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diff --git a/31741-h/31741-h.htm b/31741-h/31741-h.htm new file mode 100644 index 0000000..5e63ef3 --- /dev/null +++ b/31741-h/31741-h.htm @@ -0,0 +1,1787 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O Oráculo da Magica</title> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + h1, h2 {margin-top: 3em; margin-bottom: 2em; text-align: center;} + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: #cccccc; + } + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;padding: 0.5em;} + .capa p{margin: 0;} + #corpo p { text-align: justify; text-indent: 1em;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (6/7), by Bento Serrano + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7) + Parte Sexta: O oraculo da Magica + +Author: Bento Serrano + +Release Date: March 23, 2010 [EBook #31741] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (6/7) *** + + + + +Produced by Mike Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">OU O</p> + +<p>Verdadeiro modo de aprender no passado a prevenir o presente, e a adivinhar +o futuro</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">BENTO SERRANO</p> + +<p> </p> + +<p>ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,</p> + +<p><i>Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita +gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div +style="font-size: 0.9em;margin-left:20%; text-align: left; width: 60%; border: solid 2px #000000;padding: 0.5em;"> +<h4>OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:</h4> + +<p>Parte primeira—O ORACULO DA NOITE<br> +Parte Segunda—O ORACULO DAS SALAS<br> +Parte Terceira—O ORACULO DOS SEGREDOS<br> +Parte Quarta—O ORACULO DAS FLORES<br> +Parte Quinta—O ORACULO DAS SINAS<br> +Parte Sexta—O ORACULO DA MAGICA<br> +Parte Setima—O ORACULO DOS ASTROS</p> +</div> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO<br> +LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">PARTE SEXTA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO DA MAGICA</p> + +<p> </p> + +<p>OU</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">O ESPELHO MAGICO DO ANÃO</p> + +<p>SEGUIDO DA INTERESSANTE DESCRIPÇÃO DE UM</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">CASTELLO ENCANTADO</p> + +<p>OU O</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">MONTE DO CASTELLO DAS FADAS</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO</p> + +<p>LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p align="center">Porto: 1883—Imprensa Commercial—Lavadouros, +16.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION0001000">O ESPELHO MAGICO DO ANÃO</a> </h1> + +<p>Thomé e Joanninha viviam quasi sós na sua pequena casinha, fóra do bosque, +tão sós como nunca tinham vivido. O pai era couteiro e guarda-matas, e por +isso, ou o tempo estivesse bom ou mau, passava muitos dias sem ir a casa, a +guardar as florestas e a matar a caça silvestre que era para a mesa do senhor +das terras. A mãi tinha morrido, e na choupana ninguem estava com os meninos +senão a avó, que já via mal e ouvia pouco. A avó passava todo o dia assentada +ao lar, menos quando andava coxeando pela cosinha para preparar a pobre comida +para os pequenos, ou quando dormia. De dous em dous ou de tres em tres dias +vinha Luiza, que morava na aldeia, trazer o leite, o pão e o que era mais +necessario; mas passavam-se semanas sem entrar um homem na choupana.</p> + +<p>No verão pouco cuidado dava isso aos pequenos, porque iam todos os dias á +escola da aldeia, e era isso para elles um divertimento. Os passaros +faziam-lhes companhia cantando alegres; no caminho encontravam lirios ou +morangos, que colhiam para venderem na aldeia ou para levarem ao mestre. +Passadas as horas de aula, corriam á floresta, por onde andavam de um para +outro lado com o pai, e espreitavam<span class="pn">{4}</span> esquilos e +cabritinhos montezes, e já uma vez tinham visto de longe um bello veado. E +assim, lendo nos seus livros na escola ou colhendo avelans nas matas, não +sabiam o que era aborrecimento em todo o verão.</p> + +<p>Mas no inverno era verdadeiramente triste, porque não podiam entrar na +floresta, e tinham de estar em casa como dous ratinhos no seu buraco. O pai era +obrigado a andar por fóra e levava comsigo Fiel, bonito perdigueiro, que era o +compaheiro unico dos pequenos. Tambem, se o pai estava em casa era raro que +dissesse alguma cousa; assentado á lareira, dormia ou limpava armas de caça. Em +outro tempo contava a avó muitas historias bonitas, mas então já não contava +nada, e se fallava era a meia voz e só comsigo. Joanninha assentava-se ao pé da +avó com uma roca pequena e fiava; mas era um trabalho aborrecido por não haver +quem conversasse. Thomé talhava em bocados de pau figuras de cães e de lebres; +mas sahiam-lhe sempre mal feitas, e tantas vezes dava golpes nos dedos que +perdia a paciencia e deixava a obra. O que mais o divertia era fazer casinhas +com pedras e bocados de pau que ajuntava; mas as casas cahiam com grande +barulho, e a avó dizia-lhe que não tinha geito nenhum para aquillo. Então dizia +ás vezes Thomé com mau humor:</p> + +<p>—Ora, porque não havemos nós de ser como os filhos dos ricos, como o +filho de um fidalgo que uma vez passou na aldeia, ou como os do balio, que +podem comer tudo que quizerem, ou como os filhos dos ciganos que andam por onde +querem?</p> + +<p>Em uma tarde, perto do Natal, tudo estava calado e triste. O azeite no +candieiro estava quasi acabado, e o caminho para a aldeia estava tão cheio de +neve que Luiza não tinha podido apparecer com as cousas<span +class="pn">{5}</span> precisas. Não havia com que fazer arder o candieiro. Por +fortuna o luar era claro como o dia; mas os pequenos tinham medo das sombras +exquisitas que o luar fazia.</p> + +<p>Joanninha chegava-se muito para a avó, e Thomé fez o mesmo e disse á velha +avó em voz alta:</p> + +<p>—Avósinha, conte-nos hoje uma historia, ainda que seja pequenina: +ainda ha-de saber alguma.</p> + +<p>—Não sei nenhuma, rapaz, resmungou a velha, mesmo nenhuma. +Esqueceram-me todas.</p> + +<p>—Só uma, avósinha; conte do anão da pedreira.</p> + +<p>—Da pedreira, ah, sim, rapaz, espera; deixa vêr se me lembra. Onde +está a grande pedreira, em baixo no barranco era em outro tempo uma rocha forte +e a prumo como um muro, d'onde nunca tinha sahido nenhuma pedra, e defronte da +rocha havia um pedaço de terreno coberto de viçosa verdura: por debaixo moravam +os anões; descia-se por degraus ao pequenino castello da rainha dos anões, e +debaixo da terra era uma cidade muito bonita. Na floresta não entravam +caçadores nem cortadores de lenha nem montantes, e nos dias de sol subiam todos +os anões e assoalhavam-se no musgo verde, e faziam banquetes e dançavam com +muita alegria. Um dia começaram os homens de fóra a levantar casas na planicie, +e entraram na floresta e cortaram arvores, e acarretaram grandes pedras para +fóra. Ficou tudo cheio da entulho de redor do bello rochedo que ficava defronte +do terreno cheio de verdura, e de redor da cidade dos anões. Para que os homens +não podessem cortar mais pedras, foram os anões de noite todos juntos á +floresta e cortaram pedras muito grandes e levaram-nas de rodo com toda a força +até á entrada da mata. Os homens descontentes foram á rocha e fizeram saltar as +pedras em pedaços,<span class="pn">{6}</span> e ellas cahiam com grande +estrondo no prado. Assim ficou toda arruinada a bonita cidade dos anões, e +houve muitas lagrimas e sentimento: Os anões que não tinham sido mortos, +escavaram um subterraneo fóra do bosque. Lá vivem agora, e se edificaram outra +cidade é cousa que não se sabe. Desde então tem rodado para fóra muitas pedras +de noite; mas estão sempre a cahir outras lá dentro, e todos os annos na noite +de S. Thomé, sahem elles para verem se ainda ha muitas pedras no terreno, e a +quem de lá tirar n'essa noite tres pedras, não negam os anões cousa nenhuma que +lhes seja pedida.</p> + +<p>Assim contou a avó. Havia muito tempo que ella não tinha fallado tanto, e +estava cançada. Joanninha estava cheia de medo e chegava-se muito para ella, +mas Thomé, com as faces ardentes e olhos brilhantes, pensava na historia e bem +quizera saber se os anões ainda appareciam.</p> + +<p>Então Fiel ladrou fóra, e entrou o pai, cançado, carrancudo e gelado; mesmo +ás escuras procurou alguma coasa que podesse comer; mas a velha esquecia-se +d'elle muitas vezes, e elle teve de deitar-se com fome. No inverno dormia a avó +na alcova e Joanninha com ella, e o pai com Thomé na salinha proxima. O pai, +depois de pegar a dormir, roncava toda a noite, e não havia nada n'este mundo +que o acordasse, só se fosse algum tiro dado na mata.</p> + +<p>N'essa noite Thomé não podia dormir. Não era a primeira vez que elle ouvia +contar a historia dos anões; mas nunca tinha sabido que estavam tão perto e que +ainda appareciam. Batia-lhe o coração com desejos anciosos, pensando que podia +com as riquezas dos anões alegrar aquella miseravel solidão dos bosques. E +faltavam só dous dias para o S. Thomé!