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+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas da Roça
+ Poema de costumes nacionaes
+
+Author: António Corrêa
+
+Release Date: May 8, 2010 [EBook #32295]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
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+
+
+ A. CORRÊA
+
+ SCENAS DA ROÇA
+
+ POEMA DE COSTUMES NACIONAES
+
+
+ RIO DE JANEIRO
+ TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS
+ 72 RUA SETE DE SETEMBRO 72
+ 1879
+
+
+
+
+ SCENAS DA ROÇA
+
+
+
+
+ A. CORRÊA
+
+ SCENAS DA ROÇA
+
+ POEMA DE COSTUMES NACIONAES
+
+
+ RIO DE JANEIRO
+ TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS
+ 72 RUA SETE DE SETEMBRO 72
+ 1879
+
+
+
+
+AO MEU LIVRO
+
+
+ Vae, filho, já tens idade,
+ já ficaste emancipado;
+ precisas correr o mundo,
+ saber de tudo um bocado.
+ Vae, filho, mas sê prudente,
+ ouve os conselhos de gente
+ que puder te aconselhar;
+ sê modesto e delicado...
+ em fallar pouco e acertado
+ ha sempre muito a ganhar.
+
+ Se alguma gloria colheres,
+ não te ufanes sem razão:
+ ás vezes ouve-se um tolo
+ por méra contemplação.
+ Escuta os indifferentes.
+ Os amigos e os parentes
+ não dizem toda a verdade.
+ Agora, no teu caminho,
+ não te basta o meu carinho
+ nem toda a minha amizade.
+
+ Se ouvires phrases sensatas,
+ presta-lhes toda a attenção;
+ a tolos não dês ouvidos
+ nem provoques discussão.
+ Respeita as crenças alheias;
+ mas guarda as tuas idéas
+ e corrige os teus defeitos.
+ Na escola da sociedade,
+ estuda, aprende a verdade
+ nas phrases de seus eleitos.
+
+ Vae, filho, Deus te acompanhe.
+ Das letras no vasto mundo
+ bem poucos bóiam á tôna,
+ grande parte vai ao fundo.
+ Ai! neste momento extremo
+ é por ti, filho, que eu tremo!
+ attende aos conselhos meus...
+ Já são horas da partida;
+ comtigo vae minha vida,
+ mas parte... vae... filho, adeus.
+
+
+
+
+CANTO PRIMEIRO
+
+
+I
+
+ Ha quem diga que a franceza
+ é a mulher por excellencia;
+ mil outros dão preferencia
+ aos requebros da hespanhola:
+ dizem que ella prende e mata
+ quando a melena desata
+ e no fandango arrebata
+ ao trinar da castanhola.
+
+ As bellas filhas da Italia
+ tem milhões de adoradores,
+ lá na patria dos amores
+ quem dá leis é o coração.
+ É tudo vida, alegria,
+ feixes de luz, de harmonia,
+ ondula em torno a poesia
+ nesse mar da inspiração.
+
+ Eu acho a todas bonitas
+ quando de veras o são,
+ quer sejam do Indostão,
+ d'Allemanha, Italia ou França;
+ mas p'ra mim a brazileira
+ d'entre todas é a primeira:
+ é gentil, é feiticeira
+ como um sorrir de creança.
+
+ As outras guardam comsigo
+ da velha Europa a imponencia;
+ estas não, tem a innocencia,
+ tem o perfume das flôres;
+ captivam pelos encantos
+ ingenuos puros e santos,
+ e são, meu Deus, taes e tantos,
+ que fazem morrer de amores!
+
+ Quem póde escutar-lhe as fallas
+ quando a tremer de receio,
+ baixando os olhos no enleio
+ em que a prende o coração,
+ ella diz corando e rindo:
+ «Do meu ceu de amor inflado,
+ tu és o astro mais lindo
+ da maior constellação!»?
+
+ Quem póde conter no peito
+ o travesso coração?
+ quem não sujeita a razão
+ ao dominio dessas fallas?
+ quem não se abraza nos lumes
+ da mulher que tem perfumes,
+ de que as rosas tem ciumes
+ se vão se encontrar nas salas?
+ ..............................
+
+
+II
+
+ Meu leitor, deixa a cidade e vem comigo
+ que eu quero te mostrar um quadro bello;
+ vem á roça onde o amor é mais sublime,
+ e tudo quanto é grande mais singelo.
+
+ Eu prefiro ás harmonias de uma orchestra,
+ aos encantos que doudejam nos salões,
+ a cantiga do tropeiro descuidoso,
+ ou as trovas amorosas dos sertões.
+
+ Ha naquelles improvisos mal rimados,
+ e naquella inspiração de cada instante,
+ a belleza original que parte d'alma
+ sem arte, mas com fogo delirante.
+ .................................
+
+
+III
+
+ Elle era um moço bonito
+ como na côrte não ha,
+ tinha os olhos e os cabellos
+ da côr do jacarandá.
+ Um porte airoso, engraçado,
+ rapagão desempenado
+ de metter inveja a cem!
+ se na estrada elle passava,
+ a moça que o espiava
+ lhe ficava querendo bem.
+
+ Mas elle guardava firme
+ no fundo do coração
+ pela bella Margarida
+ a mais ardente paixão.
+ E as moças da visinhança
+ ao verem sua esquivança
+ ás festas, se ella não ia,
+ diziam de enciumadas:
+ «--Pedro está de azas quebradas;
+ pobre moço! quem diria?!
+
+ «--E tem só vinte e tres annos
+ e alguma cousa de seu!
+ vejam só o que é fortuna;
+ tão feliz nunca fui eu!
+ --E dizem que casa breve?
+ --Eu não sei, mas elle deve
+ casar-se p'ra o fim do anno.
+ --Que lhe faça bom proveito...
+ --E o velho está satisfeito?
+ --Pudera não! bem ufano!»
+
+ Tal eram os commentarios
+ que em toda a parte faziam
+ as moças da visinhança,
+ que em festas se reuniam;
+ mas elle, surdo aos rumores
+ que faziam seus amores
+ nas discussões femenis,
+ nada via além do encanto
+ d'aquelle amor puro e santo,
+ d'aquelles olhos gentis.
+
+ Mas quem era a linda moça
+ a quem Pedro tanto amava?
+ quem era a virgem formosa
+ que elle assim idolatrava?
+ era rica ou pobresinha?
+ tinha-lhe amor ou não tinha?
+ Não é o que queres saber?
+ lá vamos, leitor querido,
+ satisfazer teu pedido,
+ já tudo vamos dizer.
+
+
+IV
+
+ Ella tinha quinze annos; era um anjo
+ de graça, candidez e de bondade,
+ e aquelle coração de meiga pomba
+ amava como se ama nessa idade.
+
+ A todos occultava aquelle affecto
+ que su'alma marchetava de illusões;
+ dos sonhos côr de rosa que ella tinha
+ quem pode descrever as emoções?
+
+ De manhã apoz a prece fervorosa,
+ fictados nos do Christo os olhos bellos,
+ regava o seu canteiro, e de violetas
+ um raminho prendia entre os cabellos.
+
+ «Tomava o seu balaio de costura,
+ tirava linha, agulhas e dedal,
+ e sentava-se a coser o dia inteiro
+ á sombra da mangueira do quintal.
+
+ Ás vezes descuidando seu trabalho,
+ parada co'o olhar ficto na estrada,
+ no mar da phantasia, como um cysne,
+ boiava da corrente á flôr levada.
+
+
+V
+
+ Tal era a mimosa filha
+ do velho Simão da Cruz;
+ de sua velhice o arrimo,
+ alegria, vida e luz.
+ Revia no rosto della
+ a companheira extremosa,
+ que lhe deixara, murchando,
+ o rebentão de outra rosa.
+
+ Vio-a crescer sob os olhos;
+ estudou-lhe o coração,
+ e lia nelle os mysterios
+ d'aquella ardente paixão.
+ Um dia toma-lhe o braço,
+ fal-a sentar a seu lado,
+ e diz-lhe rindo o bom velho:
+ «Já tens algum namorado?»
+
+ Enrubece, treme, ensaia
+ dizer uma phrase, em vão!
+ repete o velho a pergunta,
+ e ella responde «--Não...
+ --Não mintas, filha! não sabes
+ que é um peccado mentir?
+ --Perdão meu pai!--Não perdôo
+ a quem me busca illudir.»
+
+ Dos bellos olhos da moça
+ o pranto desce a torrentes,
+ cujas bagas vão no seio
+ embeber-se encandescentes.
+ O velho, ameigando a falla,
+ apoz miral-a um instante,
+ lhe torna: «--Vamos! não chores!
+ não é Pedro o teu amante?
+
+ «Bom rapaz! é de meu gosto...
+ já fallou-te em casamento?
+ e tu disseste que sim,
+ sem o meu consentimento?!
+ Como os filhos são ingratos!
+ este mundo como vae!
+ quem de uma filha os segredos
+ guardará melhor que um pai?
+
+ «Mas vamos lá! estou por tudo;
+ disseste que sim? está dito!...
+ fizeste mal em negal-o;
+ isto assim não é bonito.
+ Não chores, dá-me um abraço!
+ será Pedro o teu marido;
+ é justo, se o amas tanto...
+ se foi o teu preferido...
+
+
+VI
+
+ Estamos em junho, no mez das fogueiras,
+ do riso, das festas, das sortes, do amor,
+ das cannas assadas, carás e batatas,
+ dos jogos de prendas, do fogo em redor.
+
+ Quem póde na roça ficar, preguiçoso,
+ dormindo na rêde, sem ir ao pagode?
+ se as moças bonitas lá estão feiticeiras
+ cantando e sorrindo, fugir-lhes quem póde?
+
+
+VII
+
+ Na fazenda do Tymbira
+ era velha a devoção
+ de fazer-se grande festa
+ em dias de S. João.
+ O velho Joaquim Medeiros,
+ que era a flôr dos fazendeiros
+ d'aquella localidade,
+ esfregava as mãos contente
+ quando via em casa gente
+ a que o prendia a amizade.
+
+ D. Olympia, sua esposa;
+ mãi dos pobres do logar,
+ tres dias antes da festa
+ não parava a trabalhar.
+ Mandava as suas mucamas
+ dos quartos fazer as camas,
+ espanar tudo e varrer,
+ e, doceira de bom gosto,
+ lá estava firme no posto,
+ fazendo o tacho ferver.
+
+ Fazia doce de côco,
+ laranja, cidra, limão,
+ bom-bocado, arroz de leite,
+ bolinhos de S. João,
+ pamonha, cus-cus de milho,
+ manouê, biju, sequilho,
+ biscoutinhos de araruta,
+ tarécos, baba-de-moça,
+ e, mil doces que na roça
+ se fazem de toda a fructa.
+
+ No terreiro da fazenda
+ preparava-se a fogueira,
+ e o mastro todo enfeitado
+ de folhagens de mangueira;
+ e dentre as folhas escuras
+ sahiam fructas maduras,
+ como é o costume geral,
+ e uma boneca vistosa
+ de vestido côr de rosa,
+ fazia o tópe final.
+
+ No campo desde a porteira
+ de verde murta vestida,
+ duas linhas de coqueiros
+ vem a porta da saida.
+ De um lado a outro correndo,
+ dirigindo ou desfazendo
+ o que não estava direito,
+ andava o rei dos festeiros
+ o nosso velho Medeiros
+ sempre alegre e satisfeito.
+
+ «--Vamos com isso, rapazes,
+ que temos mais que fazer
+ e d'aqui por uma hora
+ ninguem se póde mecher.
+ Joaquina e Manuela,
+ vocês vão lá p'ra capella
+ capinar ali na frente.
+ Olá, moleque, ó vadio!
+ chega ali embaixo no rio,
+ vê se vem alguma gente.
+
+ «Vicente, traze as bandeiras,
+ vai tu com elle, Francisco;
+ Manuel, varre p'ra um canto
+ e apanha depois o cisco.
+ Não quero ver uma palha!...
+ veja depois como espalha
+ essas folhas de mangueira!...
+ Ó Job, pergunta á sinhá
+ se já tem café por lá,
+ que mande aqui na porteira.»
+
+
+VIII
+
+ Se eu soubesse descriptiva
+ dava aqui em perspectiva
+ a fazenda toda inteira!
+ tomava tinta e pincel
+ e sobre plano-painel
+ transportava... mas é asneira...
+
+ Eu não pesco nem pitada
+ dessa insulsa trapalhada,
+ de linhas, pontos e traços;
+ mas tambem não me entristeço,
+ é sciencia que aborreço,
+ cansa a cabeça e os braços.
+
+ E na falta de sciencia,
+ eu peço condescendencia
+ p'ra o traçado que vou dar;
+ é obra de um curioso...
+ meu leitor, sei que és bondoso,
+ não o queiras censurar.
+
+
+IX
+
+ O todo se emmuldura em matto virgem;
+ arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,
+ e o fundo do painel é verde-escuro
+ da côr de um cafesal visto á distancia.
+
+ Por entre as pedras soltas de seu leito,
+ o rio serpenteia murmurando.
+ De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,
+ do outro, os animaes que estão pastando.
+
+ Aqui o mandiocal n'um morro enorme,
+ naquelles á direita, é o cafesal;
+ ha uma socca de arroz junto do brejo
+ e da cerca p'ra lá, o cannavial.
+
+ No centro, n'uma dobra do terreno,
+ a casa que é voltada p'ra o nascente;
+ precede-lhe o jardim, primor de gosto
+ que a abraça pela esquerda e pela frente.
+
+ Ao fundo em duas ruas parallelas
+ a casa da farinha, a do feitor,
+ paióes, estrebarias e senzallas,
+ o tanque, o gallinheiro, e corador.
+
+ Olhando p'ra direita vê-se a escada
+ que tem de cada lado uma mangueira,
+ o campo e o caminho em linha recta,
+ que da casa vae parar junto á porteira.
+
+ Concebe o quadro lá como puderes!
+ eu dou-te aqui apenas um bosquejo,
+ querel-o completar fôra loucura,
+ se bem que fosse grande o meu desejo.
+
+ Lá chega o rancho enorme e folgasão
+ que vem p'ra festejar o S. João.
+
+ De quatro leguas em roda,
+ toda aquella visinhança
+ veio assistir á festança
+ da noite de S. João.
+ O povo da freguezia
+ quazi todo nesse dia,
+ ia como em romaria
+ pandegar por devoção.
+
+ Como é uso admittido,
+ a pessôa convidada
+ leva roupa preparada
+ para quatro ou cinco dias!...
+ lá na roça a moda é esta;
+ qualquer pagode, não presta
+ sem a semana de festa,
+ de intermináveis folias!
+
+ Subindo e descendo morros,
+ n'um carro por bois puchado,
+ n'um tunel improvisado
+ de arcos e de uma esteira,
+ de uma fazenda visinha
+ a passo lento caminha
+ a familia que se aninha
+ n'essa amavel capoeira.
+
+ Atraz os negros da casa
+ Tão carregando os bahus,
+ sem camisa, quazi nús,
+ e alagados de suor;
+ ao lado caminha a passo,
+ n'um lindo macho picaço,
+ o fazendeiro ricaço
+ que vae morto de calor.
+
+ Os filhos vão a cavallo.
+ Na frente caminha o pagem,
+ que sem esse personagem
+ na roça não se é ninguem!
+ É um negro de confiança
+ em quem o Senhor descança,
+ que exerce desde criança
+ o cargo honroso que tem.
+
+ Usa jaqueta de vivos,
+ chapeo baixo de oleado,
+ topete bem penteado,
+ canos de bota e chilenas;
+ é o mensageiro de amores
+ dos filhos de seus senhores;
+ leva cartinhas e flôres
+ para entregar ás pequenas.
+
+ O pagem da roça é um typo
+ de serio e acurado estudo,
+ sabe um bocado de tudo
+ quanto se deve saber.
+ É ferrador, é selleiro,
+ carapina e corrieiro,
+ é peão e no terreiro
+ requebra um fado a valer.
+
+ Aqui um rancho de moças
+ vae a pé, moram tão perto!...
+ são duas leguas, é certo,
+ mas diz-se na roça:--é ali.
+ E por toda aquella estrada
+ vê-se gente a pé, montada,
+ e outra que já cançada
+ bebe á sombra paraty.
+ ...................................
+ ...................................
+ ...................................
+
+
+X
+
+ Terminou-se o jantar, é noite escura;
+ com fachos de sapé ligeiros correm
+ os moços dando vivas.
+ Accende-se a fogueira e em torno a ella
+ vão sentar-se alegres, descuidosos,
+ os grupos de convivas.
