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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/32295-8.txt b/32295-8.txt new file mode 100644 index 0000000..57216df --- /dev/null +++ b/32295-8.txt @@ -0,0 +1,2386 @@ +The Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas da Roça + Poema de costumes nacionaes + +Author: António Corrêa + +Release Date: May 8, 2010 [EBook #32295] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + A. CORRÊA + + SCENAS DA ROÇA + + POEMA DE COSTUMES NACIONAES + + + RIO DE JANEIRO + TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS + 72 RUA SETE DE SETEMBRO 72 + 1879 + + + + + SCENAS DA ROÇA + + + + + A. CORRÊA + + SCENAS DA ROÇA + + POEMA DE COSTUMES NACIONAES + + + RIO DE JANEIRO + TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS + 72 RUA SETE DE SETEMBRO 72 + 1879 + + + + +AO MEU LIVRO + + + Vae, filho, já tens idade, + já ficaste emancipado; + precisas correr o mundo, + saber de tudo um bocado. + Vae, filho, mas sê prudente, + ouve os conselhos de gente + que puder te aconselhar; + sê modesto e delicado... + em fallar pouco e acertado + ha sempre muito a ganhar. + + Se alguma gloria colheres, + não te ufanes sem razão: + ás vezes ouve-se um tolo + por méra contemplação. + Escuta os indifferentes. + Os amigos e os parentes + não dizem toda a verdade. + Agora, no teu caminho, + não te basta o meu carinho + nem toda a minha amizade. + + Se ouvires phrases sensatas, + presta-lhes toda a attenção; + a tolos não dês ouvidos + nem provoques discussão. + Respeita as crenças alheias; + mas guarda as tuas idéas + e corrige os teus defeitos. + Na escola da sociedade, + estuda, aprende a verdade + nas phrases de seus eleitos. + + Vae, filho, Deus te acompanhe. + Das letras no vasto mundo + bem poucos bóiam á tôna, + grande parte vai ao fundo. + Ai! neste momento extremo + é por ti, filho, que eu tremo! + attende aos conselhos meus... + Já são horas da partida; + comtigo vae minha vida, + mas parte... vae... filho, adeus. + + + + +CANTO PRIMEIRO + + +I + + Ha quem diga que a franceza + é a mulher por excellencia; + mil outros dão preferencia + aos requebros da hespanhola: + dizem que ella prende e mata + quando a melena desata + e no fandango arrebata + ao trinar da castanhola. + + As bellas filhas da Italia + tem milhões de adoradores, + lá na patria dos amores + quem dá leis é o coração. + É tudo vida, alegria, + feixes de luz, de harmonia, + ondula em torno a poesia + nesse mar da inspiração. + + Eu acho a todas bonitas + quando de veras o são, + quer sejam do Indostão, + d'Allemanha, Italia ou França; + mas p'ra mim a brazileira + d'entre todas é a primeira: + é gentil, é feiticeira + como um sorrir de creança. + + As outras guardam comsigo + da velha Europa a imponencia; + estas não, tem a innocencia, + tem o perfume das flôres; + captivam pelos encantos + ingenuos puros e santos, + e são, meu Deus, taes e tantos, + que fazem morrer de amores! + + Quem póde escutar-lhe as fallas + quando a tremer de receio, + baixando os olhos no enleio + em que a prende o coração, + ella diz corando e rindo: + «Do meu ceu de amor inflado, + tu és o astro mais lindo + da maior constellação!»? + + Quem póde conter no peito + o travesso coração? + quem não sujeita a razão + ao dominio dessas fallas? + quem não se abraza nos lumes + da mulher que tem perfumes, + de que as rosas tem ciumes + se vão se encontrar nas salas? + .............................. + + +II + + Meu leitor, deixa a cidade e vem comigo + que eu quero te mostrar um quadro bello; + vem á roça onde o amor é mais sublime, + e tudo quanto é grande mais singelo. + + Eu prefiro ás harmonias de uma orchestra, + aos encantos que doudejam nos salões, + a cantiga do tropeiro descuidoso, + ou as trovas amorosas dos sertões. + + Ha naquelles improvisos mal rimados, + e naquella inspiração de cada instante, + a belleza original que parte d'alma + sem arte, mas com fogo delirante. + ................................. + + +III + + Elle era um moço bonito + como na côrte não ha, + tinha os olhos e os cabellos + da côr do jacarandá. + Um porte airoso, engraçado, + rapagão desempenado + de metter inveja a cem! + se na estrada elle passava, + a moça que o espiava + lhe ficava querendo bem. + + Mas elle guardava firme + no fundo do coração + pela bella Margarida + a mais ardente paixão. + E as moças da visinhança + ao verem sua esquivança + ás festas, se ella não ia, + diziam de enciumadas: + «--Pedro está de azas quebradas; + pobre moço! quem diria?! + + «--E tem só vinte e tres annos + e alguma cousa de seu! + vejam só o que é fortuna; + tão feliz nunca fui eu! + --E dizem que casa breve? + --Eu não sei, mas elle deve + casar-se p'ra o fim do anno. + --Que lhe faça bom proveito... + --E o velho está satisfeito? + --Pudera não! bem ufano!» + + Tal eram os commentarios + que em toda a parte faziam + as moças da visinhança, + que em festas se reuniam; + mas elle, surdo aos rumores + que faziam seus amores + nas discussões femenis, + nada via além do encanto + d'aquelle amor puro e santo, + d'aquelles olhos gentis. + + Mas quem era a linda moça + a quem Pedro tanto amava? + quem era a virgem formosa + que elle assim idolatrava? + era rica ou pobresinha? + tinha-lhe amor ou não tinha? + Não é o que queres saber? + lá vamos, leitor querido, + satisfazer teu pedido, + já tudo vamos dizer. + + +IV + + Ella tinha quinze annos; era um anjo + de graça, candidez e de bondade, + e aquelle coração de meiga pomba + amava como se ama nessa idade. + + A todos occultava aquelle affecto + que su'alma marchetava de illusões; + dos sonhos côr de rosa que ella tinha + quem pode descrever as emoções? + + De manhã apoz a prece fervorosa, + fictados nos do Christo os olhos bellos, + regava o seu canteiro, e de violetas + um raminho prendia entre os cabellos. + + «Tomava o seu balaio de costura, + tirava linha, agulhas e dedal, + e sentava-se a coser o dia inteiro + á sombra da mangueira do quintal. + + Ás vezes descuidando seu trabalho, + parada co'o olhar ficto na estrada, + no mar da phantasia, como um cysne, + boiava da corrente á flôr levada. + + +V + + Tal era a mimosa filha + do velho Simão da Cruz; + de sua velhice o arrimo, + alegria, vida e luz. + Revia no rosto della + a companheira extremosa, + que lhe deixara, murchando, + o rebentão de outra rosa. + + Vio-a crescer sob os olhos; + estudou-lhe o coração, + e lia nelle os mysterios + d'aquella ardente paixão. + Um dia toma-lhe o braço, + fal-a sentar a seu lado, + e diz-lhe rindo o bom velho: + «Já tens algum namorado?» + + Enrubece, treme, ensaia + dizer uma phrase, em vão! + repete o velho a pergunta, + e ella responde «--Não... + --Não mintas, filha! não sabes + que é um peccado mentir? + --Perdão meu pai!--Não perdôo + a quem me busca illudir.» + + Dos bellos olhos da moça + o pranto desce a torrentes, + cujas bagas vão no seio + embeber-se encandescentes. + O velho, ameigando a falla, + apoz miral-a um instante, + lhe torna: «--Vamos! não chores! + não é Pedro o teu amante? + + «Bom rapaz! é de meu gosto... + já fallou-te em casamento? + e tu disseste que sim, + sem o meu consentimento?! + Como os filhos são ingratos! + este mundo como vae! + quem de uma filha os segredos + guardará melhor que um pai? + + «Mas vamos lá! estou por tudo; + disseste que sim? está dito!... + fizeste mal em negal-o; + isto assim não é bonito. + Não chores, dá-me um abraço! + será Pedro o teu marido; + é justo, se o amas tanto... + se foi o teu preferido... + + +VI + + Estamos em junho, no mez das fogueiras, + do riso, das festas, das sortes, do amor, + das cannas assadas, carás e batatas, + dos jogos de prendas, do fogo em redor. + + Quem póde na roça ficar, preguiçoso, + dormindo na rêde, sem ir ao pagode? + se as moças bonitas lá estão feiticeiras + cantando e sorrindo, fugir-lhes quem póde? + + +VII + + Na fazenda do Tymbira + era velha a devoção + de fazer-se grande festa + em dias de S. João. + O velho Joaquim Medeiros, + que era a flôr dos fazendeiros + d'aquella localidade, + esfregava as mãos contente + quando via em casa gente + a que o prendia a amizade. + + D. Olympia, sua esposa; + mãi dos pobres do logar, + tres dias antes da festa + não parava a trabalhar. + Mandava as suas mucamas + dos quartos fazer as camas, + espanar tudo e varrer, + e, doceira de bom gosto, + lá estava firme no posto, + fazendo o tacho ferver. + + Fazia doce de côco, + laranja, cidra, limão, + bom-bocado, arroz de leite, + bolinhos de S. João, + pamonha, cus-cus de milho, + manouê, biju, sequilho, + biscoutinhos de araruta, + tarécos, baba-de-moça, + e, mil doces que na roça + se fazem de toda a fructa. + + No terreiro da fazenda + preparava-se a fogueira, + e o mastro todo enfeitado + de folhagens de mangueira; + e dentre as folhas escuras + sahiam fructas maduras, + como é o costume geral, + e uma boneca vistosa + de vestido côr de rosa, + fazia o tópe final. + + No campo desde a porteira + de verde murta vestida, + duas linhas de coqueiros + vem a porta da saida. + De um lado a outro correndo, + dirigindo ou desfazendo + o que não estava direito, + andava o rei dos festeiros + o nosso velho Medeiros + sempre alegre e satisfeito. + + «--Vamos com isso, rapazes, + que temos mais que fazer + e d'aqui por uma hora + ninguem se póde mecher. + Joaquina e Manuela, + vocês vão lá p'ra capella + capinar ali na frente. + Olá, moleque, ó vadio! + chega ali embaixo no rio, + vê se vem alguma gente. + + «Vicente, traze as bandeiras, + vai tu com elle, Francisco; + Manuel, varre p'ra um canto + e apanha depois o cisco. + Não quero ver uma palha!... + veja depois como espalha + essas folhas de mangueira!... + Ó Job, pergunta á sinhá + se já tem café por lá, + que mande aqui na porteira.» + + +VIII + + Se eu soubesse descriptiva + dava aqui em perspectiva + a fazenda toda inteira! + tomava tinta e pincel + e sobre plano-painel + transportava... mas é asneira... + + Eu não pesco nem pitada + dessa insulsa trapalhada, + de linhas, pontos e traços; + mas tambem não me entristeço, + é sciencia que aborreço, + cansa a cabeça e os braços. + + E na falta de sciencia, + eu peço condescendencia + p'ra o traçado que vou dar; + é obra de um curioso... + meu leitor, sei que és bondoso, + não o queiras censurar. + + +IX + + O todo se emmuldura em matto virgem; + arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia, + e o fundo do painel é verde-escuro + da côr de um cafesal visto á distancia. + + Por entre as pedras soltas de seu leito, + o rio serpenteia murmurando. + De um lado a horta, o engenho, alguns pomares, + do outro, os animaes que estão pastando. + + Aqui o mandiocal n'um morro enorme, + naquelles á direita, é o cafesal; + ha uma socca de arroz junto do brejo + e da cerca p'ra lá, o cannavial. + + No centro, n'uma dobra do terreno, + a casa que é voltada p'ra o nascente; + precede-lhe o jardim, primor de gosto + que a abraça pela esquerda e pela frente. + + Ao fundo em duas ruas parallelas + a casa da farinha, a do feitor, + paióes, estrebarias e senzallas, + o tanque, o gallinheiro, e corador. + + Olhando p'ra direita vê-se a escada + que tem de cada lado uma mangueira, + o campo e o caminho em linha recta, + que da casa vae parar junto á porteira. + + Concebe o quadro lá como puderes! + eu dou-te aqui apenas um bosquejo, + querel-o completar fôra loucura, + se bem que fosse grande o meu desejo. + + Lá chega o rancho enorme e folgasão + que vem p'ra festejar o S. João. + + De quatro leguas em roda, + toda aquella visinhança + veio assistir á festança + da noite de S. João. + O povo da freguezia + quazi todo nesse dia, + ia como em romaria + pandegar por devoção. + + Como é uso admittido, + a pessôa convidada + leva roupa preparada + para quatro ou cinco dias!... + lá na roça a moda é esta; + qualquer pagode, não presta + sem a semana de festa, + de intermináveis folias! + + Subindo e descendo morros, + n'um carro por bois puchado, + n'um tunel improvisado + de arcos e de uma esteira, + de uma fazenda visinha + a passo lento caminha + a familia que se aninha + n'essa amavel capoeira. + + Atraz os negros da casa + Tão carregando os bahus, + sem camisa, quazi nús, + e alagados de suor; + ao lado caminha a passo, + n'um lindo macho picaço, + o fazendeiro ricaço + que vae morto de calor. + + Os filhos vão a cavallo. + Na frente caminha o pagem, + que sem esse personagem + na roça não se é ninguem! + É um negro de confiança + em quem o Senhor descança, + que exerce desde criança + o cargo honroso que tem. + + Usa jaqueta de vivos, + chapeo baixo de oleado, + topete bem penteado, + canos de bota e chilenas; + é o mensageiro de amores + dos filhos de seus senhores; + leva cartinhas e flôres + para entregar ás pequenas. + + O pagem da roça é um typo + de serio e acurado estudo, + sabe um bocado de tudo + quanto se deve saber. + É ferrador, é selleiro, + carapina e corrieiro, + é peão e no terreiro + requebra um fado a valer. + + Aqui um rancho de moças + vae a pé, moram tão perto!... + são duas leguas, é certo, + mas diz-se na roça:--é ali. + E por toda aquella estrada + vê-se gente a pé, montada, + e outra que já cançada + bebe á sombra paraty. + ................................... + ................................... + ................................... + + +X + + Terminou-se o jantar, é noite escura; + com fachos de sapé ligeiros correm + os moços dando vivas. + Accende-se a fogueira e em torno a ella + vão sentar-se alegres, descuidosos, + os grupos de convivas. + + Aqui tomam garapa em lisas cuias, + os velhos, que disputam seriamente + ácerca de eleições, + ou fallam do café que está sem preço, + nos gastos da lavoura e poucos lucros + de suas transacções. + + Ali as moças todas reunidas + dissertam sobre amor e namorados + com tal proficiencia, + como um lente, jubilado na materia, + derramando em qualquer academia + a luz da experiencia. + + Não longe os rapazes formam grupos: + uns são republicanos exaltados + e outros monarchistas; + e outros sem partido, olhando as moças, + a morrer de amor por ellas, contam rindo + amores e conquistas. + + É tudo animação, prazer e vida... + aqui um bello dito, ali vozes confusas, + gostosas gargalhadas; + estouram buscapées, rebentam bombas, + foguetes e balões erguem-se aos ares + no meio de apupadas. + + +XI + + «--Qual, compadre, desta feita + parece que os liberaes + não sobem, não, mas é o mesmo... + que me diz, Sr. Moraes? + + «--Eu não sei, mas desconfio + que os homens não fazem nada; + pelo menos lá na villa + é tudo chapa cerrada. + + «--Aposto cem contra dez, + com quem quizer apostar, + em como os conservadores + hão de ceder o logar. + + «E o Brazil vae á garra + se os liberaes não subirem; + que projectos, quanta cousa + se perde, se elles cahirem! + + «Estradas e mais estradas, + navegação pelos rios; + hão de fazer o diabo + porque empenharam seos brios. + + «--Ora adeus, em quanto a brios + os outros tambem os tem; + e ninguem lhes passa a perna, + porque fallam muito bem. + + +XII + + «Ó Gringo, salta a fogueira! + ó Guillon, pula tambem! + assim, Norberto! um, dois, trez... + sim, senhor, foi muito bem! + + «_Seu_ Zé Carlos, largue a moça! + não seja namorador! + já temos nova conquista? + vem p'ra aqui, ó seductor. + + «O Octávio lá está n'um canto + a scismar _encalistrado_! + que tem elle?