<span class="pn">{7}</span></p> + +<p>Não pôde calar-se que não dissesse na manhã seguinte ao ouvido de +Joanninha:</p> + +<p>—Joanninha, depois de amanhã, é o dia de S. Thomé; vamos tirar pedras +do territorio dos anões.</p> + +<p>Mas Joanninha olhou para elle com olhos espantados, e disse:</p> + +<p>—Ora essa! Tu não vês que é só uma historia do que já passou ha mais +de cem annos? E demais, eu morreria de medo se sahisse de noite.</p> + +<p>Thomé ficou entendendo que nada faria com aquella maricas, apesar de +Joanninha ser mais velha, e calou-se com o seu projecto.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Na noite de S. Thomé foi o pai cedo para casa, e antes de ter a avó apagado +o candieiro já elle dormia como uma pedra. Thomé esperou que Joanninha tambem +adormecesse; a avó sabia elle que não o ouviria ainda que estivesse acordada. +Não tardou muito que tudo fosse silencio: elle não se tinha despido, puxou o +barrete de pelles para as orelhas e sahiu. Fiel não estava acostumado a vêr +sahir Thomé sosinho; e ficou muito espantado e resmungou quando Thomé lhe poz a +mão pela cabeça.</p> + +<p>A lua ainda brilhava clara, e no bosque havia um silencio de cemiterio que +assustava Thomé; mas tomou animo, e metteu-se com passos ligeiros e firmes ao +bem conhecido caminho da grande pedreira. Não se ouvia o mais leve murmurio +quando elle entrou no barranco, e então estremeceu vendo a rocha escavada em +que mal entrava um raio da lua. Com passos tremulos<span class="pn">{8}</span> +foi andando até ao lugar onde tinha sido o territorio dos anões, e onde só +havia então uma grande quantidade de pedras grandes e pequenas. Com as mãos a +tremer, agarrou nas maiores que pôde levantar, e levou-as para fóra.</p> + +<p>—Quem está ahi? perguntou uma voz fina, quando elle deitava fóra a +ultima.</p> + +<p>No unico lugar que a lua alumiava no barranco estava um homem muito pequeno +vestido de verde, que era o que perguntava a Thomé:</p> + +<p>—Quem está ahi?</p> + +<p>—Sou o Thomé do guarda-matas, disse elle muito embaraçado, e tirando +com todo o respeito o barrete.</p> + +<p>—Que queres d'aqui?</p> + +<p>—Só queria tirar pedras para que os senhores podessem viver aqui +debaixo.</p> + +<p>—Pouco podes fazer, disse o anão com tristeza, mas é uma boa obra que +deve ser recompensada. O que é que desejas mais?</p> + +<p>Thomé já tinha pensado em muitas cousas, mas n'aquella occasião não lhe +lembrava quasi nada. Lembrou-se de um cavallo em que elle podesse ir á escola, +de uma pipa cheia de azeite para que sempre houvesse que arder no candieiro, e +de um sacco cheio de maçans e de nozes; mas nada d'isso valia o que elle tinha +feito. Por fim disse gaguejando:</p> + +<p>—Uma sacca de dinheiro.</p> + +<p>O anão perguntou-lhe:</p> + +<p>—Então já sabes o que isso é? Que queres fazer com o dinheiro?</p> + +<p>Thomé respondeu um pouco animado:</p> + +<p>—Em lugar da nossa choupana, fazia uma casa grande, muito grande, +ainda maior que é na aldeia a casa do monteiro; e uma cavallariça cheia de +bellos<span class="pn">{9}</span> cavallos em que eu podesse correr, quando +tudo estivesse cheio de neve; e comprava á Joanninha um vestido novo, e um +barril de azeite para não estarmos ás escuras.</p> + +<p>—E que mais? disse o anão sorrindo; has-de fazer uma casa, mas não +n'este escuro bosque; andarás por fóra da tua terra, mas para isso não precisas +de cavallo; Joanninha poderá ter o vestido novo sem ser dado por ti, e quando +quizeres ter azeite bastante, vai com a tua cestinha á pedreira onde acharás +com que faças azeite sufficiente para arder no candieiro em dous annos. Entendo +que a sacca de dinheiro não te serve de nada; ainda és muito pequeno.</p> + +<p>—Ah, disse Thomé desanimado, a nossa vida não seria tão miseravel e +tão aborrecida nas grandes noites de inverno, se tivessemos algum bonito livro +de estampas.</p> + +<p>—Lá isso, disse o anão, é cousa que póde ter bom remedio; vai +descançado que depois da noite do Natal irei ter comtigo e cuidarei no modo de +nunca mais te parecerem longas as noites de inverno. Alegra-te, os anões sabem +pagar o bem que lhes fazem.</p> + +<p>O anão desappareceu, Thomé ficou a tremer, e foi-se embora muito mais +inquieto do que tinha sahido. Sem que ninguem ouvisse, levantou a aldrava de +pau, entrou em casa, foi ao seu quarto, deitou-se, e toda a noite sonhou com o +anão. Não quiz dizer nada a Joanninha, porque elle mesmo não sabia bem o que o +anão faria, apesar de esperar com anciedade a chegada do Natal.</p> + +<p>Chegou a noite de Natal, e não faltava alegria na cabaninha da floresta. O +pai tinha trazido da aldeia grande quantidade de maçans e de nozes, a avó tinha +dado aos pequenos duas bonitas estampas que ainda<span class="pn">{10}</span> +achou na sua Biblia, e na manhã do dia de festa, chegou a criada da senhora do +monteiro, que era madrinha de Thomé e de Joanninha, e trouxe dous bonitos +corações de pão doce, um lindo gibão novo para Joanninha, e uma jaqueta bem +forrada e quente para Thomé. O pai não sahiu de casa e cozinhou uma lebre. +Havia muito tempo que elles não tinham vivido tão bem; mas Thomé não estava tão +contente como nos outros annos, porque não sabia se o melhor ainda havia de +vir.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Veio a noite e todos adormeceram, menos Thomé que se assentou na cama +vestido, e pensava no que poderia trazer-lhe o seu novo amigo para passar o +tempo enfadonho do sombrio inverno, quando ouviu bater de leve á porta de casa. +Com algum susto e temor, mas a toda a pressa saltou da cama, e abriu ao homem +pequenino vestido de verde, que não levava nada comsigo senão um vidro redondo, +muito brilhante e de muitas côres.</p> + +<p>—Leva-me ao teu quarto, disse o anão, entrando e andando mais ligeiro +do que Thomé.</p> + +<p>Foram ao quarto de dormir em que se via tudo claramente com a luz que o +vidro dava. O que lá se via era um leito velho, uma mesa manca com tres pés, e +duas cadeiras. O traste maior era uma alta e larga caixa, mettida na parede, +ennegrecida pelo tempo, e que muitas vezes tinha sido um bom lugar para o jogo +das escondidas. Nas costas da caixa havia um grande buraco redondo por onde +Joanninha tinha medo de espreitar porque via tudo escuro.<span +class="pn">{11}</span></p> + +<p>Esta caixa foi o que deu mais nos olhos ao anão, que entrou n'ella pela +tampa meio aberta e esteve a trabalhar e a bater lá dentro algum, tempo.</p> + +<p>—Agora, disse elle, depois que sahiu, já não haveis de passar o tempo +com aborrecimento; quando as horas parecerem muito compridas, olhem pelo buraco +redondo que está na caixa, seja de manhã ou seja de tarde, quando estejam sós. +Adeus, rapaz; Deus te dê da sua graça.</p> + +<p>—E antes de Thomé saber o que havia de novo, já o anão tinha sahido. +Thomé não entendeu bem o que tudo aquillo queria dizer, e não se atreveu a ir +logo vêr á caixa. Foi deitar-se ao pé de seu pai, e pensando e scismando se o +anão fallaria seriamente ou a gracejar, adormeceu.</p> + +<p>Na manhã seguinte o pai sahiu cedo, e Thomé não pôde calar-se, e ao pé da +surda avó contou baixinho á irmã toda a sua aventura, de que ella se riu sem +lhe dar credito, mas tremendo de susto. Por fim resolveu-a a ir de tarde com +elle fazer a primeira visita á caixa, e como esperavam alguma cousa, não +souberam n'esse dia o que era aborrecimento.</p> + +<p>Á noite, ainda o pai não tinha entrado e a avó cabeceava com somno, quando +ambos se metteram na caixa cheios de anciedade. Thomé, que era mais animoso, +foi o primeiro que olhou pelo buraco onde brilhava o vidro do anão. Ah! que +resplendor lhe veio bater nos olhos! Puxou logo Joanninha para si, porque a +abertura era bastante larga para poderem vêr ambos ao mesmo tempo. Eram +maravilhas o que elles viam, e mal se podiam conter para não darem altos gritos +de espanto. Viam uma grande sala, muito grande, alumiada de um modo magestoso +por lustres dourados, com muitos centos de velas de côres. E uma<span +class="pn">{12}</span> mesa estava carregada com as cousas mais maravilhosas: +soldados, de pé e de cavallo, regimentos inteiros com peças e armas, e uma +cavallariça cheia de cavallos pequenos de todas as raças, e livros com ricas +pinturas, e uma grande quantidade de objectos de brinquedo, que elles nunca +tinham visto, e pequenas esporas de prata, e uma espingarda e espada, e um +soberbo vestuario de velludo bordado a ouro. Todas estas cousas magnificas +estavam dispostas sobre a mesa na melhor ordem, e ao pé havia açafatinhos e +pratos com os dôces mais finos.</p> + +<p>—Ah, de quem será isto! disseram os dous irmãos suspirando.</p> + +<p>A porta abriu-se, e entrou um rapaz esguio e pallido, que teria dez annos, e +atraz d'elle muitas senhoras e homens da nobreza vistosamente vestidos. Thomé e +Joanninha pensavam que aquellas riquezas deviam pertencer a muitos meninos, e +olhavam para todos os que iam entrando na sala; mas não havia outro menino +senão o que entrou primeiro, e que passou por todas aquellas cousas tão ricas +sem fazer muito caso d'ellas, em quanto que Thomé e Joanninha pregavam no vidro +os olhos afogueados e parecia que queriam devorar todas aquellas maravilhas.