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+The Project Gutenberg EBook of Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Guelfos e Gibelinos
+ Tentativa critica sobre a actual polemica litteraria
+
+Author: Eduardo Augusto Vidal
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32870]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ GUELFOS E GIBELINOS
+
+ TENTATIVA CRITICA
+
+ SOBRE A ACTUAL
+
+ POLEMICA LITTERARIA
+
+ POR
+
+ E. A. VIDAL
+
+
+ LISBOA
+ LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA
+ 50--RUA AUGUSTA--52
+
+ 1866
+
+
+
+
+ GUELFOS E GIBELINOS
+
+ TENTATIVA CRITICA
+
+ SOBRE A ACTUAL
+
+ POLEMICA LITTERARIA
+
+ POR
+
+ E. A. VIDAL
+
+
+ LISBOA
+ LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA
+ 50--RUA AUGUSTA--52
+
+ 1866
+
+
+
+ LISBOA--TYP. DE SOUSA NEVES, RUA DO CALDEIRA, 17
+
+
+
+
+I
+
+
+Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos,
+quer dizer, entre _brancos e negros_, entre os homens da claridade e os
+do entenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de
+Alecrim e Mangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as
+excellencias d'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes
+d'est'outra, transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida,
+a que, por desgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os
+insultos que nada vencem.
+
+Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu o
+seguinte:--«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce,
+converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará
+por uma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do
+cormentalismo com os austeros contempladores do infinito.»--A prophecia
+realisou-se finalmente; a liça é já pequena para os contendores que
+descem a ella, e o ruido das armas perturba o somno e a digestão dos
+indifferentes.
+
+Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria contemplar em
+silencio este duello litterario? Diz-me que não a consciencia. Acima
+d'estas aggressões pequenas em que tanto uns como outros procuram
+derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria já feita, eu vejo
+a questão da arte, a questão dos principios, a questão das tendencias;
+questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens de rancor
+que nos obscureçam o espirito.
+
+Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males
+que a escola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha
+terroristas que o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não
+vejo na seita de Coimbra, tal qual se nos apresenta agora, força
+bastante para depravar a arte; mas creio ao mesmo tempo que é dever de
+bom cidadão tomar o passo a qualquer que lhe invade a terra, para que os
+ignorantes não acclamem o intruso, e em vez de lhe invergarem a tunica
+do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpura dos Cesares. O que
+hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhã engrossar e
+converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou sem ella,
+incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e
+florescem sempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa
+congrega-se, apedreja o indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os
+pés do milagreiro. É a historia de todos os tempos e de todos os povos.
+Este cair no abysmo, este fugir da luz para as trevas, este negar a Deus
+para affirmar a Iblis, eis o que eu temo por agora.
+
+
+
+
+II
+
+
+Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra
+existia ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se
+provocavam. Ainda mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção
+pelos rasgos de talento que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura
+pelos seus não poucos dislates. Este livro era a _Visão dos tempos_. A
+tal apparecimento reuniram-se os magnates, perfilaram-se os
+admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram
+assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os
+cirios arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A
+devoção dos fieis crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul
+olympica deixava cair sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da
+sua graça. Desde as camaras douradas até ás mansardas obscuras, desde o
+academico até o noticiarista, desde o rico homem até o pobre-diabo,
+ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava n'outro livro. Lisboa teve
+de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar em hastilhas n'uma
+explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos depois Theophilo
+Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que a escola
+de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito
+entre parenthesis, chamava-se _Tempestades sonoras_. _Tempestatesque
+sonoras._ Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os
+desgraçados trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço,
+e recolheram-se aos limbos da sua insufficiencia microscopica.
+
+De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a
+guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os
+que d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros,
+entretecidos com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam?
+A carta do sr. Castilho escripta a proposito do _Poema da Mocidade_ foi
+a faúla caída sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu
+furiosa; as labaredas do incendio lamberam todos os diademas.
+
+ --«Como farpadas linguas de serpentes»
+
+para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou a lide,
+trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre Tejo
+levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego.
+Hoje estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este
+alvoroto? De um despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto
+o melindre de dois mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas
+frechas contra o poeta dos _Ciumes do Bardo_. Havia desacato em proceder
+de tal modo, havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um
+lavor litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente,
+podiam cair esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta
+juntaram-se, então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e
+respeitado; os arraiaes desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios
+entraram na faina belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e
+fariscado no folhetim e no pamphleto; de uma e de outra banda o insulto
+gratuito e a frioleira chistosa tomaram o posto de honra. Os que
+deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz, em nome dos eternos
+principios de bom senso, quando os horisontes litterarios haviam
+começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o _Io triumphe_ nos
+labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu,
+por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha
+para vir papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento
+litterario.
+
+Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem.
+Podia o sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o
+affigura o auctor das _Odes modernas_, que estas nem por isso subiriam
+nem mais um furo na bitola da boa critica. A questão, por agora, não
+consiste em dissecar as obras do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse
+rigorosa, em as submetter a uma stricta chimica-litteraria, para
+averiguar as dózes de bem e de mal que ellas encerram. A questão
+reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico, grandioso,
+regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores famosos;
+qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o ideal
+na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a
+humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a
+_Sciencia nova_ tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A
+questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no
+verso, devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao
+obscurecimento; que um soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso;
+que as lagrimas de uma creança não valem o phalerno das antisterias; que
+os anjos teem de cercear as azas para se ensambenitarem de philosophos.
+Eis o ponto, eis o campo, eis o assumpto em resumo.
+
+Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração
+humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa
+porta, não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de
+parvoiçadas e de truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para
+testemunho de horror ás boas obras; aquentai-vos em volta d'essa
+fogueira immensa; e quando das maiores glorias do espirito humano só
+restar o fumo e a cinza, levantae um altar a todos esses innovadores do
+subjectivo e da transcendencia, e annunciae a redempção dos povos.
+
+Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte
+nos seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos
+fluctuantes e imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no
+coração a chamma dos nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo
+das aspiraçães remontadas. O poeta é o sublime enviado do futuro, que
+vem preparar a geração de hoje para o amanhan grandioso e prospero. Como
+se hade levantar e moralisar este ignorante enorme que se chama a
+humanidade? o que entende ella das vossas philosophias? de que lhe
+servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor: commovei-a
+até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio.
