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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:56:47 -0700 |
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diff --git a/31971-h/31971-h.htm b/31971-h/31971-h.htm new file mode 100644 index 0000000..9bc5108 --- /dev/null +++ b/31971-h/31971-h.htm @@ -0,0 +1,41443 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>O Crime do Padre Amaro</title> + + + <meta content="Eça de Queirós" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tinyl {font-size: 90%; text-align: center;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.quote {margin-left:10%;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.poetry {margin-left:35%;} +.poetry1 {margin-left:30%;} +.poetry2 {margin-left:25%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's O crime do padre Amaro, by José Maria Eça de Queirós + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O crime do padre Amaro + scenas da vida devota + +Author: José Maria Eça de Queirós + +Release Date: April 13, 2010 [EBook #31971] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CRIME DO PADRE AMARO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Abril 2010) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +O CRIME<br /> + +<br /> + +DO<br /> + +<br /> + +PADRE AMARO +</h2> + +<div style="text-align: justify;"><br /> + +<br /> + +<br /> + +Obras do mesmo auctor: +<br /> + +<br /> + +</div> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + <tbody> + + <tr align="justify"> + + <td valign="top"><b>Os Maias.</b> 2 +grossos +volumes.</td> + + <td valign="top">2$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" valign="top"><b>O +Crime do Padre Amaro.</b> Terceira +edição inteiramente +refundida, recomposta, e differente na fórma +e na acção da edição +primitiva. 1 grosso +volume.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">1$200</td> + + </tr> + + <tr> + + <td align="left" valign="top"><b>O +Primo Bazilio.</b> Segunda +edição. 1 grosso +volume.</td> + + <td style="text-align: right;" valign="top">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td align="left" valign="top"><b>A +Reliquia.</b> 1 grosso +volume.</td> + + <td style="text-align: right;" valign="top">1$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td align="left" valign="top"><b>O +Mandarim.</b> Segunda +edição. 1 +volume.</td> + + <td style="text-align: right;" valign="top">500</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +No prelo: +<br /> + +<br /> + +<b>Correspondencia de Fradique Mendes.</b> +1 volume. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h4>EÇA DE QUEIROZ</h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h2> +O CRIME<br /> + +<br /> + +DO<br /> + +<br /> + +PADRE AMARO +</h2> + +<br /> + +<h4>SCENAS DA VIDA DEVOTA +</h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">TERCEIRA +EDIÇÃO +<br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="tinyl"><em>Inteiramente refundida, +recomposta, e differente na fórma<br /> + +e na acção da edição +primitiva</em></div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 83px; height: 84px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">PORTO<br /> + +LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON<br /> + +Casa editora<br /> + +<b>LUGAN & GEMELIOUX, +Successores</b><br /> + +1889<br /> + +<br /> + +Todos os direitos reservados<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">Porto: Typ. de +A. J. da +Silva Teixeira, Cancella Velha, 70 +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>NOTA +</h3> + +<div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;"> +(DA 2.ª EDIÇÃO)</span> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +O Crime do Padre Amaro recebeu no +Brazil e em Portugal alguma attenção +da Critica, quando foi publicado +ulteriormente um romance intitulado—<span class="smallcaps">O +Primo Bazilio</span>. E no Brazil e +em Portugal escreveu-se (sem todavia se adduzir +nenhuma prova effectiva) que <span class="smallcaps">O +Crime do +Padre Amaro</span> era uma imitação +do romance do +snr. E. Zola—<span class="smallcaps">La Faute de +l'Abbé +Mouret</span>; +ou que este livro do auctor do +<span class="smallcaps">Assomoir</span> e de +outros magistraes estudos sociaes suggerira a +idéa, os personagens, a intenção do +<span class="smallcaps">Crime do +Padre Amaro</span>. +<span class="pagenum">[VI]</span> +<br /> + +<br /> + +Eu tenho algumas razões para crêr que +isto não é correcto. <span class="smallcaps">O +Crime do +Padre Amaro</span> +foi escripto em 1871, lido a alguns amigos em +1872, e publicado em 1874. O livro do snr. +Zola, <span class="smallcaps">La Faute de +l'Abbé +Mouret</span> (que é o +quinto volume da série <span class="smallcaps">Rougon +Macquart</span>), foi +escripto e publicado em 1875. +<br /> + +<br /> + +Mas (ainda que isto pareça sobrenatural) +eu considero esta razão apenas como subalterna +e insufficiente. Eu podia, emfim, ter penetrado +no cerebro, no pensamento do snr. +Zola, e ter avistado, entre as fórmas ainda +indecisas das suas creações futuras, a figura +do abbade Mouret,—exactamente como o veneravel +Anchises no valle dos Elyseos podia +vêr, entre as sombras das raças vindouras +fluctuando +na nevoa luminosa do Lethes, aquelle +que um dia devia ser Marcellus. Taes coisas +são possiveis. Nem o homem prudente as deve +considerar mais extraordinarias que o carro +de fogo que arrebatou Elias aos céos—e outros +prodigios provados. +<br /> + +<br /> + +O que, segundo penso, mostra melhor que +a accusação carece de exactidão, +é a simples +comparação dos dois romances. +<span class="smallcaps">La Faute de</span> +<span class="pagenum">[VII]</span> +<span class="smallcaps">l'Abbé Mouret</span> +é, no seu episodio central, o +quadro allegorico da iniciação do primeiro homem +e da primeira mulher no amor. O abbade +Mouret (Sergio), tendo sido atacado d'uma febre +cerebral, trazida principalmente pela sua +exaltação mystica no culto da Virgem, na +solidão +d'um valle abrazado da Provença (primeira +parte do livro), é levado para convalescer +ao <em>Paradou</em>, antigo parque do seculo +XVII +a que o abandono refez uma virgindade selvagem, +e que é a representação allegorica do +Paraiso. Ahi, tendo perdido na febre a consciencia +de si mesmo a ponto de se esquecer +do seu sacerdocio e da existencia da aldeia, e +a consciencia do universo a ponto de ter medo +do sol e das arvores do <em>Paradou</em> como +de +monstros estranhos—erra, durante mezes, +pelas profundidades do bosque inculto, com +Albina que é o genio, a Eva d'esse logar de +legenda; Albina e Sergio, semi-nús como no +Paraiso, procuram sem cessar, por um instincto +que os impelle, uma arvore mysteriosa, da +rama da qual cae a influencia aphrodisiaca da +materia procreadora; sob este symbolo da Arvore +da Sciencia se possuem, depois de dias +<span class="pagenum">[VIII]</span> +angustiosos em que tentam descobrir, na sua +innocencia paradisiaca, o meio physico de realisar +o amor; depois, n'uma mutua vergonha +subita, notando a sua nudez, cobrem-se de folhagens; +e d'ahi os expulsa, os arranca o padre +Archangins, que é a personificação +theocratica +do antigo Archanjo. Na ultima parte do livro +o abbade Mouret recupera a consciencia de si +mesmo, subtrae-se á influencia dissolvente da +adoração da Virgem, obtem por um +esforço da +oração e um privilegio da graça a +extincção +da sua virilidade, e torna-se um asceta sem +nada d'humano, uma sombra cahida aos pés +da cruz; e, é sem que lhe mude a côr ao rosto +que asperge e responsa o esquife de Albina, +que se asphyxiou no <em>Paradou</em> sob um +montão +de flôres de perfumes fortes. +<br /> + +<br /> + +Os criticos intelligentes que accusaram <span class="smallcaps">O +Crime do Padre Amaro</span> de ser apenas uma +imitação da <span class="smallcaps">Faute +de +l'Abbé Mouret</span> não tinham +infelizmente lido o romance maravilhoso +do snr. Zola que foi talvez a origem de toda a +sua gloria. A semelhança casual dos dois titulos +induziu-os em erro. +<br /> + +<br /> + +Com conhecimento dos dois livros, só uma +<span class="pagenum">[IX]</span> +obtusidade cornea ou má fé cynica poderia +assemelhar +esta bella allegoria idyllica, a que +está misturado o pathetico drama d'uma alma +mystica, ao <span class="smallcaps">Crime do Padre Amaro</span> +que, como +podem vêr n'este novo trabalho, é apenas, no +fundo, uma intriga de clerigos e de beatas tramada +e murmurada á sombra d'uma velha Sé +de provincia portugueza. +<br /> + +<br /> + +Aproveito este momento para agradecer á +Critica do Brazil e de Portugal a attenção que +ella tem dado aos meus trabalhos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote"> +Bristol, 1 de janeiro de 1880.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Eça do Queiroz.</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +O CRIME<br /> + +<br /> + +DO<br /> + +<br /> + +PADRE AMARO +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +I +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Foi no domingo de Paschoa que se soube em +Leiria que o parocho da Sé, José Migueis, tinha +morrido de madrugada com uma apoplexia. O parocho +era um homem sanguineo e nutrido, que passava +entre o clero diocesano pelo <em>comilão dos +comilões</em>. +Contavam-se historias singulares da sua voracidade. +O Carlos da Botica—que o detestava—costumava +dizer, sempre que o via sahir depois da sésta, com +a face afogueada de sangue, muito enfartado: +<br /> + +<br /> + +—Lá vai a giboia esmoer. Um dia estoura! +<br /> + +<br /> + +Com effeito estourou, depois d'uma ceia de peixe—á +hora em que defronte, na casa do dr. Godinho +que fazia annos, se polkava com alarido. Ninguem +o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em +<span class="pagenum">[2]</span> +geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os +modos e os pulsos d'um cavador, a voz rouca, cabellos +nos ouvidos, palavras muito rudes. +<br /> + +<br /> + +Nunca fôra querido das devotas: arrotava no confessionario; +e, tendo vivido sempre em freguezias da +aldeia ou da serra, não comprehendia certas sensibilidades +requintadas da devoção: perdera por isso, +logo ao principio, quasi todas as confessadas, que tinham +passado para o polido padre Gusmão, tão +cheio de <em>labia</em>! +<br /> + +<br /> + +E quando as beatas, que lhe eram fieis, lhe iam +fallar de escrupulos, de visões, José Migueis +escandalisava-as, +rosnando: +<br /> + +<br /> + +—Ora historias, santinha! Peça juizo a Deus! +Mais miôlo na bola! +<br /> + +<br /> + +As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no: +<br /> + +<br /> + +—Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe +e beba-lhe, creatura! +<br /> + +<br /> + +Era miguelista—e os partidos liberaes, as suas +opiniões, os seus jornaes enchiam-no d'uma cólera +irracionavel: +<br /> + +<br /> + +—Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu +enorme guardasol vermelho. +<br /> + +<br /> + +Nos ultimos annos tomára habitos sedentarios e +vivia isolado—com uma criada velha e um cão, o +<em>Joli</em>. O seu unico amigo era o +chantre Valladares +que governava então o bispado, porque o senhor +bispo D. Joaquim gemia, havia dois annos, o seu +rheumatismo n'uma quinta do alto Minho. O parocho +tinha um grande respeito pelo chantre, homem sêcco, +<span class="pagenum">[3]</span> +de grande nariz, muito curto de vista, admirador +d'Ovidio—que fallava fazendo sempre boquinhas +e com allusões mythologicas. +<br /> + +<br /> + +O chantre estimava-o. Chamava-lhe <em>Frei +Hercules</em>. +<br /> + +<br /> + +—<em>Hercules</em> pela força, +explicava sorrindo, <em>Frei</em> +pela gula. +<br /> + +<br /> + +No seu enterro elle mesmo lhe foi aspergir a cova; +e, como costumava offerecer-lhe todos os dias +rapé da sua caixa d'ouro, disse aos outros conegos, +baixinho, ao deixar-lhe cahir sobre o caixão, segundo +o ritual, o primeiro torrão de terra: +<br /> + +<br /> + +—É a ultima pitada que lhe dou! +<br /> + +<br /> + +Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor +governador do bispado; o conego Campos contou-a +á noite ao chá em casa do deputado Novaes; +foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram +as virtudes do chantre, e affirmou-se com +respeito—<em>que +sua excellencia tinha muita pilheria!</em> +<br /> + +<br /> + +Dias depois do enterro appareceu, errando pela +Praça, o cão do parocho, o +<em>Joli</em>. A criada entrára +com sezões no hospital; a casa fôra fechada; o +cão, +abandonado, gemia a sua fome pelos portaes. Era +um gôso pequeno, extremamente gordo,—que tinha +vagas semelhanças com o parocho. Com o habito +das batinas, avido d'um dono, apenas via um +padre punha-se a seguil-o, ganindo baixo. Mas nenhum +queria o infeliz <em>Joli</em>; enxotavam-no +com as +ponteiras dos guardasoes; o cão, repellido como +um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma +<span class="pagenum">[4]</span> +manhã appareceu morto ao pé da Misericordia; a +carroça +do estrume levou-o e, como ninguem tornou a +vêr o cão na Praça, o parocho +José Migueis foi definitivamente +esquecido. +<br /> + +<br /> + +Dois mezes depois soube-se em Leiria que estava +nomeado outro parocho. Dizia-se que era um homem +muito novo, sahido apenas do seminario. O seu +nome era Amaro Vieira. Attribuia-se a sua escolha a +influencias politicas, e o jornal de Leiria, <em>A Voz do +Districto</em>, que estava na +opposição, fallou com amargura, +citando o Golgotha, no <em>favoritismo da +côrte</em> e +na <em>reacção +clerical</em>. Alguns padres tinham-se escandalisado +com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, +diante do senhor chantre. +<br /> + +<br /> + +—Não, não, lá que ha favor, ha; e que +o homem +tem padrinhos, tem, disse o chantre. A mim quem +me escreveu para a confirmação foi o Brito +Correia +(Brito Correia era então ministro da justiça). +Até +me diz na carta que o parocho é um bello rapagão. +De sorte que—acrescentou sorrindo com +satisfação—depois +de <em>Frei Hercules</em> vamos talvez ter +<em>Frei +Apollo</em>. +<br /> + +<br /> + +Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o +parocho novo: era o conego Dias que fôra, nos primeiros +annos do seminario, seu mestre de Moral. No +seu tempo, dizia o conego, o parocho era um rapaz +franzino, acanhado, cheio de espinhas carnaes... +<br /> + +<br /> + +—Parece que o estou a vêr com a batina muito +coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto +bom rapaz. E espertote... +<span class="pagenum">[5]</span> +<br /> + +<br /> + +O conego Dias era muito conhecido em Leiria. +Ultimamente engordára, o ventre saliente enchia-lhe +a batina; e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, +o beiço espesso faziam lembrar velhas anecdotas +de frades lascivos e glotões. +<br /> + +<br /> + +O tio Patricio, o <em>antigo</em>, negociante +da Praça, +muito liberal, e que quando passava pelos padres +rosnava como um velho cão de fila, dizia ás vezes +ao vêl-o atravessar a Praça, pesado, ruminando a +digestão, encostado ao guardachuva: +<br /> + +<br /> + +—Que maroto! Parece mesmo D. João VI! +<br /> + +<br /> + +O conego vivia só com uma irmã velha, a snr.<sup>a</sup> +D. Josepha Dias, e uma criada, que todos conheciam +tambem em Leiria, sempre na rua, entrouxada n'um +chale tingido de negro e arrastando pesadamente as +suas chinelas de ourelo. O conego Dias passava por +ser rico; trazia ao pé de Leiria propriedades arrendadas, +dava jantares com perú, e tinha +reputação o +seu vinho <em>duque</em> de 1815. Mas o facto +saliente da +sua vida—o facto commentado e murmurado—era +a sua antiga amizade com a snr.<sup>a</sup> Augusta +Caminha, +a quem chamavam a S. Joanneira, por ser natural +de S. João da Foz. A S. Joanneira morava na rua da +Misericordia e recebia hospedes. Tinha uma filha, a +Ameliasinha, rapariga de vinte e tres annos, bonita, +forte, muito desejada. +<br /> + +<br /> + +O conego Dias mostrára um grande contentamento +com a nomeação de Amaro Vieira. Na botica +do Carlos, na Praça, na sacristia da Sé exaltou +os +seus bons estudos no seminario, a sua prudencia de +<span class="pagenum">[6]</span> +costumes, a sua obediencia: gabava-lhe mesmo a +voz: «<em>um timbre que é um +regalo!</em>» +<br /> + +<br /> + +—Para um bocado de sentimento nos sermões +da Semana Santa está a calhar! +<br /> + +<br /> + +Predizia-lhe com emphase um destino feliz, uma +conesia decerto, talvez a gloria d'um bispado! +<br /> + +<br /> + +E um dia, emfim, mostrou com satisfação ao +coadjutor +da Sé, creatura servil e calada, uma carta que +recebera de Lisboa de Amaro Vieira. +<br /> + +<br /> + +Era uma tarde de agosto e passeavam ambos +para os lados da Ponte Nova. Andava então a construir-se +a estrada da Figueira: o velho passadiço +de pau sobre a ribeira do Liz tinha sido destruido, +já se passava sobre a Ponte Nova, muito gabada, +com os seus dois largos arcos de pedra, fortes e +atarracados. Para diante as obras estavam suspendidas +por questões de expropriação; ainda se +via o +lodoso caminho da freguezia de Marrazes, que a estrada +nova devia desbastar e encorporar; camadas +de cascalho cobriam o chão; e os grossos cylindros +de pedra, que acalcam e recamam os macadams, enterravam-se +na terra negra e humida das chuvas. +<br /> + +<br /> + +Em roda da Ponte a paizagem é larga e tranquilla. +Para o lado d'onde o rio vem são collinas +baixas, de fórmas arredondadas, cobertas da rama +verde-negra dos pinheiros novos; em baixo, na espessura +dos arvoredos, estão os casaes que dão +áquelles logares melancolicos uma +feição mais viva +e humana—com as suas alegres paredes caiadas +que luzem ao sol, com os fumos das lareiras que pela +<span class="pagenum">[7]</span> +tarde se azulam nos ares sempre claros e lavados. +Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta nas +terras baixas entre dois renques de salgueiros pallidos, +estende-se até os primeiros areaes o campo de +Leiria, largo, fecundo, com o aspecto de aguas abundantes, +cheio de luz. Da Ponte pouco se vê da cidade; +apenas uma esquina das cantarias pesadas e +jesuiticas da Sé, um canto do muro do cemiterio +coberto de parietarias, e pontas agudas e negras dos +cyprestes; o resto está escondido pelo duro monte +ouriçado de vegetações rebeldes, onde +destacam as +ruinas do Castello, todas envolvidas á tarde nos largos +vôos circulares dos mochos, desmanteladas e com +um grande ar historico. +<br /> + +<br /> + +Ao pé da Ponte, uma rampa desce para a alameda +que se estende um pouco á beira do rio. É +um logar recolhido, coberto de arvores antigas. Chamam-lhe +a Alameda Velha. Alli, caminhando devagar, +fallando baixo, o conego consultava o coadjutor +sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre «uma idéa +que ella lhe dera, que lhe parecia de mestre! De +mestre!» Amaro pedia-lhe com urgencia que lhe arranjasse +uma casa de aluguel, barata, bem situada, +e se fosse possivel mobilada; fallava sobretudo de +quartos n'uma casa de hospedes respeitavel. «Bem +vê o meu caro Padre-Mestre, dizia Amaro, que era +isto o que verdadeiramente me convinha; eu não +quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria +o bastante. O que é necessario é que a casa seja +respeitavel, socegada, central; que a patrôa tenha +<span class="pagenum">[8]</span> +bom genio e que não peça mundos e fundos; deixo +tudo isto á sua prudencia e capacidade, e creia que +todos estes favores não cahirão em terreno +ingrato. +Sobretudo que a patrôa seja pessoa accommodada e +de boa lingua.» +<br /> + +<br /> + +Ora a minha idéa, amigo Mendes, é esta: +mettêl-o +em casa da S. Joanneira! resumiu o conego +com um grande contentamento. É rica idéa, hein? +<br /> + +<br /> + +—Soberba idéa! disse o coadjutor com a sua voz +servil. +<br /> + +<br /> + +—Ella tem o quarto de baixo, a saleta pegada +e o outro quarto que póde servir de escriptorio. Tem +boa mobilia, boas roupas... +<br /> + +<br /> + +—Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito. +<br /> + +<br /> + +O conego continuou: +<br /> + +<br /> + +—É um bello negocio para a S. Joanneira: dando +os quartos, roupas, comida, criada, póde muito +bem pedir os seus seis tostões por dia. E depois +sempre tem o parocho de casa. +<br /> + +<br /> + +—Por causa da Ameliasinha é que eu não sei, +considerou timidamente o coadjutor. Sim, póde ser +reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor +parocho é ainda novo... Vossa senhoria sabe o que +são linguas do mundo. +<br /> + +<br /> + +O conego tinha parado: +<br /> + +<br /> + +—Ora historias! Então o padre Joaquim não vive +debaixo das mesmas telhas com a afilhada da mãi? +E o conego Pedroso não vive com a cunhada, e uma +irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezenove +annos? Ora essa! +<span class="pagenum">[9]</span> +<br /> + +<br /> + +—Eu dizia... attenuou o coadjutor. +<br /> + +<br /> + +—Não, não vejo mal nenhum. A S. Joanneira +aluga os seus quartos, é como se fosse uma hospedaria. +Então o secretario geral não esteve lá +uns +poucos de mezes? +<br /> + +<br /> + +—Mas um ecclesiastico... insinuou o coadjutor. +<br /> + +<br /> + +—Mais garantias, snr. Mendes, mais garantias! +exclamou o conego. E parando, com uma attitude +confidencial:—E depois a mim é que me convinha, +Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo! +<br /> + +<br /> + +Houve um pequeno silencio. O coadjutor disse, +baixando a voz: +<br /> + +<br /> + +—Sim, vossa senhoria faz muito bem á S. Joanneira... +<br /> + +<br /> + +—Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que +posso, disse o conego. E com uma entonação terna, +risonhamente paternal:—que ella é merecedora, é +merecedora. Boa até alli, meu amigo!—Parou, esgazeando +os olhos:—Olhe que dia em que eu não +lhe appareça pela manhã ás nove em +ponto, está +n'um phrenesi! «Oh creatura! digo-lhe eu, a senhora +rala-se sem razão.» Mas então, +é aquillo! Pois quando +eu tive a colica o anno passado! Emmagreceu, snr. +Mendes! E depois não ha lembrança que +não tenha! +Agora, pela matança do porco, o melhor do animal +é para o <em>padre santo</em>, +vossê sabe? é como ella +me chama. +<br /> + +<br /> + +Fallava com os olhos luzidios, uma satisfação +babosa: +<br /> + +<br /> + +—Ah, Mendes! acrescentou, é uma rica mulher! +<span class="pagenum">[10]</span> +<br /> + +<br /> + +—E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente. +<br /> + +<br /> + +—Lá isso! exclamou o conego parando outra +vez. Lá isso! Bem conservada até alli! Pois olhe +que já não é criança! Mas +nem um cabello branco, +nem um, nem um só! E então que côr de +pelle!—E +mais baixo, com um sorriso guloso:—E isto +aqui! ó Mendes, e isto aqui!—Indicava o lado do +pescoço debaixo do queixo, passando-lhe devagar +por cima a sua mão papuda:—É uma +perfeição! E +depois mulher de aceio, muitissimo aceio! E que +lembrançasinhas! Não ha dia que me não +mande o +seu presente! é o covilhete de geleia, é o +pratinho +d'arroz dôce, é a bella murcella d'Arouca! Hontem +me mandou ella uma torta de maçã. Ora havia +de vossê vêr aquillo! A maçã +parecia um creme! Até +a mana Josepha disse: «Está tão boa que +parece +que foi cozida em agua benta!»—E pondo a mão +espalmada sobre o peito:—São coisas que tocam a +gente cá por dentro, Mendes! Não, não +é lá por dizer, +mas não ha outra. +<br /> + +<br /> + +O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja. +<br /> + +<br /> + +—Eu bem sei, disse o conego parando de novo +e tirando lentamente as palavras, eu bem sei que +por ahi rosnam, rosnam... Pois é uma grandissima +calumnia! O que é, é que eu tenho muito +apêgo +áquella gente. Já o tinha em tempo do marido. +Vossê +bem o sabe, Mendes. +<br /> + +<br /> + +O coadjutor teve um gesto affirmativo. +<span class="pagenum">[11]</span> +<br /> + +<br /> + +—A S. Joanneira é uma pessoa de bem! olhe +que é uma pessoa de bem, Mendes! exclamava o +conego batendo no chão fortemente com a ponteira +do guardasol. +<br /> + +<br /> + +—As linguas do mundo são venenosas, senhor +conego, disse o coadjutor com uma voz chorosa. E +depois d'um silencio acrescentou baixo:—Mas aquillo +a vossa senhoria deve-lhe sahir caro! +<br /> + +<br /> + +—Pois ahi está, meu amigo! Imagine vossê que +desde que o secretario geral se foi embora a pobre +da mulher tem tido a casa vazia: eu é que tenho +dado para a panella, Mendes! +<br /> + +<br /> + +—Que ella tem uma fazendita, considerou o +coadjutor. +<br /> + +<br /> + +—Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma +nesga de terra! E depois as decimas, os jornaes! +Por isso digo eu, o parocho é uma mina. Com os +seis tostões que elle der, com o que eu ajudar, com +alguma coisa que ella tire da hortaliça que vende +da fazenda, já se governa. E para mim é um +allivio, +Mendes. +<br /> + +<br /> + +—É um allivio, senhor conego! repetiu o coadjutor. +<br /> + +<br /> + +Ficaram calados. A tarde descahia muito limpida; +o alto céo tinha uma pallida côr azul; o ar estava +immovel. N'aquelle tempo o rio ia muito vazio; pedaços +de areia reluziam em sêcco; e a agua baixa +arrastava-se com um marulho brando, toda enrugada +do roçar dos seixos. +<br /> + +<br /> + +Duas vaccas, guardadas por uma rapariga, appareceram +<span class="pagenum">[12]</span> +então pelo caminho lodoso que do outro lado +do rio, defronte da alameda, corre junto d'um silvado; +entraram no rio devagar, e estendendo o pescoço +pellado da canga, bebiam de leve, sem ruido; +a espaços erguiam a cabeça bondosa, olhavam em +redor com a passiva tranquillidade dos sêres fartos—e +fios de agua, babados, luzidios á luz, pendiam-lhes +dos cantos do focinho. Com a inclinação do sol +a agua perdia a sua claridade espelhada, estendiam-se +as sombras dos arcos da ponte. Do lado das colinas +ia subindo um crepusculo esfumado, e as nuvens +côr de sanguinea e côr de laranja que annunciam +o calor faziam, sobre os lados do mar, uma +decoração +muito rica. +<br /> + +<br /> + +—Bonita tarde! disse o coadjutor. +<br /> + +<br /> + +O conego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o +bocejo: +<br /> + +<br /> + +—Vamo-nos chegando ás Ave-Marias, hein? +<br /> + +<br /> + +Quando, d'ahi a pouco, iam subindo as escadarias +da Sé, o conego parou, e voltando-se para o +coadjutor: +<br /> + +<br /> + +—Pois está decidido, amigo Mendes, ferro o +Amaro na casa da S. Joanneira! É uma pechincha +para todos. +<br /> + +<br /> + +—Uma grande pechincha! disse respeitosamente +o coadjutor. Uma grande pechincha! +<br /> + +<br /> + +E entraram na igreja, persignando-se. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +II +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Uma semana depois soube-se que o novo parocho +devia chegar pela diligencia de Chão de +Maçãs, +que traz o correio á tarde; e desde as seis horas o +conego Dias e o coadjutor passeavam no largo do +Chafariz, á espera de Amaro. +<br /> + +<br /> + +Era então nos fins de agosto. Na longa alameda +macadamisada que vai junto do rio, entre os dois +renques de velhos choupos, entreviam-se vestidos +claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na +correnteza de casebres pobres, velhas fiavam á porta; +crianças sujas brincavam pelo chão, mostrando +os seus enormes ventres nús; e gallinhas em redor +iam picando vorazmente as immundicies esquecidas. +Em redor do chafariz cheio de ruido, onde os cantaros +<span class="pagenum">[14]</span> +arrastam sobre a pedra, criadas ralham, soldados, com +a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, +meneando a chibata de junco; com o seu cantaro +bojudo de barro equilibrado á cabeça sobre a +rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os +quadris; e dois officiaes ociosos, com a farda desapertada +sobre o estomago, conversavam, esperando, +<em>a vêr quem viria</em>. A +diligencia tardava. Quando o +crepusculo desceu, uma lamparina luziu no nicho do +santo, por cima do Arco; e defronte iam-se alumiando +uma a uma, com uma luz soturna, as janellas +do hospital. +<br /> + +<br /> + +Já tinha anoitecido quando a diligencia, com as +lanternas accesas, entrou na Ponte ao trote esgalgado +dos seus magros cavallos brancos, e veio parar +ao pé do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; +o caixeiro do tio Patricio partiu logo a correr para +a Praça com o maço dos <em>Diarios +Populares</em>; o tio +Baptista, o patrão, com o cachimbo negro ao canto +da boca, desatrellava, praguejando tranquillamente; +e um homem que vinha na almofada, ao pé do cocheiro, +de chapéo alto e comprido capote ecclesiastico, +desceu cautelosamente, agarrando-se ás guardas de +ferro dos assentos, bateu com os pés no chão para +os desentorpecer, e olhou em redor. +<br /> + +<br /> + +—Oh, Amaro! gritou o conego que se tinha aproximado, +oh, ladrão! +<br /> + +<br /> + +—Oh, Padre-Mestre! disse o outro com alegria. +E abraçaram-se, emquanto o coadjutor, todo curvado, +tinha o barrete na mão. +<span class="pagenum">[15]</span> +<br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco as pessoas que estavam nas lojas +viram atravessar a Praça, entre a corpulencia vagarosa +do conego Dias e a figura esguia do coadjutor, +um homem um pouco curvado, com um capote de padre. +Soube-se que era o parocho novo; e disse-se logo +na botica que era <em>uma boa figura de +homem</em>. O João +Bicha levava adiante um bahú e um sacco de chita; +e como áquella hora já estava bebedo, ia +resmungando +o <em>Bemdito</em>. +<br /> + +<br /> + +Eram quasi nove horas, a noite cerrára. Em redor +da Praça as casas estavam já adormecidas: das +lojas debaixo da arcada sahia a luz triste dos candieiros +de petroleo, entreviam-se dentro figuras somnolentas, +caturrando em cavaqueira, ao balcão. As +ruas que vinham dar á Praça, tortuosas, +tenebrosas, +com um lampeão mortiço, pareciam deshabitadas. E +no silencio o sino da Sé dava vagarosamente o toque +das almas. +<br /> + +<br /> + +O conego Dias ia explicando pachorrentamente +ao parocho «o que lhe arranjára». +Não lhe tinha +procurado casa: seria necessario comprar mobilia, +buscar criada, despezas innumeraveis! Parecera-lhe +melhor tomar-lhe quartos n'uma casa de hospedes +respeitavel, de muito conchego—e n'essas +condições +(e alli estava o amigo coadjutor que o podia +dizer), não havia como a da S. Joanneira. Era bem +arejada, muito aceio, a cozinha não deitava cheiro; +tinha lá estado o secretario geral e o inspector dos +estudos; e a S. Joanneira (o Mendes amigo conhecia-a +bem) era uma mulher temente a Deus, de boas +<span class="pagenum">[16]</span> +contas, muito economica e cheia de condescendencias... +<br /> + +<br /> + +—Vossê está alli como em sua casa! Tem o seu +<em>cozido</em>, prato de meio, +café... +<br /> + +<br /> + +—Vamos a saber, Padre-Mestre: preço? disse o +parocho. +<br /> + +<br /> + +—Seis tostões. Que diabo, é de graça! +Tem um +quarto, tem uma saleta... +<br /> + +<br /> + +—Uma rica saleta, commentou o coadjutor respeitosamente. +<br /> + +<br /> + +—E é longe da Sé? perguntou Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Dois passos. Póde-se ir dizer missa de chinelos. +Na casa ha uma rapariga, continuou com a sua +voz pausada o conego Dias. É a filha da S. Joanneira. +Rapariga de vinte e dois annos. Bonita. Sua pontinha +de genio, mas bom fundo... Aqui tem vôsse a +sua rua. +<br /> + +<br /> + +Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada +pelas altas paredes da velha Misericordia, com um +lampeão lugubre ao fundo. +<br /> + +<br /> + +—E aqui tem vossê o seu palacio! disse o conego, +batendo na aldraba de uma porta esguia. +<br /> + +<br /> + +No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto +antigo, faziam saliencia, com os seus arbustos +de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas +de madeira; as janellas de cima, pequeninas, +eram de peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, +fazia lembrar uma lata amolgada. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira esperava no alto da escada; uma +criada, enfezada e sardenta, alumiava com um candieiro +<span class="pagenum">[17]</span> +de petroleo; e a figura da S. Joanneira destacava +plenamente na luz sobre a parede caiada. Era +gorda, alta, muito branca, d'aspecto pachorrento. +Os seus olhos pretos tinham já em redor a pelle engelhada; +os cabellos arripiados, com um enfeite escarlate, +eram já raros aos cantos da testa e no começo +da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, +um collo copioso e roupas aceadas. +<br /> + +<br /> + +—Aqui tem a senhora o seu hospede, disse o conego +subindo. +<br /> + +<br /> + +—Muita honra em receber o senhor parocho! +muita honra! Ha de vir muito cansado! por força! +Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrausinho. +<br /> + +<br /> + +Levou-o para uma sala pequena pintada de amarello, +com um vasto canapé de palhinha encostado à +parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de baeta +verde. +<br /> + +<br /> + +—É a sua sala, senhor parocho, disse a S. Joanneira. +Para receber, para espairecer... Aqui—acrescentou +abrindo uma porta—é o seu quarto de dormir. +Tem a sua commoda, o seu guarda-roupa...—Abriu +os gavetões, gabou a cama batendo a elasticidade +dos colxões—Uma campainha para chamar +sempre que queira... As chavinhas da commoda estão +aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... +Tem um cobertor só, mas querendo... +<br /> + +<br /> + +—Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, +disse o parocho com a sua voz baixa e suave. +<br /> + +<br /> + +—É pedir! O que ha, da melhor vontade... +<span class="pagenum">[18]</span> +<br /> + +<br /> + +—Oh creatura de Deus! interrompeu o conego +jovialmente, o que elle quer agora é cear! +<br /> + +<br /> + +—Tambem tem a ceiasinha prompta. Desde as +seis que está o caldo a apurar... +<br /> + +<br /> + +E sahiu, para apressar a criada, dizendo logo do +fundo da escada: +<br /> + +<br /> + +—Vá, <em>Ruça</em>, +mexe-te, mexe-te!... +<br /> + +<br /> + +O conego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo +a sua pitada: +<br /> + +<br /> + +—É contentar, meu rico. Foi o que se pôde +arranjar. +<br /> + +<br /> + +—Eu estou bem em toda a parte, Padre-Mestre, +disse o parocho, calçando os seus chinelos de ourelo. +Olha o seminario!... E em Feirão! Cahia-me a +chuva na cama. +<br /> + +<br /> + +Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque +de cornetas. +<br /> + +<br /> + +—Que é aquillo? perguntou Amaro, indo á janella. +<br /> + +<br /> + +—Ás nove e meia, o toque de recolher. +<br /> + +<br /> + +Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candieiro +esmorecia. A noite estava muito negra. E havia +sobre a cidade um silencio concavo, de abobada. +<br /> + +<br /> + +Depois das cornetas, um rufar lento de tambores +afastou-se para o lado do quartel; por baixo da janella +um soldado, que se demorára n'alguma viella +do castello, passou correndo; e das paredes da Misericordia +sahia constantemente o agudo piar das +corujas. +<span class="pagenum">[19]</span> +<br /> + +<br /> + +—É triste isto, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Mas a S. Joanneira gritou de cima: +<br /> + +<br /> + +—Póde subir, senhor conego! Está o caldo na +mesa! +<br /> + +<br /> + +—Ora vá, vá, que vossê deve estar a +cahir de +fome, Amaro!—disse o conego, erguendo-se muito +pesado. +<br /> + +<br /> + +E detendo um momento o parocho pela manga +do casaco: +<br /> + +<br /> + +—Vai vossê vêr o que é um caldo de +gallinha +feito cá pela senhora! Da gente se babar!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, +a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha +muito branca, a louça, os copos reluzindo á luz +forte d'um candieiro d'<em>abat-jour</em> +verde. Da terrina +subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa +a gallinha gorda, afogada n'um arroz humido e +branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma +apparencia succulenta de prato morgado. No armario +envidraçado, um pouco na sombra, viam-se côres +claras de porcelana; a um canto, ao pé da janella, +estava o piano, coberto com uma colcha de setim desbotado. +Na cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro +fresco que vinha d'um taboleiro de roupa lavada, o +parocho esfregou as mãos, regalado. +<br /> + +<br /> + +—Para aqui, senhor parocho, para aqui, disse a +<span class="pagenum">[20]</span> +S. Joanneira. D'ahi póde-lhe vir frio.—Foi fechar +as portadas das janellas; chegou-lhe um caixão de +areia para as pontas dos cigarros.—E o senhor conego +toma um copinho de geleia, sim? +<br /> + +<br /> + +—Vá lá, para fazer companhia, disse jovialmente +o conego, sentando-se e desdobrando o guardanapo. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira, no emtanto, mexendo-se pela sala, +ia admirando o parocho que, com a cabeça sobre o +prato, comia em silencio o seu caldo, soprando a +colhér. Parecia bem feito: tinha um cabello muito +preto, levemente annelado. O rosto era oval, de pelle +trigueira e fina, os olhos negros e grandes, com pestanas +compridas. +<br /> + +<br /> + +O conego, que não o via desde o seminario, achava-o +mais forte, mais viril. +<br /> + +<br /> + +—Vossê era enfezadito... +<br /> + +<br /> + +—Foi o ar da serra, dizia o parocho, fez-me +bem.—Contou então a sua triste existencia em +Feirão, +na alta Beira, durante a aspereza do inverno, só, +com pastores. O conego deitava-lhe o vinho de alto, +fazendo-o espumar. +<br /> + +<br /> + +—Pois é beber-lhe, homem! é beber-lhe! D'esta +gota não pilhava vossê no seminario. +<br /> + +<br /> + +Fallaram do seminario. +<br /> + +<br /> + +—Que será feito do Rabicho, o despenseiro? disse +o conego. +<br /> + +<br /> + +—E do Carôcho, que roubava as batatas? +<br /> + +<br /> + +Riram; e bebendo, na alegria das reminiscencias, +recordavam as historias de então, o catarrho do reitor, +<span class="pagenum">[21]</span> +e o mestre de canto-chão que deixára um dia +cahir do bolso as poesias obscenas de Bocage. +<br /> + +<br /> + +—Como o tempo passa, como o tempo passa! +diziam. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira então poz na mesa um prato covo +com maçãs assadas. +<br /> + +<br /> + +—Viva! Não, lá n'isso tambem eu entro! exclamou +logo o conego. A bella maçã assada! nunca +me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica +dona de casa, cá a nossa S. Joanneira! Grande dona +de casa! +<br /> + +<br /> + +Ella ria; viam-se os seus dois dentes de diante, +grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de +vinho do Porto; poz no prato do conego, com requintes +devotos, uma maçã desfeita polvilhada de +assucar; e batendo-lhe nas costas com a mão papuda +e molle: +<br /> + +<br /> + +—Isto é um santo, senhor parocho, isto é um +santo! +Ai, devo-lhe muitos favores! +<br /> + +<br /> + +—Deixe fallar, deixe fallar..., dizia o conego.—Espalhava-se-lhe +no rosto um contentamento baboso.—Boa +gota! acrescentou, saboreando o seu calix +de <em>porto</em>. Boa gota! +<br /> + +<br /> + +—Olhe que ainda é dos annos da Amelia, senhor +conego. +<br /> + +<br /> + +—E onde está ella, a pequena? +<br /> + +<br /> + +—Foi ao <em>Morenal</em> com a D. Maria. +Aquillo naturalmente +foram para casa das Gansosos passar a +noite. +<br /> + +<br /> + +—Cá esta senhora é proprietaria, explicou o +conego, +<span class="pagenum">[22]</span> +fallando do <em>Morenal</em>. É um +condado!—Ria +com bonhomia, e os seus olhos luzidios percorriam +ternamente a corpulencia da S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Ah, senhor parocho, deixe fallar, é uma nesga +de terra..., disse ella. +<br /> + +<br /> + +Mas vendo a criada encostada á parede, sacudida +com afflicções de tosse: +<br /> + +<br /> + +—Ó mulher, vai tossir lá p'ra dentro! credo! +<br /> + +<br /> + +A moça sahiu, pondo o avental sobre a boca. +<br /> + +<br /> + +—Parece doente, coitada, observou o parocho. +<br /> + +<br /> + +Muito achacada, muito!... A <em>pobre de +Christo</em> era +sua afilhada, orphã, e estava quasi tisica. Tinha-a +tomado por piedade... +<br /> + +<br /> + +—E tambem porque a criada que cá tinha foi para +o hospital, a desavergonhada... Metteu-se ahi +com um soldado!... +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro baixou devagar os olhos—e trincando +migalhas perguntou se havia muitas doenças +n'aquelle verão. +<br /> + +<br /> + +—Cholerinas, das fructas verdes, rosnou o conego. +Mettem-se pelas melancias, depois tarraçadas de +agua... E suas febritas... +<br /> + +<br /> + +Fallaram então das sezões do campo, dos ares +de Leiria. +<br /> + +<br /> + +—Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando +mais forte. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, +tenho saude, tenho! +<br /> + +<br /> + +—Ai, Nosso Senhor lh'a conserve, que nem sabe +o bem que é! exclamou a S. Joanneira.—Contou immediatamente +a grande desgraça que tinha em casa, +<span class="pagenum">[23]</span> +uma irmã meia idiota entrevada havia dez annos! +Ia fazer sessenta annos... No inverno viera-lhe um +catarrho, e desde então, coitadinha, definhava, definhava... +<br /> + +<br /> + +—Ha bocado, ao fim da tarde, teve ella um ataque +de tosse! Pensei que se ia embora. Agora descansou +mais... +<br /> + +<br /> + +Continuou a fallar «d'aquella tristeza», depois +da sua Ameliasinha, das Gansosos, do antigo chantre, +da carestia de tudo—sentada, com o gato no +collo, rolando com os dois dedos, monotonamente, +bolinhas de pão. O conego, pesado, cerrava as palpebras; +tudo na sala parecia ir gradualmente adormecendo; +a luz do candieiro esmorecia. +<br /> + +<br /> + +—Pois senhores, disse por fim o conego mexendo-se, +isto são horas! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos +deu as <em>graças</em>. +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho quer lamparina? perguntou +cuidadosamente a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Não, minha senhora. Não uso. Boas noites! +<br /> + +<br /> + +E desceu devagar, palitando os dentes. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira alumiava no patamar, com o candieiro. +Mas nos primeiros degraus o parocho parou, +e voltando-se, affectuosamente: +<br /> + +<br /> + +—É verdade, minha senhora, ámanhã +é sexta-feira, +é jejum... +<br /> + +<br /> + +—Não, não, acudiu o conego que se embrulhava +na capa de lustrina, bocejando, vossê +ámanhã +janta commigo. Eu venho por cá, vamos ao chantre, +<span class="pagenum">[24]</span> +á Sé, e por ahi... E olhe que tenho lulas. +É um milagre, +que isto aqui nunca ha peixe. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira tranquillisou logo o parocho: +<br /> + +<br /> + +—Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor parocho. +Tenho o maior escrupulo! +<br /> + +<br /> + +—Eu dizia, explicou o parocho, porque infelizmente +hoje em dia ninguem cumpre... +<br /> + +<br /> + +—Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ella. +Mas eu! credo!... A salvação da minha alma antes +de tudo! +<br /> + +<br /> + +A campainha em baixo, então, retiniu fortemente. +<br /> + +<br /> + +—Ha de ser a pequena, disse a S. Joanneira. +Abre, <em>Ruça</em>! +<br /> + +<br /> + +A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos. +<br /> + +<br /> + +-És tu, Amelia? +<br /> + +<br /> + +Uma voz disse <em>adeusinho! adeusinho!</em> +E appareceu, +subindo quasi a correr, com os vestidos um +pouco apanhados adiante, uma bella rapariga, forte, +alta, bem feita, com uma manta branca pela cabeça +e na mão um ramo de alecrim. +<br /> + +<br /> + +—Sobe, filha. Aqui está o senhor parocho. Chegou +agora á noitinha, sobe! +<br /> + +<br /> + +Amelia tinha parado um pouco embaraçada, +olhando para os degraus de cima, onde o parocho +ficára, encostado ao corrimão. Respirava +fortemente +de ter corrido; vinha córada; os seus olhos vivos +e negros luziam; e sahia d'ella uma sensação de +frescura e de prados atravessados. +<br /> + +<br /> + +O parocho desceu, cingido ao corrimão, para a +deixar passar, murmurando <em>boas +noites!</em> com a cabeça +<span class="pagenum">[25]</span> +baixa. O conego, que descia atraz, pesadamente, +tomou o meio da escada, diante de Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Então isto são horas, sua bréjeira! +<br /> + +<br /> + +Ella teve um risinho, encolheu-se. +<br /> + +<br /> + +—Ora vá-se encommendar a Deus, vá! disse +batendo-lhe +no rosto devagarinho com a sua mão grossa +e cabelluda. +<br /> + +<br /> + +Ella subiu a correr, emquanto o conego, depois +d'ir buscar o guardasol á saleta, sahia, dizendo +á +criada, que erguia o candieiro sobre a escada: +<br /> + +<br /> + +—Está bom, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. +Então ás oito, Amaro! Esteja a pé! +Vai-te, rapariga, +adeus! Reza á Senhora da Piedade que te seque +essa catarrheira. +<br /> + +<br /> + +O parocho fechou a porta do quarto. A roupa da +cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho +lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura +antiga d'um Christo crucificado. Amaro abriu o seu +Breviario, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; +mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e +então por cima, sobre o tecto, através das +orações +rituaes que machinalmente ia lendo, começou a sentir +o <em>tic-tic</em> das botinas de Amelia e o +ruido das +saias engommadas que ella sacudia ao despir-se. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +III +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora +marqueza d'Alegros. Seu pai era criado do +marquez; a mãi era criada de quarto, quasi uma amiga +da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um +livro, o <em>Menino das selvas</em>, com +barbaras imagens +coloridas, que tinha escripto na primeira pagina +branca: <em>Á minha muito estimada criada +Joanna +Vieira e verdadeira amiga que sempre tem sido,—Marqueza +d'Alegros</em>. Possuia tambem um daguerreotypo +de sua mãi: era uma mulher forte, de sobrancelhas +cerradas, a boca larga e sensualmente +fendida, e uma côr ardente. O pai de Amaro tinha +morrido de apoplexia; e a mãi, que fôra sempre +tão +sã, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge. +Amaro completára então seis annos. Tinha +<span class="pagenum">[28]</span> +uma irmã mais velha que desde pequena vivia com +a avó em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do +bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhára +amizade a Amaro; conservou-o em sua casa, por +uma adopção tacita; e começou, com +grandes escrupulos, +a vigiar a sua educação. +<br /> + +<br /> + +A marqueza d'Alegros ficára viuva aos quarenta +e tres annos e passava a maior parte do anno retirada +na sua quinta de Carcavellos. Era uma pessoa +passiva, de bondade indolente, com capella em casa, +um respeito devoto pelos padres de S. Luiz, sempre +preoccupada dos interesses da Igreja. As suas +duas filhas, educadas no receio do Céo e nas +preoccupações +da Moda, eram beatas e faziam o <em>chic</em> +fallando +com igual fervor da humildade christã e do +ultimo figurino de Bruxellas. Um jornalista de então +dissera d'ellas:—Pensam todos os dias na +<em>toilette</em> +com que hão de entrar no paraiso. +<br /> + +<br /> + +No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta +de alamedas aristocraticas onde os pavões gritavam, +as duas meninas enfastiavam-se. A Religião, a Caridade +eram então occupações avidamente +aproveitadas: +cosiam vestidos para os pobres da freguezia, +bordavam frontaes para os altares da igreja. De maio +a outubro estavam inteiramente absorvidas pelo trabalho +de <em>salvar a sua alma</em>; liam os livros +beatos +e dôces; como não tinham S. Carlos, as visitas, a +Aline, recebiam os padres e cochichavam sobre a +virtude dos santos. Deus era o seu luxo de verão. +<br /> + +<br /> + +A senhora marqueza resolvera desde logo fazer +<span class="pagenum">[29]</span> +entrar Amaro na vida ecclesiastica. A sua figura amarellada +e magrita pedia aquelle destino recolhido: +era já affeiçoado ás coisas de +capella, e o seu encanto +era estar aninhado ao pé de mulheres, no calor +das saias unidas, ouvindo fallar de santas. A senhora +marqueza não o quiz mandar ao collegio porque receava +a impiedade dos tempos e as camaradagens +immoraes. O capellão da casa ensinava-lhe o latim, e +a filha mais velha, a snr.<sup>a</sup> D. Luiza, que tinha +um +nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe +lições +de francez e de geographia. +<br /> + +<br /> + +Amaro era, como diziam os criados, <em>um mosquinha +morta</em>. Nunca brincava, nunca pulava ao sol. Se +á tarde acompanhava a senhora marqueza ás +alamedas +da quinta quando ella descia pelo braço do padre +Liset ou do respeitoso procurador Freitas, ia +a seu lado, môno, muito encolhido, torcendo com as +mãos humidas o forro das algibeiras—vagamente +assustado das espessuras d'arvoredos e do vigor das +relvas altas. +<br /> + +<br /> + +Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, +ao pé d'uma ama velha. As criadas de resto +feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no +no meio d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, +e elle rolava por entre as saias, em contacto com +os corpos, com gritinhos de contentamento. Ás vezes, +quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no +de mulher, entre grandes risadas: elle abandonava-se, +meio nú, com os seus modos languidos, os olhos +quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, +<span class="pagenum">[30]</span> +além d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas +umas com as outras: era Amaro o que <em>fazia as +queixas</em>. +Tornou-se enredador, muito mentiroso. +<br /> + +<br /> + +Aos onze annos, ajudava á missa, e aos sabbados +limpava a capella. Era o seu melhor dia; fechava-se +por dentro, collocava os santos em plena luz em +cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas +e satisfações gulosas; e toda a manhã, +muito atarefado, +cantarolando o Santissimo, ia tirando a traça +dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e +cré as auréolas dos Martyres. +<br /> + +<br /> + +No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, +miudo e amarellado; nunca dava uma boa risada, +trazia sempre as mãos dos bolsos. Estava constantemente +mettido nos quartos das criadas, remexendo +as gavetas; bolia nas saias sujas, cheirava os algodões +postiços. Era extremamente preguiçoso, e custava +de manhã arrancal-o a uma somnolencia doentia +em que ficava amollecido, todo embrulhado nos +cobertores e abraçado ao travesseiro. Já +corcovava +um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +N'um domingo gordo, uma manhã, depois da +missa, ao chegar-se ao terraço, a senhora marqueza +de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava +no seu testamento um legado para que Amaro, o filho +da sua criada Joanna, entrasse aos quinze annos no +seminario e se ordenasse. O padre Liset ficava encarregado +<span class="pagenum">[31]</span> +de realisar esta disposição piedosa. Amaro +tinha então treze annos. +<br /> + +<br /> + +As filhas da senhora marqueza deixaram logo +Carcavellos e foram para Lisboa, para casa da snr.<sup>a</sup> +D. Barbara de Noronha, sua tia paterna. Amaro foi +mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro +era um homem obeso, casado com a filha d'um +pobre empregado publico, que o aceitára para sahir +da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia +fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o +marido, as suas mãos cabelludas, a loja, o bairro e +o seu apellido de snr.<sup>a</sup> Gonçalves. O +marido esse +adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo; +carregava-a de joias e chamava-lhe <em>a sua +duqueza</em>. +<br /> + +<br /> + +Amaro não encontrou alli o elemento feminino e +carinhoso em que estivera tepidamente envolvido +em Carcavellos. A tia quasi não reparava n'elle; passava +os seus dias lendo romances, as analyses dos +theatros nos jornaes, vestida de sêda, coberta de +pó +d'arroz, o cabello em cachos, esperando a hora em +que passava debaixo das janellas, puxando os punhos, +o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro +apropriou-se então de Amaro como d'uma utilidade +imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer +logo ás cinco horas da manhã; e o rapaz tremia +na sua jaqueta de pano azul, molhando á pressa +o pão na chavena de café, ao canto da mesa da +cozinha. +De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe +o <em>cebola</em> e o tio chamava-lhe o +<em>burro</em>. Pesava-lhes +até o magro pedaço de vacca que elle comia ao +jantar. +<span class="pagenum">[32]</span> +Amaro emmagrecia e todas as noites chorava. +<br /> + +<br /> + +Sabia já que aos quinze annos devia entrar no +seminario. O tio todos os dias lh'o lembrava: +<br /> + +<br /> + +—Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, +burro! Em tendo quinze annos é para o +seminario. Não tenho obrigação de +carregar comtigo! +Besta na argola, não está nos meus principios! +<br /> + +<br /> + +E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento. +<br /> + +<br /> + +Nunca ninguem consultára as suas tendencias ou +a sua vocação. Impunham-lhe uma sobrepelliz; a +sua +natureza passiva, facilmente dominavel, aceitava-a, +como aceitaria uma farda. De resto não lhe desagradava +<em>ser padre</em>. Desde que sahira das +rezas perpetuas +de Carcavellos conservára o seu medo do inferno, +mas perdera o fervor dos santos; lembravam-lhe +porém os padres que vira em casa da senhora +marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam +ao lado das fidalgas e tomavam rapé em caixas +d'ouro; e convinha-lhe aquella profissão em que se +falla baixo com as mulheres,—vivendo entre ellas, +cochichando, sentindo-lhes o calor penetrante,—e +se recebem presentes em bandejas de prata. Recordava +o padre Liset com um annel de rubi no dedo +minimo; monsenhor Sávedra com os seus bellos oculos +d'ouro, bebendo aos goles o seu copo de +<em>madeira</em>. +As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes +chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fôra padre +na Bahia, viajára, estivera em Roma, era muito +<span class="pagenum">[33]</span> +jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas que cheiravam +a agua de colonia apoiadas ao castão d'ouro +da bengala, todo rodeado de senhoras em extase e +cheias d'um riso beato, cantava, para as entreter, +com a sua bella voz:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Mulatinha da Bahia,<br /> + +Nascida no Capujá...</div> + +<br /> + +<br /> + +Um anno antes de entrar para o seminario o tio +fel-o ir a um mestre para se affirmar mais no latim, +e dispensou-o de estar ao balcão. Pela primeira +vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia só +á escóla, passeava pelas ruas. Viu a cidade, o +exercicio +de infanteria, espreitou ás portas dos cafés, leu +os cartazes dos theatros. Sobretudo começára a +reparar +muito nas mulheres—e vinham-lhe, de tudo +o que via, grandes melancolias. A sua hora triste +era ao anoitecer, quando voltava da escóla, ou aos +domingos depois de ter ido passear com o caixeiro +ao jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, +na trapeira, com uma janellinha n'um vão sobre os +telhados. Encostava-se alli olhando, e via parte da +cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de +pontos de gaz: parecia-lhe perceber, vindo de lá, +um rumor indefinido: era a vida que não conhecia +e que julgava maravilhosa, com cafés abrazados de +luz e mulheres que arrastam ruge-ruges de sêdas +pelos perystillos dos theatros; perdia-se em +imaginações +vagas, e de repente appareciam-lhe no fundo +negro da noite fórmas femininas, por fragmentos, +<span class="pagenum">[34]</span> +uma perna com botinas de duraque e a meia muito +branca, ou um braço roliço arregaçado +até ao hombro... +Mas em baixo, na cozinha, a criada começava +a lavar a louça, cantando: era uma rapariga gorda, +muito sardenta; e vinham-lhe então desejos de descer, +ir roçar-se por ella, ou estar a um canto a vêl-a +escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres +que vira nas viellas, de saias engommadas e ruidosas, +passeando em cabello, com botinas cambadas: +e, da profundidade do seu sêr, subia-lhe uma +preguiça, +como que a vontade de abraçar alguem, de não +se sentir só. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. +Mas o tio chamava-o de baixo: +<br /> + +<br /> + +—Então tu não estudas, mariola? +<br /> + +<br /> + +E d'ahi a pouco, sobre o <em>Tito-Livio</em>, +cabeceando +de somno, sentindo-se desgraçado, roçando os +joelhos +um contra o outro, torturava o diccionario. +<br /> + +<br /> + +Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento +pela vida de padre, <em>porque não poderia +casar</em>. +Já as convivencias da escóla tinham introduzido +na sua natureza effeminada curiosidades, +corrupções. +Ás escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava +mais amarello. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Entrou no seminario. Nos primeiros dias os longos +corredores de pedra um pouco humidos, as lampadas +tristes, os quartos estreitos e gradeados, as +batinas negras, o silencio regulamentado, o toque +<span class="pagenum">[35]</span> +das sinetas—deram-lhe uma tristeza lugubre, aterrada. +Mas achou logo amizades; o seu rosto bonito +agradou. Começaram a tratal-o por +<em>tu</em>, a admittil-o, +durante as horas de recreio ou nos passeios do domingo, +ás conversas em que se contavam anecdotas +dos mestres, se calumniava o reitor, e perpetuamente +se lamentavam as melancolias da clausura: porque +quasi todos fallavam com saudade das existencias livres +que tinham deixado: os da aldeia não podiam +esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas +cheias de cantigas e de abraços, as filas da boiada +que recolhe, emquanto um vapor se exhala dos prados; +os que vinham das pequenas villas lamentavam +as ruas tortuosas e tranquillas d'onde se namoram +as visinhas, os alegres dias de mercado, as grandes +aventuras do tempo em que se estuda latim. Não +lhes bastava o pateo do recreio lageado, com as suas +arvores definhadas, os altos muros somnolentos, o +monotono jogo da bola: abafavam na estreiteza dos +corredores, na sala de Santo Ignacio, onde se faziam +as meditações da manhã e se estudavam +á noite +as lições; e invejavam todos os destinos livres +ainda +os mais humildes—o almocreve que viam passar na +estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia +cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os +mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o +seu alforge escuro. +<br /> + +<br /> + +Da janella d'um corredor via-se uma volta de estrada; +á tardinha uma diligencia costumava passar, +levantando a poeira, entre os estalidos do chicote, ao +<span class="pagenum">[36]</span> +trote das tres eguas, carregada de bagagens; passageiros +alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, +sopravam o fumo dos charutos; quantos +olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando +com elles para as alegres villas e para as cidades, +pela frescura das madrugadas ou sob a claridade +das estrellas! +<br /> + +<br /> + +E no refeitorio, diante do escasso caldo de hortaliça, +quando o regente de voz grossa começava a +lêr monotonamente as cartas d'algum missionario da +China ou as Pastoraes do senhor Bispo, quantas saudades +dos jantares de familia! As boas postas de peixe! +o tempo da matança! os rojões quentes que chiam +no prato! os sarrabulhos cheirosos! +<br /> + +<br /> + +Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade +do tio, do rosto enfastiado da tia coberto de +pó d'arroz; mas insensivelmente poz-se tambem a +ter saudades dos seus passeios aos domingos, da +claridade do gaz e das voltas da escóla com os livros +n'uma correia, quando parava encostado á vitrina +das lojas a contemplar a nudez das bonecas! +<br /> + +<br /> + +Lentamente, porém, com a sua natureza incaracteristica, +foi entrando como uma ovelha indolente na regra do +seminario. Decorava com regularidade os +seus compendios; tinha uma exactidão prudente nos +serviços ecclesiasticos; e calado, encolhido, curvando-se +muito baixo diante dos lentes—chegou a ter +boas notas. +<br /> + +<br /> + +Nunca pudera comprehender os que pareciam gozar +o seminario com beatitude e maceravam os joelhos, +<span class="pagenum">[37]</span> +ruminando, com a cabeça baixa, textos da +<em>Imitação</em> +ou de Santo Ignacio; na capella, com os olhos +em alvo, empallideciam d'extase; mesmo no recréio, +ou nos passeios, iam lendo algum volumesinho de +<em>Louvores a Maria</em>; e cumpriam com +delicia as regras +mais miudas—até subir só um degrau de cada vez, +como recommenda S. Boaventura. A esses o seminario +dava um ante-gosto do céo: a elle só lhe +offerecia +as humilhações d'uma prisão, com os +tedios +d'uma escóla. +<br /> + +<br /> + +Não comprehendia tambem os ambiciosos: os que +queriam ser caudatarios d'um bispo, e nas altas salas +dos paços episcopaes erguer os reposteiros de +velho damasco; os que desejavam viver nas cidades +depois de ordenados, servir uma igreja aristocratica, +e, diante das devotas ricas que se accumulam no +<em>frou-frou</em> +das sêdas sobre o tapete do altar-mór, cantar +com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fóra +da Igreja: ambicionavam ser militares e arrastar nas +ruas lageadas o <em>tlim-tlim</em> d'um +sabre; ou a farta vida +da lavoura, e desde a madrugada, com um chapéo +desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, +dar ordens nas largas eiras cheias de medas, apear +á porta das adegas. E, a não ser alguns devotos, +todos, +ou aspirando ao sacerdocio ou aos destinos seculares, +queriam deixar a estreiteza do seminario para +comer bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres. +<br /> + +<br /> + +Amaro não desejava nada: +<br /> + +<br /> + +—Eu nem sei..., dizia elle melancolicamente. +<span class="pagenum">[38]</span> +<br /> + +<br /> + +No entretanto, escutando por sympathia aquelles +para quem o seminario era o «tempo das +galés», sahia +muito perturbado d'aquellas conversas cheias de +impaciente ambição da vida livre. Ás +vezes fallavam +de fugir. Faziam planos, calculando a altura das janellas, +as peripecias da noite negra pelos negros caminhos: +anteviam balcões de tabernas onde se bebe, salas +de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava +todo nervoso: sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se +sem dormir e, no fundo das suas imaginações +e dos seus sonhos, ardia, como uma braza silenciosa, +o desejo da Mulher. +<br /> + +<br /> + +Na sua cella havia uma imagem da Virgem coroada +de estrellas, pousada sobre a esphera, com o +olhar errante pela luz immortal, calcando aos pés a +serpente. Amaro voltava-se para ella como para um +refugio, rezava-lhe a Salve-Rainha: mas, ficando a +contemplar a lithographia, esquecia a santidade da +Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; +amava-a; suspirava; despindo-se olhava-a de revez +lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava +erguer as pregas castas da tunica azul da imagem +e suppôr fórmas, redondezas, uma carne branca... +Julgava então vêr os olhos do Tentador luzir na +escuridão +do quarto; aspergia a cama d'agua benta; +mas não se atrevia a revelar estes delirios, no +confessionario, +ao domingo. +<br /> + +<br /> + +Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de +Moral fallar, com a sua voz roufenha, do Peccado, +comparal-o á serpente e, com palavras unctuosas e +<span class="pagenum">[39]</span> +gestos arqueados, deixando cahir vagarosamente a +pompa mellíflua dos seus periodos, aconselhar os +seminaristas +a que, imitando a Virgem, calcassem aos +pés a <em>serpente ominosa</em>! E +depois era o mestre de +Theologia mystica que fallava, sorvendo o seu rapé, +no dever de <em>vencer a Natureza</em>! E +citando S. João de +Damasco e S. Chrysologo, S. Cypriano e S. Jeronymo, +explicava os anathemas dos santos contra a Mulher, +a quem chamava, segundo as expressões da +Igreja, Serpente, Dardo, Filha da mentira, Porta do +inferno, Cabeça do crime, Escorpião... +<br /> + +<br /> + +—E como disse o nosso padre S. Jeronymo,—e +assoava-se estrondosamente—Caminho de iniquidades, +<em>iniquitas via</em>! +<br /> + +<br /> + +Até nos compendios encontrava a +preoccupação da +Mulher! Que sêr era esse, pois, que através de +toda +a theologia ora era collocada sobre o altar como a +Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apostrophes +barbaras? Que poder era o seu, que a legião dos +santos ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixão +extatica, dando-lhe por acclamação o profundo +reino dos céos,—ora vai fugindo diante d'ella como +do Universal Inimigo, com soluços de terror e +gritos d'odio, e escondendo-se, para a não vêr, +nas +thebaidas e nos claustros, vai alli morrendo do mal +de a ter amado? Sentia, sem as definir, estas +perturbações! +ellas renasciam, desmoralisavam-no perpetuamente: +e já antes de fazer os seus votos desfallecia +no desejo de os quebrar. +<br /> + +<br /> + +E em redor d'elle sentia iguaes rebelliões da +<span class="pagenum">[40]</span> +natureza: os estudos, os jejuns, as penitencias podiam +domar o corpo, dar-lhe habitos machinaes, mas dentro +os desejos moviam-se silenciosamente, como n'um +ninho serpentes imperturbadas. Os que mais soffriam +eram os sanguineos, tão doloridamente apertados na +Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos punhos +das camisas. Assim, quando estavam sós, o +temperamento irrompia: luctavam, faziam forças, +provocavam desordens. Nos lymphaticos a natureza +comprimida produzia as grandes tristezas, os silencios +molles: desforravam-se então no amor dos pequenos +vícios: jogar com um velho baralho, lêr um +romance, obter de intrigas demoradas um maço de +cigarros—quantos encantos do peccado! +<br /> + +<br /> + +Amaro por fim quasi invejava os estudiosos; ao +menos esses estavam contentes, estudavam perpetuamente, +escrevinhavam notas no silencio da alta livraria, +eram respeitados, usavam oculos, tomavam +rapé. Elle mesmo tinha ás vezes +ambições repentinas +da sciencia; mas diante dos vastos +<em>in-folios</em> vinha-lhe +um tedio insuperavel. Era no emtanto devoto: +rezava, tinha fé illimitada em certos santos, um +terror angustioso de Deus. Mas odiava a clausura do +seminario! A capella, os chorões do pateo, as comidas +monotonas do longo refeitorio lageado, os cheiros +dos corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: +parecia-lhe que seria bom, puro, crente, se estivesse +na liberdade d'uma rua ou na paz d'um quintal, +fóra d'aquellas negras paredes. Emmagrecia, tinha +suores eticos: e mesmo no ultimo anno, depois +<span class="pagenum">[41]</span> +do serviço pesado da Semana Santa, como começavam +os calores, entrou na enfermaria com uma febre +nervosa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Ordenou-se emfim pelas temporas de S. Matheus; +e pouco tempo depois recebeu, ainda no seminario, +esta carta do snr. padre Liset: +<br /> + +<br /> + +«Meu querido filho e novo collega.—Agora que +está ordenado, entendo em minha consciencia que +devo dar-lhe conta do estado dos seus negocios, +pois quero cumprir até ao fim o encargo com que +carregou os meus hombros debeis a nossa chorada +marqueza, attribuindo-me a honra de administrar o +legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens +mundanos pouco deviam importar a uma alma votada +ao sacerdocio, são sempre as boas contas que fazem +os bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, +que o legado da querida marqueza—para quem deve +erguer em sua alma uma gratidão eterna—está +inteiramente exhausto. Aproveito esta occasião para +lhe dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, +tendo liquidado o estabelecimento, se entregou a um +caminho que o respeito me impede de qualificar: +cahiu sob o imperio das paixões, e tendo-se ligado +illegitimamente, +viu os seus bens perdidos juntamente +com a sua pureza, e hoje estabeleceu uma casa de +hospedes na rua dos Calafates n.º 53. Se toco n'estas +impurezas, tão improprias de que um tenro levita +<span class="pagenum">[42]</span> +como o meu querido filho tenha d'ellas conhecimento, +é porque lhe quero dar cabal relação +da sua +respeitavel familia. Sua irmã, como decerto sabe, +casou rica em Coimbra, e ainda que no casamento +não é o ouro que devemos apreciar, é +todavia importante, +para futuras circumstancias, que o meu querido +filho esteja de posse d'este facto. Do que me escreveu +o nosso querido reitor a respeito de o mandarmos +para a freguezia de Feirão, na Gralheira, +vou fallar com algumas pessoas importantes que têm +a extrema bondade de attender um pobre padre que +só pede a Deus misericordia. Espero, todavia, conseguir. +Persevere, meu querido filho, nos caminhos +da virtude, de que sei que a sua boa alma está repleta, +e creia que se encontra a felicidade n'este nosso +santo ministerio quando sabemos comprehender +quantos são os balsamos que derrama no peito e quantos +os refrigerios que dá—o serviço de Deus! Adeus, +meu querido filho e novo collega. Creia que sempre +o meu pensamento estará com o pupillo da nossa +chorada marqueza, que decerto do céo, onde a elevaram +as suas virtudes, supplica á Virgem, que ella +tanto serviu e amou, a felicidade do seu caro pupillo.» +<em>Liset</em>. +<br /> + +<br /> + +«P. S.—O appellido do marido de sua irmã +é +Trigoso.» <em>Liset</em>. +<br /> + +<br /> + +Dois mezes depois Amaro foi nomeado parocho +de Feirão, na Gralheira, serra da Beira-Alta. Esteve +alli desde outubro até ao fim das neves. +<br /> + +<br /> + +Feirão é uma parochia pobre de pastores e +<span class="pagenum">[43]</span> +n'aquella época quasi deshabitada. Amaro passou o +tempo muito ocioso, ruminando o seu tedio á lareira, +ouvindo fóra o inverno bramir na serra. Pela primavera +vagaram nos districtos de Santarem e de Leiria +parochias populosas, com boas congruas. Amaro +escreveu logo á irmã contando a sua pobreza em +Feirão; ella mandou-lhe, com +recommendações de +economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. +Amaro partiu immediatamente. Os ares lavados e vivos +da serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava +robusto, direito, sympathico, com uma boa côr na +pelle trigueira. +<br /> + +<br /> + +Logo que chegou a Lisboa foi á rua dos Calafates +n.º 53, a casa da tia: achou-a velha, com laços +vermelhos n'uma cuia enorme, toda coberta de pó +d'arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria +piedosa que abriu os seus magros braços a Amaro. +<br /> + +<br /> + +-Como estás bonito! Ora não ha! Quem te viu! +Ih, Jesus! que mudança! +<br /> + +<br /> + +Admirava-lhe a batina, a corôa: e contando-lhe +as suas desgraças, com exclamações +sobre a salvação +da sua alma e sobre a carestia dos generos, foi-o +levando para o terceiro andar, a um quarto que dava +para o saguão. +<br /> + +<br /> + +—Ficas aqui como um abbade, disse-lhe ella. E +baratinho!... Ai! ter-te de graça queria eu, mas... +Tenho sido muito infeliz, Joãosinho!... Ai! desculpa, +Amaro! Estou sempre com o Joãosinho na cabeça... +<br /> + +<br /> + +Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset +em S. Luiz. Tinha ido para França. Lembrou-se +então +<span class="pagenum">[44]</span> +da filha mais nova da senhora marqueza d'Alegros, +a snr.<sup>a</sup> D. Luiza, que estava casada com o conde +de Ribamar, conselheiro d'Estado, com influencia, +regenerador fiel desde cincoenta e um e duas +vezes ministro do reino. +<br /> + +<br /> + +E, por conselho da tia, Amaro, logo que metteu o +seu requerimento, foi uma manhã a casa da snr.<sup>a</sup> +condessa de Ribamar, a Buenos-Ayres. Á porta um +<em>coupé</em> esperava. +<br /> + +<br /> + +—A senhora condessa vai sahir, disse um criado +de gravata branca e quinzena de alpaca, encostado +á hombreira do pateo, de cigarro na boca. +<br /> + +<br /> + +N'esse momento, d'uma porta de batentes de baena +verde, sobre um degrau de pedra, ao fundo do +pateo lageado, uma senhora sahia, vestida de claro. +Era alta, magra, loura, com pequeninos cabellos frisados +sobre a testa, lunetas d'ouro n'um nariz comprido +e agudo, e no queixo um signalzinho de cabellos +claros. +<br /> + +<br /> + +—A senhora condessa já me não conhece..., disse +Amaro com o chapéo na mão, adiantando-se curvado. +Sou o Amaro. +<br /> + +<br /> + +—O Amaro!? disse ella como estranha ao nome. +Ah! bom Jesus, quem elle é! Ora não ha! +Está um +homem! Quem diria! +<br /> + +<br /> + +Amaro sorria-se. +<br /> + +<br /> + +—Eu podia lá esperar! continuou ella admirada. +E está agora em Lisboa? +<br /> + +<br /> + +Amaro contou a sua nomeação para +Feirão, a pobreza +da parochia... +<span class="pagenum">[45]</span> +<br /> + +<br /> + +—De maneira que vim requerer, senhora condessa. +<br /> + +<br /> + +Ella escutava-o com as mãos apoiadas n'uma alta +sombrinha de sêda clara, e Amaro sentia vir d'ella +um perfume de pó d'arroz e uma frescura de cambraias. +<br /> + +<br /> + +—Pois deixe estar, disse ella, fique descansado. +Meu marido ha de fallar. Eu me encarrego d'isso. +Olhe, venha por cá.—E com o dedo sobre o canto +da boca:—Espere, ámanhã vou para Cintra. +Domingo, +não. O melhor é d'aqui a quinze dias. D'aqui +a quinze dias pela manhã, sou certa.—E rindo com +os seus largos dentes frescos:—Parece que o estou +a vêr traduzir Chateaubriand com a mana Luiza! +Como o tempo passa! +<br /> + +<br /> + +—Passa bem a senhora sua mana? perguntou +Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Sim, bem. Está n'uma quinta em Santarem. +<br /> + +<br /> + +Deu-lhe a mão, calçada de <em>peau +de suède</em>, n'um +aperto sacudido que fez tilintar os seus braceletes +d'ouro, e saltou para o +<em>coupé</em>, magra e ligeira, +com um movimento que levantou brancuras de +saias. +<br /> + +<br /> + +Amaro começou então a esperar. Era em julho, +no pleno calor. Dizia missa pela manhã em S. Domingos, +e durante o dia, de chinelos e casaco de +ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. Ás vezes +ia conversar com a tia para a sala de jantar; as +janellas estavam cerradas, na penumbra zumbia a monotona +susurração das moscas; a tia a um canto do +<span class="pagenum">[46]</span> +velho canapé de palhinha fazia +<em>crochet</em>, com a luneta +encavallada na ponta do nariz; Amaro, bocejando, +folheava um antigo volume do +<em>Panorama</em>. +<br /> + +<br /> + +Á noitinha sahia, a dar duas voltas no Rocio. Abafava-se, +no ar pesado e immovel: a todos os cantos se +apregoava monotonamente <em>agua fresca!</em> +Pelos bancos, +debaixo das arvores, vadios remendados dormitavam; +em redor da praça, sem cessar, caleches de +aluguel vazias rodavam vagarosamente; as claridades +dos cafés reluziam; e gente encalmada, sem destino, +movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios das +ruas. +<br /> + +<br /> + +Amaro então recolhia, e no seu quarto, com a +janella aberta ao calor da noite, estirado em cima da +cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava cigarros, +ruminava as suas esperanças. A cada momento +lhe acudiam, com rebates de alegria, as palavras +da senhora condessa: <em>fique descansado, meu +marido ha de fallar!</em> E via-se já parocho +n'uma bonita +villa, n'uma casa com quintal cheio de couves +e de saladas frescas, tranquillo e importante, recebendo +bandejas de dôce das devotas ricas. +<br /> + +<br /> + +Vivia então n'um estado de espirito muito repousado. +As exaltações, que no seminario lhe causava +a continencia, tinham-se acalmado com as +satisfações +que lhe dera em Feirão uma grossa pastora, +que elle gostava de vêr ao domingo tocar á missa, +dependurada da corda do sino, rolando nas saias de +saragoça, e a face a estourar de sangue. Agora, sereno, +pagava pontualmente ao céo as orações +que manda +<span class="pagenum">[47]</span> +o ritual, trazia a carne contente e calada, e procurava +estabelecer-se regaladamente. +<br /> + +<br /> + +No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa. +<br /> + +<br /> + +—Não está, disse-lhe um criado da +cavallariça. +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia voltou, já inquieto. Os batentes verdes +estavam abertos; e Amaro subiu devagar, pisando, +muito acanhado, o largo tapete vermelho fixado +com varões de metal. Da alta claraboia cahia +uma luz suave; ao cimo da escada, no patamar, +sentado n'uma banqueta de marroquim escarlate, +um criado encostado á parede branca envernizada, +com a cabeça pendente e o beiço cahido, dormia. +Fazia um grande calor; aquelle alto silencio +aristocratico aterrava Amaro; esteve um momento +com o seu guardasol pendente do dedo minimo, hesitando; +tossiu devagarinho, para acordar o criado +que lhe pareceia terrivel com a sua bella suiça preta, +o seu rico grilhão d'ouro; e ia descer quando +ouviu por detraz d'um reposteiro um riso grosso de +homem. Sacudiu com o lenço o pó +esbranquiçado +dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho +n'uma larga sala com estofos de damasco +amarello; uma grande luz entrava das varandas +abertas, e viam-se arvoredos de jardim. No meio da +sala tres homens de pé conversavam. Amaro adiantou-se, +balbuciou: +<br /> + +<br /> + +—Não sei se incommódo... +<br /> + +<br /> + +Um homem alto, de bigode grisalho e oculos de +ouro, voltou-se surprehendido, com o charuto ao canto +<span class="pagenum">[48]</span> +da boca e as mãos nos bolsos. Era o senhor +conde. +<br /> + +<br /> + +—Sou Amaro... +<br /> + +<br /> + +—Ah, disse o conde, o senhor padre Amaro! Conheço +muito bem! Tem a bondade... Minha mulher +fallou-me. Tem a bondade... +<br /> + +<br /> + +E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quasi +calvo, de calças brancas muito curtas: +<br /> + +<br /> + +—É a pessoa de quem lhe fallei.—Voltou-se +para Amaro:—É o senhor ministro. +<br /> + +<br /> + +Amaro curvou-se, servilmente. +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Amaro, disse o conde de Ribamar, +foi creado de pequeno em casa de minha sogra. +Nasceu lá, creio eu... +<br /> + +<br /> + +—Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro +que se conservava afastado, com o guardasol na +mão. +<br /> + +<br /> + +—Minha sogra, que era toda devota e uma completa +senhora,—já não ha d'isso!—fel-o padre. +Houve até um legado, creio eu... Emfim, aqui o temos +parocho... Onde, senhor padre Amaro? +<br /> + +<br /> + +—Feirão, excellentissimo senhor. +<br /> + +<br /> + +—Feirão!?... disse o ministro estranhando o +nome. +<br /> + +<br /> + +—Na serra da Gralheira, informou logo o outro +sujeito, ao lado. Era um homem magro, entalado +n'uma sobrecasaca azul, muito branco de pelle, com +soberbas suiças d'um negro de tinta e um admiravel +cabello lustroso de pomada, apartado até ao +cachaço +n'uma risca perfeita. +<span class="pagenum">[49]</span> +<br /> + +<br /> + +—Emfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, +uma freguezia pobre, sem distracções, com um +clima horrivel... +<br /> + +<br /> + +—Eu metti já requerimento, excellentissimo senhor, +arriscou Amaro timidamente. +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, affirmou o ministro. Ha de arranjar-se.—E +mascava o seu charuto. +<br /> + +<br /> + +—É uma justiça, disse o conde. Mais, +é uma necessidade! +Os homens novos e activos devem estar +nas parochias difficeis, nas cidades... É claro! Mas +não: olhe, lá ao pé da minha quinta, +em Alcobaça, +ha um velho, um gottoso, um padre-mestre antigo, +um imbecil!... Assim perde-se a fé. +<br /> + +<br /> + +—É verdade, disse o ministro, mas essas +collocações +nas boas parochias devem naturalmente ser +recompensas dos bons serviços. É necessario o +estimulo... +<br /> + +<br /> + +—Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços +religiosos, profissionaes, serviços á Igreja, +não +serviços aos governos. +<br /> + +<br /> + +O homem das soberbas suiças negras teve um +gesto d'objecção. +<br /> + +<br /> + +—Não acha? perguntou-lhe o conde. +<br /> + +<br /> + +—Respeito muito a opinião de vossa excellencia, +mas se me permitte... Sim, digo eu, os parochos +na cidade são-nos d'um grande serviço nas crises +eleitoraes. D'um grande serviço! +<br /> + +<br /> + +—Pois sim. Mas... +<br /> + +<br /> + +—Olhe vossa excellencia, continuou elle, sôfrego +da palavra. Olhe vossa excellencia em Thomar. +<span class="pagenum">[50]</span> +Porque perdemos? Pela attitude dos parochos. Nada +mais. +<br /> + +<br /> + +O conde acudiu: +<br /> + +<br /> + +—Mas perdão, não deve ser assim; a +religião, +o clero não são agentes eleitoraes. +<br /> + +<br /> + +—Perdão... queria interromper o outro. +<br /> + +<br /> + +O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e +gravemente, em palavras pausadas, cheias da auctoridade +d'um vasto entendimento: +<br /> + +<br /> + +—A religião, disse elle, póde, deve mesmo +auxiliar +os governos no seu estabelecimento, operando, +por assim dizer, como freio... +<br /> + +<br /> + +—Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, +cuspindo pelliculas mascadas de charuto. +<br /> + +<br /> + +—Mas descer ás intrigas, continuou o conde devagar, +aos <em>imbroglios</em>... +Perdôe-me, meu caro amigo, +mas não é d'um christão. +<br /> + +<br /> + +—Pois sou-o, senhor conde! exclamou o homem +das suiças soberbas. Sou-o a valer! Mas tambem sou +liberal. E entendo que no governo representativo... +Sim, digo eu... com as garantias mais solidas... +<br /> + +<br /> + +—Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso +faz? desacredita o clero e desacredita a politica. +<br /> + +<br /> + +—Mas são ou não as maiorias um principio +<em>sagrado</em>? +gritava rubro o das suiças, accentuando o +adjectivo. +<br /> + +<br /> + +—São um principio +<em>respeitavel</em>. +<br /> + +<br /> + +—Upa! upa, excellentissimo senhor! upa! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro escutava, immovel. +<br /> + +<br /> + +—Minha mulher ha de querer vêl-o, disse-lhe +<span class="pagenum">[51]</span> +então o conde. E dirigindo-se a um reposteiro que +levantou:—Entre. É o senhor padre Amaro, Joanna! +<br /> + +<br /> + +Era uma sala forrada de papel branco assetinado, +com moveis estofados de casimira clara. Nos +vãos das janellas, entre as cortinas de pregas largas +d'uma fazenda adamascada côr de leite, apanhadas +quasi junto do chão por faxas de sêda, arbustos +delgados, sem flôr, erguiam em vasos brancos +a sua folhagem fina. Uma meia luz fresca dava +a todas aquellas alvuras um tom delicado de nuvem. +Nas costas d'uma cadeira uma arara empoleirada, +firme n'um só pé negro, coçava +vagarosamente, +com contracções aduncas, a sua cabeça +verde. Amaro, +embaraçado, curvou-se logo para um canto do +sofá, onde viu os cabellinhos louros e frisados da +senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a +testa, e os aros de ouro da sua luneta reluzindo. Um +rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado diante +d'ella n'uma cadeira baixa, com os cotovêlos sobre +os joelhos abertos, occupava-se em balançar, como +um pendulo, um <em>pince-nez</em> de +tartaruga. A condessa +tinha no regaço uma cadellinha, e com a sua mão +sêcca e fina, cheia de veias, acamava-lhe o pêllo +branco como algodão. +<br /> + +<br /> + +—Como está, snr. Amaro?—A cadella rosnou.—Quieta, +<em>Joia</em>... Sabe que já +fallei no seu negocio? +Quieta, <em>Joia</em>... O ministro +está alli. +<br /> + +<br /> + +—Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé. +<br /> + +<br /> + +—Sente-se aqui, senhor padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Amaro pousou-se á beira d'um +<em>fauteil</em>, com o +<span class="pagenum">[52]</span> +seu guardasol na mão—e reparou então n'uma +senhora +alta que estava de pé, junto do piano, fallando +com um rapaz louro. +<br /> + +<br /> + +—Que tem feito estes dias, snr. Amaro? disse +a condessa. Diga-me uma coisa: sua irmã? +<br /> + +<br /> + +—Está em Coimbra, casou. +<br /> + +<br /> + +—Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar +os seus anneis. +<br /> + +<br /> + +Houve um silencio. Amaro, d'olhos baixos, passava, +com um gesto embaraçado e errante, os dedos +pelos beiços. +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Liset está para fóra? perguntou. +<br /> + +<br /> + +—Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, +disse a condessa. Está o mesmo sempre; muito amavel, +muito dôce. É a alma mais virtuosa!... +<br /> + +<br /> + +—Eu prefiro o padre Felix, disse o rapaz gordo +estirando as pernas. +<br /> + +<br /> + +—Não diga isso, primo! Jesus, brada aos céos! +Pois então o padre Liset, tão respeitavel!... E +depois +outras maneiras de dizer as coisas, com uma +bondade... Vê-se que é um +coração delicado... +<br /> + +<br /> + +—Pois sim, mas o padre Felix... +<br /> + +<br /> + +—Ai, nem diga isso! Que o padre Felix é uma +pessoa de muita virtude, decerto; mas o padre Liset +tem uma religião mais...—E com um gesto delicado +procurava a palavra:—mais fina, mais distincta... +Emfim, vive com outra gente.—E sorrindo +para Amaro:—Pois não acha? +<br /> + +<br /> + +Amaro não conhecia o padre Felix, não se +recordava +do padre Liset. +<span class="pagenum">[53]</span> +<br /> + +<br /> + +—Já é velho o senhor padre Liset, observou ao +acaso. +<br /> + +<br /> + +—Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! +E que vivacidade, que enthusiasmo!... Ai, +é outra coisa!—E voltando-se para a senhora que +estava junto do piano:—Pois não achas, Thereza? +<br /> + +<br /> + +—Já vou, respondeu Thereza, toda absorvida. +<br /> + +<br /> + +Amaro afirmou-se então n'ella. Pareceu-lhe uma +rainha, ou uma deusa, com a sua alta e forte estatura, +uma linha de hombros e de seio magnifica; os +cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre +a pallidez do rosto aquilino semelhante ao perfil +dominador de Marie Antoinette; o seu vestido preto, +de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, +com as pregas da cauda muito longa toda adornada +de rendas negras, o tom monotono das alvuras +da sala; o collo, os braços estavam cobertos por uma +gaze preta, que fazia apparecer através a brancura +da carne; e sentia-se nas suas fórmas a firmeza +dos marmores antigos, com o calor d'um sangue +rico. +<br /> + +<br /> + +Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que +Amaro não comprehendia, cerrando e abrindo o seu +leque preto—e o rapaz louro, bonito, escutava-a +retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado +de vidro entalado no olho. +<br /> + +<br /> + +—Havia muita devoção na sua parochia, snr. +Amaro? perguntava no emtanto a condessa. +<br /> + +<br /> + +—Muita, muito boa gente. +<br /> + +<br /> + +—É onde ainda se encontra alguma fé, +é nas aldeias, +<span class="pagenum">[54]</span> +considerou ella com um tom piedoso.—Queixou-se +da obrigação de viver na cidade, nos captiveiros +do luxo: desejaria habitar sempre na sua +quinta de Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, +conversar com as boas almas da aldeia!—e a +sua voz tornára-se terna. +<br /> + +<br /> + +O rapaz rechonchudo ria-se: +<br /> + +<br /> + +—Ora, prima! dizia; ora, prima!—Não, elle, +se o obrigassem a ouvir missa n'uma capellinha de +aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!... +Não comprehendia, +por exemplo, a religião sem musica... +Era lá possivel uma festa religiosa sem uma boa +voz de contralto!? +<br /> + +<br /> + +—Sempre é mais bonito, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Está claro que é. É outra coisa! Tem +<em>cachet</em>! +Ó prima, lembra-se d'aquelle tenor... como se chamava +elle? O Vidalti. Lembra-se do Vidalti, na quinta-feira +de Endoenças, nos Inglezinhos? O <em>tantum +ergo</em>? +<br /> + +<br /> + +—Eu preferia-o no <em>Baile de +mascaras</em>, disse a +condessa. +<br /> + +<br /> + +—Olhe que não sei, prima, olhe que não sei! +<br /> + +<br /> + +No emtanto o rapaz louro viera apertar a mão á +senhora condessa, fallando-lhe baixo, muito risonho. +Amaro admirava a nobreza da sua estatura, a doçura +do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma +luva, e apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu +Thereza, depois de se ter aproximado vagarosamente +da janella e olhado para a rua—foi sentar-se n'uma +<em>causeuse</em> com um abandono que punha +em relêvo a +<span class="pagenum">[55]</span> +magnifica esculptura do seu corpo; e voltando-se +preguiçosamente +para o rapaz rechonchudo: +<br /> + +<br /> + +—Vamo-nos, João? +<br /> + +<br /> + +A condessa disse-lhe então: +<br /> + +<br /> + +—Sabes que o senhor padre Amaro foi creado +commigo em Bemfica? +<br /> + +<br /> + +Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava +sobre elle os seus bellos olhos d'um negro +humido como o setim preto coberto de agua. +<br /> + +<br /> + +—Está na provincia agora? perguntou ella, bocejando +um pouco. +<br /> + +<br /> + +—Sim, minha senhora, vim ha dias. +<br /> + +<br /> + +—Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando +vagarosamente o seu leque. +<br /> + +<br /> + +Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus +dedos finos; disse, acariciando o cabo do guardasol: +<br /> + +<br /> + +—Na serra, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +—Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! +Ha sempre neve, diz que a igreja não tem telhado, +são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao +ministro +a vêr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem... +<br /> + +<br /> + +—O quê? disse Thereza. +<br /> + +<br /> + +A condessa contou que Amaro requerera para +uma parochia melhor. Fallou de sua mãi, da amizade +que ella tinha a Amaro... +<br /> + +<br /> + +—Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe +dava... Não se lembra? +<br /> + +<br /> + +—Não sei, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +—Frei <em>Maleitas</em>!... Tem +graça! Como o snr. +Amaro era amarellito, sempre mettido na capella... +<span class="pagenum">[56]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas Thereza, dirigindo-se á condessa: +<br /> + +<br /> + +—Sabes com que se parece este senhor? +<br /> + +<br /> + +A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou +a luneta. +<br /> + +<br /> + +—Não se parece com aquelle pianista do anno +passado? continuou Thereza. Não me lembra agora +o nome... +<br /> + +<br /> + +—Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. +No cabello, não. +<br /> + +<br /> + +—Está visto, o outro não tinha corôa! +<br /> + +<br /> + +Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando +a sua soberba cauda, sentou-se ao piano. +<br /> + +<br /> + +—Sabe musica? perguntou, voltando-se para +Amaro. +<br /> + +<br /> + +—A gente aprende no seminario, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +Ella correu a mão, um momento, sobre o teclado +de sonoridades profundas, e tocou a phrase do +<em>Rigoleto,</em> +parecida com o <em>Minuete de Mozart</em>, +que diz +Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro +acto, da senhora de Crécy—e cujo rhythmo desolado +tem a abandonada tristeza de amores que findam, +e de braços que se desenlaçam em despedidas +supremas. +<br /> + +<br /> + +Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as +suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o collo +de Thereza que elle via sob a negra transparencia +da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquillos arvoredos +de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a +idéa d'uma existencia superior, de romance, passada +<span class="pagenum">[57]</span> +sobre alcatifas preciosas, em +<em>coupés</em> acolchoados, +com arias de operas, melancolias de bom gosto +e amores d'um gozo raro. Enterrado na elasticidade +da <em>causeuse</em>, sentindo a musica +chorar aristocraticamente, +lembrava-lhe a sala de jantar da tia +e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo +que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu +prazer—pensando que vai voltar á dureza das +côdeas +sêccas e á poeira dos caminhos. +<br /> + +<br /> + +No emtanto Thereza, mudando bruscamente de +melodia, cantou a antiga aria inglesa de Haydn, que +diz tão finamente as melancolias da +separação:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +<em>The village seems dead and asleep<br /> + +When Lubin is away!...</em></div> + +<br /> + +<br /> + +—Bravo! bravo! exclamou o ministro da justiça +apparecendo á porta, batendo dôcemente as palmas. +Muito bem, muito bem! Deliciosamente! +<br /> + +<br /> + +—Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, +disse Thereza erguendo-se logo. +<br /> + +<br /> + +O ministro veio, com uma pressa galante: +<br /> + +<br /> + +—Que é, minha senhora? que é? +<br /> + +<br /> + +O conde e o sujeito de magnificas suiças tinham +entrado discutindo ainda. +<br /> + +<br /> + +—A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse +Thereza ao ministro. +<br /> + +<br /> + +—Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu +a condessa. +<br /> + +<br /> + +—Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se +confortavelmente, com as pernas muito estiradas, +<span class="pagenum">[58]</span> +a face satisfeita: de que se trata? É uma +coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente... +<br /> + +<br /> + +—Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque +no braço. Então qual é a melhor +parochia vaga? +<br /> + +<br /> + +—Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando +para Amaro, que vergou os hombros, córado. +<br /> + +<br /> + +O homem das suiças, que estava de pé fazendo +saltar circumspectamente os berloques, adiantou-se, +cheio de informações: +<br /> + +<br /> + +—Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital +do districto e séde do bispado. +<br /> + +<br /> + +—Leiria? disse Thereza. Bem sei, é onde ha +umas ruinas? +<br /> + +<br /> + +—Um castello, minha senhora, edificado por D. +Diniz. +<br /> + +<br /> + +—Leiria é excellente! +<br /> + +<br /> + +—Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, +séde do bispado, uma cidade... O senhor padre Amaro +é um ecclesiastico novo... +<br /> + +<br /> + +—Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor +não é novo? +<br /> + +<br /> + +O ministro sorriu, curvando-se. +<br /> + +<br /> + +—Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu +marido, que coçava ternamente a cabeça da arara. +<br /> + +<br /> + +—Parece-me inutil, o pobre Correia está vencido! +A prima Thereza chamou-lhe novo! +<br /> + +<br /> + +—Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece +que seja uma lisonja excepcional; eu não sou +tambem tão antigo... +<span class="pagenum">[59]</span> +<br /> + +<br /> + +—Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te +que já conspiravas em 1820! +<br /> + +<br /> + +—Era meu pai, calumniador, era meu pai! +<br /> + +<br /> + +Todos riram. +<br /> + +<br /> + +—Snr. Correia, disse Thereza, está entendido. O +senhor padre Amaro vai para Leiria! +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, succumbo, disse o ministro com +gesto resignado. Mas é uma tyrannia! +<br /> + +<br /> + +—<em>Thank you</em>, fez Thereza, +estendendo-lhe a +mão. +<br /> + +<br /> + +—Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse +o ministro fixando-a. +<br /> + +<br /> + +—Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento +para o chão, distrahida, dando pequeninas +pancadas no vestido de sêda, levantou-se, foi sentar-se +ao piano bruscamente, e recomeçou a dôce +aria ingleza: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +<em>The village seems dead and asleep<br /> + +When Lubin is away!...</em></div> + +<br /> + +<br /> + +Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, +que se erguera. +<br /> + +<br /> + +—É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se +com o bispo. D'aqui a uma semana está +nomeado. Póde ir descansado. +<br /> + +<br /> + +Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro +que estava junto do piano: +<br /> + +<br /> + +—Senhor ministro, eu agradeço... +<br /> + +<br /> + +—Á senhora condessa, á senhora condessa, disse +o ministro sorrindo. +<span class="pagenum">[60]</span> +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á +condessa, todo curvado. +<br /> + +<br /> + +—Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, +parece. +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora... foi elle dizer a Thereza. +<br /> + +<br /> + +—Lembre-me nas suas orações, senhor padre +Amaro, disse ella. E continuou, com a sua voz magoada, +dizendo ao piano—as tristezas da aldeia +quando Lubin esta ausente! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. +Mas não tornára a esquecer aquella +manhã em +casa da senhora condessa de Ribamar,—o ministro +de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo +o seu despacho; a luz clara e calma do +jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia +<em>yes</em>...Cantava-lhe sempre no cerebro +aquella aria +triste do <em>Rigoleto</em>; e perseguia-o a +brancura dos +braços de Thereza sob a gaze negra! Instinctivamente +via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em +torno do pescoço airoso do rapaz louro:—detestava-o +então, e a língua barbara que fallava, e a terra +heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as fontes á +idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher +divina e sentir o seu vestido de sêda preta roçar +pela sua batina de lustrina velha, na escura intimidade +do confessionario. +<br /> + +<br /> + +Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços +<span class="pagenum">[61]</span> +da tia, partiu para Santa Apolonia, com um gallego +que lhe levava o bahú. A madrugada rompia. +A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. +Ás vezes uma carroça passava rolando, abalando +a calçada; as ruas pareciam-lhe interminaveis; saloios +começavam a chegar montados nos seus burros, +com as pernas balouçadas, cobertas de altas botas +enlameadas; n'uma ou n'outra rua uma voz aguda +já apregoava os jornaes; e os moços dos theatros +corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas +os cartazes. +<br /> + +<br /> + +Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do +sol alaranjava o ar por detraz dos montes da Outra-Banda: +o rio estendia-se, immovel, riscado de correntes +de côr de aço sem lustre; e já alguma +vela +de falua passava, vagarosa e branca. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +IV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada +do parocho novo, e todos sabiam já que tinha trazido +um bahú de lata, que era magro e alto, e que +chamava <em>Padre-Mestre</em> ao conego Dias. +<br /> + +<br /> + +As amigas da S. Joanneira,—as intimas—a D. +Maria da Assumpção, as Gansosos, tinham ido logo +pela manhã a casa d'ella <em>para se +pôrem ao facto</em>... +Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A +S. Joanneira, radiosa, importante, recebeu-as no alto +da escada, de mangas arregaçadas, nos arranjos da +manhã; e immediatamente, com animação, +contou +a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o +que tinha dito... +<br /> + +<br /> + +—Mas venham vossês cá abaixo, sempre quero +que vejam. +<span class="pagenum">[64]</span> +<br /> + +<br /> + +Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bahú de +lata, uma prateleira que lhe arranjára para os livros. +<br /> + +<br /> + +—Está muito bem, está tudo muito bem, diziam +as velhas andando pelo quarto, devagar, com respeito, +como n'uma igreja. +<br /> + +<br /> + +—Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso +apalpando o panno das largas bandas que pendiam +ao comprido do cabide.—É obra para um par de +moedas! +<br /> + +<br /> + +—E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira +erguendo a tampa do bahú. +<br /> + +<br /> + +O grupo das velhas curvou-se com admiração. +<br /> + +<br /> + +—A mim o que me consola é que elle seja um +rapaz novo, disse D. Maria da Assumpção, +piedosamente. +<br /> + +<br /> + +—Tambem a mim, disse com auctoridade a D. +Joaquina Gansoso. Estar a gente a confessar-se e a +vêr o pingo do rapé, como era com o Raposo, credo! +até se perde a devoção! E o bruto do +José Migueis! +Não, lá isso Deus me mate com gente nova! +<br /> + +<br /> + +A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas +do parocho,—um crucifixo que estava ainda embrulhado +n'um jornal velho, o album de retratos, onde +o primeiro cartão era uma photographia do Papa +abençoando a christandade. Todas se extasiaram. +<br /> + +<br /> + +—É o mais que se póde, diziam, é o +mais que +se póde! +<br /> + +<br /> + +Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na +porque adquirira, hospedando o parocho, +uma auctoridade quasi ecclesiastica. +<br /> + +<br /> + +—Vossês apparecem á noite, disse ella do alto +da escada. +<br /> + +<br /> + +—Pudera!... gritou D. Maria da Assumpção, +já +á porta da rua, traçando o seu +mantelete.—Pudera!... +Para o vermos á vontade! +<br /> + +<br /> + +Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo +de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava +com a sua voz fina: +<br /> + +<br /> + +—Ó S. Joanneira! +<br /> + +<br /> + +—Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava +á janella. +<br /> + +<br /> + +—Então o senhor parocho veio, hein? perguntou +o Libaninho, mostrando á porta da sala de jantar o +seu rosto gordinho côr de limão, a calva luzidia; +e +vindo para ella com o passinho miudo, um gingar +de quadris: +<br /> + +<br /> + +—Então que tal, que tal? tem bom feitio? +<br /> + +<br /> + +A S. Joaneira recomeçou a glorificação +de Amaro: +a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura +dos seus dentes... +<br /> + +<br /> + +—Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se +de ternura devota.—Mas não se podia +demorar, ia para a repartição!—Adeus, filhinha, +adeus!—E batia com a sua mão papuda no hombro +da S. Joanneira.—Estás cada vez mais gordinha! +Olha que rezei hontem a Salve-Rainha que tu me +pediste, ingrata! +<br /> + +<br /> + +A criada tinha entrado. +<br /> + +<br /> + +—Adeus, <em>Ruça</em>! +Estás magrinha: pega-te com +a Senhora Mãi dos Homens.—E avistando Amelia +<span class="pagenum">[66]</span> +pela porta do quarto entreaberta:—Ai, que estás +mesmo uma flôr, Mélinha! Quem se salvava na tua +graça bem eu sei! +<br /> + +<br /> + +E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho +agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo: +<br /> + +<br /> + +—Adeusinho! adeusinho, pequenas! +<br /> + +<br /> + +—Ó Libaninho, vens á noite? +<br /> + +<br /> + +—Ai, não posso, filha, não posso!—E a sua +vozinha era quasi chorosa.—Olha que ámanhã +é +Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de direito! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amaro fôra visitar o chantre com o conego Dias, +e tinha-lhe entregado uma carta de recommendação +do senhor conde de Ribamar. +<br /> + +<br /> + +—Conheci muito o senhor conde de Ribamar, +disse o chantre. Em quarenta e seis, no Porto. Somos +amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso: +ha que annos isso vai! +<br /> + +<br /> + +E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, +fallou com satisfação do seu tempo: contou +anecdotas +da Junta, apreciou os homens de então, imitou-lhes +a voz (era uma especialidade de sua excellencia), +os <em>tics</em>, as caturrices—sobretudo +Manoel Passos, +que elle descrevia passeando na Praça Nova, +com o comprido casaco pardo e o chapéo de grandes +abas, dizendo: +<br /> + +<br /> + +—<em>Animo, patriotas! o Xavier +aguenta-se!</em> +<span class="pagenum">[67]</span> +<br /> + +<br /> + +Os senhores ecclesiasticos da camara riram com +gozo. Houve uma grande cordialidade. Amaro sahiu +muito lisonjeado. +<br /> + +<br /> + +Depois jantou em casa do conego Dias, e foram +passear ambos pela estrada de Marrazes. Uma luz +dôce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia +nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, +de meiga tranquilidade; fumos esbranquiçados +sahiam dos casaes, e sentiam-se os chocalhos +melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou +junto da ponte, e disse, olhando em redor a paizagem +suave: +<br /> + +<br /> + +—Pois senhores, parece-me que me hei de dar +bem aqui! +<br /> + +<br /> + +—Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego, +sorvendo o seu rapé. +<br /> + +<br /> + +Eram oito horas quando recolheram a casa da +S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +As velhas amigas estavam já na sala de jantar. +Ao pé do candieiro de petroleo, Amelia costurava. +<br /> + +<br /> + +A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção vestira-se, como +nos domingos, de sêda preta: o seu +<em>chinó</em>, d'um louro +avermelhado, estava coberto com as rendas d'um +<em>enfeite</em> negro; as mãos +descarnadas, calçadas de mitenes, +solemnemente pousadas no regaço, reluziam +de anneis; do broche sobre o pescoço até ao +cinto, +um grosso grilhão d'ouro cahia com passadores lavrados. +Conservava-se direita e ceremoniosa, com a +cabeça um pouco de lado, os oculos d'ouro assentes +sobre o nariz acavallado: tinha no queixo um grande +<span class="pagenum">[68]</span> +signal cabelludo; e quando se fallava de devoções +ou de milagres dava um geito ao pescoço, e abria +um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes +esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas. +Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico. +<br /> + +<br /> + +—Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria, +disse-lhe a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento +de quadris, commovida. +<br /> + +<br /> + +—Estas são as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido..., +disse a S. Joanneira ao parocho. +<br /> + +<br /> + +Amaro comprimentou timidamente. Eram duas +irmãs. Passavam por ter algum dinheiro, mas costumavam +receber hospedes. A mais velha, a snr.<sup>a</sup> D. +Joaquina Gansoso, era uma pessoa sêcca, com uma +testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz +arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no +seu chale, direita, com os braços cruzados, fallava +perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia +de opiniões. Dizia mal dos homens e dava-se toda +á +Igreja. +<br /> + +<br /> + +A irmã, a snr.<sup>a</sup> D. Anna, era +extremamente surda. +Nunca fallava, e com os dedos cruzados sobre o +regaço, os olhos baixos, fazia girar tranquillamente +os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido +preto de riscas amarellas, um rolo de arminho +ao pescoço, dormitava toda a noite, e só +accentuava a +sua presença de vez em quando por suspiros agudos: +dizia-se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor +do correio. Todos a lastimavam, e admirava-se a sua +<span class="pagenum">[69]</span> +habilidade em recortar papeis para caixas de dôce. +<br /> + +<br /> + +Estava tambem a snr.<sup>a</sup> D. Josepha, a +irmã do conego +Dias. Tinha a alcunha de <em>castanha +pilada</em>. Era +uma creaturinha mirrada, de linhas aduncas, pelle +engelhada e côr de cidra, voz sibilante; vivia n'um +perpetuo estado de irritação, os olhinhos sempre +assanhados, contracções nervosas de birra, toda +saturada +de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho +chamava-lhe a <em>estação +central</em> das intrigas de +Leiria. +<br /> + +<br /> + +—Então passeou muito, senhor parocho? perguntou +ella logo impertigando-se. +<br /> + +<br /> + +—Fomos quasi até lá ao fim da estrada de +Marrazes, +disse o conego, sentando-se pesadamente por +detraz da S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Não achou bonito, senhor parocho? acudiu +snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso. +<br /> + +<br /> + +—Muito bonito. +<br /> + +<br /> + +Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas +vistas: a snr.<sup>a</sup> D. Josepha gostava muito do +passeio +ao pé do rio; até já ouvira dizer que +nem em Lisboa +havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a +igreja da Encarnação, no alto. +<br /> + +<br /> + +—Desfruta-se muito d'alli. +<br /> + +<br /> + +Amelia disse sorrindo: +<br /> + +<br /> + +—Eu por mim gósto d'aquelle bocado ao pé da +ponte, debaixo dos chorões.—E partindo com os +dentes o fio da costura:—É tão triste! +<br /> + +<br /> + +Amaro olhou para ella, então, pela primeira vez. +Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito; +<span class="pagenum">[70]</span> +pescoço branco e cheio sahia d'um collarinho voltado; +entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte +dos dentes brilhava; e pareceu ao parocho que um +buçosinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra +subtil e dôce. +<br /> + +<br /> + +Houve um pequeno silencio—o conego Dias +com o beiço descahido ia já cerrando as +palpebras. +<br /> + +<br /> + +—Que será feito do senhor padre Brito? perguntou +D. Joaquina Gansoso. +<br /> + +<br /> + +—Está talvez com a enxaqueca, pobre de Christo! +lembrou piedosamente a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção. +<br /> + +<br /> + +Um rapaz que estava junto do aparador disse +então: +<br /> + +<br /> + +—Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da +Barrosa. +<br /> + +<br /> + +—Homem! disse logo com azedume a irmã do +conego, a snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias, é +milagre ter o +senhor reparado! +<br /> + +<br /> + +—Porquê, minha senhora? disse elle erguendo-se +e chegando-se ao grupo das velhas. +<br /> + +<br /> + +Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de +pelle branca, regular, um pouco fatigado, destacava +bem um bigode pequeno muito negro, cahido aos +cantos, que elle costumava mordicar com os dentes. +<br /> + +<br /> + +—Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.<sup>a</sup> D. +Josepha Dias. O senhor, que nem lhe tira o chapéo! +<br /> + +<br /> + +—Eu!? +<br /> + +<br /> + +—Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante. +<span class="pagenum">[71]</span> +E acrescentou: Ai, senhor parocho, bem póde +chamar o snr. João Eduardo para o bom caminho!—E +teve um risinho maligno. +<br /> + +<br /> + +—Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, +disse elle rindo, com as mãos nos bolsos. E +a cada momento os seus olhos se voltavam para +Amelia. +<br /> + +<br /> + +—É uma graça! exclamou a snr.<sup>a</sup> +D. Joaquina +Gansoso. Olhe, com o que o senhor disse hoje lá em +casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não ha de ganhar +o céo! +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! gritou a irmã do conego voltando-se +bruscamente para João Eduardo. Então o que tem +o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é uma +impostora? +<br /> + +<br /> + +—Credo, Jesus! disse a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +apertando as mãos e fitando João Eduardo +com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer +isso? Cruzes! +<br /> + +<br /> + +—Não, o snr. João Eduardo, affirmou gravemente +o conego, que espertára, desdobrando o seu lenço +vermelho—não era capaz de dizer uma d'essas. +<br /> + +<br /> + +Amaro perguntou então: +<br /> + +<br /> + +—Quem é a Santa da Arregassa? +<br /> + +<br /> + +—Credo! Pois não tem ouvido fallar, senhor parocho? +exclamou n'uma admiração a snr.<sup>a</sup> +D. Maria +da Assumpção. +<br /> + +<br /> + +—Ha de ter ouvido, affirmava a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +Dias com auctoridade. Diz que os jornaes de Lisboa +vem cheios d'isso! +<span class="pagenum">[72]</span> +<br /> + +<br /> + +—É com effeito uma coisa bem extraordinaria, +ponderou com um tom profundo o conego. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a +luneta: +<br /> + +<br /> + +—Ai, não imagina, senhor parocho, é o milagre +dos milagres! +<br /> + +<br /> + +—Se é! se é! disseram. +<br /> + +<br /> + +Houve um recolhimento devoto. +<br /> + +<br /> + +—Mas então...? perguntou Amaro, todo curioso. +<br /> + +<br /> + +—Olhe, senhor parocho, começou a snr.<sup>a</sup> +D. Joaquina +Gansoso endireitando-se no chale, fallando com +solemnidade: a Santa é uma mulher que aqui ha +n'uma freguezia perto, que está ha vinte annos na +cama... +<br /> + +<br /> + +—Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da +Assumpção, tocando-lhe com o leque no +braço. +<br /> + +<br /> + +—Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre +ouvi eu dizer vinte. +<br /> + +<br /> + +—Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S. +Joanneira. E o conego apoiou-a, oscillando gravemente +a cabeça. +<br /> + +<br /> + +—Está entrevadinha de todo, senhor parocho! +rompeu a irmã do conego, avida de fallar. Parece +uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto!—E +mostrava o dedo minimo.—Para a gente a ouvir é +necessario pôr-lhe a orelha ao pé da boca! +<br /> + +<br /> + +—Pois se ella se sustenta da graça de Deus! +disse lamentosamente a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção. +Coitadinha! que até a gente lembrar-se... +<br /> + +<br /> + +Houve entre as velhas um silencio commovido. +<span class="pagenum">[73]</span> +João Eduardo, que por traz das velhas, de pé, com +as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode, +disse então: +<br /> + +<br /> + +—Olhe, senhor parocho, a coisa é o que os medicos +dizem: é que aquillo é uma doença +nervosa. +<br /> + +<br /> + +Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas, +um escandalo; a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +persignou-se logo «á cautela». +<br /> + +<br /> + +—Pelo amor de Deus! gritou a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +Dias, o senhor diga isso diante de quem quizer, menos +de mim! É uma affronta! +<br /> + +<br /> + +—É que até póde cahir um raio, dizia +para os +lados, baixo, a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, +muito +aterrada. +<br /> + +<br /> + +—Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.<sup>a</sup> D. +Josepha Dias, o senhor é um homem sem religião +e sem respeito pelas coisas santas.—E voltando-se +para o lado de Amelia, muito azeda:—Olhe, filha +minha é que eu lhe não dava! +<br /> + +<br /> + +Amelia córou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho +tambem, curvou-se sarcasticamente: +<br /> + +<br /> + +—Eu digo o que dizem os medicos. E de resto, +acredite que não tenho prentenções a +casar com pessoa +da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.<sup>a</sup> D. +Josepha! +<br /> + +<br /> + +O conego deu uma risada muito pesada. +<br /> + +<br /> + +—Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa. +<br /> + +<br /> + +—Mas que faz então a Santa? perguntou o padre +Amaro, para pacificar. +<br /> + +<br /> + +—Tudo, senhor parocho, disse a snr.<sup>a</sup> D. +Joaquina +<span class="pagenum">[74]</span> +Gansoso: está sempre de cama, sabe rezas +para tudo; pessoa por quem ella peça tem a graça +do Senhor; é a gente apegar-se com ella e cura-se +de toda a molestia. E depois, quando communga, +começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar, +com os olhos erguidos para o céo, que até chega a +fazer terror. +<br /> + +<br /> + +Mas n'este momento uma voz disse á porta da +sala: +<br /> + +<br /> + +—Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz! +<br /> + +<br /> + +Era um rapaz extremamente alto, amarello, com +as faces cavadas, uma grenha riçada, um bigode á +D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca, +porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante; +e nos seus olhos encovados, de grandes olheiras, +errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra +na mão. +<br /> + +<br /> + +—Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe +logo. +<br /> + +<br /> + +—Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se. +Sempre as dôres no peito, a tossesita ... +<br /> + +<br /> + +Então não se dava bem com o oleo de figados +de bacalhau? +<br /> + +<br /> + +—Qual! fez elle desconsoladamente. +<br /> + +<br /> + +—Uma viagem á Madeira, isso é que era, isso +é +que era! disse a snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso com +auctoridade. +<br /> + +<br /> + +Elle riu, com uma jovialidade subita: +<br /> + +<br /> + +—Uma viagem á Madeira! Não está +má! A D. +Joaquina Gansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense +<span class="pagenum">[75]</span> +de administração com dezoito vintens por dia, +mulher +e quatro filhos... Para a Madeira! +<br /> + +<br /> + +—E como vai ella, a Joannita? +<br /> + +<br /> + +—Coitadita, lá vai! Tem saude, graças a Deus! +Gorda, sempre com bom appetite. Os pequenos, os +dois mais velhos é que estão doentes; de mais a +mais agora a criada tambem cahiu de cama! É o diacho! +Paciencia! paciencia!—E encolhia os hombros. +<br /> + +<br /> + +Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe +uma palmada no joelho: +<br /> + +<br /> + +—E como vai a nossa Madre-Abbadessa? +<br /> + +<br /> + +Todos riram: e a snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso +informou +o parocho que aquelle rapaz, o Arthur Couceiro, +era muito engraçado e tinha uma bella voz. Era +a melhor da cidade para modinhas. +<br /> + +<br /> + +A <em>Ruça</em> tinha +então entrado com o chá; a S. +Joanneira, enchendo as chavenas d'alto, dizia: +<br /> + +<br /> + +—Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é +do bom! É da loja do Sousa... +<br /> + +<br /> + +E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo: +<br /> + +<br /> + +—Se está azedinho é carregar-lhe no sal! +<br /> + +<br /> + +As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, +escolhiam cuidadosamente as torradas, sentia-se o +mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos +pingos da manteiga e das nodoas do chá estendiam +prudentemente os lenços sobre o regaço. +<br /> + +<br /> + +—Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia, +apresentando-lhe o prato. São da +Encarnação, +muito fresquinhos. +<span class="pagenum">[76]</span> +<br /> + +<br /> + +—Obrigado. +<br /> + +<br /> + +—Aquelle alli. É toucinho do céo. +<br /> + +<br /> + +—Ah! se é do céo... disse elle todo risonho. E +olhou para ella, tomando o bolo com a ponta dos +dedos. +<br /> + +<br /> + +O snr. Arthur costumava cantar depois do chá. +Sobre o piano uma vela alumiava o caderno de musica; +e Amelia, logo que a <em>Ruça</em> +levou a bandeja, +accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado +amarello. +<br /> + +<br /> + +—Então hoje que ha de ser? perguntou Arthur. +<br /> + +<br /> + +Os pedidos cruzaram-se: +<br /> + +<br /> + +—<em>O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O +descrido! o Nunca mais!</em> +<br /> + +<br /> + +O conego Dias disse do seu canto, pesadamente: +<br /> + +<br /> + +—Ó Couceiro, vá lá aquella do +<em>Tio Cosme, meu +bréjeiro!</em> +<br /> + +<br /> + +As mulheres reprovaram: +<br /> + +<br /> + +—Credo! por quem é, senhor conego! Que +lembrança! +<br /> + +<br /> + +E a snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso resumiu: +<br /> + +<br /> + +—Nada: uma coisa de sentimento para o senhor +parocho fazer idéa. +<br /> + +<br /> + +—Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento, +ó Arthur, uma coisa de sentimento! +<br /> + +<br /> + +Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente +á face uma expressão dolorosa, ergueu a voz, +cantou lugubremente:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Adeus, meu anjo! eu vou +partir sem ti! +<span class="pagenum">[77]</span> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Era uma canção dos tempos romanticos de 51, o +<em>Adeus!</em> Dizia uma suprema despedida, +n'um bosque, +por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem +solitario e precito, que inspirára um amor funesto, +ia errar desgrenhado á beira do mar; havia uma +sepultura esquecida n'um valle distante, brancas +virgens vinham chorar á claridade do luar! +<br /> + +<br /> + +—Muito bonito, muito bonito! murmuravam. +<br /> + +<br /> + +Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas +nos intervallos, durante o acompanhamento, sorria +em redor—e na sua boca cheia de sombra viam-se +os restos de dentes pôdres. O padre Amaro, ao pé +da janella, fumando, contemplava Amelia, enlevado +n'aquella melodia sentimental e morbida: o seu perfil +fino, de encontro á luz, tinha uma linha luminosa; +destacava harmoniosamente a curva do seu peito; +e elle seguia as suas palpebras de grandes pestanas, +que do teclado para a musica se erguiam e +se abaixavam com um movimento dôce. João Eduardo, +junto d'ella, voltava-lhe as folhas da musica. +<br /> + +<br /> + +Mas Arthur, com a mão sobre o peito, a outra +erguida no ar, n'um gesto desolado e vehemente, +soltou a ultima estrophe:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +E um dia, emfim, d'este viver fatal,<br /> + +Repousarei na escuridão da campa! +</div> + +<br /> + +<br /> + +—Bravo! bravo! exclamaram. +<br /> + +<br /> + +E o conego Dias commentou baixo ao parocho: +<br /> + +<br /> + +—Ah! para coisas de sentimento não ha outro.—E +<span class="pagenum">[78]</span> +bocejando enormemente: Pois menino, tenho +tido toda a noite as lulas a conversar cá por dentro. +<br /> + +<br /> + +Mas chegára a hora do loto. Cada um escolhia +os seus cartões habituaes; e a snr.<sup>a</sup> +D. Josepha Dias, +com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava já vivamente +o grosso sacco dos numeros. +<br /> + +<br /> + +—Aqui tem um logar, senhor parocho, disse +Amelia. +<br /> + +<br /> + +Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto +espaço, e veio sentar-se um pouco córado, +ageitando +timidamente a <em>volta</em>. +<br /> + +<br /> + +Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz +dormente, o conego começou a tirar os numeros. A +snr.<sup>a</sup> D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto, +resonando +ligeiramente. +<br /> + +<br /> + +Com o <em>abat-jour</em> as +cabeças estavam na penumbra; +e a luz crua, cahindo sobre o chale escuro que +cobria a mesa, fazia destacar os cartões ennegrecidos +do uso e as mãos sêccas das velhas, pousadas +em attitudes aduncas, remexendo as marcas de vidro. +Sobre o piano aberto a vela derretia-se com +uma chamma alta e direita. +<br /> + +<br /> + +O conego rosnava os numeros com as pilherias +veneraveis da tradição: 1, cabeça de +porco!—3, +figura de entremez! +<br /> + +<br /> + +—Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz. +<br /> + +<br /> + +—Ternei, murmurava outra com gozo. +<br /> + +<br /> + +E a irmã do conego, sôfrega: +<br /> + +<br /> + +—Chocalhe esses numeros, mano Placido! Vá! +<span class="pagenum">[79]</span> +<br /> + +<br /> + +—E traga-me esse quarenta e sete ainda que +seja de rastos, dizia o Arthur Couceiro, com a cabeça +entre os punhos. +<br /> + +<br /> + +Emfim o conego <em>quinou</em>. E Amelia +olhando em +redor pela sala: +<br /> + +<br /> + +—Então não joga, snr. João Eduardo? +disse +ella. Onde está? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo sahiu da sombra da janella, por +traz da cortina. +<br /> + +<br /> + +—Tome lá este cartão, ande, jogue. +<br /> + +<br /> + +—E receba as entradas, já que está de +pé, disse +a S. Joanneira. Seja o senhor recebedor! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. +No fim faltavam dez reis. +<br /> + +<br /> + +—Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, +excitados. +<br /> + +<br /> + +Fôra a irmã do conego que não +tocára no seu +cobre acastellado. João Eduardo disse, curvando-se: +<br /> + +<br /> + +—Parece-me que a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +não entrou. +<br /> + +<br /> + +—Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas! +Até fui a primeira! Credo! Duas moedas de cinco +reis, por signal! Que tal está o homem! +<br /> + +<br /> + +—Ah! bem, disse elle então, fui eu que me esqueci! +Cá ponho.—E rosnou: Beata e ladra! +<br /> + +<br /> + +E a irmã do conego dizia no emtanto baixo á +snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção: +<br /> + +<br /> + +—Queria vêr se escapava, o melro! Falta de temor +a Deus! +<br /> + +<br /> + +—Só quem não está feliz é +o senhor parocho, +observaram. +<span class="pagenum">[80]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; ás +vezes mesmo esquecia-se de marcar, e Amelia dizia-lhe, +tocando-lhe no cotovêlo: +<br /> + +<br /> + +—Olhe que não marcou, senhor parocho! +<br /> + +<br /> + +Tinham já apostado dois ternos: ella ganhára; +depois faltou a ambos para <em>quinarem</em> +o numero +trinta e seis. +<br /> + +<br /> + +Em roda repararam. +<br /> + +<br /> + +—Ora vamos a vêr se +<em>quinam</em> ambos, disse a +snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, envolvendo-os no +mesmo +olhar baboso. +<br /> + +<br /> + +Mas o trinta e seis não sahía; havia outras +quadras +nos cartões alheios; Amelia receava que +<em>quinasse</em> +a snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso, que se mexia +muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro +ria, involuntariamente interessado. +<br /> + +<br /> + +O conego tirava os numeros com uma pachorra +maliciosa. +<br /> + +<br /> + +—Vá! vá! ande com isso, senhor conego! +diziam-lhe. +<br /> + +<br /> + +Amelia, debruçada, os olhos vivos, murmurou: +<br /> + +<br /> + +—Dava tudo para que sahisse o trinta e seis! +<br /> + +<br /> + +—Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego. +<br /> + +<br /> + +—<em>Quinamos!</em> gritou ella, +triumphante; e tomando +o cartão do parocho e o seu mostrava-os, +para conferirem, orgulhosa, muito córada. +<br /> + +<br /> + +—Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial, +entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de +dez reis. +<span class="pagenum"><a name="p81" id="p81">[81]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Parece milagre! considerou a snr.<sup>a</sup> D. Maria +da Assumpção, piedosamente. +<br /> + +<br /> + +Mas tinham dado onze horas; e depois da +<em>tumba</em> +final as velhas começaram a agasalhar-se. Amelia +sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polka. +João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz: +<br /> + +<br /> + +—Muitos parabens por ter <em>quinado</em> +com o senhor +parocho. Que enthusiasmo!