</p> + +<p>—Rapazes, onde estaes vós? gritou fóra a voz da avó.</p> + +<p>Voltaram a cabeça assustados, e viram tudo ás escuras, como era nos outros +dias, e a velha caixa estava sem luz como se nada tivesse acontecido. Aos dous +irmãos ainda parecia tudo um sonho quando se assentaram ao pé do candieiro no +quarto velho e defumado. N'essa noite chegaram a sentir quasi alegria por a avó +ser surda, porque podiam fallar á vontade nas maravilhas que viram, e a cada um +lembrava alguma<span class="pn">{13}</span> cousa muito bonita em que o outro +não tinha reparado.</p> + +<p>—Ai, diziam elles suspirando, que boas cousas tem aquelle menino +fidalgo! Se nós tambem tivessemos cousas assim!</p> + +<p>E ainda diziam o mesmo quando o somno lhes fechou os olhos, para ainda lhes +mostrar em sonho tanta grandeza.</p> + +<p>Antes de ser bem dia, foi Joanninha á sala da caixa. O pai não estava em +casa, e por isso podiam á vontade ir olhar pelo vidro maravilhoso. Como elles +desejavam ver ainda uma vez a bella sala de hontem! Agora era á luz clara do +dia, mas, era quasi tão bonito como com os centos de luzes de côr: ainda havia +todas as cousas ricas de hontem, mas não estavam em tão boa ordem, o menino que +tinham visto estava vestido de sêda deitado sobre o sophá, com alguns dos +bonitos livros espalhados de redor d'elle, e parecia estar muito aborrecido.</p> + +<p>Quando Thomé e Joanninha se mostravam admirados de que podesse haver alguem +que não estivesse contente com tão maravilhosas cousas, abriu-se uma porta da +sala, e entrou um senhor de idade. Os meninos ouviram fallar como muito ao +longe, mas entendiam bem o que se dizia. O velho perguntou:</p> + +<p>—Já está enfastiado, meu caro principe, de tantas cousas que fariam +felizes outros meninos?</p> + +<p>—Outros meninos! disse o principe; os outros meninos não estão sós, e +eu já vi todas as minhas cousas que me deram.</p> + +<p>—Mas vossa alteza bem sabe que se lhe dá companhia quando a quer +ter.</p> + +<p>—Que companhia! Vem um, e diz: «Bons dias, principe»; e diz outro: +«Que tem principe?»; e brincam<span class="pn">{14}</span> com o que eu tenho e +conversam e riem uns com os outros; e quando lhes chega o aborrecimento, vão-se +embora e eu fico só. Quem me dera sahir como sahem os outros meninos!</p> + +<p>—Mas se vossa alteza quer, póde ir passear ou viajar</p> + +<p>—Ah, sim, ir passear na sua companhia, ou andar em carro ou a cavallo +acompanhado por camaristas. Que grande alegria! o que quizera era ir só e para +onde me parecesse. Antes queria ser filho de ciganos do que principe.</p> + +<p>Antes que Thomé e Joanninha podessem ouvir mais nada, chamou por elles a +avó. Sahiram da caixa e o buraco ficou ás escuras.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Muito tinham os dous irmãos que dizer um ao outro! O que elles não podiam +entender era porque estava o principe tão impertinente.</p> + +<p>—Ah, como nós estariamos contentes com aquellas cousas tão bonitas! +dizia Thomé suspirando.</p> + +<p>—Sim, mas nós não estamos sós, dizia Joanninha.</p> + +<p>—É verdade que os meninos ricos quando não estão sós, tambem estão +contentes, dizia Thomé para si.</p> + +<p>—Havemos de vêr, dizia Joanninha, se o principe ainda lá está hoje á +noite.</p> + +<p>Com grande alegria passaram elles todo o dia a conversar, e a anciedade não +podia ser maior quando outra vez olharam pelo vidro.</p> + +<p>Já não era a sala, mas sim um bosque, quasi como<span class="pn">{15}</span> +aquelle em que elles moravam, e havia no bosque um grande pedaço de terreno sem +arvores onde ardia uma fogueira; em que estava estendida uma bella peça de caça +brava, e de redor da fogueira muita gente esfarrapada e enfarruscada, e alguns +tocadores de instrumentos que tocavam uma musica alegre, e uma multidão de +creanças que dançavam e saltavam com uma alegria de selvagens.</p> + +<p>—Ah, isto é muito divertido, dizia Thomé.</p> + +<p>Mas Joanninha abanava a cabeça porque não lhe agradava o que via. Um rapaz +d'aquelles ciganos chegou com um grande sacco cheio de fructas seccas, e todos +os pequenos o receberam com gritos de alegria, e elle despejou o sacco no chão. +Todos se atiraram ás fructas seccas como quem tinha fome e comeram a bom comer. +Depois começaram outra vez a saltar e a cantar desentoados, e Thomé começava a +sentir desejos de tambem ir saltar com elles, quando o pai que chegava de fora +os chamou para o quarto.</p> + +<p>Toda a noute teve Thomé os ciganos na imaginação, de maneira que deu cuidado +a Joanninha que pensava que Thomé podia muito bem sahir de casa de noite e +fugir para os ciganos. Mesmo a dormir cantava Thomé o que tinha ouvido tocar +aos ciganos.</p> + +<p>Muito cedo, antes de acordar o pai, foi Thomé olhar pelo vidro, sem esperar +por Joanninha, que só passado algum tempo é que foi ter com elle. O que viram +era ainda o verde prado do bosque, mas já não havia festa. Era de manhã, a +fogueira estava apagada, e os ciganos corriam para todos os lados muito +afflictos e desvairados. Chegaram soldados e todo aquelle barulho e desordem +acabou pela prisão dos ciganos que eram accusados de roubos. Com agudos gritos +viram os pequenos dos ciganos que os soldados levavam<span +class="pn">{16}</span> á força seus pais e suas mãis, e que outros soldados os +levavam a elles para outra parte. Thomé e Joanninha não tiveram animo para vêr +mais e desviaram os olhos do vidro. Joanninha disse depois a Thomé:</p> + +<p>—Ainda querias ser filho de cigano para ter aquella vida livre que +elles tem?</p> + +<p>—É verdade, disse Thomé desanimado, quem rouba não pode ter uma vida +livre.</p> + +<p>—Os meninos ricos, tornou Joanninha, de certo passariam melhor vida, +se não vivessem tão sósinhos como o principe.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Á noite não poderam ir para a caixa das vistas maravilhosas porque a avó +nunca lhes deu tempo de sahirem da cozinha, e o pai foi para casa muito cedo. +Por isso ainda mais desejavam que chegasse a occasião de poderem lá tornar.</p> + +<p>Quando essa occasião chegou, viram um quarto muito bonito, não tão admiravel +como a sala do principe, mas muito mais bonito do que o quarto da madrinha, com +alcatifas de varias côres e bellos quadros nas paredes. O quarto estava cheio +de lindas cousas para brincarem meninos e meninas. Um bonito quarto de bonecas, +com senhoras e senhores muito bem vestidos, com sophás, cadeiras e caminhas +pequenas, e uma cozinha cheia de louças brancas, panellas e pratos, muito mais +do que havia na cozinha da avó; bonecas pequenas e grandes, quasi da altura de +Joanninha, berços e cadeirinhas; e de outro lado um castello com soldados, e +uma loja muito enfeitada com<span class="pn">{17}</span> uvas seccas, amendoas, +confeitos e figos, e um carro com bahús e saccos, e lindos livros de estampas; +em uma palavra, eram quasi tantas cousas como tinha o principe. Thomé e +Joanninha não cabiam em si de contentamento e admiração.</p> + +<p>Então entraram no quarto os donos de todas aquellas riquezas, que eram duas +meninas e um menino. Parecia que vinham de passear. As meninas correram para as +bonecas e o menino para a loja. Uma foi com um dinheiro pequenino e brilhante +comprar dôces ao irmão, a outra começou a vestir as suas bonecas de uma +caixinha cheia de ricos vestidos e chapelinhos.</p> + +<p>Ah, como ficaram tristes Thomé e Joanninha quando a avó os chamou para a +ceia, e como sonhavam, a dormir e acordados, com aquellas bonitas cousas, e +como correram na manhã seguinte á caixa para continuarem a vêr como eram +felizes os tres irmãos!</p> + +<p>Mas já não era tudo tão bonito no quarto; as bonecas estavam no chão, e uma +das meninas estava a chorar e a gritar; tinha deixado de noite as bonecas no +chão e a porta do quarto aberta; a gata tinha entrado, tinha brincado com a +boneca, e rasgou-lhe os vestidos de sêda e estragou-lhe as côres.</p> + +<p>—A culpa é tua, gritou um dos meninos, porque não pozeste as cousas em +ordem.</p> + +<p>—Eu é que não tive culpa nenhuma, gritou a outra.</p> + +<p>E n'isto correram aos empurrões para a loja, e entraram em desordem por +causa de um pão de assucar que as meninas queriam ter na sua cozinha e o irmão +não queria que se tirasse da loja. A questionar e a gritar entraram as meninas +na loja, e muitos dos vidros do dôce foram deitados ao chão: o menino cheio de +colera correu á cozinha e deitou tudo ao chão, e quebrou<span +class="pn">{18}</span> a bonita louça que lá havia. Então foram tantos os +gritos e queixas que Thomé e Joanninha não quizeram vêr mais.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Tardou muito tempo que elles podessem tornar a vêr pelo vidro. Quando chegou +a occasião, o que viram foi um lindo quarto e uma mesa com quinquilherias, +bolos dôces, uma bella torta, confeitos e pasteis. Estavam lá duas meninas, e +parecia que era o dia dos annos de uma, que era a que tinha recebido todas +aquellas cousas. Não ralhavam nem se zangavam uma com a outra como tinham feito +os outros meninos, mas tambem não se podia dizer que tinham boa saude e que +estavam satisfeitas. Dizia uma:</p> + +<p>—Que te parece, Emma, vamos comer um bocadinho da tua torta?