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+The Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II, by
+Luís de Camões
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II
+
+Author: Luís de Camões
+
+Release Date: March 5, 2010 [EBook #31509]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1843.
+
+Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.
+
+Nesta versão electrónica, em texto simples, não é possível representar
+alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses
+caracteres os seguintes marcadores:
+
+[~e] = e com til por cima, corresponde aproximadamente a "em";
+
+[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um";
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+
+ CLASSICOS PORTUGUEZES.
+
+ TOMO II.
+
+ CAMÕES.
+
+ II.
+
+
+
+PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
+Rua Racine, 28, junto ao Odeon.
+
+
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+DE
+
+LUIS DE CAMÕES,
+
+CORRECTAS E EMENDADAS
+
+PELO CUIDADO E DILIGENCIA
+
+DE
+
+J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.
+
+
+TOMO SEGUNDO.
+
+
+LISBOA.
+
+ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
+NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
+3, quai Malaquais, près le pont des Arts.
+
+1843
+
+
+
+
+PREFAÇÃO.
+
+
+Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos
+os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras.
+Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor
+da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos
+violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se
+elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes,
+excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos
+heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros,
+elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem
+muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer
+que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros:
+testimunhas Grecia e Roma.
+
+Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a
+todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças
+e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente
+de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo
+mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e
+sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido
+o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das
+gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia
+por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da
+grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo
+do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde
+a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago
+e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou
+no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se.
+
+Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem
+nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos
+feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando
+o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no
+decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas
+primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o
+primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo
+algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da
+Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em
+Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo,
+como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por
+Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da
+qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio
+particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere....
+Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella
+varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse
+stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que
+fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fué el primero
+de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido
+principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se
+han compuesto._
+
+No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão
+Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos
+noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520.
+
+No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se
+conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um _Da
+Misericordia_, outro _Do Regimento da justiça e Officiaes della etc_. Seu
+irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente
+do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras
+politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em
+Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e
+dedicou a seu irmão Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re
+militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi
+elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas
+poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja
+então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte
+
+ ODE
+
+ De pungentes estimulos ferido
+ O Regedor dos ceos e humilde terra,
+ Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
+ Effeitos da sua íra.
+
+ A peste armada destruir teu povo
+ A um seu leve aceno vôa logo:
+ Estraga, fere, mata sanguinosa,
+ Despiedada e crua.
+
+ Despenhada no abysmo da ruina,
+ Fugir pretendes aos accesos raios,
+ Qual horrida phantasma, porém logo
+ Desfallecida cahes.
+
+ O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
+ Mas inda muito mais os teus errores
+ Que provocar fizerão contra ti
+ Contagião mortal.
+
+ Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
+ Da penitencia com as bastas ágoas,
+ Ja que revel e surda te mostraste
+
+ A seus mudos avisos.
+ Então verás ornada a nobre frente,
+ Como nos priscos tempos que passárão,
+ De esclarecidos louros, sinal certo
+ De teus almos triumphos.
+
+Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara
+começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes,
+escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação
+da monarchia.
+
+No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente
+introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes.
+Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, _O
+Palmeirim de Inglaterra_, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o
+attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: _Esta palma de
+Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella
+otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que
+la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro,
+Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es
+muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal.
+Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande
+arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro
+dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de
+Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni
+cata, perescan_. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o
+Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas
+d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos
+costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se
+avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como
+Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime,
+que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a
+trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta
+sons menos harmoniosos e suaves.
+
+Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer,
+mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas
+poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais
+desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido
+tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo
+este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e
+poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as
+penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á
+luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção
+dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de
+muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos
+damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando
+sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para
+nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he,
+cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E
+se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o
+devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que
+pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim
+desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas
+com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim
+se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao
+prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso
+poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o
+gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias
+bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique
+superior o de nenhuma outra nação estranha.
+
+Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma
+sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria,
+quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72:
+
+ SONETO
+
+ Quando de minhas mágoas a comprida
+ Maginação os olhos me adormece,
+ Em sonhos aquella alma me apparece,
+ Que para mim foi sonho nesta vida.
+
+ Lá n'uma soidade, onde estendida
+ A vista pelo campo desfallece,
+ Corro apos ella; e ella então parece
+ Que de mim mais se alonga, compellida.
+
+ Brado: Não me fujais, sombra benina.
+ Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
+ Como quem diz que ja não pode ser,
+
+ Torna a fugir-me: tórno a bradar: _Dina_...
+ E antes que diga _mene_, acordo, e vejo
+ Que nem um breve engano posso ter.
+
+Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia
+e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse
+pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes,
+confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas
+dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que
+o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e nós diremos: _Campos
+da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este
+maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem
+será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.
+
+Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a
+este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem
+quizer comparar umas com outras.
+
+Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos
+estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma
+natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado
+florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo
+as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no
+mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos
+Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro,
+Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por
+modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro!
+Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico
+ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em
+todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás
+materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e
+muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que
+hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores
+summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta
+opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª,
+9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára
+viciada.
+
+No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de
+a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma,
+para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de
+Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os
+cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns
+para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e
+Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na
+praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de
+razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes
+para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos,
+passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não
+mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.
+
+Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que
+emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico,
+dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxalá pudera humilhar
+a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_
+Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre
+Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as
+cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se
+tem razão.
+
+Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava
+pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não
+tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no
+julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas
+para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a
+pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores
+poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da
+natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente
+a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da
+natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura
+Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes
+poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores.
+Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria
+tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico,
+lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava
+melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he
+permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de
+quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.
+
+Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia
+seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra
+ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o
+throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril
+pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe
+o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se
+propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.
+
+ _Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._
+
+Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim
+o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.
+
+ _L'Églogue quelquefois
+ Rend dignes du Consul la campagne et les bois._
+
+E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem
+sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não
+possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.
+
+Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha
+e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro
+amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de
+tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e
+elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção,
+até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as
+transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o
+estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e
+figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara
+vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem
+vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar
+do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:
+
+ _Ipsae te, Tityre, pinus,
+ Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._
+
+ Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
+ Estes mesmos arbustos te chamavão.
+
+e não se hade consentir a Camões dizer:
+
+ Canta agora, pastor, que o gado pasce
+ Entre as humidas hervas socegado,
+ E lá nas altas serras onde nasce,
+ O sacro Tejo á sombra recostado
+ Com seus olhos no chão, a mão na face,
+ Está para te ouvir apparelhado;
+ E com silencio triste estão as Nymphas
+ Dos olhos destillando claras lymphas?
+
+Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma
+cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª
+
+Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle
+foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que
+desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo
+esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador
+sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza
+da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto
+puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta
+Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia
+domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este
+juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa
+facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a
+outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas
+Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos
+olhos.
+
+Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres
+deste modo:
+
+ AGRARIO.
+
+ Vós, semicapros deoses do alto monte,
+ Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
+ E vós, deosas do bosque e clara fonte,
+ E dos troncos que vivem largos anos;
+ Se tendes prompta um pouco a sacra fronte
+ A nossos versos rusticos e humanos,
+ Ou me dai ja a capella de loureiro,
+ Ou penda a minha lyra d'um pinheiro.
+
+Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador
+
+ ALICUTO.
+
+ Vós, humidas deidades deste pégo,
+ Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;
+ Vós, Nereidas do sal em que navego,
+ Por quem do vento a furia pouco temo;
+ Se a vossas sacras aras nunca nego
+ O congro nadador na pá do remo,
+ Não consintais que a musica marinha
+ Vencida seja aqui na lyra minha.
+
+Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são
+demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples,
+a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes
+demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores.
+Vejamos com que despejo entrão na lide.
+
+ AGRARIO.
+
+ Pastor se fez um tempo o moço louro
+ Que do pae as carretas move e guia;
+ Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,
+ Que o seu claro inventor alli tangia.
+ Io foi vacca, Jupiter foi touro
+ Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
+ Guardou formoso Adonis, e tornado
+ Em bezerro Neptuno foi ja achado.
+
+A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a
+seguinte, exaltando a sua profissão.
+
+ ALICUTO.
+
+ Pescador ja foi Glauco, e deos agora
+ He do mar, e Protêo phocas guarda;
+ Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora
+ Do amoroso prazer, que sempre tarda.
+ Se foi bezerro o deos que cá se adora,
+ Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,
+ Vê-se que os moços pescadores erão,
+ Que o escuro enigma ao primo vate derão.
+
+Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora
+recebe as suas finezas.
+
+ AGRARIO.
+
+ Formosa Dinamene, se dos ninhos
+ Os implumes penhores ja furtei
+ Á doce philomela, e dos murtinhos
+ Para ti (fera!) as flores apanhei;
+ E se os crespos madronhos nos raminhos
+ Com tanto gosto ja te presentei,
+ Porque não dás a Agrario desditoso
+ Um só revolver d'olhos piedoso?
+
+Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo
+os preceitos do canto amebeo, ou alternado.
+
+ ALICUTO.
+
+ Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
+ Os curvos camarões vivos saltando?
+ Para quem as conchinhas ruivas cavo
+ Na praia, os brancos buzios apanhando?
+ Para quem de mergulho no mar bravo
+ Os ramos de coral vou arrancando,
+ Senão para a formosa Lemnoria,
+ Que co'um só riso a vida me daria?
+
+Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de
+ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.
+
+ AGRARIO.
+
+ Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
+ D'átras nuvens vestido, horrido e feio,
+ Ennegrecendo á vista o ceo superno,
+ Quando os troncos arranca o rio cheio;
+ Raios, chuvas, trovões, um triste inferno
+ Que ao mundo mostra um pallido receio:
+ Tal o amor he cioso a quem suspeita
+ Que outrem de seu trabalho se aproveita.
+
+ ALICUTO.
+
+ Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
+ Furor lançando flammas e bramidos,
+ Quando as pasmosas serras traz diante,
+ Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;
+ A braços derribando o ja nutante
+ Mundo co'os elementos destruidos;
+ Assim me representa a phantasia
+ A desesperação de ver um dia.
+
+Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as
+estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção.
+Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do
+alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as
+furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o
+mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento
+não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se
+lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas
+figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte,
+que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está
+toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento
+traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra
+etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_,
+diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta
+_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto
+não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e
+palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de
+pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se
+espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se
+estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque
+não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o
+devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar
+os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento.
+Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o
+que inda ha pouco era rio caudaloso.
+
+ AGRARIO.
+
+ Minha alva Dinamene, a primavera
+ Que os deleitosos campos pinta e veste,
+ E rindo-se uma côr aos olhos gera,
+ Que em terra lhes faz ver o Arco celeste;
+ As aves, as boninas, a verde hera,
+ E toda a formosura amena agreste
+ Não he para os meus olhos tão formosa,
+ Como a tua, que abate o lirio e rosa.
+
+ ALICUTO.
+
+ As conchinhas da praia, que presentão
+ A côr das nuvens, quando nasce o dia;
+ O canto das Sirenas, que adormentão;
+ A tinta que no murice se cria;
+ O navegar por ondas, que se assentão
+ Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
+ Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
+ Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.
+
+ AGRARIO.
+
+ A deosa, que na Lybica lagôa
+ Em fórma virginal appareceo,
+ Cujo nome tomou, que tanto sôa,
+ Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo:
+ Garços os tem; mas uma, que a corôa
+ Das formosas do campo mereceo,
+ Da côr do campo os mostra graciosos.
+ Quem não diz que são estes os formosos?
+
+ ALICUTO.
+
+ Perdoem-me as deidades, mas tu diva
+ Que no liquido marmore es gerada,
+ A luz dos olhos teus, celeste e viva,
+ Tens por vicio amoroso atravessada:
+ Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva
+ De luz o dia, baixa e socegada
+ Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,
+ E com toda esta luz sempre estou cego.
+
+Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em
+Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio
+igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as
+duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler
+muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que
+ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de
+Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o
+estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais
+nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos
+de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem
+capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o
+merecimento e preço das obras dos grandes homens.
+
+Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que
+um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da
+nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e
+com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o
+verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos
+ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se
+recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte,
+aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os
+louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que
+parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a
+selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como
+oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões
+do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros
+mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.
+
+Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á
+de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do
+homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras
+Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta
+edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem
+propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era
+excellente.
+
+Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno
+Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões,
+que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma
+composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não
+podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso
+confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos
+que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não
+para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas
+para divertimento particular.
+
+E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas
+peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor
+(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle,
+se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por
+consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas
+heroicos e lyricos de Hespanha.
+
+Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como
+Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos
+talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta
+facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da
+paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a
+penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe
+impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque
+nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos
+escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a
+militar.
+
+Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio
+tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas
+desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação
+subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira
+parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda;
+que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da
+antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça,
+tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria,
+que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas,
+brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada
+póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do
+nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor
+cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e
+vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas:
+na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que
+assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia
+resurgir os mortos.
+
+
+
+
+VIDA DE LUIS DE CAMÕES.
+
+
+Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que
+nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades
+disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em
+tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o
+primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte
+mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de
+Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o
+poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os
+seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e
+computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo
+55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois
+comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de
+Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar
+a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli
+presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem
+seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se
+tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu
+nascimento.
+
+Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui
+pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e
+verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util;
+como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima
+do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos
+com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua
+genealogia.
+
+A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu
+Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas
+regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia,
+fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a
+seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se
+malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e
+passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por
+seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete,
+Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em
+Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de
+Portalegre e membro do seu conselho.
+
+Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão
+mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo
+depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua
+honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a
+inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na
+guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da
+successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes
+seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as
+armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom
+Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as
+herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em
+Alemquer.
+
+João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser
+Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes
+serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com
+Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo
+Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João
+1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste
+matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da
+Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que
+casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E
+destes nasceo o nosso poeta.
+
+Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa
+memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser
+insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se
+empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto
+se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua
+velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores
+estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de
+Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então
+restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob
+a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que
+este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes
+disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de
+fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi.
+
+Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio
+das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo
+com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E
+desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu
+primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se
+entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em
+todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se
+infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão.
+
+Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se
+apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo
+de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida.
+Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo
+aquella maviosa Canção que principia:
+
+ Vão as serenas ágoas
+ Do Mondego descendo etc.
+
+Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava
+Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento
+do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara
+belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de
+maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e
+123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido
+de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver
+vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a
+maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais
+notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella
+Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não
+satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel
+subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel
+saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia.
+Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente
+Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez
+se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor
+insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que
+manifesta na Canção 15 onde diz:
+
+ Des que com gentil arte
+ Vestís de flores bellas
+ A terra, que tocais co'a bella planta,
+ Quantas vezes com vê-las,
+ Quiz n'uma dessas flores transformar-me!
+ Porque vendo pisar-me
+ Desse candido pe, que a neve espanta,
+ Póde ser que na flor mudado fòra
+ Que deo a Juno irada a linda Flora.
+
+não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira
+por que Marte foi gerado.
+
+Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim,
+amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco
+acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa,
+Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida,
+foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão
+sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo
+estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas
+vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este
+desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido
+Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo
+depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu
+pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval
+com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de
+Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra
+aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel,
+mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como
+elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª
+
+ Agora exprimentando a furia rara
+ De Marte, que nos olhos quiz que logo
+ Visse e tocasse o acerbo fructo seu.
+ E neste escudo meu
+ A pintura verão do infesto fogo.
+
+Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras
+amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que
+para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que
+o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como
+dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de
+Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir,
+arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava
+a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro
+impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu
+destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro
+assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa:
+e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de
+quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no
+mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão
+anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que
+disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo)
+as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_.
+
+Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse
+aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso
+alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o
+acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente
+refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do
+seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro
+Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia
+das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do
+Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como
+verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as
+consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a
+Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma
+carta com data de Janeiro de 1555.
+
+E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que
+nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo:
+_Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços
+que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta,
+onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a
+cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou
+muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro
+Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era
+affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e
+tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu
+commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na
+China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo
+Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela
+fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que
+miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma
+opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado
+para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel
+Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal
+Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este
+Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de
+Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião
+festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou
+por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno
+de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em
+tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado
+por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar.
+
+Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei
+Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle
+voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a
+Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em
+que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se
+prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa
+occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões
+provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos
+defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem
+sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como
+conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em
+Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno,
+como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a
+Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que
+perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime,
+não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o
+podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo
+ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de
+1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e
+capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro
+Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de
+Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso,
+dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque
+se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua
+plena liberdade.
+
+Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel
+Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das
+Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na
+India_.
+
+Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi
+reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se
+poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que
+nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a
+seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do
+mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao
+mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena
+constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que
+para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa;
+prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a
+tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um
+fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das
+Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas
+que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a
+vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde
+descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além
+desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta
+Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos
+ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa
+Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel
+segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e
+se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer
+alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não
+apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos
+inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia
+necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda
+esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra
+escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de
+escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser
+desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das
+mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de
+lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira
+occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por
+ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos,
+que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á
+enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição,
+ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem
+com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde
+não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o
+segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por
+causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em
+Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de
+que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco
+Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo,
+que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se
+Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de
+que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem
+um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um
+tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos
+lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.
+
+ E ainda, Nymphas minhas, não bastava
+ Que tamanhas miserias me cercassem,
+ Senão que aquelles que eu cantando andava
+ Tal premio de meus versos me tornassem!
+ A trôco dos descansos que esperava,
+ Das capellas de Louro que me honrassem,
+ Trabalhos nunca usados me inventárão,
+ Com que em tão duro estado me deitárão.
+
+e na Canção XI:
+
+ Emfim, não houve trance de fortuna,
+ Nem perigos nem casos duvidosos,
+ Injustiças daquelles, que o confuso
+ Regimento do mundo, antigo abuso,
+ Faz sobre os outros homens poderosos,
+ Que eu não passasse, atado á fiel columna
+ Do soffrimento meu, que a importuna
+ Perseguição de males em pedaços
+ Mil vezes fez á força de seus braços.
+
+e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136,
+compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro
+de Babylonia:
+
+ A pena deste desterro,
+ Que eu mais desejo esculpida
+ Em pedra ou em duro ferro etc.
+
+Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo:
+
+ No grão dia singular
+ Que na lyra em douto som
+ Hierusalem celebrar,
+ Lembrai-vos de castigar
+ Os ruins filhos de Edom.
+ Aquelles que tintos vão
+ No pobre sangue innocente,
+ Soberbos co'o poder vão,
+ Arrazá-los igualmente:
+ Conheção que humanos são.
+
+Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida,
+porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma
+sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as
+leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou
+peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79,
+fallando com as Tagides:
+
+ Olhai que ha tanto tempo que cantando
+ O vosso Tejo e os vossos Lusitanos
+ A fortuna me traz peregrinando,
+ Novos trabalhos vendo e novos danos.
+
+e Est. 80:
+
+ Agora com pobreza aborrecida
+ Por hospicios alheios degradado.
+
+Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da
+Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em
+expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque
+se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer:
+
+ Aqui me achei gastando uns tristes dias,
+ Tristes, forçados, maos e solitarios,
+ De trabalho, de dor, e de ira cheios.
+
+porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião
+_forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não
+havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde
+nascer de alguma injúria ou violencia soffrida.
+
+Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns
+annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª
+
+ Aqui minha ventura
+ Quiz qu'uma grande parte
+ Da vida que não tinha se passasse,
+ Para que a sepultura
+ Nas mãos do fero Marte
+ De sangue e de lembranças matizasse.
+
+E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não
+só porque isso mesmo consta do remate della
+
+ Canção, neste desterro viverás,
+ Voz nua e descoberta,
+ Até que o tempo em eco te converta.
+
+mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como
+ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se
+sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.
+
+De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi
+existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o
+poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido
+crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a
+este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha
+de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e
+trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu
+merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua
+vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto
+havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver
+perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que
+não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de
+gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de
+Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das
+suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou,
+deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e
+calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria
+boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz
+nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:
+
+ Trabalhos nunca usados me inventárão,
+ Com que em tão duro estado me deitárão.
+
+Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque,
+tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa
+cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a
+nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide,
+censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição
+que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos
+ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a
+Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo
+daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer
+a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?
+
+Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou
+algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que
+exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma
+fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e
+que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle
+Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal,
+fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque
+isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:
+
+ Agora da esperança ja adquirida
+ De novo mais que nunca derribado.
+
+Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a
+nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda
+a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como
+Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi
+recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est.
+128, onde diz, fallando do rio Mecom:
+
+ Este receberá placido e brando
+ No seu regaço os Cantos, que molhados
+ Vem do naufragio triste e miserando,
+ Dos procellosos baixos escapados,
+ Das fomes, dos perigos grandes, quando
+ Será o injusto mando executado[1]
+ Naquelle, cuja lyra sonorosa
+ Será mais affamada, que ditosa.
+
+Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou
+por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase
+do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que
+tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para
+Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado
+de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a
+innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja
+administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe
+dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes
+etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o
+exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu
+proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da
+calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da
+India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa)
+escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.
+
+Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na
+precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!
+
+ O Valor e o Saber pedindo vão
+ Ás portas da cubiça e da vileza!
+
+Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do
+Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia
+amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe
+movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão,
+que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da
+Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no
+governo de Francisco Barreto, diz:
+
+ A piedade humana me faltava
+ A gente amiga ja contraria via
+ No perigo primeiro; e no segundo
+ Terra em que pôr os pés me fallecia,
+ Ar para respirar se me negava.
+
+Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui
+grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores
+tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e
+que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem
+fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando
+a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe
+emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo
+embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens,
+recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso
+requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.
+
+Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão
+perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem
+nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de
+maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu
+valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de
+tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para
+terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E
+nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como
+dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para
+Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a
+Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando
+meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu
+intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus,
+como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela
+honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão
+passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos
+ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados,
+que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida:
+do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e
+satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria
+e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos
+cruzados foi vendida.
+
+Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso
+de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do
+Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço,
+cheia de erudição e philosophia.
+
+No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que
+chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha
+todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se
+restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que
+ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella
+encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas
+succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua
+guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle
+expressamente nos diz (Egloga XI):
+
+ Tinha lá para mim que a vida tinha
+ Mais socegada cá e mais segura
+ Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.
+ Foi de outro parecer minha ventura:
+ Discordias sos achei, achei dureza
+ Em lugar de socêgo e de brandura.
+ Achei as boas leis da natureza
+ Vencidas do interesse, e a gente cega
+ Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.
+ Dizem que quando o mar bonança nega,
+ Correndo vai aquella nao mor p'rigo.
+ Que á desejada terra mais se chega.
+ Assi me aconteceo a mi comigo:
+ Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
+ Triste ao perto, e tratado como imigo.
+
+E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O
+escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama,
+poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os
+commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido
+necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou
+cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos
+contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de
+não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e
+não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de
+publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de
+succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois
+que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim
+do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar
+aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78):
+
+ Mas oh cego!
+ Eu que commetto insano e temerario
+ Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego,
+ Por caminho tão arduo longo e vario!
+ Vosso favor invoco, que navego
+ Por alto mar com vento tão contrario,
+ Que, se não me ajudais, hei grande medo
+ Que o meu fraco batel se alague cedo.
+
+e depois (Estancia 83):
+
+ Pois logo em tantos males he forçado
+ Que se vosso favor me não falleça,
+ Principalmente aqui, que sou chegado
+ Onde feitos diversos engrandeça.
+ Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado
+ Que não o empregue em quem o não mereça,
+ Nem por lisonja louve algum subido,
+ Sob pena de não ser agradecido.
+
+Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama
+posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria,
+cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque
+dous annos esteve sem sahir com elle á luz.
+
+Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina,
+sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia
+originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque,
+estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de
+1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do
+poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte
+revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que
+poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas
+suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no
+mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle
+emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande
+familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da
+Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho
+dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe
+fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de
+toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys,
+e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82):
+
+ Porque eu, Saturno e Jano,
+ Jupiter, Juno, somos fabulosos,
+ Fingidos de mortal e cego engano;
+
+a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e
+seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II,
+Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não
+he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he
+permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente!
+
+Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572
+sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como
+queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e
+póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as
+duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que
+desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse
+cansar-se com a revisão das provas.
+
+Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe
+fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita
+de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na
+Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque
+no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que
+parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o
+Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se
+dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por
+caridade, como se vê dos seguintes versos:
+
+ Estes humildes versos, que pregão
+ São destes vossos Reinos com verdade,
+ Tenhão, se não merecem galardão,
+ Favor sequer da Regia Magestade:
+ Assim tenhais de quem ja tendes tanto,
+ Com o nome e reliquia, favor santo.
+
+E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os
+monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e
+pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de
+Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra
+o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe,
+tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão
+arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de
+andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que
+jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$
+reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della.
+Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os
+commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus
+foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte,
+não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava
+mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte:
+
+ Oh inimigos maos da natureza,
+ Que injuriais a propria geração!
+ Degenerantes, baixos! Que fraqueza
+ De esforço, de saber e de razão
+ Vos fez que a clara estirpe, que se préza
+ De leal, fido e limpo coração,
+ Esqueçais dessa sorte? Mas respeito,
+ Que este dos nobres he o menor defeito.
+
+E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido
+a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de
+Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o
+sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de
+Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia
+todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em
+quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que
+desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes
+achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus
+eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella
+incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no
+mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.
+
+Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores
+contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos
+Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha
+tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete
+Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa
+tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me
+não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis.
+_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses
+versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e
+agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso
+me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a
+pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este
+Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos
+sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma
+esmola.
+
+Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom
+Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão
+levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse
+testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava
+homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e
+magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma
+Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios
+promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não
+convertesse o canto em chôro.
+
+Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito
+peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco
+depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe
+morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus
+dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á
+sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que
+morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois
+da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como
+todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por
+caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida
+que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa
+casa, ahi achão mortalha e sepultura.
+
+Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido
+sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos
+tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do
+pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da
+justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates
+contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte
+debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade
+de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos
+tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi
+mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não
+abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e
+depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em
+degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia,
+cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a
+submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer
+elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o
+que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte
+muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em
+cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas,
+conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o
+merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas
+pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que
+não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder
+comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras
+de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de
+Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a
+impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a
+Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o
+denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre
+Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que
+mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um
+folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:
+
+_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden
+de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el
+Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y
+judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y
+profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico
+ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._
+
+Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos
+aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja
+com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este
+grande homem e todos os que o ousárão louvar:
+
+_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento
+no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa
+cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son
+enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los
+celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á
+entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del
+Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios
+contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y
+á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le
+persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á
+imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden
+viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió
+en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba
+escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la
+representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por
+quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los
+Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._
+
+_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si
+bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por
+ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un
+Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria
+de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo
+ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á
+una mano publican la excelencia de sus obras._
+
+Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima
+censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo
+mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos
+de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas
+as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre
+Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e
+inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com
+calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não
+sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de
+derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez
+umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes
+se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer
+outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta,
+cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua
+natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu
+Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas
+cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a
+Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:
+
+ Quando uma noute estando descuidados
+ Na cortadora prôa vigiando.
+
+Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia!
+Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião
+indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão
+vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume
+dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes
+não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia
+a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões?
+
+Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria
+nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação,
+e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem
+recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas
+impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della
+como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que
+quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos
+vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o
+perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos
+Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo
+cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos
+possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas
+que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males
+particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era
+conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem
+dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e
+populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de
+homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos
+Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha
+algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para
+que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel
+(Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste
+desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os
+Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e
+inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por
+lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias
+se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus
+compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem
+apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil
+preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos
+ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem
+lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.
+
+Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros,
+que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e
+grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da
+fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na
+conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os
+amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos
+perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna
+conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da
+morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer,
+que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna
+representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me
+ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males,
+pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi
+ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e
+desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou
+em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della,
+como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos
+parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que
+nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira
+aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque
+julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua
+patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na
+sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento,
+vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom
+Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma
+carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e
+aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de
+morrer nella, quiz tambem morrer com ella._
+
+Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta
+Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos
+com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo
+Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e
+nella gravar este letreiro:
+
+ AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES,
+ PRINCIPE
+ DOS POETAS DE SEU TEMPO.
+ VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE,
+ E ASSI MORREO
+ ANNO DE MDLXXIX.
+ ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR
+ DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE
+ NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.
+
+Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da
+Camara o seguinte Epitaphio:
+
+ _Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,
+ Hic jacet heroe carmine Virgilius.
+ Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.
+ Unam nobilitant Mars et Apollo manum.
+ Castalium fontem traxit modulamine: at Indo
+ Et Gangi telis obstupefecit aquas.
+ India mirata est, quando aurea carmina, lucrum
+ Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.
+ Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:
+ At plus, dum calamo bellicosa facta refert.
+ Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:
+ Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.
+ Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni
+ Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._
+
+Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu
+correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e
+quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse
+licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um
+tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da
+Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta,
+talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão
+grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno
+de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio
+os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida
+erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de
+tão insigne varão.
+
+
+
+
+RIMAS.
+
+
+
+
+RIMAS.
+
+
+SONETOS.
+
+
+I.
+
+ Em quanto quiz fortuna que tivesse
+ Esperança de algum contentamento,
+ O gosto de hum suave pensamento
+ Me fez que seus effeitos escrevesse.
+ Porém temendo Amor que aviso désse
+ Minha escriptura a algum juizo isento,
+ Escureceo-me o engenho co'o tormento,
+ Para que seus enganos não dissesse.
+ Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
+ A diversas vontades! quando lerdes
+ N'hum breve livro casos tão diversos;
+ (Verdades puras são, e não defeitos)
+ Entendei que segundo o amor tiverdes,
+ Tereis o entendimento de meus versos.
+
+
+II.
+
+ Eu cantarei de amor tão docemente,
+ Por huns termos em si tão concertados,
+ Que dous mil accidentes namorados
+ Faça sentir ao peito que não sente.
+ Farei que Amor a todos avivente,
+ Pintando mil segredos delicados,
+ Brandas iras, suspiros magoados,
+ Temerosa ousadia, e pena, ausente.
+ Tambem, Senhora, do desprêzo honesto
+ De vossa vista branda e rigorosa,
+ Contentar-me-hei dizendo a menor parte.
+ Porém para cantar de vosso gesto
+ A composição alta e milagrosa,
+ Aqui falta saber, engenho, e arte.
+
+
+III.
+
+ Com grandes esperanças ja cantei,
+ Com que os deoses no Olympo conquistára;
+ Depois vim a chorar porque cantára,
+ E agora chóro ja porque chorei.
+ Se cuido nas passadas que ja dei,
+ Custa-me esta lembrança só tão cara,
+ Que a dor de ver as mágoas que passára,
+ Tenho por a mór mágoa que passei.
+ Pois logo, se está claro que hum tormento
+ Dá causa que outro na alma se accrescente,
+ Ja nunca posso ter contentamento.
+ Mas esta phantasia se me mente?
+ Oh ocioso e cego pensamento!
+ Ainda eu imagino em ser contente?
+
+
+IV.
+
+ Despois que quiz Amor que eu só passasse
+ Quanto mal ja por muitos repartio,
+ Entregou-me á Fortuna, porque vio
+ Que não tinha mais mal que em mi mostrasse.
+ Ella, porque do Amor se avantajasse
+ Na pena a que elle só me reduzio,
+ O que para ninguem se consentio,
+ Para mim consentio que se inventasse.
+ Eis-me aqui vou com vário som gritando.
+ Copioso exemplario para a gente
+ Que destes dous tyrannos he sujeita;
+ Desvarios em versos concertando.
+ Triste quem seu descanso tanto estreita,
+ Que deste tão pequeno está contente!
+
+
+V.
+
+ Em prisões baixas fui hum tempo atado;
+ Vergonhoso castigo de meus erros:
+ Inda agora arrojando levo os ferros,
+ Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado.
+ Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
+ Que Amor não quer cordeiros nem bezerros;
+ Vi mágoas, vi miserias, vi desterros:
+ Parece-me que estava assi ordenado.
+ Contentei-me com pouco, conhecendo
+ Que era o contentamento vergonhoso,
+ Só por ver que cousa era viver ledo.
+ Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo,
+ A Morte cega, e o Caso duvidoso
+ Me fizerão de gostos haver medo.
+
+
+VI.
+
+ Illustre e digno ramo dos Menezes,
+ Aos quaes o providente e largo Ceo
+ (Que errar não sabe) em dote concedeo,
+ Rompessem os Maometicos arnezes;
+ Desprezando a Fortuna e seus revezes,
+ Ide para onde o Fado vos moveo;
+ Erguei flammas no mar alto Erythreo,
+ E sereis nova luz aos Portuguezes.
+ Opprimi com tão firme e forte peito
+ O Pirata insolente, que se espante
+ E trema Taprobana e Gedrosia.
+ Dai nova causa á côr do Arabo Estreito;
+ Assi que o Roxo mar, daqui em diante
+ O seja só com sangue de Turquia.
+
+
+VII.
+
+ No tempo que de amor viver sohia,
+ Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
+ Antes agora livre, agora atado,
+ Em várias flammas variamente ardia.
+ Que ardesse n'hum só fogo não queria
+ O Ceo porque tivesse exprimentado
+ Que nem mudar as causas ao cuidado
+ Mudança na ventura me faria.
+ E se algum pouco tempo andava isento,
+ Foi como quem co'o pêzo descansou
+ Por tornar a cansar com mais alento.
+ Louvado seja Amor em meu tormento,
+ Pois para passatempo seu tomou
+ Este meu tão cansado soffrimento!
+
+
+VIII.
+
+ Amor, que o gesto humano na alma escreve,
+ Vivas faiscas me mostrou hum dia,
+ Donde hum puro crystal se derretia
+ Por entre vivas rosas e alva neve.
+ A vista, que em si mesma não se atreve,
+ Por se certificar do que alli via,
+ Foi convertida em fonte, que fazia
+ A dor ao soffrimento doce e leve.
+ Jura Amor, que brandura de vontade
+ Causa o primeiro effeito; o pensamento
+ Endoudece, se cuida que he verdade.
+ Olhai como Amor gera, em hum momento,
+ De lagrimas de honesta piedade
+ Lagrimas de immortal contentamento.
+
+
+IX.
+
+ Tanto de meu estado me acho incerto,
+ Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
+ Sem causa juntamente chóro e rio;
+ O mundo todo abarco, e nada apérto.
+ He tudo quanto sinto hum desconcêrto:
+ Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;
+ Agora espero, agora desconfio;
+ Agora desvarío, agora acérto.
+ Estando em terra, chego ao ceo voando;
+ N'hum'hora acho mil annos, e he de geito
+ Que em mil annos não posso achar hum'hora.
+ Se me pergunta alguem, porque assi ando,
+ Respondo, que não sei: porém suspeito
+ Que só porque vos vi, minha Senhora.
+
+
+X.
+
+ Transforma-se o amador na cousa amada,
+ Por virtude do muito imaginar:
+ Não tenho logo mais que desejar,
+ Pois em mim tenho a parte desejada.
+ Se nella está minha alma transformada,
+ Que mais deseja o corpo de alcançar?
+ Em si somente póde descansar,
+ Pois com elle tal alma está liada.
+ Mas esta linda e pura semidea,
+ Que como o accidente em seu sojeito,
+ Assi com a alma minha se confórma;
+ Está no pensamento como idea;
+ E o vivo e puro amor de que sou feito,
+ Como a materia simples busca a fórma.
+
+
+XI.
+
+ Passo por meus trabalhos tão isento
+ De sentimento grande nem pequeno,
+ Que só por a vontade com que peno
+ Me fica Amor devendo mais tormento.
+ Mas vai-me Amor matando tanto a tento,
+ Temperando a triaga co'o veneno,
+ Que do penar a ordem desordeno,
+ Porque não mo consente o soffrimento.
+ Porém se esta fineza o Amor sente
+ E pagar-me meu mal com mal pretende,
+ Torna-me com prazer como ao sol neve.
+ Mas se me vê co'os males tão contente,
+ Faz-se avaro da pena, porque entende
+ Que quanto mais me paga, mais me deve.
+
+
+XII.
+
+ Em flor vos arrancou, de então crescida,
+ (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte
+ Donde fazendo andava o braço forte
+ A fama dos antiguos esquecida.
+ Huma só razão tenho conhecida
+ Com que tamanha mágoa se conforte:
+ Que se no Mundo havia honrada morte,
+ Não podieis vós ter mais larga vida.
+ Se meus humildes versos podem tanto
+ Que co'o desejo meu se iguale a arte,
+ Especial materia me sereis.
+ E celebrado em triste e longo canto,
+ Se morrestes nas mãos do fero Marte,
+ Na memoria das gentes vivireis.
+
+
+XIII.
+
+ N'hum jardim adornado de verdura,
+ Que esmaltavão por cima várias flores,
+ Entrou hum dia a deosa dos amores,
+ Com a deosa da caça e da espessura.
+ Diana tomou logo h[~u]a rosa pura,
+ Venus hum roxo lyrio, dos melhores;
+ Mas excedião muito ás outras flores
+ As violas na graça e formosura.
+ Perguntão a Cupido, que alli estava,
+ Qual de aquellas tres flores tomaria
+ Por mais suave e pura, e mais formosa.
+ Sorrindo-se o menino lhes tornava:
+ Todas formosas são; mas eu queria
+ Viola antes que lyrio, nem que rosa.
+
+
+XIV.
+
+ Todo animal da calma repousava,
+ Só Liso o ardor della não sentia;
+ Que o repouso do fogo, em que elle ardia,
+ Consistia na Nympha que buscava.
+ Os montes parecia que abalava
+ O triste som das mágoas que dizia:
+ Mas nada o duro peito commovia,
+ Que na vontade de outro posto estava.
+ Cansado ja de andar por a espessura,
+ No tronco de huma faia, por lembrança,
+ Escreve estas palavras de tristeza:
+ Nunca ponha ninguem sua esperança
+ Em peito feminil, que de natura
+ Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza.
+
+
+XV.
+
+ Busque Amor novas artes, novo engenho
+ Para matar-me, e novas esquivanças;
+ Que não póde tirar-me as esperanças,
+ Pois mal me tirará o que eu não tenho.
+ Olhai de que esperanças me mantenho!
+ Vêde que perigosas seguranças!
+ Pois não temo contrastes nem mudanças,
+ Andando em bravo mar, perdido o lenho.
+ Mas com quanto não póde haver desgôsto
+ Onde esperança falta, lá me esconde
+ Amor hum mal, que mata e não se vê.
+ Que dias ha que na alma me t[~e]e posto
+ Hum não sei que, que nasce não sei onde;
+ Vem não sei como; e doe não sei porque.
+
+
+XVI.
+
+ Quem vê, Senhora, claro e manifesto
+ O lindo ser de vossos olhos bellos,
+ Se não perder a vista só com vellos,
+ Ja não paga o que deve a vosso gesto.
+ Este me parecia preço honesto;
+ Mas eu, por de vantagem merecellos,
+ Dei mais a vida e alma por querellos;
+ Donde ja me não fica mais de resto.
+ Assi que alma, que vida, que esperança,
+ E que quanto for meu, he tudo vosso:
+ Mas de tudo o interêsse eu só o levo.
+ Porque he tamanha bem-aventurança
+ O dar-vos quanto tenho, e quanto posso,
+ Que quanto mais vos pago, mais vos devo.
+
+
+XVII.
+
+ Quando da bella vista e doce riso
+ Tomando estão meus olhos mantimento,
+ Tão elevado sinto o pensamento,
+ Que me faz ver na terra o Paraiso.
+ Tanto do bem humano estou diviso,
+ Que qualquer outro bem julgo por vento:
+ Assi que em termo tal, segundo sento,
+ Pouco vem a fazer quem perde o siso.
+ Em louvar-vos, Senhora, não me fundo;
+ Porque quem vossas graças claro sente,
+ Sentirá que não póde conhecellas.
+ Pois de tanta estranheza sois ao mundo,
+ Que não he de estranhar, Dama excellente,
+ Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas.
+
+
+XVIII.
+
+ Doces lembranças da passada gloria,
+ Que me tirou fortuna roubadora,
+ Deixai-me descansar em paz hum'hora,
+ Que comigo ganhais pouca victoria.
+ Impressa tenho na alma larga historia
+ Deste passado bem, que nunca fôra;
+ Ou fôra, e não passára: mas ja agora
+ Em mi não póde haver mais que a memoria.
+ Vivo em lembranças, morro de esquecido
+ De quem sempre devêra ser lembrado,
+ Se lhe lembrára estado tão contente.
+ Oh quem tornar pudéra a ser nascido!
+ Soubera-me lograr do bem passado,
+ Se conhecer soubera o mal presente.
+
+
+XIX.
+
+ Alma minha gentil, que te partiste
+ Tão cedo desta vida descontente,
+ Repousa lá no Ceo eternamente,
+ E viva eu cá na terra sempre triste.
+ Se lá no assento Ethereo, onde subiste,
+ Memoria desta vida se consente,
+ Não te esqueças de aquelle amor ardente,
+ Que ja nos olhos meus tão puro viste.
+ E se vires que póde merecer-te
+ Alg[~u]a cousa a dor que me ficou
+ Da mágoa, sem remedio, de perder-te;
+ Roga a Deos que teus annos encurtou,
+ Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
+ Quão cedo de meus olhos te levou.
+
+
+XX.
+
+ N'hum bosque, que das Nymphas se habitava,
+ Sibella, Nympha linda, andava hum dia;
+ E subida em huma árvore sombria,
+ As amarellas flores apanhava.
+ Cupido, que alli sempre costumava
+ A vir passar a sésta á sombra fria,
+ Em hum ramo arco e settas, que trazia,
+ Antes que adormecesse, pendurava.
+ A Nympha, como idoneo tempo víra
+ Para tamanha empresa, não dilata;
+ Mas com as armas foge ao moço esquivo.
+ As settas traz nos olhos, com que tira.
+ Ó Pastores! fugi, que a todos mata,
+ Senão a mim, que de matar-me vivo.
+
+
+XXI.
+
+ Os Reinos e os Imperios poderosos,
+ Que em grandeza no mundo mais crescêrão;
+ Ou por valor de esfôrço florecêrão,
+ Ou por Barões nas letras espantosos.
+ Teve Grecia Themistocles famosos;
+ Os Scipiões a Roma engrandecêrão;
+ Doze Pares a França gloria derão;
+ Cides a Hespanha, e Laras bellicosos.
+ Ao nosso Portugal, que agora vemos
+ Tão differente de seu ser primeiro,
+ Os vossos derão honra e liberdade.
+ E em vós, grão successor e novo herdeiro
+ Do Braganção Estado, ha mil extremos
+ Iguaes ao sangue, e móres que a idade.
+
+
+XXII.
+
+ De vós me parto, ó vida, e em tal mudança
+ Sinto vivo da morte o sentimento.
+ Não sei para que he ter contentamento,
+ Se mais ha de perder quem mais alcança.
+ Mas dou-vos esta firme segurança:
+ Que postoque me mate o meu tormento,
+ Por as aguas do eterno esquecimento
+ Segura passará minha lembrança.
+ Antes sem vós meus olhos se entristeção,
+ Que com cousa outra alguma se contentem:
+ Antes os esqueçais, que vos esqueção.
+ Antes nesta lembrança se atormentem,
+ Que com esquecimento desmereção
+ A gloria que em soffrer tal pena sentem.
+
+
+XXIII.
+
+ Chara minha inimiga, em cuja mão
+ Poz meus contentamentos a ventura,
+ Faltou-te a ti na terra sepultura,
+ Porque me falte a mi consolação.
+ Eternamente as águas lograrão
+ A tua peregrina formosura:
+ Mas em quanto me a mim a vida dura,
+ Sempre viva em minha alma te acharão.
+ E se meus rudos versos podem tanto,
+ Que possão prometter-te longa historia
+ De aquelle amor tão puro e verdadeiro;
+ Celebrada serás sempre em meu canto:
+ Porque em quanto no mundo houver memoria,
+ Será a minha escriptura o teu letreiro.
+
+
+XXIV.
+
+ Aquella triste e leda madrugada,
+ Cheia toda de mágoa e de piedade,
+ Em quanto houver no mundo saudade
+ Quero que seja sempre celebrada.
+ Ella só, quando amena e marchetada
+ Sahia, dando á terra claridade,
+ Vio apartar-se de huma outra vontade,
+ Que nunca poderá ver-se apartada;
+ Ella só vio as lagrimas em fio,
+ Que de huns e de outros olhos derivadas,
+ Juntando-se, formárão largo rio;
+ Ella ouvio as palavras magoadas,
+ Que puderão tornar o fogo frio,
+ E dar descanço ás almas condemnadas.
+
+
+XXV.
+
+ Se quando vos perdi, minha esperança,
+ A memoria perdêra juntamente
+ Do doce bem passado e mal presente,
+ Pouco sentira a dor de tal mudança.
+ Mas Amor, em quem tinha confiança,
+ Me representa mui miudamente
+ Quantas vezes me vi ledo e contente,
+ Por me tirar a vida esta lembrança.
+ De cousas de que apenas hum signal
+ Havia, porque as dei ao esquecimento,
+ Me vejo com memorias perseguido.
+ Ah dura estrella minha! Ah grão tormento!
+ Que mal póde ser mor, que no meu mal
+ Ter lembranças do bem que he ja passado?
+
+
+XXVI.
+
+ Em formosa Lethea se confia,
+ Por onde vaidade tanta alcança,
+ Que, tornada em soberba a confiança,
+ Com os deoses celestes competia.
+ Porque não fosse avante esta ousadia,
+ (Que nascem muitos erros da tardança)
+ Em effeito puzerão a vingança
+ Que tamanha doudice merecia.
+ Mas Oleno, perdido por Lethea,
+ Não lhe soffrendo Amor que supportasse
+ Duro castigo em tanta formosura,
+ Quiz a pena tomar da culpa alhea:
+ Mas, porque a Morte Amor não apartasse,
+ Ambos tornados são em pedra dura.
+
+
+XXVII.
+
+ Males, que contra mim vos conjurastes,
+ Quanto ha de durar tão duro intento?
+ Se dura, porque dure meu tormento,
+ Baste-vos quanto ja me atormentastes.
+ Mas se assi porfiais, porque cuidastes
+ Derribar o meu alto pensamento,
+ Mais póde a causa delle, em que o sustento,
+ Que vós, que della mesma o ser tomastes.
+ E pois vossa tenção com minha morte
+ He de acabar o mal destes amores,
+ Dai ja fim a tormento tão comprido.
+ Assi de ambos contente será a sorte;
+ Em vós por acabar-me, vencedores,
+ Em mim porque acabei de vós vencido.
+
+
+XXVIII.
+
+ Está-se a Primavera trasladando
+ Em vossa vista deleitosa e honesta;
+ Nas bellas faces, e na boca e testa,
+ Cecens, rosas, e cravos debuxando.
+ De sorte, vosso gesto matizando,
+ Natura quanto póde manifesta,
+ Que o monte, o campo, o rio, e a floresta,
+ Se estão de vós, Senhora, namorando.
+ Se agora não quereis que quem vos ama
+ Possa colher o fructo destas flores,
+ Perderão toda a graça os vossos olhos.
+ Porque pouco aproveita, linda Dama,
+ Que semeasse o Amor em vós amores,
+ Se vossa condição produze abrolhos.
+
+
+XXIX.
+
+ Sete annos de pastor Jacob servia
+ Labão, pae de Raquel, serrana bella:
+ Mas não servia ao pae, servia a ella,
+ Que a ella só por premio pertendia.
+ Os dias na esperança de hum só dia
+ Passava, contentando-se com vella:
+ Porém o pae, usando de cautella,
+ Em lugar de Raquel lhe deo a Lia.
+ Vendo o triste Pastor que com enganos
+ Assi lhe era negada a sua Pastora,
+ Como se a não tivera merecida;
+ Começou a servir outros sete annos,
+ Dizendo: Mais servíra, senão fôra
+ Para tão longo amor tão curta a vida.
+
+
+XXX.
+
+ Está o lascivo e doce passarinho
+ Com o biquinho as pennas ordenando;
+ O verso sem medida, alegre e brando,
+ Despedindo no rustico raminho.
+ O cruel caçador, que do caminho
+ Se vem callado e manso desviando,
+ Com prompta vista a setta endireitando,
+ Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho.
+ Desta arte o coração, que livre andava,
+ (Postoque ja de longe destinado)
+ Onde menos temia, foi ferido.
+ Porque o frecheiro cego me esperava,
+ Para que me tomasse descuidado,
+ Em vossos claros olhos escondido.
+
+
+XXXI.
+
+ Pede o desejo, Dama, que vos veja:
+ Não entende o que pede; está enganado.
+ He este amor tão fino e tão delgado,
+ Que quem o t[~e]e, não sabe o que deseja.
+ Não ha cousa, a qüal natural seja,
+ Que não queira perpétuo o seu estado.
+ Não quer logo o desejo o desejado,
+ Só porque nunca falte onde sobeja.
+ Mas este puro affecto em mim se dana:
+ Que, como a grave pedra t[~e]e por arte
+ O centro desejar da natureza;
+ Assi meu pensamento por a parte,
+ Que vai tomar de mi, terreste e humana,
+ Foi, Senhora, pedir esta baixeza.
+
+
+XXXII.
+
+ Porque quereis, Senhora, que offereça
+ A vida a tanto mal como padeço?
+ Se vos nasce do pouco que eu mereço,
+ Bem por nascer está quem vos mereça.
+ Entendei que por muito que vos peça,
+ Poderei merecer quanto vos peço;
+ Pois não consente amor que em baixo preço
+ Tão alto pensamento se conheça.
+ Assi que a paga igual de minhas dores
+ Com nada se restaura; mas devêsma
+ Por ser capaz de tantos desfavores.
+ E se o valor de vossos amadores
+ Houver de ser igual comvosco mesma,
+ Vós só comvosco mesma andai de amores.
+
+
+XXXIII.
+
+ Se tanta pena tenho merecida
+ Em pago de soffrer tantas durezas;
+ Provai, Senhora, em mi vossas cruezas,
+ Que aqui tendes huma alma offerecida.
+ Nella experimentai, se sois servida,
+ Desprezos, desfavores e asperezas;
+ Que móres soffrimentos e firmezas
+ Sustentarei na guerra desta vida.
+ Mas contra vossos olhos quaes serão?
+ He preciso que tudo se lhes renda;
+ Mas porei por escudo o coração.
+ Porque em tão dura e aspera contenda
+ He bem que, pois não acho defensão,
+ Com meter-me nas lanças me defenda.
+
+
+XXXIV.
+
+ Quando o sol encoberto vai mostrando
+ Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
+ Ao longo de huma praia deleitosa
+ Vou na minha inimiga imaginando.
+ Aqui a vi os cabellos concertando;
+ Alli co'a mão na face, tão formosa;
+ Aqui fallando alegre, alli cuidosa;
+ Agora estando quêda, agora andando.
+ Aqui esteve sentada, alli me vio,
+ Erguendo aquelles olhos, tão isentos;
+ Commovida aqui hum pouco, alli segura.
+ Aqui se entristeceo, alli se rio:
+ E, em fim, nestes cansados pensamentos
+ Passo esta vida vãa, que sempre dura.
+
+
+XXXV.
+
+ Hum mover de olhos, brando e piedoso,
+ Sem ver de que; hum riso brando e honesto,
+ Quasi forçado; hum doce e humilde gesto,
+ De qualquer alegria duvidoso:
+ Hum despejo quieto e vergonhoso;
+ Hum repouso gravissimo e modesto;
+ Huma pura bondade, manifesto
+ Indicio da alma, limpo e gracioso:
+ Hum encolhido ousar; huma brandura;
+ Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno;
+ Hum longo e obediente soffrimento:
+ Esta foi a celeste formosura
+ Da minha Circe, e o magico veneno
+ Que pôde transformar meu pensamento.
+
+
+XXXVI.
+
+ Tomou-me vossa vista soberana
+ Adonde tinha as armas mais á mão,
+ Por mostrar a quem busca defensão
+ Contra esses bellos olhos, que se engana.
+ Por ficar da victoria mais ufana,
+ Deixou-me armar primeiro da razão.
+ Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão,
+ Que contra o Ceo não val defensa humana.
+ Com tudo, se vos tinha promettido
+ O vosso alto destino esta victoria,
+ Ser-vos ella bem pouca está entendido.
+ Pois, indaque eu me achasse apercebido,
+ Não levais de vencer-me grande gloria,
+ Eu a levo maior de ser vencido.
+
+
+XXXVII.
+
+ Não passes, caminhante. Quem me chama?
+ H[~u]a memoria nova e nunca ouvida,
+ De hum que trocou finita e humana vida
+ Por divina, infinita, e clara fama.
+ Quem he, que tão gentil louvor derrama?
+ Quem derramar seu sangue não duvida,
+ Por seguir a bandeira esclarecida
+ De hum capitão de Christo que mais ama.
+ Ditoso fim, ditoso sacrificio,
+ Que a Deos se fez e ao mundo juntamente!
+ Pregoando direi tão alta sorte.
+ Mais poderás contar a toda a gente
+ Que sempre deo na vida claro indicio
+ De vir a merecer tão santa morte.
+
+
+XXXVIII.
+
+ Formosos olhos, que na idade nossa
+ Mostrais do Ceo certissimos signais,
+ Se quereis conhecer quanto possais,
+ Olhai-me a mim, que sou feitura vossa.
+ Vereis que do viver me desapossa
+ Aquelle riso com que a vida dais:
+ Vereis como de Amor não quero mais,
+ Por mais que o tempo corra, o damno possa.
+ E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes,
+ Como em hum claro espelho, alli vereis
+ Tambem a vossa angelica e serena.
+ Mas eu cuido que, só por me não verdes,
+ Ver-vos em mim, Senhora, não quereis:
+ Tanto gôsto levais de minha pena!
+
+
+XXXIX.
+
+ O fogo que na branda cera ardia,
+ Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,
+ Se accendeo de outro fogo do desejo
+ Por alcançar a luz que vence o dia.
+ Como de dous ardores se encendia,
+ Da grande impaciencia fez despejo,
+ E remettendo com furor sobejo,
+ Vos foi beijar na parte onde se via.
+ Ditosa aquella flamma que se atreve
+ A apagar seus adores e tormentos
+ Na vista a quem o sol temores deve!
+ Namorão-se, Senhora, os Elementos
+ De vós, e queima o fogo aquella neve
+ Que queima corações e pensamentos.
+
+
+XL.
+
+ Alegres campos, verdes arvoredos,
+ Claras e frescas águas de crystal,
+ Que em vós os debuxais ao natural,
+ Discorrendo da altura dos rochedos:
+ Sylvestres montes, asperos penedos
+ Compostos de concêrto desigual;
+ Sabei que sem licença de meu mal
+ Ja não podeis fazer meus olhos ledos.
+ E pois ja me não vêdes como vistes,
+ Não me alegrem verduras deleitosas,
+ Nem águas que correndo alegres vem.
+ Semearei em vós lembranças tristes,
+ Regar-vos-hei com lagrimas saudosas,
+ E nascerão saudades de meu bem.
+
+
+XLI.
+
+ Quantas vezes do fuso se esquecia
+ Daliana, banhando o lindo seio,
+ Outras tantas de hum aspero receio
+ Salteado Laurenio a côr perdia.
+ Ella, que a Sylvio mais que a si queria,
+ Para podê-lo ver não tinha meio.
+ Ora como curára o mal alheio
+ Quem o seu mal tão mal curar podia?
+ Elle, que vio tão clara esta verdade,
+ Com soluços dizia (que a espessura
+ Inclinavão, de mágoa, a piedade):
+ Como póde a desordem da natura
+ Fazer tão differentes na vontade
+ Aos que fez tão conformes na ventura?
+
+
+XLII.
+
+ Lindo e subtil trançado, que ficaste
+ Em penhor do remedio que mereço,
+ Se só comtigo, vendo-te, endoudeço,
+ Que fôra co'os cabellos que apertaste?
+ Aquellas tranças de ouro que ligaste,
+ Que os raios do sol t[~e]e em pouco preço,
+ Não sei se ou para engano do que peço,
+ Ou para me matar as desataste.
+ Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
+ E por satisfação de minhas dores,
+ Como quem não t[~e]e outra, hei de tomar-te.
+ E se não for contente o meu desejo,
+ Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores
+ Por o todo tambem se toma a parte.
+
+
+XLIII.
+
+ O cysne quando sente ser chegada
+ A hora que põe termo á sua vida,
+ Harmonia maior, com voz sentida,
+ Levanta por a praia inhabitada.
+ Deseja lograr vida prolongada,
+ E della está chorando a despedida:
+ Com grande saudade da partida,
+ Celebra o triste fim desta jornada.
+ Assi, Senhora minha, quando eu via
+ O triste fim que davão meus amores,
+ Estando posto ja no extremo fio;
+ Com mais suave accento de harmonia
+ Descantei por os vossos desfavores
+ _La vuestra falsa fe, y el amor mio._
+
+
+XLIV.
+
+ Por os raros extremos que mostrou
+ Em sábia Pallas, Venus em formosa,
+ Diana em casta, Juno em animosa,
+ Africa, Europa e Asia as adorou.
+ Aquelle saber grande que juntou
+ Esprito e corpo em liga generosa,
+ Esta mundana máchina lustrosa,
+ De sós quatro elementos fabricou.
+ Mas fez maior milagre a natureza
+ Em vós, Senhoras, pondo em cada h[~u]a
+ O que por todas quatro repartio.
+ A vós seu resplandor deo sol e l[~u]a:
+ A vós com viva luz, graça e pureza,
+ Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio.
+
+
+XLV.
+
+ Tomava Daliana por vingança
+ Da culpa do pastor que tanto amava,
+ Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava
+ O êrro alheio, e perfida esquivança.
+ A discrição segura, a confiança
+ Das rosas que o seu rosto debuxava,
+ O descontentamento lhas mudava;
+ Que tudo muda huma aspera mudança.
+ Gentil planta disposta em sêcca terra;
+ Lindo fructo de dura mão colhido;
+ Lembranças de outro amor, e fé perjura,
+ Tornárão verde prado em serra dura;
+ Interêsse enganoso, amor fingido,
+ Fizerão desditosa a formosura.
+
+
+XLVI.
+
+ Grão tempo ha ja que soube da Ventura
+ A vida que me tinha destinada;
+ Que a longa experiencia da passada
+ Me dava claro indicio da futura.
+ Amor fero e cruel, Fortuna escura,
+ Bem tendes vossa fôrça exprimentada:
+ Assolai, destrui, não fique nada;
+ Vingai-vos desta vida, que inda dura.
+ Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
+ E porque mais sentisse a falta della,
+ De imagens impossiveis me mantinha.
+ Mas vós, Senhora, pois que minha estrella
+ Não foi melhor, vivei nesta alma minha;
+ Que não t[~e]e a Fortuna poder nella.
+
+
+XLVII.
+
+ Se somente hora alguma em vós piedade
+ De tão longo tormento se sentíra,
+ Amor sofrêra mal que eu me partíra
+ De vossos olhos, minha Saudade.
+ Apartei-me de vós, mas a vontade,
+ Que por o natural na alma vos tira,
+ Me faz crer que esta ausencia he de mentira;
+ Porém venho a provar que he de verdade.
+ Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento
+ Lagrimas tristes tomarão vingança
+ Nos olhos de quem fostes mantimento.
+ Desta arte darei vida a meu tormento;
+ Que, em fim, cá me achará minha lembrança
+ Sepultado no vosso esquecimento.
+
+
+XLVIII.
+
+ Oh como se me alonga de anno em ano
+ A peregrinação cansada minha!
+ Como se encurta, e como ao fim caminha
+ Este meu breve e vão discurso humano!
+ Mingoando a idade vai, crescendo o dano;
+ Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha:
+ Se por experiencia se adivinha,
+ Qualquer grande esperança he grande engano.
+ Corro apoz este bem que não se alcança;
+ No meio do caminho me fallece;
+ Mil vezes caio, e perco a confiança.
+ Quando elle foge, eu tardo; e na tardança,
+ Se os olhos ergo a ver se inda apparece,
+ Da vista se me perde, e da esperança.
+
+
+XLIX.
+
+ Ja he tempo, ja, que minha confiança
+ Se desça de huma falsa opinião:
+ Mas Amor não se rege por razão;
+ Não posso perder, logo, a esperança.
+ A vida si; que huma aspera mudança
+ Não deixa viver tanto hum coração,
+ E eu só na morte tenho a salvação:
+ Si: mas quem a deseja não a alcança.
+ Forçado he logo que eu espere e viva.
+ Ali dura lei de Amor, que não consente
+ Quietação n'hum'alma que he captiva!
+ Se hei de viver, em fim, forçadamente,
+ Para que quero a gloria fugitiva
+ De huma esperança vãa que me atormente?
+
+
+L.
+
+ Amor, com a esperança ja perdida
+ Teu soberano templo visitei:
+ Por signal do naufragio que passei,
+ Em lugar dos vestidos, puz a vida.
+ Que mais queres de mi, pois destruida
+ Me t[~e]es a gloria toda que alcancei?
+ Não cuides de render-me; que não sei
+ Tornar a entrar-me onde não ha sahida.
+ Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança,
+ Doces despojos de meu bem passado,
+ Em quanto o quiz aquella que eu adoro.
+ Nellas podes tomar de mi vingança:
+ E se te queres inda mais vingado,
+ Contenta-te co'as lagrimas que chóro.
+
+
+LI.
+
+ Apollo e as nove Musas, descantando
+ Com a dourada lyra, me influião
+ Na suave harmonia que fazião,
+ Quando tomei a penna, começando:
+ Ditoso seja o dia e hora, quando
+ Tão delicados olhos me ferião!
+ Ditosos os sentidos que sentião
+ Estar-se em seu desejo traspassando!
+ Assi cantava, quando Amor virou
+ A roda á esperança, que corria
+ Tão ligeira, que quasi era invisibil.
+ Converteo-se-me em noite o claro dia;
+ E se alguma esperança me ficou,
+ Será de maior mal, se for possibil.
+
+
+LII.
+
+ Lembranças saudosas, se cuidais
+ De me acabar a vida neste estado,
+ Não vivo com meu mal tão enganado,
+ Que não espere delle muito mais.
+ De longo tempo ja me costumais
+ A viver de algum bem desesperado:
+ Ja tenho co'a Fortuna concertado
+ De soffrer os tormentos que me dais.
+ Atada ao remo tenho a paciencia
+ Para quantos desgostos der a vida;
+ Cuide quanto quizer o pensamento.
+ Que pois não posso ter mais resistencia
+ Para tão dura quéda, de subida,
+ Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento.
+
+
+LIII.
+
+ Apartava-se Nise de Montano,
+ Em cuja alma, partindo-se, ficava;
+ Que o pastor na memoria a debuxava,
+ Por poder sustentar-se deste engano.
+ Por huma praia do Indico Oceano
+ Sôbre o curvo cajado se encostava,
+ E os olhos por as águas alongava,
+ Que pouco se doião de seu dano.
+ Pois com tamanha mágoa e saudade,
+ (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro,
+ Por testimunhas tómo ceo e estrellas.
+ Mas se em vós, ondas, mora piedade,
+ Levai tambem as lagrimas que chóro,
+ Pois assi me levais a causa dellas.
+
+
+LIV.
+
+ Quando vejo que meu destino ordena
+ Que, por me exprimentar, de vós me aparte,
+ Deixando de meu bem tão grande parte,
+ Que a mesma culpa fica grave pena;
+ O duro desfavor, que me condena,
+ Quando por a memoria se reparte,
+ Endurece os sentidos de tal arte
+ Que a dor da ausencia fica mais pequena.
+ Mas como póde ser que na mudança
+ D'aquillo que mais quero, estê tão fóra
+ De me não apartar tambem da vida?
+ Eu refrearei tão aspera esquivança:
+ Porque mais sentirei partir, Senhora,
+ Sem sentir muito a pena da partida.
+
+
+LV.
+
+ Despois de tantos dias mal gastados,
+ Despois de tantas noites mal dormidas,
+ Despois de tantas lagrimas vertidas,
+ Tantos suspiros vãos vãamente dados,
+ Como não sois vós ja desenganados,
+ Desejos, que de cousas esquecidas
+ Quereis remediar mortaes feridas.
+ Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados?
+ Se não tivereis ja longa exp'riencia
+ Das semrazões de Amor a quem servistes,
+ Fraqueza fôra em vós a resistencia.
+ Mas pois por vosso mal seus males vistes,
+ Que o tempo não curou, nem larga ausencia,
+ Qual bem delle esperais, desejos tristes?
+
+
+LVI.
+
+ Naiades, vós que os rios habitais,
+ Que os saudosos campos vão regando,
+ De meus olhos vereis estar manando
+ Outros que quasi aos vossos são iguais.
+ Dryades, que com setta sempre andais
+ Os fugitivos cervos derribando,
+ Outros olhos vereis, que triumphando
+ Derribão corações, que valem mais.
+ Deixai logo as aljavas e águas frias,
+ E vinde, Nymphas bellas, se quereis,
+ A ver como de huns olhos nascem mágoas.
+ Notareis como em vão passão os dias;
+ Mas em vão não vireis, porque achareis
+ Nos seus as settas, e nos meus as ágoas.
+
+
+LVII.
+
+ Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades,
+ Muda-se o ser, muda-se a confiança:
+ Todo o mundo he composto de mudança,
+ Tomando sempre novas qualidades.
+ Continuamente vemos novidades,
+ Differentes em tudo da esperança:
+ Do mal ficão as mágoas na lembrança,
+ E do bem (se algum houve) as saudades.
+ O tempo cobre o chão de verde manto,
+ Que ja coberto foi de neve fria,
+ E em mi converte em chôro o doce canto.
+ E afora este mudar-se cada dia,
+ Outra mudança faz de mor espanto,
+ Que não se muda ja como sohia.
+
+
+LVIII.
+
+ Se as penas com que Amor tão mal me trata
+ Permittirem que eu tanto viva dellas,
+ Que veja escuro o lume das estrellas,
+ Em cuja vista o meu se accende e mata;
+ E se o tempo, que tudo desbarata,
+ Seccar as frescas rosas, sem colhellas,
+ Deixando a linda côr das tranças bellas
+ Mudada de ouro fino em fina prata;
+ Tambem, Senhora, então vereis mudado
+ O pensamento e a aspereza vossa,
+ Quando não sirva ja sua mudança.
+ Ver-vos-heis suspirar por o passado,
+ Em tempo quando executar-se possa
+ No vosso arrepender minha vingança.
+
+
+LIX.
+
+ Quem jaz no grão sepulchro, que descreve
+ Tão illustres signaes no forte escudo?
+ Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo:
+ Mas foi quem tudo pôde e tudo teve.
+ Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve:
+ Poz na guerra e na paz devido estudo.
+ Mas quão pezado foi ao Mouro rudo,
+ Tanto lhe seja agora a terra leve.
+ Alexandro será? Ninguem se engane:
+ Mais que o adquirir, o sustentar estima.
+ Será Hadriano grão Senhor do mundo?
+ Mais observante foi da Lei de cima.
+ He Numa? Numa não, mas he Joane.
+ De Portugal Terceiro sem segundo.
+
+
+LX.
+
+ Quem póde livre ser, gentil Senhora,
+ Vendo-vos com juizo socegado,
+ Se o menino, que de olhos he privado,
+ Nas meninas dos vossos olhos mora?
+ Alli manda, alli reina, alli namora,
+ Alli vive das gentes venerado;
+ Que o vivo lume, e o rosto delicado,
+ Imagens são adonde Amor se adora.
+ Quem vê que em branca neve nascem rosas
+ Que crespos fios de ouro vão cercando,
+ Se por entre esta luz a vista passa,
+ Raios de ouro verá, que as duvidosas
+ Almas estão no peito traspassando,
+ Assi como hum crystal o sol traspassa.
+
+
+LXI.
+
+ Como fizeste, ó Porcia, tal ferida?
+ Foi voluntaria, ou foi por innocencia?
+ He que Amor fazer só quiz exp'riencia
+ Se podia eu soffrer tirar-me a vida.
+ E com teu proprio sangue te convida
+ A que faças á morte resistencia?
+ He que costume faço da paciencia,
+ Porque o temor morrer me não impida.
+ Pois porque estás comendo fogo ardente,
+ Se a ferro te costumas? He que ordena
+ Amor que morra, e pene juntamente.
+ E t[~e]es a dor do ferro por pequena?
+ Si; que a dor costumada não se sente;
+ E não quero eu a morte sem a pena.
+
+
+LXII.
+
+ De tão divino accento em voz humana,
+ De elegancias que são tão peregrinas,
+ Sei bem que minhas obras não são dinas;
+ Que o rudo engenho meu me desengana.
+ Porém da vossa penna illustre mana
+ Licor que vence as águas Caballinas;
+ E comvosco do Tejo as flores finas
+ Farão inveja á cópia Mantuana.
+ E pois, a vós de si não sendo avaras,
+ As filhas de Mnemosine formosa
+ Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras;
+ A minha Musa, e a vossa tão famosa,
+ Ambas se podem nelle chamar raras,
+ A vossa de alta, a minha de invejosa.
+
+
+LXIII.
+
+ Debaixo desta pedra está metido,
+ Das sanguinosas armas descansado,
+ O Capitão illustre e assinalado
+ Dom Fernando de Castro esclarecido.
