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+The Project Gutenberg EBook of Continuação do Portugal enfermo por vicios,
+e abusos de ambos os sexos, by José Daniel Rodrigues da Costa
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Continuação do Portugal enfermo por vicios, e abusos de ambos os sexos
+
+Author: José Daniel Rodrigues da Costa
+
+Release Date: March 23, 2010 [EBook #31744]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTINUACAO DO PORTUGAL ENFERMO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+ CONTINUAÇÃO DO
+
+ PORTUGAL ENFERMO
+
+ POR VICIOS, E ABUSOS
+
+ DE AMBOS OS SEXOS.
+
+
+ _PART. II_
+
+
+ DEDICADO AO SENHOR
+
+ JOSÉ LUIZ GUERNER,
+
+ CONSUL DE S. M. SICILIANNA,
+
+ POR
+
+ JOSÉ DANIEL RODRIGUES DA COSTA,
+
+ ENTRE OS PASTORES DO TEJO
+
+ JOSINO LEIRIENSE
+
+
+ LISBOA:
+ NA IMPRESSÃO REGIA.
+ ANNO 1820
+
+ _Com Licença._
+
+
+
+
+_Em louvor do Autor, hum Genio dado ás Musas, bem conhecido, e muito
+applicado, mandou o seguinte_
+
+
+MADRIGAL.
+
+ Musa, (disse eu á gentil Clio hum dia)
+ Pois que ao jovial Josino
+ A palma déste da immortal Poezia,
+ Mimoso Dom Divino,
+ Com que louva a virtude, o vicio prostra,
+ E aponta as causas, e os effeitos mostra
+ Da decadencia nossa;
+ Dá-me tambem, que eu possa,
+ Cantando o Vate, que do Ceo nos veio...
+ «Basta (me torna Clio);
+ Suas obras, e não louvor alheio,
+ São o seu Elogio.»
+
+ _Campelo._
+
+
+
+
+Chama-se a isto hum
+
+PROLOGO.
+
+
+Curioso Leitor, ou Ouvidor, que não te escandalizo neste segundo nome,
+porque tambem he de lugar de letras, consta este Folheto da Segunda
+Parte de Portugal Enfermo por vicios, e abusos: continúa na mesma
+critica, na mesma boa moral, e com a costumada jovialidade. Mas se ainda
+assim mesmo achares este Folheto sem sal, dá-lhe alguma desculpa; porque
+foi acabado agora, e por isso vai muito fresco. Primeiro que o
+publicasse, fui consultar (como costumo em todas as minhas Obras,
+seguindo o preceito dos nossos antigos Mestres) com talentos superiores
+aos meus, judiciosos, e de bom criterio, que com sinceridade me
+asseverárão que este Folheto levava vantagem ao primeiro. _Si ita est,
+fiat._
+
+Não passárão de quatro até cinco genios mordazes, que não lhe podendo
+pôr outro defeito, forão publicando que a Obra não era minha, a ver se
+isto pegava, como pegou a moda do _Tiro-liro_ por toda a parte. Ora
+vejão Vossas Mercês, pelo amor de Deos, que tal ficaria eu quando
+mo disserão! A Obra não será minha; mas o primeiro Folheto imprimio-se,
+e reimprimio-se, e eu recebi o producto de mil e quinhentos Folhetos.
+Talvez que estes individuos campem melhor no público com cavallos
+emprestados, trastes, e dinheiros alheios, do que eu com versos de
+outrem! Nunca fui plagiario; antes os tenho encontrado de obras minhas:
+e desde a primeira, que imprimi, que foi a Obra dos Opios, ainda não
+mudei de estilo; porque me não acho com forças, para imitar os Guindados
+do tempo.
+
+Leitor, o primeiro paragrafo pertence-te, o segundo pertence aos quatro,
+ou cinco Ruminadores, que com caracter de mal intencionados Zoilos,
+mastigão toda a qualidade de papel, como fazem os que enjoão pelo mar: e
+diz muita gente boa ser isto hum remedio contra os enjôos; o que eu dou
+quasi por certo, porque já o vi verificado em varias Senhoras, que são
+as que enjôão no mar com mais facilidade.
+
+Aqui acabou o Prologo de repente. Coitado! Ainda ha pouco tempo estava
+de perfeita saude! Que não somos nada neste mundo, este Prologo o prova;
+porque, tambem na minha estimação, tornou-se em nada, e foi-se sem
+se despedir no Latino idioma, como os outros Prologos fazem talvez por
+não entender mais.
+
+Agora, Leitor, com ingenuidade dirás se a Obra em si alguma cousa
+
+
+ Vale em Portuguez.
+
+
+
+
+PORTUGAL ENFERMO PELOS VICIOS, E ABUSOS.
+
+ _Não sou Poeta de palavras crespas,_
+ _Com que alguns dão picadas, como vespas:_
+ _E no zunzum de termos exquisitos,_
+ _Só fazem o zunido dos mosquitos_
+ _Não escrevo por cifra, nem por cetra,_
+ _Nem sei fallar, senão ao pé da letra._
+
+ Do Autor.
+
+
+ Portugal, Portugal, não te conheço?
+ Vives esmorecido, e eu esmoreço,
+ Vendo-te com achaque tão profundo,
+ Que pouco já figuras neste mundo:
+ Perdeste toda a tua bizarria;
+ As familias perdêrão a alegria;
+ Todos andam de caras tristes, serias,
+ Não ouço senão prantos de miserias:
+ Ficarás só com casas, mas sem gente;
+ Pois muitos, de paixão, já vão morrendo;
+ Porque com a desgraça não podendo,
+ Caloteão, mendigão, degenerão,
+ E só na morte o seu descanço esperão.
+ Não se encontra em ti outro desafogo,
+ Que não seja o do jôgo, jôgo, jôgo,
+ Que he onde inda apparece algum dinheiro,
+ E já se faz officio de Banqueiro:
+ Nelle se encartão mais os ajudantes,
+ Socios olheiros, sempre vigilantes:
+ Qual rapaz, que nas terras põe gaiola,
+ Onde passaro mestre desenrola
+ Agradavel gorgeio, com que chama,
+ E as aves novas faz cahir na trama
+ Das varas enviscadas da costella:
+ Assim subtil Banqueiro arma a esparrella,
+ Sendo passaro mestre, que appresenta
+ De moedas em cruzios mais de oitenta,
+ Que estão chamando ao visco os coitadinhos,
+ Os quaes lhe vão cair, pobres patinhos!
+ Que quando o caso em sortes bem não corra,
+ O seu, e alheio vai tudo á desforra.
+ Hoje em qualquer função por essas sallas,
+ Depois do chá, escutão-se estas fallas:
+ A Senhora quer Ronda, ou quer Banquinha?
+ Vão se chegando a mãi, tia, e sobrinha,
+ E por desgraça (aqui fique entre nós)
+ Té para a Ronda vão mesmo as avós:
+ Quegilando o que tem cartas na mão,
+ Que a primeira inda deo, segunda não:
+ E se por hum acaso deo segunda,
+ Era vez de a pespegar recebe tunda;
+ Porque succede ás vezes, cousa rara,
+ Recolher inda menos que parára,
+ E attribue logo ao córte da velhinha
+ Ser a sorte com elle tão mesquinha.
+ Em outra sala estão tafues armados
+ De copos novos, grozas de bons dados:
+ Treze primeiro que oito, barro, topo:
+ Levou trez onças de ouro, passa o copo.
+ Busca para o passar qualquer aresto,
+ Que o parceiro não quer jogo de resto.
+
+ Dinheiro só se vê nestes combates,
+ E em cartuxos nas lojas dos rebates:
+ Ou seja em Baptizado, ou Casamento,
+ Função d'annos, ou outro ajuntamento,
+ Com outra qualquer cousa não se atina,
+ Vai-se seguindo sempre esta rutina;
+ Té depois de hum enterro huns enojados
+ Em casa do defunto os vi sentados
+ Jogando o Voltarete com franqueza,
+ Para se distrahir mais a tristeza.
+ Esta a paixão, que he hoje dominante,
+ E nisto he que a função se faz brilhante,
+ Sendo do Alcorão que no outro dia
+ Se murmure de quem nella perdia,
+ Dizendo-se: Fulano perdeo munto!
+ Cento e tantos mil reis tinha elle junto,
+ Em menos de huma hora, mas virou,
+ Perdeo o ganho, e a bolça despejou.
+ Hum Fulano de tal, que appareceo,
+ Esse quanto puxou tudo perdeo.
+ Cento e tantas moedas lá disserão,
+ Fóra cincoenta mais, que se não derão.
+
+ Aonde, Portugal, estão sumidos
+ Teus entretenimentos divertidos!
+ Aonde estão as Arias, as Modinhas,
+ Os Quartetos, que ao cravo sempre tinhas?
+ Os graves Minuetes bem dançados,
+ Pelas regras da Dança executados!
+ E no intrevallo a Dama mais discreta,
+ Dando o Mote engenhoso ao bom Poeta
+ Que em Sonetos, e Decimas galantes,
+ Parecião as horas huns instantes.
+ Estão divertimentos tão luzidos
+ A baralhos de cartas reduzidos;
+ Mas se julgas que nisso te confortas,
+ Verás que o jogo te ha de pôr por portas.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ De te vêr nesse estado desfaleço!
+ Quanto mais faltas vejo de dinheiro,
+ Mais vejo pôr-se o luxo de poleiro!
+ Até nos tratamentos tenho visto
+ Cousas, que fazem rir no meio disto.
+ Ninguem--Vossa Mercê--quer hoje em dia,
+ Hão de dar-lhe por força Senhoria:
+ E por maior nobreza, e mais decencia,
+ Já puxa a Senhoria huma Excellencia.
+ Tem este desacordo muita gente,
+ Mesmo sem nada ter com que a sustente:
+ Sem rendas, nem brazôes, tudo devendo,
+ Desta aura popular se vão mantendo;
+ E a quem nesta mania assim se ceva,
+ Ninguem lhe vá lembrar Adão, e Eva.
+ E que direi dos _Dons_? parecem praga!