</p> + +<p>—Eu não, Sophia; antes queria maçans.</p> + +<p>—Maçans! pois tu não sabes que o senhor doutor prohibiu que comessemos +fructa?</p> + +<p>—Ah! tambem a torta me faz mal, e a avó foi que m'a mandou; e os dôces +fazem-me doer os dentes e foram mandados pela tia.</p> + +<p>—Então vamos brincar para o jardim, tornou Sophia.</p> + +<p>—Pois sim, vamos; e levo o meu chapéo novo. Iam para sahir quando +appareceu a mãi e perguntou:</p> + +<p>—As meninas onde querem ir?</p> + +<p>—Vamos só um bocadinho para o jardim, maman.<span +class="pn">{19}</span></p> + +<p>—Deus nos livre d'isso: no jardim está um vento muito frio e a terra +muito humida. Nada, nada. Emma viria de lá com dôres de dentes e Sophia com a +tosse. Deixem-se estar aqui. Eu vou levar d'aqui para fóra todas estas cousas, +porque já comeram muito, e Sophia devia agora tomar o seu remedio.</p> + +<p>A menina Sophia fez uma careta de enjôo quando ouviu fallar no remedio. +Joanninha não quiz esperar até que elle chegasse e deixaram tristes o vidro e a +caixa.</p> + +<p>Não faltava a Thomé e a Joanninha que dizer e em que pensar a respeito do +que tinham visto.</p> + +<p>—Diz-me cá, Thomé, perguntou Joanninha, parece-te que são infelizes +todos os meninos que vivem no mundo?</p> + +<p>—Não, acudiu logo Thomé, eu acho que não póde ser. Se o principe não +vivesse tão só...</p> + +<p>—Isso sim; e se os filhos dos ciganos tivessem bons pais; e se os tres +irmãos não tivessem tão mau genio; e se as meninas não fossem doentes... Olha, +quem é bom e de bom genio e tem saude, vive contente.</p> + +<p>—Mas quem é pobre e só como nós? perguntou Thomé.</p> + +<p>E Joanninha não soube o que havia de responder-lhe.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Á noite a avó adormeceu cedo, mas elles mal se atreviam a ir ao vidro +receando que acabasse por cousas<span class="pn">{20}</span> tristes. Comtudo +sempre foram. D'esta vez chegaram a gritar ambos ao mesmo tempo em voz um pouco +alta: Isto é o nosso quarto e nós n'elle!</p> + +<p>E na verdade assim era, mas o quarto era mais alumiado e mais alegre, estava +com mais ordem e mais aceio e limpeza, as vidraças sujas estavam bem lavadas, +na janella havia em vasos um par de plantasinhas da floresta, como Joanninha as +conhecia bem, de umas que nasciam mesmo com a neve; em uma gaiola de vimes, +como Thomé já tinha visto fazer aos rapazes da aldeia, saltava um passarinho, +que parecia estar melhor n'aquelle quarto agasalhado do que estaria livre ao ar +frio, porque cantava e trinava que era um gosto ouvil-o. E a avó assentou-se á +roda de fiar e Joanninha ao pé d'ella e Thomé a pequena distancia e não estavam +aborrecidos e tristes como era d'antes; e cantavam uma bonita canção que já +tinham aprendido na escóla e que nunca se tinham lembrado de cantar em casa. +Cantavam tão suavemente que a avó, que percebia alguma cousa, piscava os olhos +de contentamento. Por fim quando acabaram de cantar, o Thomé que elles viam lá +dentro pegou em um grande livro que já ha muito tempo estava cheio de pó no +sobrecéo da cama da avó, desde que ella nem com as lunetas podia lêr. Thomé e +Joanninha olhavam espantados, porque era verdade que sabiam lêr, mas lêr em +casa era cousa em que nunca tinham pensado. O Thomé do vidro começou a lêr em +voz alta de maneira que a avó o ouvia; ao principio não foi tão correntemente +como o verdadeiro Thomé teria lido, mas não tardou que fosse melhor. Era a +historia de S. José, que os meninos já tinham ouvido, mas já ha muito tempo, e +agora parecia-lhe tão cheia de novidade e de belleza que ao Thomé do vidro +escutavam com toda a attenção,<span class="pn">{21}</span> até que se ouviu um +latido de cão. Era tambem exactamente como o latir do Fiel.</p> + +<p>E a Joanninha que se via lá dentro levantou-se, poz um par de sapatos velhos +ao calor do lume e dependurou tambem ao calor do lar uma jaqueta velha do pai, +e quando o pai entrou com Fiel, tirou-lhe Thomé a jaqueta molhada e pegou-lhe +na espingarda, e Joanninha deu-lhe os sapatos quentes e a jaqueta bem +enxuta.</p> + +<p>Thomé e Joanninha olhavam pasmados para aquelles cuidados com que +trabalhavam as suas imagens dentro do vidro. Até então tinham visto o pai +entrar e sahir sem ao menos pensarem em cuidar d'elle. O pai que elles viam +pelo vidro estava muito admirado d'aquelles cuidados de seus filhos e +mostrava-se muito mais meigo do que o verdadeiro pai costumava ser. Elle +assentou-se á mesa, e Joanninha tinha uma ceia bem quente no lar, cousa que +nunca lhe tinha lembrado, porque tambem a avó nunca pensava n'isso, e o pai +batia-lhes no hombro, o que elle nunca tinha feito, e começou a fallar da mãi +que Deus tinha levado para si, e que tambem cuidava muito d'elle; e tudo isso +encantava tanto Joanninha e Thomé que não tinham vontade de tirar os olhos do +vidro: mas a avó chamou por elles para se deitarem.</p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Na manhã seguinte começaram Thomé e Joanninha a viver uma vida muito +differente. Joanninha limpava<span class="pn">{22}</span> e espanava, punha +tudo em ordem e lavava a janella, de maneira que a avó, a quem aquillo parecia +um sonho, perguntava: Então isto agora é uma igreja?—Como ainda não era +tempo de flôres, Thomé levou do bosque alguns ramos verdes de faia, com os +quaes adornou muito bem a sala. Depois ajudaram de boa vontade a avó a fazer o +almoço, cousa que nunca tinham feito, e quando o comeram soube-lhes melhor do +que nos outros dias. Depois assentou-se Joanninha com a roca ao pé da avó, e +Thomé subiu a uma cadeira e abriu a Biblia, que estava cheia de pó como a que +viram pelo vidro, e começou a soletrar. A avó escutou com muita attenção, e +quando elle começou a lêr correntemente e ella ouviu pela primeira vez da bocca +de seu neto a palavra de Deus, o seu coração cheio de annos sentiu-se mais +novo, e ella ergueu as mãos ao céo, e não tirava de Thomé os seus olhos +arrasados de lagrimas de alegria. Thomé ficou muito contente vendo o effeito da +sua leitura e lia cada vez com mais fogo, e Joanninha escutava e fiava e não +reparava como a manhã se passava depressa, até que a avó, que tinha o relogio +na cabeça, se levantou para cozer as batatas. Então levantou-se Thomé e disse: +Espere, avosinha, que eu ajudo-a.</p> + +<p>Foram ambos os netos tirar agua ao poço e a avó não cabia em si de alegria. +Nunca tinham comido tão boas batatas. De tarde lembrou-lhes cantar, e começaram +baixinho, e depois foram subindo a voz, e a avó escutava ao principio como se +sonhasse, e sorria com um contentamento como ha muitos annos não tinha tido.</p> + +<p>Como passaram satisfeitos até que o pai chegou! E como elle se mostrou +admirado d'aquelles cuidados que via nos filhos e que nunca mais vira +desde<span class="pn">{23}</span> que sua mulher fôra para a sepultura. +Aqueceu-se com o fato que elles lhe deram, e encantado com aquellas meiguices +dos meninos começou a contar muitas cousas da sua querida Margarida que estava +no céo. A avó escutava com grande alegria e de tempos a tempos dizia alguma +cousa. Antes de irem deitar-se disse ella ao pai: Tu deves vêr como Thomé lê +bem.</p> + +<p>E foi buscar o seu velho livro de orações da noite. O pai, que já ha muitos +annos não se lembrava de orações, escutou com viva alegria, e a voz de Thomé +levava-lhe as santas palavras ao coração, que se abria para Deus. Quando Thomé +fechou o livro, ergueu o pai as mãos ao céo e rezou.</p> + +<p>Thomé e Joanninha nunca dormiram um somno tão dôce como n'essa noite.</p> + +<p>Depois a mocidade foi passando, mas as boas obras davam alegria ao coração, +o bom anjo da oração tinha entrado em casa, e fazia d'aquella socegada +choupaninha um templo da paz e do amor.</p> + +<p>Os meninos não tinham desejos de tornar a olhar para o espelho do anão, +porque entendiam que não lhes podia mostrar cousas melhores do que aquella sua +vida caseira, principalmente quando veio a branda primavera, e elles pensaram +como haviam de dar alegria á sua casinha no proximo inverno.</p> + +<p>Disseram-me que Thomé, passados annos, quando o pai e a avó já eram mortos, +tinham corrido algumas terras, e veio a ser um habil e robusto carpinteiro que +ajudou a construir muito bonitas casas e fez para si uma casinha muito +aprazivel. Joanninha tinha ido para casa do padrinho, e veio a ser uma menina +muito prendada e depois uma esperta aldean e boa mãi de filhos saudaveis.<span +class="pn">{24}</span></p> + +<p>Os dous irmãos viveram sempre contentes com a sorte que Deus lhes deu, e +quando viam de longe casas ricas, ou ricos vestidos ou custosas golosices, +diziam comsigo: Aquillo talvez seja de um pobre principe, ou de algum menino de +mau genio ou de alguma Emma doente.