--Ora o que tem! + anda muito apaixonado: + + «Dizem que elle foi a um samba + e de lá veio cahido... + mas espera, olha o Zamith + como está todo lambido! + + «E o Licurgo? oh que maroto! + desde que elle se casou + está com ar de homem serio, + ficou bonito, engordou!... + + «Tira os carás do rescaldo, + moleque, traz o melado! + oh ladrão, anda ligeiro... + este sim, está bem assado + + «É só da tropa fandanga! + ninguem mais aqui se metta! + Ezequiel, tu não comes? + estás forjando alguma pêta? + + +XIII + + «--Pois creia, sinhá Chica, foi olhado + botado na pequena com certeza; + Candóca esteve assim, mas foi resal-a + a sogra do Manduca, a nhã Thereza. + + «Foi lá trez sextas-feiras, em seguida + benzeu e deu-lhe uns _póses_ p'ra tomar; + e hoje, benza-a Deus, está que é um gosto! + só vendo é que se pode acreditar! + + «--Pois olhe, p'ra fallar minha verdade, + já tinha me _alembrado_ ser feitiço... + não podia senão ser cousa feita.. + pelos modos que é, só se foi isso. + + «A menina tem uns flatos pelas costas, + e anda jururú que mette pena! + coitada! tem tomado mil mesinhas + e nada de arribar; pobre pequena! + + «--Quem sabe, diz a tia Marcolina, + que entende destas cousas como gente, + quem sabe se a espinhela tem caida?! + se for isso, ponho-a boa de repente. + + «A lua agora é nova... pouco importa, + na sexta-feira cedo mande-a lá, + que com favor de Deus tenho esperança + que volta sã e salva para cá.» + + +XIV + + Eu não sei porque é que em toda a festa + se encontra sempre um bôbo, um toleirão, + dizendo muita asneira e se inculcando + rapaz de muita graça e sabichão! + + Á festa de Medeiros foi um typo, + a quem debalde eu busco descrever; + deixára a côrte onde era um _petit-maitre_ + e á roça foi levar todo o saber. + + Fallava sempre em termos empollados, + mirava-se ao espelho a cada instante; + usava citações em qualquer lingua, + e tinha o ar altivo do pedante. + + Frisada a cabelleira e com pastinhas... + gravata verde-mar, o fraque azul, + as luvas côr de cinza, a calça branca, + sapatos de verniz; eis meu taful. + + Desceu para o terreiro, olhou em torno + buscando achar um pobre a quem massar, + e eil-o dentro em breve n'uma roda, + com todo o seu furor a disputar. + + «--Perdão, dizia o typo enthusiasmado: + eu sou republicano, e como tal + exijo a liberdade a mais completa, + quer na ordem civil, quer na moral. + + «A lei é um empecilho á liberdade, + o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno + os povos não precisam de governo, + o exemplo está no povo americano! + + «_To be or not to be_, eis como eu penso; + abaixo a realeza e o seu prestigio; + o rei a quem o mundo hoje se curva + escreve--Liberdade--em gorro phrigio!» + + Fallou e disse asneiras muito tempo + até que ficou só, sem mais ninguem! + «--Camellos! disse elle em tom baixinho, + nem sabem de que ponto a luz lhes vem!» + + Mas vendo ao longe a bella Margarida, + exclama o nosso heróe: «--Oh! _c'est charmant!_ + _Mignone_, vaes ser minha, assim t'o juro... + e agora ella está só! _c'est bien l'instant_. + + E assim dizendo applica o _pince-nez_ + e vae sentar-se ao lado da menina. + + +XV + + «Desculpe vossa excellencia, + mas eu creio que já a vi! + --Póde ser, responde a moça, + quasi sempre eu venho aqui...» + «--Não foi aqui, foi ha um anno... + na côrte, se não me engano, + n'um baile que eu a encontrei... + --Oh! gentes! está enganado, + se perguntar p'ra que lado + a côrte fica, não sei!» + + «--Era então o seu retrato + divinamente imitado... + os mesmos olhos divinos! + o mesmo rosto adorado!... + «--Oh! senhor, parece incrivel! + deveras será possivel + tão pasmosa semelhança?! + --Oh! natura eterna e infinda! + nunca vi mulher tão linda!... + --Eu sou linda? que esperança! + + «--Então não vio Guanabara + da metrop'le no regaço, + sonhando loucos edyllios + co'os olhos fitos no espaço?! + «--Não senhor! se eu não conheço!» + «--Escuta, diva, eu te peço: + sou talvez um sonhador... + --Oh! moço, mal comparando, + quando o senhor está fallando + parece-me um pregador!» + + «--Serei tudo, ó casta diva, + innocente Julieta! + tu'alma exhala o perfume + da modesta violeta!... + --_Ué_! que moço engraçado! + já deu-me o nome trocado... + eu me chamo Margarida. + --Margarida? Oh! doce encanto! + teu nome tão puro e santo + guardarei além da vida! + + «Escuta, sylpho do empirio, + dos céus aerea visão, + não sentes do amor as lavas + que arroja o meu coração? + partamos, além na selva + sobre um tapete de relva, + pousemos o floreo ninho! + partamos, a noite é densa... + --Ó moço, eu peço licença, + eu vou fallar com dindinho! + + «--_Comment celà!_ não me deixes + com tua ausencia obumbrado! + queres tu que um cenotaphio + erga a um amor desgraçado? + --Oh! _seu_ aquelle, me deixa! + senão eu vou fazer queixa + a meu pai, largue meu braço!.. + --Não partas, anjo bemdito... + --Eu sou grossa p'ra palito... + --Ao menos dá-me um abraço!...» + + +XVI + + Tal como ao terminar-se da espoleta + o mixto que de um jacto a carga inflamma, + e no rouco troar detona a bomba + cuspindo os estilhaços, fumo e chamma, + + assim do meu leão, na face núa, + por mão callosa e firme manejada, + a bomba do ciume arrebentara + e com ella uma tremenda bofetada! + + Zumbiram-lhe aos ouvidos mil besouros, + myriades de estrellas viu então; + sahiram-lhe faiscas pelos olhos, + perdera o equilibrio, e... foi ao chão! + + De pé, em frente a elle estava um homem, + raivoso como tigre olhando a preza; + nos olhos faiscava-lhe o ciume, + nos labios um sorrir de atroz dureza! + + É Pedro, que no seu amor selvagem + não póde reflectir, sabe vingar; + feriam-lhe de morte as crenças d'alma, + e o tigre que é ferido quer matar. + + +XVII + + «--Pedro! Pedro! então que é isto?! + valha-me Nossa Senhora! + --Margarida, vae-te embora, + tu não me queiras perder! + --Pelo que tens mais sagrado, + deixa esse moço, coitado! + que mais lhe queres fazer?!... + + «--Quero mostrar a um patife + como se falla a uma moça; + elles pensam que na roça + é como lá na cidade?! + «Estão enganados comigo!...» + E com o joelho no umbigo + dava-lhe sôcco á vontade! + + «--Soccorro! gritava a moça + quazi louca de terror; + meu pai, accuda o senhor, + porque elles se vão matar!... + meu Pedro, não sejas louco, + olha, escuta, espera um pouco; + meu Deus! quem ha-de apartar? + + «--Sahe-te d'aqui co'os diabos! + não me atormente a cabeça, + puche já, não me aborreça... + você pensa que me embaça? + É tambem teu namorado? + ha de amargar um bocado, + hei de tirar-lhe a fumaça... + + «--Repare que é minha filha; + escutou, _seu_ malcriado? + sou velho, estou alquebrado, + mas ninguem me offende em vão! + sei tolerar n'essa idade + loucuras da mocidade; + mas insultal-a, isso não! + + «Margarida é muito honesta! + não é lá quem você pensa!... + acho bom que se convença + que ella tem alguem por si! + Vem-te embora, minha filha, + o homem, que assim te humilha, + é mais que indigno de ti.» + + +XVIII + + Chegara emfim Medeiros e á contenda, + poz termo com palavras convincentes; + do chão suspende o pobre Lovelace, + separa os dois mancebos imprudentes. + + --Levando pelo braço o seu Juquinha, + com elle vae p'r'a sala de jantar + e póde ver á luz, banhado em sangue, + o triste _petit-maitre_ a soluçar! + + O rosto lhe lavaram com cachaça, + ficando para todos bem patente, + que os beiços, o nariz e o olho esquerdo, + mais gordos lhe ficaram de repente. + + Depois tinha cansaço, foi p'ra um quarto + que dava uma janella p'ra o jardim, + despio-se, tomou banho, foi deitar-se... + dormio? não sei dizer, creio que sim. + + A festa terminou neste incidente + e cada um tratou de se ir deitar: + a lua ia bem alta além no ceu, + e o gallo amiudava o seu cantar. + + +XIX + + Dona Olympia ouve um gemido + partir de seus aposentos; + chegou-se á porta de manso + prestando ouvidos attentos... + + Era a pobre Margarida + que entre soluços sem fim, + co'o rosto nas mãos occulto, + chorava dizendo assim: + + +XX + + «Pelas chagas de teu filho, + pelas dôres que soffreu, + pelo pranto que verteste + quando na cruz te morreu, + valei-me, Nossa Senhora, + nesta dôr que sinto agora! + + «Inda a pouco era ditosa, + tinha amor, tinha esperança, + de um momento de tristeza + não tenho a menor lembrança! + eu sorria ao ver-me assim; + meu sorrir já teve fim... + + «De tudo quanto já tive + que mais me resta? mais nada! + quiz provar-lhe o meu affecto + e fui vilmente insultada! + Ai, Pedro! que me mataste + quando assim me injuriaste! + + «Agora que mais espero? + que esp'rança mais posso ter? + venha a morte e venha breve, + que sou feliz se morrer! + Que Deus lhe pague em prazer + o quanto me fez soffrer.» + + +XXI + + Dona Olympia entreabrio de manso a porta, + e sem bulha chegou-se junto a ella, + tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto, + beijou a meiga face da donzella... + + +XXII + + «--Que é isto, minha louquinha? + quem é que falla em morrer?! + viste um espinho na vida + e já te cança o viver! + Nas tuas suppostas dôres + só recordas-te os amores, + mas esqueceste teu pai!... + Margarida, és muito ingrata!... + queres matal-o?... pois mata! + vae pedir a morte, vae! + + «Ao pobre e cançado velho + que vive do teu carinho, + em vez de beijos e abraços, + crava-lhe n'alma um espinho! + Arrufos de um namorado + valem mais que um velho honrado?! + Pensas bem, minha afilhada!.. + vaes morrer? não te demores! + mas o que é isto? não chores! + que vale um pai?... quasi nada! + + «--Misericordia, madrinha! + não falle assim que enlouqueço! + meu Deus! qual foi o meu crime + que tal castigo mereço?! + --Teu crime é não ter juizo.... + e sabes o que é preciso? + é: pedir a Deus perdão. + Limpa esses olhos, menina! + a gente assim se amofina; + tu choras sem ter rasão! + + «--Mas elle está mal commigo + e meu pai nem o quer ver! + --Cala a boca, te prometto + que tudo se ha-de fazer. + Socega, filha: descança, + se ainda tens confiança + na tua velha madrinha! + Amanhã em santa paz + tudo se arranja e se faz; + vae dormir, minha louquinha?» + + +XXIII + + Margarida radiante da alegria + que sentia renascer no coração, + abraçava com transporte aquella amiga + e cobria de mil beijos sua mão. + + + + +CANTO SEGUNDO + + +I + + Oh tu quem quer que sejas, meu leitor, + attende ao que te digo: a ti o auctor + começa por te dar os parabens + da somma de pachorra que tu tens, + se leste esse arremedo de poesia + sem arte, sal, perfumes e harmonia, + que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som. + Já vejo que és rapaz prudente e bom... + desculpa o tratamento... as etiquetas + exigem luva branca e roupas pretas; + mas isto é muito bom p'ra deputados, + que vivem simplesmente de apoiados + e gastam excellencia a tres por dois... + coitados! são mal pagos... e depois + sujeitos a caprichos de ministros.... + ás vezes trazem rostos tão sinistros, + que chego a ter de véras compaixão... + Mas dizem que são filhos da eleição?! + a culpa é então da mãi que os deu á luz, + que tinha atraz da porta aquella cruz, + envolta n'um programma e mil projectos + p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!... + Sê franco, meu leitor, se estou massando, + arrólho a discussão e vou tratando + do resto d'esta historia que encetei... + Palavra, que não sei onde fiquei... + Mas... eu te escrevo em mangas de camisa; + não olhes p'ra o meu trage... quem precisa + pendura com cuidado o paletot, + depois de sacudir-lhe bem o pó, + e fica assim á fresca muito bem. + Quem poupa, meu amigo, sempre tem! + não achas que é verdade, ó maganão? + pois folgo com a tua opinião. + As cousas andam más, tudo está caro! + o cobre, santo Deus! anda tão raro!... + ao menos lá por casa é uma desgraça! + por mais que se trabalhe ou que se faça, + por mais que se amofine uma pessoa, + vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa, + Fallemos n'outra cousa, as digressões + arredam sempre o fio ás discussões. + Entremos na materia francamente, + vejamos o que é feito desta gente. + + +II + + O dia amanheceu bastante frio. + No chão, sobre os sofás e nas cadeiras + dormiam somno solto os convidados, + em duzias de colchões e mil esteiras. + + O nosso fazendeiro acordou cêdo, + e poz as cosinheiras logo em pé; + sentou-se na varanda lendo as folhas + á espera que trouxessem-lhe o café. + + +III + + «--Ora bom dia, _seu_ Pedro! + --Bom dia, Sr. Medeiros! + --Ainda o fazia dormindo + e vejo que é dos primeiros!... + + «Então estranhou a cama? + passou mal, não é verdade? + --Não, senhor! pelo contrario, + perfeitamente á vontade. + + «--Li agora na _Gazeta_ + um facto bem curioso! + um sujeito, um estrangeiro... + mas que homem ardiloso! + + «Engole uma espada inteira! + que barriga! Ave Maria! + --Mas é serio?