+ Em qualquer parte o _Dom_ nasce, e propaga.
+ Ha _Dons_ já muito velhos, outros novos,
+ Além dos _Dons_, que estão inda nos ovos:
+ E se a menina em prendas se affamou,
+ O _Dom_ sahe logo á luz, não se gorou.
+
+ Eu vejo pais ás filhas embutindo
+ A escolha de Convento, persuadindo
+ Que passa vida santa, e descançada
+ Quem vive no Mosteiro clausurada.
+ E caminhando vão por este trilho,
+ Para que boa casa fique ao filho,
+ Fazendo professar as innocentes
+ Com festas, e visitas de parentes.
+ Em quanto os pais são vivos bem vai tudo,
+ As mezadas se cobrão a miudo;
+ Vive huma Freira em paz com alegria;
+ Conformando-se hum dia, e outro dia.
+ Mas em morrendo os pais tudo vai mal,
+ Nem pelo São João, nem no Natal
+ Se faz á pobre Freira pagamento,
+ Té ficar em total esquecimento;
+ Que o irmão, das mezadas incumbido,
+ Cuida só em fazer o seu partido:
+ Destroe a casa toda, como louco,
+ Que para nutrir vicios tudo he pouco;
+ Fica a mizera Freira mendigando
+ Pelas outras, que estão tambem penando.
+ Repetindo escrever a quem conhece,
+ Té vêr quem de seu mal se compadece.
+ Aqui temos os grandes beneficios,
+ Que os pais fazem com estes sacrificios,
+ Obrigando a Clausura, e Profissão
+ Quem nunca teve aquella vocação;
+ Sem ver que só acceita a Divindade
+ Esta vida abraçada por vontade;
+ Que huma Freira, por força alli metida,
+ A maldizer-se leva sempre a vida.
+ E armou-se rede tal com este dolo,
+ Para se regalar hum filho tolo,
+ Que estraga tudo, sem de si ter dó,
+ Ficando todos pobres, como Jó.
+
+ Eu vejo as circunstancias malignadas,
+ As origens dos ganhos estagnadas,
+ Os generos subindo, nós descendo,
+ Ora tristes chorando, ora gemendo.
+ Precisa-se dinheiro, não o temos;
+ E por desgraça nossa até já vemos
+ Os meios de o haver difficultosos.
+ Mas entretanto os homens viciosos
+ Não querem conhecer esta diff'rença:
+ Não ha flagello alheio, que os convença
+ A regular a vida de outro modo;
+ Não se apartão d'aquelle mesmo engodo;
+ O mal encaminhado continúa,
+ Gastando o que não tem, que he balda sua.
+ Deixa a mulher sem pão, filhos sem fato;
+ E a moça desfrutando hum grande trato;
+ Sem vêr que huma mulher deshonestada
+ Não tem caracter firme, he descarada;
+ Pois basta a causa ser, como he sabido,
+ Da mulher viver mal com seu marido.
+ Estas loucas ruina são do homem,
+ Que quantos reaes tem tudo lhe comem;
+ E porque para tanto não tem rendas,
+ De ladrão mui subtil nos mostra as prendas:
+ Qual fogo, que devora quanto apanha,
+ Com o que não he seu tambem se amanha;
+ E quando se descobre, e se receia,
+ Ou quebra, ou foge, ou vai a huma cadeia.
+ O que joga, e que em jogos passa a vida,
+ Joga sem conta, pezo, nem medida;
+ O que se trata bem, e dá jantares,
+ Em funções tudo vai por esses ares;
+ O que tem outros vicios adoptado,
+ Porque nelles está habituado,
+ Nutrillos he o seu mais bello vinho,
+ Nem o tempo lhe ensina outro caminho;
+ Não ha destes hum só, que se contenha,
+ Antes nestas despezas mais se empenha;
+ E não sabendo donde lhe hão de vir,
+ Como quer ás basofias acudir,
+ Fingindo que a escacez lhe não faz mossa,
+ E que inda tem dinheiro, com que possa
+ Ostentar o que d'antes ostentava,
+ O remate he furtar, pois não o cava.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ Cada vez mais de ti me compadeço!
+ Eu vejo humas familias tolineiras,
+ Que nunca em suas casas são festeiras;
+ Ajustão as funções botando a idéa
+ A terem meza posta em casa alhêa.
+ Rio-se muito, bastante se brincou;
+ A familia da casa he que o pagou.
+ A noite foi da vespera perdida,
+ Só para se acudir com tanta lida
+ As massas, aos recheios, aos guizados,
+ A depenar as aves, aos assados:
+ As criadinhas postas aos fogões,
+ Padecendo depois constipações,
+ Que todas trabalhárão na officina,
+ Para prompta se pôr a pappa fina.
+ Quando o dono da casa sente a asneira,
+ Já não póde sahir da ratoeira;
+ Mas he bem bom que assim fique ensinado,
+ Para vir a ser mais acautelado,
+ E fugir dos ajustes puxativos,
+ Feitos por certos genios logrativos,
+ Promptos para banquetes, onde os ha,
+ Porém que em suas casas só dão chá.
+
+ Eu vejo certos homens costumados
+ A mostrarem-se muito desvairados;
+ A cousa alguma prestão attenção;
+ Nas cousas de maior ponderação
+ Com chufas, e risadas só respondem,
+ E ás vezes muita asneira nisto escondem;
+ Por systema, por vicio, ou por maldade
+ Fogem de conversar com seriedade:
+ De todas as perguntas fazem mofa,
+ Só por tratarem tudo de galhofa;
+ Deixando os dependentes mais afflictos,
+ Por verem termos taes tão esquisitos:
+ Sujeitão-se, calando, os que dependem,
+ Mas ficão em jejum no que pertendem.
+ Homens assim não são muito seguros,
+ Que trazem a cabeça sempre a juros.
+ Cuidado lhes não dá o alheio int'resse,
+ Pobre de quem depende, e quem padece.
+
+ Eu vejo muitas casas de partidas,
+ Que são com as dos doudos parecidas.
+ Vem entrando co' a noite os assignantes,
+ Passão em conversar breves instantes.
+ A Prima conta á Prima o máo successo
+ De huma esperta gatinha côr de gesso,
+ Com malhas no focinho, e no costado,
+ Que fazem o animal muito engraçado:
+ Relata o muito amor, que ella lhe tem,
+ Enlevada naquelle bom desdem.
+ Sahe d'alli logo Dona Presumida,
+ Meia tafulla, meia convertida,
+ (Que ao certo ninguem sabe inda entendella,
+ Se ella he que deixa o mundo, ou elle a ella)
+ E diz que tem por cousa do demonio
+ Haver homem, que fuja ao Matrimonio.
+ Como a materia he vasta, vai durando,
+ Huns mettendo-a em questões, outros mofando.
+ Chega o chá co' as fatias transparentes,
+ Que lhes ficão pegadas pelos dentes.
+ Assim se passa aquelle bocadinho,
+ Té que as bancas se põem para o joguinho.
+ Então he que a criada da cozinha
+ Desenferruja a lingoa co' a vizinha;
+ Então he que outra á porta do jardim
+ De seus amores vai tratar o fim:
+ E a velha Preta á chaminé, qual mono,
+ Sempre a cabecear, pôdre de somno;
+ Porque os donos da casa divertidos,
+ Da Partida tirar querem partidos.
+ Nada os póde fazer deixar o jôgo,
+ Só vindo-lhes dizer que em casa ha fogo;
+ E em quanto se entretem com este aresto,
+ Fica á vontade da familia o resto;
+ Que por isso da casa mal guardada
+ Se tem visto fugir filha, ou criada;
+ Ou succeder a alguma rapariga
+ O que a decencia manda que eu não diga.
+ Muita cautela, e não facilidades,
+ Evita nas familias novidades;
+ Porque donas de casa não previstas,
+ Que não sabem deitar por tudo vistas,
+ Sem determinação, amanho, e zelo,
+ Hão de achar muito roubo, e desmazelo:
+ Nos armarios mil cousas estruidas,
+ As casas int'riores nem varridas,
+ Sobejos de comer dentro do cobre,
+ Por se não dar de esmola a tempo ao pobre:
+ Sem duração a roupa, nem aceio,
+ As lingoas das criadas sem ter freio;
+ Pouco, e pouco a dispensa dizimada;
+ Louça fina escondida por quebrada;
+ E os vexados maridos com prudencia,
+ Dizendo lá comsigo: Ora paciencia!
+ Porque se ralhão, são insupportaveis,
+ Se fechão tudo, são huns miseraveis,
+ Se trombudos, são mal encaminhados,
+ Se castigão, são homens mal criados;
+ Ellas querem sómente andar nas palmas,
+ E os maridos, que peção para as Almas;
+ Com tanto que ande Sempre a bolsa aberta,
+ Que he quando com marido bom se acerta.
+ Conheço que ha familias de bom porte;
+ Não he nestas que assenta este meu corte:
+ Nem ás outras tambem me determino
+ Levando nesta critica destino.
+ Atiro estes meus botes não pequenos,
+ Porque o mundo tem disto mais, ou menos.
+
+ Eu vejo huns homens ricos suffocados,
+ Té da sombra dos mais desconfiados,
+ Que vão, por ver se fica bem segura,
+ Mil vezes apalpar a fechadura
+ Da burra, que n'hum lado tem da cama,
+ Temendo da familia alguma trama;
+ E homens taes, afogados em riquezas,
+ Raras vezes se lembrão da pobreza;
+ Havendo casas tão necessitadas,
+ Nunca por elles são remediadas:
+ Por mais ouro, que tenhão, que lhes sobre,
+ He raro quando dão dez reis a hum pobre.
+ Hum só rasgo não tem de caridade
+ Para a triste viuva, ou orfandade.
+ Não sei que contas fazem homens taes
+ Ajuntando, e escondendo os cabedaes!
+ Morrem té sem fazerem testamento,
+ Espirando n'hum trato o mais nojento,
+ Depois de vida sórdida, e mesquinha,
+ Que nem mandão comprar huma gallinha.