+
+ Aqui tomam garapa em lisas cuias,
+ os velhos, que disputam seriamente
+ ácerca de eleições,
+ ou fallam do café que está sem preço,
+ nos gastos da lavoura e poucos lucros
+ de suas transacções.
+
+ Ali as moças todas reunidas
+ dissertam sobre amor e namorados
+ com tal proficiencia,
+ como um lente, jubilado na materia,
+ derramando em qualquer academia
+ a luz da experiencia.
+
+ Não longe os rapazes formam grupos:
+ uns são republicanos exaltados
+ e outros monarchistas;
+ e outros sem partido, olhando as moças,
+ a morrer de amor por ellas, contam rindo
+ amores e conquistas.
+
+ É tudo animação, prazer e vida...
+ aqui um bello dito, ali vozes confusas,
+ gostosas gargalhadas;
+ estouram buscapées, rebentam bombas,
+ foguetes e balões erguem-se aos ares
+ no meio de apupadas.
+
+
+XI
+
+ «--Qual, compadre, desta feita
+ parece que os liberaes
+ não sobem, não, mas é o mesmo...
+ que me diz, Sr. Moraes?
+
+ «--Eu não sei, mas desconfio
+ que os homens não fazem nada;
+ pelo menos lá na villa
+ é tudo chapa cerrada.
+
+ «--Aposto cem contra dez,
+ com quem quizer apostar,
+ em como os conservadores
+ hão de ceder o logar.
+
+ «E o Brazil vae á garra
+ se os liberaes não subirem;
+ que projectos, quanta cousa
+ se perde, se elles cahirem!
+
+ «Estradas e mais estradas,
+ navegação pelos rios;
+ hão de fazer o diabo
+ porque empenharam seos brios.
+
+ «--Ora adeus, em quanto a brios
+ os outros tambem os tem;
+ e ninguem lhes passa a perna,
+ porque fallam muito bem.
+
+
+XII
+
+ «Ó Gringo, salta a fogueira!
+ ó Guillon, pula tambem!
+ assim, Norberto! um, dois, trez...
+ sim, senhor, foi muito bem!
+
+ «_Seu_ Zé Carlos, largue a moça!
+ não seja namorador!
+ já temos nova conquista?
+ vem p'ra aqui, ó seductor.
+
+ «O Octávio lá está n'um canto
+ a scismar _encalistrado_!
+ que tem elle?--Ora o que tem!
+ anda muito apaixonado:
+
+ «Dizem que elle foi a um samba
+ e de lá veio cahido...
+ mas espera, olha o Zamith
+ como está todo lambido!
+
+ «E o Licurgo? oh que maroto!
+ desde que elle se casou
+ está com ar de homem serio,
+ ficou bonito, engordou!...
+
+ «Tira os carás do rescaldo,
+ moleque, traz o melado!
+ oh ladrão, anda ligeiro...
+ este sim, está bem assado
+
+ «É só da tropa fandanga!
+ ninguem mais aqui se metta!
+ Ezequiel, tu não comes?
+ estás forjando alguma pêta?
+
+
+XIII
+
+ «--Pois creia, sinhá Chica, foi olhado
+ botado na pequena com certeza;
+ Candóca esteve assim, mas foi resal-a
+ a sogra do Manduca, a nhã Thereza.
+
+ «Foi lá trez sextas-feiras, em seguida
+ benzeu e deu-lhe uns _póses_ p'ra tomar;
+ e hoje, benza-a Deus, está que é um gosto!
+ só vendo é que se pode acreditar!
+
+ «--Pois olhe, p'ra fallar minha verdade,
+ já tinha me _alembrado_ ser feitiço...
+ não podia senão ser cousa feita..
+ pelos modos que é, só se foi isso.
+
+ «A menina tem uns flatos pelas costas,
+ e anda jururú que mette pena!
+ coitada! tem tomado mil mesinhas
+ e nada de arribar; pobre pequena!
+
+ «--Quem sabe, diz a tia Marcolina,
+ que entende destas cousas como gente,
+ quem sabe se a espinhela tem caida?!
+ se for isso, ponho-a boa de repente.
+
+ «A lua agora é nova... pouco importa,
+ na sexta-feira cedo mande-a lá,
+ que com favor de Deus tenho esperança
+ que volta sã e salva para cá.»
+
+
+XIV
+
+ Eu não sei porque é que em toda a festa
+ se encontra sempre um bôbo, um toleirão,
+ dizendo muita asneira e se inculcando
+ rapaz de muita graça e sabichão!
+
+ Á festa de Medeiros foi um typo,
+ a quem debalde eu busco descrever;
+ deixára a côrte onde era um _petit-maitre_
+ e á roça foi levar todo o saber.
+
+ Fallava sempre em termos empollados,
+ mirava-se ao espelho a cada instante;
+ usava citações em qualquer lingua,
+ e tinha o ar altivo do pedante.
+
+ Frisada a cabelleira e com pastinhas...
+ gravata verde-mar, o fraque azul,
+ as luvas côr de cinza, a calça branca,
+ sapatos de verniz; eis meu taful.
+
+ Desceu para o terreiro, olhou em torno
+ buscando achar um pobre a quem massar,
+ e eil-o dentro em breve n'uma roda,
+ com todo o seu furor a disputar.
+
+ «--Perdão, dizia o typo enthusiasmado:
+ eu sou republicano, e como tal
+ exijo a liberdade a mais completa,
+ quer na ordem civil, quer na moral.
+
+ «A lei é um empecilho á liberdade,
+ o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno
+ os povos não precisam de governo,
+ o exemplo está no povo americano!
+
+ «_To be or not to be_, eis como eu penso;
+ abaixo a realeza e o seu prestigio;
+ o rei a quem o mundo hoje se curva
+ escreve--Liberdade--em gorro phrigio!»
+
+ Fallou e disse asneiras muito tempo
+ até que ficou só, sem mais ninguem!
+ «--Camellos! disse elle em tom baixinho,
+ nem sabem de que ponto a luz lhes vem!»
+
+ Mas vendo ao longe a bella Margarida,
+ exclama o nosso heróe: «--Oh! _c'est charmant!_
+ _Mignone_, vaes ser minha, assim t'o juro...
+ e agora ella está só! _c'est bien l'instant_.
+
+ E assim dizendo applica o _pince-nez_
+ e vae sentar-se ao lado da menina.
+
+
+XV
+
+ «Desculpe vossa excellencia,
+ mas eu creio que já a vi!
+ --Póde ser, responde a moça,
+ quasi sempre eu venho aqui...»
+ «--Não foi aqui, foi ha um anno...
+ na côrte, se não me engano,
+ n'um baile que eu a encontrei...
+ --Oh! gentes! está enganado,
+ se perguntar p'ra que lado
+ a côrte fica, não sei!»
+
+ «--Era então o seu retrato
+ divinamente imitado...
+ os mesmos olhos divinos!
+ o mesmo rosto adorado!...
+ «--Oh! senhor, parece incrivel!
+ deveras será possivel
+ tão pasmosa semelhança?!
+ --Oh! natura eterna e infinda!
+ nunca vi mulher tão linda!...
+ --Eu sou linda? que esperança!
+
+ «--Então não vio Guanabara
+ da metrop'le no regaço,
+ sonhando loucos edyllios
+ co'os olhos fitos no espaço?!
+ «--Não senhor! se eu não conheço!»
+ «--Escuta, diva, eu te peço:
+ sou talvez um sonhador...
+ --Oh! moço, mal comparando,
+ quando o senhor está fallando
+ parece-me um pregador!»
+
+ «--Serei tudo, ó casta diva,
+ innocente Julieta!
+ tu'alma exhala o perfume
+ da modesta violeta!...
+ --_Ué_! que moço engraçado!
+ já deu-me o nome trocado...
+ eu me chamo Margarida.
+ --Margarida? Oh! doce encanto!
+ teu nome tão puro e santo
+ guardarei além da vida!
+
+ «Escuta, sylpho do empirio,
+ dos céus aerea visão,
+ não sentes do amor as lavas
+ que arroja o meu coração?
+ partamos, além na selva
+ sobre um tapete de relva,
+ pousemos o floreo ninho!
+ partamos, a noite é densa...
+ --Ó moço, eu peço licença,
+ eu vou fallar com dindinho!
+
+ «--_Comment celà!_ não me deixes
+ com tua ausencia obumbrado!
+ queres tu que um cenotaphio
+ erga a um amor desgraçado?
+ --Oh! _seu_ aquelle, me deixa!
+ senão eu vou fazer queixa
+ a meu pai, largue meu braço!..
+ --Não partas, anjo bemdito...
+ --Eu sou grossa p'ra palito...
+ --Ao menos dá-me um abraço!...»
+
+
+XVI
+
+ Tal como ao terminar-se da espoleta
+ o mixto que de um jacto a carga inflamma,
+ e no rouco troar detona a bomba
+ cuspindo os estilhaços, fumo e chamma,
+
+ assim do meu leão, na face núa,
+ por mão callosa e firme manejada,
+ a bomba do ciume arrebentara
+ e com ella uma tremenda bofetada!
+
+ Zumbiram-lhe aos ouvidos mil besouros,
+ myriades de estrellas viu então;
+ sahiram-lhe faiscas pelos olhos,
+ perdera o equilibrio, e... foi ao chão!
+
+ De pé, em frente a elle estava um homem,
+ raivoso como tigre olhando a preza;
+ nos olhos faiscava-lhe o ciume,
+ nos labios um sorrir de atroz dureza!
+
+ É Pedro, que no seu amor selvagem
+ não póde reflectir, sabe vingar;
+ feriam-lhe de morte as crenças d'alma,
+ e o tigre que é ferido quer matar.
+
+
+XVII
+
+ «--Pedro! Pedro! então que é isto?!
+ valha-me Nossa Senhora!
+ --Margarida, vae-te embora,
+ tu não me queiras perder!
+ --Pelo que tens mais sagrado,
+ deixa esse moço, coitado!
+ que mais lhe queres fazer?!...
+
+ «--Quero mostrar a um patife
+ como se falla a uma moça;
+ elles pensam que na roça
+ é como lá na cidade?!
+ «Estão enganados comigo!...»
+ E com o joelho no umbigo
+ dava-lhe sôcco á vontade!
+
+ «--Soccorro! gritava a moça
+ quazi louca de terror;
+ meu pai, accuda o senhor,
+ porque elles se vão matar!...
+ meu Pedro, não sejas louco,
+ olha, escuta, espera um pouco;
+ meu Deus! quem ha-de apartar?
+
+ «--Sahe-te d'aqui co'os diabos!
+ não me atormente a cabeça,
+ puche já, não me aborreça...
+ você pensa que me embaça?
+ É tambem teu namorado?
+ ha de amargar um bocado,
+ hei de tirar-lhe a fumaça...
+
+ «--Repare que é minha filha;
+ escutou, _seu_ malcriado?
+ sou velho, estou alquebrado,
+ mas ninguem me offende em vão!
+ sei tolerar n'essa idade
+ loucuras da mocidade;
+ mas insultal-a, isso não!
+
+ «Margarida é muito honesta!
+ não é lá quem você pensa!...
+ acho bom que se convença
+ que ella tem alguem por si!
+ Vem-te embora, minha filha,
+ o homem, que assim te humilha,
+ é mais que indigno de ti.»
+
+
+XVIII
+
+ Chegara emfim Medeiros e á contenda,
+ poz termo com palavras convincentes;
+ do chão suspende o pobre Lovelace,
+ separa os dois mancebos imprudentes.
+
+ --Levando pelo braço o seu Juquinha,
+ com elle vae p'r'a sala de jantar
+ e póde ver á luz, banhado em sangue,
+ o triste _petit-maitre_ a soluçar!
+
+ O rosto lhe lavaram com cachaça,
+ ficando para todos bem patente,
+ que os beiços, o nariz e o olho esquerdo,
+ mais gordos lhe ficaram de repente.
+
+ Depois tinha cansaço, foi p'ra um quarto
+ que dava uma janella p'ra o jardim,
+ despio-se, tomou banho, foi deitar-se...
+ dormio? não sei dizer, creio que sim.
+
+ A festa terminou neste incidente
+ e cada um tratou de se ir deitar:
+ a lua ia bem alta além no ceu,
+ e o gallo amiudava o seu cantar.
+
+
+XIX
+
+ Dona Olympia ouve um gemido
+ partir de seus aposentos;
+ chegou-se á porta de manso
+ prestando ouvidos attentos...
+
+ Era a pobre Margarida
+ que entre soluços sem fim,
+ co'o rosto nas mãos occulto,
+ chorava dizendo assim:
+
+
+XX
+
+ «Pelas chagas de teu filho,
+ pelas dôres que soffreu,
+ pelo pranto que verteste
+ quando na cruz te morreu,
+ valei-me, Nossa Senhora,
+ nesta dôr que sinto agora!
+
+ «Inda a pouco era ditosa,
+ tinha amor, tinha esperança,
+ de um momento de tristeza
+ não tenho a menor lembrança!
+ eu sorria ao ver-me assim;
+ meu sorrir já teve fim...
+
+ «De tudo quanto já tive
+ que mais me resta? mais nada!
+ quiz provar-lhe o meu affecto
+ e fui vilmente insultada!
+ Ai, Pedro! que me mataste
+ quando assim me injuriaste!
+
+ «Agora que mais espero?
+ que esp'rança mais posso ter?
+ venha a morte e venha breve,
+ que sou feliz se morrer!
+ Que Deus lhe pague em prazer
+ o quanto me fez soffrer.»
+
+
+XXI
+
+ Dona Olympia entreabrio de manso a porta,
+ e sem bulha chegou-se junto a ella,
+ tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto,
+ beijou a meiga face da donzella...
+
+
+XXII
+
+ «--Que é isto, minha louquinha?
+ quem é que falla em morrer?!
+ viste um espinho na vida
+ e já te cança o viver!
+ Nas tuas suppostas dôres
+ só recordas-te os amores,
+ mas esqueceste teu pai!...
+ Margarida, és muito ingrata!...
+ queres matal-o?... pois mata!
+ vae pedir a morte, vae!
+
+ «Ao pobre e cançado velho
+ que vive do teu carinho,
+ em vez de beijos e abraços,
+ crava-lhe n'alma um espinho!
+ Arrufos de um namorado
+ valem mais que um velho honrado?!
+ Pensas bem, minha afilhada!..
+ vaes morrer? não te demores!
+ mas o que é isto? não chores!
+ que vale um pai?... quasi nada!
+
+ «--Misericordia, madrinha!
+ não falle assim que enlouqueço!
+ meu Deus! qual foi o meu crime
+ que tal castigo mereço?!
+ --Teu crime é não ter juizo....
+ e sabes o que é preciso?
+ é: pedir a Deus perdão.
+ Limpa esses olhos, menina!
+ a gente assim se amofina;
+ tu choras sem ter rasão!
+
+ «--Mas elle está mal commigo
+ e meu pai nem o quer ver!
+ --Cala a boca, te prometto
+ que tudo se ha-de fazer.
+ Socega, filha: descança,
+ se ainda tens confiança
+ na tua velha madrinha!
+ Amanhã em santa paz
+ tudo se arranja e se faz;
+ vae dormir, minha louquinha?»
+
+
+XXIII
+
+ Margarida radiante da alegria
+ que sentia renascer no coração,
+ abraçava com transporte aquella amiga
+ e cobria de mil beijos sua mão.
+
+
+
+
+CANTO SEGUNDO
+
+
+I
+
+ Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,
+ attende ao que te digo: a ti o auctor
+ começa por te dar os parabens
+ da somma de pachorra que tu tens,
+ se leste esse arremedo de poesia
+ sem arte, sal, perfumes e harmonia,
+ que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.
+ Já vejo que és rapaz prudente e bom...
+ desculpa o tratamento... as etiquetas
+ exigem luva branca e roupas pretas;
+ mas isto é muito bom p'ra deputados,
+ que vivem simplesmente de apoiados
+ e gastam excellencia a tres por dois...
+ coitados! são mal pagos... e depois
+ sujeitos a caprichos de ministros....
+ ás vezes trazem rostos tão sinistros,
+ que chego a ter de véras compaixão...
+ Mas dizem que são filhos da eleição?!
+ a culpa é então da mãi que os deu á luz,
+ que tinha atraz da porta aquella cruz,
+ envolta n'um programma e mil projectos
+ p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...
+ Sê franco, meu leitor, se estou massando,
+ arrólho a discussão e vou tratando
+ do resto d'esta historia que encetei...
+ Palavra, que não sei onde fiquei...
+ Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;
+ não olhes p'ra o meu trage... quem precisa
+ pendura com cuidado o paletot,
+ depois de sacudir-lhe bem o pó,
+ e fica assim á fresca muito bem.
+ Quem poupa, meu amigo, sempre tem!
+ não achas que é verdade, ó maganão?
+ pois folgo com a tua opinião.
+ As cousas andam más, tudo está caro!
+ o cobre, santo Deus! anda tão raro!...
+ ao menos lá por casa é uma desgraça!
+ por mais que se trabalhe ou que se faça,
+ por mais que se amofine uma pessoa,
+ vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,
+ Fallemos n'outra cousa, as digressões
+ arredam sempre o fio ás discussões.
+ Entremos na materia francamente,
+ vejamos o que é feito desta gente.
+
+
+II
+
+ O dia amanheceu bastante frio.
+ No chão, sobre os sofás e nas cadeiras
+ dormiam somno solto os convidados,
+ em duzias de colchões e mil esteiras.
+
+ O nosso fazendeiro acordou cêdo,
+ e poz as cosinheiras logo em pé;
+ sentou-se na varanda lendo as folhas
+ á espera que trouxessem-lhe o café.
+
+
+III
+
+ «--Ora bom dia, _seu_ Pedro!
+ --Bom dia, Sr. Medeiros!
+ --Ainda o fazia dormindo
+ e vejo que é dos primeiros!...
+
+ «Então estranhou a cama?
+ passou mal, não é verdade?
+ --Não, senhor! pelo contrario,
+ perfeitamente á vontade.
+
+ «--Li agora na _Gazeta_
+ um facto bem curioso!
+ um sujeito, um estrangeiro...
+ mas que homem ardiloso!
+
+ «Engole uma espada inteira!
+ que barriga! Ave Maria!
+ --Mas é serio?--Oh! se o não fosse
+ a folha não o diria...
+
+ «O que é isto?! onde se atira
+ já de esporas? onde vai?!
+ --Vou... eu ia até lá embaixo.
+ --Não, senhor, hoje, não sahe.
+
+ «--Mas escute, _seu_ Medeiros...
+ --Não escuto, não senhor;
+ já queria pôr-se ao fresco?
+ enganou-se, meu amor!
+
+ «Ó homem, 'stou te estranhando!
+ você que é tão pagodeiro!
+ --Eu ia vêr se lá embaixo
+ recebia hoje dinheiro...
+
+ «--Qual dinheiro, qual historia!
+ eu bem sei o que isto é!...
+ Sabes que mais, pucha um banco
+ e vamos tomar café.
+
+ «--Já que de todo é preciso
+ vou lhe fallar francamente...
+ --Pois desembucha, rapaz,
+ fallando se entende a gente.
+
+
+IV
+
+ «--O senhor bem me conhece...
+ não sou homem de questões,
+ nem ando brigando á tôa
+ por qualquer duas razões;
+ mas hontem foi desaforo!
+ o sujeito de namoro
+ co'a minha noiva, e eu ali!
+ isto não é fazer pouco?...
+ parti cégo como um louco...
+ nem sei bem o que senti...
+
+ «Eu vinha de orelha em pé
+ ouvindo o palavreado!
+ não sei o que... de epitaphios...
+ e d'ahi por um bocado,
+ agarrou-lhe por um braço
+ e quiz lhe dar um abraço,
+ no momento em que cheguei!
+ fiquei damnado da vida!
+ e co'a cabeça perdida,
+ por milagre o não matei!...
+
+ «Depois... não ouvi mais nada...
+ todo este povo a gritar...
+ ouvi o senhor fallando,
+ quando nos veio apartar...
+ mas estou incommodado
+ do negocio se ter dado
+ n'uma casa que eu respeito...
+ em outro qualquer logar,
+ não me importava brigar
+ até um ficar desfeito!...
+
+ «--Tudo isso nada vale!
+ não penses nisto, rapaz....
+ são cousas que a gente moça
+ mais ou menos sempre faz.
+ --Não, senhor, eu bem conheço
+ que isto é máu; mas o que peço
+ é que queira perdoar...
+ ás vezes lá vem um dia...
+ e a gente está de _arrelia_,
+ não se póde dominar...
+
+ «--Vamos fallar de outra cousa,
+ isto é pura criançada...
+ que fizeste á Margarida?!
+ --Quando?--Hontem!--Não fiz nada!
+ --Pois olha, metteu-me pena
+ vêr a pobre da pequena
+ chorando, não sei porque...
+ --Ella chorou? mas que tinha?
+ --Não sei, fallou co'a madrinha
+ e a respeito de você.
+
+ «--A meu respeito?! e que disse?!
+ --Como já estavas zangado,
+ disseste-lhe alguma cousa...
+ e te excedeste um bocado...
+ --Eu, meu Deus?! ainda mais esta!
+ vejam só que bôa festa!
+ que S. João tenho eu!...
+ e tudo, veja o senhor,
+ por causa desse impostor,
+ desse barbas de judeu!
+
+ «É uma nuvem passageira...
+ não te dê isso cuidado;
+ vocês fazem logo as pazes
+ e está o negocio acabado.
+ Falla tambem co'o Simão...
+ o velhote tem razão
+ de estar massado comtigo...
+ foste offender ao coitado,
+ que ficou bem magoado;
+ mas o velho é teu amigo.»
+
+
+V
+
+ Vinha chegando alguem e esta conversa
+ ficou neste logar interrompida;
+ vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,
+ renova-se o prazer, renasce a vida.
+
+ Estava tudo em pé; porém o Juca?
+ estava ainda no quarto, ainda dormia?
+ «--Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde
+ e basta de dormir: é meio dia.»
+
+ A mesa estava posta, e o fazendeiro,
+ que o não vira des que o dia amanheceu,
+ abre a porta e só encontra sobre a mesa
+ uma carta p'ra si, que abriu e leu:
+
+
+VI
+
+ «_Meu caro Sr. Medeiros:
+ vou p'ra côrte no trem mixto
+ que sahe d'aqui a uma hora.
+ Desculpe, se faço isto
+ sem lhe ter agradecido
+ o seu bom acolhimento;
+ mas pode estar convencido
+ de que no meu coração,
+ p'ra com vossa senhoria
+ fica eterna gratidão.
+ Se fôr á côrte algum dia
+ contar-lhe-hei como foi
+ a questão. Não tive a culpa;
+ o que lhe peço é desculpa
+ pelo modo desairoso,
+ porque saio da fazenda.
+ Vou bem triste e pesaroso
+ por causa d'essa contenda,
+ que não julguei provocar.
+ São horas de me ir embora...
+ recommende-me á senhora
+ de quem parto penhorado.
+ Adeus, aceite um abraço
+ do seu amigo e criado...
+ JOSÉ DE SOUZA CABAÇO._»
+
+
+VII
+
+ Medeiros releu a carta,
+ dobrou-a, poz na algibeira
+ e disse com seus botões:
+ «--Ora ahi tem a brincadeira!
+
+ «Um ficou todo mordido!
+ o outro--todo esfolado!...
+ qualquer dos dois, de juizo
+ não tem sequer um bocado!
+
+ «Que dois malucos de força!
+ valha-me a Virgem e o Christo!
+ qual dos dois terá razão?...»
+ e sahio pensando nisto.
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+
+VIII
+
+ E os donos da casa empenhados
+ em fazer a reconciliação
+ conversavam co'os noivos e o velho,
+ num cantinho do grande salão.
+
+ Houve protestos, desculpas,
+ suspiros, explicações;
+ e afinal lá se entenderam
+ com muito boas razões...
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+
+IX
+
+ «--Vamos p'ra mesa, senhores,
+ que o almoço está esfriando!
+ deixemos as ceremonias!
+ cada um vá se sentando.
+
+ «Falta aqui um guardanapo...
+ Olympia, manda buscar...
+ quem quer leitão recheiado
+ levante um dedo p'ra o ar.
+
+
+X
+
+ «Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros,
+ (e tudo se callou para escutar)
+ eu tenho uma noticia de importancia,
+ que quero a todos vós communicar.
+
+ «Ali minha afilhada Margarida,
+ se bem que me escondesse agora o rosto,
+ vae com Pedro, o patusco, felizardo!
+ casar-se p'ra meado ou fins de agosto.
+
+ «E como eu sou padrinho do casorio,
+ que ha de effectuar-se na fazenda,
+ convido a todos vós para assistirdes
+ ao nó que não tem pontas, nem se emenda.
+
+ «E aqui o _seu_ vigario, que é de casa,
+ aprompta a papellada n'um momento,
+ e ha de me amarrar estes pombinhos
+ benzendo-lhes os anneis do casamento.
+
+ «Bebamos, pois, dos noivos á saude!
+ Senhores, a saude é feita em pé!
+ Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos!
+ a coisa é de virar, ip! bangué!»
+
+
+XI
+
+ Simão ergueu-se a custo, e commovido
+ fallou desta maneira aos assistentes:
+
+ «--Senhores, quando a alegria
+ nos afoga o coração,
+ não ha palavras que a digam,
+ falta-nos toda a expressão!
+
+ Choramos quando soffremos,
+ quando gosamos, sorrimos,
+ mas o riso não exprime
+ o que n'alma nós sentimos.
+
+ «Assim 'stou eu; bem quizera
+ dizer-vos neste momento
+ tudo, tudo quanto sinto,
+ qual é o meu contentamento,
+
+ «mas não posso, porque é tanta
+ a minha felicidade,
+ que mais me parece um sonho,
+ que pura realidade!
+
+ «E sabeis a quem a devo?
+ a quem posso agradecer?
+ quem é que em duas palavras
+ me embriaga de prazer?!
+
+ «É aqui a mãi dos pobres
+ e o meu compadre Medeiros!
+ este grande coração!
+ a nata dos fazendeiros!
+
+ «Á saude, pois, d'aquelles
+ que não tem ostentação,
+ quando afogam na alegria
+ um mirrado corração!»
+
+ E todos gritavam co'os copos erguidos
+ dos donos da casa, bebendo á saude:
+ «Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve
+ p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+ Passados oito dias de prazer,
+ oito dias de festa e de alegria,
+ vão indo pouco a pouco os convidados
+ saudosos, p'ra o lidar de cada dia.
+
+
+
+
+CANTO TERCEIRO
+
+
+I
+
+ Os peralvilhos da côrte,
+ ou cidades principaes,
+ todos querem ser poetas,
+ todos fazem madrigaes
+ quando estão apaixonados.
+ Em versos estropiados,
+ alguns que tem legoa e tanto,
+ a pobre da musa súa,
+ suspirando á luz da lua
+ em cada suspiro um canto!
+
+ Aquelles que nem a tiro
+ se lhes abre a cachimonia,
+ assignam versos roubados
+ com toda a sem ceremonia!
+ Não fazem questão de auctor...
+ querem provar seu amor
+ á deidade que os inspira?
+ lá vão direitos á estante,
+ e d'ali por um instante
+ geme e canta a alheia lyra.
+
+ São estes os commodistas
+ e os que tem mais razão...
+ p'ra que quebrar-se a cabeça
+ se ha versos em profusão?!
+ é obra feita, é verdade:
+ mas escolhe-se á vontade
+ onde ha tanto p'ra escolher...
+ lá vai a amostra do panno
+ que um typo fez por engano,
+ por não ter tempo a perder:
+
+
+II
+
+ Oh! virgem pura de meus sonhos lindos,
+ lyrio mimoso dos jardins dos céus!
+ escuta o bardo descantando amores
+ louco, inspirado nesses olhos teus!
+
+ Escuta as notas que desprende a lyra
+ embevecida neste amor sublime;
+ nestes accordes, muito embora rudes,
+ só a verdade o meu cantar exprime.
+
+ Tu és a fonte inexhaurivel, pura,
+ onde a minh'alma vae a fé beber,
+ symbolo da crença, de esperanças fóco,
+ livro sagrado que me ensina a crêr.
+
+ Tu és a gota matinal do orvalho
+ na rubra pet'la de uma flôr louçã,
+ limpido espelho de virtude e graça,
+ estrella d'alva em festival manhã.
+
+ Tenra avesinha que em gorgeios ternos
+ a Deus envia o suspiroso canto,
+ visão etherea do sonhar do bardo,
+ miragem bella de sublime encanto.
+
+ Tu és a lympha, que em ramaes de prata,
+ borda a campina marchetada em flôres,
+ iris formoso da bonança emblema,
+ casto sacrario de gentis amores.
+
+ És tudo, tudo quanto é grande e santo,
+ astro fulgente de brilhante luz!
+ Anjo da Guarda que atravez d'espinhos
+ meus tibios passos ao porvir conduz.
+
+
+III
+
+ Na roça não se usa disto,
+ quem faz cerco a um coração
+ improvisa as suas quadras
+ com a viola na mão.
+
+ E na prima e na segunda
+ faz um tal repenicado,
+ que a pequena fica tonta
+ quebrando o sapateado.
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+ Quem procura a paz do espirito,
+ quem busca a felicidade,
+ ha de encontral-a na roça,
+ raras vezes na cidade.
+
+ Ali a vida é mais calma;
+ a mudez da solidão,
+ é como um balsamo santo
+ ás dores do coração.
+
+ A doce tranquillidade,
+ que se desfructa no lar,
+ illumina aquellas almas
+ de uma luz crepuscular.
+
+ Na festa ha mais alegria...
+ ha no trato amenidade;
+ o homem da roça é o typo
+ da honra e da honestidade.
+
+ Se acaso lhes bate á porta
+ um estranho, um forasteiro,
+ tem agasalho e amizade
+ desse povo hospitaleiro.
+
+ Sob uma crosta grosseira
+ se encontra a sinceridade,
+ e mais que ninguem conhece
+ as leis da hospitalidade.
+
+ Mas se lhes offendem os brios
+ sabem affrontas vingar,
+ que o homem rude do campo
+ não póde insultos tragar.
+
+
+IV
+
+ Chegara em fim o dia suspirado
+ daquellas duas almas, que se amavam:
+ em breve vão-se unir p'ra todo o sempre
+ no laço por que a tanto suspiravam!
+
+ Nos meigos olhos della ha mil affectos...
+ as faces se lhe tingem de rubor,
+ e os labios entreabertos côr de rosa
+ parecem repetir:--ventura, amor!
+
+ No rosto do mancebo ha um que de vago
+ e certa commoção mal disfarçada!
+ é que é tal a ventura que o espera
+ que duvida vel-a emfim realisada!
+
+
+V
+
+ «--Escuta, minha afilhada,
+ tu hoje vaes te casar...
+ é o passo mais delicado
+ que uma mulher póde dar.
+ A partir desse momento,
+ do nosso procedimento
+ depende todo o futuro.
+ Escuta toda a verdade,
+ se queres a f'licidade,
+ este caminho é seguro.
+
+ «No dia do casamento
+ tudo é cheio de illusões!...
+ julgamos tocar ao termo
+ das nossas aspirações.
+ Mezes depois, vamos vendo
+ que já vão arrefecendo
+ nossos sonhos virginaes;
+ passada a illusão primeira,
+ a mulher é a companheira,
+ uma amiga, e nada mais.
+
+ «Então é preciso emprego
+ de toda a nossa prudencia,
+ e ter p'ra com o marido
+ a maior condescendencia.
+ Se chega em casa cansado,
+ dar-lhe carinhos e agrado,
+ não perguntar de onde vem;
+ elle mesmo irá dizendo
+ o que andou por lá fazendo,
+ ou se esteve com alguem.
+
+ «Nunca sejas ciumenta,
+ nem lh'o dês a conhecer!
+ o ciume, além de inutil,
+ nos envenena o viver.
+ Sê sempre condescendente...
+ não te mostres exigente
+ nem lhe peças sacrificios:
+ um pedido caprichoso,
+ para um marido extremoso,
+ é um dos grandes supplicios.
+
+ «Sempre affavel, carinhosa,
+ sempre modesta e asseiada...
+ eis aqui como procede
+ a mulher bem educada.
+ Algumas, infelizmente,
+ ignoram completamente
+ estas verdades, e então
+ dizem que são desgraçadas;
+ mas são ellas as culpadas,
+ é falta de educação.
+
+ «Quando em casa não encontram
+ meiguices, consolações,
+ os maridos se aborrecem,
+ vão procurar distracções...
+ e uma vez encetado
+ esse trilho tão errado,
+ é um martyrio esse viver!
+ Deus te livre, Margarida!
+ a ter semelhante vida,
+ melhor te fôra morrer!
+
+ «Eis aqui os meus conselhos
+ que sempre tenho seguido;
+ e de cumpril-os á risca
+ não me tenho arrependido.