+
+ «Fais ce que tu voudras, qu'importe!
+ Pourvu que le vrai soit content,
+ Pourvu que l'alouette sorte
+ Parfois de ta strophe en chantant;
+
+ Pourvu qu'en ton poeme tremble
+ L'azur réel des claires eaux,
+ Pourvu que le brin d'herbe y semble
+ Bon au nid des petits oiseaux!»
+
+Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna.
+Não duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do
+vosso gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos
+agita, eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos,
+naturaes, intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos
+vossos cantos se perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que
+principia no fremito da relva e que termina na musica das espheras.
+
+Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos
+desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de
+fogo, é a inspiração ou a _simbolica_? qual é o vosso modelo, Creuzer ou
+o Homem? Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas
+realidades.
+
+Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas
+para depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca,
+nunca. «_L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des
+cruches._»--O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade.
+Eschylo diz estas palavras: «--Desde todo o principio o poeta servio o
+homem. Orpheu ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o
+divino Homero o heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para
+que todo o cidadão procure imitar os grandes homens.»--
+
+Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as
+subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta
+a liberdade.
+
+Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras
+contra a qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores
+cavavam e alqueivavam a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma
+noute perdida em cogitações mysteriosas deixavam cair a fronte calva e
+extenuada sobre os _in-folios_ obscuros; emquanto elles discutiam o
+incomprehensivel, e atacavam de frente o desconhecido, á similhança do
+pagem da ballada que limpava a sombra de um cavallo com a sombra de uma
+escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando rasgar as brumas que
+lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do idyllio e da
+canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a
+inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando
+o fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a
+elevar a Deos entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por
+todos,--fazendo romper o sol da consolação e da esperança do seio do
+vasto mar das lagrimas humanas!
+
+Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca?
+Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha
+o que julga ella de Herder ou de Schelling; responder-vos-ha
+pensativa, e como a Carlola de Werther:--«Klopstock!»--
+
+
+
+
+III
+
+
+Quererei eu dizer com isto que tenho a alta philosophia por inutil?
+Oxalá que o não suspeitem. Creio nos transcendentes como poderia crêr
+nos alchimistas. Estes perseguem o absoluto sobre a terra, procuram a
+pedra philosophal e a panacêa universal, e encontram ao cabo d'esta
+navegação nas sombras, o opio, o mercurio, o zinco e o antimonio. Porque
+não ha de a philosophia, descobrir tambem verdades importantes, quando
+procura hallucinada entrever os grandes segredos do abysmo?
+
+Não; o que eu quero só é que a arte se manifeste, isempta d'estas
+preoccupações terriveis. A poesia é como a mocidade, alegre,
+enthusiastica, expansiva, boa, amando a luz do céo e as flores da terra,
+brincando por entre as ramas floridas, revendo-se nos lagos tranquillos,
+crendo, esperando, pensando no alvorecer que ha de apontar talvez mais
+bello, nos botões das rosas que hão de desabrochar perfumados, e
+balbuciando depois aquellas preces que lhe ensinaram no berço entre
+sorrisos e affagos. A poesia enfatuada e superlativa é a creança
+doutorona, que em vez de folgar discute, que se amezenda entre os
+velhos, que lenta engrossar a voz aflautada, e que, se não usa
+cabelleira é só com medo que o rapazio do bairro se lhe divirta com o
+rabicho. Deixemos lucubrar os philosophos e cantar os poetas; não
+queiramos ensinar os rouxinoes a psalmear o _de profundis_. Os que
+apparecem com a inspiração na fronte, passam, levados pelo sopro divino,
+deixando cair sobre a terra os germens que hão de fructificar mais
+tarde. Que lhes importa a elles toda essa algaravia de vocabulos? o que
+entenderiam d'ella? Oh, que admiraveis prelecções de cosmogonia deve
+fazer o monte Branco? como as estrellas hão de fallar de Kepler e de
+Newton!
+
+E esta pobre da natureza, que ha não sei quantos mil annos se veste
+de primaveras, a julgar que é grande cousa porque amadurece o trigo,
+porque enfolha as oliveiras, porque desdobra os rios, porque inflamma a
+aurora, e porque ensina os passarinhos a chilrear na copa das arvores.
+Tolla, tolla; que sabes tu das monadas? que pensas do atomo? que idéa
+fórmas da synderese? E a transhumanação, e o symbolismo, e a ascese da
+via purgativa, e o palavriado, e Kant, e Fichte, e as ostras de
+Hamburgo? Que tens tu feito com os teus cantos? de que nos servem os
+teus perfumes? Vae longe o tempo em que os Anteos da poesia procuravam
+no teu seio a força e a vida; hoje, a nova escola, a que hade
+terraplenar e amanhar tudo, percorre o espaço, não cingida de festões de
+rosa, mas involta em uma impenetravel neblina.
+
+Sejamos, todavia justos; a escola de Coimbra desce algumas vezes
+insensivelmente da sua peanha transcendental, e põe-se ao livel dos
+assumptos comesinhos. O seu melhor poeta, ou, para nos expressarmos com
+verdade, o seu unico poeta, não deixou de banda a musa que lhe segredava
+estes versos:
+
+ --Se a visses á janella
+ Cuidando em seu bordado!
+ Pudesses, como eu, vêl-a
+ De traz do cortinado!
+ ....................
+ ....................
+ ....................
+ E se á janella, triste,
+ Vem pôr sua gaiola,
+ Se vem deitar alpiste
+ No comedouro á rôla?
+
+ Ai rôla, quem podesse
+ Gozar os teus carinhos;
+ Que a vida me parece
+ Um thalamo de espinhos.»--
+
+Nada mais infantil nem mais gracioso, nada mais simples nem mais bello.
+Sente-se uma pessoa desafogar interiormente quando recita estes versos.
+Uma creança que deita alpiste a uma avesinha querida enche de aroma um
+idyllio; Jupiter franzindo o sobr'olho enche de magestade uma epopêa. Um
+gesto, um sorriso colhido entre os labios, um volver d'olhos triste,
+a vermelhidão do pejo affogueando um semblante, eis a simplicidade e ao
+mesmo tempo a poesia. Dante nunca subio tão alto como quando descreveu
+uma leitura entre dois amantes. Onde foi elle buscar o segredo
+d'aquelles encantos, a singeleza d'aquelles traços, a paixão d'aquellas
+fallas? Ensinou-lhos a philosophia ou o seu coração ardente? vieram-lhe
+das profundezas da sciencia ou de uma recordação de Beatriz?