+ E vão-se deste mundo rebolindo,
+ Em quanto delles fica o mundo rindo:
+ Acabão supportando aquella surra,
+ Botando sempre os olhos para a burra.
+ Ora descance em paz, senhor defunto;
+ Cá fica quem lhe espalhe o que tem junto!
+
+ Eu vejo certos homens systematicos,
+ Que em tudo quanto pensão são fanaticos:
+ Cada falla he o estrondo de huma bomba,
+ Até parecem ter de porco tromba;
+ Fallão pouco, e não gostão de ouvir nada,
+ Tudo quanto se diz tudo os enfada.
+ Hum Cavalheiro deste paladar
+ Na loja de hum barbeiro foi entrar.
+ O mestre fez-lhe a barba in continente,
+ Mas no muito fallar impertinente.
+ Feita a barba, o soturno Cavalheiro
+ Disse ao tal fallador mestre barbeiro:
+ Pois que o vejo verboso em novidades,
+ E em discursos de varias qualidades,
+ Queira dizer-me, que saber preciso,
+ Qual he o animal de mais juizo?
+ Que era o boi, respondeo o mestre prompto.
+ Isso somente expressa hum homem tonto,
+ Lhe disse o cavalheiro, e não cuidava
+ Que huma resposta avêssa assim me dava.
+ Tornou-lhe o mestre: he o cão ao dono grato.
+ Tambem não acertou por mentecapto,
+ Lhe disse o Cavalheiro, ouça-me attento,
+ Para tirar d'aqui hum documento.
+ O bode he o animal nada ignorante,
+ Porque sendo de barbas abundante,
+ Tendo-as compridas, nunca as quiz fazer,
+ Sómente por barbeiros não soffrer.
+ Assim ficou o mestre corrigido,
+ Para ser em fallar mais comedido.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ E quanto tu padeces, eu padeço!
+ Pois te vejo mais triste do que o dia
+ De envernosa estação! Quem tal diria!
+ Andas debilitado, empobrecido,
+ Saudoso, sem descanço, e esmorecido!
+ O teu Xavier de Mattos bem fallou,
+ No galante Soneto, que traçou,
+ Quando disse com arte, e natureza,
+ Que da soturna imagem da tristeza
+ Era hum retrato vivo, e verdadeiro
+ _Qualquer homem de bem sem ter dinheiro_;
+ Cuja falta tem feito no presente
+ A ruina fatal de tanta gente.
+ Mas no meio de quanto se padece,
+ Hum genio creador nos apparece,
+ Que por nossa fortuna nos offerta.
+ Huma bem importante descuberta:
+ E bem se deixa ver no raro invento
+ O quanto póde hum homem de talento.
+ De bons engenhos nasce a emulação,
+ Com que se aperfeiçôa huma nação.
+ Receba parabens toda a Cidade
+ De huma cousa de tanta utilidade.
+ Não supponhão que he plano, ou são maneiras
+ D'a ferrugem tirar ás oliveiras:
+ Não cuidem que he fazer dar direcção
+ Hum viajante aerio ao seu Balão:
+ Nem deve presumir tambem o povo
+ Que tem de guarda-quedas molde novo:
+ Este invento os perigos acautela,
+ Mas em substancia he cousa mui singela.
+ Agora me parece estar ouvindo
+ O Leitor curioso serio, ou rindo,
+ Dizer-me ou assentado, ou posto em pé:
+ Basta de franja, acabe, diga o que he!
+ Ora eu o satisfaço: Ha hum Fulano
+ Dos que vestem casaca de bom panno,
+ Que por idéa sua, e risco seu
+ Para huma tenaz o molde deu.
+ Eu a vi, a qual era fabricada
+ De hum poído metal, obra aceada:
+ Hum destes ferros de encrespar cabello
+ He mesmo o da tenaz fiel modelo.
+ De curioso eu, que o traste via,
+ Logo quiz indagar de que servia?
+ Disse-me o inventor que fora feito
+ Por servir a quem fuma de proveito:
+ Que o lume no sigarro mais atura,
+ Huma vez que a tenaz he que o segura;
+ Que faz esta invenção perder os medos
+ Aos sigarristas de queimar os dedos;
+ Que os Mouros tem cachimbos de huma vara,
+ Que a tenaz he aceio, e moda rara.
+
+ Agora se descobrem novas minas,
+ Com outras invenções mais genuinas;
+ Já temos hum moinho de vapor,
+ Que o de vento não móe talvez melhor.
+ De vapor hão de haver carros tambem:
+ Nas seges eu espero o mesmo trem.
+ Se a cousa for feliz, e se pegar,
+ Muitas cousas havemos de poupar!
+ Os machos, desta sorte, escusos são,
+ Hão de ficar em bestas de ceirão
+ Não terão preço a palha, nem cevada.
+ Se chego a ver tal maquina ultimada,
+ Affectando de grande personagem,
+ Protesto sempre andar de carruagem.
+ Grande cousa ha de ser, se se inventar
+ O modo do vapor nos sustentar!
+ Despeço-me de açougues, e Ribeira,
+ E digo adeos á Praça da Figueira.
+ He tudo isto bem bom; mas o peior
+ He faltar o dinheiro no melhor!
+ E assim como nas Caldas toda a gente
+ Se anda sempre queixando de doente,
+ Nós aqui com a mesma singeleza,
+ Só ouvimos clamores de pobreza:
+ Molestia, que amofina, e que faz tedio,
+ Que nem nas Caldas póde achar remedio.
+ Luxo, e mais luxo, pôdres, e mais pôdres,
+ Tudo cheio de vento, como os ôdres!
+ Ha huns homens sagazes de tal sorte,
+ Que desfrutarem muito he o seu forte;
+ Pois no ramo, em que lidão, e em que estão,
+ Não deixão escapar occasião:
+ Vão-se enchendo, e fazendo caramunha,
+ Só para que ninguem lhes veja a unha:
+ Mostrão-se mui zelosos com systemas,
+ Mas tem sempre o seu ovo duas gemas.
+ E aqui fica a razão verificada
+ De huns virem a ter tudo, e outros nada!
+ A huns tudo lhes vai bater á porta;
+ Outros não passão já da cepa torta!
+ Isto mesmo succede a mais de mil,
+ E eu comparo estas cousas a hum funil.
+ O que póde beber pelo bocal,
+ Sacia-se, e não vai de todo mal;
+ E quem pelo canudo sorve o vinho,
+ Tira quinhão, porém muito mesquinho.
+
+ Portugal, Portugal! o que bem pensa,
+ Tem encontrado em ti grande diff'rença!
+ Perdeste em alguns homens a verdade,
+ Que dava sempre tom á sociedade.
+ Em poucas partes ha palavra firme,
+ E não falta com que isto se confirme.
+ A minha Musa de apontar se izenta,
+ Melhor o ha de applicar quem o exp'rimenta.
+ Eu admiro nos homens hoje em dia
+ De tocar os extremos a mania!
+ Que ou perdularios gastão quanto tem,
+ Fazendo mal a si, e aos outros bem;
+ Ou tão mesquinhos são, tão acanhados,
+ Que nem bons dias dão, por serem dados.
+ Pouco briosos são, faltos de acções,
+ Remoques não lhes fazem vexações:
+ Nada querem, que custe hum só vintem,
+ Só o que he de tolã lhes sabe bem.
+ Não querem acertar n'hum meio termo;
+ Estes, e outros que taes te pôem enfermo.
+ Os homens de algum dia praticavão
+ A boa educação que os Pais lhes davão;
+ Mas hoje alguns modernos estou vendo,
+ Que logrativos vão o tempo enchendo,
+ Porque o que de espertezas mais se jacta,
+ Engana aquelle mesmo com quem trata.
+ Tem-se hoje descuberto novos trilhos;
+ Nem ha filhos por pais, nem pais por filhos:
+ Não vejo senão genios desiguaes;
+ Usão todos de termos mui geraes:
+ _Verbi gratia_, Desejo-lhe prestar;
+ Se precisar de mim, ha de me achar;
+ Conheça que sou sempre seu amigo;
+ Em tudo o que eu puder, conte comigo.
+ Tudo palavras ocas, sem substancia,
+ Ditas sem fé, com arte, e sem constancia.
+
+ Tambem vejo alguns homens em balanças
+ Navegando no mar só de esperanças:
+ Figurões, que povôão este mundo,
+ Mas tem os fundos seus todos no fundo.
+ Abalrôão co'a gente empavezados,
+ Em quanto se não mostrão naufragados;
+ Depois são qual a uva já passada,
+ Que mostra baga, e pelle, e çumo nada.
+ Portugal, tu tens tido alguma gente,
+ Que se tem feito a si, e a ti doente.
+ Muita especulação vejo eu fazer,
+ Que em lugar de lucrar, bota a perder;
+ Pois de ter perda certa não se izenta
+ Quem para tirar dez dispende oitenta.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ Que me fazes tristeza te confesso!
+ Homens ha mais nocivos do que a peste,
+ E senhoras tambem de genio agreste:
+ Enfadão-se com todos, e com tudo,
+ E parece que o fazem por estudo!
+ Não cessão de ralhar, e de moer
+ As familias, por dar-lhes que soffrer:
+ Trazem a casa toda em labyrintho,
+ Pela condição aspera, que pinto.
+ Tambem homens encontro de tal modo,
+ Que assentão que he já seu o mundo todo;
+ Humas caras, que estão sempre estanhadas,
+ Que ou riem muito, ou são embuziadas.
+ Com condições assim não ha quem possa,
+ A reprehensão não vexa, nem faz mossa.
+ Isto nasce dos mimos, que lhes dão
+ Nas faltas da primeira educação.
+
+ Vejo huns homens tambem affeminados,
+ No gesto, e no fallar muito affectados,
+ Todos sentimentaes, cheios de nicas,
+ Que algum dia chamavão-se Maricas;
+ Mas assentárão hoje bons engenhos,
+ Que devião chamar-se homens gamenhos.
+ A origem deste nome bem se aponta
+ N'hum caso jovial, que ahi se conta.