--Oh! se o não fosse + a folha não o diria... + + «O que é isto?! onde se atira + já de esporas? onde vai?! + --Vou... eu ia até lá embaixo. + --Não, senhor, hoje, não sahe. + + «--Mas escute, _seu_ Medeiros... + --Não escuto, não senhor; + já queria pôr-se ao fresco? + enganou-se, meu amor! + + «Ó homem, 'stou te estranhando! + você que é tão pagodeiro! + --Eu ia vêr se lá embaixo + recebia hoje dinheiro... + + «--Qual dinheiro, qual historia! + eu bem sei o que isto é!... + Sabes que mais, pucha um banco + e vamos tomar café. + + «--Já que de todo é preciso + vou lhe fallar francamente... + --Pois desembucha, rapaz, + fallando se entende a gente. + + +IV + + «--O senhor bem me conhece... + não sou homem de questões, + nem ando brigando á tôa + por qualquer duas razões; + mas hontem foi desaforo! + o sujeito de namoro + co'a minha noiva, e eu ali! + isto não é fazer pouco?... + parti cégo como um louco... + nem sei bem o que senti... + + «Eu vinha de orelha em pé + ouvindo o palavreado! + não sei o que... de epitaphios... + e d'ahi por um bocado, + agarrou-lhe por um braço + e quiz lhe dar um abraço, + no momento em que cheguei! + fiquei damnado da vida! + e co'a cabeça perdida, + por milagre o não matei!... + + «Depois... não ouvi mais nada... + todo este povo a gritar... + ouvi o senhor fallando, + quando nos veio apartar... + mas estou incommodado + do negocio se ter dado + n'uma casa que eu respeito... + em outro qualquer logar, + não me importava brigar + até um ficar desfeito!... + + «--Tudo isso nada vale! + não penses nisto, rapaz.... + são cousas que a gente moça + mais ou menos sempre faz. + --Não, senhor, eu bem conheço + que isto é máu; mas o que peço + é que queira perdoar... + ás vezes lá vem um dia... + e a gente está de _arrelia_, + não se póde dominar... + + «--Vamos fallar de outra cousa, + isto é pura criançada... + que fizeste á Margarida?! + --Quando?--Hontem!--Não fiz nada! + --Pois olha, metteu-me pena + vêr a pobre da pequena + chorando, não sei porque... + --Ella chorou? mas que tinha? + --Não sei, fallou co'a madrinha + e a respeito de você. + + «--A meu respeito?! e que disse?! + --Como já estavas zangado, + disseste-lhe alguma cousa... + e te excedeste um bocado... + --Eu, meu Deus?! ainda mais esta! + vejam só que bôa festa! + que S. João tenho eu!... + e tudo, veja o senhor, + por causa desse impostor, + desse barbas de judeu! + + «É uma nuvem passageira... + não te dê isso cuidado; + vocês fazem logo as pazes + e está o negocio acabado. + Falla tambem co'o Simão... + o velhote tem razão + de estar massado comtigo... + foste offender ao coitado, + que ficou bem magoado; + mas o velho é teu amigo.» + + +V + + Vinha chegando alguem e esta conversa + ficou neste logar interrompida; + vão pouco a pouco erguendo-se as visitas, + renova-se o prazer, renasce a vida. + + Estava tudo em pé; porém o Juca? + estava ainda no quarto, ainda dormia? + «--Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde + e basta de dormir: é meio dia.» + + A mesa estava posta, e o fazendeiro, + que o não vira des que o dia amanheceu, + abre a porta e só encontra sobre a mesa + uma carta p'ra si, que abriu e leu: + + +VI + + «_Meu caro Sr. Medeiros: + vou p'ra côrte no trem mixto + que sahe d'aqui a uma hora. + Desculpe, se faço isto + sem lhe ter agradecido + o seu bom acolhimento; + mas pode estar convencido + de que no meu coração, + p'ra com vossa senhoria + fica eterna gratidão. + Se fôr á côrte algum dia + contar-lhe-hei como foi + a questão. Não tive a culpa; + o que lhe peço é desculpa + pelo modo desairoso, + porque saio da fazenda. + Vou bem triste e pesaroso + por causa d'essa contenda, + que não julguei provocar. + São horas de me ir embora... + recommende-me á senhora + de quem parto penhorado. + Adeus, aceite um abraço + do seu amigo e criado... + JOSÉ DE SOUZA CABAÇO._» + + +VII + + Medeiros releu a carta, + dobrou-a, poz na algibeira + e disse com seus botões: + «--Ora ahi tem a brincadeira! + + «Um ficou todo mordido! + o outro--todo esfolado!... + qualquer dos dois, de juizo + não tem sequer um bocado! + + «Que dois malucos de força! + valha-me a Virgem e o Christo! + qual dos dois terá razão?...» + e sahio pensando nisto. + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + +VIII + + E os donos da casa empenhados + em fazer a reconciliação + conversavam co'os noivos e o velho, + num cantinho do grande salão. + + Houve protestos, desculpas, + suspiros, explicações; + e afinal lá se entenderam + com muito boas razões... + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + +IX + + «--Vamos p'ra mesa, senhores, + que o almoço está esfriando! + deixemos as ceremonias! + cada um vá se sentando. + + «Falta aqui um guardanapo... + Olympia, manda buscar... + quem quer leitão recheiado + levante um dedo p'ra o ar. + + +X + + «Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros, + (e tudo se callou para escutar) + eu tenho uma noticia de importancia, + que quero a todos vós communicar. + + «Ali minha afilhada Margarida, + se bem que me escondesse agora o rosto, + vae com Pedro, o patusco, felizardo! + casar-se p'ra meado ou fins de agosto. + + «E como eu sou padrinho do casorio, + que ha de effectuar-se na fazenda, + convido a todos vós para assistirdes + ao nó que não tem pontas, nem se emenda. + + «E aqui o _seu_ vigario, que é de casa, + aprompta a papellada n'um momento, + e ha de me amarrar estes pombinhos + benzendo-lhes os anneis do casamento. + + «Bebamos, pois, dos noivos á saude! + Senhores, a saude é feita em pé! + Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos! + a coisa é de virar, ip! bangué!» + + +XI + + Simão ergueu-se a custo, e commovido + fallou desta maneira aos assistentes: + + «--Senhores, quando a alegria + nos afoga o coração, + não ha palavras que a digam, + falta-nos toda a expressão! + + Choramos quando soffremos, + quando gosamos, sorrimos, + mas o riso não exprime + o que n'alma nós sentimos. + + «Assim 'stou eu; bem quizera + dizer-vos neste momento + tudo, tudo quanto sinto, + qual é o meu contentamento, + + «mas não posso, porque é tanta + a minha felicidade, + que mais me parece um sonho, + que pura realidade! + + «E sabeis a quem a devo? + a quem posso agradecer? + quem é que em duas palavras + me embriaga de prazer?! + + «É aqui a mãi dos pobres + e o meu compadre Medeiros! + este grande coração! + a nata dos fazendeiros! + + «Á saude, pois, d'aquelles + que não tem ostentação, + quando afogam na alegria + um mirrado corração!» + + E todos gritavam co'os copos erguidos + dos donos da casa, bebendo á saude: + «Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve + p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.» + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + Passados oito dias de prazer, + oito dias de festa e de alegria, + vão indo pouco a pouco os convidados + saudosos, p'ra o lidar de cada dia. + + + + +CANTO TERCEIRO + + +I + + Os peralvilhos da côrte, + ou cidades principaes, + todos querem ser poetas, + todos fazem madrigaes + quando estão apaixonados. + Em versos estropiados, + alguns que tem legoa e tanto, + a pobre da musa súa, + suspirando á luz da lua + em cada suspiro um canto! + + Aquelles que nem a tiro + se lhes abre a cachimonia, + assignam versos roubados + com toda a sem ceremonia! + Não fazem questão de auctor... + querem provar seu amor + á deidade que os inspira? + lá vão direitos á estante, + e d'ali por um instante + geme e canta a alheia lyra. + + São estes os commodistas + e os que tem mais razão... + p'ra que quebrar-se a cabeça + se ha versos em profusão?! + é obra feita, é verdade: + mas escolhe-se á vontade + onde ha tanto p'ra escolher... + lá vai a amostra do panno + que um typo fez por engano, + por não ter tempo a perder: + + +II + + Oh! virgem pura de meus sonhos lindos, + lyrio mimoso dos jardins dos céus! + escuta o bardo descantando amores + louco, inspirado nesses olhos teus! + + Escuta as notas que desprende a lyra + embevecida neste amor sublime; + nestes accordes, muito embora rudes, + só a verdade o meu cantar exprime. + + Tu és a fonte inexhaurivel, pura, + onde a minh'alma vae a fé beber, + symbolo da crença, de esperanças fóco, + livro sagrado que me ensina a crêr. + + Tu és a gota matinal do orvalho + na rubra pet'la de uma flôr louçã, + limpido espelho de virtude e graça, + estrella d'alva em festival manhã. + + Tenra avesinha que em gorgeios ternos + a Deus envia o suspiroso canto, + visão etherea do sonhar do bardo, + miragem bella de sublime encanto. + + Tu és a lympha, que em ramaes de prata, + borda a campina marchetada em flôres, + iris formoso da bonança emblema, + casto sacrario de gentis amores. + + És tudo, tudo quanto é grande e santo, + astro fulgente de brilhante luz! + Anjo da Guarda que atravez d'espinhos + meus tibios passos ao porvir conduz. + + +III + + Na roça não se usa disto, + quem faz cerco a um coração + improvisa as suas quadras + com a viola na mão. + + E na prima e na segunda + faz um tal repenicado, + que a pequena fica tonta + quebrando o sapateado. + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + Quem procura a paz do espirito, + quem busca a felicidade, + ha de encontral-a na roça, + raras vezes na cidade. + + Ali a vida é mais calma; + a mudez da solidão, + é como um balsamo santo + ás dores do coração. + + A doce tranquillidade, + que se desfructa no lar, + illumina aquellas almas + de uma luz crepuscular. + + Na festa ha mais alegria... + ha no trato amenidade; + o homem da roça é o typo + da honra e da honestidade. + + Se acaso lhes bate á porta + um estranho, um forasteiro, + tem agasalho e amizade + desse povo hospitaleiro. + + Sob uma crosta grosseira + se encontra a sinceridade, + e mais que ninguem conhece + as leis da hospitalidade. + + Mas se lhes offendem os brios + sabem affrontas vingar, + que o homem rude do campo + não póde insultos tragar. + + +IV + + Chegara em fim o dia suspirado + daquellas duas almas, que se amavam: + em breve vão-se unir p'ra todo o sempre + no laço por que a tanto suspiravam! + + Nos meigos olhos della ha mil affectos... + as faces se lhe tingem de rubor, + e os labios entreabertos côr de rosa + parecem repetir:--ventura, amor! + + No rosto do mancebo ha um que de vago + e certa commoção mal disfarçada! + é que é tal a ventura que o espera + que duvida vel-a emfim realisada! + + +V + + «--Escuta, minha afilhada, + tu hoje vaes te casar... + é o passo mais delicado + que uma mulher póde dar. + A partir desse momento, + do nosso procedimento + depende todo o futuro. + Escuta toda a verdade, + se queres a f'licidade, + este caminho é seguro. + + «No dia do casamento + tudo é cheio de illusões!... + julgamos tocar ao termo + das nossas aspirações. + Mezes depois, vamos vendo + que já vão arrefecendo + nossos sonhos virginaes; + passada a illusão primeira, + a mulher é a companheira, + uma amiga, e nada mais. + + «Então é preciso emprego + de toda a nossa prudencia, + e ter p'ra com o marido + a maior condescendencia. + Se chega em casa cansado, + dar-lhe carinhos e agrado, + não perguntar de onde vem; + elle mesmo irá dizendo + o que andou por lá fazendo, + ou se esteve com alguem. + + «Nunca sejas ciumenta, + nem lh'o dês a conhecer! + o ciume, além de inutil, + nos envenena o viver. + Sê sempre condescendente... + não te mostres exigente + nem lhe peças sacrificios: + um pedido caprichoso, + para um marido extremoso, + é um dos grandes supplicios. + + «Sempre affavel, carinhosa, + sempre modesta e asseiada... + eis aqui como procede + a mulher bem educada. + Algumas, infelizmente, + ignoram completamente + estas verdades, e então + dizem que são desgraçadas; + mas são ellas as culpadas, + é falta de educação. + + «Quando em casa não encontram + meiguices, consolações, + os maridos se aborrecem, + vão procurar distracções... + e uma vez encetado + esse trilho tão errado, + é um martyrio esse viver! + Deus te livre, Margarida! + a ter semelhante vida, + melhor te fôra morrer! + + «Eis aqui os meus conselhos + que sempre tenho seguido; + e de cumpril-os á risca + não me tenho arrependido. + Desde criança a meu lado, + has de ter observado + como trato teu padrinho; + e tenho sido estimada... + se queres ser adorada + faze o mesmo ao teu Pedrinho.» + + +VI + + Adornada a capricho p'ra este dia, + da fazenda a pequena capellinha + estava que era um mimo de bom gosto, + tão faceira! tão bem arranjadinha! + + Sanefas de setim verde e amarello, + nas paredes damasco alaranjado, + alampadas de prata, quatro lustres, + e um soberbo tapete avelludado. + + O todo era singelo, doce e grave, + incitava não sei que ao coração! + noss'alma sem querer a Deus se erguia + nesse encanto mental de uma oração. + + Lá fóra repicava alegre o sino... + festões, arcos e flôres no terreiro, + convidados, amigos e parentes, + e sempre satisfeito o fazendeiro. + + +VII + + São horas, tudo está prompto; + todos seguem p'ra capella. + Na frente caminha ella + pelo braço da madrinha; + logo atraz Pedro, Simão, + Medeiros, uma sobrinha + do vigario, e a multidão + que caminha alegremente + em ruidosa confusão. + Era um quadro interessante + de belleza original + o que eu vi naquelle instante: + cabeças brancas de neve, + rostos graves enrugados + pendidos p'ra sepultura, + a par de frontes divinas, + de olhos meigos namorados + derramando mocidade! + Oh! como é bella essa idade + em que tudo é só prazer! + em que a existencia é um sorriso, + em que o amor é um paraiso, + em que o sonhar é viver! + O grupo entrou na capella + ajoelhou-se, benzeu-se, + resou e depois ergueu-se + e cochichava em segredo; + mas callou-se de repente + quando o padre appareceu. + Margarida estremeceu + e disse machinalmente: + «Agora vou ser feliz.» + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + Estava emfim realisado + aquelle sonho dourado + de su'alma casta e pura! + a embriaguez da ventura + tornava-a mais que divina! + aquellas faces rosadas + levemente afogueadas + de prazer e commoção, + traziam-lhe tal encanto, + que eu creio que até um santo + succumbia á tentação! + + Era finda a ceremonia. + Pedro, qu'inda não fallara, + por pouco não desmaiara + nos braços do fazendeiro, + fulminado de alegria! + e no sorriso nervoso + que d'alma aos labios lhe vinha, + quem é que não traduzia + o que n'alma o pobre tinha? + + Passados alguns momentos, + já depois dos comprimentos + de todos que os rodeavam, + sahiram de braços dados + sob uma chuva de flôres + que em cima lhe despejavam + á porfia, os convidados. + + Chegados todos á casa, + Simão e Pedro de um lado + á meia voz conversavam. + Dizia o velho alquebrado: + «Nesta filha que te entrego, + dou-te tudo quanto tenho, + dou-te os olhos, fico cégo, + mas risonho e satisfeito... + eu já estava tão affeito + que não sei como sem elles + eu possa agora viver!... + ella era o sol bemfazejo + ao qual eu me ia aquecer; + porém fico descansado, + porque em ti achou arrimo.... + eu somente o que lastimo + é ser velho e não ter nada, + não p'ra mim que não preciso, + era por ella, coitada! + que é um anjo como tu sabes. + Olha, Pedro, eu só te peço, + se alguma cousa mereço, + que trates bem minha filha! + minha pobre Margarida! + Ella ha de adoçar-te a vida + porque é muito carinhosa, + e como foi boa filha + deve ser tambem esposa.» + + .............................. + .............................. + .............................. + .............................. + + E em quanto o velho fallava + da filha por quem vivia, + dos olhos se lhe escapava + uma baga que rolava + e na barba se escondia. + + +VIII + + «--Forma a roda! oh! _seu_ Casusa + não fuja, vamos brincar; + vá decidir na viola + para este povo dançar. + + «--Qual o que! o _seu_ Manduca + é _cabra_ bom tocador, + e eu não vou tirar a espada + da mão de um tal jogador. + + «--Vamos então ver os dois + no desafio pegados... + Forma roda! forma roda! + quero ouvir esses damnados.» + + +IX + + E emquanto sapateavam, + os dois assim descantavam: + + «--Meu senhor, me dê licença + que eu quero principiar: + quero botar uma trova + para quem me faz penar. + + «--Póde entrar que o matto é limpo, + não tem onça, nem queixado, + tem somente uma morena + por quem ando apaixonado. + + «--Obrigado, companheiro, + Deus te ajude nos amores; + mas quem gosta das morenas + soffre penas, sente dôres. + + «--Eu bem sei de quem tu gostas, + p'ra ella podes cantar; + é clara, tem olhos pretos, + olhos que te hão de matar. + + «--Na barra do teu vestido + anda preso um coração, + menina, minha menina, + da minha veneração. + + «--O sipó do matto virgem + amarra o jacarandá; + assim, morena, em teus olhos + ando eu bem preso já. + + «--Fui ao matto cortar lenha + e encontrei a jurity, + ella tinha os seus amores + como os eu tenho por ti. + + «--Larangeira é pau d'espinho, + carangueijo anda na praia, + tambem andam meus amores + na renda de tua saia. + + «--Os teus olhos são de fogo, + tua boca é uma roseira, + menina, minha menina, + quem te fez tão feiticeira? + + «--Cachorro ladra na cerca + quando vem algum ladrão, + assim ladra no meu peito + por te ver meu coração. + + «--Menina, minha menina, + se me não queres matar, + dá-me um riso pequenino, + que eu sou bom de contentar. + + «--No braço tenho talento, + tenho prata na goiaca, + p'ra quem duvidar, comigo + na cintura trago a faca. + + «--Você me botou olhado, + você mesmo ha-de tirar, + e eu só posso ficar bom + quando comtigo casar. + + «--Ó senhor dono da casa, + mande vir alguma cousa; + já está co'a guella secca + o Manduca Zé de Souza. + + «--Sem leitão não ha pagode, + sem bebida violeiros; + o Casusa está com sêde, + mande vir, Sr. Medeiros.» + + +X + + «--Muito bem, muito bem! gritaram todos, + qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar, + e dansam que faz gosto e mette inveja + a quem os vê n'um samba a requebrar. + + «--Vocês que tomam? vinho ou paraty? + --Eu cá já tomei vinho e não misturo... + --E dois.--Pois aqui tem, ataquem deste, + que é bom, é de patente, é vinho puro.» + + Depois de beberem voltaram p'ra roda + ao som da viola, tocando e cantando, + ao longe se ouvia o tinir das chilenas, + as palmas cadentes dos moços dansando. + + +XI + + A noiva estava com somno.... + o noivo.... não sei se o tinha, + mas estava assim com cara + onde logo se advinha.... + vontade de se ir deitar. + + A madrinha, disfarçando, + para o quarto do noivado + foi com ella, onde ajudou-lhe + a tirar o véo bordado + e a grinalda virginal. + + Desapertou-lhe o vestido + e em saia branca a deixou.... + baixinho deu-lhe conselhos, + depois a porta cerrou + deixando-a ficar sosinha. + + De repente ouviu-se um grito! + era a voz de Margarida, + e um toque de campainhas, + que prolongou-se em seguida, + indicava o quarto della. + + Todos correm pressurosos, + perguntam: «Que aconteceu?» + Dona Olympia mais ligeira + do que todos, lá correu, + fechou a porta, e que viu?! + + Viu na cama semeados + carrapichos aos milhões! + alfinetes espetados! + e por baixo dos colchões + campainhas penduradas! + + E a pobre da menina + que se foi sentar na beira... + espetou-se não sei onde, + nem como, de que maneira + fez dobrar o carrilhão. + + Não pôde dormir na cama! + foi p'ra o quarto da madrinha. + O noivo tremeu com frio, + a noiva ficou sosinha + scismando.... nos carrapichos. + + .......................... + .......................... + .......................... + + Percebes, meu leitor, que eu não desejo + entrar n'alguns detalhes melindrosos; + respeito o sanctuario da familia + e deixo a indagação aos curiosos. + + + + + +XII + + Um anno já se passou + Depois que vi estas scenas, + mas inda tenho saudades + d'aquellas boas pequenas. + + Ha tres dias, por acaso, + n'um bond do Pedregulho + encontrei o _seu_ Medeiros + que levava um grande embrulho. + + «--Como vai? me disse elle, + ó homem, não apparece! + pois olhe, todo o meu povo + do senhor nunca se esquece. + + «Já soube que a Margarida + teve um filho o mez passado? + --Não, senhor!--Pois é verdade! + e p'ra o mez é o baptizado! + + «Não falte e leve os amigos, + porque temos brincadeira; + vim á côrte só para isto, + e ando assim desta maneira!» + + E apontou-me o embrulho + que mettera sob o banco, + e nisto o maldito bond + deu um enorme solavanco. + + .......................... + .......................... + .......................... + .......................... + + Leitor, se lêste attento estes meus versos, + é que és bom, condescendente e meu amigo. + Has-de ir pagodear lá na fazenda, + eu posso convidar-te: vais comigo. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA *** + +***** This file should be named 32295-8.txt or 32295-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/2/9/32295/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/32295-8.zip b/32295-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a2ecf75 --- /dev/null +++ b/32295-8.zip diff --git a/32295-h.zip b/32295-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1d741e2 --- /dev/null +++ b/32295-h.zip diff --git a/32295-h/32295-h.htm b/32295-h/32295-h.htm new file mode 100644 index 0000000..a28846e --- /dev/null +++ b/32295-h/32295-h.htm @@ -0,0 +1,2852 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Scenas da Roça, por A. Corrêa</title> + <meta name="Author" content="A. Corrêa"> + <meta name="Edition" content="Rio de Janeiro. Gazeta de Noticias, 1879."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 20%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Scenas da Roça + Poema de costumes nacionaes + +Author: António Corrêa + +Release Date: May 8, 2010 [EBook #32295] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center; border: double 5px #000;"> +<p style="font-size: 1.5em;">A. CORRÊA</p> + +<hr width="90%"> + +<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS DA ROÇA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">POEMA DE COSTUMES NACIONAES</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>RIO DE JANEIRO<br> + +TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS<br> + +72 <small>RUA SETE DE SETEMBRO</small> 72</p> + +<p>1879 </p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">SCENAS DA ROÇA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">A. CORRÊA</p> + +<hr width="90%"> + +<p style="font-size: 2.5em;">SCENAS DA ROÇA</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">POEMA DE COSTUMES NACIONAES</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>RIO DE JANEIRO<br> + +TYP. DA GAZETA DE NOTICIAS<br> + +72 <small>RUA SETE DE SETEMBRO</small> 72</p> + +<p>1879</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<h2>AO MEU LIVRO</h2> + +<blockquote> + <p>Vae, filho, já tens idade,<br> + já ficaste emancipado;<br> + precisas correr o mundo,<br> + saber de tudo um bocado.<br> + Vae, filho, mas sê prudente,<br> + ouve os conselhos de gente<br> + que puder te aconselhar;<br> + sê modesto e delicado...<br> + em fallar pouco e acertado<br> + ha sempre muito a ganhar.<span class="pn">[6]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Se alguma gloria colheres,<br> + não te ufanes sem razão:<br> + ás vezes ouve-se um tolo<br> + por méra contemplação.<br> + Escuta os indifferentes.<br> + Os amigos e os parentes<br> + não dizem toda a verdade.<br> + Agora, no teu caminho,<br> + não te basta o meu carinho<br> + nem toda a minha amizade.</p> + + <p> </p> + + <p>Se ouvires phrases sensatas,<br> + presta-lhes toda a attenção;<br> + a tolos não dês ouvidos<br> + nem provoques discussão.<br> + Respeita as crenças alheias;<br> + mas guarda as tuas idéas<br> + e corrige os teus defeitos.<br> + Na escola da sociedade,<br> + estuda, aprende a verdade<br> + nas phrases de seus eleitos.</p> + + <p> </p> + + <p>Vae, filho, Deus te acompanhe.<br> + Das letras no vasto mundo<br> + bem poucos bóiam á tôna,<br> + grande parte vai ao fundo.<span class="pn">[7]</span><br> + Ai! neste momento extremo<br> + é por ti, filho, que eu tremo!<br> + attende aos conselhos meus...<br> + Já são horas da partida;<br> + comtigo vae minha vida,<br> + mas parte... vae... filho, adeus.<span class="pn">[8]<br> + [9]</span> </p> +</blockquote> + +<h1>CANTO PRIMEIRO</h1> + +<p><span class="pn">[10]<br> +[11]</span></p> + +<h2>I</h2> + +<blockquote> + <p>Ha quem diga que a franceza<br> + é a mulher por excellencia;<br> + mil outros dão preferencia<br> + aos requebros da hespanhola:<br> + dizem que ella prende e mata<br> + quando a melena desata<br> + e no fandango arrebata<br> + ao trinar da castanhola.</p> + + <p> </p> + + <p>As bellas filhas da Italia<br> + tem milhões de adoradores,<br> + lá na patria dos amores<br> + quem dá leis é o coração.<br> + É tudo vida, alegria,<br> + feixes de luz, de harmonia,<br> + ondula em torno a poesia<br> + nesse mar da inspiração.<span class="pn">[12]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Eu acho a todas bonitas<br> + quando de veras o são,<br> + quer sejam do Indostão,<br> + d'Allemanha, Italia ou França;<br> + mas p'ra mim a brazileira<br> + d'entre todas é a primeira:<br> + é gentil, é feiticeira<br> + como um sorrir de creança.</p> + + <p> </p> + + <p>As outras guardam comsigo<br> + da velha Europa a imponencia;<br> + estas não, tem a innocencia,<br> + tem o perfume das flôres;<br> + captivam pelos encantos<br> + ingenuos puros e santos,<br> + e são, meu Deus, taes e tantos,<br> + que fazem morrer de amores!</p> + + <p> </p> + + <p>Quem póde escutar-lhe as fallas<br> + quando a tremer de receio,<br> + baixando os olhos no enleio<br> + em que a prende o coração,<br> + ella diz corando e rindo:<br> + «Do meu ceu de amor inflado,<br> + tu és o astro mais lindo<br> + da maior constellação!»?<span class="pn">[13]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Quem póde conter no peito<br> + o travesso coração?<br> + quem não sujeita a razão<br> + ao dominio dessas fallas?<br> + quem não se abraza nos lumes<br> + da mulher que tem perfumes,<br> + de que as rosas tem ciumes<br> + se vão se encontrar nas salas?<br> + ..............................</p> + + <h2>II</h2> + + <p>Meu leitor, deixa a cidade e vem comigo<br> + que eu quero te mostrar um quadro bello;<br> + vem á roça onde o amor é mais sublime,<br> + e tudo quanto é grande mais singelo.</p> + + <p> </p> + + <p>Eu prefiro ás harmonias de uma orchestra,<br> + aos encantos que doudejam nos salões,<br> + a cantiga do tropeiro descuidoso,<br> + ou as trovas amorosas dos sertões.</p> + + <p> </p> + + <p>Ha naquelles improvisos mal rimados,<br> + e naquella inspiração de cada instante,<br> + a belleza original que parte d'alma<br> + sem arte, mas com fogo delirante.<br> + .................................<span class="pn">[14]</span></p> + + <h2>III</h2> + + <p>Elle era um moço bonito<br> + como na côrte não ha,<br> + tinha os olhos e os cabellos<br> + da côr do jacarandá.<br> + Um porte airoso, engraçado,<br> + rapagão desempenado<br> + de metter inveja a cem!<br> + se na estrada elle passava,<br> + a moça que o espiava<br> + lhe ficava querendo bem.</p> + + <p> </p> + + <p>Mas elle guardava firme<br> + no fundo do coração<br> + pela bella Margarida<br> + a mais ardente paixão.<br> + E as moças da visinhança<br> + ao verem sua esquivança<br> + ás festas, se ella não ia,<br> + diziam de enciumadas:<br> + «—Pedro está de azas quebradas;<br> + pobre moço! quem diria?!</p> + + <p> </p> + + <p>«—E tem só vinte e tres annos<br> + e alguma cousa de seu!<br> + vejam só o que é fortuna;<br> + tão feliz nunca fui eu!<br> + —E dizem que casa breve?<span class="pn">[15]</span><br> + —Eu não sei, mas elle deve<br> + casar-se p'ra o fim do anno.<br> + —Que lhe faça bom proveito...<br> + —E o velho está satisfeito?<br> + —Pudera não! bem ufano!»