+ Este por todo o Oriente tão temido,
+ Este da propria inveja tão cantado,
+ Este, em fim, raio de Mavorte irado,
+ Aqui está agora em terra convertido.
+ Alegra-te, ó guerreira Lusitania,
+ Por est'outro Viriato que criaste,
+ E chora a perda sua eternamente.
+ Exemplo toma nisto de Dardania;
+ Que se a Roma com elle anniquilaste,
+ Nem por isso Carthago está contente.
+
+
+LXIV.
+
+ Que vençais no Oriente tantos Reis,
+ Que de novo nos deis da India o Estado,
+ Que escureçais a fama que hão ganhado
+ Aquelles, que a ganhárão de infieis;
+ Que vencidas tenhais da morte as leis,
+ E que vencesseis tudo, em fim, armado,
+ Mais he vencer na patria, desarmado,
+ Os monstros e as Chimeras que venceis.
+ Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo,
+ E por armas fazer que sem segundo
+ No mundo o vosso nome ouvido seja;
+ O que vos dá mais fama inda no mundo,
+ He vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
+ Tantas ingratidões, tão grande inveja.
+
+
+LXV.
+
+ Vossos olhos, Senhora, que competem
+ Com o sol em belleza e claridade,
+ Enchem os meus de tal suavidade,
+ Que em lagrimas de vê-los se derretem.
+ Meus sentidos prostrados se submetem
+ Assi cegos a tanta magestade;
+ E da triste prisão, da escuridade,
+ Cheios de medo, por fugir, remetem.
+ Porém se então me vêdes por acêrto,
+ Esse aspero desprêzo com que olhais
+ Me torna a animar a alma enfraquecida.
+ Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto!
+ Que dareis co'hum favor que vós não dais,
+ Quando com hum desprêzo me dais vida?
+
+
+LXVI.
+
+ Formosura do Ceo a nós descida,
+ Que nenhum coração deixas isento,
+ Satisfazendo a todo pensamento,
+ Sem que sejas de algum bem entendida;
+ Qual lingoa póde haver tão atrevida,
+ Que tenha de louvar-te atrevimento,
+ Pois a parte melhor do entendimento,
+ No menos que em ti ha se vê perdida?
+ Se em teu valor contemplo a menor parte,
+ Vendo que abre na terra hum paraiso,
+ Logo o engenho me falta, o esprito míngoa.
+ Mas o que mais me impede inda louvar-te,
+ He que quando te vejo perco a lingoa,
+ E quando não te vejo perco o siso.
+
+
+LXVII.
+
+ Pois meus olhos não cansão de chorar
+ Tristezas não cansadas de cansar-me;
+ Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me
+ Pôde quem eu jamais pude abrandar;
+ Não canse o cego Amor de me guiar
+ Onde nunca de lá possa tornar-me;
+ Nem deixe o mundo todo de escutar-me,
+ Em quanto a fraca voz me não deixar.
+ E se em montes, se em prados, e se em valles
+ Piedade mora alguma, algum amor
+ Em feras, plantas, aves, pedras, agoas;
+ Oução a longa historia de meus males,
+ E curem sua dor com minha dor;
+ Que grandes mágoas podem curar mágoas.
+
+
+LXVIII.
+
+ Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos,
+ Porque a guarde sobpena de enojar-vos;
+ Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
+ Fara que fique em lei de obedecer-vos.
+ Tudo me defendei, senão só ver-vos
+ E dentro na minha alma contemplar-vos;
+ Que se assi não chegar a contentar-vos,
+ Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.
+ E se essa condição cruel e esquiva
+ Que me deis lei de vida não consente,
+ Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.
+ Se nem essa me dais, he bem que viva,
+ Sem saber como vivo, tristemente;
+ Mas contente estarei com minha sorte.
+
+
+LXIX.
+
+ Ferido sem ter cura perecia
+ O forte e duro Télepho temido
+ Por aquelle que na agua foi metido,
+ E a quem ferro nenhum cortar podia.
+ Quando a Apollineo Oraculo pedia
+ Conselho para ser restituido,
+ Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido
+ Por quem o ja ferira, e sararia.
+ Assi, Senhora, quer minha ventura;
+ Que ferido de ver-vos claramente,
+ Com tornar-vos a ver Amor me cura.
+ Mas he tão doce vossa formosura,
+ Que fico como o hydropico doente,
+ Que bebendo lhe cresce mór seccura.
+
+
+LXX.
+
+ Na metade do ceo subido ardia
+ O claro, almo Pastor, quando deixavão
+ O verde pasto as cabras, e buscavão
+ A frescura suave da agua fria.
+ Com a folha das árvores, sombria,
+ Do raio ardente as aves se amparavão:
+ O módulo cantar, de que cessavão,
+ Só nas roucas cigarras se sentia.
+ Quando Liso pastor n'hum campo verde
+ Natercia, crua Nympha, só buscava
+ Com mil suspiros tristes que derrama.
+ Porque te vás de quem por ti se perde,
+ Para quem pouco te ama? (suspirava)
+ E o eco lhe responde: Pouco te ama.
+
+
+LXXI.
+
+ Ja a roxa e branca Aurora destoucava
+ Os seus cabellos de ouro delicados,
+ E das flores os campos esmaltados
+ Com crystallino orvalho borrifava;
+ Quando o formoso gado se espalhava
+ De Sylvio e de Laurente por os prados;
+ Pastores ambos, e ambos apartados,
+ De quem o mesmo amor não se apartava.
+ Com verdadeiras lagrimas Laurente,
+ Não sei, (dizia) ó Nympha delicada,
+ Porque não morre ja quem vive ausente;
+ Pois a vida sem ti não presta nada.
+ Responde Sylvio: Amor não o consente:
+ Que offende as esperanças da tornada.
+
+
+LXXII.
+
+ Quando de minhas mágoas a comprida
+ Maginação os olhos me adormece,
+ Em sonhos aquella alma me apparece,
+ Que para mi foi sonho nesta vida.
+ Lá n'huma soidade, onde estendida
+ A vista por o campo desfallece,
+ Corro apoz ella; e ella então parece
+ Que mais de mi se alonga, compellida.
+ Brado: Não me fujais, sombra benina.
+ Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo,
+ Como quem diz, que ja não póde ser)
+ Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_...
+ E antes que diga _mene_, acórdo, e vejo
+ Que nem hum breve engano posso ter.
+
+
+LXXIII.
+
+ Suspiros inflammados que cantais
+ A tristeza com que eu vivi tão ledo,
+ Eu morro e não vos levo, porque hei medo
+ Que ao passar do Letheio vos percais.
+ Escriptos para sempre ja ficais
+ Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
+ Como exemplo de males; e eu concedo
+ Que para aviso de outros estejais.
+ Em quem, pois, virdes largas esperanças
+ De Amor e da Fortuna, (cujos danos
+ Alguns terão por bem-aventuranças)
+ Dizei-lhe, que os servistes muitos anos,
+ E que em Fortuna tudo são mudanças,
+ E que em Amor não ha senão enganos.
+
+
+LXXIV.
+
+ Aquella fera humana que enriquece
+ A sua presunçosa tyrannia
+ Destas minhas entranhas, onde cria
+ Amor hum mal, que falta quando crece;
+ Se nella o Ceo mostrou (como parece)
+ Quanto mostrar ao mundo pretendia,
+ Porque de minha vida se injuria?
+ Porque de minha morte se ennobrece?
+ Ora, em fim, sublimai vossa victoria,
+ Senhora, com vencer-me e captivar-me:
+ Fazei della no mundo larga historia.
+ Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
+ Ja me fico logrando desta gloria
+ De ver que tendes tanta de matar-me.
+
+
+LXXV.
+
+ Ditoso seja aquelle que somente
+ Se queixa de amorosas esquivanças;
+ Pois por ellas não perde as esperanças
+ De poder n'algum tempo ser contente.
+ Ditoso seja quem estando ausente
+ Não sente mais que a pena das lembranças;
+ Porqu'inda que se tema de mudanças,
+ Menos se teme a dor quando se sente.
+ Ditoso seja, em fim, qualquer estado,
+ Onde enganos, desprezos e isenção
+ Trazem hum coração atormentado.
+ Mas triste quem se sente magoado
+ De erros em que não póde haver perdão
+ Sem ficar na alma a mágoa do peccado.
+
+
+LXXVI.
+
+ Quem fosse acompanhando juntamente
+ Por esses verdes campos a avezinha,
+ Que despois de perder hum bem que tinha,
+ Não sabe mais que cousa he ser contente!
+ E quem fosse apartando-se da gente.
+ Ella por companheira e por vizinha,
+ Me ajudasse a chorar a pena minha,
+ E eu a ella tambem a que ella sente!
+ Ditosa ave! que ao menos, se a natura
+ A seu primeiro bem não dá segundo,
+ Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
+ Mas triste quem de longe quiz ventura
+ Que para respirar lhe falte o vento,
+ E para tudo, em fim, lhe falte o mundo!
+
+
+LXXVII.
+
+ O culto divinal se celebrava
+ No templo donde toda criatura
+ Louva o Feitor divino, que a feitura
+ Com seu sagrado sangue restaurava.
+ Amor alli, que o tempo me aguardava
+ Onde a vontade tinha mais segura,
+ Com huma rara e angelica figura
+ A vista da razão me salteava.
+ Eu crendo que o lugar me defendia
+ De seu livre costume, não sabendo
+ Que nenhum confiado lhe fugia;
+ Deixei-me captivar: mas hoje vendo,
+ Senhora, que por vosso me queria,
+ Do tempo que fui livre me arrependo.
+
+
+LXXVIII.
+
+ Leda serenidade deleitosa,
+ Que representa em terra hum paraiso;
+ Entre rubis e perlas doce riso,
+ Debaixo de ouro e neve côr de rosa;
+ Presença moderada e graciosa,
+ Onde ensinando estão despejo e siso
+ Que se póde por arte e por aviso,
+ Como por natureza, ser formosa;
+ Falla de que ou ja vida, ou morte pende.
+ Rara e suave, em fim, Senhora, vossa,
+ Repouso na alegria comedido;
+ Estas as armas são com que me rende
+ E me captiva Amor; mas não que possa
+ Despojar-me da gloria de rendido.
+
+
+LXXIX.
+
+ Bem sei, Amor, que he certo o que receio;
+ Mas tu, porque com isso mais te apuras,
+ De manhoso mo negas, e mo juras
+ Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.
+ A mão tenho metida no meu seio,
+ E não vejo os meus damnos ás escuras:
+ Porém porfias tanto e me asseguras,
+ Que me digo que minto, e que me enleio.
+ Nem somente consinto neste engano,
+ Mas inda to agradeço, e a mi me nego
+ Tudo o que vejo e sinto de meu dano.
+ Oh poderoso mal a que me entrego!
+ Que no meio do justo desengano
+ Me possa inda cegar hum moço cego?
+
+
+LXXX.
+
+ Como quando do mar tempestuoso
+ O marinheiro todo trabalhado,
+ De hum naufragio cruel sahindo a nado,
+ Só de ouvir fallar nelle está medroso:
+ Firme jura que o vê-lo bonançoso
+ Do seu lar o não tire socegado;
+ Mas esquecido ja do horror passado,
+ Delle a fiar se torna cobiçoso:
+ Assi, Senhora, eu que da tormenta
+ De vossa vista fujo, por salvar-me,
+ Jurando de não mais em outra ver-me;
+ Com a alma que de vós nunca se ausenta,
+ Me tórno, por cobiça de ganhar-me,
+ Onde estive tão perto de perder-me.
+
+
+LXXXI.
+
+ Amor he hum fogo que arde sem se ver;
+ He ferida que doe e não se sente;
+ He hum contentamento descontente;
+ He dor que desatina sem doer;
+ He hum não querer mais que bem querer;
+ He solitario andar por entre a gente;
+ He hum não contentar-se de contente;
+ He cuidar que se ganha em se perder;
+ He hum estar-se preso por vontade;
+ He servir a quem vence o vencedor;
+ He hum ter com quem nos mata lealdade.
+ Mas como causar póde o seu favor
+ Nos mortaes corações conformidade,
+ Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?
+
+
+LXXXII.
+
+ Se pena por amar-vos se merece,
+ Quem della estará livre? quem isento?
+ E que alma, que razão, que entendimento
+ No instante em que vos vê não obedece?
+ Qual mor gloria na vida ja se offrece,
+ Que a de occupar-se em vós o pensamento?
+ Não só todo rigor, todo tormento
+ Com ver-vos não magôa, mas se esquece.
+ Porém se heis de matar a quem amando,
+ Ser vosso de amor tanto só pretende,
+ O mundo matareis, que todo he vosso.
+ Em mi podeis, Senhora, ir começando,
+ Pois bem claro se mostra e bem se entende
+ Amar-vos quanto devo e quanto posso.
+
+
+LXXXIII.
+
+ Que levas, cruel Morte? Hum claro dia.
+ A que horas o tomaste? Amanhecendo.
+ E entendes o que levas? Não o entendo.
+ Pois quem to faz levar? Quem o entendia.
+ Seu corpo quem o goza? A terra fria.
+ Como ficou sua luz? Anoitecendo.
+ Lusitania que diz? Fica dizendo...
+ Que diz? Não mereci a grã Maria.
+ Mataste a quem a vio? Ja morto estava.
+ Que discorre o Amor? Fallar não ousa.
+ E quem o faz callar? Minha vontade.
+ Na Corte que ficou? Saudade brava.
+ Que fica lá que ver? Nenhuma cousa.
+ Que gloria lhe faltou? Esta beldade.
+
+
+LXXXIV.
+
+ Ondados fios de ouro reluzente,
+ Que agora da mão bella recolhidos,
+ Agora sôbre as rosas esparzidos
+ Fazeis que a sua graça se accrescente;
+ Olhos, que vos moveis tão docemente,
+ Em mil divinos raios incendidos,
+ Se de cá me levais a alma e sentidos,
+ Que fôra, se eu de vós não fôra ausente?
+ Honesto riso, que entre a mór fineza
+ De perlas e coraes nasce e apparece;
+ Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse!
+ Se imaginando só tanta belleza,
+ De si com nova gloria a alma se esquece,
+ Que será quando a vir? Ah quem a visse!
+
+
+LXXXV.
+
+ Foi ja n'hum tempo doce cousa amar,
+ Em quanto me enganou huma esperança:
+ O coração com esta confiança
+ Todo se desfazia em desejar.
+ Oh vão, caduco e debil esperar!
+ Como, em fim, desengana huma mudança!
+ Que quanto he mor a bem-aventurança,
+ Tanto menos se crê que ha de durar.
+ Quem ja se vio com gostos prosperado,
+ Vendo-se brevemente em pena tanta,
+ Razão t[~e]e de viver bem magoado.
+ Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado,
+ Não o magôa a pena, nem o espanta;
+ Que mal se estranhára o costumado.
+
+
+LXXXVI.
+
+ Dos antigos Illustres, que deixárão
+ Hum nome digno de immortal memoria,
+ Ficou por luz do tempo a larga historia
+ Dos feitos em que mais se avantajárão.
+ Se com suas acções se cotejárão
+ Mil vossas, cada huma tão notoria,
+ Vencêra a menor dellas a mor gloria
+ Que elles em tantos annos alcançárão.
+ A gloria sua foi: ninguem lha tome:
+ Seguindo cada qual varios caminhos
+ Estatuas mereceo no heroico Templo.
+ Vós honra Portugueza e dos Coutinhos,
+ Clarissimo Dom João, com melhor nome
+ A vós encheis de gloria, a nós de exemplo.
+
+
+LXXXVII.
+
+ Conversação doméstica affeiçoa,
+ Ora em fórma de limpa e sãa vontade,
+ Ora de huma amorosa piedade,
+ Sem olhar qualidade de pessoa.
+ Se despois, por ventura, vos magôa
+ Com desamor e pouca lealdade,
+ Logo vos faz mentira da verdade
+ O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa,
+ Não são isto que fallo conjecturas
+ Que o pensamento julga na apparencia,
+ Por fazer delicadas escripturas.
+ Metida tenho a mão na consciencia,
+ E não fallo senão verdades puras
+ Que me ensinou a viva experiencia.
+
+
+LXXXVIII.
+
+ Esfôrço grande, igual ao pensamento,
+ Pensamentos em obras divulgados,
+ E não em peito timido encerrados,
+ E desfeitos despois em chuva e vento;
+ Ánimo da cobiça baixa isento,
+ Digno por isto só de altos estados,
+ Fero açoute dos nunca bem domados
+ Povos do Malabar sanguinolento;
+ Gentileza de membros corporaes
+ Ornados de pudica continencia,
+ Obra por certo da celeste altura:
+ Estas virtudes raras e outras mais,
+ Dignas todas da Homerica eloquencia,
+ Jazem debaixo desta sepultura.
+
+
+LXXXIX.
+
+ No mundo quiz o Tempo que se achasse
+ O bem que por acêrto, ou sorte vinha;
+ E por exprimentar que dita tinha,
+ Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse.
+ Mas porque o meu destino me mostrasse
+ Que nem ter esperanças me convinha,
+ Nunca nesta tão longa vida minha
+ Cousa me deixou ver que desejasse.
+ Mudando andei costume, terra, estado,
+ Por ver se se mudava a sorte dura;
+ A vida puz nas mãos de hum leve lenho.
+ Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado,
+ Ja sei que deste meu buscar ventura
+ Achado tenho ja que não a tenho.
+
+
+XC.
+
+ A perfeição, a graça, o doce geito,
+ A Primavera cheia de frescura,
+ Que sempre em vós florece; a que a ventura,
+ E a razão entregárão este peito;
+ Aquelle crystallino e puro aspeito,
+ Que em si comprehende toda a formosura;
+ O resplandor dos olhos e a brandura,
+ Donde Amor a ninguem quiz ter respeito;
+ S'isto que em vós se vê, ver desejais,
+ Como digno de ver-se claramente,
+ Por muito que de Amor vos isentais;
+ Traduzido o vereis tão fielmente
+ No meio deste espirito onde estais,
+ Que vendo-vos sintais o que elle sente.
+
+
+XCI.
+
+ Vós, que de olhos suaves e serenos,
+ Com justa causa a vida captivais,
+ E que os outros cuidados condemnais
+ Por indevidos, baixos e pequenos;
+ Se de Amor os domesticos venenos
+ Nunca provastes, quero que sintais
+ Que he tanto mais o amor despois que amais,
+ Quanto são mais as causas de ser menos.
+ E não presuma alguem que algum defeito,
+ Quando na cousa amada se apresenta,
+ Possa diminuir o amor perfeito:
+ Antes o dobra mais; e se atormenta,
+ Pouco a pouco desculpa o brando peito;
+ Que Amor com seus contrarios se accrescenta.
+
+
+XCII.
+
+ Que poderei do mundo ja querer,
+ Pois no mesmo em que puz tamanho amor,
+ Não vi senão desgôsto e desfavor,
+ E morte, em fim; que mais não póde ser?
+ Pois me não farta a vida de viver,
+ Pois ja sei que não mata grande dor,
+ Se houver cousa que mágoa dê maior,
+ Eu a verei; que tudo posso ver.
+ A Morte, a meu pezar, me assegurou
+ De quanto mal me vinha: ja perdi
+ O que a perder o medo me ensinou.
+ Na vida desamor somente vi,
+ Na morte a grande dor que me ficou:
+ Parece que para isto só nasci.
+
+
+XCIII.
+
+ Pensamentos, que agora novamente
+ Cuidados vãos em mi resuscitais,
+ Dizei-me: E ainda não vos contentais
+ De ter a quem vos t[~e]e tão descontente?
+ Que phantasia he esta, que presente
+ Cad'hora ante os meus olhos me mostrais?
+ Com huns sonhos tão vãos inda tentais
+ Quem nem por sonhos póde ser contente?
+ Vejo-vos, pensamentos, alterados,
+ E não quereis, de esquivos, declarar-me
+ Que he isto que vos traz tão enleados?
+ Não mo negueis, se andais para negar-me;
+ Porque se contra mi 'stais levantados,
+ Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.
+
+
+XCIV.
+
+ Se tomo a minha pena em penitencia
+ Do error em que cahio o pensamento,
+ Não abrando, mas dóbro meu tormento,
+ Que a tanto, e mais, obriga a paciencia.
+ E se huma côr de morto na apparencia,
+ Hum espalhar suspiros vãos ao vento
+ Não faz em vós, Senhora, movimento,
+ Fique o meu mal em vossa consciencia.
+ Mas se de qualquer aspera mudança
+ Toda vontade isenta Amor castiga,
+ (Como eu vejo no mal que me condena)
+ E se em vós não se entende haver vingança,
+ Será forçado (pois Amor me obriga)
+ Que eu só da culpa vossa pague a pena.
+
+
+XCV.
+
+ Aquella que, de pura castidade,
+ De si mesma tomou cruel vingança
+ Por huma breve e subita mudança
+ Contrária á sua honra e qualidade;
+ Venceo á formosura a honestidade,
+ Venceo no fim da vida a esperança,
+ Porque ficasse viva tal lembrança,
+ Tal amor, tanta fé, tanta verdade.
+ De si, da gente e do mundo esquecida,
+ Ferio com duro ferro o brando peito,
+ Banhando em sangue a fôrça do tyrano.
+ Oh ousadia estranha! estranho feito!
+ Que dando breve morte ao corpo humano,
+ Tenha sua memoria larga vida!
+
+
+XCVI.
+
+ Os vestidos Elisa revolvia,
+ Que Eneas lhe deixára por memoria;
+ Doces despojos da passada gloria;
+ Doces quando seu fado o consentia.
+ Entre elles a formosa espada via,
+ Que instrumento, em fim, foi da triste historia;
+ E como quem de si tinha a victoria,
+ Fallando só com ella, assi dizia:
+ Formosa e nova espada, se ficaste
+ Só porque executasses os enganos
+ De quem te quiz deixar, em minha vida;
+ Sabe que tu comigo te enganaste;
+ Que para me tirar de tantos danos
+ Sobeja-me a tristeza da partida.
+
+
+XCVII.
+
+ Oh quão caro me custa o entender-te,
+ Molesto Amor que, só por alcançar-te,
+ De dor em dor me tens trazido a parte
+ Donde em ti odio e íra se converte!
+ Cuidei que para em tudo conhecer-te
+ Me não faltava experiencia e arte;
+ Mas na alma vejo agora accrescentar-te
+ Aquillo que era causa de perder-te.
+ Estavas tão secreto no meu peito,
+ Que eu mesmo, que te tinha, não sabia
+ Que me senhoreavas deste geito.
+ Descubriste-te agora; e foi por via
+ Que teu descobrimento e meu defeito,
+ Hum me envergonha e outro me injuria.
+
+
+XCVIII.
+
+ Se despois de esperança tão perdida,
+ Amor por causa alguma consentisse
+ Que inda algum'hora breve alegre visse
+ De quantas tristes vio tão longa vida;
+ Hum'alma ja tão fraca e tão cahida
+ (Quando a sorte mais alto me subisse)
+ Não tenho para mi que consentisse
+ Alegria tão tarde consentida.
+ Nem tamsomente o Amor me não mostrou
+ Hum'hora em que vivesse alegremente,
+ De quantas nesta vida me negou;
+ Mas inda tanta pena me consente,
+ Que co'o contentamento me tirou
+ O gôsto de algum'hora ser contente.
+
+
+XCIX.
+
+ O raio crystallino se estendia
+ Por o mundo da Aurora marchetada,
+ Quando Nise, pastora delicada,
+ Donde a vida deixava se partia.
+ Dos olhos, com que o sol escurecia,
+ Levando a luz em lagrimas banhada,
+ De si, do fado, e tempo magoada,
+ Pondo os olhos no Ceo, assi dizia:
+ Nasce, sereno sol, puro e luzente;
+ Resplandece, purpurea e branca aurora,
+ Qualquer alma alegrando descontente;
+ Que a minha, sabe tu que desde agora
+ Jamais na vida a podes ver contente,
+ Nem tão triste nenhuma outra pastora.
+
+
+C.
+
+ No mundo poucos annos e cansados
+ Vivi, cheios de vil miseria e dura:
+ Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
+ Que não vi cinco lustros acabados.
+ Corri terras e mares apartados,
+ Buscando á vida algum remedio ou cura:
+ Mas aquillo que, em fim, não dá ventura
+ Não o dão os trabalhos arriscados.
+ Criou-me Portugal na verde e chara
+ Patria minha Alemquer; mas ar corruto,
+ Que neste meu terreno vaso tinha,
+ Me fez manjar de peixes em ti, bruto
+ Mar, que bates a Abássia fera e avara,
+ Tão longe da ditosa patria minha.
+
+
+CI.
+
+ Vós, que escuitais em Rimas derramado
+ Dos suspiros o som que me alentava
+ Na juvenil idade, quando andava
+ Em outro em parte do que sou mudado;
+ Sabei que busca só do ja cantado
+ No tempo em que ou temia ou esperava,
+ De quem o mal provou, que eu tanto amava,
+ Piedade, e não perdão, o meu cuidado.
+ Pois vejo que tamanho sentimento
+ Só me rendeo ser fábula da gente,
+ (Do que comigo mesmo me envergonho)
+ Sirva de exemplo claro meu tormento,
+ Com que todos conheção claramente
+ Que quanto ao mundo apraz he breve sonho.
+
+
+CII.
+
+ De amor escrevo, de amor trato e vivo;
+ De amor me nasce amar sem ser amado;
+ De tudo se descuida o meu cuidado,
+ Quanto não seja ser de amor captivo:
+ De amor que a lugar alto voe altivo,
+ E funde a gloria sua em ser ousado;
+ Que se veja melhor purificado
+ No immenso resplandor de hum raio esquivo.
+ Mas ai que tanto amor só pena alcança!
+ Mais constante ella, e elle mais constante,
+ De seu triumpho cada qual só trata.
+ Nada, em fim, me aproveita; que a esperança,
+ Se anima alguma vez a hum triste amante,
+ Ao perto vivifica, ao longe mata.
+
+
+CIII.
+
+ Se da célebre Laura a formosura
+ Hum numeroso cysne ufano escreve,
+ Huma angelica penna se te deve,
+ Pois o Ceo em formar-te mais se apura.
+ E se voz menos alta te procura
+ Celebrar, (oh Natercia!) em vão se atreve:
+ De ver-te ja a ventura Liso teve,
+ Mas de cantar-te falta-lhe a ventura.
+ No ceo nasceste, certo, e não na terra:
+ Para gloria do mundo cá desceste:
+ Quem mais isto negar, muito mais erra.
+ E eu imagino que de lá vieste
+ Para emendar os vicios que elle encerra,
+ Co'os divinos poderes que trouxeste.
+
+
+CIV.
+
+ Esses cabellos louros e escolhidos,
+ Que o ser ao aureo sol estão tirando;
+ Esse ar immenso, adonde naufragando
+ Estão continuamente os meus sentidos;
+ Esses furtados olhos tão fingidos
+ Que minha vida e morte estão causando;
+ Essa divina graça, que em fallando
+ Finge os meus pensamentos não ser cridos;
+ Esse compasso certo, essa medida
+ Que faz dobrar no corpo a gentileza;
+ A divindade em terra, tão subida;
+ Mostrem ja piedade, e não crueza,
+ Que são laços que Amor tece na vida,
+ Sendo em mi sofrimento, em vós dureza.
+
+
+CV.
+
+ Quem pudéra julgar de vós, Senhora,
+ Que huma tal fé pudesse assi perder-vos?
+ Se por amar-vos chego a aborrecer-vos,
+ Deixar não posso o amar-vos algum'hora.
+ Deixais a quem vos ama, ou vos adora,
+ Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos?
+ Mas eu sou quem não soube merecer-vos,
+ E esta minha ignorancia entendo agora.
+ Nunca soube entender vossa vontade,
+ Nem a minha mostrar-vos verdadeira,
+ Indaque clara estava esta verdade.
+ Esta, em quanto eu viver, vereis inteira;
+ E se em vão meu querer vos persuade,
+ Mais vosso não querer faz que vos queira.
+
+
+CVI.
+
+ Quem, Senhora, presume de louvar-vos
+ Com discurso que baixe de divino,
+ De tanto maior pena será dino,
+ Quanto vós sois maior ao contemplar-vos.
+ Não aspire algum canto a celebrar-vos,
+ Por mais que seja raro, ou peregrino;
+ Pois de vossa belleza eu imagino
+ Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos.
+ Ditosa esta alma vossa, a que quizestes
+ Pôr em posse de prenda tão subida,
+ Qual esta que benigna, em fim, me déstes.
+ Sempre será anteposta á mesma vida:
+ Esta estimar em menos me fizestes,
+ Se antes que ess'outra a quero ver perdida.
+
+
+CVII.
+
+ Moradoras gentis e delicadas
+ Do claro e aureo Tejo, que metidas
+ Estais em suas grutas escondidas,
+ E com doce repouso socegadas;
+ Agora esteis de amores inflammadas,
+ Nos crystallinos paços entretidas;
+ Agora no exercicio embevecidas
+ Das télas de ouro puro matizadas;
+ Movei dos lindos rostos a luz pura
+ De vossos olhos bellos, consentindo
+ Que lagrimas derramem de tristura.
+ E assi com dor mais propria ireis ouvindo
+ As queixas que derramo da Ventura,
+ Que com penas de Amor me vai seguindo.
+
+
+CVIII.
+
+ Brandas águas do Tejo que, passando
+ Por estes verdes campos que regais,
+ Plantas, hervas, e flores, e animais,
+ Pastores, Nymphas, ides alegrando;
+ Não sei, (ah doces águas!) não sei quando
+ Vos tornarei a ver; que mágoas tais,
+ Vendo como vos deixo, me causais,
+ Que de tornar ja vou desconfiando.
+ Ordenou o destino, desejoso
+ De converter meus gostos em pezares,
+ Partida que me vai custando tanto.
+ Saudoso de vós, delle queixoso,
+ Encherei de suspiros outros ares,
+ Turbarei outras águas com meu pranto.
+
+
+CIX.
+
+ Novos casos de Amor, novos enganos,
+ Envoltos em lisonjas conhecidas;
+ Do bem promessas falsas e escondidas,
+ Onde do mal se cumprem grandes danos;
+ Como não tomais ja por desenganos
+ Tantos ais, tantas lagrimas perdidas,
+ Pois que a vida não basta, nem mil vidas,
+ A tantos dias tristes, tantos anos?
+ Hum novo coração mister havia,
+ Com outros olhos menos aggravados,
+ Para tornar a crer o que eu vos cria.
+ Andais comigo, enganos, enganados;
+ E se o quizerdes ver, cuidai hum dia
+ O que se diz dos bem acutilados.
+
+
+CX.
+
+ Onde porei meus olhos que não veja
+ A causa de que nasce o meu tormento?
+ A qual parte me irei co'o pensamento,
+ Que para descansar parte me seja?
+ Ja sei como se engana quem deseja
+ Em vão amor fiel contentamento;
+ E que nos gostos seus, que são de vento,
+ Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.
+ Mas inda, sôbre o claro desengano,
+ Assi me traz esta alma sobjugada,
+ Que delle está pendendo o meu desejo.
+ E vou de dia em dia, de anno em ano,
+ Apoz hum não sei que, apoz hum nada,
+ Que quanto mais me chego, menos vejo.
+
+
+CXI.
+
+ Ja do Mondego as águas apparecem
+ A meus olhos, não meus, antes alheios,
+ Que de outras differentes vindo cheios,
+ Na sua branda vista inda mais crecem.
+ Parece que tambem forçadas decem,
+ Segundo se detem em seus rodeios.
+ Triste! por quantos modos, quantos meios,
+ As minhas saudades me entristecem!
+ Vida de tantos males salteada,
+ Amor a põe em termos, que duvida
+ De conseguir o fim desta jornada.
+ Antes se dá de todo por perdida,
+ Vendo que não vai da alma acompanhada,
+ Que se deixou ficar onde t[~e]e vida.
+
+
+CXII.
+
+ Que doudo pensamento he o que sigo?
+ Apos que vão cuidado vou correndo?
+ Sem ventura de mi! que não me entendo;
+ Nem o que callo sei, nem o que digo.
+ Pelejo com quem trata paz comigo;
+ De quem guerra me faz não me defendo.
+ De falsas esperanças que pertendo?
+ Quem do meu proprio mal me faz amigo?
+ Porque, se nasci livre, me captivo?
+ E pois o quero ser, porque o não quero?
+ Como me engano mais com desenganos?
+ Se ja desesperei, que mais espero?
+ E se inda espero mais, porque não vivo?
+ E se vivo, que accuso mortaes danos?
+
+
+CXIII.
+
+ Hum firme coração posto em ventura;
+ Hum desejar honesto, que se engeite
+ De vossa condição, sem que respeite
+ A meu tão puro amor, a fé tão pura;
+ Hum ver-vos de piedade e de brandura
+ Sempre inimiga, faz-me que suspeite
+ Se alguma Hyrcana fera vos deo leite,
+ Ou se nascestes de huma pedra dura.
+ Ando buscando causa, que desculpe
+ Crueza tão estranha; porém quanto
+ Nisso trabalho mais, mais mal me trata.
+ Donde vem, que não ha quem nos não culpe;
+ A vós, porque matais quem vos quer tanto,
+ A mim, por querer tanto a quem me mata.
+
+
+CXIV.
+
+ Ar, que de meus suspiros vejo cheio;
+ Terra, cansada ja com meu tormento;
+ Agua, que com mil lagrimas sustento;
+ Fogo, que mais accendo no meu seio;
+ Em paz estais em mim; e assi o creio,
+ Sem esse ser o vosso proprio intento;
+ Pois em dor onde falta o soffrimento,
+ A vida se sostem por vosso meio.
+ Ai imiga Fortuna! ai vingativo
+ Amor! a que discursos por vós venho,
+ Sem nunca vos mover com minha mágoa!
+ Se me quereis matar, para que vivo?
+ E como vivo, se contrarios tenho
+ Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa?
+
+
+CXV.
+
+ Ja claro vejo bem, ja bem conheço
+ Quanto augmentando vou o meu tormento;
+ Pois sei que fundo em água, escrevo em vento,
+ E que o cordeiro manso ao lobo peço;
+ Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço;
+ Que a tigres em meus males me lamento;
+ Que reduzir o mar a hum vaso intento,
+ Aspirando a esse ceo que não mereço.
+ Quero achar paz em hum confuso inferno;
+ Na noite do sol puro a claridade;
+ E o suave verão no duro inverno.
+ Busco em luzente Olympo escuridade,
+ E o desejado bem no mal eterno,
+ Buscando amor em vossa crueldade.
+
+
+CXVI.
+
+ De cá, donde somente o imaginar-vos
+ A rigorosa ausencia me consente,
+ Sôbre as azas de Amor, ousadamente
+ O mal soffrido esprito vai buscar-vos.
+ E se não receára de abrazar-vos
+ Nas chammas que por vossa causa sente,
+ Lá ficára comvosco e, vós presente,
+ Aprendêra de vós a contentar-vos.
+ Mas, pois que estar ausente lhe he forçado,
+ Por senhora, de cá, vos reconhece,
+ Aos pés de imagens vossas inclinado.
+ E pois vêdes a fé que vos offrece,
+ Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado,
+ E dar-lhe-heis inda mais do que merece.
+
+
+CXVII.
+
+ Não ha louvor que arribe á menor parte
+ De quanto em vós se vê, bella Senhora:
+ Vós sois vosso louvor: quem vos adora
+ Reduz somente a este o engenho e arte.
+ Quanto por muitas damas se reparte
+ De bello e de formoso, em vós agora
+ Se junta em modo tal, que pouco fôra
+ Dizer que sois o todo, ellas a parte.
+ Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos,
+ Ver incapazes todos os louvores,
+ Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos.
+ Seja a culpa de vossos resplandores;
+ E a que elles t[~e]e vos dou, só para dar-vos
+ O mor louvor de todos os maiores.
+
+
+CXVIII.
+
+ Não vás ao monte, Nise, com teu gado;
+ Que lá vi que Cupido te buscava:
+ Por ti somente a todos perguntava,
+ No gesto menos placido que irado.
+ Elle publíca, em fim, que lhe has roubado
+ Os melhores farpões da sua aljava;
+ E com hum dardo ardente assegurava
+ Traspassar esse peito delicado.
+ Fuge de ver-te lá nesta aventura,
+ Porque se contra ti o tens iroso,
+ Póde ser que te alcance com mão dura.
+ Mas ai! que em vão te advirto temeroso,
+ Se á tua incomparavel formosura
+ Se rende o dardo seu mais poderoso!
+
+
+CXIX.
+
+ A violeta mais bella que amanhece
+ No valle por esmalte da verdura,
+ Com seu pallido lustre e formosura,
+ Por mais bella, Violante, te obedece.
+ Perguntas-me porque? Porque apparece
+ Em ti seu nome, e sua côr mais pura;
+ E estudar em teu rosto só procura
+ Tudo quanto em beldade mais florece.
+ Oh luminosa flor! Oh sol mais claro!
+ Unico roubador de meu sentido,
+ Não permittas que Amor me seja avaro.
+ Oh penetrante setta de Cupido!
+ Que queres? Que te peça por reparo
+ Ser neste valle Eneas desta Dido?
+
+
+CXX.
+
+ Tornae essa brancura á alva assucena,
+ E essa purpurea côr ás puras rosas;
+ Tornae ao sol as chammas luminosas
+ De essa vista que a roubos vos condena.
+ Tornae á suavissima sirena
+ D'essa voz as cadencias deleitosas:
+ Tornae a graça ás Graças, que queixosas
+ Estão de a ter por vós menos serena:
+ Tornae á bella Venus a belleza;
+ A Minerva o saber, o engenho, e a arte;
+ E a pureza á castissima Diana.
+ Despojae-vos de toda essa grandeza
+ De dões; e ficareis em toda parte
+ Comvosco só, que he só ser inhumana.
+
+
+CXXI.
+
+ De mil suspeitas vãas se me levantão
+ Trabalhos e desgostos verdadeiros.
+ Ai que estes bens de Amor são feiticeiros,
+ Que com hum não sei que toda alma encantão!
+ Como serêas docemente cantão
+ Para enganar os tristes marinheiros:
+ Os meus assi me attrahem lisongeiros,
+ E despois com horrores mil me espantão.
+ Quando cuido que tomo porto ou terra,
+ Tal vento se levanta em hum instante,
+ Que subito da vida desconfio.
+ Mas eu sou quem me faz a maior guerra,
+ Pois conhecendo os riscos de hum amante
+ Fiado a ondas de Amor, dellas me fio.
+
+
+CXXII.
+
+ Mil vezes determino não vos ver,
+ Por ver se abranda mais o meu penar:
+ E se cuido de assi me magoar,
+ Cuidai o que será, se houver de ser.
+ Pouco me importa ja muito soffrer,
+ Despois que Amor me poz em tal lugar;
+ E o que inda me doe mais he só cuidar,
+ Que mal sem esta dor posso viver.
+ Assi não busco eu cura contra a dor,
+ Porque, buscando alguma, entendo bem
+ Que nesse mesmo ponto me perdi.
+ Quereis que viva, em fim, neste rigor?
+ Somente o querer vosso me convem.
+ Assi quereis que seja? Seja assi.
+
+
+CXXIII.
+
+ A chaga que, Senhora, me fizestes,
+ Não foi para curar-se em hum só dia;
+ Porque crescendo vai com tal porfia,
+ Que bem descobre o intento que tivestes.
+ De causar tanta dor vos não doestes?
+ Mas a doer-vos, dor me não sería,
+ Pois ja com esperança me veria
+ Do que vós que em mi visse não quizestes.
+ Os olhos com que todo me roubastes
+ Forão causa do mal que vou passando;
+ E vós estais fingindo o não causastes.
+ Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
+ Quando vos vir queixar porque deixastes
+ Ir-se a minha alma nelles abrazando.
+
+
+CXXIV.
+
+ Se com desprezos, Nympha, te parece
+ Que podes desviar do seu cuidado
+ Hum coração constante, que se offrece
+ A ter por gloria o ser atormentado.
+ Deixa a tua porfia, e reconhece
+ Que mal sabes de amor desenganado;
+ Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece,
+ Crescendo em mi de ti mais desamado.
+ O esquivo desamor, com que me tratas,
+ Converte em piedade, se não queres
+ Que cresça o meu querer, e o teu desgosto.
+ Vencer-me com cruezas nunca esperes:
+ Bem me podes matar, e bem me matas;
+ Mas sempre ha de viver meu presupposto.
+
+
+CXXV.
+
+ Senhora minha, se eu de vós ausente
+ Me defendêra de hum penar severo,
+ Suspeito que offendêra o que vos quero,
+ Esquecido do bem de estar presente.
+ Traz este, logo sinto outro accidente,
+ E he ver que se da vida desespero,
+ Perco a gloria que vendo-vos espero;
+ E assi estou em meus males differente.
+ E nesta differença meus sentidos
+ Combatem com tão aspera porfia,
+ Que julgo este meu mal por deshumano.
+ Entre si sempre os vejo divididos;
+ E se acaso concordão algum dia,
+ He só conjuração para meu dano.
+
+
+CXXVI.
+
+ No regaço de mãe Amor estava
+ Dormindo tão formoso, que movia
+ O coração que mais isento o via;
+ E a sua propria mãe de amor matava.
+ Ella, co'os olhos nelle, contemplava
+ A quanto estrago o mundo reduzia:
+ Elle porém, sonhando, lhe dizia
+ Que todo aquelle mal ella o causava.
+ Soliso que, graduado em seus amores,
+ De saber de ambos mais teve a ventura,
+ Assi soltou a dúvida aos pastores:
+ Se bem me ferem sempre sem ter cura
+ Do menino os ardentes passadores,
+ Mais me fere da mãe a formosura.
+
+
+CXXVII.
+
+ Este terreste caos com seus vapores
+ Não póde condensar as nuvens tanto,
+ Que o claro sol não rompa o negro manto
+ Cum suas bellas e luzentes côres.
+ A ingratidão esquiva de rigores
+ Opposta nuvem he, que dura em quanto
+ Nos não converte o Ceo em triste pranto
+ Suas vãas esperanças, seus favores.
+ Póde-se contrapôr ao ceo a terra,
+ E estar o sol por horas eclipsado;
+ Mas não póde ficar escurecido.
+ Póde prevalecer a vossa guerra;
+ Mas, a pezar das nuvens, declarado
+ Ha de ser vosso sol, e obedecido.
+
+
+CXXVIII.
+
+ Huma admiravel herva se conhece,
+ Que vai ao sol seguindo de hora em hora,
+ Logo que elle do Euphrates se vê fóra,
+ E quando está mais alto, então florece.
+ Mas quando ao Oceano o carro dece,
+ Toda a sua belleza perde Flora,
+ Porque ella se emmurchece e se descora:
+ Tanto co'a luz ausente se entristece!
+ Meu sol, quando alegrais esta alma vossa,
+ Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,
+ Cria flores em seu contentamento.
+ Mas logo, em não vos vendo, entristecida
+ Se murcha e se consume em grão tormento:
+ Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa.
+
+
+CXXIX.
+
+ Crescei, desejo meu, pois que a Ventura
+ Ja vos t[~e]e nos seus braços levantado;
+ Que a bella causa de que sois gerado
+ O mais ditoso fim vos assegura.
+ Se aspirais por ousado a tanta altura,
+ Não vos espante haver ao sol chegado;
+ Porque he de aguia Real vosso cuidado,
+ Que quanto mais o soffre, mais se apura.
+ Ánimo, coração; que o pensamento
+ Te póde inda fazer mais glorioso,
+ Sem que respeite a teu merecimento.
+ Que cresças inda mais he ja forçoso;
+ Porque se foi de ousado o teu intento,
+ Agora de atrevido he venturoso.
+
+
+CXXX.
+
+ He o gozado bem em água escrito;
+ Vive no desejar, morre no effeito:
+ O desejado sempre he mais perfeito,
+ Porque t[~e]e parte alguma de infinito.
+ Dar a huma alma immortal gôzo prescrito,
+ Em verdadeiro amor, fôra defeito:
+ Por modo sup'rior, não imperfeito,
+ Sois excepção de quanto aqui limito.
+ De huma esperança nunca conhecida,
+ Da fé do desejar não alcançada,
+ Sereis mais desejada, possuida.
+ Não podeis da esperança ser amada;
+ Vista podereis ser, e então mais crida;
+ Porém não, sem aggravo, comparada.
+
+
+CXXXI.
+
+ De quantas graças tinha a natureza
+ Fez hum bello e riquissimo thesouro;
+ E com rubis e rosas, neve e ouro,
+ Formou sublime e angelica belleza.
+ Poz na boca os rubis, e na pureza
+ Do bello rosto as rosas, por quem mouro;
+ No cabello o valor do metal louro;
+ No peito a neve, em que a alma tenho accesa.
+ Mas nos olhos mostrou quanto podia,
+ E fez delles hum sol, onde se apura
+ A luz mais clara que a do claro dia.
+ Em fim, Senhora, em vossa compostura,
+ Ella a apurar chegou quanto sabia
+ De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
+
+
+CXXXII.
+
+ Nunca em amor damnou o atrevimento;
+ Favorece a Fortuna a ousadia;
+ Porque sempre a encolhida covardia
+ De pedra serve ao livre pensamento.
+ Quem se eleva ao sublime Firmamento,
+ A estrella nelle encontra, que lhe he guia;
+ Que o bem que encerra em si a phantasia
+ São humas illusões que leva o vento.
+ Abrir se devem passos á ventura:
+ Sem si proprio ninguem será ditoso:
+ Os principios somente a sorte os move.
+ Atrever-se he valor, e não loucura.
+ Perderá por covarde o venturoso
+ Que vos vê, se os temores não remove.
+
+
+CXXXIII.
+
+ Doces e claras águas do Mondego,
+ Doce repouso de minha lembrança,
+ Onde a comprida e perfida esperança
+ Longo tempo apos si me trouxe cego,
+ De vós me aparto, si; porém não nego
+ Que inda a longa memoria, que me alcança,
+ Me não deixa de vós fazer mudança,
+ Mas quanto mais me alongo, mais me achego
+ Bem poderá a Fortuna este instrumento
+ Da alma levar por terra nova e estranha,
+ Offerecido ao mar remoto, ao vento.
+ Mas a alma, que de cá vos acompanha,
+ Nas azas do ligeiro pensamento
+ Para vós, águas, vôa, e em vós se banha.
+
+
+CXXXIV.
+
+ Senhor João Lopes, o meu baixo estado
+ Hontem vi posto em grao tão excellente,
+ Que sendo vós inveja a toda a gente,
+ Só por mi vos quizereis ver trocado.
+ O gesto vi suave e delicado,
+ Que ja vos fez contente e descontente,
+ Lançar ao vento a voz tão docemente,
+ Que fez o ar sereno e socegado.
+ Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto
+ Ninguem diria em muitas: mas eu chego
+ A espirar só de ouvir a doce fala.
+ Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego!
+ Elle, que os corações obriga a tanto;
+ Ella, porque os estados desiguala.
+
+
+CXXXV.
+
+ A Morte, que da vida o nó desata,
+ Os nós, que dá o Amor, cortar quizera
+ Co'a ausencia, que he sôbre elle espada fera,
+ E co'o tempo, que tudo desbarata.
+ Duas contrárias, que huma a outra mata,
+ A Morte contra Amor junta e altera;
+ Huma, Razão contra a Fortuna austera;
+ Outra, contra a Razão Fortuna ingrata.
+ Mas mostre a sua imperial potencia
+ A Morte em apartar de hum corpo a alma,
+ O Amor n'hum corpo duas almas una;
+ Para que assi triumphante leve a palma
+ Da Morte Amor a grão pesar da ausencia,
+ Do tempo, da Razão, e da Fortuna.
+
+
+CXXXVI
+
+ Árvore, cujo pomo bello e brando
+ Natureza de leite e sangue pinta,
+ Onde a pureza, de vergonha tinta,
+ Está virgineas faces imitando;
+ Nunca do vento a ira, que arrancando
+ Os troncos vai, o teu injúria sinta;
+ Nem por malícia de ar te seja extinta
+ A côr que está teu fructo debuxando.
+ E pois emprestas doce e idoneo abrigo
+ A meu contentamento, e favoreces
+ Com teu suave cheiro a minha gloria;
+ Se eu não te celebrar como mereces,
+ Cantando-te, se quer farei comtigo
+ Doce nos casos tristes a memoria.
+
+
+CXXXVII.
+
+ O filho de Latona esclarecido,
+ Que com seu raio alegra a humana gente,
+ Matar pôde a Phytonica serpente
+ Que mortes mil havia produzido.
+ Ferio com arco, e de arco foi ferido,
+ Com ponta aguda de ouro reluzente:
+ Nas Thessalicas praias docemente
+ Por a nympha Penea andou perdido.
+ Não lhe pôde valer contra seu dano
+ Saber, nem diligencias, nem respeito
+ De quanto era celeste e soberano.
+ Pois se hum deos nunca vio nem hum engano
+ De quem era tão pouco em seu respeito,
+ Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano?
+
+
+CXXXVIII.
+
+ Presença bella, angelica figura,
+ Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado;
+ Gesto alegre de rosas semeado,
+ Entre as quaes se está rindo a Formosura:
+ Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura
+ Em crystal puro o negro marchetado,
+ Que vemos ja no verde delicado
+ Não esperança, mas inveja escura:
+ Brandura, aviso, e graça, que augmentando
+ A natural belleza co'hum desprezo,
+ Com que mais desprezada mais se augmenta:
+ São as prizões de hum coração, que prêzo,
+ Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
+ Como faz a serêa na tormenta
+
+
+CXXXIX.
+
+ Por cima destas águas forte e firme
+ Irei aonde os Fados o ordenárão,
+ Pois por cima de quantas derramárão
+ Aquelles claros olhos pude vir-me.
+ Ja chegado era o fim de despedir-me;
+ Ja mil impedimentos se acabárão,
+ Quando rios de amor se atravessárão
+ A me impedir o passo de partir-me.
+ Passei-os eu com ânimo obstinado,
+ Com que a morte forçada gloriosa
+ Faz o vencido ja desesperado.
+ Em qual figura, ou gesto desusado,
+ Póde ja fazer medo a morte irosa
+ A quem t[~e]e a seus pés rendido e atado?
+
+
+CXL.
+
+ Tal mostra de si dá vossa figura,
+ Sibela, clara luz da redondeza,
+ Que as fôrças e o poder da natureza
+ Com sua claridade mais apura.
+ Quem confiança ha visto tão segura,
+ Tão singular esmalte da belleza,
+ Que não padeça mal de mais graveza,
+ Se resistir a seu amor procura?
+ Eu, pois, por escusar tal esquivança,
+ A razão sujeitei ao pensamento,
+ A quem logo os sentidos se entregárão.
+ Se vos offende o meu atrevimento,
+ Inda podeis tomar nova vingança
+ Nas reliquias da vida que ficárão.
+
+
+CXLI.
+
+ Na desesperação ja repousava
+ O peito longamente magoado,
+ E, com seu damno eterno concertado,
+ Ja não temia, ja não desejava;
+ Quando huma sombra vãa me assegurava
+ Que algum bem me podia estar guardado
+ Em tão formosa imagem, que o traslado
+ N'alma ficou, que nella se enlevava.
+ Que credito que dá tão facilmente
+ O coração áquillo que deseja,
+ Quando lhe esquece o fero seu destino!
+ Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente;
+ Pois, postoque maior meu damno seja,
+ Fica-me a gloria ja do que imagino.
+
+
+CXLII.
+
+ Diversos dões reparte o Ceo benino,
+ E quer que cada huma alma hum só possua;
+ Por isso ornou de casto peito a Lua,
+ Que o primeiro orbe illustra crystallino;
+ De graça a Mãe formosa do Menino,
+ Que nessa vista t[~e]e perdido a sua;
+ Pallas de sciencia não maior que a tua:
+ T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino.
+ Mas junto agora o largo Ceo derrama
+ Em ti o mais que tinha, e foi o menos
+ Em respeito do Autor da natureza.
+ Que a seu pezar te dão, formosa dama,
+ Seu peito a Lua, sua graça Venos,
+ Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza.
+
+
+CXLIII.
+
+ Gentil Senhora, se a Fortuna imiga,
+ Que contra mi com todo o Ceo conspira,
+ Os olhos meus de ver os vossos tira,
+ Porque em mais graves casos me persiga;
+ Comigo levo esta alma, que se obriga
+ Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra,
+ A dar-vos a memoria, que suspira
+ Só por fazer comvosco eterna liga.
+ Nesta alma, onde a fortuna póde pouco,
+ Tão viva vos terei, que frio e fome,
+ Vos não possão tirar, nem mais perigos.
+ Antes, com som de voz trémulo e rouco
+ Por vós chamando, só com vosso nome
+ Farei fugir os ventos, e os imigos.
+
+
+CXLIV
+
+ Que modo tão subtil da natureza
+ Para fugir ao mundo e seus enganos!
+ Permitte que se esconda em tenros anos
+ Debaixo de hum burel tanta belleza!
+ Mas não póde esconder-se aquella alteza
+ E gravidade de olhos soberanos,
+ A cujo resplandor entre os humanos
+ Resistencia não sinto, ou fortaleza.
+ Quem quer livre ficar de dor e pena,
+ Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria,
+ Na mesma razão sua se condena.
+ Porque quem mereceo ver tanta gloria
+ Captivo ha de ficar; que Amor ordena
+ Que de juro tenha ella esta victoria.
+
+
+CXLV
+
+ Quando se vir com água o fogo arder,
+ Juntar-se ao claro dia a noite escura,
+ E a terra collocada lá na altura
+ Em que se vem os ceos prevalecer;
+ Quando Amor á Razão obedecer,
+ E em todos for igual huma ventura,
+ Deixarei eu de ver tal formosura,
+ E de a amar deixarei depois de a ver.
+ Porém não sendo vista esta mudança
+ No mundo, porque, em fim, não póde ver-se,
+ Ninguem mudar-me queira de querer-vos.
+ Que basta estar em vós minha esperança,
+ E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se,
+ Para dos olhos meus nunca perder-vos.
+
+
+CXLVI.
+
+ Quando a suprema dor muito me aperta,
+ Se digo que desejo esquecimento,
+ He fôrça que se faz ao pensamento,
+ De que a vontade livre desconcerta.
+ Assi de êrro tão grave me desperta
+ A luz do bem regido entendimento,
+ Que mostra ser engano, ou fingimento,
+ Dizer que em tal descanso mais se acerta.
+ Porque essa propria imagem, que na mente
+ Me representa o bem de que careço,
+ Faz-mo de hum certo modo ser presente.
+ Ditosa he, logo, a pena que padeço,
+ Pois que da causa della em mi se sente
+ Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço.
+
+
+CXLVII.
+
+ Na margem de hum ribeiro, que fendia
+ Com liquido crystal hum verde prado,
+ O triste pastor Liso debruçado
+ Sôbre o tronco de hum freixo assi dizia:
+ Ah Natercia cruel! quem te desvia
+ Esse cuidado teu do meu cuidado?
+ Se tanto hei de penar desenganado,
+ Enganado de ti viver queria.
+ Que foi de aquella fé que tu me déste?
+ D'aquelle puro amor que me mostraste?
+ Quem tudo trocar pôde tão asinha?
+ Quando esses olhos teus n'outro puzeste,
+ Como te não lembrou que me juraste
+ Por toda a sua luz que eras só minha?
+
+
+CXLVIII.
+
+ Se me vem tanta gloria só de olhar-te,
+ He pena desigual deixar de ver-te;
+ Se presumo com obras merecer-te,
+ Grão paga de hum engano he desejar-te.
+ Se aspiro por quem es a celebrar-te,
+ Sei certo por quem sou que hei de offender-te;
+ Se mal me quero a mi por bem querer-te,
+ Que premio querer posso mais que amar-te?
+ Porque hum tão raro amor não me soccorre?
+ Oh humano thesouro! oh doce gloria!
+ Ditoso quem á morte por ti corre!
+ Sempre escrita estaras nesta memoria;
+ E esta alma viverá, pois por ti morre,
+ Porque ao fim da batalha he a victoria.
+
+
+CXLIX.
+
+ Sempre a Razão vencida foi de Amor;
+ Mas, porque assi o pedia o coração,
+ Quiz Amor ser vencido da Razão.
+ Ora que caso póde haver maior!
+ Novo modo de morte, e nova dor!
+ Estranheza de grande admiração!
+ Pois, em fim, seu vigor perde a affeição,
+ Porque não perca a pena o seu vigor.
+ Fraqueza, nunca a houve no querer;
+ Mas antes muito mais se esforça assim
+ Hum contrário com outro por vencer.
+ Mas a razão que a luta vence, em fim,
+ Não creio que he razão; mas deve ser
+ Inclinação que eu tenho contra mim.
+
+
+CL.
+
+ Coitado! que em hum tempo chóro e rio;
+ Espero e temo, quero e aborreço;
+ Juntamente me allegro e me entristeço;
+ Confio de huma cousa e desconfio.
+ Vôo sem azas; estou cego e guio;
+ Alcanço menos no que mais mereço;
+ Entaõ fallo melhor, quando emmudeço;
+ Sem ter contradiçaõ sempre porfio.
+ Possivel se me faz todo o impossivel;
+ Intento com mudar-me estar-me quedo;
+ Usar de liberdade, e ser captivo;
+ Queria visto ser, ser invisivel;
+ Ver-me desenredado, amando o enredo:
+ Taes os extremos são com que hoje vivo!
+
+
+CLI.
+
+ Julga-me a gente toda por perdido,
+ Vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
+ Andar sempre dos homens apartado,
+ E de humanos commercios esquecido.
+ Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
+ E quasi que sôbre elle ando dobrado,
+ Tenho por baixo, rustico, e enganado
+ Quem não he com meu mal engrandecido.
+ Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento,
+ Honras busque e riquezas a outra gente,
+ Vencendo ferro, fogo, frio e calma.
+ Que eu por amor sómente me contento
+ De trazer esculpido eternamente
+ Vosso formoso gesto dentro da alma.
+
+
+CLII.
+
+ Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura
+ Quiz dar de seu poder claros signais,
+ Se quizerdes ver bem quanto possais,
+ Vêde-me a mi que sou vossa feitura.
+ Em mi viva vereis vossa figura
+ Mais propria que em purissimos crystais,
+ Porque nesta alma he certo que vejais
+ Melhor que em hum crystal tal formosura.
+ De meu não quero mais que o meu desejo,
+ Se acaso por querer-vos mais mereço,
+ Porque o vosso poder em mi se asselle.
+ Do mundo outra memoria em mi não vejo:
+ Com lembrar-me de vós, delle me esqueço,
+ Com triumphardes de mi, triumpharei delle.
+
+
+CLIII.
+
+ Criou a natureza Damas bellas,
+ Que forão de altos plectros celebradas;
+ Dellas tomou as partes mais prezadas,
+ E a vós, Senhora, fez do melhor dellas.
+ Ellas diante vós são as estrellas,
+ Que ficão com vos ver logo eclipsadas.
+ Mas se ellas t[~e]e por sol essas rosadas
+ Luzes de sol maior, felices ellas!
+ Em perfeição, em graça e gentileza,
+ Por hum modo entre humanos peregrino,
+ A todo bello excede essa belleza.
+ Oh quem tivera partes de divino
+ Para vos merecer! Mas se pureza
+ De amor vai ante vós, de vós sou dino.
+
+
+CLIV.
+
+ Que esperais, esperança? Desespéro.
+ Quem disso a causa foi? H[~u]a mudança.
+ Vós, vida, como estais? Sem esperança.
+ Que dizeis, coração? Que muito quero.
+ Que sentis, alma, vós? Que amor he fero.
+ E, em fim, como viveis? Sem confiança.
+ Quem vos sustenta, logo? Huma lembrança.
+ E só nella esperais? Só nella espero.
+ Em que podeis parar? Nisto em que estou.
+ E em que estais vós? Em acabar a vida.
+ E ténde-lo por bem? Amor o quer.
+ Quem vos obriga assi? Saber quem sou.
+ E quem sois? Quem de todo está rendida.
+ A quem rendida estais? A hum só querer.
+
+
+CLV.
+
+ Se como em tudo o mais fostes perfeita,
+ Foreis de condição menos esquiva,
+ Fôra a minha fortuna mais altiva,
+ Fôra a sua altiveza mais sujeita.
+ Mas quando a vida a vossos pés se deita,
+ Porque não a acceitais, não quer que eu viva:
+ Ella propria de si ja a mi me priva;
+ Que, porque me engeitais, tambem me engeita.
+ Se nisso contradiz vossa vontade,
+ Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim
+ Á minha profundissima tristeza.
+ Pois ella não mo dá, porque piedade
+ Tenha deste meu mal, mas porque em mim
+ Possais assi fartar vossa crueza.
+
+
+CLVI.
+
+ Se algum'hora essa vista mais suave
+ Acaso a mi volveis, em hum momento
+ Me sinto com hum tal contentamento,
+ Que não temo que damno algum me aggrave.
+ Mas quando com desdem esquivo e grave
+ O bello rosto me mostrais isento,
+ Huma dor provo tal, hum tal tormento,
+ Que muito vem a ser que não me acabe.
+ Assi está minha vida, ou minha morte
+ No volver de esses olhos; pois podeis
+ Dar co'huma volta delles morte, ou vida.
+ Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte,
+ Que ou vida, para dar-vo-la, me deis,
+ Ou morte, para haver morte querida!
+
+
+CLVII.
+
+ Tanto se forão, Nympha, costumando
+ Meus olhos a chorar tua dureza,
+ Que vão passando ja por natureza
+ O que por accidente hião passando.
+ No que ao somno se deve estou velando,
+ E venho a velar só minha tristeza:
+ O chôro não abranda esta aspereza,
+ E meus olhos estão sempre chorando.
+ Assi de dor em dor, de mágoa em mágoa,
+ Consumindo-se vão inutilmente,
+ E esta vida tambem vão consumindo.
+ Sôbre o fogo de amor inutil ágoa!
+ Pois eu em chôro estou continuamente,
+ E do que vou chorando te vás rindo.
+ Assi nova corrente
+ Levas de chôro em foro;
+ Porque de ver-te rir, de novo chóro.
+
+
+CLVIII.
+
+ Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo,
+ Quando menos temia esta partida;
+ E se a minha alma vai entristecida,
+ Nos olhos o vereis com que vos vejo.
+ Pequenas esperanças, mal sobejo,
+ Vontade que razão leva vencida,
+ Presto verão o fim á triste vida,
+ Se vos não tórno a ver como desejo.
+ Nunca a noite entretanto, nunca o dia,
+ Verão partir de mi vossa lembrança:
+ Amor, que vai comigo, o certifica.
+ Por mais que no tornar haja tardança,
+ Me farão sempre triste companhia
+ Saudades do bem que em vós me fia.
+
+
+CLIX.
+
+ Vencido está de amor Meu pensamento
+ O mais que póde ser, Vencida a vida,
+ Sujeita a vos servir e Instituida,
+ Oferecendo tudo A vosso intento.
+ Contente deste bem Louva o momento,
+ Ou hora em que se vio Tão bem perdida;
+ Mil vezes desejando, Assi ferida,
+ Outras mil renovar Seu perdimento.
+ Com esta pretenção Está segura
+ A causa que me guia Nesta empreza
+ Tão sobrenatural, Honrosa, e alta.
+ Jurando não querer Outra ventura,
+ Votando só por vós Rara firmeza,
+ Ou ser no vosso amor Achado em falta.
+
+
+CLX.
+
+ Divina companhia, que nos prados
+ Do claro Eurotas, ou no Olympo monte,
+ Ou sôbre as margens da Castalia fonte
+ Vossos estudos tendes mais sagrados;
+ Pois por destino dos immoveis fados
+ Quereis qu'em vosso número me conte,
+ No eterno templo de Belorofonte
+ Ponde em bronze estes versos entalhados:
+ Soliso (porque em seculos futuros
+ Se veja da belleza o que merece
+ Quem de sábia doudice a mente inflama)
+ Seus escritos, da sorte ja seguros,
+ A estas aras em h[~u]a mão offrece,
+ E a alma em outra á sua bella dama.
+
+
+CLXI.
+
+ Á la margen del Tajo, en claro dia,
+ Con rayado marfil peinando estaba
+ Natercia sus cabellos, y quitaba
+ Con sus ojos la luz al sol que ardia.
+ Soliso que, cual Clicie, la seguia,
+ Lejos de sí, mas cerca della estaba:
+ Al son de su zampoña celebraba
+ La causa de su ardor, y así decia:
+ Si tantas, como tú tienes cabellos,
+ Tuviera vidas yo, me las llevaras
+ Colgada cada cual del uno dellos.
+ De no tenerlas tú me consolaras,
+ Si tantas veces mil, como son ellos,
+ En ellos la que tengo me enredaras.
+
+
+CLXII.
+
+ Por gloria tuve un tiempo el ser perdido;
+ Perdíame de puro bien ganado;
+ Gané cuando perdí ser libertado;
+ Libre agora me veo, mas vencido.
+ Vencí cuando de Nise fuí rendido;
+ Rendíme por no ser della dejado:
+ Dejóme en la memoria el bien pasado;
+ Paso agora á llorar lo que he servido.
+ Servia al premio de la luz que amaba;
+ Amándola esperábale por cierto;
+ Incierto me salió cuanto esperaba.
+ La esperanza se queda en desconcierto;
+ El concierto en el mal que no pensaba;
+ El pensamiento con un fin incierto.
+
+
+CLXIII.
+
+ Revuelvo en la incesable fantasía
+ Cuando me he visto en mas dichoso estado,
+ Si agora que de Amor vivo inflamado,
+ Si cuando de su ardor libre vivia.
+ Entonces desta llama solo huia,
+ Despreciando en mi vida su cuidado;
+ Agora, con dolor de lo pasado,
+ Tengo por gloria aquello que temia.
+ Bien veo que era vida deleitosa
+ Aquella que lograba sin temores,
+ Cuando gustos de Amor tuve por viento.
+ Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa,
+ Hallo en esta prision glorias mayores,
+ Y en perderlas por libre hallo tormento.
+
+
+CLXIV.
+
+ Las peñas retumbaban al gemido
+ Del misero zagal, que lamentaba
+ El dolor que á su alma lastimaba,
+ De un obstinado desamor nacido.
+ El mar, que las batia, su bramido
+ Con los retumbos dellas ayuntaba;
+ Confuso son el viento derramaba,
+ En cavernosos valles repetido.
+ Responden a mi llanto duras peñas,
+ Ai de mí! (dijo) la mar brama y gime;
+ Los ecos suenan de tristeza llenos:
+ Y tú, por quien la muerte en mí se imprime,
+ De oir las ansias mias te desdeñas;
+ Y cuando lloro mas, te abrando menos.
+
+
+CLXV.
+
+ En una selva al dispuntar del dia
+ Estaba Endimion triste y lloroso,
+ Vuelto al rayo del sol, que presuroso
+ Por la falda de un monte descendia.
+ Mirando al turbador de su alegría,
+ Contrario de su bien y su reposo,
+ Tras un suspiro y otro, congojoso,
+ Razones semejantes le decia:
+ Luz clara, para mi la mas escura,
+ Que con esse paseo apresurado,
+ Mi sol con tu teniebla escureciste;
+ Si allà pueden moverte en esa altura
+ Las quejas de un pastor enamorado,
+ No tardes en volver á dó saliste.
+
+
+CLXVI.
+
+ Orfeo enamorado que tañia
+ Por la perdida Ninfa que buscaba,
+ En el Orco implacable donde estaba,
+ Con la arpa, y con la voz la enternecia.
+ La rueda de Ixion no se movia,
+ Ningun atormentado se quejaba;
+ Las penas de los otros ablandaba,
+ Y todas las de todos él sentia.
+ El son pudo obligar de tal manera,
+ Que en dulce galardon de lo cantado,
+ Los infernales Reyes condolidos,
+ Le mandáron volver su compañera,
+ Y volvióla á perder el desdichado;
+ Con que fueron entrambos los perdidos.
+
+
+CLXVII.
+
+ Eu cantei ja, e agora vou chorando
+ O tempo que cantei tão confiado:
+ Parece que no canto ja passado
+ Se estavão minhas lagrimas criando.
+ Cantei; mas se me alguem pergunta, quando?
+ Não sei; que tambem fui nisso enganado.
+ He tão triste este meu presente estado,
+ Que o passado por ledo estou julgando.
+ Fizerão-me cantar manhosamente
+ Contentamentos não, mas confianças:
+ Cantava, mas ja era ao som dos ferros.
+ De quem me queixarei, se tudo mente?
+ Porém que culpas ponho ás esperanças,
+ Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros?
+
+
+CLXVIII.
+
+ Ai amiga cruel! que apartamento
+ He este que fazeis da patria terra?
+ Ai! quem do amado ninho vos desterra,
+ Gloria dos olhos, bem do pensamento?
+ His tentar da fortuna o movimento,
+ E dos ventos crueis a dura guerra?
+ Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra
+ Levantado de hum vento e de outro vento?
+ Mas ja que vós partis, sem vos partirdes,
+ Parta comvosco o Ceo tanta ventura,
+ Que se avantaje áquella qu'esperardes.
+ E só desta verdade ide segura,
+ Que fazeis mais saudades com vos irdes,
+ Do que levais desejos por chegardes.
+
+
+CLXIX.