+ E são recommendaveis taes figuras
+ Nos tregeitos, e vãs caricaturas;
+ Té mastigão fazendo muito mômo
+ O cheiroso Indiano cardamômo,
+ O qual trazem na boca largas horas,
+ Para terem bom bafo entre as senhoras;
+ Nem perdoão ao seu mestre barbeiro
+ A dedada de banha de bom cheiro.
+ E já houve hum, que tendo a irmã de parto,
+ E entrando casualmente no seu quarto,
+ O cheiro da tal banha muito activo
+ Da pobre endoudecer foi o motivo.
+ Antes do Terremoto se munião
+ De pastilhas de cheiro, que trazião,
+ Em pivete, e em almiscar enfrascados,
+ Parecião de alcorce ser formados.
+ Destas verdades não se escandalizem,
+ Que ainda ha velhos vivos, que isto dizem.
+ Então erão faceiras, e casquilhos
+ No principio da moda dos polvilhos;
+ Pelos tempos vierão a peraltas,
+ Mas hoje são tafues, e alguns com faltas:
+ Os quaes agora tem por maravilha
+ A barriga apertarem co' huma cilha,
+ Enfivelada com tal arte, e geito,
+ Que a barriga se encolha, e altêe o peito;
+ Porque querem mostrar que podem ter
+ Perfeitos _patriotismos_ de mulher.
+ Que errei esta palavra não se pense;
+ Pois vem na biblioteca Tafulense
+ Com _pitéo_, com _pinóia_, com _chalaça_,
+ _Cucanha_, _mujangué_, _Caurím_, que embaça
+ E para o peito ter maior altura,
+ E mostrar o que querem na figura,
+ Dão aos seus alfaiates a matraca
+ De almofadar as bandas da casaca.
+ Ora em trazerem cilha acho razão,
+ Visto haver ferradura por tacão!
+ São estas invenções todas de fóra,
+ Nós somos de outros reinos firme escora.
+ Os mais aprestes elles virão vindo,
+ Pois que as outras nações ficão-se rindo,
+ Mandando engodos taes a Portugal
+ Por sommas de dinheiro em bom metal.
+ Tomára persuadir aos que usão disto
+ Que usassem o que a muitos tenho visto:
+ Nas modas meio termo, e na despeza,
+ E nada de emendar a natureza.
+ Deixemos que hum tal sestro as Damas tomem;
+ Que a perfeição do homem he ser homem,
+ E não trazer pescoço almofadado,
+ Tingir cabello já esbranquiçado,
+ Ou pôr grande chinó da côr da amora
+ Co' as bellezas mui brancas, e de fóra,
+ Como vejo aos que são de meia idade
+ Filhos só do amor proprio, e da vaidade:
+ Com outros desacordos deste lote,
+ Que de certo não falta quem os note.
+
+ E que direi de velhos enfeitados,
+ Que são a hum cêpo bem assemelhados?
+ Assim como eu, que o digo, a quem os annos
+ Feito hum espelho tem de desenganos,
+ Mas se viuvo estou, e já maduro,
+ Viuvo ficarei pelo seguro.
+ Não obstante elles verem-se encolhidos,
+ De pernas a vergarem carcomidos,
+ Assim mesmo meninas vão buscar,
+ Querendo-lhes fazer seu pé d'altar:
+ Sem se lembrarem que huma franga nova
+ Atira com hum velho para a cova.
+ Se buscassem dos annos a igualdade,
+ Inda lhes perdoaria a leviandade;
+ Mas quererem que as pobres raparigas,
+ Que por pouco escapárão das bexigas,
+ Atrás de algum vintem vão á lambugem,
+ E que morrão de nojo, e de rabugem!
+ Não posso levar tal á paciencia!
+ Amor isto não he: conveniencia.
+ Que em casamentos taes bem se conhece
+ Serem ellas escravas do interesse.
+ Que prazer póde ter muito a seu salvo
+ A que se liga a hum velho chôcho e calvo?
+ He muito natural mais lhe aborreça,
+ Se calvo for de quanto ha na cabeça;
+ Pois velho, que namora, e que se enlaça,
+ Tem a cabeça igual a huma cabaça;
+ E porque a natureza lhe he avessa,
+ Se tem dor de vazio he na cabeça.
+ Coitado! na figura, em que se vê,
+ Já podião chamar-lhe a morte em pé.
+ Mas no dia do alegre casamento
+ Resuscita com tal contentamento,
+ Que he pena ter o velho, que faz rizo!
+ Resurreição sem dia de juizo.
+
+ Tambem noto que hum velho de algum dia
+ Para a terra curvado he que pendia,
+ Grossa bengala a corpo hia sustendo,
+ E sobre as costas a marrã crescendo
+ Mas parece que a mesma natureza
+ Nos quer mostrar que nada tem firmeza;
+ Pois que os velhos, a quem tudo desanda,
+ Andão hoje tombados a huma banda.
+ Na velhice o estupor se reconcentra,
+ E não torna a sahir huma vez que entra.
+ Por acaso algum dia se fallava
+ Que em alguma pessoa estupor dava.
+ Eu sim me enganarei, mas ajuizo
+ Que nos vem este grande prejuizo
+ Do pão, do vinho, do vinagre, e azeite,
+ Quando generos taes levão enfeite.
+ E se isto assim não he, porque razão
+ Só em Lisboa ha tal repitição?
+ E lá fóra nas Villas, e Cidades
+ São estas cousas humas raridades?
+ Porque ha lá menos gente? Não convence;
+ Bem que he mui natural que assim se pense.
+ E hoje até na florida mocidade
+ Se está vendo huma tal calamidade;
+ Mas os moços, álem da razão dada,
+ Tem outra circunstancia mais pezada,
+ Que he o irem por gosto aos sacrificios,
+ Para as forças perderem pelos vicios.
+
+ São a saude, e o tempo dois objectos
+ Estimados dos homens circunspectos;
+ E diz a mocidade que tambem
+ Estas cousas em grande valor tem:
+ Porém com appetites, e loucuras
+ Enxadadas vão dar nas sepulturas.
+ Hum perdeo a substancia, o outro a côr
+ Aquelle anda tolhido de huma dor.
+ E já tantas molestias lhes acodem.
+ Que nem armas, nem letras seguir podem:
+ Sobrevindo-lhes tal debilidade,
+ Que não podem gozar de longa idade.
+ Perdem filhos os pais, o Rei vassallos,
+ Porque a chusma dos vicios vem cortallos.
+ Nelles a mocidade he que se illude
+ Para estrago do tempo, e da saude:
+ Preciosidades estas, que perdidas,
+ Não vemos com que possa o ser suppridas.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ Do que és, e do que foste não me esqueço!
+ Dos teus usos antigos te tiraste,
+ E he problema entre nós se melhoraste!
+ Do que tinhas melhor já te esqueceste,
+ E o que perder devias não perdeste!
+ Puzeste cousas mil em confusões
+ Das modas, que te vêm de outras naçõês:
+ Té desprezas o solido alimento,
+ E por isso te vejo tão gosmento;
+ Não tens senão defluxos catarrosos,
+ Indigestões, topôres perigosos,
+ Com que continuamente te prantêas,
+ Fruto de altos jantares, grandes cêas:
+ Ha cinco, e seis cubertas, e ha pessoa,
+ Que a hum só prato que seja não perdoa.
+ Hum individuo assim Pai Pai segundo,
+ He capaz de comer quanto ha no mundo.
+ Fica esmola a pedir quem o supporta:
+ Tal gente longe vá da minha porta!
+ Portugal, sê na meza acautelado;
+ A gula te vai pondo em triste estado:
+ Já nas cazas de pasto frequentadas,
+ Já nas mezas dos ricos enfeitadas,
+ Mostras fastio á sôpa, vaca, arroz,
+ Só queres fricassés, e fricandoz;
+ O rosbife, que em sangue inda escorrendo,
+ Os estômagos vai assim perdendo;
+ Rabiolos, fatia á Prussiana,
+ Pitéos de toda a casta de chanfana;
+ Que ha cozinheiro tal, tão delicado,
+ Que de folhas de parras faz guizado,
+ Mujangués, varios môlhos, e frituras,
+ Leite creme, pudins, e outras misturas,
+ Compotas com as caldas refervidas;
+ Tudo isto pouco a pouco acaba as vidas.
+ Depois tens nos cafés vastos licôres,
+ Que alguns até se bebem pelas côres:
+ Hum porque he côr de roza muito vivo,
+ Outro o ser côr de goivo faz motivo;
+ O de cravo, que agita, bem que esquenta,
+ Hum, que se estima de hortelã pimenta;
+ O licor de canela, o marrasquino,
+ Licor de ouro tambem que he caro, e fino.
+ Eu inda espero ver licor de cardos,
+ De alfazema, tomilho, e lirios pardos.
+ Sahe hum Taful d'alli, que he todo braza;
+ Se tomasse cantharides em casa,
+ Não julgava ficar assim tão forte;
+ Quer conservar a vida, e busca a morte.
+ Se não se emenda disto, anda enganado,
+ Cuida que morre cru, morrendo assado.
+
+ Portugal, em mil couzas tens mudado!
+ Só te vejo aos abusos afferrado!
+ Por exemplo: jogar-se tanto o entrudo,
+ Em que se insulta o homem mais sisudo,
+ Com agua, pós, laranjas, pulhas, peças,
+ Em que aberto se tem tantas cabeças!
+ Louvo que jantes bem nesses tres dias,
+ Mas reprovo da cêa as demazias.
+ Pois comes sem discurso, ou reflexão,
+ Para teres p'rigoza indigestão!
+ Tens outro abuso, que he serrar a velha,
+ Tolice, que não póde ter parelha;
+ Para andarem por frios, e por lamas
+ Os homens a fugir das suas camas,
+ Fazendo levantar, vir á janella,
+ Para se constipar esta, e aquella,
+ Que sem juizo algum ama, e criada
+ Perdem a noite nessa mascarada,
+ Até que no outro dia a cozinheira
+ Dá ao demo tão grande babozeira;
+ Pois não podendo o somno disfarçar,
+ Deixou entrar o caturro no jantar.
+ E que direi tambem das boas Festas?