+ Desde criança a meu lado,
+ has de ter observado
+ como trato teu padrinho;
+ e tenho sido estimada...
+ se queres ser adorada
+ faze o mesmo ao teu Pedrinho.»
+
+
+VI
+
+ Adornada a capricho p'ra este dia,
+ da fazenda a pequena capellinha
+ estava que era um mimo de bom gosto,
+ tão faceira! tão bem arranjadinha!
+
+ Sanefas de setim verde e amarello,
+ nas paredes damasco alaranjado,
+ alampadas de prata, quatro lustres,
+ e um soberbo tapete avelludado.
+
+ O todo era singelo, doce e grave,
+ incitava não sei que ao coração!
+ noss'alma sem querer a Deus se erguia
+ nesse encanto mental de uma oração.
+
+ Lá fóra repicava alegre o sino...
+ festões, arcos e flôres no terreiro,
+ convidados, amigos e parentes,
+ e sempre satisfeito o fazendeiro.
+
+
+VII
+
+ São horas, tudo está prompto;
+ todos seguem p'ra capella.
+ Na frente caminha ella
+ pelo braço da madrinha;
+ logo atraz Pedro, Simão,
+ Medeiros, uma sobrinha
+ do vigario, e a multidão
+ que caminha alegremente
+ em ruidosa confusão.
+ Era um quadro interessante
+ de belleza original
+ o que eu vi naquelle instante:
+ cabeças brancas de neve,
+ rostos graves enrugados
+ pendidos p'ra sepultura,
+ a par de frontes divinas,
+ de olhos meigos namorados
+ derramando mocidade!
+ Oh! como é bella essa idade
+ em que tudo é só prazer!
+ em que a existencia é um sorriso,
+ em que o amor é um paraiso,
+ em que o sonhar é viver!
+ O grupo entrou na capella
+ ajoelhou-se, benzeu-se,
+ resou e depois ergueu-se
+ e cochichava em segredo;
+ mas callou-se de repente
+ quando o padre appareceu.
+ Margarida estremeceu
+ e disse machinalmente:
+ «Agora vou ser feliz.»
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+ Estava emfim realisado
+ aquelle sonho dourado
+ de su'alma casta e pura!
+ a embriaguez da ventura
+ tornava-a mais que divina!
+ aquellas faces rosadas
+ levemente afogueadas
+ de prazer e commoção,
+ traziam-lhe tal encanto,
+ que eu creio que até um santo
+ succumbia á tentação!
+
+ Era finda a ceremonia.
+ Pedro, qu'inda não fallara,
+ por pouco não desmaiara
+ nos braços do fazendeiro,
+ fulminado de alegria!
+ e no sorriso nervoso
+ que d'alma aos labios lhe vinha,
+ quem é que não traduzia
+ o que n'alma o pobre tinha?
+
+ Passados alguns momentos,
+ já depois dos comprimentos
+ de todos que os rodeavam,
+ sahiram de braços dados
+ sob uma chuva de flôres
+ que em cima lhe despejavam
+ á porfia, os convidados.
+
+ Chegados todos á casa,
+ Simão e Pedro de um lado
+ á meia voz conversavam.
+ Dizia o velho alquebrado:
+ «Nesta filha que te entrego,
+ dou-te tudo quanto tenho,
+ dou-te os olhos, fico cégo,
+ mas risonho e satisfeito...
+ eu já estava tão affeito
+ que não sei como sem elles
+ eu possa agora viver!...
+ ella era o sol bemfazejo
+ ao qual eu me ia aquecer;
+ porém fico descansado,
+ porque em ti achou arrimo....
+ eu somente o que lastimo
+ é ser velho e não ter nada,
+ não p'ra mim que não preciso,
+ era por ella, coitada!
+ que é um anjo como tu sabes.
+ Olha, Pedro, eu só te peço,
+ se alguma cousa mereço,
+ que trates bem minha filha!
+ minha pobre Margarida!
+ Ella ha de adoçar-te a vida
+ porque é muito carinhosa,
+ e como foi boa filha
+ deve ser tambem esposa.»
+
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+ ..............................
+
+ E em quanto o velho fallava
+ da filha por quem vivia,
+ dos olhos se lhe escapava
+ uma baga que rolava
+ e na barba se escondia.
+
+
+VIII
+
+ «--Forma a roda! oh! _seu_ Casusa
+ não fuja, vamos brincar;
+ vá decidir na viola
+ para este povo dançar.
+
+ «--Qual o que! o _seu_ Manduca
+ é _cabra_ bom tocador,
+ e eu não vou tirar a espada
+ da mão de um tal jogador.
+
+ «--Vamos então ver os dois
+ no desafio pegados...
+ Forma roda! forma roda!
+ quero ouvir esses damnados.»
+
+
+IX
+
+ E emquanto sapateavam,
+ os dois assim descantavam:
+
+ «--Meu senhor, me dê licença
+ que eu quero principiar:
+ quero botar uma trova
+ para quem me faz penar.
+
+ «--Póde entrar que o matto é limpo,
+ não tem onça, nem queixado,
+ tem somente uma morena
+ por quem ando apaixonado.
+
+ «--Obrigado, companheiro,
+ Deus te ajude nos amores;
+ mas quem gosta das morenas
+ soffre penas, sente dôres.
+
+ «--Eu bem sei de quem tu gostas,
+ p'ra ella podes cantar;
+ é clara, tem olhos pretos,
+ olhos que te hão de matar.
+
+ «--Na barra do teu vestido
+ anda preso um coração,
+ menina, minha menina,
+ da minha veneração.
+
+ «--O sipó do matto virgem
+ amarra o jacarandá;
+ assim, morena, em teus olhos
+ ando eu bem preso já.
+
+ «--Fui ao matto cortar lenha
+ e encontrei a jurity,
+ ella tinha os seus amores
+ como os eu tenho por ti.
+
+ «--Larangeira é pau d'espinho,
+ carangueijo anda na praia,
+ tambem andam meus amores
+ na renda de tua saia.
+
+ «--Os teus olhos são de fogo,
+ tua boca é uma roseira,
+ menina, minha menina,
+ quem te fez tão feiticeira?
+
+ «--Cachorro ladra na cerca
+ quando vem algum ladrão,
+ assim ladra no meu peito
+ por te ver meu coração.
+
+ «--Menina, minha menina,
+ se me não queres matar,
+ dá-me um riso pequenino,
+ que eu sou bom de contentar.
+
+ «--No braço tenho talento,
+ tenho prata na goiaca,
+ p'ra quem duvidar, comigo
+ na cintura trago a faca.
+
+ «--Você me botou olhado,
+ você mesmo ha-de tirar,
+ e eu só posso ficar bom
+ quando comtigo casar.
+
+ «--Ó senhor dono da casa,
+ mande vir alguma cousa;
+ já está co'a guella secca
+ o Manduca Zé de Souza.
+
+ «--Sem leitão não ha pagode,
+ sem bebida violeiros;
+ o Casusa está com sêde,
+ mande vir, Sr. Medeiros.»
+
+
+X
+
+ «--Muito bem, muito bem! gritaram todos,
+ qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar,
+ e dansam que faz gosto e mette inveja
+ a quem os vê n'um samba a requebrar.
+
+ «--Vocês que tomam? vinho ou paraty?
+ --Eu cá já tomei vinho e não misturo...
+ --E dois.--Pois aqui tem, ataquem deste,
+ que é bom, é de patente, é vinho puro.»
+
+ Depois de beberem voltaram p'ra roda
+ ao som da viola, tocando e cantando,
+ ao longe se ouvia o tinir das chilenas,
+ as palmas cadentes dos moços dansando.
+
+
+XI
+
+ A noiva estava com somno....
+ o noivo.... não sei se o tinha,
+ mas estava assim com cara
+ onde logo se advinha....
+ vontade de se ir deitar.
+
+ A madrinha, disfarçando,
+ para o quarto do noivado
+ foi com ella, onde ajudou-lhe
+ a tirar o véo bordado
+ e a grinalda virginal.
+
+ Desapertou-lhe o vestido
+ e em saia branca a deixou....
+ baixinho deu-lhe conselhos,
+ depois a porta cerrou
+ deixando-a ficar sosinha.
+
+ De repente ouviu-se um grito!
+ era a voz de Margarida,
+ e um toque de campainhas,
+ que prolongou-se em seguida,
+ indicava o quarto della.
+
+ Todos correm pressurosos,
+ perguntam: «Que aconteceu?»
+ Dona Olympia mais ligeira
+ do que todos, lá correu,
+ fechou a porta, e que viu?!
+
+ Viu na cama semeados
+ carrapichos aos milhões!
+ alfinetes espetados!
+ e por baixo dos colchões
+ campainhas penduradas!
+
+ E a pobre da menina
+ que se foi sentar na beira...
+ espetou-se não sei onde,
+ nem como, de que maneira
+ fez dobrar o carrilhão.
+
+ Não pôde dormir na cama!
+ foi p'ra o quarto da madrinha.
+ O noivo tremeu com frio,
+ a noiva ficou sosinha
+ scismando.... nos carrapichos.
+
+ ..........................
+ ..........................
+ ..........................
+
+ Percebes, meu leitor, que eu não desejo
+ entrar n'alguns detalhes melindrosos;
+ respeito o sanctuario da familia
+ e deixo a indagação aos curiosos.
+
+
+
+
+
+XII
+
+ Um anno já se passou
+ Depois que vi estas scenas,
+ mas inda tenho saudades
+ d'aquellas boas pequenas.
+
+ Ha tres dias, por acaso,
+ n'um bond do Pedregulho
+ encontrei o _seu_ Medeiros
+ que levava um grande embrulho.
+
+ «--Como vai? me disse elle,
+ ó homem, não apparece!
+ pois olhe, todo o meu povo
+ do senhor nunca se esquece.
+
+ «Já soube que a Margarida
+ teve um filho o mez passado?
+ --Não, senhor!--Pois é verdade!
+ e p'ra o mez é o baptizado!
+
+ «Não falte e leve os amigos,
+ porque temos brincadeira;
+ vim á côrte só para isto,
+ e ando assim desta maneira!»
+
+ E apontou-me o embrulho
+ que mettera sob o banco,
+ e nisto o maldito bond
+ deu um enorme solavanco.
+
+ ..........................
+ ..........................
+ ..........................
+ ..........................
+
+ Leitor, se lêste attento estes meus versos,
+ é que és bom, condescendente e meu amigo.
+ Has-de ir pagodear lá na fazenda,
+ eu posso convidar-te: vais comigo.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa
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+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA ***
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+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
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+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Scenas da Roça
+ Poema de costumes nacionaes
+
+Author: António Corrêa
+
+Release Date: May 8, 2010 [EBook #32295]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+
+<div style="text-align:center; border: double 5px #000;">
+<p style="font-size: 1.5em;">A. CORRÊA</p>
+
+<hr width="90%">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS DA ROÇA</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">POEMA DE COSTUMES NACIONAES</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>RIO DE JANEIRO<br>
+
+TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS<br>
+
+72 <small>RUA SETE DE SETEMBRO</small> 72</p>
+
+<p>1879 </p>
+</div>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">SCENAS DA ROÇA</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.5em;">A. CORRÊA</p>
+
+<hr width="90%">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS DA ROÇA</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">POEMA DE COSTUMES NACIONAES</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>RIO DE JANEIRO<br>
+
+TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS<br>
+
+72 <small>RUA SETE DE SETEMBRO</small> 72</p>
+
+<p>1879</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>AO MEU LIVRO</h2>
+
+<blockquote>
+ <p>Vae, filho, já tens idade,<br>
+ já ficaste emancipado;<br>
+ precisas correr o mundo,<br>
+ saber de tudo um bocado.<br>
+ Vae, filho, mas sê prudente,<br>
+ ouve os conselhos de gente<br>
+ que puder te aconselhar;<br>
+ sê modesto e delicado...<br>
+ em fallar pouco e acertado<br>
+ ha sempre muito a ganhar.<span class="pn">[6]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Se alguma gloria colheres,<br>
+ não te ufanes sem razão:<br>
+ ás vezes ouve-se um tolo<br>
+ por méra contemplação.<br>
+ Escuta os indifferentes.<br>
+ Os amigos e os parentes<br>
+ não dizem toda a verdade.<br>
+ Agora, no teu caminho,<br>
+ não te basta o meu carinho<br>
+ nem toda a minha amizade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Se ouvires phrases sensatas,<br>
+ presta-lhes toda a attenção;<br>
+ a tolos não dês ouvidos<br>
+ nem provoques discussão.<br>
+ Respeita as crenças alheias;<br>
+ mas guarda as tuas idéas<br>
+ e corrige os teus defeitos.<br>
+ Na escola da sociedade,<br>
+ estuda, aprende a verdade<br>
+ nas phrases de seus eleitos.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Vae, filho, Deus te acompanhe.<br>
+ Das letras no vasto mundo<br>
+ bem poucos bóiam á tôna,<br>
+ grande parte vai ao fundo.<span class="pn">[7]</span><br>
+ Ai! neste momento extremo<br>
+ é por ti, filho, que eu tremo!<br>
+ attende aos conselhos meus...<br>
+ Já são horas da partida;<br>
+ comtigo vae minha vida,<br>
+ mas parte... vae... filho, adeus.<span class="pn">[8]<br>
+ [9]</span> </p>
+</blockquote>
+
+<h1>CANTO PRIMEIRO</h1>
+
+<p><span class="pn">[10]<br>
+[11]</span></p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<blockquote>
+ <p>Ha quem diga que a franceza<br>
+ é a mulher por excellencia;<br>
+ mil outros dão preferencia<br>
+ aos requebros da hespanhola:<br>
+ dizem que ella prende e mata<br>
+ quando a melena desata<br>
+ e no fandango arrebata<br>
+ ao trinar da castanhola.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>As bellas filhas da Italia<br>
+ tem milhões de adoradores,<br>
+ lá na patria dos amores<br>
+ quem dá leis é o coração.<br>
+ É tudo vida, alegria,<br>
+ feixes de luz, de harmonia,<br>
+ ondula em torno a poesia<br>
+ nesse mar da inspiração.<span class="pn">[12]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Eu acho a todas bonitas<br>
+ quando de veras o são,<br>
+ quer sejam do Indostão,<br>
+ d'Allemanha, Italia ou França;<br>
+ mas p'ra mim a brazileira<br>
+ d'entre todas é a primeira:<br>
+ é gentil, é feiticeira<br>
+ como um sorrir de creança.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>As outras guardam comsigo<br>
+ da velha Europa a imponencia;<br>
+ estas não, tem a innocencia,<br>
+ tem o perfume das flôres;<br>
+ captivam pelos encantos<br>
+ ingenuos puros e santos,<br>
+ e são, meu Deus, taes e tantos,<br>
+ que fazem morrer de amores!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Quem póde escutar-lhe as fallas<br>
+ quando a tremer de receio,<br>
+ baixando os olhos no enleio<br>
+ em que a prende o coração,<br>
+ ella diz corando e rindo:<br>
+ «Do meu ceu de amor inflado,<br>
+ tu és o astro mais lindo<br>
+ da maior constellação!»?<span class="pn">[13]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Quem póde conter no peito<br>
+ o travesso coração?<br>
+ quem não sujeita a razão<br>
+ ao dominio dessas fallas?<br>
+ quem não se abraza nos lumes<br>
+ da mulher que tem perfumes,<br>
+ de que as rosas tem ciumes<br>
+ se vão se encontrar nas salas?<br>
+ ..............................</p>
+
+ <h2>II</h2>
+
+ <p>Meu leitor, deixa a cidade e vem comigo<br>
+ que eu quero te mostrar um quadro bello;<br>
+ vem á roça onde o amor é mais sublime,<br>
+ e tudo quanto é grande mais singelo.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Eu prefiro ás harmonias de uma orchestra,<br>
+ aos encantos que doudejam nos salões,<br>
+ a cantiga do tropeiro descuidoso,<br>
+ ou as trovas amorosas dos sertões.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Ha naquelles improvisos mal rimados,<br>
+ e naquella inspiração de cada instante,<br>
+ a belleza original que parte d'alma<br>
+ sem arte, mas com fogo delirante.<br>
+ .................................<span class="pn">[14]</span></p>
+
+ <h2>III</h2>
+
+ <p>Elle era um moço bonito<br>
+ como na côrte não ha,<br>
+ tinha os olhos e os cabellos<br>
+ da côr do jacarandá.<br>
+ Um porte airoso, engraçado,<br>
+ rapagão desempenado<br>
+ de metter inveja a cem!<br>
+ se na estrada elle passava,<br>
+ a moça que o espiava<br>
+ lhe ficava querendo bem.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Mas elle guardava firme<br>
+ no fundo do coração<br>
+ pela bella Margarida<br>
+ a mais ardente paixão.<br>
+ E as moças da visinhança<br>
+ ao verem sua esquivança<br>
+ ás festas, se ella não ia,<br>
+ diziam de enciumadas:<br>
+ «&mdash;Pedro está de azas quebradas;<br>
+ pobre moço! quem diria?!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;E tem só vinte e tres annos<br>
+ e alguma cousa de seu!<br>
+ vejam só o que é fortuna;<br>
+ tão feliz nunca fui eu!<br>