+
+ --«Noi leggevamo un giorno per diletto
+ Di Lancilloto come amor lo strinse:
+ Soli eravamo e senza alcun sospetto.
+
+Quando chegardes áquelle tercetto assombroso de verdade e de candura, em
+que depois do primeiro beijo elles fecham para sempre o livro,
+
+ --«Quel giorno pui non vi leggemmo avante,»--
+
+abjurae a metaphysica moderna, ou, se o não poderdes fazer, ide então,
+novos OEdipos, decifrar o
+
+ Raphel mai amech isabi alini
+
+que o poeta põe na bocca de Nemrod!
+
+
+
+
+IV
+
+
+Deixemo-nos de distincções futeis, de demarcações impossiveis, de
+banalidades pueris; em litteratura só pode haver uma escola--a da
+verdade. Ninguem inventa, ninguem innova; todos exprimem, todos modelam,
+todos traduzem, todos sublimam na forma. A humanidade é o solo immenso
+sobre que o poeta levanta os seus monumentos. Todos elles são feitos do
+mesmo bronze, todos elles transsudam as mesmas claridades. No frontal
+d'essas moles altissimas o architecto grava o seu nome, imprime o seu
+cunho, chancella a sua obra, e deixa-a ás gerações. O Pantheon é de
+marmore como a cathedral gothica; n'aquelle ha, todavia, a simplicidade
+correcta, n'esta os enredamentos e as laçarias caprichosas. De que
+differente especie são feitos esses portentosos edificios que se
+chamam o _Livro_ de _Job_ e a _Illiada_? Não saem ambos da natureza? não
+respiram o mesmo calor de affectos, não revelam o mesmo alevantamento de
+espirito? Em que se distinguem? o que os estrema? o que os separa?
+Depois da _Illiada_ não surge a _Orestia_? depois de Job não apparece
+Shakespeare? O que divide ainda estes d'aquelles? Helena é porventura
+uma innovação ou Clytemnestra um improviso? Job carpindo-se no muladar é
+acaso uma licção ou Hamlet é apenas um desvario?
+
+A originalidade na arte é a individualidade na forma. A poesia é tudo
+quanto é verdadeiro, simples e harmonioso; o grande problema de hoje é a
+producção do real no ideal, a pintura exacta da humanidade alcançada por
+meio do engrandecimento do homem. Os verdadeiros poetas, os genios, não
+inventam. São immensos, são multiplices, tem o azul do ceo e a escuridão
+da treva, o suspiro e o bramido, a alegria e o desespero, as flores e as
+rochas, a vida e a morte. Por isso V. Hugo os compara ao oceano. Quem
+inventa é Davenant, é Jeronymo Vahia, é Chapelain, é o padre de
+Saint-Louis. Os genios são a verdade radiante; os mediocres são o
+artificio abstruso. A _Magdaleneida_ é mais original que o _Othelo_; a
+heroina do reverendo carmelita excede no descommunal das formas a
+trivial, a ramerraneira, a naturalissima verdade d'aquelle eterno typo
+de Desdemona.
+
+Que significa, pois, o entono com que fallaes no ideal? O que entendeis
+por esta palavra? O lyrismo apaixonado, o arrebatamento epico, a verdade
+esplendida, o incitamento á virtude, o amor da gloria, o anjo saindo do
+homem, o bem santificando o bello? Não! O que hoje se adora, o que hoje
+se divinisa, é esse mesmo idolo eterno do fetichismo litterario--Vichnou
+de innumeras encarnações, que em todos os seculos tem tido o seu cortejo
+de bonzos.
+
+«Ideal, ideal;--ouço eu bradar o coro dos levitas que vão levando em
+peso a arca santa da moderna civilisação--ponham-se de banda esses
+arrulhos de pomba, aquentem-se os fogões d'alem do Rheno com toda essa
+farraparia inutil que principia no _Cantico dos Canticos_ e que vem até
+as _Folhas Cahidas_: sepulte-se no enxurro das frioleiras quanto
+respirar a perfume dos balsedos e a grata fresquidão da relva luzente,
+começae pelo livro de Ruth e acabae no _Pastor fido_. Sêde homens, sêde
+reformadores, a sociedade carece de sangue novo, o espirito lateja nas
+ancias do absoluto. O nosso Deos não é o «pae que está no
+ceo»--_pffu_!... o nosso Deos é o infinito. Svedenborg é o seu propheta.
+Caminhae, progredi, solevantai-vos da terra, saccudi do calcanhar os
+limos mundanos, quebrae o ergastulo, espedaçae o involucro que vos
+estringe,
+
+ --«Atae as mãos ao vosso vão receio.
+
+soltae o rumo, navegadores do abysmo! O amor é uma parvulez ephemera, a
+saudade um fumo que nos enturva, o enthusiasmo uma sobrexcitação de
+nescios. Hegel aperta as nadegas possantes para rir ás gargalhadas dos
+colloquios de Paulo e Virginia.
+
+Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis,
+escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos
+hombros do Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas
+adversarios. Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia
+novo, _les diables s'en vont_, isto é, desapparecem os cantores
+pedestres; a immensidade rebôa ao galopar de ginetes que se approximam.
+Vencemos Alarico! Temperem-se os alaudes, afinem-se os psalterios, e o
+canto dos bardos glorifique as nossas façanhas!»
+
+--«Barbaros, barbaros!»--diz então uma voz que se chama a consciencia!
+
+
+
+
+V
+
+
+Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a
+actual polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem
+aquelle bando, mas simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto
+que se debate, dando de mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o
+papel de propugnador de A. F. de Castilho; tenho para mim que defendel-o
+seria injurial-o, seria duvidar da robustez d'aquello talento. Elle
+bem sabe que ha atheos na arte como os ha na religião;--homens que negam
+a divindade. Que se lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a
+tortura? nunca. O _crê_ ou _morre_ é a razão suprema da tyrannia
+estupida. Quando alguem ousa profanar o altar ante o qual deveria
+curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o pagão, e cathequisal-o em seguida.
