puro, + Brando e sonoro, por o ar voando, + Com canto manifesto + Pintára a minha pena, e o vosso gesto. + Pintára os olhos bellos + Que trazem nas meninas + O menino que os seus nelles cegou; + Os dourados cabellos + Em tranças d'ouro finas, + A quem o sol os raios seus baixou; + A testa que ordenou + Natura tão formosa; + O bem proporcionado + Nariz, lindo, afilado, + Que cada parte t[~e]e da fresca rosa; + A boca graciosa, + Que o querê-la louvar he ja 'scusado. + Emfim, he hum thesouro; + Perolas dentes, e palavras ouro. + Víra-se claramente, + (Oh Dama delicada!) + Qu'em vós s'esmerou mais a natureza. + Mas eu, de gente em gente, + Trouxera trasladada + Em meu tormento vossa gentileza; + E somente a aspereza + De vossa condição, + Senhora, não dissera, + Porque se não soubera + Qu'em vós podia haver algum senão. + E se alguem, com razão, + Porque morres? dissesse, respondêra: + Morro, porque he tão bella, + Qu'inda não sou para morrer por ella. + E quando, por ventura, + Dama, vos offendesse, + Escrevendo de vós o que não sento, + E vossa formosura + Tanto á terra descesse, + Que a alcançasse humano entendimento; + Sería o fundamento + De tudo o qu'eu cantasse, + Todo de puro amor; + Porque o vosso louvor + Em figura de mágoas se mostrasse. + E aonde se julgasse + A causa por o effeito, a minha dor + Diria alli sem medo: + Quem me sentir verá de quem procedo. + Logo então mostraria + Os olhos saudosos, + E o suspirar que traz a alma comsigo; + A fingida alegria; + Os passos vagarosos; + O fallar e esquecer-me do que digo; + Hum pelejar comigo, + E logo desculpar-me; + Hum recear ousando; + Andar meu bem buscando, + E de o poder achar acovardar-me; + E, emfim, averiguar-me + Que o fim de tudo quanto estou fallando, + São lagrimas e amores; + São vossas isenções e minhas dores. + Mas quem terá, Senhora, + Palavras com qu'iguale + Com vossa formosura a minha pena; + E em doce voz de fóra + Aquella gloria falle + Que dentro na minh'alma Amor ordena? + Não póde tão pequena + Fôrça d'engenho humano + Com carga tão pezada, + Se não for ajudada + D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano, + Que fazendo-me o dano + Vão deleitoso e a dor tão moderada, + Emfim se convertesse + No gôsto dos louvores qu'escrevesse. + Canção, não digas mais; e se teus versos + Á pena vem pequenos, + Não queirão de ti mais; que dirás menos. + + +CANÇÃO VI. + + Com força desusada + Aquenta o fogo eterno + Huma Ilha nas partes do Oriente, + D'estranhos habitada, + Aonde o duro inverno + Os campos reverdece alegremente. + A Lusitana gente + Por armas sanguinosas + T[~e]e della o senhorio. + Cercada está d'hum rio + De maritimas ágoas saudosas. + Das hervas qu'aqui nascem, + Os gados juntamente e os olhos pascem. + Aqui minha ventura + Quiz que huma grande parte + Da vida, qu'eu não tinha, se passasse; + Para que a sepultura + Nas mãos do fero Marte + De sangue e de lembranças matizasse. + Se Amor determinasse + Que a trôco desta vida, + De mi qualquer memoria + Ficasse como historia, + Que d'huns formosos olhos fosse lida; + A vida e a alegria + Por tão doce memoria trocaria. + Mas este fingimento, + Por minha dura sórte, + Com falsas esperanças me convida. + Não cuide o pensamento + Que póde achar na morte + O que não pôde achar tão longa vida. + Está ja tão perdida + A minha confiança, + Que de desesperado, + Em ver meu triste estado, + Tambem da morte perco a esperança. + Mas oh! que s'algum dia + Desesperar pudesse, viveria. + De quanto tenho visto + Ja agora não m'espanto, + Que até desesperar se me defende. + Outrem foi causa disto, + Pois eu nunca fui tanto + Que causasse este fogo que m'encende. + Se cuidão que m'offende + Temor d'esquecimento, + Oxalá meu perigo + Me fôra tão amigo, + Que algum temor deixára ao pensamento! + Quem vio tamanho enleio, + Que houvesse ahi'sperança sem receio? + Quem t[~e]e que perder possa, + Só póde recear. + Mas triste quem não póde ja perder! + Senhora, a culpa he vossa, + Que para me matar + Bastára hum'hora só de vos não ver. + Puzestes-me em poder + De falsas esperanças: + E do que mais m'espanto, + Que nunca vali tanto, + Que visse tanto bem, como esquivanças. + Valia tão pequena + Não póde merecer tão doce pena. + Houve-se Amor comigo + Tão brando, ou pouco irado, + Quanto agora em meus males se conhece. + Que não ha mor castigo + Para quem t[~e]e errado, + Que negar-lhe o castigo que merece. + Da sórte que acontece + Ao misero doente, + Da cura despedido, + Que o Medico advertido + Tudo quanto deseja lhe consente; + O Amor me consentia + Esperanças, desejos e ousadia. + E agora venho a dar + Conta do bem passado + A esta triste vida e longa ausencia. + Quem póde imaginar + Qu'houvesse em mi peccado + Digno d'huma tão grave penitencia? + Olhae que he consciencia + Por tão pequeno êrro, + Senhora, tanta pena. + Não vêdes que he onzena? + Mas se tão longo e misero destêrro + Vos dá contentamento, + Nunca m'acabe nelle o meu tormento. + Rio formoso e claro, + E vós, ó arvoredos, + Que os justos vencedores coroais, + E ao cultor avaro, + Continuamente ledos, + D'hum tronco só diversos fructos dais; + Assi nunca sintais + Do tempo injúria alg[~u]a, + Qu'em vós achem abrigo + As mágoas que aqui digo, + Em quanto der o sol virtude á l[~u]a; + Porque de gente em gente + Saibão que ja não mata a vida ausente. + Canção, neste destêrro viverás, + Voz nua e descoberta, + Até que o tempo em ecco te converta. + + +CANÇÃO VII. + + Manda-me Amor que cante docemente + O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso, + Com presupposto de desabafar-me; + E porque com meu mal seja contente, + Diz que o ser de tão lindos olhos preso, + Cantá-lo bastaria a contentar-me. + Este excellente modo d'enganar-me + Tomára eu só d'Amor por interêsse, + Se não s'arrependesse, + Com a pena o engenho escurecendo. + Porém a mais me atrevo, + Em virtude do gesto de qu'escrevo. + E s'he mais o que canto que o qu'entendo, + Invoco o lindo aspeito, + Que póde mais que Amor, em meu defeito. + Sem conhecer a Amor viver sohia, + Seu arco e seus enganos desprezando, + Quando vivendo delles me mantinha. + Hum Amor enganoso, que fingia, + Mil vontades alheias enganando, + Me fazia zombar de quem o tinha. + No Touro entrava Phebo, e Progne vinha; + O corno de Acheloo Flora entornava; + Quando o Amor soltava + Os fios d'ouro, as tranças encrespadas, + Ao doce vento esquivas; + Os olhos rutilando chammas vivas; + E as rosas entre a neve semeadas; + Co'o riso tão galante, + Que hum peito desfizera de diamante. + Hum não sei que suave respirando, + Causava hum admiravel, novo espanto, + Que as cousas insensiveis o sentião. + Alli as garrulas aves, levantando + Vozes não ordinarias em seu canto, + Como eu no meu desejo, s'encendião. + As fontes crystallinas não corrião, + D'inflammadas na vista linda e pura; + Florecia a verdura, + Que andando co'os divinos pés tocava; + Os ramos se baixavão, + Ou d'inveja das hervas que pizavão, + Ou porque tudo ant'ella se baixava. + Não houve cousa, emfim, + Que não pasmasse della, e eu de mim. + Porque, quando vi dar entendimento + Ás cousas que o não tinhão, o temor + Me fez cuidar qu'effeito em mi faria. + Conheci-me não ter conhecimento: + Porém só nisto o tive, porque Amor + Mo deixou para ver o que podia. + Tanta vingança Amor de mi queria, + Que mudava a humana natureza + Nos montes, e a dureza + Delles em mi por trôco traspassava. + Oh que gentil partido, + Trocar o ser do monte sem sentido, + Por o qu'em hum juizo humano estava! + Olhae que doce engano! + Tirar commum proveito de meu dano. + Assi qu'indo perdendo o sentimento + A parte racional, m'entristecia + Vê-la a hum appetite submettida. + Mas dentro n'alma o fim do pensamento, + Por tão sublime causa, me dizia + Qu'era razão ser a razão vencida. + Assi que quando a via ser perdida, + A mesma perdição a restaurava: + E em mansa paz estava + Cada hum com seu contrário em hum sogeito. + Oh grão concêrto este! + Quem será que não julgue por celeste + A causa donde vem tamanho effeito, + Que faz n'hum coração + Que venha o appetite a ser razão? + Aqui senti d'Amor a mor fineza, + Como foi ver sentir o insensivel, + E o ver a mi de mi proprio perder-me: + E, emfim, senti negar-se a natureza; + Por onde cri que tudo era possivel + Aos lindos olhos seus, senão querer-me. + Despois que ja senti desfallecer-me, + Em lugar do sentido que perdia, + Não sei quem m'escrevia + Dentro n'alma co'as letras da memoria + O mais deste processo, + Co'o claro gesto juntamente impresso, + Que foi a causa de tão longa historia. + Se bem a declarei, + Eu não a escrevo, d'alma a trasladei. + Canção, se quem te ler + Não crer dos olhos lindos o que dizes, + Por o que a si s'esconde; + Os sentidos humanos (lhe responde) + Não podem dos divinos ser juizes, + Senão hum pensamento + Que a falta suppra a fé do entendimento. + + +CANÇÃO VIII.[3] + + Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente, + Caso que nunca em verso foi cantado, + Nem d'antes entre a gente acontecido. + Assi me paga em parte o meu cuidado; + Pois que quer que me louve e represente + Quão bem soube no mundo ser perdido. + Sou parte, e não serei da gente crido: + Mas he tamanho o gôsto de louvar-me, + E de manifestar-me + Por captivo de gesto tão formoso, + Que todo o impedimento + Rompe e desfaz a gloria do tormento + Peregrino, suave e deleitoso; + Que bem sei que o que canto + Ha d'achar menos credito qu'espanto. + Em vivia do cego Amor isento, + Porém tão inclinado a viver preso, + Que me dava desgôsto a liberdade. + Hum natural desejo tinha acceso + D'algum ditoso e doce pensamento, + Que m'illustrasse a insana mocidade. + Tornava do anno ja a primeira idade; + A revestida terra s'alegrava, + Quando o Amor me mostrava + De fios d'ouro as tranças desatadas + Ao doce vento estivo; + Os olhos rutilando lume vivo, + As rosas entre a neve semeadas; + O gesto grave e ledo, + Que juntos move em mi desejo e medo. + Hum não sei que suave respirando, + Causava hum desusado e novo espanto, + Que as cousas insensiveis o sentião. + Porque as garrulas aves, entretanto + Vozes desordenadas levantando, + Como eu em meu desejo, s'encendião. + As fontes crystallinas não corrião, + Inflammadas na vista clara e pura; + Florecia a verdura, + Que, andando, co'os ditosos pés tocava; + As ramas se baixavão, + Ou d'inveja das hervas que pizavão, + Ou porque tudo ant'elles se baixava: + O ar, o vento, o dia, + D'espiritos continuos influia. + E quando vi que dava entendimento + A cousas fóra delle, imaginei + Que milagres faria em mi que o tinha: + Vi que me desatou da minha lei, + Privando-me de todo sentimento, + E em outra transformando a vida minha. + Com tamanhos poderes d'Amor vinha, + Que o uso dos sentidos me tirava. + E não sei como o dava + Contra o poder e ordem da natura, + Ás arvores, aos montes, + Á rudeza das hervas e das fontes, + Que conhecêrão logo a vista pura. + Fiquei eu só tornado + Quasi em hum rudo tronco d'admirado. + Despois de ter perdido o sentimento, + D'humano hum só desejo me ficava, + Em que toda a razão se convertia. + Mas não sei quem no peito m'affirmava + Que por tão alto e doce pensamento, + Com razão, a razão se me perdia. + Assi que quando mais perdida a via, + Na sua mesma perda se ganhava. + Em doce paz estava + Com seu contrário proprio em hum sogeito. + Oh caso estranho e novo! + Por alta e grande certamente approvo + A causa, donde vem tamanho effeito, + Que faz n'hum coração + Que hum desejo, sem ser, seja razão. + Despois d'entregue ja ao meu desejo, + Ou quasi nelle todo convertido, + Solitario, sylvestre e inhumano, + Tão contente fiquei de ser perdido, + Que me parece tudo quanto vejo + Escusado, senão meu proprio dano. + Bebendo este suave e doce engano, + A trôco dos sentidos que perdia, + Vi que Amor m'esculpia + Dentro n'alma a figura illustre e bella, + A gravidade, o siso, + A mansidão, a graça, o doce riso. + E porque não cabia dentro nella + De bens tamanhos tanto, + Sahe por a boca convertido em canto. + Canção, se te não crerem + Daquelle claro gesto quanto dizes, + Por o que se lhe esconde; + Os sentidos humanos (lhe responde) + Não podem dos divinos ser juizes, + Senão hum pensamento, + Que a falta suppra a fé do entendimento. + + +CANÇÃO IX. + + Tomei a triste pena + Ja de desesperado + De vos lembrar as muitas que padeço; + Vendo que me condena + A ficar eu culpado + O mal que me tratais, e o que mereço. + Confesso que conheço + Qu'em parte a causa dei + Ao mal em que me vejo, + Pois sempre o meu desejo + A tão largas promessas entreguei; + Mas não tive suspeita + Que seguisseis tenção tão imperfeita. + S'em vosso esquecimento + Tão condemnado estou, + Como os sinaes demostrão, que mostrais; + Neste vivo tormento, + Lembranças mais não dou + Que as que desta razão tomar queirais: + Olhae que me tratais + Assi de dia em dia + Com vossas esquivanças; + E as vossas esperanças, + De que vãamente ja m'enriquecia, + Renovão a memoria; + Pois com a ter de vós só tenho gloria. + E s'isto conhecesseis + Ser verdade mais pura + Do que d'Arabia o ouro reluzente; + Inda que não quizesseis, + Essa condição dura + Em branda se mudára facilmente. + Eu, vendo-me innocente, + Senhora neste caso, + Bem no arbitrio o puzera + De quem sentença dera, + Com que o que he justo se mostrasse raso; + Se, emfim, não receára + Que a vós por mi, e a mi por vós matára. + Em vós escrita vi + Vossa grande dureza, + E n'alma escrita está, que de vós vive: + Não que acabasse alli + Sua grande firmeza + O triste desengano qu'então tive; + Porque antes que me prive + A dor de meus sentidos, + Ao penoso tormento + Acode o entendimento + Com dous fortes soldados guarnecidos + De rica pedraria, + Que ficão sendo minha luz e guia. + Destes acompanhado + Estou pôsto sem medo + A tudo o que o fatal destino ordene: + Póde ser que cansado, + Ou seja tarde, ou cedo, + Com pena de penar-me, me despene. + E quando me condene + (Qu'he o que mais espero) + Inda a penas maiores; + Perdidos os temores, + Por mais que venhão, não direi, não quero. + Estou, emfim, tão forte, + Que não pode mudar-me a propria morte. + Canção, se ja não queres + Crer tanta crueldade, + Lá vae onde verás minha verdade. + + +CANÇÃO X. + + Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte, + Inutil e despido, calvo e informe, + Da natureza em tudo aborrecido; + Onde nem ave vôa, ou fera dorme, + Nem corre claro rio, ou ferve fonte, + Nem verde ramo faz doce ruido; + Cujo nome, do vulgo introduzido, + He Feliz, por antiphrasi infelice; + O qual a natureza + Situou junto á parte, + Aonde hum braço d'alto mar reparte + A Abassia da Arabica aspereza, + Em que fundada ja foi Berenice, + Ficando á parte, donde + O sol, que nella ferve, se lh'esconde; + O cabo se descobre, com que a costa + Africana, que do Austro vem correndo, + Limite faz, Arómata chamado: + Arómata outro tempo; que volvendo + A roda, a ruda lingua mal composta + Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado. + Aqui, no mar, que quer apressurado + Entrar por a garganta deste braço, + Me trouxe hum tempo e teve + Minha fera ventura. + Aqui nesta remota, aspera e dura + Parte do mundo, quiz que a vida breve + Tambem de si deixasse hum breve espaço; + Porque ficasse a vida + Por o mundo em pedaços repartida. + Aqui me achei gastando huns tristes dias, + Tristes, forçados, maos e solitarios, + De trabalho, de dor, e d'ira cheios: + Não tendo tãosomente por contrarios + A vida, o sol ardente, as ágoas frias, + Os ares grossos, férvidos e feios, + Mas os meus pensamentos, que são meios + Para enganar a propria natureza, + Tambem vi contra mi; + Trazendo-me á memoria + Alguma ja passada e breve gloria, + Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi; + Por me dobrar dos males a aspereza; + Por mostrar-me que havia + No mundo muitas horas d'alegria. + Aqui'stive eu com estes pensamentos + Gastando tempo e vida; os quaes tão alto + Me subião nas asas, que cahia + (Oh vêde se seria leve o salto!) + De sonhados e vãos contentamentos + Em desesperação de ver hum dia. + O imaginar aqui se convertia + Em improvisos choros e em suspiros, + Que rompião os ares. + Aqui a alma captiva, + Chagada toda, estava em carne viva, + De dores rodeada e de pezares, + Desamparada e descoberta aos tiros + Da soberba Fortuna; + Soberba, inexoravel e importuna. + Não tinha parte donde se deitasse, + Nem esperança alguma, onde a cabeça + Hum pouco reclinasse, por descanso: + Tudo dor lhe era e causa que padeça, + Mas que pereça não; porque passasse + O que quiz o destino nunca manso. + Oh qu'este irado mar gemendo amanso! + Estes ventos, da voz importunados, + Parece que se enfreião: + Somente o Ceo severo, + As estrellas e o fado sempre fero, + Com meu perpétuo damno se recreião; + Mostrando-se potentes e indignados + Contra hum corpo terreno, + Bicho da terra vil e tão pequeno. + Se de tantos trabalhos só tirasse + Saber inda por certo que algum'hora + Lembrava a huns claros olhos que ja vi; + E s'esta triste voz, rompendo fóra, + As orelhas angelicas tocasse + Daquella em cuja vista ja vivi; + A qual, tornando hum pouco sôbre si, + Revolvendo na mente pressurosa + Os tempos ja passados + De meus doces errores, + De meus suaves males e furores, + Por ella padecidos e buscados, + E (pôsto que ja tarde) piedosa, + Hum pouco lhe pezasse, + E lá entre si por dura se julgasse: + Isto só que soubesse me seria + Descanso para a vida que me fica; + Com isto affagaria o soffrimento. + Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica + Estais, que cá tão longe d'alegria + Me sustentais com doce fingimento! + Logo que vos figura o pensamento, + Foge todo o trabalho e toda a pena. + Só com vossas lembranças + Me acho seguro e forte + Contra o rosto feroz da fera morte; + E logo se me juntão esperanças + Com que, a fronte tornada mais serena, + Torno os tormentos graves + Em saudades brandas e suaves. + Aqui com ellas fico perguntando + Aos ventos amorosos, que respirão + Da parte donde estais, por vós Senhora; + Ás aves qu'alli voão, se vos virão, + Que fazieis, qu'estaveis praticando; + Onde, como, com quem, que dia e que hora. + Alli a vida cansada se melhora, + Toma espiritos novos, com que vença + A fortuna e trabalho, + Só por tornar a ver-vos, + Só por ir a servir-vos e querer-vos. + Diz-me o tempo que a tudo dará talho: + Mas o desejo ardente, que detença + Nunca soffreo, sem tento + Me abre as chagas de novo ao soffrimento. + Assi vivo; e s'alguem te perguntasse, + Canção, porque não mouro; + Podes-lhe responder; que porque mouro. + + +CANÇÃO XI. + + Vinde cá meu tão certo Secretario + Dos queixumes que sempre ando fazendo, + Papel, com quem a pena desaffógo. + As semrazões digamos, que vivendo + Me faz o inexoravel e contrário + Destino, surdo a lagrimas e a rôgo. + Lancemos ágoa pouca em muito fogo, + Accenda-se com gritos hum tormento, + Que a todas as memorias seja estranho. + Digamos mal tamanho + A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento, + A quem ja muitas vezes o contei, + Tanto debalde como o conto agora. + Mas ja que para errores fui nascido, + Vir este a ser hum delles não duvido. + E, pois ja d'acertar estou tão fóra, + Não me culpem tambem se nisto errei. + Se quer este refúgio só terei, + Fallar e errar, sem culpa, livremente. + Triste quem de tão pouco está contente! + Ja me desenganei que de queixar-me + Não s'alcança remedio; mas quem pena, + Forçado lh'he gritar, se a dor he grande. + Gritarei; mas he debil e pequena + A voz para poder desabafar-me; + Porque nem com gritar a dor se abrande. + Quem me dará se quer que fóra mande + Lagrimas e suspiros infinitos, + Iguaes ao mal que dentro na alma mora? + Mas quem pôde algum'hora + Medir o mal com lagrimas, ou gritos? + Direi, emfim, aquillo que m'ensinão + A ira, e mágoa, e dellas a lembrança, + Que outra dor he por si mais dura e firme. + Chegae, desesperados, para ouvir-me; + E fujão os que vivem d'esperança, + Ou aquelles que nella se imaginão; + Porque Amor e Fortuna determinão + De lhes deixar poder para entenderem + Á medida dos males que tiverem. + Quando vim da materna sepultura + De novo ao mundo, logo me fizerão + Estrellas infelices obrigado: + Com ter livre alvedrio, mo não derão; + Qu'eu conheci mil vezes na ventura + O melhor, e o peor segui forçado. + E para que o tormento conformado + Me dessem com a idade, quando abrisse + Inda menino os olhos brandamente, + Mândão que diligente + Hum menino sem olhos me ferisse. + As lagrimas da infancia ja manavão + Com huma saudade namorada; + O som dos gritos, que no berço dava, + Ja como de suspiros me soava. + Co'a idade e fado estava concertado: + Porque quando por caso m'embalavão, + Se d'Amor tristes versos me cantavão, + Logo m'adormecia a natureza; + Que tão conforme estava co'a tristeza! + Foi minh'ama huma fera; que o destino + Não quiz que mulher fosse a que tivesse + Tal nome para mi; nem a haveria. + Assi criado fui, porque bebesse + O veneno amoroso de menino, + Que na maior idade beberia, + E por costume não me mataria. + Logo então vi a image e semelhança + Daquella humana fera tão formosa, + Suave e venenosa, + Que me criou aos peitos da esperança; + De quem eu vi despois o original, + Que de todos os grandes desatinos + Faz a culpa soberba e soberana. + Parece-me que tinha fórma humana, + Mas scintilava espiritos divinos. + Hum meneio, e presença tinha tal, + Que se vangloriava todo o mal + Na vista della: a sombra co'a viveza + Excedia o poder da natureza. + Que genero tão novo de tormento + Teve Amor, sem que fosse não somente + Provado em mi, mas todo executado? + Implacaveis durezas, que ao fervente + Desejo, que dá fôrça ao pensamento, + Tinhão de seu proposito abalado, + E corrido de ver-se e injuriado: + Aqui sombras phantasticas, trazidas + D'algumas temerarias esperanças; + As bem-aventuranças + Tambem nellas pintadas e fingidas. + Mas a dor do desprêzo recebido, + Que todo o phantasiar desatinava, + Estes enganos punha em desconcêrto. + Aqui o adivinhar, e o ter por certo + Qu'era verdade quanto adivinhava, + E logo o desdizer-me de corrido; + Dar ás cousas que via outro sentido; + E para tudo, emfim, buscar razões: + Mas erão muitas mais as semrazões. + Não sei como sabía estar roubando + Co'os raios as entranhas, que fugião + Par'ella por os olhos subtilmente! + Pouco a pouco invisiveis me sahião; + Bem como do véo humido exhalando + Está o subtil humor o sol ardente. + O gesto puro, emfim, e transparente, + Para quem fica baixo e sem valia + Este nome de bello e de formoso; + O doce e piedoso + Mover d'olhos, que as almas suspendia, + Forão as hervas magicas, que o Ceo + Me fez beber: as quaes por longos anos + N'outro ser me tiverão transformado, + E tão contente de me ver trocado, + Que as mágoas enganava co'os enganos; + E diante dos olhos punha o véo, + Que m'encobrisse o mal que assi cresceo: + Como quem com affagos se criava + Daquella para quem crescido estava. + Pois quem póde pintar a vida ausente, + Com hum descontentar-me quanto via, + E aquell'estar tão longe donde estava; + O fallar sem saber o que dizia; + Andar sem ver por onde, e juntamente + Suspirar sem saber que suspirava? + Pois quando aquelle mal m'atormentava, + E aquella dor, que das Tartareas ágoas + Sahio ao mundo, e mais que todas doe, + Que tantas vezes soe + Duras íras tornar em brandas mágoas? + Agora co'o furor da mágoa irado, + Querer, e não querer deixar de amar; + E mudar n'outra parte, por vingança, + O desejo privado d'esperança, + Que tão mal se podia ja mudar? + Agora a saudade do passado, + Tormento puro, doce e magoado, + Que converter fazia estes furores + Em magoadas lagrimas d'amores? + Que desculpas comigo só buscava, + Quando o suave Amor me não soffria + Culpa na cousa amada, e tão amada! + Erão, emfim, remedios que fingia + O medo do tormento, qu'ensinava + A vida a sustentar-se d'enganada. + Nisto huma parte della foi passada; + Na qual se tive algum contentamento + Breve, imperfeito, timido, indecente, + Não foi senão semente + D'hum cumprido, amarissimo tormento. + Este curso contino de tristeza, + Estes passos vãamente derramados, + Me forão apagando o ardente gôsto, + Que tão de siso n'alma tinha pôsto, + Daquelles pensamentos namorados + Com que criei a tenra natureza, + Que do longo costume da aspereza, + Contra quem fôrça humana não resiste, + Se converteo no gôsto de ser triste. + Dest'arte a vida em outra fui trocando; + Eu não, mas o destino fero, irado; + Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára. + Fez-me deixar o patrio ninho amado, + Passando o longo mar, que ameaçando + Tantas vezes m'esteve a vida chara. + Agora exprimentando a furia rara + De Marte, que nos olhos quiz que logo + Visse, e tocasse o acerbo fructo seu. + E neste escudo meu + A pintura verão do infesto fogo. + Agora peregrino, vago, errante, + Vendo nações, linguagens e costumes, + Ceos varios, qualidades differentes, + Só por seguir com passos diligentes + A ti, Fortuna injusta, que consumes + As idades, levando-lhes diante + Huma esperança em vista de diamante: + Mas quando das mãos cahe se conhece + Que he fragil vidro aquillo que apparece. + A piedade humana me faltava, + A gente amiga ja contrária via, + No perigo primeiro; e no segundo, + Terra em que pôr os pés me fallecia, + Ar para respirar se me negava, + E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo. + Que segredo tão arduo e tão profundo, + Nascer para viver e para a vida, + Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella! + E não poder perdella, + Estando tantas vezes ja perdida! + Emfim, não houve trance de fortuna, + Nem perigos, nem casos duvidosos, + Injustiças daquelles que o confuso + Regimento do mundo, antigo abuso, + Faz sôbre os outros homens poderosos, + Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna + Do soffrimento meu, que a importuna + Perseguição de males em pedaços + Mil vezes fez á fôrça de seus braços. + Não conto tantos males, como aquelle + Que despois da tormenta procellosa, + Os casos della conta em porto ledo; + Qu'inda agora a fortuna fluctuosa + A tamanhas miserias me compelle, + Que de dar hum só passo tenho medo. + Ja de mal que me venha não m'arredo, + Nem bem que me falleça ja pretendo; + Que para mi não val astucia humana, + De fôrça soberana, + Da Providencia, emfim, Divina pendo. + Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo + Para consolação de tantos danos. + Mas a fraqueza humana quando lança + Os olhos no que corre, e não alcança + Senão memoria dos passados anos; + As ágoas qu'então bebo, e o pão que como, + Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo, + Senão com fabricar na phantasia + Phantasticas pinturas d'alegria. + Que se possivel fosse que tornasse + O tempo para traz, como a memoria, + Por os vestigios da primeira idade; + E de novo tecendo a antigua historia + De meus doces errores, me levasse + Por as flores que vi da mocidade; + E a lembrança da longa saudade + Então fosse maior contentamento, + Vendo a conversação leda e suave, + Onde huma e outra chave + Esteve de meu novo pensamento, + Os campos, as passadas, os sinais, + A vista, a neve, a rosa, a formosura, + A graça, a mansidão, a cortezia, + A singela amizade, que desvia + Toda a baixa tenção, terrena, impura, + Como a qual outra alguma não vi mais... + Ah vãas memorias! onde me levais + O debil coração, qu'inda não posso + Domar bem este vão desejo vosso? + Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando, + Sem o sentir, mil annos; e se acaso + Te culparem de larga e de pezada; + Não póde ser (lhe dize) limitada + A ágoa do mar em tão pequeno vaso. + Nem eu delicadezas vou cantando + Co'o gôsto do louvor, mas explicando + Puras verdades ja por mi passadas. + Oxalá forão fábulas sonhadas! + + +CANÇÃO XII. + + Nem roxa flor de Abril, + Pintor do campo ameno e da verdura, + Colhida entre outras mil, + Foi nunca assi agradavel á donzella + Cortez, alegre e bella, + De sua mãe cuidado e glória pura, + Como a mi foi a inculta formosura + Natural, que pudera + A Saturno render na sua Esphera. + Natural fonte agreste, + Não lavrada d'Artifice excellente, + Mas por arte celeste + Derivada de rustico penedo, + Não fez ja mais tão ledo + Cansado caçador por sesta ardente, + Quanto o cuidado a mi me fez contente + Do ver tão descuidado, + Que faz sereno a Jupiter irado. + Fructa, que sem concêrto + Naturalmente em ramos se pendura, + Achada por acêrto; + A quem pintada a vê de sangue e leite, + Não lhe dara o deleite, + Qu'essa graça me dá sem compostura, + Ornamento da mesma formosura, + E o toucado sem arte, + Que tornára pastor ao bravo Marte. + A manhãa graciosa, + Que derramando sahe d'entre os cabellos + A flor, o lirio, a rosa, + Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio, + Não faz o beneficio, + Que faz a luz dos vossos olhos bellos + A quem os vê tão puros e singelos; + E esse innocente riso, + Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso. + Outeiros coroados + Das árvores que fazem a espessura + Com os ramos copados + Alegre, que mão destra os não cultiva, + Graça tão excessiva + Não t[~e]e na sua natural verdura, + Quanta na d'esses olhos, clara e pura, + Deposita a esperança, + Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança. + Dos simples passarinhos + A musica sem arte concertada, + D'entre os verdes raminhos, + Tão suave não he, tão deleitosa + A quem na selva umbrosa + Com mente ouvindo-a está toda enlevada, + Quanto a mi essa falla doce agrada, + E o natural aviso, + Que roubão a Mercurio sceptro e siso. + De frescos rios ágoa, + Que clara entre arvoredos se deriva, + Cahindo d'alta fragoa, + Esmaltando de perolas no prado + O verde delicado, + Com brando som aos olhos fugitiva, + Não nos alegra quanto a graça esquiva + D'essa luz soberana, + Que faz cortez a rustica Diana. + A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!) + Vendo estás ja prostrado + Saturno triste, Jupiter irado, + Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella, + E Mercurio, e Diana, e toda estrella. + + +CANÇÃO XIII. + + Oh pomar venturoso, + Onde co'a natureza + A subtil arte t[~e]e demanda incerta; + Qu'em sítio tão formoso + A maior subtileza + D'engenho em ti nos mostras descoberta! + Nenhum juizo acerta, + De cego e d'enlevado, + Se t[~e]e em ti mais parte + A natureza, ou arte; + Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado, + Pois em feliz terreno + Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno. + De teu formoso pêzo + Se mostra o monte ledo, + E o caudaloso Zezere t'estranha, + Porque ólhas com desprêzo + Seu crystal puro e quedo, + Que com Pera os teus pés rodeia e banha. + Em ti pintura estranha, + A que Apelles cedêra, + Enigmas intricados, + E myrtos animados + Vemos, que o proprio Escopas não fizera; + Em ti, co'a paz interna, + T[~e]e o santo prazer morada eterna. + Os jardins da famosa + Babel, tão nomeados, + Por maravilha o mundo não levante, + Inda que com gloriosa + Voz, qu'estão pendurados + Do instavel ar, a fama antigua cante: + Nem haja quem s'espante + Dos famosos d'Alcino; + Nem as mais doutas pennas + Cantem os de Mecenas, + Cultor de todo engenho peregrino; + Mas onde quer que vôe, + De ti só falle a Fama, e te pregôe. + Que s'era antiguamente + De pomos d'ouro bellos + O jardim das Hesperidas ornado; + E, a pezar da serpente + Que os guardou, só colhellos + Pôde o famoso Alcides, d'esforçado; + Tu, mais avantajado, + Mostras a hum'alma casta + Seguir o que deseja, + Fugir da torpe inveja + (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta): + Emfim, co'a caridade + Vencer o Inferno, abrir a Eternidade. + Por tanto da ventura, + Para ti reservada, + Te deixe o Ceo gozar perpetuamente; + Porque sejas figura + Da gloria avantajada + Delle mesmo, e qu'em ti se represente; + Porqu'em quanto sustente + O ceo, o mar e a terra, + Seus feitos milagrosos, + Mysterios mais gloriosos, + Com que a morte das almas nos desterra, + Por onde em nossas almas + Com mais pompas triumpha e com mais palmas, + ....................... + Goza, pois, longamente + Teu venturoso fado, + Da mãe do teu autor bem possuido: + Qu'em ti, sempre contente + De seu sublime estado, + A alma dos seus alegra e o sentido. + Cada qual preferido + Nas grandes qualidades + Ao sabio Nestor seja, + Para que o mundo os veja + Exceder as longuissimas idades; + E com a longa vida + Seja sua memoria ennobrecida. + Canção, pois mais famosas + Por ti não podem ser + Deste monte as estancias deleitosas; + Bem póde succeder + Que aquelle que os teus numeros governa, + Por querê-las cantar te faça eterna. + + +CANÇÃO XIV. + + Quem com sólido intento + Os segredos buscar da natureza, + Quanto d'Athenas préza, + Entregue ao mar irado, ao leve vento: + Em forjar meu tormento, + Nova Philosophia, + D'experiencias feita, Amor m'ensina. + Das Leis do antigo tempo bem declina; + Que Amor a natureza em mi varía; + Donde escola de Sabios nunca vio + Em natural sogeito + Quanto Amor em meu peito descobrio. + As aves no ar sereno, + O gado de Proteo nas ágoas pasce; + Vive o homem e nasce + Neste mundo, qual mundo mais pequeno: + Eu tudo desordeno, + Em todos dividido; + A boca no ar, na terra o entendimento: + Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento; + O coração no fogo he consumido: + Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce, + T[~e]e effeito tão vário, + Qu'em hum humor contrário o fogo cresce. + Da vista Amor sohia + Abrir ao coração segura entrada: + Lei he ja profanada; + Que quando a luz d'huns olhos me fería, + Amando o que não via, + Qual d'escopeta o lume, + Primeiro o querer vi, que a causa visse. + Quem o desejo co'a esperança unisse, + Cego iria apos cego e vil costume; + Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta, + Morta a esperança vejo, + Onde sempre o desejo se sustenta. + Em vão se considera + Que hum semelhante a outro busca e ama, + E que foge e desama + Todo mortal a morte esquiva e fera: + Sigo huma linda fera, + Qu'esconde em vista humana + Coração de diamante e peito d'aço, + De meu sangue faminta; e satisfaço + Com cruel morte a sêde deshumana. + Assi que, sendo em tudo differente, + Corro apos minha sorte, + E se m'entrego á morte, estou contente. + Cahe em maior defeito + Quem cuida ser sciencia clara e certa, + Que a causa descoberta + Sempre produz a si conforme o effeito: + Rendeo-me hum lindo objeito, + Que, sendo neve pura, + Vivo me abraza, e o fogo interno aviva; + Qu'esta formosa fera fugitiva, + Com ser neve, do fogo s'assegura: + Donde infiro por certo (e cesse a fama + Vãa, mentirosa e leve) + Que não desfaz a neve ardente chama. + Bem no effeito se sente + Cessar, cessando a causa donde pende; + Que o fogo mais se accende, + Estando á vista, donde mais ausente; + Mas n'alma vivamente + A trazem debuxada, + De noite Amor, de dia o pensamento: + E quando Apollo deixa o claro assento, + Por entre sombras vejo a Nympha amada. + Pois se sem luz Amor os olhos ceva, + Cego, se não concede + Qu'em nada a Amor impede a escura treva. + Erra quem atrevido + Pregôa ser maior que a parte o todo: + Amor me t[~e]e de modo, + Qu'estou n'hum'alma minha convertido: + Desta gloria ha nascido + O temor de perdê-la: + E, postoque o receio a muitos finge + Lá na imaginação Chimera e Sfinge + De mal futuro, que urde imiga estrella, + Vejo em mi, por incognito segredo, + Quando estou mais contente, + Que só do bem presente nasce o medo. + T[~e]e-se por manifesto + Parecer-se ao sogeito o accidente; + Mas inda em mi se sente + O pensamento, a côr, o riso, o gesto; + E, tendo todo o resto + Da vida ja perdido + Neste tormento meu tão duro e esquivo, + A gostos morto estou, a penas vivo. + E, sendo morto ja, vive o sentido, + Porque sinta que n'alma despedida + Póde em meu mal unir-se + O ficar e o partir-se, a morte e a vida. + Destas razões, Canção, infiro e creio, + Que ou se mudou em tudo a fórma usada + Da natural firmeza, + Ou tenho a natureza em mi mudada. + + +CANÇÃO XV. + + Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura, + Que sempre na alma vejo? + Ou me pinta o desejo + O bem qu'em vão cad'hora m'assegura? + Mal póde a noite escura, + Amando a sombra fria, + Mandar-me em sonho a luz formosa e bella, + Que se não torne em dia, + De seus luzentes raios inflammada. + Oh vista desejada + De graciosa Nympha e viva estrella! + Que ha tanto que por este mar navego + (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego. + Nesses formosos olhos, d'enlevada, + Minh'alma se escondeo, + Quando ordenava o Ceo + Que vivesse comigo desterrada. + Vós a mais certa estrada + De ver a summa alteza, + Do efeito a causa abris a est'alma minha. + Assi mortal belleza + Só della nasce, e nella se resume; + Assi celeste lume + Lá dos ceos se deriva, e lá caminha. + Pois, como a Deos unir-me a vista possa, + Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa? + Se me quereis prender a parte a parte, + Cabello ondado e louro, + Tecei-me a rede de ouro + Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte. + Des que com gentil arte + Vestis de flores bellas + A terra em que tocais co'a bella planta, + Quantas vezes com vellas + Quiz n'huma d'essas flores transformar-me? + Porque, vendo pizar-me + D'esse candido pé, que a neve espanta, + Póde ser que na flor mudado fôra + Que deo a Juno irada a linda Flora. + Mas onde te acolheste (ó doce vida!) + Mais leve e pressurosa, + Do que na selva umbrosa + Cerva d'aguda setta vai ferida? + Se para tal partida, + Meus olhos, vos abristes, + Cerrára-vos o somno eternamente, + Antes que ver-vos tristes, + Perdendo tão suave e doce engano! + Agora, com meu dano, + Vêdes, para mor mágoa, claramente, + Neste bem fugitivo e somno leve, + Que mal não ha mais longo, que hum bem breve. + Ditoso Endymião que a deosa chara, + Que a noite vai guiando, + Teve em braços sonhando! + Ah quem de sonho tal nunca acordára! + Tu só, Aurora avara, + Quando os olhos feriste, + Me mataste cruel d'inveja pura. + Mas se d'esta alma triste + A negra escuridão vencer quizeste, + Sabe qu'em vão nasceste; + Que para desfazer-se a nevoa escura + De meus olhos, importa estar presente + Outro sol, outra aurora, outro Oriente. + Se a luz de meu Planeta, + Não m'aviva, Canção, branda e quieta, + Qual flor de chuva, em breve consumida, + Verás desfeita em lagrimas a vida. + + +CANÇÃO XVI. + + Por meio d'humas serras mui fragosas, + Cercadas de sylvestres arvoredos, + Retumbando por asperos penedos, + Correm perennes ágoas deleitosas. + Na ribeira de Buina, assi chamada, + Celebrada, + Porqu'em prados + Esmaltados + Com frescura + De verdura, + Assi se mostra amena, assi graciosa, + Qu'excede a qualquer outra mais formosa; + As correntes se vem, que acceleradas, + As hervas regalando e as boninas, + Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas, + Por diversas ribeiras derivadas. + Com mil brancas conchinhas a aurea areia + Bem se arreia; + Voão aves; + Mil suaves + Passarinhos + Nos raminhos + Acordemente estão sempre cantando, + Com doce accento os ares abrandando. + O doce rouxinol n'hum ramo canta, + E d'outro o pintasirgo lhe responde; + A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde, + O caçador sentindo, se levanta: + Voando vai ligeira mais que o vento; + Outro assento + Vai buscando; + Porém quando + Vai fugindo; + Retinindo, + Traz ella mais veloz a setta corre, + De que ferida logo cahe e morre. + Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo, + Co'o peito ensanguentado anda voando, + Cibato para o ninho indo buscando; + A leda codorniz vem ao reclamo + Do sagaz caçador, que a rede estende, + E pretende + Com engano + Fazer dano + Á coitada, + Qu'enganada + D'huns esparzidos grãos de louro trigo, + Nas mãos vai a cahir de seu imigo. + Aqui sôa a calhandra na parreira; + A rôla geme; palra o estorninho; + Sahe a candida pomba do seu ninho; + O tordo pousa em cima da oliveira: + Vão as doces abelhas susurrando, + E apanhando + O rocio + Fresco e frio + Por o prado + D'herva ornado, + Com que o aureo licor fazem, que deo + Á humana gente a indústria d'Aristeo. + Aqui as uvas luzidas, penduradas + Das pampinosas vides, resplandecem; + As frondiferas árvores se offrecem + Com differentes fructos carregadas: + Os peixes n'ágoa clara andão saltando, + Levantando + As pedrinhas, + E as conchinhas + Rubicundas, + Que as jucundas + Ondas comsigo trazem, crepitando + Por a praia alva com ruido brando. + Aqui por entre as serras se levantão + Animaes Calidoneos, e os veados + Na fugida inda mal assegurados, + Porque do som dos proprios pés s'espantão. + Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa + Da frondosa + Breve mata, + Donde a cata + Cão ligeiro. + Mas primeiro + Qu'ella ao contrário férvido s'entregue, + Ás vezes deixa em branco a quem a segue. + Luzem as brancas e purpúreas flores, + Com que o brando Favonio a terra esmalta; + O formoso jacintho alli não falta, + Lembrado dos antiguos seus amores. + Inda na flor se mostrão esculpidos + Os gemidos: + Aqui Flora + Sempre mora; + E com rosas + Mais formosas, + Com lirios e boninas mil fragrantes, + Alegra os seus amores circumstantes. + Aqui Narciso em líquido crystal + Se namora de sua formosura: + Nelle as pendentes ramas da'spessura + Debuxando-se estão ao natural. + Adonis, com que a linda Cytherêa + Se recrêa, + Bem florido, + Convertido + Na bonina, + Qu'Erycina + Por imagem deixou de qual sería + Aquelle por quem ella se perdia. + Lugar alegre, fresco, accommodado + Para se deleitar qualquer amante, + A quem com sua ponta penetrante + O cego Amor tivesse derribado; + E para memorar ao som das ágoas + Suas mágoas + Amorosas, + As cheirosas + Flores vendo, + Escolhendo, + Para fazer preciosas mil capellas, + E dar por grão penhor a Nymphas bellas. + Eu dellas, por penhor de meus amores, + Huma capella á minha deosa dava: + Que lhe queria bem, bem lhe mostrava + O bem-mequeres entre tantas flores: + Porém, como se fôra mal-mequeres, + Os poderes + Da crueldade + Na beldade + Bem mostrou; + Desprezou + A dadiva de flores; não por minha, + Mas porque muitas mais ella em si tinha. + + +CANÇÃO XVII. + + A vida ja passei assaz contente, + Livre tinha a vontade e o pensamento, + Sem receios d'Amor, nem da Ventura: + Mas isto foi hum bem d'hum só momento; + E á minha custa vejo claramente, + Que a vida não dá algum de muita dura. + No tempo em qu'eu vivia mais segura + D'Amor e seu cuidado, + Por me ver n'hum estado + Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte; + Não sinto por qual arte + Me vejo entregue a elle de tal sorte, + Qu'em quanto tarda a morte, + A esperança do bem tenho perdida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Quantas vezes eu triste aqui ouvia + O meu Felicio, e outros mil pastores, + Queixar-se em vão de minha crueldade! + E mais surda então eu a seus clamores, + Que aspide surda, ou surda penedia, + Julgava os seus amores por vaidade. + Agora em pago disto a liberdade, + A vontade e o desejo + De todo entregue vejo + A quem, inda que brade, não responde; + Pois vejo que s'esconde + Ja debaixo da terra este qu'eu chamo, + Que he aquelle a quem amo, + Aquelle a quem agora estou rendida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Que gloria, Amor cruel, com meu tormento, + Que louvor a teu nome accrescentaste? + Ou que te constrangeo a tal crueza, + Que com tal pressa esta alma sujeitaste + A hum mal, onde não basta o soffrimento? + Mas se, Amor, es cruel de natureza, + Bastava usar comigo da aspereza + Que usas com outra gente: + Mas tu como somente + De ver-me estar morrendo te contentas, + Quando mais me atormentas, + Então desejas mais d'atormentar-me; + E não queres matar-me + Porque este mal de mi se não despida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Onde cousa acharei que alegre veja? + A quem chamarei ja que me responda? + Quem me dará remedio á dor presente? + Não ha bem, que de mi ja não s'esconda; + Nem algum verei ja, que a mi o seja, + Porqu'está quem o foi da vida ausente. + Eu alguma não vi tão descontente, + Que Amor tão mal tratasse, + Qu'inda não esperasse + A seus males remedio achar vivendo: + Eu só vivo soffrendo + Hum mal tão grave e tão desesperado, + Que tanto he mais pezado, + Quanto a vida com elle he mais comprida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Suaves ágoas, dura penedia, + Arvoredo sombrio, verde prado, + Donde eu ja tive livre o pensamento; + Frescas flores; e vós, meu manso gado, + Que ja m'acompanhastes na alegria, + Não me deixeis agora no tormento. + Se do mal meu vos toca sentimento, + Dae-me par'elle ajuda, + Qu'eu tenho a lingua muda, + O alento me vai ja desamparando. + Mas quando (ai triste!) quando + D'hum dia hum'hora me virá contente, + Qu'eu te veja presente, + Pastor meu, e comtigo est'alma unida? + Ai quão devagar passa a triste vida! + Mas não sei se he sobrado atrevimento + Querer-se est'alma minha unir comtigo, + Pois della foste ja tão desprezado. + Amor me livrará deste perigo; + Que despois que lá vires meu tormento, + Creio que t'haverás por bem vingado. + E s'inda em ti durar o amor passado, + E aquella fé tão pura, + Eu estou bem segura + Que has lá de receber-me brandamente. + Aprenda em mi a gente + Quão cara huma isenção com Amor custa: + A pena dá bem justa + A hum'alma que lhe he pouco agradecida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + + + + +ODES. + + +ODE I. + + Detem hum pouco, Musa, o largo pranto + Que Amor te abre do peito; + E vestida de rico e ledo manto, + Demos honra e respeito + Áquella, cujo objeito + Todo o mundo allumia, + Trocando a noite escura em claro dia. + O Delia, que a pezar da nevoa grossa, + Co'os teus raios de prata + A noite escura fazes que não possa + Encontrar o que trata, + E o que n'alma retrata + Amor por teu divino + Raio, por qu'endoudeço e desatino: + Tu, que de formosissimas estrellas + Corôas e rodeias + Tua candida fronte e faces bellas; + E os campos formoseias + Co'as rosas que semeias, + Co'as boninas que gera + O teu celeste humor na primavera: + Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio + Suas sombras formosas; + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio + As mais purpureas rosas; + E as drogas mais cheirosas + Desse nosso Oriente + Guarda a felice Arabia mais contente. + De qual panthera, ou tigre, ou leopardo + As asperas entranhas + Não temêrão teu fero e agudo dardo, + Quando por as montanhas + Mais remotas e estranhas + Ligeira atravessavas, + Tão formosa que a Amor d'amor matavas? + Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos + Furtos de purídades, + Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos, + As conformes vontades, + Humas por saudades, + Outras por crus indicios + Fazem das proprias vidas sacrificios: + Ja veio Endymião por estes montes + O ceo, suspenso, olhando, + E teu nome, co'os olhos feitos fontes, + Em vão sempre chamando, + Pedindo (suspirando) + Mercês á tua beldade, + Sem que ache em ti hum'hora piedade. + Por ti feito pastor de branco gado + Nas selvas solitarias, + Só de seu pensamento acompanhado, + Conversa as alimarias, + De todo Amor contrárias, + Mas não como ti duras, + Onde lamenta e chora desventuras. + Das castas virgens sempre os altos gritos, + Clara Lucina, ouviste, + Renovando-lhe as fôrças e os espritos: + Mas os daquelle triste, + Ja nunca consentiste + Ouvi-los hum momento, + Para ser menos grave o seu tormento. + Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas + D'hum tão fiel amante! + Ólha como suspirão estas ondas, + E como o velho Atlante + O seu collo arrogante + Move piedosamente, + Ouvindo a minha voz fraca e doente. + Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me, + Pois minhas queixas digo + A quem ja ergueo a mão para matar-me, + Como a cruel imigo? + Mas eu meu fado sigo, + Que a isto me destina, + E qu'isto só pretende e só m'ensina. + Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana! + Mas eu sempre porfio + Cada vez mais na minha teima insana. + Tendo livre alvedrio, + Não fujo o desvario; + Porque este em que me vejo + Engana co'a esperança o meu desejo. + Oh quanto melhor fôra que dormissem + Hum somno perennal + Estes meus olhos tristes, e não vissem + A causa de seu mal + Fugir, a hum tempo tal, + Mais que d'antes proterva, + Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva! + Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo, + Com mil mortes ao lado; + E quando morro mais, então mais vivo! + Porque t[~e]e ordenado + Meu infelice fado, + Que quando me convida + A morte, para a morte tenha vida. + Secreta noite amiga, a que obedeço, + Estas rosas (por quanto + Meus queixumes me ouviste) te offereço, + E este fresco amaranto, + Humido ja do pranto, + E lagrimas da esposa + Do cioso Titão, branca e formosa. + + +ODE II. + + Tão suave, tão fresca e tão formosa, + Nunca no ceo sahio + A Aurora no princípio do verão, + Ás flores dando a graça costumada, + Como a formosa mansa fera, quando + Hum pensamento vivo m'inspirou, + Por quem me desconheço. + Bonina pudibunda, ou fresca rosa, + Nunca no campo abrio, + Quando os raios do sol no Touro estão, + De côres differentes esmaltada, + Como esta flor, que os olhos inclinando, + O soffrimento triste costumou + Á pena que padeço. + Ligeira, bella Nympha, linda, irosa, + Não creio que seguio + Satyro, cujo brando coração + D'amores commovesse fera irada, + Qu'assi fosse fugindo e desprezando + Este tormento, donde Amor mostrou + Tão próspero comêço. + Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa + Natura produzio, + Qu'iguale aquella fórma e condição, + Que as dores em que vivo estima em nada. + Mas com tão doce gesto, irado e brando, + O sentimento, e a vida m'enlevou, + Que a pena lhe agradeço. + Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa, + Aquillo que a alma vio + Entre a doce dureza e mansidão, + Primores de belleza desusada; + Mas quando quiz voar ao ceo cantando, + Entendimento e engenho me cegou + Luz de tão alto preço. + Naquella alta pureza deleitosa + Que ao mundo s'encobrio; + E nos olhos Angelicos, que são + Senhores desta vida destinada; + E naquelles cabellos, que soltando + Ao manso vento, a vida me enredou, + M'alegro e m'entristeço. + Saudade e suspeita perigosa, + Que Amor constituio + Por castigo daquelles que se vão; + Temores, penas d'alma desprezada, + Fera esquivança, que me vai tirando + O mantimento que me sustentou, + A tudo me offereço. + Amor isento a huns olhos m'entregou, + Nos quaes a Deos conheço. + + +ODE III. + + Se de meu pensamento + Tanta razão tivera d'alegrar-me, + Quanto de meu tormento + A tenho de queixar-me, + Puderas, triste lyra, consolar-me. + E minha voz cansada, + Qu'em outro tempo foi alegre e pura, + Não fôra assi tornada, + Com tanta desventura, + Tão rouca, tão pezada, nem tão dura. + A ser como sohia, + Pudera levantar vossos louvores; + Vós, minha Hierarchia, + Ouvíreis meus amores, + Qu'exemplo são ao mundo ja de dores. + Alegres meus cuidados, + Contentes dias, horas e momentos, + Oh quanto bem lembrados + Sois de meus pensamentos, + Reinando agora em mi duros tormentos! + Ai gostos fugitivos! + Ai gloria ja acabada e consumida! + Ai males tão esquivos! + Qual me deixais a vida! + Quão cheia de pezar! quão destruida! + Mas como não he morta + Ja esta vida? como tanto dura? + Como não abre a porta + A tanta desventura, + Qu'em vão com seu poder o tempo cura? + Mas para padecê-la + S'esforça o meu sogeito e convalece; + Que só para dizê-la, + A fôrça me fallece, + E de todo me cansa e m'enfraquece. + Oh bem affortunado + Tu, que alcançaste com lyra toante, + Orphêo, ser escutado + Do fero Rhadamante, + E co'os teus olhos ver a doce amante! + As infernaes figuras + Moveste com teu canto docemente; + As tres Furias escuras, + Implacaveis á gente, + Applacadas se vírão derepente. + Ficou como pasmado + Todo o Estygio Reino co'o teu canto; + E quasi descansado + De seu eterno pranto, + Cessou de alçar Sisypho o grave canto. + A ordem se mudava + Das penas que regendo está Plutão; + Em descanso se achava + A roda de Ixião, + E em glória quantas penas alli são. + De todo ja admirada + A Rainha infernal e commovida, + Te deo a desejada + Esposa, que perdida + De tantos dias ja tivera a vida. + Pois minha desventura, + Como ja não abranda hum'alma humana, + Qu'he contra mi mais dura, + E inda mais deshumana, + Que o furor de Callirrhoë profana? + Oh crua, esquiva e fera, + Duro peito, cruel e empedernido, + D'alguma tigre fera + Lá na Hircania nascido, + Ou d'entre as duras rochas produzido! + Mas que digo, coitado! + E de quem fio em vão minhas querellas? + Só vós, ó do salgado, + Humido Reino bellas + E claras Nymphas, condoei-vos dellas. + E d'ouro guarnecidas + Vossas louras cabeças levantando + Sôbre as ondas erguidas, + As tranças gottejando, + Sahindo todas, vinde a ver qual ando. + Sahi em companhia, + E cantando e colhendo as lindas flores; + Vereis minha agonia, + Ouvireis meus amores, + E sentireis meus prantos, meus clamores. + Vereis o mais perdido + E mais infeliz corpo qu'he gerado; + Qu'está ja convertido + Em chôro, e neste estado + Somente vive nelle o seu cuidado. + + +ODE IV. + + Formosa fera humana, + Em cujo coração soberbo e rudo + A fôrça soberana + Do vingativo Amor, que vence tudo, + As pontas amoladas + De quantas settas tinha t[~e]e quebradas: + Amada Circe minha, + Postoque minha não, com tudo amada; + A quem hum bem que tinha + Da doce liberdade desejada, + Pouco a pouco entreguei, + E se mais tenho, mais entregarei; + Pois natureza irosa + Da razão te deo partes tão contrárias, + Que sendo tão formosa, + Folgues de te queimar em flammas várias, + Sem arder em nenh[~u]a + Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a; + Pois triumphando vás + Com diversos despojos de perdidos, + Que tu privando estás + De razão, de juizo e de sentidos, + E quasi a todos dando + Aquelle bem que a todos vás negando; + Pois tanto te contenta + Ver o nocturno moço, em ferro envolto, + Debaixo da tormenta + De Jupiter em ágoa e vento sôlto, + Á porta, que impedido + Lhe t[~e]e seu bem, de mágoa adormecido; + Porque não tens receio + Que tantas insolencias e esquivanças + A deosa, que põe freio + A soberbas e doudas esperanças, + Castigue com rigor, + E contra ti se accenda o fero Amor? + Ólha a formosa Flora; + De despojos de mil suspiros rica, + Por o Capitão chora, + Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica, + E foi sublime tanto, + Que altares lhe deo Roma e nome santo. + Ólha em Lesbos aquella + No seu salteiro insigne conhecida; + Dos muitos que por ella + Se perdêrão, perdeo a chara vida + Na rocha que se infama + Com ser remedio extremo de quem ama. + Por o moço escolhido, + Onde mais se mostrárão as tres Graças; + Que Venus escondido + Para si teve hum tempo entre as alfaças, + Pagou co'a morte fria + A má vida que a muitos ja daria. + E, vendo-se deixada + Daquelle por quem tantos ja deixára, + Se foi, desesperada, + Precipitar da infame rocha chara: + Que o mal de mal querida + Sabe que vida lhe he perder a vida. + Tomae-me, bravos mares; + Vós me tomae, pois outrem me deixou. + Disse: e dos altos ares + Pendendo, com furor s'arremessou. + Acude tu, suave, + Acude, poderosa e divina ave. + Toma-a nas azas tuas, + Menino pio, illesa e sem perigo, + Antes que nestas cruas + Ágoas cahindo apague o fogo antigo. + He digno amor tamanho + De viver, e ser tido por estranho. + Não: qu'he razão que seja + Para as lobas isentas, que amor vendem, + Exemplo onde se veja + Que tambem ficão presas as que prendem. + Assi o deo por sentença + Nemesis, que Amor quiz que tudo vença. + + +ODE V. + + Nunca manhãa suave + Estendendo seus raios por o mundo, + Despois de noite grave, + Tempestuosa, negra, em mar profundo + Alegrou tanto nao, que ja no fundo + Se vio em mares grossos, + Como a luz clara a mi dos olhos vossos. + Aquella formosura, + Que só no virar delles resplandece; + E com que a sombra escura + Clara se faz, e o campo reverdece; + Quando o meu pensamento se entristece, + Ella e sua viveza + Me desfazem a nuvem da tristeza. + O meu peito, onde estais, + He para tanto bem pequeno vaso; + Quando acaso virais + Os olhos, que de mi não fazem caso, + Todo, gentil Senhora, então me abraso + Na luz que me consume, + Bem como a borboleta faz no lume. + Se mil almas tivera + Que a tão formosos olhos entregára, + Todas quantas pudera + Por as pestanas delles pendurára; + E, enlevadas na vista pura e clara, + (Postoque disso indinas) + Se andárão sempre vendo nas meninas. + E vós, que descuidada + Agora vivereis de taes querellas, + D'almas minhas cercada, + Não pudesseis tirar os olhos dellas; + Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas + A dor que lhe mostrassem, + Tantas huma alma só não abrandassem. + Mas, pois o peito ardente + Huma só póde ter, formosa Dama, + Basta que esta somente, + Como se fossem mil e mil, vos ama, + Para que a dor de sua ardente flama + Comvosco tanto possa, + Que não queirais ver cinza hum'alma vossa. + + +ODE VI. + + Póde hum desejo immenso + Arder no peito tanto, + Que á branda e á viva alma o fogo intenso + Lhe gaste as nodoas do terreno manto; + E purifique em tanta alteza o esprito + Com olhos immortais, + Que faz que leia mais do que vê'scrito. + Que a flamma, que se accende + Alto, tanto allumia, + Que se o nobre desejo ao bem s'estende + Que nunca vio, o sente claro dia; + E lá vê do que busca o natural, + A graça, a viva côr, + N'outra especie melhor que a corporal. + Pois vós, ó claro exemplo + De viva formosura, + Que de tão longe cá noto e contemplo + N'alma, que este desejo sobe e apura; + Não creais que não vejo aquella imagem + Que as gentes nunca vem, + Se de humanos não tem muita vantagem. + Que se os olhos ausentes + Não vem a compassada + Proporção, que das côres excellentes + De pureza e vergonha he variada; + Da qual a Poesia, que cantou + Atéqui só pinturas + Com mortaes formosuras igualou; + Se não vem os cabellos + Que o vulgo chama de ouro; + E se não vem os claros olhos bellos, + De quem cantão que são de sol thesouro; + E se não vem do rosto as excellencias, + A quem dirão que deve + Rosa, e crystal, e neve as apparencias; + Vem logo a graça pura, + A luz alta e severa, + Que he raio da divina formosura, + Que n'alma imprime e fóra reverbera; + Assi como crystal do sol ferido, + Que por fóra derrama + A recebida flamma esclarecido. + E vem a gravidade, + Com a viva alegria + Que misturada t[~e]e de qualidade, + Que huma da outra nunca se desvia; + Nem deixa de ser huma receada + Por leda e por suave, + Nem outra, por ser grave, muito amada. + E vem do honesto siso + Os altos resplandores + Temperados co'o doce e ledo riso, + A cujo abrir abrem no campo as flores; + As palavras discretas e suaves, + Das quaes o movimento + Fara deter o vento e as altas aves: + Dos olhos o virar + Que torna tudo raso, + Do qual não sabe o engenho divisar + Se foi por artificio, ou feito acaso; + Da presença os meneios e a postura, + O andar e o mover-se, + Donde póde aprender-se formosura. + Aquelle não sei que, + Que aspira não sei como, + Qu'invisivel sahindo, a vista o vê, + Mas para o comprender não lhe acha tomo; + E que toda a Toscana Poesia, + Que mais Phebo restaura, + Em Beatriz, nem Laura nunca via: + Em vós a nossa idade, + Senhora, o póde ver, + S'engenho, se sciencia e habilidade, + Iguaes á vossa formosura der, + Qual a vi no meu longo apartamento, + Qual em ausencia a vejo. + Taes azas dá o desejo ao pensamento! + Pois se o desejo afina + Hum'alma accesa tanto, + Que por vós use as partes de divina; + Por vós levantarei não visto canto, + Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante: + Que o nosso claro Tejo, + Envolto hum pouco o vejo e dissonante. + O campo não o esmaltão + Flores, mas só abrolhos + O fazem feio; e cuido que lhe faltão + Ouvidos para mi, para vós olhos. + Mas faça o que quizer o vil costume; + Que o sol, qu'em vós está, + Na escuridão dara mais claro lume. + + +ODE VII. + + A quem darão de Pindo as moradoras, + Tão doctas como bellas, + Florecentes capellas + De triumphante louro, ou myrto verde; + Da gloriosa palma, que não perde + A presumpção sublime, + Nem por fôrça de pêzo algum se opprime? + A quem trarão nas faldas delicadas, + Rosas a roxa Cloris, + Conchas a branca Doris; + Estas, flores do mar; da terra aquellas, + Argenteas, ruivas; brancas e amarellas, + Com danças e corêas + De formosas Nereidas e Napêas? + A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos, + Em Thebas Amphion, + Em Lesbos Arion, + Senão a vós, por quem restituida + Se vê da Poesia ja perdida + A honra e gloria igual, + Senhor Dom Manoel de Portugal? + Imitando os espritos ja passados, + Gentis, altos, Reais, + Honra benigna dais + A meu tão baixo, quão zeloso engenho. + Por Mecenas a vós celebro e tenho; + E sacro o nome vosso + Farei, se alguma cousa em verso posso. + O rudo canto meu, que resuscita + As honras sepultadas, + As palmas ja passadas + Dos bellicosos nossos Lusitanos + Para thesouro dos futuros anos, + Comvosco se defende + Da lei Lethêa, á qual tudo se rende. + Na vossa árvore ornada d'honra e glória + Achou tronco excellente + A hera florecente + Para a minha atéqui de baixa estima: + Nelle, para trepar, s'encosta e arrima; + E nella subireis + Tão alto, quanto os ramos estendeis. + Sempre forão engenhos peregrinos + Da Fortuna invejados; + Que quanto levantados + Por hum braço nas azas são da Fama, + Tanto por outro aquella, que os desama, + Co'o pêzo e gravidade + Os opprime da vil necessidade. + Mas altos corações dignos d'Imperio, + Que vencem a Fortuna, + Forão sempre coluna + Da sciencia gentil: Octaviano, + Scipião, Alexandre e Graciano, + Que vemos immortais; + E vós, que o nosso seculo dourais. + Pois, logo, em quanto a cithara sonora + S'estimar por o mundo, + Com som docto e jucundo; + E em quanto produzir o Tejo e o Douro + Peitos de Marte e Phebo crespo e louro, + Tereis glória immortal, + Senhor Dom Manoel de Portugal. + + +ODE VIII. + + Aquelle unico exemplo + De fortaleza heroica e ousadia, + Que mereceo no templo + Da Fama eterna ter perpétuo dia; + O grão filho de Thetis, que dez anos + Flagello foi dos miseros Troianos; + Não menos ensinado + Foi nas hervas e Medica polícia, + Que destro e costumado + No soberbo exercicio da Milicia: + Assi que as mãos que a tantos morte derão, + Tambem a muitos vida dar puderão. + E não se desprezou + Aquelle fero e indomito mancebo + Das Artes qu'ensinou + Para o languido corpo o intonso Phebo; + Que se o temido Heitor matar podia, + Tambem chagas mortaes curar sabía. + Taes Artes aprendeo + Do semiviro Mestre e docto velho, + Onde tanto cresceo + Em virtude, e em sciencia e em conselho, + Que Telepho, por elle vulnerado, + Só delle pôde ser despois curado. + Pois vós, ó excellente + E illustrissimo Conde, do ceo dado + Para fazer presente + D'altos Heroes o seculo passado; + E em quem bem trasladada está a memoria + De vossos ascendentes, a honra e glória: + Postoque o pensamento + Occupado tenhais na guerra infesta, + Ou co'o sanguinolento + Taprobano, ou Achem, que o mar molesta, + Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso, + Que qualquer delles teme o nome vosso; + Favorecei a antiga + Sciencia que ja Achilles estimou; + Olhae que vos obriga + O ver qu'em vosso tempo rebentou + O fructo daquell'Orta onde florecem + Plantas novas, que os doctos não conhecem. + Olhae qu'em vossos anos + Huma Orta produze várias hervas + Nos campos Indianos, + As quaes aquellas doctas e protervas, + Medêa e Circe, nunca conhecêrão, + Postoque a lei da Magica excedêrão. + E vêde carregado + D'annos e traz a vária experiencia + Hum velho, qu'ensinado + Das Gangeticas Musas na sciencia + Podaliria subtil, e arte sylvestre, + Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre. + O qual está pedindo + Vosso favor e amparo ao grão volume, + Qu'impresso á luz sahindo, + Dara da Medicina hum vivo lume; + E descobrir-nos-ha segredos certos, + A todos os Antiguos encobertos. + Assi que não podeis + Negar a que vos pede benigna aura: + Que se muito valeis + Na sanguinosa guerra Turca e Maura, + Ajudae quem ajuda contra a morte; + E sereis semelhante ao Grego forte. + + +ODE IX. + + Fogem as neves frias + Dos altos montes quando reverdecem + As árvores sombrias; + As verdes hervas crecem, + E o prado ameno de mil côres tecem. + Zephyro brando espíra; + Suas settas Amor afia agora; + Progne triste suspira, + E Philomela chora: + O ceo da fresca terra se namora. + Ja a linda Cytherêa + Vem, do côro das Nymphas rodeada; + A branca Pasitêa Despida e delicada, + Com as duas irmãas acompanhada. + Em quanto as officinas + Dos Cyclopas Vulcano está queimando, + Vão colhendo boninas + As Nymphas, e cantando, + A terra co'o ligeiro pé tocando. + Desce do aspero monte + Diana, ja cansada da espessura, + Buscando a clara fonte, + Onde por sorte dura + Perdeo Actêo a natural figura. + Assi se vai passando + A verde Primavera e o sêcco Estio; + O Outono vem entrando; + E logo o Inverno frio, + Que tambem passará por certo fio. + Ir-se-ha embranquecendo + Com a frigida neve o sêcco monte; + E Jupiter chovendo + Turbará a clara fonte: + Temerá o marinheiro a Orionte. + Porque, emfim, tudo passa; + Não sabe o Tempo ter firmeza em nada; + E a nossa vida escassa + Foge tão apressada, + Que quando se começa he acabada. + Que se fez dos Troianos + Heitor temido, Enêas piedoso? + Consumírão-te os anos, + Ó Cresso tão famoso, + Sem te valer teu ouro precioso. + Todo o contentamento + Crias qu'estava em ter thesouro ufano! + Oh falso pensamento! + Que á custa de teu dano + Do sabio Solon crêste o desengano. + O bem que aqui se alcança, + Não dura por passante, nem por forte: + Que a bem-aventurança + Duravel, de outra sorte + Se ha de alcançar na vida para a morte. + Porque, emfim, nada basta + Contra o terrivel fim da noite eterna; + Nem póde a deosa casta + Tornar á luz superna + Hippolyto da escura sombra averna. + Nem Thesêo esforçado, + Ou com manha, ou com fôrça valerosa, + Livrar póde o ousado + Perithoo da espantosa + Prisão Lethêa escura e tenebrosa. + + +ODE X. + + Aquelle moço fero + Nas Pelethronias covas doctrinado + Do Centauro severo; + Cujo peito esforçado + Com tutanos de tigres foi criado. + N'ágoa fatal menino + O lava a mãe, presaga do futuro, + Para que ferro fino + Não passe o peito duro + Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro. + A carne lh'endurece, + Porque não seja d'armas offendida. + Cega! pois não conhece + Que póde haver ferida + N'alma, e que menos doe perder a vida. + Que donde o braço irado + Dos Troianos passava arnez e escudo, + Alli se vio passado + Daquelle ferro agudo + Do menino qu'em todos póde tudo. + Alli se vio captivo + Da captiva gentil que serve e adora; + Alli se vio que vivo + Em vivo fogo mora, + Porque de seu senhor a vê senhora. + Ja toma a branda lyra + Na mão que a dura Pelias meneára; + Alli canta e suspira, + Não como lh'ensinára + O velho, mas o moço que o cegára. + Pois, logo, quem culpado + Será, se de pequeno offerecido + Foi todo a seu cuidado; + No berço instituido + A não poder deixar de ser ferido? + Quem logo fraco infante + D'outro mais poderoso foi sujeito, + E para cego amante + Desd'o princípio feito, + Com lagrimas banhando o tenro peito? + Se agora foi ferido + Da penetrante ponta e fôrça d'herva; + E se Amor he servido + Que sirva á linda serva, + Para quem minha estrella me reserva? + O gesto bem talhado; + O airoso meneio e a postura; + O rosto delicado, + Que na vista figura + Que s'ensina por arte a formosura, + Como póde deixar + De render a quem tenha entendimento? + Que quem não penetrar + Hum doce gesto, attento, + Não lhe he nenhum louvor viver isento. + Aquelles, cujos peitos + Ornou d'altas sciencias o destino. + Se vírão mais sujeitos + Ao cego e vão menino, + Arrebatados do furor divino. + O Rei famoso Hebreio, + Que mais que todos soube, mais amou; + Tanto, que a deos alheio + Falso sacrificou. + Se muito soube e teve, muito errou. + E o grão Sabio qu'ensina, + Passeando, os segredos da Sophia, + Á baixa concubina + Do vil Eunuco Hermia + Aras ergueo, que aos deoses só devia. + Aras ergue a quem ama + O Philosopho insigne namorado. + Doe-se a perpétua fama, + E grita qu'he culpado: + Da lesa divindade he accusado. + Ja foge donde habita; + Ja paga a culpa enorme com destêrro. + Mas, oh grande desdita! + Bem mostra tamanho êrro + Que doctos corações não são de ferro. + Antes na altiva mente, + No subtil sangue e engenho mais perfeito + Ha mais conveniente + E conforme sogeito, + Onde s'imprima o brando e doce affeito. + + +ODE XI. + + Naquelle tempo brando + Em que se vê do mundo a formosura, + Que Thetis descansando + De seu trabalho está, formosa e pura, + Cansava Amor o peito + Do mancebo Peleo d'hum duro affeito. + Com impeto forçoso + Lhe havia ja fugido a bella Nympha, + Quando no tempo aquoso + Noto irado revolve a clara lympha, + Serras no mar erguendo, + Que os cumes das da terra vão lambendo. + Esperava o mancebo, + Com a profunda dor que n'alma sente, + Hum dia em que ja Phebo + Começava a mostrar-se ao mundo ardente, + Soltando as tranças d'ouro, + Em que Clicie d'amor faz seu thesouro. + Era no mez que Apolo + Entre os irmãos celestes passa o tempo: + O vento enfreia Eolo, + Para que o deleitoso passatempo + Seja quieto e mudo; + Que a tudo Amor obriga, e vence tudo. + O luminoso dia + Os amorosos corpos despertava + Á cega idolatria, + Que ao peito mais contenta e mais aggrava; + Onde o cego menino + Faz que os humanos crêão que he divino: + Quando a formosa Nympha, + Com todo o ajuntamento venerando, + Na crystallina lympha + O corpo crystallino está lavando; + O qual nas ágoas vendo, + Nelle, alegre de o ver, s'está revendo: + O peito diamantino, + Em cuja branca teta Amor se cria; + O gesto peregrino, + Cuja presença torna a noite em dia; + A graciosa boca + Que a Amor com seus amores mais provoca; + Os rubins graciosos; + As pérolas qu'escondem vivas rosas + Dos jardins deleitosos, + Que o ceo plantou em faces tão formosas; + O transparente collo, + Que ciumes a Daphne faz d'Apollo; + O subtil mantimento + Dos olhos, cuja vista a Amor cegou; + A Amor que, com tormento + Glorioso, nunca delles se apartou, + Pois elles de contino + Nas meninas o trazem por menino; + Os fios derramados + Daquelle ouro que o peito mais cobiça, + Donde Amor enredados + Os corações humanos traz e atiça, + E donde com desejo + Mais ardente começa a ser sobejo. + O mancebo Peleo, + Que de Neptuno estava aconselhado, + Vendo na terra o ceo + Em tão bella figura trasladado, + Mudo hum pouco ficou, + Porque Amor logo a falla lhe tirou. + Emfim, querendo ver + Quem tanto mal de longe lhe fazia, + A vista foi perder, + Porque de puro amor, Amor não via: + Vio-se assi cego e mudo + Por a fôrça d'Amor que póde tudo. + Agora s'apparelha + Para a batalha; agora remettendo; + Agora s'aconselha; + Agora vai; agora está tremendo; + Quando ja de Cupido + Com nova setta o peito vio ferido. + Remette o moço logo + Para ond'estava a chamma sem socêgo; + E co'o sobejo fogo + Quanto mais perto estava, então mais cego: + E cego, e co'hum suspiro, + Na formosa donzella emprega o tiro. + Vingado assi Peleo, + Nasceo deste amoroso ajuntamento + O forte Larisseo, + Destruição do Phrygio pensamento; + Que, por não ser ferido, + Foi nas ágoas Estygias submergido. + + +ODE XII. + + Ja a calma nos deixou + Sem flores as ribeiras deleitosas; + Ja de todo seccou + Candidos lirios, rubicundas rosas: + Fogem do grave ardor os passarinhos + Para o sombrio amparo de seus ninhos. + Meneia os altos freixos + A branda viração de quando em quando; + E d'entre vários seixos + O liquido crystal sahe murmurando: + As gottas, que das alvas pedras sáltão, + O prado, como pérolas, esmaltão. + Da caça ja cansada + Busca a casta Titanica a espessura, + Onde á sombra inclinada + Logre o doce repouso da verdura, + E sôbre o seu cabello ondado e louro + Deixe cahir o bosque o seu thesouro. + O ceo desimpedido + Mostrava o lume eterno das estrellas; + E de flores vestido + O campo, brancas, roxas e amarellas, + Alegre o bosque tinha, alegre o monte, + O prado, o arvoredo, o rio, a fonte. + Porém como o menino, + Que a Jupiter por a aguia foi levado, + No cêrco crystallino + For do amante de Clicie visitado; + O bosque chorará, chorará a fonte, + O rio, o arvoredo, o prado, o monte. + O mar, que agora brando + He das Nereidas candidas cortado, + Logo se irá mostrando + Todo em crespas escumas empolado: + O soberbo furor de negro vento + Fara por toda parte movimento. + Lei he da natureza + Mudar-se desta sorte o tempo leve: + Succeder á belleza + Da Primavera o fructo; a elle a neve; + E tornar outra vez por certo fio + Outono, Inverno, Primavera, Estio. + Tudo, emfim, faz mudança + Quanto o claro sol vê, quanto allumia; + Não se acha segurança + Em tudo quanto alegra o bello dia: + Mudão-se as condições, muda-se a idade, + A bonança, os estados e a vontade. + Somente a minha imiga + A dura condição nunca mudou; + Para que o mundo diga + Que nella lei tão certa se quebrou: + Em não ver-me ella só sempre está firme, + Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me. + Mas ja soffrivel fôra + Qu'em matar-me ella só mostre firmeza, + Se não achára agora + Tambem em mi mudada a natureza; + Pois sempre o coração tenho turbado, + Sempre d'escuras nuvens rodeado. + Sempre exprimento os fios + Qu'em contino receio Amor me manda; + Sempre os dous caudaes rios, + Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda, + Correm, sem chegar nunca o Verão brando, + Que tamanha aspereza vá mudando. + O sol sereno e puro, + Que no formoso rosto resplandece, + Envolto em manto escuro + Do triste esquecimento, não parece; + Deixando em triste noite a triste vida + Que nunca de luz nova he soccorrida. + Porém seja o que for: + Mude-se por meu damno a natureza; + Perca a inconstancia Amor; + A Fortuna inconstante ache firmeza; + Tudo mudável seja contra mi, + Mas eu firme estarei no qu'emprendi. + + + + +NOTAS. + + + + +NOTAS. + + +Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa. +_Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3.ª ed. A primeira lição he viciosa, +a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptámos. + + +P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas +o vício he manifesto, porque a tenção, desacompanhada da obra, +nada póde acabar. Corrigimos: + + Mas se vossa tenção com minha morte + He de acabar o mal destes amores etc. + + +P. 29. V. 13. _Mas em vão não vereis, porque vereis_] Faria e +Sousa. _Mas em vão não vireis, porque achareis_] 3.ª ed. Adoptámos esta +lição, que he a do poeta. + + +P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa. +_O pensamento e a aspereza vossa_] 3.ª ed. Porque rejeitaria Faria e +Sousa esta lição? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_? +Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira. + + +P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e +Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3.ª ed. Adoptámos a lição +antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior porção. + + +P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_] +Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a melhor +parte do entendimento se vê perdida no menos que ha na sua amada, e +não he possivel que não quizesse continuar no mesmo encarecimento. +Corrigimos: + + Se em teu valor contemplo a menor parte. + + +P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras ágoas_] Faria e +Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas_] 3.ª ed. Só quem for +destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição. + + +P. 40. V. 19. _A mão tenho mettida no teu seio_] Faria e +Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos: + + A mão tenho mettida no meu seio. + + +P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e +Sousa. He êrro; corrigimos: + + Nunca do vento a ira, que arrancando. + + +P. 70. V. 24. + _Com que a morte forçada e gloriosa, + Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos: + + Com que a morte forçada gloriosa + Faz o vencido etc. + + +P. 86. V. 24. + _Pois se a fortuna o fez por descontar-me + Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o +poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que +era tal, que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse +que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora +desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos: + + Mas se a fortuna o fez por descontar-me + Aquelle gosto etc. + + +P. 108. V. 15. _Ayúdame, Señora, á ser vingança_] Faria e +Sousa. He êrro. Corrigimos: + + Ayúdame, Señora, á hacer vinganza. + + +P. 111. V. 7. _Nem todos para um gôsto são iguaes_] Faria e +Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes que passais tão +ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _são_, era absurdo. +Corrigimos: + + Nem todos para um gôsto sois iguaes. + + +P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e +Sousa. He êrro. Corrigimos: + + Aunque en esto se llega al natural. + +Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao natural o +retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o +seu pranto como se fôra o proprio original. + + +P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e +Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_. + + +P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria +e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que deixem o seu +proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavão +lavrando. Corrigimos: + + Cesse vosso lavor etc. + + +P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e +Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3.ª ed. Seguimos esta lição, que +he a verdadeira. + + +P. 120. V. 15. _Em Babylonia sôbre os rios_] Faria e Sousa. +Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler: + + De Babylonia sobre os rios etc. + + +P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e +Sousa; mas a lição do poeta he esta: + + Ah! que falte mais vezes a ventura. + + +P. 133. V. 28. + _Que não póde nenhum impedimento + Fugir do que lhe ordena sua Estrella._] +Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos: + + Fugir o que lhe ordena etc. + + +P. 134. V. 7. _Tão potente será vossa mudança_.] Lição +vulgar. He viciosa: corrigimos: + + Tão patente será etc. + + +P. 136. V. 28. _Não o quizera tanto á vossa custa_.] Lição +vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. Corrigimos: + + Não a quizera tanto á vossa custa. + + +P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.] +Lição vulgar. He absurda: corrigimos: + + Eu quanto mais te busco, mais te escondes. + + +P. 139. V. 20. _Que mágoas para ouvir! e que figura_.] Lição +vulgar. He viciosa: corrigimos: + + Que mágoas para ouvir! Que tal figura. + + +P. 144. V. 11. + _Mas eu acostumado ao veneno, + E uso de soffrer meu mal presente_.] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos: + + Assim de acostumado co'o veneno, + O uso de soffrer etc. + + +P. 159. V. 3. _Ni dejarán, por mas que el tiempo huya_.] +Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos: + + Ni dejará, por mas que el tiempo huya. + + +P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha +os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas podião ter +tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes. +Corrigimos: _Teus cabellos_. + + +P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvião_] Faria e Sousa. _As +gaitas que trazião_] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, que he a do poeta. + + +P. 175. V. 5. + _Com palavras mimosas e forjadas + Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio, +porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta +liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e +enganadas. Corrigimos: + + Com palavras mimosas e forjadas, + De solta liberdade e livre peito etc. + + +P. 184. V. 20. _Assim me está tornando o peito frio._] Todas +as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz, +tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece +entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a +lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de +texto. Corrigimos: + + Assim me está tornando, e o peito frio. + +Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que +fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina +lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o +poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar: +como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21: + + Desta arte a gente força e esforça Nuno, + Que com lh'ouvir as ultimas razões, + Removem o temor frio, importuno + Que gelados lhe tinha os corações. + +e no Canto I, Estancia 89: + + O temor grande, o sangue lhe resfria. + +Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos +se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38: + + Que poz no coração um grande medo. + +O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio, +como se ve nos seguintes exemplos: + + _Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._ + Eneida L. I, V. 96. + + _Solvite corde metum, Teucri._ + ibi V. 566. + + _Diffugimus visu exangues._ + ibi L. 2, V. 212. + + _At sociis subitâ gelidus formidine sanguis + Diriguit: cecidêre animi._ + ibi L. III, V. 259. + + _Gelidus Teucris per dura cucurrit + Ossa tremor._ + ibi L. VI, V. 54. + +E além destes muitos e muitos outros puderamos citar. + +Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como +diz o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes +poetas; com a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de +Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o +sangue acudio ao coração dos Portuguezes, e por consequencia se lhes +concentrou alli o calor, não foi porque o temor fosse maior, mas, sim, +porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lição +vulgar, e a nossa verdadeira. + + +P. 187. V. 30. _E vós, pastores deste rudo outeiro_] Faria e +Sousa. _E vós, pastores rudos deste outeiro_] 3.ª ed. A lição do poeta +he esta. + + +P. 188. V. 30. _No tronco de alguma árvore sombria_] Faria e +Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3.ª ed. Esta he a lição +verdadeira. + + +P. 190 V. 3. _Em vós deixou Minerva o que valia_] Faria e +Sousa. _Em vós deixou Minerva sua valia_] 3.ª ed. Porque desprezaria +Faria esta lição? + + +P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e +Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3.ª ed. Quem hesitará em +seguir a lição antiga? + + +P. 199. V. 23. _Se humano parecer não se defende_] Faria e +Sousa. _Que ao humano parecer não se defende_] 3.ª ed. Ambas estas +lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta, +he esta: + + Se ao humano parecer não se defende. + + +P. 200. V. 13. _Porque segues em vão esse cuidado?_] Faria e +Sousa. _Não vés que teu fugir he escusado?_] 3.ª ed. A lição antiga he a +do poeta. + + +P. 200. V. 14. _Pois nunca estás sem mim algum momento_] +Faria e Sousa. _Que sem mim não estás um so momento_] 3.ª ed. Este verso +he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta. + + +P. 201. V. 21. _A vós se dão, a quem junto se ha dado_] Faria +e Sousa. _A vós se dem, a quem junto se ha dado_] 3.ª ed. A lição +verdadeira he esta. + + +P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e +Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3.ª ed. O epiteto de _roxo_ +aqui desnecessario parece introduzido por mão estranha. + + +P. 203. V. 14. _Que farão mais que mais endurecer-te?_] Faria +e Sousa. _Que fazem senão mais endurecer-te?_] 3.ª ed. Este verso he +muito mais natural e melhor que o outro. + + +P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandára que não sente_] Faria. +_Ja um peito abrandára que não sente_] 3.ª ed. Esta segunda lição he sem +duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze +que he insensivel, esta expressão de _peito que não sente_, he nelle tão +frequente que não podemos deixar de a ter por sua. + + +P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_] +Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3.ª ed. Este verso em +harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das +primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia. + + +P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e +Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3.ª ed. Andando este +verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que Faria o não +tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro. + + +P. 213. V. 1. _E vós, cujo valor em tanto excede_] Faria e +Sousa. _E vós, cujo valor tão alto excede_] 3.ª ed. Preferimos a lição +antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he viciosa. + + +P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pãe de toda Hespanha._ +Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este +lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda +España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los +sustentó contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que +oppor, a primeira he, que não era possivel que um poeta como Camões, +para exprimir cousa tão simples fizesse tal geringonça; a segunda he +appresentar o texto como o poeta o escreveo: + + _Se não sabem as frautas pastoris + Pintar de Toro os campos semeados + D'armas e corpos fortes e gentis, + + Por um moço animoso sustentados + Contra o indomito Rei de toda Hespanha, + Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados._ + +Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom Fernando de +Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o epiteto de +indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão separadas e +independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E +se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui +visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto +a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o +trabalho de o fazer agora. + + +P. 214. V. 13. _De si ja, não ja só do pobre fato_] Faria e +Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3.ª ed. Assim andava este +verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que a mentira. +Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por +fato, cabras. + + +P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e +Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3.ª ed. A lição de Faria nos +he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de lá que +os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos, +restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como o +poeta o escreveo. + + +P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he +êrro das copias: deve ler-se: + + D'átras nuvens vestido etc. + + +P. 224. V. 31. _Quiz descansar á sombra da espessura_] Faria. +He êrro, porque espessura não rima com _manifesta_ e _sesta_. +Restituimos o verso, como andava nas primeiras edições: + + Quiz descansar á sombra da floresta. + + +P. 226. V. 1. + _Sirene e Nyse que das mãos fugirão + De Tegeo Pan_] +Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene +fugisse nunca das mãos de Pan. Restituimos: + + Syrinx e Nyse. + + +P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lançava_] Faria e +Sousa. _Ja no indigno monte se lançava_] 3.ª ed. Uma e outra lição he +viciosa; a do poeta he: + + Ja indignado no monte se lançava. + + +P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas +as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi +convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o +poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada +em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou +descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos: + + Ainda agora em herva os olhos viras. + + +P. 284. P. 4. _Com as mãos que maçãas colhendo andava._] +Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas +obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como +elle o escreveo he: + + Com a mãe que maçãas colhendo andava. + + +P. 289. V. 15. _Como o mesmo que então meu mal crescia._] +Faria e Sousa. He êrro: corrigimos: + + Com o mesmo etc. + + +P. 302. V. 28. _Sabe, Canção, que só porque não vejo._] Todas +as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim: + + Sabe, Canção, que só porque o não vejo. + + +P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braços, e assim a tive_] Todas +as ed. Mas aquelle _a_ está aqui de mais para o sentido e para o verso. +Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter +acordado. Corrigimos: + + Ma figurou nos braços, e assi tive. + + +P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he +vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he avistá-la de +lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a escuridão +ia descobrindo os montes. Corrigimos: + + Os montes descobrindo. + + +P. 308. V. 27. _Se mo não impedir o meu desejo._] Todas as +ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da sua amada, e +deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, que +esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu +desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama: +Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da +visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E a lição neste +lugar he: + + Se me não impedir o meu desejo. + + +P. 314. V. 25. _Á pena vem pequenos._] Todas as ed. O P. +Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se +deve lêr _pena_. + + +P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se lê este +verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o +vicio inda ficou. A verdadeira emenda he: + + Pelo que a si se esconde. + + +P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no +manuscripto: + + _Pelo que em si lhe esconde._ + +Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se + + Pelo que se lhe esconde. + + +P. 329. V. 19. _Não tendo, não, somente por contrarios_] +Faria e Sousa. _Não tendo tãosomente por contrarios_] 3.ª ed. A lição +antiga he a verdadeira. + + +P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna +os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a +fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as agitações do +animo. Corrigimos: + + Com que, a fronta tornada mais serena, + Tórno os tormentos graves &c. + + +P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahião._] Todas +as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores. + +Corrigimos: + + Pouco a pouco invisiveis me sahião. + + +P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e não alcança._] Todas +as ed. Mas he êrro palpavel das cópias. Sobre este lugar diz Faria: +_Mirese lo que me viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas +difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que +corre. Qué es la que corre? Arriba queda providencia, y luego +consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas +corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni asi lo entiendo +bien_. Mas não tem muito que entender: este lugar está corrompido, como +tantos outros que temos visto: a lição do poeta era _No que corre_: quem +copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando +lança os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos +d'alma, e não alcança, senão &c. + + +P. 360. Ode I.ª A primeira cousa que temos a observar nesta +Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco +d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou +tigre ou leopardo_, se achão em todas as edições depois da que começa: +_Por ti feito pastor de branco gado_, onde são absolutamente estranhas; +e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais +proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: _Tu que de formosissimas +estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que, +omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita. + + +P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim +anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, com razão, +que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame Epilio: +faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que +deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos +chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo +que lhe dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim + + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio + + +P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he +vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na +India, como se infere desta mesma Ode, onde diz: + + _Olha como suspirão estas ondas,_ + E como o velho Atlante + O seu collo arrogante + Move piedosamente + Ouvindo a minha voz fraca e doente._ + +E portanto deve ler-se + + Desse nosso Oriente + +como Faria diz que vira em um manuscripto. + + +P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he +êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente +fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos: + + Porque tem ordenado + Meu infelice Fado &c. + + +P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he +vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem ser +feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso +Titão_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a +que Faria diz encontrára n'um manuscripto: + + _Humido ja do pranto,_ + +o que dá a entender que era sobre manhãa. + + +P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._] +Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá o P. +Thomaz d'Aquino. + + E sentireis meus prantos, meus clamores. + +Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os seus +prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava); +chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem +reduzido o seu amor, e a esquivança da sua amada. + + +P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as +ed. He vicio: corrigimos + + Ajudai quem ajuda &c. + + +P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve +ler-se + + E grita qu'he culpado, + +porque do modo que está, não faz sentido. + + +P. 388. V. 21. + _Remette o moço logo + Para onde estava a chaga sem socêgo._] +Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle +ter no corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto +he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos + + Para onde estava a chamma sem socêgo. + + + + +INDEX. + + + Pag. + PREFAÇÃO VII + VIDA DE LUIS DE CAMÕES XXXII + + SONETOS. + + Pag. + A chaga que, Senhora, me fizestes 62 + A formosura desta fresca serra 135 + A morte, que da vida nó desata 68 + A peregrinação d'hum pensamento 132 + A perfeição, a graça, o doce geito 46 + A violeta mais bella que amanhece 60 + Á la margen del Tajo, en claro dia 81 + Acho-me da fortuna salteado 132 + Agora toma a espada, agora a penna[4] 97 + Ah Fortuna cruel! ah duros Fados 88 + Ah minha Dinamene! assi deixaste 86 + Ai amiga cruel! que apartamento 85 + Alegres campos, verdes arvoredos 21 + Alegres campos, verdes, deleitosos 104 + Alma gentil que á firme eternidade 215 + Alma minha gentil que te partiste 10 + Amor, com a esperança ja perdida 26 + Amor he hum fogo que arde sem se ver 41 + Amor, que em sonhos vãos do pensamento 105 + Amor, que o gesto humano na alma escreve 5 + Aos homens hum só homem poz espanto 123 + Apartava-se Nise de Montano 27 + Apollo e as nove Musas, descantando 26 + Aponta a bella Aurora, luz primeira 121 + Aquella fera humana que enriquece 38 + Aquella que de pura castidade 48 + Aquella triste e leda madrugada 13 + Aqui de longos damnos breve historia 92 + Ar, que de meus suspiros vejo cheio 58 + Árvore, cujo pomo bello e brando 69 + Ay! quien dará á mis ojos una fuente 112 + Ayúdame, Señora, á hacer venganza 108 + Bem sei, Amor, que he certo o que receio 40 + Brandas agoas do Tejo que passando[5] 55 + Busque Amor novas artes, novo engenho 8 + Ca nesta Babylonia donde mana 98 + Campo! nas syrtes deste mar da vida 85 + Cantando estava hum dia bem seguro 87 + Chara minha inimiga, em cuja mão 12 + Chorai, Nymphas, os fados poderosos 139 + Coitado! que em hum tempo chóro e rio 76 + Com grandes esperanças ja cantei 2 + Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? 31 + Como louvarei eu, Seraphim santo 124 + Como podes (oh cego peccador!) 118 + Como quando do mar tempestuoso 41 + Con razon os vais, aguas, fatigando 112 + Contente vivi ja vendo-me isento 125 + Conversação doméstica affeiçoa 44 + Correm turbas as agoas deste rio 98 + Crescei, desejo meu, pois que a Ventura 65 + Criou a natureza Damas bellas 77 + Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste 114 + Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos 35 + De amor escrevo, de amor trato e vivo 52 + De Babel sôbre os rios nos sentamos 119 + De cá, donde somente o imaginar-vos 59 + De frescas belvederes rodeadas 102 + De mil suspeitas vãas se me levantão 61 + De quantas graças tinha a natureza 66 + De tão divino accento em voz humana[6] 32 + De vós me parto, ó vida, e em tal mudança 12 + Debaixo desta pedra está metido 32 + Debaixo desta pedra sepultada 116 + Deixa, Apollo, o correr tão apressado 125 + Desce do ceo, immenso Deos benino 100 + Despois de haver chorado os meus tormentos 101 + Despois de tantos dias mal gastados[7] 28 + Despois que quiz Amor que eu só passasse 3 + Despois que vio Cibele o corpo humano[8] 96 + Diana prateada esclarecida 141 + Ditosa pena, como a mão que a guia[9] 94 + Ditosas almas que ambas juntamente 124 + Ditoso seja aquelle que somente 38 + Diversos dões reparte o ceo benino 72 + Divina companhia que nos prados 81 + Dizei, Senhora, da belleza idea 138 + Doce contentamento ja passado 133 + Doce sonho, suave e soberano 140 + Doces e claras agoas do Mondego 67 + Doces lembranças da passada gloria 10 + Dos antigos Illustres que deixárão 44 + Dos ceos á terra desce a mor belleza 100 + Dulces engaños de mis ojos tristes 113 + Em Babylonia sôbre os rios quando 120 + Em flor vos arrancou de então crescida[10] 7 + Em formosa Lethea se confia 14 + Em huma lapa toda tenebrosa 128 + Em prisões baixas fui hum tempo atado 3 + Em quanto Phebo os montes accendia 141 + Em quanto quiz fortuna que tivesse 1 + En una selva al dispuntar del dia 83 + Erros meus, má Fortuna, amor ardente 97 + Esfôrço grande, igual ao pensamento[11] 45 + Espanta crescer tanto o crocodilo 95 + Esses cabellos louros e escolhidos 53 + Está o lascivo e doce passarinho 16 + Está-se a Primavera trasladando 15 + Este amor que vos tenho limpo e puro 135 + Este terreste caos com seus vapores 46 + Eu cantarei de amor tão docemente 2 + Eu cantei ja, e agora vou chorando 86 + Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo 80 + Eu vivia de lagrimas isento 137 + Ferido sem ter cura parecia 35 + Fiou-se o coração de muito isento 106 + Foi ja n'hum tempo doce cousa amar 43 + Formosa Beatriz, tendes taes geitos 104 + Formosos olhos, que cuidado dais 130 + Formosos olhos, que na idade nossa 20 + Formosura do ceo a nós descida 34 + Gentil Senhora, se a Fortuna imiga 72 + Grão tempo ha ja que soube da Ventura 24 + Guardando em mi a sorte o seu direito 86 + He o gozado bem em agoa escrito 66 + Horas breves de meu contentamento 91 + Hum firme coração posto em ventura[12] 57 + Hum mover de olhos brando e piedoso 18 + Huma admiravel herva se conhece 65 + Illustre e digno ramo dos Menezes[13] 4 + Illustre Garcia, nombre de una moza 129 + Imagens vãas me imprime a phantasia 116 + Indo o triste pastor todo embebido 138 + Ja a roxa e branca Aurora destoucava 36 + Ja cantei, ja chorei a dura guerra 90 + Ja claro vejo bem, ja bem conheço 58 + Ja do Mondego as agoas apparecem[14] 56 + Ja he tempo, ja que minha confiança 25 + Ja me fundei em vãos contentamentos 127 + Ja não sinto, Senhora, os desenganos 136 + Julga-me a gente toda por perdido 76 + Las peñas retumbaban al gemído 83 + Leda serenidade deleitosa 40 + Lembranças de meu bem, doces lembranças 130 + Lembranças, que lembrais o bem passado 89 + Lembranças saudosas, se cuidais 27 + Levantai, minhas Tagides, a frente[15] 114 + Lindo e subtil trançado que ficaste 22 + Los ojos que con blando movimiento 107 + Mal, que de tempo em tempo vas crescendo 117 + Males que contra mim vos conjurastes 14 + Mi gusto y tu beldad se desposaron 110 + Mil veces entre sueños tu figura 109 + Mil vezes determino não vos ver 62 + Moradoras gentis e delicadas 54 + Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades 29 + Na desesperação ja repousava 71 + Na margem de hum ribeiro que fendia 74 + Na metade do ceo subido ardia 36 + Naiades, vós que os rios habitais 29 + Na ribeira do Euphrates assentado 139 + Não ha louvor que arribe á menor parte 59 + Não passes, caminhante. Quem me chama? 