—E como ella ia responder:—Boa +noite! disse elle sêccamente, embrulhando-se +no seu chale-manta com despeito. +<br /> + +<br /> + +A <em>Ruça</em> alumiava. As +velhas, pela escada, empacotadas +nos abafos, iam ganindo <em>adeusinhos</em>. +O +snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o +<em>Descrido</em>. +<br /> + +<br /> + +Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no +Breviario; mas distrahia-se, lembravam-lhe as figuras +das velhas, os dentes pôdres de Arthur, sobretudo +o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama, +com o Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, +as suas mãos pequenas com os dedos um +pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçosinho +gracioso... +<br /> + +<br /> + +Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da +monotonia do <em>quino</em>, com uma grande +sêde além +d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz beber, +mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então +que na sala de jantar havia uma bilha d'Extremoz +com agua fresca, muito boa, da nascente do Morenal. +Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu +devagarinho. Havia <a href="#e1">luz</a> na sala, +estava o reposteiro +<span class="pagenum">[82]</span> +corrido: ergueu-o e recuou com um +<em>ah!</em> Vira n'um +relance Amelia, em saia branca, a desfazer o atacador +do collete: estava junto do candieiro e as mangas +curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus +braços brancos, o seio delicioso. Ella deu um pequeno +grito, correu para o quarto. +<br /> + +<br /> + +Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos +cabellos. Poderiam suspeitar uma offensa! Palavras +indignadas iam sahir decerto através do reposteiro +do quarto, que ainda se balouçava agitado! +<br /> + +<br /> + +Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro: +<br /> + +<br /> + +—Que queria, senhor parocho? +<br /> + +<br /> + +—Vinha buscar agua... balbuciou elle. +<br /> + +<br /> + +—Aquella <em>Ruça</em>! aquella +desleixada! Desculpe, +senhor parocho, desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa, +a bilha. Achou? +<br /> + +<br /> + +—Achei! achei! +<br /> + +<br /> + +Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, +a agua escorria-lhe pelos dedos. +<br /> + +<br /> + +Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por +baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro +que, com o capote aos hombros e em chinelas, fumava, +excitado, pelo quarto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +V +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda, +dentro de uma bacia, a lamparina extinguia-se, +com um mau cheiro de murrão de azeite; brancuras +de saias cahidas no chão destacavam; e os +olhos do gato, que não socegava, reluziam pela +escuridão +do quarto com uma claridade phosphorica +verde. +<br /> + +<br /> + +Na casa visinha uma criança chorava sem cessar, +Amelia sentia a mãi embalar-lhe o berço, +cantar-lhe +baixo:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Dorme, dorme, meu menino,<br /> + +Que a tua mãi foi á fonte! +</div> + +<br /> + +<br /> + +Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente +Sousa deixára com um filho no berço, e gravida +<span class="pagenum">[84]</span> +d'outro—para ir casar a Extremoz! Tão bonita era, +tão loura—e mirrada agora, tão chupada!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Dorme, dorme, meu menino.<br /> + +Que a tua mãi foi á fonte! +</div> + +<br /> + +<br /> + +Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha +sete annos sua mãi dizia-a, nas longas noites +de inverno, ao irmãosinho que morrera! +<br /> + +<br /> + +Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, +ao pé da estrada de Lisboa; á janella do seu +quarto +havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem +luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao +sol. Não conhecera o papá. Fôra +militar, morrera +novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da sua bella +figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos +ella foi para a mestra. Como se lembrava! A +mestra era uma velhita roliça e branca, que fôra +tacho +das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os +seus oculos redondos, junto á janella, empurrando a +agulha, morria-se por contar historias do convento: +as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes +furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, +com uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, +admiradora de Bocage e que se dizia descendente +dos Tavoras; e a legenda de uma freira que +morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites +percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos +e clamando:—Augusto! Augusto! +<br /> + +<br /> + +Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava +então tanto de festas d'igreja e da convivencia +<span class="pagenum">[85]</span> +dos santos, que desejava ser uma «freirinha, +muito bonita, com um véosinho muito branco.» A +mamã era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, +um homem velho e robusto, que soprava +de asthma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa, +vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia +chamava-lhe <em>padrinho</em>. Quando ella +voltava da +mestra, á tarde, encontrava-o sempre a palestrar +com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando +vêr o longo collete de velludo preto com raminhos +bordados a amarello. O senhor chantre perguntava-lhe +pelas lições e fazia-a dizer a taboada. +<br /> + +<br /> + +Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; +o conego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de passaro, +com oculos azues, que fôra frade franciscano +e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas +da mãi, com as suas +<em>meias</em>; e um capitão +Couceiro, +de caçadores, que tinha os dedos negros do cigarro +e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas mandavam-na +deitar; pela frincha do quarto ella via a +luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silencio, e o +capitão, repenicando a guitarra, cantava o +<em>lundum +da Figueira</em>. +<br /> + +<br /> + +Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns +eram-lhe antipathicos: sobretudo o padre Valente, +tão gordo, tão suado, com umas mãos +papudas e +molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os +joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ella sentia +o seu halito impregnado de cebola e de cigarro. +O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o +<span class="pagenum">[86]</span> +cabello todo branco, a volta sempre aceada, as fivelas +luzidias; entrava devagarinho, comprimentando +com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia +de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina: +na +mestra, em casa, por qualquer «bagatella» +fallavam-lhe +sempre dos castigos do céo; de tal sorte +que Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe +dar o soffrimento e a morte e que é necessario abrandar, +rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando +os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia +uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro +dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou +a fizesse cahir na escada. +<br /> + +<br /> + +Mas o seu melhor tempo foi quando começou a +tomar lições de musica. A mãi tinha na +sala de jantar, +ao canto, um velho piano, coberto com um pano +verde, tão desafinado, que servia de aparador! +Amelia costumava cantarolar pela casa; a sua voz fina +e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas +da mãi diziam-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Tu tens ahi um piano, porque não mandas +ensinar a rapariga? Sempre é uma prenda! olha +que lhe póde servir de muito! +<br /> + +<br /> + +O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista +da Sé d'Evora, extremamente infeliz: a filha +unica, muito linda, fugira-lhe com um alferes +para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da +Praça, que ia muito á capital, vira-a descer a +rua do +Norte, de <em>garibaldi</em> escarlate e +alvaiade n'um olho, +com um marinheiro inglez. O velho cahira em grande +<span class="pagenum">[87]</span> +melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe +dado um emprego no cartorio da camara +ecclesiastica. Era uma figura triste de romance picaresco. +Muito magro, alto como um pinheiro, deixava +crescer até aos hombros os seus cabellos brancos +e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe +sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: +e parecia muito transido, no seu capote côr +de vinho que só lhe chegava á cintura e que tinha +uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o <em>Tio +Cegonha</em> +pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia +um dia tinha-lhe chamado <em>Tio +Cegonha</em>; mas mordeu +logo o beiço, toda envergonhada. +<br /> + +<br /> + +O velho poz-se a sorrir: +<br /> + +<br /> + +—Ai, chame, minha rica menina, chame! <em>Tio +Cegonha</em>?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem +cegonha! +<br /> + +<br /> + +Era então no inverno. As grandes chuvas com +os sudoestes não cessavam; a aspera +estação opprimia +os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias esfomeadas +indo á camara pedir pão. O <em>Tio +Cegonha</em> +vinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu +guardachuva +azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; +e quando se sentava escondia, na sua vergonha +de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. +Queixava-se sobretudo do frio das mãos, que o impedia +de ferir com justeza o teclado e não o deixava +escrever no cartorio. +<br /> + +<br /> + +—Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente. +<br /> + +<br /> + +Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro +<span class="pagenum"><a name="p88" id="p88">[88]</a></span> +mez das lições, o velho appareceu muito contente, +com umas grossas luvas de lã. +<br /> + +<br /> + +—Ah, <em>Tio Cegonha</em>, como vem +quentinho! disse-lhe +Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora +ando a juntar para umas meias de lã. Deus a +abençôe, minha menina, Deus a +abençôe! +<br /> + +<br /> + +E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. +Amelia tornára-se a «sua rica +amiguinha». Já lhe +fazia confidencias: contava-lhe as suas necessidades, +as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora, +quando diante do senhor <a href="#e2">arcebispo</a>, +vistoso na sua +sobrepelliz escarlate, acompanhava o +<em>Lausperenne</em>. +<br /> + +<br /> + +Amelia não se esqueceu das meias de lã do +<em>Tio +Cegonha</em>. Pediu ao chantre que lhe désse +umas +meias de lã. +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! para quê? para ti? disse elle com +o seu riso grosso. +<br /> + +<br /> + +—Para mim, sim senhor. +<br /> + +<br /> + +—Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. +Olha a idéa! +<br /> + +<br /> + +—Não deixe fallar, não! dê, sim? +<br /> + +<br /> + +Lançou-lhe os braços ao pescoço, +fez-lhe olhinhos +dôces. +<br /> + +<br /> + +—Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! +ha de ser o diabo!... Pois sim, ahi tens.—E +deu-lhe dois pintos para umas meias de lã. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um +papel, que dizia por fóra em letras garrafaes: +<em>Ao +meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula</em>. +<span class="pagenum">[89]</span> +<br /> + +<br /> + +Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais +chupado: +<br /> + +<br /> + +—Ó <em>Tio Cegonha</em>, disse de +repente, quanto lhe +dão lá no cartorio? +<br /> + +<br /> + +O velho sorriu-se: +<br /> + +<br /> + +—Ora, minha rica menina, quanto me hão de +dar? uma bagatella. Quatro vintens por dia. Mas o +snr. Netto faz-me algum bem... +<br /> + +<br /> + +—E chegam-lhe, quatro vintens? +<br /> + +<br /> + +—Ora! como hão de chegar! +<br /> + +<br /> + +Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando +gravemente a attitude de lição, +começou a +solfejar alto, com um ar profundo. +<br /> + +<br /> + +E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, +que levou a mãi a dar de almoçar e de jantar ao +<em>Tio Cegonha</em> nos dias de +lição. Assim se estabeleceu +entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre +<em>Tio Cegonha</em>, sahindo do seu frio +isolamento, +acolhia-se áquella amizade inesperada, como a um +conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento feminino +que amam os velhos, com as caricias, as suavidades +de voz, as delicadezas de enfermeira; achava +n'ella a unica admiradora da sua musica; e +via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, +ás +recordações da velha Sé d'Evora que +elle amava +tanto, e que lhe fazia dizer, quando se fallava de +procissões ou de festas de igreja: +<br /> + +<br /> + +—Para isso Evora! em Evora é que é! +<br /> + +<br /> + +Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa +boa e delicada da sua vida: já tocava contradansas +<span class="pagenum">[90]</span> +e antigas arias de velhos compositores; a +snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção estranhava que o +mestre lhe não ensinasse o +<em>Trovador</em>. +<br /> + +<br /> + +—Coisa mais linda! dizia. +<br /> + +<br /> + +Mas o <em>Tio Cegonha</em> só +conhecia a musica classica, +arias ingenuas e dôces de Lully, motivos de minuetes, +motetes floridos e piedosos dos dôces tempos +freiraticos. +<br /> + +<br /> + +Uma manhã o <em>Tio Cegonha</em> +encontrou Amelia +muito amarella e triste. Desde a vespera queixava-se +de «mal-estar». Era um dia nublado, muito +frio. O velho queria ir-se embora. +<br /> + +<br /> + +—Não, não, <em>Tio +Cegonha</em>, disse ella, toque alguma +coisa para eu me entreter. +<br /> + +<br /> + +Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma +melodia simples, mas extremamente melancolica. +<br /> + +<br /> + +—Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé +junto ao piano. +<br /> + +<br /> + +E quando o velho deu as ultimas notas: +<br /> + +<br /> + +—O que é? perguntou ella. +<br /> + +<br /> + +O <em>Tio Cegonha</em> contou-lhe que era o +começo de +uma <em>Meditação</em> +feita por um frade seu amigo. +<br /> + +<br /> + +—Coitado, disse, teve bem o seu tormento! +<br /> + +<br /> + +Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se +no mocho do piano, embrulhando-se no seu chale: +<br /> + +<br /> + +—Diga, <em>Tio Cegonha</em>, diga! +<br /> + +<br /> + +Era um homem que tivera em novo uma grande +paixão por uma freira; ella morrera no convento +d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade, +fizera-se frade franciscano... +<span class="pagenum">[91]</span> +<br /> + +<br /> + +—Parece que o estou a vêr... +<br /> + +<br /> + +—Era bonito? +<br /> + +<br /> + +—Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um +dia veio ter commigo ao orgão: «Olha o que eu +fiz», +disse-me elle. Era um papel de musica. Abria em ré +menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, +que musica! Mas não me lembra o resto! +<br /> + +<br /> + +E o velho, commovido, repetiu no piano as notas +plangentes da +<em>Meditação</em> em +ré menor. +<br /> + +<br /> + +Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De +noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, +em que dominava a figura do frade frasciscano, +na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus +olhos profundos reluzirem n'uma face encovada: e, +longe, a freira pallida, nos seus habitos brancos, encostada +ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos +prantos do amor! Depois, no longo claustro, a +ala dos frades franciscanos caminhava para o côro: +elle ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre +o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande +sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. +Então o sonho mudava: era um vasto céo negro, +onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos +de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, +giravam, levadas por um vento mystico; mas +desvaneciam-se como nevoas, e na vasta escuridão +ella via apparecer um grande coração em carne +viva, +todo trespassado de espadas—e as gotas de +sangue que cahiam d'elle enchiam o céo d'uma chuva +escarlate. +<span class="pagenum">[92]</span> +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa +tranquillisou a S. Joanneira com uma simples palavra: +<br /> + +<br /> + +—Nada de sustos, minha rica senhora, são os +quinze annos da rapariga. Hão de lhe vir +ámanhã +as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temol-a +mulher. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira comprehendeu. +<br /> + +<br /> + +—Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter +as paixões fortes! acrescentou o velho pratico, sorrindo +e sorvendo a sua pitada. +<br /> + +<br /> + +Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, +depois do seu almoço d'açorda, cahiu de repente +morto +com uma apoplexia. Que consternação inesperada +para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, +em saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. +D. Maria da Assumpção, as snr.<sup>as</sup> +Gansosos +vieram +acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.<sup>a</sup> +D. Josepha +Dias resumiu as consolações de todas, dizendo: +<br /> + +<br /> + +—Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te +ampare! +<br /> + +<br /> + +Era então no começo de setembro; a snr.<sup>a</sup> +D. +Maria da Assumpção, que tinha uma casa na praia +da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia para +a estação dos banhos, para ella espalhar, nos +bons +ares saudaveis, em logar differente, aquella dôr. +<br /> + +<br /> + +—É uma esmola que me fazes, dissera a S. +Joanneira. Sempre me lembra que era alli que elle +punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a +vêr-me costurar! +<br /> + +<br /> + +—Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e +<span class="pagenum">[93]</span> +bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. +Olha que elle tinha bem os seus sessenta. +<br /> + +<br /> + +—Ah, minha rica! a gente é pela amizade que +lhes ganha! +<br /> + +<br /> + +Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta +e de bonitas fórmas. Foi uma alegria para ella a +estação +na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava +de estar sentada na areia, fascinada pela vasta +agua azul, muito mansa, cheia de sol; ás vezes no +horisonte passava um fumo delgado de paquete; a +monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; +e em redor o areal faiscava, a perder de vista, +sob o céo azul-ferrete. +<br /> + +<br /> + +Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava +a pé. Era a hora do banho: as barracas de lona +alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, +sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, +olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos +brancos, estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, +riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos +Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava +só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova. +Ella sahia então da barraca com o seu vestido +de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de +susto e de frio: tinha-se persignado ás escondidas e +toda tremula, agarrada á mão do banheiro, +escorregando +na areia, entrava na agua, rompendo a custo +a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda +vinha espumando, ella mergulhava, e ficava aos +saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua salgada. +<span class="pagenum">[94]</span> +Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! +Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se +para a barraca, mal podendo com o peso do vestido +encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor +vozes amigas perguntavam: +<br /> + +<br /> + +—Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein? +<br /> + +<br /> + +Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, +a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a +sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre +a areia molhada; e que longas perspectivas de +occasos ricamente dourados, sobre a vastidão do +mar triste, que escurece e geme! +<br /> + +<br /> + +D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo +ao chegar, por um rapaz, filho do snr. Brito de Alcobaça, +seu parente. Chamava-se Agostinho, ia frequentar +o quinto anno de direito na Universidade. +Era um moço delgado, de bigode castanho, pera, +cabello comprido deitado para traz, e luneta: recitava +versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de +caloiros, fazia <em>partidas</em>, e era +famoso na Vieira, entre +os homens, «por saber conversar com senhoras». +<br /> + +<br /> + +—O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, +chalaça áquella. Lá para sociedade +não ha outro! +<br /> + +<br /> + +Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que +os olhos do snr. Agostinho Brito se fitavam constantemente +n'ella, «p'ra namoro». Amelia córava +muito, +sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; +e admirava-o, achava-o muito «dengueiro». +<br /> + +<br /> + +Um dia em casa da snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +pediram a Agostinho para recitar. +<span class="pagenum"><a name="p95" id="p95">[95]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de +ferreiro! exclamou elle, jovial. +<br /> + +<br /> + +—Ora vá! não se faça rogado, +disseram, insistindo. +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar. +<br /> + +<br /> + +—A <em>Judia</em>, Brito, lembrou o +recebedor de Alcobaça. +<br /> + +<br /> + +—Qual <em>Judia</em>! disse elle, ha de ser +mas ha do +ser a <em>Morena</em>!—E olhou para +Amelia.—Foi uma +poesia que fiz hontem. +<br /> + +<br /> + +—Valeu, valeu! +<br /> + +<br /> + +—E cá o rapaz acompanha, disse um sargento +do 6 de caçadores, tomando logo a guitarra. +<br /> + +<br /> + +Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o +cabello para traz, fincou a luneta, apoiou as duas +mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Á <em>Morena</em> de Leiria! +disse. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Nasceste nos verdes campos<br /> + +Onde Leiria é famosa,<br /> + +Tens a frescura da rosa,<br /> + +E o teu nome sabe a mel... +</div> + +<br /> + +<br /> + +—Perdão! exclamou o recebedor, a snr.<sup>a</sup> +D. +Juliana não está boa... +<br /> + +<br /> + +Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; +tinha-se feito muito pallida, e, lentamente, desmaiava +na cadeira, com os <a href="#e3">braços</a> +pendentes, o queixo +sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a +para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram +<span class="pagenum">[96]</span> +o vestido e lhe deram vinagre a respirar, ergueu-se +sobre o cotovêlo, olhou em redor, começaram a +tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os +homens em grupo, commentavam: +<br /> + +<br /> + +—Foi o calor, diziam. +<br /> + +<br /> + +—O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento +de caçadores. +<br /> + +<br /> + +O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. +Algumas senhoras foram a casa acompanhar a snr.<sup>a</sup> +D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S. +Joanneira, +atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia +vento, um criado levava um lampeão, e todos caminhavam +na areia, calados. +<br /> + +<br /> + +—Tudo isto é teu proveito, disse a snr.<sup>a</sup> +D. Maria +da Assumpção baixo á S. Joanneira, +demorando-se +um pouco atraz. +<br /> + +<br /> + +—Meu!? +<br /> + +<br /> + +—Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em +Alcobaça, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui +anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana percebeu, +viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás! +<br /> + +<br /> + +—Ora essa!... disse a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados +que lhe deixam as tias. É um partidão! +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira +vestia-se na sua barraca, e Amelia, sentada na areia, +esperava, pasmada para o mar. +<br /> + +<br /> + +—Olá! sósinha! disse uma voz por detraz. +<br /> + +<br /> + +Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar +a areia com a sombrinha. O snr. Agostinho suspirou, +<span class="pagenum">[97]</span> +alisou outro pedaço d'areia com o pé, +escreveu—<span class="smallcaps">Amelia</span>. +Ella, muito vermelha, quiz apagar com a +mão. +<br /> + +<br /> + +—Então! disse elle. E debruçando-se, +baixo:—É +o nome da <em>Morena</em>, bem vê. +<em>O seu nome sabe a +mel!</em>... +<br /> + +<br /> + +Ella sorriu: +<br /> + +<br /> + +—Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre +Juliana, disse. +<br /> + +<br /> + +—Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou +farto d'aquelle estafermo! Então que quer? Eu cá +sou assim. Tanto digo que me não importo com ella, +como digo que ha uma pessoa por quem dava +tudo... Eu sei... +<br /> + +<br /> + +—Quem é? É a snr.<sup>a</sup> D. +Bernarda? +<br /> + +<br /> + +Era uma velha hedionda, viuva de um coronel. +<br /> + +<br /> + +—É, disse elle rindo. É justamente por quem eu +ando apaixonado, é pela D. Bernarda. +<br /> + +<br /> + +—Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, +com os olhos baixos, riscando a areia. +<br /> + +<br /> + +—Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? +exclamou Agostinho puxando uma cadeirinha, sentando-se +junto d'ella. +<br /> + +<br /> + +Amelia pôz-se de pé. +<br /> + +<br /> + +—Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou +elle offendido. +<br /> + +<br /> + +—Eu é que estava cansada de estar sentada. +<br /> + +<br /> + +Calaram-se um momento. +<br /> + +<br /> + +—Já tomou banho? disse ella. +<br /> + +<br /> + +—Já. +<span class="pagenum">[98]</span> +<br /> + +<br /> + +—Estava frio hoje? +<br /> + +<br /> + +—Estava. +<br /> + +<br /> + +As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas. +<br /> + +<br /> + +—Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe +de leve a mão no hombro. +<br /> + +<br /> + +Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto +trigueiro, todo risonho, exclamou com vehemencia: +<br /> + +<br /> + +—Estou mesmo doido por si! +<br /> + +<br /> + +—Chut!... disse ella. +<br /> + +<br /> + +A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, +sahia, muito abafada, de lenço amarrado na +cabeça. +<br /> + +<br /> + +—Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, +tirando o chapéo de palha. +<br /> + +<br /> + +—Estava por aqui? +<br /> + +<br /> + +—Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao +almocinho, hein? +<br /> + +<br /> + +—Se é servido... disse a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Agostinho, muito galante, offereceu o braço á +mamã. +<br /> + +<br /> + +E desde então seguia sempre Amelia, de manhã +no banho, de tarde á beira-mar; apanhava-lhe conchas; +e tinha-lhe feito outros versos—o +<em>Sonho</em>. Uma +estrophe era violenta: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Senti-te contra o meu peito<br /> + +Tremer, palpitar, ceder... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ella murmurava-os com grande commoção, de +noite, suspirando, abraçando o travesseiro. +<span class="pagenum">[99]</span> +<br /> + +<br /> + +Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma +noite o alegre rancho da snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á +volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram +o céo, cahíram gotas d'agua. Estavam +então +junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos +gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia +pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros +na espessura; e então, sob o monotono e gemente rumor +das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes: +<br /> + +<br /> + +—Estou doido por ti, filha! +<br /> + +<br /> + +—Creio lá n'isso! murmurou ella. +<br /> + +<br /> + +Mas Agostinho, tomando subitamente um tom +grave: +<br /> + +<br /> + +—Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora. +<br /> + +<br /> + +—Vai-se? +<br /> + +<br /> + +—Talvez; não sei ainda. Além +d'ámanhã é a +matricula. +<br /> + +<br /> + +—Vai-se... suspirou Amelia. +<br /> + +<br /> + +Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com +furor: +<br /> + +<br /> + +—Escreve-me! disse. +<br /> + +<br /> + +—E a mim escreve-me? disse ella. +<br /> + +<br /> + +Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe +a boca de beijos vorazes. +<br /> + +<br /> + +—Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada. +<br /> + +<br /> + +De repente teve um gemido dôce como um arrulho +de ave, e abandonava-se—quando a voz aguda +de D. Joaquina Gansoso gritou: +<span class="pagenum">[100]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ha uma aberta. É andar! é andar! +<br /> + +<br /> + +E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu +a agachar-se sob o guardachuva da mamã. +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. +Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco +tambem Amelia, a mãi, a snr.<sup>a</sup> D. +Maria da +Assumpção +voltaram para Leiria. +<br /> + +<br /> + +Passou o inverno. +<br /> + +<br /> + +E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da +Assumpção deu parte que o Agostinho Brito, +segundo +lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento +justo com a menina do Vimeiro. +<br /> + +<br /> + +—Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha +nada menos que os seus trinta contos! Olha o +méco! +<br /> + +<br /> + +E diante de todos Amelia rompeu a chorar. +<br /> + +<br /> + +Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles +beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então +que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada +d'aquelle moço da historia do <em>Tio +Cegonha</em>, que +por amor se escondera na solidão de um convento, +começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte +devoção, manifestação +exagerada das tendencias +que desde pequenina as convivencias de padres tinham +lentamente creado na sua natureza sensivel; +lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do +quarto de lithographias coloridas de santos; passava +longas horas na igreja, accumulando Salve-Rainhas +á Senhora da Encarnação. Ouvia todos +os dias missa, +quiz commungar todas as semanas—e as amigas +<span class="pagenum">[101]</span> +da mãi achavam-na «um modêlo, de dar +virtude +a incredulos»! +<br /> + +<br /> + +Foi por esse tempo que o conego Dias e sua +irmã, a snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias, +começaram a +frequentar +a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o conego +tornou-se o «amigo da familia». Depois do +almoço +era certo com a sua cadellinha, como outr'ora +o chantre com o seu guardachuva. +<br /> + +<br /> + +—Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, +dizia a S. Joanneira. Mas o senhor chantre não ha +dia nenhum que me não lembre d'elle! +<br /> + +<br /> + +A irmã do conego tinha então organisado com a +S. Joanneira a <em>Associação das +Servas da Senhora da +Piedade</em>. A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, as Gansosos +«filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se +um centro ecclesiastico. Foi esse o momento melhor +da vida da S. Joanneira; «a Sé, como dizia com +tedio o Carlos da botica, era agora na rua da Misericordia». +Parte dos conegos, o novo chantre vinham +todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na +sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrupulo, +eram examinadas em doutrina antes de serem +aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as +reputações: +se se dizia de um homem—<em>não é +temente a Deus</em>, +havia o dever de o desacreditar santamente. As +nomeações +de sineiros, coveiros, serventes de sacristia +arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras +piedosas. Tinham tomado um certo vestuario entre o +preto e o rôxo: toda a casa cheirava a cera e a incenso; +<span class="pagenum">[102]</span> +e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o +commercio das hostias. +<br /> + +<br /> + +Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o +grupo devoto dispersou-se: a ligação do conego +Dias +e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os +padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia +tambem—como era de tradição n'aquella +diocese, fatal aos chantres; e já não eram +divertidos +os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; +crescera: fizera-se uma bella moça de vinte e dois +annos, d'olhar avelludado, beiços muito frescos—e +achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice +de criança». A sua devoção +subsistia, mas alterada: +o que amava agora na religião e na igreja era +o apparato, a festa—as bellas missas cantadas ao +orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre +os tocheiros, o altar-mór na gloria das flôres +cheirosas, +o roçar das correntes dos incensadores de prata, +os unisonos que rompem briosamente no côro das +alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era +o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, +de se perfumar com agua de colonia, de se ir aninhar +sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre +Brito ou ao conego Saldanha.—Mas em certos dias, +como dizia a mãi, «murchava»: voltavam +então os +abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam, lhe punham +duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha +n'essas occasiões horas d'uma vaga saudade parva e +morbida, em que só a consolava cantar pela casa o +<span class="pagenum">[103]</span> +Santissimo ou as notas lugubres do toque da Agonia. +Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre—e +lamentava então que a Sé fosse uma ampla +estructura +de pedra d'um estylo frio e jesuitico: quereria +uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, +forrada de papel, illuminada a gaz; e padres +bonitos officiando a um altar ornado como uma +<em>étagère</em>. +<br /> + +<br /> + +Fizera vinte e tres annos quando conheceu João +Eduardo, no dia da procissão de +<em>Corpus-Christi</em>, em +casa do tabellião Nunes Ferral, onde elle era escrevente. +Amelia, a mãi, a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +Dias tinham +ido vêr a procissão da bella varanda do +tabellião, +guarnecida de colchas de damasco amarello. +João Eduardo estava lá, modesto, +sério, todo vestido +de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; +mas n'aquella tarde, reparando na brancura da sua +pelle e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe +«muito bom rapaz». +<br /> + +<br /> + +Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de +collete branco, foi pela sala exclamando, enthusiasmado, +com a sua voz de grillo:—É tirar pares, é +tirar pares!—emquanto a filha mais velha ao piano +tocava com brio estridente uma mazurka franceza. +João Eduardo aproximou-se de Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar +sêcco. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se +a uma hombreira com a mão na abertura do collete, +os olhos fitos em Amelia. Ella percebia, desviava +<span class="pagenum">[104]</span> +o rosto, mas estava contente; e quando João +Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se +ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar accommodando +os folhos de sêda, agradada. O escrevente, +embaraçado, +torcia o bigode com a mão tremula. Por +fim Amelia voltando-se para elle: +<br /> + +<br /> + +—Então o senhor não dansa tambem? +<br /> + +<br /> + +—E a snr.<sup>a</sup> D. Amelia? disse elle baixo. +<br /> + +<br /> + +Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas +do vestido: +<br /> + +<br /> + +—Ai! eu estou velha para estes divertimentos, +sou uma pessoa séria. +<br /> + +<br /> + +—Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz +uma intenção fina. +<br /> + +<br /> + +—Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella +olhando-o de lado. +<br /> + +<br /> + +—De mim, por exemplo. +<br /> + +<br /> + +—De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque +me hei de eu rir do senhor? Boa!... Então o +senhor que tem que faça rir?—E agitava o seu leque +de sêda preta. +<br /> + +<br /> + +Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas. +<br /> + +<br /> + +—Então sério, sério, não +dansa? +<br /> + +<br /> + +—Já lhe disse que não. Ai, que é +tão perguntador! +<br /> + +<br /> + +—É porque me interesso por si. +<br /> + +<br /> + +—Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente +gesto de negativa. +<br /> + +<br /> + +—Palavra! +<br /> + +<br /> + +Mas a snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias, que os vigiava, +<span class="pagenum">[105]</span> +aproximou-se, de testa muito franzida—e João +Eduardo levantou-se, intimidado. +<br /> + +<br /> + +Á sahida, quando Amelia no corredor punha os +seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de +chapéo +na mão: +<br /> + +<br /> + +—Cubra-se bem, não apanhe frio! +<br /> + +<br /> + +—Então continúa a interessar-se por mim? disse +ella apertando em redor do pescoço as pontas +da sua manta de lã. +<br /> + +<br /> + +—O mais possivel, creia. +<br /> + +<br /> + +Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia +ambulante de <em>zarzuela</em>. Fallava-se +muito da +contralto, a <em>Gamacho</em>. A snr.<sup>a</sup> +D. +Maria da Assumpção +tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia—que +duas noites antes estivera costurando, com +uma pressa commovida, um vestido de cassa todo +florido de laços de sêda azul. João +Eduardo na platéa—emquanto +a Gamacho, empastada de pó de +arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com +uma graça decrepita o leque de lentejoulas, garganteava +malaguenhas agudas—não se fartou de contemplar, +de desejar Amelia. Á sahida veio comprimental-a, +offerecer-lhe o braço até á rua da +Misericordia: +a S. Joanneira, a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +seguiam atraz com o tabellião Nunes. +<br /> + +<br /> + +—Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo? +<br /> + +<br /> + +—A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei +n'ella. +<br /> + +<br /> + +—Então que fez? +<br /> + +<br /> + +—Olhei para si, respondeu elle resolutamente. +<span class="pagenum">[106]</span> +<br /> + +<br /> + +Ella parou immediatamente, disse com a voz +um pouco alterada: +<br /> + +<br /> + +—Onde vem a mamã? +<br /> + +<br /> + +—Deixe lá a mamã! +<br /> + +<br /> + +E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do +rosto, +disse-lhe «a sua grande paixão». +Tomou-lhe a +mão, repetia todo perturbado: +<br /> + +<br /> + +—Gósto tanto de si! Gósto tanto de si! +<br /> + +<br /> + +Amelia estava nervosa da musica do theatro; +a noite quente de verão, com a sua vasta +scintillação +de estrellas, tornava-a toda languida. Abandonou +a mão, suspirou baixinho. +<br /> + +<br /> + +—Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle. +<br /> + +<br /> + +—Sim, respondeu ella—e apertou os dedos de +João Eduardo, com paixão. +<br /> + +<br /> + +Mas, como ella pensou, «fôra decerto um +fogacho»—porque, +dias depois, quando conheceu mais +João Eduardo, quando pôde fallar livremente com +elle, reconheceu que «não tinha nenhuma +inclinação +pelo rapaz». Estimava-o, achava-o sympathico, bom +moço; poderia ser um bom marido; mas sentia +dentro em si o coração adormecido. +<br /> + +<br /> + +O escrevente porém começou a ir á rua +da Misericordia +quasi todas as noites. A S. Joanneira estimava-o +pelo seu «proposito» e pela sua honradez. +Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o +á janella +pela manhã quando elle passava para o cartorio, +fazia-lhe olhos dôces á noite,—mas só +para +o não descontentar, para ter na sua existencia desoccupada +um interessesinho amoroso. +<span class="pagenum">[107]</span> +<br /> + +<br /> + +João Eduardo um dia fallou à mãi em +casamento: +<br /> + +<br /> + +—Como a Amelia quizer, eu por mim... disse +a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente: +<br /> + +<br /> + +—Mais tarde, por ora não me parece, veremos. +<br /> + +<br /> + +Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até +que elle obtivesse o lugar de amanuense do governo +civil, rasgadamente promettido pelo doutor Godinho—o +temido doutor Godinho! +<br /> + +<br /> + +Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, +durante a noite, estas recordações vinham-lhe por +fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento +vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, +acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se, +quando +ouviu dizer a <em>Ruça</em> na +sala de jantar: +<br /> + +<br /> + +—É o senhor parocho que vai sahir com o senhor +conego; vão á Sé. +<br /> + +<br /> + +Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, +ergueu uma pontinha da cortina de cassa, +olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo +meio da rua conversando com o conego, assoava-se +ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina +de pano fino. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente +em commodidades, Amaro sentiu-se feliz. A +S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande cuidado +na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, +e o «quarto do senhor parocho andava que nem um +brinco»! Amelia tinha com elle uma familiaridade picante +de parenta bonita: «tinham calhado um com +outro», como dissera, encantada, D. Maria da +Assumpção. +Os dias iam assim passando para Amaro, +faceis, com boa mesa, colchões macios e a convivencia +meiga de mulheres. A estação ia tão +linda que +até as tilias floresceram no jardim do Paço: +«quasi +milagre»! disse-se: o senhor chantre, contemplando-as +todas as manhãs da janella do seu quarto, +em robe-de-chambre, citava versos das +<em>Eclogas</em>. E +depois das longas tristezas da casa do tio da Estrella, +<span class="pagenum">[110]</span> +dos desconsolos do seminario e do aspero inverno +na Gralheira—aquella vida em Leiria era para +Amaro como uma casa sêcca e abrigada onde o alegre +lume estala e a sôpa cheirosa fumega, depois +d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros. +<br /> + +<br /> + +Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no +seu grande capote, com luvas de casimira, meias de +lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As +manhãs +estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, +com o mantéo escuro pela cabeça, rezavam +aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de +branco. +<br /> + +<br /> + +Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa +batendo os pés no lagedo, emquanto o sacristão, +pachorrento, contava «as novidades do dia». +<br /> + +<br /> + +Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava +á igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente +diante do Santissimo Sacramento, subia devagar +ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam +com uma claridade pallida na larga luz da manhã, +juntava as mãos, murmurava, curvado: +<br /> + +<br /> + +—<em>Introibo ad altare Dei.</em> +<br /> + +<br /> + +—<em>Ad Deum qui lætificat juventutem +meam</em>, resmungava, +n'um latim syllabado, o sacristão. +<br /> + +<br /> + +Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros +tempos, com uma devoção enternecida. +«Estava +agora habituado», dizia. E como não ceava, e +áquella +hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já +sentia appetite, engorolava depressa, monotonamente, +as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos. +<span class="pagenum">[111]</span> +Por traz o sacristão, com os braços cruzados, +passava +vagarosamente a mão pela sua espessa barba +bem rapada, olhando de revez para a Casimira França, +mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que +elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. +Largas resteas +de sol cahiam das janellas lateraes. Um vago +aroma de junquilhos sêccos adocicava o ar. +<br /> + +<br /> + +Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, +limpava o calice com o purificador; o sacristão, +um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas, +apresentava-as, curvado—e Amaro sentia o cheiro +do oleo rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella +parte da missa, por um antigo habito de emoção +mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido: com +os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, +com largueza, a exhortação universal á +oração—<em>Orate, +fratres!</em> E as velhas encostadas aos pilares +de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, +apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde +pendiam grandes rosarios negros. Então o +sacristão +ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando ligeiramente +com uma das mãos a capa, erguendo na outra +a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a +hostia—<em>Hoc est enim corpus +meum!</em>—elevando +alto os braços para o Christo cheio de chagas +rôxas +sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava +devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos; +e no silencio sentiam-se os carros de bois rolando, +com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à +volta +do mercado. +<span class="pagenum">[112]</span> +<br /> + +<br /> + +—<em>Ite, missa est!</em> dizia Amaro emfim. +<br /> + +<br /> + +—<em>Deo gratias!</em> respondia o +sacristão respirando +alto, com o allivio da obrigação finda. +<br /> + +<br /> + +E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro +vinha do alto dos degraus dar a benção, era +já pensando +na alegria do almoço, na clara sala de jantar +da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora +já Amelia o esperava com o cabello cahido sobre o +penteador, tendo na pelle fresca um bom cheiro de +sabão d'amendoas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à +sala de jantar onde a S. Joanneira e Amelia costuravam. +«Estava aborrecido em baixo, vinha um bocado +para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira +pequena, ao pé da janella, com o gato aninhado +na roda do vestido de merino, cosia de luneta na +ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava +com o cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada +sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nitida, +um pouco afogada na abundancia do cabello; os +seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos +de cera, oscillavam, faziam tremer e crescer sobre a +finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras +leves côr de <em>bistre</em> +esbatiam-se delicadamente sobre +a pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue +forte aviventava; e o seu peito cheio respirava +devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda, +<span class="pagenum">[113]</span> +espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. +Então +Amaro gracejava: +<br /> + +<br /> + +—Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher +de casa! +<br /> + +<br /> + +Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as +coisas interessantes do dia: o major despedira a +criada; ou havia quem offerecesse dez moedas pelo +porco do Carlos do correio. De vez em quando a +<em>Ruça</em> vinha ao armario +buscar um prato ou uma +colhér: então fallava-se do preço dos +generos, do +que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as +lunetas, traçava a perna e, balouçando o +pé calçado +n'uma chinela d'ourelo, punha-se a dizer os pratos: +<br /> + +<br /> + +—Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor +parocho gostará, foi para variar... +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas +comidas descobria affinidade de gostos com Amelia. +<br /> + +<br /> + +Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. +Um dia encontrára uma carta; perguntou-lhe +pelo <em>derriço</em>; ella +respondeu, picando vivamente o +posponto: +<br /> + +<br /> + +—Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho... +<br /> + +<br /> + +—Não é tanto assim, acudiu elle.—Mas +suspendeu-se, +muito vermelho, affectando tossir. +<br /> + +<br /> + +Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia +mesmo pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha +de retroz que ella ia dobar. +<br /> + +<br /> + +—Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. +<span class="pagenum">[114]</span> +Joanneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!... +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:—elle +estava alli para o que quizessem, até para dobadoura! +Era mandarem, era mandarem! E as duas +mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas +maneiras do senhor parocho, «que até tocavam +o coração»! Ás vezes Amelia +pousava a costura +e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, +corria a mão pela espinha do +<em>Maltez</em> que se arredondava, +fazendo um <em>ron-ron</em> de gozo. +<br /> + +<br /> + +—Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, +com os olhos muito ternos. +<br /> + +<br /> + +E a voz de Amaro murmurava, perturbada: +<br /> + +<br /> + +—Bichaninho gato! bichaninho gato! +<br /> + +<br /> + +Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio +á idiota ou ir palrar á cozinha. Elles ficavam +sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um +longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma +languidez dormente. Então Amelia cantarolava +baixo o <em>Adeus</em> ou o +<em>Descrente</em>: Amaro accendia o +seu cigarro, e escutava bamboleando a perna. +<br /> + +<br /> + +—É tão bonito isso! dizia. +<br /> + +<br /> + +Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo +depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o +alinhavado ou o posponto, passando-lhe por cima, +para o assentar, a sua unha polida e larga. +<br /> + +<br /> + +Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque +tudo que era <em>ella</em> ou vinha +d'<em>ella</em> lhe parecia perfeito: +gostava da côr dos seus vestidos, do seu andar, +<span class="pagenum">[115]</span> +do modo de passar os dedos pelos cabellos, e +olhava até com ternura para as saias brancas que +ella punha a seccar á janella do seu quarto, enfiadas +n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade +d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto +d'ella entreaberta, ia resvalar para dentro olhares +gulosos, como para perspectivas d'um paraiso: +um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga +que ficára sobre o bahú, eram como +revelações da +sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo +pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, +andar +com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras +das portas estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, +muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: +o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em +baixo, longe; via-os muito esbatidos do alto do seu +enlevo, como d'um monte se vêem as casas desapparecer +no nevoeiro dos valles; e só pensava então +na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura +do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, +batia o pé: +<br /> + +<br /> + +—Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario +ser homem! +<br /> + +<br /> + +Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de +Amelia fallava em cima, o <em>tic-tic</em> +das suas botinas batia +o soalho... Adeus! a devoção cahia como uma +vela a que falta o vento; as boas resoluções +fugiam, +e lá voltavam as tentações em bando a +apoderar-se do +seu cerebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas +<span class="pagenum">[116]</span> +pelas outras como um bando de pombas que recolhem +ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava +então a sua liberdade perdida: como desejaria +não a vêr, estar longe de Leiria, n'uma aldeia +solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha +cheia de proverbios e de economia, e passear pela +sua horta quando as alfaces verdejam e os gallos cacarejam +ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o—e +o encanto recomeçava, mais penetrante. +<br /> + +<br /> + +A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa +e feliz, a melhor do dia. A S. Joanneira trinchava, +emquanto Amaro conversava cuspindo os caroços +das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os +sobre a toalha. A <em>Ruça</em>, +cada dia mais etica, +servia mal, sempre a tossir: Amelia ás vezes erguia-se +para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. +Amaro queria levantar-se logo, attencioso. +<br /> + +<br /> + +—Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! +dizia ella. E punha-lhe a mão no hombro, e os +seus olhos encontravam-se. +<br /> + +<br /> + +Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo +sobre o estomago, sentia-se regalado, gozava muito +no bom calor da sala; depois do segundo copo +da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; +ás vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava +fugitivamente o pé de Amelia debaixo da mesa; +ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava +não ter uma irmãzinha assim»! +<span class="pagenum">[117]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no +môlho do guisado; a mãi dizia-lhe sempre: +<br /> + +<br /> + +—Embirro que faças isso diante do senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +E elle então rindo: +<br /> + +<br /> + +—Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! +magnetismo! +<br /> + +<br /> + +E molhavam ambos o pão, e sem razão davam +grandes risadas. Mas o crepusculo crescia, a +<em>Ruça</em> +trazia o candieiro. O brilho dos copos e das louças +alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. +Joanneira <em>mamã</em>; Amelia +sorria, d'olhos baixos, trincando +com a ponta dos dentes cascas de tangerina. +D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava +muito tempo partindo nozes com as costas da faca +e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires. +<br /> + +<br /> + +Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; +sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada: +<br /> + +<br /> + +—Licença para dois! +<br /> + +<br /> + +Era elle e a cadella, a <em>Trigueira</em>. +<br /> + +<br /> + +—Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! +dizia assomando á porta. +<br /> + +<br /> + +—Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava +logo a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Elle sentava-se, exhalando um profundo +<em>uff!</em>—Vá +lá a gotinha do café! E batendo no hombro do +parocho, olhando para a S. Joanneira: +<br /> + +<br /> + +—Então como vai cá o seu menino? +<br /> + +<br /> + +Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava +trazer no bolso o <em>Diario Popular</em>; +Amelia +<span class="pagenum">[118]</span> +interessava-se pelo romance, a S. Joanneira pelas +correspondencias amorosas nos annuncios. +<br /> + +<br /> + +—Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, +deliciando-se. +<br /> + +<br /> + +Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos +que lhe contára a tia, dos fidalgos que conhecera +«em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia, +enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, +roendo vagarosamente a ponta do palito. +<br /> + +<br /> + +Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina +esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha, +com uma medonha touca de rendas negras que +tornava mais lívida a sua carinha engelhada como +uma maçã raineta, fazendo debaixo da roupa uma +saliencia quasí imperceptivel, fixava em todos, com +custo, os seus olhinhos concavos e chorosos. +<br /> + +<br /> + +—É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe +Amelia ao ouvido. Vem vêr como está. +<br /> + +<br /> + +A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida: +<br /> + +<br /> + +—Ah! é o menino! +<br /> + +<br /> + +—É o menino, é, diziam rindo. +<br /> + +<br /> + +E a velha ficava a murmurar, espantada: +<br /> + +<br /> + +—É o menino, é o menino! +<br /> + +<br /> + +—Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! +Deus lhe dê uma boa morte! +<br /> + +<br /> + +E voltavam para a sala de jantar onde o conego +Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, +com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo: +<br /> + +<br /> + +—Ora vá um bocadinho de musica, pequena! +<span class="pagenum">[119]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia ia sentar-se ao piano. +<br /> + +<br /> + +—Ó filha, toca o <em>Adeus</em>! +recommendava a S. +Joanneira começando a sua meia. +<br /> + +<br /> + +E Amelia, ferindo o teclado: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ai! adeus! acabaram-se os dias<br /> + +Que ditoso vivi a teu lado... +</div> + +<br /> + +<br /> + +A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, +soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado +n'um sentimentalismo agradavel. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Quando descia para o seu quarto, à noite, ia +sempre exaltado. Punha-se então a lêr os +<em>Canticos a +Jesus</em>, traducção do francez +publicada pela sociedade +das <em>Escravas de Jesus</em>. É +uma obrasinha beata, escripta +com um lyrismo equivoco, quasi torpe—que +dá á oração a linguagem da +luxuria: Jesus é invocado, +reclamado com as sofreguidões balbuciantes +d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado +do meu coração, corpo adoravel, minha alma +impaciente +quer-te! Amo-te com paixão e desespero! +Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» +E um amor divino, ora grotesco pela intenção, +ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama +assim em cem paginas inflammadas onde as +palavras <em>gozo</em>, +<em>delicia</em>, +<em>delírio</em>, +<em>extase</em>, voltam a cada +momento, com uma persistencia hysterica. E depois +de monologos phreneticos d'onde se exhala um bafo +de cio mystico, vêm então imbecilidades de +sacristia, +<span class="pagenum">[120]</span> +notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de +jejuns, e orações para as dôres de +parto! Um bispo +approvou aquelle livrinho bem impresso; as educandas +lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem +as eloquencias do erotismo, todas as pieguices da +devoção; encaderna-se em marroquim e +dá-se ás confessadas: +é a cantharida canonica! +<br /> + +<br /> + +Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por +aquelles periodos sonoros, tumidos de desejo; e no +silencio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de +Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava +a cabeça ás costas da poltrona, cerrava os olhos, +e +parecia-lhe vêl-a em collete diante do toucador desfazendo +as trancas; ou, curvada, desapertando as ligas, +e o decote da sua camisa entreaberta descobria +os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os +dentes, com uma decisão brutal de a possuir. +<br /> + +<br /> + +Começára então a recommendar-lhe a +leitura dos +<em>Canticos a Jesus</em>. +<br /> + +<br /> + +—Verá, é muito bonito, de muita +devoção! disse +elle, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto +da costura. +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, +com as olheiras até ao meio da face. Queixou-se de +insomnia, de palpitações. +<br /> + +<br /> + +—E então, gostou dos +<em>Canticos</em>? +<br /> + +<br /> + +—Muito. Orações lindas! respondeu. +<br /> + +<br /> + +Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para +Amaro. Parecia triste—e sem razão, ás vezes, o +rosto abrazava-se-lhe de sangue. +<span class="pagenum">[121]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Os peores momentos para Amaro eram as segundas +e quartas-feiras, quando João Eduardo vinha +passar as noites «em familia». Até +ás nove horas o +parocho não sahia do quarto; e quando subia para +o chá desesperava-se de vêr o escrevente +embrulhado +no seu chale-manta, sentado junto de Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor +parocho! dizia a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar +a sua torrada, com os olhos fitos na chavena. +<br /> + +<br /> + +Amelia, na presença de João Eduardo, agora, +não +tinha com o parocho a mesma familiaridade alegre, +mal levantava os olhos da costura; o escrevente calado +chupava o cigarro; e havia grandes silencios +em que se sentia o vento uivar, encanado na rua. +<br /> + +<br /> + +—Olha quem andar agora nas aguas do mar! +dizia a S. Joanneira fazendo devagar a sua meia. +<br /> + +<br /> + +—Safa!... acrescentava João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +As suas palavras, os seus modos irritavam o padre +Amaro: detestava-o pela sua pouca devoção, +pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle sentia-se +mais enleado no seu acanhamento de padre. +<br /> + +<br /> + +—Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se +nas costas da cadeira, com um suspirosinho +de fadiga. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira, então, que não gostava de +«vêr +<span class="pagenum">[122]</span> +gente mona», propunha uma <em>bisca de +tres</em>; e o padre +Amaro, tomando o seu candieiro de latão, descia +para o quarto, muito infeliz. +<br /> + +<br /> + +N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a +<em>casmurra</em>. A intimidade do escrevente +na casa parecia-lhe +escandalosa: decidia mesmo fallar á S. Joanneira, +dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a +dentro não podia ser agradavel a Deus». Depois, +mais razoavel, resolvia esquecel-a, pensava em sahir +da casa, da parochia. Representava-se então +Amelia com a sua corôa de flôres de laranjeira, e +João Eduardo, muito vermelho, de casaca, voltando +da Sé, casados... Via a cama de noivado com +os seus lençoes de renda... e todas as provas, as +certezas do amor d'ella pelo «idiota do escrevente» +cravavam-se-lhe no peito como punhaes... +<br /> + +<br /> + +—Pois que casem, e que os leve o diabo!... +<br /> + +<br /> + +Odiava-a então. Fechava violentamente a porta +à chave como para impedir que lhe penetrasse no +quarto o rumor da sua voz ou o +<em>frou-frou</em> das suas +saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava +com o coração aos saltos, immovel e ancioso, +os ruidos que ella fazia em cima ao despir-se, +palrando ainda com a mãi. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Um dia Amaro jantára em casa da snr.<sup>a</sup> +D. Maria +da Assumpção; fôra depois passear pela +estrada de +Marrases, e á volta, ao fim da tarde, encontrou, ao +<span class="pagenum">[123]</span> +entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, +no patamar, estavam os chinelos de ourelo +da <em>Ruça</em>. +<br /> + +<br /> + +—Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte +e esqueceu-se de fechar a porta. +<br /> + +<br /> + +Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde +com a snr.<sup>a</sup> D. Joaquina Gansoso, n'uma fazenda +ao +pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em ir +á +irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu +á cozinha a accender o seu candieiro; como as ruas +estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda +galochas de borracha; os seus passos não faziam +rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar +sentiu no quarto da S. Joanneira, através do reposteiro +de chita, uma tosse grossa; surprehendido, +afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela +porta entreaberta espreitou.—Oh Deus de Misericordia! +a S. Joanneira, em saia branca, atacava o collete; +e, sentado á beira da cama, em mangas de camisa, +o conego Dias resfolegava grosso! +<br /> + +<br /> + +Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito +devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados +da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas +de chuva +cahiam. +<br /> + +<br /> + +—E esta! E esta! dizia elle assombrado. +<br /> + +<br /> + +Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, +a pachorrenta S. Joanneira! O conego, seu +mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos +do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado +a idade, a nutrição, as dignidades +ecclesiasticas! +<span class="pagenum">[124]</span> +Que faria então um homem novo e forte, que sente +uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar +e arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava +no seminario, o que lhe dizia o velho padre +Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:—«Todos +são do mesmo barro!» Todos são do mesmo +barro,—sobem em dignidades, entram nos cabidos, +regem os seminarios, dirigem as consciencias +envoltos em Deus como n'uma absolvição +permanente, +e têm no emtanto, n'uma viella, uma mulher +pacata e gorda, em casa de quem vão repousar +das attitudes devotas e da austeridade do officio, +fumando cigarros de estanco e palpando uns braços +rechonchudos! +<br /> + +<br /> + +Vinham-lhe então outras reflexões: que gente +era aquella, a S. Joanneira e a filha, que viviam assim +sustentadas pela lubricidade tardia de um velho +conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem +feita, desejavel—outr'ora! Por quantos braços teria +passado até chegar, pelos declives da idade, +áquelles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas, +que diabo, não eram honestas! Recebiam +hospedes, viviam da concubinagem. Amelia ia sósinha +á igreja, ás compras, á fazenda; e com +aquelles +olhos tão negros, talvez já tivesse tido um +amante!—Resumia, +filiava certas recordações: um dia +que ella lhe estivera mostrando na janella da cozinha +um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e +ella, muito córada, puzera-lhe a mão sobre o +hombro +e os seus olhos reluziam e pediam; outra occasião +<span class="pagenum">[125]</span> +ella roçára-lhe o peito pelo braço! A +noite cahira, +com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando +depressa, cheio de uma só idéa deliciosa que +o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o +conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa +vida escandalosa e regalada; emquanto em cima a +grossa S. Joanneira beijocasse o seu conego cheio +de difficuldades asthmaticas,—Amelia desceria ao +seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias +brancas, +com um chale sobre os hombros nús... Com +que phrenesi a esperaria! E já não sentia por +ella o +mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a +idéa muito magana dos dois padres e as duas concubinas, +de panellinha, dava áquelle homem amarrado +pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos +pulinhos pela rua.—Que pechincha de casa! +<br /> + +<br /> + +A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já +luz na sala de jantar. Subiu. +<br /> + +<br /> + +—Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, +ao apertar-lhe a mão, a humidade da nevoa. +<br /> + +<br /> + +Sentada á mesa, costurava com um chale-manta +pelos hombros: João Eduardo, ao pé, jogava a +bisca +com a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença +do escrevente dera-lhe de repente, sem saber +porque, o duro choque d'uma realidade antipathica: +e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a +dansar uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se +uma a uma, murchavam—vendo alli Amelia ao pé +<span class="pagenum">[126]</span> +do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com +o seu escuro vestido afogado, junto do candieiro de +familia! +<br /> + +<br /> + +E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, +as paredes com o seu papel de ramagens verdes, +o armario cheio de louça luzidia da Vista-Alegre, +o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho +piano mal firme nos seus tres pés torneados; o paliteiro +tão querido de todos—um Cupido rechonchudo +com um guardachuva aberto erriçado de palitos, +e aquella tranquilla bisca jogada com os dichotes +classicos. Tudo tão decente! +<br /> + +<br /> + +Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço +da S. Joanneira, como para descobrir n'ellas as +marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha duvida, +és «uma barregã de clerigo ». +Mas Amelia! +com aquellas longas pestanas descidas, o beiço +tão +fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da mãi; +ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se +solidamente na segurança d'um amor legal!—E +Amaro, da sombra, examinava-a longamente como +para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade +do seu passado. +<br /> + +<br /> + +—Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. +Joanneira. E para João Eduardo:—Trunfo, faz favor, +seu cabeça no ar? +<br /> + +<br /> + +O escrevente, namorado, distrahia-se. +<br /> + +<br /> + +—É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a +cada momento. +<br /> + +<br /> + +Depois elle esquecia-se de <em>comprar +cartas</em>. +<span class="pagenum">[127]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ah menino, menino! dizia ella com a sua +voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas! +<br /> + +<br /> + +Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha +um pequeno casabeque preto com botões de vidro, +que lhe disfarçava a fórma do seio. +<br /> + +<br /> + +E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, +d'aquelle casaco amplo escondendo a belleza +que mais appetecia n'ella! E nada a esperar! Nada +d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, +nem a brancura d'aquelles peitos! Queria casar—e +guardava <em>tudo</em> para o outro, o +idiota, que sorria +baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um odio +complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu +direito d'amar... +<br /> + +<br /> + +—Está incommodado, senhor parocho? perguntou +Amelia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira. +<br /> + +<br /> + +—Não, disse elle sêccamente. +<br /> + +<br /> + +—Ah! fez ella com um leve suspiro, picando +rapidamente o posponto. +<br /> + +<br /> + +O escrevente, baralhando as cartas, começára a +fallar de uma casa que queria alugar; a conversa +cahiu sobre arranjos domesticos. +<br /> + +<br /> + +—Traze-me luz! gritou Amaro à +<em>Ruça</em>. +<br /> + +<br /> + +Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a +vela sobre a commoda; o espelho estava defronte, +e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio, ridiculo +com a sua cara rapada, a volta hirta como uma +colleira, e por traz a corôa hedionda. Comparou-se +instinctivamente com o outro que tinha um bigode, +<span class="pagenum">[128]</span> +o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de +eu estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; +podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; +elle só poderia dar-lhe sensações +criminosas, +depois os terrores do peccado! Ella sympathisava +talvez com elle, apesar de padre; mas antes de tudo, +acima de tudo, queria casar; nada mais natural! +Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma +situação legitima +e duradoura, o respeito das visinhas, a +consideração +dos lojistas, todos os proveitos da honra! +<br /> + +<br /> + +Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua +honestidade! A estupida, que não percebia que ao +pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão +devota +a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! +Desejou que ella fosse como a mãi,—ou +peor, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia +impudente, traçando a perna e fitando os homens, +uma femea facil como uma porta aberta ... +<br /> + +<br /> + +—Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse +uma desavergonhada!—pensou, recahíndo em si +um pouco envergonhado. Está claro: não podemos +pensar em mulheres decentes, temos que reclamar +prostitutas! Bonito dogma! +<br /> + +<br /> + +Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; +a chuva cessára; o piar das corujas na Misericordia +cortava só o silencio. +<br /> + +<br /> + +Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, +aquella mudez de villa adormecida. E sentiu subir +outra vez, das profundidades do seu sêr, o amor que +sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo +<span class="pagenum">[129]</span> +devoto: via a sua linda cabeça, d'uma +belleza transfigurada e luminosa, destacar da negrura +espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella +n'um desfallecimento d'adoração, como no culto a +Maria +e na Saudação Angelica; pediu-lhe +perdão anciosamente +de a ter offendido; disse-lhe alto: És uma +santa! perdôa!—Foi um momento muito dôce, de +renunciamento carnal... +<br /> + +<br /> + +E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade +que descobria subitamente em si, pôz-se +a pensar com saudade—que se fosse um homem livre +seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, +dengueiro, sempre de joelhos, todo d'adorações! +Como amaria o <em>seu</em> filho, muito +pequerruchinho, a +puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas +felicidades +inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. +Amaldiçoou, n'um desespero, «a pêga da +marqueza +que o fizera padre», e o bispo que o confirmára! +<br /> + +<br /> + +—Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco +desvairado. +<br /> + +<br /> + +Sentiu então os passos de João Eduardo que +descia, +e o rumor das saias de Amelia. Correu a espreitar +pela fechadura, cravando os dentes no beiço, de ciume. +A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.—Mas +a sensação d'amor mystico que o +penetrára +um momento, olhando a noite, passára; e deitou-se, +com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Dias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham +ido jantar com o abbade da Cortegassa.—Era +um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta +annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor +cozinheiro da diocese. Todo o clero das visinhanças +conhecia a sua famosa <em>cabedella de +caça</em>. +O abbade fazia annos, havia outros convidados—o +padre Natario e o padre Brito: o padre Natario era +uma creaturinha biliosa, sêcca, com dois olhos encovados, +muito malignos, a pelle picada das bexigas +e extremamente irritavel. Chamavam-lhe o +<em>Furão</em>. +Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande +latinista, e ter uma logica de ferro; e dizia-se d'elle: +<em>é uma lingua de vibora</em>! +Vivia com duas sobrinhas +orphãs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhes +<span class="pagenum">[132]</span> +sempre a virtude, e costumava chamar-lhes +as <em>duas rosas do seu canteiro</em>. O +padre Brito era o +padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha +o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto +beirão que maneja bem o cajado, emborca um almude +de vinho, péga alegremente á rabiça do +arado, +serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e +nas séstas quentes de junho atira brutalmente as +raparigas para cima das medas de milho. O senhor +chantre, sempre correcto nas suas comparações +mythologicas, +chamava-lhe—o <em>leão de +Nemeia</em>. +<br /> + +<br /> + +A sua cabeça era enorme, de cabello lanigero +que lhe descia até ás sobrancelhas: a pelle +cortida +tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; +e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos +muito miudos e muito brancos do uso da brôa. +<br /> + +<br /> + +Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho +todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, +exclamando logo em tons agudos: +<br /> + +<br /> + +—Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais +um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora +da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa +de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho +mesmo +consoladinho! +<br /> + +<br /> + +A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, +entrou então com a vasta terrina do caldo de gallinha; +e o Libaninho, saltitando em roda d'ella, começou +os seus gracejos: +<br /> + +<br /> + +—Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem +eu sei! +<span class="pagenum">[133]</span> +<br /> + +<br /> + +A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, +que lhe sacudia a massa do seio. +<br /> + +<br /> + +—Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!... +<br /> + +<br /> + +—Ai, filha! as mulheres querem-se como as +peras, maduras e de sete cotovêlos. Então +é que é +chupal-as! +<br /> + +<br /> + +Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se +á mesa. +<br /> + +<br /> + +O jantar fôra todo cozinhado pelo abbade: logo á +sopa as exclamações começaram: +<br /> + +<br /> + +—Sim, senhor, famoso! D'isto nem no céo! Bella +coisa! +<br /> + +<br /> + +O excellente abbade estava escarlate de +satisfação. +Era, como dizia o senhor chantre, «um divino +artista»! Lera todos os <em>Cozinheiros +completos</em>, sabia +innumeras receitas: era inventivo—e, como elle +affirmava dando martelladinhas no craneo, «tinha-lhe +sahido muito petisco d'aquella cachimonia»! Vivia +tão absorvido pela sua «arte» que lhe +acontecia, +nos sermões de domingo, dar aos fieis ajoelhados +para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre +o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do +sarrabulho. E alli vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, +de muito bom paladar tambem, com o seu +quintal de ricos legumes, sentindo uma só +ambição +na vida—ter um dia a jantar o bispo! +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho! dizia elle a Amaro, por +quem é! mais um bocadinho de cabedella, faça +favor! +Essas côdeasinhas de pão ensopadas no +môlho! +<span class="pagenum">[134]</span> +Isso! isso! Que tal, hein?—E com um aspecto modesto:—Não +é lá por dizer, mas a cabedella hoje +sahiu-me boa! +<br /> + +<br /> + +Estava com effeito, como disse o conego Dias, +de tentar Santo Antonio no deserto! Todos tinham +tirado as capas, e, só com as batinas, as voltas alargadas, +comiam devagar, fallando pouco. Como no dia +seguinte era a festa da Senhora da Alegria, os sinos +na capella, ao lado, repicavam; e o bom sol do meio-dia +dava tons muito alegres á louça, ás +bojudas canecas +azues com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões +escarlates, ás frescas malgas de azeitonas +pretas—emquanto o bom abbade, d'olho arregalado, +mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos +brancos do peito do capão recheado. +<br /> + +<br /> + +As janellas abriam para o quintal. Viam-se dois +largos pés de camelias vermelhas crescendo junto +ao peitoril, e para além das copas das macieiras um +pedaço muito vivo de céo azul-ferrete. Uma nora +chiava ao longe, lavadeiras batiam a roupa. +<br /> + +<br /> + +Sobre a commoda, entre <em>in-folios</em>, na +sua peanha +um Christo perfilava tristemente contra a parede o +seu corpo amarello, coberto de chagas escarlates: +e, aos lados, sympathicos santos sob redomas de +vidro, lembravam legendas mais dôces de religião +amavel: o bom gigante S. Christovão atravessando +o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz +saltar o mundo sobre a sua mãosinha como uma +pella; o dôce pastor S. Joãosinho coberto com uma +pelle de ovelha, e guardando os seus rebanhos, não +<span class="pagenum">[135]</span> +com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro +S. Pedro, tendo na sua mão de barro as duas +santas chaves que servem nas fechaduras do céo! +Nas paredes, em lithographias de coloridos crueis, o +patriarcha S. José apoiava-se ao seu cajado onde +florescem lirios brancos; o cavallo empinado do bravo +S. Jorge pisava o ventre d'um dragão surprehendido; +e o bom Santo Antonio, á beira d'um regato, +sorria, fallando a um tubarão. O +<em>tlim-tlim</em> dos copos, +o ruido das facas animavam a velha sala de tecto +de carvalho defumado, d'uma alegria desusada. E +Libaninho devorava, dizendo pilherias: +<br /> + +<br /> + +—Gertrudinhas, flôr do caniço, passa-me as +vagens. +Não me olhes assim, magana, que me fazes +revolver os intestinos! +<br /> + +<br /> + +—O diabo é o homem! dizia a velha. Olha p'r'ó +que lhe deu! Fallasse-me aqui ha trinta annos, +seu perdido! +<br /> + +<br /> + +—Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem +me digas isso que sinto coisas pela espinha acima! +<br /> + +<br /> + +Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas +de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoára +a batina, deixando vêr a sua grossa camisola +de lã da Covilhã, onde a marca da fabrica, feita +de linha azul, era uma cruz sobre um coração. +<br /> + +<br /> + +Um pobre então viera á porta rosnar +lamentosamente +Padre-Nossos; e emquanto Gertrudes lhe mettia +no alforge metade d'uma brôa, os padres fallaram +dos bandos de mendigos que agora percorriam +as freguezias. +<span class="pagenum">[136]</span> +<br /> + +<br /> + +—Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia +o bom abbade. Ó Dias, mais este bocadinho da aza? +<br /> + +<br /> + +—Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou +duramente o padre Natario.—Em muitas fazendas +sabia elle que havia falta de jornaleiros, e viam-se +marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar +Padre-Nossos pelas portas.—Sucia de mariolas! resumiu. +<br /> + +<br /> + +—Deixe lá, padre Natario, deixe lá! disse o +abbade. +Olhe que ha pobreza devéras. Por aqui ha familias, +homem, mulher e cinco filhos, que dormem +no chão como porcos e não comem senão +hervas. +<br /> + +<br /> + +—Então que diabo querias tu que elles comessem? +exclamou o conego Dias lambendo os dedos +depois de ter esburgado a aza do capão. Querias +que comessem perú? Cada um como quem é! +<br /> + +<br /> + +O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo +para o estomago, e disse com affecto: +<br /> + +<br /> + +—A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor. +<br /> + +<br /> + +—Ai, filhos! acudiu o Libaninho n'um tom choroso, +se houvesse só pobresinhos isto era o reininho +dos céos! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro considerou com gravidade: +<br /> + +<br /> + +—É bom que haja quem tenha cabedaes para +legados pios, edificações de capellas... +<br /> + +<br /> + +—A propriedade devia estar na mão da Igreja, +interrompeu Natario com auctoridade. +<br /> + +<br /> + +O conego Dias arrotou com estrondo e acrescentou: +<br /> + +<br /> + +—Para o esplendor do culto e propagação da +fé. +<span class="pagenum">[137]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas a grande causa da miseria, dizia Natario +com uma voz pedante, era a grande immoralidade. +<br /> + +<br /> + +—Ah! lá isso não fallemos! exclamou o abbade +com desgosto. N'este momento ha só aqui na freguezia +mais de doze raparigas solteiras gravidas! +Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, põem-se-me +a fungar de riso! +<br /> + +<br /> + +—Lá nos meus sitios, disse o padre Brito, quando +foi pela apanha da azeitona, como ha falta de +braços, vieram as <em>maltas</em> +trabalhar. Pois agora o verás! +Que desafôro!—Contou a historia das +<em>maltas</em>, +trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam +offerecendo os braços pelas fazendas, vivem +na promiscuidade e morrem na miseria.—Era necessario +andar sempre de cajado em cima d'elles! +<br /> + +<br /> + +—Ai! disse o Libaninho para os lados apertando +as mãos na cabeça. Ai, o peccado que vai pelo +mundo! Até se me estão a erriçar os +cabellos! +<br /> + +<br /> + +Mas a freguezia de Santa Catharina era a peor! +As mulheres casadas tinham perdido todo o escrupulo. +<br /> + +<br /> + +—Peores que cabras, dizia o padre Natario alargando +a fivela do collete. +<br /> + +<br /> + +E o padre Brito fallou de um caso na freguezia +de Amor: raparigas de dezeseis e dezoito annos que +costumavam reunir-se n'um palheiro—o palheiro +do Silverio—e passavam lá a noite com um bando +de marmanjos! +<br /> + +<br /> + +Então o padre Natario, que já tinha os olhos +luzidios, +a língua solta, disse, repoltreando-se na cadeira +e espaçando as palavras: +<span class="pagenum">[138]</span> +<br /> + +<br /> + +—Eu não sei o que se passa lá na tua freguezia, +Brito; mas se ha alguma coisa o exemplo vem +de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher +do regedor... +<br /> + +<br /> + +—É mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo +escarlate. +<br /> + +<br /> + +—Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o +com bondade. +<br /> + +<br /> + +—É mentira! berrou elle. +<br /> + +<br /> + +—E aqui para nós, meus ricos, disse o conego +Dias baixando a voz, com o olhinho acceso n'uma +malicia confidencial, sempre lhes digo que é uma +mulher de mão cheia! +<br /> + +<br /> + +—É mentira! clamou o Brito. E fallando de um +jacto:—Quem anda a espalhar isso é o morgado da +Cumiada, porque o regedor não votou com elle na +eleição... Mas tão certo como eu estar +aqui, quebro-lhe +os ossos!—Tinha os olhos injectados, brandia +o punho:—Quebro-lhe os ossos! +<br /> + +<br /> + +—O caso não é para tanto, homem, considerou +Natario. +<br /> + +<br /> + +—Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro! +<br /> + +<br /> + +—Ai, socega, leãosinho! disse o Libaninho com +ternura. Não te percas, filhinho! +<br /> + +<br /> + +Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, +que era então opposição e que levava +duzentos +votos á urna, os padres fallaram de +eleições e +dos seus episodios. Todos alli, a não ser o padre +Amaro, sabiam, como disse Natario, «cozinhar um +deputadosinho». +<span class="pagenum">[139]</span> +Vieram anecdotas; cada um celebrou +as suas façanhas. +<br /> + +<br /> + +O padre Natario na ultima eleição tinha arranjado +oitenta votos! +<br /> + +<br /> + +—Caspitè! disseram. +<br /> + +<br /> + +—Imaginam vossês como? Com um milagre! +<br /> + +<br /> + +—Com um milagre!? repetiram espantados. +<br /> + +<br /> + +—Sim, senhores. +<br /> + +<br /> + +Tinha-se entendido com um missionario, e na vespera +da eleição receberam-se na freguezia cartas +vindas +do céo e assignadas pela Virgem Maria, pedindo, +com promessas de salvação e ameaças do +inferno, +voto para o candidato do governo. De chupeta, hein? +<br /> + +<br /> + +—De mão cheia! disseram todos. +<br /> + +<br /> + +Só Amaro parecia surprehendido. +<br /> + +<br /> + +—Homem! disse o abbade com ingenuidade, +d'isso é que eu cá precisava. Eu então +tenho de andar +ahi a estafar-me de porta em porta.—E sorrindo +bondosamente:—Com o que se faz ainda alguma +coisita é com o relaxe da congrua! +<br /> + +<br /> + +—E com a confissão, disse o padre Natario. A +coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da +confissão tira-se grande partido. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente: +<br /> + +<br /> + +—Mas emfim a confissão é um acto muito +sério, +e servir assim para eleições... +<br /> + +<br /> + +O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates +na face e gestos excitados, soltou uma palavra +imprudente: +<span class="pagenum">[140]</span> +<br /> + +<br /> + +—Pois o senhor toma a confissão a sério? +<br /> + +<br /> + +Houve uma grande surpreza. +<br /> + +<br /> + +—Se tomo a confissão a serio!? gritou o padre +Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados. +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino! +<br /> + +<br /> + +O padre Natario exaltado queria explicar, attenuar: +<br /> + +<br /> + +—Escutem, creaturas de Deus! Eu não quero +dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! +Eu não sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer é +que é um meio de persuasão, de saber o que se +passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para alli... +E quando é para o serviço de Deus, é +uma arma. +Ahi está o que é—a +absolvição é uma arma! +<br /> + +<br /> + +—Uma arma! exclamaram. +<br /> + +<br /> + +O abbade protestava, dizendo: +<br /> + +<br /> + +-Oh, Natario! oh, filho! isso não! +<br /> + +<br /> + +O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, «tinha +já um tal terror que até lhe tremiam as +pernas»! +<br /> + +<br /> + +Natario irritou-se: +<br /> + +<br /> + +—Então talvez me queiram dizer, gritou, que +qualquer de nós, pelo facto de ser padre, porque o +bispo lhe impoz tres vezes as mãos e porque lhe +disse o <em>accipe</em>, tem +missão directa de Deus,—é +Deus mesmo para absolver?! +<br /> + +<br /> + +—Decerto! exclamaram, decerto! +<br /> + +<br /> + +E o conego Dias disse, meneando uma garfada +de vagens: +<span class="pagenum">[141]</span> +<br /> + +<br /> + +—<em>Quorum remiseris peccata, remittuntur +eis.</em> +É a fórmula. A fórmula é +tudo, menino... +<br /> + +<br /> + +—A confissão é a essencia mesma do sacerdocio, +soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando +Natario. Leia Santo Ignacio! leia S. Thomaz! +<br /> + +<br /> + +—Anda-me com elle! gritava o Libaninho pulando +na cadeira, apoiando Amaro.—Anda-me com +elle, amigo parocho! Salta-me no cachaço do impio! +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhores! berrou Natario furioso com a +contradicção, o que eu quero é que me +respondam +a isto. E voltando-se para Amaro:—O senhor, por +exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu +pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu +cigarro, +e que depois se vai sentar no confessionario, ás vezes +preoccupado com negocios de familia ou com +faltas de dinheiro, ou com dôres de cabeça ou com +dôres de barriga, imagina o senhor que está alli +como +um Deus para absolver? +<br /> + +<br /> + +O argumento surprehendeu. +<br /> + +<br /> + +O conego Dias, pousando o talher, ergueu os +braços, e com uma solemnidade comica exclamou: +<br /> + +<br /> + +—<em>Hereticus est!</em> É +hereje! +<br /> + +<br /> + +—<em>Hereticus est!</em> tambem eu digo, +rosnou o padre +Amaro. +<br /> + +<br /> + +Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do +arroz dôce. +<br /> + +<br /> + +—Não fallemos n'essas coisas, não fallemos +n'essas coisas, disse logo prudentemente o abbade. +Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha +do Porto! +<span class="pagenum">[142]</span> +<br /> + +<br /> + +Natario, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava +argumentos a Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Absolver é exercer a graça. A graça +só é attributo +de Deus: em nenhum auctor encontra que +a graça seja transmissivel. Logo... +<br /> + +<br /> + +—Ponho duas objecções... gritou Amaro com +o dedo em riste, em attitude de polemica. +<br /> + +<br /> + +—Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade +afflicto. Deixem a sabbatina, que até nem lhes sabe +o arrozinho! +<br /> + +<br /> + +Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo +os copos devagar, com as precauções classicas: +<br /> + +<br /> + +—Mil oitocentos e quinze! dizia. D'isto não se +bebe todos os dias. +<br /> + +<br /> + +Para o saborear, depois de o fazer reluzir á luz +na transparencia dos copos, repoltreavam-se nas velhas +cadeiras de couro; começaram as +<em>saudes!</em> A +primeira foi ao abbade, que murmurava:—Muita +honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de +satisfação. +<br /> + +<br /> + +—A sua santidade Pio IX! gritou então o Libaninho +brandindo o calix. Ao martyr! +<br /> + +<br /> + +Todos beberam commovidos. Libaninho entoou +em voz de falsete o hymno de Pio IX: o abbade, +prudente, fêl-o calar por causa do hortelão que no +quintal aparava o buxo. +<br /> + +<br /> + +A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario +tornára-se terno, fallava das suas sobrinhas, «as +suas +duas rosas», e citava Virgilio, molhando as castanhas +em vinho. Amaro, todo deitado para traz na cadeira, +<span class="pagenum">[143]</span> +as mãos nos bolsos, olhava machinalmente as +arvores do jardim, pensando vagamente em Amelia, +nas suas fórmas: suspirou mesmo com um desejo +d'ella—emquanto o padre Brito, rubro, queria convencer +os republicanos a <em>marmeleiro</em>. +<br /> + +<br /> + +—Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou enthusiasmado +o Libaninho. +<br /> + +<br /> + +Mas Natario começára a discutir com o conego +historia ecclesiastica: e, muito questionador, voltou +aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graça: +affirmava que um assassino, um parricida poderia +ser canonisado—se se tivesse revelado o +estado de Graça! Divagava, com phrases d'escóla +em que se lhe pegava a lingua. Citou santos que +tinham sido escandalosos; outros que pela sua profissão +deviam ter conhecido, praticado, amado o vicio. +Exclamou com as mãos na cinta: +<br /> + +<br /> + +—Santo Ignacio foi militar! +<br /> + +<br /> + +—Militar!? gritou o Libaninho.—E erguendo-se +correndo a Natario, lançando-lhe um braço ao +pescoço +com uma ternura pueril e avinhada:—Militar!? +E que era elle? Que era elle, o meu devoto Santo +Ignacio? +<br /> + +<br /> + +Natario repelliu-o: +<br /> + +<br /> + +—Deixa-me, homem! Era sargento de caçadores. +<br /> + +<br /> + +Houve uma enorme risada. +<br /> + +<br /> + +O Libaninho ficára extatico. +<br /> + +<br /> + +—Sargento de caçadores! dizia erguendo as +mãos n'um impeto beato. Meu rico Santo Ignacio! +Bemdito e louvado seja elle por toda a eternidade! +<span class="pagenum">[144]</span> +<br /> + +<br /> + +E então o abbade propôz que fossem tomar +café +para debaixo da parreira. +<br /> + +<br /> + +Eram tres horas. Ao erguer-se todos cambaleavam +um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas +espessas; só Amaro tinha a cabeça lucida, as +pernas firmes—e sentia-se muito terno. +<br /> + +<br /> + +—Pois agora, collegas, disse o abbade sorvendo +o ultimo gole de café, o que está a calhar +é um +passeio à fazenda. +<br /> + +<br /> + +—Para esmoer, rosnou o conego erguendo-se +com difficuldade. Vamos lá á fazenda do abbade! +<br /> + +<br /> + +Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito +de carros. O dia estava muito azul, d'um sol +tepido. A vereda seguia entre vallados erriçados de +silvas; para além as terras lisas estendiam-se cobertas +de rastolho; a espaços as oliveiras destacavam, +com grande nitidez, na sua folhagem fina; para o +horisonte arredondavam-se collinas cobertas da rama +verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; +só ás vezes, ao longe, n'um caminho, um carro +chiava. E n'aquella serenidade da paizagem e da +luz, os padres iam caminhando devagar, tropeçando +um pouco, d'olho acceso, estomago enfartado, chacoteando +e achando a vida boa. +<br /> + +<br /> + +O conego Dias e o abbade, de braço dado, caturravam. +O Brito, ao lado de Amaro, jurava que +havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada. +<br /> + +<br /> + +—Prudencia, collega Brito, prudencia, dizia Amaro +chupando o cigarro. +<br /> + +<br /> + +E o Brito, com passadas de carretão, rosnava: +<span class="pagenum">[145]</span> +<br /> + +<br /> + +—Hei de comer-lhe os figados! +<br /> + +<br /> + +O Libaninho atraz, só, cantarolava em falsete: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +—Passarinho trigueiro,<br /> + +Salta cá fóra... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Adiante de todos ia o padre Natario: levava a +capa no braço, arrastando pelo chão; a batina +desabotoada +por traz deixava vêr o forro immundo do +collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias +pretas de lã cheias de passagens, faziam bordos que +o atiravam contra o silvado. +<br /> + +<br /> + +E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, +roncava: +<br /> + +<br /> + +—Eu só me contentava em agarrar n'um cajado +e correr tudo! tudo!—E gesticulava com um +gesto immenso que abrangia o mundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +—Tem as azas quebradas,<br /> + +Não póde agora... +</div> + +<br /> + +<br /> + +gania atraz o Libaninho. +<br /> + +<br /> + +Mas pararam de repente: Natario adiante gritava +com uma voz furiosa: +<br /> + +<br /> + +—Seu burro, vossê não vê? Sua +bêsta! +<br /> + +<br /> + +Era á volta do atalho. Tropeçára com +um velho +que conduzia uma ovelha; ia cahindo; e ameaçava-o +com o punho fechado n'uma raiva avinhada. +<br /> + +<br /> + +—Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente +o homem. +<br /> + +<br /> + +—Sua bêsta! berrava Natario com os olhos +chammejantes. Que o racho! +<br /> + +<br /> + +O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo; +<span class="pagenum">[146]</span> +viam-se os seus cabellos brancos; parecia ser um +antigo criado de lavoura envelhecido no trabalho; +era talvez avô—e curvado, vermelho de vergonha, +encolhia-se com as sebes para deixar passar +no estreito caminho de carros os senhores padres +joviaes e excitados da vinhaça! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amaro não os quiz acompanhar até á +fazenda. +Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho +de Sobros, voltou para Leiria. +<br /> + +<br /> + +—Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade. +Eu mando-lhe apparelhar a egoa, collega. +<br /> + +<br /> + +—Qual historia, abbade, a perninha é rija!—E, +traçando alegremente a capa, partiu cantarolando o +<em>Adeus</em>. +<br /> + +<br /> + +Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, +ao comprido d'um muro de quinta coberto de +musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de garrafas. +Quando Amaro chegou proximo ao portão de +carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no +meio do caminho, parada, uma grande vacca malhada; +Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; +a vacca trotou balouçando a papeira—e +Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão, que saudava, +dizendo toda risonha: +<br /> + +<br /> + +—Então está-me a espantar o gado, senhor +parocho? +<br /> + +<br /> + +—É a menina! Que milagre é este? +<span class="pagenum">[147]</span> +<br /> + +<br /> + +Ella fez-se um pouco vermelha: +<br /> + +<br /> + +—Vim á quinta com a D. Maria da +Assumpção. +Vim dar uma vista d'olhos á fazenda. +<br /> + +<br /> + +Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves +n'uma canastra. +<br /> + +<br /> + +—Então esta é que é a quinta da D. +Maria? +<br /> + +<br /> + +E Amaro deu um passo para dentro do portão. +<br /> + +<br /> + +Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma +sombra dôce, estendia-se até á casa que +se entrevia +no fundo, branquejando ao sol. +<br /> + +<br /> + +—É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas +entra-se tambem por aqui. Vá, Joanna, avia-te! +<br /> + +<br /> + +A rapariga pôz a canastra á cabeça, deu +as boas +tardes, metteu pelo caminho de Sobros, batendo +muito os quadris. +<br /> + +<br /> + +—Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa +propriedade... considerava o parocho. +<br /> + +<br /> + +—Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É +uma migalhinha de terra, mas para fazer uma idéa. +Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá baixo +com a D. Maria, quer? +<br /> + +<br /> + +—Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O +chão estava cheio de folhas sêccas, e, entre os +troncos +espaçados, moitas de hortensias pendiam abatidas, +amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa +baixa, velha, de um andar só, assentava pesadamente. +Ao longo da parede grandes aboboras amadureciam +ao sol, e no telhado, todo negro do inverno, +esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formava +<span class="pagenum">[148]</span> +uma massa de folhagens verde-escuras; uma +nora chiava monotonamente. +<br /> + +<br /> + +Um rapazito passou com um balde de lavagem. +<br /> + +<br /> + +—Para onde foi a senhora, João? perguntou +Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha +arrastada. +<br /> + +<br /> + +O olival era longe, no fundo da quinta: havia +ainda grandes lamas, não se podia ir lá sem +tamancos. +<br /> + +<br /> + +—Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar +lá a D. Maria, hein? Vamos nós vêr a +quinta... +Por aqui, senhor parocho... +<br /> + +<br /> + +Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam +clematites. Amelia abriu uma porta verde; e +por tres degraus de pedra desconjuntados desceram +a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do +muro cresciam rosas de todo o anno; do outro lado, +por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada +e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de +luz, com tons amarellados, um grande campo de herva; +os tectos baixos do curral coberto de colmo destacavam +ao longe em escuro, e d'esse lado um fumosinho +leve e branco perdia-se no ar muito azul. +<br /> + +<br /> + +Amelia a cada momento parava, explicava a +quinta:—Alli ia semear-se cevada; além havia de +vêr o cebolinho, estava muito bonito... +<br /> + +<br /> + +—Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito +bem tratado! +<br /> + +<br /> + +Amaro ouvia-a fallar, com a cabeça baixa, olhando-a +<span class="pagenum">[149]</span> +de lado; a sua voz n'aquelle silencio dos campos +parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande ar +dava-lhe uma côr mais picante ás faces; o seu +olhar +rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado +o vestido; e a brancura da meia, que elle entreviu, +perturbou-o como um começo da sua nudez. +<br /> + +<br /> + +Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao +comprido d'um regueiro. Amelia riu muito do parocho, +que tinha medo de sapos. Elle então exagerou +os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria viboras? +E roçava-se por ella, afastando-se das hervas altas. +<br /> + +<br /> + +—Vê aquelle vallado? Pois para o lado de lá +é +a nossa fazenda. Entra-se pela cancella, vê? Mas veja +lá se está cansado! Que o senhor parece-me que +não é grande caminhador... Ai, um sapo! +<br /> + +<br /> + +Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. +Ella empurrou-o dôcemente, e com um riso calido: +<br /> + +<br /> + +—Seu medroso! seu medroso! +<br /> + +<br /> + +Estava toda contente, toda viva. Fallava na <em>sua +fazenda</em> com uma vaidadesinha satisfeita de entender +da lavoura, de ser proprietaria. +<br /> + +<br /> + +—A cancella está fechada, parece, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Está? fez ella.—Apanhou as saias, deu uma +carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava, +impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes +hombreiras de madeira encravadas na espessura do +silvado. +<br /> + +<br /> + +—Foi o caseiro que levou a chave! +<br /> + +<br /> + +Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando +muito tempo a voz:—Antonio! Antonio! +<span class="pagenum">[150]</span> +<br /> + +<br /> + +Ninguem respondeu. +<br /> + +<br /> + +—Anda lá para o fundo da quinta! disse ella. +Que sécca! Se o senhor parocho quizesse, aqui adiante +póde-se passar. Ha uma abertura no vallado, chamam-lhe +o <em>salto da cabra</em>. Póde a +gente saltar para +o outro lado. +<br /> + +<br /> + +E caminhando rente ao silvado, chapinhando a +lama, toda alegre: +<br /> + +<br /> + +—Quando eu era pequena nunca passava pela +cancella, saltava sempre por alli. E cada trambolhão +quando o chão estava resvaladiço com a chuva! +Era um vivo demonio, aqui onde me vê! Ninguém +ha de dizer, senhor parocho, hein? Ai! vou-me +a fazer velha!—E voltando-se para elle, com +um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:—Não +é verdade? Estou-me a fazer velha, hein? +<br /> + +<br /> + +Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe +nas costas, depois do vinho do abbade, amollecia-o: +e a figura d'ella, os seus hombros, os seus encontros +davam-lhe um desejo continuo e intenso. +<br /> + +<br /> + +—Aqui está o <em>salto da +cabra</em>, disse Amelia parando. +<br /> + +<br /> + +Era uma abertura estreita no vallado: a terra do +outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se +d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo plano +estendia-se até um olival, com a herva fina muito +estrellada de pequenos malmequeres brancos; uma +vacca preta, de grandes malhas, pastava; e para +além viam-se tectos aguçados de casaes onde +voavam +revoadas de pardaes. +<span class="pagenum">[151]</span> +<br /> + +<br /> + +—E agora? perguntou Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Agora saltar, disse ella rindo. +<br /> + +<br /> + +—Cá vai! exclamou elle. +<br /> + +<br /> + +Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas +humidas—e immediatamente Amelia, debruçando-se, +rindo muito, com grandes acenos de mãos: +<br /> + +<br /> + +—E agora adeus, senhor parocho, que eu vou +ter com a D. Maria. Ahi fica preso na fazenda. Para +cima não póde o senhor pular, pela cancella +não póde +o senhor passar! É o senhor parocho que está +preso... +<br /> + +<br /> + +—Ó menina Amelia! ó menina Amelia! +<br /> + +<br /> + +Ella cantarolava-lhe, escarnecendo: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Fico sósinha á varanda<br /> + +Que o meu bem está na prisão!</div> + +<br /> + +<br /> + +Aquellas maneirinhas excitavam o padre—e com +os braços erguidos, a voz calida: +<br /> + +<br /> + +—Salte, salte! +<br /> + +<br /> + +Ella então fez voz de mimo: +<br /> + +<br /> + +—Ai, tenho medinho! tenho medinho... +<br /> + +<br /> + +—Salte, menina! +<br /> + +<br /> + +—Lá vai! gritou ella bruscamente. +<br /> + +<br /> + +Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. +Amaro resvalou, firmou-se—e, sentindo entre +os braços o corpo d'ella, apertou-a brutalmente +e beijou-a com furor no pescoço. +<br /> + +<br /> + +Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada, +com a face em braza, compondo na cabeça e +em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as +pregas +da manta de lã. Amaro disse-lhe: +<span class="pagenum"><a name="p152" id="p152">[152]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Ameliasinha! +<br /> + +<br /> + +Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu +ao comprido do vallado. Amaro, com grandes passadas, +seguiu-a atarantado. Quando chegou á cancella, +Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com +a chave. +<br /> + +<br /> + +Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois +a rua coberta com a parreira. Amelia adiante palrava +com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça baixa, +seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou, +fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em +redor do pescoço: +<br /> + +<br /> + +—Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor +parocho. Muito boas tardes, senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +E através das terras humidas correu para o fundo +da quinta, para os lados do olival. +<br /> + +<br /> + +A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção ainda +lá estava, +sentada n'uma pedra, tagarellando com o tio Patricio; +um bando de mulheres, com grandes varas, batiam +em redor a ramagem das oliveiras. +<br /> + +<br /> + +—Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr, +rapariga? Credo, que doida! +<br /> + +<br /> + +—Vim a correr, disse <a href="#e4">ella</a> toda +vermelha, suffocada. +<br /> + +<br /> + +Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com +as mãos cahídas no regaço, respirando +fortemente, os +beiços entreabertos, os olhos fixos n'uma +abstracção. +Todo o seu sêr se abysmava n'uma só +sensação: +<br /> + +<br /> + +—Gosta de mim! Gosta de mim! +<span class="pagenum">[153]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Estava ha muito namorada do padre Amaro—e +ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por +imaginar +que elle não percebia nos seus olhos a confissão +do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas +o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço, +sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem +razão, +punha-se a cantarolar com uma volubilidade de +passaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não +conhecia o seu passado; e, lembrada do frade d'Evora, +pensou que elle se fizera padre por um desgosto +d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza +muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa +e pallida se desprendia uma fascinação. Desejou +tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada +aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os +seus olhos negros, sentindo a sua voz suave fallar +do paraiso! Gostava muito da frescura da sua boca; +fazia-se pallida à idéa de o poder +abraçar na sua +longa batina preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto +d'elle, beijava a travesseirinha, guardava os cabellos +curtos que tinham ficado nos dentes do pente. +As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a +campainha. +<br /> + +<br /> + +Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava +todo o dia impertinente, ralhava com a +<em>Ruça</em>, +ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era +casmurro, +que era tão novo que nem inspirava respeito». +<span class="pagenum">[154]</span> +Quando elle fallava d'alguma nova confessada, amuava, +com um ciume pueril. A sua antiga devoção +renascia, +cheia de um fervor sentimental: sentia um +vago amor physico pela Igreja; desejaria abraçar, +com pequeninos beijos demorados, o altar, o orgão, +o missal, os santos, o céo, porque não os +distinguia +bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua +pessoa. Lia o seu livro de missa pensando n'elle como +no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando +passeava agitado pelo quarto, que ella em cima +o escutava, regulando as palpitações do seu +coração +pelas passadas d'elle, abraçando o travesseiro, toda +desfallecida de desejos, dando beijos no ar, onde se +lhe representavam os labios do parocho! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram +para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava +a sua burrinha, emquanto D. Maria da Assumpção +vinha palrando com o moço da quinta, que segurava +a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a +Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar +os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente +erguidas, decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe +então domingos em que o vira, ao repicar +dos sinos, dar a benção dos degraus do +altar-mór; +e todos se curvavam, mesmo as senhoras do +morgado Carreiro, mesmo a senhora baroneza de +Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa, +<span class="pagenum">[155]</span> +com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob +os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambem +bonitos os seus olhos negros! E era elle que a +tinha apertado nos braços, ao pé do vallado! +Sentia +ainda no pescoço a pressão calida dos seus +beiços: +uma paixão flammejou como uma chamma por todo +o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as +mãos contra o peito, e cerrando os olhos, +lançando +toda a sua alma n'uma devoção: +<br /> + +<br /> + +—Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, +faze que elle goste de mim! +<br /> + +<br /> + +No adro lageado conegos passeavam, conversando. +A botica defronte já tinha luz, os bocaes reluziam; +e por detraz da balança a figura do pharmaceutico +Carlos, com o seu boné bordado a missanga, +movia-se magestosamente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro voltára para casa aterrado. +<br /> + +<br /> + +—E agora? E agora? dizia elle encostado ao +canto da janella, sentindo o coração encolhido. +<br /> + +<br /> + +Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! +Não podia continuar alli, na mesma familiaridade, +depois de ter tido «aquelle atrevimento com +a pequena». +<br /> + +<br /> + +Que ella não ficára muito indignada—apenas +atordoada; contivera-a talvez o respeito ecclesiastico, +a delicadeza para com o hospede, a attenção +para com o amigo do conego. Mas podia contar á +mãi, ao escrevente... Que escandalo! E via já o +senhor +chantre, traçando a perna e fitando-o,—que +era a sua attitude de reprehensão—dizer-lhe com +pompa:—«São esses desregramentos que deshonram +o sacerdocio. Não se comportaria d'outro modo +<span class="pagenum">[158]</span> +um Satyro no monte Olympo!»—Poderiam desterral-o +outra vez para alguma freguezia da serra!... +Que diria a senhora condessa de Ribamar? +<br /> + +<br /> + +E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, +ter constantemente presentes aquelles olhos negros, +o sorriso calido que lhe fazia uma covinha no queixo, +a curva d'aquelle peito—a sua paixão, crescendo +surdamente, irritada a toda a hora, recalcada +para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma +asneira»! +<br /> + +<br /> + +Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a +sua natureza fraca necessitava sempre receber forças +d'uma razão, d'uma experiencia alheia: costumava +consultar ordinariamente o conego que, pelo +habito da disciplina ecclesiastica, elle julgava mais +intelligente por ser seu superior na hierarchia; e +não perdera, desde o seminario, a sua dependencia +de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa +e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio +do conego, que conhecia Leiria como se a tivesse +edificado. +<br /> + +<br /> + +Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de +azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os +tições da brazeira, cobertos d'uma +pulverisação de +cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado +n'uma cadeira de braços, com o capote pelos +hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, amodorrado +no calor do lume, com o Breviario sobre os +joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a +<em>Trigueira</em> +estirada dormitava como elle. +<span class="pagenum">[159]</span> +<br /> + +<br /> + +Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar +os olhos, rosnou: +<br /> + +<br /> + +—Ia adormecendo, hein! +<br /> + +<br /> + +—É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou +a recolher. Então que preguiça é essa? +<br /> + +<br /> + +—Ah! é vossê? disse o conego com um enorme +bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma +gota de chá, veio o quebranto... Então que +é feito? +<br /> + +<br /> + +—Vim por aqui. +<br /> + +<br /> + +—Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella +estava de mão cheia! Eu carreguei-me um +bocado, disse o conego rufando com os dedos na +capa do Breviario. +<br /> + +<br /> + +Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o +brazido: +<br /> + +<br /> + +—Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. +Ia acrescentar:—Aconteceu-me um caso!—Mas +reteve-se, murmurou:—Estou hoje exquisito; +tenho andado ultimamente fóra dos eixos... +<br /> + +<br /> + +-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, +considerando-o. Purgue-se, homem! +<br /> + +<br /> + +Amaro esteve um momento calado, a olhar o +lume. +<br /> + +<br /> + +—Sabe? estou com idéa de mudar de casa. +<br /> + +<br /> + +O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos +somnolentos: +<br /> + +<br /> + +—Mudar de casa! Ora essa! Porquê? +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando +baixo: +<br /> + +<br /> + +—Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é +<span class="pagenum">[160]</span> +assim exquisito estar em casa de duas mulheres, +com uma rapariga... +<br /> + +<br /> + +—Ora, historias! Que me vem vossê contar? +Vossê é hospede... Deixe-se d'isso, homem! +É como +quem está na hospedaria. +<br /> + +<br /> + +—Não, não, padre-mestre, eu cá me +entendo... +<br /> + +<br /> + +E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, +facilitasse as confidencias. +<br /> + +<br /> + +—Então só hoje é que pensa n'isso, +Amaro?! +<br /> + +<br /> + +—É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. +Tenho minhas razões.—Ia a dizer:—Fiz uma tolice,—mas +acanhou-se. +<br /> + +<br /> + +O conego olhou para elle um momento: +<br /> + +<br /> + +—Homem, seja franco! +<br /> + +<br /> + +—Sou. +<br /> + +<br /> + +—Vossê acha aquillo caro? +<br /> + +<br /> + +—Não! disse o outro com uma negação +impaciente. +<br /> + +<br /> + +—Bem, então é outra coisa... +<br /> + +<br /> + +—É. Vossê que quer?—E n'um tom magano, +com que julgou agradar ao conego:—A gente tambem +gosta do que é bom... +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. +Vossê, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer +por bons modos que tem nojo de tudo aquillo! +<br /> + +<br /> + +—Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de +tanta obtusidade. +<br /> + +<br /> + +—Oh, homem! exclamou o conego abrindo os +braços. Vossê quer sahir da casa? Por alguma +é! +Ora a mim parece-me que melhor... +<span class="pagenum">[161]</span> +<br /> + +<br /> + +—É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava +agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta +ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita barata +com alguma mobilia... Vossê entende melhor +d'essas coisas... +<br /> + +<br /> + +O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, +coçando devagar o queixo. +<br /> + +<br /> + +—Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, +eu verei... Talvez. +<br /> + +<br /> + +—Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, +chegando-se ao conego. A casa da S. Joanneira... +<br /> + +<br /> + +Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e +depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o +catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a +doença +de figado que ia minando o engraçado conego Sanches—Amaro +sahiu, quasi contente agora de se não +«ter desabotoado com o padre-mestre». +<br /> + +<br /> + +O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. +Aquella resolução d'Amaro de deixar a casa da S. +Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera +d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com +a S. Joanneira diminuir-lhe a mezada que havia annos +lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se +logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede, +dormia só no primeiro andar: o conego podia então +saborear livremente os carinhos da sua velhota,—e +Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este +«conchêgosinho». Quando veio o padre +Amaro, a +S. Joanneira cedeu-lhe o quarto e dormia n'uma cama +de ferro ao pé da filha: e o conego então +reconheceu, +<span class="pagenum">[162]</span> +como elle disse, desconsolado—«que aquelle +arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as +doçuras +da sésta com a sua S. Joanneira era necessario +que Amelia jantasse fóra, que a +<em>Ruça</em> estivesse +na fonte, outras combinações importunas; e elle, +conego +do cabido, na egoista velhice, quando precisava +ter recato com a sua saude, via-se obrigado a esperar, +a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares +e hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama +a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S. +Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; +vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas. +É verdade que tinha de dar a antiga mezada... +Daria a mezada! +<br /> + +<br /> + +—Que diabo! ao menos está um homem á sua +vontade, resumiu elle. +<br /> + +<br /> + +—Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou +a snr.<sup>a</sup> D. Josepha despertando do quebranto +em que ia cahindo, ao pé do lume. +<br /> + +<br /> + +—Estava cá a malucar como hei de castigar a +carne na quaresma...—disse o conego com um +riso grosso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A essa hora a <em>Ruça</em> +chamava o padre Amaro para +o chá: e elle subia devagar, com o +coração pequenino, +receando encontrar a S. Joanneira muito +carrancuda, já informada do insulto. Achou só +Amelia—que +<span class="pagenum">[163]</span> +tendo-lhe sentido os passos na escada tomára +rapidamente a costura e, com a cabeça muito +baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço +que abainhava para o conego. +<br /> + +<br /> + +—Muito boa noite, menina Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Muito boa noite, senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +Amelia costumava sempre ter um +<em>olá!</em> ou um +<em>ora viva!</em> muito amavel; aquella +seccura aterrou-o; +disse-lhe logo muito perturbado: +<br /> + +<br /> + +—Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe... +Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... +Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui. Até +já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa... +<br /> + +<br /> + +Fallava com o rosto baixo—e não via Amelia +erguer os olhos para elle, surprehendida e toda desconsolada. +<br /> + +<br /> + +N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da +porta, abrindo os braços: +<br /> + +<br /> + +—Viva! Então já sei, já sei! Disse-me +o senhor +padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá! +<br /> + +<br /> + +Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do +Libaninho, a discussão theologica; depois fallaram +da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a +dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,—o que +era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis +tostões por dia! +<br /> + +<br /> + +Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro, +pela manhã, antes d'ir ao côro. O parocho fazia +a barba á janella: +<span class="pagenum">[164]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ólá, padre-mestre! Que ha de novo? +<br /> + +<br /> + +—Parece-me que se arranja a coisa! E foi por +acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os +meus +lados, que é um achado. Era do major Nunes, que +vai mudado para o 5. +<br /> + +<br /> + +Aquella precipitação desagradou a Amaro: +perguntou, +dando desconsoladamente o fio á navalha: +<br /> + +<br /> + +—Tem mobilia? +<br /> + +<br /> + +—Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem +tudo. +<br /> + +<br /> + +—Então... +<br /> + +<br /> + +—Então é entrar e começar a gozar. E +aqui para +nós, Amaro, vossê tem razão. Estive a +pensar no +caso... É melhor para vossê viver só. +De modo +que vista-se, e vamos vêr a casita. +<br /> + +<br /> + +Amaro, calado, rapava a cara com desespero. +<br /> + +<br /> + +A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito +velha, com a madeira carunchosa: a mobilia, como +disse o conego, «podia passar a veteranos»; algumas +lithographias desbotadas pendiam lugubremente +de grandes prégos negros; e o immundo major +Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos todos +escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até +sobre um poial da janella duas piugas quasi negras. +<br /> + +<br /> + +Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o +conego ajustou-lhe uma criada, a snr.<sup>a</sup> Maria +Vicencia, +pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, +antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como +considerou o conego Dias) era a propria irmã da +famosa Dionysia! +<span class="pagenum">[165]</span> +<br /> + +<br /> + +A Dionysia fôra outr'ora a <em>Dama das +Camelias</em>, +a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozára a honra +de ser concubina de dois governadores civis e do +terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas +que inspirára tinham sido para quasi todas as +mães de familia de Leiria causa de lagrimas e de fanicos. +Agora engommava para fóra, encarregava-se +de empenhar objectos, entendia muito de partos, +protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular +expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado +o <em>infame</em>, fornecia lavradeirinhas +aos senhores empregados +publicos, sabia toda a historia amorosa do +districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o +seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo +dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e +os antigos sorrisos—mas a que faltavam já os dois +dentes de diante. +<br /> + +<br /> + +O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira +da resolução d'Amaro. Foi um grande espanto +para a excellente senhora! Queixou-se, com amargura, +da ingratidão do senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +O conego tossiu grosso e disse: +<br /> + +<br /> + +—Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. +E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto +em cima, etc., está-me a arrazar a saude. +<br /> + +<br /> + +Deu outras razões de prudencia hygienica e +acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos +pelo pescoço: +<br /> + +<br /> + +—E o que é perder a conveniencia, não se afflija +a senhora! Eu darei p'r'á panella como d'antes; +<span class="pagenum">[166]</span> +e como a colheita foi boa porei mais meia moeda +para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá +uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça, +hoje +como-lhe cá as sopas. +<br /> + +<br /> + +Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua +roupa. Mas a cada momento parava, dava um +<em>ai</em> +triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama +fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira +forrada de chita onde elle lia o Breviario, ouvindo, +por cima, cantarolar Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Nunca mais! pensava. Nunca mais! +<br /> + +<br /> + +Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella, +vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que +se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás, +ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e +cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado! +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira e o conego appareceram então á +porta do quarto. O conego resplandecia; e a S. Joanneira +disse, muito magoada: +<br /> + +<br /> + +—Já sei, já sei, seu ingrato! +<br /> + +<br /> + +—É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo +os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu +sinto... +<br /> + +<br /> + +—Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, +não se offenda com o que lhe vou dizer, mas eu já +lhe queria como filho...