</p> + + <p> </p> + + <p>Tal eram os commentarios<br> + que em toda a parte faziam<br> + as moças da visinhança,<br> + que em festas se reuniam;<br> + mas elle, surdo aos rumores<br> + que faziam seus amores<br> + nas discussões femenis,<br> + nada via além do encanto<br> + d'aquelle amor puro e santo,<br> + d'aquelles olhos gentis.</p> + + <p> </p> + + <p>Mas quem era a linda moça<br> + a quem Pedro tanto amava?<br> + quem era a virgem formosa<br> + que elle assim idolatrava?<br> + era rica ou pobresinha?<br> + tinha-lhe amor ou não tinha?<br> + Não é o que queres saber?<br> + lá vamos, leitor querido,<br> + satisfazer teu pedido,<br> + já tudo vamos dizer.<span class="pn">[16]</span></p> + + <h2>IV</h2> + + <p>Ella tinha quinze annos; era um anjo<br> + de graça, candidez e de bondade,<br> + e aquelle coração de meiga pomba<br> + amava como se ama nessa idade.</p> + + <p> </p> + + <p>A todos occultava aquelle affecto<br> + que su'alma marchetava de illusões;<br> + dos sonhos côr de rosa que ella tinha<br> + quem pode descrever as emoções?</p> + + <p> </p> + + <p>De manhã apoz a prece fervorosa,<br> + fictados nos do Christo os olhos bellos,<br> + regava o seu canteiro, e de violetas<br> + um raminho prendia entre os cabellos.</p> + + <p> </p> + + <p>«Tomava o seu balaio de costura,<br> + tirava linha, agulhas e dedal,<br> + e sentava-se a coser o dia inteiro<br> + á sombra da mangueira do quintal.</p> + + <p> </p> + + <p>Ás vezes descuidando seu trabalho,<br> + parada co'o olhar ficto na estrada,<br> + no mar da phantasia, como um cysne,<br> + boiava da corrente á flôr levada.<span class="pn">[17]</span></p> + + <h2>V</h2> + + <p>Tal era a mimosa filha<br> + do velho Simão da Cruz;<br> + de sua velhice o arrimo,<br> + alegria, vida e luz.<br> + Revia no rosto della<br> + a companheira extremosa,<br> + que lhe deixara, murchando,<br> + o rebentão de outra rosa.</p> + + <p> </p> + + <p>Vio-a crescer sob os olhos;<br> + estudou-lhe o coração,<br> + e lia nelle os mysterios<br> + d'aquella ardente paixão.<br> + Um dia toma-lhe o braço,<br> + fal-a sentar a seu lado,<br> + e diz-lhe rindo o bom velho:<br> + «Já tens algum namorado?»</p> + + <p> </p> + + <p>Enrubece, treme, ensaia<br> + dizer uma phrase, em vão!<br> + repete o velho a pergunta,<br> + e ella responde «—Não...<br> + —Não mintas, filha! não sabes<br> + que é um peccado mentir?<br> + —Perdão meu pai!—Não perdôo<br> + a quem me busca illudir.»<span class="pn">[18]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Dos bellos olhos da moça<br> + o pranto desce a torrentes,<br> + cujas bagas vão no seio<br> + embeber-se encandescentes.<br> + O velho, ameigando a falla,<br> + apoz miral-a um instante,<br> + lhe torna: «—Vamos! não chores!<br> + não é Pedro o teu amante?</p> + + <p> </p> + + <p>«Bom rapaz! é de meu gosto...<br> + já fallou-te em casamento?<br> + e tu disseste que sim,<br> + sem o meu consentimento?!<br> + Como os filhos são ingratos!<br> + este mundo como vae!<br> + quem de uma filha os segredos<br> + guardará melhor que um pai?</p> + + <p> </p> + + <p>«Mas vamos lá! estou por tudo;<br> + disseste que sim? está dito!...<br> + fizeste mal em negal-o;<br> + isto assim não é bonito.<br> + Não chores, dá-me um abraço!<br> + será Pedro o teu marido;<br> + é justo, se o amas tanto...<br> + se foi o teu preferido...<span class="pn">[19]</span></p> + + <h2>VI</h2> + + <p>Estamos em junho, no mez das fogueiras,<br> + do riso, das festas, das sortes, do amor,<br> + das cannas assadas, carás e batatas,<br> + dos jogos de prendas, do fogo em redor.</p> + + <p> </p> + + <p>Quem póde na roça ficar, preguiçoso,<br> + dormindo na rêde, sem ir ao pagode?<br> + se as moças bonitas lá estão feiticeiras<br> + cantando e sorrindo, fugir-lhes quem póde?</p> + + <h2>VII</h2> + + <p>Na fazenda do Tymbira<br> + era velha a devoção<br> + de fazer-se grande festa<br> + em dias de S. João.<br> + O velho Joaquim Medeiros,<br> + que era a flôr dos fazendeiros<br> + d'aquella localidade,<br> + esfregava as mãos contente<br> + quando via em casa gente<br> + a que o prendia a amizade.</p> + + <p> </p> + + <p>D. Olympia, sua esposa;<br> + mãi dos pobres do logar,<br> + tres dias antes da festa<br> + não parava a trabalhar.<span class="pn">[20]</span><br> + Mandava as suas mucamas<br> + dos quartos fazer as camas,<br> + espanar tudo e varrer,<br> + e, doceira de bom gosto,<br> + lá estava firme no posto,<br> + fazendo o tacho ferver.</p> + + <p> </p> + + <p>Fazia doce de côco,<br> + laranja, cidra, limão,<br> + bom-bocado, arroz de leite,<br> + bolinhos de S. João,<br> + pamonha, cus-cus de milho,<br> + manouê, biju, sequilho,<br> + biscoutinhos de araruta,<br> + tarécos, baba-de-moça,<br> + e, mil doces que na roça<br> + se fazem de toda a fructa.</p> + + <p> </p> + + <p>No terreiro da fazenda<br> + preparava-se a fogueira,<br> + e o mastro todo enfeitado<br> + de folhagens de mangueira;<br> + e dentre as folhas escuras<br> + sahiam fructas maduras,<br> + como é o costume geral,<br> + e uma boneca vistosa<br> + de vestido côr de rosa,<br> + fazia o tópe final.<span class="pn">[21]</span></p> + + <p> </p> + + <p>No campo desde a porteira<br> + de verde murta vestida,<br> + duas linhas de coqueiros<br> + vem a porta da saida.<br> + De um lado a outro correndo,<br> + dirigindo ou desfazendo<br> + o que não estava direito,<br> + andava o rei dos festeiros<br> + o nosso velho Medeiros<br> + sempre alegre e satisfeito.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Vamos com isso, rapazes,<br> + que temos mais que fazer<br> + e d'aqui por uma hora<br> + ninguem se póde mecher.<br> + Joaquina e Manuela,<br> + vocês vão lá p'ra capella<br> + capinar ali na frente.<br> + Olá, moleque, ó vadio!<br> + chega ali embaixo no rio,<br> + vê se vem alguma gente.</p> + + <p> </p> + + <p>«Vicente, traze as bandeiras,<br> + vai tu com elle, Francisco;<br> + Manuel, varre p'ra um canto<br> + e apanha depois o cisco.<br> + Não quero ver uma palha!...<br> + veja depois como espalha<span class="pn">[22]</span><br> + essas folhas de mangueira!...<br> + Ó Job, pergunta á sinhá<br> + se já tem café por lá,<br> + que mande aqui na porteira.»</p> + + <h2>VIII</h2> + + <p>Se eu soubesse descriptiva<br> + dava aqui em perspectiva<br> + a fazenda toda inteira!<br> + tomava tinta e pincel<br> + e sobre plano-painel<br> + transportava... mas é asneira...</p> + + <p> </p> + + <p>Eu não pesco nem pitada<br> + dessa insulsa trapalhada,<br> + de linhas, pontos e traços;<br> + mas tambem não me entristeço,<br> + é sciencia que aborreço,<br> + cansa a cabeça e os braços.</p> + + <p> </p> + + <p>E na falta de sciencia,<br> + eu peço condescendencia<br> + p'ra o traçado que vou dar;<br> + é obra de um curioso...<br> + meu leitor, sei que és bondoso,<br> + não o queiras censurar.<span class="pn">[23]</span></p> + + <h2>IX</h2> + + <p>O todo se emmuldura em matto virgem;<br> + arbustos mil em flôr dão-lhe a fragancia,<br> + e o fundo do painel é verde-escuro<br> + da côr de um cafesal visto á distancia.</p> + + <p> </p> + + <p>Por entre as pedras soltas de seu leito,<br> + o rio serpenteia murmurando.<br> + De um lado a horta, o engenho, alguns pomares,<br> + do outro, os animaes que estão pastando.</p> + + <p> </p> + + <p>Aqui o mandiocal n'um morro enorme,<br> + naquelles á direita, é o cafesal;<br> + ha uma socca de arroz junto do brejo<br> + e da cerca p'ra lá, o cannavial.</p> + + <p> </p> + + <p>No centro, n'uma dobra do terreno,<br> + a casa que é voltada p'ra o nascente;<br> + precede-lhe o jardim, primor de gosto<br> + que a abraça pela esquerda e pela frente.</p> + + <p> </p> + + <p>Ao fundo em duas ruas parallelas<br> + a casa da farinha, a do feitor,<br> + paióes, estrebarias e senzallas,<br> + o tanque, o gallinheiro, e corador.<span class="pn">[24]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Olhando p'ra direita vê-se a escada<br> + que tem de cada lado uma mangueira,<br> + o campo e o caminho em linha recta,<br> + que da casa vae parar junto á porteira.</p> + + <p> </p> + + <p>Concebe o quadro lá como puderes!<br> + eu dou-te aqui apenas um bosquejo,<br> + querel-o completar fôra loucura,<br> + se bem que fosse grande o meu desejo.</p> + + <p> </p> + + <p>Lá chega o rancho enorme e folgasão<br> + que vem p'ra festejar o S. João.</p> + + <p> </p> + + <p>De quatro leguas em roda,<br> + toda aquella visinhança<br> + veio assistir á festança<br> + da noite de S. João.<br> + O povo da freguezia<br> + quazi todo nesse dia,<br> + ia como em romaria<br> + pandegar por devoção.</p> + + <p> </p> + + <p>Como é uso admittido,<br> + a pessôa convidada<br> + leva roupa preparada<br> + para quatro ou cinco dias!...<span class="pn">[25]</span><br> + lá na roça a moda é esta;<br> + qualquer pagode, não presta<br> + sem a semana de festa,<br> + de intermináveis folias!</p> + + <p> </p> + + <p>Subindo e descendo morros,<br> + n'um carro por bois puchado,<br> + n'um tunel improvisado<br> + de arcos e de uma esteira,<br> + de uma fazenda visinha<br> + a passo lento caminha<br> + a familia que se aninha<br> + n'essa amavel capoeira.</p> + + <p> </p> + + <p>Atraz os negros da casa<br> + Tão carregando os bahus,<br> + sem camisa, quazi nús,<br> + e alagados de suor;<br> + ao lado caminha a passo,<br> + n'um lindo macho picaço,<br> + o fazendeiro ricaço<br> + que vae morto de calor.</p> + + <p> </p> + + <p>Os filhos vão a cavallo.<br> + Na frente caminha o pagem,<br> + que sem esse personagem<br> + na roça não se é ninguem!<span class="pn">[26]</span><br> + É um negro de confiança<br> + em quem o Senhor descança,<br> + que exerce desde criança<br> + o cargo honroso que tem.</p> + + <p> </p> + + <p>Usa jaqueta de vivos,<br> + chapeo baixo de oleado,<br> + topete bem penteado,<br> + canos de bota e chilenas;<br> + é o mensageiro de amores<br> + dos filhos de seus senhores;<br> + leva cartinhas e flôres<br> + para entregar ás pequenas.</p> + + <p> </p> + + <p>O pagem da roça é um typo<br> + de serio e acurado estudo,<br> + sabe um bocado de tudo<br> + quanto se deve saber.<br> + É ferrador, é selleiro,<br> + carapina e corrieiro,<br> + é peão e no terreiro<br> + requebra um fado a valer.</p> + + <p> </p> + + <p>Aqui um rancho de moças<br> + vae a pé, moram tão perto!...<br> + são duas leguas, é certo,<br> + mas diz-se na roça:—é ali.<span class="pn">[27]</span><br> + E por toda aquella estrada<br> + vê-se gente a pé, montada,<br> + e outra que já cançada<br> + bebe á sombra paraty.<br> + ...................................<br> + ...................................<br> + ...................................</p> + + <h2>X</h2> + + <p>Terminou-se o jantar, é noite escura;<br> + com fachos de sapé ligeiros correm<br> + os moços dando vivas.<br> + Accende-se a fogueira e em torno a ella<br> + vão sentar-se alegres, descuidosos,<br> + os grupos de convivas.</p> + + <p> </p> + + <p>Aqui tomam garapa em lisas cuias,<br> + os velhos, que disputam seriamente<br> + ácerca de eleições,<br> + ou fallam do café que está sem preço,<br> + nos gastos da lavoura e poucos lucros<br> + de suas transacções.<br> + <br> + Ali as moças todas reunidas<br> + dissertam sobre amor e namorados<br> + com tal proficiencia,<span class="pn">[28]</span><br> + como um lente, jubilado na materia,<br> + derramando em qualquer academia<br> + a luz da experiencia.</p> + + <p> </p> + + <p>Não longe os rapazes formam grupos:<br> + uns são republicanos exaltados<br> + e outros monarchistas;<br> + e outros sem partido, olhando as moças,<br> + a morrer de amor por ellas, contam rindo<br> + amores e conquistas.</p> + + <p> </p> + + <p>É tudo animação, prazer e vida...<br> + aqui um bello dito, ali vozes confusas,<br> + gostosas gargalhadas;<br> + estouram buscapées, rebentam bombas,<br> + foguetes e balões erguem-se aos ares<br> + no meio de apupadas.</p> + + <h2>XI</h2> + + <p>«—Qual, compadre, desta feita<br> + parece que os liberaes<br> + não sobem, não, mas é o mesmo...<br> + que me diz, Sr. Moraes?</p> + + <p> </p> + + <p>«—Eu não sei, mas desconfio<br> + que os homens não fazem nada;<br> + pelo menos lá na villa<br> + é tudo chapa cerrada.<span class="pn">[29]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Aposto cem contra dez,<br> + com quem quizer apostar,<br> + em como os conservadores<br> + hão de ceder o logar.</p> + + <p> </p> + + <p>«E o Brazil vae á garra<br> + se os liberaes não subirem;<br> + que projectos, quanta cousa<br> + se perde, se elles cahirem!</p> + + <p> </p> + + <p>«Estradas e mais estradas,<br> + navegação pelos rios;<br> + hão de fazer o diabo<br> + porque empenharam seos brios.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Ora adeus, em quanto a brios<br> + os outros tambem os tem;<br> + e ninguem lhes passa a perna,<br> + porque fallam muito bem.</p> + + <h2>XII</h2> + + <p>«Ó Gringo, salta a fogueira!<br> + ó Guillon, pula tambem!<br> + assim, Norberto! um, dois, trez...<br> + sim, senhor, foi muito bem!<span class="pn">[30]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«<i>Seu</i> Zé Carlos, largue a moça!<br> + não seja namorador!<br> + já temos nova conquista?<br> + vem p'ra aqui, ó seductor.</p> + + <p> </p> + + <p>«O Octávio lá está n'um canto<br> + a scismar <i>encalistrado</i>!<br> + que tem elle?—Ora o que tem!<br> + anda muito apaixonado:</p> + + <p> </p> + + <p>«Dizem que elle foi a um samba<br> + e de lá veio cahido...<br> + mas espera, olha o Zamith<br> + como está todo lambido!</p> + + <p> </p> + + <p>«E o Licurgo? oh que maroto!<br> + desde que elle se casou<br> + está com ar de homem serio,<br> + ficou bonito, engordou!...</p> + + <p> </p> + + <p>«Tira os carás do rescaldo,<br> + moleque, traz o melado!<br> + oh ladrão, anda ligeiro...<br> + este sim, está bem assado<span class="pn">[31]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«É só da tropa fandanga!<br> + ninguem mais aqui se metta!<br> + Ezequiel, tu não comes?<br> + estás forjando alguma pêta?