19 + Não vas ao monte, Nise, com teu gado 60 + Nas cidades, nos bosques, nas florestas 126 + Nem o tremendo estrepito da guerra 106 + N'hum bosque que das Nymphas se habitava 11 + N'hum jardim adornado de verdura 7 + N'hum tão alto lugar de tanto preço 142 + No bastaba que amor puro y ardiente 108 + No mundo poucos annos e cansados 51 + No mundo quiz o Tempo que se achasse 45 + No regaço da mãe Amor estava 64 + No tempo que de amor viver sohia 4 + Nos braços de hum Sylvano adormecendo 103 + Novos casos de Amor, novos enganos[16] 55 + Nunca em amor damnou o atrevimento 67 + O ceo, a terra, o vento socegado 87 + O culto divinal se celebrava 39 + O cysne quando sente ser chegado 22 + O filho de Latona esclarecido 69 + O fogo que na branda cera ardia[17] 20 + O raio crystallino se estendia 50 + O claras aguas deste blando rio 109 + Oh arma unicamente só triumphante 122 + Oh cese ya, Señor, tu dura mano 113 + Oh como se me alonga de anno em anno 25 + Oh quanto melhor he o supremo dia 118 + Oh quão caro me custa o entender-te 49 + Oh rigorosa ausencia desejada 111 + Olhos, aonde o ceo com luz mais pura 77 + Ondados fios d'ouro onde enlaçado 105 + Ondados fios d'ouro reluzente 43 + Onde acharei lugar tão apartado 91 + Onde mereci eu tal pensamento 102 + Onde porei meus olhos que não veja 56 + Orfeo enamorado que tañia 84 + Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante[18] 95 + Os meus alegres, venturosos dias 90 + Os olhos onde o casto amor ardia 94 + Os Reinos e os Imperios poderosos[19] 11 + Os vestidos Eliza revolvia 49 + Para se namorar do que criou 99 + Passo por meus trabalhos tão isento 6 + Pede o desejo, Dama, que vos veja 16 + Pensamentos que agora novamente 47 + Pois meus olhos não cansão de chorar 34 + Pois torna por seu rei e juntamente[20] 96 + Por cima destas agoas forte e firme 70 + Por gloria tuve un tiempo el ser perdido 82 + Por os raros extremos que mostrou 23 + Por sua nympha Céphalo deixava 92 + Porque a tamanhas penas se offerece 101 + Porque a terra no ceo agasalhasse 121 + Porque quereis, Senhora, que offereça 17 + Posto me tem fortuna em tal estado 143 + Presença bella, angelica figura 94 + Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes 143 + Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[21] 131 + Qual tem a borboleta por costume 129 + Quando a suprema dor muito me aperta 74 + Quando da bella vista e doce riso 9 + Quando de minhas mágoas a comprida 37 + Quando o sol encoberto vai mostrando 18 + Quando os olhos emprégo no passado 89 + Quando se vir com agoa o fogo arder 73 + Quando, Senhora, quiz Amor que amasse 137 + Quando vejo que meu destino ordena 28 + Quanta incerta esperança, quanto engano 117 + Quantas penas, Amor, quantos cuidados 142 + Quantas vezes do fuso se esquecia 21 + Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento 88 + Que doudo pensamento he o que sigo[22] 57 + Que esperais esperança? Desespéro 78 + Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo 122 + Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[23] 42 + Que me quereis, perpétuas saudades? 111 + Que modo tão subtil da natureza 73 + Que pode ja fazer minha ventura 144 + Que poderei do mundo ja querer 47 + Que vençais no Oriente tantos Reis[24] 33 + Quem diz que Amor he falso, ou enganoso 103 + Quem fosse acompanhando juntamente 39 + Quem jaz no grão sepulcro, que descreve 30 + Quem póde livre ser, gentil Senhora 31 + Quem pudera julgar de vós, Senhora 53 + Quem quizer ver d'amor huma excellencia 107 + Quem, Senhora, presume de louvar-vos 54 + Quem ve, Senhora, claro e manifesto 9 + Revuelvo en la incesable fantasía 82 + Se a fortuna inquieta e mal olhada 134 + Se algum'hora essa vista mais suave 79 + Se as penas com que Amor tão mal me trata 30 + Se com desprezos, Nympha, te parece 63 + Se como em tudo o mais fostes perfeita 78 + Se da célebre Laura a formosura 52 + Se despois de esperança tão perdida 50 + Se em mim, ó alma, vive mais lembrança 128 + Se lagrimas choradas de verdade 127 + Se me vem tanta gloria só de olhar-te 75 + Se no que tenho dito vos offendo 133 + Se pena por amar-vos se merece 42 + Se quando vos perdi, minha esperança 13 + Se somente hora alguma em vós piedade 24 + Se tanta pena tenho merecida 17 + Se tomo a minha pena em penitencia 48 + Seguia aquelle fogo que o guiava 93 + Sempre a razão vencida foi de amor 75 + Sempre, cruel Senhora, receei 134 + Senhor João Lopes, o meu baixo estado[25] 68 + Senhora ja desta alma perdoae 140 + Senhora minha, se eu de vós ausente 63 + Sentindo-se alcançada a bella esposa 93 + Sete annos de pastor Jacob servia 15 + Si el fuego que me enciende, consumido 110 + Sôbre os rios do Reino escuro, quando 120 + Suspiros inflammados que cantais 37 + Sustenta meu viver huma esperança 136 + Tal mostra de si dá vossa figura 71 + Tanto de meu estado me acho incerto 5 + Tanto se forão, Nympha, costumando 79 + Tem feito os olhos neste apartamento 131 + Todo animal da calma repousava 8 + Tomava Daliana por vingança 23 + Tomou-me vossa vista soberana 19 + Tornae essa brancura á alva açucena 64 + Transforma-se o amador na cousa amada 6 + Vencido está de amor Meu pensamento 80 + Verdade, Amor, Razão, Merecimento 119 + Vi queixosos de Amor mil namorados 126 + Vós Nymphas da Gangetica espessura[26] 115 + Vós outros que buscais repouso certo 99 + Vós, que de olhos suaves e serenos 46 + Vós que escutais em rimas derramado 51 + Vós só podeis, sagrado Evangelista 123 + Vossos olhos, Senhora, que competem 33 + + ECLOGAS. + Pag. + A quem darei queixumes namorados[27] 201 + A rustica contenda desusada[28] 212 + Agora, Alcido, emquanto o nosso gado 268 + Agora ja que o Tejo nos rodeia 279 + Ao longo do sereno 160 + Arde por Galatea branca e loura 240 + As doces cantilenas que cantavão[29] 222 + Cantando por hum valle docemente 189 + De quanto alento e gôsto me causava 288 + Despois que o leve barco ao duro remo 242 + Encheo do mar azul a branca praia 247 + Parece-me, pastor, se mal não vejo 252 + Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto 275 + Passado ja algum tempo que os amores 179 + Que grande variedade vão fazendo[30] 145 + + CANÇÕES + Pag. + A instabilidade da fortuna 303 + A vida ja passei assaz contente 356 + Com fôrça desusada 315 + Formosa e gentil Dama, quando vejo 300 + Ja a roxa manhãa clara 307 + Junto d'hum secco, duro e esteril monte 328 + Manda-me Amor que cante docemente 318 + Manda-me Amor que cante o que a alma sente 322 + Nem roxa flor d'Abril 340 + Oh pomar venturoso 343 + Por meio de humas serras mui fragosas 352 + Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura 349 + Quem com solido intento 346 + Se este meu pensamento 311 + Tornei a triste pena 326 + Vinde cá, meu tão certo secretario 322 + Vão as serenas agoas 309 + + ODES. + Pag. + A quem darão do Pindo as moradoras 376 + Aquelle moço fero 383 + Aquelle unico exemplo[31] 378 + Detem hum pouco, Musa, o largo pranto 360 + Fogem as neves frias 381 + Formosa fera humana 368 + Ja a calma nos deixou 389 + Naquelle tempo brando 386 + Nunca manhãa suave 371 + Póde hum desejo immenso 373 + Se de meu pensamento 365 + Tão suave, tão fresca e tão formosa 363 + + NOTAS 395 + + + + + [1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez + duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque + diz elle: _Deste modo de hablar parece que se infiere que á este + naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna + sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas + en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será + ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré + sin poder averiguarlo_. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser + se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma + que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza + não ignorão que o verbo _ser_ tem duas accepções; a de _ser_ e a de + _estar_: e se na significação propria de _ser_ denotaria, neste + lugar, o principio da acção, na de _estar_, em que o tomou o poeta, + denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente + ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão + lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas + nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns + leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia. + + [2] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara, + aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo + de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o + jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz + nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos, + dirigio uma carta, onde se lia o seguinte: + + "Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão + de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo + cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior + esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e + fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os + mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de + Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e + qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes + ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e + prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde + vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor + guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se + houvessem de ver livres do estado em que se vem." + + [3] _Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em + sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse + a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a + escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida + pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se + vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da + ultima Estancia desta:_ + + _E porque não cabia dentro nella + De bens tamanhos tanto, + Sahe por a boca convertido em canto_ + + _preferisse o poeta o daquell'outra:_ + + _Se bem a declarei, + Eu não a escrevo, da alma a trasladei._ + + _por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja + repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo + e peregrino._ + + _Nota dos editores._ + + [4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô + Estacio de Faria, amigo de Camões, e como elle poeta e soldado. + + [5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu + por seu. + + [6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana." + + [7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas, + aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavão de Camões, + imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas. + + [8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo + conjectura Faria. + + [9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI, + publicando a sua Arte de escrever em 1572. + + [10] Á morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os + Mouros, junto a Ceuta em 1553. + + [11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da + India, fallecido em Goa no anno de 1526. + + [12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus, + e que Faria achou nos M. S. que continhão obras de Camões. + + [13] Diversos forão os cavalleiros deste apellido que servírão com + distincção na India no tempo de Camões. Suppomos que o Soneto foi + feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou á India com seu + Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Camões, + onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi + encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada + no Estreito. + + [14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes. + + [15] A D. Theodosio de Bragança. + + [16] Tambem impresso entre os de Bernardes. + + [17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo + cahido de hum castiçal uma vela accesa que lhe queimou o rosto. + + [18] A D. João de Castro. + + [19] A D. Theodosio de Bragança. + + [20] A D. Luis de Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a + India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os + seus. + + [21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: _De Luis de + Camões a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos._ + Thomaz d'Aquino. + + [22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do + Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he + o 79. + + [23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua + terceira Rainha D. Leonor. + + [24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Ataïde. + + [25] A João Lopes Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de + Camões: "Quem he este que na harpa Lusitana." + + [26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca + de que era Capitão, contra o formidavel poder do Achem, em 1568. + + [27] A D. Antonio de Noronha. + + [28] A D. João de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II. + + [29] A D. Antonio de Noronha. + + [30] Á morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae + d'ElRei D. Sebastião. + + [31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India, + por occasião de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez, + publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: _Colloquio dos + Simples, e cousas medicinaes da India_. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, +Tomo II, by Luís de Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + +***** This file should be named 31509-8.txt or 31509-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/5/0/31509/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/31509-8.zip b/31509-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fbccaaa --- /dev/null +++ b/31509-8.zip diff --git a/31509-h.zip b/31509-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ac31add --- /dev/null +++ b/31509-h.zip diff --git a/31509-h/31509-h.htm b/31509-h/31509-h.htm new file mode 100644 index 0000000..e97c342 --- /dev/null +++ b/31509-h/31509-h.htm @@ -0,0 +1,17637 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Obras Completas de Luiz de Camões, volume II</title> + <meta name="Author" + content="Luiz de Camões, J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro."> + <meta name="Edition" + content="Paris. 1843. Officina Typographica de Fain e Thunot"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + + + position: absolute; + + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + a {text-decoration: none;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + blockquote {margin-left: 20%;} + + #prefacao p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #prefacao blockquote {font-size: 0.9em;} + #prefacao blockquote p {text-indent: 0;} + #prefacao p.ni {text-indent: 0;} + #sonetos h4 {margin-left: 30%;} + #sonetos {} + #eclogas {} + #cancoes {} + #odes {} + #notas {font-size: 90%} + #notas blockquote {font-weight: bold;} + #notas p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + #notas p.ni {text-indent: 0;} + + + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .rodape p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + +span.accent sup {margin-right: -0.9em; margin-left: 0;} + +/* Opera fix tilde positioning over non utf chars */ +@media all and (-webkit-min-device-pixel-ratio:10000), not all and (-webkit-min-device-pixel-ratio:0) +{ +span.accent sup {margin-right: -0.55em; margin-left: 0; margin-top: 0.1em;} +} + +span.accent sup { .margin-right: -0.5em;} + + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II, by +Luís de Camões + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II + +Author: Luís de Camões + +Release Date: March 5, 2010 [EBook #31509] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="fbox"><p><b>Notas de transcrição:</b></p> + + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843.</p> + +<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação.</p> + +<p>Na edição impressa, foram usados caracteres que já não são usados, +em particular "e com til" ( <span class="accent"><sup>~</sup>e</span> ) e "u com til" ( <span class="accent"><sup>~</sup>u</span> ). Para representar esses caracteres +tirámos partido das potencialidades do html e css. O método usado foi testado com os <em>browsers</em> mais populares à data desta edição electrónica, mas ainda assim o resultado pode variar de utilizador para utilizador.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> + +<p style="font-size: 1.1em;">CLASSICOS</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES.</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">TOMO II.</p> + +<hr style="width: 20%"> + +<p style="font-size: 1.4em;">CAMÕES.</p> + +<p style="font-size: 1em;">II.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> +<p style="text-align: center; font-size: small;">PARIZ.—NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,<br> Rua Racine, 28, junto ao Odeon.<span class="pn" +><a name="pag_V">{V}</a></span></p> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.4em;">OBRAS COMPLETAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> + +<p style="font-size: 2em;"><strong>LUIS DE CAMÕES,</strong></p> + +<p style="font-size: 0.8em;">CORRECTAS E EMENDADAS</p> + +<p>PELO CUIDADO E DILIGENCIA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">DE</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.</p> + +<p style="font-size: 1em;">TOMO SEGUNDO.</p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/selo.png" width="25%" alt="Armas de Portugal" border="0"></p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.3em;">LISBOA.</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,<br> +<span style="font-size: 1.1em;">NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,</span><br> +3, quai Malaquais, près le pont des Arts.</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">1843</p> + +<p><span class="pn" ><a name="pag_VI">{VI}</a><br> +<a name="pag_VII">{VII}</a></span></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="prefacao"> +<h1><a name="SECTION001000000">PREFAÇÃO.</a> </h1> + +<p>Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos os +povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras. Para +haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor da patria +e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos violento segundo as +diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se elevar acima de seus +iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes, excitárão as almas nobres a +tentar grandes empresas; e as façanhas dos heroes impellirão depois os bons +engenhos a transmitti-las aos vindouros, elegantemente escrevendo em prosa ou +verso. E nunca vimos que prosperassem muito as letras n'um povo indigno de +historia. Assim que bem se póde dizer que sempre a penna dos Escritores foi +aparada pela espada dos Guerreiros: testimunhas Grecia e Roma.</p> + +<p>Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a +todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças e +meios não somente sustentou longas e terriveis<span class="pn" +><a name="pag_VIII">{VIII}</a></span> guerras, mas não contente de reconquistar e +manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo mores cousas: devassou +mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e sujeitou a seu jugo muitos e +mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido o seu imperio até aos ultimos +confins da terra, excitando a admiração das gentes com nunca vistos prodigios +de industria, de valor, e de constancia por espaço de quasi cinco seculos, +longo tempo se manteve no apice da grandeza e gloria humana: até que o ultimo +Henrique, dessemelhante em tudo do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes +reinados a encosta por onde a illustre nação devia descer da altura a que +subira; reunindo em si o Bago e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas +cousas temporaes, a despenhou no abysmo, donde até hoje não ha podido mais +levantar-se.</p> + +<p>Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem +nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos feitos +militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando o chão +propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no decimo +terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas primeiras flores; +tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o primeiro impulso, +escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo algumas obras, como um +Tratado entitulado <em>Dos</em><span class="pn" ><a name="pag_IX">{IX}</a></span> +<em>principaes deveres da Milicia</em>, e dous Cancioneiros, um dos quaes +appareceo em Roma, reinando em Portugal João III. E no decimo quarto produzírão +ja um tão sazonado fructo, como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, +que traduzida por Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na +Italia, e da qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): <em>Per giudizio di +molti e mio particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste +genere.... Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, +e nella varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse +stato scritta.</em> E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que +fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: <em>Este livro fué el primero de +Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido principio y +origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se han +compuesto.</em></p> + +<p>No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão Dom +Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos noticia) que se +imprimio em Lisboa em 1520.</p> + +<p>No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte <em>O Leal Conselheiro</em>, que +se conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um +<em>Da Misericordia</em>, outro <em>Do Regimento da justiça</em><span +class="pn" ><a name="pag_X">{X}</a></span> <em>e Officiaes della etc</em>. Seu irmão o +Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente do Reino +durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras politicas e +moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em Leiria 6 annos +depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e dedicou a seu irmão Dom +Duarte <em>Cicero de Officiis</em>, e <em>Vegetius de re militari</em>. Ayres +Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi elegante poeta; e +delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas poesias; e para que se +veja a que estado de cultura e perfeição havia ja então chegado a nossa bella +lingua, transcreveremos aqui a seguinte</p> + +<blockquote> + <p> <strong>ODE</strong></p> + + <p> De pungentes estimulos ferido<br> + O Regedor dos ceos e humilde terra,<br> + Sôbre ti manda, desastrada Lysia,<br> + Effeitos da sua íra.<br> + <br> + A peste armada destruir teu povo<br> + A um seu leve aceno vôa logo:<br> + Estraga, fere, mata sanguinosa,<br> + Despiedada e crua.<br> + <br> + Despenhada no abysmo da ruina,<br> + Fugir pretendes aos accesos raios,<br> + Qual horrida phantasma, porém logo<br> + Desfallecida cahes.<span class="pn" ><a name="pag_XI">{XI}</a></span><br> + <br> + O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,<br> + Mas inda muito mais os teus errores<br> + Que provocar fizerão contra ti<br> + Contagião mortal.<br> + <br> + Dos Ceos apagar cuida a justa sanha<br> + Da penitencia com as bastas ágoas,<br> + Ja que revel e surda te mostraste<br> + <br> + A seus mudos avisos.<br> + Então verás ornada a nobre frente,<br> + Como nos priscos tempos que passárão,<br> + De esclarecidos louros, sinal certo<br> + De teus almos triumphos.</p> +</blockquote> + +<p>Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara +começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, escrevendo +regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação da monarchia.</p> + +<p>No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente +introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. +Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, <em>O +Palmeirim de Inglaterra</em>, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o +attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: <em>Esta palma de +Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella otra +caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que</em><span +class="pn" ><a name="pag_XII">{XII}</a></span> <em>la diputó para guardar en ella las +obras del poeta Homero. Este libro, Señor compadre, tiene autoridad por dos +cosas; la una porque él por si es muy bueno, y la otra porque es fama que le +compuso un Rey de Portugal. Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son +bonisimas y de grande arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y +miran el decoro dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y +Amadis de Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala +ni cata, perescan</em>. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, +cognominado o Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e +conquistas d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos +costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se +avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como Roma, +o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, que nascido +para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a trombeta heroica, não +pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta sons menos harmoniosos e +suaves.</p> + +<p>Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, +mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas poesias +lyricas. E começaremos por observar que<span class="pn" +><a name="pag_XIII">{XIII}</a></span> se nenhum escritor foi mais desprezado e +perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido tão castigada, +como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo este grande homem, +não della, mas do seu governo, e dos grandes e poderosos, de cujos crimes he +quasi sempre o povo quem vem a pagar as penas. Porque não lhe tendo sido +possivel, pela miseria em que viveo, dar á luz as suas poesias sôltas, não as +polio nem limou, nem deixou collecção dellas; e assim as mais se perdêrão, e as +outras, espalhadas por mãos de muitos, se forão corrompendo nas copias, de +sorte que inda as que menos damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui +diversas do que erão, quando sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta +culpa de alguns a ter para nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para +a humanidade; isto he, cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a +todas as gerações. E se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues +Lobo Surrupita o devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas +obras varias, que pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de +1595, assim desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se +estas, mas com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e +assim se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando +ao prelo.<span class="pn" ><a name="pag_XIV">{XIV}</a></span> De modo que podemos dizer +que em todos os estilos nos ficou do nosso poeta apenas uma pequena amostra, +para que pelo dedo se conhecesse o gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que +essas pequenas reliquias bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal +altura, que lhe não fique superior o de nenhuma outra nação estranha.</p> + +<p>Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma sôbre +quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, quando outros +muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72:</p> + +<blockquote> + <p> <strong>SONETO</strong></p> + + <p> Quando de minhas mágoas a comprida<br> + Maginação os olhos me adormece,<br> + Em sonhos aquella alma me apparece,<br> + Que para mim foi sonho nesta vida.<br> + <br> + Lá n'uma soidade, onde estendida<br> + A vista pelo campo desfallece,<br> + Corro apos ella; e ella então parece<br> + Que de mim mais se alonga, compellida.<br> + <br> + Brado: Não me fujais, sombra benina.<br> + Ella, os olhos em mim co'um brando pejo<br> + Como quem diz que ja não pode ser,<br> + <br> + Torna a fugir-me: tórno a bradar: <em>Dina</em>...<br> + E antes que diga <em>mene</em>, acordo, e vejo<br> + Que nem um breve engano posso ter.<span class="pn" ><a name="pag_XV">{XV}</a></span> + </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem +inundado Italia e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se +podesse pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do +Lethes, confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas +dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou <em>Lugentes campi</em>, +que o nosso Franco Barreto traduzio: <em>Campos sem luz</em>, e nós diremos: +<em>Campos da Saudade</em>. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi +ditado este maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi +igualado, nem será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos. </p> + +<p>Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a este +genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem quizer comparar +umas com outras.</p> + +<p>Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos +estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma +natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado florido, um +ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo as dansas e +choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no mesmo estilo em que +se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos Athletas, ou Jove fulminando +os gigantes, como vice versa.<span class="pn" ><a name="pag_XVI">{XVI}</a></span> +Pindaro, Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos +propõe por modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e +Pindaro! Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do +lyrico ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em +todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás +materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e +muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que +hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores +summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta +opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª, 9.ª e +10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára viciada.</p> + +<p>No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de a +puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma, para a +concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de Camões, +appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os cabedaes, +admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns para os outros: +<em>Donde vem a Pedro fallar gallego?</em> e Manoel de Faria e Sousa o chamou a +juizo, e convencendo-o de furto,<span class="pn" ><a name="pag_XVII">{XVII}</a></span> +o condemnou a despir na praça e restituir a seu dono parte dos vestidos +roubados; sendo justo e de razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas +deixando a Bernardes para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes +mesmos roubos, passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de +Camões se não mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e +heroico.</p> + +<p>Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que +emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico, dizendo, +depois de o louvar devidamente nos mais: <em>Oxalá pudera humilhar a grandeza +do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!</em> Da mesma sorte +o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre Thomaz de Aquino e +outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as cousas, querem decidir de +tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se tem razão.</p> + +<p>Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava +pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não tinha +pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no julgar de +suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas para abater +outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a pintura, uma +imitação da natureza,<span class="pn" ><a name="pag_XVIII">{XVIII}</a></span> segue-se +necessariamente que os melhores poetas e pintores são os mais profundos +observadores e conhecedores da natureza, porque ninguem a póde perfeitamente +imitar, sem que profundamente a conheça. Grandes imitadores, e portanto +profundos conhecedores da natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões +etc., e na pintura Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de +qualquer destes poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou +borradores. Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita +e Faria tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero +bucolico, lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella +estava melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he +permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de +quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.</p> + +<p>Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia seu +estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra ou da +trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o throno estão +igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril pódem occorrer +varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe o estilo segundo +for mais ou menos<span class="pn" ><a name="pag_XIX">{XIX}</a></span> alto o assumpto, +e que se o pastor se propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas +delle.</p> + +<blockquote> + <em>Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae.</em></blockquote> + +<p class="ni">Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e +assim o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte +poetica.</p> + +<blockquote> + <em>L'Églogue quelquefois<br> + Rend dignes du Consul la campagne et les bois.</em></blockquote> + +<p class="ni">E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal +podem sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não +possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios. </p> + +<p>Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha +e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro +amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de tão +desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e elevado +pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção, até tocar as +raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as transcende nunca; nem as +figuras e imagens de que se serve, as estranha o estilo bucolico; e muito mais +n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e figuras de tal sorte estão +recebidas, que até os mais rudos camponezes rara vez se exprimem sem ellas. Mas +inda<span class="pn" ><a name="pag_XX">{XX}</a></span> quando fossem alheias da +linguagem vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve +levantar do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:</p> + +<blockquote> + <p><em> Ipsae te, Tityre, pinus,<br> + Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant.</em><br> + <br> + Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,<br> + Estes mesmos arbustos te chamavão. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">e não se hade consentir a Camões dizer:</p> + +<blockquote> + <p>Canta agora, pastor, que o gado pasce<br> + Entre as humidas hervas socegado,<br> + E lá nas altas serras onde nasce,<br> + O sacro Tejo á sombra recostado<br> + Com seus olhos no chão, a mão na face,<br> + Está para te ouvir apparelhado;<br> + E com silencio triste estão as Nymphas<br> + Dos olhos destillando claras lymphas?</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se +alguma cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª </p> + +<p>Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle +foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que +desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo esquecido. +He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador sobre qual dos +estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza<span class="pn" +><a name="pag_XXI">{XXI}</a></span> da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve +levantar o estilo quanto puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não +ficar vencido. Esta Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta +se não podia domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de +justificar este juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a +pasmosa facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a +outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas +Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos +olhos.</p> + +<p>Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres deste +modo:</p> + +<blockquote> + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> + + <p> Vós, semicapros deoses do alto monte,<br> + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;<br> + E vós, deosas do bosque e clara fonte,<br> + E dos troncos que vivem largos anos;<br> + Se tendes prompta um pouco a sacra fronte<br> + A nossos versos rusticos e humanos,<br> + Ou me dai ja a capella de loureiro,<br> + Ou penda a minha lyra d'um pinheiro. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador </p> + +<blockquote> + <p> A<small>LICUTO.</small></p> + + <p> Vós, humidas deidades deste pégo,<br> + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;<span class="pn" + ><a name="pag_XXII">{XXII}</a></span><br> + Vós, Nereidas do sal em que navego,<br> + Por quem do vento a furia pouco temo;<br> + Se a vossas sacras aras nunca nego<br> + O congro nadador na pá do remo,<br> + Não consintais que a musica marinha<br> + Vencida seja aqui na lyra minha. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão +que são demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples, +a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes demos +ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores. Vejamos com +que despejo entrão na lide.</p> + +<blockquote> + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> + + <p> Pastor se fez um tempo o moço louro<br> + Que do pae as carretas move e guia;<br> + Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,<br> + Que o seu claro inventor alli tangia.<br> + Io foi vacca, Jupiter foi touro<br> + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria<br> + Guardou formoso Adonis, e tornado<br> + Em bezerro Neptuno foi ja achado.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o +pescador a seguinte, exaltando a sua profissão.</p> + +<blockquote> + <p> A<small>LICUTO.</small></p> + + <p> Pescador ja foi Glauco, e deos agora<br> + He do mar, e Protêo phocas guarda;<span class="pn" + ><a name="pag_XXIII">{XXIII}</a></span><br> + Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora<br> + Do amoroso prazer, que sempre tarda.<br> + Se foi bezerro o deos que cá se adora,<br> + Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,<br> + Vê-se que os moços pescadores erão,<br> + Que o escuro enigma ao primo vate derão. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua +pastora recebe as suas finezas.</p> + +<blockquote> + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> + + <p> Formosa Dinamene, se dos ninhos<br> + Os implumes penhores ja furtei<br> + Á doce philomela, e dos murtinhos<br> + Para ti (fera!) as flores apanhei;<br> + E se os crespos madronhos nos raminhos<br> + Com tanto gosto ja te presentei,<br> + Porque não dás a Agrario desditoso<br> + Um só revolver d'olhos piedoso?</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, +segundo os preceitos do canto amebeo, ou alternado. </p> + +<blockquote> + <p> A<small>LICUTO.</small></p> + + <p> Para quem trago d'ágoa em vaso cavo<br> + Os curvos camarões vivos saltando?<br> + Para quem as conchinhas ruivas cavo<br> + Na praia, os brancos buzios apanhando?<br> + Para quem de mergulho no mar bravo<br> + Os ramos de coral vou arrancando,<br> + Senão para a formosa Lemnoria,<br> + Que co'um só riso a vida me daria?<span class="pn" + ><a name="pag_XXIV">{XXIV}</a></span></p> +</blockquote> + +<p class="ni">Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da +desesperação de ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.</p> + +<blockquote> + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> + + <p> Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,<br> + D'átras nuvens vestido, horrido e feio,<br> + Ennegrecendo á vista o ceo superno,<br> + Quando os troncos arranca o rio cheio;<br> + Raios, chuvas, trovões, um triste inferno<br> + Que ao mundo mostra um pallido receio:<br> + Tal o amor he cioso a quem suspeita<br> + Que outrem de seu trabalho se aproveita. </p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> A<small>LICUTO.</small></p> + + <p> Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante<br> + Furor lançando flammas e bramidos,<br> + Quando as pasmosas serras traz diante,<br> + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;<br> + A braços derribando o ja nutante<br> + Mundo co'os elementos destruidos;<br> + Assim me representa a phantasia<br> + A desesperação de ver um dia.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas +se as estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. +Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do +alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as furias +do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno,<span class="pn" +><a name="pag_XXV">{XXV}</a></span> ou com o mar agitado pelos ventos. Pela dicção +tambem não, porque se o pensamento não he estranho, tambem esta o não póde ser, +quando tão perfeitamente se lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e +muito mais quando as mesmas figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na +boca do povo de sorte, que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez +<em>que o ceo está toldado de negras nuvens etc.</em>, ou a um marinheiro ou +pescador <em>que o vento traz todo o mar em serras diante de si; que parece +querer destruir a terra etc.</em> A differença está em que onde o pastor diria +<em>coberto</em> ou <em>toldado</em>, diz o poeta <em>vestido</em>, e onde o +marinheiro diria <em>abalado</em>, diz o poeta <em>nutante</em>, para se +levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto não ha aqui impropriedade +alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e palavras. E desta mutua +conveniencia e propriedade resulta esta viveza de pintura, esta sublimidade, de +que se espanta Faria. Porém sem razão se espanta, porque fóra do natural não ha +sublime, e o que he natural não se estranha. Nem se persuada ninguem que se o +poeta aqui se elevou, foi porque não podia domar-se; que mui de proposito o +fez, por assim julgar que o devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor +soubesse variar de tom, pintar os objectos com propriedade e viveza, e seguir +com a phrase o pensamento. Senão veja-se nas<span class="pn" +><a name="pag_XXVI">{XXVI}</a></span> Estancias logo seguintes como ja serpeia manso +regato o que inda ha pouco era rio caudaloso. </p> + +<blockquote> + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> + + <p> Minha alva Dinamene, a primavera<br> + Que os deleitosos campos pinta e veste,<br> + E rindo-se uma côr aos olhos gera,<br> + Que em terra lhes faz ver o Arco celeste;<br> + As aves, as boninas, a verde hera,<br> + E toda a formosura amena agreste<br> + Não he para os meus olhos tão formosa,<br> + Como a tua, que abate o lirio e rosa.</p> + + <p> </p> + + <p> A<small>LICUTO.</small></p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> As conchinhas da praia, que presentão<br> + A côr das nuvens, quando nasce o dia;<br> + O canto das Sirenas, que adormentão;<br> + A tinta que no murice se cria;<br> + O navegar por ondas, que se assentão<br> + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,<br> + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,<br> + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.</p> + + <p> </p> + + <p> A<small>GRARIO</small>.</p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> A deosa, que na Lybica lagôa<br> + Em fórma virginal appareceo,<br> + Cujo nome tomou, que tanto sôa,<br> + Os olhos bellos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e da côr do ceo:<br> + Garços os tem; mas uma, que a corôa<br> + Das formosas do campo mereceo,<span class="pn" + ><a name="pag_XXVII">{XXVII}</a></span><br> + Da côr do campo os mostra graciosos.<br> + Quem não diz que são estes os formosos? </p> + + <p> </p> + + <p> A<small>LICUTO.</small></p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p> Perdoem-me as deidades, mas tu diva<br> + Que no liquido marmore es gerada,<br> + A luz dos olhos teus, celeste e viva,<br> + Tens por vicio amoroso atravessada:<br> + Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva<br> + De luz o dia, baixa e socegada<br> + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,<br> + E com toda esta luz sempre estou cego.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha +em Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio +igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as duas +Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler muito, os +não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que ampliações ou +restricções se devem entender e applicar os preceitos de Aristoteles e Horacio, +pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o estilo bucolico. Certo que +não ha na republica das Letras sevandijas mais nojentas, que certos homens de +espirito acanhado, que enfatuados com graos de Doutores e titulos de +Academicos, sem nunca terem produzido nem serem capazes de produzir cousa +alguma, se arrogão o direito de taxar o merecimento e preço das obras dos +grandes homens.<span class="pn" ><a name="pag_XXVIII">{XXVIII}</a></span> </p> + +<p>Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que um +som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da nossa +estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e com +especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o verdadeiro +estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos ter a Theocrito +ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se recommendão como +modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte, aquelle em levantar o +estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os louvores de Ptolomeo +Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que parecião mais proprio +assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a selvas dignas do Consul, sem +que por isso deixassem de ser olhados como oraculos; por que lei ou com que +autoridade pretendem esses guarda-portões do Parnaso expulsar o nosso poeta do +lugar que ao lado desses primeiros mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.</p> + +<p>Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á +de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do homem e +alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de <em>Obras Attribuidas</em>, +evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta edição) e ainda que +destas doze apenas quatro ou cinco se podem<span class="pn" +><a name="pag_XXIX">{XXIX}</a></span> propriamente chamar Elegias; dellas se vê que +tambem neste estilo era excellente.</p> + +<p>Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno +Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões, que +não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma +composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não podem +appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso confessar +que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos que forão +escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não para se +representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas para +divertimento particular.</p> + +<p>E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas +peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor (nas +que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle, se fosse +vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por consenso universal +lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas heroicos e lyricos de +Hespanha.</p> + +<p>Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como Luis +de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos talentos e +dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina,<span class="pn" +><a name="pag_XXX">{XXX}</a></span> tanta facilidade em exprimir seus pensamentos. +Igualmente versado nas artes da paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo +Homero, com a espada e com a penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua +patria: e se a Fortuna lhe impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe +pôde estorvar (porque nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a +dos summos escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com +a militar.</p> + +<p>Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio +tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas +desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação subio +mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira parte da +prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda; que tambem se +ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da antiga +prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça, tiver +renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria, que tanto +distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas, brilharemos nas +letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada póde tanto +contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do nosso immortal +Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor cidadão. Por isso com +tanto cuidado as estamos<span class="pn" ><a name="pag_XXXI">{XXXI}</a></span> +alimpando dos muitos erros e vicios das primeiras edições, para que melhor +sejão entendidas e gostadas: na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá +a ser uma trombeta, que assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel +Censura, fara um dia resurgir os mortos.<span class="pn" +><a name="pag_XXXII">{XXXII}</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION002000000">VIDA<br> +DE<br> +LUIS DE CAMÕES.</a></h1> + +<p>Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que nasceo +Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades disputassem +entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em tudo o Lusitano +Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o primeiro que nos deo algumas +noticias da vida do poeta, pela maior parte mal averiguadas e falsas, nada nos +diz a este respeito; e Severim de Faria o deo primeiramente nascido em 1517, +porém depois reparando que o poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, +ia caminhando para os seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio +para o outono) e computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter +quando morreo 55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois +comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de Registo da +Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar a servir naquelle +Estado no anno de 1550, declarou, estando alli presente seu pae, ter 25 de +idade. E do mesmo assento constava serem seus paes moradores em Lisboa no +bairro da Mouraria: com o que se tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, +como do lugar do seu nascimento.<span class="pn" +><a name="pag_XXXIII">{XXXIII}</a></span></p> + +<p>Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui pouco +importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e verdadeiramente +nasce para os outros, quando lhes principia a ser util; como o sol, que então +dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima do horizonte. Mas, pois +vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos com os prejuizos delle, daremos +tambem aqui a nossos leitores a sua genealogia.</p> + +<p>A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu Solar na +Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas regalias. Vasco +Pires de Camões, ultimo representante desta familia, fôra um dos fidalgos que +Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a seu partido, quando aspirava á +coroa de toda a Hespanha. Mas, como se malograsse a empresa, teve este fidalgo +de abandonar a antiga patria e passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em +recompensa do muito que por seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do +Sardoal e Punhete, Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e +herdades, que em Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide +mor de Portalegre e membro do seu conselho.</p> + +<p>Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão mor +das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo depois a +capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua honra e valor. E +della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a inconstancia do pae cortou +depois a fortuna aos filhos. Porque na<span class="pn" +><a name="pag_XXXIV">{XXXIV}</a></span> guerra, que por morte de Dom Fernando veio a +ter lugar por causa da successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, +como antes seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com +as armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom +Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as herdades de +Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em Alemquer.</p> + +<p>João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser Vassallo +de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes serviços que lhe +fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com Ignez Gomes da Silva, +filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo Gomes da Silva e irmão de +João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João 1.º, fôra Alferes mor do Reino e +Senhor de muitas terras: e deste matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, +desposando a Guiomar da Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas +de Camões, que casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de +Santarem. E destes nasceo o nosso poeta.</p> + +<p>Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa +memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser insigne, +assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se empenhárão em lhe dar +uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto se vião faltos de meios, na +esperança de que viria a ser o bordão de sua velhice. Instruido nas primeiras +letras e habilitado para maiores estudos, de mui tenra idade o<span class="pn" +><a name="pag_XXXV">{XXXV}</a></span> mandárão para a Universidade que de Lisboa (para +onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então restituida a Coimbra por +João III, e florescia em todas as sciencias sob a direcção e disciplina de +homens doutos, naturaes e estrangeiros, que este Rei com largos premios de toda +a parte attrahíra. Com tão felizes disposições e tão sabios preceptores, não +podia Luis de Camões deixar de fazer agigantados progressos, e de vir a ser o +que foi.</p> + +<p>Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio das +Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo com aquella +doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E desse tempo de +Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu primeiro ensaio no +estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se entitula da sua puericia, +por se haver encontrado com esse titulo em todos os manuscriptos, e tambem o +Soneto 111, que segundo delle se infere, foi feito quando voltava de férias, ja +ferido de outra paixão.</p> + +<p>Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se apartasse +daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo de seus cuidados, +se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida. Restituido á patria, cheio de +tão saudosas lembranças, ahi escreveo aquella maviosa Canção que principia:</p> + +<blockquote> + <p>Vão as serenas ágoas<br> + Do Mondego descendo etc. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe +estava Amor preparando novo assumpto.<span class="pn" +><a name="pag_XXXVI">{XXXVI}</a></span> Fazia então o principal ornamento do paço uma +Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara belleza, Dona +Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de maior Petrarca. Vio-a +Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e 123 se infere ser o das +Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido de amores. Des de então não +soube mais parte de si; e ufano de se ver vencido de tão peregrina formosura, +divinamente inspirado, compoz a maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava +que este passo, o mais notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com +ser aquella Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda +não satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel +subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel saber-se +qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia. Cansa-se Faria e +Sousa em nos provar que estes amores erão puramente Platonicos; mas disso não +ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez se afastou do natural; e se usava +desta lingoagem, era para melhor insinuar-se a fim de obter seu intento, porque +o lascivo desejo, que manifesta na Canção 15 onde diz:</p> + +<blockquote> + <p>Des que com gentil arte<br> + Vestís de flores bellas<br> + A terra, que tocais co'a bella planta,<br> + Quantas vezes com vê-las,<br> + Quiz n'uma dessas flores transformar-me!<br> + Porque vendo pisar-me<br> + Desse candido pe, que a neve espanta,<br> + Póde ser que na flor mudado fòra<br> + Que deo a Juno irada a linda Flora.<span class="pn" + ><a name="pag_XXXVII">{XXXVII}</a></span> </p> +</blockquote> + +<p class="ni">não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da +maneira por que Marte foi gerado. </p> + +<p>Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim, +amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco +acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa, Egloga 3.ª) +que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida, foi desterrado da +Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão sobre o Tejo, como se +colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo estivesse tambem alguns dias +hospedado em casa de um seu amigo, nas vizinhanças do Zezere, se infere da +Canção 13. Depois ou porque este desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou +porque tivesse ja fallecido Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, +pouco tempo viveo depois do princípio destes amores) determinou passar a +Africa, onde seu pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um +combate naval com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no +fogo de Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte +recebêra aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro +donzel, mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como +elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª</p> + +<blockquote> + <p>Agora exprimentando a furia rara<br> + De Marte, que nos olhos quiz que logo<br> + Visse e tocasse o acerbo fructo seu.<br> + E neste escudo meu<br> + A pintura verão do infesto fogo.<span class="pn" + ><a name="pag_XXXVIII">{XXXVIII}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras +amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que para +fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que o de passar +a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como dissemos, para sahir na +mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de Noronha: mas esta nao, pelo mao +estado em que ia, depois de sahir, arribou ao porto de Lisboa para se +concertar, e o poeta, se acaso estava a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou +por falta de saude, ou por outro impedimento se deixou ficar em terra; e não +veio a sahir para o seu destino, senão dous annos depois, no de 1553, como +consta de outro assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria +e Sousa: e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de +quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no mesmo anno +a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão anojado ia o poeta +contra a patria, que as derradeiras palavras que disse na despedida, forão +(como se ve de uma carta que de Goa escreveo) as de Scipião Africano: +<em>Ingrata patria, non possidebis ossa mea</em>.</p> + +<p>Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse +aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso +alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o acompanhou o +poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente refere na Elegia +3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do<span class="pn" +><a name="pag_XXXIX">{XXXIX}</a></span> seguinte anno de 1554 chegárão as naos do +Reino, em que ia Dom Pedro Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se +divulgou a triste noticia das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do +Viso-Rei, e do Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; +aquella como verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa +as consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a +Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma carta com +data de Janeiro de 1555.</p> + +<p>E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que nessa +mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo: <em>Emfim, +Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços que nessa terra +me armavão os acontecimentos, como com vir para esta, onde vivo mais venerado +que os touros de Merciana, e mais quieto que a cella de um frade prégador</em>. +Mas esta felicidade e socego não lhe durou muito, porque logo no anno seguinte, +vindo a fallecer Dom Pedro Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco +Barreto, que não era affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste +procedimento e tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa +no seu commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na +China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo +Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela fazenda +dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que +miseravelmente<span class="pn" ><a name="pag_XL">{XL}</a></span> soffrêra na costa de +Camboja. Pedro Mariz he da mesma opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o +mandára preso e capitulado para o reino. E nem um nem outro fazem menção do +desterro. Manoel Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse +em tal Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este +Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de Vasconcellos, +voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião festejado a +successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou por zelo da justiça, +ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno de 1556: e a este parecer se +encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em tudo isto não ha de verdadeiro, senão +que Luis de Camões foi desterrado por Francisco Barreto, como passâmos a +demonstrar.</p> + +<p>Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei Dom +Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle voltou a +Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a Egloga, Soneto e +Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em que succedeo no governo +Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se prova com a mesma Satyra, em que +descreve as festas que por essa occasião se fizerão, como testimunha ocular. +Logo não foi Luis de Camões provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de +Provedor mor dos defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro +Mariz, nem sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, +como conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa<span +class="pn" ><a name="pag_XLI">{XLI}</a></span> em Outubro, e Francisco Barreto entrou +no governo em Junho do mesmo anno, como dissemos. Tambem he falso que Luis de +Camões, voltando de Macao a Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo +dinheiro das partes que perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser +imputado a crime, não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco +Barreto o podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o +governo ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de +1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e capitulado +para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro Barreto, indo por +governador de Çofala, e desejando levar a Luis de Camões na sua companhia, lhe +fizera largas promessas e o movêra a isso, dando-lhe logo duzentos cruzados +para os seus arranjos de viagem, porque se tudo isto foi necessario para o +mover, certo he que estava em sua plena liberdade.</p> + +<p>Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel Severim e +Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das Redondilhas, que +andão nas suas Rimas com o titulo de <em>Disparates na India</em>.</p> + +<p>Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi +reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se poderia +dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que nos fundamos +são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a seus contemporaneos, +assim porque muitos havião sido testimunhas do mesmo<span class="pn" +><a name="pag_XLII">{XLII}</a></span> facto, como porque o poeta em seus escritos o +publicou ao mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a +pena constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que +para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa; prova +evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a tivessem, não +andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um fragmento della, com +duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das Rimas em 1607; e logo +Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas que se davão deste desterro, +o attribuio a esta; que tão innocente foi a vida de Camões, que com ter tantos +inimigos, nenhum delles lhe pôde descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse +um tal castigo. Mas além desta razão, que nos parece mui ponderosa, para +acreditarmos que esta Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido +escrita, temos ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, +começa Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel +segredo, dizendo: <em>Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e se +dahí passar seja em cinzas etc.</em> donde se deve suppor que vai a fazer +alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não apparece +cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos inclinâmos a crer que +nella vinha incluso algum outro papel, que fazia necessaria aquella +recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda esta conjectura a grande +probabilidade que ha, de serem uma e outra escritas na mesma occasião; +porque<span class="pn" ><a name="pag_XLIII">{XLIII}</a></span> só duas teve o poeta, de +escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser desterrado: +em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das mortes de Dom Antonio +de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de lá vierão em 1556, +governando ja Francisco Barreto; e na primeira occasião de certo não foi +escrita, nem tambem depois do desterro, por ser em estilo jocoso e não fazer +menção alguma destes acontecimentos, que tanto o magoárão. Acresce mais que na +mesma carta parece alludir á enfatuação e soberba do governador, quando diz: +<em>Principes de condição, ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que +a pobreza: fazem com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus +avós, onde não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca</em>. Ora +se o segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por causa +desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em Goa o que tão +secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de que se Luis de Camões +quizesse publicamente satyrizar a Francisco Barreto, certo he que lhe assentára +mais de rijo a espada do ridiculo, que melhor que ninguem sabia manejar. E +tambem he certo que, se Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse +algum outro crime de que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar +conforme as leis; nem um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando +tivesse merecido um tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em +tantos lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.<span +class="pn" ><a name="pag_XLIV">{XLIV}</a></span></p> + +<blockquote> + <p>E ainda, Nymphas minhas, não bastava<br> + Que tamanhas miserias me cercassem,<br> + Senão que aquelles que eu cantando andava<br> + Tal premio de meus versos me tornassem!<br> + A trôco dos descansos que esperava,<br> + Das capellas de Louro que me honrassem,<br> + Trabalhos nunca usados me inventárão,<br> + Com que em tão duro estado me deitárão.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">e na Canção XI:</p> + +<blockquote> + <p>Emfim, não houve trance de fortuna,<br> + Nem perigos nem casos duvidosos,<br> + Injustiças daquelles, que o confuso<br> + Regimento do mundo, antigo abuso,<br> + Faz sobre os outros homens poderosos,<br> + Que eu não passasse, atado á fiel columna<br> + Do soffrimento meu, que a importuna<br> + Perseguição de males em pedaços<br> + Mil vezes fez á força de seus braços. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o +Psalmo 136, compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no +captiveiro de Babylonia:</p> + +<blockquote> + <p>A pena deste desterro,<br> + Que eu mais desejo esculpida<br> + Em pedra ou em duro ferro etc. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi +mesmo:</p> + +<blockquote> + <p>No grão dia singular<br> + Que na lyra em douto som<br> + Hierusalem celebrar,<br> + Lembrai-vos de castigar<br> + Os ruins filhos de Edom.<br> + Aquelles que tintos vão<span class="pn" ><a name="pag_XLV">{XLV}</a></span><br> + No pobre sangue innocente,<br> + Soberbos co'o poder vão,<br> + Arrazá-los igualmente:<br> + Conheção que humanos são. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha +duvida, porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma +sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as leis do +Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou peregrinando por +varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79, fallando com as +Tagides:</p> + +<blockquote> + <p>Olhai que ha tanto tempo que cantando<br> + O vosso Tejo e os vossos Lusitanos<br> + A fortuna me traz peregrinando,<br> + Novos trabalhos vendo e novos danos. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">e Est. 80:</p> + +<blockquote> + <p>Agora com pobreza aborrecida<br> + Por hospicios alheios degradado. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se +vê da Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em +expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque se +assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer:</p> + +<blockquote> + <p>Aqui me achei gastando uns tristes dias,<br> + Tristes, forçados, maos e solitarios,<br> + De trabalho, de dor, e de ira cheios.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, +serião <em>forçados</em>, porque a servia por gôsto, nem <em>solitarios</em>, +porque não havia de ir só á guerra,<span class="pn" +><a name="pag_XLVI">{XLVI}</a></span> nem <em>cheios de ira</em>, porque esta só póde +nascer de alguma injúria ou violencia soffrida. </p> + +<p>Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns annos e +recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª</p> + +<blockquote> + <p>Aqui minha ventura<br> + Quiz qu'uma grande parte<br> + Da vida que não tinha se passasse,<br> + Para que a sepultura<br> + Nas mãos do fero Marte<br> + De sangue e de lembranças matizasse. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a +duvida, não só porque isso mesmo consta do remate della</p> + +<blockquote> + <p>Canção, neste desterro viverás,<br> + Voz nua e descoberta,<br> + Até que o tempo em eco te converta. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo +certo, como ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, +ou se sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.</p> + +<p>De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi +existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o +poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido +crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a este +respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha de ter +por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e trabalhos, que +soffreo este grande homem, foi a mesma<span class="pn" +><a name="pag_XLVII">{XLVII}</a></span> grandeza do seu merecimento e virtude. E a +Satyra, unica acção reprehensivel que na sua vida se encontra, não serve senão +para provar que entre Camões e Barreto havia inimizade. Nem em tal disparidade +de sentir e de pensar podia haver perfeita concordia. Francisco Barreto, homem +soberbo e mediocre, posto que não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina +mais a esta especie de gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, +como Luis de Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e +juiz das suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e +desterrou, deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e +calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria +boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz nos +ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:</p> + +<blockquote> + <p>Trabalhos nunca usados me inventárão,<br> + Com que em tão duro estado me deitárão. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. +Porque, tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa +cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a +nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide, censurasse +esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição que dahi +resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos ouvidos de +Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir<span class="pn" +><a name="pag_XLVIII">{XLVIII}</a></span> preso a Goa para ser julgado, não obstante +haver sido provido por ElRei no governo daquella fortaleza, e ter grande +valimento na Corte. E se isto ousou fazer a um poderoso, como teria mais +respeito a um desvalido? </p> + +<p>Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou algum +descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que exercêra o +Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma fortuna. O certo he +que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e que de lá voltou a Goa, +depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle Estado o Viso-Rei Dom +Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal, fosse adquirido no exercicio +daquelle cargo, ou por outros meios, porque isso mesmo se entende da Est. 80 do +Canto VII onde diz:</p> + +<blockquote> + <p>Agora da esperança ja adquirida<br> + De novo mais que nunca derribado.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio +Mecom, deo a nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, +perdida toda a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, +como Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi +recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est. 128, +onde diz, fallando do rio Mecom:</p> + +<blockquote> + <p>Este receberá placido e brando<br> + No seu regaço os Cantos, que molhados<br> + Vem do naufragio triste e miserando,<span class="pn" + ><a name="pag_XLIX">{XLIX}</a></span><br> + Dos procellosos baixos escapados,<br> + Das fomes, dos perigos grandes, quando<br> + Será o injusto mando executado<a name="tex2html1" + href="#foot2893"><sup>[1]</sup></a><br> + Naquelle, cuja lyra sonorosa<br> + Será mais affamada, que ditosa.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa +hospitalidade, ou por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui +escreveo a paraphrase do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as +Estancias que tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, +partio para Goa,<span class="pn" ><a name="pag_L">{L}</a></span> onde chegou no +principio do anno de 1561. E como quem se via cercado de inimigos, e tinha +exprimentado quão fragil escudo he por si só a innocencia, para captar a +benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja administração, com razão ou sem +ella, havia sido censurada de alguns, lhe dirigio a Epistola que começa: +<em>Como nos vossos hombros tão constantes etc.</em>, em que, exaltando as +virtudes e boas intenções deste Principe, o exhorta com o exemplo dos grandes +homens (e pudera tambem juntar o seu proprio) a desprezar com animo igual as +envenenadas settas da inveja e da calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que +depois veio a ser Viso-Rei da India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que +foi morto em Africa) escreveo outra sobre o desconcerto do mundo. </p> + +<p>Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na +precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!</p> + +<blockquote> + <p>O Valor e o Saber pedindo vão<br> + Ás portas da cubiça e da vileza!</p> +</blockquote> + +<p>Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do +Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia amigo +do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe movêrão +novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão, que nem +espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da Canção XI, +onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no governo de +Francisco Barreto, diz:<span class="pn" ><a name="pag_LI">{LI}</a></span></p> + +<blockquote> + <p>A piedade humana me faltava<br> + A gente amiga ja contraria via<br> + No perigo primeiro; e no segundo<br> + Terra em que pôr os pés me fallecia,<br> + Ar para respirar se me negava. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que +fosse mui grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus +perseguidores tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens +poderosos, e que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, +homem fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e +estando a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe +emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo +embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens, +recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso requerimento, +que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura. </p> + +<p>Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão perseguições +e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem nunca despir as +armas, e portando-se em todas as acções e combates de maneira, que seus +proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu valor: até que, vendo-se ja +sobre a idade, e com as fôrças quebradas de tantas privações e fadigas, tomou a +resolução de voltar á patria, para terminar a carreira da sua vida no mesmo +ponto, onde a havia começado. E nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto +se lhe appresentou,<span class="pn" ><a name="pag_LII">{LII}</a></span> como dissemos, +e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para Çofala. Mas de +tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a Moçambique, assentou +resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando meios de se transportar ao +Reino, quando, mui a proposito para o seu intento, alli aportou a nao Santa Fe, +em que vinhão alguns amigos seus, como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo +do Couto e outros, que pela honra de trazerem na sua companhia tão grande +homem, lhe offerecêrão passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe +chegasse isto aos ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por +duzentos cruzados, que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe +pedia como divida: do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão +entre si, e satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que +(observa Faria e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto +por duzentos cruzados foi vendida.</p> + +<p>Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado <em>Parnaso +de Luis de Camões</em>, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do +Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço, cheia de +erudição e philosophia.</p> + +<p>No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que +chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha todos +os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se restituido +á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia <em>que ainda +não</em><span class="pn" ><a name="pag_LIII">{LIII}</a></span> <em>podia crer tanta +ventura</em>. Pensava Luis de Camões que nella encontraria a felicidade e +socego, que fóra della em vão procurára; mas succedeo-lhe bem ao contrario, +porque seus inimigos lhe movêrão tão crua guerra, que todas as tormentas +passadas lhe parecêrão bonança, como elle expressamente nos diz (Egloga XI):</p> + +<blockquote> + <p> Tinha lá para mim que a vida tinha<br> + Mais socegada cá e mais segura<br> + Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.<br> + Foi de outro parecer minha ventura:<br> + Discordias sos achei, achei dureza<br> + Em lugar de socêgo e de brandura.<br> + Achei as boas leis da natureza<br> + Vencidas do interesse, e a gente cega<br> + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.<br> + Dizem que quando o mar bonança nega,<br> + Correndo vai aquella nao mor p'rigo.<br> + Que á desejada terra mais se chega.<br> + Assi me aconteceo a mi comigo:<br> + Seguro sempre ao longe, sempre ledo;<br> + Triste ao perto, e tratado como imigo.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de +achar. O escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa +fama, poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os +commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido +necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou cara +aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos +contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de +não<span class="pn" ><a name="pag_LIV">{LIV}</a></span> louvar senão quem o merecesse. +Donde resultou que censurados e não-louvados se unírão para o desgraçarem e +perderem. E se antes de publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito +peor lhe havia de succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava +ordindo; pois que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do +Tejo; no fim do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos +para passar aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo +(Est. 78):</p> + +<blockquote> + <p> Mas oh cego!<br> + Eu que commetto insano e temerario<br> + Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego,<br> + Por caminho tão arduo longo e vario!<br> + Vosso favor invoco, que navego<br> + Por alto mar com vento tão contrario,<br> + Que, se não me ajudais, hei grande medo<br> + Que o meu fraco batel se alague cedo.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">e depois (Estancia 83):</p> + +<blockquote> + <p>Pois logo em tantos males he forçado<br> + Que se vosso favor me não falleça,<br> + Principalmente aqui, que sou chegado<br> + Onde feitos diversos engrandeça.<br> + Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado<br> + Que não o empregue em quem o não mereça,<br> + Nem por lisonja louve algum subido,<br> + Sob pena de não ser agradecido.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a +fama posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria, cuidou +em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque dous annos +esteve sem sahir com elle á luz.<span class="pn" ><a name="pag_LV">{LV}</a></span> </p> + +<p>Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina, +sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia +originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque, +estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de +1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do poeta, +ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte revelação: +<em>Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que poderia +escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas suas +cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas.</em> E no mesmo +Canto, Estancia 71: <em>E assim como aqui vão impressas, as tinha elle +emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande +familiaridade</em>. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da +Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho dos +frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe fizesse +as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de toda a duvida +que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys, e o dizer ella +mesma (Canto X, Estancia 82):</p> + +<blockquote> + <p> Porque eu, Saturno e Jano,<br> + Jupiter, Juno, somos fabulosos,<br> + Fingidos de mortal e cego engano; </p> +</blockquote> + +<p class="ni">a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias +108 e seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II, +Estancia 12) são obra<span class="pn" ><a name="pag_LVI">{LVI}</a></span> dos Senhores +Inquisidores. Que felicidade não he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em +tempos, em que lhe he permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente! +</p> + +<p>Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572 sahio +finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como queria o poeta, +mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e póde ser que os muitos +e notaveis erros de impressão que desfigurão as duas edições que nesse mesmo +anno se fizerão, procedessem de que desgostado o autor de ver assim estragada a +sua obra, não quizesse cansar-se com a revisão das provas.</p> + +<p>Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe +fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita de tirar +para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na Corte. Mas se +assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque no de 1575 em uma +Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que parece) com um exemplar do +seu Poema, por occasião de uma setta que o Papa Gregorio XIII enviou a este +Rei, ainda elle lhe supplicava se dignasse dar-lhe algum premio, se não por +justiça, ao menos por caridade, como se vê dos seguintes versos:</p> + +<blockquote> + <p>Estes humildes versos, que pregão<br> + São destes vossos Reinos com verdade,<br> + Tenhão, se não merecem galardão,<br> + Favor sequer da Regia Magestade:<br> + Assim tenhais de quem ja tendes tanto,<br> + Com o nome e reliquia, favor santo.<span class="pn" + ><a name="pag_LVII">{LVII}</a></span> </p> +</blockquote> + +<p class="ni">E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; +porque os monstros<a name="tex2html2" href="#foot257"><sup>[2]</sup></a> que se +havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e pouco depois o arrastárão +a sepultar comsigo a patria nos campos de Alcacerquivir, tão célebres por essa +desgraça nossa, se enraivecêrão contra o poeta, porque tivera o nobre arrojo de +aconselhar áquelle Principe, tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades +rezar no côro, e tiverão arte para inutilizar a mercê<span class="pn" +><a name="pag_LVIII">{LVIII}</a></span> feita; de sorte que o infeliz, cansado de andar +de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que jagora +tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$ reis em +15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della. Por outra +parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os commodos da inercia e +os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus foros submettendo-os a uma +rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte, não obstante haver elle +supprimido algumas Estancias em que os fustigava mais forte: das quaes Faria e +Sousa nos conservou a seguinte:</p> + +<blockquote> + <p>Oh inimigos maos da natureza,<br> + Que injuriais a propria geração!<br> + Degenerantes, baixos! Que fraqueza<br> + De esforço, de saber e de razão<br> + Vos fez que a clara estirpe, que se préza<br> + De leal, fido e limpo coração,<br> + Esqueçais dessa sorte? Mas respeito,<br> + Que este dos nobres he o menor defeito.</p> +</blockquote> + +<p class="ni">E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e +reduzido a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que +de Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o +sustentar; e <span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de Lisboa +andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia todos os dias +levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em quando lhe deixava +tambem algum vintem do que havia vendido. Que desengano! De tantos que outrora +se dizião seus amigos, só estes<span class="pn" ><a name="pag_LIX">{LIX}</a></span> +achou fieis na sua adversa fortuna. <em>Tempora si fuerint nubila, solus +eris.</em> E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella +incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no mundo em +quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza. </p> + +<p>Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores contemporaneos +se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos Leitores que iria para o +soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha tanto (lhe disse o bom do +fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete Psalmos Penitenciaes, e ainda os +não traduzistes? Nenhuma desculpa tendes que dar: tendo feito tantos versos e +um tão formoso Poema, se me não servis, não he porque não possais; he, sim, +porque não quereis. <em>Senhor</em> (lhe respondeo o poeta) <em>quando eu fiz +esse Poema e esses versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o +necessario á vida; e agora não tenho espirito nem contentamento para nada, +porque tudo isso me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio +a pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar</em>. Sabía este +Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos sete +Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma esmola.</p> + +<p>Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom +Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão levasse +comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse testimunha ocular de +suas proezas, e sahindo<span class="pn" ><a name="pag_LX">{LX}</a></span> das selvas, +onde andava homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e +magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma Severim +de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios promettia não +ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não convertesse o canto em +chôro.</p> + +<p>Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito +peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco +depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe +morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus dias; +opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á sepultura, no +anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que morresse na mesma +pobre casa onde morava, na rua de S.<sup>ta</sup> Anna, a qual depois da sua morte +nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como todos concordão em +que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por caridade um lençol para +lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida que não morreo no hospital, +porque todos os que morrem naquella piedosa casa, ahi achão mortalha e +sepultura.</p> + +<p>Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido +sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos tempos, +os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do pensar e á +elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da justiça. Não +puderão as leis de Athenas proteger a innocencia<span class="pn" +><a name="pag_LXI">{LXI}</a></span> de Socrates contra as calumnias de um Melito, +Seneca em Roma não pôde evitar a morte debaixo da tyrannia de um Nero; e a +estes puderamos ajuntar uma infinidade de escritores desta classe, philosophos, +poetas e oradores, que em diversos tempos e por diversos modos soffrêrão a +mesma sorte. Mas Luis de Camões foi mais infeliz que todos: se lhe não fizerão +beber a cicuta, se lhe não abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a +especie de desgosto, e depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e +de degredo em degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de +tyrannia, cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a +submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer elle +mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o que elles +querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte muito mais +cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em cadaveres, +ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas, conspirando-se +contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o merecimento deste +Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas pretendêrão os da facção +perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que não destituido de merecimento, +está mui longe não só de se lhe poder comparar em cousa alguma, mas até de +dever ser classificado entre as obras de primeira ordem neste genero: depois +como tivessem noticia que Manoel de Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid +os seus commentarios, tiverão a impudencia de<span class="pn" +><a name="pag_LXII">{LXII}</a></span> lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho +desacreditasse a Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, +o denunciárão ao Tribunal da S<small>ANTA</small> I<small>NQUISIÇÃO</small>; o +que constando ao pobre Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, +para que mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer +um folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:</p> + +<p><em>Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden +de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el Tribunal +del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y judiciosa y +Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y profundissimo y +solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico ornamento de la Academia +Española en este genero de Letras.</em></p> + +<p>Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos +aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja com +quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este grande homem +e todos os que o ousárão louvar:</p> + +<p><em>De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento +no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa +cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son enemigos +patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los celebró en +estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á entender su +engaño..... Y tambien</em><span class="pn" ><a name="pag_LXIII">{LXIII}</a></span> +<em>son enemigos notorios de la luz del Poeta, como aves escuras, pues publican +dilatados libelos difamatorios contra él, sobre que tambien el Comentador los +abomina en varios lances: y á uno dellos doctrinó libremente por carta en +respuesta de otra, con que le persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al +tiempo que comenzaba á imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y +otros pretenden viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de +nuevo les dió en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en +que estaba escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos +la representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por +quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los +Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista.</em></p> + +<p><em>Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna +(si bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por +ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un Hombre, +que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria de Europa; +porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo ellos (ellos +solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á una mano publican +la excelencia de sus obras.</em> </p> + +<p>Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima censura, +que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo mais razão que +ninguem para amar e defender sua patria, nos campos<span class="pn" +><a name="pag_LXIV">{LXIV}</a></span> de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra +ella. Mas a maior de todas as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. +O notorio Padre Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros +e inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com +calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não sabemos se +de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de derribar a Camões, +tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez umas Oitavas ao Gama, e, +como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes se sera maior que Camões. +Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer outras, e repetindo a mesma pergunta, +como lhe dessem a mesma resposta, cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, +considerando melhor sua natureza e forças, dos heroes passou a cantar os +burros. Com tudo o seu Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e +tambem as suas cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi +deo a Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:</p> + +<blockquote> + <p>Quando uma noute estando descuidados<br> + Na cortadora prôa vigiando. </p> +</blockquote> + +<p class="ni">Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que +ignorancia! Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não +vião indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão +vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume dos +nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes não se +devem perder) ter sempre de noute<span class="pn" ><a name="pag_LXV">{LXV}</a></span> +vigias de prôa. E quem assim sabia a sua lingua, queria ser maior poeta que +Camões?</p> + +<p>Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria +nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação, e +por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem recebida +e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas impressões, e os +soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della como seu canto de +guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que quando apparecia em publico +(o que era raro, porque nos ultimos tempos vivia em grande retiro) paravão +todos, sem tirar os olhos delle, até o perderem de vista. E se morreo em tal +desamparo (faça-se esta justiça aos Portuguezes, que em serem compadecidos e +generosos a nenhum outro povo cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha +se achavão todos os animos possuidos de terror com a recente catastrophe, e as +calamidades publicas que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de +males particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era +conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem +dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e +populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de homens +plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos Grandes) a +qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha algum pobre +envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para que os cidadãos +que puderem o<span class="pn" ><a name="pag_LXVI">{LXVI}</a></span> mandem soccorrer. E +o traductor infiel (Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua +fábrica, e deste desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu +odio contra os Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de +<em>nação barbara e inculta</em>, devêra lembrar-se, que serem os bons +sacrificados pelos maos, por lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em +toda a parte todos os dias se vê; mas que no seculo desasete um Escritor +insigne, com que hoje seus compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente +infeliz, polo não saberem apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse +vendido pelo vil preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos +tempos ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver +quem lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.