—E levou o lenço aos olhos. +<br /> + +<br /> + +—Tolices! exclamou o conego. Pois então elle +não póde vir aqui em amizade, passar as noites +para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não +vai para o Brazil, senhora! +<span class="pagenum">[167]</span> +<br /> + +<br /> + +—Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, +mas sempre era tel-o de portas a dentro! +<br /> + +<br /> + +Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa +está muito melhor... Fez-lhe então grandes +recommendações +sobre a lavadeira, que mandasse buscar +o que quizesse, louças, lençoes... +<br /> + +<br /> + +—E veja lá não lhe esqueça alguma +coisa, senhor +parocho! +<br /> + +<br /> + +—Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado... +<br /> + +<br /> + +E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho +desesperava-se agora contra a resolução que +tomára. +A pequena evidentemente não tinha aberto bico! +Para que sahiria então d'aquella casa tão barata, +tão +confortavel, tão amiga? E odiava o conego pelo seu +zelo tão precipitado. +<br /> + +<br /> + +O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar +a sua pallidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao +café o conego quiz a sua «dóse de +musica»; e +Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a +canção querida: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ai! adeos! acabaram-se os dias<br /> + +Que ditoso vivi a teu lado!<br /> + +Sôa a hora, o momento fadado,<br /> + +É forçoso deixar-te e partir! +</div> + +<br /> + +<br /> + +Então, áquella chorosa melodia repassada das +tristezas da separação, Amaro sentiu-se +tão perturbado +que teve de se erguer bruscamente, ir encostar +o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que +<span class="pagenum">[168]</span> +irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os +dedos d'Amelia embrulhavam-se tambem no teclado; +até a mesma S. Joanneira disse: +<br /> + +<br /> + +—Oh filha, toca outra coisa, credo! +<br /> + +<br /> + +Mas o conego erguendo-se pesadamente: +<br /> + +<br /> + +—Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, +Amaro. Eu vou comsigo até a rua das Sousas... +<br /> + +<br /> + +Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas, +depois +d'um forte accesso de tosse, a velha dormia, +muito fraca. +<br /> + +<br /> + +—Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando +a mão á S. Joanneira:—Muito obrigado por tudo, +minha senhora, acredite... +<br /> + +<br /> + +Calou-se, com um soluço na garganta. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do +seu avental branco. +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha +bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias! +<br /> + +<br /> + +—A gente é pela amizade que lhes ganha... +choramingou a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, +mordia o beicinho. +<br /> + +<br /> + +Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua +chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da +Misericordia, muito bebedo, cantarolando o +<em>Bemdito</em>,—levava-lh'o +agora para a rua das Sousas, bebedo +tambem, mas trauteando o <em>Rei-chegou</em>. +<span class="pagenum">[169]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella +casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente +e um tedio tão negro da vida, que, com a sua natureza +lassa, teve vontade de se encolher a um canto +e ficar alli a morrer! +<br /> + +<br /> + +Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em +redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão +duro e uma coberta vermelha; o espelho com +o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia +lavatorio, +a bacia e o jarro, com um bocadinho de +sabonete, estavam sobre o poial da janella; tudo +alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia +sem cessar a chuva triste. Que existencia! E seria +sempre assim!... +<br /> + +<br /> + +Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a, +com o punho fechado, das commodidades que perdera, +da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da +solidão que o regelava! Se fosse mulher de +coração +devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor +padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou +zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo? +Ella, com as suas maneirinhas ternas, os seus +olhinhos adocicados! Mas não, deixára-o emmalar a +roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, +indo tocar com estrondo a valsa do +<em>Beijo</em>! +<br /> + +<br /> + +Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E, +a grandes passadas pelo quarto, pensara no que +havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-a +<span class="pagenum">[170]</span> +como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade +devota de Leiria, ser muito do senhor chantre; +afastar da rua da Misericordia o conego e as Gansosos; +intrigar com as senhoras da boa roda para +que se afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór, +á missa do domingo; dar a entender que a mãi era +uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na +Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar +encolhida +no seu mantelete preto, escorraçada de todos, +emquanto elle, á porta, de proposito, conversaria +com a mulher do senhor governador civil e seria +galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois +prégaria um grande sermão, na quaresma, e ella +ouviria +dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem, +o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria +e, protegido pela senhora condessa de Ribamar, +subiria nas dignidades ecclesiasticas: e o que pensaria +ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido +e interessante na sua mitra toda dourada, passando, +seguido dos incensadores, ao longo da nave +da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os +roucos cantos do orgão? E ella o que seria então? +Uma magra creatura murcha, embrulhada n'um chale +barato! E o snr. João Eduardo, o escolhido d'agora, +o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, +com uma quinzena roçada, os dedos queimados do +cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel +na terra, adulando alto e invejando baixo! +E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que +sobe até ao céo, estaria já muito para +cima dos homens, +<span class="pagenum">[171]</span> +na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!—E +seria par do reino, e os padres da sua +diocese tremeriam de o vêr franzir a testa! +<br /> + +<br /> + +Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas. +<br /> + +<br /> + +Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava +decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam +a bisca, riam—ella roçava-lhe talvez com o +pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu +pé, +o bocadinho da meia que vira quando ella saltava +as lamas na quinta; e essa curiosidade inflammada +subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo +bellezas que suspeitava... O que elle gostava +d'aquella maldita! E era impossivel obtel-a! E todo +o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericordia +pedil-a á mãi, vir á Sé +dizer-lhe: «Senhor +parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob +a protecção da Igreja e do Estado, aquelles +braços +e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra aquella +infernal pêga da marqueza d'Alegros!... +<br /> + +<br /> + +Abominava então todo o mundo secular—por +lhe ter perdido para sempre os privilegios: e, como +o sacerdocio o excluia da participação nos +prazeres +humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação, +na idéa da superioridade espiritual que elle lhe dava +sobre os homens. Aquelle miseravel escrevente podia +casar e possuir a rapariga—mas que era elle +em comparação d'um parocho a quem Deus conferira +o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...—E +repastava-se d'este sentimento, enchendo +o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe +<span class="pagenum">[172]</span> +bem depressa a desconsoladora idéa que esse dominio +só era valido na região abstracta das almas; +nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, +em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé—mas, +apenas sahia para o largo, era apenas um plebeu +obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a +acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre +almas de beatas... E era isto que lamentava, esta +diminuição +social da Igreja, esta mutilação do poder +ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre +o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que +lhe faltava era a auctoridade dos tempos em que a +Igreja era a nação e o parocho dono temporal do +rebanho. +Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico +d'abrir ou fechar as portas do céo? O que elle +queria era o velho direito d'abrir ou fechar a porta +das masmorras! Necessitava que os escreventes e as +Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria +ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das +vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira +o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a +jurisdicção +da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de +castigos torturantes, +aquelles que aspirassem a realisar felicidades—que +lhe eram a elle interdictas: e pensando em +João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder +accender +as fogueiras da Inquisição!—Assim aquelle +inoffensivo moço tinha durante horas, sob a +excitação +colerica d'uma paixão contrariada, +ambições +grandiosas de tyrannia catholica:—porque todo o +padre, o mais boçal, tem um momento em que é +penetrado +<span class="pagenum">[173]</span> +pelo espirito da Igreja ou nos seus lances +de renunciamento mystico ou nas suas ambições de +dominação universal: todo o sub-diacono se julga +uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não +ha seminarista que não tenha, durante um instante, +aspirado com ternura á caverna no deserto em que +S. Jeronymo, olhando o céo estrellado, sentia descer-lhe +sobre o peito a Graça como um abundante +rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, +á +varanda, palita o dente furado saboreando o seu +café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos +restos d'um Torquemada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia +muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na +Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, +ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres +horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada +da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, +do jantarinho na rua da Misericordia, quando +Amelia, com o seu collar muito branco, lhe passava +a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa. +Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme, +com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre +constipada; e de vez em quando, desviando a +cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito +suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa +das lavagens. Amaro, desgostoso e indifferente, +<span class="pagenum">[174]</span> +não se queixava; comia mal, á pressa; mandava +vir o café, e ficava horas esquecidas sentado +á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do +prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo os pés e +os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas +da sala desabrigada. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na +rua da Misericordia, apparecia ao fim do jantar: sentava-se +arredado da mesa, e ficava calado, com o +seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando +agradar ao parocho, repetia, invariavelmente: +<br /> + +<br /> + +—Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é +estar em sua casa. +<br /> + +<br /> + +—Está claro... rosnava Amaro. +<br /> + +<br /> + +Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia +ligeiramente mal da S. Joanneira, provocando, animando +o coadjutor (que era de Leiria) a contar os +escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por +servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfidia. +<br /> + +<br /> + +—Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho. +<br /> + +<br /> + +O outro encolhia os hombros, com as mãos muito +espalmadas ao pé das orelhas, n'uma expressão +de malicia; mas não pronunciava um som, receando +que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o +senhor conego. Ficavam então soturnos, trocando, a +espaços, phrases molles: um baptisado que havia; o +que dissera o conego Campos; um frontal do altar +que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava +Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito +<span class="pagenum">[175]</span> +distante da panellinha ecclesiastica: não o interessavam +as intriguinhas do cabido, as parcialidades +tão commentadas do senhor chantre, os roubos da +Misericordia, as turras da camara ecclesiastica com +o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, +nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente +se deleitam os padres, e que têm a +puerilidade d'uma caturrice e a tortuosidade d'uma +conspiração. +<br /> + +<br /> + +—O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando. +<br /> + +<br /> + +—Sempre! respondia o coadjutor. +<br /> + +<br /> + +Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia +o guardachuva, e sahia com um olhar de revez +á Vicencia. +<br /> + +<br /> + +Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava +só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-n'o: +deshabituado da leitura não comprehendia «o +sentido». Ia olhar á vidraça: a noite +estava tenebrosa, +o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria +aquella vida? Accendia o cigarro, e do lavatorio para +a janella recomeçava os seus passeios, com as +mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás +vezes: +e não tinha escrupulos: julgava que ter renunciado +a Amelia era já uma penitencia, não necessitava +cansar-se a lêr orações no livro; +celebrára o «seu +sacrificio»—sentia-se vagamente quite com o céo! +<br /> + +<br /> + +E continuava a viver só: o conego nunca vinha +á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que +só o +entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago». E +<span class="pagenum">[176]</span> +Amaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa +da +S. Joanneira. Escandalisára-se muito que ella não +lhe +tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira; +attribuira «a desfeita» á hostilidade +d'Amelia; +e, mesmo para a não vêr, trocára com o +padre Silveira +a missa do meio-dia onde ella costumava ir, +e dizia a das nove horas, furioso com aquelle novo +sacrificio! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, +tinha uma palpitação tão forte no +coração que +ficava como suffocada um momento. Depois os botins +de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia +os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se +então às costas da cadeira, cerrando os olhos, +como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava +o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, +quando já não era possível que elle +viesse, a sua +melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a +garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer: +<br /> + +<br /> + +—Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça +que não paro! +<br /> + +<br /> + +Atirava-se para a cama de bruços, murmurava +n'uma agonia: +<br /> + +<br /> + +—Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque +não vem elle, porque não vem elle? +<br /> + +<br /> + +Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora, +<span class="pagenum">[177]</span> +toda a casa lhe pareceu deshabitada e lugubre! Quando +vira no quarto d'elle os cabides sem a sua roupa, +a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. +Foi beijar a travesseirinha onde elle dormia, +apertou ao peito com delirio a ultima toalha a que +elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu +rosto presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. +E com a separação o seu amor ardia mais forte e +mais alto, como uma fogueira que se isola. +<br /> + +<br /> + +Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira +no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada, +embasbacada com gozo para uma rapariga de +cuia á banda e <em>garibaldi</em> +escarlate, que, de punho +no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o +rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta +de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo +os hombros, as mãos muito enterradas nos +bolsos, rosnando: +<br /> + +<br /> + +—Não lhe fez mal, não lhe fez mal... +<br /> + +<br /> + +O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, +parára a olhar, descontente d'aquella «falta +d'ordem +publica». +<br /> + +<br /> + +—Algum barulho? perguntou-lhe Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do +soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher +está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas! +<br /> + +<br /> + +Mas a rapariga de <em>garibaldi</em> vermelha +voltára-se—e +Amelia aterrada reconheceu a Joanninha Gomes, +sua amiga da mestra, que fôra amante do padre Abilio! +O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partira +<span class="pagenum">[178]</span> +para Pombal, depois para o Porto; de miseria em +miseria voltára a Leiria, e ahi vivia n'alguma viella +ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um +regimento!—Que +exemplo, santo Deus, que exemplo! +<br /> + +<br /> + +E tambem ella gostava d'um padre! Tambem +ella, como outr'ora a Joanninha, chorava sobre a +sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha! +Onde a levava aquella paixão? Á sorte da +Joanninha! +A ser a <em>amiga do parocho</em>! E via-se +já apontada +a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada +por elle, com um filho nas entranhas, sem +um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento +que limpa n'um momento um céo ennevoado, o +terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha +varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas +em que ella se ia perdendo. Decidiu aproveitar +a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo +de apressar o seu casamento com João Eduardo para +se refugiar n'um dever dominante; durante alguns +dias forçou-se a interessar-se por elle; começou +mesmo +a bordar-lhe umas chinelas... +<br /> + +<br /> + +Mas pouco a pouco a <em>idéa +má</em> que, atacada, se +encolhera e se fingira morta,—principiou lentamente +a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de +noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, +os seus olhos, a sua voz appareciam-lhe, +tentações +teimosas! com um encanto crescente. Que faria +elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha ciumes +indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. +E aquella paixão ia-a envolvendo como uma atmosphera +<span class="pagenum">[179]</span> +d'onde não podia sahir, que a seguia se ella +fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções +honestas +resequiam-se, morriam como debeis florinhas +n'aquelle fogo que a percorria. Se ás vezes a +lembrança +de Joanninha ainda voltava, repellia-a com +irritação; e acolhia alvoroçadamente +todas as razões +insensatas que lhe vinham de amar o padre +Amaro! Tinha agora só uma idéa:—atirar-lhe os +braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o! +Depois, +se fosse necessario, morrer! +<br /> + +<br /> + +Começou então a impacientar-se com o amor de +João Eduardo. Achava-o «palerma». +<br /> + +<br /> + +—Que massada! pensava quando lhe sentia os +passos na escada, á noite. +<br /> + +<br /> + +Não o supportava com os seus olhos voltados +sempre para ella, a sua quinzena preta, as suas monotonas +conversas sobre o governo civil. +<br /> + +<br /> + +E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas +de sonhos lubricos; de dia vivia n'uma +inquietação +de ciumes, com melancolias lugubres, que +a tornavam, como dizia a mãi, «uma môna, +que +até enraivece»! +<br /> + +<br /> + +O genio azedava-se-lhe. +<br /> + +<br /> + +—Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi. +<br /> + +<br /> + +—Não me sinto boa. Estou para ter alguma! +<br /> + +<br /> + +Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. +E emfim uma manhã ficou de cama com febre. +A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho +pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de +jantar sorvendo com satisfação a sua pitada. +<span class="pagenum">[180]</span> +<br /> + +<br /> + +—Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me +esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura! +<br /> + +<br /> + +—Mas, senhor doutor... +<br /> + +<br /> + +—Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a +por uma vez! repetia elle pelas escadas, arrastando +um pouco a perna direita que um rheumatismo teimoso +encolhia. +<br /> + +<br /> + +Amelia emfim melhorou—com grande alegria +de João Eduardo, que emquanto ella estivera doente +vivera n'uma afflicção, lamentando não +poder ser +seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio +uma lagrima triste sobre os papeis sellados do severo +Nunes Ferral. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No domingo seguinte, á missa das nove horas +na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas +que se arredavam viu de relance Amelia ao pé +da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos +folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia +sustentar o calix com as mãos tremulas. +<br /> + +<br /> + +Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro +fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se +voltou para a igreja dizendo <em>Dominus +vobiscum</em>—a +mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia +«que o senhor parocho estava tão amarello, que +devia +ter alguma dôr». Amelia não respondeu, +curvada +sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E +<span class="pagenum">[181]</span> +durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, +a face banhada n'um extase baboso, gozou a sua +presença, as suas mãos magras erguendo a hostia, +a sua cabeça bem feita curvando-se na +adoração ritual; +uma doçura corria-lhe na pelle quando a voz +d'elle, apressada, dizia mais alto algum latim: e +quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e +a direita estendida, disse para a igreja o <em>Benedicat +vos</em>, ella, com os olhos muito abertos, arremessou +toda a sua alma para o altar, como se elle fosse o +proprio Deus a cuja benção as cabeças +se curvavam +ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens +do campo com os seus varapaus pasmavam para os +dourados do sacrario. +<br /> + +<br /> + +Á sahida da missa começára a chover; e +Amelia +e a mãi, á porta com outras senhoras, esperavam +uma «aberta». +<br /> + +<br /> + +—Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, +chegando-se, +muito branco. +<br /> + +<br /> + +—Estamos á espera que passe a chuva, senhor +parocho, disse a S. Joanneira voltando-se. E immediatamente, +muito reprehensiva:—E porque não tem +apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos +nós? Credo, até dá que fallar... +<br /> + +<br /> + +—Muito occupado, muito occupado... balbuciou +o parocho. +<br /> + +<br /> + +—Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde +crêr, +tem-me causado desgosto... E todos têm reparado. +Não, lá isso, senhor parocho, tem sido +ingratidão! +<br /> + +<br /> + +Amaro disse, córando: +<span class="pagenum">[182]</span> +<br /> + +<br /> + +—Pois acabou-se. Hoje á noite lá +appareço, e +estão as pazes feitas ... +<br /> + +<br /> + +Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua +perturbação +olhava para todos os pontos o céo carregado, +como assustada do temporal. +<br /> + +<br /> + +Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva. +E emquanto a S. Joanneira o abria, apanhando com +cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho: +<br /> + +<br /> + +—Até á noite, sim?—E mais baixo, olhando +em redor, com medo:—Oh, vá! Tenho estado tão +triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o +eu! +<br /> + +<br /> + +Amaro, voltando para casa, continha-se para não +correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se +aos pés da cama, e alli ficou saturado de felicidade, +como um pardal muito farto n'um raio de +sol muito quente: recordava o rosto d'Amelia, a redondeza +dos seus hombros, a belleza dos encontros, +as palavras que lhe dissera:—<em>Tenho estado como +doida!</em> A certeza de que «a rapariga gostava +d'elle» +entrou-lhe então na alma com a violencia de +uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos +do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades +agitadas. E passeava pelo quarto com passadas +de covado, estendendo os braços, desejando a +posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho +prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca +do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso +que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar. +Com que impaciencia desejava a noite! A tarde clareára; +<span class="pagenum">[183]</span> +a cada momento tirava o seu «cebolão» de +prata, indo olhar á janella, com +irritação, a claridade +do dia que se arrastava devagar no horisonte. +Engraxou elle mesmo os seus sapatos, lustrou o +cabello de banha. E antes de sahir rezou cuidadosamente +o seu Breviario—porque, em presença +d'aquelle amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso +que Deus ou os santos escandalisados o +viessem perturbar: e não queria, com desleixos de +devoção, <em>dar-lhes +razão de queixa</em>. +<br /> + +<br /> + +Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe +tão forte que teve de parar, suffocado; e pareceu-lhe +melodioso o piar das corujas na velha Misericordia, +que ha tantas semanas não ouvia. +<br /> + +<br /> + +Que admiração quando elle appareceu na sala de +jantar! +<br /> + +<br /> + +—Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que +tinha morrido! Grande milagre!... +<br /> + +<br /> + +Estava a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, as +Gansosos. +Arredaram as cadeiras com enthusiasmo para +lhe dar logar, admiral-o. +<br /> + +<br /> + +—Então que tem feito, que tem feito? E olhe +que está mais magro! +<br /> + +<br /> + +O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes +subindo ao ar. O snr. Arthur Couceiro improvisou-lhe +um <em>fadinho</em> á viola: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ora já cá temos o senhor parocho<br /> + +Nos chás da S. Joanneira.<br /> + +Isto já parece outra coisa,<br /> + +Volta a bella cavaqueira! +</div> + +<span class="pagenum">[184]</span> +<br /> + +<br /> + +Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de +riso: +<br /> + +<br /> + +—Ai, tem sido uma ingratidão d'elle! +<br /> + +<br /> + +—Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o conego. +Uma casmurrice, digo eu! +<br /> + +<br /> + +Amelia não fallava, com as faces abrazadas, os +olhos humidos pasmados para o padre Amaro—a +quem tinham dado a poltrona do conego, e que se +repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras +pelas pilherias com que contava os desleixos +da Vicencia. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando +o velho album. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +IX +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Assim recomeçou a intimidade de Amaro na rua +da Misericordia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviario; +e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se +no seu capote e dava volta pela Praça +passando rente da botica, onde os frequentadores +caturravam, com as mãos molles apoiadas ao cabo +dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de +jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; +mas ao toque agudo da campainha sentia ás vezes +um susto indefinido d'achar a mãi já desconfiada +ou +Amelia mais fria!... Mesmo por superstição +entrava +sempre com o pé direito. +<br /> + +<br /> + +Encontrava já as Gansosos, a D. Josepha Dias; e +o conego, que jantava agora muito com a S. Joanneira, +e que áquella hora, estirado na poltrona, findava +a sua somneca, dizia-lhe bocejando: +<span class="pagenum">[186]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ora viva o menino bonito! +<br /> + +<br /> + +Amaro ia sentar-se ao pé d'Amelia que costurava +á mesa; o olhar penetrante que se trocavam era +todos os dias como o mutuo juramento mudo que o +seu amor crescera desde a vespera; e ás vezes mesmo, +debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. +Começava então a +«cavaqueira». Eram sempre +os mesmos interessesinhos, as questões que iam na +Misericordia, o que dissera o senhor chantre, o conego +Campos que despedira a criada, o que se rosnava +da mulher do Novaes... +<br /> + +<br /> + +—Mais amor do proximo! resmungava o conego +mexendo-se na poltrona. E com um arrôto curto +tornava a cerrar as palpebras. +<br /> + +<br /> + +Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, +e Amelia immediatamente abria a mesinha para +a partida de <em>manilha</em>: os parceiros +eram a Gansoso, +D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava +mal, Amelia, que era <em>mestra</em>, +sentava-se por detraz +d'elle para o «guiar». Logo ás primeiras +vasas havia +altercações. Então Amaro voltava o +rosto para +Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos. +<br /> + +<br /> + +—Esta? perguntava, indicando a carta com o +olho languido. +<br /> + +<br /> + +—Não! não! espere, deixe vêr, dizia +ella, vermelha. +<br /> + +<br /> + +O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro +sentia o cheiro da agua de colonia que ella usava +com exagero. +<br /> + +<br /> + +Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João +Eduardo, +<span class="pagenum">[187]</span> +mordicando o bigode, contemplava-a com paixão; +Amelia, para se desembaraçar d'aquelles dois +olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim +«que até era indecente, diante do parocho que era +de ceremonia, estar assim a cocal-a toda a noite». +<br /> + +<br /> + +Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo: +<br /> + +<br /> + +—Ó snr. João Eduardo, vá conversar +com a +mamã, senão têmol-a aqui +têmol-a a dormir. +<br /> + +<br /> + +E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. +Joanneira, +que, de lunetas na ponta do nariz, fazia somnolentamente +a sua meia. +<br /> + +<br /> + +Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava +então enthusiasmo em Leiria uma velha +canção +mexicana, a <em>Chiquita</em>. Amaro achava-a +<em>de appetite</em>; +e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, +apenas Amelia começava com muita languidez tropical: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Quando sali de la Habana<br /> + +Valga-me Dios!... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, +quando Amelia, com os dedos frouxos no teclado, o +busto deitado para traz, rolando os olhos ternos, +em movimentos dôces de cabeça, dizia toda +voluptuosa, +syllabando o hespanhol: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Si á tua ventana llega<br /> + +Una paloma,<br /> + +Trata-la com cariño,<br /> + +Que es mi persona. +</div> + +<br /> + +<br /> + +E como a achava graciosa, creoula, quando ella +gorgeava: +<span class="pagenum">[188]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ay chiquita que si,<br /> + +Ay chiquita que no-o-o-o! +</div> + +<br /> + +<br /> + +Mas as velhas reclamavam-o para continuar a +<em>manilha</em>, e elle ia sentar-se, +cantarolando as ultimas +notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos +humidos de felicidade. +<br /> + +<br /> + +Ás sextas-feiras era a grande partida. A snr.<sup>a</sup> +D. +Maria da Assumpção apparecia sempre com o seu +bello vestido de sêda preta: e como era rica e tinha +parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor +logar ao pé da mesa—que ella ia occupar, meneando +pretenciosamente os quadris, com +<em>ruge-ruges</em> +de sêda. Antes do chá a S. Joanneira levava-a +sempre ao seu quarto, onde guardava para ella uma +garrafa de geropiga velha: e alli as duas amigas tagarellavam +muito tempo, sentadas em cadeirinhas +baixas. Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado +e mais tisico, cantava o <em>fado</em> novo +que compuzera, +chamado o <em>Fado da +Confissão</em>; eram quadras +feitas para regalar aquella piedosa reunião de saias +e de batinas: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Na capellinha do amor,<br /> + +No fundo da sacristia,<br /> + +Ao senhor padre Cupido<br /> + +Confessei-me n'outro dia... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Vinha depois a confissão de peccadinhos dôces, +um acto de contrição de amor, uma penitencia +terna: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Seis beijinhos de manhã,<br /> + +De tarde um abraço só...<br /> + +E p'ra acalmar dôces chammas<br /> + +Jejuar a pão de ló. +</div> + +<span class="pagenum">[189]</span> +<br /> + +<br /> + +Aquella composição galante e devota +fôra muito +apreciada na sociedade ecclesiastica de Leiria. O senhor +chantre pedira uma cópia, e perguntára, +referindo-se +ao poeta: +<br /> + +<br /> + +—Quem é o habil Anacreonte? +<br /> + +<br /> + +E informado que era o escrevente da +administração, +fallou d'elle com tanto apreço á esposa do senhor +governador civil, que Arthur obteve a +gratificação +de oito mil reis, que havia annos implorava. +<br /> + +<br /> + +Áquellas reuniões nunca faltava o Libaninho. A +sua ultima pilheria era furtar beijos á snr.<sup>a</sup> +D. Maria +da Assumpção; a velha escandalisava-se muito +alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez +um olhar guloso. Depois o Libaninho desapparecia +um momento, e entrava com uma saia d'Amelia vestida, +uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma +lubrica por João Eduardo—que, entre as risadas +agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e +Natario vinham ás vezes: formava-se então um +grande +<em>quino</em>. Amaro e Amelia ficavam sempre +juntos; +e toda a noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, +permaneciam vagamente entorpecidos no +mesmo desejo intenso. +<br /> + +<br /> + +Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira +mais apaixonado por Amelia. Ia pela rua devagar, +ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe +dava aquelle amor—uns certos olhares d'ella, o arfar +desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos +joelhos e das mãos. Em casa despia-se depressa, porque +gostava de pensar n'ella, ás escuras, atabafado +<span class="pagenum">[190]</span> +nos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, +uma a uma, as provas successivas que ella lhe dera +do seu amor, como quem vai aspirando uma e outra +flôr, até que ficava como embriagado d'orgulho: +era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o +a elle, a elle padre, o eterno excluido dos sonhos +femininos, o sêr melancollico e neutro que ronda +como um sêr suspeito á beira do sentimento! +Á sua +paixão misturava-se então um reconhecimento por +ella; e com as palpebras cerradas murmurava: +<br /> + +<br /> + +—Tão boa, coitadinha, tão boa! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Mas na sua paixão havia ás vezes grandes +impaciencias, +Quanto tinha estado, durante tres horas da +noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade +que se exhalava de todos os seus movimentos,—ficava +tão carregado de desejos que necessitava +conter-se «para não fazer um disparate alli +mesmo na sala, ao pé da mãi». Mas +depois, em casa, +só, torcia os braços de desespero: queria-a alli +de repente, offerecendo-se ao seu desejo: fazia então +combinações—escrever-lhe-hia, arranjariam uma +casita +discreta para se amarem, planeariam um passeio +a alguma quinta! Mas todos aquelles meios lhe +pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho +finorio da irmã do conego, as Gansosos tão +mexeriqueiras! +E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam +como as muralhas successivas d'uma cidadella, +<span class="pagenum">[191]</span> +voltavam as antigas lamentações: não +ser livre! +não poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a +á mãi, possuil-a sem peccado, commodamente! +Porque +o tinham feito padre? Fôra «a velha +pêga» da +marqueza de Alegros! Elle não abdicára +voluntariamente +a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido +para o sacerdocio como um boi para o curral! +<br /> + +<br /> + +Então, passeando excitado pelo quarto, levava as +suas accusações mais longe, contra o Celibato e a +Igreja: porque prohibia ella aos seus sacerdotes, homens +vivendo entre homens, a satisfação mais natural, +que até têm os animaes? Quem imagina que +desde que um velho bispo diz—<em>serás +casto</em>—a +um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente +esfriar-se? e que uma palavra +latina—<em>accedo</em>—dita +a tremer pelo seminarista assustado, será +o bastante para conter para sempre a rebellião formidavel +do corpo? E quem inventou isso? Um concilio +de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus +claustros, da paz das suas escólas, mirrados como +pergaminhos, inuteis como eunucos! Que sabiam elles +da Natureza e das suas tentações? Que viessem +alli duas, tres horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, +sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhe +o desejo! Tudo se illude e se evita, menos +o amor! E se elle é fatal, porque impediram +então que o padre o sinta, o realise com pureza e +com dignidade? É melhor talvez que o vá procurar +pelas viellas obscenas!—Porque a carne é fraca! +<br /> + +<br /> + +A carne! Punha-se então a pensar nos tres inimigos +<span class="pagenum">[192]</span> +da alma—<span class="smallcaps">Mundo</span>, +<span class="smallcaps">Diabo</span> e +<span class="smallcaps">Carne</span>. E appareciam +á sua imaginação em tres figuras +vivas: uma +mulher muito formosa; uma figura negra d'olho de +braza e pé de cabra; e o +<em>mundo</em>, coisa vaga e maravilhosa +(riquezas, cavallos, palacetes)—de que lhe +parecia uma personificação sufficiente o senhor +conde +de Ribamar! Mas que mal tinham elles feito á +sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa +amava-o e era a unica consolação da sua +existencia; +e do mundo, do senhor conde, só recebera +protecção, +benevolencia, tocantes apertos de mão... E como +poderia elle evitar as influencias da Carne e do +Mundo? A não ser que fugisse, como os santos d'outr'ora, +para os areaes do deserto e para a companhia +das feras! Mas não lhe diziam os seus mestres no seminario +que elle pertencia a uma Igreja militante? +O ascetismo era culpado, sendo a deserção d'um +serviço +santo.—Não comprehendia, não comprehendia! +<br /> + +<br /> + +Procurava então justificar o seu amor com exemplos +dos livros divinos. A Biblia está cheia de nupcias! +Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados +de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, +com a cabeça coberta de faxas de linho puro, arrastando +pelas pontas um cordeiro branco; os levitas +batem em discos de prata, gritam o nome de Deus; +abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar +passar a caravana que leva os bem esposados; e as +arcas de sandalo onde vão os thesouros do dote rangem, +amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso +dos camêlos! Os martyres no circo casam-se n'um +<span class="pagenum">[193]</span> +beijo, sob o bafo dos leões, ás +acclamações da plebe! +Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade +inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, +nos mercados do Bairro de David; mas lá +tinha o seu logar de ternura e de abandono em Bethania, +sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, +emquanto os magros nazarenos seus amigos bebem +o leite e conspiram á parte, elle olha defronte os +tectos dourados do templo, os soldados romanos que +jogam o disco ao pé da Porta de Ouro, os pares +amorosos que passam sob os arvoredos de Gethesemani—e +pousa a mão sobre os cabellos louros de +Martha, que ama e fia a seus pés! +<br /> + +<br /> + +O seu amor era pois uma infracção canonica, +não um peccado da alma: podia desagradar ao senhor +chantre, não a Deus: seria legitimo n'um sacerdocio +de regra mais humana. Lembrava-se de se +fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais +extraordinariamente impossivel que transportar a velha +Sé para cima do monte do Castello. +<br /> + +<br /> + +Encolhia então os hombros, escarnecendo toda +aquella vaga argumentação interior. +«Philosophia e +palhada»! Estava doido pela rapariga,—era o positivo. +Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe +a alma... E o senhor bispo se não fosse velho +faria o mesmo, e o Papa faria o mesmo! +<br /> + +<br /> + +Eram ás vezes tres horas da manhã, e ainda +passeava no quarto, fallando só. +<span class="pagenum">[194]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite +pela rua das Sousas, tinha visto na janella do parocho +uma luz amortecida! Porque ultimamente João +Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, +tomára o habito triste de andar até tarde pelas +ruas. +<br /> + +<br /> + +O escrevente, logo desde os primeiros tempos, +percebêra a sympathia de Amelia pelo parocho. Mas +conhecendo a sua educação e os habitos devotos da +casa, attribuia aquellas attenções quasi humildes +com Amaro ao respeito beato pela sua batina de +padre, pelos seus privilegios de confessor. +<br /> + +<br /> + +Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. +Sempre fôra inimigo de padres! achava-os um +«perigo para a civilisação e para a +liberdade»; suppunha-os +intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando +sempre para restabelecer «as trevas da +meia idade»; odiava a confissão que julgava uma +arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religião +vaga—hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, +cheia de admiração pelo Jesus poetico, +revolucionario, +amigo dos pobres, e «pelo sublime espirito de +Deus que enche todo o Universo»! Só desde que +amava Amelia é que ouvia missa, para agradar á +S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +E desejaria sobretudo apressar o casamento para +tirar Amelia d'aquella sociedade de beatas e padres, +<span class="pagenum">[195]</span> +receando ter mais tarde uma mulher que tremesse +do inferno, passasse horas a rezar estações na +Sé, e +se confessasse aos padres «que arrancam ás +confessadas +os segredos d'alcova»! +<br /> + +<br /> + +Quando Amaro voltára a frequentar a rua da Misericordia, +ficou contrariado. «Cá temos outra vez o +marmanjo»! pensou. Mas que desgosto, quando reparou +que Amelia tratava agora o parocho com uma +familiaridade mais terna, que a presença d'elle lhe +dava visivelmente uma animação singular, +«e que +havia uma especie de namoro»! Como ella se fazia +vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com +uma admiração babosa! Como arranjava sempre a +ficar ao pé d'elle nas partidas de +<em>quino</em>! +<br /> + +<br /> + +Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da +Misericordia,—e +emquanto a S. Joanneira tagarellava +na cozinha, disse bruscamente a Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande +desgosto com essas maneiras com que trata o senhor +padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu os olhos muito espantados: +<br /> + +<br /> + +—Que maneiras?! Ora essa! então como quer +que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui +d'hospede... +<br /> + +<br /> + +—Pois sim, pois sim... +<br /> + +<br /> + +—Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não +me torno a chegar ao pé do homem. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, tranquillisado, raciocinou—que +«não havia nada». Aquelles modos eram +excessos +de beaterio. Enthusiasmo pela padraria! +<span class="pagenum">[196]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no +coração: sempre considerára o +escrevente um pouco +tapado—e se elle percebêra, que fariam as Gansosos +tão finas, e a irmã do conego que era cortida +em malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, +d'ahi por diante, tomava uma attitude distrahida, +muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe fallava com +a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos +negros que lhe faziam correr estremeções nos +nervos,—como +uma ligeira camada de neve que se +derrete a um sol muito forte a sua attitude fria desapparecia, +e toda a sua pessoa era uma expressão +continua de paixão. Ás vezes, absorvida no seu +enlevo, +esquecia que João Eduardo estava alli; e ficava +toda surprehendida quando ouvia a um canto da +sala a sua voz melancolica. +<br /> + +<br /> + +Ella sentia de resto que as amigas da mãi envolviam +a sua «inclinação» pelo +parocho n'uma +approvação muda e affavel. Elle era, como dizia o +conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos +olhares das velhas exhalava-se uma admiração por +elle que fazia ao desenvolvimento da paixão d'Amelia +uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpção +dizia-lhe ás vezes ao ouvido: +<br /> + +<br /> + +—Olha para elle! É d'inspirar fervor. É a honra +do clero. Não ha outro!... +<br /> + +<br /> + +E todas ellas achavam João Eduardo «um +presta-p'ra-nada»! +Amelia então já não +disfarçava a +sua indifferença por elle: as chinelas que lhe andava +a bordar tinham ha muito desapparecido do cesto +<span class="pagenum">[197]</span> +do trabalho, e já não vinha á janella +vel-o passar +para o cartorio. +<br /> + +<br /> + +A certeza agora tinha-se estabelecido na alma +de João Eduardo—na alma, que, como elle dizia, +lhe andava mais negra que a noite. +<br /> + +<br /> + +—A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. +E á dôr da sua felicidade destruida juntava-se +a afflicção pela honra d'ella +ameaçada. +<br /> + +<br /> + +Uma tarde, tendo-a visto sahir da Sé, esperou-a +adiante da botica, e muito decidido: +<br /> + +<br /> + +—Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto +não póde continuar assim... Eu não +posso... A menina +traz namoro com o parocho! +<br /> + +<br /> + +Ella mordeu o beiço, toda branca: +<br /> + +<br /> + +—O senhor está a insultar-me!—E queria seguir, +indignada. +<br /> + +<br /> + +Elle reteve-a pela manga do casabeque: +<br /> + +<br /> + +—Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, +mas é que não sabe... Tenho andado, que +até +se me parte o coração!—E perdeu a voz, de +commovido. +<br /> + +<br /> + +—Não tem razão... Não tem +razão... balbuciava +ella. +<br /> + +<br /> + +—Jure-me então que não ha nada com o padre! +<br /> + +<br /> + +—Pela minha salvação!... +<em>Não ha nada!</em>... +Mas tambem lhe digo, se torna a fallar em tal, ou +a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor +escusa +de nos voltar a casa. +<br /> + +<br /> + +—Oh, menina Amelia... +<span class="pagenum">[198]</span> +<br /> + +<br /> + +—Não podemos continuar aqui a fallar... Está +alli já a D. Michaela a cocar... +<br /> + +<br /> + +Era uma velha, que levantára a cortina de cassa +n'uma janella baixa, e espreitava com olhinhos +reluzentes e gulosos, a face toda resequida encostada +sôfregamente á vidraça. Separaram-se +então—e +a velha desconsolada deixou cahir a cortina. +<br /> + +<br /> + +Amelia n'essa noite—emquanto as senhoras discutiam +com algazarra os missionarios que então prégavam +na Barrosa—disse baixo a Amaro, picando +vivamente a costura: +<br /> + +<br /> + +—Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para +mim nem esteja tão chegado... Já houve quem +reparasse. +<br /> + +<br /> + +Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. +Maria da Assumpção; e, apesar da +recommendação +d'Amelia, os seus olhos não se despregavam d'ella, +n'uma interrogação muda e anciosa, já +assustado +que as desconfianças da mãi ou a malicia das +velhas +«andassem armando escandalo». Depois do +chá, no rumor das cadeiras que se accommodavam +ao <em>quino</em>, perguntou-lhe rapidamente: +<br /> + +<br /> + +—Quem reparou? +<br /> + +<br /> + +—Ninguem. Eu é que tenho medo. É preciso +disfarçar. +<br /> + +<br /> + +Desde então cessaram as olhadellas dôces, os +logares +chegadinhos á mesa, os segredos; e sentiam +um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo a +certeza vaidosa da paixão que os inflammava. Era +para Amelia delicioso—emquanto o padre Amaro +<span class="pagenum">[199]</span> +afastado tagarellava com as senhoras—adorar a sua +presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos +castamente applicados ás chinelas do João Eduardo +que muito astutamente recomeçára a bordar. +<br /> + +<br /> + +Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o +encontrar o parocho installado alli todas as +noites, com a face próspera, a perna traçada, +gozando +a veneração das velhas. «A Ameliasinha, +sim, +agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: +mas elle sabia que o parocho a desejava, a +«cocava»; +e apesar do juramento d'ella <em>pela sua +salvação,</em> +da certeza <em>que não havia +nada</em>—temia que +ella fosse lentamente penetrada por aquella +admiração +caturra das velhas, para quem o senhor parocho +<em>era um anjo</em>: só se +contentaria em arrancar +Amelia (já empregado no governo civil) áquella +casa +beata: mas essa felicidade tardava a chegar—e sahia +todas as noites da rua da Misericordia mais apaixonado, +com a vida estragada de ciumes, odiando +os padres, sem coragem para desistir. Era então que +se punha a andar pelas ruas até tarde; ás vezes +voltava +ainda vêr as janellas fechadas da casa d'ella; +ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio +ramalhar +das arvores sobre a agua negra entristecia-o +mais; vinha então ao bilhar, olhava um momento os +parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, +que bocejava encostado ao <em>reste</em>. Um +cheiro +de mau petroleo suffocava. Sahia; e dirigia-se, +devagar, á redacção da +<em>Voz do Districto</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +X +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O redactor da <em>Voz do Districto</em>, o +Agostinho Pinheiro, +era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente +o <em>Rachitico</em>, por ter uma forte +corcunda no +hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente +sujo; e a sua carita de femea, amarellada, +d'olhos depravados, revelava vícios antigos, +muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a +sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: +«Se vossê não fosse um rachitico, +quebrava-lhe os +ossos»—que, vendo na sua corcunda uma +protecção +sufficiente, ganhára um descaro sereno. Era de +Lisboa, o que o tornava mais suspeito aos burguezes +sérios: attribuia-se a sua voz rouca e acre «a +fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimados +<span class="pagenum">[202]</span> +terminavam em unhas muito compridas—porque +tocava guitarra. +<br /> + +<br /> + +A <em>Voz do Districto</em> fôra +creada por alguns homens, +a quem chamavam em Leiria o <em>grupo da +Maia</em>, particularmente hostis ao senhor governador +civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato +do <em>grupo</em>, tinha encontrado em +Agostinho, como +elle dizia, o <em>homem que se precisa</em>: +o que o <em>grupo</em> +precisava era um patife com orthographia, sem escrupulos, +que redigisse em linguagem sonora os insultos, +as calumnias, as allusões que elles traziam +informemente á redacção, em +apontamentos. Agostinho +era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze +mil reis por mez e casa de habitação na +redacção—um +terceiro andar desmantelado n'uma viella ao +pé da Praça. +<br /> + +<br /> + +Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, a +<em>Correspondencia</em> de Lisboa; e o +bacharel Prudencio +escrevia o folhetim litterario sob o titulo de +<em>Palestras +Leirienses</em>: era um moço muito honrado, a +quem o snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha +uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se +todos os sabbados fraternalmente á mesma +banca, a revêr as provas da sua prosa—prosa tão +florida de imagens, que se murmurava na cidade, +ao lêl-a: «<em>Que opulencia! Que +opulencia, Jesus!</em>» +<br /> + +<br /> + +João Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho +era «um trastesito»; não se atreveria a +passear +com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para +a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o +Agostinho +<span class="pagenum">[203]</span> +fallar de Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado +na redacção de dois jornaes, no theatro da +rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras +instituições. Estas visitas eram +<em>segredos</em>! +<br /> + +<br /> + +Áquella hora da noite a sala da typographia no +primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se +aos sabbados); e João Eduardo encontrava em cima +Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de +pelles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados—ruminando, +curvado, á luz d'um medonho +candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: +estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor +tinha o aspecto d'uma caverna. João Eduardo +estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar +a um canto a velha guitarra de Agostinho repenicava +o <em>fado corrido</em>. O jornalista no +emtanto, com a +testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: +«a coisa não lhe sahia catita»: e como +nem o +<em>fadinho</em> o inspirava, erguia-se, ia a +um armario engulir +um copinho de genebra que gargarejava nas +fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, +accendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento +cantarolava roucamente: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Ora foi o fado tyranno<br /> + +Que me levou á má vida, +</div> + +<br /> + +<br /> + +E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"> +Na vida do negro fado +Ai!<br /> + +Que me traz assim perdida... +</div> + +<span class="pagenum">[204]</span> +<br /> + +<br /> + +Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, +porque terminava por dizer, com odio: +<br /> + +<br /> + +—Que possilga de terra esta! +<br /> + +<br /> + +Não se podia consolar de viver em Leiria, de +não poder beber o seu quartilho na taberna do tio +João, á Mouraria, com a Anna alfaiata ou com o +Bigodinho—ouvindo +o João das Biscas de cigarro ao +canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo +fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a +morte da Sophia! +<br /> + +<br /> + +Depois, para se reconfortar com a certeza do seu +talento, lia a João Eduardo os seus artigos, muito +alto. E João interessava-se—porque essas +«producções», +sendo ultimamente sempre «desandas ao +clero», correspondiam ás suas +preoccupações. +<br /> + +<br /> + +Era por esse tempo que, em virtude da famosa +questão da Misericordia, o doutor Godinho se +tornára +muito hostil ao cabido e «á padraria». +Sempre detestára +padres; tinha uma má doença de figado, e +como a Igreja o fazia pensar no cemiterio, odiava a +sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da mortalha. +E Agostinho, que tinha um profundo deposito +de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, +exagerava as suas verrínas: mas, com o seu fraco +litterario, cobria o vituperio de tão espessas camadas +de rhetorica que, como dizia o conego Dias, +«aquillo era ladrar, não era morder»! +<br /> + +<br /> + +Uma d'essas noites João Eduardo encontrou Agostinho +todo enthusiasmado com um artigo que compuzera +<span class="pagenum">[205]</span> +de tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas +á Victor Hugo»! +<br /> + +<br /> + +—Tu verás! Coisa de sensação! +<br /> + +<br /> + +Como sempre, era uma declamação contra o clero +e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar +as virtudes do doutor, «<em>esse tão +respeitavel chefe de +familia</em>» e a sua eloquencia no tribunal que +«<em>arrancára +tantos desventurados ao cutelo da lei</em>», o +artigo, tomando um tom roncante, apostrophava +Christo:—«Quem te diria a ti (bradava Agostinho), +ó immortal Crucificado! quem te diria, quando +no alto do Golgotha expiravas exangue, quem te diria +que um dia, em teu nome, á tua sombra, seria +expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor +Godinho,—a alma mais pura, o talento mais robusto...»—E +as virtudes do doutor Godinho voltavam, +em passo de procissão, solemnes e sublimadas, +arrastando caudas de adjectivos nobres. +<br /> + +<br /> + +Depois, deixando por um momento de contemplar +o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se directamente +a Roma:—«É no seculo XIX que vindes atirar +á face de Leiria liberal os dictames do +<em>Syllabus</em>! +Pois bem. Quereis a guerra? Tel-a-heis!» +<br /> + +<br /> + +—Hein, João?! dizia. Está forte! Está +philosophico! +<br /> + +<br /> + +E retomando a leitura:—«Quereis a guerra? +Tel-a-heis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, +que não é o da demagogia, comprehendei-o +bem! e arvorando-o, com braço firme, no mais alto +baluarte das liberdades publicas, gritaremos á face +<span class="pagenum">[206]</span> +de Leiria, á face da Europa: Filhos do seculo XIX! +ás armas! Ás armas pelo progresso!» +<br /> + +<br /> + +—Hein? Está de os enterrar! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, que ficára um momento calado, +disse então, levantando as suas expressões em +harmonia +com a prosa sonora de Agostinho: +<br /> + +<br /> + +—O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos +do obscurantismo! +<br /> + +<br /> + +Uma phrase tão litteraria surprehendeu o jornalista: +fitou João Eduardo, disse: +<br /> + +<br /> + +—Porque não escreves tu alguma coisa, tambem? +<br /> + +<br /> + +O escrevente respondeu, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +—E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma +desanda aos padres... E eu tocava-lhes os pôdres. +Eu é que os conheço!... +<br /> + +<br /> + +Agostinho instou logo com elle para que escrevesse +a <em>desanda</em>. +<br /> + +<br /> + +—Vem a calhar, menino! +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho ainda na vespera lhe +recommendára:—«Em +tudo que cheirar a padre, para +baixo! Havendo escandalo, conta-se! não havendo, +inventa-se!» +<br /> + +<br /> + +E Agostinho acrescentou, com benevolencia: +<br /> + +<br /> + +—E não te dê cuidado o estylo, que eu +cá o +florearei! +<br /> + +<br /> + +—Veremos, veremos, murmurou João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe +sempre: +<br /> + +<br /> + +—E o artigo, homem? Traze-me o artigo. +<span class="pagenum">[207]</span> +<br /> + +<br /> + +Tinha avidez d'elle, porque sabendo como João +Eduardo vivia na intimidade da «panellinha canonica +da S. Joanneira» suppunha-o no segredo de infamias +especiaes. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a +saber...? +<br /> + +<br /> + +—Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se +como minha. É artigo da redacção. Quem +diabo +vai saber? +<br /> + +<br /> + +Succedeu na noite seguinte que João Eduardo +surprehendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente +um segredinho a Amelia—e ao outro dia appareceu +de tarde na redacção com a pallidez d'uma +noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, +miudamente escriptas n'uma letra de cartorio. Era +o artigo, e intitulava-se: <em>Os modernos +phariseus!</em>—Depois +de algumas considerações, cheias de +flôres, +sobre Jesus e o Golgotha, o artigo de João +Eduardo era, sob allusões tão diaphanas como +teias +d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao +padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... +Todos tinham a sua <em>dóse</em>, +como exclamou cheio de +jubilo o Agostinho. +<br /> + +<br /> + +—E quando sae? perguntou João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +O Agostinho esfregou as mãos, reflectiu, disse: +<br /> + +<br /> + +—É que está forte, diabo! É como se +tivesse +os nomes proprios! Mas descansa, eu arranjarei. +<br /> + +<br /> + +Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor +Godinho—que o achou «uma catilinaria atroz». Entre +o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: +<span class="pagenum">[208]</span> +elle reconhecia em geral a necessidade da religião +entre as massas; sua esposa, a bella D. Candida, +era além d'isso d'inclinações devotas, +e começava +a dizer que aquella guerra do jornal ao clero +lhe causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho +não queria provocar odios desnecessarios entre os +padres, prevendo que o seu amor da paz domestica, +os interesses da ordem e o seu dever de christão +o forçariam bem cedo a uma +reconciliação,—«muito +contra as suas opiniões, mas...» +<br /> + +<br /> + +Disse por isso a Agostinho sêccamente: +<br /> + +<br /> + +—Isto não póde ir como artigo da +redacção, +deve apparecer como communicado. Cumpra estas +ordens. +<br /> + +<br /> + +E Agostinho declarou ao escrevente—que a coisa +publicava-se como um <em>Communicado</em>, +assignado: +<em>Um liberal</em>. Sómente +João Eduardo terminava o artigo +exclamando:—<em>Álerta, mães de +familia!</em> O +Agostinho suggeriu que este final +<em>álerta</em> podia dar +logar á réplica +jocosa—<em>Álerta +está!</em> E depois de +largas combinações decidiram-se por este +fecho:—<em>Cuidado, +sotainas negras!</em> +<br /> + +<br /> + +No domingo seguinte appareceu o communicado +assignado: <em>Um liberal</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Durante toda essa manhã de domingo, o padre +Amaro, á volta da Sé, estivera occupado em +compôr +laboriosamente uma carta a Amelia. Impaciente, +como elle dizia, «com aquellas relações +que não andavam +<span class="pagenum">[209]</span> +nem desandavam, que era olhar e apertos de +mão e d'alli não passava»—tinha-lhe +dado uma +noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera +com boa letra, a tinta azul:—<em>Desejo encontral-a +só, porque tenho muito que lhe fallar. Onde +póde ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso +affecto.</em> Ella não respondera:—E Amaro +despeitado, +descontente tambem por não a ter visto n'essa +manhã +á missa das nove, resolveu «pôr tudo a +claro +n'uma carta de sentimento»: e preparava os periodos +sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, +passeando pela casa, juncando o chão de pontas de +cigarro, a cada momento curvado sobre o <em>Diccionario +de synonymos</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +«Ameliasinha do meu coração: (escrevia +elle) +Não posso atinar com as razões maiores que a +não +deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa +da senhora sua mamã; pois que era pela muita +necessidade que tinha de lhe fallar a sós, e as minhas +intenções eram puras, e na innocencia d'esta alma +que tanto lhe quer e que não medita o peccado. +<br /> + +<br /> + +«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente +affecto, e pela sua parte me parece, (se não +me enganam esses olhos que são os pharoes da +minha vida, e como a estrella do navegante) que +tambem tu, minha Ameliasinha, tens inclinação por +quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando +o Libano quinou com os seis primeiros numeros, +e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me +<span class="pagenum">[210]</span> +a mão por baixo da mesa com tanta ternura, +que até me pareceu que o céo se abria e +que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Porque +não respondeste pois? Se pensas que o nosso +affecto póde ser desagradavel aos nossos anjos da +guarda, então te direi que maior peccado commettes +trazendo-me n'esta incerteza e tortura, que até +na celebração da missa estou sempre com o pensar +em ti, e nem me deixa elevar a minha alma +no divino sacrificio. Se eu visse que este mutuo +affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: +oh minha bem amada filha, façamos o sacrificio a +Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou +por nós! Mas eu tenho interrogado a minha +alma e vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu +amor tambem é puro como a tua alma, que um +dia se unirá á minha, entre os córos +celestes, na +bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, +querida Ameliasinha, que até às vezes me parece +que te podia comer aos bocadinhos! Responde +pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se +a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois +eu anceio por te exprimir todo o fogo que me +abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, +e sentir na minha mão a tua que eu desejo que +me guie pelo caminho do amor, até aos extases +d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, +recebe a offerta do coração do teu amante e pai +espiritual +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +«<em>Amaro</em>». +</div> + +<span class="pagenum">[211]</span> +<br /> + +<br /> + +Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, +e com ella bem dobrada no bolso da batina foi á +rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em cima +a voz aguda de Natario, discutindo. +<br /> + +<br /> + +—Quem está por cá?—perguntou á +<em>Ruça</em>, que +alumiava, encolhida no seu chale. +<br /> + +<br /> + +—As senhoras todas. Está o senhor padre Brito. +<br /> + +<br /> + +—Ólá! Bella sociedade! +<br /> + +<br /> + +Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu +capote ainda pelos hombros, tirando alto o chapéo: +<br /> + +<br /> + +—Muito boas noites a todos, começando pelas +senhoras. +<br /> + +<br /> + +Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle +e exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Então que lhe parece? +<br /> + +<br /> + +—O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, +nos olhos cravados n'elle:—O que é? Alguma +coisa de novo? +<br /> + +<br /> + +—Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. +Não leu o <em>Districto</em>!? +<br /> + +<br /> + +Era papel em que elle não puzera os olhos, disse. +Então as senhoras indignadas romperam: +<br /> + +<br /> + +—Ai! é um desafôro! +<br /> + +<br /> + +—Ai! é um escandalo, senhor parocho! +<br /> + +<br /> + +Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, +contemplava o parocho com um sorrisinho sarcastico, +soltando d'entre os dentes: +<br /> + +<br /> + +—Não leu! Não leu! Então que fez? +<br /> + +<br /> + +Amaro reparava, já aterrado, na pallidez d'Amelia, +<span class="pagenum">[212]</span> +nos seus olhos muito vermelhos. E emfim o conego +erguendo-se pesadamente: +<br /> + +<br /> + +—Amigo parocho, dão-nos uma desanda!... +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! exclamou Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Têsa! +<br /> + +<br /> + +O senhor conego, que trouxera o jornal, devia +ler alto—lembraram. +<br /> + +<br /> + +—Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos! +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego +Dias accommodou-se á mesa, desdobrou o jornal, +pôz os oculos cuidadosamente, e, com o lenço +do rapé nos joelhos, começou a leitura do +<em>Communicado</em> +na sua voz pachorrenta. +<br /> + +<br /> + +O principio não interessava: eram periodos enternecidos +em que o <em>liberal</em> exprobrava aos +phariseus +a crucifixão de Jesus:—«Por que o matasteis? +(exclamava elle). Respondei!» E os phariseus +respondiam:—«Matamol-o porque elle era a liberdade, +a emancipação, a aurora de uma nova +era», +etc. O <em>liberal</em> então +esboçava, a largos traços, a +noite do Calvario:—«Eil-o pendente da cruz, traspassado +de lanças, a sua tunica jogada aos dados, a +plebe infrene», etc. E, voltando a dirigir-se aos +phariseus infelizes, o <em>liberal</em> +gritava-lhes com ironia:—«Contemplai +a vossa bella obra!» Depois, por +uma gradação habil, o +<em>liberal</em> descia de Jerusalem a +Leiria:—«Mas pensam os leitores que os phariseus +morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemol-os +<span class="pagenum">[213]</span> +nós; Leiria está cheia d'elles, e vamos +apresental-os +aos leitores...» +<br /> + +<br /> + +—Agora é que ellas começam, disse o conego +olhando para todos em redor, por cima dos oculos. +<br /> + +<br /> + +Com effeito «ellas começavam»; era, +n'uma fórma +brutal, uma galeria de photographias ecclesiasticas: +a primeira era a do padre Brito:—«Vêde-o, +(exclamava o <em>liberal</em>) grosso como um +touro, montado +na sua egua castanha...» +<br /> + +<br /> + +—Até a côr da egua! murmurou com uma +indignação +piedosa a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção. +<br /> + +<br /> + +«...Estupido como um melão, sem sequer saber +latim...» +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o +padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando +devagar os joelhos. +<br /> + +<br /> + +«...Especie de caceteiro», continuava o conego +que lia aquellas phrases crueis com uma tranquillidade +dôce, «desabrido de maneiras, mas que +não desgosta de se dar á ternura, e, segundo +dizem +os bem informados, escolheu para Dulcinêa a propria +e legitima esposa do seu regedor...» +<br /> + +<br /> + +O padre Brito não se dominou: +<br /> + +<br /> + +—Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se +e recahindo pesadamente na cadeira. +<br /> + +<br /> + +—Escute, homem! disse Natario. +<br /> + +<br /> + +—Qual escute! O que é, é que o racho! +<br /> + +<br /> + +Mas se elle não sabia quem era o +<em>liberal</em>! +<br /> + +<br /> + +—Qual <em>liberal</em>! Quem eu racho +é o doutor Godinho. +<span class="pagenum">[214]</span> +O doutor Godinho é que é o dono do jornal. +O doutor Godinho é que eu racho! +<br /> + +<br /> + +A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso +grandes palmadas á côxa. +<br /> + +<br /> + +Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as +injurias. A S. Joanneira com unção citou a +bofetada +que Jesus Christo supportou. Devia imitar Christo. +<br /> + +<br /> + +—Qual Christo, qual cabaça! gritou Brito apopletico. +<br /> + +<br /> + +Aquella impiedade creou um terror. +<br /> + +<br /> + +—Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou +a irmã do conego recuando a cadeira. +<br /> + +<br /> + +O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado +sob o desastre, murmurava: +<br /> + +<br /> + +—Nossa Senhora das Dôres, que até póde +cahir +um raio! +<br /> + +<br /> + +E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro +disse gravemente: +<br /> + +<br /> + +—Brito, realmente vossê excedeu-se. +<br /> + +<br /> + +—Pois se estão a puxar por mim!... +<br /> + +<br /> + +—Homem, ninguem puxou por vossê, disse severamente +Amaro. E com um tom pedagogo:—Apenas +lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, +quando se diz a <em>blasphemia +má</em>, o reverendo padre +Scomelli recommenda confissão geral e dois dias de +recolhimento a pão e agua. +<br /> + +<br /> + +O padre Brito resmungava. +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu +uma grande falta, mas saberá pedir perdão a +Deus, e a misericordia de Deus é infinita! +<span class="pagenum">[215]</span> +<br /> + +<br /> + +Houve uma pausa commovida em que se ouviu +a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção murmurar +«que ficára +sem pinga de sangue»; e o conego, que durante +a catastrophe pousára os oculos sobre a mesa, +retomou-os, e continuou serenamente a leitura: +<br /> + +<br /> + +«...Conheceis um outro com cara de +furão?...» +<br /> + +<br /> + +Olhares de lado fixaram o padre Natario. +<br /> + +<br /> + +«...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, não +hesita; se puder prejudicar-vos, folga: as suas intrigas +trazem o cabido n'uma confusão porque é a vibora +mais damninha da diocese, mas com tudo isso +muito dado á jardinagem, porque cultiva com cuidado +<em>duas rosas do seu +canteiro</em>.» +<br /> + +<br /> + +—Homem, essa! exclamou Amaro. +<br /> + +<br /> + +—É para que vossê veja, disse Natario erguendo-se +lívido. Que lhe parece? Vossê sabe que eu, +quando fallo das minhas sobrinhas, costumo dizer +<em>as duas rosas do meu canteiro</em>. +É um gracejo. Pois +senhores, até vem com isto!—E com um sorriso +macilento, de fel:—mas ámanhã hei de saber quem +é! Ólaré! Eu hei de saber quem +é! +<br /> + +<br /> + +—Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite +ao desprezo, disse a S. Joanneira pacificadora. +<br /> + +<br /> + +—Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se +com uma ironia rancorosa—obrigado! Cá +recebi! +<br /> + +<br /> + +Mas a voz imperturbavel do conego retomára a +leitura. Agora era o retrato d'elle, traçado com odio: +<br /> + +<br /> + +«...Conego bojudo e glutão, antigo caceteiro +do senhor D. Miguel, que foi expulso da freguezia +<span class="pagenum">[216]</span> +de Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um seminario +e hoje mestre de immoralidade em Leiria...» +<br /> + +<br /> + +—Isso é infame! exclamou Amaro exaltado. +<br /> + +<br /> + +O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta: +<br /> + +<br /> + +—Vossê pensa que me dá isto cuidado? disse +elle. Boa! Tenho que comer e que beber, graças a +Deus! Deixar rosnar quem rosna! +<br /> + +<br /> + +—Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente +sempre tem o seu bocadinho de brio! +<br /> + +<br /> + +—Ora, mana! replicou o conego Dias com um +azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ninguem +lhe pede a sua opinião! +<br /> + +<br /> + +—Nem preciso que m'a peçam! gritou ella impertigando-se. +Sei-a dar muito bem quando quero e +como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu! +<br /> + +<br /> + +—Então! então!... disseram em roda, acalmando-a. +<br /> + +<br /> + +—Menos lingua, mana, menos lingua! disse o +conego fechando os seus oculos. Olhe não lhe +cáiam +os dentes postiços! +<br /> + +<br /> + +—Seu malcriado! +<br /> + +<br /> + +Ia fallar, mas suffocou-se; e começou subitamente +a soltar <em>ais</em>. +<br /> + +<br /> + +Recearam logo que lhe désse o +<em>flato</em>: a S. Joanneira +e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o +quarto, em baixo, amparando-a, com palavras brandas: +<br /> + +<br /> + +—Estás doida! Por quem és, filha! Olha que +escandalo! +Nossa Senhora te valha! +<span class="pagenum">[217]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia mandava buscar agua de flôr de laranja. +<br /> + +<br /> + +—Deixe-a lá, rosnou o conego, deixe-a lá! +Aquillo +passa-lhe. São calores! +<br /> + +<br /> + +Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e +desceu ao quarto com a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +e a Gansoso surda, que iam tambem «socegar +a D. Josepha, coitadita»! Os padres agora estavam +sós; e o conego voltando-se para Amaro:—Ouça +vossê, que é a sua vez—disse retomando o jornal. +<br /> + +<br /> + +—E verá que dóse! disse Natario. +<br /> + +<br /> + +O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, +e declamou: +<br /> + +<br /> + +«...Mas o perigo são certos padres novos e +ajanotados, parochos por influencias de condes da +capital, vivendo na intimidade das familias de bem +onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se +da influencia do seu sagrado ministerio para lançar +na alma da innocente a semente de chammas criminosas!» +<br /> + +<br /> + +—Pouca vergonha! murmurou Amaro livido. +<br /> + +<br /> + +«...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar +a impolluta virgem? Queres arrastal-a aos lodaçaes +do vicio? Que vens fazer aqui ao seio d'esta +respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua +prêsa como o milhafre em torno da innocente pomba? +Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe seductoras +phrases, para a desviares do caminho da honra; +condemnas á desgraça e á viuvez algum +honrado +moço que lhe queira offerecer sua mão +trabalhadora; +<span class="pagenum">[218]</span> +e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de +lagrimas. E tudo para quê? Para saciares os torpes +impulsos de tua criminosa lascivia!...» +<br /> + +<br /> + +—Que infame! rosnou com os dentes cerrados +o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +«...Mas acautela-te, presbytero perverso!» E +a voz do conego tinha tons cavos ao soltar aquellas +apostrophes. «Já o archanjo levanta a espada da +justiça. E sobre ti, e teus cumplices, já a +opinião +da illustrada Leiria fita seu olho imparcial. E nós +cá estamos, nós, filhos do trabalho, para vos +marcar +na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios +do <em>Syllabus</em>! Cuidado, sotainas +negras!» +<br /> + +<br /> + +—D'escacha! fez o conego suado, dobrando a +<em>Voz do Districto</em>. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de +duas lagrimas de raiva: passou devagar o lenço +pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer: +<br /> + +<br /> + +—Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo +Deus que me ouve, isto é a calumnia das calumnias. +<br /> + +<br /> + +—Uma calumnia infame... rosnaram. +<br /> + +<br /> + +-E a mim o que me parece, continuou Amaro, +é que nos dirijamos á auctoridade! +<br /> + +<br /> + +—É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é +necessario +fallar ao secretario geral... +<br /> + +<br /> + +—Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. +Auctoridade! +O que é, é rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!... +<br /> + +<br /> + +O conego, que meditava coçando o queixo, disse +então: +<span class="pagenum">[219]</span> +<br /> + +<br /> + +—E vossê, Natario, é que deve ir ao secretario +geral. Vossê tem lingua, tem logica. +<br /> + +<br /> + +—Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, +vou. E hei de lh'as cantar, á auctoridade! +<br /> + +<br /> + +Amaro ficára junto da mesa com a cabeça entre +as mãos, aniquilado. E o Libaninho murmurava: +<br /> + +<br /> + +—Ai, filhos, eu não é nada commigo, mas +só +de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a +vergar +as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim... +<br /> + +<br /> + +Mas sentiram a voz da snr.<sup>a</sup> Joaquina Gansoso +subindo a escada; e o conego immediatamente com +uma voz prudente: +<br /> + +<br /> + +—Collegas, o melhor, diante das senhoras, é +não se fallar mais n'isto. Bem basta o que basta. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro +ergueu-se, declarou que estava com uma forte dôr +de cabeça, e despediu-se das senhoras. +<br /> + +<br /> + +—E sem tomar chá? acudiu a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se +no seu capote, não me estou a sentir bem. Boas +noites... E vossê, Natario, appareça +ámanhã pela Sé +á uma hora. +<br /> + +<br /> + +Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou +entre os dedos passiva e molle,—e sahiu com +os hombros vergados. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira notou, desconsolada: +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho ia muito pallido... +<br /> + +<br /> + +O conego levantou-se, e com um tom impaciente +e quezilado: +<br /> + +<br /> + +—Se ia pallido, ámanhã estará +córado. E agora +<span class="pagenum">[220]</span> +quero dizer uma coisa: esse aranzel do jornal é a +calumnia das calumnias! Eu não sei quem o escreveu, +nem para que o escreveu. Mas são tolices e +são infamias. É pateta e maroto, quem quer que +seja. O que devemos fazer já o sabemos, e como já +se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande +vir o chá. E o que lá vai, lá vai, +não se falla +mais na questão. +<br /> + +<br /> + +As faces em roda continuavam contristadas.—E +então o conego acrescentou: +<br /> + +<br /> + +—Ah! e quero dizer outra coisa: como não +morreu ninguem, não ha necessidade de estar aqui +com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te ao +instrumento e repenica-me essa +<em>Chiquita</em>! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +O secretario geral, o snr. Gouvêa Ledesma, antigo +jornalista, e, em annos mais expansivos, auctor +do livro sentimental <em>Devaneios de um +sonhador</em>, estava +então dirigindo o districto na ausencia do governador +civil. +<br /> + +<br /> + +Era um moço bacharel que passava por ter talento. +Representára de galan no theatro academico, +em Coimbra, com muito applauso; e tomára a esse +tempo o habito de passear á tarde na Sophia, com o +ar fatal com que no palco arrepellava os cabellos, ou +levava, nos transes d'amor, o lenço aos olhos. Depois +em Lisboa arruinára um pequeno patrimonio +com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, +<span class="pagenum">[221]</span> +muita calça no Xafredo e perniciosas convivencias +litterarias: aos trinta annos estava pobre, saturado +de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos +na +<em>Civilisação</em>: +mas tornára-se tão popular, que era +conhecido nos lupanares e nos cafés por um cognome +carinhoso—era o <em>Bibi</em>. Julgando +então que conhecia +a fundo a existencia, deixou crescer as suiças, +começou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou +na carreira administrativa; chamava agora á +republica que tanto exaltára em Coimbra <em>uma +absurda +chimera</em>; e Bibi era um pilar das +instituições. +<br /> + +<br /> + +Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; +e dizia ás senhoras, nas +<em>soirées</em> do deputado +Novaes,—«que +estava cansado da vida». Rosnava-se +que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: +e em verdade Bibi escrevêra a um amigo da +capital:—«emquanto +a conquistas, pouco por ora; tenho +apenas no papo a Novaesitos». +<br /> + +<br /> + +Levantava-se tarde; e n'essa manhã, de robe-de-chambre +á mesa do almoço, partia os seus ovos +quentes, lendo com saudade no jornal a narração +apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o +criado,—um gallego que trouxera de Lisboa—veio +dizer que «estava alli um cura». +<br /> + +<br /> + +—Um cura? Que entre para aqui!—E murmurou +para sua satisfação pessoal:—O Estado +não +deve fazer esperar a Igreja. +<br /> + +<br /> + +Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre +Natario que entrava, muito composto, na sua longa +batina de lustrina. +<span class="pagenum">[222]</span> +<br /> + +<br /> + +—Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena +de chá, senhor cura? Soberba manhã, hein? Estava +justamente pensando em v. s.<sup>a</sup>—isto +é, estava pensando +no clero em geral... Acabava de lêr as +peregrinações +que se estão fazendo a Nossa Senhora do +Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da +melhor roda... É realmente consolador vêr renascer +a fé... Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: +«no fim de tudo a fé é a mola real da +sociedade». +Tome uma chavena de chá... Ah! é um grande +balsamo!... +<br /> + +<br /> + +—Não, obrigado, almocei já. +<br /> + +<br /> + +—Mas não! Quando digo um grande balsamo +refiro-me á fé, não ao chá! +Ah! ah! É boa, não? +<br /> + +<br /> + +E prolongou a sua risadinha com complacencia. +Queria agradar a Natario, pelo principio que repetia +muito, com um sorriso astuto—«que quem está +mettido na politica deve ter por si a padraria». +<br /> + +<br /> + +—E depois, acrescentou, como eu dizia hontem +em casa do Novaes, que vantagem para as localidades! +Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois +com a affluencia dos devotos está uma cidade... +Grandes hoteis, <em>boulevards</em>, bellas +lojas... É por +assim dizer o desenvolvimento economico, correndo +parelhas com o renascimento religioso. +<br /> + +<br /> + +E deu com satisfação um puxãosinho +grave ao +collarinho. +<br /> + +<br /> + +—Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.<sup>a</sup> a +respeito +d'um communicado na <em>Voz do +Districto</em>. +<br /> + +<br /> + +—Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, +<span class="pagenum">[223]</span> +li! Uma famosa verrina... Mas litterariamente, +como estylo e como imagens, que miseria! +<br /> + +<br /> + +—E que tenciona v. exc.<sup>a</sup> fazer, senhor +secretario +geral? +<br /> + +<br /> + +O snr. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da +cadeira, perguntou pasmado: +<br /> + +<br /> + +—Eu!? +<br /> + +<br /> + +Natario disse, distillando as palavras: +<br /> + +<br /> + +—A auctoridade tem o dever de proteger a religião +do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... +Que tenha v. exc.<sup>a</sup> em vista, eu não +venho +aqui em nome do clero... +<br /> + +<br /> + +E acrescentou com a mão sobre o peito: +<br /> + +<br /> + +—Sou apenas um pobre padre sem influencia... +Venho, como particular, perguntar ao senhor secretario +geral se se póde permittir que caracteres respeitaveis +da Igreja diocesana sejam assim diffamados... +<br /> + +<br /> + +—É certamente lamentavel que um jornal... +<br /> + +<br /> + +Natario interrompeu, impertigando o busto com +indignação: +<br /> + +<br /> + +—Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario +geral! +<br /> + +<br /> + +—Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas +v. s.<sup>a</sup> decerto não quer que eu volte +aos tempos +dos corregedores-móres! Suspender o jornal! Mas +a liberdade de imprensa é um principio sagrado! +Nem as leis de imprensa o permittem... Mesmo querelar +pelo ministerio publico porque um periodico +diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel! +<span class="pagenum">[224]</span> +Tínhamos de querelar de toda imprensa de Portugal, +com excepção da +<em>Nação</em> e do +<em>Bem Publico!</em> +Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta +annos de progresso, a propria idéa governamental? +Mas nós não somos os Cabraes, meu caro senhor! +Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que +nós queremos é luz! +<br /> + +<br /> + +Natario tossiu devagarinho, disse: +<br /> + +<br /> + +—Perfeitamente. Mas então quando, pelas +eleições, +a auctoridade nos vier pedir o nosso auxilio, +nós, vendo que não encontramos n'ella +protecção, +diremos simplesmente: <em>Non possumus</em>! +<br /> + +<br /> + +—E pensa o senhor cura, que por amor de alguns +votos que dão os senhores abbades, nós vamos +trahir a civilisação? +<br /> + +<br /> + +E o antigo <em>Bibi</em>, tomando uma grande +attitude, +soltou esta phrase: +<br /> + +<br /> + +—Somos filhos da liberdade, não renegaremos +nossa mãi! +<br /> + +<br /> + +—Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, +é opposição, observou então +Natario; proteger-lhe o +jornal é implicitamente proteger-lhe as manobras... +<br /> + +<br /> + +O secretario geral teve um sorriso: +<br /> + +<br /> + +—Meu caro senhor cura, v. s.<sup>a</sup> não +está no +segredo +da politica. Entre o doutor Godinho e o governo +civil não ha inimizade, ha apenas um arrufo... +O doutor Godinho é uma intelligencia... Vai +reconhecendo que o <em>grupo da Maia</em> +não produz +nada... O doutor Godinho aprecia a politica do governo, +e o governo aprecia o doutor Godinho. +<span class="pagenum">[225]</span> +<br /> + +<br /> + +E, rebuçando-se todo n'um mysterio d'Estado, +acrescentou: +<br /> + +<br /> + +—Coisas d'alta política, meu caro senhor. +<br /> + +<br /> + +Natario ergueu-se: +<br /> + +<br /> + +—De modo que... +<br /> + +<br /> + +—<em>Impossibilis est</em>, disse o +secretario. De resto +acredite, senhor cura, que como particular revolto-me +contra o <em>Communicado</em>; mas como +auctoridade +devo respeitar a expressão do pensamento... +Mas creia, e póde dizel-o a todo o clero diocesano, +a Igreja catholica não tem um filho mais fervente que +eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma +religião +liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... +Foram sempre as minhas idéas; préguei-as +bem alto, na imprensa, na universidade e no gremio... +Assim, por exemplo, não acho que haja poesia +maior que a poesia do christianismo! E admiro +Pio IX, uma grande figura! Sómente lamento que +elle não arvore a bandeira da +civilisação!—E o antigo +Bibi, contente da sua phrase, repetia:—Sim, lamento +que elle não arvore a bandeira da +civilisação... +O <em>Syllabus</em> é impossivel +n'este seculo de electricidade, +senhor cura! E a verdade é que nós não +podemos querelar d'um jornal porque elle diz duas +ou tres pilherias sobre o sacerdocio, nem nos convém, +por altas razões de política, escandalisar o +doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento. +<br /> + +<br /> + +—Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se. +<br /> + +<br /> + +—Um criado de v. s.<sup>a</sup> Sinto que não +tome uma +<span class="pagenum">[226]</span> +chavena de chá... E como vai o nosso chantre? +<br /> + +<br /> + +—S. exc.<sup>a</sup> n'estes ultimos dias, segundo creio, +tem tornado a soffrer de tonturas. +<br /> + +<br /> + +—Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... +Tenha cuidado com o degrau!... +<br /> + +<br /> + +Natario correu á Sé, com um passo nervoso, +resmungando +alto de cólera. Amaro passeava devagar +no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha +as +olheiras batidas e a face envelhecida. +<br /> + +<br /> + +—Então? disse elle, indo rapidamente ao encontro +de Natario. +<br /> + +<br /> + +—Nada! +<br /> + +<br /> + +Amaro mordeu o beiço: e emquanto Natario lhe +contava, excitado, a conversação com o secretario +geral, «e como argumentára com elle, e como o +homem tagarellára, tagarellára»,—a +face do parocho +cobria-se d'uma sombra desconsolada, e ia arrancando +raivosamente, com a ponta do guardasol, +a herva que crescia nas fendas do terraço. +<br /> + +<br /> + +—Um patarata! resumiu o padre Natario com +um grande gesto. Pela auctoridade não se faz nada. +É escusado... Mas a questão agora é +entre mim e +o <em>liberal</em>, padre Amaro! Eu hei de +saber quem é, +padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, +sou eu!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No emtanto João Eduardo desde o domingo triumphava: +o artigo fizera escandalo: tinham-se vendido +<span class="pagenum">[227]</span>oitenta numeros +avulsos do jornal, e o Agostinho +affirmára-lhe que na botica da Praça a +opinião era +«que o <em>liberal</em> conhecia a +padraria a fundo e tinha +cabeça»! +<br /> + +<br /> + +—És um genio, rapaz! disse o Agostinho. É +trazer-me +outro, é trazer-me outro! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo gozava prodigiosamente «d'aquelle +fallatorio que ia pela cidade». +<br /> + +<br /> + +Relia então o artigo com uma +deleitação paternal; +se não receasse escandalisar a S. Joanneira, +desejaria ir pelas lojas dizer bem alto—<em>fui eu, +eu é que o escrevi!</em>—E já +ruminava outro, mais +terrivel, que se deveria intitular: <em>O diabo feito +ermita</em>, ou <em>O sacerdocio de Leiria +perante o seculo +XIX</em>! +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho encontrára-o na Praça, e +parára +com condescendencia, para lhe dizer: +<br /> + +<br /> + +—A coisa tem feito barulho. Vossê é o diabo! +E a piada ao padre Brito é bem jogada. Que eu não +sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor... +<br /> + +<br /> + +—V. exc.<sup>a</sup> não sabia? +<br /> + +<br /> + +—Não sabia, e saboreei. Vossê é o +diabo! Eu +fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa +como um communicado. Vossê comprehende... Eu +não me convém ter turras de mais com o clero... +E depois lá minha esposa tem seus escrupulos... +Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres +tenham religião... Mas no meu fôro interior +saboreei... +Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me +<span class="pagenum">[228]</span> +uma guerra dos diabos na eleição passada... Ah! +e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o +mez que vem tem vossê o seu emprego no governo +civil. +<br /> + +<br /> + +—Oh, snr. doutor... v. exc.<sup>a</sup>... +<br /> + +<br /> + +—Qual historia! vossê é um benemerito! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. +O snr. Nunes Ferral sahira: o escrevente aparou +devagar uma penna, começou a cópia d'uma +procuração—e de repente, agarrando o +chapéo, +correu á rua da Misericordia. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira costurava só á janella; Amelia +fôra ao Morenal; e João Eduardo, logo da porta: +<br /> + +<br /> + +—Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor +Godinho. Diz que lá para o mez que vem tenho o +meu emprego... +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as +mãos no regaço: +<br /> + +<br /> + +—Que me diz?... +<br /> + +<br /> + +—É verdade, é verdade... +<br /> + +<br /> + +E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos +nervosos de jubilo. +<br /> + +<br /> + +—Que pechincha! exclamou. De modo que agora, +se a Ameliasinha estiver d'accordo... +<br /> + +<br /> + +—Ai, João Eduardo! fez a S. Joanneira com +um grande suspiro, que me tira um peso do +coração... +Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!... +<br /> + +<br /> + +João Eduardo presentiu que ella ia fallar do +<em>Communicado</em>. +Foi pôr o chapéo n'uma cadeira ao canto; +<span class="pagenum">[229]</span> +e voltando á janella, com as mãos nos bolsos: +<br /> + +<br /> + +—Então porquê, porquê? +<br /> + +<br /> + +—Aquella pouca vergonha no +<em>Districto!</em> Que +diz vossê? Aquella calumnia! Ai! tenho-me feito +velha! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo escrevera o artigo sob as +solicitações +do ciume, só para «enterrar» o padre +Amaro; +não previra o desgosto das duas senhoras; e +vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no +branco dos olhos, sentia-se <em>quasi +arrependido</em>. Disse +ambíguamente: +<br /> + +<br /> + +—Eu li, é o diabo... +<br /> + +<br /> + +Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira +para servir a sua paixão, acrescentou sentando-se, +chegando a cadeira para ao pé d'ella: +<br /> + +<br /> + +—Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, +mas... olhe que a Ameliasinha tratava o parocho +com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo +Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, +ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, +não via o mal, mas... a D. Augusta sabe o +que é Leiria. Que linguas, hein! +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira então declarou que lhe ia fallar +como a um filho: o artigo affligira-a, sobretudo por +causa d'elle, João Eduardo. Porque emfim elle podia +acreditar tambem, desfazer o casamento, e que +desgosto! E ella podia dizer-lhe, como mulher de +bem, como mãi, que não havia entre a pequena e o +senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga +que tinha aquelle genio communicativo! E o parocho +<span class="pagenum">[230]</span> +tinha boas palavras, sempre muito delicado... +Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro +tinha maneiras que tocavam o coração... +<br /> + +<br /> + +—Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, +com a cabeça baixa. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira então poz a mão de leve sobre o +joelho do escrevente, e fitando-o: +<br /> + +<br /> + +—E olhe, não sei se me fica mal dizer-lh'o, mas +a rapariga quer-lhe devéras, João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +O coração do escrevente teve uma +palpitação +commovida. +<br /> + +<br /> + +—E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que +eu tenho por ella... E lá do artigo que me importa +a mim! +<br /> + +<br /> + +Então a S. Joanneira limpou os olhos ao avental +branco. Ai! era uma alegria para ella! Ella sempre +o dissera, como rapaz de bem, não havia outro na +cidade de Leiria! +<br /> + +<br /> + +—Vossê sabe, quero-lhe como filho! +<br /> + +<br /> + +O escrevente enterneceu-se: +<br /> + +<br /> + +—Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do +mundo... +<br /> + +<br /> + +E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada: +<br /> + +<br /> + +—snr.<sup>a</sup> D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir +a mão... +<br /> + +<br /> + +Ella riu-se—e na sua alegria João Eduardo +beijou-a na testa, filialmente. +<br /> + +<br /> + +—E falle á noite á Ameliasinha, disse ao sahir. +Eu venho ámanhã, e felicidade não ha +de faltar... +<span class="pagenum">[231]</span> +<br /> + +<br /> + +—Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a +S. Joanneira retomando a sua costura, com um suspiro +de muito allivio. +<br /> + +<br /> + +Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, +a S. Joanneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Esteve ahi o João Eduardo... +<br /> + +<br /> + +—Ah!... +<br /> + +<br /> + +—Ahi esteve a fallar, coitado... +<br /> + +<br /> + +Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã. +<br /> + +<br /> + +—Ahi esteve a queixar-se... continuou a mãi. +<br /> + +<br /> + +—Mas de quê? perguntou ella muito vermelha. +<br /> + +<br /> + +—Ora de quê! Que se fallava muito na cidade +do artigo do <em>Districto</em>; que se +perguntava a quem +alludia o periodico com as <em>donzellas +inexperientes</em>, +e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia +da S. Joanneira, da rua da Misericordia!» O pobre +João diz que tem andado tão desgostoso!... +Não se +atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim... +<br /> + +<br /> + +—Mas que hei de eu fazer, minha mãi? exclamou +Amelia com os olhos subitamente cheios de lagrimas +áquellas palavras que cahiam sobre os seus +tormentos como gotas de vinagre sobre feridas. +<br /> + +<br /> + +—Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que +quizeres, filha. Eu bem sei que são calumnias! Mas +tu sabes o que são linguas do mundo... O que te +posso dizer é que o rapaz não acreditou no +periodico. +Que era isso que me dava cuidado!... Credo! +tirou-me o somno... Mas não, diz que não lhe +importa +o artigo, que te quer da mesma maneira, e está +a arder por que se faça o casamento... E eu por +<span class="pagenum">[232]</span> +mim o que fazia, para calar toda essa gente, era +casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por +elle, +bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João +é bom +rapaz, vai ter o emprego... +<br /> + +<br /> + +—Vai ter o emprego!? +<br /> + +<br /> + +—Pois foi o que elle me veio dizer tambem... +Esteve com o doutor Godinho, diz que lá para o fim +do mez está empregado... Emfim tu fazes o que +entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, +posso faltar-te d'um momento para o outro... +<br /> + +<br /> + +Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado +voarem os pardaes—menos desassocegados, +n'aquelle instante, que os seus pensamentos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a +<em>donzella inexperiente</em> a que alludia +o <em>Communicado</em> +era ella, Amelia, e torturava-a o vexame de vêr assim +o seu amor publicado no jornal. Depois (como +ella pensava, mordendo o beiço n'uma raiva muda, +com os olhos afogados de lagrimas), aquillo vinha +estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria +com +risinhos perversos:—«Então a Ameliasita da S. +Joanneira mettida com o parocho, hein?» Decerto o +senhor chantre, tão severo em «coisas de +mulheres,» +reprehenderia o padre Amaro... E por alguns +olhares, alguns apertos de mão, ahi estava a sua +reputação estragada, estragado o seu amor! +<span class="pagenum">[233]</span> +<br /> + +<br /> + +Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe +sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno +que lhe fez da porta da botica o respeitavel Carlos +julgou vêr uma seccura reprehensível; á +volta +encontrára o Marques da loja de ferragens, que +não +lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se +desacreditada—esquecendo que o bom Marques era +tão curto da vista que usava na loja duas lunetas +sobrepostas. +<br /> + +<br /> + +—Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? +murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na +cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia +soluções devotas—entrar n'um recolhimento, fazer +uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para +que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se ao +padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente +ao pé da mãi com a sua costura, considerando, +muito enternecida, que desde pequena +fôra sempre bem infeliz! +<br /> + +<br /> + +A mãi não lhe fallára claramente sobre +o <em>Communicado</em>; +tivera apenas palavras ambíguas: +<br /> + +<br /> + +—É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... +Quando a gente tem a sua consciencia socegada, +o mais historias... +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia via-lhe bem o desgosto—na face +envelhecida, nos tristes silencios, nos suspiros repentinos +quando fazia meia á janella com a luneta +na ponta do nariz: e então mais se convencia que +havia «grande fallatorio na cidade», de que a +mãi, +coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. +<span class="pagenum">[234]</span> +Josepha Dias—cuja boca produzia o mexerico mais +naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus! +<br /> + +<br /> + +E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, +n'aquella reunião de saias e batinas da rua da Misericordia +se lhe afigurára natural, agora, julgando-o +reprovado pelas pessoas que desde pequena +fora acostumada a respeitar—os Guedes, os Marques, +os Vazes,—apparecia-lhe já monstruoso: assim +as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e +que á luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos +e disformes quando lhes cae em cima a luz do +sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse +voltado á rua da Misericordia. +<br /> + +<br /> + +No emtanto, com que anciedade esperava todas +as noites o seu toque de campainha! Mas elle não +vinha; e aquella ausencia, que a sua razão julgava +prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma +traição. Na quarta-feira á noite +não se conteve, disse, +córando sobre a sua costura: +<br /> + +<br /> + +—Que será feito do senhor parocho? +<br /> + +<br /> + +O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, +tossiu grosso, mexeu-se, rosnou: +<br /> + +<br /> + +—Mais que fazer... E escusam de esperar por +elle tão cedo!... +<br /> + +<br /> + +E Amelia, que ficára branca como a cal, teve +immediatamente a certeza que o parocho, aterrado +com o escandalo do jornal, aconselhado pelos padres +timoratos zelosos «do bom nome do clero»—tratava +de se descartar d'ella! Mas, cautelosa, diante +das amigas da mãi, escondeu o seu desespero: foi +<span class="pagenum">[235]</span> +mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão +estrondosas—que +o conego, tornando a mexer-se na +poltrona, grunhiu: +<br /> + +<br /> + +—Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga! +<br /> + +<br /> + +Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A +sua paixão pelo parocho flammejava mais irritada; e +todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma allusão +n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua +batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a—sem +se lembrar que tambem ella se via diminuida +na sua reputação, sem ser satisfeita no seu +amor! E fôra elle que a tentára com as suas +palavrinhas +dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava +violentamente apertal-o ao coração—e +esbofeteal-o. +Teve a idéa insensata de ir ao outro dia +à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, +installar-se-lhe +no quarto, fazer um escandalo que o obrigasse +a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, +eram robustos, poderiam viver longe, n'outra +cidade—e a sua imaginação começou a +repastar-se +logo hystericamente nas perspectivas deliciosas d'essa +existencia, em que se figurava constantemente +a dar-lhe beijos! Através da sua intensa +excitação, +aquelle plano parecia-lhe muito pratico, muito facil: +fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer o +cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia +que era um padre; poderia ensinar latim, ella +coseria para fóra; e viveriam n'uma casinha—onde +o que mais a attrahia era o leito com as duas travesseirinhas +<span class="pagenum">[236]</span> +chegadas... E a unica difficuldade que +via em todo este plano radiante era fazer sahir de +casa, às escondidas da mãi, o bahú com +a sua roupa!—Mas +quando acordou, essas resoluções morbidas, +á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: +tudo aquillo lhe parecia agora tão impraticavel, +e elle tão separado d'ella, como se entre +a rua da Misericordia e a rua das Sousas se erguessem +inaccessivelmente todas as montanhas da terra. +Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não +queria perder os lucros da sua parochia nem a estima +dos seus superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se +então para sempre infeliz e desinteressada +da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo +de se vingar do padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que +João Eduardo desde a publicação do +<em>Communicado</em> +não apparecera na rua da Misericordia. Tambem +me volta as costas—pensou com amargura. Mas +que lhe importava! No meio da afflicção que lhe +dava +o abandono do padre Amaro, a perda do amor do +escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade +nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: +uma infelicidade viera que lhe arrebatava +bruscamente todas as affeições—a que lhe enchia +a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: +e irritava-a, sim, não sentir já o amor do +escrevente collado a suas saias, com a docilidade +d'um cão—mas todas as suas lagrimas eram para o +senhor parocho, «que já não queria +saber d'ella»! +<span class="pagenum">[237]</span> +Só lamentava a deserção de +João Eduardo, porque +perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer +o padre Amaro... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando +no telhado defronte voarem os pardaes—depois de +saber que João Eduardo, certo do emprego, viera +fallar emfim á mãi,—pensava com +satisfação no desespero +do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos +do seu casamento. Depois as palavras muito +praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente +n'alma: o emprego do governo civil rendia +25$000 reis mensaes; casando, reentrava logo na +sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse, +com o ordenado do homem e com o rendimento +do Morenal, podia viver com decencia, ir mesmo no +verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito +comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez +a do governador civil. +<br /> + +<br /> + +—Que lhe parece, minha mãi?—perguntou +bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que +entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava +ser persuadida e forçada. +<br /> + +<br /> + +—Eu ia pelo seguro, filha—foi a resposta da +S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—É sempre o melhor—murmurou Amelia entrando +no quarto. E sentou-se muito triste aos pés +da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepusculo +<span class="pagenum">[238]</span> +tornava-lhe agora mais pungente a saudade +«dos seus bons tempos com o senhor parocho». +<br /> + +<br /> + +N'essa noite choveu muito, as duas senhoras +passaram sós. A S. Joanneira, repousada agora das +suas inquietações, estava muito somnolenta, a +cada +momento cabeceava com a meia cahida no regaço. +Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo +sobre a mesa, fazendo girar o +<em>abat-jour</em> verde do +candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo +era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido +tão estimado na pequena burguezia—não era +feio e tinha um emprego; decerto o offerecimento +da sua mão, apesar das infamias do jornal, não +lhe +parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de +mão +cheia»; mas a sua dedicação +lisonjeava-a, depois +do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois +annos que o pobre João gostava d'ella... Começou +então laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle +lhe agradava—o seu ar sério, os seus dentes muito +brancos, a sua roupa aceada. +<br /> + +<br /> + +Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente +as vidraças, dava-lhe appetites de confortos, +um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a +dormir no berço—porque seria um rapaz, chamar-se-hia +Carlos e teria os olhos negros do padre +Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, +tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... +E então uma idéa atravessou todo o seu +sêr, fêl-a +erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão +da janella para occultar a vermelhidão do +<span class="pagenum">[239]</span> +rosto. Oh! isso não, isso não! Era +horrível!... Mas +a idéa implacavelmente apoderára-se d'ella como +um braço muito forte que a suffocava e lhe dava +uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o +despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo +da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, +com paixão, torcendo as mãos, o nome +d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos—oh! +adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! +E devia casar, pobre d'ella!... Então á janella, +com a face contra a escuridão da noite, choramingou +baixinho. +<br /> + +<br /> + +Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente: +<br /> + +<br /> + +-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... +Era começar o enxoval, e se fosse possivel casar-te +para o fim do mez. +<br /> + +<br /> + +Ella não respondeu—mas a sua +imaginação alvoroçou-se +áquellas palavras. Casada d'ahi a um +mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser indifferente, +a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, +que ia viver com ella, dormir com ella, deu uma +perturbação a todo o seu sêr. +<br /> + +<br /> + +E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a +custar entrar em explicações com o +João Eduardo, +dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe... +<br /> + +<br /> + +—Tambem acho, filha, escreve-lhe... A +<em>Ruça</em> +leva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que +agrade ao rapaz. +<span class="pagenum">[240]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo +o rascunho da carta. Dizia: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +«Snr. João Eduardo, +</div> + +<br /> + +«A mamã cá me pôz ao facto da +conversação +que teve comsigo. E se a sua affeição +é verdadeira, +como creio e me tem dado muitas provas, eu +estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, +pois conhece os meus sentimentos. E a respeito +d'enxoval e papeis, ámanhã se fallará, +pois que o +esperamos para o chá. A mamã está +muito contente +e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, +como espero ha de ser, com a ajuda de +Deus. A mamã recommenda-se e eu sou +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +a que muito lhe quer,</div> + +<br /> + +<div class="signature"> +<em>«Amelia +Caminha»</em>. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco +espalhadas diante d'ella deram-lhe o desejo d'escrever +ao padre Amaro. Mas o quê? Confessar-lhe o +seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma +tinta, com que aceitava por marido o +<em>outro</em>?... +Accusal-o da sua cobardia, mostrar o seu desgosto—era +humilhar-se! E, apesar de não ter motivo +para lhe escrever, a sua mão ia traçando com gozo +as primeiras palavras <em>«Meu adorado +Amaro...»</em> +Deteve-se, considerando que não tinha por quem +<span class="pagenum">[241]</span> +mandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em +silencio, para sempre!... Separarem-se porquê?—pensou. +Depois de casada podia bem vêr o senhor +padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, +mas n'uma fórma tão honesta agora, que a +não repellia: +decerto, o senhor padre Amaro podia ser o +seu confessor; era em toda a christandade a pessoa +que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a +sua consciencia; haveria então entre elles uma troca +deliciosa e constante de confidencias, de dôces +admoestações; todos os sabbados iria receber ao +confessionario, na luz dos seus olhos e no som das +suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquillo +seria casto, muito picante, e para gloria de Deus. +<br /> + +<br /> + +Sentiu-se quasi satisfeita com a impressão, que +não definia bem, d'uma existencia em que a carne +estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria +os encantos d'uma devoção amorosa. Tudo vinha +a calhar bem, por fim... E d'ahi a pouco dormia +serenamente, sonhando que estava na +<em>sua</em> casa, com +o <em>seu</em> marido, e que jogava a manilha +com as velhas +amigas, no meio do contentamento de toda a +Sé, sentada nos joelhos do senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia a <em>Ruça</em> levou +a carta a João Eduardo, +e toda a manhã as duas senhoras, costurando á +janella, fallaram do casamento. Amelia não se queria +separar da mãi, e, como a casa tinha +accommodações, +os noivos viveriam no primeiro andar, e a +S. Joanneira dormiria no quarto em cima; decerto +o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiam +<span class="pagenum">[242]</span> +ir passar a lua de mel para a fazenda da D. Maria. +E Amelia áquellas perspectivas felizes fazia-se toda +escarlate, sob o olhar da mãi que, de luneta na +ponta do nariz, a admirava babosa. +<br /> + +<br /> + +Ás Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo +no seu quarto a rezar a sua corôa, e deixou Amelia +só «para se entender com o +rapaz».—D'ahi +a pouco, com effeito, João Eduardo bateu á +campainha. +Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado +em agua de colonia. Quando chegou á porta +da sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma +d'Amelia destacava de pé, junto á claridade da +vidraça. +Elle pôz o chale-manta a um canto como costumava, +e vindo para ella que ficára immovel, disse-lhe, +esfregando muito as mãos: +<br /> + +<br /> + +—Lá recebi a cartinha, menina Amelia... +<br /> + +<br /> + +—Eu mandei-a pela <em>Ruça</em> +logo pela manhã para +o pilhar em casa, disse ella immediatamente com +as faces a arder. +<br /> + +<br /> + +—Eu ia para o cartorio, até já ia na escada... +Haviam de ser nove horas... +<br /> + +<br /> + +—Haviam de ser... disse ella. +<br /> + +<br /> + +Calaram-se, muito perturbados. Elle então tomou-lhe +delicadamente os pulsos, e baixo: +<br /> + +<br /> + +—Então sempre quer? +<br /> + +<br /> + +—Quero, murmurou Amelia. +<br /> + +<br /> + +—E o mais depressa possivel, hein? +<br /> + +<br /> + +—Pois sim... +<br /> + +<br /> + +Elle suspirou, muito feliz. +<br /> + +<br /> + +—Havemos de nos dar muito bem, havemos de +<span class="pagenum">[243]</span> +nos dar muito bem! dizia. E as suas mãos, com +pressões +ternas, iam-se apoderando dos braços d'ella, +dos pulsos aos cotovêlos. +<br /> + +<br /> + +—A mamã diz que podemos viver juntos, disse +ella, esforçando-se por fallar tranquillamente. +<br /> + +<br /> + +—Está claro, e eu vou mandar fazer lençoes, +acudiu elle, todo alterado. +<br /> + +<br /> + +Attrahiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os +labios; ella teve um soluçosinho, abandonou-se-lhe +entre os braços, toda fraca, toda languida. +<br /> + +<br /> + +—Oh, filha! murmurava o escrevente. +<br /> + +<br /> + +Mas os sapatos da mãi rangeram na escada, e +Amelia foi vivamente para o aparador accender o +candieiro. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira parou á porta; e para dar a sua +primeira approvação maternal, disse, com +bonhomia: +<br /> + +<br /> + +—Então vossês estão aqui ás +escuras, filhos? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro +o casamento d'Amelia, uma manhã, na Sé. Fallou +no «a proposito do enlace», e acrescentou: +<br /> + +<br /> + +—Eu estimo, porque é a contento da rapariga, +e é um descanso para a pobre velha... +<br /> + +<br /> + +—Está claro, está claro...—murmurou Amaro +que se fizera muito branco. +<br /> + +<br /> + +O conego pigarreou grosso, e ajuntou: +<br /> + +<br /> + +—E vossê agora appareça por lá, agora +está +<span class="pagenum">[244]</span> +tudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence +á historia... O que lá vai, lá vai! +<br /> + +<br /> + +—Está claro, está claro...—rosnou Amaro. +Traçou bruscamente a capa, sahiu da igreja. +<br /> + +<br /> + +Ia indignado; e continha-se, para não praguejar +alto, pelas ruas. Á esquina da viella das Sousas quasi +esbarrou com Natario, que o agarrou logo pela +manga, para lhe soprar ao ouvido: +<br /> + +<br /> + +—Ainda não sei nada! +<br /> + +<br /> + +—De quê? +<br /> + +<br /> + +—Do <em>liberal</em>, do +<em>Communicado</em>. Mas trabalho, +trabalho! +<br /> + +<br /> + +Amaro, que anciava por desabafar, disse logo: +<br /> + +<br /> + +—Então ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... +Que lhe parece? +<br /> + +<br /> + +—Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz +apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... +É outro que tal!... Veja vossê esta corja: o +doutor +Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e +o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor +Godinho... Vá lá entendel-os! Isto é +um paiz de +biltres! +<br /> + +<br /> + +—Diz que grande alegrão na casa da S. Joanneira!—disse +o parocho, com um azedume negro. +<br /> + +<br /> + +—Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá +ir... Eu não tenho tempo para nada!... Eu cá ando +no meu fito, saber quem é o +<em>liberal</em> e escachal-o! +Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, +coça-se, +e curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!—E, +<span class="pagenum">[245]</span> +com uma contracção de rancor que lhe curvou +os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro. +disse por entre os dentes cerrados:—Eu, quando +odeio, odeio bem! +<br /> + +<br /> + +Esteve um momento calado, gozando o sabôr do +seu fel. +<br /> + +<br /> + +—Vossê se fôr á rua da Misericordia +dê lá os +parabens a essa gente...—E acrescentou com os +olhinhos em Amaro:—O palerma do escrevente +leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher +o papo! +<br /> + +<br /> + +—Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, +abalando pela rua furioso. +<br /> + +<br /> + +Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera +o <em>Communicado</em>, o padre Amaro, ao +principio, +muito egoistamente, apenas se preoccupára +com as consequências—«consequencias fataes, santo +Deus!»—que lhe podia trazer o escandalo. Hein! +se pela cidade se espalhasse que era elle o <em>padre +ajanotado</em> +que o <em>liberal</em> apostrophava! Viveu +dois dias +aterrado, tremendo de vêr apparecer o padre Saldanha, +com a sua cara ameninada e voz melliflua, +a dizer-lhe «que sua excellencia o senhor chantre +reclamava a sua presença»! Passava já o +tempo preparando +explicações, respostas habeis, lisonjas a sua +excellencia.—Mas quando viu que, apesar da violencia +do artigo, sua excellencia parecia disposto «a +fazer a vista grossa», occupou-se então, mais +tranquillo, +dos interesses do seu amor tão violentamente +perturbados. O medo tornava-o astucioso; e +<span class="pagenum">[246]</span> +decidiu não voltar algum tempo á rua da +Misericordia. +<br /> + +<br /> + +—Deixar passar o aguaceiro, pensou. +<br /> + +<br /> + +Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o +artigo estivesse esquecido, appareceria de novo em +casa da S. Joanneira: deixaria vêr bem á rapariga +que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, +as conversasinhas baixas, os logarzinhos +chegados ao quino; depois, pela D. Maria da +Assumpção, +pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse +o padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam +então entender-se, no segredo do confessionario: +combinariam uma conducta discreta, encontros cautelosos +aqui e além, cartinhas pela criada: e aquelle +amor assim conduzido, com prudenciasinha, não +teria o perigo de apparecer uma manhã annunciado +no periodico! E regosijava-se já da habilidade d'esta +combinação, quando lhe vinha o grande +choque—casava-se +a rapariga! +<br /> + +<br /> + +Depois dos primeiros desesperos, desabafados em +patadas no soalho e blasphemias de que pedia logo +perdão a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz serenar, +estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquella +paixão? Ao escandalo. E assim, casada ella, cada +um entrava no seu destino legitimo e sensato—ella +na sua familia, elle na sua parochia. Depois, quando +se encontrassem, um comprimento amavel; e elle +poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, +sem medo dos ápartes da Arcada, das +insinuações +da gazeta, das severidades de sua excellencia +<span class="pagenum">[247]</span> +e das picadinhas da consciencia! E a sua vida seria +feliz.—Não, por Deus! a sua vida não poderia ser +feliz sem ella! Tirado á sua existencia aquelle interesse +das visitas à rua da Misericordia, os apertosinhos +de mão, a esperança de delicias melhores—que +lhe restava a elle? Vegetar, como um dos tortolhos +nos cantos humidos do adro da Sé! E ella, +ella que o entontecera com os seus olhinhos e as suas +maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe apparecia +outro, bom para marido, com 25$000 reis por mez! +Todos aquelles suspiros, aquellas mudanças de +côr—chalaça! +Mangára com o senhor parocho!... +<br /> + +<br /> + +O que a odiava!—menos que o outro porém, +o outro que triumphava porque era um homem, tinha +a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode, +um braço livre para lhe dar na rua! Repastava +então a imaginação rancorosamente nas +visões +de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da +igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoço +e o peito... E a estas idéas dava patadas furiosas +no soalho—que assustavam a Vicencia na cozinha. +<br /> + +<br /> + +Depois procurava socegar, retomar a direcção das +suas faculdades, applical-as todas a achar uma vingança, +uma boa vingança! E voltava então o antigo +desespero de não viver no tempo da +inquisição, e +com uma denuncia de irreligião ou de feiticeria, +mandal-os ambos para um carcere. Ah! n'esse tempo +um padre gozava! Mas agora, com os senhores +liberaes, tinha de vêr aquelle miseravel escrevente a +<span class="pagenum">[248]</span> +seis vintens por dia apoderar-se-lhe da rapariga—e +elle, sacerdote instruido, que podia ser bispo, que +podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar +solitariamente o seu despeito! Ah! se as +maldições +de Deus tinham algum valor—malditos fossem +elles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão +na +prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos +de fome, injuriando-se,—e elle a rir-se, elle +a regalar-se!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da +Misericordia. A S. Joanneira estava em baixo na saleta +com o conego Dias. E apenas viu Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava +a fallar em v. s.<sup>a</sup>! Já estranhava +não o vermos, +agora que ha alegria em casa. +<br /> + +<br /> + +—Já sei, já sei, murmurou Amaro pallido. +<br /> + +<br /> + +—Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. +Deus os faça felizes e lhes dê poucos filhos, +que a carne está cara. +<br /> + +<br /> + +Amaro sorriu—escutando em cima o piano. +<br /> + +<br /> + +Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa +dos <em>Dois Mundos</em>; e João +Eduardo, muito chegado +a ella, voltava as folhas da musica. +<br /> + +<br /> + +—Quem entrou, <em>Ruça</em>? +gritou ella sentindo os +passos da rapariga nas escadas. +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto—e o +<span class="pagenum">[249]</span> +coração batia-lhe tão forte, que ficou +um momento +com os dedos immoveis sobre o teclado. +<br /> + +<br /> + +—Não se precisava cá do senhor padre Amaro, +rosnou João Eduardo por entre dentes. +<br /> + +<br /> + +Amelia mordeu o beiço. Teve odio ao escrevente: +n'um instante repugnou-lhe a sua voz, os seus +modos, a sua figura de pé junto d'ella: pensou com +deleite como depois de casada (já que tinha de casar) +se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria +de o amar! Não sentia n'aquelle momento escrupulos; +e quasi desejava que o escrevente lhe +visse no rosto a paixão que a revolvia. +<br /> + +<br /> + +—Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco +mais para lá, que nem me deixa os braços livres +para tocar! +<br /> + +<br /> + +Terminou bruscamente a valsa dos <em>Dois +Mundos</em>, +começou a cantar o <em>Adeus</em>: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1">Ai! adeus! acabaram-se os dias<br /> + +Que ditosa vivi a teu lado! +</div> + +<br /> + +<br /> + +A sua voz elevava-se, com uma modulação +ardente,—dirigindo +o canto, através do soalho, ao +coração do parocho, em baixo. +<br /> + +<br /> + +E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, +sentado no canapé, devorava todos os tons da +voz d'ella—emquanto a S. Joanneira tagarellava, +contando as peças de algodão que +comprára para +lençoes, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, +e as vantagens de viverem juntos... +<br /> + +<br /> + +—Uma felicidade por ahi além, interrompeu o +<span class="pagenum">[250]</span> +conego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para +cima, que isto de noivos não se querem sós... +<br /> + +<br /> + +—Ah, lá n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me +n'elle, que é homem de bem ás direitas. +<br /> + +<br /> + +Amaro, ao subir a escada, tremia—e, mal entrou +na sala, o rosto d'Amelia, alumiado pelas luzes +do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as +vesperas do noivado a tivessem embellezado e a +separação lh'a tornasse mais appetitosa. Foi +dar-lhe +gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, +disse baixo, sem os olhar: +<br /> + +<br /> + +—Os meus parabens... Os meus parabens... +<br /> + +<br /> + +Voltou as costas, e foi conversar com o conego +que se enterrára na sua poltrona queixando-se +d'enfastiamento +e reclamando o chá. +<br /> + +<br /> + +Amelia ficára como abstracta, correndo inconscientemente +os dedos pelo teclado. Aquelle modo +do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a todo +o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia «como +se nada tivesse havido», o villão! Na sua cobardia +de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, +da Arcada, de tudo,—sacudia-a da sua imaginação, +do seu coração, da sua vida, como se sacode +um insecto que tem peçonha!... Então, para o +enraivecer, +começou a cochichar ternamente com o escrevente; +roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com +risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, +tocar uma peça a quatro mãos; depois ella +beliscou-o, +elle deu um gritinho exagerado.