+ Não devo criticar couzas como estas;
+ Porque trazem motivo mui sagrado,
+ Com que todo o Christão, bem educado,
+ Deve ter alegria, e grande gloria
+ Em trazer taes motivos á memoria.
+ Mas quizera, encontrando-se as pessoas,
+ Que abraçando-se, dessem Festas boas;
+ E que os que mais pudessem nestes dias,
+ Embora uzassem grandes bizarrias,
+ Mandando, não Bilhetes de prezente,
+ Mas sim couzas, que alegrem o olho á gente:
+ Bons perús, porcos, patos, ou perdizes,
+ Seis gallinhas com doze codornizes,
+ Tortas, pudins, pasteis, ou pastelões,
+ Finas broas, gostozos massapões.
+ Eis-aqui humas Festas de prazer,
+ Que são de consolar, e agradecer.
+ Isto prova a amizade ser fiel,
+ E val mais que tirinhas de papel,
+ Ou Bilhetes de nomes em cartão,
+ Que os criados ás vezes nem os dão:
+ A sege mui fechada á porta chega
+ A procurar aquelle, que se nega;
+ E muito digno he de se notar
+ O que de ambos devemos ajuizar;
+ No da sege bem he que se supponha
+ Que de dar Boas Festas se envergonha;
+ Porque vai tão fechado, e tão occulto,
+ Que parece que teme algum insulto.
+ E esse, que em caza está, do amigo á espreita,
+ Em não fallar-lhe faz-lhe huma desfeita.
+ Por isso implicão taes formalidades
+ Com as bem reguladas amizades.
+
+ Dizem que quanto mais se vai vivendo,
+ Mais couzas, nunca vistas, se vão vendo;
+ Mas eu outro conceito he bem que forme,
+ Que quanto mais se vive, mais se dorme;
+ E dou esta razão, porque supponho
+ Que viver, e dormir he tudo hum sonho.
+ Sonho parece quanto vejo, e digo,
+ Além do quanto fica só comigo.
+ Porém vamos a couzas divertidas,
+ E fallemos de velhas presumidas,
+ Que algumas ha de tanta affectação,
+ Que por invencioneiras dão penção.
+ Huma velha vi eu tão melindroza,
+ Que fugia do cheiro de huma roza,
+ Dizendo lhe exaltava logo o flato;
+ Tão estragado estava aquelle olfato!
+ Succedeo de vizita ir esta lesma
+ A caza de outra igual Dona Seresma
+ A tempo que entrou logo outra vizita
+ De huma grave Senhora, mui bonita,
+ A qual tinha nas tranças espetada
+ Huma perfeita roza avermelhada;
+ E porque ao pé da velha se assentou,
+ Logo a velha aos arrotos começou,
+ Dando desta molestia por motivo
+ Daquella roza o cheiro muito activo:
+ Foi crescendo a afflicção a mais e mais,
+ E com afrontamentos grandes ais;
+ Cahio do canapé torcida toda
+ Com huma convulsão destas da moda.
+ Acodio-lhe a Senhora a toda a pressa,
+ Que trazia a tal roza na cabeça,
+ Dizendo que era sêca, e que a comprára,
+ Por ser roza de musgo, linda, e rara;
+ Obra feita por mão de huma Franceza,
+ Que nas flores imita a Natureza.
+ Quando a velha ouvio tal, envergonhada,
+ Fingio tornar a si com lã queimada;
+ E foi então geral a zombaria,
+ Que fez da dita velha a companhia.
+ Eis-aqui as molestias, que dão rizo,
+ E a que se expõem com faltas de juizo
+ As velhas infundidas em vaidade,
+ Que querem sempre estar na flor da idade;
+ Que ha velha, que no modo de trajar,
+ Presume as raparigas desbancar.
+
+ Eu vejo raparigas enfeitadas,
+ Rethoricas, porém pouco applicadas,
+ De orelha palavrinhas apanhando,
+ Com as quaes aos tafues vão affectando.
+ Huma carta vi eu de huma senhora,
+ Muito desvanecida de Doutora,
+ Cuja carta era em verso, e era de amores:
+ Queixas de auzencias, zelos raladores;
+ Quando só tinha lido a mocetona
+ As guerras de Alecrim, e Mangerona.
+ A carta não me lembra até ao fim,
+ Porém o seu principio vinha assim;
+
+ _De pungentes receios combatida,
+ Lembrando-me talvez o ser trahida,
+ O meu ciume trepido, fervente
+ Adeja sobre mim avidamente:
+ Eu desafio a magoa, e a impaciencia
+ No campo dilatado de huma auzencia,
+ Ululando, e exprimindo o sentimento,
+ Que me despenha em grande abatimento:
+ Anhelando appellar nesta fraqueza
+ Para o tribunal dubio da fineza._
+
+ Que tal foi este parto sem parteira?
+ Ella chamou-lhe carta, eu chamo asneira.
+ Não critico as Senhoras instruidas
+ Em bons Autores, e Obras escolhidas,
+ Que com principios bons de educação
+ Mostrão que tem juizo, e tem lição:
+ Senhoras ha discretas, que nas fallas
+ Tomárão muitos homens imitallas.
+ Tambem não noto aquellas coitadinhas,
+ Que lidão com dedal, agulha e linhas,
+ Vivem do bastidor, ou da almofada,
+ Que essas tempo não tem para mais nada.
+ Só murmuro daquella não sizuda,
+ Que em trez dias a fórma ás modas muda,
+ Que só cuida do luxo mui garrida,
+ Da belleza, que tem, desvanecida;
+ Não lhe importa nem ler, nem trabalhar,
+ E o que sabe he somente namorar,
+ De janella esperando os valdevinos,
+ Feitas huns papagaios femeninos;
+ Formosuras pasmadas quanto a mim,
+ Bem proprias para estátuas de jardim.
+
+ Portugal, Portugal! não te conheço!
+ Cada vez te vou vendo mais avêço.
+ Eu vejo tambem homens presumidos,
+ Com desvanecimento de instruidos;
+ Porém he hum saber tão fôfo, e escasso,
+ Que andão a tropeçar a cada passo.
+ Criticão tudo, nada se respeita,
+ Sem saber onde tem a mão direita.
+ Soffrer já mais se póde que a ignorancia
+ O merito confunda co' a jactancia.
+ A ponto se me está reprezentando
+ Hum caso, que nos vem aqui frizando:
+ Nosso insigne Pintor Alexandrino
+ Fallou ao Preto velho Pai Justino,
+ Para que lhe caiasse a propriedade
+ De humas casas, que tinha na Cidade.
+ Caiou-lhe o Preto a frente muito bem,
+ E no fim não lhe quiz levar vintem,
+ Dizendo que hum a outro companheiro
+ Era desattenção levar dinheiro.
+ Ora, assim como o preto, muita gente
+ Sonha em ser grande cousa de repente!
+
+ Assentemos que o mundo cada dia
+ He de doudos extensa enfermaria;
+ Porque hum ser Mathematico projecta,
+ Outro insigne Pintor, outro Poeta;
+ Hum a Musico vai, outro a Letrado,
+ Outro na Medicina he enfronhado;
+ Hum he Filósofo, outro he Arquitecto,
+ Outro quer ser da Lua, e do Sol neto;
+ E muitos sem principios, nem razão,
+ Não sabem mostrar mais que presumpção;
+ Pertendendo roubar a fama, e gloria
+ A quem cançou com livros a memoria.
+ He tudo enthusiasmo, e parvoice,
+ Desconcertos nascidos da doudice:
+ E nas varias manias, que contém,
+ Assenta cada qual que assim vai bem.
+ Mas se viver por gosto assim pertendem,
+ Que nem já huns aos outros bem se entendem,
+ Vão vivendo, que as cousas deste mundo
+ Humas ficão em cima, outras no fundo;
+ Porque a razão nos mostra, e nos ensina
+ Que tudo toca a meta, e então declina.
+
+ Portugal, Portugal! nao te conheço!
+ Quanto mais penso em ti, mais esmoreço.
+
+ * * * * *
+
+
+_Explicação dos Enigmas, Adivinhações, e Charades do 1.º Folheto, ou
+primeira Parte desta Obra._
+
+O 1.º Enigma he = a letra _O_ = o 2.º = _Dedos_ == o 3.º = _Pares de
+luvas_ = a Adivinhação = _Figos_ = a 1.ª Charade = _hum Soldado_ = a 2.ª
+Charade = _hum Caçador_ =.
+
+
+
+
+_Escolher té acertar._
+
+_Improvizo do Autor._
+
+ Tafueszinhos deste tempo,
+ Se estado quereis tomar,
+ Deveis com muito sentido
+ _Escolher té acertar._
+
+ Daquella, que rir sem tempo,
+ E esperta de mais fallar,
+ Fugir de se lhe dar corda,
+ _Escolher té acertar._
+
+ A que de lograr os homens
+ Com jactancia se gabar,
+ Nem mais pôr-lhe a vista em cima,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Rapariga janelleira,
+ He bom della não fiar,
+ Namora a muitos, pois quer
+ _Escolher té acertar._
+
+ A que ás modas afferrada
+ A moda não perdoar,
+ Deixalla, mas logo ir outra
+ _Escolher té acertar._
+
+ A que der costura fóra,
+ E meias a accrescentar,
+ Deixalla ir pela malha,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Daquella, que crê em bruxas,
+ Que se anda sempre a assustar,
+ Fazer-lhe huma cruz á porta,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Não vos enleve a menina,
+ Porque canta, e vai walçar;
+ Sem tempo, não ha escolha,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Fingi ter paixão por todas,
+ Depois huma exceptuar,
+ Fazei o que ellas vos fazem,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Mal que a escolha se fizer,
+ Sem demoras ir cazar,
+ Mas tomar bem as medidas,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Qualidades da senhora
+ Podeis por fóra indagar,
+ Indagar não dá, nem tira,
+ _Escolher té acertar._
+
+ O laço do Matrimonio,
+ Dado sem se ponderar,
+ Traz depois sempre a desordem,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Todos sabem que he melhor
+ Prevenir do que emendar,
+ Com brio, honra, e decencia
+ _Escolher té acertar._
+
+ Ser amante, e não velhaco,
+ Prometter, e não faltar,
+ E para mais segurança
+ _Escolher té acertar._
+
+ Os que nada tem de seu,
+ Nem tem genio de casar,
+ Desenganem, porque escusão
+ _Escolher té acertar._
+
+ Hoje as mulheres não querem
+ Os maridos sustentar,
+ Antes tomão por systema
+ _Escolher té acertar._
+
+ Donzella, ou viuva rica
+ Pobretões não vão buscar,
+ Vão entre os homens chineiros.