+
+ Campo! nas syrtes deste mar da vida,
+ Apos naufragios seus taboa segura;
+ Claras bonanças em tormenta escura,
+ Habitação da paz, de amor guarida;
+ A ti fujo: e se vence tal fugida,
+ E quem mudou lugar, mudou ventura,
+ Cantemos a victoria; e na espessura
+ Triumphe a honra da ambição vencida.
+ Em flor e fructo de verão e outono;
+ Utilmente murmurão claras ágoas;
+ Alegre me acha aqui, me deixa o dia.
+ Amantes rouxinoes rompem-me o sono
+ Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas
+ Que ja forão sepulcros de alegria.
+
+
+CLXX.
+
+ Ah minha Dinamene! assi deixaste
+ Quem nunca deixar pôde de querer-te!
+ Que ja, Nympha gentil, não possa ver-te!
+ Que tão veloz a vida desprezaste!
+ Como por tempo eterno te apartaste
+ De quem tão longe andava de perder-te?
+ Puderão essas ágoas defender-te
+ Que não visses quem tanto magoaste?
+ Nem somente fallar-te a dura morte
+ Me deixou, qu'apressada o negro manto
+ Lançar sôbre os teus olhos consentiste.
+ Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte!
+ Qual vida perderei que valha tanto,
+ Se inda tenho por pouco o viver triste?
+
+
+CLXXI.
+
+ Guardando em mi a Sorte o seu direito.
+ Em verde me cortou minha alegria.
+ Oh quanto feneceo naquelle dia,
+ Cuja triste lembrança arde em meu peito!
+ Quando mais o imagino, bem suspeito
+ Que a tal bem tal desconto se devia,
+ Por não dizer o mundo que podia
+ Achar-se em seus enganos bem perfeito.
+ Pois se a Fortuna o fez por descontar-me
+ Aquelle gôsto, em cujo sentimento
+ A memoria não faz senão matar-me;
+ Que culpas póde dar-me o pensamento,
+ Se a causa qu'elle t[~e]e de atormentar-me,
+ Tenho eu de soffrer mal o seu tormento?
+
+
+CLXXII.
+
+ Cantando estava hum dia bem seguro,
+ Quando passava Sylvio, e me dizia:
+ (Sylvio, pastor antiguo que sabia
+ Por o canto das aves o futuro)
+ Liso, quando quizer o fado escuro,
+ A opprimir-te virão em hum só dia
+ Dous lobos; logo a voz e a melodia
+ Te fugirão, e o som suave e puro.
+ Bem foi assi; porque hum me degolou
+ Quanto gado vacum pastava e tinha,
+ De que grandes soldadas esperava.
+ E por mais damno o outro me matou
+ A cordeira gentil, qu'eu tanto amava,
+ Perpétua saudade da alma minha.
+
+
+CLXXIII.
+
+ O ceo, a terra, o vento socegado,
+ As ondas que se estendem por a areia,
+ Os peixes que no mar o somno enfreia,
+ O nocturno silencio repousado;
+ O Pescador Aonio que, deitado
+ Onde co'o vento a água se meneia,
+ Chorando, o nome amado em vão nomeia,
+ Que não póde ser mais que nomeado,
+ Ondas, (dizia) antes que Amor me mate,
+ Tornae-me a minha Nympha, que tão cedo
+ Me fizestes á morte estar sujeita.
+ Ninguem responde; o mar de longe bate;
+ Move-se brandamente o arvoredo;
+ Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita.
+
+
+CLXXIV.
+
+ Ah Fortuna cruel! ah duros Fados!
+ Quão asinha em meu damno vos mudastes!
+ Com os vossos cuidados me cansastes,
+ E agora descansais co'os meus cuidados.
+ Fizestes-me provar gostos passados,
+ E vossa condição nelles provastes:
+ Singelos em hum'hora mos levastes,
+ Deixando em seu lugar males dobrados.
+ Quanto melhor me fôra que não vira
+ Os doces bens de Amor? Ah bens suaves!
+ Quem me deixa sem vós, porque me deixa?
+ De queixar-te, alma minha, te retira:
+ Alma, de alto cahida em penas graves,
+ Pois tanto amaste em vão, em vão te queixa.
+
+
+CLXXV.
+
+ Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento
+ Vos hei de ver tão tristes e aggravados?
+ Não bástão meus suspiros inflammados,
+ Que sempre em mi renovão seu tormento?
+ Não basta consentir meu pensamento
+ Em mágoas, em tristezas e em cuidados,
+ Senão que haveis de andar tão maltratados,
+ Que lagrimas tenhais por mantimento?
+ Não sei porque tomais esta vingança,
+ Mostrando-vos na ausencia tão saudosos,
+ Se sabeis quanto póde huma esperança.
+ Olhos, não aggraveis outros formosos,
+ Tornando hum puro amor em esquivança,
+ Pois ficais por esquivos desdenhosos.
+
+
+CLXXVI.
+
+ Lembranças, que lembrais o bem passado
+ Para que sinta mais o mal presente,
+ Deixae-me, se quereis, viver contente,
+ Morrer não me deixeis em tal estado.
+ Se de todo, comtudo, está do Fado,
+ Que eu morra de viver tão descontente,
+ Venha-me todo o bem por accidente,
+ E todo o mal me venha por cuidado.
+ Que muito melhor he perder-se a vida,
+ Perdendo-se as lembranças da memoria,
+ Pois fazem tanto damno ao pensamento.
+ Porque, em fim, nada perde quem perdida
+ A esperança t[~e]e ja daquella gloria
+ Que fazia suave o seu tormento.
+
+
+CLXXVII.
+
+ Quando os olhos emprégo no passado,
+ De quanto passei me acho arrependido;
+ Vejo que tudo foi tempo perdido,
+ Que tudo emprêgo foi mal empregado.
+ Sempre no mais damnoso mais cuidado;
+ Tudo o que mais cumpria, mal cumprido;
+ De desenganos menos advertido
+ Fui, quando de esperanças mais frustrado.
+ Os castellos que erguia o pensamento,
+ No ponto que mais altos os erguia,
+ Por esse chão os via em hum momento.
+ Que erradas contas faz a phantasia!
+ Pois tudo pára em morte, tudo em vento,
+ Triste o que espera! triste o que confia!
+
+
+CLXXVIII
+
+ Ja cantei, ja chorei a dura guerra
+ Por Amor sustentada longos anos;
+ Vezes mil me vedou dizer seus danos,
+ Por não ver quem o segue o muito que erra.
+ Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra;
+ Vós que fazeis á morte mil enganos,
+ Concedei-me ja alentos soberanos
+ Para que diga o mal que Amor encerra:
+ Para que aquelle, que o seguir ardente,
+ Veja em meus puros versos hum exemplo
+ De quanto em glorias promettidas mente.
+ Qu'inda qu'em triste estado me contemplo,
+ Se neste assumpto me inspirais, contente
+ Darei a minha lyra ao vosso templo.
+
+
+CLXXIX
+
+ Os meus alegres, venturosos dias
+ Passárão, como raio, brevemente;
+ Movem-se os tristes mais pezadamente
+ Apos das fugitivas alegrias.
+ Ah falsas pretenções! vãas phantasias!
+ Que me podeis ja dar que me contente?
+ Ja de meu triste peito a chamma ardente
+ O tempo reduzio a cinzas frias.
+ Nellas revolvo agora erros passados;
+ Que outro fructo não deo a mocidade,
+ A quem vergonha e dor minha alma deve
+ Revolvo mais de toda a mais idade,
+ Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados,
+ Para que leve tudo o tempo leve.
+
+
+CLXXX.
+
+ Horas breves de meu contentamento,
+ Nunca me pareceo, quando vos tinha,
+ Que vos visse mudadas tão asinha
+ Em tão compridos annos de tormento.
+ As altas tôrres, que fundei no vento,
+ Levou, em fim, o vento que as sostinha:
+ Do mal, que me ficou, a culpa he minha,
+ Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento.
+ Amor com brandas mostras apparece,
+ Tudo possivel faz, tudo assegura;
+ Mas logo no melhor desapparece.
+ Estranho mal! estranha desventura!
+ Por hum pequeno bem que desfallece,
+ Hum bem aventurar, que sempre dura!
+
+
+CLXXXI.
+
+ Onde acharei lugar tão apartado,
+ E tão isento em tudo da ventura,
+ Que, não digo eu de humana criatura,
+ Mas nem de feras seja frequentado?
+ Algum bosque medonho e carregado,
+ Ou selva solitaria, triste e escura,
+ Sem fonte clara, ou placida verdura;
+ Em fim, lugar conforme a meu cuidado?
+ Porque alli nas entranhas dos penedos,
+ Em vida morto, sepultado em vida,
+ Me queixe copiosa e livremente.
+ Que, pois a minha pena he sem medida,
+ Alli não serei triste em dias ledos,
+ E dias tristes me farão contente.
+
+
+CLXXXII.
+
+ Aqui de longos damnos breve historia
+ Verão os que se jactão de amadores:
+ Reparo póde ser das suas dores
+ Não apartar as minhas da memoria.
+ Escrevi, não por fama, nem por gloria,
+ De que outros versos são merecedores,
+ Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores
+ A quem de mi logrou tanta victoria.
+ Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto
+ Que em número me fez, alheio de arte,
+ Dizer do cego Amor, que me venceo.
+ Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto;
+ E dando a penna á mão, esta só parte
+ De minhas tristes penas escreveo.
+
+
+CLXXXIII.
+
+ Por sua Nympha Céphalo deixava
+ A Aurora, que por elle se perdia,
+ Postoque dá principio ao claro dia,
+ Postoque as roxas flores imitava.
+ Elle, que a bella Procris tanto amava,
+ Que só por ella tudo engeitaria,
+ Deseja de tentar se lhe acharia
+ Tão firme fé, como ella nelle achava.
+ Mudado o trage, tece hum duro engano;
+ Outro se finge, preço põe diante;
+ Quebra-se a fé mudavel, e consente.
+ Oh subtil invenção para seu dano!
+ Vêde que manhas busca hum cego amante
+ Para que sempre seja descontente!
+
+
+CLXXXIV.
+
+ Sentindo-se alcançada a bella esposa
+ De Céphalo no crime consentido,
+ Para os montes fugia do marido;
+ E não sei se de astuta, ou vergonhosa.
+ Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa,
+ Da cegueira obrigado de Cupido,
+ Apos ella se vai como perdido,
+ Ja perdoando a culpa criminosa.
+ Deita-se aos pés da Nympha endurecida,
+ Que do cioso engano está aggravada;
+ Ja lhe pede perdão, ja pede a vida.
+ Oh fôrça d'affeição desatinada!
+ Que da culpa contr'elle commettida,
+ Perdão pedia á parte que he culpada!
+
+
+CLXXXV.
+
+ Seguia aquelle fogo, que o guiava,
+ Leandro, contra o mar e contra o vento;
+ Quebravão-lhe ondas o animoso alento,
+ Por mais e mais que Amor lho renovava.
+ Com sentir ja que quasi lhe faltava,
+ Sem nada esmorecer, no pensamento
+ (Não podendo fallar) de seu intento
+ O fim ao surdo mar encommendava.
+ Ó mar, (dizia o moço só comsigo)
+ Ja te não peço a vida; só queria
+ Que a d'Hero me salvasses: não me veja:
+ Este defunto corpo lá o desvia
+ D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo,
+ Pois no meu maior bem me houveste inveja.
+
+
+CLXXXVI.
+
+ Os olhos onde o casto Amor ardia,
+ Ledo de se ver nelles abrazado;
+ O rosto onde com lustre desusado
+ Purpurea rosa sôbre neve ardia;
+ O cabello, que inveja ao sol fazia,
+ Porque fazia o seu menos dourado;
+ A branca mão, o corpo bem talhado,
+ Tudo aqui se reduz a terra fria.
+ Perfeita formosura em tenra idade,
+ Qual flor, que antecipada foi colhida,
+ Murchada está da mão da morte dura.
+ Como não morre Amor de piedade?
+ Não della, que se foi á clara vida;
+ Mas de si, que ficou em noute escura.
+
+
+CLXXXVII.
+
+ Ditosa penna, como a mão que a guia
+ Com tantas perfeições da subtil arte,
+ Que quando com razão venho a louvar-te,
+ Em teus louvores perco a phantasia.
+ Porém Amor, que effeitos varios cria,
+ De ti cantar me manda em toda parte,
+ Não em plectro belligero de Marte,
+ Mas em suave e branda melodia.
+ Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo,
+ Voando se levanta e te pregoa,
+ Agora que ninguem te levantava.
+ E porque immortal sejas, eis Apolo
+ Te offerece de flores a coroa,
+ Que ja de longo tempo te guardava.
+
+
+CLXXXVIII.
+
+ Espanta crescer tanto o crocodilo
+ Só por seu limitado nascimento;
+ Que, se maior nascêra, mais isento
+ Estivera de espanto o patrio Nilo.
+ Em vão levantará meu baixo estilo
+ Vosso Pontifical, novo ornamento;
+ Pois no ventre o immortal merecimento
+ Vo-lo talhou, para despois vesti-lo.
+ Tardou, mas veio; que a quem mais merece
+ Vir o premio mais tarde he sempre certo,
+ Inda que vez alguma venha cedo.
+ Os ceos, que do primeiro estão mais perto,
+ Mais devagar se movem. Quem conhece,
+ Sôbre aquelle segredo, este segredo!
+
+
+CLXXXIX.
+
+ Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante,
+ Com qu'a celeste máchina sustenta;
+ Honrou a Homero o engenho, com que intenta
+ Grecia do quarto ceo passá-lo avante;
+ Coroou claro Amor de amor constante
+ A Orpheo, na paz firme e na tormenta;
+ Inspirou a Fortuna, em tudo isenta,
+ A Cesar, de quem foi hum tempo amante;
+ Exaltaste tu, Fama, a gloria alta
+ De Alcides lá no monte em que resides;
+ Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama,
+ Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta,
+ Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides,
+ Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama.
+
+
+CXC.
+
+ Despois que vio Cibele o corpo humano
+ Do formoso Atys seu verde pinheiro,
+ Em piedade o vão furor primeiro
+ Convertido, chorava o grave dano.
+ E, á sua dor fazendo illustre engano,
+ A Jupiter pedio, que o verdadeiro
+ Preço da nobre palma e do loureiro
+ Ao seu pinheiro désse, soberano.
+ Mais lhe concede o filho poderoso
+ Que, crescendo, as estrellas tocar possa,
+ Vendo os segredos lá do ceo superno.
+ Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso
+ Quem se vir coroar da rama vossa,
+ Cantando á vossa sombra verso eterno!
+
+
+CXCI.
+
+ Pois torna por seu Rei e juntamente
+ Por Christo a governar aquella parte
+ Onde se t[~e]e mostrado hum Numa, hum Marte
+ O famoso Luis, justo e valente;
+ O Tejo espere ver de todo o Oriente,
+ Onde tão raros dões o Ceo reparte,
+ Render a tanto esfôrço, aviso e arte,
+ Mil palmas, mil tributos novamente.
+ Os que bebem no Gange, os que no Indo,
+ A quem pouco valêrão lança e escudo,
+ O render-se terão por bom partido.
+ O Euphrates temerá, seu nome ouvindo;
+ Que para delle ver vencido tudo,
+ Ja vio do braço seu tudo vencido.
+
+
+CXCII.
+
+ Agora toma a espada, agora a pena,
+ Estacio nosso, em ambas celebrado,
+ Sendo, ou no salso mar de Marte amado,
+ Ou n'água doce amante da Camena.
+ Cysne sonoro por ribeira amena
+ De mi para cantar-te he cobiçado;
+ Porque não podes tu ser bem cantado
+ De ruda frauta, nem de agreste avena.
+ Se eu, que a penna tomei, tomei a espada,
+ Para poder jogar licença tenho
+ Desta alta influïção de dous Planetas;
+ Com huma e outra luz delles lograda,
+ Tu com pujante braço, ardente engenho,
+ Serás pharo a Soldados e a Poetas.
+
+
+CXCIII.
+
+ Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente
+ Em minha perdição se conjurárão:
+ Os erros e a Fortuna sobejárão;
+ Que para mi bastava Amor somente.
+ Tudo passei; mas tenho tão presente
+ A grande dor das cousas, que passárão,
+ Que ja as frequencias suas me ensinárão
+ A desejos deixar de ser contente.
+ Errei todo o discurso de meus anos;
+ Dei causa a que a Fortuna castigasse
+ As minhas mal fundadas esperanças.
+ De Amor não vi senão breves enganos.
+ Oh quem tanto pudesse, que fartasse
+ Este meu duro Genio de vinganças!
+
+
+CXCIV.
+
+ Cá nesta Babylonia donde mana
+ Materia a quanto mal o mundo cria;
+ Cá donde o puro Amor não t[~e]e valia;
+ Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
+ Cá donde o mal se affina, o bem se dana,
+ E póde mais que a honra a tyrannia;
+ Cá donde a errada e cega Monarchia
+ Cuida que hum nome vão a Deos engana;
+ Cá neste labyrintho onde a Nobreza,
+ O Valor e o Saber pedindo vão
+ Ás portas da Cobiça e da Vileza;
+ Cá neste escuro caos de confusão
+ Cumprindo o curso estou da natureza.
+ Vê se me esquecerei de ti, Sião!
+
+
+CXCV.
+
+ Correm turbas as águas deste rio,
+ Que as rapidas enchentes enturbárão;
+ Os florecidos campos se seccárão;
+ Intratavel se fez o valle e frio.
+ Passou, como o verão, o ardente estio;
+ Humas cousas por outras se trocárão:
+ Os fementidos fados ja deixárão
+ Do mundo o regimento, ou desvario.
+ Ja o tempo a ordem sua t[~e]e sabida;
+ O mundo não; mas anda tão confuso,
+ Que parece que delle Deos se esquece.
+ Casos, opiniões, natura, e uso,
+ Fazem que nos pareça desta vida
+ Que não ha nella mais do que parece.
+
+
+CXCVI.
+
+ Vós outros, que buscais repouso certo
+ Na vida, com diversos exercicios;
+ A quem, vendo do mundo os beneficios,
+ O regimento seu fica encoberto;
+ Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto
+ Novas honras e cegos sacrificios;
+ Que, por castigo igual de antiguos vicios,
+ Quer Deos que andem as cousas por acêrto.
+ Não cahio neste modo de castigo
+ Quem poz culpa á Fortuna, quem somente
+ Crê que acontecimentos ha no mundo.
+ A grande experiencia he grão perigo:
+ Mas o que a Deos he justo e evidente
+ Parece injusto aos homens e profundo.
+
+
+CXCVII.
+
+ Para se namorar do que criou,
+ Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura.
+ Vêde que tal seria esta feitura
+ Que para si o seu Feitor guardou!
+ No seu alto conceito te formou
+ Primeiro que a primeira criatura,
+ Para que unica fosse a compostura
+ Que de tão longo tempo se estudou.
+ Não sei se digo em tudo quanto baste
+ Para exprimir as raras qualidades
+ Que quiz criar em ti quem tu criaste.
+ Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste
+ Huma só, tres tão altas dignidades,
+ Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste.
+
+
+CXCVIII.
+
+ Desce do ceo immenso Deos benino
+ Para encarnar na Virgem soberana.
+ Porque desce o divino a cousa humana?
+ Para subir o humano a ser divino.
+ Pois como vem tão pobre e tão menino,
+ Rendendo-se ao poder da mão tyrana?
+ Porque vem receber morte inhumana
+ Para pagar de Adão o desatino.
+ He possivel que os dous o fructo comem
+ Que de quem lhes deo tanto foi vedado?
+ Si; porque o proprio ser de deoses tomem.
+ E por esta razão foi humanado?
+ Si; porque foi com causa decretado,
+ Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem.
+
+
+CXCIX.
+
+ Dos ceos á terra desce a mor Belleza,
+ Une-se á nossa carne, e a faz nobre;
+ E, sendo a humanidade d'antes pobre,
+ Hoje subida fica á mor riqueza.
+ Busca o Senhor mais rico a mor pobreza;
+ Que, como ao mundo o seu amor descobre,
+ De palhas vis o corpo tenro cobre,
+ E por ellas o mesmo ceo despreza.
+ Como? Deos em pobreza á terra dece?
+ O qu'he mais pobre tanto lhe contenta,
+ Qu'este somente rico lhe parece.
+ Pobreza este Presepio representa;
+ Mas tanto por ser pobre ja merece,
+ Que quanto mais o he, mais lhe contenta.
+
+
+CC.
+
+ Porque a tamanhas penas se offerece
+ Por o peccado alheio, e êrro insano,
+ O Trino Deos? Porque o sogeito humano
+ Não póde co'o castigo que merece.
+ Quem padecerá as penas que padece?
+ Quem soffrerá deshonra, morte e dano?
+ Quem será, se não for o Soberano
+ Que reina, e servos manda, e obedece?
+ Foi a fôrça do homem tão pequena,
+ Que não pôde soster tanta aspereza,
+ Pois não sosteve a Lei que Deos ordena.
+ Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza
+ Por amor puro; que a mortal fraqueza
+ Foi para o êrro, e não ja para a pena.
+
+
+CCI.
+
+ Despois de haver chorado os meus tormentos,
+ Quer Amor que lhe cante as suas glorias.
+ Canto de huma belleza os vencimentos,
+ De hum longo padecer chóro as memorias.
+ Porém, se as minhas penas são victorias,
+ Por a causa, a meus altos pensamentos;
+ Dilatem-se em larguissimas historias
+ Estes meus gloriosos rendimentos.
+ Mova-se em todo o mundo unico espanto
+ De qu'he, por a belleza qu'eu adoro,
+ Do que cantado tenho premio o pranto.
+ Contente offreço a amor tão triste foro:
+ Que se chôro não ha como o meu canto,
+ Não sei canto melhor qu'este meu chôro.
+
+
+CCII.
+
+ Onde mereci eu tal pensamento
+ Nunca de ser humano merecido?
+ Onde mereci eu ficar vencido
+ De quem tanto me honrou co'o vencimento?
+ Em gloria se converte o meu tormento,
+ Quando vendo-me estou tão bem perdido;
+ Pois não foi tanto mal ser atrevido,
+ Como foi gloria o mesmo atrevimento.
+ Vivo, Senhora, só de contemplar-vos;
+ E pois esta alma tenho tão rendida,
+ Em lagrimas desfeito acabarei.
+ Porque não me farão deixar de amar-vos
+ Receios de perder por vós a vida;
+ Que por vós vezes mil a perderei.
+
+
+CCIII.
+
+ De frescas belvederes rodeadas
+ Estão as puras águas desta fonte;
+ Formosas Nymphas lhes estão defronte,
+ A vencer e a matar acostumadas.
+ Andão contra Cupido levantadas
+ As suas graças, que não ha quem conte:
+ D'outro valle esquecidas, d'outro monte,
+ A vida passão neste socegadas.
+ O seu poder juntou, sua valia
+ Amor, ja não soffrendo este desprêzo,
+ Somente por se ver dellas vingado;
+ Mas, vendo-as, entendeo que não podia
+ De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo,
+ E ficou-se com ellas desarmado.
+
+
+CCIV.
+
+ Nos braços de hum Sylvano adormecendo
+ Se estava aquella Nympha qu'eu adoro,
+ Pagando com a boca o doce foro,
+ Com que os meus olhos foi escurecendo.
+ Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo
+ Que a maior formosura do teu côro
+ Em hum poder tão vil perca o decoro
+ Que o merito maior lhe está devendo?
+ Eu levarei daqui por presupposto
+ Desta nova estranheza que fizeste,
+ Que em ti não póde haver cousa segura.
+ Que, pois o claro lume, o bello rosto
+ Áquelle monstro tão disforme déste,
+ Não creio qu'haja Amor, senão Ventura.
+
+
+CCV.
+
+ Quem diz que Amor he falso, ou enganoso,
+ Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
+ Sem falta lhe terá bem merecido
+ Que lhe seja cruel, ou rigoroso,
+ Amor he brando, he doce, e he piedoso:
+ Quem o contrário diz não seja crido;
+ Seja por cego e apaixonado tido,
+ E aos homens, e inda aos deoses odioso.
+ Se males faz Amor, em mi se vem;
+ Em mi mostrando todo o seu rigor,
+ Ao mundo quiz mostrar quanto podia.
+ Mas todas suas iras são d'Amor;
+ Todos estes seus males são hum bem,
+ Qu'eu por todo outro bem não trocaria.
+
+
+CCVI.
+
+ Formosa Beatriz, tendes taes geitos
+ N'hum brando revolver dos olhos bellos,
+ Que só no contemplá-los, se não ve-los,
+ Se inflammão corações e humanos peitos.
+ Em toda perfeição são tão perfeitos,
+ Que o desengano dão de merecê-los:
+ Não póde haver quem possa conhecê-los,
+ Sem nelle Amor fazer grandes effeitos.
+ Sentirão, por meu mal, tão graves danos
+ Os meus, que com os ver cegos e tristes
+ Ficarão sem prazer, co'a luz perdida.
+ Mas ja que vós com elles me feristes,
+ Tornai-me a ver com elles mais humanos,
+ E deixareis curada esta ferida.
+
+
+CCVII.
+
+ Alegres campos, verdes, deleitosos,
+ Suaves me serão vossas boninas,
+ Em quanto forem vistas das meninas
+ Dos olhos de Ignez bella tão formosos.
+ Dos meus, que vos serão sempre invejosos
+ Por não verem estrellas tão divinas,
+ Sereis regados d'águas peregrinas,
+ Soprados de suspiros amorosos.
+ E vós, douradas flores, por ventura
+ Se Ignez quizer fazer de meus amores
+ Exp'riencias na folha derradeira,
+ Mostrai-lhe, para ver minha fé pura,
+ O bem que sempre quiz, formosas flores;
+ Qu'então não sentirei que mal me queira.
+
+
+CCVIII.
+
+ Ondados fios de ouro, onde enlaçado.
+ Continuamente tenho o pensamento;
+ Que quanto mais vos sólta o fresco vento,
+ Mais preso fico então de meu cuidado;
+ Amor, d'huns bellos olhos sempre armado,
+ Me combate co'as fôrças do tormento,
+ Provando da minha alma o soffrimento
+ Que á justa lei da paz trago obrigado.
+ Assi que em vosso gesto mais que humano
+ Amo a paz juntamente e o perigo;
+ E em amar hum e outro não me engano.
+ Muitas vezes dizendo estou comigo
+ Que, pois he tal a causa de meu dano,
+ He justa a guerra, he justa a paz que sigo.
+
+
+CCIX.
+
+ Amor, que em sonhos vãos do pensamento
+ Paga o zêlo maior de seu cuidado,
+ Em toda condição, em todo estado,
+ Tributario me fez de seu tormento.
+ Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento
+ De quanto tenho a Amor sacrificado,
+ Nas mãos da ingratidão despedaçado
+ Por prêza vai do eterno esquecimento.
+ Mas quando muito, em fim, cresça o perigo,
+ A que perpetuamente me condena
+ Amor, que amor não he, mas inimigo;
+ Tenho hum grande descanso em minha pena,
+ Que a gloria do querer, que tanto sigo,
+ Não póde ser co'os males mais pequena.
+
+
+CCX.
+
+ Nem o tremendo estrépito da guerra
+ Com armas, com incendios espantosos
+ Que despachão pelouros perigosos,
+ Bastantes a abalar huma alta serra,
+ Podem pôr medo a quem nenhum encerra,
+ Despois que vio os olhos tão formosos,
+ Por quem o horror nos casos pavorosos
+ De mi todo se aparta e se desterra,
+ A vida posso ao fogo e ferro dar,
+ E perdê-la em qualquer duro perigo,
+ E nelle, como phenix, renovar.
+ Não póde mal haver para comigo,
+ De qu'eu ja me não possa bem livrar,
+ Senão do que me ordena Amor imigo.
+
+
+CCXI.
+
+ Fiou-se o coração, de muito isento,
+ De si, cuidando mal que tomaria
+ Tão illicito amor, tal ousadia,
+ Tal modo nunca visto de tormento.
+ Mas os olhos pintárão tão a tento
+ Outros que vistos t[~e]e na phantasia,
+ Que a razão, temerosa do que via,
+ Fugio, deixando o campo ao pensamento.
+ Ó Hippolyto casto, que de geito
+ De Phedra tua madrasta foste amado,
+ Que não sabia ter nenhum respeito;
+ Em mi vingou Amor teu casto peito:
+ Mas está deste aggravo tão vingado,
+ Que se arrepende ja do que t[~e]e feito.
+
+
+CCXII.
+
+ Quem quizer ver d'amor huma excellencia
+ Onde sua fineza mais se apura,
+ Attente onde me põe minha ventura,
+ Porque de minha fé faça exp'riencia.
+ Onde lembranças mata a larga ausencia,
+ Em temeroso mar, em guerra dura,
+ A saudade alli'stá mais segura,
+ Quando risco maior corre a paciencia.
+ Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado,
+ Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição,
+ Ou em sublime e próspera ventura;
+ Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado;
+ Que até na dura morte me acharão
+ Na lingua o nome, e n'alma a vista pura.
+
+
+CCXIII.
+
+ Los ojos que con blando movimiento
+ Al pasar enternecen la alma mia,
+ Si detener pudiera solo un dia,
+ Pudiera bien libraria de tormento.
+ Deste tan amoroso sentimiento
+ El importuno mal se acabaria;
+ Ó tambien su accidente creceria
+ Para acabar la vida en un momento.
+ Oh! si ya tu esquivez me permitiese
+ Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso,
+ A manos de tus ojos yo muriese!
+ Oh si los detuvieras! cuan dichoso
+ Seria aquel momento en que me viese
+ Vida en ellos cobrar, cobrar reposo!
+
+
+CCXIV.
+
+ No bastaba que amor puro y ardiente
+ Por términos la vida me quitase;
+ Mas que la muerte así se apresurase
+ Con un deshumanisimo accidente?
+ No pretendió mi alma, aunque lo siente,
+ Que el riguroso curso se atajase,
+ Porque nunca morir se exprimentase
+ Desamado el que amó tan dulcemente.
+ Mas vuestra voluntad tan poderosa
+ Con esas gracias vuestras ordenaron
+ Crueldad asi imposible, ó nunca oída.
+ Aquel frio desden, y la amorosa
+ Furia, de un golpe solo, me quitaron
+ Con dós contrarias muertes una vida.
+
+
+CCXV.
+
+ Ayudame, Señora, á hacer venganza
+ De tal selvatiquez, de tal rudeza,
+ Pues de mi poquedad, de mi bajeza
+ Osado á ti elevaba la esperanza.
+ Á esa tu perfeccion, que no se alcanza,
+ Á esas sublimes cumbres de belleza,
+ Donde una vez llegó naturaleza,
+ Mas de volver perdió la confianza.
+ Aquello que en ti miro contemplando,
+ (Que apenas contemplarlo me consiente)
+ Contemplándolo mas, menos lo espero.
+ Si gloria de mi pena en ti se siente,
+ Derrama en mí tus iras, desamando;
+ Que al ofenderme mas yo mas te quiero.
+
+
+CCXVI.
+
+ O claras águas deste blando rio,
+ Que en vos al natural estais pintando
+ El frondífero adorno con que alzando
+ Se vá á los cielos este bosque umbrio;
+ Así las lluvias, así el Austro frio
+ Jamás puedan veniros enturbiando,
+ Que os vais del seco estio preservando
+ Con socorreros deste llanto mio.
+ Y cuando en vos Marfisa se mirare,
+ Mi figura, cual veis desfallecida,
+ Ante sus claros ojos puesta sea.
+ Y si por mí de vos los apartare,
+ De verme alli mostrándose ofendida,
+ En pena de no verme no se vea.
+
+
+CCXVII.
+
+ Mil veces entre sueños tu figura,
+ O bella Ninfa, claramente veo;
+ Y cuando mas la miro, mas deseo
+ Gozar libre de sueños su hermosura.
+ En tanto que este dulce engaño dura,
+ Vivo en la vana gloria que poseo:
+ Mas cuanto allí se eleva mi deseo,
+ Viene a caer despierto en sombra escura.
+ Duéleme el despertar por contemplarte;
+ Que si bien sé te huelgas de no verme,
+ Huélgome de ser ciego por mirarte.
+ Mas si quiero de engaños mantenerme,
+ Y tú quieres me pierda por amarte,
+ Sin gran ganancia no podré perderme.
+
+
+CCXVIII.
+
+ Mi gusto y tu beldad se desposaron,
+ Terceros por mi mal mis ojos fueron:
+ Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron
+ Un hijo hermoso á quien amor llamaron.
+ Tan fuera de compás le regalaron,
+ Que cuando mas alegres estuvieron,
+ Sin entender el mal que produjeron,
+ Perdidos por amores se miraron.
+ La beldad desposada deste duelo,
+ Vino á parir un monstro con dós alas;
+ La madre es la soberbia, el niño el zelo.
+ Oh madre que á tu hijo en todo igualas!
+ Quien mortal hace al inmortal abuelo,
+ Y al padre mortal da inmortales zalas?
+
+
+CCXIX.
+
+ Si el fuego que me enciende, consumido
+ De algun mas suelto Aquario ser pudiese;
+ Si el alto suspirar me convertiese
+ En aire por el aire desparcido;
+ Si un horrible rumor siendo sentido,
+ La alma á dejar el cuerpo redujese;
+ Ó por estos mis ojos al mar fuese
+ Este mi cuerpo en llanto convertido;
+ Nunca podria la fortuna airada,
+ Com todos sus horrores, sus espantos,
+ Derrocar la alma mia de su gloria.
+ Porque en vuestra beldad ya transformada,
+ Ni del Estigio lago eternos llantos
+ Os podrian quitar de mi memoria.
+
+
+CCXX.
+
+ Que me quereis perpétuas saudades?
+ Com qu'esperanças inda me enganais?
+ O tempo, que se vai, não torna mais,
+ E se torna, não tornão as idades.
+ Razão he ja, ó annos, que vos vades,
+ Porque estes tão ligeiros que passais,
+ Nem todos para hum gôsto sois iguais,
+ Nem sempre são conformes as vontades.
+ Aquillo a que ja quiz he tão mudado,
+ Que quasi he outra cousa; porque os dias
+ T[~e]e o primeiro gôsto ja damnado.
+ Esperanças de novas alegrias,
+ Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado,
+ Que do contentamento são espias.
+
+
+CCXXI.
+
+ Oh rigorosa ausencia desejada
+ De mi sempre, mas nunca conhecida!
+ Saudade, n'outro tempo tão temida,
+ Como em meu damno agora exprimentada!
+ Ja rigorosamente começada
+ Tendes vossa esperança em minha vida;
+ Mas tanto, que ja temo que opprimida
+ Sejais com ella cedo, ou acabada.
+ Os dias mais alegres me entristecem;
+ As noites, com cuidados as desconto,
+ Em que sem vós sem conto me parecem.
+ Eu desejando espero, e os annos conto;
+ Mas com a vida, em fim, elles fallecem:
+ Nem basta á carne enfêrma esprito pronto.
+
+
+CCXXII.
+
+ Ay! quien dará á mis ojos una fuente
+ De lágrimas que manen noche y dia?
+ Respirara si quiera la alma mia,
+ Llorando lo pasado, y lo presente.
+ Quien me diera apartado de la gente,
+ De mi dolor siguiendo la porfia
+ Con la triste memoria y fantasia
+ Del bien por quien mal tanto así se siente!
+ Quien me dará palabras con que iguale
+ El duro agravio que el amor me ha hecho,
+ Donde tan poco el sufrimiento vale?
+ Quien me abrirá profundamente el pecho,
+ Dó está escrito el secreto que no sale,
+ Con tanto dolor mio, á mi despecho?
+
+
+CCXXIII.
+
+ Con razon os vais, aguas, fatigando
+ Por llegar dó sereis bien recebidas;
+ Y en aquel mar inmenso convertidas,
+ Que ya de tantos dias vais buscando.
+ Triste de aquel que siempre anda llorando
+ Las vanas esperanzas ya perdidas,
+ Y con dolor las lágrimas vertidas
+ Nunca al fin pretendido van llegando!
+ Vosotras sin traer derecha via,
+ Al término llegais tan deseado,
+ Por mas que os embarace el gran rodeo;
+ Mas yo siempre afligido noche y dia,
+ Por un camino, que no llevo errado,
+ Jamás puedo llegar donde deseo.
+
+
+CCXXIV.
+
+ Oh cese ya, Señor, tu dura mano!
+ No llegues tanto al cabo con mi vida;
+ Baste el estar por ti tan consumida,
+ Que ya no se halla en ella lugar sano.
+ Ay estraña hermosura! ay deshumano
+ Hado, á que nunca puedo hallar salida!
+ Si tú de tu piedad no eres movida,
+ Roto el hilo vital verás temprano.
+ Un blando desamor, un amor blando,
+ Bien basta para un hombre tan perdido,
+ Que de su mal ningun remedio espera.
+ Y si estimas en poco el ver cual ando,
+ Aqui me tienes ante ti rendido:
+ Viva tu gusto, mi esperanza muera.
+
+
+CCXXV.
+
+ Dulces engaños de mis ojos tristes,
+ Cuan vivo despertais mi pensamiento!
+ Aquello que pudiera dar contento,
+ En sombra de pintura lo volvistes.
+ De blando sobresalto enternecistes
+ Con vista arrebatada el sentimiento;
+ Mas no le asegurastes un momento
+ Aqueste vano bien que le ofrecistes.
+ Veo que la figura era fingida,
+ Y no aquella que en sí mi alma esconde,
+ Aunque en esto se llega al natural:
+ Así escucha mi llanto, así responde,
+ Así se condolece de mi vida,
+ Como si fuera el propio original.
+
+
+CCXXVI.
+
+ Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste,
+ Como si alguno alegre yo esperara?
+ Como, o Tajo, al pasar esa tu clara
+ Agua, no la alteraste, y no me hundiste?
+ El paso me cerraste, el pecho abriste,
+ O mi ventura, de mi bien avara!
+ Á Dios, montañas de hermosura rara;
+ Á Dios, mi corazon, que no partiste.
+ Si adonde quedas en dichosa suerte
+ No bebieres las aguas del olvido,
+ En tanto bien no quieras olvidarme.
+ Cantando mi dolor llora mi muerte;
+ Porque hasta el hueco monte sin sentido
+ Suelta su ronca voz por consolarme.
+
+
+CCXXVII.
+
+ Levantai, minhas Tagides, a frente,
+ Deixando o Tejo ás sombras nemorosas;
+ Dourai o valle umbroso, as frescas rosas,
+ E o monte com as árvores frondente.
+ Fique de vós hum pouco o rio ausente,
+ Cessem agora as lyras numerosas,
+ Cesse vosso lavor, Nymphas formosas,
+ Cesse da fonte vossa a grã corrente.
+ Vinde a ver a Theodosio grande e claro,
+ A quem 'stá offrecendo maior canto
+ Na cithara dourada o louro Apolo.
+ Minerva do saber dá-lhe o dom raro,
+ Pallas lhe dá o valor de mais espanto,
+ E a Fama o leva ja de pólo a pólo.
+
+
+CCXXVIII.
+
+ Vós, Nymphas da Gangetica espessura,
+ Cantae suavemente, em voz sonora,
+ Hum grande Capitão que a roxa Aurora
+ Dos filhos defendeo da noite escura.
+ Ajuntou-se a caterva negra e dura,
+ Que na Aurea Chersoneso affouta mora,
+ Para lançar do charo ninho fóra
+ Aquelles que mais podem que a ventura.
+ Mas hum forte leão, com pouca gente,
+ A multidão tão fera como necia,
+ Destruindo castiga e torna fraca.
+ Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente
+ Mais do que Leonidas fez em Grecia,
+ O nobre Leoniz fez em Malaca.
+
+
+CCXXIX.
+
+ Alma gentil, que á firme eternidade
+ Subiste clara e valerosamente,
+ Cá durará de ti perpetuamente
+ A fama, a gloria, o nome e a saudade.
+ Não sei se he mor espanto em tal idade
+ Deixar de teu valor inveja á gente,
+ Se hum peito de diamante, ou de serpente,
+ Fazeres que se mova a piedade.
+ Invejosa da tua acho mil sortes,
+ E a minha mais que todas invejosa,
+ Pois ao teu mal o meu tanto igualaste.
+ Oh ditoso morrer! sorte ditosa!
+ Pois o que não se alcança com mil mortes,
+ Tu com huma só morte o alcançaste.
+
+
+CCXXX.
+
+ Debaixo desta pedra sepultada
+ Jaz do mundo a mais nobre formosura,
+ A quem a morte, só de inveja pura,
+ Sem tempo sua vida t[~e]e roubada,
+ Sem ter respeito áquella assi estremada
+ Gentileza de luz, que a noite escura
+ Tornava em claro dia; cuja alvura
+ Do sol a clara luz tinha eclipsada.
+ Do sol peitada foste, cruel morte,
+ Para o livrar de quem o escurecia;
+ E da lua, que ante ella luz não tinha.
+ Como de tal poder tiveste sorte?
+ E se a tiveste, como tão asinha
+ Tornaste a luz do mundo em terra fria?
+
+
+CCXXXI.
+
+ Imagens vãas me imprime a phantasia;
+ Discursos novos acha o pensamento;
+ Com que dão á minha alma grão tormento
+ Cuidados de cem annos n'hum só dia.
+ Se fim grande tivessem, bem sería
+ Responder a esperança ao fundamento:
+ Mas o fado não corre tão a tento,
+ Que reserve á razão sua valia.
+ Caso e Fortuna pódem acertar;
+ Mas se por accidente dão victoria,
+ Sempre o favor da Fama he falsa historia.
+ Excede ao saber, determinar:
+ Á constancia se deve toda a gloria:
+ O ânimo livre he digno de memoria.
+
+
+CCXXXII.
+
+ Quanta incerta esperança, quanto engano!
+ Quanto viver de falsos pensamentos!
+ Pois todos vão fazer seus fundamentos
+ Só no mesmo em qu'está seu proprio dano.
+ Na incerta vida estribão de hum humano;
+ Dão credito a palavras que são ventos;
+ Chórão despois as horas e os momentos,
+ Que rírão com mais gôsto em todo o ano.
+ Não haja em apparencias confianças;
+ Entendei que o viver he de emprestado;
+ Que o de que vive o mundo são mudanças.
+ Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
+ Somente amando aquellas esperanças
+ Que durão para sempre com o amado.
+
+
+CCXXXIII.
+
+ Mal, que de tempo em tempo vás crescendo,
+ Quem te visse de hum bem acompanhado!
+ A vida passaria descansado,
+ Da morte não temêra o rosto horrendo.
+ Se os vãos cuidados fôra convertendo
+ Em suspiros que dão outro cuidado,
+ Oh quão prudente, oh quão affortunado
+ A capella do louro irá tecendo!
+ Tempo he ja de esquecer contentamentos
+ Passados, co'a esperança que passou,
+ E de que triumphem novos pensamentos.
+ A fé, que viva n'alma me ficou,
+ Dê ja fim aos caducos ardimentos
+ A que o passado bem se condemnou.
+
+
+CCXXXIV.
+
+ Oh quanto melhor he o supremo dia
+ Da mansa morte, que o do nascimento!
+ Oh quanto melhor he hum só momento,
+ Que livra de annos tantos de agonia!
+ De alcançar outro bem cesse a porfia;
+ Cesse todo applicado pensamento
+ De tudo quanto dá contentamento,
+ Pois só contenta ao corpo a terra fria.
+ O que do seu fez Deos seu despenseiro,
+ T[~e]e mais estreita conta que lhe dar:
+ Então parece rico o ovelheiro.
+ Triste de quem no dia derradeiro
+ T[~e]e o suor alheio por pagar,
+ Pois a alma ha de vender por o dinheiro!
+
+
+CCXXXV.
+
+ Como podes (oh cego peccador!)
+ Estar em teus errores tão isento,
+ Sabendo que esta vida he hum momento,
+ Se comparada com a eterna for?
+ Não cuides tu que o justo Julgador
+ Deixará tuas culpas sem tormento,
+ Nem que passando vai o tempo lento
+ Do dia de horrendíssimo pavor.
+ Não gastes horas, dias, mezes, anos,
+ Em seguir de teus damnos a amisade
+ De que despois resultão mores danos.
+ E pois de teus enganos a verdade
+ Conheces, deixa ja tantos enganos,
+ Pedindo a Deos perdão com humildade.
+
+
+CCXXXVI.
+
+ Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
+ Qualquer alma farão segura e forte;
+ Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte,
+ T[~e]e do confuso mundo o regimento.
+ Effeitos mil revolve o pensamento,
+ E não sabe a que causa se reporte:
+ Mas sabe que o que he mais que vida e morte
+ Não se alcança de humano entendimento.
+ Doctos varões darão razões subidas;
+ Mas são as exp'riencias mais provadas:
+ E por tanto he melhor ter muito visto.
+ Cousas ha hi que passão sem ser cridas:
+ E cousas cridas ha sem ser passadas.
+ Mas o melhor de tudo he crer em Christo.
+
+
+CCXXXVII.
+
+ De Babel sôbre os rios nos sentámos,
+ De nossa doce patria desterrados,
+ As mãos na face, os olhos derribados,
+ Com saudades de ti, Sião, chorámos.
+ Os orgãos nos salgueiros pendurámos,
+ Em outro tempo bem de nós tocados;
+ Outro era elle, por certo, outros cuidados;
+ Mas por deixar saudades os deixâmos.
+ Aquelles que captivos nos trazião
+ Por cantigas alegres perguntavão:
+ Cantai (nos dizem) hymnos de Sião.
+ Sôbre tal pena, pena tal nos dão,
+ Pois tyranicamente pretendião
+ Que cantassem aquelles que choravão.
+
+
+CCXXXVIII.
+
+ Sôbre os rios do Reino escuro, quando
+ Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão,
+ Lagrimas nossos olhos derramárão,
+ Por ti, Sião divina, suspirando,
+ Os que hião nossas almas infestando,
+ De contino em error, as captivárão;
+ E em vão por nossos Psalmos perguntárão;
+ Que tudo era silencio miserando.
+ Dizendo estamos: Como cantaremos
+ As acceitas canções a Deos benino,
+ Quando a contrarios seus obedecemos?
+ Mas ja, Senhor só Santo, determino,
+ Deixando viciosissimos extremos,
+ Os cantos proseguir de Amor Divino.
+
+
+CCXXXIX.
+
+ Em Babylonia sôbre os rios, quando
+ De ti, Sião sagrada, nos lembrámos,
+ Alli com grã saudade nos sentámos,
+ O bem perdido, miseros, chorando.
+ Os instrumentos musicos deixando,
+ Nos estranhos salgueiros pendurámos,
+ Quando aos cantares, que ja em ti cantámos,
+ Nos estavão imigos incitando.
+ Ás esquadras dizemos inimigas:
+ Como hemos de cantar em terra alhea
+ As cantigas de Deos, sacras cantigas?
+ Se a lembrança eu perder que me recrea
+ Cá nestas penosissimas fadigas,
+ _Oblivioni detur dextra mea._
+
+
+CCXL.
+
+ Aponta a bella Aurora, luz primeira,
+ Que a grã nova nos deo do claro dia:
+ Vesti-vos, corações, ja de alegria,
+ E recebei da vida a Mensageira.
+ Da humana Redempção nasce a Terceira:
+ Alegra-te, Divina Monarchia;
+ Da terra terás cedo a companhia,
+ Do ceo verás tambem a nossa feira.
+ De tal obra se espanta a natureza,
+ Confuso fica de temor o inferno,
+ Vendo a que nasce isenta da defeza.
+ Lei geral era posta desde eterno;
+ Mas o Senhor da Lei toda limpeza
+ Para o Sacrario seu guardou Materno.
+
+
+CCXLI.
+
+ Porque a terra no ceo agasalhasse,
+ O ceo na terra Deos agasalhou:
+ Lá não cabendo, cá se accommodou,
+ Porque lá, de cá indo, se alargasse.
+ Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse,
+ Por o homem a ser homem Deos chegou:
+ Seu divino poder tanto humanou,
+ Porque o humano em divino se tornasse.
+ Vêde bem o que deo e recebeo:
+ Não se perca hum bem tanto da memoria:
+ Deo-nos a vida, a morte padeceo.
+ Trocou por nossa pena a sua gloria;
+ Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo;
+ Porque amor foi auctor desta victoria.
+
+
+CCXLII.
+
+ Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo.
+ Para quem? Para o genero he humano.
+ Que faz delle? Hum remedio soberano.
+ Para que? Para a culpa e triste pranto.
+ E que obra? Reduzir Lusbel a espanto.
+ Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano.
+ Que foi? A morte deo com hum engano.
+ Tanto pôde? Sem falta pôde tanto.
+ Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo.
+ A que desce? A subir a creatura.
+ Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo.
+ He escada para ir lá? E a mais segura.
+ Quem o obrigou? De amor só se venceo.
+ Que amava este Feitor? Sua feitura.
+
+
+CCXLIII.
+
+ Oh Arma unicamente só triumphante,
+ Propugnaculo só de nossas vidas,
+ Por quem forão ganhadas as perdidas
+ Com que o Tartaro horrendo andava ovante!
+ Sigua-se esta bandeira militante
+ Por quem são taes victorias conseguidas,
+ Por quantas almas, della divertidas,
+ No Ponente errão cá, lá no Levante.
+ Oh Arvore sublime, e marchetada
+ De branco e carmesi, de ouro embutida,
+ Dos rubis mais preciosos esmaltada,
+ E de trophéos mais claros guarnecida!
+ Á vida a morte vimos em ti dada,
+ Para qu'em ti se désse á morte a vida.
+
+
+CCXLIV.
+
+ Aos homens hum só homem poz espanto,
+ E o poz a toda a humana natureza;
+ Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza,
+ Porqu'antes que nascesse era ja Santo.
+ Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto,
+ Qu'entre os nascidos houve a mor alteza;
+ Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza,
+ Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto.
+ Aquella voz foi elle sonorosa,
+ No concavo dos Orbes resonante,
+ E que a Carne inculpavel baptizou;
+ Quem do mor Pae ouvio a voz amante;
+ Quem a subtil pergunta industriosa
+ Com sincera resposta socegou.
+
+
+CCXLV.
+
+ Vós só podeis, sagrado Evangelista,
+ Angelico abrazado Seraphim,
+ E na sciencia mais alto Cherubim,
+ Do que he mais sabio Amor ser Coronista.
+ Divina e real Aguia, cuja vista
+ Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim,
+ De Jacob mais querido Benjamim,
+ Quem mais campêa de Joseph na lista.
+ Apostolo, e Propheta, e Patriarca,
+ Ao Principe dos Ceos o mais acceito,
+ Qu'em seu seio dormindo então mais via.
+ A quem o mesmo Deos por irmão marca;
+ Quem por filho da Mãe unica feito,
+ Em corpo e alma goza o claro dia.
+
+
+CCXLVI.
+
+ Como louvarei eu, Seraphim santo,
+ Tanta humildade, tanta penitencia,
+ Castidade, e pobreza, e paciencia,
+ Com este meu inculto e rudo canto?
+ Argumento que ás Musas põe espanto,
+ Que faz muda a grandiloqua eloquencia.
+ Oh imagem, qu'a Divina Providencia
+ De si viva em vós fez para bem tanto!
+ Fostes de Santos huma rara mina;
+ Almas de mil a mil ao ceo mandastes
+ Do mundo, que perdido reformastes.
+ E não roubaveis só com a doutrina
+ As vontades mortaes, mas a Divina;
+ Pois os seus rubis cinco lhe roubastes.
+
+
+CCXLVII.
+
+ Ditosas almas, que ambas juntamente
+ Ao ceo de Venus e de Amor voastes,
+ Onde hum bem que tão breve cá lograstes,
+ Estais logrando agora eternamente;
+ Aquelle estado vosso tão contente,
+ Que só por durar pouco triste achastes,
+ Por outro mais contente ja o trocastes,
+ Onde sem sobresalto o bem se sente.
+ Triste de quem cá vive tão cercado,
+ Na amorosa fineza, de hum tormento
+ Que a gloria lhe perturba mais crescida!
+ Triste, pois me não val o soffrimento,
+ E Amor para mais damno me t[~e]e dado
+ Para tão duro mal tão larga vida!
+
+
+CCXLVIII.
+
+ Contente vivi ja, vendo-me isento
+ Deste mal de que a muitos queixar via:
+ Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria
+ Discordia e semrazão, guerra e tormento.
+ Enganou-me co'o nome o pensamento:
+ (Quem com tal nome não se enganaria?)
+ Agora tal estou, que temo hum dia
+ Em que venha a faltar-me o soffrimento.
+ Com desesperação, e com desejo
+ Me paga o que por elle estou passando,
+ E inda está do meu mal mal satisfeito.
+ Pois sôbre tantos damnos inda vejo
+ Para dar-me outros mil hum olhar brando,
+ E para os não curar hum duro peito.
+
+
+CCXLIX.
+
+ Deixa Apollo o correr tão apressado,
+ Não sigas essa Nympha tão ufano:
+ Não te leva o amor, leva-te o engano
+ Com sombras de algum bem a mal dobrado.
+ E quando seja amor, será forçado;
+ E se forçado for, será teu dano.
+ Hum parecer não queiras mais que humano
+ Em hum sylvestre adôrno ver tornado.
+ Não percas por hum vão contentamento
+ A vista que te faz viver contente;
+ Modera em teu favor o pensamento.
+ Porque menos mal he, tendo-a presente,
+ Soffrer sua crueza, e teu tormento,
+ Que sentir sua ausencia eternamente.
+
+
+CCL.
+
+ Nas Cidades, nos bosques, nas florestas,
+ Nos valles, e nos montes, teus louvores
+ Sempre te cantem musicos pastores
+ Nas manhãas frias, nas ardentes sestas.
+ E neste Templo donde manifestas
+ E repartes agora teus favores,
+ Com Psalmos, hymnos, e com varias flores
+ Sejão celebres sempre as tuas festas.
+ Estes te offreção pés, ess'outros mãos;
+ D'aquelles pendão sôbre os teus altares
+ Monstros do mar, de servidão prisões.
+ Que eu cuidados, enganos e affeições,
+ Muito maiores monstros, e milhares
+ Te deixo aqui de pensamentos vãos.
+
+
+CCLI.
+
+ Vi queixosos de Amor mil namorados,
+ E nenhuns inda vi com seus louvores;
+ E aquelle que mais chora o mal de amores,
+ Vejo menos fugir de seus cuidados.
+ Se das dores de Amor sois mal tratados,
+ Porque tanto buscais de Amor as dores?
+ E se tambem as tendes por favores,
+ Porque dellas fallais como aggravados?
+ Não queirais alegria achar alg[~u]a
+ No Amor, porque he composto de tristeza,
+ Na fortuna que acheis mais agradavel.
+ Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a,
+ Em quem nunca se vio outra firmeza,
+ Que não seja a de ser sempre mudavel.
+
+
+CCLII.
+
+ Se lagrimas choradas de verdade
+ O marmore abrandar podem mais duro,
+ Porque as minhas que nascem de amor puro
+ Hum coração não rendem a piedade?
+ Por vós perdi, Senhora, a liberdade,
+ E nem da propria vida estou seguro.
+ Rompei desse rigor o forte muro,
+ Não passe tanto avante a crueldade.
+ Ao prezar de desprezos dae ja fim:
+ Não vos chamem cruel; nome devido
+ A quem se ri de quem suspira e ama.
+ Abrandai esse peito endurecido,
+ Por o que toca a vós, ja não por mim,
+ Que eu aventuro a vida, e vós a fama.
+
+
+CCLIII.
+
+ Ja me fundei em vãos contentamentos,
+ Quando delles vivi todo enganado
+ De hum phantastico bem, e de hum cuidado,
+ De que só cuidão cegos pensamentos.
+ Passava dias, horas e momentos,
+ Deste enleio de amores tão pagado,
+ Que tinha só por bem-aventurado
+ Quem só por elles mais bebia os ventos.
+ Mas agora que ja cahi na conta,
+ Desengana-me quanto me enganava;
+ Que tudo o tempo dá, tudo descobre.
+ O Amor mais caudaloso menos monta.
+ Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava,
+ Aquelle que de amores he mais pobre.
+
+
+CCLIV.
+
+ Em huma lapa toda tenebrosa,
+ Adonde bate o mar com furia brava,
+ Sôbre h[~u]a mão o rosto, vi qu'estava
+ Huma Nympha gentil, mas cuidadosa.
+ Igualmente que linda, lastimosa,
+ Aljofar dos seus olhos distillava:
+ O mar os seus furores applacava
+ Com ver cousa tão triste e tão formosa.
+ Alguma vez na horrivel penedia
+ Os bellos olhos punha com brandura,
+ Bastante a desfazer sua dureza.
+ Com angelica voz assi dizia:
+ Ah! que falte mais vezes a ventura
+ Onde sobeja mais a natureza!
+
+
+CCLV.
+
+ Se em mim, ó alma, vive mais lembrança
+ Que aquella só da gloria de querer-vos,
+ Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos,
+ E de ver-vos tambem toda a esperança.
+ Veja-se em mi tão rustica esquivança,
+ Que possa indigno ser de conhecer-vos;
+ E, quando em mor empenho de aprazer-vos,
+ Vos offenda, se em mi houver mudança.
+ Confirmado estou ja nesta certeza:
+ Examine-me vossa crueldade,
+ Exprimente-se em mi vossa dureza.
+ Conhecei ja de mi tanta verdade;
+ Pois em penhor e fé desta pureza
+ Tributo vos fiz ser o que he vontade.
+
+
+CCLVI.
+
+ Ilustre Gracia, nombre de una moza,
+ Primera malhechora en este caso
+ Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso,
+ Sugeto digno de immortal coroza;
+ Si en medio de la Iglesia no reboza
+ El manto á vuestro rostro tan devaso,
+ Por vos dirán las gentes recio y paso:
+ Veis quien con el demonio se retoza.
+ Puede mover los montes sin trabajo;
+ Con palabras el curso al agua enfrena;
+ Por las ondas hará camino enjuto.
+ Averguenza su patria y rico Tajo,
+ Que por ella hombres lleva, mas que arena,
+ De que paga al infierno gran tributo.
+
+
+CCLVII.
+
+ Qual t[~e]e a borboleta por costume,
+ Qu'enlevada na luz da acesa vella,
+ Dando vai voltas mil, até que nella
+ Se queima agora, agora se consume:
+ Tal eu correndo vou ao vivo lume
+ D'esses olhos gentis, Aonia bella;
+ E abrazo-me, por mais que com cautella
+ Livrar-me a parte racional presume.
+ Conheço o muito a que se atreve a vista,
+ O quanto se levanta o pensamento,
+ O como vou morrendo claramente;
+ Porém não quer Amor que lhe resista,
+ Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento,
+ Qual em gloria maior está contente.
+
+
+CCLVIII.
+
+ Lembranças de meu bem, doces lembranças
+ Que tão vivas estais nesta alma minha,
+ Não queirais mais de mi, se os bens que tinha
+ Em poder vêdes todos de mudanças.
+ Ai cego Amor! ai mortas esperanças
+ De qu'eu em outro tempo me matinha!
+ Agora deixareis quem vos sostinha;
+ Acabarão co'a vida as confianças.
+ Co'a vida acabarão, pois a ventura
+ Me roubou n'hum momento aquella gloria,
+ Que, quando tão grande he, tão pouco dura.
+ Oh se apoz o prazer fôra a memoria!
+ Ao menos estivera a alma segura
+ De ganhar-se com ella mais victoria.
+
+
+CCLIX.
+
+ Formosos olhos, que cuidado dais
+ Á mesma luz do sol mais clara e pura;
+ Que sua esclarecida formosura,
+ Com tanta gloria vossa, atraz deixais;
+ Se por serdes tão bellos desprezais
+ A fineza de amor que vos procura,
+ Pois tanto vêdes, vêde que não dura
+ O vosso resplandor quanto cuidais.
+ Colhei, colhei do tempo fugitivo
+ E de vossa belleza o doce fruto;
+ Qu'em vão fóra de tempo he desejado.
+ E a mi, que por vós morro, e por vós vivo,
+ Fazei pagar a Amor o seu tributo,
+ Contente de por vós lho haver pagado.
+
+
+CCLX.
+
+ Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes,
+ En lágrimas tratais la noche el dia,
+ Mirad si es lágrima esta que os envia
+ Aquel sol por quien vos tantas vertistes.
+ Si vos me asegurais, pues ya la vistes,
+ Que es lágrima, será ventura mia;
+ Por empleadas bien desde hoy tendria
+ Las muchas que por ella sola distes.
+ Mas cualquier cosa mucho deseada,
+ Aunque viendo se esté, nunca es creida;
+ Y menos esta, nunca imaginada.
+ Pero della aseguro, si es fingida,
+ Que basta ser por lágrima enviada,
+ Para que sea por lágrima tenida.
+
+
+CCLXI.
+
+ T[~e]e feito os olhos neste apartamento
+ Hum mar de saudosa tempestade,
+ Que póde dar saudade á saudade,
+ Sentimentos ao proprio sentimento.
+ Em dor vai convertido o soffrimento,
+ Em pena convertida a piedade;
+ A razão tão vencida da vontade,
+ Qu'escravo faz do mal o entendimento.
+ A lingua não alcança o qu'a alma sente.
+ E assi, se alguem quizer em algum'hora
+ Saber que cousa he dor não comprehendida,
+ Parta-se do seu bem, porque exprimente
+ Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra
+ Partir-se do viver para ter vida.
+
+
+CCLXII.
+
+ A peregrinação d'hum pensamento,
+ Que dos males fez hábito e costume,
+ Tanto da triste vida me consume,
+ Quanto cresce na causa do tormento.
+ Leva a dor de vencida ao soffrimento;
+ Mas a alma está, de entregue, tão sem lume,
+ Qu'enlevada no bem que haver presume,
+ Não faz caso do mal qu'está de assento.
+ De longe receei (se me valêra)
+ O perigo que tanto á porta vejo,
+ Quando não acho em mi cousa segura.
+ Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!)
+ Qu'entendimentos presos do desejo
+ Não t[~e]e remedio mais que o da ventura.
+
+
+CCLXIII.
+
+ Acho-me da fortuna salteado;
+ O tempo vai fugindo presuroso,
+ Deixando-me da vida duvidoso,
+ E cada instante mais desesperado.
+ Trocou-se o meu descuido em tal cuidado,
+ Que donde a gloria he mais, he mais penoso.
+ Nem vivo de perder-me receoso,
+ Nem de poder ganhar-me confiado.
+ Qualquer ave nos montes mais agrestes,
+ Qualquer fera na cova repousando,
+ T[~e]e horas de alegria: eu todas tristes.
+ Vós, saudosos olhos, que o quizestes,
+ (Pois com tormento Amor me está pagando)
+ Chorai, como que vêdes, o que vistes.
+
+
+CCLXIV.
+
+ Se no que tenho dito vos offendo,
+ Não he a intenção minha de offender-vos;
+ Qu'inda que não pretenda merecer-vos,
+ Não vos desmerecer sempre pretendo.
+ Mas he meu fado tal, segundo entendo,
+ Que, por quanto ganhava em entender-vos,
+ Não me deixa atégora conhecer-vos,
+ Por a mi proprio m'ir desconhecendo.
+ Os dias ajudados da ventura
+ A cada qual de si dão desenganos,
+ E a outros soe da-lo a desventura.
+ Qual destas sirva a mi, dirão os danos
+ Ou gostos que eu tiver, em quanto dura
+ Esta vida, tão larga em poucos anos.
+
+
+CCLXV.
+
+ Doce contentamento ja passado,
+ Em que todo o meu bem só consistia,
+ Quem vos levou de minha companhia,
+ E me deixou de vós tão apartado?
+ Quem cuidou que se visse neste estado
+ Naquellas breves horas d'alegria,
+ Quando minha ventura consentia
+ Que d'enganos vivesse meu cuidado?
+ Fortuna minha foi cruel e dura
+ Aquella que causou meu perdimento,
+ Com a qual ninguem póde ter cautella.
+ Nem se engane nenhuma creatura;
+ Que não póde nenhum impedimento
+ Fugir o que lh'ordena sua estrella.
+
+
+CCLXVI.
+
+ Sempre, cruel Senhora, receei,
+ Medindo vossa grã desconfiança,
+ Que désse em desamor vossa tardança,
+ E que me perdesse eu, pois vos amei.
+ Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei,
+ Pois n'outro amor ja tendes esperança.
+ Tão patente será vossa mudança,
+ Quanto eu encobri sempre o que vos dei.
+ Dei-vos a alma, a vida e o sentido;
+ De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora.
+ Prometteis, e negais o mesmo Amor.
+ Agora tal estou, que de perdido,
+ Não sei por onde vou, mas algum'hora
+ Vos dará tal lembrança grande dor.
+
+
+CCLXVII.
+
+ Se a fortuna inquieta e mal olhada,
+ Que a justa lei do Ceo comsigo infama,
+ A vida quieta, qu'ella mais dasama,
+ Me concedêra honesta e repousada;
+ Pudéra ser que a Musa, alevantada
+ Com luz de mais ardente e viva flama,
+ Fizera ao Tejo lá na patria cama
+ Adormecer co'o som da lyra amada.
+ Porém, pois o destino trabalhoso,
+ Que m'escurece a Musa fraca e lassa,
+ Louvor de tanto preço não sustenta;
+ A vossa, de louvar-me pouco escassa,
+ Outro sogeito busque valeroso,
+ Tal qual em vós ao mundo se apresenta.
+
+
+CCLXVIII.
+
+ Este amor, que vos tenho limpo e puro,
+ De pensamento vil nunca tocado,
+ Em minha tenra idade começado,
+ Tê-lo dentro nesta alma só procuro.
+ D'haver nelle mudança estou seguro,
+ Sem temer nenhum caso, ou duro fado,
+ Nem o supremo bem, ou baixo estado,
+ Nem o tempo presente, nem futuro.
+ A bonina e a flor asinha passa;
+ Tudo por terra o inverno e estio deita;
+ Só para meu amor he sempre Maio.
+ Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
+ E qu'essa ingratidão tudo me engeita,
+ Traz este meu amor sempre em desmaio.
+
+
+CCLXIX.
+
+ A formosura desta fresca serra,
+ E a sombra dos verdes castanheiros,
+ O manso caminhar destes ribeiros,
+ Donde toda a tristeza se desterra;
+ O rouco som do mar, a estranha terra,
+ O esconder do sol pelos outeiros,
+ O recolher dos gados derradeiros,
+ Das nuvens pelo ar a branda guerra:
+ Em fim, tudo o que a rara natureza
+ Com tanta variedade nos offrece,
+ M'está (se não te vejo) magoando.
+ Sem ti tudo me enoja, e me aborrece;
+ Sem ti perpetuamente estou passando
+ Nas mores alegrias môr tristeza.
+
+
+CCLXX.
+
+ Sustenta meu viver huma esperança
+ Derivada de hum bem tão desejado,
+ Que quando nella estou mais confiado,
+ Mor dúvida me põe qualquer mudança.
+ E quando inda este bem na mór pujança
+ De seus gostos me t[~e]e mais enlevado,
+ Me atormenta então ver eu qu'alcançado
+ Será por quem de vós não t[~e]e lembrança.
+ Assi que, nestas redes enlaçado,
+ A penas dou a vida, sustentando
+ Huma nova materia a meu cuidado.
+ Suspiros d'alma tristes arrancando,
+ Dos silvos d'huma pedra acompanhado,
+ Estou materias tristes lamentando.
+
+
+CCLXXI.
+
+ Ja não sinto, Senhora, os desenganos,
+ Com que minha affeição sempre tratastes,
+ Nem ver o galardão, que me negastes,
+ Merecido por fé ha tantos anos.
+ A mágoa chóro só, só chóro os danos
+ De ver por quem, Senhora, me trocastes;
+ Mas em tal caso vós só me vingastes
+ De vossa ingratidão, vossos enganos.
+ Dobrada gloria dá qualquer vingança,
+ Que o offendido toma do culpado,
+ Quando se satisfaz com causa justa;
+ Mas eu de vossos males e esquivança,
+ De que agora me vejo bem vingado,
+ Não a quizera tanto á vossa custa.
+
+
+CCLXXII.
+
+ Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse
+ Essa grã perfeição e gentileza,
+ Logo deo por sentença, que a crueza
+ Em vosso peito amor accrescentasse.
+ Determinou, que nada me apartasse,
+ Nem desfavor cruel, nem aspereza;
+ Mas qu'em minha rarissima firmeza
+ Vossa isenção cruel se executasse.
+ E, pois tendes aqui offerecida
+ Est'alma vossa a vosso sacrificio,
+ Acabai de fartar vossa vontade.
+ Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
+ Acabará morrendo em seu officio,
+ Sua fé defendendo e lealdade.
+
+
+CCLXXIII.
+
+ Eu vivia de lagrimas isento,
+ N'hum engano tão doce e deleitoso,
+ Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso
+ Não valião mil glorias hum tormento.
+ Vendo-me possuir tal pensamento,
+ De nenhuma riqueza era invejoso;
+ Vivia bem, de nada receoso,
+ Com doce amor e doce sentimento.
+ Cobiçosa a Fortuna, me tirou
+ Deste meu tão contente e alegre estado;
+ E passou-se este bem, que nunca fôra:
+ Em trôco do qual bem só me deixou
+ Lembranças, que me mátão cada hora,
+ Trazendo-me á memoria o bem passado.
+
+
+CCLXXIV.
+
+ Indo o triste pastor todo embebido
+ Na sombra de seu doce pensamento,
+ Taes queixas espalhava ao leve vento,
+ Co'hum brando suspirar d'alma sahido:
+ A quem me queixarei, cego, perdido,
+ Pois nas pedras não acho sentimento?