—E a S. Joanneira +contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitava +<span class="pagenum">[251]</span> +já, e o padre Amaro, abandonado a um canto +como outr'ora o escrevente, ia folheando o velho album. +<br /> + +<br /> + +Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os +todos: passos rapidos galgaram a escada, +pararam em baixo na saleta: e a +<em>Ruça</em> appareceu +dizendo «que era o senhor padre Natario, que +não desejava subir, e queria dar uma palavra ao +senhor conego». +<br /> + +<br /> + +—Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, +arrancando-se com custo ao fundo confortavel +da poltrona. +<br /> + +<br /> + +Amelia fechou logo o piano—e a S. Joanneira +pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto +da escada: fóra ventava forte, e para os lados da +Praça afastava-se o toque de retreta. +<br /> + +<br /> + +Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da +porta da saleta: +<br /> + +<br /> + +—Ó Amaro! +<br /> + +<br /> + +—Padre-Mestre? +<br /> + +<br /> + +—Venha cá, homem. E diga á senhora que +póde +vir tambem. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: +Amaro imaginava que o padre Natario emfim descobrira +o <em>liberal</em>! +<br /> + +<br /> + +A saleta parecia muito fria com a luz pequenina +da vela sobre a mesa: e na parede, n'um velho +painel muito escuro—que ultimamente o conego +dera á S. Joanneira—destacava uma face livida de +monge e um osso frontal de caveira. +<span class="pagenum">[252]</span> +<br /> + +<br /> + +O conego Dias accommodára-se ao canto do canapé, +sorvendo reflectidamente a pitada; e Natario, +que se agitava pela sala, exclamou logo: +<br /> + +<br /> + +—Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... +Não quiz subir porque imaginei que estaria +o escrevente, e estas coisas são cá para +nós. +Estava a começar a dizer ao collega Dias... Tive +lá +em casa o padre Saldanha. Temol-as boas! +<br /> + +<br /> + +O padre Saldanha era o confidente do senhor +chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou: +<br /> + +<br /> + +—Coisa que nos toca? +<br /> + +<br /> + +Natario começou com solemnidade erguendo alto +o braço: +<br /> + +<br /> + +—<em>Primo</em>: o collega Brito mudado da +freguezia +d'Amor para ao pé d'Alcobaça, para a serra, para +o +inferno... +<br /> + +<br /> + +—Que me diz!? exclamou a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Obras do <em>liberal</em>, minha senhora! O +nosso digno +chantre levou-lhe tempo a meditar o +<em>Communicado</em> +do <em>Districto</em>, mas por fim sahiu-se! +O pobre +Brito lá vai esfogueteado!... +<br /> + +<br /> + +—Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... +murmurou a boa senhora. +<br /> + +<br /> + +—Ólá! interrompeu severamente o conego. +Então, +senhora, então! Isto aqui não é casa +de murmuração!... +Siga com o seu recado, collega Natario. +<br /> + +<br /> + +—<em>Secundo</em>, continuou Natario: +é o que eu ia +dizer ao collega Dias... O senhor chantre, em vista +do <em>Communicado</em> e d'outros ataques da +imprensa, +está decidido a «reformar os costumes do clero +diocesano», +<span class="pagenum">[253]</span> +palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam +summamente os conciliabulos de ecclesiasticos +e de senhoras... Que quer saber o que é isso +de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... +Emfim, palavras textuaes de sua +excellencia—<em>está +decidido a limpar as cavalhariças +d'Augias</em>!...—o +que quer dizer em bom portuguez, minha senhora, +que vai andar tudo n'uma roda-viva. +<br /> + +<br /> + +Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado +no meio da saleta com as mãos enterradas nas +algibeiras, exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Que lhes parece esta á ultima hora, hein? +<br /> + +<br /> + +O conego ergueu-se pachorrentamente: +<br /> + +<br /> + +—Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha +de escapar alguem... E a senhora não se fique ahi +com essa cara de <em>Mater-dolorosa</em>, e +mande servir o +chá, que é o importante. +<br /> + +<br /> + +—Eu lá disse ao padre Saldanha...—começou +Natario perorando. +<br /> + +<br /> + +Mas o conego interrompeu-o com força: +<br /> + +<br /> + +—O padre Saldanha é um patarata!... Vamos +nós ás torradinhas, e lá em cima, +diante dos rapazes, +caluda. +<br /> + +<br /> + +O chá foi silencioso. O conego, a cada bocado +de torrada, respirava affrontado, franzia muito o sobr'olho; +a S. Joanneira, depois de fallar da D. Maria +da Assumpção que estava mal do catarrho, ficou +toda murcha, com a testa sobre o punho; Natario, +a grandes passadas, fazia uma ventania na sala +com as abas do casacão. +<span class="pagenum">[254]</span> +<br /> + +<br /> + +—E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando +subitamente diante d'Amelia e do escrevente; +que tomavam o chá sobre o piano. +<br /> + +<br /> + +—Um dia cedo, respondeu ella sorrindo. +<br /> + +<br /> + +Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu +<em>cebolão</em>: +<br /> + +<br /> + +—São horas de me ir chegando á rua das Sousas, +minhas senhoras, disse com uma voz desalentada. +<br /> + +<br /> + +Mas a S. Joanneira não consentiu. Credo, estavam +todos mônos como se estivessem de pêzames!... +Que fizessem um quino para espairecer...—O +conego porém, sahindo do seu torpor, disse +com severidade: +<br /> + +<br /> + +—Está a senhora muito enganada, ninguem está +môno. Não ha razões senão +para estar alegre. Pois +não é verdade, senhor noivo? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo mexeu-se, sorriu: +<br /> + +<br /> + +—Eu cá por mim, senhor conego, não tenho +razão +senão para estar feliz. +<br /> + +<br /> + +—Pois está claro, disse o conego. E agora Deus +lhes dê boas noites a todos, que eu vou +<em>quinar</em> para +valle de lençoes. E o Amaro tambem. +<br /> + +<br /> + +Amaro foi apertar silenciosamente a mão d'Amelia,—e +os tres padres desceram calados. +<br /> + +<br /> + +Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O +conego entrou a buscar o seu guardachuva; e então, +chamando os outros, cerrando devagarinho a +porta, disse-lhes baixo: +<br /> + +<br /> + +—Eu, collegas, não quiz assustar ha pouco a +<span class="pagenum">[255]</span> +pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses +fallatorios... É o diabo! +<br /> + +<br /> + +—É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, +abafando a voz. +<br /> + +<br /> + +—É sério, é sério, +murmurou lugubremente o +padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Estavam de pé no meio da saleta. Fóra o vento +uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente +destacar e reentrar na sombra do quadro o osso +frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a +<em>Chiquita</em>. +<br /> + +<br /> + +Amaro recordava outras noites felizes em que +elle, triumphante e sem cuidados, fazia rir as senhoras,—e +Amelia, gorgeando <em>Ai chiquita que +si</em>, +revirava-lhe olhares rendidos... +<br /> + +<br /> + +—Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho +que comer e beber, não me importa... Mas é +necessario +manter a honra da classe! +<br /> + +<br /> + +—E não carece duvida, acrescentou Natario, que +se ha outro artigo e mais fallatorios, estala com certeza +o raio... +<br /> + +<br /> + +—Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado +para a serra!... +<br /> + +<br /> + +Em cima decerto houve alguma graça, porque +sentiram as risadas do escrevente. +<br /> + +<br /> + +Amaro rosnou com rancor: +<br /> + +<br /> + +—Grande galhofa, lá em cima!... +<br /> + +<br /> + +Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento +bateu a face de Natario d'uma chuva miudinha. +<br /> + +<br /> + +—Olha que noite! exclamou furioso. +<span class="pagenum">[256]</span> +<br /> + +<br /> + +Só o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar: +<br /> + +<br /> + +—Pois meninos, não ha que vêr, estamos em +calças pardas... +<br /> + +<br /> + +Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do +piano, nos acompanhamentos da +<em>Chiquita</em>. O conego +soprava, agarrando fortemente o guardachuva contra +o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava +os dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava +de cabeça cahida, n'um abatimento de derrota; +e emquanto os tres padres, assim agachados +sob o guardachuva do conego, iam chapinhando as +poças pela rua tenebrosa, por traz a chuva penetrante +e sonora ia-os ironicamente fustigando! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +XII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +D'ahi a dias, os frequentadores da botica, na +Praça, viram com espanto o padre Natario e o doutor +Godinho conversando em harmonia, á porta da +loja de ferragens do Guedes. O recebedor,—que +era escutado com deferencia em questões de politica +estrangeira—observou-os com attenção +através +da porta vidrada da pharmacia, e declarou com um +tom profundo «que não se admiraria mais se visse +Victor Manoel e Pio IX passearem de braço dado»! +<br /> + +<br /> + +O cirurgião da camara porém não +estranhava +aquelle «commercio d'amizade».—Segundo elle o +ultimo artigo da <em>Voz do Districto</em>, +evidentemente escripto +pelo doutor Godinho, (era o seu estylo incisivo, +<span class="pagenum">[258]</span> +cheio de logica, atulhado d'erudição!) mostrava +que a gente da Maia se queria ir aproximando da +gente da Misericordia. O doutor Godinho (na expressão +do cirurgião da camara) fazia tagatés ao governo +civil e ao clero diocesano: a ultima phrase do +artigo era significativa—«não seremos +nós que regatearemos +ao clero os meios de exercer proficuamente +a sua divina missão!» +<br /> + +<br /> + +A verdade era (como observou um individuo +obeso, o amigo Pimenta) que, se não havia ainda +paz, já havia negociações—porque na +vespera elle +vira, com aquelles seus olhos que a terra tinha de +comer, o padre Natario sahindo de manhã muito cedo +da redacção da <em>Voz do +Districto</em>! +<br /> + +<br /> + +—Oh, amigo Pimenta, essa é fabricada! +<br /> + +<br /> + +O amigo Pimenta ergueu-se com magestade, deu +um puxão grave ao cós das calças, e ia +indignar-se—quando +o recebedor acudiu: +<br /> + +<br /> + +—Não, não, o amigo Pimenta tem razão. +A verdade +é que eu n'outro dia vi o patife do Agostinho +fazer grande barretada ao padre Natario. E que o +Natario traz intriga na mão, isso é seguro! Eu +gósto +d'observar as pessoas... Pois senhores, o Natario, que +nunca apparecia aqui na Arcada, agora vejo-o sempre +ahi com o nariz pelas lojas... Depois a grande +amizade com o padre Silverio... Hão de reparar que +são ambos certos ahi na Praça ás +Ave-Marias... E é +negocio com a gente do doutor Godinho... O padre +Silverio é o confessor da mulher do Godinho... Umas +coisas pegam com as outras! +<span class="pagenum">[259]</span> +<br /> + +<br /> + +Era muito commentada, com effeito, a nova amizade +do padre Natario com o padre Silverio. Havia +cinco annos tinha occorrido na sacristia da Sé, entre +os dois ecclesiasticos, uma questão escandalosa: +Natario correra até de guardachuva erguido para o +padre Silverio, quando o bom conego Sarmento, banhado +em lagrimas, o reteve pela batina, gritando:—«Oh, +collega, que é a perdição da +religião»! Desde +então Natario e Silverio não fallavam—com +desgosto de Silverio, um bonacheirão, d'uma obesidade +hydropica, que, segundo diziam as suas confessadas, +«era todo affeição e +perdão». Mas Natario, +sêcco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando +o snr. chantre Valladares começou a governar o +bispado, chamou-os, e, depois de lhes lembrar com +eloquencia a necessidade «de manter a paz na +Igreja», +de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e +Pollux, empurrou Natario com uma brandura grave +para os braços do padre Silverio—que o teve um +momento sepultado na vastidão do peito e do estomago, +murmurando todo commovido: +<br /> + +<br /> + +—Todos somos irmãos, todos somos irmãos! +<br /> + +<br /> + +Mas Natario, cuja natureza dura e grosseira nunca +perdia, como o papelão, as dobras que tomava, +conservou com o padre Silverio um tom amuado: +na Sé ou na rua, resvalando junto d'elle com um +geito brusco do pescoço, rosnava apenas: +<em>Senhor +padre Silverio, ás ordens!</em> +<br /> + +<br /> + +Havia porém duas semanas, uma tarde de chuva +Natario fizera repentinamente uma visita ao padre +<span class="pagenum">[260]</span> +Silverio—sob pretexto que «o pilhàra alli uma +pancada d'agua, e que se vinha recolher um instante». +<br /> + +<br /> + +—E tambem, acrescentou, para lhe pedir a sua +receita para a dôr d'ouvidos, que uma das minhas +sobrinhas, coitada, está como doida, collega! +<br /> + +<br /> + +O bom Silverio, esquecendo decerto que ainda +n'essa manhã vira as duas sobrinhas de Natario +sãs +e satisfeitas como dois pardaes, apressou-se a escrever +a receita, todo feliz de utilisar os seus queridos +estudos de medicina caseira; e murmurava, banhado +de riso: +<br /> + +<br /> + +—Ora que alegria, collega, vêl-o aqui de novo +n'esta sua casa! +<br /> + +<br /> + +A reconciliação foi tão publica—que o +cunhado +do senhor barão de Via-Clara, bacharel de grandes +dotes poeticos, lhe dedicou uma d'aquellas satyras +que elle intitulava +<em>Ferrões</em>, que iam +manuscriptas de +casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; +e chamára a composição, tendo presente +decerto a +figura dos dois sacerdotes: <em>Famosa +reconciliação +do Macaco e da Baleia!</em> Era com effeito frequente, +agora, vêr a pequena figura de Natario gesticulando +e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento +do padre Silverio. +<br /> + +<br /> + +Uma manhã mesmo os empregados da +administração +(que era então no largo da Sé) gozaram muito, +observando da sacada os dois padres que passeavam +no terraço, ao tepido sol de maio. O senhor +administrador,—que passáva as horas da +repartição +<span class="pagenum">[261]</span> +namorando com um binoculo, por traz da vidraça +do seu gabinete, a esposa do Telles +alfaiate—começára +subitamente a dar gargalhadas á janella: +o escrivão Borges correu logo, de penna na mão, +á varanda, a vêr de que ria sua senhoria, e, muito +divertido, a fungar, chamou á pressa o Arthur Couceiro +que estava copiando, para estudar á guitarra, +uma canção da +<em>Grinalda</em>: o amanuense Pires, severo +e digno, aproximou-se, carregando para a orelha +o seu barretinho de sêda, com horror ás correntes +d'ar; e em grupo, d'olho arregalado, observavam +os dois padres, que tinham parado á esquina da +igreja. Natario parecia excitado: procurava decerto +persuadir, abalar o padre Silverio; e em bicos de +pés, plantado diante d'elle, agitava phreneticamente +as mãos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe +do braço, arrastou-o ao comprido do terraço +lageado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto +largo e desolado, como attestando a perdição +possivel +d'elle, da Sé ao lado, da cidade, do universo +em redor; o bom Silverio, com os olhos muito abertos, +parecia apavorado. E recomeçaram a passear. +Mas Natario exaltava-se: dava recuões bruscos, atirava +estocadas com um longo dedo ao vasto estomago +de Silverio, batia patadas furiosas nas lages +polidas; e de repente, de braços pendentes, mostrava-se +acabrunhado. Então o bom Silverio fallou um +momento com a mão espalmada sobre o peito; immediatamente, +a face biliosa de Natario illuminou-se; +pulou, bateu no hombro do collega palmadinhas +<span class="pagenum">[262]</span> +de muito jubilo,—e os dois sacerdotes entraram na +Sé, chegados e rindo baixinho. +<br /> + +<br /> + +—Que patuscos! disse o escrivão Borges, que +detestava sotainas. +<br /> + +<br /> + +—Aquillo tudo é a respeito do jornal, disse Arthur +Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lyrico. +O Natario não socega emquanto não souber quem +escreveu o <em>Communicado</em>; disse-o elle +em casa da +S. Joanneira... E a coisa pelo Silverio vai bem, que +é o confessor da mulher do Godinho. +<br /> + +<br /> + +—Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou +pachorrentamente o officio que compunha, remettendo +para Alcobaça um preso—que ao fundo da saleta, +entre dois soldados, esperava sobre um banco, +prostrado e embrutecido, com uma face de fome e +as mãos em ferros. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +D'ahi a dias tinha havido na Sé o Officio de corpo +presente pelo rico proprietario Moraes, que morrera +d'um aneurisma, e a quem sua esposa (em penitencia +decerto dos desgostos que lhe dera com a +sua affeição desordenada por tenentes +d'infanteria) +estava fazendo, como se disse, «exequias de pessoa +real».—Amaro desvestira-se, e na sacristia, á luz +d'um velho candieiro de latão, escrevia assentos +atrazados, quando a porta de carvalho rangeu, e a +voz agitada de Natario disse: +<br /> + +<br /> + +—Ó Amaro, vossê está ahi? +<span class="pagenum">[263]</span> +<br /> + +<br /> + +—Que temos? +<br /> + +<br /> + +O padre Natario fechou a porta, e atirando os +braços para o ar: +<br /> + +<br /> + +—Grande novidade, é o escrevente! +<br /> + +<br /> + +—Que escrevente? +<br /> + +<br /> + +—O João Eduardo! É elle! É o +<em>liberal</em>! Foi elle +que escreveu o <em>Communicado</em>! +<br /> + +<br /> + +—Que me diz vossê!?—fez Amaro attonito. +<br /> + +<br /> + +—Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escripto +pela letra d'elle. O que se chama +<em>vêr</em>! Cinco +tiras de papel! +<br /> + +<br /> + +Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natario. +<br /> + +<br /> + +—Custou! exclamou Natario. Custou, mas soube-se +tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever +outro! O senhor João Eduardo! O nosso rico amigo +senhor João Eduardo! +<br /> + +<br /> + +—Vossê está certo d'isso? +<br /> + +<br /> + +—Se estou certo!... Estou a dizer-lhe que vi, +homem! +<br /> + +<br /> + +—E como soube vossê, Natario? +<br /> + +<br /> + +Natario dobrou-se; e com a cabeça enterrada +nos hombros, arrastando as palavras: +<br /> + +<br /> + +—Ah, collega, lá isso... Os +<em>comos</em> e os +<em>porquês</em>... +Vossê comprehende... <em>Sigillus +magnus</em>! +<br /> + +<br /> + +E com uma voz aguda de triumpho, a largos +passos pela sacristia: +<br /> + +<br /> + +—Mas ainda isto não é nada! O senhor Eduardo +que nós viamos alli na casa da S. Joanneira, tão +bom +mocinho, é um patife antigo! É o intimo do +Agostinho, +o bandido da <em>Voz do Districto</em>! +Está mettido na +<span class="pagenum">[264]</span> +redacção até altas horas da noite... +Uma orgia, vinhaça, +mulheres... E gaba-se de ser atheu... Ha +seis annos que se não confessa... Chama-nos a +<em>canalha +canonica</em>... É republicano... Uma fera, meu +caro senhor, uma fera! +<br /> + +<br /> + +Amaro, escutando Natario, arrumava atarantadamente, +com as mãos tremulas, papeis no gavetão da +escrivaninha. +<br /> + +<br /> + +—E agora?... perguntou. +<br /> + +<br /> + +—Agora? exclamou Natario. Agora é esmagal-o! +<br /> + +<br /> + +Amaro fechou o gavetão, e muito nervoso, passando +o lenço pelos labios seccos: +<br /> + +<br /> + +—Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, +coitada... Casar agora com um homem d'esses... Um +perdido! +<br /> + +<br /> + +Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No +silencio, o velho relogio da sacristia punha o seu +<em>tic-tac</em> plangente. Natario tirou da +algibeira dos calções +a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em +Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente: +<br /> + +<br /> + +—Desmanchar-lhe o casamentosinho, hein? +<br /> + +<br /> + +—Vossê acha? perguntou sôffregamente Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Caro collega, é uma questão de consciencia... +Para mim era uma questão de dever! Não se +póde +deixar casar a pobre pequena com um bréjeiro, um +pedreiro-livre, um atheu... +<br /> + +<br /> + +—Com effeito! com effeito! murmurava Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Vem a calhar, hein? fez Natario; e sorveu +com gozo a pitada. +<br /> + +<br /> + +Mas o sacristão entrou; eram as horas de fechar +<span class="pagenum">[265]</span> +a igreja; vinha perguntar se suas senhorias se demoravam. +<br /> + +<br /> + +—Um instante, snr. Domingos. +<br /> + +<br /> + +E, emquanto o sacristão corria os pesados ferrolhos +da porta interior do pateo, os dois padres muito +chegados fallavam baixo. +<br /> + +<br /> + +—Vossê vai ter com a S. Joanneira, dizia Natario. +Não, escute, é melhor que lhe falle o Dias; o +Dias +é que deve fallar á S. Joanneira. Vamos pelo +seguro. +Vossê falle á pequena e diga-lhe simplesmente +que o ponha fóra de casa!—E ao ouvido de Amaro:—Diga +á rapariga que elle vive ahi de casa e +pucarinho com uma desavergonhada! +<br /> + +<br /> + +—Homem! disse Amaro recuando, não sei se +isso é verdade! +<br /> + +<br /> + +—Ha de ser. Elle é capaz de tudo. E depois é +um meio de levar a pequena... +<br /> + +<br /> + +E foram descendo a igreja atraz do sacristão, +que fazia tilintar o seu mólho de chaves, pigarreando +grosso. +<br /> + +<br /> + +Nas capellas pendiam as armações de paninho negro +agaloadas de prata; ao centro, entre quatro fortes +tocheiras de grosso murrão, estava a eça, com o +largo pano de velludilho cobrindo o caixão do Moraes, +recahindo em pregas franjadas; á cabeceira tinha +uma larga corôa de perpetuas; e aos pés pendia, +d'um grande laço de fita escarlate, o seu habito +de cavalleiro de Christo. +<br /> + +<br /> + +O padre Natario então parou; e tomando o braço +d'Amaro com satisfação: +<span class="pagenum">[266]</span> +<br /> + +<br /> + +—E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada +ao cavalheiro... +<br /> + +<br /> + +—O quê? +<br /> + +<br /> + +—Cortar-lhe os víveres! +<br /> + +<br /> + +—Cortar-lhe os víveres!? +<br /> + +<br /> + +—O pateta estava para ser empregado no governo +civil, primeiro amanuense, hein? Pois vou-lhe +desmanchar o arranjinho!... E o Nunes Ferral que é +dos meus, homem de boas idéas, vai pôl-o +fóra do +cartorio... E que escreva então +<em>Communicados</em>! +<br /> + +<br /> + +Amaro teve horror áquella intriga rancorosa: +<br /> + +<br /> + +—Deus me perdôe, Natario, mas isso é perder +o rapaz... +<br /> + +<br /> + +—Emquanto o não vir por essas ruas a pedir +um bocado de pão, não o largo, padre Amaro, +não +o largo! +<br /> + +<br /> + +—Oh, Natario! oh, collega! Isso é de pouca caridade... +Isso não é de christão... E +então aqui que +Deus está a ouvil-o... +<br /> + +<br /> + +—Não lhe dê isso cuidado, meu caro amigo... +Deus serve-se assim, não é a resmungar +Padre-nossos. +Para impíos não ha caridade! A +inquisição +atacava-os pelo fogo, não me parece mau atacal-os +pela fome. Tudo é permittido a quem serve uma +causa santa... Que se não mettesse commigo! +<br /> + +<br /> + +Iam a sahir; mas Natario deitou um olhar para o +caixão do morto, e apontando com o guarda-chuva: +<br /> + +<br /> + +—Quem está alli? +<br /> + +<br /> + +—O Moraes, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +—O gordo, picado das bexigas? +<span class="pagenum">[267]</span> +<br /> + +<br /> + +—Sim. +<br /> + +<br /> + +—Boa bêsta! +<br /> + +<br /> + +E depois d'um silencio: +<br /> + +<br /> + +—Foram os Officios do Moraes... Eu nem dei +por isso, occupado cá na minha campanha... E a +viuva fica rica. É generosa, é presenteadora... +Quem +a confessa é o Silverio, hein? Tem as melhores pechinchas +de Leiria, aquelle elephante! +<br /> + +<br /> + +Sahíram. A botica do Carlos estava fechada, o +céo muito escuro. +<br /> + +<br /> + +No largo, Natario parou: +<br /> + +<br /> + +—Resumindo: o Dias falla á S. Joanneira, e +vossê falla á pequena. Eu por mim me entenderei +com a gente do governo civil e com o Nunes Ferral. +Encarreguem-se vossês do casamento, que eu +me encarrego do emprego!—E batendo no hombro +do parocho jovialmente:—É o que se póde dizer +atacal-o pelo coração e pelo estomago! E +adeusinho, +que as pequenas estão á espera para a ceia! +Coitadita, a Rosa tem estado com um defluxo!... É +fraquita, aquella rapariga, dá-me muito cuidado... +Que eu em a vendo murcha até perco logo o somno. +Que quer vossê? Quando se tem bom +coração...—Até +ámanhã, Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Até ámanhã, Natario. +<br /> + +<br /> + +E os dois padres separaram-se, quando davam +nove horas na Sé. +<span class="pagenum">[268]</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amaro entrou em casa ainda um pouco tremulo, +mas muito decidido, muito feliz: tinha um dever +delicioso a cumprir! E dizia alto, com passos graves +pela casa, para se compenetrar bem d'essa responsabilidade +estimada: +<br /> + +<br /> + +—É do meu dever! É do meu dever! +<br /> + +<br /> + +Como christão, como parocho, como amigo da +S. Joanneira o <em>seu dever</em> era +procurar Amelia, e, +com simplicidade, sem paixão interessada, contar-lhe +que fôra João Eduardo, o seu noivo, que escrevera +o <em>Communicado</em>. +<br /> + +<br /> + +Foi elle! Diffamou os íntimos da casa, sacerdotes +de sciencia e de posição; desacreditou-a a ella; +passa as noites em deboche na possilga do Agostinho; +insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligião; +ha seis annos que se não confessa! Como +diz o collega Natario, é uma fera! Pobre menina! +Não, não podia casar com um homem que lhe +impediria +a <em>vida perfeita</em>, lhe achincalharia +as boas +crenças! Não a deixaria rezar, nem jejuar, nem +procurar +no confessor a direcção salutar, e, como diz o +santo padre Chrysostomo, «amadureceria a sua alma +para o inferno»! Elle não era seu pai, nem seu +tutor; +mas era parocho, era pastor:—e se a não +subtrahisse áquelle destino heretico pelos seus conselhos +graves, pela influencia da mãi e das amigas,—seria +<span class="pagenum">[269]</span> +como aquelle que tem a guarda d'um rebanho +n'uma herdade, e abre indignamente a cancella +ao lobo! Não, a Ameliasinha não havia de casar +com o <em>atheu</em>! +<br /> + +<br /> + +E o seu coração então batia forte sob +a effusão +d'aquella esperança. Não, o outro não +a possuiria! +Quando viesse a apoderar-se legalmente d'aquella +cinta, d'aquelles peitos, d'aquelles olhos, d'aquella +Ameliasinha,—elle, parocho, lá estava para lhe dizer +alto: <em>Para traz, seu canalha! isto aqui é +de Deus!</em> +<br /> + +<br /> + +E tomaria então bem cuidado em guiar a pequena +á salvação! Agora o +<em>Communicado</em> estava esquecido, +o senhor chantre tranquillisado: d'ahi a dias +poderia voltar sem susto á rua da Misericordia, +recomeçar +os deliciosos serões—apoderar-se de novo +d'aquella alma, formal-a para o paraiso... +<br /> + +<br /> + +E aquillo, Jesus! não era uma intriga para a arrancar +ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, +para se convencer melhor) eram muito rectos, muito +puros: aquillo era um trabalho santo para a arrancar +ao inferno: elle não a queria para si, queria-a +para Deus!... <em>Casualmente</em>, sim, os +seus interesses +de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. +Mas se ella fosse vesga e feia e tola, elle iria +igualmente à rua da Misericordia, em serviço do +céo, +desmascarar o snr. João Eduardo, diffamador e atheu! +<br /> + +<br /> + +E, socegado por esta argumentação, deitou-se +tranquillamente. +<br /> + +<br /> + +Mas toda a noite sonhou com Amelia. Tinha fugido +com ella: e ia-a levando por uma estrada que +<span class="pagenum">[270]</span> +conduzia ao céo! O diabo perseguia-o; elle via-o, +com as feições de João Eduardo, +soprando e rasgando +com os cornos os delicados seios das nuvens. E +elle escondia Amelia no seu capote de padre, devorando-a +por baixo de beijos! Mas a estrada do céo não +findava.—«Onde é a porta do paraiso?» +perguntava +elle a anjos de cabelleiras d'ouro que passavam, +n'um dôce rumor de azas, levando almas nos braços. +E todos lhe respondiam:—«Na rua da Misericordia, +na rua da Misericordia numero nove!» Amaro sentia-se +perdido: um vasto ether côr de leite, penetravel +e macio como uma pennugem d'ave, envolvia-o, +e elle procurava debalde uma taboleta de hospedaria! +Por vezes resvalava junto d'elle um globo reluzente +d'onde sahia o rumor d'uma creação; ou um +esquadrão d'archanjos, com couraças de diamantes, +erguendo alto espadas de fogo, galopavam n'um +rhythmo nobre... +<br /> + +<br /> + +Amelia tinha fome, tinha frio. «Paciencia, paciencia, +meu amor!» dizia-lhe elle. Caminhando, vieram +a encontrar uma figura branca, que tinha na +mão uma palma verde. «Onde está Deus, +nosso pai?» +perguntou-lhe Amaro, com Amelia conchegada ao +peito. A figura disse:—«Eu fui um confessor, e sou +um santo: os seculos passam, e immutavelmente, +sempiternamente sustento na mão esta palma e banha-me +um extase igual! Nenhuma tinta modifica +esta luz para sempre branca; nenhuma sensação +sacode +o meu sêr para sempre immaculado; e immobilisado +na bemaventurança, sinto a monotonia do +<span class="pagenum">[271]</span> +céo pesar-me como uma capa de bronze. Oh! pudesse +eu caminhar a passos largos nas torpezas differentes +da terra—ou bracejar, sob as variedades da dôr, +nas chammas do purgatorio!» +<br /> + +<br /> + +Amaro murmurou: «Bem fazemos nós em +peccar!»—Mas +Amelia desfallecia fatigada. «Durmamos, +meu amor!» E, deitados, viam estrellas fluctuando +n'uma poeirada como o joio sacudido vivamente do +crivo. Então nuvens começaram a +dispôr-se em torno +d'elles, em pregas de cortinados, dando um perfume +de <em>sachets</em>; Amaro pousou a sua +mão sobre o +peito d'Amelia: um enleio muito dôce enervava-os: +enlaçaram-se, os seus labios pegavam-se humidos e +quentes:—«Oh, Ameliasinha!» murmurava +elle.—«Amo-te, +Amaro, amo-te!» suspirava ella.—Mas de +repente as nuvens afastaram-se como os cortinados +d'um leito; e Amaro viu diante o diabo que os alcançara, +e que, com as garras na cinta, esgaçava a +boca n'uma risada muda. Com elle estava outro +personagem: era velho como a substancia; nos anneis +dos seus cabellos vegetavam florestas; a sua +pupilla tinha a vastidão azul d'um oceano; e nos dedos +abertos, com que cofiava a barba infindavel, caminhavam, +como em estradas, filas de raças humanas.—«Aqui +estão os dois sujeitos», dizia-lhe o diabo +retorcendo a cauda.—E por traz Amaro via agglomerarem-se +legiões de santos e de santas. Reconheceu +S. Sebastião com as suas settas cravadas; Santa +Cecilia trazendo na mão o seu orgão; por entre +elles +sentia balarem os rebanhos de S. João; e no meio +<span class="pagenum">[272]</span> +erguia-se o bom gigante S. Christovão apoiado ao +seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro não +se podia desenlaçar de Amelia, que chorava muito +baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente +collados; e Amaro, afflicto, via que as saias d'ella +levantadas descobriam os seus joelhos brancos.—«Aqui +estão os dois sujeitos», dizia o diabo ao +velho personagem, «e repare o meu prezado amigo, +porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena +tem bonitas pernas!» Santos vetustos alçaram-se +sôfregamente em bicos de pés, estendendo +pescoços +onde se viam cicatrizes de martyrios: e as onze +mil virgens bateram o vôo como pombas espavoridas! +Então o personagem, esfregando as mãos d'onde +se esfarelavam universos, disse grave: «Fico inteirado, +meu caro amigo, fico inteirado! Com que, +senhor parocho, vai-se á rua da Misericordia, arruina-se +a felicidade do snr. João Eduardo (um cavalheiro), +arranca-se a Ameliasinha á mamã, e vem-se saciar +concupiscencias reprimidas a um cantinho da +Eternidade? Eu estou velho—está rouca esta voz +que outr'ora tão sabiamente discursava pelos valles. +Mas pensa que me assombra o senhor conde de Ribamar, +seu protector, apesar de ser um pilar da Igreja +e uma columna da Ordem? Pharaó era um grande rei—e +eu afoguei-o, e os seus principes captivos, os +seus thesouros, os seus carros de guerra, e as manadas +dos seus escravos! Eu cá sou assim! E se os +senhores ecclesiasticos continuarem a escandalisar +Leiria—eu ainda sei queimar uma cidade como um +<span class="pagenum">[273]</span> +papel inutil, e ainda me resta agua para diluvios!» +E voltando-se para dois anjos armados de espadas e +lanças, o personagem bradou: «Chumbem uma grilheta +aos pés do padre, e levem-no ao abysmo numero +sete!» E o diabo gania: «Ahi estão as +consequencias, +senhor padre Amaro!» Elle sentiu-se arrebatado +de sobre o seio d'Amelia por mãos de braza; +e ia luctar, bradar contra o juiz que o julgava—quando +um sol prodigioso que vinha nascendo do +Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, +com um grito, reconheceu o Padre Eterno! +<br /> + +<br /> + +Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava +pela janella. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +N'essa noite João Eduardo, indo da Praça para +casa da S. Joanneira, ficou assombrado, ao vêr apparecer +á outra boca da rua, do lado da Sé, o Santissimo +em procissão. +<br /> + +<br /> + +E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas +de mantéo pela cabeça, as tochas faziam destacar +opas de paninho escarlate; sob o pallio os dourados +da estola do parocho reluziam; uma campainha +tocava adiante, ás vidraças appareciam luzes;—e +na noite escura o sino da Sé repicava, sem +descontinuar. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo correu aterrado—e soube logo +que era a extrema-unção á entrevada. +<br /> + +<br /> + +Tinham posto na escada um candieiro de petroleo +<span class="pagenum">[274]</span> +sobre uma cadeira. Os serventes encostaram á +parede da rua os varaes do pallio, e o parocho entrou. +João Eduardo, muito nervoso, subiu tambem: +ia pensando que a morte da entrevada, o luto retardariam +o seu casamento; contrariava-o a presença +do parocho e a influencia que elle adquiria n'aquelle +momento; e foi quasi quezilado que perguntou á +<em>Ruça</em> na saleta: +<br /> + +<br /> + +—Então como foi isto? +<br /> + +<br /> + +—Foi a pobre de Christo que esta tarde começou +a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava +a acabar, e a senhora mandou pelos sacramentos. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, então, julgou delicado ir assistir +«á ceremonia». +<br /> + +<br /> + +O quarto da velha era junto á cozinha, e tinha +n'aquelle momento uma solemnidade lugubre. +<br /> + +<br /> + +Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava +um prato com cinco bolinhas de algodão entre +duas velas de cera. A cabeça da entrevada, toda +branca, a sua face côr de cera mal se distinguiam +do linho do travesseiro; tinha os olhos estupidamente +dilatados; e ia apanhando incessantemente com +um gesto lento a dobra do lençol bordado. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira e Amelia rezavam ajoelhadas á +beira da cama: a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +(que +casualmente entrára, ao voltar da fazenda) ficára +á +porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares, +murmurando Salve-Rainhas. João Eduardo, +sem ruido, dobrou o joelho junto d'ella. +<span class="pagenum">[275]</span> +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, curvado quasi ao ouvido da entrevada, +exhortava-a a que se abandonasse á Misericordia +divina; mas, vendo que ella não comprehendia, +ajoelhou, recitou rapidamente o +<em>Misereatur</em>; e +no silencio, a sua voz erguendo-se nas syllabas latinas +mais agudas, dava uma sensação de enterro que +enternecia, fazia soluçar as duas senhoras. Depois +ergueu-se, molhou o dedo nos santos oleos: murmurando +as expressões penitentes do ritual ungiu os +olhos, o peito, a boca, as mãos—que ha dez annos +só se moviam para chegar a escarradeira, e as plantas +dos pés que ha dez annos só se applicavam a +buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas +de algodão humidas de oleo, ajoelhou-se, ficou +immovel, com os olhos postos no Breviario. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo voltou em pontas de pés á +sala, +sentou-se no mocho do piano: agora decerto, durante +quatro ou cinco semanas. Amelia não tornaria +a tocar... E uma melancolia amolleceu-o, vendo no +dôce progresso do seu amor aquella brusca +interrupção +da morte e dos seus ceremoniaes. +<br /> + +<br /> + +A snr.<sup>a</sup> D. Maria entrou então, toda +transtornada +d'aquella scena—e seguida d'Amelia que trazia os +olhos muito vermelhos. +<br /> + +<br /> + +—Ah! ainda bem que aqui está, João Eduardo! +disse logo a velha. Que quero que me faça um favor, +que é acompanhar-me a casa... Estou toda a +tremer... Estava desprevenida, e com perdão de +Deus seja dito, não posso ver gente na agonia... Que +ella, coitadinha, vai-se como um passarinho... E peccados +<span class="pagenum">[276]</span> +não os tem... Olhe, vamos pela Praça que +é +mais perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas +não posso ficar... É que me dava a +dôr... Ai, que +desgosto!... Que para ella até é melhor... Pois +olhem, sinto-me a desfallecer... +<br /> + +<br /> + +Foi mesmo necessario que Amelia a levasse a +baixo, ao quarto da S. Joanneira, a reconfortal-a caridosamente +com um calix de geropiga. +<br /> + +<br /> + +—Ameliasinha, disse então João Eduardo, se eu +sou cá necessario para alguma coisa... +<br /> + +<br /> + +—Não, obrigada. Ella está por instantes, +coitadinha. +<br /> + +<br /> + +—Não te esqueças, filha, recommendou descendo +a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, +põe-lhe as duas velas +bentas á cabeceira... Allivia muito na agonia... +E se tiver muitos arrancos, põe outras duas apagadas, +em cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto! +<br /> + +<br /> + +Á porta, mal viu o pallio, os homens com as tochas, +apoderou-se do braço de João Eduardo, collou-se +toda a elle com terror—um pouco tambem, +com o accesso de ternura que lhe dava sempre a +geropiga. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amaro promettera voltar mais tarde, para «as +acompanhar, como amigo, n'aquelle transe». E o conego +(que chegára, quando a procissão com o pallio +dobrava a esquina para o lado da Sé), informado +d'esta delicadeza do senhor parocho, declarou logo +<span class="pagenum">[277]</span> +que visto que o collega Amaro vinha fazer a noitada, +elle ia descansar o corpo porque, Deus bem o +sabia, aquellas commoções arrazavam-lhe a saude. +<br /> + +<br /> + +—E a senhora não havia de querer que eu apanhasse +alguma e me visse nos mesmos assados... +<br /> + +<br /> + +—Credo, senhor conego! exclamou a S. Joanneira, +nem diga isso!...—E começou a choramingar, +muito abalada. +<br /> + +<br /> + +—Pois então boas noites, disse o conego, e nada +de affligir. Olhe, a pobre creatura, alegria não a +tinha: e como não tem peccados não lhe importa +achar-se na presença de Deus. Tudo bem considerado, +senhora, é uma pechincha! E adeusinho, que +me não estou a sentir bem... +<br /> + +<br /> + +Tambem a S. Joanneira não se sentia bem. O +choque, logo depois de jantar, dera-lhe ameaças de +enxaqueca:—e quando Amaro voltou, ás onze, +Amelia que fôra abrir a porta, disse-lhe, ao subir +á +sala de jantar: +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho desculpe... A mamã veio-lhe +a enxaqueca, coitada... Estava que nem via... +Deitou-se, pôz agua sedativa e adormeceu... +<br /> + +<br /> + +—Ah! Deixal-a dormir! +<br /> + +<br /> + +Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabeça +virada para a parede; dos seus beiços abertos +sahia um gemido muito debil e continuo. Sobre a +mesa agora, uma grossa vela benta, de murrão negro, +erguia uma luz triste; e ao canto, transida de +medo, a <em>Ruça</em>, segundo as +recommendações da S. +Joanneira, ia rezando a corôa. +<span class="pagenum">[278]</span> +<br /> + +<br /> + +—O senhor doutor, disse Amelia baixo, diz que +morre sem o sentir... Diz que ha de gemer, gemer, +e de repente acabar como um passarinho... +<br /> + +<br /> + +—Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente +o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +Voltaram á sala de jantar. Toda a casa estava +silenciosa: fóra ventava forte. Havia muitas semanas +que não se encontravam assim sós. Muito +embaraçado, +Amaro aproximou-se da janella: Amelia +encostou-se ao aparador. +<br /> + +<br /> + +—Vamos ter uma noite d'agua, disse o parocho. +<br /> + +<br /> + +—E está frio, disse ella, encolhendo-se no chale. +Eu tenho estado passada de medo... +<br /> + +<br /> + +—Nunca viu morrer ninguem? +<br /> + +<br /> + +—Nunca. +<br /> + +<br /> + +Calaram-se—elle immovel ao pé da janella, ella +encostada ao aparador, de olhos baixos. +<br /> + +<br /> + +—Pois está frio, disse Amaro, com a voz alterada +da perturbação que lhe ia dando a +presença d'ella +áquella hora da noite. +<br /> + +<br /> + +—Na cozinha está a brazeira accêsa, disse Amelia. +É melhor irmos para lá. +<br /> + +<br /> + +—É melhor. +<br /> + +<br /> + +Foram. Amelia levou o candieiro de latão: e +Amaro, indo remexer com as tenazes o brazido vermelho, +disse: +<br /> + +<br /> + +—Ha que tempo que eu não entro aqui na cozinha!... +Ainda tem os vasos com os raminhos fóra +da janella? +<span class="pagenum">[279]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ainda, e um craveiro... +<br /> + +<br /> + +Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da +brazeira.—Amelia, inclinada para o lume, sentia os +olhos do padre Amaro devora-la silenciosamente. +Elle ia fallar-lhe, decerto! Tinha as mãos a tremer; +não ousava mover-se, erguer as palpebras, com +medo que lhe rompessem as lagrimas; mas anciava +pelas suas palavras, ou amargas ou dôces... +<br /> + +<br /> + +Ellas vieram emfim, muito graves. +<br /> + +<br /> + +—Menina Amelia, disse, eu não esperava poder +assim fallar-lhe a sós. Mas as coisas arranjaram-se... +É decerto a vontade de Nosso Senhor! E depois, +como as suas maneiras mudaram tanto... +<br /> + +<br /> + +Ella voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho +tremulo: +<br /> + +<br /> + +—Mas bem sabe porquê! exclamou quasi chorando. +<br /> + +<br /> + +—Sei. Se não fosse aquelle infame +<em>Communicado</em>, +e as calumnias... nada se tinha passado, e a +nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem... É +justamente a esse respeito que eu lhe quero fallar. +<br /> + +<br /> + +Chegou a cadeira mais para junto d'ella, e muito +suave, muito tranquillo: +<br /> + +<br /> + +—Lembra-se d'esse artigo em que todos os amigos +da casa eram insultados? em que eu era arrastado +pela rua da amargura? em que a menina mesma, +a sua honra era offendida?... Lembra-se, hein? +Sabe quem o escreveu? +<br /> + +<br /> + +—Quem? perguntou Amelia toda surprehendida. +<br /> + +<br /> + +—O snr. João Eduardo! disse o parocho muito +<span class="pagenum">[280]</span> +tranquillamente, cruzando os braços diante d'ella. +<br /> + +<br /> + +—Não póde ser! +<br /> + +<br /> + +Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho +pelas saias para a fazer sentar; e a sua voz continuou +paciente e suave: +<br /> + +<br /> + +—Ouça. Sente-se. Foi elle que o escreveu. Soube +hontem tudo. O Natario viu o original escripto +pela letra d'elle. Foi elle que descobriu. Por meios +dignos decerto... e porque era a vontade de Deus +que a verdade apparecesse. Agora escute. A menina +não conhece esse homem.—Então, baixo, contou-lhe +o que sabia de João Eduardo, por Natario; as suas +noitadas com o Agostinho, as suas injurias contra os +padres, a sua irreligião... +<br /> + +<br /> + +—Pergunte-lhe se elle se confessa ha seis annos, +e peça-lhe os bilhetes da confissão! +<br /> + +<br /> + +Ella murmurava, com as mãos cahidas no regaço: +<br /> + +<br /> + +—Jesus... Jesus!... +<br /> + +<br /> + +—Eu então entendi que como intimo da casa, +como parocho, como christão, como seu amigo, menina +Amelia... porque acredite que lhe quero... +emfim, entendi que era o meu dever avisal-a! Se +eu fosse seu irmão, dizia-lhe simplesmente: +«Amelia, +esse homem fóra de casa!» Não o sou, +infelizmente. +Mas venho, com dedicação d'alma, dizer-lhe: +«O homem com quem quer casar surprehendeu a +sua boa fé e de sua mamã; vem aqui, sim senhor, +com apparencias de bom moço, e no fundo +é...» +<br /> + +<br /> + +Ergueu-se, como ferido d'uma indignação +irreprimivel: +<span class="pagenum">[281]</span> +<br /> + +<br /> + +—Menina Amelia, é o homem que escreveu esse +<em>Communicado!</em> que fez ir o pobre +Brito para a +serra de Alcobaça! que me chamou a mim +<em>seductor!</em> +que chamou devasso ao senhor conego Dias! +<em>Devasso!</em> +Que lançou veneno nas relações de sua +mamã +com o conego! e que a accusou á menina, em bom +portuguez, de se deixar seduzir! Diga, quer casar +com esse homem? +<br /> + +<br /> + +Ella não respondeu, com os olhos cravados no +lume, duas lagrimas mudas sobre as faces. +<br /> + +<br /> + +Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando +ao pé d'ella, com a voz abrandada, gestos +muito amigos: +<br /> + +<br /> + +—Mas supponhamos que não era elle o auctor +do <em>Communicado</em>, que não +tinha insultado em letra +redonda a sua mamã, o senhor conego, os seus +amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino +o seu se casasse com elle! Ou teria de condescender +com as opiniões do homem, abandonar as +suas devoções, romper com os amigos de sua +mãi, +não pôr os pés na igreja, dar escandalo +a toda a +gente honesta, ou teria de se pôr em +opposição com +elle, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma +questão! Por jejuar á sexta-feira, por ir +á exposição +do Santíssimo, por cumprir o domingo... Se se quizesse +confessar, que desavenças! Um horror! E sujeitar-se +a ouvil-o escarnecer os mysterios da fé! Ainda +me lembro, na primeira noite que aqui passei, +com que desacato elle fallou da santa da Arregassa!... +E ainda me lembro uma noite que o padre Natario +<span class="pagenum">[282]</span> +aqui fallava dos soffrimentos do nosso santo padre +Pio IX, que seria preso, se os liberaes entrassem +em Roma... Como elle tinha risinhos de escarneo, +como disse que eram exagerações!... Como se +não +fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberaes +veriamos o chefe da Igreja, o vigario de Christo, +dormir n'um calabouço em cima d'umas poucas +de palhas! São as opiniões d'elle, que elle +apregôa +por toda a parte! O padre Natario diz que elle e o +Agostinho estavam no café ao pé do Terreiro a +dizer +que o baptismo era um abuso, porque cada um devia +escolher a religião que quizesse, e não ser +forçado, +de pequeno, a ser christão! Hein, que lhe parece? +Como seu amigo lh'o digo... Para bem de sua alma +antes a queria vêr morta do que ligada a esse +homem! Case com elle, e perde para sempre a graça +de Deus! +<br /> + +<br /> + +Amelia levou as mãos ás fontes, e deixando-se +cahir para as costas da cadeira, murmurou, muito +desgraçada: +<br /> + +<br /> + +—Oh, meu Deus, meu Deus! +<br /> + +<br /> + +Amaro então sentou-se ao pé d'ella, tocando-lhe +quasi o vestido com o joelho, pondo na voz uma +bondade paternal: +<br /> + +<br /> + +—E depois, minha filha, pensa que um homem +assim póde ter bom coração, apreciar a +sua virtude, +querer-lhe como um marido christão? Quem não tem +religião não tem moral. Quem não +crê não ama, diz +um dos nossos santos padres. Depois de lhe passar +o fogacho da paixão, começaria a ser duro +comsigo, +<span class="pagenum">[283]</span> +mal humorado, voltaria a frequentar o Agostinho e +as mulheres da vida, e maltrata-la-hia talvez... E +que susto constante para si! Quem não respeita a +religião +não tem escrupulos: mente, rouba, calumnia... +Veja o <em>Communicado</em>. Vir aqui apertar +a mão +ao senhor conego, e ir para o jornal chamar-lhe devasso! +Que remorsos não sentiria a menina, mais +tarde, á hora da morte! É muito bom emquanto se +tem saude e se é nova; mas quando chegasse a sua +ultima hora, quando se achasse, como aquella pobre +creatura que está alli, nos ultimos arrancos, que terror +não sentiria de ter de apparecer diante de Jesus +Christo, depois de ter vivido em peccado ao lado +d'esse homem! Quem sabe se elle não recusaria que +lhe dessem a extrema-unção! Morrer sem +sacramentos, +morrer como um animal!... +<br /> + +<br /> + +—Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor +parocho! exclamou Amelia rompendo n'um chôro +nervoso. +<br /> + +<br /> + +—Não chore, disse elle tomando-lhe suavemente +a mão entre as suas, muito tremulas. Escute, +abra-se commigo... Vá, esteja socegada, tudo se remedeia. +Não ha banhos publicados... Diga-lhe que +não quer casar, que sabe tudo, que o odeia... +<br /> + +<br /> + +Esfregava, apertava devagarinho a mão d'Amelia. +E subitamente, com voz d'um ardor brusco: +<br /> + +<br /> + +—Não se importa com elle, não é +verdade? +<br /> + +<br /> + +Ella respondeu muito baixo, com a cabeça cahida +sobre o peito: +<br /> + +<br /> + +—Não. +<span class="pagenum">[284]</span> +<br /> + +<br /> + +—Então, ahi tem! fez excitado. E diga-me, gosta +d'outro? +<br /> + +<br /> + +Ella não respondeu, com o peito a arfar fortemente, +os olhos dilatados para o lume. +<br /> + +<br /> + +—Gosta? diga, diga! +<br /> + +<br /> + +Passou-lhe o braço sobre o hombro, attrahindo-a +dôcemente. Ella tinha as mãos abandonadas no +regaço; +sem se mover voltou devagar para elle os +olhos resplandecentes sob uma nevoa de lagrimas, +e entreabriu devagar os labios, pallida, toda desfallecida. +Elle estendeu os beiços a tremer—e ficaram +immoveis, collados n'um só beijo, muito longo, profundo, +os dentes contra os dentes. +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, +n'um terror, a voz da +<em>Ruça</em>, dentro. +<br /> + +<br /> + +Amaro ergueu-se d'um salto, correu ao quarto +da entrevada. Amelia estava tão tremula, que precisou +encostar-se á porta da cozinha um momento, +com as pernas vergadas, a mão sobre o +coração. Recuperou-se, +desceu a acordar a mãe. +<br /> + +<br /> + +Quando entraram no quarto da idiota, Amaro +ajoelhado, com a face quasi sobre o leito, rezava: +as duas senhoras rojaram-se no chão; uma +respiração +accelerada sacudia o peito, as ilhargas da velha; +e á medida que o arquejo se tornava mais rouco, o +parocho precipitava as suas orações. Subitamente +o +som agonisante cessou: ergueram-se: a velha estava +immovel, com os bugalhos dos olhos sahidos e +baços. Expirára. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a +<span class="pagenum">[285]</span> +sala;—e ahi a S. Joanneira, curada, pelo choque, +da sua enxaqueca, desabafou, em accessos de chôro, +recordando o tempo em que a pobre mana era +nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera +para fazer com o morgado da Vigareira!... +<br /> + +<br /> + +—E o genio mais dado, senhor parocho! Uma +santa! E quando a Amelia nasceu, e que eu estive +tão mal, que não se tirou de ao pé de +mim, noite e +dia!... E alegre, não havia outra... Ai, Deus da minha +alma, Deus da minha alma! +<br /> + +<br /> + +Amelia, encostada á vidraça na sombra da janella, +olhava entorpecida a noite negra. +<br /> + +<br /> + +Bateram então á campainha. Amaro desceu, com +uma vela. Era João Eduardo, que ao vêr o parocho +áquella hora na casa,—ficou petrificado, junto da +porta aberta; emfim balbuciou: +<br /> + +<br /> + +—Eu vinha saber se havia novidade... +<br /> + +<br /> + +—A pobre senhora expirou agora mesmo... +<br /> + +<br /> + +—Ah! +<br /> + +<br /> + +Os dois homens olharam-se um instante fixamente. +<br /> + +<br /> + +—Se eu sou preciso para alguma coisa... disse +João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +—Não, obrigado. As senhoras vão-se deitar. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo fez-se pallido da coléra que lhe +davam aquelles modos de dono da casa. Esteve ainda +um momento, hesitando—mas vendo o parocho +abrigar a luz, com a mão, contra o vento da rua: +<br /> + +<br /> + +—Bem, boa noite, disse. +<br /> + +<br /> + +—Boa noite. +<span class="pagenum">[286]</span> +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro subiu:—e depois de deixar as +duas senhoras no quarto da S. Joanneira (porque, +cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao +quarto da morta, despertou a vela sobre a mesa, +accommodou-se n'uma cadeira, e começou a lêr o +Breviario. +<br /> + +<br /> + +Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, +o parocho, sentindo o somno entorpecel-o, veio +á sala de jantar; reconfortou-se com um calix de vinho +do Porto que achára no aparador; e saboreava +regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos +de botas fortes que iam, vinham, por baixo das +janellas. Como a noite estava escura não pôde +distinguir +«o passeante».—Era João Eduardo que +rondava +a casa, furioso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +XIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia cedo, a snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias que +entrára, havia pouco, da missa, ficou muito surprehendida, +ouvindo a criada que lavava as escadas dizer +de baixo: +<br /> + +<br /> + +—Está aqui o senhor padre Amaro, snr.<sup>a</sup> +D. Josepha! +<br /> + +<br /> + +O parocho ultimamente raras vezes vinha a casa +do conego; e D. Josepha gritou logo lisonjeada e já +curiosa: +<br /> + +<br /> + +—Que suba para aqui, não é de ceremonia! +É +como de familia. Que suba! +<br /> + +<br /> + +Estava na sala de jantar, arranjando n'uma travessa +ladrilhos de marmelada, com um vestido de +hareje preto esgaçado na ilharga e arqueado em redor +dos tornozelos por uma <em>crinoline</em> +d'um só arco; +<span class="pagenum">[288]</span> +trazia n'essa manhã oculos azues; e foi logo ao patamar, +arrastando os seus medonhos chinelos d'ourêlo, +e preparando, por debaixo do lenço preto repuxado +sobre a testa, um ar agradavel para o senhor +parocho. +<br /> + +<br /> + +—Ora ditosos olhos! exclamou. Eu entrei ha bocadinho, +e já cá tenho a primeira missinha. Fui hoje +á capella de Nossa Senhora do Rosario... Disse-a +o padre Vicente. Ai! e que virtude que me fez hoje, +senhor parocho! Sente-se. Ahi não, que lhe vem +ar da porta... E então a pobre entrevada lá se +foi... +Conte lá, senhor parocho... +<br /> + +<br /> + +O parocho teve de descrever a agonia da entrevada, +a dôr da S. Joanneira; como depois de morta +a face da velha parecera remoçar; o que as senhoras +tinham decidido a respeito da mortalha... +<br /> + +<br /> + +—Aqui para nós, D. Josepha, é um grande allivio +para a S. Joanneira...—E de repente, puxando-se +para a beira da cadeira, assentando as mãos nos +joelhos:—E que me diz á do senhor João Eduardo? +Já sabe? Foi elle que escreveu o artigo! +<br /> + +<br /> + +A velha exclamou, levando as mãos á +cabeça: +<br /> + +<br /> + +—Ai! nem me falle n'isso, senhor parocho! +Nem me falle n'isso, que até tenho estado doente! +<br /> + +<br /> + +—Ah, já sabe? +<br /> + +<br /> + +—E mais que sei, senhor parocho! O senhor +padre Natario, devo-lhe esse favor, esteve aqui hontem +e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma +perdida! +<br /> + +<br /> + +—E sabe que é o intimo do Agostinho, que são +<span class="pagenum">[289]</span> +bebedeiras na redacção até de +madrugada, que vai +para o bilhar do Terreiro achincalhar a religião... +<br /> + +<br /> + +—Ai, por quem é, senhor parocho, nem me +diga, nem me diga! Que hontem, quando o senhor +padre Natario esteve ahi, até tive escrupulos d'ouvir +tanto peccado... Que lhe devo esse favor, ao senhor +padre Natario, logo que soube veio-me contar... +É de muito delicado... E olhe, senhor parocho, a +mim sempre me quiz parecer isso mesmo do homem. +Eu nunca o disse, nunca o disse! Que lá isso, esta +boquinha nunca se pôz em vidas alheias... Mas tinha +cá dentro um palpite. Elle ia á missa, cumpria +o jejum; mas eu cá tinha a desconfiança que +aquillo +era para enganar a S. Joanneira e a pequena. +Agora se vê! Eu foi creatura que nunca me cahiu +em graça! Nunca, senhor parocho!—E de repente, +com os olhinhos luzidios d'uma alegria perversa:—E +agora, já se sabe, o casamento desmancha-se? +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito +pausadamente: +<br /> + +<br /> + +—Elle, minha senhora, seria notorio que uma +rapariga de bons principios fosse casar com um pedreiro-livre, +que não se confessa ha seis annos! +<br /> + +<br /> + +—Credo, senhor parocho! antes vêl-a morta! É +necessario dizer tudo á rapariga... +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente +a cadeira para ao pé d'ella: +<br /> + +<br /> + +—Pois foi justamente para isso que eu a vim +procurar, minha senhora. Eu hontem já fallei com +a pequena... Mas comprehende, no meio d'aquelle +<span class="pagenum">[290]</span> +desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, +não pude insistir muito. Emfim disse-lhe o que havia, +aconselhei-a por bons modos, expuz-lhe que ia +perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. +Fiz o que pude, minha senhora, como amigo e como +parocho. E como era o meu dever (ainda que +me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, +como christã e como senhora, tinha +obrigação de +romper com o escrevente. +<br /> + +<br /> + +—E ella? +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro fez uma visagem descontente: +<br /> + +<br /> + +—Não disse que <em>sim</em> nem +que <em>não</em>. Pôz-se +a +fazer biquinho, a choramingar. É verdade que estava +muito alterada com a morte em casa. Que a rapariga +não morre por elle, isso é claro; mas quer +casar, tem medo que a mãi morra, que se veja +só... +Emfim sabe o que são raparigas! Que as minhas palavras +fizeram-lhe effeito, ficou muito indignada, +etc... Mas emfim, eu pensei que o melhor era a senhora +fallar-lhe. A senhora é a amiga da casa, é +madrinha, +conheceu-a de pequena... Estou certo que +no seu testamento havia de lhe deixar uma boa +lembrança... Tudo isto são +considerações... +<br /> + +<br /> + +—Ai, fica por minha conta, senhor parocho! exclamou +a velha; hei de lh'as cantar!... +<br /> + +<br /> + +—A rapariga o que precisa é quem a dirija. +Aqui para nós, precisa quem a confesse! Ella confessa-se +ao padre Silverio; mas, sem querer dizer +mal, o padre Silverio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, +muita virtude; mas o que se chama +<em>geito</em> +<span class="pagenum">[291]</span> +não tem. Para elle a confissão é a +<em>desobriga</em>. Pergunta +doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos +da lei de Deus... Veja a senhora!... Está +claro que a rapariga não furta, nem mata, nem deseja +a mulher do seu proximo! A confissão assim +não lhe aproveita: o que ella precisa é um +confessor +<em>têso</em>, que lhe +diga—<em>para alli!</em> e sem +réplica. A rapariga +é um espirito fraco; como a maior parte das +mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por +isso um confessor que a governe com uma vara de +ferro, a quem ella obedeça, a quem conte tudo, de +quem tenha medo... É como deve ser um confessor. +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho é que lhe servia... +<br /> + +<br /> + +Amaro sorriu modestamente: +<br /> + +<br /> + +—Não digo que não. Havia de aconselhal-a bem; +sou amigo da mãi, acho que ella é boa rapariga e +digna da graça de Deus. Que eu, sempre que converso +com ella, todos os conselhos que posso, em +tudo, dou-lh'os... Mas a senhora comprehende, ha +coisas em que se não póde estar a fallar na sala, +com gente á volta... Só se está +á vontade no confessionario. +E é o que me falta, são as occasiões +de +lhe fallar só. Mas emfim eu não posso ir +dizer-lhe: +«a menina agora ha de se confessar commigo»! Eu +n'isso sou muito escrupuloso... +<br /> + +<br /> + +—Mas digo-lh'o eu, senhor parocho! Ah, digo-lh'o eu!... +<br /> + +<br /> + +—Ora isso é que era um grande favor! Era um +bem que fazia áquella alma! Porque se a rapariga +me entrega a direcção da sua alma, +então podemos +<span class="pagenum">[292]</span> +dizer que lhe acabaram as difficuldades, e temol-a +no caminho da graça... E quando lhe vai fallar, D. +Josepha? +<br /> + +<br /> + +D. Josepha, «como julgava peccado adiar», estava +decidida a fallar-lhe essa mesma noite. +<br /> + +<br /> + +—Não me parece, D. Josepha. Hoje é noite de +pezames... O escrevente naturalmente está lá... +<br /> + +<br /> + +—Credo, senhor parocho! Pois eu e as outras +pequenas havemos de passar a noite debaixo das +mesmas telhas com o hereje? +<br /> + +<br /> + +—Tem de ser. Emfim o rapaz por ora é considerado +da familia... Além d'isso, D. Josepha, a senhora, +a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas da +maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho +da nossa virtude. Arriscamo-nos a perder-lhe todos +os fructos. E é um acto de humildade, que agrada +muito a Deus, o misturar-nos ás vezes com os maus; +é como quando um grande fidalgo tem de estar lado +a lado com um trabalhador d'enxada... É como +se dissessemos: «eu sou-te superior em virtude, +mas comparado com o que devia ser para entrar +na gloria, quem sabe se não sou tão peccador como +tu!...» E esta humilhação da alma +é a melhor +offerta que podemos fazer a Jesus. +<br /> + +<br /> + +D. Josepha escutava-o, babosa; e n'uma admiração: +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor parocho, que até dá virtude ouvil-o! +<br /> + +<br /> + +Amaro curvou-se: +<br /> + +<br /> + +—Deus ás vezes, na sua bondade, inspira-me +<span class="pagenum">[293]</span> +justas palavras... Pois minha senhora, eu não quero +massar mais. Ficamos entendidos. A senhora falla +á pequena ámanhã; e se, como +é de crêr, ella +consentir em escutar os meus conselhos, traz-m'a á +Sé no sabbado, ás oito horas. E falle-lhe +têso, D. Josepha! +<br /> + +<br /> + +—Deixe-a commigo, senhor parocho!... Então +não quer provar da minha marmelada? +<br /> + +<br /> + +—Provarei, disse Amaro tomando um ladrilho +em que cravou os dentes com dignidade. +<br /> + +<br /> + +—É dos marmelos da D. Maria. Sahiu-me melhor +que a das Gangosinhos... +<br /> + +<br /> + +—Pois adeus, D. Josepha... Ah, é verdade, que +diz o nosso conego d'este caso do escrevente? +<br /> + +<br /> + +—O mano?... +<br /> + +<br /> + +N'este momento a campainha em baixo repicou +com furor. +<br /> + +<br /> + +—Ha de ser elle, disse logo D. Josepha. E vem +zangado! +<br /> + +<br /> + +Vinha, com effeito, da fazenda—furioso com o +caseiro, o regedor, o governo e a perversidade dos +homens. Tinham-lhe roubado uma porção de +cebolinho; +e, abafado de cólera, alliviava-se repetindo +com gozo o nome do Inimigo. +<br /> + +<br /> + +—Credo, mano, que até lhe fica mal!—exclamou +D. Josepha tomada d'escrupulos. +<br /> + +<br /> + +—Ora mana, deixemos essas pieguices para a +quaresma! Digo <em>co'os diabos!</em> e +repito <em>co'os diabos</em>! +Mas eu lá disse ao caseiro, que se sentir gente na +fazenda, carregue a espingarda e faça fogo! +<span class="pagenum">[294]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ha uma falta de respeito pela propriedade... +disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Ha uma falta de respeito por tudo! exclamou +o conego. Um cebolinho que dava saude só olhar +para elle! Pois senhores, lá vai! Isto é o que eu +chamo um sacrilegio!... Um desaforado sacrilegio!—acrescentou +convictamente; porque o roubo do +seu cebolinho, o cebolinho d'um conego, parecia-lhe +um acto tão negro d'impiedade como se tivessem +sido furtados os vasos santos da Sé. +<br /> + +<br /> + +—Falta de temor a Deus, falta de religião, observou +D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +—Qual falta de religião! replicou o conego exasperado. +Falta de cabos de policia, é o que é!—E +voltando-se para Amaro:—Hoje é o enterro da velha, +hein? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá +dentro uma volta lavada e os sapatos de fivela! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro então, retomado pela sua +preoccupação: +<br /> + +<br /> + +—Estavamos cá a fallar do caso do João Eduardo: +o <em>Communicado</em>! +<br /> + +<br /> + +—Isso é outra maroteira que tal! fez logo o conego. +Vejam essa, tambem! Que quadrilha vai pelo +mundo, que quadrilha!—E ficou de braços cruzados, +com os olhos arregalados, como contemplando +uma legião de monstros, soltos pelo universo, e +arremessando-se +com impudencia contra as reputações, +os principios da Igreja, a honra das familias e o cebolinho +do clero. +<br /> + +<br /> + +Ao sahir, o padre Amaro renovou ainda as suas +<span class="pagenum">[295]</span> +recommendações a D. Josepha, que o +acompanhára +ao patamar: +<br /> + +<br /> + +—Então hoje, noite de pezames, não se faz nada. +Ámanhã falla á rapariga, e +lá para o fim da semana +leva-m'a á Sé. Bem. E convença a +rapariga, +D. Josepha, trate de salvar aquella alma! Olhe que +Deus tem os olhos em si. Falle-lhe têso, falle-lhe +têso!... E o nosso conego que se entenda com a S. +Joanneira. +<br /> + +<br /> + +—Póde ir descansado, senhor parocho. Sou madrinha, +e, quer ella queira quer não, hei de pôl-a +no caminho da salvação... +<br /> + +<br /> + +—Amen, disse o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +N'essa noite, com effeito, D. Josepha «não fez +nada». Eram os pezames na rua da Misericordia. +Estavam em baixo, na saleta, alumiada lugubremente +por uma só vela com um +<em>abat-jour</em> verde-escuro. +A S. Joanneira e Amelia, de luto, occupavam tristemente +o canapé ao centro; e em redor, nas fileiras +de cadeiras apoiadas á parede, as amigas, cobertas +de negro pesado, conservavam-se funebremente immoveis, +de faces contristadas, n'um torpôr mudo: +ás vezes duas vozes ciciavam, ou d'um canto, na +sombra, sahia um suspiro: depois o Libaninho, ou +Arthur Couceiro, ia em bicos de pés espevitar o +murrão da véla: a snr.<sup>a</sup> D. +Maria da +Assumpção expectorava +o seu catarrho com um som choroso: e +no silencio ouviam tamancos bater o lagedo da rua, +ou os quartos d'hora no relogio da Misericordia. +<br /> + +<br /> + +A intervallos a <em>Ruça</em>, +toda de negro, entrava +<span class="pagenum">[296]</span> +com o taboleiro de dôces e copos de chasada; levantava-se +então o <em>abat-jour</em>; e as +velhas, que já +iam cerrando as palpebras, sentindo a sala mais clara, +levavam logo os lenços aos olhos, e, com ais, +serviam-se de bolinhos da Encarnação. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, +ao pé da Gansoso surda que dormia com a boca +aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde +o olhar d'Amelia, que não se movia, com o rosto sobre +o peito, as mãos no regaço, torcendo e +destorcendo +o seu lenço de cambraiela. O padre Amaro +e o conego Dias vieram ás nove horas: o parocho +com passos graves foi dizer á S. Joanneira: +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos, +pensando que sua excellentissima mana +está a esta hora gozando a companhia de Jesus +Christo. +<br /> + +<br /> + +Houve em redor uma murmuração de +soluços; +e como não restavam cadeiras, os dois ecclesiasticos +sentaram-se aos dois cantos do canapé, tendo no +meio a S. Joanneira e Amelia em lagrimas. Eram +assim reconhecidos pessoas de familia; a snr.<sup>a</sup> +D. Maria +da Assumpção notou baixinho a D. Joaquina +Gansoso: +<br /> + +<br /> + +—Ai, até dá gosto vêl-os assim todos +quatro! +<br /> + +<br /> + +E até ás dez horas a noite de pezames continuou +soturna e somnolenta, perturbada apenas pela +tosse constante de João Eduardo que estava constipado, +e que—na opinião da snr.<sup>a</sup> D. Josepha +Dias +que o disse a todos, depois—«tossia só para fazer +<span class="pagenum">[297]</span> +troça e para achincalhar o respeito aos mortos». +<br /> + +<br /> + +<br /> + +D'ahi a dois dias, ás oito horas da manhã, a +snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias e Amelia entraram na +Sé—depois +de terem fallado no terraço á Amparo, mulher +do boticario, que tinha uma criança com sarampo, +e, apesar de não ser coisa de cuidado, «viera +á cautela fazer uma promessa». +<br /> + +<br /> + +O dia estava ennevoado, a igreja tinha uma luz +parda. Amelia, pallida sob a sua mantilha de renda, +parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dôres, +deixou-se cahir de joelhos, e ficou immovel, com o +rosto sobre o livro de missa. A snr.<sup>a</sup> D. Josepha +Dias, com passos fôfos, depois de se ter prostrado +diante da capella do Santíssimo e do altar-mór, +foi +empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre +Amaro lá passeava, com os hombros vergados, as +mãos atraz das costas: +<br /> + +<br /> + +—Então? perguntou logo, erguendo para D. Josepha +a sua face muito barbeada, onde os olhos reluziam +inquietos. +<br /> + +<br /> + +—Está alli, disse a velha baixinho, n'uma +expressão +de triumpho. Fui eu mesmo buscal-a! Ai, +fallei-lhe têso, senhor parocho, não lh'as poupei! +Agora é comsigo! +<br /> + +<br /> + +—Obrigado, obrigado, D. Josepha! disse o padre, +apertando-lhe as mãos ambas com força. Deus +ha de lh'o levar em conta. +<span class="pagenum">[298]</span> +<br /> + +<br /> + +Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir +o lenço, a carteira dos papeis; e, cerrando devagarinho +a porta da sacristia, desceu á igreja. Amelia +ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro immovel +contra o pilar branco. +<br /> + +<br /> + +—Pst, fez-lhe D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo +tremulamente com as mãos as pregas da mantilha +em roda do pescoço. +<br /> + +<br /> + +—Aqui lh'a deixo, senhor parocho, disse a velha. +Vou á Amparo da botica, e venho depois por +ella... Ora vai, filha, vai, Deus t'alumie essa alma! +<br /> + +<br /> + +E sahiu, com mesuras a todos os altares. +<br /> + +<br /> + +O Carlos da botica—que era inquilino do conego +e um pouco ronceiro na renda—desbarretou-se +com espalhafato apenas D. Josepha appareceu á porta, +e conduziu-a logo acima, á sala de cortinas de +cassa, onde a Amparo costurava á janella. +<br /> + +<br /> + +—Ai, não se prenda, snr. Carlos, dizia-lhe a +velha. Não largue os seus afazeres. Eu deixei a afilhada +na Sé, e venho aqui descansar um bocadinho. +<br /> + +<br /> + +—Então, se me dá licença... E como +vai o nosso +conego? +<br /> + +<br /> + +—Não tornou a ter a dôr. Mas tem soffrido de +tonturas. +<br /> + +<br /> + +—Começos da primavera, disse o Carlos que +retomára +o seu ar magestoso, de pé no meio da sala, +com os dedos nas aberturas do collete. Tambem eu +me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas +sanguíneas, +soffremos sempre d'isto que se póde chamar +<span class="pagenum">[299]</span> +o renascimento da seiva... Ha uma abundancia +d'humores no sangue, que, não sendo eliminados +pelos canaes proprios, vão, por assim dizer, +abrir caminho, aqui e além, pelo corpo, sob a +fórma +de furunculo, espinha, nascida, ás vezes em logares +bem incommodos, e, ainda que em si insignificantes, +acompanhados sempre, por assim dizer, d'um cortejo... +Perdão, sinto o praticante a palrar... Se me +dá licença... Respeitos ao nosso conego. Que use +a +magnesia de James! +<br /> + +<br /> + +D. Josepha então quiz vêr a menina com o sarampo. +Mas não passou da porta do quarto, recommendando +á pequena, que arregalava uns olhos de +febre, muito abafada na roupa, «não se descuidasse +das suas oraçõesinhas de manhã e +á noite». Aconselhou +á Amparo alguns remedios, que eram milagrosos +no sarampo; mas se a promessa fôra feita com +fé, a menina podia-se considerar curada... Ai, todos +os dias dava graças a Deus de se não ter casado! +Que filhos eram só para trabalho e canceiras; e +com as quezilias que traziam e o tempo que tomavam, +eram até causa d'uma mulher se descuidar das +suas praticas e metter a alma no inferno... +<br /> + +<br /> + +—Tem razão, D. Josepha, disse a Amparo, é um +castigo... E eu com cinco! Ás vezes fazem-me tão +doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me +a chorar só commigo... +<br /> + +<br /> + +Tinham voltado para junto da janella, e gozaram +muito, espreitando o senhor administrador do concelho, +que, por traz da vidraça da +repartição, namorava +<span class="pagenum">[300]</span> +de binoculo a do Telles alfaiate.—Aí, era um +escandalo! Que nunca houvera em Leiria auctoridades +assim! O secretario geral em um desafôro com +a Novaes... Que se podia esperar de homens sem +religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josepha, +estava predestinada a parecer como Gomorrha +pelo fogo do céo?—A Amparo cosia com a cabeça +baixa, envergonhada talvez diante d'aquella +indignação +piedosa, dos desejos culpados que a roiam +de vêr o Passeio Publico e de ouvir os cantores em +S. Carlos. +<br /> + +<br /> + +Mas bem depressa a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +começou a +fallar do escrevente. A Amparo não sabia nada; e a +velha teve a satisfação de contar prolixamente, +«tim-tim +por tim-tim», a historia do +<em>Communicado</em>, o desgosto +na rua da Misericordia, e a campanha de +Natario para descobrir o <em>liberal</em>. +Alargou-se principalmente +sobre o caracter de João Eduardo, a sua +impiedade, as suas orgias... E, considerando um +dever de christã aniquilar o atheu, deu mesmo a +entender que alguns roubos, ultimamente commettidos +em Leiria, eram «obra de João Eduardo». +<br /> + +<br /> + +A Amparo declarou-se «banzada». O casamento +então, com a Ameliasinha... +<br /> + +<br /> + +—Isso pertence á historia, declarou com jubilo +D. Josepha Dias. Vão pôl-o fóra de +casa! E por muito +feliz se deve o homem dar em não ir parar ao +banco dos réos... Que a mim o deve, e á prudencia +do mano e do senhor padre Amaro. Que havia motivos +para o ferrar na cadeia! +<span class="pagenum">[301]</span><br /> + +<br /> + +—Mas a pequena gostava d'elle, ao que parece. +<br /> + +<br /> + +D. Josepha indignou-se. Credo, a Amelia era uma +rapariga de juízo, de muita virtude! Apenas conheceu +os desafôros, foi a primeira a dizer que não, e +que não! Ai! detestava-o...—E D. Josepha, baixando +a voz em confidencia, contou «que era positivo +que elle vivia com uma desgraçada para os lados +do quartel». +<br /> + +<br /> + +—Disse-m'o o senhor padre Natario, affirmou. E +aquillo é homem que da sua boca nunca sae senão +a verdade pura... Foi muito delicado commigo, +devo-lhe esse favor. Apenas soube, veio-m'o logo +dizer a casa, pedir-me conselhos... Emfim, muito +attencioso. +<br /> + +<br /> + +Mas o Carlos appareceu de novo. Tinha a botica +desembaraçada um momento (que não o tinham +deixado +respirar toda a manhã!) e vinha fazer companhia +ás senhoras. +<br /> + +<br /> + +—Então já sabe, snr. Carlos, exclamou logo D. +Josepha, o caso do <em>Communicado</em> e do +João Eduardo? +<br /> + +<br /> + +O pharmaceutico arregalou os seus olhos redondos. +Que relação havia entre um artigo tão +indigno +e esse mancebo que lhe parecia honesto? +<br /> + +<br /> + +—Honesto!? ganiu a snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias. Foi +elle que o escreveu, snr. Carlos! +<br /> + +<br /> + +E vendo o Carlos morder o beiço de surpreza, +D. Josepha, enthusiasmada, repetiu a historia da +«maroteira». +<br /> + +<br /> + +—Que lhe parece, snr. Carlos, que lhe parece? +<span class="pagenum">[302]</span><br /> + +<br /> + +O pharmaceutico deu a sua opinião, n'uma voz +vagarosa, sobrecarregada da auctoridade d'um vasto +entendimento: +<br /> + +<br /> + +—N'esse caso digo, e todas as pessoas de bem +o dirão commigo, é uma vergonha para Leiria. Eu +já tinha observado, quando li o +<em>Communicado</em>: a religião +é a base da sociedade, e minal-a é, por assim +dizer, querer aluir o edificio... É uma desgraça +que haja na cidade d'esses sectarios do materialismo +e da republica, que, como é sabido, querem +destruir tudo o que existe: proclamam que os homens +e as mulheres se devem unir com a promiscuidade +de cães e cadellas... (Desculpem exprimir-me +assim, mas a sciencia é a sciencia). Querem ter +o direito de entrar em minha casa, levar-me as pratas +e o suor do meu rosto; não admittem que haja +auctoridades, e se os deixassem seriam capazes de +cuspir na sagrada hostia... +<br /> + +<br /> + +D. Josepha encolheu-se com um gritinho, muito +arripiada. +<br /> + +<br /> + +—E ousa esta seita fallar em liberdade! Eu tambem +sou liberal... Que, francamente o digo, eu não +sou fanatico... Nem pelo facto d'um homem pertencer +ao sacerdocio, o julgo um santo, não... Por +exemplo, sempre embirrei com o parocho Migueis... +Era uma giboia! Desculpe-me a senhora, mas era +uma giboia. Disse-lh'o na cara, porque a lei das rolhas +já lá vai... Derramamos o nosso sangue nas +trincheiras do Porto, justamente para não haver lei +das rolhas... Disse-lh'o na cara: «v. s.<sup>a</sup> +é uma +giboia!» +<span class="pagenum">[303]</span> +Mas, emfim, quando um homem veste uma +batina deve ser respeitado... E o +<em>Communicado</em>, repito, +é um vergonha para Leiria... E tambem lhe +digo, com esses atheus, esses republicanos, não deve +haver consideração!... Eu sou homem pacifico, +aqui a Amparosinho conhece-me bem; pois se eu tivesse +d'aviar uma receita para um republicano declarado, +não tinha duvida, em logar de lhe dar uma +d'essas composições beneficas que são +o orgulho de +nossa sciencia, de lhe mandar uma dóse d'acido +prussico... Não, não direi que lhe mandasse acido +prussico... mas se estivesse no banco dos jurados +havia de lhe fazer cahir em cima todo o peso da lei! +<br /> + +<br /> + +E balançou-se um momento sobre a ponta das +chinelas, lançando um grande gesto em redor, como +se esperasse os applausos d'um conselho de districto +ou d'uma municipalidade em sessão. +<br /> + +<br /> + +Mas na Sé bateram então devagar as onze; e D. +Josepha embrulhou-se á pressa no seu mantelete para +ir buscar a pequena, coitada, que havia d'estar +farta d'esperar. +<br /> + +<br /> + +O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe +(como um mimo que remettia ao seu senhorio): +<br /> + +<br /> + +—Repita ao nosso conego quaes são as minhas +opiniões... Que n'essa questão do +<em>Communicado</em> e +d'ataques ao clero, estou d'alma e coração com +suas +senhorias... Criado seu, minha senhora... O tempo +vai-se a embrulhar. +<br /> + +<br /> + +Quando D. Josepha entrou na igreja, Amelia estava +<span class="pagenum">[304]</span> +ainda no confessionario. A velha tossiu alto, +ajoelhou, e, com as mãos sobre a face, abysmou-se +n'uma devoção á Senhora do Rosario. A +igreja ficou +n'uma immobilidade e n'um silencio. Depois D. Josepha, +voltando-se para o confessionario, espreitou por +entre os dedos; Amelia conservava-se immovel, com +a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido +negro espalhada em redor; e D. Josepha recahiu +na sua reza. Uma chuva fina fustigava agora os +vidros d'uma janella ao lado. Emfim houve no confessionario +um rangido da madeira, um frou-frou de +vestidos nas lages,—e D. Josepha, voltando-se, viu +de pé diante d'ella Amelia com a face escarlate e o +olhar reluzindo muito. +<br /> + +<br /> + +—Está ha muito tempo á espera, madrinha! +<br /> + +<br /> + +—Um bocadinho. Estás promptinha, hein? +<br /> + +<br /> + +Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras sahiram +da Sé. Ainda cahia uma chuva fina; mas o +snr. Arthur Couceiro, que passava no largo com officios +para o governo civil, foi leval-as á rua da Misericordia +debaixo do seu guardachuva. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, á noitinha, ia sahir de casa para +a rua da Misericordia, levando debaixo do braço um +rolo de amostras de papel de parede para Amelia +escolher, quando á porta encontrou a +<em>Ruça</em> que ia +puxar a campainha. +<br /> + +<br /> + +—Que é, <em>Ruça</em>? +<br /> + +<br /> + +—As senhoras foram passar a noite fóra de casa, +e aqui está esta carta que manda a menina. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo sentiu apertar-se-lhe o +coração, e +seguia com o olhar pasmado a +<em>Ruça</em>, que descia a +rua, batendo os tamancos. Foi ao pé do candieiro, +defronte, abriu a carta: +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">«Snr. João +Eduardo. +</div> + +<br /> + +<br /> + +«O que estava decidido a respeito do nosso casamento +era na persuasão que era v. s.<sup>a</sup> uma +pessoa +<span class="pagenum">[306]</span> +de bem e que me poderia fazer feliz; mas como +se sabe tudo, e que foi o senhor que escreveu +o artigo do <em>Districto</em>, e calumniou +os amigos da casa +e me insultou a mim, e como os seus costumes +não me dão garantia de felicidade na vida de +casada, +deve desde hoje considerar tudo acabado entre +nós, pois não ha banhos publicados nem despezas +feitas. E eu espero, bem como a mamã, que o senhor +seja bastante delicado para não nos voltar a +casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe +communico por ordem da mamã, e sou +<br /> + +<br /> + +<div class="signature"> +«criada de v. s.<sup>a</sup> +<br /> + +<br /> + +«<em>Amelia +Caminha</em>». +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +João Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede +defronte onde batia a claridade do candieiro, +immovel como uma pedra, com o seu rolo de papeis +pintados debaixo do braço. Machinalmente voltou a +casa. As mãos tremiam-lhe tanto, que mal podia +accender o candieiro. De pé, junto da mesa, releu +a carta. Depois ficou alli, fatigando a vista contra a +chamma da torcida, com uma sensação arrefecedora +de Immobilidade e de Silencio, como se subitamente, +sem choque, toda a vida universal tivesse emmudecido +e parado. Pensou onde teriam <em>ellas</em> +ido passar +a noite. Lembranças de serões felizes na rua da +Misericordia atravessaram-lhe devagar na memoria: +Amelia trabalhava, com a cabeça baixa, e entre o +<span class="pagenum">[307]</span> +cabello muito preto e o collar muito branco o seu +pescoço tinha uma pallidez que a luz amaciava... +Então a idéa de que a perdera para sempre +varou-lhe +o coração com um frio de punhalada. Apertou +as fontes entre as mãos, tonto. Que havia de fazer? +que havia de fazer? Resoluções bruscas +relampejavam-lhe +um momento no espirito, esvaiam-se. Queria +escrever-lhe! tiral-a por justiça! ir para o Brazil! +saber quem descobrira que elle era o auctor do +artigo!—E como isto era o mais practicavel áquella +hora, correu á redacção da +<em>Voz do Districto</em>. +<br /> + +<br /> + +Agostinho, estirado no canapé, com a véla ao +pé +sobre uma cadeira, saboreava os jornaes de Lisboa. +A face decomposta de João Eduardo assustou-o. +<br /> + +<br /> + +—Que é? +<br /> + +<br /> + +—É que me perdeste, maroto! +<br /> + +<br /> + +E d'um só fôlego accusou furiosamente o corcunda +de o ter trahido. +<br /> + +<br /> + +Agostinho erguera-se devagar, procurando imperturbavel +a bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta. +<br /> + +<br /> + +—Homem, disse, nada d'espalhafatos... Eu dou-te +a minha palavra d'honra que não disse a ninguem +do <em>Communicado</em>. É verdade +que ninguem +me perguntou... +<br /> + +<br /> + +—Mas quem foi, então? gritou o escrevente. +<br /> + +<br /> + +Agostinho enterrou a cabeça nos hombros. +<br /> + +<br /> + +—Eu o que sei é que os padres andavam n'uma +azafama para saber quem era. O Natario esteve ahi +uma manhã, por causa do annuncio de uma viuva +que recorre á caridade publica, mas do +<em>Communicado</em> +<span class="pagenum">[308]</span> +não se disse nem palavra... O doutor Godinho +é que sabia, entende-te com elle! Mas então +fizeram-te +alguma? +<br /> + +<br /> + +—Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente. +<br /> + +<br /> + +Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, +e sahiu arremessando a porta. Passeou na Praça; +foi ao acaso pelas ruas; depois, attrahido pela obscuridade, +á estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma +intoleravel palpitação surda latejar-lhe +interiormente +contra as fontes; apesar de ventar forte nos campos, +parecia-lhe seguir n'um silencio universal; por +vezes a idéa da sua desgraça rasgava-lhe +subitamente +o coração, e então imaginava +vêr toda a paizagem +oscillar e o chão da estrada afigurava-se-lhe +molle como um lamaçal. Voltou pela Sé quando +batiam +onze horas; e achou-se na rua da Misericordia, +com o olhar cravado para a janella da sala de jantar, +onde havia ainda luz; a vidraça do quarto +d'Amelia alumiou-se tambem; ella ia deitar-se, decerto... +Veio-lhe um desejo furioso da sua belleza, +do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para casa: +uma fadiga intoleravel prostrou-o sobre a cama; depois +uma saudade indefinida, profunda, foi-o amollecendo, +e chorou muito tempo, enternecendo-se mais +com o som dos seus proprios soluços,—até que +ficou +adormecido, de bruços, n'uma massa inerte. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, cedo, Amelia vinha da rua da Misericordia +<span class="pagenum">[309]</span> +para a Praça, quando ao pé do Arco +João +Eduardo lhe sahiu d'emboscada. +<br /> + +<br /> + +—Quero-lhe fallar, menina Amelia. +<br /> + +<br /> + +Ella recuou assustada, disse a tremer: +<br /> + +<br /> + +—Não tem que me fallar... +<br /> + +<br /> + +Mas elle plantára-se diante d'ella, muito decidido, +com os olhos vermelhos como carvões: +<br /> + +<br /> + +—Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, +fui eu que o escrevi, foi uma desgraça; mas a menina +tinha-me ralado de ciumes... Mas o que a menina +diz de maus costumes é uma calumnia. Eu +sempre fui um homem de bem... +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Amaro é que o conhece! Faz +favor de me deixar passar... +<br /> + +<br /> + +Ao nome do parocho, João Eduardo fez-se livido +de raiva: +<br /> + +<br /> + +—Ah! é o senhor padre Amaro! É o maroto do +padre! Pois veremos! Ouça... +<br /> + +<br /> + +—Faz favor de me deixar passar! disse ella irritada, +tão alto, que um sujeito gordo de chale-manta +parou olhando. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo recuou, tirando o chapéo; e ella, +immediatamente, refugiou-se na loja do Fernandes. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Então, n'um desespero, correu a casa do doutor +Godinho. Já na vespera, por entre os seus-accessos +de chôro, sentindo-se tão abandonado, se +lembrára +do doutor Godinho. Fôra outr'ora seu escrevente; e +<span class="pagenum">[310]</span> +como por pedido d'elle entrára no cartorio do Nunes +Ferral, e por sua influencia ia ser accommodado +no governo civil, julgava-o uma Providencia prodiga +e inesgotavel! Demais, desde que escrevera o +<em>Communicado</em> considerava-se da +redacção da <em>Voz do +Districto</em>, do grupo da Maia; agora, que era atacado +pelos padres, devia claramente ir acolher-se á forte +protecção do seu chefe, do doutor Godinho, do +inimigo +da reacção, o «Cavour de +Leiria», como dizia, +arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, auctor +dos <em>Ferrões</em>.—E +João Eduardo, dirigindo-se ao casarão +amarello, ao pé do Terreiro onde o doutor vivia, +ia n'um alvoroço d'esperanças, contente com se +refugiar, como um cão escorraçado, entre as +pernas +d'aquelle colosso. +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho descera já ao escriptorio, e repoltreado +na sua poltrona abbacial de prégos amarellos, +com os olhos no tecto de carvalho escuro, +acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu +com magestade os «bons dias» de João +Eduardo. +<br /> + +<br /> + +—Então que temos, amigo? +<br /> + +<br /> + +As altas estantes d'in-folios graves, as resmas +d'autos, o apparatoso painel representando o marquez +de Pombal, de pé n'um terraço sobre o Tejo, +expulsando +com o dedo a esquadra ingleza—acanharam +como sempre João Eduardo; e foi com voz +embaraçada +que disse vinha alli para que sua excellencia +lhe désse remedio n'uma desgraça que lhe +succedia. +<br /> + +<br /> + +—Desordens, bordoada? +<br /> + +<br /> + +—Não, senhor, negocios de familia. +<span class="pagenum">[311]</span><br /> + +<br /> + +Contou então, prolixamente, a sua historia desde +a publicação do +<em>Communicado</em>: leu muito commovido, +a carta d'Amelia; descreveu a scena ao pé do +Arco... Alli estava agora, escorraçado da rua da +Misericordia +por obras do senhor parocho! E parecia-lhe +a elle, apesar de não ser formado em Coimbra, +que contra um padre que se introduzia n'uma familia, +desinquietava uma menina simples, a levava por +intrigas a romper com o noivo e ficava de portas a +dentro senhor d'ella—devia haver leis! +<br /> + +<br /> + +—Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver +leis! +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho parecia contrariado. +<br /> + +<br /> + +—Leis!? exclamou traçando vivamente a perna. +Que leis quer vossê que haja? Quer querelar do parocho?... +Porque? Elle bateu-lhe? roubou-lhe o relogio? +insultou-o pela imprensa? Não. Então?... +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor doutor! mas intrigou-me com as +senhoras! Eu nunca fui homem de maus costumes, +senhor doutor! Calumniou-me! +<br /> + +<br /> + +—Tem testemunhas? +<br /> + +<br /> + +—Não, senhor. +<br /> + +<br /> + +—Então? +<br /> + +<br /> + +E o doutor Godinho, assentando os cotovêlos sobre +a banca, declarou que como advogado não tinha +nada a fazer. Os tribunaes não tomavam conhecimento +d'essas questões, d'esses dramas moraes por +assim dizer, que se passavam nas alcovas domesticas... +Como homem, como particular, como Alipio +de Vasconcellos Godinho tambem não podia intervir +<span class="pagenum">[312]</span> +porque não conhecia o senhor padre Amaro, nem +essas senhoras da rua da Misericordia... Lamentava +o facto, porque emfim fôra novo, sentira a poesia +da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o +que eram esses transes do coração... E ahi +está tudo +o que elle podia fazer—lamentar! Tambem para +que tinha elle dado a sua affeição a uma +beata?... +<br /> + +<br /> + +João Eduardo interrompeu-o: +<br /> + +<br /> + +—A culpa não é d'ella, senhor doutor! A culpa +é do padre que a anda a desencaminhar! A culpa +é d'essa canalha do cabido! +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho estendeu com severidade a +mão, e aconselhou o snr. João Eduardo que tivesse +cuidado com semelhantes asserções! Nada provava +que o senhor parocho possuisse n'essa casa outra influencia +que não fosse a d'um habil director espiritual... +E recommendava ao snr. João Eduardo, com +a auctoridade que lhe davam os annos e a sua +posição +no paiz, que não fosse espalhar, por despeito, +accusações que só serviam para +destruir o prestigio +do sacerdocio, indispensavel n'uma sociedade bem +constituida!—Sem elle, tudo seria anarchia e orgia! +<br /> + +<br /> + +E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava +n'essa manhã com «o dom da palavra». +<br /> + +<br /> + +Mas a face consternada do escrevente, que não +se movia, de pé junto á banca, impacientava-o; e +disse com seccura, puxando para diante de si um +volume d'autos: +<br /> + +<br /> + +—Emfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, +eu não lhe posso dar remedio. +<span class="pagenum">[313]</span> +<br /> + +<br /> + +João Eduardo replicou, com um movimento de +coragem desesperada: +<br /> + +<br /> + +—Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer +alguma coisa por mim... Porque emfim eu fui uma +victima... Tudo isto vem de se saber que eu escrevi +o <em>Communicado</em>. E tinha-se combinado +que havia +de ser segredo. O Agostinho não o disse, só o +senhor doutor o sabia... +<br /> + +<br /> + +O doutor pulou de indignação na sua cadeira +abbacial: +<br /> + +<br /> + +—Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a +entender que fui eu que o disse? Não disse... Isto +é, disse; disse-o a minha mulher, porque n'uma +familia bem constituida não deve haver segredos +entre esposo e esposa. Ella perguntou-me, disse-lh'o... +Mas supponhamos que fui eu que o espalhei +pelas ruas. De duas uma: ou o +<em>Communicado</em> era +uma calumnia, e então sou eu que devo accusal-o +de ter polluido um jornal honrado com um acervo +de diffamaçães; ou era verdade, e +então que +homem é o senhor que se envergonha das verdades +que solta, e que não se atreve a manter á +luz do dia as opiniões que redigiu na escuridão +da +noite? +<br /> + +<br /> + +Duas lagrimas ennevoaram os olhos de João +Eduardo. Então, diante d'aquella expressão +esmorecida, +satisfeito de o ter esmagado com uma argumentação +tão logica e tão poderosa, o doutor Godinho +abrandou: +<br /> + +<br /> + +—Bem, não nos zanguemos, disse. Não se falla +<span class="pagenum">[314]</span> +mais era pontos d'honra... O que póde acreditar é +que lamento o seu desgosto. +<br /> + +<br /> + +Deu-lhe conselhos de uma solicitude paternal. +Que não succumbisse; havia mais meninas em Leiria +e meninas de bons principios que não viviam +sob a direcção da sotaina. Que fosse forte, e que +se consolasse pensando que elle, doutor Godinho—e +era elle!—tambem tivera em moço desgostos +do coração. Que evitasse o dominio das +paixões +que lhe seria prejudicial na carreira publica. E +que se o não fizesse por seu interesse proprio, o +fizesse ao menos em attenção a elle, doutor +Godinho! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo sahiu do escriptorio, indignado, +julgando-se «trahido» pelo doutor. +<br /> + +<br /> + +—Isto succede-me a mim, resmungava, porque +sou um pobre diabo, não dou votos nas +eleições, +não vou ás +<em>soirées</em> do Novaes, +não subscrevo para +o club. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de +contos de reis!... +<br /> + +<br /> + +Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar +dos padres, dos ricos, e da religião que os justifica. +Voltou muito decidido ao escriptorio, e entreabrindo +a porta: +<br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia ao menos agora dá licença +que eu desabafe no jornal?... Queria contar esta +maroteira, cascar n'essa canalha... +<br /> + +<br /> + +Esta audacia do escrevente indignou o doutor. +Endireitou-se com severidade na poltrona, e cruzando +terrivelmente os braços: +<span class="pagenum">[315]</span> +<br /> + +<br /> + +—O snr. João Eduardo está realmente a abusar! +Pois o senhor vem-me pedir que transforme +um jornal d'idéas n'um jornal de +diffamações!? Vá, +não se prenda! Peça-me que insulte os principios +da +religião, que achincalhe o Redemptor, que repita as +babuseiras de Renan, que ataque as leis fundamentaes +do Estado, que injurie o rei, que vitupere a +instituição da familia! O senhor está +ebrio! +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor doutor! +<br /> + +<br /> + +—O senhor está ebrio! Cuidado, meu caro amigo, +cuidado, olhe que vai por um declive! É por +esse caminho que se chega a perder o respeito da +auctoridade, da lei, das coisas santas e do lar. É por +esse caminho que se vai ao crime! Escusa d'arregalar +os olhos... Ao crime, digo-lh'o eu! Tenho a +experiencia de vinte annos de fôro. Homem, detenha-se! +refreie essas paixões! Safa! Que idade tem +o senhor? +<br /> + +<br /> + +—Vinte e seis annos. +<br /> + +<br /> + +—Pois não ha desculpa para um homem de vinte +e seis annos ter essas idéas subversivas. Adeus, +feche a porta. E escute: escusa de pensar em mandar +outro <em>Communicado</em> para outro +qualquer jornal. +Não lh'o consinto, eu que o tenho protegido +sempre! Havia de querer fazer espalhafato... Escusa +de negar, estou-lh'o a lêr nos olhos. Pois não +lh'o consinto! É para seu bem, para lhe poupar uma +má acção social! +<br /> + +<br /> + +Tomou uma grande attitude na poltrona, repetiu +com força: +<span class="pagenum">[316]</span> +<br /> + +<br /> + +—Uma pessima acção social! Aonde nos querem +os senhores levar com os seus materialismos, +os seus atheismos?! Quando tiverem dado cabo da +religião de nossos paes, que têm os senhores para +a substituir?! Que têm?! Mostre lá! +<br /> + +<br /> + +A expressão embaraçada de João Eduardo +(que +não tinha alli, para a mostrar, uma religião que +substituisse +a de nossos paes) fez triumphar o doutor. +<br /> + +<br /> + +—Não têm nada! Têm lama, quando muito +têm +palavriado! Mas emquanto eu fôr vivo, pelo menos +em Leiria, ha de ser respeitada a Fé e o principio +da Ordem! Podem pôr a Europa a fogo e sangue, +em Leiria não hão de erguer cabeça. Em +Leiria +estou eu álerta, e juro que lhes hei de ser funesto! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo recebia d'hombros vergados estas +ameaças, sem as comprehender. Como podia o seu +<em>Communicado</em> e as intrigas da rua da +Misericordia +produzirem assim catastrophes sociaes e +revoluções +religiosas! Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder +decerto a amizade do doutor, o emprego no governo +civil... Quiz abrandal-o: +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor doutor, mas vossa excellencia bem +vê... +<br /> + +<br /> + +O doutor interrompeu-o com um grande gesto: +<br /> + +<br /> + +—Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixões, +a vingança o vão levando por um caminho fatal... +O que espero é que os meus conselhos o detenham. +Bem, adeus. Feche a porta. Feche a porta, +homem! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo sahiu acabrunhado. Que havia de +<span class="pagenum">[317]</span> +fazer agora? O doutor Godinho, aquelle colosso, repellia-o +com palavras tremendas! E que podia elle, +pobre escrevente de cartorio, contra o padre Amaro +que tinha por si o clero, o chantre, o cabido, os bispos, +o Papa, classe solidaria e compacta que lhe apparecia +como uma medonha cidadella de bronze erguendo-se +até ao céo?! Eram elles que tinham causado +a resolução d'Amelia, a sua carta, a dureza das +suas palavras. Era uma intriga de parochos, conegos +e beatas. Se elle pudesse arrancal-a áquella influencia, +ella tornaria a ser bem depressa a sua Ameliasinha +que lhe bordava chinelas, e que vinha toda +córada vêl-o passar á janella! As +suspeitas que outr'ora +tivera tinham-se desvanecido n'aquelles serões +felizes, depois de decidido o casamento, quando ella, +costurando junto do candieiro, fallava da mobilia +que havia de comprar e dos arranjos da sua casinha. +Ella amava-o, decerto... Mas quê! tinham-lhe +dito que elle era o auctor do +<em>Communicado</em>, que era +hereje, que tinha costumes devassos; o parocho, na +sua voz pedante, ameaçára-a com o inferno; o +conego, +furioso, e todo poderoso na rua da Misericordia +porque dava para a panella, fallára têso—e a +pobre +menina, assustada, dominada, com aquelle bando +tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe +ao ouvido, coitada, cedera! Estava talvez persuadida, +de boa fé, que elle era uma fera! E áquella +hora, emquanto elle alli andava pelas ruas, escorraçado +e desgraçado, o padre Amaro, na saleta +da rua da Misericordia, enterrado na poltrona, senhor +<span class="pagenum">[318]</span> +da casa e senhor da rapariga, de perna traçada, palrava +d'alto! Canalha! E não haver leis que o vingassem! +e não poder sequer «fazer escandalo», +agora +que a <em>Voz do Districto</em> se lhe +tornava inaccessivel! +<br /> + +<br /> + +Vinham-lhe então desejos furiosos de demolir o +parocho aos murros, com a força do padre Brito. +Mas o que o satisfaria mais seriam artigos tremendos +n'um jornal que revelassem as intrigas da rua +da Misericordia, amotinassem a opinião, cahissem sobre +o padre como catastrophes, o forçassem a elle, +ao conego e aos outros a desapparecerem corridos +da casa da S. Joanneira! Ah! estava certo que a +Ameliasinha, livre d'aquelles galfarros, correria logo +aos seus braços, com lagrimas de +reconciliação... +<br /> + +<br /> + +Procurava assim á força convencer-se que +«a +culpa não era d'ella»; recordava os mezes de +felicidade +antes da chegada do parocho; arranjava +explicações +naturaes para aquellas maneirinhas ternas +que ella outr'ora tinha para o padre Amaro, e que +lhe tinham dado ciumes desesperados:—era o desejo, +coitada, de ser agradavel ao hospede, ao amigo +do senhor conego, de o reter para vantagem da +mãi e da casa! E além d'isso, como ella andava +contente depois de resolvido o casamento! A sua +indignação +contra o <em>Communicado</em>, estava certo, +não +era natural d'ella—vinha-lhe soprada pelo parocho +e pelas beatas. E achava uma consolação n'esta +idéa +que não era repellido como namorado, como marido—mas +que era uma victima das intrigas do torpe +padre Amaro, que lhe desejava a noiva e que o +<span class="pagenum">[319]</span> +odiava como liberal! Isto accumulava-lhe na alma +um rancor desordenado contra o padre; descendo +a rua procurava anciosamente uma vingança, atirando +a imaginação aqui e além—mas +vinha-lhe +sempre a mesma idéa, o artigo de jornal, a verrina, +a imprensa! A certeza da sua fraqueza desprotegida +revoltava-o. Ah, se tivesse por si um +«figurão»! +<br /> + +<br /> + +Um homem do campo, amarello como uma cidra, +que ia caminhando devagar, com o braço ao +peito, deteve-o a perguntar-lhe onde morava o doutor +Gouvêa. +<br /> + +<br /> + +—Na primeira rua, á esquerda, o portão verde +ao pé do lampeão, disse João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +E uma esperança immensa alumiou-lhe bruscamente +a alma: o doutor Gouvêa é que o podia salvar! +O doutor era seu amigo: tratava-o por +<em>tu</em> desde +que o curára havia tres annos da pneumonia; +approvava muito o seu casamento com Amelia; havia +ainda semanas perguntára-lhe ao pé da +Praça:—«Então, +quando se faz essa rapariga feliz?» E que +respeitado, que temido na rua da Misericordia! Era +medico de todas as amigas da casa que, apesar de +se escandalisarem com a sua irreligião, dependiam +humildemente da sua sciencia para os achaques, os +flatos, os xaropes. Além d'isso, o doutor Gouvêa, +inimigo +decidido da «padraria», decerto se ia indignar +com aquella intriga beata: e João Eduardo +via-se já entrando na rua da Misericordia atraz do +doutor Gouvêa, que reprehendia a S. Joanneira, arrasava +<span class="pagenum">[320]</span> +o padre Amaro, convencia as velhas,—e a +sua felicidade recomeçava, inabalavel agora! +<br /> + +<br /> + +—O senhor doutor está? perguntou elle quasi +alegre, á criada que no pateo estendia a roupa ao +sol. +<br /> + +<br /> + +—Está na consulta, snr. Joãosinho, +faça favor +d'entrar. +<br /> + +<br /> + +Em dias de mercado os doentes do campo affluiam +sempre. Mas áquella hora—quando os visinhos das +freguezias se reunem nas tabernas—havia só um +velho, uma mulher com uma criança ao collo e o +homem do braço ao peito, esperando n'uma saleta +baixa com bancos, dois manjaricões na janella e uma +grande gravura da Coroação da Rainha Victoria. +Apesar +do sol claro que entrava do pateo, e de uma +fresca folhagem de tilia que roçava o peitoril da janella, +a saleta dava tristeza, como se as paredes, os +bancos, os mesmos manjaricões estivessem saturados +da melancolia das doenças que alli tinham passado. +João Eduardo entrou e sentou-se a um canto. +<br /> + +<br /> + +Tinha batido meio dia, e a mulher estava-se queixando +de ter esperado tanto: era de uma freguezia +distante, deixára no mercado a irmã, e havia uma +hora que o senhor doutor estava com duas senhoras! +A cada momento a criança rabujava, ella sacudia-a +nos braços: calavam-se depois: o velho arregaçava +a calça, contemplava com satisfação +uma +chaga na canella envolta em trapos: e o outro homem +dava bocejos desconsolados que tornavam mais +lugubre a sua longa face amarella. Aquella demora +<span class="pagenum">[321]</span> +enervava, amollecia o escrevente; sentia perder gradualmente +o animo de occupar o doutor Gouvêa; +preparava laboriosamente a sua historia, mas ella +parecia-lhe agora bem insufficiente para o interessar. +Vinha-lhe então um desalento, que as faces insipidas +dos doentes tornavam ainda mais intenso. +Positivamente era uma coisa bem triste esta vida, +cheia só de miserias, de sentimentos trahidos, de +afflicções, de doenças! Erguia-se; e +com as mãos +atraz das costas ia olhar desconsoladamente a +Coroação +da Rainha Victoria. +<br /> + +<br /> + +De vez em quando a mulher entreabria a porta, +a espreitar se as duas senhoras ainda lá estariam. +Lá estavam; e através do batente de baeta verde, +que fechava o gabinete do doutor, sentia-se as suas +vozes pachorrentas palrarem. +<br /> + +<br /> + +—Em cahindo aqui é dia perdido! rosnava o +velho. +<br /> + +<br /> + +Tambem elle deixára a cavalgadura á porta do +Fumaça, e a rapariga na praça... E o que teria a +esperar na botica, depois! Com tres legoas ainda a +fazer para voltar á freguezia!... Ser doente é +bom, +mas para quem é rico e tem vagares! +<br /> + +<br /> + +A idéa da doença, da solidão que ella +traz, faziam +agora parecer a João Eduardo mais amarga a +perda de Amelia. Se adoecesse teria de ir para o +hospital. O malvado do padre tirára-lhe tudo—mulher, +felicidade, confortos de familia, dôces companhias +da vida! +<br /> + +<br /> + +Emfim sentiram no corredor as duas senhoras +<span class="pagenum">[322]</span> +que sahiam. A mulher com a criança apanhou o +seu cabaz, precipitou-se. E o velho, apoderando-se +logo do banco junto da porta, disse com +satisfação: +<br /> + +<br /> + +—Agora cá o patrão! +<br /> + +<br /> + +—Vossemecê tem muito que consultar? perguntou-lhe +João Eduardo. +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, é só receber a receita. +<br /> + +<br /> + +E immediatamente contou a historia da sua chaga: +fôra uma trave que lhe cahira em cima; não fizera +caso; depois a ferida assanhára-se; e agora alli +estava, manco e cortidinho de dôres. +<br /> + +<br /> + +—E vossa senhoria, é coisa de cuidado? perguntou +elle. +<br /> + +<br /> + +—Eu não estou doente, disse o escrevente. São +negocios com o senhor doutor. +<br /> + +<br /> + +Os dois homens olharam-n'o com inveja. +<br /> + +<br /> + +Emfim foi a vez do velho, depois a do homem +amarello de braço ao peito. João Eduardo, +só, passeava +nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito +difficil ir assim, sem ceremonia, pedir protecção +ao +doutor. Com que direito?... Lembrou-se de se queixar +primeiro de dôres do peito ou desarranjos de +estomago, e depois, incidentalmente, contar os seus +infortunios... +<br /> + +<br /> + +Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante +d'elle, com a sua longa barba grisalha que lhe cahia +sobre a quinzena de velludo preto, o largo chapéo +desabado na cabeça, calçando as luvas de fio +d'Escocia. +<span class="pagenum">[323]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ólá! és tu, rapaz! Ha novidade na +rua da Misericordia? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo córou. +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, senhor doutor, queria-lhe fallar +em particular. +<br /> + +<br /> + +Seguiu-o ao gabinete—o conhecido gabinete do +doutor Gouvêa, que com o seu cahos de livros, o +seu tom poeirento, uma panoplia de flechas selvagens +e duas cegonhas empalhadas, tinha na cidade +a reputação d'uma «cella +d'alchimista». +<br /> + +<br /> + +O doutor puxou o seu +<em>cebolão</em>. +<br /> + +<br /> + +—Um quarto para as duas. Sê breve. +<br /> + +<br /> + +A face do escrevente exprimiu o embaraço de +condensar uma narração tão complicada. +<br /> + +<br /> + +—Está bom, disse o doutor, explica-te como puderes. +Não ha nada mais difficil que ser claro e breve; +é necessario ter genio. Que é? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo então tartamudeou a sua historia, +insistindo sobretudo na perfidia do padre, exagerando +a innocencia de Amelia... +<br /> + +<br /> + +O doutor escutava-o, cofiando a barba. +<br /> + +<br /> + +—Vejo o que é. Tu e o padre, disse elle, quereis +ambos a rapariga. Como elle é o mais esperto +e o mais decidido, apanhou-a elle. É lei natural: o +mais forte despoja, elimina o mais fraco; a femea e +a prêsa pertencem-lhe. +<br /> + +<br /> + +Aquillo pareceu a João Eduardo um gracejo. Disse +com a voz perturbada: +<br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia está a caçoar, senhor doutor, +mas a mim retalha-se-me o coração! +<span class="pagenum">[324]</span> +<br /> + +<br /> + +—Homem, acudiu o doutor com bondade, estou +a philosophar, não estou a caçoar... Mas emfim, +que +queres tu que eu te faça? +<br /> + +<br /> + +Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambem, +com mais pompa! +<br /> + +<br /> + +—Eu tenho a certeza que se vossa excellencia +lhe fallasse... +<br /> + +<br /> + +O doutor sorriu: +<br /> + +<br /> + +—Eu posso receitar á rapariga <em>este ou +aquelle +xarope</em>, mas não lhe posso impôr +<em>este ou aquelle homem</em>! +Queres que lhe vá dizer: «A menina ha de +preferir aqui o snr. João Eduardo?» Queres que +vá +dizer ao padre, um maganão que eu nunca vi: «O +senhor faz favor de não seduzir esta menina?» +<br /> + +<br /> + +—Mas calumniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me +como um homem de maus costumes, um +patife... +<br /> + +<br /> + +—Não, não te calumniaram. Sob o ponto de vista +do padre e d'aquellas senhoras que jogam á noite +o quino na rua da Misericordia tu és um patife: +um christão que nos periodicos vitupera abbades, conegos, +curas, personagens tão importantes para se +communicar com Deus e para se salvar a alma, é +um patife. Não te calumniaram, amigo! +<br /> + +<br /> + +—Mas, senhor doutor... +<br /> + +<br /> + +—Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em +obediencia ás instrucções do senhor +padre fulano ou +sicrano, comporta-se como uma boa catholica. É o +que te digo. Toda a vida do bom catholico, os seus +pensamentos, as suas idéas, os seus sentimentos, as +<span class="pagenum">[325]</span> +suas palavras, o emprego dos seus dias e das suas +noites, as suas relações de familia e de +visinhança, +os pratos do seu jantar, o seu vestuario e os seus +divertimentos—tudo isto é regulado pela auctoridade +ecclesiastica (abbade, bispo ou conego), approvado +ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado +pelo <em>director da consciencia</em>. O bom +catholico, +como a tua pequena, não se pertence; não tem +razão, nem vontade, nem arbitrio, nem sentir proprio; +o seu cura pensa, quer, determina, sente por +ella. O seu unico trabalho n'este mundo, que é ao +mesmo tempo o seu unico direito e o seu unico dever, +é aceitar esta direcção; aceital-a sem +a discutir; +obedecer-lhe, dê por onde der; se ella contraria +as suas idéas, deve pensar que as suas idéas +são +falsas; se ella fere as suas affeições, deve +pensar +que as suas affeições são culpadas. +Dado isto, se o +padre disse á pequena que não devia nem casar, +nem sequer fallar comtigo, a creatura prova, obedecendo-lhe, +que é uma boa catholica, uma devota consequente, +e que segue na vida, logicamente, a regra +moral que escolheu. Aqui está, e desculpa o +sermão. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo ouvia com respeito, com espanto +estas phrases, a que a face placida, a bella barba grisalha +do doutor davam uma auctoridade maior. Parecia-lhe +agora quasi impossivel recuperar Amelia, +se ella pertencia assim tão absolutamente, alma e +sentidos, ao padre que a confessava. Mas emfim, +porque era elle considerado um marido prejudicial? +<br /> + +<br /> + +—Eu comprehenderia, disse, se fosse um homem +<span class="pagenum">[326]</span> +de maus costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me +bem; eu não faço senão trabalhar; eu +não frequento +tabernas nem troças; eu não bebo, eu +não +jógo; as minhas noites passo-as na rua da Misericordia, +ou em casa a fazer serão para o cartorio... +<br /> + +<br /> + +—Meu rapaz, tu pódes ter socialmente todas as +virtudes; mas, segundo a religião de nossos paes, +todas as virtudes que não são catholicas +são inuteis +e perniciosas. Ser trabalhador, casto, honrado, justo, +verdadeiro, são grandes virtudes; mas para os padres +e para a Igreja não contam. Se tu fôres um +modelo de bondade mas não fôres á +missa, não jejuares, +não te confessares, não te desbarretares para +o senhor cura—és simplesmente um maroto. Outros +personagens maiores que tu, cuja alma foi perfeita +e cuja regra de vida foi impeccavel, têm sido +julgados verdadeiros canalhas porque não foram +baptisados antes de ter sido perfeitos. Has de ter +ouvido fallar de Socrates, d'um outro chamado Platão, +de Catão, etc... Foram sujeitos famosos pelas +suas virtudes. Pois um certo Bossuet, que é o grande +chavão da doutrina, disse que das virtudes d'esses +homens estava cheio o inferno... Isto prova que +a moral catholica é differente da moral natural e da +moral social... Mas são coisas que tu comprehendes +mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo a +doutrina catholica, um dos grandes desavergonhados +que passeiam as ruas da cidade; e o meu visinho +Peixoto, que matou a mulher com pancadas e +que vai dando cabo pelo mesmo processo de uma +<span class="pagenum">[327]</span> +filhita de dez annos, é entre o clero um homem excellente +porque cumpre os seus deveres de devoto +e toca figle nas missas cantadas. Emfim, amigo, estas +coisas são assim. E parece que são boas, porque +ha milhares de pessoas respeitaveis que as consideram +boas, o Estado mantem-as, gasta até um dinheirão +para as manter, obriga-nos mesmo a respeital-as—e +eu, que estou aqui a fallar, pago todos +os annos um quartinho para que ellas continuem a +ser assim. Tu naturalmente pagas menos... +<br /> + +<br /> + +—Pago sete vintens, senhor doutor. +<br /> + +<br /> + +—Mas emfim vaes ás festas, ouves musica, sermão, +desforras-te dos teus sete vintens. Eu, o meu +quartinho perco-o; consolo-me apenas com a idéa +de que vai ajudar a manter o esplendor da Igreja—da +Igreja que em vida me considera um bandido, e +que para depois de morto me tem preparado um inferno +de primeira classe. Emfim, parece-me que temos +cavaqueando bastante... Que queres mais? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava +o doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que +se um homem de palavras tão sabias, de tantas +idéas, se interessasse por elle, toda a intriga seria +facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu logar +na rua da Misericordia recobrados para sempre. +<br /> + +<br /> + +—Então vossa excellencia não póde +fazer nada +por mim? disse muito desconsolado. +<br /> + +<br /> + +—Eu posso talvez curar-te d'outra pneumonia. +Tens outra pneumonia a curar? Não? Então... +<br /> + +<br /> + +João Eduardo suspirou: +<span class="pagenum">[328]</span> +<br /> + +<br /> + +—Sou uma victima, senhor doutor! +<br /> + +<br /> + +—Fazes mal. Não deve haver victimas, quando +não seja senão para impedir que haja +tyrannos—disse +o doutor, pondo o seu largo chapéo desabado. +<br /> + +<br /> + +—Porque no fim de tudo, exclamou ainda João +Eduardo que se prendia ao doutor com uma sofreguidão +d'afogado, no fim de tudo o que o patife do +parocho quer, com todos os seus pretextos, é a rapariga! +Se ella fosse um camafeu, bem se importava +o maroto que eu fosse um impio ou não! O que +elle quer é a rapariga! +<br /> + +<br /> + +O doutor encolheu os hombros. +<br /> + +<br /> + +—É natural, coitado—disse, já com a +mão no +fecho da porta. Que queres tu? Elle tem para as +mulheres, como homem, paixões e orgãos; como +confessor, a importancia d'um Deus. É evidente que +ha de utilisar essa importancia para satisfazer essas +paixões; e que ha de cobrir essa +satisfação natural +com as apparencias e com os pretextos do serviço +divino... É natural. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo então, vendo-o abrir a porta, +desvanecer-se +a esperança que o trouxera alli, disse, +furioso, vergastando o ar com o chapéo: +<br /> + +<br /> + +—Canalha de padres! Foi raça que sempre detestei! +Queria-a vêr varrida da face da terra, senhor +doutor! +<br /> + +<br /> + +—Isso é outra tolice, disse o doutor, resignando-se +a escutal-o ainda, e parando á porta do quarto. +Ouve lá. Tu crês em Deus? no Deus do +céo, no Deus +<span class="pagenum">[329]</span> +que lá está no alto do céo, e que +é lá de cima o +principio de toda a justiça e de toda a verdade? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, surprehendido, disse: +<br /> + +<br /> + +—Eu creio, sim senhor. +<br /> + +<br /> + +—E no peccado original? +<br /> + +<br /> + +—Tambem... +<br /> + +<br /> + +—Na vida futura, na redempção, etc? +<br /> + +<br /> + +—Fui educado n'essas crenças... +<br /> + +<br /> + +—Então para que queres varrer os padres da +face da terra? Deves pelo contrario ainda achar que +são poucos. És um liberal racionalista nos +limites da +Carta, ao que vejo... Mas se crês no Deus do céo, +que nos dirige lá de cima, e no peccado original, e +na vida futura, precisas d'uma classe de sacerdotes +que te expliquem a doutrina e a moral revelada de +Deus, que te ajudem a purificar da macula original +e te preparem o teu logar no paraiso! Tu necessitas +dos padres. E parece-me mesmo uma terrivel falta +de logica que os desacredites pela imprensa... +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, attonito, balbuciou: +<br /> + +<br /> + +—Mas vossa excellencia, senhor doutor... Desculpe-me +vossa excellencia, mas... +<br /> + +<br /> + +—Dize, homem. Eu quê? +<br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia não precisa dos padres n'este +mundo... +<br /> + +<br /> + +—Nem no outro. Eu não preciso dos padres no +mundo, porque não preciso do Deus do céo. Isto +quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro +em mim, isto é, o principio que dirige as minhas +acções e os meus juizos. Vulgo Consciencia... +Talvez +<span class="pagenum">[330]</span> +não comprehendas bem... O facto é que estou +aqui a expôr doutrinas subversivas... E realmente +são tres horas... +<br /> + +<br /> + +E mostrou-lhe o <em>cebolão</em>. +<br /> + +<br /> + +Á porta do pateo, João Eduardo disse-lhe ainda: +<br /> + +<br /> + +—Vossa excellencia então desculpe, senhor doutor... +<br /> + +<br /> + +—Não ha de quê... Manda a rua da Misericordia +ao diabo! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo interrompeu com calor: +<br /> + +<br /> + +—Isso é bom de dizer, senhor doutor, mas +quando a paixão está a roer cá por +dentro!... +<br /> + +<br /> + +—Ah! fez o doutor, é uma bella e grande coisa +a paixão! O amor é uma das grandes +forças da +civilisação. Bem dirigida levanta um mundo e +bastava +para nos fazer a revolução moral...—E mudando +de tom:—Mas escuta. Olha que isso ás vezes +não é paixão, não +está no coração... O +coração +é ordinariamente um termo de que nos servimos, +por decencia, para designar outro orgão. É +precisamente +esse orgão o unico que está interessado, a +maior parte das vezes, em questões de sentimento. +E n'esses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo +que seja isso! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +João Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. +Sentia-se enervado, todo cansado da noite +desesperada que passára, d'aquella manhã cheia de +passos inuteis, das conversas do doutor Godinho e +do doutor Gouvêa. +<br /> + +<br /> + +—Acabou-se, pensava, não posso fazer mais nada! +É aguentar. +<br /> + +<br /> + +Tinha a alma extenuada de tantos esforços de +paixão, d'esperança e de cólera. +Desejaria ir estirar-se +ao comprido, n'um sitio isolado, longe de advogados, +de mulheres e de padres, e dormir durante +mezes. Mas como já passava das tres horas, apressava-se +para o cartorio do Nunes. Teria talvez ainda +de ouvir um sermão por ter chegado tão tarde! +Triste +vida a sua! +<br /> + +<br /> + +Dobrára a esquina no Terreiro, quando ao pé da +<span class="pagenum">[332]</span> +casa de pasto do Osorio se encontrou com um moço +de quinzena clara, debruada de uma fita negra muito +larga, e com um bigodinho tão preto que parecia +postiço sobre as suas feições +extremamente pallidas. +<br /> + +<br /> + +—Ólé! Que é feito, João +Eduardo? +<br /> + +<br /> + +Era um Gustavo, typographo da <em>Voz do +Districto</em>, +que havia dois mezes fôra para Lisboa. Segundo dizia +o Agostinho, era «rapaz de cabeça e instruidote, +mas d'idéas do diabo». Escrevia ás +vezes artigos de +Politica Estrangeira, onde introduzia phrases poeticas +e retumbantes, amaldiçoando Napoleão III, o czar +e os oppressores do povo, chorando a escravidão da +Polonia e a miseria do proletario. A sympathia entre +elle e João Eduardo proviera de conversas sobre +religião, +em que ambos exhalavam o seu odio ao clero +e a sua admiração por Jesus Christo. A +revolução +d'Hespanha enthusiasmára-o tanto que aspirára +a pertencer á Internacional; e o desejo de viver +n'um centro operario, onde houvesse associações, +discursos e fraternidade, levára-o a Lisboa. +Encontrára +lá bom trabalho e bons camaradas. Mas como sustentava +a mãi, velha e doente, e como era mais economico +viverem juntos, voltára a Leiria. O +<em>Districto</em>, +além d'isso, na perspectiva +d'eleições, prosperava a +ponto de augmentar o salario aos tres typographos. +<br /> + +<br /> + +—De modo que lá estou outra vez com o rachitico... +<br /> + +<br /> + +Vinha jantar, e convidou logo João Eduardo a +que lhe fizesse companhia. Não havia d'acabar o +mundo, que diabo, por elle faltar um dia ao cartorio! +<span class="pagenum">[333]</span> +<br /> + +<br /> + +João Eduardo então lembrou-se que desde a vespera +não tinha comido. Era talvez a debilidade que +o trouxera assim estonteado, tão prompto a desanimar... +Decidiu-se logo—contente, depois das emoções +e das fadigas da manhã, de se estirar no banco +da taberna, diante d'um prato cheio, na intimidade +com um camarada d'odios iguaes aos seus. Demais, +os repellões que soffrera davam-lhe uma necessidade, +uma avidez de sympathia; e foi com calor +que disse: +<br /> + +<br /> + +—Homem, valeu! Caes-me do céo! Este mundo +é uma choldra. Se não fosse por alguma hora +que se passa em amizade, caramba, não valia a pena +andar por cá! +<br /> + +<br /> + +Este modo, tão novo no João Eduardo, no +<em>Pâcatinho</em>, +espantou Gustavo. +<br /> + +<br /> + +—Porquê? As coisas não correm bem? Turras +com a besta do Nunes, hein? perguntou-lhe. +<br /> + +<br /> + +—Não. Um bocado de +<em>spleen</em>. +<br /> + +<br /> + +—Isso de <em>spleen</em> é +d'inglez! Oh menino, havias +de vêr o Taborda no <em>Amor +londrino</em>!... Deixa lá o +<em>spleen</em>. É deitar lastro +para dentro e carregar no liquido! +<br /> + +<br /> + +Travou-lhe do braço, metteu-o pela porta da taberna. +<br /> + +<br /> + +—Viva o tio Osorio! Saude e fraternidade! +<br /> + +<br /> + +O dono da casa de pasto, o tio Osorio, personagem +obeso e contente da vida, com as mangas da +camisa arregaçadas até aos hombros, os +braços nús +muito brancos apoiados sobre o balcão, a face balofa +<span class="pagenum">[334]</span> +e finoria, felicitou logo Gustavo de o vêr de novo em +Leiria. Achava-o mais magrito... Havia de ser das +más aguas de Lisboa e do muito <em>pau +campeche</em> nos +vinhos... E que havia d'elle servir aos cavalheiros? +<br /> + +<br /> + +Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapéo +para a nuca, apressou-se a soltar o gracejo, que +tanto o enthusiasmára em Lisboa: +<br /> + +<br /> + +—Tio Osorio, sirva-nos figado de rei, com rim +grelhado de padre! +<br /> + +<br /> + +O tio Osorio, prompto á réplica, disse logo, +dando +um raspão de rodilha sobre o zinco do contador: +<br /> + +<br /> + +—Não temos cá d'isso, snr. Gustavo. Isso +é petisco +da capital. +<br /> + +<br /> + +—Então estão vossês muito atrazados! +Em Lisboa +era todos os dias o meu almoço... Bem, acabou-se, +dê-nos duas iscas com batatas... E bem saltadinho, +isso! +<br /> + +<br /> + +—Hão de ser servidos como amigos. +<br /> + +<br /> + +Accommodaram-se á «mesa dos +envergonhados», +entre dois tabiques de pinho fechados por uma cortina +de chita. O tio Osorio, que apreciava Gustavo, +«moço instruido e de pouca +troça», veio elle mesmo +trazer a garrafa do tinto e as azeitonas; e limpando +os copos ao avental enxovalhado: +<br /> + +<br /> + +—Então que ha de novo pela capital, snr. Gustavo? +Como vai por lá aquillo? +<br /> + +<br /> + +O typographo deu immediatamente seriedade ao +rosto; passou a mão pelos cabellos, e deixou cahir +algumas phrases enigmaticas: +<br /> + +<br /> + +—Tremidito... Muito pouca vergonha em politica... +<span class="pagenum">[335]</span> +A classe operaria começa a mexer-se... Falta +d'união, por ora... Está-se á espera +de vêr como as +coisas correm em Hespanha... Ha de havel-as bonitas! +Tudo depende d'Hespanha ... +<br /> + +<br /> + +Mas o tio Osorio, que juntára alguns vintens e +comprára uma fazenda, tinha horror a tumultos... +O que se queria no paiz era paz... Sobretudo o que +lhe desagradava era contar-se com hespanhoes... +De Hespanha, deviam os cavalheiros sabel-o, «nem +bom vento nem bom casamento»! +<br /> + +<br /> + +—Os povos são todos irmãos! exclamou Gustavo. +Quando se tratar d'atirar abaixo Bourbons e imperadores, +camarilhas e fidalguia, não ha portuguezes +nem hespanhoes, todos são irmãos! Tudo +é fraternidade, +tio Osorio! +<br /> + +<br /> + +—Pois então é beber-lhe á saude, e +beber-lhe +rijo, que isso é que faz andar o negocio, disse o tio +Osorio tranquillamente, rolando a sua obesidade para +fóra do cubiculo. +<br /> + +<br /> + +—Elephante! rosnou o typographo, chocado +com aquella indifferença pela Fraternidade dos Povos. +Que se podia esperar, de resto, d'um proprietario +e d'um agente d'eleições? +<br /> + +<br /> + +Trauteou a <em>Marselheza</em>, enchendo os +copos d'alto, +e quiz saber o que tinha feito o amigo João +Eduardo... Já se não ia pelo +<em>Districto</em>? O rachitico +dissera-lhe que não havia despegal-o da rua da +Misericordia... +<br /> + +<br /> + +—E quando é esse casamento, por fim? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo córou, disse vagamente: +<span class="pagenum">[336]</span> +<br /> + +<br /> + +—Nada decidido... Tem havido difficuldades.—E +acrescentou com um sorriso desconsolado:—Temos +tido arrufos. +<br /> + +<br /> + +—Pieguices! soltou o typographo, com um movimento +d'hombros, que exprimia um desdem de +revolucionario pelas frivolidades do sentimento. +<br /> + +<br /> + +—Pieguices... Não sei se são pieguices, disse +João Eduardo. O que sei é que dão +desgostos... Arrasam +um homem, Gustavo... +<br /> + +<br /> + +Calou-se, mordendo o beiço, para recalcar a +emoção que o revolvia. +<br /> + +<br /> + +Mas o typographo achava todas essas historias de +mulheres ridiculas. O tempo não estava para amores... +O homem do povo, o operario que se agarrava +a uma saia para não despegar, era um inutil... +era um vendido! Em que se devia pensar não era +em namoros: era em dar a liberdade ao povo, livrar +o trabalho das garras do capital, acabar com os +monopolios, trabalhar para a republica! Não se queria +lamuria, queria-se acção, queria-se a +força!—E +carregava furiosamente no <em>r</em> da +palavra—a forrrça!—agitando +os seus pulsos magrissimos de tisico sobre +o grande prato d'iscas que o moço trouxera. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo +em que o typographo, doido pela Julia padeira, +apparecia sempre com os olhos vermelhos como carvões, +e atroava a typographia com suspiros medonhos. +A cada <em>ai</em> os camaradas, +troçando, davam +uma tossesinha de garganta. Um dia mesmo, Gustavo +e o Medeiros tinham-se esmurrado no pateo... +<span class="pagenum">[337]</span> +<br /> + +<br /> + +—Olha quem falla! disse por fim. És como os +outros... Estás ahi a palrar, e quando te chega +és +como os outros. +<br /> + +<br /> + +O typographo então—que, desde que em Lisboa +frequentára um Club democratico d'Alcantara e +ajudára +a redigir um manifesto aos irmãos cigarreiros +em <em>grève</em>, se considerava +exclusivamente votado ao +serviço do Proletariado e da Republica—escandalisou-se. +Elle? Elle como os outros? Perder o seu tempo +com saias?... +<br /> + +<br /> + +—Está vossa senhoria muito enganado!—E recolheu-se +a um silencio chocado, partindo com furor +a sua isca. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo receou tel-o offendido. +<br /> + +<br /> + +—Ó Gustavo, sejamos razoaveis: um homem +póde ter os seus principios, trabalhar pela sua causa, +mas casar, arranjar o seu conchego, ter uma família. +<br /> + +<br /> + +—Nunca! exclamou o typographo exaltado. O +homem que casa está perdido! D'ahi por diante é +ganhar a papa, não se mexer do buraco, não ter um +momento para os amigos, passear de noite os marmanjos +quando elles berram com os dentes... É um +inutil! é um vendido! As mulheres não entendem +nada de politica. Têm medo que o homem se metta +em barulhos, tenha turras com a policia... Está um +patriota atado de pés e mãos! E quando ha um +segredo +a guardar? O homem casado não póde guardar +um segredo!... E ahi está ás vezes uma +revolução +compremettida... Sêbo p'r'á familia! Outra de +azeitonas, tio Osorio! +<span class="pagenum">[338]</span> +<br /> + +<br /> + +A pansa do tio Osorio appareceu entre os tabiques. +<br /> + +<br /> + +—Então que estão os senhores aqui a questionar, +que parece que entraram os da <em>Maia</em> +no conselho +de districto? +<br /> + +<br /> + +Gustavo atirou-se para o fundo do banco, de perna +estirada, e interpellando-o d'alto: +<br /> + +<br /> + +—O tio Osorio é que vai dizer. Diga lá o amigo. +Vossemecê era homem de mudar as suas opiniões +politicas para fazer a vontade á sua patrôa? +<br /> + +<br /> + +O tio Osorio acariciou o cachaço e disse com +um tom finorio: +<br /> + +<br /> + +—Eu lhe respondo, senhor Gustavo. Mulheres +são mais espertas que nós... E em politica, como +em negocio, quem fôr com o que ellas dizem vai +pelo seguro... Eu sempre consulto a minha, e se +quer que lhe diga, já vai em vinte annos e não me +tenho achado mal. +<br /> + +<br /> + +Gustavo pulou no banco: +<br /> + +<br /> + +—Vossê é um vendido! gritou. +<br /> + +<br /> + +O tio Osorio, acostumado áquella expressão +querida +do typographo, não se escandilisou; gracejou +até, com o seu amor ás boas réplicas: +<br /> + +<br /> + +—Vendido não direi, mas vendedor p'r'ó que +quizer... Pois é o que lhe digo, snr. Gustavo. O senhor +casará, e depois m'as contará. +<br /> + +<br /> + +—O que lhe hei de contar, é quando houver +uma revolução, entrar-lhe por aqui d'espingarda +ao +hombro, e mettel-o em conselho de guerra, seu capitalista! +<span class="pagenum">[339]</span> +<br /> + +<br /> + +—Pois emquanto isso não chega é beber-lhe e +beber-lhe rijo, disse o tio Osorio retirando-se com +pachorra. +<br /> + +<br /> + +—Hippopotamo! resmungou o typographo. +<br /> + +<br /> + +E, como adorava discussões, recomeçou +logo—sustentando +que o homem, embeiçado por uma saia, +não tem firmeza nas suas convicções +politicas... +<br /> + +<br /> + +João Eduardo sorria tristemente, n'uma +negação +muda, pensando comsigo que, apesar da sua paixão +por Amelia, não se tinha confessado nos dois ultimos +annos! +<br /> + +<br /> + +—Tenho provas! berrava Gustavo. +<br /> + +<br /> + +Citou um livre-pensador das suas relações que, +para manter a paz domestica, se sujeitava a jejuar +ás sextas-feiras, e a palmilhar aos domingos o caminho +da capella de ripanço debaixo do braço... +<br /> + +<br /> + +—E é o que te ha de succeder!... Tu tens idéas +menos más a respeito de religião, mas ainda te +hei +de vêr d'opa vermelha e cirio na mão na +procissão +do Senhor dos Passos... Philosophia e atheismo não +custam nada quando se conversa no bilhar entre rapazes... +Mas pratical-os em familia, quando se tem +uma mulher bonita e devota, é o diabo! É o que te +ha de succeder, se é que te não vai succedendo +já: +has de atirar as tuas convicções liberaes para o +caixão +do cisco, e fazer barretadas ao confessor da casa! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo fazia-se escarlate de +indignação. +Mesmo nos tempos da sua felicidade, quando tinha +Amelia certa, aquella accusação (que o typographo +fazia só para questionar, para palrar) tel-o-hia +escandalisado. +<span class="pagenum">[340]</span> +Mas hoje! Justamente quando elle perdera +Amelia por ter dito d'alto, n'um jornal, o seu +horror a beatos! Hoje que se achava alli, com o +coração +partido, roubado de toda a alegria, exactamente +pelas suas opiniões liberaes!... +<br /> + +<br /> + +—Isso dito a mim tem graça! disse com uma +amargura sombria. +<br /> + +<br /> + +O typographo galhofou: +<br /> + +<br /> + +—Homem, não me constou ainda que fosses um +<em>martyr da liberdade</em>! +<br /> + +<br /> + +—Por quem és não me apoquentes, Gustavo, disse +o escrevente muito chocado. Tu não sabes o que +se tem passado. Se soubesses não me dizias isso... +<br /> + +<br /> + +Contou-lhe então a historia do +<em>Communicado</em>—calando +todavia que o escrevera n'um fogo de ciumes, +e apresentando-o como uma pura affirmação +de principios... E que notasse esta circumstancia, +ia então casar com uma rapariga devota, n'uma casa +que era mais frequentada por padres que a sacristia +da Sé... +<br /> + +<br /> + +—E assignaste? perguntou Gustavo, espantado +da revelação. +<br /> + +<br /> + +—O doutor Godinho não quiz, disse o escrevente +córando um pouco. +<br /> + +<br /> + +—E déste-lhes uma desanda, hein? +<br /> + +<br /> + +—A todos, de rachar! +<br /> + +<br /> + +O typographo, enthusiasmado, berrou por «outra +de tinto»! +<br /> + +<br /> + +Encheu os copos com transporte, bebeu uma +grande saude a João Eduardo. +<span class="pagenum">[341]</span> +<br /> + +<br /> + +—Caramba, quero vêr isso! Quero mandal-o á +rapaziada em Lisboa!... E que effeito fez? +<br /> + +<br /> + +—Um escandalo mestre. +<br /> + +<br /> + +—E os padrecas? +<br /> + +<br /> + +—Em braza! +<br /> + +<br /> + +—Mas como souberam que eras tu? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo encolheu os hombros. O Agostinho +não o dissera. Desconfiava da mulher do Godinho, +que o sabia pelo marido, e que o fôra metter no bico +do padre Silverio, seu confessor, o padre Silverio +da rua das Therezas... +<br /> + +<br /> + +—Um gordo, que parece hydropico? +<br /> + +<br /> + +—Sim. +<br /> + +<br /> + +—Que bêsta! rugiu o typographo com rancor. +<br /> + +<br /> + +Olhava agora João Eduardo com respeito, aquelle +João Eduardo que se lhe revelava inesperadamente +um paladino do livre-pensamento. +<br /> + +<br /> + +—Bebe, amigo, bebe!—dizia-lhe, enchendo-lhe +o copo com affecto, como se aquelle esforço heroico +de liberalismo necessitasse ainda, depois de +tantos dias, reconfortos excepcionaes. +<br /> + +<br /> + +E que se tinha passado? Que tinha dito a gente +da rua da Misericordia? +<br /> + +<br /> + +Tanto interesse commoveu João Eduardo: e d'um +fôlego fez a sua confidencia. Mostrou-lhe mesmo a +carta d'Amelia que ella decerto, coitada, fôra levada +a escrever n'um terror do inferno, sob a pressão dos +padres furiosos... +<br /> + +<br /> + +—E aqui tens a victima que eu sou, Gustavo! +<br /> + +<br /> + +Era-o com effeito; e o typographo considerava-o +<span class="pagenum">[342]</span> +com uma admiração crescente. Já +não era o <em>Pacatinho</em>, +o escrevente do Nunes, o chichisbéo da rua +da Misericordia—era uma <em>victima das +perseguições +religiosas</em>. Era a primeira que o typographo via; e, +apesar de não lhe apparecer na attitude tradicional +das estampas de propaganda, amarrado a um poste +de fogueira ou fugindo com a familia espavorida a +soldados que galopam da sombra do ultimo plano, +achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente +aquella honra social. Que <em>chic</em> que +lhe daria a elle +entre a rapaziada d'Alcantara! Famosa pechincha, ser +uma <em>victima da +reacção</em> sem perder o conforto +das +iscas do tio Osorio e os salarios inteiros ao sabbado!—Mas +sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! +Para se vingarem d'um liberal, intrigarem-no, +tiraram-lhe a noiva!—Oh, que canalha!... E +esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e á +Familia, trovejou d'alto contra o clero, que é quem +sempre destroe essa instituição social, perfeita, +d'origem +divina! +<br /> + +<br /> + +—Isso precisa uma vingança medonha, menino! +É necessario arrasal-os! +<br /> + +<br /> + +Uma vingança? João Eduardo desejava-a, +vorazmente! +Mas qual? +<br /> + +<br /> + +—Qual? Contar tudo no <em>Districto</em>, +n'um artigo +tremendo! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: +d'alli por diante o <em>Districto</em> estava +fechado +aos senhores livre-pensadores! +<br /> + +<br /> + +—Cavalgadura! rugiu o typographo. +<span class="pagenum">[343]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas tinha uma idéa, caramba! Publicar um folheto! +Um folheto de vinte paginas, o que se chama +no Brazil uma <em>mofina</em>, mas n'um +estylo floreado +(elle se encarregava d'isso), cahindo sobre o clero +com um desabamento de verdades mortaes! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo enthusiasmou-se. E diante d'aquella +sympathia activa de Gustavo, vendo n'elle um irmão, +soltou as ultimas confidencias, as mais dolorosas. +O que havia no fundo da intriga era a paixão +do padre Amaro pela pequena, e era para se apoderar +d'ella que o escorraçava a elle... O inimigo, +o malvado, o carrasco—era o parocho! +<br /> + +<br /> + +O typographo apertou as mãos na cabeça: +semelhante +caso (que todavia era para elle trivial, nas locaes +que compunha) succedido a um amigo seu que +estava alli bebendo com elle, a um democrata, parecia-lhe +monstruoso, alguma coisa semelhante aos furores +de Tiberio na velhice, violando, em banhos perfumados, +as carnes delicadas de mancebos patricios. +<br /> + +<br /> + +Não queria acreditar. João Eduardo accumulou +as provas. E então Gustavo, que tinha molhado vastamente +de tinta as iscas de figado, ergueu os punhos +fechados, e com a face entumecida, dente rilhado, +berrou em rouco: +<br /> + +<br /> + +—Abaixo a religião! +<br /> + +<br /> + +Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou +em réplica: +<br /> + +<br /> + +—Viva Pio Nono! +<br /> + +<br /> + +Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremettido. +Mas João Eduardo socegou-o. E o typographo, +<span class="pagenum"><a name="p344" id="p344">[344]</a></span> +sentando-se tranquillamente, rechupou o fundo +do copo. +<br /> + +<br /> + +Então, com os cotovêlos sobre a mesa, a garrafa +entre elles, conversaram baixo, de rosto a rosto, +sobre o plano do folheto. A coisa era facil: escrevel-o-hiam +ambos. João Eduardo queria-o em fórma +de romance, d'enredo negro, dando ao personagem +do parocho os vicios e as perversidades de Caligula +e d'Hellogabalo. O typographo porém queria um livro +philosophico, de estylo e de principios, que <a href="#e5">demolisse</a> +d'uma vez para sempre o Ultramontanismo! +Elle mesmo se encarregava de imprimir a obra aos +serões, <em>gratis</em>, +já se sabe.—Mas appareceu-lhes então, +bruscamente, uma difficuldade. +<br /> + +<br /> + +—O papel? Como se ha de arranjar o papel? +<br /> + +<br /> + +Era uma despeza de nove ou dez mil reis; nenhum +os tinha—nem um amigo que, por dedicação +aos principios, lh'os adiantasse. +<br /> + +<br /> + +—Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! +lembrou vivamente o typographo. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo coçou desconsoladamente a +cabeça. +Estava justamente pensando no Nunes e na sua +indignação de devoto, de membro da junta de +parochia, +d'amigo do chantre, apenas lêsse o pamphleto! +E se soubesse que era o seu escrevente que o +compuzera, com as pennas do cartorio, no papel almaço +do cartorio... Via-o já rôxo de cólera, +alçando +sobre o bico dos sapatos brancos a sua pessoa +gordalhufa, e gritando na voz de grillo:—«Fóra +d'aqui, pedreiro-livre, fóra d'aqui!» +<span class="pagenum">[345]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ficava eu bem arranjado, disse João Eduardo +muito sério, nem mulher nem pão! +<br /> + +<br /> + +Isto fez lembrar tambem a Gustavo a cólera provavel +do doutor Godinho, dono da typographia. O +doutor Godinho, que depois da reconciliação com a +gente da rua da Misericordia, retomára publicamente +a sua consideravel posição de pilar da Igreja e +esteio da Fé... +<br /> + +<br /> + +—É o diabo, póde-nos sahir caro, disse elle. +<br /> + +<br /> + +—É impossivel! disse o escrevente. +<br /> + +<br /> + +Então praguejaram de raiva. Perder uma occasião +d'aquellas para pôr a calva á mostra ao clero! +<br /> + +<br /> + +O plano do folheto, como uma columna tombada +que parece maior, afigurava-se-lhes, agora que +estava derrubado, d'uma altura, d'uma importancia +colossal. Não era já a +demolição local d'um parocho +scelerado, era a ruina, ao longe e ao largo, de todo +o clero, dos jesuitas, do poder temporal, de outras +coisas funestas...—Maldição! se não +fosse o Nunes, +se não fosse o Godinho, se não fossem os nove +mil reis do papel... +<br /> + +<br /> + +Aquelle perpetuo obstaculo do pobre, falta de dinheiro +e dependencia do patrão, que até para um +folheto era estorvo, revoltou-os contra a sociedade. +<br /> + +<br /> + +—Positivamente é necessario uma +revolução! +affirmou o typographo. É necessario arrasar tudo, +tudo!—E o seu largo gesto sobre a mesa indicava, +n'um formidavel nivelamento social, uma demolição +de igrejas, palacios, bancos, quarteis e predios de +Godinhos!—Outra do tinto, tio Osorio!... +<span class="pagenum">[346]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas o tio Osorio não apparecia. Gustavo martellou +a mesa a toda a força com o cabo da faca. E +emfim, furioso, sahiu fóra ao contador «para +arrebentar +a pansa áquelle vendido que fazia assim esperar +um cidadão». +<br /> + +<br /> + +Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando +com o barão de Via-Clara, que, em vesperas +d'eleições, +vinha pelas casas de pasto apertar a mão aos +compadres. E alli na taberna, parecia magnifico o +barão, com a sua luneta d'ouro, os botins de verniz +sobre o sólo terreo, tossicando ao cheiro acre do +azeite fervido e das emanações das borras de +vinho. +<br /> + +<br /> + +Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao +cubiculo. +<br /> + +<br /> + +—Está com o barão, disse n'uma surdina +respeitosa. +<br /> + +<br /> + +Mas vendo João Eduardo aniquilado, com a cabeça +entre os punhos, o typographo exhortou-o a +não esmorecer. Que diabo! No fim, livrava-se de casar +com uma beata... +<br /> + +<br /> + +—Não me poder vingar d'aquelle maroto! interrompeu +João Eduardo com um repellão no prato. +<br /> + +<br /> + +—Não te afflijas, prometteu o typographo com +solemnidade, que a vingança não vem longe! +<br /> + +<br /> + +Fez-lhe então, baixo, a confidencia «das coisas +que se preparavam em Lisboa». Tinham-lhe afiançado +que havia um club republicano a que até pertenciam +figurões—o que era para elle uma garantia +superior de triumpho. Além d'isso, a rapaziada +do trabalho mexia-se... Elle mesmo—e murmurava +<span class="pagenum">[347]</span> +quasi contra a face de João Eduardo, estirado sobre +a mesa—fôra fallado para pertencer a uma +secção +da Internacional, que devia organisar um hespanhol +de Madrid; nunca vira o hespanhol, que se disfarçava +por causa da policia; e a coisa falhára porque o +<em>Comité</em> tinha falta de +fundos... Mas era certo haver +um homem, que possuia um talho, que promettera +cem mil reis... O exercito, além d'isso, estava na +coisa: tinha visto n'uma reunião um sujeito barrigudo +que lhe tinham dito que era major, e que tinha +cara de major...—De modo que, com todos +estes elementos, a opinião d'elle Gustavo, era que +dentro de mezes, governo, rei, fidalgos, capitalistas, +bispos, todos esses monstros iam pelos ares! +<br /> + +<br /> + +—E então somos nós os reisinhos, menino! +Godinho, +Nunes, toda a cambada ferramol-a na enxovia +de S. Francisco. Eu a quem me atiro é ao Godinho... +Padres, derreamol-os á pancada! E o povo +respira, emfim! +<br /> + +<br /> + +—Mas d'aqui até lá! suspirou João +Eduardo, que +pensava com amargura que quando a revolução +viesse já seria tarde para recuperar a Ameliasinha... +<br /> + +<br /> + +O tio Osorio então appareceu com a garrafa. +<br /> + +<br /> + +—Ora até que emfim, «seu fidalgo»! +disse o +typographo a trasbordar de sarcasmo. +<br /> + +<br /> + +—Não se pertence á classe, mas é-se +tratado +por ella com consideração, replicou logo o tio +Osorio, +a quem a satisfação fazia parecer mais pansudo. +<br /> + +<br /> + +—Por causa de meia duzia de votos! +<br /> + +<br /> + +—Dezoito na freguezia, e esperanças de dezenove. +<span class="pagenum">[348]</span> +E que se ha de servir mais aos cavalheiros? Nada +mais? Pois é pena. Então é beber-lhe, +é beber-lhe! +<br /> + +<br /> + +E correu a cortina, deixando os dois amigos em +frente da garrafa cheia, aspirarem a uma +Revolução +que lhes permittisse—a um rehaver a menina Amelia, +a outro espancar o patrão Godinho. +<br /> + +<br /> + +Eram quasi cinco horas quando sahiram emfim +do cubiculo. O tio Osorio, que se interessava por elles +por serem rapazes d'instrucção, notou logo, +examinando-os +do canto do balcão onde saboreava o +seu <em>Popular</em>, que «vinham +tocaditos». João Eduardo, +sobretudo, de chapéo carregado e beiço trombudo: +«pessoa de mau vinho», pensou o tio Osorio, que +o conhecia pouco. Mas o snr. Gustavo, como sempre, +depois dos seus tres litros, resplandecia de jubilo. +Grande rapaz! Era elle que pagava a conta; e +gingando para o balcão, batendo d'alto com as suas +duas placas: +<br /> + +<br /> + +—Encafua mais essas na burra, Osorio pipa! +<br /> + +<br /> + +—O que é pena é que sejam só duas, +snr. Gustavo. +<br /> + +<br /> + +—Ah bandido! imaginas que o suor do povo, +o dinheiro do trabalho é para encher a pansa dos +Philistinos? Mas não as perdes! Que no dia do ajuste +de contas quem ha de ter a honra de te furar +esse bandulho ha de ser cá o Bibi... E o Bibi sou +eu... Eu é que sou o Bibi! Não é +verdade, João, +quem é o Bibi? +<br /> + +<br /> + +João Eduardo não o escutava: muito carrancudo, +olhava com desconfiança um borracho, que na mesa +<span class="pagenum">[349]</span> +do fundo, diante do seu litro vazio, com o queixo +na palma da mão e o cachimbo nos dentes, +embasbacára, +maravilhado, para os dois amigos. +<br /> + +<br /> + +O typographo puxou-o para o balcão: +<br /> + +<br /> + +—Dize aqui ao tio Osorio quem é o Bibi! Quem é +o Bibi?... Olhe p'ra isto, tio Osorio! Rapaz de talento, +e dos bons! Veja-me isto! Com duas pennadas dá +cabo do ultramontanismo! É cá dos meus! Tambem +entre nós é p'r'á vida e +p'r'á morte. Deixa lá a conta, +Osorio barrigudo, ouve o que te digo! Este é dos +bons... E se elle aqui voltar e quizer dois litros a +credito, é dar-lh'os... Cá o Bibi responde por +tudo. +<br /> + +<br /> + +—Temos pois, começou o tio Osorio, iscas a dois, +salada a dois... +<br /> + +<br /> + +Mas o borracho arrancára-se com esforço ao seu +banco: de cachimbo espetado, arrotando forte, veio +plantar-se diante do typographo, e, tremeleando nas +pernas, estendeu-lhe a mão aberta. +<br /> + +<br /> + +Gustavo considerou-o d'alto, com nojo: +<br /> + +<br /> + +—Que quer vossê? Aposto que foi vossê que +berrou ha pouco «Viva Pio Nono»? Seu vendido... +Tire p'ra lá a pata! +<br /> + +<br /> + +O borracho, repellido, grunhiu; e, embicando +contra João Eduardo, offereceu-lhe a mão +espalmada. +<br /> + +<br /> + +—Arrede p'ra lá, seu animal! disse-lhe o escrevente +desabrido. +<br /> + +<br /> + +—Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava +o borracho. +<br /> + +<br /> + +E não se arredava, com os cinco dedos muito +espetados, despedindo um halito fetido. +<span class="pagenum">[350]</span> +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, furioso, atirou-o de repellão +contra +o contador. +<br /> + +<br /> + +—Brincadeiras de mãos, não! exclamou logo +severamente +o tio Osorio. Brutalidades, não! +<br /> + +<br /> + +—Que se não mettesse commigo, rosnou o escrevente. +E a vossê faço-lhe o mesmo... +<br /> + +<br /> + +—Quem não tem decencia vai p'r'á rua, disse +muito grave o tio Osorio. +<br /> + +<br /> + +—Quem vai p'r'á rua, quem vai p'r'á rua? +rugiu o escrevente, empinando-se, de punho fechado. +Repita lá isso d'ir p'r'á rua! Com quem +está +vossê a fallar? +<br /> + +<br /> + +O tio Osorio não replicava, apoiado sobre as +mãos ao balcão, patenteando os seus enormes +braços +que lhe faziam o estabelecimento respeitado. +<br /> + +<br /> + +Mas Gustavo, com auctoridade, poz-se entre os +dois, e declarou que era necessario ser-se cavalheiro! +Questões e más palavras, não! Podia-se +chalacear +e troçar os amigos, mas como cavalheiros! E +alli só havia cavalheiros! +<br /> + +<br /> + +Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava +muito resentido. +<br /> + +<br /> + +—Oh, João! oh, João! dizia-lhe com grandes +gestos, isso não é d'um homem illustrado! +<br /> + +<br /> + +Que diabo! Era necessario ter-se boas maneiras! +Com repentes, com vinho desordeiro, não havia pandega, +nem sociedade, nem fraternidade! +<br /> + +<br /> + +Voltou ao tio Osorio, fallando-lhe sobre o hombro, +excitado: +<br /> + +<br /> + +—Eu respondo por elle, Osorio! É um cavalheiro! +<span class="pagenum">[351]</span> +Mas tem tido desgostos, e não está acostumado +a um litro de mais. É o que é! Mas é +dos bons... +Vossê desculpe, tio Osorio. Que eu respondo por +elle... +<br /> + +<br /> + +Foi buscar o escrevente, persuadiu-o a apertar a +mão ao tio Osorio. O taberneiro declarou com emphase +que não quizera insultar o cavalheiro. Os +<em>shake-hands</em> +então succederam-se com vehemencia. Para +consolidar a reconciliação, o typographo pagou +tres +«canas brancas». João Eduardo, por brio, +offereceu +tambem um «giro» de cognac. E com os copos em +fila sobre o balcão, trocavam boas palavras, tratavam-se +de cavalheiros—emquanto o borracho, esquecido +ao seu canto, derreado para cima da mesa, a cabeça +sobre os punhos e o nariz sobre o litro, se babava +silenciosamente, com o cachimbo cravado nos +dentes. +<br /> + +<br /> + +—D'isto é que eu gósto! dizia o typographo a +quem a aguardente augmentára a ternura. Harmonia! +Cá o meu fraco é a harmonia! Harmonia entre +a rapaziada e entre a humanidade... O que eu queria +era vêr uma grande mesa, e toda a humanidade +sentada n'um banquete, e fogo preso, e chalaça, e +decidirem-se as questões sociaes! E o dia não vem +longe em que vossê o ha de vêr, tio Osorio!... Em +Lisboa as coisas vão-se preparando p'ra isso. E o +tio Osorio é que ha de fornecer o vinho... Hein, +que negociosinho! Diga que não sou amigo! +<br /> + +<br /> + +—Obrigado, snr. Gustavo, obrigado... +<br /> + +<br /> + +—Isto aqui entre nós, hein, que somos todos +<span class="pagenum">[352]</span> +cavalheiros! E cá este—abraçava João +Eduardo—é +como se fosse irmão! Entre nós é +p'r'á vida e +p'r'á morte! E é mandar a tristeza ao diabo, +rapaz! +Toca a escrever o folheto... O Godinho, e o Nunes... +<br /> + +<br /> + +—O Nunes racho-o! soltou com força o escrevente, +que, depois das «saudes» com cana, parecia +mais sombrio. +<br /> + +<br /> + +Dois soldados entraram então na taberna—e +Gustavo julgou que eram horas d'ir para a typographia. +Senão, não se haviam de separar todo o dia, +não se haviam de separar toda a vida!... Mas o +trabalho é dever, o trabalho é virtude! +<br /> + +<br /> + +Sahiram, emfim, depois de mais +<em>shake-hands</em> +com o tio Osorio. Á porta, Gustavo jurou ainda ao +escrevente uma lealdade d'irmão; obrigou-o a aceitar +a sua bolsa de tabaco; e desappareceu á esquina +da rua, de chapéo para a nuca, trauteando o +<em>Hymno +do trabalho</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +João Eduardo, só, abalou logo para a rua da +Misericordia. +Ao chegar á porta da S. Joanneira, apagou +com cuidado o cigarro na sola do sapato, e deu +um puxão tremendo ao cordão da campainha. +<br /> + +<br /> + +A <em>Ruça</em> veio, correndo. +<br /> + +<br /> + +—A Ameliasinha? Quero-lhe fallar! +<br /> + +<br /> + +—As senhoras sahiram, disse a +<em>Ruça</em> espantada +do modo do snr. Joãosinho. +<span class="pagenum">[353]</span> +<br /> + +<br /> + +—Mente, sua bebeda! berrou o escrevente. +<br /> + +<br /> + +A rapariga, aterrada, fechou a porta d'estalo. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo foi-se encostar á parede defronte, +e ficou alli, de braços cruzados, observando a casa: +as janellas estavam fechadas, as cortinas de cassa +corridas: dois lenços de rapé do conego seccavam +em baixo na varanda. +<br /> + +<br /> + +Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a +aldrava. Depois repicou com furor a campainha. +Ninguem appareceu: então, indignado, partiu para +os lados da Sé. +<br /> + +<br /> + +Ao desembocar no largo, diante da fachada da +igreja, parou, procurando em redor com o sobr'olho +carregado: mas o largo parecia deserto; á porta +da pharmacia do Carlos um rapazito, sentado no degrau, +guardava pela arreata um burro carregado de +herva; aqui e além, gallinhas iam picando o chão +vorazmente; o portão da igreja estava fechado; e +apenas se ouvia o ruido de martelladas n'uma casa +ao pé em que havia obras. +<br /> + +<br /> + +E João Eduardo ia seguir para os lados da Alameda—quando +appareceram no terraço da igreja, +da banda da sacristia, o padre Silverio e o padre +Amaro, conversando, devagar. +<br /> + +<br /> + +Batia então um quarto na torre, e o padre Silverio +parou a acertar o seu +<em>cebolão</em>. Depois os dois +padres observaram maliciosamente a janella da +administração, +de vidraças abertas, onde se via, no +escuro, o vulto do senhor administrador de binoculo +cravado para a casa do Telles alfaiate. E desceram +<span class="pagenum">[354]</span> +emfim a escadaria da Sé, rindo d'hombro a +hombro, divertidos com aquella paixão que escandalisava +Leiria. +<br /> + +<br /> + +Foi então que o parocho viu João Eduardo que +estacára no meio do largo. Parou para voltar á +Sé +decerto, evitar o encontro; mas viu o portão fechado, +e ia seguir d'olhos baixos, ao lado do bom Silverio +que tirava tranquillamente a sua caixa de rapé,—quando +João Eduardo, arremessando-se, sem +uma palavra, atirou a toda a força um murro ao +hombro d'Amaro. +<br /> + +<br /> + +O parocho, aturdido, ergueu frouxamente o guardachuva. +<br /> + +<br /> + +—Acudam! berrou logo o padre Silverio, recuando +de braços no ar. Acudam! +<br /> + +<br /> + +Da porta da administração um homem correu, +agarrou furiosamente o escrevente pela gola: +<br /> + +<br /> + +—Está preso! rugia. Está preso! +<br /> + +<br /> + +—Acudam, acudam! berrava Silverio a distancia. +<br /> + +<br /> + +Janellas no largo abriam-se á pressa. A Amparo +da botica, em saia branca, appareceu á varanda, espavorida; +o Carlos precipitára-se do laboratorio em +chinelas; e o senhor administrador, debruçado na +sacada, bracejava, com o binoculo na mão. +<br /> + +<br /> + +Emfim o escrivão da administração, o +Domingos, +compareceu, muito grave, de mangas de lustrina enfiadas: +e com o cabo de policia levou logo para a +administração o escrevente, que não +resistia, todo +pallido... +<br /> + +<br /> + +O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor +<span class="pagenum">[355]</span> +parocho para a botica; fez preparar, com estrepito, +flôr de laranja e ether; gritou pela esposa, para arranjar +uma cama... Queria examinar o hombro de +sua senhoria: haveria intumecencia? +<br /> + +<br /> + +—Obrigado, não é nada, dizia o parocho muito +branco. Não é nada. Foi um raspão. +Basta-me uma +gota d'agua... +<br /> + +<br /> + +Mas a Amparo achava melhor um calix de vinho +do Porto; e correu acima a buscar-lh'o, tropeçando +nos pequenos que se lhe penduravam das saias, dando +ais, explicando pela escada á criada que tinham +querido matar o senhor parocho! +<br /> + +<br /> + +Á porta da botica juntára-se gente, que embascava +para dentro; um dos carpinteiros que trabalhavam +nas obras affirmava que «fôra uma +facada»; +e uma velha por traz debatia-se, de pescoço esticado, +para vêr o <em>sangue</em>. Emfim, +a pedido do parocho, +que receava escandalo, o Carlos veio magestosamente +declarar que não queria motim à porta! O +senhor parocho estava melhor. Fôra apenas um sôco, +um raspão de mão... Elle respondia por sua +senhoria. +<br /> + +<br /> + +E, como o burro ao lado começára a ornear, o +pharmaceutico voltando-se indignado para o rapazito +que o segurava pela arreata: +<br /> + +<br /> + +—E tu não tens vergonha, no meio d'um desgosto +d'estes, um desgosto para toda a cidade, de +ficar aqui com esse animal, que não faz senão +zurrar! +Para longe, insolente, para longe! +<br /> + +<br /> + +Aconselhou então os dois sacerdotes a que subissem +para a sala, para evitar a «curiosidade da +populaça». +<span class="pagenum">[356]</span> +E a boa Amparo appareceu logo com dois +calices do Porto, um para o senhor parocho, outro +para o senhor padre Silverio que se deixára cahir a +um canto do canapé, apavorado ainda, extenuado +d'emoção. +<br /> + +<br /> + +—Tenho cincoenta e cinco annos, disse elle depois +de ter chupado a ultima gota de +<em>porto</em>, e é a +primeira vez que me vejo n'um barulho! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, mais socegado agora, affectando +bravura, chasqueou o padre Silverio: +<br /> + +<br /> + +—Vossê tomou o caso muito ao tragico, collega... +E lá ser a primeira, vamos lá... Todos sabem +que o collega esteve pegado com o Natario... +<br /> + +<br /> + +—Ah, sim, exclamou o Silverio, mas isso era +entre sacerdotes, amigo! +<br /> + +<br /> + +Mas a Amparo, ainda muito tremula, enchendo +outro calix ao senhor parocho, quiz saber «os particulares, +todos os particulares...» +<br /> + +<br /> + +—Não ha particulares, minha senhora, eu vinha +aqui com o collega... Vinhamos cavaqueando... O +homem chegou-se a mim, e, como eu estava desprevenido, +deu-me um raspão no hombro. +<br /> + +<br /> + +—Mas porquê? porquê? exclamou a boa senhora, +apertando as mãos, n'um assombro. +<br /> + +<br /> + +O Carlos então deu a sua opinião. Ainda havia +dias, elle dissera, diante da Amparosinho e de D. +Josepha, a irmã do respeitavel conego Dias, que estas +idéas de materialismo e atheismo estavam levando +a mocidade aos mais perniciosos excessos... E +mal sabia elle então que estava prophetisando! +<span class="pagenum"><a name="p357" id="p357">[357]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Vejam vossas senhorias este rapaz! Começa +por esquecer todos os deveres de christão (assim +nol-o affirmou D. Josepha), associa-se com bandidos, +achincalha os dogmas nos botequins... Depois (sigam +vossas senhorias a progressão), não contente +com estes extravios, publica nos periodicos ataques +abjectos contra a <a href="#e6">religião</a>... +E emfim, possuido de +uma vertigem d'atheismo, atira-se, diante mesmo +da cathedral, sobre um sacerdote exemplar (não é +por vossa senhoria estar presente) e tenta assassinal-o! +Ora, pergunto eu, o que ha no fundo de tudo +isto? Odio, puro odio á religião de nossos paes! +<br /> + +<br /> + +—<a href="#e7">Infelizmente</a> assim é, +suspirou o padre Silverio. +<br /> + +<br /> + +Mas a Amparo, indifferente ás causas philosophicas +do delicto, ardia na curiosidade de saber o que +se passaria na administração, o que diria o +escrevente, +se o teriam posto a ferros... O Carlos promptificou-se +logo a ir averiguar. +<br /> + +<br /> + +De resto, disse elle, era o seu dever, como homem +de sciencia, esclarecer a justiça sobre as consequencias +que <a href="#e8">podia ter</a> trazido um murro, a +força de braço, na região delicada da +clavicula... +(ainda que, louvado Deus, não havia fractura, nem +inchaço), e sobretudo queria revelar á +auctoridade, +para que ella tomasse as suas providencias, que +aquella tentativa d'espancamento não provinha de +vingança pessoal. Que podia ter feito o senhor parocho +da Sé ao escrevente do Nunes? Provinha +d'uma vasta conspiração d'atheus e republicanos +contra o sacerdocio de Christo! +<span class="pagenum">[358]</span> +<br /> + +<br /> + +—Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes +gravemente. +<br /> + +<br /> + +—E é o que eu vou provar cabalmente ao senhor +administrador do concelho! +<br /> + +<br /> + +Na sua precipitação zelosa de conservador +indignado, +ia mesmo de chinelas e quinzena de laboratorio: +mas Amparo alcançou-o no corredor: +<br /> + +<br /> + +—Oh, filho! a sobrecasaca, põe a sobrecasaca +ao menos, que o administrador é de ceremonia! +<br /> + +<br /> + +Ella mesmo lha ajudou a enfiar, emquanto o +Carlos, com a imaginação trabalhando viva +(aquella +desgraçada imaginação que, como elle +dizia, até ás +vezes lhe dava dôres de cabeça), ia preparando o +seu +depoimento, que faria ruido na cidade. Fallaria de +pé. Na saleta da administração seria +um apparato +judicial: á sua mesa, o senhor administrador, grave +como a personificação da Ordem; em redor os +amanuenses, activos sobre o seu papel sellado; e o +réo, defronte, na attitude tradicional dos criminosos +politicos, os braços cruzados sobre o peito, a +fronte alta desafiando a morte. Elle, Carlos, então, +entraria e diria: <em>Senhor administrador, aqui venho +espontaneamente pôr-me ao serviço da vindicta +social</em>! +<br /> + +<br /> + +—Hei de lhes mostrar, com uma logica de ferro, +que é tudo resultado d'uma conspiração +do racionalismo. +Pódes estar certa, Amparosinho, é uma +conspiração do racionalismo! disse, puxando, com +um gemido d'esforço, as presilhas dos botins de +cano. +<span class="pagenum">[359]</span> +<br /> + +<br /> + +—E repara se elle falla da pequena, da S. Joanneira... +<br /> + +<br /> + +—Hei de tomar notas. Mas não se trata da S. +Joanneira. Isto é um processo politico! +<br /> + +<br /> + +Atravessou o largo magestosamente, certo que os +visinhos, pelas portas, murmuravam: <em>Lá vai +o Carlos +depôr</em>... Ia depôr, sim, mas +não sobre o murro no +hombro de sua senhoria. Que importava o murro? +O grave era o que estava por traz do murro—uma +conspiração contra a Ordem, a Igreja, a Carta e a +Propriedade! É o que elle provaria d'alto ao senhor +administrador. Este murro, excellentissimo senhor, +é o primeiro excesso d'uma grande +revolução social! +<br /> + +<br /> + +E empurrando o batente de baeta que dava accesso +para a administração do concelho de Leiria, ficou +um momento com a mão no ferrolho, enchendo o +vão da porta da pompa da sua pessoa. Não, +não havia +o apparato judicial que elle concebera. O réo lá +estava, sim, pobre João Eduardo, mas sentado á +beira do banco, com as orelhas em braza, olhando +estupidamente o soalho. Arthur Couceiro, embaraçado +com a presença d'aquelle intimo dos serões da +S. Joanneira, alli no assento dos presos, para o não +olhar fixára o nariz sobre o immenso copiador d'officios, +onde desdobrára o <em>Popular</em> +da vespera. O amanuense +Pires, de sobrancelhas muito erguidas e muito +sérias, embebia-se na ponta da penna de pato +que aparava sobre a unha. O escrivão Domingos, +esse, sim, vibrava d'actividade! O seu lapis rascunhava +com furor; o processo estava-se decerto apressando; +<span class="pagenum"><a name="p360" id="p360">[360]</a></span> +era tempo de trazer a sua idéa... E o Carlos +então adiantando-se: +<br /> + +<br /> + +—Meus senhores! O senhor administrador? +<br /> + +<br /> + +Justamente a voz de sua excellencia chamou de +dentro do seu gabinete: +<br /> + +<br /> + +—Ó snr. Domingos? +<br /> + +<br /> + +O escrivão perfilou-se, puxando os oculos para a +testa. +<br /> + +<br /> + +—Senhor administrador! +<br /> + +<br /> + +—O senhor tem phosphoros? +<br /> + +<br /> + +O Domingos procurou anciosamente pela algibeira, +na gaveta, entre os papeis... +<br /> + +<br /> + +—Algum dos senhores tem phosphoros? +<br /> + +<br /> + +Houve um rebuscar de mãos sobre a mesa... +Não, não havia phosphoros. +<br /> + +<br /> + +—Ó snr. Carlos, o senhor tem phosphoros? +<br /> + +<br /> + +—Não tenho, snr. Domingos. Sinto. +<br /> + +<br /> + +O senhor administrador appareceu então, ageitando +as suas lunetas de <a href="#e9">tartaruga</a>: +<br /> + +<br /> + +—Ninguem tem phosphoros, hein? É extraordinario +que não haja aqui nunca phosphoros! Uma +repartição +d'estas sem um phosphoro... Que fazem os +senhores aos phosphoros? Mande buscar por uma vez +meia duzia de caixas! +<br /> + +<br /> + +Os empregados olhavam-se consternados d'essa +falta flagrante no material do serviço administrativo. +E o Carlos, apoderando-se logo da presença e da +attenção de sua excellencia: +<br /> + +<br /> + +—Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui +venho solicito e espontaneo, por assim dizer... +<span class="pagenum">[361]</span> +<br /> + +<br /> + +—Diga-me uma coisa, snr. Carlos, interrompeu +a auctoridade. O parocho e o outro ainda estão lá +na botica? +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho e o senhor padre Silverio +ficaram com minha esposa a repousar da commoção +que... +<br /> + +<br /> + +—Tem a bondade de lhes ir dizer que são cá +precisos... +<br /> + +<br /> + +—Eu estou á disposição da lei. +<br /> + +<br /> + +—Que venham quanto antes... São cinco horas +e meia, queremo-nos ir embora! Vejam que massada +tem sido esta aqui, todo o dia! A repartição +fecha-se +ás tres! +<br /> + +<br /> + +E sua excellencia, rodando sobre os tacões, foi +debruçar-se á sacada do seu +gabinete—áquella sacada +d'onde elle diariamente, das onze ás tres, retorcendo +o bigode louro e entesando o plastron azul, +depravava a mulher do Telles. +<br /> + +<br /> + +O Carlos abria já o batente verde, quando um +<em>pst</em> do Domingos o deteve. +<br /> + +<br /> + +—Ó amigo Carlos—e o sorrisinho do escrivão +tinha uma supplicação tocante—desculpe, hein? +Mas... Traz-me de lá uma caixita de phosphoros? +<br /> + +<br /> + +N'este momento à porta apparecia o padre Amaro; +e por traz a massa enorme do Silverio. +<br /> + +<br /> + +—Eu desejava fallar ao senhor administrador em +particular, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Todos os empregados se ergueram; João Eduardo +tambem, branco como a cal do muro. O parocho, +com as suas passadas subtis d'ecclesiastico, atravessou +<span class="pagenum">[362]</span> +a repartição, seguido do bom Silverio que ao +passar diante do escrevente descreveu d'esguelha +um semi-circulo cauteloso, com terror ao réo; o senhor +administrador acudira a receber suas senhorias; +e a porta do gabinete fechou-se discretamente. +<br /> + +<br /> + +—Temos composição, rosnou o experiente Domingos, +piscando o olho aos collegas. +<br /> + +<br /> + +O Carlos sentára-se descontente. Viera alli para +esclarecer a auctoridade sobre os perigos sociaes +que ameaçavam Leiria, o Districto e a Sociedade, +para ter o seu papel n'aquelle processo, que, segundo +elle, era um processo politico—e alli estava +calado, esquecido, no mesmo banco ao lado do +réo! Nem lhe tinham offerecido uma cadeira! Seria +realmente intoleravel que as coisas se arranjassem +entre o parocho e o administrador sem o +consultarem a elle! Elle, o unico que percebera +n'aquelle murro dado no hombro do padre—não +o punho do escrevente, mas a mão do Racionalismo! +Aquelle desdem pelas suas luzes parecia-lhe +um erro funesto na administração do Estado. +Positivamente o administrador não tinha a capacidade +necessaria para salvar Leiria dos perigos da +revolução! Bem se dizia na Arcada—era uma +bambocha! +<br /> + +<br /> + +A porta do gabinete entreabriu-se, e as lunetas +do administrador reluziram. +<br /> + +<br /> + +—Ó snr. Domingos, faz favor, vem-nos fallar? +disse sua excellencia. +<br /> + +<br /> + +O escrivão apressou-se com importancia; e a +<span class="pagenum">[363]</span> +porta cerrou-se de novo, confidencialmente. Ah! +aquella porta, fechada diante d'elle, deixando-o de +fóra, indignava o Carlos. Alli ficava, com o Pires, +com o Arthur, entre as intelligencias subalternas, elle +que promettera á Amparosinho fallar d'alto ao administrador! +E quem era ouvido, e quem era chamado? +O Domingos, um animal notorio, que começava +<em>satisfação</em> com +um <em>c</em> cedilhado! Que se podia +de resto esperar d'uma auctoridade que passava as +manhãs de binoculo a deshonrar uma familia? Pobre +Telles, seu visinho, seu amigo!... Não, realmente +devia fallar ao Telles! +<br /> + +<br /> + +Mas a sua indignação cresceu quando viu o Arthur +Couceiro, um empregado da repartição, na ausencia +do seu chefe, erguer-se da sua escrivaninha, +vir familiarmente junto do réo, dizer-lhe com melancolia: +<br /> + +<br /> + +—Ah, João, que rapaziada, que rapaziada!... +Mas a coisa arranja-se, verás! +<br /> + +<br /> + +João tinha encolhido tristemente os hombros. +Havia meia hora que alli estava, sentado á beira +d'aquelle banco, sem se mexer, sem despregar os +olhos do soalho, sentindo-se interiormente tão vazio +de idéas, como se lhe tivessem tirado os miolos. +Todo o vinho, que na taberna do Osorio e no +largo da Sé lhe accendia na alma fogachos de +cólera, +lhe retesava os pulsos n'um desejo de desordem, +parecia subitamente eliminado do seu organismo. +Sentia-se agora tão inoffensivo como quando +no cartorio aparava cautelosamente a sua penna +<span class="pagenum">[364]</span> +de pato. Um grande cansaço entorpecia-o; e +alli esperava, sobre o banco, n'uma inercia de todo +o seu sêr, pensando estupidamente que ia viver +para uma enxovia em S. Francisco, dormir n'uma +palhoça, comer da Misericordia... Não tornaria a +passear na Alameda, não veria mais Amelia... A +casita em que vivia seria alugada a outro... Quem +tomaria conta do seu canario? Pobre animalzinho, +ia morrer de fome, decerto... A não ser que a Eugenia, +a visinha, o recolhesse... +<br /> + +<br /> + +O Domingos de repente sahiu do gabinete de sua +excellencia, e fechando vivamente a porta sobre si, +em triumpho: +<br /> + +<br /> + +—Que lhes dizia eu? Composição! Arranjou-se +tudo! +<br /> + +<br /> + +E para João Eduardo: +<br /> + +<br /> + +—Seu felizão! Parabens! parabens! +<br /> + +<br /> + +O Carlos pensou que era aquelle o maior escandalo +administrativo desde o tempo dos Cabraes! E ia +retirar-se enojado (como no quadro classico o Stoico +que se afasta d'uma orgia patricia) quando o senhor +administrador abriu a porta do seu gabinete. Todos +se ergueram. +<br /> + +<br /> + +Sua excellencia deu dois passos na repartição, +e revestido de gravidade, distillando as palavras, +com as lunetas cravadas no réo: +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Amaro, que é um sacerdote +todo caridade e bondade, veio-me expôr... Emfim, +veio-me supplicar que não désse mais andamento a +este negocio... Sua senhoria com razão não quer +<span class="pagenum">[365]</span> +vêr o seu nome arrastado nos tribunaes. Além +d'isso, +como sua senhoria disse muito bem, a religião, +de que elle é... de que elle é, posso dizel-o, a +honra +e o modêlo, impõe-lhe o perdão da +offensa... Sua +senhoria reconhece que o ataque foi brutal, mas +frustrado... Além d'isso parece que o senhor estava +bebedo... +<br /> + +<br /> + +Todos os olhos se fixaram em João Eduardo, que +se fez escarlate. Aquillo pareceu-lhe n'esse momento +peor que a prisão. +<br /> + +<br /> + +—Emfim, continuou o administrador, por altas +considerações que eu pesei devidamente, tomo a +responsabilidade +de o soltar. Veja agora como se porta. +A auctoridade não o perde d'olho... Bem, póde ir +com Deus! +<br /> + +<br /> + +E sua excellencia recolheu-se ao gabinete. João +Eduardo ficou immovel, como parvo. +<br /> + +<br /> + +—Posso ir, hein? balbuciou. +<br /> + +<br /> + +—P'r'á China, p'ra onde quizer! <em>Liberus, +libera, +liberum!</em> exclamou o Domingos que, interiormente +detestando padres, jubilava com aquelle final. +<br /> + +<br /> + +João Eduardo olhou um momento em redor os +empregados, o carrancudo Carlos; duas lagrimas +bailavam-lhe nas palpebras; de repente agarrou o +chapéo e abalou. +<br /> + +<br /> + +—Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos, +esfregando vivamente as mãos. +<br /> + +<br /> + +Immediatamente a papelada foi arrumada, aqui +e além, á pressa. É que era tarde! O +Pires recolhia +as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha de +<span class="pagenum">[366]</span> +vento. O Arthur enrolou os seus papeis de musica. +E no vão da janella, amuado, esperando ainda, o +Carlos olhava sombriamente o largo. +<br /> + +<br /> + +Emfim os dois padres sahiram acompanhados +até á porta pelo senhor administrador, que, +terminados +os deveres publicos, reapparecia homem de +sociedade.—Então porque não tinha o amigo +Silverio +vindo a casa da baroneza de Via-Clara? Houvera +um voltarete furibundo. O Peixoto levára dois codilhos. +Tinha dito blasphemias medonhas!... Criado +de suas senhorias. Estimava bem que tudo se tivesse +harmonisado. Cuidado com o degrau... Ás ordens +de suas senhorias... +<br /> + +<br /> + +Ao voltar porém ao seu gabinete dignou-se parar +diante da mesa do Domingos, e retomando alguma +solemnidade: +<br /> + +<br /> + +—A coisa passou-se bem. É um bocado irregular, +mas sensata! Bem basta já os ataques que ha +contra o clero nos jornaes... A coisa podia fazer +barulho. O rapaz era capaz de dizer que tinham sido +ciumes do padre, que queria desinquietar a rapariga, +etc. É mais prudente abafar a coisa... Quanto +mais que, segundo o parocho me provou, toda a +influencia que elle tem exercido na rua da Misericordia +ou onde diabo é, tem tido por fim livrar a +rapariga de casar com aquelle amigo, que, como se +vê, é um bebedo e uma fera! +<br /> + +<br /> + +O Carlos roia-se. Todas aquellas explicações eram +dadas ao Domingos! A elle, nada! Alli ficava, esquecido +no vão da janella! +<span class="pagenum">[367]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas não! Sua excellencia, de dentro do seu gabinete, +chamou-o mysteriosamente com o dedo. +<br /> + +<br /> + +Emfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado +com a auctoridade. +<br /> + +<br /> + +—Eu estava para passar pela botica—disse-lhe +o administrador baixo e sem transição, dando-lhe +um +papel dobrado—para que me mandasse isto a casa, +hoje. É uma receita do doutor Gouvêa... Mas +já que +o amigo aqui está... +<br /> + +<br /> + +—Eu tinha vindo para me pôr á +disposição da +vindicta... +<br /> + +<br /> + +—Isso está acabado! interrompeu vivamente sua +excellencia. Não se esqueça, mande-me isso antes +das seis. É para tomar ainda esta noite. Adeus. +Não +se esqueça! +<br /> + +<br /> + +—Não faltarei, disse sêccamente o Carlos. +<br /> + +<br /> + +Ao entrar na botica, a sua cólera flammejava. Ou +elle não se chamava Carlos, ou havia de mandar +uma correspondencia tremenda ao +<em>Popular</em>!... Mas +a Amparo, que lhe espreitára a volta da varanda, +correu, atirando-lhe as perguntas: +<br /> + +<br /> + +—Então? Que se passou? O rapaz foi p'r'á rua? +Que disse elle? Como foi? +<br /> + +<br /> + +O Carlos fixava-a, com as pupillas chammejantes. +<br /> + +<br /> + +—Não foi culpa minha, mas triumphou o materialismo! +Elles o pagarão! +<br /> + +<br /> + +—Mas tu que disseste? +<br /> + +<br /> + +Então, vendo os olhos da Amparo e os do praticante +abertos para devorar a citação do seu +depoimento—o +Carlos, tendo de resalvar a dignidade de +<span class="pagenum">[368]</span> +esposo e a superioridade de patrão, disse laconicamente: +<br /> + +<br /> + +—Dei a minha opinião, com firmeza! +<br /> + +<br /> + +—E elle que disse, o administrador? +<br /> + +<br /> + +Foi então que o Carlos, recordando-se, leu a receita +que amarrotára na mão. A +indignação emmudeceu-o—vendo +que era aquelle todo o resultado +da sua grande entrevista com a auctoridade! +<br /> + +<br /> + +—Que é? perguntou sôfregamente a Amparo. +<br /> + +<br /> + +O que era? E no seu furor, desdenhando o segredo +profissional e o bom renome da auctoridade, +o Carlos exclamou: +<br /> + +<br /> + +—É um frasco de xarope de Gibert para o senhor +administrador! Ahi tem a receita, snr. Augusto. +<br /> + +<br /> + +A Amparo, que, com alguma pratica de pharmacia, +conhecia os beneficios do mercurio, fez-se tão +escarlate como as fitas flammejantes que lhe enfeitavam +a cuia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Toda essa tarde se fallou com excitação pela +cidade +«da tentativa d'assassinato de que estivera para +ser victima o senhor parocho». Algumas pessoas +censuravam o administrador por não ter procedido: +os cavalheiros da opposição sobretudo, que viram +na debilidade d'aquelle funccionario uma prova incontestavel +de que o governo ia, com os seus desperdicios +e as suas corrupções, levando o paiz a um +abysmo! +<span class="pagenum">[369]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas o padre Amaro, esse, era admirado como +um santo. Que piedade! que mansidão! O senhor +chantre mandou-o chamar á noitinha, recebeu-o paternalmente +com um «viva o meu cordeiro paschal»! +E depois de escutar a historia do insulto, a generosa +intervenção... +<br /> + +<br /> + +—Filho, exclamou, isso é alliar a mocidade de +Telemacho á prudencia de Mentor! Padre Amaro, +vossê era digno de ser sacerdote de Minerva na cidade +de Salento! +<br /> + +<br /> + +Quando Amaro entrou á noite em casa da S. +Joanneira—foi como a apparição d'um santo escapo +ás feras do Circo ou á plebe de Diocleciano! +Amelia, +sem disfarçar a sua exaltação, +apertou-lhe ambas as +mãos, muito tempo, toda tremula, com os olhos humidos. +Deram-lhe, como nos grandes dias, a poltrona +verde do conego. A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +quiz mesmo que se lhe puzesse uma almofada para +elle apoiar o hombro dorido. Depois teve de +contar miudamente toda a scena, desde o momento +em que, conversando com o collega Silverio (que +se portára muito bem), avistára o escrevente no +meio do largo, de bengalão alçado e ar de +matamouros... +<br /> + +<br /> + +Aquelles detalhes indignavam as senhoras. O +escrevente apparecia-lhes peor que Longuinhos e +que Pilatos. Que malvado! O senhor parocho devia-o +ter calcado aos pés! Ah! era d'um santo, ter +perdoado! +<br /> + +<br /> + +—Fiz o que me inspirou o coração, disse elle +<span class="pagenum">[370]</span> +baixando os olhos. Lembrei-me das palavras de Nosso +Senhor Jesus Christo: elle manda offerecer a face +esquerda depois de se ter sido esbofeteado na face +direita... +<br /> + +<br /> + +O conego, a isto, escarrou grosso e observou: +<br /> + +<br /> + +—Eu lhe digo. Eu, se me atirarem um bofetão +á face direita... Emfim, são ordens de Nosso +Senhor +Jesus Christo, offereço a face esquerda. São +ordens +de cima!... Mas depois de ter cumprido esse dever +de sacerdote, oh, senhoras, desanco o patife! +<br /> + +<br /> + +—E doeu-lhe muito, senhor parocho? perguntou +do canto uma vozinha expirante e desconhecida. +<br /> + +<br /> + +Acontecimento extraordinario! Era a snr.<sup>a</sup> D. +Anna +Gansoso que fallára depois de dez longos annos +de taciturnidade somnolenta! Aquelle torpor que nada +sacudira, nem festas, nem lutos, tinha emfim, +sob um impulso de sympathia pelo senhor parocho, +uma vibração humana!—Todas as senhoras lhe +sorriram, +agradecidas, e Amaro, lisonjeado, respondeu +com bondade: +<br /> + +<br /> + +—Quasi nada, snr.<sup>a</sup> D. Anna, quasi nada, minha +senhora... Que elle deu de rijo! Mas eu sou de boa +carnadura. +<br /> + +<br /> + +—Ai, que monstro! exclamou D. Josepha Dias, +furiosa á idéa do punho do escrevente +descarregado +sobre aquelle hombro santo. Que monstro! +Eu queria-o vêr com uma grilheta a trabalhar +na estrada! Que eu é que o conhecia! A mim nunca +elle me enganou... Sempre lhe achei cara d'assassino! +<span class="pagenum">[371]</span> +<br /> + +<br /> + +—Estava embriagado, homens com vinho... arriscou +timidamente a S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Foi um clamor. Ai, que o não desculpasse! Parecia +até sacrilegio! Era uma fera, era uma fera! +<br /> + +<br /> + +E a exultação foi grande quando Arthur Couceiro, +apparecendo, deu logo da porta a novidade, a +ultima: o Nunes mandára chamar o João Eduardo e +dissera-lhe (palavras textuaes): «Eu, bandidos e +malfeitores não os quero no meu cartorio. Rua!» +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira então commoveu-se: +<br /> + +<br /> + +—Pobre rapaz, fica sem ter que comer... +<br /> + +<br /> + +—Que beba! que beba! gritou a snr.<sup>a</sup> D. Maria +da Assumpção. +<br /> + +<br /> + +Todos riram. Só Amelia, curvada sobre a sua costura, +se fizera muito pallida, aterrada áquella idéa +que João Eduardo teria talvez fome... +<br /> + +<br /> + +—Pois olhem, não acho caso para rir! disse a +S. Joanneira. É até coisa que me vai tirar o +somno... +Pensar que o rapaz ha de querer um bocado +de pão e não ha de ter... Credo! Não, +isso não! E +o senhor padre Amaro desculpe... +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro tambem não desejava que o rapaz +cahisse em miseria! Não era homem de rancor, elle! +E se o escrevente viesse á sua porta com necessidade, +duas ou tres placas (não era rico, não podia +mais), mas tres ou quatro placas dava-lh'as... Dava-lh'as +de coração. +<br /> + +<br /> + +Tanta santidade fanatisou as velhas. Que anjo! +Olhavam-n'o, babosas, com as mãos vagamente postas. +A sua presença, como a d'um S. Vicente de Paulo, +<span class="pagenum"><a name="p372" id="p372">[372]</a></span> +exhalando caridade, dava á sala uma suavidade +de capella: e a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +suspirou +de gozo devoto. +<br /> + +<br /> + +Mas Natario appareceu, radiante. Deu grandes +apertos de mãos em redor, rompeu em triumpho: +<br /> + +<br /> + +—Então já sabem? O <a href="#e10">patife</a>, +o assassino, +escorraçado +de toda a parte como um cão! O Nunes expulsou-o +do cartorio. O doutor Godinho disse-me agora +que no governo civil não punha elle os pés. +Enterrado, +demolido! É um allivio p'r'á gente de bem! +<br /> + +<br /> + +—E ao senhor padre Natario se deve! exclamou +D. Josepha Dias. +<br /> + +<br /> + +Todos o reconheciam. Fôra elle, com a sua habilidade, +a sua labia, que descobrira a perfidia de João +Eduardo, salvára a Ameliasinha, Leiria, a Sociedade. +<br /> + +<br /> + +—E em tudo o que pretender, o maroto, ha de +me encontrar pela frente. Emquanto elle estiver em +Leiria não o largo! Que lhes disse eu, minhas senhoras?... +«Eu é que o esmago!» Pois ahi o +têm esmagado! +<br /> + +<br /> + +A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona, +regaladamente, no repouso merecido de uma +victoria difficil. E voltando-se para Amelia: +<br /> + +<br /> + +—E agora, o que lá vai, lá vai! Livrou-se de +uma fera, é o que lhe posso dizer! +<br /> + +<br /> + +Então os louvores—que já lhe tinham repetido +prolixamente desde que ella rompera com a fera—recomeçaram, +mais vivos: +<br /> + +<br /> + +—Foi a coisa de mais virtude que tens feito em +toda a tua vida! +<span class="pagenum">[373]</span> +<br /> + +<br /> + +—É a graça de Deus que te tocou! +<br /> + +<br /> + +—Estás em graça, filha! +<br /> + +<br /> + +—Emfim é Santa Amelia, disse o conego erguendo-se, +enfastiado d'aquellas glorificações. Pois +parece-me que temos fallado bastante do patife... +Mande agora a senhora vir o chá, hein? +<br /> + +<br /> + +Amelia permanecia calada, cosendo á pressa; erguia +ás vezes rapidamente para Amaro um olhar desassocegado; +pensava em João Eduardo, nas ameaças +de Natario; e imaginava o escrevente com as faces +encovadas de fome, foragido, dormindo pelas portas +dos casaes... E emquanto as senhoras se accommodavam, +palrando, á mesa do chá, ella pôde +dizer +baixo a Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Não posso socegar com a idéa que o rapaz +soffra necessidades... Eu bem sei que é um malvado, +mas... É como um espinho cá por dentro. Tira-me +toda a alegria. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro disse-lhe então, com muita bondade, +mostrando-se superior á injuria, n'um alto espirito +de caridade christã: +<br /> + +<br /> + +—Minha rica filha, são tolices... O homem não +morre de fome. Ninguem morre de fome em Portugal. +É novo, tem saude, não é tolo, ha de +se arranjar... +Não pense n'isso... Aquillo é palavriado do +padre Natario... O rapaz naturalmente sae de Leiria, +não tornamos a ouvir fallar d'elle... E em toda a +parte ha de ganhar a vida... Eu por mim perdoei-lhe, +e Deus ha de tomar isso em conta. +<br /> + +<br /> + +Estas palavras tão generosas, ditas baixo, com +<span class="pagenum">[374]</span> +um olhar amante, tranquillisaram-na inteiramente. A +clemencia, a caridade do senhor parocho pareceram-lhe +melhores que tudo o que ouvira ou lera de santos +e de monges piedosos. +<br /> + +<br /> + +Depois do chá, ao quino, ficou junto d'elle. Uma +alegria plena e suave penetrava-a deliciosamente. +Tudo o que até ahi a importunára e a +assustára, +João Eduardo, o casamento, os deveres, desapparecera +emfim da sua vida: o rapaz iria para longe, +empregar-se—e o senhor parocho alli estava, todo +d'ella, todo apaixonado! Por vezes, por baixo da mesa, +os seus joelhos tocavam-se, a tremer: n'um momento +em que todos faziam um alarido indignado +contra Arthur Couceiro que pela terceira vez quinára +e brandia o cartão triumphante, foram as mãos que +se encontraram, se acariciaram; um pequeno suspiro +simultaneo, perdido na gralhada das velhas, ergueu +o peito d'ambos; e até ao fim da noite foram marcando +os seus cartões, muito calados, com as faces +accêsas, sob a pressão brutal do mesmo desejo. +<br /> + +<br /> + +Emquanto as senhoras se agasalhavam, Amelia +aproximou-se do piano para correr uma escala, e +Amaro pôde murmurar-lhe ao ouvido: +<br /> + +<br /> + +—Oh, filhinha, que te quero tanto! E não podermos +estar sós... +<br /> + +<br /> + +Ella ia responder—quando a voz de Natario, +que se embrulhava no seu capote ao pé do aparador, +exclamou, muito severa: +<br /> + +<br /> + +—Então as senhoras deixam andar por aqui semelhante +livro? +<span class="pagenum">[375]</span> +<br /> + +<br /> + +Todos se voltaram, na surpreza que dava aquella +indignação, a olhar o largo volume encadernado +que Natario indicava com a ponta do guardachuva, +como um objecto abominavel. D. Maria da Assumpção +aproximou-se logo d'olho reluzente, imaginando +que seria alguma d'essas novellas, tão famosas, em +que se passam coisas immoraes. E Amelia chegando-se +tambem, disse, admirada de tal reprovação: +<br /> + +<br /> + +—Mas é o <em>Panorama</em>... +É um volume do +<em>Panorama</em>... +<br /> + +<br /> + +—Que é o <em>Panorama</em> vejo +eu, disse Natario com +seccura. Mas tambem vejo isto.—Abriu o volume +na primeira pagina branca, e leu +alto:—«<em>Pertence-me +este volume a mim, João Eduardo Barbosa, e +serve-me de recreio nos meus ocios</em>.» +Não comprehendem, +hein? Pois é muito simples... Parece incrivel +que as senhoras não saibam que esse homem, +desde que poz as mãos n'um sacerdote, está +<em>ipso facto</em> +excommungado, e excommungados todos os objectos +que lhe pertencem! +<br /> + +<br /> + +Todas as senhoras, instinctivamente, afastaram-se +do aparador onde jazia aberto o +<em>Panorama</em> fatal, +arrebanhando-se, n'um arripiamento de medo, áquella +idéa da Excommunhão que se lhes representava +como um desabamento de catastrophes, um aguaceiro +de raios despedidos das mãos do Deus Vingador: +e alli ficaram mudas, n'um semi-circulo apavorado, +em torno de Natario, que, de capotão pelos hombros +e braços cruzados, gozava o effeito da sua +revelação. +<span class="pagenum">[376]</span> +<br /> + +<br /> + +Então a S. Joanneira, no seu assombro, arriscou-se +a perguntar: +<br /> + +<br /> + +—O senhor padre Natario está a fallar sério? +<br /> + +<br /> + +Natario indignou-se: +<br /> + +<br /> + +—Se estou a fallar sério!? Essa é forte! Pois eu +havia de gracejar sobre um caso d'excommunhão, +minha senhora? Pergunte ahi ao senhor conego se +eu estou a gracejar! +<br /> + +<br /> + +Todos os olhos se voltaram para o conego, essa +inesgotavel fonte de saber ecclesiastico. +<br /> + +<br /> + +Elle então, tomando logo o ar pedagogico que +lhe voltava dos seus antigos habitos do seminario +sempre que se tratava de doutrina, declarou que o +collega Natario tinha razão. Quem espanca um sacerdote, +sabendo que é um sacerdote, está +<em>ipso facto</em> +excommungado. É doutrina assente. É o que se +chama +a excommunhão latente; não necessita a +declaração +do pontifice ou do bispo, nem o ceremonial, +para ser valida, e para que todos os fieis considerem +o offensor como excommungado. Devem-no tratar portanto +como tal... Evital-o a elle, e ao que lhe pertence... +E este caso de pôr mãos sacrilegas n'um +sacerdote era tão especial, continuava o conego n'um +tom profundo, que a bulla do Papa Martinho V, limitando +os casos de excommunhão tacita, conserva-a +todavia para o que maltrata um sacerdote...—Citou +ainda mais bullas, as Constituições de Innocencio +IX e de Alexandre VII, a Constituição Apostolica, +outras legislações temerosas; rosnou latins, +aterrou +as senhoras. +<span class="pagenum">[377]</span> +<br /> + +<br /> + +—Esta é a doutrina, concluiu dizendo; mas a +mim parece-me melhor não se fazer d'isso espalhafato... +<br /> + +<br /> + +D. Josepha Dias acudiu logo: +<br /> + +<br /> + +—Mas nós é que não podemos arriscar a +nossa +alma a encontrar aqui por cima das mesas coisas +excommungadas. +<br /> + +<br /> + +—É destruir! exclamou D. Maria da +Assumpção. +É queimar! é queimar! +<br /> + +<br /> + +D. Joaquina Gansoso arrastára Amelia para o vão +da janella, perguntando-lhe se tinha outros objectos +pertencentes ao homem. Amelia, atarantada, confessou +que tinha algures, não sabia onde, um lenço, +uma luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha. +<br /> + +<br /> + +—É para o fogo, é para o fogo! gritava a Gansoso +excitada. +<br /> + +<br /> + +A sala vibrava agora com a gralhada das senhoras, +arrebatadas n'um furor santo. D. Josepha Dias, +D. Maria da Assumpção fallavam com gozo do +<em>fogo</em>, +enchendo a boca com a palavra, n'uma delicia inquisitorial +de exterminação devota. Amelia e a Gansoso, +no quarto, rebuscavam pelas gavetas, por entre a +roupa branca, as fitas e as calcinhas, á caça dos +«objectos +excommungados». E a S. Joanneira assistia, +attonita e assustada, áquelle alarido +d'auto-de-fé que +atravessava bruscamente a sua sala pacata, refugiada +ao pé do conego, que depois de ter rosnado algumas +palavras sobre «a Inquisição em casas +particulares», +se enterrára commodamente na poltrona. +<br /> + +<br /> + +—É para lhes fazer sentir que se não perde +impunemente +<span class="pagenum">[378]</span> +o respeito á batina, dizia Natario baixo +a Amaro. +<br /> + +<br /> + +O parocho assentiu, com um gesto mudo de cabeça, +contente d'aquellas cóleras beatas que eram +como a affirmação ruidosa do amor que lhe tinham +as senhoras. +<br /> + +<br /> + +Mas D. Josepha impacientava-se. Agarrára já o +<em>Panorama</em> com as pontas do chale, +para evitar o +contagio, e gritava para dentro, para o quarto, onde +continuava pelos gavetões uma rebusca furiosa: +<br /> + +<br /> + +—Então appareceu? +<br /> + +<br /> + +—Cá está, cá está! +<br /> + +<br /> + +Era a Gansoso que entrava triumphante com a +cigarreira, a velha luva e o lenço de algodão. +<br /> + +<br /> + +E as senhoras, em alarido, arremetteram para a +cozinha. A mesma S. Joanneira as seguiu, como boa +dona de casa, para fiscalisar a fogueira. +<br /> + +<br /> + +Os tres padres então, sós, olharam-se—e riram. +<br /> + +<br /> + +—As mulheres têm o diabo no corpo, disse o +conego philosophicamente. +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu +logo Natario fazendo-se sério. Eu rio porque a coisa, +assim vista, parece patusca. Mas o sentimento é +bom. Prova a verdadeira devoção ao sacerdocio, +horror +á impiedade... Emfim o sentimento é excellente. +<br /> + +<br /> + +—O sentimento é excellente, confirmou Amaro, +tambem sério. +<br /> + +<br /> + +O conego ergueu-se: +<br /> + +<br /> + +—E é que se pilhassem o homem eram capazes +de o queimar... Não lh'o digo a brincar, que a mana +<span class="pagenum">[379]</span> +tem figados para isso... É um Torquemada de +saias... +<br /> + +<br /> + +—Está na verdade, está na verdade, affirmou +Natario. +<br /> + +<br /> + +—Eu não resisto a ir vêr a +execução! exclamou +o conego. Eu quero vêr com os meus olhos! +<br /> + +<br /> + +E os tres padres então foram até á +porta da cozinha. +As senhoras lá estavam, em pé diante da lareira, +batidas da luz violenta da fogueira que fazia +destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que +já se tinham coberto. A +<em>Ruça</em>, de joelhos, soprava +esfalfada. Tinham cortado com o facão a +encardernação +do <em>Panorama</em>; e as folhas retorcidas +e negras, +com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé +nas linguas do fogo claro. Só a luva de pellica +não se consumia. Debalde com as tenazes a punham +no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um +caroço engorolado; mas não ardia. E a sua +resistencia +aterrava as senhoras. +<br /> + +<br /> + +—É que é a da mão direita com que +commetteu +o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assumpção. +<br /> + +<br /> + +—Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da +porta o conego muito divertido. +<br /> + +<br /> + +—O mano faz favor de não troçar com coisas +sérias! gritou D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +—Oh, mana! a senhora quer saber melhor que +um sacerdote como é que se queima um impio? A +pretenção não está +má! É bufar-lhe, é bufar-lhe! +<br /> + +<br /> + +Então, confiadas na sciencia do senhor conego, a +Gansoso e D. Maria da Assumpção, acocoradas, +bufaram +<span class="pagenum">[380]</span> +tambem. As outras olhavam, n'um sorriso mudo, +o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella +exterminação +grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, +pulando com uma força galharda, na gloria da sua +antiga funcção de purificador dos peccados.—E +por +fim sobre as achas em braza, nada restou do +<em>Panorama</em>, +do lenço e da luva do impio. +<br /> + +<br /> + +A essa hora João Eduardo, o impio, no seu quarto, +sentado aos pés da cama, soluçava, com a face +banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos +bons serões da rua da Misericordia, na cidade para +onde iria, na roupa que empenharia, e perguntando +em vão a si mesmo porque o tratavam assim, elle +que era tão trabalhador, que não queria mal a +ninguem, +e que a adorava tanto, a ella? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XVI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +No domingo seguinte havia missa cantada na Sé, +e a S. Joanneira e Amelia atravessaram a Praça para +ir buscar D. Maria da Assumpção, que em dias +de mercado e de «populacho» nunca sahia +só, receosa +que lhe roubassem as joias ou lhe insultassem +a castidade. +<br /> + +<br /> + +N'essa manhã, com effeito, a affluencia das freguezias +enchia a Praça: os homens em grupo, atravancando +a rua, muito sérios, muito barbeados, de +jaqueta ao hombro; as mulheres aos pares, com uma +fortuna de grilhões e de corações +d'ouro sobre peitos +pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se +por traz dos balcões alastrados de lençaria e de +chitas; +nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo +mercado, entre os saccos de farinha, os montões de +<span class="pagenum">[382]</span> +louça, os cestos de brôa, ia um regatear sem fim; +havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os +espelhinhos +redondos e transbordam os mólhos de rosarios; +velhas faziam pregão por traz dos seus taboleiros +de cavacas; e os pobres, afreguezados á cidade, +choramingavam Padre-nossos pelas esquinas. +<br /> + +<br /> + +Já senhoras passavam para a missa, todas em +sêdas, de rostinho sisudo; e a Arcada estava cheia +de cavalheiros, têsos nos seus fatos de casimira nova, +fumando caro, gozando o domingo. +<br /> + +<br /> + +Amelia foi muito olhada: o filho do recebedor, +um atrevido, disse mesmo alto d'um grupo: <em>Ai, que +me leva o coração!</em> E as duas +senhoras, apressando-se, +dobravam para a rua do Correio, quando lhes +appareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao +peito. Não as tinha visto desde «o desacato do +largo +da Sé», e rompeu logo em +exclamações. Ai, filhas, +que desgosto aquelle! O malvado do escrevente! +Elle tinha tido tanto que fazer, que só n'essa +manhã +é que pudera ir ao senhor parocho dar-lhe os +sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se +a vestir; elle quiz-lhe vêr o braço e felizmente, +louvores a Deus, nem uma pisadura... E se +ellas vissem, que carnadura tão delicada, que pelle +tão branca... Uma pellinha d'archanjo! +<br /> + +<br /> + +—Mas querem vossês saber, filhas? Encontrei-o +n'uma grande afflicção! +<br /> + +<br /> + +As duas senhoras assustaram-se. Porquê, Libaninho? +<br /> + +<br /> + +A criada, a Vicencia, que havia dias se queixava, +<span class="pagenum">[383]</span> +tinha ido n'essa madrugada para o hospital com +um febrão... +<br /> + +<br /> + +—E alli está o pobre santo sem criada, sem nada! +Vejam vossês! Para hoje bem, que vai jantar +com o nosso conego (tambem lá estive, ai, que santo!), +mas ámanhã, mas depois? Que elle já +tem em +casa a irmã da Vicencia, a Dionysia... Mas, oh, filhas, +a Dionysia! Foi o que eu lhe disse: a Dionysia póde +ser uma santa, mas que reputação!... É +que não +ha peor em Leiria... Uma perdida que não põe os +pés na igreja... Tenho a certeza que o senhor chantre +até havia de reprovar! +<br /> + +<br /> + +As duas senhoras concordaram logo que a Dionysia +(mulher que não cumpria os preceitos, que +representára +em theatros de curiosos) não convinha ao +senhor parocho... +<br /> + +<br /> + +—Olha, S. Joanneira, disse Libaninho, sabes o +que lhe convinha? Eu lá lh'o disse, lá lhe fiz a +proposta. +É ferrar-se outra vez em tua casa. Que é onde +está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata +da roupa, que lhe sabe os gostos, e onde tudo é virtude! +Elle não disse que +<em>não</em> nem que +<em>sim</em>. Mas +olha que se lhe podia lêr na cara que está a +morrer +por isso... Tu é que lhe devias fallar, S. Joanneirinha! +<br /> + +<br /> + +Amelia fizera-se tão escarlate como a sua gravata +de sêda da India. E a S. Joanneira disse ambiguamente: +<br /> + +<br /> + +—Fallar-lhe não... Eu n'essas coisas sou muito +delicada... Bem comprehendes... +<span class="pagenum">[384]</span> +<br /> + +<br /> + +—Era como teres um santo de portas a dentro, +filha! disse com calor o Libaninho. Lembra-te d'isso! +E era um gosto para todos... Tenho a certeza que +até Nosso Senhor se havia d'alegrar... E agora +adeus, pequenas, que vou de fugida. Não vos demoreis, +que está a missinha a cahir. +<br /> + +<br /> + +As duas senhoras continuaram caladas até casa +de D. Maria da Assumpção. Nenhuma queria arriscar +primeiro uma palavra sobre aquella possibilidade +tão inesperada, tão grave, do senhor parocho +voltar +para a rua da Misericordia! Foi só quando pararam +que a S. Joanneira disse, ao puxar à campainha: +<br /> + +<br /> + +—Ai, o senhor parocho realmente não póde ter +a Dionysia de portas a dentro... +<br /> + +<br /> + +—Credo, até causa horror! +<br /> + +<br /> + +Foi tambem a expressão da snr.<sup>a</sup> D. +Maria da +Assumpção +quando lhe contaram, em cima, a doença da +Vicencia e a installação da Dionysia: causava +horror! +<br /> + +<br /> + +—Que eu não a conheço, disse a excellente +senhora. +E tenho até vontade de a conhecer. Que me +dizem que é dos pés à +cabeça uma crosta de peccado! +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira então fallou da «proposta do +Libaninho». +D. Maria da Assumpção declarou logo com +ardor que era uma inspiração de Nosso Senhor. Que +nunca o senhor parocho devia ter sahido da rua da +Misericordia! Até parece que mal elle se fôra +embora, +Deus retirára a sua graça da casa... +Não houvera +senão desgostos—o +<em>Communicado</em>, a dôr de +estomago +do conego, a morte da entrevadinha, aquelle +<span class="pagenum">[385]</span> +desgraçado casamento (que estivera por um +<em>triz</em>, que +horror!), o escandalo do largo da Sé... A casa tinha +parecido enguiçada!... E era até peccado deixar +viver +o santinho n'aquelle desarranjo, com a suja da +Vicencia, que nem lhe sabia dar uma passagem nas +meias! +<br /> + +<br /> + +—Em parte nenhuma póde estar melhor que em +tua casa... Tem tudo o que necessita, de portas a +dentro... E para ti é uma honra, é estar em +graça. +Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, +quem +o hospedava era eu! Que aqui é que elle estava +bem... Que salinha para elle, hein? +<br /> + +<br /> + +Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as +suas preciosidades. +<br /> + +<br /> + +A sala com effeito era toda ella uma immensa +armazenagem de santaria e de +<em>bric-à-brac</em> devoto: +sobre as duas commodas de pau preto com fechaduras +de cobre apinhavam-se, sob redomas, em peanhas, +as Nossas Senhoras vestidas de sêda azul, os +Meninos Jesus frizados com o ventresinho gordo e a +mão abençoadora, os Santo Antonios no seu burel, +os S. Sebastiões bem fréchados, os S. +Josés barbudos. +Havia santos exoticos, que eram o seu orgulho, +que lhe fabricavam em Alcobaça—S. Paschoal +Baylão, +S. Didacio, S. Chrisolo, S. Gorislano... Depois +eram os bentinhos, os rosarios de metal e de caroços +d'azeitonas, contas de côres, rendas amarellas +d'antigas alvas, corações de vidro escarlate, +almofadinhas +com J. M. entrelaçados a missanga, ramos +bentos, palmas de martyres, cartuchinhos d'incenso. +<span class="pagenum">[386]</span> +As paredes desappareciam forradas de estampas de +Virgens de todas as devoções,—equilibradas sobre +o orbe, enrodilhadas aos pés da cruz, trespassadas +d'espadas. Corações d'onde gotejava sangue, +corações +d'onde sahia uma fogueira, corações d'onde +dardejavam +raios: orações encaixilhadas para as festas +particularmente amadas—o <em>Casamento de Nossa +Senhora</em>, a +<em>Invenção da Santa +Cruz</em>, os <em>Estigmas +de S. Francisco</em>, sobretudo o <em>Parto +da Santa +Virgem</em>, a mais devota, que vem pelas quatro +temporas. Sobre as mesas lamparinas accêsas, para +serem collocadas sem demora aos santos especiaes, +quando a boa senhora tivesse a sua sciatica, +ou que o catarrho se assanhasse, ou lhe viessem +as caimbras. Ella mesma, só ella, arrumava, +espanejava, lustrava toda aquella santa população +celeste, aquelle arsenal beato, que era apenas sufficiente +para a salvação da sua alma e o allivio +dos seus achaques. O seu grande cuidado era a +collocação dos santos; alterava-a constantemente, +porque ás vezes, por exemplo, sentia que Santo +Eleuterio não gostava d'estar ao pé de S. +Justino, +e ia então pendural-o a distancia, n'uma companhia +mais sympathica ao santo. E distinguia-os +(segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe +explicava), dando-lhes uma devoção graduada, e +não +tendo por S. José de segunda classe o respeito que +sentia por S. José de primeira classe. Aquella riqueza +era a inveja das amigas, a edificação dos +curiosos, +e fazia sempre dizer ao Libaninho, quando a +<span class="pagenum">[387]</span> +vinha visitar, abrangendo a sala n'um olhar langoroso:—Ai, +filha, é o reininho dos céos! +<br /> + +<br /> + +—Não é verdade, continuava a excellente senhora +radiante, que elle aqui é que estava bem, o +santinho do parocho? É como ter o céo debaixo da +mão! +<br /> + +<br /> + +As duas senhoras concordaram. Ella podia ter a +sua casa arranjada com devoção, ella que era +rica... +<br /> + +<br /> + +—Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns +centos de mil reis. Sem contar o que está no relicario... +<br /> + +<br /> + +Ah, o famoso relicario de sandalo forrado de setim! +Tinha lá uma lascasinha da verdadeira Cruz, +um bocado quebrado do espinho da Corôa, um farrapinho +do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se +com azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, +d'origem divina, deviam estar no sacrario da +Sé. D. Maria da Assumpção, temendo que +o senhor +chantre soubesse d'aquelle thesouro seraphico, só o +mostrava ás intimas, mysteriosamente. E o santo sacerdote, +que lh'o obtivera, fizera-a jurar sobre o +Evangelho de não revelar a procedencia «para +evitar +fallatorios». +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira, como sempre, admirou sobretudo +o farrapinho do cueiro. +<br /> + +<br /> + +—Que reliquia, que reliquia! murmurava. +<br /> + +<br /> + +E D. Maria da Assumpção muito baixo: +<br /> + +<br /> + +—Não ha melhor. Trinta mil reis me custou... +Mas dava sessenta, mas dava cem! mas dava tudo!—E +babando-se toda, diante do trapinho precioso:—O +<span class="pagenum">[388]</span> +cueirinho! dizia quasi a chorar. Meu rico Menino, +o seu cueirinho... +<br /> + +<br /> + +Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o +relicario no gavetão. +<br /> + +<br /> + +Mas o meio dia ia bater—e as tres senhoras +apressaram-se para a Sé, para pilhar logar no +altar-mór. +<br /> + +<br /> + +Já no largo encontraram D. Josepha Dias, que se +precipitava para a igreja, sôfrega da missa, com o +mantelete descahido sobre o hombro e uma pluma +do chapéo a despregar-se. Tinha estado toda a +manhã +n'um phrenesi com a criada! Fôra necessario +fazer ella todos os preparos para o jantar... Ai, tinha +medo que nem a missinha lhe dêsse virtude, de +nervosa que estava... +<br /> + +<br /> + +—Que temos lá o senhor parocho hoje... Vossês +sabem que adoeceu a criada... Ah, já me esquecia, +o mano quer que tu lá vás jantar tambem, Amelia. +Diz que é para haverem duas damas e dois cavalheiros... +<br /> + +<br /> + +Amelia riu d'alegria. +<br /> + +<br /> + +—E tu vai depois buscal-a, S. Joanneira, á noitinha... +Credo, vesti-me tanto á pressa, que até parece +que me está a cahir o saiote! +<br /> + +<br /> + +Quando as quatro senhoras entraram, a igreja +estava já cheia. Era uma missa cantada ao Santissimo. +E apesar de contrario ao rigor do ritual, por um +costume diocesano (que o bom Silverio, muito estricto +na liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando +presente a Eucharistia, musica de rebeca, violoncello +<span class="pagenum">[389]</span> +e flauta. O altar, muito ornado, com as +reliquias expostas, destacava n'uma alvura festiva; +docel, frontal, paramentos dos missaes eram brancos, +com relevos d'ouro desmaiado; nos vasos erguiam-se +ramos pyramidaes de flôres e folhagens +brancas; os velludilhos decorativos, dispostos como +velarios, punham dos dois lados do tabernaculo a +brancura de duas vastas azas desdobradas, lembrando +a Pomba Espiritual; e os vinte castiçaes erguiam +as suas chammas amarellas em throno até ao sacrario +aberto, que mostrava d'alto, engastada n'um +rebrilhar d'ouros vivos, a hostia redonda e baça. Por +toda a igreja apinhada corria uma susurração +lenta; +aqui e além um catarrho expectorava, uma criança +choramigava; o ar adensava-se já dos halitos juntos +e d'um cheiro d'incenso; e do côro, onde as figuras +dos musicos se moviam por traz dos braços +dos rebecões e das estantes, vinha a cada momento +um afinar gemido de rebeca, ou um pio de flautim. +As quatro amigas tinham-se apenas accommodado +junto do altar-mór, quando os dois acolythos, um +têso como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, +entraram do lado da sacristia, sustentando +alto e direito nas mãos os dois castiçaes +consagrados; +atraz o Pimenta vesgo, com uma sobrepelliz +muito vasta para elle, lançando os seus sapatões +em +passadas pomposas, trazia o incensador de prata; depois +successivamente, durante o rumor do ajoelhar +pela nave e do folhear dos livrinhos, appareceram os +dois diaconos; e emfim, paramentado de branco, +<span class="pagenum">[390]</span> +d'olhos baixos e mãos postas, com aquelle recolhimento +humilde que pede o ritual e que exprime a +mansidão de Jesus marchando ao Calvario, entrou o +padre Amaro—ainda vermelho da questão furiosa +que tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa +da lavagem das alvas. +<br /> + +<br /> + +E o côro immediatamente atacou o +<em>Introito</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amelia passou a sua missa embebecida, pasmada +para o parocho—que era, como dizia o conego, +«um grande artista para missas cantadas»; todo o +cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, +que cavalheirismo nas saudações ceremoniosas +aos diaconos! Como se prostrava bem diante do altar, +aniquilado e escravisado, sentindo-se cinza, sentindo-se +pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado +da sua côrte e da sua familia celeste! Mas era +sobretudo admiravel nas bençãos; passava devagar +as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a +graça que alli cahia do Christo presente, e atirava-a +depois com um gesto largo de caridade por toda a +nave, por sobre o estendal de lenços brancos de +cabeça, +até ao fundo onde os homens do campo muito +apertados, de varapau na mão, pasmavam para +a scintillação do sacrario! Era então +que Amelia o +amava mais, pensando que aquellas mãos +abençoadoras +lh'as apertava ella com paixão por baixo da +mesa do quino: aquella voz, com que elle lhe chamava +<span class="pagenum">[391]</span> +<em>filhinha</em>, recitava agora as +orações ineffaveis, +e parecia-lhe melhor que o gemer das rebecas, revolvia-a +mais que os graves do orgão! Imaginava com +orgulho que todas as senhoras decerto o admiravam +tambem; mas só tinha ciumes, um ciume de devota +que sente os encantos do céo, quando elle ficava +diante do altar, na posição extatica que manda o +ritual, +tão immovel como se a sua alma se tivesse remontado +longe, para as alturas, para o Eterno e para +o Insensivel. Preferia-o, por o sentir mais humano +e mais accessivel, quando, durante o +<em>Kirie</em> ou a +leitura da Epistola, elle se sentava com os diaconos +no banco de damasco vermelho; ella queria então +attrahir-lhe um olhar; mas o senhor parocho permanecia +de olhos baixos n'uma compostura modesta. +<br /> + +<br /> + +Amelia, sentada sobre os calcanhares, com a face +banhada n'um sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabeça +bem feita, os paramentos dourados—e lembrava-se +quando o vira a primeira vez descendo a escada +da rua da Misericordia, com o seu cigarro na mão. +Que romance se passára desde essa noite! Recordava +o Morenal, o salto do vallado, a scena da morte +da titi, aquelle beijo ao pé da lareira... Ai, como +acabaria tudo aquillo? Queria então rezar; folheava +o livro, mas vinha-lhe á idéa o que o Libaninho +n'essa +manhã dissera: «o senhor parocho tinha uma +pellesinha +tão branca como um archanjo...» Devia-a ter +decerto muito delicada, muito tenra... Um desejo +intenso queimava-a: imaginava que era uma tentadora +visitação do demonio,—e para a repellir +arregalava +<span class="pagenum">[392]</span> +os olhos para o sacrario e para o throno que +o padre Amaro, cercado dos diaconos, incensava em +semi-circulos significando a Eternidade dos Louvores, +emquanto o côro berrava o +<em>Offertorio</em>... Depois +elle mesmo, de pé, no segundo degrau do altar, de +mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia +ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; +um perfume d'incenso derramava-se, como +uma annunciação celeste; ennevoava-se o sacrario +sob os rolos alvos de fumo; e o parocho apparecia +a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, +adorava-o então! +<br /> + +<br /> + +A igreja tremia ao clamor do orgão em pleno; +de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a força; +em cima, alçando-se entre os braços dos +rebecões, +o mestre da capella, no fogo da execução, +brandia desesperadamente a sua batuta feita d'um +rolo de canto-chão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito +pallida. +<br /> + +<br /> + +Ao jantar, em casa do conego, a snr.<sup>a</sup> D. Josepha +censurou-a repetidamente de «não dar +palavra». +<br /> + +<br /> + +Não fallava, mas debaixo da mesa o seu pésinho +não cessava de roçar, pisar o do padre Amaro. +Como escurecera cedo tinham accendido as velas; o +conego abrira uma garrafa, não do seu famoso +<em>duque</em> +de 1815, mas do «1847», para acompanhar a +<span class="pagenum">[393]</span> +travessa d'aletria, que enchia o centro da mesa, com +as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, +como explicára o conego, «uma galanteria da mana +ao convidado». Amaro fizera logo uma saude com +o 1847 «á digna dona da casa». Ella +resplandecia, +medonha no seu vestido de bareje verde. O que +sentia é que o jantar fosse tão mau... Que +aquella +Gertrudes estáva-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe +deixando esturrar o pato com macarrão! +<br /> + +<br /> + +—Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou +o parocho. +<br /> + +<br /> + +—São favores do senhor parocho. É porque eu +lhe acudi a tempo... Mais uma colhérzinha d'aletria, +senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +—Nada mais, minha senhora, tenho a minha +conta. +<br /> + +<br /> + +—Então para desgastar, vá mais esse copito do +47, disse o conego. +<br /> + +<br /> + +Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, +deu um <em>ah</em> de +satisfação, e repoltreando-se: +<br /> + +<br /> + +—Boa gota! Assim póde-se viver! +<br /> + +<br /> + +Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o +seu grosso jaquetão de flanella e o guardanapo atado +ao pescoço. +<br /> + +<br /> + +—Boa gota! repetiu, d'este não provou hoje vossê +nas galhetas... +<br /> + +<br /> + +—Credo, mano! exclamou D. Josepha com a +boca cheia de fios d'aletria, muito escandalisada da +irreverencia. +<br /> + +<br /> + +O conego encolheu os hombros com desprezo. +<span class="pagenum">[394]</span> +<br /> + +<br /> + +—O credo é p'r'á missa! Esta +pretenção de se +metter sempre em questões que não percebe! Pois +fique sabendo que é d'uma grande importancia a +questão da qualidade do vinho, na missa. É que +é +necessario que o vinho seja bom... +<br /> + +<br /> + +—Concorre para a dignidade do santo sacrificio, +disse o parocho muito sério, fazendo uma caricia de +joelho a Amelia. +<br /> + +<br /> + +—E não é só isso, disse o conego +tomando logo +o tom pedagogo. É que o vinho, quando não +é +bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas galhetas; +e, se o sacristão não é cuidadoso e +não as +limpa, as galhetas ganham um cheiro pessimo. E sabe +a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, +quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor +Jesus Christo, não está prevenido e faz-lhe uma +careta. +Ora ahi tem a senhora! +<br /> + +<br /> + +E deu um forte chupão ao calix. Mas estava fallador +n'essa noite, e depois d'arrotar devagar, interpellou +de novo D. Josepha, assombrada de tanta +sciencia. +<br /> + +<br /> + +—E diga-me lá então a senhora, já que +é tão +doutora: o vinho, no divino sacrificio, deve ser branco +ou tinto? +<br /> + +<br /> + +D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para +se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor. +<br /> + +<br /> + +—Emende a menina, mugiu o conego de dedo +em riste para Amelia. +<br /> + +<br /> + +Ella recusou-se, com um risinho. Como não era +sacristão, não sabia... +<span class="pagenum">[395]</span> +<br /> + +<br /> + +—Emende o senhor parocho! +<br /> + +<br /> + +Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia +ser branco... +<br /> + +<br /> + +—E porquê? +<br /> + +<br /> + +Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma. +<br /> + +<br /> + +—E porque? continuava o conego, pedante e +roncão. +<br /> + +<br /> + +Não sabia. +<br /> + +<br /> + +—Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando +pela primeira vez consagrou, fel-o com vinho branco. +E a razão é muito simples: é porque na +Judéa n'esse +tempo, como é notorio, não se fabricava vinho +tinto... Repita-me a senhora a aletria, faça favor. +<br /> + +<br /> + +Então, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, +o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. +N'essa manhã antes de se paramentar—justamente +quando entrára o senhor conego na sacristia—acabava +de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. +Em primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia +que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande +escandalo, e que era indigna de tocar os paramentos +santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher +trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato +usal-as no divino sacrificio... +<br /> + +<br /> + +—Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as +a mim, acudiu D. Josepha. Dou-as á minha +lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a +roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! +Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer +o ferro... +<span class="pagenum"><a name="p396" id="p396">[396]</a></span> +<br /> + +<br /> + +Mas o conego (que positivamente estava n'aquella +noite d'uma loquacidade copiosa) interrompeu-a, +e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente: +<br /> + +<br /> + +—Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre +lhe quero dizer, amigo e collega, que commetteu +hoje um erro de palmatoria. +<br /> + +<br /> + +Amaro pareceu inquieto. +<br /> + +<br /> + +—Que erro, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +—Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, +já com os diaconos ao lado, quando fez +a cortezia á imagem da sacristia, em logar de fazer +a cortezia profunda, fez só a meia cortezia. +<br /> + +<br /> + +—Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. +É o texto da rubrica. <em>Facta reverentia +cruci</em>, +feita a reverencia á cruz: isto é, a reverencia +simples, +abaixar ligeiramente a cabeça... +<br /> + +<br /> + +E, para <a href="#e11">exemplificar</a>, fez uma +cortezia a D. Josepha +que lhe sorriu toda, torcendo-se. +<br /> + +<br /> + +—Nego! exclamou formidavelmente o conego +que em sua casa, á sua mesa, punha d'alto as suas +opiniões. E nego com os meus auctores. Elles ahi +vão!—E deixou-lhe cahir em cima, como penedos +d'autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, +Merati, Turrino e Pavonio. +<br /> + +<br /> + +Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude +de controversia, contente de poder, diante d'Amelia, +«enterrar» o conego, mestre de theologia moral e +um colosso de liturgia pratica. +<br /> + +<br /> + +—Sustento, exclamou, sustento com Castaldus... +<span class="pagenum"><a name="p397" id="p397">[397]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é +meu! +<br /> + +<br /> + +—Castaldus é meu, padre-mestre! +<br /> + +<br /> + +E encarniçaram-se, puxando cada um para si o +veneravel Castaldus e a auctoridade da sua facundia. +D. Josepha pulava de gozo na cadeira, murmurando +para Amelia com a cara franzida de riso: +<br /> + +<br /> + +—Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos! +<br /> + +<br /> + +Amaro continuava, com o gesto alto: +<br /> + +<br /> + +—E além d'isso tenho por mim o bom-senso, +padre-mestre. <em>Primò</em>, a +rubrica, como expuz. +<em>Secundò</em>, +o sacerdote, tendo na sacristia o barrete na +<a href="#e12">cabeça</a>, não +deve fazer cortezia inteira, +porque lhe +póde cahir o barrete e temos desacato maior. +<em>Tertiò</em>, +seguir-se-hia um absurdo, porque então a cortezia +antes da missa á cruz da sacristia seria maior que +a que se faz depois da missa á cruz do altar! +<br /> + +<br /> + +—Mas a cortezia á cruz do altar... bradou o +conego. +<br /> + +<br /> + +—É meia cortezia. Leia a rubrica: <em>Caput +inclinat</em>. +Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar +de ser assim! Sabe porquê? Porque depois da +missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma +vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso +Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto é meu! +<br /> + +<br /> + +E de pé, esfregou vivamente as mãos, triumphando. +<br /> + +<br /> + +O conego abatera a papeira sobre as pregas do +guardanapo, como um boi atordoado. E depois d'um +momento: +<span class="pagenum">[398]</span> +<br /> + +<br /> + +—Vossê não deixa de ter razão... Eu +foi para +o ouvir... Faz-me honra cá o discipulo, acrescentou +piscando o olho a Amelia. Pois é beber, é beber! +E +depois salta o cafésinho bem quente, mana Josepha! +<br /> + +<br /> + +Mas um forte repique á campainha sobresaltou-os. +<br /> + +<br /> + +—É a S. Joanneira, disse D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +A Gertrudes entrou com um chale e uma manta +de lã: +<br /> + +<br /> + +—Aqui está isto que vem de casa da menina +Amelia. A senhora manda muitos recados, que não +póde vir, que se achou incommodada. +<br /> + +<br /> + +—Então com quem hei de eu ir? disse logo +Amelia, inquieta. +<br /> + +<br /> + +O conego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe +uma palmadinha na mão: +<br /> + +<br /> + +—Em ultimo caso com este seu criado. E essa +virtudesinha podia ir socegada... +<br /> + +<br /> + +—Tem coisas, mano! gritou a velha. +<br /> + +<br /> + +—Deixe lá, mana. O que passa pela boca d'um +santo, santo fica. +<br /> + +<br /> + +O parocho approvou ruidosamente: +<br /> + +<br /> + +—Tem muita razão o senhor conego Dias! O que +passa pela pela boca d'um santo, santo fica! Para que +viva! +<br /> + +<br /> + +—Á sua! +<br /> + +<br /> + +E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados +da controversia. +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia ficára assustada. +<br /> + +<br /> + +—Jesus, que terá a mamã! Que será? +<span class="pagenum">[399]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ora o que ha de ser! preguiça! disse-lhe o +parocho, rindo. +<br /> + +<br /> + +—Não te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te +eu levar, vamos todos levar-te... +<br /> + +<br /> + +—Vai a menina em charola, rosnou o conego +descascando a sua pêra. +<br /> + +<br /> + +Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos +em redor, e passando a mão pelo estomago: +<br /> + +<br /> + +—Pois olhem, disse, não me estou tambem a +sentir bem... +<br /> + +<br /> + +—Que é? que é? +<br /> + +<br /> + +—Um ameaçosito da dôr. Passou, não +vale nada. +<br /> + +<br /> + +D. Josepha, já assustada, não queria que elle +comesse +a pêra. Que a ultima vez que lhe dera fôra +por causa da fructa... +<br /> + +<br /> + +Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pêra. +<br /> + +<br /> + +—Passou, passou, rosnava. +<br /> + +<br /> + +—Foi sympathia com a mamã, disse o parocho +baixo a Amelia. +<br /> + +<br /> + +De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se +de lado: +<br /> + +<br /> + +—Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, +diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro! +<br /> + +<br /> + +Alvoroçaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o +pelo braço até ao quarto, gritando á +criada +que fosse buscar o doutor. Amelia correu á cozinha +a aquecer uma flanella para lhe pôr no estomago. +Mas não apparecia flanella. Gertrudes topava contra +as cadeiras, espavorida, á procura do seu chale para +sahir. +<span class="pagenum">[400]</span> +<br /> + +<br /> + +—Vá sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro. +<br /> + +<br /> + +A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros. +<br /> + +<br /> + +Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no +quarto. D. Josepha de joelhos diante da commoda +gemia orações a uma grande lithographia de Nossa +Senhora das Dôres; e o pobre padre-mestre, estirado +de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro. +<br /> + +<br /> + +—Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, +não se trata agora de rezar. É necessario +fazer-lhe +alguma coisa... Que se lhe costuma fazer? +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor parocho, não ha nada, não ha nada, +choramingou a velha. É uma dôr que vem e vai +n'um momento. Não dá tempo p'ra nada! Um +chá +de tilia allivia-o ás vezes... Mas por desgraça +hoje +nem tilia tenho! Ai, Jesus! +<br /> + +<br /> + +Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a +pouco voltava esbaforido com a Dionysia, que vinha +offerecer a sua actividade e a sua experiencia. +<br /> + +<br /> + +Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de +repente alliviado! +<br /> + +<br /> + +—Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. +Rica tilia! É de muita caridade. Elle agora +naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe sempre +depois da dôr... Eu vou para ao pé d'elle, +desculpem-me... +Esta foi peor que as outras... São estas +fructas mald...—Reteve a blasphemia, aterrada.—São +as fructas de Nosso Senhor. É a sua divina vontade... +Desculpem-me, sim? +<br /> + +<br /> + +Amelia e o parocho ficaram sós na sala. Os seus +olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de se +<span class="pagenum">[401]</span> +beijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no +quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro +disse então alto: +<br /> + +<br /> + +—Pobre padre-mestre! É uma dôr terrivel. +<br /> + +<br /> + +—Dá-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A +mamã já andava com o presentimento. Ainda me +tinha +dito antes d'hontem: é o tempo da dôr do senhor +conego, estou com mais cuidado... +<br /> + +<br /> + +O parocho suspirou, e baixinho: +<br /> + +<br /> + +—Eu é que não tenho quem pense nas minhas +dôres... +<br /> + +<br /> + +Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos +olhos humedecidos de ternura: +<br /> + +<br /> + +—Não diga isso... +<br /> + +<br /> + +As suas mãos iam apertar-se ardentemente por +sobre a mesa; mas D. Josepha appareceu, encolhida +no seu chale. O mano tinha adormecido. E ella +estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aquelles +abalos arrazavam-lhe a saude! Accendera duas +velas a S. Joaquim e fizera uma promessa a Nossa +Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por +causa da dôr do mano. E Nossa Senhora não lhe +tinha +faltado... +<br /> + +<br /> + +—Nunca falta a quem a implora com fé, minha +senhora, disse com unção o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +O alto relogio d'armario bateu então cavamente +oito horas. Amelia fallou outra vez no cuidado em +que estava pela mamã... Demais a mais ia-se a fazer +tão tarde... +<span class="pagenum">[402]</span> +<br /> + +<br /> + +—E é que quando eu sahi estava a choviscar, +disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Amelia correu á janella, inquieta. O lagedo defronte, +debaixo do candieiro, reluzia muito molhado. +O céo estava tenebroso. +<br /> + +<br /> + +—Jesus, vamos ter uma noite d'agua! +<br /> + +<br /> + +D. Josepha estava afflicta com o contratempo; +mas a Amelia bem via, ella agora não podia despegar +de casa; a Gertrudes fôra ao doutor; naturalmente +não o encontrára, andava a procural-o de casa +em casa, quem sabe quando viria... +<br /> + +<br /> + +O parocho então lembrou que a Dionysia (que +viera com elle e esperava na cozinha) podia ir acompanhar +a snr.<sup>a</sup> D. Amelia. Eram dois passos, +não havia +ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas +até á esquina da Praça... Mas deviam +apressar-se, +que ia cahir agua! +<br /> + +<br /> + +D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para +Amelia. Recommendou-lhe muito que contasse á mamã +o que tinha succedido. Mas que não se affligisse +ella, que o mano estava melhor... +<br /> + +<br /> + +—E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, +dize-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a +dôr não deu tempo para nada! +<br /> + +<br /> + +—Sim, lá direi. Boa noite. +<br /> + +<br /> + +Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia +então quiz esperar. Mas o parocho, apressado, +puxou-a pelo braço: +<br /> + +<br /> + +—Não vale nada, não vale nada! +<span class="pagenum">[403]</span> +<br /> + +<br /> + +Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo +do guardachuva, com a Dionysia ao lado, muito calada, +de chale pela cabeça. Todas as janellas estavam +apagadas; no silencio as goteiras cantavam +d'enxurrão. +<br /> + +<br /> + +—Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a +perder o vestido. +<br /> + +<br /> + +Estavam então na rua das Sousas. +<br /> + +<br /> + +—É que agora cae a cantaros, disse Amaro. +Realmente parece-me que o melhor é entrar no pateo +de minha casa e esperar um bocado... +<br /> + +<br /> + +—Não, não! acudiu Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe +estragar o vestido... É um instante, é um +aguaceiro. +Para aquelle lado, vê, está a alliviar. Vai +passar... +É uma tolice... A mamã, se a visse apparecer +debaixo d'uma carga d'agua, zangava-se, e com razão! +<br /> + +<br /> + +—Não, não! +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e +empurrando Amelia de leve: +<br /> + +<br /> + +—É um instante, vai passar, entre... +<br /> + +<br /> + +E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando +as cordas d'agua que reluziam á luz do candieiro defronte. +Amelia estava toda atarantada. A negrura do +pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe +delicioso estar assim n'aquella escuridão, ao pé +d'elle, +ignorada de todos... Insensivelmente attrahida, +roçava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo, inquieta +de ouvir a sua respiração tão agitada, +de o sentir +<span class="pagenum">[404]</span> +tão junto das saias. Percebia por traz, sem a vêr, +a +escada que levava ao quarto d'elle; e tinha um desejo +immenso de lhe ir vêr acima os seus moveis, +os seus arranjos... A presença da Dionysia, encolhida +contra a porta e muito calada, embaraçava-a; todavia +a cada momento voltava os olhos para ella, +receando que desapparecesse, se sumisse na negrura +do pateo ou da noite... +<br /> + +<br /> + +Amaro então começou a bater com os pés +no +chão, a esfregar as mãos, arripiado. +<br /> + +<br /> + +—Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages +estão regeladas... Realmente era melhor esperar +em cima na sala de jantar... +<br /> + +<br /> + +—Não, não! disse ella. +<br /> + +<br /> + +—Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... +Vá, Dionysia, accenda luz em cima. +<br /> + +<br /> + +A matrona immediatamente galgou os degraus. +<br /> + +<br /> + +Elle então, muito baixo, tomando o braço +d'Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Porque não? Que pensas tu? É uma pieguice. +É emquanto não passa o aguaceiro. Dize... +<br /> + +<br /> + +Ella não respondia, respirando muito forte. Amaro +pousou-lhe a mão sobre o hombro, sobre o peito, +apertando-lh'o, acariciando a sêda. Toda ella estremeceu. +E foi-o emfim seguindo pela escada, como +tonta, com as orelhas a arder, tropeçando a cada degrau +na roda do vestido. +<br /> + +<br /> + +—Entra p'r'áhi, é o quarto, disse-lhe elle ao +ouvido. +<br /> + +<br /> + +Correu á cozinha. Dionysia accendia a vela. +<span class="pagenum">[405]</span> +<br /> + +<br /> + +—Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de +confessar aqui a menina Amelia. É um caso muito +sério... Volta d'aqui a meia hora. Toma.—Metteu-lhe +tres placas na mão. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia descalçou os sapatos, desceu em pontas +de pés e fechou-se na loja do carvão. +<br /> + +<br /> + +Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia lá estava, +immovel, toda pallida. O parocho fechou a porta—e +foi para ella, calado, com os dentes cerrados, +soprando como um touro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia +desceu logo, muito embrulhada na manta: ao +abrirem a porta do pateo passavam na rua dois borrachos +galrando: Amelia recuou rapidamente para o +escuro. Mas Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo +a rua deserta: +<br /> + +<br /> + +—Está a barra livre, minha rica menina... +<br /> + +<br /> + +Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o +passo para a rua da Misericordia. Já não chovia; +havia +estrellas; e uma frialdade sêcca annunciava o +norte e o bom tempo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XVII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha +á cabeceira que ia chegando a hora da missa, saltou +alegremente da cama. E, enfiando o velho paletot +que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa +outra manhã em Feirão em que acordára +aterrado +por ter na vespera, pela primeira vez depois de +padre, peccado brutalmente sobre a palha da estrebaria +da residencia com a Joanna Vaqueira. E não +se atrevera a dizer missa com aquelle crime na alma, +que o abafava com um peso de penedo. Considerára-se +contaminado, immundo, maduro para o inferno, +segundo todos os santos padres e o seraphico +concilio de Trento. Tres vezes chegára á porta da +igreja, tres vezes recuára assombrado. Tinha a certeza +de que, se ousasse tocar na Eucharistia com +<span class="pagenum">[408]</span> +aquellas mãos com que repanhára os saiotes da +Vaqueira, +a capella se aluiría sobre elle, ou ficaria paralysado +vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada +alta, a figura rutilante de S. Miguel Vingador! +Montára a cavallo e trotára duas horas, pelos +barreiros +de D. João, para ir á Gralheira confessar-se ao +bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos +de innocencia, de exagerações piedosas e de +terrores +noviços! Agora tinha aberto os olhos em redor +á realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e +monsenhores não peccavam sobre a palha da estrebaria, +não—era em alcovas commodas, com a ceia +ao lado. E as igrejas não se aluiam, e S. Miguel Vingador +não abandonava por tão pouco os confortos +do céo! +<br /> + +<br /> + +Não era isso o que o inquietava—o que o inquietava +era a Dionysia, que elle ouvia na cozinha, +arrumando e tossicando, sem se atrever a pedir-lhe +agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella +matrona introduzida, installada no seu segredo. Não +duvidava decerto da sua discrição, era o seu +<em>officio</em>; +e algumas meias libras manteriam a sua fidelidade. +Mas repugnava ao seu pudor de padre saber +que aquella velha concubina de auctoridades civis e +militares, que rolára a sua massa de gordura por todas +as torpezas seculares da cidade, conhecia as +suas fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam +sob a batina de parocho. Preferiria que fosse o Silverio +ou Natario que o tivesse visto na vespera, +todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!... +<span class="pagenum">[409]</span> +E o que o incommodava era a idéa de ser +observado por aquelles olhinhos cynicos, que não se +impressionavam nem com a austeridade das batinas +nem com a respeitabilidade dos uniformes, porque +sabiam que por baixo estava igualmente a mesma +miseria bestial da carne... +<br /> + +<br /> + +—Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a. +<br /> + +<br /> + +Nós de dedos bateram discretamente à porta do +quarto. +<br /> + +<br /> + +—Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se +vivamente sobre a mesa, como absorvido, +abysmado nos seus papeis. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre +o lavatorio, tossiu, e fallando sobre as costas +d'Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Ó senhor parocho, olhe que isto assim não tem +geito. Hontem iam vendo sahir daqui a pequena. É +muito sério, menino... Para bem de todos é +necessario +segredo! +<br /> + +<br /> + +Não, não a podia impôr! A mulher +estabelecia-se, +à força, na sua confidencia. Aquellas palavras +mesmo, +murmuradas com medo das paredes, revelando +uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem +d'uma cumplicidade tão experiente. +<br /> + +<br /> + +Voltou-se na cadeira, muito vermelho. +<br /> + +<br /> + +—Iam vendo, hein? +<br /> + +<br /> + +—Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam +ser dois cavalheiros. +<br /> + +<br /> + +—É verdade. +<span class="pagenum">[410]</span> +<br /> + +<br /> + +—E na sua posição, senhor parocho, na +posição +da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... +Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas +que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse +de morte! +<br /> + +<br /> + +Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar a +<em>protecção</em> da +Dionysia. +<br /> + +<br /> + +Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia +libra na mão. +<br /> + +<br /> + +—Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou +ella. +<br /> + +<br /> + +—Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou +elle recostado na cadeira, esperando os conselhos +da matrona. +<br /> + +<br /> + +Ella disse muito naturalmente, sem affectação de +mysterio ou de malicia: +<br /> + +<br /> + +—A mim parece-me que para vêr a pequena +não ha como a casa do sineiro! +<br /> + +<br /> + +—A casa do sineiro!? +<br /> + +<br /> + +Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente +disposição do sitio. Um dos quartos ao +pé da +sacristia, como elle sabia, dava para um pateo onde +se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois +bem, justamente do outro lado eram as trazeiras da +casa do sineiro... A porta da cozinha do tio Esguelhas +abria para o pateo: era sahir da sacristia, atravessal-o, +e o senhor parocho estava no ninho! +<br /> + +<br /> + +—E ella? +<br /> + +<br /> + +—Ella entra pela porta do sineiro, pela porta +da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, +é +<span class="pagenum">[411]</span> +um ermo. E se alguem visse, nada mais natural, +era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... +Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que +o plano +póde-se aperfeiçoar... +<br /> + +<br /> + +—Sim, comprehendo, é um esboço, disse Amaro +que passeava pelo quarto reflectindo. +<br /> + +<br /> + +—Eu conheço bem o sitio, senhor parocho, e +creia o que lhe digo: para um senhor ecclesiastico +que tem o seu arranjinho, não ha melhor que a casa +do sineiro! +<br /> + +<br /> + +Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se: +<br /> + +<br /> + +—Ó tia Dionysia, diga lá com franqueza: +não é +a primeira vez que vossê aconselha a casa do sineiro, +hein? +<br /> + +<br /> + +Ella então negou, muito decisivamente. Era homem +que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe +vindo aquella idéa de noite, a malucar na cama. +Pela manhã cedo fôra examinar o sitio, e +reconhecera +que estava a calhar. +<br /> + +<br /> + +Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; +e voltando-se ainda, com um ultimo conselho: +<br /> + +<br /> + +—Tudo está em que vossa senhoria se entenda +bem com o sineiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes +e os sacristães, por um +<em>macambusio</em>. Tinha uma +<span class="pagenum">[412]</span> +perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, +que desejariam o emprego para os seus protegidos, +sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, +segundo a Regra, improprio para o serviço da Igreja. +Mas o antigo parocho José Migueis, em obediencia +ao senhor bispo, conservára-o na Sé, argumentando +que o trambolhão desastroso que motivára a +amputação fôra na torre, n'uma +occasião de festa, +collaborando no culto: <em>ergo</em> estava +claramente indicada +a intenção de Nosso Senhor em não +prescindir +do tio Esguelhas. E quando Amaro tomára conta da +parochia, o côxo valera-se da influencia da S. Joanneira +e d'Amelia para conservar, como elle dizia, a +<em>corda do sino</em>. Era além +d'isso (e fôra a opinião da +rua da Misericordia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, +viuvo, tinha uma filha de quinze annos paralytica, +desde pequena, das pernas. «O diabo embirrou +com as pernas da familia», costumava dizer +o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe +dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga +(cujo nome era Antonia, e que o pai chamava +Tótó) o torturava com perrices, phrenesis, +caprichos +abominaveis. O doutor Gouvêa declarára-a +<em>hysterica</em>: +mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios, +que a Tótó estava <em>possuida do +Demonio</em>. Houvera +mesmo o plano de a exorcismar: o senhor vigario +geral, porém, sempre assustado com a imprensa, +hesitára em conceder a permissão ritual, e +tinham-lhe +feito apenas, sem resultado, as aspersões simples +de agua benta. De resto não se sabia a natureza do +<span class="pagenum">[413]</span> +<em>endemoninhamento</em> da paralytica: a +snr.<sup>a</sup> D. Maria +da Assumpção ouvira dizer que consistia em uivar +como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava +que a desgraçada se dilacerava com as +unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam +pela rapariga, respondia sêccamente: +<br /> + +<br /> + +—Lá está. +<br /> + +<br /> + +Os intervallos do seu serviço da igreja passava-os +todos com a filha no casebre. Só atravessava o +largo para ir á botica por algum remedio, ou comprar +bolos á confeitaria da Thereza. Todo o dia +aquelle recanto da Sé, o pateo, o barracão, o +alto +muro ao lado coberto de parietarias, a casa ao fundo +com a sua janella de portada negra n'uma parede +lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma +sombra humida: e os meninos do côro, que ás vezes +se arriscavam a ir pé-ante-pé, pelo pateo, +espreitar +o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado +á lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando +tristemente +para as cinzas. +<br /> + +<br /> + +Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a +missa do senhor parocho. E Amaro, n'essa manhã, ao +revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo a muleta, +ia já ruminando a sua historia—porque não podia +pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem +explicar, d'algum modo, que o desejava para um serviço +religioso... E que serviço, a não ser preparar, +em segredo e longe das opposições mundanas, +alguma +alma terna para o convento e para a santidade? +<br /> + +<br /> + +Ao vêl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns +<span class="pagenum">[414]</span> +«bons dias» amaveis. Achou-lhe uma bella cara de +saude! Tambem não admirava—porque, segundo +todos os santos padres, a frequentação dos sinos, +pela virtude particular que lhes communica a +consagração, +dão uma alegria e um bem-estar especiaes. +Contou então com bonhomia ao tio Esguelhas e aos +dois sacristães que, quando era pequeno, em casa +da senhora marqueza d'Alegros, o seu grande desejo +era ser um dia sineiro... +<br /> + +<br /> + +Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua +senhoria. +<br /> + +<br /> + +—Não se riam, é verdade. E não me +ficava +mal... N'outros tempos eram clerigos d'ordens menores +que tocavam os sinos. Os nossos santos padres +consideram-n'os um dos meios mais efficazes +da piedade. Lá disse a glosa pondo o verso na bôca +do sino: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"><em>Laudo Deum, populum voco, +congrego clerum.<br /> + +Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +O que quer dizer, como sabem: <em>Louvo a Deus, chamo +o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento +as pestes, alegro as festas</em>. +<br /> + +<br /> + +Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto +e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas +impertigava-se sobre a sua muleta áquellas palavras +que lhe davam uma auctoridade e uma importancia +imprevista. +<br /> + +<br /> + +O sacristão tinha-se aproximado com a casula +<span class="pagenum">[415]</span> +rôxa. Mas Amaro não terminára a +glorificação dos +sinos;—explicou ainda a sua grande virtude em +dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns +sabios presumpçosos), não só porque +communicam +ao ar a unção que recebem da +benção, mas porque +dispersam os demonios que erram entre os vendavaes +e os trovões. O santo concilio de Milão +recommenda +que se toquem os sinos sempre que haja +tormenta... +<br /> + +<br /> + +—Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou +sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe +que n'esses casos é melhor não se arriscar. +Sempre +é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, +tio Mathias. +<br /> + +<br /> + +E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando +com muita compostura: +<br /> + +<br /> + +-<em>Domine, quis dixisti jugum meum</em>... +Aperte +mais os cordões por traz, tio Mathias. +<em>Suave est, et +onus meum leve</em>... +<br /> + +<br /> + +Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja, +na attitude da rubrica, d'olhos baixos e corpo direito; +emquanto o Mathias, depois de ter tambem saudado +com um raspão de pé o Christo da sacristia, +se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear +a garganta. +<br /> + +<br /> + +Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, +no <em>Offertorio</em> e ao +<em>Orate fratres</em>, o padre Amaro +dirigia-se +sempre (por uma benevolencia que o ritual +permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse +por sua intenção particular;—e o tio Esguelhas, +com +<span class="pagenum">[416]</span> +a sua muleta pousada ao lado, abysmava-se então +n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo ao +<em>Benedicat</em>, +depois de ter começado a benção +voltado para o altar +para recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, +terminou-a, virando-se devagar para o tio +Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle +só as Graças e Dons de Nosso Senhor! +<br /> + +<br /> + +—E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar +na sacristia, vá-me esperar ao pateo que temos +que conversar. +<br /> + +<br /> + +Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave +que impressionou o sineiro. +<br /> + +<br /> + +—Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho +fallar-lhe d'um caso sério... Verdadeiramente +pedir-lhe um favor... +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho! +<br /> + +<br /> + +Não, não era um favor... Porque, quando se +tratava +do serviço de Deus, todos tinham o dever de +concorrer na proporção das suas +forças... Tratava-se +d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, +para lhe provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe +dizer o nome... +<br /> + +<br /> + +—É a Ameliasinha da S. Joanneira! +<br /> + +<br /> + +—Que me diz, senhor parocho?! +<br /> + +<br /> + +—Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o +dedo de +Deus! É extraordinario... +<br /> + +<br /> + +Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando +laboriosamente, segundo as sensações que +imaginava +vêr na face pasmada do sineiro. A rapariga +desgostára-se da vida, com as desavenças que +tivera +<span class="pagenum">[417]</span> +com o noivo. Mas a mãi, que estava velha, que +a necessitava para o governo da casa, não queria +consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas +não, era vocação... Elle sabia-o... +Infelizmente, +quando havia opposição, a conducta do sacerdote +era +muito delicada... Todos os dias os jornaes impios +(e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as +influencias do clero... As auctoridades, mais impias +que os jornaes, punham obstaculos... Havia leis terriveis... +Se soubessem que elle andava a instruir a +menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que +queria o tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do +tempo! Ora, elle necessitava ter com a pequena +muitas e muitas conferencias: para a experimentar, +para conhecer as suas disposições, vêr +bem se é para +a Solidão que ella tem geito, ou para a Penitencia, +ou para o serviço dos enfermos, ou para a +Adoração +Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a +por dentro e por fóra. +<br /> + +<br /> + +—Mas onde? exclamou, abrindo os braços como +na desolação d'um santo dever contrariado. Onde? +Em casa da mãi não póde ser, +já andam desconfiados. +Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. +Em minha casa, já vê, menina nova... +<br /> + +<br /> + +—Está claro. +<br /> + +<br /> + +—De modo que, tio Esguelhas... E estou certo +que vossê m'o ha de agradecer... pensei na sua +casa... +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a +casa, os trastes, está tudo ás ordens! +<span class="pagenum">[418]</span> +<br /> + +<br /> + +—Bem vê, é no interesse d'aquella alma, +é um +regosijo para Nosso Senhor... +<br /> + +<br /> + +—E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim! +<br /> + +<br /> + +O que o tio Esguelhas receava é que a casa não +fosse decente e não tivesse as commodidades... +<br /> + +<br /> + +—Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento +de todos os confortos humanos. Comtanto que +haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da +oração... +<br /> + +<br /> + +De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como +sitio retirado e casa socegada estava a preceito. Ficavam +alli, elle e a menina, como os monges no deserto. +Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle +sahia a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam +accommodar-se, porque o quartito da pobre Tótó +era +ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não +se lembrára da paralytica! +<br /> + +<br /> + +—Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! +exclamou. +<br /> + +<br /> + +Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava +agora todo interessado n'aquella conquista d'uma +noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu +telhado abrigasse a santa preparação da alma da +menina... +Talvez lhe attrahisse a elle a piedade de +Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades +da casa. A Tótó não +embaraçava. Não se mexia da +cama. O senhor parocho entrava pela cozinha do +lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: +subiam, fechavam-se no quarto... +<span class="pagenum">[419]</span> +<br /> + +<br /> + +—E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre +Amaro, hesitando ainda. +<br /> + +<br /> + +Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora +fazia bonecas e apaixonava-se por ellas a ponto de +ter febre; outros dias passava-os n'um silencio medonho +com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes +estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça! +<br /> + +<br /> + +—Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre +Amaro para mostrar interesse. +<br /> + +<br /> + +O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena, +nunca quizera aprender. Era o que elle lhe dizia—se +pudesses lêr já te não pesava tanto a +vida! Mas +então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre +Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando +viesse a casa... +<br /> + +<br /> + +Mas o parocho não o escutava, todo abysmado +n'uma idéa que lhe alumiára a face d'um sorriso. +Achára subitamente a explicação +natural a dar á S. +Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do +sineiro: era a ensinar a lêr a paralytica! A educal-a! +A abrir-lhe a alma ás bellezas dos livros santos, da +historia dos martyres e da oração!... +<br /> + +<br /> + +—Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando +as mãos de jubilo. É em sua casa que se ha +de fazer da rapariga uma santa. E d'isto—e a sua +voz deu um grave profundo—um segredo inviolavel! +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido. +<span class="pagenum">[420]</span> +<br /> + +<br /> + +—Conto comsigo! disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia +passar em segredo a Amelia, em que lhe explicava +detalhadamente «o arranjinho que fizera para +gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que +o pretexto para ella vir todas as semanas a casa do +sineiro devia ser a educação da paralytica: elle +mesmo +o proporia á noite em casa da mamã. +«Que n'isto, +dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus +que se alumiasse com uma boa instrucção religiosa +as trevas d'aquella alma. E matamos assim, querido +anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!» +<br /> + +<br /> + +Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente +á mesa do almoço, com um contentamento +pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella +encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, +solidão da carne, tudo o que o consumira mezes e +mezes, além na rua da Misericordia e alli na rua das +Sousas, passára. Estava emfim installado á larga +na +felicidade! E recordava, abysmado n'um gozo mudo, +com o garfo esquecido na mão, toda aquella +meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os +mentalmente um a um, saturando-se da +deliciosa certeza da posse—como o lavrador que +percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos +invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de +lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam +na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Tambem +elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, +linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas, +<span class="pagenum">[421]</span> +e trazia no peito um cheirinho d'agua de colonia! +Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o +seu grande argumento: é que o comportamento do +padre, logo que não dê escandalo entre os fieis, +em +nada prejudica a efficacia, a utilidade, a grandeza da +religião. Todos os theologos ensinam que a ordem +dos sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; +o essencial é que os homens recebam a +santidade interior e sobrenatural que os sacramentos +contêm; e comtanto que elles sejam dispensados +segundo as formulas consagradas, que importa que +o sacerdote seja santo ou peccador? O sacramento +communica a mesma virtude. Não é pelos meritos +do sacerdote que elles operam, mas pelos meritos +de Jesus Christo. O que é baptisado ou ungido, ou +seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica +igualmente bem lavado da macula original, ou +bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em +todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico concilio +de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma +e na sua salvação, com a indignidade do parocho. +E se o parocho se arrepende á hora extrema, tambem +se lhe não fecham as portas do céo. Logo em +definitiva tudo acaba bem, e em paz geral...