+ _Escolher té acertar._
+
+ Casamentos com juizo
+ Poucos vejo effectuar,
+ Se Amor vai com o interesse
+ _Escolher té acertar._
+
+ Formosura, e qualidades
+ Já ninguem vai disputar,
+ Se o dinheiro he quem traz tudo,
+ _Escolher té acertar._
+
+ Porém siga embora o mundo
+ Esse modo de pensar,
+ Ide só honra, e juizo
+ _Escolher té acertar._
+
+ Vós deveis sem ambição,
+ Se tendes com que passar,
+ Nas honestas, recolhidas
+ _Escolher té acertar._
+
+ As ricas devem tambem
+ Homens de bem amparar,
+ E nos mais bem comportados
+ _Escolher té acertar._
+
+ Se todos isto seguissem,
+ Melhor se havião de achar;
+ Mas dinheiro quer dinheiro,
+ _Escolher té acertar._
+
+ A final será virtude
+ Pensões do estado notar,
+ E depois outro destino
+ _Escolher té acertar._
+
+ * * * * *
+
+
+_Minhas filhas não caseis._
+
+_Improvizo do Autor._
+
+ Namoradinhas da moda,
+ Vede bem o que fazeis,
+ Com tafues atordoados,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Se tomais paixões de amor,
+ De velhas não morrereis;
+ Tira amor annos de vida,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Todos huns santos se inculcão,
+ Namorando cinco, e seis,
+ Em lhes conhecendo a balda,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ São huns em quanto pertendem,
+ Depois são hydras crueis,
+ Como a cobra, a pelle mudão,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Destes frangainhos novos,
+ Ó Filhas, não vos fieis;
+ Andão sempre dando ás azas,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Trazem-vos anneis das feiras
+ De vintem, e de dez reis,
+ Porque a mais chegar não podem,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ De educação, e de genio
+ He justo vos informeis;
+ Com homens desconfiados,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Entre a guerra dos ciumes
+ N'hum tormento vivereis;
+ Meninas, coração livre,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Depois da primeira offensa
+ Segunda não espereis,
+ Fugi sempre a lograções,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Como he raro em Lotarias
+ Achar a dos dezeseis,
+ He raro achar bom marido,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Não duvido que finezas,
+ E mil excessos acheis;
+ Mas são iscas para a rêde,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ As cartinhas amorozas,
+ São finezas em papeis,
+ O papel tudo consente,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Por huma verdade só
+ Mentiras mil soffrereis,
+ Olho vivo, prevenção,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Como Amor cego se pinta,
+ A mesma queixa tereis,
+ Se haveis cahir por cegueira,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Aturar os pequerruxos,
+ Do marido os aranzeis,
+ São cousas, que custão muito!
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Vós em casa com mil sustos,
+ Elles por outros quarteis;
+ Vós em jejum, elles fartos,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Casar, e ficar depois,
+ Como muitas achareis,
+ Viuvas, pobres, doentes,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Os velhos são rabugentos,
+ Os moços são infieis;
+ Como ha pouco, onde se escolha,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Por sustos, penas, cuidados
+ O descanco não troqueis,
+ Solteiras não sois escravas;
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Rir, brincar, zombar de todos
+ He bem bom, se isto fazeis,
+ Não vos enterreis em vida,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Vivei libertas, Meninas,
+ Que contentes vivereis;
+ Boi solto lambe-se todo,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Bem conheço, minhas Filhas,
+ Que em velhas pouco valeis;
+ Mas que serve acertar mal?
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Amor, juizo, e fortuna
+ He com que acertar deveis;
+ Isto he bom, mas onde ha disto?
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Nisto, que digo, vos mostro
+ O fruto, que tirareis;
+ Só por trez dias de festa,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ Abraçai os meus conselhos,
+ Porque vos não enganeis,
+ Mandai Amor á tabúa,
+ _Minhas Filhas não caseis._
+
+ * * * * *
+
+
+APÓLOGO.
+
+_A Gallinha, e os Pardaes._
+
+ N'huma reserva de estrume
+ Gallinha sôfrega andava,
+ Espalhando com os pés
+ O deposito, que achava.
+ Bando de espertos Pardaes
+ Muito de perto a seguião,
+ Quanto ella esgaravatava
+ Elles, famintos, comião:
+ Neste, naquelle lugar
+ Andava a triste cançada;
+ Os Pardaes comião tudo,
+ A pobre Gallinha nada:
+ Té que sacudindo as azas,
+ Virou de repente, e vio
+ A manada charleadora,
+ Que áquelle estrume acudio.
+ Então disse: Está mui bom
+ Esse modo de viver!
+ Eu descobrindo, e espalhando,
+ Para os mais virem comer!
+ Por certo que estou lograda!
+ N'outra não torno a cahir:
+ Donde vir estes golosos
+ Eu cuidarei de fugir.
+ Hum Pardal de escuro bico
+ Dos outros sahio á frente,
+ Que por ser Pardal ja velho,
+ Se julgava intelligente:
+ E querendo despicar
+ Aquella descompostura,
+ Deo á Gallinha em resposta
+ Esta sentença madura:
+ Este lugar, em que andamos,
+ Não he vedado a ninguem;
+ Temos a elle o direito,
+ Que qualquer Gallinha tem:
+ De mais ha outro motivo;
+ Quem por espalhar trabalha,
+ He certo que já não quer
+ As mesmas cousas, que espalha:
+ Nós aproveitamos tudo
+ Fiados nesta razão;
+ Ninguem he tolo, que deixe
+ De acceitar o que lhe dão.
+ A Gallinha envergonhada
+ Das satisfações, que ouvio,
+ Deo huma volta em redondo,
+ E nem mais o bico abrio.
+ Os que achão dinheiro junto,
+ Como herdeiros de seus pais,
+ Fazendas, cópa de prata,
+ E outros muitos cabedaes;
+ Que espalhão tudo por vicios,
+ Appetites, e funcções,
+ Dando cabo do que tem
+ Com loucas combinações,
+ Talvez que mais se acautelem,
+ Se disto se recordarem:
+ A Gallinha espalha, espalha,
+ Para os mais se aproveitarem.
+
+ * * * * *
+
+
+CONTO EPIGRAMMATICO.
+
+ Ha pelas casas das Sortes
+ Tres Tabellas penduradas
+ Com attractivas fortunas,
+ Mas são fortunas pintadas.
+ Tem por cima Premios grandes,
+ Que se chamão de cabeça;
+ Por baixo os mais diminutos,
+ Em que a gente nada int'ressa.
+ Entrou na loja um Laponio,
+ Querendo Sortes comprar,
+ Metteo prompto a mão na caixa
+ A rir muito, e a perguntar:
+ Diga-me senhor caixeiro,
+ Porque saber me convem,
+ Se esses Premios de cabeça
+ Todos esta caixa tem?
+ Respondeo hum dos que estavão
+ Arrumados ao balcão:
+ Descance; que os de cabeça
+ Todos nessa caixa estão:
+ Cabeça he que nós não temos
+ Em vir sentar-nos n'hum banco
+ A trocarmos o dinheiro
+ Por iscas de papel branco.
+
+ * * * * *
+
+
+CONTO
+
+_Do Sabio por imaginação._
+
+ Certo Rapaz de Provincia
+ A Lisboa veio dar,
+ O qual não sabia ler,
+ Nem escrever, nem contar.
+ Para ganhar o sustento
+ Pôz-se a servir hum Letrado,
+ Esperto, prompto, e fiel,
+ Mostrando-se hum bom criado.
+ De tres a tres mezes o Amo
+ Por costume lhe dizia:
+ Esfrega-me essas estantes,
+ Limpa-me essa Livraria.
+ Ajuntou alguns vintens,
+ E a sua patria buscou,
+ Onde se estabeleceo
+ Com fazendas que comprou.
+ Lá na Botica da terra
+ Elle hia as noites passar
+ Com o Cura, e mais pessoas,
+ Que alli vinhão palestrar.
+ N'huma noite huma questão
+ Se moveo co'hum Estudante,
+ Em que elle se foi metter
+ Por atrevido e ignorante.
+ Instava sem reflexão
+ Dizendo: He que me faltava;
+ Se por ter aberto livros
+ Vossa Mercê me encovava.
+ Eu tambem Livros abri,
+ Lidei com discreta gente;
+ Não jugue o senhor novato
+ Que acha em mim algum demente.
+ O estudante, que sabia
+ Que o tal servíra hum Letrado,
+ Querendo-o desmascarar,
+ Lhe respondeo enjoado:
+ Eu sei que livros abrio,
+ Mas diz gente verdadeira,
+ Que abria livros alheios,
+ Para tirar-lhe a poeira
+ Eis como alguns impostores
+ De sabios querem ter fama,
+ Lendo só rostos de Livros,
+ Nada fruto, e tudo rama.
+ Não estudão, nem se canção;
+ Querem que a sabedoria
+ Se pegue, bem como a febre
+ Em tempo de epidemia.
+
+ * * * * *
+
+
+CONTO EPIGRAMMATICO.
+
+ Havia hum homem sagaz,
+ E bastante indagador;
+ Sempre das vidas alhêas
+ Queria ser sabedor.
+ Por conseguir o seu fim
+ Valia-se de mil modos,
+ Louvando, ou dizendo mal
+ Sabia tudo de todos:
+ Com perguntas, e rodeios
+ Botava a rede em cautela:
+ Quem conversava com elle
+ Por força cahia nella.