<span class="pn">{25}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0002000">O CASTELLO ENCANTADO<br> +OU<br> +O MONTE DO CASTELLO DAS FADAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0002100">TRADIÇÃO PRUSSIANA</a></h2> + +<p>Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte +alto e redondo que se chama o monte do castello. Ha muitos e muitos annos houve +alli um grande castello, como ainda hoje se póde vêr pelas ruinas das paredes, +e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem +pertence e quem agora lá mora, é cousa de que ninguem sabe dar noticia, mas +corre na terra uma tradição que reza que elle se aluiu de repente, e ainda hoje +se mostra no cume do monte, mesmo no meio d'elle, um largo e escuro boqueirão, +cujo fundo ainda ninguem pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a +chaminé do antigo castello. N'esses muros derribados reza a mesma tradição que +é guardado um thesouro immenso por um porteiro, velhinho de cabellos brancos, +que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que +ninguem até hoje tem podido ir aproveitar-se d'elle.<span +class="pn">{26}</span></p> + +<p>Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia proxima de Tilsit a pastorear +gado no monte do castello. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os +rapazes deitaram-se á sombra de um rosal bravo e pozeram-se a contar historias. +Entre outras cousas fallaram no muito ouro que estava no monte por debaixo +d'elles, e mostraram desejos de que lhes apparecesse o porteiro do castello +para irem atraz d'elle e deitarem mão ao thesouro. Mas mostravam esse animo por +ser dia claro, porque nenhum d'elles era capaz de se deixar ficar só no monte +do castello depois de escurecer.</p> + +<p>—Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a +minha mãi que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta á roda de +fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada +dia; que alegria não seria a d'ella se eu podesse levar-lhe para casa uma boa +mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal phantasma do homem +pequenino.</p> + +<p>—Tolo! disseram os outros, elle não faz mal a ninguem; provavelmente +descançaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguem +achasse o thesouro, porque então não teria mais que guardar.</p> + +<p>Assim palravam elles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e +atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que +arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cahir nenhuma no +fundo.</p> + +<p>—Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais +velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço, e vêr +se acharia alguma porta ou cousa semelhante que fosse dar onde está o ouro.</p> + +<p>—Em casa de meu amo, disse outro, ha um poço,<span +class="pn">{27}</span> e está uma corda no guindaste que com certeza é duas +vezes tão comprida como este monte. Querem que a vá buscar? Em casa não está +agora ninguem porque meu amo e minha ama sahiram para longe para um +baptisado.</p> + +<p>A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Theophilo.</p> + +<p>—Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos +com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol; podemos +mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se enchermos bem os bolsos +lá em baixo. Vai buscar a corda, depois tiraremos á sorte quem ha-de descer á +cova; os outros ficarão a segurar a corda em cima, e o que descer será içado +logo que dê signal puxando por ella.</p> + +<p>Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Theophilo, que como medroso +se oppunha áquella resolução, mas foi escarnecido pelos camaradas. Quando +chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem tocou a vez foi justamente ao +timorato Theophilo, que bem fugiria d'alli para longe se os camaradas não o +segurassem e não o atassem á força com a corda. Gritando e bracejando, com +grandes risadas dos companheiros foi lançado no boqueirão redondo e descido +devagar. A ponta da corda foi atada com muita segurança ao tronco de uma +arvore, e pouco a pouco foram os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo +o seu pequeno camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco +e disseram: «Que vês lá embaixo, Theophilo?» Mas Theophilo só pedia que o +puxassem para fóra.</p> + +<p>A final já não se entendia o que elle dizia: a corda, que era mais comprida +do que a altura da torre<span class="pn">{28}</span> da igreja de Tilsit, +estava já a chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, signal certo de +que Theophilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que +estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por fim +estava Theophilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a borda do +boqueirão; chamaram e pozeram-se a escutar, mas o silencio era de mortos. Assim +esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora, diziam elles, já Theophilo +tem tido tempo de ver tudo e de encher os bolsos com ouro e prata. Puxaram a +corda para cima, mas a corda não trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e +outra hora sem que a corda trouxesse alguma cousa acima, começaram a +affligir-se e a inquietar-se. Depois correram muito pezarosos á aldeia, e com +medo de castigo disseram á velha mãi doente do seu camarada perdido que +Theophilo tinha trepado sósinho ás ruinas do monte do castello e de repente +tinha desapparecido.</p> + +<p>Foi grande a angustia da pobre mãi do rapaz, cuja alegria unica era o seu +Theophilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve somno que lhe fechasse os +olhos, e bem quizera ella morrer para ir ter com seu filho ao céo, porque elle +de certo tinha cahido no fundo do boqueirão do monte do castello, e lá estava +despedaçado e morto.</p> + +<p>Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam outra +vez os rebanhos para o pasto da vespera, ainda afflictos pelo que tinha +acontecido, correu Theophilo ao encontro d'elles na raiz do monte. Todos os +seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de ouro, e elle com +grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha corrido bem. Disse +elle:<span class="pn">{29}</span></p> + +<p>—Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma +porta diante de mim e por ella entrei em uma cozinha muito grande. Ardia no lar +uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte não se via +senão cousas de ouro e de prata. De repente veio direito a mim um velhinho +pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse que não tivesse medo +porque me assegurava que não havia alli ninguem que me fizesse mal. Então perdi +o medo, e atravessei com o bom velho muitas salas cada vez mais bonitas, onde +havia montes de ouro. Então deu-me o castellão differentes iguarias muito boas +para comer, e mostrou-me uma cama em que eu podia dormir. O vinho muito dôce +que bebi pesou-me na cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho +pequenino me foi acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto +quanto podiam levar, e disse-me: «Guarda isto em lembrança do porteiro do +castello e tracta de tua velha mãi.» E pegando-me em uma mão, abriu uma porta +pequena, e quando puz os pés fora, vi o céo azul e o sol da manhã, e ouvi o +sino da aldeia que tocava ás ave-marias. Elle não sahiu, disse-me adeus com a +mão, e desappareceu. A porta por onde tinha sahido não a tornei a vêr. Graças a +Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha mãi vai ficar contente!</p> + +<p>E Theophilo correu logo á aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas +que bem queriam ouvir contar mais alguma cousa.</p> + +<p>—Agora, disseram elles uns para os outros quando viram as grandes +riquezas com que Theophilo appareceu, devemos ir tambem ao bom porteiro velho e +trazer alguma cousa do seu thesouro. Vamos vêr a quem por sorte caberá a vez de +ir lá abaixo.<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>—Para que ha-de ser á sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de +todos, e hei-de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, +provarei que está do meu lado o direito do mais forte.</p> + +<p>Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, +e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o +seu pão da saccola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava +receber do porteiro do arruinado castello. De novo se mostrou a corda retesada +quasi até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não +esperaram que o camarada sahisse para fóra n'aquelle mesmo dia, porque sabiam +que elle tinha lá em baixo boas cousas para comer e uma cama bem fofa para +passar a noite, e que lhes appareceria de manhã muito alegre, como o pequeno +Theophilo, ao pé do monte. A ausencia de Fernando foi pouco notada na aldeia; +os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e elle não tinha uma mãi que o +chorasse.</p> + +<p>Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciencia sahiram com o gado +mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, +depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos +chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguem tornou a +ver Fernando, nem appareceu ninguem que tivesse animo para descer ao fundo do +monte do castello, e apanhar o thesouro que lá está enterrado.