</p> + + <h2>XIII</h2> + + <p>«—Pois creia, sinhá Chica, foi olhado<br> + botado na pequena com certeza;<br> + Candóca esteve assim, mas foi resal-a<br> + a sogra do Manduca, a nhã Thereza.</p> + + <p> </p> + + <p>«Foi lá trez sextas-feiras, em seguida<br> + benzeu e deu-lhe uns <i>póses</i> p'ra tomar;<br> + e hoje, benza-a Deus, está que é um gosto!<br> + só vendo é que se pode acreditar!</p> + + <p> </p> + + <p>«—Pois olhe, p'ra fallar minha verdade,<br> + já tinha me <i>alembrado</i> ser feitiço...<br> + não podia senão ser cousa feita..<br> + pelos modos que é, só se foi isso.</p> + + <p> </p> + + <p>«A menina tem uns flatos pelas costas,<br> + e anda jururú que mette pena!<br> + coitada! tem tomado mil mesinhas<br> + e nada de arribar; pobre pequena!<span class="pn">[32]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Quem sabe, diz a tia Marcolina,<br> + que entende destas cousas como gente,<br> + quem sabe se a espinhela tem caida?!<br> + se for isso, ponho-a boa de repente.</p> + + <p> </p> + + <p>«A lua agora é nova... pouco importa,<br> + na sexta-feira cedo mande-a lá,<br> + que com favor de Deus tenho esperança<br> + que volta sã e salva para cá.»</p> + + <h2>XIV</h2> + + <p>Eu não sei porque é que em toda a festa<br> + se encontra sempre um bôbo, um toleirão,<br> + dizendo muita asneira e se inculcando<br> + rapaz de muita graça e sabichão!</p> + + <p> </p> + + <p>Á festa de Medeiros foi um typo,<br> + a quem debalde eu busco descrever;<br> + deixára a côrte onde era um <i>petit-maitre</i><br> + e á roça foi levar todo o saber.</p> + + <p> </p> + + <p>Fallava sempre em termos empollados,<br> + mirava-se ao espelho a cada instante;<br> + usava citações em qualquer lingua,<br> + e tinha o ar altivo do pedante.<span class="pn">[33]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Frisada a cabelleira e com pastinhas...<br> + gravata verde-mar, o fraque azul,<br> + as luvas côr de cinza, a calça branca,<br> + sapatos de verniz; eis meu taful.</p> + + <p> </p> + + <p>Desceu para o terreiro, olhou em torno<br> + buscando achar um pobre a quem massar,<br> + e eil-o dentro em breve n'uma roda,<br> + com todo o seu furor a disputar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Perdão, dizia o typo enthusiasmado:<br> + eu sou republicano, e como tal<br> + exijo a liberdade a mais completa,<br> + quer na ordem civil, quer na moral.</p> + + <p> </p> + + <p>«A lei é um empecilho á liberdade,<br> + o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno<br> + os povos não precisam de governo,<br> + o exemplo está no povo americano!</p> + + <p> </p> + + <p>«<i>To be or not to be</i>, eis como eu penso;<br> + abaixo a realeza e o seu prestigio;<br> + o rei a quem o mundo hoje se curva<br> + escreve—Liberdade—em gorro phrigio!»<span class="pn">[34]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Fallou e disse asneiras muito tempo<br> + até que ficou só, sem mais ninguem!<br> + «—Camellos! disse elle em tom baixinho,<br> + nem sabem de que ponto a luz lhes vem!»</p> + + <p> </p> + + <p>Mas vendo ao longe a bella Margarida,<br> + exclama o nosso heróe: «—Oh! <i>c'est charmant!</i><br> + <i>Mignone</i>, vaes ser minha, assim t'o juro...<br> + e agora ella está só! <i>c'est bien l'instant</i>.</p> + + <p> </p> + + <p>E assim dizendo applica o <i>pince-nez</i><br> + e vae sentar-se ao lado da menina.</p> + + <h2>XV</h2> + + <p>«Desculpe vossa excellencia,<br> + mas eu creio que já a vi!<br> + —Póde ser, responde a moça,<br> + quasi sempre eu venho aqui...»<br> + «—Não foi aqui, foi ha um anno...<br> + na côrte, se não me engano,<br> + n'um baile que eu a encontrei...<br> + —Oh! gentes! está enganado,<br> + se perguntar p'ra que lado<br> + a côrte fica, não sei!»<span class="pn">[35]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Era então o seu retrato<br> + divinamente imitado...<br> + os mesmos olhos divinos!<br> + o mesmo rosto adorado!...<br> + «—Oh! senhor, parece incrivel!<br> + deveras será possivel<br> + tão pasmosa semelhança?!<br> + —Oh! natura eterna e infinda!<br> + nunca vi mulher tão linda!...<br> + —Eu sou linda? que esperança!</p> + + <p>«—Então não vio Guanabara<br> + da metrop'le no regaço,<br> + sonhando loucos edyllios<br> + co'os olhos fitos no espaço?!<br> + «—Não senhor! se eu não conheço!»<br> + «—Escuta, diva, eu te peço:<br> + sou talvez um sonhador...<br> + —Oh! moço, mal comparando,<br> + quando o senhor está fallando<br> + parece-me um pregador!»</p> + + <p>«—Serei tudo, ó casta diva,<br> + innocente Julieta!<br> + tu'alma exhala o perfume<br> + da modesta violeta!...<br> + —<i>Ué</i>! que moço engraçado!<br> + já deu-me o nome trocado...<span class="pn">[36]</span><br> + eu me chamo Margarida.<br> + —Margarida? Oh! doce encanto!<br> + teu nome tão puro e santo<br> + guardarei além da vida!</p> + + <p> </p> + + <p>«Escuta, sylpho do empirio,<br> + dos céus aerea visão,<br> + não sentes do amor as lavas<br> + que arroja o meu coração?<br> + partamos, além na selva<br> + sobre um tapete de relva,<br> + pousemos o floreo ninho!<br> + partamos, a noite é densa...<br> + —Ó moço, eu peço licença,<br> + eu vou fallar com dindinho!</p> + + <p> </p> + + <p>«—<i>Comment celà!</i> não me deixes<br> + com tua ausencia obumbrado!<br> + queres tu que um cenotaphio<br> + erga a um amor desgraçado?<br> + —Oh! <i>seu</i> aquelle, me deixa!<br> + senão eu vou fazer queixa<br> + a meu pai, largue meu braço!..<br> + —Não partas, anjo bemdito...<br> + —Eu sou grossa p'ra palito...<br> + —Ao menos dá-me um abraço!...»<span class="pn">[37]</span></p> + + <h2>XVI</h2> + + <p>Tal como ao terminar-se da espoleta<br> + o mixto que de um jacto a carga inflamma,<br> + e no rouco troar detona a bomba<br> + cuspindo os estilhaços, fumo e chamma,</p> + + <p> </p> + + <p>assim do meu leão, na face núa,<br> + por mão callosa e firme manejada,<br> + a bomba do ciume arrebentara<br> + e com ella uma tremenda bofetada!</p> + + <p> </p> + + <p>Zumbiram-lhe aos ouvidos mil besouros,<br> + myriades de estrellas viu então;<br> + sahiram-lhe faiscas pelos olhos,<br> + perdera o equilibrio, e... foi ao chão!</p> + + <p> </p> + + <p>De pé, em frente a elle estava um homem,<br> + raivoso como tigre olhando a preza;<br> + nos olhos faiscava-lhe o ciume,<br> + nos labios um sorrir de atroz dureza!</p> + + <p> </p> + + <p>É Pedro, que no seu amor selvagem<br> + não póde reflectir, sabe vingar;<br> + feriam-lhe de morte as crenças d'alma,<br> + e o tigre que é ferido quer matar.<span class="pn">[38]</span></p> + + <h2>XVII</h2> + + <p>«—Pedro! Pedro! então que é isto?!<br> + valha-me Nossa Senhora!<br> + —Margarida, vae-te embora,<br> + tu não me queiras perder!<br> + —Pelo que tens mais sagrado,<br> + deixa esse moço, coitado!<br> + que mais lhe queres fazer?!...</p> + + <p> </p> + + <p>«—Quero mostrar a um patife<br> + como se falla a uma moça;<br> + elles pensam que na roça<br> + é como lá na cidade?!<br> + «Estão enganados comigo!...»<br> + E com o joelho no umbigo<br> + dava-lhe sôcco á vontade!</p> + + <p> </p> + + <p>«—Soccorro! gritava a moça<br> + quazi louca de terror;<br> + meu pai, accuda o senhor,<br> + porque elles se vão matar!...<br> + meu Pedro, não sejas louco,<br> + olha, escuta, espera um pouco;<br> + meu Deus! quem ha-de apartar?<span class="pn">[39]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Sahe-te d'aqui co'os diabos!<br> + não me atormente a cabeça,<br> + puche já, não me aborreça...<br> + você pensa que me embaça?<br> + É tambem teu namorado?<br> + ha de amargar um bocado,<br> + hei de tirar-lhe a fumaça...</p> + + <p> </p> + + <p>«—Repare que é minha filha;<br> + escutou, <i>seu</i> malcriado?<br> + sou velho, estou alquebrado,<br> + mas ninguem me offende em vão!<br> + sei tolerar n'essa idade<br> + loucuras da mocidade;<br> + mas insultal-a, isso não!</p> + + <p> </p> + + <p>«Margarida é muito honesta!<br> + não é lá quem você pensa!...<br> + acho bom que se convença<br> + que ella tem alguem por si!<br> + Vem-te embora, minha filha,<br> + o homem, que assim te humilha,<br> + é mais que indigno de ti.»<span class="pn">[40]</span></p> + + <h2>XVIII</h2> + + <p>Chegara emfim Medeiros e á contenda,<br> + poz termo com palavras convincentes;<br> + do chão suspende o pobre Lovelace,<br> + separa os dois mancebos imprudentes.</p> + + <p> </p> + + <p>—Levando pelo braço o seu Juquinha,<br> + com elle vae p'r'a sala de jantar<br> + e póde ver á luz, banhado em sangue,<br> + o triste <i>petit-maitre</i> a soluçar!</p> + + <p> </p> + + <p>O rosto lhe lavaram com cachaça,<br> + ficando para todos bem patente,<br> + que os beiços, o nariz e o olho esquerdo,<br> + mais gordos lhe ficaram de repente.</p> + + <p> </p> + + <p>Depois tinha cansaço, foi p'ra um quarto<br> + que dava uma janella p'ra o jardim,<br> + despio-se, tomou banho, foi deitar-se...<br> + dormio? não sei dizer, creio que sim.</p> + + <p> </p> + + <p>A festa terminou neste incidente<br> + e cada um tratou de se ir deitar:<br> + a lua ia bem alta além no ceu,<br> + e o gallo amiudava o seu cantar.<span class="pn">[41]</span></p> + + <h2>XIX</h2> + + <p>Dona Olympia ouve um gemido<br> + partir de seus aposentos;<br> + chegou-se á porta de manso<br> + prestando ouvidos attentos...</p> + + <p> </p> + + <p>Era a pobre Margarida<br> + que entre soluços sem fim,<br> + co'o rosto nas mãos occulto,<br> + chorava dizendo assim:</p> + + <h2>XX</h2> + + <p>«Pelas chagas de teu filho,<br> + pelas dôres que soffreu,<br> + pelo pranto que verteste<br> + quando na cruz te morreu,<br> + valei-me, Nossa Senhora,<br> + nesta dôr que sinto agora!</p> + + <p> </p> + + <p>«Inda a pouco era ditosa,<br> + tinha amor, tinha esperança,<br> + de um momento de tristeza<br> + não tenho a menor lembrança!<br> + eu sorria ao ver-me assim;<br> + meu sorrir já teve fim...<span class="pn">[42]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«De tudo quanto já tive<br> + que mais me resta? mais nada!<br> + quiz provar-lhe o meu affecto<br> + e fui vilmente insultada!<br> + Ai, Pedro! que me mataste<br> + quando assim me injuriaste!</p> + + <p> </p> + + <p>«Agora que mais espero?<br> + que esp'rança mais posso ter?<br> + venha a morte e venha breve,<br> + que sou feliz se morrer!<br> + Que Deus lhe pague em prazer<br> + o quanto me fez soffrer.»</p> + + <h2>XXI</h2> + + <p>Dona Olympia entreabrio de manso a porta,<br> + e sem bulha chegou-se junto a ella,<br> + tomou-lhe as mãos nas suas, vio-lhe o pranto,<br> + beijou a meiga face da donzella...</p> + + <h2>XXII</h2> + + <p>«—Que é isto, minha louquinha?<br> + quem é que falla em morrer?!<br> + viste um espinho na vida<br> + e já te cança o viver!<br> + Nas tuas suppostas dôres<span class="pn">[43]</span><br> + só recordas-te os amores,<br> + mas esqueceste teu pai!...<br> + Margarida, és muito ingrata!...<br> + queres matal-o?... pois mata!<br> + vae pedir a morte, vae!</p> + + <p> </p> + + <p>«Ao pobre e cançado velho<br> + que vive do teu carinho,<br> + em vez de beijos e abraços,<br> + crava-lhe n'alma um espinho!<br> + Arrufos de um namorado<br> + valem mais que um velho honrado?!<br> + Pensas bem, minha afilhada!..<br> + vaes morrer? não te demores!<br> + mas o que é isto? não chores!<br> + que vale um pai?... quasi nada!</p> + + <p>«—Misericordia, madrinha!<br> + não falle assim que enlouqueço!<br> + meu Deus! qual foi o meu crime<br> + que tal castigo mereço?!<br> + —Teu crime é não ter juizo....<br> + e sabes o que é preciso?<br> + é: pedir a Deus perdão.<br> + Limpa esses olhos, menina!<br> + a gente assim se amofina;<br> + tu choras sem ter rasão!<span class="pn">[44]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Mas elle está mal commigo<br> + e meu pai nem o quer ver!<br> + —Cala a boca, te prometto<br> + que tudo se ha-de fazer.<br> + Socega, filha: descança,<br> + se ainda tens confiança<br> + na tua velha madrinha!<br> + Amanhã em santa paz<br> + tudo se arranja e se faz;<br> + vae dormir, minha louquinha?»</p> + + <h2>XXIII</h2> + + <p>Margarida radiante da alegria<br> + que sentia renascer no coração,<br> + abraçava com transporte aquella amiga<br> + e cobria de mil beijos sua mão.<span class="pn">[45]</span></p> +</blockquote> + +<h1>CANTO SEGUNDO</h1> + +<blockquote> + <p><span class="pn">[46]<br> + [47]</span></p> + + <h2>I</h2> + + <p>Oh tu quem quer que sejas, meu leitor,<br> + attende ao que te digo: a ti o auctor<br> + começa por te dar os parabens<br> + da somma de pachorra que tu tens,<br> + se leste esse arremedo de poesia<br> + sem arte, sal, perfumes e harmonia,<br> + que p'ra ahi rabisquei sem tom nem som.<br> + Já vejo que és rapaz prudente e bom...<br> + desculpa o tratamento... as etiquetas<br> + exigem luva branca e roupas pretas;<br> + mas isto é muito bom p'ra deputados,<br> + que vivem simplesmente de apoiados<br> + e gastam excellencia a tres por dois...<br> + coitados! são mal pagos... e depois<br> + sujeitos a caprichos de ministros....<br> + ás vezes trazem rostos tão sinistros,<br> + que chego a ter de véras compaixão...<span class="pn">[48]</span><br> + Mas dizem que são filhos da eleição?!<br> + a culpa é então da mãi que os deu á luz,<br> + que tinha atraz da porta aquella cruz,<br> + envolta n'um programma e mil projectos<br> + p'ra os hombros dos filhotes mais dilectos!...<br> + Sê franco, meu leitor, se estou massando,<br> + arrólho a discussão e vou tratando<br> + do resto d'esta historia que encetei...<br> + Palavra, que não sei onde fiquei...<br> + Mas... eu te escrevo em mangas de camisa;<br> + não olhes p'ra o meu trage... quem precisa<br> + pendura com cuidado o paletot,<br> + depois de sacudir-lhe bem o pó,<br> + e fica assim á fresca muito bem.<br> + Quem poupa, meu amigo, sempre tem!<br> + não achas que é verdade, ó maganão?<br> + pois folgo com a tua opinião.<br> + As cousas andam más, tudo está caro!<br> + o cobre, santo Deus! anda tão raro!...<br> + ao menos lá por casa é uma desgraça!<br> + por mais que se trabalhe ou que se faça,<br> + por mais que se amofine uma pessoa,<br> + vem sempre a dar na mesma, é sempre á tôa,<br> + Fallemos n'outra cousa, as digressões<br> + arredam sempre o fio ás discussões.