+ Adoeceo gravemente;
+ E hum Medico foi chamado,
+ Que da lingoa deste enfermo
+ Vivia escandalizado:
+ Receitou-lhe hum vomitorio,
+ Mas com elle não lançou;
+ Repetio segunda dose,
+ Igualmente se frustrou;
+ Até que o Medico disse:
+ Pasmo do caso presente!
+ Não vomitar quem tem feito
+ Vomitar a tanta gente!
+ E pois que o meu vomitorio
+ Nada, ou pouco lhe aproveita,
+ Se quer vomitar, amigo,
+ Use da sua receita.
+
+ * * * * *
+
+
+CONTO
+
+_Do Homem, e o Macaco._
+
+ Hum Capitão de Navios
+ Trouxe do Brazil hum Mono
+ De condição vingativo,
+ Mas fagueiro com seu dono.
+ O dono estimava-o muito,
+ E o Macaco o conhecia;
+ Disto dava o bruto provas
+ Nas festas, que lhe fazia.
+ Trepava por elle a cima,
+ Catava-o de quando em quando,
+ Punha-lhe a mão pela cara,
+ De roda delle pulando.
+ Ao animal finalmente
+ So lhe faltava fallar;
+ Tendo o dono ao pé de si,
+ O seu forte era brincar.
+ Vio o Macaco huma vez
+ Seu dono matar hum gallo;
+ Pilhou-o fóra de caza,
+ Tentou tambem imitallo:
+ Entrou pela capoeira
+ Com huma faca na mão,
+ Foi matando tudo a eito,
+ E atirando para o chão.
+ Vindo o dono para casa,
+ E achando tal mortandade,
+ Esconjurou o Macaco,
+ Mais a sua habilidade;
+ Mas passando-lhe a paixão,
+ Co' hum páo o ameaçou,
+ Deo-lhe huma leve pancada,
+ E com dó delle ficou.
+ O bruto, que não perdeo
+ A pancada da lembrança,
+ Mesmo á bruta não deixou
+ De tomar delle vingança;
+ E pilhando no outro dia
+ O dono ao pé descuidado,
+ Botou-lhe com dentes, e unhas
+ A cara abaixo de hum lado.
+ Quem dissera que por tempos
+ Se mostrasse tão cruel
+ Hum bruto, que parecia
+ Tão submisso, e tão fiel!
+ Ha duas moralidades,
+ Que d'aqui se hão de tirar:
+ A primeira he que nos brutos
+ Ninguem se deve fiar:
+ A segunda de que ha homens
+ De huma apparente bondade;
+ São huns, e parecem outros
+ Por manha, e sagacidade.
+
+ * * * * *
+
+
+APÓLOGO.
+
+_A Pulga, e o Mosquito._
+
+ N'huma noite de Verão,
+ E de bastante calor,
+ Encontrou-se co' hum Mosquito
+ A Pulga n'hum cobertor:
+ Cumprimentárão-se muito
+ Co' a politica devida;
+ E disse a Pulga ao Mosquito:
+ Ando aqui desfalecida;
+ De vossa mercê me queixo,
+ Que do sustento me priva;
+ Estou tisica, e esfalfada,
+ Não sei como já sou viva:
+ Ando por cima de leitos,
+ Ando nas camas de chão;
+ Vem vossa mercê tocando,
+ Começa a minha afflicção;
+ Se dou alguma picada,
+ He sempre em sustos, e medos;
+ Porque temo de cahir
+ Na ratoeira dos dedos.
+ N'hum individuo, que dorme,
+ He onde janto, onde ceio;
+ Mas não me presta o que como,
+ Pelo meu justo receio:
+ Se lhe chupo n'huma perna
+ Sempre com cinco sentidos,
+ Vem logo a sua trombeta
+ Metter-se-lhe nos ouvidos.
+ Acorda o que está dormindo,
+ Dando a cantiga ao diabo;
+ Se me sente, põe-me o dedo,
+ E entre as unhas me dá cabo.
+ Por tanto quero pedir-lhe
+ Tenha de mim compaixão;
+ Que toque á gente acordada,
+ Porém á que dorme não.
+ Ó filha, disse o Mosquito,
+ Eu tambem soffro, e padeço;
+ Pois levo ás vezes boléos,
+ Que da vida me despeço.
+ Dão bofetadas em si
+ Os que andão comigo em guerra;
+ E se me apanhão no lance,
+ Atirão comigo a terra.
+ Os desastres que me conta,
+ Por certo me mettem dó;
+ Mas he preciso tambem
+ Que não queira comer só.
+ Nestes termos, minha rica,
+ A vontade lhe farei;
+ Que engorde, e que viva farta,
+ He que eu muito estimarei.
+ Despedirão-se hum do outro:
+ E o Mosquito atraiçoado
+ Não fez nada do que disse,
+ Que he traidor dissimulado.
+ Perseguia a toda a gente;
+ A quem dormia acordava,
+ Por emulação á Pulga
+ Fazia o que costumava.
+ A Pulguinha muito afouta,
+ Vendo hum homem a dormir,
+ Ferrou-se-lhe no cachaço,
+ Sem lhe lembrar o fugir.
+ O Mosquito pelos olhos
+ A zunir muito, e a morder,
+ Acordou o homem da sesta,
+ Para a Pulga surprender:
+ Que, coitadinha! espirou,
+ Acabando o seu flagello,
+ Entalada entre o sobrado,
+ E entre a sola de hum chinelo.
+ Daqui colligir se deve
+ Que quando a vingança cega,
+ Quasi sempre hum malfeitor
+ O seu semelhante entrega.
+
+ * * * * *
+
+
+APÓLOGO.
+
+_O Burro, e a Ratazana._
+
+ Estava hum Burro comendo
+ Á noite a sua ração,
+ E huma velha Ratazana
+ Quiz ter com elle quinhão.
+ Disse-lhe o Burro: Malvada,
+ Vai a outro sitio comer:
+ Não basta a ração ser pouca?
+ Mais pequena a vens fazer?
+ Respondeo-lhe a Ratazana:
+ Por hoje licença dá;
+ Que por estes oito dias
+ Prometto de não vir cá:
+ Eu sei mui bem que teu dono
+ Hum grande queijo comprou;
+ Espreitei onde o metteo,
+ E á manhã com elle dou:
+ Hei de fartar-me á vontade,
+ Roendo-lho muito bem:
+ Sei que a vizinha debaixo
+ Bolos n'huma cópa tem:
+ O criado, que te trata,
+ Tem lá n'huma parteleira
+ Hum grande monte de cebo
+ Junto dentro de huma ceira:
+ Lá pelas aguas furtadas
+ Já atinei co' huns buracos
+ Para saltar n'hum pombal,
+ E chupar pombos dos cacos.
+ Á vista das descubertas,
+ Que já hoje tenho feito,
+ Espero passar sem fome,
+ Com subtileza, e com geito,
+ Foi tasquinhando a ração
+ Naquella doce esperança,
+ Co'a imaginada fartura
+ Sempre posta na lembrança.
+ Do Burro se despedio
+ Com affago, e cortezia;
+ E foi de rabo estendido
+ Para a cova, em que vivia.
+ Porém lá pela alta noite
+ Tornou depois a sahir,
+ E foi-se por certo atalho
+ Nas casas introduzir.
+ Andou em busca do queijo,
+ Porém já o não achou
+ No sitio, que imaginava,
+ Onde d'antes se guardou.
+ Voltou-se ao primeiro andar
+ Para os bolos da vizinha,
+ Basculhou a copa toda,
+ E nem hum só bolo tinha.
+ Cançada, raivosa, e triste
+ Ao quarto do moço veio;
+ E porque estava acordado,
+ Entrou com algum receio.
+ Saltou para a parteleira
+ Com o cebo no sentido;
+ Mas no dia antecedente
+ O tinha o moço vendido.
+ A sahida deste quarto
+ Empreza foi arriscada;
+ Por se safar tão ligeira,
+ Não mammou huma arrochada.
+ Lá por outros escaninhos
+ Ao telhado caminhou,
+ Só para entrar no pombal,
+ Onde outras vezes entrou.
+ Mal que se pilhou de dentro,
+ Vio huns ninheiros mais baxos,
+ Ficou-lhe o olho luzindo
+ Co' o sentido nos borrachos.
+ O dono, que de outros ratos
+ Se via mais perseguido,
+ Pôz-lhe armada ratoeira
+ Com petisco appetecido.
+ Foi então que a Ratazana,
+ Não se podendo conter,
+ Cheirou-lhe a isca por fóra,
+ Quiz entrar dentro, e comer.
+ Deo voltas, metteo focinho;
+ Mas á dentada primeira
+ Ficou a pobre engasgada
+ Nos ferros da ratoeira.
+ Quanto esperava falhou,
+ E por mais infausta sorte,
+ Toda a alegria passada
+ Acabou nas mãos da morte.
+
+ * * * * *
+
+
+CONTO EPIGRAMMATICO.
+
+ Hum Author compunha hum livro,
+ Livros velhos folheando:
+ Perguntou-lhe hum seu collega:
+ Que estás ahi procurando?
+ Respondeo: Como não ha
+ Livro algum que tão máo seja
+ Que não tenha alguma cousa
+ Boa, que se note, e veja:
+ De cada hum tiro hum pouco.
+ Disto hum novo livro ageito
+ Ficando de cousas boas
+ Formado hum livro perfeito.
+ Desta lição eu quisera
+ Que os homens se aproveitassem,
+ De cada hum imitando
+ As virtudes, que lhe achassem.
+ O homem, que isto fizesse,
+ Hum grande brazão teria;
+ Ficava sendo hum compôsto,
+ Que ao Mundo exemplo daria.
+
+ * * * * *
+
+
+APOLOGO.
+
+_O Saloio, e huma Sorte de papel._
+
+ Vendo nas casas das Sortes
+ Premio de oitenta mil reis,
+ Foi hum Saloio comprar
+ Oito tostões de papeis:
+ E tudo desembrulhando
+ Hum Premio só não achou,
+ Repetio dobrando a dóze,
+ Da mesma sorte ficou:
+ Foi comprando mais e mais,
+ Quanto comprava perdia,
+ Gastou dezoito mil reis,
+ E delles nem bóia via.