—E +o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer +o seu café. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito +risonha, se o senhor parocho fallára ao tio Esguelhas... +<br /> + +<br /> + +—Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Não +<span class="pagenum">[422]</span> +ha nada decidido... Roma não se construiu n'um +dia. +<br /> + +<br /> + +—Ah! fez ella. +<br /> + +<br /> + +E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor +parocho mentia como um hereje. Tambem, não se +importava... Nunca gostára de arranjos com os senhores +ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam +sempre... +<br /> + +<br /> + +E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada +a dizer-lhe—que emfim, ella tinha a olhar pela +sua casa, e quando o senhor parocho tivesse arranjado +criada... +<br /> + +<br /> + +—A snr.<sup>a</sup> D. Josepha Dias anda-me a tratar +d'isso, +Dionysia. Espero ter alguem ámanhã. Mas +vossê +appareça... Agora que somos amigos... +<br /> + +<br /> + +—Quando o senhor parocho quizer é chamar-me +da janella para o quintal, disse ella do alto da escada. +Para tudo que precisar. De tudo sei um bocadinho, +até de desarranjos e de partos... E n'este +ponto posso até dizer... +<br /> + +<br /> + +Mas o padre não a escutava: atirára com a porta +de repellão, fugindo, indignado d'aquella utilidade +torpe assim brutalmente offerecida. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. +Joanneira da filha do sineiro. +<br /> + +<br /> + +Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa +noite, emquanto na sala se galrava alto, aproximára-se +do piano, onde Amelia, com os dedos preguiçosos, +<span class="pagenum">[423]</span> +corria escalas, e abaixando-se para accender +o cigarro á vela, murmurára: +<br /> + +<br /> + +—Leu? +<br /> + +<br /> + +—Optimo! +<br /> + +<br /> + +Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde +a Gansoso estava contando uma catastrophe que +lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra: uma mina +de carvão que desabára, sepultando cento e vinte +trabalhadores. As velhas arripiavam-se horrorisadas. +A Gansoso então, gozando o effeito, accumulou +loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra +esforçára-se +por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes +em baixo os gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; +havia uma tormenta de neve... +<br /> + +<br /> + +—Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se +na sua poltrona, gozando o calor da sala e a +segurança dos tectos. +<br /> + +<br /> + +A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção declarou que todas +essas minas, essas machinas estrangeiras lhe causavam +medo. Vira uma fabrica ao pé d'Alcobaça, e +parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa +que Nosso Senhor não as via com bons olhos... +<br /> + +<br /> + +—É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. +Tenho a certeza que foram inspirados pelo demonio! +Não o digo a rir. Mas vejam aquelles uivos, +aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro galhofou,—assegurando á snr.<sup>a</sup> +D. Josepha que eram ricamente commodos para andar +depressa! Mas, tornando-se logo sério, acrescentou: +<span class="pagenum">[424]</span> +<br /> + +<br /> + +—Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas +invenções da sciencia moderna muito do demonio. +E é por isso que a nossa santa Igreja as +abençôa, +primeiro com orações e depois com agua benta. +Hão de saber que é o costume. Com agua benta para +lhes fazer o exorcismo, expulsar o espirito inimigo: +e com orações para as resgatar do peccado +original +que não só existe no homem, mas nas coisas +que elle construe. É por isso que se benzem e se purificam +as locomotivas... Para que o demonio não +se possa servir d'ellas para seu uso. +<br /> + +<br /> + +D. Maria da Assumpção quiz immediatamente +uma explicação. Como era a maneira usual do +Inimigo +se servir dos caminhos de ferro? +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O +Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era +esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem +passageiros, e como essas almas não estavam +preparadas pela Extrema-Unção, o demonio alli +mesmo, +zás, apoderava-se d'ellas! +<br /> + +<br /> + +—É de velhaco! rosnou o conego, com uma +admiração +secreta por aquella manha tão habil do Inimigo. +<br /> + +<br /> + +Mas D. Maria da Assumpção abanou-se +langorosamente, +com o rosto banhado n'um sorriso de beatitude: +<br /> + +<br /> + +—Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, +a nós é que não nos succedia isso... +Que não nos +pilhava desprevenidas! +<br /> + +<br /> + +Era verdade; e todas gozaram um momento +<span class="pagenum"><a name="p425" id="p425">[425]</a></span> +aquella certeza deliciosa de estarem preparadas, de +poderem lograr a malicia do Tentador! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro então tossiu como para preparar +as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa, +n'um tom de pratica: +<br /> + +<br /> + +—É necessario muita vigilancia para conservar +de longe o demonio. Ainda hoje eu estava a pensar +n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito +de +um caso bem triste que tenho lá ao pé da +Sé... É +a filhita do sineiro. +<br /> + +<br /> + +As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe +as palavras, n'uma curiosidade subitamente +excitada, esperando ouvir a historia picante d'alguma +façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma +voz a que o silencio em redor dava solemnidade: +<br /> + +<br /> + +—Alli está aquella rapariga, todo o santo dia, +pregada na cama! Não sabe lêr, não tem +devoções +habituaes, não tem o costume da +meditação; é por +consequencia, para empregar a expressão de S. +Clemente—<em>uma +alma sem defeza</em>. O que succede? +Que o demonio, que ronda constantemente e não +perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! +Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, +são phrenesis, desesperos, furores sem razão... +Emfim +o pobre homem tem a vida estragada. +<br /> + +<br /> + +—E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou +D. Maria da Assumpção, indignada d'aquella +impudencia de Satanaz, <a href="#e13">installando-se</a> +n'um corpo, +n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava +dos contrafortes da Sé. +<span class="pagenum">[426]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro acudiu: +<br /> + +<br /> + +—Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme. +Mas então? Se a rapariga não sabe lêr! +Se não sabe +uma oração, se não tem quem a instrua, +quem lhe +leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe +ensine o segredo de frustrar o Inimigo!... +<br /> + +<br /> + +Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, +de hombros vergados, n'uma mágoa de pastor a +quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha +amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, +com effeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão +verdadeira por aquella pobre creatura, a +quem a falta de consolações devia tornar mais +intensa +a agonia da immobilidade... +<br /> + +<br /> + +As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle +caso triste d'abandono d'alma,—sobretudo pela dôr +que elle parecia trazer ao senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +A snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, que percorria +em imaginação o abundante arsenal da +devoção, +lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á +cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete +Chagas... Mas o silencio das amigas exprimiu bem +a insufficiencia d'aquella galeria devota. +<br /> + +<br /> + +—As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre +Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da +filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como +as nossas! +<br /> + +<br /> + +—Todos têm direito á graça do Senhor, +disse +o conego gravemente, n'um sentimento d'imparcialidade, +admittindo a igualdade das classes logo que +<span class="pagenum">[427]</span> +não se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos +do céo. +<br /> + +<br /> + +—P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a +S. Joanneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino +do céo! +<br /> + +<br /> + +—Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo +a mão para deter aquella falsa +interpretação da lei +divina. Que o céo tambem é para os ricos. A +senhora +não comprehende o preceito. <em>Beati +pauperes</em>, bemditos +os pobres, quer dizer que os pobres devem-se +achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos +ricos; não quererem mais que o bocado de pão que +têm; não aspirarem a participar das riquezas dos +outros, sob pena de não serem bemditos. É por +isso, +saiba a senhora, que essa canalha que préga que os +trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor +do que vivem, vai d'encontro á expressa vontade da +Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão +chicote, +como excommungados que são! Ouf! +<br /> + +<br /> + +E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O +padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovêlo +sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia +lançar a sua idéa, como vinda d'uma +inspiração divina, +propôr que fosse Amelia levar uma +educação +devota á triste paralytica... E hesitava supersticiosamente +diante do seu motivo todo carnal, todo de +concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, +exageradamente, abysmada n'uma treva d'agonia. +Sentia toda a caridade que haveria em consolal-a, +entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos... +<span class="pagenum"><a name="p428" id="p428">[428]</a></span> +Esta acção redimiria decerto muitas culpas, +encantaria +Deus, se fosse feita n'um puro espirito de fraternidade +christã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental +de bom rapaz por aquelle miseravel corpo +pregado n'uma cama, sem nunca vêr o sol nem a +rua... E alli estava embaraçado, n'aquella piedade +que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido +quasi de ter fallado ás senhoras da +Tótó... +<br /> + +<br /> + +Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa: +<br /> + +<br /> + +—Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse +aquelle livro com pinturas de vidas dos santos? +Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me +alma... Não és tu que o tens, Amelia? +<br /> + +<br /> + +—Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura. +<br /> + +<br /> + +Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. +Estava agora do outro lado da mesa, abainhando +um esfregão: a risca muita fina desapparecia na +abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro +ao lado punha um traço lustroso; as pestanas +pareciam mais longas, mais negras sobre a pelle +da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada +aquecia; o vestido justo, que se franzia n'uma +prega sobre o hombro, elevava-se amplamente sobre +a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo +da respiração igual... Era aquella a belleza que +mais appetecia n'ella; imaginava-os d'uma côr de +neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, +mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinham +<a href="#e14">encontrado</a> +só a sêda fria... Mas na casa do sineiro seriam +<span class="pagenum">[429]</span> +d'elle, sem obstaculo, sem vestidos, á +disposição dos +seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo +tempo consolassem a alma da Tótó! Não +hesitou +mais. E erguendo a voz, no meio do palratorio das +velhas que discutiam agora a desapparição da +<em>Vida +dos Santos</em>: +<br /> + +<br /> + +—Não, minhas senhoras, não é com +livros que +se vale á rapariga... Sabem a idéa que me veio? +Era um de nós, o que estiver menos occupado, levar-lhe +a palavra de Deus e educar aquella alma!—E +acrescentou, sorrindo:—E a fallar a verdade, +a pessoa mais desoccupada aqui de todos nós é a +menina Amelia... +<br /> + +<br /> + +Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade +de Nosso Senhor vinda n'uma revelação. Os +olhos de todas accenderam-se n'uma excitação +devota, +á idéa d'aquella missão de caridade, +que partia +alli d'ellas, da rua da Misericordia... Extasiavam-se, +no ante-gosto guloso dos elogios do senhor +chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, +n'uma assiduidade de participar da santa obra, +de partilharem as recompensas que o céo certamente +prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com +calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a +de repente rir. +<br /> + +<br /> + +—Imaginas que não o faria com a mesma +devoção? +Já estás com o orgulho da boa +acção... Olha +que assim não t'aproveita! +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso, +<span class="pagenum"><a name="p430" id="p430">[430]</a></span> +deitada para as costas da cadeira, suffocando-se +para se conter. +<br /> + +<br /> + +Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam. +<br /> + +<br /> + +—É indecente, é indecente! gritava. +<br /> + +<br /> + +Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os +Santos Evangelhos que fôra uma idéa extravagante +que tivera, que era nervoso... +<br /> + +<br /> + +—Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem +razão +em s'orgulhar. Que é uma honra p'r'á casa! Em +se sabendo... +<br /> + +<br /> + +O parocho interrompeu com severidade: +<br /> + +<br /> + +—Mas não se deve saber, snr.<sup>a</sup> D. +Maria da +Assumpção! +De que serve, aos olhos do Senhor, uma +boa obra de que se tire alarde e vangloria? +<br /> + +<br /> + +D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á +reprehensão. +E Amaro, com gravidade: +<br /> + +<br /> + +—Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e +nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, +e não ter elogios nos periodicos. Pois não +é +assim, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +O conego ergueu-se pesadamente: +<br /> + +<br /> + +—Vossê esta noite tem fallado com a lingua de +ouro de S. Chrysostomo. Eu estou edificado; e não +se me dava agora de vêr apparecer as torradas. +<br /> + +<br /> + +Foi então, emquanto a +<em>Ruça</em> não +trazia o chá, +que se decidiu que Amelia, todas as semanas, uma +ou duas vezes segundo fosse a sua devoção, <a href="#e15">iria +em</a> +segredo, para que a acção fosse mais valiosa aos +olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica, +<span class="pagenum">[431]</span> +lêr-lhe a <em>Vida dos Santos</em>, +ensinar-lhe rezas +e insufflar-lhe a virtude. +<br /> + +<br /> + +—Emfim, resumiu a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção +voltando-se para Amelia, não te digo senão +uma coisa: abichaste! +<br /> + +<br /> + +A <em>Ruça</em> entrou com o +taboleiro, no meio dos risos +que provocára a «tolice de D. Maria», +como disse +Amelia, que se fizera escarlate.—E foi assim que +ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente, +para gloria do Senhor e humilhação do Inimigo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora +duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas +á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero +symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa +das devotas, ás <em>Sete +lições de Maria</em>. Na vespera o +padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que +deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de +ter varrido toda a casa e preparado o quarto para +a pratica do senhor parocho. Amelia n'esses dias erguia-se +cedo: tinha sempre alguma saia branca a +engommar, algum laçarote a compôr; a +mãi estranhava-lhe +aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua +de colonia de que ella se inundava; mas Amelia +explicava que «era para inspirar á +Tótó idéas de +aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se, +esperando as onze horas, muito séria, respondendo +distrahidamente ás conversas da mãi, com +<span class="pagenum">[432]</span> +uma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros +do relogio: emfim a velha matraca gemia cavamente +as onze horas, e ella, depois d'uma olhadella ao +espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã. +<br /> + +<br /> + +Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser +espreitada. +Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora +da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e +se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, +para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos +mendigos e vagabundos. O que a assustava era o +largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando +por traz da janella, exercia uma vigilancia +incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, +e abaixando o guardasol sobre o rosto, entrava +emfim na Sé, sempre com o pé direito. +<br /> + +<br /> + +Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida +n'uma luz fusca, amedrontava-a: parecia-lhe sentir, +na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma reprehensão +ao seu peccado; imaginava que os olhos de +vidro das imagens, as pupillas pintadas dos paineis +se fixavam n'ella, com uma insistencia cruel, e percebiam +o arfar que ao seu seio dava a esperança do +prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma +superstição, +para dissipar o descontentamento dos santos, +promettia dar-se n'essa manhã toda á +Tótó, occupar-se +caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar +sequer +no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se +ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo, +sem se deter ao pé da cama da Tótó, +postar-se +à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da +sacristia +<span class="pagenum">[433]</span> +de que ella conhecia uma por uma as chapas +negras de ferro. +<br /> + +<br /> + +Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de +março; já tinham chegado as andorinhas; +ouviam-n'as +chilrear, n'aquelle silencio melancolico, esvoaçando +entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, +plantas dos logares humidos cobriam os cantos d'uma +verdura escura. Amaro, ás vezes muito galante, ia +procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava +na vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam +um momento á porta, apertando-se as mãos, +com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim +vêr a Tótó—e dar-lhe os bolos que o +parocho +lhe trazia no bolso da batina. +<br /> + +<br /> + +A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha; +o seu corpinho de tisica quasi não fazia saliencia +enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores +enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses +dias tinha vestido um chambre branco, os cabellos +reluziam-lhe d'oleo; porque ultimamente, desde as +visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer +alguem», +como dizia encantado o tio Esguelhas, a +ponto de se não querer separar d'um espelho e +d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e +obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa +suja, as bonecas que agora desprezava. +<br /> + +<br /> + +Amelia sentava-se um instante aos pés do catre, +perguntando-lhe se estudára o A B C, obrigando-a a +dizer aqui e além o nome d'uma letra. Depois queria +que ella repetisse sem a errar a oração que lhe +<span class="pagenum">[434]</span> +andava ensinando;—emquanto o padre, sem passar +da porta, esperava, com as mãos nos bolsos, enfastiado, +embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica +que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe +o corpo com pasmo e com ardor, e que +pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro +tão chupado que se lhe via a saliencia das +maxillas. Não sentia agora nem compaixão nem +caridade +pela Tótó; detestava aquella demora; achava +a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem +pesavam aquelles momentos em que, para não escandalisar +muito Nosso Senhor, se resignava a fallar +à paralytica. A Tótó parecia odial-a; +respondia-lhe +muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio +rancoroso, voltada para a parede; um dia +despedaçára +o alphabeto; e encolhia-se toda encruada +se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros +ou conchegar-lhe a roupa... +<br /> + +<br /> + +Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a +Amelia; ella punha logo diante da Tótó o livro +com +estampas da <em>Vida dos Santos</em>. +<br /> + +<br /> + +—Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este +é S. Matheus, esta Santa Virginia... Adeus, eu vou +lá a cima com o senhor parocho rezarmos para que +Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não +estragues +o livro, que é peccado. +<br /> + +<br /> + +E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo +o pescoço sôfregamente, os seguia, escutando +o ranger dos degraus, com olhos chammejantes +que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto, +<span class="pagenum">[435]</span> +em cima, era muito baixo, sem forro, com um tecto +de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao +lado da cama pendia a candeia que puzera sobre a +parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria +sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas—a +mesa ao canto com o Novo Testamento, uma +caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado... +<br /> + +<br /> + +—É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os +deveres de freira, dizia elle, galhofando. +<br /> + +<br /> + +—Ensina, então! murmurava ella de braços +abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso +calido onde brilhava um branquinho dos dentes, +n'um abandono que se offerecia. +<br /> + +<br /> + +Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos +cabellos; às vezes mordia-lhe a orelha; ella dava +um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, +com medo da paralytica em baixo. O parocho +depois fechava as portadas da janella e a porta +muito perra que tinha d'empurrar com o joelho. +Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias cahidas +aos pés ficava um momento immovel, como +uma fórma branca na escuridão do quarto. Em redor +o padre, preparando-se, respirava forte. Ella então +persignava-se depressa, e sempre ao subir para +o leito dava um suspirosinho triste. +<br /> + +<br /> + +Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O +padre Amaro por isso pendurava o seu +<em>cebolão</em> no +prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas +da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar +d'um gallo visinho. +<span class="pagenum"><a name="p436" id="p436">[436]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Devo ir, filho, murmurava toda cansada. +<br /> + +<br /> + +—Deixa lá... Estás sempre com a pressa... +<br /> + +<br /> + +Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão +dôce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas +separadas do telhado mal junto viam aqui e +além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com +as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bolir alguma +telha solta; ou um passaro, pousando, chilreava e +ouviam-lhe o fremito das azas. +<br /> + +<br /> + +—Ai, são horas, dizia Amelia. +<br /> + +<br /> + +O padre queria detel-a; não se fartava de lhe +beijar a orelhinha. +<br /> + +<br /> + +—Lambão! murmurava ella. Deixa-me! +<br /> + +<br /> + +Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois +ia abrir a janella, vinha ainda abraçar o pescoço +de +Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e ia emfim +arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica +sentir em baixo, saber que tinha acabado a conferencia. +<br /> + +<br /> + +Amaro não findava ainda de a beijocar: ella +então, +para acabar, fugia-lhe, ia escancarar a porta do +quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas +a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na +sacristia. +<br /> + +<br /> + +Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica, +saber se gostára das estampas. Encontrava-a +ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que +entalava e prendia com as mãos para se <a href="#e16">esconder</a>; +outras vezes, sentada na cama, examinava Amelia +com olhos em que se accendia uma curiosidade viciosa; +<span class="pagenum">[437]</span> +chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas +que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, +córando tambem; queixava-se então de ser +tarde, recolhia a <em>Vida dos +Santos</em>,—e sahia, amaldiçoando +aquella creatura tão maliciosa na sua mudez. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a +Amparo á janella. Ultimamente mesmo julgára +prudente +contar-lhe em segredo a sua caridade com a +Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e +debruçando-se +toda na varanda: +<br /> + +<br /> + +—Então como vai a Tótó? +<br /> + +<br /> + +—Lá vai. +<br /> + +<br /> + +—Já lê? +<br /> + +<br /> + +—Já soletra. +<br /> + +<br /> + +—E a oração a Nossa Senhora? +<br /> + +<br /> + +—Já a diz. +<br /> + +<br /> + +—Ai, que devoção a tua, filha! +<br /> + +<br /> + +Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, +que estava tambem no segredo, deixava o balcão +para vir á porta admirar Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Vem da sua grande missão de caridade, hein? +dizia, d'olho arregalado, balanceando-se na ponta das +chinelas. +<br /> + +<br /> + +—Estive um bocado com a pequena, a entretel-a... +<br /> + +<br /> + +—Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! +Pois vá, minha santa menina, recados á +mamã. +<span class="pagenum">[438]</span> +<br /> + +<br /> + +Voltava-se então para dentro, para o praticante: +<br /> + +<br /> + +—Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de +passar o seu tempo, como as outras, em namoros, +faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com +uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o +materialismo, e essas porcarias são capazes d'inspirar +acções d'este jaez... Só a +religião, meu caro +senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada +de philosophos vissem isto! Que eu, tenha o senhor +em vista, admiro a philosophia, mas quando ella, +por assim dizer, vai de mãos dadas com a +religião... +Sou homem de sciencia e admiro um Newton, +um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras) +se a philosophia se afasta da religião... (grave +bem estas palavras) dentro de dez annos, snr. +Augusto, está a philosophia enterrada! +<br /> + +<br /> + +E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos +lentos, de mãos atraz das costas, ruminando o +fim da philosophia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XVIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Foi aquelle o periodo mais feliz da vida de +Amaro. +<br /> + +<br /> + +«Ando na graça de Deus», pensava elle +ás vezes +á noite, ao despir-se, quando por um habito ecclesiastico, +fazendo o exame dos seus dias, via que +elles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão +regularmente +gozados. Não houvera, nos ultimos dois mezes, +nem attritos nem difficuldades no serviço da parochia; +todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, +andava d'um humor de santo. D. Josepha Dias +arranjára-lhe muito barata uma cozinheira excellente, +e que se chamava Escolastica. Na rua da Misericordia +tinha a sua côrte admiradora e devota; cada +semana, uma ou duas vezes, vinha áquella hora deliciosa +e celeste na casa do tio Esguelhas; e para +completar a harmonia até a estação ia +tão linda, que +já no Morenal começavam a abrir as rosas. +<span class="pagenum">[440]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas o que o encantava era que nem as velhas, +nem os padres, ninguem da sacristia suspeitava os +seus <em>rendez-vous</em> com Amelia. +Aquellas visitas á Tótó +tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe +«as devoções da pequena»; e +não a interrogavam +com particularidades, pelo principio beato que +as devoções são um segredo que se tem +com Nosso +Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras +perguntava +a Amelia—como ia a doente; ella assegurava +que estava muito mudada, que começava a abrir +os olhos á lei de Deus; então, muito +discretamente, +fallavam de coisas differentes. Havia apenas o +plano vago de irem um dia, mais tarde, quando +a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela +efficacia +da oração se tivesse tornado boa, admirar +em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação +do Inimigo. +<br /> + +<br /> + +Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga +na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como +muito habil—dizer ás amigas que o senhor parocho +ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que +ella fazia +á Tótó... +<br /> + +<br /> + +—Assim, se alguem te surprehendesse a entrar +para a casa do tio Esguelhas, já não havia +suspeitas. +<br /> + +<br /> + +—Não me parece necessario, disse elle. Deus +está comnosco, filha, é claro. Não +queiramos intrometter-nos +nos seus planos. Elle vê mais longe que +nós... +<br /> + +<br /> + +Ella concordou logo—como em tudo que sahia +dos seus labios. Desde a primeira manhã, na casa +<span class="pagenum">[441]</span> +do tio Esguelhas, ella abandonára-se-lhe absolutamente, +toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: +não havia na sua pelle um cabellinho, não +corria no seu cerebro uma idéa a mais pequenina, +que não pertencesse ao senhor parocho. Aquella +possessão de todo o seu sêr não a +invadira gradualmente; +fôra completa, no momento que os seus +fortes braços se tinham fechado sobre ella. Parecia +que os beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a +alma: agora era como uma dependencia inerte da +sua pessoa. E não lh'o occultava; gozava em se humilhar, +offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda +escrava; queria que elle pensasse por ella e vivesse +por ella; descarregára-se n'elle, com +satisfação, +d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre +lhe pesára na vida; os seus juizos agora vinham-lhe +formados do cerebro do parocho, tão naturalmente +como se sahisse do coração d'elle o sangue que +lhe +corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor +parocho dizia» era para ella uma razão toda +sufficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos n'elle, +n'uma obediencia animal: tinha só a curvar-se +quando elle fallava, e quando vinha o momento a +desapertar o vestido. +<br /> + +<br /> + +Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; +ella desforrava-o de todo um passado de dependencias—a +casa do tio, o seminario, a sala branca do +senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre +era uma curvatura humilde que lhe fatigava a +alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, á camara +<span class="pagenum">[442]</span> +ecclesiastica, aos canones, á Regra que nem lhe +permittia ter uma vontade propria nas suas +relações +com o sacristão. E agora, emfim, tinha alli aos seus +pés aquelle corpo, aquella alma, aquelle sêr vivo +sobre +quem reinava com despotismo. Se passava os +seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando +Deus,—era elle tambem agora o Deus +d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção +pontual. Para ella ao menos, era bello, superior +aos condes e aos duques, tão digno da mitra como +os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois +de ter estado um momento pensativa: +<br /> + +<br /> + +—Tu podias chegar a Papa! +<br /> + +<br /> + +—D'esta massa se fazem, respondeu elle com +seriedade. +<br /> + +<br /> + +Ella acreditava-o—com um receio, todavia, que +as altas dignidades o afastassem d'ella, o levassem +para longe de Leiria. Aquella paixão, em que estava +abysmada e que a saturava, tornára-a estupida e +obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho +ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia +interesses, curiosidades alheias á sua pessoa. +Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias. +Para +que se havia de fazer doutora? Que lhe importava +o que ia no mundo? Um dia que ella fallára, com +algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras, +offendeu-se como d'uma traição. Fez-lhe em +casa do tio Esguelhas accusações tremendas: era +uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanaz!... +<br /> + +<br /> + +—Mas mato-te! Percebes? Mato-te!—exclamou, +<span class="pagenum">[443]</span> +agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar +accêso. +<br /> + +<br /> + +Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se +ao seu imperio, perder-lhe a adoração muda +e absoluta. Pensava ás vezes que ella se fatigaria, +com o tempo, d'um homem que não lhe satisfazia +as vaidades e os gostos de mulher, sempre mettido +na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa +aberta. Imaginava que as gravatas de côres, os bigodes +bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme +de lanceiros exercem sobre as mulheres uma +fascinação decisiva. E se a ouvia fallar d'algum +official +do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade, +eram ciumes desabridos... +<br /> + +<br /> + +—Góstas d'elle? Hein? É pelos trapos, pelo +bigode?... +<br /> + +<br /> + +—Gósto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem! +<br /> + +<br /> + +Mas escusava de fallar da creatura, então! Era +ter curiosidade, pôr o pensamento n'outro! D'essas +faltas de vigilancia sobre a alma e a vontade é que +se aproveitava o demonio!... +<br /> + +<br /> + +Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular—que +a poderia attrahir, arrastar para fóra da +sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos +complicados, toda a communicação com a cidade. +Convenceu mesmo a mãi que a não deixasse ir +só +á Arcada e ás lojas. E não cessava de +lhe representar +os homens como monstros d'impiedade, cobertos +de peccados como d'uma crosta, estupidos e falsos, +votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quasi +<span class="pagenum">[444]</span> +todos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe aterrada, +mas curiosa: +<br /> + +<br /> + +—Como sabes tu? +<br /> + +<br /> + +—Não te posso dizer, respondia com uma reticencia, +indicando que lhe fechava os labios o segredo +da comfissão. +<br /> + +<br /> + +E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos +com a glorificação do sacerdocio. Desenrolava-lhe +com pompa a erudição dos seus antigos compendios, +fazendo-lhe o elogio das funcções, da +superioridade +do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade, +o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia, +na Ethiopia, um simples padre tinha o privilegio +de desthronar os reis, dispôr das corôas! Onde +havia +uma auctoridade igual á sua? Nem mesmo na +côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos +seraphins—porque a elles não fôra dado como ao +padre o poder maravilhoso de perdoar os peccados! +Mesmo a Virgem Maria, tinha ella um poder maior +que elle, padre Amaro? Não: com todo o respeito +devido à magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer +com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te, +ó mãi amada!»—porque, se a Virgem +tinha +incarnado Deus no seu castissimo seio, fôra só uma +vez, e o padre, no santo sacrificio da missa, incarnava +Deus todos os dias! E isto não era argucia +d'elle, todos os santos padres o admittiam... +<br /> + +<br /> + +—Hein, que te parece? +<br /> + +<br /> + +—Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida +de voluptuosidade. +<span class="pagenum">[445]</span> +<br /> + +<br /> + +Então deslumbrava-a com citações +venerandas: +S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»; +o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o +padre é o embaixador que vem dar as ordens de +Deus». E Santo Ambrosio que escreveu: «entre a +dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior +differença que a que existe entre o chumbo e o +ouro»! +<br /> + +<br /> + +—E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com +palmadinhas no peito. Que te parece? +<br /> + +<br /> + +Ella atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes, +como para tocar, possuir n'elle o «ouro de Santo +Ambrosio», o «embaixador de Deus», tudo o +que +na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que +excede em graça os archanjos! +<br /> + +<br /> + +Era este poder divino do padre, esta familiaridade +com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua +voz—que a faziam crêr na promessa que elle lhe +repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria +sobre ella o interesse, a amizade de Deus; +que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela +mão para a acompanhar e desfazer todas as duvidas +que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que +na sua sepultura, como succedera em França a uma +rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente +rosas brancas, como prova celeste de que a +virgindade não se estraga nos abraços santos d'um +padre... +<br /> + +<br /> + +Isto encantava-a. Áquella idéa da sua cova +perfumada +de rosas brancas, ficava toda pensativa, n'um +<span class="pagenum">[446]</span> +antegosto de felicidades mysticas, com suspirinhos +de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria +morrer. +<br /> + +<br /> + +Amaro galhofava. +<br /> + +<br /> + +—A fallar da morte, com essas carnesinhas... +<br /> + +<br /> + +Engordára com effeito. Estava agora d'uma belleza +ampla e toda igual. Perdera aquella expressão +inquieta que lhe punha nos labios uma seccura e lhe +afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho +quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um +fluido sereno; toda a sua pessoa uma apparencia +madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em +casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava +a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; +e tudo parecia ficar adormecido um momento, +a agulha, o panno que ella costurava, toda a sua +pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, +o senhor parocho em mangas de camisa. +<br /> + +<br /> + +Passava os seus dias esperando as oito horas, em +que elle apparecia regularmente com o conego. Mas +os serões agora pezavam-lhe. Elle +recommendára-lhe +muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de +obediencia, a ponto de nunca se sentar ao pé d'elle +ao chá, e de nem mesmo lhe offerecer bolos. Odiava +então a presença das velhas, a gralhada das +vozes, +as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel +no mundo, excepto estar só com elle... Mas +depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquelle +rosto todo alterado, aquellas suffocações de +delirio, +aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade da +<span class="pagenum">[447]</span> +morte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no +cotovêlo, inquieto: +<br /> + +<br /> + +—Estás incommodada? +<br /> + +<br /> + +Ella abria os olhos espantados, como resurgindo +de muito longe; e era realmente bella, cruzando os +braços nús sobre o peito descoberto, dizendo +lentamente +com a cabeça que não... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIX +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Uma circumstancia inesperada veio estragar +aquellas manhãs da casa do sineiro. Foi a extravagancia +da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a +rapariga +sahia-lhes um monstro»! +<br /> + +<br /> + +Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida. +Apenas ella se aproximava da cama, atirava a cabeça +para debaixo dos cobertores, torcendo-se com +phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia, +impressionada com a idéa de que o diabo que +habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella +trazia +da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados +d'agua benta, se espolinhava de terror dentro +do corpo da rapariga... +<br /> + +<br /> + +Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir, +em palavras tremendas, a sua ingratidão demoniaca +<span class="pagenum">[450]</span> +para com a menina Amelia que vinha entretel-a, +ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas +a paralytica rompeu n'um chôro hysterico; depois, +de repente, ficou immovel, hirta, esbugalhando os +olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca. +Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; +Amaro, por prudencia, recitou os exorcismos... E +Amelia desde então resolveu «deixar a fera em +paz». Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem +orações a Sant'Anna. +<br /> + +<br /> + +Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a +um instante. Não passavam da porta da alcova, +perguntando-lhe +d'alto «como ia». Nunca respondia. E +elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos +selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo d'um +a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com +uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e +na +batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava +por baixo, n'uma curiosidade avida que lhe dilatava +desesperadamente as narinas e lhe arreganhava +os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada +e rancorosa, que os incommodava sobretudo. Amaro, +que não acreditava muito em possessos e endemoninhados, +via alli os symptomas de <em>loucura +furiosa</em>. +Os sustos d'Amelia augmentaram.—Felizmente que +as pernas inertes cravavam a Tótó alli na +enxerga! +Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar no quarto e +mordêl-os n'um accesso! +<br /> + +<br /> + +Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer +da manhã, «depois d'aquelle +espectaculo»; e +<span class="pagenum">[451]</span> +decidiu então, d'ahi por diante, subir para o quarto +sem fallar á Tótó. +<br /> + +<br /> + +Foi peor. Quando a via atravessar da porta da +rua para a escada, a Tótó debruçava-se +para fóra +do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um +esforço +ancioso para a seguir, para a vêr, com a face +toda descomposta do desespero da sua immobilidade. +E Amelia ao entrar no quarto sentia vir de baixo +uma risadinha sêcca, ou um +<em>ui!</em> prolongado e +uivado que a gelava... +<br /> + +<br /> + +Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que +Deus estabelecera alli, ao lado do seu amor com o +parocho, um demonio implacavel para a escarnecer +e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe +que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarára +peccado crêr em <em>pessoas +possessas</em>... +<br /> + +<br /> + +—Mas para que ha rezas, então, e exorcismos? +<br /> + +<br /> + +—Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar +tudo isso... Emfim a sciencia é a sciencia... +<br /> + +<br /> + +Ella presentia que Amaro a enganava—e a Tótó +estragava a sua felicidade. Emfim Amaro achou o +meio de escaparem «á maldita rapariga»: +era entrarem +ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar +a cozinha para subir a escada, e a posição +da cama da Tótó, na alcova, não lhe +permittia vêl-os, +quando elles cautelosamente passassem pé ante pé. +Era facil, de resto, porque á hora do +<em>rendez-vous</em>, +entre as onze e o meio dia, nos dias de semana, a +sacristia estava deserta. +<br /> + +<br /> + +Mas succedia que, quando elles entravam em +<span class="pagenum">[452]</span> +pontas de pés e mordendo a respiração, +os seus +passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus +da escada. E então a voz da Tótó sahia +da +alcova, uma voz rouca e aspera, berrando: +<br /> + +<br /> + +—Passa fóra cão! passa fóra +cão! +<br /> + +<br /> + +Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a +paralytica. Amelia tremia, toda branca. +<br /> + +<br /> + +E a creatura uivava de dentro: +<br /> + +<br /> + +—Lá vão os cães! lá +vão os cães! +<br /> + +<br /> + +Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se +por dentro. Mas aquella voz d'um desolamento lugubre, +que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes +ainda, perseguia-os: +<br /> + +<br /> + +—Estão a pegar-se os cães! estão a +pegar-se os +cães! +<br /> + +<br /> + +Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de +terror. Jurava não voltar áquella casa maldita... +<br /> + +<br /> + +—Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre +furioso. Onde nos havemos de vêr então? Queres +que nos deitemos nos bancos da sacristia? +<br /> + +<br /> + +—Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava +Amelia, apertando as mãos. +<br /> + +<br /> + +—Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas +tem tido um desgosto... Emfim, que queres que +lhe faça? +<br /> + +<br /> + +Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia +aproximando o dia de <em>rendez-vous</em>, +começava a tremer +á idéa d'aquella voz que lhe atroava sempre +nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror +ia-a despertando lentamente do adormecimento de +<span class="pagenum">[453]</span> +todo o sêr, era que cahira nos braços do parocho. +Interrogava-se agora: não andaria commettendo um +peccado irremissivel? As affirmações de Amaro, +assegurando-lhe +o perdão do Senhor, já não a +tranquillisavam. +Ella bem via, quando a Tótó uivava, +uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe +no corpo um calefrio do inferno entrevisto. E se +Deus os desculpava—porque deixava assim o demonio +atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e +o escarneo? +<br /> + +<br /> + +Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava +orações sem fim para Nossa Senhora das +Dôres, pedindo-lhe +que a alumiasse, que lhe dissesse o que +era aquella perseguição da +Tótó, e se era sua intenção +divina mandar-lhe assim um aviso medonho. +Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a sentia +como outr'ora descer do céo ás suas +orações, entrar-lhe +na alma aquella tranquillidade suave como +uma onda de leite que era uma visitação da +Senhora. +Ficava toda murcha, torcendo as mãos, +abandonada da graça. Promettia então +não voltar a +casa do sineiro;—mas quando o dia chegava, á +idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam +a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se +toda fraca contra a tentação; vestia-se, jurando +que era a ultima vez; e ao toque das onze partia, +com as orelhas a arder, o coração tremendo da +voz da Tótó que ia ouvir, as entranhas +abrazando-se +no desejo do homem que a ia atirar para cima +da enxerga. +<span class="pagenum">[454]</span> +<br /> + +<br /> + +Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos +santos. +<br /> + +<br /> + +Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se +á auctoridade sagrada da sua batina. Elle então, +vendo-a chegar tão pallida e +tão +transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não, +era uma tolice, se iam agora estragar o regalosinho +d'aquellas manhãs, porque havia uma doida na +casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio +para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir, +aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe +ás +vezes os paramentos, os calices, as vestimentas, procurando +interessal-a por um frontal novo ou por +uma antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela +familiaridade com que tocava nas reliquias, que era +ainda o senhor parocho e não perdera o seu credito +no céo. +<br /> + +<br /> + +Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa +de Nossa Senhora, que havia dias chegára de presente +d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a +muito. Era de setim azul, representando um firmamento, +com estrellas bordadas, e um centro, de lavor +rico, onde flammejava um coração d'ouro cercado +de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo +scintillar junto da janella os bordados espessos. +<br /> + +<br /> + +—Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a +hontem na imagem... Vai-lhe como +um brinco. Um bocadito comprida, talvez...—E +olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta +estatura +com a figura atarracada da imagem da Senhora:—A +<span class="pagenum">[455]</span> +ti é que te havia de ficar bem. Deixa vêr... +<br /> + +<br /> + +Ella recuou: +<br /> + +<br /> + +—Não, credo, que peccado! +<br /> + +<br /> + +—Tolice! disse elle adiantando-se com a capa +aberta, mostrando o forro de setim branco, d'uma +alvura de nuvem matutina. Não está benzida... +É +como se viesse da modista. +<br /> + +<br /> + +—Não, não, dizia ella frouxamente, com os +olhos já luzidios de desejo. +<br /> + +<br /> + +Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor +do que elle o que era peccado, não? Vinha agora a +menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuarios +dos santos? +<br /> + +<br /> + +—Ora não seja tola. Deixe vêr. +<br /> + +<br /> + +Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito +o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar +toda envolvida no manto, assustada e immovel, +com um sorriso cálido de gozo devoto. +<br /> + +<br /> + +—Oh filhinha, que linda que ficas! +<br /> + +<br /> + +Ella então, movendo-se com uma cautela solemne, +chegou-se ao espelho da sacristia—um antigo +espelho de reflexo esverdeado com um caixilho +negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. +Mirou-se um momento, n'aquella sêda azul celeste +que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrellas, +com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o +peso rico. A santidade que o manto adquirira no +contacto com os hombros da imagem penetrava-a +d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce +que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no +<span class="pagenum">[456]</span> +corpo a caricia do ether do paraiso. Parecia-lhe ser +uma santa no andor, ou mais alto, no céo... +<br /> + +<br /> + +Amaro babava-se para ella: +<br /> + +<br /> + +—Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora! +<br /> + +<br /> + +Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, +linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas +com o seu rosto trigueiro, de labios rubros, alumiado +por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse +sobre o altar, com cantos ao orgão e um culto +susurrando em redor, faria palpitar bem forte o +coração dos fieis... +<br /> + +<br /> + +Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe +os braços sobre o seio, apertou-a toda—e +estendendo os labios por sobre os d'ella, deu-lhe +um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia +cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada +de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, +avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella +apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um +gemido desfalleceu sobre o hombro do padre, descórada +e morta de gozo. +<br /> + +<br /> + +Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo +as palpebras como acordada de muito longe; +uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto: +<br /> + +<br /> + +—Oh Amaro, que horror, que peccado!... +<br /> + +<br /> + +—Tolice! disse elle. +<br /> + +<br /> + +Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta: +<br /> + +<br /> + +—Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda +a queimasse. +<span class="pagenum">[457]</span> +<br /> + +<br /> + +Então Amaro fez-se muito sério. Realmente +não +se devia brincar com coisas sagradas... +<br /> + +<br /> + +—Mas não está benzida... Não tem +duvida... +<br /> + +<br /> + +Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no +lençol branco, collocou-o no gavetão, sem uma +palavra. +Amelia olhava-o petrificada: e só os seus labios +pallidos se moviam n'uma oração. +<br /> + +<br /> + +Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas +d'irem a casa do sineiro—recuou, como diante do +demonio que a chamasse. +<br /> + +<br /> + +—Hoje não! exclamou, implorando-o. +<br /> + +<br /> + +Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a +pieguice... Ella bem sabia que não era peccado, +quando as coisas não estavam benzidas... Era ser +muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora, +ou um quarto d'hora! +<br /> + +<br /> + +Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta. +<br /> + +<br /> + +—Então não queres? +<br /> + +<br /> + +Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes: +<br /> + +<br /> + +—Hoje não! +<br /> + +<br /> + +Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou +rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos +nas lages, como se passasse entre as ameaças cruzadas +dos santos indignados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que +estava na sala de jantar, sentindo o senhor conego +subir soprando forte, veio encontral-o á escada e fechou-se +com elle na saleta. +<span class="pagenum">[458]</span> +<br /> + +<br /> + +Queria contar-lhe a afflicção que tivera de +madrugada. +A Amelia acordára de repente aos gritos, +que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no +pescoço! +que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz! +e que as labaredas do inferno subiam mais alto +que as torres da Sé!... Emfim um horror!... Viera +encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como +doida. D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque +de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... +A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a +manhã apenas tocára n'uma colher de caldo. +<br /> + +<br /> + +—Pesadêlos, disse o conego. Indigestão! +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira, +que parecia acabrunhada, sentada diante d'elle +na borda d'uma cadeira. É outra coisa: são +aquellas +desgraçadas visitas á filha do sineiro! +<br /> + +<br /> + +E então desabafou, com a effusão labial de quem +abre os diques a um descontentamento accumulado. +Nunca quizera dizer nada, porque emfim reconhecia +que era uma grande obra de caridade. Mas, +desde que aquillo começára, a rapariga parecia +transtornada. +Ultimamente, então, andava de todo. Ora +alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia +aos moveis. De noite sentia-a passear pela +casa até tarde, abrir as janellas... Ás vezes +tinha +até medo de lhe vêr o olhar tão +exquisito: quando +vinha de casa do sineiro era sempre branca como +a cal, a cahir de fraqueza. Tinha de tomar logo +um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó tinha o +demonio +no corpo. E o senhor chantre, o outro que +<span class="pagenum">[459]</span> +tinha morrido (Deus lhe falle n'alma), costumava +dizer que n'este mundo as duas coisas que se pegavam +mais ás mulheres eram tisicas e demonio no +corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir +que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar +certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem +lhe prejudicava a alma. Emfim, queria que uma +pessoa de juizo, d'experiencia, fosse examinar a +Tótó... +<br /> + +<br /> + +—N'uma palavra, disse o conego que escutára +d'olhos cerrados aquella verbosidade repassada de +lamuria, o que a senhora quer é que eu vá +vêr a +paralytica e saber á justa o que se passa... +<br /> + +<br /> + +—Era um allivio p'ra mim, riquinho! +<br /> + +<br /> + +Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade +de matrona, reservava para a intimidade das +séstas, enterneceu o conego. Fez uma caricia ao +pescoço +gordo da sua velhota, prometteu com bondade +ir estudar o caso... +<br /> + +<br /> + +—Ámanhã, que a Tótó +está só, lembrou logo a +S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. +Podia assim vêr como as duas se davam, se +havia influencia do espirito maligno... +<br /> + +<br /> + +—Que isto que eu faço é d'agradecer... +É por +ser p'ra quem é... Que bem me bastam os meus +achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz. +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca +sonora. +<span class="pagenum"><a name="p460" id="p460">[460]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego +philosophicamente. +<br /> + +<br /> + +No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era +uma perturbação nos seus habitos, toda uma +manhã +desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo d'exercitar +a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo +de doenças e de todas as circumstancias humanas +relacionadas com a morte. Mas, emfim, fiel á sua +promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra +prevenido +que Amelia ia á Tótó, arrastou-se +contrariado +para a botica do Carlos; e installou-se, com um +olho no <em>Popular</em> e outro na porta, +á espera que a +rapariga <a href="#e17">atravessasse</a> para a +Sé. O amigo Carlos estava +ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares +sentado á escrivaninha, de testa sobre o punho, +relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já +quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do +largo; não passava ninguem; e só quebravam o +silencio +as martelladas nas obras do doutor Pereira. +Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado +longo tempo, com o <em>Popular</em> cahido +nos joelhos, +o medonho sacrificio que fazia pela sua velhota, +ia cerrando as palpebras, já tomado da quebreira, +n'aquelle repouso calado do meio dia proximo—quando +entrou na botica um ecclesiastico. +<br /> + +<br /> + +—Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou +o conego Dias despertando do seu quebranto. +<br /> + +<br /> + +—De fugida, collega, de fugida, disse o outro +collocando cuidadadosamente sobre uma cadeira dois +grossos volumes que trazia, amarrados n'um barbante. +<span class="pagenum">[461]</span> +<br /> + +<br /> + +Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo +ao praticante. +<br /> + +<br /> + +Tinha o cabello todo branco; devia passar já +dos sessenta annos; mas era robusto, uma alegria +bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes +magnificos a que uma saude de granito conservava +o esmalte; o que o desfigurava era um nariz +enorme. +<br /> + +<br /> + +Informou-se logo com bondade se o amigo Dias +estava alli de visita ou infelizmente por motivo de +doença. +<br /> + +<br /> + +—Não, estou aqui á espera... Uma embaixada +de truz, amigo Ferrão! +<br /> + +<br /> + +—Ah, fez o velho discretamente.—E emquanto +tirava com methodo d'uma carteira atulhada de papeis +a receita para o praticante, deu ao conego noticias +da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego +tinha a fazenda, a Ricoça. O abbade Ferrão +passára +de manhã diante da casa e ficára surprehendido +vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo +Dias tinha algumas idéas d'ir lá passar o +verão? +<br /> + +<br /> + +Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro +e a fachada estava uma vergonha, mandára-lhe dar +uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma apparencia, +sobretudo n'uma casa que estava á beira da +estrada, onde passava todos os dias o morgadelho +dos Poyaes, um parlapatão que imaginava que só +elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda... +Só para metter ferro áquelle atheu! Pois +não +lhe parecia, amigo Ferrão? +<span class="pagenum">[462]</span> +<br /> + +<br /> + +O abbade estava justamente lamentando comsigo +aquelle sentimento de vaidade n'um sacerdote; +mas, por caridade christã, para não contrariar o +collega, +apressou-se a dizer: +<br /> + +<br /> + +—Está claro, está claro. A limpeza é +a alegria +das coisas... +<br /> + +<br /> + +O conego então, vendo passar no largo uma saia +e um mantelete, foi á porta affirmar-se se era Amelia. +Não era. E voltando, retomado agora da sua +preoccupação, vendo que o praticante +fôra dentro ao +laboratorio, disse ao ouvido do Ferrão: +<br /> + +<br /> + +—Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada! +<br /> + +<br /> + +—Ah, fez o abbade, todo sério á idéa +d'aquella +responsabilidade. +<br /> + +<br /> + +—Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui +perto... +<br /> + +<br /> + +O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar +ao senhor vigario geral, fôra depois ao Silverio para +lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli aviar +uma receita para um velho da freguezia, e tinha +d'estar de volta aos Poyaes ao toque das duas horas. +<br /> + +<br /> + +O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia +curioso... +<br /> + +<br /> + +O abbade então confessou ao caro collega que +eram coisas que não gostava d'examinar. Aproximava-se +sempre d'ellas com um espirito rebelde á +crença, com desconfianças e suspeitas que lhe +diminuiam +a imparcialidade. +<br /> + +<br /> + +—Mas emfim ha prodigios! disse o conego.—Apesar +<span class="pagenum"><a name="p463" id="p463">[463]</a></span> +das suas proprias duvidas, não gostava +d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um +phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, +estava interessado. Repetiu com seccura:—Tenho +alguma experiencia, e sei que ha prodigios. +<br /> + +<br /> + +—Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. +Negar que Deus ou a Rainha do céo possa apparecer +a uma creatura é contra a doutrina da Igreja... +Negar que o demonio possa habitar o corpo de +um homem, seria estabelecer um erro funesto... +Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á familia de +Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos +que são, conego Dias! +<br /> + +<br /> + +Calou-se um momento olhando o conego, que tapava +o nariz com rapé em silencio—e continuou +mais baixo, com o olho brilhante e fino: +<br /> + +<br /> + +—E depois não tem o collega notado que é uma +coisa que só succede ás mulheres? É +só a ellas, cuja +<a href="#e18">malicia</a> é +tão grande que o proprio +Salomão não +lhes pôde resistir, cujo temperamento é +tão nervoso, +tão contradictorio que os medicos não as +comprehendem. +É só a ellas que succedem prodigios!... O +collega já ouviu de ter apparecido a nossa Santa +Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um +digno juiz de direito possuido do espirito maligno? +Não. Isto faz reflectir... E eu concluo que é +malicia +n'ellas, illusão, imaginação, +doença, etc... Não lhe +parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo +isso +d'alto e com muita indifferença. +<span class="pagenum">[464]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente +o guardasol, fazendo para o largo: +<br /> + +<br /> + +—Pst, pst! Eh lá! +<br /> + +<br /> + +Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada +d'aquelle encontro que a ia ainda retardar mais. E +já o senhor parocho devia estar desesperado... +<br /> + +<br /> + +—De modo que, disse o conego á porta abrindo +o seu guardasol, vossê, abbade, era lhe cheirando +a prodigio... +<br /> + +<br /> + +—Suspeito logo escandalo. +<br /> + +<br /> + +O conego contemplou-o um momento, com respeito: +<br /> + +<br /> + +—Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus +a Salomão +em prudencia! +<br /> + +<br /> + +—Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, +offendido com aquella injustiça feita á +incomparavel +sabedoria de Salomão. +<br /> + +<br /> + +—Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego +da rua. +<br /> + +<br /> + +Tinha preparado uma historia habil para justificar +a sua visita á paralytica; mas durante a sua +conversação com o abbade ella +escapára-lhe, como +tudo o que deixava um momento nos reservatorios +da memoria; e foi sem transição que disse +simplesmente +a Amelia: +<br /> + +<br /> + +—Vamos lá, tambem quero ir vêr essa +Tótó! +<br /> + +<br /> + +Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, +já lá estava! Mas sua madrinha Nossa +Senhora das Dôres, que ella invocou logo n'aquella +<span class="pagenum">[465]</span> +afflicção, não a deixou enleada no +embaraço.—E o +conego, que caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido +ouvindo-lhe dizer com um risinho: +<br /> + +<br /> + +—Viva, hoje é o dia das visitas á +Tótó! O senhor +parocho disse-me que tambem talvez hoje apparecesse +por lá... Talvez lá esteja até. +<br /> + +<br /> + +—Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está +bom. Faremos uma consulta á Tótó! +<br /> + +<br /> + +Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou +sobre a Tótó. O senhor conego ia vêr... +Era uma +creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella não +tinha querido contar em casa, mas a Tótó +tomára-lhe +birra... E dizia coisas, tinha um modo de fallar de +cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai, era um encargo +que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe +escutava +as lições, nem as orações, +nem os conselhos... +Era uma fera! +<br /> + +<br /> + +—O cheiro é desagradavel! rosnou o conego +entrando. +<br /> + +<br /> + +Que queria! A rapariga era uma porca, não havia +tel-a arranjado. O pai, esse, um desleixado tambem... +<br /> + +<br /> + +—É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta +da alcova—que agora, em obediencia ás ordens +do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre +fechada. +<br /> + +<br /> + +Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama, +com a face accêsa n'uma curiosidade, áquella voz +do +conego que não conhecia. +<span class="pagenum">[466]</span> +<br /> + +<br /> + +—Ora viva lá a snr.<sup>a</sup> +Tótó! disse +elle da porta, +sem se aproximar. +<br /> + +<br /> + +—Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, +começando logo, com uma caridade desacostumada, +a compôr a roupa da cama, a arrumar +a alcova. Dize-lhe como estás... Não te +faças +amuada! +<br /> + +<br /> + +Mas a Tótó permaneceu tão muda como a +imagem +de S. Bento que tinha á cabeceira, examinando +muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho, +tão differente do senhor parocho... E os seus olhos, +mais brilhantes todos os dias á medida que se lhe +cavavam as faces, iam, como de costume, do homem +para Amelia, n'uma anciedade de perceber +porque o trazia ella alli, aquelle velho obeso, e +se ia tambem subir com elle para o quarto. +<br /> + +<br /> + +Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, +e alli, diante do cónego, a Tótó, +tomada do +seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de +cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella +foi à cozinha vigiar o pateo. Faria um signal da janella, +apenas Amaro apparecesse. +<br /> + +<br /> + +E o conego, só na alcova da Tótó, +preparando-se +para começar as suas observações, ia +perguntar-lhe +quantas eram as pessoas da Santissima Trindade,—quando +ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz +subtil como um sôpro: +<br /> + +<br /> + +—E o outro? +<br /> + +<br /> + +O conego não comprehendeu. Que fallasse alto! +Que era? +<span class="pagenum">[467]</span> +<br /> + +<br /> + +—O outro, o que vem com ella! +<br /> + +<br /> + +O conego chegou-se, com a orelha dilatada de +curiosidade: +<br /> + +<br /> + +—Que outro? +<br /> + +<br /> + +—O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O +que a belisca... +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, +repousada, com os olhos cerrados e respirando +regaladamente, como n'um allivio repentino de todo +o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro, +permanecia na mesma postura, dobrado sobre +a cama como para ascultar a Tótó. Ergueu-se por +fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu d'espaço +uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta +entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados +na colcha da Tótó. +<br /> + +<br /> + +—Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha +doente? perguntou Amelia. +<br /> + +<br /> + +Elle respondeu, sem a olhar: +<br /> + +<br /> + +—Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita... +Pois é andar, é andar... Adeus... +<br /> + +<br /> + +Sahiu, resmungando que tinha negocios,—e voltou +immediatamente á botica. +<br /> + +<br /> + +—Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio +sobre a cadeira. +<br /> + +<br /> + +O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo +flôr de laranja, perguntando se sua excellencia estava +incommodado... +<br /> + +<br /> + +—Cansadote, disse. +<br /> + +<br /> + +Tomou o <em>Popular</em> de sobre a mesa, e +alli ficou, +<span class="pagenum">[468]</span> +sem se mexer, abysmado nas columnas do periodico. +O Carlos tentou fallar da politica do paiz, depois +dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios +que ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia +da administração do concelho de que era +agora um adversario feroz... Debalde. Sua excellencia +grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, +emfim, recolheu-se a um silencio chocado, comparando, +n'um desdem interior que lhe vincava de +sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna +d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire +e d'um Malhão! Por isso o Materialismo em +Leiria, em todo o Portugal erguia a sua cabeça d'hydra... +<br /> + +<br /> + +Batia uma hora na torre quando o conego, que +vigiava a Praça pelo canto do olho, vendo passar +Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem dizer +uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para +casa do tio Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo +ao vêr de novo aquella figura bojuda apparecer +á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella, +chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para +bolos; e mesmo sentou-se aos pés da cama com um +<em>ah!</em> regalado, dizendo: +<br /> + +<br /> + +—Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... +Esta é que é a pernita doente, hein? Coitadita! +Deixa +que te has de curar... Hei de pedir a Deus... Fica +por minha conta. +<br /> + +<br /> + +Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, +olhando aqui e além, inquieta, na +perturbação que +<span class="pagenum">[469]</span> +lhe dava aquelle homem a sós com ella tão perto +que lhe sentia o halito forte. +<br /> + +<br /> + +—Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais +para ella, fazendo ranger o catre com o seu peso. +Ouve cá, quem é o outro? Quem é que +vem com a +Amelia? +<br /> + +<br /> + +Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um +fôlego: +<br /> + +<br /> + +—É o bonito, é o magro, vêm ambos, +sobem +p'r'ó quarto, fecham-se por dentro, são como +cães! +<br /> + +<br /> + +Os olhos do conego injectaram-se para fóra das +orbitas: +<br /> + +<br /> + +—Mas quem é elle, como se chama? O teu pai +que te disse? +<br /> + +<br /> + +—É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella +impaciente. +<br /> + +<br /> + +—E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra +cima? E +tu que ouves, tu que ouves? Dize tudo, pequena, +dize tudo! +<br /> + +<br /> + +A paralytica então contou, com um furor que dava +tons sibilantes à sua voz de tisica,—como ambos +entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um +pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam +lá uma hora fechados... +<br /> + +<br /> + +Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que +lhe punha uma chamma nos olhos mortiços, queria +saber os detalhes torpes: +<br /> + +<br /> + +—E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? +Ouves +ranger a cama? +<span class="pagenum">[470]</span> +<br /> + +<br /> + +Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, +toda pallida, os dentes cerrados. +<br /> + +<br /> + +—E olha, Tótósinha, já os viste +beijarem-se, +abraçarem-se? Anda, dize, que te dou dois pintos. +<br /> + +<br /> + +Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada +parecia ao conego selvagem. +<br /> + +<br /> + +—Tu embirras com ella, não é verdade? +<br /> + +<br /> + +Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de +cabeça. +<br /> + +<br /> + +—E vistel-os beliscarem-se? +<br /> + +<br /> + +—São como cães! soltou ella por entre os dentes. +<br /> + +<br /> + +O conego então endireitou-se, bufou outra vez +com o seu grande sôpro d'encalmado, e coçou +vivamente +a corôa. +<br /> + +<br /> + +—Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... +Agasalha-te. Não te constipes... +<br /> + +<br /> + +Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou +alto: +<br /> + +<br /> + +—Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu +perco-me! +<br /> + +<br /> + +Esteve um momento considerando e partiu para +a rua das Sousas, de guardasol em riste, apressando +a sua obesidade, com a face apopletica de furor. +No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e +rodando +sobre os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado +que, esquecendo um habito de quarenta annos, +não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se +para a sacristia—justamente quando o padre Amaro +sahia, calçando cuidadosamente as luvas pretas +<span class="pagenum">[471]</span> +que usava agora sempre para agradar á Ameliasinha. +<br /> + +<br /> + +O aspecto descomposto do conego assombrou-o. +<br /> + +<br /> + +—Que é isso, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +—O que é? exclamou o conego de golpe, é a +maroteira das maroteiras! É a sua infamia! é a +sua +infamia!... +<br /> + +<br /> + +E emmudeceu, suffocado de cólera. +<br /> + +<br /> + +Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou: +<br /> + +<br /> + +—Que está vossê a dizer, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +O conego tomára fôlego: +<br /> + +<br /> + +—Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou +a rapariga! Isso é que é uma canalhice mestra! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente +d'um gracejo: +<br /> + +<br /> + +—Que rapariga!? O senhor está a brincar... +<br /> + +<br /> + +Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus +beiços brancos tremiam. +<br /> + +<br /> + +—Homem, eu vi! berrou o conego. +<br /> + +<br /> + +O parocho, subitamente aterrado, recuou: +<br /> + +<br /> + +—Viu!? +<br /> + +<br /> + +Imaginára n'um relance uma traição, o +conego +escondido n'um recanto da casa do tio Esguelhas... +<br /> + +<br /> + +—Não vi, mas é como se visse!—continuou o +conego n'um tom tremendo. Sei tudo. Venho de lá. +Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e +horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma +ignominia ! +<br /> + +<br /> + +O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal +acossado e entalado a um canto, uma resistencia +de desespero. +<span class="pagenum">[472]</span> +<br /> + +<br /> + +—Diga-me uma coisa. O que é que o senhor +tem com isso? +<br /> + +<br /> + +O conego pulou. +<br /> + +<br /> + +—O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor +ainda me falla n'esse tom!? O que tenho é que vou +d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor +vigario geral! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho +fechado: +<br /> + +<br /> + +—Ah, seu maroto! +<br /> + +<br /> + +—Que é lá? que é lá? +exclamou o conego de +guardasol erguido. Vossê quer-me pôr as +mãos? +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre +a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de +um momento, fallando com uma serenidade forçada: +<br /> + +<br /> + +—Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o +ao senhor uma vez na cama com a S. Joanneira... +<br /> + +<br /> + +—Mente! mugiu o conego. +<br /> + +<br /> + +—Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma +noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas +de camisa, ella tinha-se erguido, estava a apertar +o collete. Até o senhor me perguntou +«<em>quem está +ahi?</em>» Vi, como estou a vêl-o +agora. O senhor a +dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor +vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á +face de todo o clero! Ora ahi tem! +<br /> + +<br /> + +O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu +furor, ficou agora, áquellas palavras, como um boi +atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco, muito +murcho: +<span class="pagenum">[473]</span> +<br /> + +<br /> + +—Que traste que vossê me sae! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do +silencio do conego, disse com bonhomia: +<br /> + +<br /> + +—Traste porquê? Diga-me lá! Traste +porquê? +Temos ambos culpas no cartorio, eis ahi está. E olhe +que eu não fui perguntar, nem peitar a +Tótó... Foi +muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem +agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral +é para a escóla e para o sermão. +Cá na vida eu +faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o que +podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se +á velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. +É triste, mas que quer? É a natureza que manda. +Somos homens. E como sacerdotes, para honra +da classe, o que temos é fazer costas! +<br /> + +<br /> + +O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na +aceitação muda d'aquellas verdades. Tinha-se +deixado +cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta cólera +inutil; e erguendo os olhos para Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Mas vossê, homem, no começo da carreira! +<br /> + +<br /> + +—E vossê, padre-mestre, no fim da carreira! +<br /> + +<br /> + +Então riram ambos. Immediatamente cada um +declarou retirar as palavras offensivas que tinha dito; +e apertaram-se gravemente a mão. Depois conversaram. +<br /> + +<br /> + +O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá +com a pequena de casa. Se fosse com outra... até +estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi +viesse a saber estourava de desgosto. +<br /> + +<br /> + +—Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. +<span class="pagenum">[474]</span> +Isto é entre nós, padre-mestre! Isto é +segredo de +morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu mesmo +digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As +coisas ficam como estavam, e o mundo continua a +rolar... Mas vossê, padre-mestre, tenha cuidado!... +Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja +agora traição! +<br /> + +<br /> + +O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente +a sua palavra d'honra de cavalheiro e de sacerdote +que aquelle segredo ficava para sempre sepultado +no seu coração. +<br /> + +<br /> + +Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente +a mão. +<br /> + +<br /> + +Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora +de jantar do conego. +<br /> + +<br /> + +E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo +luzir um olho d'entendedor: +<br /> + +<br /> + +—Pois seu velhaco, tem dedo! +<br /> + +<br /> + +—Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por +brincadeira... +<br /> + +<br /> + +—Homem! disse o conego sentenciosamente, é +o que a gente leva de melhor d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +—É verdade, padre-mestre, é verdade! +É o que +a gente leva de melhor d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade +d'alma. Até ahi incommodava-o, por vezes, +a idéa de que correspondera ingratamente á +confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado +<span class="pagenum">[475]</span> +na rua da Misericordia. Mas a tacita approvação +do +conego viera tirar-lhe, como elle dizia, aquelle espinho +da consciencia. Porque emfim, o chefe de familia, +o cavalheiro respeitavel, o cabeça—era o conego. +A S. Joanneira era apenas uma concubina... +E Amaro mesmo, às vezes agora, em tom de galhofa, +tratava o Dias de <em>seu caro sogro</em>. +<br /> + +<br /> + +Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó +adoecera +de repente: o dia seguinte ao da visita do conego, +passára-o soltando golfadas de sangue: o doutor +Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica +galopante, +questão de semanas, caso decidido... +<br /> + +<br /> + +—É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é +trás... trás...—Era a sua maneira de pintar a +morte, que, quando tem pressa, conclue o seu trabalho +com uma fouçada aqui, outra além. +<br /> + +<br /> + +As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora +tranquillas. Amelia e o parocho já não entravam +em +pontas de pés, tentando esgueirar-se para o prazer, +despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, +palravam +forte, certos que a Tótó estava bem prostrada +de febre, sob os lençoes humidos dos suores constantes. +Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de +rezar todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras +da Tótó. Ás vezes mesmo ao despir-se, +no +quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um +rostinho triste: +<br /> + +<br /> + +—Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a +gozarmos, e a pobre pequena lá em baixo a luctar +com a morte... +<span class="pagenum">[476]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles +de fazer, se era a vontade de Deus?... +<br /> + +<br /> + +E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em +tudo, ia deixando cahir as sáias. +<br /> + +<br /> + +Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que +impacientavam o padre Amaro. Em certos dias apparecia +muito murcha; trazia sempre algum sonho +lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em +que ella pretendia descobrir avisos de desgraças... +<br /> + +<br /> + +Perguntava-lhe ás vezes: +<br /> + +<br /> + +—Se eu morresse, tinhas muita pena? +<br /> + +<br /> + +Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham +apenas uma hora para se verem, e haviam +d'estar a estragal-a com lamurias? +<br /> + +<br /> + +—É que não imaginas, dizia ella, trago o +coração +negro como a noite. +<br /> + +<br /> + +Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. +Ás vezes durante serões inteiros não +descerrava os +labios, pendida sobre a sua costura, picando mollemente +a agulha; ou então, muito cansada mesmo para +trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar +o <em>abat-jour</em> verde do candieiro, com +o olhar +vazio e a alma muito longe. +<br /> + +<br /> + +—Ó rapariga, deixa esse +<em>abat-jour</em> em paz! diziam-lhe +as senhoras nervosas. +<br /> + +<br /> + +Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava +muito lentamente a sáia branca que havia semanas +andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre tão +pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia. +<br /> + +<br /> + +—Não é nada, minha mãi, é +nervoso, passa... +<span class="pagenum">[477]</span> +<br /> + +<br /> + +O que provava a todos que era nervoso eram os +sustos subitos que a tomavam—a ponto de dar um +grilo, quasi desmaiar, se de repente uma porta batia. +Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse +dormir ao pé d'ella, com medo de pesadêlos e de +visões. +<br /> + +<br /> + +—É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, +observava a mãi ao conego, é uma rapariga que +necessita +casar... +<br /> + +<br /> + +O conego pigarreava grosso. +<br /> + +<br /> + +—Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o +que precisa. Tem de mais, ao que parece... +<br /> + +<br /> + +Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga +(como elle dizia só comsigo) «andava-se a arrasar +de felicidade». Nos dias em que sabia que ella fôra +vêr a Tótó, não se fartava +de a estudar, cocando-a +do fundo da poltrona com um olho pesado e lubrico. +Prodigalisava-lhe agora as familiaridades paternaes. +Nunca a encontrava na escada sem a deter, com coceguinhas +aqui e alli, palmadinhas na face muito +prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela +manhã; e emquanto Amelia palrava com D. Josepha, +o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando +as chinelas com um ar de velho gallo. E +eram entre Amelia e a mãi conversas sem fim sobre +esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria +um bom dote. +<br /> + +<br /> + +—Seu maganão, tem dedo!—dizia sempre o +conego quando estava só com Amaro, arregalando +os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei! +<span class="pagenum"><a name="p478" id="p478">[478]</a></span> +<br /> + +<br /> + +Amaro entufava-se: +<br /> + +<br /> + +—Não é mau bocado, padre-mestre, é um +bom +bocado. +<br /> + +<br /> + +Era este um dos <a href="#e19">grandes</a> gozos +d'Amaro—ouvir +gabar aos collegas a belleza d'Amelia, que era chamada +entre o clero «a flôr das devotas». Todos +lhe +invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito +com ella em que se ajanotasse nos domingos, á +missa; zangára-se mesmo ultimamente de a vêr +quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino +escuro, que lhe dava um ar de velha penitente. +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia, agora, já não tinha aquella +necessidade +amorosa de contentar em tudo o senhor parocho. +Acordára quasi inteiramente d'aquelle adormecimento +estupido d'alma e do corpo, em que a lançára +o primeiro abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo +distinctamente a consciencia pungente da sua culpa. +N'aquelles negrumes d'um espirito beato e escravo, +fazia-se um amanhecimento de razão.—O que era +ella no fim? A concubina do senhor parocho. E esta +idéa, posta assim descarnadamente, parecia-lhe terrivel. +Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, +o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda +por elle, pelos delirios que elle lhe dava. Mas havia +alguma coisa peor a temer que as reprovações do +mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da +perda possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou +de mais medonho ainda, d'algum castigo de Deus, não +das punições transcendentes que acabrunham a alma +além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante +<span class="pagenum">[479]</span> +a vida, que a feririam na sua saude, no seu bem-estar +e no seu corpo. Eram vagos medos de doenças, +de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de +fome—de todas essas penalidades de que ella suppunha +prodigo o Deus do seu catecismo. Como em +pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á +Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia +que ella a fizesse cahir na escada ou levar palmatoadas +na mestra, arrefecia de medo agora, á idéa +de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama +com um padre, lhe mandasse um mal que a desfigurasse +ou a reduzisse a pedir esmola pelas viellas. +Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na +sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto +de Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem +a odiava, e que não cessava de reclamar contra +ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo +incessante de orações humilhadas; sentia bem +Nossa Senhora, inaccessivel e desdenhosa, de costas +voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe sorrira; +nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para +receber com agrado as suas orações, como ramos +congratulatorios. Era um silencio sêcco, uma hostilidade +gelada de divindade offendida. Ella conhecia o +credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; +desde pequena lh'o tinham ensinado; tudo o que +ella deseja o obtem, como uma recompensa devida +aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á +sua direita, o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E +comprehendia bem que para ella não havia +esperança—e +<span class="pagenum">[480]</span> +que alguma coisa medonha se preparava +lá era cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia +sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um +desabamento de catastrophe. Que seria? +<br /> + +<br /> + +Cessaria as suas relações com Amaro, se o +ousasse: +mas receava quasi tanto a sua cólera como a de +Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra si Nossa Senhora +e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. +Nos seus braços, todo o terror do céo, a mesma +idéa +do céo desapparecia; refugiada alli, contra o seu +peito, não tinha medo das iras divinas: o desejo, o +furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe +uma coragem colerica; era com um brutal +desafio ao céo que se enroscava furiosamente ao seu +corpo.—Os terrores vinham depois, só no seu quarto. +Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas +d'envelhecimento ao canto dos labios seccos e +ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga que +irritava o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Mas que tens tu, que parece te espremeram +o succo? perguntava-lhe elle quando aos primeiros +beijos a sentia toda fria, toda inerte. +<br /> + +<br /> + +—Passei mal a noite... Nervoso. +<br /> + +<br /> + +—Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente. +<br /> + +<br /> + +Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, +repetidas agora todos os dias. Se tinha +dito a missa com fervor? Se tinha lido o Breviario? +Se tinha feito a oração mental?... +<br /> + +<br /> + +—Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! +<span class="pagenum">[481]</span> +E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e +que tu és o padre examinador, que verifica se cumpri +a Regra? Ora a tolice! +<br /> + +<br /> + +—É que é necessario estar bem com Deus, +murmurava +ella. +<br /> + +<br /> + +Era com effeito a sua preoccupação, agora, que +Amaro <em>fosse um bom padre</em>. Contava, +para se salvar +e para se livrar da cólera de Nossa Senhora, com a +influencia do parocho na côrte de Deus: e temia +que elle por negligencia de devoção a perdesse, e +que, diminuindo o seu fervor, diminuissem os seus +meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar +santo e favorito do céo, para colher os proveitos da +sua protecção mystica. +<br /> + +<br /> + +Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». +Detestava-as, por as achar frivolas—e porque +tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da +casa do sineiro... +<br /> + +<br /> + +—Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, +muito sêccamente. Fecha a porta, se queres. +<br /> + +<br /> + +Ella obedecia,—e então aos primeiros beijos +na penumbra da janella cerrada, elle reconhecia emfim +a sua Amelia, a Amelia dos primeiros dias, o delicioso +corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos +de paixão. +<br /> + +<br /> + +E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo +e tyrannico, que aquellas horas escassas não satisfaziam. +Ah! positivamente, como mulher não havia +outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo +em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, +<span class="pagenum">[482]</span> +sim, mas era não as tomar a sério, e gozar +emquanto +era novo! +<br /> + +<br /> + +E gozava. A sua vida por todos os lados tinha +confortos e doçuras—como uma d'estas salas onde +tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem +angulos, +e o corpo, onde quer que pouse, encontra a +elasticidade molle d'uma almofada. +<br /> + +<br /> + +Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa +do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia +bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma: +toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára +alguma mobilia: e não tinha, como outr'ora, +embaraços de dinheiro, porque a snr.<sup>a</sup> +D. Maria da +Assumpção, a sua melhor confessada, lá +estava com +a bolsa prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma +pechincha: uma noite em casa da S. Joanneira, a +excellente senhora, a proposito d'uma familia d'inglezes +que vira passar n'um +<em>char-á-banc</em> para ir +visitar +a Batalha, exprimira a opinião que os inglezes +eram herejes. +<br /> + +<br /> + +—São baptisados como nós, observára +D. Joaquina +Gansoso. +<br /> + +<br /> + +—Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. +Não é o nosso rico baptismo, não lhes +vale. +<br /> + +<br /> + +O conego então, que gostava de a torturar, declarou +pausadamente que a snr.<sup>a</sup> D. Maria dissera +uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no seu +canon IV, sessão VII, lá determinára +«que aquelle +que disser que o baptismo dado aos herejes, em nome +do Padre, do Filho e do Espirito, não é o +<span class="pagenum">[483]</span> +verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. +Maria, segundo o santo concilio, estava desde esse +momento excommungada!... +<br /> + +<br /> + +A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia +foi lançar-se aos pés d'Amaro, que em penitencia +da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII do santo +concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de +intenção +pelas almas do purgatorio—que D. Maria +lhe estava pagando a cinco tostões cada uma. +<br /> + +<br /> + +Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio +Esguelhas com um ar de satisfação mysteriosa e um +embrulhosinho na mão. Era algum presente para +Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de +côres, +um par de luvas. Ella extasiava-se com aquellas +provas da affeição do senhor parocho; e era +então +no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em +baixo a tisica, sobre a Tótó, ia fazendo +«trás... +trás...» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XX +</h3> + +<br /> + +<br /> + +—O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa! +<br /> + +<br /> + +A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio, +e correu acima contar a D. Josepha que o +senhor parocho viera procurar o senhor conego, e +com uma cara tão transtornada que decerto tinha +succedido alguma desgraça! +<br /> + +<br /> + +Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio, +fechou-a de repellão, e sem mesmo dar os bons +dias ao collega, exclamou: +<br /> + +<br /> + +—A rapariga está gravida! +<br /> + +<br /> + +O conego, que estava escrevendo, cahiu como +uma massa fulminada para as costas da cadeira: +<br /> + +<br /> + +—Que me diz vossê!? +<br /> + +<br /> + +—Gravida! +<span class="pagenum">[486]</span> +<br /> + +<br /> + +E no silencio que se fez o soalho gemia sob os +passeios furiosos do parocho da janella para a estante. +<br /> + +<br /> + +—Está vossê certo d'isso? perguntou emfim o +conego com pavor. +<br /> + +<br /> + +—Certissimo! A mulher já ha dias andava desconfiada. +Já não fazia senão chorar... Mas agora +é +certo... As mulheres conhecem, não se enganam. +Ha todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +—Olha que espiga! ponderou o conego atordoado. +<br /> + +<br /> + +—Imagine vossê o escandalo! A mãi, a +visinhança... +E se suspeitam de mim?... Estou perdido... +Eu não quero saber, eu fujo! +<br /> + +<br /> + +O conego coçava estupidamente o cachaço, com +o beiço cahido como uma tromba. Representavam-se-lhe +já os gritos em casa, a noite do parto, a S. +Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade +extincta para sempre... +<br /> + +<br /> + +—Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. +Que pensa vossê? Veja se tem alguma +idéa... Eu não sei, eu estou idiota, estou de +todo! +<br /> + +<br /> + +—Ahi estão as consequencias, meu caro collega. +<br /> + +<br /> + +—Vá p'r'ó inferno, homem! Não se +trata de moral... +Está claro que foi uma asneira... Adeus, está +feita! +<br /> + +<br /> + +—Mas então que quer vossê? disse o conego. +Não quer decerto que se dê uma droga á +rapariga, +que a arrase... +<span class="pagenum">[487]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro encolheu os hombros, impaciente com +aquella idéa insensata. O padre-mestre, positivamente, +estava divagando... +<br /> + +<br /> + +—Mas então que quer vossê? repetia o conego +n'um tom cavo, arrancando as palavras do abysmo +do thorax. +<br /> + +<br /> + +—Que quero!? quero que não haja escandalo! +Que hei de eu querer? +<br /> + +<br /> + +—De quantos mezes está ella? +<br /> + +<br /> + +—De quantos mezes? Está d'agora, está d'um +mez... +<br /> + +<br /> + +—Então é casal-a! exclamou o conego com +explosão. +Então é casal-a com o escrevente! +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro deu um pulo: +<br /> + +<br /> + +—C'os diabos, tem vossê razão! É de +mestre! +<br /> + +<br /> + +O conego affirmou gravemente com a cabeça que +era «de mestre». +<br /> + +<br /> + +—Casal-a já! Emquanto é tempo! +<em>Pater est +quem nuptiæ demonstrant</em>... Quem +é marido é que +é pai. +<br /> + +<br /> + +Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos +azues, a touca negra de D. Josepha. Não se pudera +conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi +agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas +e collára o ouvido á fechadura do escriptorio; +mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por +dentro, um ruido de lenha que se descarregava na +rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se +a entrar, «a dar os bons dias ao senhor parocho». +<br /> + +<br /> + +Mas debalde, por detraz dos vidros defumados, +<span class="pagenum">[488]</span> +os seus olhinhos agudos esquadrinharam anciosamente +o carão espesso do mano e a face pallida d'Amaro. +Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como +duas janellas fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente +do rheumatico do senhor chantre, da +notícia que corria sobre o casamento do senhor secretario +geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou +que tinha n'esse dia uma famosa orelheira para +o jantar—e a snr.<sup>a</sup> D. Josepha, roendo-se, viu-o +abalar depois de ter dito já por detraz do reposteiro +ao conego: +<br /> + +<br /> + +—Então até á noite em casa da S. +Joanneira, +padre-mestre, hein? +<br /> + +<br /> + +—Até á noite. +<br /> + +<br /> + +E o conego, muito grave, continuou a escrever. +D. Josepha então não se conteve; e depois de +arrastar +um momento as chinelas em torno da banca do +mano: +<br /> + +<br /> + +—Ha novidade? +<br /> + +<br /> + +—Grande novidade, mana! disse-lhe o conego, +sacudindo os bicos da penna. Morreu o senhor D. +João VI! +<br /> + +<br /> + +—Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapatões, +cruelmente perseguida por uma risadinha do +mano. +<br /> + +<br /> + +Foi á noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira, +emquanto Amelia em cima, com a morte n'alma, +martellava a <em>Valsa dos dois mundos</em>, +que os +dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro +nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde +<span class="pagenum"><a name="p489" id="p489">[489]</a></span> +a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre +a caveira, cochicharam o seu plano:—antes de +tudo era <a href="#e20">necessario</a> achar +João Eduardo, que +desapparecera +de Leiria; a Dionysia, mulher de faro, ia +bater todos os recantos da cidade para descobrir a +toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente, +porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia... +Só quatro palavras simples: que soubera que +elle fôra victima d'uma intriga; que nunca perdera +nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma +reparação; e que <a href="#e21">viesse</a> +vêl-a... Se +o rapaz hesitasse +agora, o que não era provavel (o conego affirmava-o), +fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego +no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente +governado pela mulher, que era uma escravasinha +do padre Silverio... +<br /> + +<br /> + +—Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta +o escrevente, que dirá elle a esta +revolução? +<br /> + +<br /> + +—Homem, exclamou o conego com uma grande +palmada na côxa, que me tinha esquecido! Pois vossê +não sabe o que aconteceu ao pobre Natario?... +<br /> + +<br /> + +Amaro não sabia. +<br /> + +<br /> + +—Quebrou uma perna! Cahiu da egoa! +<br /> + +<br /> + +—Quando? +<br /> + +<br /> + +—Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu +sempre lh'o disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! +Pois senhores, ferrou-lh'a. E têsa! Tem p'ra +pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras +lá em cima sabem nada. +<br /> + +<br /> + +Foi uma desolação, em cima, quando souberam. +<span class="pagenum">[490]</span> +Amelia fechou o piano. Todos lembraram logo remedios +que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de +offerecimentos—ligaduras, fios, um unguento das +freiras d'Alcobaça, meia garrafinha d'um licôr dos +monges do deserto d'ao pé de Cordova... Era necessario +tambem assegurar a intervenção do céo: +e cada +uma se promptificou a usar do seu valimento +com os santos da sua intimidade: D. Maria da +Assumpção, +que ultimamente praticava com Santo Eleuterio, +offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se +d'interessar Nossa Senhora da Visitação; +D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim... +<br /> + +<br /> + +—E lá a menina? perguntou o conego a Amelia. +<br /> + +<br /> + +—Eu?... +<br /> + +<br /> + +E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua +alma, pensando que ella, com os seus peccados e +os seus delírios, perdera a util amizade de Nossa Senhora +das Dôres.—E não poder ella tambem concorrer +com a sua influencia no céo para restabelecer +a perna de Natario, foi uma das amarguras maiores, +talvez a punição mais viva que sentira desde que +amava o padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro +participou a Amelia o plano do padre-mestre. Preparou-a, +revelando-lhe primeiro que o conego sabia +tudo... +<br /> + +<br /> + +—Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou +<span class="pagenum">[491]</span> +para a socegar. Além d'isso elle e tua mãi +têm +culpas em cartorio... Tudo fica em familia... +<br /> + +<br /> + +Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, +como compadecendo-se já das lagrimas afflictas +que ella ia chorar: +<br /> + +<br /> + +—E agora escuta, filha. Não te afflijas com o que +te vou dizer, mas é necessario, é a nossa +salvação... +<br /> + +<br /> + +Ás primeiras palavras, porém, do casamento com +o escrevente, Amelia indignou-se com espalhafato. +<br /> + +<br /> + +—Nunca, antes morrer! +<br /> + +<br /> + +O quê? Elle punha-a n'aquelle estado e agora +queria descartar-se d'ella e passal-a a outro? Era ella +porventura um trapo que se usa e que se atira +a um pobre? Depois de ter posto fóra de casa o homem, +havia de humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe +nos braços?... Ah, não! Tambem ella tinha o seu +brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era +no Brazil! +<br /> + +<br /> + +Enterneceu-se então. Ah, elle já não a +amava, +estava farto d'ella! Ah, que desgraçada, que +desgraçada +que era!—Atirou-se de bruços para a cama e +rompeu n'um chôro estridente. +<br /> + +<br /> + +—Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! +dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço. +<br /> + +<br /> + +—Não me importa! Que ouçam! P'r'á rua +vou +eu gritar que estou n'este estado, que foi o senhor +padre Amaro, e que me quer agora deixar!... +<br /> + +<br /> + +Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo +furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma +voz que tremia sob a sua serenidade: +<span class="pagenum"><a name="p492" id="p492">[492]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Tu estás fóra de ti, filha... Dize +lá, posso eu +casar comtigo? Não! Bem, então que queres? Se se +percebe que estás assim, se tens o filho em casa, +vê +o escandalo!... Por ti, estás perdida, perdida p'ra +sempre! E eu, se se souber, que me succede? Perdido +tambem, suspenso, mettido em processo talvez... +De que queres tu que eu viva? Queres que +morra de fome? +<br /> + +<br /> + +Enterneceu-se tambem áquella idéa das +privações +e das miserias do padre interdicto.—Ah, era ella, +era ella que o não amava, e que depois d'elle ter +sido tão carinhoso e tão delicado, lhe queria +pagar +com o escandalo e com a desgraça... +<br /> + +<br /> + +—Não, não! exclamou Amelia em +soluços, lançando-se-lhe +ao pescoço. +<br /> + +<br /> + +E ficaram abraçados, tremendo no mesmo +<a href="#e22">enternecimento</a>,—ella +molhando de pranto o hombro do parocho, +elle mordendo o beiço com os olhos todos +turvos d'agua. +<br /> + +<br /> + +Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando +as lagrimas: +<br /> + +<br /> + +—Não, filha, é uma desgraça que nos +succede, +mas tem de ser. Se tu soffres, imagina eu! Vêr-te +casada, a viver com outro... Nem fallemos n'isso... +Mas então, é a fatalidade, é Deus que +a manda! +<br /> + +<br /> + +Ella ficára aniquilada, á beira do leito, tomada +ainda de grandes soluços. Tinha chegado emfim o +castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ella sentia +preparar-se ha tempos no fundo dos céos, como +uma tormenta complicada. Ahi estava, agora, peor +<span class="pagenum">[493]</span> +que os fogos do Purgatorio! Tinha de se separar de +Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o +outro, com o excommungado! Como poderia ella nunca +reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido +e vivido com um homem que os canones, o Papa, +toda a terra, todo céo consideravam maldito?... E +devia ser esse seu marido, talvez o pai d'outros filhos... +Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais! +<br /> + +<br /> + +—E como posso eu casar com elle, Amaro, se +o homem está excommungado?! +<br /> + +<br /> + +Amaro então apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando +os argumentos. Era necessario não exagerar... +O rapaz, verdadeiramente, excommungado não +estava... Natario e o conego tinham interpretado mal +os canones e as bullas... Bater n'um sacerdote que +não estava revestido não era motivo +d'excommunhão +<em>ipso facto</em>, segundo certos +auctores... Elle, Amaro, +era d'essa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe +a excommunhão. +<br /> + +<br /> + +—Tu comprehendes... Como disse o santo concilio +de Trento, e como sabes, <em>nós atamos e +desatamos</em>. +O moço foi excommungado?... Bem, levantamos-lhe +a excommunhão... Fica tão limpo como +d'antes. Não, isso não te dê cuidado. +<br /> + +<br /> + +—Mas de que havemos de viver, se elle perdeu +o emprego? +<br /> + +<br /> + +—Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o +emprego. Arranja-lh'o o padre-mestre. Está tudo +combinadinho, filha! +<br /> + +<br /> + +Ella não respondeu, muito quebrada e muito triste, +<span class="pagenum">[494]</span> +com duas lagrimas persistentes ao comprido das +faces. +<br /> + +<br /> + +—Dize cá, tua mãi não desconfia de +nada? +<br /> + +<br /> + +—Não, por ora não se percebe, respondeu ella +com um grande ai. +<br /> + +<br /> + +Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando +para sahir; elle de cabeça baixa, trilhando +lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas +manhãs d'outr'ora, quando só havia alli beijos e +risadinhas +abafadas; tudo mudára agora, até o tempo +que estava todo nublado, um dia de fim de verão, +ameaçando chuva. +<br /> + +<br /> + +—Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella, +compondo ao espelho o cabello. +<br /> + +<br /> + +—Não. Vaes-te? +<br /> + +<br /> + +—A mamã está á minha espera... +<br /> + +<br /> + +Deram um beijo triste, e ella sahiu. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No emtanto a Dionysia farejava pela cidade na +pista de João Eduardo. A sua actividade desenvolvera-se, +sobretudo, mal soubera que o conego Dias, o +ricaço, estava interessado na +«pesquiza». E todos os +dias, á noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo +portão d'Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia +que +o escrevente estivera ao principio em Alcobaça com +um primo boticario; depois fôra para Lisboa; ahi, +com uma carta de recommendação do doutor +Gouvêa, +empregára-se no cartorio d'um procurador; mas +<span class="pagenum">[495]</span> +o procurador, passados dias, por uma fatalidade, +morrera de apoplexia; e desde então o rasto de +João +Eduardo perdia-se no vago, no cahos da capital. Havia, +sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada +e os passos: era o typographo, o Gustavo. Mas +infelizmente o Gustavo, depois d'uma questão com +o Agostinho, deixára o +<em>Districto</em> e desapparecera. +Ninguem sabia para onde fôra; por desgraça, a +mãi +do typographo não a podia informar—porque morrera +tambem. +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhores! dizia o conego quando o padre +Amaro lhe ia levar estes fios d'informação. Oh, +senhores! +mas então n'essa historia toda a gente morre! +Isso é uma hecatombe! +<br /> + +<br /> + +—Vossê graceja, padre-mestre, mas é +sério. +Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro. +É uma fatalidade! +<br /> + +<br /> + +Então, afflicto já, vendo passar os dias, +escreveu +á tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, +a vêr se por lá apparecera «um tal +João Eduardo +Barbosa...» Recebeu uma carta da tia em garatujas +de tres paginas, queixando-se do Joãosinho, do +seu Joãosinho, que lhe fizera a vida um inferno, +embebedando-se +com genebra a ponto que não lhe paravam +hospedes em casa. Mas estava agora mais +tranquilla: o pobre Joãosinho havia dias +jurára-lhe +pela alma da mamã que d'ahi por diante não +beberia +senão gazosa. Emquanto ao tal João Eduardo +perguntára na visinhança e ao snr. Palma do +ministerio +das obras publicas, que conhecia toda a gente, +<span class="pagenum">[496]</span> +mas nada averiguára. Havia, sim, um Joaquim Eduardo +que tinha uma loja de quinquilherias no bairro... +E se fosse o negocio com elle bem ia, que era +um homem de bem... +<br /> + +<br /> + +—Lérias! lérias! interrompeu o conego +impaciente. +<br /> + +<br /> + +Resolveu-se elle então a escrever. E instado pelo +padre Amaro (que não cessava de lhe representar o +que a S. Joanneira e elle mesmo, conego Dias, soffreria +com o escandalo) chegou a auctorisar ao seu +amigo da capital as despezas necessarias para empregar +a policia. A resposta demorou-se, mas veio +emfim, promettedora e magnifica! O habil policia +Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe +sabia ainda a morada, avistára-o apenas n'um +café; +mas em dois ou tres dias o amigo Mendes promettia +informações precisas. +<br /> + +<br /> + +O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande +quando, d'ahi a dias, o amigo do conego escreveu +que o indivíduo, que o habil policia Mendes +tomára +por João Eduardo, n'um café da Baixa, sobre +signaes incompletos, era um moço de Santo Thyrso +que estava na capital a fazer concurso para delegado... +E havia tres libras e dezesete tostões de despeza. +<br /> + +<br /> + +—Dezesete demonios! rugiu o conego, voltando +para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor +que gozou, que se refocillou, e sou eu que estou +aqui a arrasar a minha saude com estas andadas, e +a fazer desembolsos d'esta ordem! +<span class="pagenum">[497]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os +hombros á injuria. +<br /> + +<br /> + +Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A +Dionysia lá andava no faro! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amelia recebia estas noticias com desconsolação. +Depois das primeiras lagrimas, a irremediavel necessidade +impuzera-se-lhe, muito forte. Por fim que +lhe restava? D'ahi a dois ou tres mezes, com aquelle +seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, +não poderia esconder o seu estado. E que faria +então? Fugir de casa, ir como a filha do tio Cegonha +para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos +inglezes, ou como a Joanninha Gomes, que fôra +a amiga do padre Abilio, levar pela cara os ratos +mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, +tinha de casar... +<br /> + +<br /> + +Depois vir-lhe-hia um menino ao fim dos sete +mezes (era tão frequente!), legitimado pelo sacramento, +pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu +filho teria um papá, receberia uma +educação, não +seria um engeitado... +<br /> + +<br /> + +Desde que o senhor parocho lhe affirmára, em +juramento, que o escrevente <em>não estava +realmente +excommungado</em>, que com algumas +orações se lhe +levantaria a excommunhão, os seus escrupulos devotos +esmoreciam como brazas que se apagam. No +fim, em todos os erros do escrevente, ella só podia +<span class="pagenum">[498]</span> +descobrir a incitação do ciume e do amor: +fôra n'um +despeito de namorado que escrevera o +<em>Communicado</em>, +fôra n'um furor de paixão trahida que +espancára +o senhor parocho... Ah! não lhe perdoava esta brutalidade! +Mas que castigado fôra! Sem emprego, sem +casa, sem mulher, tão perdido na miseria anonyma +de Lisboa que nem a policia o achava! E tudo por +ella. Pobre rapaz! No fim não era feio... Fallavam +da sua impiedade; mas vira-o sempre muito attento +á missa, rezava todas as noites uma +oração especial +a S. João que ella lhe dera impressa n'um cartão +bordado... +<br /> + +<br /> + +Com o emprego no governo civil podiam ter +uma casinha e uma criada... Porque não seria feliz, +por fim? Elle não era rapaz de botequins, nem de +vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impôr +os seus gostos e as suas devoções. E seria +agradavel +sahir aos domingos de manhã para a missa, +arranjada, de marido ao lado, comprimentada de todos, +podendo, á face da cidade, passear o seu filho +muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande +capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos +que désse ao pequerrucho e pelos confortos de +que cercasse o homem, o céo e Nossa Senhora se +não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter +outra vez no céo aquella amiga, a sua querida Nossa +Senhora, amavel e confidente, sempre prompta a curar-lhe +as dôres, a livral-a de infortunios, occupada +a preparar-lhe no paraiso um luminoso conchego! +<br /> + +<br /> + +Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; +<span class="pagenum">[499]</span> +pensava assim, mesmo no caminho para casa do +sineiro; e depois de ter estado um momento com a +Tótó, muito quieta agora, extenuada da febre +lenta, +quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro +era: +<br /> + +<br /> + +—Então, ha alguma novidade? +<br /> + +<br /> + +Elle franzia a testa, rosnava: +<br /> + +<br /> + +—A Dionysia lá anda... Porquê, tens muita +pressa? +<br /> + +<br /> + +—Tenho muita pressa, tenho, respondia ella +muito séria, que a vergonha é para mim. +<br /> + +<br /> + +Elle calava-se; e havia tanto odio como amor +nos beijos que lhe dava—áquella mulher que se resignava +assim tão facilmente a ir dormir com outro! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Tinha ciumes d'ella—que lhe tinham vindo ultimamente +desde que a vira conformar-se áquelle +casamento odioso! Agora, que ella já não chorava, +começava a enfurecer-se da falta das suas lagrimas; +e secretamente desesperava-se d'ella não preferir a +vergonha com elle á rehabilitação com +o outro. Não +lhe custaria tanto se ella continuasse a barafustar, +a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova +séria de amor, em que a sua vaidade se banharia +deliciosamente; +mas aquella aceitação do escrevente +agora, sem repugnancia e sem gestos d'horror, indignava-o +como uma traição. Viera a suspeitar que +a ella no fundo não lhe <em>desagradava a +mudança</em>. +João Eduardo por fim era um homem; tinha a força +<span class="pagenum">[500]</span> +dos vinte e seis annos, os attractivos d'um bello bigode. +Ella teria nos braços d'elle o mesmo delirio +que tinha nos seus... Se o escrevente fosse um velho +consumido de rheumatismo, ella não mostraria a mesma +resignação. Então, por +vingança do padre, para +«lhe desmanchar o arranjo», desejava que +João +Eduardo não apparecesse: e muitas vezes, quando a +Dionysia lhe vinha dar conta dos passos, dizia-lhe +com um mau sorriso: +<br /> + +<br /> + +—Não se canse. O homem não apparece. Deixe +lá... Não vale a pena ganhar dôr de +peito... +<br /> + +<br /> + +Mas a Dionysia tinha o peito forte—e uma noite +veio, triumphante, dizer-lhe que estava na pista +do homem! Vira emfim o Gustavo, o typographo, entrar +para a casa de pasto do tio Osorio. Ao outro dia +ia-lhe fallar, e havia de se saber tudo... +<br /> + +<br /> + +Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquelle +casamento, por que anciára no primeiro momento de +terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catastrophe +da sua vida. +<br /> + +<br /> + +Perdia Amelia para sempre!... Aquelle homem +que elle expulsára, que elle supprimira, alli lhe vinha, +por uma d'estas peripecias malignas em que a +Providencia se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. +E a idéa que elle ia tel-a nos braços, +que ella lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a +elle, que balbuciaria <em>oh, +João!</em>—como agora murmurava +<em>oh, Amaro!</em>—enfurecia-o. E +não podia evitar +o casamento; todos o queriam, ella, o conego, +até a Dionysia com o seu zêlo venal! +<span class="pagenum">[501]</span> +<br /> + +<br /> + +De que lhe servia ser um homem com sangue +nas veias e as paixões fortes d'um corpo são? +Tinha +de dizer adeus á rapariga,—vêl-a partir de +braço +dado com o <em>outro</em>, com o marido, irem +ambos para +casa brincar com o filho, um filho que era seu! E elle +assistiria á destruição da sua alegria +de braços cruzados, +esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só, +eternamente só, e a relêr o Breviario!... Ah! se +fosse no tempo em que se supprimia um homem com +uma denuncia d'heresia!... Que o mundo recuasse +duzentos annos, e o snr. João Eduardo havia de saber +o que custa achincalhar um sacerdote e casar +com a menina Amelia... +<br /> + +<br /> + +E esta idéa absurda, na exaltação da +febre em +que estava, apoderou-se tão fortemente da sua +imaginação +que toda a noite a sonhou—n'um sonho vivido, +que muitas vezes depois contou rindo ás senhoras. +Era uma rua estreita batida d'um sol ardente; +entre as altas portas chapeadas, uma populaça +apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados +retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, +entre as pregas das mantilhas, accêsos n'um furor +santo. E pela calçada, a procissão do +auto-de-fé movia-se +devagar, n'um vasto ruido, sob o tremendo +dobre a finados de todos os sinos visinhos. Adiante +os flagellantes semi-nus, de capuz branco sobre o +rosto, dilaceravam-se, uivando o +<em>Miserere</em>, com as +costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia +João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, +a camisa alva sarapintada de diabos côr +<span class="pagenum">[502]</span> +de fogo, tendo ao peito um rotulo em que estava +escripto—<span class="smallcaps">POR HEREJE</span>; +por traz um +medonho +servente do Santo Officio espicaçava furiosamente o +jumento; e ao pé um padre, erguendo alto o crucifixo, +berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. +E elle, Amaro, caminhava ao lado cantando +o <em>Requiem</em>, de Breviario aberto n'uma +mão, +com a outra abençoando as velhas, as amigas da rua +da Misericordia que se agachavam para lhe beijar a +alva. Ás vezes voltava-se para gozar aquella pompa +lugubre, e via então a longa fila da confraria +dos Nobres: aqui era um personagem pansudo e +apopletico, além uma face de mystico com um bigode +feroz e dois olhos chammejantes; cada um levava +uma tocha accêsa, e na outra mão sustentava o +chapéo cuja pluma negra varria o chão. Os +capacetes +dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota +contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o +prestito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o +clamor do canto-chão, os gritos dos fanaticos, o dobrar +aterrador dos sinos, o tlim-tlim das armas, n'um +terror que enchia toda a cidade,—aproximando-se +da platafórma de tijolo onde já fumegavam as +pilhas +de lenha. +<br /> + +<br /> + +E o seu desengano foi grande, depois d'aquella +gloria ecclesiastica do sonho, quando a criada o veio +acordar cedo com agua quente para a barba. +<br /> + +<br /> + +Era pois n'esse dia que se ia saber do snr. João +Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se +com Amelia ás onze horas; e foi a primeira coisa +<span class="pagenum">[503]</span> +que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau +modo: +<br /> + +<br /> + +—O homem appareceu... Pelo menos appareceu +o amigo intimo, o typographo, que sabe onde a +bêsta pára... +<br /> + +<br /> + +Amelia, que estava n'um dia de desalento e terror, +exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Ainda bem, que se acaba este tormento! +<br /> + +<br /> + +Amaro teve um risinho repassado de fel: +<br /> + +<br /> + +—Então agrada-te, hein? +<br /> + +<br /> + +—Se te parece, n'este susto em que ando... +<br /> + +<br /> + +Amaro teve um gesto desesperado, d'impaciencia. +Susto! Não estava má hypocrisia! Susto de +quê? +Com uma mãi que era uma babosa, que lhe consentia +tudo... O que era, era que queria casar... +Queria outro! Não lhe agradava aquelle divertimento +pela manhã, de fugida... Queria a coisa commodamente, +em casa. Imaginava a menina que o illudia a +elle, um homem de trinta annos e quatro annos de +experiencia de confissão? Via bem através +d'ella... +Era como as outras, queria mudar d'homem. +<br /> + +<br /> + +Ella não respondia, muito pallida. E Amaro, furioso +com o seu silencio: +<br /> + +<br /> + +—Calas-te, está claro... Que has de tu dizer? Se +é a verdade pura!... Depois dos meus sacrificios... +Depois do que tenho soffrido por ti... Apparece-te o +outro, larga para o outro! +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu-se, e batendo o pé, desesperada: +<br /> + +<br /> + +—Foste tu que quizeste, Amaro! +<br /> + +<br /> + +—Pudera! Se imaginas que me havia de perder +<span class="pagenum">[504]</span> +por tua causa! Está claro que quiz!...