+
+Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e
+encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram
+Efialto e Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos
+da terra? Nada é de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A
+serenidade magestosa é o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a
+longanimidade do sr. Castilho; mais lhe applaudiria ainda o silencio
+completo. Ninguem o maculou, ninguem o ferio; passe a mão pelo rosto e
+verá que o sente incolume. As ballas rojaram-lhe pelos pés, frias e
+inoffensivas. O arcabuz que as despedira não tinha alcance para tão
+alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos? Estamos,
+principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia anda
+a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de
+um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos
+para o oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A
+escola de Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo _escola_),
+parece estar convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios
+devem fazer-se ouvir, como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros.
+Eu creio o inverso; o que ahi fica dito é, portanto, a minha carta de
+crença litteraria. Lamento as intelligencias que se trasmontam como as
+ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse pastor nas lettras
+tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto? como
+adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por
+desgraça tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo
+convencimento. Antes d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as
+luctas. Quando as armas da razão se quebrarem nas mãos dos combatentes,
+ficar-lhes-ha nos labios o praguejar insultuoso. Não queiramos para nós
+este recurso.
+
+Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada da
+philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota em demanda de
+novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o, não
+sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores
+sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então
+a contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena
+guinda, navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse
+pavilhão que tem por mote = _dignidade_ e _independencia_ = que os
+sinaleiros do infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles
+que se lhes quer beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes
+prégou a servidão como evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias
+tragam ao pescoço um trambolho, como os cães por tempo de vindima?
+Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que se affirma, o que se protesta
+é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que vieram até nós fazendo
+escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes caminhos para o
+futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que jurar a cada
+momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve ensinar a
+derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto uma
+chimera de treslidos, um ideal avariado.
+
+O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto
+sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem,
+lavar o que é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido,
+allumiar o que é sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos
+cogumelos do atheismo risivel a planta nascente que se apruma para o
+céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem attenta contra a vossa dignidade
+de homens de lettras. Pensaes edificar para os seculos e trabalhaes para
+o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as trevas. A vossa obra
+é como o abysmo de Milton,
+
+ --«_A dungeon horrible on all sides round,_
+ _--yet from those flames_
+ _No light, buth ralher darkness visible._»--
+
+D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a
+implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as
+censuras bem cabidas. Despresar aquellas é dever, aceitar estas
+prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos
+nossos escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida
+n'esta pugna, diz bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola
+como isso. A faisca póde tornar-se incendio, como a raiz póde
+converter-se em floresta. Defendem-se as immunidades da arte como se
+defendem as da patria; os sacerdotes do bello vigiam pelo seu culto.
+
+Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a
+publico, não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como
+simples leigo, que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do
+rito, tem, pelo menos, fé viva na religião dos seus maiores.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+CATALOGO CHRONOLOGICO
+
+DOS OPUSCULOS PUBLICADOS ATÉ HOJE
+
+SOBRE A ACTUAL
+
+QUESTÃO LITTERARIA
+
+1--*A. F. de Castilho*--Carta ao editor A. M. Pereira sobre o _Poema da
+Mocidade_, impressa no fim do poema (Esta memoravel carta de critica
+litteraria é que suscitou a famosa questão que se está debatendo) 1 vol.
+brox. 600
+
+2--*Anthero do Quental*--Bom senso e bom gosto, carta ao exmo. sr. A.
+F. de Castilho, 3.ª edição, br. 100
+
+3--*M. Pinheiro Chagas*--Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da
+carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho br. 100
+
+4--*Manuel Roussado*--Bom senso e bom gosto, resposta á carta que o sr.
+Anthero do Quental dirigiu ao exmo. sr. A. F. de Castilho, br. 100
+
+5--*Elmano da Cunha*--Carta em resposta a outra bom senso e bom gosto
+dirigida por Anthero do Quental ao exmo. sr. A. F. de Castilho o
+incomparavel traductor dos Fastos de Ovidio, obra em que se faz o
+confronto de Romulo e Jesus-Christo, offerecida ao incomparavel duque de
+Saldanha, br. 100
+
+6--*Julio de Castilho*--O sr. Antonio Feliciano de Castilho e o sr.
+Anthero do Quental, 2.ª edição, br. 160
+
+7--*Theophilo Braga*--As theocracias litterarias, br. 100
+
+8--*Anthero do Quental*--A dignidade das lettras e as litteraturas
+officiaes, br. 160
+
+9--*Rui de Porto Carrero*--Lisboa, Coimbra e Porto e a questão
+litteraria.--A carta do sr. Anthero do Quental ante os srs. Pinheiro
+Chagas, M. Roussado e Julio de Castilho, 2.ª edição, br. 160
+
+10--*A. Ferreira de Freitas*--Os litteratos em Lisboa--poemeto
+illustrado por Jeronymo da Silva Motta, bacharel nas faculdades de
+theologia e direito, br. 240
+
+11--*Amaro Mendes Gaveta*--O mau senso e o mau gosto--Carta mui
+respeitosa ao exmo. sr. A. F. de Castilho em que se falla de todos e de
+muitas pessoas mais, com uma conversação preambular por Gaveta Mendes
+Amaro, br. 100
+
+12--*S. de A.*--Bom senso e bom gosto--Carta de boas festas a Manuel
+Roussado, br. 100
+
+13--*J. D. Ramalho Ortigão*--Litteratura de hoje, br. 100
+
+14--*Camillo Castello Branco*--Vaidades irritadas e irritantes--opusculo
+ácerca de uns que se dizem offendidos em sua liberdade de consciencia
+litteraria, br. 200
+
+15--*Augusto Malheiro Dias*--Castilho e Quental--reflexões sobre a
+actual questão litteraria, br. 100
+
+16--*Urbano Loureiro*--Questão de palheiro; Coimbrões e lisboetas, br. 100
+
+17--*Ermita do Chiado*--Garrett, Castilho, Herculano e a escola coimbrã,
+ou dissertação ácerca da genealogia da moderna escola, contendo um
+esboço rapido e pittoresco da litteratura contemporanea, br. 100
+
+18--*C. F.*--A litteratura ramalhuda a proposito dos srs. Castilho e
+Ramalho Ortigao, br. 100
+
+19--*A. F. de Castilho e J. A. de Freitas e Oliveira*--A questão
+litteraria--a proposito do jazigo de José Estevão, br. 60
+
+20--*José Francisco*--Os coimbrões; questão em que tambem entra pelos
+cem réis, José Francisco, caiador da rainha do Congo; com uma
+dedicatoria por Diogo Bernardes, br. 100
+
+21--*José Feliciano de Castilho*--A escola coimbrã.--Cartas ao redactor
+do Correio Mercantil, do Rio de Janeiro (este folheto contem as tres
+primeiras cartas; as seguintes formarão outro folheto que já está no
+prelo), br. 100
+
+22--*Eduardo A. Vidal*--Guelfos e gibelinos. Tentativa critica sobre a
+actual polemica litteraria, br. 100
+
+23--*P. W. de Brito Aranha*--Bom senso e bom gosto. Humilde parecer com
+uma carta do exmo. sr. A. F. de Castilho, br. 100
+
+24--*Eduardo Salgado*--Litteratura de ámanhã, duas palavras ao sr.