</p> + +<p>Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros, +que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e +grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da fronte; +pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na conversação e trato +era summamente affavel e jovial. Era liberal com os amigos, honrador dos +benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos perigos, constante nas +adversidades. Em todos os trances de fortuna conservou sempre a mesma +serenidade de alma: de maneira que ja no leito da morte escrevendo a um seu +amigo, lhe dizia gracejando: <em>Quem ouvio dizer, que em tão pequeno theatro, +como o de um pobre leito, </em><span class="pn" ><a name="pag_LXVII">{LXVII}</a></span> +<em>quizesse a fortuna representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas +não bastassem, me ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos +males, pareceria especie de desavergonhamento.</em> Emfim, de todas as virtudes +foi ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e +desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou em +todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della, como +lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos parocismos da +morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que nenhuma outra mágoa +sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira aquellas palavras: +<em>Ingrata patria, não possuirás meus ossos</em>. Porque julgava elle, que por +maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua patria, nunca, nem por +pensamento, deve procurar vingança. E querendo na sua derradeira hora +deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento, vendo-se em tal desamparo, +sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom Francisco de Almeida, que na comarca +de Lamego andava allistando gente, uma carta onde se lião estas memoraveis +palavras: <em>Emfim, acabarei a vida; e aqui verão todos que tão amante fui da +minha patria, que não contente de morrer nella, quiz tambem morrer com +ella.</em></p> + +<p>Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de +S.<sup>ta</sup> Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos +confundidos com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em<span class="pn" +><a name="pag_LXVIII">{LXVIII}</a></span> que Dom Gonçalo Coutinho lhe mandou pôr sobre +a sepultura uma campa lisa de marmore, e nella gravar este letreiro:</p> + +<blockquote> + <p style="text-align: center;">A<small>QUI JAZ</small> L<small>UIS DE</small> + C<small>AMÕES, </small><br> + P<small>RINCIPE</small><br> + D<small>OS</small> P<small>OETAS DE SEU TEMPO.</small><br> + V<small>IVEO POBRE E MISERAVELMENTE, </small><br> + E <small>ASSI MORREO</small><br> + A<small>NNO DE MDLXXIX.</small><br> + E<small>STA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR</small><br> + D<small>OM</small> G<small>ONÇALO</small> C<small>OUTINHO, NA QUAL SE</small> + <br> + <small>NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.</small></p> +</blockquote> + +<p class="ni">Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim +Gonçalves da Camara o seguinte Epitaphio:</p> + +<blockquote> + <p><em>Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus, </em><br> + <em> Hic jacet heroe carmine Virgilius.</em><br> + <em>Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.</em><br> + <em> Unam nobilitant Mars et Apollo manum.</em><br> + <em>Castalium fontem traxit modulamine: at Indo</em><br> + <em> Et Gangi telis obstupefecit aquas.</em><br> + <em>India mirata est, quando aurea carmina, lucrum</em><br> + <em> Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.</em><br> + <em>Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:</em><br> + <em> At plus, dum calamo bellicosa facta refert.</em><br> + <em>Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:</em><br> + <em> Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.</em><br> + <em>Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni</em><br> + <em> Est sibi: par nemo, nemo secundus erit.</em></p> +</blockquote> + +<p class="ni">Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu +correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e +quando<span class="pn" ><a name="pag_LXIX">{LXIX}</a></span> a não tivesse sumptuosa, +tratasse com a cidade lhe désse licença para trasladar seus ossos para +Alemanha, onde lhe faria um tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos +antigos. Mas o Senado da Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio +na proposta, talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de +tão grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno de +1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio os ossos +debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida erija á sua +memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de tão insigne +varão.<span class="pn" ><a name="pag_LXX">{LXX}</a><br><a name="pag_LXXI">{LXXI}</a></span></p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> + +<h1 style="font-size: 3em;"><a name="SECTION010000000">RIMAS.</a></h1> + +<p><span class="pn" ><a name="pag_LXXII">{LXXII}</a><br><a name="pag_1">{1}</a></span></p> +<p> </p> +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION011000000">RIMAS.</a></h1> + +<h1>SONETOS. </h1> + +<div id="sonetos"> + +<h4>I.</h4> + +<blockquote> + Em quanto quiz fortuna que tivesse<br> + Esperança de algum contentamento,<br> + O gosto de hum suave pensamento<br> + Me fez que seus effeitos escrevesse.<br> + Porém temendo Amor que aviso désse<br> + Minha escriptura a algum juizo isento,<br> + Escureceo-me o engenho co'o tormento,<br> + Para que seus enganos não dissesse.<br> + Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos<br> + A diversas vontades! quando lerdes<br> + N'hum breve livro casos tão diversos;<br> + (Verdades puras são, e não defeitos)<br> + Entendei que segundo o amor tiverdes,<br> + Tereis o entendimento de meus versos.<span class="pn" ><a name="pag_2">{2}</a></span> +</blockquote> + +<h4>II.</h4> + +<blockquote> + Eu cantarei de amor tão docemente,<br> + Por huns termos em si tão concertados,<br> + Que dous mil accidentes namorados<br> + Faça sentir ao peito que não sente.<br> + Farei que Amor a todos avivente,<br> + Pintando mil segredos delicados,<br> + Brandas iras, suspiros magoados,<br> + Temerosa ousadia, e pena, ausente.<br> + Tambem, Senhora, do desprêzo honesto<br> + De vossa vista branda e rigorosa,<br> + Contentar-me-hei dizendo a menor parte.<br> + Porém para cantar de vosso gesto<br> + A composição alta e milagrosa,<br> + Aqui falta saber, engenho, e arte.</blockquote> + +<h4>III.</h4> + +<blockquote> + Com grandes esperanças ja cantei,<br> + Com que os deoses no Olympo conquistára;<br> + Depois vim a chorar porque cantára,<br> + E agora chóro ja porque chorei.<br> + Se cuido nas passadas que ja dei,<br> + Custa-me esta lembrança só tão cara,<br> + Que a dor de ver as mágoas que passára,<br> + Tenho por a mór mágoa que passei.<br> + Pois logo, se está claro que hum tormento<br> + Dá causa que outro na alma se accrescente,<br> + Ja nunca posso ter contentamento.<br> + Mas esta phantasia se me mente?<br> + Oh ocioso e cego pensamento!<br> + Ainda eu imagino em ser contente?<span class="pn" ><a name="pag_3">{3}</a></span> +</blockquote> + +<h4>IV.</h4> + +<blockquote> + Despois que quiz Amor que eu só passasse<br> + Quanto mal ja por muitos repartio,<br> + Entregou-me á Fortuna, porque vio<br> + Que não tinha mais mal que em mi mostrasse.<br> + Ella, porque do Amor se avantajasse<br> + Na pena a que elle só me reduzio,<br> + O que para ninguem se consentio,<br> + Para mim consentio que se inventasse.<br> + Eis-me aqui vou com vário som gritando.<br> + Copioso exemplario para a gente<br> + Que destes dous tyrannos he sujeita;<br> + Desvarios em versos concertando.<br> + Triste quem seu descanso tanto estreita,<br> + Que deste tão pequeno está contente!</blockquote> + +<h4>V.</h4> + +<blockquote> + Em prisões baixas fui hum tempo atado;<br> + Vergonhoso castigo de meus erros:<br> + Inda agora arrojando levo os ferros,<br> + Que a morte, a meu pezar, t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ja quebrado.<br> + Sacrifiquei a vida a meu cuidado,<br> + Que Amor não quer cordeiros nem bezerros;<br> + Vi mágoas, vi miserias, vi desterros:<br> + Parece-me que estava assi ordenado.<br> + Contentei-me com pouco, conhecendo<br> + Que era o contentamento vergonhoso,<br> + Só por ver que cousa era viver ledo.<br> + Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo,<br> + A Morte cega, e o Caso duvidoso<br> + Me fizerão de gostos haver medo.<span class="pn" ><a name="pag_4">{4}</a></span> +</blockquote> + +<h4>VI.</h4> + +<blockquote> + Illustre e digno ramo dos Menezes,<br> + Aos quaes o providente e largo Ceo<br> + (Que errar não sabe) em dote concedeo,<br> + Rompessem os Maometicos arnezes;<br> + Desprezando a Fortuna e seus revezes,<br> + Ide para onde o Fado vos moveo;<br> + Erguei flammas no mar alto Erythreo,<br> + E sereis nova luz aos Portuguezes.<br> + Opprimi com tão firme e forte peito<br> + O Pirata insolente, que se espante<br> + E trema Taprobana e Gedrosia.<br> + Dai nova causa á côr do Arabo Estreito;<br> + Assi que o Roxo mar, daqui em diante<br> + O seja só com sangue de Turquia.</blockquote> + +<h4>VII.</h4> + +<blockquote> + No tempo que de amor viver sohia,<br> + Nem sempre andava ao remo ferrolhado;<br> + Antes agora livre, agora atado,<br> + Em várias flammas variamente ardia.<br> + Que ardesse n'hum só fogo não queria<br> + O Ceo porque tivesse exprimentado<br> + Que nem mudar as causas ao cuidado<br> + Mudança na ventura me faria.<br> + E se algum pouco tempo andava isento,<br> + Foi como quem co'o pêzo descansou<br> + Por tornar a cansar com mais alento.<br> + Louvado seja Amor em meu tormento,<br> + Pois para passatempo seu tomou<br> + Este meu tão cansado soffrimento!<span class="pn" ><a name="pag_5">{5}</a></span> +</blockquote> + +<h4>VIII.</h4> + +<blockquote> + Amor, que o gesto humano na alma escreve,<br> + Vivas faiscas me mostrou hum dia,<br> + Donde hum puro crystal se derretia<br> + Por entre vivas rosas e alva neve.<br> + A vista, que em si mesma não se atreve,<br> + Por se certificar do que alli via,<br> + Foi convertida em fonte, que fazia<br> + A dor ao soffrimento doce e leve.<br> + Jura Amor, que brandura de vontade<br> + Causa o primeiro effeito; o pensamento<br> + Endoudece, se cuida que he verdade.<br> + Olhai como Amor gera, em hum momento,<br> + De lagrimas de honesta piedade<br> + Lagrimas de immortal contentamento.</blockquote> + +<h4>IX.</h4> + +<blockquote> + Tanto de meu estado me acho incerto,<br> + Que em vivo ardor tremendo estou de frio;<br> + Sem causa juntamente chóro e rio;<br> + O mundo todo abarco, e nada apérto.<br> + He tudo quanto sinto hum desconcêrto:<br> + Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;<br> + Agora espero, agora desconfio;<br> + Agora desvarío, agora acérto.<br> + Estando em terra, chego ao ceo voando;<br> + N'hum'hora acho mil annos, e he de geito<br> + Que em mil annos não posso achar hum'hora.<br> + Se me pergunta alguem, porque assi ando,<br> + Respondo, que não sei: porém suspeito<br> + Que só porque vos vi, minha Senhora.<span class="pn" ><a name="pag_6">{6}</a></span> +</blockquote> + +<h4>X.</h4> + +<blockquote> + Transforma-se o amador na cousa amada,<br> + Por virtude do muito imaginar:<br> + Não tenho logo mais que desejar,<br> + Pois em mim tenho a parte desejada.<br> + Se nella está minha alma transformada,<br> + Que mais deseja o corpo de alcançar?<br> + Em si somente póde descansar,<br> + Pois com elle tal alma está liada.<br> + Mas esta linda e pura semidea,<br> + Que como o accidente em seu sojeito,<br> + Assi com a alma minha se confórma;<br> + Está no pensamento como idea;<br> + E o vivo e puro amor de que sou feito,<br> + Como a materia simples busca a fórma.</blockquote> + +<h4>XI.</h4> + +<blockquote> + Passo por meus trabalhos tão isento<br> + De sentimento grande nem pequeno,<br> + Que só por a vontade com que peno<br> + Me fica Amor devendo mais tormento.<br> + Mas vai-me Amor matando tanto a tento,<br> + Temperando a triaga co'o veneno,<br> + Que do penar a ordem desordeno,<br> + Porque não mo consente o soffrimento.<br> + Porém se esta fineza o Amor sente<br> + E pagar-me meu mal com mal pretende,<br> + Torna-me com prazer como ao sol neve.<br> + Mas se me vê co'os males tão contente,<br> + Faz-se avaro da pena, porque entende<br> + Que quanto mais me paga, mais me deve.<span class="pn" +><a name="pag_7">{7}</a></span></blockquote> + +<h4>XII.</h4> + +<blockquote> + Em flor vos arrancou, de então crescida,<br> + (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte<br> + Donde fazendo andava o braço forte<br> + A fama dos antiguos esquecida.<br> + Huma só razão tenho conhecida<br> + Com que tamanha mágoa se conforte:<br> + Que se no Mundo havia honrada morte,<br> + Não podieis vós ter mais larga vida.<br> + Se meus humildes versos podem tanto<br> + Que co'o desejo meu se iguale a arte,<br> + Especial materia me sereis.<br> + E celebrado em triste e longo canto,<br> + Se morrestes nas mãos do fero Marte,<br> + Na memoria das gentes vivireis.</blockquote> + +<h4>XIII.</h4> + +<blockquote> + N'hum jardim adornado de verdura,<br> + Que esmaltavão por cima várias flores,<br> + Entrou hum dia a deosa dos amores,<br> + Com a deosa da caça e da espessura.<br> + Diana tomou logo h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a rosa pura,<br> + Venus hum roxo lyrio, dos melhores;<br> + Mas excedião muito ás outras flores<br> + As violas na graça e formosura.<br> + Perguntão a Cupido, que alli estava,<br> + Qual de aquellas tres flores tomaria<br> + Por mais suave e pura, e mais formosa.<br> + Sorrindo-se o menino lhes tornava:<br> + Todas formosas são; mas eu queria<br> + Viola antes que lyrio, nem que rosa.<span class="pn" ><a name="pag_8">{8}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XIV.</h4> + +<blockquote> + Todo animal da calma repousava,<br> + Só Liso o ardor della não sentia;<br> + Que o repouso do fogo, em que elle ardia,<br> + Consistia na Nympha que buscava.<br> + Os montes parecia que abalava<br> + O triste som das mágoas que dizia:<br> + Mas nada o duro peito commovia,<br> + Que na vontade de outro posto estava.<br> + Cansado ja de andar por a espessura,<br> + No tronco de huma faia, por lembrança,<br> + Escreve estas palavras de tristeza:<br> + Nunca ponha ninguem sua esperança<br> + Em peito feminil, que de natura<br> + Somente em ser mudavel t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e firmeza.</blockquote> + +<h4>XV.</h4> + +<blockquote> + Busque Amor novas artes, novo engenho<br> + Para matar-me, e novas esquivanças;<br> + Que não póde tirar-me as esperanças,<br> + Pois mal me tirará o que eu não tenho.<br> + Olhai de que esperanças me mantenho!<br> + Vêde que perigosas seguranças!<br> + Pois não temo contrastes nem mudanças,<br> + Andando em bravo mar, perdido o lenho.<br> + Mas com quanto não póde haver desgôsto<br> + Onde esperança falta, lá me esconde<br> + Amor hum mal, que mata e não se vê.<br> + Que dias ha que na alma me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e posto<br> + Hum não sei que, que nasce não sei onde;<br> + Vem não sei como; e doe não sei porque.<span class="pn" + ><a name="pag_9">{9}</a></span></blockquote> + +<h4>XVI.</h4> + +<blockquote> + Quem vê, Senhora, claro e manifesto<br> + O lindo ser de vossos olhos bellos,<br> + Se não perder a vista só com vellos,<br> + Ja não paga o que deve a vosso gesto.<br> + Este me parecia preço honesto;<br> + Mas eu, por de vantagem merecellos,<br> + Dei mais a vida e alma por querellos;<br> + Donde ja me não fica mais de resto.<br> + Assi que alma, que vida, que esperança,<br> + E que quanto for meu, he tudo vosso:<br> + Mas de tudo o interêsse eu só o levo.<br> + Porque he tamanha bem-aventurança<br> + O dar-vos quanto tenho, e quanto posso,<br> + Que quanto mais vos pago, mais vos devo.</blockquote> + +<h4>XVII.</h4> + +<blockquote> + Quando da bella vista e doce riso<br> + Tomando estão meus olhos mantimento,<br> + Tão elevado sinto o pensamento,<br> + Que me faz ver na terra o Paraiso.<br> + Tanto do bem humano estou diviso,<br> + Que qualquer outro bem julgo por vento:<br> + Assi que em termo tal, segundo sento,<br> + Pouco vem a fazer quem perde o siso.<br> + Em louvar-vos, Senhora, não me fundo;<br> + Porque quem vossas graças claro sente,<br> + Sentirá que não póde conhecellas.<br> + Pois de tanta estranheza sois ao mundo,<br> + Que não he de estranhar, Dama excellente,<br> + Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas.<span class="pn" + ><a name="pag_10">{10}</a></span></blockquote> + +<h4>XVIII.</h4> + +<blockquote> + Doces lembranças da passada gloria,<br> + Que me tirou fortuna roubadora,<br> + Deixai-me descansar em paz hum'hora,<br> + Que comigo ganhais pouca victoria.<br> + Impressa tenho na alma larga historia<br> + Deste passado bem, que nunca fôra;<br> + Ou fôra, e não passára: mas ja agora<br> + Em mi não póde haver mais que a memoria.<br> + Vivo em lembranças, morro de esquecido<br> + De quem sempre devêra ser lembrado,<br> + Se lhe lembrára estado tão contente.<br> + Oh quem tornar pudéra a ser nascido!<br> + Soubera-me lograr do bem passado,<br> + Se conhecer soubera o mal presente.</blockquote> + +<h4>XIX.</h4> + +<blockquote> + Alma minha gentil, que te partiste<br> + Tão cedo desta vida descontente,<br> + Repousa lá no Ceo eternamente,<br> + E viva eu cá na terra sempre triste.<br> + Se lá no assento Ethereo, onde subiste,<br> + Memoria desta vida se consente,<br> + Não te esqueças de aquelle amor ardente,<br> + Que ja nos olhos meus tão puro viste.<br> + E se vires que póde merecer-te<br> + Alg<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a cousa a dor que me ficou<br> + Da mágoa, sem remedio, de perder-te;<br> + Roga a Deos que teus annos encurtou,<br> + Que tão cedo de cá me leve a ver-te,<br> + Quão cedo de meus olhos te levou.<span class="pn" ><a name="pag_11">{11}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XX.</h4> + +<blockquote> + N'hum bosque, que das Nymphas se habitava,<br> + Sibella, Nympha linda, andava hum dia;<br> + E subida em huma árvore sombria,<br> + As amarellas flores apanhava.<br> + Cupido, que alli sempre costumava<br> + A vir passar a sésta á sombra fria,<br> + Em hum ramo arco e settas, que trazia,<br> + Antes que adormecesse, pendurava.<br> + A Nympha, como idoneo tempo víra<br> + Para tamanha empresa, não dilata;<br> + Mas com as armas foge ao moço esquivo.<br> + As settas traz nos olhos, com que tira.<br> + Ó Pastores! fugi, que a todos mata,<br> + Senão a mim, que de matar-me vivo.</blockquote> + +<h4>XXI.</h4> + +<blockquote> + Os Reinos e os Imperios poderosos,<br> + Que em grandeza no mundo mais crescêrão;<br> + Ou por valor de esfôrço florecêrão,<br> + Ou por Barões nas letras espantosos.<br> + Teve Grecia Themistocles famosos;<br> + Os Scipiões a Roma engrandecêrão;<br> + Doze Pares a França gloria derão;<br> + Cides a Hespanha, e Laras bellicosos.<br> + Ao nosso Portugal, que agora vemos<br> + Tão differente de seu ser primeiro,<br> + Os vossos derão honra e liberdade.<br> + E em vós, grão successor e novo herdeiro<br> + Do Braganção Estado, ha mil extremos<br> + Iguaes ao sangue, e móres que a idade.<span class="pn" + ><a name="pag_12">{12}</a></span></blockquote> + +<h4>XXII.</h4> + +<blockquote> + De vós me parto, ó vida, e em tal mudança<br> + Sinto vivo da morte o sentimento.<br> + Não sei para que he ter contentamento,<br> + Se mais ha de perder quem mais alcança.<br> + Mas dou-vos esta firme segurança:<br> + Que postoque me mate o meu tormento,<br> + Por as aguas do eterno esquecimento<br> + Segura passará minha lembrança.<br> + Antes sem vós meus olhos se entristeção,<br> + Que com cousa outra alguma se contentem:<br> + Antes os esqueçais, que vos esqueção.<br> + Antes nesta lembrança se atormentem,<br> + Que com esquecimento desmereção<br> + A gloria que em soffrer tal pena sentem.</blockquote> + +<h4>XXIII.</h4> + +<blockquote> + Chara minha inimiga, em cuja mão<br> + Poz meus contentamentos a ventura,<br> + Faltou-te a ti na terra sepultura,<br> + Porque me falte a mi consolação.<br> + Eternamente as águas lograrão<br> + A tua peregrina formosura:<br> + Mas em quanto me a mim a vida dura,<br> + Sempre viva em minha alma te acharão.<br> + E se meus rudos versos podem tanto,<br> + Que possão prometter-te longa historia<br> + De aquelle amor tão puro e verdadeiro;<br> + Celebrada serás sempre em meu canto:<br> + Porque em quanto no mundo houver memoria,<br> + Será a minha escriptura o teu letreiro.<span class="pn" + ><a name="pag_13">{13}</a></span></blockquote> + +<h4>XXIV.</h4> + +<blockquote> + Aquella triste e leda madrugada,<br> + Cheia toda de mágoa e de piedade,<br> + Em quanto houver no mundo saudade<br> + Quero que seja sempre celebrada.<br> + Ella só, quando amena e marchetada<br> + Sahia, dando á terra claridade,<br> + Vio apartar-se de huma outra vontade,<br> + Que nunca poderá ver-se apartada;<br> + Ella só vio as lagrimas em fio,<br> + Que de huns e de outros olhos derivadas,<br> + Juntando-se, formárão largo rio;<br> + Ella ouvio as palavras magoadas,<br> + Que puderão tornar o fogo frio,<br> + E dar descanço ás almas condemnadas.</blockquote> + +<h4>XXV.</h4> + +<blockquote> + Se quando vos perdi, minha esperança,<br> + A memoria perdêra juntamente<br> + Do doce bem passado e mal presente,<br> + Pouco sentira a dor de tal mudança.<br> + Mas Amor, em quem tinha confiança,<br> + Me representa mui miudamente<br> + Quantas vezes me vi ledo e contente,<br> + Por me tirar a vida esta lembrança.<br> + De cousas de que apenas hum signal<br> + Havia, porque as dei ao esquecimento,<br> + Me vejo com memorias perseguido.<br> + Ah dura estrella minha! Ah grão tormento!<br> + Que mal póde ser mor, que no meu mal<br> + Ter lembranças do bem que he ja passado?<span class="pn" + ><a name="pag_14">{14}</a></span></blockquote> + +<h4>XXVI.</h4> + +<blockquote> + Em formosa Lethea se confia,<br> + Por onde vaidade tanta alcança,<br> + Que, tornada em soberba a confiança,<br> + Com os deoses celestes competia.<br> + Porque não fosse avante esta ousadia,<br> + (Que nascem muitos erros da tardança)<br> + Em effeito puzerão a vingança<br> + Que tamanha doudice merecia.<br> + Mas Oleno, perdido por Lethea,<br> + Não lhe soffrendo Amor que supportasse<br> + Duro castigo em tanta formosura,<br> + Quiz a pena tomar da culpa alhea:<br> + Mas, porque a Morte Amor não apartasse,<br> + Ambos tornados são em pedra dura.</blockquote> + +<h4>XXVII.</h4> + +<blockquote> + Males, que contra mim vos conjurastes,<br> + Quanto ha de durar tão duro intento?<br> + Se dura, porque dure meu tormento,<br> + Baste-vos quanto ja me atormentastes.<br> + Mas se assi porfiais, porque cuidastes<br> + Derribar o meu alto pensamento,<br> + Mais póde a causa delle, em que o sustento,<br> + Que vós, que della mesma o ser tomastes.<br> + E pois vossa tenção com minha morte<br> + He de acabar o mal destes amores,<br> + Dai ja fim a tormento tão comprido.<br> + Assi de ambos contente será a sorte;<br> + Em vós por acabar-me, vencedores,<br> + Em mim porque acabei de vós vencido.<span class="pn" +><a name="pag_15">{15}</a></span></blockquote> + +<h4>XXVIII.</h4> + +<blockquote> + Está-se a Primavera trasladando<br> + Em vossa vista deleitosa e honesta;<br> + Nas bellas faces, e na boca e testa,<br> + Cecens, rosas, e cravos debuxando.<br> + De sorte, vosso gesto matizando,<br> + Natura quanto póde manifesta,<br> + Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,<br> + Se estão de vós, Senhora, namorando.<br> + Se agora não quereis que quem vos ama<br> + Possa colher o fructo destas flores,<br> + Perderão toda a graça os vossos olhos.<br> + Porque pouco aproveita, linda Dama,<br> + Que semeasse o Amor em vós amores,<br> + Se vossa condição produze abrolhos.</blockquote> + +<h4>XXIX.</h4> + +<blockquote> + Sete annos de pastor Jacob servia<br> + Labão, pae de Raquel, serrana bella:<br> + Mas não servia ao pae, servia a ella,<br> + Que a ella só por premio pertendia.<br> + Os dias na esperança de hum só dia<br> + Passava, contentando-se com vella:<br> + Porém o pae, usando de cautella,<br> + Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.<br> + Vendo o triste Pastor que com enganos<br> + Assi lhe era negada a sua Pastora,<br> + Como se a não tivera merecida;<br> + Começou a servir outros sete annos,<br> + Dizendo: Mais servíra, senão fôra<br> + Para tão longo amor tão curta a vida.<span class="pn" + ><a name="pag_16">{16}</a></span></blockquote> + +<h4>XXX.</h4> + +<blockquote> + Está o lascivo e doce passarinho<br> + Com o biquinho as pennas ordenando;<br> + O verso sem medida, alegre e brando,<br> + Despedindo no rustico raminho.<br> + O cruel caçador, que do caminho<br> + Se vem callado e manso desviando,<br> + Com prompta vista a setta endireitando,<br> + Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho.<br> + Desta arte o coração, que livre andava,<br> + (Postoque ja de longe destinado)<br> + Onde menos temia, foi ferido.<br> + Porque o frecheiro cego me esperava,<br> + Para que me tomasse descuidado,<br> + Em vossos claros olhos escondido.</blockquote> + +<h4>XXXI.</h4> + +<blockquote> + Pede o desejo, Dama, que vos veja:<br> + Não entende o que pede; está enganado.<br> + He este amor tão fino e tão delgado,<br> + Que quem o t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e, não sabe o que deseja.<br> + Não ha cousa, a qüal natural seja,<br> + Que não queira perpétuo o seu estado.<br> + Não quer logo o desejo o desejado,<br> + Só porque nunca falte onde sobeja.<br> + Mas este puro affecto em mim se dana:<br> + Que, como a grave pedra t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e por arte<br> + O centro desejar da natureza;<br> + Assi meu pensamento por a parte,<br> + Que vai tomar de mi, terreste e humana,<br> + Foi, Senhora, pedir esta baixeza.<span class="pn" ><a name="pag_17">{17}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XXXII.</h4> + +<blockquote> + Porque quereis, Senhora, que offereça<br> + A vida a tanto mal como padeço?<br> + Se vos nasce do pouco que eu mereço,<br> + Bem por nascer está quem vos mereça.<br> + Entendei que por muito que vos peça,<br> + Poderei merecer quanto vos peço;<br> + Pois não consente amor que em baixo preço<br> + Tão alto pensamento se conheça.<br> + Assi que a paga igual de minhas dores<br> + Com nada se restaura; mas devêsma<br> + Por ser capaz de tantos desfavores.<br> + E se o valor de vossos amadores<br> + Houver de ser igual comvosco mesma,<br> + Vós só comvosco mesma andai de amores.</blockquote> + +<h4>XXXIII.</h4> + +<blockquote> + Se tanta pena tenho merecida<br> + Em pago de soffrer tantas durezas;<br> + Provai, Senhora, em mi vossas cruezas,<br> + Que aqui tendes huma alma offerecida.<br> + Nella experimentai, se sois servida,<br> + Desprezos, desfavores e asperezas;<br> + Que móres soffrimentos e firmezas<br> + Sustentarei na guerra desta vida.<br> + Mas contra vossos olhos quaes serão?<br> + He preciso que tudo se lhes renda;<br> + Mas porei por escudo o coração.<br> + Porque em tão dura e aspera contenda<br> + He bem que, pois não acho defensão,<br> + Com meter-me nas lanças me defenda.<span class="pn" ><a name="pag_18">{18}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XXXIV.</h4> + +<blockquote> + Quando o sol encoberto vai mostrando<br> + Ao mundo a luz quieta e duvidosa,<br> + Ao longo de huma praia deleitosa<br> + Vou na minha inimiga imaginando.<br> + Aqui a vi os cabellos concertando;<br> + Alli co'a mão na face, tão formosa;<br> + Aqui fallando alegre, alli cuidosa;<br> + Agora estando quêda, agora andando.<br> + Aqui esteve sentada, alli me vio,<br> + Erguendo aquelles olhos, tão isentos;<br> + Commovida aqui hum pouco, alli segura.<br> + Aqui se entristeceo, alli se rio:<br> + E, em fim, nestes cansados pensamentos<br> + Passo esta vida vãa, que sempre dura.</blockquote> + +<h4>XXXV.</h4> + +<blockquote> + Hum mover de olhos, brando e piedoso,<br> + Sem ver de que; hum riso brando e honesto,<br> + Quasi forçado; hum doce e humilde gesto,<br> + De qualquer alegria duvidoso:<br> + Hum despejo quieto e vergonhoso;<br> + Hum repouso gravissimo e modesto;<br> + Huma pura bondade, manifesto<br> + Indicio da alma, limpo e gracioso:<br> + Hum encolhido ousar; huma brandura;<br> + Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno;<br> + Hum longo e obediente soffrimento:<br> + Esta foi a celeste formosura<br> + Da minha Circe, e o magico veneno<br> + Que pôde transformar meu pensamento.<span class="pn" +><a name="pag_19">{19}</a></span></blockquote> + +<h4>XXXVI.</h4> + +<blockquote> + Tomou-me vossa vista soberana<br> + Adonde tinha as armas mais á mão,<br> + Por mostrar a quem busca defensão<br> + Contra esses bellos olhos, que se engana.<br> + Por ficar da victoria mais ufana,<br> + Deixou-me armar primeiro da razão.<br> + Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão,<br> + Que contra o Ceo não val defensa humana.<br> + Com tudo, se vos tinha promettido<br> + O vosso alto destino esta victoria,<br> + Ser-vos ella bem pouca está entendido.<br> + Pois, indaque eu me achasse apercebido,<br> + Não levais de vencer-me grande gloria,<br> + Eu a levo maior de ser vencido.</blockquote> + +<h4>XXXVII.</h4> + +<blockquote> + Não passes, caminhante. Quem me chama?<br> + H<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a memoria nova e nunca ouvida,<br> + De hum que trocou finita e humana vida<br> + Por divina, infinita, e clara fama.<br> + Quem he, que tão gentil louvor derrama?<br> + Quem derramar seu sangue não duvida,<br> + Por seguir a bandeira esclarecida<br> + De hum capitão de Christo que mais ama.<br> + Ditoso fim, ditoso sacrificio,<br> + Que a Deos se fez e ao mundo juntamente!<br> + Pregoando direi tão alta sorte.<br> + Mais poderás contar a toda a gente<br> + Que sempre deo na vida claro indicio<br> + De vir a merecer tão santa morte.<span class="pn" ><a name="pag_20">{20}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Formosos olhos, que na idade nossa<br> + Mostrais do Ceo certissimos signais,<br> + Se quereis conhecer quanto possais,<br> + Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.<br> + Vereis que do viver me desapossa<br> + Aquelle riso com que a vida dais:<br> + Vereis como de Amor não quero mais,<br> + Por mais que o tempo corra, o damno possa.<br> + E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes,<br> + Como em hum claro espelho, alli vereis<br> + Tambem a vossa angelica e serena.<br> + Mas eu cuido que, só por me não verdes,<br> + Ver-vos em mim, Senhora, não quereis:<br> + Tanto gôsto levais de minha pena!</blockquote> + +<h4>XXXIX.</h4> + +<blockquote> + O fogo que na branda cera ardia,<br> + Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,<br> + Se accendeo de outro fogo do desejo<br> + Por alcançar a luz que vence o dia.<br> + Como de dous ardores se encendia,<br> + Da grande impaciencia fez despejo,<br> + E remettendo com furor sobejo,<br> + Vos foi beijar na parte onde se via.<br> + Ditosa aquella flamma que se atreve<br> + A apagar seus adores e tormentos<br> + Na vista a quem o sol temores deve!<br> + Namorão-se, Senhora, os Elementos<br> + De vós, e queima o fogo aquella neve<br> + Que queima corações e pensamentos.<span class="pn" ><a name="pag_21">{21}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XL.</h4> + +<blockquote> + Alegres campos, verdes arvoredos,<br> + Claras e frescas águas de crystal,<br> + Que em vós os debuxais ao natural,<br> + Discorrendo da altura dos rochedos:<br> + Sylvestres montes, asperos penedos<br> + Compostos de concêrto desigual;<br> + Sabei que sem licença de meu mal<br> + Ja não podeis fazer meus olhos ledos.<br> + E pois ja me não vêdes como vistes,<br> + Não me alegrem verduras deleitosas,<br> + Nem águas que correndo alegres vem.<br> + Semearei em vós lembranças tristes,<br> + Regar-vos-hei com lagrimas saudosas,<br> + E nascerão saudades de meu bem.</blockquote> + +<h4>XLI.</h4> + +<blockquote> + Quantas vezes do fuso se esquecia<br> + Daliana, banhando o lindo seio,<br> + Outras tantas de hum aspero receio<br> + Salteado Laurenio a côr perdia.<br> + Ella, que a Sylvio mais que a si queria,<br> + Para podê-lo ver não tinha meio.<br> + Ora como curára o mal alheio<br> + Quem o seu mal tão mal curar podia?<br> + Elle, que vio tão clara esta verdade,<br> + Com soluços dizia (que a espessura<br> + Inclinavão, de mágoa, a piedade):<br> + Como póde a desordem da natura<br> + Fazer tão differentes na vontade<br> + Aos que fez tão conformes na ventura?<span class="pn" + ><a name="pag_22">{22}</a></span></blockquote> + +<h4>XLII.</h4> + +<blockquote> + Lindo e subtil trançado, que ficaste<br> + Em penhor do remedio que mereço,<br> + Se só comtigo, vendo-te, endoudeço,<br> + Que fôra co'os cabellos que apertaste?<br> + Aquellas tranças de ouro que ligaste,<br> + Que os raios do sol t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e em pouco preço,<br> + Não sei se ou para engano do que peço,<br> + Ou para me matar as desataste.<br> + Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,<br> + E por satisfação de minhas dores,<br> + Como quem não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e outra, hei de tomar-te.<br> + E se não for contente o meu desejo,<br> + Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores<br> + Por o todo tambem se toma a parte.</blockquote> + +<h4>XLIII.</h4> + +<blockquote> + O cysne quando sente ser chegada<br> + A hora que põe termo á sua vida,<br> + Harmonia maior, com voz sentida,<br> + Levanta por a praia inhabitada.<br> + Deseja lograr vida prolongada,<br> + E della está chorando a despedida:<br> + Com grande saudade da partida,<br> + Celebra o triste fim desta jornada.<br> + Assi, Senhora minha, quando eu via<br> + O triste fim que davão meus amores,<br> + Estando posto ja no extremo fio;<br> + Com mais suave accento de harmonia<br> + Descantei por os vossos desfavores<br> + <em>La vuestra falsa fe, y el amor mio.</em><span class="pn" + ><a name="pag_23">{23}</a></span></blockquote> + +<h4>XLIV.</h4> + +<blockquote> + Por os raros extremos que mostrou<br> + Em sábia Pallas, Venus em formosa,<br> + Diana em casta, Juno em animosa,<br> + Africa, Europa e Asia as adorou.<br> + Aquelle saber grande que juntou<br> + Esprito e corpo em liga generosa,<br> + Esta mundana máchina lustrosa,<br> + De sós quatro elementos fabricou.<br> + Mas fez maior milagre a natureza<br> + Em vós, Senhoras, pondo em cada h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a<br> + O que por todas quatro repartio.<br> + A vós seu resplandor deo sol e l<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a:<br> + A vós com viva luz, graça e pureza,<br> + Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio.</blockquote> + +<h4>XLV.</h4> + +<blockquote> + Tomava Daliana por vingança<br> + Da culpa do pastor que tanto amava,<br> + Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava<br> + O êrro alheio, e perfida esquivança.<br> + A discrição segura, a confiança<br> + Das rosas que o seu rosto debuxava,<br> + O descontentamento lhas mudava;<br> + Que tudo muda huma aspera mudança.<br> + Gentil planta disposta em sêcca terra;<br> + Lindo fructo de dura mão colhido;<br> + Lembranças de outro amor, e fé perjura,<br> + Tornárão verde prado em serra dura;<br> + Interêsse enganoso, amor fingido,<br> + Fizerão desditosa a formosura.<span class="pn" ><a name="pag_24">{24}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XLVI.</h4> + +<blockquote> + Grão tempo ha ja que soube da Ventura<br> + A vida que me tinha destinada;<br> + Que a longa experiencia da passada<br> + Me dava claro indicio da futura.<br> + Amor fero e cruel, Fortuna escura,<br> + Bem tendes vossa fôrça exprimentada:<br> + Assolai, destrui, não fique nada;<br> + Vingai-vos desta vida, que inda dura.<br> + Soube Amor da Ventura, que a não tinha,<br> + E porque mais sentisse a falta della,<br> + De imagens impossiveis me mantinha.<br> + Mas vós, Senhora, pois que minha estrella<br> + Não foi melhor, vivei nesta alma minha;<br> + Que não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e a Fortuna poder nella.</blockquote> + +<h4>XLVII.</h4> + +<blockquote> + Se somente hora alguma em vós piedade<br> + De tão longo tormento se sentíra,<br> + Amor sofrêra mal que eu me partíra<br> + De vossos olhos, minha Saudade.<br> + Apartei-me de vós, mas a vontade,<br> + Que por o natural na alma vos tira,<br> + Me faz crer que esta ausencia he de mentira;<br> + Porém venho a provar que he de verdade.<br> + Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento<br> + Lagrimas tristes tomarão vingança<br> + Nos olhos de quem fostes mantimento.<br> + Desta arte darei vida a meu tormento;<br> + Que, em fim, cá me achará minha lembrança<br> + Sepultado no vosso esquecimento.<span class="pn" ><a name="pag_25">{25}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XLVIII.</h4> + +<blockquote> + Oh como se me alonga de anno em ano<br> + A peregrinação cansada minha!<br> + Como se encurta, e como ao fim caminha<br> + Este meu breve e vão discurso humano!<br> + Mingoando a idade vai, crescendo o dano;<br> + Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha:<br> + Se por experiencia se adivinha,<br> + Qualquer grande esperança he grande engano.<br> + Corro apoz este bem que não se alcança;<br> + No meio do caminho me fallece;<br> + Mil vezes caio, e perco a confiança.<br> + Quando elle foge, eu tardo; e na tardança,<br> + Se os olhos ergo a ver se inda apparece,<br> + Da vista se me perde, e da esperança.</blockquote> + +<h4>XLIX.</h4> + +<blockquote> + Ja he tempo, ja, que minha confiança<br> + Se desça de huma falsa opinião:<br> + Mas Amor não se rege por razão;<br> + Não posso perder, logo, a esperança.<br> + A vida si; que huma aspera mudança<br> + Não deixa viver tanto hum coração,<br> + E eu só na morte tenho a salvação:<br> + Si: mas quem a deseja não a alcança.<br> + Forçado he logo que eu espere e viva.<br> + Ali dura lei de Amor, que não consente<br> + Quietação n'hum'alma que he captiva!<br> + Se hei de viver, em fim, forçadamente,<br> + Para que quero a gloria fugitiva<br> + De huma esperança vãa que me atormente?<span class="pn" + ><a name="pag_26">{26}</a></span></blockquote> + +<h4>L.</h4> + +<blockquote> + Amor, com a esperança ja perdida<br> + Teu soberano templo visitei:<br> + Por signal do naufragio que passei,<br> + Em lugar dos vestidos, puz a vida.<br> + Que mais queres de mi, pois destruida<br> + Me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>es a gloria toda que alcancei?<br> + Não cuides de render-me; que não sei<br> + Tornar a entrar-me onde não ha sahida.<br> + Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança,<br> + Doces despojos de meu bem passado,<br> + Em quanto o quiz aquella que eu adoro.<br> + Nellas podes tomar de mi vingança:<br> + E se te queres inda mais vingado,<br> + Contenta-te co'as lagrimas que chóro.</blockquote> + +<h4>LI.</h4> + +<blockquote> + Apollo e as nove Musas, descantando<br> + Com a dourada lyra, me influião<br> + Na suave harmonia que fazião,<br> + Quando tomei a penna, começando:<br> + Ditoso seja o dia e hora, quando<br> + Tão delicados olhos me ferião!<br> + Ditosos os sentidos que sentião<br> + Estar-se em seu desejo traspassando!<br> + Assi cantava, quando Amor virou<br> + A roda á esperança, que corria<br> + Tão ligeira, que quasi era invisibil.<br> + Converteo-se-me em noite o claro dia;<br> + E se alguma esperança me ficou,<br> + Será de maior mal, se for possibil.<span class="pn" ><a name="pag_27">{27}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LII.</h4> + +<blockquote> + Lembranças saudosas, se cuidais<br> + De me acabar a vida neste estado,<br> + Não vivo com meu mal tão enganado,<br> + Que não espere delle muito mais.<br> + De longo tempo ja me costumais<br> + A viver de algum bem desesperado:<br> + Ja tenho co'a Fortuna concertado<br> + De soffrer os tormentos que me dais.<br> + Atada ao remo tenho a paciencia<br> + Para quantos desgostos der a vida;<br> + Cuide quanto quizer o pensamento.<br> + Que pois não posso ter mais resistencia<br> + Para tão dura quéda, de subida,<br> + Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.</blockquote> + +<h4>LIII.</h4> + +<blockquote> + Apartava-se Nise de Montano,<br> + Em cuja alma, partindo-se, ficava;<br> + Que o pastor na memoria a debuxava,<br> + Por poder sustentar-se deste engano.<br> + Por huma praia do Indico Oceano<br> + Sôbre o curvo cajado se encostava,<br> + E os olhos por as águas alongava,<br> + Que pouco se doião de seu dano.<br> + Pois com tamanha mágoa e saudade,<br> + (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro,<br> + Por testimunhas tómo ceo e estrellas.<br> + Mas se em vós, ondas, mora piedade,<br> + Levai tambem as lagrimas que chóro,<br> + Pois assi me levais a causa dellas.<span class="pn" ><a name="pag_28">{28}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LIV.</h4> + +<blockquote> + Quando vejo que meu destino ordena<br> + Que, por me exprimentar, de vós me aparte,<br> + Deixando de meu bem tão grande parte,<br> + Que a mesma culpa fica grave pena;<br> + O duro desfavor, que me condena,<br> + Quando por a memoria se reparte,<br> + Endurece os sentidos de tal arte<br> + Que a dor da ausencia fica mais pequena.<br> + Mas como póde ser que na mudança<br> + D'aquillo que mais quero, estê tão fóra<br> + De me não apartar tambem da vida?<br> + Eu refrearei tão aspera esquivança:<br> + Porque mais sentirei partir, Senhora,<br> + Sem sentir muito a pena da partida.</blockquote> + +<h4>LV.</h4> + +<blockquote> + Despois de tantos dias mal gastados,<br> + Despois de tantas noites mal dormidas,<br> + Despois de tantas lagrimas vertidas,<br> + Tantos suspiros vãos vãamente dados,<br> + Como não sois vós ja desenganados,<br> + Desejos, que de cousas esquecidas<br> + Quereis remediar mortaes feridas.<br> + Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados?<br> + Se não tivereis ja longa exp'riencia<br> + Das semrazões de Amor a quem servistes,<br> + Fraqueza fôra em vós a resistencia.<br> + Mas pois por vosso mal seus males vistes,<br> + Que o tempo não curou, nem larga ausencia,<br> + Qual bem delle esperais, desejos tristes?<span class="pn" + ><a name="pag_29">{29}</a></span></blockquote> + +<h4>LVI.</h4> + +<blockquote> + Naiades, vós que os rios habitais,<br> + Que os saudosos campos vão regando,<br> + De meus olhos vereis estar manando<br> + Outros que quasi aos vossos são iguais.<br> + Dryades, que com setta sempre andais<br> + Os fugitivos cervos derribando,<br> + Outros olhos vereis, que triumphando<br> + Derribão corações, que valem mais.<br> + Deixai logo as aljavas e águas frias,<br> + E vinde, Nymphas bellas, se quereis,<br> + A ver como de huns olhos nascem mágoas.<br> + Notareis como em vão passão os dias;<br> + Mas em vão não vireis, porque achareis<br> + Nos seus as settas, e nos meus as ágoas.</blockquote> + +<h4>LVII.</h4> + +<blockquote> + Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades,<br> + Muda-se o ser, muda-se a confiança:<br> + Todo o mundo he composto de mudança,<br> + Tomando sempre novas qualidades.<br> + Continuamente vemos novidades,<br> + Differentes em tudo da esperança:<br> + Do mal ficão as mágoas na lembrança,<br> + E do bem (se algum houve) as saudades.<br> + O tempo cobre o chão de verde manto,<br> + Que ja coberto foi de neve fria,<br> + E em mi converte em chôro o doce canto.<br> + E afora este mudar-se cada dia,<br> + Outra mudança faz de mor espanto,<br> + Que não se muda ja como sohia.<span class="pn" ><a name="pag_30">{30}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LVIII.</h4> + +<blockquote> + Se as penas com que Amor tão mal me trata<br> + Permittirem que eu tanto viva dellas,<br> + Que veja escuro o lume das estrellas,<br> + Em cuja vista o meu se accende e mata;<br> + E se o tempo, que tudo desbarata,<br> + Seccar as frescas rosas, sem colhellas,<br> + Deixando a linda côr das tranças bellas<br> + Mudada de ouro fino em fina prata;<br> + Tambem, Senhora, então vereis mudado<br> + O pensamento e a aspereza vossa,<br> + Quando não sirva ja sua mudança.<br> + Ver-vos-heis suspirar por o passado,<br> + Em tempo quando executar-se possa<br> + No vosso arrepender minha vingança.</blockquote> + +<h4>LIX.</h4> + +<blockquote> + Quem jaz no grão sepulchro, que descreve<br> + Tão illustres signaes no forte escudo?<br> + Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo:<br> + Mas foi quem tudo pôde e tudo teve.<br> + Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve:<br> + Poz na guerra e na paz devido estudo.<br> + Mas quão pezado foi ao Mouro rudo,<br> + Tanto lhe seja agora a terra leve.<br> + Alexandro será? Ninguem se engane:<br> + Mais que o adquirir, o sustentar estima.<br> + Será Hadriano grão Senhor do mundo?<br> + Mais observante foi da Lei de cima.<br> + He Numa? Numa não, mas he Joane.<br> + De Portugal Terceiro sem segundo.<span class="pn" ><a name="pag_31">{31}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LX.</h4> + +<blockquote> + Quem póde livre ser, gentil Senhora,<br> + Vendo-vos com juizo socegado,<br> + Se o menino, que de olhos he privado,<br> + Nas meninas dos vossos olhos mora?<br> + Alli manda, alli reina, alli namora,<br> + Alli vive das gentes venerado;<br> + Que o vivo lume, e o rosto delicado,<br> + Imagens são adonde Amor se adora.<br> + Quem vê que em branca neve nascem rosas<br> + Que crespos fios de ouro vão cercando,<br> + Se por entre esta luz a vista passa,<br> + Raios de ouro verá, que as duvidosas<br> + Almas estão no peito traspassando,<br> + Assi como hum crystal o sol traspassa.</blockquote> + +<h4>LXI.</h4> + +<blockquote> + Como fizeste, ó Porcia, tal ferida?<br> + Foi voluntaria, ou foi por innocencia?<br> + He que Amor fazer só quiz exp'riencia<br> + Se podia eu soffrer tirar-me a vida.<br> + E com teu proprio sangue te convida<br> + A que faças á morte resistencia?<br> + He que costume faço da paciencia,<br> + Porque o temor morrer me não impida.<br> + Pois porque estás comendo fogo ardente,<br> + Se a ferro te costumas? He que ordena<br> + Amor que morra, e pene juntamente.<br> + E t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>es a dor do ferro por pequena?<br> + Si; que a dor costumada não se sente;<br> + E não quero eu a morte sem a pena.<span class="pn" ><a name="pag_32">{32}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXII.</h4> + +<blockquote> + De tão divino accento em voz humana,<br> + De elegancias que são tão peregrinas,<br> + Sei bem que minhas obras não são dinas;<br> + Que o rudo engenho meu me desengana.<br> + Porém da vossa penna illustre mana<br> + Licor que vence as águas Caballinas;<br> + E comvosco do Tejo as flores finas<br> + Farão inveja á cópia Mantuana.<br> + E pois, a vós de si não sendo avaras,<br> + As filhas de Mnemosine formosa<br> + Partes dadas vos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ao mundo claras;<br> + A minha Musa, e a vossa tão famosa,<br> + Ambas se podem nelle chamar raras,<br> + A vossa de alta, a minha de invejosa.</blockquote> + +<h4>LXIII.</h4> + +<blockquote> + Debaixo desta pedra está metido,<br> + Das sanguinosas armas descansado,<br> + O Capitão illustre e assinalado<br> + Dom Fernando de Castro esclarecido.<br> + Este por todo o Oriente tão temido,<br> + Este da propria inveja tão cantado,<br> + Este, em fim, raio de Mavorte irado,<br> + Aqui está agora em terra convertido.<br> + Alegra-te, ó guerreira Lusitania,<br> + Por est'outro Viriato que criaste,<br> + E chora a perda sua eternamente.<br> + Exemplo toma nisto de Dardania;<br> + Que se a Roma com elle anniquilaste,<br> + Nem por isso Carthago está contente.<span class="pn" +><a name="pag_33">{33}</a></span></blockquote> + +<h4>LXIV.</h4> + +<blockquote> + Que vençais no Oriente tantos Reis,<br> + Que de novo nos deis da India o Estado,<br> + Que escureçais a fama que hão ganhado<br> + Aquelles, que a ganhárão de infieis;<br> + Que vencidas tenhais da morte as leis,<br> + E que vencesseis tudo, em fim, armado,<br> + Mais he vencer na patria, desarmado,<br> + Os monstros e as Chimeras que venceis.<br> + Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo,<br> + E por armas fazer que sem segundo<br> + No mundo o vosso nome ouvido seja;<br> + O que vos dá mais fama inda no mundo,<br> + He vencerdes, Senhor, no Reino amigo,<br> + Tantas ingratidões, tão grande inveja.</blockquote> + +<h4>LXV.</h4> + +<blockquote> + Vossos olhos, Senhora, que competem<br> + Com o sol em belleza e claridade,<br> + Enchem os meus de tal suavidade,<br> + Que em lagrimas de vê-los se derretem.<br> + Meus sentidos prostrados se submetem<br> + Assi cegos a tanta magestade;<br> + E da triste prisão, da escuridade,<br> + Cheios de medo, por fugir, remetem.<br> + Porém se então me vêdes por acêrto,<br> + Esse aspero desprêzo com que olhais<br> + Me torna a animar a alma enfraquecida.<br> + Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto!<br> + Que dareis co'hum favor que vós não dais,<br> + Quando com hum desprêzo me dais vida?<span class="pn" + ><a name="pag_34">{34}</a></span></blockquote> + +<h4>LXVI.</h4> + +<blockquote> + Formosura do Ceo a nós descida,<br> + Que nenhum coração deixas isento,<br> + Satisfazendo a todo pensamento,<br> + Sem que sejas de algum bem entendida;<br> + Qual lingoa póde haver tão atrevida,<br> + Que tenha de louvar-te atrevimento,<br> + Pois a parte melhor do entendimento,<br> + No menos que em ti ha se vê perdida?<br> + Se em teu valor contemplo a menor parte,<br> + Vendo que abre na terra hum paraiso,<br> + Logo o engenho me falta, o esprito míngoa.<br> + Mas o que mais me impede inda louvar-te,<br> + He que quando te vejo perco a lingoa,<br> + E quando não te vejo perco o siso.</blockquote> + +<h4>LXVII.</h4> + +<blockquote> + Pois meus olhos não cansão de chorar<br> + Tristezas não cansadas de cansar-me;<br> + Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me<br> + Pôde quem eu jamais pude abrandar;<br> + Não canse o cego Amor de me guiar<br> + Onde nunca de lá possa tornar-me;<br> + Nem deixe o mundo todo de escutar-me,<br> + Em quanto a fraca voz me não deixar.<br> + E se em montes, se em prados, e se em valles<br> + Piedade mora alguma, algum amor<br> + Em feras, plantas, aves, pedras, agoas;<br> + Oução a longa historia de meus males,<br> + E curem sua dor com minha dor;<br> + Que grandes mágoas podem curar mágoas.<span class="pn" + ><a name="pag_35">{35}</a></span></blockquote> + +<h4>LXVIII.</h4> + +<blockquote> + Dai-me h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a lei, Senhora, de querer-vos,<br> + Porque a guarde sobpena de enojar-vos;<br> + Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos<br> + Fara que fique em lei de obedecer-vos.<br> + Tudo me defendei, senão só ver-vos<br> + E dentro na minha alma contemplar-vos;<br> + Que se assi não chegar a contentar-vos,<br> + Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.<br> + E se essa condição cruel e esquiva<br> + Que me deis lei de vida não consente,<br> + Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.<br> + Se nem essa me dais, he bem que viva,<br> + Sem saber como vivo, tristemente;<br> + Mas contente estarei com minha sorte.</blockquote> + +<h4>LXIX.</h4> + +<blockquote> + Ferido sem ter cura perecia<br> + O forte e duro Télepho temido<br> + Por aquelle que na agua foi metido,<br> + E a quem ferro nenhum cortar podia.<br> + Quando a Apollineo Oraculo pedia<br> + Conselho para ser restituido,<br> + Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido<br> + Por quem o ja ferira, e sararia.<br> + Assi, Senhora, quer minha ventura;<br> + Que ferido de ver-vos claramente,<br> + Com tornar-vos a ver Amor me cura.<br> + Mas he tão doce vossa formosura,<br> + Que fico como o hydropico doente,<br> + Que bebendo lhe cresce mór seccura.<span class="pn" ><a name="pag_36">{36}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXX.</h4> + +<blockquote> + Na metade do ceo subido ardia<br> + O claro, almo Pastor, quando deixavão<br> + O verde pasto as cabras, e buscavão<br> + A frescura suave da agua fria.<br> + Com a folha das árvores, sombria,<br> + Do raio ardente as aves se amparavão:<br> + O módulo cantar, de que cessavão,<br> + Só nas roucas cigarras se sentia.<br> + Quando Liso pastor n'hum campo verde<br> + Natercia, crua Nympha, só buscava<br> + Com mil suspiros tristes que derrama.<br> + Porque te vás de quem por ti se perde,<br> + Para quem pouco te ama? (suspirava)<br> + E o eco lhe responde: Pouco te ama.</blockquote> + +<h4>LXXI.</h4> + +<blockquote> + Ja a roxa e branca Aurora destoucava<br> + Os seus cabellos de ouro delicados,<br> + E das flores os campos esmaltados<br> + Com crystallino orvalho borrifava;<br> + Quando o formoso gado se espalhava<br> + De Sylvio e de Laurente por os prados;<br> + Pastores ambos, e ambos apartados,<br> + De quem o mesmo amor não se apartava.<br> + Com verdadeiras lagrimas Laurente,<br> + Não sei, (dizia) ó Nympha delicada,<br> + Porque não morre ja quem vive ausente;<br> + Pois a vida sem ti não presta nada.<br> + Responde Sylvio: Amor não o consente:<br> + Que offende as esperanças da tornada.<span class="pn" + ><a name="pag_37">{37}</a></span></blockquote> + +<h4>LXXII.</h4> + +<blockquote> + Quando de minhas mágoas a comprida<br> + Maginação os olhos me adormece,<br> + Em sonhos aquella alma me apparece,<br> + Que para mi foi sonho nesta vida.<br> + Lá n'huma soidade, onde estendida<br> + A vista por o campo desfallece,<br> + Corro apoz ella; e ella então parece<br> + Que mais de mi se alonga, compellida.<br> + Brado: Não me fujais, sombra benina.<br> + Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo,<br> + Como quem diz, que ja não póde ser)<br> + Torna a fugir-me: torno a bradar: <em>Dina</em>...<br> + E antes que diga <em>mene</em>, acórdo, e vejo<br> + Que nem hum breve engano posso ter.</blockquote> + +<h4>LXXIII.</h4> + +<blockquote> + Suspiros inflammados que cantais<br> + A tristeza com que eu vivi tão ledo,<br> + Eu morro e não vos levo, porque hei medo<br> + Que ao passar do Letheio vos percais.<br> + Escriptos para sempre ja ficais<br> + Onde vos mostrarão todos co'o dedo,<br> + Como exemplo de males; e eu concedo<br> + Que para aviso de outros estejais.<br> + Em quem, pois, virdes largas esperanças<br> + De Amor e da Fortuna, (cujos danos<br> + Alguns terão por bem-aventuranças)<br> + Dizei-lhe, que os servistes muitos anos,<br> + E que em Fortuna tudo são mudanças,<br> + E que em Amor não ha senão enganos.<span class="pn" ><a name="pag_38">{38}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXXIV.</h4> + +<blockquote> + Aquella fera humana que enriquece<br> + A sua presunçosa tyrannia<br> + Destas minhas entranhas, onde cria<br> + Amor hum mal, que falta quando crece;<br> + Se nella o Ceo mostrou (como parece)<br> + Quanto mostrar ao mundo pretendia,<br> + Porque de minha vida se injuria?<br> + Porque de minha morte se ennobrece?<br> + Ora, em fim, sublimai vossa victoria,<br> + Senhora, com vencer-me e captivar-me:<br> + Fazei della no mundo larga historia.<br> + Pois, por mais que vos veja atormentar-me,<br> + Ja me fico logrando desta gloria<br> + De ver que tendes tanta de matar-me.</blockquote> + +<h4>LXXV.</h4> + +<blockquote> + Ditoso seja aquelle que somente<br> + Se queixa de amorosas esquivanças;<br> + Pois por ellas não perde as esperanças<br> + De poder n'algum tempo ser contente.<br> + Ditoso seja quem estando ausente<br> + Não sente mais que a pena das lembranças;<br> + Porqu'inda que se tema de mudanças,<br> + Menos se teme a dor quando se sente.<br> + Ditoso seja, em fim, qualquer estado,<br> + Onde enganos, desprezos e isenção<br> + Trazem hum coração atormentado.<br> + Mas triste quem se sente magoado<br> + De erros em que não póde haver perdão<br> + Sem ficar na alma a mágoa do peccado.<span class="pn" + ><a name="pag_39">{39}</a></span></blockquote> + +<h4>LXXVI.</h4> + +<blockquote> + Quem fosse acompanhando juntamente<br> + Por esses verdes campos a avezinha,<br> + Que despois de perder hum bem que tinha,<br> + Não sabe mais que cousa he ser contente!<br> + E quem fosse apartando-se da gente.<br> + Ella por companheira e por vizinha,<br> + Me ajudasse a chorar a pena minha,<br> + E eu a ella tambem a que ella sente!<br> + Ditosa ave! que ao menos, se a natura<br> + A seu primeiro bem não dá segundo,<br> + Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.<br> + Mas triste quem de longe quiz ventura<br> + Que para respirar lhe falte o vento,<br> + E para tudo, em fim, lhe falte o mundo!</blockquote> + +<h4>LXXVII.</h4> + +<blockquote> + O culto divinal se celebrava<br> + No templo donde toda criatura<br> + Louva o Feitor divino, que a feitura<br> + Com seu sagrado sangue restaurava.<br> + Amor alli, que o tempo me aguardava<br> + Onde a vontade tinha mais segura,<br> + Com huma rara e angelica figura<br> + A vista da razão me salteava.<br> + Eu crendo que o lugar me defendia<br> + De seu livre costume, não sabendo<br> + Que nenhum confiado lhe fugia;<br> + Deixei-me captivar: mas hoje vendo,<br> + Senhora, que por vosso me queria,<br> + Do tempo que fui livre me arrependo.<span class="pn" +><a name="pag_40">{40}</a></span></blockquote> + +<h4>LXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Leda serenidade deleitosa,<br> + Que representa em terra hum paraiso;<br> + Entre rubis e perlas doce riso,<br> + Debaixo de ouro e neve côr de rosa;<br> + Presença moderada e graciosa,<br> + Onde ensinando estão despejo e siso<br> + Que se póde por arte e por aviso,<br> + Como por natureza, ser formosa;<br> + Falla de que ou ja vida, ou morte pende.<br> + Rara e suave, em fim, Senhora, vossa,<br> + Repouso na alegria comedido;<br> + Estas as armas são com que me rende<br> + E me captiva Amor; mas não que possa<br> + Despojar-me da gloria de rendido.</blockquote> + +<h4>LXXIX.</h4> + +<blockquote> + Bem sei, Amor, que he certo o que receio;<br> + Mas tu, porque com isso mais te apuras,<br> + De manhoso mo negas, e mo juras<br> + Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.<br> + A mão tenho metida no meu seio,<br> + E não vejo os meus damnos ás escuras:<br> + Porém porfias tanto e me asseguras,<br> + Que me digo que minto, e que me enleio.<br> + Nem somente consinto neste engano,<br> + Mas inda to agradeço, e a mi me nego<br> + Tudo o que vejo e sinto de meu dano.<br> + Oh poderoso mal a que me entrego!<br> + Que no meio do justo desengano<br> + Me possa inda cegar hum moço cego?<span class="pn" ><a name="pag_41">{41}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXXX.</h4> + +<blockquote> + Como quando do mar tempestuoso<br> + O marinheiro todo trabalhado,<br> + De hum naufragio cruel sahindo a nado,<br> + Só de ouvir fallar nelle está medroso:<br> + Firme jura que o vê-lo bonançoso<br> + Do seu lar o não tire socegado;<br> + Mas esquecido ja do horror passado,<br> + Delle a fiar se torna cobiçoso:<br> + Assi, Senhora, eu que da tormenta<br> + De vossa vista fujo, por salvar-me,<br> + Jurando de não mais em outra ver-me;<br> + Com a alma que de vós nunca se ausenta,<br> + Me tórno, por cobiça de ganhar-me,<br> + Onde estive tão perto de perder-me.</blockquote> + +<h4>LXXXI.</h4> + +<blockquote> + Amor he hum fogo que arde sem se ver;<br> + He ferida que doe e não se sente;<br> + He hum contentamento descontente;<br> + He dor que desatina sem doer;<br> + He hum não querer mais que bem querer;<br> + He solitario andar por entre a gente;<br> + He hum não contentar-se de contente;<br> + He cuidar que se ganha em se perder;<br> + He hum estar-se preso por vontade;<br> + He servir a quem vence o vencedor;<br> + He hum ter com quem nos mata lealdade.<br> + Mas como causar póde o seu favor<br> + Nos mortaes corações conformidade,<br> + Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?<span class="pn" + ><a name="pag_42">{42}</a></span></blockquote> + +<h4>LXXXII.</h4> + +<blockquote> + Se pena por amar-vos se merece,<br> + Quem della estará livre? quem isento?<br> + E que alma, que razão, que entendimento<br> + No instante em que vos vê não obedece?<br> + Qual mor gloria na vida ja se offrece,<br> + Que a de occupar-se em vós o pensamento?<br> + Não só todo rigor, todo tormento<br> + Com ver-vos não magôa, mas se esquece.<br> + Porém se heis de matar a quem amando,<br> + Ser vosso de amor tanto só pretende,<br> + O mundo matareis, que todo he vosso.<br> + Em mi podeis, Senhora, ir começando,<br> + Pois bem claro se mostra e bem se entende<br> + Amar-vos quanto devo e quanto posso.</blockquote> + +<h4>LXXXIII.</h4> + +<blockquote> + Que levas, cruel Morte? Hum claro dia.<br> + A que horas o tomaste? Amanhecendo.<br> + E entendes o que levas? Não o entendo.<br> + Pois quem to faz levar? Quem o entendia.<br> + Seu corpo quem o goza? A terra fria.<br> + Como ficou sua luz? Anoitecendo.<br> + Lusitania que diz? Fica dizendo...<br> + Que diz? Não mereci a grã Maria.<br> + Mataste a quem a vio? Ja morto estava.<br> + Que discorre o Amor? Fallar não ousa.<br> + E quem o faz callar? Minha vontade.<br> + Na Corte que ficou? Saudade brava.<br> + Que fica lá que ver? Nenhuma cousa.<br> + Que gloria lhe faltou? Esta beldade.<span class="pn" +><a name="pag_43">{43}</a></span></blockquote> + +<h4>LXXXIV.</h4> + +<blockquote> + Ondados fios de ouro reluzente,<br> + Que agora da mão bella recolhidos,<br> + Agora sôbre as rosas esparzidos<br> + Fazeis que a sua graça se accrescente;<br> + Olhos, que vos moveis tão docemente,<br> + Em mil divinos raios incendidos,<br> + Se de cá me levais a alma e sentidos,<br> + Que fôra, se eu de vós não fôra ausente?<br> + Honesto riso, que entre a mór fineza<br> + De perlas e coraes nasce e apparece;<br> + Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse!<br> + Se imaginando só tanta belleza,<br> + De si com nova gloria a alma se esquece,<br> + Que será quando a vir? Ah quem a visse!</blockquote> + +<h4>LXXXV.</h4> + +<blockquote> + Foi ja n'hum tempo doce cousa amar,<br> + Em quanto me enganou huma esperança:<br> + O coração com esta confiança<br> + Todo se desfazia em desejar.<br> + Oh vão, caduco e debil esperar!<br> + Como, em fim, desengana huma mudança!<br> + Que quanto he mor a bem-aventurança,<br> + Tanto menos se crê que ha de durar.<br> + Quem ja se vio com gostos prosperado,<br> + Vendo-se brevemente em pena tanta,<br> + Razão t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de viver bem magoado.<br> + Mas quem ja t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o mundo exprimentado,<br> + Não o magôa a pena, nem o espanta;<br> + Que mal se estranhára o costumado.<span class="pn" ><a name="pag_44">{44}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXXXVI.</h4> + +<blockquote> + Dos antigos Illustres, que deixárão<br> + Hum nome digno de immortal memoria,<br> + Ficou por luz do tempo a larga historia<br> + Dos feitos em que mais se avantajárão.<br> + Se com suas acções se cotejárão<br> + Mil vossas, cada huma tão notoria,<br> + Vencêra a menor dellas a mor gloria<br> + Que elles em tantos annos alcançárão.<br> + A gloria sua foi: ninguem lha tome:<br> + Seguindo cada qual varios caminhos<br> + Estatuas mereceo no heroico Templo.<br> + Vós honra Portugueza e dos Coutinhos,<br> + Clarissimo Dom João, com melhor nome<br> + A vós encheis de gloria, a nós de exemplo.</blockquote> + +<h4>LXXXVII.</h4> + +<blockquote> + Conversação doméstica affeiçoa,<br> + Ora em fórma de limpa e sãa vontade,<br> + Ora de huma amorosa piedade,<br> + Sem olhar qualidade de pessoa.<br> + Se despois, por ventura, vos magôa<br> + Com desamor e pouca lealdade,<br> + Logo vos faz mentira da verdade<br> + O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa,<br> + Não são isto que fallo conjecturas<br> + Que o pensamento julga na apparencia,<br> + Por fazer delicadas escripturas.<br> + Metida tenho a mão na consciencia,<br> + E não fallo senão verdades puras<br> + Que me ensinou a viva experiencia.<span class="pn" ><a name="pag_45">{45}</a></span> +</blockquote> + +<h4>LXXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Esfôrço grande, igual ao pensamento,<br> + Pensamentos em obras divulgados,<br> + E não em peito timido encerrados,<br> + E desfeitos despois em chuva e vento;<br> + Ánimo da cobiça baixa isento,<br> + Digno por isto só de altos estados,<br> + Fero açoute dos nunca bem domados<br> + Povos do Malabar sanguinolento;<br> + Gentileza de membros corporaes<br> + Ornados de pudica continencia,<br> + Obra por certo da celeste altura:<br> + Estas virtudes raras e outras mais,<br> + Dignas todas da Homerica eloquencia,<br> + Jazem debaixo desta sepultura.</blockquote> + +<h4>LXXXIX.</h4> + +<blockquote> + No mundo quiz o Tempo que se achasse<br> + O bem que por acêrto, ou sorte vinha;<br> + E por exprimentar que dita tinha,<br> + Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse.<br> + Mas porque o meu destino me mostrasse<br> + Que nem ter esperanças me convinha,<br> + Nunca nesta tão longa vida minha<br> + Cousa me deixou ver que desejasse.<br> + Mudando andei costume, terra, estado,<br> + Por ver se se mudava a sorte dura;<br> + A vida puz nas mãos de hum leve lenho.<br> + Mas, segundo o que o Ceo me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mostrado,<br> + Ja sei que deste meu buscar ventura<br> + Achado tenho ja que não a tenho.<span class="pn" ><a name="pag_46">{46}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XC.</h4> + +<blockquote> + A perfeição, a graça, o doce geito,<br> + A Primavera cheia de frescura,<br> + Que sempre em vós florece; a que a ventura,<br> + E a razão entregárão este peito;<br> + Aquelle crystallino e puro aspeito,<br> + Que em si comprehende toda a formosura;<br> + O resplandor dos olhos e a brandura,<br> + Donde Amor a ninguem quiz ter respeito;<br> + S'isto que em vós se vê, ver desejais,<br> + Como digno de ver-se claramente,<br> + Por muito que de Amor vos isentais;<br> + Traduzido o vereis tão fielmente<br> + No meio deste espirito onde estais,<br> + Que vendo-vos sintais o que elle sente.</blockquote> + +<h4>XCI.</h4> + +<blockquote> + Vós, que de olhos suaves e serenos,<br> + Com justa causa a vida captivais,<br> + E que os outros cuidados condemnais<br> + Por indevidos, baixos e pequenos;<br> + Se de Amor os domesticos venenos<br> + Nunca provastes, quero que sintais<br> + Que he tanto mais o amor despois que amais,<br> + Quanto são mais as causas de ser menos.<br> + E não presuma alguem que algum defeito,<br> + Quando na cousa amada se apresenta,<br> + Possa diminuir o amor perfeito:<br> + Antes o dobra mais; e se atormenta,<br> + Pouco a pouco desculpa o brando peito;<br> + Que Amor com seus contrarios se accrescenta.<span class="pn" + ><a name="pag_47">{47}</a></span></blockquote> + +<h4>XCII.</h4> + +<blockquote> + Que poderei do mundo ja querer,<br> + Pois no mesmo em que puz tamanho amor,<br> + Não vi senão desgôsto e desfavor,<br> + E morte, em fim; que mais não póde ser?<br> + Pois me não farta a vida de viver,<br> + Pois ja sei que não mata grande dor,<br> + Se houver cousa que mágoa dê maior,<br> + Eu a verei; que tudo posso ver.<br> + A Morte, a meu pezar, me assegurou<br> + De quanto mal me vinha: ja perdi<br> + O que a perder o medo me ensinou.<br> + Na vida desamor somente vi,<br> + Na morte a grande dor que me ficou:<br> + Parece que para isto só nasci.</blockquote> + +<h4>XCIII.</h4> + +<blockquote> + Pensamentos, que agora novamente<br> + Cuidados vãos em mi resuscitais,<br> + Dizei-me: E ainda não vos contentais<br> + De ter a quem vos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e tão descontente?<br> + Que phantasia he esta, que presente<br> + Cad'hora ante os meus olhos me mostrais?<br> + Com huns sonhos tão vãos inda tentais<br> + Quem nem por sonhos póde ser contente?<br> + Vejo-vos, pensamentos, alterados,<br> + E não quereis, de esquivos, declarar-me<br> + Que he isto que vos traz tão enleados?<br> + Não mo negueis, se andais para negar-me;<br> + Porque se contra mi 'stais levantados,<br> + Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.<span class="pn" ><a name="pag_48">{48}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XCIV.</h4> + +<blockquote> + Se tomo a minha pena em penitencia<br> + Do error em que cahio o pensamento,<br> + Não abrando, mas dóbro meu tormento,<br> + Que a tanto, e mais, obriga a paciencia.<br> + E se huma côr de morto na apparencia,<br> + Hum espalhar suspiros vãos ao vento<br> + Não faz em vós, Senhora, movimento,<br> + Fique o meu mal em vossa consciencia.<br> + Mas se de qualquer aspera mudança<br> + Toda vontade isenta Amor castiga,<br> + (Como eu vejo no mal que me condena)<br> + E se em vós não se entende haver vingança,<br> + Será forçado (pois Amor me obriga)<br> + Que eu só da culpa vossa pague a pena.</blockquote> + +<h4>XCV.</h4> + +<blockquote> + Aquella que, de pura castidade,<br> + De si mesma tomou cruel vingança<br> + Por huma breve e subita mudança<br> + Contrária á sua honra e qualidade;<br> + Venceo á formosura a honestidade,<br> + Venceo no fim da vida a esperança,<br> + Porque ficasse viva tal lembrança,<br> + Tal amor, tanta fé, tanta verdade.<br> + De si, da gente e do mundo esquecida,<br> + Ferio com duro ferro o brando peito,<br> + Banhando em sangue a fôrça do tyrano.<br> + Oh ousadia estranha! estranho feito!<br> + Que dando breve morte ao corpo humano,<br> + Tenha sua memoria larga vida!<span class="pn" ><a name="pag_49">{49}</a></span> +</blockquote> + +<h4>XCVI.</h4> + +<blockquote> + Os vestidos Elisa revolvia,<br> + Que Eneas lhe deixára por memoria;<br> + Doces despojos da passada gloria;<br> + Doces quando seu fado o consentia.<br> + Entre elles a formosa espada via,<br> + Que instrumento, em fim, foi da triste historia;<br> + E como quem de si tinha a victoria,<br> + Fallando só com ella, assi dizia:<br> + Formosa e nova espada, se ficaste<br> + Só porque executasses os enganos<br> + De quem te quiz deixar, em minha vida;<br> + Sabe que tu comigo te enganaste;<br> + Que para me tirar de tantos danos<br> + Sobeja-me a tristeza da partida.</blockquote> + +<h4>XCVII.</h4> + +<blockquote> + Oh quão caro me custa o entender-te,<br> + Molesto Amor que, só por alcançar-te,<br> + De dor em dor me tens trazido a parte<br> + Donde em ti odio e íra se converte!<br> + Cuidei que para em tudo conhecer-te<br> + Me não faltava experiencia e arte;<br> + Mas na alma vejo agora accrescentar-te<br> + Aquillo que era causa de perder-te.<br> + Estavas tão secreto no meu peito,<br> + Que eu mesmo, que te tinha, não sabia<br> + Que me senhoreavas deste geito.<br> + Descubriste-te agora; e foi por via<br> + Que teu descobrimento e meu defeito,<br> + Hum me envergonha e outro me injuria.<span class="pn" + ><a name="pag_50">{50}</a></span></blockquote> + +<h4>XCVIII.</h4> + +<blockquote> + Se despois de esperança tão perdida,<br> + Amor por causa alguma consentisse<br> + Que inda algum'hora breve alegre visse<br> + De quantas tristes vio tão longa vida;<br> + Hum'alma ja tão fraca e tão cahida<br> + (Quando a sorte mais alto me subisse)<br> + Não tenho para mi que consentisse<br> + Alegria tão tarde consentida.<br> + Nem tamsomente o Amor me não mostrou<br> + Hum'hora em que vivesse alegremente,<br> + De quantas nesta vida me negou;<br> + Mas inda tanta pena me consente,<br> + Que co'o contentamento me tirou<br> + O gôsto de algum'hora ser contente.</blockquote> + +<h4>XCIX.</h4> + +<blockquote> + O raio crystallino se estendia<br> + Por o mundo da Aurora marchetada,<br> + Quando Nise, pastora delicada,<br> + Donde a vida deixava se partia.<br> + Dos olhos, com que o sol escurecia,<br> + Levando a luz em lagrimas banhada,<br> + De si, do fado, e tempo magoada,<br> + Pondo os olhos no Ceo, assi dizia:<br> + Nasce, sereno sol, puro e luzente;<br> + Resplandece, purpurea e branca aurora,<br> + Qualquer alma alegrando descontente;<br> + Que a minha, sabe tu que desde agora<br> + Jamais na vida a podes ver contente,<br> + Nem tão triste nenhuma outra pastora.<span class="pn" + ><a name="pag_51">{51}</a></span></blockquote> + +<h4>C.</h4> + +<blockquote> + No mundo poucos annos e cansados<br> + Vivi, cheios de vil miseria e dura:<br> + Foi-me tão cedo a luz do dia escura,<br> + Que não vi cinco lustros acabados.<br> + Corri terras e mares apartados,<br> + Buscando á vida algum remedio ou cura:<br> + Mas aquillo que, em fim, não dá ventura<br> + Não o dão os trabalhos arriscados.<br> + Criou-me Portugal na verde e chara<br> + Patria minha Alemquer; mas ar corruto,<br> + Que neste meu terreno vaso tinha,<br> + Me fez manjar de peixes em ti, bruto<br> + Mar, que bates a Abássia fera e avara,<br> + Tão longe da ditosa patria minha.</blockquote> + +<h4>CI.</h4> + +<blockquote> + Vós, que escuitais em Rimas derramado<br> + Dos suspiros o som que me alentava<br> + Na juvenil idade, quando andava<br> + Em outro em parte do que sou mudado;<br> + Sabei que busca só do ja cantado<br> + No tempo em que ou temia ou esperava,<br> + De quem o mal provou, que eu tanto amava,<br> + Piedade, e não perdão, o meu cuidado.<br> + Pois vejo que tamanho sentimento<br> + Só me rendeo ser fábula da gente,<br> + (Do que comigo mesmo me envergonho)<br> + Sirva de exemplo claro meu tormento,<br> + Com que todos conheção claramente<br> + Que quanto ao mundo apraz he breve sonho.<span class="pn" + ><a name="pag_52">{52}</a></span></blockquote> + +<h4>CII.</h4> + +<blockquote> + De amor escrevo, de amor trato e vivo;<br> + De amor me nasce amar sem ser amado;<br> + De tudo se descuida o meu cuidado,<br> + Quanto não seja ser de amor captivo:<br> + De amor que a lugar alto voe altivo,<br> + E funde a gloria sua em ser ousado;<br> + Que se veja melhor purificado<br> + No immenso resplandor de hum raio esquivo.<br> + Mas ai que tanto amor só pena alcança!<br> + Mais constante ella, e elle mais constante,<br> + De seu triumpho cada qual só trata.<br> + Nada, em fim, me aproveita; que a esperança,<br> + Se anima alguma vez a hum triste amante,<br> + Ao perto vivifica, ao longe mata.</blockquote> + +<h4>CIII.</h4> + +<blockquote> + Se da célebre Laura a formosura<br> + Hum numeroso cysne ufano escreve,<br> + Huma angelica penna se te deve,<br> + Pois o Ceo em formar-te mais se apura.<br> + E se voz menos alta te procura<br> + Celebrar, (oh Natercia!) em vão se atreve:<br> + De ver-te ja a ventura Liso teve,<br> + Mas de cantar-te falta-lhe a ventura.<br> + No ceo nasceste, certo, e não na terra:<br> + Para gloria do mundo cá desceste:<br> + Quem mais isto negar, muito mais erra.<br> + E eu imagino que de lá vieste<br> + Para emendar os vicios que elle encerra,<br> + Co'os divinos poderes que trouxeste.<span class="pn" +><a name="pag_53">{53}</a></span></blockquote> + +<h4>CIV.</h4> + +<blockquote> + Esses cabellos louros e escolhidos,<br> + Que o ser ao aureo sol estão tirando;<br> + Esse ar immenso, adonde naufragando<br> + Estão continuamente os meus sentidos;<br> + Esses furtados olhos tão fingidos<br> + Que minha vida e morte estão causando;<br> + Essa divina graça, que em fallando<br> + Finge os meus pensamentos não ser cridos;<br> + Esse compasso certo, essa medida<br> + Que faz dobrar no corpo a gentileza;<br> + A divindade em terra, tão subida;<br> + Mostrem ja piedade, e não crueza,<br> + Que são laços que Amor tece na vida,<br> + Sendo em mi sofrimento, em vós dureza.</blockquote> + +<h4>CV.</h4> + +<blockquote> + Quem pudéra julgar de vós, Senhora,<br> + Que huma tal fé pudesse assi perder-vos?<br> + Se por amar-vos chego a aborrecer-vos,<br> + Deixar não posso o amar-vos algum'hora.<br> + Deixais a quem vos ama, ou vos adora,<br> + Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos?<br> + Mas eu sou quem não soube merecer-vos,<br> + E esta minha ignorancia entendo agora.<br> + Nunca soube entender vossa vontade,<br> + Nem a minha mostrar-vos verdadeira,<br> + Indaque clara estava esta verdade.<br> + Esta, em quanto eu viver, vereis inteira;<br> + E se em vão meu querer vos persuade,<br> + Mais vosso não querer faz que vos queira.<span class="pn" + ><a name="pag_54">{54}</a></span></blockquote> + +<h4>CVI.</h4> + +<blockquote> + Quem, Senhora, presume de louvar-vos<br> + Com discurso que baixe de divino,<br> + De tanto maior pena será dino,<br> + Quanto vós sois maior ao contemplar-vos.<br> + Não aspire algum canto a celebrar-vos,<br> + Por mais que seja raro, ou peregrino;<br> + Pois de vossa belleza eu imagino<br> + Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos.<br> + Ditosa esta alma vossa, a que quizestes<br> + Pôr em posse de prenda tão subida,<br> + Qual esta que benigna, em fim, me déstes.<br> + Sempre será anteposta á mesma vida:<br> + Esta estimar em menos me fizestes,<br> + Se antes que ess'outra a quero ver perdida.</blockquote> + +<h4>CVII.</h4> + +<blockquote> + Moradoras gentis e delicadas<br> + Do claro e aureo Tejo, que metidas<br> + Estais em suas grutas escondidas,<br> + E com doce repouso socegadas;<br> + Agora esteis de amores inflammadas,<br> + Nos crystallinos paços entretidas;<br> + Agora no exercicio embevecidas<br> + Das télas de ouro puro matizadas;<br> + Movei dos lindos rostos a luz pura<br> + De vossos olhos bellos, consentindo<br> + Que lagrimas derramem de tristura.<br> + E assi com dor mais propria ireis ouvindo<br> + As queixas que derramo da Ventura,<br> + Que com penas de Amor me vai seguindo.<span class="pn" + ><a name="pag_55">{55}</a></span></blockquote> + +<h4>CVIII.</h4> + +<blockquote> + Brandas águas do Tejo que, passando<br> + Por estes verdes campos que regais,<br> + Plantas, hervas, e flores, e animais,<br> + Pastores, Nymphas, ides alegrando;<br> + Não sei, (ah doces águas!) não sei quando<br> + Vos tornarei a ver; que mágoas tais,<br> + Vendo como vos deixo, me causais,<br> + Que de tornar ja vou desconfiando.<br> + Ordenou o destino, desejoso<br> + De converter meus gostos em pezares,<br> + Partida que me vai custando tanto.<br> + Saudoso de vós, delle queixoso,<br> + Encherei de suspiros outros ares,<br> + Turbarei outras águas com meu pranto.</blockquote> + +<h4>CIX.</h4> + +<blockquote> + Novos casos de Amor, novos enganos,<br> + Envoltos em lisonjas conhecidas;<br> + Do bem promessas falsas e escondidas,<br> + Onde do mal se cumprem grandes danos;<br> + Como não tomais ja por desenganos<br> + Tantos ais, tantas lagrimas perdidas,<br> + Pois que a vida não basta, nem mil vidas,<br> + A tantos dias tristes, tantos anos?<br> + Hum novo coração mister havia,<br> + Com outros olhos menos aggravados,<br> + Para tornar a crer o que eu vos cria.<br> + Andais comigo, enganos, enganados;<br> + E se o quizerdes ver, cuidai hum dia<br> + O que se diz dos bem acutilados.<span class="pn" ><a name="pag_56">{56}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CX.</h4> + +<blockquote> + Onde porei meus olhos que não veja<br> + A causa de que nasce o meu tormento?<br> + A qual parte me irei co'o pensamento,<br> + Que para descansar parte me seja?<br> + Ja sei como se engana quem deseja<br> + Em vão amor fiel contentamento;<br> + E que nos gostos seus, que são de vento,<br> + Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.<br> + Mas inda, sôbre o claro desengano,<br> + Assi me traz esta alma sobjugada,<br> + Que delle está pendendo o meu desejo.<br> + E vou de dia em dia, de anno em ano,<br> + Apoz hum não sei que, apoz hum nada,<br> + Que quanto mais me chego, menos vejo.</blockquote> + +<h4>CXI.</h4> + +<blockquote> + Ja do Mondego as águas apparecem<br> + A meus olhos, não meus, antes alheios,<br> + Que de outras differentes vindo cheios,<br> + Na sua branda vista inda mais crecem.<br> + Parece que tambem forçadas decem,<br> + Segundo se detem em seus rodeios.<br> + Triste! por quantos modos, quantos meios,<br> + As minhas saudades me entristecem!<br> + Vida de tantos males salteada,<br> + Amor a põe em termos, que duvida<br> + De conseguir o fim desta jornada.<br> + Antes se dá de todo por perdida,<br> + Vendo que não vai da alma acompanhada,<br> + Que se deixou ficar onde t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e vida.<span class="pn" + ><a name="pag_57">{57}</a></span></blockquote> + +<h4>CXII.</h4> + +<blockquote> + Que doudo pensamento he o que sigo?<br> + Apos que vão cuidado vou correndo?<br> + Sem ventura de mi! que não me entendo;<br> + Nem o que callo sei, nem o que digo.<br> + Pelejo com quem trata paz comigo;<br> + De quem guerra me faz não me defendo.<br> + De falsas esperanças que pertendo?<br> + Quem do meu proprio mal me faz amigo?<br> + Porque, se nasci livre, me captivo?<br> + E pois o quero ser, porque o não quero?<br> + Como me engano mais com desenganos?<br> + Se ja desesperei, que mais espero?<br> + E se inda espero mais, porque não vivo?<br> + E se vivo, que accuso mortaes danos?</blockquote> + +<h4>CXIII.</h4> + +<blockquote> + Hum firme coração posto em ventura;<br> + Hum desejar honesto, que se engeite<br> + De vossa condição, sem que respeite<br> + A meu tão puro amor, a fé tão pura;<br> + Hum ver-vos de piedade e de brandura<br> + Sempre inimiga, faz-me que suspeite<br> + Se alguma Hyrcana fera vos deo leite,<br> + Ou se nascestes de huma pedra dura.<br> + Ando buscando causa, que desculpe<br> + Crueza tão estranha; porém quanto<br> + Nisso trabalho mais, mais mal me trata.<br> + Donde vem, que não ha quem nos não culpe;<br> + A vós, porque matais quem vos quer tanto,<br> + A mim, por querer tanto a quem me mata.<span class="pn" + ><a name="pag_58">{58}</a></span></blockquote> + +<h4>CXIV.</h4> + +<blockquote> + Ar, que de meus suspiros vejo cheio;<br> + Terra, cansada ja com meu tormento;<br> + Agua, que com mil lagrimas sustento;<br> + Fogo, que mais accendo no meu seio;<br> + Em paz estais em mim; e assi o creio,<br> + Sem esse ser o vosso proprio intento;<br> + Pois em dor onde falta o soffrimento,<br> + A vida se sostem por vosso meio.<br> + Ai imiga Fortuna! ai vingativo<br> + Amor! a que discursos por vós venho,<br> + Sem nunca vos mover com minha mágoa!<br> + Se me quereis matar, para que vivo?<br> + E como vivo, se contrarios tenho<br> + Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa?</blockquote> + +<h4>CXV.</h4> + +<blockquote> + Ja claro vejo bem, ja bem conheço<br> + Quanto augmentando vou o meu tormento;<br> + Pois sei que fundo em água, escrevo em vento,<br> + E que o cordeiro manso ao lobo peço;<br> + Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço;<br> + Que a tigres em meus males me lamento;<br> + Que reduzir o mar a hum vaso intento,<br> + Aspirando a esse ceo que não mereço.<br> + Quero achar paz em hum confuso inferno;<br> + Na noite do sol puro a claridade;<br> + E o suave verão no duro inverno.<br> + Busco em luzente Olympo escuridade,<br> + E o desejado bem no mal eterno,<br> + Buscando amor em vossa crueldade.<span class="pn" ><a name="pag_59">{59}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXVI.</h4> + +<blockquote> + De cá, donde somente o imaginar-vos<br> + A rigorosa ausencia me consente,<br> + Sôbre as azas de Amor, ousadamente<br> + O mal soffrido esprito vai buscar-vos.<br> + E se não receára de abrazar-vos<br> + Nas chammas que por vossa causa sente,<br> + Lá ficára comvosco e, vós presente,<br> + Aprendêra de vós a contentar-vos.<br> + Mas, pois que estar ausente lhe he forçado,<br> + Por senhora, de cá, vos reconhece,<br> + Aos pés de imagens vossas inclinado.<br> + E pois vêdes a fé que vos offrece,<br> + Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado,<br> + E dar-lhe-heis inda mais do que merece.</blockquote> + +<h4>CXVII.</h4> + +<blockquote> + Não ha louvor que arribe á menor parte<br> + De quanto em vós se vê, bella Senhora:<br> + Vós sois vosso louvor: quem vos adora<br> + Reduz somente a este o engenho e arte.<br> + Quanto por muitas damas se reparte<br> + De bello e de formoso, em vós agora<br> + Se junta em modo tal, que pouco fôra<br> + Dizer que sois o todo, ellas a parte.<br> + Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos,<br> + Ver incapazes todos os louvores,<br> + Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos.<br> + Seja a culpa de vossos resplandores;<br> + E a que elles t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e vos dou, só para dar-vos<br> + O mor louvor de todos os maiores.<span class="pn" ><a name="pag_60">{60}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXVIII.</h4> + +<blockquote> + Não vás ao monte, Nise, com teu gado;<br> + Que lá vi que Cupido te buscava:<br> + Por ti somente a todos perguntava,<br> + No gesto menos placido que irado.<br> + Elle publíca, em fim, que lhe has roubado<br> + Os melhores farpões da sua aljava;<br> + E com hum dardo ardente assegurava<br> + Traspassar esse peito delicado.<br> + Fuge de ver-te lá nesta aventura,<br> + Porque se contra ti o tens iroso,<br> + Póde ser que te alcance com mão dura.<br> + Mas ai! que em vão te advirto temeroso,<br> + Se á tua incomparavel formosura<br> + Se rende o dardo seu mais poderoso!</blockquote> + +<h4>CXIX.</h4> + +<blockquote> + A violeta mais bella que amanhece<br> + No valle por esmalte da verdura,<br> + Com seu pallido lustre e formosura,<br> + Por mais bella, Violante, te obedece.<br> + Perguntas-me porque? Porque apparece<br> + Em ti seu nome, e sua côr mais pura;<br> + E estudar em teu rosto só procura<br> + Tudo quanto em beldade mais florece.<br> + Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!<br> + Unico roubador de meu sentido,<br> + Não permittas que Amor me seja avaro.<br> + Oh penetrante setta de Cupido!<br> + Que queres? Que te peça por reparo<br> + Ser neste valle Eneas desta Dido?<span class="pn" ><a name="pag_61">{61}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXX.</h4> + +<blockquote> + Tornae essa brancura á alva assucena,<br> + E essa purpurea côr ás puras rosas;<br> + Tornae ao sol as chammas luminosas<br> + De essa vista que a roubos vos condena.<br> + Tornae á suavissima sirena<br> + D'essa voz as cadencias deleitosas:<br> + Tornae a graça ás Graças, que queixosas<br> + Estão de a ter por vós menos serena:<br> + Tornae á bella Venus a belleza;<br> + A Minerva o saber, o engenho, e a arte;<br> + E a pureza á castissima Diana.<br> + Despojae-vos de toda essa grandeza<br> + De dões; e ficareis em toda parte<br> + Comvosco só, que he só ser inhumana.</blockquote> + +<h4>CXXI.</h4> + +<blockquote> + De mil suspeitas vãas se me levantão<br> + Trabalhos e desgostos verdadeiros.<br> + Ai que estes bens de Amor são feiticeiros,<br> + Que com hum não sei que toda alma encantão!<br> + Como serêas docemente cantão<br> + Para enganar os tristes marinheiros:<br> + Os meus assi me attrahem lisongeiros,<br> + E despois com horrores mil me espantão.<br> + Quando cuido que tomo porto ou terra,<br> + Tal vento se levanta em hum instante,<br> + Que subito da vida desconfio.<br> + Mas eu sou quem me faz a maior guerra,<br> + Pois conhecendo os riscos de hum amante<br> + Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.<span class="pn" + ><a name="pag_62">{62}</a></span></blockquote> + +<h4>CXXII.</h4> + +<blockquote> + Mil vezes determino não vos ver,<br> + Por ver se abranda mais o meu penar:<br> + E se cuido de assi me magoar,<br> + Cuidai o que será, se houver de ser.<br> + Pouco me importa ja muito soffrer,<br> + Despois que Amor me poz em tal lugar;<br> + E o que inda me doe mais he só cuidar,<br> + Que mal sem esta dor posso viver.<br> + Assi não busco eu cura contra a dor,<br> + Porque, buscando alguma, entendo bem<br> + Que nesse mesmo ponto me perdi.<br> + Quereis que viva, em fim, neste rigor?<br> + Somente o querer vosso me convem.<br> + Assi quereis que seja? Seja assi.</blockquote> + +<h4>CXXIII.</h4> + +<blockquote> + A chaga que, Senhora, me fizestes,<br> + Não foi para curar-se em hum só dia;<br> + Porque crescendo vai com tal porfia,<br> + Que bem descobre o intento que tivestes.<br> + De causar tanta dor vos não doestes?<br> + Mas a doer-vos, dor me não sería,<br> + Pois ja com esperança me veria<br> + Do que vós que em mi visse não quizestes.<br> + Os olhos com que todo me roubastes<br> + Forão causa do mal que vou passando;<br> + E vós estais fingindo o não causastes.<br> + Mas eu me vingarei. E sabeis quando?<br> + Quando vos vir queixar porque deixastes<br> + Ir-se a minha alma nelles abrazando.<span class="pn" +><a name="pag_63">{63}</a></span></blockquote> + +<h4>CXXIV.</h4> + +<blockquote> + Se com desprezos, Nympha, te parece<br> + Que podes desviar do seu cuidado<br> + Hum coração constante, que se offrece<br> + A ter por gloria o ser atormentado.<br> + Deixa a tua porfia, e reconhece<br> + Que mal sabes de amor desenganado;<br> + Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece,<br> + Crescendo em mi de ti mais desamado.<br> + O esquivo desamor, com que me tratas,<br> + Converte em piedade, se não queres<br> + Que cresça o meu querer, e o teu desgosto.<br> + Vencer-me com cruezas nunca esperes:<br> + Bem me podes matar, e bem me matas;<br> + Mas sempre ha de viver meu presupposto.</blockquote> + +<h4>CXXV.</h4> + +<blockquote> + Senhora minha, se eu de vós ausente<br> + Me defendêra de hum penar severo,<br> + Suspeito que offendêra o que vos quero,<br> + Esquecido do bem de estar presente.<br> + Traz este, logo sinto outro accidente,<br> + E he ver que se da vida desespero,<br> + Perco a gloria que vendo-vos espero;<br> + E assi estou em meus males differente.<br> + E nesta differença meus sentidos<br> + Combatem com tão aspera porfia,<br> + Que julgo este meu mal por deshumano.<br> + Entre si sempre os vejo divididos;<br> + E se acaso concordão algum dia,<br> + He só conjuração para meu dano.<span class="pn" ><a name="pag_64">{64}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXXVI.</h4> + +<blockquote> + No regaço de mãe Amor estava<br> + Dormindo tão formoso, que movia<br> + O coração que mais isento o via;<br> + E a sua propria mãe de amor matava.<br> + Ella, co'os olhos nelle, contemplava<br> + A quanto estrago o mundo reduzia:<br> + Elle porém, sonhando, lhe dizia<br> + Que todo aquelle mal ella o causava.<br> + Soliso que, graduado em seus amores,<br> + De saber de ambos mais teve a ventura,<br> + Assi soltou a dúvida aos pastores:<br> + Se bem me ferem sempre sem ter cura<br> + Do menino os ardentes passadores,<br> + Mais me fere da mãe a formosura.</blockquote> + +<h4>CXXVII.</h4> + +<blockquote> + Este terreste caos com seus vapores<br> + Não póde condensar as nuvens tanto,<br> + Que o claro sol não rompa o negro manto<br> + Cum suas bellas e luzentes côres.<br> + A ingratidão esquiva de rigores<br> + Opposta nuvem he, que dura em quanto<br> + Nos não converte o Ceo em triste pranto<br> + Suas vãas esperanças, seus favores.<br> + Póde-se contrapôr ao ceo a terra,<br> + E estar o sol por horas eclipsado;<br> + Mas não póde ficar escurecido.<br> + Póde prevalecer a vossa guerra;<br> + Mas, a pezar das nuvens, declarado<br> + Ha de ser vosso sol, e obedecido.<span class="pn" ><a name="pag_65">{65}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Huma admiravel herva se conhece,<br> + Que vai ao sol seguindo de hora em hora,<br> + Logo que elle do Euphrates se vê fóra,<br> + E quando está mais alto, então florece.<br> + Mas quando ao Oceano o carro dece,<br> + Toda a sua belleza perde Flora,<br> + Porque ella se emmurchece e se descora:<br> + Tanto co'a luz ausente se entristece!<br> + Meu sol, quando alegrais esta alma vossa,<br> + Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,<br> + Cria flores em seu contentamento.<br> + Mas logo, em não vos vendo, entristecida<br> + Se murcha e se consume em grão tormento:<br> + Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa.</blockquote> + +<h4>CXXIX.</h4> + +<blockquote> + Crescei, desejo meu, pois que a Ventura<br> + Ja vos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e nos seus braços levantado;<br> + Que a bella causa de que sois gerado<br> + O mais ditoso fim vos assegura.<br> + Se aspirais por ousado a tanta altura,<br> + Não vos espante haver ao sol chegado;<br> + Porque he de aguia Real vosso cuidado,<br> + Que quanto mais o soffre, mais se apura.<br> + Ánimo, coração; que o pensamento<br> + Te póde inda fazer mais glorioso,<br> + Sem que respeite a teu merecimento.<br> + Que cresças inda mais he ja forçoso;<br> + Porque se foi de ousado o teu intento,<br> + Agora de atrevido he venturoso.<span class="pn" ><a name="pag_66">{66}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXXX.</h4> + +<blockquote> + He o gozado bem em água escrito;<br> + Vive no desejar, morre no effeito:<br> + O desejado sempre he mais perfeito,<br> + Porque t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e parte alguma de infinito.<br> + Dar a huma alma immortal gôzo prescrito,<br> + Em verdadeiro amor, fôra defeito:<br> + Por modo sup'rior, não imperfeito,<br> + Sois excepção de quanto aqui limito.<br> + De huma esperança nunca conhecida,<br> + Da fé do desejar não alcançada,<br> + Sereis mais desejada, possuida.<br> + Não podeis da esperança ser amada;<br> + Vista podereis ser, e então mais crida;<br> + Porém não, sem aggravo, comparada.</blockquote> + +<h4>CXXXI.</h4> + +<blockquote> + De quantas graças tinha a natureza<br> + Fez hum bello e riquissimo thesouro;<br> + E com rubis e rosas, neve e ouro,<br> + Formou sublime e angelica belleza.<br> + Poz na boca os rubis, e na pureza<br> + Do bello rosto as rosas, por quem mouro;<br> + No cabello o valor do metal louro;<br> + No peito a neve, em que a alma tenho accesa.<br> + Mas nos olhos mostrou quanto podia,<br> + E fez delles hum sol, onde se apura<br> + A luz mais clara que a do claro dia.<br> + Em fim, Senhora, em vossa compostura,<br> + Ella a apurar chegou quanto sabia<br> + De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.<span class="pn" + ><a name="pag_67">{67}</a></span></blockquote> + +<h4>CXXXII.</h4> + +<blockquote> + Nunca em amor damnou o atrevimento;<br> + Favorece a Fortuna a ousadia;<br> + Porque sempre a encolhida covardia<br> + De pedra serve ao livre pensamento.<br> + Quem se eleva ao sublime Firmamento,<br> + A estrella nelle encontra, que lhe he guia;<br> + Que o bem que encerra em si a phantasia<br> + São humas illusões que leva o vento.<br> + Abrir se devem passos á ventura:<br> + Sem si proprio ninguem será ditoso:<br> + Os principios somente a sorte os move.<br> + Atrever-se he valor, e não loucura.<br> + Perderá por covarde o venturoso<br> + Que vos vê, se os temores não remove.</blockquote> + +<h4>CXXXIII.</h4> + +<blockquote> + Doces e claras águas do Mondego,<br> + Doce repouso de minha lembrança,<br> + Onde a comprida e perfida esperança<br> + Longo tempo apos si me trouxe cego,<br> + De vós me aparto, si; porém não nego<br> + Que inda a longa memoria, que me alcança,<br> + Me não deixa de vós fazer mudança,<br> + Mas quanto mais me alongo, mais me achego<br> + Bem poderá a Fortuna este instrumento<br> + Da alma levar por terra nova e estranha,<br> + Offerecido ao mar remoto, ao vento.<br> + Mas a alma, que de cá vos acompanha,<br> + Nas azas do ligeiro pensamento<br> + Para vós, águas, vôa, e em vós se banha.<span class="pn" + ><a name="pag_68">{68}</a></span></blockquote> + +<h4>CXXXIV.</h4> + +<blockquote> + Senhor João Lopes, o meu baixo estado<br> + Hontem vi posto em grao tão excellente,<br> + Que sendo vós inveja a toda a gente,<br> + Só por mi vos quizereis ver trocado.<br> + O gesto vi suave e delicado,<br> + Que ja vos fez contente e descontente,<br> + Lançar ao vento a voz tão docemente,<br> + Que fez o ar sereno e socegado.<br> + Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto<br> + Ninguem diria em muitas: mas eu chego<br> + A espirar só de ouvir a doce fala.<br> + Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego!<br> + Elle, que os corações obriga a tanto;<br> + Ella, porque os estados desiguala.</blockquote> + +<h4>CXXXV.</h4> + +<blockquote> + A Morte, que da vida o nó desata,<br> + Os nós, que dá o Amor, cortar quizera<br> + Co'a ausencia, que he sôbre elle espada fera,<br> + E co'o tempo, que tudo desbarata.<br> + Duas contrárias, que huma a outra mata,<br> + A Morte contra Amor junta e altera;<br> + Huma, Razão contra a Fortuna austera;<br> + Outra, contra a Razão Fortuna ingrata.<br> + Mas mostre a sua imperial potencia<br> + A Morte em apartar de hum corpo a alma,<br> + O Amor n'hum corpo duas almas una;<br> + Para que assi triumphante leve a palma<br> + Da Morte Amor a grão pesar da ausencia,<br> + Do tempo, da Razão, e da Fortuna.<span class="pn" ><a name="pag_69">{69}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXXXVI</h4> + +<blockquote> + Árvore, cujo pomo bello e brando<br> + Natureza de leite e sangue pinta,<br> + Onde a pureza, de vergonha tinta,<br> + Está virgineas faces imitando;<br> + Nunca do vento a ira, que arrancando<br> + Os troncos vai, o teu injúria sinta;<br> + Nem por malícia de ar te seja extinta<br> + A côr que está teu fructo debuxando.<br> + E pois emprestas doce e idoneo abrigo<br> + A meu contentamento, e favoreces<br> + Com teu suave cheiro a minha gloria;<br> + Se eu não te celebrar como mereces,<br> + Cantando-te, se quer farei comtigo<br> + Doce nos casos tristes a memoria.</blockquote> + +<h4>CXXXVII.</h4> + +<blockquote> + O filho de Latona esclarecido,<br> + Que com seu raio alegra a humana gente,<br> + Matar pôde a Phytonica serpente<br> + Que mortes mil havia produzido.<br> + Ferio com arco, e de arco foi ferido,<br> + Com ponta aguda de ouro reluzente:<br> + Nas Thessalicas praias docemente<br> + Por a nympha Penea andou perdido.<br> + Não lhe pôde valer contra seu dano<br> + Saber, nem diligencias, nem respeito<br> + De quanto era celeste e soberano.<br> + Pois se hum deos nunca vio nem hum engano<br> + De quem era tão pouco em seu respeito,<br> + Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?<span class="pn" + ><a name="pag_70">{70}</a></span></blockquote> + +<h4>CXXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Presença bella, angelica figura,<br> + Em quem quanto o Ceo tinha nos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e dado;<br> + Gesto alegre de rosas semeado,<br> + Entre as quaes se está rindo a Formosura:<br> + Olhos, onde t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e feito tal mistura<br> + Em crystal puro o negro marchetado,<br> + Que vemos ja no verde delicado<br> + Não esperança, mas inveja escura:<br> + Brandura, aviso, e graça, que augmentando<br> + A natural belleza co'hum desprezo,<br> + Com que mais desprezada mais se augmenta:<br> + São as prizões de hum coração, que prêzo,<br> + Seu mal ao som dos ferros vai cantando,<br> + Como faz a serêa na tormenta</blockquote> + +<h4>CXXXIX.</h4> + +<blockquote> + Por cima destas águas forte e firme<br> + Irei aonde os Fados o ordenárão,<br> + Pois por cima de quantas derramárão<br> + Aquelles claros olhos pude vir-me.<br> + Ja chegado era o fim de despedir-me;<br> + Ja mil impedimentos se acabárão,<br> + Quando rios de amor se atravessárão<br> + A me impedir o passo de partir-me.<br> + Passei-os eu com ânimo obstinado,<br> + Com que a morte forçada gloriosa<br> + Faz o vencido ja desesperado.<br> + Em qual figura, ou gesto desusado,<br> + Póde ja fazer medo a morte irosa<br> + A quem t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e a seus pés rendido e atado?<span class="pn" + ><a name="pag_71">{71}</a></span></blockquote> + +<h4>CXL.</h4> + +<blockquote> + Tal mostra de si dá vossa figura,<br> + Sibela, clara luz da redondeza,<br> + Que as fôrças e o poder da natureza<br> + Com sua claridade mais apura.<br> + Quem confiança ha visto tão segura,<br> + Tão singular esmalte da belleza,<br> + Que não padeça mal de mais graveza,<br> + Se resistir a seu amor procura?<br> + Eu, pois, por escusar tal esquivança,<br> + A razão sujeitei ao pensamento,<br> + A quem logo os sentidos se entregárão.