<span +class="pn">{31}</span></p> + +<h2><a name="SECTION0002200">GRATIDÃO DE UM FILHO<br> +E<br> +INGRATIDÃO DE OUTRO</a></h2> + +<p style="text-align:center;"><small>(Hebel.)</small></p> + +<p></p> + +<p>Quem reparar um pouco, ha de ver muitas vezes que o homem na velhice é +tratado por seus filhos exactamente do mesmo modo, como elle havia tratado seus +paes, quando erão velhos e já sem forças. E isto comprehende-se bem. Os filhos +aprendem com os paes; não veem nem ouvem mais ninguem, e por isso seguem o seu +exemplo. Assim se verifica naturalmente o que tantas vezes se diz, e está +escripto: «a benção e a maldição dos paes vem cair sobre os filhos.»</p> + +<p>Ouçamos agora duas historias que se contão a proposito d'isto: a primeira é +digna de imitação; a segunda merece ser muito meditada.</p> + +<p>Uma vez um certo principe foi dar um passeio a cavallo, encontrou-se com um +camponez diligente e alegre, que andava a trabalhar em um campo, e poz-se a +conversar com elle.</p> + +<p>D'alli a alguns dias soube o principe que o campo não era propriedade +d'aquelle homem, o qual não passava d'um jornaleiro que pela modica quantia de +tres tostões por dia cuidava do seu amanho. O principe, que para os pesados +encargos do governo precisava<span class="pn">{32}</span> de enormissimas +sommas, não podia comprehender como tres tostões diarios erão meios bastantes +para o nosso homem viver, e de mais a mais de rosto tão alegre. Este porém +respondeu-lhe: «Nada me faltaria, se eu pudesse dispôr de todo esse dinheiro: a +terça parte chega-me bem; com um terço pago as minhas dividas e a terça parte +restante pertence ás minhas economias.» O bom do principe ficou ainda mais +admirado. Mas o camponez continuou: «O que tenho, reparto-o com meus paes, que +são velhos e já não podem trabalhar, e com meus filhos, que andão por ora a +aprender; áquelles pago-lhes o amor com que me tratárão na minha infancia, e +d'estes espero que não me abandonarão tambem na minha cansada velhice.» Não é +verdade que tudo isto foi muito bem dito, é ainda melhor pensado, e ainda muito +melhor executado? O principe recompensou aquelle homem de bem, olhou com +desvelo pelos filhos, e a benção que os paes lhe lançárão ao morrer, foi-lhe +retribuida pelos filhos agradecidos com amor e amparo.</p> + +<p>Havia porém outro homem que tratava tão mal seu pae, a quem a edade e as +doenças tinhão na verdade tornado impertinente, que o velhinho mostrou desejos +de entrar em um hospital de pobres, que havia na mesma aldeia. Alli esperava +elle, apesar do pouco affecto, pelo menos vêr-se livre das reprehensões que em +casa lhe amarguravão os ultimos dias da vida. O filho ingrato saltou de +contente apenas soube dos desejos do pobre velho, e ainda antes de o sol se +esconder por detraz das montanhas visinhas, já elles estavão satisfeitos. Mas +no hospital não encontrou elle tudo quanto desejava, e passado algum tempo +pedíu ao filho, como ultimo favor, que lhe mandasse dois lençoes, para não ter +de dormir toda a noite na palha<span class="pn">{33}</span> estreme. Procurou +este os peores que tinha, e chamando seu filho, creanca de dez annos, +ordenou-lhe que os levasse ao hospital.</p> + +<p>Ficou porém admirado ao vêr que o pequeno escondia a um canto um dos lençoes +e só levava ao avô o outro; e apenas elle veio, perguntou-lhe porque tinha +feito aquillo. O filho respondeu friamente que tinha guardado um dos lençoes +para o dar ao pae, quando mais tarde o mandasse para o hospital.</p> + +<p>Que lição tiramos d'aqui?</p> + +<p><em>Honra teu pae e tua mãe, para que sejas feliz.</em></p> + +<h2><a name="SECTION0002300">O CHAPELINHO VERMELHO <br> +OU <br> +A FADA E O LOBO</a> </h2> + +<p>Era uma vez uma rapariguinha da aldeia, a mais bonita que-podia haver: sua +mãe adorava-a, e sua avó, que era a <em>Fada dos jasmim</em>, ainda mais. +Esta<span class="pn">{34}</span> boa mulher deu-lhe de presente um chapelinho +vermelho, que lhe ficava tão bem, que a chamaram o Chapelinho Vermelho.</p> + +<p>Um dia sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe:—Vae ver como está +tua avó, pois que me disseram que ella estava doente; leva-lhe este bolo e este +pote de manteiga. O Chapelinho Vermelho partiu logo para casa de sua avó, que +morava n'outra aldeia. Passando n'um bosque, encontrou um lobo com cara de +gente, que tinha boa vontade de a comer; mas não ousou fazel-o, por temor de +alguns carvoeiros que estavam na floresta. Perguntou-lhe onde ella ia; e a +pobre pequena, que não sabia que era perigoso dar attenção a um lobo, +respondeu:—Vou ver minha avó, e levar-lhe um bolo com um pote de +manteiga, que minha mãe lhe manda.—Ella mora muito longe? perguntou o +lobo.—Não, senhor, respondeu o Chapelinho, é além d'aquelle moinho, que +vossê vê lá ao longe, na primeira casa da aldeia.—Pois bem, disse o lobo, +eu tambem quero ir vel-a, vou por este caminho, tu irás por aquelle, e veremos +quem chega lá primeiro. O lobo poz-se a correr a toda a pressa pelo caminho +mais curto; e a pequenina foi pelo caminho mais comprido, divertindo-se a +colher avelãs, a correr atraz das borboletas, e a fazer ramalhetes das flores +que via. O lobo não tardou muito a chegar a casa da avó, e bateu á porta: truz, +truz, mas ninguem respondeu, porque a <em>Fada dos jasmins</em>, sabendo quem +era, quiz fazel-o persuadir que não havia gente em casa.</p> + +<p>Tendo o lobo batido mais duas vezes, sem que lhe respondessem, suppôz que a +avó do Chapelinho Vermelho havia saido, e resolveu entrar na casa, para esperar +as duas e comel-as. Assim resolvido, levantou a aldraba, e abrindo-se a porta, +entrou na casa, onde<span class="pn">{35}</span> não viu ninguem; porque a +<em>Fada</em> se havia escondido em um armario, que estava á cabeceira da cama, +d'onde via e observava tudo. O lobo deu duas voltas pela casa, e, vendo-a +sósinha, fechou a porta com a aldraba e foi deitar-se na cama da avó, á espera +da primeira que apparecesse. Pouco tempo depois chegou o Chapelinho Vermelho, +que bateu á porta: <em>truz, truz,</em>—Quem está ahi?—O Chapelinho +Vermelho, que ouviu a voz grossa do lobo, teve medo ao principio; mas pensando +que sua avó estava rouca, respondeu:—É sua neta Chapelinho Vermelho, que +lhe traz um bolo e um potesinho de manteiga, que minha mãe lhe manda. O lobo +gritou-lhe, amaciando a voz:—Levanta a aldraba. A pequenina levantou a +aldraba, e a porta abriu-se. O lobo, vendo-a entrar, lhe disse, escondendo a +cabeça debaixo dos lençoes:—Põe o bolo e o potesinho de manteiga em cima +da mesa, e vem-te deitar commigo. O Chapelinho Vermelho foi-se metter na cama; +mas ficou muito admirada de ver sua avó despida. A pequenina lhe disse:—Ó +minha avó! como os seus braços são compridos!—É para melhor te abraçar, +minha neta.—Ó minha avó! como as suas pernas são grandes!—É para +correr melhor, minha neta.—Minha avó! as suas orelhas são bem +compridas!—É para escutar melhor, minha neta.—Minha avó! que olhos +tem tão grandes!—É para ver melhor, minha neta.—Minha avó! para que +tem dentes tamanhos!?—É para te comer. E dizendo estas palavras, este mau +lobo lançou-se sobre Chapelinho Vermelho para comel-a; mas estacou de repente, +ficando sem movimento, porque a <em>Fada</em>, saindo do escondrijo, lhe tocou +com a sua <em>varinha de condão</em>. O Chapelinho Vermelho deu um grito de +alegria ao ver sua avó, que tirou a netinha de ao pé do lobo, mais morta que +viva, pelo susto que tivera. Então<span class="pn">{36}</span> disse a +<em>Fada</em> para a netinha:—Que castigo se ha de dar áquelle malvado +lobo, que te queria devorar?—Dê-lhe, minha avósinha, o castigo que +quizer, respondeu o Chapelinho Vermelho.—Pois então vae para a janella, +que verás o que nunca viste. Estando o Chapelinho Vermelho á janella, viu saír +de casa o lobo, todo coberto de <em>busca-pés</em> (é d'este tempo que data o +descobrimento da polvora) desde a ponta do rabo até á do focinho, e ouviu dizer +a sua avó:—Vae, malvado, correndo por ahi fóra até que vás apagar o fogo +no poço do moinho, onde morrerás afogado. Isto dito, começaram os +<em>busca-pés</em> a arder, dando tiros tão medonhos, que o lobo fugiu +espavorido, e julgando apagar o fogo com agua, foi lançar-se ao rio, que corria +perto, afogando-se justamente no <em>poço do moinho</em>, que desde então ficou +sendo o <em>poço do lobo</em>.</p> + +<p>Depois d'isto disse a <em>Fada</em> para o Chapelinho Vermelho:—has de +prometter-me que de hoje em diante, quando tua mãe te mandar a algum recado, +não te has de demorar pelo caminho, nem conversar com quem não conheces, +dizendo-lhe o que vaes fazer; e se assim o fizeres, dou-te por <em>dom</em> que +serás mui formosa e casarás com um grande fidalgo.</p> + +<p>E assim foi: pois crescendo o Chapelinho Vermelho, fez-se tão discreta e tão +formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da visinhança, com o +qual casou e viveu muito feliz.<span class="pn">{37}</span></p> + +<h2><a name="SECTION0002400">O FATO NOVO DO REI</a></h2> + +<p style="text-align:center;"><small>(Anderson).