+ &mdash;E dizem que casa breve?<span class="pn">[15]</span><br>
+ &mdash;Eu não sei, mas elle deve<br>
+ casar-se p'ra o fim do anno.<br>
+ &mdash;Que lhe faça bom proveito...<br>
+ &mdash;E o velho está satisfeito?<br>
+ &mdash;Pudera não! bem ufano!»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Tal eram os commentarios<br>
+ que em toda a parte faziam<br>
+ as moças da visinhança,<br>
+ que em festas se reuniam;<br>
+ mas elle, surdo aos rumores<br>
+ que faziam seus amores<br>
+ nas discussões femenis,<br>
+ nada via além do encanto<br>
+ d'aquelle amor puro e santo,<br>
+ d'aquelles olhos gentis.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Mas quem era a linda moça<br>
+ a quem Pedro tanto amava?<br>
+ quem era a virgem formosa<br>
+ que elle assim idolatrava?<br>
+ era rica ou pobresinha?<br>
+ tinha-lhe amor ou não tinha?<br>
+ Não é o que queres saber?<br>
+ lá vamos, leitor querido,<br>
+ satisfazer teu pedido,<br>
+ já tudo vamos dizer.<span class="pn">[16]</span></p>
+
+ <h2>IV</h2>
+
+ <p>Ella tinha quinze annos; era um anjo<br>
+ de graça, candidez e de bondade,<br>
+ e aquelle coração de meiga pomba<br>
+ amava como se ama nessa idade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>A todos occultava aquelle affecto<br>
+ que su'alma marchetava de illusões;<br>
+ dos sonhos côr de rosa que ella tinha<br>
+ quem pode descrever as emoções?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>De manhã apoz a prece fervorosa,<br>
+ fictados nos do Christo os olhos bellos,<br>
+ regava o seu canteiro, e de violetas<br>
+ um raminho prendia entre os cabellos.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Tomava o seu balaio de costura,<br>
+ tirava linha, agulhas e dedal,<br>
+ e sentava-se a coser o dia inteiro<br>
+ á sombra da mangueira do quintal.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Ás vezes descuidando seu trabalho,<br>
+ parada co'o olhar ficto na estrada,<br>
+ no mar da phantasia, como um cysne,<br>
+ boiava da corrente á flôr levada.<span class="pn">[17]</span></p>
+
+ <h2>V</h2>
+
+ <p>Tal era a mimosa filha<br>
+ do velho Simão da Cruz;<br>
+ de sua velhice o arrimo,<br>
+ alegria, vida e luz.<br>
+ Revia no rosto della<br>
+ a companheira extremosa,<br>
+ que lhe deixara, murchando,<br>
+ o rebentão de outra rosa.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Vio-a crescer sob os olhos;<br>
+ estudou-lhe o coração,<br>
+ e lia nelle os mysterios<br>
+ d'aquella ardente paixão.<br>
+ Um dia toma-lhe o braço,<br>
+ fal-a sentar a seu lado,<br>
+ e diz-lhe rindo o bom velho:<br>
+ «Já tens algum namorado?»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Enrubece, treme, ensaia<br>
+ dizer uma phrase, em vão!<br>
+ repete o velho a pergunta,<br>
+ e ella responde «&mdash;Não...<br>
+ &mdash;Não mintas, filha! não sabes<br>
+ que é um peccado mentir?<br>
+ &mdash;Perdão meu pai!&mdash;Não perdôo<br>
+ a quem me busca illudir.»<span class="pn">[18]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Dos bellos olhos da moça<br>
+ o pranto desce a torrentes,<br>
+ cujas bagas vão no seio<br>
+ embeber-se encandescentes.<br>
+ O velho, ameigando a falla,<br>
+ apoz miral-a um instante,<br>
+ lhe torna: «&mdash;Vamos! não chores!<br>
+ não é Pedro o teu amante?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Bom rapaz! é de meu gosto...<br>
+ já fallou-te em casamento?<br>
+ e tu disseste que sim,<br>
+ sem o meu consentimento?!<br>
+ Como os filhos são ingratos!<br>
+ este mundo como vae!<br>
+ quem de uma filha os segredos<br>
+ guardará melhor que um pai?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Mas vamos lá! estou por tudo;<br>
+ disseste que sim? está dito!...<br>
+ fizeste mal em negal-o;<br>
+ isto assim não é bonito.<br>
+ Não chores, dá-me um abraço!<br>
+ será Pedro o teu marido;<br>
+ é justo, se o amas tanto...<br>
+ se foi o teu preferido...<span class="pn">[19]</span></p>
+
+ <h2>VI</h2>
+
+ <p>Estamos em junho, no mez das fogueiras,<br>
+ do riso, das festas, das sortes, do amor,<br>
+ das cannas assadas, carás e batatas,<br>
+ dos jogos de prendas, do fogo em redor.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Quem póde na roça ficar, preguiçoso,<br>
+ dormindo na rêde, sem ir ao pagode?<br>
+ se as moças bonitas lá estão feiticeiras<br>
+ cantando e sorrindo, fugir-lhes quem póde?</p>
+
+ <h2>VII</h2>
+
+ <p>Na fazenda do Tymbira<br>
+ era velha a devoção<br>
+ de fazer-se grande festa<br>
+ em dias de S. João.<br>
+ O velho Joaquim Medeiros,<br>
+ que era a flôr dos fazendeiros<br>
+ d'aquella localidade,<br>
+ esfregava as mãos contente<br>
+ quando via em casa gente<br>
+ a que o prendia a amizade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>D. Olympia, sua esposa;<br>
+ mãi dos pobres do logar,<br>
+ tres dias antes da festa<br>
+ não parava a trabalhar.<span class="pn">[20]</span><br>
+ Mandava as suas mucamas<br>
+ dos quartos fazer as camas,<br>
+ espanar tudo e varrer,<br>
+ e, doceira de bom gosto,<br>
+ lá estava firme no posto,<br>
+ fazendo o tacho ferver.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Fazia doce de côco,<br>
+ laranja, cidra, limão,<br>
+ bom-bocado, arroz de leite,<br>
+ bolinhos de S. João,<br>
+ pamonha, cus-cus de milho,<br>
+ manouê, biju, sequilho,<br>
+ biscoutinhos de araruta,<br>
+ tarécos, baba-de-moça,<br>
+ e, mil doces que na roça<br>
+ se fazem de toda a fructa.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>No terreiro da fazenda<br>
+ preparava-se a fogueira,<br>
+ e o mastro todo enfeitado<br>
+ de folhagens de mangueira;<br>
+ e dentre as folhas escuras<br>
+ sahiam fructas maduras,<br>
+ como é o costume geral,<br>
+ e uma boneca vistosa<br>
+ de vestido côr de rosa,<br>
+ fazia o tópe final.<span class="pn">[21]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>No campo desde a porteira<br>
+ de verde murta vestida,<br>
+ duas linhas de coqueiros<br>
+ vem a porta da saida.<br>
+ De um lado a outro correndo,<br>
+ dirigindo ou desfazendo<br>
+ o que não estava direito,<br>
+ andava o rei dos festeiros<br>
+ o nosso velho Medeiros<br>
+ sempre alegre e satisfeito.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Vamos com isso, rapazes,<br>
+ que temos mais que fazer<br>
+ e d'aqui por uma hora<br>
+ ninguem se póde mecher.<br>
+ Joaquina e Manuela,<br>
+ vocês vão lá p'ra capella<br>
+ capinar ali na frente.<br>
+ Olá, moleque, ó vadio!<br>
+ chega ali embaixo no rio,<br>
+ vê se vem alguma gente.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Vicente, traze as bandeiras,<br>
+ vai tu com elle, Francisco;<br>
+ Manuel, varre p'ra um canto<br>
+ e apanha depois o cisco.<br>
+ Não quero ver uma palha!...<br>
+ veja depois como espalha<span class="pn">[22]</span><br>
+ essas folhas de mangueira!...<br>
+ Ó Job, pergunta á sinhá<br>
+ se já tem café por lá,<br>
+ que mande aqui na porteira.»</p>
+
+ <h2>VIII</h2>
+
+ <p>Se eu soubesse descriptiva<br>
+ dava aqui em perspectiva<br>
+ a fazenda toda inteira!<br>
+ tomava tinta e pincel<br>
+ e sobre plano-painel<br>
+ transportava... mas é asneira...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Eu não pesco nem pitada<br>
+ dessa insulsa trapalhada,<br>
+ de linhas, pontos e traços;<br>
+ mas tambem não me entristeço,<br>
+ é sciencia que aborreço,<br>
+ cansa a cabeça e os braços.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E na falta de sciencia,<br>
+ eu peço condescendencia<br>
+ p'ra o traçado que vou dar;<br>
+ é obra de um curioso...<br>
+ meu leitor, sei que és bondoso,<br>
+ não o queiras censurar.<span class="pn">[23]</span></p>
+
+ <h2>IX</h2>
+
+ <p>O todo se emmuldura em matto virgem;<br>
+ arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,<br>
+ e o fundo do painel é verde-escuro<br>
+ da côr de um cafesal visto á distancia.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Por entre as pedras soltas de seu leito,<br>
+ o rio serpenteia murmurando.<br>
+ De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,<br>
+ do outro, os animaes que estão pastando.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Aqui o mandiocal n'um morro enorme,<br>
+ naquelles á direita, é o cafesal;<br>
+ ha uma socca de arroz junto do brejo<br>
+ e da cerca p'ra lá, o cannavial.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>No centro, n'uma dobra do terreno,<br>
+ a casa que é voltada p'ra o nascente;<br>
+ precede-lhe o jardim, primor de gosto<br>
+ que a abraça pela esquerda e pela frente.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Ao fundo em duas ruas parallelas<br>
+ a casa da farinha, a do feitor,<br>
+ paióes, estrebarias e senzallas,<br>
+ o tanque, o gallinheiro, e corador.<span class="pn">[24]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Olhando p'ra direita vê-se a escada<br>
+ que tem de cada lado uma mangueira,<br>
+ o campo e o caminho em linha recta,<br>
+ que da casa vae parar junto á porteira.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Concebe o quadro lá como puderes!<br>
+ eu dou-te aqui apenas um bosquejo,<br>
+ querel-o completar fôra loucura,<br>
+ se bem que fosse grande o meu desejo.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Lá chega o rancho enorme e folgasão<br>
+ que vem p'ra festejar o S. João.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>De quatro leguas em roda,<br>
+ toda aquella visinhança<br>
+ veio assistir á festança<br>
+ da noite de S. João.<br>
+ O povo da freguezia<br>
+ quazi todo nesse dia,<br>
+ ia como em romaria<br>
+ pandegar por devoção.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Como é uso admittido,<br>
+ a pessôa convidada<br>
+ leva roupa preparada<br>
+ para quatro ou cinco dias!...<span class="pn">[25]</span><br>
+ lá na roça a moda é esta;<br>
+ qualquer pagode, não presta<br>
+ sem a semana de festa,<br>
+ de intermináveis folias!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Subindo e descendo morros,<br>
+ n'um carro por bois puchado,<br>
+ n'um tunel improvisado<br>
+ de arcos e de uma esteira,<br>
+ de uma fazenda visinha<br>
+ a passo lento caminha<br>
+ a familia que se aninha<br>
+ n'essa amavel capoeira.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Atraz os negros da casa<br>
+ Tão carregando os bahus,<br>
+ sem camisa, quazi nús,<br>
+ e alagados de suor;<br>
+ ao lado caminha a passo,<br>
+ n'um lindo macho picaço,<br>
+ o fazendeiro ricaço<br>
+ que vae morto de calor.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Os filhos vão a cavallo.<br>
+ Na frente caminha o pagem,<br>
+ que sem esse personagem<br>
+ na roça não se é ninguem!<span class="pn">[26]</span><br>
+ É um negro de confiança<br>
+ em quem o Senhor descança,<br>
+ que exerce desde criança<br>
+ o cargo honroso que tem.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Usa jaqueta de vivos,<br>
+ chapeo baixo de oleado,<br>
+ topete bem penteado,<br>
+ canos de bota e chilenas;<br>
+ é o mensageiro de amores<br>
+ dos filhos de seus senhores;<br>
+ leva cartinhas e flôres<br>
+ para entregar ás pequenas.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>O pagem da roça é um typo<br>
+ de serio e acurado estudo,<br>
+ sabe um bocado de tudo<br>
+ quanto se deve saber.<br>
+ É ferrador, é selleiro,<br>
+ carapina e corrieiro,<br>
+ é peão e no terreiro<br>
+ requebra um fado a valer.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Aqui um rancho de moças<br>
+ vae a pé, moram tão perto!...<br>
+ são duas leguas, é certo,<br>
+ mas diz-se na roça:&mdash;é ali.<span class="pn">[27]</span><br>
+ E por toda aquella estrada<br>
+ vê-se gente a pé, montada,<br>
+ e outra que já cançada<br>
+ bebe á sombra paraty.<br>
+ ...................................<br>
+ ...................................<br>
+ ...................................</p>
+
+ <h2>X</h2>
+
+ <p>Terminou-se o jantar, é noite escura;<br>
+ com fachos de sapé ligeiros correm<br>
+        os moços dando vivas.<br>
+ Accende-se a fogueira e em torno a ella<br>
+ vão sentar-se alegres, descuidosos,<br>
+        os grupos de convivas.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Aqui tomam garapa em lisas cuias,<br>
+ os velhos, que disputam seriamente<br>
+        ácerca de eleições,<br>
+ ou fallam do café que está sem preço,<br>
+ nos gastos da lavoura e poucos lucros<br>
+        de suas transacções.<br>
+ <br>
+ Ali as moças todas reunidas<br>
+ dissertam sobre amor e namorados<br>
+        com tal proficiencia,<span class="pn">[28]</span><br>
+ como um lente, jubilado na materia,<br>
+ derramando em qualquer academia<br>
+        a luz da experiencia.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Não longe os rapazes formam grupos:<br>
+ uns são republicanos exaltados<br>
+        e outros monarchistas;<br>
+ e outros sem partido, olhando as moças,<br>
+ a morrer de amor por ellas, contam rindo<br>
+        amores e conquistas.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>É tudo animação, prazer e vida...<br>
+ aqui um bello dito, ali vozes confusas,<br>
+        gostosas gargalhadas;<br>
+ estouram buscapées, rebentam bombas,<br>
+ foguetes e balões erguem-se aos ares<br>
+        no meio de apupadas.</p>
+
+ <h2>XI</h2>
+
+ <p>«&mdash;Qual, compadre, desta feita<br>
+ parece que os liberaes<br>
+ não sobem, não, mas é o mesmo...<br>
+ que me diz, Sr. Moraes?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Eu não sei, mas desconfio<br>
+ que os homens não fazem nada;<br>
+ pelo menos lá na villa<br>
+ é tudo chapa cerrada.<span class="pn">[29]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Aposto cem contra dez,<br>
+ com quem quizer apostar,<br>
+ em como os conservadores<br>
+ hão de ceder o logar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«E o Brazil vae á garra<br>
+ se os liberaes não subirem;<br>
+ que projectos, quanta cousa<br>
+ se perde, se elles cahirem!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Estradas e mais estradas,<br>
+ navegação pelos rios;<br>
+ hão de fazer o diabo<br>
+ porque empenharam seos brios.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Ora adeus, em quanto a brios<br>
+ os outros tambem os tem;<br>
+ e ninguem lhes passa a perna,<br>
+ porque fallam muito bem.</p>
+
+ <h2>XII</h2>
+
+ <p>«Ó Gringo, salta a fogueira!<br>
+ ó Guillon, pula tambem!<br>
+ assim, Norberto! um, dois, trez...<br>
+ sim, senhor, foi muito bem!<span class="pn">[30]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«<i>Seu</i> Zé Carlos, largue a moça!<br>
+ não seja namorador!<br>
+ já temos nova conquista?<br>
+ vem p'ra aqui, ó seductor.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«O Octávio lá está n'um canto<br>
+ a scismar <i>encalistrado</i>!<br>
+ que tem elle?&mdash;Ora o que tem!<br>
+ anda muito apaixonado:</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Dizem que elle foi a um samba<br>
+ e de lá veio cahido...<br>
+ mas espera, olha o Zamith<br>
+ como está todo lambido!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«E o Licurgo? oh que maroto!<br>
+ desde que elle se casou<br>
+ está com ar de homem serio,<br>
+ ficou bonito, engordou!...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Tira os carás do rescaldo,<br>
