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+Project Gutenberg's Pero da Covilhan, by Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Pero da Covilhan
+ Episodio Romantico do Seculo XV
+
+Author: Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+Release Date: May 8, 2010 [EBook #32296]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+ Notas de transcrição:
+
+ O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
+ em 1897.
+
+ Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
+ alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a
+ leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário
+ assinalá-los.
+
+
+
+
+ Pero da Covilhan
+
+
+ QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA
+
+ PERO DA COVILHAN
+
+ (EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)
+
+ POR
+
+ ZEPHYRINO BRANDÃO
+
+ DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
+ DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA
+ E DA S. G. L.
+
+
+
+ ANTIGA CASA BERTRAND--JOSÉ BASTOS
+ LIVREIRO-EDITOR
+ _LISBOA--73, Rua Garrett, 75_
+
+ 1897
+
+
+
+Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
+
+
+
+
+CONVERSA PREAMBULAR
+
+
+Eu não sei bem o que venho aqui fazer.
+
+Não venho, de certo, apresentar Zeferino Brandão, pois eu proprio lhe
+fui apresentado, noviço em lettras, quando elle já era, na egreja
+litteraria, officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos
+sacerdotes maximos, com alguns dos quaes privava, de irmão a irmão.
+
+Com effeito,--e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, não
+devendo comtudo andar muito longe dos trinta,--foi na primeira casa que
+João de Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio
+quarto do poeta, que Zeferino Brandão e eu nos avistámos a vez
+primeira. Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu,
+cadete de lanceiros.
+
+Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um
+momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo,
+e que um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa
+dos hospedes, com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo,
+conquistando-me uma ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e
+deixando-me a mim proprio deslumbrado de taes versos serem meus.
+Coitados! Por onde andarão elles!
+
+Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender
+de então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu,
+que, sempre que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão
+bellas coisas a relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava
+ali; o Arriaga, que vinha todos os dias; o Anthero, que apparecia de
+quando em quando; o Simões Dias, o Candido de Figueiredo, o Guimarães
+Fonseca, o João Penha, a todo o momento falados, porém ausentes.
+
+Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer
+annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como
+disparate de marca maior, e como antecedente de pessimos effeitos. E
+tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima roupa:
+
+ Com que então, cahiu na asneira
+ De fazer na quinta feira,
+ Vinte e seis annos! Que tolo!
+ Ainda se os desfizesse...
+ Mas fazel-os, não parece
+ De quem tem muito miolo!
+
+Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no
+anno anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no
+immediato. E por isso João de Deus accrescentava:
+
+ Não sei quem foi que me disse,
+ Que fez a mesma tolice
+ Aqui o anno passado...
+ Agora o que vem, apósto,
+ Como lhe tomou o gosto,
+ Que faz o mesmo? Coitado!
+
+ Não faça tal; porque os annos
+ Que nos trazem? Desenganos
+ Que fazem a gente velho.
+ Faça outra coisa; que em summa
+ Não fazer coisa nenhuma,
+ Tambem lhe não aconselho.
+
+Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do
+poeta; não poude no emtanto satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez
+outras coisas, livros excellentes, por exemplo; mas accumulou, e foi
+tambem fazendo annos, com a maior moderação, o mais devagar que lhe foi
+possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os. Era o que João de
+Deus lhe tinha dito:
+
+ Mas annos, não caia n'essa!
+ Olhe que a gente começa
+ Ás vezes por brincadeira,
+ Mas depois, se se habitua,
+ Já não tem vontade sua,
+ E fal-os, queira ou não queira.
+
+Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi
+da noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e
+alegre convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de
+então, e sabe-se quanto é ciosa e aristocrata a superioridade
+intellectual, que não desce nunca a nivelar-se com os mediocres, e que
+só anda hombro a hombro com os seus pares.
+
+Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e
+no tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou,
+áquellas de que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.
+
+Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu
+_caloiro_.
+
+Portanto, toda e qualquer ideia de apresentação, ou de recommendação
+seria absurda.
+
+Mas Zeferino Brandão exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta
+excursão pelo mundo aventuroso da publicidade, não por medo d'ella, que
+o seu animo é seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a
+ponderar quanto valem baldões e glorias litterarias; mas verdadeiramente
+tão só, pois outra explicação lhe não posso dar, por mero capricho de
+artista.
+
+Dêmos, por conseguinte, o braço e vamos ambos de companhia, uma vez que
+esta lhe é agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.
+
+Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brandão apuramento selecto
+em um volume, a que deu por titulo _Paginas Intimas_, do qual depois fez
+segunda edição, mais aprimorada ainda, e tambem difficil já de encontrar
+nas livrarias. Não é vulgar que este caso succeda, e não é pequena
+honra, nem pequena satisfação para um auctor, e sobretudo para um poeta,
+poder referil-o.
+
+Os taes annos, que a gente se habitúa a fazer, e que depois cada qual
+faz, queira ou não queira, foram arredando o poeta das tentações da
+rima, sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia, que elle
+continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada
+em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas
+coloridas e illuminadas, quer na evocação ideal dos tempos volvidos,
+trazendo á tela do presente, memorias, personagens e feitos do passado.
+
+D'estas duas predilecções da sua mente, a um tempo assimiladora e
+imaginosa, são documento bastante os dois livros de valor, com que a sua
+bagagem litteraria se enriquece. Um d'elles, _Monumentos e lendas de
+Santarem_, é um verdadeiro padrão de sentimento, erguido ás recordações
+gloriosas d'essa forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de
+uma collecção de _Viagens_, que está reclamando, a brados, os seus
+successores, é uma soberba descripção da _Belgica_ moderna.
+
+Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos
+descriptivos de uma excursão pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo
+da publicação, nos deixou no espirito uma grata lembrança.
+
+Compraz-se o escriptor, como se vê, e n'isto mesmo affirma intensamente
+o seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relação
+com o seu tempo, como na vida sonhadora a que o attraem os livros de
+outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de meridional
+mais á larga se expande.
+
+Ali, os monumentos de mais de uma raça, livros de pedra abertos á
+meditação dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na
+memoria dos povos que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como
+centro de attracção maior; depois, primacialmente, as soberanias e
+magnificencias da arte, legados inestimaveis que as gerações foram
+transmittindo, e nos quaes vae encontrar as mais altas suggestões
+artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o gosto moderno.
+
+Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes,
+tambem, só por si, dão medida do bom equilibrio e da alta cultura de
+quem os escolhe e professa.
+
+Não são diversos os predicados do novo livro, que me encontro
+prefaciando. O auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de
+Pero da Covilhã, a qual apparece na historia, um pouco esbatida, tão
+sómente pela exuberancia de luz com que se illuminam os quadros dos
+descobrimentos e conquistas subsequentes, que elle em tamanha parte
+preparou.
+
+Essa figura, porém, tem contornos bem definidos, e Pero da Covilhã
+é, na epopêa dos Gamas e dos Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um
+inolvidavel predecessor.
+
+Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel
+para o seu proposito; mas de tal fórma se cinge ás linhas da realidade,
+que a figura se destaca viva, deante de nós, como realmente foi, e o
+leitor mal póde discernir onde começa e acaba a ficção, e onde prevalece
+o rigor historico.
+
+Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brandão, uma vez que a
+vida aventurosa do seu personagem dá que farte para todas as exigencias
+da concepção romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginação.
+
+O scenario em que elle expande a sua actividade, tão ousada e tão
+original, mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades não eram
+de extranheza, apparece-nos restabelecido, por tão singular poder de
+evocação, que nos sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto
+e a alma cheia de interesse, como se nós mesmos pertencessemos á época
+em que toda a acção do livro, muito mais historia do que romance,
+amplamente se desenrola.
+
+Vêmos, logo no começo, a Sevilha do seculo decimo quinto, e o
+viver luxuoso das grandes casas de Hespanha, onde em muitas das quaes a
+cadeira senhorial ousava defrontar-se em orgulhos e pretenções com os
+thronos dos reis; e no solar magestoso dos Medina-Sidonia, vamos
+encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido d'ali a terras de
+Portugal, por cá se deixou ficar a pedido de Affonso V, servindo com o
+seu coração, que já era de portuguez, a patria de seus paes, assim
+restituida a elle proprio.
+
+Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro, é acompanhado pelo auctor e
+pelo leitor, primeiro na sua missão e officio de personagem da côrte e
+do séquito real, durante o ultimo quartel de vida, tão agitado e tão
+pouco feliz, do rei, que em Portugal o havia detido e que sempre lhe
+dispensou o seu favor; depois, em toda a sua peregrinação ao Oriente, na
+demanda das terras do Preste, até dar fundo na Abyssinia, onde para
+sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um captiveiro perpetuo, que
+não deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o houvessem tecido
+com laços de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e das honras,
+agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do amor.
+
+O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica fundamental,
+d'onde veiu por fim a ser gerada esta successão esplendida de quadros
+historicos, passa-se na intimidade dos corações e das consciencias
+d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas para os quaes
+a mais viva aspiração da alma foi um sonho que jámais se realisou. Não
+se póde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais pericia,
+atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias physicas
+do homem são postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a
+agudissima sensibilidade do coração.
+
+Parece-nos até, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro
+reside no contraste a que damos relêvo agora. Os que tenham pensado
+encontrar n'elle uma obra de completa ficção, podem talvez ficar
+desapontados ante o predominio que ali assumem a exactidão, a
+abundancia, a veracidade historica. Mas a conducção do fio ideal e
+subtilissimo, de uma pura e platonica paixão amorosa, accendida nos
+mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o decurso da vida
+com os oleos da religião e da cavallaria, com os incitamentos do dever e
+da honra, a habil e engenhosissima conducção d'esse fio, repetimos, com
+a qual o auctor parece nada se preoccupar sem que todavia um momento
+a descure, é uma das maiores provas que Zeferino Brandão nos podia dar,
+de quão delicado é o seu temperamento artistico, de quão profundo é o
+seu sentimento poetico, de quão esmerado é o seu fino gosto.
+
+E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os
+meritos da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se não
+reparasse em qual deve ser já a sua impaciencia, e em como é tempo de os
+deixar a sós com o dono da casa, do qual sabem já que teem a esperar uma
+recepção de primôr.
+
+ 26 de fevereiro de 1897.
+
+ FERNANDES COSTA.
+
+
+
+
+_ADVERTENCIA_
+
+
+O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um
+pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma
+e pura, como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de
+lodaçaes, d'essas miserias, que são a mais viva chaga social de todos os
+tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.
+
+Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por
+impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no
+incidente da successão á corôa de Castella.
+
+Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.
+
+A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na
+formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
+descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira
+lamentavel em ambos os casos.
+
+No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
+houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios.
+D'estes não cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca
+estiveram, os meus dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido
+eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.
+
+--E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
+tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á
+qual subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha
+phantasia?
+
+Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
+hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,
+porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas,
+e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.
+
+Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do
+descobrimento do caminho maritimo da India.
+
+ _Zephyrino Brandão_
+
+
+
+
+I
+
+_DESPEDIDA_
+
+
+O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam
+por lá os nossos visinhos, que _não vio maravilha_.
+
+Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem
+crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do
+Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e
+em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades
+modernas.
+
+O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um
+dia calmoso do estio.
+
+Abrasa tanto calor!...
+
+Em breve zombaremos d'elle.
+
+Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os
+de jardins e fontes, no intuito de refrescar as regiões ardentes, que
+povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos
+refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de
+seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas,
+poupar-nos-hemos a insolações.
+
+Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
+planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.
+
+Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com
+elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas,
+que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob
+esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa
+nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam
+os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a
+florescente industria fabril dos sevilhanos;--o que torna riquissima de
+população e haveres a formosa metropole andaluza.
+
+Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina
+do Ouro.
+
+Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a
+estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se
+vulgarmente a _grande_, como á de Toledo a _rica_, á de Salamanca a
+_forte_ e á de Leão a _bella_.
+
+Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de
+rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores
+dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito.
+Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na
+peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a
+quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.
+
+--Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não
+existe ainda o _Giraldillo_, e por isso a torre não é conhecida pelo
+nome de _Giralda_.
+
+Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo
+com palacios realengos.
+
+As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
+graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar
+ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de
+encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por
+tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a
+reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.
+
+O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha,
+que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão
+que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama
+patrioticamente:
+
+ «Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas
+ Para el Cielo crió tantos tesoros,
+ Cuantas el ancho mar esconde arenas,
+ Cuantas estrellas los celestes coros!»
+
+Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
+algo peccadora...
+
+A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que
+abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos,
+que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias
+ambições e prosapias.
+
+Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças
+centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes
+fartos legados em seus testamentos.
+
+Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha,
+como tambem o tratam.
+
+Entremos no seu palacio.
+
+Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior
+uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a
+influencia exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde
+considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo
+_mudejar_, a que pertence, para a construcção das quaes as duas artes,
+christã e mahometana, se dão as mãos com tal engenho, que se harmonisam
+perfeitamente os dois elementos de manifestações tão diversas.
+
+--Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christãos, depois de
+certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas
+leis, religião e costumes, chamavam-se _mudejares_, e nas edificações,
+em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que
+os da sua raça haviam conquistado, especialmente da Persia.
+
+Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o
+estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das
+quaes demoram as habitações.
+
+A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes
+d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus
+desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento
+acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No
+tecto, o elemento decorativo predominante são estalactites e laçarias,
+tudo realçado com applicação de côres e douraduras.
+
+Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
+imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás
+suas tradições gloriosas.
+
+Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e
+estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia.
+Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés
+d'esta cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum
+extrangeiro de distincção, que o visita, e a quem elle offerece esse
+lugar de honra.
+
+Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
+representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos,
+batalhas, torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos,
+imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de
+mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitações mais
+ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.
+
+Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
+escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da
+pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes
+fundára a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e
+toldados de riquissimos lambeis. Os móveis, de páu-santo, primorosamente
+entalhados e forrados de brocado e ouro.
+
+Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero
+manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a
+perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma
+credencia com tres compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim
+e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de
+ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano,
+coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas as armas da
+duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados
+de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e
+castiçaes de ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas
+proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de
+onyx exhalam a sua fragancia suavissima.
+
+As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,
+despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas,
+adargas, onde se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em
+fórma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.
+
+Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem
+completamente as estreitas portas de alerse.
+
+O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar
+coroado por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla,
+titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas
+cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e
+umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda,
+sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepção da
+duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de
+espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura,
+bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
+dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de escrever,
+todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze;
+relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro.
+Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias orientaes, que lhe
+dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus bordados
+caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
+um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre
+que se vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas,
+outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.
+
+Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D.
+Juan de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.
+
+Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as
+dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão
+um rosario e um livro de missa.
+
+Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
+Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com
+que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.
+
+Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas
+moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por
+aquella pequena côrte.
+
+Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de
+suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de
+cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores,
+passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se
+aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.
+
+Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora.
+Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos
+muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _mãe
+dos pobres_.
+
+E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo
+principal do palacio.
+
+É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
+decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
+ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de
+columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é
+ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro
+de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos
+outros por lousas de marmore branco.
+
+Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza.
+O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um
+grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim,
+perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:
+
+--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...
+
+--Quem sabe, se tornarei a vê-las!...--respondeo o pagem com
+pronunciado acento de tristeza.
+
+--Pois porque não haveis de voltar?...
+
+--Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...
+
+--Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir
+atormentando com presagios pelo caminho...
+
+As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
+companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta
+pergunta á sua interlocutora:
+
+--Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo,
+na certeza de que ficaria bem guardado?
+
+--De mim!--exclamam todas a um tempo.
+
+--Como elle não póde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a
+Beatriz.
+
+--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graças pela preferencia...
+
+--Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...
+
+--Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...
+
+--Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora
+ao som d'elle:
+
+ _Con dos cuidados guerreo_
+ _que me dan pena y sospiro;_
+ _el uno quando no os veo,_
+ _el otro quando vos miro._[1]
+
+--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstração de
+alegria.
+
+--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
+esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do
+corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?
+
+--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.
+
+--Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
+jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o
+arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual,
+quando regressardes, recitai-os, Perico!...
+
+--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.
+
+Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de
+Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso
+são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques,
+marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se
+no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á
+côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o
+favor popular o romance brioso e sentido.
+
+Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados
+na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas.
+Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os
+romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha,
+anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte
+sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de
+Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos
+é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes
+esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a
+espada na mão do cavalleiro.»
+
+N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a
+familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.
+
+Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de
+gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam
+chispas de luz e de graça, e exclama:
+
+--Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...
+
+Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao
+animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da
+galeria inferior.
+
+O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em
+virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram
+tambem logo da galeria.
+
+Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
+olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu
+orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem
+feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora
+narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A
+famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar
+ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos
+Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos
+estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.
+
+São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão,
+que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena,
+recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte
+com dois mil cavallos».
+
+Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do
+palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de
+Portugal D. Juan de Guzman.
+
+Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
+qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto
+pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos
+mais disértos trovadores da sua côrte.
+
+Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente
+ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns
+romeiros, encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha
+ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam
+alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui
+passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar
+os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.
+
+As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a
+ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não
+logravam distinguir um só d'elles.
+
+--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?...
+Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar
+esse desejo.
+
+--E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de
+Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?...
+Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não
+tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares
+prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias
+de Sevilha?...
+
+Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas,
+feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.
+
+Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes,
+dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da
+Andaluzia, não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se
+apresenta.
+
+--Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os
+gabos de experimentados escudeiros?
+
+--É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro
+que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus
+ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.
+
+Ditosa mocidade!...
+
+Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
+exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _côrte de amor_.
+
+E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som
+da sanfona:
+
+ «Rosa fresca, rosa fresca,
+ tan garrida y con amor;
+ quando vos tuve em mis braços,
+ no vos supe servir, no,
+ y agora que os serviria
+ no vos puedo aver no.[2]
+ ............................
+ ............................
+
+
+
+
+II
+
+_CONSPIRAÇÃO_
+
+
+Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde
+poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos
+condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.
+
+Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de
+Portugal D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu
+á luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes
+demonstrações de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso
+Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irmã do rei, e padrinho,
+por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois, reunidas côrtes em
+Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se
+havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.
+
+Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de
+pagem da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido
+igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este
+mui solicito no serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as
+ordens do monarcha, de cujo favor e privança gozava com inveja e
+despeito de muitos, que não queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.
+
+Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;--o
+verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e
+divertindo-se.
+
+D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
+Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a
+este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon,
+que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.
+
+Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do
+rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.
+
+O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
+como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a
+Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.
+
+No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de
+Toledo e seus sequazes, para uma reunião secreta, que se realizou em
+um valle proximo de Alcalá de Henares.
+
+Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:
+
+--É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.
+
+--Não se me afigura empresa difficil...--acudio em tom pausado e sisudo
+o arcebispo de Toledo.
+
+--Convenho;--replicou Vilhena--mas ainda é numerosa a parcialidade do
+rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...
+
+--E a nós,--atalhou, recachando-se, o prelado toledano--embóra
+inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na
+perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo
+de Sevilha...
+
+--Sim, esse...--condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
+execução de ninguem confiava.--Lembrai, pois, um plano, e contai com o
+rei de Aragão.
+
+--Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em
+poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!
+
+Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da
+edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro,
+do que para menear o cajado pacifico do apostolo.
+
+O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu
+interlocutor, e, occultando cautelosamente o assombro, que lhe
+produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:
+
+--Como?...
+
+--Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la
+Cueva--respondeo serenamente o arcebispo.
+
+--E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis,
+o facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde
+explicar-se com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito.
+Álem d'isso a todos é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha,
+que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a
+ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja
+vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de
+mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal mulher, a
+conquista-las ás lançadas aos mouros...
+
+--E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de
+ninguem acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho
+offendido. Álem de que o vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as
+accusações feitas aos potentados, e até as avulta enormemente...
+Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa possivel, e, dado o
+escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em publico, sem
+correr o risco de ser apupado...
+
+--N'essas circumstancias deixará a infanta de ser a herdeira
+presumptiva da corôa...--contestou pausadamente o marquez.
+
+--Sem duvida!--atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
+marquez de Vilhena certo ar de indecisão.
+
+--Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...
+
+--Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter
+começado!--exclamou o arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o
+aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de
+o realizar?...
+
+--Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei
+de Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo
+nosso com a côrte aragoneza...
+
+--É habil esse lance!...--ponderou o arcebispo--Comtudo não vos
+esqueçais do arcebispo de Sevilha...
+
+--Seguramente...
+
+--Vejo, que nos comprehendemos...
+
+--Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
+restaurar...
+
+--O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e
+apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...--concluio o arcebispo, sorrindo
+ironicamente.
+
+--É uma creança que substitue outra...--observou Vilhena.
+
+--É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança, e D. Affonso hade
+obedecer ás nossas inspirações...
+
+Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores
+não confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era
+insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas
+palacianas, fazia consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e
+sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traças ardilosas, e
+palavras melicas. Não pretendia álem d'isso desaggravos tão cruentos,
+como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros
+conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de uma corôa,
+para a tornar ludibrio do mundo!
+
+O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão
+mostrando elles para gloria sua.
+
+Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de
+Aragão, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece,
+porém, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar,
+mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.
+
+Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em
+bocca o nome de _Beltraneja_, posto por elles á innocente infanta, e
+perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.
+
+Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
+baixeza, de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam
+_grandes de Castella_!
+
+Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
+saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo,
+para lhe propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio
+n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O
+marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando
+dos descontentes!
+
+Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
+apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a
+tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi;
+compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e
+pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.
+
+De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe
+diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma
+a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem
+o ser; pois que não era sua filha bem o sabiam elle e o conde!
+
+O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
+perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
+accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago,
+por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.
+
+Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma
+vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu
+turno, entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago,
+não por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em
+tudo servir D. Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.
+
+Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo
+ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um
+cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um
+manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mão e corôa na cabeça.
+Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo
+tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de
+Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de
+Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontapés,
+do cadafalso abaixo o vulto desataviado!
+
+O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe
+beijaram a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.
+
+Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
+instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!
+
+Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria
+abalado profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e
+covardia de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte
+sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os conjurados.
+
+Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
+grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção
+enthusiastica, feita á princeza D. Joanna em Saragoça.
+
+Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
+mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de
+Toledo lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a
+ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu
+testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou
+assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos
+actos, e preparou novas alicantinas.
+
+O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das
+muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D.
+Opas;--o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos
+homens conhecidos por traidores.
+
+Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
+negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que
+se ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar,
+que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma
+suspensão de armas por cinco mezes, dando azo a despedir-se das duas
+parcialidades gente, que foi infestar as povoações, a ponto de provocar
+a fundação das _Hermandades_, para perseguir os malfeitores.
+
+Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente
+comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de
+potentados, cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.
+
+O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
+serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã,
+casasse com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D.
+Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando,
+filho do rei de Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou
+por se oppôr tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.
+
+A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem
+fazer esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.
+
+O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e
+senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real,
+deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de
+Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do
+interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a
+Paulo II uma embaixada, participando-lhe, que tinham acclamado o
+infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em
+vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle
+os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava
+todas as classes á desobediencia.
+
+D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
+conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou,
+por não poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique
+vivesse... Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em
+competencia com D. Joanna, a quem chamou _supposta_ filha do monarcha.
+
+Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua
+irmã não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria
+honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os
+interesses da innocente infanta, sua filha.
+
+Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
+legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra
+tudo quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque
+havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe
+impossivel desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.
+
+Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido
+para D. Isabel.
+
+O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu
+neto D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de
+Vilhena oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para
+olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto
+antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda
+mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.
+
+Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a
+corôa sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades,
+buscavam em tudo elementos de perturbação, e a auctoridade real era
+incessantemente um joguete em suas mãos.
+
+Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
+previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada
+d'isso, porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia
+de um povo illustre uma pagina indecorosa.
+
+O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma
+nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os
+grandes de Castella.
+
+Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia,
+afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio
+arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não
+casaria, fosse com quem fosse, antes de elle regressar. A infanta,
+porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
+intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei
+de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante
+certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella
+encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do
+principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo
+o matrimonio realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter
+celebrado sem a dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo
+parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, nem
+difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á
+verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o
+breve indispensavel.
+
+Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma
+exposição, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as
+condições, em que se effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de
+solicitar o perdão do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito,
+preparado e conseguido tão auspiciosa união. Ao mesmo tempo Isabel
+dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a
+sua mudança de estado.
+
+Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!
+
+O desforço de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de côrtes
+no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar
+solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros
+de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de
+concessão feita por elle monarcha, pois lhe fôra esta arrancada á força,
+e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa
+assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procuração o
+casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, que
+se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
+assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra,
+que por meio de poderes especiaes havia empenhado.
+
+Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D.
+Affonso V, a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em
+dote os reinos de Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais
+receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto,
+deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar
+para genro o infante D. Henrique de Aragão, filho de outro, que,
+cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.
+
+Começou o anno de 1474.
+
+Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de
+Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no
+alcaçar com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia,
+recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para
+apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto
+IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que
+desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o
+irmão a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao
+marido uma prova publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando
+com grande comitiva ao alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado
+almoço. O rei comeo com sua irmã e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se
+tão mal, que foi mister leva-lo em braços para o palacio. Em quanto
+esteve de cama não cessaram as deligencias, para que declarasse sua irmã
+por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de
+Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
+Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
+sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo
+contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia
+um pêso, de que não podia alliviar-se.
+
+Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que
+falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois
+mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu
+filho D. Diogo, que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de
+Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, aos ultimos
+momentos do rei em Madrid.
+
+Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
+moribundo, perguntou a este o cardeal:
+
+--V. A. deixa testamento?
+
+--Deixo--respondeo Henrique IV.--O meu secretario Juan de Oviedo o
+apresentará.
+
+--E quem são os vossos testamenteiros?--continuou o cardeal.
+
+--Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o
+conde de Plasencia.
+
+--E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?--insistio ainda Mendoza.
+
+--A minha filha D. Joanna--replicou o monarcha serena e firmemente.
+
+Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora
+tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta
+das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!
+
+Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se
+acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um
+solemne _Te-Deum_, como se acabasse de alcançar o maior triumpho.
+Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes
+em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto
+d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o
+alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
+Henrique.
+
+Parece um sarcasmo!
+
+Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a
+successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a
+legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de
+que lançaram mão os rebeldes.
+
+Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.
+
+Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu
+criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a
+verdade, que é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem
+a escreve.
+
+O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
+desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a
+nodoa, com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.
+
+Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de
+Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D.
+Affonso V, que no conceito de Camões,
+
+ _Fôra por certo invicto cavalleiro,_
+ _Se não quizera ir ver a terra Iberica._
+
+
+
+
+III
+
+_NOVO ESCUDEIRO_
+
+
+Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de
+D. Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de
+Aragão principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia
+afinal decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em
+circumstancias mui diversas.
+
+Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna
+era uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem
+a necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se
+operava a favor da justa causa da princeza de Castella.
+
+Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das
+hostilidades, de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe,
+ficou inteiramente á mercê da versatilidade caracteristica de seus
+parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de seus odios particulares,
+e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por zelo do bem
+publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V, para
+lhes saciar a cobiça.
+
+Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o
+testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D.
+Joanna sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão,
+pedindo outrosim a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e
+casasse com a sobrinha.
+
+Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos
+grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo
+respeito ás praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer
+conselho, que contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não
+só quantos e quaes eram os magnates castelhanos legitimistas, como de
+certificar-se da valia d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque,
+seu camareiro-mór, depois conde de Penamacor.
+
+A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido
+pelo monarcha.
+
+Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito
+com ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente
+pediam a lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato
+grandes e pequenos.
+
+Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
+apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto
+entre ambos ficasse assentado.
+
+Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:
+
+--Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O
+reino sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de
+dissolução, caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de
+voss'alteza está o poder evita-la.
+
+--São esses os meus desejos;--replicou D. Affonso--mas, como sabeis, a
+empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que
+se propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.
+
+--Da parte de meu irmão--tornou Guzman--venho eu prestar homenagem a
+voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar,
+tomar e reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se
+desposar com a senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do
+governo de Castella.
+
+--O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como
+procede, offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.
+
+--Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a
+gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.
+
+--Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!
+
+D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados
+ademanes de cavalleiro:
+
+--Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que
+desde já põe ao serviço de voss'alteza.
+
+--É contingente valioso esse--observou D. Affonso.
+
+A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser
+definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.
+
+--Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da
+resposta de meu irmão.
+
+--Porquê?
+
+--Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D.
+Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois
+desejava enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que
+poderiamos entrar em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.
+
+--E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?
+
+--Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este
+numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella,
+pois muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão
+immediatamente.
+
+D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de
+ter já por si em Castella tão importantes forças; e com a sua
+habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:
+
+--Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais
+briosos certamente.
+
+--Mercê por elles, meu Senhor.
+
+--Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito
+gostará de conversar comvosco.
+
+É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra,
+sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe
+acceitar o papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.
+
+D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o
+tempo sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o
+pagem, que viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo
+sevilhano, o qual, mais talvez por alardear philaucias de familia, do
+que por enaltecer as qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu
+em resumo: que da Covilhan costumava ir a Sevilha o páe do pagem
+commerciar e conquistára grandes creditos. Tendo afinal estabelecido a
+sua residencia n'aquella cidade, onde era geralmente estimado, accedeu
+ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, de deixar-lhe educar o
+filho, então muito creança ainda, mas dotado já de singular viveza. Como
+fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o pagem
+inteiramente confiado ao amparo do duque. Possuia prendas muito
+estimaveis, poderia em breve ser um excellente cavalleiro, e chamava-se
+Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.
+
+Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite
+de terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia
+reconhecido isso na maneira como lhe fallavam d'elle.
+
+Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:
+
+--Quereis ser pagem do rei de Portugal?
+
+--Tudo quanto sou--respondeu Pero--devo ao senhor duque, por isso não
+tenho animo de separar-me d'elle.
+
+--Esperava essa resposta;--volveu Guzman--mas se eu vos pedir, que fiqueis?
+
+--Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.
+
+--Meu bom Perico!--exclamou affectuosamente Guzman.--Muito me custa
+deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de
+Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem
+servir; por isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão
+assentirá ao meu proposito.
+
+No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V
+dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já
+escudeiro, servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado
+ainda vinte annos.
+
+O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para
+Luiz XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por
+esposa a princesa D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande
+exercito, pois a isso o estava convidando a maior parte da grandeza
+castelhana. E sob o pretexto de recear, que na jornada sobreviesse ao
+seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o retardasse, escreveu de
+novo ao rei de França, insistindo agora principalmente em demonstrar os
+legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. Ponderava
+habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos
+os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a
+ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para
+França.
+
+Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz
+XI, que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um
+principe capaz de manter e conservar as antigas confederações e
+allianças d'esse reino com a França; mas contra todos em geral e sem
+excepção.
+
+N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da
+Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal
+ficasse comprehendido no tractado a celebrar com Castella.
+
+De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de
+Luiz XI; o que determinou este a promulgar uma carta patente sobre o
+soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de
+um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.
+
+Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o
+seu parecer--que foi archivado a seu pedido, para constar no
+futuro--ácerca da entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso,
+antes d'este se pôr em marcha, conversou ainda particularmente com o
+duque a respeito do assumpto.
+
+--Insistis na vossa opinião?--perguntou o monarcha ao duque de Bragança.
+
+--Certamente, meu Senhor--respondeu o duque.
+
+--Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que
+por Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?
+
+--Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses
+mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa
+sobrinha, são os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural,
+depondo-o do governo do reino.
+
+--Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que
+assiste a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus
+anteriores desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim
+grandes mercês?
+
+--O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende
+unicamente da sua ambição, e vem acompanhada de mais interesse, do
+que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas começar a
+ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa bandeira.
+
+--Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora
+descabida. Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a
+grandes perigos, offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se
+duvidassem do seu e meu triumpho?!
+
+--De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis.
+Mas superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e
+prudentes, tendo ao seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel
+por sua rainha. E uma acclamação, como esta, é vantagem muito grande no
+começo dos reinados, servindo até de justificar as pretensões mais
+duvidosas.
+
+--Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto
+não só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com
+outros tantos castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade
+engrossarão o meu exercito.
+
+--E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como
+em armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha
+decerto; e até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da
+Secilia, o rei de Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.
+
+--Sim, estão os meus adversarios bem aparentados; mas não os temo
+apesar d'isso, e eu tambem _não nasci das pedras_.[3] Conto
+igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, _que é
+mais fiel que todos os parentes e amigos_, e tenho sobretudo a Deus em
+meu auxilio.
+
+--Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti,
+porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal,
+filha de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a
+felicidade e a paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes
+de Castella. Não olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu
+cunhado, não queria ouvir fallar do casamento de voss'alteza com sua
+sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o mundo, sempre prompto a
+desacreditar as acções dos principes, a murmurar e attribuir esta guerra
+a algum odio reservado...
+
+--Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.
+
+--Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença,
+para ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real
+pessoa de voss'alteza e a minha, se necessario for.
+
+A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio
+de Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada
+por D. Isabel, proxima parenta do duque; suspeita essa, que dominou
+sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão fatal á casa de Bragança.
+
+D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido
+de que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V
+aproveitasse o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os
+dominios da corôa, e unificar os reinos da peninsula. Era vivamente
+applaudido por alguns fidalgos portuguezes, que observavam o invariavel
+preceito, de não soffrerem os principes contrariedade a seus gostos.
+Preferiam por isso ser aduladores, especie de péste endemica das côrtes,
+para a qual se não descobriu ainda remedio.
+
+O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e
+os successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a
+prudencia, do que lisonjear um principe.
+
+Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu
+filho primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em
+suas grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e
+dinheiro, sem que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia
+o seu legitimo rei, consideração alguma pelo parentesco, que tão
+estreitamente o ligava aos principes do partido contrario.
+
+Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade,
+sendo alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos,
+alguns dos quaes consumiam seus patrimonios e forças em guerras
+civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o influxo
+civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal,
+havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais
+acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de
+que era singularmente dotado.
+
+A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela
+Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano,
+iniciados pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle
+continuaria a obra do solitario de Sagres, uma vez que não fosse
+impellido pela generosa idéa de reparar uma affronta, feita a sua irmã,
+e de soccorrer uma orphã innocente e desamparada?
+
+E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?
+
+Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os
+codices da preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca
+Nacional de Lisboa, em um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito
+instructiva:
+
+«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento
+delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com
+a Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a
+Castella o Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje he
+Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em corte de Roma
+privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e asi
+outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o
+mesmo caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de
+Cecilia e Principe d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que
+primeiro foi Rei de Navarra, o qual casamento fez por mão do Arcebispo
+de Tolledo dom Affonso Carillo, e do Almirante avoo do dito Rei da parte
+de sua mãi, e fique em memoria que o fez porque o dito Senhor Rei Dom
+Affonso _a não quiz, querendo ella muito_, e depois elle a quisera e
+ella como as molheres naturalmente sam vingativas o não quiz quando elle
+quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar, como na verdade
+foi, _ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com o titolo de
+sua sobrinha_, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á Rainha Dona
+Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada sobcederão
+fique do Coronista ao carguo.»
+
+Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como
+vimos, a mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que o
+principe D. João casasse com a princeza de Castella, D. Joanna.
+D. Affonso dilatou a sua resolução, e sómente quando muito
+instado por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do
+marquez de Vilhena, mandou uma embaixada pedir a infanta. Os
+embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
+afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios
+brandos de reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de
+Toledo cuidou immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo
+em relêvo a dilação descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que
+preferisse Fernando de Aragão, e entendeu, que, para frustrar as idéas
+dos adversarios, devia fazer secretamente os preparativos, precipitar os
+tramites do negocio, e de um modo ou outro verificar o matrimonio, para
+que, realizado e consumado, não désse lugar ao _arrependimento da
+princeza_. E maior préssa se deu ainda, quando soube, que de Roma havia
+sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de 1469,
+concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então um breve
+apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio
+II, pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento
+da consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o
+sigillo e realizar o negocio com promptidão.
+
+O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e
+commetter torpezas.
+
+
+
+
+IV
+
+_JORNADA INFELIZ_
+
+
+Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde
+mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o
+_Regimento de Guerra_, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
+de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a
+hoste assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a
+bandeira real mettida na funda.
+
+Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475,
+D. Affonso V
+
+ ...................«tocado de ambição
+ E gloria de mandar amara e bella,
+ Sai cometter Fernando de Aragão,
+ Sobre o potente reino de Castella.»[4]
+
+Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva,
+Ruy Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram
+a Piedra Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e
+seiscentos cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V,
+que tomou então o supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o
+marechal, o ouvidor da hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos,
+cavalleiros e capitães, a quem recommendou obediencia em tudo aos quatro
+primeiros; verificou o numero da gente que havia, e deu as necessarias
+providencias no tocante á ordenança, que as tropas deviam conservar
+durante a marcha.
+
+Na frente saíu o _adail-mór_ com um troço de ginetes, formando a guarda
+avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do
+arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da
+vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a,
+o condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava
+as alas a fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a
+rectaguarda não mediava mais de um tiro de bésta, a fim de poderem
+mutuamente soccorrer-se.
+
+Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na
+vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa
+dignidade estavam repartidas por D. João, marquez de Montemór, filho
+do duque de Bragança D. Fernando I, e por seu irmão o duque de Guimarães.
+
+A cavallaria compunha-se de _cavalleiros_ e _escudeiros_ de geração
+nobre; de _lanças_, que os senhores de terras tinham obrigação de dar,
+acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de
+_cavalleiros_ da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a
+contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes
+sómente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou
+rezenha das praças, que constituiam os corpos chamados bésteria,
+denominando-se _bésteiros do conto_ tanto os de cavallo, como os de pé.
+
+Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou _á gineta_. Na primeira,
+o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, os
+cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos
+curtos no apparelho do cavallo.
+
+A infanteria constava de _bésteiros_, _espingardeiros_ e _piqueiros de pé_.
+
+Na bésteria differençavam-se os chamados de _polé_, por trazerem bésta,
+que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os _bésteiros da camara_,
+que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; _bésteiros de
+garrucha_, mais abastados e considerados, que os de polé, armados com
+bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e solhas
+para arremessar virotões; _bésteiros_ _de fraldilha_, por levarem
+uma fralda de couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do
+inimigo; e _bésteiros do monte_ ou caçadores.
+
+Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais,
+á medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi
+acolhida, durante muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria,
+que considerava cobardes similhantes armas, com especialidade as
+portateis. No reinado de D. João II apparece já o cargo de _anadél-mór_
+dos espingardeiros, concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa
+real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498
+os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da camara, todos os
+cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando unicamente os
+bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e Algarve,
+com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como
+consta da carta de 29 de maio de 1499.
+
+A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a
+quem pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os
+alojamentos; executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do
+condestavel; e julgar as causas civeis e crimes das gentes de guerra,
+levando um ouvidor comsigo para esse fim.
+
+O _alféres-mór_ levava a _signa_ ou _bandeira_, a qual não estendia ou
+desenrolava sem especial determinação do rei, quando estivessem á
+vista do inimigo, e costumava ter um _alferes pequeno_, que o
+substituia. As bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e
+estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre
+estendidos os balsões ou insignias. No guião do rei via-se a divisa que
+Affonso V tomára por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de
+moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda _Jámais_.
+Com oito ou dez pendões pequenos era balizado e divisado o lugar
+escolhido para acampar.
+
+Havia um _aposentador-mór_, que de ante-mão preparava os quarteis das
+tropas, quando estas se mobilisavam. O _capitão de ginetes_ era o
+general de cavallaria; o _adail-mór_, o capitão dos bésteiros; e o
+_coudel-mór_ commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam
+a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por _coudeis_.
+
+Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou
+escudeiros, commandados por um _guarda-mór_. Eram escolhidos, e andavam
+armados de cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz
+assistiam no paço junto da real camara. Algumas vezes o soberano
+encarregava tambem da sua guarda o capitão de ginetes, sendo então de
+duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como
+os da camara real.
+
+Segundo prescrevia o _Regimento_, os soldados ou gente de guerra deviam
+trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e
+tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As
+trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou
+chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o
+nosso exercito usou tambem dos atabales.
+
+O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente
+conduzido. Estava a cargo de um _védor-mór_, aprompta-lo e pô-lo em marcha.
+
+Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um _regimento_
+proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava
+ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse
+indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
+como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que
+houvesse necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava
+conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de
+gastadores, para abrir caminho.
+
+O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui
+regressou a Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o
+norte, indo fazer alto em Plasencia.
+
+D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de
+D. Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar
+o seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do
+rei de França, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas
+monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de Salamanca uma carta
+sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leão, e
+mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem
+fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de
+Aragão.
+
+Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava
+acompanhada dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates,
+e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de
+intitular-se rei de Castella, Leão e Portugal.
+
+Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis
+de Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e
+outros contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união
+áquelle que mais afortunado fosse.
+
+D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas
+se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das
+diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o
+favor de muitas povoações, visto serem mui versateis e caros os
+magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as
+sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e
+enviava soccorros ao exercito, que seu marido commandava, para
+conter o progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de
+Leão. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a
+importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na
+depravada e cupida aristocracia. Lançava finalmente mão do thezouro de
+Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de Contrera, a quem mais
+tarde brindou com o Marquezado de Moya.
+
+Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de
+Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro
+estrategico; pois, segundo Zurita, «foi de grande remedio para a
+conservação do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se
+a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo
+este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se fórte em
+Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou
+descontente por não ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar
+do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim
+procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a
+maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os
+corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e
+determinou-o a propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua
+mulher.
+
+Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se a miude as
+incursões de nossos visinhos. Até o primogenito do duque de Medina
+Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais audacioso do que prudente, fez
+uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.
+
+Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco
+depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D.
+Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com
+o marquez de Cadiz.
+
+E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella
+jornada de D. Juan de Guzman?
+
+--O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um
+espião.
+
+Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o
+principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz,
+escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos
+lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as
+estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraçarem os castelhanos,
+que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do
+terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao
+mesmo tempo da conservação e defesa do reino.
+
+Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para
+premio de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de
+Penamacor, saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a
+quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por
+Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca
+do movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era
+chamado e levado para soccorrer.
+
+O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia,
+n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não
+podemos denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos
+afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha
+campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.
+
+Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no
+perigo, em que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus
+quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o
+arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo
+convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu
+com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: _que a tinha livrado
+de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca_.