+Anthero do Quental, br. 100
+
+25--*Carlos Borges*--Penna e espada, duas palavras ácerca da
+_Litteratura de hoje_, de Ramalho Ortigão br. 100
+
+26--*Anonymo*--Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão, br. 100
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS ***
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
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+ Chief Executive and Director
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
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+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+works.
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+ <title>Guelfos e Gibelinos, por E. A. Vidal</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Guelfos e Gibelinos
+ Tentativa critica sobre a actual polemica litteraria
+
+Author: Eduardo Augusto Vidal
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32870]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+<p>&nbsp;</p>
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+<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 2em;">GUELFOS E GIBELINOS</p>
+
+<hr>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">TENTATIVA CRITICA</p>
+
+<p>SOBRE A ACTUAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">POLEMICA LITTERARIA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">E. A. VIDAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><b>LISBOA</b><br>
+
+LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+
+<small>50&mdash;RUA AUGUSTA&mdash;52</small></p>
+
+<p><b>1866</b></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="font-size: 2em;">GUELFOS E GIBELINOS</p>
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+
+<p style="font-size: 1.4em;">TENTATIVA CRITICA</p>
+
+<p>SOBRE A ACTUAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">POLEMICA LITTERARIA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">E. A. VIDAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><b>LISBOA</b><br>
+
+LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA<br>
+
+<small>50&mdash;RUA AUGUSTA&mdash;52</small></p>
+
+<p><b>1866</b></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 90%">
+<p style="text-align:center;"><small>LISBOA&mdash;TYP.
+DE SOUSA NEVES, RUA DO CALDEIRA, 17</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>I</h1>
+
+<p>Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos, quer
+dizer, entre <i>brancos e negros</i>, entre os homens da claridade e os do
+entenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de Alecrim e
+Mangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as excellencias
+d'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes d'est'outra,
+transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida, a que, por
+desgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os insultos que nada
+vencem.</p>
+
+<p>Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu o
+seguinte:&mdash;«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce,
+converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará por
+uma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do cormentalismo
+com os austeros contempladores do infinito.»&mdash;A prophecia realisou-se
+finalmente; a liça é já pequena para os contendores que descem a ella, e o
+ruido das armas perturba o somno e a digestão dos indifferentes.</p>
+
+<p>Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria<span
+class="pn">{4}</span> contemplar em silencio este duello litterario? Diz-me que
+não a consciencia. Acima d'estas aggressões pequenas em que tanto uns como
+outros procuram derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria já
+feita, eu vejo a questão da arte, a questão dos principios, a questão das
+tendencias; questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens de
+rancor que nos obscureçam o espirito.</p>
+
+<p>Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males que a
+escola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha terroristas
+que o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não vejo na seita de
+Coimbra, tal qual se nos apresenta agora, força bastante para depravar a arte;
+mas creio ao mesmo tempo que é dever de bom cidadão tomar o passo a qualquer
+que lhe invade a terra, para que os ignorantes não acclamem o intruso, e em vez
+de lhe invergarem a tunica do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpura
+dos Cesares. O que hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhã
+engrossar e converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou sem
+ella, incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e florescem
+sempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa congrega-se, apedreja
+o indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os pés do milagreiro. É a
+historia de todos os tempos e de todos os povos. Este cair no abysmo, este
+fugir da luz para as trevas, este negar a Deus para affirmar a Iblis, eis o que
+eu temo por agora.</p>
+
+<h1>II</h1>
+
+<p>Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra existia
+ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se provocavam. Ainda
+mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção pelos rasgos de talento
+que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura pelos seus não poucos
+dislates. Este livro era a <i>Visão dos tempos</i>. A tal apparecimento
+reuniram-se os magnates,<span class="pn">{5}</span> perfilaram-se os
+admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram
+assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os cirios
+arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A devoção dos fieis
+crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul olympica deixava cair
+sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da sua graça. Desde as camaras
+douradas até ás mansardas obscuras, desde o academico até o noticiarista, desde
+o rico homem até o pobre-diabo, ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava
+n'outro livro. Lisboa teve de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar
+em hastilhas n'uma explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos
+depois Theophilo Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que
+a escola de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito
+entre parenthesis, chamava-se <i>Tempestades sonoras</i>. <i>Tempestatesque
+sonoras.</i> Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os desgraçados
+trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço, e recolheram-se
+aos limbos da sua insufficiencia microscopica.</p>
+
+<p>De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a
+guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os que
+d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros, entretecidos
+com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam? A carta do sr.