</small></p> + +<p></p> + +<p>Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se +vestir todo o dinheiro que tinha.</p> + +<p>Se passava revista aos seus soldados, se apparecia nos espectaculos ou +passeios publicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia +vestido. Era um fato para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume +dizer-se de qualquer rei: «Sua magestade está em conselho de ministros», a +respeito d'este dizia-se: «Sua magestade está no seu guarda-roupa».</p> + +<p>A capital em que elle vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo +grande numero de estrangeiros que alli concorrião. Um dia chegárão áquella +cidade dois impostores que se annunciárão como tecelões, dizendo que sabião +tecer um panno como nunca se vira. Era um estofo notavel, não só pela belleza +das côres e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de +se tornar invisivel para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou +fosse demasiadamente estupido.</p> + +<p>—Uma roupa d'esse panno deve ser impagavel—disse comsigo o +rei;—por meio d'ella chegarei a conhecer quaes são os homens incapazes do +meu reino, e poderei distinguir os intelligentes dos estupidos. Um<span +class="pn">{38}</span> fato assim é uma cousa indispensavel.—Em seguida +mandou adeantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo á +obra.</p> + +<p>Os aventureiros armárão effectivamente dois teares e pozerão-se a fingir que +trabalhavão, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada +passo estavão a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que ião +ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vasios até alta +noite.</p> + +<p>Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o +artefacto. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o +estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o +seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, +pelo sim, pelo não, mandar adeante alguem que examinasse o estofo. Toda a +cidade sabia da qualidade maravilhosa que elle tinha; cada um estava ancioso +por saber se o seu vizinho era idiota ou inhabil.</p> + +<p>—Vou mandar o meu velho e honrado ministro,—disse comsigo o +rei.—Ninguem, como elle, para avaliar a obra, porque alem de ser um homem +fino, é irreprehensivel no desempenho das suas funcções.</p> + +<p>O ministro entrou na sala onde trabalhavão os dois impostores, e arregalando +muito os olhos, disse de si para si:—Meu Deos, não vejo nada!—Mas, +nem palavra. Os dois tecelões pedirão-lhe que se approximasse, e perguntárão +que tal achava o desenho, e se as côres erão ou não magnificas. Ao mesmo tempo +apontavão-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, +mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que vêr.</p> + +<p>—Pois na realidade, serei eu tambem um asno?—perguntava elle a +si mesmo.—É preciso que ninguem<span class="pn">{39}</span> o suspeite. +Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguem que +não vi o tecido.</p> + +<p>—Então, que dizeis?—perguntou um dos tecelões.</p> + +<p>—Admiravel, é uma cousa surprehendente!—respondeu o ministro, +pondo os oculos.—Este desenho, estas côres... vou immediatamente +participar ao rei que fiquei satisfeitissimo.</p> + +<p>—Isso é uma grande honra para nós,—disserão os dois tecelões, e +começarão a chamar-lhe a attenção sobre as côres e desenhos imaginarios, aos +quaes elles tinhão o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu +attentamente, para repetir deante do rei tudo quanto elles dizião.</p> + +<p>Alguns dias depois o rei mandou outro funccionario honesto examinar o estofo +e vêr se estava prompto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao +ministro: por mais que olhasse, não via nada.</p> + +<p>—Não é verdade que isto é um tecido admiravel?—perguntavam os +dois impostores, e ião mostrando as côres e desenhos que não existião.</p> + +<p>—Pois eu não sou tolo!—pensava o homem.—Dar-se-ha o caso +que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei +por o não perder.—E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo +a escolha das côres e do desenho. Foi dizer ao rei que o estôfo era magnifico, +e d'ahi a pouco não havia ninguem que não fallasse nelle.</p> + +<p>Por ultimo quiz o rei ir vê-lo pessoalmente, emquanto estava ainda no tear, +e acompanhado d'um grande sequito de pessoas escolhidas, entre as quaes se +encontravão os dois funccionarios honestos, dirigiu-se ao logar onde os dois +trapaceiros continuavão<span class="pn">{40}</span> a trabalhar com todo o +cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem especie de fiado algum.</p> + +<p>—Então não é excellente?—perguntárão os dois ministros.—O +desenho e as côres são dignas de vossa magestade.—E apontavão para os +teares vasios, como se os outros pudessem ver ahi alguma cousa.</p> + +<p>—Que é isto?—disse comsigo o rei—eu não vejo nada. Acaso +serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que +me podia acontecer.—Depois exclamou de repente:—Magnifico! +Declaro-me completamente satisfeito.</p> + +<p>Abanou a cabeça em signal de approvação, e contemplou o tear sem se atrever +a dizer a verdade. Todos os do sequito contemplarão tambem, sem comtudo nada +verem, e disserão com o rei:—É magnifico!—Depois aconselhárão-no +que estreasse o fato novo numa procissão que devia sair d'ahi a pouco.—É +magnifico! admiravel! excellente!—dizião todos á uma; e a alegria era +indescriptivel.</p> + +<p>Os dois impostores forão condecorados, e recebêrão o titulo de tecelões da +casa real. Na vespera da procissão trabalharão toda a noite á luz de dezeseis +velas.</p> + +<p>A final fingirão tirar a peça do tear; cortárão, no ar, com grandes +tesouras; coserão com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disserão que +estava prompto o fato.</p> + +<p>Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois +trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma cousa, +disserão:—Aqui tem vossa magestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto +é leve como uma teia de aranha. Ha-de parecer a vossa magestade que não traz +nada<span class="pn">{41}</span> sobre o corpo, mas é justamente nisto que está +a principal qualidade do tecido.</p> + +<p>—É verdade,—respondêrão os ajudantes de campo, mas sem verem +nada.</p> + +<p>Em seguida os tecelões pedirão ao rei que se collocasse deante d'um espelho, +afim de lhe provarem o fato, e depois de o despirem todo, fingirão que lhe +vestião uma por uma as differentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao +espelho.</p> + +<p>—Que bem lhe fica! que bem talhado!—exclamavão todos os +cortezãos.—Que desenhos! E as côres? É um fato precioso!</p> + +<p>—Está lá fora o pallio, debaixo do qual vossa magestade tem de ir na +procissão,—disse o mestre de ceremonias.</p> + +<p>—Bom, eu estou prompto—respondeu o rei;—penso que assim +não vou mal.—E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o +esplendor em que ia.</p> + +<p>Os caudatarios apalpárão o chão, como se quizessem levantar a cauda do +manto, e caminhárão com os braços estendidos como se segurassem alguma cousa, +não querendo dar a entender que não vião nada.</p> + +<p>Assim caminhava o rei debaixo do magnifico pallio, e toda a gente da rua e +das janellas exclamava:—Que sumptuoso vestido! que bella cauda tem o +manto! o feitio é irreprehensivel!—Ninguem queria dar a conhecer que não +via nada, para não ser taxado de estupido ou incapaz de exercer o seu emprego. +Nunca fato algum do rei tinha dado tanto na vista.</p> + +<p>—Mas o rei vae nú;—gritou uma creancinha.</p> + +<p>—Meu Deus! escutae a voz da innocencia—disse o pae.</p> + +<p>Immediatamente correu por toda a multidão, que<span class="pn">{42}</span> +uma creança dissera que o rei ia nú; e a final exclamárão todos á uma:—O +rei vae nú!</p> + +<p>Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; +mas cobrou animo e disse comsigo:—Seja o que for, é indispensavel que eu +fique até ao fim.—Depois tomou uns ares ainda mais magestosos, e os +caudatarios continuarão a segurar, com todo o respeito, a cauda que não +existia.</p> + +<h2><a name="SECTION0002500">AS FADAS <br> +OU <br> +A MENINA BEM CREADA</a> </h2> + +<p>Era uma vez uma viuva, que tinha duas filhas; a mais velha parecia-se tanto +no genio e na cara com a mãe, que quem via uma, via a outra. Ambas eram tão +orgulhosas e tão desagradaveis, que se não podia viver com ellas. A mais moça, +que era o retrato de seu pae, pela bondade, era ao mesmo tempo uma das mais +lindas raparigas que se podiam ver. Como naturalmente<span +class="pn">{43}</span> se ama o seu similhante, esta mãe era douda por sua +filha mais velha, e ao mesmo tempo tinha uma forte aversão para a mais nova, +que mandava comer na cozinha, e trabalhar continuamente.</p> + +<p>Entre outras cousas era preciso que esta menina fosse duas vezes por dia +buscar, a uma meia legua grande de sua casa, um grande cantaro cheio de agua. +Um dia, que a infeliz creança estava n'esta fonte, chegou-se a ella uma pobre +mulher, e lhe pediu que a deixasse beber.