+
+De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse
+vê-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se
+tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas
+torres, que defendiam a ponte sobre o Douro, á entrada de Zamora, se
+tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. João na
+sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu
+filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do
+qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da
+guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio
+a nado, para se furtar á vigilancia do inimigo.
+
+Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o
+poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se
+permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais
+temor, que confiança, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro,
+onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.
+
+Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario,
+em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu
+empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro,
+tendo tomado á força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta
+dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima
+dos muros de Toro riram-se d'essa façanha, e cobriram de motejos o
+auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D.
+Affonso V, que não tornou á requesta. Então Fernando foi sitiar o
+castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia,
+onde não havia esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu
+de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor.
+Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas
+horas, retirava já para Toro, por lhe parecer que Fernando saía a
+pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da cidade, aguardou-o no campo
+outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que
+blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até fugira. Tendo o
+nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de
+Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
+denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma
+costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.
+
+Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso
+V e D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a
+rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou,
+allegando haver grande desigualdade no penhor.
+
+D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que
+já tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se
+levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes
+condições, fazendo questão de igualdade das pessoas, era confessar que
+não queria o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a sua
+mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude
+conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.
+
+Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o
+principe D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil
+infantes e dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia
+de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos
+magnates, á medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa,
+permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.
+
+Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio
+portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no
+coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.
+
+A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista,
+depois da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as
+torres e conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas
+não seria necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas
+na difficuldade!
+
+D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.
+
+--Para que?
+
+Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde
+tremulava ainda a bandeira portugueza, pois tinha de permeio o rio,
+invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma
+batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma
+superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e
+tendo cobertas todas as communicações importantes.
+
+Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte
+de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde
+de Villa Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu
+bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto
+e assentou o arraial.
+
+Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno
+alcance das bôcas de fogo, mas preceito do _Regimento de guerra_, para
+fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte
+estava enfiada pela nossa artilheria.
+
+Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o
+damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena
+trégoa para concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir
+meio conciliador, de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores
+d'ella. A sêde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e
+outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos
+exercitos podia invejar ao outro a sua situação. O nosso, além de
+luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz
+extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo
+que as chuvas e neves o iam já desimando, começava a falta de viveres a
+fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.
+
+Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de
+que Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita
+do Douro. D. Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o
+passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade,
+onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a
+marcha, que Fernando não havia saido de Zamora, mas tinha para o bater,
+em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanças, commandadas
+pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de Fernando. D. João
+obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que tomára seu páe,
+e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.
+
+Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que
+começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos
+nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a
+nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.
+
+Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda;
+mas D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde
+lhe deram a nova, pois tão apertado era, marchou para a planicie, e
+ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.
+
+D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de
+formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição
+d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as
+em duas grandes fracções. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao
+principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.
+
+Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
+capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, _vindo na reserva_ Fernando de
+Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o
+cardeal Mendoza.
+
+Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
+rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças,
+pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de
+dispôrem finalmente de infanteria mais numerosa.
+
+Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma
+de infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e
+uniformidade de seus movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á
+cavallaria, olvidando-se a maxima dos antigos, prudentemente restaurada
+pela illustração militar dos nossos tempos, de que a infanteria é o
+agente principal do combate, ou, como poeticamente dizem alguns, a
+rainha das batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de
+nobreza valente e déstra, mas pouco subordinada, bem como dos
+contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a disciplina
+e outros requisitos essenciaes da sua organisação. N'este encontro de
+Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria
+ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, não soube
+mostrar-se disciplinado.
+
+Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois
+exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol
+têr-se posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva
+miuda e persistente.
+
+Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o
+convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do
+adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado
+pelas trombetas, fosse o primeiro a romper.
+
+Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, _por S. Jorge e S. Christovão_,
+invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza,
+clamando com os seus por _S. Thiago e S. Lazaro_.
+
+Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas
+obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo
+d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o
+inimigo, a nossa cavallaria, como se fôra uma forte muralha de
+lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel,
+sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram
+quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos,
+com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais
+completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á
+carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o
+effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do
+inimigo. E por isso Fernando de Aragão--um moço de vinte e seis
+annos!--que, para não expor a vida á contingencia de um golpe do seu
+adversario, se collocára a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a
+hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem
+tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua
+boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que
+correram sobre elle.
+
+Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do
+rei da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o
+animo tê-la embainhada, e lança-se no combate.
+
+Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da
+cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças
+arremessadas com furia; retingem-se de sangue as espadas nos crébros
+golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do
+peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam,
+similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de
+dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e
+servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida,
+desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de
+accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da
+multidão, ou á do esforço.
+
+Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de
+Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a
+cavallo--o que para a nossa hoste era uma novidade--dão uma descarga,
+que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o
+adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o
+momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.
+
+Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no
+ultimo choque.
+
+D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado
+expôr ás contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava.
+Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle
+
+ «Que a suberba do barbaro fronteiro
+ Tornou em baixa, e humillima miseria.»
+
+Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os
+cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam,
+percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e,
+fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com
+que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais
+fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na
+bainha.
+
+Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos
+nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se
+a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante:
+acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não
+era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto
+planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do
+ultimo conflicto.
+
+Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das
+cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa
+quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua
+visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis
+relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em
+que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um
+homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela
+cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal
+era a confiança que depositava no valor de seu filho e no dos
+companheiros, que lhe deu.
+
+Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um
+porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega.
+Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os
+feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste,
+tio de Fernando de Aragão.
+
+Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque
+estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para
+entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua
+temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro
+inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram
+outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro
+Gonçalo Pires, levando a bandeira real, que por instantes tremulára na
+mão de um castelhano.
+
+Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade,
+que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe
+arrebataram depois de uma lucta titanica.
+
+Singulares contrastes!
+
+Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,
+onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para
+immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o
+appellido de _Bandeira_; a outra, o cognome de _Decepado_ a Duarte
+de Almeida.
+
+ «Cercado por toda a parte
+ Sua espada se partiu.
+ Por guardar seu estandarte,
+ D'arma o estandarte serviu:
+ A dextra mão jaz por terra,
+ O seu guante a não guardou;
+ O pendão na sextra aferra,
+ E a mão perdida vingou:
+ Outro golpe lhe sepára
+ A sextra mão que segura
+ A bandeira, que jurára
+ Conservar intacta e pura:
+ Nem assim perde a bandeira,
+ N'hastea dura os dentes crava,
+ Quando lança traiçoeira
+ Seu ginete lhe prostava:
+ Cahe no chão o cavalleiro
+ Sem vida, quasi expirando,
+ E ficou prisioneiro
+ D'illustre rey Dom Fernando.
+ Mas a bandeira regada
+ Pelo sangue portuguez,
+ Por Goncal'Pires livrada
+ Breve foi, logo outra vez.»
+
+Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de
+Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma
+era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o
+honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a
+Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e
+sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.
+
+A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois _per força e
+como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a
+levava_ (a bandeira), _e o prendeo sobre sua menagem_,[5]
+abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam
+correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.
+
+Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres
+dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso
+mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.
+
+O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma
+deliberação.
+
+Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem
+mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre
+umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.
+
+--Cães de portuguezes!--grunhia um.--Por causa d'elles fizeram de nós
+morcêgos!...
+
+--Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de
+Malaga!--tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava,
+levando o cavallo á mão.
+
+--Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar--observou o
+outro, sem nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu
+interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.
+
+--Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles
+malditos!--exclamou o cavalleiro.--Mas, Virgem Santissima! o que
+estaremos nós aqui a fazer?--perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa
+estivesse a verrumar-lhe o entendimento.
+
+--Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...
+
+--Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.
+
+--Fugiu, não direi... Retirou...
+
+--Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do
+campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da
+_Beltraneja_, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois
+tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na
+direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.
+
+--Sim, é o mais certo;--replicou em tom indifferente o cavalleiro.
+
+Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os
+biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a
+cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.
+
+Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se
+concentravam no acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do
+silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.
+
+D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres
+dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo
+de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a
+bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem
+mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.
+
+Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o
+interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do
+que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de
+Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio
+de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de
+Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.
+
+--Não merece--exclamou alto e bom som--o nome de cavalleiro, quem
+abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!
+
+E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:
+
+--O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?
+
+Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João,
+appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:
+
+--El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são
+está, por isso sejais tranquillo.
+
+--E onde está el-rei, nosso senhor?!...--perguntou com alvoroço o
+principe real.
+
+--Em Castro Nunho.
+
+--Quem nos trouxe tão bom recado?
+
+--El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.
+
+A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de
+trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de
+alegria, feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o
+principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de
+numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.
+
+Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do
+rei, pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do
+principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa
+refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.
+
+Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:
+
+--Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?
+
+--Facilmente, meu senhor--respondeu Pero da Covilhan com a maior
+naturalidade.--Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr,
+que em nosso campo não havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso
+de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As
+trévas da noite, e a confusão que reinava no campo contrario, poderiam
+talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de
+que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha,
+e fui á ventura.
+
+--Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a
+vida--atalhou o principe.
+
+--Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que
+imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a
+voss'alteza.--A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando
+caminhava na direcção da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos.
+Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do inimigo, que estavam em descanço.
+Quasi não repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho,
+e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei
+retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar
+isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já voss'alteza.
+Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do acampamento sem
+licença de voss'alteza.
+
+--Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se
+alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que
+pelejastes a meu lado.
+
+--Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...
+
+Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da
+Covilhan, como veremos.
+
+O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da
+desgraçada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho,
+regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem
+pensar que o revéz de Toro fôra o occaso de sua gloria guerreira.
+Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam
+caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não fosse para o
+seu competidor tão adversa.
+
+Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca
+temera a morte.
+
+Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para
+ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da
+expiação. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar
+vingança eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.
+
+Justiça da Providencia!
+
+
+
+
+V
+
+_ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA_
+
+
+Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha
+nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua
+temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o
+Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua
+missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores,
+por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua
+boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os
+principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus
+interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: _quem não
+sabe dissimular, não sabe reinar_; e que, por elle ser assás astucioso e
+perfido, lhe chamavam _a raposa_.
+
+Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o
+tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar
+Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a
+confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre
+estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da
+outra por D. Affonso V, rei de Castella.
+
+O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as
+estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da
+Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e
+negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro
+da paz com o duque de Borgonha.
+
+Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho,
+pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a
+ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus
+desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de
+arriscar mais uma vez a sua reputação.
+
+Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para
+França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em
+uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos
+homens.
+
+A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo
+foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os
+cumprimentos, que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa,
+com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os
+navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que
+fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do
+conflicto de Toro.
+
+Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e
+teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao
+requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.
+
+De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de
+notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde
+deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D.
+Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a
+estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde
+lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso
+cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI
+déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante.
+Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,
+fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o
+entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre
+outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de
+benidictinos. Era o _Lancelote do Lago_, romance de cavallaria escripto
+em latim, na leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII
+aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da
+_Tavola Redonda_. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D.
+Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus
+agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por
+isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.
+
+Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as
+chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos
+dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o
+seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.
+
+Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de
+Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede.
+Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos
+ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois
+principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial
+da entrevista.
+
+A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França
+«vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e
+duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á
+cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos
+pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma béca de
+chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e
+suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.
+
+«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os
+joelhos muito baixos.
+
+«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os
+olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S.
+Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta
+mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que
+elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém
+elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu,
+porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de
+Portugal.
+
+«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre
+quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados
+debates.»[6]
+
+Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal
+apresentar-se humilde até á repugnancia!
+
+Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours
+para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os
+monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder
+casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.
+
+Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no
+coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque
+de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com
+quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois
+soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu
+proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos
+resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a
+fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna,
+e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o
+bom exito da empreza de Castella.
+
+O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe
+apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era
+homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o
+aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a
+soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar
+o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de
+Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.
+
+Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á
+concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e
+assim fez.
+
+Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu
+inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a
+presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo
+sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha
+propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha
+agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o
+preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios,
+mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao
+territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os
+passos de seus agentes.
+
+Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de
+Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha
+diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de
+Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a
+curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal;
+mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em
+melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a
+questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente
+a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez
+supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando
+implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa
+potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma
+condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que
+era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.
+
+A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com
+elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso
+no encontro dos dois monarchas em Arras.
+
+Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de
+Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma
+abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e
+recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica
+tortuosa de Luiz XI.
+
+Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos
+para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de
+embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios
+para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi
+todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de
+preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em
+escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um
+cofre, cuja chave trazia comsigo.
+
+Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:
+
+--Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas
+tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér
+tambem.
+
+Ao que Pero da Covilhan respondeu:
+
+--Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever
+meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado
+ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal,
+sem que vá com o meu rei e Senhor.
+
+--Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa,
+dando-me algum allivio o desabafo.--Quando enviuvei, prometti deixar o
+mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho,
+estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a
+empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua
+vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi,
+como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta
+nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por
+sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo
+infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus
+negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava
+de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os
+principes, que vivem e morrem na regencia de seus estados, com
+difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução
+de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois
+de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não
+deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco
+honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados
+juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa,
+e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e
+passarei o resto de meus dias em uma clausura.
+
+Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!
+
+--Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade
+tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não
+quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e
+muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os
+infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto
+porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de
+voss'alteza e da nossa patria querida?!...
+
+D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
+impressionado:
+
+--Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os
+destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o
+barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua espada. Vós lá
+sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos
+plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande
+estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem
+elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a
+buscar-me a Castro Nunho.
+
+Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan,
+que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.
+
+Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
+peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava
+com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de
+grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço
+escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.
+
+Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o
+rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara
+e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o
+fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde
+effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos
+moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus
+escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva
+estivesse presente.
+
+Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI
+acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava
+em regressar do seu passeio.
+
+Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente,
+que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse
+pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral
+inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.
+
+Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram
+encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na
+qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os
+portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o
+determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D.
+João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com
+paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar
+immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e
+determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e
+verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual
+nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.
+
+Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo
+ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se
+tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha vindo a França tratar
+de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi
+D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco
+em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.
+
+Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que
+trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que
+levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por
+toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual
+fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir
+graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e
+acompanhavam o seu soberano.
+
+Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um
+cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia
+da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para
+melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro
+fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação,
+e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a
+Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét,
+participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com
+acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.
+
+O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V,
+e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo
+junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu
+proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e
+pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim
+D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito
+consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em
+Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de
+Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França,
+onde se sentia sobre brasas.
+
+Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de
+Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a
+tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat,
+cognominado _o Grego_.
+
+O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações
+de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o
+trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no
+coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente
+logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria
+a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe
+esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e
+alliado...
+
+D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos
+que cultivavam as lettras; por isso, durante a viagem, algumas
+vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras
+composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito
+folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel;
+e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes
+descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos
+lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de
+Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.
+
+Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios
+aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do
+que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira,
+pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que
+seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.
+
+Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi
+surgir a Oeiras.
+
+No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que
+mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por
+obediencia havia empunhado.
+
+A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna.
+O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a
+sua graça. O proprio Beltran de La Cueva recebia mercês d'estes
+principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e
+Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de
+Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano,
+rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este,
+enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes
+condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.
+
+Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de
+1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer
+confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com
+Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de
+Castella.
+
+Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns
+magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas
+estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a
+guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos
+castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e
+receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de
+Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações.
+A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim
+as partes interessadas.
+
+Para entabolar as negociações, avistaram-se na villa de Alcantara,
+em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do
+infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem
+ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479,
+celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e
+os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o
+principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por
+palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D.
+Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os
+rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o
+principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria
+indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.
+
+Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de
+Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.
+
+Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em
+terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não
+querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de
+Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era
+obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.
+
+No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do
+principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse
+com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,
+devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta
+D. Beatriz.
+
+Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de
+ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam,
+originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a
+especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.
+
+Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes
+successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi
+victima a innocente princeza D. Joanna:
+
+«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua
+liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e
+com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de
+rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas
+que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe
+da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e
+cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior
+seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e
+vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro
+mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.
+E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim
+o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D.
+Affonso seu páe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se
+escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a
+cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
+sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo
+contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e
+temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do
+casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma
+esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú
+algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a
+tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos
+innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que
+tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
+Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira
+crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o
+principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora,
+viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a
+quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os
+de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de
+terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza
+sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do
+verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas
+delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo
+vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental
+proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua
+conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos
+de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos
+esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas
+e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr
+aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar
+estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso
+juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento
+d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e
+mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que
+se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles
+viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo
+pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e
+juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida,
+filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum
+d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta
+esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente
+que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes
+mais chegados».
+
+Depois da profissão da _Excellente Senhora_--tratamento dado a D. Joanna
+tanto que vestiu o habito de clarista--D. Affonso V quiz abdicar e
+recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a
+morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de
+1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde
+se ouvira o seu primeiro vagido.
+
+A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a
+sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos
+de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.
+
+Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com
+Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,
+rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro
+lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um
+momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com
+nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe,
+preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com
+sessenta annos de edade.
+
+Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a
+quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E,
+como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá
+desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas
+da pobre princeza.
+
+Malfadada condição a sua!
+
+Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e
+ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da
+peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a
+reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro
+quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.
+
+Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
+patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de
+que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a
+estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.
+
+O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as
+leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a
+macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.
+
+Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de
+Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade
+hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos
+elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.
+
+Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o
+poder da realeza.
+
+
+
+
+VI
+
+_PESQUIZAS_
+
+
+Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II
+para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de
+Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos
+serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do
+novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.
+
+Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros
+particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade
+contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes
+qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade
+e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de
+contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de
+armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor,
+cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
+sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
+_vassallos d'el-rei_, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas
+em Evora a 12 de setembro de 1481.
+
+Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da
+sua guarda.
+
+Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em
+Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava
+grande prazer de achar-se rodeado de cortezãos dotados de boas prendas,
+e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença
+das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da
+rainha D. Leonor.
+
+Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de
+vêr dançar com primor a _retorta mourisca_ pelas damas trajando ao uso
+arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro
+emfim a lembrar os desafios poeticos, as _côrtes de amôr_, o _jogo dos
+naipes_, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante,
+de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.
+
+Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
+educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do
+real _jardim de formosura_, como depois Gil Vicente chamou ao
+estrado das damas de D. Leonor.
+
+Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em
+verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros,
+torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de
+desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem
+repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas
+casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada,
+quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em
+aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
+linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo
+reprezenta o _Cancioneiro Geral_, de Garcia de Rezende.
+
+Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:
+
+--Amo-vos!...
+
+Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude
+articular uma palavra.
+
+Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
+comsigo mesma:
+
+--Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas
+traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a
+sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...
+
+Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava
+desculpa alguma para o seu silencio. Até pelo seu espirito passou o
+receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de
+que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é
+sempre facil de responder.
+
+Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas
+retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que
+elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração,
+cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é
+que salta a faisca sagrada.
+
+Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não
+fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se
+comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o
+sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.
+
+Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal
+soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando
+elle surgiu, disse-lhe:
+
+--Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura
+tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da
+rainha, minha Senhora?...
+
+--Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me
+tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o
+levasse a bem...--respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do
+sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que
+para o tranquillizar lhe affirmou:
+
+--Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha
+real ama...
+
+--Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
+supplicando.
+
+--Porquê?!...--perguntou Thereza meio admirada.
+
+--Porque não vos mereço ainda...
+
+--Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...
+
+--Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que
+espereis...
+
+--Esperarei.
+
+--Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre,
+virei offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha
+felicidade... Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...
+
+--Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia
+D. João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde
+provêem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se
+fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina
+Sidonia, e tantas outras...
+
+--Assim é; mas...
+
+--Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo...
+Não tendes a nobreza por herança e patrimonio? Haveis de merece-la
+e ganha-la!... É crença minha.
+
+--Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
+peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...
+
+--Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos
+avós envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de
+que não é nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo...
+Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos
+escudeiros sabemos todos, que muitos lá ficaram...
+
+--Morreram no seu posto...
+
+--Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume
+foi sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo
+dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que
+sobreviveram!... A vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não
+vo'-lo provou já, enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á
+Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...
+
+--Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não
+mereço... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao
+lado de sua alteza ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos
+discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me
+sinto orgulhoso de vos amar!...
+
+--E eu de ser por vós amada!...
+
+--Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha
+de elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...
+
+--Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...
+
+--Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós
+sois já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...
+
+--Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu
+saiba corresponder ás vossas esperanças!
+
+--Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe
+de Deus, Thereza!...
+
+--Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
+minha Senhora. Adeus.
+
+Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos,
+apenas soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:
+
+--Encantadora!...
+
+E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração
+virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos
+primeiros raios do sol em alegre manhã de primavera. A sua alma
+desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma
+aspiração, que tinha alguma cousa de infinito, invocava não sabia bem o
+quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava, que geralmente o
+interesse era o verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos
+servidores das damas, senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o
+coração vasio de affeições, que, se os recommendasse o prestigio das
+suas riquezas, ou a fascinação do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os
+seus galanteios. Maria Thereza, porém, aspirava á posse de uma alma,
+como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um coração,
+como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois
+thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna
+ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua privação irreparavel.
+
+A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para
+o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados
+com a sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e
+moral do seu espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da
+imaginação, nem lhe roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára.
+Dando á imaginação o que justamente lhe pertencia, purificando-a e
+dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia
+forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um coração que soubesse
+querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe deixassem trilhar
+sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da honra.
+
+Que mãe de familia com taes dotes!
+
+Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
+paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como
+quem prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo
+passo encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico,
+dizendo-lhe, que sem ella não pode haver vida de familia, como sem
+templo não existe religião, que se avigóre.
+
+Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
+pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós
+como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar
+consagrado pelas alegrias e pelos pezáres communs da familia.
+
+Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza
+promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e
+risonha, velando tudo, tomando o maior quinhão nos dissabores do
+trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforços, aconselhando-o,
+inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por
+isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as mais duras
+inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma
+reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas,
+o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar
+de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e
+deliciava-se ao imagina-lo.
+
+Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos,
+desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os
+primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento
+deixou de ser uma paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma
+virtude, que havia de eleva-lo.
+
+O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
+nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma
+aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João
+II para premiar, tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam
+as habituaes murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral,
+occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e
+aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar
+trovando nos serões do paço, nada mais faziam do que folgazar dia e
+noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.
+
+Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria
+de Pero da Covilhan.
+
+Desinteressado amor!
+
+A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a
+burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e
+da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama,
+e segunda mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão.
+Exultava por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia
+para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada o
+distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade
+maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre
+inflammado o coração.
+
+Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer
+a Maria Thereza:
+
+--De novo passo á Barberia.
+
+--Deus vos guie!--respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.--Comvosco
+vae tambem o meu coração, que é vosso.
+
+Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria
+Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza
+pelo apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente
+eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da
+saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.
+
+D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava
+insaciavel e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava
+seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual
+tivera por doação real a governança, quando principe ainda. Para ser
+miudamente informado ácerca do que se passava n'esses lugares, enviou lá
+Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com
+Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a ossada de D.
+Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva
+da viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque
+de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem
+Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com
+particular interesse, consoante á carinhosa rainha merecia, quanto
+tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais tarde rei.
+
+Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.
+
+Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já
+outro encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a
+realisação do plano politico de D. João II.
+
+Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos
+dos mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.
+
+--Bem o fizestes--disse-lhe o rei--; e agora--muito secretamente--espéro
+de vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor,
+mui ditoso em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o
+cansaço da viagem, de sair já de nossos reinos?
+
+--Préstes estou, meu Senhor e rei--respondeu Pero da Covilhan.--Peza-me,
+porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
+voss'alteza...
+
+--Embóra, ireis, que Deus vos guardará.--A descobrir e saber do Preste
+João, e onde se acham a canella e as outras especiarias, que das
+terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um homem da casa de
+Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui
+fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
+entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais.
+Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso
+valor e discernimento muito mais confio...
+
+--Mercê a voss'alteza, meu Senhor...
+
+--O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da
+Guiné podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se
+tambem por lá, se a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.
+
+--Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê,
+por que beijo a mão de voss'alteza.
+
+--Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que
+vos dou para auxiliar-vos.
+
+Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já
+sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o
+mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião
+e á patria bons serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa
+viagem, mas não resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de
+amor:
+
+--Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...
+
+--A Virgem vos ouça!--exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
+radiante.--A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu
+ficar-vos-hei esperando... de outro jámais serei!...
+
+E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
+revigóra.
+
+Nem um uma lagrima derramaram!
+
+As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se
+prova, com as que se deixam de chorar.
+
+Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a
+dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle,
+porém, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta
+ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas,
+que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino,
+com que mutuamente se queriam.
+
+No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a
+seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se
+apresentou já com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa
+de Pedro d'Alcaçova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o _Calçadilha_,
+depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés,
+os quaes tomavam com o primeiro parte na _junta dos cosmographos_.
+N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do
+Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.
+
+Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das
+despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes
+Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a
+fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma
+carta de credito, dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para
+que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim
+portador de cartas em arabico para o Préste, nas quaes D. João II
+significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle
+relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela
+costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras
+era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem
+communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse exalçada.
+
+E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.
+
+
+
+
+VII
+
+_EM RHODES_
+
+
+Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona,
+passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se
+logo á casa commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi
+dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica
+dito.
+
+Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de
+Rhodes uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes.
+Proseguiram n'ella, pois.
+
+Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu,
+tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por
+uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas
+tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia
+pungindo a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a náu,
+que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde
+o destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para
+ficar com Thereza.
+
+Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez
+mais da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que
+desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela
+impressão viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o
+coração.
+
+A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas
+pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e,
+proejando para Rhodes, surge n'este porto.
+
+Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.
+
+Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de
+Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha
+propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do
+Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e
+insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam
+aquelles mares, vexando os christãos, roubando e fazendo captivos muitos
+d'elles.
+
+Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras,
+com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não
+só davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que
+visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos e furias dos
+mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até ao
+coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir
+ás virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o
+não terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.
+
+Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta
+e frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e
+brilhante defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em
+1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era,
+receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A
+breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiança e lhaneza de
+trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que não só se conserva
+intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais
+o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.
+
+Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do
+assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este;
+reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem
+situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao
+inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio dos
+rhodios, que tão notavel incremento havia já tomado; aos intrepidos
+viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das mais
+florescentes cidades da Asia.
+
+Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o
+fazia, foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações.
+Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau,
+que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre
+alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.
+
+Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que
+d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe
+não entrassem soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a
+bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da
+Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e não poude
+occultar a commoção de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas
+á galhardia dos nossos.
+
+Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da
+guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então
+os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do
+Omnipotente, do que ao esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr.
+Fernão de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para
+a derrota dos turcos.
+
+--Depois de assalto á cidade fugiram para ella grande numero de
+turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o grão-mestre acudido
+ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam
+pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. João Baptista,
+alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo instante viram
+os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da côr de
+ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos
+vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um
+homem vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e
+logo um luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas,
+correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta
+visão--diziam os desertores--ficaram os turcos tão assustados e
+attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, não se atreveram passar
+adeante; e os que já estavam interessados na lucta, conceberam tanto
+medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embaraço
+se mataram uns aos outros.
+
+--Vencemos!--concluiu frei Fernão--. Mas sem aquelle celeste auxilio não
+podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas
+forças dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com
+grande gloria dos christãos e a mór affronta dos infieis!... E a
+proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. João II, sendo tão
+catholico, tenha a sua attenção distrahida para Africa, e não nos
+auxilie em nossa empreza!...
+
+--Estou certo--retorquiu Pero da Covilhan--de que el-rei, meu Senhor,
+admira os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento
+da sagrada milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias
+do reino, não podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais
+porventura, que sua alteza deve consentir á sua porta, a vexar a
+christandade, o agareno insolito e maldito?...
+
+--Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem
+duvida obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se
+tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...
+
+--Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta
+podésse ir á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica
+n'essas regiões remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...
+
+--Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um
+tal proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...
+
+--Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O
+que vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos
+aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma
+barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar;
+por isso natural é, que estejamos sempre anciosos de vencer esse
+obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia
+os primeiros navegadores do mundo?!...
+
+--Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas...
+Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em
+Alexandria fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos
+mares, sem que ninguem póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura
+ella sonhasse, que por mar se podia ir á India, já lá tinha surgido a
+sua grande fróta...
+
+--Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...
+
+--Assim é...
+
+--Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no
+movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do
+Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do
+ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir
+mais além, uns retrocederam, outros ficaram...
+
+--Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é
+acredita-lo--interrompeu fr. Fernão.
+
+--Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia
+sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento
+não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu
+coração?...
+
+--Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio
+aventureiro razão sobeja me dá.
+
+--Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará
+ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o
+Sol!...
+
+--Prouvéra a Deus, que assim fosse!...--exclamou com enthusiasmo fr.
+Fernão.
+
+--Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva,
+é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me
+informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem,
+muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse
+alliança...
+
+--Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias
+d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal
+fundadas.
+
+--Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?
+
+--Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais
+de um seculo, e até hoje--que eu saiba!--não tem constado cá, haver-se
+descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.
+
+--Informação de pêso é essa...
+
+--Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome
+commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do
+Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar aos imperadores
+romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse
+nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em
+Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão
+da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E
+esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de
+Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem
+na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha
+muito que desappareceu.
+
+--E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de
+mysterios o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu
+a Portugal não volto, sem colher informação segura, para a levar a
+el-rei, meu Senhor.
+
+--Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.
+
+O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi
+tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, senão a
+existencia, do Préste João das Indias. Não soffreu com isso a menor
+contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo
+á sua diligencia.
+
+De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
+atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em
+mercadores.
+
+
+
+
+VIII
+
+_BOAS NOVAS_
+
+
+Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro
+ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno
+do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e
+fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e
+tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da
+velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo
+antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.
+
+Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
+bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus
+monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
+gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no VII seculo.
+
+De todas essas preciosidades historicas restavam unicamente: a
+columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois
+obeliscos, impropriamente chamados _Agulhas de Cleopatra_, e as catacumbas.
+
+A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo _Serapeion_,
+ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do
+saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
+Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu,
+testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte
+genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do
+governador Diocleciano, _genio tutelar da cidade_, para lhe demonstrar a
+sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era
+lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel
+corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.
+
+As _Agulhas_ consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
+parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
+monumentos: um, o _Sebasteion_, em honra de Tiberio; o outro, á gloria
+de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor,
+e, por consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno,
+em que assentava a velha aldeia de Rakotis.
+
+No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome
+d'aquelle Pharaó.
+
+Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus
+do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis
+mais especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os
+removeram para Rakotis.
+
+Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á
+terra firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado _Heptastadion_,
+campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das
+maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do
+Egypto grego.
+
+Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de
+Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a
+revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto
+celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripção de
+encaustica brilhante, em que traçou o do soberano. O tempo
+encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome
+do vaidoso e desleal artista.
+
+Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra
+igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da
+dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas
+a morte surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.
+
+Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes, e pouco mais,
+pois que uma fébre maligna os prostou.
+
+Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por
+haver successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e
+fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta
+região por entre alegres povoações mui visinhas umas das outras, e
+corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na
+margem direita.
+
+Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
+encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden.
+Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de
+Tór. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda
+do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco
+para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar
+Vermelho, e d'ahi para Aden.
+
+Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído
+de Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada
+vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo
+consciencioso do commercio das especiarias.
+
+Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que
+a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis
+mais lhe arraigava no coração as suas crenças. O seu melhor
+companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os
+passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme.
+Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um
+gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não
+fosse mercador ismaelita.
+
+Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da
+Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente
+despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.
+
+Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias
+quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la
+assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui
+similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida
+peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste
+espelhava-se a muralha da cidade.
+
+Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a
+banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos
+por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha
+cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte
+rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um
+ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia
+do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas portas, ambas
+juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do
+lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres
+portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.
+
+Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo
+do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes
+detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva
+em enormes tanques abertos na rocha.
+
+O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que
+sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os
+productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as
+exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia
+menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior
+parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar
+as portas do mar Vermelho.
+
+Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um
+grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias,
+convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no
+da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar
+ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das
+novas, que alcançassem.
+
+Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
+costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu
+mourisca a cidade de Calicut.
+
+Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
+Oceano Indico.
+
+A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só
+mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da
+véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas
+governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo.
+Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas
+exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao
+cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes
+em vez de quilha havia fundo largo.
+
+A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho
+da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á
+náu navegar em melhor linha de bolina.
+
+Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear
+para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma
+especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.
+
+Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito
+estanque, betumando as costuras do taboado com _quil_, e untando-as com
+azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim vedavam
+tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes
+cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as
+paredes escoradas interna e externamente.
+
+O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam
+da India para o mar Vermelho.
+
+Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
+particularidades de construcção, esta náu differia muito das
+portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis,
+levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da
+chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas
+aguas.
+
+Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e
+passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo
+quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes
+casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao
+mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam
+a carga.
+
+O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
+madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que
+serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os
+principaes manjares da quotidiana alimentação.
+
+E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia
+a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo
+depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.
+
+Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que,
+sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta
+travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse
+desfallecer-lhe o animo!
+
+Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua
+peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a
+Thereza, por quem tudo soffria resignado!
+
+A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que
+permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados,
+corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que
+sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com
+cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e
+profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas
+collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui
+e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos,
+como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos
+d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si,
+formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes
+iracundas. A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão
+joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um
+dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia
+depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se
+escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól
+de espuma.
+
+Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca,
+mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.
+
+Salvou-se!
+
+Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a
+Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.
+
+A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e,
+por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de
+terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.
+
+Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido
+no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a
+opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia,
+que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India,
+não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era
+superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.
+
+Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos
+arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade,
+sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas
+dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto
+da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as
+dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
+resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações
+nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a
+grandissima distancia da praia.
+
+A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
+espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos
+e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a
+fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de
+serem suas victimas.
+
+Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes
+traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos
+quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma
+especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de
+linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.
+
+Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho,
+dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado
+ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do
+sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares
+chamavam _boi_.
+
+Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se
+approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o
+trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas
+ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar
+de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differença de castas,
+que um poleá nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia
+villão, havia de morrer villão.
+
+Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de
+Pero da Covilhan.
+
+O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações
+eram por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.
+
+Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia
+fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias
+tirando d'ellas todo o proveito.
+
+Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio;
+Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da
+Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro
+das minas de Monomotapa.
+
+Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava,
+que lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia
+com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia
+aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.
+
+Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com
+os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do
+Préste, não se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não
+saciaria com tão pouco os vehementes desejos de D. João II, n'aquelle
+ponto.
+
+--De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
+incumbira...--pensava Pero da Covilhan.
+
+Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais
+conviria ao serviço de seu real amo.
+
+N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus
+portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de
+Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso
+d'essa Babel, em tão embaraçosas situações se viram, que tiveram por
+vezes perdida a esperança de encontra-lo.
+
+Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
+outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.
+
+--Á procura de vós andavamos!--exclamou o rabbi, ao dar casualmente com
+Pero da Covilhan.
+
+Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo,
+experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:
+
+--Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com
+portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...
+
+Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia,
+de D. João II, disse-lhe:
+
+--Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por
+essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.
+
+--E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...--perguntou
+Pero da Covilhan.
+
+--Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
+esquerda...--respondeu Abraham, apontando para ella.
+
+--Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei
+meu senhor!...--replicou Pero da Covilhan, sorrindo.
+
+--Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa
+physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo
+crescida.
+
+Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que
+fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda
+bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do
+que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.
+
+Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá
+fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da
+India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram,
+fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra
+protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.
+
+--De tudo estou inteirado--disse Pero da Covilhan.--A vós, Joseph, vou
+immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor;
+e--voltando-se para Abraham--comvosco tornarei a vêr Ormuz.
+
+N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
+fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes
+portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára,
+que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em
+Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza
+a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.
+
+A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as
+especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico,
+attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e
+opulentos mouros do Malabar.
+
+Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
+valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.
+
+A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas
+de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de
+Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.
+
+Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande,
+assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar
+eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da
+Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se
+pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente:
+persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano
+indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
+mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
+addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que
+dos máres da Guiné se póde navegar para a India».
+
+Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva,
+communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor
+ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei
+christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que
+cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E,
+posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no
+Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas
+cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem
+seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que
+não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que
+houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia».
+Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi
+Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.
+
+Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as
+cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e
+d'este porto sahiram para Ormuz.
+
+Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de
+conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da
+côrte portugueza!...
+
+O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...
+
+Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
+esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria
+realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.
+
+--Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a
+el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...--repetiam os echos da sua
+alma radiante e apaixonada.
+
+E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar
+d'Oman.
+
+
+
+
+IX
+
+_CONSTANCIA_
+
+
+Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
+espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os
+primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço
+eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de
+motejos deliciosos.
+
+Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma
+repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando
+apparecia, era unicamente por obediencia.
+
+Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade
+fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em
+geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos
+e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a
+Maria Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de
+interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem
+sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.
+
+Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás
+suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de
+transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não
+tornar intratavel.
+
+Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que
+terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando
+maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com
+riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em
+animar-se?!...
+
+--E o mais estranho--observou Pedro de Barcellos--é, que não occulta o
+seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...
+
+--Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
+insiste...--accrescentou Jorge da Silveira.
+
+--De experimentados fallais ambos!...--atalhou D. João de Menezes
+
+--Quem não hade gostar de Thereza!...--tornou Pedro de Barcellos.
+
+--Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza
+diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa
+menina!...--exclamou Gonçalo da Fonseca.
+
+Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a
+convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura,
+chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser
+affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão
+propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.
+
+Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na
+presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança,
+senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro
+da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».
+
+Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos
+duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte
+Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.
+
+Voltemos, porém, ao ponto.
+
+A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes,
+ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que,
+apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio ao _jogo dos naipes_.
+
+Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a
+alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam
+mais desagradaveis ainda, havia chegado a uma janella aberta sobre
+um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer
+parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava
+fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que
+lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar
+que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar
+sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella
+exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada
+pela rainha.
+
+Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a
+dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento
+passou rapidamente a seguinte exclamação:--infeliz lembrança!... E tenho
+de attender com fingido agrado este importuno!...
+
+Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de
+duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se
+debatia em ancias de tranzido amor.
+
+O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder
+dizer-lhe:--como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!...
+que physionomia angelica!...--e tantas outras phrases de admiração e
+amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.
+
+Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não
+logrando evitar, que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a
+fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos
+cumprimentos, com esta interrogação banal:
+
+--Não vos interessa o _jogo dos naipes_?
+
+--É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz
+tomar hoje parte n'essa diversão--respondeu Maria Thereza.
+
+--Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á
+que mereceis...
+
+--Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...
+
+--Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...--retorquiu com
+certa intimativa Pedro de Barcellos.
+
+--Eu!?... Grande poder me confiais!...
+
+--E não o quereis?...
+
+--Para quê?...
+
+--Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...
+
+--Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...
+
+--É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...
+
+--Devaneais, primo!
+
+--Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?--instou
+Pedro de Barcellos com forçado sorriso.
+
+--Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas, e leva a palma
+aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus
+merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que
+tendes a consciencia d'elles...--redarguiu com reflexiva gravidade Maria
+Thereza.
+
+--Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa;
+prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso
+coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor
+que vos offereço?...
+
+--Porque nunca poderia corresponder-lhe.
+
+--Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...
+
+--Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.
+
+Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João
+II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos
+replicou a Maria Thereza:
+
+--Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa,
+de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:
+
+ «Por mais mal que me façais
+ nunca mudar me fareis
+ até que não me acabeis.
+
+ Minha fé, minha firmeza
+ Em vosso poder está;
+ soffrerei minha tristeza,
+ pois vossa mercê m'a dá.
+
+ E meu bem nunca fará
+ mudança, nem a vereis,
+ até que não me acabeis.»[7]
+
+--Bello villancete, primo!...
+
+--Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me
+lembrei de recita-lo...
+
+--E não tendes prezente composição alguma vossa?...
+
+--Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...
+
+--Não vos disse já, que vos estimo?...
+
+Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos,
+depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel
+a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal
+por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro
+desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse
+anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe
+fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:
+
+--Porque me não concedeis a vossa mão?...
+
+--Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...--respondeu
+Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz
+o maximo respeito a Pedro de Barcellos.
+
+Este, reconhecendo que seria importuna e pouco delicada qualquer
+instancia, disse a Maria Thereza:
+
+--Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem
+mais saberá, senão vós.
+
+E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
+villancete:
+
+ Aqui, onde vou deixar-vos,
+ esse vosso doce olhar
+ nunca me verá tornar.
+
+ Para o mar vou sem ventura,
+ sendo mais vosso cativo!
+ Serei morto, sendo vivo,
+ sem ver vossa formosura,
+ pois que a minha sorte dura
+ de vós me quér apartar
+ para nunca mais tornar.
+
+ E se bem, que me confórte,
+ esperar me não é dado,
+ melhor é ditosa morte,
+ que viver desesperado.
+ Acabe assim o cuidado
+ de sómente em vós cuidar,
+ e no vosso doce olhar!...
+
+--É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não
+o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado
+espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á
+ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...
+
+Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já
+demasiado longo.
+
+Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela
+extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como
+precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e
+isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua
+orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de
+que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual
+muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um
+dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da
+sua filha adoptiva.
+
+D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
+primazia.
+
+Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com
+a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se
+irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a
+mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se
+d'ella, triumpha e domina.
+
+Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio
+aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que
+se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia
+passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos
+primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.
+
+Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario
+d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro
+muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se
+fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem
+entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da
+sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou
+á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João
+Machado, descendente legitimo da casa dos _Ricos-homens_ de _Entre Homem
+e Cavado_, e por consequencia tambem _rico-homem_.--No principio da
+monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a
+possuiam, não só o rei lhes chamava _primos_, senão tambem estavam
+cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano
+deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o
+conselho d'elles.
+
+Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes
+da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o
+primeiro varão, que nasceu na Terceira.
+
+Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado
+de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D.
+Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por
+sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando,
+chamava-se João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando
+Annes ou Joannes.
+
+Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado,
+primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente
+pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus
+parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o
+proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era
+o seu sonho aureo.
+
+Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João
+II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o
+intuito de descobrir novas terras.
+
+Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo
+vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços
+de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de
+physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago
+açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para
+ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do
+seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás
+provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
+muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito
+sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do
+sólo.