+ Raivoso se foi á caixa,
+ Dizendo: Forte castigo!
+ Tirou mais seis tostões dellas,
+ Que era o que tinha comsigo:
+ Tambem lhe sahírão brancas,
+ E o homem desesperou;
+ Mas a ultima entre os dedos
+ Deste modo lhe fallou:
+ Saloio, quem quer que sejas,
+ Toma do mundo lição,
+ Todas as cousas pintadas
+ Como parecem não são;
+ Não te illudas com os Premios,
+ Que he natural o falharem,
+ E nesse engodo emmagreces,
+ Para os outros engordarem:
+ Se o acaso der hum Premio,
+ Põe logo no pensamento,
+ Que para hum só ser feliz,
+ São desgraçados hum cento:
+ O que tira tres moedas,
+ Já veio vinte deixar,
+ E se inda não as largou,
+ He isca para as largar.
+ O que tira tres tostões,
+ Fica de nós muito amigo,
+ Sem ver que deixou o porco,
+ E leva a corda comsigo.
+ Os prudentes conceituão
+ Ser tudo isto huma Tragedia,
+ Que os felizes nestas casas
+ São como os Reis de comedia.
+ E porque em lojas de Sortes
+ Não gastes nem hum vintem,
+ Huns conselhos vou a dar-te,
+ Com os quaes te acharás bem.
+ Nao olhes para as Tabellas,
+ Nem os mais vejas jogar,
+ Que se algum tem sorte em preto,
+ A ambição te vai tentar;
+ Olha sim, para a dinheiro,
+ Que está perdido no chão
+ Em sortes desembrulhadas
+ Da porta até ao balcão.
+ O Saloio respondeo:
+ Teu desengano me embaça,
+ Se se promettem fortunas
+ Onde se encontra a desgraça.
+ Á vista disto he razão
+ Que este vicio em mim se quebre,
+ Fugirei de toda a casa,
+ Que vende gato por lebre.
+
+
+
+
+Vindo ás mãos do Author huma Quadra bastantemente conceituosa, tentou
+glosala pelo seguinte modo:
+
+
+QUADRA.
+
+ _Dois Entes regem o mundo_
+ _Doce Amor, e Morte impía,_
+ _A Morte co' a fouce corta_
+ _Quanto Amor semêa, e cria._
+
+
+GLOSA.
+
+1.
+
+ Logo que foi construida
+ Esta Maquina brilhante,
+ Não falhou hum só instante
+ Na conta, pezo, e medida:
+ Nem podia ser falida
+ Obra de hum Saber profundo;
+ He seu creador segundo
+ O Tempo, que não faz pausa,
+ Por mando da Eterna Causa
+ _Dois Entes regem o mundo_
+
+2.
+
+ Hum he Amor, outro a Morte,
+ Cada qual com fortaleza,
+ Entre alegria, e tristeza,
+ Mudão dos Mortaes a sorte:
+ No que hum faz outro dá córte,
+ Que a desordem desafia,
+ Disputão de noite, e dia,
+ A qual mais poder encerra,
+ Andão sempre em viva guerra
+ _Doce Amor, e Morte impía,_
+
+3.
+
+ Nesta horrorosa campanha
+ Não faz figura a Razão,
+ Nem ha capitulação
+ (O que já se não estranha)
+ Tudo de terror se banha,
+ He immensa a gente morta;
+ E por mais que Amor a exhorta,
+ Sem respeito ás creaturas,
+ Searas verdes, maduras
+ _A Morte co' a fouce corta_
+
+4.
+
+ Quando a paixão se declara
+ De Amor entre dois amantes,
+ Porque não fiquem triunfantes,
+ A Morte vê se os separa:
+ Como he das vidas avara,
+ Em suffocallas porfia;
+ De balde Amor a vigia,
+ Que a Morte, que tudo extingue,
+ Trabalha porque não vingue
+ _Quanto Amor semêa, e cria._
+
+
+
+
+Quadra, que mandou huma Senhora ao Author (talvez sem reflectir) com
+muito empenho, para que lha glosasse; sendo assás bem difficultosa, pelo
+veneno do tempo que tem comsigo, etc.
+
+QUADRA.
+
+ _Não sigas, Bella, os caprichos,_
+ _Que os Mortaes tem fabricado;_
+ _Segue as Leis da Natureza,_
+ _Felicita hum desgraçado._
+
+GLOSA.
+
+1.
+
+ Bella Nize, o Creador,
+ Que o Mundo fez, e governa,
+ Que com Providencia eterna
+ He, e foi de tudo Author,
+ He em quem devemos pôr
+ Os nossos desejos fixos;
+ De genios que estão perfixos,
+ Com a maior impiedade,
+ Em negar esta verdade
+ _Não sigas, Bella, os caprichos._
+
+2.
+
+ Dar a todos a entender
+ Por Fabula Ceo, e Inferno;
+ Que não ha castigo eterno;
+ Que nem premio póde haver;
+ Que ha só nascer, e morrer
+ Sem lembrança de peccado,
+ Bem como bruto esfaimado,
+ Eis a perversa doutrina,
+ Só para nossa ruina,
+ _Que os Mortaes tem fabricado._
+
+3.
+
+ Quem na Pia do Baptismo
+ As luzes da Fé recebe,
+ O bom caracter concebe
+ No Gremio do Christianismo:
+ Não temer penas do Abismo
+ He ser de Lucifer preza
+ Na Religião firmeza
+ He quanto todos convem
+ Inculto Gentio he quem
+ _Segue as Leis da Natureza,_
+
+4.
+
+ Ó Deos Eterno! he possivel
+ Que o Christão, que tu creaste,
+ Dos teus preceitos se afaste,
+ Á tua voz insensivel!
+ Sua pena era infallivel
+ Por ter a Lei quebrantado;
+ Mas o teu Poder sagrado
+ Fallando-lhe ao coração,
+ O salve da escravidão;
+ _Felicita hum desgraçado._
+
+
+
+
+CHARADE.
+
+ Guarda a primeira e segunda
+ Dos rigores da estação,
+ E guarda a terceira as duas
+ Por amor, e gratidão:
+ As tres conchegão seu dono,
+ Seja de inverno, ou verão.
+
+
+CHARADE.
+
+ Não quer demora a primeira,
+ A segunda he contra a fome,
+ Separadas não tem bocca,
+ Ambas juntas muita toca,
+ Muita gente tem, que come.
+
+
+CHARADE.
+
+ He criminosa a primeira,
+ E aos crimes, que commetteo
+ Logo a segunda, e terceira
+ Justa sentença lhes deo;
+ Porém juntando-se as trez
+ Entrão em tanta harmonia,
+ Que o mal, que a primeira fez,
+ Torna-se em grande alegria.
+
+
+CHARADE.
+
+ A primeira diz aonde,
+ Esta, e segunda cultiva,
+ Evita a terceira o pó,
+ E de precipicios priva:
+ Primeira, e ultima afflige,
+ Nutre segunda, e primeira:
+ Ha nas quintas, e fazendas
+ A segunda co' a terceira:
+ O bom commodo dos homens
+ Nas tres syllabas se encerra
+ Em couza, que serve muito
+ Na paz, e tambem na guerra.
+
+
+CHARADE.
+
+ Da primeira, e segunda se gosta,
+ Que he onde se chora, se folga, e se ri:
+ Na segunda, e terceira apparece
+ O aspecto da gente por bom, ou ruim;
+ A segunda, e terceira dá nome
+ A huma alta serra do nosso paiz;
+ Mas se as três ajuntarmos, veremos
+ Hum peixe saltante na praia a cahir.
+
+
+ADIVINHAÇÃO.
+
+ Eu visito toda a casa,
+ E co' a gente desespero,
+ Como com ElRei á meza
+ Daquelles pratos, que quero;
+ Seja a Dama a mais formosa,
+ Mais pobre, ou mais abastada,
+ Mesmo diante de todos
+ Por mim ha de ser beijada;
+ Ando sempre em viva guerra,
+ Vivo entre muito inimigo;
+ Mas sendo debil de forças,
+ Só póde o tempo comigo.
+
+
+ADIVINHAÇÃO.
+
+ Não tenho sete cabeças,
+ Co' a que tenho me governo,
+ Meu rosto não tem feitio,
+ Até sou da côr do Inferno:
+ Pareço no meu sustento
+ Nascer no Signo de Aquario;
+ E a minha condição he
+ Semelhante á do usurario;
+ Morro de huma ingratidão,
+ Que me faz ser infeliz;
+ Pois dão-me a morte por paga
+ Do beneficio, que fiz.
+
+
+
+
+Significação das Charades, e Adivinhações deste Folheto.
+
+_= ecraeb = amõacar = ãzoccaa = sgausgenua = alacvo = oapaj = osacm =_
+
+A Significação destas _Xarades_, e _Adivinhações_ aqui vão não por sua
+ordem, e até cada huma de per si com as letras trocadas, para maior
+confusão, e gosto de quem as adivinhar: cujos nomes escolherá para os
+appropriar, e collocar onde pertencerem, visto não haver outro Folheto,
+em que se explique, por ser este o ultimo desta Obra, que torno a
+advertir se deve encadernar com a _primeira Parte_, e com o _Poema do
+Balão aos Habitantes da Lua; que fica hum Livro divertido._
+
+_Tudo se vende nas lojas: de Francisco Xavier de Carvalho defronte da
+rua de S. Francisco da Cidade; de Antonio Manoel Polycarpo da Silva
+junto ao Senado; de Antonio Xavier Moreira da Impressão Regia debaixo da
+Arcada; de João Henriques no principio da rua Augusta, de Antonio Pedro
+na rua do Ouro; de Luiz José de Carvalho aos Paulistas; e em Belém na
+loja da Viuva de José Tiburcio. Custa este Folheto 240; a primeira Parte
+outro tanto; e o Balão 160._
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
+impresso em 1820.
+
+Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
+e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
+inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
+particular quanto à acentuação.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Continuação do Portugal enfermo por
+vicios, e abusos de ambos os sexos, by José Daniel Rodrigues da Costa
+
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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