—Pois não! minha senhora, disse +esta bella menina; e dizendo estas palavras, tomou agua no melhor sitio da +fonte, e lh'a apresentou, sustendo o seu cantaro, para que ella podesse beber +mais facilmente. A boa mulher, tendo bebido, lhe disse:—A menina é tão +bonita, tão boa, é tão bem creiada, que não posso deixar de lhe fazer um +<em>dom</em>. (Era uma Fada, que tinha tomado figura de uma pobre aldeã, para +ver até onde iria a boa educação d'esta menina.) Eu dou-lhe por <em>dom</em>, +continuou a fada, que a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma flor e +uma pedra preciosa. Quando esta boa menina chegou a casa, a mãe ralhou-lhe por +haver tardado tanto tempo.—Perdoe-me, minha mãe, por ter tardado. E +dizendo estas palavras, deitou pela bôca duas rosas, duas perolas, e tres bons +diamantes.—Que é isto? disse a mãe, admirada. Quem te deu isto, minha +filha? (Era a primeira vez que a tratava por sua filha.) A pobre menina +contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, não sem deitar pela bôca uma +infinidade de diamantes.—Realmente, disse a mãe, vou mandar lá tua irmã. +Vem cá, Mariquinhas, vem ver o que sáe da bôca de tua irmã quando ella falla; +queres tu ter o mesmo dom? Vae buscar agua á fonte, e quando uma pobre +mulher<span class="pn">{44}</span> te pedir de beber, dá-lh'a com muita +civilidade.—Pois não! respondeu a mal-creada; eu ir á fonte!—Quero +que lá vás, disse a mãe, e já. Maria foi, mas resmungando. Pegou no mais bonito +jarro de prata que havia na casa, e chegou á fonte. Viu logo sair da floresta +uma dama magnificamente vestida, que lhe pediu agua para beber. Era a mesma +Fada que tinha apparecido a sua irmã, mas que tinha tomado a figura e os +vestidos de uma princeza, para ver até onde iria a má creação d'esta rapariga. +Porventura eu vim cá para lhe dar de beber? disse a mal-creada orgulhosa. Era o +que me faltava trazer eu um jarro de prata para dar de beber á senhora: ora +beba na fonte, se quizer.—Sois bem pouco politica! replicou a Fada, sem +se encolerisar. Pois bem, já que é tão mal-creada dou-lhe por <em>dom</em>, que +a cada palavra que disser, sair-lhe-ha da bôca uma serpente e um sapo. Voltou a +casa, e sua mãe gritou:—Minha filha! minha filha! então que +ha?—Nada, minha mãe! respondeu ella, deitando pela bôca duas serpentes e +um sapo.—Oh céos! exclamou a mãe; que vejo! É tua irmã que tem a culpa; +ha de pagar-m'o. E dizendo estas palavras, correu a ella para lhe bater.</p> + +<p>A pobre menina fugiu para a floresta visinha. O filho do rei, que voltava da +caça, encontrou-a, e vendo-a tão linda, perguntou-lhe o que ella fazia alli +sósinha, e porque chorava!—Oh! meu senhor, é porque minha mãe pôz-me fóra +de casa. O filho do rei, que viu sair-lhe da bôca seis perolas e seis +diamantes, pediu-lhe que lhe dissesse d'onde isto vinha. Ella contou toda a sua +historia. O filho do rei ficou namorado d'ella; e considerando que um tal dom +valia mais que tudo o que se podia dar em dote a uma princeza, levou-a<span +class="pn">{45}</span> para o palacio de el-rei seu pae, onde casou com ella. +Sua irmã fez-se aborrecer tanto, que sua propria mãe a pôz fóra de casa; e esta +desgraçada, depois de ter corrido bastante sem achar ninguem que quizesse +recolhel-a, morreu no meio de um bosque.</p> + +<h2><a name="SECTION0002600">A RAPARIGUINHA DOS LUMES PROMPTOS</a> </h2> + +<p style="text-align:center;"><small>(<em>Andersen</em>—traducção de José +Joaquim Rodrigues de Freitas.)</small></p> + +<p></p> + +<p>Estava horrivelmente frio, geava, e era quasi noite escura, a ultima do +anno.</p> + +<p>Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma rapariguinha com +os pés nús e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de casa, mas +de que lhe servírão? Erão muito grandes, e tanto, que a mãe as tinha usado até +então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar á pressa uma rua, fugindo de +dois carros que rodávão com velocidade de pôr medo. Uma das chinelas não a +poude tornar a achar; e a outra apanhou-a um rapaz, e lá foi a correr com ella; +até se lembrou que lhe serviria de berço, caso viesse a ter filhos.</p> + +<p>Assim caminhou a rapariguinha com os pésinhos<span class="pn">{46}</span> +nús e rôxos de frio. Trazia num avental velho uma porção de lumes promptos, e +na mão um maço d'elles. Ninguem lhe comprára nada todo o dia, ninguem lhe +fizera presente de cinco réis.</p> + +<p>Imagem da miseria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e +fome!</p> + +<p>Os flocos de neve cobrião-lhe o cabello comprido e louro, que em formosos +anneis lhe caía pelo collo abaixo; mas, em verdade, n'isto pensava ella!</p> + +<p>De todas as janellas brilhavão luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro a +ganso assado; era a noite de S. Silvestre; e n'isto pensava ella!</p> + +<p>A um canto formado por duas casas, uma das quaes era mais saliente do que a +outra, sentou-se ella, e, como poude, conchegou-se; metteu bem para dentro os +pésinhos, mas ainda mais lhe arrefecêrão; e não ousava ir para casa por não ter +vendido phosphoros, nem arranjado dinheiro.</p> + +<p>Bem sabia que o pae lhe havia de bater, e em casa tambem estava frio; +cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se tapavão os +buracos maiores com palha e farrapos.</p> + +<p>O frio quasi lhe não deixava mover as mãos.</p> + +<p>Ah! um lume prompto podia fazer-lhe bem; se tirasse um do mólho, se o +accendesse na parede, e se aquecesse a elle os dedos!</p> + +<p>Tirou um. Zahs! Como scintillava, como ardia! Era uma chamma quente e +brilhante, era uma luzinha; poz sobre ella as mãos, era uma luzinha +maravilhosa. Á rapariguinha pareceu que estava deante de um grande fogão de +ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem aquecia! Mas +a chammasinha apaga-se, o fogão desapparece, ficárão-lhe na mão só os restos do +lume prompto que ardêra.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Accendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um véo +os logares da parede em que os seus raios incidião: podia assim vêr para dentro +da sala.</p> + +<p>A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de +porcellana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas sêcas, exhalava deliciosos +vapores. E o que ainda era mais bello: o ganso saltava do prato abaixo, +cambaleava pelo chão adeante, e vinha até á pobre creança, trazendo no peito a +faca e o garfo.</p> + +<p>Lá se apagou o lume prompto, e só ficou a parede, espessa, fria e humida.</p> + +<p>Ella accendeu ainda um phosphoro. E eis que lhe pareceu estar sob a +magestosa arvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que vira ao +travéz da janella da casa d'um rico negociante. Milhares de luzes ardiam nos +ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina, olhavão para a rapariga. +A pequena estendeu para ellas as mãos; e eis que se apagou o lume prompto.</p> + +<p>As luzes do Natal subirão mais e mais; parecião-lhe estrellas no céo; uma +d'ellas caiu formando longo rasto luminoso.</p> + +<p>Alguem que morre, disse comsigo a rapariguinha; porque a avó, unica que lhe +tivera amor, e que já era fallecida, lhe contára que uma alma sobe para Deos, +quando uma estrella cáe para a terra.</p> + +<p>Accendeu mais outro phosphoro; a luz fêz-se de novo, e no meio do brilho +d'ella erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de doçura e de +amor!</p> + +<p>Minha avó, exclamou a pequena. Oh! leva-me comtigo. Eu sei que tu +desapparecerás quando o phosphoro se apagar. Has-de passar como o fogão quente, +como<span class="pn">{48}</span> o delicioso ganso assado, e como a grande e +magestosa arvore do Natal!</p> + +<p>E rapidamente accendeu todo o mólho de phosphoros, a fim de ter alli a avó +bem segura.</p> + +<p>E os phosphoros fulgurárão com tal brilho, que havia luz mais viva do que em +pleno dia; a avó nunca fôra tão alta nem tão formosa: tomou nos braços a +rapariguinha, e ambas voárão pelas regiões da luz e da alegria até muito alto, +muito alto; não havia lá nem frio, nem fome, nem angustia: erão perto de +Deos.</p> + +<p>Mas encostada ao canto da parede, quando veio o frio amanhecer, estava a +pobre rapariga com as faces vermelhas e um sorriso nos labios; matou-a o gêlo +na ultima noite do anno velho.</p> + +<p>E o sol do anno novo passou sobre o seu cadaversinho.</p> + +<p>Immovel estava a rapariguinha: alli estava ella com os phosphoros, dos quaes +havia queimado um maço.</p> + +<p>Ninguem suspeitava quanto ella vira de bello, e em que brilhante região +entrára com a avó no dia de anno novo.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM DA SEXTA PARTE</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (6/7), by Bento Serrano + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (6/7) *** + +***** This file should be named 31741-h.htm or 31741-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/7/4/31741/ + +Produced by Mike Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. 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