<br> + Entremos na materia francamente,<br> + vejamos o que é feito desta gente.<span class="pn">[49]</span></p> + + <h2>II</h2> + + <p>O dia amanheceu bastante frio.<br> + No chão, sobre os sofás e nas cadeiras<br> + dormiam somno solto os convidados,<br> + em duzias de colchões e mil esteiras.</p> + + <p> </p> + + <p>O nosso fazendeiro acordou cêdo,<br> + e poz as cosinheiras logo em pé;<br> + sentou-se na varanda lendo as folhas<br> + á espera que trouxessem-lhe o café.</p> + + <h2>III</h2> + + <p>«—Ora bom dia, <i>seu</i> Pedro!<br> + —Bom dia, Sr. Medeiros!<br> + —Ainda o fazia dormindo<br> + e vejo que é dos primeiros!...</p> + + <p> </p> + + <p>«Então estranhou a cama?<br> + passou mal, não é verdade?<br> + —Não, senhor! pelo contrario,<br> + perfeitamente á vontade.<span class="pn">[50]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Li agora na <i>Gazeta</i><br> + um facto bem curioso!<br> + um sujeito, um estrangeiro...<br> + mas que homem ardiloso!</p> + + <p> </p> + + <p>«Engole uma espada inteira!<br> + que barriga! Ave Maria!<br> + —Mas é serio?—Oh! se o não fosse<br> + a folha não o diria...</p> + + <p> </p> + + <p>«O que é isto?! onde se atira<br> + já de esporas? onde vai?!<br> + —Vou... eu ia até lá embaixo.<br> + —Não, senhor, hoje, não sahe.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Mas escute, <i>seu</i> Medeiros...<br> + —Não escuto, não senhor;<br> + já queria pôr-se ao fresco?<br> + enganou-se, meu amor!</p> + + <p> </p> + + <p>«Ó homem, 'stou te estranhando!<br> + você que é tão pagodeiro!<br> + —Eu ia vêr se lá embaixo<br> + recebia hoje dinheiro...<span class="pn">[51]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Qual dinheiro, qual historia!<br> + eu bem sei o que isto é!...<br> + Sabes que mais, pucha um banco<br> + e vamos tomar café.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Já que de todo é preciso<br> + vou lhe fallar francamente...<br> + —Pois desembucha, rapaz,<br> + fallando se entende a gente.</p> + + <h2>IV</h2> + + <p>«—O senhor bem me conhece...<br> + não sou homem de questões,<br> + nem ando brigando á tôa<br> + por qualquer duas razões;<br> + mas hontem foi desaforo!<br> + o sujeito de namoro<br> + co'a minha noiva, e eu ali!<br> + isto não é fazer pouco?...<br> + parti cégo como um louco...<br> + nem sei bem o que senti...</p> + + <p> </p> + + <p>«Eu vinha de orelha em pé<br> + ouvindo o palavreado!<br> + não sei o que... de epitaphios...<span class="pn">[52]</span><br> + e d'ahi por um bocado,<br> + agarrou-lhe por um braço<br> + e quiz lhe dar um abraço,<br> + no momento em que cheguei!<br> + fiquei damnado da vida!<br> + e co'a cabeça perdida,<br> + por milagre o não matei!...</p> + + <p> </p> + + <p>«Depois... não ouvi mais nada...<br> + todo este povo a gritar...<br> + ouvi o senhor fallando,<br> + quando nos veio apartar...<br> + mas estou incommodado<br> + do negocio se ter dado<br> + n'uma casa que eu respeito...<br> + em outro qualquer logar,<br> + não me importava brigar<br> + até um ficar desfeito!...</p> + + <p> </p> + + <p>«—Tudo isso nada vale!<br> + não penses nisto, rapaz....<br> + são cousas que a gente moça<br> + mais ou menos sempre faz.<br> + —Não, senhor, eu bem conheço<br> + que isto é máu; mas o que peço<br> + é que queira perdoar...<br> + ás vezes lá vem um dia...<br> + e a gente está de <i>arrelia</i>,<br> + não se póde dominar...<span class="pn">[53]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Vamos fallar de outra cousa,<br> + isto é pura criançada...<br> + que fizeste á Margarida?!<br> + —Quando?—Hontem!—Não fiz nada!<br> + —Pois olha, metteu-me pena<br> + vêr a pobre da pequena<br> + chorando, não sei porque...<br> + —Ella chorou? mas que tinha?<br> + —Não sei, fallou co'a madrinha<br> + e a respeito de você.</p> + + <p> </p> + + <p>«—A meu respeito?! e que disse?!<br> + —Como já estavas zangado,<br> + disseste-lhe alguma cousa...<br> + e te excedeste um bocado...<br> + —Eu, meu Deus?! ainda mais esta!<br> + vejam só que bôa festa!<br> + que S. João tenho eu!...<br> + e tudo, veja o senhor,<br> + por causa desse impostor,<br> + desse barbas de judeu!</p> + + <p> </p> + + <p>«É uma nuvem passageira...<br> + não te dê isso cuidado;<br> + vocês fazem logo as pazes<br> + e está o negocio acabado.<br> + Falla tambem co'o Simão...<br> + o velhote tem razão<span class="pn">[54]</span><br> + de estar massado comtigo...<br> + foste offender ao coitado,<br> + que ficou bem magoado;<br> + mas o velho é teu amigo.»</p> + + <h2>V</h2> + + <p>Vinha chegando alguem e esta conversa<br> + ficou neste logar interrompida;<br> + vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,<br> + renova-se o prazer, renasce a vida.</p> + + <p> </p> + + <p>Estava tudo em pé; porém o Juca?<br> + estava ainda no quarto, ainda dormia?<br> + «—Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde<br> + e basta de dormir: é meio dia.»</p> + + <p> </p> + + <p>A mesa estava posta, e o fazendeiro,<br> + que o não vira des que o dia amanheceu,<br> + abre a porta e só encontra sobre a mesa<br> + uma carta p'ra si, que abriu e leu:<span class="pn">[55]</span></p> + + <h2>VI</h2> + + <p>«<i>Meu caro Sr. Medeiros:<br> + vou p'ra côrte no trem mixto<br> + que sahe d'aqui a uma hora.<br> + Desculpe, se faço isto<br> + sem lhe ter agradecido<br> + o seu bom acolhimento;<br> + mas pode estar convencido<br> + de que no meu coração,<br> + p'ra com vossa senhoria<br> + fica eterna gratidão.<br> + Se fôr á côrte algum dia<br> + contar-lhe-hei como foi<br> + a questão. Não tive a culpa;<br> + o que lhe peço é desculpa<br> + pelo modo desairoso,<br> + porque saio da fazenda.<br> + Vou bem triste e pesaroso<br> + por causa d'essa contenda,<br> + que não julguei provocar.<br> + São horas de me ir embora...<br> + recommende-me á senhora<br> + de quem parto penhorado.<br> + Adeus, aceite um abraço<br> + do seu amigo e criado...<br> + J<small>OSÉ DE</small> S<small>OUZA</small> C<small>ABAÇO</small>.</i>»<span + class="pn">[56]</span></p> + + <h2>VII</h2> + + <p>Medeiros releu a carta,<br> + dobrou-a, poz na algibeira<br> + e disse com seus botões:<br> + «—Ora ahi tem a brincadeira!</p> + + <p> </p> + + <p>«Um ficou todo mordido!<br> + o outro—todo esfolado!...<br> + qualquer dos dois, de juizo<br> + não tem sequer um bocado!</p> + + <p> </p> + + <p>«Que dois malucos de força!<br> + valha-me a Virgem e o Christo!<br> + qual dos dois terá razão?...»<br> + e sahio pensando nisto.<span class="pn">[57]</span></p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <h2>VIII</h2> + + <p>E os donos da casa empenhados<br> + em fazer a reconciliação<br> + conversavam co'os noivos e o velho,<br> + num cantinho do grande salão.</p> + + <p> </p> + + <p>Houve protestos, desculpas,<br> + suspiros, explicações;<br> + e afinal lá se entenderam<br> + com muito boas razões...</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <h2>IX</h2> + + <p>«—Vamos p'ra mesa, senhores,<br> + que o almoço está esfriando!<br> + deixemos as ceremonias!<br> + cada um vá se sentando.<span class="pn">[58]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«Falta aqui um guardanapo...<br> + Olympia, manda buscar...<br> + quem quer leitão recheiado<br> + levante um dedo p'ra o ar.</p> + + <h2>X</h2> + + <p>«Senhores, disse o bom Joaquim Medeiros,<br> + (e tudo se callou para escutar)<br> + eu tenho uma noticia de importancia,<br> + que quero a todos vós communicar.</p> + + <p> </p> + + <p>«Ali minha afilhada Margarida,<br> + se bem que me escondesse agora o rosto,<br> + vae com Pedro, o patusco, felizardo!<br> + casar-se p'ra meado ou fins de agosto.</p> + + <p> </p> + + <p>«E como eu sou padrinho do casorio,<br> + que ha de effectuar-se na fazenda,<br> + convido a todos vós para assistirdes<br> + ao nó que não tem pontas, nem se emenda.<span class="pn">[59]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«E aqui o <i>seu</i> vigario, que é de casa,<br> + aprompta a papellada n'um momento,<br> + e ha de me amarrar estes pombinhos<br> + benzendo-lhes os anneis do casamento.</p> + + <p> </p> + + <p>«Bebamos, pois, dos noivos á saude!<br> + Senhores, a saude é feita em pé!<br> + Hurrah! ip! ip! hurrah! vivam os noivos!<br> + a coisa é de virar, ip! bangué!»</p> + + <h2>XI</h2> + + <p>Simão ergueu-se a custo, e commovido<br> + fallou desta maneira aos assistentes:</p> + + <p> </p> + + <p>«—Senhores, quando a alegria<br> + nos afoga o coração,<br> + não ha palavras que a digam,<br> + falta-nos toda a expressão!</p> + + <p> </p> + + <p>Choramos quando soffremos,<br> + quando gosamos, sorrimos,<br> + mas o riso não exprime<br> + o que n'alma nós sentimos.<span class="pn">[60]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«Assim 'stou eu; bem quizera<br> + dizer-vos neste momento<br> + tudo, tudo quanto sinto,<br> + qual é o meu contentamento,</p> + + <p> </p> + + <p>«mas não posso, porque é tanta<br> + a minha felicidade,<br> + que mais me parece um sonho,<br> + que pura realidade!</p> + + <p> </p> + + <p>«E sabeis a quem a devo?<br> + a quem posso agradecer?<br> + quem é que em duas palavras<br> + me embriaga de prazer?!</p> + + <p> </p> + + <p>«É aqui a mãi dos pobres<br> + e o meu compadre Medeiros!<br> + este grande coração!<br> + a nata dos fazendeiros!</p> + + <p> </p> + + <p>«Á saude, pois, d'aquelles<br> + que não tem ostentação,<br> + quando afogam na alegria<br> + um mirrado corração!»<span class="pn">[61]</span></p> + + <p> </p> + + <p>E todos gritavam co'os copos erguidos<br> + dos donos da casa, bebendo á saude:<br> + «Que Deus lhes dê vida, que Deus os conserve<br> + p'ra auxilio dos pobres, p'ra amparo á virtude.»</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>Passados oito dias de prazer,<br> + oito dias de festa e de alegria,<br> + vão indo pouco a pouco os convidados<br> + saudosos, p'ra o lidar de cada dia.<span class="pn">[62]<br> + [63]</span></p> +</blockquote> + +<h1>CANTO TERCEIRO</h1> + +<p><span class="pn">[64]<br> +[65]</span></p> + +<h2>I</h2> + +<blockquote> + <p>Os peralvilhos da côrte,<br> + ou cidades principaes,<br> + todos querem ser poetas,<br> + todos fazem madrigaes<br> + quando estão apaixonados.<br> + Em versos estropiados,<br> + alguns que tem legoa e tanto,<br> + a pobre da musa súa,<br> + suspirando á luz da lua<br> + em cada suspiro um canto!</p> + + <p> </p> + + <p>Aquelles que nem a tiro<br> + se lhes abre a cachimonia,<br> + assignam versos roubados<br> + com toda a sem ceremonia!<br> + Não fazem questão de auctor...<br> + querem provar seu amor<span class="pn">[66]</span><br> + á deidade que os inspira?<br> + lá vão direitos á estante,<br> + e d'ali por um instante<br> + geme e canta a alheia lyra.</p> + + <p> </p> + + <p>São estes os commodistas<br> + e os que tem mais razão...<br> + p'ra que quebrar-se a cabeça<br> + se ha versos em profusão?!<br> + é obra feita, é verdade:<br> + mas escolhe-se á vontade<br> + onde ha tanto p'ra escolher...<br> + lá vai a amostra do panno<br> + que um typo fez por engano,<br> + por não ter tempo a perder:</p> + + <h2>II</h2> + + <p>Oh! virgem pura de meus sonhos lindos,<br> + lyrio mimoso dos jardins dos céus!<br> + escuta o bardo descantando amores<br> + louco, inspirado nesses olhos teus!</p> + + <p> </p> + + <p>Escuta as notas que desprende a lyra<br> + embevecida neste amor sublime;<br> + nestes accordes, muito embora rudes,<br> + só a verdade o meu cantar exprime.<span class="pn">[67]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Tu és a fonte inexhaurivel, pura,<br> + onde a minh'alma vae a fé beber,<br> + symbolo da crença, de esperanças fóco,<br> + livro sagrado que me ensina a crêr.</p> + + <p> </p> + + <p>Tu és a gota matinal do orvalho<br> + na rubra pet'la de uma flôr louçã,<br> + limpido espelho de virtude e graça,<br> + estrella d'alva em festival manhã.</p> + + <p> </p> + + <p>Tenra avesinha que em gorgeios ternos<br> + a Deus envia o suspiroso canto,<br> + visão etherea do sonhar do bardo,<br> + miragem bella de sublime encanto.</p> + + <p> </p> + + <p>Tu és a lympha, que em ramaes de prata,<br> + borda a campina marchetada em flôres,<br> + iris formoso da bonança emblema,<br> + casto sacrario de gentis amores.</p> + + <p> </p> + + <p>És tudo, tudo quanto é grande e santo,<br> + astro fulgente de brilhante luz!<br> + Anjo da Guarda que atravez d'espinhos<br> + meus tibios passos ao porvir conduz.<span class="pn">[68]</span></p> + + <h2>III</h2> + + <p>Na roça não se usa disto,<br> + quem faz cerco a um coração<br> + improvisa as suas quadras<br> + com a viola na mão.</p> + + <p> </p> + + <p>E na prima e na segunda<br> + faz um tal repenicado,<br> + que a pequena fica tonta<br> + quebrando o sapateado.</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>Quem procura a paz do espirito,<br> + quem busca a felicidade,<br> + ha de encontral-a na roça,<br> + raras vezes na cidade.</p> + + <p> </p> + + <p>Ali a vida é mais calma;<br> + a mudez da solidão,<br> + é como um balsamo santo<br> + ás dores do coração.<span class="pn">[69]</span></p> + + <p> </p> + + <p>A doce tranquillidade,<br> + que se desfructa no lar,<br> + illumina aquellas almas<br> + de uma luz crepuscular.</p> + + <p> </p> + + <p>Na festa ha mais alegria...<br> + ha no trato amenidade;<br> + o homem da roça é o typo<br> + da honra e da honestidade.</p> + + <p> </p> + + <p>Se acaso lhes bate á porta<br> + um estranho, um forasteiro,<br> + tem agasalho e amizade<br> + desse povo hospitaleiro.</p> + + <p> </p> + + <p>Sob uma crosta grosseira<br> + se encontra a sinceridade,<br> + e mais que ninguem conhece<br> + as leis da hospitalidade.</p> + + <p> </p> + + <p>Mas se lhes offendem os brios<br> + sabem affrontas vingar,<br> + que o homem rude do campo<br> + não póde insultos tragar.<span class="pn">[70]</span></p> + + <h2>IV</h2> + + <p>Chegara em fim o dia suspirado<br> + daquellas duas almas, que se amavam:<br> + em breve vão-se unir p'ra todo o sempre<br> + no laço por que a tanto suspiravam!