+ Com quem fallo? A quem digo meu tormento?
+ Que onde mais chamo, sou menos ouvido.
+ Ó bella Nympha, porque não respondes?
+ Porque o olhar-me tanto m'encareces?
+ Porque queres que sempre me querelle?
+ Eu quanto mais te busco, mais te escondes!
+ Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
+ Assim que co'o mal cresce a causa delle.
+
+
+CCLXXV.
+
+ Dizei, Senhora, da belleza idêa,
+ Para fazerdes esse aureo crino,
+ Onde fostes buscar esse ouro fino?
+ De qu'escondida mina ou de que vêa?
+ Dos vossos olhos essa luz Phebêa,
+ Esse respeito, de hum Imperio dino?
+ Se o alcançastes com saber divino,
+ Se com encantamentos de Medéa?
+ De qu'escondidas conchas escolhestes
+ As perlas preciosas Orientais,
+ Que fallando mostrais no doce riso?
+ Pois vos formastes tal, como quizestes,
+ Vigiai-vos de vós, não vos vejais,
+ Fugi das fontes; lembre-vos Narciso.
+
+
+CCLXXVI.
+
+ Na ribeira do Euphrates assentado,
+ Discorrendo me achei pela memoria
+ Aquelle breve bem, aquella gloria,
+ Que em ti, doce Sião, tinha passado.
+ Da causa de meus males perguntado
+ Me foi: Como não cantas a historia
+ De teu passado bem, e da victoria
+ Que sempre de teu mal has alcançado?
+ Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
+ O mal, indaque grave e rigoroso?
+ Canta pois, e não chores dessa sorte.
+ Respondi com suspiros: Quando crece
+ A muita saudade, o piedoso
+ Remedio he não cantar, senão a morte.
+
+
+CCLXXVII.
+
+ Chorai, Nymphas, os fados poderosos
+ Daquella soberana formosura.
+ Onde forão parar? na sepultura?
+ Aquelles Reaes olhos graciosos?
+ Oh bens do mundo falsos e enganosos!
+ Que mágoas para ouvir! Que tal figura
+ Jaza sem resplandor na terra dura
+ Com tal rosto e cabellos tão formosos!
+ Das outras que será! pois poder teve
+ A morte sôbre cousa tanto bella,
+ Que ella eclipsava a luz do claro dia.
+ Mas o mundo não era digno della,
+ Por isso mais na terra não esteve,
+ Ao ceo subio, que ja se lhe devia.
+
+
+CCLXXVIII.
+
+ Senhora ja desta alma, perdoae
+ De hum vencido de Amor os desatinos,
+ E sejão vossos olhos tão beninos
+ Com este puro amor, que d'alma sae.
+ A minha pura fé sómente olhae,
+ E vêde meus extremos se são finos;
+ E se de alguma pena forem dinos,
+ Em mim, Senhora minha, vos vingae.
+ Não seja a dor que abraza o triste peito
+ Causa por onde pene o coração,
+ Que tanto em firme amor vos he sujeito.
+ Guardae-vos do que alguns, dama, dirão,
+ Que sendo raro em tudo vosso objeito,
+ Possa morar em vós ingratidão.
+
+
+CCLXXIX.
+
+ Doce sonho, suave e soberano,
+ Se por mais longo tempo me durára!
+ Ah quem de sonho tal nunca acordára,
+ Pois havia de ver tal desengano!
+ Ah deleitoso bem! ah doce engano!
+ Se por mais largo espaço me enganára!
+ Se então a vida misera acabára,
+ De alegria e prazer morrêra ufano.
+ Ditoso, não estando em mi, pois tive
+ Dormindo o que acordado ter quizera.
+ Olhae com que me paga meu destino!
+ Em fim, fóra de mim ditoso estive.
+ Em mentiras ter dita razão era,
+ Pois sempre nas verdades fui mofino.
+
+
+CCLXXX.
+
+ Diana prateada, esclarecida
+ Com a luz que do claro Phebo ardente,
+ Por ser de natureza transparente,
+ Em si, como em espelho, reluzia,
+ Cem mil milhões de graças lhe influia,
+ Quando me appareceo o excellente
+ Raio de vosso aspecto, diferente
+ Em graça e em amor do que sohia.
+ Eu vendo-me tão cheio de favores,
+ E tão propinquo a ser de todo vosso,
+ Louvei a hora clara, e a noite escura,
+ Pois nella déstes côr a meus amores:
+ Donde collijo claro que não posso
+ De dia para vós ja ter ventura.
+
+
+CCLXXXI.
+
+ Em quanto Phebo os montes accendia
+ Do ceo com luminosa claridade,
+ Por conservar illesa a castidade
+ Na caça o tempo Delia despendia.
+ Venus, qu' então de furto descendia
+ Por captivar de Anchises a vontade,
+ Vendo Diana em tanta honestidade,
+ Quasi zombando della, lhe dizia:
+ Tu vás com tuas redes na espessura
+ Os fugitivos cervos enredando;
+ Mas as minhas enredão o sentido.
+ Melhor he (respondia a deosa pura)
+ Nas redes leves cervos ir tomando,
+ Que tomar-te a ti nellas teu marido.
+
+
+CCLXXXII.
+
+ N'hum tão alto lugar, de tanto preço,
+ Este meu pensamento posto vejo,
+ Que desfallece nelle inda o desejo,
+ Vendo quanto par mi o desmereço.
+ Quando esta tal baixeza em mi conheço,
+ Acho que cuidar nelle he grão despejo,
+ E que morrer por elle me he sobejo
+ E mór bem para mi, do que mereço.
+ O mais que natural merecimento
+ De quem me causa hum mal tão duro e forte,
+ O faz que vá crescendo de hora em hora.
+ Mas eu não deixarei meu pensamento,
+ Porque inda qu'este mal me causa a morte,
+ _Un bel morir tutta la vita honora._
+
+
+CCLXXXIII.
+
+ Quantas penas, Amor, quantos cuidados,
+ Quantas lagrimas tristes sem proveito,
+ De que mil vezes olhos, rosto e peito,
+ Por ti, cego, me viste ja banhados;
+ Quantos mortaes suspiros derramados
+ Do coração por tanto a ti sujeito,
+ Quantos males, em fim, tu me tens feito,
+ Todos forão em mi bem empregados.
+ A tudo satisfaz (confesso-te isto)
+ Huma só vista branda e amorosa
+ De quem me captivou minha ventura.
+ Oh sempre para mi hora ditosa!
+ Que posso temer ja, pois tenho visto,
+ Com tanto gôsto meu, tanta brandura?
+
+
+CCLXXXIV.
+
+ Posto me t[~e]e fortuna em tal estado,
+ E tanto a seus pés me t[~e]e rendido!
+ Não tenho que perder, ja de perdido,
+ Nem tenho que mudar, ja de mudado.
+ Todo bem para mi he acabado:
+ D'aqui dou o viver ja por vivido;
+ Que aonde o mal he tão conhecido,
+ Tambem o viver mais será'scusado.
+ Se me basta querer, a morte quero,
+ Que bem outra esperança não convem:
+ E curarei hum mal com outro mal.
+ E pois do bem tão pouco bem espero,
+ Ja que o mal este só remedio tem,
+ Não me culpem em qu'rer remedio tal.
+
+
+CCLXXXV.
+
+ Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes,
+ Y en lágrimas pasais la noche y dia,
+ Mirad si es llanto este que os envia
+ Aquella por quien vos tantas vertistes:
+ Sentid, mis ojos, bien esta que vistes;
+ Y si ella lo es, oh gran ventura mia!
+ Por muy bien empleadas las habria
+ Mil cuentos que por esta sola distes.
+ Mas una cosa mucho deseada,
+ Aunque se vea cierta, no es creida,
+ Cuanto mas esta, que me es enviada.
+ Pero digo, que aunque sea fingida,
+ Que basta que por lágrima sea dada,
+ Porque sea por lágrima tenida.
+
+
+CCLXXXVI.
+
+ Que póde ja fazer minha ventura,
+ Que seja para meu contentamento?
+ Ou como fazer devo fundamento
+ De cousa que o não t[~e]e, nem he segura?
+ Que pena póde ser tão certa e dura,
+ Que possa ser maior que meu tormento?
+ Ou como receará meu pensamento
+ Os males, se com elles mais se apura?
+ Como quem se costuma de pequeno
+ Com peçonha criar por mão sciente,
+ Da qual o uso ja o t[~e]e seguro:
+ Assim de acostumado co'o veneno,
+ O uso de soffrer meu mal presente
+ Me faz não sentir ja nada o futuro.
+
+
+
+
+ECLOGAS
+
+
+ECLOGA I.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+UMBRANO, FRONDELIO, AONIA.
+
+ Que grande variedade vão fazendo,
+ Frondelio amigo, as horas apressadas!
+ Como se vão as cousas convertendo
+ Em outras cousas várias e insperadas!
+ Hum dia a outro dia vai trazendo
+ Por suas mesmas horas ja ordenadas;
+ Mas quão conformes são na quantidade,
+ Tão differentes são na qualidade.
+ Eu vi ja deste campo as várias flores
+ Ás estrellas do ceo fazendo inveja;
+ Adornados andar vi os pastores
+ De quanto por o mundo se deseja;
+ E vi co'o campo competir nas côres
+ Os trajes, de obra tanta e tão sobeja,
+ Que se a rica materia não faltava,
+ A obra de mais rica sobejava.
+ E vi perder seu preço ás brancas rosas
+ E quasi escurecer-se o claro dia
+ Diante de h[~u]as mostras perigosas,
+ Que Venus mais que nunca engrandecia.
+ As pastoras, emfim, vi tão formosas,
+ Que o Amor de si mesmo se temia;
+ Mas mais temia o pensamento falto
+ De não ser para ter temor tão alto.
+ Agora tudo está tão differente,
+ Que move os corações a grande espanto;
+ E parece que Jupiter potente
+ Se enfada ja d'o mundo durar tanto.
+ O Tejo corre turvo e descontente,
+ As aves deixão seu suave canto,
+ E o gado, inda que a herva lhe fallece,
+ Mais que da falta della se emmagrece.
+ FRONDELIO.
+ Umbrano irmão, decreto he da natura,
+ Inviolavel, fixo e sempiterno,
+ Que a todo bem succeda desventura,
+ E não haja prazer que seja eterno:
+ Ao claro dia segue a noite escura,
+ Ao suave verão o duro inverno;
+ E se ha cousa que saiba ter firmeza,
+ He somente esta lei da natureza.
+ Toda alegria grande e sumptuosa
+ A porta abrindo vem ao triste estado:
+ Se hum'hora vejo alegre e deleitosa,
+ Temendo estou do mal apparelhado.
+ Não vês que mora a serpe venenosa
+ Entre as flores do fresco e verde prado?
+ Ah! não te engane algum contentamento;
+ Que mais instavel he que o pensamento.
+ E praza a Deos que o triste e duro fado
+ De tamanhos desastres se contente;
+ Que sempre hum grande mal inopinado
+ He mais do que o espera a incauta gente:
+ Que vejo este carvalho que queimado
+ Tão gravemente foi do raio ardente.
+ Não seja ora prodigio que declare
+ Que o barbaro cultor meus campos are.
+ UMBRANO.
+ Em quanto do seguro azambujeiro
+ Nos pastores de Luso houver cajados,
+ Como valor antiguo, que primeiro
+ Os fez no mundo tão assinalados,
+ Não temas tu, Frondelio companheiro,
+ Qu'em algum tempo sejão sobjugados,
+ Nem que a cerviz indomita obedeça
+ A outro jugo qualquer que se lhe offreça.
+ E postoque a soberba se levante
+ De inimigos a torto e a direito,
+ Não crêas tu que a fôrça repugnante
+ Do fero e nunca ja vencido peito,
+ Que desde quem possue o monte Atlante
+ Adonde bebe o Hydaspe t[~e]e sujeito,
+ O possa nunca ser de fôrça alheia,
+ Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia.
+ FRONDELIO.
+ Umbrano, a temeraria segurança
+ Qu'em fôrça, ou em razão não se assegura,
+ He falsa e vãa; que a grande confiança
+ Não he sempre ajudada da ventura.
+ Que lá junto das aras da esperança,
+ Némesis moderada, justa e dura,
+ Hum freio lhe está pondo e lei terribil,
+ Que os limites não passe do possibil.
+ E se attentares bem os grandes danos
+ Que se nos vão mostrando cada dia,
+ Poras freio tambem a esses enganos
+ Que te está figurando a ousadia.
+ Tu não vês como os lobos Tingitanos,
+ Apartados de toda cobardia,
+ Mátão os cães do gado guardadores,
+ E não somente os cães, mas os pastores?
+ Pois o grande curral, seguro e forte,
+ Do alto monte Atlas não ouviste
+ Que com sanguinolenta e fera morte
+ Despovoado foi por caso triste?
+ Oh triste caso! oh desastrada sorte,
+ Contra quem fôrça humana não resiste!
+ Que alli tambem da vida foi privado
+ O meu Tionio, ainda em flor cortado!
+ UMBRANO.
+ Em lagrimas me banha rosto e peito
+ Desse caso terrivel a memoria,
+ Quando vejo quão sabio e quão perfeito,
+ E quão merecedor de longa historia
+ Era esse teu pastor, que sem direito
+ Deo ás Parcas a vida transitoria.
+ Mas não ha hi quem d'herva o gado farte,
+ Nem de juvenil sangue o fero Marte.
+ Porém, se te não for muito pezado,
+ (Ja qu'esta triste morte me lembraste)
+ Canta-me desse caso desastrado
+ Aquelles brandos versos que cantaste,
+ Quando hontem, recolhendo o manso gado,
+ De nós-outros pastores te apartaste;
+ Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia,
+ Não te podia ouvir como queria.
+ FRONDELIO.
+ Como queres renove ao pensamento
+ Tamanho mal, tamanha desventura?
+ Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento,
+ Para os que tristes são, he falsa cura.
+ Mas, pois te move tanto o sentimento
+ Da morte de Tionio, triste e escura,
+ Eu porei teu desejo em doce effeito,
+ Se a dor me não congela a voz no peito.
+ UMBRANO.
+ Canta agora, pastor, que o gado pace
+ Entre as humidas hervas socegado;
+ E lá nas altas serras, onde nace,
+ O sacro Tejo á sombra recostado,
+ Co'os seus olhos no chão, a mão na face,
+ Está para te ouvir apparelhado;
+ E com silencio triste estão as Nymphas
+ Dos olhos destillando claras lymphas.
+ O prado as flores brancas e vermelhas
+ Está suavemente presentando;
+ As doces e solícitas abelhas,
+ Com susurro agradavel vão voando;
+ As candidas, pacíficas ovelhas,
+ Das hervas esquecidas, inclinando
+ As cabeças estão ao som divino
+ Que faz, passando, o Tejo crystallino.
+ O vento d'entre as árvores respira,
+ Fazendo companhia ao claro rio;
+ Nas sombras a ave garrula suspira,
+ Sua mágoa espalhando ao vento frio.
+ Toca, Frondelio, toca a doce lira;
+ Que d'aquelle verde alamo sombrio
+ A branda Philomela entristecida
+ Ao mais saudoso canto te convida.
+ FRONDELIO.
+ Aquelle dia as águas não gostárão
+ As mimosas ovelhas; e os cordeiros
+ O campo enchêrão d'amorosos gritos.
+ E não se pendurárão dos salgueiros
+ As cabras, de tristeza; mas negárão
+ O pasto a si, e o leite a os cabritos.
+ Prodigios infinitos
+ Mostrava aquelle dia,
+ Quando a Parca queria
+ Princípio dar ao fero caso triste.
+ E tu tambem (ó corvo) o descobriste,
+ Quando da mão direita em voz escura,
+ Voando, repetiste
+ A tyrannica lei da morte dura.
+ Tionio meu, o Tejo crystallino,
+ E as árvores que ja desamparaste
+ Chórão o mal de tua ausencia eterna.
+ Não sei porque tão cedo nos deixaste!
+ Mas foi consentimento do Destino,
+ Por quem o mar e a terra se governa.
+ A noite sempiterna,
+ Que tu tão cedo viste
+ Cruel, acerba e triste,
+ Sequer de tua idade não te dera
+ Que lográras a fresca primavera?
+ Não usára comnosco tal crueza,
+ Que nem nos montes fera,
+ Nem pastor ha no campo sem tristeza.
+ Os Faunos, certa guarda dos pastores,
+ Ja não seguem as Nymphas na espessura,
+ Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho.
+ Tudo, qual vês, he cheio de tristura:
+ Ás abelhas o campo nega as flores,
+ Como ás flores a aurora nega o orvalho.
+ Eu que cantando espalho
+ Tristezas todo o dia,
+ A frauta que soia
+ Mover as altas árvores tangendo,
+ Se me vai de tristeza enrouquecendo;
+ Que tudo vejo triste neste monte:
+ E tu tambem correndo
+ Manas envolta e triste, ó clara fonte.
+ As Tagides no rio, e na aspereza
+ Do monte as Oreádas, conhecendo
+ Quem te obrigou ao duro e fero Marte;
+ Como em geral sentença vão dizendo,
+ Que não póde no mundo haver tristeza
+ Em cuja causa amor não tenha parte.
+ Porqu'elle, enfim, dest'arte
+ Nos olhos saudosos,
+ Nos passos vagarosos,
+ E no rosto, que Amor com phantasia
+ Da pallida viola lhe tingia,
+ A todos de si dava sinal certo
+ Do fogo que trazia;
+ Que nunca soube amor ser encoberto.
+ Ja diante dos olhos lhe voavão
+ Imagens e phantasticas pinturas,
+ Exercicios do falso pensamento;
+ Ja por as solitarias espessuras
+ Entre os penedos sós, que não fallavão,
+ Fallava e descobria seu tormento.
+ Em longo esquecimento
+ De si, todo embebido,
+ Andava tão perdido,
+ Que quando algum pastor lhe perguntava
+ A causa da tristeza que mostrava,
+ Como quem para penas só vivia,
+ Sorrindo, lhe tornava:
+ Se não vivesse triste, morreria.
+ Mas como este tormento o sinalou,
+ E tanto no seu rosto se mostrasse,
+ Entendendo-o ja bem o pae sisudo,
+ Porque do pensamento lho tirasse,
+ Longe da causa delle o apartou;
+ Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo.
+ Oh falso Marte rudo,
+ Das vidas cobiçoso!
+ Que donde o generoso
+ Peito resuscitava em tanta gloria
+ De seus Antecessores a memoria,
+ Alli, fero e cruel, lhe destruiste,
+ Por injusta victoria,
+ Primeiro que o cuidado, a vida triste.
+ Parece-me, Tionio, que te vejo,
+ Por tingires a lança cobiçoso
+ Naquelle infido sangue Mauritano,
+ No Hispanico ginete bellicoso,
+ Que ardendo tambem vinha no desejo
+ De atropellar por terra ao Tingitano.
+ Oh confiado engano!
+ Oh encurtada vida!
+ Que a virtude opprimida
+ Da multidão forçosa do inimigo
+ Não pôde defender-se do perigo:
+ Porqu'assi o Destino o permittio;
+ E assi levou comsigo
+ O mais gentil pastor que o Tejo vio.
+ Qual o mancebo Euryalo enredado
+ Entre o poder dos Rutulos, fartando
+ As íras da soberba e dura guerra;
+ Do cristallino rosto a côr mudando,
+ Cujo purpureo sangue, derramado
+ Por as alvas espaldas, tinge a serra;
+ Que como flor, que a terra
+ Lhe nega o mantimento,
+ Porque o tempo avarento
+ Tambem o largo humor lhe t[~e]e negado,
+ O collo inclina languido e cansado:
+ Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito
+ A quem to tinha dado;
+ Qu'este he somente eterno e infinito.
+ Da congelada boca a alma pura,
+ Co'o nome juntamente da inimiga
+ E excellente Marfida, derramava.
+ E tu, gentil Senhora, não te obriga
+ A pranto sempiterno a morte dura
+ De quem por ti somente a vida amava?
+ Por ti aos ecos dava
+ Accentos numerosos;
+ Por ti aos bellicosos
+ Exercicios se deo do fero Marte.
+ E tu ingrata o amor ja n'outra parte
+ Porás, como acontece ao fraco intento:
+ Que, emfim, emfim, dest'arte
+ Se muda o feminino pensamento.
+ Pastores deste valle ameno e frio,
+ Que de Tionio o caso desastrado
+ Quereis nas altas serras que se conte;
+ Hum tumulo, de flores adornado,
+ Lhe edificai ao longo deste rio,
+ Que a vela enfreie ao duro navegante:
+ E o lasso caminhante,
+ Vendo tamanha mágoa,
+ Arraze os olhos d'ágoa,
+ Lendo na pedra dura o verso escrito,
+ Que diga assi: _Memoria sou, que grito_
+ _Para dar testimunho em toda parte
+ Do mais gentil Esprito
+ Que tirárão do mundo Amor e Marte_.
+ UMBRANO.
+ Qual o quieto somno aos cansados
+ Debaixo de algum'árvore sombria;
+ Ou qual aos sequiosos encalmados
+ O vento respirante e a fonte fria:
+ Taes me forão teus versos delicados,
+ Teu numeroso canto e melodia:
+ E ainda agora o tom suave e brando
+ Os ouvidos me fica adormentando.
+ Em quanto os peixes humidos tiverem
+ As areosas covas deste rio,
+ E correndo estas águas conhecerem
+ Do largo mar o antiguo senhorio;
+ E em quanto estas hervinhas pasto derem
+ Ás petulantes cabras, eu te fio
+ Que em virtude dos versos que cantaste
+ Sempre viva o pastor que tanto amaste.
+ Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta,
+ E dos montes as sombras se accrescentão;
+ De flores mil o claro ceo se esmalta,
+ Que tão ledas aos olhos se presentão;
+ Levemos por o pé desta serra alta
+ Os gados, que ja agora se contentão
+ Do que comido t[~e]e, Frondelio amigo:
+ Anda; que até o outeiro irei comtigo.
+ FRONDELIO.
+ Antes por este valle, amigo Umbrano,
+ Se t'aprouver, levemos as ovelhas;
+ Porque, se eu por acêrto não me engano,
+ De lá me sôa hum eco nas orelhas:
+ O doce accento não parece humano.
+ E, se em contrário tu não m'aconselhas,
+ Eu quero descobrir que cousa seja;
+ Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja.
+ UMBRANO.
+ Comtigo vou, que quanto mais me chego,
+ Mais gentil me parece a voz que ouviste,
+ Peregrina, excellente; e não te nego
+ Que me faz cá no peito a alma triste.
+ Vês como t[~e]e os ventos em socêgo?
+ Nenhum rumor da serra lhe resiste:
+ Nenhum passaro vôa, mas parece
+ Que, do canto vencido, lhe obedece.
+ Porém, irmão, melhor me parecia
+ Que não fôssemos lá; que estorvaremos;
+ Mas sobidos nest'árvore sombria,
+ Todo o valle de aqui descobriremos.
+ Os çurrões e cajados, todavia,
+ Neste comprido tronco penduremos:
+ Para subir fica homem mais ligeiro.
+ Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.
+ FRONDELIO.
+ Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres:
+ Subirás sem trabalho e sem ruido;
+ E despois que subido lá 'stiveres,
+ Dar-me-has a mão de cima; que he partido.
+ Mas primeiro me dize, se o puderes
+ Ver, donde nasce o canto nunca ouvido;
+ Quem lança o doce accento delicado.
+ Falla; que ja te vejo estar pasmado.
+ UMBRANO.
+ Cousas não costumadas na espessura,
+ Que nunca vi, Frondelio, vejo agora:
+ Formosas Nymphas vejo na verdura,
+ Cujo divino gesto o ceo namora.
+ Huma de desusada formosura,
+ Que das outras parece ser Senhora,
+ Sôbre hum triste sepulcro, não cessando,
+ Está perlas dos olhos destillando.
+ De todas estas altas semidêas,
+ Qu'em tôrno estão do corpo sepultado,
+ Humas, regando as humidas arêas,
+ De flores t[~e]e o tumulo adornado;
+ Outras, queimando lagrimas Sabêas,
+ Enchem o ar de cheiro sublimado;
+ Outras em ricos pannos, mais avante,
+ Envolvem brandamente hum novo infante.
+ Huma, que d'entre as outras se apartou,
+ Com gritos, que a montanha entristecêrão,
+ Diz, que despois que a morte a flor cortou
+ Que as estrellas somente merecêrão,
+ Este penhor charissimo ficou
+ Daquelle, a cujo imperio obedecêrão
+ Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
+ Até o remoto mar da Taprobana.
+ Diz mais, que se encontrar este menino
+ A noite intempestiva, amanhecendo,
+ O Tejo, agora claro e crystallino,
+ Tornará a fera Alecto em vulto horrendo.
+ Mas que, a ser conservado do Destino,
+ As benignas estrellas promettendo
+ Lh'estão o largo pasto de Ampelusa,
+ Co'o monte que em mao ponto vio Medusa.
+ Este prodigio grande Nympha bella
+ Com abundantes lagrimas recita.
+ Porém, qual a eclipsada clara estrella,
+ Qu'entre as outras o ceo primeiro habita:
+ Tal coberta de negro vejo aquella,
+ A quem só n'alma toca a grã desdita.
+ Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver
+ Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer.
+ FRONDELIO.
+ Oh triste morte, esquiva e mal olhada,
+ Que a tantas formosuras injurías!
+ Áquella deosa bella e delicada
+ Sequer algum respeito ter devias.
+ Esta he, por certo, Aonia filha amada
+ Daquelle grã Pastor, qu'em nossos dias
+ Danubio enfreia, manda o claro Ibero,
+ E espanta o morador do Euxino fero.
+ Morreo-nos o excellente e poderoso,
+ (Que a isto está sujeita a vida humana)
+ Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo.
+ Ah lei dos fados, aspera e tyrana!
+ Mas o som peregrino e piedoso,
+ Com que a formosa Nympha a dor engana,
+ Escuta hum pouco. Nota e vê, Umbrano,
+ Quão bem que sôa o verso Castelhano.
+ AONIA.
+ Alma, y primero amor del alma mia,
+ Espíritu dichoso, en cuya vida
+ La mia estuvo en cuanto Dios queria!
+ Sombra gentil de su prision salida,
+ Que del mundo á la patria te volviste,
+ Donde fuiste engendrada y procedida!
+ Recibe allá este sacrificio triste,
+ Que te offrecen los ojos que te vieron;
+ Si la memoria dellos no perdiste.
+ Que, pues los altos Cielos permitieron,
+ Que no te acompañase en tal jornada,
+ Y para ornarse solo á ti quisieron;
+ Nunca permitirán, que acompañada
+ De mi no sea esta memoria tuya,
+ Que está de tus despojos adornada.
+ Ni dejará, por mas que el tiempo huya,
+ De estar en mí con sempiterno llanto,
+ Hasta que vida y alma se destruya.
+ Mas tú, gentil Espíritu, entretanto
+ Que otros campos y flores vas pisando,
+ Y otras zampoñas oyes, y otro canto;
+ Agora embevecido estés mirando
+ Allá en el Empireo aquella Idea,
+ Que el mundo enfrena y rige con su mando;
+ Agora te posuya Citherea
+ En el tercero asiento, ó porque amaste,
+ Ó porque nueva amante allá te sea;
+ Agora el sol te admire, si miraste
+ Como vá por los Signos, encendido,
+ Las tierras alumbrando que dejaste:
+ Si en ver estos milagros no has perdido
+ La memoria de mí, ó fué en tu mano
+ No pasar por las aguas del olvido;
+ Vuelve un poco los ojos á este llano,
+ Verás una, que á ti con triste lloro
+ Sobre este mármol sordo llama en vano.
+ Pero si entraren en los Signos de oro
+ Lágrimas y gemidos amorosos,
+ Que muevan el supremo y santo coro;
+ La lumbre de tus ojos tan hermosos
+ Yo la veré muy presto: y podré verte;
+ Que á pesar de los hados enojosos
+ Tambiem para los tristes hubo muerte.
+
+
+ECLOGA II.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ALMENO e AGRARIO.
+
+ Ao longo do sereno
+ Tejo, suave e brando,
+ N'hum valle d'altas árvores sombrio
+ Estava o triste Almeno
+ Suspiros espalhando
+ Ao vento, e doces lagrimas ao rio.
+ No derradeiro fio
+ O tinha a esperança,
+ Que com doces enganos
+ Lhe sustentára a vida tantos anos
+ N'h[~u]a amorosa e branda confiança;
+ Que quem tanto queria,
+ Parece que não erra, se confia.
+ A noite escura dava
+ Repouso aos cansados
+ Animaes esquecidos da verdura;
+ O valle triste estava
+ Co'huns ramos carregados,
+ Qu'inda a noite fazião mais escura.
+ Offrecia a espessura
+ Hum temeroso espanto:
+ As roucas rãas soavão
+ N'hum charco de água negra e ajudavão
+ Do passaro nocturno o triste canto:
+ O Tejo com som grave
+ Corria mais medonho que suave.
+ Como toda a tristeza
+ No silencio consiste,
+ Parecia que o valle estava mudo.
+ E com esta graveza
+ Estava tudo triste,
+ Porém o triste Almeno mais que tudo:
+ Tomando por escudo
+ De sua doce pena,
+ Para poder soffrella,
+ Estar imaginando a causa della;
+ Qu'em tanto mal he cura bem pequena.
+ Maior o he o tormento,
+ Que toma por allívio hum pensamento.
+ Ao rio se queixava
+ Com lagrimas em fio,
+ Com que as ondas crescião outro tanto.
+ Seu doce canto dava
+ Tristes águas ao rio,
+ E o rio triste som ao doce canto.
+ Ao sonoroso pranto,
+ Que as águas enfreava,
+ Responde o valle umbroso.
+ De tanta voz o accento temeroso
+ Na outra parte do rio retumbava;
+ Quando, da phantasia
+ O silencio rompendo, assi dizia:
+ Corre suave e brando
+ Com tuas claras ágoas,
+ Sahidas de meus olhos, doce Tejo;
+ Fé de meus males dando,
+ Para que minhas mágoas
+ Sejão castigo igual de meu desejo:
+ Que, pois em mim não vejo
+ Remedio, nem o espero;
+ E a morte se despreza
+ De me matar, deixando-me á crueza
+ Daquella por quem meu tormento quero;
+ Saiba o mundo meu dano,
+ Porque se desengane em meu engano.
+ Ja que minha ventura,
+ Ou a causa qu'a ordena,
+ Quer qu'em pago da dor tome o soffrella;
+ Será mais certa cura
+ Para tamanha pena
+ Desesperar d'haver ja cura nella.
+ Porque se minha estrella
+ Causou tal esquivança,
+ Consinta meu cuidado
+ Que me farte de ser desesperado,
+ Para desenganar minha esperança:
+ Pois somente nasci
+ Para viver na morte, e ella em mi.
+ Não cesse meu tormento
+ De fazer seu officio,
+ Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada:
+ Nem falte o soffrimento,
+ Porque parece vício
+ Para tão doce mal faltar-me nada.
+ Oh Nympha delicada,
+ Honra da natureza!
+ Como póde isto ser,
+ Que de tão peregrino parecer
+ Pudesse proceder tanta crueza?
+ Não vem de nenhum geito
+ De causa divinal contrário effeito.
+ Pois como pena tanta
+ He contra a causa della?
+ Fóra he do natural minha tristeza.
+ Mas a mi que m'espanta?
+ Não basta (ó Nympha bella)
+ Que podes perverter a natureza?
+ Não he a gentileza
+ De teu gesto celeste
+ Fóra do natural?
+ Não póde a natureza fazer tal:
+ Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste;
+ Porém, porque tomaste
+ Tão dura condição, se te formaste?
+ Por ti o alegre prado
+ Me he penoso e duro;
+ Abrolhos me parecem suas flores.
+ Por ti do manso gado,
+ Como de mi, não curo,
+ Por não fazer offensa a teus amores.
+ Os jogos dos pastores,
+ As lutas entr'a rama,
+ Nada me faz contente:
+ E sou ja do que fui tão differente,
+ Que quando por meu nome alguem me chama,
+ Pasmo, porque conheço
+ Qu'inda comigo proprio me pareço.
+ O gado, que apascento,
+ São n'alma os meus cuidados;
+ As flores, que no campo sempre vejo,
+ São no meu pensamento
+ Teus olhos debuxados,
+ Com qu'estou enganando o meu desejo.
+ Do frio e doce Tejo
+ As águas se tornárão
+ Ardentes e salgadas,
+ Despois que minhas lagrimas cansadas
+ Com seu puro licor se misturárão;
+ Como quando mistura
+ Hyppanis co'o Exampêo sua água pura.
+ Se ahi no mundo houvesse
+ Ouvires-me algum'hora,
+ Assentados na praia deste rio;
+ E d'arte te dissesse
+ O mal que passo agora,
+ Que pudesse mover-te o peito frio!..
+ Oh quanto desvario,
+ Qu'estou imaginando!
+ Ja agora meu tormento
+ Não póde pedir mais ao pensamento,
+ Qu'este phantasiar, donde penando
+ A vida me reserva.
+ Querer mais de meu mal será soberba.
+ Ja a esmaltada Aurora
+ Descobre o negro manto
+ Da sombra, que as montanhas encobria.
+ Descansa, frauta, agora,
+ Pois meu escuro canto
+ Não merece que veja o claro dia.
+ Não canse a phantasia
+ D'estar em si pintando
+ O gesto delicado,
+ Em quanto traz ao pasto o manso gado
+ Esse pastor, que lá só vem fallando.
+ Callar-me-hei somente;
+ Que o meu mal nem ouvir se me consente.
+ AGRARIO.
+ Formosa manhãa clara e deleitosa,
+ Que, como fresca rosa na verdura,
+ Te mostras bella e pura, marchetando
+ As Nymphas, espalhando teus cabellos
+ Nos verdes montes bellos; tu só fazes,
+ Quando a sombra desfazes triste e escura,
+ Formosa a espesura e a clara fonte,
+ Formoso o alto monte e o rochedo,
+ Formoso o arvoredo e deleitoso,
+ E emfim tudo formoso co'o teu rosto
+ D'ouro e rosas composto e claridade;
+ Trazes a saudade ao pensamento,
+ Mostrando em hum momento o roxo dia,
+ Com a doce harmonia nos cantares
+ Dos passaros a pares, que voando
+ Seu pasto andão buscando nos raminhos,
+ Para os amados ninhos que mantém.
+ Oh grande e summo bem da natureza!
+ Estranha subtileza de pintora,
+ Que matiza em hum'hora de mil côres
+ O ceo, a terra, as flores, monte e prado!
+ Oh tempo ja passado! quão presente
+ Te vejo abertamente na vontade!
+ Quão grande saudade tenho agora
+ Do tempo que a pastora minha amava,
+ E de quanto prezava a minha dor!
+ Então tinha o amor maior poder,
+ Quando em hum só querer nos igualava;
+ Porque quando hum amava a quem queria,
+ Logo eco respondia d'affeição
+ No brando coração da doce imiga.
+ Nesta amorosa liga concertavão
+ Os tempos, que passavão com prazeres.
+ Mostrava a flava Ceres por as eiras
+ Das brancas sementeiras ledo fruto,
+ Pagando seu tributo aos Lavradores;
+ E enchia aos pastores todo o prado
+ Pales do manso gado guardadora.
+ Hião Zéphyro e Flora passeando,
+ Os campos esmaltando de boninas;
+ Nas fontes cristallinas triste estava
+ Narciso, qu'inda olhava n'água pura
+ Sua linda figura e delicada:
+ Mas Eco, namorada de tal gesto,
+ Com pranto manifesto, seu tormento
+ No derradeiro accento lamentava.
+ Alli tambem se achava o sangue tinto
+ Do purpureo Jacintho; e o destrôço
+ De Adonis bello moço; morte fêa
+ Da bella Cytherêa tão chorada;
+ Toda a terra esmaltada destas rosas.
+ Hião Nymphas formosas por os prados;
+ E os Faunos namorados apos ellas,
+ Mostrando-lhes capellas de mil côres,
+ Ordenadas das flores que colhião:
+ As Nymphas lhe fugião espantadas,
+ As faldas levantadas, por os montes.
+ Via-sea água das fontes espalhar-se;
+ Vertumno transformar-se alli se via;
+ Pomona, que trazia os doces fruitos;
+ Alli pastores muitos, que tangião
+ As gaitas que trazião, e cantando
+ Estavão enganando as suas penas,
+ Tomando das Sirenas o exercicio.
+ Ouvia-se Salicio lamentar-se;
+ Da mudança queixar-se crua e fêa
+ Da dura Galathêa tão formosa:
+ E da morte invejosa Nemoroso
+ Ao monte cavernoso se querella,
+ Que a sua Elisa bella em pouco espaço
+ Cortou inda em agraço. Ah dura sorte!
+ Oh immatura morte, que a ninguem
+ De quantos vida t[~e]e jamais perdoas!
+ Mas tu, tempo, que voas apressado,
+ Hum deleitoso estado quão asinha
+ Nesta vida mesquinha transfiguras
+ Em mil desaventuras, e a lembrança
+ Nos deixas por herança do que levas!
+ Assi que se nos cevas com prazeres,
+ He para nos comeres no melhor.
+ Cada vez em peor te vás mudando:
+ Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas,
+ Logo á manhãa reprovas com instancia.
+ Oh perversa inconstancia e tão profana
+ De toda cousa humana inferior,
+ A quem o cego error sempre anda annexo!
+ Mas eu de que me queixo? ou eu que digo?
+ Vive o tempo comigo? ou elle tem
+ Culpa no mal que vem da cega gente?
+ Por ventura elle sente, ou elle entende
+ Aquillo que defende o ser divino?
+ Elle usa de contino seu officio,
+ Que ja por exercicio lhe he devido:
+ Dá-nos fructo colhido na sazão
+ Do formoso verão; e no inverno,
+ Com seu humor eterno congelado,
+ Do vapor levantado co'a quentura
+ Do sol, a terra dura lhe dá alento,
+ Para que o mantimento produzindo,
+ Estê sempre cumprindo seu costume.
+ Assi que não consume de si nada,
+ Nem muda da passada vida hum dedo:
+ Antes sempre está quedo no devido,
+ Porqu'este he seu partido e sua usança;
+ E nelle esta mudança he mais firmeza.
+ Mas quem a Lei despreza, e pouco estima,
+ De quem de lá de cima está movendo
+ O ceo sublime e horrendo, o mundo puro,
+ Este muda o seguro e firme estado
+ Do tempo, não mudado de verdade.
+ Não foi naquella idade d'ouro claro
+ O firme tempo charo e excellente?
+ Vivia então a gente moderada;
+ Sem ser a terra arada dava pão;
+ Sem ser cavado o chão as fructas dava;
+ Nem águas desejava, nem quentura;
+ Suppria então natura o necessario.
+ Pois quem foi tão contrário a esta vida?
+ Saturno, que, perdida a luz serena,
+ Causou, qu'em dura pena, desterrado,
+ Fosse do ceo lançado, onde vivia;
+ Porque os filhos comia, que gerava.
+ Por isso se mudava o tempo igual
+ Em mais baixo metal: e assi descendo
+ Nos veio, emfim, trazendo a este estado.
+ Mas eu, desatinado, aonde vou?
+ Para onde me levou a phantasia?
+ Qu'estou gastando o dia em vãas palavras?
+ Quero ora minhas cabras ir levando
+ Ao Tejo claro e brando; porque achar
+ No mundo qu'emendar, não he d'agora:
+ Basta que a vida fóra delle tenho:
+ Com meu gado me avenho, e estou contente.
+ Porém, se me não mente a vista, eu vejo
+ Nesta praia do Tejo estar deitado
+ Almeno, que enlevado em pensamentos,
+ As horas e os momentos vai gastando:
+ Vou-me a elle chegando, só por ver
+ Se poderei fazer que o mal que sente,
+ Hum pouco se lhe ausente da memoria.
+ ALMENO.
+ Oh doce pensamento! oh doce gloria!
+ São estes por ventura os olhos bellos,
+ Que t[~e]e de meus sentidos a victoria?
+ São estas, Nympha, as tranças dos cabellos,
+ Que fazem de seu preço o ouro alheio,
+ Como a mi de mi mesmo só com vellos?
+ He esta a alva columna, o lindo esteio,
+ Sustentador das obras mais que humanas,
+ Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio?
+ Ah falso pensamento, que me enganas!
+ Fazes-me pôr a boca onde não devo,
+ Com palavras de doudo, ou quasi insanas!
+ Como a alçar-te tão alto assi me atrevo?
+ Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás?
+ Levas-me tu a mi, ou eu te levo?
+ Não poderei eu ir onde tu vás?
+ Porém, pois ir não posso onde tu fores,
+ Quando fores, não tornes onde estás.
+ AGRARIO.
+ Oh que triste successo foi de amores,
+ O que a este pastor aconteceo,
+ Segundo ouvi contar a outros pastores!
+ Tanto emfim, por seu damno se perdeo,
+ Que o longo imaginar em seu tormento,
+ Em desatino Amor lh'o converteo.
+ Oh forçoso vigor do pensamento,
+ Que póde em outra cousa estar mudando
+ A fórma, a vida, o siso, o entendimento!
+ Está-se hum triste amante transformando
+ Na vontade daquella, que tanto ama,
+ De si a propria essencia transportando.
+ E nenhum'outra cousa mais desama,
+ Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido,
+ Que deste fogo insano não se inflama.
+ Almeno, que aqui 'stá tão influido
+ No phantastico sonho, que o cuidado
+ Lhe traz sempre ante os olhos esculpido,
+ Está-se-lhe pintando, de enlevado,
+ Que t[~e]e ja da phantastica pastora
+ O peito diamantino mitigado.
+ Em este doce engano estava agora
+ Fallando como em sonho, mas achando
+ Ser vento o que sonhava, grita e chora.
+ Dest'arte andavão sonhos enganando
+ O pastor somnolento, que a Diana
+ Andava entre as ovelhas celebrando;
+ Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana,
+ O vão pae dos Centauros enganava:
+ (Que Amor quando contenta, sempre engana)
+ Como este, que comsigo só fallava,
+ Cuidando que fallava, de enleado,
+ Com quem lhe o pensamento figurava.
+ Não póde quem quer muito, ser culpado
+ Em nenhum êrro, quando vem a ser
+ Este amor em doudice transformado.
+ Amor não será amor, se não vier
+ Com doudices, deshonras, dissensões,
+ Pazes, guerras, prazer e desprazer;
+ Perigos, linguas más, murmurações
+ Ciumes, arruidos, competencias,
+ Temores, nojos, mortes, perdições.
+ Estas são verdadeiras penitencias
+ De quem põe o desejo onde não deve,
+ De quem engana alheias innocencias.
+ Mas isto t[~e]e o amor, que não se escreve
+ Senão donde he illicito e custoso;
+ E donde he mais o risco, mais se atreve.
+ Passava o tempo alegre e deleitoso
+ O Troiano pastor, em quanto andava
+ Sem ter alto desejo e perigoso.
+ Seus furiosos touros coroava,
+ E nos álamos altos escrevia
+ Teu nome (Enone) quando a ti só amava.
+ Os álamos crescião, e crescia
+ O amor qu'elle te tinha: sem perigo,
+ E sem temor, contente te servia.
+ Mas despois que deixou entrar comsigo
+ Illicito desejo e pensamento,
+ De sua quietação tão inimigo;
+ A toda a patria poz em detrimento
+ Com mortes de parentes e de irmãos,
+ Com crú incendio, e grande perdimento.
+ Nisto fenecem pensamentos vãos:
+ Tristes serviços mal galardoados,
+ Cuja glória se passa d'entre as mãos.
+ Lagrimas e suspiros arrancados
+ D'alma, todos se pagão com enganos:
+ E oxalá forão muitos enganados!
+ Andão com seu tormento tão ufanos,
+ Que gastão na doçura d'hum cuidado
+ Apos huma esperança muitos anos.
+ E talha tão perdido namorado,
+ Tão contente co'o pouco, que daria
+ Por hum só volver d'olhos todo o gado.
+ Em todo povoado e companhia,
+ Sendo ausentes de si, se vem presentes
+ Com quem lhes pinta sempre a phantasia.
+ Co'hum certo não sei que andão contentes,
+ E logo hum nada os torna, ao contrário,
+ De todo ser humano differentes.
+ Oh tyrannico Amor, oh caso vario,
+ Que obrigas a hum querer que sempre seja
+ De si contínuo e aspero adversario!
+ E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja,
+ Senão quando do seu despôjo amado
+ Sua inimiga estar triumphando veja.
+ Quero fallar com este, qu'enredado
+ Nesta cegueira está sem nenhum tento.
+ Acorda ja, pastor, desacordado.
+ ALMENO.
+ Oh porque me tiraste hum pensamento,
+ Que agora estava aos olhos debuxando,
+ De quem aos meus foi doce mantimento?
+ AGRARIO.
+ Nesta imaginação estás gastando
+ O tempo e vida, Almeno? Perda grande!
+ Não vês quão mal os dias vás passando?
+ ALMENO.
+ Formosos olhos, ande a gente e ande;
+ Que nunca vos ireis dest'alma minha,
+ Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande.
+ AGRARIO.
+ Quem poderá cuidar que tão asinha
+ Se perca o curso assi do siso humano,
+ Que corre por direita e justa linha?
+ Que sejas tão perdido por teu dano,
+ Almeno meu, não he por certo aviso;
+ He só doudice grande, grande engano.
+ ALMENO.
+ Ó Agrario meu, que vendo o doce riso,
+ E o rosto tão formoso, como esquivo,
+ O menos que perdi foi todo o siso.
+ E não entendo, desque sou captivo,
+ Outra cousa de mi, senão que mouro:
+ Nem isto entendo bem, pois inda vivo.
+ Á sombra deste umbroso e verde louro
+ Passo a vida, ora em lagrimas cansadas,
+ Ora em louvores dos cabellos d'ouro.
+ Se perguntares porque são choradas,
+ Ou porque tanta pena me consume,
+ Revolvendo memorias magoadas;
+ Desque perdi da vida o claro lume,
+ E perdi a esperança e causa della,
+ Não chóro por razão, mas por costume.
+ Jamais pude co'o fado ter cautella;
+ Nem houve nunca em mi contentamento,
+ Que não fosse trocado em dura estrella.
+ Que bem livre vivia e bem isento,
+ Sem qu'ao jugo me visse submettido
+ De nenhum amoroso pensamento!
+ Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido
+ Tão fóra d'amor tinha, que me ria
+ De quem por elle via andar perdido.
+ De várias côres sempre me vestia;
+ De boninas a fronte coroava;
+ Nenhum pastor cantando me vencia.
+ A barba então nas faces me apontava;
+ Na luta, na carreira, em qualquer manha,
+ Sempre a palma entre todos alcançava.
+ Da minha idade tenra, em tudo estranha,
+ Vendo (como acontece) affeiçoadas
+ Muitas Nymphas do rio e da montanha;
+ Com palavras mimosas e forjadas,
+ De solta liberdade e livre peito,
+ As trazia contentes e enganadas.
+ Mas não querendo Amor, que deste geito
+ Dos corações andasse triumphando,
+ Em quem elle criou tão puro affeito;
+ Pouco a pouco me foi de mi levando
+ Dissimuladamente ás mãos de quem
+ Toda esta injuria agora está vingando.
+ AGRARIO.
+ Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem
+ O princípio e o fim; que Nemoroso
+ Contado tudo isso, e mais, me tem.
+ Mas (quero-to dizer) se este enganoso
+ Amor he tão usado a desconcertos,
+ Que nunca amando fez pastor ditoso;
+ Ja que nelle estes casos são tão certos,
+ Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa
+ Te chorão valles, montes e desertos?
+ Vejo-te estar gastando em viva fragoa,
+ E juntamente em lagrimas; vencendo
+ A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa.
+ Vejo que as tuas cabras, não querendo
+ Gostar as verdes hervas, se emmagrecem,
+ As tetas aos cabritos encolhendo.
+ Os campos, que co'o tempo reverdecem,
+ Os olhos alegrando descontentes,
+ Em te vendo, parece, se entristecem.
+ De todos teus amigos e parentes,
+ Que lá da serra vem por consolar-te,
+ Sentindo na alma a pena, que tu sentes,
+ Se querem de teus males apartar-te,
+ Deixando a choça e gado vás fugindo,
+ Como cervo ferido, a outra parte.
+ Não vês que Amor, as vidas consumindo,
+ Vive só de vontades enlevadas
+ No falso parecer d'hum gesto lindo?
+ Nem as hervas das águas desejadas
+ Se fartão; nem de flores as abelhas;
+ Nem este Amor de lagrimas cansadas.
+ Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas,
+ Chorou Phebo de Daphne as esquivanças,
+ Regando as flores brancas e vermelhas?
+ Quantas vezes as asperas mudanças
+ O namorado Gallo t[~e]e chorado
+ De quem o tinha envolto em esperanças?
+ Estava o triste amante recostado,
+ Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso,
+ Que o falso Amor lhe tinha destinado.
+ Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso,
+ Na fonte de Aganippe destillando,
+ Se fazião de lagrimas hum vaso.
+ O intonso Apollo o vinha alli culpando,
+ A sobeja tristeza perigosa
+ Com asperas palavras reprovando.
+ Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa
+ Nympha, que tanto amaste, descobrindo
+ Por falsa a fé, que dava, e mentirosa;
+ Por as Alpinas neves vai seguindo
+ Outro bem, outro amor, outro desejo;
+ Como inimiga, emfim, de ti fugindo.
+ Mas o misero amante, que o sobejo
+ Mal empregado amor lhe defendia
+ Ter de tamanha fé vergonha ou pejo;
+ Da falsífica Nympha não sentia
+ Senão que o frio do gelado Rheno
+ Os delicados pés lhe offenderia.
+ Ora se tu vês claro, amigo Almeno,
+ Que d'Amor os desastres são de sorte,
+ Que para matar basta o mais pequeno,
+ Porque não pões hum freio a mal tão forte,
+ Qu'em estado te põe, que sendo vivo,
+ Ja não se entende em ti vida nem morte?
+ ALMENO.
+ Agrario; se do gesto fugitivo,
+ Por caso de fortuna desastrado,
+ Algum'hora deixar de ser captivo;
+ Ou sendo para as Ursas degradado,
+ Adonde Boreas t[~e]e o Oceano
+ Co'os frios Hyperboreos congelado;
+ Ou donde o filho de Climene insano,
+ Mudando a côr das gentes totalmente,
+ As terras apartou do trato humano;
+ Ou se ja por qualquer outro accidente
+ Deixar este cuidado tão ditoso,
+ Por quem sou de ser triste tão contente;
+ Este rio, que passa deleitoso,
+ Tornando para traz, irá negando
+ Á natureza o curso pressuroso.
+ As cabras por o mar irão buscando
+ Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura
+ Das hervas os delfins apascentando.
+ Ora se tu vês, n'alma quão segura
+ Deste amor tenho a fé, para qu'insistes
+ Nesse conselho e prática tão dura?
+ Se de tua porfia não desistes,
+ Vae repastar teu gado a outra parte;
+ Qu'he dura a companhia para os tristes.
+ Huma só cousa quero encomendarte,
+ Para repouso algum de meu engano,
+ Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte:
+ Que s'esta fera, qu'anda em traje humano,
+ Por a montanha vires ir vagando,
+ De meu despôjo rica e de meu dano,
+ Comos vivos espritos inflammando
+ O ar, o monte e a serra, que comsigo
+ Continuamente leva namorando;
+ Se queres contentar-me, como amigo,
+ Passando, lhe dirás: Gentil pastora,
+ Não ha no mundo vício sem castigo.
+ Tornada em puro marmore não fôra
+ A fera Anaxarete, se amoroso
+ Mostrára o rosto angelico algum'hora.
+ Foi bem justo o castigo rigoroso:
+ Porém quem te ama (Nympha) não queria
+ Nódoa tão feia em gesto tão formoso.
+ AGRARIO.
+ Tudo farei, Almeno, e mais faria
+ Por algum dia ver-te descansado,
+ Se s'acabão trabalhos algum dia.
+ Mas bem vês como Phebo ja empinado
+ Me manda que da calma iniqua e crua,
+ Recolha em algum valle o manso gado.
+ Tu nessa phantasia falsa e nua,
+ Para engano maior de teu perigo,
+ Não queres companhia mais que a sua.
+ Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo;
+ E ficarás melhor acompanhado.
+ ALMENO.
+ Elle comtigo vá, como comigo
+ Me fica acompanhando o meu cuidado.
+
+
+ECLOGA III.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ALMENO e BELISA.
+
+ Passado ja algum tempo que os amores
+ D'Almeno, por seu mal, erão passados,
+ Porque nunca Amor cumpre o que promette;
+ Entr'huns verdes ulmeiros apartado,
+ Regando por o campo as brancas flores,
+ Em lagrimas cansadas se derrete:
+ Quando a linda pastora, que compete
+ Co'o monte em aspereza,
+ Co'o prado em gentileza,
+ Por quem o pastor triste endoudecia,
+ Por a praia do Tejo discorria
+ A lavar a beatilha e o trançado:
+ O sol ja consentia
+ Que sahisse da sombra o manso gado.
+ Ja acordado daquelle pensamento
+ Que tão desacordado sempre o teve,
+ Vio por acêrto o bem, que incerto tinha.
+ E porque donde amor a mais se atreve,
+ Alli mais enfraquece o entendimento,
+ Não lhe soube dizer o que convinha.
+ Como homem que á aprazada briga vinha,
+ A quem de fóra engana
+ A confiança humana,
+ E despois, vendo o rosto a quem resiste,
+ Treme, e teme o perigo e não insiste;
+ Ja se arrepende, a audacia lhe fallece:
+ Dest'arte o pastor triste
+ Ousa, receia, esforça e enfraquece.
+ E tendo assi ja attonito o sentido,
+ Cometteo com furor desatinado,
+ E tirou da fraqueza coração.
+ Comettimento foi desesperado:
+ Qu'huma só salvação t[~e]e hum perdido,
+ Perder toda a esperança á salvação.
+ As mágoas, que passárão, se dirão:
+ Mas as qu'ella dizia,
+ Lembrando-lhe que via
+ As águas murmurar do Tejo amenas,
+ Remetto a vós, ó Tagides Camenas;
+ Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto;
+ Porqu'em tamanhas penas
+ Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto.
+ BELISA.
+ Que alegre campo e praia deleitosa!
+ Quão saudosa faz esta espessura
+ A formosura angelica e serena
+ Da tarde amena! Quão saudosamente
+ A sesta ardente abranda, suspirando,
+ De quando em quando o vento alegre e frio!
+ No fundo rio os mudos peixes sáltão;
+ Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde,
+ E Phebo perde a fôrça da quentura.
+ Por a espessura levão, passeando,
+ O gado brando ao som das çanfoninas,
+ Pizando as finas e formosas flores,
+ Os Guardadores, que cantando o gesto
+ Formoso e honesto das pastoras qu'amão,
+ Por o ar derramão mil suspiros vãos.
+ Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos,
+ Outro os cabellos d'ouro, em som suave:
+ E a amorosa ave leva o contraponto.
+ Mas oh que conto e saudosa historia
+ Que na memoria aqui se m'offerece!
+ Se não m'esquece, ja deste lugar
+ Ouvi soar os valles algum dia,
+ E respondia o eco o nome em vão
+ N'hum coração, _Belisa_ retumbando.
+ Estou cuidando como o tempo passa,
+ E quão escaça he toda alegre vida;
+ E quão comprida, quando he triste e dura.
+ Nesta 'spessura longo tempo amei:
+ Se m'enganei com quem do peito amava,
+ Não me pezava de ser enganada.
+ Fui salteada, emfim, d'hum pensamento,
+ Que hum movimento tinha casto e são.
+ Conversação foi fonte dest'engano
+ Que, por meu dano, entrou com falsa côr.
+ Porque o amor na Nympha, que he segura,
+ Entra em figura de vontade honesta.
+ Mas que me presta agora dar desculpa?
+ Pois se houve culpa, foi do firme amor
+ Só, n'hum pastor, que nunca sol nem l[~u]a,
+ Ou serra alg[~u]a, desde o Ibero ao Indo,
+ Outro tão lindo vírão, tão manhoso.
+ Nest'amoroso estado, e fé que tinha
+ Nest'alma minha tão secretamente,
+ Vivi contente, amando e encobrindo.
+ Elle fingindo mentirosos danos,
+ Que são enganos que não custão nada;
+ Tendo alcançada ja no entendimento
+ A fé e intento meu só nelle pôsto;
+ (Que logo o rosto mostra os corações,
+ E as affeições co'os olhos se praticão
+ Que mais publicão muito, que palavras)
+ Com suas cabras sempre á parte vinha,
+ Ond'eu mantinha os olhos do desejo.
+ Tu, manso Tejo, e tu, florído prado,
+ Do mais passado, emfim, que aqui não digo,
+ Sereis, m'obrigo, testimunho certo;
+ Pois descoberto vos foi tudo e claro.
+ Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual!
+ Quão grande mal quereis á humana gente!
+ Porque hum contente estado assi trocastes?
+ Vós me tirastes do meu peito isento
+ O pensamento honesto e repousado,
+ Ja dedicado ao côro de Diana;
+ Vós n'huma ufana vida me puzestes,
+ E alli quizestes que gozasse o dano
+ Do doce engano, que se chama amor,
+ Com cujo error passava o tempo ledo:
+ E vós tão cedo me tirais hum bem,
+ Que Amor ja tem impresso n'alma minha,
+ Despois qu'a tinha envolta em esperanças;
+ E com lembranças tristes me deixais?
+ Mal me pagais a fé que sempre tive.
+ Mas assi vive quem sem dita nace.
+ Mas ja a face alegre o sol esconde;
+ E não responde alguem a tantas mágoas,
+ Senão as ágoas, que dos olhos sahem.
+ As sombras cahem; vão-se as alimarias,
+ Fartas das várias hervas, seu caminho;
+ Buscão seu ninho os passaros sem dono:
+ Ja por o sono esquecem o comer.
+ Quero esquecer tambem tão doce historia,
+ Pois he memoria que traz mor cuidado.
+ Isto he passado; e se me deo paixão,
+ Os dias vão gastando o mal e o bem;
+ E não convém querer-me magoar
+ Do qu'emendar não posso ja com mágoas.
+ Nas claras ágoas deste rio brando,
+ Que vão regando o valle matizado,
+ Este trançado lavar quero emfim;
+ Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança
+ Desta mudança, qu'esquecer não sei:
+ Bem qu'eu verei mudar a opinião,
+ Pois homens são: a quem o esquecimento
+ Depressa faz mudar o pensamento.
+ ALMENO.
+ Se a vista não m'engana a phantasia,
+ Como ja m'enganou mil vezes, quando
+ Minha ventura enganos me soffria;
+ Parece-me, que vejo estar lavando
+ Huma Nympha algum véo no claro Tejo,
+ Que se m'está Belisa figurando.
+ Não póde ser verdade isto que vejo;
+ Que facilmente aos olhos se figura
+ Aquillo que se pinta no desejo.
+ Oh acontecimento, qu'a ventura
+ Me dá para mor damno! Esta he, certo;
+ Que não he d'outrem tanta formosura.
+ Se poderei fallar-lhe de mais perto?
+ Mas fugir-me-ha. Não póde ser; qu'o rio
+ Para acolá não t[~e]e caminho aberto.
+ Oh temor grande! oh grande desvario,
+ Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente
+ Assi m'está tornando, e o peito frio!
+ De quanto me sobeja, estando ausente,
+ Que para lhe fallar sempre imagino,
+ Tudo me falta quando estou presente.
+ Oh aspecto suave e peregrino!
+ Pois como? tão asinha assi s'esquece
+ Huma fé verdadeira, hum amor fino?
+ BELISA.
+ Oh altas semideas! pois padece
+ Em vosso rio a honra delicada
+ De quem tamanha fôrça não merece:
+ Ou seja por vós, Nymphas, preservada;
+ Ou em arvore alguma, ou pedra dura
+ Me deixai velozmente transformada.
+ ALMENO.
+ Ah Nympha! não te mudes a figura:
+ Nem vós, deosas, queirais qu'eu seja parte
+ De se mudar tão rara formosura.
+ Porqu'a quem falta a voz para fallar-te,
+ E a quem falta o despejo da ousadia,
+ Tambem faltarão mãos para tocar-te.
+ BELISA.
+ Que me queres, Almeno, ou que porfia
+ Foi a tua tão aspera comigo?
+ Minha vontade não to merecia.
+ Se com amor o fazes, eu te digo,
+ Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo,
+ Não póde ser amor, mas inimigo.
+ Não es tu de saber tão falto e rudo,
+ Que tão sem siso amasses, como amaste.
+ ALMENO.
+ Onde viste tu, Nympha, amor sisudo?
+ Porque ja não te lembra que folgaste
+ Com meus tormentos tristes, e algum'hora
+ Com teus formosos olhos ja m'olhaste?
+ Como t'esquece ja (gentil pastora)
+ Que folgavas de ler nos freixos verdes
+ O que de ti 'screvia cada hora?
+ Porqu'a memoria tão á pressa perdes
+ Do amor que me mostravas, qu'eu não digo,
+ Se o vós, ó altos montes, não disserdes?
+ E como te não lembras do perigo,
+ A que só por m'ouvir t'aventuravas,
+ Buscando horas de sesta, horas d'abrigo?
+ Co'a maçãa da discordia me tiravas;
+ Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura,
+ Tu, como mais formosa, lha ganhavas.
+ E escondendo-te logo na'spessura,
+ Hias fugindo, como vergonhosa
+ Da namorada e doce travessura.
+ Não era esta a maçãa d'ouro formosa
+ Com qu'encoberta assi d'astucia tanta
+ Cydippe s'enganou por cubiçosa,
+ Nem a que o curso teve d'Atalanta;
+ Mas era aquella, com que Galathêa
+ O pastor captivou, como elle canta.
+ Se más tenções puzerão nodoa fêa
+ Em nosso firme amor, d'inveja pura,
+ Porque pagarei eu a culpa alhea?
+ Quem desta fé, quem dest'amor não cura,
+ Nunca teve sujeito o coração;
+ Queo firme amor com a alma eterna dura.
+ BELISA.
+ Mal conheces, Almeno, huma affeição;
+ Que s'eu desse amor tenho esquecimento,
+ Meus olhos magoados to dirão.
+ Mas teu sobejo e livre atrevimento,
+ E teu pouco segredo, descuidando,
+ Foi causa deste longo apartamento.
+ Vês as Nymphas do Tejo, que mudando
+ Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto
+ N'outra mais dura fórma traspassando.
+ Hum só segredo meu te manifesto:
+ Que te quiz muito em quanto Deos queria;
+ Mas de pura affeição, d'amor honesto.
+ E pois de teus descuidos e ousadia
+ Nasceo tão dura e aspera mudança,
+ Fólgo; que muitas vezes to dizia.
+ Fica-te embora, e perde a confiança
+ De ver-me nunca mais, como ja viste:
+ Que assi se desengana huma esperança.
+ ALMENO.
+ Oh duro apartamento! oh vida triste!
+ Oh nunca acontecida desventura!
+ Pois como, Nympha? assi te despediste?
+ Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!)
+ Nesta sylvestre e aspera rudeza
+ Tão branda e excellente formosura?
+ Tua nunca entendida gentileza,
+ E teus membros assi se transformárão,
+ Negando-se-lhe a propria natureza?
+ Dest'arte os teus cabellos se tornárão
+ (Deixando ja seu preço ao ouro fino)
+ Em fôlhas, que a côr t[~e]e do que negárão?
+ S'este consentimento foi divino,
+ Consinta-me tambem que perca a vida,
+ Antes que a mais m'obrigue o desatino.
+ Pois se a fortuna sempre embravecida
+ Em meu tormento tanto se desmede,
+ Não viva mais hum'alma tão perdida.
+ E vós, feras do monte, pois vos pede
+ Minha pena o remedio derradeiro,
+ Fartae ja de meu sangue vossa sêde.
+ E vós, pastores rudos deste outeiro,
+ Porque a todos, emfim, se manifeste
+ Que cousa he amor puro e verdadeiro;
+ Á sombra deste funebre cypreste
+ Me fareis hum sepulcro sem arrêo
+ De boninas que o prado ameno veste.
+ As desusadas musicas de Orphêo
+ Aqui me cantareis; e desta sorte
+ Não haverei inveja ao mausolêo.
+ E porqu'a minha cinza se conforte,
+ Em vossos metros doces e suaves
+ As exequias direis de minha morte.
+ Alli responderão as altas aves,
+ Não módulas no canto nem lascivas,
+ Mas de dor ora roucas, ora graves.
+ Não correrão as águas fugitivas,
+ Alegres por aqui, mas saudosas,
+ Que pareça que vem dos olhos vivas.
+ Nascerão por as praias deleitosas
+ Os asperos abrolhos em lugar
+ Dos roxos lirios, das pudicas rosas.
+ Não trarão as ovelhas a pastar
+ De redor do sepulcro os guardadores;
+ Pois nada comerião de pezar.
+ Virão os Faunos, guarda dos pastores,
+ Se morri por amores, perguntando;
+ Responderão os ecos: _Por amores_.
+ Dos que por aqui forem caminhando,
+ Hum epitaphio triste se lerá,
+ Qu'esteja minha morte declarando.
+ E no tronco de huma árvore estara,
+ N'huma rude cortiça pendurado
+ Escripto co'huma fouce, e assi dirá:
+ _Almeno fui, pastor de manso gado,
+ Em quanto o consentio minha ventura,
+ De Nymphas e pastores celebrado.
+ Se algum dia, por caso, na 'spessura
+ Se perder o amor e a affeição,
+ Tirem a pedra desta sepultura,
+ E em figura de cinza os acharão._
+
+
+ECLOGA IV.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+FRONDOSO e DURIANO.
+
+ Cantando por hum valle docemente
+ Descião dous pastores, quando Phebo
+ No reino Neptunino se escondia:
+ De idade cada qual era mancebo;
+ Mas velho no cuidado, e descontente
+ Do que lh'elle causava parecia.
+ O que cada hum dizia
+ Lamentando seu mal, seu duro fado,
+ Não sou eu tão ousado,
+ Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:
+ Porque se a minha ruda
+ Frauta deste favor vosso for dina,
+ Posso escusar a fonte Caballina.
+ Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso;
+ Em vós tenho Calliope e Thalia;
+ E as outras sete irmãas, co'o fero Marte;
+ Em vós deixou Minerva sua valia;
+ Em vós estão os sonhos do Parnaso;
+ Das Pierides em vós s'encerra a arte.
+ Com qualquer pouca parte,
+ Senhora, que me deis d'ajuda vossa
+ Podeis fazer qu'eu possa
+ Escurecer ao sol resplandecente:
+ Podeis fazer que a gente
+ Em mi do grão poder vosso s'espante;
+ E que vossos louvores sempre cante.
+ Podeis fazer que cresça d'hora em hora
+ O nome Lusitano, e faça inveja
+ A Esmirna, que d'Homero s'engrandece.
+ Podeis fazer tambem que o mundo veja
+ Soar na ruda frauta o que a sonora
+ Cithara Mantuana só merece.
+ Ja agora me parece,
+ Que podem começar os meus pastores
+ A cantar seus amores.
+ Porqu'inda que presentes não estejão
+ As qu'elles ver desejão,
+ Mudança de lugar, menos d'estado,
+ Não muda hum coração do seu cuidado.
+ Ja deixava dos montes a altura,
+ E nas salgadas ondas s'escondia
+ O sol, quando Frondoso e Duriano,
+ Ao longo d'hum ribeiro, que corria
+ Por a mais fresca parte da verdura
+ Claro, suave e manso, todo o ano,
+ Lamentando seu dano,
+ Vinhão ja recolhendo o manso gado.
+ Hum estava callado,
+ Em quanto hum pouco o outro se queixava;
+ Apos elle tornava
+ A dizer de seu mal o que sentia;
+ E em quanto este fallava, aquelle ouvia.
+ Vinhão-se assi queixando aos penedos,
+ Aos sylvestres montes e á aspereza,
+ Que quasi de seus males se doião.
+ Alli as pedras perdião a dureza;
+ Alli correntes rios estar quedos,
+ Promptos ás suas queixas, parecião.
+ Somente as que podião
+ Estes males curar, pois os causavão,
+ O ouvido lhes negavão,
+ Por perderem de todo a esperança:
+ Mas elles, que mudança
+ D'amor com tantos damnos não fazião,
+ Com ellas fallando inda, assi dizião:
+ FRONDOSO.
+ Isto he o que aquella verdadeira
+ Fé, com que t'amei sempre, merecia,
+ Sem nunca te deixar hum só momento?
+ Como (cruel Belisa) t'esquecia
+ Hum mal, cuja esperança derradeira
+ Em ti só tinha pôsto o seu assento?
+ Não vias meu tormento?
+ Não vias tu a fé, com que t'amava?
+ Porque não t'abrandava
+ Est'amor, que me tu tão mal pagaste?
+ Mas pois ja me deixaste
+ Co'a esperança de ti toda perdida,
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Se os males que por ti tenho soffrido
+ (Oh Silvana, em meus males tão constante!)
+ Quizesses que algum'hora te dissera;
+ Inda que, qual durissimo diamante,
+ Fôra o teu cruel peito endurecido,
+ Creio que a piedade te movêra.
+ Ja agora em branda cera
+ Os montes são tornados e os penedos;
+ E os rios, qu'estão quedos,
+ Sentírão meus suspiros, minhas queixas.