+Castilho escripta a proposito do <i>Poema da Mocidade</i> foi a faúla caída
+sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu furiosa; as labaredas
+do incendio lamberam todos os diademas.</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«Como farpadas linguas de serpentes» </blockquote>
+
+<p class="ni">para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou
+a lide, trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre
+Tejo levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego. Hoje
+estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este alvoroto? De um
+despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto o melindre de dois
+mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas frechas contra o poeta
+dos <i>Ciumes do Bardo</i>. Havia desacato em proceder de tal modo,<span
+class="pn">{6}</span> havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um lavor
+litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente, podiam cair
+esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta juntaram-se,
+então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e respeitado; os arraiaes
+desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios entraram na faina
+belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e fariscado no folhetim e no
+pamphleto; de uma e de outra banda o insulto gratuito e a frioleira chistosa
+tomaram o posto de honra. Os que deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz,
+em nome dos eternos principios de bom senso, quando os horisontes litterarios
+haviam começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o <i>Io triumphe</i>
+nos labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu,
+por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha para vir
+papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento litterario. </p>
+
+<p>Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem. Podia o
+sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o affigura o auctor
+das <i>Odes modernas</i>, que estas nem por isso subiriam nem mais um furo na
+bitola da boa critica. A questão, por agora, não consiste em dissecar as obras
+do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse rigorosa, em as submetter a uma
+stricta chimica-litteraria, para averiguar as dózes de bem e de mal que ellas
+encerram. A questão reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico,
+grandioso, regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores
+famosos; qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o
+ideal na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a
+humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a
+<i>Sciencia nova</i> tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A
+questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no verso,
+devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao obscurecimento; que um
+soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso; que as lagrimas de uma
+creança não valem o phalerno das antisterias; que os anjos teem de cercear as
+azas para se ensambenitarem de philosophos. Eis o ponto, eis o campo, eis o
+assumpto em resumo.<span class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração
+humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa porta,
+não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de parvoiçadas e de
+truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para testemunho de horror ás
+boas obras; aquentai-vos em volta d'essa fogueira immensa; e quando das maiores
+glorias do espirito humano só restar o fumo e a cinza, levantae um altar a
+todos esses innovadores do subjectivo e da transcendencia, e annunciae a
+redempção dos povos.</p>
+
+<p>Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte nos
+seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos fluctuantes e
+imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no coração a chamma dos
+nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo das aspiraçães remontadas. O
+poeta é o sublime enviado do futuro, que vem preparar a geração de hoje para o
+amanhan grandioso e prospero. Como se hade levantar e moralisar este ignorante
+enorme que se chama a humanidade? o que entende ella das vossas philosophias?
+de que lhe servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor:
+commovei-a até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio.</p>
+
+<blockquote>
+ «Fais ce que tu voudras, qu'importe!<br>
+ Pourvu que le vrai soit content,<br>
+ Pourvu que l'alouette sorte<br>
+ Parfois de ta strophe en chantant;<br>
+  <br>
+ Pourvu qu'en ton poeme tremble<br>
+ L'azur réel des claires eaux,<br>
+ Pourvu que le brin d'herbe y semble<br>
+ Bon au nid des petits oiseaux!» </blockquote>
+
+<p>Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna. Não
+duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do vosso
+gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos agita,
+eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos, naturaes,
+intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos vossos cantos se
+perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que principia no fremito da relva e
+que termina na musica das espheras.<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos
+desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de fogo, é a
+inspiração ou a <i>simbolica</i>? qual é o vosso modelo, Creuzer ou o Homem?
+Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas realidades.</p>
+
+<p>Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas para
+depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca, nunca.
+«<i>L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des
+cruches.</i>»&mdash;O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade. Eschylo
+diz estas palavras: «&mdash;Desde todo o principio o poeta servio o homem. Orpheu
+ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o divino Homero o
+heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para que todo o cidadão
+procure imitar os grandes homens.»&mdash;</p>
+
+<p>Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as
+subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta a
+liberdade.</p>
+
+<p>Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras contra a
+qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores cavavam e alqueivavam
+a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma noute perdida em cogitações
+mysteriosas deixavam cair a fronte calva e extenuada sobre os <i>in-folios</i>
+obscuros; emquanto elles discutiam o incomprehensivel, e atacavam de frente o
+desconhecido, á similhança do pagem da ballada que limpava a sombra de um
+cavallo com a sombra de uma escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando
+rasgar as brumas que lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do
+idyllio e da canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a
+inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando o
+fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a elevar a Deos
+entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por todos,&mdash;fazendo romper o sol
+da consolação e da esperança do seio do vasto mar das lagrimas humanas!</p>
+
+<p>Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca?
+Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha o que
+julga ella de<span class="pn">{9}</span> Herder ou de Schelling;
+responder-vos-ha pensativa, e como a Carlola de Werther:&mdash;«Klopstock!»&mdash;</p>
+
+<h1>III</h1>
+
+<p>Quererei eu dizer com isto que tenho a alta philosophia por inutil? Oxalá
+que o não suspeitem. Creio nos transcendentes como poderia crêr nos
+alchimistas. Estes perseguem o absoluto sobre a terra, procuram a pedra
+philosophal e a panacêa universal, e encontram ao cabo d'esta navegação nas
+sombras, o opio, o mercurio, o zinco e o antimonio. Porque não ha de a
+philosophia, descobrir tambem verdades importantes, quando procura hallucinada
+entrever os grandes segredos do abysmo?</p>
+
+<p>Não; o que eu quero só é que a arte se manifeste, isempta d'estas
+preoccupações terriveis. A poesia é como a mocidade, alegre, enthusiastica,
+expansiva, boa, amando a luz do céo e as flores da terra, brincando por entre
+as ramas floridas, revendo-se nos lagos tranquillos, crendo, esperando,
+pensando no alvorecer que ha de apontar talvez mais bello, nos botões das rosas
+que hão de desabrochar perfumados, e balbuciando depois aquellas preces que lhe
+ensinaram no berço entre sorrisos e affagos. A poesia enfatuada e superlativa é
+a creança doutorona, que em vez de folgar discute, que se amezenda entre os
+velhos, que lenta engrossar a voz aflautada, e que, se não usa cabelleira é só
+com medo que o rapazio do bairro se lhe divirta com o rabicho. Deixemos
+lucubrar os philosophos e cantar os poetas; não queiramos ensinar os rouxinoes
+a psalmear o <i>de profundis</i>. Os que apparecem com a inspiração na fronte,
+passam, levados pelo sopro divino, deixando cair sobre a terra os germens que
+hão de fructificar mais tarde. Que lhes importa a elles toda essa algaravia de
+vocabulos? o que entenderiam d'ella? Oh, que admiraveis prelecções de
+cosmogonia deve fazer o monte Branco? como as estrellas hão de fallar de Kepler
+e de Newton!</p>
+
+<p>E esta pobre da natureza, que ha não sei quantos mil<span
+class="pn">{10}</span> annos se veste de primaveras, a julgar que é grande
+cousa porque amadurece o trigo, porque enfolha as oliveiras, porque desdobra os
+rios, porque inflamma a aurora, e porque ensina os passarinhos a chilrear na
+copa das arvores. Tolla, tolla; que sabes tu das monadas? que pensas do atomo?