+ moleque, traz o melado!<br>
+ oh ladrão, anda ligeiro...<br>
+ este sim, está bem assado<span class="pn">[31]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«É só da tropa fandanga!<br>
+ ninguem mais aqui se metta!<br>
+ Ezequiel, tu não comes?<br>
+ estás forjando alguma pêta?</p>
+
+ <h2>XIII</h2>
+
+ <p>«&mdash;Pois creia, sinhá Chica, foi olhado<br>
+ botado na pequena com certeza;<br>
+ Candóca esteve assim, mas foi resal-a<br>
+ a sogra do Manduca, a nhã Thereza.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Foi lá trez sextas-feiras, em seguida<br>
+ benzeu e deu-lhe uns <i>póses</i> p'ra tomar;<br>
+ e hoje, benza-a Deus, está que é um gosto!<br>
+ só vendo é que se pode acreditar!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Pois olhe, p'ra fallar minha verdade,<br>
+ já tinha me <i>alembrado</i> ser feitiço...<br>
+ não podia senão ser cousa feita..<br>
+ pelos modos que é, só se foi isso.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«A menina tem uns flatos pelas costas,<br>
+ e anda jururú que mette pena!<br>
+ coitada! tem tomado mil mesinhas<br>
+ e nada de arribar; pobre pequena!<span class="pn">[32]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Quem sabe, diz a tia Marcolina,<br>
+ que entende destas cousas como gente,<br>
+ quem sabe se a espinhela tem caida?!<br>
+ se for isso, ponho-a boa de repente.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«A lua agora é nova... pouco importa,<br>
+ na sexta-feira cedo mande-a lá,<br>
+ que com favor de Deus tenho esperança<br>
+ que volta sã e salva para cá.»</p>
+
+ <h2>XIV</h2>
+
+ <p>Eu não sei porque é que em toda a festa<br>
+ se encontra sempre um bôbo, um toleirão,<br>
+ dizendo muita asneira e se inculcando<br>
+ rapaz de muita graça e sabichão!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Á festa de Medeiros foi um typo,<br>
+ a quem debalde eu busco descrever;<br>
+ deixára a côrte onde era um <i>petit-maitre</i><br>
+ e á roça foi levar todo o saber.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Fallava sempre em termos empollados,<br>
+ mirava-se ao espelho a cada instante;<br>
+ usava citações em qualquer lingua,<br>
+ e tinha o ar altivo do pedante.<span class="pn">[33]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Frisada a cabelleira e com pastinhas...<br>
+ gravata verde-mar, o fraque azul,<br>
+ as luvas côr de cinza, a calça branca,<br>
+ sapatos de verniz; eis meu taful.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Desceu para o terreiro, olhou em torno<br>
+ buscando achar um pobre a quem massar,<br>
+ e eil-o dentro em breve n'uma roda,<br>
+ com todo o seu furor a disputar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Perdão, dizia o typo enthusiasmado:<br>
+ eu sou republicano, e como tal<br>
+ exijo a liberdade a mais completa,<br>
+ quer na ordem civil, quer na moral.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«A lei é um empecilho á liberdade,<br>
+ o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno<br>
+ os povos não precisam de governo,<br>
+ o exemplo está no povo americano!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«<i>To be or not to be</i>, eis como eu penso;<br>
+ abaixo a realeza e o seu prestigio;<br>
+ o rei a quem o mundo hoje se curva<br>
+ escreve&mdash;Liberdade&mdash;em gorro phrigio!»<span class="pn">[34]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Fallou e disse asneiras muito tempo<br>
+ até que ficou só, sem mais ninguem!<br>
+ «&mdash;Camellos! disse elle em tom baixinho,<br>
+ nem sabem de que ponto a luz lhes vem!»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Mas vendo ao longe a bella Margarida,<br>
+ exclama o nosso heróe: «&mdash;Oh! <i>c'est charmant!</i><br>
+ <i>Mignone</i>, vaes ser minha, assim t'o juro...<br>
+ e agora ella está só! <i>c'est bien l'instant</i>.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E assim dizendo applica o <i>pince-nez</i><br>
+ e vae sentar-se ao lado da menina.</p>
+
+ <h2>XV</h2>
+
+ <p>«Desculpe vossa excellencia,<br>
+ mas eu creio que já a vi!<br>
+ &mdash;Póde ser, responde a moça,<br>
+ quasi sempre eu venho aqui...»<br>
+ «&mdash;Não foi aqui, foi ha um anno...<br>
+ na côrte, se não me engano,<br>
+ n'um baile que eu a encontrei...<br>
+ &mdash;Oh! gentes! está enganado,<br>
+ se perguntar p'ra que lado<br>
+ a côrte fica, não sei!»<span class="pn">[35]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Era então o seu retrato<br>
+ divinamente imitado...<br>
+ os mesmos olhos divinos!<br>
+ o mesmo rosto adorado!...<br>
+ «&mdash;Oh! senhor, parece incrivel!<br>
+ deveras será possivel<br>
+ tão pasmosa semelhança?!<br>
+ &mdash;Oh! natura eterna e infinda!<br>
+ nunca vi mulher tão linda!...<br>
+ &mdash;Eu sou linda? que esperança!</p>
+
+ <p>«&mdash;Então não vio Guanabara<br>
+ da metrop'le no regaço,<br>
+ sonhando loucos edyllios<br>
+ co'os olhos fitos no espaço?!<br>
+ «&mdash;Não senhor! se eu não conheço!»<br>
+ «&mdash;Escuta, diva, eu te peço:<br>
+ sou talvez um sonhador...<br>
+ &mdash;Oh! moço, mal comparando,<br>
+ quando o senhor está fallando<br>
+ parece-me um pregador!»</p>
+
+ <p>«&mdash;Serei tudo, ó casta diva,<br>
+ innocente Julieta!<br>
+ tu'alma exhala o perfume<br>
+ da modesta violeta!...<br>
+ &mdash;<i>Ué</i>! que moço engraçado!<br>
+ já deu-me o nome trocado...<span class="pn">[36]</span><br>
+ eu me chamo Margarida.<br>
+ &mdash;Margarida? Oh! doce encanto!<br>
+ teu nome tão puro e santo<br>
+ guardarei além da vida!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Escuta, sylpho do empirio,<br>
+ dos céus aerea visão,<br>
+ não sentes do amor as lavas<br>
+ que arroja o meu coração?<br>
+ partamos, além na selva<br>
+ sobre um tapete de relva,<br>
+ pousemos o floreo ninho!<br>
+ partamos, a noite é densa...<br>
+ &mdash;Ó moço, eu peço licença,<br>
+ eu vou fallar com dindinho!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;<i>Comment celà!</i> não me deixes<br>
+ com tua ausencia obumbrado!<br>
+ queres tu que um cenotaphio<br>
+ erga a um amor desgraçado?<br>
+ &mdash;Oh! <i>seu</i> aquelle, me deixa!<br>
+ senão eu vou fazer queixa<br>
+ a meu pai, largue meu braço!..<br>
+ &mdash;Não partas, anjo bemdito...<br>
+ &mdash;Eu sou grossa p'ra palito...<br>
+ &mdash;Ao menos dá-me um abraço!...»<span class="pn">[37]</span></p>
+
+ <h2>XVI</h2>
+
+ <p>Tal como ao terminar-se da espoleta<br>
+ o mixto que de um jacto a carga inflamma,<br>
+ e no rouco troar detona a bomba<br>
+ cuspindo os estilhaços, fumo e chamma,</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>assim do meu leão, na face núa,<br>
+ por mão callosa e firme manejada,<br>
+ a bomba do ciume arrebentara<br>
+ e com ella uma tremenda bofetada!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Zumbiram-lhe aos ouvidos mil besouros,<br>
+ myriades de estrellas viu então;<br>
+ sahiram-lhe faiscas pelos olhos,<br>
+ perdera o equilibrio, e... foi ao chão!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>De pé, em frente a elle estava um homem,<br>
+ raivoso como tigre olhando a preza;<br>
+ nos olhos faiscava-lhe o ciume,<br>
+ nos labios um sorrir de atroz dureza!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>É Pedro, que no seu amor selvagem<br>
+ não póde reflectir, sabe vingar;<br>
+ feriam-lhe de morte as crenças d'alma,<br>
+ e o tigre que é ferido quer matar.<span class="pn">[38]</span></p>
+
+ <h2>XVII</h2>
+
+ <p>«&mdash;Pedro! Pedro! então que é isto?!<br>
+ valha-me Nossa Senhora!<br>
+ &mdash;Margarida, vae-te embora,<br>
+ tu não me queiras perder!<br>
+ &mdash;Pelo que tens mais sagrado,<br>
+ deixa esse moço, coitado!<br>
+ que mais lhe queres fazer?!...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Quero mostrar a um patife<br>
+ como se falla a uma moça;<br>
+ elles pensam que na roça<br>
+ é como lá na cidade?!<br>
+ «Estão enganados comigo!...»<br>
+ E com o joelho no umbigo<br>
+ dava-lhe sôcco á vontade!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Soccorro! gritava a moça<br>
+ quazi louca de terror;<br>
+ meu pai, accuda o senhor,<br>
+ porque elles se vão matar!...<br>
+ meu Pedro, não sejas louco,<br>
+ olha, escuta, espera um pouco;<br>
+ meu Deus! quem ha-de apartar?<span class="pn">[39]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Sahe-te d'aqui co'os diabos!<br>
+ não me atormente a cabeça,<br>
+ puche já, não me aborreça...<br>
+ você pensa que me embaça?<br>
+ É tambem teu namorado?<br>
+ ha de amargar um bocado,<br>
+ hei de tirar-lhe a fumaça...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Repare que é minha filha;<br>
+ escutou, <i>seu</i> malcriado?<br>
+ sou velho, estou alquebrado,<br>
+ mas ninguem me offende em vão!<br>
+ sei tolerar n'essa idade<br>
+ loucuras da mocidade;<br>
+ mas insultal-a, isso não!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Margarida é muito honesta!<br>
+ não é lá quem você pensa!...<br>
+ acho bom que se convença<br>
+ que ella tem alguem por si!<br>
+ Vem-te embora, minha filha,<br>
+ o homem, que assim te humilha,<br>
+ é mais que indigno de ti.»<span class="pn">[40]</span></p>
+
+ <h2>XVIII</h2>
+
+ <p>Chegara emfim Medeiros e á contenda,<br>
+ poz termo com palavras convincentes;<br>
+ do chão suspende o pobre Lovelace,<br>
+ separa os dois mancebos imprudentes.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>&mdash;Levando pelo braço o seu Juquinha,<br>
+ com elle vae p'r'a sala de jantar<br>
+ e póde ver á luz, banhado em sangue,<br>
+ o triste <i>petit-maitre</i> a soluçar!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>O rosto lhe lavaram com cachaça,<br>
+ ficando para todos bem patente,<br>
+ que os beiços, o nariz e o olho esquerdo,<br>
+ mais gordos lhe ficaram de repente.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Depois tinha cansaço, foi p'ra um quarto<br>
+ que dava uma janella p'ra o jardim,<br>
+ despio-se, tomou banho, foi deitar-se...<br>
+ dormio? não sei dizer, creio que sim.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>A festa terminou neste incidente<br>
+ e cada um tratou de se ir deitar:<br>
+ a lua ia bem alta além no ceu,<br>
+ e o gallo amiudava o seu cantar.<span class="pn">[41]</span></p>
+
+ <h2>XIX</h2>
+
+ <p>Dona Olympia ouve um gemido<br>
+ partir de seus aposentos;<br>
+ chegou-se á porta de manso<br>
+ prestando ouvidos attentos...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Era a pobre Margarida<br>
+ que entre soluços sem fim,<br>
+ co'o rosto nas mãos occulto,<br>
+ chorava dizendo assim:</p>
+
+ <h2>XX</h2>
+
+ <p>«Pelas chagas de teu filho,<br>
+ pelas dôres que soffreu,<br>
+ pelo pranto que verteste<br>
+ quando na cruz te morreu,<br>
+ valei-me, Nossa Senhora,<br>
+ nesta dôr que sinto agora!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Inda a pouco era ditosa,<br>
+ tinha amor, tinha esperança,<br>
+ de um momento de tristeza<br>
+ não tenho a menor lembrança!<br>
+ eu sorria ao ver-me assim;<br>
+ meu sorrir já teve fim...<span class="pn">[42]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«De tudo quanto já tive<br>
+ que mais me resta? mais nada!<br>
+ quiz provar-lhe o meu affecto<br>
+ e fui vilmente insultada!<br>
+ Ai, Pedro! que me mataste<br>
+ quando assim me injuriaste!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Agora que mais espero?<br>
+ que esp'rança mais posso ter?<br>
+ venha a morte e venha breve,<br>
+ que sou feliz se morrer!<br>
+ Que Deus lhe pague em prazer<br>
+ o quanto me fez soffrer.»</p>
+
+ <h2>XXI</h2>
+
+ <p>Dona Olympia entreabrio de manso a porta,<br>
+ e sem bulha chegou-se junto a ella,<br>
+ tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto,<br>
+ beijou a meiga face da donzella...</p>
+
+ <h2>XXII</h2>
+
+ <p>«&mdash;Que é isto, minha louquinha?<br>
+ quem é que falla em morrer?!<br>
+ viste um espinho na vida<br>
+ e já te cança o viver!<br>
+ Nas tuas suppostas dôres<span class="pn">[43]</span><br>
+ só recordas-te os amores,<br>
+ mas esqueceste teu pai!...<br>
+ Margarida, és muito ingrata!...<br>
+ queres matal-o?... pois mata!<br>
+ vae pedir a morte, vae!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Ao pobre e cançado velho<br>
+ que vive do teu carinho,<br>
+ em vez de beijos e abraços,<br>
+ crava-lhe n'alma um espinho!<br>
+ Arrufos de um namorado<br>
+ valem mais que um velho honrado?!<br>
+ Pensas bem, minha afilhada!..<br>
+ vaes morrer? não te demores!<br>
+ mas o que é isto? não chores!<br>
+ que vale um pai?... quasi nada!</p>
+
+ <p>«&mdash;Misericordia, madrinha!<br>
+ não falle assim que enlouqueço!<br>
+ meu Deus! qual foi o meu crime<br>
+ que tal castigo mereço?!<br>
+ &mdash;Teu crime é não ter juizo....<br>
+ e sabes o que é preciso?<br>
+ é: pedir a Deus perdão.<br>
+ Limpa esses olhos, menina!<br>
+ a gente assim se amofina;<br>
+ tu choras sem ter rasão!<span class="pn">[44]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Mas elle está mal commigo<br>
+ e meu pai nem o quer ver!<br>
+ &mdash;Cala a boca, te prometto<br>
+ que tudo se ha-de fazer.<br>
+ Socega, filha: descança,<br>
+ se ainda tens confiança<br>
+ na tua velha madrinha!<br>
+ Amanhã em santa paz<br>
+ tudo se arranja e se faz;<br>
+ vae dormir, minha louquinha?»</p>
+
+ <h2>XXIII</h2>
+
+ <p>Margarida radiante da alegria<br>
+ que sentia renascer no coração,<br>
+ abraçava com transporte aquella amiga<br>
+ e cobria de mil beijos sua mão.<span class="pn">[45]</span></p>
+</blockquote>
+
+<h1>CANTO SEGUNDO</h1>
+
+<blockquote>
+ <p><span class="pn">[46]<br>
+ [47]</span></p>
+
+ <h2>I</h2>
+
+ <p>Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,<br>
+ attende ao que te digo: a ti o auctor<br>
+ começa por te dar os parabens<br>
+ da somma de pachorra que tu tens,<br>
+ se leste esse arremedo de poesia<br>
+ sem arte, sal, perfumes e harmonia,<br>
+ que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.<br>
+ Já vejo que és rapaz prudente e bom...<br>
+ desculpa o tratamento... as etiquetas<br>
+ exigem luva branca e roupas pretas;<br>
+ mas isto é muito bom p'ra deputados,<br>
+ que vivem simplesmente de apoiados<br>
+ e gastam excellencia a tres por dois...<br>
+ coitados! são mal pagos... e depois<br>
+ sujeitos a caprichos de ministros....<br>
+ ás vezes trazem rostos tão sinistros,<br>
+ que chego a ter de véras compaixão...<span class="pn">[48]</span><br>
+ Mas dizem que são filhos da eleição?!<br>
+ a culpa é então da mãi que os deu á luz,<br>
+ que tinha atraz da porta aquella cruz,<br>
+ envolta n'um programma e mil projectos<br>
+ p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...<br>
+ Sê franco, meu leitor, se estou massando,<br>
+ arrólho a discussão e vou tratando<br>
+ do resto d'esta historia que encetei...<br>
+ Palavra, que não sei onde fiquei...<br>
+ Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;<br>
+ não olhes p'ra o meu trage... quem precisa<br>
+ pendura com cuidado o paletot,<br>
+ depois de sacudir-lhe bem o pó,<br>
+ e fica assim á fresca muito bem.<br>
+ Quem poupa, meu amigo, sempre tem!<br>
+ não achas que é verdade, ó maganão?<br>
+ pois folgo com a tua opinião.<br>