+ Tu só, cruel, me deixas,
+ Qu'es mais, que montes e penedos, dura,
+ E fugitiva mais qu'a fonte pura.
+ FRONDOSO.
+ Ond'está aquella falla, que sohia
+ Só com seu doce tom, que me chegava,
+ Avivar-me os espiritos cansados?
+ Onde está o olhar brando, que cegava
+ O sol resplandecente ao meio dia?
+ Ond'estão os cabellos delicados,
+ Que ao vento espalhados
+ Escurecião o ouro, a mi matavão;
+ E a quantos os olhavão,
+ Causavão tambem novos accidentes?
+ Porque, cruel, consentes
+ Qu'outro goze da gloria a mi devida?
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Nenhum bem vejo, que a meu mal espere,
+ Se não fosse esperar que morte dura
+ Me venha emfim a dar a saudade.
+ Vejo faltar-me a tua formosura;
+ A vontade me diz que desespere,
+ Contradiz-me a razão esta vontade.
+ Diz qu'em huma beldade,
+ Em quem mostrou o cabo a natureza,
+ Não ha tanta crueza,
+ Qu'hum tão constante amor desprezar queira,
+ E fé tão verdadeira;
+ Mas tu, que de razão jamais curaste,
+ Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste.
+ FRONDOSO.
+ A quem, Belisa ingrata, t'entregaste?
+ A quem déste, cruel, a formosura,
+ Qu'a meu tormento só, só se devia?
+ Porqu'huma fé deixaste, firme e pura?
+ Porque tão sem respeito me trocaste
+ Por quem só nem olhar-te merecia?
+ O bem que t'eu queria,
+ E que não perderei se não por morte,
+ Não he de maior sorte,
+ Que quanto a cega gente estima e preza?
+ Só a tua crueza
+ Foi nisto contra mi endurecida.
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Levaste-me o meu bem n'hum só momento;
+ Levaste-me com elle juntamente
+ De cobrá-lo jamais a confiança:
+ Deixaste-me em lugar delle sómente
+ Huma contínua dor, hum grão tormento,
+ Hum mal, de que não póde haver mudança.
+ Tu, qu'eras a esperança
+ Dos males que, cruel, tu me causaste,
+ De todo te trocaste,
+ Com Amor conjurada em minha morte.
+ Porém se a minha sorte
+ Consente que por ti seja causada,
+ Morte não foi mais bem-aventurada.
+ FRONDOSO.
+ Não nasceste d'alguma pedra dura;
+ Não te gerou alguma Tigre Hyrcana;
+ Não te criaste, não, entre a rudeza,
+ A quem, cruel, sahiste deshumana?
+ No ceo formada foi tal formosura,
+ Onde a mesma brandura he natureza.
+ Pois, logo, essa dureza
+ Donde teve princípio, ou a tomaste?
+ Porque, dura, engeitaste
+ De hum verdadeiro amor, que tu bem vias,
+ A fé, que conhecias,
+ Por outra de ti nunca conhecida?
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Vai-se co'o seu pastor o manso gado,
+ Porque d'amor entende aquella parte,
+ Qu'a natureza irracional lh'ensina.
+ O rustico leão sem algum'arte,
+ Do natural instincto só ensinado,
+ Aonde sente amor, logo se inclina.
+ E tu, que de divina
+ Não tens menos queVenus e Cupido,
+ Porque sequer co'o ouvido
+ Hum amor verdadeiro não soccorres?
+ Ah! porque te não corres
+ De que o leão te vença em piedade,
+ Se não te vence Venus na beldade?
+ FRONDOSO.
+ A mi não me faltava o que se preza
+ Entre os celestes deoses, que formárão
+ A tua mais que humana formosura:
+ Em mi os voluntarios ceos faltárão;
+ Em mi se perverteo a natureza
+ D'huma cruel formosa creatura.
+ Mas, pois, Belisa dura,
+ Que do mais alto ceo a nós vieste,
+ E em teu peito celeste
+ Hum tal contrário pôde aposentar-se,
+ Não he contrário achar-se
+ Tamanha fé tão mal agradecida.
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Por ti a noite escura me contenta;
+ Por ti o claro dia m'aborrece;
+ Abrolhos me parecem frescas flores;
+ A doce Philomela m'entristece:
+ Todo contentamento m'atormenta
+ Com a contemplação de teus amores;
+ As festas dos pastores,
+ Que podem alegrar toda a tristeza.
+ Em mi tua crueza
+ Faz que o mal cada hora vá dobrando.
+ Oh cruel! até quando
+ Ha de durar em ti tal pensamento,
+ E a vida em mi, que soffre tal tormento?
+ FRONDOSO.
+ Fugiste d'hum amor tão conhecido,
+ Fugiste d'huma fé tão clara e firme;
+ E seguiste a quem nunca conheceste,
+ Não por fugir d'amor, mas por fugir-me;
+ Pois bem vês, quanto eu tinha merecido
+ Esse amor que tu a outro concedeste.
+ A mi não me fizeste
+ Alguma sem razão; que bem conheço
+ Que tanto não mereço:
+ Fizeste-a áquelle bem firme e sincero
+ Que sabes que te quero,
+ Em lhe tirar a gloria merecida.
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Cresce cad'hora em mi mais o cuidado,
+ E vejo qu'em ti cresce juntamente
+ Cad'hora mais de mi o esquecimento.
+ Oh Silvana cruel! porque consente
+ Esse peito formoso e delicado
+ Que s'esqueça hum tão aspero tormento?
+ Tal aborrecimento
+ Merece hum capital teu inimigo:
+ Não eu, que só comtigo
+ Estou contente, e nada mais desejo,
+ Se algum'hora te vejo.
+ Tu es hum só meu bem, huma só gloria,
+ Que nunca se m'aparta da memoria.
+ FRONDOSO.
+ Olhos, que vírão tua formosura;
+ Vida, que só de ver-te se sostinha;
+ Vontade, qu'em ti'stava transformada;
+ Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha,
+ Tão unida comsigo, quanto a pura
+ Alma co'o debil corpo está liada;
+ E que agora apartada
+ Te vê de si com tal apartamento,
+ Qual será seu tormento?
+ Qual será aquelle mal que t[~e]e presente?
+ Maior he que o que sente
+ O triste corpo em última partida.
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Regendo em outro tempo o manso gado,
+ Tangendo a minha frauta nestes vales,
+ Passava a doce vida alegremente:
+ Não sentia o tormento destes males;
+ Menos sentia o mal deste cuidado;
+ Que tudo então em mi era contente.
+ Agora não somente
+ Desta vida suave m'apartaste.
+ Mas outra me deixaste,
+ Que ao duro mal que sinto ca no peito,
+ Me t[~e]e ja tão affeito,
+ Que sinto ja por gloria a minha pena,
+ Por natureza o mal, que me condena.
+ FRONDOSO.
+ Juntamente viver compridos anos,
+ Os fados te concedão, que quizerão
+ Ajuntar-te com tal contentamento.
+ Pois os bens para ti todos nascêrão,
+ Nascêrão para mi todos os danos,
+ Logra tu tua gloria, eu meu tormento.
+ Nenhum apartamento,
+ Belisa, me fara deixar d'amar-te;
+ Porqu'em nenhuma parte
+ Poderás nunca estar sem mi hum'hora.
+ Consente pois agora,
+ Qu'em pago desta fé tão conhecida,
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Veja-t'eu, crua, amar quem te desame,
+ Porque saibas que cousa he ser amada
+ De quem tanto aborreces e desprezas.
+ Veja-t'eu ser ainda desprezada
+ De quem tu mais desejas que te ame,
+ Porque sintas em ti tuas cruezas,
+ Sintas tuas durezas,
+ E quanto póde o seu cruel effeito
+ N'hum coração sujeito.
+ Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora,
+ Espero qu'algum'hora
+ Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te,
+ Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te.
+ FRONDOSO.
+ Mil annos de tormento me parece
+ Cad'hora que sem ti, sem esperança
+ Vivo de poder mais tornar a ver-te.
+ A vida só me dá tua lembrança;
+ A vida sôbre tudo m'entristece;
+ A vida antes perdêra, que perder-te.
+ Mas eu se, por querer-te
+ Hum bem qu'em ti só t[~e]e seu firme assento,
+ Padeço tal tormento,
+ Qu'esperará de ti quem te desama,
+ Ou quem ao menos te ama
+ Com algum falso amor, ou fé fingida?
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Então, cruel, verás se te merece
+ Com tamanho desprêzo ser tratada
+ Hum'alma, que d'amar-te só se preza.
+ Mas como poderás ser desprezada,
+ Se o menos qu'em ti fóra se parece,
+ Póde abrandar dos montes a aspereza?
+ Porque se a natureza
+ Em ti o remate poz da formosura,
+ Qual será a pedra dura,
+ Qu'a teu valor resista brandamente?
+ Que fará a fraca gente,
+ Se ao humano parecer não se defende,
+ E a mesma Venus deosa ao teu se rende?
+ FRONDOSO.
+ E pois fé verdadeira, amor perfeito,
+ Tormento desigual e vida triste,
+ Junta com hum contino soffrimento,
+ E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste,
+ Não puderão mover teu duro peito
+ A mostrares sequer contentamento
+ De ver o meu tormento;
+ Antes tudo soberba desprezaste,
+ E a outrem t'entregaste
+ Por nada me ficar em qu'esperasse,
+ Senão quando acabasse
+ A vida, a pezar meu, ja tão comprida,
+ Perca, quem te perdeo, tambem a vida.
+ DURIANO.
+ Longo curso de tempo, e apartado
+ Lugar a hum coração, que vive entregue,
+ Não podem apartar de seu intento.
+ Porque foges, cruel, a quem te segue?
+ Não vês que teu fugir he escusado,
+ Pois sem mim não estás hum só momento?
+ Nenhum apartamento,
+ Inda que a alma do corpo se m'aparte,
+ Poderá ja ausentar-te
+ Dest'alma triste, que continuamente
+ Em si te t[~e]e presente.
+ Torna, cruel; não fujas a quem t'ama:
+ Vem a dar vida, ou morte a quem te chama.
+ A noite escura, triste e tenebrosa,
+ Que ja tinha estendido o negro manto,
+ D'escuridade a terra toda enchendo,
+ Fez pôr a estes pastores fim ao canto,
+ Que ao longo da ribeira deleitosa
+ Vinhão seu manso gado recolhendo.
+ Se aquillo, qu'eu pretendo
+ Deste trabalho haver, que he todo vosso,
+ Senhora, alcançar posso;
+ Não será muito haver tambem a gloria
+ E o louro da victoria,
+ Que Virgilio procura e haver pretende,
+ Pois o mesmo Virgilio a vós se rende.
+
+
+ECLOGA V.
+
+_Falla hum só pastor._
+
+ A quem darei queixumes namorados
+ Do meu pastor queixoso e namorado?
+ A branda voz, suspiros magoados,
+ A causa porque n'alma he magoado?
+ De quem serão seus males consolados?
+ Quem lhe fara devido gasalhado?
+ Só vós, Senhor famoso e excellente,
+ Especial em graças entr'a gente.
+ Por partes mil lançando a phantasia,
+ Busquei na terra estrella, que guiasse
+ Meu rudo verso; em cuja companhia
+ A santa piedade sempre andasse
+ Luzente e clara, como a luz do dia,
+ Que o rudo engenho meu m'allumiasse;
+ E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo
+ Ainda além cumprido o meu desejo.
+ A vós se dem, a quem junto se ha dado
+ Brandura, mansidão, engenho e arte,
+ D'hum esprito divino acompanhado,
+ Dos sobrehumanos hum em toda parte:
+ Em vós as graças todas se hão juntado;
+ De vós em outras partes se reparte.
+ Sois claro raio, sois ardente chama;
+ Gloria e louvor do tempo, azas da fama.
+ Em quanto eu apparelho hum novo esprito,
+ E voz de cysne tal, que o mundo espante,
+ Com que de vós, Senhor, em alto grito
+ Louvores mil em toda parte cante;
+ Ouvi o canto agreste em tronco escrito,
+ Entre vaccas e gado petulante:
+ Que quando tempo for, em melhor modo
+ Ha de m'ouvir por vós o mundo todo.
+ As vãas querellas, brandas e amorosas,
+ Sejão de vós tratadas brandamente;
+ Verdades d'alma pouco venturosas,
+ Sahidas com suspiro vivo e ardente:
+ Em vossas mãos s'entregão valerosas,
+ Porqu'ao futuro vivão entr'a gente,
+ Chorando sempre a antigua crueldade,
+ Para mover as almas a piedade.
+ Ja declinava o sol contra o Oriente,
+ E o mais do dia ja era passado,
+ Quando o pastor co'o grave mal que sente,
+ Por dar allívio em parte a seu cuidado,
+ Se queixa da pastora docemente,
+ Cuidando de ninguem ser escutado.
+ Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia
+ As mágoas que cantou; e assi dizia:
+ Ou tu do monte Pindaso es nascida,
+ Ou marmor te pario formosa e dura:
+ Não póde ser que fosse concebida
+ Dureza tal de humana creatura:
+ Ou quiçá qu'es em pedra convertida,
+ Ou tens da natureza tal ventura;
+ Porém não fez em ti boa impressão,
+ Só de marmor tornar-te o coração.
+ Ja, ja com minha voz rouca e chorosa
+ A gente mais austera moveria;
+ E com esta corrente lagrimosa
+ Os tigres em Hyrcania amansaria.
+ Se não fosses cruel, quanto formosa,
+ Meu longo suspirar t'abrandaria:
+ Mas suspirar por ti, mas bem querer-te,
+ Que fazem senão mais endurecer-te?
+ Se deixáras vencer a crueldade
+ De tua tão perfeita formosura;
+ Hum pouco víras bem minha vontade,
+ E víras a fé minha, limpa e pura,
+ Por ventura, que houveras ja piedade,
+ E tivera eu quiçá melhor ventura:
+ Mas nunca achou igual tua belleza,
+ Se não se foi em ti tua dureza.
+ Ja hum peito abrandára, que não sente,
+ Este meu grave mal, segundo he forte;
+ Se descêra do inferno ao Polo ardente,
+ A piedade movêra a propria morte.
+ Pois se huma gotta d'agua brandamente
+ Torna brando hum penedo, duro e forte,
+ Tantas lagrimas minhas não farão
+ Hum pequeno sinal n'hum coração?
+ Na testa fonte viva tenho d'ágoa,
+ Que por meus olhos tristes se derrama;
+ E no peito de fogo viva fragoa,
+ Que tudo em si converte, tudo inflama:
+ Amor em de redor, por maior mágoa,
+ Voando mais accende a ardente chama.
+ Se queres ver se ardentes são seus tiros,
+ Ólha se são ardentes meus suspiros.
+ Quando grita e rumor grande se sente,
+ Porque fogo se ateia em casa, ou torre,
+ De pura compaixão vai toda a gente,
+ Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre.
+ Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente,
+ E com a ágoa dos olhos se soccorre;
+ Que quem me abraza, outra ágoa me defende,
+ Porque com esta o fogo mais se accende.
+ Quando vemos que sahe lá no Oriente
+ O sol, seu curso antigo começando,
+ Formoso, intenso, puro, refulgente,
+ O monte, o campo, o mar, tudo alegrando;
+ Quando de nós s'esconde no Ponente,
+ E em outras terras sahe, allumiando,
+ Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro,
+ Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro.
+ Caminha o dia todo o caminhante,
+ E, emfim, lhe chega a noite, em que descança;
+ Trabalha na tormenta o navegante,
+ Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança;
+ Recobra o fructo fertil e abundante
+ Da terra o lavrador, se nella cança:
+ Mas eu de meu cuidado e mal tão forte
+ Tormento espero só, só crua morte.
+ D'ouvir meu damno as rosas matutinas,
+ Condoidas se cerrão, s'emmurchecem;
+ Com meu suspiro ardente as côres finas
+ Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem.
+ Co'a roxa aurora as pallidas boninas,
+ Em vez de se alegrarem, s'entristecem:
+ Deixão seu canto Progne e Philomena;
+ Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena.
+ Responde o monte concavo a meus ais,
+ E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido;
+ Os indomitos feros animais,
+ Sem humano sentir, mostrão sentido:
+ Mas em ti minhas dores desiguais
+ Nunca movem o peito endurecido:
+ Por muito que te chame, não respondes;
+ E quanto mais te busco, mais t'escondes.
+ Naquella parte donde costumavas
+ Apascentar meus olhos e teu gado;
+ Alli donde mil vezes me mostravas,
+ Qu'era o pastor de ti mais desejado,
+ Vezes mil te busquei, por ver se davas
+ Algum breve descanso a meu cuidado.
+ Busco-te em vão no valle, em vão no monte,
+ Qual o ferido cervo busca a fonte.
+ Este lugar de ti desamparado,
+ Com cujas sombras frias ja folgaste,
+ Agora triste, escuro he ja tornado;
+ Que todo o bem comtigo nos levaste.
+ Eras tu nosso sol mais desejado;
+ Não temos luz, despois que nos deixaste.
+ Torna, meu claro sol; torna, meu bem:
+ Qual he o Josué que te detém?
+ Despois que deste valle t'apartaste,
+ Não pasce ja algum gado, com seccura;
+ Seccou-se o campo, des que lhe negaste
+ Dos teus formosos olhos a luz pura;
+ Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste,
+ Quando menos, que agora, aspera e dura;
+ Nega sem ti a terra, ouvindo gritos,
+ Ás cabras pasto e leite a os cabritos.
+ Sem ti, doce cruel minha inimiga,
+ A clara luz, escura me parece:
+ Este ribeiro, quando a dor m'obriga,
+ Com meu chorar por ti contino crece.
+ Não ha fera, a que a fome não persiga;
+ Algum prado sem ti ja não florece:
+ Cegos estão meus olhos; nada vem,
+ Porque não podem ver seu claro bem.
+ O campo, como d'antes, não s'esmalta
+ De boninas azues, brancas, vermelhas;
+ Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta
+ As candidas pacíficas ovelhas:
+ Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta
+ As doces e solícitas abelhas:
+ Com lagrimas, que manão dos meus olhos,
+ A terra nos produz duros abrolhos.
+ Torna pois ja, pastora, ao nosso prado,
+ Se restituir-lhe queres a alegria:
+ Alegrarás o valle, o campo, o gado,
+ E aquelle espelho teu da fonte fria.
+ Torna, torna, meu sol tão desejado,
+ Faras a noite escura, claro dia;
+ E alegra ja esta vida magoada,
+ Em que só tua ausencia he Parca irada.
+ Vem, como quando o raio transparente
+ Deste nosso horizonte, qu'escondido,
+ Deixa hum certo temor á mortal gente,
+ Causado de ver o Orbe escurecido;
+ E quando torna a vir claro e luzente,
+ Alegra o mundo todo entristecido:
+ Que assi he para mi tua luz pura
+ Claro sol, como a ausencia noite escura.
+ Mas tu 'squecida ja do bem passado,
+ E do primeiro amor, que me mostraste,
+ Teu coração de mi t[~e]es apartado,
+ Não menos que do valle t'apartaste.
+ Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado?
+ Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste?
+ Onde o meu êrro viste, ou desvario,
+ Que pôde merecer-te hum tal desvio?
+ Bem vês que por Amor se move tudo,
+ E que delle não ha quem seja isento;
+ O mais simple animal, mais baixo e rudo,
+ O demais levantado pensamento:
+ Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo
+ Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento.
+ Pois as aves, que no ar cantando vôão,
+ Não menos humas d'outras s'affeiçôão.
+ A musica do leve passarinho
+ Que sem concêrto algum sólta e derrama,
+ De hum raminho saltando a outro raminho,
+ Mostra que por amor suspira e chama.
+ Em quanto no secreto amado ninho
+ Não acha aquelle, que só busca e ama,
+ No canto, a nós alegre, triste chora,
+ Porque teme perder a quem namora.
+ A fera, que he mais fera, e o leão,
+ Sempre acha outro leão, sempre outra fera,
+ Em quem possa empregar huma affeição,
+ Que o conversar no peito seu lhe gera:
+ Tambem sabe sentir sua paixão,
+ Tambem suspira, morre, desespera;
+ Acena, salta, brada, ferve e geme;
+ E não temendo a nada, a Amor só teme.
+ O cervo, qu'escondido e emboscado,
+ Temendo ao cobiçoso caçador,
+ Está na selva, monte, bosque, ou prado,
+ Alli donde anda e vive, vive amor.
+ De temor e d'amor acompanhado,
+ Com justa causa amor t[~e]e e temor:
+ Temor a quem para feri-lo vinha,
+ Amor a quem ja, ja ferido o tinha.
+ Pois se a fera insensivel, que não sente,
+ Tambem sente d'Amor a frecha dura,
+ Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente,
+ Que procede da tua formosura?
+ Porqu'escondes a luz do sol á gente,
+ Que nesses olhos trazes bella e pura?
+ Mais pura, mais suave, mais formosa,
+ Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa.
+ Póde ser, se me visses, que sentiras
+ Ver liquidar hum peito em triste pranto;
+ E bem pouco fizeras, se me viras,
+ Pois eu só por te ver suspiro tanto:
+ As mágoas, os suspiros, que m'ouviras
+ Te puderão mover a grande espanto,
+ A dor, a piedade, a sentimento,
+ E a mais, que para mais he meu tormento.
+ Os pensamentos vãos, que o vento leve:
+ O suspirar em vão tambem ao vento;
+ Hum esperar á calma, á chuva, á neve,
+ E nunca poder ver-te hum só momento;
+ Tormento he, que somente a ti se deve.
+ E se póde inda haver maior tormento,
+ Quem te vio, e se vê de ti ausente,
+ Muito mais passará mais levemente.
+ Faz mossa a pedra dura em sua dureza
+ Com a ágoa que lhe toca brandamente;
+ Abranda o ferro forte a fortaleza,
+ Se lhe toca tambem o fogo ardente:
+ Em ti só desconheço a natureza;
+ Que, a ser de pedra ou ferro totalmente,
+ Ja teu peito cruel fôra desfeito
+ Das ágoas e das chammas do meu peito.
+ Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
+ Alegra toda a terra, vendo o dia;
+ Quando Phebo apparece no horizonte,
+ Manifesta tambem grande alegria;
+ Contente pasce o gado ao pé do monte,
+ Contente a beber vai na fonte fria:
+ Está tudo contente, alegre tudo;
+ Eu só, só pensativo, triste e mudo.
+ Se ja d'alma e do corpo tens a palma,
+ E do corpo sem alma não tens dó,
+ Ha dó do corpo só, qu'está sem alma,
+ Pois sem alma não vive o corpo só.
+ Nas chammas e no ardor, no fogo e calma,
+ Na affeição, no querer eu sou hum só:
+ Não acharás vontade tão captiva;
+ Nem outra como a tua tão esquiva.
+ Se te apartas por não ouvir meu rôgo,
+ Onde estiveres te hei d'importunar:
+ Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo,
+ Comtigo em toda parte m'has d'achar;
+ Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo,
+ Emquanto eu vivo for, hão de durar;
+ Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte,
+ Que não se ha de soltar em vida, ou morte.
+ Neste meu coração sempr'estaras,
+ Emquanto a alma estiver com elle unida:
+ Tambem o meu esprito possuirás
+ Despois que a alma do corpo for partida.
+ Por mais e mais que faças, não faras
+ Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida:
+ Impossivel sera qu'eternamente
+ Ausente estês de mim, estando ausente.
+ Cá m'acompanhará vossa memoria,
+ Se o rio, que se diz do esquecimento,
+ Da minha não borrar tão longa historia,
+ Tão grave mal, tão duro apartamento.
+ Até quando vos veja entrar na gloria,
+ Viverei n'hum contino sentimento:
+ E ainda então vereis (s'isto ser possa)
+ Esta minh'alma lá servir a vossa.
+ Aqui com grave dor, com triste accento,
+ Deo o triste pastor fim a seu canto:
+ Co'o rosto baixo e alto o pensamento,
+ Seus olhos começárão novo pranto:
+ Mil vezes parar fez no ar o vento,
+ E apiedou no ceo o coro santo:
+ As circumstantes sylvas s'inclinárão,
+ Condoidas das mágoas qu'escutárão.
+ Com h[~u]a mão na face, reclinado,
+ Tão enlevado em sua dor estava,
+ Que, como em grave somno sepultado,
+ Não via que ja o sol no mar entrava.
+ Berrando andava em roda o manso gado,
+ Que o seguro curral ja desejava:
+ Nas covas as raposas, e em seus ninhos
+ Se recolhem os simples passarinhos.
+ Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto
+ O mocho com funesto e triste canto:
+ Ao som delle o pastor ergueo o rosto,
+ E vio a terra envolta em negro manto.
+ Quebrando então o fio de seu gôsto,
+ E o fio não quebrando de seu pranto,
+ Por não se descuidar de seu cuidado,
+ Levou para os curraes o manso gado.
+
+
+ECLOGA VI
+
+
+INTERLOCUTORES
+
+AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador.
+
+ A rustica contenda desusada
+ Entr'as Musas dos bosques, das areias,
+ De seus rudos cultores modulada;
+ A cujo som attonitas e alheias
+ Do monte as brancas vaccas estiverão,
+ E do rio as saxatiles lampreias;
+ Desejo de cantar. Que se movêrão
+ Os troncos ás avenas dos pastores,
+ E ja sylvestres brutos suspendêrão.
+ Não menos o cantar dos pescadores
+ As ondas amansou do fundo pégo,
+ E fez ouvir os mudos nadadores.
+ E se por sustentar-se o moço cego
+ Nos trabalhos agrestes a alma inflama,
+ O que he mais proprio no ocio e no socêgo;
+ Mais maravilhas dando á voz da fama,
+ No mesmo mar undoso e vento frio
+ Brazas roxas accende a roxa flama.
+ Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio,
+ Cuja frondente coma ja cobrio
+ De Luso todo o gado e senhorio;
+ E cujo são madeiro ja sahio
+ A lançar a forçosa e larga rede
+ No mais remoto mar que o mundo vio;
+ E vós, cujo valor tão alto excede,
+ Que, a cantá-lo com voz alta e divina,
+ A fonte do Parnaso move a sêde;
+ Ouvi da minha humilde çanfonina
+ A harmonia, que vós ja levantais
+ Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina.
+ Mas se agora que affabil m'escutais,
+ Não ouvirdes cantar com alta tuba
+ O que vos deve o mundo, que dourais;
+ E se os Reis avós vossos, que de Juba
+ Os Reinos debellárão, não ouvis
+ Que nas azas do excelso verso suba;
+ Se não sabem as frautas pastoris
+ Pintar de Toro os campos semeados
+ D'armas e corpos fortes e gentis;
+ Por hum Moço animoso sustentados,
+ Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
+ Contra a fortuna vãa e injustos fados:
+ Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha,
+ Do Olympo fez descer o duro Marte,
+ E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha;
+ Se não sabem cantar a menor parte
+ Do sapiente peito e grão conselho,
+ Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te;
+ Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho,
+ Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas,
+ Porque a elle se affeitem como a espelho;
+ Saberão bem cantar, em nada vãas,
+ D'Alicuto as contendas e d'Agrario;
+ Hum d'escamas coberto, outro de lãas.
+ Vereis, Duque sereno, o estylo vário,
+ A nós novo, mas n'outro mar cantado
+ De hum, que só foi das Musas secretario:
+ O pescador Sincero, que amansado
+ T[~e]e o pégo de Prochyta co'o canto
+ Por as sonoras ondas compassado.
+ Deste seguindo o som, que póde tanto,
+ E misturando o antigo Mantuano,
+ Façamos novo estylo, novo espanto.
+ Partira-se do monte Agrario insano
+ Para onde a fôrça só do pensamento
+ Lh'encaminhava o lasso pêzo humano.
+ Embebido em hum longo esquecimento
+ De si, e do seu gado e pobre fato,
+ Apos hum doce sonho e fingimento,
+ Rompendo as sylvas horridas do mato,
+ Vai por cima d'outeiros e penedos,
+ Fugindo, emfim, de todo humano trato.
+ Ante os seus olhos leva os olhos ledos
+ Da branca Dinamene, qu'enverdece
+ Só co'o meneo valles e rochedos.
+ Ora se ri comsigo, quando tece
+ Na phantasia algum prazer fingido;
+ Ora falla; ora mudo s'entristece.
+ Qual a tenra novilha, que corrido
+ T[~e]e montanhas fragosas e espessuras,
+ Por buscar o cornigero marido;
+ E cansada nas humidas verduras
+ Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro,
+ Ja quando as sombras vem cahindo escuras;
+ E nem co'a noite ao valle seu primeiro
+ Se lembra de tornar, como sohia,
+ Perdida por o bruto companheiro:
+ Tal Agrario chegado, emfim, se via
+ Onde o grão pégo horrisono suspira
+ N'huma praia arenosa, humida e fria.
+ Tanto que ao mar estranho os olhos vira,
+ Tornando em si, de longe ouvio tocar-se
+ De douta mão não vista e nova lira.
+ Fez-lhe o som desusado desviar-se
+ Para onde mais soava, desejando
+ D'ouvir e conversar, e de provar-se.
+ Muito não tinha proseguido, quando
+ Em a concavidade d'hum penedo,
+ Que pouco a pouco fôra o mar cavando,
+ Topou hum pescador, que prompto e quedo,
+ N'huma pedra assentado, brandamente
+ Tangendo, faz o mar sereno e ledo.
+ Mancebo era d'idade florecente,
+ Pescador grande do alto, conhecido
+ Por o nome de toda humida gente:
+ Alicuto se chama: que perdido
+ Era por a formosa Lemnoria;
+ Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido.
+ Por ella as redes lança noite e dia;
+ Por ella as ondas tumidas despreza;
+ Por ella soffre o sol e a chuva fria.
+ Co'o seu nome mil vezes a braveza
+ D'irados ventos amansou co'o verso,
+ Que remove das rochas a dureza.
+ E agora em som de voz, suave e terso,
+ Está seu nome aos ecos ensinando
+ Por estylo do agreste som diverso.
+ Ouvindo Agrario, attonito, affroxando
+ Da phantasia hum pouco seu cuidado,
+ Suspenso esteve os numeros notando.
+ Mas Alicuto, vendo-se estorvado
+ Por hum pastor da musica divina,
+ O rosto levantou bem socegado,
+ E disse assi: Vaqueiro da campina,
+ Que vens buscar ás arenosas praias,
+ Onde a bella Amphitrite só domina?
+ Que razão ha, pastor, para que saias
+ A este nosso escamoso e vil terreno
+ Dos teus floridos myrtos e altas faias?
+ Pois s'agora o mar vês brando e sereno,
+ E estender-se estas ondas por a areia,
+ Amansadas das mágoas, com que peno,
+ Logo verás o como desenfreia
+ Eolo o vento por o mar undoso,
+ De sorte que Neptuno se receia.
+ Responde Agrario: Oh musico e amoroso
+ Pescador! eu não venho a ver o lago
+ Bravo e quieto, ou vento brando e iroso;
+ Mas o meu pensamento, com que apago
+ As flammas ao desejo, me trazia
+ Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago:
+ Até que a tua angelica harmonia
+ M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas
+ A tua perigosa Lemnoria.
+ Mas se de ver-me cá no mar t'espantas,
+ Eu m'espanto tambem do estylo novo
+ Com que as ondas horrisonas quebrantas.
+ Porém se com verdade o louvo e approvo,
+ Desejo de o provar contra o sylvestre
+ Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo.
+ E tu, que no tocar pareces mestre,
+ Bem julgarás se ha clara differença
+ Entr'o canto maritimo e o campestre.
+ Não ha (disse Alicuto) em mi detença:
+ Alvorôço antes ha, por mais que veja
+ Que a tua confiança só me vença.
+ Mas, porque saibas que nenhuma inveja
+ Os pescadores temos aos pastores
+ Do som que pelo mundo se deseja,
+ Toma a lyra na mão, que os moradores
+ Do vitreo fundo vendo estou juntar-se
+ Para ouvir nossos rusticos amores.
+ Bem vês por essa praia presentar-se
+ Nas conchas vária côr á vista humana;
+ E o mar vir por entr'ellas e tornar-se.
+ Socegada do vento a furia insana,
+ Encrespa brandamente o ameno rio,
+ Que seu licor aqui mistura e dana.
+ Estepenedo concavo e sombrio,
+ Que de cangrejos ves estar coberto,
+ Nos dá abrigo do sol, quieto e frio.
+ Tudo nos mostra, emfim, repouso certo,
+ E nos convida ao canto, com que os mudos
+ Peixes sahem ouvindo ao ar aberto.
+ Assi se desafião estes rudos
+ Poetas, nos officios discrepantes;
+ Nos engenhos porém subtis e agudos.
+ Eis ja mil companheiros circumstantes
+ Estavão para ouvir, e apparelhavão
+ Ao vencedor os premios semelhantes.
+ As bem sonantes lyras se tocavão;
+ Agrario começava, e da harmonia
+ Os pescadores todos s'admiravão;
+ E dest'arte Alicuto respondia.
+ AGRARIO.
+ Vós semicapros deoses do alto monte,
+ Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
+ E vós, deosas do bosque e clara fonte,
+ E dos troncos que vivem largos anos;
+ Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte
+ A nossos versos rusticos e humanos,
+ Ou me dae ja a capella de loureiro,
+ Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro.
+ ALICUTO.
+ Vós humidas deidades deste pégo,
+ Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;
+ Vós, Nereidas do sal em que navego,
+ Por quem do vento as furias pouco temo;
+ Se ás vossas sacras aras nunca nego
+ O congro nadador na pá do remo,
+ Não consintais, que a musica marinha
+ Vencida seja aqui na lyra minha.
+ AGRARIO.
+ Pastor se fez hum tempo o moço louro,
+ Que do sol as carretas move e guia;
+ Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro,
+ Que o seu claro inventor alli tangia.
+ Io foi vacca; Jupiter foi touro:
+ Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
+ Guardou formoso Adonis; e tornado
+ Em bezerro Neptuno foi ja achado.
+ ALICUTO.
+ Pescador ja foi Glauco, e deos agora
+ He do mar; e Protêo Phocas guarda.
+ Nasceo no pégo a deosa, que he senhora
+ Do amoroso prazer, que sempre tarda.
+ Se foi bezerro o deos, que cá se adora,
+ Tambem ja foi delfim. Se se resguarda,
+ Vê-se que os moços pescadores erão,
+ Que o escuro enigma ao primo Vate derão.
+ AGRARIO.
+ Formosa Dinamene, se dos ninhos
+ Os implumes penhores ja furtei
+ Á doce Philomela; e dos murtinhos
+ Para ti (fera!) as flores apanhei;
+ E se os crespos madronhos nos raminhos
+ Com tanto gôsto ja te presentei,
+ Porque não dás a Agrario desditoso
+ Hum só revolver d'olhos piedoso?
+ ALICUTO.
+ Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
+ Os curvos camarões vivos saltando?
+ Para quem as conchinhas ruivas cavo
+ Na praia, os brancos buzios apanhando?
+ Para quem de mergulho no mar bravo
+ Os ramos de coral vou arrancando,
+ Senão para a formosa Lemnoria,
+ Que co'hum só riso a vida me daria?
+ AGRARIO.
+ Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
+ D'atras nuvens vestido, horrido e feio,
+ Ennegrecendo á vista o ceo superno,
+ Quando os troncos arranca o rio cheio;
+ Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno,
+ Que ao mundo mostra hum pallido receio:
+ Tal o amor he cioso, a quem suspeita
+ Que outrem de seus trabalhos se aproveita.
+ ALICUTO.
+ Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
+ Furor lançando flammas e bramidos,
+ Quando as pasmosas serras traz diante,
+ Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos:
+ A braços derribando o ja nutante
+ Mundo, co'os elementos destruidos:
+ Assi me representa a phantasia
+ A desesperação de ver hum dia.
+ AGRARIO.
+ Minha alva Dinamene, a primavera,
+ Que os deleitosos campos pinta e veste,
+ E rindo-se huma côr aos olhos gera,
+ Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste;
+ As aves, as boninas, a verde hera,
+ E toda a formosura amena agreste
+ Não he para os meus olhos tão formosa,
+ Como a tua, que abate o lirio e rosa.
+ ALICUTO.
+ As conchinhas da praia, que presentão
+ A côr das nuvens, quando nasce o dia;
+ O canto das Sirenas, que adormentão;
+ A tinta, que no Murice se cria;
+ O navegar por ondas, que se assentão
+ Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
+ Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
+ Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.
+ AGRARIO.
+ A deosa, que na Lybica lagôa
+ Em fórma virginal appareceo,
+ Cujo nome tomou, que tanto sôa,
+ Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo:
+ Garços os t[~e]e; mas huma, que a corôa
+ Das formosas do campo mereceo,
+ Da côr do campo os mostra graciosos.
+ Quem diz, que não são estes os formosos?
+ ALICUTO.
+ Perdoem-me as deidades; mas tu, diva,
+ Que no liquido marmore es gerada,
+ A luz dos olhos teus, celeste e viva,
+ T[~e]es por vício amoroso atravessada:
+ Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva
+ De luz o dia, baixa e socegada
+ Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego;
+ E com toda esta luz sempre estou cego.
+ Assi cantavão ambos os cultores
+ Do monte e praia, quando os atalhárão;
+ A hum pastores, a outro pescadores.
+ E quaesquer a seu Vate coroárão
+ De capellas idoneas e formosas,
+ Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão:
+ A Agrario de murtinhos e de rosas;
+ A Alicuto d'hum fio de torcidos
+ Buzios, e conchas ruivas e lustrosas.
+ Estavão n'ágoa os peixes embebidos
+ Com as cabeças fóra; e quasi em terra
+ Os musicos delfins estão perdidos.
+ Julgavão os pastores que na serra
+ O cume e preço está do antigo canto;
+ Que quem o nega, contra as Musas erra.
+ Dizem os pescadores que outro tanto
+ T[~e]e na sonora frauta, quanto teve
+ O monte pastoril da antigua Manto.
+ Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve
+ Molhava n'ágoa amara, e compellia
+ A recolher a roxa tarde e breve:
+ E foi fim da contenda o fim do dia.
+
+
+ECLOGA VII.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+SATYRO I. SATYRO II.
+
+ As doces cantilenas, que cantavão
+ Os semicapros deoses, amadores
+ Das Napêas, que os montes habitavão,
+ Cantando escreverei: que se os amores
+ A sylvestres deidades maltratárão,
+ Ja ficão desculpados os pastores.
+ Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão
+ O claro Apollo e Marte hum ser perfeito,
+ Em quem suas altas mentes assinárão;
+ Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito,
+ Bem sabe onde se salva, pois pretende
+ Levantar com a causa o baixo effeito.
+ Em vós minha fraqueza se defende;
+ Em vós instilla a fonte do Pegáso,
+ O que o meu canto por o mundo estende.
+ Vêdes que as altas Musas do Parnaso
+ Cantando vos estão na doce lira,
+ Tomando-me das mãos tão alto caso.
+ Vêdes o louro Apollo, que me tira
+ De louvar vossa estirpe, e escurece
+ O que a vosso louvor meu canto aspira.
+ Ou por me haver inveja me fallece,
+ Ou por não ver soar na frauta ruda
+ O que a sonora cithara merece.
+ Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda,
+ Em quanto Progne triste o sentimento
+ Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda;
+ E em quanto Galatea ao manso vento
+ Sólta os cabellos louros da cabeça,
+ E Tityro nas sombras faz assento;
+ E em quanto flor aos campos não falleça,
+ (Se não recebeis isto por affronta)
+ Fará que o Douro e o Ganges vos conheça.
+ E ja que a lingua nisto fica pronta,
+ Consenti que a minha Ecloga se conte,
+ Em quanto Apollo as vossas cousas conta.
+ No cume do Parnaso, duro monte,
+ De sylvestre arvoredo rodeado,
+ Nasce huma crystallina e clara fonte,
+ Donde hum manso ribeiro derivado,
+ Por cima d'alvas pedras mansamente
+ Vai correndo suave e socegado.
+ O murmurar das ondas excellente
+ Os passaros incita, que cantando
+ Fazem o verde monte mais contente.
+ Tão claras vão as ágoas caminhando,
+ Que no fundo as pedrinhas delicadas
+ Se podem, huma e huma, estar contando.
+ Não se verão em derredor pizadas
+ De fera ou de pastor, que alli chegasse,
+ Porque de espesso monte são vedadas.
+ Herva se não verá, que alli criasse
+ O monte ameno, triste ou venenosa,
+ Senão que lá no centro as igualasse.
+ O roxo lirio a par da branca rosa,
+ A cecem pura, a flor que dos amantes
+ A côr t[~e]e magoada e saudosa;
+ Alli se vem os myrtos circumstantes
+ Que a crystallina Venus encobrírão,
+ Escondendo-a dos Faunos petulantes.
+ Hortelãa, mangerona, alli respirão,
+ Onde nem frio inverno, ou quente estio,
+ As murchárão jamais, ou sêccas vírão.
+ Dest'arte vai seguindo o curso o rio,
+ O monte inhabitado e o deserto
+ Sempre com verdes árvores sombrio.
+ Aqui huma linda Nympha, por acêrto
+ Perdida da fragueira companhia,
+ A quem este lugar era encoberto;
+ Cansada ja da caça vindo hum dia,
+ Quiz descansar á sombra da floresta,
+ E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria.
+ A novidade vendo manifesta
+ Do sítio, e como as árvores co'o vento
+ As calmas defendião da alta sesta;
+ Das aves o lascivo movimento,
+ Qu'em seus modulos versos occupadas
+ As azas dão ao doce pensamento;
+ Tendo notado tudo, ja passadas
+ As horas da grã sesta, se tornou
+ A buscar as irmãas, no centro, amadas.
+ Despois que largamente lhes contou
+ Do não visto lugar, que perto estava
+ E tanto por extremo a namorou,
+ Que ao outro dia fossem, lhes rogava,
+ A lavar-se em aquella fonte amena,
+ Que tão formosas ágoas destillava.
+ Ja tinha dado hum giro a luz serena
+ Do grão pastor d'Admeto, e já nascia
+ Aos ditosos amantes nova pena,
+ Quando as formosas Nymphas em porfia
+ Para o lugar do monte caminhavão,
+ Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria.
+ D'huma os louros cabellos s'espalhavão
+ Por o formoso collo sem concêrto,
+ E com mil nós suaves s'enlaçavão;
+ Outra, levando o collo descoberto,
+ Por mais despejo em tranças os atára,
+ Havendo por pezado o desconcêrto.
+ Dinamene e Ephyre, a quem topára
+ Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão
+ Seus delicados corpos n'ágoa clara;
+ Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão
+ Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa,
+ Destras nos arcos mais que quantas tirão;
+ A linda Daliana, com Belisa,
+ Ambas vindas do Tejo, que como ellas
+ Nenhuma tão formosa as hervas pisa:
+ Todas estas angelicas donzellas,
+ Por o viçoso monte alegres hião,
+ Quaes no ceo largo as nitidas estrellas.
+ Mas dous sylvestres deoses, que trazião
+ O pensamento em duas occupado,
+ A quem de longe mais que a si querião,
+ Não lhes ficava monte, valle ou prado,
+ Nem árvore, por onde quer que andavão,
+ Que não soubesse delles seu cuidado.
+ Quantas vezes os rios, que passavão,
+ Detiverão seu curso ouvindo os danos,
+ Que aos proprios duros montes magoavão!
+ Quantas vezes amor de tantos anos
+ Abrandára qualquer vontade isenta,
+ Se em Nymphas corações houvesse humanos!
+ Mas quem de seu cuidado se contenta,
+ Offereça de longe a paciencia;
+ Que Amor d'alegres mágoas se sustenta.
+ Que o moço Idalio quiz nesta sciencia
+ Que se compadecessem dous contrários.
+ Diga-o quem tiver delle experiencia.
+ Indo os deoses, emfim, por montes varios
+ Exercitando os olhos saudosos,
+ Ao crystallino rio tributarios;
+ Topárão dos pés alvos e mimosos
+ As pizadas na terra conhecidas,
+ As quaes forão seguindo pressurosos.
+ Mas, encontrando as Nymphas que despidas
+ Na clara fonte estavão, não cuidando
+ Que d'alguem fossem vistas ou sentidas,
+ Deixárão-se estar quedos, contemplando
+ As feições nunca vistas, de maneira
+ Que vissem, sem ser vistos, espreitando.
+ Porém a espessa mata, mensageira
+ Da cilada dos dous, com o rugido
+ Dos raminhos d'huma aspera aveleira,
+ Manifestando claro o escondido,
+ Todas huma alta grita levantárão,
+ Que o monte pareceo ser destruido.
+ Assi despidas logo se lançárão
+ Por a espessura tão ligeiramente,
+ Que mais que o proprio vento então voárão.
+ Qual o bando das pombas quando sente
+ A rapida aguia, cuja vista pura
+ Não obedece ao sol resplandecente;
+ Empresta-lhe o temor da mortedura
+ Nas azas novo alento; e, não parando,
+ Veloz rompendo o ar fugir procura:
+ Dest'arte as deosas timidas, deixando
+ De seu despôjo os ramos carregados,
+ Nuas por entre as sylvas vão voando.
+ Mas os amantes ja desesperados,
+ Que para as alcançar, emfim, se vião
+ Nada dos pés caprinos ajudados;
+ Com amorosos brados as seguião.
+ Hum só (que o outro ainda não tomava
+ Folego algum da pressa que trazião)
+ Desta sorte sentido se queixava:
+ SATYRO PRIMEIRO.
+ Ah Nymphas fugitivas,
+ Que só por não usar humanidade
+ Os perigos dos matos não temeis!
+ Para que sois esquivas?
+ Qu'inda de nós não peço piedade,
+ Mas dessas alvas carnes, que offendeis.
+ Ah Nymphas! não vereis
+ Que Eurydice, fugindo dessa sorte,
+ Fugio do amante, e não da fera morte?
+ Tambem assi Eperie foi mordida
+ Da vibora escondida.
+ Olhae a serpe occulta na herva verde.
+ Quem o rigor não perde, perde a vida.
+ Que tigre, ou que leão,
+ Que peçonhenta fera venenosa,
+ Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo?
+ D'hum brando coração,
+ Que preso dessa vista rigorosa
+ De si para vós foge, andais fugindo?
+ Olhae que em gesto lindo
+ Não se consente peito tão disforme;
+ Se não quereis que tudo se conforme.
+ Posto que bellas n'ágoa vos vejais,
+ Á fonte não creais,
+ Que vos traz enganadas por vingança
+ Desta nossa esperança, que enganais.
+ Mas ah! que não consinto
+ Que nem palavra minha vos offenda,
+ Postoque me desculpe a mágoa pura.
+ Digo, Nymphas, que minto:
+ Pois mal póde haver nunca quem pretenda
+ Negar-vos essa rara formosura.
+ Se amor de tanta dura
+ Por tanto mal tão pouco bem merece,
+ Não estranheis, minh'alma se endoudece:
+ Que se doudices falla d'improviso
+ Sem tento e sem aviso,
+ Queira Deos, que dureza tão crescida
+ Me não prive da vida além do siso.
+ Cousas grandes e estranhas
+ Por o mundo t[~e]e feito e faz natura,
+ Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão.
+ Nas Libycas montanhas
+ As Scitales são feras, de pintura
+ Tão singular, que só co'a vista encantão.
+ As hienas levantão
+ A voz tão natural á voz humana,
+ Que a quem as ouve, facilmente engana.
+ E vós (ó gentis feras) cujo aspeito
+ O mundo t[~e]e sujeito,
+ Tendes de natureza juntamente
+ A vista e voz de gente, e fero o peito.
+ Das amorosas leis,
+ Com que liga natura os corações,
+ Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura?
+ Como? E não vos correis
+ D'haver em vós tão duras condições,
+ Que possão mais que a próvida natura?
+ Se vossa formosura
+ He sobrenatural, não he forçado
+ Que assi tenha tambem o peito irado:
+ Antes ao puro Amor, em cuja mão
+ Os corações estão,
+ Por vossa gentileza tão formosa
+ Lhe deveis amorosa condição.
+ Amor he hum brando affeito,
+ Que Deos no mundo poz e a natureza,
+ Para augmentar as cousas que creou.
+ De Amor está sugeito
+ Tudo quanto possue a redondeza:
+ Nada sem este affecto se gerou.
+ Por elle conservou
+ A causa principal o mundo amado,
+ Donde o pae famulento foi deitado.
+ As cousas elle as ata e as confórma
+ Com o mundo, e reforma
+ A materia. Quem ha que não o veja?
+ Quanto meu mal deseja sempre fórma.
+ Entre as plantas do prado
+ Não ha machos e femias conhecidas,
+ Que junto huma da outra permanece?
+ Não estão carregados
+ Os ulmeiros das vides retorcidas,
+ Onde o cacho enforcado amadurece?
+ Não vêdes que padece
+ Tanta tristeza a rôla por a morte
+ Da sua amada e unica consorte?
+ Pois lá no Olympo, a quantos captivou
+ Cupido e maltratou?
+ Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella,
+ Que ja na sua téla o debuxou.
+ Ah caso grande e grave!
+ Ah peitos de diamante fabricados,
+ E das leis absolutos naturais!
+ Aquelle amor suave,
+ Aquelle poder alto, que forçados
+ Os deoses obedecem, desprezais?
+ Pois quero que saibais,
+ Que contra o fero Amor nunca houve escudo:
+ Costume he seu tomar vingança em tudo.
+ Eu vos verei lançar em hum momento
+ Suspiros mil ao vento,
+ Lagrimas, triste pranto e nova dor
+ Por quem tenha outro amor no pensamento.
+ Mais quizera dizer
+ O desditoso amante, que ajudado
+ Se via então da mágoa e da tristeza;
+ Mas foi-lho defender
+ O outro companheiro, como irado
+ Com tão disforme e aspera dureza.
+ Aquillo que a rudeza
+ D'huma sciencia agreste lh'ensinára,
+ Disse, qual se em tal ponto despertára
+ D'horrendo sonho com pezado grito.
+ O mais que alli foi dito,
+ Vós, montes, o direis, e vós penedos;
+ Qu'em vossos arvoredos anda escrito.
+ SATYRO SEGUNDO.
+ Nem vós nascidas sois de gente humana,
+ Nem foi humano o leite que mamastes,
+ Mas de alguma disforme fera Hyrcana:
+ Lá no Caucaso horrendo vos criastes:
+ Daqui trouxestes a aspereza insana;
+ Daqui os calidos peitos congelastes.
+ Sois Esphinges nos gestos naturais,
+ Que de humanas os rostos só mostrais.
+ Se vós fostes criadas na espessura,
+ Onde não houve cousa que se achasse,
+ Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura,
+ Qu'em seu passado tempo não amasse,
+ Nem a quem a affeição suave e pura
+ Nessa presente fórma não mudasse;
+ Porque não deixareis tambem memoria
+ De vós em namorada e longa historia?
+ Olhae como, na Arcadia soterrando
+ O namorado Alpheo su'ágoa clara,
+ Lá na ardente Sicilia vai buscando
+ Por debaixo do mar a Nympha chara.
+ Assi tambem vereis passar nadando
+ Atys, que Galatêa tanto amára,
+ Por onde do Cyclopea grande mágoa
+ Converteo do mancebo o sangue em ágoa.
+ Virae os olhos, Nymphas, á Erycina
+ Espessura; vereis alli mudar-se
+ Egeria, e em fonte clara e crystallina
+ Por a morte de Numa distillar-se.
+ Olhae que a triste Byblis vos ensina,
+ Com perder-se de todo e transformar-se
+ Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto,
+ Que accrescentarão sempre o verde manto.
+ E s'entre as claras ágoas houve amores,
+ Os penedos tambem forão perdidos.
+ Olhae os dous conformes amadores
+ Lá no monte Ida em pedra convertidos:
+ Lethêa, por cahir em vãos errores
+ De sua formosura procedidos;
+ Oleno, porque a culpa em si tomava,
+ Por escusar a pena a quem amava.
+ Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella,
+ Por quem Iphis no laço poz a vida.
+ Tambem vereis em pedra a Nympha bella,
+ Cuja voz foi por Juno consumida,
+ E, se queixar-se quer de sua estrella,
+ A voz extrema só lhe he concedida.
+ E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste
+ Primeiro ao monte o doce verso agreste!
+ Tamanho amor lhe tinha a branda amiga,
+ Que em inimiga, emfim, se foi tornando:
+ Porque outra Nympha estranha ja o sogiga,
+ Suas magicas hervas vai buscando.
+ Olhae a quanto a crua dor obriga!
+ Por vingar-se, assi irada transformando
+ O foi em pedra. Oh dura confusão!
+ Despois lhe pezaria; mas em vão.
+ Olhae, Nymphas, as árvores alçadas,
+ A cuja sombra andais colhendo flores,
+ Como em seu tempo forão namoradas;
+ Do qu'inda agora o tronco sente as dores.
+ Vereis, entre as de fructo matizadas,
+ Como a côr das amoras he de amores:
+ O sangue dos amantes na verdura
+ Testimunha de Tisbe a sepultura.
+ E lá por a odorifera Sabêa
+ Não vêdes que de lagrimas daquella,
+ Que com seu pae se junta e se recrêa,
+ Arabia s'enriquece, e vive della?
+ Lembrai-vos da verde árvore Penêa,
+ Que foi ja n'outro tempo Nympha bella,
+ E Cyparisso angelico mancebo;
+ Ambos verdes com lagrimas de Phebo.
+ De Phrygia vêde o moço delicado
+ No mais alto arvoredo convertido,
+ Que tantas vezes fere o vento irado;
+ Galardão de seus erros merecido:
+ Pois, da alta Berecynthia sendo amado,
+ Por huma Nympha baixa foi perdido;
+ E a deosa, a quem perdeo do pensamento,
+ Quiz que tambem perdesse o entendimento.
+ O subito furor lhe figurava
+ Que as árvores e os montes se cahião;
+ Ja dos pudicos membros se privava,
+ Que os horrores a tanto o constrangião;
+ Ja indignado no monte se lançava:
+ De sua morte as feras se doião.
+ Dest'arte perdeo Atys na espessura,
+ Despois de tantas perdas, a figura.
+ Lembre-vos quando as gentes celebravão
+ Em Grecia as grandes festas de Liêo,
+ Onde as formosas Nymphas se juntavão,
+ E os sacros moradores do Licêo.
+ Todos em doce somno se occupavão
+ Por o monte, despois que anoiteceo;
+ Mas o deos do Hellesponto não dormia;
+ Que hum novo amor o somno lh'impedia.
+ Mas ella emfim, os braços estendendo,
+ Em ramos se lhe forão transformando;
+ Em raizes os pés se vão torcendo;
+ E o nome Loto só lhe vai ficando.
+ Vêde, Napêas, este caso horrendo,
+ Que vos está de longe ameaçando.
+ Assi tambem daquella, a quem seguia
+ O sacro Pan, a fórma se perdia.
+ Que vos direi de Filis, pois perdida
+ Da saudosa dor com que vivia,
+ Á desesperação emfim trazida
+ Do comprido esperar de dia em dia,
+ Por desatar do corpo a triste vida
+ Atava ao collo a cinta que trazia.
+ Mas o tronco sem fôlha por o monte
+ Rhodope abraça o lento Demophonte.
+ Nas boninas, tambem vereis Jacinto,
+ Porquem Phebo de si se queixa em vão;
+ Vereis o monte Idalio em sangue tinto
+ Do neto de seu pae, da mãe irmão.
+ Chora Venus a dor do moço extinto,
+ Maldiz o ceo e a terra, com razão;
+ A terra, porque logo não se abrio;
+ O ceo, porque tal morte permittio.
+ E tu, constante Clycie, a quem fallece
+ A fé de teus amores enganosos,
+ No louro amante, que de ti s'esquece,
+ S'esquecem os teus olhos saudosos.
+ Nenhum alegre estado permanece;
+ Que são do mundo os gostos mentirosos;
+ E á tua clara luz, por quem suspiras,
+ Ainda agora em herva os olhos víras.
+ Trago-vos estas cousas á lembrança,
+ Porque s'estranhe mais vossa crueza
+ Com ver que a criação e longa usança
+ Vos não perverte e muda a natureza.
+ Dou as lagrimas minhas em fiança,
+ Qu'em tudo quanto está na redondeza,
+ Cousa d'Amor isenta, se attentais,
+ Em quanto vos não virdes, não vejais.
+ Ja disse, que d'Amor sempre tiverão
+ As cousas insensiveis pena e gloria.
+ Vêde as sensiveis como se perdêrão.
+ E dir-vos-hei das aves larga historia:
+ As penas, qu'em su'alma se soffrêrão,
+ Nas azas lhes ficárão por memoria;
+ E aquelle altivo e leve movimento
+ Lhes ficou do voar do pensamento.
+ O doce rouxinol e a andorinha,
+ Donde lhes veio o ir-se transformando,
+ Senão do puro amor que o Thracio tinha,
+ Qu'em poupa ainda a amada vai chamando?
+ Clama sem culpa a misera avezinha,
+ Que n'areia de Phasis habitando,
+ Do rio toma o nome; e quando clama,
+ Cruel á mãe, ao pae injusto chama.
+ Vêde a que engeitou Pallas por fallar,
+ (Que dos amores he maior defeito)
+ E aquella, que succede em seu lugar,
+ Ambas aves; de amor usado effeito;
+ Huma, porque fugia ao deos do mar;
+ Outra, porque tentára o patrio leito:
+ E Scylla, que a seu pae poz em perigo,
+ Só por ser muito amiga do inimigo.
+ E Pico, a quem ficárão inda as côres
+ Da purpura Real, que antes vestia;
+ Esaco, que o seguir de seus amores
+ O trouxe a ver tão cedo o extremo dia:
+ Ou vêde os dous tão firmes amadores,
+ Que amor aves tornou na praia fria.
+ Do Rei dos ventos era genro o triste;
+ Mas contra o fado, emfim, nada resiste.
+ Estava a triste Halcyone, esperando
+ Com longos olhos o marido ausente;
+ Mas os ventos indomitos soprando,
+ Nas ágoas o affogárão tristemente.
+ Em sonhos se lh'está representando;
+ Que o coração preságo nunca mente:
+ Só do bem as suspeitas mentirão,
+ Mas as do mal futuro certas são.
+ Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;
+ Buscando o mar com elles hia e vinha:
+ Quando o corpo sem alma achou na praia.
+ Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha!
+ Ó Nereidas do Egêo, consolai-a,
+ Pois este pio officio vos convinha.
+ Consolai-a; sahi das vossas ágoas;
+ Se consolação ha em grandes mágoas.
+ Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando
+ Das avezinhas mansas e amorosas?
+ Pois tambem teve Amor natural mando
+ Entr'as feras montezes venenosas.
+ O leão e a leoa, como, ou quando
+ Taes formas alcançárão temerosas?
+ Sabe-o da deosa Dindymene o templo,
+ E a que a Adonis o dava por exemplo.
+ Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia;
+ Mas o grão Nilo o diga, pois a adora.
+ Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia
+ Do Pólo Boreal, onde ella mora.
+ O caso d'Acteon tambem diria
+ Em cervo transformado; e melhor fôra
+ Se dos olhos perdêra a vista pura,
+ Que em seus galgos achar a sepultura.
+ Tudo isto Acteon vio na fonte clara,
+ Onde a si d'improviso em cervo vio:
+ Que quem assi dest'arte alli o topára,
+ Que se mudasse em cervo permittio.
+ Mas, como o triste Principe em si achára
+ A desusada fórma, se partio.
+ Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando;
+ E, tendo-o alli presente, o vão buscando.
+ Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava;
+ Que a voz humana ja perdida tinha.
+ Qualquer delles por elle então chamava,
+ E a multidão dos cães contr'elle vinha.
+ Hum cervo acude a ver (qualquer gritava)
+ Acteon, donde estás? acude asinha,
+ Que tardar tanto he este? (repetia)
+ _He este, he este_, o eco respondia.
+ Quantas cousas em vão estou fallando
+ (Oh Napêas esquivas!) sem que veja
+ O peito de diamante hum pouco brando
+ De quem meu damno tanto só deseja.
+ Pois, por mais que de mi me andais tirando,
+ E por mais longa emfim que a vida seja,
+ Nunca em mi se verá tamanha dor,
+ Que Amor a não converta em mais amor.
+ Aqui (formosas Nymphas) vos pintei
+ Todo d'amores hum jardim suave;
+ D'ágoas, de pedras, d'árvores contei,
+ De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave.
+ Se este amor, que no peito aposentei,
+ Que dos contentamentos t[~e]e a chave,
+ Por dita em tempo algum determinasse
+ Que de tão longos damnos vos pezasse,
+ Quanto mais devagar vos contaria
+ De minha larga historia e não alheia?
+ E com quanta mais ágoa regaria,
+ Que o rio, de contente, a branca areia?
+ Novo contentamento me seria
+ Formar de meu cuidado a nova ideia:
+ E vós, gostando deste estado ufano,
+ Zombarieis então de vosso engano.
+ Mas com quem fallo ja? que estou gritando,
+ Pois não ha nos penedos sentimento?
+ Ao vento estou palavras espalhando;
+ A quem as digo, corre mais que o vento.
+ A voz e a vida a dor m'está tirando,
+ E o tempo não me tira o pensamento.
+ Direi, emfim, ás duras esquivanças
+ Que só na morte tenho as esperanças.
+ Aqui, sentido, o Satyro acabou,
+ Com huns soluços que a alma lhe arrancavão.
+ Os montes insensiveis, que abalou,
+ Nas ultimas respostas o ajudavão.
+ Então Phebo nas ágoas se encerrou
+ Co'os animaes que o mundo allumiavão;
+ E co'o luzente gado appareceo
+ A candida pastora por o ceo.
+
+
+ECLOGA VIII.
+
+
+PISCATORIA.
+
+_Sereno._
+
+ Arde por Galatêa branca e loura
+ Sereno pescador pobre, forçado
+ D'huma estrella, que quer á míngoa moura.
+ Os outros pescadores t[~e]e lançado
+ No Tejo as redes: elle só fazia
+ Este queixume ao vento descuidado:
+ Quando virá (formosa Nympha) hum dia,
+ Em que te possa dar a conta estreita
+ Desta doudice triste e vãa porfia?
+ Não vês, que me foge a alma e que m'engeita,
+ Buscando em hum só riso d'essa boca,
+ Nos teus olhos azues mansa colheita?
+ Se ao teu esprito alg[~u]a mágoa toca,
+ Se d'amor fica nelle huma pégada,
+ Que te vai, Galatêa, nesta troca?
+ Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada:
+ Não ta demandarei: dá-me por ella
+ Huma só volta d'olhos descuidada.
+ Se muito te parece, e minha estrella
+ Não consentir ventura tão ditosa,
+ Dou-te as azas do Amor perdidas nella.
+ Que mais te posso dar, Nympha formosa,
+ Inda que o mar d'aljofar me cubríra
+ Toda esta praia leda e graciosa?
+ Amansão-se ondas, quebra o vento a ira:
+ Minha tormenta só nunca socega;
+ O meu peito arde em vão, em vão suspira.
+ Anda no romper d'alva a nevoa cega
+ Sôbre os montes d'Arrabida viçosos,
+ Em quanto o solar raio lhes não chega.
+ Eu, vendo apparecer outros formosos
+ Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão,
+ Se os olhos cegos vi, vejo saudosos.
+ Quantas vezes as ondas se encrespárão
+ Com meus suspiros! quantas com meu pranto
+ As fiz parar de mágoa e me escutárão!
+ Se na fôrça da dor a voz levanto,
+ E ao som do remo, que ágoa vai ferindo,
+ Perante a lua meu cuidado canto;
+ Os maviosos delfins m'estão ouvindo;
+ A noite socegada; o mar callado:
+ Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo.
+ Estranhas, por ventura, o mar cercado
+ Da fraca rede; a barca ao vento solta;
+ E hum pobre pescador aqui lançado?
+ Antes que o sol no ceo cerre huma volta
+ Se póde melhorar minha ventura,
+ Como a outros succede, n'ágoa envolta.
+ Igual preço não he da formosura
+ D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia,
+ Mas hum amor, que para sempre dura.
+ Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia;
+ Verás teu nome na mimosa areia.
+ Nunca sôbre elle o mar com furia saia!
+ Vento algum atégora o não salteia:
+ Tres dias ha que escripto aqui o deixou
+ Amor, e o veda a toda fôrça alheia.
+ Elle com suas mãos proprio ajudou
+ A escolher estas conchas, affirmando
+ Que o sol para ti só as matizou.
+ Hum ramo te colhi de coral brando:
+ Antes que o ar lhe désse, parecia
+ O que de tua boca estou cuidando.
+ Ditoso se o soubesse inda algum dia!
+
+
+ECLOGA IX.
+
+
+PISCATORIA.
+
+_Palemo._
+
+ Despois que o leve barco ao duro remo,
+ Onde menos das ondas se temia,
+ Atou o pescador pobre Palemo;
+ Em quanto as negras redes estendia
+ Seu companheiro Alcão na branca arêa,
+ E Lico as longas cordas envolvia;
+ De cima d'huma rocha, a qual rodêa
+ O mar, quebrando nella de contino,
+ Começou a chamar por Galatêa.
+ Deixa o molle licor e crystallino,
+ (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja
+ Enxugar teu cabello d'ouro fino.
+ Inda que t[~e]e de ti tão grande inveja,
+ Não temas que te queime o rosto brando:
+ Basta para abrandar-se que te veja.
+ Não te detenhas mais, vem ja cortando
+ Com teu candido peito as brancas ondas,
+ Escumas menos brancas levantando.
+ Dar-te-hei (com condição que não t'escondas
+ De mi lá nessas humidas moradas,
+ E que algum'hora, branda me respondas)
+ Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas,
+ Todas d'huma feição; não d'huma côr,
+ Pois dellas são azues, dellas rosadas.
+ Indaque seja pobre pescador,
+ Não sei se em desprezar-me muito acertas,
+ Pois rico do amor teu me fez Amor.
+ Para ti n'outras praias mais desertas
+ Irei pescar por entre pedras duras,
+ Que sempre verde musgo t[~e]e cobertas,
+ As pardas ostras, onde gottas puras
+ De fresco orvalho, dentro endurecidas,
+ Não podem da cobiça estar seguras.
+ Porque deixas de vir? porque duvídas?
+ Por ventura d'algum meu companheiro?
+ Inda as redes ao sol t[~e]e estendidas.
+ Toda a noite pescárão, e primeiro
+ Querem dormir a sesta nesta praia,
+ Que o barco polo mar levem ligeiro.
+ Eu, vigiando aqui como atalaia,
+ Te chamarei, até que de cansado
+ Hum dia desta rocha abaixo caia,
+ Deixando este lugar tão infamado
+ Com minha morte, que dos marinheiros
+ Com o dedo de lá será mostrado.
+ Dirão os naturaes e os estrangeiros:
+ Alli morreo Palemo. Ai triste historia!
+ Guardae a nao de alli, ventos ligeiros.
+ Antes que tal succeda, vê que gloria
+ Alcanças com deixar aos navegantes
+ Da tua ingratidão esta memoria.
+ Da nossa differença não te espantes:
+ Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso,
+ Qual eu agora sou, tal era d'antes.
+ Tambem eu entre as hervas achar posso
+ Aquella, a quem o ceo deo tal virtude,
+ Que muda n'outro ser este ser nosso.
+ Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude,
+ Inda que vá a morar lá nessas ágoas,
+ Não temas que a mudança em mi o mude.
+ Serão as vivas ondas vivas frágoas,
+ Em que estarei ardendo noite e dia,
+ Se não tiveres dó de tantas mágoas.
+ As horas naturaes da pescaria
+ Não vês que vão passando? Como as passas?
+ Quem deste passatempo te desvia?
+ Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças
+ Dar em vão tantos gritos: vem; iremos
+ Ambos a levantar as verdes naças.
+ Ambos os anzoes curvos cobriremos
+ De mentirosas iscas, com que os peixes
+ A todo prazer nosso prenderemos.
+ Assi d'Amor cruel nunca te queixes,
+ E dessa formosura as mais formosas
+ Nymphas do mar azul vencidas deixes;
+ Que venhas (pois por ti com saudosas
+ Lagrimas vou gastando a vida e alma)
+ A tirar-me esperanças duvidosas.
+ A praia está callada, o mar em calma;
+ Por cima desta rocha brandamente
+ Zephyro respirando a desencalma.
+ Aqui não sinto cousa certamente
+ Porque deixes de vir, como sohías,
+ Senão, que não es tu disso contente.
+ Se desgostas das grossas pescarias,
+ Marisco appetitoso aqui não falta,
+ Ja sejão luas cheias, ja vazias.
+ Polos pés desta rocha dura e alta
+ Irei eu despegando huns como pés
+ D'hum pequeno animal, que nella salta.
+ E vivos te darei (se delles es
+ Amiga) mil cangrejos vagarosos,
+ Que verás ir andando de revés.
+ Não te darei ouriços espinhosos,
+ Porque te quero tanto, que receio
+ Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos.
+ Faz d'aqui perto o mar hum largo seio,
+ Onde de ameijoas lisas, sem trabalho,
+ Podemos apanhar hum cesto cheio.
+ Mas além de tudo isto hum crespo galho
+ De vermelho coral te darei logo,
+ Que por dita arrastou o meu tresmalho.
+ Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo;
+ Que nem tu a meus rogos tens respeito,
+ Nem eu, por mais que grite, desaffógo.
+ Hum coração em lagrimas desfeito
+ Como ja não te abranda? quem encerra
+ Crueza tal em tão formoso peito?
+ Não reina Amor no mar, como na terra?
+ Bem sabes que mil vezes ja venceo
+ A Neptuno teu Rei em clara guerra.