+
+Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II,
+animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.
+
+Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela
+sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento,
+que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto
+que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A
+nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no
+coração os seus brios de homem digno.
+
+Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo
+recebido com particular carinho no solar de _Entre Homem e Cavado_, e
+tornou logo para a Terceira.
+
+Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e
+tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher,
+largou da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua
+viagem em 1495, depois de ter descoberto a costa do Labrador.
+
+Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em
+3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do
+que elle a uma região do _Novo Mundo_. E assim succedeu, com effeito. O
+facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria
+perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em
+nada o torna superior ao nosso Pedr'Alvares Cabral, a quem a patria
+não fez ainda a devida justiça.
+
+Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos
+longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar
+seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do
+fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta
+passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em
+Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de
+fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres
+descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e
+privilegios de nobres e fidalgos, por procederem da geração e linhagem
+dos Machados, por parte de sua mãe e avós.
+
+Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de
+Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no
+desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia
+continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam
+entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.
+
+Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de
+suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização
+das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar
+á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria
+de resolver esses dois problemas.
+
+Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos;
+Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da _Bôa
+Esperança_, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do
+Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do
+destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem
+podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios
+insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava
+sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.
+
+Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da
+Covilhan, em Santarem?
+
+Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum
+interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do
+Estado?
+
+Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o
+successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao
+visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e
+ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado
+intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cuja
+_alma_ era: _Spera in Deo_? Não parece ser um presentimento muito
+singular?...
+
+
+
+
+X
+
+_TENTANDO AS AZAS..._
+
+
+Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan.
+Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que
+sómente podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma
+anciosa do monarcha.
+
+Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:
+
+--Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...
+
+Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar
+a nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente
+se dá credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em
+bôca, e foi tão bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na
+Europa, acclamaram por Préste João da India o imperador da Ethiopia.
+
+Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações d'esse tempo--o
+apparecimento d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir á
+India pelo mar, excepto D. João II e Colombo; este, porém, navegando
+pelo Occidente.
+
+Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A
+esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe
+agora mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.
+
+Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
+catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a
+celebração d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas,
+servindo-lhe de modelo as de seu tio o duque de Borgonha, em Lille.
+
+A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.
+
+No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para
+banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento
+de S. Francisco dava para tudo.
+
+Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus
+estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a
+pedir grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por
+essa parcella da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.
+
+Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão
+largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.
+
+Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para
+se fabricar a sala dos banquetes--aquella sala de madeira,
+
+ «que ficara por memoria.
+ Real em tanta maneira,
+ de perfeição tão inteira,
+ de tanta mundana gloria».[8]
+
+Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada
+do seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento,
+exclamou um dia em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que
+isto deram a S. Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora
+vão fazer-se festas, que se hão de tornar em pranto!...»
+
+E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:--«Quem viver
+verá!...»
+
+A verdade é, que se não enganou.
+
+Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr
+côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do
+espoliado cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a
+sensibilisar-se com lamentações de frades.
+
+A construcção da _sala de madeira_ foi dirigida por Andrea Contucci, a
+quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.
+
+Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu
+nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D.
+João II pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.
+
+Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já
+revelado o seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira,
+iniciada depois de ter chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que
+tão merecida e distinctamente occupa na historia da Arte.
+
+Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns
+trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença,
+não o impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha
+a mais pronunciada vocação.
+
+O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de
+Domenico Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo,
+ainda ignorado na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo.
+Vê-se bem, qual foi, pois o móvel do crime.
+
+O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na
+pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis,
+seu patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo
+fundiu a bella medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual
+Lourenço o _Magnifico_ se salvou milagrosamente.
+
+O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua poderosa influencia o
+triumpho simultaneo do Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo,
+na maioria dos productos da intelligencia humana; e, sem embargo de
+have-lo proclamado grande protector das lettras a universidade de Pisa,
+por elle fundada, o seu consulado fórma um periodo tristemente memoravel
+para a historia dos costumes, das artes e das proprias lettras.
+
+É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de
+Pollaiolo determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer
+o empenho de D. João II.
+
+Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho
+do seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da
+familia real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.
+
+D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de
+Evora, as recordações do periodo medieval.
+
+Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao
+extrangeiro, para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as
+pedras preciosas, um sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo,
+mandou publicar, que tinham entrada livre de direitos em Portugal até ao
+termo dos festejos, todas as mercadorias de importação. Os fidalgos da
+côrte foram vestidos á custa do real thezouro; recebendo além d'isso, os
+que tomavam parte nas justas, armas e cavallo; e os que entravam
+nos mômos e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado
+vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais
+galantes raparigas e foliantes mocetões do Alemtejo, que vieram com suas
+danças, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria
+das festas.
+
+O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na _sala de madeira_,
+appareceu-lhe invencionado no phantastico _cavalleiro do cysne_, o
+poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou
+ler, e depois entregar á princeza, sua nora, um _bréve_, em que propunha
+a tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas
+conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para
+justar com seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem
+combater.
+
+Singular caracter o d'este monarcha!
+
+Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os
+preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico
+filho; comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo
+a sua alma enlevada e contemplativa--a fundação da misericordia de Lisboa.
+
+Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei
+Miguel de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.
+
+De visita ao seu mosteiro de Santarem havia chegado a Evora o douto
+e humilde trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o
+Evangelho de S. Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que
+penetrava no coração da devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.
+
+--Embóra vindes, fr. Miguel!...--disse a rainha ao receber o trinitario,
+que com profunda reverencia lhe beijou a mão.--Sentae-vos que muito
+desejo ouvir-vos ácerca da _vossa_ Misericordia...
+
+--Da de voss'alteza: quereis dizer...--ponderou Contreiras.
+
+--Pois seja de ambos nós--tornou D. Leonor,--ou melhor: de Deus será
+esse arbusto, que vamos plantar, e que se fará--assim o espero da
+protecção divina--arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...
+
+--Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em
+que váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o
+Senhor confia-la de melhores mãos...
+
+--Mãos de peccadora...
+
+--Purificadas nas boas obras...--atalhou Contreiras.
+
+--Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás
+miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque
+não hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do
+Divino Mestre?...
+
+--Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo
+interesse nas acções boas que praticamos. «Bemaventurados os
+misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia».
+
+--Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do
+Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...
+
+--E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente
+traçado pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a
+misericordia...
+
+--Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á
+santa instituição, que projectamos...
+
+--Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...
+
+--Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que
+em nome da caridade christã vamos congregar...
+
+--Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois
+de concluido, á censura e approvação de voss'alteza...
+
+--Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava
+ser traça vossa...
+
+--Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande
+mercê me fazeis...
+
+A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de
+Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a
+rainha, dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.
+
+Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas correu Maria Thereza
+para sua ama, foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e
+affectuoso:
+
+--Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...
+
+--Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...--volveu
+carinhosamente a rainha.
+
+--Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e
+o cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante
+algum tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade...
+Mas... agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda
+mesmo para tal fim?...
+
+A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e
+disse-lhe para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:
+
+--Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das
+festas do casamento.
+
+Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha;
+mas, não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:
+
+--E se eu fosse já?...
+
+--Que trigança é essa?...
+
+--Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...
+
+--Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o
+pé!... Olha, que não é bom, ser-se impaciente...
+
+--Se eu não agastasse a vossa'alteza!...
+
+--O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...
+
+--Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto...
+e, todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe,
+qualquer segredo da minha alma... Eu, minha Senhora...
+
+Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda
+mais os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.
+
+D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:
+
+--Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...
+
+Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,
+respondeu:
+
+--Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...
+
+--Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...--perguntou a
+rainha, accentuando com grande admiração as suas palavras.
+
+--Sim, minha Senhora--replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
+parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.
+
+--Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na
+differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
+casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...
+
+--O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar
+um passo, que não seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que
+Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a
+voss'alteza, como do coração da esposa nunca se apaga--creio--o amor da
+filha. Até este mais santifica e robustece o outro...
+
+--Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas
+tu as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu
+prásme?...
+
+--Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se
+elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito
+tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do
+Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude
+os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando
+elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor,
+não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem
+o servem...
+
+--Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores--affirmou
+gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as
+palavras, que docemente proferia, continuou:--pois bem... mandarei dizer
+a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que
+desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...
+
+Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria
+Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e
+lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito
+scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a
+fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto
+amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:
+
+--Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por
+algum tempo a companhia de voss'alteza!...
+
+--Pobre creança!...--interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.
+Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente
+pela cara:
+
+--Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando
+voltáres, não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de
+mim...
+
+
+
+
+XI
+
+_PEREGRINAÇÃO_
+
+
+Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi
+desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e
+profundamente catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz
+dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de
+peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religião de
+Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o
+semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.
+
+Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se
+considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico;
+realisa-la, porém, mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o
+_ihram_ do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.
+
+Os raros europeus, que no seculo actual lográram vêr Mecca, dão
+testemunho do perigo, a que se expõem os christãos, que se afoitam a
+violar a lei que lhes prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no
+velho santuario arabe.
+
+Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o
+Oceano indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e
+costumes, nada havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um
+dever, a cujo cumprimento sacrificava a propria vida.
+
+É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
+adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos
+labores improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e,
+no seu resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e
+robustecia cada vez mais a confiança, que em si proprio depositava.
+
+Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.
+
+O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia,
+tem importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela
+influencia, que recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A
+sua aridez, quasi geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha.
+Cortam a immensa solidão das suas planicies arenosas, que se extendem
+para a margem do mar Vermelho, pouquissimos valles cultivados e
+montanhas cobertas de rochedos, que se vão tornando cada vez mais
+abruptas á medida que os viandantes se internam no paiz. As
+estradas são regueiras enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se
+transformam em rios caudalosos. Caminha-se por esses _uâdis_, e na falta
+d'elles seguem-se as direcções rigorosamente determinadas pela situação
+de póços e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.
+
+Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
+percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
+_simoun_.
+
+Para combater o primeiro, iam os açacaes--_sakka_--encarregados de
+conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam
+novas provisões da dos depositos, que encontravam.
+
+Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
+exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em
+armas. Os nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes,
+pois que taes bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma
+caravana, como um general europeu de ter bombardeado e conquistado uma
+praça de guerra; e, se não erguiam uma estatua ao scheick, por elles
+muito venerado, e que os conduzia á victoria, é porque na Arabia, a
+ninguem se fazia essa consagração.
+
+O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.
+
+Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois
+todo o Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então
+um aspecto sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia
+finissima, arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar
+embravecido, era preciso fugir a toda a pressa!
+
+Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!
+
+O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais
+turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos
+sangrentos, os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos,
+esses pacientes _navios do deserto_, desarvoravam, partiam á desfilada,
+zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo
+instincto de conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo
+das areias movediças.
+
+Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia
+abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com
+segurança a calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e
+ficasse entregue á mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a
+sua energia, toda a esperança de sobreviver os abandonava!
+
+Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
+desfalleciam, caíam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes
+servia de mortalha e tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as
+ossádas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano
+simoun!
+
+De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle
+proprio fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.
+
+Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a
+distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé
+de um dos montes, que cercavam a _mãe das cidades_, a Om-el-Kora dos
+arabes.
+
+A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
+pelo _propheta_ a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
+para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.
+
+Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
+Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se
+extendia á roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado
+Beled-el-Haram.
+
+N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que
+corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus
+cachos de tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas,
+como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os
+homens da caravana fizeram uma ablução geral, chamada _ghort_,
+substituiram os seus trajos de viagem pelo _ihram_, o calçado pelas
+chinelas--_besmak_--, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas,
+cobriram-se com o seu grande véo, branco como o _ihram_, e denominado
+_yaschmak_.
+
+Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de _hadji_, depois
+d'ella era tratado pelo de _mohrim_; e as suas vestes ficavam
+santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta,
+cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.
+
+A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo
+caminho--os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa--muitas
+orações, terminando pelo _Tebiya_ ou _Lebbeika_.
+
+Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita,
+continuando as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e
+depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que
+sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o _tekbir_ e o _tehlil_,
+que consistem em dizer: _Allah Akbar_--Deus é grande; _Lá lla illá
+lla_--não ha outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos
+pregoeiros--_almuadens_ ou _muezzinos_, voltado para a _kaaba: observai,
+observai a casa de Deus, a prohibida!_ E logo irromperam descalços,
+foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se
+da _pedra-negra_--_Hadjar elaswad_, para fazer o _touaf_, isto é, para
+dar sete giros em volta da _kaaba_, offerecendo sempre o lado esquerdo a
+este santuario, que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crença
+arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.
+
+A mesquita--_mesgid_, _guma'a_, lugar de reunião, e tambem _Beïttallah_,
+casa de Deus, reduzia-se a um claustro--_sakhn-el-gama_, ou pateo
+aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de
+porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de
+granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas,
+destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua
+construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta
+inteira.
+
+As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam,
+eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se
+elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do
+edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias
+formadas pelas arcadas.
+
+A fórma e architectura da notabilissima _kaaba_ não desmentiam, com
+effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de
+altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada
+para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a
+cima do sólo. Este templo apenas estava patente ao publico na
+sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de
+reunião--_iom el guma'a_, e tambem quando se celebrava o
+anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos anciãos, ou
+_xaibins_, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de
+pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus pés
+de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada _Albarcá_,
+especie de véo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era,
+como a soleira, forrada de laminas de prata.
+
+O povo, ao invadir a _kaaba_, rompia, de braços abertos e mãos erguidas
+ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua
+misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»
+
+O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
+pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
+pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo
+por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um
+tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a
+illuminação. O exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta,
+chamado _Kesoua_, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante
+os primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma
+de grinalda por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da
+altura de todo o véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga
+fita igualmente preta, nas quaes se liam inscripções piedosas e
+textos do Corão.
+
+Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
+dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das
+azas dos anjos, que voavam em torno da _kaaba_, e que levarão um dia o
+sagrado véo deante do throno de Allah.
+
+A _pedra-negra_ era o unico ponto da _kaaba_, permanentemente offerecido
+á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nórdéste,
+achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
+chapas de prata.
+
+Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de
+Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as
+tribus arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos
+anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello,
+quando o velho _páe dos crentes_ estava construindo a _kaaba_. A Pero da
+Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma
+substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular
+de um vermelho carregado, que podia passar por negro.
+
+Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no
+momento, em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais
+brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos
+de tantos homens maculados de iniquidades de toda a especie a
+tinham assim metamorphoseado.
+
+No páteo da mesquita, e pérto da _kaaba_, elevava-se outra construcção
+quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o
+santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e
+afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia
+a tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e
+denominado pôço de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta
+com suave murmurio. A sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida
+de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito
+janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua
+santa para a purificação.
+
+Junto da _pedra-negra_ começavam e terminavam os giros, durante os quaes
+os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a
+pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois
+no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios.
+Seguia-se beijar o nobre _Alcamamo_ ou _maquam d'Ibrahim_, o qual
+consistia em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e,
+por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.
+
+Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina
+d'este nome, voltavam-se para a _kaaba_ e recomeçavam as suas orações.
+Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre
+aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada
+_saï_, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados
+para a _kaaba_: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os meus peccados,
+ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções, para
+recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.
+
+Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a
+festa, com que terminava a peregrinação.
+
+Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença
+de Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as
+orações quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e
+chamava-se _Sabah Namazy_; a segunda, _Oilah Namazy_, ao meio-dia; a
+terceira, _Akindy Namazy_, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta,
+_Acham Namazy_, ao sol posto; e a quinta _Yatzu Namazy_, ao serrar da
+noite.
+
+Precedia sempre as orações uma ablução parcial--_woudou'_, que consistia
+em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o
+artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete
+quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a _kaaba_,
+estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a _quebla_
+estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdão--_istigfar_,
+elevava depois as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e quasi
+em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
+chamada _tekbir_. Passava ao _fatihah_, e pronunciava ao menos tres
+versiculos, ou _ayat_, d'esta oração, que é a primeira sura do Corão,
+collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
+e cravando os olhos no chão. Declamava o _tesbihk_, inclinando o corpo e
+a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a
+posição do _fatihah_, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
+prosternação--_soudjoud_, durante a qual repetia o _tekbir_ e tres vezes
+o _tesbihk_, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mãos e pés
+muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava um
+momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos,
+e repetia o _tekbir_. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a
+direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a
+oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.
+
+A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um _rick'ah_.
+
+Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em
+frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um
+combate contra o espirito das trevas.
+
+No mez de _schewal_, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos
+mezes da peregrinação, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as
+velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se
+igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova.
+Na manhã seguinte celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez
+anterior, o _ramadhan_, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano
+comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o
+romper d'alva.
+
+Chegado o primeiro dia do mez de _doulkaadah_, que era o undecimo,
+tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
+abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até
+ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o _iman_ pronunciava do alto do
+mimbar na mesquita a _khotbat-el-hadjï_, isto é, uma allocução, em que
+explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
+celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao
+valle de Miná. Este dia chamava-se de reflexão--_Ianm terwia_, alludindo
+á incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de
+immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se
+uma suggestão diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia
+immediato, depois da oração matutina, a caravana subia á montanha de
+Arafat, onde existia uma capella--_turben_, a qual santificava o sitio,
+em que pelo anjo Gabriel fôra ensinada ao páe commum dos homens a
+primeira invocação. Conforme o ritual, os crentes, depois de uma
+oração feita na propria _kubba_, armada no acampamento, iam esperar o
+pôr do sol, e entretanto o _iman_ erguia os braços ao Céo, para invocar
+a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de
+vózes unisonas; _Lebeïk Allahouma Lebeïk!_ Nós estamos ás tuas ordens, ó
+Deus!
+
+Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer
+a _Djebel Farkh_, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
+catarata de espuma!
+
+No segundo dia punha-se em marcha, atravessava _Elmeschar-el-haram_--o
+lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confusão enorme, o apertado
+valle _Onadi-monhassar_--o valle maldito, e chegava de novo a Miná.
+Atiravam todos para traz das costas, junto do _Djamrat-el-Agabé_, sete
+pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo
+demonio, e gritando antes do arremesso: _Bismillah!_--Em nome de Deus!
+
+Os sete seixinhos, que tomavam o nome de _Hassiato-Aljemar_, eram
+expressamente apanhados em Monzdelifat.
+
+Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a
+victima, que trouxesse.
+
+A caravana regressava a Mecca para visitar a _kaaba_, fazia nova romaria
+a Miná, e tratava logo de sair da cidade _santa_, antes de commetter
+algum peccado; mas não partia, sem voltar pela terceira e ultima
+vez á _kaaba_, a fim de celebrar os _Thonaf-wida_--procissões da
+despedida; ao pôço de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma,
+como piedosa recordação; e retirava-se finalmente pela porta do
+adeus--_Bab-el-wida_.
+
+Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado
+de um _uâdi_, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde
+raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes
+inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.
+
+As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro,
+lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam
+confiados, por singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli
+procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral
+as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e
+traçadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de
+granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto
+monotono.
+
+Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos
+tanques, cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á
+bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso
+califa Harun-al-Raschid.
+
+Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio
+muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que
+em seus bazares accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos
+á lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.
+
+No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes
+e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos,
+que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
+_foluzes_, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
+duas alcôfas de differente tamanho, chamadas _Magtalá_, as compras
+feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.
+
+O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem
+fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal
+cosidos e molles, como pasta, a que chamavam _hops_.
+
+De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que
+verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.
+
+Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós
+aromaticos, mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa
+d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre
+perfumados; mas nos mezes da peregrinação chegavam a fazer tão
+extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam até de
+parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente
+ornadas íam girar ao redor da _kaaba_, o aroma expirado por seus
+vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que
+muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio
+fragrantissimo.
+
+Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam.
+A muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por
+isso os tingiam, velhas e moças, com o _kohl_, que do mesmo modo
+empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só
+ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma
+tintura, applicada ás palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem
+embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o _kohl_ um verdadeiro
+collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes
+n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo
+pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro
+ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se
+para isso de uma erva denominada _elhene_.
+
+As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as
+classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como
+que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.
+
+Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa,
+do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas
+uma grande similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica
+e capa--o que sómente bastaria, á falta de outras provas, para
+demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.
+
+As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos,
+são o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos
+alternativos do seu gosto.
+
+O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
+abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas,
+compunha-se geralmente de uma larga tunica--_farmla_, atada na cintura
+com o _samla_ ou _foutah_, e um véo--_tarbah_, que cobria a cabeça e
+quasi todo o semblante.
+
+Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem
+de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não
+sacrificava o pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo,
+por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente
+e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.
+
+Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras
+sómente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por
+isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia
+formosas musulmanas, que, muito embóra usassem a capa até aos pés,
+deixavam ás vezes cair artificiosamente o véo, regalando os olhos de
+quem as via.
+
+Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
+esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam
+sequér desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.
+
+Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da
+mesquita, gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a
+oração deve ser preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu
+tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os
+olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua
+fé catholica. Mas não havia preceito do Corão, que elle ignorasse e não
+cumprisse publicamente.
+
+Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam
+as cinzas de Mahomet. Os mercadores--_gellabys_, carregaram de provisões
+os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os
+seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o _kyrba_, ou gancho
+indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por
+impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o
+caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de
+sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas
+essas necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de
+muitos animaes viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados
+_arraçuato_, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram
+illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as
+marchas, durante a noite. Em varios _meharas_ enfeitados com collares de
+sêda, e o _henné_ ou apparelho coberto com magnificos brocados,
+sobresaíam os _attatouch_, ou palanquins, para commodamente se
+recostarem as mulheres opulentas.
+
+O alfange, o punhal--_khamtscher_, a faca,--_bitschak_, a lança, a
+alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.
+
+A cidade do propheta _Medinet-el-Nebi_, distava de Mecca onze dias de
+jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
+extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E
+a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas
+Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
+_houdoud-el-haram_.
+
+Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada
+a sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o
+monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se
+á grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e
+constantemente illuminada por trezentas lampadas.
+
+O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas
+tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se
+El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até
+dois terços da altura por uma grade de ferro com intervallos
+estreitissimos.
+
+O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro,
+sob um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de
+laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e
+ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a
+uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes
+em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente,
+artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o
+sepulchro do fundador do islamismo.
+
+Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual
+paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da
+face do enviado.
+
+Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os
+islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na
+mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o
+pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para
+o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia
+comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho. Então Mahomet abraçou
+o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria inconsolavel até
+ao dia de juizo!»
+
+O pulpito era feito de tamargueira.
+
+Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
+faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
+sudoeste d'ella, no mar Vermelho.
+
+Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha
+do propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da
+cratéra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos
+musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que
+foi, da victoria alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e
+a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra,
+onde o propheta esteve préstes a morrer de sêde, e que será precipitado
+no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se a planicie a perder
+de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de póços, cujas
+aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a
+monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as
+areias e a greda.
+
+Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde,
+embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que
+percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.
+
+Chegou emfim ás portas da Abyssinia.
+
+
+
+
+XII
+
+_NA ABYSSINIA_
+
+
+Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava
+finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste
+João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas
+regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe
+mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao
+passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota,
+que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem
+levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da
+Abyssinia.
+
+Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade
+credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo
+christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia
+contra o islamismo.
+
+Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?--Ninguem sabia responder;
+pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido,
+talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.
+
+Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto,
+elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao
+Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão
+africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas
+distinctas: a inferior, ou o _Kolla_, em que a temperatura varia de 20 a
+40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical,
+a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o
+solo sem cultura; a media, ou o _Onaïna Déga_, com a temperatura de 15 a
+30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a
+superior, ou o _Déga_, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo
+de zero nas mais altas montanhas.
+
+As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece
+formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O
+numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens
+condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a
+quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em
+que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por
+isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem
+abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos,
+voltassem para traz.
+
+Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe
+afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para
+escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com
+agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os
+diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as
+torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos
+valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que
+serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.
+
+Então o Tacazé ou _Nilo negro_, que na bacia hydrographica septentrional
+recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae,
+sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto.
+E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande
+lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou _Nilo azul_,
+atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo
+extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume,
+que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se
+igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.
+
+Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.
+
+Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos
+purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se
+fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o
+sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz
+sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr,
+sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.
+
+Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido,
+aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto
+varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!
+
+A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune
+todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar,
+terrenos contrarios no mesmo solo.
+
+O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil
+apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo
+vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie,
+para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante
+observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se
+acima d'ellas.
+
+Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua
+accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.
+
+Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma
+extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções
+extraordinarias, bem como o _teff_, coberto de flôres purpurinas, e cujo
+grão oblongo dá uma farinha saborosa.
+
+O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do
+Sudão, devastam as ceáras, o _enséte_, que é uma especie de bananeira,
+cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não
+esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.
+
+Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero
+infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos,
+obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua
+invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.
+
+O agigantado _baobah_, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira
+excelsa, o _kuara_ com as suas bellas flôres coralinas, a _mimosa_, o
+_cusco_, o _wansey_, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, o
+_daro_, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os
+sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente
+frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de
+folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares
+e formosos cambiantes.
+
+No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flôres odoriferas,
+crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó
+flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco
+das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se
+suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.
+
+E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu
+retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos
+passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico
+quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle,
+vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela
+frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia
+de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O
+esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados
+ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente
+da do _sonis-manga_, ou _cynnirus splendidus_, conforme a denominação
+scientifica moderna.
+
+Nas regiões mais aridas, o _cactus_, a especie de euphorbio, denominada
+_kolquall_, a palmeira anã, o _kautuffa_ coberto de espinhos, dão signal
+de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das
+perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e
+outros antilopes, como o _beni-israil_, igualmente elegantes, que logram
+escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da
+carreira, a esses crueis inimigos.
+
+Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem
+de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos
+girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria
+o continente negro.
+
+Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,
+garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas
+hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do
+rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os
+crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves
+aquaticas.
+
+No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes
+musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e
+muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam
+deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas
+maiores altitudes sobresáem o _Kousso-Brayera anthelmintica_, e o
+_Gibarra_--Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.
+
+Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira
+de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique
+entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim,
+apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste
+João.
+
+Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era
+amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe
+edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas
+armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E
+convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas
+abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.
+
+Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa
+distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e
+separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga
+rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos
+quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e
+rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos,
+russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça,
+com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito
+leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas
+fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro
+d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes
+colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens
+com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se
+agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma
+grande tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos
+milhares de outras, todas brancas.
+
+Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan,
+surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a
+mais desusada sensação no ajuntamento.
+
+Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que
+vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João
+II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico--já
+n'esse tempo a lingua da côrte--que fôra encarregado pelo rei de
+Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua
+alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso
+ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta
+mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da
+Covilhan.
+
+Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas,
+sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se
+pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o
+imperador, rodeado da sua côrte.
+
+Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até
+ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe
+fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois,
+ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as
+quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o levantar, fez-lhe
+algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de
+D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse
+descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.
+
+Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os
+grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto
+das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a
+sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a
+magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna
+de visitar.
+
+A côrte compunha-se do _Bellátimoche goytá_, mordomo-mór; do _Tecácase
+Bellátimoche-goytá_, pequeno mordomo-mór; dos dois _Betendet_, os
+validos do imperador; do _Titaurári_, que fazia o officio de marechal; e
+outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava
+diariamente a tenda imperial o _Abima_, que quer dizer páe, e era o
+metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da
+Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas
+tinha grande auctoridade, o _étch'égé_, prelado do numeroso clero
+regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa,
+fundado pelo _abima_ Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do
+_abima_, havia o _Labeata_, padre de nomeação imperial. Junto do
+soberano funccionavam os _Azages_ e _Umbares_, dezembargadores e
+ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem
+verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas
+demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as
+papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.
+
+O livro da lei, _Fitha Negoust_, compunha-se de textos mal traduzidos do
+codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de
+serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar
+juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas.
+A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos
+dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a
+presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o
+trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos
+diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja
+queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua
+vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os
+bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que
+jurava: amen.
+
+O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o
+juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da
+excommunhão, que sobre tudo temia.
+
+As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias
+festivos e para as grandes recepções, eram brancas e cercadas por
+umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam
+como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.
+
+Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de
+bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com
+gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente
+quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis
+homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de
+modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o
+antecediam.
+
+Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com
+a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte
+estalido, que fazia afastar a gente.
+
+Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros
+de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado
+por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros
+uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo
+engastada muita pedraria falsa.
+
+O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados
+por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.
+
+O _Titaurári_ escolhia o lugar do arraial, assignalando com uma
+lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas
+imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um
+tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas
+e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por
+pagens, e tudo debaixo de um pallio.
+
+Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente
+d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da
+côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se
+mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero
+superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não
+faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.
+
+As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o
+poente.
+
+As pessoas pobres dormiam sobre o seu _Neté_, que era um coiro de boi,
+extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como
+cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou
+simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.
+
+Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava
+voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por
+haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do
+juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar
+á sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa,
+reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,
+puniam-n'o sem julgamento prévio.
+
+Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre
+as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de
+seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada
+_bercutá_, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas
+o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito
+enfeitados.
+
+Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais
+sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma
+redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás _ápas_,
+espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do _teraux_ e a do
+_cousio_, e que tambem lhes servia de alimento.
+
+Sobre as _ápas_ collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo
+estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas
+de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina,
+chamadas _escambiás_.
+
+Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,
+embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam _berindó_ a este amargo
+manjar, um dos mais delicados da sua mesa.
+
+Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições,
+o hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de
+mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura,
+lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado _sardó_, que em
+cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.
+
+Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das
+mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma,
+tapadas com barro e selladas, e denominavam-se _gombos_. Os portadores
+d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.
+
+Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com
+que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente
+se serviam da canna para alimento.
+
+Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte
+alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes
+conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.
+
+Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria
+a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas,
+os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas
+do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da
+mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos;
+outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as
+restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr
+pardacenta dos bicos e pés.
+
+Appareciam tambem coelhos e lebres.
+
+Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de
+cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral
+abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam
+fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com
+perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.
+
+Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de
+refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o
+nome de _gueddam_ e seus governadores o de _alikas_.
+
+A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes
+de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as
+paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com
+açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por
+terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto
+ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro,
+effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que
+produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa
+até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito
+bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres
+muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda
+muito aprazivel dos senhores.
+
+Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os
+orientaes lhes chamam _hobesch_. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de
+rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente
+guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou
+menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes
+nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato
+d'esta palavra, do _foulah_ ou _peulh_--raça vermelha, do arabe e do
+africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as
+regiões, os typos secundarios mais proximos, _bedjas_, _somali_, _galla_
+e o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito,
+encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém,
+exangue e sem graça.
+
+Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e
+curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que
+se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam
+de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção
+leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno
+enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre
+ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e
+andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao
+joelho.
+
+Em geral a plebe não usava calçado, e o seu vestuario reduzia-se a
+umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo
+panno tambem de algodão.
+
+Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao
+artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para
+baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya,
+faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás
+pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram
+abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas
+estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de
+Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a
+camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos
+por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou
+de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino
+da terra ou de bofetá.
+
+Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste,
+emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os
+hombros, _ainda não estava na graça do Senhor_; mas logo que fallasse
+com o Préste, e saisse da sua tenda vestido, _já estava na graça do
+Senhor_.
+
+Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
+caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual
+emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe
+cahia fartamente sobre os hombros.
+
+O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo;
+dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros,
+outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado,
+denominadas _bolotás_; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso;
+e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros
+com zargunchos estreitos, como se foram dardos.
+
+Os mais nobres cingiam espada--de que raras vezes se serviam--com
+empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda.
+Alguns traziam tambem adaga.
+
+Os cavalleiros com sáia de malha--que poucos eram--não se curavam de
+rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.
+
+Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no
+primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.
+
+Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas,
+grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como
+não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços
+mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.
+
+Além da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a
+bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas
+mulheres, para fazerem as _ápas_ e o hydromel. Muitos não levavam
+matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles
+mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam
+estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.
+
+Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras
+effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados _amalé_,
+cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.
+
+Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e
+estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e
+aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas
+regueiras com a corrente das aguas.
+
+A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da
+metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal
+gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para
+trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não
+sentiam falta da moeda.
+
+A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em
+Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais
+adeantada.
+
+Junto de um immenso _daro_ elevava-se o templo christão, que era de
+formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas
+abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
+denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.
+
+Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam
+hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro
+faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.
+
+N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a
+christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem
+os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira
+a prophecia de David.
+
+Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros
+da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente
+impregnada de judaismo, com traços de budhismo.
+
+Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia
+numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.
+
+Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de
+harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de
+copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a
+fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes.
+Reconhecia-se facilmente, que não deixaram discipulos os artistas,
+que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares,
+sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.
+
+Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para
+dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo,
+limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem
+de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo
+era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir
+missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que
+todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber,
+senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a
+lingua lithurgica.
+
+O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
+admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do
+ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não
+como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De
+sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz
+alçada, como erradamente se affirmava.
+
+Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos
+conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.
+
+O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o
+contrahia com o tacito ou expresso consentimento de se poderem
+apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim
+evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso,
+das causas de divorcio.
+
+As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam
+indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo
+a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas
+de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias,
+enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a
+celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes
+camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não
+usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades
+celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada,
+deixando, porém, crescer as barbas.
+
+Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a
+cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a
+montar, quando iam já distantes.
+
+A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para
+ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso
+o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.
+
+E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:
+arcyprestes--_komosats_; conegos--_debterats_; curas--_kasis_;
+vigarios--_nefk-kasis_; diaconos--_diakons_; e
+sub-diaconos--_nefk-diakons_.
+
+Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do
+nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver,
+tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se
+succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador
+Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II;
+mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita
+honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não
+podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da
+Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas,
+cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso
+emfim.
+
+A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o
+soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande
+senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.
+
+Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se
+obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los.
+Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a
+importante administração da sua casa.
+
+Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na
+obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do
+espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...
+
+Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um
+povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande
+cidade tambem distante!...
+
+E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
+rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos
+reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida
+ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados
+companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria
+Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...
+
+Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...
+
+A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via
+a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos,
+tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.
+
+Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em
+gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem
+desenho quasi e sem perspectiva.
+
+Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o
+alfabeto ethiopico do das inscripções himyariticas, ás quaes os
+missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para
+indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á
+intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda,
+ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a
+direcção da grega, da esquerda para a direita.
+
+O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e
+o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande
+parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a
+grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.
+
+Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos
+litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas
+não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos
+pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a
+sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis
+e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia
+no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam
+conhecer e servir o _novo senhor_. O seu procedimento, porém, tão
+regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados
+concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um
+dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou
+filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a
+Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se
+retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em
+nós um amigo.»
+
+Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu
+profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
+«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa
+presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á
+vossa amisade.»
+
+Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse
+passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava,
+tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que
+havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens
+seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e
+d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II
+umas cartas, que lhes entregou.
+
+Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o
+queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada
+Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do
+imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de
+cavallos.
+
+Helena considerava-se a mais ditosa filha da Ethiopia. Sentada ao
+lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia,
+disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: «Ha muito, que
+suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre
+ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os corações no amor de
+Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que eu já quero
+á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do _daro_,
+que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que vou
+viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o
+buscava!... Amo-te muito!... muito!...»
+
+Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face
+duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...
+
+Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...
+
+--E porque chorava?!...
+
+Pobre coração humano!...
+
+
+
+
+XIII
+
+_REMATE_
+
+
+O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D.
+Leonor de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria
+a realizar-se. Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de
+timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na
+Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber não
+apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o coração, amortece-la-ia
+ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no
+conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.
+
+Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo
+do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não
+tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o esperava Maria Thereza,
+e tinha para isso fundamento.
+
+D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança
+tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas
+devoções, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa
+rainha era dotada de um espirito não só eminentemente religioso e
+caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os
+primores de educação, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo
+nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma
+docilidade encantadora!
+
+Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
+qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a
+fazia já sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca
+do seu vasto plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o
+qual havia traçado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da
+prosperidade nacional, e na exaltação da fé catholica.
+
+No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha
+não olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a
+si propria impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve
+sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os
+recursos intellectuaes, para associa-la na execução das obras
+meritorias, que projectava.
+
+Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto
+d'elle uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua
+memoria da sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento
+do necessario para a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia
+Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que
+lá fallecessem, muito embóra não houvessem contemplado o hospital em
+seus testamentos.
+
+Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos
+que fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.
+
+Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para
+Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]
+a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doação o
+infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé, contra o muro
+velho da cidade.
+
+O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
+conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem
+suppunha fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza
+do seu pórte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas
+Geraes. As raparigas do sitio sabiam já a hora, a que _elle_ passava
+para as aulas, ou saía a passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e,
+ao vê-lo, iam-se-lhe os olhos no galante _moço_. Maria Thereza
+ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava a
+despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de
+acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez
+sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.
+
+Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam
+a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no
+saber, e até na graça da palestra.
+
+Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
+acto para licenciado, causou assombro aos mestres.
+
+Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito
+canonico.
+
+Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo
+docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10] que
+ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: «Sem
+approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não pósso acceitar
+encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de que a
+não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
+se façam».
+
+Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e
+Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com
+que, durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade,
+saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou ás Alcaçovas,
+onde residia então sua real ama.
+
+D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
+Abyssinia por creados seus;[11] como, porém, estivesse em
+preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus
+padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua saída,
+as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.
+
+Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á
+rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.
+
+Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua
+doença, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se
+cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo
+tempo tenção de communicar a este, que em testamento o declarava por só
+e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo
+seu, D. Jorge de Alencastro--que era o filho D. João II e de D. Anna de
+Mendoça.
+
+Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver
+assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
+Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal, d'aqui atravessaria
+por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e
+pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para
+si traçára o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda
+convalescente da grave doença, que a pozéra ás portas da morte.
+
+Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou
+D. João II, ou _morreu o homem_, como sentenciosamente disse Isabel, a
+Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque,
+nova certa do fallecimento.
+
+Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade
+de vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos
+a crêr, que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal
+era a paixão, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado
+principe D. Affonso--quem sabe se nas festas de Evora!...
+
+No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e
+satisfez uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que
+D. João II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu
+cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Préste João,
+conforme as informações e documentos, que deixára e houvera d'aquellas
+partes o Principe Perfeito.
+
+Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem
+duvida os de maior transcendencia, que seu irmão praticou no começo
+do seu reinado.
+
+Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
+importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega
+d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso
+explorador, mas apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma
+embaixada, que o acreditasse junto do Préste, confirmando as cartas, que
+lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.
+
+Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo,
+nem gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal
+sem novas nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por
+fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso
+predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relações com o
+abexim, e até este as buscaria.
+
+A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
+conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan,
+porque já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não
+perdia o ensejo, agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio
+uma grande idéa de Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que
+o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma
+solemne embaixada.
+
+Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e
+experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre
+VI, do imperador Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma
+qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o
+mandamento, por haver fallecido na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.
+
+Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis
+mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.
+
+Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham
+baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag
+Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso,
+durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.
+
+As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só
+pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre
+as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os
+turcos, que sustentados por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos
+tudo, desde as cumiadas do Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua
+frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao
+imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah,
+Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnições de
+janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses
+paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus
+effeitos rapidos.
+
+Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão
+terrivel vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu
+povo, a protecção de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto
+exaltava, e de cujas victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas
+contra os mahometanos, já se ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada
+sempre, como todos os da sua raça, tratou de procurar pessoa, que
+podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas
+que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.
+
+Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
+fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais
+proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com
+effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com
+cartas da imperatriz em nome do Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz,
+como signal da fé professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei
+D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, não dever demorar o delegado da
+imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes
+de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando
+conduzisse Matheus á ilha de Massuah.
+
+A esquadra, composta de dez náus, largou do porto de Lisboa no dia
+27 de março de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á
+Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Préste. Eram treze as
+pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero
+contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do rei.
+
+Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
+Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
+embaixada portugueza.
+
+Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu
+Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao
+seu destino, depois de longas e arduas jornadas.
+
+Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que
+exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao
+lembrar-se da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que
+tinha tomado.
+
+Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de
+muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e
+honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.
+
+Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo
+de Lima, dizia:
+
+«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára,
+até ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a
+elle, e sabe como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito
+desejo».
+
+Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar
+Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o
+desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que
+necessario fôsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar
+Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e
+toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.
+
+Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...
+
+Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo XVI, sem comtudo irmos
+mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.
+
+Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
+seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:
+
+ _Maria Thereza_
+
+Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e
+comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
+desejava, ou--porque não direi?--como nós ambos desejavamos.
+
+Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha
+Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei
+meu Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez,
+para de longe conversar comvosco, condemnado, como estou a não mais
+vos vêr, nem ouvir.
+
+A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro,
+ao lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação
+precisa, e a minha alma se fortaleça com tão duras provações!...
+
+De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje,
+tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me
+unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre,
+em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.
+
+Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando,
+estudei o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os
+principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia
+vir de Portugal á India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão
+Cairo para aquella cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras
+indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas náus com grande
+trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus
+proprios olhos o centro d'este mercado.
+
+Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o
+rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca
+no mar Vermelho.
+
+Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
+visitar a _cidade santa_, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
+encorporei-me na sua caravana.
+
+Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
+senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual
+decerto moveram mais as vossas orações do que as minhas.
+
+Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar
+pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.
+
+Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os
+seus lugares santos...
+
+Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que
+tive de tomar parte--perdôe-me Deus!--na terra natal de Mohammed.
+Sómente vos direi, que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira
+humana!
+
+É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
+variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam
+nos bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do
+_propheta_, e fazem-se negocios importantes.
+
+De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do _sancarrão_. Atravessei
+igualmente uma região immensa, adusta e maninha.
+
+Terminada a peregrinação, retirei para Yambo, que é no mar Vermelho
+o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no
+qual me dirigi a Tor.
+
+Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé.
+O Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por
+onde vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até
+entrarem na Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés
+dictou a lei aos hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez
+brotar um jôrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na
+caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar
+á vingança da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa região pedragosa
+e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais
+celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que
+fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem
+como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os
+aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.
+
+Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui
+desembarcar em Zeila.
+
+Tinha chegado ás portas da Abyssinia.
+
+A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e
+situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.