+que idéa fórmas da synderese? E a transhumanação, e o symbolismo, e a ascese da
+via purgativa, e o palavriado, e Kant, e Fichte, e as ostras de Hamburgo? Que
+tens tu feito com os teus cantos? de que nos servem os teus perfumes? Vae longe
+o tempo em que os Anteos da poesia procuravam no teu seio a força e a vida;
+hoje, a nova escola, a que hade terraplenar e amanhar tudo, percorre o espaço,
+não cingida de festões de rosa, mas involta em uma impenetravel neblina.</p>
+
+<p>Sejamos, todavia justos; a escola de Coimbra desce algumas vezes
+insensivelmente da sua peanha transcendental, e põe-se ao livel dos assumptos
+comesinhos. O seu melhor poeta, ou, para nos expressarmos com verdade, o seu
+unico poeta, não deixou de banda a musa que lhe segredava estes versos:</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;Se a visses á janella<br>
+ Cuidando em seu bordado!<br>
+ Pudesses, como eu, vêl-a<br>
+ De traz do cortinado!<br>
+ ....................<br>
+ ....................<br>
+ ....................<br>
+ E se á janella, triste,<br>
+ Vem pôr sua gaiola,<br>
+ Se vem deitar alpiste<br>
+ No comedouro á rôla?<br>
+  <br>
+ Ai rôla, quem podesse<br>
+ Gozar os teus carinhos;<br>
+ Que a vida me parece<br>
+ Um thalamo de espinhos.»&mdash; </blockquote>
+
+<p>Nada mais infantil nem mais gracioso, nada mais simples nem mais bello.
+Sente-se uma pessoa desafogar interiormente quando recita estes versos. Uma
+creança que deita alpiste a uma avesinha querida enche de aroma um idyllio;
+Jupiter franzindo o sobr'olho enche de magestade uma epopêa. Um gesto, um
+sorriso colhido entre os labios, um volver<span class="pn">{11}</span> d'olhos
+triste, a vermelhidão do pejo affogueando um semblante, eis a simplicidade e ao
+mesmo tempo a poesia. Dante nunca subio tão alto como quando descreveu uma
+leitura entre dois amantes. Onde foi elle buscar o segredo d'aquelles encantos,
+a singeleza d'aquelles traços, a paixão d'aquellas fallas? Ensinou-lhos a
+philosophia ou o seu coração ardente? vieram-lhe das profundezas da sciencia ou
+de uma recordação de Beatriz?</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«Noi leggevamo un giorno per diletto<br>
+ Di Lancilloto come amor lo strinse:<br>
+ Soli eravamo e senza alcun sospetto. </blockquote>
+
+<p>Quando chegardes áquelle tercetto assombroso de verdade e de candura, em que
+depois do primeiro beijo elles fecham para sempre o livro,</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«Quel giorno pui non vi leggemmo avante,»&mdash; </blockquote>
+
+<p class="ni">abjurae a metaphysica moderna, ou, se o não poderdes fazer, ide
+então, novos &OElig;dipos, decifrar o</p>
+
+<blockquote>
+ Raphel mai amech isabi alini </blockquote>
+
+<p class="ni">que o poeta põe na bocca de Nemrod! </p>
+
+<h1>IV</h1>
+
+<p>Deixemo-nos de distincções futeis, de demarcações impossiveis, de
+banalidades pueris; em litteratura só pode haver uma escola&mdash;a da verdade.
+Ninguem inventa, ninguem innova; todos exprimem, todos modelam, todos traduzem,
+todos sublimam na forma. A humanidade é o solo immenso sobre que o poeta
+levanta os seus monumentos. Todos elles são feitos do mesmo bronze, todos elles
+transsudam as mesmas claridades. No frontal d'essas moles altissimas o
+architecto grava o seu nome, imprime o seu cunho, chancella a sua obra, e
+deixa-a ás gerações. O Pantheon é de marmore como a cathedral gothica;
+n'aquelle ha, todavia, a simplicidade correcta, n'esta os enredamentos e as
+laçarias caprichosas. De que differente especie são feitos esses
+portentosos<span class="pn">{12}</span> edificios que se chamam o <i>Livro</i>
+de <i>Job</i> e a <i>Illiada</i>? Não saem ambos da natureza? não respiram o
+mesmo calor de affectos, não revelam o mesmo alevantamento de espirito? Em que
+se distinguem? o que os estrema? o que os separa? Depois da <i>Illiada</i> não
+surge a <i>Orestia</i>? depois de Job não apparece Shakespeare? O que divide
+ainda estes d'aquelles? Helena é porventura uma innovação ou Clytemnestra um
+improviso? Job carpindo-se no muladar é acaso uma licção ou Hamlet é apenas um
+desvario?</p>
+
+<p>A originalidade na arte é a individualidade na forma. A poesia é tudo quanto
+é verdadeiro, simples e harmonioso; o grande problema de hoje é a producção do
+real no ideal, a pintura exacta da humanidade alcançada por meio do
+engrandecimento do homem. Os verdadeiros poetas, os genios, não inventam. São
+immensos, são multiplices, tem o azul do ceo e a escuridão da treva, o suspiro
+e o bramido, a alegria e o desespero, as flores e as rochas, a vida e a morte.