+ Sua formosa mãe onde nasceo,
+ Senão no proprio mar em que te banhas?
+ Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo?
+ Se das pedras nascesses nas montanhas,
+ Se com leite de tigres te criáras,
+ Mais duras não tiveras as entranhas.
+ Apparecêras tu, e então tornáras
+ Logo a esconder-te, logo, se quizeras
+ Nas ondas, que de ti me são avaras.
+ Com h[~u]a mostra só que de ti deras,
+ A vida, que me foge em não te vendo,
+ Co'os teus formosos olhos detiveras.
+ Então víras os meus, donde correndo
+ De lagrimas se vem dous largos rios,
+ Que o mar tambem em si vai recolhendo.
+ Ah nescio pescador! que desvarios
+ Me deixo aqui dizer! a quem os digo!
+ A surdas ondas ja, ja a ventos frios.
+ Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo
+ O barco vejo: ai! ei-lo combatido.
+ Ellas e elles o levão ja comsigo.
+ Olhos, que lá me tendes o sentido,
+ A culpa he vossa só, que me não vêdes.
+ Mas, pois o pescador anda perdido,
+ Perca-se o barco seu, percão-se as redes.
+
+
+ECLOGA X.
+
+
+PISCATORIA.
+
+_Meliso._
+
+ Encheo do mar azul a branca praia
+ Meliso pescador de mil querellas;
+ Meliso, que por Lilia arde e desmaia.
+ Despois que á luz da lua e das estrellas,
+ Sôbre dura fatexa o barco pôsto,
+ As redes recolheo, remos e velas:
+ Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto
+ Te move a me negar, vendo qual ando,
+ Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto?
+ Se tu queres que pene desejando,
+ Se queres que no mar em fogo viva;
+ Ardendo sempre estê, sempre penando.
+ Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva)
+ Que não merece ser tão mal tratada
+ Hum'alma desses olhos tão captiva.
+ Vives dos meus cuidados descuidada:
+ Coitado de quem traz a duvidosa
+ Vida no mar e terra aventurada!
+ Bem podes com razão ser piedosa
+ Com quem não quer mor bem, que bem quererte,
+ Não sendo tão cruel como es formosa.
+ Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te
+ A meus cansados olhos, que de tantas
+ Lagrimas são movidos, sem mover-te.
+ Se tu me vences, e se tu m'encantas
+ Com tua doce falla, doce riso,
+ Porque foges de mi? porque te espantas?
+ Lembre-te a formosura de Narciso,
+ E qual pago lhe deo seu desamor:
+ Ólha que com amor disto te aviso.
+ Mas quando essa crueza tanta for,
+ Que mereça do ceo novo castigo,
+ Qual herva será digna de tal flor?
+ Amor que me persegue, Amor que sigo,
+ Me faz d'hum grave mal andar temendo;
+ D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo.
+ Quanto mais ledo ja te estive vendo
+ Aqui as mansas ondas esperando,
+ Que por chegar a ti vinhão correndo,
+ E da molhada areia despegando
+ Com a candida mão roxas conchinhas,
+ A fórma do teu pé nella deixando?
+ Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas,
+ Muitas te trago aqui, postoque temo
+ Que menos o terás por serem minhas.
+ Hum temor tal me chega a tal extremo,
+ Que, vencido d'hum triste esquecimento,
+ No mar me cahe da mão o duro remo.
+ E quando a branca vela sólto ao vento,
+ Tão descuidado vou do fiel leme,
+ Que me leva a perder meu pouco tento.
+ Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
+ Os seus maiores riscos não receia,
+ Os teus que sente mais, muito mais teme.
+ Despois que te não vi, (não sei que creia
+ Desta tardança tua e morte minha)
+ Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
+ O tempo, que nos gostos passa asinha,
+ Detem-se neste mal da saudade,
+ Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
+ Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,
+ Que por te contentar tudo despreza,
+ Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
+ Se pretendes amor, ja tens certeza
+ Que não podes ser nunca mais amada
+ Dos que vencidos traz tua belleza.
+ Se por ventura estás affeiçoada
+ A gentil parecer, a bom engenho,
+ A ninguem nestas partes devo nada.
+ Se fazes caso d'honra, ólha que venho
+ De geração d'honrados pescadores;
+ Se de riqueza, barco e redes tenho.
+ Por erros julgarás estes louvores;
+ E oxalá não os julgues por doudice!
+ Mas quem siso quer ter não tenha amores.
+ E mais tudo foi pouco quanto disse,
+ Pondo os olhos no muito que meu fado
+ Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.
+ Aconteceo-me hum caso desusado,
+ (Inda que d'huma cousa n'outra salto)
+ Digno, por ser de amor, de ser contado.
+ Pescando hontem á tarde no mar alto,
+ Suspenso nessa rara formosura,
+ A quem com mil lembranças nunca falto,
+ Comecei a cantar: Lilia, mais dura
+ Que a mais inculta rocha rodeada
+ Do mar, de cujo encontro está segura;
+ Mais alva que jasmins, e mais córada
+ Que purpureas serejas polo Maio;
+ Mais loura que manhãa desentrançada;
+ Não vês... dizer queria que desmaio,
+ Quando (cousa que mal me será crida)
+ No mar, vencido d'hum, do barco caio?
+ Alli tivera fim a triste vida,
+ Se d'hum brando delfim, que me escuitava,
+ Não fôra, por ser tua, soccorrida.
+ Parece que tambem vencido estava
+ Do mal, de que me via andar vencido,
+ Quem em tamanho risco m'ajudava.
+ Trouxe-me sôbre si adormecido,
+ Nadando ao som das ondas mansamente,
+ Até que me sentio em meu sentido.
+ Livre deste mortal, bravo accidente,
+ Tal foi o espanto meu, tal meu temor,
+ Que d'outro me livrei escaçamente.
+ Mas logo o amoroso nadador
+ Me poz junto do barco, que tão perto
+ Esteve de ficar sem pescador.
+ O sol era de todo ja coberto,
+ Quando eu, entrando nelle, sahi fóra
+ Do perigo, onde tive o fim tão certo.
+ Porém outro maior me cansa agora,
+ De que mal sahirei, se te não vir
+ Amanhecer aqui co'a nova aurora.
+ Não póde ella tardar em descobrir
+ As suas louras tranças dasatadas,
+ Das quaes as tuas bem se podem rir.
+ Pois por cima das ondas, acordadas,
+ As Halcyoneas ouço lamentar-se,
+ Do seu antigo damno inda lembradas.
+ E sinto o fresco orvalho derramar-se
+ Mais congelado e frio; e Venus bella
+ Polo Oriente ja vejo levantar-se.
+ Bem podes, Lilia, competir com ella,
+ E com Pallas e Juno em gentileza;
+ Em amor não, pois elle nasceo della:
+ Desterrou-o de ti tua aspereza,
+ Que desterra de mi prazer e vida,
+ Deixando em seu lugar mágoa e tristeza.
+ No silencio da noite, que convida
+ A descanso commum, tanto me cança,
+ Que não sei se remedio ou morte pida.
+ Se tu quizesses dar-me huma esperança
+ De te servir de mi ou tarde, ou cedo,
+ Nunca me negaria o mar bonança.
+ Polas inchadas ondas, que põe medo,
+ Eu só, sem mais ajuda, levaria
+ Sempre á fôrça de braço o barco quedo.
+ Tão seguro por ellas andaria,
+ Como polo seu campo o lavrador
+ No mais quieto, claro e bello dia.
+ Ólha que não ha destro pescador,
+ Que mais manhoso as redes desencolha,
+ Nem os tortos anzoes isque melhor.
+ Os peixes deixarei em tua escolha:
+ Aquelles de que fores mais amiga,
+ Nunca te faltarão de fôlha a fôlha.
+ Não sei, Lilia formosa, que mais diga,
+ Que mova amor em ti, que mova mágoa;
+ Sei que mágoa, e que amor a mais obriga.
+ Mas antes que o sol dê naquella frágoa,
+ Onde meus ais dilata a triste Ecco,
+ Vou-me segurar mais o barco na ágoa,
+ Porque de baixa mar não fique em sêcco.
+
+
+ECLOGA XI.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ANZINO e LIMIANO.
+
+ Parece-me, pastor, se mal não vejo,
+ Que ja te vi mais ledo andar outr'hora
+ Nos largos campos do famoso Tejo.
+ LIMIANO.
+ Podia ser; que muito tempo fóra
+ Andei desta ribeira, patria minha,
+ Onde triste me vez andar agora.
+ Tinha lá para mi, que a vida tinha
+ Mais socegada cá e mais segura,
+ Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha.
+ Foi d'outro parecer minha ventura:
+ Discordias sós achei, e achei dureza,
+ Em lugar de socêgo, e de brandura.
+ Achei as boas leis da natureza
+ Vencidas do interesse; e a gente cega,
+ Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.
+ Dizem que quando o mar bonança nega,
+ Correndo vai aquella não mor prigo,
+ Que á desejada terra mais se chega.
+ Assi m'aconteceo a mi comigo;
+ Seguro sempre ao longe, sempre ledo;
+ Triste ao perto, e tratado como imigo.
+ ANZINO.
+ Sempre (podes-me crer este segredo)
+ Desejei de te ver; mas com desgôsto,
+ Inda te não quizera ver tão cedo.
+ Prestando para cousas de teu gôsto,
+ Como camaleão não mudo côres;
+ Qual he meu coração, tal he meu rosto.
+ LIMIANO.
+ Não são logo assi, não, outros pastores,
+ Que de promessas vãas te fazem rico,
+ E nunca fructo dão: tudo são flores.
+ Mas desejo saber com quem pratíco,
+ Porque não caia em falta, e porque entenda
+ A quem tamanho amor devendo fico.
+ ANZINO.
+ Antes que tempo nisso se dispenda,
+ Busquemos hum lugar mais fresco e frio,
+ Que da calma, que cahe, bem nos defenda.
+ LIMIANO.
+ Vamos alli, que alli bosque sombrio
+ Nos dara fresco abrigo, assento o prado,
+ Formosa vista o valle, o monte, o rio:
+ O rio, que verás tão socegado,
+ Que te parecerá que se arrepende
+ De levar ágoa doce ao mar salgado.
+ Nem cabra, nem ovelha alli offende
+ Herva, folha, nem flor, ou ferro duro:
+ A planta polo ar livre se estende.
+ Verás cahindo em gottas crystal puro
+ No vão d'huma caverna carcomida,
+ Por entre o musgo molle, verde-escuro.
+ ANZINO.
+ Quem traz á saudade a alma rendida,
+ A saudade busca, onde descansa;
+ Maso descanso della encurta a vida.
+ Com tudo, quem do ceo na terra alcansa
+ Poder gozar-se desta liberdade,
+ Que mais deseja ter? que mais o cansa?
+ Affirmo-te de mi esta verdade,
+ Que muitos valles vi, muitas ribeiras;
+ Mas esta me dobrou a saudade.
+ Oh que viçosas murtas! que oliveiras!
+ Que freixos! como estão d'hera cingidos!
+ Quantas voltas lhes dá de mil maneiras!
+ Os lirios junto d'ágoa bem nascidos
+ Quanta graça que t[~e]e entre as boninas,
+ Sem ordem, com mais graça, entremetidos!
+ Vem encrespando as ágoas crystallinas
+ A branda viração; a fôlha treme;
+ O movimento apenas determinas.
+ A rôla seu amor suspira e geme;
+ Escondida se queixa Philomella:
+ Parece que do campo inda se teme.
+ Espanta a quem se atreve, ver aquella
+ Rocha por cima d'ágoa pendurada
+ Como ja se não deixa cahir nella.
+ Ó ribeira do Lima, celebrada
+ De mil brandos espritos sempre sejas,
+ Sempre de brandas Nymphas povoada.
+ Fujão longe de ti duras invejas;
+ Peçonha de pastores, morte sua:
+ Tudo sintas amor, tudo amor vejas.
+ De dia o claro sol, de noite a lua,
+ Em teu favor inspirem de maneira,
+ Que sempre fertil seja a praia tua.
+ Tornando, emfim, á prática primeira,
+ Por dar-te, como queres, de mi conta,
+ Larga ta quero dar e verdadeira.
+ Apartar-te do gado leva em conta;
+ Que, pois com elle fica o pegureiro,
+ Que te detenha hum pouco, pouco monta.
+ O meu nome he Anzino: fui vaqueiro
+ Na grã serra da Estrella, que não tive;
+ Não sei se natural, ou se estrangeiro.
+ Hum pastor me criou, que ja não vive;
+ De todos por seu filho era julgado;
+ E eu tambem neste engano hum tempo estive.
+ Até que delle soube ser achado
+ Em huma anzina envolto em pobres panos;
+ E daqui veio, que Anzino fui chamado.
+ Neste meu desengano outros enganos
+ Fundou de novo a pouca dita minha,
+ Com que o vim a servir mais de sete annos.
+ Tinha muito de seu, e mais não tinha
+ De filhos, que huma filha bem formosa,
+ Á qual por morte delle tudo vinha.
+ Conversação doméstica e damnosa,
+ Na livre formosura e tenra idade,
+ Em ambos accendeu chamma amorosa.
+ Como ella de mi soube esta verdade,
+ Com outro amor, com outros exercicios,
+ Nella ganhei de novo outra vontade.
+ Amor mestre me fez de mil officios
+ Para meio do fim que desejava;
+ E delle sinal davão mil indicios.
+ Tecia alvos cestinhos, quando andava
+ Com as vaccas no prado: á noite hum cheio
+ De fructa, outro de flores lhe levava.
+ Nas mangas muitas vezes e no seio
+ As nozes lhe levei com as castanhas,
+ Quer do souto do pae, quer d'outro alheio.
+ Nos intricados bosques, nas montanhas,
+ Por seu amor as feras perseguia,
+ Fôrças agora usando, agora manhas.
+ Vivos os mansos cervos lhe trazia;
+ Vivas medrosas lebres fugitivas:
+ Ligeireza de pés não lhes valia.
+ Mas, se lhe dava as mansas feras vivas,
+ Mortas lhe dava as que por natureza,
+ Sem domar-se, são bravas, ou esquivas.
+ Certo dia achei eu n'huma aspereza,
+ Sem mãe, hum cervo branco e pequenino;
+ Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza.
+ Ou ja criação seja, ou ja destino,
+ Tanto que não o vê, geme e suspira.
+ Como menos fara o triste Anzino?
+ Tangia mal na frauta, mal na lira;
+ Despois tão bem tangia, qu'era espanto
+ A quem antes d'amor tanger m'ouvíra.
+ Ouvia celebrar sempre em meu canto
+ Ulina a sua rara formosura:
+ (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.)
+ Contava-lhe meus males por figura:
+ Ficava eu, de medroso, frio e mudo;
+ Ficava ella suspensa; a historia escura.
+ Assi com tal temor, com tal estudo,
+ Amor fui grangeando longamente,
+ Á conta deste amor perdendo tudo.
+ Ella, dos meus desejos innocente,
+ O mesmo amor me tinha, tanto, digo;
+ Que no ser era todo differente.
+ Praticava seus gostos só comigo;
+ Seus desgostos tambem, seus pensamentos,
+ Com rara graça e com saber antigo.
+ Outras vezes, confusa nos intentos,
+ Os modos me notava, e me dizia:
+ Entre irmãos de que servem comprimentos?
+ Eu quizera, Senhora, (respondia)
+ Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo,
+ Não com menos amor te serviria.
+ Tornou-me: Essa resposta não entendo:
+ O que não quiz o ceo, queres que seja?
+ Que castellos no vento andas fazendo?
+ Se me queres ver leda, não te veja
+ Soltar essas palavras ociosas:
+ Materia mais honesta nos sobeja.
+ Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas
+ Naquellas proprias suas, sôbre a neve
+ Das suas faces mais que o sol formosas.
+ Destas quebras comigo algumas teve;
+ Cujas fôrças amor quebrava logo
+ N'outra conversação mais branda e leve.
+ Cresceo desta maneira o vivo fogo,
+ Que ardendo dentro na alma encurta a vida;
+ Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo.
+ Mas ella neste tempo era pedida
+ De muitos a seu pae em casamento;
+ Nova dor para mi, mortal ferida!
+ Elle lhe nomeava mais de cento:
+ Delles paternamente lhe rogava
+ Hum escolhesse a seu contentamento.
+ Com mil razões fingidas s'escusava,
+ Sendo só a razão, não ser contente;
+ Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava.
+ Estando nós por huma sesta ardente
+ Á sombra d'huns madronhos repousando,
+ Affastados da casa e mais da gente,
+ Ja d'huma e d'outra cousa praticando;
+ Soltou com hum suspiro estas palabras:
+ Desde hontem para cá em mi não ando.
+ Logo que nosso pae tornou das labras,
+ Me disse que assentára de casar-me
+ Com Tityro, pastor de muitas cabras.
+ Que não buscasse causas d'escusar-me,
+ Como por muitas vezes ja fizera,
+ Pois tinha muitas mais de contentar-me.
+ Que afóra esta tenção, que a sua era,
+ O mesmo seus parentes lhe dizião,
+ A quem de seus intentos conta dera.
+ As ágoas, que dos olhos me corrião,
+ Em quanto elle me disse o que te digo,
+ Por mi, que fiquei muda, respondião.
+ Com seu chôro abrandou ao pae amigo;
+ Qu'emfim, deixando-a menos magoada,
+ Lhe disse que fallasse isto comigo.
+ Assi me disse; e que determinada
+ Estava a qualquer mal que lhe viesse.
+ Antes que ser com Tityro casada.
+ Que por mais de mil cabras que tivesse,
+ Jamais esta vontade mudaria;
+ Que buscava saber, não interesse.
+ E que de melhor mente casaria
+ Com hum qualquer pastor, pobre de gado,
+ Se nelle as partes visse, que em mi via.
+ Por extremo de mi lhe foi louvado
+ O pensamento seu; e sem detença
+ Tal resposta lhe dei acautelado:
+ Se a dar meu parecer me dás licença,
+ Hum pastor te darei de qualidade,
+ Que em nada de mi tenha differença;
+ Nem de menos saber, nem mais idade;
+ Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto:
+ Da fazenda não sei a quantidade.
+ Se esse me fazes bom, daqui protesto
+ De não receber outro por marido:
+ Me respondia com sembrante honesto.
+ Pois sabe (respondi) que ja admittido
+ Me tens com gôsto teu por teu esposo;
+ Que com dar-te-me dou o promettido.
+ Não pude dizer mais, de vergonhoso,
+ Nem ella me deixou com ouvir tal,
+ Suspeitando de mi amor vicioso.
+ Logo me respondeo: Ah desleal!
+ Ah deshonesto irmão! isso pretendes?
+ Mas não irmão, imigo capital.
+ O ceo, que com injusto amor offendes,
+ Tome, cruel, de ti justa vingança,
+ Antes que de tamanho error t'emendes.
+ Andavas-me enganando na esperança
+ Com esses falsos e indevidos meios
+ Ao sangue nosso e minha confiança?
+ Fizeste verdadeiros os receios,
+ A que confusamente me levavas
+ De sombras enganosas com rodeios.
+ Desejo no teu peito agasalhavas
+ Tão torpe, tão infame, tão alheio
+ Do puro amor, a que obrigado estavas?
+ Não te desculpes, não; que ja não creio
+ Lagrimas, nem palavras, nem desculpas
+ De quem imaginou caso tão feio.
+ Timido respondi: De que me culpas?
+ Se ouvido me não dás, não tens razão;
+ Acaba de me ouvir o fim das culpas.
+ T[~e]e-me, Ulina, por teu, não por irmão:
+ Se me não queres crer esta verdade,
+ De teu pae saberás se minto, ou não.
+ Por filho me criou: a flor da idade
+ Gastei em o servir por teu respeito:
+ Ólha o que te merece esta vontade.
+ Se com ser isto assi tenho êrro feito
+ Em grangear-te; que a ti só desejo;
+ Eis este ferro aqui, eis este peito.
+ Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo,
+ Pondo os olhos no chão, formosa e branda;
+ E cuido qu'inda assi nos meus a vejo.
+ Disse-me: Em que revoltas o amor anda!
+ No bem, como no mal, tambem me enleia:
+ Inda agora o senti, ja reina e manda.
+ Como queres, Anzino, qu'eu te creia
+ Cousa que nem sonhada foi tégora?
+ Não sabes de quem ama, o que receia?
+ Fallarei com meu pae: fica-t'embora:
+ No desengano seu teu bem consiste;
+ Da palavra que dei não estou fóra.
+ Com isto me deixou alegre e triste.
+ O comêço ja ouviste de meu dano,
+ Amigo Limiano: o fim amargo,
+ Em que não serei largo, escuita agora.
+ Fulgencia, outra pastora, que vizinha
+ Era d'amada minha e grande amiga,
+ (Não sei como isto diga que não moura)
+ Pastora branca e loura, que na serra
+ Era a segunda guerra dos pastores,
+ Por mal dos meus amores me quiz bem.
+ Fundava-se porém em casamento;
+ E deste fundamento lhe nascia,
+ Que, como me não via, o valle, o monte,
+ O bosque, o rio, a fonte rodeava.
+ Em busca minha andava aquella sesta;
+ Entrou pola floresta, onde nos vio;
+ E tudo nos ouvio quanto fallámos,
+ Entre huns espessos ramos escondida.
+ Cruelmente ferida dos ciumes,
+ Foi-se a fazer queixumes (descobrindo
+ Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina.
+ Eis logo desatina o triste velho;
+ Eis que sem mais conselho a filha entrega,
+ Que com chôro se nega e com palabras,
+ Ao simple guarda cabras, por esposa.
+ Ah hora desditosa! ah sorte dura!
+ Daquella formosura desusada,
+ De tantos desejada, e de mi tanto
+ Servida com espanto e puro amor,
+ Quizeste, por mais dor, enriquecer
+ Quem não sabe entender o preço della?
+ Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste,
+ Como te não abriste; e no teu centro
+ Me não cerraste dentro, estando vivo,
+ Porque mal tão esquivo não sentíra?
+ Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido!
+ Para me ver perdido me criaste?
+ Porque me não deixaste no deserto?
+ Menos crueza, certo, então usáras,
+ Inda que me deixáras (não te aggraves)
+ Ás cruas feras e aves da montanha.
+ Não vês que o ceo estranha isso que tratas?
+ Não vês que a ti te matas cobiçoso?
+ Na porta o novo esposo tropeçou;
+ Na casa não entrou co'o pé direito:
+ Gritou sobolo teito a noite inteira
+ A ave, qu'he mensageira de fins tristes.
+ O mesmo vós sentistes, cães da aldeia,
+ Quando por má estreia, juntos todos,
+ Com differentes modos huiviastes.
+ Serranas, qu'esperastes nestas vodas
+ Cantar alegres todas Hymeneos,
+ Dos vossos alvos seios, alvas flores,
+ Em lugar dos licores mais custosos,
+ Por cima dos esposos derramando;
+ Ou vendo estar bailando, estando quedas,
+ Ao som das gaitas ledas no terreiro
+ O moço tão ligeiro á maravilha,
+ Que quasi o pé não trilha o junco mole;
+ Qual será que console a triste amiga,
+ A quem a fôrça obriga do pae duro,
+ A quem o Amor puro obriga tanto,
+ Que n'hum contino pranto se consume?
+ Assi do grande cume da esperança
+ Com subita mudança derribado,
+ Me poz em tal estado a triste nova,
+ Como sabe por prova quem bem ama.
+ Levou a leve fama a minha dor
+ A Sincero pastor, meu grande amigo,
+ Que com rogos comsigo me levou,
+ Do monte, onde me achou, ja noite escura,
+ Chorando a desventura em que me via.
+ As vaccas, vindo o dia, derramadas,
+ De mi desamparadas, vem bramando,
+ Sinal n'aldeia dando em seu bramido
+ De qu'era ja perdido o pastor seu.
+ Tamanha pena deo á bella Ulina
+ (Bella, porém mofina) a pena minha,
+ Sôbre quantas ja tinha no seu peito,
+ Que mais do triste leito não s'ergueo.
+ Seu pae adoeceo tambem de nojo:
+ Da morte foi despojo ao dia quinto.
+ A dor que daqui sinto he sem medida.
+ Pois m'apartou da vida, a vida acabe,
+ Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa.
+ Fulgencia, que foi causa destes males,
+ Des que montes e valles descobrio,
+ Despois que me não vio em toda a serra,
+ Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais,
+ Que della nunca mais novas souberão.
+ Emfim, tal fim tiverão meus amores.
+ Chorárão os pastores juntamente
+ D'Ulina descontente a triste sorte,
+ Do pae a breve morte, e de Fulgencia
+ A vingadoura ausencia de seu êrro;
+ De mi este destêrro em que me pôs.
+ Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes,
+ Quando de vossa luz, sem a do dia,
+ Por terras tão estranhas vos partistes.
+ Cuido que meia noite então seria;
+ Cantando os gallos ja na triste aldeia,
+ Chorava só quem della se partia.
+ Casa de meus suspiros sempre cheia,
+ (Disse eu, quando passei pela de Ulina)
+ Tal fructo colhe quem amor semeia!
+ Fortuna, a mi cruel, sempre benina
+ Em tudo seja áquella, que em ti mora,
+ Indaqu'em outros braços se reclina.
+ Fica-te aqui, minha alma, fica embora,
+ Que, pois assi o quiz fado inimigo,
+ Jamais te não verei dia nem hora.
+ Dalli nos ricos campos dei comigo,
+ Que das ágoas do Tejo são regados;
+ Onde te vi mais ledo, como digo.
+ Por ver se posso agora a meus cuidados
+ Achar algum repouso, algum socêgo,
+ Atravessando vou montes e prados.
+ Passei as claras ágoas do Mondego,
+ Das Lusitanas Musas charo ninho;
+ As do Douro despois em turvo pégo.
+ Daqui continuando meu caminho,
+ Espero ver a casa aos ceos acceita,
+ Na terra que da nossa aparta o Minho.
+ Onde vou visitar na urna estreita
+ Os santos ossos do Varão divino,
+ Que pretendeo do Mestre o mão direita.
+ Assi, d'hum lugar n'outro de contino,
+ O bem que ja cantei, chorando venho;
+ Tornei-me de vaqueiro, peregrino:
+ Tal hábito me vês, tal vida tenho.
+ LIMIANO.
+ Anzino, he breve o dia
+ Para poder contar
+ O que sinto de tua desventura.
+ E sei bem qu'erraria,
+ Se quizesse louvar
+ O grave estylo teu, tua brandura.
+ Aquella formosura,
+ Por quem alegre fôras;
+ Que tu ledo cantaste,
+ E que despois choraste
+ Tão triste, qu'ind'agora triste choras;
+ Vivendo eterna nella,
+ Será mágoa commum, e louvor della.
+ As mágoas deixo enfim;
+ Tambem louvores deixo,
+ Por grandes ellas, elles por pequenos.
+ Tu, por amor de mim,
+ (Dir-te-hei de que me queixo)
+ Repousa hoje comigo, quando menos:
+ Assi vejas serenos
+ Esses teus tristes lumes.
+ Abranda a dura mágoa,
+ Que tira fontes de ágoa
+ Do fogo em que chorando te consumes;
+ Dar-te-hei conta mais larga
+ Da vida que aqui passo tão amarga.
+ E mais saber desejo
+ Se a fama nos engana,
+ Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos,
+ Com todos os do Tejo,
+ E com fato e cabana,
+ Reside ja nos campos Africanos;
+ Onde mil soberanos
+ Triumphos, delle dinos,
+ Lh'ordena a fatal sorte,
+ Com grande estrago e morte
+ Dos brutos mal nascidos Sarracinos,
+ Que de si despejados
+ Os curraes deixão ja cheios de gados.
+ Que sendo assi, te digo
+ Que não espero mais
+ Nesta para mi sempre ingrata terra.
+ Quem traz guerra comsigo
+ Entre seus naturais,
+ Não deve d'estranhar estranha guerra.
+ Sem mi de serra a serra
+ (O ceo assi o queira)
+ Logrem meus inimigos
+ Os valles e pacigos
+ Desta, donde nasci, fresca ribeira;
+ Na qual (se não m'engano)
+ Inda será chorado Limiano.
+ ANZINO.
+ Limiano, ja bem tenho entendido
+ Quanto sentes meu mal; mas eu te digo
+ Que o teu mal he de mi menos sentido.
+ Ácerca de ficar hoje comtigo,
+ Farei pois (ja qu'assi nos detivemos)
+ Tudo o que tu quizeres, como amigo.
+ E, pois o dia ja passado temos,
+ Vamos-nos mais chegando para o gado;
+ E lá nas outras cousas fallaremos.
+ Todavia de funda e de cajado
+ Te vai apercebendo a som de guerra;
+ Que não foi tal pastor cá do ceo dado,
+ Para não dar ao ceo tão larga terra.
+
+
+ECLOGA XII.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+DELIO, ALCIDO, GALASIO.
+
+ DELIO.
+ Agora, Alcido, em quanto o nosso gado
+ Pasce diante nós manso e seguro,
+ Sentemos-nos aqui neste abrigado.
+ Logremos este sol sereno e puro,
+ Que livre se nos dá, antes que venha
+ A noite fria com seu manto escuro.
+ O rico com seu ouro lá se avenha;
+ Não se farta a cobiça co'a riqueza:
+ Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha.
+ Com pouco se contenta a natureza.
+ Quem isto bem olhasse, certifico
+ Que não fugisse tanto da pobreza.
+ O sol tambem m'aquenta, como ao rico;
+ A fonte ágoa me dá, fructos a terra:
+ Com pouco mantimento farto fico.
+ Ah! que a má vaidade nos faz guerra!
+ (Para que gasto tempo em mais palabras?)
+ Os olhos da razão esta nos cerra.
+ Alcido, tens ovelhas, e tens cabras,
+ De que tiras da lãa, tiras do leite;
+ E não te faltão campos em que labras.
+ Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te
+ De fallar claro e sem lisongerias:
+ Não hajas medo tu, qu'eu as affeite)
+ Tu cantavas amor, amor tangias;
+ Faltava a tua frauta; agora he muda:
+ Que mal te mudou tanto em poucos dias?
+ ALCIDO.
+ Muda-se a idade, Delio; e se se muda
+ Com ella a condição, nada m'espanto;
+ O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda.
+ Se ja cantei amor, se amor não canto,
+ Culpas do tempo são, que vai mudando
+ O meu cantar alegre em triste pranto.
+ O tempo, que tão leve vai voando,
+ Delio, não torna mais; e assi fugindo,
+ Mil claros desenganos nos vai dando.
+ Pouco a pouco se veio descobrindo
+ O mal d'huma esperança vãa e incerta,
+ Que me deixou chorando, e foi-se rindo.
+ Quem nasce sem ventura, ou quem acerta
+ De fazer fundamento em peito alheio,
+ De mil contas que faz nenhuma he certa.
+ DELIO.
+ Pois se isso entendes tu, donde te veio
+ Sentir tão de verdade as sem-razões,
+ Não sendo d'outra cousa o mundo cheio?
+ ALCIDO.
+ Não queres tu que sintão corações
+ Obrigados com dor a sentimento,
+ Vendo a razão vencida d'affeições?
+ DELIO.
+ Emfim, todas as cousas querem tento:
+ Encobre a dor, e guarda-te d'extremos;
+ Que sempre trazem arrependimento.
+ Ao nosso doce canto nos tornemos:
+ Das nossas Nymphas, bellas inimigas,
+ Crueza e formosura celebremos.
+ ALCIDO.
+ Como cantarei eu novas cantigas
+ Em terra tão esteril, cheia d'ira,
+ Que nega flores, e que nega espigas?
+ Pendurei n'hum salgeiro a minha lira:
+ Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mágoa:
+ Em lugar de tanger, geme e suspira.
+ A Amarilia pintei, pintada trago-a
+ Aqui neste meu seio, e tambem chora:
+ Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa.
+ Mas vejo vir Galasio.
+ DELIO.
+ Venha embora.
+ Galasio, queres tu cantar comigo?
+ GALASIO.
+ Eu nunca me roguei: menos agora.
+ DELIO.
+ Cantaremos d'Amor cruel imigo,
+ Ou brando e amoroso, em razão pôsto,
+ Tyranno e cego, e cego até comsigo?
+ GALASIO.
+ Cada qual cante do que for seu gôsto;
+ Quer mimos, quer rigores d'Amor fero;
+ Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto.
+ ALCIDO.
+ Em quanto vós cantais, recolher quero
+ O gado; que são horas de ordenhar:
+ Á noite na malhada vos espero.
+ GALASIO.
+ Isso não: has d'ouvir para julgar
+ Qual de nós melhor canta e melhor sente.
+ DELIO.
+ Eu ja não cantarei, sem apostar.
+ Aposto o meu rafeiro, que Valente
+ Se chama, e com razão; que o lobo affasta,
+ Se não cantar mais branda e docemente.
+ GALASIO.
+ Hum cervo manso aposto.
+ DELIO.
+ Isso não basta:
+ Põe mais hum par da cabras.
+ GALASIO.
+ Deos me guarde;
+ Porque, Delio, este gado he da madrasta.
+ ALCIDO.
+ Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde?
+ Ora cantae sem preço e sem inveja;
+ E seja logo, porque ja he tarde.
+ DELIO.
+ Learda minha, branca mais que a neve,
+ E muito mais corada que a grãa fina;
+ S'inda Amor a vencer-te não se atreve,
+ Que fara quem d'Amor por ti se fina?
+ Eu morro; e tu meu mal julgas por leve?
+ Não vês tu como ja me desatina?
+ Ai triste! que me vem valles e montes,
+ Regados de meus olhos feitos fontes.
+ GALASIO.
+ Marfida, branca mais que o branco leite;
+ Vermelha muito mais que a rosa pura;
+ Assi descuido em ti nunca suspeite,
+ Assi me trates inda com brandura;
+ Que a cabana, que a vida e a alma engeite
+ Por ti, quando tu mais que marmor dura.
+ Testimunhas serão montes e valles,
+ A quem dou larga conta de meus males.
+ DELIO.
+ Quando a minha Learda desencolhe
+ Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado,
+ O sol, de pura inveja, se recolhe,
+ Corrido de se ver menos dourado.
+ Livre pastor não ha, que bem os olhe,
+ Sem se achar logo nelles enlaçado.
+ Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos,
+ Pois tanto prendem quantos ousão vellos.
+ GALASIO.
+ Os tristes corações se tornão ledos,
+ Ouvindo de Marfida o doce canto;
+ Os furiosos ventos estão quedos;
+ Não guia o claro sol seu carro em tanto.
+ Converte-se a dureza dos penedos
+ Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto,
+ Vencido dessa voz, doce Marfida;
+ Mas tu nunca d'Amor foste vencida.
+ DELIO.
+ O campo de verdura vejo pobre;
+ O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio;
+ Da sua leve folha a terra cobre
+ O bosque, que foi ja verde e sombrio.
+ Mas se Learda o rosto seu descobre,
+ Logo desapparece o tempo frio:
+ Comsigo a primavera traz Learda.
+ Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda!
+ GALASIO.
+ A triste Progne ja despareceo;
+ A toda flor o frio foi imigo;
+ A doce Philomela emmudeceo,
+ Rouca de lamentar seu mal antigo.
+ Mas venha por aqui quem me venceo
+ Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo,
+ Que as aves tornem logo a seus amores,
+ E os campos se matizem de mil flores.
+ DELIO.
+ A viva chamma, aquelle vivo ardor,
+ Que brando sinto ja pelo costume,
+ De noite dá de si tal resplandor,
+ Que os pastores vem delle a tomar lume.
+ Pasmados ficão, vendo em mi d'amor
+ O fogo, que me queima e não consume:
+ E tu, por quem eu ardo noite e dia,
+ Quando vês tal ardor ficas mais fria!
+ GALASIO.
+ Eu sempre chóro, e tanto ja chorei,
+ Vencido da grã dor que n'alma tinha,
+ Que mil vezes de lagrimas fartei
+ Meu gado, quando a fonte a buscar vinha.
+ Chorando as duras pedras abrandei;
+ Mas nunca a ti, cruel imiga minha,
+ Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa,
+ Nenh[~u]a mágoa tens de minha mágoa.
+ DELIO.
+ Quando vires, Learda, o nosso Lima,
+ Que lá vai de meu chôro acompanhado,
+ Tornar com suas ágoas para cima,
+ De seu curso esquecido, costumado;
+ Então embora julga, então estima
+ Que tenho n'outra parte o meu cuidado.
+ Mas deixarão os rios de correr,
+ Primeiro que deixe eu de te querer.
+ GALASIO.
+ Estas serras, Marfida, por certeza
+ De minha firme fé só quero dar-te:
+ Quando com espantosa ligeireza
+ Daqui correr as vires a outra parte,
+ Então cuida que falta em mi firmeza,
+ Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te.
+ Mas mudar-se daqui bem podem ellas,
+ E eu não mudar de mi graças tão bellas.
+ ALCIDO.
+ Se esta vontade minha não deseja
+ A vossos versos dar justos louvores,
+ Hora nunca na vida alegre veja.
+ Acceitae meu desejo, meus pastores:
+ Mais vos não póde dar quem traz o esprito
+ De todo entregue a damnos, mágoas, dores.
+ Mas porque dê de vós público grito
+ A leve fama, como vêdes, deixo
+ O vosso canto e o meu juizo escrito
+ No liso tronco deste verde freixo.
+ Delio neste lugar doce cantou
+ Com Galasio, que doce respondia:
+ Hum Learda, Marfida outro louvou,
+ Com inveja de qual melhor diria.
+ Alcido, que o seu canto bem notou
+ Por ver quem a victoria levaria,
+ Como livre juiz, deo por sentença,
+ Que não havia entr'elles differença.
+
+
+ECLOGA XIII.
+
+_Phyllis._
+
+ Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto
+ Aquelle passarinho canta ou chora,
+ Chamarei Corydon com triste pranto.
+ Se entre vós, bellas plantas, amor mora
+ (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa
+ De mi, pois que m'ouvis queixar agora.
+ Ai cruel Corydon! cruel a frágoa
+ Em que vivo por ti! Não tens piedade
+ Dever meu peito fogo, os olhos ágoa?
+ Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade!
+ Ai triste! E que farei? Em poucos dias
+ Mudaste tu de mi tua vontade.
+ A Phyllis ja deixaste, a quem trazias
+ No formoso verão formosas fruitas,
+ Sinal do grande bem que me querias?
+ Sabes, cruel, que tenho causas muitas
+ Para te convencer, de que queixar-me;
+ Por isso vás fugindo e não me escuitas.
+ Puderão os teus rogos abrandar-me:
+ Os meus (triste de mi!) mais te endurecem.
+ Ja não acho em que possa confiar-me.
+ Aquelles doces versos ja t'esquecem,
+ Que tu nos lisos álamos cortavas,
+ Onde com teus enganos inda crescem?
+ Arder por meu amor nelles mostravas:
+ Eu, crendo que era assi, não entendia
+ Quanto fingiste amar, quão pouco amavas.
+ Tristes meus fados forão, triste o dia
+ Em que nasci: coitada de mi triste,
+ Qu'em mágoa se tornou minha alegria!
+ Logo que a tua Galatêa viste,
+ Vi eu deste meu mal grandes agouros;
+ E tu da parte esquerda hum corvo ouviste.
+ E não t[~e]e Galatêa mais thesouros,
+ Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja
+ Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros.
+ Á negra violeta t[~e]e inveja
+ O branco lirio, porque tal não tem
+ O cheiro, que vencido não se veja.
+ Tityro arde por mi; Tityro, a quem
+ Mil Nymphas dão capellas de mil flores;
+ Mas elle a mi só chama, a mi quer bem.
+ Eu desprézo por ti muitos pastores,
+ E tu por Galatêa me desprezas!
+ Tal pago dás, cruel, a meus amores?
+ Em que te mereci tantas cruezas,
+ Quantas usas comigo? Por ventura
+ Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas?
+ Prouvera a Deos que tão isenta e dura
+ Me víras para ti, que nunca víras
+ Em mi sinal d'amor, ou de brandura!
+ S'eu fugíra de ti, tu me seguiras;
+ Por mi ardêras, não por huma ingrata,
+ Por quem choras em vão, em vão suspiras.
+ Bem me vinga de ti, pois te maltrata:
+ Mas eu te quero tanto, que desamo
+ (Por mais que tu me mates) quem te mata.
+ Respondem-me estes montes, quando chamo
+ Por ti com triste voz; Ecco responde
+ Das lagrimas, movida, que derramo.
+ E tu não me respondes, nem sei onde
+ Te leva esse desejo; mas bem sei
+ Que amor e desamor de mi t'esconde.
+ Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei
+ Remedio a tanto mal? O fogo puro
+ Em que m'abrazo, com que abrandarei?
+ Ja fugíra daqui por mais que duro
+ Fosse o deixar o ninho em que nasci:
+ Mas não ha contra Amor lugar seguro.
+ A morte só (mil vezes isto ouvi
+ Á nossa Celia) por remedio espere
+ Aquelle que a Amor fez senhor de si.
+ Então, porque de todo desespere,
+ Este cego, a quem cegos nós seguimos,
+ A mi por ti, e a ti por outra fere.
+ S'eu morrêra no ponto em que nos vimos,
+ Não víra tanto mal. Mas que da sua
+ Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos.
+ Eu me queixo de ti, e tu da tua
+ Galatêa te queixas; e não vês
+ Que mais piedosa te he, quando mais crua.
+ Sendo tu tão cruel, (tão cego es!)
+ Queres achar piedade? Como queres
+ Que te creião teu mal, se o meu não crês?
+ Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres,
+ Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes,
+ Ou ledos ambos, si: mais não esperes.
+ Selvas, que n'outro tempo nos cobristes
+ Com frescas sombras lá do ardor de cima,
+ Dizei, se a Corydon dizer ouvistes:
+ Primeiro ha de tornar o brando Lima
+ As ágoas de crystal á fonte clara,
+ Que no meu peito novo amor s'imprima.
+ Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara,
+ Me ha de deixar a mi a propria vida.
+ Mas quem, por não deixar-te, a não deixára!
+ Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida
+ A tenho a teu querer; tu della ordena
+ Como, doce amor meu, fores servida.
+ Por ti me será branda a dura pena;
+ Por ti suave a dor, leve o tormento,
+ A que m'inclina o fado, ou me condena.
+ Ah falso Corydon! teu pensamento
+ Era enganar-me: dada a fé me tinhas;
+ E a fé co'as palavras leva o vento.
+ Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas
+ O vento vai levando. O sol he pôsto.
+ Porque, ligeira luz, te não detinhas,
+ Em quanto em meu queixume achava gôsto?
+
+
+ECLOGA XIV.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+ERGASTO, DELIO, LAURENO.
+
+ ERGASTO.
+ Agora, ja que o Tejo nos redeia,
+ Neste penedo, donde mansamente
+ Murmurando se quebra a branda veia,
+ Espera, Delio, até que do Occidente
+ D'azul deixe a ribeira matizada
+ O sol, levando o dia a outra gente.
+ Entretanto daqui verás pintada
+ A praia de conchinhas d'ouro e prata,
+ E a ágoa dos mansos sopros encrespada.
+ Verás como do monte se desata
+ A vagarosa fonte por penedos,
+ Que pouco a pouco cava e desbarata;
+ E como move os frescos arvoredos
+ Favonio, que de flores pinta o prado;
+ E como s'estão rindo os campos ledos.
+ Ditoso o que do Ceo foi tão amado,
+ Que no campo alcançou passar a vida,
+ Livre de pena, livre de cuidado.
+ O rouxinol na vara, que vestida
+ De verdes folhas, sombra faz ao rio,
+ Lhe canta o doce verso sem medida.
+ Agora ao pé d'hum alamo sombrio
+ Vê como dous carneiros s'offerecem,
+ Os cornos inclinando, a desafio.
+ Como ao que vence todos obedecem
+ E folgão de o ver fóra de perigo;
+ E outros com face esquiva o aborrecem.
+ Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo
+ Lavra os campos do pae, e se contenta,
+ Nos seus mólhos atando o louro trigo!
+ Este a furia do mar não exprimenta,
+ Nem corre, por achar a pedra rica,
+ A estranha praia, que outro sol aquenta.
+ Onde, quando a esperança o fortifica
+ Em adquirir mais ouro e mais riqueza,
+ Ouro, esperança, e vida a muitos fica.
+ Este vive quieto na pobreza;
+ E deste confiarei que a anteponha
+ A quanto o mundo mais procura e préza.
+ Comendo em mesa vil, não s'envergonha:
+ Antes bebe nas mãos a fonte pura,
+ Qu'em precioso metal cruel peçonha.
+ Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura,
+ Inda conversa aqui com os humanos
+ A Justiça, fugindo á gente impura!
+ Quem visse bem tão claros desenganos,
+ E quanto mal nos vicios se apparelha,
+ No campo gastaria bem os anos.
+ Ao dia a nossa vida se assemelha,
+ Porque quando no mar o sol se banha
+ Se costuma tingir de côr vermelha.
+ Assi, se olharmos bem, sempre se ganha
+ Lá no occaso da mal gastada vida
+ Rubicunda vergonha em mágoa estranha.
+ DELIO.
+ A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida,
+ Nunca sabe de nós ser tida em preço:
+ Só despois que se perde he conhecida.
+ E desta vida os bens, qu'eu não mereço,
+ Quando os perco e o mal da outra ja m'espera,
+ Com grandes mágoas d'alma os reconheço.
+ Oh se em ditosa sorte me coubera
+ Por favor ou destino das estrellas,
+ Qu'entre pastores, eu pastor vivêra!
+ Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas
+ Cantar da linda Nise, nas quaes arde
+ Teu peito, sempre ufano d'arder nellas.
+ Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde;
+ Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte,
+ E despois vos recolha, sôbre a tarde.
+ Nãovos verei saltar junto da fonte,
+ Cabras minhas, ja meu querido gado,
+ Nem da rocha pender no verde monte.
+ ERGASTO.
+ Consente agora, ó Delio, que chorado
+ Em triste verso seja apartamento,
+ Que assi me deixa triste e magoado.
+ DELIO.
+ Não: que se dobrará meu sentimento.
+ Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça
+ Partida, que lembrada he só tormento,
+ Canta aquelle Soneto, que começa:
+ _Quantas vezes do fuso s'esquecia_.
+ Que digas hum dos teus, não sei se o peça.
+ ERGASTO.
+ Se com m'ouvir, a dor se te allivia,
+ Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno,
+ Que a cantar vezes mil me desafia.
+ Cantando venceo ja Tityro e Almeno:
+ E eu, inda que sei certo ser vencido,
+ Apostar a cantar com elle ordeno.
+ LAURENO.
+ Ergasto, pois o tempo se ha offrecido,
+ Celebremos amor e formosura,
+ Emquanto o gado á sombra está acolhido.
+ ERGASTO.
+ Postoque ja a victoria tens segura,
+ Não cantarei sem preço, porque saia
+ Mais ledo quem cantar com mais brandura.
+ LAURENO.
+ Eu hum vaso porei de lisa faia,
+ Divina obra de Alceo, que celebrado
+ Será sempre por claro nesta praia.
+ A vide, de que em roda está cercado,
+ Os roxos cachos cobre; e primor teve
+ Em pôr no meio a Dama e Pan cansado.
+ Parece que a beija-la o deos se atreve,
+ E que ainda dos beijos mal soffridos
+ Inclinado lhe foge o tronco leve.
+ ERGASTO.
+ Outro vaso porei d'hera cingido,
+ No qual Orpheo das aves esquecidas
+ E dos suspensos bosques he seguido.
+ Não cuido que de faia são sahidas
+ De tal arte, lavor de tal maneira:
+ Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas.
+ Esta, das que me deo, foi a primeira;
+ Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda,
+ Ouvindo-me cantar nesta ribeira.
+ Ouvio-m'então, estando desta banda;
+ E dando-ma, dizia-me: Este seja
+ O premio, Ergasto, dessa Musa branda.
+ LAURENO.
+ Delio o nosso cantar pondere, e veja
+ Qual dos dous a voz dá mais docemente;
+ Que huma tal causa tal juiz deseja.
+ DELIO.
+ Se o meu juizo cada qual consente,
+ Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço;
+ Tu responde, Laureno, juntamente:
+ E eu fico que nenhum perca o seu preço.
+ ERGASTO.
+ Alcida, que na côr o leite puro,
+ E a rosa da manhãa deixas vencida,
+ Culpa he dos olhos teus, nelles o juro,
+ Est'amor de qu'estás tão offendida.
+ Castiga-os com me verem; qu'eu seguro
+ Que a vingança será delles sentida:
+ Nem temas tu d'os meus alegres serem,
+ Vendo tristes taes olhos por me verem.
+ LAURENO.
+ Violante minha, cuja côr iguala,
+ Mas antes vence os cravos, vence a neve;
+ Desta dor, que atéqui minha alma cala,
+ Teu amoroso riso a culpa teve.
+ Se só por viver della e por amá-la,
+ Julgas que algum castigo se me deve,
+ A ver-te sempre rindo me condena,
+ Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena.
+ ERGASTO.
+ Com a mãe, que maçãas colhendo andava,
+ Inda pequena, a bella Alcida vinha:
+ Eu os ramos da terra ja tocava,
+ Ja facil para amar o tempo tinha.
+ Não sei que fogo ou neve se passava
+ Daquelles olhos seus a est'alma minha,
+ Que me deixárão pôsto em tal extremo,
+ Que até de cuidar nelles ardo e tremo.
+ LAURENO.
+ No bosque a Violante vi hum dia,
+ Doce princípio destas doces dores;
+ A flor cahia nella, e parecia
+ Dizer cahindo: Aqui reinão amores.
+ Humilde em tanta gloria ella se ria,
+ E errando hião sôbre ella as várias flores:
+ Eu, que vencido fui d'hum error cego,
+ Áquelle honesto riso est'alma entrego.
+ ERGASTO.
+ Pastores deste bosque, que buscais,
+ Anoitecendo, o lume por costume;
+ Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais,
+ Que destes meus suspiros leveis lume.
+ Accesos sahem d'alma os doces ais
+ No ardor, que pouco a pouco me consume;
+ Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito,
+ Accendérão jamais hum frio peito.
+ LAURENO.
+ Pastores, que buscais na sombra amada
+ A fonte, por fugir o ardor do estio,
+ Vinde a mi, porque d'ágoa destillada
+ Por meus olhos, se sólta hum largo rio;
+ Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada,
+ Fartá-la ja de lagrimas confio.
+ Mas com chôro de tanta quantidade
+ Não movo aquelles olhos a piedade.
+ ERGASTO.
+ Se quando a minha Alcida est'alma visse
+ Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada;
+ Se quando a grave dor fóra sahisse
+ Entre suspiros mil rôta e quebrada,
+ Sequer com brandos olhos m'admittisse,
+ Ficando de vergonha mais córada;
+ Ditoso fôra, vendo-a, juntamente
+ Com ser mais bella, deste amor contente.
+ LAURENO.
+ Se á vista de Violante derramadas
+ As lagrimas d'amor, que vive nellas,
+ Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas
+ Lhe ficassem de dor ambas estrellas,
+ E as rosas entre a neve semeadas,
+ Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas;
+ Ditoso me fizera. Hora ditosa,
+ Se a víra ser mais bella e ser piedosa!
+ ERGASTO.
+ Claros olhos, que ao sol fazeis inveja,
+ Que brandos vos mostreis ja vos não peço;
+ Mas que poder-vos ver paga me seja,
+ Se por tamanho amor tanto mereço:
+ Armados d'esquivança então vos veja
+ Cheios d'hum não sei que, com que pereço;
+ Que doce me será tal esquivança.
+ Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança!
+ LAURENO.
+ Olhos, que vos moveis tão docemente,
+ Que traz vós todo o mundo ides levando,
+ Eu não sei se tomais do ceo luzente
+ O movimento seu, se lho estais dando:
+ Sei certo (e não m'engano,) sei somente
+ Que a vós de mi minh'alma ides passando:
+ Mas não posso entender como deixais
+ Ao descuido o que vós em vós levais.
+ ERGASTO.
+ Por mais que a minha soberana Alcida
+ (Minha não, porque só sua belleza
+ Vem a ser minha em ser de mi querida)
+ Me trate vezes mil com aspereza;
+ Huma só vez que della acho admittida
+ Minha pequena vista na grandeza
+ Da luz do rosto seu, sinto tal gloria,
+ Que de todo o penar perco a memoria.
+ LAURENO.
+ Quando a minha mais que unica Violante
+ (Se minha póde ser a que he tão sua)
+ Aquella santa luz hum breve instante
+ Me deixa ver, por mais que a veja crua;
+ A vista tanto em mi vejo a diante,
+ Que não he muito, não, que m'attribua
+ A soberba de ser hum'aguia nova,
+ Que do ceo no ôlho claro a vista prova.
+ DELIO.
+ Pastores, que alcançar pudestes tanto
+ Com vossa branda Musa, que ja nesta
+ Idade renovais o antigo canto;
+ Para vosso louvor, que verso presta?
+ Qu'hera digna será? que louro dino
+ Qu'em premio a cada qual adorne a testa?
+ Em parte paga Amor, se de contino
+ Por dentro a cada hum gasta os espritos,
+ Pois co'o divino canto o faz divino.
+ Nós veremos por annos infinitos
+ Nos altos troncos destas faias bellas
+ Os nomes vossos por memoria escritos.
+ De unicas flores mereceis capellas:
+ T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores;
+ E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas.
+ Os vossos premios recolhei, pastores:
+ Cada qual igualmente o seu merece;
+ E ambos d'Apollo os mereceis maiores.
+ Recolhamos o gado; que anoitece.
+
+
+ECLOGA XV.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+SOLISO e SYLVANO.
+
+ SOLISO.
+ De quanto alento e gôsto me causava
+ A vista da manhãa resplandecente,
+ Com que toda a tristeza s'alegrava;
+ Que quando vinha o sol claro e luzente,
+ Bem claro então em mi se conhecia
+ Huma nova alegria differente;
+ Tanto agora me offende o novo dia,
+ Vendo que me não mostra a formosura,
+ De que só me mantinha e só vivia.
+ E não me quiz deixar triste ventura
+ Esperanças de mais tornar a vella!
+ Oh destino cruel! oh sorte dura!
+ Oh querida Natercia! oh Nympha bella,
+ Em quem, emfim, mostrou a natureza
+ O mais que se podia esperar della!
+ Se lá no assento da maior alteza
+ Te lembras de quem viste cá na terra,
+ Para te magoar sua tristeza;
+ Lembre-te de contino a cruel guerra,
+ Que contínua me faz tua lembrança,
+ Esquecido do gado, valle e serra.
+ Lembre-te que perdi a confiança
+ De ver os olhos teus, e juntamente
+ De todo o bem d'Amor toda a esperança.
+ Lembre-te que por ti de mi ausente
+ A crystallina fonte me he nojosa,
+ Com que ja n'outro tempo fui contente.
+ Que por ti a manhãa clara e formosa
+ Males cada momento me accrescenta;
+ Sendo-me em outros dias deleitosa.
+ Por ti o puro sol me descontenta;
+ Com seu canto m'offende a Philomella:
+ Mas, porque nelle chora, me contenta.
+ Por ti, Natercia pura, Nympha bella,
+ Na verdura suave deste prado
+ Os males multiplico só com vella.
+ Por ti não curo ja do manso gado:
+ Com o mesmo qu'então meu bem crescia,
+ Agora vai crescendo o meu cuidado.
+ Não sou ja, ja não sou quem ser sohia;
+ Mudou-se-me a vontade co'a ventura;
+ Mudou-se co'os tormentos a alegria;
+ Trocou-se o claro dia em noite escura:
+ Nem he muito que tudo se mudasse,
+ Pois se mudou a tua formosura.
+ Não via outro reparo, que cuidasse
+ Poder aproveitar ao meu tormento,
+ Nem outra gloria alguma em qu'esperasse,
+ Senão em quanto o triste pensamento
+ Se punha a contemplar tua beldade,
+ Sem lhe lembrar tão longo apartamento.
+ Agora que me falta a claridade,
+ Que de ver-te a minha alma recebia,
+ Ficando-me só della a saudade;
+ Qual ficará hum'alma, que sabía
+ Somente desta gloria contentar-se?
+ Gloria de que gozar não merecia!
+ Qual poderá ficar quem com lembrar-se
+ Mortalmente do bem qu'he ja passado,
+ Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se?
+ E qual se póde ver quem hum cuidado
+ Sostem, que he só da dor certa morada,
+ E nelle vive só desesperado?
+ Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada,
+ Hum'alma que te via; e em te vendo
+ O fio lhe cortou a Parca irada?
+ A causa deste mal eu não a entendo:
+ Só entendo que, perdida essa luz pura,
+ Por perdida a não ver, vivo morrendo.
+ Vejo que me roubou fortuna escura
+ Hum bem por quem meu mal me contentava:
+ Lembra-te tu de tanta desventura.
+ Lembra-te tu, que só de ti'sperava
+ Remedio aos males meus; e então verás
+ Qual ficou quem em ti só confiava.
+ Lembre-te adonde estou, adonde estás,
+ E que tudo sem ti cá m'aborrece:
+ Dest'arte o estado meu entenderás.
+ SYLVANO.
+ Não sei por que razão nos amanhece
+ Este dia dos outros differente,
+ Com que toda a alegria s'entristece.
+ O manso gado vejo, que contente
+ Buscando hia nos campos a verdura,
+ E dos rios a limpida corrente:
+ Agora triste errar pola espessura,
+ Alheio d'herva verde e d'ágoa fria;
+ Sinal d'alguma grande desventura.
+ Suspensa está das aves a harmonia;
+ E em certo modo mostra que lá chora
+ A mesma sequidão da penedia.
+ A candida, rosada, bella aurora,
+ Que sempre os altos montes vem dourando,
+ Com hum pallor mortal se mostra agora.
+ Está-se nestas hervas enxergando
+ Tão triste côr, que della se conhece
+ Que algum mal se nos vai apparelhando.
+ Emfim, vejo que tudo s'entristece;
+ A causa ignoro. O ceo piedoso queira
+ Que menos seja o mal, do que parece.
+ Porque, desde que habíto esta ribeira,
+ Não m'acórdo de a ver tão carregada,
+ Nem de a ouvir murmurar desta maneira.
+ Não m'acórdo que visse outra alvorada
+ Tão confusa sahir, como esta vejo,
+ De profunda tristeza acompanhada.
+ Agora aqui tomára quem sem pejo
+ A causa, se a soubesse, m'ensinasse,
+ Para satisfazer a meu desejo.
+ Porque não posso eu crer que resultasse
+ D'alguma baixa causa hum tal effeito,
+ Que até nos duros montes se enxergasse.
+ O coração cá dentro no meu peito
+ M'assegura, que tanta novidade
+ Não traz a origem de commum respeito.
+ Mas, por entre a confusa claridade,
+ Lá vejo vir Soliso com seu gado:
+ Delle espero entender toda a verdade.
+ Mas não posso cuidar neste cuidado,
+ Que nos olhos não mostre onde me chega
+ A dor de o ver de dores traspassado.
+ Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega,
+ Não he muito que passe hum tal tormento;
+ Porque todo mal dá, todo bem nega.
+ Em quanto este pastor o pensamento
+ Logrou, sem qu'em amores o empregasse,
+ Senão só em buscar contentamento;
+ Festa não se fazia em que faltasse
+ A sua frauta, qu'elle assi tangia,
+ Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse.
+ Ja agora não he aquelle que sohia;
+ Vejo-o na condição todo mudado;
+ Mudada tambem delle está a alegria.
+ Não cura ja do seu querido gado;
+ Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores;
+ Aborrece-lhe a gente e o povoado.
+ Não lhe lembrão as festas dos pastores;
+ Apartando se vai pola espessura,
+ Enlevado somente em seus amores.
+ Contenta-se da noite triste e escura;
+ Odio t[~e]e com o sol puro e luzente.
+ Quem vio nunca tamanha desventura?
+ Com esta vai passando tão contente,
+ Que diz que, quando o mal mais o atormenta,
+ Se gôsto sentirp óde, então o sente.
+ Neste bosque huma Nympha se aposenta,
+ Por quem elle na vida anda morrendo;
+ E he causa desta dor que lhe contenta.
+ E segundo o que delle agora entendo,
+ Se a vista não m'engana o pensamento,
+ Ou de vãa phantasia estou pendendo;
+ Quando fôra maior o grão tormento,
+ Que Soliso padece, não pudera
+ Igualar-se com seu merecimento.
+ Quero chegar-me a elle, em quanto espera
+ Que vá descendo o vagaroso gado:
+ Saberei delle o que saber quizera.
+ Venho, Soliso, a ti com hum cuidado,
+ Que todo m'entristece; e com grão medo
+ De grão mal sôbre nós inopinado.
+ Vês tu como está agora este arvoredo
+ Triste e pezado, lugubre e sombrio?
+ Como o vento parece que está quedo?
+ Vês a commum corrente deste rio
+ Que ora tanto se pára, ora anda tanto,
+ Deixando de seu curso o certo fio?
+ Vês como a Philomella deixa o canto,
+ Com que incita os pastores namorados,
+ E multiplica Progne o triste pranto?
+ E vês, emfim, por todos esses prados
+ Desmaiadas as hervas, que sohião
+ Viçoso pasto dar aos nossos gados?
+ Todos estes sinaes, que não se vião
+ Nas Auroras a esta antecedentes,
+ Algum damno mortal nos annuncião.
+ Eu não sinto o que seja: se o tu sentes,
+ Não te seja o dizer-mo mui penoso;
+ E entenderei por ti taes accidentes.
+ SOLISO.
+ N'outro tempo me fôra deleitoso
+ Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te;
+ Mas todo gôsto agora me he nojoso.
+ Bem quizera poder communicar-te
+ A causa deste horror; mas antes quero
+ Anojar-me a mi proprio, que anojar-te.
+ Porém ja sinto o fado tão severo,
+ Que quanto mais me ponho a declará-lo,
+ Mais então d'entendê-lo desespero.
+ E se acaso o entender para contá-lo,
+ Se quero começar, quer a ventura
+ Á fôrça de soluços atalhá-lo.
+ Que despois que me falta a formosura
+ Daquella illustre Nympha, que contente
+ Pudera bem fazer a noite escura,
+ Foi-me faltando o esprito juntamente:
+ Em suspirar só gasto a noite e dia,
+ Sem me fartar de ver-me descontente.
+ SYLVANO.
+ Novidade maior em mi sería
+ O espantar-me de ver-te estar queixando,
+ Que o ver em ti desejos d'alegria.
+ Responde-me ao que t'hia perguntando
+ Da causa desta singular tristeza:
+ Não gastes todo o tempo lamentando.
+ SOLISO.
+ Sempre em ti conheci huma dureza,
+ E austera inclinação, que bem declara
+ Quão conforme he teu nome á natureza.
+ Porque se o meu tormento t'alcançára,
+ O mor bem para ti o mor mal fôra;
+ E todo o mal maior te contentára.
+ Deixa que chore quem com gôsto chora:
+ Deixa-me lamentar meu triste fado;
+ Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora.
+ Tu não trazes agora outro cuidado
+ Mais que buscar no valle a sombra fria,
+ Quando te offende o sol mais empinado.
+ Coitado de quem passa a noite e dia
+ Porfiando em morrer, e a sorte dura
+ Em fugir-lhe co'a morte só porfia!
+ Oh formosa Natercia! a excelsa altura
+ Do glorioso Olympo andas pizando;
+ E eu ausente da tua formosura!
+ SYLVANO.
+ Qu'he isso, que do ceo estás fallando?
+ Parece-me que ja não es Soliso,
+ Ou que de puro amar vás delirando.
+ SOLISO.
+ Quem ja perdeo aquelle doce riso,
+ Que siso produzia e dava vida,
+ Não he muito que perca a vida e siso.
+ SYLVANO.
+ Declara-me que cousa tens perdida,
+ De que tanto te queixas; que ao que sento,
+ Natercia destes valles he partida.
+ SOLISO.
+ Quão livre falla aquelle que o tormento
+ Alheio vê de fóra, mas não sente
+ Onde chega tamanho sentimento!
+ A gloria qu'eu perdi não me consente
+ Palavras naturaes, razões expertas,
+ Que possão declarar a dor presente.
+ Mas nesse teu error vejo que acertas;
+ Porque com nenhum mal deve turbar-se
+ Quem só delle esperanças logra certas.
+ SYLVANO.
+ A quem, Soliso meu, de declarar-se
+ Com outro em casos taes falta vontade,
+ Nunca faltão razões para escusar-se.
+ Não sei donde te vem tal novidade;
+ Pois negando-me agora o que te peço,
+ Suspeito que me negas a amizade.
+ Se pola que te guardo te aborreço,
+ Sabe que só hum cego entendimento
+ Ás amizades faz perder o preço.
+ Eu te deixarei só com teu tormento;
+ Mas não sem dor de ver que tanto a peito
+ Tomes hum tão damnoso pensamento.
+ SOLISO.
+ Outra he, certo, a razão, outro o respeito
+ Que negar-te me fez o que pedias:
+ Não creias que de ti tão mal suspeito.
+ Bem sei que o meu descanso pretendias;
+ E a mesma confiança faz negar-te
+ O que destes sinaes saber querias.
+ SYLVANO.
+ Não queiras mais, Soliso, prolongar-te;
+ Pois pende o gôsto meu da tua vida:
+ Se corre risco, dá-me delle parte.
+ SOLISO.
+ De todo a sinto ja desfallecida
+ Nas lembranças daquella breve historia,
+ Que foi para meus males tão comprida.
+ Ja me vence a tristissima memoria
+ Da gloria que presente me animava.
+ Quem pudera voar traz tanta gloria!
+ Natercia qu'estes montes alegrava,
+ E que á casta Diana fez inveja,
+ E que com sua vista o sol cegava;
+ Aquella a quem render-se só deseja
+ Aquelle que de bella mãe presume,
+ E a quem as armas dá com que peleja;
+ Natercia, que no mundo foi hum lume,
+ Onde a belleza de maior estado
+ Incendios aprendia por costume;
+ Natercia, por quem ando acompanhado
+ De mágoa tal, que só da morte dura
+ Espero o feliz fim de meu cuidado;
+ Ao ceo se foi co'aquella formosura,
+ Qu'era mostra do ceo, gloria da terra;
+ Qu'era o sogeito mor da mor ventura.
+ Ja não fara no prado ás almas guerra
+ Com a vista, senão com a lembrança;
+ Guerra em que o damno mais cruel s'encerra.
+ Ja de vê-la não tenhas esperança;
+ Qu'esta vida trocou de mal cercada
+ Por outra, em que do bem não ha mudança.
+ E a causa vês aqui de que a alvorada
+ Visses desta manhãa tão differente
+ De outra qualquer, de ti mais ponderada.
+ Dizer-te o mais não posso, porque sente
+ Est'alma no que disse tal tormento,
+ Qu'esta memoria apenas me consente.
+ O espirito ja debil, sem alento,
+ No pouco que te tenho referido,
+ Nas azas se sostem do pensamento.
+ Oh mundo! qual he aquelle tão perdido,
+ Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano,
+ Vendo-te todo em damno instituido?
+ Deixas passar hum gôsto d'anno em ano,
+ Porque, com nosso opprobrio e tua gloria,
+ Nos faças mais patente o teu engano.
+ Sempre assi vai comtigo a mor victoria,
+ Deixando-nos somente por herança
+ D'hum possuido bem triste memoria.
+ Quem faz de ti alguma confiança,
+ Sabendo ja que quem de ti confia,
+ D'hum engano penoso emfim se alcança?
+ Aquelle da belleza novo dia
+ Cegaste, quando mais resplandecente
+ Triumphos mil d'Amor nos promettia.
+ De qual tigre cruel peito inclemente
+ Não se rompe de mágoa, morta aquella,
+ Que a tristeza mil vezes fez contente?
+ Quem, que vê eclipsada a vista bella,
+ Despois de visto haver sua beldade,
+ E não sabe morrer por hir traz ella?
+ Como não te applacou tão tenra idade
+ Ao cortar do seu fio, ó Parca dura,
+ Que agora o mundo matas de saudade?
+ Deixae, deixae, pastores, a verdura;
+ As frautas deixae ja, e os mansos gados;
+ E chorae todos vossa desventura.
+ E vós, sylvestres Faunos namorados,
+ Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão
+ O objecto mais gentil vossos cuidados.
+ Nymphas, a quem os deoses concedêrão
+ Destes sagrados bosques a morada,
+ E em quem tamanhas graças escondêrão;
+ Se aquella piedade costumada,
+ De que mais vos prezais, não esquecestes,
+ Que sempre foi de vós tão venerada;
+ Se ja d'alheio damno vos doestes,
+ Do vosso proprio vos doei agora,
+ Pois com Natercia todo o bem perdestes.
+ Oh Naiades! das ágoas sahi fóra;
+ E de vós ágoa saia em mal tão forte,
+ Pois de vê-lo tambem o monte chora.
+ Oh Napêas! chorae a triste sorte
+ Dos miseros pastores, a quem nega
+ O fado por mais pena o mortal córte.
+ Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega,
+ Tomae todo o cuidado deste pranto,
+ Pois sabeis onde a causa delle chega.
+ Deixae, ó Amadryas, entretanto
+ As plantas que guardais, por ajudar-me,
+ Pois deixa a Philomella o doce canto.
+ E vós, ó vida minha, pois curar-me
+ Ja não podeis, deixae-me juntamente,
+ Porque lembranças taes possão deixar-me.
+ Mas se dellas morreis, morro contente.
+
+
+
+
+CANÇÕES.
+
+
+CANÇÃO I.