+
+Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma
+altissima serra, como se fôra inexpugnavel fortaleza. Por cima
+d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espaço de um tiro de
+bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo
+emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á qual
+conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
+alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo
+com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e
+perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis
+despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte
+e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que
+por lá passam com tamanho risco de suas vidas.
+
+Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
+instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E
+sabeis vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?
+
+--Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar
+por fiador, me mandaria a Portugal!
+
+Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!
+
+A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.
+
+Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
+perder-se-ia tudo quanto tenho feito. Se eu me retirasse, esta
+gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me
+na conta de um embusteiro; no que não perigava a minha consciencia, mas
+o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim tomariam por
+grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome de meu
+Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se
+com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
+respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não
+resolver o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.
+
+De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio
+a natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria
+comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder
+conquistar e conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que
+ficaria este sem as necessarias para a sua conservação. Prefere decerto
+Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relações de amisade com o
+Préste.
+
+Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
+El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.
+
+Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de
+lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque
+depois será menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a
+Deus, que eu viesse acabar meus dias a este exilio, empregal-os-ei
+todos no serviço d'El-Rei, e da patria.
+
+Fui constrangido a constituir familia, e todavia--crêde-me,
+Thereza!--vivo em uma solidão immensa!...
+
+Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas
+as suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o
+verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente
+o meu coração. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas
+orações e os nossos votos juntar-se-hão no caminho do céo...
+
+Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não
+ser visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de
+abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta
+separação nos não custe, experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu
+amar-vos menos...
+
+Não nos é dado realizar o impossivel!
+
+O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára,
+acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...
+
+Adeus.
+
+ _Pero da Covilhan._
+
+Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a
+candida cecem das matutinas lagrimas rociada»; mas tinha ao pé de
+si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as
+entrecortavam.
+
+Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
+exclamou:
+
+--Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as
+coisas d'esta vida!...
+
+--Tambem as ha certas--interrompeu D. Leonor com muito carinho--e uma
+d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...
+
+--Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza
+me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da
+Covilhan: «de outro jámais serei!»
+
+--Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes--tornou a
+rainha--; mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em
+galanteios!... Emfim é necessario, que penses no teu futuro...
+
+--Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a
+vêr Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle
+voltasse já não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.
+
+--Não póde haver união mais santa--retorquiu com jubilo a rainha--; mas
+sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...
+
+--Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu
+proposito; anima-me, pelo contrario, a esperança, de que, servindo
+melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan,
+orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha fraqueza de o
+não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois corações...
+
+--Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o
+teu coração de ouro!...
+
+Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
+regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa
+cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...
+
+Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
+mesmo affecto finissimo.
+
+Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta
+patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que
+passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros
+d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa
+regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir
+esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é
+infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e
+profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime
+virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.
+
+Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da
+Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna,
+sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois
+á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa
+typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.
+
+Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso
+mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D.
+Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades
+artisticas possuia.
+
+N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte
+as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a
+que se votou.
+
+Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás
+mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito,
+portador o P. Francisco Alvarez:
+
+ _Pero da Covilhan_
+
+Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
+sacrificios.
+
+Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus,
+fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na
+minha clausura, onde espéro servir melhor a Deus, do que se ficára
+no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno
+Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção
+pura, com que lh'as dirijo.
+
+Elle vos acompanhe sempre!
+
+ Adeus.
+
+ _Maria Thereza._
+
+Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em
+Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do
+mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus
+venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;
+
+ AQUI ESTÁ A RAINHA D. LEONOR.
+
+Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua
+vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!
+
+As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre
+testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do
+glorificado.
+
+O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal,
+que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das
+Misericordias.
+
+As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se
+definitivamente no seculo XVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.
+
+Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande
+pensamento de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do
+Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre
+aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle
+pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos
+egypcios, que eram os principaes graneis do sultão ottomano.
+
+E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de
+Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado
+pelo scheick de Zeila.
+
+D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o
+primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade
+acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o
+sentir.»
+
+Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes
+portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a
+morte do seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.
+
+Aureos tempos!...
+
+Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras
+em latim,[12] e sendo por isso aurora brilhantissima da
+renascença das lettras em Portugal.
+
+Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá
+contemplava o Tejo...
+
+Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se
+com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...
+
+E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar
+sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior
+recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+A
+
+PAG. 3.--«... _de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos
+olhos_». Como referimos no Cap. XI, o _tarbah_ das musulmanas serve-lhes
+de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão um
+dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
+costume.
+
+
+B
+
+PAG. 26.--«..._a ponto de provocar a formação das Hermandades_». Estas
+confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por
+essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a
+segurança publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos
+fóros e liberdade dos povos e communidades que as formavam. Eram uma
+força importantissima, que os reis catholicos habilmente aproveitaram
+depois, fazendo depender do governo do Estado a disciplina e
+constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais tropas da
+_Hermandad_, aquelles principes lográram ter um corpo permanente de
+exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi um
+ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
+contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia
+da mais incommoda e turbulenta oligarchia.
+
+Muito antes de conflicto do Toro já existia a «_santa hermandad_», e não
+foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se
+limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como
+erradamente affirma o Sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_.
+
+
+C
+
+PAG. 33.--«_Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
+historia_». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas
+ácerca do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em
+assumpto de tanta monta, como a successão á corôa de Castella por morte
+de Henrique IV, diz: «o fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira
+e veridica do succedido podia offender a pessoas auctorisadas e
+poderosas».
+
+É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.
+
+
+D
+
+PAG. 47.--«... _o principe D. João casasse com a princesa de Castella,
+D. Joanna_». Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro
+de Toro, e tão affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II,
+sendo principe, muito desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas
+«condemnou depois o máu conselho d'elle, em não haver acceitado os
+primeiros casamentos d'aquelle reino: que era casar el-rei com a Infante
+D. Isabel, e elle com a princeza D. Joanna». Zurita, Anales de Aragon,
+tom. IV, liv. XIX, cap. XVIII.
+
+Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis
+D. Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de
+Clemencin, Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. VII.
+
+
+E
+
+PAG. 69.--«... _a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de
+um castelhano_». O sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_ mostra,
+não dar crédito ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito,
+recobrado o estandarte real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o
+tomou. Ignorava de certo, que existe em Torre d'Eita, povoação pouco
+distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
+o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de
+Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico
+feito de Toro.
+
+É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada
+visse passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o
+estandarte real portuguez a varrer as ruas.
+
+
+F
+
+PAG. 90.--«_D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção
+pelos que cultivavam as lettras_». O sr. Oliveira Martins amesquinha com
+tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um _genio
+incoherente e curto no alcance_, concede-lhe a primasia em organisar uma
+bibliotheca no paço, mas... unicamente _por seguir a móda_; e occulta o
+facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o primeiro rei, que
+tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia portugueza.
+
+Singular criterio!
+
+
+G
+
+PAG. 100.--«..._cortezãos dotados de bôas prendas_». Talvez o leitor
+compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
+seculo XV, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de Frederico III,
+imperador da Allemanha.
+
+Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou
+nos ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de
+insensatos tanto nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em
+geral, incapazes de bons costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os
+olhos negros e furiosos.
+
+Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que
+foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.
+
+
+H
+
+PAG. 154.--«..._depois de ter descoberto a costa do Labrador_». Quem
+primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
+michaelense, sr. Ernesto do Canto, no _Archivo dos Açores_, vol. XII,
+pag. 529; e confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo _Quem
+deu o nome á Terra do Labrador_.
+
+Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que
+foi extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo
+indefesso investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito
+Rebello.
+
+
+I
+
+PAG. 155.--«... _a quem a patria não fez ainda a devida justiça_». Em
+a _Noticia Preliminar_, que precede o _Esmeraldo de situ Orbis_,
+publicação dirigida pelo douto academico sr. Raphael Basto, para a
+commemoração do quarto centenario do descobrimento da America, mostra o
+sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e do Roteiro
+de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o
+descobrimento da terra de _Vera Cruz_. Como temos, ha muito, esta
+opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a
+cujas investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a
+historia portugueza.
+
+
+J
+
+PAG. 155.--«... _da geração e linhagem dos Machados_». É digno de reparo
+que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha
+materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que
+seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente
+gravadas no seu escudo.
+
+A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só
+pela sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são
+accórdes todos os nossos genealogistas.
+
+Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos,
+os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com
+os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos,
+os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de
+modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o
+sangue das duas familias.
+
+A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem
+estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos os parentes
+d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os
+distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam
+n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com
+que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os serviços do navegador
+Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o valor particular
+d'essa mercê.
+
+D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e
+aquelles a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei
+pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a
+uma familia, que tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto
+podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.
+
+De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II,
+que Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D.
+Affonso, primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar
+direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor _in
+utroque_. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande
+entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das
+lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os
+affectos de todos os principes do seu tempo.
+
+Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de
+Bragança se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão
+imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando
+regente, o chamou para seu lado.
+
+Seu páe, Estevam Annes, _o Môço_, fôra educado na casa do condestavel D.
+Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em
+todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos
+Atoleiros.
+
+Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro
+Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o
+denomina a carta de D. Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista
+Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus páes, entrou na
+Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em 22 de maio de 1617.
+
+O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o
+antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt.
+D'este e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel
+Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto
+Bettencourt do Carvalhal Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a
+uma intelligencia e a uma illustração sãs, que se lhe serviram de
+ornamento proprio, tambem contribuiram, para honrar mais ainda a sua
+estirpe nobilissima.--Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de
+meus filhos.
+
+Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte
+de D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza
+lhe deu, não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os
+enthusiasmos.
+
+
+
+
+ERRATA
+
+PAG. LIN. ONDE SE LÊ LEIA-SE
+
+3 27 pessue possue
+
+51 14 _couto_ _conto_
+
+100 4 _vasallos_ _vassallos_
+
+103 2 ineperada inesperada
+
+113 9 Torentino Florentino
+
+121 30 pratimonio patrimonio
+
+Nas pag. . Tóro Toro
+
+ [1] Canc. Gen.
+
+ [2] Canc. Gen.
+
+ [3] Hist.
+
+ [4] Camões.
+
+ [5] Ruy de Pina.
+
+ [6] Ruy de Pina.
+
+ [7] Canc. ger.
+
+ [8] Misc., Garcia de Rezende.
+
+ [9] Historico.
+
+ [10] Historico.
+
+ [11] Historico.
+
+ [12] Historico.
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os erros
+apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas durante a
+transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram corrigidos
+nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das correcções
+aplicadas.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Pero da Covilhan, by
+Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
+***** This file should be named 32296-8.txt or 32296-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/2/2/9/32296/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
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+electronic works
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+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Pero da Covilhan, por Zeferino Brandão</title>
+ <meta name="Author" content="Zeferino Norberto Gonçalves Brandão, 1842-1910">
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+ body{margin-left: 10%;
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+ .pn {
+ text-indent: 0em;
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+Project Gutenberg's Pero da Covilhan, by Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Pero da Covilhan
+ Episodio Romantico do Seculo XV
+
+Author: Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+Release Date: May 8, 2010 [EBook #32296]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="fbox">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1897.</p>
+
+<p>Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
+pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não considerámos necessário assinalá-los.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em; text-align: center;">Pero da Covilhan</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.1em;">QUARTO CENTENARIO<br>
+DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">P<small>ERO DA</small> C<small>OVILHAN</small></p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">(EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ZEPHYRINO BRANDÃO</p>
+
+<p><small>DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE
+MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA E DA S. G. L.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A<small>NTIGA </small>C<small>ASA</small> BERTRAND&mdash;JOSÉ BASTOS <br>
+LIVREIRO-EDITOR <br>
+<em>LISBOA&mdash;73, Rua Garrett, 75</em></p>
+
+<p>1897</p>
+</div>
+
+<p><a class="pn" name="pg_IV">{IV}</a></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+<p style="text-align: center;"><small>Typographia da Academia Real das Sciencias de
+Lisboa</small></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><a class="pn" name="pg_V">{V}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000100">CONVERSA PREAMBULAR</a> </h1>
+
+<p>Eu não sei bem o que venho aqui fazer.</p>
+
+<p>Não venho, de certo, apresentar Zeferino Brandão, pois eu proprio lhe fui
+apresentado, noviço em lettras, quando elle já era, na egreja litteraria,
+officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos sacerdotes maximos, com
+alguns dos quaes privava, de irmão a irmão.</p>
+
+<p>Com effeito,&mdash;e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, não
+devendo comtudo andar muito longe dos trinta,&mdash;foi na primeira casa que João de
+Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio quarto do poeta,
+que Zeferino Brandão e eu nos avistámos a vez primeira.<a class="pn"
+name="pg_VI">{VI}</a> Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu,
+cadete de lanceiros.</p>
+
+<p>Vêrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um
+momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo, e que
+um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do café, na mesa dos hospedes,
+com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo, conquistando-me uma
+ovação no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e deixando-me a mim proprio
+deslumbrado de taes versos serem meus. Coitados! Por onde andarão elles!</p>
+
+<p>Zeferino Brandão, já a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender de
+então, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu, que, sempre
+que se encontravam, tinham tão bons abraços a trocar, tão bellas coisas a
+relembrar e a dizer. Eram o João de Deus, que estava ali; o Arriaga, que vinha
+todos os dias; o Anthero, que apparecia de quando em quando; o Simões Dias, o
+Candido de Figueiredo, o Guimarães Fonseca, o João Penha, a todo o momento
+falados, porém ausentes.</p>
+
+<p>Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brandão se lembrou de fazer
+annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrança foi tida como<a class="pn"
+name="pg_VII">{VII}</a> disparate de marca maior, e como antecedente de
+pessimos effeitos. E tanto que João de Deus lhe disparou, logo ali, á queima
+roupa:</p>
+
+<blockquote>
+ Com que então, cahiu na asneira <br>
+ De fazer na quinta feira, <br>
+ Vinte e seis annos! Que tolo! <br>
+ Ainda se os desfizesse... <br>
+ Mas fazel-os, não parece <br>
+ De quem tem muito miolo! </blockquote>
+
+<p>Averiguou-se, porém, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no anno
+anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no immediato. E por
+isso João de Deus accrescentava:</p>
+
+<blockquote>
+ Não sei quem foi que me disse, <br>
+ Que fez a mesma tolice <br>
+ Aqui o anno passado... <br>
+ Agora o que vem, apósto, <br>
+ Como lhe tomou o gosto, <br>
+ Que faz o mesmo? Coitado! <br>
+   <br>
+ Não faça tal; porque os annos <br>
+ Que nos trazem? Desenganos <br>
+ Que fazem a gente velho. <br>
+ Faça outra coisa; que em summa <br>
+ Não fazer coisa nenhuma, <br>
+ Tambem lhe não aconselho. </blockquote>
+
+<p>Zeferino Brandão tinha boa vontade de seguir á risca a advertencia do poeta;
+não poude no emtanto<a class="pn" name="pg_VIII">{VIII}</a>
+satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez outras coisas, livros excellentes,
+por exemplo; mas accumulou, e foi tambem fazendo annos, com a maior moderação,
+o mais devagar que lhe foi possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os.
+Era o que João de Deus lhe tinha dito:</p>
+
+<blockquote>
+ Mas annos, não caia n'essa! <br>
+ Olhe que a gente começa <br>
+ Ás vezes por brincadeira, <br>
+ Mas depois, se se habitua, <br>
+ Já não tem vontade sua, <br>
+ E fal-os, queira ou não queira. </blockquote>
+
+<p>Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brandão vinha já, não direi da
+noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e alegre
+convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nóvos de então, e sabe-se
+quanto é ciosa e aristocrata a superioridade intellectual, que não desce nunca
+a nivelar-se com os mediocres, e que só anda hombro a hombro com os seus pares.
+</p>
+
+<p>Depois, tive occasião de lhe definir melhor as referencias no espaço e no
+tempo, com respeito ás gerações academicas, que elle frequentou, áquellas de
+que foi continuador, e ás que o continuaram a elle proprio.<a class="pn"
+name="pg_IX">{IX}</a></p>
+
+<p>Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu
+<em>caloiro</em>.</p>
+
+<p>Portanto, toda e qualquer ideia de apresentação, ou de recommendação seria
+absurda.</p>
+
+<p>Mas Zeferino Brandão exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta excursão
+pelo mundo aventuroso da publicidade, não por medo d'ella, que o seu animo é
+seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a ponderar quanto valem
+baldões e glorias litterarias; mas verdadeiramente tão só, pois outra
+explicação lhe não posso dar, por mero capricho de artista.</p>
+
+<p>Dêmos, por conseguinte, o braço e vamos ambos de companhia, uma vez que esta
+lhe é agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.</p>
+
+<p>Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brandão apuramento selecto em
+um volume, a que deu por titulo <em>Paginas Intimas</em>, do qual depois fez
+segunda edição, mais aprimorada ainda, e tambem difficil já de encontrar nas
+livrarias. Não é vulgar que este caso succeda, e não é pequena honra, nem
+pequena satisfação para um auctor, e sobretudo para um poeta, poder referil-o.
+</p>
+
+<p>Os taes annos, que a gente se habitúa a fazer, e que depois cada qual faz,
+queira ou não queira, foram arredando o poeta das tentações da rima,<a
+class="pn" name="pg_X">{X}</a> sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia,
+que elle continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada
+em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas coloridas e
+illuminadas, quer na evocação ideal dos tempos volvidos, trazendo á tela do
+presente, memorias, personagens e feitos do passado.</p>
+
+<p>D'estas duas predilecções da sua mente, a um tempo assimiladora e imaginosa,
+são documento bastante os dois livros de valor, com que a sua bagagem
+litteraria se enriquece. Um d'elles, <em>Monumentos e lendas de Santarem</em>,
+é um verdadeiro padrão de sentimento, erguido ás recordações gloriosas d'essa
+forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de uma collecção de
+<em>Viagens</em>, que está reclamando, a brados, os seus successores, é uma
+soberba descripção da <em>Belgica</em> moderna.</p>
+
+<p>Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos
+descriptivos de uma excursão pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo da
+publicação, nos deixou no espirito uma grata lembrança.</p>
+
+<p>Compraz-se o escriptor, como se vê, e n'isto mesmo affirma intensamente o
+seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relação com o seu
+tempo, como na vida sonhadora a que<a class="pn" name="pg_XI">{XI}</a> o
+attraem os livros de outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de
+meridional mais á larga se expande.</p>
+
+<p>Ali, os monumentos de mais de uma raça, livros de pedra abertos á meditação
+dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na memoria dos povos
+que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como centro de attracção maior;
+depois, primacialmente, as soberanias e magnificencias da arte, legados
+inestimaveis que as gerações foram transmittindo, e nos quaes vae encontrar as
+mais altas suggestões artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o
+gosto moderno.</p>
+
+<p>Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes, tambem, só
+por si, dão medida do bom equilibrio e da alta cultura de quem os escolhe e
+professa.</p>
+
+<p>Não são diversos os predicados do novo livro, que me encontro prefaciando. O
+auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de Pero da Covilhã, a
+qual apparece na historia, um pouco esbatida, tão sómente pela exuberancia de
+luz com que se illuminam os quadros dos descobrimentos e conquistas
+subsequentes, que elle em tamanha parte preparou.</p>
+
+<p>Essa figura, porém, tem contornos bem definidos,<a class="pn"
+name="pg_XII">{XII}</a> e Pero da Covilhã é, na epopêa dos Gamas e dos
+Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um inolvidavel predecessor.</p>
+
+<p>Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel para o
+seu proposito; mas de tal fórma se cinge ás linhas da realidade, que a figura
+se destaca viva, deante de nós, como realmente foi, e o leitor mal póde
+discernir onde começa e acaba a ficção, e onde prevalece o rigor historico.</p>
+
+<p>Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brandão, uma vez que a vida
+aventurosa do seu personagem dá que farte para todas as exigencias da concepção
+romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginação.</p>
+
+<p>O scenario em que elle expande a sua actividade, tão ousada e tão original,
+mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades não eram de extranheza,
+apparece-nos restabelecido, por tão singular poder de evocação, que nos
+sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto e a alma cheia de
+interesse, como se nós mesmos pertencessemos á época em que toda a acção do
+livro, muito mais historia do que romance, amplamente se desenrola.</p>
+
+<p>Vêmos, logo no começo, a Sevilha do seculo decimo<a class="pn"
+name="pg_XIII">{XIII}</a> quinto, e o viver luxuoso das grandes casas de
+Hespanha, onde em muitas das quaes a cadeira senhorial ousava defrontar-se em
+orgulhos e pretenções com os thronos dos reis; e no solar magestoso dos
+Medina-Sidonia, vamos encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido
+d'ali a terras de Portugal, por cá se deixou ficar a pedido de Affonso V,
+servindo com o seu coração, que já era de portuguez, a patria de seus paes,
+assim restituida a elle proprio.</p>
+
+<p>Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro, é acompanhado pelo auctor e pelo
+leitor, primeiro na sua missão e officio de personagem da côrte e do séquito
+real, durante o ultimo quartel de vida, tão agitado e tão pouco feliz, do rei,
+que em Portugal o havia detido e que sempre lhe dispensou o seu favor; depois,
+em toda a sua peregrinação ao Oriente, na demanda das terras do Preste, até dar
+fundo na Abyssinia, onde para sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um
+captiveiro perpetuo, que não deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o
+houvessem tecido com laços de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e
+das honras, agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do
+amor.</p>
+
+<p>O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica<a class="pn"
+name="pg_XIV">{XIV}</a> fundamental, d'onde veiu por fim a ser gerada esta
+successão esplendida de quadros historicos, passa-se na intimidade dos corações
+e das consciencias d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas
+para os quaes a mais viva aspiração da alma foi um sonho que jámais se
+realisou. Não se póde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais
+pericia, atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias
+physicas do homem são postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a
+agudissima sensibilidade do coração.</p>
+
+<p>Parece-nos até, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro
+reside no contraste a que damos relêvo agora. Os que tenham pensado encontrar
+n'elle uma obra de completa ficção, podem talvez ficar desapontados ante o
+predominio que ali assumem a exactidão, a abundancia, a veracidade historica.
+Mas a conducção do fio ideal e subtilissimo, de uma pura e platonica paixão
+amorosa, accendida nos mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o
+decurso da vida com os oleos da religião e da cavallaria, com os incitamentos
+do dever e da honra, a habil e engenhosissima conducção d'esse fio, repetimos,
+com a qual o auctor parece nada se preoccupar sem<a class="pn"
+name="pg_XV">{XV}</a> que todavia um momento a descure, é uma das maiores
+provas que Zeferino Brandão nos podia dar, de quão delicado é o seu
+temperamento artistico, de quão profundo é o seu sentimento poetico, de quão
+esmerado é o seu fino gosto.</p>
+
+<p>E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os meritos
+da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se não reparasse em qual deve
+ser já a sua impaciencia, e em como é tempo de os deixar a sós com o dono da
+casa, do qual sabem já que teem a esperar uma recepção de primôr.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>     26 de fevereiro de 1897.</p>
+
+<p style="text-align: right;">F<small>ERNANDES </small>C<small>OSTA.</small>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p><a class="pn" name="pg_XVI">{XVI}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_XVII">{XVII}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000200"><em>ADVERTENCIA</em></a> </h1>
+
+<p>O episodio, que vae ler-se, é, como todos os episodios romanticos, um
+pequeno espelho. Procurei dispô-lo em termos de reflectir uma luz calma e pura,
+como o céo transparente e sereno, e não reprezentar a vasa de lodaçaes, d'essas
+miserias, que são a mais viva chaga social de todos os tempos, o terrivel
+problema a resolver, o alpha e o omega das civilisações.</p>
+
+<p>Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, não tive de roçar por
+impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no incidente da
+successão á corôa de Castella.<a class="pn"
+name="pg_XVIII">{XVIII}</a></p>
+
+<p>Não accuso de immoraes os que revolvem o lôdo.</p>
+
+<p>A quem deixa estagnar a agua, pertence mórmente a responsabilidade na
+formação dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
+descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira lamentavel em
+ambos os casos.</p>
+
+<p>No reinado de D. João II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
+houve, como em todas as épocas, grandes virtudes e grandes vicios. D'estes não
+cuidei, porque não podia ir buscar a um meio, onde nunca estiveram, os meus
+dois protagonistas, que são verdadeiros no sentido eterno da palavra, antes de
+o serem no sentido historico.</p>
+
+<p>&mdash;E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
+tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, á qual
+subordinei a sua acção, cortaria implacavelmente as azas da minha phantasia?
+</p>
+
+<p>Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
+hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,<a class="pn"
+name="pg_XIX">{XIX}</a> porém, d'esses quadros phantasticos deveria empregar
+as tintas modernas, e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.</p>
+
+<p>Commemóro emfim, conforme sei e pósso, o quarto centenario do descobrimento
+do caminho maritimo da India.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Zephyrino Brandão</em></p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_XX">{XX}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a class="pn" name="pg_1">{1}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000300">I</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000310"><em>DESPEDIDA</em></a> </h2>
+
+<p>O leitor já visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequér, affirmam por
+lá os nossos visinhos, que <em>não vio maravilha</em>.</p>
+
+<p>Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr
+no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir
+do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos
+materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.</p>
+
+<p>O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo
+<small>XV</small>, em um dia calmoso do estio.</p>
+
+<p>Abrasa tanto calor!...</p>
+
+<p>Em breve zombaremos d'elle.</p>
+
+<p>Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de
+jardins e fontes,<a class="pn" name="pg_2">{2}</a> no intuito de
+refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e até no interior dos proprios
+edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem
+fielmente os costumes de seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma
+d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.</p>
+
+<p>Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
+planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.</p>
+
+<p>Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle
+se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com
+grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre
+caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só
+por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por
+facilitar assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria
+fabril dos sevilhanos;&mdash;o que torna riquissima de população e haveres a formosa
+metropole andaluza.</p>
+
+<p>Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do
+Ouro.</p>
+
+<p>Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a
+estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a
+<em>grande</em>, como á de Toledo a <em>rica</em>, á de Salamanca a
+<em>forte</em> e á de Leão a <em>bella</em>.<a class="pn"
+name="pg_3">{3}</a></p>
+
+<p>Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa,
+que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com
+variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o
+mais notavel monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo
+celebre alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a
+invenção da algebra.</p>
+
+<p>&mdash;Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe
+ainda o <em>Giraldillo</em>, e por isso a torre não é conhecida pelo nome de
+<em>Giralda</em>.</p>
+
+<p>Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com
+palacios realengos.</p>
+
+<p>As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
+graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som
+das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; <a
+href="#nota_A">de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</a>
+por tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a reflectir a
+luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.</p>
+
+<p>O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que
+não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é
+patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama
+patrioticamente:<a class="pn" name="pg_4">{4}</a></p>
+
+<blockquote>
+ «Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas <br>
+ Para el Cielo crió tantos tesoros, <br>
+ Cuantas el ancho mar esconde arenas, <br>
+ Cuantas estrellas los celestes coros!» </blockquote>
+
+<p>Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
+algo peccadora...</p>
+
+<p>A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam
+frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu
+serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias.
+</p>
+
+<p>Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças
+centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos
+legados em seus testamentos.</p>
+
+<p>Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como
+tambem o tratam.</p>
+
+<p>Entremos no seu palacio.</p>
+
+<p>Este grandioso edificio, exteriormente austero e nú, ostenta no interior uma
+riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a influencia
+exercida em Hespanha pela civilisação arabe. Póde considerar-se uma vivenda
+semi-oriental, como todas as do estylo <em>mudejar</em>, a que pertence, para a
+construcção das quaes as duas artes, christã e mahometana, se dão as mãos com
+tal engenho, que se harmonisam perfeitamente os dois elementos de manifestações
+tão diversas.</p>
+
+<p>&mdash;Como sabido anda, os arabes que ficaram<a class="pn"
+name="pg_5">{5}</a> com os christãos, depois de certos tratados, em virtude
+dos quaes se lhes permittia conservar suas leis, religião e costumes,
+chamavam-se <em>mudejares</em>, e nas edificações, em que eram empregados,
+imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que os da sua raça haviam
+conquistado, especialmente da Persia.</p>
+
+<p>Tornando, porém, ao ponto: na disposição geral do palacio adoptou-se o
+estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das quaes
+demoram as habitações.</p>
+
+<p>A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes d'ella
+recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus desenhos
+primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento acha-se coberto com
+uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No tecto, o elemento decorativo
+predominante são estalactites e laçarias, tudo realçado com applicação de côres
+e douraduras.</p>
+
+<p>Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
+imaginação dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado ás suas
+tradições gloriosas.</p>
+
+<p>Móvel não se vê, a não ser uma larga cadeira de espaldar, com sobrecéo e
+estôfo de brocado. No centro da espalda, o brazão dos Medina Sidonia. Uma
+riquissima almofada de setim bordada a ouro está collocada aos pés d'esta
+cadeira, em que sómente costuma sentar-se o duque, ou algum extrangeiro<a
+class="pn" name="pg_6">{6}</a> de distincção, que o visita, e a quem elle
+offerece esse lugar de honra.</p>
+
+<p>Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
+representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos, batalhas,
+torneios e scenas de caça; ou cobertas de tapetes turcos, imitando persas,
+guadamecins e azulejos, tendo os sóccos revestidos de mosaicos esmaltados. Os
+tectos, estucados e pintados, com imitações mais ou menos exactas da flora.
+Alguns pavimentos, alcatifados.</p>
+
+<p>Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
+escola, de João Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da pintura
+sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes fundára a sua escola.
+As paredes e tectos da ante-camara, armados e toldados de riquissimos lambeis.
+Os móveis, de páu-santo, primorosamente entalhados e forrados de brocado e
+ouro.</p>
+
+<p>Na sala da duqueza vê-se um magnifico relicario, d'estes que o clero manda
+executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal é a perfeita
+intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma credencia com tres
+compartimentos em fórma de degráus, cobertos de setim e rendas de Flandres,
+repousam varios objectos de uso senhoril, uns de ouro, outros de prata e
+crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano, coberto com um bancal de velludo,
+tendo ao meio bordadas<a class="pn" name="pg_7">{7}</a> as armas da
+duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados de
+prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e castiçaes de
+ouro. Nos angulos da sala, açucenas em amphoras preciosas proclamam a sua
+candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de onyx exhalam a sua
+fragancia suavissima.</p>
+
+<p>As paredes da sala de armas do duque exhibem trophéos de armas arabes,
+despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas, adargas, onde
+se lêem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanças em fórma de meia lua,
+espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.</p>
+
+<p>Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem completamente
+as estreitas portas de alerse.</p>
+
+<p>O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar coroado
+por dentilhões, tendo entalhado o brazão das armas de Niebla, titulo da familia
+Medina Sidonia, ou simplesmente a corôa ducal; algumas cadeiras ainda, lavradas
+com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e umas e outras com escabellos
+fixos ou moveis; almofadas de seda, sobrepostas duas a duas, e servindo de
+assento na sala de recepção da duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar,
+bancos longos e de espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de
+thezoura, bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
+dourados, arcas para assentos, armario, cofre e até mesa de<a class="pn"
+name="pg_8">{8}</a> escrever, todas de madeiras preciosas e guarnecidas de
+prata, ferro ou bronze; relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira,
+outras de ferro. Muito d'este mobiliario é coberto de ricas tapeçarias
+orientaes, que lhe dão um aspecto delicado e alegre com as côres vivas de seus
+bordados caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
+um pé só, além de outras de madeira, iguaes áquellas no formato, e sobre que se
+vêem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas, outros vasos
+de prata lavrada, salvas e floreiras.</p>
+
+<p>Não entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D. Juan
+de Guzman, que tem sido o seu irmão predilecto.</p>
+
+<p>Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manhã para o jardim com as dez
+donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mão um rosario e
+um livro de missa.</p>
+
+<p>Á sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
+Terminada a oração as donzellas correm alegremente a colher flores, com que na
+volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.</p>
+
+<p>Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças
+da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena
+côrte.</p>
+
+<p>Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas
+donzellas e de<a class="pn" name="pg_9">{9}</a> alguns fidalgos, dos mais
+apontados em garbos de cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de
+conversadores, passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia,
+recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.</p>
+
+<p>Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente
+algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão
+justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de <em>mãe dos pobres</em>.
+</p>
+
+<p>E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo
+principal do palacio.</p>
+
+<p>É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
+decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de
+ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de
+ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro
+uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e
+os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.</p>
+
+<p>Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O
+sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande
+toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do
+tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:</p>
+
+<p>&mdash;Estais a despedir-vos das flores, Perico?...</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, se tornarei a vê-las!...&mdash;respondeo<a class="pn"
+name="pg_10">{10}</a> o pagem com pronunciado acento de tristeza.</p>
+
+<p>&mdash;Pois porque não haveis de voltar?...</p>
+
+<p>&mdash;Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...</p>
+
+<p>&mdash;Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando
+com presagios pelo caminho...</p>
+
+<p>As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
+companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á
+sua interlocutora:</p>
+
+<p>&mdash;Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na
+certeza de que ficaria bem guardado?</p>
+
+<p>&mdash;De mim!&mdash;exclamam todas a um tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Como elle não póde repartir-se,&mdash;ponderou o pagem&mdash;entrega-lo-hia a
+Beatriz.</p>
+
+<p>&mdash;Sois mui gentil, Perico!&mdash;tornou esta. Graças pela preferencia...</p>
+
+<p>&mdash;Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...</p>
+
+<p>&mdash;Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao
+som d'elle:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Con dos cuidados guerreo</em> <br>
+ <em>que me dan pena y sospiro;</em> <br>
+ <em>el uno quando no os veo,</em> <br>
+ <em>el otro quando vos miro.</em><a name="tex2html1"
+ href="#foot117"><sup>[1]</sup></a> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_11">{11}</a></p>
+
+<p>&mdash;Bellissimo, Perico!...&mdash;bradaram as donzellas com viva demonstração de
+alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Que gracioso sois!&mdash;accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
+esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento
+alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...&mdash;observou o pagem.</p>
+
+<p>&mdash;Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
+jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste
+descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando
+regressardes, recitai-os, Perico!...</p>
+
+<p>&mdash;Careceis dos nossos rogos?...&mdash;atalharam as outras donzellas.</p>
+
+<p>Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de
+Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são
+poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes
+e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o
+reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo
+não havia perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.</p>
+
+<p>Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na
+lingua arabe, e<a class="pn" name="pg_12">{12}</a> sabem numerosas lendas
+d'este povo de poetas. Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a
+litteratura. Os romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de
+Hespanha, anteriores ao presente seculo <small>XV</small>, todos os cavalleiros
+d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez
+de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos é
+escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes esta
+maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a espada na mão do
+cavalleiro.»</p>
+
+<p>N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a
+familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.</p>
+
+<p>Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade,
+parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de
+graça, e exclama:</p>
+
+<p>&mdash;Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...</p>
+
+<p>Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao
+animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria
+inferior.</p>
+
+<p>O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude
+d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da
+galeria.</p>
+
+<p>Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
+olhar scintillante e<a class="pn" name="pg_13">{13}</a> modos altaneiros,
+em que se traduz o seu orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do
+infortunio, tem feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona,
+ora narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A
+famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar ginetes,
+para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos Guzman, apesar do
+seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos estavam arreados, e
+promptos a enfrear á primeira voz.</p>
+
+<p>São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que
+lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida
+momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil
+cavallos».</p>
+
+<p>Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do
+palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D.
+Juan de Guzman.</p>
+
+<p>Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
+qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que
+o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos
+trovadores da sua côrte.</p>
+
+<p>Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas
+e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros,<a class="pn"
+name="pg_14">{14}</a> encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha
+ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam alcançado
+licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui passar a Santiago
+de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar os caminhos de Hespanha
+ora tão infestados de bandidos e salteadores.</p>
+
+<p>As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima
+nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam
+distinguir um só d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez.
+Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.</p>
+
+<p>&mdash;E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?...
+Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de
+entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte
+teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia
+da memoria os venturosos dias de Sevilha?...</p>
+
+<p>Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas
+com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.</p>
+
+<p>Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos
+costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia,<a
+class="pn" name="pg_15">{15}</a> não auctoriza a procurar mysterios no que
+tão natural se apresenta.</p>
+
+<p>&mdash;Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de
+experimentados escudeiros?</p>
+
+<p>&mdash;É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que
+monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos
+joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.</p>
+
+<p>Ditosa mocidade!...</p>
+
+<p>Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
+exercer o galante ministerio de <em>juiza</em> em alguma <em>côrte de
+amor</em>.</p>
+
+<p>E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da
+sanfona:</p>
+
+<blockquote>
+ «Rosa fresca, rosa fresca, <br>
+ tan garrida y con amor; <br>
+ quando vos tuve em mis braços, <br>
+ no vos supe servir, no, <br>
+ y agora que os serviria <br>
+ no vos puedo aver no.<a name="tex2html2" href="#foot128"><sup>[2]</sup></a>
+ <br>
+ ............................ <br>
+ ............................ </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_16">{16}</a><br><a class="pn"
+name="pg_17">{17}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000400">II</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000410"><em>CONSPIRAÇÃO</em></a> </h2>
+
+<p>Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde
+poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para
+melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.</p>
+
+<p>Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal
+D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma
+menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo,
+pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D.
+Isabel, irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco
+depois, reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a
+recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra
+o juramento.<a class="pn" name="pg_18">{18}</a></p>
+
+<p>Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem
+da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente
+agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no
+serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de
+cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam
+reconhecer-lhe meritos para tanto.</p>
+
+<p>Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;&mdash;o
+verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e
+divertindo-se.</p>
+
+<p>D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
+Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este,
+por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia
+empenhado por avultada somma de dinheiro.</p>
+
+<p>Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei
+usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.</p>
+
+<p>O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
+como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça
+tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.</p>
+
+<p>No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e
+seus sequazes,<a class="pn" name="pg_19">{19}</a> para uma reunião
+secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.</p>
+
+<p>Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:</p>
+
+<p>&mdash;É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.</p>
+
+<p>&mdash;Não se me afigura empresa difficil...&mdash;acudio em tom pausado e sisudo o
+arcebispo de Toledo.</p>
+
+<p>&mdash;Convenho;&mdash;replicou Vilhena&mdash;mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e
+tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;E a nós,&mdash;atalhou, recachando-se, o prelado toledano&mdash;embóra inferiores na
+quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que
+luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, esse...&mdash;condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
+execução de ninguem confiava.&mdash;Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de
+Aragão.</p>
+
+<p>&mdash;Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas
+palavras: invistamos contra a honra da rainha!</p>
+
+<p>Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade
+media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para
+menear o cajado pacifico do apostolo.</p>
+
+<p>O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor,
+e, occultando cautelosamente<a class="pn" name="pg_20">{20}</a> o
+assombro, que lhe produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:</p>
+
+<p>&mdash;Como?...</p>
+
+<p>&mdash;Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la
+Cueva&mdash;respondeo serenamente o arcebispo.</p>
+
+<p>&mdash;E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o
+facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se
+com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos
+é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na
+sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid,
+sem evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do
+rei, e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações
+perante tal mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...</p>
+
+<p>&mdash;E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem
+acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o
+vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados,
+e até as avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha
+defensa possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a
+mostrar-se em publico, sem correr o risco de ser apupado...</p>
+
+<p>&mdash;N'essas circumstancias deixará a infanta de<a class="pn"
+name="pg_21">{21}</a> ser a herdeira presumptiva da corôa...&mdash;contestou
+pausadamente o marquez.</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida!&mdash;atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
+marquez de Vilhena certo ar de indecisão.</p>
+
+<p>&mdash;Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...</p>
+
+<p>&mdash;Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!&mdash;exclamou o
+arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo,
+accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de
+Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a
+côrte aragoneza...</p>
+
+<p>&mdash;É habil esse lance!...&mdash;ponderou o arcebispo&mdash;Comtudo não vos esqueçais do
+arcebispo de Sevilha...</p>
+
+<p>&mdash;Seguramente...</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, que nos comprehendemos...</p>
+
+<p>&mdash;Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de
+restaurar...</p>
+
+<p>&mdash;O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e
+apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...&mdash;concluio o arcebispo, sorrindo
+ironicamente.</p>
+
+<p>&mdash;É uma creança que substitue outra...&mdash;observou Vilhena.</p>
+
+<p>&mdash;É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança,<a class="pn"
+name="pg_22">{22}</a> e D. Affonso hade obedecer ás nossas inspirações...</p>
+
+<p>Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não
+confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e
+audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia
+consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a
+victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem
+d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com
+elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de
+uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!</p>
+
+<p>O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão
+mostrando elles para gloria sua.</p>
+
+<p>Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão,
+assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe
+servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a
+sua intimidade com o conde de Ledesma.</p>
+
+<p>Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o
+nome de <em>Beltraneja</em>, posto por elles á innocente infanta, e perfida
+injuria disparada ao pundonor de sua mãe.</p>
+
+<p>Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
+baixeza, de propalar<a class="pn" name="pg_23">{23}</a> em tamanha
+infamia aquelles, que se diziam <em>grandes de Castella</em>!</p>
+
+<p>Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
+saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe
+propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido
+monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto
+a sua victima, que passou logo para o bando dos descontentes!</p>
+
+<p>Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
+apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa.
+Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a
+camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes
+ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.</p>
+
+<p>De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam,
+com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar
+por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não
+era sua filha bem o sabiam elle e o conde!</p>
+
+<p>O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
+perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
+accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por
+que tanto suspirava o marquez de Vilhena.<a class="pn"
+name="pg_24">{24}</a></p>
+
+<p>Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez
+que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno,
+entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se
+considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D.
+Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.</p>
+
+<p>Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram
+em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual
+collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de
+sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em
+seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o
+sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de
+Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a
+pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!</p>
+
+<p>O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram
+a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.</p>
+
+<p>Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
+instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!</p>
+
+<p>Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado
+profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia<a
+class="pn" name="pg_25">{25}</a> de Henrique IV, que era o desespero dos
+bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os
+conjurados.</p>
+
+<p>Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
+grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica,
+feita á princeza D. Joanna em Saragoça.</p>
+
+<p>Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas,
+mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo
+lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o
+sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que
+fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a
+responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.</p>
+
+<p>O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da
+velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;&mdash;o que
+significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por
+traidores.</p>
+
+<p>Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
+negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se
+ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que
+Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de
+armas por cinco mezes, dando<a class="pn" name="pg_26">{26}</a> azo a
+despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as povoações, <a
+href="#nota_B">a ponto de provocar a fundação das <em>Hermandades</em></a>,
+para perseguir os malfeitores.</p>
+
+<p>Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente
+comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados,
+cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.</p>
+
+<p>O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
+serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse
+com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz
+Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de
+Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr
+tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.</p>
+
+<p>A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer
+esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.</p>
+
+<p>O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e
+senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando
+de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo,
+principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que
+appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada,<a
+class="pn" name="pg_27">{27}</a> participando-lhe, que tinham acclamado o
+infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em vez de
+attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle os castigos
+eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava todas as classes á
+desobediencia.</p>
+
+<p>D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
+conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não
+poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse...
+Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com
+D. Joanna, a quem chamou <em>supposta</em> filha do monarcha.</p>
+
+<p>Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã
+não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da
+rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente
+infanta, sua filha.</p>
+
+<p>Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
+legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo
+quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia
+recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel
+desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.</p>
+
+<p>Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para
+D. Isabel.<a class="pn" name="pg_28">{28}</a></p>
+
+<p>O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto
+D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena
+oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo
+engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace
+d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas
+discordias, surgiam logo outras.</p>
+
+<p>Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa
+sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo
+elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete
+em suas mãos.</p>
+
+<p>Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
+previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso,
+porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo
+illustre uma pagina indecorosa.</p>
+
+<p>O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova
+campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de
+Castella.</p>
+
+<p>Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim
+de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e
+depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com
+quem fosse,<a class="pn" name="pg_29">{29}</a> antes de elle regressar. A
+infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
+intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei de
+Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante certas
+condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella encarregára a
+negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as consideravam
+os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio realisou-se. Correo
+logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a dispensa pontificia, tão
+reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos,
+nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á
+verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o breve
+indispensavel.</p>
+
+<p>Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição,
+na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se
+effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu
+rei, por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa
+união. Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em
+que lhe communicava a sua mudança de estado.</p>
+
+<p>Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!</p>
+
+<p>O desforço de Henrique IV consistio em reunir<a class="pn"
+name="pg_30">{30}</a> um simulacro de côrtes no valle de Lozoya, onde,
+perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era irrito e nullo
+o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D. Isabel por
+herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha, pois lhe
+fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima filha.
+Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por
+procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades,
+que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
+assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que por
+meio de poderes especiaes havia empenhado.</p>
+
+<p>Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V,
+a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de
+Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de
+Vilhena do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique
+IV entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão,
+filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador
+de Castella.</p>
+
+<p>Começou o anno de 1474.</p>
+
+<p>Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera,
+teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar<a class="pn"
+name="pg_31">{31}</a> com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural
+bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para
+apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto IV,
+sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que desejasse, por
+isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a ponto de lograr
+induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova publica de
+affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao alcaçar.
+Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã e
+cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em braços
+para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias, para que
+declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O
+marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
+Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
+sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo
+contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um pêso,
+de que não podia alliviar-se.</p>
+
+<p>Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que
+falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes
+antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D.
+Diogo,<a class="pn" name="pg_32">{32}</a> que assistio com o cardeal
+Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo,
+aos ultimos momentos do rei em Madrid.</p>
+
+<p>Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
+moribundo, perguntou a este o cardeal:</p>
+
+<p>&mdash;V. A. deixa testamento?</p>
+
+<p>&mdash;Deixo&mdash;respondeo Henrique IV.&mdash;O meu secretario Juan de Oviedo o
+apresentará.</p>
+
+<p>&mdash;E quem são os vossos testamenteiros?&mdash;continuou o cardeal.</p>
+
+<p>&mdash;Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde
+de Plasencia.</p>
+
+<p>&mdash;E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?&mdash;insistio ainda Mendoza.</p>
+
+<p>&mdash;A minha filha D. Joanna&mdash;replicou o monarcha serena e firmemente.</p>
+
+<p>Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda,
+em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas
+ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!</p>
+
+<p>Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar,
+em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne
+<em>Te-Deum</em>, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente
+foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu
+esposo e do rei defunto, sentou-se<a class="pn" name="pg_33">{33}</a>
+junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o
+alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
+Henrique.</p>
+
+<p>Parece um sarcasmo!</p>
+
+<p>Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a
+successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o
+direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os
+rebeldes.</p>
+
+<p><a href="#nota_C">Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
+historia.</a></p>
+
+<p>Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu
+criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que
+é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.</p>
+
+<p>O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
+desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa,
+com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.</p>
+
+<p>Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella;
+saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que
+no conceito de Camões,</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Fôra por certo invicto cavalleiro,</em> <br>
+ <em>Se não quizera ir ver a terra Iberica.</em> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_34">{34}</a><br><a class="pn"
+name="pg_35">{35}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000500">III</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000510"><em>NOVO ESCUDEIRO</em></a> </h2>
+
+<p>Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de D.
+Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de Aragão
+principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia afinal
+decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em circumstancias mui
+diversas.</p>
+
+<p>Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna era
+uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem a
+necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se operava a
+favor da justa causa da princeza de Castella.</p>
+
+<p>Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das hostilidades,
+de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe, ficou inteiramente á
+mercê da versatilidade caracteristica de<a class="pn"
+name="pg_36">{36}</a> seus parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de
+seus odios particulares, e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por
+zelo do bem publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V,
+para lhes saciar a cobiça.</p>
+
+<p>Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o
+testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D. Joanna
+sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão, pedindo outrosim
+a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e casasse com a sobrinha.
+</p>
+
+<p>Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos
+grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo respeito ás
+praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer conselho, que
+contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não só quantos e quaes
+eram os magnates castelhanos legitimistas, como de certificar-se da valia
+d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque, seu camareiro-mór, depois conde
+de Penamacor.</p>
+
+<p>A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido pelo
+monarcha.</p>
+
+<p>Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito com
+ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente pediam a
+lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato grandes e
+pequenos.<a class="pn" name="pg_37">{37}</a></p>
+
+<p>Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
+apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto entre
+ambos ficasse assentado.</p>
+
+<p>Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O reino
+sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de dissolução,
+caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de voss'alteza está o
+poder evita-la.</p>
+
+<p>&mdash;São esses os meus desejos;&mdash;replicou D. Affonso&mdash;mas, como sabeis, a
+empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que se
+propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.</p>
+
+<p>&mdash;Da parte de meu irmão&mdash;tornou Guzman&mdash;venho eu prestar homenagem a
+voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar, tomar e
+reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se desposar com a
+senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do governo de Castella.</p>
+
+<p>&mdash;O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como procede,
+offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.</p>
+
+<p>&mdash;Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a
+gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.<a
+class="pn" name="pg_38">{38}</a></p>
+
+<p>&mdash;Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!</p>
+
+<p>D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados ademanes
+de cavalleiro:</p>
+
+<p>&mdash;Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que desde
+já põe ao serviço de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;É contingente valioso esse&mdash;observou D. Affonso.</p>
+
+<p>A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser
+definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da
+resposta de meu irmão.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D.
+Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois desejava
+enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que poderiamos entrar
+em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.</p>
+
+<p>&mdash;E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este
+numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella, pois
+muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão immediatamente.
+</p>
+
+<p>D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de ter já
+por si em Castella<a class="pn" name="pg_39">{39}</a> tão importantes
+forças; e com a sua habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:</p>
+
+<p>&mdash;Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais
+briosos certamente.</p>
+
+<p>&mdash;Mercê por elles, meu Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito gostará
+de conversar comvosco.</p>
+
+<p>É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra,
+sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe acceitar o
+papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.</p>
+
+<p>D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o tempo
+sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o pagem, que
+viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo sevilhano, o qual,
+mais talvez por alardear philaucias de familia, do que por enaltecer as
+qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu em resumo: que da Covilhan
+costumava ir a Sevilha o páe do pagem commerciar e conquistára grandes
+creditos. Tendo afinal estabelecido a sua residencia n'aquella cidade, onde era
+geralmente estimado, accedeu ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia,
+de deixar-lhe educar o filho, então muito creança ainda, mas dotado já de
+singular viveza. Como fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o
+pagem inteiramente confiado ao amparo<a class="pn" name="pg_40">{40}</a>
+do duque. Possuia prendas muito estimaveis, poderia em breve ser um excellente
+cavalleiro, e chamava-se Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.</p>
+
+<p>Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite de
+terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia reconhecido isso na
+maneira como lhe fallavam d'elle.</p>
+
+<p>Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:
+</p>
+
+<p>&mdash;Quereis ser pagem do rei de Portugal?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo quanto sou&mdash;respondeu Pero&mdash;devo ao senhor duque, por isso não tenho
+animo de separar-me d'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava essa resposta;&mdash;volveu Guzman&mdash;mas se eu vos pedir, que fiqueis?
+</p>
+
+<p>&mdash;Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom Perico!&mdash;exclamou affectuosamente Guzman.&mdash;Muito me custa
+deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de
+Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por
+isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito.
+</p>
+
+<p>No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V
+dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro,
+servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte
+annos.<a class="pn" name="pg_41">{41}</a></p>
+
+<p>O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz
+XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa
+D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava
+convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear,
+que na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o
+retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente
+em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna.
+Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de
+ambos os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a
+ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França.
+</p>
+
+<p>Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI,
+que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe
+capaz de manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino
+com a França; mas contra todos em geral e sem excepção.</p>
+
+<p>N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da
+Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse
+comprehendido no tractado a celebrar com Castella.</p>
+
+<p>De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz
+XI; o que determinou<a class="pn" name="pg_42">{42}</a> este a promulgar
+uma carta patente sobre o soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire
+d'Albret commandante de um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.
+</p>
+
+<p>Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu
+parecer&mdash;que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro&mdash;ácerca da
+entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em
+marcha, conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.</p>
+
+<p>&mdash;Insistis na vossa opinião?&mdash;perguntou o monarcha ao duque de Bragança.</p>
+
+<p>&mdash;Certamente, meu Senhor&mdash;respondeu o duque.</p>
+
+<p>&mdash;Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que por
+Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?</p>
+
+<p>&mdash;Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses
+mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa sobrinha, são
+os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural, depondo-o do governo do
+reino.</p>
+
+<p>&mdash;Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que assiste
+a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus anteriores
+desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim grandes mercês?</p>
+
+<p>&mdash;O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende unicamente da
+sua ambição, e<a class="pn" name="pg_43">{43}</a> vem acompanhada de mais
+interesse, do que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas
+começar a ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa
+bandeira.</p>
+
+<p>&mdash;Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora descabida.
+Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a grandes perigos,
+offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se duvidassem do seu e meu
+triumpho?!</p>
+
+<p>&mdash;De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis. Mas
+superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e prudentes, tendo ao
+seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel por sua rainha. E uma
+acclamação, como esta, é vantagem muito grande no começo dos reinados, servindo
+até de justificar as pretensões mais duvidosas.</p>
+
+<p>&mdash;Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto não
+só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com outros tantos
+castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade engrossarão o meu
+exercito.</p>
+
+<p>&mdash;E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como em
+armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha decerto; e
+até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da Secilia, o rei de
+Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, estão os meus adversarios bem aparentados;<a class="pn"
+name="pg_44">{44}</a> mas não os temo apesar d'isso, e eu tambem <em>não
+nasci das pedras</em>.<a name="tex2html3" href="#foot173"><sup>[3]</sup></a>
+Conto igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, <em>que é
+mais fiel que todos os parentes e amigos</em>, e tenho sobretudo a Deus em meu
+auxilio.</p>
+
+<p>&mdash;Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti,
+porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha
+de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a
+paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não
+olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir
+fallar do casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora,
+obriga o mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a
+murmurar e attribuir esta guerra a algum odio reservado...</p>
+
+<p>&mdash;Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.</p>
+
+<p>&mdash;Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para
+ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de
+voss'alteza e a minha, se necessario for.</p>
+
+<p>A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de
+Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D.
+Isabel, proxima parenta do duque;<a class="pn" name="pg_45">{45}</a>
+suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão
+fatal á casa de Bragança.</p>
+
+<p>D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de
+que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse
+o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e
+unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos
+portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os
+principes contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores,
+especie de péste endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda
+remedio.</p>
+
+<p>O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os
+successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia,
+do que lisonjear um principe.</p>
+
+<p>Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho
+primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas
+grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem
+que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei,
+consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos
+principes do partido contrario.</p>
+
+<p>Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo
+alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns<a
+class="pn" name="pg_46">{46}</a> dos quaes consumiam seus patrimonios e
+forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o
+influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal,
+havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais acendraram a
+fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de que era
+singularmente dotado.</p>
+
+<p>A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela
+Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados
+pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra
+do solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de
+reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e
+desamparada?</p>
+
+<p>E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?</p>
+
+<p>Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os codices da
+preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, em
+um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito instructiva:</p>
+
+<p>«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento
+delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com a
+Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a Castella o
+Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje<a class="pn"
+name="pg_47">{47}</a> he Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em
+corte de Roma privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e
+asi outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o mesmo
+caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de Cecilia e Principe
+d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que primeiro foi Rei de Navarra, o
+qual casamento fez por mão do Arcebispo de Tolledo dom Affonso Carillo, e do
+Almirante avoo do dito Rei da parte de sua mãi, e fique em memoria que o fez
+porque o dito Senhor Rei Dom Affonso <em>a não quiz, querendo ella muito</em>,
+e depois elle a quisera e ella como as molheres naturalmente sam vingativas o
+não quiz quando elle quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar,
+como na verdade foi, <em>ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com
+o titolo de sua sobrinha</em>, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á
+Rainha Dona Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada
+sobcederão fique do Coronista ao carguo.»</p>
+
+<p>Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como
+vimos, a mão de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que <a
+href="#nota_D">o principe D. João casasse com a princeza de Castella, D.
+Joanna</a>. D. Affonso dilatou a sua resolução, e sómente quando muito instado
+por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do marquez de
+Vilhena, mandou uma embaixada<a class="pn" name="pg_48">{48}</a> pedir a
+infanta. Os embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
+afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios brandos de
+reduzir a infanta a obedecer a seu irmão. O arcebispo de Toledo cuidou
+immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo em relêvo a dilação
+descortêz de D. Affonso, aconselhou-a, a que preferisse Fernando de Aragão, e
+entendeu, que, para frustrar as idéas dos adversarios, devia fazer secretamente
+os preparativos, precipitar os tramites do negocio, e de um modo ou outro
+verificar o matrimonio, para que, realizado e consumado, não désse lugar ao
+<em>arrependimento da princeza</em>. E maior préssa se deu ainda, quando soube,
+que de Roma havia sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de
+1469, concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou então um breve
+apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio II,
+pois se oppunha á execução do desposorio com Fernando o impedimento da
+consanguinidade dos nubentes, e não havia outro meio de velar o sigillo e
+realizar o negocio com promptidão.</p>
+
+<p>O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e commetter
+torpezas.<a class="pn" name="pg_49">{49}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000600">IV</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000610"><em>JORNADA INFELIZ</em></a> </h2>
+
+<p>Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde
+mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o
+<em>Regimento de Guerra</em>, não só o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
+de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a hoste
+assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a bandeira real
+mettida na funda.</p>
+
+<p>Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475, D.
+Affonso V</p>
+
+<blockquote>
+ ...................«tocado de ambição <br>
+ E gloria de mandar amara e bella, <br>
+ Sai cometter Fernando de Aragão, <br>
+ Sobre o potente reino de Castella.»<a name="tex2html4"
+ href="#foot187"><sup>[4]</sup></a> </blockquote>
+
+<p><a class="pn" name="pg_50">{50}</a></p>
+
+<p>Lá foram ajuntar-se com elle o duque de Guimarães, o conde de Marialva, Ruy
+Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram a Piedra
+Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e seiscentos
+cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V, que tomou então o
+supremo commando, chamar á sua tenda o condestavel, o marechal, o ouvidor da
+hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos, cavalleiros e capitães, a quem
+recommendou obediencia em tudo aos quatro primeiros; verificou o numero da
+gente que havia, e deu as necessarias providencias no tocante á ordenança, que
+as tropas deviam conservar durante a marcha.</p>
+
+<p>Na frente saíu o <em>adail-mór</em> com um troço de ginetes, formando a
+guarda avançada; após elle o marechal, que era o aposentador e assentador do
+arraial; immediatamente o capitão de ginetes, seguido pelo capitão da vanguarda
+real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a, o condestavel,
+cujo cargo exercia em parte o duque de Guimarães. Formava as alas a fina flor
+da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a rectaguarda não mediava mais
+de um tiro de bésta, a fim de poderem mutuamente soccorrer-se.</p>
+
+<p>Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na
+vanguarda. Na presente formatura as attribuições e preeminencias d'essa
+dignidade estavam repartidas por D. João, marquez<a class="pn"
+name="pg_51">{51}</a> de Montemór, filho do duque de Bragança D. Fernando I,
+e por seu irmão o duque de Guimarães.</p>
+
+<p>A cavallaria compunha-se de <em>cavalleiros</em> e <em>escudeiros</em> de
+geração nobre; de <em>lanças</em>, que os senhores de terras tinham obrigação
+de dar, acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de
+<em>cavalleiros</em> da ordenança dos povos do reino, sendo apurados conforme a
+contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes sómente
+eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou rezenha das
+praças, que constituiam os corpos chamados bésteria, denominando-se
+<em>bésteiros do conto</em> tanto os de cavallo, como os de pé.</p>
+
+<p>Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou <em>á gineta</em>. Na
+primeira, o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda,
+os cavalleiros pelejavam armados de lança e adarga, usando de estribos curtos
+no apparelho do cavallo.</p>
+
+<p>A infanteria constava de <em>bésteiros</em>, <em>espingardeiros</em> e
+<em>piqueiros de pé</em>.</p>
+
+<p>Na bésteria differençavam-se os chamados de <em>polé</em>, por trazerem
+bésta, que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os <em>bésteiros da
+camara</em>, que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino;
+<em>bésteiros de garrucha</em>, mais abastados e considerados, que os de polé,
+armados com bacinete de camal ou de baveira, e tendo bésta com garrucha e
+solhas para arremessar virotões; <em>bésteiros</em><a class="pn"
+name="pg_52">{52}</a> <em>de fraldilha</em>, por levarem uma fralda de
+couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do inimigo; e
+<em>bésteiros do monte</em> ou caçadores.</p>
+
+<p>Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais, á
+medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi acolhida, durante
+muito tempo, a sua invenção, mórmente pela cavallaria, que considerava cobardes
+similhantes armas, com especialidade as portateis. No reinado de D. João II
+apparece já o cargo de <em>anadél-mór</em> dos espingardeiros, concedido a Payo
+de Freitas, cavalleiro da casa real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua
+vez de extinguir em 1498 os acontiados e bésteiros, tanto de conto, como da
+camara, todos os cargos de officiaes móres e pequenos da bésteria, deixando
+unicamente os bésteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e
+Algarve, com um anadél-mór, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como
+consta da carta de 29 de maio de 1499.</p>
+
+<p>A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a quem
+pertencia, além de outras obrigações e prerogativas: repartir os alojamentos;
+executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do condestavel; e julgar as
+causas civeis e crimes das gentes de guerra, levando um ouvidor comsigo para
+esse fim.</p>
+
+<p>O <em>alféres-mór</em> levava a <em>signa</em> ou <em>bandeira</em>, a qual
+não estendia ou desenrolava sem especial<a class="pn"
+name="pg_53">{53}</a> determinação do rei, quando estivessem á vista do
+inimigo, e costumava ter um <em>alferes pequeno</em>, que o substituia. As
+bandeiras dos fidalgos não podiam tirar-se das fundas e estender-se, sem que o
+fosse a bandeira real; podiam, porém, ir sempre estendidos os balsões ou
+insignias. No guião do rei via-se a divisa que Affonso V tomára por sua mulher
+D. Isabel, e consistia em um rodizio de moinho com gottas de agua esparzida
+ao redor, e na legenda <em>Jámais</em>. Com oito ou dez pendões pequenos era
+balizado e divisado o lugar escolhido para acampar.</p>
+
+<p>Havia um <em>aposentador-mór</em>, que de ante-mão preparava os quarteis das
+tropas, quando estas se mobilisavam. O <em>capitão de ginetes</em> era o
+general de cavallaria; o <em>adail-mór</em>, o capitão dos bésteiros; e o
+<em>coudel-mór</em> commandava escudeiros e homens de armas, que não pertenciam
+a capitania alguma, e eram repartidos em tróços de vinte por <em>coudeis</em>.
+</p>
+
+<p>Desempenhavam o serviço e a guarda do rei vinte cavalleiros ou escudeiros,
+commandados por um <em>guarda-mór</em>. Eram escolhidos, e andavam armados de
+cotas, barretas, braçaes, lanças e espadas; e no tempo de paz assistiam no paço
+junto da real camara. Algumas vezes o soberano encarregava tambem da sua guarda
+o capitão de ginetes, sendo então de duzentos o numero de cavalleiros, que
+ficavam em tudo considerados como os da camara real.<a class="pn"
+name="pg_54">{54}</a></p>
+
+<p>Segundo prescrevia o <em>Regimento</em>, os soldados ou gente de guerra
+deviam trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e
+tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As trombetas
+eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou chamadas; mas affirma
+Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella já o nosso exercito usou tambem dos
+atabales.</p>
+
+<p>O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morósamente
+conduzido. Estava a cargo de um <em>védor-mór</em>, aprompta-lo e pô-lo em
+marcha.</p>
+
+<p>Para este fim tinha atribuições amplas, estabelecidas em um
+<em>regimento</em> proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450.
+Requisitava ás auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que
+julgassse indispensaveis á conducção do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
+como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que houvesse
+necessidade o serviço de artilheria, e aos quaes pagava conforme os seus
+merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de gastadores, para abrir caminho.
+</p>
+
+<p>O principe D. João acompanhou seu páe até Piedra Buena, e d'aqui regressou a
+Portugal na mesma occasião, em que o exercito marchou para o norte, indo fazer
+alto em Plasencia.</p>
+
+<p>D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de D.
+Alvaro de Ataide e do licenciado João d'Elvas, a fim de negociar o<a
+class="pn" name="pg_55">{55}</a> seu reconhecimento como rei de Castella, e,
+conforme os desejos do rei de França, renovar os antigos tractados, que
+existiam entre as duas monarchias. Ao mesmo tempo escreveu á cidade de
+Salamanca uma carta sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e
+Leão, e mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justiça bem
+fundada, com que eram combatidas as pretensões de Isabel e Fernando de Aragão.
+</p>
+
+<p>Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que já o esperava acompanhada
+dos duques de Arévalo, marquez de Vilhena e outros magnates, e foi publica e
+solemnemente proclamado rei, pelo que logo começou de intitular-se rei de
+Castella, Leão e Portugal.</p>
+
+<p>Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis de
+Portugal; de modo que não parecia luctarem uns pela união iberica e outros
+contra, senão méramente para dar a presidencia d'essa união áquelle que mais
+afortunado fosse.</p>
+
+<p>D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas se
+formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das diligencias
+de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o favor de muitas
+povoações, visto serem mui versateis e caros os magnates. Em quanto o seu
+antagonista se divertia, conquistava ella as sympathias da classe burgueza.
+Percorria os seus estados. Procurava e enviava soccorros<a class="pn"
+name="pg_56">{56}</a> ao exercito, que seu marido commandava, para conter o
+progresso da invasão. Assegurava a fidelidade vacillante de Leão. Entabolava as
+intelligencias, que lhe fizeram recobrar a importante cidade da Zamora. Reduzia
+o numero de inimigos, que tinha na depravada e cupida aristocracia. Lançava
+finalmente mão do thezouro de Castella, confiado á guarda do célebre Andrés de
+Contrera, a quem mais tarde brindou com o Marquezado de Moya.</p>
+
+<p>Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplação com o duque de
+Arévalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro estrategico; pois,
+segundo Zurita, «foi de grande remedio para a conservação do estado do rei da
+Secilia, e seria de grande prejuizo, se a entrada se effectuasse pela
+Andaluzia, direito a Sevilha». Seguindo este caminho, penetrava logo no
+interior do reino, e fazia-se fórte em Madrid, como lhe aconselhou o marquez de
+Vilhena, que se mostrou descontente por não ser attendido, e tomou este
+pretexto para se retirar do serviço do rei. Era de esperar, todavia, que esse
+magnate assim procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se
+declarado a maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que
+os corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e determinou-o a
+propalar, que já estava de accordo com D. Fernando e sua mulher.</p>
+
+<p>Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se<a class="pn"
+name="pg_57">{57}</a> a miude as incursões de nossos visinhos. Até o
+primogenito do duque de Medina Sidonia, o duque D. Henrique, môço mais
+audacioso do que prudente, fez uma entrada em Portugal, como se fosse em terras
+de mouros.</p>
+
+<p>Este rebentão dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco depois
+da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se ás astucias de D. Isabel, que lhe
+prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com o marquez de Cadiz.</p>
+
+<p>E sabe o leitor, quem levou á rainha da Secilia a noticia d'aquella jornada
+de D. Juan de Guzman?</p>
+
+<p>&mdash;O velho mendigo, que nós vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um espião.
+</p>
+
+<p>Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o
+principe D. João descobrir a campanha por homens praticos no paiz, escoltados
+de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos lugares suspeitos, para
+avisarem das partidas do inimigo; cortar as estradas das serras com patrulhas,
+a fim de embaraçarem os castelhanos, que de ordinario se emboscavam por entre
+os arvoredos e quebradas do terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos
+males, cuidando ao mesmo tempo da conservação e defesa do reino.</p>
+
+<p>Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para premio
+de seus serviços, foi agraciado com o titulo de conde de Penamacor,<a
+class="pn" name="pg_58">{58}</a> saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade
+com a rainha, a quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou
+por Arévalo em direcção a Toro, não sem o inimigo estar bem informado ácerca do
+movimento do exercito; o que certamente não convinha, a quem era chamado e
+levado para soccorrer.</p>
+
+<p>O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia, n'esta
+empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque não podemos
+denominar campanha, ao que não passou de correrias mais ou menos afortunadas,
+de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha campal, digna d'esse nome,
+e em que ficasse lavrada a sentença do pleito.</p>
+
+<p>Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o só no perigo, em
+que o metteram. Quando elle, porém, foi estabelecer os seus quarteis de inverno
+em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o arcebispo de Toledo, o qual sempre
+inconsequente e inconstante, sendo convidado por Isabel a auxilia-la com os
+seus homens de armas, respondeu com a soberba peculiar do seu estado e do seu
+paiz: <em>que a tinha livrado de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na
+roca</em>.</p>
+
+<p>De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse vê-lo,
+pois muito carecia de conferenciar com elle. Já o principe se tinha posto a
+caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas torres, que
+defendiam a ponte<a class="pn" name="pg_59">{59}</a> sobre o Douro, á
+entrada de Zamora, se tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou
+matar D. João na sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V
+a seu filho, então já em Miranda do Douro, o traiçoeiro plano, em virtude do
+qual não devia avançar. Foi portador do recado o capitão de ginetes da guarda
+real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio a nado, para
+se furtar á vigilancia do inimigo.</p>
+
+<p>Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte á viva força, mas não o poude
+conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se permanecesse com
+a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais temor, que confiança, os
+habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro, onde tanto elle como a rainha
+foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.</p>
+
+<p>Fernando de Aragão, que não tinha ousado mostrar-se ao seu adversario, em
+quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu empenho
+principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro, tendo tomado á
+força uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta dos defensores d'ella,
+para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima dos muros de Toro riram-se
+d'essa façanha, e cobriram de motejos o auctor, o qual aceso em ira, mandou por
+um rei de armas desafiar D. Affonso V, que não tornou á requesta. Então
+Fernando foi sitiar o<a class="pn" name="pg_60">{60}</a> castello de
+Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia, onde não havia
+esperança de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu de Toro em som de
+guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor. Fez alto em frente da
+fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas horas, retirava já para Toro, por
+lhe parecer que Fernando saía a pelejar com elle; mal, porém o viu fóra da
+cidade, aguardou-o no campo outra vez em vão. Fernando escreveu em seguida
+varias cartas, em que blasonava de não ter querido D. Affonso espera-lo e até
+fugira. Tendo o nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma
+carta de Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
+denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na fórma
+costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.</p>
+
+<p>Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso V e
+D. Fernando. Para segurança do feito, D. Affonso poria em refens a rainha
+Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando não concordou, allegando haver
+grande desigualdade no penhor.</p>
+
+<p>D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que já
+tinha, a contenda não se acabaria, pois de futuro novamente se levantava; sendo
+certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes condições, fazendo
+questão de igualdade das pessoas, era confessar que não queria<a class="pn"
+name="pg_61">{61}</a> o combate, como á honra de ambos convinha. Interpôz a
+sua mediação o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas não poude
+conseguir-se o accôrdo sobre as condições da paz.</p>
+
+<p>Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o principe
+D. João a Toro, trazendo a seu páe dois mil cavallos, oito mil infantes e
+dinheiro. Não era demasiado soccorro, para quem tanto carecia de engrossar o
+seu exercito, pois D. Affonso V fôra abandonado pelos magnates, á medida que a
+sua causa se tornara cada vez mais duvidosa, permanecendo-lhe fiel apenas o
+arcebispo de Toledo.</p>
+
+<p>Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio
+portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no
+coração do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.</p>
+
+<p>A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista, depois
+da traição da ponte, sómente poderia realizar-se, tomando as torres e
+conseguindo o descêrco do castello. Mas de que forças numerosas não seria
+necessario dispôr, para effectuar duas operações, iguaes ambas na difficuldade!
+</p>
+
+<p>D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.
+</p>
+
+<p>&mdash;Para que?</p>
+
+<p>Tomando essa posição de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde
+tremulava ainda a bandeira<a class="pn" name="pg_62">{62}</a> portugueza,
+pois tinha de permeio o rio, invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar
+o inimigo a uma batalha, devia suppôr, que este o não buscaria senão com uma
+superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e tendo
+cobertas todas as communicações importantes.</p>
+
+<p>Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte de
+Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimarães e o conde de Villa
+Real ao serviço da rainha, com a guarnição militar, que pareceu bastante,
+approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto e assentou o
+arraial.</p>
+
+<p>Ficar pérto do lugar cercado, era não só condição imposta pelo pequeno
+alcance das bôcas de fogo, mas preceito do <em>Regimento de guerra</em>, para
+fazer maior coração aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte estava
+enfiada pela nossa artilheria.</p>
+
+<p>Cruzáram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o
+damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena trégoa para
+concertos de paz; inutilmente, porém, visto não se suggerir meio conciliador,
+de que não desdenhassem as prosapias dos negociadores d'ella. A sêde de sangue
+causada pela febre guerreira, em que uns e outros ardiam, tornava-se cada vez
+mais insaciavel. E comtudo nenhum dos exercitos podia invejar ao outro a sua
+situação. O<a class="pn" name="pg_63">{63}</a> nosso, além de luctar com
+as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz extranho, tinha mais um
+inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo que as chuvas e neves o iam já
+desimando, começava a falta de viveres a fazer-se sentir. Consumia-se emfim
+inutilmente.</p>
+
+<p>Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de que
+Fernando de Aragão fizera uma sortida sobre Toro na margem direita do Douro. D.
+Affonso V levantou apressádamente o cêrco, para atalhar o passo ao inimigo, e
+foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade, onde mandou recolher o parque
+e a peonagem. Soube o principe durante a marcha, que Fernando não havia saido
+de Zamora, mas tinha para o bater, em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de
+seiscentas lanças, commandadas pelo duque de Villa Formosa, irmão bastardo de
+Fernando. D. João obliquou á direita, desviando-se assim da direcção, que
+tomára seu páe, e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanças.</p>
+
+<p>Havia o nosso exercito acabado de transpôr um monte, e o inimigo, que
+começava então a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos nossos,
+a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a nossa rectaguarda
+com algumas cargas ligeiras de cavallaria.</p>
+
+<p>Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este á rectaguarda; mas
+D. João, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde<a
+class="pn" name="pg_64">{64}</a> lhe deram a nova, pois tão apertado era,
+marchou para a planicie, e ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais
+despejadamente.</p>
+
+<p>D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, não teve tempo de formar as
+suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuição d'ellas fosse, quanto
+possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as em duas grandes fracções.
+Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao principe o da outra, em que ficou
+a flor da cavallaria portugueza.</p>
+
+<p>Os castelhanos avançaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
+capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, <em>vindo na reserva</em> Fernando de
+Aragão; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o cardeal
+Mendoza.</p>
+
+<p>Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
+rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanças, pois
+que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de dispôrem
+finalmente de infanteria mais numerosa.</p>
+
+<p>Note-se, que na edade média não se conhecia toda a importancia da arma de
+infanteria, nem a grande força, que lhe provém da ordem e uniformidade de seus
+movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreço á cavallaria, olvidando-se a maxima
+dos antigos, prudentemente restaurada pela illustração militar dos nossos
+tempos, de que a infanteria é o agente principal do combate, ou, como<a
+class="pn" name="pg_65">{65}</a> poeticamente dizem alguns, a rainha das
+batalhas. A própria qualidade dos exercitos, compostos de nobreza valente e
+déstra, mas pouco subordinada, bem como dos contingentes tumultuarios das
+cidades, era incompativel com a disciplina e outros requisitos essenciaes da
+sua organisação. N'este encontro de Toro, comtudo, os castelhanos empregaram
+com proveito a sua infanteria ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora
+aguerrido, não soube mostrar-se disciplinado.</p>
+
+<p>Amanhecera triste e sombrio o dia dois de março de 1476. Quando os dois
+exercitos occupavam as suas posições para travar a lucta, devia o sol têr-se
+posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva miuda e
+persistente.</p>
+
+<p>Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o
+convidava a pelejar, até que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do
+adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado pelas
+trombetas, fosse o primeiro a romper.</p>
+
+<p>Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, <em>por S. Jorge e S. Christovão</em>,
+invéste D. João com a sua hoste. Oppõe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza, clamando
+com os seus por <em>S. Thiago e S. Lazaro</em>.</p>
+
+<p>Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas
+obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora
+D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa
+cavallaria,<a class="pn" name="pg_66">{66}</a> como se fôra uma forte
+muralha de lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa,
+irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram
+quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos, com o
+principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais completa
+debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á carnificina, que
+em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito moral d'esse choque
+violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por isso Fernando de
+Aragão&mdash;um moço de vinte e seis annos!&mdash;que, para não expor a vida á
+contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa
+distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas
+de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a
+pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos
+cavalleiros, que correram sobre elle.</p>
+
+<p>Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei
+da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la
+embainhada, e lança-se no combate.</p>
+
+<p>Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria;
+rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com
+furia; retingem-se de sangue as<a class="pn" name="pg_67">{67}</a>
+espadas nos crébros golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha,
+alliviados do peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes;
+resoam, similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de
+dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e servindo
+antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida, desesperada, horrivel a
+refréga. Não cessa do ardor, com que começou de accender-se, e a victoria
+duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á do esforço.</p>
+
+<p>Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo
+em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo&mdash;o que
+para a nossa hoste era uma novidade&mdash;dão uma descarga, que fez hesitar um
+momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado
+aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo
+recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.</p>
+
+<p>Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no
+ultimo choque.</p>
+
+<p>D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás
+contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte
+ou a gloria o escopo unico d'aquelle</p>
+
+<blockquote>
+ «Que a suberba do barbaro fronteiro <br>
+ Tornou em baixa, e humillima miseria.» </blockquote>
+
+<p>Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias,<a class="pn"
+name="pg_68">{68}</a> mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que
+junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel,
+detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do
+denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais
+fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na
+bainha.</p>
+
+<p>Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos
+nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a
+Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada
+resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o
+inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de
+Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.</p>
+
+<p>Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das
+cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa
+quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança
+tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por
+isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um
+acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era
+dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe
+real fosse derrotado, tal era a confiança<a class="pn"
+name="pg_69">{69}</a> que depositava no valor de seu filho e no dos
+companheiros, que lhe deu.</p>
+
+<p>Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um
+porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou
+victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os
+prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de
+Aragão.</p>
+
+<p>Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava
+fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe,
+vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle
+ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a
+corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe,
+e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando <a href="#nota_E">a bandeira
+real, que por instantes tremulára na mão de um castelhano</a>.</p>
+
+<p>Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que
+tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram
+depois de uma lucta titanica.</p>
+
+<p>Singulares contrastes!</p>
+
+<p>Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,
+onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para
+immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de
+<em>Bandeira</em>; a<a class="pn" name="pg_70">{70}</a> outra, o cognome
+de <em>Decepado</em> a Duarte de Almeida.</p>
+
+<blockquote>
+ «Cercado por toda a parte <br>
+ Sua espada se partiu. <br>
+ Por guardar seu estandarte, <br>
+ D'arma o estandarte serviu: <br>
+ A dextra mão jaz por terra, <br>
+ O seu guante a não guardou; <br>
+ O pendão na sextra aferra, <br>
+ E a mão perdida vingou: <br>
+ Outro golpe lhe sepára <br>
+ A sextra mão que segura <br>
+ A bandeira, que jurára <br>
+ Conservar intacta e pura: <br>
+ Nem assim perde a bandeira, <br>
+ N'hastea dura os dentes crava, <br>
+ Quando lança traiçoeira <br>
+ Seu ginete lhe prostava: <br>
+ Cahe no chão o cavalleiro <br>
+ Sem vida, quasi expirando, <br>
+ E ficou prisioneiro <br>
+ D'illustre rey Dom Fernando. <br>
+ Mas a bandeira regada <br>
+ Pelo sangue portuguez, <br>
+ Por Goncal'Pires livrada <br>
+ Breve foi, logo outra vez.» </blockquote>
+
+<p>Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de
+Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga
+porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro
+resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas
+se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço
+tão desusado.<a class="pn" name="pg_71">{71}</a></p>
+
+<p>A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois <em>per força e
+como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a
+levava</em> (a bandeira), <em>e o prendeo sobre sua menagem</em>,<a
+name="tex2html5" href="#foot255"><sup>[5]</sup></a> abrindo a golpes de espada
+caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em
+direcção a Zamora.</p>
+
+<p>Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias,
+ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou
+accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.</p>
+
+<p>O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação.
+</p>
+
+<p>Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem
+mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas
+pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.</p>
+
+<p>&mdash;Cães de portuguezes!&mdash;grunhia um.&mdash;Por causa d'elles fizeram de nós
+morcêgos!...</p>
+
+<p>&mdash;Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de
+Malaga!&mdash;tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o
+cavallo á mão.</p>
+
+<p>&mdash;Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar&mdash;observou o outro,
+sem nenhuma<a class="pn" name="pg_72">{72}</a> curiosidade de saber, quem
+era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.</p>
+
+<p>&mdash;Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!&mdash;exclamou
+o cavalleiro.&mdash;Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a
+fazer?&mdash;perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o
+entendimento.</p>
+
+<p>&mdash;Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...</p>
+
+<p>&mdash;Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.
+</p>
+
+<p>&mdash;Fugiu, não direi... Retirou...</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo
+sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da
+<em>Beltraneja</em>, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois
+tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que
+levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, é o mais certo;&mdash;replicou em tom indifferente o cavalleiro.</p>
+
+<p>Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os
+biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a
+cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.</p>
+
+<p>Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se
+concentravam no acampamento<a class="pn" name="pg_73">{73}</a> sem
+apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com
+o exercito para Zamora.</p>
+
+<p>D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres
+dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de
+Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D.
+Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na
+marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.</p>
+
+<p>Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o
+interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que
+pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo
+Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar
+o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua
+liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Não merece&mdash;exclamou alto e bom som&mdash;o nome de cavalleiro, quem abandona o
+seu rei, e o não segue na vida ou na morte!</p>
+
+<p>E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?</p>
+
+<p>Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu
+Pero da Covilhan, e disse ao principe:<a class="pn" name="pg_74">{74}</a>
+</p>
+
+<p>&mdash;El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são
+está, por isso sejais tranquillo.</p>
+
+<p>&mdash;E onde está el-rei, nosso senhor?!...&mdash;perguntou com alvoroço o principe
+real.</p>
+
+<p>&mdash;Em Castro Nunho.</p>
+
+<p>&mdash;Quem nos trouxe tão bom recado?</p>
+
+<p>&mdash;El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.</p>
+
+<p>A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de
+trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria,
+feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para
+Castro Nunho uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de
+acompanharem D. Affonso V a Toro.</p>
+
+<p>Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei,
+pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe,
+havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que
+conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.</p>
+
+<p>Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:</p>
+
+<p>&mdash;Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?</p>
+
+<p>&mdash;Facilmente, meu senhor&mdash;respondeu Pero da Covilhan com a maior
+naturalidade.&mdash;Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em
+nosso campo não havia de el-rei novas, nem<a class="pn"
+name="pg_75">{75}</a> mandados. Ancioso de buscar sua alteza, era dominado
+por um triste presentimento. As trévas da noite, e a confusão que reinava no
+campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu
+tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os
+dialectos de Hespanha, e fui á ventura.</p>
+
+<p>&mdash;Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a
+vida&mdash;atalhou o principe.</p>
+
+<p>&mdash;Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava
+unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.&mdash;A poucos
+passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem
+do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do
+inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me
+naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um
+d'elles affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho.
+Corri logo a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já
+voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do
+acampamento sem licença de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se
+alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que
+pelejastes a meu lado.<a class="pn" name="pg_76">{76}</a></p>
+
+<p>&mdash;Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...</p>
+
+<p>Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da
+Covilhan, como veremos.</p>
+
+<p>O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada
+guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e
+o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra
+o occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no
+caminho de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão
+prodiga, não fosse para o seu competidor tão adversa.</p>
+
+<p>Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a
+morte.</p>
+
+<p>Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser
+instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação.
+Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do
+sangue derramado em Alfarrobeira.</p>
+
+<p>Justiça da Providencia!<a class="pn" name="pg_77">{77}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000700">V</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000710"><em>ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA</em></a> </h2>
+
+<p>Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos
+meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria
+empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João
+d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI.
+Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não
+fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França.
+Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com
+sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por
+maxima: <em>quem não sabe dissimular, não sabe reinar</em>; e que, por elle ser
+assás astucioso e perfido, lhe chamavam <em>a raposa</em>.</p>
+
+<p>Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro<a class="pn"
+name="pg_78">{78}</a> de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França
+se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e
+Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e
+amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma
+parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.</p>
+
+<p>O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as
+estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as
+probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente
+com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de
+Borgonha.</p>
+
+<p>Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o
+maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe
+o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da
+affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua
+reputação.</p>
+
+<p>Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França
+o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na
+conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.</p>
+
+<p>A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi
+arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos,<a
+class="pn" name="pg_79">{79}</a> que Luiz XI lhe enviára por um official de
+sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os
+navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia
+parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.