<br> + Se vos offende o meu atrevimento,<br> + Inda podeis tomar nova vingança<br> + Nas reliquias da vida que ficárão.</blockquote> + +<h4>CXLI.</h4> + +<blockquote> + Na desesperação ja repousava<br> + O peito longamente magoado,<br> + E, com seu damno eterno concertado,<br> + Ja não temia, ja não desejava;<br> + Quando huma sombra vãa me assegurava<br> + Que algum bem me podia estar guardado<br> + Em tão formosa imagem, que o traslado<br> + N'alma ficou, que nella se enlevava.<br> + Que credito que dá tão facilmente<br> + O coração áquillo que deseja,<br> + Quando lhe esquece o fero seu destino!<br> + Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;<br> + Pois, postoque maior meu damno seja,<br> + Fica-me a gloria ja do que imagino.<span class="pn" ><a name="pag_72">{72}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXLII.</h4> + +<blockquote> + Diversos dões reparte o Ceo benino,<br> + E quer que cada huma alma hum só possua;<br> + Por isso ornou de casto peito a Lua,<br> + Que o primeiro orbe illustra crystallino;<br> + De graça a Mãe formosa do Menino,<br> + Que nessa vista t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e perdido a sua;<br> + Pallas de sciencia não maior que a tua:<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e Juno da nobreza o imperio dino.<br> + Mas junto agora o largo Ceo derrama<br> + Em ti o mais que tinha, e foi o menos<br> + Em respeito do Autor da natureza.<br> + Que a seu pezar te dão, formosa dama,<br> + Seu peito a Lua, sua graça Venos,<br> + Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza.</blockquote> + +<h4>CXLIII.</h4> + +<blockquote> + Gentil Senhora, se a Fortuna imiga,<br> + Que contra mi com todo o Ceo conspira,<br> + Os olhos meus de ver os vossos tira,<br> + Porque em mais graves casos me persiga;<br> + Comigo levo esta alma, que se obriga<br> + Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra,<br> + A dar-vos a memoria, que suspira<br> + Só por fazer comvosco eterna liga.<br> + Nesta alma, onde a fortuna póde pouco,<br> + Tão viva vos terei, que frio e fome,<br> + Vos não possão tirar, nem mais perigos.<br> + Antes, com som de voz trémulo e rouco<br> + Por vós chamando, só com vosso nome<br> + Farei fugir os ventos, e os imigos.<span class="pn" ><a name="pag_73">{73}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXLIV</h4> + +<blockquote> + Que modo tão subtil da natureza<br> + Para fugir ao mundo e seus enganos!<br> + Permitte que se esconda em tenros anos<br> + Debaixo de hum burel tanta belleza!<br> + Mas não póde esconder-se aquella alteza<br> + E gravidade de olhos soberanos,<br> + A cujo resplandor entre os humanos<br> + Resistencia não sinto, ou fortaleza.<br> + Quem quer livre ficar de dor e pena,<br> + Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria,<br> + Na mesma razão sua se condena.<br> + Porque quem mereceo ver tanta gloria<br> + Captivo ha de ficar; que Amor ordena<br> + Que de juro tenha ella esta victoria.</blockquote> + +<h4>CXLV</h4> + +<blockquote> + Quando se vir com água o fogo arder,<br> + Juntar-se ao claro dia a noite escura,<br> + E a terra collocada lá na altura<br> + Em que se vem os ceos prevalecer;<br> + Quando Amor á Razão obedecer,<br> + E em todos for igual huma ventura,<br> + Deixarei eu de ver tal formosura,<br> + E de a amar deixarei depois de a ver.<br> + Porém não sendo vista esta mudança<br> + No mundo, porque, em fim, não póde ver-se,<br> + Ninguem mudar-me queira de querer-vos.<br> + Que basta estar em vós minha esperança,<br> + E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se,<br> + Para dos olhos meus nunca perder-vos.<span class="pn" + ><a name="pag_74">{74}</a></span></blockquote> + +<h4>CXLVI.</h4> + +<blockquote> + Quando a suprema dor muito me aperta,<br> + Se digo que desejo esquecimento,<br> + He fôrça que se faz ao pensamento,<br> + De que a vontade livre desconcerta.<br> + Assi de êrro tão grave me desperta<br> + A luz do bem regido entendimento,<br> + Que mostra ser engano, ou fingimento,<br> + Dizer que em tal descanso mais se acerta.<br> + Porque essa propria imagem, que na mente<br> + Me representa o bem de que careço,<br> + Faz-mo de hum certo modo ser presente.<br> + Ditosa he, logo, a pena que padeço,<br> + Pois que da causa della em mi se sente<br> + Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço.</blockquote> + +<h4>CXLVII.</h4> + +<blockquote> + Na margem de hum ribeiro, que fendia<br> + Com liquido crystal hum verde prado,<br> + O triste pastor Liso debruçado<br> + Sôbre o tronco de hum freixo assi dizia:<br> + Ah Natercia cruel! quem te desvia<br> + Esse cuidado teu do meu cuidado?<br> + Se tanto hei de penar desenganado,<br> + Enganado de ti viver queria.<br> + Que foi de aquella fé que tu me déste?<br> + D'aquelle puro amor que me mostraste?<br> + Quem tudo trocar pôde tão asinha?<br> + Quando esses olhos teus n'outro puzeste,<br> + Como te não lembrou que me juraste<br> + Por toda a sua luz que eras só minha?<span class="pn" + ><a name="pag_75">{75}</a></span></blockquote> + +<h4>CXLVIII.</h4> + +<blockquote> + Se me vem tanta gloria só de olhar-te,<br> + He pena desigual deixar de ver-te;<br> + Se presumo com obras merecer-te,<br> + Grão paga de hum engano he desejar-te.<br> + Se aspiro por quem es a celebrar-te,<br> + Sei certo por quem sou que hei de offender-te;<br> + Se mal me quero a mi por bem querer-te,<br> + Que premio querer posso mais que amar-te?<br> + Porque hum tão raro amor não me soccorre?<br> + Oh humano thesouro! oh doce gloria!<br> + Ditoso quem á morte por ti corre!<br> + Sempre escrita estaras nesta memoria;<br> + E esta alma viverá, pois por ti morre,<br> + Porque ao fim da batalha he a victoria.</blockquote> + +<h4>CXLIX.</h4> + +<blockquote> + Sempre a Razão vencida foi de Amor;<br> + Mas, porque assi o pedia o coração,<br> + Quiz Amor ser vencido da Razão.<br> + Ora que caso póde haver maior!<br> + Novo modo de morte, e nova dor!<br> + Estranheza de grande admiração!<br> + Pois, em fim, seu vigor perde a affeição,<br> + Porque não perca a pena o seu vigor.<br> + Fraqueza, nunca a houve no querer;<br> + Mas antes muito mais se esforça assim<br> + Hum contrário com outro por vencer.<br> + Mas a razão que a luta vence, em fim,<br> + Não creio que he razão; mas deve ser<br> + Inclinação que eu tenho contra mim.<span class="pn" ><a name="pag_76">{76}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CL.</h4> + +<blockquote> + Coitado! que em hum tempo chóro e rio;<br> + Espero e temo, quero e aborreço;<br> + Juntamente me allegro e me entristeço;<br> + Confio de huma cousa e desconfio.<br> + Vôo sem azas; estou cego e guio;<br> + Alcanço menos no que mais mereço;<br> + Entaõ fallo melhor, quando emmudeço;<br> + Sem ter contradiçaõ sempre porfio.<br> + Possivel se me faz todo o impossivel;<br> + Intento com mudar-me estar-me quedo;<br> + Usar de liberdade, e ser captivo;<br> + Queria visto ser, ser invisivel;<br> + Ver-me desenredado, amando o enredo:<br> + Taes os extremos são com que hoje vivo!</blockquote> + +<h4>CLI.</h4> + +<blockquote> + Julga-me a gente toda por perdido,<br> + Vendo-me, tão entregue a meu cuidado,<br> + Andar sempre dos homens apartado,<br> + E de humanos commercios esquecido.<br> + Mas eu, que tenho o mundo conhecido,<br> + E quasi que sôbre elle ando dobrado,<br> + Tenho por baixo, rustico, e enganado<br> + Quem não he com meu mal engrandecido.<br> + Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento,<br> + Honras busque e riquezas a outra gente,<br> + Vencendo ferro, fogo, frio e calma.<br> + Que eu por amor sómente me contento<br> + De trazer esculpido eternamente<br> + Vosso formoso gesto dentro da alma.<span class="pn" ><a name="pag_77">{77}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLII.</h4> + +<blockquote> + Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura<br> + Quiz dar de seu poder claros signais,<br> + Se quizerdes ver bem quanto possais,<br> + Vêde-me a mi que sou vossa feitura.<br> + Em mi viva vereis vossa figura<br> + Mais propria que em purissimos crystais,<br> + Porque nesta alma he certo que vejais<br> + Melhor que em hum crystal tal formosura.<br> + De meu não quero mais que o meu desejo,<br> + Se acaso por querer-vos mais mereço,<br> + Porque o vosso poder em mi se asselle.<br> + Do mundo outra memoria em mi não vejo:<br> + Com lembrar-me de vós, delle me esqueço,<br> + Com triumphardes de mi, triumpharei delle.</blockquote> + +<h4>CLIII.</h4> + +<blockquote> + Criou a natureza Damas bellas,<br> + Que forão de altos plectros celebradas;<br> + Dellas tomou as partes mais prezadas,<br> + E a vós, Senhora, fez do melhor dellas.<br> + Ellas diante vós são as estrellas,<br> + Que ficão com vos ver logo eclipsadas.<br> + Mas se ellas t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e por sol essas rosadas<br> + Luzes de sol maior, felices ellas!<br> + Em perfeição, em graça e gentileza,<br> + Por hum modo entre humanos peregrino,<br> + A todo bello excede essa belleza.<br> + Oh quem tivera partes de divino<br> + Para vos merecer! Mas se pureza<br> + De amor vai ante vós, de vós sou dino.<span class="pn" + ><a name="pag_78">{78}</a></span></blockquote> + +<h4>CLIV.</h4> + +<blockquote> + Que esperais, esperança? Desespéro.<br> + Quem disso a causa foi? H<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mudança.<br> + Vós, vida, como estais? Sem esperança.<br> + Que dizeis, coração? Que muito quero.<br> + Que sentis, alma, vós? Que amor he fero.<br> + E, em fim, como viveis? Sem confiança.<br> + Quem vos sustenta, logo? Huma lembrança.<br> + E só nella esperais? Só nella espero.<br> + Em que podeis parar? Nisto em que estou.<br> + E em que estais vós? Em acabar a vida.<br> + E ténde-lo por bem? Amor o quer.<br> + Quem vos obriga assi? Saber quem sou.<br> + E quem sois? Quem de todo está rendida.<br> + A quem rendida estais? A hum só querer.</blockquote> + +<h4>CLV.</h4> + +<blockquote> + Se como em tudo o mais fostes perfeita,<br> + Foreis de condição menos esquiva,<br> + Fôra a minha fortuna mais altiva,<br> + Fôra a sua altiveza mais sujeita.<br> + Mas quando a vida a vossos pés se deita,<br> + Porque não a acceitais, não quer que eu viva:<br> + Ella propria de si ja a mi me priva;<br> + Que, porque me engeitais, tambem me engeita.<br> + Se nisso contradiz vossa vontade,<br> + Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim<br> + Á minha profundissima tristeza.<br> + Pois ella não mo dá, porque piedade<br> + Tenha deste meu mal, mas porque em mim<br> + Possais assi fartar vossa crueza.<span class="pn" ><a name="pag_79">{79}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLVI.</h4> + +<blockquote> + Se algum'hora essa vista mais suave<br> + Acaso a mi volveis, em hum momento<br> + Me sinto com hum tal contentamento,<br> + Que não temo que damno algum me aggrave.<br> + Mas quando com desdem esquivo e grave<br> + O bello rosto me mostrais isento,<br> + Huma dor provo tal, hum tal tormento,<br> + Que muito vem a ser que não me acabe.<br> + Assi está minha vida, ou minha morte<br> + No volver de esses olhos; pois podeis<br> + Dar co'huma volta delles morte, ou vida.<br> + Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte,<br> + Que ou vida, para dar-vo-la, me deis,<br> + Ou morte, para haver morte querida!</blockquote> + +<h4>CLVII.</h4> + +<blockquote> + Tanto se forão, Nympha, costumando<br> + Meus olhos a chorar tua dureza,<br> + Que vão passando ja por natureza<br> + O que por accidente hião passando.<br> + No que ao somno se deve estou velando,<br> + E venho a velar só minha tristeza:<br> + O chôro não abranda esta aspereza,<br> + E meus olhos estão sempre chorando.<br> + Assi de dor em dor, de mágoa em mágoa,<br> + Consumindo-se vão inutilmente,<br> + E esta vida tambem vão consumindo.<br> + Sôbre o fogo de amor inutil ágoa!<br> + Pois eu em chôro estou continuamente,<br> + E do que vou chorando te vás rindo.<br> + Assi nova corrente<br> + Levas de chôro em foro;<br> + Porque de ver-te rir, de novo chóro.<span class="pn" +><a name="pag_80">{80}</a></span></blockquote> + +<h4>CLVIII.</h4> + +<blockquote> + Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,<br> + Quando menos temia esta partida;<br> + E se a minha alma vai entristecida,<br> + Nos olhos o vereis com que vos vejo.<br> + Pequenas esperanças, mal sobejo,<br> + Vontade que razão leva vencida,<br> + Presto verão o fim á triste vida,<br> + Se vos não tórno a ver como desejo.<br> + Nunca a noite entretanto, nunca o dia,<br> + Verão partir de mi vossa lembrança:<br> + Amor, que vai comigo, o certifica.<br> + Por mais que no tornar haja tardança,<br> + Me farão sempre triste companhia<br> + Saudades do bem que em vós me fia.</blockquote> + +<h4>CLIX.</h4> + +<blockquote> + + <table border="0" cellspacing="0" summary="Soneto CLIX formatado"> + <tbody> + <tr> + <td>Vencido está de amor</td> + <td> </td> + <td>Meu pensamento</td> + </tr> + <tr> + <td>O mais que póde ser, </td> + <td> </td> + <td>Vencida a vida, </td> + </tr> + <tr> + <td>Sujeita a vos servir e</td> + <td> </td> + <td>Instituida, </td> + </tr> + <tr> + <td>Oferecendo tudo</td> + <td> </td> + <td>A vosso intento.</td> + </tr> + <tr> + <td>Contente deste bem</td> + <td> </td> + <td>Louva o momento, </td> + </tr> + <tr> + <td>Ou hora em que se vio</td> + <td> </td> + <td>Tão bem perdida;</td> + </tr> + <tr> + <td>Mil vezes desejando, </td> + <td> </td> + <td>Assi ferida, </td> + </tr> + <tr> + <td>Outras mil renovar</td> + <td> </td> + <td>Seu perdimento.</td> + </tr> + <tr> + <td>Com esta pretenção</td> + <td> </td> + <td>Está segura</td> + </tr> + <tr> + <td>A causa que me guia</td> + <td> </td> + <td>Nesta empreza</td> + </tr> + <tr> + <td>Tão sobrenatural, </td> + <td> </td> + <td>Honrosa, e alta.</td> + </tr> + <tr> + <td>Jurando não querer</td> + <td> </td> + <td>Outra ventura, </td> + </tr> + <tr> + <td>Votando só por vós</td> + <td> </td> + <td>Rara firmeza, </td> + </tr> + <tr> + <td>Ou ser no vosso amor</td> + <td> </td> + <td>Achado em falta.<span class="pn" ><a name="pag_81">{81}</a></span></td> + </tr> + </tbody> + </table> +</blockquote> + +<h4>CLX.</h4> + +<blockquote> + Divina companhia, que nos prados<br> + Do claro Eurotas, ou no Olympo monte,<br> + Ou sôbre as margens da Castalia fonte<br> + Vossos estudos tendes mais sagrados;<br> + Pois por destino dos immoveis fados<br> + Quereis qu'em vosso número me conte,<br> + No eterno templo de Belorofonte<br> + Ponde em bronze estes versos entalhados:<br> + Soliso (porque em seculos futuros<br> + Se veja da belleza o que merece<br> + Quem de sábia doudice a mente inflama)<br> + Seus escritos, da sorte ja seguros,<br> + A estas aras em h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mão offrece,<br> + E a alma em outra á sua bella dama.</blockquote> + +<h4>CLXI.</h4> + +<blockquote> + Á la margen del Tajo, en claro dia,<br> + Con rayado marfil peinando estaba<br> + Natercia sus cabellos, y quitaba<br> + Con sus ojos la luz al sol que ardia.<br> + Soliso que, cual Clicie, la seguia,<br> + Lejos de sí, mas cerca della estaba:<br> + Al son de su zampoña celebraba<br> + La causa de su ardor, y así decia:<br> + Si tantas, como tú tienes cabellos,<br> + Tuviera vidas yo, me las llevaras<br> + Colgada cada cual del uno dellos.<br> + De no tenerlas tú me consolaras,<br> + Si tantas veces mil, como son ellos,<br> + En ellos la que tengo me enredaras.<span class="pn" ><a name="pag_82">{82}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXII.</h4> + +<blockquote> + Por gloria tuve un tiempo el ser perdido;<br> + Perdíame de puro bien ganado;<br> + Gané cuando perdí ser libertado;<br> + Libre agora me veo, mas vencido.<br> + Vencí cuando de Nise fuí rendido;<br> + Rendíme por no ser della dejado:<br> + Dejóme en la memoria el bien pasado;<br> + Paso agora á llorar lo que he servido.<br> + Servia al premio de la luz que amaba;<br> + Amándola esperábale por cierto;<br> + Incierto me salió cuanto esperaba.<br> + La esperanza se queda en desconcierto;<br> + El concierto en el mal que no pensaba;<br> + El pensamiento con un fin incierto.</blockquote> + +<h4>CLXIII.</h4> + +<blockquote> + Revuelvo en la incesable fantasía<br> + Cuando me he visto en mas dichoso estado,<br> + Si agora que de Amor vivo inflamado,<br> + Si cuando de su ardor libre vivia.<br> + Entonces desta llama solo huia,<br> + Despreciando en mi vida su cuidado;<br> + Agora, con dolor de lo pasado,<br> + Tengo por gloria aquello que temia.<br> + Bien veo que era vida deleitosa<br> + Aquella que lograba sin temores,<br> + Cuando gustos de Amor tuve por viento.<br> + Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa,<br> + Hallo en esta prision glorias mayores,<br> + Y en perderlas por libre hallo tormento.<span class="pn" + ><a name="pag_83">{83}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXIV.</h4> + +<blockquote> + Las peñas retumbaban al gemido<br> + Del misero zagal, que lamentaba<br> + El dolor que á su alma lastimaba,<br> + De un obstinado desamor nacido.<br> + El mar, que las batia, su bramido<br> + Con los retumbos dellas ayuntaba;<br> + Confuso son el viento derramaba,<br> + En cavernosos valles repetido.<br> + Responden a mi llanto duras peñas,<br> + Ai de mí! (dijo) la mar brama y gime;<br> + Los ecos suenan de tristeza llenos:<br> + Y tú, por quien la muerte en mí se imprime,<br> + De oir las ansias mias te desdeñas;<br> + Y cuando lloro mas, te abrando menos.</blockquote> + +<h4>CLXV.</h4> + +<blockquote> + En una selva al dispuntar del dia<br> + Estaba Endimion triste y lloroso,<br> + Vuelto al rayo del sol, que presuroso<br> + Por la falda de un monte descendia.<br> + Mirando al turbador de su alegría,<br> + Contrario de su bien y su reposo,<br> + Tras un suspiro y otro, congojoso,<br> + Razones semejantes le decia:<br> + Luz clara, para mi la mas escura,<br> + Que con esse paseo apresurado,<br> + Mi sol con tu teniebla escureciste;<br> + Si allà pueden moverte en esa altura<br> + Las quejas de un pastor enamorado,<br> + No tardes en volver á dó saliste.<span class="pn" ><a name="pag_84">{84}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXVI.</h4> + +<blockquote> + Orfeo enamorado que tañia<br> + Por la perdida Ninfa que buscaba,<br> + En el Orco implacable donde estaba,<br> + Con la arpa, y con la voz la enternecia.<br> + La rueda de Ixion no se movia,<br> + Ningun atormentado se quejaba;<br> + Las penas de los otros ablandaba,<br> + Y todas las de todos él sentia.<br> + El son pudo obligar de tal manera,<br> + Que en dulce galardon de lo cantado,<br> + Los infernales Reyes condolidos,<br> + Le mandáron volver su compañera,<br> + Y volvióla á perder el desdichado;<br> + Con que fueron entrambos los perdidos.</blockquote> + +<h4>CLXVII.</h4> + +<blockquote> + Eu cantei ja, e agora vou chorando<br> + O tempo que cantei tão confiado:<br> + Parece que no canto ja passado<br> + Se estavão minhas lagrimas criando.<br> + Cantei; mas se me alguem pergunta, quando?<br> + Não sei; que tambem fui nisso enganado.<br> + He tão triste este meu presente estado,<br> + Que o passado por ledo estou julgando.<br> + Fizerão-me cantar manhosamente<br> + Contentamentos não, mas confianças:<br> + Cantava, mas ja era ao som dos ferros.<br> + De quem me queixarei, se tudo mente?<br> + Porém que culpas ponho ás esperanças,<br> + Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros?<span class="pn" + ><a name="pag_85">{85}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXVIII.</h4> + +<blockquote> + Ai amiga cruel! que apartamento<br> + He este que fazeis da patria terra?<br> + Ai! quem do amado ninho vos desterra,<br> + Gloria dos olhos, bem do pensamento?<br> + His tentar da fortuna o movimento,<br> + E dos ventos crueis a dura guerra?<br> + Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra<br> + Levantado de hum vento e de outro vento?<br> + Mas ja que vós partis, sem vos partirdes,<br> + Parta comvosco o Ceo tanta ventura,<br> + Que se avantaje áquella qu'esperardes.<br> + E só desta verdade ide segura,<br> + Que fazeis mais saudades com vos irdes,<br> + Do que levais desejos por chegardes.</blockquote> + +<h4>CLXIX.</h4> + +<blockquote> + Campo! nas syrtes deste mar da vida,<br> + Apos naufragios seus taboa segura;<br> + Claras bonanças em tormenta escura,<br> + Habitação da paz, de amor guarida;<br> + A ti fujo: e se vence tal fugida,<br> + E quem mudou lugar, mudou ventura,<br> + Cantemos a victoria; e na espessura<br> + Triumphe a honra da ambição vencida.<br> + Em flor e fructo de verão e outono;<br> + Utilmente murmurão claras ágoas;<br> + Alegre me acha aqui, me deixa o dia.<br> + Amantes rouxinoes rompem-me o sono<br> + Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas<br> + Que ja forão sepulcros de alegria.<span class="pn" ><a name="pag_86">{86}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXX.</h4> + +<blockquote> + Ah minha Dinamene! assi deixaste<br> + Quem nunca deixar pôde de querer-te!<br> + Que ja, Nympha gentil, não possa ver-te!<br> + Que tão veloz a vida desprezaste!<br> + Como por tempo eterno te apartaste<br> + De quem tão longe andava de perder-te?<br> + Puderão essas ágoas defender-te<br> + Que não visses quem tanto magoaste?<br> + Nem somente fallar-te a dura morte<br> + Me deixou, qu'apressada o negro manto<br> + Lançar sôbre os teus olhos consentiste.<br> + Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte!<br> + Qual vida perderei que valha tanto,<br> + Se inda tenho por pouco o viver triste?</blockquote> + +<h4>CLXXI.</h4> + +<blockquote> + Guardando em mi a Sorte o seu direito.<br> + Em verde me cortou minha alegria.<br> + Oh quanto feneceo naquelle dia,<br> + Cuja triste lembrança arde em meu peito!<br> + Quando mais o imagino, bem suspeito<br> + Que a tal bem tal desconto se devia,<br> + Por não dizer o mundo que podia<br> + Achar-se em seus enganos bem perfeito.<br> + Pois se a Fortuna o fez por descontar-me<br> + Aquelle gôsto, em cujo sentimento<br> + A memoria não faz senão matar-me;<br> + Que culpas póde dar-me o pensamento,<br> + Se a causa qu'elle t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de atormentar-me,<br> + Tenho eu de soffrer mal o seu tormento?<span class="pn" + ><a name="pag_87">{87}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXXII.</h4> + +<blockquote> + Cantando estava hum dia bem seguro,<br> + Quando passava Sylvio, e me dizia:<br> + (Sylvio, pastor antiguo que sabia<br> + Por o canto das aves o futuro)<br> + Liso, quando quizer o fado escuro,<br> + A opprimir-te virão em hum só dia<br> + Dous lobos; logo a voz e a melodia<br> + Te fugirão, e o som suave e puro.<br> + Bem foi assi; porque hum me degolou<br> + Quanto gado vacum pastava e tinha,<br> + De que grandes soldadas esperava.<br> + E por mais damno o outro me matou<br> + A cordeira gentil, qu'eu tanto amava,<br> + Perpétua saudade da alma minha.</blockquote> + +<h4>CLXXIII.</h4> + +<blockquote> + O ceo, a terra, o vento socegado,<br> + As ondas que se estendem por a areia,<br> + Os peixes que no mar o somno enfreia,<br> + O nocturno silencio repousado;<br> + O Pescador Aonio que, deitado<br> + Onde co'o vento a água se meneia,<br> + Chorando, o nome amado em vão nomeia,<br> + Que não póde ser mais que nomeado,<br> + Ondas, (dizia) antes que Amor me mate,<br> + Tornae-me a minha Nympha, que tão cedo<br> + Me fizestes á morte estar sujeita.<br> + Ninguem responde; o mar de longe bate;<br> + Move-se brandamente o arvoredo;<br> + Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita.<span class="pn" + ><a name="pag_88">{88}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXXIV.</h4> + +<blockquote> + Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!<br> + Quão asinha em meu damno vos mudastes!<br> + Com os vossos cuidados me cansastes,<br> + E agora descansais co'os meus cuidados.<br> + Fizestes-me provar gostos passados,<br> + E vossa condição nelles provastes:<br> + Singelos em hum'hora mos levastes,<br> + Deixando em seu lugar males dobrados.<br> + Quanto melhor me fôra que não vira<br> + Os doces bens de Amor? Ah bens suaves!<br> + Quem me deixa sem vós, porque me deixa?<br> + De queixar-te, alma minha, te retira:<br> + Alma, de alto cahida em penas graves,<br> + Pois tanto amaste em vão, em vão te queixa.</blockquote> + +<h4>CLXXV.</h4> + +<blockquote> + Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento<br> + Vos hei de ver tão tristes e aggravados?<br> + Não bástão meus suspiros inflammados,<br> + Que sempre em mi renovão seu tormento?<br> + Não basta consentir meu pensamento<br> + Em mágoas, em tristezas e em cuidados,<br> + Senão que haveis de andar tão maltratados,<br> + Que lagrimas tenhais por mantimento?<br> + Não sei porque tomais esta vingança,<br> + Mostrando-vos na ausencia tão saudosos,<br> + Se sabeis quanto póde huma esperança.<br> + Olhos, não aggraveis outros formosos,<br> + Tornando hum puro amor em esquivança,<br> + Pois ficais por esquivos desdenhosos.<span class="pn" + ><a name="pag_89">{89}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXXVI.</h4> + +<blockquote> + Lembranças, que lembrais o bem passado<br> + Para que sinta mais o mal presente,<br> + Deixae-me, se quereis, viver contente,<br> + Morrer não me deixeis em tal estado.<br> + Se de todo, comtudo, está do Fado,<br> + Que eu morra de viver tão descontente,<br> + Venha-me todo o bem por accidente,<br> + E todo o mal me venha por cuidado.<br> + Que muito melhor he perder-se a vida,<br> + Perdendo-se as lembranças da memoria,<br> + Pois fazem tanto damno ao pensamento.<br> + Porque, em fim, nada perde quem perdida<br> + A esperança t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ja daquella gloria<br> + Que fazia suave o seu tormento.</blockquote> + +<h4>CLXXVII.</h4> + +<blockquote> + Quando os olhos emprégo no passado,<br> + De quanto passei me acho arrependido;<br> + Vejo que tudo foi tempo perdido,<br> + Que tudo emprêgo foi mal empregado.<br> + Sempre no mais damnoso mais cuidado;<br> + Tudo o que mais cumpria, mal cumprido;<br> + De desenganos menos advertido<br> + Fui, quando de esperanças mais frustrado.<br> + Os castellos que erguia o pensamento,<br> + No ponto que mais altos os erguia,<br> + Por esse chão os via em hum momento.<br> + Que erradas contas faz a phantasia!<br> + Pois tudo pára em morte, tudo em vento,<br> + Triste o que espera! triste o que confia!<span class="pn" + ><a name="pag_90">{90}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXXVIII</h4> + +<blockquote> + Ja cantei, ja chorei a dura guerra<br> + Por Amor sustentada longos anos;<br> + Vezes mil me vedou dizer seus danos,<br> + Por não ver quem o segue o muito que erra.<br> + Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra;<br> + Vós que fazeis á morte mil enganos,<br> + Concedei-me ja alentos soberanos<br> + Para que diga o mal que Amor encerra:<br> + Para que aquelle, que o seguir ardente,<br> + Veja em meus puros versos hum exemplo<br> + De quanto em glorias promettidas mente.<br> + Qu'inda qu'em triste estado me contemplo,<br> + Se neste assumpto me inspirais, contente<br> + Darei a minha lyra ao vosso templo.</blockquote> + +<h4>CLXXIX</h4> + +<blockquote> + Os meus alegres, venturosos dias<br> + Passárão, como raio, brevemente;<br> + Movem-se os tristes mais pezadamente<br> + Apos das fugitivas alegrias.<br> + Ah falsas pretenções! vãas phantasias!<br> + Que me podeis ja dar que me contente?<br> + Ja de meu triste peito a chamma ardente<br> + O tempo reduzio a cinzas frias.<br> + Nellas revolvo agora erros passados;<br> + Que outro fructo não deo a mocidade,<br> + A quem vergonha e dor minha alma deve<br> + Revolvo mais de toda a mais idade,<br> + Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,<br> + Para que leve tudo o tempo leve.<span class="pn" ><a name="pag_91">{91}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXXX.</h4> + +<blockquote> + Horas breves de meu contentamento,<br> + Nunca me pareceo, quando vos tinha,<br> + Que vos visse mudadas tão asinha<br> + Em tão compridos annos de tormento.<br> + As altas tôrres, que fundei no vento,<br> + Levou, em fim, o vento que as sostinha:<br> + Do mal, que me ficou, a culpa he minha,<br> + Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento.<br> + Amor com brandas mostras apparece,<br> + Tudo possivel faz, tudo assegura;<br> + Mas logo no melhor desapparece.<br> + Estranho mal! estranha desventura!<br> + Por hum pequeno bem que desfallece,<br> + Hum bem aventurar, que sempre dura!</blockquote> + +<h4>CLXXXI.</h4> + +<blockquote> + Onde acharei lugar tão apartado,<br> + E tão isento em tudo da ventura,<br> + Que, não digo eu de humana criatura,<br> + Mas nem de feras seja frequentado?<br> + Algum bosque medonho e carregado,<br> + Ou selva solitaria, triste e escura,<br> + Sem fonte clara, ou placida verdura;<br> + Em fim, lugar conforme a meu cuidado?<br> + Porque alli nas entranhas dos penedos,<br> + Em vida morto, sepultado em vida,<br> + Me queixe copiosa e livremente.<br> + Que, pois a minha pena he sem medida,<br> + Alli não serei triste em dias ledos,<br> + E dias tristes me farão contente.<span class="pn" ><a name="pag_92">{92}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXXXII.</h4> + +<blockquote> + Aqui de longos damnos breve historia<br> + Verão os que se jactão de amadores:<br> + Reparo póde ser das suas dores<br> + Não apartar as minhas da memoria.<br> + Escrevi, não por fama, nem por gloria,<br> + De que outros versos são merecedores,<br> + Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores<br> + A quem de mi logrou tanta victoria.<br> + Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto<br> + Que em número me fez, alheio de arte,<br> + Dizer do cego Amor, que me venceo.<br> + Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto;<br> + E dando a penna á mão, esta só parte<br> + De minhas tristes penas escreveo.</blockquote> + +<h4>CLXXXIII.</h4> + +<blockquote> + Por sua Nympha Céphalo deixava<br> + A Aurora, que por elle se perdia,<br> + Postoque dá principio ao claro dia,<br> + Postoque as roxas flores imitava.<br> + Elle, que a bella Procris tanto amava,<br> + Que só por ella tudo engeitaria,<br> + Deseja de tentar se lhe acharia<br> + Tão firme fé, como ella nelle achava.<br> + Mudado o trage, tece hum duro engano;<br> + Outro se finge, preço põe diante;<br> + Quebra-se a fé mudavel, e consente.<br> + Oh subtil invenção para seu dano!<br> + Vêde que manhas busca hum cego amante<br> + Para que sempre seja descontente!<span class="pn" ><a name="pag_93">{93}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXXXIV.</h4> + +<blockquote> + Sentindo-se alcançada a bella esposa<br> + De Céphalo no crime consentido,<br> + Para os montes fugia do marido;<br> + E não sei se de astuta, ou vergonhosa.<br> + Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa,<br> + Da cegueira obrigado de Cupido,<br> + Apos ella se vai como perdido,<br> + Ja perdoando a culpa criminosa.<br> + Deita-se aos pés da Nympha endurecida,<br> + Que do cioso engano está aggravada;<br> + Ja lhe pede perdão, ja pede a vida.<br> + Oh fôrça d'affeição desatinada!<br> + Que da culpa contr'elle commettida,<br> + Perdão pedia á parte que he culpada!</blockquote> + +<h4>CLXXXV.</h4> + +<blockquote> + Seguia aquelle fogo, que o guiava,<br> + Leandro, contra o mar e contra o vento;<br> + Quebravão-lhe ondas o animoso alento,<br> + Por mais e mais que Amor lho renovava.<br> + Com sentir ja que quasi lhe faltava,<br> + Sem nada esmorecer, no pensamento<br> + (Não podendo fallar) de seu intento<br> + O fim ao surdo mar encommendava.<br> + Ó mar, (dizia o moço só comsigo)<br> + Ja te não peço a vida; só queria<br> + Que a d'Hero me salvasses: não me veja:<br> + Este defunto corpo lá o desvia<br> + D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo,<br> + Pois no meu maior bem me houveste inveja.<span class="pn" + ><a name="pag_94">{94}</a></span></blockquote> + +<h4>CLXXXVI.</h4> + +<blockquote> + Os olhos onde o casto Amor ardia,<br> + Ledo de se ver nelles abrazado;<br> + O rosto onde com lustre desusado<br> + Purpurea rosa sôbre neve ardia;<br> + O cabello, que inveja ao sol fazia,<br> + Porque fazia o seu menos dourado;<br> + A branca mão, o corpo bem talhado,<br> + Tudo aqui se reduz a terra fria.<br> + Perfeita formosura em tenra idade,<br> + Qual flor, que antecipada foi colhida,<br> + Murchada está da mão da morte dura.<br> + Como não morre Amor de piedade?<br> + Não della, que se foi á clara vida;<br> + Mas de si, que ficou em noute escura.</blockquote> + +<h4>CLXXXVII.</h4> + +<blockquote> + Ditosa penna, como a mão que a guia<br> + Com tantas perfeições da subtil arte,<br> + Que quando com razão venho a louvar-te,<br> + Em teus louvores perco a phantasia.<br> + Porém Amor, que effeitos varios cria,<br> + De ti cantar me manda em toda parte,<br> + Não em plectro belligero de Marte,<br> + Mas em suave e branda melodia.<br> + Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo,<br> + Voando se levanta e te pregoa,<br> + Agora que ninguem te levantava.<br> + E porque immortal sejas, eis Apolo<br> + Te offerece de flores a coroa,<br> + Que ja de longo tempo te guardava.<span class="pn" ><a name="pag_95">{95}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CLXXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Espanta crescer tanto o crocodilo<br> + Só por seu limitado nascimento;<br> + Que, se maior nascêra, mais isento<br> + Estivera de espanto o patrio Nilo.<br> + Em vão levantará meu baixo estilo<br> + Vosso Pontifical, novo ornamento;<br> + Pois no ventre o immortal merecimento<br> + Vo-lo talhou, para despois vesti-lo.<br> + Tardou, mas veio; que a quem mais merece<br> + Vir o premio mais tarde he sempre certo,<br> + Inda que vez alguma venha cedo.<br> + Os ceos, que do primeiro estão mais perto,<br> + Mais devagar se movem. Quem conhece,<br> + Sôbre aquelle segredo, este segredo!</blockquote> + +<h4>CLXXXIX.</h4> + +<blockquote> + Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante,<br> + Com qu'a celeste máchina sustenta;<br> + Honrou a Homero o engenho, com que intenta<br> + Grecia do quarto ceo passá-lo avante;<br> + Coroou claro Amor de amor constante<br> + A Orpheo, na paz firme e na tormenta;<br> + Inspirou a Fortuna, em tudo isenta,<br> + A Cesar, de quem foi hum tempo amante;<br> + Exaltaste tu, Fama, a gloria alta<br> + De Alcides lá no monte em que resides;<br> + Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama,<br> + Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta,<br> + Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides,<br> + Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama.<span class="pn" + ><a name="pag_96">{96}</a></span></blockquote> + +<h4>CXC.</h4> + +<blockquote> + Despois que vio Cibele o corpo humano<br> + Do formoso Atys seu verde pinheiro,<br> + Em piedade o vão furor primeiro<br> + Convertido, chorava o grave dano.<br> + E, á sua dor fazendo illustre engano,<br> + A Jupiter pedio, que o verdadeiro<br> + Preço da nobre palma e do loureiro<br> + Ao seu pinheiro désse, soberano.<br> + Mais lhe concede o filho poderoso<br> + Que, crescendo, as estrellas tocar possa,<br> + Vendo os segredos lá do ceo superno.<br> + Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso<br> + Quem se vir coroar da rama vossa,<br> + Cantando á vossa sombra verso eterno!</blockquote> + +<h4>CXCI.</h4> + +<blockquote> + Pois torna por seu Rei e juntamente<br> + Por Christo a governar aquella parte<br> + Onde se t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mostrado hum Numa, hum Marte<br> + O famoso Luis, justo e valente;<br> + O Tejo espere ver de todo o Oriente,<br> + Onde tão raros dões o Ceo reparte,<br> + Render a tanto esfôrço, aviso e arte,<br> + Mil palmas, mil tributos novamente.<br> + Os que bebem no Gange, os que no Indo,<br> + A quem pouco valêrão lança e escudo,<br> + O render-se terão por bom partido.<br> + O Euphrates temerá, seu nome ouvindo;<br> + Que para delle ver vencido tudo,<br> + Ja vio do braço seu tudo vencido.<span class="pn" ><a name="pag_97">{97}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXCII.</h4> + +<blockquote> + Agora toma a espada, agora a pena,<br> + Estacio nosso, em ambas celebrado,<br> + Sendo, ou no salso mar de Marte amado,<br> + Ou n'água doce amante da Camena.<br> + Cysne sonoro por ribeira amena<br> + De mi para cantar-te he cobiçado;<br> + Porque não podes tu ser bem cantado<br> + De ruda frauta, nem de agreste avena.<br> + Se eu, que a penna tomei, tomei a espada,<br> + Para poder jogar licença tenho<br> + Desta alta influïção de dous Planetas;<br> + Com huma e outra luz delles lograda,<br> + Tu com pujante braço, ardente engenho,<br> + Serás pharo a Soldados e a Poetas.</blockquote> + +<h4>CXCIII.</h4> + +<blockquote> + Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente<br> + Em minha perdição se conjurárão:<br> + Os erros e a Fortuna sobejárão;<br> + Que para mi bastava Amor somente.<br> + Tudo passei; mas tenho tão presente<br> + A grande dor das cousas, que passárão,<br> + Que ja as frequencias suas me ensinárão<br> + A desejos deixar de ser contente.<br> + Errei todo o discurso de meus anos;<br> + Dei causa a que a Fortuna castigasse<br> + As minhas mal fundadas esperanças.<br> + De Amor não vi senão breves enganos.<br> + Oh quem tanto pudesse, que fartasse<br> + Este meu duro Genio de vinganças!<span class="pn" ><a name="pag_98">{98}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CXCIV.</h4> + +<blockquote> + Cá nesta Babylonia donde mana<br> + Materia a quanto mal o mundo cria;<br> + Cá donde o puro Amor não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e valia;<br> + Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;<br> + Cá donde o mal se affina, o bem se dana,<br> + E póde mais que a honra a tyrannia;<br> + Cá donde a errada e cega Monarchia<br> + Cuida que hum nome vão a Deos engana;<br> + Cá neste labyrintho onde a Nobreza,<br> + O Valor e o Saber pedindo vão<br> + Ás portas da Cobiça e da Vileza;<br> + Cá neste escuro caos de confusão<br> + Cumprindo o curso estou da natureza.<br> + Vê se me esquecerei de ti, Sião!</blockquote> + +<h4>CXCV.</h4> + +<blockquote> + Correm turbas as águas deste rio,<br> + Que as rapidas enchentes enturbárão;<br> + Os florecidos campos se seccárão;<br> + Intratavel se fez o valle e frio.<br> + Passou, como o verão, o ardente estio;<br> + Humas cousas por outras se trocárão:<br> + Os fementidos fados ja deixárão<br> + Do mundo o regimento, ou desvario.<br> + Ja o tempo a ordem sua t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e sabida;<br> + O mundo não; mas anda tão confuso,<br> + Que parece que delle Deos se esquece.<br> + Casos, opiniões, natura, e uso,<br> + Fazem que nos pareça desta vida<br> + Que não ha nella mais do que parece.<span class="pn" +><a name="pag_99">{99}</a></span></blockquote> + +<h4>CXCVI.</h4> + +<blockquote> + Vós outros, que buscais repouso certo<br> + Na vida, com diversos exercicios;<br> + A quem, vendo do mundo os beneficios,<br> + O regimento seu fica encoberto;<br> + Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto<br> + Novas honras e cegos sacrificios;<br> + Que, por castigo igual de antiguos vicios,<br> + Quer Deos que andem as cousas por acêrto.<br> + Não cahio neste modo de castigo<br> + Quem poz culpa á Fortuna, quem somente<br> + Crê que acontecimentos ha no mundo.<br> + A grande experiencia he grão perigo:<br> + Mas o que a Deos he justo e evidente<br> + Parece injusto aos homens e profundo.</blockquote> + +<h4>CXCVII.</h4> + +<blockquote> + Para se namorar do que criou,<br> + Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura.<br> + Vêde que tal seria esta feitura<br> + Que para si o seu Feitor guardou!<br> + No seu alto conceito te formou<br> + Primeiro que a primeira criatura,<br> + Para que unica fosse a compostura<br> + Que de tão longo tempo se estudou.<br> + Não sei se digo em tudo quanto baste<br> + Para exprimir as raras qualidades<br> + Que quiz criar em ti quem tu criaste.<br> + Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste<br> + Huma só, tres tão altas dignidades,<br> + Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste.<span class="pn" + ><a name="pag_100">{100}</a></span></blockquote> + +<h4>CXCVIII.</h4> + +<blockquote> + Desce do ceo immenso Deos benino<br> + Para encarnar na Virgem soberana.<br> + Porque desce o divino a cousa humana?<br> + Para subir o humano a ser divino.<br> + Pois como vem tão pobre e tão menino,<br> + Rendendo-se ao poder da mão tyrana?<br> + Porque vem receber morte inhumana<br> + Para pagar de Adão o desatino.<br> + He possivel que os dous o fructo comem<br> + Que de quem lhes deo tanto foi vedado?<br> + Si; porque o proprio ser de deoses tomem.<br> + E por esta razão foi humanado?<br> + Si; porque foi com causa decretado,<br> + Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem.</blockquote> + +<h4>CXCIX.</h4> + +<blockquote> + Dos ceos á terra desce a mor Belleza,<br> + Une-se á nossa carne, e a faz nobre;<br> + E, sendo a humanidade d'antes pobre,<br> + Hoje subida fica á mor riqueza.<br> + Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;<br> + Que, como ao mundo o seu amor descobre,<br> + De palhas vis o corpo tenro cobre,<br> + E por ellas o mesmo ceo despreza.<br> + Como? Deos em pobreza á terra dece?<br> + O qu'he mais pobre tanto lhe contenta,<br> + Qu'este somente rico lhe parece.<br> + Pobreza este Presepio representa;<br> + Mas tanto por ser pobre ja merece,<br> + Que quanto mais o he, mais lhe contenta.<span class="pn" + ><a name="pag_101">{101}</a></span></blockquote> + +<h4>CC.</h4> + +<blockquote> + Porque a tamanhas penas se offerece<br> + Por o peccado alheio, e êrro insano,<br> + O Trino Deos? Porque o sogeito humano<br> + Não póde co'o castigo que merece.<br> + Quem padecerá as penas que padece?<br> + Quem soffrerá deshonra, morte e dano?<br> + Quem será, se não for o Soberano<br> + Que reina, e servos manda, e obedece?<br> + Foi a fôrça do homem tão pequena,<br> + Que não pôde soster tanta aspereza,<br> + Pois não sosteve a Lei que Deos ordena.<br> + Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza<br> + Por amor puro; que a mortal fraqueza<br> + Foi para o êrro, e não ja para a pena.</blockquote> + +<h4>CCI.</h4> + +<blockquote> + Despois de haver chorado os meus tormentos,<br> + Quer Amor que lhe cante as suas glorias.<br> + Canto de huma belleza os vencimentos,<br> + De hum longo padecer chóro as memorias.<br> + Porém, se as minhas penas são victorias,<br> + Por a causa, a meus altos pensamentos;<br> + Dilatem-se em larguissimas historias<br> + Estes meus gloriosos rendimentos.<br> + Mova-se em todo o mundo unico espanto<br> + De qu'he, por a belleza qu'eu adoro,<br> + Do que cantado tenho premio o pranto.<br> + Contente offreço a amor tão triste foro:<br> + Que se chôro não ha como o meu canto,<br> + Não sei canto melhor qu'este meu chôro.<span class="pn" + ><a name="pag_102">{102}</a></span></blockquote> + +<h4>CCII.</h4> + +<blockquote> + Onde mereci eu tal pensamento<br> + Nunca de ser humano merecido?<br> + Onde mereci eu ficar vencido<br> + De quem tanto me honrou co'o vencimento?<br> + Em gloria se converte o meu tormento,<br> + Quando vendo-me estou tão bem perdido;<br> + Pois não foi tanto mal ser atrevido,<br> + Como foi gloria o mesmo atrevimento.<br> + Vivo, Senhora, só de contemplar-vos;<br> + E pois esta alma tenho tão rendida,<br> + Em lagrimas desfeito acabarei.<br> + Porque não me farão deixar de amar-vos<br> + Receios de perder por vós a vida;<br> + Que por vós vezes mil a perderei.</blockquote> + +<h4>CCIII.</h4> + +<blockquote> + De frescas belvederes rodeadas<br> + Estão as puras águas desta fonte;<br> + Formosas Nymphas lhes estão defronte,<br> + A vencer e a matar acostumadas.<br> + Andão contra Cupido levantadas<br> + As suas graças, que não ha quem conte:<br> + D'outro valle esquecidas, d'outro monte,<br> + A vida passão neste socegadas.<br> + O seu poder juntou, sua valia<br> + Amor, ja não soffrendo este desprêzo,<br> + Somente por se ver dellas vingado;<br> + Mas, vendo-as, entendeo que não podia<br> + De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo,<br> + E ficou-se com ellas desarmado.<span class="pn" ><a name="pag_103">{103}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCIV.</h4> + +<blockquote> + Nos braços de hum Sylvano adormecendo<br> + Se estava aquella Nympha qu'eu adoro,<br> + Pagando com a boca o doce foro,<br> + Com que os meus olhos foi escurecendo.<br> + Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo<br> + Que a maior formosura do teu côro<br> + Em hum poder tão vil perca o decoro<br> + Que o merito maior lhe está devendo?<br> + Eu levarei daqui por presupposto<br> + Desta nova estranheza que fizeste,<br> + Que em ti não póde haver cousa segura.<br> + Que, pois o claro lume, o bello rosto<br> + Áquelle monstro tão disforme déste,<br> + Não creio qu'haja Amor, senão Ventura.</blockquote> + +<h4>CCV.</h4> + +<blockquote> + Quem diz que Amor he falso, ou enganoso,<br> + Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,<br> + Sem falta lhe terá bem merecido<br> + Que lhe seja cruel, ou rigoroso,<br> + Amor he brando, he doce, e he piedoso:<br> + Quem o contrário diz não seja crido;<br> + Seja por cego e apaixonado tido,<br> + E aos homens, e inda aos deoses odioso.<br> + Se males faz Amor, em mi se vem;<br> + Em mi mostrando todo o seu rigor,<br> + Ao mundo quiz mostrar quanto podia.<br> + Mas todas suas iras são d'Amor;<br> + Todos estes seus males são hum bem,<br> + Qu'eu por todo outro bem não trocaria.<span class="pn" + ><a name="pag_104">{104}</a></span></blockquote> + +<h4>CCVI.</h4> + +<blockquote> + Formosa Beatriz, tendes taes geitos<br> + N'hum brando revolver dos olhos bellos,<br> + Que só no contemplá-los, se não ve-los,<br> + Se inflammão corações e humanos peitos.<br> + Em toda perfeição são tão perfeitos,<br> + Que o desengano dão de merecê-los:<br> + Não póde haver quem possa conhecê-los,<br> + Sem nelle Amor fazer grandes effeitos.<br> + Sentirão, por meu mal, tão graves danos<br> + Os meus, que com os ver cegos e tristes<br> + Ficarão sem prazer, co'a luz perdida.<br> + Mas ja que vós com elles me feristes,<br> + Tornai-me a ver com elles mais humanos,<br> + E deixareis curada esta ferida.</blockquote> + +<h4>CCVII.</h4> + +<blockquote> + Alegres campos, verdes, deleitosos,<br> + Suaves me serão vossas boninas,<br> + Em quanto forem vistas das meninas<br> + Dos olhos de Ignez bella tão formosos.<br> + Dos meus, que vos serão sempre invejosos<br> + Por não verem estrellas tão divinas,<br> + Sereis regados d'águas peregrinas,<br> + Soprados de suspiros amorosos.<br> + E vós, douradas flores, por ventura<br> + Se Ignez quizer fazer de meus amores<br> + Exp'riencias na folha derradeira,<br> + Mostrai-lhe, para ver minha fé pura,<br> + O bem que sempre quiz, formosas flores;<br> + Qu'então não sentirei que mal me queira.<span class="pn" + ><a name="pag_105">{105}</a></span></blockquote> + +<h4>CCVIII.</h4> + +<blockquote> + Ondados fios de ouro, onde enlaçado.<br> + Continuamente tenho o pensamento;<br> + Que quanto mais vos sólta o fresco vento,<br> + Mais preso fico então de meu cuidado;<br> + Amor, d'huns bellos olhos sempre armado,<br> + Me combate co'as fôrças do tormento,<br> + Provando da minha alma o soffrimento<br> + Que á justa lei da paz trago obrigado.<br> + Assi que em vosso gesto mais que humano<br> + Amo a paz juntamente e o perigo;<br> + E em amar hum e outro não me engano.<br> + Muitas vezes dizendo estou comigo<br> + Que, pois he tal a causa de meu dano,<br> + He justa a guerra, he justa a paz que sigo.</blockquote> + +<h4>CCIX.</h4> + +<blockquote> + Amor, que em sonhos vãos do pensamento<br> + Paga o zêlo maior de seu cuidado,<br> + Em toda condição, em todo estado,<br> + Tributario me fez de seu tormento.<br> + Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento<br> + De quanto tenho a Amor sacrificado,<br> + Nas mãos da ingratidão despedaçado<br> + Por prêza vai do eterno esquecimento.<br> + Mas quando muito, em fim, cresça o perigo,<br> + A que perpetuamente me condena<br> + Amor, que amor não he, mas inimigo;<br> + Tenho hum grande descanso em minha pena,<br> + Que a gloria do querer, que tanto sigo,<br> + Não póde ser co'os males mais pequena.<span class="pn" + ><a name="pag_106">{106}</a></span></blockquote> + +<h4>CCX.</h4> + +<blockquote> + Nem o tremendo estrépito da guerra<br> + Com armas, com incendios espantosos<br> + Que despachão pelouros perigosos,<br> + Bastantes a abalar huma alta serra,<br> + Podem pôr medo a quem nenhum encerra,<br> + Despois que vio os olhos tão formosos,<br> + Por quem o horror nos casos pavorosos<br> + De mi todo se aparta e se desterra,<br> + A vida posso ao fogo e ferro dar,<br> + E perdê-la em qualquer duro perigo,<br> + E nelle, como phenix, renovar.<br> + Não póde mal haver para comigo,<br> + De qu'eu ja me não possa bem livrar,<br> + Senão do que me ordena Amor imigo.</blockquote> + +<h4>CCXI.</h4> + +<blockquote> + Fiou-se o coração, de muito isento,<br> + De si, cuidando mal que tomaria<br> + Tão illicito amor, tal ousadia,<br> + Tal modo nunca visto de tormento.<br> + Mas os olhos pintárão tão a tento<br> + Outros que vistos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e na phantasia,<br> + Que a razão, temerosa do que via,<br> + Fugio, deixando o campo ao pensamento.<br> + Ó Hippolyto casto, que de geito<br> + De Phedra tua madrasta foste amado,<br> + Que não sabia ter nenhum respeito;<br> + Em mi vingou Amor teu casto peito:<br> + Mas está deste aggravo tão vingado,<br> + Que se arrepende ja do que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e feito.<span class="pn" + ><a name="pag_107">{107}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXII.</h4> + +<blockquote> + Quem quizer ver d'amor huma excellencia<br> + Onde sua fineza mais se apura,<br> + Attente onde me põe minha ventura,<br> + Porque de minha fé faça exp'riencia.<br> + Onde lembranças mata a larga ausencia,<br> + Em temeroso mar, em guerra dura,<br> + A saudade alli'stá mais segura,<br> + Quando risco maior corre a paciencia.<br> + Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado,<br> + Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição,<br> + Ou em sublime e próspera ventura;<br> + Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado;<br> + Que até na dura morte me acharão<br> + Na lingua o nome, e n'alma a vista pura.</blockquote> + +<h4>CCXIII.</h4> + +<blockquote> + Los ojos que con blando movimiento<br> + Al pasar enternecen la alma mia,<br> + Si detener pudiera solo un dia,<br> + Pudiera bien libraria de tormento.<br> + Deste tan amoroso sentimiento<br> + El importuno mal se acabaria;<br> + Ó tambien su accidente creceria<br> + Para acabar la vida en un momento.<br> + Oh! si ya tu esquivez me permitiese<br> + Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso,<br> + A manos de tus ojos yo muriese!<br> + Oh si los detuvieras! cuan dichoso<br> + Seria aquel momento en que me viese<br> + Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!<span class="pn" + ><a name="pag_108">{108}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXIV.</h4> + +<blockquote> + No bastaba que amor puro y ardiente<br> + Por términos la vida me quitase;<br> + Mas que la muerte así se apresurase<br> + Con un deshumanisimo accidente?<br> + No pretendió mi alma, aunque lo siente,<br> + Que el riguroso curso se atajase,<br> + Porque nunca morir se exprimentase<br> + Desamado el que amó tan dulcemente.<br> + Mas vuestra voluntad tan poderosa<br> + Con esas gracias vuestras ordenaron<br> + Crueldad asi imposible, ó nunca oída.<br> + Aquel frio desden, y la amorosa<br> + Furia, de un golpe solo, me quitaron<br> + Con dós contrarias muertes una vida.</blockquote> + +<h4>CCXV.</h4> + +<blockquote> + Ayudame, Señora, á hacer venganza<br> + De tal selvatiquez, de tal rudeza,<br> + Pues de mi poquedad, de mi bajeza<br> + Osado á ti elevaba la esperanza.<br> + Á esa tu perfeccion, que no se alcanza,<br> + Á esas sublimes cumbres de belleza,<br> + Donde una vez llegó naturaleza,<br> + Mas de volver perdió la confianza.<br> + Aquello que en ti miro contemplando,<br> + (Que apenas contemplarlo me consiente)<br> + Contemplándolo mas, menos lo espero.<br> + Si gloria de mi pena en ti se siente,<br> + Derrama en mí tus iras, desamando;<br> + Que al ofenderme mas yo mas te quiero.<span class="pn" + ><a name="pag_109">{109}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXVI.</h4> + +<blockquote> + O claras águas deste blando rio,<br> + Que en vos al natural estais pintando<br> + El frondífero adorno con que alzando<br> + Se vá á los cielos este bosque umbrio;<br> + Así las lluvias, así el Austro frio<br> + Jamás puedan veniros enturbiando,<br> + Que os vais del seco estio preservando<br> + Con socorreros deste llanto mio.<br> + Y cuando en vos Marfisa se mirare,<br> + Mi figura, cual veis desfallecida,<br> + Ante sus claros ojos puesta sea.<br> + Y si por mí de vos los apartare,<br> + De verme alli mostrándose ofendida,<br> + En pena de no verme no se vea.</blockquote> + +<h4>CCXVII.</h4> + +<blockquote> + Mil veces entre sueños tu figura,<br> + O bella Ninfa, claramente veo;<br> + Y cuando mas la miro, mas deseo<br> + Gozar libre de sueños su hermosura.<br> + En tanto que este dulce engaño dura,<br> + Vivo en la vana gloria que poseo:<br> + Mas cuanto allí se eleva mi deseo,<br> + Viene a caer despierto en sombra escura.<br> + Duéleme el despertar por contemplarte;<br> + Que si bien sé te huelgas de no verme,<br> + Huélgome de ser ciego por mirarte.<br> + Mas si quiero de engaños mantenerme,<br> + Y tú quieres me pierda por amarte,<br> + Sin gran ganancia no podré perderme.<span class="pn" + ><a name="pag_110">{110}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXVIII.</h4> + +<blockquote> + Mi gusto y tu beldad se desposaron,<br> + Terceros por mi mal mis ojos fueron:<br> + Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron<br> + Un hijo hermoso á quien amor llamaron.<br> + Tan fuera de compás le regalaron,<br> + Que cuando mas alegres estuvieron,<br> + Sin entender el mal que produjeron,<br> + Perdidos por amores se miraron.<br> + La beldad desposada deste duelo,<br> + Vino á parir un monstro con dós alas;<br> + La madre es la soberbia, el niño el zelo.<br> + Oh madre que á tu hijo en todo igualas!<br> + Quien mortal hace al inmortal abuelo,<br> + Y al padre mortal da inmortales zalas?</blockquote> + +<h4>CCXIX.</h4> + +<blockquote> + Si el fuego que me enciende, consumido<br> + De algun mas suelto Aquario ser pudiese;<br> + Si el alto suspirar me convertiese<br> + En aire por el aire desparcido;<br> + Si un horrible rumor siendo sentido,<br> + La alma á dejar el cuerpo redujese;<br> + Ó por estos mis ojos al mar fuese<br> + Este mi cuerpo en llanto convertido;<br> + Nunca podria la fortuna airada,<br> + Com todos sus horrores, sus espantos,<br> + Derrocar la alma mia de su gloria.<br> + Porque en vuestra beldad ya transformada,<br> + Ni del Estigio lago eternos llantos<br> + Os podrian quitar de mi memoria.<span class="pn" ><a name="pag_111">{111}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXX.</h4> + +<blockquote> + Que me quereis perpétuas saudades?<br> + Com qu'esperanças inda me enganais?<br> + O tempo, que se vai, não torna mais,<br> + E se torna, não tornão as idades.<br> + Razão he ja, ó annos, que vos vades,<br> + Porque estes tão ligeiros que passais,<br> + Nem todos para hum gôsto sois iguais,<br> + Nem sempre são conformes as vontades.<br> + Aquillo a que ja quiz he tão mudado,<br> + Que quasi he outra cousa; porque os dias<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o primeiro gôsto ja damnado.<br> + Esperanças de novas alegrias,<br> + Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado,<br> + Que do contentamento são espias.</blockquote> + +<h4>CCXXI.</h4> + +<blockquote> + Oh rigorosa ausencia desejada<br> + De mi sempre, mas nunca conhecida!<br> + Saudade, n'outro tempo tão temida,<br> + Como em meu damno agora exprimentada!<br> + Ja rigorosamente começada<br> + Tendes vossa esperança em minha vida;<br> + Mas tanto, que ja temo que opprimida<br> + Sejais com ella cedo, ou acabada.<br> + Os dias mais alegres me entristecem;<br> + As noites, com cuidados as desconto,<br> + Em que sem vós sem conto me parecem.<br> + Eu desejando espero, e os annos conto;<br> + Mas com a vida, em fim, elles fallecem:<br> + Nem basta á carne enfêrma esprito pronto.<span class="pn" + ><a name="pag_112">{112}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXII.</h4> + +<blockquote> + Ay! quien dará á mis ojos una fuente<br> + De lágrimas que manen noche y dia?<br> + Respirara si quiera la alma mia,<br> + Llorando lo pasado, y lo presente.<br> + Quien me diera apartado de la gente,<br> + De mi dolor siguiendo la porfia<br> + Con la triste memoria y fantasia<br> + Del bien por quien mal tanto así se siente!<br> + Quien me dará palabras con que iguale<br> + El duro agravio que el amor me ha hecho,<br> + Donde tan poco el sufrimiento vale?<br> + Quien me abrirá profundamente el pecho,<br> + Dó está escrito el secreto que no sale,<br> + Con tanto dolor mio, á mi despecho?</blockquote> + +<h4>CCXXIII.</h4> + +<blockquote> + Con razon os vais, aguas, fatigando<br> + Por llegar dó sereis bien recebidas;<br> + Y en aquel mar inmenso convertidas,<br> + Que ya de tantos dias vais buscando.<br> + Triste de aquel que siempre anda llorando<br> + Las vanas esperanzas ya perdidas,<br> + Y con dolor las lágrimas vertidas<br> + Nunca al fin pretendido van llegando!<br> + Vosotras sin traer derecha via,<br> + Al término llegais tan deseado,<br> + Por mas que os embarace el gran rodeo;<br> + Mas yo siempre afligido noche y dia,<br> + Por un camino, que no llevo errado,<br> + Jamás puedo llegar donde deseo.<span class="pn" ><a name="pag_113">{113}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXXIV.</h4> + +<blockquote> + Oh cese ya, Señor, tu dura mano!<br> + No llegues tanto al cabo con mi vida;<br> + Baste el estar por ti tan consumida,<br> + Que ya no se halla en ella lugar sano.<br> + Ay estraña hermosura! ay deshumano<br> + Hado, á que nunca puedo hallar salida!<br> + Si tú de tu piedad no eres movida,<br> + Roto el hilo vital verás temprano.<br> + Un blando desamor, un amor blando,<br> + Bien basta para un hombre tan perdido,<br> + Que de su mal ningun remedio espera.<br> + Y si estimas en poco el ver cual ando,<br> + Aqui me tienes ante ti rendido:<br> + Viva tu gusto, mi esperanza muera.</blockquote> + +<h4>CCXXV.</h4> + +<blockquote> + Dulces engaños de mis ojos tristes,<br> + Cuan vivo despertais mi pensamiento!<br> + Aquello que pudiera dar contento,<br> + En sombra de pintura lo volvistes.<br> + De blando sobresalto enternecistes<br> + Con vista arrebatada el sentimiento;<br> + Mas no le asegurastes un momento<br> + Aqueste vano bien que le ofrecistes.<br> + Veo que la figura era fingida,<br> + Y no aquella que en sí mi alma esconde,<br> + Aunque en esto se llega al natural:<br> + Así escucha mi llanto, así responde,<br> + Así se condolece de mi vida,<br> + Como si fuera el propio original.<span class="pn" ><a name="pag_114">{114}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXXVI.</h4> + +<blockquote> + Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste,<br> + Como si alguno alegre yo esperara?<br> + Como, o Tajo, al pasar esa tu clara<br> + Agua, no la alteraste, y no me hundiste?<br> + El paso me cerraste, el pecho abriste,<br> + O mi ventura, de mi bien avara!<br> + Á Dios, montañas de hermosura rara;<br> + Á Dios, mi corazon, que no partiste.<br> + Si adonde quedas en dichosa suerte<br> + No bebieres las aguas del olvido,<br> + En tanto bien no quieras olvidarme.<br> + Cantando mi dolor llora mi muerte;<br> + Porque hasta el hueco monte sin sentido<br> + Suelta su ronca voz por consolarme.</blockquote> + +<h4>CCXXVII.</h4> + +<blockquote> + Levantai, minhas Tagides, a frente,<br> + Deixando o Tejo ás sombras nemorosas;<br> + Dourai o valle umbroso, as frescas rosas,<br> + E o monte com as árvores frondente.<br> + Fique de vós hum pouco o rio ausente,<br> + Cessem agora as lyras numerosas,<br> + Cesse vosso lavor, Nymphas formosas,<br> + Cesse da fonte vossa a grã corrente.<br> + Vinde a ver a Theodosio grande e claro,<br> + A quem 'stá offrecendo maior canto<br> + Na cithara dourada o louro Apolo.<br> + Minerva do saber dá-lhe o dom raro,<br> + Pallas lhe dá o valor de mais espanto,<br> + E a Fama o leva ja de pólo a pólo.<span class="pn" +><a name="pag_115">{115}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Vós, Nymphas da Gangetica espessura,<br> + Cantae suavemente, em voz sonora,<br> + Hum grande Capitão que a roxa Aurora<br> + Dos filhos defendeo da noite escura.<br> + Ajuntou-se a caterva negra e dura,<br> + Que na Aurea Chersoneso affouta mora,<br> + Para lançar do charo ninho fóra<br> + Aquelles que mais podem que a ventura.<br> + Mas hum forte leão, com pouca gente,<br> + A multidão tão fera como necia,<br> + Destruindo castiga e torna fraca.<br> + Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente<br> + Mais do que Leonidas fez em Grecia,<br> + O nobre Leoniz fez em Malaca.</blockquote> + +<h4>CCXXIX.</h4> + +<blockquote> + Alma gentil, que á firme eternidade<br> + Subiste clara e valerosamente,<br> + Cá durará de ti perpetuamente<br> + A fama, a gloria, o nome e a saudade.<br> + Não sei se he mor espanto em tal idade<br> + Deixar de teu valor inveja á gente,<br> + Se hum peito de diamante, ou de serpente,<br> + Fazeres que se mova a piedade.<br> + Invejosa da tua acho mil sortes,<br> + E a minha mais que todas invejosa,<br> + Pois ao teu mal o meu tanto igualaste.<br> + Oh ditoso morrer! sorte ditosa!<br> + Pois o que não se alcança com mil mortes,<br> + Tu com huma só morte o alcançaste.<span class="pn" +><a name="pag_116">{116}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXX.</h4> + +<blockquote> + Debaixo desta pedra sepultada<br> + Jaz do mundo a mais nobre formosura,<br> + A quem a morte, só de inveja pura,<br> + Sem tempo sua vida t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e roubada,<br> + Sem ter respeito áquella assi estremada<br> + Gentileza de luz, que a noite escura<br> + Tornava em claro dia; cuja alvura<br> + Do sol a clara luz tinha eclipsada.<br> + Do sol peitada foste, cruel morte,<br> + Para o livrar de quem o escurecia;<br> + E da lua, que ante ella luz não tinha.<br> + Como de tal poder tiveste sorte?<br> + E se a tiveste, como tão asinha<br> + Tornaste a luz do mundo em terra fria?</blockquote> + +<h4>CCXXXI.</h4> + +<blockquote> + Imagens vãas me imprime a phantasia;<br> + Discursos novos acha o pensamento;<br> + Com que dão á minha alma grão tormento<br> + Cuidados de cem annos n'hum só dia.<br> + Se fim grande tivessem, bem sería<br> + Responder a esperança ao fundamento:<br> + Mas o fado não corre tão a tento,<br> + Que reserve á razão sua valia.<br> + Caso e Fortuna pódem acertar;<br> + Mas se por accidente dão victoria,<br> + Sempre o favor da Fama he falsa historia.<br> + Excede ao saber, determinar:<br> + Á constancia se deve toda a gloria:<br> + O ânimo livre he digno de memoria.<span class="pn" +><a name="pag_117">{117}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXXII.</h4> + +<blockquote> + Quanta incerta esperança, quanto engano!<br> + Quanto viver de falsos pensamentos!<br> + Pois todos vão fazer seus fundamentos<br> + Só no mesmo em qu'está seu proprio dano.<br> + Na incerta vida estribão de hum humano;<br> + Dão credito a palavras que são ventos;<br> + Chórão despois as horas e os momentos,<br> + Que rírão com mais gôsto em todo o ano.<br> + Não haja em apparencias confianças;<br> + Entendei que o viver he de emprestado;<br> + Que o de que vive o mundo são mudanças.<br> + Mudai, pois, o sentido e o cuidado,<br> + Somente amando aquellas esperanças<br> + Que durão para sempre com o amado.</blockquote> + +<h4>CCXXXIII.</h4> + +<blockquote> + Mal, que de tempo em tempo vás crescendo,<br> + Quem te visse de hum bem acompanhado!<br> + A vida passaria descansado,<br> + Da morte não temêra o rosto horrendo.<br> + Se os vãos cuidados fôra convertendo<br> + Em suspiros que dão outro cuidado,<br> + Oh quão prudente, oh quão affortunado<br> + A capella do louro irá tecendo!<br> + Tempo he ja de esquecer contentamentos<br> + Passados, co'a esperança que passou,<br> + E de que triumphem novos pensamentos.<br> + A fé, que viva n'alma me ficou,<br> + Dê ja fim aos caducos ardimentos<br> + A que o passado bem se condemnou.<span class="pn" ><a name="pag_118">{118}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXXXIV.</h4> + +<blockquote> + Oh quanto melhor he o supremo dia<br> + Da mansa morte, que o do nascimento!<br> + Oh quanto melhor he hum só momento,<br> + Que livra de annos tantos de agonia!<br> + De alcançar outro bem cesse a porfia;<br> + Cesse todo applicado pensamento<br> + De tudo quanto dá contentamento,<br> + Pois só contenta ao corpo a terra fria.<br> + O que do seu fez Deos seu despenseiro,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mais estreita conta que lhe dar:<br> + Então parece rico o ovelheiro.<br> + Triste de quem no dia derradeiro<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o suor alheio por pagar,<br> + Pois a alma ha de vender por o dinheiro!</blockquote> + +<h4>CCXXXV.</h4> + +<blockquote> + Como podes (oh cego peccador!)<br> + Estar em teus errores tão isento,<br> + Sabendo que esta vida he hum momento,<br> + Se comparada com a eterna for?<br> + Não cuides tu que o justo Julgador<br> + Deixará tuas culpas sem tormento,<br> + Nem que passando vai o tempo lento<br> + Do dia de horrendíssimo pavor.<br> + Não gastes horas, dias, mezes, anos,<br> + Em seguir de teus damnos a amisade<br> + De que despois resultão mores danos.<br> + E pois de teus enganos a verdade<br> + Conheces, deixa ja tantos enganos,<br> + Pedindo a Deos perdão com humildade.<span class="pn" + ><a name="pag_119">{119}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXXVI.</h4> + +<blockquote> + Verdade, Amor, Razão, Merecimento,<br> + Qualquer alma farão segura e forte;<br> + Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e do confuso mundo o regimento.<br> + Effeitos mil revolve o pensamento,<br> + E não sabe a que causa se reporte:<br> + Mas sabe que o que he mais que vida e morte<br> + Não se alcança de humano entendimento.<br> + Doctos varões darão razões subidas;<br> + Mas são as exp'riencias mais provadas:<br> + E por tanto he melhor ter muito visto.<br> + Cousas ha hi que passão sem ser cridas:<br> + E cousas cridas ha sem ser passadas.<br> + Mas o melhor de tudo he crer em Christo.</blockquote> + +<h4>CCXXXVII.</h4> + +<blockquote> + De Babel sôbre os rios nos sentámos,<br> + De nossa doce patria desterrados,<br> + As mãos na face, os olhos derribados,<br> + Com saudades de ti, Sião, chorámos.<br> + Os orgãos nos salgueiros pendurámos,<br> + Em outro tempo bem de nós tocados;<br> + Outro era elle, por certo, outros cuidados;<br> + Mas por deixar saudades os deixâmos.<br> + Aquelles que captivos nos trazião<br> + Por cantigas alegres perguntavão:<br> + Cantai (nos dizem) hymnos de Sião.<br> + Sôbre tal pena, pena tal nos dão,<br> + Pois tyranicamente pretendião<br> + Que cantassem aquelles que choravão.<span class="pn" + ><a name="pag_120">{120}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Sôbre os rios do Reino escuro, quando<br> + Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão,<br> + Lagrimas nossos olhos derramárão,<br> + Por ti, Sião divina, suspirando,<br> + Os que hião nossas almas infestando,<br> + De contino em error, as captivárão;<br> + E em vão por nossos Psalmos perguntárão;<br> + Que tudo era silencio miserando.<br> + Dizendo estamos: Como cantaremos<br> + As acceitas canções a Deos benino,<br> + Quando a contrarios seus obedecemos?<br> + Mas ja, Senhor só Santo, determino,<br> + Deixando viciosissimos extremos,<br> + Os cantos proseguir de Amor Divino.</blockquote> + +<h4>CCXXXIX.</h4> + +<blockquote> + Em Babylonia sôbre os rios, quando<br> + De ti, Sião sagrada, nos lembrámos,<br> + Alli com grã saudade nos sentámos,<br> + O bem perdido, miseros, chorando.<br> + Os instrumentos musicos deixando,<br> + Nos estranhos salgueiros pendurámos,<br> + Quando aos cantares, que ja em ti cantámos,<br> + Nos estavão imigos incitando.<br> + Ás esquadras dizemos inimigas:<br> + Como hemos de cantar em terra alhea<br> + As cantigas de Deos, sacras cantigas?<br> + Se a lembrança eu perder que me recrea<br> + Cá nestas penosissimas fadigas,<br> + <em>Oblivioni detur dextra mea.</em><span class="pn" + ><a name="pag_121">{121}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXL.</h4> + +<blockquote> + Aponta a bella Aurora, luz primeira,<br> + Que a grã nova nos deo do claro dia:<br> + Vesti-vos, corações, ja de alegria,<br> + E recebei da vida a Mensageira.<br> + Da humana Redempção nasce a Terceira:<br> + Alegra-te, Divina Monarchia;<br> + Da terra terás cedo a companhia,<br> + Do ceo verás tambem a nossa feira.<br> + De tal obra se espanta a natureza,<br> + Confuso fica de temor o inferno,<br> + Vendo a que nasce isenta da defeza.<br> + Lei geral era posta desde eterno;<br> + Mas o Senhor da Lei toda limpeza<br> + Para o Sacrario seu guardou Materno.</blockquote> + +<h4>CCXLI.</h4> + +<blockquote> + Porque a terra no ceo agasalhasse,<br> + O ceo na terra Deos agasalhou:<br> + Lá não cabendo, cá se accommodou,<br> + Porque lá, de cá indo, se alargasse.<br> + Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse,<br> + Por o homem a ser homem Deos chegou:<br> + Seu divino poder tanto humanou,<br> + Porque o humano em divino se tornasse.<br> + Vêde bem o que deo e recebeo:<br> + Não se perca hum bem tanto da memoria:<br> + Deo-nos a vida, a morte padeceo.<br> + Trocou por nossa pena a sua gloria;<br> + Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo;<br> + Porque amor foi auctor desta victoria.<span class="pn" + ><a name="pag_122">{122}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXLII.</h4> + +<blockquote> + Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.<br> + Para quem? Para o genero he humano.<br> + Que faz delle? Hum remedio soberano.<br> + Para que? Para a culpa e triste pranto.<br> + E que obra? Reduzir Lusbel a espanto.<br> + Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano.<br> + Que foi? A morte deo com hum engano.<br> + Tanto pôde? Sem falta pôde tanto.<br> + Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo.<br> + A que desce? A subir a creatura.<br> + Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo.<br> + He escada para ir lá? E a mais segura.<br> + Quem o obrigou? De amor só se venceo.<br> + Que amava este Feitor? Sua feitura.</blockquote> + +<h4>CCXLIII.</h4> + +<blockquote> + Oh Arma unicamente só triumphante,<br> + Propugnaculo só de nossas vidas,<br> + Por quem forão ganhadas as perdidas<br> + Com que o Tartaro horrendo andava ovante!<br> + Sigua-se esta bandeira militante<br> + Por quem são taes victorias conseguidas,<br> + Por quantas almas, della divertidas,<br> + No Ponente errão cá, lá no Levante.<br> + Oh Arvore sublime, e marchetada<br> + De branco e carmesi, de ouro embutida,<br> + Dos rubis mais preciosos esmaltada,<br> + E de trophéos mais claros guarnecida!<br> + Á vida a morte vimos em ti dada,<br> + Para qu'em ti se désse á morte a vida.<span class="pn" + ><a name="pag_123">{123}</a></span></blockquote> + +<h4>CCXLIV.</h4> + +<blockquote> + Aos homens hum só homem poz espanto,<br> + E o poz a toda a humana natureza;<br> + Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,<br> + Porqu'antes que nascesse era ja Santo.<br> + Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto,<br> + Qu'entre os nascidos houve a mor alteza;<br> + Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza,<br> + Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto.<br> + Aquella voz foi elle sonorosa,<br> + No concavo dos Orbes resonante,<br> + E que a Carne inculpavel baptizou;<br> + Quem do mor Pae ouvio a voz amante;<br> + Quem a subtil pergunta industriosa<br> + Com sincera resposta socegou.</blockquote> + +<h4>CCXLV.</h4> + +<blockquote> + Vós só podeis, sagrado Evangelista,<br> + Angelico abrazado Seraphim,<br> + E na sciencia mais alto Cherubim,<br> + Do que he mais sabio Amor ser Coronista.<br> + Divina e real Aguia, cuja vista<br> + Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim,<br> + De Jacob mais querido Benjamim,<br> + Quem mais campêa de Joseph na lista.<br> + Apostolo, e Propheta, e Patriarca,<br> + Ao Principe dos Ceos o mais acceito,<br> + Qu'em seu seio dormindo então mais via.<br> + A quem o mesmo Deos por irmão marca;<br> + Quem por filho da Mãe unica feito,<br> + Em corpo e alma goza o claro dia.<span class="pn" ><a name="pag_124">{124}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXLVI.</h4> + +<blockquote> + Como louvarei eu, Seraphim santo,<br> + Tanta humildade, tanta penitencia,<br> + Castidade, e pobreza, e paciencia,<br> + Com este meu inculto e rudo canto?<br> + Argumento que ás Musas põe espanto,<br> + Que faz muda a grandiloqua eloquencia.<br> + Oh imagem, qu'a Divina Providencia<br> + De si viva em vós fez para bem tanto!<br> + Fostes de Santos huma rara mina;<br> + Almas de mil a mil ao ceo mandastes<br> + Do mundo, que perdido reformastes.<br> + E não roubaveis só com a doutrina<br> + As vontades mortaes, mas a Divina;<br> + Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.</blockquote> + +<h4>CCXLVII.</h4> + +<blockquote> + Ditosas almas, que ambas juntamente<br> + Ao ceo de Venus e de Amor voastes,<br> + Onde hum bem que tão breve cá lograstes,<br> + Estais logrando agora eternamente;<br> + Aquelle estado vosso tão contente,<br> + Que só por durar pouco triste achastes,<br> + Por outro mais contente ja o trocastes,<br> + Onde sem sobresalto o bem se sente.<br> + Triste de quem cá vive tão cercado,<br> + Na amorosa fineza, de hum tormento<br> + Que a gloria lhe perturba mais crescida!<br> + Triste, pois me não val o soffrimento,<br> + E Amor para mais damno me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e dado<br> + Para tão duro mal tão larga vida!<span class="pn" ><a name="pag_125">{125}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCXLVIII.</h4> + +<blockquote> + Contente vivi ja, vendo-me isento<br> + Deste mal de que a muitos queixar via:<br> + Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria<br> + Discordia e semrazão, guerra e tormento.<br> + Enganou-me co'o nome o pensamento:<br> + (Quem com tal nome não se enganaria?)<br> + Agora tal estou, que temo hum dia<br> + Em que venha a faltar-me o soffrimento.<br> + Com desesperação, e com desejo<br> + Me paga o que por elle estou passando,<br> + E inda está do meu mal mal satisfeito.<br> + Pois sôbre tantos damnos inda vejo<br> + Para dar-me outros mil hum olhar brando,<br> + E para os não curar hum duro peito.</blockquote> + +<h4>CCXLIX.</h4> + +<blockquote> + Deixa Apollo o correr tão apressado,<br> + Não sigas essa Nympha tão ufano:<br> + Não te leva o amor, leva-te o engano<br> + Com sombras de algum bem a mal dobrado.<br> + E quando seja amor, será forçado;<br> + E se forçado for, será teu dano.<br> + Hum parecer não queiras mais que humano<br> + Em hum sylvestre adôrno ver tornado.<br> + Não percas por hum vão contentamento<br> + A vista que te faz viver contente;<br> + Modera em teu favor o pensamento.<br> + Porque menos mal he, tendo-a presente,<br> + Soffrer sua crueza, e teu tormento,<br> + Que sentir sua ausencia eternamente.<span class="pn" + ><a name="pag_126">{126}</a></span></blockquote> + +<h4>CCL.</h4> + +<blockquote> + Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,<br> + Nos valles, e nos montes, teus louvores<br> + Sempre te cantem musicos pastores<br> + Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.<br> + E neste Templo donde manifestas<br> + E repartes agora teus favores,<br> + Com Psalmos, hymnos, e com varias flores<br> + Sejão celebres sempre as tuas festas.<br> + Estes te offreção pés, ess'outros mãos;<br> + D'aquelles pendão sôbre os teus altares<br> + Monstros do mar, de servidão prisões.<br> + Que eu cuidados, enganos e affeições,<br> + Muito maiores monstros, e milhares<br> + Te deixo aqui de pensamentos vãos.</blockquote> + +<h4>CCLI.</h4> + +<blockquote> + Vi queixosos de Amor mil namorados,<br> + E nenhuns inda vi com seus louvores;<br> + E aquelle que mais chora o mal de amores,<br> + Vejo menos fugir de seus cuidados.<br> + Se das dores de Amor sois mal tratados,<br> + Porque tanto buscais de Amor as dores?<br> + E se tambem as tendes por favores,<br> + Porque dellas fallais como aggravados?<br> + Não queirais alegria achar alg<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a<br> + No Amor, porque he composto de tristeza,<br> + Na fortuna que acheis mais agradavel.<br> + Nella e nelle achei sempre a mesma l<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a,<br> + Em quem nunca se vio outra firmeza,<br> + Que não seja a de ser sempre mudavel.<span class="pn" + ><a name="pag_127">{127}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLII.</h4> + +<blockquote> + Se lagrimas choradas de verdade<br> + O marmore abrandar podem mais duro,<br> + Porque as minhas que nascem de amor puro<br> + Hum coração não rendem a piedade?<br> + Por vós perdi, Senhora, a liberdade,<br> + E nem da propria vida estou seguro.<br> + Rompei desse rigor o forte muro,<br> + Não passe tanto avante a crueldade.<br> + Ao prezar de desprezos dae ja fim:<br> + Não vos chamem cruel; nome devido<br> + A quem se ri de quem suspira e ama.<br> + Abrandai esse peito endurecido,<br> + Por o que toca a vós, ja não por mim,<br> + Que eu aventuro a vida, e vós a fama.</blockquote> + +<h4>CCLIII.</h4> + +<blockquote> + Ja me fundei em vãos contentamentos,<br> + Quando delles vivi todo enganado<br> + De hum phantastico bem, e de hum cuidado,<br> + De que só cuidão cegos pensamentos.<br> + Passava dias, horas e momentos,<br> + Deste enleio de amores tão pagado,<br> + Que tinha só por bem-aventurado<br> + Quem só por elles mais bebia os ventos.<br> + Mas agora que ja cahi na conta,<br> + Desengana-me quanto me enganava;<br> + Que tudo o tempo dá, tudo descobre.<br> + O Amor mais caudaloso menos monta.<br> + Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava,<br> + Aquelle que de amores he mais pobre.<span class="pn" + ><a name="pag_128">{128}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLIV.</h4> + +<blockquote> + Em huma lapa toda tenebrosa,<br> + Adonde bate o mar com furia brava,<br> + Sôbre h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mão o rosto, vi qu'estava<br> + Huma Nympha gentil, mas cuidadosa.<br> + Igualmente que linda, lastimosa,<br> + Aljofar dos seus olhos distillava:<br> + O mar os seus furores applacava<br> + Com ver cousa tão triste e tão formosa.<br> + Alguma vez na horrivel penedia<br> + Os bellos olhos punha com brandura,<br> + Bastante a desfazer sua dureza.<br> + Com angelica voz assi dizia:<br> + Ah! que falte mais vezes a ventura<br> + Onde sobeja mais a natureza!</blockquote> + +<h4>CCLV.</h4> + +<blockquote> + Se em mim, ó alma, vive mais lembrança<br> + Que aquella só da gloria de querer-vos,<br> + Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos,<br> + E de ver-vos tambem toda a esperança.<br> + Veja-se em mi tão rustica esquivança,<br> + Que possa indigno ser de conhecer-vos;<br> + E, quando em mor empenho de aprazer-vos,<br> + Vos offenda, se em mi houver mudança.<br> + Confirmado estou ja nesta certeza:<br> + Examine-me vossa crueldade,<br> + Exprimente-se em mi vossa dureza.<br> + Conhecei ja de mi tanta verdade;<br> + Pois em penhor e fé desta pureza<br> + Tributo vos fiz ser o que he vontade.<span class="pn" + ><a name="pag_129">{129}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLVI.</h4> + +<blockquote> + Ilustre Gracia, nombre de una moza,<br> + Primera malhechora en este caso<br> + Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso,<br> + Sugeto digno de immortal coroza;<br> + Si en medio de la Iglesia no reboza<br> + El manto á vuestro rostro tan devaso,<br> + Por vos dirán las gentes recio y paso:<br> + Veis quien con el demonio se retoza.<br> + Puede mover los montes sin trabajo;<br> + Con palabras el curso al agua enfrena;<br> + Por las ondas hará camino enjuto.<br> + Averguenza su patria y rico Tajo,<br> + Que por ella hombres lleva, mas que arena,<br> + De que paga al infierno gran tributo.</blockquote> + +<h4>CCLVII.</h4> + +<blockquote> + Qual t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e a borboleta por costume,<br> + Qu'enlevada na luz da acesa vella,<br> + Dando vai voltas mil, até que nella<br> + Se queima agora, agora se consume:<br> + Tal eu correndo vou ao vivo lume<br> + D'esses olhos gentis, Aonia bella;<br> + E abrazo-me, por mais que com cautella<br> + Livrar-me a parte racional presume.<br> + Conheço o muito a que se atreve a vista,<br> + O quanto se levanta o pensamento,<br> + O como vou morrendo claramente;<br> + Porém não quer Amor que lhe resista,<br> + Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento,<br> + Qual em gloria maior está contente.<span class="pn" + ><a name="pag_130">{130}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLVIII.</h4> + +<blockquote> + Lembranças de meu bem, doces lembranças<br> + Que tão vivas estais nesta alma minha,<br> + Não queirais mais de mi, se os bens que tinha<br> + Em poder vêdes todos de mudanças.<br> + Ai cego Amor! ai mortas esperanças<br> + De qu'eu em outro tempo me matinha!<br> + Agora deixareis quem vos sostinha;<br> + Acabarão co'a vida as confianças.<br> + Co'a vida acabarão, pois a ventura<br> + Me roubou n'hum momento aquella gloria,<br> + Que, quando tão grande he, tão pouco dura.<br> + Oh se apoz o prazer fôra a memoria!<br> + Ao menos estivera a alma segura<br> + De ganhar-se com ella mais victoria.</blockquote> + +<h4>CCLIX.</h4> + +<blockquote> + Formosos olhos, que cuidado dais<br> + Á mesma luz do sol mais clara e pura;<br> + Que sua esclarecida formosura,<br> + Com tanta gloria vossa, atraz deixais;<br> + Se por serdes tão bellos desprezais<br> + A fineza de amor que vos procura,<br> + Pois tanto vêdes, vêde que não dura<br> + O vosso resplandor quanto cuidais.<br> + Colhei, colhei do tempo fugitivo<br> + E de vossa belleza o doce fruto;<br> + Qu'em vão fóra de tempo he desejado.<br> + E a mi, que por vós morro, e por vós vivo,<br> + Fazei pagar a Amor o seu tributo,<br> + Contente de por vós lho haver pagado.<span class="pn" + ><a name="pag_131">{131}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLX.</h4> + +<blockquote> + Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes,<br> + En lágrimas tratais la noche el dia,<br> + Mirad si es lágrima esta que os envia<br> + Aquel sol por quien vos tantas vertistes.<br> + Si vos me asegurais, pues ya la vistes,<br> + Que es lágrima, será ventura mia;<br> + Por empleadas bien desde hoy tendria<br> + Las muchas que por ella sola distes.<br> + Mas cualquier cosa mucho deseada,<br> + Aunque viendo se esté, nunca es creida;<br> + Y menos esta, nunca imaginada.<br> + Pero della aseguro, si es fingida,<br> + Que basta ser por lágrima enviada,<br> + Para que sea por lágrima tenida.</blockquote> + +<h4>CCLXI.</h4> + +<blockquote> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e feito os olhos neste apartamento<br> + Hum mar de saudosa tempestade,<br> + Que póde dar saudade á saudade,<br> + Sentimentos ao proprio sentimento.<br> + Em dor vai convertido o soffrimento,<br> + Em pena convertida a piedade;<br> + A razão tão vencida da vontade,<br> + Qu'escravo faz do mal o entendimento.<br> + A lingua não alcança o qu'a alma sente.<br> + E assi, se alguem quizer em algum'hora<br> + Saber que cousa he dor não comprehendida,<br> + Parta-se do seu bem, porque exprimente<br> + Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra<br> + Partir-se do viver para ter vida.<span class="pn" ><a name="pag_132">{132}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCLXII.</h4> + +<blockquote> + A peregrinação d'hum pensamento,<br> + Que dos males fez hábito e costume,<br> + Tanto da triste vida me consume,<br> + Quanto cresce na causa do tormento.<br> + Leva a dor de vencida ao soffrimento;<br> + Mas a alma está, de entregue, tão sem lume,<br> + Qu'enlevada no bem que haver presume,<br> + Não faz caso do mal qu'está de assento.<br> + De longe receei (se me valêra)<br> + O perigo que tanto á porta vejo,<br> + Quando não acho em mi cousa segura.<br> + Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!)<br> + Qu'entendimentos presos do desejo<br> + Não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e remedio mais que o da ventura.</blockquote> + +<h4>CCLXIII.</h4> + +<blockquote> + Acho-me da fortuna salteado;<br> + O tempo vai fugindo presuroso,<br> + Deixando-me da vida duvidoso,<br> + E cada instante mais desesperado.<br> + Trocou-se o meu descuido em tal cuidado,<br> + Que donde a gloria he mais, he mais penoso.<br> + Nem vivo de perder-me receoso,<br> + Nem de poder ganhar-me confiado.<br> + Qualquer ave nos montes mais agrestes,<br> + Qualquer fera na cova repousando,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e horas de alegria: eu todas tristes.<br> + Vós, saudosos olhos, que o quizestes,<br> + (Pois com tormento Amor me está pagando)<br> + Chorai, como que vêdes, o que vistes.<span class="pn" + ><a name="pag_133">{133}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXIV.</h4> + +<blockquote> + Se no que tenho dito vos offendo,<br> + Não he a intenção minha de offender-vos;<br> + Qu'inda que não pretenda merecer-vos,<br> + Não vos desmerecer sempre pretendo.<br> + Mas he meu fado tal, segundo entendo,<br> + Que, por quanto ganhava em entender-vos,<br> + Não me deixa atégora conhecer-vos,<br> + Por a mi proprio m'ir desconhecendo.<br> + Os dias ajudados da ventura<br> + A cada qual de si dão desenganos,<br> + E a outros soe da-lo a desventura.<br> + Qual destas sirva a mi, dirão os danos<br> + Ou gostos que eu tiver, em quanto dura<br> + Esta vida, tão larga em poucos anos.</blockquote> + +<h4>CCLXV.</h4> + +<blockquote> + Doce contentamento ja passado,<br> + Em que todo o meu bem só consistia,<br> + Quem vos levou de minha companhia,<br> + E me deixou de vós tão apartado?<br> + Quem cuidou que se visse neste estado<br> + Naquellas breves horas d'alegria,<br> + Quando minha ventura consentia<br> + Que d'enganos vivesse meu cuidado?<br> + Fortuna minha foi cruel e dura<br> + Aquella que causou meu perdimento,<br> + Com a qual ninguem póde ter cautella.<br> + Nem se engane nenhuma creatura;<br> + Que não póde nenhum impedimento<br> + Fugir o que lh'ordena sua estrella.<span class="pn" + ><a name="pag_134">{134}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXVI.</h4> + +<blockquote> + Sempre, cruel Senhora, receei,<br> + Medindo vossa grã desconfiança,<br> + Que désse em desamor vossa tardança,<br> + E que me perdesse eu, pois vos amei.<br> + Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei,<br> + Pois n'outro amor ja tendes esperança.<br> + Tão patente será vossa mudança,<br> + Quanto eu encobri sempre o que vos dei.<br> + Dei-vos a alma, a vida e o sentido;<br> + De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora.<br> + Prometteis, e negais o mesmo Amor.<br> + Agora tal estou, que de perdido,<br> + Não sei por onde vou, mas algum'hora<br> + Vos dará tal lembrança grande dor.</blockquote> + +<h4>CCLXVII.</h4> + +<blockquote> + Se a fortuna inquieta e mal olhada,<br> + Que a justa lei do Ceo comsigo infama,<br> + A vida quieta, qu'ella mais dasama,<br> + Me concedêra honesta e repousada;<br> + Pudéra ser que a Musa, alevantada<br> + Com luz de mais ardente e viva flama,<br> + Fizera ao Tejo lá na patria cama<br> + Adormecer co'o som da lyra amada.<br> + Porém, pois o destino trabalhoso,<br> + Que m'escurece a Musa fraca e lassa,<br> + Louvor de tanto preço não sustenta;<br> + A vossa, de louvar-me pouco escassa,<br> + Outro sogeito busque valeroso,<br> + Tal qual em vós ao mundo se apresenta.<span class="pn" + ><a name="pag_135">{135}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXVIII.</h4> + +<blockquote> + Este amor, que vos tenho limpo e puro,<br> + De pensamento vil nunca tocado,<br> + Em minha tenra idade começado,<br> + Tê-lo dentro nesta alma só procuro.<br> + D'haver nelle mudança estou seguro,<br> + Sem temer nenhum caso, ou duro fado,<br> + Nem o supremo bem, ou baixo estado,<br> + Nem o tempo presente, nem futuro.<br> + A bonina e a flor asinha passa;<br> + Tudo por terra o inverno e estio deita;<br> + Só para meu amor he sempre Maio.<br> + Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,<br> + E qu'essa ingratidão tudo me engeita,<br> + Traz este meu amor sempre em desmaio.</blockquote> + +<h4>CCLXIX.</h4> + +<blockquote> + A formosura desta fresca serra,<br> + E a sombra dos verdes castanheiros,<br> + O manso caminhar destes ribeiros,<br> + Donde toda a tristeza se desterra;<br> + O rouco som do mar, a estranha terra,<br> + O esconder do sol pelos outeiros,<br> + O recolher dos gados derradeiros,<br> + Das nuvens pelo ar a branda guerra:<br> + Em fim, tudo o que a rara natureza<br> + Com tanta variedade nos offrece,<br> + M'está (se não te vejo) magoando.<br> + Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;<br> + Sem ti perpetuamente estou passando<br> + Nas mores alegrias môr tristeza.<span class="pn" ><a name="pag_136">{136}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCLXX.</h4> + +<blockquote> + Sustenta meu viver huma esperança<br> + Derivada de hum bem tão desejado,<br> + Que quando nella estou mais confiado,<br> + Mor dúvida me põe qualquer mudança.<br> + E quando inda este bem na mór pujança<br> + De seus gostos me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mais enlevado,<br> + Me atormenta então ver eu qu'alcançado<br> + Será por quem de vós não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e lembrança.<br> + Assi que, nestas redes enlaçado,<br> + A penas dou a vida, sustentando<br> + Huma nova materia a meu cuidado.<br> + Suspiros d'alma tristes arrancando,<br> + Dos silvos d'huma pedra acompanhado,<br> + Estou materias tristes lamentando.</blockquote> + +<h4>CCLXXI.</h4> + +<blockquote> + Ja não sinto, Senhora, os desenganos,<br> + Com que minha affeição sempre tratastes,<br> + Nem ver o galardão, que me negastes,<br> + Merecido por fé ha tantos anos.<br> + A mágoa chóro só, só chóro os danos<br> + De ver por quem, Senhora, me trocastes;<br> + Mas em tal caso vós só me vingastes<br> + De vossa ingratidão, vossos enganos.<br> + Dobrada gloria dá qualquer vingança,<br> + Que o offendido toma do culpado,<br> + Quando se satisfaz com causa justa;<br> + Mas eu de vossos males e esquivança,<br> + De que agora me vejo bem vingado,<br> + Não a quizera tanto á vossa custa.<span class="pn" +><a name="pag_137">{137}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXII.</h4> + +<blockquote> + Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse<br> + Essa grã perfeição e gentileza,<br> + Logo deo por sentença, que a crueza<br> + Em vosso peito amor accrescentasse.<br> + Determinou, que nada me apartasse,<br> + Nem desfavor cruel, nem aspereza;<br> + Mas qu'em minha rarissima firmeza<br> + Vossa isenção cruel se executasse.<br> + E, pois tendes aqui offerecida<br> + Est'alma vossa a vosso sacrificio,<br> + Acabai de fartar vossa vontade.<br> + Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;<br> + Acabará morrendo em seu officio,<br> + Sua fé defendendo e lealdade.</blockquote> + +<h4>CCLXXIII.</h4> + +<blockquote> + Eu vivia de lagrimas isento,<br> + N'hum engano tão doce e deleitoso,<br> + Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso<br> + Não valião mil glorias hum tormento.<br> + Vendo-me possuir tal pensamento,<br> + De nenhuma riqueza era invejoso;<br> + Vivia bem, de nada receoso,<br> + Com doce amor e doce sentimento.<br> + Cobiçosa a Fortuna, me tirou<br> + Deste meu tão contente e alegre estado;<br> + E passou-se este bem, que nunca fôra:<br> + Em trôco do qual bem só me deixou<br> + Lembranças, que me mátão cada hora,<br> + Trazendo-me á memoria o bem passado.<span class="pn" + ><a name="pag_138">{138}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXIV.</h4> + +<blockquote> + Indo o triste pastor todo embebido<br> + Na sombra de seu doce pensamento,<br> + Taes queixas espalhava ao leve vento,<br> + Co'hum brando suspirar d'alma sahido:<br> + A quem me queixarei, cego, perdido,<br> + Pois nas pedras não acho sentimento?<br> + Com quem fallo? A quem digo meu tormento?<br> + Que onde mais chamo, sou menos ouvido.<br> + Ó bella Nympha, porque não respondes?<br> + Porque o olhar-me tanto m'encareces?<br> + Porque queres que sempre me querelle?<br> + Eu quanto mais te busco, mais te escondes!<br> + Quanto mais mal me vês, mais te endureces!<br> + Assim que co'o mal cresce a causa delle.</blockquote> + +<h4>CCLXXV.</h4> + +<blockquote> + Dizei, Senhora, da belleza idêa,<br> + Para fazerdes esse aureo crino,<br> + Onde fostes buscar esse ouro fino?<br> + De qu'escondida mina ou de que vêa?<br> + Dos vossos olhos essa luz Phebêa,<br> + Esse respeito, de hum Imperio dino?<br> + Se o alcançastes com saber divino,<br> + Se com encantamentos de Medéa?<br> + De qu'escondidas conchas escolhestes<br> + As perlas preciosas Orientais,<br> + Que fallando mostrais no doce riso?<br> + Pois vos formastes tal, como quizestes,<br> + Vigiai-vos de vós, não vos vejais,<br> + Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.<span class="pn" + ><a name="pag_139">{139}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXVI.</h4> + +<blockquote> + Na ribeira do Euphrates assentado,<br> + Discorrendo me achei pela memoria<br> + Aquelle breve bem, aquella gloria,<br> + Que em ti, doce Sião, tinha passado.<br> + Da causa de meus males perguntado<br> + Me foi: Como não cantas a historia<br> + De teu passado bem, e da victoria<br> + Que sempre de teu mal has alcançado?<br> + Não sabes, que a quem canta se lhe esquece<br> + O mal, indaque grave e rigoroso?<br> + Canta pois, e não chores dessa sorte.<br> + Respondi com suspiros: Quando crece<br> + A muita saudade, o piedoso<br> + Remedio he não cantar, senão a morte.</blockquote> + +<h4>CCLXXVII.</h4> + +<blockquote> + Chorai, Nymphas, os fados poderosos<br> + Daquella soberana formosura.<br> + Onde forão parar? na sepultura?<br> + Aquelles Reaes olhos graciosos?<br> + Oh bens do mundo falsos e enganosos!<br> + Que mágoas para ouvir! Que tal figura<br> + Jaza sem resplandor na terra dura<br> + Com tal rosto e cabellos tão formosos!<br> + Das outras que será! pois poder teve<br> + A morte sôbre cousa tanto bella,<br> + Que ella eclipsava a luz do claro dia.<br> + Mas o mundo não era digno della,<br> + Por isso mais na terra não esteve,<br> + Ao ceo subio, que ja se lhe devia.<span class="pn" +><a name="pag_140">{140}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXVIII.</h4> + +<blockquote> + Senhora ja desta alma, perdoae<br> + De hum vencido de Amor os desatinos,<br> + E sejão vossos olhos tão beninos<br> + Com este puro amor, que d'alma sae.<br> + A minha pura fé sómente olhae,<br> + E vêde meus extremos se são finos;<br> + E se de alguma pena forem dinos,<br> + Em mim, Senhora minha, vos vingae.<br> + Não seja a dor que abraza o triste peito<br> + Causa por onde pene o coração,<br> + Que tanto em firme amor vos he sujeito.<br> + Guardae-vos do que alguns, dama, dirão,<br> + Que sendo raro em tudo vosso objeito,<br> + Possa morar em vós ingratidão.</blockquote> + +<h4>CCLXXIX.</h4> + +<blockquote> + Doce sonho, suave e soberano,<br> + Se por mais longo tempo me durára!<br> + Ah quem de sonho tal nunca acordára,<br> + Pois havia de ver tal desengano!<br> + Ah deleitoso bem! ah doce engano!<br> + Se por mais largo espaço me enganára!<br> + Se então a vida misera acabára,<br> + De alegria e prazer morrêra ufano.<br> + Ditoso, não estando em mi, pois tive<br> + Dormindo o que acordado ter quizera.<br> + Olhae com que me paga meu destino!<br> + Em fim, fóra de mim ditoso estive.<br> + Em mentiras ter dita razão era,<br> + Pois sempre nas verdades fui mofino.<span class="pn" + ><a name="pag_141">{141}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXX.</h4> + +<blockquote> + Diana prateada, esclarecida<br> + Com a luz que do claro Phebo ardente,<br> + Por ser de natureza transparente,<br> + Em si, como em espelho, reluzia,<br> + Cem mil milhões de graças lhe influia,<br> + Quando me appareceo o excellente<br> + Raio de vosso aspecto, diferente<br> + Em graça e em amor do que sohia.<br> + Eu vendo-me tão cheio de favores,<br> + E tão propinquo a ser de todo vosso,<br> + Louvei a hora clara, e a noite escura,<br> + Pois nella déstes côr a meus amores:<br> + Donde collijo claro que não posso<br> + De dia para vós ja ter ventura.</blockquote> + +<h4>CCLXXXI.</h4> + +<blockquote> + Em quanto Phebo os montes accendia<br> + Do ceo com luminosa claridade,<br> + Por conservar illesa a castidade<br> + Na caça o tempo Delia despendia.<br> + Venus, qu' então de furto descendia<br> + Por captivar de Anchises a vontade,<br> + Vendo Diana em tanta honestidade,<br> + Quasi zombando della, lhe dizia:<br> + Tu vás com tuas redes na espessura<br> + Os fugitivos cervos enredando;<br> + Mas as minhas enredão o sentido.<br> + Melhor he (respondia a deosa pura)<br> + Nas redes leves cervos ir tomando,<br> + Que tomar-te a ti nellas teu marido.<span class="pn" + ><a name="pag_142">{142}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXXII.</h4> + +<blockquote> + N'hum tão alto lugar, de tanto preço,<br> + Este meu pensamento posto vejo,<br> + Que desfallece nelle inda o desejo,<br> + Vendo quanto par mi o desmereço.<br> + Quando esta tal baixeza em mi conheço,<br> + Acho que cuidar nelle he grão despejo,<br> + E que morrer por elle me he sobejo<br> + E mór bem para mi, do que mereço.<br> + O mais que natural merecimento<br> + De quem me causa hum mal tão duro e forte,<br> + O faz que vá crescendo de hora em hora.<br> + Mas eu não deixarei meu pensamento,<br> + Porque inda qu'este mal me causa a morte,<br> + <em>Un bel morir tutta la vita honora.</em></blockquote> + +<h4>CCLXXXIII.</h4> + +<blockquote> + Quantas penas, Amor, quantos cuidados,<br> + Quantas lagrimas tristes sem proveito,<br> + De que mil vezes olhos, rosto e peito,<br> + Por ti, cego, me viste ja banhados;<br> + Quantos mortaes suspiros derramados<br> + Do coração por tanto a ti sujeito,<br> + Quantos males, em fim, tu me tens feito,<br> + Todos forão em mi bem empregados.<br> + A tudo satisfaz (confesso-te isto)<br> + Huma só vista branda e amorosa<br> + De quem me captivou minha ventura.<br> + Oh sempre para mi hora ditosa!<br> + Que posso temer ja, pois tenho visto,<br> + Com tanto gôsto meu, tanta brandura?<span class="pn" + ><a name="pag_143">{143}</a></span></blockquote> + +<h4>CCLXXXIV.</h4> + +<blockquote> + Posto me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e fortuna em tal estado,<br> + E tanto a seus pés me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e rendido!<br> + Não tenho que perder, ja de perdido,<br> + Nem tenho que mudar, ja de mudado.<br> + Todo bem para mi he acabado:<br> + D'aqui dou o viver ja por vivido;<br> + Que aonde o mal he tão conhecido,<br> + Tambem o viver mais será'scusado.<br> + Se me basta querer, a morte quero,<br> + Que bem outra esperança não convem:<br> + E curarei hum mal com outro mal.<br> + E pois do bem tão pouco bem espero,<br> + Ja que o mal este só remedio tem,<br> + Não me culpem em qu'rer remedio tal.</blockquote> + +<h4>CCLXXXV.</h4> + +<blockquote> + Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes,<br> + Y en lágrimas pasais la noche y dia,<br> + Mirad si es llanto este que os envia<br> + Aquella por quien vos tantas vertistes:<br> + Sentid, mis ojos, bien esta que vistes;<br> + Y si ella lo es, oh gran ventura mia!<br> + Por muy bien empleadas las habria<br> + Mil cuentos que por esta sola distes.<br> + Mas una cosa mucho deseada,<br> + Aunque se vea cierta, no es creida,<br> + Cuanto mas esta, que me es enviada.<br> + Pero digo, que aunque sea fingida,<br> + Que basta que por lágrima sea dada,<br> + Porque sea por lágrima tenida.<span class="pn" ><a name="pag_144">{144}</a></span> +</blockquote> + +<h4>CCLXXXVI.</h4> + +<blockquote> + Que póde ja fazer minha ventura,<br> + Que seja para meu contentamento?<br> + Ou como fazer devo fundamento<br> + De cousa que o não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e, nem he segura?<br> + Que pena póde ser tão certa e dura,<br> + Que possa ser maior que meu tormento?<br> + Ou como receará meu pensamento<br> + Os males, se com elles mais se apura?