+ As cousas andam más, tudo está caro!<br>
+ o cobre, santo Deus! anda tão raro!...<br>
+ ao menos lá por casa é uma desgraça!<br>
+ por mais que se trabalhe ou que se faça,<br>
+ por mais que se amofine uma pessoa,<br>
+ vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,<br>
+ Fallemos n'outra cousa, as digressões<br>
+ arredam sempre o fio ás discussões.<br>
+ Entremos na materia francamente,<br>
+ vejamos o que é feito desta gente.<span class="pn">[49]</span></p>
+
+ <h2>II</h2>
+
+ <p>O dia amanheceu bastante frio.<br>
+ No chão, sobre os sofás e nas cadeiras<br>
+ dormiam somno solto os convidados,<br>
+ em duzias de colchões e mil esteiras.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>O nosso fazendeiro acordou cêdo,<br>
+ e poz as cosinheiras logo em pé;<br>
+ sentou-se na varanda lendo as folhas<br>
+ á espera que trouxessem-lhe o café.</p>
+
+ <h2>III</h2>
+
+ <p>«&mdash;Ora bom dia, <i>seu</i> Pedro!<br>
+ &mdash;Bom dia, Sr. Medeiros!<br>
+ &mdash;Ainda o fazia dormindo<br>
+ e vejo que é dos primeiros!...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Então estranhou a cama?<br>
+ passou mal, não é verdade?<br>
+ &mdash;Não, senhor! pelo contrario,<br>
+ perfeitamente á vontade.<span class="pn">[50]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Li agora na <i>Gazeta</i><br>
+ um facto bem curioso!<br>
+ um sujeito, um estrangeiro...<br>
+ mas que homem ardiloso!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Engole uma espada inteira!<br>
+ que barriga! Ave Maria!<br>
+ &mdash;Mas é serio?&mdash;Oh! se o não fosse<br>
+ a folha não o diria...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«O que é isto?! onde se atira<br>
+ já de esporas? onde vai?!<br>
+ &mdash;Vou... eu ia até lá embaixo.<br>
+ &mdash;Não, senhor, hoje, não sahe.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Mas escute, <i>seu</i> Medeiros...<br>
+ &mdash;Não escuto, não senhor;<br>
+ já queria pôr-se ao fresco?<br>
+ enganou-se, meu amor!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Ó homem, 'stou te estranhando!<br>
+ você que é tão pagodeiro!<br>
+ &mdash;Eu ia vêr se lá embaixo<br>
+ recebia hoje dinheiro...<span class="pn">[51]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Qual dinheiro, qual historia!<br>
+ eu bem sei o que isto é!...<br>
+ Sabes que mais, pucha um banco<br>
+ e vamos tomar café.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Já que de todo é preciso<br>
+ vou lhe fallar francamente...<br>
+ &mdash;Pois desembucha, rapaz,<br>
+ fallando se entende a gente.</p>
+
+ <h2>IV</h2>
+
+ <p>«&mdash;O senhor bem me conhece...<br>
+ não sou homem de questões,<br>
+ nem ando brigando á tôa<br>
+ por qualquer duas razões;<br>
+ mas hontem foi desaforo!<br>
+ o sujeito de namoro<br>
+ co'a minha noiva, e eu ali!<br>
+ isto não é fazer pouco?...<br>
+ parti cégo como um louco...<br>
+ nem sei bem o que senti...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Eu vinha de orelha em pé<br>
+ ouvindo o palavreado!<br>
+ não sei o que... de epitaphios...<span class="pn">[52]</span><br>
+ e d'ahi por um bocado,<br>
+ agarrou-lhe por um braço<br>
+ e quiz lhe dar um abraço,<br>
+ no momento em que cheguei!<br>
+ fiquei damnado da vida!<br>
+ e co'a cabeça perdida,<br>
+ por milagre o não matei!...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Depois... não ouvi mais nada...<br>
+ todo este povo a gritar...<br>
+ ouvi o senhor fallando,<br>
+ quando nos veio apartar...<br>
+ mas estou incommodado<br>
+ do negocio se ter dado<br>
+ n'uma casa que eu respeito...<br>
+ em outro qualquer logar,<br>
+ não me importava brigar<br>
+ até um ficar desfeito!...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Tudo isso nada vale!<br>
+ não penses nisto, rapaz....<br>
+ são cousas que a gente moça<br>
+ mais ou menos sempre faz.<br>
+ &mdash;Não, senhor, eu bem conheço<br>
+ que isto é máu; mas o que peço<br>
+ é que queira perdoar...<br>
+ ás vezes lá vem um dia...<br>
+ e a gente está de <i>arrelia</i>,<br>
+ não se póde dominar...<span class="pn">[53]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Vamos fallar de outra cousa,<br>
+ isto é pura criançada...<br>
+ que fizeste á Margarida?!<br>
+ &mdash;Quando?&mdash;Hontem!&mdash;Não fiz nada!<br>
+ &mdash;Pois olha, metteu-me pena<br>
+ vêr a pobre da pequena<br>
+ chorando, não sei porque...<br>
+ &mdash;Ella chorou? mas que tinha?<br>
+ &mdash;Não sei, fallou co'a madrinha<br>
+ e a respeito de você.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;A meu respeito?! e que disse?!<br>
+ &mdash;Como já estavas zangado,<br>
+ disseste-lhe alguma cousa...<br>
+ e te excedeste um bocado...<br>
+ &mdash;Eu, meu Deus?! ainda mais esta!<br>
+ vejam só que bôa festa!<br>
+ que S. João tenho eu!...<br>
+ e tudo, veja o senhor,<br>
+ por causa desse impostor,<br>
+ desse barbas de judeu!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«É uma nuvem passageira...<br>
+ não te dê isso cuidado;<br>
+ vocês fazem logo as pazes<br>
+ e está o negocio acabado.<br>
+ Falla tambem co'o Simão...<br>
+ o velhote tem razão<span class="pn">[54]</span><br>
+ de estar massado comtigo...<br>
+ foste offender ao coitado,<br>
+ que ficou bem magoado;<br>
+ mas o velho é teu amigo.»</p>
+
+ <h2>V</h2>
+
+ <p>Vinha chegando alguem e esta conversa<br>
+ ficou neste logar interrompida;<br>
+ vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,<br>
+ renova-se o prazer, renasce a vida.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Estava tudo em pé; porém o Juca?<br>
+ estava ainda no quarto, ainda dormia?<br>
+ «&mdash;Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde<br>
+ e basta de dormir: é meio dia.»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>A mesa estava posta, e o fazendeiro,<br>
+ que o não vira des que o dia amanheceu,<br>
+ abre a porta e só encontra sobre a mesa<br>
+ uma carta p'ra si, que abriu e leu:<span class="pn">[55]</span></p>
+
+ <h2>VI</h2>
+
+ <p>«<i>Meu caro Sr. Medeiros:<br>
+ vou p'ra côrte no trem mixto<br>
+ que sahe d'aqui a uma hora.<br>
+ Desculpe, se faço isto<br>
+ sem lhe ter agradecido<br>
+ o seu bom acolhimento;<br>
+ mas pode estar convencido<br>
+ de que no meu coração,<br>
+ p'ra com vossa senhoria<br>
+ fica eterna gratidão.<br>
+ Se fôr á côrte algum dia<br>
+ contar-lhe-hei como foi<br>
+ a questão. Não tive a culpa;<br>
+ o que lhe peço é desculpa<br>
+ pelo modo desairoso,<br>
+ porque saio da fazenda.<br>
+ Vou bem triste e pesaroso<br>
+ por causa d'essa contenda,<br>
+ que não julguei provocar.<br>
+ São horas de me ir embora...<br>
+ recommende-me á senhora<br>
+ de quem parto penhorado.<br>
+ Adeus, aceite um abraço<br>
+ do seu amigo e criado...<br>
+ J<small>OSÉ DE</small> S<small>OUZA</small> C<small>ABAÇO</small>.</i>»<span
+ class="pn">[56]</span></p>
+
+ <h2>VII</h2>
+
+ <p>Medeiros releu a carta,<br>
+ dobrou-a, poz na algibeira<br>
+ e disse com seus botões:<br>
+ «&mdash;Ora ahi tem a brincadeira!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Um ficou todo mordido!<br>
+ o outro&mdash;todo esfolado!...<br>
+ qualquer dos dois, de juizo<br>
+ não tem sequer um bocado!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Que dois malucos de força!<br>
+ valha-me a Virgem e o Christo!<br>
+ qual dos dois terá razão?...»<br>
+ e sahio pensando nisto.<span class="pn">[57]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <h2>VIII</h2>
+
+ <p>E os donos da casa empenhados<br>
+ em fazer a reconciliação<br>
+ conversavam co'os noivos e o velho,<br>
+ num cantinho do grande salão.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Houve protestos, desculpas,<br>
+ suspiros, explicações;<br>
+ e afinal lá se entenderam<br>
+ com muito boas razões...</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <h2>IX</h2>
+
+ <p>«&mdash;Vamos p'ra mesa, senhores,<br>
+ que o almoço está esfriando!<br>
+ deixemos as ceremonias!<br>
+ cada um vá se sentando.<span class="pn">[58]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Falta aqui um guardanapo...<br>
+ Olympia, manda buscar...<br>
+ quem quer leitão recheiado<br>
+ levante um dedo p'ra o ar.</p>
+
+ <h2>X</h2>
+
+ <p>«Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros,<br>
+ (e tudo se callou para escutar)<br>
+ eu tenho uma noticia de importancia,<br>
+ que quero a todos vós communicar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Ali minha afilhada Margarida,<br>
+ se bem que me escondesse agora o rosto,<br>
+ vae com Pedro, o patusco, felizardo!<br>
+ casar-se p'ra meado ou fins de agosto.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«E como eu sou padrinho do casorio,<br>
+ que ha de effectuar-se na fazenda,<br>
+ convido a todos vós para assistirdes<br>
+ ao nó que não tem pontas, nem se emenda.<span class="pn">[59]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«E aqui o <i>seu</i> vigario, que é de casa,<br>
+ aprompta a papellada n'um momento,<br>
+ e ha de me amarrar estes pombinhos<br>
+ benzendo-lhes os anneis do casamento.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Bebamos, pois, dos noivos á saude!<br>
+ Senhores, a saude é feita em pé!<br>
+ Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos!<br>
+ a coisa é de virar, ip! bangué!»</p>
+
+ <h2>XI</h2>
+
+ <p>Simão ergueu-se a custo, e commovido<br>
+ fallou desta maneira aos assistentes:</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Senhores, quando a alegria<br>
+ nos afoga o coração,<br>
+ não ha palavras que a digam,<br>
+ falta-nos toda a expressão!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Choramos quando soffremos,<br>
+ quando gosamos, sorrimos,<br>
+ mas o riso não exprime<br>
+ o que n'alma nós sentimos.<span class="pn">[60]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Assim 'stou eu; bem quizera<br>
+ dizer-vos neste momento<br>
+ tudo, tudo quanto sinto,<br>
+ qual é o meu contentamento,</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«mas não posso, porque é tanta<br>
+ a minha felicidade,<br>
+ que mais me parece um sonho,<br>
+ que pura realidade!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«E sabeis a quem a devo?<br>
+ a quem posso agradecer?<br>
+ quem é que em duas palavras<br>
+ me embriaga de prazer?!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«É aqui a mãi dos pobres<br>
+ e o meu compadre Medeiros!<br>
+ este grande coração!<br>
+ a nata dos fazendeiros!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Á saude, pois, d'aquelles<br>
+ que não tem ostentação,<br>
+ quando afogam na alegria<br>
+ um mirrado corração!»<span class="pn">[61]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E todos gritavam co'os copos erguidos<br>
+ dos donos da casa, bebendo á saude:<br>
+ «Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve<br>
+ p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Passados oito dias de prazer,<br>
+ oito dias de festa e de alegria,<br>
+ vão indo pouco a pouco os convidados<br>
+ saudosos, p'ra o lidar de cada dia.<span class="pn">[62]<br>
+ [63]</span></p>
+</blockquote>
+
+<h1>CANTO TERCEIRO</h1>
+
+<p><span class="pn">[64]<br>
+[65]</span></p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<blockquote>
+ <p>Os peralvilhos da côrte,<br>
+ ou cidades principaes,<br>
+ todos querem ser poetas,<br>
+ todos fazem madrigaes<br>
+ quando estão apaixonados.<br>
+ Em versos estropiados,<br>
+ alguns que tem legoa e tanto,<br>
+ a pobre da musa súa,<br>
+ suspirando á luz da lua<br>
+ em cada suspiro um canto!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Aquelles que nem a tiro<br>
+ se lhes abre a cachimonia,<br>
+ assignam versos roubados<br>
+ com toda a sem ceremonia!<br>
+ Não fazem questão de auctor...<br>
+ querem provar seu amor<span class="pn">[66]</span><br>
+ á deidade que os inspira?<br>
+ lá vão direitos á estante,<br>
+ e d'ali por um instante<br>
+ geme e canta a alheia lyra.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>São estes os commodistas<br>
+ e os que tem mais razão...<br>
+ p'ra que quebrar-se a cabeça<br>
+ se ha versos em profusão?!<br>
+ é obra feita, é verdade:<br>
+ mas escolhe-se á vontade<br>
+ onde ha tanto p'ra escolher...<br>
+ lá vai a amostra do panno<br>
+ que um typo fez por engano,<br>
+ por não ter tempo a perder:</p>
+
+ <h2>II</h2>
+
+ <p>Oh! virgem pura de meus sonhos lindos,<br>
+ lyrio mimoso dos jardins dos céus!<br>
+ escuta o bardo descantando amores<br>
+ louco, inspirado nesses olhos teus!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Escuta as notas que desprende a lyra<br>
+ embevecida neste amor sublime;<br>
+ nestes accordes, muito embora rudes,<br>
+ só a verdade o meu cantar exprime.<span class="pn">[67]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Tu és a fonte inexhaurivel, pura,<br>
+ onde a minh'alma vae a fé beber,<br>
+ symbolo da crença, de esperanças fóco,<br>
+ livro sagrado que me ensina a crêr.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Tu és a gota matinal do orvalho<br>
+ na rubra pet'la de uma flôr louçã,<br>
+ limpido espelho de virtude e graça,<br>
+ estrella d'alva em festival manhã.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Tenra avesinha que em gorgeios ternos<br>
+ a Deus envia o suspiroso canto,<br>
+ visão etherea do sonhar do bardo,<br>
+ miragem bella de sublime encanto.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Tu és a lympha, que em ramaes de prata,<br>
+ borda a campina marchetada em flôres,<br>
+ iris formoso da bonança emblema,<br>
+ casto sacrario de gentis amores.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>És tudo, tudo quanto é grande e santo,<br>
+ astro fulgente de brilhante luz!<br>
+ Anjo da Guarda que atravez d'espinhos<br>
+ meus tibios passos ao porvir conduz.<span class="pn">[68]</span></p>
+
+ <h2>III</h2>
+
+ <p>Na roça não se usa disto,<br>
+ quem faz cerco a um coração<br>
+ improvisa as suas quadras<br>
+ com a viola na mão.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E na prima e na segunda<br>
+ faz um tal repenicado,<br>
+ que a pequena fica tonta<br>
+ quebrando o sapateado.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Quem procura a paz do espirito,<br>
+ quem busca a felicidade,<br>
+ ha de encontral-a na roça,<br>
+ raras vezes na cidade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Ali a vida é mais calma;<br>
+ a mudez da solidão,<br>
+ é como um balsamo santo<br>
+ ás dores do coração.<span class="pn">[69]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>A doce tranquillidade,<br>
+ que se desfructa no lar,<br>
+ illumina aquellas almas<br>
+ de uma luz crepuscular.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Na festa ha mais alegria...<br>
+ ha no trato amenidade;<br>
+ o homem da roça é o typo<br>
+ da honra e da honestidade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Se acaso lhes bate á porta<br>
+ um estranho, um forasteiro,<br>
+ tem agasalho e amizade<br>
+ desse povo hospitaleiro.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Sob uma crosta grosseira<br>
+ se encontra a sinceridade,<br>
+ e mais que ninguem conhece<br>
+ as leis da hospitalidade.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Mas se lhes offendem os brios<br>