+</p>
+
+<p>Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e
+teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte
+de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.</p>
+
+<p>De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de
+notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam
+conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu
+por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de
+tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de
+Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que
+por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto
+viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,
+fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a
+mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e
+antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o <em>Lancelote
+do Lago</em>, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura<a
+class="pn" name="pg_80">{80}</a> do qual os paladinos dos seculos
+<small>XII</small> e <small>XIII</small> aprendiam com enthusiasmo a imitar
+algum dos fabulosos cavalleiros da <em>Tavola Redonda</em>. Poderia inflammar
+tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por
+si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o
+levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.</p>
+
+<p>Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves
+da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da
+côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os
+aposentos, que lhe estavam destinados.</p>
+
+<p>Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours,
+onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que
+elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio
+recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado
+adeante para regularem o ceremonial da entrevista.</p>
+
+<p>A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha
+com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes
+carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada
+d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
+jaez da espada, e ao pescoço uma<a class="pn" name="pg_81">{81}</a> béca
+de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas
+calças brancas entretalhadas de muitas côres.</p>
+
+<p>«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos
+muito baixos.</p>
+
+<p>«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos
+no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a
+um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa
+o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e
+ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino
+estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e
+serviço, como nos de Portugal.</p>
+
+<p>«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se
+cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»<a
+name="tex2html6" href="#foot275"><sup>[6]</sup></a></p>
+
+<p>Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se
+humilde até á repugnancia!</p>
+
+<p>Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para
+Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com
+o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha,
+a princeza D. Joanna.<a class="pn" name="pg_82">{82}</a></p>
+
+<p>Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração
+do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha,
+então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em
+guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli
+mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era
+congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz
+XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais
+facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das
+tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.
+</p>
+
+<p>O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe
+apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem
+sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a
+vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de
+Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na
+defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de
+Nancy para lhe dar batalha.</p>
+
+<p>Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á
+concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim
+fez.<a class="pn" name="pg_83">{83}</a></p>
+
+<p>Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo
+mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o
+momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e
+apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas
+perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o
+problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão
+de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha
+ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos
+de seus agentes.</p>
+
+<p>Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de
+Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica,
+adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros
+principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das
+promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a
+morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar
+a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de
+Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo
+assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz
+XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia,<a class="pn"
+name="pg_84">{84}</a> que tratassem com essa potencia; e não os delegados de
+Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás
+diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre
+habil e cautelosa a curia romana.</p>
+
+<p>A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle
+a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro
+dos dois monarchas em Arras.</p>
+
+<p>Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a
+sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos
+regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma
+resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.</p>
+
+<p>Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para
+Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até
+que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á
+sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro.
+Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios
+religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado
+logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.</p>
+
+<p>Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:<a class="pn"
+name="pg_85">{85}</a></p>
+
+<p>&mdash;Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho
+por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.</p>
+
+<p>Ao que Pero da Covilhan respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu
+cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi,
+concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu
+rei e Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa,
+dando-me algum allivio o desabafo.&mdash;Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e
+metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de
+reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo
+eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza,
+minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de
+França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras,
+movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido...
+Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus
+negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de
+haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes,
+que vivem e morrem na regencia de seus<a class="pn" name="pg_86">{86}</a>
+estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a
+resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz,
+pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não
+deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco
+honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de
+desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para
+a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus
+dias em uma clausura.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!</p>
+
+<p>&mdash;Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos
+filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes
+proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes,
+mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os
+dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de
+Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...</p>
+
+<p>D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
+impressionado:</p>
+
+<p>&mdash;Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos
+da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro
+experimentou já a rija tempera da sua<a class="pn" name="pg_87">{87}</a>
+espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que
+pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em
+grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem
+elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a
+Castro Nunho.</p>
+
+<p>Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que
+seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.</p>
+
+<p>Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
+peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com
+facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas,
+não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso
+preferiu deixa-lo ao serviço do principe.</p>
+
+<p>Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei
+saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de
+estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia
+legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez
+voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que
+continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua
+comitiva estivesse presente.<a class="pn" name="pg_88">{88}</a></p>
+
+<p>Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI
+acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em
+regressar do seu passeio.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que
+elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento.
+Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto
+ou palavra, que o trahissem.</p>
+
+<p>Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram
+encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual
+pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes,
+que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao
+ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da
+sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada
+instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao
+reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o
+proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual
+nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.</p>
+
+<p>Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao
+principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou
+mais tarde no seu reinado, e que tinha<a class="pn" name="pg_89">{89}</a>
+vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude
+d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de
+S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.</p>
+
+<p>Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e
+não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio
+fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de
+Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar
+a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes,
+pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.</p>
+
+<p>Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um
+cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da
+Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o
+reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir
+a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a
+pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes,
+que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova.
+E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu
+prisioneiro.</p>
+
+<p>O conde de Penamacor, que era o primeiro<a class="pn"
+name="pg_90">{90}</a> camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não
+voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui
+pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou
+pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem.
+Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta
+muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em
+Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue,
+para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia
+sobre brasas.</p>
+
+<p>Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur
+desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a
+comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado <em>o
+Grego</em>.</p>
+
+<p>O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de
+respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E
+D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo
+resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até
+alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro
+para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que
+recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...</p>
+
+<p><a href="#nota_F">D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande
+predilecção pelos que cultivavam as lettras</a>;<a
+class="pn" name="pg_91">{91}</a> por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da
+Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella;
+com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil
+soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar,
+aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel
+nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de
+Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.</p>
+
+<p>Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a
+conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia
+de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido
+em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo
+este aportou á mesma bahia.</p>
+
+<p>Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir
+a Oeiras.</p>
+
+<p>No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que
+mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por
+obediencia havia empunhado.</p>
+
+<p>A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O
+arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça.
+O proprio Beltran de La Cueva<a class="pn" name="pg_92">{92}</a> recebia
+mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de
+Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de
+Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se
+afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de
+França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi
+affrontosa a victoria para o exercito sitiante.</p>
+
+<p>Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de
+1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer
+confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal,
+assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.</p>
+
+<p>Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns
+magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com
+elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o
+casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava
+despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam
+as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e
+manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas,
+e n'isto convieram emfim as partes interessadas.</p>
+
+<p>Para entabolar as negociações, avistaram-se na<a class="pn"
+name="pg_93">{93}</a> villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e
+sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as
+quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4
+de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre
+D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o
+principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por
+palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a
+qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos
+necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar
+n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para
+poder dispôr de si.</p>
+
+<p>Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de
+Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.</p>
+
+<p>Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na
+villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar
+em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi
+o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela
+terçaria.</p>
+
+<p>No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D.
+João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D.
+Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,<a class="pn"
+name="pg_94">{94}</a> devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria
+nas mãos da infanta D. Beatriz.</p>
+
+<p>Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos
+os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de
+conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na
+reciproca offensa dos interesses nacionaes.</p>
+
+<p>Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes
+successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a
+innocente princeza D. Joanna:</p>
+
+<p>«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua
+liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com
+dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou
+o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e
+vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa
+real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus
+cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe
+deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse
+imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da
+dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de
+outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe;
+porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado<a class="pn"
+name="pg_95">{95}</a> e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as
+deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei
+n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no
+cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por
+ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela
+gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não
+desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a
+desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela
+culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal
+apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados,
+sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de
+Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se
+tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois
+de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte
+do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo
+vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo
+morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e
+innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva,
+privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e
+hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e<a class="pn"
+name="pg_96">{96}</a> grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por
+cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo
+apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios,
+comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando
+n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de
+ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança
+d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar
+estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento,
+que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com
+o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento
+seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por
+castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe
+innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta
+senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com
+madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de
+nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta
+esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os
+succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais
+chegados».</p>
+
+<p>Depois da profissão da <em>Excellente Senhora</em>&mdash;tratamento dado a D.
+Joanna tanto que vestiu o<a class="pn" name="pg_97">{97}</a> habito de
+clarista&mdash;D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do
+Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo
+designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do
+paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.</p>
+
+<p>A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a
+sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de
+ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.</p>
+
+<p>Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com
+Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,
+rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar
+deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a
+legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as
+propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se
+solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.</p>
+
+<p>Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a
+quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o
+terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram
+misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.</p>
+
+<p>Malfadada condição a sua!<a class="pn" name="pg_98">{98}</a></p>
+
+<p>Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao
+filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para
+realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha
+monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo
+<small>VIII</small> pela batalha de Guadalete.</p>
+
+<p>Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
+patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se
+serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas
+as dynastias podiam considerar-se problematicas.</p>
+
+<p>O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e
+torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde,
+com que ella conspurcou o seu nome para sempre.</p>
+
+<p>Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de
+Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola,
+realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao
+mais alto grau de prosperidade.</p>
+
+<p>Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da
+realeza.<a class="pn" name="pg_99">{99}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000800">VI</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000810"><em>PESQUIZAS</em></a> </h2>
+
+<p>Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para
+si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da
+Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em
+Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo
+ascendeu esta á quasi intimidade de valido.</p>
+
+<p>Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros
+particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra
+estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e
+menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por
+carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na
+melhor conta os seus companheiros de armas<a class="pn"
+name="pg_100">{100}</a> em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e
+valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
+sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
+<em>vassallos d'el-rei</em>, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas
+em Evora a 12 de setembro de 1481.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua
+guarda.</p>
+
+<p>Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O
+rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de
+achar-se rodeado de <a href="#nota_G">cortezãos dotados de boas prendas</a>, e
+com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras
+insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.</p>
+
+<p>Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr
+dançar com primor a <em>retorta mourisca</em> pelas damas trajando ao uso
+arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a
+lembrar os desafios poeticos, as <em>côrtes de amôr</em>, o <em>jogo dos
+naipes</em>, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de
+cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.</p>
+
+<p>Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
+educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real
+<em>jardim de formosura</em>, como depois Gil Vicente<a class="pn"
+name="pg_101">{101}</a> chamou ao estrado das damas de D. Leonor.</p>
+
+<p>Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso.
+Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os
+apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba,
+despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos
+d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão
+esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da
+mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
+linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta o
+<em>Cancioneiro Geral</em>, de Garcia de Rezende.</p>
+
+<p>Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:</p>
+
+<p>&mdash;Amo-vos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular
+uma palavra.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
+comsigo mesma:</p>
+
+<p>&mdash;Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria
+o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por
+elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...</p>
+
+<p>Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa
+alguma para o<a class="pn" name="pg_102">{102}</a> seu silencio. Até pelo
+seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava
+convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é
+sempre facil de responder.</p>
+
+<p>Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas
+retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a
+cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de
+subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a
+faisca sagrada.</p>
+
+<p>Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a
+dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os
+olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos,
+que lá guardamos.</p>
+
+<p>Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a
+novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu,
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis...
+Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha
+Senhora?...</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha
+occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a
+bem...&mdash;respondeu Pero da Covilhan,<a class="pn" name="pg_103">{103}</a>
+ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria
+Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:</p>
+
+<p>&mdash;Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha
+real ama...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
+supplicando.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?!...&mdash;perguntou Thereza meio admirada.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não vos mereço ainda...</p>
+
+<p>&mdash;Por sermos muito môços; quereis talvez dizer?...</p>
+
+<p>&mdash;Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peço que
+espereis...</p>
+
+<p>&mdash;Esperarei.</p>
+
+<p>&mdash;Quando eu tiver uma posição digna de vós e do vosso nome illustre, virei
+offerecer-vo'-la, e esse será o primeiro passo para a minha felicidade...
+Antes, não!... Sou um simples escudeiro, bem vêdes!...</p>
+
+<p>&mdash;Não vos amergeis tanto!... «Só os escudeiros sustentam o reino»: dizia D.
+João I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde provêem os
+melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se fizeram as casas
+de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina Sidonia, e tantas outras...
+</p>
+
+<p>&mdash;Assim é; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas vós sois hoje um escudeiro, e ámanhã podereis ser um fidalgo... Não
+tendes a nobreza<a class="pn" name="pg_104">{104}</a> por herança e
+patrimonio? Haveis de merece-la e ganha-la!... É crença minha.</p>
+
+<p>&mdash;Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
+peregrino espirito... Edificativa exhortação a vossa!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não será verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos avós
+envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de que não é nas
+raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo... Ora dizei-me!...
+Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos escudeiros sabemos todos, que
+muitos lá ficaram...</p>
+
+<p>&mdash;Morreram no seu posto...</p>
+
+<p>&mdash;Com honra, bem o sei. Ou não foram elles portuguezes!... Mas costume foi
+sempre lançar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo dos nobres...
+Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que sobreviveram!... A
+vós não perde sua alteza o ensejo de honrar... Não vo'-lo provou já,
+enviando-vos a Castella em seu real serviço? E á Barberia, a fazer pazes com o
+rei de Tremecem?...</p>
+
+<p>&mdash;Mercês d'el-rei, meu senhor, que m'as não deve, porque lh'as não mereço...
+Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao lado de sua alteza
+ninguem póde ser fraco!... Praz-me porém, vêr-vos discorrer d'ess'arte!...
+Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me sinto orgulhoso de vos amar!...
+</p>
+
+<p>&mdash;E eu de ser por vós amada!...<a class="pn"
+name="pg_105">{105}</a></p>
+
+<p>&mdash;Abençoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha de
+elevado e grande!... Nem perseverança e fé me faltarão jámais!...</p>
+
+<p>&mdash;Nem as minhas orações, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não?... O céo está sempre aberto ás supplicas dos anjos. Vós sois
+já o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim. A Santissima Virgem, que é auxilio dos christãos, permitta que eu
+saiba corresponder ás vossas esperanças!</p>
+
+<p>&mdash;Hade amparar-nos o seu patrocinio, crêde! Eu tambem sou devóto da Mãe de
+Deus, Thereza!...</p>
+
+<p>&mdash;Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
+minha Senhora. Adeus.</p>
+
+<p>Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos, apenas
+soltou esta palavra, que ella já não poude ouvir:</p>
+
+<p>&mdash;Encantadora!...</p>
+
+<p>E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu coração virgineo
+abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos primeiros raios do sol
+em alegre manhã de primavera. A sua alma desabrochando, exhalava seu ingenito
+perfume angelico, e em uma aspiração, que tinha alguma cousa de infinito,
+invocava não sabia bem o quê, para ella ainda desconhecido. Não ignorava,
+que<a class="pn" name="pg_106">{106}</a> geralmente o interesse era o
+verdadeiro móbil dos casamentos na côrte. Muitos dos servidores das damas,
+senão todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o coração vasio de affeições,
+que, se os recommendasse o prestigio das suas riquezas, ou a fascinação do seu
+nome, nenhuma d'ellas repudiava os seus galanteios. Maria Thereza, porém,
+aspirava á posse de uma alma, como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da
+pureza, de um coração, como o seu, que conservasse o thezouro do affecto;
+porque sem estes dois thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais
+egregio, a fortuna ainda a mais colossal, não poderiam dissimular a sua
+privação irreparavel.</p>
+
+<p>A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predilecção, como para o
+deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mães nos cuidados com a
+sua educação. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura sã e moral do seu
+espirito, não lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da imaginação, nem lhe
+roubava a graça e a poesia, com que Deus a dotára. Dando á imaginação o que
+justamente lhe pertencia, purificando-a e dirigindo-a, creava-lhe tambem e
+primeiro que tudo, uma consciencia forte; formava-lhe uma vontade energica e
+recta, um coração que soubesse querer o bem, uma razão e intelligencia, que lhe
+deixassem trilhar sempre, com resolução e firmeza, o caminho do dever e da
+honra.</p>
+
+<p>Que mãe de familia com taes dotes!<a class="pn"
+name="pg_107">{107}</a> </p>
+
+<p>Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
+paixão pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como quem
+prescreve o regimen de uma alimentação salutar e sobria. Ao mesmo passo
+encarecia D. Leonor á sua pupilla a intimidade do lar domestico, dizendo-lhe,
+que sem ella não pode haver vida de familia, como sem templo não existe
+religião, que se avigóre.</p>
+
+<p>Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
+pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle é para todos nós como que
+uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar consagrado pelas
+alegrias e pelos pezáres communs da familia.</p>
+
+<p>Ao pensar, pois, na sua união com Pero da Covilhan, Maria Thereza promettia
+a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e risonha, velando tudo,
+tomando o maior quinhão nos dissabores do trabalhador indefesso, applaudindo os
+seus esforços, aconselhando-o, inspirando-o, confortando-o emfim com o seu
+olhar e o seu sorriso. E por isso mesmo, embóra Pero da Covilhan soffresse as
+mais duras inclemencias, as mais longas provações, antes de conquistar uma
+reputação honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas, o amor
+d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar de todas as
+vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e deliciava-se ao
+imagina-lo.<a class="pn" name="pg_108">{108}</a></p>
+
+<p>Que desassocego febril, em que andava o seu coração de dezeseis annos, desde
+que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os primeiros
+estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento deixou de ser uma
+paixão que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma virtude, que havia de
+eleva-lo.</p>
+
+<p>O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
+nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma aureola
+brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. João II para premiar,
+tinha ella toda a confiança; por isso não a intimidavam as habituaes
+murmurações e desdens dos cortezãos. Estes em geral, occupados de inveja dos
+feitos alheios, trabalhavam por empece-los e aniquila-los. Prezando-se
+unicamente de perfumados, e de porfiar trovando nos serões do paço, nada mais
+faziam do que folgazar dia e noite, emmaranhados em intrigas de amores
+interesseiros e faceis.</p>
+
+<p>Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria de
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Desinteressado amor!</p>
+
+<p>A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o môço escudeiro a
+burilar no escudo um brazão floreteado, ganho em serviço da religião e da
+patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama, e segunda
+mãe, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mão. Exultava<a
+class="pn" name="pg_109">{109}</a> por isso de contentamento intimo, quando
+o rei o escolhia para desempenhar qualquer missão que por espinhosa e arriscada
+o distinguisse mais ainda. É que o seu amor tinha a singularidade maravilhosa
+de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre inflammado o
+coração.</p>
+
+<p>Quando Pero da Covilhan ia a sair, já despedido pela rainha, poude dizer a
+Maria Thereza:</p>
+
+<p>&mdash;De novo passo á Barberia.</p>
+
+<p>&mdash;Deus vos guie!&mdash;respondeu Thereza, tão meiga, como alegre.&mdash;Comvosco vae
+tambem o meu coração, que é vosso.</p>
+
+<p>Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expressão da physionomia de Maria
+Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza pelo
+apartamento; e comtudo bem natural é, que fossem como realmente eram, sempre
+que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da saudade. As
+despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.</p>
+
+<p>D. João II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava insaciavel
+e insoffrivel em transpôr os humbraes da India, não afastava seus olhos
+d'aquella banda da Africa, tanto ao pé da porta, e da qual tivera por doação
+real a governança, quando principe ainda. Para ser miudamente informado ácerca
+do que se passava n'esses lugares, enviou lá Pero da Covilhan,
+recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com Molley-Belfagege, que em
+1472 havia mandado a<a class="pn" name="pg_110">{110}</a> ossada de D.
+Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razão ostensiva da
+viagem era, porém, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque de Beja,
+a quem o rei ia dar casa. Destinados á mesma adquiriria tambem Pero da Covilhan
+alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com particular interesse, consoante
+á carinhosa rainha merecia, quanto tocava a D. Manuel seu dilecto irmão, mais
+tarde rei.</p>
+
+<p>Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.</p>
+
+<p>Depois da necessaria demóra, regressou a Portugal, onde o esperava já outro
+encargo; este, porém, mais arduo, e de mais vasto alcance para a realisação do
+plano politico de D. João II.</p>
+
+<p>Estava a côrte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos dos
+mandados, que cumprira, conforme as instrucções que levava.</p>
+
+<p>&mdash;Bem o fizestes&mdash;disse-lhe o rei&mdash;; e agora&mdash;muito secretamente&mdash;espéro de
+vós grande serviço, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor, mui ditoso
+em vossos feitos... Não vos impede a falta de saude, ou o cansaço da viagem, de
+sair já de nossos reinos?</p>
+
+<p>&mdash;Préstes estou, meu Senhor e rei&mdash;respondeu Pero da Covilhan.&mdash;Peza-me,
+porém, não ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
+voss'alteza...</p>
+
+<p>&mdash;Embóra, ireis, que Deus vos guardará.&mdash;A descobrir e saber do Preste João,
+e onde se acham<a class="pn" name="pg_111">{111}</a> a canella e as
+outras especiarias, que das terras do Oriente vão a Veneza, hei já mandado um
+homem da casa de Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a
+Jerusalem, d'aqui fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
+entender-se sem saber o arabe. De vós me lembrei, que bem o fallais. Maior
+incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso valor e
+discernimento muito mais confio...</p>
+
+<p>&mdash;Mercê a voss'alteza, meu Senhor...</p>
+
+<p>&mdash;O que de vós pretendo é, que vos certifiqueis, se do meu senhorio da Guiné
+podemos communicar por terra com o reino do Preste João, e se tambem por lá, se
+a costa vae seguindo, levariamos á India a nossa frota.</p>
+
+<p>&mdash;Com léda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que é mais uma mercê, por
+que beijo a mão de voss'alteza.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que vos
+dou para auxiliar-vos.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que já
+sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o mandava
+partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar á religião e á patria bons
+serviços. Não lhe revelou o segredo da sua mysteriosa viagem, mas não resistiu
+a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de amor:<a class="pn"
+name="pg_112">{112}</a></p>
+
+<p>&mdash;Agora, mais do que nunca, espéro ser vosso, Thereza!...</p>
+
+<p>&mdash;A Virgem vos ouça!&mdash;exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
+radiante.&mdash;A longes terras ides?... Deus vos acompanhará... e eu ficar-vos-hei
+esperando... de outro jámais serei!...</p>
+
+<p>E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da fé
+revigóra.</p>
+
+<p>Nem um uma lagrima derramaram!</p>
+
+<p>As lagrimas nem sempre são a medida do amor. Este muitas vezes mais se
+prova, com as que se deixam de chorar.</p>
+
+<p>Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a dor
+maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle, porém, ia
+para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta ficava-o esperando,
+para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas, que deixavam ambos de
+chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino, com que mutuamente se
+queriam.</p>
+
+<p>No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. João II, tendo a seu
+lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se apresentou já
+com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa de Pedro d'Alcaçova,
+pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o <em>Calçadilha</em>, depois bispo, e pelos
+physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moysés, os quaes tomavam com o
+primeiro<a class="pn" name="pg_113">{113}</a> parte na <em>junta dos
+cosmographos</em>. N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do
+senhorio do Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.</p>
+
+<p>Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. João II dar da arca das
+despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes Pero da
+Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a fim de receber
+em Hespanha o que lhe conviesse, levando além d'isso uma carta de credito,
+dirigida pelo monarcha á opulenta casa Medicis, para que nada lhe faltasse nos
+paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim portador de cartas em arabico para
+o Préste, nas quaes D. João II significava a este o grande desejo de o
+conhecer, e travar com elle relações de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta
+de tudo o que pela costa da Guiné havia descoberto para saber, se alguma
+d'aquellas terras era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se
+poderem communicar e prestar, bem como fazer, com que a Fé Christã fosse
+exalçada.</p>
+
+<p>E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direcção a Barcelona.<a
+class="pn" name="pg_114">{114}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_115">{115}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION000900">VII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION000910"><em>EM RHODES</em></a> </h2>
+
+<p>Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona, passaram a
+Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se logo á casa
+commercial de Cósme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi dado seu caminho,
+em vista da carta de credito, que levavam, como fica dito.</p>
+
+<p>Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de Rhodes
+uma náu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes. Proseguiram
+n'ella, pois.</p>
+
+<p>Já no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado á amurada da náu,
+tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por uma
+natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas tentadoras bellezas
+do magnifico panorama, para a dôr que lhe ia pungindo<a class="pn"
+name="pg_116">{116}</a> a alma. Agora que nos mares do levante põe a prôa a
+náu, que o transporta, e elle, se distancía mais de Portugal, sem saber aonde o
+destino o levará, mais lhe parece que o seu coração o deixou para ficar com
+Thereza.</p>
+
+<p>Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez mais
+da patria em busca de regiões desconhecidas, o ardor, com que desejava chegar
+ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela impressão viva da
+saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o coração.</p>
+
+<p>A náu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas
+pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e, proejando para
+Rhodes, surge n'este porto.</p>
+
+<p>Está, portanto, Pero da Covilhan ás portas do Oriente.</p>
+
+<p>Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. João Baptista, de
+Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhança, era essa ilha propria
+para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do Egypto e da Syria,
+bem como para reprimir e rebater os assaltos e insultos dos turcos, que, com
+galeras armadas em guerra, infestavam aquelles mares, vexando os christãos,
+roubando e fazendo captivos muitos d'elles.</p>
+
+<p>Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de náus, galeões e galeras, com
+que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e não só<a
+class="pn" name="pg_117">{117}</a> davam passagem segura e pousada franca
+aos peregrinos, que visitavam a Terra Santa, senão tambem refreavam os impetos
+e furias dos mouros e turcos, para que não chegassem com as suas victorias até
+ao coração da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir ás
+virtudes, esforço, façanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o não terem os
+infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.</p>
+
+<p>Eram dois os cavalleiros portuguezes então na ilha: frei Gonçalo Pimenta e
+frei Fernão Gonçalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e brilhante
+defensa, contra o apertado cêrco do exercito ottomano, em 1480, no mestrado de
+frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era, receberam os dois viajantes
+fidalga hospedagem de seus compatricios. A breve trecho estabeleceu-se entre
+todos aquella confiança e lhaneza de trato peculiarissimas do nosso caracter
+nacional, que não só se conserva intemerato em quaesquer circumstancias de
+tempo e lugar, mas ainda mais o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando
+se topam em terra alheia.</p>
+
+<p>Como os primeiros cuidados do grão-mestre tivessem sido, logo depois do
+assédio, restaurar as muralhas e fortificações arruinadas, durante este;
+reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem situadas
+perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao inimigo; e
+restabelecer finalmente o importante commercio<a class="pn"
+name="pg_118">{118}</a> dos rhodios, que tão notavel incremento havia já
+tomado; aos intrepidos viajantes foi grato vêr na Rhodes christanisada uma das
+mais florescentes cidades da Asia.</p>
+
+<p>Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o fazia,
+foi Pero da Covilhan com frei Fernão visitar as fortificações. Depois de
+haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau, que demorava
+sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre alcantilado
+fraguedo, que se erguia do seio das ondas.</p>
+
+<p>Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que d'ahi
+podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe não entrassem
+soccorros, fr. Fernão recordou este episodio do cêrco, e a bravura com que
+n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da Covilhan escutava com
+interesse e assombro a narrativa, e não poude occultar a commoção de jubilo,
+que sentiu ao ouvir as referencias feitas á galhardia dos nossos.</p>
+
+<p>Frei Fernão comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da guerra,
+por isso fez-lhe minuciosamente o lance do cêrco. E, como então os triumphos
+gloriosos dos prelios eram antes attribuidos á graça do Omnipotente, do que ao
+esforço heroico dos guerreiros, não deixou fr. Fernão de memorar um caso
+milagroso, que contribuiu principalmente para a derrota dos turcos.</p>
+
+<p>&mdash;Depois de assalto á cidade fugiram para ella<a class="pn"
+name="pg_119">{119}</a> grande numero de turcos. Attestaram estes com
+juramento, que, tendo o grão-mestre acudido ao combate, e feito arvorar de novo
+as bandeiras, em que se divisavam pintadas as imagens de Christo, da Virgem e
+de S. João Baptista, alvejando a cruz em campo de rouxeada côr, n'esse mesmo
+instante viram os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da
+côr de ouro, á qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos
+vestidos, com escudo embraçado e lança na mão direita; junto a ella um homem
+vestido de pannos vis com uma pélle de camêlo sobre os hombros; e logo um
+luzido esquadrão de soldados, assignalados com cruzes brancas, correndo em tal
+ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta visão&mdash;diziam os
+desertores&mdash;ficaram os turcos tão assustados e attonitos, que os que iam em
+marcha ao assalto, não se atreveram passar adeante; e os que já estavam
+interessados na lucta, conceberam tanto medo e terror, que voltaram as costas,
+e para fugirem com menos embaraço se mataram uns aos outros.</p>
+
+<p>&mdash;Vencemos!&mdash;concluiu frei Fernão&mdash;. Mas sem aquelle celeste auxilio não
+podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropél e poderosas forças dos
+inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com grande gloria dos
+christãos e a mór affronta dos infieis!... E a proposito deixai-me lamentar,
+que o senhor D. João II, sendo tão catholico, tenha a sua attenção
+distrahida<a class="pn" name="pg_120">{120}</a> para Africa, e não nos
+auxilie em nossa empreza!...</p>
+
+<p>&mdash;Estou certo&mdash;retorquiu Pero da Covilhan&mdash;de que el-rei, meu Senhor, admira
+os vossos esforços, e desejaria contribuir para o engrandecimento da sagrada
+milicia; asseguro-vos, porém, que nas actuaes circumstancias do reino, não
+podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais porventura, que sua
+alteza deve consentir á sua porta, a vexar a christandade, o agareno insolito e
+maldito?...</p>
+
+<p>&mdash;Reduzir o numero dos infieis pela conversão ao catholicismo, é sem duvida
+obra emérita. Mas nós tambem lá iriamos ajudar el-rei, se tivessemos seguro o
+nosso dominio na Asia...</p>
+
+<p>&mdash;Não se esquece sua alteza do Oriente, crêde... Se a nossa fróta podésse ir
+á India!... O resultado seria a propagação da fé catholica n'essas regiões
+remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...</p>
+
+<p>&mdash;Á India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois póde el-rei conceber um tal
+proposito?!... Por que mares chegaria lá?!...</p>
+
+<p>&mdash;Por que mares, não sei... O pensamento é meu... Occorreu-me agora... O que
+vós não ignorais, sem duvida, é que nós, os portuguezes, somos aventureiros por
+indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma barreira constante,
+posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar; por isso natural é, que
+estejamos sempre<a class="pn" name="pg_121">{121}</a> anciosos de vencer
+esse obstaculo... Quem sabe se servirá de estimulo, para virmos a ser um dia os
+primeiros navegadores do mundo?!...</p>
+
+<p>&mdash;Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas...
+Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em Alexandria
+fornecem o mundo inteiro; e além d'isso é a senhora dos mares, sem que ninguem
+póssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura ella sonhasse, que por mar se
+podia ir á India, já lá tinha surgido a sua grande fróta...</p>
+
+<p>&mdash;Mas nós tambem já temos provado, que sabemos luctar com as ondas...</p>
+
+<p>&mdash;Assim é...</p>
+
+<p>&mdash;Ora dizei-me: não estará Deus a ensinar-nos o caminho da India no
+movimento diurno do sol?... Eu me explico. Não me custa admittir, que do
+Oriente partisse um dia grande cáfila de gente á procura do paiz do ouro.
+Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os não deixou ir mais além,
+uns retrocederam, outros ficaram...</p>
+
+<p>&mdash;Que saissem até muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil é
+acredita-lo&mdash;interrompeu fr. Fernão.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre
+no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se
+transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...<a
+class="pn" name="pg_122">{122}</a></p>
+
+<p>&mdash;Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro
+razão sobeja me dá.</p>
+
+<p>&mdash;Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao
+Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...
+</p>
+
+<p>&mdash;Prouvéra a Deus, que assim fosse!...&mdash;exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.
+</p>
+
+<p>&mdash;Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é
+procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que
+me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa
+religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...</p>
+
+<p>&mdash;Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse
+afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.</p>
+
+<p>&mdash;Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?</p>
+
+<p>&mdash;Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um
+seculo, e até hoje&mdash;que eu saiba!&mdash;não tem constado cá, haver-se descoberto o
+reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.</p>
+
+<p>&mdash;Informação de pêso é essa...</p>
+
+<p>&mdash;Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum
+a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de
+Dario aos reis persas, o de Cesar<a class="pn" name="pg_123">{123}</a>
+aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa
+ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus
+em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da
+cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse
+imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia,
+de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se
+chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que
+desappareceu.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios
+o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não
+volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.</p>
+
+<p>O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe
+cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das
+Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel;
+serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.</p>
+
+<p>De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
+atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.<a
+class="pn" name="pg_124">{124}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_125">{125}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001000">VIII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001010"><em>BOAS NOVAS</em></a> </h2>
+
+<p>Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao
+porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do
+costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer,
+que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma
+feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais
+bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o
+Oriente.</p>
+
+<p>Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
+bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus
+monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
+gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no <small>VII</small> seculo.</p>
+
+<p>De todas essas preciosidades historicas restavam<a class="pn"
+name="pg_126">{126}</a> unicamente: a columna de Pompeu, denominada
+Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamados
+<em>Agulhas de Cleopatra</em>, e as catacumbas.</p>
+
+<p>A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo
+<em>Serapeion</em>, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos
+centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de
+Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha
+sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou
+um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano, <em>genio tutelar
+da cidade</em>, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que
+soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado,
+em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.
+</p>
+
+<p>As <em>Agulhas</em> consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
+parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
+monumentos: um, o <em>Sebasteion</em>, em honra de Tiberio; o outro, á gloria
+de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor, e, por
+consequencia, seculos antes da fundação da Alexandria no terreno, em que
+assentava a velha aldeia de Rakotis.</p>
+
+<p>No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome d'aquelle
+Pharaó.<a class="pn" name="pg_127">{127}</a></p>
+
+<p>Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a Râ, o deus do
+Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Héliopolis mais
+especialmente, sob a fórma do boi Mnévis. D'esse templo os removeram para
+Rakotis.</p>
+
+<p>Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram á terra
+firme por meio de um mólhe de cantaria, denominado <em>Heptastadion</em>,
+campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das maravilhas do
+mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do Egypto grego.</p>
+
+<p>Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de Cheops, e
+que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus páes, mandando-a revestir de marmore
+branco por Sostrato de Knido. Este architecto celebre gravou o proprio nome
+sobre o marmore, cobrindo a inscripção de encaustica brilhante, em que traçou o
+do soberano. O tempo encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a
+descoberto o nome do vaidoso e desleal artista.</p>
+
+<p>Como a torre ameaçava ruina, em frente d'ella havia principiado outra igual
+Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sultão mameluco do Egypto, da dynastia dos
+Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas a morte
+surprehendeu-o logo, não lhe permittindo executar a sua obra.</p>
+
+<p>Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes,<a class="pn"
+name="pg_128">{128}</a> e pouco mais, pois que uma fébre maligna os prostou.
+</p>
+
+<p>Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por haver
+successivos mercados desde Alexandria até áquella cidade, e fazendo a ultima
+parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta região por entre alegres
+povoações mui visinhas umas das outras, e corria a pequena distancia da capital
+do Egypto, a qual demorava na margem direita.</p>
+
+<p>Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
+encontráram-se com mercadores de Féz e Tremecem, que seguiam para Aden.
+Ajuntáram-se á caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de Tór.
+D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentáda á borda do golpho de
+Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco para Suaquem,
+riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar Vermelho, e d'ahi para
+Aden.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver saído de
+Rhodes com pouca esperança de dar lá com o Preste João, anciava cada vez mais
+conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo consciencioso do commercio
+das especiarias.</p>
+
+<p>Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a
+sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe
+arraigava no coração as suas crenças.<a class="pn"
+name="pg_129">{129}</a> O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a
+imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir
+audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma
+exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de
+que não fosse mercador ismaelita.</p>
+
+<p>Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia
+produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos
+dos tripulantes e mercadores que o cercavam.</p>
+
+<p>Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e
+picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada,
+lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella
+mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e
+largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.</p>
+
+<p>Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do
+mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de
+cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do
+outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros
+podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu
+cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro.
+Por duas<a class="pn" name="pg_130">{130}</a> portas, ambas juntas, se
+entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em
+um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas,
+protegida cada uma por sua fortificação.</p>
+
+<p>Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do
+clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da
+serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes
+tanques abertos na rocha.</p>
+
+<p>O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre
+estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus
+paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as
+caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo
+Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a
+Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.</p>
+
+<p>Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande
+rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou
+com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India,
+aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada
+época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.<a
+class="pn" name="pg_131">{131}</a></p>
+
+<p>Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
+costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a
+cidade de Calicut.</p>
+
+<p>Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
+Oceano Indico.</p>
+
+<p>A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro
+sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os
+ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes
+para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas
+cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de
+igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das
+pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.</p>
+
+<p>A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da
+amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar
+em melhor linha de bolina.</p>
+
+<p>Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para
+cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de
+rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.</p>
+
+<p>Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque,
+betumando as costuras do taboado com <em>quil</em>, e untando-as com azeite de
+peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim<a class="pn"
+name="pg_132">{132}</a> vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os
+quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou
+quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.</p>
+
+<p>O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da
+India para o mar Vermelho.</p>
+
+<p>Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
+particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem
+coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada
+em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de
+palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.</p>
+
+<p>Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros
+abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava
+muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma
+especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das
+esteiras de rotas, com que cobriam a carga.</p>
+
+<p>O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
+madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de
+trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da
+quotidiana alimentação.<a class="pn" name="pg_133">{133}</a></p>
+
+<p>E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a
+navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois
+varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.</p>
+
+<p>Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um
+movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em
+similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!</p>
+
+<p>Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação
+arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem
+tudo soffria resignado!</p>
+
+<p>A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que
+permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por
+elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou
+seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas,
+separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos
+vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de
+espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava
+igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel
+era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre
+si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes
+iracundas.<a class="pn" name="pg_134">{134}</a> A náu, sem governo,
+vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas
+serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo,
+equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em
+quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo
+lençól de espuma.</p>
+
+<p>Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas
+horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.</p>
+
+<p>Salvou-se!</p>
+
+<p>Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor,
+para fazer aguada e tomar lenha.</p>
+
+<p>A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por
+ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu
+rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.</p>
+
+<p>Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no
+seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a
+belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com
+as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o
+maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua
+imaginação havia sonhado.</p>
+
+<p>Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos<a class="pn"
+name="pg_135">{135}</a> arbitrariamente traçados, estava disseminada a
+casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras
+odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos.
+Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos
+pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
+resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e
+a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima
+distancia da praia.</p>
+
+<p>A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
+espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e
+frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir,
+quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas
+victimas.</p>
+
+<p>Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a
+tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos,
+consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento
+silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres
+fios, com a largura de dois dedos, como a correia.</p>
+
+<p>Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois
+ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado<a class="pn"
+name="pg_136">{136}</a> ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e
+resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os
+malabares chamavam <em>boi</em>.</p>
+
+<p>Os naires não se limitavam unicamente a prohibir aos poleás, que se
+approximassem d'elles. Mais ainda. Como o poleá era o escravo e o trabalhador
+encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas ordens a uma certa
+distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar de fato, purificar-se. E
+mantinha-se tanto esta differença de castas, que um poleá nunca podia remir o
+peccado original do nascimento. Nascia villão, havia de morrer villão.</p>
+
+<p>Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o coração generoso de
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>O commercio do Oriente estava nas mãos dos mouros, cujas embarcações eram
+por isso os unicos meios de communicação entre os diversos portos.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, que necessitou de lançar-se n'esse trafico, não podia
+fazer itinerarios á sua vontade, e accommodava-se ás circumstancias tirando
+d'ellas todo o proveito.</p>
+
+<p>Foi assim que logrou vêr Gôa, a guerreira capital do reino do Sabaio; Ormuz,
+o emporio commercial do golfo persico; e Sofála, a rica cidade da Africa
+meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro das minas de
+Monomotapa.<a class="pn" name="pg_137">{137}</a></p>
+
+<p>Restava-lhe obter noticias positivas ácerca de Préste João; mas contava, que
+lh'as désse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fôra á Ethiopia com o cuidado
+de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia aprazado com o seu
+companheiro, soube alli, que este fallecera.</p>
+
+<p>Tal acontecimento foi a primeira contrariedade séria da sua viagem. Com os
+vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do Préste, não se
+animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que não saciaria com tão pouco os
+vehementes desejos de D. João II, n'aquelle ponto.</p>
+
+<p>&mdash;De muito pósso eu já dar conta a el-rei; mas não de tudo quanto me
+incumbira...&mdash;pensava Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Chegou a hesitar um momento na resolução, que deveria tomar, e mais conviria
+ao serviço de seu real amo.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus portuguezes,
+que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de Amron, na opulenta
+rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso d'essa Babel, em tão
+embaraçosas situações se viram, que tiveram por vezes perdida a esperança de
+encontra-lo.</p>
+
+<p>Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
+outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.</p>
+
+<p>&mdash;Á procura de vós andavamos!&mdash;exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero
+da Covilhan.<a class="pn" name="pg_138">{138}</a></p>
+
+<p>Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou
+um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com
+portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...</p>
+
+<p>Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de
+D. João II, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas
+cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.</p>
+
+<p>&mdash;E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...&mdash;perguntou
+Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>&mdash;Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão
+esquerda...&mdash;respondeu Abraham, apontando para ella.</p>
+
+<p>&mdash;Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu
+senhor!...&mdash;replicou Pero da Covilhan, sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia,
+que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.</p>
+
+<p>Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse
+mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido
+de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo
+voltar ao reino sem ter visto o Préste João.<a class="pn"
+name="pg_139">{139}</a></p>
+
+<p>Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar
+muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás
+cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a
+narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender
+esta nova viagem, que concertára com o rabbi.</p>
+
+<p>&mdash;De tudo estou inteirado&mdash;disse Pero da Covilhan.&mdash;A vós, Joseph, vou
+immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e&mdash;voltando-se
+para Abraham&mdash;comvosco tornarei a vêr Ormuz.</p>
+
+<p>N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
+fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que
+serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente
+d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu
+principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por
+tratado com o sultão do Egypto.</p>
+
+<p>A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as
+especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido
+áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do
+Malabar.</p>
+
+<p>Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
+valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.<a class="pn"
+name="pg_140">{140}</a></p>
+
+<p>A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de
+Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as
+espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.</p>
+
+<p>Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso,
+parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo
+brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com
+a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao
+termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa
+no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os
+mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E
+addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres
+da Guiné se póde navegar para a India».</p>
+
+<p>Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava
+tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no
+Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe
+mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que
+para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse
+rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da
+Covilhan muitas<a class="pn" name="pg_141">{141}</a> cousas do rei
+abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns
+mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar
+adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe
+diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia
+mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.</p>
+
+<p>Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as
+cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este
+porto sahiram para Ormuz.</p>
+
+<p>Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar
+largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte
+portugueza!...</p>
+
+<p>O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...</p>
+
+<p>Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
+esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados,
+era o melhor lenitivo da sua saudade.</p>
+
+<p>&mdash;Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei
+qual é o caminho da India pelo mar!...&mdash;repetiam os echos da sua alma radiante
+e apaixonada.</p>
+
+<p>E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar
+d'Oman.<a class="pn" name="pg_142">{142}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_143">{143}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001100">IX</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001110"><em>CONSTANCIA</em></a> </h2>
+
+<p>Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
+espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros
+nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição
+permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.</p>
+
+<p>Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma
+repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia,
+era unicamente por obediencia.</p>
+
+<p>Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga
+nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar
+na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a
+tudo estão attentos, reparavam, que a Maria<a class="pn"
+name="pg_144">{144}</a> Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu
+ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem
+sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.</p>
+
+<p>Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás
+suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um
+tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.</p>
+
+<p>Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá
+Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando
+maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso
+franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...</p>
+
+<p>&mdash;E o mais estranho&mdash;observou Pedro de Barcellos&mdash;é, que não occulta o seu
+mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...</p>
+
+<p>&mdash;Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
+insiste...&mdash;accrescentou Jorge da Silveira.</p>
+
+<p>&mdash;De experimentados fallais ambos!...&mdash;atalhou D. João de Menezes</p>
+
+<p>&mdash;Quem não hade gostar de Thereza!...&mdash;tornou Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>&mdash;Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza
+diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa
+menina!...&mdash;exclamou Gonçalo da Fonseca.<a class="pn"
+name="pg_145">{145}</a></p>
+
+<p>Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a
+convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe
+Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas
+porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter
+d'esse soberano, como o leitor vae vêr.</p>
+
+<p>Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na
+presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por
+gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós
+vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».</p>
+
+<p>Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos
+duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte
+Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.</p>
+
+<p>Voltemos, porém, ao ponto.</p>
+
+<p>A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca
+dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo
+Garcia de Rezende, se deu principio ao <em>jogo dos naipes</em>.</p>
+
+<p>Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma,
+os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais
+desagradaveis ainda, havia chegado a<a class="pn" name="pg_146">{146}</a>
+uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e
+esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava
+fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe
+agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella
+respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de
+alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais
+particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.</p>
+
+<p>Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a
+dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou
+rapidamente a seguinte exclamação:&mdash;infeliz lembrança!... E tenho de attender
+com fingido agrado este importuno!...</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de
+duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em
+ancias de tranzido amor.</p>
+
+<p>O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:&mdash;como
+sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia
+angelica!...&mdash;e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a
+saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.</p>
+
+<p>Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não
+logrando evitar,<a class="pn" name="pg_147">{147}</a> que fosse trahido
+pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu
+aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:</p>
+
+<p>&mdash;Não vos interessa o <em>jogo dos naipes</em>?</p>
+
+<p>&mdash;É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz
+tomar hoje parte n'essa diversão&mdash;respondeu Maria Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que
+mereceis...</p>
+
+<p>&mdash;Lisongeiro!... E porque não ides tambem tirar uma carta?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque da minha sorte sómente vós podeis decidir...&mdash;retorquiu com certa
+intimativa Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!?... Grande poder me confiais!...</p>
+
+<p>&mdash;E não o quereis?...</p>
+
+<p>&mdash;Para quê?...</p>
+
+<p>&mdash;Para me libertardes da sujeição em que me trazeis...</p>
+
+<p>&mdash;Pois crêde, que não tinha a consciencia da minha tyrannia...</p>
+
+<p>&mdash;É que não quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...</p>
+
+<p>&mdash;Devaneais, primo!</p>
+
+<p>&mdash;Acaso tão pouco vos mereço, que mal pareça ser vosso servidor?&mdash;instou
+Pedro de Barcellos com forçado sorriso.</p>
+
+<p>&mdash;Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,<a class="pn"
+name="pg_148">{148}</a> e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de
+cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa
+pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...&mdash;redarguiu com
+reflexiva gravidade Maria Thereza.</p>
+
+<p>&mdash;Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro,
+porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não
+julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque nunca poderia corresponder-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...</p>
+
+<p>&mdash;Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.</p>
+
+<p>Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II,
+os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria
+Thereza:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de
+que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:</p>
+
+<blockquote>
+ «Por mais mal que me façais <br>
+ nunca mudar me fareis <br>
+ até que não me acabeis. <br>
+   <br>
+ Minha fé, minha firmeza <br>
+ Em vosso poder está; <br>
+ soffrerei minha tristeza, <br>
+ pois vossa mercê m'a dá.<a class="pn" name="pg_149">{149}</a> <br>
+   <br>
+ E meu bem nunca fará <br>
+ mudança, nem a vereis, <br>
+ até que não me acabeis.»<a name="tex2html7"
+ href="#foot375"><sup>[7]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>&mdash;Bello villancete, primo!...</p>
+
+<p>&mdash;Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me
+lembrei de recita-lo...</p>
+
+<p>&mdash;E não tendes prezente composição alguma vossa?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...</p>
+
+<p>&mdash;Não vos disse já, que vos estimo?...</p>
+
+<p>Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois
+de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria
+Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa
+d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais
+ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de
+bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou,
+perguntando-lhe com a maior formalidade:</p>
+
+<p>&mdash;Porque me não concedeis a vossa mão?...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...&mdash;respondeu Maria
+Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo
+respeito a Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>Este, reconhecendo que seria importuna e pouco<a class="pn"
+name="pg_150">{150}</a> delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:
+</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais
+saberá, senão vós.</p>
+
+<p>E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
+villancete:</p>
+
+<blockquote>
+ Aqui, onde vou deixar-vos, <br>
+ esse vosso doce olhar <br>
+ nunca me verá tornar. <br>
+   <br>
+ Para o mar vou sem ventura, <br>
+ sendo mais vosso cativo! <br>
+ Serei morto, sendo vivo, <br>
+ sem ver vossa formosura, <br>
+ pois que a minha sorte dura <br>
+ de vós me quér apartar <br>
+ para nunca mais tornar. <br>
+   <br>
+ E se bem, que me confórte, <br>
+ esperar me não é dado, <br>
+ melhor é ditosa morte, <br>
+ que viver desesperado. <br>
+ Acabe assim o cuidado <br>
+ de sómente em vós cuidar, <br>
+ e no vosso doce olhar!... </blockquote>
+
+<p>&mdash;É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o
+divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito...
+Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que
+fico sendo-vos muito affeiçoada...</p>
+
+<p>Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado
+longo.<a class="pn" name="pg_151">{151}</a></p>
+
+<p>Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema
+bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua
+belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica,
+do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para
+ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a
+extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na
+possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no
+coração diamantino da sua filha adoptiva.</p>
+
+<p>D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
+primazia.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a
+sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao
+respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os
+perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio
+aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se
+reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á
+ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros
+povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.<a class="pn"
+name="pg_152">{152}</a></p>
+
+<p>Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa
+ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da
+cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da
+Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues
+das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e
+voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de
+Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos
+<em>Ricos-homens</em> de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e por consequencia
+tambem <em>rico-homem</em>.&mdash;No principio da monarchia era essa a maior
+dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamava
+<em>primos</em>, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e
+não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da
+guerra, sem o conselho d'elles.</p>
+
+<p>Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da
+Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro
+varão, que nasceu na Terceira.</p>
+
+<p>Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de
+sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com
+mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio
+de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se<a class="pn"
+name="pg_153">{153}</a> João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando
+Annes ou Joannes.</p>
+
+<p>Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado,
+primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de
+visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram
+as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de
+apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.</p>
+
+<p>Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a
+quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de
+descobrir novas terras.</p>
+
+<p>Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo
+de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as
+canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude
+aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então
+pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não
+era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel
+ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
+muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o
+seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.<a
+class="pn" name="pg_154">{154}</a></p>
+
+<p>Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II,
+animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.</p>
+
+<p>Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua
+formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe
+havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que
+momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre
+attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus
+brios de homem digno.</p>
+
+<p>Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo
+recebido com particular carinho no solar de <em>Entre Homem e Cavado</em>, e
+tornou logo para a Terceira.</p>
+
+<p>Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e
+tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou
+da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495, <a
+href="#nota_H">depois de ter descoberto a costa do Labrador</a>.</p>
+
+<p>Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3
+de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle
+a uma região do <em>Novo Mundo</em>. E assim succedeu, com effeito. O facto,
+porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do
+insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna
+superior<a class="pn" name="pg_155">{155}</a> ao nosso Pedr'Alvares
+Cabral, <a href="#nota_I">a quem a patria não fez ainda a devida
+justiça</a>.</p>
+
+<p>Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e
+penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços
+tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador,
+concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho
+de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por
+outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de
+armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras
+e privilegios de nobres e fidalgos, por procederem <a href="#nota_J">da geração
+e linhagem dos Machados</a>, por parte de sua mãe e avós.</p>
+
+<p>Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de
+Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho
+da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos
+preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da
+India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.</p>
+
+<p>Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas
+culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas
+maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as
+caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses
+dois problemas.<a class="pn" name="pg_156">{156}</a></p>
+
+<p>Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu
+Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da <em>Bôa Esperança</em>, e
+chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a
+recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois
+navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes
+vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que
+D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.</p>
+
+<p>Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da
+Covilhan, em Santarem?</p>
+
+<p>Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum
+interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?
+</p>
+
+<p>Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o
+successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario,
+quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais
+direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D.
+Manoel uma esphera por empreza, cuja <em>alma</em> era: <em>Spera in Deo</em>?
+Não parece ser um presentimento muito singular?...<a class="pn"
+name="pg_157">{157}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001200">X</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001210"><em>TENTANDO AS AZAS...</em></a> </h2>
+
+<p>Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan.
+Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente
+podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do
+monarcha.</p>
+
+<p>Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...</p>
+
+<p>Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a
+nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá
+credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão
+bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por
+Préste João da India o imperador da Ethiopia.</p>
+
+<p>Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações<a class="pn"
+name="pg_158">{158}</a> d'esse tempo&mdash;o apparecimento d'aquelle personagem
+legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar, excepto D. João II e
+Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.</p>
+
+<p>Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A
+esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora
+mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.</p>
+
+<p>Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
+catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração
+d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de
+seu tio o duque de Borgonha, em Lille.</p>
+
+<p>A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.
+</p>
+
+<p>No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para
+banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S.
+Francisco dava para tudo.</p>
+
+<p>Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus
+estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir
+grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella
+da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.</p>
+
+<p>Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão
+largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.<a class="pn"
+name="pg_159">{159}</a></p>
+
+<p>Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se
+fabricar a sala dos banquetes&mdash;aquella sala de madeira,</p>
+
+<blockquote>
+ «que ficara por memoria. <br>
+ Real em tanta maneira, <br>
+ de perfeição tão inteira, <br>
+ de tanta mundana gloria».<a name="tex2html8"
+ href="#foot401"><sup>[8]</sup></a> </blockquote>
+
+<p>Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do
+seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia
+em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S.
+Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que
+se hão de tornar em pranto!...»</p>
+
+<p>E, como se fôra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:&mdash;«Quem viver
+verá!...»</p>
+
+<p>A verdade é, que se não enganou.</p>
+
+<p>Nem fr. João da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pôr
+côbro ás regias extorsões, contra que se levantavam as jeremiadas do espoliado
+cenóbio eborense. D. João II nunca fôra attreito a sensibilisar-se com
+lamentações de frades.</p>
+
+<p>A construcção da <em>sala de madeira</em> foi dirigida por Andrea Contucci,
+a quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paços.<a class="pn"
+name="pg_160">{160}</a></p>
+
+<p>Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu
+nascimento, fôra enviado a Portugal por Lourenço de Medicis, a quem D. João II
+pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.</p>
+
+<p>Andrea Sansovino era môço ainda, quando veiu a Portugal. Havia já revelado o
+seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira, iniciada depois de ter
+chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que tão merecida e distinctamente
+occupa na historia da Arte.</p>
+
+<p>Em architectura fôra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns
+trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florença, não o
+impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha a mais
+pronunciada vocação.</p>
+
+<p>O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de Domenico
+Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo, ainda ignorado
+na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo. Vê-se bem, qual foi, pois
+o móvel do crime.</p>
+
+<p>O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na
+pintura do nú, lisonjeando d'este modo o gosto de Lourenço de Medicis, seu
+patrono, cuja protecção mais se accentuou depois que Pollaiolo fundiu a bella
+medalha commemorativa da conspiração dos Pazzi, da qual Lourenço o
+<em>Magnifico</em> se salvou milagrosamente.</p>
+
+<p>O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua<a class="pn"
+name="pg_161">{161}</a> poderosa influencia o triumpho simultaneo do
+Paganismo, do Naturalismo, e até do Sensualismo, na maioria dos productos da
+intelligencia humana; e, sem embargo de have-lo proclamado grande protector das
+lettras a universidade de Pisa, por elle fundada, o seu consulado fórma um
+periodo tristemente memoravel para a historia dos costumes, das artes e das
+proprias lettras.</p>
+
+<p>É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo
+determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D.
+João II.</p>
+
+<p>Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do
+seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia
+real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.</p>
+
+<p>D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de
+Evora, as recordações do periodo medieval.</p>
+
+<p>Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro,
+para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um
+sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham
+entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as
+mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real
+thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e
+cavallo; e os que<a class="pn" name="pg_162">{162}</a> entravam nos mômos
+e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado vestido e dinheiro
+aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais galantes raparigas e foliantes
+mocetões do Alemtejo, que vieram com suas danças, toques e descantes concorrer
+todos para o luzimento e alegria das festas.</p>
+
+<p>O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na <em>sala de madeira</em>,
+appareceu-lhe invencionado no phantastico <em>cavalleiro do cysne</em>, o
+poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou ler, e
+depois entregar á princeza, sua nora, um <em>bréve</em>, em que propunha a
+tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas
+conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para justar com
+seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.</p>
+
+<p>Singular caracter o d'este monarcha!</p>
+
+<p>Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os
+preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho;
+comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma
+enlevada e contemplativa&mdash;a fundação da misericordia de Lisboa.</p>
+
+<p>Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel
+de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.</p>
+
+<p>De visita ao seu mosteiro de Santarem havia<a class="pn"
+name="pg_163">{163}</a> chegado a Evora o douto e humilde trino, e veiu
+encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S. Matheus, cuja
+doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da devota rainha,
+para o purificar e tornar fecundo.</p>
+
+<p>&mdash;Embóra vindes, fr. Miguel!...&mdash;disse a rainha ao receber o trinitario, que
+com profunda reverencia lhe beijou a mão.&mdash;Sentae-vos que muito desejo
+ouvir-vos ácerca da <em>vossa</em> Misericordia...</p>
+
+<p>&mdash;Da de voss'alteza: quereis dizer...&mdash;ponderou Contreiras.</p>
+
+<p>&mdash;Pois seja de ambos nós&mdash;tornou D. Leonor,&mdash;ou melhor: de Deus será esse
+arbusto, que vamos plantar, e que se fará&mdash;assim o espero da protecção
+divina&mdash;arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que
+váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la
+de melhores mãos...</p>
+
+<p>&mdash;Mãos de peccadora...</p>
+
+<p>&mdash;Purificadas nas boas obras...&mdash;atalhou Contreiras.</p>
+
+<p>&mdash;Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás
+miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não
+hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino
+Mestre?...</p>
+
+<p>&mdash;Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo
+interesse nas acções<a class="pn" name="pg_164">{164}</a> boas que
+praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão
+misericordia».</p>
+
+<p>&mdash;Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do
+Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...</p>
+
+<p>&mdash;E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado
+pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...</p>
+
+<p>&mdash;Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa
+instituição, que projectamos...</p>
+
+<p>&mdash;Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em
+nome da caridade christã vamos congregar...</p>
+
+<p>&mdash;Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de
+concluido, á censura e approvação de voss'alteza...</p>
+
+<p>&mdash;Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser
+traça vossa...</p>
+
+<p>&mdash;Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê
+me fazeis...</p>
+
+<p>A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de
+Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha,
+dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.</p>
+
+<p>Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas<a class="pn"
+name="pg_165">{165}</a> correu Maria Thereza para sua ama, foi ajoelhar
+junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:</p>
+
+<p>&mdash;Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...</p>
+
+<p>&mdash;Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...&mdash;volveu carinhosamente a
+rainha.</p>
+
+<p>&mdash;Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o
+cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum
+tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas...
+agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal
+fim?...</p>
+
+<p>A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe
+para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:</p>
+
+<p>&mdash;Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas
+do casamento.</p>
+
+<p>Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas,
+não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:</p>
+
+<p>&mdash;E se eu fosse já?...</p>
+
+<p>&mdash;Que trigança é essa?...</p>
+
+<p>&mdash;Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...</p>
+
+<p>&mdash;Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!...
+Olha, que não é bom, ser-se impaciente...</p>
+
+<p>&mdash;Se eu não agastasse a vossa'alteza!...<a class="pn"
+name="pg_166">{166}</a></p>
+
+<p>&mdash;O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e,
+todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo
+da minha alma... Eu, minha Senhora...</p>
+
+<p>Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais
+os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.</p>
+
+<p>D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os,
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...</p>
+
+<p>&mdash;Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...&mdash;perguntou a rainha,
+accentuando com grande admiração as suas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha Senhora&mdash;replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
+parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.</p>
+
+<p>&mdash;Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na
+differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
+casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...</p>
+
+<p>&mdash;O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um
+passo, que não<a class="pn" name="pg_167">{167}</a> seja do real agrado
+de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu
+coração o que consagro a voss'alteza, como do coração da esposa nunca se
+apaga&mdash;creio&mdash;o amor da filha. Até este mais santifica e robustece o outro...
+</p>
+
+<p>&mdash;Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu
+as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...</p>
+
+<p>&mdash;Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle
+não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas
+honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por
+onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não
+esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo
+cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado,
+que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores&mdash;affirmou
+gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as
+palavras, que docemente proferia, continuou:&mdash;pois bem... mandarei dizer a teu
+tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás
+festas... e faço-te a vontade...</p>
+
+<p>Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente<a class="pn"
+name="pg_168">{168}</a> Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma
+palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz
+do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava
+deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem
+tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:</p>
+
+<p>&mdash;Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum
+tempo a companhia de voss'alteza!...</p>
+
+<p>&mdash;Pobre creança!...&mdash;interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.
+Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela
+cara:</p>
+
+<p>&mdash;Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres,
+não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...<a
+class="pn" name="pg_169">{169}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001300">XI</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001310"><em>PEREGRINAÇÃO</em></a> </h2>
+
+<p>Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar
+em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente
+catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca,
+incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o
+recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os
+musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor
+fanatico.</p>
+
+<p>Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se
+considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la,
+porém, mórmente no seculo <small>XV</small>, embóra se tivesse envergado o
+<em>ihram</em> do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.</p>
+
+<p>Os raros europeus, que no seculo actual lográram<a class="pn"
+name="pg_170">{170}</a> vêr Mecca, dão testemunho do perigo, a que se expõem
+os christãos, que se afoitam a violar a lei que lhes prohibe, com pena de
+morte, o seu ingresso no velho santuario arabe.</p>
+
+<p>Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o Oceano
+indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e costumes, nada
+havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um dever, a cujo cumprimento
+sacrificava a propria vida.</p>
+
+<p>É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
+adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos labores
+improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e, no seu
+resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e robustecia cada
+vez mais a confiança, que em si proprio depositava.</p>
+
+<p>Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.</p>
+
+<p>O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia, tem
+importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela influencia, que
+recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A sua aridez, quasi
+geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha. Cortam a immensa solidão
+das suas planicies arenosas, que se extendem para a margem do mar Vermelho,
+pouquissimos valles cultivados e montanhas cobertas de rochedos, que se vão
+tornando cada vez mais abruptas á medida que os viandantes<a class="pn"
+name="pg_171">{171}</a> se internam no paiz. As estradas são regueiras
+enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se transformam em rios caudalosos.
+Caminha-se por esses <em>uâdis</em>, e na falta d'elles seguem-se as direcções
+rigorosamente determinadas pela situação de póços e cisternas, sem cuja agua a
+vida seria impossivel no deserto.</p>
+
+<p>Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
+percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
+<em>simoun</em>.</p>
+
+<p>Para combater o primeiro, iam os açacaes&mdash;<em>sakka</em>&mdash;encarregados de
+conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam novas
+provisões da dos depositos, que encontravam.</p>
+
+<p>Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
+exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em armas. Os
+nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes, pois que taes
+bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma caravana, como um general
+europeu de ter bombardeado e conquistado uma praça de guerra; e, se não erguiam
+uma estatua ao scheick, por elles muito venerado, e que os conduzia á victoria,
+é porque na Arabia, a ninguem se fazia essa consagração.</p>
+
+<p>O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.<a class="pn"
+name="pg_172">{172}</a></p>
+
+<p>Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois todo o
+Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então um aspecto
+sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia finissima,
+arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar embravecido, era preciso
+fugir a toda a pressa!</p>
+
+<p>Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!</p>
+
+<p>O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais
+turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos,
+os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes
+<em>navios do deserto</em>, desarvoravam, partiam á desfilada, zombando da
+vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de
+conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças.
+</p>
+
+<p>Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia
+abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a
+calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á
+mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a
+esperança de sobreviver os abandonava!</p>
+
+<p>Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
+desfalleciam, caíam inanimes<a class="pn" name="pg_173">{173}</a>
+n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e tumulo, até que
+novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas numerosissimas do
+implacavel e deshumano simoun!</p>
+
+<p>De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio
+fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.</p>
+
+<p>Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia,
+que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes,
+que cercavam a <em>mãe das cidades</em>, a Om-el-Kora dos arabes.</p>
+
+<p>A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
+pelo <em>propheta</em> a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
+para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.</p>
+
+<p>Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
+Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á
+roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.</p>
+
+<p>N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre
+de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de
+tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o
+caracteristico predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana
+fizeram uma ablução geral, chamada <em>ghort</em>, substituiram os seus trajos
+de viagem pelo <em>ihram</em>,<a class="pn" name="pg_174">{174}</a> o
+calçado pelas chinelas&mdash;<em>besmak</em>&mdash;, e perfumaram-se. As musulmanas
+tambem purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o
+<em>ihram</em>, e denominado <em>yaschmak</em>.</p>
+
+<p>Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de <em>hadji</em>, depois
+d'ella era tratado pelo de <em>mohrim</em>; e as suas vestes ficavam
+santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente
+guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.</p>
+
+<p>A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho&mdash;os
+homens em voz alta e as mulheres em voz baixa&mdash;muitas orações, terminando pelo
+<em>Tebiya</em> ou <em>Lebbeika</em>.</p>
+
+<p>Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando
+as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem
+atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas
+numerosas, pronunciaram o <em>tekbir</em> e o <em>tehlil</em>, que consistem em
+dizer: <em>Allah Akbar</em>&mdash;Deus é grande; <em>Lá lla illá lla</em>&mdash;não ha
+outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos
+pregoeiros&mdash;<em>almuadens</em> ou <em>muezzinos</em>, voltado para a <em>kaaba:
+observai, observai a casa de Deus, a prohibida!</em> E logo irromperam
+descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal,
+approximaram-se da <em>pedra-negra</em>&mdash;<em>Hadjar elaswad</em>, para fazer o
+<em>touaf</em>, isto é, para dar sete giros em volta da <em>kaaba</em>,
+offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario,<a class="pn"
+name="pg_175">{175}</a> que se elevava no meio do atrio, e, conforme a
+crença arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.</p>
+
+<p>A mesquita&mdash;<em>mesgid</em>, <em>guma'a</em>, lugar de reunião, e tambem
+<em>Beïttallah</em>, casa de Deus, reduzia-se a um
+claustro&mdash;<em>sakhn-el-gama</em>, ou pateo aberto, formando um parallelogrammo
+perfeitamente regular, ladeado de porticos levantados sobre quatrocentas e
+noventa e uma columnas, umas de granito outras de marmore, e para o qual davam
+accesso dezenove portas, destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem,
+irregulares emfim na sua construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em
+arco de volta inteira.</p>
+
+<p>As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram
+cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete
+minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um
+modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.</p>
+
+<p>A fórma e architectura da notabilissima <em>kaaba</em> não desmentiam, com
+effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de altura, com
+paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o Norte uma
+pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo. Este templo
+apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia guardado
+pelo muslim, ou de reunião&mdash;<em>iom el guma'a</em>, e tambem<a class="pn"
+name="pg_176">{176}</a> quando se celebrava o anniversario natalicio do
+propheta. Ao scheick dos anciãos, ou <em>xaibins</em>, pertencia abrir a porta.
+Para isto subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em
+que terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina,
+chamada <em>Albarcá</em>, especie de véo de purpura, que se extendia sobre a
+porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de prata.</p>
+
+<p>O povo, ao invadir a <em>kaaba</em>, rompia, de braços abertos e mãos
+erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua
+misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»</p>
+
+<p>O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
+pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
+pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por
+ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro
+bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O
+exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta, chamado
+<em>Kesoua</em>, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os
+primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda
+por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o
+véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta,
+nas quaes<a class="pn" name="pg_177">{177}</a> se liam inscripções
+piedosas e textos do Corão.</p>
+
+<p>Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
+dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas
+dos anjos, que voavam em torno da <em>kaaba</em>, e que levarão um dia o
+sagrado véo deante do throno de Allah.</p>
+
+<p>A <em>pedra-negra</em> era o unico ponto da <em>kaaba</em>, permanentemente
+offerecido á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para
+nórdéste, achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
+chapas de prata.</p>
+
+<p>Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de
+Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus
+arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada
+junto de Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho <em>páe dos
+crentes</em> estava construindo a <em>kaaba</em>. A Pero da Covilhan, porém,
+pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma substancia amarellada;
+ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um vermelho carregado, que
+podia passar por negro.</p>
+
+<p>Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento,
+em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de
+mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens
+maculados<a class="pn" name="pg_178">{178}</a> de iniquidades de toda a
+especie a tinham assim metamorphoseado.</p>
+
+<p>No páteo da mesquita, e pérto da <em>kaaba</em>, elevava-se outra
+construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que
+o santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e
+afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a
+tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço
+de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A
+sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos
+os lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a
+fonte, d'onde se tirava a agua santa para a purificação.</p>
+
+<p>Junto da <em>pedra-negra</em> começavam e terminavam os giros, durante os
+quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a pedra,
+se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois no caso
+contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios. Seguia-se
+beijar o nobre <em>Alcamamo</em> ou <em>maquam d'Ibrahim</em>, o qual consistia
+em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e, por ultima
+ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.</p>
+
+<p>Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este
+nome, voltavam-se para a <em>kaaba</em> e recomeçavam as suas orações.
+Desciam<a class="pn" name="pg_179">{179}</a> depois lentamente ao valle
+Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e a de Meroua, para executarem alli
+a marcha, chamada <em>saï</em>, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas
+palavras, voltados para a <em>kaaba</em>: «Ó meu Deus, sê misericordioso;
+perdôa os meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes
+direcções, para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por
+Abraham.</p>
+
+<p>Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa,
+com que terminava a peregrinação.</p>
+
+<p>Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de
+Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações
+quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se <em>Sabah
+Namazy</em>; a segunda, <em>Oilah Namazy</em>, ao meio-dia; a terceira,
+<em>Akindy Namazy</em>, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, <em>Acham
+Namazy</em>, ao sol posto; e a quinta <em>Yatzu Namazy</em>, ao serrar da
+noite.</p>
+
+<p>Precedia sempre as orações uma ablução
+parcial&mdash;<em>woudou'</em>, que consistia em lavar a cara, as
+mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o artelho. Antes de começar a reza,
+o crente extendia no chão o seu tapete quadrado, collocava-se de pé sobre elle,
+voltava-se para a <em>kaaba</em>, estando em Mecca, ou para esta, em outra
+parte, conforme a <em>quebla</em> estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de
+perdão&mdash;<em>istigfar</em>, elevava depois<a class="pn"
+name="pg_180">{180}</a> as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e
+quasi em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
+chamada <em>tekbir</em>. Passava ao <em>fatihah</em>, e pronunciava ao menos
+tres versiculos, ou <em>ayat</em>, d'esta oração, que é a primeira sura do
+Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
+e cravando os olhos no chão. Declamava o <em>tesbihk</em>, inclinando o corpo e
+a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a posição do
+<em>fatihah</em>, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
+prosternação&mdash;<em>soudjoud</em>, durante a qual repetia o <em>tekbir</em> e
+tres vezes o <em>tesbihk</em>, tendo a face voltada para a terra, os dedos das
+mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava
+um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos, e
+repetia o <em>tekbir</em>. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a
+direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a oração,
+estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.</p>
+
+<p>A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um <em>rick'ah</em>.</p>
+
+<p>Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente
+do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate
+contra o espirito das trevas.</p>
+
+<p>No mez de <em>schewal</em>, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro
+dos mezes da peregrinação,<a class="pn" name="pg_181">{181}</a>
+accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as velas da mesquita, bem como os
+candieiros das torres, illuminando-se igualmente o eirado do edificio, na noite
+do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte celebrava-se a oração da
+paschoa, pois que no mez anterior, o <em>ramadhan</em>, era a quaresma, durante
+a qual nenhum musulmano comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr
+do sol até o romper d'alva.</p>
+
+<p>Chegado o primeiro dia do mez de <em>doulkaadah</em>, que era o undecimo,
+tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
+abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao dia
+da subida a Arafat. No setimo dia o <em>iman</em> pronunciava do alto do mimbar
+na mesquita a <em>khotbat-el-hadjï</em>, isto é, uma allocução, em que
+explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
+celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de
+Miná. Este dia chamava-se de reflexão&mdash;<em>Ianm terwia</em>, alludindo á
+incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu
+filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão
+diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração
+matutina, a caravana subia á montanha de Arafat, onde existia uma
+capella&mdash;<em>turben</em>, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel
+fôra ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme<a
+class="pn" name="pg_182">{182}</a> o ritual, os crentes, depois de uma
+oração feita na propria <em>kubba</em>, armada no acampamento, iam esperar o
+pôr do sol, e entretanto o <em>iman</em> erguia os braços ao Céo, para invocar
+a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes
+unisonas; <em>Lebeïk Allahouma Lebeïk!</em> Nós estamos ás tuas ordens, ó Deus!
+</p>
+
+<p>Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a
+<em>Djebel Farkh</em>, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
+catarata de espuma!</p>
+
+<p>No segundo dia punha-se em marcha, atravessava
+<em>Elmeschar-el-haram</em>&mdash;o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em
+confusão enorme, o apertado valle <em>Onadi-monhassar</em>&mdash;o valle maldito, e
+chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas, junto do
+<em>Djamrat-el-Agabé</em>, sete pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em
+signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do arremesso:
+<em>Bismillah!</em>&mdash;Em nome de Deus!</p>
+
+<p>Os sete seixinhos, que tomavam o nome de <em>Hassiato-Aljemar</em>, eram
+expressamente apanhados em Monzdelifat.</p>
+
+<p>Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima,
+que trouxesse.</p>
+
+<p>A caravana regressava a Mecca para visitar a <em>kaaba</em>, fazia nova
+romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade <em>santa</em>, antes de
+commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar pela<a class="pn"
+name="pg_183">{183}</a> terceira e ultima vez á <em>kaaba</em>, a fim de
+celebrar os <em>Thonaf-wida</em>&mdash;procissões da despedida; ao pôço de Zemzem
+onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e retirava-se
+finalmente pela porta do adeus&mdash;<em>Bab-el-wida</em>.</p>
+
+<p>Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de
+um <em>uâdi</em>, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde raro
+corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes inundações, indo
+depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.</p>
+
+<p>As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam
+sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por
+singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios
+do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades
+arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa
+regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes
+suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto monotono.</p>
+
+<p>Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques,
+cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana
+Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid.
+</p>
+
+<p>Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio
+muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que<a
+class="pn" name="pg_184">{184}</a> em seus bazares accumulavam-se as
+producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e faziam-se negocios
+importantes.</p>
+
+<p>No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e
+carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que,
+mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
+<em>foluzes</em>, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
+duas alcôfas de differente tamanho, chamadas <em>Magtalá</em>, as compras
+feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.</p>
+
+<p>O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento,
+e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles,
+como pasta, a que chamavam <em>hops</em>.</p>
+
+<p>De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que
+verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.</p>
+
+<p>Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos,
+mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube,
+que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da
+peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas
+mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando
+ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da <em>kaaba</em>, o aroma
+expirado por seus vestidos<a class="pn" name="pg_185">{185}</a>
+predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que muito tempo depois de
+retirarem, permanecia alli o seu vestigio fragrantissimo.</p>
+
+<p>Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A
+muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os
+tingiam, velhas e moças, com o <em>kohl</em>, que do mesmo modo empregavam nas
+pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas ampleavam e
+arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás palpebras, esbatiam
+os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o
+<em>kohl</em> um verdadeiro collyrio, e um remedio soberano contra as
+ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e
+nas mãos com um certo pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha
+despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada,
+servindo-se para isso de uma erva denominada <em>elhene</em>.</p>
+
+<p>As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes
+um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma
+pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.</p>
+
+<p>Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do
+Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande
+similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa&mdash;o que<a
+class="pn" name="pg_186">{186}</a> sómente bastaria, á falta de outras
+provas, para demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.</p>
+
+<p>As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são
+o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu
+gosto.</p>
+
+<p>O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
+abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas,
+compunha-se geralmente de uma larga tunica&mdash;<em>farmla</em>, atada na cintura
+com o <em>samla</em> ou <em>foutah</em>, e um véo&mdash;<em>tarbah</em>, que cobria
+a cabeça e quasi todo o semblante.</p>
+
+<p>Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de
+espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o
+pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as
+quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros
+desempenados, as deusas da Grecia antiga.</p>
+
+<p>Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente
+um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam
+verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que,
+muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair
+artificiosamente o véo, regalando os olhos de quem as via.<a class="pn"
+name="pg_187">{187}</a></p>
+
+<p>Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia
+esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér
+desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.</p>
+
+<p>Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita,
+gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser
+preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual
+ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma
+na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito
+do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.</p>
+
+<p>Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as
+cinzas de Mahomet. Os mercadores&mdash;<em>gellabys</em>, carregaram de provisões os
+seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os seus
+tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o <em>kyrba</em>, ou gancho
+indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por
+impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o caminho, nem
+de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de sobejo e não lhes faltava
+tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas necessidades occorriam as
+esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes viam-se grandes caldeirões
+de cobre, chamados <em>arraçuato</em>, para cozinhar a comida nos aduares, os
+quaes<a class="pn" name="pg_188">{188}</a> eram illuminados por lanternas
+immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite. Em varios
+<em>meharas</em> enfeitados com collares de sêda, e o <em>henné</em> ou
+apparelho coberto com magnificos brocados, sobresaíam os <em>attatouch</em>, ou
+palanquins, para commodamente se recostarem as mulheres opulentas.</p>
+
+<p>O alfange, o punhal&mdash;<em>khamtscher</em>, a faca,&mdash;<em>bitschak</em>, a
+lança, a alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.</p>
+
+<p>A cidade do propheta <em>Medinet-el-Nebi</em>, distava de Mecca onze dias de
+jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
+extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E a toda
+essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas Mecca e Medina,
+davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
+<em>houdoud-el-haram</em>.</p>
+
+<p>Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a
+sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento
+funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa
+mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por
+trezentas lampadas.</p>
+
+<p>O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os
+de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra.
+Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da
+altura<a class="pn" name="pg_189">{189}</a> por uma grade de ferro com
+intervallos estreitissimos.</p>
+
+<p>O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob
+um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de
+prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se
+sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata,
+em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua
+de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras
+preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.</p>
+
+<p>Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual
+paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do
+enviado.</p>
+
+<p>Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas
+tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do
+tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em
+que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo
+propheta, e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu
+filhinho. Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse,
+suspiraria inconsolavel até ao dia de juizo!»</p>
+
+<p>O pulpito era feito de tamargueira.<a class="pn"
+name="pg_190">{190}</a> </p>
+
+<p>Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
+faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
+sudoeste d'ella, no mar Vermelho.</p>
+
+<p>Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do
+propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de
+Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser
+transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria
+alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se
+tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes
+a morrer de sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul
+prolongava-se a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de
+palmeiras juntos de póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar,
+moderavam de longe em longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as
+argilas alternavam com as areias e a greda.</p>
+
+<p>Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando
+em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando
+a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.</p>
+
+<p>Chegou emfim ás portas da Abyssinia.<a class="pn"
+name="pg_191">{191}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001400">XII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001410"><em>NA ABYSSINIA</em></a> </h2>
+
+<p>Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente
+Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que
+Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia,
+para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem
+deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a
+mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam
+seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos
+olhos da Europa a historia da Abyssinia.</p>
+
+<p>Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade
+credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no
+seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o
+islamismo.<a class="pn" name="pg_192">{192}</a></p>
+
+<p>Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?&mdash;Ninguem sabia responder;
+pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez
+por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.</p>
+
+<p>Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado
+entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela
+Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a
+Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou o
+<em>Kolla</em>, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados,
+encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora
+especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media,
+ou o <em>Onaïna Déga</em>, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais
+fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou o <em>Déga</em>,
+cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas
+montanhas.</p>
+
+<p>As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece
+formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero
+d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta
+dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a
+quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade
+impreterivel de as collear e transpôr; por<a class="pn"
+name="pg_193">{193}</a> isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da
+Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão
+invios caminhos, voltassem para traz.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe
+afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o
+Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a
+desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham
+cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das
+chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os
+numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.
+</p>
+
+<p>Então o Tacazé ou <em>Nilo negro</em>, que na bacia hydrographica
+septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem
+banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado
+impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande
+lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou <em>Nilo azul</em>,
+atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e
+tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios
+indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o
+vertice das montanhas.<a class="pn" name="pg_194">{194}</a></p>
+
+<p>Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.</p>
+
+<p>Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos
+purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em
+mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das
+florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das
+aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das
+flores e dos fructos.</p>
+
+<p>Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido,
+aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía,
+determinada pelas grandes differenças de nivel!</p>
+
+<p>A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas
+as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios
+no mesmo solo.</p>
+
+<p>O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar
+insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas
+centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe
+mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das
+nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.</p>
+
+<p>Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa
+as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.<a class="pn"
+name="pg_195">{195}</a></p>
+
+<p>Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma
+extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções
+extraordinarias, bem como o <em>teff</em>, coberto de flôres purpurinas, e cujo
+grão oblongo dá uma farinha saborosa.</p>
+
+<p>O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do
+Sudão, devastam as ceáras, o <em>enséte</em>, que é uma especie de bananeira,
+cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja
+completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.</p>
+
+<p>Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero
+infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a
+vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente
+de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.</p>
+
+<p>O agigantado <em>baobah</em>, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a
+palmeira excelsa, o <em>kuara</em> com as suas bellas flôres coralinas, a
+<em>mimosa</em>, o <em>cusco</em>, o <em>wansey</em>, cujas flôres alvissimas
+abrem todas a um tempo, o <em>daro</em>, que escolhe, para os abrigar com a sua
+sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores
+egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros
+massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais
+singulares e formosos cambiantes.</p>
+
+<p>No mesmo solo humedecido, e alcatifado de<a class="pn"
+name="pg_196">{196}</a> flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos,
+emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas
+pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala,
+subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.</p>
+
+<p>E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu
+retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos
+do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena
+animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus
+movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça
+de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela
+immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho
+das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem
+das aves, mórmente da do <em>sonis-manga</em>, ou <em>cynnirus splendidus</em>,
+conforme a denominação scientifica moderna.</p>
+
+<p>Nas regiões mais aridas, o <em>cactus</em>, a especie de euphorbio,
+denominada <em>kolquall</em>, a palmeira anã, o <em>kautuffa</em> coberto de
+espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são
+testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas,
+corças, e outros antilopes, como o <em>beni-israil</em>, igualmente elegantes,
+que logram escapar, por causa da ligeireza dos<a class="pn"
+name="pg_197">{197}</a> movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis
+inimigos.</p>
+
+<p>Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de
+asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a
+todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.</p>
+
+<p>Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto,
+garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes
+elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte
+bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios,
+em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.</p>
+
+<p>No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos
+se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras
+plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os
+montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o
+<em>Kousso-Brayera anthelmintica</em>, e o <em>Gibarra</em>&mdash;Rhynchopetalum,
+que se elevam descommunalmente.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de
+medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles
+tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da
+caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.<a class="pn"
+name="pg_198">{198}</a></p>
+
+<p>Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel,
+por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem
+a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as
+quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não
+só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as
+tinham dispostas.</p>
+
+<p>Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa
+distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados
+uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com
+symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados
+alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á
+mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e
+outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados,
+tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam
+duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro
+d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes
+colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com
+azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de
+um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande<a class="pn"
+name="pg_199">{199}</a> tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos
+arruamentos milhares de outras, todas brancas.</p>
+
+<p>Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu,
+por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada
+sensação no ajuntamento.</p>
+
+<p>Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que
+vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para
+o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico&mdash;já n'esse tempo a
+lingua da côrte&mdash;que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de
+entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso
+imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado.
+O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á
+presença d'elle Pero da Covilhan.</p>
+
+<p>Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um
+catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas
+barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado
+da sua côrte.</p>
+
+<p>Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao
+chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu
+pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do
+soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe.