<br> + Como quem se costuma de pequeno<br> + Com peçonha criar por mão sciente,<br> + Da qual o uso ja o t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e seguro:<br> + Assim de acostumado co'o veneno,<br> + O uso de soffrer meu mal presente<br> + Me faz não sentir ja nada o futuro.<span class="pn" + ><a name="pag_145">{145}</a></span></blockquote> +</div> + +<h1><a name="SECTION011200000">ECLOGAS</a></h1> + +<div id="eclogas"> + +<h2><a name="SECTION011210000">ECLOGA I.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011211000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">U<small>MBRANO, </small> F<small>RONDELIO, +</small> A<small>ONIA.</small></p> + +<blockquote> + Que grande variedade vão fazendo,<br> + Frondelio amigo, as horas apressadas!<br> + Como se vão as cousas convertendo<br> + Em outras cousas várias e insperadas!<br> + Hum dia a outro dia vai trazendo<br> + Por suas mesmas horas ja ordenadas;<br> + Mas quão conformes são na quantidade,<br> + Tão differentes são na qualidade.<br> + Eu vi ja deste campo as várias flores<br> + Ás estrellas do ceo fazendo inveja;<br> + Adornados andar vi os pastores<br> + De quanto por o mundo se deseja;<br> + E vi co'o campo competir nas côres<br> + Os trajes, de obra tanta e tão sobeja,<br> + Que se a rica materia não faltava,<br> + A obra de mais rica sobejava.<br> + E vi perder seu preço ás brancas rosas<br> + E quasi escurecer-se o claro dia<br> + Diante de h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>as mostras perigosas,<br> + Que Venus mais que nunca engrandecia.<br> + As pastoras, emfim, vi tão formosas,<span class="pn" + ><a name="pag_146">{146}</a></span><br> + Que o Amor de si mesmo se temia;<br> + Mas mais temia o pensamento falto<br> + De não ser para ter temor tão alto.<br> + Agora tudo está tão differente,<br> + Que move os corações a grande espanto;<br> + E parece que Jupiter potente<br> + Se enfada ja d'o mundo durar tanto.<br> + O Tejo corre turvo e descontente,<br> + As aves deixão seu suave canto,<br> + E o gado, inda que a herva lhe fallece,<br> + Mais que da falta della se emmagrece.<br> + F<small>RONDELIO</small>.<br> + Umbrano irmão, decreto he da natura,<br> + Inviolavel, fixo e sempiterno,<br> + Que a todo bem succeda desventura,<br> + E não haja prazer que seja eterno:<br> + Ao claro dia segue a noite escura,<br> + Ao suave verão o duro inverno;<br> + E se ha cousa que saiba ter firmeza,<br> + He somente esta lei da natureza.<br> + Toda alegria grande e sumptuosa<br> + A porta abrindo vem ao triste estado:<br> + Se hum'hora vejo alegre e deleitosa,<br> + Temendo estou do mal apparelhado.<br> + Não vês que mora a serpe venenosa<br> + Entre as flores do fresco e verde prado?<br> + Ah! não te engane algum contentamento;<br> + Que mais instavel he que o pensamento.<br> + E praza a Deos que o triste e duro fado<br> + De tamanhos desastres se contente;<br> + Que sempre hum grande mal inopinado<span class="pn" + ><a name="pag_147">{147}</a></span><br> + He mais do que o espera a incauta gente:<br> + Que vejo este carvalho que queimado<br> + Tão gravemente foi do raio ardente.<br> + Não seja ora prodigio que declare<br> + Que o barbaro cultor meus campos are.<br> + U<small>MBRANO.</small><br> + Em quanto do seguro azambujeiro<br> + Nos pastores de Luso houver cajados,<br> + Como valor antiguo, que primeiro<br> + Os fez no mundo tão assinalados,<br> + Não temas tu, Frondelio companheiro,<br> + Qu'em algum tempo sejão sobjugados,<br> + Nem que a cerviz indomita obedeça<br> + A outro jugo qualquer que se lhe offreça.<br> + E postoque a soberba se levante<br> + De inimigos a torto e a direito,<br> + Não crêas tu que a fôrça repugnante<br> + Do fero e nunca ja vencido peito,<br> + Que desde quem possue o monte Atlante<br> + Adonde bebe o Hydaspe t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e sujeito,<br> + O possa nunca ser de fôrça alheia,<br> + Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia.<br> + F<small>RONDELIO.</small><br> + Umbrano, a temeraria segurança<br> + Qu'em fôrça, ou em razão não se assegura,<br> + He falsa e vãa; que a grande confiança<br> + Não he sempre ajudada da ventura.<br> + Que lá junto das aras da esperança,<br> + Némesis moderada, justa e dura,<br> + Hum freio lhe está pondo e lei terribil,<br> + Que os limites não passe do possibil.<span class="pn" + ><a name="pag_148">{148}</a></span><br> + E se attentares bem os grandes danos<br> + Que se nos vão mostrando cada dia,<br> + Poras freio tambem a esses enganos<br> + Que te está figurando a ousadia.<br> + Tu não vês como os lobos Tingitanos,<br> + Apartados de toda cobardia,<br> + Mátão os cães do gado guardadores,<br> + E não somente os cães, mas os pastores?<br> + Pois o grande curral, seguro e forte,<br> + Do alto monte Atlas não ouviste<br> + Que com sanguinolenta e fera morte<br> + Despovoado foi por caso triste?<br> + Oh triste caso! oh desastrada sorte,<br> + Contra quem fôrça humana não resiste!<br> + Que alli tambem da vida foi privado<br> + O meu Tionio, ainda em flor cortado!<br> + U<small>MBRANO.</small><br> + Em lagrimas me banha rosto e peito<br> + Desse caso terrivel a memoria,<br> + Quando vejo quão sabio e quão perfeito,<br> + E quão merecedor de longa historia<br> + Era esse teu pastor, que sem direito<br> + Deo ás Parcas a vida transitoria.<br> + Mas não ha hi quem d'herva o gado farte,<br> + Nem de juvenil sangue o fero Marte.<br> + Porém, se te não for muito pezado,<br> + (Ja qu'esta triste morte me lembraste)<br> + Canta-me desse caso desastrado<br> + Aquelles brandos versos que cantaste,<br> + Quando hontem, recolhendo o manso gado,<br> + De nós-outros pastores te apartaste;<span class="pn" + ><a name="pag_149">{149}</a></span><br> + Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia,<br> + Não te podia ouvir como queria.<br> + F<small>RONDELIO.</small><br> + Como queres renove ao pensamento<br> + Tamanho mal, tamanha desventura?<br> + Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento,<br> + Para os que tristes são, he falsa cura.<br> + Mas, pois te move tanto o sentimento<br> + Da morte de Tionio, triste e escura,<br> + Eu porei teu desejo em doce effeito,<br> + Se a dor me não congela a voz no peito.<br> + U<small>MBRANO.</small><br> + Canta agora, pastor, que o gado pace<br> + Entre as humidas hervas socegado;<br> + E lá nas altas serras, onde nace,<br> + O sacro Tejo á sombra recostado,<br> + Co'os seus olhos no chão, a mão na face,<br> + Está para te ouvir apparelhado;<br> + E com silencio triste estão as Nymphas<br> + Dos olhos destillando claras lymphas.<br> + O prado as flores brancas e vermelhas<br> + Está suavemente presentando;<br> + As doces e solícitas abelhas,<br> + Com susurro agradavel vão voando;<br> + As candidas, pacíficas ovelhas,<br> + Das hervas esquecidas, inclinando<br> + As cabeças estão ao som divino<br> + Que faz, passando, o Tejo crystallino.<br> + O vento d'entre as árvores respira,<br> + Fazendo companhia ao claro rio;<br> + Nas sombras a ave garrula suspira,<span class="pn" + ><a name="pag_150">{150}</a></span><br> + Sua mágoa espalhando ao vento frio.<br> + Toca, Frondelio, toca a doce lira;<br> + Que d'aquelle verde alamo sombrio<br> + A branda Philomela entristecida<br> + Ao mais saudoso canto te convida.<br> + F<small>RONDELIO.</small><br> + Aquelle dia as águas não gostárão<br> + As mimosas ovelhas; e os cordeiros<br> + O campo enchêrão d'amorosos gritos.<br> + E não se pendurárão dos salgueiros<br> + As cabras, de tristeza; mas negárão<br> + O pasto a si, e o leite a os cabritos.<br> + Prodigios infinitos<br> + Mostrava aquelle dia,<br> + Quando a Parca queria<br> + Princípio dar ao fero caso triste.<br> + E tu tambem (ó corvo) o descobriste,<br> + Quando da mão direita em voz escura,<br> + Voando, repetiste<br> + A tyrannica lei da morte dura.<br> + Tionio meu, o Tejo crystallino,<br> + E as árvores que ja desamparaste<br> + Chórão o mal de tua ausencia eterna.<br> + Não sei porque tão cedo nos deixaste!<br> + Mas foi consentimento do Destino,<br> + Por quem o mar e a terra se governa.<br> + A noite sempiterna,<br> + Que tu tão cedo viste<br> + Cruel, acerba e triste,<br> + Sequer de tua idade não te dera<br> + Que lográras a fresca primavera?<span class="pn" ><a name="pag_151">{151}</a></span> + <br> + Não usára comnosco tal crueza,<br> + Que nem nos montes fera,<br> + Nem pastor ha no campo sem tristeza.<br> + Os Faunos, certa guarda dos pastores,<br> + Ja não seguem as Nymphas na espessura,<br> + Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho.<br> + Tudo, qual vês, he cheio de tristura:<br> + Ás abelhas o campo nega as flores,<br> + Como ás flores a aurora nega o orvalho.<br> + Eu que cantando espalho<br> + Tristezas todo o dia,<br> + A frauta que soia<br> + Mover as altas árvores tangendo,<br> + Se me vai de tristeza enrouquecendo;<br> + Que tudo vejo triste neste monte:<br> + E tu tambem correndo<br> + Manas envolta e triste, ó clara fonte.<br> + As Tagides no rio, e na aspereza<br> + Do monte as Oreádas, conhecendo<br> + Quem te obrigou ao duro e fero Marte;<br> + Como em geral sentença vão dizendo,<br> + Que não póde no mundo haver tristeza<br> + Em cuja causa amor não tenha parte.<br> + Porqu'elle, enfim, dest'arte<br> + Nos olhos saudosos,<br> + Nos passos vagarosos,<br> + E no rosto, que Amor com phantasia<br> + Da pallida viola lhe tingia,<br> + A todos de si dava sinal certo<br> + Do fogo que trazia;<br> + Que nunca soube amor ser encoberto.<span class="pn" + ><a name="pag_152">{152}</a></span><br> + Ja diante dos olhos lhe voavão<br> + Imagens e phantasticas pinturas,<br> + Exercicios do falso pensamento;<br> + Ja por as solitarias espessuras<br> + Entre os penedos sós, que não fallavão,<br> + Fallava e descobria seu tormento.<br> + Em longo esquecimento<br> + De si, todo embebido,<br> + Andava tão perdido,<br> + Que quando algum pastor lhe perguntava<br> + A causa da tristeza que mostrava,<br> + Como quem para penas só vivia,<br> + Sorrindo, lhe tornava:<br> + Se não vivesse triste, morreria.<br> + Mas como este tormento o sinalou,<br> + E tanto no seu rosto se mostrasse,<br> + Entendendo-o ja bem o pae sisudo,<br> + Porque do pensamento lho tirasse,<br> + Longe da causa delle o apartou;<br> + Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo.<br> + Oh falso Marte rudo,<br> + Das vidas cobiçoso!<br> + Que donde o generoso<br> + Peito resuscitava em tanta gloria<br> + De seus Antecessores a memoria,<br> + Alli, fero e cruel, lhe destruiste,<br> + Por injusta victoria,<br> + Primeiro que o cuidado, a vida triste.<br> + Parece-me, Tionio, que te vejo,<br> + Por tingires a lança cobiçoso<br> + Naquelle infido sangue Mauritano,<span class="pn" ><a name="pag_153">{153}</a></span> + <br> + No Hispanico ginete bellicoso,<br> + Que ardendo tambem vinha no desejo<br> + De atropellar por terra ao Tingitano.<br> + Oh confiado engano!<br> + Oh encurtada vida!<br> + Que a virtude opprimida<br> + Da multidão forçosa do inimigo<br> + Não pôde defender-se do perigo:<br> + Porqu'assi o Destino o permittio;<br> + E assi levou comsigo<br> + O mais gentil pastor que o Tejo vio.<br> + Qual o mancebo Euryalo enredado<br> + Entre o poder dos Rutulos, fartando<br> + As íras da soberba e dura guerra;<br> + Do cristallino rosto a côr mudando,<br> + Cujo purpureo sangue, derramado<br> + Por as alvas espaldas, tinge a serra;<br> + Que como flor, que a terra<br> + Lhe nega o mantimento,<br> + Porque o tempo avarento<br> + Tambem o largo humor lhe t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e negado,<br> + O collo inclina languido e cansado:<br> + Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito<br> + A quem to tinha dado;<br> + Qu'este he somente eterno e infinito.<br> + Da congelada boca a alma pura,<br> + Co'o nome juntamente da inimiga<br> + E excellente Marfida, derramava.<br> + E tu, gentil Senhora, não te obriga<br> + A pranto sempiterno a morte dura<br> + De quem por ti somente a vida amava?<span class="pn" + ><a name="pag_154">{154}</a></span><br> + Por ti aos ecos dava<br> + Accentos numerosos;<br> + Por ti aos bellicosos<br> + Exercicios se deo do fero Marte.<br> + E tu ingrata o amor ja n'outra parte<br> + Porás, como acontece ao fraco intento:<br> + Que, emfim, emfim, dest'arte<br> + Se muda o feminino pensamento.<br> + Pastores deste valle ameno e frio,<br> + Que de Tionio o caso desastrado<br> + Quereis nas altas serras que se conte;<br> + Hum tumulo, de flores adornado,<br> + Lhe edificai ao longo deste rio,<br> + Que a vela enfreie ao duro navegante:<br> + E o lasso caminhante,<br> + Vendo tamanha mágoa,<br> + Arraze os olhos d'ágoa,<br> + Lendo na pedra dura o verso escrito,<br> + Que diga assi: <em>Memoria sou, que grito</em><br> + <em>Para dar testimunho em toda parte</em><br> + <em>Do mais gentil Esprito</em><br> + <em>Que tirárão do mundo Amor e Marte</em>.<br> + U<small>MBRANO</small>.<br> + Qual o quieto somno aos cansados<br> + Debaixo de algum'árvore sombria;<br> + Ou qual aos sequiosos encalmados<br> + O vento respirante e a fonte fria:<br> + Taes me forão teus versos delicados,<br> + Teu numeroso canto e melodia:<br> + E ainda agora o tom suave e brando<br> + Os ouvidos me fica adormentando.<span class="pn" ><a name="pag_155">{155}</a></span> + <br> + Em quanto os peixes humidos tiverem<br> + As areosas covas deste rio,<br> + E correndo estas águas conhecerem<br> + Do largo mar o antiguo senhorio;<br> + E em quanto estas hervinhas pasto derem<br> + Ás petulantes cabras, eu te fio<br> + Que em virtude dos versos que cantaste<br> + Sempre viva o pastor que tanto amaste.<br> + Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta,<br> + E dos montes as sombras se accrescentão;<br> + De flores mil o claro ceo se esmalta,<br> + Que tão ledas aos olhos se presentão;<br> + Levemos por o pé desta serra alta<br> + Os gados, que ja agora se contentão<br> + Do que comido t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e, Frondelio amigo:<br> + Anda; que até o outeiro irei comtigo.<br> + F<small>RONDELIO</small>.<br> + Antes por este valle, amigo Umbrano,<br> + Se t'aprouver, levemos as ovelhas;<br> + Porque, se eu por acêrto não me engano,<br> + De lá me sôa hum eco nas orelhas:<br> + O doce accento não parece humano.<br> + E, se em contrário tu não m'aconselhas,<br> + Eu quero descobrir que cousa seja;<br> + Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja.<br> + U<small>MBRANO</small>.<br> + Comtigo vou, que quanto mais me chego,<br> + Mais gentil me parece a voz que ouviste,<br> + Peregrina, excellente; e não te nego<br> + Que me faz cá no peito a alma triste.<br> + Vês como t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e os ventos em socêgo?<span class="pn" + ><a name="pag_156">{156}</a></span><br> + Nenhum rumor da serra lhe resiste:<br> + Nenhum passaro vôa, mas parece<br> + Que, do canto vencido, lhe obedece.<br> + Porém, irmão, melhor me parecia<br> + Que não fôssemos lá; que estorvaremos;<br> + Mas sobidos nest'árvore sombria,<br> + Todo o valle de aqui descobriremos.<br> + Os çurrões e cajados, todavia,<br> + Neste comprido tronco penduremos:<br> + Para subir fica homem mais ligeiro.<br> + Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.<br> + F<small>RONDELIO</small>.<br> + Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres:<br> + Subirás sem trabalho e sem ruido;<br> + E despois que subido lá 'stiveres,<br> + Dar-me-has a mão de cima; que he partido.<br> + Mas primeiro me dize, se o puderes<br> + Ver, donde nasce o canto nunca ouvido;<br> + Quem lança o doce accento delicado.<br> + Falla; que ja te vejo estar pasmado.<br> + U<small>MBRANO</small>.<br> + Cousas não costumadas na espessura,<br> + Que nunca vi, Frondelio, vejo agora:<br> + Formosas Nymphas vejo na verdura,<br> + Cujo divino gesto o ceo namora.<br> + Huma de desusada formosura,<br> + Que das outras parece ser Senhora,<br> + Sôbre hum triste sepulcro, não cessando,<br> + Está perlas dos olhos destillando.<br> + De todas estas altas semidêas,<br> + Qu'em tôrno estão do corpo sepultado,<span class="pn" + ><a name="pag_157">{157}</a></span><br> + Humas, regando as humidas arêas,<br> + De flores t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o tumulo adornado;<br> + Outras, queimando lagrimas Sabêas,<br> + Enchem o ar de cheiro sublimado;<br> + Outras em ricos pannos, mais avante,<br> + Envolvem brandamente hum novo infante.<br> + Huma, que d'entre as outras se apartou,<br> + Com gritos, que a montanha entristecêrão,<br> + Diz, que despois que a morte a flor cortou<br> + Que as estrellas somente merecêrão,<br> + Este penhor charissimo ficou<br> + Daquelle, a cujo imperio obedecêrão<br> + Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,<br> + Até o remoto mar da Taprobana.<br> + Diz mais, que se encontrar este menino<br> + A noite intempestiva, amanhecendo,<br> + O Tejo, agora claro e crystallino,<br> + Tornará a fera Alecto em vulto horrendo.<br> + Mas que, a ser conservado do Destino,<br> + As benignas estrellas promettendo<br> + Lh'estão o largo pasto de Ampelusa,<br> + Co'o monte que em mao ponto vio Medusa.<br> + Este prodigio grande Nympha bella<br> + Com abundantes lagrimas recita.<br> + Porém, qual a eclipsada clara estrella,<br> + Qu'entre as outras o ceo primeiro habita:<br> + Tal coberta de negro vejo aquella,<br> + A quem só n'alma toca a grã desdita.<br> + Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver<br> + Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer.<span class="pn" + ><a name="pag_158">{158}</a></span><br> + F<small>RONDELIO.</small><br> + Oh triste morte, esquiva e mal olhada,<br> + Que a tantas formosuras injurías!<br> + Áquella deosa bella e delicada<br> + Sequer algum respeito ter devias.<br> + Esta he, por certo, Aonia filha amada<br> + Daquelle grã Pastor, qu'em nossos dias<br> + Danubio enfreia, manda o claro Ibero,<br> + E espanta o morador do Euxino fero.<br> + Morreo-nos o excellente e poderoso,<br> + (Que a isto está sujeita a vida humana)<br> + Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo.<br> + Ah lei dos fados, aspera e tyrana!<br> + Mas o som peregrino e piedoso,<br> + Com que a formosa Nympha a dor engana,<br> + Escuta hum pouco. Nota e vê, Umbrano,<br> + Quão bem que sôa o verso Castelhano.<br> + A<small>ONIA.</small><br> + Alma, y primero amor del alma mia,<br> + Espíritu dichoso, en cuya vida<br> + La mia estuvo en cuanto Dios queria!<br> + Sombra gentil de su prision salida,<br> + Que del mundo á la patria te volviste,<br> + Donde fuiste engendrada y procedida!<br> + Recibe allá este sacrificio triste,<br> + Que te offrecen los ojos que te vieron;<br> + Si la memoria dellos no perdiste.<br> + Que, pues los altos Cielos permitieron,<br> + Que no te acompañase en tal jornada,<br> + Y para ornarse solo á ti quisieron;<br> + Nunca permitirán, que acompañada<span class="pn" + ><a name="pag_159">{159}</a></span><br> + De mi no sea esta memoria tuya,<br> + Que está de tus despojos adornada.<br> + Ni dejará, por mas que el tiempo huya,<br> + De estar en mí con sempiterno llanto,<br> + Hasta que vida y alma se destruya.<br> + Mas tú, gentil Espíritu, entretanto<br> + Que otros campos y flores vas pisando,<br> + Y otras zampoñas oyes, y otro canto;<br> + Agora embevecido estés mirando<br> + Allá en el Empireo aquella Idea,<br> + Que el mundo enfrena y rige con su mando;<br> + Agora te posuya Citherea<br> + En el tercero asiento, ó porque amaste,<br> + Ó porque nueva amante allá te sea;<br> + Agora el sol te admire, si miraste<br> + Como vá por los Signos, encendido,<br> + Las tierras alumbrando que dejaste:<br> + Si en ver estos milagros no has perdido<br> + La memoria de mí, ó fué en tu mano<br> + No pasar por las aguas del olvido;<br> + Vuelve un poco los ojos á este llano,<br> + Verás una, que á ti con triste lloro<br> + Sobre este mármol sordo llama en vano.<br> + Pero si entraren en los Signos de oro<br> + Lágrimas y gemidos amorosos,<br> + Que muevan el supremo y santo coro;<br> + La lumbre de tus ojos tan hermosos<br> + Yo la veré muy presto: y podré verte;<br> + Que á pesar de los hados enojosos<br> + Tambiem para los tristes hubo muerte.<span class="pn" + ><a name="pag_160">{160}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION011220000">ECLOGA II.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011221000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">A<small>LMENO</small> e +A<small>GRARIO</small>.</p> + +<blockquote> + Ao longo do sereno<br> + Tejo, suave e brando,<br> + N'hum valle d'altas árvores sombrio<br> + Estava o triste Almeno<br> + Suspiros espalhando<br> + Ao vento, e doces lagrimas ao rio.<br> + No derradeiro fio<br> + O tinha a esperança,<br> + Que com doces enganos<br> + Lhe sustentára a vida tantos anos<br> + N'h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a amorosa e branda confiança;<br> + Que quem tanto queria,<br> + Parece que não erra, se confia.<br> + A noite escura dava<br> + Repouso aos cansados<br> + Animaes esquecidos da verdura;<br> + O valle triste estava<br> + Co'huns ramos carregados,<br> + Qu'inda a noite fazião mais escura.<br> + Offrecia a espessura<br> + Hum temeroso espanto:<br> + As roucas rãas soavão<br> + N'hum charco de água negra e ajudavão<br> + Do passaro nocturno o triste canto:<span class="pn" + ><a name="pag_161">{161}</a></span><br> + O Tejo com som grave<br> + Corria mais medonho que suave.<br> + Como toda a tristeza<br> + No silencio consiste,<br> + Parecia que o valle estava mudo.<br> + E com esta graveza<br> + Estava tudo triste,<br> + Porém o triste Almeno mais que tudo:<br> + Tomando por escudo<br> + De sua doce pena,<br> + Para poder soffrella,<br> + Estar imaginando a causa della;<br> + Qu'em tanto mal he cura bem pequena.<br> + Maior o he o tormento,<br> + Que toma por allívio hum pensamento.<br> + Ao rio se queixava<br> + Com lagrimas em fio,<br> + Com que as ondas crescião outro tanto.<br> + Seu doce canto dava<br> + Tristes águas ao rio,<br> + E o rio triste som ao doce canto.<br> + Ao sonoroso pranto,<br> + Que as águas enfreava,<br> + Responde o valle umbroso.<br> + De tanta voz o accento temeroso<br> + Na outra parte do rio retumbava;<br> + Quando, da phantasia<br> + O silencio rompendo, assi dizia:<br> + Corre suave e brando<br> + Com tuas claras ágoas,<br> + Sahidas de meus olhos, doce Tejo;<span class="pn" ><a name="pag_162">{162}</a></span> + <br> + Fé de meus males dando,<br> + Para que minhas mágoas<br> + Sejão castigo igual de meu desejo:<br> + Que, pois em mim não vejo<br> + Remedio, nem o espero;<br> + E a morte se despreza<br> + De me matar, deixando-me á crueza<br> + Daquella por quem meu tormento quero;<br> + Saiba o mundo meu dano,<br> + Porque se desengane em meu engano.<br> + Ja que minha ventura,<br> + Ou a causa qu'a ordena,<br> + Quer qu'em pago da dor tome o soffrella;<br> + Será mais certa cura<br> + Para tamanha pena<br> + Desesperar d'haver ja cura nella.<br> + Porque se minha estrella<br> + Causou tal esquivança,<br> + Consinta meu cuidado<br> + Que me farte de ser desesperado,<br> + Para desenganar minha esperança:<br> + Pois somente nasci<br> + Para viver na morte, e ella em mi.<br> + Não cesse meu tormento<br> + De fazer seu officio,<br> + Pois aqui t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e hum'alma ao jugo atada:<br> + Nem falte o soffrimento,<br> + Porque parece vício<br> + Para tão doce mal faltar-me nada.<br> + Oh Nympha delicada,<br> + Honra da natureza!<span class="pn" ><a name="pag_163">{163}</a></span><br> + Como póde isto ser,<br> + Que de tão peregrino parecer<br> + Pudesse proceder tanta crueza?<br> + Não vem de nenhum geito<br> + De causa divinal contrário effeito.<br> + Pois como pena tanta<br> + He contra a causa della?<br> + Fóra he do natural minha tristeza.<br> + Mas a mi que m'espanta?<br> + Não basta (ó Nympha bella)<br> + Que podes perverter a natureza?<br> + Não he a gentileza<br> + De teu gesto celeste<br> + Fóra do natural?<br> + Não póde a natureza fazer tal:<br> + Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste;<br> + Porém, porque tomaste<br> + Tão dura condição, se te formaste?<br> + Por ti o alegre prado<br> + Me he penoso e duro;<br> + Abrolhos me parecem suas flores.<br> + Por ti do manso gado,<br> + Como de mi, não curo,<br> + Por não fazer offensa a teus amores.<br> + Os jogos dos pastores,<br> + As lutas entr'a rama,<br> + Nada me faz contente:<br> + E sou ja do que fui tão differente,<br> + Que quando por meu nome alguem me chama,<br> + Pasmo, porque conheço<br> + Qu'inda comigo proprio me pareço.<span class="pn" ><a name="pag_164">{164}</a></span> + <br> + O gado, que apascento,<br> + São n'alma os meus cuidados;<br> + As flores, que no campo sempre vejo,<br> + São no meu pensamento<br> + Teus olhos debuxados,<br> + Com qu'estou enganando o meu desejo.<br> + Do frio e doce Tejo<br> + As águas se tornárão<br> + Ardentes e salgadas,<br> + Despois que minhas lagrimas cansadas<br> + Com seu puro licor se misturárão;<br> + Como quando mistura<br> + Hyppanis co'o Exampêo sua água pura.<br> + Se ahi no mundo houvesse<br> + Ouvires-me algum'hora,<br> + Assentados na praia deste rio;<br> + E d'arte te dissesse<br> + O mal que passo agora,<br> + Que pudesse mover-te o peito frio!..<br> + Oh quanto desvario,<br> + Qu'estou imaginando!<br> + Ja agora meu tormento<br> + Não póde pedir mais ao pensamento,<br> + Qu'este phantasiar, donde penando<br> + A vida me reserva.<br> + Querer mais de meu mal será soberba.<br> + Ja a esmaltada Aurora<br> + Descobre o negro manto<br> + Da sombra, que as montanhas encobria.<br> + Descansa, frauta, agora,<br> + Pois meu escuro canto<span class="pn" ><a name="pag_165">{165}</a></span><br> + Não merece que veja o claro dia.<br> + Não canse a phantasia<br> + D'estar em si pintando<br> + O gesto delicado,<br> + Em quanto traz ao pasto o manso gado<br> + Esse pastor, que lá só vem fallando.<br> + Callar-me-hei somente;<br> + Que o meu mal nem ouvir se me consente.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Formosa manhãa clara e deleitosa,<br> + Que, como fresca rosa na verdura,<br> + Te mostras bella e pura, marchetando<br> + As Nymphas, espalhando teus cabellos<br> + Nos verdes montes bellos; tu só fazes,<br> + Quando a sombra desfazes triste e escura,<br> + Formosa a espesura e a clara fonte,<br> + Formoso o alto monte e o rochedo,<br> + Formoso o arvoredo e deleitoso,<br> + E emfim tudo formoso co'o teu rosto<br> + D'ouro e rosas composto e claridade;<br> + Trazes a saudade ao pensamento,<br> + Mostrando em hum momento o roxo dia,<br> + Com a doce harmonia nos cantares<br> + Dos passaros a pares, que voando<br> + Seu pasto andão buscando nos raminhos,<br> + Para os amados ninhos que mantém.<br> + Oh grande e summo bem da natureza!<br> + Estranha subtileza de pintora,<br> + Que matiza em hum'hora de mil côres<br> + O ceo, a terra, as flores, monte e prado!<br> + Oh tempo ja passado! quão presente<span class="pn" + ><a name="pag_166">{166}</a></span><br> + Te vejo abertamente na vontade!<br> + Quão grande saudade tenho agora<br> + Do tempo que a pastora minha amava,<br> + E de quanto prezava a minha dor!<br> + Então tinha o amor maior poder,<br> + Quando em hum só querer nos igualava;<br> + Porque quando hum amava a quem queria,<br> + Logo eco respondia d'affeição<br> + No brando coração da doce imiga.<br> + Nesta amorosa liga concertavão<br> + Os tempos, que passavão com prazeres.<br> + Mostrava a flava Ceres por as eiras<br> + Das brancas sementeiras ledo fruto,<br> + Pagando seu tributo aos Lavradores;<br> + E enchia aos pastores todo o prado<br> + Pales do manso gado guardadora.<br> + Hião Zéphyro e Flora passeando,<br> + Os campos esmaltando de boninas;<br> + Nas fontes cristallinas triste estava<br> + Narciso, qu'inda olhava n'água pura<br> + Sua linda figura e delicada:<br> + Mas Eco, namorada de tal gesto,<br> + Com pranto manifesto, seu tormento<br> + No derradeiro accento lamentava.<br> + Alli tambem se achava o sangue tinto<br> + Do purpureo Jacintho; e o destrôço<br> + De Adonis bello moço; morte fêa<br> + Da bella Cytherêa tão chorada;<br> + Toda a terra esmaltada destas rosas.<br> + Hião Nymphas formosas por os prados;<br> + E os Faunos namorados apos ellas,<span class="pn" ><a name="pag_167">{167}</a></span> + <br> + Mostrando-lhes capellas de mil côres,<br> + Ordenadas das flores que colhião:<br> + As Nymphas lhe fugião espantadas,<br> + As faldas levantadas, por os montes.<br> + Via-sea água das fontes espalhar-se;<br> + Vertumno transformar-se alli se via;<br> + Pomona, que trazia os doces fruitos;<br> + Alli pastores muitos, que tangião<br> + As gaitas que trazião, e cantando<br> + Estavão enganando as suas penas,<br> + Tomando das Sirenas o exercicio.<br> + Ouvia-se Salicio lamentar-se;<br> + Da mudança queixar-se crua e fêa<br> + Da dura Galathêa tão formosa:<br> + E da morte invejosa Nemoroso<br> + Ao monte cavernoso se querella,<br> + Que a sua Elisa bella em pouco espaço<br> + Cortou inda em agraço. Ah dura sorte!<br> + Oh immatura morte, que a ninguem<br> + De quantos vida t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e jamais perdoas!<br> + Mas tu, tempo, que voas apressado,<br> + Hum deleitoso estado quão asinha<br> + Nesta vida mesquinha transfiguras<br> + Em mil desaventuras, e a lembrança<br> + Nos deixas por herança do que levas!<br> + Assi que se nos cevas com prazeres,<br> + He para nos comeres no melhor.<br> + Cada vez em peor te vás mudando:<br> + Quanto v<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>es inventando, qu'hoje approvas,<br> + Logo á manhãa reprovas com instancia.<br> + Oh perversa inconstancia e tão profana<span class="pn" + ><a name="pag_168">{168}</a></span><br> + De toda cousa humana inferior,<br> + A quem o cego error sempre anda annexo!<br> + Mas eu de que me queixo? ou eu que digo?<br> + Vive o tempo comigo? ou elle tem<br> + Culpa no mal que vem da cega gente?<br> + Por ventura elle sente, ou elle entende<br> + Aquillo que defende o ser divino?<br> + Elle usa de contino seu officio,<br> + Que ja por exercicio lhe he devido:<br> + Dá-nos fructo colhido na sazão<br> + Do formoso verão; e no inverno,<br> + Com seu humor eterno congelado,<br> + Do vapor levantado co'a quentura<br> + Do sol, a terra dura lhe dá alento,<br> + Para que o mantimento produzindo,<br> + Estê sempre cumprindo seu costume.<br> + Assi que não consume de si nada,<br> + Nem muda da passada vida hum dedo:<br> + Antes sempre está quedo no devido,<br> + Porqu'este he seu partido e sua usança;<br> + E nelle esta mudança he mais firmeza.<br> + Mas quem a Lei despreza, e pouco estima,<br> + De quem de lá de cima está movendo<br> + O ceo sublime e horrendo, o mundo puro,<br> + Este muda o seguro e firme estado<br> + Do tempo, não mudado de verdade.<br> + Não foi naquella idade d'ouro claro<br> + O firme tempo charo e excellente?<br> + Vivia então a gente moderada;<br> + Sem ser a terra arada dava pão;<br> + Sem ser cavado o chão as fructas dava;<span class="pn" + ><a name="pag_169">{169}</a></span><br> + Nem águas desejava, nem quentura;<br> + Suppria então natura o necessario.<br> + Pois quem foi tão contrário a esta vida?<br> + Saturno, que, perdida a luz serena,<br> + Causou, qu'em dura pena, desterrado,<br> + Fosse do ceo lançado, onde vivia;<br> + Porque os filhos comia, que gerava.<br> + Por isso se mudava o tempo igual<br> + Em mais baixo metal: e assi descendo<br> + Nos veio, emfim, trazendo a este estado.<br> + Mas eu, desatinado, aonde vou?<br> + Para onde me levou a phantasia?<br> + Qu'estou gastando o dia em vãas palavras?<br> + Quero ora minhas cabras ir levando<br> + Ao Tejo claro e brando; porque achar<br> + No mundo qu'emendar, não he d'agora:<br> + Basta que a vida fóra delle tenho:<br> + Com meu gado me avenho, e estou contente.<br> + Porém, se me não mente a vista, eu vejo<br> + Nesta praia do Tejo estar deitado<br> + Almeno, que enlevado em pensamentos,<br> + As horas e os momentos vai gastando:<br> + Vou-me a elle chegando, só por ver<br> + Se poderei fazer que o mal que sente,<br> + Hum pouco se lhe ausente da memoria.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Oh doce pensamento! oh doce gloria!<br> + São estes por ventura os olhos bellos,<br> + Que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de meus sentidos a victoria?<br> + São estas, Nympha, as tranças dos cabellos,<br> + Que fazem de seu preço o ouro alheio,<span class="pn" + ><a name="pag_170">{170}</a></span><br> + Como a mi de mi mesmo só com vellos?<br> + He esta a alva columna, o lindo esteio,<br> + Sustentador das obras mais que humanas,<br> + Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio?<br> + Ah falso pensamento, que me enganas!<br> + Fazes-me pôr a boca onde não devo,<br> + Com palavras de doudo, ou quasi insanas!<br> + Como a alçar-te tão alto assi me atrevo?<br> + Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás?<br> + Levas-me tu a mi, ou eu te levo?<br> + Não poderei eu ir onde tu vás?<br> + Porém, pois ir não posso onde tu fores,<br> + Quando fores, não tornes onde estás.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Oh que triste successo foi de amores,<br> + O que a este pastor aconteceo,<br> + Segundo ouvi contar a outros pastores!<br> + Tanto emfim, por seu damno se perdeo,<br> + Que o longo imaginar em seu tormento,<br> + Em desatino Amor lh'o converteo.<br> + Oh forçoso vigor do pensamento,<br> + Que póde em outra cousa estar mudando<br> + A fórma, a vida, o siso, o entendimento!<br> + Está-se hum triste amante transformando<br> + Na vontade daquella, que tanto ama,<br> + De si a propria essencia transportando.<br> + E nenhum'outra cousa mais desama,<br> + Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido,<br> + Que deste fogo insano não se inflama.<br> + Almeno, que aqui 'stá tão influido<br> + No phantastico sonho, que o cuidado<span class="pn" + ><a name="pag_171">{171}</a></span><br> + Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,<br> + Está-se-lhe pintando, de enlevado,<br> + Que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ja da phantastica pastora<br> + O peito diamantino mitigado.<br> + Em este doce engano estava agora<br> + Fallando como em sonho, mas achando<br> + Ser vento o que sonhava, grita e chora.<br> + Dest'arte andavão sonhos enganando<br> + O pastor somnolento, que a Diana<br> + Andava entre as ovelhas celebrando;<br> + Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana,<br> + O vão pae dos Centauros enganava:<br> + (Que Amor quando contenta, sempre engana)<br> + Como este, que comsigo só fallava,<br> + Cuidando que fallava, de enleado,<br> + Com quem lhe o pensamento figurava.<br> + Não póde quem quer muito, ser culpado<br> + Em nenhum êrro, quando vem a ser<br> + Este amor em doudice transformado.<br> + Amor não será amor, se não vier<br> + Com doudices, deshonras, dissensões,<br> + Pazes, guerras, prazer e desprazer;<br> + Perigos, linguas más, murmurações<br> + Ciumes, arruidos, competencias,<br> + Temores, nojos, mortes, perdições.<br> + Estas são verdadeiras penitencias<br> + De quem põe o desejo onde não deve,<br> + De quem engana alheias innocencias.<br> + Mas isto t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o amor, que não se escreve<br> + Senão donde he illicito e custoso;<br> + E donde he mais o risco, mais se atreve.<span class="pn" + ><a name="pag_172">{172}</a></span><br> + Passava o tempo alegre e deleitoso<br> + O Troiano pastor, em quanto andava<br> + Sem ter alto desejo e perigoso.<br> + Seus furiosos touros coroava,<br> + E nos álamos altos escrevia<br> + Teu nome (Enone) quando a ti só amava.<br> + Os álamos crescião, e crescia<br> + O amor qu'elle te tinha: sem perigo,<br> + E sem temor, contente te servia.<br> + Mas despois que deixou entrar comsigo<br> + Illicito desejo e pensamento,<br> + De sua quietação tão inimigo;<br> + A toda a patria poz em detrimento<br> + Com mortes de parentes e de irmãos,<br> + Com crú incendio, e grande perdimento.<br> + Nisto fenecem pensamentos vãos:<br> + Tristes serviços mal galardoados,<br> + Cuja glória se passa d'entre as mãos.<br> + Lagrimas e suspiros arrancados<br> + D'alma, todos se pagão com enganos:<br> + E oxalá forão muitos enganados!<br> + Andão com seu tormento tão ufanos,<br> + Que gastão na doçura d'hum cuidado<br> + Apos huma esperança muitos anos.<br> + E talha tão perdido namorado,<br> + Tão contente co'o pouco, que daria<br> + Por hum só volver d'olhos todo o gado.<br> + Em todo povoado e companhia,<br> + Sendo ausentes de si, se vem presentes<br> + Com quem lhes pinta sempre a phantasia.<br> + Co'hum certo não sei que andão contentes,<span class="pn" + ><a name="pag_173">{173}</a></span><br> + E logo hum nada os torna, ao contrário,<br> + De todo ser humano differentes.<br> + Oh tyrannico Amor, oh caso vario,<br> + Que obrigas a hum querer que sempre seja<br> + De si contínuo e aspero adversario!<br> + E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja,<br> + Senão quando do seu despôjo amado<br> + Sua inimiga estar triumphando veja.<br> + Quero fallar com este, qu'enredado<br> + Nesta cegueira está sem nenhum tento.<br> + Acorda ja, pastor, desacordado.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Oh porque me tiraste hum pensamento,<br> + Que agora estava aos olhos debuxando,<br> + De quem aos meus foi doce mantimento?<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Nesta imaginação estás gastando<br> + O tempo e vida, Almeno? Perda grande!<br> + Não vês quão mal os dias vás passando?<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Formosos olhos, ande a gente e ande;<br> + Que nunca vos ireis dest'alma minha,<br> + Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Quem poderá cuidar que tão asinha<br> + Se perca o curso assi do siso humano,<br> + Que corre por direita e justa linha?<br> + Que sejas tão perdido por teu dano,<br> + Almeno meu, não he por certo aviso;<br> + He só doudice grande, grande engano.<span class="pn" + ><a name="pag_174">{174}</a></span><br> + A<small>LMENO.</small><br> + Ó Agrario meu, que vendo o doce riso,<br> + E o rosto tão formoso, como esquivo,<br> + O menos que perdi foi todo o siso.<br> + E não entendo, desque sou captivo,<br> + Outra cousa de mi, senão que mouro:<br> + Nem isto entendo bem, pois inda vivo.<br> + Á sombra deste umbroso e verde louro<br> + Passo a vida, ora em lagrimas cansadas,<br> + Ora em louvores dos cabellos d'ouro.<br> + Se perguntares porque são choradas,<br> + Ou porque tanta pena me consume,<br> + Revolvendo memorias magoadas;<br> + Desque perdi da vida o claro lume,<br> + E perdi a esperança e causa della,<br> + Não chóro por razão, mas por costume.<br> + Jamais pude co'o fado ter cautella;<br> + Nem houve nunca em mi contentamento,<br> + Que não fosse trocado em dura estrella.<br> + Que bem livre vivia e bem isento,<br> + Sem qu'ao jugo me visse submettido<br> + De nenhum amoroso pensamento!<br> + Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido<br> + Tão fóra d'amor tinha, que me ria<br> + De quem por elle via andar perdido.<br> + De várias côres sempre me vestia;<br> + De boninas a fronte coroava;<br> + Nenhum pastor cantando me vencia.<br> + A barba então nas faces me apontava;<br> + Na luta, na carreira, em qualquer manha,<br> + Sempre a palma entre todos alcançava.<span class="pn" + ><a name="pag_175">{175}</a></span><br> + Da minha idade tenra, em tudo estranha,<br> + Vendo (como acontece) affeiçoadas<br> + Muitas Nymphas do rio e da montanha;<br> + Com palavras mimosas e forjadas,<br> + De solta liberdade e livre peito,<br> + As trazia contentes e enganadas.<br> + Mas não querendo Amor, que deste geito<br> + Dos corações andasse triumphando,<br> + Em quem elle criou tão puro affeito;<br> + Pouco a pouco me foi de mi levando<br> + Dissimuladamente ás mãos de quem<br> + Toda esta injuria agora está vingando.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem<br> + O princípio e o fim; que Nemoroso<br> + Contado tudo isso, e mais, me tem.<br> + Mas (quero-to dizer) se este enganoso<br> + Amor he tão usado a desconcertos,<br> + Que nunca amando fez pastor ditoso;<br> + Ja que nelle estes casos são tão certos,<br> + Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa<br> + Te chorão valles, montes e desertos?<br> + Vejo-te estar gastando em viva fragoa,<br> + E juntamente em lagrimas; vencendo<br> + A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa.<br> + Vejo que as tuas cabras, não querendo<br> + Gostar as verdes hervas, se emmagrecem,<br> + As tetas aos cabritos encolhendo.<br> + Os campos, que co'o tempo reverdecem,<br> + Os olhos alegrando descontentes,<br> + Em te vendo, parece, se entristecem.<span class="pn" + ><a name="pag_176">{176}</a></span><br> + De todos teus amigos e parentes,<br> + Que lá da serra vem por consolar-te,<br> + Sentindo na alma a pena, que tu sentes,<br> + Se querem de teus males apartar-te,<br> + Deixando a choça e gado vás fugindo,<br> + Como cervo ferido, a outra parte.<br> + Não vês que Amor, as vidas consumindo,<br> + Vive só de vontades enlevadas<br> + No falso parecer d'hum gesto lindo?<br> + Nem as hervas das águas desejadas<br> + Se fartão; nem de flores as abelhas;<br> + Nem este Amor de lagrimas cansadas.<br> + Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas,<br> + Chorou Phebo de Daphne as esquivanças,<br> + Regando as flores brancas e vermelhas?<br> + Quantas vezes as asperas mudanças<br> + O namorado Gallo t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e chorado<br> + De quem o tinha envolto em esperanças?<br> + Estava o triste amante recostado,<br> + Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso,<br> + Que o falso Amor lhe tinha destinado.<br> + Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso,<br> + Na fonte de Aganippe destillando,<br> + Se fazião de lagrimas hum vaso.<br> + O intonso Apollo o vinha alli culpando,<br> + A sobeja tristeza perigosa<br> + Com asperas palavras reprovando.<br> + Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa<br> + Nympha, que tanto amaste, descobrindo<br> + Por falsa a fé, que dava, e mentirosa;<br> + Por as Alpinas neves vai seguindo<span class="pn" + ><a name="pag_177">{177}</a></span><br> + Outro bem, outro amor, outro desejo;<br> + Como inimiga, emfim, de ti fugindo.<br> + Mas o misero amante, que o sobejo<br> + Mal empregado amor lhe defendia<br> + Ter de tamanha fé vergonha ou pejo;<br> + Da falsífica Nympha não sentia<br> + Senão que o frio do gelado Rheno<br> + Os delicados pés lhe offenderia.<br> + Ora se tu vês claro, amigo Almeno,<br> + Que d'Amor os desastres são de sorte,<br> + Que para matar basta o mais pequeno,<br> + Porque não pões hum freio a mal tão forte,<br> + Qu'em estado te põe, que sendo vivo,<br> + Ja não se entende em ti vida nem morte?<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Agrario; se do gesto fugitivo,<br> + Por caso de fortuna desastrado,<br> + Algum'hora deixar de ser captivo;<br> + Ou sendo para as Ursas degradado,<br> + Adonde Boreas t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o Oceano<br> + Co'os frios Hyperboreos congelado;<br> + Ou donde o filho de Climene insano,<br> + Mudando a côr das gentes totalmente,<br> + As terras apartou do trato humano;<br> + Ou se ja por qualquer outro accidente<br> + Deixar este cuidado tão ditoso,<br> + Por quem sou de ser triste tão contente;<br> + Este rio, que passa deleitoso,<br> + Tornando para traz, irá negando<br> + Á natureza o curso pressuroso.<br> + As cabras por o mar irão buscando<span class="pn" + ><a name="pag_178">{178}</a></span><br> + Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura<br> + Das hervas os delfins apascentando.<br> + Ora se tu vês, n'alma quão segura<br> + Deste amor tenho a fé, para qu'insistes<br> + Nesse conselho e prática tão dura?<br> + Se de tua porfia não desistes,<br> + Vae repastar teu gado a outra parte;<br> + Qu'he dura a companhia para os tristes.<br> + Huma só cousa quero encomendarte,<br> + Para repouso algum de meu engano,<br> + Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte:<br> + Que s'esta fera, qu'anda em traje humano,<br> + Por a montanha vires ir vagando,<br> + De meu despôjo rica e de meu dano,<br> + Comos vivos espritos inflammando<br> + O ar, o monte e a serra, que comsigo<br> + Continuamente leva namorando;<br> + Se queres contentar-me, como amigo,<br> + Passando, lhe dirás: Gentil pastora,<br> + Não ha no mundo vício sem castigo.<br> + Tornada em puro marmore não fôra<br> + A fera Anaxarete, se amoroso<br> + Mostrára o rosto angelico algum'hora.<br> + Foi bem justo o castigo rigoroso:<br> + Porém quem te ama (Nympha) não queria<br> + Nódoa tão feia em gesto tão formoso.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Tudo farei, Almeno, e mais faria<br> + Por algum dia ver-te descansado,<br> + Se s'acabão trabalhos algum dia.<br> + Mas bem vês como Phebo ja empinado<span class="pn" + ><a name="pag_179">{179}</a></span><br> + Me manda que da calma iniqua e crua,<br> + Recolha em algum valle o manso gado.<br> + Tu nessa phantasia falsa e nua,<br> + Para engano maior de teu perigo,<br> + Não queres companhia mais que a sua.<br> + Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo;<br> + E ficarás melhor acompanhado.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Elle comtigo vá, como comigo<br> + Me fica acompanhando o meu cuidado.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011230000">ECLOGA III.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011231000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">A<small>LMENO</small> e +B<small>ELISA</small>.</p> + +<blockquote> + Passado ja algum tempo que os amores<br> + D'Almeno, por seu mal, erão passados,<br> + Porque nunca Amor cumpre o que promette;<br> + Entr'huns verdes ulmeiros apartado,<br> + Regando por o campo as brancas flores,<br> + Em lagrimas cansadas se derrete:<br> + Quando a linda pastora, que compete<br> + Co'o monte em aspereza,<br> + Co'o prado em gentileza,<br> + Por quem o pastor triste endoudecia,<br> + Por a praia do Tejo discorria<span class="pn" ><a name="pag_180">{180}</a></span><br> + A lavar a beatilha e o trançado:<br> + O sol ja consentia<br> + Que sahisse da sombra o manso gado.<br> + Ja acordado daquelle pensamento<br> + Que tão desacordado sempre o teve,<br> + Vio por acêrto o bem, que incerto tinha.<br> + E porque donde amor a mais se atreve,<br> + Alli mais enfraquece o entendimento,<br> + Não lhe soube dizer o que convinha.<br> + Como homem que á aprazada briga vinha,<br> + A quem de fóra engana<br> + A confiança humana,<br> + E despois, vendo o rosto a quem resiste,<br> + Treme, e teme o perigo e não insiste;<br> + Ja se arrepende, a audacia lhe fallece:<br> + Dest'arte o pastor triste<br> + Ousa, receia, esforça e enfraquece.<br> + E tendo assi ja attonito o sentido,<br> + Cometteo com furor desatinado,<br> + E tirou da fraqueza coração.<br> + Comettimento foi desesperado:<br> + Qu'huma só salvação t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e hum perdido,<br> + Perder toda a esperança á salvação.<br> + As mágoas, que passárão, se dirão:<br> + Mas as qu'ella dizia,<br> + Lembrando-lhe que via<br> + As águas murmurar do Tejo amenas,<br> + Remetto a vós, ó Tagides Camenas;<br> + Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto;<br> + Porqu'em tamanhas penas<br> + Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto.<span class="pn" + ><a name="pag_181">{181}</a></span><br> + B<small>ELISA.</small><br> + Que alegre campo e praia deleitosa!<br> + Quão saudosa faz esta espessura<br> + A formosura angelica e serena<br> + Da tarde amena! Quão saudosamente<br> + A sesta ardente abranda, suspirando,<br> + De quando em quando o vento alegre e frio!<br> + No fundo rio os mudos peixes sáltão;<br> + Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde,<br> + E Phebo perde a fôrça da quentura.<br> + Por a espessura levão, passeando,<br> + O gado brando ao som das çanfoninas,<br> + Pizando as finas e formosas flores,<br> + Os Guardadores, que cantando o gesto<br> + Formoso e honesto das pastoras qu'amão,<br> + Por o ar derramão mil suspiros vãos.<br> + Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos,<br> + Outro os cabellos d'ouro, em som suave:<br> + E a amorosa ave leva o contraponto.<br> + Mas oh que conto e saudosa historia<br> + Que na memoria aqui se m'offerece!<br> + Se não m'esquece, ja deste lugar<br> + Ouvi soar os valles algum dia,<br> + E respondia o eco o nome em vão<br> + N'hum coração, <em>Belisa</em> retumbando.<br> + Estou cuidando como o tempo passa,<br> + E quão escaça he toda alegre vida;<br> + E quão comprida, quando he triste e dura.<br> + Nesta 'spessura longo tempo amei:<br> + Se m'enganei com quem do peito amava,<br> + Não me pezava de ser enganada.<span class="pn" ><a name="pag_182">{182}</a></span> + <br> + Fui salteada, emfim, d'hum pensamento,<br> + Que hum movimento tinha casto e são.<br> + Conversação foi fonte dest'engano<br> + Que, por meu dano, entrou com falsa côr.<br> + Porque o amor na Nympha, que he segura,<br> + Entra em figura de vontade honesta.<br> + Mas que me presta agora dar desculpa?<br> + Pois se houve culpa, foi do firme amor<br> + Só, n'hum pastor, que nunca sol nem l<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a,<br> + Ou serra alg<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a, desde o Ibero ao Indo,<br> + Outro tão lindo vírão, tão manhoso.<br> + Nest'amoroso estado, e fé que tinha<br> + Nest'alma minha tão secretamente,<br> + Vivi contente, amando e encobrindo.<br> + Elle fingindo mentirosos danos,<br> + Que são enganos que não custão nada;<br> + Tendo alcançada ja no entendimento<br> + A fé e intento meu só nelle pôsto;<br> + (Que logo o rosto mostra os corações,<br> + E as affeições co'os olhos se praticão<br> + Que mais publicão muito, que palavras)<br> + Com suas cabras sempre á parte vinha,<br> + Ond'eu mantinha os olhos do desejo.<br> + Tu, manso Tejo, e tu, florído prado,<br> + Do mais passado, emfim, que aqui não digo,<br> + Sereis, m'obrigo, testimunho certo;<br> + Pois descoberto vos foi tudo e claro.<br> + Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual!<br> + Quão grande mal quereis á humana gente!<br> + Porque hum contente estado assi trocastes?<br> + Vós me tirastes do meu peito isento<span class="pn" + ><a name="pag_183">{183}</a></span><br> + O pensamento honesto e repousado,<br> + Ja dedicado ao côro de Diana;<br> + Vós n'huma ufana vida me puzestes,<br> + E alli quizestes que gozasse o dano<br> + Do doce engano, que se chama amor,<br> + Com cujo error passava o tempo ledo:<br> + E vós tão cedo me tirais hum bem,<br> + Que Amor ja tem impresso n'alma minha,<br> + Despois qu'a tinha envolta em esperanças;<br> + E com lembranças tristes me deixais?<br> + Mal me pagais a fé que sempre tive.<br> + Mas assi vive quem sem dita nace.<br> + Mas ja a face alegre o sol esconde;<br> + E não responde alguem a tantas mágoas,<br> + Senão as ágoas, que dos olhos sahem.<br> + As sombras cahem; vão-se as alimarias,<br> + Fartas das várias hervas, seu caminho;<br> + Buscão seu ninho os passaros sem dono:<br> + Ja por o sono esquecem o comer.<br> + Quero esquecer tambem tão doce historia,<br> + Pois he memoria que traz mor cuidado.<br> + Isto he passado; e se me deo paixão,<br> + Os dias vão gastando o mal e o bem;<br> + E não convém querer-me magoar<br> + Do qu'emendar não posso ja com mágoas.<br> + Nas claras ágoas deste rio brando,<br> + Que vão regando o valle matizado,<br> + Este trançado lavar quero emfim;<br> + Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança<br> + Desta mudança, qu'esquecer não sei:<br> + Bem qu'eu verei mudar a opinião,<span class="pn" ><a name="pag_184">{184}</a></span> + <br> + Pois homens são: a quem o esquecimento<br> + Depressa faz mudar o pensamento.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Se a vista não m'engana a phantasia,<br> + Como ja m'enganou mil vezes, quando<br> + Minha ventura enganos me soffria;<br> + Parece-me, que vejo estar lavando<br> + Huma Nympha algum véo no claro Tejo,<br> + Que se m'está Belisa figurando.<br> + Não póde ser verdade isto que vejo;<br> + Que facilmente aos olhos se figura<br> + Aquillo que se pinta no desejo.<br> + Oh acontecimento, qu'a ventura<br> + Me dá para mor damno! Esta he, certo;<br> + Que não he d'outrem tanta formosura.<br> + Se poderei fallar-lhe de mais perto?<br> + Mas fugir-me-ha. Não póde ser; qu'o rio<br> + Para acolá não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e caminho aberto.<br> + Oh temor grande! oh grande desvario,<br> + Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente<br> + Assi m'está tornando, e o peito frio!<br> + De quanto me sobeja, estando ausente,<br> + Que para lhe fallar sempre imagino,<br> + Tudo me falta quando estou presente.<br> + Oh aspecto suave e peregrino!<br> + Pois como? tão asinha assi s'esquece<br> + Huma fé verdadeira, hum amor fino?<br> + B<small>ELISA.</small><br> + Oh altas semideas! pois padece<br> + Em vosso rio a honra delicada<br> + De quem tamanha fôrça não merece:<span class="pn" ><a name="pag_185">{185}</a></span> + <br> + Ou seja por vós, Nymphas, preservada;<br> + Ou em arvore alguma, ou pedra dura<br> + Me deixai velozmente transformada.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Ah Nympha! não te mudes a figura:<br> + Nem vós, deosas, queirais qu'eu seja parte<br> + De se mudar tão rara formosura.<br> + Porqu'a quem falta a voz para fallar-te,<br> + E a quem falta o despejo da ousadia,<br> + Tambem faltarão mãos para tocar-te.<br> + B<small>ELISA.</small><br> + Que me queres, Almeno, ou que porfia<br> + Foi a tua tão aspera comigo?<br> + Minha vontade não to merecia.<br> + Se com amor o fazes, eu te digo,<br> + Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo,<br> + Não póde ser amor, mas inimigo.<br> + Não es tu de saber tão falto e rudo,<br> + Que tão sem siso amasses, como amaste.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Onde viste tu, Nympha, amor sisudo?<br> + Porque ja não te lembra que folgaste<br> + Com meus tormentos tristes, e algum'hora<br> + Com teus formosos olhos ja m'olhaste?<br> + Como t'esquece ja (gentil pastora)<br> + Que folgavas de ler nos freixos verdes<br> + O que de ti 'screvia cada hora?<br> + Porqu'a memoria tão á pressa perdes<br> + Do amor que me mostravas, qu'eu não digo,<br> + Se o vós, ó altos montes, não disserdes?<br> + E como te não lembras do perigo,<span class="pn" + ><a name="pag_186">{186}</a></span><br> + A que só por m'ouvir t'aventuravas,<br> + Buscando horas de sesta, horas d'abrigo?<br> + Co'a maçãa da discordia me tiravas;<br> + Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura,<br> + Tu, como mais formosa, lha ganhavas.<br> + E escondendo-te logo na'spessura,<br> + Hias fugindo, como vergonhosa<br> + Da namorada e doce travessura.<br> + Não era esta a maçãa d'ouro formosa<br> + Com qu'encoberta assi d'astucia tanta<br> + Cydippe s'enganou por cubiçosa,<br> + Nem a que o curso teve d'Atalanta;<br> + Mas era aquella, com que Galathêa<br> + O pastor captivou, como elle canta.<br> + Se más tenções puzerão nodoa fêa<br> + Em nosso firme amor, d'inveja pura,<br> + Porque pagarei eu a culpa alhea?<br> + Quem desta fé, quem dest'amor não cura,<br> + Nunca teve sujeito o coração;<br> + Queo firme amor com a alma eterna dura.<br> + B<small>ELISA.</small><br> + Mal conheces, Almeno, huma affeição;<br> + Que s'eu desse amor tenho esquecimento,<br> + Meus olhos magoados to dirão.<br> + Mas teu sobejo e livre atrevimento,<br> + E teu pouco segredo, descuidando,<br> + Foi causa deste longo apartamento.<br> + Vês as Nymphas do Tejo, que mudando<br> + Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto<br> + N'outra mais dura fórma traspassando.<br> + Hum só segredo meu te manifesto:<span class="pn" + ><a name="pag_187">{187}</a></span><br> + Que te quiz muito em quanto Deos queria;<br> + Mas de pura affeição, d'amor honesto.<br> + E pois de teus descuidos e ousadia<br> + Nasceo tão dura e aspera mudança,<br> + Fólgo; que muitas vezes to dizia.<br> + Fica-te embora, e perde a confiança<br> + De ver-me nunca mais, como ja viste:<br> + Que assi se desengana huma esperança.<br> + A<small>LMENO.</small><br> + Oh duro apartamento! oh vida triste!<br> + Oh nunca acontecida desventura!<br> + Pois como, Nympha? assi te despediste?<br> + Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!)<br> + Nesta sylvestre e aspera rudeza<br> + Tão branda e excellente formosura?<br> + Tua nunca entendida gentileza,<br> + E teus membros assi se transformárão,<br> + Negando-se-lhe a propria natureza?<br> + Dest'arte os teus cabellos se tornárão<br> + (Deixando ja seu preço ao ouro fino)<br> + Em fôlhas, que a côr t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e do que negárão?<br> + S'este consentimento foi divino,<br> + Consinta-me tambem que perca a vida,<br> + Antes que a mais m'obrigue o desatino.<br> + Pois se a fortuna sempre embravecida<br> + Em meu tormento tanto se desmede,<br> + Não viva mais hum'alma tão perdida.<br> + E vós, feras do monte, pois vos pede<br> + Minha pena o remedio derradeiro,<br> + Fartae ja de meu sangue vossa sêde.<br> + E vós, pastores rudos deste outeiro,<span class="pn" + ><a name="pag_188">{188}</a></span><br> + Porque a todos, emfim, se manifeste<br> + Que cousa he amor puro e verdadeiro;<br> + Á sombra deste funebre cypreste<br> + Me fareis hum sepulcro sem arrêo<br> + De boninas que o prado ameno veste.<br> + As desusadas musicas de Orphêo<br> + Aqui me cantareis; e desta sorte<br> + Não haverei inveja ao mausolêo.<br> + E porqu'a minha cinza se conforte,<br> + Em vossos metros doces e suaves<br> + As exequias direis de minha morte.<br> + Alli responderão as altas aves,<br> + Não módulas no canto nem lascivas,<br> + Mas de dor ora roucas, ora graves.<br> + Não correrão as águas fugitivas,<br> + Alegres por aqui, mas saudosas,<br> + Que pareça que vem dos olhos vivas.<br> + Nascerão por as praias deleitosas<br> + Os asperos abrolhos em lugar<br> + Dos roxos lirios, das pudicas rosas.<br> + Não trarão as ovelhas a pastar<br> + De redor do sepulcro os guardadores;<br> + Pois nada comerião de pezar.<br> + Virão os Faunos, guarda dos pastores,<br> + Se morri por amores, perguntando;<br> + Responderão os ecos: <em>Por amores</em>.<br> + Dos que por aqui forem caminhando,<br> + Hum epitaphio triste se lerá,<br> + Qu'esteja minha morte declarando.<br> + E no tronco de huma árvore estara,<br> + N'huma rude cortiça pendurado<span class="pn" ><a name="pag_189">{189}</a></span><br> + Escripto co'huma fouce, e assi dirá:<br> + <em>Almeno fui, pastor de manso gado, </em><br> + <em>Em quanto o consentio minha ventura, </em><br> + <em>De Nymphas e pastores celebrado.</em><br> + <em> Se algum dia, por caso, na 'spessura</em><br> + <em>Se perder o amor e a affeição, </em><br> + <em>Tirem a pedra desta sepultura, </em><br> + <em> E em figura de cinza os acharão.</em><br> +</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011240000">ECLOGA IV.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011241000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">F<small>RONDOSO</small> e +D<small>URIANO</small>.</p> + +<blockquote> + Cantando por hum valle docemente<br> + Descião dous pastores, quando Phebo<br> + No reino Neptunino se escondia:<br> + De idade cada qual era mancebo;<br> + Mas velho no cuidado, e descontente<br> + Do que lh'elle causava parecia.<br> + O que cada hum dizia<br> + Lamentando seu mal, seu duro fado,<br> + Não sou eu tão ousado,<br> + Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:<br> + Porque se a minha ruda<br> + Frauta deste favor vosso for dina,<br> + Posso escusar a fonte Caballina.<br> + Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso;<span class="pn" + ><a name="pag_190">{190}</a></span><br> + Em vós tenho Calliope e Thalia;<br> + E as outras sete irmãas, co'o fero Marte;<br> + Em vós deixou Minerva sua valia;<br> + Em vós estão os sonhos do Parnaso;<br> + Das Pierides em vós s'encerra a arte.<br> + Com qualquer pouca parte,<br> + Senhora, que me deis d'ajuda vossa<br> + Podeis fazer qu'eu possa<br> + Escurecer ao sol resplandecente:<br> + Podeis fazer que a gente<br> + Em mi do grão poder vosso s'espante;<br> + E que vossos louvores sempre cante.<br> + Podeis fazer que cresça d'hora em hora<br> + O nome Lusitano, e faça inveja<br> + A Esmirna, que d'Homero s'engrandece.<br> + Podeis fazer tambem que o mundo veja<br> + Soar na ruda frauta o que a sonora<br> + Cithara Mantuana só merece.<br> + Ja agora me parece,<br> + Que podem começar os meus pastores<br> + A cantar seus amores.<br> + Porqu'inda que presentes não estejão<br> + As qu'elles ver desejão,<br> + Mudança de lugar, menos d'estado,<br> + Não muda hum coração do seu cuidado.<br> + Ja deixava dos montes a altura,<br> + E nas salgadas ondas s'escondia<br> + O sol, quando Frondoso e Duriano,<br> + Ao longo d'hum ribeiro, que corria<br> + Por a mais fresca parte da verdura<br> + Claro, suave e manso, todo o ano,<span class="pn" ><a name="pag_191">{191}</a></span> + <br> + Lamentando seu dano,<br> + Vinhão ja recolhendo o manso gado.<br> + Hum estava callado,<br> + Em quanto hum pouco o outro se queixava;<br> + Apos elle tornava<br> + A dizer de seu mal o que sentia;<br> + E em quanto este fallava, aquelle ouvia.<br> + Vinhão-se assi queixando aos penedos,<br> + Aos sylvestres montes e á aspereza,<br> + Que quasi de seus males se doião.<br> + Alli as pedras perdião a dureza;<br> + Alli correntes rios estar quedos,<br> + Promptos ás suas queixas, parecião.<br> + Somente as que podião<br> + Estes males curar, pois os causavão,<br> + O ouvido lhes negavão,<br> + Por perderem de todo a esperança:<br> + Mas elles, que mudança<br> + D'amor com tantos damnos não fazião,<br> + Com ellas fallando inda, assi dizião:<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Isto he o que aquella verdadeira<br> + Fé, com que t'amei sempre, merecia,<br> + Sem nunca te deixar hum só momento?<br> + Como (cruel Belisa) t'esquecia<br> + Hum mal, cuja esperança derradeira<br> + Em ti só tinha pôsto o seu assento?<br> + Não vias meu tormento?<br> + Não vias tu a fé, com que t'amava?<br> + Porque não t'abrandava<br> + Est'amor, que me tu tão mal pagaste?<span class="pn" + ><a name="pag_192">{192}</a></span><br> + Mas pois ja me deixaste<br> + Co'a esperança de ti toda perdida,<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Se os males que por ti tenho soffrido<br> + (Oh Silvana, em meus males tão constante!)<br> + Quizesses que algum'hora te dissera;<br> + Inda que, qual durissimo diamante,<br> + Fôra o teu cruel peito endurecido,<br> + Creio que a piedade te movêra.<br> + Ja agora em branda cera<br> + Os montes são tornados e os penedos;<br> + E os rios, qu'estão quedos,<br> + Sentírão meus suspiros, minhas queixas.<br> + Tu só, cruel, me deixas,<br> + Qu'es mais, que montes e penedos, dura,<br> + E fugitiva mais qu'a fonte pura.<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Ond'está aquella falla, que sohia<br> + Só com seu doce tom, que me chegava,<br> + Avivar-me os espiritos cansados?<br> + Onde está o olhar brando, que cegava<br> + O sol resplandecente ao meio dia?<br> + Ond'estão os cabellos delicados,<br> + Que ao vento espalhados<br> + Escurecião o ouro, a mi matavão;<br> + E a quantos os olhavão,<br> + Causavão tambem novos accidentes?<br> + Porque, cruel, consentes<br> + Qu'outro goze da gloria a mi devida?<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<span class="pn" + ><a name="pag_193">{193}</a></span><br> + D<small>URIANO.</small><br> + Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,<br> + Se não fosse esperar que morte dura<br> + Me venha emfim a dar a saudade.<br> + Vejo faltar-me a tua formosura;<br> + A vontade me diz que desespere,<br> + Contradiz-me a razão esta vontade.<br> + Diz qu'em huma beldade,<br> + Em quem mostrou o cabo a natureza,<br> + Não ha tanta crueza,<br> + Qu'hum tão constante amor desprezar queira,<br> + E fé tão verdadeira;<br> + Mas tu, que de razão jamais curaste,<br> + Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste.<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + A quem, Belisa ingrata, t'entregaste?<br> + A quem déste, cruel, a formosura,<br> + Qu'a meu tormento só, só se devia?<br> + Porqu'huma fé deixaste, firme e pura?<br> + Porque tão sem respeito me trocaste<br> + Por quem só nem olhar-te merecia?<br> + O bem que t'eu queria,<br> + E que não perderei se não por morte,<br> + Não he de maior sorte,<br> + Que quanto a cega gente estima e preza?<br> + Só a tua crueza<br> + Foi nisto contra mi endurecida.<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Levaste-me o meu bem n'hum só momento;<br> + Levaste-me com elle juntamente<span class="pn" ><a name="pag_194">{194}</a></span> + <br> + De cobrá-lo jamais a confiança:<br> + Deixaste-me em lugar delle sómente<br> + Huma contínua dor, hum grão tormento,<br> + Hum mal, de que não póde haver mudança.<br> + Tu, qu'eras a esperança<br> + Dos males que, cruel, tu me causaste,<br> + De todo te trocaste,<br> + Com Amor conjurada em minha morte.<br> + Porém se a minha sorte<br> + Consente que por ti seja causada,<br> + Morte não foi mais bem-aventurada.<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Não nasceste d'alguma pedra dura;<br> + Não te gerou alguma Tigre Hyrcana;<br> + Não te criaste, não, entre a rudeza,<br> + A quem, cruel, sahiste deshumana?<br> + No ceo formada foi tal formosura,<br> + Onde a mesma brandura he natureza.<br> + Pois, logo, essa dureza<br> + Donde teve princípio, ou a tomaste?<br> + Porque, dura, engeitaste<br> + De hum verdadeiro amor, que tu bem vias,<br> + A fé, que conhecias,<br> + Por outra de ti nunca conhecida?<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Vai-se co'o seu pastor o manso gado,<br> + Porque d'amor entende aquella parte,<br> + Qu'a natureza irracional lh'ensina.<br> + O rustico leão sem algum'arte,<br> + Do natural instincto só ensinado,<span class="pn" ><a name="pag_195">{195}</a></span> + <br> + Aonde sente amor, logo se inclina.<br> + E tu, que de divina<br> + Não tens menos queVenus e Cupido,<br> + Porque sequer co'o ouvido<br> + Hum amor verdadeiro não soccorres?<br> + Ah! porque te não corres<br> + De que o leão te vença em piedade,<br> + Se não te vence Venus na beldade?<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + A mi não me faltava o que se preza<br> + Entre os celestes deoses, que formárão<br> + A tua mais que humana formosura:<br> + Em mi os voluntarios ceos faltárão;<br> + Em mi se perverteo a natureza<br> + D'huma cruel formosa creatura.<br> + Mas, pois, Belisa dura,<br> + Que do mais alto ceo a nós vieste,<br> + E em teu peito celeste<br> + Hum tal contrário pôde aposentar-se,<br> + Não he contrário achar-se<br> + Tamanha fé tão mal agradecida.<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Por ti a noite escura me contenta;<br> + Por ti o claro dia m'aborrece;<br> + Abrolhos me parecem frescas flores;<br> + A doce Philomela m'entristece:<br> + Todo contentamento m'atormenta<br> + Com a contemplação de teus amores;<br> + As festas dos pastores,<br> + Que podem alegrar toda a tristeza.<span class="pn" + ><a name="pag_196">{196}</a></span><br> + Em mi tua crueza<br> + Faz que o mal cada hora vá dobrando.<br> + Oh cruel! até quando<br> + Ha de durar em ti tal pensamento,<br> + E a vida em mi, que soffre tal tormento?<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Fugiste d'hum amor tão conhecido,<br> + Fugiste d'huma fé tão clara e firme;<br> + E seguiste a quem nunca conheceste,<br> + Não por fugir d'amor, mas por fugir-me;<br> + Pois bem vês, quanto eu tinha merecido<br> + Esse amor que tu a outro concedeste.<br> + A mi não me fizeste<br> + Alguma sem razão; que bem conheço<br> + Que tanto não mereço:<br> + Fizeste-a áquelle bem firme e sincero<br> + Que sabes que te quero,<br> + Em lhe tirar a gloria merecida.<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Cresce cad'hora em mi mais o cuidado,<br> + E vejo qu'em ti cresce juntamente<br> + Cad'hora mais de mi o esquecimento.<br> + Oh Silvana cruel! porque consente<br> + Esse peito formoso e delicado<br> + Que s'esqueça hum tão aspero tormento?<br> + Tal aborrecimento<br> + Merece hum capital teu inimigo:<br> + Não eu, que só comtigo<br> + Estou contente, e nada mais desejo,<br> + Se algum'hora te vejo.<span class="pn" ><a name="pag_197">{197}</a></span><br> + Tu es hum só meu bem, huma só gloria,<br> + Que nunca se m'aparta da memoria.<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Olhos, que vírão tua formosura;<br> + Vida, que só de ver-te se sostinha;<br> + Vontade, qu'em ti'stava transformada;<br> + Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha,<br> + Tão unida comsigo, quanto a pura<br> + Alma co'o debil corpo está liada;<br> + E que agora apartada<br> + Te vê de si com tal apartamento,<br> + Qual será seu tormento?<br> + Qual será aquelle mal que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e presente?<br> + Maior he que o que sente<br> + O triste corpo em última partida.<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Regendo em outro tempo o manso gado,<br> + Tangendo a minha frauta nestes vales,<br> + Passava a doce vida alegremente:<br> + Não sentia o tormento destes males;<br> + Menos sentia o mal deste cuidado;<br> + Que tudo então em mi era contente.<br> + Agora não somente<br> + Desta vida suave m'apartaste.<br> + Mas outra me deixaste,<br> + Que ao duro mal que sinto ca no peito,<br> + Me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ja tão affeito,<br> + Que sinto ja por gloria a minha pena,<br> + Por natureza o mal, que me condena.<span class="pn" + ><a name="pag_198">{198}</a></span><br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Juntamente viver compridos anos,<br> + Os fados te concedão, que quizerão<br> + Ajuntar-te com tal contentamento.<br> + Pois os bens para ti todos nascêrão,<br> + Nascêrão para mi todos os danos,<br> + Logra tu tua gloria, eu meu tormento.<br> + Nenhum apartamento,<br> + Belisa, me fara deixar d'amar-te;<br> + Porqu'em nenhuma parte<br> + Poderás nunca estar sem mi hum'hora.<br> + Consente pois agora,<br> + Qu'em pago desta fé tão conhecida,<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Veja-t'eu, crua, amar quem te desame,<br> + Porque saibas que cousa he ser amada<br> + De quem tanto aborreces e desprezas.<br> + Veja-t'eu ser ainda desprezada<br> + De quem tu mais desejas que te ame,<br> + Porque sintas em ti tuas cruezas,<br> + Sintas tuas durezas,<br> + E quanto póde o seu cruel effeito<br> + N'hum coração sujeito.<br> + Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora,<br> + Espero qu'algum'hora<br> + Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te,<br> + Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te.<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + Mil annos de tormento me parece<br> + Cad'hora que sem ti, sem esperança<span class="pn" + ><a name="pag_199">{199}</a></span><br> + Vivo de poder mais tornar a ver-te.<br> + A vida só me dá tua lembrança;<br> + A vida sôbre tudo m'entristece;<br> + A vida antes perdêra, que perder-te.<br> + Mas eu se, por querer-te<br> + Hum bem qu'em ti só t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e seu firme assento,<br> + Padeço tal tormento,<br> + Qu'esperará de ti quem te desama,<br> + Ou quem ao menos te ama<br> + Com algum falso amor, ou fé fingida?<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Então, cruel, verás se te merece<br> + Com tamanho desprêzo ser tratada<br> + Hum'alma, que d'amar-te só se preza.<br> + Mas como poderás ser desprezada,<br> + Se o menos qu'em ti fóra se parece,<br> + Póde abrandar dos montes a aspereza?<br> + Porque se a natureza<br> + Em ti o remate poz da formosura,<br> + Qual será a pedra dura,<br> + Qu'a teu valor resista brandamente?<br> + Que fará a fraca gente,<br> + Se ao humano parecer não se defende,<br> + E a mesma Venus deosa ao teu se rende?<br> + F<small>RONDOSO.</small><br> + E pois fé verdadeira, amor perfeito,<br> + Tormento desigual e vida triste,<br> + Junta com hum contino soffrimento,<br> + E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,<br> + Não puderão mover teu duro peito<span class="pn" ><a name="pag_200">{200}</a></span> + <br> + A mostrares sequer contentamento<br> + De ver o meu tormento;<br> + Antes tudo soberba desprezaste,<br> + E a outrem t'entregaste<br> + Por nada me ficar em qu'esperasse,<br> + Senão quando acabasse<br> + A vida, a pezar meu, ja tão comprida,<br> + Perca, quem te perdeo, tambem a vida.<br> + D<small>URIANO.</small><br> + Longo curso de tempo, e apartado<br> + Lugar a hum coração, que vive entregue,<br> + Não podem apartar de seu intento.<br> + Porque foges, cruel, a quem te segue?<br> + Não vês que teu fugir he escusado,<br> + Pois sem mim não estás hum só momento?<br> + Nenhum apartamento,<br> + Inda que a alma do corpo se m'aparte,<br> + Poderá ja ausentar-te<br> + Dest'alma triste, que continuamente<br> + Em si te t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e presente.<br> + Torna, cruel; não fujas a quem t'ama:<br> + Vem a dar vida, ou morte a quem te chama.<br> + A noite escura, triste e tenebrosa,<br> + Que ja tinha estendido o negro manto,<br> + D'escuridade a terra toda enchendo,<br> + Fez pôr a estes pastores fim ao canto,<br> + Que ao longo da ribeira deleitosa<br> + Vinhão seu manso gado recolhendo.<br> + Se aquillo, qu'eu pretendo<br> + Deste trabalho haver, que he todo vosso,<br> + Senhora, alcançar posso;<span class="pn" ><a name="pag_201">{201}</a></span><br> + Não será muito haver tambem a gloria<br> + E o louro da victoria,<br> + Que Virgilio procura e haver pretende,<br> + Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011250000">ECLOGA V.</a></h2> + +<p style="text-align: center;"><em>Falla hum só pastor.</em></p> + +<blockquote> + A quem darei queixumes namorados<br> + Do meu pastor queixoso e namorado?<br> + A branda voz, suspiros magoados,<br> + A causa porque n'alma he magoado?<br> + De quem serão seus males consolados?<br> + Quem lhe fara devido gasalhado?<br> + Só vós, Senhor famoso e excellente,<br> + Especial em graças entr'a gente.<br> + Por partes mil lançando a phantasia,<br> + Busquei na terra estrella, que guiasse<br> + Meu rudo verso; em cuja companhia<br> + A santa piedade sempre andasse<br> + Luzente e clara, como a luz do dia,<br> + Que o rudo engenho meu m'allumiasse;<br> + E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo<br> + Ainda além cumprido o meu desejo.<br> + A vós se dem, a quem junto se ha dado<br> + Brandura, mansidão, engenho e arte,<br> + D'hum esprito divino acompanhado,<span class="pn" ><a name="pag_202">{202}</a></span> + <br> + Dos sobrehumanos hum em toda parte:<br> + Em vós as graças todas se hão juntado;<br> + De vós em outras partes se reparte.<br> + Sois claro raio, sois ardente chama;<br> + Gloria e louvor do tempo, azas da fama.<br> + Em quanto eu apparelho hum novo esprito,<br> + E voz de cysne tal, que o mundo espante,<br> + Com que de vós, Senhor, em alto grito<br> + Louvores mil em toda parte cante;<br> + Ouvi o canto agreste em tronco escrito,<br> + Entre vaccas e gado petulante:<br> + Que quando tempo for, em melhor modo<br> + Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.<br> + As vãas querellas, brandas e amorosas,<br> + Sejão de vós tratadas brandamente;<br> + Verdades d'alma pouco venturosas,<br> + Sahidas com suspiro vivo e ardente:<br> + Em vossas mãos s'entregão valerosas,<br> + Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,<br> + Chorando sempre a antigua crueldade,<br> + Para mover as almas a piedade.<br> + Ja declinava o sol contra o Oriente,<br> + E o mais do dia ja era passado,<br> + Quando o pastor co'o grave mal que sente,<br> + Por dar allívio em parte a seu cuidado,<br> + Se queixa da pastora docemente,<br> + Cuidando de ninguem ser escutado.<br> + Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia<br> + As mágoas que cantou; e assi dizia:<br> + Ou tu do monte Pindaso es nascida,<br> + Ou marmor te pario formosa e dura:<span class="pn" + ><a name="pag_203">{203}</a></span> <br> + Não póde ser que fosse concebida<br> + Dureza tal de humana creatura:<br> + Ou quiçá qu'es em pedra convertida,<br> + Ou tens da natureza tal ventura;<br> + Porém não fez em ti boa impressão,<br> + Só de marmor tornar-te o coração.<br> + Ja, ja com minha voz rouca e chorosa<br> + A gente mais austera moveria;<br> + E com esta corrente lagrimosa<br> + Os tigres em Hyrcania amansaria.<br> + Se não fosses cruel, quanto formosa,<br> + Meu longo suspirar t'abrandaria:<br> + Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,<br> + Que fazem senão mais endurecer-te?<br> + Se deixáras vencer a crueldade<br> + De tua tão perfeita formosura;<br> + Hum pouco víras bem minha vontade,<br> + E víras a fé minha, limpa e pura,<br> + Por ventura, que houveras ja piedade,<br> + E tivera eu quiçá melhor ventura:<br> + Mas nunca achou igual tua belleza,<br> + Se não se foi em ti tua dureza.<br> + Ja hum peito abrandára, que não sente,<br> + Este meu grave mal, segundo he forte;<br> + Se descêra do inferno ao Polo ardente,<br> + A piedade movêra a propria morte.<br> + Pois se huma gotta d'agua brandamente<br> + Torna brando hum penedo, duro e forte,<br> + Tantas lagrimas minhas não farão<br> + Hum pequeno sinal n'hum coração?<br> + Na testa fonte viva tenho d'ágoa,<span class="pn" + ><a name="pag_204">{204}</a></span><br> + Que por meus olhos tristes se derrama;<br> + E no peito de fogo viva fragoa,<br> + Que tudo em si converte, tudo inflama:<br> + Amor em de redor, por maior mágoa,<br> + Voando mais accende a ardente chama.<br> + Se queres ver se ardentes são seus tiros,<br> + Ólha se são ardentes meus suspiros.<br> + Quando grita e rumor grande se sente,<br> + Porque fogo se ateia em casa, ou torre,<br> + De pura compaixão vai toda a gente,<br> + Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.<br> + Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,<br> + E com a ágoa dos olhos se soccorre;<br> + Que quem me abraza, outra ágoa me defende,<br> + Porque com esta o fogo mais se accende.<br> + Quando vemos que sahe lá no Oriente<br> + O sol, seu curso antigo começando,<br> + Formoso, intenso, puro, refulgente,<br> + O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;<br> + Quando de nós s'esconde no Ponente,<br> + E em outras terras sahe, allumiando,<br> + Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,<br> + Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.<br> + Caminha o dia todo o caminhante,<br> + E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;<br> + Trabalha na tormenta o navegante,<br> + Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;<br> + Recobra o fructo fertil e abundante<br> + Da terra o lavrador, se nella cança:<br> + Mas eu de meu cuidado e mal tão forte<br> + Tormento espero só, só crua morte.<span class="pn" + ><a name="pag_205">{205}</a></span><br> + D'ouvir meu damno as rosas matutinas,<br> + Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;<br> + Com meu suspiro ardente as côres finas<br> + Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.<br> + Co'a roxa aurora as pallidas boninas,<br> + Em vez de se alegrarem, s'entristecem:<br> + Deixão seu canto Progne e Philomena;<br> + Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.<br> + Responde o monte concavo a meus ais,<br> + E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;<br> + Os indomitos feros animais,<br> + Sem humano sentir, mostrão sentido:<br> + Mas em ti minhas dores desiguais<br> + Nunca movem o peito endurecido:<br> + Por muito que te chame, não respondes;<br> + E quanto mais te busco, mais t'escondes.<br> + Naquella parte donde costumavas<br> + Apascentar meus olhos e teu gado;<br> + Alli donde mil vezes me mostravas,<br> + Qu'era o pastor de ti mais desejado,<br> + Vezes mil te busquei, por ver se davas<br> + Algum breve descanso a meu cuidado.<br> + Busco-te em vão no valle, em vão no monte,<br> + Qual o ferido cervo busca a fonte.<br> + Este lugar de ti desamparado,<br> + Com cujas sombras frias ja folgaste,<br> + Agora triste, escuro he ja tornado;<br> + Que todo o bem comtigo nos levaste.<br> + Eras tu nosso sol mais desejado;<br> + Não temos luz, despois que nos deixaste.<span class="pn" + ><a name="pag_206">{206}</a></span><br> + Torna, meu claro sol; torna, meu bem:<br> + Qual he o Josué que te detém?<br> + Despois que deste valle t'apartaste,<br> + Não pasce ja algum gado, com seccura;<br> + Seccou-se o campo, des que lhe negaste<br> + Dos teus formosos olhos a luz pura;<br> + Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,<br> + Quando menos, que agora, aspera e dura;<br> + Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,<br> + Ás cabras pasto e leite a os cabritos.<br> + Sem ti, doce cruel minha inimiga,<br> + A clara luz, escura me parece:<br> + Este ribeiro, quando a dor m'obriga,<br> + Com meu chorar por ti contino crece.<br> + Não ha fera, a que a fome não persiga;<br> + Algum prado sem ti ja não florece:<br> + Cegos estão meus olhos; nada vem,<br> + Porque não podem ver seu claro bem.<br> + O campo, como d'antes, não s'esmalta<br> + De boninas azues, brancas, vermelhas;<br> + Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta<br> + As candidas pacíficas ovelhas:<br> + Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta<br> + As doces e solícitas abelhas:<br> + Com lagrimas, que manão dos meus olhos,<br> + A terra nos produz duros abrolhos.<br> + Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,<br> + Se restituir-lhe queres a alegria:<br> + Alegrarás o valle, o campo, o gado,<br> + E aquelle espelho teu da fonte fria.<br> + Torna, torna, meu sol tão desejado,<span class="pn" + ><a name="pag_207">{207}</a></span><br> + Faras a noite escura, claro dia;<br> + E alegra ja esta vida magoada,<br> + Em que só tua ausencia he Parca irada.<br> + Vem, como quando o raio transparente<br> + Deste nosso horizonte, qu'escondido,<br> + Deixa hum certo temor á mortal gente,<br> + Causado de ver o Orbe escurecido;<br> + E quando torna a vir claro e luzente,<br> + Alegra o mundo todo entristecido:<br> + Que assi he para mi tua luz pura<br> + Claro sol, como a ausencia noite escura.<br> + Mas tu 'squecida ja do bem passado,<br> + E do primeiro amor, que me mostraste,<br> + Teu coração de mi t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>es apartado,<br> + Não menos que do valle t'apartaste.<br> + Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?<br> + Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?<br> + Onde o meu êrro viste, ou desvario,<br> + Que pôde merecer-te hum tal desvio?<br> + Bem vês que por Amor se move tudo,<br> + E que delle não ha quem seja isento;<br> + O mais simple animal, mais baixo e rudo,<br> + O demais levantado pensamento:<br> + Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo<br> + Tambem lá t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e d'ardor seu movimento.<br> + Pois as aves, que no ar cantando vôão,<br> + Não menos humas d'outras s'affeiçôão.<br> + A musica do leve passarinho<br> + Que sem concêrto algum sólta e derrama,<br> + De hum raminho saltando a outro raminho,<br> + Mostra que por amor suspira e chama.<span class="pn" + ><a name="pag_208">{208}</a></span><br> + Em quanto no secreto amado ninho<br> + Não acha aquelle, que só busca e ama,<br> + No canto, a nós alegre, triste chora,<br> + Porque teme perder a quem namora.<br> + A fera, que he mais fera, e o leão,<br> + Sempre acha outro leão, sempre outra fera,<br> + Em quem possa empregar huma affeição,<br> + Que o conversar no peito seu lhe gera:<br> + Tambem sabe sentir sua paixão,<br> + Tambem suspira, morre, desespera;<br> + Acena, salta, brada, ferve e geme;<br> + E não temendo a nada, a Amor só teme.<br> + O cervo, qu'escondido e emboscado,<br> + Temendo ao cobiçoso caçador,<br> + Está na selva, monte, bosque, ou prado,<br> + Alli donde anda e vive, vive amor.<br> + De temor e d'amor acompanhado,<br> + Com justa causa amor t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e e temor:<br> + Temor a quem para feri-lo vinha,<br> + Amor a quem ja, ja ferido o tinha.<br> + Pois se a fera insensivel, que não sente,<br> + Tambem sente d'Amor a frecha dura,<br> + Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,<br> + Que procede da tua formosura?<br> + Porqu'escondes a luz do sol á gente,<br> + Que nesses olhos trazes bella e pura?<br> + Mais pura, mais suave, mais formosa,<br> + Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.<br> + Póde ser, se me visses, que sentiras<br> + Ver liquidar hum peito em triste pranto;<br> + E bem pouco fizeras, se me viras,<span class="pn" ><a name="pag_209">{209}</a></span> + <br> + Pois eu só por te ver suspiro tanto:<br> + As mágoas, os suspiros, que m'ouviras<br> + Te puderão mover a grande espanto,<br> + A dor, a piedade, a sentimento,<br> + E a mais, que para mais he meu tormento.<br> + Os pensamentos vãos, que o vento leve:<br> + O suspirar em vão tambem ao vento;<br> + Hum esperar á calma, á chuva, á neve,<br> + E nunca poder ver-te hum só momento;<br> + Tormento he, que somente a ti se deve.<br> + E se póde inda haver maior tormento,<br> + Quem te vio, e se vê de ti ausente,<br> + Muito mais passará mais levemente.<br> + Faz mossa a pedra dura em sua dureza<br> + Com a ágoa que lhe toca brandamente;<br> + Abranda o ferro forte a fortaleza,<br> + Se lhe toca tambem o fogo ardente:<br> + Em ti só desconheço a natureza;<br> + Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,<br> + Ja teu peito cruel fôra desfeito<br> + Das ágoas e das chammas do meu peito.<br> + Quando a formosa Aurora mostra a fronte,<br> + Alegra toda a terra, vendo o dia;<br> + Quando Phebo apparece no horizonte,<br> + Manifesta tambem grande alegria;<br> + Contente pasce o gado ao pé do monte,<br> + Contente a beber vai na fonte fria:<br> + Está tudo contente, alegre tudo;<br> + Eu só, só pensativo, triste e mudo.<br> + Se ja d'alma e do corpo tens a palma,<br> + E do corpo sem alma não tens dó,<span class="pn" ><a name="pag_210">{210}</a></span> + <br> + Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,<br> + Pois sem alma não vive o corpo só.<br> + Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,<br> + Na affeição, no querer eu sou hum só:<br> + Não acharás vontade tão captiva;<br> + Nem outra como a tua tão esquiva.<br> + Se te apartas por não ouvir meu rôgo,<br> + Onde estiveres te hei d'importunar:<br> + Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,<br> + Comtigo em toda parte m'has d'achar;<br> + Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,<br> + Emquanto eu vivo for, hão de durar;<br> + Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,<br> + Que não se ha de soltar em vida, ou morte.<br> + Neste meu coração sempr'estaras,<br> + Emquanto a alma estiver com elle unida:<br> + Tambem o meu esprito possuirás<br> + Despois que a alma do corpo for partida.<br> + Por mais e mais que faças, não faras<br> + Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:<br> + Impossivel sera qu'eternamente<br> + Ausente estês de mim, estando ausente.<br> + Cá m'acompanhará vossa memoria,<br> + Se o rio, que se diz do esquecimento,<br> + Da minha não borrar tão longa historia,<br> + Tão grave mal, tão duro apartamento.<br> + Até quando vos veja entrar na gloria,<br> + Viverei n'hum contino sentimento:<br> + E ainda então vereis (s'isto ser possa)<br> + Esta minh'alma lá servir a vossa.<br> + Aqui com grave dor, com triste accento,<span class="pn" + ><a name="pag_211">{211}</a></span><br> + Deo o triste pastor fim a seu canto:<br> + Co'o rosto baixo e alto o pensamento,<br> + Seus olhos começárão novo pranto:<br> + Mil vezes parar fez no ar o vento,<br> + E apiedou no ceo o coro santo:<br> + As circumstantes sylvas s'inclinárão,<br> + Condoidas das mágoas qu'escutárão.<br> + Com h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mão na face, reclinado,<br> + Tão enlevado em sua dor estava,<br> + Que, como em grave somno sepultado,<br> + Não via que ja o sol no mar entrava.<br> + Berrando andava em roda o manso gado,<br> + Que o seguro curral ja desejava:<br> + Nas covas as raposas, e em seus ninhos<br> + Se recolhem os simples passarinhos.<br> + Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto<br> + O mocho com funesto e triste canto:<br> + Ao som delle o pastor ergueo o rosto,<br> + E vio a terra envolta em negro manto.<br> + Quebrando então o fio de seu gôsto,<br> + E o fio não quebrando de seu pranto,<br> + Por não se descuidar de seu cuidado,<br> + Levou para os curraes o manso gado.<span class="pn" + ><a name="pag_212">{212}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION011260000">ECLOGA VI</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011261000">INTERLOCUTORES</a></h3> + +<p style="text-align: center;">A<small>GRARIO</small>, Pastor. +A<small>LICUTO</small>, Pescador.</p> + +<blockquote> + A rustica contenda desusada<br> + Entr'as Musas dos bosques, das areias,<br> + De seus rudos cultores modulada;<br> + A cujo som attonitas e alheias<br> + Do monte as brancas vaccas estiverão,<br> + E do rio as saxatiles lampreias;<br> + Desejo de cantar. Que se movêrão<br> + Os troncos ás avenas dos pastores,<br> + E ja sylvestres brutos suspendêrão.<br> + Não menos o cantar dos pescadores<br> + As ondas amansou do fundo pégo,<br> + E fez ouvir os mudos nadadores.<br> + E se por sustentar-se o moço cego<br> + Nos trabalhos agrestes a alma inflama,<br> + O que he mais proprio no ocio e no socêgo;<br> + Mais maravilhas dando á voz da fama,<br> + No mesmo mar undoso e vento frio<br> + Brazas roxas accende a roxa flama.<br> + Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio,<br> + Cuja frondente coma ja cobrio<br> + De Luso todo o gado e senhorio;<br> + E cujo são madeiro ja sahio<br> + A lançar a forçosa e larga rede<br> + No mais remoto mar que o mundo vio;<span class="pn" + ><a name="pag_213">{213}</a></span><br> + E vós, cujo valor tão alto excede,<br> + Que, a cantá-lo com voz alta e divina,<br> + A fonte do Parnaso move a sêde;<br> + Ouvi da minha humilde çanfonina<br> + A harmonia, que vós ja levantais<br> + Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina.<br> + Mas se agora que affabil m'escutais,<br> + Não ouvirdes cantar com alta tuba<br> + O que vos deve o mundo, que dourais;<br> + E se os Reis avós vossos, que de Juba<br> + Os Reinos debellárão, não ouvis<br> + Que nas azas do excelso verso suba;<br> + Se não sabem as frautas pastoris<br> + Pintar de Toro os campos semeados<br> + D'armas e corpos fortes e gentis;<br> + Por hum Moço animoso sustentados,<br> + Contra o indomito Rei de toda Hespanha,<br> + Contra a fortuna vãa e injustos fados:<br> + Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha,<br> + Do Olympo fez descer o duro Marte,<br> + E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha;<br> + Se não sabem cantar a menor parte<br> + Do sapiente peito e grão conselho,<br> + Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te;<br> + Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho,<br> + Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas,<br> + Porque a elle se affeitem como a espelho;<br> + Saberão bem cantar, em nada vãas,<br> + D'Alicuto as contendas e d'Agrario;<br> + Hum d'escamas coberto, outro de lãas.<br> + Vereis, Duque sereno, o estylo vário,<span class="pn" + ><a name="pag_214">{214}</a></span><br> + A nós novo, mas n'outro mar cantado<br> + De hum, que só foi das Musas secretario:<br> + O pescador Sincero, que amansado<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o pégo de Prochyta co'o canto<br> + Por as sonoras ondas compassado.<br> + Deste seguindo o som, que póde tanto,<br> + E misturando o antigo Mantuano,<br> + Façamos novo estylo, novo espanto.<br> + Partira-se do monte Agrario insano<br> + Para onde a fôrça só do pensamento<br> + Lh'encaminhava o lasso pêzo humano.<br> + Embebido em hum longo esquecimento<br> + De si, e do seu gado e pobre fato,<br> + Apos hum doce sonho e fingimento,<br> + Rompendo as sylvas horridas do mato,<br> + Vai por cima d'outeiros e penedos,<br> + Fugindo, emfim, de todo humano trato.<br> + Ante os seus olhos leva os olhos ledos<br> + Da branca Dinamene, qu'enverdece<br> + Só co'o meneo valles e rochedos.<br> + Ora se ri comsigo, quando tece<br> + Na phantasia algum prazer fingido;<br> + Ora falla; ora mudo s'entristece.<br> + Qual a tenra novilha, que corrido<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e montanhas fragosas e espessuras,<br> + Por buscar o cornigero marido;<br> + E cansada nas humidas verduras<br> + Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro,<br> + Ja quando as sombras vem cahindo escuras;<br> + E nem co'a noite ao valle seu primeiro<br> + Se lembra de tornar, como sohia,<span class="pn" ><a name="pag_215">{215}</a></span> + <br> + Perdida por o bruto companheiro:<br> + Tal Agrario chegado, emfim, se via<br> + Onde o grão pégo horrisono suspira<br> + N'huma praia arenosa, humida e fria.<br> + Tanto que ao mar estranho os olhos vira,<br> + Tornando em si, de longe ouvio tocar-se<br> + De douta mão não vista e nova lira.<br> + Fez-lhe o som desusado desviar-se<br> + Para onde mais soava, desejando<br> + D'ouvir e conversar, e de provar-se.<br> + Muito não tinha proseguido, quando<br> + Em a concavidade d'hum penedo,<br> + Que pouco a pouco fôra o mar cavando,<br> + Topou hum pescador, que prompto e quedo,<br> + N'huma pedra assentado, brandamente<br> + Tangendo, faz o mar sereno e ledo.<br> + Mancebo era d'idade florecente,<br> + Pescador grande do alto, conhecido<br> + Por o nome de toda humida gente:<br> + Alicuto se chama: que perdido<br> + Era por a formosa Lemnoria;<br> + Nympha que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o mar ennobrecido.<br> + Por ella as redes lança noite e dia;<br> + Por ella as ondas tumidas despreza;<br> + Por ella soffre o sol e a chuva fria.<br> + Co'o seu nome mil vezes a braveza<br> + D'irados ventos amansou co'o verso,<br> + Que remove das rochas a dureza.<br> + E agora em som de voz, suave e terso,<br> + Está seu nome aos ecos ensinando<br> + Por estylo do agreste som diverso.<span class="pn" + ><a name="pag_216">{216}</a></span><br> + Ouvindo Agrario, attonito, affroxando<br> + Da phantasia hum pouco seu cuidado,<br> + Suspenso esteve os numeros notando.<br> + Mas Alicuto, vendo-se estorvado<br> + Por hum pastor da musica divina,<br> + O rosto levantou bem socegado,<br> + E disse assi: Vaqueiro da campina,<br> + Que vens buscar ás arenosas praias,<br> + Onde a bella Amphitrite só domina?<br> + Que razão ha, pastor, para que saias<br> + A este nosso escamoso e vil terreno<br> + Dos teus floridos myrtos e altas faias?<br> + Pois s'agora o mar vês brando e sereno,<br> + E estender-se estas ondas por a areia,<br> + Amansadas das mágoas, com que peno,<br> + Logo verás o como desenfreia<br> + Eolo o vento por o mar undoso,<br> + De sorte que Neptuno se receia.<br> + Responde Agrario: Oh musico e amoroso<br> + Pescador! eu não venho a ver o lago<br> + Bravo e quieto, ou vento brando e iroso;<br> + Mas o meu pensamento, com que apago<br> + As flammas ao desejo, me trazia<br> + Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago:<br> + Até que a tua angelica harmonia<br> + M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas<br> + A tua perigosa Lemnoria.<br> + Mas se de ver-me cá no mar t'espantas,<br> + Eu m'espanto tambem do estylo novo<br> + Com que as ondas horrisonas quebrantas.<br> + Porém se com verdade o louvo e approvo,<span class="pn" + ><a name="pag_217">{217}</a></span><br> + Desejo de o provar contra o sylvestre<br> + Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo.<br> + E tu, que no tocar pareces mestre,<br> + Bem julgarás se ha clara differença<br> + Entr'o canto maritimo e o campestre.<br> + Não ha (disse Alicuto) em mi detença:<br> + Alvorôço antes ha, por mais que veja<br> + Que a tua confiança só me vença.<br> + Mas, porque saibas que nenhuma inveja<br> + Os pescadores temos aos pastores<br> + Do som que pelo mundo se deseja,<br> + Toma a lyra na mão, que os moradores<br> + Do vitreo fundo vendo estou juntar-se<br> + Para ouvir nossos rusticos amores.<br> + Bem vês por essa praia presentar-se<br> + Nas conchas vária côr á vista humana;<br> + E o mar vir por entr'ellas e tornar-se.<br> + Socegada do vento a furia insana,<br> + Encrespa brandamente o ameno rio,<br> + Que seu licor aqui mistura e dana.<br> + Estepenedo concavo e sombrio,<br> + Que de cangrejos ves estar coberto,<br> + Nos dá abrigo do sol, quieto e frio.<br> + Tudo nos mostra, emfim, repouso certo,<br> + E nos convida ao canto, com que os mudos<br> + Peixes sahem ouvindo ao ar aberto.<br> + Assi se desafião estes rudos<br> + Poetas, nos officios discrepantes;<br> + Nos engenhos porém subtis e agudos.<br> + Eis ja mil companheiros circumstantes<span class="pn" + ><a name="pag_218">{218}</a></span><br> + Estavão para ouvir, e apparelhavão<br> + Ao vencedor os premios semelhantes.<br> + As bem sonantes lyras se tocavão;<br> + Agrario começava, e da harmonia<br> + Os pescadores todos s'admiravão;<br> + E dest'arte Alicuto respondia.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Vós semicapros deoses do alto monte,<br> + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;<br> + E vós, deosas do bosque e clara fonte,<br> + E dos troncos que vivem largos anos;<br> + Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte<br> + A nossos versos rusticos e humanos,<br> + Ou me dae ja a capella de loureiro,<br> + Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro.<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + Vós humidas deidades deste pégo,<br> + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;<br> + Vós, Nereidas do sal em que navego,<br> + Por quem do vento as furias pouco temo;<br> + Se ás vossas sacras aras nunca nego<br> + O congro nadador na pá do remo,<br> + Não consintais, que a musica marinha<br> + Vencida seja aqui na lyra minha.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Pastor se fez hum tempo o moço louro,<br> + Que do sol as carretas move e guia;<br> + Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro,<br> + Que o seu claro inventor alli tangia.<br> + Io foi vacca; Jupiter foi touro:<br> + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria<span class="pn" ><a name="pag_219">{219}</a></span> + <br> + Guardou formoso Adonis; e tornado<br> + Em bezerro Neptuno foi ja achado.<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + Pescador ja foi Glauco, e deos agora<br> + He do mar; e Protêo Phocas guarda.<br> + Nasceo no pégo a deosa, que he senhora<br> + Do amoroso prazer, que sempre tarda.<br> + Se foi bezerro o deos, que cá se adora,<br> + Tambem ja foi delfim. Se se resguarda,<br> + Vê-se que os moços pescadores erão,<br> + Que o escuro enigma ao primo Vate derão.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Formosa Dinamene, se dos ninhos<br> + Os implumes penhores ja furtei<br> + Á doce Philomela; e dos murtinhos<br> + Para ti (fera!) as flores apanhei;<br> + E se os crespos madronhos nos raminhos<br> + Com tanto gôsto ja te presentei,<br> + Porque não dás a Agrario desditoso<br> + Hum só revolver d'olhos piedoso?<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + Para quem trago d'ágoa em vaso cavo<br> + Os curvos camarões vivos saltando?<br> + Para quem as conchinhas ruivas cavo<br> + Na praia, os brancos buzios apanhando?<br> + Para quem de mergulho no mar bravo<br> + Os ramos de coral vou arrancando,<br> + Senão para a formosa Lemnoria,<br> + Que co'hum só riso a vida me daria?<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,<span class="pn" + ><a name="pag_220">{220}</a></span><br> + D'atras nuvens vestido, horrido e feio,<br> + Ennegrecendo á vista o ceo superno,<br> + Quando os troncos arranca o rio cheio;<br> + Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno,<br> + Que ao mundo mostra hum pallido receio:<br> + Tal o amor he cioso, a quem suspeita<br> + Que outrem de seus trabalhos se aproveita.<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante<br> + Furor lançando flammas e bramidos,<br> + Quando as pasmosas serras traz diante,<br> + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos:<br> + A braços derribando o ja nutante<br> + Mundo, co'os elementos destruidos:<br> + Assi me representa a phantasia<br> + A desesperação de ver hum dia.<br> + A<small>GRARIO.</small><br> + Minha alva Dinamene, a primavera,<br> + Que os deleitosos campos pinta e veste,<br> + E rindo-se huma côr aos olhos gera,<br> + Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste;<br> + As aves, as boninas, a verde hera,<br> + E toda a formosura amena agreste<br> + Não he para os meus olhos tão formosa,<br> + Como a tua, que abate o lirio e rosa.