+
+ Formosa e gentil Dama, quando vejo
+ A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito,
+ A boca graciosa, o riso honesto,
+ O collo de crystal, o branco peito,
+ De meu não quero mais que meu desejo,
+ Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto.
+ Alli me manifesto
+ Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo
+ Nas lagrimas que chóro;
+ E de mi que vos amo,
+ Em ver que soube amar-vos me namóro;
+ E fico por mi só perdido de arte,
+ Qu'hei ciumes de mi por vossa parte.
+ Se por ventura vivo descontente
+ Por fraqueza d'esprito, padecendo
+ A doce pena qu'entender não sei,
+ Fujo de mi, e acolho-me correndo
+ Á vossa vista; e fico tão contente,
+ Que zombo dos tormentos que passei.
+ De quem me queixarei,
+ Se vós me dais a vida deste geito
+ Nos males que padeço,
+ Senão de meu sogeito,
+ Que não cabe com bem de tanto preço?
+ Mas inda isto de mi cuidar não posso,
+ D'estar muito soberbo com ser vosso.
+ Se por algum acêrto Amor vos erra
+ Por parte do desejo, commettendo
+ Algum nefando e torpe desatino;
+ E s'inda mais que ver, emfim, pretendo;
+ Fraquezas são do corpo, qu'he de terra,
+ Mas não do pensamento, qu'he divino.
+ Se tão alto imagino
+ Que de vista me perco, ou pecco nisto,
+ Desculpa-me o que vejo.
+ Porém como resisto
+ Contra hum tão atrevido e vão desejo,
+ Faço-me forte em vossa vista pura,
+ Armando-me da vossa formosura.
+ Das delicadas sobrancelhas pretas
+ Os arcos com que fere Amor tomou,
+ E fez a linda corda dos cabellos:
+ E porque de vós tudo lhe quadrou,
+ Dos raios desses olhos fez as settas
+ Com que fere quem alça os seus a vellos.
+ Olhos que são tão bellos
+ Dão armas de vantajem ao Amor,
+ Com que as almas destrue.
+ Porém se he grande a dor
+ Com a alteza do mal a restitue;
+ E as armas com que mata são de sorte,
+ Que ainda lhe ficais devendo a morte.
+ Lagrimas, e suspiros, pensamentos,
+ Quem delles se queixar, formosa Dama,
+ Mimoso está do mal que por vós sente.
+ Qual bem maior deseja quem vos ama,
+ Qu'estar desabafando seus tormentos,
+ Chorando, imaginando docemente?
+ Quem vive descontente
+ Não ha de dar allívio a seu desgôsto,
+ Porque se lhe agradeça;
+ Mas com alegre rôsto
+ Soffra seus males, para que os mereça:
+ Que quem do mal se queixa, que padece,
+ O faz porqu'esta gloria não conhece.
+ De modo que se cahe o pensamento
+ Em alguma fraqueza, de contente,
+ He porqu'este segredo não conheço.
+ Assi que com razões não tãosomente
+ Desculpo ao Amor de meu tormento,
+ Mas inda a culpa sua lh'agradeço.
+ Por esta fé mereço
+ A graça qu'esses olhos acompanha,
+ E o bem do doce riso.
+ Mas ah! que não se ganha
+ Co'hum paraiso, outro paraiso.
+ E d'enleada assi minha esperança
+ Se satisfaz co'o bem que não alcança.
+ Se com razões escuso meu remedio,
+ Sabe, Canção, que só porque o não vejo,
+ Engano com palavras o desejo.
+
+
+CANÇÃO II.
+
+ A instabilidade da fortuna,
+ Os enganos suaves d'Amor cego,
+ (Suaves se durárão longamente)
+ Direi, por dar á vida algum socêgo;
+ Que pois a grave pena m'importuna,
+ Importune meu canto a toda gente.
+ E se o passado bem co'o mal presente
+ M'endurecer a voz no peito frio;
+ O grande desvario
+ Dara de minha pena sinal certo;
+ Que hum êrro em tantos erros he concêrto.
+ E pois nesta verdade me confio,
+ (Se verdade se achar no mal que digo)
+ Saiba o mundo d'Amor o desengano,
+ Que ja com a razão se fez amigo,
+ Só por não deixar culpa sem castigo.
+ Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma;
+ Ja se tornou de cego razoado,
+ Só por usar comigo semrazões.
+ E se em alguma cousa o tenho errado,
+ Com siso grande dor não vi nenhuma:
+ Nem elle deo sem erros affeições.
+ Mas, por usar de suas isenções,
+ Buscou fingidas causas de matar-me:
+ Que para derribar-me
+ A este abysmo infernal de meu tormento,
+ Nunca soberbo foi meu pensamento,
+ Nem pretendeo mais alto levantar-me
+ D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena
+ Qu'eu pague seu ousado atrevimento,
+ Saibão que o mesmo Amor, que me condena,
+ Me fez cahir na culpa e mais na pena.
+ Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia
+ Que descêrão ao baixo pensamento,
+ N'alma os aposentei suavemente;
+ E pretendendo mais, como avarento,
+ O coração lhe dei por iguaria,
+ Que a meu mandado tinha obediente.
+ Mas, como lhes esteve alli presente,
+ E entendêrão o fim do meu desejo,
+ Ou por outro despejo,
+ Que a lingua descobrio por desvario,
+ Morto de sêde estou pôsto em hum rio,
+ Onde de meu servir o fructo vejo;
+ Mas logo se alça se a colhê-lo venho,
+ E foge-me a ágoa s'em beber porfio.
+ Assi qu'em fome e sêde me mantenho:
+ Não t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho.
+ Despois que aquella, em quem minh'alma vive,
+ Quiz alcançar o baixo atrevimento,
+ Debaixo d'este engano a alcancei:
+ A nuvem do contino pensamento
+ Ma figurou nos braços, e assi tive
+ Sonhando, o que acordado desejei.
+ E porque a meu desejo me gabei
+ De conseguir hum bem de tanto preço;
+ Além do que padeço,
+ Atado em huma roda estou penando,
+ Qu'em mil mudanças me anda rodeando;
+ Onde, se a algum bem subo, logo deço.
+ E assi ganho, e assi perco a confiança;
+ E assi de mi fugindo traz mim ando;
+ E assi me t[~e]e atado huma vingança,
+ Como Ixião, tão firme na mudança.
+ Quando a vista suave e inhumana
+ Meu humano desejo, de atrevido,
+ Commetteo, sem saber o que fazia,
+ (Que da sua belleza foi nascido
+ O cego moço, que com setta insana
+ O peccado vingou desta ousadia)
+ Afora este penar, qu'eu merecia,
+ Me deo outra maneira de tormento:
+ Que nunca o pensamento,
+ Voando sempre d'huma a outra parte,
+ Destas entranhas tristes bem se farte,
+ Imaginando como o famulento,
+ Que come mais e a fome vai crescendo,
+ Porque de atormentar-me não se aparte.
+ Assi que para a pena estou vivendo:
+ Sou outro novo Ticio, e não m'entendo.
+ De vontades alheias, qu'eu roubava,
+ E que enganosamente recolhia
+ Em meu fingido peito, me mantinha.
+ O engano de maneira lhes fingia,
+ Que despois que a meu mando as sobjugava,
+ Com amor as matava, qu'eu não tinha.
+ Porém logo o castigo que convinha
+ O vingativo Amor me fez sentir,
+ Fazendo-me subir
+ Ao monte da aspereza qu'em vós vejo,
+ Co'o pezado penedo do desejo,
+ Que do cume do bem me vai cahir:
+ Tórno a subi-lo ao desejado assento;
+ Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo.
+ Sisypho, não t'espantes deste alento,
+ Que ás costas o subi do soffrimento.
+ Dest'arte o summo bem se m'offerece
+ Ao faminto desejo, porque sinta
+ A perda de perdê-lo mais penosa.
+ Bem como o avaro, a quem o sonho pinta
+ O achado d'hum thesouro, onde enriquece,
+ E farta a sua sêde cobiçosa;
+ E acordando, com furia pressurosa
+ Vai o sítio cavar com que sonhava;
+ Mas tudo o que buscava
+ Lhe converte em carvão a desventura;
+ Alli sua cobiça mais se apura,
+ Por lhe faltar aquillo qu'esperava:
+ O Amor assi me faz perder o siso.
+ Porque aquelles qu'estão na noite escura
+ Não sentirião tanto o triste abisso,
+ Se ignorassem o bem do Paraisso.
+ Canção, não mais; que ja não sei que diga:
+ Mas, porque a dor me seja menos forte,
+ Diga o pregão a causa desta morte.
+
+
+CANÇÃO III.
+
+ Ja a roxa manhãa clara
+ As portas do Oriente vinha abrindo;
+ Os montes descobrindo
+ A negra escuridão da luz avara.
+ O sol, que nunca pára,
+ Da sua alegre vista saudoso,
+ Traz ella pressuroso
+ Nos cavallos cansados do trabalho,
+ Que respirão nas hervas fresco orvalho,
+ S'estende claro, alegre e luminoso.
+ Os passaros voando,
+ De raminho em raminho vão saltando;
+ E com suave e doce melodia
+ O claro dia estão manifestando.
+ A manhãa bella, amena,
+ Seu rosto descobrindo, a espessura
+ Se cobre de verdura
+ Clara, suave, angelica, serena.
+ Oh deleitosa pena!
+ Oh effeito d'Amor alto e potente!
+ Pois permitte e consente
+ Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja,
+ O seraphico gesto sempre veja,
+ Por quem de viver triste sou contente.
+ Mas tu, Aurora pura,
+ De tanto bem dá graças á ventura,
+ Pois as foi pôr em ti tão excellentes,
+ Que representes tanta formosura.
+ A luz suave e leda
+ A meus olhos me mostra por quem mouro,
+ Com os cabellos d'ouro,
+ Que nenhum ouro iguala, se os remeda.
+ Esta a luz he que arreda
+ A negra escuridão do sentimento
+ Ao doce pensamento;
+ Os orvalhos das flores delicadas
+ São nos meus olhos lagrimas cansadas,
+ Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento;
+ Os passaros que cantão,
+ Meus espiritos são, que a voz levantão,
+ Manifestando o gesto peregrino
+ Com tão divino som, que o mundo espantão.
+ Assi como acontece
+ A quem a chara vida está perdendo,
+ Qu'em quanto vai morrendo,
+ Alguma visão santa lh'apparece;
+ A mim em quem fallece
+ A vida, que sois vós, minha Senhora,
+ A est'alma, qu'em vós mora
+ (Em quanto da prisão s'está apartando)
+ Vos estais justamente apresentando
+ Em fórma de formosa e roxa Aurora.
+ Oh ditosa partida!
+ Oh gloria soberana, alta e subida!
+ Se me não impedir o meu desejo;
+ Porque o que vejo, emfim, me torna a vida.
+ Porém a natureza,
+ Que nesta pura vista se mantinha,
+ Me falta tão asinha,
+ Como o sol faltar soe á redondeza.
+ Se houverdes qu'he fraqueza
+ Morrer em tão penoso e triste estado,
+ Amor será culpado,
+ Ou vós, ond'elle vive tão isento,
+ Que causastes tão largo apartamento,
+ Porque perdesse a vida co'o cuidado.
+ Que se viver não posso,
+ Homem formado só de carne e osso,
+ Esta vida que perco, Amor ma deo;
+ Que não sou meu: se morro, o damno he vosso.
+ Canção de cysne, feita em hora extrema,
+ Na dura pedra fria
+ Da memoria te deixo em companhia
+ Do letreiro da minha sepultura;
+ Que a sombra escura ja m'impede o dia.
+
+
+CANÇÃO IV.
+
+ Vão as serenas ágoas
+ Do Mondego descendo,
+ E mansamente até o mar não parão;
+ Por onde as minhas mágoas
+ Pouco a pouco crescendo,
+ Para nunca acabar se começárão.
+ Alli se me mostrárão
+ Neste lugar ameno,
+ Em qu'inda agora mouro,
+ Testa de neve e d'ouro;
+ Riso brando e suave; olhar sereno;
+ Hum gesto delicado,
+ Que sempre n'alma m'estará pintado.
+ Nesta florída terra,
+ Leda, fresca e serena,
+ Ledo e contente para mi vivia;
+ Em paz com minha guerra,
+ Glorioso co'a pena
+ Que de tão bellos olhos procedia.
+ D'hum dia em outro dia,
+ O esperar m'enganava:
+ Tempo longo passei;
+ Com a vida folguei,
+ Só porqu'em bem tamanho s'empregava.
+ Mas que me presta ja,
+ Que tão formosos olhos não os ha?
+ Oh quem me alli dissera
+ Que d'Amor tão profundo
+ O fim pudesse ver eu algum'hora!
+ E quem cuidar pudera
+ Que houvesse ahi no mundo
+ Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
+ Para que desde agora,
+ Ja perdida a esperança,
+ Visse o vão pensamento
+ Desfeito em hum momento,
+ Sem me poder ficar mais que a lembrança;
+ Que sempre estará firme
+ Até no derradeiro despedir-me.
+ Mas a mor alegria
+ Que daqui levar posso,
+ E com que defender-me triste espero,
+ He que nunca sentia
+ No tempo que fui vosso,
+ Quererdes-me vós quanto vos eu quero.
+ Porque o tormento fero
+ De vosso apartamento,
+ Não vos dará tal pena
+ Como a que me condena;
+ Que mais sentirei vosso sentimento,
+ Que o que a minh'alma sente.
+ Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
+ Tu, Canção, estarás
+ Agora acompanhando
+ Por estes campos estas claras ágoas;
+ E por mi ficarás
+ Com chôro suspirando;
+ Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas,
+ Como huma larga historia
+ Minhas lagrimas fiquem por memoria.
+
+
+CANÇÃO V.
+
+ S'este meu pensamento,
+ Como he doce e suave,
+ D'alma pudesse vir gritando fóra;
+ Mostrando seu tormento
+ Cruel, aspero e grave,
+ Diante de vós só, minha Senhora;
+ Pudera ser que agora
+ O vosso peito duro
+ Tornára manso e brando.
+ E então eu, que sempre ando
+ Passaro solitario, humilde e escuro,
+ Tornado hum cysne puro,
+ Brando e sonoro, por o ar voando,
+ Com canto manifesto
+ Pintára a minha pena, e o vosso gesto.
+ Pintára os olhos bellos
+ Que trazem nas meninas
+ O menino que os seus nelles cegou;
+ Os dourados cabellos
+ Em tranças d'ouro finas,
+ A quem o sol os raios seus baixou;
+ A testa que ordenou
+ Natura tão formosa;
+ O bem proporcionado
+ Nariz, lindo, afilado,
+ Que cada parte t[~e]e da fresca rosa;
+ A boca graciosa,
+ Que o querê-la louvar he ja 'scusado.
+ Emfim, he hum thesouro;
+ Perolas dentes, e palavras ouro.
+ Víra-se claramente,
+ (Oh Dama delicada!)
+ Qu'em vós s'esmerou mais a natureza.
+ Mas eu, de gente em gente,
+ Trouxera trasladada
+ Em meu tormento vossa gentileza;
+ E somente a aspereza
+ De vossa condição,
+ Senhora, não dissera,
+ Porque se não soubera
+ Qu'em vós podia haver algum senão.
+ E se alguem, com razão,
+ Porque morres? dissesse, respondêra:
+ Morro, porque he tão bella,
+ Qu'inda não sou para morrer por ella.
+ E quando, por ventura,
+ Dama, vos offendesse,
+ Escrevendo de vós o que não sento,
+ E vossa formosura
+ Tanto á terra descesse,
+ Que a alcançasse humano entendimento;
+ Sería o fundamento
+ De tudo o qu'eu cantasse,
+ Todo de puro amor;
+ Porque o vosso louvor
+ Em figura de mágoas se mostrasse.
+ E aonde se julgasse
+ A causa por o effeito, a minha dor
+ Diria alli sem medo:
+ Quem me sentir verá de quem procedo.
+ Logo então mostraria
+ Os olhos saudosos,
+ E o suspirar que traz a alma comsigo;
+ A fingida alegria;
+ Os passos vagarosos;
+ O fallar e esquecer-me do que digo;
+ Hum pelejar comigo,
+ E logo desculpar-me;
+ Hum recear ousando;
+ Andar meu bem buscando,
+ E de o poder achar acovardar-me;
+ E, emfim, averiguar-me
+ Que o fim de tudo quanto estou fallando,
+ São lagrimas e amores;
+ São vossas isenções e minhas dores.
+ Mas quem terá, Senhora,
+ Palavras com qu'iguale
+ Com vossa formosura a minha pena;
+ E em doce voz de fóra
+ Aquella gloria falle
+ Que dentro na minh'alma Amor ordena?
+ Não póde tão pequena
+ Fôrça d'engenho humano
+ Com carga tão pezada,
+ Se não for ajudada
+ D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano,
+ Que fazendo-me o dano
+ Vão deleitoso e a dor tão moderada,
+ Emfim se convertesse
+ No gôsto dos louvores qu'escrevesse.
+ Canção, não digas mais; e se teus versos
+ Á pena vem pequenos,
+ Não queirão de ti mais; que dirás menos.
+
+
+CANÇÃO VI.
+
+ Com força desusada
+ Aquenta o fogo eterno
+ Huma Ilha nas partes do Oriente,
+ D'estranhos habitada,
+ Aonde o duro inverno
+ Os campos reverdece alegremente.
+ A Lusitana gente
+ Por armas sanguinosas
+ T[~e]e della o senhorio.
+ Cercada está d'hum rio
+ De maritimas ágoas saudosas.
+ Das hervas qu'aqui nascem,
+ Os gados juntamente e os olhos pascem.
+ Aqui minha ventura
+ Quiz que huma grande parte
+ Da vida, qu'eu não tinha, se passasse;
+ Para que a sepultura
+ Nas mãos do fero Marte
+ De sangue e de lembranças matizasse.
+ Se Amor determinasse
+ Que a trôco desta vida,
+ De mi qualquer memoria
+ Ficasse como historia,
+ Que d'huns formosos olhos fosse lida;
+ A vida e a alegria
+ Por tão doce memoria trocaria.
+ Mas este fingimento,
+ Por minha dura sórte,
+ Com falsas esperanças me convida.
+ Não cuide o pensamento
+ Que póde achar na morte
+ O que não pôde achar tão longa vida.
+ Está ja tão perdida
+ A minha confiança,
+ Que de desesperado,
+ Em ver meu triste estado,
+ Tambem da morte perco a esperança.
+ Mas oh! que s'algum dia
+ Desesperar pudesse, viveria.
+ De quanto tenho visto
+ Ja agora não m'espanto,
+ Que até desesperar se me defende.
+ Outrem foi causa disto,
+ Pois eu nunca fui tanto
+ Que causasse este fogo que m'encende.
+ Se cuidão que m'offende
+ Temor d'esquecimento,
+ Oxalá meu perigo
+ Me fôra tão amigo,
+ Que algum temor deixára ao pensamento!
+ Quem vio tamanho enleio,
+ Que houvesse ahi'sperança sem receio?
+ Quem t[~e]e que perder possa,
+ Só póde recear.
+ Mas triste quem não póde ja perder!
+ Senhora, a culpa he vossa,
+ Que para me matar
+ Bastára hum'hora só de vos não ver.
+ Puzestes-me em poder
+ De falsas esperanças:
+ E do que mais m'espanto,
+ Que nunca vali tanto,
+ Que visse tanto bem, como esquivanças.
+ Valia tão pequena
+ Não póde merecer tão doce pena.
+ Houve-se Amor comigo
+ Tão brando, ou pouco irado,
+ Quanto agora em meus males se conhece.
+ Que não ha mor castigo
+ Para quem t[~e]e errado,
+ Que negar-lhe o castigo que merece.
+ Da sórte que acontece
+ Ao misero doente,
+ Da cura despedido,
+ Que o Medico advertido
+ Tudo quanto deseja lhe consente;
+ O Amor me consentia
+ Esperanças, desejos e ousadia.
+ E agora venho a dar
+ Conta do bem passado
+ A esta triste vida e longa ausencia.
+ Quem póde imaginar
+ Qu'houvesse em mi peccado
+ Digno d'huma tão grave penitencia?
+ Olhae que he consciencia
+ Por tão pequeno êrro,
+ Senhora, tanta pena.
+ Não vêdes que he onzena?
+ Mas se tão longo e misero destêrro
+ Vos dá contentamento,
+ Nunca m'acabe nelle o meu tormento.
+ Rio formoso e claro,
+ E vós, ó arvoredos,
+ Que os justos vencedores coroais,
+ E ao cultor avaro,
+ Continuamente ledos,
+ D'hum tronco só diversos fructos dais;
+ Assi nunca sintais
+ Do tempo injúria alg[~u]a,
+ Qu'em vós achem abrigo
+ As mágoas que aqui digo,
+ Em quanto der o sol virtude á l[~u]a;
+ Porque de gente em gente
+ Saibão que ja não mata a vida ausente.
+ Canção, neste destêrro viverás,
+ Voz nua e descoberta,
+ Até que o tempo em ecco te converta.
+
+
+CANÇÃO VII.
+
+ Manda-me Amor que cante docemente
+ O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso,
+ Com presupposto de desabafar-me;
+ E porque com meu mal seja contente,
+ Diz que o ser de tão lindos olhos preso,
+ Cantá-lo bastaria a contentar-me.
+ Este excellente modo d'enganar-me
+ Tomára eu só d'Amor por interêsse,
+ Se não s'arrependesse,
+ Com a pena o engenho escurecendo.
+ Porém a mais me atrevo,
+ Em virtude do gesto de qu'escrevo.
+ E s'he mais o que canto que o qu'entendo,
+ Invoco o lindo aspeito,
+ Que póde mais que Amor, em meu defeito.
+ Sem conhecer a Amor viver sohia,
+ Seu arco e seus enganos desprezando,
+ Quando vivendo delles me mantinha.
+ Hum Amor enganoso, que fingia,
+ Mil vontades alheias enganando,
+ Me fazia zombar de quem o tinha.
+ No Touro entrava Phebo, e Progne vinha;
+ O corno de Acheloo Flora entornava;
+ Quando o Amor soltava
+ Os fios d'ouro, as tranças encrespadas,
+ Ao doce vento esquivas;
+ Os olhos rutilando chammas vivas;
+ E as rosas entre a neve semeadas;
+ Co'o riso tão galante,
+ Que hum peito desfizera de diamante.
+ Hum não sei que suave respirando,
+ Causava hum admiravel, novo espanto,
+ Que as cousas insensiveis o sentião.
+ Alli as garrulas aves, levantando
+ Vozes não ordinarias em seu canto,
+ Como eu no meu desejo, s'encendião.
+ As fontes crystallinas não corrião,
+ D'inflammadas na vista linda e pura;
+ Florecia a verdura,
+ Que andando co'os divinos pés tocava;
+ Os ramos se baixavão,
+ Ou d'inveja das hervas que pizavão,
+ Ou porque tudo ant'ella se baixava.
+ Não houve cousa, emfim,
+ Que não pasmasse della, e eu de mim.
+ Porque, quando vi dar entendimento
+ Ás cousas que o não tinhão, o temor
+ Me fez cuidar qu'effeito em mi faria.
+ Conheci-me não ter conhecimento:
+ Porém só nisto o tive, porque Amor
+ Mo deixou para ver o que podia.
+ Tanta vingança Amor de mi queria,
+ Que mudava a humana natureza
+ Nos montes, e a dureza
+ Delles em mi por trôco traspassava.
+ Oh que gentil partido,
+ Trocar o ser do monte sem sentido,
+ Por o qu'em hum juizo humano estava!
+ Olhae que doce engano!
+ Tirar commum proveito de meu dano.
+ Assi qu'indo perdendo o sentimento
+ A parte racional, m'entristecia
+ Vê-la a hum appetite submettida.
+ Mas dentro n'alma o fim do pensamento,
+ Por tão sublime causa, me dizia
+ Qu'era razão ser a razão vencida.
+ Assi que quando a via ser perdida,
+ A mesma perdição a restaurava:
+ E em mansa paz estava
+ Cada hum com seu contrário em hum sogeito.
+ Oh grão concêrto este!
+ Quem será que não julgue por celeste
+ A causa donde vem tamanho effeito,
+ Que faz n'hum coração
+ Que venha o appetite a ser razão?
+ Aqui senti d'Amor a mor fineza,
+ Como foi ver sentir o insensivel,
+ E o ver a mi de mi proprio perder-me:
+ E, emfim, senti negar-se a natureza;
+ Por onde cri que tudo era possivel
+ Aos lindos olhos seus, senão querer-me.
+ Despois que ja senti desfallecer-me,
+ Em lugar do sentido que perdia,
+ Não sei quem m'escrevia
+ Dentro n'alma co'as letras da memoria
+ O mais deste processo,
+ Co'o claro gesto juntamente impresso,
+ Que foi a causa de tão longa historia.
+ Se bem a declarei,
+ Eu não a escrevo, d'alma a trasladei.
+ Canção, se quem te ler
+ Não crer dos olhos lindos o que dizes,
+ Por o que a si s'esconde;
+ Os sentidos humanos (lhe responde)
+ Não podem dos divinos ser juizes,
+ Senão hum pensamento
+ Que a falta suppra a fé do entendimento.
+
+
+CANÇÃO VIII.[3]
+
+ Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente,
+ Caso que nunca em verso foi cantado,
+ Nem d'antes entre a gente acontecido.
+ Assi me paga em parte o meu cuidado;
+ Pois que quer que me louve e represente
+ Quão bem soube no mundo ser perdido.
+ Sou parte, e não serei da gente crido:
+ Mas he tamanho o gôsto de louvar-me,
+ E de manifestar-me
+ Por captivo de gesto tão formoso,
+ Que todo o impedimento
+ Rompe e desfaz a gloria do tormento
+ Peregrino, suave e deleitoso;
+ Que bem sei que o que canto
+ Ha d'achar menos credito qu'espanto.
+ Em vivia do cego Amor isento,
+ Porém tão inclinado a viver preso,
+ Que me dava desgôsto a liberdade.
+ Hum natural desejo tinha acceso
+ D'algum ditoso e doce pensamento,
+ Que m'illustrasse a insana mocidade.
+ Tornava do anno ja a primeira idade;
+ A revestida terra s'alegrava,
+ Quando o Amor me mostrava
+ De fios d'ouro as tranças desatadas
+ Ao doce vento estivo;
+ Os olhos rutilando lume vivo,
+ As rosas entre a neve semeadas;
+ O gesto grave e ledo,
+ Que juntos move em mi desejo e medo.
+ Hum não sei que suave respirando,
+ Causava hum desusado e novo espanto,
+ Que as cousas insensiveis o sentião.
+ Porque as garrulas aves, entretanto
+ Vozes desordenadas levantando,
+ Como eu em meu desejo, s'encendião.
+ As fontes crystallinas não corrião,
+ Inflammadas na vista clara e pura;
+ Florecia a verdura,
+ Que, andando, co'os ditosos pés tocava;
+ As ramas se baixavão,
+ Ou d'inveja das hervas que pizavão,
+ Ou porque tudo ant'elles se baixava:
+ O ar, o vento, o dia,
+ D'espiritos continuos influia.
+ E quando vi que dava entendimento
+ A cousas fóra delle, imaginei
+ Que milagres faria em mi que o tinha:
+ Vi que me desatou da minha lei,
+ Privando-me de todo sentimento,
+ E em outra transformando a vida minha.
+ Com tamanhos poderes d'Amor vinha,
+ Que o uso dos sentidos me tirava.
+ E não sei como o dava
+ Contra o poder e ordem da natura,
+ Ás arvores, aos montes,
+ Á rudeza das hervas e das fontes,
+ Que conhecêrão logo a vista pura.
+ Fiquei eu só tornado
+ Quasi em hum rudo tronco d'admirado.
+ Despois de ter perdido o sentimento,
+ D'humano hum só desejo me ficava,
+ Em que toda a razão se convertia.
+ Mas não sei quem no peito m'affirmava
+ Que por tão alto e doce pensamento,
+ Com razão, a razão se me perdia.
+ Assi que quando mais perdida a via,
+ Na sua mesma perda se ganhava.
+ Em doce paz estava
+ Com seu contrário proprio em hum sogeito.
+ Oh caso estranho e novo!
+ Por alta e grande certamente approvo
+ A causa, donde vem tamanho effeito,
+ Que faz n'hum coração
+ Que hum desejo, sem ser, seja razão.
+ Despois d'entregue ja ao meu desejo,
+ Ou quasi nelle todo convertido,
+ Solitario, sylvestre e inhumano,
+ Tão contente fiquei de ser perdido,
+ Que me parece tudo quanto vejo
+ Escusado, senão meu proprio dano.
+ Bebendo este suave e doce engano,
+ A trôco dos sentidos que perdia,
+ Vi que Amor m'esculpia
+ Dentro n'alma a figura illustre e bella,
+ A gravidade, o siso,
+ A mansidão, a graça, o doce riso.
+ E porque não cabia dentro nella
+ De bens tamanhos tanto,
+ Sahe por a boca convertido em canto.
+ Canção, se te não crerem
+ Daquelle claro gesto quanto dizes,
+ Por o que se lhe esconde;
+ Os sentidos humanos (lhe responde)
+ Não podem dos divinos ser juizes,
+ Senão hum pensamento,
+ Que a falta suppra a fé do entendimento.
+
+
+CANÇÃO IX.
+
+ Tomei a triste pena
+ Ja de desesperado
+ De vos lembrar as muitas que padeço;
+ Vendo que me condena
+ A ficar eu culpado
+ O mal que me tratais, e o que mereço.
+ Confesso que conheço
+ Qu'em parte a causa dei
+ Ao mal em que me vejo,
+ Pois sempre o meu desejo
+ A tão largas promessas entreguei;
+ Mas não tive suspeita
+ Que seguisseis tenção tão imperfeita.
+ S'em vosso esquecimento
+ Tão condemnado estou,
+ Como os sinaes demostrão, que mostrais;
+ Neste vivo tormento,
+ Lembranças mais não dou
+ Que as que desta razão tomar queirais:
+ Olhae que me tratais
+ Assi de dia em dia
+ Com vossas esquivanças;
+ E as vossas esperanças,
+ De que vãamente ja m'enriquecia,
+ Renovão a memoria;
+ Pois com a ter de vós só tenho gloria.
+ E s'isto conhecesseis
+ Ser verdade mais pura
+ Do que d'Arabia o ouro reluzente;
+ Inda que não quizesseis,
+ Essa condição dura
+ Em branda se mudára facilmente.
+ Eu, vendo-me innocente,
+ Senhora neste caso,
+ Bem no arbitrio o puzera
+ De quem sentença dera,
+ Com que o que he justo se mostrasse raso;
+ Se, emfim, não receára
+ Que a vós por mi, e a mi por vós matára.
+ Em vós escrita vi
+ Vossa grande dureza,
+ E n'alma escrita está, que de vós vive:
+ Não que acabasse alli
+ Sua grande firmeza
+ O triste desengano qu'então tive;
+ Porque antes que me prive
+ A dor de meus sentidos,
+ Ao penoso tormento
+ Acode o entendimento
+ Com dous fortes soldados guarnecidos
+ De rica pedraria,
+ Que ficão sendo minha luz e guia.
+ Destes acompanhado
+ Estou pôsto sem medo
+ A tudo o que o fatal destino ordene:
+ Póde ser que cansado,
+ Ou seja tarde, ou cedo,
+ Com pena de penar-me, me despene.
+ E quando me condene
+ (Qu'he o que mais espero)
+ Inda a penas maiores;
+ Perdidos os temores,
+ Por mais que venhão, não direi, não quero.
+ Estou, emfim, tão forte,
+ Que não pode mudar-me a propria morte.
+ Canção, se ja não queres
+ Crer tanta crueldade,
+ Lá vae onde verás minha verdade.
+
+
+CANÇÃO X.
+
+ Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte,
+ Inutil e despido, calvo e informe,
+ Da natureza em tudo aborrecido;
+ Onde nem ave vôa, ou fera dorme,
+ Nem corre claro rio, ou ferve fonte,
+ Nem verde ramo faz doce ruido;
+ Cujo nome, do vulgo introduzido,
+ He Feliz, por antiphrasi infelice;
+ O qual a natureza
+ Situou junto á parte,
+ Aonde hum braço d'alto mar reparte
+ A Abassia da Arabica aspereza,
+ Em que fundada ja foi Berenice,
+ Ficando á parte, donde
+ O sol, que nella ferve, se lh'esconde;
+ O cabo se descobre, com que a costa
+ Africana, que do Austro vem correndo,
+ Limite faz, Arómata chamado:
+ Arómata outro tempo; que volvendo
+ A roda, a ruda lingua mal composta
+ Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado.
+ Aqui, no mar, que quer apressurado
+ Entrar por a garganta deste braço,
+ Me trouxe hum tempo e teve
+ Minha fera ventura.
+ Aqui nesta remota, aspera e dura
+ Parte do mundo, quiz que a vida breve
+ Tambem de si deixasse hum breve espaço;
+ Porque ficasse a vida
+ Por o mundo em pedaços repartida.
+ Aqui me achei gastando huns tristes dias,
+ Tristes, forçados, maos e solitarios,
+ De trabalho, de dor, e d'ira cheios:
+ Não tendo tãosomente por contrarios
+ A vida, o sol ardente, as ágoas frias,
+ Os ares grossos, férvidos e feios,
+ Mas os meus pensamentos, que são meios
+ Para enganar a propria natureza,
+ Tambem vi contra mi;
+ Trazendo-me á memoria
+ Alguma ja passada e breve gloria,
+ Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi;
+ Por me dobrar dos males a aspereza;
+ Por mostrar-me que havia
+ No mundo muitas horas d'alegria.
+ Aqui'stive eu com estes pensamentos
+ Gastando tempo e vida; os quaes tão alto
+ Me subião nas asas, que cahia
+ (Oh vêde se seria leve o salto!)
+ De sonhados e vãos contentamentos
+ Em desesperação de ver hum dia.
+ O imaginar aqui se convertia
+ Em improvisos choros e em suspiros,
+ Que rompião os ares.
+ Aqui a alma captiva,
+ Chagada toda, estava em carne viva,
+ De dores rodeada e de pezares,
+ Desamparada e descoberta aos tiros
+ Da soberba Fortuna;
+ Soberba, inexoravel e importuna.
+ Não tinha parte donde se deitasse,
+ Nem esperança alguma, onde a cabeça
+ Hum pouco reclinasse, por descanso:
+ Tudo dor lhe era e causa que padeça,
+ Mas que pereça não; porque passasse
+ O que quiz o destino nunca manso.
+ Oh qu'este irado mar gemendo amanso!
+ Estes ventos, da voz importunados,
+ Parece que se enfreião:
+ Somente o Ceo severo,
+ As estrellas e o fado sempre fero,
+ Com meu perpétuo damno se recreião;
+ Mostrando-se potentes e indignados
+ Contra hum corpo terreno,
+ Bicho da terra vil e tão pequeno.
+ Se de tantos trabalhos só tirasse
+ Saber inda por certo que algum'hora
+ Lembrava a huns claros olhos que ja vi;
+ E s'esta triste voz, rompendo fóra,
+ As orelhas angelicas tocasse
+ Daquella em cuja vista ja vivi;
+ A qual, tornando hum pouco sôbre si,
+ Revolvendo na mente pressurosa
+ Os tempos ja passados
+ De meus doces errores,
+ De meus suaves males e furores,
+ Por ella padecidos e buscados,
+ E (pôsto que ja tarde) piedosa,
+ Hum pouco lhe pezasse,
+ E lá entre si por dura se julgasse:
+ Isto só que soubesse me seria
+ Descanso para a vida que me fica;
+ Com isto affagaria o soffrimento.
+ Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica
+ Estais, que cá tão longe d'alegria
+ Me sustentais com doce fingimento!
+ Logo que vos figura o pensamento,
+ Foge todo o trabalho e toda a pena.
+ Só com vossas lembranças
+ Me acho seguro e forte
+ Contra o rosto feroz da fera morte;
+ E logo se me juntão esperanças
+ Com que, a fronte tornada mais serena,
+ Torno os tormentos graves
+ Em saudades brandas e suaves.
+ Aqui com ellas fico perguntando
+ Aos ventos amorosos, que respirão
+ Da parte donde estais, por vós Senhora;
+ Ás aves qu'alli voão, se vos virão,
+ Que fazieis, qu'estaveis praticando;
+ Onde, como, com quem, que dia e que hora.
+ Alli a vida cansada se melhora,
+ Toma espiritos novos, com que vença
+ A fortuna e trabalho,
+ Só por tornar a ver-vos,
+ Só por ir a servir-vos e querer-vos.
+ Diz-me o tempo que a tudo dará talho:
+ Mas o desejo ardente, que detença
+ Nunca soffreo, sem tento
+ Me abre as chagas de novo ao soffrimento.
+ Assi vivo; e s'alguem te perguntasse,
+ Canção, porque não mouro;
+ Podes-lhe responder; que porque mouro.
+
+
+CANÇÃO XI.
+
+ Vinde cá meu tão certo Secretario
+ Dos queixumes que sempre ando fazendo,
+ Papel, com quem a pena desaffógo.
+ As semrazões digamos, que vivendo
+ Me faz o inexoravel e contrário
+ Destino, surdo a lagrimas e a rôgo.
+ Lancemos ágoa pouca em muito fogo,
+ Accenda-se com gritos hum tormento,
+ Que a todas as memorias seja estranho.
+ Digamos mal tamanho
+ A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento,
+ A quem ja muitas vezes o contei,
+ Tanto debalde como o conto agora.
+ Mas ja que para errores fui nascido,
+ Vir este a ser hum delles não duvido.
+ E, pois ja d'acertar estou tão fóra,
+ Não me culpem tambem se nisto errei.
+ Se quer este refúgio só terei,
+ Fallar e errar, sem culpa, livremente.
+ Triste quem de tão pouco está contente!
+ Ja me desenganei que de queixar-me
+ Não s'alcança remedio; mas quem pena,
+ Forçado lh'he gritar, se a dor he grande.
+ Gritarei; mas he debil e pequena
+ A voz para poder desabafar-me;
+ Porque nem com gritar a dor se abrande.
+ Quem me dará se quer que fóra mande
+ Lagrimas e suspiros infinitos,
+ Iguaes ao mal que dentro na alma mora?
+ Mas quem pôde algum'hora
+ Medir o mal com lagrimas, ou gritos?
+ Direi, emfim, aquillo que m'ensinão
+ A ira, e mágoa, e dellas a lembrança,
+ Que outra dor he por si mais dura e firme.
+ Chegae, desesperados, para ouvir-me;
+ E fujão os que vivem d'esperança,
+ Ou aquelles que nella se imaginão;
+ Porque Amor e Fortuna determinão
+ De lhes deixar poder para entenderem
+ Á medida dos males que tiverem.
+ Quando vim da materna sepultura
+ De novo ao mundo, logo me fizerão
+ Estrellas infelices obrigado:
+ Com ter livre alvedrio, mo não derão;
+ Qu'eu conheci mil vezes na ventura
+ O melhor, e o peor segui forçado.
+ E para que o tormento conformado
+ Me dessem com a idade, quando abrisse
+ Inda menino os olhos brandamente,
+ Mândão que diligente
+ Hum menino sem olhos me ferisse.
+ As lagrimas da infancia ja manavão
+ Com huma saudade namorada;
+ O som dos gritos, que no berço dava,
+ Ja como de suspiros me soava.
+ Co'a idade e fado estava concertado:
+ Porque quando por caso m'embalavão,
+ Se d'Amor tristes versos me cantavão,
+ Logo m'adormecia a natureza;
+ Que tão conforme estava co'a tristeza!
+ Foi minh'ama huma fera; que o destino
+ Não quiz que mulher fosse a que tivesse
+ Tal nome para mi; nem a haveria.
+ Assi criado fui, porque bebesse
+ O veneno amoroso de menino,
+ Que na maior idade beberia,
+ E por costume não me mataria.
+ Logo então vi a image e semelhança
+ Daquella humana fera tão formosa,
+ Suave e venenosa,
+ Que me criou aos peitos da esperança;
+ De quem eu vi despois o original,
+ Que de todos os grandes desatinos
+ Faz a culpa soberba e soberana.
+ Parece-me que tinha fórma humana,
+ Mas scintilava espiritos divinos.
+ Hum meneio, e presença tinha tal,
+ Que se vangloriava todo o mal
+ Na vista della: a sombra co'a viveza
+ Excedia o poder da natureza.
+ Que genero tão novo de tormento
+ Teve Amor, sem que fosse não somente
+ Provado em mi, mas todo executado?
+ Implacaveis durezas, que ao fervente
+ Desejo, que dá fôrça ao pensamento,
+ Tinhão de seu proposito abalado,
+ E corrido de ver-se e injuriado:
+ Aqui sombras phantasticas, trazidas
+ D'algumas temerarias esperanças;
+ As bem-aventuranças
+ Tambem nellas pintadas e fingidas.
+ Mas a dor do desprêzo recebido,
+ Que todo o phantasiar desatinava,
+ Estes enganos punha em desconcêrto.
+ Aqui o adivinhar, e o ter por certo
+ Qu'era verdade quanto adivinhava,
+ E logo o desdizer-me de corrido;
+ Dar ás cousas que via outro sentido;
+ E para tudo, emfim, buscar razões:
+ Mas erão muitas mais as semrazões.
+ Não sei como sabía estar roubando
+ Co'os raios as entranhas, que fugião
+ Par'ella por os olhos subtilmente!
+ Pouco a pouco invisiveis me sahião;
+ Bem como do véo humido exhalando
+ Está o subtil humor o sol ardente.
+ O gesto puro, emfim, e transparente,
+ Para quem fica baixo e sem valia
+ Este nome de bello e de formoso;
+ O doce e piedoso
+ Mover d'olhos, que as almas suspendia,
+ Forão as hervas magicas, que o Ceo
+ Me fez beber: as quaes por longos anos
+ N'outro ser me tiverão transformado,
+ E tão contente de me ver trocado,
+ Que as mágoas enganava co'os enganos;
+ E diante dos olhos punha o véo,
+ Que m'encobrisse o mal que assi cresceo:
+ Como quem com affagos se criava
+ Daquella para quem crescido estava.
+ Pois quem póde pintar a vida ausente,
+ Com hum descontentar-me quanto via,
+ E aquell'estar tão longe donde estava;
+ O fallar sem saber o que dizia;
+ Andar sem ver por onde, e juntamente
+ Suspirar sem saber que suspirava?
+ Pois quando aquelle mal m'atormentava,
+ E aquella dor, que das Tartareas ágoas
+ Sahio ao mundo, e mais que todas doe,
+ Que tantas vezes soe
+ Duras íras tornar em brandas mágoas?
+ Agora co'o furor da mágoa irado,
+ Querer, e não querer deixar de amar;
+ E mudar n'outra parte, por vingança,
+ O desejo privado d'esperança,
+ Que tão mal se podia ja mudar?
+ Agora a saudade do passado,
+ Tormento puro, doce e magoado,
+ Que converter fazia estes furores
+ Em magoadas lagrimas d'amores?
+ Que desculpas comigo só buscava,
+ Quando o suave Amor me não soffria
+ Culpa na cousa amada, e tão amada!
+ Erão, emfim, remedios que fingia
+ O medo do tormento, qu'ensinava
+ A vida a sustentar-se d'enganada.
+ Nisto huma parte della foi passada;
+ Na qual se tive algum contentamento
+ Breve, imperfeito, timido, indecente,
+ Não foi senão semente
+ D'hum cumprido, amarissimo tormento.
+ Este curso contino de tristeza,
+ Estes passos vãamente derramados,
+ Me forão apagando o ardente gôsto,
+ Que tão de siso n'alma tinha pôsto,
+ Daquelles pensamentos namorados
+ Com que criei a tenra natureza,
+ Que do longo costume da aspereza,
+ Contra quem fôrça humana não resiste,
+ Se converteo no gôsto de ser triste.
+ Dest'arte a vida em outra fui trocando;
+ Eu não, mas o destino fero, irado;
+ Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára.
+ Fez-me deixar o patrio ninho amado,
+ Passando o longo mar, que ameaçando
+ Tantas vezes m'esteve a vida chara.
+ Agora exprimentando a furia rara
+ De Marte, que nos olhos quiz que logo
+ Visse, e tocasse o acerbo fructo seu.
+ E neste escudo meu
+ A pintura verão do infesto fogo.
+ Agora peregrino, vago, errante,
+ Vendo nações, linguagens e costumes,
+ Ceos varios, qualidades differentes,
+ Só por seguir com passos diligentes
+ A ti, Fortuna injusta, que consumes
+ As idades, levando-lhes diante
+ Huma esperança em vista de diamante:
+ Mas quando das mãos cahe se conhece
+ Que he fragil vidro aquillo que apparece.
+ A piedade humana me faltava,
+ A gente amiga ja contrária via,
+ No perigo primeiro; e no segundo,
+ Terra em que pôr os pés me fallecia,
+ Ar para respirar se me negava,
+ E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo.
+ Que segredo tão arduo e tão profundo,
+ Nascer para viver e para a vida,
+ Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella!
+ E não poder perdella,
+ Estando tantas vezes ja perdida!
+ Emfim, não houve trance de fortuna,
+ Nem perigos, nem casos duvidosos,
+ Injustiças daquelles que o confuso
+ Regimento do mundo, antigo abuso,
+ Faz sôbre os outros homens poderosos,
+ Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna
+ Do soffrimento meu, que a importuna
+ Perseguição de males em pedaços
+ Mil vezes fez á fôrça de seus braços.
+ Não conto tantos males, como aquelle
+ Que despois da tormenta procellosa,
+ Os casos della conta em porto ledo;
+ Qu'inda agora a fortuna fluctuosa
+ A tamanhas miserias me compelle,
+ Que de dar hum só passo tenho medo.
+ Ja de mal que me venha não m'arredo,
+ Nem bem que me falleça ja pretendo;
+ Que para mi não val astucia humana,
+ De fôrça soberana,
+ Da Providencia, emfim, Divina pendo.
+ Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo
+ Para consolação de tantos danos.
+ Mas a fraqueza humana quando lança
+ Os olhos no que corre, e não alcança
+ Senão memoria dos passados anos;
+ As ágoas qu'então bebo, e o pão que como,
+ Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo,
+ Senão com fabricar na phantasia
+ Phantasticas pinturas d'alegria.
+ Que se possivel fosse que tornasse
+ O tempo para traz, como a memoria,
+ Por os vestigios da primeira idade;
+ E de novo tecendo a antigua historia
+ De meus doces errores, me levasse
+ Por as flores que vi da mocidade;
+ E a lembrança da longa saudade
+ Então fosse maior contentamento,
+ Vendo a conversação leda e suave,
+ Onde huma e outra chave
+ Esteve de meu novo pensamento,
+ Os campos, as passadas, os sinais,
+ A vista, a neve, a rosa, a formosura,
+ A graça, a mansidão, a cortezia,
+ A singela amizade, que desvia
+ Toda a baixa tenção, terrena, impura,
+ Como a qual outra alguma não vi mais...
+ Ah vãas memorias! onde me levais
+ O debil coração, qu'inda não posso
+ Domar bem este vão desejo vosso?
+ Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando,
+ Sem o sentir, mil annos; e se acaso
+ Te culparem de larga e de pezada;
+ Não póde ser (lhe dize) limitada
+ A ágoa do mar em tão pequeno vaso.
+ Nem eu delicadezas vou cantando
+ Co'o gôsto do louvor, mas explicando
+ Puras verdades ja por mi passadas.
+ Oxalá forão fábulas sonhadas!
+
+
+CANÇÃO XII.
+
+ Nem roxa flor de Abril,
+ Pintor do campo ameno e da verdura,
+ Colhida entre outras mil,
+ Foi nunca assi agradavel á donzella
+ Cortez, alegre e bella,
+ De sua mãe cuidado e glória pura,
+ Como a mi foi a inculta formosura
+ Natural, que pudera
+ A Saturno render na sua Esphera.
+ Natural fonte agreste,
+ Não lavrada d'Artifice excellente,
+ Mas por arte celeste
+ Derivada de rustico penedo,
+ Não fez ja mais tão ledo
+ Cansado caçador por sesta ardente,
+ Quanto o cuidado a mi me fez contente
+ Do ver tão descuidado,
+ Que faz sereno a Jupiter irado.
+ Fructa, que sem concêrto
+ Naturalmente em ramos se pendura,
+ Achada por acêrto;
+ A quem pintada a vê de sangue e leite,
+ Não lhe dara o deleite,
+ Qu'essa graça me dá sem compostura,
+ Ornamento da mesma formosura,
+ E o toucado sem arte,
+ Que tornára pastor ao bravo Marte.
+ A manhãa graciosa,
+ Que derramando sahe d'entre os cabellos
+ A flor, o lirio, a rosa,
+ Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio,
+ Não faz o beneficio,
+ Que faz a luz dos vossos olhos bellos
+ A quem os vê tão puros e singelos;
+ E esse innocente riso,
+ Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso.
+ Outeiros coroados
+ Das árvores que fazem a espessura
+ Com os ramos copados
+ Alegre, que mão destra os não cultiva,
+ Graça tão excessiva
+ Não t[~e]e na sua natural verdura,
+ Quanta na d'esses olhos, clara e pura,
+ Deposita a esperança,
+ Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança.
+ Dos simples passarinhos
+ A musica sem arte concertada,
+ D'entre os verdes raminhos,
+ Tão suave não he, tão deleitosa
+ A quem na selva umbrosa
+ Com mente ouvindo-a está toda enlevada,
+ Quanto a mi essa falla doce agrada,
+ E o natural aviso,
+ Que roubão a Mercurio sceptro e siso.
+ De frescos rios ágoa,
+ Que clara entre arvoredos se deriva,
+ Cahindo d'alta fragoa,
+ Esmaltando de perolas no prado
+ O verde delicado,
+ Com brando som aos olhos fugitiva,
+ Não nos alegra quanto a graça esquiva
+ D'essa luz soberana,
+ Que faz cortez a rustica Diana.
+ A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!)
+ Vendo estás ja prostrado
+ Saturno triste, Jupiter irado,
+ Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella,
+ E Mercurio, e Diana, e toda estrella.
+
+
+CANÇÃO XIII.
+
+ Oh pomar venturoso,
+ Onde co'a natureza
+ A subtil arte t[~e]e demanda incerta;
+ Qu'em sítio tão formoso
+ A maior subtileza
+ D'engenho em ti nos mostras descoberta!
+ Nenhum juizo acerta,
+ De cego e d'enlevado,
+ Se t[~e]e em ti mais parte
+ A natureza, ou arte;
+ Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado,
+ Pois em feliz terreno
+ Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno.
+ De teu formoso pêzo
+ Se mostra o monte ledo,
+ E o caudaloso Zezere t'estranha,
+ Porque ólhas com desprêzo
+ Seu crystal puro e quedo,
+ Que com Pera os teus pés rodeia e banha.
+ Em ti pintura estranha,
+ A que Apelles cedêra,
+ Enigmas intricados,
+ E myrtos animados
+ Vemos, que o proprio Escopas não fizera;
+ Em ti, co'a paz interna,
+ T[~e]e o santo prazer morada eterna.
+ Os jardins da famosa
+ Babel, tão nomeados,
+ Por maravilha o mundo não levante,
+ Inda que com gloriosa
+ Voz, qu'estão pendurados
+ Do instavel ar, a fama antigua cante:
+ Nem haja quem s'espante
+ Dos famosos d'Alcino;
+ Nem as mais doutas pennas
+ Cantem os de Mecenas,
+ Cultor de todo engenho peregrino;
+ Mas onde quer que vôe,
+ De ti só falle a Fama, e te pregôe.
+ Que s'era antiguamente
+ De pomos d'ouro bellos
+ O jardim das Hesperidas ornado;
+ E, a pezar da serpente
+ Que os guardou, só colhellos
+ Pôde o famoso Alcides, d'esforçado;
+ Tu, mais avantajado,
+ Mostras a hum'alma casta
+ Seguir o que deseja,
+ Fugir da torpe inveja
+ (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta):
+ Emfim, co'a caridade
+ Vencer o Inferno, abrir a Eternidade.
+ Por tanto da ventura,
+ Para ti reservada,
+ Te deixe o Ceo gozar perpetuamente;
+ Porque sejas figura
+ Da gloria avantajada
+ Delle mesmo, e qu'em ti se represente;
+ Porqu'em quanto sustente
+ O ceo, o mar e a terra,
+ Seus feitos milagrosos,
+ Mysterios mais gloriosos,
+ Com que a morte das almas nos desterra,
+ Por onde em nossas almas
+ Com mais pompas triumpha e com mais palmas,
+ .......................
+ Goza, pois, longamente
+ Teu venturoso fado,
+ Da mãe do teu autor bem possuido:
+ Qu'em ti, sempre contente
+ De seu sublime estado,
+ A alma dos seus alegra e o sentido.
+ Cada qual preferido
+ Nas grandes qualidades
+ Ao sabio Nestor seja,
+ Para que o mundo os veja
+ Exceder as longuissimas idades;
+ E com a longa vida
+ Seja sua memoria ennobrecida.
+ Canção, pois mais famosas
+ Por ti não podem ser
+ Deste monte as estancias deleitosas;
+ Bem póde succeder
+ Que aquelle que os teus numeros governa,
+ Por querê-las cantar te faça eterna.
+
+
+CANÇÃO XIV.
+
+ Quem com sólido intento
+ Os segredos buscar da natureza,
+ Quanto d'Athenas préza,
+ Entregue ao mar irado, ao leve vento:
+ Em forjar meu tormento,
+ Nova Philosophia,
+ D'experiencias feita, Amor m'ensina.
+ Das Leis do antigo tempo bem declina;
+ Que Amor a natureza em mi varía;
+ Donde escola de Sabios nunca vio
+ Em natural sogeito
+ Quanto Amor em meu peito descobrio.
+ As aves no ar sereno,
+ O gado de Proteo nas ágoas pasce;
+ Vive o homem e nasce
+ Neste mundo, qual mundo mais pequeno:
+ Eu tudo desordeno,
+ Em todos dividido;
+ A boca no ar, na terra o entendimento:
+ Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento;
+ O coração no fogo he consumido:
+ Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce,
+ T[~e]e effeito tão vário,
+ Qu'em hum humor contrário o fogo cresce.
+ Da vista Amor sohia
+ Abrir ao coração segura entrada:
+ Lei he ja profanada;
+ Que quando a luz d'huns olhos me fería,
+ Amando o que não via,
+ Qual d'escopeta o lume,
+ Primeiro o querer vi, que a causa visse.
+ Quem o desejo co'a esperança unisse,
+ Cego iria apos cego e vil costume;
+ Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta,
+ Morta a esperança vejo,
+ Onde sempre o desejo se sustenta.
+ Em vão se considera
+ Que hum semelhante a outro busca e ama,
+ E que foge e desama
+ Todo mortal a morte esquiva e fera:
+ Sigo huma linda fera,
+ Qu'esconde em vista humana
+ Coração de diamante e peito d'aço,
+ De meu sangue faminta; e satisfaço
+ Com cruel morte a sêde deshumana.
+ Assi que, sendo em tudo differente,
+ Corro apos minha sorte,
+ E se m'entrego á morte, estou contente.
+ Cahe em maior defeito
+ Quem cuida ser sciencia clara e certa,
+ Que a causa descoberta
+ Sempre produz a si conforme o effeito:
+ Rendeo-me hum lindo objeito,
+ Que, sendo neve pura,
+ Vivo me abraza, e o fogo interno aviva;
+ Qu'esta formosa fera fugitiva,
+ Com ser neve, do fogo s'assegura:
+ Donde infiro por certo (e cesse a fama
+ Vãa, mentirosa e leve)
+ Que não desfaz a neve ardente chama.
+ Bem no effeito se sente
+ Cessar, cessando a causa donde pende;
+ Que o fogo mais se accende,
+ Estando á vista, donde mais ausente;
+ Mas n'alma vivamente
+ A trazem debuxada,
+ De noite Amor, de dia o pensamento:
+ E quando Apollo deixa o claro assento,
+ Por entre sombras vejo a Nympha amada.
+ Pois se sem luz Amor os olhos ceva,
+ Cego, se não concede
+ Qu'em nada a Amor impede a escura treva.
+ Erra quem atrevido
+ Pregôa ser maior que a parte o todo:
+ Amor me t[~e]e de modo,
+ Qu'estou n'hum'alma minha convertido:
+ Desta gloria ha nascido
+ O temor de perdê-la:
+ E, postoque o receio a muitos finge
+ Lá na imaginação Chimera e Sfinge
+ De mal futuro, que urde imiga estrella,
+ Vejo em mi, por incognito segredo,
+ Quando estou mais contente,
+ Que só do bem presente nasce o medo.
+ T[~e]e-se por manifesto
+ Parecer-se ao sogeito o accidente;
+ Mas inda em mi se sente
+ O pensamento, a côr, o riso, o gesto;
+ E, tendo todo o resto
+ Da vida ja perdido
+ Neste tormento meu tão duro e esquivo,
+ A gostos morto estou, a penas vivo.
+ E, sendo morto ja, vive o sentido,
+ Porque sinta que n'alma despedida
+ Póde em meu mal unir-se
+ O ficar e o partir-se, a morte e a vida.
+ Destas razões, Canção, infiro e creio,
+ Que ou se mudou em tudo a fórma usada
+ Da natural firmeza,
+ Ou tenho a natureza em mi mudada.
+
+
+CANÇÃO XV.
+
+ Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura,
+ Que sempre na alma vejo?
+ Ou me pinta o desejo
+ O bem qu'em vão cad'hora m'assegura?
+ Mal póde a noite escura,
+ Amando a sombra fria,
+ Mandar-me em sonho a luz formosa e bella,
+ Que se não torne em dia,
+ De seus luzentes raios inflammada.
+ Oh vista desejada
+ De graciosa Nympha e viva estrella!
+ Que ha tanto que por este mar navego
+ (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego.
+ Nesses formosos olhos, d'enlevada,
+ Minh'alma se escondeo,
+ Quando ordenava o Ceo
+ Que vivesse comigo desterrada.
+ Vós a mais certa estrada
+ De ver a summa alteza,
+ Do efeito a causa abris a est'alma minha.
+ Assi mortal belleza
+ Só della nasce, e nella se resume;
+ Assi celeste lume
+ Lá dos ceos se deriva, e lá caminha.
+ Pois, como a Deos unir-me a vista possa,
+ Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa?
+ Se me quereis prender a parte a parte,
+ Cabello ondado e louro,
+ Tecei-me a rede de ouro
+ Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte.
+ Des que com gentil arte
+ Vestis de flores bellas
+ A terra em que tocais co'a bella planta,
+ Quantas vezes com vellas
+ Quiz n'huma d'essas flores transformar-me?
+ Porque, vendo pizar-me
+ D'esse candido pé, que a neve espanta,
+ Póde ser que na flor mudado fôra
+ Que deo a Juno irada a linda Flora.
+ Mas onde te acolheste (ó doce vida!)
+ Mais leve e pressurosa,
+ Do que na selva umbrosa
+ Cerva d'aguda setta vai ferida?
+ Se para tal partida,
+ Meus olhos, vos abristes,
+ Cerrára-vos o somno eternamente,
+ Antes que ver-vos tristes,
+ Perdendo tão suave e doce engano!
+ Agora, com meu dano,
+ Vêdes, para mor mágoa, claramente,
+ Neste bem fugitivo e somno leve,
+ Que mal não ha mais longo, que hum bem breve.
+ Ditoso Endymião que a deosa chara,
+ Que a noite vai guiando,
+ Teve em braços sonhando!
+ Ah quem de sonho tal nunca acordára!
+ Tu só, Aurora avara,
+ Quando os olhos feriste,
+ Me mataste cruel d'inveja pura.
+ Mas se d'esta alma triste
+ A negra escuridão vencer quizeste,
+ Sabe qu'em vão nasceste;
+ Que para desfazer-se a nevoa escura
+ De meus olhos, importa estar presente
+ Outro sol, outra aurora, outro Oriente.
+ Se a luz de meu Planeta,
+ Não m'aviva, Canção, branda e quieta,
+ Qual flor de chuva, em breve consumida,
+ Verás desfeita em lagrimas a vida.
+
+
+CANÇÃO XVI.
+
+ Por meio d'humas serras mui fragosas,
+ Cercadas de sylvestres arvoredos,
+ Retumbando por asperos penedos,
+ Correm perennes ágoas deleitosas.
+ Na ribeira de Buina, assi chamada,
+ Celebrada,
+ Porqu'em prados
+ Esmaltados
+ Com frescura
+ De verdura,
+ Assi se mostra amena, assi graciosa,
+ Qu'excede a qualquer outra mais formosa;
+ As correntes se vem, que acceleradas,
+ As hervas regalando e as boninas,
+ Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas,
+ Por diversas ribeiras derivadas.
+ Com mil brancas conchinhas a aurea areia
+ Bem se arreia;
+ Voão aves;
+ Mil suaves
+ Passarinhos
+ Nos raminhos
+ Acordemente estão sempre cantando,
+ Com doce accento os ares abrandando.
+ O doce rouxinol n'hum ramo canta,
+ E d'outro o pintasirgo lhe responde;
+ A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde,
+ O caçador sentindo, se levanta:
+ Voando vai ligeira mais que o vento;
+ Outro assento
+ Vai buscando;
+ Porém quando
+ Vai fugindo;
+ Retinindo,
+ Traz ella mais veloz a setta corre,
+ De que ferida logo cahe e morre.
+ Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo,
+ Co'o peito ensanguentado anda voando,
+ Cibato para o ninho indo buscando;
+ A leda codorniz vem ao reclamo
+ Do sagaz caçador, que a rede estende,
+ E pretende
+ Com engano
+ Fazer dano
+ Á coitada,
+ Qu'enganada
+ D'huns esparzidos grãos de louro trigo,
+ Nas mãos vai a cahir de seu imigo.
+ Aqui sôa a calhandra na parreira;
+ A rôla geme; palra o estorninho;
+ Sahe a candida pomba do seu ninho;
+ O tordo pousa em cima da oliveira:
+ Vão as doces abelhas susurrando,
+ E apanhando
+ O rocio
+ Fresco e frio
+ Por o prado
+ D'herva ornado,
+ Com que o aureo licor fazem, que deo
+ Á humana gente a indústria d'Aristeo.
+ Aqui as uvas luzidas, penduradas
+ Das pampinosas vides, resplandecem;
+ As frondiferas árvores se offrecem
+ Com differentes fructos carregadas:
+ Os peixes n'ágoa clara andão saltando,
+ Levantando
+ As pedrinhas,
+ E as conchinhas
+ Rubicundas,
+ Que as jucundas
+ Ondas comsigo trazem, crepitando
+ Por a praia alva com ruido brando.
+ Aqui por entre as serras se levantão
+ Animaes Calidoneos, e os veados
+ Na fugida inda mal assegurados,
+ Porque do som dos proprios pés s'espantão.
+ Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa
+ Da frondosa
+ Breve mata,
+ Donde a cata
+ Cão ligeiro.
+ Mas primeiro
+ Qu'ella ao contrário férvido s'entregue,
+ Ás vezes deixa em branco a quem a segue.
+ Luzem as brancas e purpúreas flores,
+ Com que o brando Favonio a terra esmalta;
+ O formoso jacintho alli não falta,
+ Lembrado dos antiguos seus amores.
+ Inda na flor se mostrão esculpidos
+ Os gemidos:
+ Aqui Flora
+ Sempre mora;
+ E com rosas
+ Mais formosas,
+ Com lirios e boninas mil fragrantes,
+ Alegra os seus amores circumstantes.
+ Aqui Narciso em líquido crystal
+ Se namora de sua formosura:
+ Nelle as pendentes ramas da'spessura
+ Debuxando-se estão ao natural.
+ Adonis, com que a linda Cytherêa
+ Se recrêa,
+ Bem florido,
+ Convertido
+ Na bonina,
+ Qu'Erycina
+ Por imagem deixou de qual sería
+ Aquelle por quem ella se perdia.
+ Lugar alegre, fresco, accommodado
+ Para se deleitar qualquer amante,
+ A quem com sua ponta penetrante
+ O cego Amor tivesse derribado;
+ E para memorar ao som das ágoas
+ Suas mágoas
+ Amorosas,
+ As cheirosas
+ Flores vendo,
+ Escolhendo,
+ Para fazer preciosas mil capellas,
+ E dar por grão penhor a Nymphas bellas.
+ Eu dellas, por penhor de meus amores,
+ Huma capella á minha deosa dava:
+ Que lhe queria bem, bem lhe mostrava
+ O bem-mequeres entre tantas flores:
+ Porém, como se fôra mal-mequeres,
+ Os poderes
+ Da crueldade
+ Na beldade
+ Bem mostrou;
+ Desprezou
+ A dadiva de flores; não por minha,
+ Mas porque muitas mais ella em si tinha.
+
+
+CANÇÃO XVII.
+
+ A vida ja passei assaz contente,
+ Livre tinha a vontade e o pensamento,
+ Sem receios d'Amor, nem da Ventura:
+ Mas isto foi hum bem d'hum só momento;
+ E á minha custa vejo claramente,
+ Que a vida não dá algum de muita dura.
+ No tempo em qu'eu vivia mais segura
+ D'Amor e seu cuidado,
+ Por me ver n'hum estado
+ Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte;
+ Não sinto por qual arte
+ Me vejo entregue a elle de tal sorte,
+ Qu'em quanto tarda a morte,
+ A esperança do bem tenho perdida.
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+ Quantas vezes eu triste aqui ouvia
+ O meu Felicio, e outros mil pastores,
+ Queixar-se em vão de minha crueldade!
+ E mais surda então eu a seus clamores,
+ Que aspide surda, ou surda penedia,
+ Julgava os seus amores por vaidade.
+ Agora em pago disto a liberdade,
+ A vontade e o desejo
+ De todo entregue vejo
+ A quem, inda que brade, não responde;
+ Pois vejo que s'esconde
+ Ja debaixo da terra este qu'eu chamo,
+ Que he aquelle a quem amo,
+ Aquelle a quem agora estou rendida.
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+ Que gloria, Amor cruel, com meu tormento,
+ Que louvor a teu nome accrescentaste?
+ Ou que te constrangeo a tal crueza,
+ Que com tal pressa esta alma sujeitaste
+ A hum mal, onde não basta o soffrimento?
+ Mas se, Amor, es cruel de natureza,
+ Bastava usar comigo da aspereza
+ Que usas com outra gente:
+ Mas tu como somente
+ De ver-me estar morrendo te contentas,
+ Quando mais me atormentas,
+ Então desejas mais d'atormentar-me;
+ E não queres matar-me
+ Porque este mal de mi se não despida.
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+ Onde cousa acharei que alegre veja?
+ A quem chamarei ja que me responda?
+ Quem me dará remedio á dor presente?
+ Não ha bem, que de mi ja não s'esconda;
+ Nem algum verei ja, que a mi o seja,
+ Porqu'está quem o foi da vida ausente.
+ Eu alguma não vi tão descontente,
+ Que Amor tão mal tratasse,
+ Qu'inda não esperasse
+ A seus males remedio achar vivendo:
+ Eu só vivo soffrendo
+ Hum mal tão grave e tão desesperado,
+ Que tanto he mais pezado,
+ Quanto a vida com elle he mais comprida.
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+ Suaves ágoas, dura penedia,
+ Arvoredo sombrio, verde prado,
+ Donde eu ja tive livre o pensamento;
+ Frescas flores; e vós, meu manso gado,
+ Que ja m'acompanhastes na alegria,
+ Não me deixeis agora no tormento.
+ Se do mal meu vos toca sentimento,
+ Dae-me par'elle ajuda,
+ Qu'eu tenho a lingua muda,
+ O alento me vai ja desamparando.
+ Mas quando (ai triste!) quando
+ D'hum dia hum'hora me virá contente,
+ Qu'eu te veja presente,
+ Pastor meu, e comtigo est'alma unida?
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+ Mas não sei se he sobrado atrevimento
+ Querer-se est'alma minha unir comtigo,
+ Pois della foste ja tão desprezado.
+ Amor me livrará deste perigo;
+ Que despois que lá vires meu tormento,
+ Creio que t'haverás por bem vingado.
+ E s'inda em ti durar o amor passado,
+ E aquella fé tão pura,
+ Eu estou bem segura
+ Que has lá de receber-me brandamente.
+ Aprenda em mi a gente
+ Quão cara huma isenção com Amor custa:
+ A pena dá bem justa
+ A hum'alma que lhe he pouco agradecida.
+ Ai quão devagar passa a triste vida!
+
+
+
+
+ODES.
+
+
+ODE I.
+
+ Detem hum pouco, Musa, o largo pranto
+ Que Amor te abre do peito;
+ E vestida de rico e ledo manto,
+ Demos honra e respeito
+ Áquella, cujo objeito
+ Todo o mundo allumia,
+ Trocando a noite escura em claro dia.
+ O Delia, que a pezar da nevoa grossa,
+ Co'os teus raios de prata
+ A noite escura fazes que não possa
+ Encontrar o que trata,
+ E o que n'alma retrata
+ Amor por teu divino
+ Raio, por qu'endoudeço e desatino:
+ Tu, que de formosissimas estrellas
+ Corôas e rodeias
+ Tua candida fronte e faces bellas;
+ E os campos formoseias
+ Co'as rosas que semeias,
+ Co'as boninas que gera
+ O teu celeste humor na primavera:
+ Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio
+ Suas sombras formosas;
+ Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
+ As mais purpureas rosas;
+ E as drogas mais cheirosas
+ Desse nosso Oriente
+ Guarda a felice Arabia mais contente.