+ sabem affrontas vingar,<br>
+ que o homem rude do campo<br>
+ não póde insultos tragar.<span class="pn">[70]</span></p>
+
+ <h2>IV</h2>
+
+ <p>Chegara em fim o dia suspirado<br>
+ daquellas duas almas, que se amavam:<br>
+ em breve vão-se unir p'ra todo o sempre<br>
+ no laço por que a tanto suspiravam!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Nos meigos olhos della ha mil affectos...<br>
+ as faces se lhe tingem de rubor,<br>
+ e os labios entreabertos côr de rosa<br>
+ parecem repetir:&mdash;ventura, amor!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>No rosto do mancebo ha um que de vago<br>
+ e certa commoção mal disfarçada!<br>
+ é que é tal a ventura que o espera<br>
+ que duvida vel-a emfim realisada!</p>
+
+ <h2>V</h2>
+
+ <p>«&mdash;Escuta, minha afilhada,<br>
+ tu hoje vaes te casar...<br>
+ é o passo mais delicado<br>
+ que uma mulher póde dar.<br>
+ A partir desse momento,<span class="pn">[71]</span><br>
+ do nosso procedimento<br>
+ depende todo o futuro.<br>
+ Escuta toda a verdade,<br>
+ se queres a f'licidade,<br>
+ este caminho é seguro.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«No dia do casamento<br>
+ tudo é cheio de illusões!...<br>
+ julgamos tocar ao termo<br>
+ das nossas aspirações.<br>
+ Mezes depois, vamos vendo<br>
+ que já vão arrefecendo<br>
+ nossos sonhos virginaes;<br>
+ passada a illusão primeira,<br>
+ a mulher é a companheira,<br>
+ uma amiga, e nada mais.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Então é preciso emprego<br>
+ de toda a nossa prudencia,<br>
+ e ter p'ra com o marido<br>
+ a maior condescendencia.<br>
+ Se chega em casa cansado,<br>
+ dar-lhe carinhos e agrado,<br>
+ não perguntar de onde vem;<br>
+ elle mesmo irá dizendo<br>
+ o que andou por lá fazendo,<br>
+ ou se esteve com alguem.<span class="pn">[72]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Nunca sejas ciumenta,<br>
+ nem lh'o dês a conhecer!<br>
+ o ciume, além de inutil,<br>
+ nos envenena o viver.<br>
+ Sê sempre condescendente...<br>
+ não te mostres exigente<br>
+ nem lhe peças sacrificios:<br>
+ um pedido caprichoso,<br>
+ para um marido extremoso,<br>
+ é um dos grandes supplicios.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Sempre affavel, carinhosa,<br>
+ sempre modesta e asseiada...<br>
+ eis aqui como procede<br>
+ a mulher bem educada.<br>
+ Algumas, infelizmente,<br>
+ ignoram completamente<br>
+ estas verdades, e então<br>
+ dizem que são desgraçadas;<br>
+ mas são ellas as culpadas,<br>
+ é falta de educação.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Quando em casa não encontram<br>
+ meiguices, consolações,<br>
+ os maridos se aborrecem,<br>
+ vão procurar distracções...<br>
+ e uma vez encetado<span class="pn">[73]</span><br>
+ esse trilho tão errado,<br>
+ é um martyrio esse viver!<br>
+ Deus te livre, Margarida!<br>
+ a ter semelhante vida,<br>
+ melhor te fôra morrer!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Eis aqui os meus conselhos<br>
+ que sempre tenho seguido;<br>
+ e de cumpril-os á risca<br>
+ não me tenho arrependido.<br>
+ Desde criança a meu lado,<br>
+ has de ter observado<br>
+ como trato teu padrinho;<br>
+ e tenho sido estimada...<br>
+ se queres ser adorada<br>
+ faze o mesmo ao teu Pedrinho.»</p>
+
+ <h2>VI</h2>
+
+ <p>Adornada a capricho p'ra este dia,<br>
+ da fazenda a pequena capellinha<br>
+ estava que era um mimo de bom gosto,<br>
+ tão faceira! tão bem arranjadinha!<span class="pn">[74]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Sanefas de setim verde e amarello,<br>
+ nas paredes damasco alaranjado,<br>
+ alampadas de prata, quatro lustres,<br>
+ e um soberbo tapete avelludado.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>O todo era singelo, doce e grave,<br>
+ incitava não sei que ao coração!<br>
+ noss'alma sem querer a Deus se erguia<br>
+ nesse encanto mental de uma oração.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Lá fóra repicava alegre o sino...<br>
+ festões, arcos e flôres no terreiro,<br>
+ convidados, amigos e parentes,<br>
+ e sempre satisfeito o fazendeiro.</p>
+
+ <h2>VII</h2>
+
+ <p>São horas, tudo está prompto;<br>
+ todos seguem p'ra capella.<br>
+ Na frente caminha ella<br>
+ pelo braço da madrinha;<br>
+ logo atraz Pedro, Simão,<br>
+ Medeiros, uma sobrinha<br>
+ do vigario, e a multidão<br>
+ que caminha alegremente<br>
+ em ruidosa confusão.<span class="pn">[75]</span><br>
+ Era um quadro interessante<br>
+ de belleza original<br>
+ o que eu vi naquelle instante:<br>
+ cabeças brancas de neve,<br>
+ rostos graves enrugados<br>
+ pendidos p'ra sepultura,<br>
+ a par de frontes divinas,<br>
+ de olhos meigos namorados<br>
+ derramando mocidade!<br>
+ Oh! como é bella essa idade<br>
+ em que tudo é só prazer!<br>
+ em que a existencia é um sorriso,<br>
+ em que o amor é um paraiso,<br>
+ em que o sonhar é viver!<br>
+ O grupo entrou na capella<br>
+ ajoelhou-se, benzeu-se,<br>
+ resou e depois ergueu-se<br>
+ e cochichava em segredo;<br>
+ mas callou-se de repente<br>
+ quando o padre appareceu.<br>
+ Margarida estremeceu<br>
+ e disse machinalmente:<br>
+ «Agora vou ser feliz.»<span class="pn">[76]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Estava emfim realisado<br>
+ aquelle sonho dourado<br>
+ de su'alma casta e pura!<br>
+ a embriaguez da ventura<br>
+ tornava-a mais que divina!<br>
+ aquellas faces rosadas<br>
+ levemente afogueadas<br>
+ de prazer e commoção,<br>
+ traziam-lhe tal encanto,<br>
+ que eu creio que até um santo<br>
+ succumbia á tentação!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Era finda a ceremonia.<br>
+ Pedro, qu'inda não fallara,<br>
+ por pouco não desmaiara<br>
+ nos braços do fazendeiro,<br>
+ fulminado de alegria!<br>
+ e no sorriso nervoso<br>
+ que d'alma aos labios lhe vinha,<br>
+ quem é que não traduzia<br>
+ o que n'alma o pobre tinha?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Passados alguns momentos,<br>
+ já depois dos comprimentos<br>
+ de todos que os rodeavam,<br>
+ sahiram de braços dados<span class="pn">[77]</span><br>
+ sob uma chuva de flôres<br>
+ que em cima lhe despejavam<br>
+ á porfia, os convidados.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Chegados todos á casa,<br>
+ Simão e Pedro de um lado<br>
+ á meia voz conversavam.<br>
+ Dizia o velho alquebrado:<br>
+ «Nesta filha que te entrego,<br>
+ dou-te tudo quanto tenho,<br>
+ dou-te os olhos, fico cégo,<br>
+ mas risonho e satisfeito...<br>
+ eu já estava tão affeito<br>
+ que não sei como sem elles<br>
+ eu possa agora viver!...<br>
+ ella era o sol bemfazejo<br>
+ ao qual eu me ia aquecer;<br>
+ porém fico descansado,<br>
+ porque em ti achou arrimo....<br>
+ eu somente o que lastimo<br>
+ é ser velho e não ter nada,<br>
+ não p'ra mim que não preciso,<br>
+ era por ella, coitada!<br>
+ que é um anjo como tu sabes.<br>
+ Olha, Pedro, eu só te peço,<br>
+ se alguma cousa mereço,<br>
+ que trates bem minha filha!<br>
+ minha pobre Margarida!<span class="pn">[78]</span><br>
+ Ella ha de adoçar-te a vida<br>
+ porque é muito carinhosa,<br>
+ e como foi boa filha<br>
+ deve ser tambem esposa.»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E em quanto o velho fallava<br>
+ da filha por quem vivia,<br>
+ dos olhos se lhe escapava<br>
+ uma baga que rolava<br>
+ e na barba se escondia.</p>
+
+ <h2>VIII</h2>
+
+ <p>«&mdash;Forma a roda! oh! <i>seu</i> Casusa<br>
+ não fuja, vamos brincar;<br>
+ vá decidir na viola<br>
+ para este povo dançar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Qual o que! o <i>seu</i> Manduca<br>
+ é <i>cabra</i> bom tocador,<br>
+ e eu não vou tirar a espada<br>
+ da mão de um tal jogador.<span class="pn">[79]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Vamos então ver os dois<br>
+ no desafio pegados...<br>
+ Forma roda! forma roda!<br>
+ quero ouvir esses damnados.»</p>
+
+ <h2>IX</h2>
+
+ <p>E emquanto sapateavam,<br>
+ os dois assim descantavam:</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Meu senhor, me dê licença<br>
+ que eu quero principiar:<br>
+ quero botar uma trova<br>
+ para quem me faz penar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Póde entrar que o matto é limpo,<br>
+ não tem onça, nem queixado,<br>
+ tem somente uma morena<br>
+ por quem ando apaixonado.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Obrigado, companheiro,<br>
+ Deus te ajude nos amores;<br>
+ mas quem gosta das morenas<br>
+ soffre penas, sente dôres.<span class="pn">[80]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Eu bem sei de quem tu gostas,<br>
+ p'ra ella podes cantar;<br>
+ é clara, tem olhos pretos,<br>
+ olhos que te hão de matar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Na barra do teu vestido<br>
+ anda preso um coração,<br>
+ menina, minha menina,<br>
+ da minha veneração.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;O sipó do matto virgem<br>
+ amarra o jacarandá;<br>
+ assim, morena, em teus olhos<br>
+ ando eu bem preso já.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Fui ao matto cortar lenha<br>
+ e encontrei a jurity,<br>
+ ella tinha os seus amores<br>
+ como os eu tenho por ti.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Larangeira é pau d'espinho,<br>
+ carangueijo anda na praia,<br>
+ tambem andam meus amores<br>
+ na renda de tua saia.<span class="pn">[81]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Os teus olhos são de fogo,<br>
+ tua boca é uma roseira,<br>
+ menina, minha menina,<br>
+ quem te fez tão feiticeira?</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Cachorro ladra na cerca<br>
+ quando vem algum ladrão,<br>
+ assim ladra no meu peito<br>
+ por te ver meu coração.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Menina, minha menina,<br>
+ se me não queres matar,<br>
+ dá-me um riso pequenino,<br>
+ que eu sou bom de contentar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;No braço tenho talento,<br>
+ tenho prata na goiaca,<br>
+ p'ra quem duvidar, comigo<br>
+ na cintura trago a faca.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Você me botou olhado,<br>
+ você mesmo ha-de tirar,<br>
+ e eu só posso ficar bom<br>
+ quando comtigo casar.<span class="pn">[82]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Ó senhor dono da casa,<br>
+ mande vir alguma cousa;<br>
+ já está co'a guella secca<br>
+ o Manduca Zé de Souza.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Sem leitão não ha pagode,<br>
+ sem bebida violeiros;<br>
+ o Casusa está com sêde,<br>
+ mande vir, Sr. Medeiros.»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <h2>X</h2>
+
+ <p>«&mdash;Muito bem, muito bem! gritaram todos,<br>
+ qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar,<br>
+ e dansam que faz gosto e mette inveja<br>
+ a quem os vê n'um samba a requebrar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Vocês que tomam? vinho ou paraty?<br>
+ &mdash;Eu cá já tomei vinho e não misturo...<br>
+ &mdash;E dois.&mdash;Pois aqui tem, ataquem deste,<br>
+ que é bom, é de patente, é vinho puro.»<span class="pn">[83]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Depois de beberem voltaram p'ra roda<br>
+ ao som da viola, tocando e cantando,<br>
+ ao longe se ouvia o tinir das chilenas,<br>
+ as palmas cadentes dos moços dansando.</p>
+
+ <h2>XI</h2>
+
+ <p>A noiva estava com somno....<br>
+ o noivo.... não sei se o tinha,<br>
+ mas estava assim com cara<br>
+ onde logo se advinha....<br>
+ vontade de se ir deitar.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>A madrinha, disfarçando,<br>
+ para o quarto do noivado<br>
+ foi com ella, onde ajudou-lhe<br>
+ a tirar o véo bordado<br>
+ e a grinalda virginal.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Desapertou-lhe o vestido<br>
+ e em saia branca a deixou....<br>
+ baixinho deu-lhe conselhos,<br>
+ depois a porta cerrou<br>
+ deixando-a ficar sosinha.<span class="pn">[84]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>De repente ouviu-se um grito!<br>
+ era a voz de Margarida,<br>
+ e um toque de campainhas,<br>
+ que prolongou-se em seguida,<br>
+ indicava o quarto della.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Todos correm pressurosos,<br>
+ perguntam: «Que aconteceu?»<br>
+ Dona Olympia mais ligeira<br>
+ do que todos, lá correu,<br>
+ fechou a porta, e que viu?!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Viu na cama semeados<br>
+ carrapichos aos milhões!<br>
+ alfinetes espetados!<br>
+ e por baixo dos colchões<br>
+ campainhas penduradas!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E a pobre da menina<br>
+ que se foi sentar na beira...<br>
+ espetou-se não sei onde,<br>
+ nem como, de que maneira<br>
+ fez dobrar o carrilhão.<span class="pn">[85]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Não pôde dormir na cama!<br>
+ foi p'ra o quarto da madrinha.<br>
+ O noivo tremeu com frio,<br>
+ a noiva ficou sosinha<br>
+ scismando.... nos carrapichos.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Percebes, meu leitor, que eu não desejo<br>
+ entrar n'alguns detalhes melindrosos;<br>
+ respeito o sanctuario da familia<br>
+ e deixo a indagação aos curiosos.<span class="pn">[86]<br>
+ [87]</span></p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+ <p>&nbsp;</p>
+ <p>&nbsp;</p>
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <h2>XII</h2>
+
+ <p>Um anno já se passou<br>
+ Depois que vi estas scenas,<br>
+ mas inda tenho saudades<br>
+ d'aquellas boas pequenas.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Ha tres dias, por acaso,<br>
+ n'um bond do Pedregulho<br>
+ encontrei o <i>seu</i> Medeiros<br>
+ que levava um grande embrulho.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«&mdash;Como vai? me disse elle,<br>
+ ó homem, não apparece!<br>
+ pois olhe, todo o meu povo<br>
+ do senhor nunca se esquece.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Já soube que a Margarida<br>
+ teve um filho o mez passado?<br>
+ &mdash;Não, senhor!&mdash;Pois é verdade!<br>
+ e p'ra o mez é o baptizado!</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>«Não falte e leve os amigos,<br>
+ porque temos brincadeira;<br>
+ vim á côrte só para isto,<br>
+ e ando assim desta maneira!»</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>E apontou-me o embrulho<br>
+ que mettera sob o banco,<br>
+ e nisto o maldito bond<br>
+ deu um enorme solavanco.</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................<br>
+ ..............................</p>
+
+ <p>&nbsp;</p>
+
+ <p>Leitor, se lêste attento estes meus versos,<br>
+ é que és bom, condescendente e meu amigo.<br>
+ Has-de ir pagodear lá na fazenda,<br>
+ eu posso convidar-te: vais comigo.</p>
+</blockquote>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA ***
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
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+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+information can be found at the Foundation's web site and official
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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