<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + As conchinhas da praia, que presentão<br> + A côr das nuvens, quando nasce o dia;<br> + O canto das Sirenas, que adormentão;<br> + A tinta, que no Murice se cria;<br> + O navegar por ondas, que se assentão<span class="pn" + ><a name="pag_221">{221}</a></span><br> + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,<br> + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,<br> + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.<br> + A<small>GRARIO</small>.<br> + A deosa, que na Lybica lagôa<br> + Em fórma virginal appareceo,<br> + Cujo nome tomou, que tanto sôa,<br> + Os olhos bellos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e da côr do ceo:<br> + Garços os t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e; mas huma, que a corôa<br> + Das formosas do campo mereceo,<br> + Da côr do campo os mostra graciosos.<br> + Quem diz, que não são estes os formosos?<br> + A<small>LICUTO.</small><br> + Perdoem-me as deidades; mas tu, diva,<br> + Que no liquido marmore es gerada,<br> + A luz dos olhos teus, celeste e viva,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>es por vício amoroso atravessada:<br> + Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva<br> + De luz o dia, baixa e socegada<br> + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego;<br> + E com toda esta luz sempre estou cego.<br> + Assi cantavão ambos os cultores<br> + Do monte e praia, quando os atalhárão;<br> + A hum pastores, a outro pescadores.<br> + E quaesquer a seu Vate coroárão<br> + De capellas idoneas e formosas,<br> + Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão:<br> + A Agrario de murtinhos e de rosas;<br> + A Alicuto d'hum fio de torcidos<br> + Buzios, e conchas ruivas e lustrosas.<br> + Estavão n'ágoa os peixes embebidos<span class="pn" + ><a name="pag_222">{222}</a></span><br> + Com as cabeças fóra; e quasi em terra<br> + Os musicos delfins estão perdidos.<br> + Julgavão os pastores que na serra<br> + O cume e preço está do antigo canto;<br> + Que quem o nega, contra as Musas erra.<br> + Dizem os pescadores que outro tanto<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e na sonora frauta, quanto teve<br> + O monte pastoril da antigua Manto.<br> + Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve<br> + Molhava n'ágoa amara, e compellia<br> + A recolher a roxa tarde e breve:<br> + E foi fim da contenda o fim do dia.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011270000">ECLOGA VII.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011271000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">S<small>ATYRO</small> I. S<small>ATYRO</small> +II.</p> + +<blockquote> + As doces cantilenas, que cantavão<br> + Os semicapros deoses, amadores<br> + Das Napêas, que os montes habitavão,<br> + Cantando escreverei: que se os amores<br> + A sylvestres deidades maltratárão,<br> + Ja ficão desculpados os pastores.<br> + Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão<br> + O claro Apollo e Marte hum ser perfeito,<br> + Em quem suas altas mentes assinárão;<span class="pn" + ><a name="pag_223">{223}</a></span><br> + Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito,<br> + Bem sabe onde se salva, pois pretende<br> + Levantar com a causa o baixo effeito.<br> + Em vós minha fraqueza se defende;<br> + Em vós instilla a fonte do Pegáso,<br> + O que o meu canto por o mundo estende.<br> + Vêdes que as altas Musas do Parnaso<br> + Cantando vos estão na doce lira,<br> + Tomando-me das mãos tão alto caso.<br> + Vêdes o louro Apollo, que me tira<br> + De louvar vossa estirpe, e escurece<br> + O que a vosso louvor meu canto aspira.<br> + Ou por me haver inveja me fallece,<br> + Ou por não ver soar na frauta ruda<br> + O que a sonora cithara merece.<br> + Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda,<br> + Em quanto Progne triste o sentimento<br> + Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda;<br> + E em quanto Galatea ao manso vento<br> + Sólta os cabellos louros da cabeça,<br> + E Tityro nas sombras faz assento;<br> + E em quanto flor aos campos não falleça,<br> + (Se não recebeis isto por affronta)<br> + Fará que o Douro e o Ganges vos conheça.<br> + E ja que a lingua nisto fica pronta,<br> + Consenti que a minha Ecloga se conte,<br> + Em quanto Apollo as vossas cousas conta.<br> + No cume do Parnaso, duro monte,<br> + De sylvestre arvoredo rodeado,<br> + Nasce huma crystallina e clara fonte,<br> + Donde hum manso ribeiro derivado,<span class="pn" + ><a name="pag_224">{224}</a></span><br> + Por cima d'alvas pedras mansamente<br> + Vai correndo suave e socegado.<br> + O murmurar das ondas excellente<br> + Os passaros incita, que cantando<br> + Fazem o verde monte mais contente.<br> + Tão claras vão as ágoas caminhando,<br> + Que no fundo as pedrinhas delicadas<br> + Se podem, huma e huma, estar contando.<br> + Não se verão em derredor pizadas<br> + De fera ou de pastor, que alli chegasse,<br> + Porque de espesso monte são vedadas.<br> + Herva se não verá, que alli criasse<br> + O monte ameno, triste ou venenosa,<br> + Senão que lá no centro as igualasse.<br> + O roxo lirio a par da branca rosa,<br> + A cecem pura, a flor que dos amantes<br> + A côr t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e magoada e saudosa;<br> + Alli se vem os myrtos circumstantes<br> + Que a crystallina Venus encobrírão,<br> + Escondendo-a dos Faunos petulantes.<br> + Hortelãa, mangerona, alli respirão,<br> + Onde nem frio inverno, ou quente estio,<br> + As murchárão jamais, ou sêccas vírão.<br> + Dest'arte vai seguindo o curso o rio,<br> + O monte inhabitado e o deserto<br> + Sempre com verdes árvores sombrio.<br> + Aqui huma linda Nympha, por acêrto<br> + Perdida da fragueira companhia,<br> + A quem este lugar era encoberto;<br> + Cansada ja da caça vindo hum dia,<br> + Quiz descansar á sombra da floresta,<span class="pn" + ><a name="pag_225">{225}</a></span><br> + E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria.<br> + A novidade vendo manifesta<br> + Do sítio, e como as árvores co'o vento<br> + As calmas defendião da alta sesta;<br> + Das aves o lascivo movimento,<br> + Qu'em seus modulos versos occupadas<br> + As azas dão ao doce pensamento;<br> + Tendo notado tudo, ja passadas<br> + As horas da grã sesta, se tornou<br> + A buscar as irmãas, no centro, amadas.<br> + Despois que largamente lhes contou<br> + Do não visto lugar, que perto estava<br> + E tanto por extremo a namorou,<br> + Que ao outro dia fossem, lhes rogava,<br> + A lavar-se em aquella fonte amena,<br> + Que tão formosas ágoas destillava.<br> + Ja tinha dado hum giro a luz serena<br> + Do grão pastor d'Admeto, e já nascia<br> + Aos ditosos amantes nova pena,<br> + Quando as formosas Nymphas em porfia<br> + Para o lugar do monte caminhavão,<br> + Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria.<br> + D'huma os louros cabellos s'espalhavão<br> + Por o formoso collo sem concêrto,<br> + E com mil nós suaves s'enlaçavão;<br> + Outra, levando o collo descoberto,<br> + Por mais despejo em tranças os atára,<br> + Havendo por pezado o desconcêrto.<br> + Dinamene e Ephyre, a quem topára<br> + Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão<br> + Seus delicados corpos n'ágoa clara;<span class="pn" + ><a name="pag_226">{226}</a></span><br> + Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão<br> + Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa,<br> + Destras nos arcos mais que quantas tirão;<br> + A linda Daliana, com Belisa,<br> + Ambas vindas do Tejo, que como ellas<br> + Nenhuma tão formosa as hervas pisa:<br> + Todas estas angelicas donzellas,<br> + Por o viçoso monte alegres hião,<br> + Quaes no ceo largo as nitidas estrellas.<br> + Mas dous sylvestres deoses, que trazião<br> + O pensamento em duas occupado,<br> + A quem de longe mais que a si querião,<br> + Não lhes ficava monte, valle ou prado,<br> + Nem árvore, por onde quer que andavão,<br> + Que não soubesse delles seu cuidado.<br> + Quantas vezes os rios, que passavão,<br> + Detiverão seu curso ouvindo os danos,<br> + Que aos proprios duros montes magoavão!<br> + Quantas vezes amor de tantos anos<br> + Abrandára qualquer vontade isenta,<br> + Se em Nymphas corações houvesse humanos!<br> + Mas quem de seu cuidado se contenta,<br> + Offereça de longe a paciencia;<br> + Que Amor d'alegres mágoas se sustenta.<br> + Que o moço Idalio quiz nesta sciencia<br> + Que se compadecessem dous contrários.<br> + Diga-o quem tiver delle experiencia.<br> + Indo os deoses, emfim, por montes varios<br> + Exercitando os olhos saudosos,<br> + Ao crystallino rio tributarios;<br> + Topárão dos pés alvos e mimosos<span class="pn" ><a name="pag_227">{227}</a></span> + <br> + As pizadas na terra conhecidas,<br> + As quaes forão seguindo pressurosos.<br> + Mas, encontrando as Nymphas que despidas<br> + Na clara fonte estavão, não cuidando<br> + Que d'alguem fossem vistas ou sentidas,<br> + Deixárão-se estar quedos, contemplando<br> + As feições nunca vistas, de maneira<br> + Que vissem, sem ser vistos, espreitando.<br> + Porém a espessa mata, mensageira<br> + Da cilada dos dous, com o rugido<br> + Dos raminhos d'huma aspera aveleira,<br> + Manifestando claro o escondido,<br> + Todas huma alta grita levantárão,<br> + Que o monte pareceo ser destruido.<br> + Assi despidas logo se lançárão<br> + Por a espessura tão ligeiramente,<br> + Que mais que o proprio vento então voárão.<br> + Qual o bando das pombas quando sente<br> + A rapida aguia, cuja vista pura<br> + Não obedece ao sol resplandecente;<br> + Empresta-lhe o temor da mortedura<br> + Nas azas novo alento; e, não parando,<br> + Veloz rompendo o ar fugir procura:<br> + Dest'arte as deosas timidas, deixando<br> + De seu despôjo os ramos carregados,<br> + Nuas por entre as sylvas vão voando.<br> + Mas os amantes ja desesperados,<br> + Que para as alcançar, emfim, se vião<br> + Nada dos pés caprinos ajudados;<br> + Com amorosos brados as seguião.<br> + Hum só (que o outro ainda não tomava<span class="pn" + ><a name="pag_228">{228}</a></span><br> + Folego algum da pressa que trazião)<br> + Desta sorte sentido se queixava:<br> + S<small>ATYRO</small> P<small>RIMEIRO.</small><br> + Ah Nymphas fugitivas,<br> + Que só por não usar humanidade<br> + Os perigos dos matos não temeis!<br> + Para que sois esquivas?<br> + Qu'inda de nós não peço piedade,<br> + Mas dessas alvas carnes, que offendeis.<br> + Ah Nymphas! não vereis<br> + Que Eurydice, fugindo dessa sorte,<br> + Fugio do amante, e não da fera morte?<br> + Tambem assi Eperie foi mordida<br> + Da vibora escondida.<br> + Olhae a serpe occulta na herva verde.<br> + Quem o rigor não perde, perde a vida.<br> + Que tigre, ou que leão,<br> + Que peçonhenta fera venenosa,<br> + Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo?<br> + D'hum brando coração,<br> + Que preso dessa vista rigorosa<br> + De si para vós foge, andais fugindo?<br> + Olhae que em gesto lindo<br> + Não se consente peito tão disforme;<br> + Se não quereis que tudo se conforme.<br> + Posto que bellas n'ágoa vos vejais,<br> + Á fonte não creais,<br> + Que vos traz enganadas por vingança<br> + Desta nossa esperança, que enganais.<br> + Mas ah! que não consinto<br> + Que nem palavra minha vos offenda,<span class="pn" + ><a name="pag_229">{229}</a></span><br> + Postoque me desculpe a mágoa pura.<br> + Digo, Nymphas, que minto:<br> + Pois mal póde haver nunca quem pretenda<br> + Negar-vos essa rara formosura.<br> + Se amor de tanta dura<br> + Por tanto mal tão pouco bem merece,<br> + Não estranheis, minh'alma se endoudece:<br> + Que se doudices falla d'improviso<br> + Sem tento e sem aviso,<br> + Queira Deos, que dureza tão crescida<br> + Me não prive da vida além do siso.<br> + Cousas grandes e estranhas<br> + Por o mundo t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e feito e faz natura,<br> + Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão.<br> + Nas Libycas montanhas<br> + As Scitales são feras, de pintura<br> + Tão singular, que só co'a vista encantão.<br> + As hienas levantão<br> + A voz tão natural á voz humana,<br> + Que a quem as ouve, facilmente engana.<br> + E vós (ó gentis feras) cujo aspeito<br> + O mundo t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e sujeito,<br> + Tendes de natureza juntamente<br> + A vista e voz de gente, e fero o peito.<br> + Das amorosas leis,<br> + Com que liga natura os corações,<br> + Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura?<br> + Como? E não vos correis<br> + D'haver em vós tão duras condições,<br> + Que possão mais que a próvida natura?<br> + Se vossa formosura<span class="pn" ><a name="pag_230">{230}</a></span><br> + He sobrenatural, não he forçado<br> + Que assi tenha tambem o peito irado:<br> + Antes ao puro Amor, em cuja mão<br> + Os corações estão,<br> + Por vossa gentileza tão formosa<br> + Lhe deveis amorosa condição.<br> + Amor he hum brando affeito,<br> + Que Deos no mundo poz e a natureza,<br> + Para augmentar as cousas que creou.<br> + De Amor está sugeito<br> + Tudo quanto possue a redondeza:<br> + Nada sem este affecto se gerou.<br> + Por elle conservou<br> + A causa principal o mundo amado,<br> + Donde o pae famulento foi deitado.<br> + As cousas elle as ata e as confórma<br> + Com o mundo, e reforma<br> + A materia. Quem ha que não o veja?<br> + Quanto meu mal deseja sempre fórma.<br> + Entre as plantas do prado<br> + Não ha machos e femias conhecidas,<br> + Que junto huma da outra permanece?<br> + Não estão carregados<br> + Os ulmeiros das vides retorcidas,<br> + Onde o cacho enforcado amadurece?<br> + Não vêdes que padece<br> + Tanta tristeza a rôla por a morte<br> + Da sua amada e unica consorte?<br> + Pois lá no Olympo, a quantos captivou<br> + Cupido e maltratou?<span class="pn" ><a name="pag_231">{231}</a></span><br> + Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella,<br> + Que ja na sua téla o debuxou.<br> + Ah caso grande e grave!<br> + Ah peitos de diamante fabricados,<br> + E das leis absolutos naturais!<br> + Aquelle amor suave,<br> + Aquelle poder alto, que forçados<br> + Os deoses obedecem, desprezais?<br> + Pois quero que saibais,<br> + Que contra o fero Amor nunca houve escudo:<br> + Costume he seu tomar vingança em tudo.<br> + Eu vos verei lançar em hum momento<br> + Suspiros mil ao vento,<br> + Lagrimas, triste pranto e nova dor<br> + Por quem tenha outro amor no pensamento.<br> + Mais quizera dizer<br> + O desditoso amante, que ajudado<br> + Se via então da mágoa e da tristeza;<br> + Mas foi-lho defender<br> + O outro companheiro, como irado<br> + Com tão disforme e aspera dureza.<br> + Aquillo que a rudeza<br> + D'huma sciencia agreste lh'ensinára,<br> + Disse, qual se em tal ponto despertára<br> + D'horrendo sonho com pezado grito.<br> + O mais que alli foi dito,<br> + Vós, montes, o direis, e vós penedos;<br> + Qu'em vossos arvoredos anda escrito.<br> + S<small>ATYRO</small> S<small>EGUNDO.</small><br> + Nem vós nascidas sois de gente humana,<br> + Nem foi humano o leite que mamastes,<span class="pn" + ><a name="pag_232">{232}</a></span><br> + Mas de alguma disforme fera Hyrcana:<br> + Lá no Caucaso horrendo vos criastes:<br> + Daqui trouxestes a aspereza insana;<br> + Daqui os calidos peitos congelastes.<br> + Sois Esphinges nos gestos naturais,<br> + Que de humanas os rostos só mostrais.<br> + Se vós fostes criadas na espessura,<br> + Onde não houve cousa que se achasse,<br> + Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura,<br> + Qu'em seu passado tempo não amasse,<br> + Nem a quem a affeição suave e pura<br> + Nessa presente fórma não mudasse;<br> + Porque não deixareis tambem memoria<br> + De vós em namorada e longa historia?<br> + Olhae como, na Arcadia soterrando<br> + O namorado Alpheo su'ágoa clara,<br> + Lá na ardente Sicilia vai buscando<br> + Por debaixo do mar a Nympha chara.<br> + Assi tambem vereis passar nadando<br> + Atys, que Galatêa tanto amára,<br> + Por onde do Cyclopea grande mágoa<br> + Converteo do mancebo o sangue em ágoa.<br> + Virae os olhos, Nymphas, á Erycina<br> + Espessura; vereis alli mudar-se<br> + Egeria, e em fonte clara e crystallina<br> + Por a morte de Numa distillar-se.<br> + Olhae que a triste Byblis vos ensina,<br> + Com perder-se de todo e transformar-se<br> + Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto,<br> + Que accrescentarão sempre o verde manto.<br> + E s'entre as claras ágoas houve amores,<span class="pn" + ><a name="pag_233">{233}</a></span><br> + Os penedos tambem forão perdidos.<br> + Olhae os dous conformes amadores<br> + Lá no monte Ida em pedra convertidos:<br> + Lethêa, por cahir em vãos errores<br> + De sua formosura procedidos;<br> + Oleno, porque a culpa em si tomava,<br> + Por escusar a pena a quem amava.<br> + Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella,<br> + Por quem Iphis no laço poz a vida.<br> + Tambem vereis em pedra a Nympha bella,<br> + Cuja voz foi por Juno consumida,<br> + E, se queixar-se quer de sua estrella,<br> + A voz extrema só lhe he concedida.<br> + E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste<br> + Primeiro ao monte o doce verso agreste!<br> + Tamanho amor lhe tinha a branda amiga,<br> + Que em inimiga, emfim, se foi tornando:<br> + Porque outra Nympha estranha ja o sogiga,<br> + Suas magicas hervas vai buscando.<br> + Olhae a quanto a crua dor obriga!<br> + Por vingar-se, assi irada transformando<br> + O foi em pedra. Oh dura confusão!<br> + Despois lhe pezaria; mas em vão.<br> + Olhae, Nymphas, as árvores alçadas,<br> + A cuja sombra andais colhendo flores,<br> + Como em seu tempo forão namoradas;<br> + Do qu'inda agora o tronco sente as dores.<br> + Vereis, entre as de fructo matizadas,<br> + Como a côr das amoras he de amores:<br> + O sangue dos amantes na verdura<br> + Testimunha de Tisbe a sepultura.<span class="pn" ><a name="pag_234">{234}</a></span> + <br> + E lá por a odorifera Sabêa<br> + Não vêdes que de lagrimas daquella,<br> + Que com seu pae se junta e se recrêa,<br> + Arabia s'enriquece, e vive della?<br> + Lembrai-vos da verde árvore Penêa,<br> + Que foi ja n'outro tempo Nympha bella,<br> + E Cyparisso angelico mancebo;<br> + Ambos verdes com lagrimas de Phebo.<br> + De Phrygia vêde o moço delicado<br> + No mais alto arvoredo convertido,<br> + Que tantas vezes fere o vento irado;<br> + Galardão de seus erros merecido:<br> + Pois, da alta Berecynthia sendo amado,<br> + Por huma Nympha baixa foi perdido;<br> + E a deosa, a quem perdeo do pensamento,<br> + Quiz que tambem perdesse o entendimento.<br> + O subito furor lhe figurava<br> + Que as árvores e os montes se cahião;<br> + Ja dos pudicos membros se privava,<br> + Que os horrores a tanto o constrangião;<br> + Ja indignado no monte se lançava:<br> + De sua morte as feras se doião.<br> + Dest'arte perdeo Atys na espessura,<br> + Despois de tantas perdas, a figura.<br> + Lembre-vos quando as gentes celebravão<br> + Em Grecia as grandes festas de Liêo,<br> + Onde as formosas Nymphas se juntavão,<br> + E os sacros moradores do Licêo.<br> + Todos em doce somno se occupavão<br> + Por o monte, despois que anoiteceo;<span class="pn" + ><a name="pag_235">{235}</a></span><br> + Mas o deos do Hellesponto não dormia;<br> + Que hum novo amor o somno lh'impedia.<br> + Mas ella emfim, os braços estendendo,<br> + Em ramos se lhe forão transformando;<br> + Em raizes os pés se vão torcendo;<br> + E o nome Loto só lhe vai ficando.<br> + Vêde, Napêas, este caso horrendo,<br> + Que vos está de longe ameaçando.<br> + Assi tambem daquella, a quem seguia<br> + O sacro Pan, a fórma se perdia.<br> + Que vos direi de Filis, pois perdida<br> + Da saudosa dor com que vivia,<br> + Á desesperação emfim trazida<br> + Do comprido esperar de dia em dia,<br> + Por desatar do corpo a triste vida<br> + Atava ao collo a cinta que trazia.<br> + Mas o tronco sem fôlha por o monte<br> + Rhodope abraça o lento Demophonte.<br> + Nas boninas, tambem vereis Jacinto,<br> + Porquem Phebo de si se queixa em vão;<br> + Vereis o monte Idalio em sangue tinto<br> + Do neto de seu pae, da mãe irmão.<br> + Chora Venus a dor do moço extinto,<br> + Maldiz o ceo e a terra, com razão;<br> + A terra, porque logo não se abrio;<br> + O ceo, porque tal morte permittio.<br> + E tu, constante Clycie, a quem fallece<br> + A fé de teus amores enganosos,<br> + No louro amante, que de ti s'esquece,<br> + S'esquecem os teus olhos saudosos.<br> + Nenhum alegre estado permanece;<span class="pn" ><a name="pag_236">{236}</a></span> + <br> + Que são do mundo os gostos mentirosos;<br> + E á tua clara luz, por quem suspiras,<br> + Ainda agora em herva os olhos víras.<br> + Trago-vos estas cousas á lembrança,<br> + Porque s'estranhe mais vossa crueza<br> + Com ver que a criação e longa usança<br> + Vos não perverte e muda a natureza.<br> + Dou as lagrimas minhas em fiança,<br> + Qu'em tudo quanto está na redondeza,<br> + Cousa d'Amor isenta, se attentais,<br> + Em quanto vos não virdes, não vejais.<br> + Ja disse, que d'Amor sempre tiverão<br> + As cousas insensiveis pena e gloria.<br> + Vêde as sensiveis como se perdêrão.<br> + E dir-vos-hei das aves larga historia:<br> + As penas, qu'em su'alma se soffrêrão,<br> + Nas azas lhes ficárão por memoria;<br> + E aquelle altivo e leve movimento<br> + Lhes ficou do voar do pensamento.<br> + O doce rouxinol e a andorinha,<br> + Donde lhes veio o ir-se transformando,<br> + Senão do puro amor que o Thracio tinha,<br> + Qu'em poupa ainda a amada vai chamando?<br> + Clama sem culpa a misera avezinha,<br> + Que n'areia de Phasis habitando,<br> + Do rio toma o nome; e quando clama,<br> + Cruel á mãe, ao pae injusto chama.<br> + Vêde a que engeitou Pallas por fallar,<br> + (Que dos amores he maior defeito)<br> + E aquella, que succede em seu lugar,<br> + Ambas aves; de amor usado effeito;<span class="pn" + ><a name="pag_237">{237}</a></span> <br> + Huma, porque fugia ao deos do mar;<br> + Outra, porque tentára o patrio leito:<br> + E Scylla, que a seu pae poz em perigo,<br> + Só por ser muito amiga do inimigo.<br> + E Pico, a quem ficárão inda as côres<br> + Da purpura Real, que antes vestia;<br> + Esaco, que o seguir de seus amores<br> + O trouxe a ver tão cedo o extremo dia:<br> + Ou vêde os dous tão firmes amadores,<br> + Que amor aves tornou na praia fria.<br> + Do Rei dos ventos era genro o triste;<br> + Mas contra o fado, emfim, nada resiste.<br> + Estava a triste Halcyone, esperando<br> + Com longos olhos o marido ausente;<br> + Mas os ventos indomitos soprando,<br> + Nas ágoas o affogárão tristemente.<br> + Em sonhos se lh'está representando;<br> + Que o coração preságo nunca mente:<br> + Só do bem as suspeitas mentirão,<br> + Mas as do mal futuro certas são.<br> + Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;<br> + Buscando o mar com elles hia e vinha:<br> + Quando o corpo sem alma achou na praia.<br> + Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha!<br> + Ó Nereidas do Egêo, consolai-a,<br> + Pois este pio officio vos convinha.<br> + Consolai-a; sahi das vossas ágoas;<br> + Se consolação ha em grandes mágoas.<br> + Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando<br> + Das avezinhas mansas e amorosas?<br> + Pois tambem teve Amor natural mando<span class="pn" + ><a name="pag_238">{238}</a></span><br> + Entr'as feras montezes venenosas.<br> + O leão e a leoa, como, ou quando<br> + Taes formas alcançárão temerosas?<br> + Sabe-o da deosa Dindymene o templo,<br> + E a que a Adonis o dava por exemplo.<br> + Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia;<br> + Mas o grão Nilo o diga, pois a adora.<br> + Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia<br> + Do Pólo Boreal, onde ella mora.<br> + O caso d'Acteon tambem diria<br> + Em cervo transformado; e melhor fôra<br> + Se dos olhos perdêra a vista pura,<br> + Que em seus galgos achar a sepultura.<br> + Tudo isto Acteon vio na fonte clara,<br> + Onde a si d'improviso em cervo vio:<br> + Que quem assi dest'arte alli o topára,<br> + Que se mudasse em cervo permittio.<br> + Mas, como o triste Principe em si achára<br> + A desusada fórma, se partio.<br> + Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando;<br> + E, tendo-o alli presente, o vão buscando.<br> + Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava;<br> + Que a voz humana ja perdida tinha.<br> + Qualquer delles por elle então chamava,<br> + E a multidão dos cães contr'elle vinha.<br> + Hum cervo acude a ver (qualquer gritava)<br> + Acteon, donde estás? acude asinha,<br> + Que tardar tanto he este? (repetia)<br> + <em>He este, he este</em>, o eco respondia.<br> + Quantas cousas em vão estou fallando<br> + (Oh Napêas esquivas!) sem que veja<span class="pn" + ><a name="pag_239">{239}</a></span> <br> + O peito de diamante hum pouco brando<br> + De quem meu damno tanto só deseja.<br> + Pois, por mais que de mi me andais tirando,<br> + E por mais longa emfim que a vida seja,<br> + Nunca em mi se verá tamanha dor,<br> + Que Amor a não converta em mais amor.<br> + Aqui (formosas Nymphas) vos pintei<br> + Todo d'amores hum jardim suave;<br> + D'ágoas, de pedras, d'árvores contei,<br> + De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave.<br> + Se este amor, que no peito aposentei,<br> + Que dos contentamentos t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e a chave,<br> + Por dita em tempo algum determinasse<br> + Que de tão longos damnos vos pezasse,<br> + Quanto mais devagar vos contaria<br> + De minha larga historia e não alheia?<br> + E com quanta mais ágoa regaria,<br> + Que o rio, de contente, a branca areia?<br> + Novo contentamento me seria<br> + Formar de meu cuidado a nova ideia:<br> + E vós, gostando deste estado ufano,<br> + Zombarieis então de vosso engano.<br> + Mas com quem fallo ja? que estou gritando,<br> + Pois não ha nos penedos sentimento?<br> + Ao vento estou palavras espalhando;<br> + A quem as digo, corre mais que o vento.<br> + A voz e a vida a dor m'está tirando,<br> + E o tempo não me tira o pensamento.<br> + Direi, emfim, ás duras esquivanças<br> + Que só na morte tenho as esperanças.<br> + Aqui, sentido, o Satyro acabou,<span class="pn" ><a name="pag_240">{240}</a></span> + <br> + Com huns soluços que a alma lhe arrancavão.<br> + Os montes insensiveis, que abalou,<br> + Nas ultimas respostas o ajudavão.<br> + Então Phebo nas ágoas se encerrou<br> + Co'os animaes que o mundo allumiavão;<br> + E co'o luzente gado appareceo<br> + A candida pastora por o ceo.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011280000">ECLOGA VIII.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011281000">PISCATORIA.</a></h3> + +<p style="text-align: center;"><em>Sereno.</em></p> + +<blockquote> + Arde por Galatêa branca e loura<br> + Sereno pescador pobre, forçado<br> + D'huma estrella, que quer á míngoa moura.<br> + Os outros pescadores t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e lançado<br> + No Tejo as redes: elle só fazia<br> + Este queixume ao vento descuidado:<br> + Quando virá (formosa Nympha) hum dia,<br> + Em que te possa dar a conta estreita<br> + Desta doudice triste e vãa porfia?<br> + Não vês, que me foge a alma e que m'engeita,<br> + Buscando em hum só riso d'essa boca,<br> + Nos teus olhos azues mansa colheita?<br> + Se ao teu esprito alg<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mágoa toca,<br> + Se d'amor fica nelle huma pégada,<br> + Que te vai, Galatêa, nesta troca?<span class="pn" ><a name="pag_241">{241}</a></span> + <br> + Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada:<br> + Não ta demandarei: dá-me por ella<br> + Huma só volta d'olhos descuidada.<br> + Se muito te parece, e minha estrella<br> + Não consentir ventura tão ditosa,<br> + Dou-te as azas do Amor perdidas nella.<br> + Que mais te posso dar, Nympha formosa,<br> + Inda que o mar d'aljofar me cubríra<br> + Toda esta praia leda e graciosa?<br> + Amansão-se ondas, quebra o vento a ira:<br> + Minha tormenta só nunca socega;<br> + O meu peito arde em vão, em vão suspira.<br> + Anda no romper d'alva a nevoa cega<br> + Sôbre os montes d'Arrabida viçosos,<br> + Em quanto o solar raio lhes não chega.<br> + Eu, vendo apparecer outros formosos<br> + Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão,<br> + Se os olhos cegos vi, vejo saudosos.<br> + Quantas vezes as ondas se encrespárão<br> + Com meus suspiros! quantas com meu pranto<br> + As fiz parar de mágoa e me escutárão!<br> + Se na fôrça da dor a voz levanto,<br> + E ao som do remo, que ágoa vai ferindo,<br> + Perante a lua meu cuidado canto;<br> + Os maviosos delfins m'estão ouvindo;<br> + A noite socegada; o mar callado:<br> + Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo.<br> + Estranhas, por ventura, o mar cercado<br> + Da fraca rede; a barca ao vento solta;<br> + E hum pobre pescador aqui lançado?<br> + Antes que o sol no ceo cerre huma volta<span class="pn" + ><a name="pag_242">{242}</a></span><br> + Se póde melhorar minha ventura,<br> + Como a outros succede, n'ágoa envolta.<br> + Igual preço não he da formosura<br> + D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia,<br> + Mas hum amor, que para sempre dura.<br> + Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia;<br> + Verás teu nome na mimosa areia.<br> + Nunca sôbre elle o mar com furia saia!<br> + Vento algum atégora o não salteia:<br> + Tres dias ha que escripto aqui o deixou<br> + Amor, e o veda a toda fôrça alheia.<br> + Elle com suas mãos proprio ajudou<br> + A escolher estas conchas, affirmando<br> + Que o sol para ti só as matizou.<br> + Hum ramo te colhi de coral brando:<br> + Antes que o ar lhe désse, parecia<br> + O que de tua boca estou cuidando.<br> + Ditoso se o soubesse inda algum dia!</blockquote> + +<h2><a name="SECTION011290000">ECLOGA IX.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION011291000">PISCATORIA.</a></h3> + +<p style="text-align: center;"><em>Palemo.</em></p> + +<blockquote> + Despois que o leve barco ao duro remo,<br> + Onde menos das ondas se temia,<br> + Atou o pescador pobre Palemo;<br> + Em quanto as negras redes estendia<br> + Seu companheiro Alcão na branca arêa,<span class="pn" + ><a name="pag_243">{243}</a></span><br> + E Lico as longas cordas envolvia;<br> + De cima d'huma rocha, a qual rodêa<br> + O mar, quebrando nella de contino,<br> + Começou a chamar por Galatêa.<br> + Deixa o molle licor e crystallino,<br> + (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja<br> + Enxugar teu cabello d'ouro fino.<br> + Inda que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de ti tão grande inveja,<br> + Não temas que te queime o rosto brando:<br> + Basta para abrandar-se que te veja.<br> + Não te detenhas mais, vem ja cortando<br> + Com teu candido peito as brancas ondas,<br> + Escumas menos brancas levantando.<br> + Dar-te-hei (com condição que não t'escondas<br> + De mi lá nessas humidas moradas,<br> + E que algum'hora, branda me respondas)<br> + Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas,<br> + Todas d'huma feição; não d'huma côr,<br> + Pois dellas são azues, dellas rosadas.<br> + Indaque seja pobre pescador,<br> + Não sei se em desprezar-me muito acertas,<br> + Pois rico do amor teu me fez Amor.<br> + Para ti n'outras praias mais desertas<br> + Irei pescar por entre pedras duras,<br> + Que sempre verde musgo t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e cobertas,<br> + As pardas ostras, onde gottas puras<br> + De fresco orvalho, dentro endurecidas,<br> + Não podem da cobiça estar seguras.<br> + Porque deixas de vir? porque duvídas?<br> + Por ventura d'algum meu companheiro?<br> + Inda as redes ao sol t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e estendidas.<span class="pn" + ><a name="pag_244">{244}</a></span><br> + Toda a noite pescárão, e primeiro<br> + Querem dormir a sesta nesta praia,<br> + Que o barco polo mar levem ligeiro.<br> + Eu, vigiando aqui como atalaia,<br> + Te chamarei, até que de cansado<br> + Hum dia desta rocha abaixo caia,<br> + Deixando este lugar tão infamado<br> + Com minha morte, que dos marinheiros<br> + Com o dedo de lá será mostrado.<br> + Dirão os naturaes e os estrangeiros:<br> + Alli morreo Palemo. Ai triste historia!<br> + Guardae a nao de alli, ventos ligeiros.<br> + Antes que tal succeda, vê que gloria<br> + Alcanças com deixar aos navegantes<br> + Da tua ingratidão esta memoria.<br> + Da nossa differença não te espantes:<br> + Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso,<br> + Qual eu agora sou, tal era d'antes.<br> + Tambem eu entre as hervas achar posso<br> + Aquella, a quem o ceo deo tal virtude,<br> + Que muda n'outro ser este ser nosso.<br> + Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude,<br> + Inda que vá a morar lá nessas ágoas,<br> + Não temas que a mudança em mi o mude.<br> + Serão as vivas ondas vivas frágoas,<br> + Em que estarei ardendo noite e dia,<br> + Se não tiveres dó de tantas mágoas.<br> + As horas naturaes da pescaria<br> + Não vês que vão passando? Como as passas?<br> + Quem deste passatempo te desvia?<br> + Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças<span class="pn" + ><a name="pag_245">{245}</a></span><br> + Dar em vão tantos gritos: vem; iremos<br> + Ambos a levantar as verdes naças.<br> + Ambos os anzoes curvos cobriremos<br> + De mentirosas iscas, com que os peixes<br> + A todo prazer nosso prenderemos.<br> + Assi d'Amor cruel nunca te queixes,<br> + E dessa formosura as mais formosas<br> + Nymphas do mar azul vencidas deixes;<br> + Que venhas (pois por ti com saudosas<br> + Lagrimas vou gastando a vida e alma)<br> + A tirar-me esperanças duvidosas.<br> + A praia está callada, o mar em calma;<br> + Por cima desta rocha brandamente<br> + Zephyro respirando a desencalma.<br> + Aqui não sinto cousa certamente<br> + Porque deixes de vir, como sohías,<br> + Senão, que não es tu disso contente.<br> + Se desgostas das grossas pescarias,<br> + Marisco appetitoso aqui não falta,<br> + Ja sejão luas cheias, ja vazias.<br> + Polos pés desta rocha dura e alta<br> + Irei eu despegando huns como pés<br> + D'hum pequeno animal, que nella salta.<br> + E vivos te darei (se delles es<br> + Amiga) mil cangrejos vagarosos,<br> + Que verás ir andando de revés.<br> + Não te darei ouriços espinhosos,<br> + Porque te quero tanto, que receio<br> + Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos.<br> + Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,<br> + Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,<span class="pn" + ><a name="pag_246">{246}</a></span><br> + Podemos apanhar hum cesto cheio.<br> + Mas além de tudo isto hum crespo galho<br> + De vermelho coral te darei logo,<br> + Que por dita arrastou o meu tresmalho.<br> + Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo;<br> + Que nem tu a meus rogos tens respeito,<br> + Nem eu, por mais que grite, desaffógo.<br> + Hum coração em lagrimas desfeito<br> + Como ja não te abranda? quem encerra<br> + Crueza tal em tão formoso peito?<br> + Não reina Amor no mar, como na terra?<br> + Bem sabes que mil vezes ja venceo<br> + A Neptuno teu Rei em clara guerra.<br> + Sua formosa mãe onde nasceo,<br> + Senão no proprio mar em que te banhas?<br> + Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo?<br> + Se das pedras nascesses nas montanhas,<br> + Se com leite de tigres te criáras,<br> + Mais duras não tiveras as entranhas.<br> + Apparecêras tu, e então tornáras<br> + Logo a esconder-te, logo, se quizeras<br> + Nas ondas, que de ti me são avaras.<br> + Com h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mostra só que de ti deras,<br> + A vida, que me foge em não te vendo,<br> + Co'os teus formosos olhos detiveras.<br> + Então víras os meus, donde correndo<br> + De lagrimas se vem dous largos rios,<br> + Que o mar tambem em si vai recolhendo.<br> + Ah nescio pescador! que desvarios<br> + Me deixo aqui dizer! a quem os digo!<br> + A surdas ondas ja, ja a ventos frios.<span class="pn" + ><a name="pag_247">{247}</a></span><br> + Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo<br> + O barco vejo: ai! ei-lo combatido.<br> + Ellas e elles o levão ja comsigo.<br> + Olhos, que lá me tendes o sentido,<br> + A culpa he vossa só, que me não vêdes.<br> + Mas, pois o pescador anda perdido,<br> + Perca-se o barco seu, percão-se as redes.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112100000">ECLOGA X.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION0112101000">PISCATORIA.</a></h3> + +<p style="text-align: center;"><em>Meliso.</em></p> + +<blockquote> + Encheo do mar azul a branca praia<br> + Meliso pescador de mil querellas;<br> + Meliso, que por Lilia arde e desmaia.<br> + Despois que á luz da lua e das estrellas,<br> + Sôbre dura fatexa o barco pôsto,<br> + As redes recolheo, remos e velas:<br> + Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto<br> + Te move a me negar, vendo qual ando,<br> + Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto?<br> + Se tu queres que pene desejando,<br> + Se queres que no mar em fogo viva;<br> + Ardendo sempre estê, sempre penando.<br> + Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva)<br> + Que não merece ser tão mal tratada<br> + Hum'alma desses olhos tão captiva.<br> + Vives dos meus cuidados descuidada:<span class="pn" + ><a name="pag_248">{248}</a></span><br> + Coitado de quem traz a duvidosa<br> + Vida no mar e terra aventurada!<br> + Bem podes com razão ser piedosa<br> + Com quem não quer mor bem, que bem quererte,<br> + Não sendo tão cruel como es formosa.<br> + Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te<br> + A meus cansados olhos, que de tantas<br> + Lagrimas são movidos, sem mover-te.<br> + Se tu me vences, e se tu m'encantas<br> + Com tua doce falla, doce riso,<br> + Porque foges de mi? porque te espantas?<br> + Lembre-te a formosura de Narciso,<br> + E qual pago lhe deo seu desamor:<br> + Ólha que com amor disto te aviso.<br> + Mas quando essa crueza tanta for,<br> + Que mereça do ceo novo castigo,<br> + Qual herva será digna de tal flor?<br> + Amor que me persegue, Amor que sigo,<br> + Me faz d'hum grave mal andar temendo;<br> + D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo.<br> + Quanto mais ledo ja te estive vendo<br> + Aqui as mansas ondas esperando,<br> + Que por chegar a ti vinhão correndo,<br> + E da molhada areia despegando<br> + Com a candida mão roxas conchinhas,<br> + A fórma do teu pé nella deixando?<br> + Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas,<br> + Muitas te trago aqui, postoque temo<br> + Que menos o terás por serem minhas.<br> + Hum temor tal me chega a tal extremo,<br> + Que, vencido d'hum triste esquecimento,<span class="pn" + ><a name="pag_249">{249}</a></span><br> + No mar me cahe da mão o duro remo.<br> + E quando a branca vela sólto ao vento,<br> + Tão descuidado vou do fiel leme,<br> + Que me leva a perder meu pouco tento.<br> + Mas quem arde por ti, quem por ti treme,<br> + Os seus maiores riscos não receia,<br> + Os teus que sente mais, muito mais teme.<br> + Despois que te não vi, (não sei que creia<br> + Desta tardança tua e morte minha)<br> + Sendo a lua vazia, he quasi cheia.<br> + O tempo, que nos gostos passa asinha,<br> + Detem-se neste mal da saudade,<br> + Por me dobrar a dor que d'antes tinha.<br> + Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,<br> + Que por te contentar tudo despreza,<br> + Tudo julga, sem ti, por pouquidade.<br> + Se pretendes amor, ja tens certeza<br> + Que não podes ser nunca mais amada<br> + Dos que vencidos traz tua belleza.<br> + Se por ventura estás affeiçoada<br> + A gentil parecer, a bom engenho,<br> + A ninguem nestas partes devo nada.<br> + Se fazes caso d'honra, ólha que venho<br> + De geração d'honrados pescadores;<br> + Se de riqueza, barco e redes tenho.<br> + Por erros julgarás estes louvores;<br> + E oxalá não os julgues por doudice!<br> + Mas quem siso quer ter não tenha amores.<br> + E mais tudo foi pouco quanto disse,<br> + Pondo os olhos no muito que meu fado<br> + Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.<span class="pn" + ><a name="pag_250">{250}</a></span><br> + Aconteceo-me hum caso desusado,<br> + (Inda que d'huma cousa n'outra salto)<br> + Digno, por ser de amor, de ser contado.<br> + Pescando hontem á tarde no mar alto,<br> + Suspenso nessa rara formosura,<br> + A quem com mil lembranças nunca falto,<br> + Comecei a cantar: Lilia, mais dura<br> + Que a mais inculta rocha rodeada<br> + Do mar, de cujo encontro está segura;<br> + Mais alva que jasmins, e mais córada<br> + Que purpureas serejas polo Maio;<br> + Mais loura que manhãa desentrançada;<br> + Não vês... dizer queria que desmaio,<br> + Quando (cousa que mal me será crida)<br> + No mar, vencido d'hum, do barco caio?<br> + Alli tivera fim a triste vida,<br> + Se d'hum brando delfim, que me escuitava,<br> + Não fôra, por ser tua, soccorrida.<br> + Parece que tambem vencido estava<br> + Do mal, de que me via andar vencido,<br> + Quem em tamanho risco m'ajudava.<br> + Trouxe-me sôbre si adormecido,<br> + Nadando ao som das ondas mansamente,<br> + Até que me sentio em meu sentido.<br> + Livre deste mortal, bravo accidente,<br> + Tal foi o espanto meu, tal meu temor,<br> + Que d'outro me livrei escaçamente.<br> + Mas logo o amoroso nadador<br> + Me poz junto do barco, que tão perto<br> + Esteve de ficar sem pescador.<br> + O sol era de todo ja coberto,<span class="pn" ><a name="pag_251">{251}</a></span> + <br> + Quando eu, entrando nelle, sahi fóra<br> + Do perigo, onde tive o fim tão certo.<br> + Porém outro maior me cansa agora,<br> + De que mal sahirei, se te não vir<br> + Amanhecer aqui co'a nova aurora.<br> + Não póde ella tardar em descobrir<br> + As suas louras tranças dasatadas,<br> + Das quaes as tuas bem se podem rir.<br> + Pois por cima das ondas, acordadas,<br> + As Halcyoneas ouço lamentar-se,<br> + Do seu antigo damno inda lembradas.<br> + E sinto o fresco orvalho derramar-se<br> + Mais congelado e frio; e Venus bella<br> + Polo Oriente ja vejo levantar-se.<br> + Bem podes, Lilia, competir com ella,<br> + E com Pallas e Juno em gentileza;<br> + Em amor não, pois elle nasceo della:<br> + Desterrou-o de ti tua aspereza,<br> + Que desterra de mi prazer e vida,<br> + Deixando em seu lugar mágoa e tristeza.<br> + No silencio da noite, que convida<br> + A descanso commum, tanto me cança,<br> + Que não sei se remedio ou morte pida.<br> + Se tu quizesses dar-me huma esperança<br> + De te servir de mi ou tarde, ou cedo,<br> + Nunca me negaria o mar bonança.<br> + Polas inchadas ondas, que põe medo,<br> + Eu só, sem mais ajuda, levaria<br> + Sempre á fôrça de braço o barco quedo.<br> + Tão seguro por ellas andaria,<br> + Como polo seu campo o lavrador<span class="pn" ><a name="pag_252">{252}</a></span> + <br> + No mais quieto, claro e bello dia.<br> + Ólha que não ha destro pescador,<br> + Que mais manhoso as redes desencolha,<br> + Nem os tortos anzoes isque melhor.<br> + Os peixes deixarei em tua escolha:<br> + Aquelles de que fores mais amiga,<br> + Nunca te faltarão de fôlha a fôlha.<br> + Não sei, Lilia formosa, que mais diga,<br> + Que mova amor em ti, que mova mágoa;<br> + Sei que mágoa, e que amor a mais obriga.<br> + Mas antes que o sol dê naquella frágoa,<br> + Onde meus ais dilata a triste Ecco,<br> + Vou-me segurar mais o barco na ágoa,<br> + Porque de baixa mar não fique em sêcco.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112110000">ECLOGA XI.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION0112111000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">A<small>NZINO</small> e +L<small>IMIANO</small>.</p> + +<blockquote> + Parece-me, pastor, se mal não vejo,<br> + Que ja te vi mais ledo andar outr'hora<br> + Nos largos campos do famoso Tejo.<br> + L<small>IMIANO.</small><br> + Podia ser; que muito tempo fóra<br> + Andei desta ribeira, patria minha,<br> + Onde triste me vez andar agora.<br> + Tinha lá para mi, que a vida tinha<br> + Mais socegada cá e mais segura,<span class="pn" ><a name="pag_253">{253}</a></span> + <br> + Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha.<br> + Foi d'outro parecer minha ventura:<br> + Discordias sós achei, e achei dureza,<br> + Em lugar de socêgo, e de brandura.<br> + Achei as boas leis da natureza<br> + Vencidas do interesse; e a gente cega,<br> + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.<br> + Dizem que quando o mar bonança nega,<br> + Correndo vai aquella não mor prigo,<br> + Que á desejada terra mais se chega.<br> + Assi m'aconteceo a mi comigo;<br> + Seguro sempre ao longe, sempre ledo;<br> + Triste ao perto, e tratado como imigo.<br> + A<small>NZINO.</small><br> + Sempre (podes-me crer este segredo)<br> + Desejei de te ver; mas com desgôsto,<br> + Inda te não quizera ver tão cedo.<br> + Prestando para cousas de teu gôsto,<br> + Como camaleão não mudo côres;<br> + Qual he meu coração, tal he meu rosto.<br> + L<small>IMIANO.</small><br> + Não são logo assi, não, outros pastores,<br> + Que de promessas vãas te fazem rico,<br> + E nunca fructo dão: tudo são flores.<br> + Mas desejo saber com quem pratíco,<br> + Porque não caia em falta, e porque entenda<br> + A quem tamanho amor devendo fico.<br> + A<small>NZINO.</small><br> + Antes que tempo nisso se dispenda,<br> + Busquemos hum lugar mais fresco e frio,<br> + Que da calma, que cahe, bem nos defenda.<span class="pn" + ><a name="pag_254">{254}</a></span><br> + L<small>IMIANO.</small><br> + Vamos alli, que alli bosque sombrio<br> + Nos dara fresco abrigo, assento o prado,<br> + Formosa vista o valle, o monte, o rio:<br> + O rio, que verás tão socegado,<br> + Que te parecerá que se arrepende<br> + De levar ágoa doce ao mar salgado.<br> + Nem cabra, nem ovelha alli offende<br> + Herva, folha, nem flor, ou ferro duro:<br> + A planta polo ar livre se estende.<br> + Verás cahindo em gottas crystal puro<br> + No vão d'huma caverna carcomida,<br> + Por entre o musgo molle, verde-escuro.<br> + A<small>NZINO.</small><br> + Quem traz á saudade a alma rendida,<br> + A saudade busca, onde descansa;<br> + Maso descanso della encurta a vida.<br> + Com tudo, quem do ceo na terra alcansa<br> + Poder gozar-se desta liberdade,<br> + Que mais deseja ter? que mais o cansa?<br> + Affirmo-te de mi esta verdade,<br> + Que muitos valles vi, muitas ribeiras;<br> + Mas esta me dobrou a saudade.<br> + Oh que viçosas murtas! que oliveiras!<br> + Que freixos! como estão d'hera cingidos!<br> + Quantas voltas lhes dá de mil maneiras!<br> + Os lirios junto d'ágoa bem nascidos<br> + Quanta graça que t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e entre as boninas,<br> + Sem ordem, com mais graça, entremetidos!<br> + Vem encrespando as ágoas crystallinas<br> + A branda viração; a fôlha treme;<span class="pn" ><a name="pag_255">{255}</a></span> + <br> + O movimento apenas determinas.<br> + A rôla seu amor suspira e geme;<br> + Escondida se queixa Philomella:<br> + Parece que do campo inda se teme.<br> + Espanta a quem se atreve, ver aquella<br> + Rocha por cima d'ágoa pendurada<br> + Como ja se não deixa cahir nella.<br> + Ó ribeira do Lima, celebrada<br> + De mil brandos espritos sempre sejas,<br> + Sempre de brandas Nymphas povoada.<br> + Fujão longe de ti duras invejas;<br> + Peçonha de pastores, morte sua:<br> + Tudo sintas amor, tudo amor vejas.<br> + De dia o claro sol, de noite a lua,<br> + Em teu favor inspirem de maneira,<br> + Que sempre fertil seja a praia tua.<br> + Tornando, emfim, á prática primeira,<br> + Por dar-te, como queres, de mi conta,<br> + Larga ta quero dar e verdadeira.<br> + Apartar-te do gado leva em conta;<br> + Que, pois com elle fica o pegureiro,<br> + Que te detenha hum pouco, pouco monta.<br> + O meu nome he Anzino: fui vaqueiro<br> + Na grã serra da Estrella, que não tive;<br> + Não sei se natural, ou se estrangeiro.<br> + Hum pastor me criou, que ja não vive;<br> + De todos por seu filho era julgado;<br> + E eu tambem neste engano hum tempo estive.<br> + Até que delle soube ser achado<br> + Em huma anzina envolto em pobres panos;<br> + E daqui veio, que Anzino fui chamado.<span class="pn" + ><a name="pag_256">{256}</a></span><br> + Neste meu desengano outros enganos<br> + Fundou de novo a pouca dita minha,<br> + Com que o vim a servir mais de sete annos.<br> + Tinha muito de seu, e mais não tinha<br> + De filhos, que huma filha bem formosa,<br> + Á qual por morte delle tudo vinha.<br> + Conversação doméstica e damnosa,<br> + Na livre formosura e tenra idade,<br> + Em ambos accendeu chamma amorosa.<br> + Como ella de mi soube esta verdade,<br> + Com outro amor, com outros exercicios,<br> + Nella ganhei de novo outra vontade.<br> + Amor mestre me fez de mil officios<br> + Para meio do fim que desejava;<br> + E delle sinal davão mil indicios.<br> + Tecia alvos cestinhos, quando andava<br> + Com as vaccas no prado: á noite hum cheio<br> + De fructa, outro de flores lhe levava.<br> + Nas mangas muitas vezes e no seio<br> + As nozes lhe levei com as castanhas,<br> + Quer do souto do pae, quer d'outro alheio.<br> + Nos intricados bosques, nas montanhas,<br> + Por seu amor as feras perseguia,<br> + Fôrças agora usando, agora manhas.<br> + Vivos os mansos cervos lhe trazia;<br> + Vivas medrosas lebres fugitivas:<br> + Ligeireza de pés não lhes valia.<br> + Mas, se lhe dava as mansas feras vivas,<br> + Mortas lhe dava as que por natureza,<br> + Sem domar-se, são bravas, ou esquivas.<br> + Certo dia achei eu n'huma aspereza,<span class="pn" + ><a name="pag_257">{257}</a></span><br> + Sem mãe, hum cervo branco e pequenino;<br> + Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza.<br> + Ou ja criação seja, ou ja destino,<br> + Tanto que não o vê, geme e suspira.<br> + Como menos fara o triste Anzino?<br> + Tangia mal na frauta, mal na lira;<br> + Despois tão bem tangia, qu'era espanto<br> + A quem antes d'amor tanger m'ouvíra.<br> + Ouvia celebrar sempre em meu canto<br> + Ulina a sua rara formosura:<br> + (Tal nome t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e aquella, a que amo tanto.)<br> + Contava-lhe meus males por figura:<br> + Ficava eu, de medroso, frio e mudo;<br> + Ficava ella suspensa; a historia escura.<br> + Assi com tal temor, com tal estudo,<br> + Amor fui grangeando longamente,<br> + Á conta deste amor perdendo tudo.<br> + Ella, dos meus desejos innocente,<br> + O mesmo amor me tinha, tanto, digo;<br> + Que no ser era todo differente.<br> + Praticava seus gostos só comigo;<br> + Seus desgostos tambem, seus pensamentos,<br> + Com rara graça e com saber antigo.<br> + Outras vezes, confusa nos intentos,<br> + Os modos me notava, e me dizia:<br> + Entre irmãos de que servem comprimentos?<br> + Eu quizera, Senhora, (respondia)<br> + Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo,<br> + Não com menos amor te serviria.<br> + Tornou-me: Essa resposta não entendo:<br> + O que não quiz o ceo, queres que seja?<span class="pn" + ><a name="pag_258">{258}</a></span><br> + Que castellos no vento andas fazendo?<br> + Se me queres ver leda, não te veja<br> + Soltar essas palavras ociosas:<br> + Materia mais honesta nos sobeja.<br> + Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas<br> + Naquellas proprias suas, sôbre a neve<br> + Das suas faces mais que o sol formosas.<br> + Destas quebras comigo algumas teve;<br> + Cujas fôrças amor quebrava logo<br> + N'outra conversação mais branda e leve.<br> + Cresceo desta maneira o vivo fogo,<br> + Que ardendo dentro na alma encurta a vida;<br> + Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo.<br> + Mas ella neste tempo era pedida<br> + De muitos a seu pae em casamento;<br> + Nova dor para mi, mortal ferida!<br> + Elle lhe nomeava mais de cento:<br> + Delles paternamente lhe rogava<br> + Hum escolhesse a seu contentamento.<br> + Com mil razões fingidas s'escusava,<br> + Sendo só a razão, não ser contente;<br> + Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava.<br> + Estando nós por huma sesta ardente<br> + Á sombra d'huns madronhos repousando,<br> + Affastados da casa e mais da gente,<br> + Ja d'huma e d'outra cousa praticando;<br> + Soltou com hum suspiro estas palabras:<br> + Desde hontem para cá em mi não ando.<br> + Logo que nosso pae tornou das labras,<br> + Me disse que assentára de casar-me<br> + Com Tityro, pastor de muitas cabras.<span class="pn" + ><a name="pag_259">{259}</a></span><br> + Que não buscasse causas d'escusar-me,<br> + Como por muitas vezes ja fizera,<br> + Pois tinha muitas mais de contentar-me.<br> + Que afóra esta tenção, que a sua era,<br> + O mesmo seus parentes lhe dizião,<br> + A quem de seus intentos conta dera.<br> + As ágoas, que dos olhos me corrião,<br> + Em quanto elle me disse o que te digo,<br> + Por mi, que fiquei muda, respondião.<br> + Com seu chôro abrandou ao pae amigo;<br> + Qu'emfim, deixando-a menos magoada,<br> + Lhe disse que fallasse isto comigo.<br> + Assi me disse; e que determinada<br> + Estava a qualquer mal que lhe viesse.<br> + Antes que ser com Tityro casada.<br> + Que por mais de mil cabras que tivesse,<br> + Jamais esta vontade mudaria;<br> + Que buscava saber, não interesse.<br> + E que de melhor mente casaria<br> + Com hum qualquer pastor, pobre de gado,<br> + Se nelle as partes visse, que em mi via.<br> + Por extremo de mi lhe foi louvado<br> + O pensamento seu; e sem detença<br> + Tal resposta lhe dei acautelado:<br> + Se a dar meu parecer me dás licença,<br> + Hum pastor te darei de qualidade,<br> + Que em nada de mi tenha differença;<br> + Nem de menos saber, nem mais idade;<br> + Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto:<br> + Da fazenda não sei a quantidade.<br> + Se esse me fazes bom, daqui protesto<span class="pn" + ><a name="pag_260">{260}</a></span><br> + De não receber outro por marido:<br> + Me respondia com sembrante honesto.<br> + Pois sabe (respondi) que ja admittido<br> + Me tens com gôsto teu por teu esposo;<br> + Que com dar-te-me dou o promettido.<br> + Não pude dizer mais, de vergonhoso,<br> + Nem ella me deixou com ouvir tal,<br> + Suspeitando de mi amor vicioso.<br> + Logo me respondeo: Ah desleal!<br> + Ah deshonesto irmão! isso pretendes?<br> + Mas não irmão, imigo capital.<br> + O ceo, que com injusto amor offendes,<br> + Tome, cruel, de ti justa vingança,<br> + Antes que de tamanho error t'emendes.<br> + Andavas-me enganando na esperança<br> + Com esses falsos e indevidos meios<br> + Ao sangue nosso e minha confiança?<br> + Fizeste verdadeiros os receios,<br> + A que confusamente me levavas<br> + De sombras enganosas com rodeios.<br> + Desejo no teu peito agasalhavas<br> + Tão torpe, tão infame, tão alheio<br> + Do puro amor, a que obrigado estavas?<br> + Não te desculpes, não; que ja não creio<br> + Lagrimas, nem palavras, nem desculpas<br> + De quem imaginou caso tão feio.<br> + Timido respondi: De que me culpas?<br> + Se ouvido me não dás, não tens razão;<br> + Acaba de me ouvir o fim das culpas.<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e-me, Ulina, por teu, não por irmão:<br> + Se me não queres crer esta verdade,<span class="pn" + ><a name="pag_261">{261}</a></span><br> + De teu pae saberás se minto, ou não.<br> + Por filho me criou: a flor da idade<br> + Gastei em o servir por teu respeito:<br> + Ólha o que te merece esta vontade.<br> + Se com ser isto assi tenho êrro feito<br> + Em grangear-te; que a ti só desejo;<br> + Eis este ferro aqui, eis este peito.<br> + Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo,<br> + Pondo os olhos no chão, formosa e branda;<br> + E cuido qu'inda assi nos meus a vejo.<br> + Disse-me: Em que revoltas o amor anda!<br> + No bem, como no mal, tambem me enleia:<br> + Inda agora o senti, ja reina e manda.<br> + Como queres, Anzino, qu'eu te creia<br> + Cousa que nem sonhada foi tégora?<br> + Não sabes de quem ama, o que receia?<br> + Fallarei com meu pae: fica-t'embora:<br> + No desengano seu teu bem consiste;<br> + Da palavra que dei não estou fóra.<br> + Com isto me deixou alegre e triste.<br> + O comêço ja ouviste de meu dano,<br> + Amigo Limiano: o fim amargo,<br> + Em que não serei largo, escuita agora.<br> + Fulgencia, outra pastora, que vizinha<br> + Era d'amada minha e grande amiga,<br> + (Não sei como isto diga que não moura)<br> + Pastora branca e loura, que na serra<br> + Era a segunda guerra dos pastores,<br> + Por mal dos meus amores me quiz bem.<br> + Fundava-se porém em casamento;<br> + E deste fundamento lhe nascia,<span class="pn" ><a name="pag_262">{262}</a></span><br> + Que, como me não via, o valle, o monte,<br> + O bosque, o rio, a fonte rodeava.<br> + Em busca minha andava aquella sesta;<br> + Entrou pola floresta, onde nos vio;<br> + E tudo nos ouvio quanto fallámos,<br> + Entre huns espessos ramos escondida.<br> + Cruelmente ferida dos ciumes,<br> + Foi-se a fazer queixumes (descobrindo<br> + Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina.<br> + Eis logo desatina o triste velho;<br> + Eis que sem mais conselho a filha entrega,<br> + Que com chôro se nega e com palabras,<br> + Ao simple guarda cabras, por esposa.<br> + Ah hora desditosa! ah sorte dura!<br> + Daquella formosura desusada,<br> + De tantos desejada, e de mi tanto<br> + Servida com espanto e puro amor,<br> + Quizeste, por mais dor, enriquecer<br> + Quem não sabe entender o preço della?<br> + Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste,<br> + Como te não abriste; e no teu centro<br> + Me não cerraste dentro, estando vivo,<br> + Porque mal tão esquivo não sentíra?<br> + Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido!<br> + Para me ver perdido me criaste?<br> + Porque me não deixaste no deserto?<br> + Menos crueza, certo, então usáras,<br> + Inda que me deixáras (não te aggraves)<br> + Ás cruas feras e aves da montanha.<br> + Não vês que o ceo estranha isso que tratas?<br> + Não vês que a ti te matas cobiçoso?<span class="pn" + ><a name="pag_263">{263}</a></span><br> + Na porta o novo esposo tropeçou;<br> + Na casa não entrou co'o pé direito:<br> + Gritou sobolo teito a noite inteira<br> + A ave, qu'he mensageira de fins tristes.<br> + O mesmo vós sentistes, cães da aldeia,<br> + Quando por má estreia, juntos todos,<br> + Com differentes modos huiviastes.<br> + Serranas, qu'esperastes nestas vodas<br> + Cantar alegres todas Hymeneos,<br> + Dos vossos alvos seios, alvas flores,<br> + Em lugar dos licores mais custosos,<br> + Por cima dos esposos derramando;<br> + Ou vendo estar bailando, estando quedas,<br> + Ao som das gaitas ledas no terreiro<br> + O moço tão ligeiro á maravilha,<br> + Que quasi o pé não trilha o junco mole;<br> + Qual será que console a triste amiga,<br> + A quem a fôrça obriga do pae duro,<br> + A quem o Amor puro obriga tanto,<br> + Que n'hum contino pranto se consume?<br> + Assi do grande cume da esperança<br> + Com subita mudança derribado,<br> + Me poz em tal estado a triste nova,<br> + Como sabe por prova quem bem ama.<br> + Levou a leve fama a minha dor<br> + A Sincero pastor, meu grande amigo,<br> + Que com rogos comsigo me levou,<br> + Do monte, onde me achou, ja noite escura,<br> + Chorando a desventura em que me via.<br> + As vaccas, vindo o dia, derramadas,<br> + De mi desamparadas, vem bramando,<span class="pn" ><a name="pag_264">{264}</a></span> + <br> + Sinal n'aldeia dando em seu bramido<br> + De qu'era ja perdido o pastor seu.<br> + Tamanha pena deo á bella Ulina<br> + (Bella, porém mofina) a pena minha,<br> + Sôbre quantas ja tinha no seu peito,<br> + Que mais do triste leito não s'ergueo.<br> + Seu pae adoeceo tambem de nojo:<br> + Da morte foi despojo ao dia quinto.<br> + A dor que daqui sinto he sem medida.<br> + Pois m'apartou da vida, a vida acabe,<br> + Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa.<br> + Fulgencia, que foi causa destes males,<br> + Des que montes e valles descobrio,<br> + Despois que me não vio em toda a serra,<br> + Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais,<br> + Que della nunca mais novas souberão.<br> + Emfim, tal fim tiverão meus amores.<br> + Chorárão os pastores juntamente<br> + D'Ulina descontente a triste sorte,<br> + Do pae a breve morte, e de Fulgencia<br> + A vingadoura ausencia de seu êrro;<br> + De mi este destêrro em que me pôs.<br> + Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes,<br> + Quando de vossa luz, sem a do dia,<br> + Por terras tão estranhas vos partistes.<br> + Cuido que meia noite então seria;<br> + Cantando os gallos ja na triste aldeia,<br> + Chorava só quem della se partia.<br> + Casa de meus suspiros sempre cheia,<br> + (Disse eu, quando passei pela de Ulina)<br> + Tal fructo colhe quem amor semeia!<span class="pn" + ><a name="pag_265">{265}</a></span> <br> + Fortuna, a mi cruel, sempre benina<br> + Em tudo seja áquella, que em ti mora,<br> + Indaqu'em outros braços se reclina.<br> + Fica-te aqui, minha alma, fica embora,<br> + Que, pois assi o quiz fado inimigo,<br> + Jamais te não verei dia nem hora.<br> + Dalli nos ricos campos dei comigo,<br> + Que das ágoas do Tejo são regados;<br> + Onde te vi mais ledo, como digo.<br> + Por ver se posso agora a meus cuidados<br> + Achar algum repouso, algum socêgo,<br> + Atravessando vou montes e prados.<br> + Passei as claras ágoas do Mondego,<br> + Das Lusitanas Musas charo ninho;<br> + As do Douro despois em turvo pégo.<br> + Daqui continuando meu caminho,<br> + Espero ver a casa aos ceos acceita,<br> + Na terra que da nossa aparta o Minho.<br> + Onde vou visitar na urna estreita<br> + Os santos ossos do Varão divino,<br> + Que pretendeo do Mestre o mão direita.<br> + Assi, d'hum lugar n'outro de contino,<br> + O bem que ja cantei, chorando venho;<br> + Tornei-me de vaqueiro, peregrino:<br> + Tal hábito me vês, tal vida tenho.<br> + L<small>IMIANO.</small><br> + Anzino, he breve o dia<br> + Para poder contar<br> + O que sinto de tua desventura.<br> + E sei bem qu'erraria,<br> + Se quizesse louvar<span class="pn" ><a name="pag_266">{266}</a></span><br> + O grave estylo teu, tua brandura.<br> + Aquella formosura,<br> + Por quem alegre fôras;<br> + Que tu ledo cantaste,<br> + E que despois choraste<br> + Tão triste, qu'ind'agora triste choras;<br> + Vivendo eterna nella,<br> + Será mágoa commum, e louvor della.<br> + As mágoas deixo enfim;<br> + Tambem louvores deixo,<br> + Por grandes ellas, elles por pequenos.<br> + Tu, por amor de mim,<br> + (Dir-te-hei de que me queixo)<br> + Repousa hoje comigo, quando menos:<br> + Assi vejas serenos<br> + Esses teus tristes lumes.<br> + Abranda a dura mágoa,<br> + Que tira fontes de ágoa<br> + Do fogo em que chorando te consumes;<br> + Dar-te-hei conta mais larga<br> + Da vida que aqui passo tão amarga.<br> + E mais saber desejo<br> + Se a fama nos engana,<br> + Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos,<br> + Com todos os do Tejo,<br> + E com fato e cabana,<br> + Reside ja nos campos Africanos;<br> + Onde mil soberanos<br> + Triumphos, delle dinos,<br> + Lh'ordena a fatal sorte,<br> + Com grande estrago e morte<span class="pn" ><a name="pag_267">{267}</a></span><br> + Dos brutos mal nascidos Sarracinos,<br> + Que de si despejados<br> + Os curraes deixão ja cheios de gados.<br> + Que sendo assi, te digo<br> + Que não espero mais<br> + Nesta para mi sempre ingrata terra.<br> + Quem traz guerra comsigo<br> + Entre seus naturais,<br> + Não deve d'estranhar estranha guerra.<br> + Sem mi de serra a serra<br> + (O ceo assi o queira)<br> + Logrem meus inimigos<br> + Os valles e pacigos<br> + Desta, donde nasci, fresca ribeira;<br> + Na qual (se não m'engano)<br> + Inda será chorado Limiano.<br> + A<small>NZINO.</small><br> + Limiano, ja bem tenho entendido<br> + Quanto sentes meu mal; mas eu te digo<br> + Que o teu mal he de mi menos sentido.<br> + Ácerca de ficar hoje comtigo,<br> + Farei pois (ja qu'assi nos detivemos)<br> + Tudo o que tu quizeres, como amigo.<br> + E, pois o dia ja passado temos,<br> + Vamos-nos mais chegando para o gado;<br> + E lá nas outras cousas fallaremos.<br> + Todavia de funda e de cajado<br> + Te vai apercebendo a som de guerra;<br> + Que não foi tal pastor cá do ceo dado,<br> + Para não dar ao ceo tão larga terra.<span class="pn" + ><a name="pag_268">{268}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112120000">ECLOGA XII.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION0112121000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">D<small>ELIO</small>, A<small>LCIDO</small>, +G<small>ALASIO</small>.</p> + +<blockquote> + D<small>ELIO.</small><br> + Agora, Alcido, em quanto o nosso gado<br> + Pasce diante nós manso e seguro,<br> + Sentemos-nos aqui neste abrigado.<br> + Logremos este sol sereno e puro,<br> + Que livre se nos dá, antes que venha<br> + A noite fria com seu manto escuro.<br> + O rico com seu ouro lá se avenha;<br> + Não se farta a cobiça co'a riqueza:<br> + Mais arde o fogo quando t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mais lenha.<br> + Com pouco se contenta a natureza.<br> + Quem isto bem olhasse, certifico<br> + Que não fugisse tanto da pobreza.<br> + O sol tambem m'aquenta, como ao rico;<br> + A fonte ágoa me dá, fructos a terra:<br> + Com pouco mantimento farto fico.<br> + Ah! que a má vaidade nos faz guerra!<br> + (Para que gasto tempo em mais palabras?)<br> + Os olhos da razão esta nos cerra.<br> + Alcido, tens ovelhas, e tens cabras,<br> + De que tiras da lãa, tiras do leite;<br> + E não te faltão campos em que labras.<br> + Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te<br> + De fallar claro e sem lisongerias:<br> + Não hajas medo tu, qu'eu as affeite)<span class="pn" + ><a name="pag_269">{269}</a></span><br> + Tu cantavas amor, amor tangias;<br> + Faltava a tua frauta; agora he muda:<br> + Que mal te mudou tanto em poucos dias?<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Muda-se a idade, Delio; e se se muda<br> + Com ella a condição, nada m'espanto;<br> + O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda.<br> + Se ja cantei amor, se amor não canto,<br> + Culpas do tempo são, que vai mudando<br> + O meu cantar alegre em triste pranto.<br> + O tempo, que tão leve vai voando,<br> + Delio, não torna mais; e assi fugindo,<br> + Mil claros desenganos nos vai dando.<br> + Pouco a pouco se veio descobrindo<br> + O mal d'huma esperança vãa e incerta,<br> + Que me deixou chorando, e foi-se rindo.<br> + Quem nasce sem ventura, ou quem acerta<br> + De fazer fundamento em peito alheio,<br> + De mil contas que faz nenhuma he certa.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Pois se isso entendes tu, donde te veio<br> + Sentir tão de verdade as sem-razões,<br> + Não sendo d'outra cousa o mundo cheio?<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Não queres tu que sintão corações<br> + Obrigados com dor a sentimento,<br> + Vendo a razão vencida d'affeições?<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Emfim, todas as cousas querem tento:<br> + Encobre a dor, e guarda-te d'extremos;<br> + Que sempre trazem arrependimento.<span class="pn" ><a name="pag_270">{270}</a></span> + <br> + Ao nosso doce canto nos tornemos:<br> + Das nossas Nymphas, bellas inimigas,<br> + Crueza e formosura celebremos.<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Como cantarei eu novas cantigas<br> + Em terra tão esteril, cheia d'ira,<br> + Que nega flores, e que nega espigas?<br> + Pendurei n'hum salgeiro a minha lira:<br> + Ouvi-la ao som do vento he h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mágoa:<br> + Em lugar de tanger, geme e suspira.<br> + A Amarilia pintei, pintada trago-a<br> + Aqui neste meu seio, e tambem chora:<br> + Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa.<br> + Mas vejo vir Galasio.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Venha embora.<br> + Galasio, queres tu cantar comigo?<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Eu nunca me roguei: menos agora.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Cantaremos d'Amor cruel imigo,<br> + Ou brando e amoroso, em razão pôsto,<br> + Tyranno e cego, e cego até comsigo?<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Cada qual cante do que for seu gôsto;<br> + Quer mimos, quer rigores d'Amor fero;<br> + Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto.<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Em quanto vós cantais, recolher quero<br> + O gado; que são horas de ordenhar:<br> + Á noite na malhada vos espero.<span class="pn" ><a name="pag_271">{271}</a></span> + <br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Isso não: has d'ouvir para julgar<br> + Qual de nós melhor canta e melhor sente.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Eu ja não cantarei, sem apostar.<br> + Aposto o meu rafeiro, que Valente<br> + Se chama, e com razão; que o lobo affasta,<br> + Se não cantar mais branda e docemente.<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Hum cervo manso aposto.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Isso não basta:<br> + Põe mais hum par da cabras.<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Deos me guarde;<br> + Porque, Delio, este gado he da madrasta.<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde?<br> + Ora cantae sem preço e sem inveja;<br> + E seja logo, porque ja he tarde.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Learda minha, branca mais que a neve,<br> + E muito mais corada que a grãa fina;<br> + S'inda Amor a vencer-te não se atreve,<br> + Que fara quem d'Amor por ti se fina?<br> + Eu morro; e tu meu mal julgas por leve?<br> + Não vês tu como ja me desatina?<br> + Ai triste! que me vem valles e montes,<br> + Regados de meus olhos feitos fontes.<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Marfida, branca mais que o branco leite;<span class="pn" + ><a name="pag_272">{272}</a></span><br> + Vermelha muito mais que a rosa pura;<br> + Assi descuido em ti nunca suspeite,<br> + Assi me trates inda com brandura;<br> + Que a cabana, que a vida e a alma engeite<br> + Por ti, quando tu mais que marmor dura.<br> + Testimunhas serão montes e valles,<br> + A quem dou larga conta de meus males.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Quando a minha Learda desencolhe<br> + Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado,<br> + O sol, de pura inveja, se recolhe,<br> + Corrido de se ver menos dourado.<br> + Livre pastor não ha, que bem os olhe,<br> + Sem se achar logo nelles enlaçado.<br> + Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos,<br> + Pois tanto prendem quantos ousão vellos.<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Os tristes corações se tornão ledos,<br> + Ouvindo de Marfida o doce canto;<br> + Os furiosos ventos estão quedos;<br> + Não guia o claro sol seu carro em tanto.<br> + Converte-se a dureza dos penedos<br> + Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto,<br> + Vencido dessa voz, doce Marfida;<br> + Mas tu nunca d'Amor foste vencida.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + O campo de verdura vejo pobre;<br> + O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio;<br> + Da sua leve folha a terra cobre<br> + O bosque, que foi ja verde e sombrio.<span class="pn" + ><a name="pag_273">{273}</a></span><br> + Mas se Learda o rosto seu descobre,<br> + Logo desapparece o tempo frio:<br> + Comsigo a primavera traz Learda.<br> + Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda!<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + A triste Progne ja despareceo;<br> + A toda flor o frio foi imigo;<br> + A doce Philomela emmudeceo,<br> + Rouca de lamentar seu mal antigo.<br> + Mas venha por aqui quem me venceo<br> + Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo,<br> + Que as aves tornem logo a seus amores,<br> + E os campos se matizem de mil flores.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + A viva chamma, aquelle vivo ardor,<br> + Que brando sinto ja pelo costume,<br> + De noite dá de si tal resplandor,<br> + Que os pastores vem delle a tomar lume.<br> + Pasmados ficão, vendo em mi d'amor<br> + O fogo, que me queima e não consume:<br> + E tu, por quem eu ardo noite e dia,<br> + Quando vês tal ardor ficas mais fria!<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Eu sempre chóro, e tanto ja chorei,<br> + Vencido da grã dor que n'alma tinha,<br> + Que mil vezes de lagrimas fartei<br> + Meu gado, quando a fonte a buscar vinha.<br> + Chorando as duras pedras abrandei;<br> + Mas nunca a ti, cruel imiga minha,<br> + Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa,<br> + Nenh<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a mágoa tens de minha mágoa.<span class="pn" + ><a name="pag_274">{274}</a></span><br> + D<small>ELIO.</small><br> + Quando vires, Learda, o nosso Lima,<br> + Que lá vai de meu chôro acompanhado,<br> + Tornar com suas ágoas para cima,<br> + De seu curso esquecido, costumado;<br> + Então embora julga, então estima<br> + Que tenho n'outra parte o meu cuidado.<br> + Mas deixarão os rios de correr,<br> + Primeiro que deixe eu de te querer.<br> + G<small>ALASIO.</small><br> + Estas serras, Marfida, por certeza<br> + De minha firme fé só quero dar-te:<br> + Quando com espantosa ligeireza<br> + Daqui correr as vires a outra parte,<br> + Então cuida que falta em mi firmeza,<br> + Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te.<br> + Mas mudar-se daqui bem podem ellas,<br> + E eu não mudar de mi graças tão bellas.<br> + A<small>LCIDO.</small><br> + Se esta vontade minha não deseja<br> + A vossos versos dar justos louvores,<br> + Hora nunca na vida alegre veja.<br> + Acceitae meu desejo, meus pastores:<br> + Mais vos não póde dar quem traz o esprito<br> + De todo entregue a damnos, mágoas, dores.<br> + Mas porque dê de vós público grito<br> + A leve fama, como vêdes, deixo<br> + O vosso canto e o meu juizo escrito<br> + No liso tronco deste verde freixo.<br> + Delio neste lugar doce cantou<br> + Com Galasio, que doce respondia:<span class="pn" ><a name="pag_275">{275}</a></span> + <br> + Hum Learda, Marfida outro louvou,<br> + Com inveja de qual melhor diria.<br> + Alcido, que o seu canto bem notou<br> + Por ver quem a victoria levaria,<br> + Como livre juiz, deo por sentença,<br> + Que não havia entr'elles differença.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112130000">ECLOGA XIII.</a></h2> + +<p style="text-align: center;"><em>Phyllis.</em></p> + +<blockquote> + Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto<br> + Aquelle passarinho canta ou chora,<br> + Chamarei Corydon com triste pranto.<br> + Se entre vós, bellas plantas, amor mora<br> + (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa<br> + De mi, pois que m'ouvis queixar agora.<br> + Ai cruel Corydon! cruel a frágoa<br> + Em que vivo por ti! Não tens piedade<br> + Dever meu peito fogo, os olhos ágoa?<br> + Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade!<br> + Ai triste! E que farei? Em poucos dias<br> + Mudaste tu de mi tua vontade.<br> + A Phyllis ja deixaste, a quem trazias<br> + No formoso verão formosas fruitas,<br> + Sinal do grande bem que me querias?<br> + Sabes, cruel, que tenho causas muitas<br> + Para te convencer, de que queixar-me;<br> + Por isso vás fugindo e não me escuitas.<span class="pn" + ><a name="pag_276">{276}</a></span><br> + Puderão os teus rogos abrandar-me:<br> + Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.<br> + Ja não acho em que possa confiar-me.<br> + Aquelles doces versos ja t'esquecem,<br> + Que tu nos lisos álamos cortavas,<br> + Onde com teus enganos inda crescem?<br> + Arder por meu amor nelles mostravas:<br> + Eu, crendo que era assi, não entendia<br> + Quanto fingiste amar, quão pouco amavas.<br> + Tristes meus fados forão, triste o dia<br> + Em que nasci: coitada de mi triste,<br> + Qu'em mágoa se tornou minha alegria!<br> + Logo que a tua Galatêa viste,<br> + Vi eu deste meu mal grandes agouros;<br> + E tu da parte esquerda hum corvo ouviste.<br> + E não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e Galatêa mais thesouros,<br> + Nem t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mais formosura, inda que seja<br> + Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros.<br> + Á negra violeta t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e inveja<br> + O branco lirio, porque tal não tem<br> + O cheiro, que vencido não se veja.<br> + Tityro arde por mi; Tityro, a quem<br> + Mil Nymphas dão capellas de mil flores;<br> + Mas elle a mi só chama, a mi quer bem.<br> + Eu desprézo por ti muitos pastores,<br> + E tu por Galatêa me desprezas!<br> + Tal pago dás, cruel, a meus amores?<br> + Em que te mereci tantas cruezas,<br> + Quantas usas comigo? Por ventura<br> + Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?<br> + Prouvera a Deos que tão isenta e dura<span class="pn" + ><a name="pag_277">{277}</a></span><br> + Me víras para ti, que nunca víras<br> + Em mi sinal d'amor, ou de brandura!<br> + S'eu fugíra de ti, tu me seguiras;<br> + Por mi ardêras, não por huma ingrata,<br> + Por quem choras em vão, em vão suspiras.<br> + Bem me vinga de ti, pois te maltrata:<br> + Mas eu te quero tanto, que desamo<br> + (Por mais que tu me mates) quem te mata.<br> + Respondem-me estes montes, quando chamo<br> + Por ti com triste voz; Ecco responde<br> + Das lagrimas, movida, que derramo.<br> + E tu não me respondes, nem sei onde<br> + Te leva esse desejo; mas bem sei<br> + Que amor e desamor de mi t'esconde.<br> + Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei<br> + Remedio a tanto mal? O fogo puro<br> + Em que m'abrazo, com que abrandarei?<br> + Ja fugíra daqui por mais que duro<br> + Fosse o deixar o ninho em que nasci:<br> + Mas não ha contra Amor lugar seguro.<br> + A morte só (mil vezes isto ouvi<br> + Á nossa Celia) por remedio espere<br> + Aquelle que a Amor fez senhor de si.<br> + Então, porque de todo desespere,<br> + Este cego, a quem cegos nós seguimos,<br> + A mi por ti, e a ti por outra fere.<br> + S'eu morrêra no ponto em que nos vimos,<br> + Não víra tanto mal. Mas que da sua<br> + Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos.<br> + Eu me queixo de ti, e tu da tua<br> + Galatêa te queixas; e não vês<span class="pn" ><a name="pag_278">{278}</a></span><br> + Que mais piedosa te he, quando mais crua.<br> + Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)<br> + Queres achar piedade? Como queres<br> + Que te creião teu mal, se o meu não crês?<br> + Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,<br> + Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,<br> + Ou ledos ambos, si: mais não esperes.<br> + Selvas, que n'outro tempo nos cobristes<br> + Com frescas sombras lá do ardor de cima,<br> + Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:<br> + Primeiro ha de tornar o brando Lima<br> + As ágoas de crystal á fonte clara,<br> + Que no meu peito novo amor s'imprima.<br> + Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,<br> + Me ha de deixar a mi a propria vida.<br> + Mas quem, por não deixar-te, a não deixára!<br> + Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida<br> + A tenho a teu querer; tu della ordena<br> + Como, doce amor meu, fores servida.<br> + Por ti me será branda a dura pena;<br> + Por ti suave a dor, leve o tormento,<br> + A que m'inclina o fado, ou me condena.<br> + Ah falso Corydon! teu pensamento<br> + Era enganar-me: dada a fé me tinhas;<br> + E a fé co'as palavras leva o vento.<br> + Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas<br> + O vento vai levando. O sol he pôsto.<br> + Porque, ligeira luz, te não detinhas,<br> + Em quanto em meu queixume achava gôsto?<span class="pn" + ><a name="pag_279">{279}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112140000">ECLOGA XIV.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION0112141000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">E<small>RGASTO</small>, D<small>ELIO</small>, +L<small>AURENO</small>.</p> + +<blockquote> + E<small>RGASTO</small>.<br> + Agora, ja que o Tejo nos redeia,<br> + Neste penedo, donde mansamente<br> + Murmurando se quebra a branda veia,<br> + Espera, Delio, até que do Occidente<br> + D'azul deixe a ribeira matizada<br> + O sol, levando o dia a outra gente.<br> + Entretanto daqui verás pintada<br> + A praia de conchinhas d'ouro e prata,<br> + E a ágoa dos mansos sopros encrespada.<br> + Verás como do monte se desata<br> + A vagarosa fonte por penedos,<br> + Que pouco a pouco cava e desbarata;<br> + E como move os frescos arvoredos<br> + Favonio, que de flores pinta o prado;<br> + E como s'estão rindo os campos ledos.<br> + Ditoso o que do Ceo foi tão amado,<br> + Que no campo alcançou passar a vida,<br> + Livre de pena, livre de cuidado.<br> + O rouxinol na vara, que vestida<br> + De verdes folhas, sombra faz ao rio,<br> + Lhe canta o doce verso sem medida.<br> + Agora ao pé d'hum alamo sombrio<br> + Vê como dous carneiros s'offerecem,<span class="pn" + ><a name="pag_280">{280}</a></span><br> + Os cornos inclinando, a desafio.<br> + Como ao que vence todos obedecem<br> + E folgão de o ver fóra de perigo;<br> + E outros com face esquiva o aborrecem.<br> + Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo<br> + Lavra os campos do pae, e se contenta,<br> + Nos seus mólhos atando o louro trigo!<br> + Este a furia do mar não exprimenta,<br> + Nem corre, por achar a pedra rica,<br> + A estranha praia, que outro sol aquenta.<br> + Onde, quando a esperança o fortifica<br> + Em adquirir mais ouro e mais riqueza,<br> + Ouro, esperança, e vida a muitos fica.<br> + Este vive quieto na pobreza;<br> + E deste confiarei que a anteponha<br> + A quanto o mundo mais procura e préza.<br> + Comendo em mesa vil, não s'envergonha:<br> + Antes bebe nas mãos a fonte pura,<br> + Qu'em precioso metal cruel peçonha.<br> + Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura,<br> + Inda conversa aqui com os humanos<br> + A Justiça, fugindo á gente impura!<br> + Quem visse bem tão claros desenganos,<br> + E quanto mal nos vicios se apparelha,<br> + No campo gastaria bem os anos.<br> + Ao dia a nossa vida se assemelha,<br> + Porque quando no mar o sol se banha<br> + Se costuma tingir de côr vermelha.<br> + Assi, se olharmos bem, sempre se ganha<br> + Lá no occaso da mal gastada vida<br> + Rubicunda vergonha em mágoa estranha.<span class="pn" + ><a name="pag_281">{281}</a></span><br> + D<small>ELIO.</small><br> + A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,<br> + Nunca sabe de nós ser tida em preço:<br> + Só despois que se perde he conhecida.<br> + E desta vida os bens, qu'eu não mereço,<br> + Quando os perco e o mal da outra ja m'espera,<br> + Com grandes mágoas d'alma os reconheço.<br> + Oh se em ditosa sorte me coubera<br> + Por favor ou destino das estrellas,<br> + Qu'entre pastores, eu pastor vivêra!<br> + Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas<br> + Cantar da linda Nise, nas quaes arde<br> + Teu peito, sempre ufano d'arder nellas.<br> + Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde;<br> + Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte,<br> + E despois vos recolha, sôbre a tarde.<br> + Nãovos verei saltar junto da fonte,<br> + Cabras minhas, ja meu querido gado,<br> + Nem da rocha pender no verde monte.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Consente agora, ó Delio, que chorado<br> + Em triste verso seja apartamento,<br> + Que assi me deixa triste e magoado.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Não: que se dobrará meu sentimento.<br> + Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça<br> + Partida, que lembrada he só tormento,<br> + Canta aquelle Soneto, que começa:<br> + <em>Quantas vezes do fuso s'esquecia</em>.<br> + Que digas hum dos teus, não sei se o peça.<span class="pn" + ><a name="pag_282">{282}</a></span><br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Se com m'ouvir, a dor se te allivia,<br> + Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno,<br> + Que a cantar vezes mil me desafia.<br> + Cantando venceo ja Tityro e Almeno:<br> + E eu, inda que sei certo ser vencido,<br> + Apostar a cantar com elle ordeno.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Ergasto, pois o tempo se ha offrecido,<br> + Celebremos amor e formosura,<br> + Emquanto o gado á sombra está acolhido.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Postoque ja a victoria tens segura,<br> + Não cantarei sem preço, porque saia<br> + Mais ledo quem cantar com mais brandura.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Eu hum vaso porei de lisa faia,<br> + Divina obra de Alceo, que celebrado<br> + Será sempre por claro nesta praia.<br> + A vide, de que em roda está cercado,<br> + Os roxos cachos cobre; e primor teve<br> + Em pôr no meio a Dama e Pan cansado.<br> + Parece que a beija-la o deos se atreve,<br> + E que ainda dos beijos mal soffridos<br> + Inclinado lhe foge o tronco leve.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Outro vaso porei d'hera cingido,<br> + No qual Orpheo das aves esquecidas<br> + E dos suspensos bosques he seguido.<br> + Não cuido que de faia são sahidas<br> + De tal arte, lavor de tal maneira:<span class="pn" + ><a name="pag_283">{283}</a></span> <br> + Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.<br> + Esta, das que me deo, foi a primeira;<br> + Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda,<br> + Ouvindo-me cantar nesta ribeira.<br> + Ouvio-m'então, estando desta banda;<br> + E dando-ma, dizia-me: Este seja<br> + O premio, Ergasto, dessa Musa branda.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Delio o nosso cantar pondere, e veja<br> + Qual dos dous a voz dá mais docemente;<br> + Que huma tal causa tal juiz deseja.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Se o meu juizo cada qual consente,<br> + Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço;<br> + Tu responde, Laureno, juntamente:<br> + E eu fico que nenhum perca o seu preço.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Alcida, que na côr o leite puro,<br> + E a rosa da manhãa deixas vencida,<br> + Culpa he dos olhos teus, nelles o juro,<br> + Est'amor de qu'estás tão offendida.<br> + Castiga-os com me verem; qu'eu seguro<br> + Que a vingança será delles sentida:<br> + Nem temas tu d'os meus alegres serem,<br> + Vendo tristes taes olhos por me verem.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Violante minha, cuja côr iguala,<br> + Mas antes vence os cravos, vence a neve;<br> + Desta dor, que atéqui minha alma cala,<br> + Teu amoroso riso a culpa teve.<br> + Se só por viver della e por amá-la,<span class="pn" + ><a name="pag_284">{284}</a></span><br> + Julgas que algum castigo se me deve,<br> + A ver-te sempre rindo me condena,<br> + Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Com a mãe, que maçãas colhendo andava,<br> + Inda pequena, a bella Alcida vinha:<br> + Eu os ramos da terra ja tocava,<br> + Ja facil para amar o tempo tinha.<br> + Não sei que fogo ou neve se passava<br> + Daquelles olhos seus a est'alma minha,<br> + Que me deixárão pôsto em tal extremo,<br> + Que até de cuidar nelles ardo e tremo.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + No bosque a Violante vi hum dia,<br> + Doce princípio destas doces dores;<br> + A flor cahia nella, e parecia<br> + Dizer cahindo: Aqui reinão amores.<br> + Humilde em tanta gloria ella se ria,<br> + E errando hião sôbre ella as várias flores:<br> + Eu, que vencido fui d'hum error cego,<br> + Áquelle honesto riso est'alma entrego.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Pastores deste bosque, que buscais,<br> + Anoitecendo, o lume por costume;<br> + Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais,<br> + Que destes meus suspiros leveis lume.<br> + Accesos sahem d'alma os doces ais<br> + No ardor, que pouco a pouco me consume;<br> + Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,<br> + Accendérão jamais hum frio peito.<span class="pn" ><a name="pag_285">{285}</a></span> + <br> + L<small>AURENO.</small><br> + Pastores, que buscais na sombra amada<br> + A fonte, por fugir o ardor do estio,<br> + Vinde a mi, porque d'ágoa destillada<br> + Por meus olhos, se sólta hum largo rio;<br> + Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada,<br> + Fartá-la ja de lagrimas confio.<br> + Mas com chôro de tanta quantidade<br> + Não movo aquelles olhos a piedade.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Se quando a minha Alcida est'alma visse<br> + Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada;<br> + Se quando a grave dor fóra sahisse<br> + Entre suspiros mil rôta e quebrada,<br> + Sequer com brandos olhos m'admittisse,<br> + Ficando de vergonha mais córada;<br> + Ditoso fôra, vendo-a, juntamente<br> + Com ser mais bella, deste amor contente.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Se á vista de Violante derramadas<br> + As lagrimas d'amor, que vive nellas,<br> + Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas<br> + Lhe ficassem de dor ambas estrellas,<br> + E as rosas entre a neve semeadas,<br> + Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas;<br> + Ditoso me fizera. Hora ditosa,<br> + Se a víra ser mais bella e ser piedosa!<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Claros olhos, que ao sol fazeis inveja,<br> + Que brandos vos mostreis ja vos não peço;<br> + Mas que poder-vos ver paga me seja,<span class="pn" + ><a name="pag_286">{286}</a></span><br> + Se por tamanho amor tanto mereço:<br> + Armados d'esquivança então vos veja<br> + Cheios d'hum não sei que, com que pereço;<br> + Que doce me será tal esquivança.<br> + Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança!<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Olhos, que vos moveis tão docemente,<br> + Que traz vós todo o mundo ides levando,<br> + Eu não sei se tomais do ceo luzente<br> + O movimento seu, se lho estais dando:<br> + Sei certo (e não m'engano,) sei somente<br> + Que a vós de mi minh'alma ides passando:<br> + Mas não posso entender como deixais<br> + Ao descuido o que vós em vós levais.<br> + E<small>RGASTO.</small><br> + Por mais que a minha soberana Alcida<br> + (Minha não, porque só sua belleza<br> + Vem a ser minha em ser de mi querida)<br> + Me trate vezes mil com aspereza;<br> + Huma só vez que della acho admittida<br> + Minha pequena vista na grandeza<br> + Da luz do rosto seu, sinto tal gloria,<br> + Que de todo o penar perco a memoria.<br> + L<small>AURENO.</small><br> + Quando a minha mais que unica Violante<br> + (Se minha póde ser a que he tão sua)<br> + Aquella santa luz hum breve instante<br> + Me deixa ver, por mais que a veja crua;<br> + A vista tanto em mi vejo a diante,<br> + Que não he muito, não, que m'attribua<span class="pn" + ><a name="pag_287">{287}</a></span><br> + A soberba de ser hum'aguia nova,<br> + Que do ceo no ôlho claro a vista prova.<br> + D<small>ELIO.</small><br> + Pastores, que alcançar pudestes tanto<br> + Com vossa branda Musa, que ja nesta<br> + Idade renovais o antigo canto;<br> + Para vosso louvor, que verso presta?<br> + Qu'hera digna será? que louro dino<br> + Qu'em premio a cada qual adorne a testa?<br> + Em parte paga Amor, se de contino<br> + Por dentro a cada hum gasta os espritos,<br> + Pois co'o divino canto o faz divino.<br> + Nós veremos por annos infinitos<br> + Nos altos troncos destas faias bellas<br> + Os nomes vossos por memoria escritos.<br> + De unicas flores mereceis capellas:<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e Alcida e Violante sós taes flores;<br> + E, pois ellas as t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e, dem-vo-las ellas.<br> + Os vossos premios recolhei, pastores:<br> + Cada qual igualmente o seu merece;<br> + E ambos d'Apollo os mereceis maiores.<br> + Recolhamos o gado; que anoitece.<span class="pn" +><a name="pag_288">{288}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0112150000">ECLOGA XV.</a></h2> + +<h3><a name="SECTION0112151000">INTERLOCUTORES.</a></h3> + +<p style="text-align: center;">S<small>OLISO</small> e +S<small>YLVANO</small>.</p> + +<blockquote> + S<small>OLISO.</small><br> + De quanto alento e gôsto me causava<br> + A vista da manhãa resplandecente,<br> + Com que toda a tristeza s'alegrava;<br> + Que quando vinha o sol claro e luzente,<br> + Bem claro então em mi se conhecia<br> + Huma nova alegria differente;<br> + Tanto agora me offende o novo dia,<br> + Vendo que me não mostra a formosura,<br> + De que só me mantinha e só vivia.<br> + E não me quiz deixar triste ventura<br> + Esperanças de mais tornar a vella!<br> + Oh destino cruel! oh sorte dura!<br> + Oh querida Natercia! oh Nympha bella,<br> + Em quem, emfim, mostrou a natureza<br> + O mais que se podia esperar della!<br> + Se lá no assento da maior alteza<br> + Te lembras de quem viste cá na terra,<br> + Para te magoar sua tristeza;<br> + Lembre-te de contino a cruel guerra,<br> + Que contínua me faz tua lembrança,<br> + Esquecido do gado, valle e serra.<br> + Lembre-te que perdi a confiança<br> + De ver os olhos teus, e juntamente<span class="pn" + ><a name="pag_289">{289}</a></span><br> + De todo o bem d'Amor toda a esperança.<br> + Lembre-te que por ti de mi ausente<br> + A crystallina fonte me he nojosa,<br> + Com que ja n'outro tempo fui contente.<br> + Que por ti a manhãa clara e formosa<br> + Males cada momento me accrescenta;<br> + Sendo-me em outros dias deleitosa.<br> + Por ti o puro sol me descontenta;<br> + Com seu canto m'offende a Philomella:<br> + Mas, porque nelle chora, me contenta.<br> + Por ti, Natercia pura, Nympha bella,<br> + Na verdura suave deste prado<br> + Os males multiplico só com vella.<br> + Por ti não curo ja do manso gado:<br> + Com o mesmo qu'então meu bem crescia,<br> + Agora vai crescendo o meu cuidado.<br> + Não sou ja, ja não sou quem ser sohia;<br> + Mudou-se-me a vontade co'a ventura;<br> + Mudou-se co'os tormentos a alegria;<br> + Trocou-se o claro dia em noite escura:<br> + Nem he muito que tudo se mudasse,<br> + Pois se mudou a tua formosura.<br> + Não via outro reparo, que cuidasse<br> + Poder aproveitar ao meu tormento,<br> + Nem outra gloria alguma em qu'esperasse,<br> + Senão em quanto o triste pensamento<br> + Se punha a contemplar tua beldade,<br> + Sem lhe lembrar tão longo apartamento.<br> + Agora que me falta a claridade,<br> + Que de ver-te a minha alma recebia,<br> + Ficando-me só della a saudade;<span class="pn" ><a name="pag_290">{290}</a></span> + <br> + Qual ficará hum'alma, que sabía<br> + Somente desta gloria contentar-se?<br> + Gloria de que gozar não merecia!<br> + Qual poderá ficar quem com lembrar-se<br> + Mortalmente do bem qu'he ja passado,<br> + Só t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e por melhor vida á morte dar-se?<br> + E qual se póde ver quem hum cuidado<br> + Sostem, que he só da dor certa morada,<br> + E nelle vive só desesperado?<br> + Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada,<br> + Hum'alma que te via; e em te vendo<br> + O fio lhe cortou a Parca irada?<br> + A causa deste mal eu não a entendo:<br> + Só entendo que, perdida essa luz pura,<br> + Por perdida a não ver, vivo morrendo.<br> + Vejo que me roubou fortuna escura<br> + Hum bem por quem meu mal me contentava:<br> + Lembra-te tu de tanta desventura.<br> + Lembra-te tu, que só de ti'sperava<br> + Remedio aos males meus; e então verás<br> + Qual ficou quem em ti só confiava.<br> + Lembre-te adonde estou, adonde estás,<br> + E que tudo sem ti cá m'aborrece:<br> + Dest'arte o estado meu entenderás.<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + Não sei por que razão nos amanhece<br> + Este dia dos outros differente,<br> + Com que toda a alegria s'entristece.<br> + O manso gado vejo, que contente<br> + Buscando hia nos campos a verdura,<br> + E dos rios a limpida corrente:<span class="pn" ><a name="pag_291">{291}</a></span> + <br> + Agora triste errar pola espessura,<br> + Alheio d'herva verde e d'ágoa fria;<br> + Sinal d'alguma grande desventura.<br> + Suspensa está das aves a harmonia;<br> + E em certo modo mostra que lá chora<br> + A mesma sequidão da penedia.<br> + A candida, rosada, bella aurora,<br> + Que sempre os altos montes vem dourando,<br> + Com hum pallor mortal se mostra agora.<br> + Está-se nestas hervas enxergando<br> + Tão triste côr, que della se conhece<br> + Que algum mal se nos vai apparelhando.<br> + Emfim, vejo que tudo s'entristece;<br> + A causa ignoro. O ceo piedoso queira<br> + Que menos seja o mal, do que parece.<br> + Porque, desde que habíto esta ribeira,<br> + Não m'acórdo de a ver tão carregada,<br> + Nem de a ouvir murmurar desta maneira.<br> + Não m'acórdo que visse outra alvorada<br> + Tão confusa sahir, como esta vejo,<br> + De profunda tristeza acompanhada.<br> + Agora aqui tomára quem sem pejo<br> + A causa, se a soubesse, m'ensinasse,<br> + Para satisfazer a meu desejo.<br> + Porque não posso eu crer que resultasse<br> + D'alguma baixa causa hum tal effeito,<br> + Que até nos duros montes se enxergasse.<br> + O coração cá dentro no meu peito<br> + M'assegura, que tanta novidade<br> + Não traz a origem de commum respeito.<br> + Mas, por entre a confusa claridade,<span class="pn" + ><a name="pag_292">{292}</a></span><br> + Lá vejo vir Soliso com seu gado:<br> + Delle espero entender toda a verdade.<br> + Mas não posso cuidar neste cuidado,<br> + Que nos olhos não mostre onde me chega<br> + A dor de o ver de dores traspassado.<br> + Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega,<br> + Não he muito que passe hum tal tormento;<br> + Porque todo mal dá, todo bem nega.<br> + Em quanto este pastor o pensamento<br> + Logrou, sem qu'em amores o empregasse,<br> + Senão só em buscar contentamento;<br> + Festa não se fazia em que faltasse<br> + A sua frauta, qu'elle assi tangia,<br> + Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse.<br> + Ja agora não he aquelle que sohia;<br> + Vejo-o na condição todo mudado;<br> + Mudada tambem delle está a alegria.<br> + Não cura ja do seu querido gado;<br> + Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores;<br> + Aborrece-lhe a gente e o povoado.<br> + Não lhe lembrão as festas dos pastores;<br> + Apartando se vai pola espessura,<br> + Enlevado somente em seus amores.<br> + Contenta-se da noite triste e escura;<br> + Odio t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e com o sol puro e luzente.<br> + Quem vio nunca tamanha desventura?<br> + Com esta vai passando tão contente,<br> + Que diz que, quando o mal mais o atormenta,<br> + Se gôsto sentirp óde, então o sente.<br> + Neste bosque huma Nympha se aposenta,<br> + Por quem elle na vida anda morrendo;<span class="pn" + ><a name="pag_293">{293}</a></span><br> + E he causa desta dor que lhe contenta.<br> + E segundo o que delle agora entendo,<br> + Se a vista não m'engana o pensamento,<br> + Ou de vãa phantasia estou pendendo;<br> + Quando fôra maior o grão tormento,<br> + Que Soliso padece, não pudera<br> + Igualar-se com seu merecimento.<br> + Quero chegar-me a elle, em quanto espera<br> + Que vá descendo o vagaroso gado:<br> + Saberei delle o que saber quizera.<br> + Venho, Soliso, a ti com hum cuidado,<br> + Que todo m'entristece; e com grão medo<br> + De grão mal sôbre nós inopinado.<br> + Vês tu como está agora este arvoredo<br> + Triste e pezado, lugubre e sombrio?<br> + Como o vento parece que está quedo?<br> + Vês a commum corrente deste rio<br> + Que ora tanto se pára, ora anda tanto,<br> + Deixando de seu curso o certo fio?<br> + Vês como a Philomella deixa o canto,<br> + Com que incita os pastores namorados,<br> + E multiplica Progne o triste pranto?<br> + E vês, emfim, por todos esses prados<br> + Desmaiadas as hervas, que sohião<br> + Viçoso pasto dar aos nossos gados?<br> + Todos estes sinaes, que não se vião<br> + Nas Auroras a esta antecedentes,<br> + Algum damno mortal nos annuncião.<br> + Eu não sinto o que seja: se o tu sentes,<br> + Não te seja o dizer-mo mui penoso;<br> + E entenderei por ti taes accidentes.<span class="pn" + ><a name="pag_294">{294}</a></span><br> + S<small>OLISO.</small><br> + N'outro tempo me fôra deleitoso<br> + Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te;<br> + Mas todo gôsto agora me he nojoso.<br> + Bem quizera poder communicar-te<br> + A causa deste horror; mas antes quero<br> + Anojar-me a mi proprio, que anojar-te.<br> + Porém ja sinto o fado tão severo,<br> + Que quanto mais me ponho a declará-lo,<br> + Mais então d'entendê-lo desespero.<br> + E se acaso o entender para contá-lo,<br> + Se quero começar, quer a ventura<br> + Á fôrça de soluços atalhá-lo.<br> + Que despois que me falta a formosura<br> + Daquella illustre Nympha, que contente<br> + Pudera bem fazer a noite escura,<br> + Foi-me faltando o esprito juntamente:<br> + Em suspirar só gasto a noite e dia,<br> + Sem me fartar de ver-me descontente.