+ De qual panthera, ou tigre, ou leopardo
+ As asperas entranhas
+ Não temêrão teu fero e agudo dardo,
+ Quando por as montanhas
+ Mais remotas e estranhas
+ Ligeira atravessavas,
+ Tão formosa que a Amor d'amor matavas?
+ Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos
+ Furtos de purídades,
+ Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos,
+ As conformes vontades,
+ Humas por saudades,
+ Outras por crus indicios
+ Fazem das proprias vidas sacrificios:
+ Ja veio Endymião por estes montes
+ O ceo, suspenso, olhando,
+ E teu nome, co'os olhos feitos fontes,
+ Em vão sempre chamando,
+ Pedindo (suspirando)
+ Mercês á tua beldade,
+ Sem que ache em ti hum'hora piedade.
+ Por ti feito pastor de branco gado
+ Nas selvas solitarias,
+ Só de seu pensamento acompanhado,
+ Conversa as alimarias,
+ De todo Amor contrárias,
+ Mas não como ti duras,
+ Onde lamenta e chora desventuras.
+ Das castas virgens sempre os altos gritos,
+ Clara Lucina, ouviste,
+ Renovando-lhe as fôrças e os espritos:
+ Mas os daquelle triste,
+ Ja nunca consentiste
+ Ouvi-los hum momento,
+ Para ser menos grave o seu tormento.
+ Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas
+ D'hum tão fiel amante!
+ Ólha como suspirão estas ondas,
+ E como o velho Atlante
+ O seu collo arrogante
+ Move piedosamente,
+ Ouvindo a minha voz fraca e doente.
+ Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me,
+ Pois minhas queixas digo
+ A quem ja ergueo a mão para matar-me,
+ Como a cruel imigo?
+ Mas eu meu fado sigo,
+ Que a isto me destina,
+ E qu'isto só pretende e só m'ensina.
+ Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!
+ Mas eu sempre porfio
+ Cada vez mais na minha teima insana.
+ Tendo livre alvedrio,
+ Não fujo o desvario;
+ Porque este em que me vejo
+ Engana co'a esperança o meu desejo.
+ Oh quanto melhor fôra que dormissem
+ Hum somno perennal
+ Estes meus olhos tristes, e não vissem
+ A causa de seu mal
+ Fugir, a hum tempo tal,
+ Mais que d'antes proterva,
+ Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva!
+ Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo,
+ Com mil mortes ao lado;
+ E quando morro mais, então mais vivo!
+ Porque t[~e]e ordenado
+ Meu infelice fado,
+ Que quando me convida
+ A morte, para a morte tenha vida.
+ Secreta noite amiga, a que obedeço,
+ Estas rosas (por quanto
+ Meus queixumes me ouviste) te offereço,
+ E este fresco amaranto,
+ Humido ja do pranto,
+ E lagrimas da esposa
+ Do cioso Titão, branca e formosa.
+
+
+ODE II.
+
+ Tão suave, tão fresca e tão formosa,
+ Nunca no ceo sahio
+ A Aurora no princípio do verão,
+ Ás flores dando a graça costumada,
+ Como a formosa mansa fera, quando
+ Hum pensamento vivo m'inspirou,
+ Por quem me desconheço.
+ Bonina pudibunda, ou fresca rosa,
+ Nunca no campo abrio,
+ Quando os raios do sol no Touro estão,
+ De côres differentes esmaltada,
+ Como esta flor, que os olhos inclinando,
+ O soffrimento triste costumou
+ Á pena que padeço.
+ Ligeira, bella Nympha, linda, irosa,
+ Não creio que seguio
+ Satyro, cujo brando coração
+ D'amores commovesse fera irada,
+ Qu'assi fosse fugindo e desprezando
+ Este tormento, donde Amor mostrou
+ Tão próspero comêço.
+ Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa
+ Natura produzio,
+ Qu'iguale aquella fórma e condição,
+ Que as dores em que vivo estima em nada.
+ Mas com tão doce gesto, irado e brando,
+ O sentimento, e a vida m'enlevou,
+ Que a pena lhe agradeço.
+ Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa,
+ Aquillo que a alma vio
+ Entre a doce dureza e mansidão,
+ Primores de belleza desusada;
+ Mas quando quiz voar ao ceo cantando,
+ Entendimento e engenho me cegou
+ Luz de tão alto preço.
+ Naquella alta pureza deleitosa
+ Que ao mundo s'encobrio;
+ E nos olhos Angelicos, que são
+ Senhores desta vida destinada;
+ E naquelles cabellos, que soltando
+ Ao manso vento, a vida me enredou,
+ M'alegro e m'entristeço.
+ Saudade e suspeita perigosa,
+ Que Amor constituio
+ Por castigo daquelles que se vão;
+ Temores, penas d'alma desprezada,
+ Fera esquivança, que me vai tirando
+ O mantimento que me sustentou,
+ A tudo me offereço.
+ Amor isento a huns olhos m'entregou,
+ Nos quaes a Deos conheço.
+
+
+ODE III.
+
+ Se de meu pensamento
+ Tanta razão tivera d'alegrar-me,
+ Quanto de meu tormento
+ A tenho de queixar-me,
+ Puderas, triste lyra, consolar-me.
+ E minha voz cansada,
+ Qu'em outro tempo foi alegre e pura,
+ Não fôra assi tornada,
+ Com tanta desventura,
+ Tão rouca, tão pezada, nem tão dura.
+ A ser como sohia,
+ Pudera levantar vossos louvores;
+ Vós, minha Hierarchia,
+ Ouvíreis meus amores,
+ Qu'exemplo são ao mundo ja de dores.
+ Alegres meus cuidados,
+ Contentes dias, horas e momentos,
+ Oh quanto bem lembrados
+ Sois de meus pensamentos,
+ Reinando agora em mi duros tormentos!
+ Ai gostos fugitivos!
+ Ai gloria ja acabada e consumida!
+ Ai males tão esquivos!
+ Qual me deixais a vida!
+ Quão cheia de pezar! quão destruida!
+ Mas como não he morta
+ Ja esta vida? como tanto dura?
+ Como não abre a porta
+ A tanta desventura,
+ Qu'em vão com seu poder o tempo cura?
+ Mas para padecê-la
+ S'esforça o meu sogeito e convalece;
+ Que só para dizê-la,
+ A fôrça me fallece,
+ E de todo me cansa e m'enfraquece.
+ Oh bem affortunado
+ Tu, que alcançaste com lyra toante,
+ Orphêo, ser escutado
+ Do fero Rhadamante,
+ E co'os teus olhos ver a doce amante!
+ As infernaes figuras
+ Moveste com teu canto docemente;
+ As tres Furias escuras,
+ Implacaveis á gente,
+ Applacadas se vírão derepente.
+ Ficou como pasmado
+ Todo o Estygio Reino co'o teu canto;
+ E quasi descansado
+ De seu eterno pranto,
+ Cessou de alçar Sisypho o grave canto.
+ A ordem se mudava
+ Das penas que regendo está Plutão;
+ Em descanso se achava
+ A roda de Ixião,
+ E em glória quantas penas alli são.
+ De todo ja admirada
+ A Rainha infernal e commovida,
+ Te deo a desejada
+ Esposa, que perdida
+ De tantos dias ja tivera a vida.
+ Pois minha desventura,
+ Como ja não abranda hum'alma humana,
+ Qu'he contra mi mais dura,
+ E inda mais deshumana,
+ Que o furor de Callirrhoë profana?
+ Oh crua, esquiva e fera,
+ Duro peito, cruel e empedernido,
+ D'alguma tigre fera
+ Lá na Hircania nascido,
+ Ou d'entre as duras rochas produzido!
+ Mas que digo, coitado!
+ E de quem fio em vão minhas querellas?
+ Só vós, ó do salgado,
+ Humido Reino bellas
+ E claras Nymphas, condoei-vos dellas.
+ E d'ouro guarnecidas
+ Vossas louras cabeças levantando
+ Sôbre as ondas erguidas,
+ As tranças gottejando,
+ Sahindo todas, vinde a ver qual ando.
+ Sahi em companhia,
+ E cantando e colhendo as lindas flores;
+ Vereis minha agonia,
+ Ouvireis meus amores,
+ E sentireis meus prantos, meus clamores.
+ Vereis o mais perdido
+ E mais infeliz corpo qu'he gerado;
+ Qu'está ja convertido
+ Em chôro, e neste estado
+ Somente vive nelle o seu cuidado.
+
+
+ODE IV.
+
+ Formosa fera humana,
+ Em cujo coração soberbo e rudo
+ A fôrça soberana
+ Do vingativo Amor, que vence tudo,
+ As pontas amoladas
+ De quantas settas tinha t[~e]e quebradas:
+ Amada Circe minha,
+ Postoque minha não, com tudo amada;
+ A quem hum bem que tinha
+ Da doce liberdade desejada,
+ Pouco a pouco entreguei,
+ E se mais tenho, mais entregarei;
+ Pois natureza irosa
+ Da razão te deo partes tão contrárias,
+ Que sendo tão formosa,
+ Folgues de te queimar em flammas várias,
+ Sem arder em nenh[~u]a
+ Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a;
+ Pois triumphando vás
+ Com diversos despojos de perdidos,
+ Que tu privando estás
+ De razão, de juizo e de sentidos,
+ E quasi a todos dando
+ Aquelle bem que a todos vás negando;
+ Pois tanto te contenta
+ Ver o nocturno moço, em ferro envolto,
+ Debaixo da tormenta
+ De Jupiter em ágoa e vento sôlto,
+ Á porta, que impedido
+ Lhe t[~e]e seu bem, de mágoa adormecido;
+ Porque não tens receio
+ Que tantas insolencias e esquivanças
+ A deosa, que põe freio
+ A soberbas e doudas esperanças,
+ Castigue com rigor,
+ E contra ti se accenda o fero Amor?
+ Ólha a formosa Flora;
+ De despojos de mil suspiros rica,
+ Por o Capitão chora,
+ Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica,
+ E foi sublime tanto,
+ Que altares lhe deo Roma e nome santo.
+ Ólha em Lesbos aquella
+ No seu salteiro insigne conhecida;
+ Dos muitos que por ella
+ Se perdêrão, perdeo a chara vida
+ Na rocha que se infama
+ Com ser remedio extremo de quem ama.
+ Por o moço escolhido,
+ Onde mais se mostrárão as tres Graças;
+ Que Venus escondido
+ Para si teve hum tempo entre as alfaças,
+ Pagou co'a morte fria
+ A má vida que a muitos ja daria.
+ E, vendo-se deixada
+ Daquelle por quem tantos ja deixára,
+ Se foi, desesperada,
+ Precipitar da infame rocha chara:
+ Que o mal de mal querida
+ Sabe que vida lhe he perder a vida.
+ Tomae-me, bravos mares;
+ Vós me tomae, pois outrem me deixou.
+ Disse: e dos altos ares
+ Pendendo, com furor s'arremessou.
+ Acude tu, suave,
+ Acude, poderosa e divina ave.
+ Toma-a nas azas tuas,
+ Menino pio, illesa e sem perigo,
+ Antes que nestas cruas
+ Ágoas cahindo apague o fogo antigo.
+ He digno amor tamanho
+ De viver, e ser tido por estranho.
+ Não: qu'he razão que seja
+ Para as lobas isentas, que amor vendem,
+ Exemplo onde se veja
+ Que tambem ficão presas as que prendem.
+ Assi o deo por sentença
+ Nemesis, que Amor quiz que tudo vença.
+
+
+ODE V.
+
+ Nunca manhãa suave
+ Estendendo seus raios por o mundo,
+ Despois de noite grave,
+ Tempestuosa, negra, em mar profundo
+ Alegrou tanto nao, que ja no fundo
+ Se vio em mares grossos,
+ Como a luz clara a mi dos olhos vossos.
+ Aquella formosura,
+ Que só no virar delles resplandece;
+ E com que a sombra escura
+ Clara se faz, e o campo reverdece;
+ Quando o meu pensamento se entristece,
+ Ella e sua viveza
+ Me desfazem a nuvem da tristeza.
+ O meu peito, onde estais,
+ He para tanto bem pequeno vaso;
+ Quando acaso virais
+ Os olhos, que de mi não fazem caso,
+ Todo, gentil Senhora, então me abraso
+ Na luz que me consume,
+ Bem como a borboleta faz no lume.
+ Se mil almas tivera
+ Que a tão formosos olhos entregára,
+ Todas quantas pudera
+ Por as pestanas delles pendurára;
+ E, enlevadas na vista pura e clara,
+ (Postoque disso indinas)
+ Se andárão sempre vendo nas meninas.
+ E vós, que descuidada
+ Agora vivereis de taes querellas,
+ D'almas minhas cercada,
+ Não pudesseis tirar os olhos dellas;
+ Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas
+ A dor que lhe mostrassem,
+ Tantas huma alma só não abrandassem.
+ Mas, pois o peito ardente
+ Huma só póde ter, formosa Dama,
+ Basta que esta somente,
+ Como se fossem mil e mil, vos ama,
+ Para que a dor de sua ardente flama
+ Comvosco tanto possa,
+ Que não queirais ver cinza hum'alma vossa.
+
+
+ODE VI.
+
+ Póde hum desejo immenso
+ Arder no peito tanto,
+ Que á branda e á viva alma o fogo intenso
+ Lhe gaste as nodoas do terreno manto;
+ E purifique em tanta alteza o esprito
+ Com olhos immortais,
+ Que faz que leia mais do que vê'scrito.
+ Que a flamma, que se accende
+ Alto, tanto allumia,
+ Que se o nobre desejo ao bem s'estende
+ Que nunca vio, o sente claro dia;
+ E lá vê do que busca o natural,
+ A graça, a viva côr,
+ N'outra especie melhor que a corporal.
+ Pois vós, ó claro exemplo
+ De viva formosura,
+ Que de tão longe cá noto e contemplo
+ N'alma, que este desejo sobe e apura;
+ Não creais que não vejo aquella imagem
+ Que as gentes nunca vem,
+ Se de humanos não tem muita vantagem.
+ Que se os olhos ausentes
+ Não vem a compassada
+ Proporção, que das côres excellentes
+ De pureza e vergonha he variada;
+ Da qual a Poesia, que cantou
+ Atéqui só pinturas
+ Com mortaes formosuras igualou;
+ Se não vem os cabellos
+ Que o vulgo chama de ouro;
+ E se não vem os claros olhos bellos,
+ De quem cantão que são de sol thesouro;
+ E se não vem do rosto as excellencias,
+ A quem dirão que deve
+ Rosa, e crystal, e neve as apparencias;
+ Vem logo a graça pura,
+ A luz alta e severa,
+ Que he raio da divina formosura,
+ Que n'alma imprime e fóra reverbera;
+ Assi como crystal do sol ferido,
+ Que por fóra derrama
+ A recebida flamma esclarecido.
+ E vem a gravidade,
+ Com a viva alegria
+ Que misturada t[~e]e de qualidade,
+ Que huma da outra nunca se desvia;
+ Nem deixa de ser huma receada
+ Por leda e por suave,
+ Nem outra, por ser grave, muito amada.
+ E vem do honesto siso
+ Os altos resplandores
+ Temperados co'o doce e ledo riso,
+ A cujo abrir abrem no campo as flores;
+ As palavras discretas e suaves,
+ Das quaes o movimento
+ Fara deter o vento e as altas aves:
+ Dos olhos o virar
+ Que torna tudo raso,
+ Do qual não sabe o engenho divisar
+ Se foi por artificio, ou feito acaso;
+ Da presença os meneios e a postura,
+ O andar e o mover-se,
+ Donde póde aprender-se formosura.
+ Aquelle não sei que,
+ Que aspira não sei como,
+ Qu'invisivel sahindo, a vista o vê,
+ Mas para o comprender não lhe acha tomo;
+ E que toda a Toscana Poesia,
+ Que mais Phebo restaura,
+ Em Beatriz, nem Laura nunca via:
+ Em vós a nossa idade,
+ Senhora, o póde ver,
+ S'engenho, se sciencia e habilidade,
+ Iguaes á vossa formosura der,
+ Qual a vi no meu longo apartamento,
+ Qual em ausencia a vejo.
+ Taes azas dá o desejo ao pensamento!
+ Pois se o desejo afina
+ Hum'alma accesa tanto,
+ Que por vós use as partes de divina;
+ Por vós levantarei não visto canto,
+ Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante:
+ Que o nosso claro Tejo,
+ Envolto hum pouco o vejo e dissonante.
+ O campo não o esmaltão
+ Flores, mas só abrolhos
+ O fazem feio; e cuido que lhe faltão
+ Ouvidos para mi, para vós olhos.
+ Mas faça o que quizer o vil costume;
+ Que o sol, qu'em vós está,
+ Na escuridão dara mais claro lume.
+
+
+ODE VII.
+
+ A quem darão de Pindo as moradoras,
+ Tão doctas como bellas,
+ Florecentes capellas
+ De triumphante louro, ou myrto verde;
+ Da gloriosa palma, que não perde
+ A presumpção sublime,
+ Nem por fôrça de pêzo algum se opprime?
+ A quem trarão nas faldas delicadas,
+ Rosas a roxa Cloris,
+ Conchas a branca Doris;
+ Estas, flores do mar; da terra aquellas,
+ Argenteas, ruivas; brancas e amarellas,
+ Com danças e corêas
+ De formosas Nereidas e Napêas?
+ A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos,
+ Em Thebas Amphion,
+ Em Lesbos Arion,
+ Senão a vós, por quem restituida
+ Se vê da Poesia ja perdida
+ A honra e gloria igual,
+ Senhor Dom Manoel de Portugal?
+ Imitando os espritos ja passados,
+ Gentis, altos, Reais,
+ Honra benigna dais
+ A meu tão baixo, quão zeloso engenho.
+ Por Mecenas a vós celebro e tenho;
+ E sacro o nome vosso
+ Farei, se alguma cousa em verso posso.
+ O rudo canto meu, que resuscita
+ As honras sepultadas,
+ As palmas ja passadas
+ Dos bellicosos nossos Lusitanos
+ Para thesouro dos futuros anos,
+ Comvosco se defende
+ Da lei Lethêa, á qual tudo se rende.
+ Na vossa árvore ornada d'honra e glória
+ Achou tronco excellente
+ A hera florecente
+ Para a minha atéqui de baixa estima:
+ Nelle, para trepar, s'encosta e arrima;
+ E nella subireis
+ Tão alto, quanto os ramos estendeis.
+ Sempre forão engenhos peregrinos
+ Da Fortuna invejados;
+ Que quanto levantados
+ Por hum braço nas azas são da Fama,
+ Tanto por outro aquella, que os desama,
+ Co'o pêzo e gravidade
+ Os opprime da vil necessidade.
+ Mas altos corações dignos d'Imperio,
+ Que vencem a Fortuna,
+ Forão sempre coluna
+ Da sciencia gentil: Octaviano,
+ Scipião, Alexandre e Graciano,
+ Que vemos immortais;
+ E vós, que o nosso seculo dourais.
+ Pois, logo, em quanto a cithara sonora
+ S'estimar por o mundo,
+ Com som docto e jucundo;
+ E em quanto produzir o Tejo e o Douro
+ Peitos de Marte e Phebo crespo e louro,
+ Tereis glória immortal,
+ Senhor Dom Manoel de Portugal.
+
+
+ODE VIII.
+
+ Aquelle unico exemplo
+ De fortaleza heroica e ousadia,
+ Que mereceo no templo
+ Da Fama eterna ter perpétuo dia;
+ O grão filho de Thetis, que dez anos
+ Flagello foi dos miseros Troianos;
+ Não menos ensinado
+ Foi nas hervas e Medica polícia,
+ Que destro e costumado
+ No soberbo exercicio da Milicia:
+ Assi que as mãos que a tantos morte derão,
+ Tambem a muitos vida dar puderão.
+ E não se desprezou
+ Aquelle fero e indomito mancebo
+ Das Artes qu'ensinou
+ Para o languido corpo o intonso Phebo;
+ Que se o temido Heitor matar podia,
+ Tambem chagas mortaes curar sabía.
+ Taes Artes aprendeo
+ Do semiviro Mestre e docto velho,
+ Onde tanto cresceo
+ Em virtude, e em sciencia e em conselho,
+ Que Telepho, por elle vulnerado,
+ Só delle pôde ser despois curado.
+ Pois vós, ó excellente
+ E illustrissimo Conde, do ceo dado
+ Para fazer presente
+ D'altos Heroes o seculo passado;
+ E em quem bem trasladada está a memoria
+ De vossos ascendentes, a honra e glória:
+ Postoque o pensamento
+ Occupado tenhais na guerra infesta,
+ Ou co'o sanguinolento
+ Taprobano, ou Achem, que o mar molesta,
+ Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso,
+ Que qualquer delles teme o nome vosso;
+ Favorecei a antiga
+ Sciencia que ja Achilles estimou;
+ Olhae que vos obriga
+ O ver qu'em vosso tempo rebentou
+ O fructo daquell'Orta onde florecem
+ Plantas novas, que os doctos não conhecem.
+ Olhae qu'em vossos anos
+ Huma Orta produze várias hervas
+ Nos campos Indianos,
+ As quaes aquellas doctas e protervas,
+ Medêa e Circe, nunca conhecêrão,
+ Postoque a lei da Magica excedêrão.
+ E vêde carregado
+ D'annos e traz a vária experiencia
+ Hum velho, qu'ensinado
+ Das Gangeticas Musas na sciencia
+ Podaliria subtil, e arte sylvestre,
+ Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre.
+ O qual está pedindo
+ Vosso favor e amparo ao grão volume,
+ Qu'impresso á luz sahindo,
+ Dara da Medicina hum vivo lume;
+ E descobrir-nos-ha segredos certos,
+ A todos os Antiguos encobertos.
+ Assi que não podeis
+ Negar a que vos pede benigna aura:
+ Que se muito valeis
+ Na sanguinosa guerra Turca e Maura,
+ Ajudae quem ajuda contra a morte;
+ E sereis semelhante ao Grego forte.
+
+
+ODE IX.
+
+ Fogem as neves frias
+ Dos altos montes quando reverdecem
+ As árvores sombrias;
+ As verdes hervas crecem,
+ E o prado ameno de mil côres tecem.
+ Zephyro brando espíra;
+ Suas settas Amor afia agora;
+ Progne triste suspira,
+ E Philomela chora:
+ O ceo da fresca terra se namora.
+ Ja a linda Cytherêa
+ Vem, do côro das Nymphas rodeada;
+ A branca Pasitêa Despida e delicada,
+ Com as duas irmãas acompanhada.
+ Em quanto as officinas
+ Dos Cyclopas Vulcano está queimando,
+ Vão colhendo boninas
+ As Nymphas, e cantando,
+ A terra co'o ligeiro pé tocando.
+ Desce do aspero monte
+ Diana, ja cansada da espessura,
+ Buscando a clara fonte,
+ Onde por sorte dura
+ Perdeo Actêo a natural figura.
+ Assi se vai passando
+ A verde Primavera e o sêcco Estio;
+ O Outono vem entrando;
+ E logo o Inverno frio,
+ Que tambem passará por certo fio.
+ Ir-se-ha embranquecendo
+ Com a frigida neve o sêcco monte;
+ E Jupiter chovendo
+ Turbará a clara fonte:
+ Temerá o marinheiro a Orionte.
+ Porque, emfim, tudo passa;
+ Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
+ E a nossa vida escassa
+ Foge tão apressada,
+ Que quando se começa he acabada.
+ Que se fez dos Troianos
+ Heitor temido, Enêas piedoso?
+ Consumírão-te os anos,
+ Ó Cresso tão famoso,
+ Sem te valer teu ouro precioso.
+ Todo o contentamento
+ Crias qu'estava em ter thesouro ufano!
+ Oh falso pensamento!
+ Que á custa de teu dano
+ Do sabio Solon crêste o desengano.
+ O bem que aqui se alcança,
+ Não dura por passante, nem por forte:
+ Que a bem-aventurança
+ Duravel, de outra sorte
+ Se ha de alcançar na vida para a morte.
+ Porque, emfim, nada basta
+ Contra o terrivel fim da noite eterna;
+ Nem póde a deosa casta
+ Tornar á luz superna
+ Hippolyto da escura sombra averna.
+ Nem Thesêo esforçado,
+ Ou com manha, ou com fôrça valerosa,
+ Livrar póde o ousado
+ Perithoo da espantosa
+ Prisão Lethêa escura e tenebrosa.
+
+
+ODE X.
+
+ Aquelle moço fero
+ Nas Pelethronias covas doctrinado
+ Do Centauro severo;
+ Cujo peito esforçado
+ Com tutanos de tigres foi criado.
+ N'ágoa fatal menino
+ O lava a mãe, presaga do futuro,
+ Para que ferro fino
+ Não passe o peito duro
+ Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro.
+ A carne lh'endurece,
+ Porque não seja d'armas offendida.
+ Cega! pois não conhece
+ Que póde haver ferida
+ N'alma, e que menos doe perder a vida.
+ Que donde o braço irado
+ Dos Troianos passava arnez e escudo,
+ Alli se vio passado
+ Daquelle ferro agudo
+ Do menino qu'em todos póde tudo.
+ Alli se vio captivo
+ Da captiva gentil que serve e adora;
+ Alli se vio que vivo
+ Em vivo fogo mora,
+ Porque de seu senhor a vê senhora.
+ Ja toma a branda lyra
+ Na mão que a dura Pelias meneára;
+ Alli canta e suspira,
+ Não como lh'ensinára
+ O velho, mas o moço que o cegára.
+ Pois, logo, quem culpado
+ Será, se de pequeno offerecido
+ Foi todo a seu cuidado;
+ No berço instituido
+ A não poder deixar de ser ferido?
+ Quem logo fraco infante
+ D'outro mais poderoso foi sujeito,
+ E para cego amante
+ Desd'o princípio feito,
+ Com lagrimas banhando o tenro peito?
+ Se agora foi ferido
+ Da penetrante ponta e fôrça d'herva;
+ E se Amor he servido
+ Que sirva á linda serva,
+ Para quem minha estrella me reserva?
+ O gesto bem talhado;
+ O airoso meneio e a postura;
+ O rosto delicado,
+ Que na vista figura
+ Que s'ensina por arte a formosura,
+ Como póde deixar
+ De render a quem tenha entendimento?
+ Que quem não penetrar
+ Hum doce gesto, attento,
+ Não lhe he nenhum louvor viver isento.
+ Aquelles, cujos peitos
+ Ornou d'altas sciencias o destino.
+ Se vírão mais sujeitos
+ Ao cego e vão menino,
+ Arrebatados do furor divino.
+ O Rei famoso Hebreio,
+ Que mais que todos soube, mais amou;
+ Tanto, que a deos alheio
+ Falso sacrificou.
+ Se muito soube e teve, muito errou.
+ E o grão Sabio qu'ensina,
+ Passeando, os segredos da Sophia,
+ Á baixa concubina
+ Do vil Eunuco Hermia
+ Aras ergueo, que aos deoses só devia.
+ Aras ergue a quem ama
+ O Philosopho insigne namorado.
+ Doe-se a perpétua fama,
+ E grita qu'he culpado:
+ Da lesa divindade he accusado.
+ Ja foge donde habita;
+ Ja paga a culpa enorme com destêrro.
+ Mas, oh grande desdita!
+ Bem mostra tamanho êrro
+ Que doctos corações não são de ferro.
+ Antes na altiva mente,
+ No subtil sangue e engenho mais perfeito
+ Ha mais conveniente
+ E conforme sogeito,
+ Onde s'imprima o brando e doce affeito.
+
+
+ODE XI.
+
+ Naquelle tempo brando
+ Em que se vê do mundo a formosura,
+ Que Thetis descansando
+ De seu trabalho está, formosa e pura,
+ Cansava Amor o peito
+ Do mancebo Peleo d'hum duro affeito.
+ Com impeto forçoso
+ Lhe havia ja fugido a bella Nympha,
+ Quando no tempo aquoso
+ Noto irado revolve a clara lympha,
+ Serras no mar erguendo,
+ Que os cumes das da terra vão lambendo.
+ Esperava o mancebo,
+ Com a profunda dor que n'alma sente,
+ Hum dia em que ja Phebo
+ Começava a mostrar-se ao mundo ardente,
+ Soltando as tranças d'ouro,
+ Em que Clicie d'amor faz seu thesouro.
+ Era no mez que Apolo
+ Entre os irmãos celestes passa o tempo:
+ O vento enfreia Eolo,
+ Para que o deleitoso passatempo
+ Seja quieto e mudo;
+ Que a tudo Amor obriga, e vence tudo.
+ O luminoso dia
+ Os amorosos corpos despertava
+ Á cega idolatria,
+ Que ao peito mais contenta e mais aggrava;
+ Onde o cego menino
+ Faz que os humanos crêão que he divino:
+ Quando a formosa Nympha,
+ Com todo o ajuntamento venerando,
+ Na crystallina lympha
+ O corpo crystallino está lavando;
+ O qual nas ágoas vendo,
+ Nelle, alegre de o ver, s'está revendo:
+ O peito diamantino,
+ Em cuja branca teta Amor se cria;
+ O gesto peregrino,
+ Cuja presença torna a noite em dia;
+ A graciosa boca
+ Que a Amor com seus amores mais provoca;
+ Os rubins graciosos;
+ As pérolas qu'escondem vivas rosas
+ Dos jardins deleitosos,
+ Que o ceo plantou em faces tão formosas;
+ O transparente collo,
+ Que ciumes a Daphne faz d'Apollo;
+ O subtil mantimento
+ Dos olhos, cuja vista a Amor cegou;
+ A Amor que, com tormento
+ Glorioso, nunca delles se apartou,
+ Pois elles de contino
+ Nas meninas o trazem por menino;
+ Os fios derramados
+ Daquelle ouro que o peito mais cobiça,
+ Donde Amor enredados
+ Os corações humanos traz e atiça,
+ E donde com desejo
+ Mais ardente começa a ser sobejo.
+ O mancebo Peleo,
+ Que de Neptuno estava aconselhado,
+ Vendo na terra o ceo
+ Em tão bella figura trasladado,
+ Mudo hum pouco ficou,
+ Porque Amor logo a falla lhe tirou.
+ Emfim, querendo ver
+ Quem tanto mal de longe lhe fazia,
+ A vista foi perder,
+ Porque de puro amor, Amor não via:
+ Vio-se assi cego e mudo
+ Por a fôrça d'Amor que póde tudo.
+ Agora s'apparelha
+ Para a batalha; agora remettendo;
+ Agora s'aconselha;
+ Agora vai; agora está tremendo;
+ Quando ja de Cupido
+ Com nova setta o peito vio ferido.
+ Remette o moço logo
+ Para ond'estava a chamma sem socêgo;
+ E co'o sobejo fogo
+ Quanto mais perto estava, então mais cego:
+ E cego, e co'hum suspiro,
+ Na formosa donzella emprega o tiro.
+ Vingado assi Peleo,
+ Nasceo deste amoroso ajuntamento
+ O forte Larisseo,
+ Destruição do Phrygio pensamento;
+ Que, por não ser ferido,
+ Foi nas ágoas Estygias submergido.
+
+
+ODE XII.
+
+ Ja a calma nos deixou
+ Sem flores as ribeiras deleitosas;
+ Ja de todo seccou
+ Candidos lirios, rubicundas rosas:
+ Fogem do grave ardor os passarinhos
+ Para o sombrio amparo de seus ninhos.
+ Meneia os altos freixos
+ A branda viração de quando em quando;
+ E d'entre vários seixos
+ O liquido crystal sahe murmurando:
+ As gottas, que das alvas pedras sáltão,
+ O prado, como pérolas, esmaltão.
+ Da caça ja cansada
+ Busca a casta Titanica a espessura,
+ Onde á sombra inclinada
+ Logre o doce repouso da verdura,
+ E sôbre o seu cabello ondado e louro
+ Deixe cahir o bosque o seu thesouro.
+ O ceo desimpedido
+ Mostrava o lume eterno das estrellas;
+ E de flores vestido
+ O campo, brancas, roxas e amarellas,
+ Alegre o bosque tinha, alegre o monte,
+ O prado, o arvoredo, o rio, a fonte.
+ Porém como o menino,
+ Que a Jupiter por a aguia foi levado,
+ No cêrco crystallino
+ For do amante de Clicie visitado;
+ O bosque chorará, chorará a fonte,
+ O rio, o arvoredo, o prado, o monte.
+ O mar, que agora brando
+ He das Nereidas candidas cortado,
+ Logo se irá mostrando
+ Todo em crespas escumas empolado:
+ O soberbo furor de negro vento
+ Fara por toda parte movimento.
+ Lei he da natureza
+ Mudar-se desta sorte o tempo leve:
+ Succeder á belleza
+ Da Primavera o fructo; a elle a neve;
+ E tornar outra vez por certo fio
+ Outono, Inverno, Primavera, Estio.
+ Tudo, emfim, faz mudança
+ Quanto o claro sol vê, quanto allumia;
+ Não se acha segurança
+ Em tudo quanto alegra o bello dia:
+ Mudão-se as condições, muda-se a idade,
+ A bonança, os estados e a vontade.
+ Somente a minha imiga
+ A dura condição nunca mudou;
+ Para que o mundo diga
+ Que nella lei tão certa se quebrou:
+ Em não ver-me ella só sempre está firme,
+ Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.
+ Mas ja soffrivel fôra
+ Qu'em matar-me ella só mostre firmeza,
+ Se não achára agora
+ Tambem em mi mudada a natureza;
+ Pois sempre o coração tenho turbado,
+ Sempre d'escuras nuvens rodeado.
+ Sempre exprimento os fios
+ Qu'em contino receio Amor me manda;
+ Sempre os dous caudaes rios,
+ Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda,
+ Correm, sem chegar nunca o Verão brando,
+ Que tamanha aspereza vá mudando.
+ O sol sereno e puro,
+ Que no formoso rosto resplandece,
+ Envolto em manto escuro
+ Do triste esquecimento, não parece;
+ Deixando em triste noite a triste vida
+ Que nunca de luz nova he soccorrida.
+ Porém seja o que for:
+ Mude-se por meu damno a natureza;
+ Perca a inconstancia Amor;
+ A Fortuna inconstante ache firmeza;
+ Tudo mudável seja contra mi,
+ Mas eu firme estarei no qu'emprendi.
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+
+
+NOTAS.
+
+
+Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa.
+_Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3.ª ed. A primeira lição he viciosa,
+a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptámos.
+
+
+P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas
+o vício he manifesto, porque a tenção, desacompanhada da obra,
+nada póde acabar. Corrigimos:
+
+ Mas se vossa tenção com minha morte
+ He de acabar o mal destes amores etc.
+
+
+P. 29. V. 13. _Mas em vão não vereis, porque vereis_] Faria e
+Sousa. _Mas em vão não vireis, porque achareis_] 3.ª ed. Adoptámos esta
+lição, que he a do poeta.
+
+
+P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa.
+_O pensamento e a aspereza vossa_] 3.ª ed. Porque rejeitaria Faria e
+Sousa esta lição? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_?
+Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira.
+
+
+P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e
+Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3.ª ed. Adoptámos a lição
+antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior porção.
+
+
+P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_]
+Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a melhor
+parte do entendimento se vê perdida no menos que ha na sua amada, e
+não he possivel que não quizesse continuar no mesmo encarecimento.
+Corrigimos:
+
+ Se em teu valor contemplo a menor parte.
+
+
+P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras ágoas_] Faria e
+Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas_] 3.ª ed. Só quem for
+destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição.
+
+
+P. 40. V. 19. _A mão tenho mettida no teu seio_] Faria e
+Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos:
+
+ A mão tenho mettida no meu seio.
+
+
+P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e
+Sousa. He êrro; corrigimos:
+
+ Nunca do vento a ira, que arrancando.
+
+
+P. 70. V. 24.
+ _Com que a morte forçada e gloriosa,
+ Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:
+
+ Com que a morte forçada gloriosa
+ Faz o vencido etc.
+
+
+P. 86. V. 24.
+ _Pois se a fortuna o fez por descontar-me
+ Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o
+poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que
+era tal, que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse
+que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora
+desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos:
+
+ Mas se a fortuna o fez por descontar-me
+ Aquelle gosto etc.
+
+
+P. 108. V. 15. _Ayúdame, Señora, á ser vingança_] Faria e
+Sousa. He êrro. Corrigimos:
+
+ Ayúdame, Señora, á hacer vinganza.
+
+
+P. 111. V. 7. _Nem todos para um gôsto são iguaes_] Faria e
+Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes que passais tão
+ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _são_, era absurdo.
+Corrigimos:
+
+ Nem todos para um gôsto sois iguaes.
+
+
+P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e
+Sousa. He êrro. Corrigimos:
+
+ Aunque en esto se llega al natural.
+
+Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao natural o
+retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o
+seu pranto como se fôra o proprio original.
+
+
+P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e
+Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_.
+
+
+P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria
+e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que deixem o seu
+proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavão
+lavrando. Corrigimos:
+
+ Cesse vosso lavor etc.
+
+
+P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e
+Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3.ª ed. Seguimos esta lição, que
+he a verdadeira.
+
+
+P. 120. V. 15. _Em Babylonia sôbre os rios_] Faria e Sousa.
+Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler:
+
+ De Babylonia sobre os rios etc.
+
+
+P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e
+Sousa; mas a lição do poeta he esta:
+
+ Ah! que falte mais vezes a ventura.
+
+
+P. 133. V. 28.
+ _Que não póde nenhum impedimento
+ Fugir do que lhe ordena sua Estrella._]
+Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos:
+
+ Fugir o que lhe ordena etc.
+
+
+P. 134. V. 7. _Tão potente será vossa mudança_.] Lição
+vulgar. He viciosa: corrigimos:
+
+ Tão patente será etc.
+
+
+P. 136. V. 28. _Não o quizera tanto á vossa custa_.] Lição
+vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. Corrigimos:
+
+ Não a quizera tanto á vossa custa.
+
+
+P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.]
+Lição vulgar. He absurda: corrigimos:
+
+ Eu quanto mais te busco, mais te escondes.
+
+
+P. 139. V. 20. _Que mágoas para ouvir! e que figura_.] Lição
+vulgar. He viciosa: corrigimos:
+
+ Que mágoas para ouvir! Que tal figura.
+
+
+P. 144. V. 11.
+ _Mas eu acostumado ao veneno,
+ E uso de soffrer meu mal presente_.] Lição vulgar. He viciosa:
+corrigimos:
+
+ Assim de acostumado co'o veneno,
+ O uso de soffrer etc.
+
+
+P. 159. V. 3. _Ni dejarán, por mas que el tiempo huya_.]
+Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos:
+
+ Ni dejará, por mas que el tiempo huya.
+
+
+P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha
+os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas podião ter
+tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes.
+Corrigimos: _Teus cabellos_.
+
+
+P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvião_] Faria e Sousa. _As
+gaitas que trazião_] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, que he a do poeta.
+
+
+P. 175. V. 5.
+ _Com palavras mimosas e forjadas
+ Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio,
+porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta
+liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e
+enganadas. Corrigimos:
+
+ Com palavras mimosas e forjadas,
+ De solta liberdade e livre peito etc.
+
+
+P. 184. V. 20. _Assim me está tornando o peito frio._] Todas
+as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz,
+tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece
+entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a
+lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de
+texto. Corrigimos:
+
+ Assim me está tornando, e o peito frio.
+
+Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que
+fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina
+lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o
+poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar:
+como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21:
+
+ Desta arte a gente força e esforça Nuno,
+ Que com lh'ouvir as ultimas razões,
+ Removem o temor frio, importuno
+ Que gelados lhe tinha os corações.
+
+e no Canto I, Estancia 89:
+
+ O temor grande, o sangue lhe resfria.
+
+Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos
+se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38:
+
+ Que poz no coração um grande medo.
+
+O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio,
+como se ve nos seguintes exemplos:
+
+ _Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._
+ Eneida L. I, V. 96.
+
+ _Solvite corde metum, Teucri._
+ ibi V. 566.
+
+ _Diffugimus visu exangues._
+ ibi L. 2, V. 212.
+
+ _At sociis subitâ gelidus formidine sanguis
+ Diriguit: cecidêre animi._
+ ibi L. III, V. 259.
+
+ _Gelidus Teucris per dura cucurrit
+ Ossa tremor._
+ ibi L. VI, V. 54.
+
+E além destes muitos e muitos outros puderamos citar.
+
+Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como
+diz o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes
+poetas; com a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de
+Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o
+sangue acudio ao coração dos Portuguezes, e por consequencia se lhes
+concentrou alli o calor, não foi porque o temor fosse maior, mas, sim,
+porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lição
+vulgar, e a nossa verdadeira.
+
+
+P. 187. V. 30. _E vós, pastores deste rudo outeiro_] Faria e
+Sousa. _E vós, pastores rudos deste outeiro_] 3.ª ed. A lição do poeta
+he esta.
+
+
+P. 188. V. 30. _No tronco de alguma árvore sombria_] Faria e
+Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3.ª ed. Esta he a lição
+verdadeira.
+
+
+P. 190 V. 3. _Em vós deixou Minerva o que valia_] Faria e
+Sousa. _Em vós deixou Minerva sua valia_] 3.ª ed. Porque desprezaria
+Faria esta lição?
+
+
+P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e
+Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3.ª ed. Quem hesitará em
+seguir a lição antiga?
+
+
+P. 199. V. 23. _Se humano parecer não se defende_] Faria e
+Sousa. _Que ao humano parecer não se defende_] 3.ª ed. Ambas estas
+lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta,
+he esta:
+
+ Se ao humano parecer não se defende.
+
+
+P. 200. V. 13. _Porque segues em vão esse cuidado?_] Faria e
+Sousa. _Não vés que teu fugir he escusado?_] 3.ª ed. A lição antiga he a
+do poeta.
+
+
+P. 200. V. 14. _Pois nunca estás sem mim algum momento_]
+Faria e Sousa. _Que sem mim não estás um so momento_] 3.ª ed. Este verso
+he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta.
+
+
+P. 201. V. 21. _A vós se dão, a quem junto se ha dado_] Faria
+e Sousa. _A vós se dem, a quem junto se ha dado_] 3.ª ed. A lição
+verdadeira he esta.
+
+
+P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e
+Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3.ª ed. O epiteto de _roxo_
+aqui desnecessario parece introduzido por mão estranha.
+
+
+P. 203. V. 14. _Que farão mais que mais endurecer-te?_] Faria
+e Sousa. _Que fazem senão mais endurecer-te?_] 3.ª ed. Este verso he
+muito mais natural e melhor que o outro.
+
+
+P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandára que não sente_] Faria.
+_Ja um peito abrandára que não sente_] 3.ª ed. Esta segunda lição he sem
+duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze
+que he insensivel, esta expressão de _peito que não sente_, he nelle tão
+frequente que não podemos deixar de a ter por sua.
+
+
+P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_]
+Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3.ª ed. Este verso em
+harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das
+primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia.
+
+
+P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e
+Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3.ª ed. Andando este
+verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que Faria o não
+tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro.
+
+
+P. 213. V. 1. _E vós, cujo valor em tanto excede_] Faria e
+Sousa. _E vós, cujo valor tão alto excede_] 3.ª ed. Preferimos a lição
+antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he viciosa.
+
+
+P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pãe de toda Hespanha._
+Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este
+lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda
+España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los
+sustentó contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que
+oppor, a primeira he, que não era possivel que um poeta como Camões,
+para exprimir cousa tão simples fizesse tal geringonça; a segunda he
+appresentar o texto como o poeta o escreveo:
+
+ _Se não sabem as frautas pastoris
+ Pintar de Toro os campos semeados
+ D'armas e corpos fortes e gentis,
+
+ Por um moço animoso sustentados
+ Contra o indomito Rei de toda Hespanha,
+ Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados._
+
+Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom Fernando de
+Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o epiteto de
+indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão separadas e
+independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E
+se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui
+visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto
+a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o
+trabalho de o fazer agora.
+
+
+P. 214. V. 13. _De si ja, não ja só do pobre fato_] Faria e
+Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3.ª ed. Assim andava este
+verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que a mentira.
+Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por
+fato, cabras.
+
+
+P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e
+Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3.ª ed. A lição de Faria nos
+he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de lá que
+os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos,
+restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como o
+poeta o escreveo.
+
+
+P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he
+êrro das copias: deve ler-se:
+
+ D'átras nuvens vestido etc.
+
+
+P. 224. V. 31. _Quiz descansar á sombra da espessura_] Faria.
+He êrro, porque espessura não rima com _manifesta_ e _sesta_.
+Restituimos o verso, como andava nas primeiras edições:
+
+ Quiz descansar á sombra da floresta.
+
+
+P. 226. V. 1.
+ _Sirene e Nyse que das mãos fugirão
+ De Tegeo Pan_]
+Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene
+fugisse nunca das mãos de Pan. Restituimos:
+
+ Syrinx e Nyse.
+
+
+P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lançava_] Faria e
+Sousa. _Ja no indigno monte se lançava_] 3.ª ed. Uma e outra lição he
+viciosa; a do poeta he:
+
+ Ja indignado no monte se lançava.
+
+
+P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas
+as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi
+convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o
+poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada
+em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou
+descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos:
+
+ Ainda agora em herva os olhos viras.
+
+
+P. 284. P. 4. _Com as mãos que maçãas colhendo andava._]
+Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas
+obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como
+elle o escreveo he:
+
+ Com a mãe que maçãas colhendo andava.
+
+
+P. 289. V. 15. _Como o mesmo que então meu mal crescia._]
+Faria e Sousa. He êrro: corrigimos:
+
+ Com o mesmo etc.
+
+
+P. 302. V. 28. _Sabe, Canção, que só porque não vejo._] Todas
+as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim:
+
+ Sabe, Canção, que só porque o não vejo.
+
+
+P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braços, e assim a tive_] Todas
+as ed. Mas aquelle _a_ está aqui de mais para o sentido e para o verso.
+Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter
+acordado. Corrigimos:
+
+ Ma figurou nos braços, e assi tive.
+
+
+P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he
+vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he avistá-la de
+lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a escuridão
+ia descobrindo os montes. Corrigimos:
+
+ Os montes descobrindo.
+
+
+P. 308. V. 27. _Se mo não impedir o meu desejo._] Todas as
+ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da sua amada, e
+deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, que
+esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu
+desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama:
+Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da
+visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E a lição neste
+lugar he:
+
+ Se me não impedir o meu desejo.
+
+
+P. 314. V. 25. _Á pena vem pequenos._] Todas as ed. O P.
+Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se
+deve lêr _pena_.
+
+
+P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se lê este
+verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o
+vicio inda ficou. A verdadeira emenda he:
+
+ Pelo que a si se esconde.
+
+
+P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no
+manuscripto:
+
+ _Pelo que em si lhe esconde._
+
+Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se
+
+ Pelo que se lhe esconde.
+
+
+P. 329. V. 19. _Não tendo, não, somente por contrarios_]
+Faria e Sousa. _Não tendo tãosomente por contrarios_] 3.ª ed. A lição
+antiga he a verdadeira.
+
+
+P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna
+os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a
+fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as agitações do
+animo. Corrigimos:
+
+ Com que, a fronta tornada mais serena,
+ Tórno os tormentos graves &c.
+
+
+P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahião._] Todas
+as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores.
+
+Corrigimos:
+
+ Pouco a pouco invisiveis me sahião.
+
+
+P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e não alcança._] Todas
+as ed. Mas he êrro palpavel das cópias. Sobre este lugar diz Faria:
+_Mirese lo que me viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas
+difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que
+corre. Qué es la que corre? Arriba queda providencia, y luego
+consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas
+corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni asi lo entiendo
+bien_. Mas não tem muito que entender: este lugar está corrompido, como
+tantos outros que temos visto: a lição do poeta era _No que corre_: quem
+copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando
+lança os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos
+d'alma, e não alcança, senão &c.
+
+
+P. 360. Ode I.ª A primeira cousa que temos a observar nesta
+Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco
+d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou
+tigre ou leopardo_, se achão em todas as edições depois da que começa:
+_Por ti feito pastor de branco gado_, onde são absolutamente estranhas;
+e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais
+proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: _Tu que de formosissimas
+estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que,
+omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita.
+
+
+P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim
+anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, com razão,
+que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame Epilio:
+faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que
+deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos
+chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo
+que lhe dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim
+
+ Para ti o Erymantho e o lindo Pylio
+
+
+P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he
+vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na
+India, como se infere desta mesma Ode, onde diz:
+
+ _Olha como suspirão estas ondas,_
+ E como o velho Atlante
+ O seu collo arrogante
+ Move piedosamente
+ Ouvindo a minha voz fraca e doente._
+
+E portanto deve ler-se
+
+ Desse nosso Oriente
+
+como Faria diz que vira em um manuscripto.
+
+
+P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he
+êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente
+fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos:
+
+ Porque tem ordenado
+ Meu infelice Fado &c.
+
+
+P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he
+vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem ser
+feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso
+Titão_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a
+que Faria diz encontrára n'um manuscripto:
+
+ _Humido ja do pranto,_
+
+o que dá a entender que era sobre manhãa.
+
+
+P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._]
+Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá o P.
+Thomaz d'Aquino.
+
+ E sentireis meus prantos, meus clamores.
+
+Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os seus
+prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava);
+chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem
+reduzido o seu amor, e a esquivança da sua amada.
+
+
+P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as
+ed. He vicio: corrigimos
+
+ Ajudai quem ajuda &c.
+
+
+P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve
+ler-se
+
+ E grita qu'he culpado,
+
+porque do modo que está, não faz sentido.
+
+
+P. 388. V. 21.
+ _Remette o moço logo
+ Para onde estava a chaga sem socêgo._]
+Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle
+ter no corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto
+he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos
+
+ Para onde estava a chamma sem socêgo.
+
+
+
+
+INDEX.
+
+
+ Pag.
+ PREFAÇÃO VII
+ VIDA DE LUIS DE CAMÕES XXXII
+
+ SONETOS.
+
+ Pag.
+ A chaga que, Senhora, me fizestes 62
+ A formosura desta fresca serra 135
+ A morte, que da vida nó desata 68
+ A peregrinação d'hum pensamento 132
+ A perfeição, a graça, o doce geito 46
+ A violeta mais bella que amanhece 60
+ Á la margen del Tajo, en claro dia 81
+ Acho-me da fortuna salteado 132
+ Agora toma a espada, agora a penna[4] 97
+ Ah Fortuna cruel! ah duros Fados 88
+ Ah minha Dinamene! assi deixaste 86
+ Ai amiga cruel! que apartamento 85
+ Alegres campos, verdes arvoredos 21
+ Alegres campos, verdes, deleitosos 104
+ Alma gentil que á firme eternidade 215
+ Alma minha gentil que te partiste 10
+ Amor, com a esperança ja perdida 26
+ Amor he hum fogo que arde sem se ver 41
+ Amor, que em sonhos vãos do pensamento 105
+ Amor, que o gesto humano na alma escreve 5
+ Aos homens hum só homem poz espanto 123
+ Apartava-se Nise de Montano 27
+ Apollo e as nove Musas, descantando 26
+ Aponta a bella Aurora, luz primeira 121
+ Aquella fera humana que enriquece 38
+ Aquella que de pura castidade 48
+ Aquella triste e leda madrugada 13
+ Aqui de longos damnos breve historia 92
+ Ar, que de meus suspiros vejo cheio 58
+ Árvore, cujo pomo bello e brando 69
+ Ay! quien dará á mis ojos una fuente 112
+ Ayúdame, Señora, á hacer venganza 108
+ Bem sei, Amor, que he certo o que receio 40
+ Brandas agoas do Tejo que passando[5] 55
+ Busque Amor novas artes, novo engenho 8
+ Ca nesta Babylonia donde mana 98
+ Campo! nas syrtes deste mar da vida 85
+ Cantando estava hum dia bem seguro 87
+ Chara minha inimiga, em cuja mão 12
+ Chorai, Nymphas, os fados poderosos 139
+ Coitado! que em hum tempo chóro e rio 76
+ Com grandes esperanças ja cantei 2
+ Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? 31
+ Como louvarei eu, Seraphim santo 124
+ Como podes (oh cego peccador!) 118
+ Como quando do mar tempestuoso 41
+ Con razon os vais, aguas, fatigando 112
+ Contente vivi ja vendo-me isento 125
+ Conversação doméstica affeiçoa 44
+ Correm turbas as agoas deste rio 98
+ Crescei, desejo meu, pois que a Ventura 65
+ Criou a natureza Damas bellas 77
+ Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste 114
+ Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos 35
+ De amor escrevo, de amor trato e vivo 52
+ De Babel sôbre os rios nos sentamos 119
+ De cá, donde somente o imaginar-vos 59
+ De frescas belvederes rodeadas 102
+ De mil suspeitas vãas se me levantão 61
+ De quantas graças tinha a natureza 66
+ De tão divino accento em voz humana[6] 32
+ De vós me parto, ó vida, e em tal mudança 12
+ Debaixo desta pedra está metido 32
+ Debaixo desta pedra sepultada 116
+ Deixa, Apollo, o correr tão apressado 125
+ Desce do ceo, immenso Deos benino 100
+ Despois de haver chorado os meus tormentos 101
+ Despois de tantos dias mal gastados[7] 28
+ Despois que quiz Amor que eu só passasse 3
+ Despois que vio Cibele o corpo humano[8] 96
+ Diana prateada esclarecida 141
+ Ditosa pena, como a mão que a guia[9] 94
+ Ditosas almas que ambas juntamente 124
+ Ditoso seja aquelle que somente 38
+ Diversos dões reparte o ceo benino 72
+ Divina companhia que nos prados 81
+ Dizei, Senhora, da belleza idea 138
+ Doce contentamento ja passado 133
+ Doce sonho, suave e soberano 140
+ Doces e claras agoas do Mondego 67
+ Doces lembranças da passada gloria 10
+ Dos antigos Illustres que deixárão 44
+ Dos ceos á terra desce a mor belleza 100
+ Dulces engaños de mis ojos tristes 113
+ Em Babylonia sôbre os rios quando 120
+ Em flor vos arrancou de então crescida[10] 7
+ Em formosa Lethea se confia 14
+ Em huma lapa toda tenebrosa 128
+ Em prisões baixas fui hum tempo atado 3
+ Em quanto Phebo os montes accendia 141
+ Em quanto quiz fortuna que tivesse 1
+ En una selva al dispuntar del dia 83
+ Erros meus, má Fortuna, amor ardente 97
+ Esfôrço grande, igual ao pensamento[11] 45
+ Espanta crescer tanto o crocodilo 95
+ Esses cabellos louros e escolhidos 53
+ Está o lascivo e doce passarinho 16
+ Está-se a Primavera trasladando 15
+ Este amor que vos tenho limpo e puro 135
+ Este terreste caos com seus vapores 46
+ Eu cantarei de amor tão docemente 2
+ Eu cantei ja, e agora vou chorando 86
+ Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo 80
+ Eu vivia de lagrimas isento 137
+ Ferido sem ter cura parecia 35
+ Fiou-se o coração de muito isento 106
+ Foi ja n'hum tempo doce cousa amar 43
+ Formosa Beatriz, tendes taes geitos 104
+ Formosos olhos, que cuidado dais 130
+ Formosos olhos, que na idade nossa 20
+ Formosura do ceo a nós descida 34
+ Gentil Senhora, se a Fortuna imiga 72
+ Grão tempo ha ja que soube da Ventura 24
+ Guardando em mi a sorte o seu direito 86
+ He o gozado bem em agoa escrito 66
+ Horas breves de meu contentamento 91
+ Hum firme coração posto em ventura[12] 57
+ Hum mover de olhos brando e piedoso 18
+ Huma admiravel herva se conhece 65
+ Illustre e digno ramo dos Menezes[13] 4
+ Illustre Garcia, nombre de una moza 129
+ Imagens vãas me imprime a phantasia 116
+ Indo o triste pastor todo embebido 138
+ Ja a roxa e branca Aurora destoucava 36
+ Ja cantei, ja chorei a dura guerra 90
+ Ja claro vejo bem, ja bem conheço 58
+ Ja do Mondego as agoas apparecem[14] 56
+ Ja he tempo, ja que minha confiança 25
+ Ja me fundei em vãos contentamentos 127
+ Ja não sinto, Senhora, os desenganos 136
+ Julga-me a gente toda por perdido 76
+ Las peñas retumbaban al gemído 83
+ Leda serenidade deleitosa 40
+ Lembranças de meu bem, doces lembranças 130
+ Lembranças, que lembrais o bem passado 89
+ Lembranças saudosas, se cuidais 27
+ Levantai, minhas Tagides, a frente[15] 114
+ Lindo e subtil trançado que ficaste 22
+ Los ojos que con blando movimiento 107
+ Mal, que de tempo em tempo vas crescendo 117
+ Males que contra mim vos conjurastes 14
+ Mi gusto y tu beldad se desposaron 110
+ Mil veces entre sueños tu figura 109
+ Mil vezes determino não vos ver 62
+ Moradoras gentis e delicadas 54
+ Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades 29
+ Na desesperação ja repousava 71
+ Na margem de hum ribeiro que fendia 74
+ Na metade do ceo subido ardia 36
+ Naiades, vós que os rios habitais 29
+ Na ribeira do Euphrates assentado 139
+ Não ha louvor que arribe á menor parte 59
+ Não passes, caminhante. Quem me chama? 19
+ Não vas ao monte, Nise, com teu gado 60
+ Nas cidades, nos bosques, nas florestas 126
+ Nem o tremendo estrepito da guerra 106
+ N'hum bosque que das Nymphas se habitava 11
+ N'hum jardim adornado de verdura 7
+ N'hum tão alto lugar de tanto preço 142
+ No bastaba que amor puro y ardiente 108
+ No mundo poucos annos e cansados 51
+ No mundo quiz o Tempo que se achasse 45
+ No regaço da mãe Amor estava 64
+ No tempo que de amor viver sohia 4
+ Nos braços de hum Sylvano adormecendo 103
+ Novos casos de Amor, novos enganos[16] 55
+ Nunca em amor damnou o atrevimento 67
+ O ceo, a terra, o vento socegado 87
+ O culto divinal se celebrava 39
+ O cysne quando sente ser chegado 22
+ O filho de Latona esclarecido 69
+ O fogo que na branda cera ardia[17] 20
+ O raio crystallino se estendia 50
+ O claras aguas deste blando rio 109
+ Oh arma unicamente só triumphante 122
+ Oh cese ya, Señor, tu dura mano 113
+ Oh como se me alonga de anno em anno 25
+ Oh quanto melhor he o supremo dia 118
+ Oh quão caro me custa o entender-te 49
+ Oh rigorosa ausencia desejada 111
+ Olhos, aonde o ceo com luz mais pura 77
+ Ondados fios d'ouro onde enlaçado 105
+ Ondados fios d'ouro reluzente 43
+ Onde acharei lugar tão apartado 91
+ Onde mereci eu tal pensamento 102
+ Onde porei meus olhos que não veja 56
+ Orfeo enamorado que tañia 84
+ Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante[18] 95
+ Os meus alegres, venturosos dias 90
+ Os olhos onde o casto amor ardia 94
+ Os Reinos e os Imperios poderosos[19] 11
+ Os vestidos Eliza revolvia 49
+ Para se namorar do que criou 99
+ Passo por meus trabalhos tão isento 6
+ Pede o desejo, Dama, que vos veja 16
+ Pensamentos que agora novamente 47
+ Pois meus olhos não cansão de chorar 34
+ Pois torna por seu rei e juntamente[20] 96
+ Por cima destas agoas forte e firme 70
+ Por gloria tuve un tiempo el ser perdido 82
+ Por os raros extremos que mostrou 23
+ Por sua nympha Céphalo deixava 92
+ Porque a tamanhas penas se offerece 101
+ Porque a terra no ceo agasalhasse 121
+ Porque quereis, Senhora, que offereça 17
+ Posto me tem fortuna em tal estado 143
+ Presença bella, angelica figura 94
+ Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes 143
+ Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[21] 131
+ Qual tem a borboleta por costume 129
+ Quando a suprema dor muito me aperta 74
+ Quando da bella vista e doce riso 9
+ Quando de minhas mágoas a comprida 37
+ Quando o sol encoberto vai mostrando 18
+ Quando os olhos emprégo no passado 89
+ Quando se vir com agoa o fogo arder 73
+ Quando, Senhora, quiz Amor que amasse 137
+ Quando vejo que meu destino ordena 28
+ Quanta incerta esperança, quanto engano 117
+ Quantas penas, Amor, quantos cuidados 142
+ Quantas vezes do fuso se esquecia 21
+ Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento 88
+ Que doudo pensamento he o que sigo[22] 57
+ Que esperais esperança? Desespéro 78
+ Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo 122
+ Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[23] 42
+ Que me quereis, perpétuas saudades? 111
+ Que modo tão subtil da natureza 73
+ Que pode ja fazer minha ventura 144
+ Que poderei do mundo ja querer 47
+ Que vençais no Oriente tantos Reis[24] 33
+ Quem diz que Amor he falso, ou enganoso 103
+ Quem fosse acompanhando juntamente 39
+ Quem jaz no grão sepulcro, que descreve 30
+ Quem póde livre ser, gentil Senhora 31
+ Quem pudera julgar de vós, Senhora 53
+ Quem quizer ver d'amor huma excellencia 107
+ Quem, Senhora, presume de louvar-vos 54
+ Quem ve, Senhora, claro e manifesto 9
+ Revuelvo en la incesable fantasía 82
+ Se a fortuna inquieta e mal olhada 134
+ Se algum'hora essa vista mais suave 79
+ Se as penas com que Amor tão mal me trata 30
+ Se com desprezos, Nympha, te parece 63
+ Se como em tudo o mais fostes perfeita 78
+ Se da célebre Laura a formosura 52
+ Se despois de esperança tão perdida 50
+ Se em mim, ó alma, vive mais lembrança 128
+ Se lagrimas choradas de verdade 127
+ Se me vem tanta gloria só de olhar-te 75
+ Se no que tenho dito vos offendo 133
+ Se pena por amar-vos se merece 42
+ Se quando vos perdi, minha esperança 13
+ Se somente hora alguma em vós piedade 24
+ Se tanta pena tenho merecida 17
+ Se tomo a minha pena em penitencia 48
+ Seguia aquelle fogo que o guiava 93
+ Sempre a razão vencida foi de amor 75
+ Sempre, cruel Senhora, receei 134
+ Senhor João Lopes, o meu baixo estado[25] 68
+ Senhora ja desta alma perdoae 140
+ Senhora minha, se eu de vós ausente 63
+ Sentindo-se alcançada a bella esposa 93
+ Sete annos de pastor Jacob servia 15
+ Si el fuego que me enciende, consumido 110
+ Sôbre os rios do Reino escuro, quando 120
+ Suspiros inflammados que cantais 37
+ Sustenta meu viver huma esperança 136
+ Tal mostra de si dá vossa figura 71
+ Tanto de meu estado me acho incerto 5
+ Tanto se forão, Nympha, costumando 79
+ Tem feito os olhos neste apartamento 131
+ Todo animal da calma repousava 8
+ Tomava Daliana por vingança 23
+ Tomou-me vossa vista soberana 19
+ Tornae essa brancura á alva açucena 64
+ Transforma-se o amador na cousa amada 6
+ Vencido está de amor Meu pensamento 80
+ Verdade, Amor, Razão, Merecimento 119
+ Vi queixosos de Amor mil namorados 126
+ Vós Nymphas da Gangetica espessura[26] 115
+ Vós outros que buscais repouso certo 99
+ Vós, que de olhos suaves e serenos 46
+ Vós que escutais em rimas derramado 51
+ Vós só podeis, sagrado Evangelista 123
+ Vossos olhos, Senhora, que competem 33
+
+ ECLOGAS.
+ Pag.
+ A quem darei queixumes namorados[27] 201
+ A rustica contenda desusada[28] 212
+ Agora, Alcido, emquanto o nosso gado 268
+ Agora ja que o Tejo nos rodeia 279
+ Ao longo do sereno 160
+ Arde por Galatea branca e loura 240
+ As doces cantilenas que cantavão[29] 222
+ Cantando por hum valle docemente 189
+ De quanto alento e gôsto me causava 288
+ Despois que o leve barco ao duro remo 242
+ Encheo do mar azul a branca praia 247
+ Parece-me, pastor, se mal não vejo 252
+ Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto 275
+ Passado ja algum tempo que os amores 179
+ Que grande variedade vão fazendo[30] 145
+
+ CANÇÕES
+ Pag.
+ A instabilidade da fortuna 303
+ A vida ja passei assaz contente 356
+ Com fôrça desusada 315
+ Formosa e gentil Dama, quando vejo 300
+ Ja a roxa manhãa clara 307
+ Junto d'hum secco, duro e esteril monte 328
+ Manda-me Amor que cante docemente 318
+ Manda-me Amor que cante o que a alma sente 322
+ Nem roxa flor d'Abril 340
+ Oh pomar venturoso 343
+ Por meio de humas serras mui fragosas 352
+ Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura 349
+ Quem com solido intento 346
+ Se este meu pensamento 311
+ Tornei a triste pena 326
+ Vinde cá, meu tão certo secretario 322
+ Vão as serenas agoas 309
+
+ ODES.
+ Pag.
+ A quem darão do Pindo as moradoras 376
+ Aquelle moço fero 383
+ Aquelle unico exemplo[31] 378
+ Detem hum pouco, Musa, o largo pranto 360
+ Fogem as neves frias 381
+ Formosa fera humana 368
+ Ja a calma nos deixou 389
+ Naquelle tempo brando 386
+ Nunca manhãa suave 371
+ Póde hum desejo immenso 373
+ Se de meu pensamento 365
+ Tão suave, tão fresca e tão formosa 363
+
+ NOTAS 395
+
+
+
+
+ [1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez
+ duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque
+ diz elle: _Deste modo de hablar parece que se infiere que á este
+ naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna
+ sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas
+ en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será
+ ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré
+ sin poder averiguarlo_. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser
+ se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma
+ que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza
+ não ignorão que o verbo _ser_ tem duas accepções; a de _ser_ e a de
+ _estar_: e se na significação propria de _ser_ denotaria, neste
+ lugar, o principio da acção, na de _estar_, em que o tomou o poeta,
+ denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente
+ ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão
+ lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas
+ nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns
+ leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia.
+
+ [2] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara,
+ aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo
+ de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o
+ jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz
+ nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos,
+ dirigio uma carta, onde se lia o seguinte:
+
+ "Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão
+ de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo
+ cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior
+ esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e
+ fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os
+ mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de
+ Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e
+ qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes
+ ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e
+ prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde
+ vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor
+ guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se
+ houvessem de ver livres do estado em que se vem."
+
+ [3] _Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em
+ sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse
+ a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a
+ escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida
+ pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se
+ vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da
+ ultima Estancia desta:_
+
+ _E porque não cabia dentro nella
+ De bens tamanhos tanto,
+ Sahe por a boca convertido em canto_
+
+ _preferisse o poeta o daquell'outra:_
+
+ _Se bem a declarei,
+ Eu não a escrevo, da alma a trasladei._
+
+ _por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja
+ repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo
+ e peregrino._
+
+ _Nota dos editores._
+
+ [4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô
+ Estacio de Faria, amigo de Camões, e como elle poeta e soldado.
+
+ [5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu
+ por seu.
+
+ [6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana."
+
+ [7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas,
+ aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavão de Camões,
+ imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas.
+
+ [8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo
+ conjectura Faria.
+
+ [9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI,
+ publicando a sua Arte de escrever em 1572.
+
+ [10] Á morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os
+ Mouros, junto a Ceuta em 1553.
+
+ [11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da
+ India, fallecido em Goa no anno de 1526.
+
+ [12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus,
+ e que Faria achou nos M. S. que continhão obras de Camões.
+
+ [13] Diversos forão os cavalleiros deste apellido que servírão com
+ distincção na India no tempo de Camões. Suppomos que o Soneto foi
+ feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou á India com seu
+ Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Camões,
+ onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi
+ encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada
+ no Estreito.
+
+ [14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes.
+
+ [15] A D. Theodosio de Bragança.
+
+ [16] Tambem impresso entre os de Bernardes.
+
+ [17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo
+ cahido de hum castiçal uma vela accesa que lhe queimou o rosto.
+
+ [18] A D. João de Castro.
+
+ [19] A D. Theodosio de Bragança.
+
+ [20] A D. Luis de Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a
+ India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os
+ seus.
+
+ [21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: _De Luis de
+ Camões a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos._
+ Thomaz d'Aquino.
+
+ [22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do
+ Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he
+ o 79.
+
+ [23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua
+ terceira Rainha D. Leonor.
+
+ [24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Ataïde.
+
+ [25] A João Lopes Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de
+ Camões: "Quem he este que na harpa Lusitana."
+
+ [26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca
+ de que era Capitão, contra o formidavel poder do Achem, em 1568.
+
+ [27] A D. Antonio de Noronha.
+
+ [28] A D. João de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II.
+
+ [29] A D. Antonio de Noronha.
+
+ [30] Á morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae
+ d'ElRei D. Sebastião.
+
+ [31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India,
+ por occasião de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez,
+ publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: _Colloquio dos
+ Simples, e cousas medicinaes da India_.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões,
+Tomo II, by Luís de Camões
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES ***
+
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+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
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+works.
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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