+O Préste mandou-o<a class="pn" name="pg_200">{200}</a> levantar, fez-lhe
+algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João
+II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para
+mais tarde conversarem largamente, como desejava.</p>
+
+<p>Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os
+grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das
+cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia
+publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e
+a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.</p>
+
+<p>A côrte compunha-se do <em>Bellátimoche goytá</em>, mordomo-mór; do
+<em>Tecácase Bellátimoche-goytá</em>, pequeno mordomo-mór; dos dois
+<em>Betendet</em>, os validos do imperador; do <em>Titaurári</em>, que fazia o
+officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso
+frequentava diariamente a tenda imperial o <em>Abima</em>, que quer dizer páe,
+e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da
+Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha
+grande auctoridade, o <em>étch'égé</em>, prelado do numeroso clero regular, e
+officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado pelo
+<em>abima</em> Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do
+<em>abima</em>, havia o <em>Labeata</em>, padre de nomeação imperial. Junto do
+soberano funccionavam os <em>Azages</em> e <em>Umbares</em>, dezembargadores
+e<a class="pn" name="pg_201">{201}</a> ouvidores do imperio, sem
+escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na
+presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as
+sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo
+immenso de trapaças.</p>
+
+<p>O livro da lei, <em>Fitha Negoust</em>, compunha-se de textos mal traduzidos
+do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem
+ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na
+presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que
+jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e
+se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua
+alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim
+os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha,
+assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade
+disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com
+os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que
+jurava: amen.</p>
+
+<p>O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o
+juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que
+sobre tudo temia.</p>
+
+<p>As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias
+festivos e para as<a class="pn" name="pg_202">{202}</a> grandes
+recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco
+em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas
+sentinellas.</p>
+
+<p>Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta,
+na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras
+de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo
+metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia;
+sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar
+unicamente na direcção dos homens que o antecediam.</p>
+
+<p>Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a
+comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido,
+que fazia afastar a gente.</p>
+
+<p>Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de
+maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um
+cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de
+leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita
+pedraria falsa.</p>
+
+<p>O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por
+clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.</p>
+
+<p>O <em>Titaurári</em> escolhia o lugar do arraial, assignalando<a
+class="pn" name="pg_203">{203}</a> com uma lança cravada no terreno o centro
+da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que
+dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da
+qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em
+bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.</p>
+
+<p>Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente
+d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte.
+Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de
+duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil;
+tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma
+povoação em taes condições se tornava mister.</p>
+
+<p>As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.
+</p>
+
+<p>As pessoas pobres dormiam sobre o seu <em>Neté</em>, que era um coiro de
+boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como
+cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente
+uma pelle de carneiro, leão ou tigre.</p>
+
+<p>Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava
+voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver
+commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para
+evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á<a class="pn"
+name="pg_204">{204}</a> sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando
+a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,
+puniam-n'o sem julgamento prévio.</p>
+
+<p>Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as
+quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O
+travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada <em>bercutá</em>, onde
+não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não
+amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.</p>
+
+<p>Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais
+sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e
+não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás <em>ápas</em>, espécie de pão
+de varias farinhas, em que entravam a do <em>teraux</em> e a do
+<em>cousio</em>, e que tambem lhes servia de alimento.</p>
+
+<p>Sobre as <em>ápas</em> collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo
+estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de
+barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadas
+<em>escambiás</em>.</p>
+
+<p>Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,
+embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam <em>berindó</em> a este amargo
+manjar, um dos mais delicados da sua mesa.</p>
+
+<p>Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o
+hydromel; que<a class="pn" name="pg_205">{205}</a> constava de cinco ou
+seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia
+ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado
+<em>sardó</em>, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do
+mel.</p>
+
+<p>Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das
+mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com
+barro e selladas, e denominavam-se <em>gombos</em>. Os portadores d'ellas iam
+escoltados por muitos homens d'armas.</p>
+
+<p>Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que
+se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam
+da canna para alimento.</p>
+
+<p>Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do
+territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo
+escassa a producção de hortaliças.</p>
+
+<p>Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a
+quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos
+bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As
+perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das
+nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como
+gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas,
+differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.<a class="pn"
+name="pg_206">{206}</a></p>
+
+<p>Appareciam tambem coelhos e lebres.</p>
+
+<p>Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade,
+nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e
+unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos
+gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias
+lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.</p>
+
+<p>Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio.
+Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome de
+<em>gueddam</em> e seus governadores o de <em>alikas</em>.</p>
+
+<p>A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de
+algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes
+formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de
+telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra
+ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão
+unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de
+varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de
+pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe
+muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito
+delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel
+dos senhores.<a class="pn" name="pg_207">{207}</a></p>
+
+<p>Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os
+orientaes lhes chamam <em>hobesch</em>. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de
+rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente
+guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos
+aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias
+sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, do
+<em>foulah</em> ou <em>peulh</em>&mdash;raça vermelha, do arabe e do africano puro.
+N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos
+secundarios mais proximos, <em>bedjas</em>, <em>somali</em>, <em>galla</em> e o
+syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se
+o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça.
+</p>
+
+<p>Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e
+curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não
+occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e
+n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo,
+de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de
+egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de
+leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal
+cobria estas até ao joelho.</p>
+
+<p>Em geral a plebe não usava calçado, e o seu<a class="pn"
+name="pg_208">{208}</a> vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma
+capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.</p>
+
+<p>Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao
+artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e
+d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os
+calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos
+baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um
+collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem,
+tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia,
+consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles
+tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo,
+ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da
+terra ou de bofetá.</p>
+
+<p>Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto
+andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros,
+<em>ainda não estava na graça do Senhor</em>; mas logo que fallasse com o
+Préste, e saisse da sua tenda vestido, <em>já estava na graça do Senhor</em>.
+</p>
+
+<p>Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
+caprichosos. As mulheres<a class="pn" name="pg_209">{209}</a>
+encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam
+solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.</p>
+
+<p>O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois
+zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo,
+com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas
+<em>bolotás</em>; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças
+curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos
+estreitos, como se foram dardos.</p>
+
+<p>Os mais nobres cingiam espada&mdash;de que raras vezes se serviam&mdash;com
+empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns
+traziam tambem adaga.</p>
+
+<p>Os cavalleiros com sáia de malha&mdash;que poucos eram&mdash;não se curavam de
+rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.</p>
+
+<p>Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro
+choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.</p>
+
+<p>Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e
+bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham
+ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos
+estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.</p>
+
+<p>Além da gente de armas, era muita mais a que<a class="pn"
+name="pg_210">{210}</a> seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias
+inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as <em>ápas</em> e o
+hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros,
+não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações
+passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente
+selvagem.</p>
+
+<p>Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras
+effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados <em>amalé</em>,
+cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.</p>
+
+<p>Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e
+estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e
+aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras
+com a corrente das aguas.</p>
+
+<p>A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia,
+explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a
+natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos
+importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.</p>
+
+<p>A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em
+Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.<a
+class="pn" name="pg_211">{211}</a></p>
+
+<p>Junto de um immenso <em>daro</em> elevava-se o templo christão, que era de
+formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas
+abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
+denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.</p>
+
+<p>Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam
+hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces
+esculturas, que revelavam um cinzel grego.</p>
+
+<p>N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a
+christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os
+primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a
+prophecia de David.</p>
+
+<p>Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da
+sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de
+judaismo, com traços de budhismo.</p>
+
+<p>Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas
+egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.</p>
+
+<p>Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia
+com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e
+sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas
+portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se<a class="pn"
+name="pg_212">{212}</a> facilmente, que não deixaram discipulos os artistas,
+que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo
+attribuidas aos egypcios todas essas obras.</p>
+
+<p>Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro
+sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço
+comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos
+o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava
+á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe
+ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo
+sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em
+gheez, que era a lingua lithurgica.</p>
+
+<p>O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
+admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso.
+Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou
+insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle
+usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se
+affirmava.</p>
+
+<p>Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos
+tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.</p>
+
+<p>O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o
+contrahia com o tacito<a class="pn" name="pg_213">{213}</a> ou expresso
+consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso
+fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes
+asqueroso, das causas de divorcio.</p>
+
+<p>As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam
+indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a
+hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas,
+deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois,
+pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as
+vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola
+furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem
+cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o
+clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.</p>
+
+<p>Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a
+cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar,
+quando iam já distantes.</p>
+
+<p>A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser
+muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano
+não podia considerar-se completamente absoluto.</p>
+
+<p>E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:<a class="pn"
+name="pg_214">{214}</a> arcyprestes&mdash;<em>komosats</em>;
+conegos&mdash;<em>debterats</em>; curas&mdash;<em>kasis</em>;
+vigarios&mdash;<em>nefk-kasis</em>; diaconos&mdash;<em>diakons</em>; e
+sub-diaconos&mdash;<em>nefk-diakons</em>.</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel
+moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se
+dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com
+repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a
+resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o
+mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa.
+E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia,
+prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e
+florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio
+immenso emfim.</p>
+
+<p>A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o
+soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e
+distrahi-lo do proposito de voltar á patria.</p>
+
+<p>Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente
+ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha
+de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da
+sua casa.</p>
+
+<p>Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se<a class="pn"
+name="pg_215">{215}</a> perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os
+ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres
+insensiveis que o cercavam!...</p>
+
+<p>Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um
+povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade
+tambem distante!...</p>
+
+<p>E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
+rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos
+ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas
+recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os
+segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos
+ardentes de a vêr!...</p>
+
+<p>Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...</p>
+
+<p>A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a
+miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de
+estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.</p>
+
+<p>Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez,
+a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem
+perspectiva.</p>
+
+<p>Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o
+alfabeto ethiopico do das<a class="pn" name="pg_216">{216}</a>
+inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo
+numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia
+estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da
+direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das
+semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.</p>
+
+<p>O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o
+amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado
+do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão
+aparentado com o egypcio antigo.</p>
+
+<p>Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios
+dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso
+alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe
+reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua
+modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz,
+conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que
+nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir o <em>novo senhor</em>.
+O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles
+povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto
+de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho
+ou filha,<a class="pn" name="pg_217">{217}</a> que nos deixeis em penhor,
+mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha;
+não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque
+tendes em nós um amigo.»</p>
+
+<p>Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu
+profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
+«Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença
+pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»
+</p>
+
+<p>Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse
+passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou
+de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar
+os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se
+encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem
+por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes
+entregou.</p>
+
+<p>Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam;
+mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia
+do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente
+sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.</p>
+
+<p>Helena considerava-se a mais ditosa filha da<a class="pn"
+name="pg_218">{218}</a> Ethiopia. Sentada ao lado de Pero da Covilhan sobre
+uma alcatifa preciosissima da Persia, disse-lhe, tomando-o pela cintura, e
+fitando-o enlevada: «Ha muito, que suspirava por ser vossa!... Como sou
+feliz!... Agora para sempre ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os
+corações no amor de Christo!... A toutinegra não quer mais ao seu ninho, do que
+eu já quero á nossa casa!... Os teus braços, amor meu, são como os ramos do
+<em>daro</em>, que dão doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do céo, em que
+vou viver!... Tu és o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o buscava!...
+Amo-te muito!... muito!...»</p>
+
+<p>Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face duas
+lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...</p>
+
+<p>Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...</p>
+
+<p>&mdash;E porque chorava?!...</p>
+
+<p>Pobre coração humano!...<a class="pn" name="pg_219">{219}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001500">XIII</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001510"><em>REMATE</em></a> </h2>
+
+<p>O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan não repugnava a D. Leonor
+de Lencastre, a qual tinha até o presentimento, de que não viria a realizar-se.
+Além d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de timbrar em progredir
+no estudo das sciencias, que cursaria na Universidade, e, comquanto a
+vehemencia do seu desejo de saber não apagasse a chamma do amor, que lhe
+incendiava o coração, amortece-la-ia ao menos. Depois a ausencia com arrefecer,
+e o tempo com gastar, eram no conceito da rainha remedios capazes, de debellar
+a enfermidade d'esse amor.</p>
+
+<p>Talvez fosse uma illusão similhante pensamento, porque o maior incentivo do
+amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta não tardaria a
+engrinardar-lhe o nome. Assim o<a class="pn" name="pg_220">{220}</a>
+esperava Maria Thereza, e tinha para isso fundamento.</p>
+
+<p>D. Leonor, porém, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperança tambem
+de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas devoções, apenas
+ella completasse os seus estudos. E, como a formosa rainha era dotada de um
+espirito não só eminentemente religioso e caritativo, mas ao mesmo tempo
+illustradissimo e pratico, imaginem-se os primores de educação, dada por essa
+Senhora a Maria Thereza, que logo nos mais tenros annos revelou a sua
+intelligencia peregrina e uma docilidade encantadora!</p>
+
+<p>Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
+qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a fazia já
+sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes ácerca do seu vasto
+plano de beneficencia e fundação de casas religiosas, o qual havia traçado com
+o fim de collaborar, no desenvolvimento da prosperidade nacional, e na
+exaltação da fé catholica.</p>
+
+<p>No meio das variadas e constantes distracções da côrte, a excelsa rainha não
+olvidava, um só instante, o desempenho da missão civilisadora, que a si propria
+impozéra. E, conhecendo as aptidões de Maria Thereza, teve sempre em vista
+eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os recursos intellectuaes,
+para associa-la na execução das obras meritorias, que projectava.<a
+class="pn" name="pg_221">{221}</a></p>
+
+<p>Havia já fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto d'elle
+uma povoação, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua memoria da
+sua origem; mas não só mandou provêr aquelle estabelecimento do necessario para
+a sua sustentação, como obteve do páe de Lucrecia Borgia, o papa Alexandre VI,
+indulgencia plenaria para os enfermos, que lá fallecessem, muito embóra não
+houvessem contemplado o hospital em seus testamentos.</p>
+
+<p>Não faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos que
+fossem procurar allivio ás enfermarias da caridosa fundadora.</p>
+
+<p>Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para Lisboa,
+antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,<a name="tex2html9"
+href="#foot659"><sup>[9]</sup></a> a qual occupava as casas, de que lhe havia
+feito doação o infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thomé,
+contra o muro velho da cidade.</p>
+
+<p>O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
+conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabeça, que ninguem suppunha
+fosse de mulher, o desembaraço de suas maneiras, e a gentileza do seu pórte,
+era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas Geraes. As raparigas do
+sitio sabiam já a hora, a que <em>elle</em> passava para as aulas, ou saía a
+passeio, por isso esperavam-n'o á janella, e, ao vê-lo, iam-se-lhe os<a
+class="pn" name="pg_222">{222}</a> olhos no galante <em>moço</em>. Maria
+Thereza ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual começava
+a despertar ciumes na visinhança; mas o tio, que nunca deixava de acompanhar a
+sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez sorria-se
+maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.</p>
+
+<p>Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam a
+Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no saber, e até
+na graça da palestra.</p>
+
+<p>Nas conclusões, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
+acto para licenciado, causou assombro aos mestres.</p>
+
+<p>Aproveitou tanto emfim, que saíu doutissima em theologia e direito canonico.
+</p>
+
+<p>Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo docente
+foi logo convida-la, para reger a cadeira,<a name="tex2html10"
+href="#foot663"><sup>[10]</sup></a> que ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o
+convite, respondeu: «Sem approvação de sua alteza a rainha, minha senhora, não
+pósso acceitar encargo algum, nem este que tão honroso é, e tenho a certeza de
+que a não alcançarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
+se façam».</p>
+
+<p>Os lentes não insistiram em presença de tão cathegorica resposta, e Maria
+Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com que,<a
+class="pn" name="pg_223">{223}</a> durante quatro annos lectivos, cursou as
+aulas da Universidade, saíu de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou
+ás Alcaçovas, onde residia então sua real ama.</p>
+
+<p>D. João II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe enviára da
+Abyssinia por creados seus;<a name="tex2html11"
+href="#foot665"><sup>[11]</sup></a> como, porém, estivesse em preparativos de
+passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus padecimentos nas caldas
+de Monchique, ficaram para depois da sua saída, as novas, que D. Leonor queria
+dar a Maria Thereza.</p>
+
+<p>Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando á rainha
+o escrinio, onde guardava aquellas cartas.</p>
+
+<p>Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua doença,
+que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se cada vez peor,
+desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo tempo tenção de
+communicar a este, que em testamento o declarava por só e legitimo herdeiro do
+throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo seu, D. Jorge de
+Alencastro&mdash;que era o filho D. João II e de D. Anna de Mendoça.</p>
+
+<p>Estava a rainha com o duque seu irmão em Alcacer do Sal, por se haver
+assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
+Santarem. D. Leonor iria embarcada até Setubal,<a class="pn"
+name="pg_224">{224}</a> d'aqui atravessaria por terra para Alcochete, e
+seguiria logo pelo Tejo acima até á velha e pittoresca rainha do Riba-Tejo.
+Este itinerario, differente do que para si traçára o monarcha, pareceu o mais
+commodo, por estar D. Leonor ainda convalescente da grave doença, que a pozéra
+ás portas da morte.</p>
+
+<p>Na tarde, porém, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou D.
+João II, ou <em>morreu o homem</em>, como sentenciosamente disse Isabel, a
+Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto á rainha, como ao duque, nova
+certa do fallecimento.</p>
+
+<p>Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, então na bella edade de
+vinte e seis annos. Pela préssa, com que tratou de se casar, pendemos a crêr,
+que foi essa a sua primeira idéa, ao ver-se senhor da corôa. Tal era a paixão,
+que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado principe D. Affonso&mdash;quem
+sabe se nas festas de Evora!...</p>
+
+<p>No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e satisfez
+uma obrigação, que tinha herdado, enviando á India a frota, que D. João II
+havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu cartas para alguns
+principes do Oriente, incluindo o Préste João, conforme as informações e
+documentos, que deixára e houvera d'aquellas partes o Principe Perfeito.</p>
+
+<p>Não foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem duvida
+os de maior transcendencia,<a class="pn" name="pg_225">{225}</a> que seu
+irmão praticou no começo do seu reinado.</p>
+
+<p>Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
+importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega d'esta ao
+novo monarcha, rogou-lhe, que não só mandasse saber do nosso explorador, mas
+apromptasse, conforme as indicações do mesmo, uma embaixada, que o acreditasse
+junto do Préste, confirmando as cartas, que lhe levou, e com instancia
+solicitasse a resposta.</p>
+
+<p>Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e não admira, porque nem tempo, nem
+gente lhe sobrava, para lá mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal sem novas
+nem mandados do Préste. E, como a empresa da India tinha por fim primario
+apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso predominio nos mares
+levantinos, facil seria estabelecer relações com o abexim, e até este as
+buscaria.</p>
+
+<p>A rainha D. Leonor não se descuidava, porém, de lembrar a D. Manoel a
+conveniencia de entabolar negociações com o Préste; e Pero da Covilhan, porque
+já soavam em todo o Oriente as façanhas dos portuguezes, não perdia o ensejo,
+agora tão opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio uma grande idéa de
+Portugal, de incita-lo a responder á nota do rei, que o tinha enviado junto
+d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma solemne embaixada.<a class="pn"
+name="pg_226">{226}</a></p>
+
+<p>Afinal Duarte Galvão, que mui singular prudencia, sagacidade e experiencia
+de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre VI, do imperador
+Maximiliano e do rei da França, saíu de Lisboa na mesma qualidade para a
+Ethiopia em abril de 1515; mas não satisfez o mandamento, por haver fallecido
+na ilha do Camarão a 9 de julho de 1517.</p>
+
+<p>Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis mezes,
+e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.</p>
+
+<p>Á morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creança, que tinham
+baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag Segued, e
+por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso, durante a sua
+menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.</p>
+
+<p>As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaçado não só pelos
+islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevára sobre as ruinas do
+imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os turcos, que sustentados
+por suas idéas de fatalismo, invadiram avidos tudo, desde as cumiadas do
+Caucaso até ás fronteiras da Nubia. Á sua frente o feroz Selim I, tornou-se
+senhor do Egypto, juntando-o ao imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo
+o Mar Vermelho. Djiddah, Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente
+guarnições de janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas
+n'esses<a class="pn" name="pg_227">{227}</a> paizes. A mosqueteria e
+artilheria espalharam ao longe o terror por seus effeitos rapidos.</p>
+
+<p>Foi então, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de tão terrivel
+vizinhança, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu povo, a protecção
+de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto exaltava, e de cujas
+victorias alcançadas em toda a India, nas pelejas contra os mahometanos, já se
+ouvia o écco na Ethiopia. Mas desconfiada sempre, como todos os da sua raça,
+tratou de procurar pessoa, que podésse certifica-la tanto dos acontecimentos da
+India, como das coisas que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe
+perguntava.</p>
+
+<p>Na côrte do Préste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
+fallar ou entender o portuguez, pareceu á imperatriz Helena mais proprio, do
+que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com effeito, ao nosso reino,
+mas secretamente, o embaixador Matheus com cartas da imperatriz em nome do
+Préste, um pedaço de lenho da Vera Cruz, como signal da fé professada na
+Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha,
+não dever demorar o delegado da imperatriz Helena, e despediu-o com muita
+honra, ordenando a Diogo Lopes de Siqueira nomeado governador da India, que na
+esquadra do seu commando conduzisse Matheus á ilha de Massuah.</p>
+
+<p>A esquadra, composta de dez náus, largou do<a class="pn"
+name="pg_228">{228}</a> porto de Lisboa no dia 27 de março de 1518, e levou
+tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia á Ethiopia com uma embaixada do rei D.
+Manoel para o Préste. Eram treze as pessoas, que constituiam a comitiva do
+embaixador, e n'aquelle numero contava-se o P. Francisco Alvarez, capellão do
+rei.</p>
+
+<p>Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
+Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
+embaixada portugueza.</p>
+
+<p>Logo em um dos primeiros dias de marcha para a côrte do Préste falleceu
+Matheus, no mosteiro da Visão. A embaixada proseguiu, até que chegou ao seu
+destino, depois de longas e arduas jornadas.</p>
+
+<p>Tiveram os portuguezes a satisfação de encontrar Pero da Covilhan, que
+exultou ao ver os seus nacionaes, e não poude conter as lagrimas, ao lembrar-se
+da patria, á qual o não deixavam voltar as obrigações, que tinha tomado.</p>
+
+<p>Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de muito
+lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que tão heroica e honradamente
+sacrificou a vida pelo seu paiz.</p>
+
+<p>Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo de
+Lima, dizia:</p>
+
+<p>«O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu páe não encaminhára, até
+ver coisa, que o mais certificára; o que Deus a mim fez e não a elle, e sabe
+como fica meu coração até ver vossa, resposta, que muito desejo».<a
+class="pn" name="pg_229">{229}</a></p>
+
+<p>Os desejos do Préste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar Massuah
+e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o desbaratariam e
+aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que necessario fôsse emfim,
+lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar Zeila, porque d'este porto iriam
+as mercadorias para Aden, Djiddah e toda a Arabia, até ao Tor e Cairo.</p>
+
+<p>Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...</p>
+
+<p>Chegámos ao fim do primeiro quartel do seculo <small>XVI</small>, sem
+comtudo irmos mais longe, do que deviamos; é-nos, porém, preciso retroceder.
+</p>
+
+<p>Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
+seguinte carta, que mandou lêr a Maria Thereza:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Sabeis naturalmente já o bastante para apreciar a minha situação, e
+comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
+desejava, ou&mdash;porque não direi?&mdash;como nós ambos desejavamos.</p>
+
+<p>Devo crer, que vos não faltarão informações de Sua Alteza a Rainha minha
+Senhora, e que tambem vós as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei meu
+Senhor pedi licença de vos escrever, pela primeira e ultima vez, para de longe
+conversar<a class="pn" name="pg_230">{230}</a> comvosco, condemnado, como
+estou a não mais vos vêr, nem ouvir.</p>
+
+<p>A palavra humana é fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro, ao
+lembrar-me d'essa condemnação eterna! Deus me conceda a resignação precisa, e a
+minha alma se fortaleça com tão duras provações!...</p>
+
+<p>De como desempenhei o real serviço, desde que sahi de Portugal até hoje, tem
+El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me unicamente
+dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperançado sempre, em merecer o
+agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vós.</p>
+
+<p>Em caravanas e recóvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando, estudei
+o commercio e navegação do Oriente, visitando para esse fim os principaes
+portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia vir de Portugal á
+India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do grão Cairo para aquella
+cidade, que é a primeira e a mais formosa das terras indianas, traziam os
+mouros fortes armadas de muitas náus com grande trato de grossas mercadorias,
+provenientes de Mecca, fui ver com meus proprios olhos o centro d'este mercado.
+</p>
+
+<p>Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o rabbi
+Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que é o porto de Mecca no mar
+Vermelho.<a class="pn" name="pg_231">{231}</a></p>
+
+<p>Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
+visitar a <em>cidade santa</em>, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
+encorporei-me na sua caravana.</p>
+
+<p>Não vos encareço os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
+senão para vos assegurar, que muito devo á misericordia divina, a qual decerto
+moveram mais as vossas orações do que as minhas.</p>
+
+<p>Com extrema confiança em Deus, e em que vós não cessarieis de velar pelos
+meus passos, ousei ir da-los, onde a christãos é vedado transitar.</p>
+
+<p>Felizmente não adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os seus
+lugares santos...</p>
+
+<p>Ser-vos-ia fastidiosa a relação das ceremonias a que assisti, e em que tive
+de tomar parte&mdash;perdôe-me Deus!&mdash;na terra natal de Mohammed. Sómente vos direi,
+que não póde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira humana!</p>
+
+<p>É realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
+variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam nos
+bazares producções mui valiosas de todos os paizes sujeitos á lei do
+<em>propheta</em>, e fazem-se negocios importantes.</p>
+
+<p>De Mecca passei a Medina, onde está o tumulo do <em>sancarrão</em>.
+Atravessei igualmente uma região immensa, adusta e maninha.</p>
+
+<p>Terminada a peregrinação, retirei para Yambo,<a class="pn"
+name="pg_232">{232}</a> que é no mar Vermelho o porto, que abastece Medina,
+e alli embarquei logo em um zambuco, no qual me dirigi a Tor.</p>
+
+<p>Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha fé. O
+Sinai ficava-me perto. Fui vêr essas solidões da Arabia Petrea, por onde
+vagaram tão longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo até entrarem na
+Chanaan promettida. Subi á montanha sacrosanta, onde Moysés dictou a lei aos
+hebreus. Puz a mão na pedra, da qual o propheta fez brotar um jôrro de agua com
+o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na caverna do monte Horeb, onde o
+propheta Elias se escondeu, para escapar á vingança da rainha Jesabel. Percorri
+emfim toda essa região pedragosa e triste, que cérca o Sinai; esse antigo paiz
+biblico, um dos mais celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de
+Petrea, que fôra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional,
+bem como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os aromas,
+recebendo em troca os productos da Phenicia.</p>
+
+<p>Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui desembarcar
+em Zeila.</p>
+
+<p>Tinha chegado ás portas da Abyssinia.</p>
+
+<p>A residencia do Préste é ordinariamente no reino de Chôa, mui salubre, e
+situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.</p>
+
+<p>Os que vão do Levante demandar a côrte, vêem-se obrigados a trepar uma
+altissima serra,<a class="pn" name="pg_233">{233}</a> como se fôra
+inexpugnavel fortaleza. Por cima d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual
+no espaço de um tiro de bésta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens
+a cavallo, indo emparelhados. É uma lomba cortada a pique de ambos os lados, á
+qual conduzem tão escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
+alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, não indo com o
+prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaços os caminhantes, e perdem-se
+totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis despenhadeiros
+abaixo! Na entrada de taes precipicios estão de uma parte e da outra umas como
+portas, onde pagam direitos ao Préste todos os que por lá passam com tamanho
+risco de suas vidas.</p>
+
+<p>Fui emfim recebido pelo Préste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
+instantemente me despachasse, dando-me a resposta ás cartas d'El-Rei. E sabeis
+vós, qual foi a decisão irrevogavel do Préste?</p>
+
+<p>&mdash;Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar por
+fiador, me mandaria a Portugal!</p>
+
+<p>Impôz-me, como vêdes, o maior dos sacrificios!</p>
+
+<p>A vós, a El-Rei e á nossa querida patria o offereço.</p>
+
+<p>Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarçar-me, e saír d'aqui; mas
+perder-se-ia tudo quanto<a class="pn" name="pg_234">{234}</a> tenho
+feito. Se eu me retirasse, esta gente sempre desconfiada, e em geral de pouca
+verdade, ficaria tendo-me na conta de um embusteiro; no que não perigava a
+minha consciencia, mas o credito e os interesses, de quem me mandou cá. Assim
+tomariam por grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalçar o nome
+de meu Augusto Amo; para convencer o Préste, de quanto lhe será util alliar-se
+com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
+respeite e admire a nação portugueza. E não descançarei, emquanto não resolver
+o Préste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.</p>
+
+<p>De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio a
+natureza tão prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria comsigo
+muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder conquistar e
+conservar, e debilitaria tanto as forças de Portugal, que ficaria este sem as
+necessarias para a sua conservação. Prefere decerto Sua Alteza crear e manter
+as mais pacificas relações de amisade com o Préste.</p>
+
+<p>Muito contribuirá para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
+El-Rei já sabe o caminho, não tardará ella em sulca-lo.</p>
+
+<p>Os abexins são muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de lisonjear-lhes a
+vaidade, para lograr a sua inteira confiança, porque depois será menos difficil
+admittirem o meu conselho. Como prouve a Deus, que eu viesse acabar meus dias
+a<a class="pn" name="pg_235">{235}</a> este exilio, empregal-os-ei todos
+no serviço d'El-Rei, e da patria.</p>
+
+<p>Fui constrangido a constituir familia, e todavia&mdash;crêde-me, Thereza!&mdash;vivo
+em uma solidão immensa!...</p>
+
+<p>Como, porém, quando a alma nos sáe da carne, deverá levar comsigo todas as
+suas affeições, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O céo é o verdadeiro lugar
+do amor, e n'esta esperança immortal repousa docemente o meu coração. E,
+emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas orações e os nossos votos
+juntar-se-hão no caminho do céo...</p>
+
+<p>Estou longe de vós, mas acompanho-vos sempre, e não me vêdes, por não ser
+visivel o pensamento... São terriveis combates os accessos de abatimento, que
+repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta separação nos não custe,
+experimentemos... vós o serdes menos amavel, eu amar-vos menos...</p>
+
+<p>Não nos é dado realizar o impossivel!</p>
+
+<p>O tempo de lagrimas, de solidão, de aborrecimento, que de vós me sepára,
+acabará, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurança eterna!...</p>
+
+<p>Adeus.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como «a candida
+cecem das matutinas<a class="pn" name="pg_236">{236}</a> lagrimas
+rociada»; mas tinha ao pé de si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os
+suspiros, que as entrecortavam.</p>
+
+<p>Conservando a carta apertada n'uma das mãos, voltou-se para a rainha e
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Assim o quiz Deus!... Faça-se a sua vontade!... Que duvidosas são as
+coisas d'esta vida!...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem as ha certas&mdash;interrompeu D. Leonor com muito carinho&mdash;e uma
+d'ellas será a tua resignação, que não pósso pôr em duvida...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha Senhora; nas mãos de Deus me resigno... E, se voss'alteza me
+permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da Covilhan:
+«de outro jámais serei!»</p>
+
+<p>&mdash;Não admiro a tua fidelidade ás promessas, que fazes&mdash;tornou a rainha&mdash;;
+mas ás vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em galanteios!...
+Emfim é necessario, que penses no teu futuro...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperança de tornar a vêr
+Pero da Covilhan; agora, porém, depois da sua carta, ainda que elle voltasse já
+não podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde haver união mais santa&mdash;retorquiu com jubilo a rainha&mdash;; mas
+sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...</p>
+
+<p>&mdash;Se sinto!... Creia voss'alteza, que não é filho de um desespero o meu
+proposito; anima-me,<a class="pn" name="pg_237">{237}</a> pelo contrario,
+a esperança, de que, servindo melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser
+a Pero da Covilhan, orando por elle, e mais facilmente será perdoada a minha
+fraqueza de o não esquecer... A dôr é o mais seguro laço, que prende dois
+corações...</p>
+
+<p>&mdash;Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o teu
+coração de ouro!...</p>
+
+<p>Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos,
+regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça
+da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...</p>
+
+<p>Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
+mesmo affecto finissimo.</p>
+
+<p>Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente
+de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com
+sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e
+logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia
+de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria
+para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos
+esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com
+que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de
+candura.<a class="pn" name="pg_238">{238}</a></p>
+
+<p>Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada
+em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo
+para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se
+deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus
+primeiros ensaios em Portugal.</p>
+
+<p>Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais
+velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou
+edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.</p>
+
+<p>N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as
+asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se
+votou.</p>
+
+<p>Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos
+de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P.
+Francisco Alvarez:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<p style="text-align: right;"><em>Pero da Covilhan</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos
+sacrificios.</p>
+
+<p>Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado
+em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura,
+onde espéro servir melhor a<a class="pn" name="pg_239">{239}</a> Deus, do
+que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o
+Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção
+pura, com que lh'as dirijo.</p>
+
+<p>Elle vos acompanhe sempre!</p>
+
+<p>     Adeus.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Maria Thereza.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas,
+onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa
+do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide,
+na qual se lia unicamente;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">A<small>QUI ESTÁ A RAINHA </small>D. L<small>EONOR.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua
+vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!</p>
+
+<p>As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre
+testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do
+glorificado.</p>
+
+<p>O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que
+tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.</p>
+
+<p>As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se<a class="pn"
+name="pg_240">{240}</a> definitivamente no seculo <small>XVI</small>, e
+conservaram-se até o seculo seguinte.</p>
+
+<p>Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento
+de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do
+mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah,
+abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto.
+D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do
+sultão ottomano.</p>
+
+<p>E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a
+9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de
+Zeila.</p>
+
+<p>D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o
+primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade
+acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o
+sentir.»</p>
+
+<p>Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes
+portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do
+seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.</p>
+
+<p>Aureos tempos!...</p>
+
+<p>Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em
+latim,<a name="tex2html12" href="#foot704"><sup>[12]</sup></a> e sendo por<a
+class="pn" name="pg_241">{241}</a> isso aurora brilhantissima da renascença
+das lettras em Portugal.</p>
+
+<p>Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá
+contemplava o Tejo...</p>
+
+<p>Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com
+ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...</p>
+
+<p>E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar
+sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior
+recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!... <a class="pn"
+name="pg_242">{242}</a><br>
+<a class="pn" name="pg_243">{243}</a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION0001600">NOTAS</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001610">A</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_3" name="nota_A" id="nota_A">P<small>AG. 3.</small></a>&mdash;«...
+<em>de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos</em>». Como
+referimos no Cap. <small>XI</small>, o <em>tarbah</em> das musulmanas
+serve-lhes de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão
+um dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
+costume.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001620">B</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_26" name="nota_B" id="nota_B">P<small>AG.
+26.</small></a>&mdash;«...<em>a ponto de provocar a formação das Hermandades</em>».
+Estas confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por
+essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a segurança
+publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos fóros e liberdade
+dos povos e communidades que as formavam. Eram uma força importantissima, que
+os reis catholicos habilmente aproveitaram depois, fazendo depender do governo
+do Estado a disciplina e constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais
+tropas da <em>Hermandad</em>, aquelles principes lográram ter um corpo
+permanente de exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi
+um ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
+contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia da mais
+incommoda e turbulenta oligarchia.<a class="pn"
+name="pg_244">{244}</a></p>
+
+<p>Muito antes de conflicto do Toro já existia a «<em>santa hermandad</em>», e
+não foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se
+limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como erradamente
+affirma o Sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001630">C</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_33" name="nota_C" id="nota_C">P<small>AG.
+33.</small></a>&mdash;«<em>Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
+historia</em>». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas ácerca
+do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em assumpto de tanta
+monta, como a successão á corôa de Castella por morte de Henrique IV, diz: «o
+fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira e veridica do succedido podia
+offender a pessoas auctorisadas e poderosas».</p>
+
+<p>É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001640">D</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_47" name="nota_D" id="nota_D">P<small>AG. 47.</small></a>&mdash;«...
+<em>o principe D. João casasse com a princesa de Castella, D. Joanna</em>».
+Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro de Toro, e tão
+affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II, sendo principe, muito
+desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas «condemnou depois o máu
+conselho d'elle, em não haver acceitado os primeiros casamentos d'aquelle
+reino: que era casar el-rei com a Infante D. Isabel, e elle com a princeza D.
+Joanna». Zurita, Anales de Aragon, tom. <small>IV</small>, liv.
+<small>XIX</small>, cap. <small>XVIII</small>.</p>
+
+<p>Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis D.
+Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de Clemencin,
+Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. <small>VII</small>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001650">E</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_69" name="nota_E" id="nota_E">P<small>AG. 69.</small></a>&mdash;«...
+<em>a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de um castelhano</em>».
+O sr. Oliveira Martins em <em>O Principe Perfeito</em> mostra, não dar crédito
+ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito, recobrado o estandarte
+real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o tomou. Ignorava de certo, que
+existe<a class="pn" name="pg_245">{245}</a> em Torre d'Eita, povoação
+pouco distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
+o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de
+Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico feito
+de Toro.</p>
+
+<p>É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada visse
+passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o estandarte real
+portuguez a varrer as ruas.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001660">F</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_90" name="nota_F" id="nota_F">P<small>AG.
+90.</small></a>&mdash;«<em>D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande
+predilecção pelos que cultivavam as lettras</em>». O sr. Oliveira Martins
+amesquinha com tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um
+<em>genio incoherente e curto no alcance</em>, concede-lhe a primasia em
+organisar uma bibliotheca no paço, mas... unicamente <em>por seguir a
+móda</em>; e occulta o facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o
+primeiro rei, que tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia
+portugueza.</p>
+
+<p>Singular criterio!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001670">G</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_100" name="nota_G" id="nota_G">P<small>AG.
+100.</small></a>&mdash;«...<em>cortezãos dotados de bôas prendas</em>». Talvez o
+leitor compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
+seculo <small>XV</small>, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de
+Frederico III, imperador da Allemanha.</p>
+
+<p>Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou nos
+ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de insensatos tanto
+nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em geral, incapazes de bons
+costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os olhos negros e furiosos.</p>
+
+<p>Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que
+foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001680">H</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_154" name="nota_H" id="nota_H">P<small>AG.
+154.</small></a>&mdash;«...<em>depois de ter descoberto a costa do Labrador</em>».
+Quem primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
+michaelense, sr. Ernesto do Canto, no <em>Archivo dos Açores</em>,<a
+class="pn" name="pg_246">{246}</a> vol. <small>XII</small>, pag. 529; e
+confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo <em>Quem deu o nome á Terra
+do Labrador</em>.</p>
+
+<p>Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que foi
+extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo indefesso
+investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito Rebello.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0001690">I</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_155" name="nota_I" id="nota_I">P<small>AG.
+155.</small></a>&mdash;«... <em>a quem a patria não fez ainda a devida
+justiça</em>». Em a<em> Noticia Preliminar</em>, que precede o
+<em>Esmeraldo de situ Orbis</em>, publicação dirigida pelo douto academico sr.
+Raphael Basto, para a commemoração do quarto centenario do descobrimento da
+America, mostra o sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e
+do Roteiro de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o
+descobrimento da terra de <em>Vera Cruz</em>. Como temos, ha muito, esta
+opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a cujas
+investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a historia
+portugueza.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00016100">J</a> </h2>
+
+<p><a href="#pg_155" name="nota_J" id="nota_J">P<small>AG.
+155.</small></a>&mdash;«... <em>da geração e linhagem dos Machados</em>». É digno de
+reparo que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha
+materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que seus
+maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente gravadas no seu
+escudo.</p>
+
+<p>A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só pela
+sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são accórdes todos
+os nossos genealogistas.</p>
+
+<p>Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos, os
+Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com os
+Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos, os
+Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de modo que
+se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o sangue das duas
+familias.</p>
+
+<p>A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem estes
+mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos<a class="pn"
+name="pg_247">{247}</a> os parentes d'aquelles procurariam contribuir, para
+perpetuar o nome, que muito os distinguia aos olhos de seus conterraneos. E
+tanto os Barcellos iam n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a
+honrosissima carta, com que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os
+serviços do navegador Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o
+valor particular d'essa mercê.</p>
+
+<p>D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e aquelles
+a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei pesaria a
+circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a uma familia, que
+tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto podia ser informado o
+monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.</p>
+
+<p>De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II, que
+Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D. Affonso,
+primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar direito civil e
+canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor <em>in utroque</em>.
+Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande entendimento, summa
+prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das lettras, e as suas muitas
+virtudes e qualidades o fizeram conciliar os affectos de todos os principes do
+seu tempo.</p>
+
+<p>Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de Bragança
+se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão imparcial e
+recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando regente, o chamou para
+seu lado.</p>
+
+<p>Seu páe, Estevam Annes, <em>o Môço</em>, fôra educado na casa do condestavel
+D. Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em todas
+as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos Atoleiros.</p>
+
+<p>Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro Pinheiro de
+Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o denomina a carta de D.
+Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista Machado, que, renunciando o morgado e
+casa de seus páes, entrou na Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em
+22 de maio de 1617.</p>
+
+<p>O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o
+antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt. D'este
+e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel Borges do Canto,
+era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto Bettencourt do Carvalhal
+Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a uma intelligencia e a uma
+illustração sãs, que se lhe serviram de ornamento proprio, tambem<a
+class="pn" name="pg_248">{248}</a> contribuiram, para honrar mais ainda a
+sua estirpe nobilissima.&mdash;Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de meus
+filhos.</p>
+
+<p>Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte de
+D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza lhe deu,
+não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os enthusiasmos.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot117" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Canc. Gen.</p>
+
+<p><a name="foot128" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Canc. Gen.</p>
+
+<p><a name="foot173" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Hist.</p>
+
+<p><a name="foot187" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Camões.</p>
+
+<p><a name="foot255" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> Ruy de Pina.</p>
+
+<p><a name="foot275" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> Ruy de Pina.</p>
+
+<p><a name="foot375" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Canc. ger.</p>
+
+<p><a name="foot401" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> Misc., Garcia de
+Rezende.</p>
+
+<p><a name="foot659" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot663" href="#tex2html10"><sup>[10]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot665" href="#tex2html11"><sup>[11]</sup></a> Historico.</p>
+
+<p><a name="foot704" href="#tex2html12"><sup>[12]</sup></a> Historico.</p>
+</div>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<h3>Notas de transcrição:</h3>
+
+<p>O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os
+erros apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas
+durante a transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram
+corrigidos nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das
+correcções aplicadas.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Pero da Covilhan, by
+Zeferino Norberto Gonçalves Brandão
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PERO DA COVILHAN ***
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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