<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + Novidade maior em mi sería<br> + O espantar-me de ver-te estar queixando,<br> + Que o ver em ti desejos d'alegria.<br> + Responde-me ao que t'hia perguntando<br> + Da causa desta singular tristeza:<br> + Não gastes todo o tempo lamentando.<br> + S<small>OLISO.</small><br> + Sempre em ti conheci huma dureza,<br> + E austera inclinação, que bem declara<br> + Quão conforme he teu nome á natureza.<br> + Porque se o meu tormento t'alcançára,<span class="pn" + ><a name="pag_295">{295}</a></span><br> + O mor bem para ti o mor mal fôra;<br> + E todo o mal maior te contentára.<br> + Deixa que chore quem com gôsto chora:<br> + Deixa-me lamentar meu triste fado;<br> + Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora.<br> + Tu não trazes agora outro cuidado<br> + Mais que buscar no valle a sombra fria,<br> + Quando te offende o sol mais empinado.<br> + Coitado de quem passa a noite e dia<br> + Porfiando em morrer, e a sorte dura<br> + Em fugir-lhe co'a morte só porfia!<br> + Oh formosa Natercia! a excelsa altura<br> + Do glorioso Olympo andas pizando;<br> + E eu ausente da tua formosura!<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + Qu'he isso, que do ceo estás fallando?<br> + Parece-me que ja não es Soliso,<br> + Ou que de puro amar vás delirando.<br> + S<small>OLISO.</small><br> + Quem ja perdeo aquelle doce riso,<br> + Que siso produzia e dava vida,<br> + Não he muito que perca a vida e siso.<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + Declara-me que cousa tens perdida,<br> + De que tanto te queixas; que ao que sento,<br> + Natercia destes valles he partida.<br> + S<small>OLISO.</small><br> + Quão livre falla aquelle que o tormento<br> + Alheio vê de fóra, mas não sente<br> + Onde chega tamanho sentimento!<br> + A gloria qu'eu perdi não me consente<span class="pn" + ><a name="pag_296">{296}</a></span><br> + Palavras naturaes, razões expertas,<br> + Que possão declarar a dor presente.<br> + Mas nesse teu error vejo que acertas;<br> + Porque com nenhum mal deve turbar-se<br> + Quem só delle esperanças logra certas.<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + A quem, Soliso meu, de declarar-se<br> + Com outro em casos taes falta vontade,<br> + Nunca faltão razões para escusar-se.<br> + Não sei donde te vem tal novidade;<br> + Pois negando-me agora o que te peço,<br> + Suspeito que me negas a amizade.<br> + Se pola que te guardo te aborreço,<br> + Sabe que só hum cego entendimento<br> + Ás amizades faz perder o preço.<br> + Eu te deixarei só com teu tormento;<br> + Mas não sem dor de ver que tanto a peito<br> + Tomes hum tão damnoso pensamento.<br> + S<small>OLISO.</small><br> + Outra he, certo, a razão, outro o respeito<br> + Que negar-te me fez o que pedias:<br> + Não creias que de ti tão mal suspeito.<br> + Bem sei que o meu descanso pretendias;<br> + E a mesma confiança faz negar-te<br> + O que destes sinaes saber querias.<br> + S<small>YLVANO.</small><br> + Não queiras mais, Soliso, prolongar-te;<br> + Pois pende o gôsto meu da tua vida:<br> + Se corre risco, dá-me delle parte.<br> + S<small>OLISO.</small><br> + De todo a sinto ja desfallecida<span class="pn" ><a name="pag_297">{297}</a></span> + <br> + Nas lembranças daquella breve historia,<br> + Que foi para meus males tão comprida.<br> + Ja me vence a tristissima memoria<br> + Da gloria que presente me animava.<br> + Quem pudera voar traz tanta gloria!<br> + Natercia qu'estes montes alegrava,<br> + E que á casta Diana fez inveja,<br> + E que com sua vista o sol cegava;<br> + Aquella a quem render-se só deseja<br> + Aquelle que de bella mãe presume,<br> + E a quem as armas dá com que peleja;<br> + Natercia, que no mundo foi hum lume,<br> + Onde a belleza de maior estado<br> + Incendios aprendia por costume;<br> + Natercia, por quem ando acompanhado<br> + De mágoa tal, que só da morte dura<br> + Espero o feliz fim de meu cuidado;<br> + Ao ceo se foi co'aquella formosura,<br> + Qu'era mostra do ceo, gloria da terra;<br> + Qu'era o sogeito mor da mor ventura.<br> + Ja não fara no prado ás almas guerra<br> + Com a vista, senão com a lembrança;<br> + Guerra em que o damno mais cruel s'encerra.<br> + Ja de vê-la não tenhas esperança;<br> + Qu'esta vida trocou de mal cercada<br> + Por outra, em que do bem não ha mudança.<br> + E a causa vês aqui de que a alvorada<br> + Visses desta manhãa tão differente<br> + De outra qualquer, de ti mais ponderada.<br> + Dizer-te o mais não posso, porque sente<br> + Est'alma no que disse tal tormento,<span class="pn" + ><a name="pag_298">{298}</a></span><br> + Qu'esta memoria apenas me consente.<br> + O espirito ja debil, sem alento,<br> + No pouco que te tenho referido,<br> + Nas azas se sostem do pensamento.<br> + Oh mundo! qual he aquelle tão perdido,<br> + Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano,<br> + Vendo-te todo em damno instituido?<br> + Deixas passar hum gôsto d'anno em ano,<br> + Porque, com nosso opprobrio e tua gloria,<br> + Nos faças mais patente o teu engano.<br> + Sempre assi vai comtigo a mor victoria,<br> + Deixando-nos somente por herança<br> + D'hum possuido bem triste memoria.<br> + Quem faz de ti alguma confiança,<br> + Sabendo ja que quem de ti confia,<br> + D'hum engano penoso emfim se alcança?<br> + Aquelle da belleza novo dia<br> + Cegaste, quando mais resplandecente<br> + Triumphos mil d'Amor nos promettia.<br> + De qual tigre cruel peito inclemente<br> + Não se rompe de mágoa, morta aquella,<br> + Que a tristeza mil vezes fez contente?<br> + Quem, que vê eclipsada a vista bella,<br> + Despois de visto haver sua beldade,<br> + E não sabe morrer por hir traz ella?<br> + Como não te applacou tão tenra idade<br> + Ao cortar do seu fio, ó Parca dura,<br> + Que agora o mundo matas de saudade?<br> + Deixae, deixae, pastores, a verdura;<br> + As frautas deixae ja, e os mansos gados;<br> + E chorae todos vossa desventura.<span class="pn" ><a name="pag_299">{299}</a></span> + <br> + E vós, sylvestres Faunos namorados,<br> + Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão<br> + O objecto mais gentil vossos cuidados.<br> + Nymphas, a quem os deoses concedêrão<br> + Destes sagrados bosques a morada,<br> + E em quem tamanhas graças escondêrão;<br> + Se aquella piedade costumada,<br> + De que mais vos prezais, não esquecestes,<br> + Que sempre foi de vós tão venerada;<br> + Se ja d'alheio damno vos doestes,<br> + Do vosso proprio vos doei agora,<br> + Pois com Natercia todo o bem perdestes.<br> + Oh Naiades! das ágoas sahi fóra;<br> + E de vós ágoa saia em mal tão forte,<br> + Pois de vê-lo tambem o monte chora.<br> + Oh Napêas! chorae a triste sorte<br> + Dos miseros pastores, a quem nega<br> + O fado por mais pena o mortal córte.<br> + Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega,<br> + Tomae todo o cuidado deste pranto,<br> + Pois sabeis onde a causa delle chega.<br> + Deixae, ó Amadryas, entretanto<br> + As plantas que guardais, por ajudar-me,<br> + Pois deixa a Philomella o doce canto.<br> + E vós, ó vida minha, pois curar-me<br> + Ja não podeis, deixae-me juntamente,<br> + Porque lembranças taes possão deixar-me.<br> + Mas se dellas morreis, morro contente.<span class="pn" + ><a name="pag_300">{300}</a></span></blockquote> +</div> + +<div id="cancoes"> +<h1><a name="SECTION012000000">CANÇÕES.</a> </h1> + +<h2><a name="SECTION012100000">CANÇÃO I.</a> </h2> + +<blockquote> + Formosa e gentil Dama, quando vejo<br> + A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito,<br> + A boca graciosa, o riso honesto,<br> + O collo de crystal, o branco peito,<br> + De meu não quero mais que meu desejo,<br> + Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto.<br> + Alli me manifesto<br> + Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo<br> + Nas lagrimas que chóro;<br> + E de mi que vos amo,<br> + Em ver que soube amar-vos me namóro;<br> + E fico por mi só perdido de arte,<br> + Qu'hei ciumes de mi por vossa parte.<br> + Se por ventura vivo descontente<br> + Por fraqueza d'esprito, padecendo<br> + A doce pena qu'entender não sei,<br> + Fujo de mi, e acolho-me correndo<br> + Á vossa vista; e fico tão contente,<br> + Que zombo dos tormentos que passei.<br> + De quem me queixarei,<br> + Se vós me dais a vida deste geito<span class="pn" ><a name="pag_301">{301}</a></span> + <br> + Nos males que padeço,<br> + Senão de meu sogeito,<br> + Que não cabe com bem de tanto preço?<br> + Mas inda isto de mi cuidar não posso,<br> + D'estar muito soberbo com ser vosso.<br> + Se por algum acêrto Amor vos erra<br> + Por parte do desejo, commettendo<br> + Algum nefando e torpe desatino;<br> + E s'inda mais que ver, emfim, pretendo;<br> + Fraquezas são do corpo, qu'he de terra,<br> + Mas não do pensamento, qu'he divino.<br> + Se tão alto imagino<br> + Que de vista me perco, ou pecco nisto,<br> + Desculpa-me o que vejo.<br> + Porém como resisto<br> + Contra hum tão atrevido e vão desejo,<br> + Faço-me forte em vossa vista pura,<br> + Armando-me da vossa formosura.<br> + Das delicadas sobrancelhas pretas<br> + Os arcos com que fere Amor tomou,<br> + E fez a linda corda dos cabellos:<br> + E porque de vós tudo lhe quadrou,<br> + Dos raios desses olhos fez as settas<br> + Com que fere quem alça os seus a vellos.<br> + Olhos que são tão bellos<br> + Dão armas de vantajem ao Amor,<br> + Com que as almas destrue.<br> + Porém se he grande a dor<br> + Com a alteza do mal a restitue;<br> + E as armas com que mata são de sorte,<br> + Que ainda lhe ficais devendo a morte.<span class="pn" + ><a name="pag_302">{302}</a></span><br> + Lagrimas, e suspiros, pensamentos,<br> + Quem delles se queixar, formosa Dama,<br> + Mimoso está do mal que por vós sente.<br> + Qual bem maior deseja quem vos ama,<br> + Qu'estar desabafando seus tormentos,<br> + Chorando, imaginando docemente?<br> + Quem vive descontente<br> + Não ha de dar allívio a seu desgôsto,<br> + Porque se lhe agradeça;<br> + Mas com alegre rôsto<br> + Soffra seus males, para que os mereça:<br> + Que quem do mal se queixa, que padece,<br> + O faz porqu'esta gloria não conhece.<br> + De modo que se cahe o pensamento<br> + Em alguma fraqueza, de contente,<br> + He porqu'este segredo não conheço.<br> + Assi que com razões não tãosomente<br> + Desculpo ao Amor de meu tormento,<br> + Mas inda a culpa sua lh'agradeço.<br> + Por esta fé mereço<br> + A graça qu'esses olhos acompanha,<br> + E o bem do doce riso.<br> + Mas ah! que não se ganha<br> + Co'hum paraiso, outro paraiso.<br> + E d'enleada assi minha esperança<br> + Se satisfaz co'o bem que não alcança.<br> + Se com razões escuso meu remedio,<br> + Sabe, Canção, que só porque o não vejo,<br> + Engano com palavras o desejo.<span class="pn" ><a name="pag_303">{303}</a></span> +</blockquote> + +<h2><a name="SECTION012200000">CANÇÃO II.</a> </h2> + +<blockquote> + A instabilidade da fortuna,<br> + Os enganos suaves d'Amor cego,<br> + (Suaves se durárão longamente)<br> + Direi, por dar á vida algum socêgo;<br> + Que pois a grave pena m'importuna,<br> + Importune meu canto a toda gente.<br> + E se o passado bem co'o mal presente<br> + M'endurecer a voz no peito frio;<br> + O grande desvario<br> + Dara de minha pena sinal certo;<br> + Que hum êrro em tantos erros he concêrto.<br> + E pois nesta verdade me confio,<br> + (Se verdade se achar no mal que digo)<br> + Saiba o mundo d'Amor o desengano,<br> + Que ja com a razão se fez amigo,<br> + Só por não deixar culpa sem castigo.<br> + Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma;<br> + Ja se tornou de cego razoado,<br> + Só por usar comigo semrazões.<br> + E se em alguma cousa o tenho errado,<br> + Com siso grande dor não vi nenhuma:<br> + Nem elle deo sem erros affeições.<br> + Mas, por usar de suas isenções,<br> + Buscou fingidas causas de matar-me:<br> + Que para derribar-me<br> + A este abysmo infernal de meu tormento,<br> + Nunca soberbo foi meu pensamento,<span class="pn" ><a name="pag_304">{304}</a></span> + <br> + Nem pretendeo mais alto levantar-me<br> + D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena<br> + Qu'eu pague seu ousado atrevimento,<br> + Saibão que o mesmo Amor, que me condena,<br> + Me fez cahir na culpa e mais na pena.<br> + Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia<br> + Que descêrão ao baixo pensamento,<br> + N'alma os aposentei suavemente;<br> + E pretendendo mais, como avarento,<br> + O coração lhe dei por iguaria,<br> + Que a meu mandado tinha obediente.<br> + Mas, como lhes esteve alli presente,<br> + E entendêrão o fim do meu desejo,<br> + Ou por outro despejo,<br> + Que a lingua descobrio por desvario,<br> + Morto de sêde estou pôsto em hum rio,<br> + Onde de meu servir o fructo vejo;<br> + Mas logo se alça se a colhê-lo venho,<br> + E foge-me a ágoa s'em beber porfio.<br> + Assi qu'em fome e sêde me mantenho:<br> + Não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e Tantalo a pena qu'eu sostenho.<br> + Despois que aquella, em quem minh'alma vive,<br> + Quiz alcançar o baixo atrevimento,<br> + Debaixo d'este engano a alcancei:<br> + A nuvem do contino pensamento<br> + Ma figurou nos braços, e assi tive<br> + Sonhando, o que acordado desejei.<br> + E porque a meu desejo me gabei<br> + De conseguir hum bem de tanto preço;<br> + Além do que padeço,<br> + Atado em huma roda estou penando,<span class="pn" ><a name="pag_305">{305}</a></span> + <br> + Qu'em mil mudanças me anda rodeando;<br> + Onde, se a algum bem subo, logo deço.<br> + E assi ganho, e assi perco a confiança;<br> + E assi de mi fugindo traz mim ando;<br> + E assi me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e atado huma vingança,<br> + Como Ixião, tão firme na mudança.<br> + Quando a vista suave e inhumana<br> + Meu humano desejo, de atrevido,<br> + Commetteo, sem saber o que fazia,<br> + (Que da sua belleza foi nascido<br> + O cego moço, que com setta insana<br> + O peccado vingou desta ousadia)<br> + Afora este penar, qu'eu merecia,<br> + Me deo outra maneira de tormento:<br> + Que nunca o pensamento,<br> + Voando sempre d'huma a outra parte,<br> + Destas entranhas tristes bem se farte,<br> + Imaginando como o famulento,<br> + Que come mais e a fome vai crescendo,<br> + Porque de atormentar-me não se aparte.<br> + Assi que para a pena estou vivendo:<br> + Sou outro novo Ticio, e não m'entendo.<br> + De vontades alheias, qu'eu roubava,<br> + E que enganosamente recolhia<br> + Em meu fingido peito, me mantinha.<br> + O engano de maneira lhes fingia,<br> + Que despois que a meu mando as sobjugava,<br> + Com amor as matava, qu'eu não tinha.<br> + Porém logo o castigo que convinha<br> + O vingativo Amor me fez sentir,<br> + Fazendo-me subir<span class="pn" ><a name="pag_306">{306}</a></span><br> + Ao monte da aspereza qu'em vós vejo,<br> + Co'o pezado penedo do desejo,<br> + Que do cume do bem me vai cahir:<br> + Tórno a subi-lo ao desejado assento;<br> + Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo.<br> + Sisypho, não t'espantes deste alento,<br> + Que ás costas o subi do soffrimento.<br> + Dest'arte o summo bem se m'offerece<br> + Ao faminto desejo, porque sinta<br> + A perda de perdê-lo mais penosa.<br> + Bem como o avaro, a quem o sonho pinta<br> + O achado d'hum thesouro, onde enriquece,<br> + E farta a sua sêde cobiçosa;<br> + E acordando, com furia pressurosa<br> + Vai o sítio cavar com que sonhava;<br> + Mas tudo o que buscava<br> + Lhe converte em carvão a desventura;<br> + Alli sua cobiça mais se apura,<br> + Por lhe faltar aquillo qu'esperava:<br> + O Amor assi me faz perder o siso.<br> + Porque aquelles qu'estão na noite escura<br> + Não sentirião tanto o triste abisso,<br> + Se ignorassem o bem do Paraisso.<br> + Canção, não mais; que ja não sei que diga:<br> + Mas, porque a dor me seja menos forte,<br> + Diga o pregão a causa desta morte.<span class="pn" +><a name="pag_307">{307}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION012300000">CANÇÃO III.</a> </h2> + +<blockquote> + Ja a roxa manhãa clara<br> + As portas do Oriente vinha abrindo;<br> + Os montes descobrindo<br> + A negra escuridão da luz avara.<br> + O sol, que nunca pára,<br> + Da sua alegre vista saudoso,<br> + Traz ella pressuroso<br> + Nos cavallos cansados do trabalho,<br> + Que respirão nas hervas fresco orvalho,<br> + S'estende claro, alegre e luminoso.<br> + Os passaros voando,<br> + De raminho em raminho vão saltando;<br> + E com suave e doce melodia<br> + O claro dia estão manifestando.<br> + A manhãa bella, amena,<br> + Seu rosto descobrindo, a espessura<br> + Se cobre de verdura<br> + Clara, suave, angelica, serena.<br> + Oh deleitosa pena!<br> + Oh effeito d'Amor alto e potente!<br> + Pois permitte e consente<br> + Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja,<br> + O seraphico gesto sempre veja,<br> + Por quem de viver triste sou contente.<br> + Mas tu, Aurora pura,<br> + De tanto bem dá graças á ventura,<br> + Pois as foi pôr em ti tão excellentes,<br> + Que representes tanta formosura.<span class="pn" ><a name="pag_308">{308}</a></span> + <br> + A luz suave e leda<br> + A meus olhos me mostra por quem mouro,<br> + Com os cabellos d'ouro,<br> + Que nenhum ouro iguala, se os remeda.<br> + Esta a luz he que arreda<br> + A negra escuridão do sentimento<br> + Ao doce pensamento;<br> + Os orvalhos das flores delicadas<br> + São nos meus olhos lagrimas cansadas,<br> + Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento;<br> + Os passaros que cantão,<br> + Meus espiritos são, que a voz levantão,<br> + Manifestando o gesto peregrino<br> + Com tão divino som, que o mundo espantão.<br> + Assi como acontece<br> + A quem a chara vida está perdendo,<br> + Qu'em quanto vai morrendo,<br> + Alguma visão santa lh'apparece;<br> + A mim em quem fallece<br> + A vida, que sois vós, minha Senhora,<br> + A est'alma, qu'em vós mora<br> + (Em quanto da prisão s'está apartando)<br> + Vos estais justamente apresentando<br> + Em fórma de formosa e roxa Aurora.<br> + Oh ditosa partida!<br> + Oh gloria soberana, alta e subida!<br> + Se me não impedir o meu desejo;<br> + Porque o que vejo, emfim, me torna a vida.<br> + Porém a natureza,<br> + Que nesta pura vista se mantinha,<br> + Me falta tão asinha,<span class="pn" ><a name="pag_309">{309}</a></span><br> + Como o sol faltar soe á redondeza.<br> + Se houverdes qu'he fraqueza<br> + Morrer em tão penoso e triste estado,<br> + Amor será culpado,<br> + Ou vós, ond'elle vive tão isento,<br> + Que causastes tão largo apartamento,<br> + Porque perdesse a vida co'o cuidado.<br> + Que se viver não posso,<br> + Homem formado só de carne e osso,<br> + Esta vida que perco, Amor ma deo;<br> + Que não sou meu: se morro, o damno he vosso.<br> + Canção de cysne, feita em hora extrema,<br> + Na dura pedra fria<br> + Da memoria te deixo em companhia<br> + Do letreiro da minha sepultura;<br> + Que a sombra escura ja m'impede o dia.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION012400000">CANÇÃO IV.</a> </h2> + +<blockquote> + Vão as serenas ágoas<br> + Do Mondego descendo,<br> + E mansamente até o mar não parão;<br> + Por onde as minhas mágoas<br> + Pouco a pouco crescendo,<br> + Para nunca acabar se começárão.<br> + Alli se me mostrárão<br> + Neste lugar ameno,<br> + Em qu'inda agora mouro,<span class="pn" ><a name="pag_310">{310}</a></span><br> + Testa de neve e d'ouro;<br> + Riso brando e suave; olhar sereno;<br> + Hum gesto delicado,<br> + Que sempre n'alma m'estará pintado.<br> + Nesta florída terra,<br> + Leda, fresca e serena,<br> + Ledo e contente para mi vivia;<br> + Em paz com minha guerra,<br> + Glorioso co'a pena<br> + Que de tão bellos olhos procedia.<br> + D'hum dia em outro dia,<br> + O esperar m'enganava:<br> + Tempo longo passei;<br> + Com a vida folguei,<br> + Só porqu'em bem tamanho s'empregava.<br> + Mas que me presta ja,<br> + Que tão formosos olhos não os ha?<br> + Oh quem me alli dissera<br> + Que d'Amor tão profundo<br> + O fim pudesse ver eu algum'hora!<br> + E quem cuidar pudera<br> + Que houvesse ahi no mundo<br> + Apartar-me eu de vós, minha Senhora!<br> + Para que desde agora,<br> + Ja perdida a esperança,<br> + Visse o vão pensamento<br> + Desfeito em hum momento,<br> + Sem me poder ficar mais que a lembrança;<br> + Que sempre estará firme<br> + Até no derradeiro despedir-me.<br> + Mas a mor alegria<span class="pn" ><a name="pag_311">{311}</a></span><br> + Que daqui levar posso,<br> + E com que defender-me triste espero,<br> + He que nunca sentia<br> + No tempo que fui vosso,<br> + Quererdes-me vós quanto vos eu quero.<br> + Porque o tormento fero<br> + De vosso apartamento,<br> + Não vos dará tal pena<br> + Como a que me condena;<br> + Que mais sentirei vosso sentimento,<br> + Que o que a minh'alma sente.<br> + Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.<br> + Tu, Canção, estarás<br> + Agora acompanhando<br> + Por estes campos estas claras ágoas;<br> + E por mi ficarás<br> + Com chôro suspirando;<br> + Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas,<br> + Como huma larga historia<br> + Minhas lagrimas fiquem por memoria.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION012500000">CANÇÃO V.</a> </h2> + +<blockquote> + S'este meu pensamento,<br> + Como he doce e suave,<br> + D'alma pudesse vir gritando fóra;<br> + Mostrando seu tormento<br> + Cruel, aspero e grave,<span class="pn" ><a name="pag_312">{312}</a></span><br> + Diante de vós só, minha Senhora;<br> + Pudera ser que agora<br> + O vosso peito duro<br> + Tornára manso e brando.<br> + E então eu, que sempre ando<br> + Passaro solitario, humilde e escuro,<br> + Tornado hum cysne puro,<br> + Brando e sonoro, por o ar voando,<br> + Com canto manifesto<br> + Pintára a minha pena, e o vosso gesto.<br> + Pintára os olhos bellos<br> + Que trazem nas meninas<br> + O menino que os seus nelles cegou;<br> + Os dourados cabellos<br> + Em tranças d'ouro finas,<br> + A quem o sol os raios seus baixou;<br> + A testa que ordenou<br> + Natura tão formosa;<br> + O bem proporcionado<br> + Nariz, lindo, afilado,<br> + Que cada parte t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e da fresca rosa;<br> + A boca graciosa,<br> + Que o querê-la louvar he ja 'scusado.<br> + Emfim, he hum thesouro;<br> + Perolas dentes, e palavras ouro.<br> + Víra-se claramente,<br> + (Oh Dama delicada!)<br> + Qu'em vós s'esmerou mais a natureza.<br> + Mas eu, de gente em gente,<br> + Trouxera trasladada<br> + Em meu tormento vossa gentileza;<span class="pn" ><a name="pag_313">{313}</a></span> + <br> + E somente a aspereza<br> + De vossa condição,<br> + Senhora, não dissera,<br> + Porque se não soubera<br> + Qu'em vós podia haver algum senão.<br> + E se alguem, com razão,<br> + Porque morres? dissesse, respondêra:<br> + Morro, porque he tão bella,<br> + Qu'inda não sou para morrer por ella.<br> + E quando, por ventura,<br> + Dama, vos offendesse,<br> + Escrevendo de vós o que não sento,<br> + E vossa formosura<br> + Tanto á terra descesse,<br> + Que a alcançasse humano entendimento;<br> + Sería o fundamento<br> + De tudo o qu'eu cantasse,<br> + Todo de puro amor;<br> + Porque o vosso louvor<br> + Em figura de mágoas se mostrasse.<br> + E aonde se julgasse<br> + A causa por o effeito, a minha dor<br> + Diria alli sem medo:<br> + Quem me sentir verá de quem procedo.<br> + Logo então mostraria<br> + Os olhos saudosos,<br> + E o suspirar que traz a alma comsigo;<br> + A fingida alegria;<br> + Os passos vagarosos;<br> + O fallar e esquecer-me do que digo;<br> + Hum pelejar comigo,<span class="pn" ><a name="pag_314">{314}</a></span><br> + E logo desculpar-me;<br> + Hum recear ousando;<br> + Andar meu bem buscando,<br> + E de o poder achar acovardar-me;<br> + E, emfim, averiguar-me<br> + Que o fim de tudo quanto estou fallando,<br> + São lagrimas e amores;<br> + São vossas isenções e minhas dores.<br> + Mas quem terá, Senhora,<br> + Palavras com qu'iguale<br> + Com vossa formosura a minha pena;<br> + E em doce voz de fóra<br> + Aquella gloria falle<br> + Que dentro na minh'alma Amor ordena?<br> + Não póde tão pequena<br> + Fôrça d'engenho humano<br> + Com carga tão pezada,<br> + Se não for ajudada<br> + D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano,<br> + Que fazendo-me o dano<br> + Vão deleitoso e a dor tão moderada,<br> + Emfim se convertesse<br> + No gôsto dos louvores qu'escrevesse.<br> + Canção, não digas mais; e se teus versos<br> + Á pena vem pequenos,<br> + Não queirão de ti mais; que dirás menos.<span class="pn" + ><a name="pag_315">{315}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION012600000">CANÇÃO VI.</a> </h2> + +<blockquote> + Com força desusada<br> + Aquenta o fogo eterno<br> + Huma Ilha nas partes do Oriente,<br> + D'estranhos habitada,<br> + Aonde o duro inverno<br> + Os campos reverdece alegremente.<br> + A Lusitana gente<br> + Por armas sanguinosas<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e della o senhorio.<br> + Cercada está d'hum rio<br> + De maritimas ágoas saudosas.<br> + Das hervas qu'aqui nascem,<br> + Os gados juntamente e os olhos pascem.<br> + Aqui minha ventura<br> + Quiz que huma grande parte<br> + Da vida, qu'eu não tinha, se passasse;<br> + Para que a sepultura<br> + Nas mãos do fero Marte<br> + De sangue e de lembranças matizasse.<br> + Se Amor determinasse<br> + Que a trôco desta vida,<br> + De mi qualquer memoria<br> + Ficasse como historia,<br> + Que d'huns formosos olhos fosse lida;<br> + A vida e a alegria<br> + Por tão doce memoria trocaria.<br> + Mas este fingimento,<span class="pn" ><a name="pag_316">{316}</a></span><br> + Por minha dura sórte,<br> + Com falsas esperanças me convida.<br> + Não cuide o pensamento<br> + Que póde achar na morte<br> + O que não pôde achar tão longa vida.<br> + Está ja tão perdida<br> + A minha confiança,<br> + Que de desesperado,<br> + Em ver meu triste estado,<br> + Tambem da morte perco a esperança.<br> + Mas oh! que s'algum dia<br> + Desesperar pudesse, viveria.<br> + De quanto tenho visto<br> + Ja agora não m'espanto,<br> + Que até desesperar se me defende.<br> + Outrem foi causa disto,<br> + Pois eu nunca fui tanto<br> + Que causasse este fogo que m'encende.<br> + Se cuidão que m'offende<br> + Temor d'esquecimento,<br> + Oxalá meu perigo<br> + Me fôra tão amigo,<br> + Que algum temor deixára ao pensamento!<br> + Quem vio tamanho enleio,<br> + Que houvesse ahi'sperança sem receio?<br> + Quem t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e que perder possa,<br> + Só póde recear.<br> + Mas triste quem não póde ja perder!<br> + Senhora, a culpa he vossa,<br> + Que para me matar<br> + Bastára hum'hora só de vos não ver.<span class="pn" + ><a name="pag_317">{317}</a></span><br> + Puzestes-me em poder<br> + De falsas esperanças:<br> + E do que mais m'espanto,<br> + Que nunca vali tanto,<br> + Que visse tanto bem, como esquivanças.<br> + Valia tão pequena<br> + Não póde merecer tão doce pena.<br> + Houve-se Amor comigo<br> + Tão brando, ou pouco irado,<br> + Quanto agora em meus males se conhece.<br> + Que não ha mor castigo<br> + Para quem t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e errado,<br> + Que negar-lhe o castigo que merece.<br> + Da sórte que acontece<br> + Ao misero doente,<br> + Da cura despedido,<br> + Que o Medico advertido<br> + Tudo quanto deseja lhe consente;<br> + O Amor me consentia<br> + Esperanças, desejos e ousadia.<br> + E agora venho a dar<br> + Conta do bem passado<br> + A esta triste vida e longa ausencia.<br> + Quem póde imaginar<br> + Qu'houvesse em mi peccado<br> + Digno d'huma tão grave penitencia?<br> + Olhae que he consciencia<br> + Por tão pequeno êrro,<br> + Senhora, tanta pena.<br> + Não vêdes que he onzena?<br> + Mas se tão longo e misero destêrro<span class="pn" + ><a name="pag_318">{318}</a></span><br> + Vos dá contentamento,<br> + Nunca m'acabe nelle o meu tormento.<br> + Rio formoso e claro,<br> + E vós, ó arvoredos,<br> + Que os justos vencedores coroais,<br> + E ao cultor avaro,<br> + Continuamente ledos,<br> + D'hum tronco só diversos fructos dais;<br> + Assi nunca sintais<br> + Do tempo injúria alg<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a,<br> + Qu'em vós achem abrigo<br> + As mágoas que aqui digo,<br> + Em quanto der o sol virtude á l<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a;<br> + Porque de gente em gente<br> + Saibão que ja não mata a vida ausente.<br> + Canção, neste destêrro viverás,<br> + Voz nua e descoberta,<br> + Até que o tempo em ecco te converta.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION012700000">CANÇÃO VII.</a> </h2> + +<blockquote> + Manda-me Amor que cante docemente<br> + O qu'elle ja em minh'alma t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e impresso,<br> + Com presupposto de desabafar-me;<br> + E porque com meu mal seja contente,<br> + Diz que o ser de tão lindos olhos preso,<br> + Cantá-lo bastaria a contentar-me.<br> + Este excellente modo d'enganar-me<span class="pn" ><a name="pag_319">{319}</a></span> + <br> + Tomára eu só d'Amor por interêsse,<br> + Se não s'arrependesse,<br> + Com a pena o engenho escurecendo.<br> + Porém a mais me atrevo,<br> + Em virtude do gesto de qu'escrevo.<br> + E s'he mais o que canto que o qu'entendo,<br> + Invoco o lindo aspeito,<br> + Que póde mais que Amor, em meu defeito.<br> + Sem conhecer a Amor viver sohia,<br> + Seu arco e seus enganos desprezando,<br> + Quando vivendo delles me mantinha.<br> + Hum Amor enganoso, que fingia,<br> + Mil vontades alheias enganando,<br> + Me fazia zombar de quem o tinha.<br> + No Touro entrava Phebo, e Progne vinha;<br> + O corno de Acheloo Flora entornava;<br> + Quando o Amor soltava<br> + Os fios d'ouro, as tranças encrespadas,<br> + Ao doce vento esquivas;<br> + Os olhos rutilando chammas vivas;<br> + E as rosas entre a neve semeadas;<br> + Co'o riso tão galante,<br> + Que hum peito desfizera de diamante.<br> + Hum não sei que suave respirando,<br> + Causava hum admiravel, novo espanto,<br> + Que as cousas insensiveis o sentião.<br> + Alli as garrulas aves, levantando<br> + Vozes não ordinarias em seu canto,<br> + Como eu no meu desejo, s'encendião.<br> + As fontes crystallinas não corrião,<br> + D'inflammadas na vista linda e pura;<span class="pn" + ><a name="pag_320">{320}</a></span><br> + Florecia a verdura,<br> + Que andando co'os divinos pés tocava;<br> + Os ramos se baixavão,<br> + Ou d'inveja das hervas que pizavão,<br> + Ou porque tudo ant'ella se baixava.<br> + Não houve cousa, emfim,<br> + Que não pasmasse della, e eu de mim.<br> + Porque, quando vi dar entendimento<br> + Ás cousas que o não tinhão, o temor<br> + Me fez cuidar qu'effeito em mi faria.<br> + Conheci-me não ter conhecimento:<br> + Porém só nisto o tive, porque Amor<br> + Mo deixou para ver o que podia.<br> + Tanta vingança Amor de mi queria,<br> + Que mudava a humana natureza<br> + Nos montes, e a dureza<br> + Delles em mi por trôco traspassava.<br> + Oh que gentil partido,<br> + Trocar o ser do monte sem sentido,<br> + Por o qu'em hum juizo humano estava!<br> + Olhae que doce engano!<br> + Tirar commum proveito de meu dano.<br> + Assi qu'indo perdendo o sentimento<br> + A parte racional, m'entristecia<br> + Vê-la a hum appetite submettida.<br> + Mas dentro n'alma o fim do pensamento,<br> + Por tão sublime causa, me dizia<br> + Qu'era razão ser a razão vencida.<br> + Assi que quando a via ser perdida,<br> + A mesma perdição a restaurava:<br> + E em mansa paz estava<span class="pn" ><a name="pag_321">{321}</a></span><br> + Cada hum com seu contrário em hum sogeito.<br> + Oh grão concêrto este!<br> + Quem será que não julgue por celeste<br> + A causa donde vem tamanho effeito,<br> + Que faz n'hum coração<br> + Que venha o appetite a ser razão?<br> + Aqui senti d'Amor a mor fineza,<br> + Como foi ver sentir o insensivel,<br> + E o ver a mi de mi proprio perder-me:<br> + E, emfim, senti negar-se a natureza;<br> + Por onde cri que tudo era possivel<br> + Aos lindos olhos seus, senão querer-me.<br> + Despois que ja senti desfallecer-me,<br> + Em lugar do sentido que perdia,<br> + Não sei quem m'escrevia<br> + Dentro n'alma co'as letras da memoria<br> + O mais deste processo,<br> + Co'o claro gesto juntamente impresso,<br> + Que foi a causa de tão longa historia.<br> + Se bem a declarei,<br> + Eu não a escrevo, d'alma a trasladei.<br> + Canção, se quem te ler<br> + Não crer dos olhos lindos o que dizes,<br> + Por o que a si s'esconde;<br> + Os sentidos humanos (lhe responde)<br> + Não podem dos divinos ser juizes,<br> + Senão hum pensamento<br> + Que a falta suppra a fé do entendimento.<span class="pn" + ><a name="pag_322">{322}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION012800000">CANÇÃO VIII.</a><a name="tex2html3" href="#foot2896"><sup>[3]</sup></a> </h2> + +<blockquote> + Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,<br> + Caso que nunca em verso foi cantado,<br> + Nem d'antes entre a gente acontecido.<br> + Assi me paga em parte o meu cuidado;<br> + Pois que quer que me louve e represente<br> + Quão bem soube no mundo ser perdido.<br> + Sou parte, e não serei da gente crido:<br> + Mas he tamanho o gôsto de louvar-me,<br> + E de manifestar-me<br> + Por captivo de gesto tão formoso,<span class="pn" ><a name="pag_323">{323}</a></span> + <br> + Que todo o impedimento<br> + Rompe e desfaz a gloria do tormento<br> + Peregrino, suave e deleitoso;<br> + Que bem sei que o que canto<br> + Ha d'achar menos credito qu'espanto.<br> + Em vivia do cego Amor isento,<br> + Porém tão inclinado a viver preso,<br> + Que me dava desgôsto a liberdade.<br> + Hum natural desejo tinha acceso<br> + D'algum ditoso e doce pensamento,<br> + Que m'illustrasse a insana mocidade.<br> + Tornava do anno ja a primeira idade;<br> + A revestida terra s'alegrava,<br> + Quando o Amor me mostrava<br> + De fios d'ouro as tranças desatadas<br> + Ao doce vento estivo;<br> + Os olhos rutilando lume vivo,<br> + As rosas entre a neve semeadas;<br> + O gesto grave e ledo,<br> + Que juntos move em mi desejo e medo.<br> + Hum não sei que suave respirando,<br> + Causava hum desusado e novo espanto,<br> + Que as cousas insensiveis o sentião.<br> + Porque as garrulas aves, entretanto<br> + Vozes desordenadas levantando,<br> + Como eu em meu desejo, s'encendião.<br> + As fontes crystallinas não corrião,<br> + Inflammadas na vista clara e pura;<br> + Florecia a verdura,<br> + Que, andando, co'os ditosos pés tocava;<br> + As ramas se baixavão,<span class="pn" ><a name="pag_324">{324}</a></span><br> + Ou d'inveja das hervas que pizavão,<br> + Ou porque tudo ant'elles se baixava:<br> + O ar, o vento, o dia,<br> + D'espiritos continuos influia.<br> + E quando vi que dava entendimento<br> + A cousas fóra delle, imaginei<br> + Que milagres faria em mi que o tinha:<br> + Vi que me desatou da minha lei,<br> + Privando-me de todo sentimento,<br> + E em outra transformando a vida minha.<br> + Com tamanhos poderes d'Amor vinha,<br> + Que o uso dos sentidos me tirava.<br> + E não sei como o dava<br> + Contra o poder e ordem da natura,<br> + Ás arvores, aos montes,<br> + Á rudeza das hervas e das fontes,<br> + Que conhecêrão logo a vista pura.<br> + Fiquei eu só tornado<br> + Quasi em hum rudo tronco d'admirado.<br> + Despois de ter perdido o sentimento,<br> + D'humano hum só desejo me ficava,<br> + Em que toda a razão se convertia.<br> + Mas não sei quem no peito m'affirmava<br> + Que por tão alto e doce pensamento,<br> + Com razão, a razão se me perdia.<br> + Assi que quando mais perdida a via,<br> + Na sua mesma perda se ganhava.<br> + Em doce paz estava<br> + Com seu contrário proprio em hum sogeito.<br> + Oh caso estranho e novo!<br> + Por alta e grande certamente approvo<span class="pn" + ><a name="pag_325">{325}</a></span><br> + A causa, donde vem tamanho effeito,<br> + Que faz n'hum coração<br> + Que hum desejo, sem ser, seja razão.<br> + Despois d'entregue ja ao meu desejo,<br> + Ou quasi nelle todo convertido,<br> + Solitario, sylvestre e inhumano,<br> + Tão contente fiquei de ser perdido,<br> + Que me parece tudo quanto vejo<br> + Escusado, senão meu proprio dano.<br> + Bebendo este suave e doce engano,<br> + A trôco dos sentidos que perdia,<br> + Vi que Amor m'esculpia<br> + Dentro n'alma a figura illustre e bella,<br> + A gravidade, o siso,<br> + A mansidão, a graça, o doce riso.<br> + E porque não cabia dentro nella<br> + De bens tamanhos tanto,<br> + Sahe por a boca convertido em canto.<br> + Canção, se te não crerem<br> + Daquelle claro gesto quanto dizes,<br> + Por o que se lhe esconde;<br> + Os sentidos humanos (lhe responde)<br> + Não podem dos divinos ser juizes,<br> + Senão hum pensamento,<br> + Que a falta suppra a fé do entendimento.<span class="pn" + ><a name="pag_326">{326}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION012900000">CANÇÃO IX.</a> </h2> + +<blockquote> + Tomei a triste pena<br> + Ja de desesperado<br> + De vos lembrar as muitas que padeço;<br> + Vendo que me condena<br> + A ficar eu culpado<br> + O mal que me tratais, e o que mereço.<br> + Confesso que conheço<br> + Qu'em parte a causa dei<br> + Ao mal em que me vejo,<br> + Pois sempre o meu desejo<br> + A tão largas promessas entreguei;<br> + Mas não tive suspeita<br> + Que seguisseis tenção tão imperfeita.<br> + S'em vosso esquecimento<br> + Tão condemnado estou,<br> + Como os sinaes demostrão, que mostrais;<br> + Neste vivo tormento,<br> + Lembranças mais não dou<br> + Que as que desta razão tomar queirais:<br> + Olhae que me tratais<br> + Assi de dia em dia<br> + Com vossas esquivanças;<br> + E as vossas esperanças,<br> + De que vãamente ja m'enriquecia,<br> + Renovão a memoria;<br> + Pois com a ter de vós só tenho gloria.<br> + E s'isto conhecesseis<span class="pn" ><a name="pag_327">{327}</a></span><br> + Ser verdade mais pura<br> + Do que d'Arabia o ouro reluzente;<br> + Inda que não quizesseis,<br> + Essa condição dura<br> + Em branda se mudára facilmente.<br> + Eu, vendo-me innocente,<br> + Senhora neste caso,<br> + Bem no arbitrio o puzera<br> + De quem sentença dera,<br> + Com que o que he justo se mostrasse raso;<br> + Se, emfim, não receára<br> + Que a vós por mi, e a mi por vós matára.<br> + Em vós escrita vi<br> + Vossa grande dureza,<br> + E n'alma escrita está, que de vós vive:<br> + Não que acabasse alli<br> + Sua grande firmeza<br> + O triste desengano qu'então tive;<br> + Porque antes que me prive<br> + A dor de meus sentidos,<br> + Ao penoso tormento<br> + Acode o entendimento<br> + Com dous fortes soldados guarnecidos<br> + De rica pedraria,<br> + Que ficão sendo minha luz e guia.<br> + Destes acompanhado<br> + Estou pôsto sem medo<br> + A tudo o que o fatal destino ordene:<br> + Póde ser que cansado,<br> + Ou seja tarde, ou cedo,<br> + Com pena de penar-me, me despene.<span class="pn" ><a name="pag_328">{328}</a></span> + <br> + E quando me condene<br> + (Qu'he o que mais espero)<br> + Inda a penas maiores;<br> + Perdidos os temores,<br> + Por mais que venhão, não direi, não quero.<br> + Estou, emfim, tão forte,<br> + Que não pode mudar-me a propria morte.<br> + Canção, se ja não queres<br> + Crer tanta crueldade,<br> + Lá vae onde verás minha verdade.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121000000">CANÇÃO X.</a> </h2> + +<blockquote> + Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte,<br> + Inutil e despido, calvo e informe,<br> + Da natureza em tudo aborrecido;<br> + Onde nem ave vôa, ou fera dorme,<br> + Nem corre claro rio, ou ferve fonte,<br> + Nem verde ramo faz doce ruido;<br> + Cujo nome, do vulgo introduzido,<br> + He Feliz, por antiphrasi infelice;<br> + O qual a natureza<br> + Situou junto á parte,<br> + Aonde hum braço d'alto mar reparte<br> + A Abassia da Arabica aspereza,<br> + Em que fundada ja foi Berenice,<br> + Ficando á parte, donde<br> + O sol, que nella ferve, se lh'esconde;<span class="pn" + ><a name="pag_329">{329}</a></span><br> + O cabo se descobre, com que a costa<br> + Africana, que do Austro vem correndo,<br> + Limite faz, Arómata chamado:<br> + Arómata outro tempo; que volvendo<br> + A roda, a ruda lingua mal composta<br> + Dos proprios outro nome lhe t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e dado.<br> + Aqui, no mar, que quer apressurado<br> + Entrar por a garganta deste braço,<br> + Me trouxe hum tempo e teve<br> + Minha fera ventura.<br> + Aqui nesta remota, aspera e dura<br> + Parte do mundo, quiz que a vida breve<br> + Tambem de si deixasse hum breve espaço;<br> + Porque ficasse a vida<br> + Por o mundo em pedaços repartida.<br> + Aqui me achei gastando huns tristes dias,<br> + Tristes, forçados, maos e solitarios,<br> + De trabalho, de dor, e d'ira cheios:<br> + Não tendo tãosomente por contrarios<br> + A vida, o sol ardente, as ágoas frias,<br> + Os ares grossos, férvidos e feios,<br> + Mas os meus pensamentos, que são meios<br> + Para enganar a propria natureza,<br> + Tambem vi contra mi;<br> + Trazendo-me á memoria<br> + Alguma ja passada e breve gloria,<br> + Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi;<br> + Por me dobrar dos males a aspereza;<br> + Por mostrar-me que havia<br> + No mundo muitas horas d'alegria.<br> + Aqui'stive eu com estes pensamentos<span class="pn" + ><a name="pag_330">{330}</a></span><br> + Gastando tempo e vida; os quaes tão alto<br> + Me subião nas asas, que cahia<br> + (Oh vêde se seria leve o salto!)<br> + De sonhados e vãos contentamentos<br> + Em desesperação de ver hum dia.<br> + O imaginar aqui se convertia<br> + Em improvisos choros e em suspiros,<br> + Que rompião os ares.<br> + Aqui a alma captiva,<br> + Chagada toda, estava em carne viva,<br> + De dores rodeada e de pezares,<br> + Desamparada e descoberta aos tiros<br> + Da soberba Fortuna;<br> + Soberba, inexoravel e importuna.<br> + Não tinha parte donde se deitasse,<br> + Nem esperança alguma, onde a cabeça<br> + Hum pouco reclinasse, por descanso:<br> + Tudo dor lhe era e causa que padeça,<br> + Mas que pereça não; porque passasse<br> + O que quiz o destino nunca manso.<br> + Oh qu'este irado mar gemendo amanso!<br> + Estes ventos, da voz importunados,<br> + Parece que se enfreião:<br> + Somente o Ceo severo,<br> + As estrellas e o fado sempre fero,<br> + Com meu perpétuo damno se recreião;<br> + Mostrando-se potentes e indignados<br> + Contra hum corpo terreno,<br> + Bicho da terra vil e tão pequeno.<br> + Se de tantos trabalhos só tirasse<br> + Saber inda por certo que algum'hora<span class="pn" + ><a name="pag_331">{331}</a></span><br> + Lembrava a huns claros olhos que ja vi;<br> + E s'esta triste voz, rompendo fóra,<br> + As orelhas angelicas tocasse<br> + Daquella em cuja vista ja vivi;<br> + A qual, tornando hum pouco sôbre si,<br> + Revolvendo na mente pressurosa<br> + Os tempos ja passados<br> + De meus doces errores,<br> + De meus suaves males e furores,<br> + Por ella padecidos e buscados,<br> + E (pôsto que ja tarde) piedosa,<br> + Hum pouco lhe pezasse,<br> + E lá entre si por dura se julgasse:<br> + Isto só que soubesse me seria<br> + Descanso para a vida que me fica;<br> + Com isto affagaria o soffrimento.<br> + Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica<br> + Estais, que cá tão longe d'alegria<br> + Me sustentais com doce fingimento!<br> + Logo que vos figura o pensamento,<br> + Foge todo o trabalho e toda a pena.<br> + Só com vossas lembranças<br> + Me acho seguro e forte<br> + Contra o rosto feroz da fera morte;<br> + E logo se me juntão esperanças<br> + Com que, a fronte tornada mais serena,<br> + Torno os tormentos graves<br> + Em saudades brandas e suaves.<br> + Aqui com ellas fico perguntando<br> + Aos ventos amorosos, que respirão<br> + Da parte donde estais, por vós Senhora;<span class="pn" + ><a name="pag_332">{332}</a></span><br> + Ás aves qu'alli voão, se vos virão,<br> + Que fazieis, qu'estaveis praticando;<br> + Onde, como, com quem, que dia e que hora.<br> + Alli a vida cansada se melhora,<br> + Toma espiritos novos, com que vença<br> + A fortuna e trabalho,<br> + Só por tornar a ver-vos,<br> + Só por ir a servir-vos e querer-vos.<br> + Diz-me o tempo que a tudo dará talho:<br> + Mas o desejo ardente, que detença<br> + Nunca soffreo, sem tento<br> + Me abre as chagas de novo ao soffrimento.<br> + Assi vivo; e s'alguem te perguntasse,<br> + Canção, porque não mouro;<br> + Podes-lhe responder; que porque mouro.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121100000">CANÇÃO XI.</a> </h2> + +<blockquote> + Vinde cá meu tão certo Secretario<br> + Dos queixumes que sempre ando fazendo,<br> + Papel, com quem a pena desaffógo.<br> + As semrazões digamos, que vivendo<br> + Me faz o inexoravel e contrário<br> + Destino, surdo a lagrimas e a rôgo.<br> + Lancemos ágoa pouca em muito fogo,<br> + Accenda-se com gritos hum tormento,<br> + Que a todas as memorias seja estranho.<br> + Digamos mal tamanho<span class="pn" ><a name="pag_333">{333}</a></span><br> + A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,<br> + A quem ja muitas vezes o contei,<br> + Tanto debalde como o conto agora.<br> + Mas ja que para errores fui nascido,<br> + Vir este a ser hum delles não duvido.<br> + E, pois ja d'acertar estou tão fóra,<br> + Não me culpem tambem se nisto errei.<br> + Se quer este refúgio só terei,<br> + Fallar e errar, sem culpa, livremente.<br> + Triste quem de tão pouco está contente!<br> + Ja me desenganei que de queixar-me<br> + Não s'alcança remedio; mas quem pena,<br> + Forçado lh'he gritar, se a dor he grande.<br> + Gritarei; mas he debil e pequena<br> + A voz para poder desabafar-me;<br> + Porque nem com gritar a dor se abrande.<br> + Quem me dará se quer que fóra mande<br> + Lagrimas e suspiros infinitos,<br> + Iguaes ao mal que dentro na alma mora?<br> + Mas quem pôde algum'hora<br> + Medir o mal com lagrimas, ou gritos?<br> + Direi, emfim, aquillo que m'ensinão<br> + A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,<br> + Que outra dor he por si mais dura e firme.<br> + Chegae, desesperados, para ouvir-me;<br> + E fujão os que vivem d'esperança,<br> + Ou aquelles que nella se imaginão;<br> + Porque Amor e Fortuna determinão<br> + De lhes deixar poder para entenderem<br> + Á medida dos males que tiverem.<br> + Quando vim da materna sepultura<span class="pn" ><a name="pag_334">{334}</a></span> + <br> + De novo ao mundo, logo me fizerão<br> + Estrellas infelices obrigado:<br> + Com ter livre alvedrio, mo não derão;<br> + Qu'eu conheci mil vezes na ventura<br> + O melhor, e o peor segui forçado.<br> + E para que o tormento conformado<br> + Me dessem com a idade, quando abrisse<br> + Inda menino os olhos brandamente,<br> + Mândão que diligente<br> + Hum menino sem olhos me ferisse.<br> + As lagrimas da infancia ja manavão<br> + Com huma saudade namorada;<br> + O som dos gritos, que no berço dava,<br> + Ja como de suspiros me soava.<br> + Co'a idade e fado estava concertado:<br> + Porque quando por caso m'embalavão,<br> + Se d'Amor tristes versos me cantavão,<br> + Logo m'adormecia a natureza;<br> + Que tão conforme estava co'a tristeza!<br> + Foi minh'ama huma fera; que o destino<br> + Não quiz que mulher fosse a que tivesse<br> + Tal nome para mi; nem a haveria.<br> + Assi criado fui, porque bebesse<br> + O veneno amoroso de menino,<br> + Que na maior idade beberia,<br> + E por costume não me mataria.<br> + Logo então vi a image e semelhança<br> + Daquella humana fera tão formosa,<br> + Suave e venenosa,<br> + Que me criou aos peitos da esperança;<br> + De quem eu vi despois o original,<span class="pn" ><a name="pag_335">{335}</a></span> + <br> + Que de todos os grandes desatinos<br> + Faz a culpa soberba e soberana.<br> + Parece-me que tinha fórma humana,<br> + Mas scintilava espiritos divinos.<br> + Hum meneio, e presença tinha tal,<br> + Que se vangloriava todo o mal<br> + Na vista della: a sombra co'a viveza<br> + Excedia o poder da natureza.<br> + Que genero tão novo de tormento<br> + Teve Amor, sem que fosse não somente<br> + Provado em mi, mas todo executado?<br> + Implacaveis durezas, que ao fervente<br> + Desejo, que dá fôrça ao pensamento,<br> + Tinhão de seu proposito abalado,<br> + E corrido de ver-se e injuriado:<br> + Aqui sombras phantasticas, trazidas<br> + D'algumas temerarias esperanças;<br> + As bem-aventuranças<br> + Tambem nellas pintadas e fingidas.<br> + Mas a dor do desprêzo recebido,<br> + Que todo o phantasiar desatinava,<br> + Estes enganos punha em desconcêrto.<br> + Aqui o adivinhar, e o ter por certo<br> + Qu'era verdade quanto adivinhava,<br> + E logo o desdizer-me de corrido;<br> + Dar ás cousas que via outro sentido;<br> + E para tudo, emfim, buscar razões:<br> + Mas erão muitas mais as semrazões.<br> + Não sei como sabía estar roubando<br> + Co'os raios as entranhas, que fugião<br> + Par'ella por os olhos subtilmente!<span class="pn" + ><a name="pag_336">{336}</a></span><br> + Pouco a pouco invisiveis me sahião;<br> + Bem como do véo humido exhalando<br> + Está o subtil humor o sol ardente.<br> + O gesto puro, emfim, e transparente,<br> + Para quem fica baixo e sem valia<br> + Este nome de bello e de formoso;<br> + O doce e piedoso<br> + Mover d'olhos, que as almas suspendia,<br> + Forão as hervas magicas, que o Ceo<br> + Me fez beber: as quaes por longos anos<br> + N'outro ser me tiverão transformado,<br> + E tão contente de me ver trocado,<br> + Que as mágoas enganava co'os enganos;<br> + E diante dos olhos punha o véo,<br> + Que m'encobrisse o mal que assi cresceo:<br> + Como quem com affagos se criava<br> + Daquella para quem crescido estava.<br> + Pois quem póde pintar a vida ausente,<br> + Com hum descontentar-me quanto via,<br> + E aquell'estar tão longe donde estava;<br> + O fallar sem saber o que dizia;<br> + Andar sem ver por onde, e juntamente<br> + Suspirar sem saber que suspirava?<br> + Pois quando aquelle mal m'atormentava,<br> + E aquella dor, que das Tartareas ágoas<br> + Sahio ao mundo, e mais que todas doe,<br> + Que tantas vezes soe<br> + Duras íras tornar em brandas mágoas?<br> + Agora co'o furor da mágoa irado,<br> + Querer, e não querer deixar de amar;<br> + E mudar n'outra parte, por vingança,<span class="pn" + ><a name="pag_337">{337}</a></span><br> + O desejo privado d'esperança,<br> + Que tão mal se podia ja mudar?<br> + Agora a saudade do passado,<br> + Tormento puro, doce e magoado,<br> + Que converter fazia estes furores<br> + Em magoadas lagrimas d'amores?<br> + Que desculpas comigo só buscava,<br> + Quando o suave Amor me não soffria<br> + Culpa na cousa amada, e tão amada!<br> + Erão, emfim, remedios que fingia<br> + O medo do tormento, qu'ensinava<br> + A vida a sustentar-se d'enganada.<br> + Nisto huma parte della foi passada;<br> + Na qual se tive algum contentamento<br> + Breve, imperfeito, timido, indecente,<br> + Não foi senão semente<br> + D'hum cumprido, amarissimo tormento.<br> + Este curso contino de tristeza,<br> + Estes passos vãamente derramados,<br> + Me forão apagando o ardente gôsto,<br> + Que tão de siso n'alma tinha pôsto,<br> + Daquelles pensamentos namorados<br> + Com que criei a tenra natureza,<br> + Que do longo costume da aspereza,<br> + Contra quem fôrça humana não resiste,<br> + Se converteo no gôsto de ser triste.<br> + Dest'arte a vida em outra fui trocando;<br> + Eu não, mas o destino fero, irado;<br> + Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára.<br> + Fez-me deixar o patrio ninho amado,<br> + Passando o longo mar, que ameaçando<span class="pn" + ><a name="pag_338">{338}</a></span><br> + Tantas vezes m'esteve a vida chara.<br> + Agora exprimentando a furia rara<br> + De Marte, que nos olhos quiz que logo<br> + Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.<br> + E neste escudo meu<br> + A pintura verão do infesto fogo.<br> + Agora peregrino, vago, errante,<br> + Vendo nações, linguagens e costumes,<br> + Ceos varios, qualidades differentes,<br> + Só por seguir com passos diligentes<br> + A ti, Fortuna injusta, que consumes<br> + As idades, levando-lhes diante<br> + Huma esperança em vista de diamante:<br> + Mas quando das mãos cahe se conhece<br> + Que he fragil vidro aquillo que apparece.<br> + A piedade humana me faltava,<br> + A gente amiga ja contrária via,<br> + No perigo primeiro; e no segundo,<br> + Terra em que pôr os pés me fallecia,<br> + Ar para respirar se me negava,<br> + E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.<br> + Que segredo tão arduo e tão profundo,<br> + Nascer para viver e para a vida,<br> + Faltar-me quanto o mundo t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e para ella!<br> + E não poder perdella,<br> + Estando tantas vezes ja perdida!<br> + Emfim, não houve trance de fortuna,<br> + Nem perigos, nem casos duvidosos,<br> + Injustiças daquelles que o confuso<br> + Regimento do mundo, antigo abuso,<br> + Faz sôbre os outros homens poderosos,<span class="pn" + ><a name="pag_339">{339}</a></span><br> + Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna<br> + Do soffrimento meu, que a importuna<br> + Perseguição de males em pedaços<br> + Mil vezes fez á fôrça de seus braços.<br> + Não conto tantos males, como aquelle<br> + Que despois da tormenta procellosa,<br> + Os casos della conta em porto ledo;<br> + Qu'inda agora a fortuna fluctuosa<br> + A tamanhas miserias me compelle,<br> + Que de dar hum só passo tenho medo.<br> + Ja de mal que me venha não m'arredo,<br> + Nem bem que me falleça ja pretendo;<br> + Que para mi não val astucia humana,<br> + De fôrça soberana,<br> + Da Providencia, emfim, Divina pendo.<br> + Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo<br> + Para consolação de tantos danos.<br> + Mas a fraqueza humana quando lança<br> + Os olhos no que corre, e não alcança<br> + Senão memoria dos passados anos;<br> + As ágoas qu'então bebo, e o pão que como,<br> + Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo,<br> + Senão com fabricar na phantasia<br> + Phantasticas pinturas d'alegria.<br> + Que se possivel fosse que tornasse<br> + O tempo para traz, como a memoria,<br> + Por os vestigios da primeira idade;<br> + E de novo tecendo a antigua historia<br> + De meus doces errores, me levasse<br> + Por as flores que vi da mocidade;<br> + E a lembrança da longa saudade<span class="pn" ><a name="pag_340">{340}</a></span> + <br> + Então fosse maior contentamento,<br> + Vendo a conversação leda e suave,<br> + Onde huma e outra chave<br> + Esteve de meu novo pensamento,<br> + Os campos, as passadas, os sinais,<br> + A vista, a neve, a rosa, a formosura,<br> + A graça, a mansidão, a cortezia,<br> + A singela amizade, que desvia<br> + Toda a baixa tenção, terrena, impura,<br> + Como a qual outra alguma não vi mais...<br> + Ah vãas memorias! onde me levais<br> + O debil coração, qu'inda não posso<br> + Domar bem este vão desejo vosso?<br> + Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando,<br> + Sem o sentir, mil annos; e se acaso<br> + Te culparem de larga e de pezada;<br> + Não póde ser (lhe dize) limitada<br> + A ágoa do mar em tão pequeno vaso.<br> + Nem eu delicadezas vou cantando<br> + Co'o gôsto do louvor, mas explicando<br> + Puras verdades ja por mi passadas.<br> + Oxalá forão fábulas sonhadas!</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121200000">CANÇÃO XII.</a> </h2> + +<blockquote> + Nem roxa flor de Abril,<br> + Pintor do campo ameno e da verdura,<br> + Colhida entre outras mil,<span class="pn" ><a name="pag_341">{341}</a></span><br> + Foi nunca assi agradavel á donzella<br> + Cortez, alegre e bella,<br> + De sua mãe cuidado e glória pura,<br> + Como a mi foi a inculta formosura<br> + Natural, que pudera<br> + A Saturno render na sua Esphera.<br> + Natural fonte agreste,<br> + Não lavrada d'Artifice excellente,<br> + Mas por arte celeste<br> + Derivada de rustico penedo,<br> + Não fez ja mais tão ledo<br> + Cansado caçador por sesta ardente,<br> + Quanto o cuidado a mi me fez contente<br> + Do ver tão descuidado,<br> + Que faz sereno a Jupiter irado.<br> + Fructa, que sem concêrto<br> + Naturalmente em ramos se pendura,<br> + Achada por acêrto;<br> + A quem pintada a vê de sangue e leite,<br> + Não lhe dara o deleite,<br> + Qu'essa graça me dá sem compostura,<br> + Ornamento da mesma formosura,<br> + E o toucado sem arte,<br> + Que tornára pastor ao bravo Marte.<br> + A manhãa graciosa,<br> + Que derramando sahe d'entre os cabellos<br> + A flor, o lirio, a rosa,<br> + Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,<br> + Não faz o beneficio,<br> + Que faz a luz dos vossos olhos bellos<br> + A quem os vê tão puros e singelos;<span class="pn" + ><a name="pag_342">{342}</a></span><br> + E esse innocente riso,<br> + Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.<br> + Outeiros coroados<br> + Das árvores que fazem a espessura<br> + Com os ramos copados<br> + Alegre, que mão destra os não cultiva,<br> + Graça tão excessiva<br> + Não t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e na sua natural verdura,<br> + Quanta na d'esses olhos, clara e pura,<br> + Deposita a esperança,<br> + Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança.<br> + Dos simples passarinhos<br> + A musica sem arte concertada,<br> + D'entre os verdes raminhos,<br> + Tão suave não he, tão deleitosa<br> + A quem na selva umbrosa<br> + Com mente ouvindo-a está toda enlevada,<br> + Quanto a mi essa falla doce agrada,<br> + E o natural aviso,<br> + Que roubão a Mercurio sceptro e siso.<br> + De frescos rios ágoa,<br> + Que clara entre arvoredos se deriva,<br> + Cahindo d'alta fragoa,<br> + Esmaltando de perolas no prado<br> + O verde delicado,<br> + Com brando som aos olhos fugitiva,<br> + Não nos alegra quanto a graça esquiva<br> + D'essa luz soberana,<br> + Que faz cortez a rustica Diana.<br> + A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)<br> + Vendo estás ja prostrado<span class="pn" ><a name="pag_343">{343}</a></span><br> + Saturno triste, Jupiter irado,<br> + Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,<br> + E Mercurio, e Diana, e toda estrella.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121300000">CANÇÃO XIII.</a> </h2> + +<blockquote> + Oh pomar venturoso,<br> + Onde co'a natureza<br> + A subtil arte t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e demanda incerta;<br> + Qu'em sítio tão formoso<br> + A maior subtileza<br> + D'engenho em ti nos mostras descoberta!<br> + Nenhum juizo acerta,<br> + De cego e d'enlevado,<br> + Se t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e em ti mais parte<br> + A natureza, ou arte;<br> + Se Terra ou Ceo de ti t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e mais cuidado,<br> + Pois em feliz terreno<br> + Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.<br> + De teu formoso pêzo<br> + Se mostra o monte ledo,<br> + E o caudaloso Zezere t'estranha,<br> + Porque ólhas com desprêzo<br> + Seu crystal puro e quedo,<br> + Que com Pera os teus pés rodeia e banha.<br> + Em ti pintura estranha,<br> + A que Apelles cedêra,<br> + Enigmas intricados,<br> + E myrtos animados<span class="pn" ><a name="pag_344">{344}</a></span><br> + Vemos, que o proprio Escopas não fizera;<br> + Em ti, co'a paz interna,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e o santo prazer morada eterna.<br> + Os jardins da famosa<br> + Babel, tão nomeados,<br> + Por maravilha o mundo não levante,<br> + Inda que com gloriosa<br> + Voz, qu'estão pendurados<br> + Do instavel ar, a fama antigua cante:<br> + Nem haja quem s'espante<br> + Dos famosos d'Alcino;<br> + Nem as mais doutas pennas<br> + Cantem os de Mecenas,<br> + Cultor de todo engenho peregrino;<br> + Mas onde quer que vôe,<br> + De ti só falle a Fama, e te pregôe.<br> + Que s'era antiguamente<br> + De pomos d'ouro bellos<br> + O jardim das Hesperidas ornado;<br> + E, a pezar da serpente<br> + Que os guardou, só colhellos<br> + Pôde o famoso Alcides, d'esforçado;<br> + Tu, mais avantajado,<br> + Mostras a hum'alma casta<br> + Seguir o que deseja,<br> + Fugir da torpe inveja<br> + (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta):<br> + Emfim, co'a caridade<br> + Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.<br> + Por tanto da ventura,<br> + Para ti reservada,<span class="pn" ><a name="pag_345">{345}</a></span><br> + Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;<br> + Porque sejas figura<br> + Da gloria avantajada<br> + Delle mesmo, e qu'em ti se represente;<br> + Porqu'em quanto sustente<br> + O ceo, o mar e a terra,<br> + Seus feitos milagrosos,<br> + Mysterios mais gloriosos,<br> + Com que a morte das almas nos desterra,<br> + Por onde em nossas almas<br> + Com mais pompas triumpha e com mais palmas,<br> + .......................<br> + Goza, pois, longamente<br> + Teu venturoso fado,<br> + Da mãe do teu autor bem possuido:<br> + Qu'em ti, sempre contente<br> + De seu sublime estado,<br> + A alma dos seus alegra e o sentido.<br> + Cada qual preferido<br> + Nas grandes qualidades<br> + Ao sabio Nestor seja,<br> + Para que o mundo os veja<br> + Exceder as longuissimas idades;<br> + E com a longa vida<br> + Seja sua memoria ennobrecida.<br> + Canção, pois mais famosas<br> + Por ti não podem ser<br> + Deste monte as estancias deleitosas;<br> + Bem póde succeder<br> + Que aquelle que os teus numeros governa,<br> + Por querê-las cantar te faça eterna.<span class="pn" + ><a name="pag_346">{346}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121400000">CANÇÃO XIV.</a> </h2> + +<blockquote> + Quem com sólido intento<br> + Os segredos buscar da natureza,<br> + Quanto d'Athenas préza,<br> + Entregue ao mar irado, ao leve vento:<br> + Em forjar meu tormento,<br> + Nova Philosophia,<br> + D'experiencias feita, Amor m'ensina.<br> + Das Leis do antigo tempo bem declina;<br> + Que Amor a natureza em mi varía;<br> + Donde escola de Sabios nunca vio<br> + Em natural sogeito<br> + Quanto Amor em meu peito descobrio.<br> + As aves no ar sereno,<br> + O gado de Proteo nas ágoas pasce;<br> + Vive o homem e nasce<br> + Neste mundo, qual mundo mais pequeno:<br> + Eu tudo desordeno,<br> + Em todos dividido;<br> + A boca no ar, na terra o entendimento:<br> + Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;<br> + O coração no fogo he consumido:<br> + Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e effeito tão vário,<br> + Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.<br> + Da vista Amor sohia<br> + Abrir ao coração segura entrada:<br> + Lei he ja profanada;<span class="pn" ><a name="pag_347">{347}</a></span><br> + Que quando a luz d'huns olhos me fería,<br> + Amando o que não via,<br> + Qual d'escopeta o lume,<br> + Primeiro o querer vi, que a causa visse.<br> + Quem o desejo co'a esperança unisse,<br> + Cego iria apos cego e vil costume;<br> + Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,<br> + Morta a esperança vejo,<br> + Onde sempre o desejo se sustenta.<br> + Em vão se considera<br> + Que hum semelhante a outro busca e ama,<br> + E que foge e desama<br> + Todo mortal a morte esquiva e fera:<br> + Sigo huma linda fera,<br> + Qu'esconde em vista humana<br> + Coração de diamante e peito d'aço,<br> + De meu sangue faminta; e satisfaço<br> + Com cruel morte a sêde deshumana.<br> + Assi que, sendo em tudo differente,<br> + Corro apos minha sorte,<br> + E se m'entrego á morte, estou contente.<br> + Cahe em maior defeito<br> + Quem cuida ser sciencia clara e certa,<br> + Que a causa descoberta<br> + Sempre produz a si conforme o effeito:<br> + Rendeo-me hum lindo objeito,<br> + Que, sendo neve pura,<br> + Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;<br> + Qu'esta formosa fera fugitiva,<br> + Com ser neve, do fogo s'assegura:<br> + Donde infiro por certo (e cesse a fama<span class="pn" + ><a name="pag_348">{348}</a></span><br> + Vãa, mentirosa e leve)<br> + Que não desfaz a neve ardente chama.<br> + Bem no effeito se sente<br> + Cessar, cessando a causa donde pende;<br> + Que o fogo mais se accende,<br> + Estando á vista, donde mais ausente;<br> + Mas n'alma vivamente<br> + A trazem debuxada,<br> + De noite Amor, de dia o pensamento:<br> + E quando Apollo deixa o claro assento,<br> + Por entre sombras vejo a Nympha amada.<br> + Pois se sem luz Amor os olhos ceva,<br> + Cego, se não concede<br> + Qu'em nada a Amor impede a escura treva.<br> + Erra quem atrevido<br> + Pregôa ser maior que a parte o todo:<br> + Amor me t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de modo,<br> + Qu'estou n'hum'alma minha convertido:<br> + Desta gloria ha nascido<br> + O temor de perdê-la:<br> + E, postoque o receio a muitos finge<br> + Lá na imaginação Chimera e Sfinge<br> + De mal futuro, que urde imiga estrella,<br> + Vejo em mi, por incognito segredo,<br> + Quando estou mais contente,<br> + Que só do bem presente nasce o medo.<br> + T<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e-se por manifesto<br> + Parecer-se ao sogeito o accidente;<br> + Mas inda em mi se sente<br> + O pensamento, a côr, o riso, o gesto;<br> + E, tendo todo o resto<span class="pn" ><a name="pag_349">{349}</a></span><br> + Da vida ja perdido<br> + Neste tormento meu tão duro e esquivo,<br> + A gostos morto estou, a penas vivo.<br> + E, sendo morto ja, vive o sentido,<br> + Porque sinta que n'alma despedida<br> + Póde em meu mal unir-se<br> + O ficar e o partir-se, a morte e a vida.<br> + Destas razões, Canção, infiro e creio,<br> + Que ou se mudou em tudo a fórma usada<br> + Da natural firmeza,<br> + Ou tenho a natureza em mi mudada.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121500000">CANÇÃO XV.</a> </h2> + +<blockquote> + Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,<br> + Que sempre na alma vejo?<br> + Ou me pinta o desejo<br> + O bem qu'em vão cad'hora m'assegura?<br> + Mal póde a noite escura,<br> + Amando a sombra fria,<br> + Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,<br> + Que se não torne em dia,<br> + De seus luzentes raios inflammada.<br> + Oh vista desejada<br> + De graciosa Nympha e viva estrella!<br> + Que ha tanto que por este mar navego<br> + (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.<span class="pn" + ><a name="pag_350">{350}</a></span><br> + Nesses formosos olhos, d'enlevada,<br> + Minh'alma se escondeo,<br> + Quando ordenava o Ceo<br> + Que vivesse comigo desterrada.<br> + Vós a mais certa estrada<br> + De ver a summa alteza,<br> + Do efeito a causa abris a est'alma minha.<br> + Assi mortal belleza<br> + Só della nasce, e nella se resume;<br> + Assi celeste lume<br> + Lá dos ceos se deriva, e lá caminha.<br> + Pois, como a Deos unir-me a vista possa,<br> + Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?<br> + Se me quereis prender a parte a parte,<br> + Cabello ondado e louro,<br> + Tecei-me a rede de ouro<br> + Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.<br> + Des que com gentil arte<br> + Vestis de flores bellas<br> + A terra em que tocais co'a bella planta,<br> + Quantas vezes com vellas<br> + Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?<br> + Porque, vendo pizar-me<br> + D'esse candido pé, que a neve espanta,<br> + Póde ser que na flor mudado fôra<br> + Que deo a Juno irada a linda Flora.<br> + Mas onde te acolheste (ó doce vida!)<br> + Mais leve e pressurosa,<br> + Do que na selva umbrosa<br> + Cerva d'aguda setta vai ferida?<br> + Se para tal partida,<span class="pn" ><a name="pag_351">{351}</a></span><br> + Meus olhos, vos abristes,<br> + Cerrára-vos o somno eternamente,<br> + Antes que ver-vos tristes,<br> + Perdendo tão suave e doce engano!<br> + Agora, com meu dano,<br> + Vêdes, para mor mágoa, claramente,<br> + Neste bem fugitivo e somno leve,<br> + Que mal não ha mais longo, que hum bem breve.<br> + Ditoso Endymião que a deosa chara,<br> + Que a noite vai guiando,<br> + Teve em braços sonhando!<br> + Ah quem de sonho tal nunca acordára!<br> + Tu só, Aurora avara,<br> + Quando os olhos feriste,<br> + Me mataste cruel d'inveja pura.<br> + Mas se d'esta alma triste<br> + A negra escuridão vencer quizeste,<br> + Sabe qu'em vão nasceste;<br> + Que para desfazer-se a nevoa escura<br> + De meus olhos, importa estar presente<br> + Outro sol, outra aurora, outro Oriente.<br> + Se a luz de meu Planeta,<br> + Não m'aviva, Canção, branda e quieta,<br> + Qual flor de chuva, em breve consumida,<br> + Verás desfeita em lagrimas a vida.<span class="pn" +><a name="pag_352">{352}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121600000">CANÇÃO XVI.</a> </h2> + +<blockquote> + Por meio d'humas serras mui fragosas,<br> + Cercadas de sylvestres arvoredos,<br> + Retumbando por asperos penedos,<br> + Correm perennes ágoas deleitosas.<br> + Na ribeira de Buina, assi chamada,<br> + Celebrada,<br> + Porqu'em prados<br> + Esmaltados<br> + Com frescura<br> + De verdura,<br> + Assi se mostra amena, assi graciosa,<br> + Qu'excede a qualquer outra mais formosa;<br> + As correntes se vem, que acceleradas,<br> + As hervas regalando e as boninas,<br> + Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas,<br> + Por diversas ribeiras derivadas.<br> + Com mil brancas conchinhas a aurea areia<br> + Bem se arreia;<br> + Voão aves;<br> + Mil suaves<br> + Passarinhos<br> + Nos raminhos<br> + Acordemente estão sempre cantando,<br> + Com doce accento os ares abrandando.<br> + O doce rouxinol n'hum ramo canta,<br> + E d'outro o pintasirgo lhe responde;<br> + A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,<span class="pn" + ><a name="pag_353">{353}</a></span><br> + O caçador sentindo, se levanta:<br> + Voando vai ligeira mais que o vento;<br> + Outro assento<br> + Vai buscando;<br> + Porém quando<br> + Vai fugindo;<br> + Retinindo,<br> + Traz ella mais veloz a setta corre,<br> + De que ferida logo cahe e morre.<br> + Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,<br> + Co'o peito ensanguentado anda voando,<br> + Cibato para o ninho indo buscando;<br> + A leda codorniz vem ao reclamo<br> + Do sagaz caçador, que a rede estende,<br> + E pretende<br> + Com engano<br> + Fazer dano<br> + Á coitada,<br> + Qu'enganada<br> + D'huns esparzidos grãos de louro trigo,<br> + Nas mãos vai a cahir de seu imigo.<br> + Aqui sôa a calhandra na parreira;<br> + A rôla geme; palra o estorninho;<br> + Sahe a candida pomba do seu ninho;<br> + O tordo pousa em cima da oliveira:<br> + Vão as doces abelhas susurrando,<br> + E apanhando<br> + O rocio<br> + Fresco e frio<br> + Por o prado<br> + D'herva ornado,<span class="pn" ><a name="pag_354">{354}</a></span><br> + Com que o aureo licor fazem, que deo<br> + Á humana gente a indústria d'Aristeo.<br> + Aqui as uvas luzidas, penduradas<br> + Das pampinosas vides, resplandecem;<br> + As frondiferas árvores se offrecem<br> + Com differentes fructos carregadas:<br> + Os peixes n'ágoa clara andão saltando,<br> + Levantando<br> + As pedrinhas,<br> + E as conchinhas<br> + Rubicundas,<br> + Que as jucundas<br> + Ondas comsigo trazem, crepitando<br> + Por a praia alva com ruido brando.<br> + Aqui por entre as serras se levantão<br> + Animaes Calidoneos, e os veados<br> + Na fugida inda mal assegurados,<br> + Porque do som dos proprios pés s'espantão.<br> + Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa<br> + Da frondosa<br> + Breve mata,<br> + Donde a cata<br> + Cão ligeiro.<br> + Mas primeiro<br> + Qu'ella ao contrário férvido s'entregue,<br> + Ás vezes deixa em branco a quem a segue.<br> + Luzem as brancas e purpúreas flores,<br> + Com que o brando Favonio a terra esmalta;<br> + O formoso jacintho alli não falta,<br> + Lembrado dos antiguos seus amores.<br> + Inda na flor se mostrão esculpidos<span class="pn" + ><a name="pag_355">{355}</a></span><br> + Os gemidos:<br> + Aqui Flora<br> + Sempre mora;<br> + E com rosas<br> + Mais formosas,<br> + Com lirios e boninas mil fragrantes,<br> + Alegra os seus amores circumstantes.<br> + Aqui Narciso em líquido crystal<br> + Se namora de sua formosura:<br> + Nelle as pendentes ramas da'spessura<br> + Debuxando-se estão ao natural.<br> + Adonis, com que a linda Cytherêa<br> + Se recrêa,<br> + Bem florido,<br> + Convertido<br> + Na bonina,<br> + Qu'Erycina<br> + Por imagem deixou de qual sería<br> + Aquelle por quem ella se perdia.<br> + Lugar alegre, fresco, accommodado<br> + Para se deleitar qualquer amante,<br> + A quem com sua ponta penetrante<br> + O cego Amor tivesse derribado;<br> + E para memorar ao som das ágoas<br> + Suas mágoas<br> + Amorosas,<br> + As cheirosas<br> + Flores vendo,<br> + Escolhendo,<br> + Para fazer preciosas mil capellas,<br> + E dar por grão penhor a Nymphas bellas.<span class="pn" + ><a name="pag_356">{356}</a></span><br> + Eu dellas, por penhor de meus amores,<br> + Huma capella á minha deosa dava:<br> + Que lhe queria bem, bem lhe mostrava<br> + O bem-mequeres entre tantas flores:<br> + Porém, como se fôra mal-mequeres,<br> + Os poderes<br> + Da crueldade<br> + Na beldade<br> + Bem mostrou;<br> + Desprezou<br> + A dadiva de flores; não por minha,<br> + Mas porque muitas mais ella em si tinha.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0121700000">CANÇÃO XVII.</a> </h2> + +<blockquote> + A vida ja passei assaz contente,<br> + Livre tinha a vontade e o pensamento,<br> + Sem receios d'Amor, nem da Ventura:<br> + Mas isto foi hum bem d'hum só momento;<br> + E á minha custa vejo claramente,<br> + Que a vida não dá algum de muita dura.<br> + No tempo em qu'eu vivia mais segura<br> + D'Amor e seu cuidado,<br> + Por me ver n'hum estado<br> + Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte;<br> + Não sinto por qual arte<br> + Me vejo entregue a elle de tal sorte,<br> + Qu'em quanto tarda a morte,<span class="pn" ><a name="pag_357">{357}</a></span><br> + A esperança do bem tenho perdida.<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<br> + Quantas vezes eu triste aqui ouvia<br> + O meu Felicio, e outros mil pastores,<br> + Queixar-se em vão de minha crueldade!<br> + E mais surda então eu a seus clamores,<br> + Que aspide surda, ou surda penedia,<br> + Julgava os seus amores por vaidade.<br> + Agora em pago disto a liberdade,<br> + A vontade e o desejo<br> + De todo entregue vejo<br> + A quem, inda que brade, não responde;<br> + Pois vejo que s'esconde<br> + Ja debaixo da terra este qu'eu chamo,<br> + Que he aquelle a quem amo,<br> + Aquelle a quem agora estou rendida.<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<br> + Que gloria, Amor cruel, com meu tormento,<br> + Que louvor a teu nome accrescentaste?<br> + Ou que te constrangeo a tal crueza,<br> + Que com tal pressa esta alma sujeitaste<br> + A hum mal, onde não basta o soffrimento?<br> + Mas se, Amor, es cruel de natureza,<br> + Bastava usar comigo da aspereza<br> + Que usas com outra gente:<br> + Mas tu como somente<br> + De ver-me estar morrendo te contentas,<br> + Quando mais me atormentas,<br> + Então desejas mais d'atormentar-me;<br> + E não queres matar-me<span class="pn" ><a name="pag_358">{358}</a></span><br> + Porque este mal de mi se não despida.<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<br> + Onde cousa acharei que alegre veja?<br> + A quem chamarei ja que me responda?<br> + Quem me dará remedio á dor presente?<br> + Não ha bem, que de mi ja não s'esconda;<br> + Nem algum verei ja, que a mi o seja,<br> + Porqu'está quem o foi da vida ausente.<br> + Eu alguma não vi tão descontente,<br> + Que Amor tão mal tratasse,<br> + Qu'inda não esperasse<br> + A seus males remedio achar vivendo:<br> + Eu só vivo soffrendo<br> + Hum mal tão grave e tão desesperado,<br> + Que tanto he mais pezado,<br> + Quanto a vida com elle he mais comprida.<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<br> + Suaves ágoas, dura penedia,<br> + Arvoredo sombrio, verde prado,<br> + Donde eu ja tive livre o pensamento;<br> + Frescas flores; e vós, meu manso gado,<br> + Que ja m'acompanhastes na alegria,<br> + Não me deixeis agora no tormento.<br> + Se do mal meu vos toca sentimento,<br> + Dae-me par'elle ajuda,<br> + Qu'eu tenho a lingua muda,<br> + O alento me vai ja desamparando.<br> + Mas quando (ai triste!) quando<br> + D'hum dia hum'hora me virá contente,<br> + Qu'eu te veja presente,<span class="pn" ><a name="pag_359">{359}</a></span><br> + Pastor meu, e comtigo est'alma unida?<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<br> + Mas não sei se he sobrado atrevimento<br> + Querer-se est'alma minha unir comtigo,<br> + Pois della foste ja tão desprezado.<br> + Amor me livrará deste perigo;<br> + Que despois que lá vires meu tormento,<br> + Creio que t'haverás por bem vingado.<br> + E s'inda em ti durar o amor passado,<br> + E aquella fé tão pura,<br> + Eu estou bem segura<br> + Que has lá de receber-me brandamente.<br> + Aprenda em mi a gente<br> + Quão cara huma isenção com Amor custa:<br> + A pena dá bem justa<br> + A hum'alma que lhe he pouco agradecida.<br> + Ai quão devagar passa a triste vida!<span class="pn" + ><a name="pag_360">{360}</a></span></blockquote> +</div> + +<div id="odes"> +<h1><a name="SECTION013000000">ODES.</a> </h1> + +<h2><a name="SECTION013010000">ODE I.</a></h2> + +<blockquote> + Detem hum pouco, Musa, o largo pranto<br> + Que Amor te abre do peito;<br> + E vestida de rico e ledo manto,<br> + Demos honra e respeito<br> + Áquella, cujo objeito<br> + Todo o mundo allumia,<br> + Trocando a noite escura em claro dia.<br> + O Delia, que a pezar da nevoa grossa,<br> + Co'os teus raios de prata<br> + A noite escura fazes que não possa<br> + Encontrar o que trata,<br> + E o que n'alma retrata<br> + Amor por teu divino<br> + Raio, por qu'endoudeço e desatino:<br> + Tu, que de formosissimas estrellas<br> + Corôas e rodeias<br> + Tua candida fronte e faces bellas;<br> + E os campos formoseias<br> + Co'as rosas que semeias,<br> + Co'as boninas que gera<br> + O teu celeste humor na primavera:<br> + Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio<span class="pn" + ><a name="pag_361">{361}</a></span><br> + Suas sombras formosas;<br> + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio<br> + As mais purpureas rosas;<br> + E as drogas mais cheirosas<br> + Desse nosso Oriente<br> + Guarda a felice Arabia mais contente.<br> + De qual panthera, ou tigre, ou leopardo<br> + As asperas entranhas<br> + Não temêrão teu fero e agudo dardo,<br> + Quando por as montanhas<br> + Mais remotas e estranhas<br> + Ligeira atravessavas,<br> + Tão formosa que a Amor d'amor matavas?<br> + Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos<br> + Furtos de purídades,<br> + Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos,<br> + As conformes vontades,<br> + Humas por saudades,<br> + Outras por crus indicios<br> + Fazem das proprias vidas sacrificios:<br> + Ja veio Endymião por estes montes<br> + O ceo, suspenso, olhando,<br> + E teu nome, co'os olhos feitos fontes,<br> + Em vão sempre chamando,<br> + Pedindo (suspirando)<br> + Mercês á tua beldade,<br> + Sem que ache em ti hum'hora piedade.<br> + Por ti feito pastor de branco gado<br> + Nas selvas solitarias,<br> + Só de seu pensamento acompanhado,<br> + Conversa as alimarias,<span class="pn" ><a name="pag_362">{362}</a></span><br> + De todo Amor contrárias,<br> + Mas não como ti duras,<br> + Onde lamenta e chora desventuras.<br> + Das castas virgens sempre os altos gritos,<br> + Clara Lucina, ouviste,<br> + Renovando-lhe as fôrças e os espritos:<br> + Mas os daquelle triste,<br> + Ja nunca consentiste<br> + Ouvi-los hum momento,<br> + Para ser menos grave o seu tormento.<br> + Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas<br> + D'hum tão fiel amante!<br> + Ólha como suspirão estas ondas,<br> + E como o velho Atlante<br> + O seu collo arrogante<br> + Move piedosamente,<br> + Ouvindo a minha voz fraca e doente.<br> + Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me,<br> + Pois minhas queixas digo<br> + A quem ja ergueo a mão para matar-me,<br> + Como a cruel imigo?<br> + Mas eu meu fado sigo,<br> + Que a isto me destina,<br> + E qu'isto só pretende e só m'ensina.<br> + Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!<br> + Mas eu sempre porfio<br> + Cada vez mais na minha teima insana.<br> + Tendo livre alvedrio,<br> + Não fujo o desvario;<br> + Porque este em que me vejo<br> + Engana co'a esperança o meu desejo.<span class="pn" + ><a name="pag_363">{363}</a></span><br> + Oh quanto melhor fôra que dormissem<br> + Hum somno perennal<br> + Estes meus olhos tristes, e não vissem<br> + A causa de seu mal<br> + Fugir, a hum tempo tal,<br> + Mais que d'antes proterva,<br> + Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva!<br> + Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo,<br> + Com mil mortes ao lado;<br> + E quando morro mais, então mais vivo!<br> + Porque t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e ordenado<br> + Meu infelice fado,<br> + Que quando me convida<br> + A morte, para a morte tenha vida.<br> + Secreta noite amiga, a que obedeço,<br> + Estas rosas (por quanto<br> + Meus queixumes me ouviste) te offereço,<br> + E este fresco amaranto,<br> + Humido ja do pranto,<br> + E lagrimas da esposa<br> + Do cioso Titão, branca e formosa.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013020000">ODE II.</a></h2> + +<blockquote> + Tão suave, tão fresca e tão formosa,<br> + Nunca no ceo sahio<br> + A Aurora no princípio do verão,<br> + Ás flores dando a graça costumada,<span class="pn" + ><a name="pag_364">{364}</a></span><br> + Como a formosa mansa fera, quando<br> + Hum pensamento vivo m'inspirou,<br> + Por quem me desconheço.<br> + Bonina pudibunda, ou fresca rosa,<br> + Nunca no campo abrio,<br> + Quando os raios do sol no Touro estão,<br> + De côres differentes esmaltada,<br> + Como esta flor, que os olhos inclinando,<br> + O soffrimento triste costumou<br> + Á pena que padeço.<br> + Ligeira, bella Nympha, linda, irosa,<br> + Não creio que seguio<br> + Satyro, cujo brando coração<br> + D'amores commovesse fera irada,<br> + Qu'assi fosse fugindo e desprezando<br> + Este tormento, donde Amor mostrou<br> + Tão próspero comêço.<br> + Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa<br> + Natura produzio,<br> + Qu'iguale aquella fórma e condição,<br> + Que as dores em que vivo estima em nada.<br> + Mas com tão doce gesto, irado e brando,<br> + O sentimento, e a vida m'enlevou,<br> + Que a pena lhe agradeço.<br> + Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa,<br> + Aquillo que a alma vio<br> + Entre a doce dureza e mansidão,<br> + Primores de belleza desusada;<br> + Mas quando quiz voar ao ceo cantando,<br> + Entendimento e engenho me cegou<br> + Luz de tão alto preço.<span class="pn" ><a name="pag_365">{365}</a></span><br> + Naquella alta pureza deleitosa<br> + Que ao mundo s'encobrio;<br> + E nos olhos Angelicos, que são<br> + Senhores desta vida destinada;<br> + E naquelles cabellos, que soltando<br> + Ao manso vento, a vida me enredou,<br> + M'alegro e m'entristeço.<br> + Saudade e suspeita perigosa,<br> + Que Amor constituio<br> + Por castigo daquelles que se vão;<br> + Temores, penas d'alma desprezada,<br> + Fera esquivança, que me vai tirando<br> + O mantimento que me sustentou,<br> + A tudo me offereço.<br> + Amor isento a huns olhos m'entregou,<br> + Nos quaes a Deos conheço.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013030000">ODE III.</a></h2> + +<blockquote> + Se de meu pensamento<br> + Tanta razão tivera d'alegrar-me,<br> + Quanto de meu tormento<br> + A tenho de queixar-me,<br> + Puderas, triste lyra, consolar-me.<br> + E minha voz cansada,<br> + Qu'em outro tempo foi alegre e pura,<br> + Não fôra assi tornada,<br> + Com tanta desventura,<br> + Tão rouca, tão pezada, nem tão dura.<span class="pn" + ><a name="pag_366">{366}</a></span><br> + A ser como sohia,<br> + Pudera levantar vossos louvores;<br> + Vós, minha Hierarchia,<br> + Ouvíreis meus amores,<br> + Qu'exemplo são ao mundo ja de dores.<br> + Alegres meus cuidados,<br> + Contentes dias, horas e momentos,<br> + Oh quanto bem lembrados<br> + Sois de meus pensamentos,<br> + Reinando agora em mi duros tormentos!<br> + Ai gostos fugitivos!<br> + Ai gloria ja acabada e consumida!<br> + Ai males tão esquivos!<br> + Qual me deixais a vida!<br> + Quão cheia de pezar! quão destruida!<br> + Mas como não he morta<br> + Ja esta vida? como tanto dura?<br> + Como não abre a porta<br> + A tanta desventura,<br> + Qu'em vão com seu poder o tempo cura?<br> + Mas para padecê-la<br> + S'esforça o meu sogeito e convalece;<br> + Que só para dizê-la,<br> + A fôrça me fallece,<br> + E de todo me cansa e m'enfraquece.<br> + Oh bem affortunado<br> + Tu, que alcançaste com lyra toante,<br> + Orphêo, ser escutado<br> + Do fero Rhadamante,<br> + E co'os teus olhos ver a doce amante!<br> + As infernaes figuras<span class="pn" ><a name="pag_367">{367}</a></span><br> + Moveste com teu canto docemente;<br> + As tres Furias escuras,<br> + Implacaveis á gente,<br> + Applacadas se vírão derepente.<br> + Ficou como pasmado<br> + Todo o Estygio Reino co'o teu canto;<br> + E quasi descansado<br> + De seu eterno pranto,<br> + Cessou de alçar Sisypho o grave canto.<br> + A ordem se mudava<br> + Das penas que regendo está Plutão;<br> + Em descanso se achava<br> + A roda de Ixião,<br> + E em glória quantas penas alli são.<br> + De todo ja admirada<br> + A Rainha infernal e commovida,<br> + Te deo a desejada<br> + Esposa, que perdida<br> + De tantos dias ja tivera a vida.<br> + Pois minha desventura,<br> + Como ja não abranda hum'alma humana,<br> + Qu'he contra mi mais dura,<br> + E inda mais deshumana,<br> + Que o furor de Callirrhoë profana?<br> + Oh crua, esquiva e fera,<br> + Duro peito, cruel e empedernido,<br> + D'alguma tigre fera<br> + Lá na Hircania nascido,<br> + Ou d'entre as duras rochas produzido!<br> + Mas que digo, coitado!<br> + E de quem fio em vão minhas querellas?<span class="pn" + ><a name="pag_368">{368}</a></span><br> + Só vós, ó do salgado,<br> + Humido Reino bellas<br> + E claras Nymphas, condoei-vos dellas.<br> + E d'ouro guarnecidas<br> + Vossas louras cabeças levantando<br> + Sôbre as ondas erguidas,<br> + As tranças gottejando,<br> + Sahindo todas, vinde a ver qual ando.<br> + Sahi em companhia,<br> + E cantando e colhendo as lindas flores;<br> + Vereis minha agonia,<br> + Ouvireis meus amores,<br> + E sentireis meus prantos, meus clamores.<br> + Vereis o mais perdido<br> + E mais infeliz corpo qu'he gerado;<br> + Qu'está ja convertido<br> + Em chôro, e neste estado<br> + Somente vive nelle o seu cuidado.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013040000">ODE IV.</a></h2> + +<blockquote> + Formosa fera humana,<br> + Em cujo coração soberbo e rudo<br> + A fôrça soberana<br> + Do vingativo Amor, que vence tudo,<br> + As pontas amoladas<br> + De quantas settas tinha t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e quebradas:<br> + Amada Circe minha,<span class="pn" ><a name="pag_369">{369}</a></span><br> + Postoque minha não, com tudo amada;<br> + A quem hum bem que tinha<br> + Da doce liberdade desejada,<br> + Pouco a pouco entreguei,<br> + E se mais tenho, mais entregarei;<br> + Pois natureza irosa<br> + Da razão te deo partes tão contrárias,<br> + Que sendo tão formosa,<br> + Folgues de te queimar em flammas várias,<br> + Sem arder em nenh<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a<br> + Mais qu'em quanto allumia o mundo a l<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a;<br> + Pois triumphando vás<br> + Com diversos despojos de perdidos,<br> + Que tu privando estás<br> + De razão, de juizo e de sentidos,<br> + E quasi a todos dando<br> + Aquelle bem que a todos vás negando;<br> + Pois tanto te contenta<br> + Ver o nocturno moço, em ferro envolto,<br> + Debaixo da tormenta<br> + De Jupiter em ágoa e vento sôlto,<br> + Á porta, que impedido<br> + Lhe t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e seu bem, de mágoa adormecido;<br> + Porque não tens receio<br> + Que tantas insolencias e esquivanças<br> + A deosa, que põe freio<br> + A soberbas e doudas esperanças,<br> + Castigue com rigor,<br> + E contra ti se accenda o fero Amor?<br> + Ólha a formosa Flora;<br> + De despojos de mil suspiros rica,<span class="pn" ><a name="pag_370">{370}</a></span> + <br> + Por o Capitão chora,<br> + Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica,<br> + E foi sublime tanto,<br> + Que altares lhe deo Roma e nome santo.<br> + Ólha em Lesbos aquella<br> + No seu salteiro insigne conhecida;<br> + Dos muitos que por ella<br> + Se perdêrão, perdeo a chara vida<br> + Na rocha que se infama<br> + Com ser remedio extremo de quem ama.<br> + Por o moço escolhido,<br> + Onde mais se mostrárão as tres Graças;<br> + Que Venus escondido<br> + Para si teve hum tempo entre as alfaças,<br> + Pagou co'a morte fria<br> + A má vida que a muitos ja daria.<br> + E, vendo-se deixada<br> + Daquelle por quem tantos ja deixára,<br> + Se foi, desesperada,<br> + Precipitar da infame rocha chara:<br> + Que o mal de mal querida<br> + Sabe que vida lhe he perder a vida.<br> + Tomae-me, bravos mares;<br> + Vós me tomae, pois outrem me deixou.<br> + Disse: e dos altos ares<br> + Pendendo, com furor s'arremessou.<br> + Acude tu, suave,<br> + Acude, poderosa e divina ave.<br> + Toma-a nas azas tuas,<br> + Menino pio, illesa e sem perigo,<br> + Antes que nestas cruas<span class="pn" ><a name="pag_371">{371}</a></span><br> + Ágoas cahindo apague o fogo antigo.<br> + He digno amor tamanho<br> + De viver, e ser tido por estranho.<br> + Não: qu'he razão que seja<br> + Para as lobas isentas, que amor vendem,<br> + Exemplo onde se veja<br> + Que tambem ficão presas as que prendem.<br> + Assi o deo por sentença<br> + Nemesis, que Amor quiz que tudo vença.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013050000">ODE V.</a></h2> + +<blockquote> + Nunca manhãa suave<br> + Estendendo seus raios por o mundo,<br> + Despois de noite grave,<br> + Tempestuosa, negra, em mar profundo<br> + Alegrou tanto nao, que ja no fundo<br> + Se vio em mares grossos,<br> + Como a luz clara a mi dos olhos vossos.<br> + Aquella formosura,<br> + Que só no virar delles resplandece;<br> + E com que a sombra escura<br> + Clara se faz, e o campo reverdece;<br> + Quando o meu pensamento se entristece,<br> + Ella e sua viveza<br> + Me desfazem a nuvem da tristeza.<br> + O meu peito, onde estais,<br> + He para tanto bem pequeno vaso;<span class="pn" ><a name="pag_372">{372}</a></span> + <br> + Quando acaso virais<br> + Os olhos, que de mi não fazem caso,<br> + Todo, gentil Senhora, então me abraso<br> + Na luz que me consume,<br> + Bem como a borboleta faz no lume.<br> + Se mil almas tivera<br> + Que a tão formosos olhos entregára,<br> + Todas quantas pudera<br> + Por as pestanas delles pendurára;<br> + E, enlevadas na vista pura e clara,<br> + (Postoque disso indinas)<br> + Se andárão sempre vendo nas meninas.<br> + E vós, que descuidada<br> + Agora vivereis de taes querellas,<br> + D'almas minhas cercada,<br> + Não pudesseis tirar os olhos dellas;<br> + Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas<br> + A dor que lhe mostrassem,<br> + Tantas huma alma só não abrandassem.<br> + Mas, pois o peito ardente<br> + Huma só póde ter, formosa Dama,<br> + Basta que esta somente,<br> + Como se fossem mil e mil, vos ama,<br> + Para que a dor de sua ardente flama<br> + Comvosco tanto possa,<br> + Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.<span class="pn" + ><a name="pag_373">{373}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION013060000">ODE VI.</a></h2> + +<blockquote> + Póde hum desejo immenso<br> + Arder no peito tanto,<br> + Que á branda e á viva alma o fogo intenso<br> + Lhe gaste as nodoas do terreno manto;<br> + E purifique em tanta alteza o esprito<br> + Com olhos immortais,<br> + Que faz que leia mais do que vê'scrito.<br> + Que a flamma, que se accende<br> + Alto, tanto allumia,<br> + Que se o nobre desejo ao bem s'estende<br> + Que nunca vio, o sente claro dia;<br> + E lá vê do que busca o natural,<br> + A graça, a viva côr,<br> + N'outra especie melhor que a corporal.<br> + Pois vós, ó claro exemplo<br> + De viva formosura,<br> + Que de tão longe cá noto e contemplo<br> + N'alma, que este desejo sobe e apura;<br> + Não creais que não vejo aquella imagem<br> + Que as gentes nunca vem,<br> + Se de humanos não tem muita vantagem.<br> + Que se os olhos ausentes<br> + Não vem a compassada<br> + Proporção, que das côres excellentes<br> + De pureza e vergonha he variada;<br> + Da qual a Poesia, que cantou<span class="pn" ><a name="pag_374">{374}</a></span><br> + Atéqui só pinturas<br> + Com mortaes formosuras igualou;<br> + Se não vem os cabellos<br> + Que o vulgo chama de ouro;<br> + E se não vem os claros olhos bellos,<br> + De quem cantão que são de sol thesouro;<br> + E se não vem do rosto as excellencias,<br> + A quem dirão que deve<br> + Rosa, e crystal, e neve as apparencias;<br> + Vem logo a graça pura,<br> + A luz alta e severa,<br> + Que he raio da divina formosura,<br> + Que n'alma imprime e fóra reverbera;<br> + Assi como crystal do sol ferido,<br> + Que por fóra derrama<br> + A recebida flamma esclarecido.<br> + E vem a gravidade,<br> + Com a viva alegria<br> + Que misturada t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e de qualidade,<br> + Que huma da outra nunca se desvia;<br> + Nem deixa de ser huma receada<br> + Por leda e por suave,<br> + Nem outra, por ser grave, muito amada.<br> + E vem do honesto siso<br> + Os altos resplandores<br> + Temperados co'o doce e ledo riso,<br> + A cujo abrir abrem no campo as flores;<br> + As palavras discretas e suaves,<br> + Das quaes o movimento<br> + Fara deter o vento e as altas aves:<br> + Dos olhos o virar<span class="pn" ><a name="pag_375">{375}</a></span><br> + Que torna tudo raso,<br> + Do qual não sabe o engenho divisar<br> + Se foi por artificio, ou feito acaso;<br> + Da presença os meneios e a postura,<br> + O andar e o mover-se,<br> + Donde póde aprender-se formosura.<br> + Aquelle não sei que,<br> + Que aspira não sei como,<br> + Qu'invisivel sahindo, a vista o vê,<br> + Mas para o comprender não lhe acha tomo;<br> + E que toda a Toscana Poesia,<br> + Que mais Phebo restaura,<br> + Em Beatriz, nem Laura nunca via:<br> + Em vós a nossa idade,<br> + Senhora, o póde ver,<br> + S'engenho, se sciencia e habilidade,<br> + Iguaes á vossa formosura der,<br> + Qual a vi no meu longo apartamento,<br> + Qual em ausencia a vejo.<br> + Taes azas dá o desejo ao pensamento!<br> + Pois se o desejo afina<br> + Hum'alma accesa tanto,<br> + Que por vós use as partes de divina;<br> + Por vós levantarei não visto canto,<br> + Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante:<br> + Que o nosso claro Tejo,<br> + Envolto hum pouco o vejo e dissonante.<br> + O campo não o esmaltão<br> + Flores, mas só abrolhos<br> + O fazem feio; e cuido que lhe faltão<br> + Ouvidos para mi, para vós olhos.<span class="pn" ><a name="pag_376">{376}</a></span> + <br> + Mas faça o que quizer o vil costume;<br> + Que o sol, qu'em vós está,<br> + Na escuridão dara mais claro lume.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013070000">ODE VII.</a></h2> + +<blockquote> + A quem darão de Pindo as moradoras,<br> + Tão doctas como bellas,<br> + Florecentes capellas<br> + De triumphante louro, ou myrto verde;<br> + Da gloriosa palma, que não perde<br> + A presumpção sublime,<br> + Nem por fôrça de pêzo algum se opprime?<br> + A quem trarão nas faldas delicadas,<br> + Rosas a roxa Cloris,<br> + Conchas a branca Doris;<br> + Estas, flores do mar; da terra aquellas,<br> + Argenteas, ruivas; brancas e amarellas,<br> + Com danças e corêas<br> + De formosas Nereidas e Napêas?<br> + A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos,<br> + Em Thebas Amphion,<br> + Em Lesbos Arion,<br> + Senão a vós, por quem restituida<br> + Se vê da Poesia ja perdida<br> + A honra e gloria igual,<br> + Senhor Dom Manoel de Portugal?<br> + Imitando os espritos ja passados,<span class="pn" + ><a name="pag_377">{377}</a></span><br> + Gentis, altos, Reais,<br> + Honra benigna dais<br> + A meu tão baixo, quão zeloso engenho.<br> + Por Mecenas a vós celebro e tenho;<br> + E sacro o nome vosso<br> + Farei, se alguma cousa em verso posso.<br> + O rudo canto meu, que resuscita<br> + As honras sepultadas,<br> + As palmas ja passadas<br> + Dos bellicosos nossos Lusitanos<br> + Para thesouro dos futuros anos,<br> + Comvosco se defende<br> + Da lei Lethêa, á qual tudo se rende.<br> + Na vossa árvore ornada d'honra e glória<br> + Achou tronco excellente<br> + A hera florecente<br> + Para a minha atéqui de baixa estima:<br> + Nelle, para trepar, s'encosta e arrima;<br> + E nella subireis<br> + Tão alto, quanto os ramos estendeis.<br> + Sempre forão engenhos peregrinos<br> + Da Fortuna invejados;<br> + Que quanto levantados<br> + Por hum braço nas azas são da Fama,<br> + Tanto por outro aquella, que os desama,<br> + Co'o pêzo e gravidade<br> + Os opprime da vil necessidade.<br> + Mas altos corações dignos d'Imperio,<br> + Que vencem a Fortuna,<br> + Forão sempre coluna<br> + Da sciencia gentil: Octaviano,<span class="pn" ><a name="pag_378">{378}</a></span> + <br> + Scipião, Alexandre e Graciano,<br> + Que vemos immortais;<br> + E vós, que o nosso seculo dourais.<br> + Pois, logo, em quanto a cithara sonora<br> + S'estimar por o mundo,<br> + Com som docto e jucundo;<br> + E em quanto produzir o Tejo e o Douro<br> + Peitos de Marte e Phebo crespo e louro,<br> + Tereis glória immortal,<br> + Senhor Dom Manoel de Portugal.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013080000">ODE VIII.</a></h2> + +<blockquote> + Aquelle unico exemplo<br> + De fortaleza heroica e ousadia,<br> + Que mereceo no templo<br> + Da Fama eterna ter perpétuo dia;<br> + O grão filho de Thetis, que dez anos<br> + Flagello foi dos miseros Troianos;<br> + Não menos ensinado<br> + Foi nas hervas e Medica polícia,<br> + Que destro e costumado<br> + No soberbo exercicio da Milicia:<br> + Assi que as mãos que a tantos morte derão,<br> + Tambem a muitos vida dar puderão.<br> + E não se desprezou<br> + Aquelle fero e indomito mancebo<br> + Das Artes qu'ensinou<span class="pn" ><a name="pag_379">{379}</a></span><br> + Para o languido corpo o intonso Phebo;<br> + Que se o temido Heitor matar podia,<br> + Tambem chagas mortaes curar sabía.<br> + Taes Artes aprendeo<br> + Do semiviro Mestre e docto velho,<br> + Onde tanto cresceo<br> + Em virtude, e em sciencia e em conselho,<br> + Que Telepho, por elle vulnerado,<br> + Só delle pôde ser despois curado.<br> + Pois vós, ó excellente<br> + E illustrissimo Conde, do ceo dado<br> + Para fazer presente<br> + D'altos Heroes o seculo passado;<br> + E em quem bem trasladada está a memoria<br> + De vossos ascendentes, a honra e glória:<br> + Postoque o pensamento<br> + Occupado tenhais na guerra infesta,<br> + Ou co'o sanguinolento<br> + Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,<br> + Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,<br> + Que qualquer delles teme o nome vosso;<br> + Favorecei a antiga<br> + Sciencia que ja Achilles estimou;<br> + Olhae que vos obriga<br> + O ver qu'em vosso tempo rebentou<br> + O fructo daquell'Orta onde florecem<br> + Plantas novas, que os doctos não conhecem.<br> + Olhae qu'em vossos anos<br> + Huma Orta produze várias hervas<br> + Nos campos Indianos,<br> + As quaes aquellas doctas e protervas,<span class="pn" + ><a name="pag_380">{380}</a></span><br> + Medêa e Circe, nunca conhecêrão,<br> + Postoque a lei da Magica excedêrão.<br> + E vêde carregado<br> + D'annos e traz a vária experiencia<br> + Hum velho, qu'ensinado<br> + Das Gangeticas Musas na sciencia<br> + Podaliria subtil, e arte sylvestre,<br> + Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.<br> + O qual está pedindo<br> + Vosso favor e amparo ao grão volume,<br> + Qu'impresso á luz sahindo,<br> + Dara da Medicina hum vivo lume;<br> + E descobrir-nos-ha segredos certos,<br> + A todos os Antiguos encobertos.<br> + Assi que não podeis<br> + Negar a que vos pede benigna aura:<br> + Que se muito valeis<br> + Na sanguinosa guerra Turca e Maura,<br> + Ajudae quem ajuda contra a morte;<br> + E sereis semelhante ao Grego forte.</blockquote> + +<h2><a name="SECTION013090000">ODE IX.</a></h2> + +<blockquote> + Fogem as neves frias<br> + Dos altos montes quando reverdecem<br> + As árvores sombrias;<br> + As verdes hervas crecem,<br> + E o prado ameno de mil côres tecem.<span class="pn" + ><a name="pag_381">{381}</a></span><br> + Zephyro brando espíra;<br> + Suas settas Amor afia agora;<br> + Progne triste suspira,<br> + E Philomela chora:<br> + O ceo da fresca terra se namora.<br> + Ja a linda Cytherêa<br> + Vem, do côro das Nymphas rodeada;<br> + A branca Pasitêa Despida e delicada,<br> + Com as duas irmãas acompanhada.<br> + Em quanto as officinas<br> + Dos Cyclopas Vulcano está queimando,<br> + Vão colhendo boninas<br> + As Nymphas, e cantando,<br> + A terra co'o ligeiro pé tocando.<br> + Desce do aspero monte<br> + Diana, ja cansada da espessura,<br> + Buscando a clara fonte,<br> + Onde por sorte dura<br> + Perdeo Actêo a natural figura.<br> + Assi se vai passando<br> + A verde Primavera e o sêcco Estio;<br> + O Outono vem entrando;<br> + E logo o Inverno frio,<br> + Que tambem passará por certo fio.