—E olhando-a +d'alto, fazendo-lhe sentir um desprezo d'alma +muito recta:—Mas nem vergonha tens de mostrar a +alegria, o furor de ir para o homem!... És uma +desavergonhada, +é o que é... +<br /> + +<br /> + +Ella, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou +o mantelete para sahir. +<br /> + +<br /> + +Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo +braço: +<br /> + +<br /> + +—P'ra onde vaes? Olha bem p'ra mim. És uma +desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por +dormir com o outro... +<br /> + +<br /> + +—Pois acabou-se, estou! disse ella. +<br /> + +<br /> + +Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada. +<br /> + +<br /> + +—Não me mates! gritou ella. É o teu filho! +<br /> + +<br /> + +Elle ficou diante d'ella, enleado e tremulo: áquella +palavra, áquella idéa do seu filho, uma piedade, +um amor desesperado revolveu todo o seu sêr: e +arremessando-se +sobre ella, n'um abraço que a esmagava, +como querendo sepultal-a no peito, absorvel-a +toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a +magoavam, +pela face e pelos cabellos: +<br /> + +<br /> + +—Perdôa, murmurava, perdôa, minha Ameliasinha! +Perdôa, que estou doido! +<br /> + +<br /> + +Ella soluçava, n'um pranto nervoso;—e toda a +manhã foi no quarto do sineiro um delirio d'amor a +que aquelle sentimento da maternidade, ligando-os +como um sacramento, dava uma ternura maior, um +renascimento incessante de desejo, que os lançava +cada vez mais ávidos nos braços um do outro. +<span class="pagenum">[505]</span> +<br /> + +<br /> + +Esqueceram as horas; e Amelia só se decidiu a +saltar do leito quando ouviram em baixo na cozinha +a muleta do tio Esguelhas. +<br /> + +<br /> + +Emquanto ella se arranjava á pressa diante do +bocado d'espelho que ornava a parede, Amaro diante +d'ella contemplava-a com melancolia, vendo-a a passar +o pente nos cabellos—nos cabellos que elle +dentro em breve não tornaria a vêr pentear; deu +um grande suspiro, disse-lhe enternecido: +<br /> + +<br /> + +—Estão a acabar os nossos bons dias, Amelia. +És tu que queres... Has de te lembrar algumas vezes +d'estas boas manhãs... +<br /> + +<br /> + +—Não digas isso! fez ella com os olhos arrazados +d'agua. +<br /> + +<br /> + +E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a +antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—Hei de ser sempre a mesma para ti... Mesmo +depois de casada. +<br /> + +<br /> + +Amaro agarrou-lhe as mãos sôfregamente: +<br /> + +<br /> + +—Juras? +<br /> + +<br /> + +—Juro. +<br /> + +<br /> + +—Pela hostia sagrada? +<br /> + +<br /> + +—Juro pela hostia sagrada, juro por Nossa Senhora! +<br /> + +<br /> + +—Sempre que tenhas occasião? +<br /> + +<br /> + +—Sempre! +<br /> + +<br /> + +—Oh, Ameliasinha! oh, filha! não te trocava +por uma rainha! +<br /> + +<br /> + +Ella desceu. O parocho, dando uma arranjadella +ao leito, ouvia-a em baixo fallar tranquillamente +<span class="pagenum">[506]</span> +com o tio Esguelhas; e dizia comsigo que era uma +grande rapariga, capaz d'enganar o diabo, e que +havia de fazer andar n'uma roda viva o pateta do +escrevente. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Aquelle «pacto», como lhe chamava o padre +Amaro, tornou-se entre elles tão irrevogavel que +já +lhe discutiam tranquillamente os detalhes. O casamento +com o escrevente consideravam-no como uma +d'estas necessidades que a sociedade impõe e que +suffoca as almas independentes, mas a que a natureza +se subtrae pela menor fenda, como um gaz +irreductivel. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro +marido d'Amelia era o senhor parocho; era o marido +da alma, para quem seriam guardados os melhores +beijos, a obediencia intima, a vontade; o outro +teria quando muito o <em>cadaver</em>... +Já ás vezes +mesmo tramavam o plano habil das correspondencias +secretas, dos logares occultos de +<em>rendez-vous</em>... +<br /> + +<br /> + +Amelia estava de novo, como nos primeiros tempos, +em todo o fogo da paixão. Diante da certeza +que em algumas semanas o casamento ia tornar +«tudo branco como a neve», os seus transes tinham +desapparecido, o mesmo terror da vingança do céo +calmára-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro +fôra como a chicotada que esperta um cavallo que +preguiça e se atraza: e a sua paixão, +sacudindo-se +e relinchando forte, ia-a de novo levando no impeto +d'uma carreira fogosa. +<span class="pagenum">[507]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro, esse regosijava-se. Ainda ás vezes, decerto, +a idéa d'aquelle homem, de dia e de noite +com ella, importunava-o... Mas, no fundo, que +compensações! +Todos os perigos desappareciam magicamente, +e as sensações requintavam. Findavam para +elle aquellas atrozes responsabilidades da +seducção, +e ficava-lhe a mulher mais appetitosa. +<br /> + +<br /> + +Instava agora com a Dionysia para que acabasse +emfim aquella fastidiosa campanha. Mas a boa +mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela +multiplicidade d'esforços, não podia descobrir o +typographo—aquelle +famoso Gustavo que possuia, como +os anões de romance de cavallaria, o segredo da +torre maravilhosa onde vive o principe encantado. +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor! dizia o conego, isso até já cheira +mal! Ha quasi dois mezes á busca d'um patife!... +Homem, escreventes não faltam. Arranje-se outro! +<br /> + +<br /> + +Mas emfim, uma noite em que elle entrára a descansar +em casa do parocho, a Dionysia appareceu; +e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os +dois padres tomavam o seu café: +<br /> + +<br /> + +—Até que emfim! +<br /> + +<br /> + +—Então, Dionysia? +<br /> + +<br /> + +A mulher, porém, não se apressou: sentou-se +mesmo, com licença dos senhores, porque vinha derreada... +Não, o senhor conego não imaginava os +passos que se vira obrigada a dar... O maldito typographo +lembrava-lhe a historia, que lhe contavam +em pequena, d'um veado que estava sempre á vista +e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Uma +<span class="pagenum">[508]</span> +perseguição assim!... Mas, finalmente +apanhára-o... +E tocadito, por signal. +<br /> + +<br /> + +—Acabe, mulher! berrou o conego. +<br /> + +<br /> + +—Pois aqui está, disse ella. Nada! +<br /> + +<br /> + +Os dois sacerdotes olharam-na mystificados. +<br /> + +<br /> + +—Nada quê, creatura? +<br /> + +<br /> + +—Nada. O homem foi p'r'ó Brazil! +<br /> + +<br /> + +O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas: +na primeira, onde lhe dava a morada, para o +lado do Poço do Borratem, annunciava-lhe a +resolução +de ir para o Brazil; na segunda dizia-lhe que +mudára de casa, sem lhe indicar a nova +<em>adresse</em>, e +declarava que pelo proximo paquete embarcava para +o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com +que esperanças. Tudo era vago e mysterioso. Desde +então, havia um mez, o rapaz não +tornára a escrever, +d'onde o typographo concluia que ia a essa +hora nos altos mares...—«Mas havemos de vingal-o!» +tinha elle dito a Dionysia. +<br /> + +<br /> + +O conego remexia pausadamente o seu café, embatocado. +<br /> + +<br /> + +—E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito +branco. +<br /> + +<br /> + +—Acho-a boa. +<br /> + +<br /> + +—Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! +disse surdamente Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Amen, respondeu gravemente o conego. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Que lagrimas quando Amelia soube a noticia! A +sua honra, a paz da sua vida, tantas felicidades combinadas, +tudo perdido e sumido nas brumas do mar, +a caminho para o Brazil! +<br /> + +<br /> + +Foram as semanas peores da sua vida. Ia para o +parocho, banhada em lagrimas, perguntando-lhe todos +os dias o que havia de fazer. +<br /> + +<br /> + +Amaro, succumbido, sem idéa, ia para o padre-mestre. +<br /> + +<br /> + +—Fez-se tudo o que se pôde, dizia o conego desolado. +É aguentar. Não se mettesse n'ellas! +<br /> + +<br /> + +E Amaro voltava para Amelia com consolações +muito murchas: +<br /> + +<br /> + +—Tudo se ha de arranjar, é esperar em Deus! +<span class="pagenum">[510]</span> +<br /> + +<br /> + +Era bom o momento para contar com Deus, quando +Elle, indignado, a acabrunhava de miserias! E +aquella indecisão, n'um homem e n'um padre, que +devia ter a habilidade e a força de a salvar, +desesperavam-na; +a sua ternura por elle sumia-se como +a agua que a areia absorve; e ficava um sentimento +confuso em que sob o desejo persistente já transluzia +o odio. +<br /> + +<br /> + +Espaçava agora de semana a semana os encontros +na casa do sineiro. Amaro não se queixava; +aquellas boas manhãs do quarto do tio Esguelhas, +eram sempre estragadas com queixumes; cada beijo +tinha um rastro de soluços; e aquillo enervava-o +tanto, que lhe vinham desejos de se atirar tambem +de bruços para a enxerga e chorar toda a sua amargura. +<br /> + +<br /> + +No fundo accusava-a de exagerar os seus embaraços, +de lhe communicar um terror desproporcionado. +Outra mulher, de melhor senso, não faria semelhante +espalhafato... Mas quê, uma beata hysterica, +toda nervos, toda medo, toda exaltação!... Ah, +não havia duvida, fôra «uma famosa +asneira»! +<br /> + +<br /> + +Tambem Amelia pensava que fôra «uma +asneira». +E não ter nunca imaginado que aquillo lhe poderia +succeder! Qual! Como mulher, correra para o +amor, toda tonta, certa que escaparia, ella,—e agora +que sentia nas entranhas o filho, eram as lagrimas +e os espantos e as queixas! A sua vida era lugubre: +de dia tinha de se conter diante da mãi, +applicar-se á sua costura, conversar, affectar felicidade... +<span class="pagenum">[511]</span> +Era de noite que a imaginação desencadeada a +torturava com uma incessante phantasmagoria de +castigos, d'este e do outro mundo, miserias, abandonos, +desprezo da gente honrada e chammas do purgatorio... +<br /> + +<br /> + +Foi então que um acontecimento inesperado veio +fazer diversão áquella anciedade que se ia +tornando +um habito morbido do seu espirito. Uma noite a criada +do conego appareceu, esfalfada de correr, a dizer +que a snr.<sup>a</sup> D. Josepha estava á +morte. +<br /> + +<br /> + +Na vespera a excellente senhora sentira-se doente +com uma pontada no lado, mas insistira em ir á Senhora +da Incarnação rezar a sua corôa; voltou +transida, +com uma dôr maior e uma ponta de febre; e +n'essa tarde, quando o doutor Gouvêa foi chamado, +tinha-se declarado uma pneumonia aguda. +<br /> + +<br /> + +A S. Joaneira correu logo a installar-se lá como +enfermeira. E então, durante semanas, na tranquilla +casa do conego, foi um alvoroço de +dedicações afflictas: +as amigas, quando se não espalhavam pelas +igrejas a fazer promessas e a implorar os seus santos +devotos, estavam lá em permanencia, sahindo e entrando +no quarto da doente com passos de phantasmas, +accendendo aqui e além lamparinas ás imagens, +torturando o doutor Gouvêa com perguntas +piegas. Á noite na sala, com o candieiro a meia luz, +era pelos cantos um cochichar de vozes lugubres; e +ao chá, entre cada mastigadella de torrada, havia +suspiros, lagrimas furtivamente limpadas... +<br /> + +<br /> + +O conego lá estava a um canto, aniquilado, succumbido +<span class="pagenum">[512]</span> +com aquella brusca apparição da doença +e do seu scenario melancolico—as garrafadas de +botica enchendo as mesas, as entradas solemnes do +medico, as faces compungidas que vem saber se ha +melhoras, o halito febril espalhado em toda a casa, +o timbre funerario que toma o relogio de parede no +abafamento de todo o ruido, as toalhas sujas que ficam +dias no logar em que cahiram, o anoitecer de +cada dia com a sua ameaça de treva eterna... De +resto, um pezar sincero prostrava-o; havia cincoenta +annos que vivia com a mana e era animado por +ella; o longo habito tornára-lh'a cara; e as suas +caturrices, as suas toucas negras, o seu espalhafato +pela casa faziam como uma parte mesma de seu +sêr... Além d'isso, quem sabe se a morte, +entrando-lhe +em casa, para poupar passos, o não levaria +tambem!... +<br /> + +<br /> + +Para Amelia aquelle tempo foi um allivio; ao +menos ninguem pensava, ninguem reparava n'ella; +nem a sua face triste e os vestigios de lagrimas pareceriam +estranhos, n'aquelle perigo em que estava +a madrinha. Demais os serviços de enfermeira occupavam-n'a: +como era a mais forte e a mais nova, +agora que a S. Joaneira estava estafada de vigilias, +era ella que passava as longas noites á beira de D. +Josepha: e não havia então desvelos que +não tivesse, +para abrandar Nossa Senhora e o céo com aquella +caridade pela doente, para merecer igual piedade +quando o seu dia viesse de estar tambem prostrada +n'um leito... Vinha-lhe agora, sob a impressão +<span class="pagenum">[513]</span> +funebre que se exhalava da casa, o presentimento +repetido que morreria de parto; ás vezes só, +embrulhada +no seu chale aos pés da doente, ouvindo-lhe +o gemer monotono, enternecia-se sobre a sua propria +morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os +olhos de lagrimas, n'uma saudade vaga de si mesma, +da sua mocidade e dos seus amores... Ia então +ajoelhar-se junto da commoda onde uma lamparina +bruxoleava diante d'um Christo projectando sobre o +papel claro da parede a sua sombra disforme que se +quebrava no tecto; e alli ficava rezando, pedindo a +Nossa Senhora que não lhe recusasse o paraiso... +Mas a velha mexia-se com um ai doloroso; ia então +aconchegar-lhe a roupa, fallar-lhe baixo. Vinha depois +á sala vêr no relogio se era o momento do remedio; +e estremecia ás vezes, sentindo vir do quarto +proximo um pio de flautim ou um som rouco de +trombone; era o conego a resonar. +<br /> + +<br /> + +Emfim, uma manhã, o doutor Gouvêa declarou +D. Josepha livre de perigo. Foi um vivo regosijo para +as senhoras—certa, cada uma, que aquillo era +devido á intervenção particular do seu +santo devoto. +E d'ahi a duas semanas houve uma festa na casa, +quando D. Josepha, pela primeira vez, amparada nos +braços de todas as amigas, deu dois passos tremulos +no quarto. Pobre D. Josepha, o que d'ella fizera a +doença! Aquella vozinha irritada, em que as palavras +eram despedidas como settas envenenadas, assemelhava-se +agora apenas a um som expirante, +quando, n'um esforço ancioso da vontade, pedia a +escarradeira +<span class="pagenum">[514]</span> +ou o xarope. Aquelle olhar sempre álerta, +escrutador e maligno, estava hoje como refugiado +no fundo das orbitas, assustado da luz, das sombras +e dos contornos das coisas. E o seu corpo, tão +têso outr'ora, d'uma seccura de ramo de sarmento, +agora ao cahir no fundo da poltrona, sob a trapalhada +dos agasalhos, parecia um trapo tambem. +<br /> + +<br /> + +Mas emfim o doutor Gouvêa, apesar d'annunciar +uma convalescença longa e delicada, dissera rindo +ao conego, diante das amigas (depois de ter visto +D. Josepha manifestar o seu primeiro desejo, o desejo +de se chegar á janella), que com muita cautela, +tonicos, e as orações de todas aquellas boas +senhoras—a +mana estava ainda para amores... +<br /> + +<br /> + +—Ai, doutor, exclamou D. Maria, as nossas +orações +não lhe hão de faltar... +<br /> + +<br /> + +—E eu não lhe hei de faltar com os tonicos, +disse o doutor. De modo que, o que resta é +congratularmo-nos. +<br /> + +<br /> + +Aquella jovialidade do doutor era para todos +como a certeza da saude proxima. +<br /> + +<br /> + +E d'ahi a dias, o conego vendo aproximar-se +o fim d'agosto, fallou de alugar casa na Vieira, como +costumava um anno sim outro não, para ir tomar +os seus banhos de mar. O anno passado não +fôra. Este era o anno de praia... +<br /> + +<br /> + +—E a mana lá, n'aquelles ares saudaveis da beira-mar, +é que acaba de ganhar forças e carnes... +<br /> + +<br /> + +Mas o doutor Gouvêa desapprovou a jornada. O +ar muito picante e muito rico do mar não convinha +<span class="pagenum">[515]</span> +á fraqueza de D. Josepha. Era preferivel irem para +a quinta da Ricoça, nos Poyaes, logar abrigado e muito +temperado. +<br /> + +<br /> + +Foi um desgosto para o pobre conego, que prodigalisou +as lamurias. O quê! ir enterrar-se todo o +verão, o melhor tempo do anno, na Ricoça! E os +seus banhos, meu Deus, os seus banhos? +<br /> + +<br /> + +—Veja o senhor,—dizia elle a Amaro, uma noite +no escriptorio,—veja o que eu tenho sofrido... +Durante a doença, que desarranjo, que desordem +na casa! Chá fôra d'horas, jantar esturrado! E os +cuidados que tive, que me emmagreceram... E agora, +quando eu pensava poder ir refazer-me para a +praia, não senhor, vai p'r'á Ricoça, +dispensa os teus +banhos... Isto é o que eu chamo sofrer! E no fim +de tudo não fui eu que estive doente. Mas sou eu +que as aguento... Perder dois annos a fio os meus +banhos!... +<br /> + +<br /> + +Amaro, então, deu de repente uma punhada na +mesa, e exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Homem, veio-me uma boa idéa! +<br /> + +<br /> + +O conego olhou-o com duvida, como se não achasse +possivel a uma intelligencia humana descobrir o +fim dos seus males. +<br /> + +<br /> + +—Quando digo uma boa idéa, padre-mestre, devia +dizer uma idéa sublime! +<br /> + +<br /> + +—Acabe, creatura... +<br /> + +<br /> + +—Escute. O senhor vai p'r'á Vieira, e a S. Joanneira, +está claro, vai tambem. Naturalmente alugam +<span class="pagenum">[516]</span> +casa um ao pé do outro, como ella me disse que +tinham feito ha dois annos... +<br /> + +<br /> + +—Adiante... +<br /> + +<br /> + +—Bem. Aqui temos a S. Joanneira na Vieira. +Agora, a senhora sua mana parte p'r'á Ricoça. +<br /> + +<br /> + +—E então a creatura ha de ir só? +<br /> + +<br /> + +—Não! exclamou Amaro em triumpho. Vai com +a Amelia! A Amelia vai-lhe servir de enfermeira! +Vão ambas sós! e lá na +Ricoça, n'aquelle buraco +onde não vai viva alma, n'aquelle casarão onde +póde uma pessoa viver sem que ninguem em roda +suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hein, +que +lhe parece? +<br /> + +<br /> + +O conego erguera-se com os olhos redondos +d'admiração. +<br /> + +<br /> + +—Homem, famosa idéa! +<br /> + +<br /> + +—É que concilia tudo! O senhor toma os seus +banhos. A S. Joanneira, longe, não sabe o que se +passa. Sua mana goza os ares... A Amelia tem um +sitio escondido p'r'á coisa... Á +Ricoça ninguem a +vai vêr... A D. Maria tambem vai p'r'á Vieira. As +Gansosos idem. A rapariga deve ter o bom successo +ahi pelos principios de novembro... Da Vieira, e +isso fica por sua conta, não volta ninguem dos nossos +até principios de dezembro... E quando nos reunirmos +de novo está a rapariga limpa e fresca. +<br /> + +<br /> + +—Pois senhores, por ser a primeira idéa que +vossê tem n'estes dois ultimos annos, é uma grande +idéa! +<span class="pagenum">[517]</span> +<br /> + +<br /> + +—Obrigado, padre-mestre. +<br /> + +<br /> + +Mas havia uma difficuldade feia: era o ir á D. Josepha, +á rigorista D. Josepha, tão implacavel +ás fraquezas +do sentimento, á D. Josepha que pedia para +as mulheres frageis as antigas penalidades gothicas—as +letras marcadas na testa com ferro em braza, +os açoutes nas praças publicas, os +<em>in pace</em> tenebrosos—ir +á D. Josepha e pedir-lhe para ser cumplice +d'um parto! +<br /> + +<br /> + +—A mana vai dar urros! disse o conego. +<br /> + +<br /> + +—Nós veremos, padre-mestre, replicou Amaro +repoltreando-se e balouçando a perna, muito certo +do seu prestigio devoto. Nós veremos... Hei de lhe +eu fallar... E quando lhe tiver contado umas lérias... +Quando lhe tiver representado que é para ella um +caso de consciencia encobrir a pequena... Quando +lhe lembrar que nas vesperas da morte é que se deve +fazer alguma boa acção, para não se +apresentar á +porta do paraiso com as mãos vazias... Nós +veremos! +<br /> + +<br /> + +—Talvez, talvez, disse o conego. A occasião é +boa, porque a pobre mana está fraquita do juizo e +leva-se como uma criança. +<br /> + +<br /> + +Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mãos: +<br /> + +<br /> + +—Pois é mãos á obra! É +mãos á obra! +<br /> + +<br /> + +—E é necessario não perder tempo, porque o +escandalo estala. Olhe que esta manhã, lá em +casa, +a besta do Libaninho pôz-se a gracejar com a rapariga, +a dizer-lhe que tinha a cinta grossa... +<br /> + +<br /> + +—Oh, que patife! rugiu o parocho. +<br /> + +<br /> + +Não, não seria por mal. Mas que a rapariga +<span class="pagenum">[518]</span> +tem engrossado, é facto... Com esta +atarantação da +doença ninguem tem tido olhos para nada... Mas +agora póde-se reparar... É sério, +amigo, é sério! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Por isso, logo na manhã seguinte, Amaro foi, segundo +a expressão do conego, «dar a grande abordagem +á mana». +<br /> + +<br /> + +Antes, porém, explicou em baixo no escriptorio +ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a +D. Josepha que o conego estava na inteira ignorancia +do desastre da Ameliasinha, e que elle, Amaro, o sabia, +não em segredo de confissão (n'esse caso +não +o poderia revelar) mas pelas confidencias secretas +dos dois—de Amelia e do homem casado que a seduzira!... +Do homem casado, sim!... Porque emfim +era necessario provar á velha que havia a impossibilidade +d'uma reparação legitima... +<br /> + +<br /> + +O conego coçava a cabeça descontente: +<br /> + +<br /> + +—Isso não vai bem arranjado, disse elle. A mana sabe +bem que não iam homens casados á rua da +Misericordia. +<br /> + +<br /> + +—E o Arthur Couceiro? exclamou Amaro, sem +escrupulo. +<br /> + +<br /> + +O conego largou a rir, com gosto. O pobre Arthur, +sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos +de carneiro triste, accusado de perder virgens!... +Não, essa era boa! +<br /> + +<br /> + +—Não péga, parocho amigo, não +péga! Outra, +outra... +<span class="pagenum">[519]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas então subitamente partiu dos labios d'ambos +o mesmo nome,—o Fernandes, o Fernandes da loja +de panos! Bello homem, que Amelia admirava +muito! Sempre que sahia ia-lhe á loja: tinha mesmo +havido indignação na rua da Misericordia, havia +dois annos, com a ousadia do Fernandes que acompanhára +Amelia pela estrada de Marrazes até ao Morenal! +<br /> + +<br /> + +Já se sabe, não se dizia explicitamente +á mana,—mas +dava-se-lhe a entender que fôra o Fernandes. +<br /> + +<br /> + +E Amaro subiu rapidamente para o quarto da +velha, que era por cima do escriptorio. Esteve lá +meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para +o conego, que apenas podia ouvir em cima, ora rangerem +as solas d'Amaro, ora a tosse cavernosa da +velha... E no seu passeio habitual pelo escriptorio, +da estante para a janella, com as mãos atraz das +costas e a caixa de rapé nos dedos, ia considerando +quantos incommodos, quantas despezas lhe traria +ainda aquelle «divertimento do senhor parocho»! +Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis mezes... +Depois o medico, a parteira que era elle naturalmente +que havia de pagar... Depois algum enxoval +para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, +ao pequeno?... Na cidade, a Roda fôra supprimida; +em Ourem, como os recursos da Misericordia +eram escassos e a affluencia dos engeitados escandalosa, +tinham posto um homem ao pé da sineta da +Roda, para interrogar e pôr embaraços; havia +indagações +de paternidade, restituições de +crianças; e a +<span class="pagenum">[520]</span> +auctoridade, finoria, combatia o excesso dos engeitamentos +com o terror dos vexames... +<br /> + +<br /> + +Emfim o pobre padre-mestre via diante de si todo +um erriçamento de difficuldades para lhe sacudir +a pachorra e estragar-lhe a digestão...—Mas o +excellente conego, no fundo, não se indignava; sempre +tivera uma affeição de velho mestre pelo parocho; +para a Amelia sempre o inclinára um fraco +meio paternal, meio lubrico; e mesmo já sentia pelo +«pequeno» uma vaga condescendencia d'avô. +<br /> + +<br /> + +A porta abriu-se, e o parocho appareceu triumphante. +<br /> + +<br /> + +—Tudo ás mil maravilhas, padre-mestre! Que +lhe dizia eu? +<br /> + +<br /> + +—Consentiu? +<br /> + +<br /> + +—Em tudo. Não foi sem difficuldade... Ia-se +abespinhando. Fallei-lhe do homem casado... Que +a rapariga estava com a cabeça perdida, queria-se +matar... Que se ella não consentisse em encobrir +a coisa era responsavel por uma desgraça... Lembre-se +a senhora que está com os pés p'r'á +cova, +que Deus póde chamal-a d'um momento a outro, e +que se tiver na consciencia este peso, não ha padre +que lhe dê a absolvição!... Lembre-se +que morre +p'r'áhi como um cão!... +<br /> + +<br /> + +—Emfim, disse o conego approvando, fallou-lhe +com prudencia... +<br /> + +<br /> + +—Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de fallar +á S. Joanneira, e de a levar p'r'á Vieira quanto +antes... +<span class="pagenum">[521]</span> +<br /> + +<br /> + +—Outra coisa, amigo, interrompeu o conego. +Tem vossê pensado no destino que se ha de dar ao +fructo? +<br /> + +<br /> + +O parocho coçou desconsoladamente a cabeça: +<br /> + +<br /> + +—Ah, padre-mestre... Isso é outra difficuldade... +Tem-me apoquentado muito... Naturalmente +dal-o a criar a alguma mulher, longe, lá p'ra +Alcobaça +ou p'ra Pombal... A felicidade, padre-mestre, +era que a criança nascesse morta! +<br /> + +<br /> + +—Era um anjinho mais... rosnou o conego sorvendo +a sua pitada. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Logo n'essa noite elle fallou á S. Joanneira da +ida para a Vieira, em baixo na saleta onde ella estava +arranjando pires de marmelada que andavam a +seccar para a convalescença de D. Josepha. +Começou +por dizer que lhe alugára a casa do Ferreiro... +<br /> + +<br /> + +—Mas isso é um nicho! exclamou ella logo. Onde +hei de eu metter a pequena? +<br /> + +<br /> + +—Ora ahi é que está. É que justamente +a Amelia +d'esta vez não vai á Vieira. +<br /> + +<br /> + +—Não vai!? +<br /> + +<br /> + +Foi só então que o conego lhe explicou que a +mana não podia ir só para a Ricoça, e +que elle tinha +pensado em mandar com ella Amelia... Era +uma idéa que lhe viera n'essa manhã. +<br /> + +<br /> + +—Eu não posso ir, tenho de tomar os meus banhos, +a senhora bem sabe... A pobre de Christo +<span class="pagenum">[522]</span> +não ha de estar para lá só, com uma +criada. Portanto... +<br /> + +<br /> + +A S. Joanneira teve um silenciosinho desconsolado: +<br /> + +<br /> + +—Isso é verdade. Mas olhe, para lhe dizer com +franqueza, custa-me bem deixar a pequena... Se +eu pudesse dispensar os banhos, ia eu. +<br /> + +<br /> + +—Qual ia! A senhora vem p'r'á Vieira. Eu tambem +não hei de estar lá só... Sua ingrata, +sua ingrata!...—E +tomando um tom muito sério:—A +senhora veja bem. A Josepha está com os pés +p'r'á +cova. Ella sabe que o que eu tenho para mim chega. +Ella tem affeição á pequena, sempre +é madrinha; +se a vir agora a tratal-a na doença, a estar alli +só com ella uns mezes, fica pelo beiço. Olhe que +a mana ainda vale um par de mil cruzados. A pequena +póde apanhar um bom dote. Não lhe digo +mais nada... +<br /> + +<br /> + +E a S. Joanneira concordou logo—uma vez que +era vontade do senhor conego. +<br /> + +<br /> + +Em cima, Amaro estava contando rapidamente a +Amelia «o grande plano», a scena com a velha: que +ella se promptificára logo, coitadinha, já cheia +de caridade, +desejando até ajudar para o enxoval do pequeno... +<br /> + +<br /> + +—N'ella pódes ter confiança, é uma +santa... De +modo que está tudo salvo, filha. É estar mettida +quatro ou cinco mezes na Ricoça. +<br /> + +<br /> + +Era isso que fazia choramingar Amelia: perder a +estação da Vieira, o divertimento dos banhos!... +Ir +<span class="pagenum">[523]</span> +enterrar-se todo um verão n'aquelle sinistro +casarão +da Ricoça! A unica vez que lá fôra, +já ao fim da +tarde, ficára estarrecida de medo. Tudo tão +escuro, +d'um echo tão concavo... Tinha a certeza que ia +lá +morrer, n'aquelle degredo. +<br /> + +<br /> + +—Tolice! fez Amaro. É dar graças ao Senhor de +me ter inspirado esta idéa de +salvação. Demais tens +a D. Josepha, tens a Gertrudes, o pomar para passear... +E eu vou-te lá vêr todos os dias. Até +has de +gostar, verás. +<br /> + +<br /> + +—Emfim que lhe hei de eu fazer? É aguentar. +E com duas grossas lagrimas nas palpebras, amaldiçoava +intimamente aquella paixão que só amarguras +lhe dava, e que agora, quando toda a Leiria ia +para a Vieira, a forçava a ella a ir fechar-se na +solidão +da Ricoça, ouvindo tossir a velha e os cães uivar +na quinta...—E a mamã, que diria a mamã? +<br /> + +<br /> + +—Que ha de dizer? A D. Josepha não póde ir +p'r'á quinta só, sem uma enfermeira de +confiança! +Não te dê cuidado. O padre-mestre está +lá em baixo +a trabalhal-a... E eu vou ter com ella, que já +aqui estou só ha bocado comtigo, e n'estes ultimos +dias é necessario ter cautelinha... +<br /> + +<br /> + +Desceu. Justamente o conego subia, e encontraram-se +na escada. +<br /> + +<br /> + +—Então? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre. +<br /> + +<br /> + +—Tudo arranjado. E por lá? +<br /> + +<br /> + +—Idem. +<span class="pagenum">[524]</span> +<br /> + +<br /> + +E no escuro da escada os dois padres apertaram-se +silenciosamente a mão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +D'ahi a dias, depois d'uma scena de prantos, +Amelia partiu com D. Josepha para a Ricoça n'um +<em>char-à-banc</em>. +<br /> + +<br /> + +Tinham arranjado, com almofadas, um recanto +commodo para a convalescente. O conego acompanhava-a, +furioso com aquelle incommodo. E a Gertrudes +ia em cima na almofada, á sombra da montanha +que faziam sobre o tope do carro os bahús de +couro, os cestos, as latas, as trouxas, os saccos de +chita, o açafate onde miava o gato, e um fardo amarrado +com cordas contendo os paineis dos santos mais +queridos de D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. +Joanneira para a Vieira, de noite, por causa da calma. +A rua da Misericordia estava atravancada com o +carro de bois, que conduzia as louças, os +enxergões, +o trem de cozinha; e no mesmo +<em>char-à-banc</em> que +fôra á Cortegassa, ia agora a S. Joanneira e a +<em>Ruça</em> +que levava tambem no regaço um açafate com o +gato. +<br /> + +<br /> + +O conego fôra na vespera, só Amaro assistia +á +partida da S. Joanneira. E depois de toda uma azafama, +de galgarem cem vezes de baixo a cima as escadas +por um cestinho que esquecera ou um embrulho +que desapparecia, quando a +<em>Ruça</em> emfim fechou +<span class="pagenum">[525]</span> +a porta á chave, a S. Joanneira, já no estribo do +<em>char-à-banc</em>, rompeu a +chorar. +<br /> + +<br /> + +—Então, minha senhora, então! disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor parocho, deixar a pequena!... Mal +sabe o que me custa... Parece que a não torno a +vêr. Appareça pela Ricoça, +faça-me essa esmola. Veja +se ella está contente... +<br /> + +<br /> + +—Vá descansada, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +—Adeus, senhor parocho. Muito obrigada por +tudo... Ai os favores que lhe devo! +<br /> + +<br /> + +—Tolices, minha senhora... Boa jornada, dê +noticias! Recados ao padre-mestre. Adeus, minha senhora! +adeus, Ruça... +<br /> + +<br /> + +O <em>char-à-banc</em> partiu. E +pelo mesmo caminho por +onde elle ia rolando, Amaro foi andando devagar +até á estrada da Figueira. Eram então +nove horas, +nascera já o luar d'uma noite calida e serena de +agosto. Uma tenue nevoa luminosa suavisava a paizagem +calada. Aqui e além uma fachada saliente de +casa rebrilhava, batida da lua, entre as sombras do +arvoredo. Ao pé da ponte, parou a olhar melancolicamente +o rio que corria sobre a areia com uma susurração +monotona; nos logares em que as arvores +se debruçavam, havia escuridões cerradas; e +adiante +uma claridade tremia sobre a agua, como um tecido +de filigrana faiscante. Alli esteve, n'aquelle silencio +que o calmava, fumando cigarros e atirando +as pontas para o rio, embebido n'uma tristeza vaga. +Depois, ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, +passou pela rua da Misericordia n'um enternecimento +<span class="pagenum">[526]</span> +de recordações: a casa, com as janellas fechadas, +sem as cortinas de cassa, parecia abandonada +para sempre; os vasos de alecrim tinham ficado esquecidos +aos cantos da janella... Quantas vezes +Amelia e elle se tinham encostado áquella varanda! +Havia então um craveiro fresco, e conversando, ella +cortava uma folha, trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha +acabado agora!—E na Misericordia, ao lado, o +piar das corujas no silencio dava-lhe uma +sensação +de ruina, de solidão e de fim eterno. +<br /> + +<br /> + +Foi andando para casa, devagar, com os olhos +arrazados d'agua. +<br /> + +<br /> + +A criada veio logo á escada dizer-lhe que o tio +Esguelhas, n'uma afflicção, viera procural-o duas +vezes, +haviam de ser nove horas. A Tótó estava a morrer, +e só queria receber os sacramentos da mão do +senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +Amaro, apesar da sua repugnancia supersticiosa +em voltar assim n'essa noite, para um fim tão triste, +ao meio das recordações felizes da sua +paixão, foi, +para obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o +aquella morte, coincidindo com a partida d'Amelia, e +como completando a subita dispersão de quanto até +ahi o interessára ou estivera misturado á sua +vida. +<br /> + +<br /> + +A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e +na escuridão da entrada topou com duas mulheres +que sahiam suspirando. Foi logo direito á alcova da +paralytica: duas grandes velas de cera, trazidas da +igreja, ardiam sobre uma mesa; um lençol branco +cobria o corpo da Tótó; e o padre Silverio, que +fôra +<span class="pagenum">[527]</span> +decerto chamado por estar de semana, lia o Breviario, +com o lenço nos joelhos, os seus grandes oculos +na ponta do nariz. Ergueu-se apenas viu Amaro: +<br /> + +<br /> + +—Ah, collega, disse muito baixo, andaram a procural-o +por toda a parte... A pobre de Christo queria-o +a vossê... Eu, quando me foram buscar, ia fazer +a partida a casa do Novaes. É a partida do sabbado... +Que scena! Morreu na impenitencia, como +era dos livros. Quando me viu, e que vossê não +vinha, +que espectaculo! Até tive medo que me cuspisse +no crucifixo... +<br /> + +<br /> + +Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta +do lençol, mas deixou-o logo recahir sobre a face +da morta. Depois subiu acima ao quarto onde o sineiro, +estirado sobre a cama, voltado para a parede, +soluçava desesperadamente; estava com elle +outra mulher, que se conservava a um canto, muda +e immovel, com os olhos no chão, no vago aborrecimento +que lhe dava aquelle pesado dever de visinha. +Amaro tocou no hombro do sineiro, fallou-lhe: +<br /> + +<br /> + +—É necessario resignação, tio +Esguelhas... São +decretos do Senhor... Para ella é até uma +felicidade. +<br /> + +<br /> + +O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o parocho, +por entre o véo das lagrimas que lhe alagavam +os olhos, tomou-lhe a mão, quiz beijar-lh'a. +Amaro recuou: +<br /> + +<br /> + +—Então, tio Esguelhas!... Deus ha de ser misericordioso, +ha de lhe levar em conta a sua dôr... +<br /> + +<br /> + +Elle não o escutava, sacudido d'um pranto +convulsivo,—emquanto +<span class="pagenum">[528]</span> +a mulher, muito tranquillamente, +limpava ora um ora outro canto do olho. +<br /> + +<br /> + +Amaro desceu; e para alliviar o bom Silverio +d'aquelle serviço excepcional, tomou o seu logar ao +pé da vela, com o Breviario na mão. +<br /> + +<br /> + +Alli ficou até tarde. A visinha ao sahir veio dizer-lhe +que o tio Esguelhas tinha pegado a dormir; e +ella promettia voltar com a amortalhadeira, mal +rompesse a manhã. +<br /> + +<br /> + +Toda a casa então ficou n'aquelle silencio, que a +visinhança do vasto edificio da Sé fazia parecer +mais +soturno; só ás vezes um mocho piava debilmente +nos contrafortes, ou o grosso bordão batia os quartos. +E Amaro, tomado d'um indefinido terror, mas +preso alli por uma força superior da consciencia +sobresaltada, +ia precipitando as orações... Ás vezes +o +livro cahia-lhe sobre os joelhos; e então, immovel, +sentindo por detraz a presença d'aquelle cadaver coberto +do lençol, recordava, n'um contraste amargo, +outras horas em que o sol banhava o pateo, as andorinhas +esvoaçavam, e elle e Amelia subiam rindo +para aquelle quarto onde agora, sobre a mesma cama, +o tio Esguelhas dormitava com soluços mal acalmados... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O conego Dias recommendára muito a Amaro que +ao menos nas primeiras semanas, para evitar as suspeitas +da mana e da criada, não fosse á +Ricoça. E a +vida d'Amaro tornou-se então mais triste, mais vazia +que outr'ora, quando pela primeira vez deixando +a casa da S. Joanneira viera para a rua das Sousas. +Todos os seus conhecidos estavam fóra de Leiria: D. +Maria da Assumpção na Vieira; as Gansosinhos ao +pé +d'Alcobaça com a tia, a famosa tia que havia dez +annos estava para morrer e para lhes deixar uma +grande herdade. Depois do serviço da Sé, as +horas, +todo o longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. +Não estaria mais separado de toda a +communicação +humana, se como Santo Antonio vivesse nos +areaes do deserto libyco. Só o coadjutor que, coisa +<span class="pagenum">[530]</span> +singular, nunca lhe apparecia nos tempos felizes, +voltára agora, como o companheiro fatidico das +horas tristes, a visital-o uma, duas vezes por semana, +ao fim do jantar, mais magro, mais chupado, +mais soturno, com o seu eterno guardachuva na +mão. Amaro odiava-o; ás vezes, para o +impôr, fingia-se +todo occúpado n'uma leitura; ou precipitando-se +para a mesa, mal lhe sentia nos degraus as +passadas lentas: +<br /> + +<br /> + +—Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a +rabiscar uma coisa. +<br /> + +<br /> + +Mas o homem installava-se, com o odioso guardachuva +entre os joelhos: +<br /> + +<br /> + +—Não se prenda, senhor parocho, não se prenda. +<br /> + +<br /> + +E Amaro, torturado por aquella figura lugubre +que não se mexia na cadeira, atirava a penna, furioso, +agarrava o chapéo: +<br /> + +<br /> + +—Não estou hoje p'r'á coisa, vou espairecer. +<br /> + +<br /> + +E á primeira esquina descartava-se bruscamente +do coadjutor. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes, farto de solidão, ia visitar o +Silverio. +Mas a felicidade pachorrenta d'aquelle sêr obeso, occupado +em colleccionar receitas de medicina caseira +e em observar as perturbações phantasticas da sua +digestão; os seus constantes louvores do doutor Godinho, +dos pequenos e da senhora; as chalaças obsoletas +que elle repetia havia quarenta annos e a innocente +hilaridade que ellas lhe davam, impacientavam +Amaro. Sahia, enervado, pensando na sorte inimiga +<span class="pagenum">[531]</span> +era a felicidade por fim: porque não havia de elle +ser tambem um bom padre caturra, com uma pequenina +mania tyrannica, parasita regalado d'uma +familia respeitavel, tendo um d'estes sangues tranquillos +que giram sob camadas de gordura, sem perigo +de transbordar e de causar desgraças, como um +riacho que corre por debaixo d'uma montanha?... +<br /> + +<br /> + +Outras vezes ia ao collega Natario, cuja fractura, +mal tratada ao principio, o retinha ainda na cama +com o apparelho na perna. Mas ahi, enjoava-o o aspecto +do quarto—impregnado d'um cheiro d'arnica +e de suor, com uma profusão de trapos ensopados +em malgas vidradas, e esquadrões de garrafas sobre +a commoda entre fileiras de santos. Natario, mal +o via apparecer, rompia em queixas: As cavalgaduras +dos medicos! A sua má sorte habitual! As torturas +a que o forçavam! O atrazo em que estava a medicina +n'este maldito paiz!... E ia salpicando o soalho +negro de expectorações e de pontas de cigarro. +Desde +que estava doente, a saude dos outros, sobretudo dos +amigos, indignava-o como uma offensa pessoal. +<br /> + +<br /> + +—E vossê sempre rijo, hein? Pudera!—murmurava +com rancor. +<br /> + +<br /> + +E pensar que aquella besta do Brito nunca lhe +doera a cabeça! E que o alarve do abbade se gabava +de nunca ter estado na cama depois das sete da +manhã! Animaes! +<br /> + +<br /> + +Amaro então dava-lhe as novidades: alguma carta +que recebera do conego, da Vieira, as melhoras +da D. Josepha... +<span class="pagenum">[532]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas Natario não se interessava pelas pessoas a +quem apenas o unia a convivencia e a amizade; interessavam-n'o +só os seus inimigos, com quem tinha +ligações d'odio. Queria saber do escrevente, se +já tinha estourado de fome... +<br /> + +<br /> + +—Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cahir +aqui n'esta maldita cama!... +<br /> + +<br /> + +As sobrinhas appareciam então—duas creaturinhas +sardentas, d'olhos muito pisados. O seu grande +desgosto era que o titi não mandasse vir a +<em>benzedeira</em> +pôr-lhe <em>virtude</em> na perna: +era o que tinha +curado o morgadinho da Barrosa, e o Pimentel d'Ourem... +<br /> + +<br /> + +Natario, na presença das <em>duas rosas do seu +canteiro</em>, +calmava-se. +<br /> + +<br /> + +—Coitaditas, não é por falta de cuidados d'ellas +que eu ainda não arribei... Mas tenho soffrido, caramba! +<br /> + +<br /> + +E as duas rosas, com o mesmo movimento simultaneo, +voltavam-se para o lado limpando os olhos +aos lenços. +<br /> + +<br /> + +Amaro sahia d'alli, mais enfastiado. +<br /> + +<br /> + +Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela +estrada de Lisboa. Mas apenas se afastava do movimento +da cidade, a sua tristeza tornava-se mais intensa, +concordando com aquella paizagem de collinas +tristes e arvores enfezadas: e a sua vida apparecia-lhe +como essa mesma estrada monotona e longa, +sem um incidente que a alegrasse, estirando-se +desoladamente até se perder nas brumas do crepusculo. +<span class="pagenum">[533]</span> +Ás vezes, ao voltar, entrava no cemiterio, ia +passeando entre os renques de cyprestes, sentindo +áquella hora do fim da tarde a +emanação adocicada +das moitas de goivos; lia os epitaphios; encostava-se +á grade dourada do jazigo da familia Gouvêa, +contemplando +os emblemas em relevo, um chapéo armado +e um espadim, seguindo as negras letras da +famosa ode que lhe adorna a lapida: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Caminhante, detem-te a contemplar</div> + +<div class="poetry1">Estes restos +mortaes;</div> + +<div class="poetry2">E, se sentires a mágoa a +transbordar,</div> + +<div class="poetry1">Detem teus ais.</div> + +<div class="poetry2">Que Julio Cabral da Silva Maldonado</div> + +<div class="poetry1">Mendonça +de Gouvêa,</div> + +<div class="poetry2">Moço fidalgo, bacharel +formado,</div> + +<div class="poetry1">Filho da illustre +Cêa,</div> + +<div class="poetry2">Ex-administrador d'este concelho,</div> + +<div class="poetry1">Commendador de +Christo,</div> + +<div class="poetry2">Foi de virtudes singular espelho,</div> + +<div class="poetry1">Caminhante, +crê n'isto. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Depois era o rico mausoléo do Moraes, onde sua +esposa, que agora, rica e quarentona, vivia em concubinagem +com o bello capitão Trigueiros, fizera +gravar uma piedosa quadra: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +Entre os anjos espera, ó esposo,<br /> + +A metade do teu coração<br /> + +Que no mundo ficou, tão sózinha,<br /> + +Toda entregue ao dever da oração!... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Algumas vezes, ao fundo do cemiterio, junto ao +muro, via um homem ajoelhado ao pé d'uma cruz +negra, que um chorão assombreava, ao lado da valla +<span class="pagenum">[534]</span> +dos pobres. Era o tio Esguelhas, com a sua moleta +no chão, rezando sobre a sepultura da +Tótó. Ia fallar-lhe, +e mesmo, n'uma igualdade que aquelle logar +justificava, passeavam familiarmente, hombro a hombro, +conversando. Amaro, com bondade, consolava o +velho: de que servia á desgraçada rapariga a vida +para a passar estirada n'uma cama? +<br /> + +<br /> + +—Sempre era viver, senhor parocho... E eu, +veja agora isto, sósinho de dia e de noite! +<br /> + +<br /> + +—Todos têm as suas solidões, tio Esguelhas, dizia +melancolicamente Amaro. +<br /> + +<br /> + +O sineiro então suspirava, perguntava pela snr.<sup>a</sup> +D. Josepha, pela menina Amelia... +<br /> + +<br /> + +—Lá está na quinta. +<br /> + +<br /> + +—Coitadita, não está má estopada... +<br /> + +<br /> + +—Cruzes da vida, tio Esguelhas. +<br /> + +<br /> + +E continuavam calados por entre as ruas de buxo +que fecham os canteiros cheios do negrejamento +das cruzes e da brancura das lapidas novas. Amaro, +ás vezes, reconhecia alguma sepultura que elle mesmo +tinha aspergido e consagrado: onde estariam +aquellas almas que elle recommendára a Deus em +latim, distrahido, engorolando á pressa as +orações +para ir ter com Amelia? Eram jazigos de gente da +cidade; elle conhecia de vista as pessoas da familia; +vira-as então lavadas em lagrimas, e agora passeavam +em rancho pela Alameda ou chalaceavam ao +balcão das lojas... +<br /> + +<br /> + +Voltava para casa mais triste,—e a sua longa +noite começava, infindavel. Tentava lêr; mas ao +fim +<span class="pagenum">[535]</span> +das dez primeiras linhas bocejava de tedio e de fadiga. +Ás vezes escrevia ao conego. Ás nove horas +tomava chá; e depois era um passear sem fim pelo +quarto, fumando maços de cigarros, parando á +janella +a olhar a negrura da noite, lendo aqui e além +uma noticia ou um annuncio do +<em>Popular</em> e recomeçando +a passear com bocejos tão cavos que a criada +os ouvia na cozinha. +<br /> + +<br /> + +Para entreter estas noites melancolicas, e por um +excesso de sensibilidade ociosa, tentára fazer versos, +pondo o seu amor e a historia dos dias felizes nas +formulas conhecidas da saudade lyrica: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Lembras-te d'esse tempo da delicias,<br /> + +Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,<br /> + +Quando tudo eram risos e ventura<br /> + +E a vida nos corria socegada? +<br /> + +<br /> + +Lembras-te d'essa noite de poesia<br /> + +Em que a lua brilhava pelos céos,<br /> + +E nós unindo as almas, ó Amelia,<br /> + +Erguemos nossa prece para Deus?... +</div> + +<br /> + +<br /> + +Mas a despeito de todos os esforços nunca passára +d'estas duas quadras—apesar de as ter produzido +com uma facilidade promettedora—como se o +seu sêr contivesse apenas estas duas gottas isoladas +de poesia, e, soltas ellas á primeira pressão, +nada +mais restasse senão a sêcca prosa do temperamento +carnal. +<br /> + +<br /> + +E esta existencia varia relaxára-lhe tão +subtilmente +todo o machinismo da vontade e da acção, +<span class="pagenum">[536]</span> +que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa +concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso +como o peso d'um fardo injusto. Preferia ainda +os tedios da ociosidade aos tedios da occupação. +A +não serem os deveres estrictos que elle não podia +desleixar sem escandalo e sem +censura—desembaraçára-se, +pouco a pouco, de todas as praticas do +zelo interior: nem a oração mental, nem as +visitas +regulares ao Santissimo, nem as meditações +espirituaes, +nem o rosario á Virgem, nem a leitura á noite +do Breviario, nem o exame de consciencia—todas +estas obras da devoção, estes meios secretos de +santificação progressiva substituia-os pelos +infindaveis +passeios pelo quarto, do lavatorio á janella, e +por maços de cigarros fumados até ao negro dos +dedos. +A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; +o serviço da parochia feito com surdas revoltas +de impaciencia; tornára-se consummadamente o +<em>Indignus sacerdos</em> dos ritualistas; e +tinha na sua +ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete +meios defeitos que os theologos attribuem ao <em>mau +padre</em>. +<br /> + +<br /> + +Só lhe restava através da sua sentimentalidade +um appetite tremendo. E como a cozinheira era excellente, +e a snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, antes da +sua partida para a Vieira, lhe deixára um fornecimento +de cento e cincoenta missas a cruzado—banqueteava-se, +tratando-se a gallinha e a geleia, regando-se +d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre +lhe escolhera. E alli ficava á mesa, horas esquecidas, +<span class="pagenum">[537]</span> +de perna esticada, fumando sobre o café, +e lamentando não ter á mão a sua +Ameliasita... +<br /> + +<br /> + +—Que fará ella por lá, a pobre Ameliasita! +pensava, +espreguiçando-se com tedio e com langor. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua +vida. +<br /> + +<br /> + +Logo durante a jornada no +<em>char-à-banc</em> D. Josepha +lhe fizera tacitamente sentir que d'ella não tinha +a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do +escandalo... E assim foi, quando se installaram. A +velha tornou-se intratavel: era todo um modo cruel +de abandonar o <em>tu</em>, de a tratar por +<em>menina</em>; uma recusa +rispida se Amelia lhe queria arranjar a almofada +ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo +quando ella lhe passava o serão no quarto, costurando; +e a todo o momento allusões suspiradas ao +triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos +seus dias... +<br /> + +<br /> + +Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe +que a madrinha seria toda caridade, toda +cumplicidade; entregava-a por fim a uma semelhante +ferocidade de velha virgem devota!... +<br /> + +<br /> + +Quando se viu n'aquelle casarão da Ricoça, n'um +quarto regelado, pintado a côr de canario, lugubremente +mobilado com uma cama de docel e duas cadeiras +de couro, chorou toda a noite com a cabeça, +enterrada no travessseiro—torturada por um cão +que debaixo das janellas, estranhando sem duvida +<span class="pagenum">[538]</span> +as luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada. +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros. +Era talvez boa gente com quem podia distrahir-se. +Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um cypreste, +carregada de luto: um grande lenço negro tingido, +muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de +farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza +de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda +peor, semelhante a um ourango-tango, com duas +orelhas enormes muito despegadas do craneo, uma +saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas, +um corpo desengonçado de tisico, de peito mettido +para dentro. Abalou bem depressa, foi vêr o pomar: +andava maltratado; as ruasitas estavam invadidas +por um hervaçal humido; e a sombra das arvores +muito juntas, n'um terreno baixo, cercado d'altos +muros, dava uma sensação doentia. +<br /> + +<br /> + +Era ainda preferivel passar os seus dias mettida +no casarão; dias infindaveis em que as horas se iam +movendo com o vagar fastidioso d'um desfilar funerario. +<br /> + +<br /> + +O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas +recebia a impressão triste da paizagem que se +estendia defronte, uma ondulação monotona de +terras +estereis com alguma magra arvore aqui e além, +um ar abafado em que parecia errar constantemente +a exhalação de paues proximos e de baixas +humidas, +e a que nem o sol de setembro dissipava o +tom sezonatico. +<span class="pagenum">[539]</span> +<br /> + +<br /> + +Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josepha, +accommodal-a no canapé; depois vinha costurar +para ao pé d'ella—como outr'ora na rua da Misericordia +para ao pé da mãi; mas agora em logar das +boas «cavaqueiras» tinha só o silencio +intratavel da +velha e a sua ronqueira incessante. Pensára em fazer +vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal +fallou, a velha exclamou com azedume: +<br /> + +<br /> + +—A menina está doida... Não tenho saude para +tocatas! Ora o desproposito! +<br /> + +<br /> + +A Gertrudes tambem não lhe fazia companhia; +nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na +cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella freguezia, +e passava o seu tempo pelos casaes, palrando +com as antigas visinhas. +<br /> + +<br /> + +A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o +seu rozario, ficava junto á janella olhando estupidamente +as gradações da luz poente; todos os campos +pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um +silencio parecia descer, pousar sobre a terra; depois +uma primeira estrellinha tremeluzia e brilhava; e +diante d'ella era então só uma massa inerte de +sombra +muda até ao horisonte, aonde ainda ficava um +momento uma delgada tira côr de laranja desbotada. +O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno +de objecto em redor que o prendesse, ia muito +saudoso para longe, para a Vieira; áquella hora +a mãi e as amigas recolhiam do passeio na praia; +já +todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros +começam a apparecer as luzes; é a hora do +chá, +<span class="pagenum">[540]</span> +dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão +em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma +flauta, improvisando +<em>soirées</em>. E ella alli, +só!... +<br /> + +<br /> + +Era então necessario deitar a velha, rezar com ella +e com a Gertrudes o terço. Accendiam depois o candieiro +de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira +para dar sombra ao rosto da doente; e todo o +serão, no silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor +do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto. +<br /> + +<br /> + +Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, +n'um medo constante de ladrões; e então +começava +para Amelia a hora dos terrores supersticiosos. +Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura +d'aquellas antigas salas deshabitadas e em redor o +tenebroso silencio dos campos. Ouvia ruidos inexplicaveis: +era o soalho do corredor que estalava, sob +passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente +se dobrava como sob um halito invisivel; ou +a distancia, para os lados da cozinha, o baque surdo +d'um corpo. Accumulava então as +orações, encolhida +debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões +do pesadêlo continuavam-lhe os terrores da vigilia. +Uma vez acordára de repente, a uma voz que dizia, +gemendo, por traz da alta barra da cama:—<em>Amelia, +prepara-te, o teu fim chegou!</em> Espavorida, em camisa, +atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama +da Gertrudes. +<br /> + +<br /> + +Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou +quando ella ia adormecer: <em>Amelia, lembra-te dos teus +peccados! Prepara-te, Amelia!</em> Deu um grito, desmaiou. +<span class="pagenum">[541]</span> +Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitára, +correu áquelle ai agudo que cortára o silencio +do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, +com +os cabellos soltos da rede rojando no chão, as +mãos +geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher +do caseiro, e até de madrugada foi uma azafama +para a chamar á vida. Desde esse dia a Gertrudes +dormia ao pé d'ella—e a voz não tornou a +ameaçal-a +por traz da barra. +<br /> + +<br /> + +Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa +da morte e o pavor do inferno. Por esse tempo, um +vendedor ambulante d'estampas passou pela Ricoça; +e a snr.<sup>a</sup> D. Josepha comprou-lhe duas +lithographias—a +<em>Morte do Justo</em> e a +<em>Morte do Peccador</em>. +<br /> + +<br /> + +—Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo +diante dos olhos, disse ella. +<br /> + +<br /> + +Amelia não duvidou ao principio que a velha, +que contava morrer no mesmo apparato de gloria +com que expirava o <em>Justo</em> da estampa, +lhe quizera +mostrar a ella, a <em>peccadora</em>, a scena +pavorosa que a +esperava. Odiou-a por aquella «picardia». Mas a sua +imaginação aterrada não tardou a dar +á compra da +estampa outra explicação: era Nossa Senhora que +alli +mandára o vendedor de pinturas, para lhe mostrar +ao vivo na lithographia da <em>Morte do +Peccador</em> o espectaculo +da sua agonia: e estava então certa que +tudo seria assim, traço por traço—o seu anjo da +guarda fugindo aos soluços; Deus-Padre desviando +o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da morte +rindo ás gargalhadas; e demonios de côres +rutilantes, +<span class="pagenum">[542]</span> +com todo um arsenal de torturas, apoderando-se +d'ella, uns pelas pernas, outros pelos cabellos, +arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna +chammejante toda abalada da tormenta de rugidos +que solta a Eterna Dôr... E ella podia vêr ainda, +no +fundo dos céos, a grande balança—com um dos +pratos muito alto onde as suas orações +não pesavam +mais que uma penna de canario, e o outro prato cahido, +de cordas retesadas, sustentando a enxerga da +cama do sineiro e as suas toneladas de peccado. +<br /> + +<br /> + +Cahiu então n'uma melancolia hysterica que a envelhecia; +passava os dias suja e desarranjada, não +querendo dar cuidado ao seu corpo peccador; todo o +movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas +orações lhe custavam, como se as julgasse +inuteis; +e tinha atirado para o fundo d'uma arca o enxoval +que andava a costurar para o filho—porque o +odiava, aquelle sêr que ella sentia mexer-se-lhe +já +nas entranhas e que era a causa da sua perdição. +Odiava-o—mas menos que o outro, o parocho que +lh'o fizera, o padre malvado que a tentára, a +estragára, +a atirára ás chammas do inferno! Que desespero +quando pensava n'elle! Estava em Leiria socegado, +comendo bem, confessando outras, namorando-as +talvez—e ella alli sósinha, com o ventre condemnado +e enfartado do peccado que elle lá depuzera, +ia-se afundindo na perdição sempiterna! +<br /> + +<br /> + +Decerto esta excitação a teria matado—se +não +fosse o abbade Ferrão que começára +então a vir vêr +muito regularmente a irmã do amigo conego. +<span class="pagenum">[543]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua +da Misericordia; dizia-se lá que o Ferrão tinha +«idéas +exquisitas»: mas não era possivel recusar-lhe nem +a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia +muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se +succedido na diocese, e elle alli ficára esquecido +n'aquella freguezia pobre, de congrua atrazada, +n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo +vigario geral, que nunca dera um passo para o +favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavriado: +<br /> + +<br /> + +—Vossê é um dos bons theologos do reino. +Vossê +está predestinado por Deus para um bispado. Vossê +ainda apanha a mitra. Vossê ha de ficar na historia +da Igreja portugueza como um grande bispo Ferrão! +<br /> + +<br /> + +—Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom! +Mas era necessario que eu tivesse o arrojo d'um Affonso +d'Albuquerque ou d'um D. João de Castro, para +aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade! +<br /> + +<br /> + +E alli ficára, entre gente pobre, n'uma aldeia de +terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e +uma chavena de leite, com uma batina limpa onde +os remendos faziam um mappa, precipitando-se a +uma meia legua por um temporal desfeito se um parochiano +tinha uma dôr de dentes, passando uma hora +a consolar uma velha a quem tinha morrido uma +cabra... E sempre de bom humor, sempre com um +cruzado no fundo do bolso dos calções para uma +necessidade +do seu visinho, grande amigo de todos os +rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não +duvidando +<span class="pagenum">[544]</span> +parar, se encontrava uma rapariga bonita, o +que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda +moça, +Deus a abençôe!» +<br /> + +<br /> + +E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes +era tão celebre, que lhe chamavam «a +donzella». +<br /> + +<br /> + +De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando +horas d'estação aos pés do Santissimo +Sacramento; +cumprindo com uma felicidade fervente as +menores praticas da vida devota; purificando-se para +os trabalhos do dia com uma profunda oração +mental, uma meditação de fé, d'onde a +sua alma +sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se +para o somno com um d'estes longos e +piedosos exames de consciencia, tão uteis, que Santo +Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que +Plutarcho e Seneca, e que são a +correcção laboriosa +e subtil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento +meticuloso da virtude activa, emprehendido com um +fervor de poeta que revê um poema querido... E todo +o tempo que tinha vago, abysmava-se n'um cahos +de livros. +<br /> + +<br /> + +Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de +caçar! Cohibia-se, porque a caça tira muito +tempo, +e é sanguinario matar uma pobre ave que anda azafamada +pelos campos nos seus negocios domesticos. +Mas nas claras manhãs d'inverno, quando ainda ha +orvalho nas giestas, se via passar um homem d'espingarda +ao hombro, o passo vivo, seguido do seu +perdigueiro—iam-se-lhe os olhos n'elle... Ás vezes +<span class="pagenum">[545]</span> +porém, a tentação vencia: agarrava +furtivamente a +espingarda, assobiava á +<em>Janota</em>, e com as abas do +casacão ao vento, lá ia o theologo illustre, o +espelho +de piedade, através de campos e valles... E d'ahi +a pouco—pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz +em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda +debaixo do braço, os dois passaros na algibeira, +cosendo-se com os muros, rezando o seu rosario +á Virgem, e respondendo aos <em>bons +dias</em> da gente +pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito +criminoso. +<br /> + +<br /> + +O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto +«gêbo» +e do seu grande nariz, agradou a Amelia, logo desde +a primeira visita á Ricoça; e a sua sympathia +cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com +pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano conego +tinha pela sciencia do abbade. +<br /> + +<br /> + +A velha, com effeito depois de ter estado só com +elle n'uma pratica d'horas, condemnára-o com uma +unica palavra, na sua auctoridade de velha devota +experiente: +<br /> + +<br /> + +—É relaxado! +<br /> + +<br /> + +Não se tinham realmente comprehendido. O bom +Ferrão, tendo vivido tantos annos n'aquella parochia +de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de +mães a filhas, no mesmo molde de +devoção simples +a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono +da freguezia, tendo pouca experiencia de confissão, +encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada +de devota de cidade, d'um beaterio caturra +<span class="pagenum">[546]</span> +e atormentado; e ao ouvir aquella extraordinaria +lista de peccados mortaes, murmurava espantado: +<br /> + +<br /> + +—É estranho, é estranho... +<br /> + +<br /> + +Percebera bem ao principio que tinha diante de +si uma d'essas degenerações morbidas do +sentimento +religioso, que a theologia chama <em>Doença dos +escrupulos</em>—e +de que na sua generalidade estão affectadas +hoje todas as almas catholicas; mas depois, +a certas revelações da velha, receou estar +realmente +em presença d'uma maniaca perigosa; e instinctivamente, +com o singular horror que os sacerdotes +têm pelos doidos, recuou a cadeira. +<br /> + +<br /> + +Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em +que chegára á Ricoça (contava ella), +ao começar o rosario +a Nossa Senhora, lembrára-lhe de repente que +lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era +tão efficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito +vezes de seguida recomeçára o rosario, e sempre o +saiote escarlate se interpunha entre ella e Nossa Senhora!... +Então desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E +immediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e +tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era +Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes +nas pernas... +<br /> + +<br /> + +O abbade pulou: +<br /> + +<br /> + +—Oh, minha senhora!... +<br /> + +<br /> + +—Ai, não é tudo, senhor abbade! +<br /> + +<br /> + +Havia outro peccado que a torturava: quando rezava, +às vezes, sentia vir a expectoração; +e, tendo +ainda o nome de Deus ou da Virgem na bôca, tinha +<span class="pagenum">[547]</span> +de escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera +pensando que o nome de Deus ou da Virgem +lhe descia d'embrulhada para o estomago e se ia +misturar com as fezes! Que havia de fazer? +<br /> + +<br /> + +O abbade, d'olhar esgazeado, limpava o suor da +testa. +<br /> + +<br /> + +Mas isto não era o peor: o grave era, que na +noite antecedente estava toda socegada, toda em virtude, +a rezar a S. Francisco Xavier—e de repente, +nem ella soube como, põe-se a pensar como seria +S. Francisco Xavier nú em pêllo! +<br /> + +<br /> + +O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Emfim, +vendo-a a olhar anciosa para elle, á espera das suas +palavras e dos seus conselhos, disse: +<br /> + +<br /> + +—E ha muito que sente esses terrores, essas +duvidas...? +<br /> + +<br /> + +—Sempre, senhor abbade, sempre! +<br /> + +<br /> + +—E tem convivido com pessoas que, como a senhora, +são sujeitas a essas inquietações? +<br /> + +<br /> + +—Todas as pessoas que conheço, duzias d'amigas, +todo o mundo... O Inimigo não me escolheu só +a mim... A todos se atira... +<br /> + +<br /> + +—E que remedio dava a essas anciedades d'alma...? +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor abbade, aquelles santos da cidade, +o senhor parocho, o snr. Silverio, o snr. Guedes, todos, +todos nos tiravam sempre d'embaraços... E com +uma habilidade, com uma virtude... +<br /> + +<br /> + +O abbade Ferrão ficou calado um momento: sentia-se +<span class="pagenum">[548]</span> +triste, pensando que por todo o reino tantos +centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente +o rebanho n'aquellas trevas d'alma, mantendo +o mundo dos fieis n'um terror abjecto do céo, representando +Deus e os seus santos como uma côrte +que não é menos corrompida nem melhor que a de +Caligula e dos seus libertos. +<br /> + +<br /> + +Quiz então levar áquelle nocturno cerebro de +devota, +povoado de phantasmagorias, uma luz mais +alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas +inquietações +vinham da imaginação torturada pelo terror +d'offender a Deus... Que o Senhor não era um amo +feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... +Que é por amor que é necessario servil-o, +não por +medo... Que todos esses escrupulos, Nossa Senhora +a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cahir no estomago, +eram perturbações da razão doente. +Aconselhou-lhe +confiança em Deus, bom regimen para ganhar +forças. Que não se cansasse em +orações exageradas... +<br /> + +<br /> + +—E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se +e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre +isto, e havemos de serenar essa alma. +<br /> + +<br /> + +—Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha +sêccamente. +<br /> + +<br /> + +E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a +trazer-lhe a botija para os pés, D. Josepha exclamou, +toda indignada, quasi choramingando: +<br /> + +<br /> + +—Ai, não presta p'ra nada, não presta p'ra +nada!... +<span class="pagenum">[549]</span> +Não me percebeu... É um tapado... É um +pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um sacerdote +do Senhor... +<br /> + +<br /> + +Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade +os peccados medonhos que continuava a commetter; +e quando elle, por dever, quiz recomeçar a +educação +da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios +que, como se confessava com o senhor padre Gusmão, +não sabia se seria delicado receber d'outro a +direcção moral... +<br /> + +<br /> + +O abbade fez-se vermelho, respondeu: +<br /> + +<br /> + +—Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se +ter muita delicadeza n'essas coisas... +<br /> + +<br /> + +Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado +no quarto a saber-lhe da saude, de ter fallado do +tempo, da estação, das doenças que +iam, d'alguma +festa na igreja,—apressava-se em se despedir e ir +para o terraço conversar com Amelia. +<br /> + +<br /> + +Vendo-a sempre tão tristonha, interessára-se por +ella; para Amelia, as visitas do abbade eram uma +distracção, n'aquella solidão da +Ricoça; e assim se +iam familiarisando, a ponto que nos dias em que +elle regularmente vinha, Amelia punha um mantelete +e ia pelo caminho dos Poyaes esperal-o até junto +á casa do ferrador. As conversas do abbade, fallador +incansavel, entretinham-na, tão differentes dos mexericos +da rua da Misericordia,—como o espectaculo +d'um largo valle com arvores, plantações, aguas, +pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados +ás quatro paredes caiadas d'uma trapeira +<span class="pagenum">[550]</span> +da cidade. Tinha com effeito uma d'estas +conversações +semelhantes aos <em>jornaes semanaes de +recreio</em>, +o <span class="smallcaps">Thesouro das familias</span> +ou as +<span class="smallcaps">Leituras para serões</span>, +em que de ha tudo—doutrina moral, historias +de viagens, anecdotas dos grandes homens, +dissertações +sobre a lavoura, citação d'uma boa +chalaça, +traços sublimes da vida d'um santo, um verso aqui +e além, e até receitas, como uma muito util que +deu +a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem. Só +era monotono quando fallava da sua familia parochiana, +dos casamentos, baptisados, doenças, questões, +ou quando começava as suas historias de caça. +<br /> + +<br /> + +—Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego +das Tristes, quando uma revoada de perdizes... +<br /> + +<br /> + +Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam +façanhas da <em>Janota</em>, +pontarias fabulosas contadas +em mimica, com imitações de vozes de passaros, +e <em>pum, pum</em> de fusilaria. Ou +então eram descripções +das caçadas selvagens que elle lêra com +gula—a caça ao tigre do Nepal, ao leão d'Argelia +e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a +imaginação da rapariga para longe, para os paizes +exoticos onde a herva é alta como os pinheiros, o +sol queima como um ferro em braza, e entre cada +ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois, +a proposito de tigres e de malaios, lembrava-lhe +uma historia curiosa de S. Francisco Xavier, e eil-o +lançado, o terrivel palrador, na +descripção dos feitos +da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas +do cerco de Diu! +<span class="pagenum">[551]</span> +<br /> + +<br /> + +Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que +o abbade, tendo começado por enumerar as vantagens +que o conego tiraria de transformar o pomar +em terra de lavoura, acabára por contar perigos e +valores dos missionarios da India e do Japão—que +Amelia, então em toda a intensidade dos seus terrores +nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e +dos sobresaltos que lhe davam. +<br /> + +<br /> + +—Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; +uma senhora da sua idade ter medo de papões... +<br /> + +<br /> + +Ella então, attrahida por aquella bondade do senhor +abbade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite +por detraz da barra da cama. +<br /> + +<br /> + +O abbade pôz-se sério: +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora, isso são imaginações +que deve +a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodigios +no mundo, mas Deus não se põe assim a fallar +a qualquer, por detraz das barras das camas, nem +permitte ao demonio que o faça... Essas vozes, se +as ouve, e se os seus peccados são grandes, não +vêm +de detraz da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua +consciencia... E póde então fazer dormir ao +pé de +si a Gertrudes, e cem Gertrudes, e todo o batalhão +de infanteria, que as ha de continuar a ouvir... Havia +de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é +necessario é calmar a consciencia que reclama penitencia +e purificação... +<br /> + +<br /> + +Tinham subido ao terraço, fallando assim: e Amelia +sentára-se fatigada n'um dos bancos de pedra +que alli havia, e ficára a olhar a quinta ao longe, +<span class="pagenum">[552]</span> +os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a +eira, e a distancia os campos que se succediam planos +e avivados do tom humido que lhes dera a chuva +ligeira da manhã: agora a tarde estava d'uma +placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas +que o sol do poente tocava de vivos côr de +rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras tão sensatas +do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado +que lhe pesava na alma como um penedo se +tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da +penitencia. +E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso +igual á quietação dos campos que se +estendiam diante +d'ella. +<br /> + +<br /> + +Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeçou +d'ahi a um momento com um trinado tão vibrante, +tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o. +<br /> + +<br /> + +—É um rouxinol... +<br /> + +<br /> + +—Os rouxinoes não cantam a esta hora, disse o +abbade. É um melro... Ahi está um que +não tem +medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que +enthusiasmo, o maganão! +<br /> + +<br /> + +Era com effeito um gorgear triumphante, um delírio +de melro feliz, que dera de repente a todo o +pomar uma sonoridade festiva. +<br /> + +<br /> + +E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um +passaro contente, subitamente, sem razão, n'um d'estes +abalos nervosos que vem às mulheres hystericas, +rompeu a chorar. +<br /> + +<br /> + +—Então, que é isso, que é isso? fez o +abbade +muito surprehendido. +<span class="pagenum">[553]</span> +<br /> + +<br /> + +Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho +e d'amigo, calmando-a. +<br /> + +<br /> + +—Que infeliz que sou!... murmurou ella aos +soluços. +<br /> + +<br /> + +Elle então muito paternal: +<br /> + +<br /> + +—Não tem razão para o ser... Sejam quaes forem +as afflicções, as +inquietações, uma alma christã +tem sempre a consolação á +mão... Não ha peccado +que Deus não perdôe, nem dôr que +não calme, lembre-se +d'isso... O que não deve é guardar em si o +seu desgosto... É isso que a suffoca, que a faz chorar... +Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me... +<br /> + +<br /> + +—Quando? disse ella toda desejosa já de se refugiar +na protecção d'aquelle santo homem. +<br /> + +<br /> + +—Quando quizer, disse elle rindo. Eu não tenho +horas para consolar... A igreja está sempre aberta, +Deus está sempre presente... +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha +se erguia, Amelia foi á residencia; e durante +duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionario +de pinho—que o bom abbade por suas +mãos pintára d'azul escuro, com extraordinarias +cabecinhas +d'anjos que em logar d'orelhas tinham +azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com +uma secreta vaidade. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXIII +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro acabára de jantar, e fumava, +com os olhos no tecto, para não vêr o +carão chupado +do coadjutor que havia meia hora alli estava, +immovel e espectral, fazendo cada dez minutos uma +pergunta que cahia no silencio da sala como os quartos +melancolicos que dá de noite um relogio de cathedral. +<br /> + +<br /> + +—O senhor parocho já não é assignante +da <em>Nação</em>? +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, leio o +<em>Popular</em>. +<br /> + +<br /> + +O coadjutor recahiu no silencio, começando logo +a colligir laboriosamente as palavras para uma +nova pergunta. Soltou-a emfim, com lentidão: +<br /> + +<br /> + +—Não se tornou a saber d'aquelle infame que +escreveu o <em>Communicado</em>? +<span class="pagenum">[556]</span> +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, foi para o Brazil. +<br /> + +<br /> + +A criada entrou, n'este momento, dizendo que +«estava alli uma pessoa que queria fallar ao senhor +parocho». Era a sua maneira d'annunciar a presença +de Dionysia na cozinha. +<br /> + +<br /> + +Havia semanas que ella não apparecia—e Amaro, +curioso, sahiu logo da sala fechando a porta sobre +si, e chamou a matrona ao patamar. +<br /> + +<br /> + +—Grande novidade, senhor parocho! E vim a +correr, que é sério. Está +cá o João Eduardo! +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! exclamou o parocho. E eu justamente +a fallar d'elle! É extraordinario! Olha que coincidencia... +<br /> + +<br /> + +—É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já +estou informada de tudo. O homem está mestre dos +filhos do Morgadinho. +<br /> + +<br /> + +—Que Morgadinho? +<br /> + +<br /> + +—O Morgadinho dos Poyaes... Se vive lá, ou se +vai pela manhã e vem á noite, isso não +sei. O que +sei é que voltou... E janota, fato novo... Eu entendi +que devia avisar, porque póde estar certo que +elle, mais dia menos dia, dá pela Ameliasinha lá +na +Ricoça... É no caminho p'ra casa do Morgado... +Que lhe parece?... +<br /> + +<br /> + +—Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando +não serve é que apparece. Então por +fim não foi +para o Brazil? +<br /> + +<br /> + +—Pelos modos, não... Que a sombra d'elle não +era, era elle mesmo em carne e osso... A sahir da +loja do Fernandes por signal, e todo peralta... Sempre +<span class="pagenum">[557]</span> +é bom avisar a rapariga, senhor parocho, que +se não vá ella plantar de janella... +<br /> + +<br /> + +Amaro deu-lhe as duas placas que ella esperava—e +d'ahi a um quarto d'hora, desembaraçado do +coadjutor, ia no caminho da Ricoça. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Batia-lhe forte o coração quando avistou o +casarão +amarello, pintado de novo, o largo terraço lateral +em linha com o muro do pomar, ornado d'espaço +a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra. +Ia emfim, depois de tão longas semanas, vêr a sua +Ameliasinha! E já se alvoroçava á +idéa das exclamações +apaixonadas com que ella lhe cahiria nos +braços. +<br /> + +<br /> + +Ao rez do chão eram as cavallariças, do tempo +da familia morgada que outr'ora alli habitára, agora +abandonadas ás ratazanas e aos tortulhos, recebendo +a luz por estreitas janellas gradeadas que +quasi desappareciam sob camadas de teias de aranha; +entrava-se por um immenso pateo escuro, onde +havia longos annos se acastellava a um canto +toda uma montanha de pipas vazias; e o lance d'escadaria +nobre, que levava aos aposentos, era á direita, +flanqueado de dois leõesinhos de pedra, benignos +e somnolentos. +<br /> + +<br /> + +Amaro subiu até um sotão de tecto de carvalho +apainelado, sem mobilia, com a metade do soalho +coberta de feijão sêcco. +<span class="pagenum"><a name="p558" id="p558">[558]</a></span> +<br /> + +<br /> + +E, embaraçado, bateu as palmas. +<br /> + +<br /> + +Uma porta abriu-se. Amelia appareceu um instante, +toda despenteada e em saia branca; deu um +gritinho, bateu com a porta—e o parocho sentiu-a +fugir para o interior do casarão. Ficou muito desconsolado +no meio do salão, com o seu guardasol +debaixo do braço, pensando na boa familiaridade +com que entrava na rua da Misericordia—que até +pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel +das paredes clarear-se d'alegria. +<br /> + +<br /> + +Ia bater as palmas outra vez, já quesilado, quando +a Gertrudes <a href="#e23">appareceu</a>. +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor parocho! Entre, senhor parocho! +Ora até que emfim! Minha senhora, é o senhor +parocho!—gritava, +na alegria de vêr emfim uma visita +querida, um amigo da cidade, n'aquelle desterro +da Ricoça. +<br /> + +<br /> + +Levou-o logo para o quarto de D. Josepha, ao +fundo da casa, um quarto enorme, onde, n'um pequeno +canapé perdido a um canto, a velha passava +os dias encolhida no seu chale, com os pés embrulhados +n'um cobertor. +<br /> + +<br /> + +—Oh, D. Josepha! Como está? Como está? +<br /> + +<br /> + +Ella não pôde responder, tomada d'um accesso +de tosse que lhe dera a commoção da visita. +<br /> + +<br /> + +—Como vê, senhor parocho, murmurou emfim +muito fraca. Para aqui vou, arrastando esta velhice. +E vossa senhoria? Porque não tem apparecido? +<br /> + +<br /> + +Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres +da Sé. E comprehendia agora, ao vêr aquella face +<span class="pagenum">[559]</span> +amarella e cavada, com uma medonha touca de rendas +negras, que tristes horas Amelia alli devia passar. +Perguntou por ella; avistára-a de longe, mas +ella deitára a fugir... +<br /> + +<br /> + +—É que não estava decente para apparecer, +disse a velha. Hoje foi dia de barrela. +<br /> + +<br /> + +Amaro quiz então saber em que se entretinham, +como passavam os dias n'aquella solidão... +<br /> + +<br /> + +—Eu para aqui estou. A pequena para ahi anda. +<br /> + +<br /> + +Depois de cada palavra, parecia abater-se n'uma +fadiga e a sua ronqueira crescia. +<br /> + +<br /> + +—Então não se tem dado bem com a +mudança, +minha senhora? +<br /> + +<br /> + +Ella disse que não, n'um movimento de cabeça. +<br /> + +<br /> + +—Deixe fallar, senhor parocho, acudiu a Gertrudes +que ficára de pé, ao lado do canapé, +gozando a +presença do senhor parocho.—Deixe fallar... É +que +a senhora exagera tambem... Levanta-se todos os +dias, dá o seu passeinho até á sala, +come a sua azita +de frango... Temol-a aqui, temol-a arribada... +É o que diz o senhor abbade Ferrão, a saude foge +a toda a brida e para voltar vem a passo... +<br /> + +<br /> + +A porta abriu-se. Amelia appareceu, muito escarlate, +com o seu antigo robe-de-chambre de merino +rôxo, o cabello arranjado á pressa. +<br /> + +<br /> + +—Desculpe, senhor parocho, balbuciou, mas hoje +tem sido um dia de balburdia... +<br /> + +<br /> + +Elle apertou-lhe a mão gravemente: e ficaram +calados, como se estivessem separados pela distancia +d'um deserto. Ella não tirava os olhos do chão, +enrolando +<span class="pagenum">[560]</span> +com a mão tremula uma ponta da manta de +lã que trazia solta pelos hombros. Amaro achava-a +mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga +de velhice aos cantos da bôca. Para romper +aquelle silencio estranho, perguntou-lhe tambem se +se dava bem... +<br /> + +<br /> + +—Para aqui vou indo... É um pouco triste isto. +É como diz o senhor abbade Ferrão, é +muito grande +para a gente se sentir em familia. +<br /> + +<br /> + +—Ninguem veio para aqui para se divertir, disse +a velha sem descerrar as palpebras, com uma +voz sêcca que perdera toda a fadiga. +<br /> + +<br /> + +Amelia baixou a cabeça, fazendo-se pallida. +<br /> + +<br /> + +Amaro então, comprehendendo n'um relance que +a velha torturava Amelia, disse com muita severidade: +<br /> + +<br /> + +—É verdade, não foi para se divertirem... Mas +tambem não foi para se entristecerem de proposito... +Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos +outros a vida negra, é uma falta horrivel de caridade; +não ha peccado peor aos olhos do Senhor... É +indigno da graça de Deus quem tal pratica... +<br /> + +<br /> + +A velha rompeu a choramingar, muito excitada: +<br /> + +<br /> + +—Ai, o que Deus me guardou para os ultimos +annos da vida... +<br /> + +<br /> + +Gertrudes amimou-a. Então, senhora, que até +lhe fazia peor estar a affligir-se assim... Ora o disparate! +Tudo se havia de remediar com a ajuda de +Deus. Saude não havia de faltar, nem alegria... +<span class="pagenum">[561]</span> +<br /> + +<br /> + +Amelia chegára-se á janella, decerto para +esconder +tambem as lagrimas que lhe saltavam dos olhos. +E o parocho, consternado com a scena, começou a +dizer que D. Josepha não estava supportando com +a verdadeira resignação d'uma christã +aquelles dias +de doença... Nada escandalisava mais Nosso Senhor +que vêr as creaturas revoltarem-se contra as dôres +ou os encargos que elle mandava... Era insultar a +justiça dos seus decretos... +<br /> + +<br /> + +—Tem razão, senhor parocho, tem razão, murmurou +a velha muito contrita. Eu ás vezes nem sei +o que digo... São coisas da doença. +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e +tratar de vêr tudo côr de rosa. É o +sentimento que +Deus mais aprecia. Eu comprehendo que é duro, estar +para aqui enterrada... +<br /> + +<br /> + +—É o que diz o senhor abbade Ferrão, acudiu +Amelia voltando da janella, a madrinha estranha... +Assim arrancada aos habitos de tantos annos... +<br /> + +<br /> + +Notando então a citação repetida das +palavras do +abbade Ferrão, Amaro perguntou se elle costumava +vir vêl-as... +<br /> + +<br /> + +—Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amelia. +Vem quasi todos os dias. +<br /> + +<br /> + +—É um santo! exclamou a Gertrudes. +<br /> + +<br /> + +—Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente +d'um enthusiasmo tão vivo. Pessoa de muita +virtude... +<br /> + +<br /> + +—De muita virtude, suspirou a velha. Mas...—Calou-se, +não ousando decerto exprimir as suas +<span class="pagenum">[562]</span> +reservas de devota.—E exclamou n'uma supplica:—Ai, +o senhor parocho é que devia vir por aqui, +ajudar-me a levar esta cruz da doença... +<br /> + +<br /> + +—Hei de vir, minha senhora, hei de vir. É bom +para a distrahir, para lhe dar as noticias... E a proposito, +tive hontem carta do nosso conego. +<br /> + +<br /> + +Rebuscou na algibeira, leu alguns periodos da +carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia +estava cheia de gente. A D. Maria passára doente +com um furunculo. O tempo famoso. Todas as tardes +grandes passeatas a vêr recolher as rêdes. A S. +Joanneira, boa, mas fallando sempre na filha... +<br /> + +<br /> + +—Pobre mamã... choramingou Amelia. +<br /> + +<br /> + +Mas a velha não se interessava com as novidades, +gemendo a sua ronqueira. Foi Amelia que perguntou +pelos amigos de Leiria, pelo senhor padre +Natario, pelo senhor padre Silverio... +<br /> + +<br /> + +Ia escurecendo já: a Gertrudes fôra preparar o +candieiro. Amaro emfim ergueu-se: +<br /> + +<br /> + +—Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja +certa que hei de apparecer de vez em quando. E nada +d'affligir... Agasalho, boa dieta, e a misericordia +de Deus não a ha de abandonar... +<br /> + +<br /> + +—Não nos falte, senhor parocho, não nos +falte!... +<br /> + +<br /> + +Amelia estendera-lhe a mão, para se despedir alli +no quarto; mas Amaro gracejando: +<br /> + +<br /> + +—Se não lhe causa incommodo, menina Amelia, +sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu +perco-me n'este casarão. +<span class="pagenum">[563]</span> +<br /> + +<br /> + +Sahiram ambos. E apenas no salão, a que as tres +largas vidraças davam ainda uma claridade: +<br /> + +<br /> + +—A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro +parando. +<br /> + +<br /> + +—Que mereço eu mais? respondeu ella baixando +os olhos. +<br /> + +<br /> + +—Desavergonhada, eu lh'as cantarei!... Minha +Ameliasinha, se soubesses o que me tem custado... +<br /> + +<br /> + +E fallando, ia abraçal-a pelo pescoço. +<br /> + +<br /> + +Mas ella recuou, toda perturbada. +<br /> + +<br /> + +—Que é isso? fez Amaro assombrado. +<br /> + +<br /> + +—O quê? +<br /> + +<br /> + +—Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, +Amelia? Tu estás doida? +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu as mãos para elle, n'uma +supplicação +anciosa, fallando toda tremula: +<br /> + +<br /> + +—Não, senhor parocho, deixe-me! Isso acabou. +Bem basta o que peccamos... Quero morrer na graça +de Deus... Que nunca mais se falle em semelhante +coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... +Agora o que quero é o socego de minha alma... +<br /> + +<br /> + +—Tu estás tola! Quem te metteu isso na cabeça? +Ouve cá... +<br /> + +<br /> + +Foi para ella outra vez, com os braços abertos. +<br /> + +<br /> + +—Não me toque, pelo amor de Deus,—e vivamente +recuou até á porta. +<br /> + +<br /> + +Elle olhou-a um momento, n'uma cólera muda. +<br /> + +<br /> + +—Bem, como queira, disse por fim. Em todo o +caso, quero prevenil-a que o João Eduardo voltou, +<span class="pagenum">[564]</span> +que passa aqui todos os dias, e que é bom não se +pôr de janella. +<br /> + +<br /> + +—Que me importa a mim o João Eduardo e os +outros e tudo o que passou?... +<br /> + +<br /> + +Elle acudiu, trasbordando d'um sarcasmo amargo: +<br /> + +<br /> + +—Está claro, agora o grande homem é o senhor +abbade Ferrão! +<br /> + +<br /> + +—Devo-lhe muito, é o que sei... +<br /> + +<br /> + +A Gertrudes n'este momento entrava com o candieiro +accêso. E Amaro, sem se despedir d'Amelia, +abalou, de guardachuva em riste, rilhando os dentes +de raiva. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Mas a longa caminhada até á cidade calmou-o. +Aquillo na rapariga por fim era apenas um accesso +de virtude e d'escrupulos! Vira-se alli só n'aquelle +casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos +palavrões do moralista Ferrão, longe d'elle, e +tinha-lhe +vindo aquella reacção de devota com os seus +terrores do outro-mundo e appetites de innocencia... +Chalaça! Se elle começasse a ir á +Ricoça, n'uma semana +reganhava todo o seu dominio... Ah, conhecia-a +bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava +logo rendida. +<br /> + +<br /> + +Passou porém uma noite inquieta, desejando-a +mais que nunca. E ao outro dia á uma hora marchou +para a Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas. +<br /> + +<br /> + +A velha ficou toda contente ao vêl-o. É que lhe +<span class="pagenum">[565]</span> +dava saude a presença do senhor parocho! E se não +fosse a distancia havia de lhe pedir a esmola de vir +todas as manhãs. Até depois d'aquella visitinha +rezava +com mais fervor... +<br /> + +<br /> + +Amaro sorria, distrahido, com os olhos cravados +na porta. +<br /> + +<br /> + +—E a menina Amelia? perguntou por fim. +<br /> + +<br /> + +—Sahiu... Isso agora todas as manhãs é a +passeata, +disse a velha com azedume. Vai á residencia, +é tôda do abbade... +<br /> + +<br /> + +—Ah! fez Amaro com um sorriso livido. Nova +devoção, hein?... é pessoa de muitos +meritos, o +abbade. +<br /> + +<br /> + +—Ai, não presta, não presta! exclamou D. +Josepha. +Não me percebe. Tem idéas muito exquisitas. +Não dá virtude... +<br /> + +<br /> + +—Homem de livros... disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Mas a velha erguera-se sobre o cotovêlo, e baixando +a voz, com o magro carão accêso em odio: +<br /> + +<br /> + +—E aqui p'ra nós, a Amelia tem-se portado +muito mal! Nunca lh'o hei de perdoar... Confessou-se +ao abbade... É uma indelicadeza, sendo a confessada +do senhor parocho, não tendo recebido de vossa +senhoria senão favores... É uma ingrata, +é uma +traiçoeira!... +<br /> + +<br /> + +Amaro fizera-se pallido. +<br /> + +<br /> + +—Que me diz a senhora? +<br /> + +<br /> + +—A verdade! Que ella não o nega. Até se orgulha! +É uma perdida, é uma perdida! Depois do +favor que lhe estamos a fazer... +<span class="pagenum">[566]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro disfarçou a indignação que o +revolvia. +Riu até. Era necessario não exagerar... +Não havia +ingratidão. Era uma questão de fé. Se +a rapariga +pensava que o abbade a podia dirigir melhor, tinha +razão em se abrir com elle... O que todos queriam +é que ella salvasse a sua alma... Que fosse +pela direcção de fulano ou sicrano, isso +não importava... +E nas mãos do abbade estava bem. +<br /> + +<br /> + +E chegando vivamente a cadeira para o leito da +velha: +<br /> + +<br /> + +—E então agora, todas as manhãs vai à +residencia? +<br /> + +<br /> + +—Quasi todas... Que ella não ha de tardar, vai +depois d'almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me +causado isto um desgosto!... +<br /> + +<br /> + +Amaro deu um passeiosinho nervoso pelo quarto, +e estendendo a mão á velha: +<br /> + +<br /> + +—Pois minha senhora, eu não me posso demorar, +que vim de fugida... Até um dia cedo. +<br /> + +<br /> + +E sem escutar a velha, que lhe pedia com anciedade +que ficasse para jantar—-desceu os degraus +como uma pedra que rola, metteu furioso pelo caminho +da residencia, ainda com o seu ramo na +mão. +<br /> + +<br /> + +Esperava encontrar Amelia na estrada; e não +tardou em a avistar quasi ao pé da casa do ferreiro, +agachada ao pé do vallado, apanhando sentimentalmente +florinhas silvestres. +<br /> + +<br /> + +—Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto +d'ella. +<span class="pagenum">[567]</span> +<br /> + +<br /> + +Ella ergueu-se, com um gritinho. +<br /> + +<br /> + +—Que fazes tu aqui!? repetiu. +<br /> + +<br /> + +Áquelle <em>tu</em>, e +áquella voz colerica, ella poz rapidamente +um dedo na bôca, assustada. O senhor abbade +estava dentro da casa com o ferreiro... +<br /> + +<br /> + +—Ouve lá, disse Amaro com os olhos chammejantes, +agarrando-lhe o braço—tu confessaste-te ao +abbade?... +<br /> + +<br /> + +—P'ra que quer saber? Confessei... Não é +vergonha +nenhuma... +<br /> + +<br /> + +—Mas confessaste <em>tudo, tudo</em>? +perguntou elle +com os dentes cerrados de raiva. +<br /> + +<br /> + +Ella perturbou-se, e tratando-o ainda por +<em>tu</em>: +<br /> + +<br /> + +—Foste tu que me disseste muitas vezes... Que +era o maior peccado n'este mundo, esconder alguma +coisa ao confessor! +<br /> + +<br /> + +—Bebeda! rugiu Amaro. +<br /> + +<br /> + +Os seus olhos devoravam-na. E, através da nevoa +de cólera que lhe enchia o cerebro e lhe fazia +latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, +com umas redondezas em todo o corpo que ardia +por abraçar, com uns labios vermelhos avivados +pelo largo ar do campo que elle queria morder até +ao sangue. +<br /> + +<br /> + +—Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal +do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa. +Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas has de ser +a mesma para mim! +<br /> + +<br /> + +—Não, não! disse ella com força, +desprendendo-se, +prompta a fugir para casa do ferreiro. +<span class="pagenum">[568]</span> +<br /> + +<br /> + +—Tu m'as pagarás, maldita!—rosnou o padre +por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho +com passadas de desesperado. +<br /> + +<br /> + +E não abrandou o passo até á cidade, +levado de +um impulso d'indignação que, sob aquella +dôce paz +d'um meio d'outono, lhe suggeria planos de vinganças +ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com +o ramo na mão. Mas ahi, na solidão do quarto, +veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotencia. +Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade +dizer que ella estava gravida? Seria denunciar-se a +si. Espalhar que estava amigada com o abbade Ferrão? +Era absurdo: um velho de quasi setenta annos, +d'uma fealdade de caricatura, com todo um +passado de virtude santa... Mas perdel-a, não tornar +a ter nos braços aquelle corpo de neve, não +ouvir mais aquellas ternuras balbuciadas que lhe +arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor +que o céo... Isso não! +<br /> + +<br /> + +E era possivel que ella, em seis ou sete semanas, +tivesse assim esquecido tudo? N'aquellas longas +noites na Ricoça, só na cama, não lhe +viria uma +recordação das manhãs no quarto do tio +Esguelhas?... +Decerto: elle sabia-o da experiencia de +tantas confessadas que lhe tinham revelado afflictas +a tentação muda e teimosa que não +deixa a carne +que uma vez peccou... +<br /> + +<br /> + +Não: devia perseguil-a, e por todos os modos +soprar-lhe aquelle desejo que agora ardia n'elle mais +alto e mais ruidoso. +<span class="pagenum">[569]</span> +<br /> + +<br /> + +Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis +paginas, absurda, cheia d'implorações +apaixonadas, +de argucias mysticas, de pontos d'exclamação e de +ameaças de suicidio... +<br /> + +<br /> + +Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionysia. A resposta +veio só á noite, por um rapazito da quinta. +Com que sofreguidão rasgou o sobrescripto! Eram +apenas estas palavras: «Peço-lhe que me deixe em +paz com os meus peccados.» +<br /> + +<br /> + +Não desistiu: ao outro dia lá estava na +Ricoça a +visitar a velha. Amelia achava-se no quarto de D. +Josepha, quando elle appareceu. Fez-se muito pallida; +mas os seus olhos não deixaram a costura—durante +a meia hora que elle alli ficou, ora n'um +silencio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, +ora respondendo distrahidamente á tagarellice +da velha, muito falladora essa manhã. +<br /> + +<br /> + +E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia +entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha, +se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe «que estava +alli o senhor o parocho que a queria vêr». Ia +então, estendia-lhe a mão, que elle achava sempre +a escaldar—e tomando a sua eterna costura, junto +da janella, ia picando o posponto com uma taciturnidade +que desesperava o padre. +<br /> + +<br /> + +Tinha-lhe escripto outra carta. Ella não respondera. +<br /> + +<br /> + +Então jurava não voltar á +Ricoça, desprezal-a,—mas +depois de ter passado a noite, rolando-se pela +cama sem poder dormir, com a mesma visão da +<span class="pagenum">[570]</span> +nudez d'ella cravada intoleravelmente no cerebro, +lá partia de manhã para a Ricoça, +córando quando o +apontador das obras na estrada, que o via passar todos +os dias, lhe tirava o seu boné d'oleado. +<br /> + +<br /> + +N'uma tarde que choviscava, ao entrar no casarão, +dera com o abbade Ferrão que á porta abria o +seu guardachuva. +<br /> + +<br /> + +—Olá, por aqui, senhor abbade! disse elle. +<br /> + +<br /> + +O abbade respondeu naturalmente: +<br /> + +<br /> + +—Em vossa senhoria é que não ha que estranhar, +que vem por aqui todos os dias... +<br /> + +<br /> + +Amaro não se conteve; e tremendo de cólera: +<br /> + +<br /> + +—E que lhe importa ao senhor abbade se eu venho +ou não? A casa é sua? +<br /> + +<br /> + +Aquella brutalidade tão injustificavel offendeu o +abbade: +<br /> + +<br /> + +—Pois era melhor para todos que não viesse... +<br /> + +<br /> + +—E porque, senhor abbade? e porque?—gritou +Amaro, perdido. +<br /> + +<br /> + +Então o bom homem estremeceu. Commettera, +alli, a culpa mais grave do sacerdote catholico: o +que sabia d'Amaro, dos seus amores, era em segredo +de confissão; e era trahir o mysterio do sacramento, +mostrar que desapprovava aquella insistencia +no peccado. Tirou muito baixo o seu chapéo e disse +humildemente: +<br /> + +<br /> + +—Tem vossa senhoria razão. Peço +perdão do que +disse, sem reflectir. Muito boas tardes, senhor parocho. +<br /> + +<br /> + +—Muito boas tardes, senhor abbade. +<span class="pagenum">[571]</span> +<br /> + +<br /> + +Amaro não entrou na Ricoça. Voltou para a cidade +sob a chuva que batia forte agora. E, apenas +em casa, escreveu uma longa carta a Amelia, em +que lhe contava a scena com o abbade, acabrunhando-o +d'accusações—sobretudo de lhe trahir +indirectamente +o segredo da confissão. Como das outras, +d'esta carta não veio resposta da Ricoça. +<br /> + +<br /> + +Então Amaro começou a acreditar que tanta +resistencia +não podia vir só do arrependimento e do +terror do inferno... «Alli ha homem», pensou. E +devorado d'um ciume negro principiou a rondar de +noite a Ricoça; mas não viu nada; o +casarão permanecia +adormecido e apagado. Uma occasião, porém, +ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu +adiante no caminho que desce dos Poyaes uma voz +cantarolar sentimentalmente a valsa dos <em>Dois +mundos</em>, +e um ponto brilhante de charuto accêso adiantar-se +na escuridão. Assustado, refugiou-se n'um casebre +que desmantelava em ruinas do outro lado da +estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu +então um vulto que parecia embrulhado n'um chalemanta +claro, parado, contemplando as janellas da Ricoça. +Um furor de ciume apossou-se d'elle, e ia saltar +e atacar o homem—quando o viu seguir tranquillamente +ao comprido da estrada, de charuto alto, +trauteando: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +Ouves ao longe retumbar na serra<br /> + +O som do bronze que nos causa horror... +</div> + +<span class="pagenum">[572]</span> +<br /> + +<br /> + +Pela voz, pelo chale-manta, pelo andar tinha reconhecido +João Eduardo. Mas teve a certeza que se +um homem fallava de noite a Amelia ou entrava na +quinta—não era decerto o escrevente. Todavia, receoso +de ser descoberto, não tornou a rondar o casarão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Era com effeito João Eduardo, que sempre que +passava pela Ricoça, de dia ou de noite, parava um +momento a olhar melancolicamente as paredes que +<em>ella</em> habitava. Porque apesar de +tantas desillusões, +Amelia permanecera para o pobre rapaz a +<em>ella</em>, a +bem amada, a coisa mais preciosa da terra. Nem em +Ourem, nem em Alcobaça, nem pelas estalagens onde +errára, nem em Lisboa onde chegára como vem +á praia uma quilha de barco naufragado, deixára +um +momento de a ter presente na alma e de se enternecer +com as saudades d'ella. Durante esses dias +tão amargos de Lisboa, os peores da sua vida, em +que fôra fiel de feitos d'um cartorio obscuro, perdido +n'aquella cidade que lhe parecia ter a vastidão +d'uma Roma ou d'uma Babylonia e em que sentia +o duro egoismo das multidões azafamadas, +esforçava-se +mesmo por desenvolver mais esse amor +que lhe dava como a doçura d'uma companhia. Achava-se +menos isolado, tendo sempre no espirito aquella +imagem com quem travava dialogos imaginados, +nos seus infindaveis passeios ao longo do Caes do +<span class="pagenum">[573]</span> +Sodré, accusando-a das tristezas que o envelheciam. +<br /> + +<br /> + +E esta paixão, sendo para elle como a indefinida +justificação das suas miserias, tornava-o aos +seus +proprios olhos interessante. Era «um martyr de +amor»; isto consolava-o, como o consolára nas suas +primeiras desesperações considerar-se +«uma victima +das perseguições religiosas». +Não era um pobre diabo +banal a quem o acaso, a preguiça, a falta d'amigos, +a sorte e os remendos do casaco mantêm fatalmente +nas privações da dependencia: era um homem +de grande coração, a quem uma catastrophe +em parte amorosa e em parte politica, um drama +domestico e social, forçára assim, depois de +luctas +heroicas, a viajar d'um a outro cartorio com um +sacco de lustrina cheio d'autos. O destino tornára-o +igual a tantos heroes que lera nas novellas sentimentaes... +E o seu paletot coçado, os seus jantares +a quatro vintens, os dias em que não tinha dinheiro +para tabaco, tudo attribuia ao amor fatal d'Amelia +e á perseguição d'uma classe poderosa, +dando assim, +por um instincto muito humano, uma origem +grandiosa ás suas miserias triviaes... Quando via +passar os que elle chamava os +<em>felizes</em>—individuos +batendo tipoia, rapazes que encontrava com uma +linda mulher pelo braço, gente bem atabafada que +se dirigia aos theatros, sentia-se menos desgraçado +pensando que tambem elle possuia um grande luxo +interior que era aquelle amor infeliz. E quando emfim +por um acaso obteve a certeza d'um emprego +<span class="pagenum">[574]</span> +no Brazil, o dinheiro da passagem, idealisava a sua +aventura banal d'emigrante, repetindo-se durante todo +o dia que ia passar os mares, exilado do seu paiz +por uma tyrannia combinada de padres e auctoridades +e por ter amado uma mulher! +<br /> + +<br /> + +Quem lhe diria então, ao emmalar o seu fato no +bahú de lata, que d'ahi a semanas estaria outra vez +a meia legua d'esses padres e d'essas auctoridades, +contemplando d'olho terno a janella d'Amelia! Fôra +aquelle singular Morgadinho de Poyaes,—que não +era nem Morgadinho nem de Poyaes, e apenas um +ricaço excentrico de ao pé d'Alcobaça +que comprára +aquella velha propriedade dos fidalgos de Poyaes, e +que com a posse da terra recebia do povo da freguezia +a honra do titulo: fôra esse santo cavalheiro +que o livrára dos enjôos no paquete e dos acasos +da emigração. Encontrára-o casualmente +no cartorio +onde elle ainda trabalhava nas vesperas da viagem. +O Morgadinho, cliente do velho Nunes, conhecia-lhe +a historia, a façanha do +<em>Communicado</em>, o escandalo +no largo da Sé; e já de ha muito concebera por +elle uma sympathia ardente. +<br /> + +<br /> + +O Morgadinho tinha com effeito por padres um +odio maniaco, a ponto de não lêr no jornal a +noticia +d'um crime, sem decidir (ainda mesmo quando +o culpado estava já sentenciado) que «no fundo +devia +d'haver na historia um sotaina». Dizia-se que +este rancor provinha dos desgostos que lhe dera sua +primeira mulher, devota celebre d'Alcobaça. Apenas +viu João Eduardo em Lisboa e soube da viagem proxima, +<span class="pagenum">[575]</span> +teve immediatamente a idéa de o trazer para +Leiria, installal-o nos Poyaes, e entregar-lhe a +educação +das primeiras letras dos seus dois pequenos +como um insulto estridente feito a todo o clero diocesano. +Imaginava de resto João Eduardo um impio; +e isto convinha ao seu plano philosophico d'educar +os rapazitos n'um «atheismo desbragado». +João +Eduardo aceitou, com as lagrimas nos olhos: era +um salario magnifico que lhe vinha, uma posição, +uma familia, uma rehabilitação estrondosa... +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor Morgado, nunca hei de esquecer o +que faz por mim!... +<br /> + +<br /> + +—É p'ra meu gosto proprio!... É p'ra arreliar +a canalha! E partimos ámanhã! +<br /> + +<br /> + +Em Chão de Maçãs, apenas desceu do +wagon, +exclamou logo para o chefe da estação que +não conhecia +João Eduardo, nem a sua historia: +<br /> + +<br /> + +—Cá o trago, cá o trago em triumpho! Vem +p'ra quebrar a cara a toda a padraria... E se houver +custas a pagar, sou eu que as pago! +<br /> + +<br /> + +O chefe da estação não +estranhou—porque o +Morgadinho passava no districto por maluco. +<br /> + +<br /> + +Foi ahi, nos Poyaes, logo ao outro dia da sua +chegada, que João Eduardo soube que Amelia e D. +Josepha estavam na Ricoça. Soube-o pelo bom abbade +Ferrão, o unico sacerdote a quem o Morgado fallava, +e que recebia em casa, não como padre, mas +como cavalheiro. +<br /> + +<br /> + +—Eu como cavalheiro estimo-o, snr. Ferrão, +costumava elle dizer, mas como padre abomino-o! +<span class="pagenum">[576]</span> +<br /> + +<br /> + +E o bom Ferrão sorria, sabendo que, sob aquella +ferocidade d'impio obtuso, havia um santo +coração, +um pai-de-pobres na freguezia... +<br /> + +<br /> + +O Morgado era tambem grande amador de alfarrabios, +questionador incansavel; ás vezes os dois tinham +pelejas tremendas sobre historia, botanica, +systemas de caça... Quando o abbade, no fogo da +controversia, punha d'alto alguma opinião contraria: +<br /> + +<br /> + +—O senhor apresenta-me isso como padre ou +como cavalheiro? exclamava, empinando-se, o Morgado. +<br /> + +<br /> + +—Como cavalheiro, senhor Morgado. +<br /> + +<br /> + +—Então aceito a objecção. +É sensata. Mas se +fosse como padre, quebrava-lhe os ossos. +<br /> + +<br /> + +Ás vezes, pensando irritar o abbade, mostrava-lhe +João Eduardo, batendo d'alto no hombro do rapaz, +n'uma caricia de amador, como um cavallo favorito: +<br /> + +<br /> + +—Veja-me isto! Já ia dando cabo d'um. E ainda +ha de matar dois ou tres... E se o prenderem hei +de eu livral-o da forca! +<br /> + +<br /> + +—Isso não é difficil, senhor Morgado, dizia o +abbade tomando tranquillamente a sua pitada. Que +já não ha forcas em Portugal... +<br /> + +<br /> + +Então era uma indignação do Morgado. +Não havia +forcas? E porque não? Porque tinhamos um governo +livre e um rei constitucional! Que se se seguisse +a vontade dos padres, havia uma forca em +cada praça e uma fogueira em cada esquina! +<span class="pagenum">[577]</span> +<br /> + +<br /> + +—Diga-me uma coisa, snr. Ferrão, o senhor +vem defender aqui em minha casa a inquisição? +<br /> + +<br /> + +—Oh, senhor Morgado, eu nem sequer fallei da +inquisição... +<br /> + +<br /> + +—Não fallou por medo! Porque sabe perfeitamente +que lhe enterrava uma faca no estomago! +<br /> + +<br /> + +E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo +um vendaval com as abas prodigiosas do seu +robe-de-chambre amarello. +<br /> + +<br /> + +—No fundo um anjo, diria o abbade a João +Eduardo. Capaz de dar a camisa mesmo a um padre, +se o soubesse em necessidade... E vossê aqui +está bem, João Eduardo... É +não lhe reparar nas +manias... +<br /> + +<br /> + +Tinha tomado affeição a João Eduardo, +o abbade +Ferrão: e sabendo por Amelia a famosa legenda do +<em>Communicado</em> quizera, segundo a sua +expressão +querida, «folhear o homem aqui e além». +Conversára +com elle tardes inteiras na rua de loureiros da +quinta, na residencia onde João Eduardo se ia fornecer +de livros; e sob o «exterminador de padres», +como dizia o Morgado, encontrára um pobre +moço sensivel, com uma religião sentimental, +ambições +de paz domestica, e prezando muito o trabalho. +Então viera-lhe uma idéa que, sobretudo por lhe +ter +acudido um dia que sahia das suas devoções ao +Santissimo, +lhe pareceu descida de cima, da vontade +do Senhor: era o casal-o com Amelia. Não seria difficil +levar aquelle coração fraco e terno a perdoar o +erro d'ella; e a pobre rapariga, depois de tantos +<span class="pagenum">[578]</span> +transes, extincta aquella paixão que lhe entrára +na +alma como um sôpro do Demonio, levando-lhe a vontade, +a paz e o pudor d'empurrão para o abysmo, +encontraria na companhia de João Eduardo todo um +resto de vida calmo, e contente, um canto suave +d'interior, refugio dôce e purificação +do passado. +Não fallou nem a um, nem a outro, n'esta idéa que +o enternecia. Não era o momento agora, que ella +trazia nas entranhas o filho do +<em>outro</em>. Mas ia preparando +com amor aquelle resultado,—sobretudo +quando estava com Amelia, contando-lhe as suas conversas +com João Eduardo, algum dito muito sensato +que elle tivera, os bons cuidados de preceptor +que estava desenvolvendo na educação dos +Morgaditos. +<br /> + +<br /> + +—É um bom rapaz, dizia. Homem de familia... +D'estes a quem uma mulher póde realmente confiar +a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao +mundo, se tivesse uma filha, dava-lh'a... +<br /> + +<br /> + +Amelia não respondia, córando. +<br /> + +<br /> + +Já não podia objectar áquelles elogios +persuasivos +a antiga, a grande objecção—o +<em>Communicado</em>, +a impiedade! O abbade Ferrão destruira-lh'a um +dia, com uma palavra: +<br /> + +<br /> + +—Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz não +escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os +phariseus! +<br /> + +<br /> + +E para attenuar este julgamento severo, o menos +caridoso que tivera havia muitos annos, acrescentou: +<span class="pagenum">[579]</span> +<br /> + +<br /> + +—Emfim, foi uma falta grave... Mas está muito +arrependido. Pagou-o com lagrimas, e com fome. +<br /> + +<br /> + +E isto enternecia Amelia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Fôra tambem por esse tempo que o doutor Gouvéa +começára a vir á Ricoça, +porque D. Josepha tinha +peorado com os dias mais frios do outono. Amelia, +ao principio, á hora da visita, fechava-se no seu +quarto, tremendo á idéa de vêr o seu +estado descoberto +pelo velho doutor Gouvêa, o medico da casa, +aquelle homem d'uma severidade legendaria. Mas +emfim fôra necessario apparecer no quarto da velha, +para receber as suas instrucções de enfermeira +sobre +as horas dos remedios e as dietas. E um dia que +acompanhára o doutor até á porta, +ficou gelada, +vendo-o parar, voltar-se para ella cofiando a sua +grande barba branca que lhe cahia sobre o jaquetão +de velludo, e dizer-lhe sorrindo: +<br /> + +<br /> + +—Eu bem tinha dito a tua mãi que te casasse! +<br /> + +<br /> + +Duas lagrimas saltaram-lhe dos olhos. +<br /> + +<br /> + +—Bem, bem, pequena, não te quero mal por +isso. Estás na verdade. A natureza manda conceber, +não manda casar. O casamento é uma +fórmula administrativa... +<br /> + +<br /> + +Amelia olhava-o, sem o comprehender, com as +duas lagrimas muito redondinhas a correrem-lhe devagar +pela face. Elle bateu-lhe com os dedos no +queixo, muito paternal: +<span class="pagenum">[580]</span> +<br /> + +<br /> + +—Quero dizer que, como naturalista, regosijo-me. +Acho que te tornaste util á ordem geral das +coisas. Vamos ao que importa... +<br /> + +<br /> + +Deu-lhe então conselhos sobre a hygiene que devia +ter. +<br /> + +<br /> + +—E quando chegar a occasião, se te vires atrapalhada, +manda-me chamar... +<br /> + +<br /> + +Ia descer; Amelia deteve-o, e com uma supplicação +assustada: +<br /> + +<br /> + +—Mas o senhor doutor não vai dizer nada na cidade... +<br /> + +<br /> + +O doutor Gouvéa parou: +<br /> + +<br /> + +—Então não é estupida?... +Está bom, tambem +t'o perdôo. Está na logica do teu temperamento. +Não, +não digo nada, rapariga. Mas p'ra que diabo, +então, +não casaste tu com esse pobre João Eduardo? +Fazia-te +tão feliz como o outro, e já não +tinhas de pedir +segredo... Emfim, isso para mim é um detalhe +secundario... O essencial é o que te disse... Manda-me +chamar. Não te fies muito nos teus santos... +Eu entendo mais d'isso que Santa Brigida ou lá +quem é. Que tu és forte, e has de dar um bom +mocetão +ao Estado. +<br /> + +<br /> + +Todas estas palavras que em parte não comprehendera +bem, mas em que sentia uma vaga justificação +e uma bondade d'avô indulgente, sobretudo +aquella sciencia que lhe promettia a saude e a que +as barbas grisalhas do doutor, umas barbas de Padre +Eterno, davam um ar d'infallibilidade, reconfortaram-na, +augmentaram a serenidade que havia semanas +<span class="pagenum">[581]</span> +gozava, desde a sua confissão desesperada na capella +dos Poyaes. +<br /> + +<br /> + +Ah, fôra decerto Nossa Senhora, compadecida +emfim dos seus tormentos, que lhe mandára do céo +aquella inspiração de se ir entregar toda dorida +aos +cuidados do abbade Ferrão! Parecia-lhe que +deixára +lá, no seu confessionario azul-ferrete, todas as +amarguras, os terrores, a negra farrapagem de remorso +que lhe abafava a alma. A cada uma das +suas consolações tão persuasivas +sentira desapparecer +o negrume que lhe tapava o céo: agora via tudo +azul; e quando rezava, já Nossa Senhora não +desviava o rosto indignado. É que era tão +differente +aquella maneira de confessar do abbade! Os seus +modos não eram os do representante rigido d'um +Deus carrancudo; havia n'elle alguma coisa de feminino +e de maternal que passava na alma como +uma caricia; em logar de lhe erguer diante dos olhos +o sinistro scenario das chammas do Inferno, mostrára-lhe +um vasto céo misericordioso com as portas +largamente abertas, e os caminhos multiplicados que +lá conduzem, tão faceis e tão +dôces de trilhar que +só a obstinação dos rebeldes se recusa +a tental-os. +Deus apparecia, n'aquella suave interpretação da +outra +vida, como um bom bisavô risonho; Nossa Senhora +era uma irmã de caridade; os santos, camaradas +hospitaleiros! Era uma religião amavel, toda banhada +de graça, em que uma lagrima pura basta para +remir uma existencia de peccado. Que differente da +soturna doutrina que desde pequena a trazia aterrada +<span class="pagenum">[582]</span> +e tremula! Tão differente—como aquella pequena +capella d'aldeia da vasta massa de cantaria da +Sé. Lá, na velha Sé, muralhas da +espessura de covados +separavam da vida humana e natural: tudo +era escuridão, melancolia, penitencia, faces severas +d'imagens; nada do que faz a alegria do mundo alli +entrava, nem o alto azul, nem os passaros, nem o +ar largo dos prados, nem os risos dos labios vivos; +alguma flôr que havia era artificial; o +enxota-cães lá +se postava ao portal para não deixar passar as criancinhas; +até o sol estava exilado, e toda a luz que +havia vinha dos lampadarios funebres. E alli, na capellita +dos Poyaes, que familiaridade da natureza +com o bom Deus! Pelas portas abertas penetrava a +aragem perfumada das madresilvas; pequerruchos +brincando faziam sonoras as paredes caiadas; o altar +era como um jardinete e um pomar; pardaes +atrevidos vinham chilrear até junto aos pedestaes +das cruzes; ás vezes um boi grave mettia o focinho +pela porta com a antiga familiaridade do curral de +Belem, ou uma ovelha tresmalhada vinha regosijar-se +de vêr um da sua raça, o Cordeiro Paschal, dormir +regaladamente ao fundo do altar com a santa +cruz entre as patas. +<br /> + +<br /> + +Além d'isso o bom abbade, como elle lhe dissera, +«não queria impossiveis». Sabia bem que +ella +não podia arrancar n'um momento aquelle amor culpado, +que ganhára raizes até ás profundezas +do seu +sêr. Queria apenas que quando a assaltasse a idéa +de Amaro se abrigasse logo na idéa de Jesus. Com +<span class="pagenum">[583]</span> +a força colossal de Satanaz, que tem o poder d'um +Hercules, uma pobre rapariga não póde luctar +braço +a braço: póde sómente refugiar-se na +oração quando +o sente, e deixal-o fatigar-se de rugir e espumar +em torno d'esse asylo impenetravel. Elle mesmo cada +dia a ia ajudando n'aquella repurificação da +alma, +com uma solicitude de enfermeiro: fôra elle +que lhe marcára, como um ensaiador n'um theatro, +a attitude que devia ter na primeira visita de Amaro +á Ricoça; era elle que chegava, com alguma breve +palavra reconfortante como um cordial, se a via +vacillar n'aquella lenta reconquista da virtude; se +a noite fôra agitada das lembranças calidas dos +prazeres +passados, era durante toda a manhã uma boa +palestra, sem tom pedagogico, em que lhe mostrava +familiarmente que o céo lhe daria alegrias +maiores que o quarto enxovalhado do sineiro. Chegára, +com uma subtileza de theologo, a demonstrar-lhe +que no amor do parocho não havia senão +brutalidade +e furor bestial; que, dôce como era o amor +do homem, o amor do padre só podia ser uma +explosão +momentanea do desejo comprimido; quando +tinham começado as cartas do parocho, +analysára-lh'as +phrase a phrase, revelando-lhe o que ellas +continham de hypocrisia, de egoismo, de rhetorica, +e de desejo torpe... +<br /> + +<br /> + +Ia-a assim lentamente desgostando do parocho. +Mas não a desgostava do amor legitimo, purificado +pelo sacramento; conhecia bem que ella era toda +de carne e de desejos, e que lançal-a violentamente +<span class="pagenum">[584]</span> +no mysticismo seria apenas torcer-lhe um momento +o instincto natural e não crear-lhe uma paz duradoura. +Não tentava arrancal-a bruscamente á realidade +humana; elle não a queria para freira; só +desejava +que aquella força amante que sentia n'ella +servisse á alegria d'um esposo e á util harmonia +d'uma familia, e não se gastasse erradamente em +concubinagens casuaes... No fundo, o bom Ferrão +preferiria decerto na sua alma de sacerdote que a +rapariga se separasse absolutamente de todos os interesses +egoistas do amor individual, e se désse, +como irmã da caridade, como enfermeira d'um recolhimento, +ao amor mais largo de toda a humanidade. +Mas a pobre Ameliasita tinha a carne muito +bonita e muito fraca; não seria prudente assustal-a +com sacrificios tão altos; era toda mulher—toda mulher +devia ficar; limitar-lhe a acção era estragar-lhe +a utilidade. Christo não lhe bastava com os seus +membros ídeaes pregados na cruz: era-lhe necessario +um homem como todos, de bigode e chapéo alto. +Paciencia! Que ao menos elle fosse um esposo sob +a legitimação sacramental... +<br /> + +<br /> + +Assim a ia curando d'aquella paixão morbida +com uma direcção de todos os dias, uma d'estas +persistencias +de missionario que só dá a fé sincera, +pondo a subtileza d'um casuista ao serviço da moralidade +d'um philosopho, paternal e habil—uma +cura maravilhosa de que o bom abbade em segredo +tirava alguma vaidade. +<br /> + +<br /> + +E foi grande a sua alegria quando lhe pareceu +<span class="pagenum">[585]</span> +que emfim a paixão por Amaro já não +era na alma +d'ella um sentimento vivo; mas estava morto, embalsamado, +arrumado no fundo da sua memoria como +n'um jazigo, escondido já sob a delicada florescencia +d'uma virtude nova. Assim julgava pelo menos +o bom Ferrão—vendo-a agora alludir ao passado +com o olhar tranquillo, sem aquelles rubores que +outr'ora lhe escaldavam a face ao simples nome de +Amaro. +<br /> + +<br /> + +Ella, com effeito, já não pensava no senhor +parocho +com a commoção d'outr'ora: o terror do peccado, +a influencia penetrante do abbade, aquella +brusca separação do meio devoto em que o seu +amor se desenvolvera, o gozo que sentia n'uma serenidade +maior, sem sustos nocturnos e sem a inimizade +de Nossa Senhora, tudo concorrêra para que +o fogo ruidoso d'aquelle sentimento se fosse reduzindo +a alguma braza que rebrilhava surdamente. +O parocho estivera ao principio na sua alma com o +prestigio d'um idolo coberto d'oiro; mas tantas vezes, +desde a sua gravidez, sacudira, nas horas de +terror religioso ou de arrependimento hysterico, +aquelle idolo, que todo o dourado lhe ficára nas +mãos, e a fórma trivial e escura que apparecia +por +baixo já não a deslumbrava; viu por isso o abbade +derrubar-lh'o inteiramente, sem chorar e sem luctar. +Se ainda pensava em Amaro, é porque não podia +deixar de pensar na casa do sineiro; mas o que a +tentava ainda era o prazer e não o parocho. +<br /> + +<br /> + +E com a sua natureza de boa rapariga tinha um +<span class="pagenum">[586]</span> +reconhecimento sincero pelo abbade. Como dissera a +Amaro n'aquella tarde, «devia-lhe tudo». Era o que +sentia agora tambem pelo doutor Gouvêa, que vinha +regularmente vêr a velha de dois em dois dias. +Eram os seus bons amigos, como dois papás que o +céo lhe mandava—um que lhe promettia a saude, +outro a graça. +<br /> + +<br /> + +Refugiada n'aquellas duas protecções, gozou uma +paz adoravel nas ultimas semanas de outubro. Os +dias iam muito serenos e muito tepidos. Era bom +estar no terraço, pelas tardes, n'aquella serenidade +outonal dos campos. O doutor Gouvêa ás vezes +encontrava-se +com o abbade Ferrão; ambos se estimavam; +depois da visita á velha, iam para o terraço, +e começavam logo as suas eternas questões sobre +Religião e sobre Moral. +<br /> + +<br /> + +Amelia, com a costura cahida nos joelhos, sentindo +os seus dois amigos ao pé, aquelles dois colossos +de sciencia e de santidade, abandonava-se ao +encanto da hora suave, olhando a quinta onde as +arvores já empallideciam. Pensava no futuro; elle +apparecia-lhe agora facil e seguro; era forte, e o +parto, com a presença do doutor, seria apenas uma +hora de dôres; depois, livre d'aquella +complicação, +voltaria para a cidade e para a mamã... E então +uma outra esperança, que nascera das conversas constantes +do abbade sobre João Eduardo, vinha bailar-lhe +na imaginação. Porque não?... Se o +pobre rapaz +a amasse ainda, e perdoasse!... Elle nunca lhe repugnára +como homem, e seria um casamento esplendido +<span class="pagenum">[587]</span> +agora que elle tinha a amizade do Morgado. Dizia-se +que João Eduardo ia ser o administrador da +casa... E entrevia-se vivendo nos Poyaes, passeando +na caleche do Morgado, chamada para jantar por +uma campainha, servida por um escudeiro de libré... +Ficava muito tempo immovel, banhada na doçura +d'esta perspectiva, emquanto o abbade e o doutor +ao fundo do terraço pelejavam sobre a doutrina +da Graça e da Consciencia, e monotonamente a agua +das regas murmurava no pomar. +<br /> + +<br /> + +Foi por este tempo que D. Josepha, inquieta de +não vêr apparecer o senhor parocho, +mandára expressamente +o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria +a esmola d'uma visita. O homem voltára com a espantosa +noticia de que o senhor parocho partira para +a Vieira, e não viria senão d'ahi a duas semanas. +A velha choramingou de desgosto. E Amelia, n'essa +noite, no seu quarto, não pôde adormecer—na +irritação +que lhe dava aquella idéa do senhor parocho +a divertir-se na Vieira, sem pensar n'ella decerto, +chalaceando com as senhoras na praia, e andando de +serão em serão... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Com a primeira semana de novembro vieram +as chuvas. A Ricoça parecia agora mais lugubre +n'aquelles dias curtos, banhados d'agua, sob um céo +de tempestade. O abbade Ferrão, tolhido de rheumatismo, +já não apparecia na quinta. O doutor +Gouvêa, +<span class="pagenum">[588]</span> +depois da visita de meia hora, abalava no seu velho +<em>cabriolet</em>. A unica +distracção de Amelia era estar á +janella por dentro dos vidros: tres vezes vira passar +João Eduardo na estrada; mas elle ao avistal-a baixava +os olhos ou refugiava-se mais sob o guardachuva. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia vinha tambem frequentemente: devia +ser a parteira, apesar do doutor Gouvêa ter aconselhado +a Michaela, matrona d'uma experiencia de +trinta annos. Mas Amelia «não queria mais gente no +segredo», e além d'isso Dionysia trazia-lhe as +noticias +d'Amaro, que ella sabia pela cozinheira. O senhor +parocho tinha-se achado tão bem na Vieira que +se ia demorar até dezembro. Aquelle «procedimento +infame» indignava-a: não duvidava que o parocho +queria estar longe quando chegassem os transes, os +perigos do parto. Além d'isso era decidido d'ha muito +que a criança havia de ser entregue a uma ama +de ao pé de Ourem, que a criaria na aldeia: e agora +o tempo chegava, e a ama não estava fallada, +e o senhor parocho apanhava conchinhas á beira-mar!... +<br /> + +<br /> + +—É indecente, Dionysia, exclamava Amelia furiosa. +<br /> + +<br /> + +—Ah! não me parece bem, não. Que eu podia +fallar á ama... Mas bem vê, são coisas +muito sérias... +O senhor parocho é que se encarregou de tudo... +<br /> + +<br /> + +—É infame! +<br /> + +<br /> + +Além d'isso ella descuidára-se do enxoval—e alli +<span class="pagenum">[589]</span> +estava na vespera de ter a criança, sem um trapo +para a cobrir, sem dinheiro para lh'o comprar! A +Dionysia tinha-lhe mesmo offerecido algumas peças +de enxoval, que uma mulher que ella tivera em casa +lhe deixára empenhadas. Mas Amelia recusára-se +a que o seu filho usasse cueiros alheios, trazendo-lhe +talvez um contagio de doença ou uma sorte infeliz. +<br /> + +<br /> + +E por orgulho não queria escrever a Amaro. +<br /> + +<br /> + +Além d'isso as impertinencias da velha tornavam-se +odiosas. A pobre D. Josepha, privada dos auxilios +devotos d'um padre, um verdadeiro padre (não um +abbade Ferrão), sentia a sua velha alma indefesa exposta +a todas as audacias de Satanaz: a visão singular +que tivera de S. Francisco Xavier nú, repetia-se +agora com uma insistencia pavorosa a respeito +de todos os santos: era toda uma côrte do céo, +arrojando tunicas e habitos, e bailando-lhe na +imaginação +sarabandas em pêllo: e a velha estava morrendo +da perseguição d'estes espectaculos dispostos +pelo demonio. Reclamára o padre Silverio, mas parecia +que um rheumatismo geral tolhia todo o clero +diocesano: desde o principio do inverno o Silverio +estava tambem de cama. O abbade da Cortegassa, +chamado urgentemente, veio—mas para lhe communicar +a receita nova que descobrira de fazer bacalhau +à biscainha... Esta falta d'um padre virtuoso +dava-lhe um humor feroz, que recahia sobre Amelia +n'uma chuva de impertinencias. +<br /> + +<br /> + +E a boa senhora estava pensando sériamente em +<span class="pagenum">[590]</span> +mandar a Amor pelo padre Brito—quando uma tarde, +ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor parocho +appareceu! +<br /> + +<br /> + +Vinha magnifico, trigueiro do sol e do ar do mar, +de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente +ácerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, +da pesca que fizera, dos soberbos quinos +fazia passar n'aquelle triste quarto de doente velha +todo um sopro vivificante da vida divertida á beira-mar. +D. Josepha tinha duas lagrimas nas palpebras +do gozo de vêr o senhor parocho, de o ouvir. +<br /> + +<br /> + +—E a mamã passa bem, disse elle a Amelia. Já +tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze +tostões a uma batotinha que se arranjou... E por +cá que têm feito? +<br /> + +<br /> + +Então a velha rompeu em queixumes amargos: +Uma solidão! Um tempo de chuva! Uma falta de +amizades! Ai! ella estava alli a perder a sua alma +n'aquella quinta fatal... +<br /> + +<br /> + +—Pois eu, disse o padre Amaro traçando a perna, +dei-me tão bem que estou com idéas de voltar +para a semana. +<br /> + +<br /> + +Amelia, sem se conter, exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Ora essa! outra vez! +<br /> + +<br /> + +—Sim, disse elle. Se o senhor chantre me der +uma licença d'um mez, vou lá passal-o... Fazem-me +uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo +um par de banhos... Estava farto de Leiria, e +d'aquelle aborrecimento... +<span class="pagenum">[591]</span> +<br /> + +<br /> + +A velha parecia desolada. O quê, voltar! Deixal-as +alli a estarrecer de tristeza! +<br /> + +<br /> + +Elle galhofou: +<br /> + +<br /> + +—Ora, as senhoras não precisam cá de mim. +Estão +bem acompanhadas... +<br /> + +<br /> + +—Eu não sei, disse a velha com azedume, se +os <em>outros</em>—e accentuou com rancor a +palavra—se +os <em>outros</em> não precisam do +senhor parocho... Eu é +que não estou <em>bem +acompanhada</em>, estou aqui a perder +a minha alma... Que as companhias que ahi +vêm não dão honra nem proveito. +<br /> + +<br /> + +Mas Amelia acudiu para contrariar a velha: +<br /> + +<br /> + +—E de mais a mais o senhor abbade Ferrão tem +estado doente... Está com rheumatismo. Sem elle a +casa parece uma prisão. +<br /> + +<br /> + +D. Josepha deu um risinho d'escarneo. E o padre +Amaro, erguendo-se para sahir, lamentou o bom abbade: +<br /> + +<br /> + +—Coitado! Santo homem... Hei de ir vêl-o em +tendo vagar. Pois ámanhã cá +appareço, D. Josepha, +e havemos de pôr essa alma em paz... Não se +incommode, +snr.<sup>a</sup> D. Amelia, eu sei agora o caminho. +<br /> + +<br /> + +Mas ella insistiu em o acompanhar. Atravessaram +o salão sem uma palavra. Amaro calçava as suas +luvas +novas de pellica preta. E no alto da escada, +muito ceremoniosamente, tirando o chapéo: +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora... +<br /> + +<br /> + +E Amelia ficou petrificada vendo-o descer muito +tranquillo—como se ella lhe fosse mais indifferente +<span class="pagenum">[592]</span> +que os dois leões de pedra, que em baixo dormiam +com o focinho nas patas. +<br /> + +<br /> + +Foi para o quarto chorar de bruços sobre a cama, +de raiva e de humilhação. O infame! E nem uma +palavra +sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! +Nem um olhar d'interesse para o seu corpo desfigurado +por aquella prenhez que elle lhe dera! Nem +uma queixa irritada por todos os desprezos que ella +lhe mostrára!... Nada! Calçava as luvas, com o +chapéo ao lado. Que indigno! +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve +muito tempo fechado no quarto com a velha. +<br /> + +<br /> + +Amelia, impaciente, rondava no salão com os +olhos como carvões. Elle appareceu emfim, como na +vespera, calçando as suas luvas com um ar prospero. +<br /> + +<br /> + +—Então já? disse ella n'uma voz que tremia. +<br /> + +<br /> + +-Já, sim, minha senhora. Estive n'uma praticasinha +com a D. Josepha. +<br /> + +<br /> + +Tirou o chapéo, comprimentando muito profundamente: +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora... +<br /> + +<br /> + +Amelia, livida, murmurou: +<br /> + +<br /> + +—Infame! +<br /> + +<br /> + +Elle olhou-a, como assombrado: +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora...—repetiu. +<br /> + +<br /> + +E, como na vespera, desceu vagarosamente a +larga escadaria de pedra. +<br /> + +<br /> + +O primeiro pensamento d'Amelia foi denuncial-o +ao vigario geral. Depois passou a noite escrevendo-lhe +<span class="pagenum">[593]</span> +uma carta—tres paginas de accusações e de +lastimas. Mas toda a resposta d'Amaro, ao outro dia, +mandada verbalmente pelo Joãosito da quinta, foi +«que talvez apparecesse por lá na +quinta-feira». +<br /> + +<br /> + +Teve outra noite de lagrimas—emquanto na rua +das Sousas o padre Amaro esfregava as mãos, no +regosijo do seu «famoso estratagema». E todavia +não o concebera elle mesmo; tinha-lhe sido suggerido +na Vieira, onde fôra para desabafar com o padre-mestre +e espalhar a mágoa nos ares da praia; +fôra lá que elle o aprendera, o «famoso +estratagema», +n'uma <em>soirée</em>, ouvindo +dissertar sobre o amor +o brilhante Pinheiro, premiado em direito e gloria +d'Alcobaça. +<br /> + +<br /> + +—Eu n'isso, minhas senhoras—dizia o Pinheiro, +passando a mão pela cabelleira de poeta, ao +semi-círculo +de damas que pendiam dos seus labios +d'ouro—eu n'isso sou da opinião de Lamartine (era +alternadamente da opinião de Lamartine ou de Pelletan). +Digo como Lamartine: a mulher é igual á +sombra; se correis atraz d'<em>ella</em>, +foge-vos; se fugis +d'<em>ella</em>, corre atraz de +vós! +<br /> + +<br /> + +Houve um <em>muito bem</em>, exclamado com +convicção: +mas uma senhora de grandes proporções, +mãi +de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia +o Pinheiro), quiz explicações, porque nunca tinha +visto fugir uma sombra. +<br /> + +<br /> + +O Pinheiro deu-as, scientificamente: +<br /> + +<br /> + +—É muito facil d'observar, snr.<sup>a</sup> D. +Catharina. +Colloque-se vossa excellencia na praia, quando o sol +<span class="pagenum">[594]</span> +começa a declinar, com as costas para o astro. Se +vossa excellencia caminha em frente, perseguindo a +sombra, ella vai-lhe adiante, fugindo... +<br /> + +<br /> + +—Physica recreativa, muito interessante! murmurou +o escrivão de direito ao ouvido d'Amaro. +<br /> + +<br /> + +Mas o parocho não o escutava; bailava-lhe já na +imaginação «o famoso +estratagema». Ah! mal voltasse +a Leiria, havia de tratar Amelia como uma +sombra e fugir-lhe para ser seguido...—E o resultado +delicioso alli estava—tres paginas de paixão, +com manchas de lagrimas no papel. +<br /> + +<br /> + +Na quinta-feira appareceu, com effeito. Amelia +esperava-o no terraço, d'onde estivera desde +manhã +vigiando a estrada com um binoculo de theatro. +Correu a abrir-lhe o portãosinho verde no muro do +pomar. +<br /> + +<br /> + +—Então, por aqui! disse-lhe o parocho, subindo +atraz d'ella ao terraço. +<br /> + +<br /> + +—É verdade, como estou sósinha... +<br /> + +<br /> + +—Sósinha? +<br /> + +<br /> + +—A madrinha está a dormir e a Gertrudes foi +á cidade... Tenho estado toda a manhã aqui ao +sol. +<br /> + +<br /> + +Amaro ía penetrando pela casa, sem responder; +diante d'uma porta aberta parou, vendo um grande +leito de docel, e em redor cadeiras de couro de convento. +<br /> + +<br /> + +—É o seu quarto aqui, hein? +<br /> + +<br /> + +—É. +<br /> + +<br /> + +Elle entrou familiarmente, com o chapéo na +cabeça. +<span class="pagenum">[595]</span> +<br /> + +<br /> + +—Muito melhor que o da rua da Misericordia. E +boas vistas... São as terras do Morgado, além... +<br /> + +<br /> + +Amelia cerrára a porta, e indo direita a elle, +com os olhos chammejantes: +<br /> + +<br /> + +—Porque não respondeste á minha carta? +<br /> + +<br /> + +Elle riu: +<br /> + +<br /> + +—É boa! E porque não respondeste tu +ás minhas? +Quem começou? Foste tu. Dizes que não queres +peccar mais. Tambem eu não quero peccar mais. +Acabou-se... +<br /> + +<br /> + +—Mas não é isso! exclamou ella pallida +d'indignação. +É que ha a pensar na criança, na ama, no +enxoval... Não é abandonar-me +p'r'áqui!... +<br /> + +<br /> + +Elle poz-se sério, e com um tom resentido: +<br /> + +<br /> + +—Peço perdão... Eu prezo-me de ser um +cavalheiro. +Tudo isso ha de ficar arranjado antes de voltar +p'r'á Vieira... +<br /> + +<br /> + +—Tu não voltas p'r'á Vieira! +<br /> + +<br /> + +—Quem é que diz isso? +<br /> + +<br /> + +—Eu, que não quero que vás! +<br /> + +<br /> + +Puzera-lhe fortemente as mãos nos hombros, retendo-o, +apoderando-se d'elle: e alli mesmo, sem +reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe +como outr'ora. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +D'ahi a dois dias o abbade Ferrão appareceu +restabelecido do seu ataque de rheumatismo. Contou +a Amelia a bondade do Morgado, que chegára a +<span class="pagenum">[596]</span> +mandar-lhe todas as tardes, n'um apparelho de lata +com agua quente, uma gallinha cozida em arroz. +Mas era sobretudo a João Eduardo que devia a caridade +melhor; todas as suas horas vagas as passava +ao pé da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, +ficando com elle até á uma hora da noite n'um +zelo de enfermeiro. Que rapaz! que rapaz! +<br /> + +<br /> + +E de repente, tomando as mãos ambas d'Amelia, +exclamou: +<br /> + +<br /> + +—Diga-me, dá licença que eu lhe conte tudo, +que lhe explique?... Que arranje que elle perdôe. +e esqueça... E que se faça este casamento, se +faça +esta felicidade? +<br /> + +<br /> + +Ella balbuciou espantada, toda escarlate: +<br /> + +<br /> + +—Assim de repente... Não sei... Hei de pensar... +<br /> + +<br /> + +—Pense. E Deus a alumie! disse o velho com +fervor. +<br /> + +<br /> + +Era n'essa noite que Amaro devia entrar pelo +portalzinho do pomar de que Amelia lhe dera a chave. +Infelizmente tinham esquecido a matilha do caseiro. +E apenas Amaro pôz o pé dentro do pomar, +rompeu pelo silencio da noite escura um tão desabrido +ladrar de cães—que o senhor parocho abalou +pela estrada, batendo o queixo de terror. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXIV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Amaro n'essa manhã mandou á pressa chamar a +Dionysia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona +que estava no mercado veio tarde, quando +elle á volta da missa acabava d'almoçar. +<br /> + +<br /> + +Amaro queria saber <em>ao certo e +immediatamente</em> +para quando estava a <em>coisa</em>... +<br /> + +<br /> + +—O bom successo da pequena?... Entre quinze +a vinte dias... Porquê, ha novidade? +<br /> + +<br /> + +Havia; e o parocho leu-lhe então em confidencia +uma carta que tinha ao lado. +<br /> + +<br /> + +Era do conego, que escrevia da Vieira, dizendo +«que a S. Joanneira tinha já trinta banhos e +queria +voltar! Eu, (acrescentava), perco quasi todas as semanas +tres, quatro banhos, de proposito para os espaçar +e dar tempo, porque cá a minha mulher já +<span class="pagenum">[598]</span> +sabe que eu sem os meus cincoenta não vai. Ora +já tenho quarenta, veja lá vossê. +Demais por aqui +começa a fazer frio devéras. Já se tem +retirado muita +gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio +em que estado estão as coisas.» E n'um +<em>post-scriptum</em> +dizia: «Tem vossê pensado que destino se ha +de dar ao <em>fructo</em>?» +<br /> + +<br /> + +—Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a +Dionysia. +<br /> + +<br /> + +E Amaro alli mesmo escreveu a resposta ao conego, +que a Dionysia devia levar ao correio: «A +coisa póde estar prompta d'aqui a vinte dias. Suspenda +por todo o modo a volta da mãi! Isso de +modo nenhum! Diga-lhe que a pequena não escreve +nem vai, porque a excellentissima mana passa +sempre adoentada.» +<br /> + +<br /> + +E traçando a perna: +<br /> + +<br /> + +—E agora, Dionysia, como diz o nosso conego, +que destino se ha de dar ao <em>fructo</em>? +<br /> + +<br /> + +A matrona arregalou os olhos de surpreza: +<br /> + +<br /> + +—Eu pensei que o senhor parocho tinha arranjado +tudo... Que se ia dar a criança a criar fóra da +terra... +<br /> + +<br /> + +—Está claro, está claro, interrompeu o parocho +com impaciencia. Se a criança nascer viva é +evidente +que se ha de dar a criar, e que ha de ser +fóra da terra... Mas ahi é que está! +Quem ha de +ser a ama? É isso que eu quero que vossê me +arranje. +Vai sendo tempo... +<br /> + +<br /> + +A Dionysia pareceu muito embaraçada. Nunca +<span class="pagenum">[599]</span> +gostára de inculcar amas. Ella conhecia uma boa, +mulher forte e de muito leite, pessoa de confiança; +mas infelizmente entrára no hospital, doente... +Sabia d'outra tambem, até tivera negocios com +ella. Era uma Joanna Carreira. Mas não convinha +porque vivia justamente nos Poyaes, ao pé da +Ricoça. +<br /> + +<br /> + +—Qual não convém! exclamou o parocho. Que +tem que viva na Ricoça?... Em a rapariga convalescendo +as senhoras vêm p'r'á cidade, e não se +falla +mais na Ricoça. +<br /> + +<br /> + +Mas a Dionysia procurava ainda, arranhando devagar +o queixo. Tambem sabia d'outra. Essa morava +para o lado da Barrosa, a boa distancia... Criava +em casa, era o seu officio... Mas n'essa nem fallar! +<br /> + +<br /> + +—Mulher fraca, doente? +<br /> + +<br /> + +A Dionysia chegou-se ao parocho, e baixando a +voz: +<br /> + +<br /> + +—Ai, menino, eu não gosto d'accusar ninguem. +Mas, está provado, é uma tecedeira d'anjos! +<br /> + +<br /> + +—Uma quê? +<br /> + +<br /> + +—<em>Uma tecedeira d'anjos!</em> +<br /> + +<br /> + +—O que é isso? Que significa isso? perguntou +o parocho. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia gaguejou-lhe uma explicação. Eram +mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E +sem excepção as crianças morriam... +Como tinha +havido uma muito conhecida que era tecedeira, e +<span class="pagenum">[600]</span> +as criancinhas iam para o céo... D'ahi é que +vinha +o nome. +<br /> + +<br /> + +—Então as crianças morrem sempre? +<br /> + +<br /> + +—Sem falhar. +<br /> + +<br /> + +O parocho passeava devagar pelo quarto, enrolando +o seu cigarro. +<br /> + +<br /> + +—Diga lá tudo, Dionysia. As mulheres matam-n'as? +<br /> + +<br /> + +Então a excellente matrona declarou que não +queria accusar ninguem! Ella não fôra espreitar. +Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas +as crianças morriam todas... +<br /> + +<br /> + +—Mas quem vai então entregar uma criança a +uma mulher d'essas? +<br /> + +<br /> + +A Dionysia sorriu, apiedada d'aquella innocencia +d'homem. +<br /> + +<br /> + +—Entregam, sim senhor, ás duzias! +<br /> + +<br /> + +Houve um silencio. O parocho continuava o seu +passeio do lavatorio para a janella, de cabeça baixa. +<br /> + +<br /> + +—Mas que proveito tira a mulher, se as crianças +morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas... +<br /> + +<br /> + +—É que se lhe paga um anno de criação +adiantado, +senhor parocho. A dez tostões ao mez, ou +quartinho, segundo as posses... +<br /> + +<br /> + +O parocho agora, encostado á janella, rufava devagar +nos vidros. +<br /> + +<br /> + +—Mas que fazem as auctoridades, Dionysia? +<br /> + +<br /> + +A boa Dionysia encolheu silenciosamente os hombros. +<span class="pagenum">[601]</span> +<br /> + +<br /> + +O parocho então sentou-se, bocejou, e estirando +as pernas disse: +<br /> + +<br /> + +—Bem, Dionysia, vejo que a unica coisa a fazer +é fallar á tal ama que vive ao pé da +Ricoça, á +Joanna Carreira. Eu arranjarei isso... +<br /> + +<br /> + +A Dionysia fallou ainda das peças d'enxoval que +já tinha comprado por conta do parocho, d'um +berço +muito barato em segunda mão que vira no Zé +Carpinteiro—e ia sahir com a carta para o correio, +quando o parocho erguendo-se e galhofando: +<br /> + +<br /> + +—Ó tia Dionysia, essa coisa da <em>tecedeira +d'anjos</em> +é uma historia, hein? +<br /> + +<br /> + +Então a Dionysia escandalisou-se. O senhor parocho +sabia que ella não era mulher d'intrigas. Conhecia +a tecedeira d'anjos ha mais d'oito annos, de lhe +fallar e de a vêr na cidade quasi todas as semanas. +Ainda no sabbado passado a vira sahir da taberna +do Grego... O senhor parocho já tinha ido á +Barrosa? +<br /> + +<br /> + +Esperou a resposta do parocho, e continuou: +<br /> + +<br /> + +—Pois bem, sabe o começo da freguezia. Ha +um muro cahido. Depois é um caminho que desce. +Ao fundo d'esse corregosito encontra um poço +atulhado. Adiante, retirada, ha uma casita que tem +um alpendre. É lá que ella vive... Chama-se +Carlota... +Isto é p'ra lhe mostrar que sei, amiguinho! +<br /> + +<br /> + +O parocho ficou toda a manhã em casa, passeando +pelo quarto, alastrando o chão de pontas de cigarros. +Alli estava agora diante d'aquelle episodio +<span class="pagenum">[602]</span> +fatal que até ahi fôra apenas um cuidado +distante—dispôr +do filho! +<br /> + +<br /> + +Era bem grave entregal-o assim a uma ama desconhecida, +na aldeia. A mãi, naturalmente, havia +de querer ir a todo o momento vêl-o, a ama poderia +fallar aos visinhos. O rapaz viria a ser, na freguezia, +o <em>filho do parocho</em>... Algum +invejoso, que +lhe cubiçasse a parochia, poderia denuncial-o ao senhor +vigario geral. Escandalo, sermão, devassa: e, +se não fosse suspenso, poderia como o pobre Brito +ser mandado para longe, para a serra, outra vez +para os pastores... Ah! se o <em>fructo</em> +nascesse morto! +Que solução natural e perpetua! E para a +criança, +uma felicidade! Que destino podia elle ter n'este +duro mundo? Era o <em>engeitado</em>, era o +<em>filho do padre</em>. +Elle era pobre, a mãi pobre... O rapaz cresceria +na miseria, vadiando, apanhando o estrume das +bestas, ramelloso e tosco... De necessidade em necessidade +iria conhecendo todas as fórmas do inferno +humano: os dias sem pão, as noites regeladas, +a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga +na vida, a valla na morte... E se morresse—era +um anjinho que Deus recolhia ao paraiso... +<br /> + +<br /> + +E continuava passeando tristemente pelo quarto. +Realmente o nome era bem posto, <em>tecedeira +d'anjos</em>... +Com razão, quem prepara uma criança para +a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os +trabalhos e para as lagrimas... Mais vale torcer-lhe +o pescoço, e mandal-a direita para a eternidade +<span class="pagenum">[603]</span> +bemaventurada! Olha elle! Que vida a sua, n'esses +trinta annos atraz! Uma infancia melancolica, +com aquella pêga da marqueza d'Alegros; depois +a casa na Estrella, com o alarve do tio toucinheiro; +e d'ahi as clausuras do seminario, a neve +constante de Feirão, e alli em Leiria tantos transes, +tanta amargura... Se lhe tivessem esmagado o craneo +ao nascer, estava agora com duas azas brancas, +cantando nos córos eternos. +<br /> + +<br /> + +Mas emfim não havia que philosophar: era partir +para Poyaes e fallar á ama, á snr.<sup>a</sup> +Joanna +Carreira. +<br /> + +<br /> + +Sahiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. +Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a +idéa, +a curiosidade de ir á Barrosa vêr a +<em>tecedeira</em>... +Não lhe fallaria: examinaria apenas a casa, a figura +da mulher, os aspectos sinistros do sitio... Demais +como parocho, como auctoridade ecclesiastica, +devia observar aquelle peccado organisado n'um recanto +d'estrada, impune e rendoso. Podia mesmo +denuncial-o ao senhor vigario geral ou ao secretario +do governo civil... +<br /> + +<br /> + +Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. +Por aquella tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem +um passeio a cavallo. Não hesitou, então; foi +alugar +uma egoa á estalagem do Cruz; e d'ahi a pouco, +d'espora no pé esquerdo, choutava a direito pelo +caminho da Barrosa. +<br /> + +<br /> + +Ao chegar ao corrego, de que lhe fallára a Dionysia, +<span class="pagenum">[604]</span> +apeou, foi andando com a egoa pela arreata. +A tarde estava admiravel; muito alto no azul, uma +grande ave fazia semi-circulos vagarosos. +<br /> + +<br /> + +Encontrou emfim o poço atulhado ao pé de dois +castanheiros onde passaros ainda chilreavam; adiante +n'um terreno plano, muito isolada, lá estava a +casa com o seu alpendre: o sol declinando batia-lhe +na unica janella do lado, accendendo-a n'um resplendor +d'ouro e braza; e, muito delgado, elevava-se +da chaminé um fumo claro no ar sereno. +<br /> + +<br /> + +Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, +escuro da rama dos pinheiros baixos, a capellinha +da Barrosa punha a alvura alegre da sua parede +muito caiada. +<br /> + +<br /> + +Amaro ia imaginando então a figura da +<em>tecedeira</em>; +sem saber porque, suppunha-a muito alta, com +um carão trigueiro onde dois olhos de bruxa refulgiam. +<br /> + +<br /> + +Defronte da casa prendeu a egoa á cancella, e +olhou pela porta aberta: era uma cozinha terrea, de +grande lareira, com sahida para o pateo estradado +de matto onde dois bacorinhos foçavam. Na prateleira +da chaminé rebrilhava a louça branca. Dos +lados pendiam grandes cassarolas de cobre, d'um lustro +de casa rica. N'um velho armario meio aberto +branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem +que uma claridade parecia sahir do aceio e do arranjo +das coisas. +<br /> + +<br /> + +Amaro então bateu forte as palmas. Uma rôla +<span class="pagenum">[605]</span> +pulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada +da parede. Depois chamou alto: +<br /> + +<br /> + +—Senhora Carlota! +<br /> + +<br /> + +Immediatamente do lado do pateo uma mulher +appareceu, com um crivo na mão. E Amaro, surprehendido, +viu uma agradavel creatura de quasi quarenta +annos, forte de peitos, ampla de encontros, +muito branca no pescoço, com duas ricas arrecadas, +e uns olhos negros que lhe lembraram os d'Amelia +ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joanneira. +<br /> + +<br /> + +Assombrado, balbuciou: +<br /> + +<br /> + +—Creio que me enganei... Aqui é que mora a +senhora Carlota? +<br /> + +<br /> + +Não se enganára, era ella; mas com a +idéa que +a figura medonha «que tecia os anjos» devia estar +algures, agachada n'um vão tenebroso da casa, perguntou +ainda: +<br /> + +<br /> + +—Vossemecê vive aqui só? +<br /> + +<br /> + +A mulher olhou-o desconfiada: +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, disse por fim, vivo com o meu +marido... +<br /> + +<br /> + +Justamente o marido sahia do pateo,—medonho, +esse, quasi anão, com a cabeça embrulhada +n'um lenço e muito enterrada nos hombros, a face +d'uma amarellidão de cera oleosa e lustrosa; no +queixo annelavam-se os pêllos raros d'uma barba +negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, +vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos +d'insomnia e de bebedeira. +<span class="pagenum">[606]</span> +<br /> + +<br /> + +—Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma +coisa? disse, muito collado á saia da mulher. +<br /> + +<br /> + +Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando +uma historia que ia forjando laboriosamente. Era +uma parente que ia ter o seu bom successo. O +marido não pudéra vir fallar-lhes porque estava +doente... Queriam uma ama para lhes ir para casa, +e tinham-lhe dito... +<br /> + +<br /> + +—Não, fóra de casa, não. +Cá em casa—disse o +anão que não se despegava das saias da mulher, +mirando o parocho de lado com o seu medonho olho +injectado. +<br /> + +<br /> + +Ah, então tinham-n'o informado mal... Sentia; +mas o que o parente queria era uma ama para +casa. +<br /> + +<br /> + +Veio dirigindo-se para a egoa, devagar; parou, +e abotoando o casacão: +<br /> + +<br /> + +—Mas em casa recebem crianças para +criação?...—perguntou +ainda. +<br /> + +<br /> + +—Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia. +<br /> + +<br /> + +Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão +ao estribo, demorando-se, rondando em torno da +cavalgadura: +<br /> + +<br /> + +—É necessario trazer-lh'a cá, já se +sabe. +<br /> + +<br /> + +O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher +que ficára á porta da cozinha. +<br /> + +<br /> + +—Tambem se lhe vai buscar, disse. +<br /> + +<br /> + +Amaro batia palmadas no pescoço da egoa. +<br /> + +<br /> + +—Mas sendo a coisa de noite, agora com este +frio, é matar a criança... +<span class="pagenum">[607]</span> +<br /> + +<br /> + +Então os dois, fallando ao mesmo tempo, affirmaram +que não lhe fazia mal. Havendo, já se sabe, +carinho e agasalho... +<br /> + +<br /> + +Amaro cavalgou vivamente a egoa, deu as boas +tardes, e trotou pelo corrego. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Amelia agora começava a andar assustada. De +dia e de noite só pensava n'aquellas horas, que se +avisinhavam, em que devia sentir chegarem as dôres. +Soffria mais que durante os primeiros mezes; tinha +tonturas, perversões de gosto—que o doutor Gouvêa +observava, franzindo a testa descontente. As +noites eram más, n'uma turbação de +pesadêlos. Já +não eram as allucinações religiosas: +isso cessára +n'uma subita aplacação de todo o terror devoto: +não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma +santa canonisada. Eram outros medos, sonhos em +que o parto se lhe representava de modos monstruosos: +ora era um sêr medonho que lhe saltava das +entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era +uma cobra infindavel que lhe sahia de dentro, durante +horas, como uma fita de leguas, enrolando-se +no quarto em roscas successivas que ganhavam a +altura do tecto: e acordava em tremuras nervosas +que a deixavam prostrada. +<br /> + +<br /> + +Mas anciava por ter a criança. Estremecia á +idéa +de vêr um dia inesperadamente a mãi apparecer na +Ricoça. Ella escrevera-lhe, queixando-se do senhor +<span class="pagenum">[608]</span> +conego que a retinha na Vieira, dos temporaes que +já reinavam, da solidão que se ia fazendo na +praia. +Além d'isso D. Maria da Assumpção +voltára; felizmente, +uma noite providencialmente gelada dera-lhe +durante a jornada uma inflammação dos +bronchios—e +estava de cama para semanas, segundo +dizia o doutor Gouvêa. O Libaninho, esse, tambem +viera á Ricoça; e sahira lastimando-se de +não ter +visto a Amelinha «que tinha n'esse dia enxaqueca». +<br /> + +<br /> + +—Se isto se demora mais quinze dias, vem-se +a descobrir tudo, dizia ella, choramigando, a Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Paciencia, filha. Não se póde forçar +a natureza... +<br /> + +<br /> + +—O que tu me tens feito soffrer! suspirava ella, +o que tu me tens feito soffrer! +<br /> + +<br /> + +Elle calava-se resignado—muito bom, muito +terno agora com ella. Vinha-a vêr quasi todas as +manhãs, porque não queria pelas tardes encontrar +o abbade Ferrão. +<br /> + +<br /> + +Tranquillisára-a a respeito da ama, dizendo-lhe +que fallára á mulher da Ricoça +inculcada pela Dionysia. +Era uma escolha rica a snr.<sup>a</sup> Joanna Carreira! +Mulher forte como um carvalho, com barricas +de leite, e dentes de marfim... +<br /> + +<br /> + +—Fica-me tão longe para vir vêr depois a +criança...—suspirava ella. +<br /> + +<br /> + +Tomavam-n'a agora pela primeira vez enthusiasmos +de mãi. Desesperava-se em não poder ella +mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz—porque +havia de ser um rapaz!—se chamasse +<span class="pagenum">[609]</span> +Carlos. Scismava-o já homem, e official de cavallaria. +Enternecia-se com a esperança de o vêr gatinhar... +<br /> + +<br /> + +—Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a +vergonha!... +<br /> + +<br /> + +—Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro. +<br /> + +<br /> + +Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os +dias era a idéa de elle ser um engeitadinho! +<br /> + +<br /> + +Um dia veio ao abbade com um plano extraordinario +«que lhe inspirára Nossa Senhora»: ella +casaria +já com João Eduardo, mas o rapaz devia por +uma escriptura adoptar o Carlinhos! Que para que +o anjinho não fosse um engeitado, casava até com +um calceteiro da estrada! E apertava as mãos do +abbade, n'uma supplicação loquaz. Que convencesse +João Eduardo, que désse um papá ao +Carlinhos! +Queria ajoelhar aos pés d'elle, do senhor abbade, +que era o seu pai e o seu protector. +<br /> + +<br /> + +—Oh, minha senhora, socegue, socegue. Esse é +tambem o meu desejo, como lhe disse. E ha de arranjar-se, +mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado +d'aquella excitação. +<br /> + +<br /> + +Depois, d'ahi a dias, foi outra exaltação; +descobrira +de repente, uma manhã, que não devia trahir +Amaro, «porque era o papá do seu +Carlinhos». +E disse-o ao abbade; fez córar os sessenta annos do +bom velho, palrando muito convencidamente dos +seus deveres d'esposa para com o parocho. +<br /> + +<br /> + +O abbade, que ignorava as visitas do parocho todas +as manhãs, assombrou-se. +<span class="pagenum">[610]</span> +<br /> + +<br /> + +—Minha senhora, que está a dizer? que está a +dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei +que lhe tinham passado essas loucuras. +<br /> + +<br /> + +—Mas é o pai do meu filho, senhor abbade, disse +ella, olhando-o muito séria. +<br /> + +<br /> + +Fatigou então Amaro toda uma semana com uma +ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que +era o «papá do seu Carlinhos». +<br /> + +<br /> + +—Bem sei, filha, bem sei, dizia elle impaciente. +Obrigado. Não me gabo da honra... +<br /> + +<br /> + +Ella chorava, então, aninhada no sofá. Era +necessaria +toda uma complicação de caricias para a +calmar. Fazia-o sentar n'um banquinho junto d'ella; +tinha-o alli como um boneco, contemplando-o, coçando-lhe +devagarinho a corôa; queria que se tirasse +a photographia ao Carlinhos para a trazerem ambos +n'uma medalha ao pescoço; e se ella morresse, +elle havia de levar o Carlinhos á sepultura, ajoelhal-o, +pôr-lhe as mãosinhas, fazel-o rezar pela +mamã. +Atirava-se então para a almofada, tapando o +rosto com as mãos: +<br /> + +<br /> + +—Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre +de mim! +<br /> + +<br /> + +—Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso. +<br /> + +<br /> + +Ah, aquellas manhãs na Ricoça! Eram para elle +como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir +á velha escutar-lhe as lamurias. Depois, era aquella +hora com Amelia, que o torturava com as pieguices +d'um sentimentalismo hysterico,—estirada no sofá, +<span class="pagenum">[611]</span> +grossa como um tonel, com a face entumecida, os +olhos papudos... +<br /> + +<br /> + +N'uma d'essas manhãs, Amelia, que se queixava +de caimbras, quiz dar um passeio pelo quarto apoiada +a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho +robe-de-chambre, quando se sentiram, em baixo +no caminho, passos de cavallos: chegaram á janella—mas +Amaro recuou vivamente, deixando Amelia +que embasbacára com a face contra a vidraça. Na +estrada, galhardamente montado n'uma egoa baia, +passava João Eduardo de paletot branco e chapéo +alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um n'um +poney, outro acorreado n'um burro; e atraz, a distancia, +n'um passo de respeito e de cortejo, um criado +de farda, de bota de cano e esporões enormes, +com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga +rugas grotescas, e no chapéo a roseta escarlate. Ella +ficára assombrada, seguindo-os até que as costas +do +lacaio desappareceram à esquina da casa. Sem uma +palavra, veio sentar-se no sofá. Amaro, que continuava +passeando pelo quarto, teve então um risinho +sarcastico: +<br /> + +<br /> + +—O idiota, de lacaio á retaguarda! +<br /> + +<br /> + +Ella não respondeu, muito escarlate. E Amaro, +chocado, sahiu atirando com a porta, foi para o +quarto de D. Josepha contar-lhe a cavalgada, e vituperar +o Morgado. +<br /> + +<br /> + +—Um excommungado de criado de farda! exclamava +a boa senhora, com as mãos apertadas na +<span class="pagenum">[612]</span> +cabeça. Que vergonha, senhor parocho, que vergonha +para a nobreza d'estes reinos! +<br /> + +<br /> + +Desde esse dia Amelia não tornou a choramigar, +se pela manhã o senhor parocho não vinha. Quem +esperava agora com impaciencia era o senhor abbade +Ferrão, pela tarde. Apoderava-se d'elle, queria-o +n'uma cadeira junto ao canapé: e depois de rodeios +demorados d'ave que tenteia a presa, cahia sobre +a pergunta fatal—se tinha visto o senhor João +Eduardo? +<br /> + +<br /> + +Queria saber o que elle dissera, se fallára n'ella, +se a avistára á janella. Torturava-o com +curiosidades +sobre a casa do Morgado, a mobilia da sala, +o numero de lacaios e de cavallos, se o criado de +farda servia á mesa... +<br /> + +<br /> + +E o bom abbade respondia com paciencia—contente +de a vêr esquecida do parocho, occupada de +João Eduardo: tinha agora a certeza que aquelle casamento +se faria: ella evitava, de resto, pronunciar +sequer o nome d'Amaro, e uma vez mesmo respondeu +ao abbade que lhe perguntava se o senhor parocho +voltára á Ricoça: +<br /> + +<br /> + +—Ai, vem pela manhã vêr a madrinha... Mas +eu não lhe appareço, que nem estou decente... +<br /> + +<br /> + +Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o +agora á janella, muito arranjada da cinta para cima +que era o que se podia vêr da estrada—enxovalhada +das saias para baixo. Estava esperando João +Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em +quando, com effeito, o gozo de os vêr passar, n'aquelle +<span class="pagenum">[613]</span> +passo bem lançado de cavallos de preço, sobretudo +o da egoa baia de João Eduardo, que elle defronte +da Ricoça fazia sempre ladear, de chicote atravessado +e perna á Marialva, como lhe ensinára o Morgado. +Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e +com o nariz nos vidros seguia-o n'um olhar guloso, +até que á volta da estrada via desapparecer o +pobre +velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até +á nuca e as pernas bamboleantes. +<br /> + +<br /> + +E para João Eduardo que delicia aquelles passeios +com os Morgaditos, na egoa baia! Nunca deixava +de ir á cidade: fazia-lhe bater o +coração o som +das ferraduras sobre o lagedo: ia passar diante da +Amparo da botica, diante do cartorio do Nunes que +tinha a sua banca ao pé da janella, diante da Arcada, +diante do senhor administrador que lá estava na +varanda de binoculo para a Telles—e o seu desgosto +era não poder entrar com a egoa, os Morgaditos +e o lacaio pelo escriptorio do doutor Godinho que +era no interior da casa. +<br /> + +<br /> + +Foi um dia, depois d'um d'esses passeios triumphaes, +que voltando ás duas horas da Barrosa, ao +chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o caminho +de carros, viu de repente o senhor padre Amaro +que descia montado n'um garrano. Immediatamente +João Eduardo fez caracolar a egoa. O caminho +era tão estreito, que apesar de se chegarem às +sebes quasi roçaram os joelhos—e João Eduardo +pôde então, do alto da sua egoa de cincoenta +moedas, +agitando ameaçadoramente o chicote, esmagar +<span class="pagenum">[614]</span> +com um olhar o padre Amaro que se encolhia muito +pallido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando +ferozmente o garrano ronceiro. No alto do +caminho João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre +a sella, e viu o parocho que apeava á porta do casebre +isolado onde ha pouco, ao passar, os Morgaditos +tinham rido «do anão». +<br /> + +<br /> + +—Quem vive alli? perguntou João Eduardo ao +lacaio. +<br /> + +<br /> + +—Uma Carlota... Má gente, snr. Joãosinho! +<br /> + +<br /> + +Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, +poz a passo a egoa baia. Mas não viu por traz +dos vidros a costumada face pallida sob o lenço +escarlate. As portadas da janella estavam meio cerradas; +e ao portão, desatrellado com os varões em +terra, o <em>cabriolet</em> do doutor +Gouvêa. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +É que tinha chegado emfim o dia! N'essa manhã +viera da Ricoça um moço da quinta com um bilhete +de Amelia quasi inintelligivel—<em>Dionysia depressa, +a coisa chegou!</em> Trazia ordem tambem de ir chamar +o senhor doutor Gouvêa. Amaro foi elle mesmo +avisar a Dionysia. +<br /> + +<br /> + +Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josepha, a propria +D. Josepha, lhe inculcára uma ama—que elle +já ajustára, grande mulher, rija como um +castanheiro. +E agora combinaram rapidamente que n'essa +noite Amaro se postaria com a ama á portinha do +<span class="pagenum">[615]</span> +pomar, e Dionysia viria dar-lhe a criança bem atabafada. +<br /> + +<br /> + +—Ás nove da noite, Dionysia. E não nos +faça +esperar!—recommendou-lhe ainda Amaro vendo-a +abalar n'um espalhafato. +<br /> + +<br /> + +Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face +a face com aquella difficuldade que elle sentia como +uma coisa viva fixal-o e interrogal-o:—Que havia +de fazer á criança? Tinha ainda tempo d'ir aos +Poyaes ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionysia +conhecia; ou podia montar a cavallo e ir á +Barrosa fallar á Carlota... E alli estava, diante +d'aquelles dois caminhos, hesitando n'uma agonia. +Queria serenar, discutir aquelle caso como se fosse +um ponto de theologia, pesando-lhe os +<em>prós</em> e os +<em>contras</em>: mas tinha temerariamente +diante de si, em +logar de dois argumentos, duas visões:—a criança +a crescer e a viver nos Poyaes, ou a criança esganada +pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa...—E, +passeando pelo quarto, suava d'angustia, +quando no patamar a voz inesperada do Libaninho +gritou: +<br /> + +<br /> + +—Abre, parochosinho, que sei que estás em casa! +<br /> + +<br /> + +Foi necessario abrir ao Libaninho, apertar-lhe a +mão, offerecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente +não se podia demorar. Passára na rua, e +subira a saber se o amigo parocho tinha noticias +d'aquellas santinhas da Ricoça. +<br /> + +<br /> + +—Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava +a face a sorrir, a prazentear. +<span class="pagenum">[616]</span> +<br /> + +<br /> + +—Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado +mais occupado!... Estou de serviço no quartel... +Não te rias, parochosinho, que estou lá fazendo +muita +virtude... Metto-me com os soldadinhos, fallo-lhes +das chagas de Christo... +<br /> + +<br /> + +—Andas a converter o regimento, disse Amaro +que mexia nos papeis da mesa, passeava, n'uma +inquietação +d'animal preso. +<br /> + +<br /> + +—Não é para as minhas forças, +parocho, que se +eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento +uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, +vão cheios de virtude. Hontem dei outros +iguaes a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de +rapaz... Puz-lh'os eu mesmo por baixo da camisola... +Perfeito rapaz!... +<br /> + +<br /> + +—Devias deixar esses cuidados pelo regimento +ao coronel, disse Amaro abrindo a janella, abafando +d'impaciencia. +<br /> + +<br /> + +—Credo, olha o impio! Se o deixassem desbaptisava +o regimento. Pois adeus, parochosinho. Estás +amarellinho, filho... Precisas purga, eu sei o +que isso é. +<br /> + +<br /> + +Ia a sahir, mas á porta, parando: +<br /> + +<br /> + +—Ai, dize cá, parochosinho, dize cá: tu ouviste +alguma coisa? +<br /> + +<br /> + +—De quê? +<br /> + +<br /> + +—Foi o padre Saldanha que m'o disse. Diz que +o nosso chantre declarára (palavras do Saldanhinha) +que lhe constava que ia na cidade um escandalo +com um senhor ecclesiastico... Mas não disse +<span class="pagenum">[617]</span> +<em>quem</em> nem o +<em>quê</em>... O Saldanha quil-o +sondar, mas +o chantre diz que recebera só uma denuncia vaga, +sem nome... Tenho estado a pensar: quem será? +<br /> + +<br /> + +—Pataratas do Saldanha... +<br /> + +<br /> + +—Ai, filho! Deus queira que sejam. Que quem +folga são os impios... Quando fôres pela +Ricoça dá +recados áquellas santinhas... +<br /> + +<br /> + +E pulou pelos degraus a ir levar «a virtude» ao +batalhão. +<br /> + +<br /> + +Amaro ficára aterrado. Era elle decerto, eram os +seus amores com Amelia que já iam chegando ao vigario +geral em denuncias tortuosas! E alli vinha agora +aquelle filho, criado a meia legua da cidade, ficar +como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinario, +quasi sobrenatural, ter o Libaninho, que em +dois annos não lhe viera a casa duas vezes, ter o +Libaninho entrado com aquella nova terrivel, quando +elle estava alli n'uma batalha com a consciencia. +Era como a Providencia, que sob a fórma grotesca +do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: +«Não deixes viver quem te póde trazer o +escandalo! Olha que já se suspeita de ti!» +<br /> + +<br /> + +Era decerto Deus apiedado que não queria que +houvesse na terra mais um engeitado, mais um miseravel,—e +que <em>reclamava o seu anjo</em>!... +<br /> + +<br /> + +Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, +e d'ahi a cavallo para a casa de Carlota. +<br /> + +<br /> + +Demorou-se lá até ás quatro horas. +<br /> + +<br /> + +De volta a casa atirou o chapéo para cima da cama, +<span class="pagenum">[618]</span> +e sentiu emfim um allivio de todo o seu sêr. +Estava acabado! Lá fallára á Carlota e +ao anão; lá +lhe pagára um anno adiantado; agora era esperar +pela noite!... +<br /> + +<br /> + +Mas na solidão do quarto toda a sorte de +imaginações +morbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar +a criancinha rôxa; via os cabos de policia mais +tarde a desenterrar o cadaver, o Domingos da +administração +redigindo sobre um joelho o auto de corpo +de delicto, e elle, de batina, arrastado para a cadeia +de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! +Tinha quasi vontade de montar a cavallo, voltar á +Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inercia retinha-o. +Depois, nada o forçava á noite a entregar a +criança +á Carlota... Podia leval-a bem agasalhada á +Joanna +Carreira, a boa ama dos Poyaes... +<br /> + +<br /> + +Para escapar áquellas idéas que lhe faziam sob +o craneo um ruido de tormenta, sahiu, foi vêr Natario +que já se erguia—e que lhe gritou immediatamente +do fundo da poltrona: +<br /> + +<br /> + +—Então vossê viu, Amaro! O idiota, de lacaio +atraz! +<br /> + +<br /> + +João Eduardo passára-lhe na rua, na egoa baia, +com os Morgadinhos; e Natario desde então rugia de +impaciencia de estár alli amarrado á cadeira e +não +poder recomeçar a campanha, expulsal-o por uma +boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a egoa +e o lacaio. +<br /> + +<br /> + +—Mas não as perde, em Deus me dando pernas... +<span class="pagenum">[619]</span> +<br /> + +<br /> + +—Deixe lá o homem, Natario, disse Amaro. +<br /> + +<br /> + +Deixal-o! quando tinha uma idéa prodigiosa—que +era provar ao Morgado, com documentos, que o +João Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao +amigo Amaro? +<br /> + +<br /> + +Era engraçado, com effeito. O homem não deixava +de o merecer, só pela maneira como olhava +para a gente de bem, do alto da egoa...—E Amaro +fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, +de manhã, no caminho de carros da Barrosa. +<br /> + +<br /> + +—Está claro! exclamou Natario. Para que somos +nós sacerdotes de Christo? Para exaltar os humildes +e derrubar os soberbos. +<br /> + +<br /> + +D'alli Amaro foi vêr D. Maria da +Assumpção—que +já se erguera tambem—que lhe fez a historia +da sua bronchite e a enumeração dos ultimos +peccados: +o peor era que, para se distrahir um bocado +na convalescença, recostava-se por traz da +vidraça, +e um carpinteiro que mórava defronte embasbacava +para ella; e por influencia do maligno, não tinha +forças para se retirar para dentro, e vinham-lhe pensamentos +maus... +<br /> + +<br /> + +—Mas vossa senhoria não está com +attenção, senhor +parocho. +<br /> + +<br /> + +—Ora essa, minha senhora! +<br /> + +<br /> + +E apressou-se a pacificar-lhe os escrupulos—porque +a salvação d'aquella velha alma idiota era +para elle um emprego melhor que a mesma parochia. +<br /> + +<br /> + +Já escurecia quando entrou em casa. A Escolastica +queixou-se da demora que lhe esturrára o jantar. +<span class="pagenum">[620]</span> +Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho +e uma garfada d'arroz, que enguliu de pé, olhando +com terror pela janella a noite que impassivelmente +cahia. +<br /> + +<br /> + +Entrava no quarto a vêr se os candieiros já +estavam +accêsos, quando o coadjutor appareceu. Vinha +fallar-lhe sobre o baptisado do filho do Guedes, que +estava marcado para o dia seguinte ás nove horas. +<br /> + +<br /> + +—Trago luz?—disse de dentro a criada sentindo +a visita. +<br /> + +<br /> + +—Não! gritou logo Amaro. +<br /> + +<br /> + +Temia que o coadjutor visse a alteração que +sentia +nas faces, ou que se installasse para toda a noite. +<br /> + +<br /> + +—Diz que vem na +<em>Nação</em> d'antes +d'hontem um +artigo muito bom, observou o coadjutor, grave. +<br /> + +<br /> + +—Ah! fez Amaro. +<br /> + +<br /> + +Passeava no seu trilho costumado, do lavatorio +para a janella; parava ás vezes a rufar nos vidros; +já se tinham accendido os candieiros. +<br /> + +<br /> + +Então o coadjutor, chocado com aquella treva +do quarto e aquelle passear de fera n'uma jaula, ergueu-se, +e com dignidade: +<br /> + +<br /> + +—Estou a incommodar talvez... +<br /> + +<br /> + +—Não! +<br /> + +<br /> + +E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu +guardachuva entre os joelhos. +<br /> + +<br /> + +—Agora anoitece mais cedo, disse. +<br /> + +<br /> + +—Anoitece... +<br /> + +<br /> + +Emfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha +uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem +<span class="pagenum">[621]</span> +sahiu, depois de lhe lembrar ainda o baptisado +do menino do seu amigo Guedes. +<br /> + +<br /> + +Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a +noite estava tenebrosa e quente, annunciando chuva. +Ia agora tomado d'uma esperança que lhe fazia +bater o coração: era que a criança +nascesse morta! +E era bem possivel. A S. Joanneira em nova tivera +duas crianças mortas; a anciedade em que vivera +Amelia devia ter perturbado a gestação. E se ella +morresse tambem? Então a esta idéa, que nunca lhe +acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma +ternura por aquella boa rapariga que o amava tanto, +e que agora, por obra d'elle, gritava dilacerada +de dôres. E todavia, se ambos morressem, ella e a +criança, era o seu peccado e o seu erro que cahiam +para sempre nos escuros abysmos da eternidade... +Elle ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um +homem tranquillo, occupado da sua igreja, d'uma +vida limpa e lavada como uma pagina branca! +<br /> + +<br /> + +Parou junto ao casebre em ruinas á beira da estrada, +onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha +buscar a criança: não se tinha decidido se seria +o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar +o anão, para lhe levar o filho, com aquelles +olhos raiados d'um sangue mau. Fallou para dentro, +para as trevas do casebre: +<br /> + +<br /> + +—Olá! +<br /> + +<br /> + +Foi um allivio quando a clara voz da Carlota +disse da negrura: +<br /> + +<br /> + +—Cá está! +<span class="pagenum">[622]</span> +<br /> + +<br /> + +—Bem, é esperar, snr.<sup>a</sup> Carlota. +<br /> + +<br /> + +Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada +a temer, se o filho partisse aninhado contra aquelle +robusto seio de quarentona fecunda, tão fresca e +tão +lavada. +<br /> + +<br /> + +Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, +como um empastamento mais denso de sombra +n'aquella lugubre noite de dezembro. Nem uma fenda +de luz sahia das janellas do quarto d'Amelia. No +ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a +Dionysia não apparecia. +<br /> + +<br /> + +Aquella demora torturava-o. Podia passar gente +e vél-o rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir occultar-se +no casebre em ruinas ao pé de Carlota. Foi +andando ao comprido do muro do pomar, voltou,—e +viu então na porta envidraçada do +terraço uma +claridade de luz apparecer. +<br /> + +<br /> + +Correu para a portinha verde do pomar que quasi +immediatamente se abriu; e a Dionysia, sem uma +palavra, poz-lhe nos braços um embrulho. +<br /> + +<br /> + +—Morta? perguntou elle. +<br /> + +<br /> + +—Qual! Vivo! Um rapagão! +<br /> + +<br /> + +E fechou a porta devagarinho, quando os cães, +farejando rumor, começavam a ladrar. +<br /> + +<br /> + +Então o contacto do seu filho, contra o seu peito, +desmanchou como um vendaval todas as idéas +d'Amaro. O quê! ir dal-o áquella mulher, +á tecedeira +d'anjos, que na estrada o atiraria a algum vallado, +ou em casa o arremessaria á latrina? Ah! não, +era o seu filho! +<span class="pagenum">[623]</span> +<br /> + +<br /> + +Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr +aos Poyaes e acordar a outra ama... A Dionysia +não tinha leite... Não o podia levar para a +cidade... +Oh! que desejo furioso de bater áquella porta +da quinta, precipitar-se para o quarto d'Amelia, +metter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, +e todos tres ficarem alli como no conchego +d'um céo! Mas quê, era padre! Maldita fosse a +religião +que assim o esmagava! +<br /> + +<br /> + +De dentro do embrulho sahiu um gemido. Correu +então para o casebre—quasi esbarrou com a +Carlota, que se apoderou logo da criança. +<br /> + +<br /> + +—Ahi está, disse elle. Mas ouça lá. +Isto agora é +sério. Agora é outra coisa. Olhe que o +não quero +morto... É para o tratar. O que se passou não +vale... +É para o criar! é para viver. Vossê tem +a sua +fortuna... Trate d'elle!... +<br /> + +<br /> + +—Não tem duvida, não tem duvida, dizia a mulher +apressada. +<br /> + +<br /> + +—Escute... A criança não vai bem agasalhada. +Ponha-lhe o meu capote. +<br /> + +<br /> + +—Vai bem, senhor, vai bem. +<br /> + +<br /> + +—Não vai, com mil diabos! É o meu filho! Ha +de levar o capote! Não quero que morra de frio! +<br /> + +<br /> + +Atirou-lh'o aos hombros com força, traçando-lh'o +sobre o peito, agasalhando a criança;—e a mulher +já enfastiada metteu rapidamente pela estrada. +<br /> + +<br /> + +Amaro ficou alli plantado no meio do caminho, +vendo o vulto perder-se na negrura. Então todos os +seus nervos, depois d'aquelle choque, se relaxaram +<span class="pagenum">[624]</span> +n'uma fraqueza de mulher sensivel—e rompeu a +chorar. +<br /> + +<br /> + +Muito tempo rondou a casa. Mas ella permanecia +na mesma escuridão, n'aquelle silencio que o aterrava. +Depois, triste e fatigado, veio voltando para a +cidade, quando batiam as dez badaladas na Sé. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A essa hora, na sala de jantar da Ricoça, o doutor +Gouvêa ceava tranquillamente o frango assado que +lhe preparára a Gertrudes, para depois das canceiras +do dia. O abbade Ferrão, sentado junto da mesa, +assistia-lhe á ceia; viera munido dos sacramentos para +o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; +durante as oito horas de dôres a rapariga +mostrára-se corajosa; o parto fôra feliz, de +resto, e +sahira um rapagão que fazia muita honra ao papá. +<br /> + +<br /> + +O bom abbade Ferrão baixava castamente os +olhos áquelles detalhes, no seu pudor de sacerdote. +<br /> + +<br /> + +—E agora, dizia o doutor trinchando o peito do +frango, agora que eu introduzi a criança no mundo, +os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer +a Igreja) apoderam-se d'elle e não o largam até +á +morte. Por outro lado, ainda que menos sôfregamente, +o Estado não o perde de vista... E ahi começa +o desgraçado a sua jornada do berço á +sepultura, +entre um padre e um cabo de policia! +<br /> + +<br /> + +O abbade curvou-se, e tomou uma estrondosa +pitada preparando-se para a controversia. +<span class="pagenum">[625]</span> +<br /> + +<br /> + +—A Igreja, continuava o doutor com serenidade, +começa, quando a pobre creatura ainda nem tem sequer +a consciencia da vida, por lhe impôr uma +religião... +<br /> + +<br /> + +O abbade interrompeu, meio sério, meio rindo: +<br /> + +<br /> + +—Ó doutor, ainda que não seja senão +por caridade +com a sua alma, devo advertil-o que o sagrado +Concilio de Trento, canon decimo terceiro, commina +a pena d'excommunhão contra todo o que disser +que o baptismo é nullo, por ser imposto sem a +aceitação da razão. +<br /> + +<br /> + +—Tomo nota, abbade. Eu estou acostumado a +essas amabilidades do Concilio de Trento para commigo +e outros collegas... +<br /> + +<br /> + +—Era uma assembléa respeitavel! acudiu o abbade +já escandalisado. +<br /> + +<br /> + +—Sublime, abbade. Uma assembléa sublime. O +Concilio de Trento e a Convenção foram as duas +mais +prodigiosas assembléas d'homens que a terra tem +presenciado... +<br /> + +<br /> + +O abbade fez uma visagem de repugnacia áquelle +cotejo irreverente entre os santos auctores da doutrina +e os assassinos do bom rei Luiz XVI. +<br /> + +<br /> + +Mas o doutor proseguiu: +<br /> + +<br /> + +—Depois, a Igreja deixa a criança em paz algum +tempo emquanto ella faz a sua dentição e tem +o seu ataque de lombrigas... +<br /> + +<br /> + +—Vá, vá, doutor! murmurava o abbade, escutando-o +pacientemente, de olhos cerrados—como significando +<span class="pagenum">[626]</span> +«anda, anda, enterra bem essa alma no +abysmo de fogo e pez»! +<br /> + +<br /> + +—Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros +symptomas de razão, continuava o doutor, +quando se torna necessario que elle tenha, para o distinguir +dos animaes, uma noção de si mesmo e do +universo, então entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe +tudo! Tudo! Tão completamente, que um gaiato +de seis annos que não sabe ainda o +<em>b-a-bá</em> tem +uma sciencia mais vasta, mais certa, que as reaes +academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! +O velhaco não hesita um momento para dizer como +se fez o universo e os seus systemas planetarios; +como appareceu na terra a creação; como se +succederam +as raças; como passaram as revoluções +geologicas +do globo; como se formaram as linguas; como +se inventou a escripta... Sabe tudo: possue +completa e immutavel a regra para dirigir todas as +acções e formar todos os juizos; tem mesmo a +certeza +de todos os mysterios; ainda que seja myope +como uma toupeira vê o que se passa na profundidade +dos céos e no interior do globo; conhece, como +se não tivesse feito senão assistir a esse +espectaculo, +o que lhe ha de succeder depois de morrer... Não +ha problema que não decida... E quando a Igreja +tem feito d'este marmanjo uma tal maravilha de saber, +manda-o então aprender a lêr... O que eu pergunto +é: para que? +<br /> + +<br /> + +A indignação tinha emmudecido o abbade. +<span class="pagenum">[627]</span> +<br /> + +<br /> + +—Diga lá abbade, para que os mandam os senhores +ensinar a lêr? Toda a sciencia universal, o +<em>res scibilis</em>, está no +Catecismo: é metter-lh'o na memoria, +e o rapaz possue logo a sciencia e consciencia +de tudo... Sabe tanto como Deus... De facto, é +Deus mesmo. +<br /> + +<br /> + +O abbade pulou. +<br /> + +<br /> + +—Isso não é discutir, exclamou, isso +não é discutir!... +Isso são chalaças á Voltaire! Essas +coisas +devem-se tratar mais d'alto... +<br /> + +<br /> + +—Como chalaças, abbade? Tome um exemplo: a +formação das linguas. Como se formaram? Foi Deus, +que descontente com a Torre de Babel... +<br /> + +<br /> + +Mas a porta da sala abriu-se, e appareceu a Dionysia. +Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda +no quarto d'Amelia; e agora a matrona fallava-lhe +sempre encolhida de terror. +<br /> + +<br /> + +—Senhor doutor, disse ella no silencio que se +fez, a menina acordou e diz que quer o filho. +<br /> + +<br /> + +—E então? A criança levaram-n'a, não? +<br /> + +<br /> + +—A criança levaram-n'a... disse a Dionysia. +<br /> + +<br /> + +—Bem, acabou-se... +<br /> + +<br /> + +Dionysia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a. +<br /> + +<br /> + +—Ouça lá, diga-lhe que a criança vem +ámanhã... +Que ámanhã sem falta que lh'a trazem. Minta. +Minta como um cão; aqui o senhor abbade dá +licença... Que durma, que socegue. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia retirou-se. Mas a controversia não +recomeçou: +diante d'aquella mãi que acordava depois +<span class="pagenum">[628]</span> +da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho +que lhe tinham levado para longe e para sempre, os +dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a +formação +das linguas. O abbade sobretudo parecia commovido. +Mas o doutor não tardou, sem piedade, a +lembrar-lhe que eram aquellas as consequencias da +situação do padre na sociedade... +<br /> + +<br /> + +O abbade baixou os olhos, occupado na sua pitada, +sem responder, como ignorando que houvesse +um padre n'aquella historia infeliz. +<br /> + +<br /> + +O doutor então, seguindo a sua idéa, discursou +contra a preparação e +educação ecclesiastica. +<br /> + +<br /> + +—Ahi tem o abbade uma educação dominada +inteiramente pelo absurdo: resistencia ás mais justas +solicitações da natureza, e resistencia aos mais +elevados movimentos da razão. Preparar um padre é +crear um monstro que ha de passar a sua desgraçada +existencia n'uma batalha desesperada contra os +dois factos irresistiveis do universo—a força da Materia +e a força da Razão! +<br /> + +<br /> + +—Que está o senhor a dizer? exclamou assombrado +o abbade. +<br /> + +<br /> + +—Estou a dizer a verdade. Era que consiste a +educação d'um sacerdote? +<em>Primò</em>: em o preparar +para o celibato e para a virgindade; isto é, para a +suppressão violenta dos sentimentos mais naturaes. +<em>Secundò</em>: em evitar todo o +conhecimento e toda a +idéa que seja capaz d'abalar a fé catholica; isto +é, a +suppressão forçada do espirito +d'indagação e d'exame, +portanto de toda a sciencia real e humana... +<span class="pagenum">[629]</span> +<br /> + +<br /> + +O abbade erguera-se, ferido d'uma piedosa +indignação: +<br /> + +<br /> + +—Pois o senhor nega á Igreja a sciencia? +<br /> + +<br /> + +—Jesus, meu caro abbade, continuou tranquillamente +o doutor, Jesus, os seus primeiros discipulos, +o illustre S. Paulo representaram em parabolas, em +epistolas, n'um prodigioso fluxo labial, que as +producções +do espirito humano eram inuteis, pueris, e +sobretudo perniciosas... +<br /> + +<br /> + +O abbade passeava pela sala, indo contra um e +outro movel como um boi espicaçado, apertando as +mãos na cabeça na desolação +d'aquellas blasphemias; +não se conteve, gritou: +<br /> + +<br /> + +—O senhor não sabe o que diz!... Perdão, doutor, +peço-lhe humildemente perdão... O senhor faz-me +cahir em peccado mortal... Mas isso não é +discutir... +Isso é fallar com a leviandade d'um jornalista... +<br /> + +<br /> + +Lançou-se então com calor n'uma +dissertação sobre +a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos +e latinos, toda uma philosophia creada pelos santos +padres... +<br /> + +<br /> + +—Leia S. Basilio! exclamou. Lá verá o que elle +diz dos estudos dos auctores profanos, que são a +melhor preparação para os estudos sagrados! Leia +a +<em>Historia dos mosteiros na meia +idade</em>! Era lá que +estava a sciencia, a philosophia... +<br /> + +<br /> + +—Mas que philosophia, senhor, mas que sciencia! +Por philosophia meia duzia de concepções d'um +espirito mythologico, em que o mysticismo é posto +<span class="pagenum">[630]</span> +em logar dos instinctos sociaes... E que sciencia! +Sciencia de commentadores, sciencia de grammaticos... +Mas vieram outros tempos, nasceram sciencias +novas que os antigos tinham ignorado, a que o ensino +ecclesiastico não offerecia nem base nem methodo, +estabeleceu-se logo o antagonismo entre ellas +e a doutrina catholica!... Nos primeiros tempos, a +Igreja ainda tentou supprimil-as pela +perseguição, a +masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abbade... O +fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora não o +póde fazer e limita-se a vituperal-as em mau latim... +E no emtanto continúa a dar nos seus seminarios e +nas suas escólas o ensino do passado, o ensino anterior +a essas sciencias, ignorando-as, e desprezando-as, +refugiando-se na escolastica... Escusa d'apertar +as mãos na cabeça... Estranha ao espirito +moderno, +hostil nos seus principios e nos seus methodos +ao desenvolvimento espontaneo dos conhecimentos +humanos... O senhor não é capaz de negar isto! +Veja o <em>Syllabus</em> no seu canon +terceiro excommungando +a Razão... No seu canon decimo terceiro... +<br /> + +<br /> + +A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionysia: +<br /> + +<br /> + +—A pequena está a choramingar, diz que quer +a criança. +<br /> + +<br /> + +—Mau, mau! disse o doutor. +<br /> + +<br /> + +E depois d'um momento: +<br /> + +<br /> + +—Que tal aspecto tem ella? Está córada? +Está +inquieta? +<br /> + +<br /> + +—Não senhor, está bem. Só a +choramingar, a +<span class="pagenum">[631]</span> +fallar no pequeno... Diz que o quer hoje por força... +<br /> + +<br /> + +—Converse com ella, distraia-a... Veja se ella +adormece... +<br /> + +<br /> + +A Dionysia retirou-se; e o abbade logo com cuidado: +<br /> + +<br /> + +—Ó doutor, suppõe que lhe possa fazer mal o +affligir-se? +<br /> + +<br /> + +—Póde-lhe fazer mal, abbade, póde—disse o +doutor que rebuscava na sua pharmacia portatil. Mas +eu vou-a fazer dormir... Pois é verdade, a Igreja +hoje é uma intrusa, abbade! +<br /> + +<br /> + +O abbade tornou a levar as mãos á +cabeça. +<br /> + +<br /> + +—Escusa de ir mais longe, abbade. Veja a Igreja +em Portugal. É grato observar-lhe o estado de decadencia... +<br /> + +<br /> + +Pintou-lh'o a largos traços, de pé, com o seu +frasco +na mão. A Igreja fôra a +Nação; hoje era uma minoria +tolerada e protegida pelo Estado. Dominára nos +tribunaes, nos conselhos da corôa, na fazenda, na armada, +fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da +maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. +Fôra a sciencia no paiz; hoje tudo o que sabia era algum +latim macarronico. Fôra rica, tinha possuido no +campo districtos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje +dependia para o seu triste pão diario do ministro +da justiça, e pedia esmola á porta das capellas. +Recrutára-se +entre a nobreza, entre os melhores do reino; +e hoje, para reunir um pessoal, via-se no embaraço +e tinha de o ir buscar aos engeitados da Misericordia. +Fôra a depositaria da tradição +nacional, +<span class="pagenum">[632]</span> +do ideal collectivo da patria; e hoje, sem +communicação +com o pensamento nacional (se é que o ha) +era uma estrangeira, uma cidadã de Roma, recebendo +de lá a lei e o espirito... +<br /> + +<br /> + +—Pois se está assim tão prostrada, mais uma +razão para a amar!—disse o abbade, erguendo-se +escarlate. +<br /> + +<br /> + +Mas a Dionysia tinha de novo apparecido á porta. +<br /> + +<br /> + +—Que temos mais? +<br /> + +<br /> + +—A menina está-se a queixar d'um peso na cabeça. +Diz que sente faíscas diante dos olhos... +<br /> + +<br /> + +O doutor então immediatamente, sem uma palavra, +seguiu a Dionysia. O abbade, só, passeava pela +sala ruminando toda uma argumentação +erriçada de +textos, de nomes formidaveis de theologos, que ia +fazer desabar sobre o doutor Gouvêa. Mas, meia hora +passou, a luz do candieiro ia esmorecendo, e o +doutor não voltou. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Então aquelle silencio da casa, onde só o som +dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma +nota viva, começou a impressionar o velho. Abriu a +porta devagarinho, escutou; mas o quarto d'Amelia +era muito afastado, ao fim da casa, ao pé do +terraço; +não vinha de lá nem rumor nem luz. +Recomeçou +o seu passeio solitario na sala, n'uma tristeza +indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir +vêr tambem a doente; mas o seu caracter, o pudor +<span class="pagenum">[633]</span> +sacerdotal não lhe permittiam aproximar-se sequer +d'uma mulher no leito, em trabalho de parto, a não +ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra +hora mais longa, mais funebre, passou. Então, em +pontas de pés, córando na escuridão +d'aquella audacia, +foi até ao meio do corredor: agora, aterrado, +sentia no quarto d'Amelia um ruido confuso e surdo +de pés movendo-se vivamente no soalho, como n'uma +lucta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu á +sala, e abrindo o seu Breviario começou a rezar. +Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, +n'uma carreira. Ouviu uma porta a distancia +bater. Depois o arrastar no soalho d'uma bacia de +latão. E emfim o doutor appareceu. +<br /> + +<br /> + +A sua figura fez empallidecer o abbade: vinha +sem gravata, com o collarinho espedaçado; os +botões +do collete tinham saltado; e os punhos da camisa, +voltados para traz, estavam todos manchados +de sangue. +<br /> + +<br /> + +—Alguma coisa, doutor? +<br /> + +<br /> + +O doutor não respondeu, procurando rapidamente +pela sala o seu estojo, com a face animada d'um +calor de batalha. Ia já sahir com o estojo, mas +lembrando-lhe +a pergunta anciosa do abbade: +<br /> + +<br /> + +—Tem convulsões, disse. +<br /> + +<br /> + +O abbade então deteve-o á porta, e muito grave, +muito digno: +<br /> + +<br /> + +—Doutor, se ha perigo, peço-lhe que se lembre... +É uma alma christã em agonia, e eu estou +aqui. +<span class="pagenum"><a name="p634" id="p634">[634]</a></span> +<br /> + +<br /> + +—Certamente, certamente... +<br /> + +<br /> + +O abbade tornou a ficar só, esperando. Tudo dormia +na Ricoça, D. Josepha, os caseiros, a quinta, os +campos em redor. Na sala, um relogio de parede, +enorme e sinistro, que tinha no mostrador a carranca +do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida +em pau d'uma coruja pensativa, um movel de +castello antigo, bateu a meia noite, depois uma hora. +O abbade a cada momento ia até ao meio do +corredor: era o mesmo rumor de pés n'uma lucta; +outras vezes um silencio tenebroso. Voltava então +para o seu Breviario. Meditava n'aquella pobre rapariga +que, além no quarto, estava talvez no momento +que ia decidir da sua eternidade: não tinha ao +pé nem a mãi, nem as amigas: na memoria apavorada +devia passar-lhe a visão do peccado: diante +dos olhos turvos apparecia-lhe a face triste do Senhor +offendido: as dôres contorciam o seu corpo miseravel: +e na escuridão em que ia penetrando, sentia +já o halito ardente da aproximação de +Satanaz. +Temeroso fim do tempo e da carne!—Então rezava +fervorosamente por ella. +<br /> + +<br /> + +Mas depois pensava no outro que fôra uma metade +do seu peccado, e que agora na cidade, estirado +na cama, resonava tranquillamente. E rezava então +tambem por elle. +<br /> + +<br /> + +Tinha sobre o Breviario um pequeno <a href="#e24">crucifixo</a>. +E +contemplava-o com amor, abysmava-se enternecido +na certeza da sua força, contra a qual era bem pouca +a sciencia do doutor e todas as vaidades da razão! +<span class="pagenum">[635]</span> +Philosophias, idéas, glorias profanas, +gerações +e imperios passam: são como os suspiros ephemeros +do esforço humano: só ella permanece e +permanecerá, +a cruz—esperança dos homens, confiança +dos desesperados, amparo dos frageis, asylo dos +vencidos, força maior da humanidade: <em>crux +triumphus +adversus demonios, crux oppugnatorum murus</em>... +<br /> + +<br /> + +Então o doutor entrou, muito escarlate, vibrante +d'aquella tremenda batalha que estava dando lá dentro +á morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu +a janella, sem uma palavra, para respirar um momento +uma golfada d'ar fresco. +<br /> + +<br /> + +—Como vai ella? perguntou o abbade. +<br /> + +<br /> + +—Mal, disse o doutor sahindo. +<br /> + +<br /> + +O abbade, então, ajoelhou, balbuciou a +oração +de S. Fulgencio: +<br /> + +<br /> + +—Senhor, dá-lhe primeiro a paciencia, dá-lhe +depois a misericordia... +<br /> + +<br /> + +E alli ficou, com a face nas mãos, apoiado á +beira +da mesa. +<br /> + +<br /> + +A um rumor de passos na sala ergueu a cabeça. +Era a Dionysia, que suspirava, recolhendo todos os +guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador. +<br /> + +<br /> + +—Então, senhora, então? perguntou-lhe o abbade. +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor abbade, está perdidinha... Depois +das convulsões que foram d'arripiar, cahiu n'aquelle +somno, que é o somno da morte... +<span class="pagenum">[636]</span> +<br /> + +<br /> + +E olhando para todos os cantos como para se assegurar +da solidão, disse muito excitada: +<br /> + +<br /> + +—Eu não quiz dizer nada... Que o senhor doutor +tem um genio!... Mas sangrar a rapariga +n'aquelle estado é querer matal-a... Que ella tinha +perdido pouco sangue, é verdade... Mas nunca se +sangra ninguem em semelhante momento. Nunca, +nunca! +<br /> + +<br /> + +—O senhor doutor é homem de muita sciencia... +<br /> + +<br /> + +—Póde ter a sciencia que quizer... Eu tambem +não sou nenhuma tola... Tenho vinte annos d'experiencia... +Nunca me morreu nenhuma nas mãos, senhor +abbade... Sangrar em convulsões! Até causa +horror!... +<br /> + +<br /> + +Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado +a creaturinha. Até lhe quizera administrar chloroformio... +<br /> + +<br /> + +Mas a voz do doutor Gouvêa berrou por ella do +fundo do corredor—e a matrona abalou, com o seu +mólho de guardanapos. +<br /> + +<br /> + +O medonho relogio, com a sua coruja pensativa, +bateu as duas horas, depois as tres... O abbade, +agora, cedia a espaços a uma fadiga de velho, cerrando +um momento as palpebras. Mas resistia bruscamente: +ia respirar o ar pesado da noite, olhar +aquella treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, +a murmurar, com a cabeça baixa, as mãos postas +sobre o Breviario: +<br /> + +<br /> + +—Senhor, volta os teus olhos misericordiosos +para aquelle leito d'agonia... +<span class="pagenum">[637]</span> +<br /> + +<br /> + +Foi então Gertrudes que appareceu commovida. +O senhor doutor mandára-a a baixo acordar o moço +para pôr a egoa ao +<em>cabriolet</em>. +<br /> + +<br /> + +—Ai, senhor abbade, pobre creaturinha! Ia tão +bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o +filho... Eu não sei quem é o pai, mas o que sei +é +que n'isto tudo anda um peccado e um crime!... +<br /> + +<br /> + +O abbade não respondeu, orando baixo pelo padre +Amaro. +<br /> + +<br /> + +O doutor então entrou com o seu estojo na +mão: +<br /> + +<br /> + +—Se quizer, abbade, póde ir, disse. +<br /> + +<br /> + +Mas o abbade não se apressava, olhando o doutor, +com uma pergunta a bailar-lhe nos labios entreabertos, +e retendo-a por timidez: emfim, não se +conteve, e n'um tom de medo: +<br /> + +<br /> + +—Fez-se tudo, não ha remedio, doutor? +<br /> + +<br /> + +—Não. +<br /> + +<br /> + +—É que nós, doutor, não devemos +aproximar-nos +d'uma mulher em parto illegitimo senão n'um +caso extremo... +<br /> + +<br /> + +—Está n'um caso extremo, senhor abbade, disse +o doutor, vestindo já o seu grande casacão. +<br /> + +<br /> + +O abbade então recolheu o Breviario, a cruz—mas +antes de sahir, julgando do seu dever de sacerdote +pôr diante do medico racionalista a certeza da +eternidade mystica que se desprende do momento +da morte, murmurou ainda: +<br /> + +<br /> + +—É n'este instante que se sente o terror de +Deus, o vão do orgulho humano... +<span class="pagenum">[638]</span> +<br /> + +<br /> + +O doutor não respondeu, occupado a afivelar o +seu estojo. +<br /> + +<br /> + +O abbade sahiu—mas, já no meio do corredor, +voltou ainda, e fallando com inquietação: +<br /> + +<br /> + +—O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois +dos soccorros da religião, os moribundos voltarem +a si de repente, por uma graça especial... A +presença do medico então póde ser +util... +<br /> + +<br /> + +—Eu ainda não vou, ainda não vou, disse o +doutor, sorrindo involuntariamente de vêr a +presença +da Medicina reclamada para auxiliar a efficacia +da Graça. +<br /> + +<br /> + +Desceu, a vêr se estava prompto o +<em>cabriolet</em>. +<br /> + +<br /> + +Quando voltou ao quarto d'Amelia, a Dionysia e +a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O +leito, todo o quarto estava revolvido como um campo +de batalha. As duas velas consumidas extinguiam-se. +Amelia estava immovel, com os braços +hirtos, as mãos crispadas d'uma côr de purpura +escura—e +a mesma côr mais arroxeada cobria-lhe a +face rigida. +<br /> + +<br /> + +E debruçado sobre ella, com o crucifixo na mão, +o abbade dizia ainda, n'uma voz d'angustia: +<br /> + +<br /> + +—<em>Jesu, Jesu, Jesu!</em> Lembra-te da +graça de +Deus! Tem fé na misericordia divina! Arrepende-te +no seio do Senhor! <em>Jesu, Jesu, Jesu!</em> +<br /> + +<br /> + +Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando +o <em>Miserere</em>. O doutor que +ficára á porta retirou-se devagarinho, +atravessou em bicos de pés o corredor, e +desceu á rua, onde o moço segurava a egoa +atrellada. +<span class="pagenum">[639]</span> +<br /> + +<br /> + +—Vamos ter agua, senhor doutor, disse o rapaz +bocejando de somno. +<br /> + +<br /> + +O doutor Gouvêa ergueu a gola do paletot, accommodou +o seu estojo no assento—e d'ahi a um momento +o <em>cabriolet</em> rodava surdamente pela +estrada, +sob a primeira pancada de chuva, cortando a escuridão +da noite com o clarão vermelho das suas duas +lanternas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXV +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia desde as sete da manhã, o padre +Amaro esperava a Dionysia em casa, postado á janella, +com os olhos cravados na esquina da rua, sem +reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face. +Mas a Dionysia não apparecia: e elle teve de partir +para a Sé, amargurado e doente, a baptisar o filho +do Guedes. +<br /> + +<br /> + +Foi uma pesada tortura para elle vêr aquella +gente alegre que punha na gravidade da Sé, mais +sombria por esse escuro dia de dezembro, todo um +rumor mal contido de regosijo domestico e de festa +paterna; o papá Guedes resplandecente de casaca +e gravata branca, o padrinho compenetrado com +uma grande camelia ao peito, as senhoras de gala, +e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com +<span class="pagenum">[642]</span> +pompa um montão de rendas engommadas e de +laçarotes +azues onde mal se percebiam duas bochechinhas +trigueiras. Ao fundo da igreja, com o pensamento +bem longe na Ricoça e na Barrosa, foi engorolando +á pressa as ceremonias: soprando em cruz +sobre a face do pequerrucho para expulsar o Demonio +que já habitava aquellas carninhas tenras; impondo-lhe +o sal sobre a bôca para que elle se desgostasse +para sempre do sabor amargo do peccado +e tomasse gosto a nutrir-se só da verdade divina; +tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para +que elle não escutasse jámais as +solicitações da carne +e jámais respirasse os perfumes da terra. E em +roda, com tochas na mão, os padrinhos, os convidados, +na fadiga que davam tantos latins rosnados +á pressa, só se occupavam do pequeno, n'um receio +que elle não respondesse com algum desacato impudente +ás tremendas exhortações que lhe fazia +a +Igreja sua Mãi. +<br /> + +<br /> + +Amaro, então, pondo de leve o dedo sobre a touquinha +branca, exigiu do pequerrucho que elle, alli +em plena Sé, renunciasse para sempre a Satanaz, +ás +suas pompas e ás suas obras. O sacristão Mathias, +que dava em latim as respostas rituaes, renunciou +por elle—emquanto o pobre pequerrucho abria a +boquinha a procurar o bico da mama. Emfim o parocho +dirigiu-se á pia baptismal seguido de toda a +familia, das velhas devotas que se tinham juntado, +de gaiatos que esperavam uma distribuição de +patacos. +Mas foi toda uma atrapalhação para fazer as +<span class="pagenum">[643]</span> +unções: a parteira commovida não +atinava a desapertar +os laçarotes do chambre, para pôr a nú +os +hombrosinhos, o peito do pequeno; a madrinha quiz +ajudal-a: mas deixou escorregar a tocha, alastrou de +cera derretida o vestido d'uma senhora, uma visinha +dos Guedes, que ficou embezerrada de raiva. +<br /> + +<br /> + +—Franciscus, credis?—perguntava Amaro. +<br /> + +<br /> + +O Mathias apressou-se a affirmar, em nome de +Francisco: +<br /> + +<br /> + +—Credo. +<br /> + +<br /> + +—Franciscus, vis baptisari? +<br /> + +<br /> + +O Mathias: +<br /> + +<br /> + +—Volo. +<br /> + +<br /> + +Então a agua lustral cahiu sobre a cabecinha redonda +como um melão tenro: a criança agora perneava +n'uma perrice. +<br /> + +<br /> + +—Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... +et Filiis... et Espiritus Sancti... +<br /> + +<br /> + +Emfim, acabára! Amaro correu á sacristia a +desvestir-se—emquanto +a parteira grave, o papá Guedes, +as senhoras enternecidas, as velhas devotas e +os gaiatos sahiam ao repique dos sinos; e agachados +sob os guardachuvas, chapinhando a lama, lá +iam levando em triumpho Francisco, o novo christão. +<br /> + +<br /> + +Amaro galgou os degraus de casa com o presentimento +que ia encontrar a Dionysia. +<br /> + +<br /> + +Lá estava, com effeito, sentada no quarto, esperando-o, +amarrotada, enxovalhada da lucta da noite +e da lama da estrada: e apenas o viu começou a +choramingar. +<span class="pagenum">[644]</span> +<br /> + +<br /> + +—Que é, Dionysia? +<br /> + +<br /> + +Ella rompeu em soluços, sem responder. +<br /> + +<br /> + +—Morta! exclamou Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou +emfim a matrona. +<br /> + +<br /> + +Amaro tombou para os pés da cama como morto +tambem. +<br /> + +<br /> + +A Dionysia berrou pela criada. Inundaram-lhe a +face d'agua, de vinagre. Elle recuperou-se um pouco, +muito pallido: afastou-as com a mão, sem fallar; +e atirou-se de bruços para sobre o travesseiro, n'um +chôro desesperado,—emquanto as duas mulheres +consternadas iam recolhendo á cozinha. +<br /> + +<br /> + +—Parece que tinha muita amizade á menina, +começou a Escolastica, fallando baixo como na casa +d'um moribundo. +<br /> + +<br /> + +—Costume d'ir por lá. Foi hospede tanto tempo... +Ai, eram como irmãos...—disse a Dionysia, +ainda chorosa. +<br /> + +<br /> + +Fallaram então de doenças de +coração—porque +a Dionysia contára á Escolastica que a pobre +menina +tinha morrido d'um aneurisma rebentado. A Escolastica +tambem soffria do coração; mas n'ella eram +flatos, +dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, +tinha sido bem infeliz tambem! +<br /> + +<br /> + +—Vossemecê toma uma gotinha de café, snr.<sup>a</sup> +Dionysia? +<br /> + +<br /> + +—Olhe, a fallar a verdade, snr.<sup>a</sup> Escolastica, +tomava +uma gotinha de geropiga... +<br /> + +<br /> + +A Escolastica correu á taberna ao fim da rua, +<span class="pagenum">[645]</span> +trouxe a geropiga n'um copo de quartilho debaixo +do avental: e ambas á mesa, uma molhando sopas +no café, outra escorropichando o copo, concordavam, +com suspiros, que n'este mundo tudo eram sustos e +lagrimas. +<br /> + +<br /> + +Deram onze horas: e a Escolastica pensava em +levar um caldo ao senhor parocho, quando elle chamou +de dentro. Estava de chapéo alto, com o casaco +abotoado, os olhos vermelhos como carvões... +<br /> + +<br /> + +—Escolastica, vá a correr ao Cruz que me mande +um cavallo... Mas depressa. +<br /> + +<br /> + +Chamou então a Dionysia: e sentado ao pé d'ella, +quasi contra os joelhos da mulher, com a face rigida +e livida como um marmore, escutou em silencio +a historia da noite—as convulsões de repente, +tão fortes que ella, a Gertrudes e o senhor doutor +mal a podiam segurar! o sangue, as prostrações em +que cahia! depois a anciedade da asphyxia que a fazia +tão rôxa como a tunica d'uma imagem... +<br /> + +<br /> + +Mas o moço do Cruz chegára com o cavallo. Amaro +tirou d'uma gaveta, d'entre roupa branca, um pequeno +crucifixo, deu-o á Dionysia que ia voltar á +Ricoça +para ajudar a amortalhar a menina. +<br /> + +<br /> + +—Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-m'o +ella dado... +<br /> + +<br /> + +Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa +despediu a galope. Não chovia, agora; e entre as +nuvens pardas algum raio fraco do sol de dezembro +fazia brilhar a relva, as pedras molhadas. +<br /> + +<br /> + +Quando chegou ao pé do poço entulhado, d'onde +<span class="pagenum">[646]</span> +se avistava a casa de Carlota, teve de parar, para +deixar passar um longo rebanho d'ovelhas que tomava +o caminho; e o pastor, com uma pelle de cabra +ao hombro e a borracha a tiracollo, fez-lhe lembrar +de repente Feirão, toda a vida passada, que lhe +voltava por fragmentos bruscos—aquellas paizagens +afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joanna +rindo estupidamente dependurada da corda do +sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, +com o abbade, defronte da chaminé, onde a lenha +verde estalava; os longos dias em que se desesperava +na tristeza da residencia, vendo fóra sem cessar +cahir a neve... E veio-lhe um desejo ancioso +d'essas solidões da serra, d'essa existencia de lobo, +longe dos homens e das cidades, sepultado lá com +a sua paixão. +<br /> + +<br /> + +A porta da Carlota estava fechada. Bateu, foi de +roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos +curraes, para o pateo, onde sentia cacarejar os gallos. +Ninguem respondeu. Seguiu então pelo caminho +da aldeia, levando a egoa pela arreata; parou na +taberna, onde uma mulher obesa fazia meia sentada +á porta. Dentro, no escuro da baiuca, dois homens +com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas +n'uma bisca renhida; e um rapazola d'uma amarellidão +de sezões, com um lenço amarrado na +cabeça, +olhava-lhes o jogo tristemente. +<br /> + +<br /> + +A mulher tinha justamente visto passar a snr.<sup>a</sup> +Carlota, que até parára a comprar um quartilho de +azeite. Devia estar em casa da Michaela, ao adro. +<span class="pagenum">[647]</span> +Chamou para dentro; uma rapariguita vesga appareceu +de traz da sombra das pipas. +<br /> + +<br /> + +—Corre, vai á Michaela, dize à snr.<sup>a</sup> +Carlota +que +está aqui um senhor da cidade. +<br /> + +<br /> + +Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou +sentado n'uma pedra, com o seu cavallo pela redea. +Mas aquella casa fechada e muda aterrava-o. Foi pôr +o ouvido á fechadura, na esperança d'ouvir um +chôro, +uma rabuje de criança. Dentro pesava um silencio +de caverna abandonada. Mas tranquillisava-o a +idéa que a Carlota teria levado a criança +comsigo, +para Michaela. Devia realmente ter perguntando á +mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criança +ao collo... E olhava a casa bem caiada, com a sua +janella em cima que tinha uma cortininha de cassa, +um luxo tão raro n'aquellas freguezias pobres; recordava +a boa ordem, o escarolado da louça da cozinha... +Decerto, o pequerrucho devia ter tambem +um berço aceado... +<br /> + +<br /> + +Ah, estava doido decerto na vespera, quando puzera +alli, na mesa da cozinha, quatro libras em ouro, +preço adiantado d'um anno de criação, +e dissera +cruelmente ao anão—«conto comsigo»! +Pobre pequerruchinho!... +Mas a Carlota comprehendera bem, +á noite na Ricoça, que elle agora queria-o vivo, +o +seu filho, e creado com mimo!... Todavia não o +deixaria alli, não, sob o olho raiado de sangue do +anão... Leval-o-hia essa noite á Joanna Carreira +dos +Poyaes... +<span class="pagenum">[648]</span> +<br /> + +<br /> + +Que as sinistras historias da Dionysia, a <em>tecedeira +d'anjos</em>, eram uma legenda insensata. A +criança estava +muito regalada em casa de Michaela, chupando +aquelle bom peito de quarentona sã... E vinha-lhe +então o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se +em Feirão, levar comsigo a Escolastica, educar +lá a criança como sobrinho, revivendo n'elle +largamente +todas as emoções d'aquelle romance de dois +annos; e alli passaria n'uma paz triste, na saudade +de Amelia, até ir como o seu antecessor, o abbade +Gustavo que tambem creára um sobrinho em Feirão, +repousar para sempre no pequeno cemiterio, de verão +sob as flôres silvestres, de inverno sob a neve +branca. +<br /> + +<br /> + +Então a Carlota appareceu; e ficou attonita ao +reconhecer Amaro, sem passar da cancella, com a +testa franzida, a sua bella face muito grave. +<br /> + +<br /> + +—A criança? exclamou Amaro. +<br /> + +<br /> + +Depois d'um momento, ella respondeu, sem +perturbação: +<br /> + +<br /> + +—Nem me falle n'isso, que me tem dado um +desgosto... Hontem mesmo, duas horas depois de +ter chegado... O pobre anjinho começa a fazer-se +rôxo, e alli me morreu debaixo dos olhos... +<br /> + +<br /> + +—Mente! gritou Amaro. Quero vêr. +<br /> + +<br /> + +—Entre, senhor, se quer vêr. +<br /> + +<br /> + +—Mas que lhe disse eu hontem, mulher? +<br /> + +<br /> + +—Que quer, senhor? Morreu. Veja... +<br /> + +<br /> + +Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem +<span class="pagenum">[649]</span> +cólera nem receio. Amaro entreviu n'um relance, ao +pé da chaminé, um berço coberto com um +saiote escarlate. +<br /> + +<br /> + +Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para +cima do cavallo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, +rompeu a dizer que tinha ido justamente +à aldeia para encommendar um caixãosinho +decente... +Como vira que era filho de pessoa de bem, +não o quisera enterrar embrulhado n'um trapo. Mas +emfim, como o senhor alli estava, parecia-lhe razoavel +que désse algum dinheiro para a despeza... +Uns dois mil reis que fossem. +<br /> + +<br /> + +Amaro considerou-a um momento com um desejo +brutal de a esganar; por fim, metteu-lhe o dinheiro +na mão. E ia trotando no carreiro, quando a +sentiu ainda correndo, gritando <em>pst! +pst!</em> A Carlota +queria-lhe restituir o capote que elle emprestára na +vespera: tinha feito muito bom serviço, que a +criança +chegára quente como um rojãosinho... +Infelizmente... +<br /> + +<br /> + +Amaro já a não escutava, esporeando furiosamente +a ilharga da cavalgadura. +<br /> + +<br /> + +Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não +entrou em casa. Foi direito ao paço do bispo. Tinha +agora uma idéa só: era deixar aquella cidade +maldita, +não vêr mais as faces das devotas, nem a fachada +odiosa da Sé... +<br /> + +<br /> + +Foi só ao subir a larga escadaria de pedra do +paço, que lhe lembrou com inquietação +o que o Libaninho +dissera na vespera da indignação do senhor +<span class="pagenum">[650]</span> +vigario geral, da denuncia obscura... Mas a affabilidade +do padre Saldanha, o confidente do paço, que +o introduziu logo na livraria de sua excellencia, tranquillisou-o. +O senhor vigario geral foi muito amavel. +Estranhou o ar pallido e perturbado do senhor parocho... +<br /> + +<br /> + +—É que tenho um grande desgosto, senhor vigario +geral. Minha irmã está a morrer em Lisboa. E +venho pedir a vossa excellencia licença para lá +ir, +por uns dias... +<br /> + +<br /> + +O senhor vigario geral consternou-se com bondade. +<br /> + +<br /> + +—Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros +forçados da barca de Charonte. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"> +Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat<br /> + +Et ferruginea subvectat corpora cymba. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Ninguem lhe escapa... Sinto, sinto... Não me esquecerei +de a recommendar nas minhas orações... +<br /> + +<br /> + +E muito methodico, sua excellencia tomou uma +nota a lapis. +<br /> + +<br /> + +Amaro, ao sahir do paço, foi direito á +Sé. Fechou-se +na sacristia, a essa hora deserta: e depois +de pensar muito tempo com a cabeça entre os punhos, +escreveu ao conego Dias: +<br /> + +<br /> + +«Meu caro padre-mestre.—Treme-me a mão ao +escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, +bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, +estalava-me o coração. Sua excellentissima +irmã lá +<span class="pagenum">[651]</span> +estará tratando do enterro... Eu, como comprehende, +não posso. Muito lhe agradeço tudo... +Até um dia, +se Deus quizer que nos tornemos a vêr. Por mim +conto ir para longe, para alguma pobre parochia de +pastores, acabar meus dias nas lagrimas, na +meditação +e na penitencia. Console como puder a desgraça +da mãi. Nunca me esquecerei do que lhe devo, emquanto +tiver um sopro de vida. E adeus, que nem +sei onde tenho a cabeça.—Seu amigo do +C.—<em>Amaro +Vieira</em>.» +<br /> + +<br /> + +«P. S. A criança morreu tambem, já se +enterrou.» +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Fechou a carta com uma obreia preta; e depois +d'arranjar os seus papeis, foi abrir o grande portão +chapeado de ferro, olhar um momento o pateo, o +barracão, a casa do sineiro... As nevoas, as primeiras +chuvas já davam áquelle recanto da Sé +o seu ar +lugubre d'inverno. Adiantou-se devagar, sob o silencio +triste dos altos contrafortes, espreitou á +vidraça +da cozinha do tio Esguelhas: elle lá estava, sentado +á chaminé, com o cachimbo na bôca, +cuspilhando +tristemente para as cinzas. Amaro bateu de leve nos +vidros—e quando o sineiro abriu a porta, aquelle +interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina +da alcova da Tótó, a escada que ia para o quarto, +agitaram o parocho de tantas recordações e de +saudades +tão bruscas, que não pôde fallar um +momento, +com a garganta tomada de soluços. +<br /> + +<br /> + +—Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou +<span class="pagenum">[652]</span> +por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irmã a morrer... +<br /> + +<br /> + +E acrescentou com os beiços tremulos d'um chôro +que ia romper: +<br /> + +<br /> + +—Todas as desgraças vêm juntas. Sabe, a pobre +Ameliasinha lá morreu de repente... +<br /> + +<br /> + +O sineiro emmudeceu, assombrado. +<br /> + +<br /> + +—Adeus, tio Esguelhas. Dê cá a mão, +tio Esguelhas. +Adeus... +<br /> + +<br /> + +—Adeus, senhor parocho, adeus! disse o velho +com os olhos arrazados d'agua. +<br /> + +<br /> + +Amaro fugiu para casa, contendo-se para não +soluçar alto pelas ruas. Disse logo á Escolastica +que +ia partir n'essa noite para Lisboa. O tio Cruz devia +mandar-lhe um cavallo, para ir tomar o comboio a +Chão de Maçãs. +<br /> + +<br /> + +—Eu não tenho senão o dinheiro que é +necessario +para a jornada. Mas o que ahi me fica em lençoes +e toalhas é para vossê... +<br /> + +<br /> + +A Escolastica, chorando de perder o senhor parocho, +quiz beijar-lhe a mão por tanta generosidade: +offereceu-se para fazer a mala... +<br /> + +<br /> + +—Eu mesmo a arranjo, Escolastica, não se incommode. +<br /> + +<br /> + +Fechou-se no quarto. A Escolastica, ainda choramingando, +foi logo recolher, examinar as poucas +roupas que estavam pelos armarios. Mas Amaro +d'ahi a pouco gritou por ella: diante da janella uma +harpa e uma rebeca, em desafinação, tocavam a +valsa dos <em>Dois mundos</em>. +<span class="pagenum">[653]</span> +<br /> + +<br /> + +—Dê um tostão a esses homens, disse o padre +furioso. E diga-lhe que vão p'r'ó inferno... Que +está +aqui gente doente! +<br /> + +<br /> + +E até ás cinco horas a Escolastica não +tornou a +sentir rumor no quarto. +<br /> + +<br /> + +Quando o moço do Cruz veio com o cavallo, pensando +que o senhor parocho adormecera, ella foi-lhe +bater devagarinho á porta do quarto, choramingando +já da despedida proxima. Elle abriu logo. Estava de +capote aos hombros; no meio do quarto prompta +e acorreada a mala de lona que devia ir á garupa +da egoa. Deu-lhe um maço de cartas para ir entregar +n'essa noite à snr.<sup>a</sup> D. Maria da +Assumpção, ao +padre Silverio e a Natario: e ia descer, entre os +prantos da mulher, quando sentiu na escada um ruido +conhecido de muleta, e o tio Esguelhas appareceu +muito commovido. +<br /> + +<br /> + +—Entre, tio Esguelhas, entre. +<br /> + +<br /> + +O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um +momento: +<br /> + +<br /> + +—Vossa senhoria ha de desculpar, mas... Tinha-me +esquecido de todo, com os desgostos que +tenho passado. Já ha tempo que achei no quarto +isto, e pensei que... +<br /> + +<br /> + +E metteu na mão de Amaro um brinco d'ouro. +Elle reconheceu-o logo: era d'Amelia. Muito tempo +ella o procurára debalde; soltára-se decerto +n'alguma +manhã d'amor, sobre a enxerga do sineiro. Amaro +então, suffocado, abraçou o tio Esguelhas. +<br /> + +<br /> + +—Adeus! Adeus, Escolastica. Lembrem-se por cá +<span class="pagenum">[654]</span> +de mim. Dê lembranças ao Mathias, tio Esguelhas... +<br /> + +<br /> + +O moço afivelou a maleta ao sellim, e Amaro partiu, +deixando a Escolastica e o tio Esguelhas, a chorar +ambos á porta. +<br /> + +<br /> + +Mas depois de ter passado os açudes, ao pé d'uma +volta da estrada, teve de apear para compôr o estribo: +e ia montar, quando appareceram dobrando o +muro o doutor Godinho, o secretario geral e o senhor +administrador do concelho, muito amigos agora, +e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a +cidade. Pararam logo a fallar ao senhor parocho—admirando-se +de o vêr alli, de maleta na garupa, +com ares de jornada... +<br /> + +<br /> + +—É verdade, disse, vou para Lisboa! +<br /> + +<br /> + +O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe +a felicidade.—Mas quando o parocho +fallou da irmã moribunda, affligiram-se com polidez; +e o senhor administrador disse: +<br /> + +<br /> + +—Deve estar muito sentido, comprehendo... De +mais a mais essa outra desgraça na casa d'aquellas +senhoras suas amigas... A pobre Ameliasinha, morta +assim de repente... +<br /> + +<br /> + +O antigo Bibi exclamou: +<br /> + +<br /> + +—O quê? A Ameliasinha, aquella bonita que +morava na rua da Misericordia? Morreu? +<br /> + +<br /> + +O doutor Godinho tambem o ignorava, e pareceu +consternado. +<br /> + +<br /> + +O senhor administrador soubera-o pela sua criada, +que o ouvira da Dionysia. Dizia-se que fôra um +aneurisma. +<span class="pagenum">[655]</span> +<br /> + +<br /> + +—Pois senhor parocho, exclamou Bibi, desculpe +se afflijo as suas crenças respeitaveis, que são +as +minhas de resto... Mas Deus commetteu um verdadeiro +crime... Levar-nos a rapariga mais bonita da +cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquelle +picantesinho da virtude... +<br /> + +<br /> + +Então, n'um tom de pezames, todos lamentaram +aquelle golpe que devia ter affectado tanto o senhor +parocho. +<br /> + +<br /> + +Elle disse muito grave: +<br /> + +<br /> + +—Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com +as suas boas qualidades, devia fazer, sem duvida, +uma esposa modêlo... Senti-o muito. +<br /> + +<br /> + +Apertou silenciosamente as mãos em redor—e +emquanto os cavalheiros recolhiam á cidade, o padre +Amaro foi trotando pela estrada, que já escurecia, +para a estação de Chão de +Maçãs. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro d'Amelia +sahiu da Ricoça. Era uma manhã aspera: o +céo +e os campos estavam afogados n'uma nevoa pardacenta; +e cahia, muito miuda, uma chuva regelada. +Era longe da quinta a capella dos Poyaes. O menino +do côro adiante, de cruz alçada, apressava-se, +chapinhando +a lama a grandes pernadas; o abbade Ferrão, +d'estola negra, abrigava-se, murmurando o <em>Exultabunt +Domino</em>, sob o guardachuva que sustentava ao +lado o sacristão com o hyssope; quatro trabalhadores +<span class="pagenum">[656]</span> +da quinta, abaixando a cabeça contra a chuva +obliqua, levavam n'uma padiola o esquife que tinha +dentro o caixão de chumbo; e, sob o vasto guardachuva +do caseiro, a Gertrudes de mantéo pela cabeça +ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o +valle triste dos Poyaes cavava-se, todo pardo na neblina, +n'um grande silencio; e a voz enorme do vigario, +mugindo o <em>Miserere</em>, rolava pela +quebrada humida +onde murmuravam os riachos muito cheios. +<br /> + +<br /> + +Mas ás primeiras casas da aldeia os moços do +caixão pararam derreados; e então um homem, que +estava esperando debaixo d'uma arvore sob o seu +guardachuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro. +Era João Eduardo, de luvas pretas, carregado +de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, +grossas lagrimas a correrem-lhe nas faces. E +immediatamente, por traz d'elle, vieram collocar-se +dois criados de farda, com as calças muito +arregaçadas +e tochas na mão—dois lacaios que mandára +o Morgado, para honrar o enterro d'uma d'essas +senhoras da Ricoça, amigas do abbade. +<br /> + +<br /> + +Então, vendo estas duas librés que vinham +afidalgar +o prestito, o menino do côro rompeu logo, +erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, já +sem fadiga, impertigaram-se ás varas da padiola: o +sacristão bramiu um +<em>Requiem</em> tremendo. E pelas lamas +do íngreme caminho da aldeia foi subindo o +enterro, emquanto às portas as mulheres se ficavam +persignando, olhando as sobrepellizes brancas e +o caixão de galões d'ouro, que se iam afastando +seguidos +<span class="pagenum">[657]</span> +do grupo de guardachuvas abertos, sob a +chuva triste. +<br /> + +<br /> + +A capella era no alto, n'um adro de carvalheiras: +o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o +interior da igreja escura, ao canto do <em>Subvenite +sancti</em> que o sacristão entoou em +ronco.—Mas os +dois criados de farda não entraram porque o senhor +Morgado assim o tinha ordenado. +<br /> + +<br /> + +Ficaram á porta, sob o guardachuva, escutando, +batendo os pés regelados. Dentro seguia o +cantochão; +depois era um ciciar d'orações que se amortecia: +e de repente latins funebres lançados pela +voz grossa do vigario. +<br /> + +<br /> + +Então os dois homens, enfastiados, desceram do +adro, entraram um momento na taberna do tio Seraphim. +Dois moços de gado da quinta do Morgado, +que bebiam em silencio o seu quartilho, ergueram-se +logo vendo apparecer os dois criados de farda. +<br /> + +<br /> + +—Á vontade, rapazes, é sentar e beber, disse o +velho baixito que acompanhava João Eduardo a cavallo. +Nós lá estamos, na massada do enterro... +Boas tardes, snr. Seraphim. +<br /> + +<br /> + +Apertaram a mão ao Seraphim, que lhes mediu +duas aguardentes—e informou-se se a defunta era +a noiva do snr. Joãosinho. Tinham-lhe dito que morrera +d'uma veia rebentada. +<br /> + +<br /> + +O baixito riu: +<br /> + +<br /> + +—Qual veia rebentada! Não lhe rebentou coisa +nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapagão pelo +ventre... +<span class="pagenum">[658]</span> +<br /> + +<br /> + +—Obra do snr. Joãosinho? perguntou o Seraphim, +arregalando o olho bréjeiro. +<br /> + +<br /> + +—Não me parece, disse o outro com importancia. +O snr. Joãosinho estava em Lisboa... Obra d'algum +cavalheiro da cidade... Sabe vossemecê de +quem eu desconfio, snr. Seraphim?... +<br /> + +<br /> + +Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna +gritando que o sahimento já ia ao pé do +cemiterio, +e que não faltavam senão «aquelles +senhores»! +Os lacaios abalaram logo, e alcançaram o enterro +quando ia passando a pequena grade do cemiterio, +ao ultimo versiculo do <em>Miserere</em>. +João Eduardo agora +levava uma vela na mão, ia logo atraz do caixão +d'Amelia, tocando-o quasi, com os olhos ennevoados +de lagrimas fitos no velludilho negro que o cobria. +Sem cessar o sino na capella dobrava desoladamente. +A chuva cahia mais miuda. E todos calados, no +silencio fusco do cemiterio, com passos abafados pela +terra molle, iam-se dirigindo para o canto do muro +onde estava cavada de fresco a cova d'Amelia, negra +e profunda entre a relva humida. O menino do +côro cravou no chão a haste da cruz prateada, e o +abbade Ferrão, adiantando-se até á +beira do buraco +escuro, murmurou o <em>Deus cujus +miseratione</em>... Então +João Eduardo, muito pallido, vacillou de repente, +e o guardachuva cahiu-lhe das mãos; um dos +criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no +levar, arrancal-o d'ao pé da cova; mas elle +resistiu, e alli ficou, com os dentes cerrados, segurando-se +desesperadamente á manga do criado, vendo +<span class="pagenum">[659]</span> +o coveiro e os dois moços amarrarem as cordas +no caixão, fazerem-no resvalar devagar entre a terra +esfarellada que rolava, com um ranger de taboas +mal pregadas. +<br /> + +<br /> + +—<em>Requiem aeternam donna ei, Domine!</em> +<br /> + +<br /> + +—<em>Et lux perpetua luceat ei</em>, mugiu o +sacristão. +<br /> + +<br /> + +O caixão bateu no fundo com uma pancada surda: +o abbade espalhou em cima uma pouca de terra +em fórma de cruz: e sacudindo lentamente o hyssope +sobre o velludilho, a terra, a relva em redor: +<br /> + +<br /> + +—<em>Requiescat in pace</em>. +<br /> + +<br /> + +—<em>Amen</em>, responderam a voz cava do +sacristão e +a voz aguda do menino do côro. +<br /> + +<br /> + +—<em>Amen</em>, disseram todos n'um +murmurio, que +ciciou, se perdeu entre os cyprestes, as hervas, os +tumulos e as nevoas frias d'aquelle triste dia de dezembro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XXVI +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço +na Casa Havaneza, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas +esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que +atulhavam a porta, e alçando-se em bicos de pés +esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapeus, +para a grade do balcão, onde n'uma taboleta +suspensa se collavam os telegrammas da <em>Agencia +Havas</em>; sujeitos de faces espantadas sahiam +consternados, +exclamando logo para algum amigo mais pacato +que os esperára fóra: +<br /> + +<br /> + +—Tudo perdido! Tudo a arder! +<br /> + +<br /> + +Dentro, na multidão de grulhas que se apertava +contra o balcão, questionava-se forte; e pelo passeio, +no largo do Loreto, defronte ao pé do estanco, pelo +Chiado até ao Magalhães, era, por aquelle dia +já quente +<span class="pagenum">[662]</span> +do começo de verão, toda uma gralhada de vozes +impressionadas onde as palavras—<em>Communistas! +Versailles! Petroleiros! Thiers! Crime! +Internacional!</em> +voltavam a cada momento, lançadas com +furor, entre o ruido das tipoias e os pregões dos garotos +gritando <em>supplementos</em>. +<br /> + +<br /> + +Com effeito, a cada hora, chegavam telegrammas +annunciando os episodios successivos da +insurreição +batalhando nas ruas de Paris: telegrammas despedidos +de Versailles n'um terror dizendo os palacios que +ardiam, as ruas que se aluiam; fuzilamentos em massa +nos pateos dos quarteis e entre os mausoleus dos +cemiterios; a vingança que ia saciar-se até +á escuridão +dos esgotos; a fatal demencia que desvairava +as fardas e as blusas; e a resistencia que tinha o furor +de uma agonia com os methodos d'uma sciencia, +e fazia saltar uma velha sociedade pelo petroleo, pela +dynamite e pelo nitro-glycerina! Uma convulsão, um +fim de mundo—que vinte, trinta palavras de repente +mostravam, n'um relance, a um clarão de fogueira. +<br /> + +<br /> + +O Chiado lamentava com indignação aquella ruina +de Paris. Recordavam-se com exclamações os +edificios +ardidos, o Hotel de Ville, «tão bonito», +a rua Royale, +«aquella riqueza». Havia individuos tão +furiosos +com o incendio das Tulherias como se fosse uma propriedade +sua: os que tinham estado em Paris um ou +dois mezes abriam-se em invectivas, arrogando-se +uma participação de parisiense na riqueza da +cidade, +escandalisados por a insurreição não +ter respeitado +monumentos em que elles tinham posto os seus olhos. +<span class="pagenum">[663]</span> +<br /> + +<br /> + +—Vejam vossês! exclamava um sujeito gordo. +O palacio da Legião d'Honra destruido! Ainda não +ha um mez que eu lá estive com minha mulher... +Que infamia! Que patifaria! +<br /> + +<br /> + +Mas espalhára-se que o ministerio recebera outro +telegramma mais desolador: toda a linha do +<em>boulevard</em> +da Bastilha á Magdalena ardia, e ainda a praça +da Concordia, e as avenidas dos Campos-Elyseos até +ao Arco do Triumpho. E assim tinha a revolta arrazado, +n'uma demencia, todo aquelle systema de restaurantes, +cafés-concertos, bailes publicos, casas de jogo +e ninhos de prostitutas! Então houve por todo o largo +do Loreto até ao Magalhães um estremecimento de +furor. Tinham pois as chammas aniquilado aquella +centralisação tão commoda da +patuscada! Oh que infamia! +O mundo acabava! Onde se comeria melhor +que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais +experientes? Onde se tornaria a vêr aquelle desfilar +prodigioso d'uma volta de Bois, nos dias asperos e +seccos d'inverno, quando as victorias das cocottes +resplandeciam ao pé dos phaetons dos agentes da +Bolsa? Que abominação! Esqueciam-se as +bibliothecas +e os museus: mas a saudade era sincera pela +destruição dos cafés e pelo incendio +dos lupanares. +Era o fim de Paris, era o fim da França! +<br /> + +<br /> + +N'um grupo ao pé da Casa Havaneza os questionadores +politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon +que, por esse tempo, se começava a citar vagamente +em Lisboa como um monstro sanguinolento; +e as invectivas rompiam contra Proudhon. A +<span class="pagenum">[664]</span> +maior parte imaginava que era elle que tinha incendiado. +Mas o poeta estimado das <em>Flôres e +Ais</em> acudiu +dizendo «que, à parte as asneiras que Proudhon +dizia, +era ainda assim um estylista bastante ameno». +Então o jogador França berrou: +<br /> + +<br /> + +—Qual estylo, qual cabaça! Se aqui o pilhasse +no Chiado rachava-lhe os ossos! +<br /> + +<br /> + +E rachava. Depois do cognac o França era uma +fera. +<br /> + +<br /> + +Alguns moços porém, a quem o elemento dramatico +da catastrophe revolvia o instincto romantico, +applaudiam a heroicidade da Communa—Vermorel +abrindo os braços como o Crucificado, e sob as balas +que o trespassavam gritando: Viva a humanidade! O +velho Delecluze, com um fanatismo de santo, dictando +do seu leito d'agonia as violencias da resistencia... +<br /> + +<br /> + +—São grandes homens! exclamava um rapaz +exaltado. +<br /> + +<br /> + +Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se +pallidas, vendo já as suas casas na Baixa a +escorrer de petroleo e a mesma Casa Havaneza presa +de chammas socialistas. Então era em todos os grupos +um furor d'auctoridade e repressão: era necessario +que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse +na força dos seus principios conservadores e +religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burguezes +com tendas de capellistas fallavam da «canalha» com +o desdem imponente d'um La Tremouille ou d'um +Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a +vingança. Vadios pareciam furiosos «contra o +operario +<span class="pagenum">[665]</span> +que quer viver como principe». Fallava-se com +devoção na propriedade, no capital! +<br /> + +<br /> + +D'outro lado eram moços verbosos, localistas excitados +que declamavam contra o velho mundo, a +velha idéa, ameaçando-os d'alto, propondo-se a +derruil-os +em artigos tremendos. +<br /> + +<br /> + +E assim uma burguezia entorpecida esperava +deter, com alguns policias, uma evolução social: +e +uma mocidade, envernizada de litteratura, decidia +destruir n'um folhetim uma sociedade de dezoito seculos. +Mas ninguem se mostrava mais exaltado que +um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau +da Casa Havaneza brandia a bengala, aconselhando +á França a restauração dos +Bourbons. +<br /> + +<br /> + +Então um homem vestido de preto, que sahira do +estanco e atravessava por entre os grupos, parou, +sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado: +<br /> + +<br /> + +—Ó padre Amaro! ó maganão! +<br /> + +<br /> + +Voltou-se: era o conego Dias. Abraçaram-se com +vehemencia, e para conversarem mais tranquillamente +foram andando até ao largo de Camões, e alli +pararam, junto á estatua: +<br /> + +<br /> + +—Então vossê quando chegou, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +Tinha chegado na vespera. Trazia uma demanda +com os Pimentas da Pojeira por causa d'uma servidão +na quinta, tinha appellado para a Relação, e +vinha seguir de perto a questão na capital. +<br /> + +<br /> + +—E vossê, Amaro? Na ultima carta dizia-me que +tinha vontade de sahir de Santo Thyrso. +<br /> + +<br /> + +Era verdade. A parochia tinha vantagens; mas +<span class="pagenum">[666]</span> +vagára Villa-Franca, e elle, para estar mais perto da +capital, viera fallar com o senhor conde de Ribamar, +o seu conde, que lá andava obtendo a transferencia. +Devia-lhe tudo, sobretudo á senhora condessa! +<br /> + +<br /> + +—E de Leiria? A S. Joanneira, vai melhor? +<br /> + +<br /> + +—Não, coitada... Vossê sabe, ao principio tivemos +um susto dos diabos... Pensavamos que lhe ia +succeder como á Amelia. Mas não, era +hydropesia... +E alli o que ha é anasarca... +<br /> + +<br /> + +—Coitada, santa senhora! E o Natario? +<br /> + +<br /> + +—Avelhado. Tem tido seus desgostos. Muita +lingua. +<br /> + +<br /> + +—E diga lá, padre-mestre, o Libaninho? +<br /> + +<br /> + +—Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o conego +rindo. +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro riu tambem: e durante um momento +os dois sacerdotes pararam, apertando as +ilhargas. +<br /> + +<br /> + +—Pois é verdade, disse emfim o conego. A +coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque +emfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, +de tal modo que não havia a duvidar... +E ás dez horas da noite, na alameda! Já +é imprudencia... +Mas emfim a coisa esqueceu, e quando o +Mathias morreu, lá lhe demos o logar de +sacristão, +que é bem boa posta... Muito melhor que o que +elle tinha no cartorio... E ha de cumprir com +zelo! +<br /> + +<br /> + +—Ha de cumprir com zelo, concordou muito sério +<span class="pagenum">[667]</span> +o padre Amaro. E a proposito, a D. Maria da +Assumpção? +<br /> + +<br /> + +—Homem, rosnam-se coisas... Criado novo... +Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda +no trinque. +<br /> + +<br /> + +—Palavra? +<br /> + +<br /> + +—No trinque. Charuto, relogio, luva! Tem pilheria, +hein? +<br /> + +<br /> + +—É divino! +<br /> + +<br /> + +—As Gansosos na mesma, continuou o conego. +Têm agora a sua criada, a Escolastica. +<br /> + +<br /> + +—E da besta do João Eduardo? +<br /> + +<br /> + +—Eu mandei-lhe dizer, não? Lá está +ainda nos +Poyaes. O Morgado está mal do figado. E o João +Eduardo diz que está tisico... que eu não sei, +nunca mais o vi... Quem m'o disse foi o Ferrão. +<br /> + +<br /> + +—Como vai elle, o Ferrão? +<br /> + +<br /> + +—Bem. Sabe quem eu vi ha dias? A Dionysia. +<br /> + +<br /> + +—E então? +<br /> + +<br /> + +O conego disse uma palavra baixo ao ouvido do +padre Amaro. +<br /> + +<br /> + +—Deveras, padre-mestre? +<br /> + +<br /> + +—Na rua das Sousas, a dois passos da sua antiga +casa. O D. Luiz da Barrosa é que lhe deu o dinheiro +para montar o estabelecimento. Pois aqui +estão as novidades. E vossê está mais +forte, homem! +Fez-lhe bem a mudança... +<br /> + +<br /> + +E pondo-se diante, galhofando: +<br /> + +<br /> + +—Ó Amaro, e vossê a escrever-me que queria +<span class="pagenum">[668]</span> +retirar-se para a serra, ir para um convento, passar +a vida em penitencia... +<br /> + +<br /> + +O padre Amaro encolheu os hombros: +<br /> + +<br /> + +—Que quer vossê, padre-mestre?... N'aquelles +primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas +tudo passa... +<br /> + +<br /> + +—Tudo passa, disse o conego. E depois d'uma +pausa:—Ah! Mas Leiria já não é +Leiria! +<br /> + +<br /> + +Passearam então um momento em silencio, n'uma +recordação que lhes vinha do passado, os quinos +divertidos +da S. Joanneira, as palestras ao chá, as passeatas +ao Morenal, o <em>Adeus</em> e o +<em>Descrido</em> cantados +pelo Arthur Couceiro e acompanhados pela pobre +Amelia, que agora lá dormia, no cemiterio dos +Poyaes, sob as flôres silvestres... +<br /> + +<br /> + +—E que me diz vossê a estas coisas de França, +Amaro? exclamou de repente o conego. +<br /> + +<br /> + +—Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma +sucia de padres fuzilados!... Que brincadeira! +<br /> + +<br /> + +—Má brincadeira, rosnou o conego. +<br /> + +<br /> + +E o padre Amaro: +<br /> + +<br /> + +—E cá pelo nosso canto parece que começam +tambem essas idéas... +<br /> + +<br /> + +O conego assim o ouvira. Então indignaram-se +contra essa turba de maçons, de republicanos, de +socialistas, +gente que quer a destruição de tudo o que +é respeitavel—o clero, a instrucção +religiosa, a familia, +o exercito e a riqueza... Ah! a sociedade estava +ameaçada por monstros desencadeados! Eram +<span class="pagenum">[669]</span> +necessarias as antigas repressões, a masmorra e a +forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito +pelo sacerdote. +<br /> + +<br /> + +—Ahi ó que está o mal, disse Amaro, é +que nos +não respeitam! Não fazem senão +desacreditar-nos... +Destroem no povo a veneração pelo sacerdocio... +<br /> + +<br /> + +—Calumniam-nos infamamente, disse n'um tom +profundo o conego. +<br /> + +<br /> + +Então junto d'elles passaram duas senhoras, uma +já de cabellos brancos, o ar muito nobre; a outra, +uma creaturinha delgada e pallida, d'olheiras batidas, +os cotovêlos agudos collados a uma cinta d'esterilidade, +<em>pouff</em> enorme no vestido, cuia forte, +tacões de +palmo. +<br /> + +<br /> + +—Caspitè! disse o conego baixo, tocando o +cotovêlo +do collega. Hein, seu padre Amaro?... Aquillo +é que vossê queria confessar. +<br /> + +<br /> + +—Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse o +parocho +rindo, já as não confesso senão +casadas! +<br /> + +<br /> + +O conego abandonou-se um momento a uma +grande hilaridade; mas retomou o seu ar ponderoso +de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente +o chapéo a um cavalheiro de bigode grisalho +e oculos d'ouro, que entrava na praça, do lado do +Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guardasol +debaixo do braço. +<br /> + +<br /> + +Era o senhor conde de Ribamar. Adiantou-se com +bonhomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto +e perfilado, apresentou «o seu amigo, o senhor +conego Dias, da Sé de Leiria». Conversaram um +momento +<span class="pagenum">[670]</span> +da estação, que já ia quente. Depois o +padre +Amaro fallou dos ultimos telegrammas. +<br /> + +<br /> + +—Que diz vossa excellencia a estas coisas de +França, senhor conde? +<br /> + +<br /> + +O estadista agitou as mãos, n'uma +desolação que +lhe assombreava a face: +<br /> + +<br /> + +—Nem me falle n'isso, senhor padre Amaro, nem +me falle n'isso... Vêr meia duzia de bandidos destruir +Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias +que tenho estado doente. +<br /> + +<br /> + +Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, +uniram-se á dôr do estadista. +<br /> + +<br /> + +E então o conego: +<br /> + +<br /> + +—E qual pensa vossa excellencia que será o resultado? +<br /> + +<br /> + +O senhor conde de Ribamar, com pausa, em palavras +que sabiam devagar, sobrecarregadas do peso +das idéas, disse: +<br /> + +<br /> + +—O resultado?... Não é difficil prevel-o. Quando +se tem alguma experiencia da Historia e da Politica, +o resultado de tudo isto vê-se distinctamente. +Tão distinctamente como os vejo a vossas senhorias. +<br /> + +<br /> + +Os dois sacerdotes pendiam dos labios propheticos +do homem de governo. +<br /> + +<br /> + +—Suffocada a insurreição—continuou o senhor +conde olhando a direito diante de si com o dedo no +ar, como seguindo, apontando os futuros historicos +que a sua pupilla, ajudada pelos oculos d'ouro, penetrava—suffocada +a insurreição, dentro de tres mezes +temos de novo o imperio... Se vossas senhorias +<span class="pagenum">[671]</span> +tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias +ou no Hotel de Ville, nos tempos do imperio, +haviam de dizer, como eu, que a França é +profundamente +imperialista e só imperialista... Temos +pois Napoleão III: ou talvez elle abdique, e a +imperatriz tome a regencia na menoridade do principe +imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz +saber, que era esta talvez a solução mais +prudente. +Como consequencia immediata temos o Papa +em Roma outra vez senhor do poder temporal... +Eu, a fallar a verdade, e já o fiz saber, não +approvo +uma restauração papal. Mas eu não lhes +estou aqui a dizer o que approvo, ou o que reprovo. +Felizmente não sou o dono da Europa... +Seria um encargo superior á minha idade e ás +minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha +experiencia da Politica e da Historia me aponta +como certo... Dizia eu...? Ah! a imperatriz +no throno de França, Pio Nono no throno de Roma, +ahi temos a democracia esmagada entre estas +duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias +um homem que conhece a sua Europa e os +elementos de que se compõe a sociedade moderna, +creiam que depois d'este exemplo da Communa não +se torna a ouvir fallar de republica, nem de questão +social, nem de povo, n'estes cem annos mais +chegados!... +<br /> + +<br /> + +—Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez +com unção o conego. +<br /> + +<br /> + +Mas Amaro, radiante de se achar alli, n'uma praça +<span class="pagenum">[672]</span> +de Lisboa, em conversação intima com um estadista +illustre, perguntou ainda, pondo nas palavras +uma anciedade de conservador assustado: +<br /> + +<br /> + +—E crê vossa excellencia que essas idéas de +republica, de materialismo, se possam espalhar entre +nós? +<br /> + +<br /> + +O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois +padres, até quasi junto das grades que cercam a estatua +de Luiz de Camões: +<br /> + +<br /> + +—Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, +não +lhes dê isso cuidado! É possivel que haja ahi um +ou dois esturrados que se queixem, digam tolices +sobre a decadencia de Portugal, e que estamos n'um +marasmo, e que vamos cahindo no embrutecimento, +e que isto assim não póde durar dez annos. etc. +etc. Babuseiras!... +<br /> + +<br /> + +Tinha-se encostado quasi ás grades da estatua, e +tomando uma attitude de confiança: +<br /> + +<br /> + +—A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros +invejam-nos... E o que vou a dizer não é +para lisonjear a vossas senhorias: mas emquanto +n'este paiz houver sacerdotes respeitaveis como vossas +senhorias, Portugal ha de manter com dignidade +o seu logar na Europa! Porque a fé, meus senhores, +é a base da ordem! +<br /> + +<br /> + +—Sem duvida, senhor conde, sem duvida, disseram +com força os dois sacerdotes. +<br /> + +<br /> + +—Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, +que animação, que prosperidade! +<br /> + +<br /> + +E com um grande gesto mostrava-lhes o largo do +<span class="pagenum">[673]</span> +Loreto, que áquella hora, n'um fim de tarde serena +concentrava a vida da cidade. Tipoias vazias rodavam +devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia +e tacão alto, com os movimentos derreados, a pallidez +chlorotica d'uma degeneração de raça; +n'alguma +magra pileca, ia trotando algum moço de nome historico, +com a face ainda esverdeada da noitada de +vinho; pelos bancos da praça gente estirava-se n'um +torpôr de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos +sobre as suas altas rodas, era como o symbolo +de agriculturas atrazadas de seculos; fadistas gingavam, +de cigarro nos dentes; algum burguez enfastiado +lia nos cartazes o annuncio d'operetas obsoletas; +nas faces enfezadas de operarios havia como a +personificação das industrias moribundas... E +todo +este mundo decrepito se movia lentamente, sob um +céo lustroso de clima rico, entre garotos apregoando +a loteria e a batota publica, e rapazitos de voz plangente +offerecendo o <em>Jornal das pequenas +novidades</em>: +e iam, n'um vagar madraço, entre o largo onde se +erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque +comprido das casarias da praça onde brilhavam tres +taboletas de casas de penhores, negrejavam quatro +entradas de taberna, e desembocavam, com um tom +sujo d'esgoto aberto, as viellas de todo um bairro +de prostituição e de crime. +<br /> + +<br /> + +—Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta +paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus +senhores, não admira realmente que sejamos a inveja +da Europa! +<span class="pagenum">[674]</span> +<br /> + +<br /> + +E o homem d'estado, os dois homens de religião, +todos tres em linha, junto ás grades do monumento, +gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da +grandeza do seu paiz,—alli ao pé d'aquelle pedestal, +sob o frio olhar de bronze do velho poeta, erecto +e nobre, com os seus largos hombros de cavalleiro +forte, a epopeia sobre o coração, a espada firme, +cercado dos chronistas e dos poetas heroicos da +antiga patria—patria para sempre passada, memoria +quasi perdida! +<br /> + +<br /> + +Outubro 1878—Outubro 1879. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p81">#pág. +81</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">?uz</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">luz</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p88"> +#pág. 88</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">arcepispo</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">arcebispo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p95"> +#pág. 95</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">branços</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">braços</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p152"> +#pág. +152</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 121px;">elle</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">ella</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p344"> +#pág. 344</a></td> + + <td style="text-align: center;">demolissse</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">demolisse</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p357"> +#pág. 357</a></td> + + <td style="text-align: center;">religão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">religião</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p357"> +#pág. 357</a></td> + + <td style="text-align: center;">Infelimente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Infelizmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p357"> +#pág. 357</a></td> + + <td style="text-align: center;">podia ter ter</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">podia ter</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p360"> +#pág. 360</a></td> + + <td style="text-align: center;">tataruga</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">tartaruga</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p372"> +#pág. 372</a></td> + + <td style="text-align: center;">patite</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">patife</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p396"> +#pág. 396</a></td> + + <td style="text-align: center;">exemplicar</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">exemplificar</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p397"> +#pág. 397</a></td> + + <td style="text-align: center;">cebeça</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cabeça</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p425"> +#pág. 425</a></td> + + <td style="text-align: center;">installado-se</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">installando-se</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p428"> +#pág. 428</a></td> + + <td style="text-align: center;">encondo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">encontrado</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p430"> +#pág. 430</a></td> + + <td style="text-align: center;">iria em em</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">iria em</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p436"> +#pág. 436</a></td> + + <td style="text-align: center;">enconder</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">esconder</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p460"> +#pág. 460</a></td> + + <td style="text-align: center;">atravessassse</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">atravessasse</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p463"> +#pág. 463</a></td> + + <td style="text-align: center;">malacia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">malicia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p478"> +#pág. 478</a></td> + + <td style="text-align: center;">grades</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">grandes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p489"> +#pág. 489</a></td> + + <td style="text-align: center;">necesario</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">necessario</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p489"> +#pág. 489</a></td> + + <td style="text-align: center;">viessa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">viesse</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p492"> +#pág. 492</a></td> + + <td style="text-align: center;">entercimento</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">enternecimento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p558"> +#pág. 558</a></td> + + <td style="text-align: center;">appareeeu</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">appareceu</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p634"> +#pág. 634</a></td> + + <td style="text-align: center;">cruxifico</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">crucifixo</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<div style="text-align: center;"> +<br /> + +O original não tem capítulo XI, no entanto, a +numeração das páginas não +apresenta quebra +na narração. Optámos por +não corrigir a +numeração dos capítulos.<br /> +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O crime do padre Amaro, by +José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CRIME DO PADRE AMARO *** + +***** This file should be named 31971-h.htm or 31971-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/9/7/31971/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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