</p> + + <p> </p> + + <p>Nos meigos olhos della ha mil affectos...<br> + as faces se lhe tingem de rubor,<br> + e os labios entreabertos côr de rosa<br> + parecem repetir:—ventura, amor!</p> + + <p> </p> + + <p>No rosto do mancebo ha um que de vago<br> + e certa commoção mal disfarçada!<br> + é que é tal a ventura que o espera<br> + que duvida vel-a emfim realisada!</p> + + <h2>V</h2> + + <p>«—Escuta, minha afilhada,<br> + tu hoje vaes te casar...<br> + é o passo mais delicado<br> + que uma mulher póde dar.<br> + A partir desse momento,<span class="pn">[71]</span><br> + do nosso procedimento<br> + depende todo o futuro.<br> + Escuta toda a verdade,<br> + se queres a f'licidade,<br> + este caminho é seguro.</p> + + <p> </p> + + <p>«No dia do casamento<br> + tudo é cheio de illusões!...<br> + julgamos tocar ao termo<br> + das nossas aspirações.<br> + Mezes depois, vamos vendo<br> + que já vão arrefecendo<br> + nossos sonhos virginaes;<br> + passada a illusão primeira,<br> + a mulher é a companheira,<br> + uma amiga, e nada mais.</p> + + <p> </p> + + <p>«Então é preciso emprego<br> + de toda a nossa prudencia,<br> + e ter p'ra com o marido<br> + a maior condescendencia.<br> + Se chega em casa cansado,<br> + dar-lhe carinhos e agrado,<br> + não perguntar de onde vem;<br> + elle mesmo irá dizendo<br> + o que andou por lá fazendo,<br> + ou se esteve com alguem.<span class="pn">[72]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«Nunca sejas ciumenta,<br> + nem lh'o dês a conhecer!<br> + o ciume, além de inutil,<br> + nos envenena o viver.<br> + Sê sempre condescendente...<br> + não te mostres exigente<br> + nem lhe peças sacrificios:<br> + um pedido caprichoso,<br> + para um marido extremoso,<br> + é um dos grandes supplicios.</p> + + <p> </p> + + <p>«Sempre affavel, carinhosa,<br> + sempre modesta e asseiada...<br> + eis aqui como procede<br> + a mulher bem educada.<br> + Algumas, infelizmente,<br> + ignoram completamente<br> + estas verdades, e então<br> + dizem que são desgraçadas;<br> + mas são ellas as culpadas,<br> + é falta de educação.</p> + + <p> </p> + + <p>«Quando em casa não encontram<br> + meiguices, consolações,<br> + os maridos se aborrecem,<br> + vão procurar distracções...<br> + e uma vez encetado<span class="pn">[73]</span><br> + esse trilho tão errado,<br> + é um martyrio esse viver!<br> + Deus te livre, Margarida!<br> + a ter semelhante vida,<br> + melhor te fôra morrer!</p> + + <p> </p> + + <p>«Eis aqui os meus conselhos<br> + que sempre tenho seguido;<br> + e de cumpril-os á risca<br> + não me tenho arrependido.<br> + Desde criança a meu lado,<br> + has de ter observado<br> + como trato teu padrinho;<br> + e tenho sido estimada...<br> + se queres ser adorada<br> + faze o mesmo ao teu Pedrinho.»</p> + + <h2>VI</h2> + + <p>Adornada a capricho p'ra este dia,<br> + da fazenda a pequena capellinha<br> + estava que era um mimo de bom gosto,<br> + tão faceira! tão bem arranjadinha!<span class="pn">[74]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Sanefas de setim verde e amarello,<br> + nas paredes damasco alaranjado,<br> + alampadas de prata, quatro lustres,<br> + e um soberbo tapete avelludado.</p> + + <p> </p> + + <p>O todo era singelo, doce e grave,<br> + incitava não sei que ao coração!<br> + noss'alma sem querer a Deus se erguia<br> + nesse encanto mental de uma oração.</p> + + <p> </p> + + <p>Lá fóra repicava alegre o sino...<br> + festões, arcos e flôres no terreiro,<br> + convidados, amigos e parentes,<br> + e sempre satisfeito o fazendeiro.</p> + + <h2>VII</h2> + + <p>São horas, tudo está prompto;<br> + todos seguem p'ra capella.<br> + Na frente caminha ella<br> + pelo braço da madrinha;<br> + logo atraz Pedro, Simão,<br> + Medeiros, uma sobrinha<br> + do vigario, e a multidão<br> + que caminha alegremente<br> + em ruidosa confusão.<span class="pn">[75]</span><br> + Era um quadro interessante<br> + de belleza original<br> + o que eu vi naquelle instante:<br> + cabeças brancas de neve,<br> + rostos graves enrugados<br> + pendidos p'ra sepultura,<br> + a par de frontes divinas,<br> + de olhos meigos namorados<br> + derramando mocidade!<br> + Oh! como é bella essa idade<br> + em que tudo é só prazer!<br> + em que a existencia é um sorriso,<br> + em que o amor é um paraiso,<br> + em que o sonhar é viver!<br> + O grupo entrou na capella<br> + ajoelhou-se, benzeu-se,<br> + resou e depois ergueu-se<br> + e cochichava em segredo;<br> + mas callou-se de repente<br> + quando o padre appareceu.<br> + Margarida estremeceu<br> + e disse machinalmente:<br> + «Agora vou ser feliz.»<span class="pn">[76]</span></p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>Estava emfim realisado<br> + aquelle sonho dourado<br> + de su'alma casta e pura!<br> + a embriaguez da ventura<br> + tornava-a mais que divina!<br> + aquellas faces rosadas<br> + levemente afogueadas<br> + de prazer e commoção,<br> + traziam-lhe tal encanto,<br> + que eu creio que até um santo<br> + succumbia á tentação!</p> + + <p> </p> + + <p>Era finda a ceremonia.<br> + Pedro, qu'inda não fallara,<br> + por pouco não desmaiara<br> + nos braços do fazendeiro,<br> + fulminado de alegria!<br> + e no sorriso nervoso<br> + que d'alma aos labios lhe vinha,<br> + quem é que não traduzia<br> + o que n'alma o pobre tinha?</p> + + <p> </p> + + <p>Passados alguns momentos,<br> + já depois dos comprimentos<br> + de todos que os rodeavam,<br> + sahiram de braços dados<span class="pn">[77]</span><br> + sob uma chuva de flôres<br> + que em cima lhe despejavam<br> + á porfia, os convidados.</p> + + <p> </p> + + <p>Chegados todos á casa,<br> + Simão e Pedro de um lado<br> + á meia voz conversavam.<br> + Dizia o velho alquebrado:<br> + «Nesta filha que te entrego,<br> + dou-te tudo quanto tenho,<br> + dou-te os olhos, fico cégo,<br> + mas risonho e satisfeito...<br> + eu já estava tão affeito<br> + que não sei como sem elles<br> + eu possa agora viver!...<br> + ella era o sol bemfazejo<br> + ao qual eu me ia aquecer;<br> + porém fico descansado,<br> + porque em ti achou arrimo....<br> + eu somente o que lastimo<br> + é ser velho e não ter nada,<br> + não p'ra mim que não preciso,<br> + era por ella, coitada!<br> + que é um anjo como tu sabes.<br> + Olha, Pedro, eu só te peço,<br> + se alguma cousa mereço,<br> + que trates bem minha filha!<br> + minha pobre Margarida!<span class="pn">[78]</span><br> + Ella ha de adoçar-te a vida<br> + porque é muito carinhosa,<br> + e como foi boa filha<br> + deve ser tambem esposa.»</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>E em quanto o velho fallava<br> + da filha por quem vivia,<br> + dos olhos se lhe escapava<br> + uma baga que rolava<br> + e na barba se escondia.</p> + + <h2>VIII</h2> + + <p>«—Forma a roda! oh! <i>seu</i> Casusa<br> + não fuja, vamos brincar;<br> + vá decidir na viola<br> + para este povo dançar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Qual o que! o <i>seu</i> Manduca<br> + é <i>cabra</i> bom tocador,<br> + e eu não vou tirar a espada<br> + da mão de um tal jogador.<span class="pn">[79]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Vamos então ver os dois<br> + no desafio pegados...<br> + Forma roda! forma roda!<br> + quero ouvir esses damnados.»</p> + + <h2>IX</h2> + + <p>E emquanto sapateavam,<br> + os dois assim descantavam:</p> + + <p> </p> + + <p>«—Meu senhor, me dê licença<br> + que eu quero principiar:<br> + quero botar uma trova<br> + para quem me faz penar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Póde entrar que o matto é limpo,<br> + não tem onça, nem queixado,<br> + tem somente uma morena<br> + por quem ando apaixonado.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Obrigado, companheiro,<br> + Deus te ajude nos amores;<br> + mas quem gosta das morenas<br> + soffre penas, sente dôres.<span class="pn">[80]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Eu bem sei de quem tu gostas,<br> + p'ra ella podes cantar;<br> + é clara, tem olhos pretos,<br> + olhos que te hão de matar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Na barra do teu vestido<br> + anda preso um coração,<br> + menina, minha menina,<br> + da minha veneração.</p> + + <p> </p> + + <p>«—O sipó do matto virgem<br> + amarra o jacarandá;<br> + assim, morena, em teus olhos<br> + ando eu bem preso já.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Fui ao matto cortar lenha<br> + e encontrei a jurity,<br> + ella tinha os seus amores<br> + como os eu tenho por ti.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Larangeira é pau d'espinho,<br> + carangueijo anda na praia,<br> + tambem andam meus amores<br> + na renda de tua saia.<span class="pn">[81]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Os teus olhos são de fogo,<br> + tua boca é uma roseira,<br> + menina, minha menina,<br> + quem te fez tão feiticeira?</p> + + <p> </p> + + <p>«—Cachorro ladra na cerca<br> + quando vem algum ladrão,<br> + assim ladra no meu peito<br> + por te ver meu coração.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Menina, minha menina,<br> + se me não queres matar,<br> + dá-me um riso pequenino,<br> + que eu sou bom de contentar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—No braço tenho talento,<br> + tenho prata na goiaca,<br> + p'ra quem duvidar, comigo<br> + na cintura trago a faca.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Você me botou olhado,<br> + você mesmo ha-de tirar,<br> + e eu só posso ficar bom<br> + quando comtigo casar.<span class="pn">[82]</span></p> + + <p> </p> + + <p>«—Ó senhor dono da casa,<br> + mande vir alguma cousa;<br> + já está co'a guella secca<br> + o Manduca Zé de Souza.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Sem leitão não ha pagode,<br> + sem bebida violeiros;<br> + o Casusa está com sêde,<br> + mande vir, Sr. Medeiros.»</p> + + <p> </p> + + <h2>X</h2> + + <p>«—Muito bem, muito bem! gritaram todos,<br> + qualquer dos dois é um tebas p'ra cantar,<br> + e dansam que faz gosto e mette inveja<br> + a quem os vê n'um samba a requebrar.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Vocês que tomam? vinho ou paraty?<br> + —Eu cá já tomei vinho e não misturo...<br> + —E dois.—Pois aqui tem, ataquem deste,<br> + que é bom, é de patente, é vinho puro.»<span class="pn">[83]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Depois de beberem voltaram p'ra roda<br> + ao som da viola, tocando e cantando,<br> + ao longe se ouvia o tinir das chilenas,<br> + as palmas cadentes dos moços dansando.</p> + + <h2>XI</h2> + + <p>A noiva estava com somno....<br> + o noivo.... não sei se o tinha,<br> + mas estava assim com cara<br> + onde logo se advinha....<br> + vontade de se ir deitar.</p> + + <p> </p> + + <p>A madrinha, disfarçando,<br> + para o quarto do noivado<br> + foi com ella, onde ajudou-lhe<br> + a tirar o véo bordado<br> + e a grinalda virginal.</p> + + <p> </p> + + <p>Desapertou-lhe o vestido<br> + e em saia branca a deixou....<br> + baixinho deu-lhe conselhos,<br> + depois a porta cerrou<br> + deixando-a ficar sosinha.<span class="pn">[84]</span></p> + + <p> </p> + + <p>De repente ouviu-se um grito!<br> + era a voz de Margarida,<br> + e um toque de campainhas,<br> + que prolongou-se em seguida,<br> + indicava o quarto della.</p> + + <p> </p> + + <p>Todos correm pressurosos,<br> + perguntam: «Que aconteceu?»<br> + Dona Olympia mais ligeira<br> + do que todos, lá correu,<br> + fechou a porta, e que viu?!</p> + + <p> </p> + + <p>Viu na cama semeados<br> + carrapichos aos milhões!<br> + alfinetes espetados!<br> + e por baixo dos colchões<br> + campainhas penduradas!</p> + + <p> </p> + + <p>E a pobre da menina<br> + que se foi sentar na beira...<br> + espetou-se não sei onde,<br> + nem como, de que maneira<br> + fez dobrar o carrilhão.<span class="pn">[85]</span></p> + + <p> </p> + + <p>Não pôde dormir na cama!<br> + foi p'ra o quarto da madrinha.<br> + O noivo tremeu com frio,<br> + a noiva ficou sosinha<br> + scismando.... nos carrapichos.</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>Percebes, meu leitor, que eu não desejo<br> + entrar n'alguns detalhes melindrosos;<br> + respeito o sanctuario da familia<br> + e deixo a indagação aos curiosos.<span class="pn">[86]<br> + [87]</span></p> + + <p> </p> + <p> </p> + <p> </p> + <p> </p> + + <h2>XII</h2> + + <p>Um anno já se passou<br> + Depois que vi estas scenas,<br> + mas inda tenho saudades<br> + d'aquellas boas pequenas.</p> + + <p> </p> + + <p>Ha tres dias, por acaso,<br> + n'um bond do Pedregulho<br> + encontrei o <i>seu</i> Medeiros<br> + que levava um grande embrulho.</p> + + <p> </p> + + <p>«—Como vai? me disse elle,<br> + ó homem, não apparece!<br> + pois olhe, todo o meu povo<br> + do senhor nunca se esquece.</p> + + <p> </p> + + <p>«Já soube que a Margarida<br> + teve um filho o mez passado?<br> + —Não, senhor!—Pois é verdade!<br> + e p'ra o mez é o baptizado!</p> + + <p> </p> + + <p>«Não falte e leve os amigos,<br> + porque temos brincadeira;<br> + vim á côrte só para isto,<br> + e ando assim desta maneira!»</p> + + <p> </p> + + <p>E apontou-me o embrulho<br> + que mettera sob o banco,<br> + e nisto o maldito bond<br> + deu um enorme solavanco.</p> + + <p> </p> + + <p>..............................<br> + ..............................<br> + ..............................<br> + ..............................</p> + + <p> </p> + + <p>Leitor, se lêste attento estes meus versos,<br> + é que és bom, condescendente e meu amigo.<br> + Has-de ir pagodear lá na fazenda,<br> + eu posso convidar-te: vais comigo.</p> +</blockquote> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Roça, by António Corrêa + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA ROÇA *** + +***** This file should be named 32295-h.htm or 32295-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/2/2/9/32295/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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