<br> + Ir-se-ha embranquecendo<br> + Com a frigida neve o sêcco monte;<br> + E Jupiter chovendo<br> + Turbará a clara fonte:<br> + Temerá o marinheiro a Orionte.<br> + Porque, emfim, tudo passa;<span class="pn" ><a name="pag_382">{382}</a></span><br> + Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;<br> + E a nossa vida escassa<br> + Foge tão apressada,<br> + Que quando se começa he acabada.<br> + Que se fez dos Troianos<br> + Heitor temido, Enêas piedoso?<br> + Consumírão-te os anos,<br> + Ó Cresso tão famoso,<br> + Sem te valer teu ouro precioso.<br> + Todo o contentamento<br> + Crias qu'estava em ter thesouro ufano!<br> + Oh falso pensamento!<br> + Que á custa de teu dano<br> + Do sabio Solon crêste o desengano.<br> + O bem que aqui se alcança,<br> + Não dura por passante, nem por forte:<br> + Que a bem-aventurança<br> + Duravel, de outra sorte<br> + Se ha de alcançar na vida para a morte.<br> + Porque, emfim, nada basta<br> + Contra o terrivel fim da noite eterna;<br> + Nem póde a deosa casta<br> + Tornar á luz superna<br> + Hippolyto da escura sombra averna.<br> + Nem Thesêo esforçado,<br> + Ou com manha, ou com fôrça valerosa,<br> + Livrar póde o ousado<br> + Perithoo da espantosa<br> + Prisão Lethêa escura e tenebrosa.<span class="pn" ><a name="pag_383">{383}</a></span> +</blockquote> + +<h2><a name="SECTION0130100000">ODE X.</a></h2> + +<blockquote> + Aquelle moço fero<br> + Nas Pelethronias covas doctrinado<br> + Do Centauro severo;<br> + Cujo peito esforçado<br> + Com tutanos de tigres foi criado.<br> + N'ágoa fatal menino<br> + O lava a mãe, presaga do futuro,<br> + Para que ferro fino<br> + Não passe o peito duro<br> + Que de si mesmo a si se t<span class="accent"><sup>~</sup>e</span>e por muro.<br> + A carne lh'endurece,<br> + Porque não seja d'armas offendida.<br> + Cega! pois não conhece<br> + Que póde haver ferida<br> + N'alma, e que menos doe perder a vida.<br> + Que donde o braço irado<br> + Dos Troianos passava arnez e escudo,<br> + Alli se vio passado<br> + Daquelle ferro agudo<br> + Do menino qu'em todos póde tudo.<br> + Alli se vio captivo<br> + Da captiva gentil que serve e adora;<br> + Alli se vio que vivo<br> + Em vivo fogo mora,<br> + Porque de seu senhor a vê senhora.<br> + Ja toma a branda lyra<span class="pn" ><a name="pag_384">{384}</a></span><br> + Na mão que a dura Pelias meneára;<br> + Alli canta e suspira,<br> + Não como lh'ensinára<br> + O velho, mas o moço que o cegára.<br> + Pois, logo, quem culpado<br> + Será, se de pequeno offerecido<br> + Foi todo a seu cuidado;<br> + No berço instituido<br> + A não poder deixar de ser ferido?<br> + Quem logo fraco infante<br> + D'outro mais poderoso foi sujeito,<br> + E para cego amante<br> + Desd'o princípio feito,<br> + Com lagrimas banhando o tenro peito?<br> + Se agora foi ferido<br> + Da penetrante ponta e fôrça d'herva;<br> + E se Amor he servido<br> + Que sirva á linda serva,<br> + Para quem minha estrella me reserva?<br> + O gesto bem talhado;<br> + O airoso meneio e a postura;<br> + O rosto delicado,<br> + Que na vista figura<br> + Que s'ensina por arte a formosura,<br> + Como póde deixar<br> + De render a quem tenha entendimento?<br> + Que quem não penetrar<br> + Hum doce gesto, attento,<br> + Não lhe he nenhum louvor viver isento.<br> + Aquelles, cujos peitos<br> + Ornou d'altas sciencias o destino.<span class="pn" + ><a name="pag_385">{385}</a></span><br> + Se vírão mais sujeitos<br> + Ao cego e vão menino,<br> + Arrebatados do furor divino.<br> + O Rei famoso Hebreio,<br> + Que mais que todos soube, mais amou;<br> + Tanto, que a deos alheio<br> + Falso sacrificou.<br> + Se muito soube e teve, muito errou.<br> + E o grão Sabio qu'ensina,<br> + Passeando, os segredos da Sophia,<br> + Á baixa concubina<br> + Do vil Eunuco Hermia<br> + Aras ergueo, que aos deoses só devia.<br> + Aras ergue a quem ama<br> + O Philosopho insigne namorado.<br> + Doe-se a perpétua fama,<br> + E grita qu'he culpado:<br> + Da lesa divindade he accusado.<br> + Ja foge donde habita;<br> + Ja paga a culpa enorme com destêrro.<br> + Mas, oh grande desdita!<br> + Bem mostra tamanho êrro<br> + Que doctos corações não são de ferro.<br> + Antes na altiva mente,<br> + No subtil sangue e engenho mais perfeito<br> + Ha mais conveniente<br> + E conforme sogeito,<br> + Onde s'imprima o brando e doce affeito.<span class="pn" + ><a name="pag_386">{386}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0130110000">ODE XI.</a></h2> + +<blockquote> + Naquelle tempo brando<br> + Em que se vê do mundo a formosura,<br> + Que Thetis descansando<br> + De seu trabalho está, formosa e pura,<br> + Cansava Amor o peito<br> + Do mancebo Peleo d'hum duro affeito.<br> + Com impeto forçoso<br> + Lhe havia ja fugido a bella Nympha,<br> + Quando no tempo aquoso<br> + Noto irado revolve a clara lympha,<br> + Serras no mar erguendo,<br> + Que os cumes das da terra vão lambendo.<br> + Esperava o mancebo,<br> + Com a profunda dor que n'alma sente,<br> + Hum dia em que ja Phebo<br> + Começava a mostrar-se ao mundo ardente,<br> + Soltando as tranças d'ouro,<br> + Em que Clicie d'amor faz seu thesouro.<br> + Era no mez que Apolo<br> + Entre os irmãos celestes passa o tempo:<br> + O vento enfreia Eolo,<br> + Para que o deleitoso passatempo<br> + Seja quieto e mudo;<br> + Que a tudo Amor obriga, e vence tudo.<br> + O luminoso dia<br> + Os amorosos corpos despertava<br> + Á cega idolatria,<br> + Que ao peito mais contenta e mais aggrava;<span class="pn" + ><a name="pag_387">{387}</a></span><br> + Onde o cego menino<br> + Faz que os humanos crêão que he divino:<br> + Quando a formosa Nympha,<br> + Com todo o ajuntamento venerando,<br> + Na crystallina lympha<br> + O corpo crystallino está lavando;<br> + O qual nas ágoas vendo,<br> + Nelle, alegre de o ver, s'está revendo:<br> + O peito diamantino,<br> + Em cuja branca teta Amor se cria;<br> + O gesto peregrino,<br> + Cuja presença torna a noite em dia;<br> + A graciosa boca<br> + Que a Amor com seus amores mais provoca;<br> + Os rubins graciosos;<br> + As pérolas qu'escondem vivas rosas<br> + Dos jardins deleitosos,<br> + Que o ceo plantou em faces tão formosas;<br> + O transparente collo,<br> + Que ciumes a Daphne faz d'Apollo;<br> + O subtil mantimento<br> + Dos olhos, cuja vista a Amor cegou;<br> + A Amor que, com tormento<br> + Glorioso, nunca delles se apartou,<br> + Pois elles de contino<br> + Nas meninas o trazem por menino;<br> + Os fios derramados<br> + Daquelle ouro que o peito mais cobiça,<br> + Donde Amor enredados<br> + Os corações humanos traz e atiça,<br> + E donde com desejo<span class="pn" ><a name="pag_388">{388}</a></span><br> + Mais ardente começa a ser sobejo.<br> + O mancebo Peleo,<br> + Que de Neptuno estava aconselhado,<br> + Vendo na terra o ceo<br> + Em tão bella figura trasladado,<br> + Mudo hum pouco ficou,<br> + Porque Amor logo a falla lhe tirou.<br> + Emfim, querendo ver<br> + Quem tanto mal de longe lhe fazia,<br> + A vista foi perder,<br> + Porque de puro amor, Amor não via:<br> + Vio-se assi cego e mudo<br> + Por a fôrça d'Amor que póde tudo.<br> + Agora s'apparelha<br> + Para a batalha; agora remettendo;<br> + Agora s'aconselha;<br> + Agora vai; agora está tremendo;<br> + Quando ja de Cupido<br> + Com nova setta o peito vio ferido.<br> + Remette o moço logo<br> + Para ond'estava a chamma sem socêgo;<br> + E co'o sobejo fogo<br> + Quanto mais perto estava, então mais cego:<br> + E cego, e co'hum suspiro,<br> + Na formosa donzella emprega o tiro.<br> + Vingado assi Peleo,<br> + Nasceo deste amoroso ajuntamento<br> + O forte Larisseo,<br> + Destruição do Phrygio pensamento;<br> + Que, por não ser ferido,<br> + Foi nas ágoas Estygias submergido.<span class="pn" +><a name="pag_389">{389}</a></span></blockquote> + +<h2><a name="SECTION0130120000">ODE XII.</a></h2> + +<blockquote> + Ja a calma nos deixou<br> + Sem flores as ribeiras deleitosas;<br> + Ja de todo seccou<br> + Candidos lirios, rubicundas rosas:<br> + Fogem do grave ardor os passarinhos<br> + Para o sombrio amparo de seus ninhos.<br> + Meneia os altos freixos<br> + A branda viração de quando em quando;<br> + E d'entre vários seixos<br> + O liquido crystal sahe murmurando:<br> + As gottas, que das alvas pedras sáltão,<br> + O prado, como pérolas, esmaltão.<br> + Da caça ja cansada<br> + Busca a casta Titanica a espessura,<br> + Onde á sombra inclinada<br> + Logre o doce repouso da verdura,<br> + E sôbre o seu cabello ondado e louro<br> + Deixe cahir o bosque o seu thesouro.<br> + O ceo desimpedido<br> + Mostrava o lume eterno das estrellas;<br> + E de flores vestido<br> + O campo, brancas, roxas e amarellas,<br> + Alegre o bosque tinha, alegre o monte,<br> + O prado, o arvoredo, o rio, a fonte.<br> + Porém como o menino,<br> + Que a Jupiter por a aguia foi levado,<br> + No cêrco crystallino<span class="pn" ><a name="pag_390">{390}</a></span><br> + For do amante de Clicie visitado;<br> + O bosque chorará, chorará a fonte,<br> + O rio, o arvoredo, o prado, o monte.<br> + O mar, que agora brando<br> + He das Nereidas candidas cortado,<br> + Logo se irá mostrando<br> + Todo em crespas escumas empolado:<br> + O soberbo furor de negro vento<br> + Fara por toda parte movimento.<br> + Lei he da natureza<br> + Mudar-se desta sorte o tempo leve:<br> + Succeder á belleza<br> + Da Primavera o fructo; a elle a neve;<br> + E tornar outra vez por certo fio<br> + Outono, Inverno, Primavera, Estio.<br> + Tudo, emfim, faz mudança<br> + Quanto o claro sol vê, quanto allumia;<br> + Não se acha segurança<br> + Em tudo quanto alegra o bello dia:<br> + Mudão-se as condições, muda-se a idade,<br> + A bonança, os estados e a vontade.<br> + Somente a minha imiga<br> + A dura condição nunca mudou;<br> + Para que o mundo diga<br> + Que nella lei tão certa se quebrou:<br> + Em não ver-me ella só sempre está firme,<br> + Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.<br> + Mas ja soffrivel fôra<br> + Qu'em matar-me ella só mostre firmeza,<br> + Se não achára agora<br> + Tambem em mi mudada a natureza;<span class="pn" ><a name="pag_391">{391}</a></span> + <br> + Pois sempre o coração tenho turbado,<br> + Sempre d'escuras nuvens rodeado.<br> + Sempre exprimento os fios<br> + Qu'em contino receio Amor me manda;<br> + Sempre os dous caudaes rios,<br> + Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda,<br> + Correm, sem chegar nunca o Verão brando,<br> + Que tamanha aspereza vá mudando.<br> + O sol sereno e puro,<br> + Que no formoso rosto resplandece,<br> + Envolto em manto escuro<br> + Do triste esquecimento, não parece;<br> + Deixando em triste noite a triste vida<br> + Que nunca de luz nova he soccorrida.<br> + Porém seja o que for:<br> + Mude-se por meu damno a natureza;<br> + Perca a inconstancia Amor;<br> + A Fortuna inconstante ache firmeza;<br> + Tudo mudável seja contra mi,<br> + Mas eu firme estarei no qu'emprendi.<span class="pn" + ><a name="pag_392">{392}</a></span></blockquote> +</div> + +<p><span class="pn" ><a name="pag_393">{393}</a></span></p> + +<p> </p> + +<div id="notas"> +<h1 style="font-size: 3em;"><a name="SECTION020000000">NOTAS.</a></h1> + +<p><span class="pn" ><a name="pag_394">{394}</a><br><a name="pag_395">{395}</a></span></p> + +<h1><a name="SECTION021000000">NOTAS.</a></h1> + +<p><a href="#pag_4">Pag. 4. V. 4.</a> <em>Que rompesse os Mahometicos +arnezes</em>] Faria e Sousa. <em>Rompessem os Mahometicos arnezes</em>] 3.ª ed. +A primeira lição he viciosa, a segunda correcta; e por isso e por ser mais +antiga a adoptámos.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_14">P. 14. V. 24.</a> <em>Ha de acabar o mal destes +amores</em>.] Todas as ed. Mas o vício he manifesto, porque a tenção, +desacompanhada da obra, nada póde acabar. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Mas se vossa tenção com minha morte<br> + He de acabar o mal destes amores etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_29">P. 29. V. 13.</a> <em>Mas em vão não vereis, porque +vereis</em>] Faria e Sousa. <em>Mas em vão não vireis, porque achareis</em>] +3.ª ed. Adoptámos esta lição, que he a do poeta.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_30">P. 30. V. 10.</a> <em>O pensamento da aspereza vossa</em>] +Faria e Sousa. <em>O pensamento e a aspereza vossa</em>] 3.ª ed. Porque +rejeitaria Faria e Sousa esta lição? ou que entenderia elle por <em>pensamento +da aspereza</em>? Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_34">P. 34. V. 7.</a> <em>Pois a parte maior do +entendimento</em>] Faria e Sousa. <em>Pois a parte melhor do entendimento</em>] +3.ª ed. Adoptámos a lição antiga, porque por <em>parte maior</em>, se entende a +maior porção.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_34">P. 34. V. 9.</a> <em>Se em teu valor contemplo a melhor +parte</em>] Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a +melhor parte do entendimento se vê perdida<span class="pn" +><a name="pag_396">{396}</a></span> no menos que ha na sua amada, e não he possivel que +não quizesse continuar no mesmo encarecimento. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Se em teu valor contemplo a menor parte.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_34">P. 34. V. 25.</a> <em>Em feras mora, em aves, pedras +ágoas</em>] Faria e Sousa. <em>Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas</em>] 3.ª +ed. Só quem for destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_40">P. 40. V. 19.</a> <em>A mão tenho mettida no teu +seio</em>] Faria e Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos:</p> + +<blockquote> + A mão tenho mettida no meu seio.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_69">P. 69. V. 5.</a> <em>Nunca do vento e ira, que +arrancando</em>] Faria e Sousa. He êrro; corrigimos:</p> + +<blockquote> + Nunca do vento a ira, que arrancando.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_70">P. 70. V. 24.</a><br> + <em>Com que a morte forçada e gloriosa,<br> + Faz o vencido etc.</em>] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Com que a morte forçada gloriosa<br> + Faz o vencido etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_80">P. 86. V. 24.</a><br> + <em>Pois se a fortuna o fez por descontar-me<br> + Esse desgosto etc.</em>] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o +poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que era tal, +que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse que no mundo +podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora desgosto ao que pouco +antes chamou summa alegria. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Mas se a fortuna o fez por descontar-me<br> + Aquelle gosto etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_108">P. 108. V. 15.</a> <em>Ayúdame, Señora, á ser +vingança</em>] Faria e Sousa. He êrro. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Ayúdame, Señora, á hacer vinganza.<span class="pn" +><a name="pag_397">{397}</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_111">P. 111. V. 7.</a> <em>Nem todos para um gôsto são +iguaes</em>] Faria e Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes +que passais tão ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse <em>são</em>, +era absurdo. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Nem todos para um gôsto sois iguaes.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_113">P. 113. V. 25.</a> <em>Aunque en esta se llega al +natural</em>] Faria e Sousa. He êrro. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Aunque en esto se llega al natural.</blockquote> + +<p class="ni">Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao +natural o retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o +seu pranto como se fôra o proprio original.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_114">P. 114. V. 11.</a> <em>En tanto bien no quieras +olvidarte</em>] Faria e Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja +<em>olvidarme</em>.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_114">P. 114. V. 21.</a> <em>Cesse vosso louvor, Nymphas +formosas</em>] Faria e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que +deixem o seu proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que +estavão lavrando. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Cesse vosso lavor etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_115">P. 115. V. 22.</a> <em>Fizeres que se mova a +piedade</em>] Faria e Sousa. <em>Fazeres que se mova a piedade</em>] 3.ª ed. +Seguimos esta lição, que he a verdadeira.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_120">P. 120. V. 15.</a> <em>Em Babylonia sôbre os rios</em>] +Faria e Sousa. Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve +ler:</p> + +<blockquote> + De Babylonia sobre os rios etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_128">P. 128. V. 13.</a> <em>Ah! que falta mais vezes a +ventura</em>] Faria e Sousa; mas a lição do poeta he esta:</p> + +<blockquote> + Ah! que falte mais vezes a ventura.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_133">P. 133. V. 28.<br> +</a><em> Que não póde nenhum impedimento</em><br> +<em> Fugir do que lhe ordena sua Estrella.</em>]<span class="pn" +><a name="pag_398">{398}</a></span><br> +Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Fugir o que lhe ordena etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_134">P. 134. V. 7.</a> <em>Tão potente será vossa +mudança</em>.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Tão patente será etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_136">P. 136. V. 28.</a> <em>Não o quizera tanto á vossa +custa</em>.] Lição vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. +Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Não a quizera tanto á vossa custa.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_138">P. 138. V. 11.</a> <em>Eu quanto mais te vejo, mais te +escondes</em>.] Lição vulgar. He absurda: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Eu quanto mais te busco, mais te escondes.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_139">P. 139. V. 20.</a> <em>Que mágoas para ouvir! e que +figura</em>.] Lição vulgar. He viciosa: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Que mágoas para ouvir! Que tal figura.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_144">P. 144. V. 11.</a><br> +<em> Mas eu acostumado ao veneno</em>,<br> +<em> E uso de soffrer meu mal presente</em>.] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos:</p> + +<blockquote> + Assim de acostumado co'o veneno,<br> + O uso de soffrer etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_159">P. 159. V. 3.</a> <em>Ni dejarán, por mas que el tiempo +huya</em>.] Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. +Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Ni dejará, por mas que el tiempo huya.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_165">P. 165. V. 12.</a> <em>Seus cabellos</em>] Tod. as ed. +Mas quem espalha os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas +podião ter tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes. +Corrigimos: <em>Teus cabellos</em>.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_169">P. 167. V. 9.</a> <em>Gaitas, que bem se ouvião</em>] +Faria e Sousa. <em>As gaitas que trazião</em>] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, +que he a do poeta.<span class="pn" ><a name="pag_399">{399}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_175">P. 175. V. 5.</a><br> +<em> Com palavras mimosas e forjadas</em><br> +<em> Da solta liberdade e livre peito.</em>] Todas as ed. Mas he vicio, +porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta +liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e enganadas. +Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Com palavras mimosas e forjadas,<br> + De solta liberdade e livre peito etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_184">P. 184. V. 20.</a> <em>Assim me está tornando o peito +frio.</em>] Todas as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: +impedir a voz, tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece +entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a lingua +negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de texto. +Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Assim me está tornando, e o peito frio.</blockquote> + +<p class="ni">Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a +emenda que fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e +genuina lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o +poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar: como no +mesmo ja citado Canto, Estancia 21: </p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + Desta arte a gente força e esforça Nuno,<br> + Que com lh'ouvir as ultimas razões,<br> + Removem o temor frio, importuno<br> + Que gelados lhe tinha os corações.</blockquote> + +<p class="ni">e no Canto I, Estancia 89:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + O temor grande, o sangue lhe resfria.</blockquote> + +<p class="ni">Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus +effeitos se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + Que poz no coração um grande medo.</blockquote> + +<p class="ni">O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade +Virgilio, como se ve nos seguintes exemplos:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + <em>Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra.</em><br> + Eneida L. I, V. 96.<span class="pn" + ><a name="pag_400">{400}</a></span><br> + <br> + <em>Solvite corde metum, Teucri.</em><br> + ibi V. 566.<br> + <br> + <em>Diffugimus visu exangues.</em><br> + ibi L. 2, V. 212.<br> + <br> + <em>At sociis subitâ gelidus formidine sanguis</em><br> + <em>Diriguit: cecidêre animi.</em><br> + ibi L. III, V. 259.<br> + <br> + <em>Gelidus Teucris per dura cucurrit</em><br> + <em>Ossa tremor.</em><br> + ibi L. VI, V. 54.</blockquote> + +<p class="ni">E além destes muitos e muitos outros puderamos citar. </p> + +<p>Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como diz +o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes poetas; com +a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de Aljubarrota, quando a +trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o sangue acudio ao coração dos +Portuguezes, e por consequencia se lhes concentrou alli o calor, não foi porque +o temor fosse maior, mas, sim, porque era muito menor, que o perigo. E portanto +he viciosa a lição vulgar, e a nossa verdadeira.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_187">P. 187. V. 30.</a> <em>E vós, pastores deste rudo +outeiro</em>] Faria e Sousa. <em>E vós, pastores rudos deste outeiro</em>] 3.ª +ed. A lição do poeta he esta.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_188">P. 188. V. 30.</a> <em>No tronco de alguma árvore +sombria</em>] Faria e Sousa. <em>E no tronco d'uma arvore sombria</em>] 3.ª ed. +Esta he a lição verdadeira.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_190">P. 190 V. 3.</a> <em>Em vós deixou Minerva o que +valia</em>] Faria e Sousa. <em>Em vós deixou Minerva sua valia</em>] 3.ª ed. +Porque desprezaria Faria esta lição?</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_198">P. 198. V. 15.</a> <em>Porque saibas o que he ser +amada</em>] Faria e Sousa. <em>Porque saibas que cousa he ser amada</em>] 3.ª +ed. Quem hesitará em seguir a lição antiga?</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_199">P. 199. V. 23.</a> <em>Se humano parecer não se +defende</em>] Faria e Sousa. <em>Que ao humano parecer não se +defende</em>]<span class="pn" ><a name="pag_401">{401}</a></span> 3.ª ed. Ambas estas +lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta, he +esta:</p> + +<blockquote> + Se ao humano parecer não se defende.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_200">P. 200. V. 13.</a> <em>Porque segues em vão esse +cuidado?</em>] Faria e Sousa. <em>Não vés que teu fugir he escusado?</em>] 3.ª +ed. A lição antiga he a do poeta.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_200">P. 200. V. 14.</a> <em>Pois nunca estás sem mim algum +momento</em>] Faria e Sousa. <em>Que sem mim não estás um so momento</em>] 3.ª +ed. Este verso he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do +poeta.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_201">P. 201. V. 21.</a> <em>A vós se dão, a quem junto se ha +dado</em>] Faria e Sousa. <em>A vós se dem, a quem junto se ha dado</em>] 3.ª +ed. A lição verdadeira he esta.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_202">P. 202. V. 23.</a> <em>E o mais do roxo dia era +passado</em>] Faria e Sousa. <em>E o mais do dia ja era passado</em>] 3.ª ed. O +epiteto de <em>roxo</em> aqui desnecessario parece introduzido por mão +estranha. </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_203">P. 203. V. 14.</a> <em>Que farão mais que mais +endurecer-te?</em>] Faria e Sousa. <em>Que fazem senão mais endurecer-te?</em>] +3.ª ed. Este verso he muito mais natural e melhor que o outro.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_203">P. 203. V. 23.</a> <em>Um bronze ja abrandára que não +sente</em>] Faria. <em>Ja um peito abrandára que não sente</em>] 3.ª ed. Esta +segunda lição he sem duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso +dizer do bronze que he insensivel, esta expressão de <em>peito que não +sente</em>, he nelle tão frequente que não podemos deixar de a ter por sua.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_205">P. 205. V. 6.</a> <em>Em lugar de alegrar-se, se +entristecem</em>] Faria. <em>Em vez de se alegrarem, se entristecem</em>] 3.ª +ed. Este verso em harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor +ser das primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia.<span class="pn" +><a name="pag_402">{402}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_211">P. 211. V. 2.</a> <em>Com rosto baixo, e alto +pensamento</em>] Faria e Sousa. <em>Co'o rosto baixo, e alto o pensamento</em>] +3.ª ed. Andando este verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que +Faria o não tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o +primeiro.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_213">P. 213. V. 1.</a> <em>E vós, cujo valor em tanto +excede</em>] Faria e Sousa. <em>E vós, cujo valor tão alto excede</em>] 3.ª ed. +Preferimos a lição antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he +viciosa.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_213">P. 213. V. 17.</a> <em>Contra o indomito Pãe de toda +Hespanha.</em> Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim +este lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda +España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los sustentó +contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que oppor, a primeira +he, que não era possivel que um poeta como Camões, para exprimir cousa tão +simples fizesse tal geringonça; a segunda he appresentar o texto como o poeta o +escreveo:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + <em> Se não sabem as frautas pastoris</em><br> + <em>Pintar de Toro os campos semeados</em><br> + <em>D'armas e corpos fortes e gentis, </em><br> + <br> + <em> Por um moço animoso sustentados</em><br> + <em>Contra o indomito Rei de toda Hespanha, </em><br> + <em>Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados.</em></blockquote> + +<p class="ni">Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom +Fernando de Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o +epiteto de indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão +separadas e independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda +Hespanha. E se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra <em>pae</em>, aqui +visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto a +palavra <em>Rei</em>, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o +trabalho de o fazer agora.<span class="pn" ><a name="pag_403">{403}</a></span> </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_214">P. 214. V. 13.</a> <em>De si ja, não ja só do pobre +fato</em>] Faria e Sousa. <em>De si, e do seu gado e pobre fato</em>] 3.ª ed. +Assim andava este verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que +a mentira. Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e +por fato, cabras.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_217">P. 217. V. 11.</a> <em>Do som que no Parnaso se +deseja</em>] Faria e Sousa. <em>Do som, que pelo mundo se deseja</em>] 3.ª ed. +A lição de Faria nos he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; +e he de lá que os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a +desprezamos, restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como +o poeta o escreveo.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_220">P. 220. V. 1.</a> <em>D'altas nuvens vestido</em>.] Todas +as ed. Mas he êrro das copias: deve ler-se:</p> + +<blockquote> + D'átras nuvens vestido etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_224">P. 224. V. 31.</a> <em>Quiz descansar á sombra da +espessura</em>] Faria. He êrro, porque espessura não rima com +<em>manifesta</em> e <em>sesta</em>. Restituimos o verso, como andava nas +primeiras edições:</p> + +<blockquote> + Quiz descansar á sombra da floresta.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_226">P. 226. V. 1.</a><em><br> + Sirene e Nyse que das mãos fugirão</em><br> +<em> De Tegeo Pan</em>]<br> +Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene fugisse +nunca das mãos de Pan. Restituimos:</p> + +<blockquote> + Syrinx e Nyse.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_234">P. 234. V. 21.</a> <em>Ja no indignado monte se +lançava</em>] Faria e Sousa. <em>Ja no indigno monte se lançava</em>] 3.ª ed. +Uma e outra lição he viciosa; a do poeta he:</p> + +<blockquote> + Ja indignado no monte se lançava.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_236">P. 236. V. 3.</a> <em>Ainda agora em herva as folhas +viras</em>] Todas as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que +foi convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o poeta: +o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada em planta, +segue com<span class="pn" ><a name="pag_404">{404}</a></span> os olhos o seu amante; +mas a ignorancia ou descuido dos copiadores a <em>olhos</em> substituio +<em>folhas</em>. Restituimos:</p> + +<blockquote> + Ainda agora em herva os olhos viras.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_284">P. 284. P. 4.</a> <em>Com as mãos que maçãas colhendo +andava.</em>] Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que +nas obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como elle +o escreveo he:</p> + +<blockquote> + Com a mãe que maçãas colhendo andava.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_289">P. 289. V. 15.</a> <em>Como o mesmo que então meu mal +crescia.</em>] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:</p> + +<blockquote> + Com o mesmo etc.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_302">P. 302. V. 28.</a> <em>Sabe, Canção, que só porque não +vejo.</em>] Todas as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente +assim:</p> + +<blockquote> + Sabe, Canção, que só porque o não vejo.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_304">P. 304. V. 26.</a> <em>Ma figurou nos braços, e assim a +tive</em>] Todas as ed. Mas aquelle <em>a</em> está aqui de mais para o sentido +e para o verso. Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou +ter acordado. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Ma figurou nos braços, e assi tive.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_307">P. 307. V. 3.</a> <em>Dos montes descobrindo.</em>] Todas +as ed. Mas he vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he +avistá-la de lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a +escuridão ia descobrindo os montes. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Os montes descobrindo.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_308">P. 308. V. 27.</a> <em>Se mo não impedir o meu +desejo.</em>] Todas as ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da +sua amada, e deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, +que esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu desejo, +tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama:<span class="pn" +><a name="pag_405">{405}</a></span> Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana +alta e subida! (a da visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E +a lição neste lugar he:</p> + +<blockquote> + Se me não impedir o meu desejo.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_314">P. 314. V. 25.</a> <em>Á pena vem pequenos.</em>] Todas +as ed. O P. Thomaz d'Aquino corrigio <em>penna</em>. Mal, porque estava bem o +texto; e se deve lêr <em>pena</em>.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_321">P. 321. V. 24.</a> <em>Pelo que em si se esconde.</em>] +Assim se lê este verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio <em>em ti</em>. +Mal, porque o vicio inda ficou. A verdadeira emenda he:</p> + +<blockquote> + Pelo que a si se esconde.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_325">P. 325. V. 21.</a> Este verso diz Faria e Sousa se lia no +manuscripto:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + <em>Pelo que em si lhe esconde.</em></blockquote> + +<p class="ni">Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se </p> + +<blockquote> + Pelo que se lhe esconde.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_329">P. 329. V. 19.</a> <em>Não tendo, não, somente por +contrarios</em>] Faria e Sousa. <em>Não tendo tãosomente por contrarios</em>] +3.ª ed. A lição antiga he a verdadeira.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_331">P. 331. V. 26.</a> <em>Com que a fronte tornada mais +serena</em> <em>Torna os tormentos graves.</em>] Todas as ed. Mas he vicio das +copias; porque a fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as +agitações do animo. Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Com que, a fronta tornada mais serena,<br> + Tórno os tormentos graves &c.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_336">P. 336. V. 1.</a> <em>Pouco a pouco invenciveis me +sahião.</em>] Todas as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores.</p> + +<p>Corrigimos:</p> + +<blockquote> + Pouco a pouco invisiveis me sahião.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_339">P. 339. V. 19.</a> <em>Os olhos na que corre, e não +alcança.</em>] Todas as ed. Mas he êrro palpavel das cópias.<span class="pn" +><a name="pag_406">{406}</a></span> Sobre este lugar diz Faria: <em>Mirese lo que me +viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas difficuldades destes +poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que corre. Qué es la que corre? +Arriba queda providencia, y luego consolacion, y despues flaqueza humana; y no +hallo que ninguna destas corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni +asi lo entiendo bien</em>. Mas não tem muito que entender: este lugar está +corrompido, como tantos outros que temos visto: a lição do poeta era <em>No que +corre</em>: quem copiou poz <em>Na que corre</em>. E o sentido he: Mas a +fraqueza humana, quando lança os olhos no que corre; isto he, no muito que +corre com os olhos d'alma, e não alcança, senão &c.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_360">P. 360. Ode I.ª</a> A primeira cousa que temos a observar +nesta Ode he: que a Estancia, que principia: <em>Para ti guarda o sitio fresco +d'Ilio</em>, e a outra logo seguinte que principia: <em>De qual panthera ou +tigre ou leopardo</em>, se achão em todas as edições depois da que começa: +<em>Por ti feito pastor de branco gado</em>, onde são absolutamente estranhas; +e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais +proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: <em>Tu que de formosissimas +estrellas</em>: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que, omittidas +inteiramente, fica a Ode mais perfeita.</p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_361">P. 361. V. 2.</a> <em>Para ti no Erymantho o lindo +Epilio</em>.] Assim anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, +com razão, que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame +Epilio: faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que +deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos +chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo que lhe +dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim</p> + +<blockquote> + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio<span class="pn" + ><a name="pag_407">{407}</a></span></blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_361">P. 361. V. 5.</a> <em>Deste nosso oriente.</em>] Todas as +ed. Mas he vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na +India, como se infere desta mesma Ode, onde diz:</p> + +<blockquote style="font-weight: normal; font-size: 90%;"> + <em>Olha como suspirão estas ondas, </em><br> + <em>E como o velho Atlante</em><br> + <em>O seu collo arrogante</em><br> + <em>Move piedosamente</em><br> + <em>Ouvindo a minha voz fraca e doente.</em></blockquote> + +<p class="ni">E portanto deve ler-se</p> + +<blockquote> + Desse nosso Oriente</blockquote> + +<p class="ni">como Faria diz que vira em um manuscripto. </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_363">P. 363. V. 12.</a> <em>Meu infelice estado.</em>] Todas +as ed. Mas he êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, +propriamente fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos:</p> + +<blockquote> + Porque tem ordenado<br> + Meu infelice Fado &c.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_363">P. 363. V. 19.</a> <em>Humido inda do pranto.</em>] Todas +as ed. Mas he vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem +ser feitos; e este <em>humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso +Titão</em> denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a que +Faria diz encontrára n'um manuscripto:</p> + +<blockquote> + <em>Humido ja do pranto, </em></blockquote> + +<p class="ni">o que dá a entender que era sobre manhãa. </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_368">P. 368. V. 13.</a> <em>E assentareis meus prantos, meus +clamores.</em>] Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá +o P. Thomaz d'Aquino.</p> + +<blockquote> + E sentireis meus prantos, meus clamores.</blockquote> + +<p class="ni">Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os +seus prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava); +chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem reduzido +o seu amor, e a esquivança da sua amada.<span class="pn" +><a name="pag_408">{408}</a></span> </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_380">P. 380. V. 19.</a> <em>Ajuda quem ajuda contra a +morte.</em>] Todas as ed. He vicio: corrigimos</p> + +<blockquote> + Ajudai quem ajuda &c.</blockquote> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_385">P. 385. V. 17.</a> <em>E grita que culpado.</em>] Todas +as ed. Mas deve ler-se </p> + +<blockquote> + E grita qu'he culpado,</blockquote> + +<p class="ni">porque do modo que está, não faz sentido. </p> + +<p> </p> + +<p><a href="#pag_388">P. 388. V. 21.</a><br> +<em> Remette o moço logo</em><br> +<em> Para onde estava a chaga sem socêgo.</em>]<br> +Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle ter no +corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto he, para a +Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos</p> + +<blockquote> + Para onde estava a chamma sem socêgo.<span class="pn" + ><a name="pag_409">{409}</a></span></blockquote> +</div> + +<h1><a name="SECTION021100000">INDEX.</a></h1> + +<table border="0" summary="Indice" align="center"> + <tbody> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION001000000">P<small>REFAÇÃO</small></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_VII">VII</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION002000000">V<small>IDA DE</small> L<small>UIS DE</small> + C<small>AMÕES</small></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_XXXII">XXXII</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="text-align:center;"><a href="#SECTION011000000">SONETOS.</a></th> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td>A chaga que, Senhora, me fizestes</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_62">62</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A formosura desta fresca serra</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_135">135</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A morte, que da vida nó desata</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_68">68</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A peregrinação d'hum pensamento</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_132">132</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A perfeição, a graça, o doce geito</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_46">46</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A violeta mais bella que amanhece</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_60">60</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Á la margen del Tajo, en claro dia</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_81">81</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Acho-me da fortuna salteado</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_132">132</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Agora toma a espada, agora a penna<a name="tex2html4" + href="#foot2510"><sup>[4]</sup></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_97">97</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ah Fortuna cruel! ah duros Fados</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_88">88</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ah minha Dinamene! assi deixaste</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_86">86</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ai amiga cruel! que apartamento</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alegres campos, verdes arvoredos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_21">21</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alegres campos, verdes, deleitosos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_104">104</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alma gentil que á firme eternidade</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alma minha gentil que te partiste</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_10">10</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Amor, com a esperança ja perdida</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_26">26</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Amor he hum fogo que arde sem se ver</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_41">41</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Amor, que em sonhos vãos do pensamento</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_105">105</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Amor, que o gesto humano na alma escreve</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aos homens hum só homem poz espanto<span class="pn" + ><a name="pag_410">{410}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_123">123</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Apartava-se Nise de Montano</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_27">27</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Apollo e as nove Musas, descantando</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_26">26</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aponta a bella Aurora, luz primeira</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_121">121</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aquella fera humana que enriquece </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_38">38</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aquella que de pura castidade </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_48">48</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aquella triste e leda madrugada </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_13">13</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aqui de longos damnos breve historia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_92">92</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ar, que de meus suspiros vejo cheio </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_58">58</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Árvore, cujo pomo bello e brando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_69">69</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ay! quien dará á mis ojos una fuente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_112">112</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ayúdame, Señora, á hacer venganza </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_108">108</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Bem sei, Amor, que he certo o que receio </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_40">40</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Brandas agoas do Tejo que passando<a name="tex2html5" + href="#foot2537"><sup>[5]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_55">55</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Busque Amor novas artes, novo engenho </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_8">8</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ca nesta Babylonia donde mana </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_98">98</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Campo! nas syrtes deste mar da vida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_85">85</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Cantando estava hum dia bem seguro </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_87">87</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Chara minha inimiga, em cuja mão </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_12">12</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Chorai, Nymphas, os fados poderosos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_139">139</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Coitado! que em hum tempo chóro e rio </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_76">76</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Com grandes esperanças ja cantei </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_2">2</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_31">31</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Como louvarei eu, Seraphim santo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_124">124</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Como podes (oh cego peccador!) </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_118">118</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Como quando do mar tempestuoso </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_41">41</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Con razon os vais, aguas, fatigando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_112">112</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Contente vivi ja vendo-me isento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_125">125</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Conversação doméstica affeiçoa </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_44">44</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Correm turbas as agoas deste rio </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_98">98</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Crescei, desejo meu, pois que a Ventura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Criou a natureza Damas bellas </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_77">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste <span class="pn" + ><a name="pag_411">{411}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_114">114</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Dai-me h<span class="accent"><sup>~</sup>u</span>a lei, Senhora, de querer-vos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_35">35</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De amor escrevo, de amor trato e vivo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_52">52</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De Babel sôbre os rios nos sentamos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_119">119</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De cá, donde somente o imaginar-vos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_59">59</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De frescas belvederes rodeadas </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_102">102</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De mil suspeitas vãas se me levantão </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_61">61</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De quantas graças tinha a natureza </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_66">66</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De tão divino accento em voz humana<a name="tex2html6" + href="#foot2568"><sup>[6]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_32">32</a></td> + </tr> + <tr> + <td>De vós me parto, ó vida, e em tal mudança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_12">12</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Debaixo desta pedra está metido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_32">32</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Debaixo desta pedra sepultada </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_116">116</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Deixa, Apollo, o correr tão apressado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_125">125</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Desce do ceo, immenso Deos benino</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_100">100</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Despois de haver chorado os meus tormentos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_101">101</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Despois de tantos dias mal gastados<a name="tex2html7" + href="#foot2576"><sup>[7]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_28">28</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Despois que quiz Amor que eu só passasse</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_3">3</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Despois que vio Cibele o corpo humano<a name="tex2html8" + href="#foot2579"><sup>[8]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_96">96</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Diana prateada esclarecida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_141">141</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditosa pena, como a mão que a guia<a name="tex2html9" + href="#foot2582"><sup>[9]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_94">94</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditosas almas que ambas juntamente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_124">124</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ditoso seja aquelle que somente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_38">38</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Diversos dões reparte o ceo benino </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_72">72</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Divina companhia que nos prados </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_81">81</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Dizei, Senhora, da belleza idea </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_138">138</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Doce contentamento ja passado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_133">133</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Doce sonho, suave e soberano </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_140">140</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Doces e claras agoas do Mondego </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Doces lembranças da passada gloria <span class="pn" + ><a name="pag_412">{412}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_10">10</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Dos antigos Illustres que deixárão </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_44">44</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Dos ceos á terra desce a mor belleza </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_100">100</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Dulces engaños de mis ojos tristes </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_113">113</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em Babylonia sôbre os rios quando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_120">120</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em flor vos arrancou de então crescida<a name="tex2html10" + href="#foot2598"><sup>[10]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_7">7</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em formosa Lethea se confia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_14">14</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em huma lapa toda tenebrosa </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_128">128</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em prisões baixas fui hum tempo atado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_3">3</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em quanto Phebo os montes accendia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_141">141</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Em quanto quiz fortuna que tivesse </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_1">1</a></td> + </tr> + <tr> + <td>En una selva al dispuntar del dia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_83">83</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Erros meus, má Fortuna, amor ardente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_97">97</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Esfôrço grande, igual ao pensamento<a name="tex2html11" + href="#foot2607"><sup>[11]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_45">45</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Espanta crescer tanto o crocodilo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_95">95</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Esses cabellos louros e escolhidos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_53">53</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Está o lascivo e doce passarinho </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_16">16</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Está-se a Primavera trasladando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_15">15</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Este amor que vos tenho limpo e puro </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_135">135</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Este terreste caos com seus vapores </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_64">64</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Eu cantarei de amor tão docemente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_2">2</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Eu cantei ja, e agora vou chorando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_84">84</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_80">80</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Eu vivia de lagrimas isento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_137">137</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ferido sem ter cura parecia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_35">35</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Fiou-se o coração de muito isento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_106">106</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Foi ja n'hum tempo doce cousa amar </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_43">43</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Formosa Beatriz, tendes taes geitos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_104">104</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Formosos olhos, que cuidado dais </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_130">130</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Formosos olhos, que na idade nossa </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_20">20</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Formosura do ceo a nós descida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_34">34</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Gentil Senhora, se a Fortuna imiga <span class="pn" + ><a name="pag_413">{413}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_72">72</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Grão tempo ha ja que soube da Ventura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_24">24</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Guardando em mi a sorte o seu direito </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_86">86</a></td> + </tr> + <tr> + <td>He o gozado bem em agoa escrito </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_66">66</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Horas breves de meu contentamento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_91">91</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Hum firme coração posto em ventura<a name="tex2html12" + href="#foot2632"><sup>[12]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_57">57</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Hum mover de olhos brando e piedoso </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_18">18</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Huma admiravel herva se conhece </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Illustre e digno ramo dos Menezes<a name="tex2html13" + href="#foot2636"><sup>[13]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_4">4</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ilustre Gracia, nombre de una moza </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_129">129</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Imagens vãas me imprime a phantasia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_116">116</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Indo o triste pastor todo embebido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_138">138</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja a roxa e branca Aurora destoucava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_36">36</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja cantei, ja chorei a dura guerra </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_90">90</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja claro vejo bem, ja bem conheço </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_58">58</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja do Mondego as agoas apparecem<a name="tex2html14" + href="#foot2644"><sup>[14]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_56">56</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja he tempo, ja que minha confiança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_25">25</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja me fundei em vãos contentamentos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_127">127</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ja não sinto, Senhora, os desenganos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_136">136</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Julga-me a gente toda por perdido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_76">76</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Las peñas retumbaban al gemído </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_83">83</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Leda serenidade deleitosa </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_40">40</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lembranças de meu bem, doces lembranças </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_130">130</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lembranças, que lembrais o bem passado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_89">89</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lembranças saudosas, se cuidais </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_27">27</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Levantai, minhas Tagides, a frente<a name="tex2html15" + href="#foot2655"><sup>[15]</sup></a> <span class="pn" + ><a name="pag_414">{414}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_114">114</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lindo e subtil trançado que ficaste </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_22">22</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Los ojos que con blando movimiento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_107">107</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mal, que de tempo em tempo vas crescendo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_117">117</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Males que contra mim vos conjurastes </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_14">14</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mi gusto y tu beldad se desposaron </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_110">110</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mil veces entre sueños tu figura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_109">109</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mil vezes determino não vos ver </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_62">62</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Moradoras gentis e delicadas </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_54">54</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_29">29</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Na desesperação ja repousava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_71">71</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Na margem de hum ribeiro que fendia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_74">74</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Na metade do ceo subido ardia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_36">36</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Naiades, vós que os rios habitais </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_29">29</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Na ribeira do Euphrates assentado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_139">139</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Não ha louvor que arribe á menor parte </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_59">59</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Não passes, caminhante. Quem me chama? </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_19">19</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Não vas ao monte, Nise, com teu gado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_60">60</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Nas cidades, nos bosques, nas florestas </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_126">126</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Nem o tremendo estrepito da guerra </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_106">106</a></td> + </tr> + <tr> + <td>N'hum bosque que das Nymphas se habitava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td> + </tr> + <tr> + <td>N'hum jardim adornado de verdura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_7">7</a></td> + </tr> + <tr> + <td>N'hum tão alto lugar de tanto preço </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_142">142</a></td> + </tr> + <tr> + <td>No bastaba que amor puro y ardiente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_108">108</a></td> + </tr> + <tr> + <td>No mundo poucos annos e cansados </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_51">51</a></td> + </tr> + <tr> + <td>No mundo quiz o Tempo que se achasse </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_45">45</a></td> + </tr> + <tr> + <td>No regaço da mãe Amor estava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_64">64</a></td> + </tr> + <tr> + <td>No tempo que de amor viver sohia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_4">4</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Nos braços de hum Sylvano adormecendo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_103">103</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Novos casos de Amor, novos enganos<a name="tex2html16" + href="#foot2686"><sup>[16]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_55">55</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Nunca em amor damnou o atrevimento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O ceo, a terra, o vento socegado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_87">87</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O culto divinal se celebrava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O cysne quando sente ser chegado <span class="pn" + ><a name="pag_415">{415}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_22">22</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O filho de Latona esclarecido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_69">69</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O fogo que na branda cera ardia<a name="tex2html17" + href="#foot2694"><sup>[17]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_20">20</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O raio crystallino se estendia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_50">50</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O claras aguas deste blando rio </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_109">109</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh arma unicamente só triumphante </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_122">122</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh cese ya, Señor, tu dura mano </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_113">113</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh como se me alonga de anno em anno </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_25">25</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh quanto melhor he o supremo dia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_118">118</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh quão caro me custa o entender-te </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_49">49</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Oh rigorosa ausencia desejada </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_111">111</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Olhos, aonde o ceo com luz mais pura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_77">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ondados fios d'ouro onde enlaçado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_105">105</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ondados fios d'ouro reluzente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_43">43</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Onde acharei lugar tão apartado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_91">91</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Onde mereci eu tal pensamento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_102">102</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Onde porei meus olhos que não veja </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_56">56</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Orfeo enamorado que tañia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_84">84</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante<a name="tex2html18" + href="#foot2711"><sup>[18]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_95">95</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Os meus alegres, venturosos dias </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_90">90</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Os olhos onde o casto amor ardia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_94">94</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Os Reinos e os Imperios poderosos<a name="tex2html19" + href="#foot2715"><sup>[19]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_11">11</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Os vestidos Eliza revolvia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_49">49</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Para se namorar do que criou </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_99">99</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Passo por meus trabalhos tão isento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_6">6</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pede o desejo, Dama, que vos veja </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_16">16</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pensamentos que agora novamente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_47">47</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pois meus olhos não cansão de chorar </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_34">34</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pois torna por seu rei e juntamente<a name="tex2html20" + href="#foot2723"><sup>[20]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_96">96</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Por cima destas agoas forte e firme <span class="pn" + ><a name="pag_416">{416}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_70">70</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Por gloria tuve un tiempo el ser perdido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_82">82</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Por os raros extremos que mostrou </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Por sua nympha Céphalo deixava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_92">92</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Porque a tamanhas penas se offerece </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_101">101</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Porque a terra no ceo agasalhasse </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_121">121</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Porque quereis, Senhora, que offereça </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_17">17</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Posto me tem fortuna em tal estado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_143">143</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Presença bella, angelica figura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_70">70</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_143">143</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes<a name="tex2html21" + href="#foot2897"><sup>[21]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_131">131</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Qual tem a borboleta por costume </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_129">129</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando a suprema dor muito me aperta </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_74">74</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando da bella vista e doce riso </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_9">9</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando de minhas mágoas a comprida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_37">37</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando o sol encoberto vai mostrando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_18">18</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando os olhos emprégo no passado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_89">89</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando se vir com agoa o fogo arder </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_73">73</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando, Senhora, quiz Amor que amasse </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_137">137</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quando vejo que meu destino ordena </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_28">28</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quanta incerta esperança, quanto engano </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_117">117</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quantas penas, Amor, quantos cuidados </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_142">142</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quantas vezes do fuso se esquecia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_21">21</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_88">88</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que doudo pensamento he o que sigo<a name="tex2html22" + href="#foot2751"><sup>[22]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_57">57</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que esperais esperança? Desespéro </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_78">78</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_122">122</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que levas, cruel Morte? Hum claro dia<a name="tex2html23" + href="#foot2755"><sup>[23]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_42">42</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que me quereis, perpétuas saudades? </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_111">111</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que modo tão subtil da natureza <span class="pn" + ><a name="pag_417">{417}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_73">73</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que pode ja fazer minha ventura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_144">144</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que poderei do mundo ja querer </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_47">47</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Que vençais no Oriente tantos Reis<a name="tex2html24" + href="#foot2762"><sup>[24]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_33">33</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem diz que Amor he falso, ou enganoso </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_103">103</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem fosse acompanhando juntamente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem jaz no grão sepulcro, que descreve </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_30">30</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem póde livre ser, gentil Senhora </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_31">31</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem pudera julgar de vós, Senhora </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_53">53</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem quizer ver d'amor huma excellencia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_107">107</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem, Senhora, presume de louvar-vos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_54">54</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Quem ve, Senhora, claro e manifesto </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_9">9</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Revuelvo en la incesable fantasía </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_82">82</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se a fortuna inquieta e mal olhada </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_134">134</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se algum'hora essa vista mais suave </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_79">79</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se as penas com que Amor tão mal me trata </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_30">30</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se com desprezos, Nympha, te parece </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_63">63</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se como em tudo o mais fostes perfeita </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_78">78</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se da célebre Laura a formosura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_52">52</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se despois de esperança tão perdida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_50">50</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se em mim, ó alma, vive mais lembrança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_128">128</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se lagrimas choradas de verdade </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_127">127</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se me vem tanta gloria só de olhar-te </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_75">75</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se no que tenho dito vos offendo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_133">133</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se pena por amar-vos se merece </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_42">42</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se quando vos perdi, minha esperança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_13">13</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se somente hora alguma em vós piedade </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_24">24</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se tanta pena tenho merecida </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_17">17</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Se tomo a minha pena em penitencia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_48">48</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Seguia aquelle fogo que o guiava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_93">93</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sempre a razão vencida foi de amor </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_75">75</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sempre, cruel Senhora, receei </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_134">134</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Senhor João Lopes, o meu baixo estado<a name="tex2html25" + href="#foot2792"><sup>[25]</sup></a> <span class="pn" + ><a name="pag_418">{418}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_68">68</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Senhora ja desta alma perdoae </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_140">140</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Senhora minha, se eu de vós ausente </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_63">63</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sentindo-se alcançada a bella esposa </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_93">93</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sete annos de pastor Jacob servia </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_15">15</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Si el fuego que me enciende, consumido </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_110">110</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sôbre os rios do Reino escuro, quando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_120">120</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Suspiros inflammados que cantais </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_37">37</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Sustenta meu viver huma esperança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_136">136</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tal mostra de si dá vossa figura </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_71">71</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tanto de meu estado me acho incerto </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tanto se forão, Nympha, costumando </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_79">79</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tem feito os olhos neste apartamento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_131">131</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Todo animal da calma repousava </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_8">8</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tomava Daliana por vingança </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tomou-me vossa vista soberana </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_19">19</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Tornae essa brancura á alva açucena </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_61">61</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Transforma-se o amador na cousa amada </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_6">6</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vencido está de amor Meu pensamento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_80">80</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Verdade, Amor, Razão, Merecimento </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_119">119</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vi queixosos de Amor mil namorados </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_126">126</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vós Nymphas da Gangetica espessura<a name="tex2html26" + href="#foot2815"><sup>[26]</sup></a> </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_115">115</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vós outros que buscais repouso certo </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_99">99</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vós, que de olhos suaves e serenos </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_46">46</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vós que escutais em rimas derramado </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_51">51</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vós só podeis, sagrado Evangelista </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_123">123</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Vossos olhos, Senhora, que competem </td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_33">33</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="text-align:center;"><a href="#SECTION011200000">ECLOGAS.</a></th> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011250000">A quem darei queixumes namorados</a><a name="tex2html27" + href="#foot2823"><sup>[27]</sup></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_201">201</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011260000">A rustica contenda desusada</a><a name="tex2html28" + href="#foot2825"><sup>[28]</sup></a><span class="pn" + ><a name="pag_419">{419}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_212">212</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112120000">Agora, Alcido, emquanto o nosso gado</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_268">268</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112140000">Agora ja que o Tejo nos rodeia</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_279">279</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011220000">Ao longo do sereno</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_160">160</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011280000">Arde por Galatea branca e loura</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_240">240</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011270000">As doces cantilenas que cantavão</a><a name="tex2html29" + href="#foot2832"><sup>[29]</sup></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_222">222</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011240000">Cantando por hum valle docemente</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_189">189</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112150000">De quanto alento e gôsto me causava</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_288">288</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011290000">Despois que o leve barco ao duro remo</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_242">242</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112100000">Encheo do mar azul a branca praia</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_247">247</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112110000">Parece-me, pastor, se mal não vejo</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_252">252</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0112130000">Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_275">275</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011230000">Passado ja algum tempo que os amores</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_179">179</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION011210000">Que grande variedade vão fazendo</a><a name="tex2html30" + href="#foot2841"><sup>[30]</sup></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_145">145</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="text-align:center;"><a href="#SECTION012000000">CANÇÕES</a></th> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012200000">A instabilidade da fortuna</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_303">303</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121700000">A vida ja passei assaz contente</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_356">356</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012600000">Com fôrça desusada</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_315">315</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012100000">Formosa e gentil Dama, quando vejo</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_300">300</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012300000">Ja a roxa manhãa clara</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_307">307</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121000000">Junto d'hum secco, duro e esteril monte</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_328">328</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012700000">Manda-me Amor que cante docemente</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_318">318</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012800000">Manda-me Amor que cante o que a alma sente</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_322">322</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121200000">Nem roxa flor d'Abril</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_340">340</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121300000">Oh pomar venturoso</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_343">343</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121600000">Por meio de humas serras mui fragosas</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_352">352</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121500000">Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_349">349</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121400000">Quem com solido intento</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_346">346</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012500000">Se este meu pensamento</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_311">311</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012900000">Tomei a triste pena</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_326">326</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0121100000">Vinde cá, meu tão certo secretario</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_332">332</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION012400000">Vão as serenas agoas</a><span class="pn" ><a name="pag_420">{420}</a></span></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_309">309</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="text-align:center;"><a href="#SECTION013000000">ODES.</a></th> + </tr> + <tr> + <td></td> + <td style="text-align:right;">Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013070000">A quem darão do Pindo as moradoras</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_376">376</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0130100000">Aquelle moço fero</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_383">383</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013080000">Aquelle unico exemplo</a><a name="tex2html31" + href="#foot2898"><sup>[31]</sup></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_378">378</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013010000">Detem hum pouco, Musa, o largo pranto</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_360">360</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013090000">Fogem as neves frias</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_380">380</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013040000">Formosa fera humana</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_368">368</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0130110000">Ja a calma nos deixou</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_389">389</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION0130120000">Naquelle tempo brando</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_386">386</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013050000">Nunca manhãa suave</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_371">371</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013060000">Póde hum desejo immenso</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_373">373</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013030000">Se de meu pensamento</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_365">365</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION013020000">Tão suave, tão fresca e tão formosa</a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_363">363</a></td> + </tr> + <tr> + <td><a href="#SECTION020000000">N<small>OTAS</small></a></td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_395">395</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> </p> + + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot2893" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> A ma intelligencia +que Faria e Sousa deo a este verso, o fez duvidar se este naufragio foi antes +ou depois do desterro, porque diz elle: <em>Deste modo de hablar parece que se +infiere que á este naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella +fortuna sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas en +sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será ejecutado puede +estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré sin poder averiguarlo</em>. +Mas nem he isto por certo, nem de o não ser se segue que ao naufragio +succedesse o desterro, antes se confirma que o precedeo; porque ainda os pouco +versados na lingua Portugueza não ignorão que o verbo <em>ser</em> tem duas +accepções; a de <em>ser</em> e a de <em>estar</em>: e se na significação +propria de <em>ser</em> denotaria, neste lugar, o principio da acção, na de +<em>estar</em>, em que o tomou o poeta, denota o complemento e termo della. E +sendo este uso tão frequente ainda nos melhores prosadores, he para admirar que +a um homem tão lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. +Mas nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns leitores, +julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia.</p> + +<p><a name="foot257" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Os dous irmãos +Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara, aquelle confessor, este escrivão +da puridade, ou secretario intimo de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de +longe ião preparando o jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo +da infeliz nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos, +dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:</p> + +<p>"Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão de +sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo cuida, ou o bem +commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior esquecimento, que +tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e fazerem a si e a pessoa de um +Rei (que naturalmente he amavel) os mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca +houve, antes e depois de Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos +estados e qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes +ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e prudencia, que do +modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde vir a este Reino, nem a +pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor guarde) que não houvessem por +grandissima dita, se com isso se houvessem de ver livres do estado em que se +vem."</p> + +<p><a name="foot2896" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> <em>Esta Canção e a +precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em sentença e dicção pouco differem. +Quer Faria e Sousa que esta fosse a primeira que o poeta escreveo, e que, +desgostoso della, passára a escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual +fosse a elegida pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares +se vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da ultima +Estancia desta:</em></p> + +<blockquote> + <p><em>E porque não cabia dentro nella</em><br> + <em>De bens tamanhos tanto, </em><br> + <em>Sahe por a boca convertido em canto</em></p> +</blockquote> + +<p><em>preferisse o poeta o daquell'outra:</em></p> + +<blockquote> + <em>Se bem a declarei, </em><br> + <em>Eu não a escrevo, da alma a trasladei.</em></blockquote> + +<p><em>por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja +repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo e +peregrino.</em> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Nota dos editores.</em></p> + +<p><a name="foot2510" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Conjectura Faria e +Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô Estacio de Faria, amigo de Camões, +e como elle poeta e soldado.</p> + +<p><a name="foot2537" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Este Soneto anda +impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu por seu.</p> + +<p><a name="foot2568" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Em resposta ao +Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana."</p> + +<p><a name="foot2576" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Bernardes imprimio +este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas, aindaque os seus mesmos +contemporaneos o julgavão de Camões, imprimindo-o na primeira ed. de suas +Rimas.</p> + +<p><a name="foot2579" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> A D. Rodrigo +Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo conjectura Faria.</p> + +<p><a name="foot2582" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> A Manuel Barata, +famoso professor de Calligraphia no seculo XVI, publicando a sua Arte de +escrever em 1572.</p> + +<p><a name="foot2598" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Á morte de D. +Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os Mouros, junto a Ceuta em +1553.</p> + +<p><a name="foot2607" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> A sepultura de D. +Henrique de Menezes, septimo Governador da India, fallecido em Goa no anno de +1526.</p> + +<p><a name="foot2632" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Este he tambem hum +dos Sonetos que Bernardes publicou por seus, e que Faria achou nos M. S. que +continhão obras de Camões.</p> + +<p><a name="foot2636" href="#tex2html13"><sup>[13]</sup></a> Diversos forão os +cavalleiros deste apellido que servírão com distincção na India no tempo de +Camões. Suppomos que o Soneto foi feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que +passou á India com seu Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em +que ia Camões, onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi +encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada no +Estreito.</p> + +<p><a name="foot2644" href="#tex2html14"><sup>[14]</sup></a> Tambem este Soneto +anda nas Rimas de Bernardes.</p> + +<p><a name="foot2655" href="#tex2html15"><sup>[15]</sup></a> A D. Theodosio de +Bragança.</p> + +<p><a name="foot2686" href="#tex2html16"><sup>[16]</sup></a> Tambem impresso +entre os de Bernardes.</p> + +<p><a name="foot2694" href="#tex2html17"><sup>[17]</sup></a> A D. Guiomar de +Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo cahido de hum castiçal uma vela +accesa que lhe queimou o rosto.</p> + +<p><a name="foot2711" href="#tex2html18"><sup>[18]</sup></a> A D. João de +Castro.</p> + +<p><a name="foot2715" href="#tex2html19"><sup>[19]</sup></a> A D. Theodosio de +Bragança.</p> + +<p><a name="foot2723" href="#tex2html20"><sup>[20]</sup></a> A D. Luis de +Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a India, no anno de 1577. +Bernardes tambem metteu este Soneto entre os seus.</p> + +<p><a name="foot2897" href="#tex2html21"><sup>[21]</sup></a> Em um M. S. foi +achado este Soneto com este titulo: <em>De Luis de Camões a uma Dama que lhe +enviou uma lagrima entre dous pratos.</em> Thomaz d'Aquino.</p> + +<p><a name="foot2751" href="#tex2html22"><sup>[22]</sup></a> Este Soneto, diz +Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do Conde de Vimioso; e anda tambem +impresso entre os de Bernardes e he o 79.</p> + +<p><a name="foot2755" href="#tex2html23"><sup>[23]</sup></a> Na morte da +Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua terceira Rainha D. Leonor. +</p> + +<p><a name="foot2762" href="#tex2html24"><sup>[24]</sup></a> Ao Viso-Rei D. +Luis d'Ataïde.</p> + +<p><a name="foot2792" href="#tex2html25"><sup>[25]</sup></a> A João Lopes +Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de Camões: "Quem he este que na +harpa Lusitana."</p> + +<p><a name="foot2815" href="#tex2html26"><sup>[26]</sup></a> A D. Leoniz +Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca de que era Capitão, contra +o formidavel poder do Achem, em 1568.</p> + +<p><a name="foot2823" href="#tex2html27"><sup>[27]</sup></a> A D. Antonio de +Noronha.</p> + +<p><a name="foot2825" href="#tex2html28"><sup>[28]</sup></a> A D. João de +Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II.</p> + +<p><a name="foot2832" href="#tex2html29"><sup>[29]</sup></a> A D. Antonio de +Noronha.</p> + +<p><a name="foot2841" href="#tex2html30"><sup>[30]</sup></a> Á morte de D. +Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae d'ElRei D. Sebastião.</p> + +<p><a name="foot2898" href="#tex2html31"><sup>[31]</sup></a> A D. Francisco +Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India, por occasião de haver Garcia da +Orta, famoso Medico Portuguez, publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: +<em>Colloquio dos Simples, e cousas medicinaes da India</em>.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, +Tomo II, by Luís de Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + +***** This file should be named 31509-h.htm or 31509-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/5/0/31509/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/31509-h/images/selo.png b/31509-h/images/selo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f26b591 --- /dev/null +++ b/31509-h/images/selo.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..aa2844f --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #31509 (https://www.gutenberg.org/ebooks/31509) |