+Por isso V. Hugo os compara ao oceano. Quem inventa é Davenant, é Jeronymo
+Vahia, é Chapelain, é o padre de Saint-Louis. Os genios são a verdade radiante;
+os mediocres são o artificio abstruso. A <i>Magdaleneida</i> é mais original
+que o <i>Othelo</i>; a heroina do reverendo carmelita excede no descommunal das
+formas a trivial, a ramerraneira, a naturalissima verdade d'aquelle eterno typo
+de Desdemona.</p>
+
+<p>Que significa, pois, o entono com que fallaes no ideal? O que entendeis por
+esta palavra? O lyrismo apaixonado, o arrebatamento epico, a verdade
+esplendida, o incitamento á virtude, o amor da gloria, o anjo saindo do homem,
+o bem santificando o bello? Não! O que hoje se adora, o que hoje se divinisa, é
+esse mesmo idolo eterno do fetichismo litterario&mdash;Vichnou de innumeras
+encarnações, que em todos os seculos tem tido o seu cortejo de bonzos.</p>
+
+<p>«Ideal, ideal;&mdash;ouço eu bradar o coro dos levitas que vão levando em peso a
+arca santa da moderna civilisação&mdash;ponham-se de banda esses arrulhos de pomba,
+aquentem-se os fogões d'alem do Rheno com toda essa farraparia inutil que
+principia no <i>Cantico dos Canticos</i> e que vem até as <i>Folhas
+Cahidas</i>: sepulte-se no enxurro das frioleiras quanto<span
+class="pn">{13}</span> respirar a perfume dos balsedos e a grata fresquidão da
+relva luzente, começae pelo livro de Ruth e acabae no <i>Pastor fido</i>. Sêde
+homens, sêde reformadores, a sociedade carece de sangue novo, o espirito lateja
+nas ancias do absoluto. O nosso Deos não é o «pae que está no
+ceo»&mdash;<i>pffu</i>!... o nosso Deos é o infinito. Svedenborg é o seu propheta.
+Caminhae, progredi, solevantai-vos da terra, saccudi do calcanhar os limos
+mundanos, quebrae o ergastulo, espedaçae o involucro que vos estringe,</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«Atae as mãos ao vosso vão receio. </blockquote>
+
+<p class="ni">soltae o rumo, navegadores do abysmo! O amor é uma parvulez
+ephemera, a saudade um fumo que nos enturva, o enthusiasmo uma sobrexcitação de
+nescios. Hegel aperta as nadegas possantes para rir ás gargalhadas dos
+colloquios de Paulo e Virginia.</p>
+
+<p>Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis,
+escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos hombros do
+Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas adversarios.
+Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia novo, <i>les diables
+s'en vont</i>, isto é, desapparecem os cantores pedestres; a immensidade rebôa
+ao galopar de ginetes que se approximam. Vencemos Alarico! Temperem-se os
+alaudes, afinem-se os psalterios, e o canto dos bardos glorifique as nossas
+façanhas!»</p>
+
+<p>&mdash;«Barbaros, barbaros!»&mdash;diz então uma voz que se chama a consciencia!</p>
+
+<h1>V</h1>
+
+<p>Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a actual
+polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem aquelle bando, mas
+simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto que se debate, dando de
+mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o papel de propugnador de A. F.
+de Castilho; tenho para mim que defendel-o seria injurial-o, seria duvidar da
+robustez<span class="pn">{14}</span> d'aquello talento. Elle bem sabe que ha
+atheos na arte como os ha na religião;&mdash;homens que negam a divindade. Que se
+lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a tortura? nunca. O <i>crê</i> ou
+<i>morre</i> é a razão suprema da tyrannia estupida. Quando alguem ousa
+profanar o altar ante o qual deveria curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o
+pagão, e cathequisal-o em seguida.</p>
+
+<p>Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e
+encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram Efialto e
+Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos da terra? Nada é
+de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A serenidade magestosa é
+o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a longanimidade do sr. Castilho;
+mais lhe applaudiria ainda o silencio completo. Ninguem o maculou, ninguem o
+ferio; passe a mão pelo rosto e verá que o sente incolume. As ballas
+rojaram-lhe pelos pés, frias e inoffensivas. O arcabuz que as despedira não
+tinha alcance para tão alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos?
+Estamos, principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia
+anda a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de
+um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos para o
+oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A escola de
+Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo <i>escola</i>), parece estar
+convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios devem fazer-se ouvir,
+como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros. Eu creio o inverso; o que ahi
+fica dito é, portanto, a minha carta de crença litteraria. Lamento as
+intelligencias que se trasmontam como as ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse
+pastor nas lettras tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto?
+como adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por desgraça
+tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo convencimento. Antes
+d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as luctas. Quando as armas da
+razão se quebrarem nas mãos dos combatentes, ficar-lhes-ha nos labios o
+praguejar insultuoso. Não queiramos para nós este recurso.</p>
+
+<p>Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada<span
+class="pn">{15}</span> da philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota
+em demanda de novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o,
+não sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores
+sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então a
+contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena guinda,
+navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse pavilhão que
+tem por mote = <i>dignidade</i> e <i>independencia</i> = que os sinaleiros do
+infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles que se lhes quer
+beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes prégou a servidão como
+evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias tragam ao pescoço um trambolho,
+como os cães por tempo de vindima? Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que
+se affirma, o que se protesta é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que
+vieram até nós fazendo escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes
+caminhos para o futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que
+jurar a cada momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve
+ensinar a derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto
+uma chimera de treslidos, um ideal avariado.</p>
+
+<p>O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto
+sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem, lavar o que
+é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido, allumiar o que é
+sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos cogumelos do atheismo risivel a
+planta nascente que se apruma para o céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem
+attenta contra a vossa dignidade de homens de lettras. Pensaes edificar para os
+seculos e trabalhaes para o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as
+trevas. A vossa obra é como o abysmo de Milton,</p>
+
+<blockquote>
+ &mdash;«<i>A dungeon horrible on all sides round,</i><br>
+ <i>      &mdash;yet from those flames</i><br>
+ <i>No light, buth ralher darkness visible.</i>»&mdash; </blockquote>
+
+<p>D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a
+implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as censuras bem
+cabidas. Despresar<span class="pn">{16}</span> aquellas é dever, aceitar estas
+prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos nossos
+escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida n'esta pugna, diz
+bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola como isso. A faisca póde
+tornar-se incendio, como a raiz póde converter-se em floresta. Defendem-se as
+immunidades da arte como se defendem as da patria; os sacerdotes do bello
+vigiam pelo seu culto.</p>
+
+<p>Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a publico,
+não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como simples leigo,
+que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do rito, tem, pelo menos, fé
+viva na religião dos seus maiores.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 100%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">CATALOGO CHRONOLOGICO</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1em;">DOS OPUSCULOS PUBLICADOS ATÉ HOJE</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 0.9em;">SOBRE A ACTUAL</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.3em">QUESTÃO LITTERARIA</p>
+
+<div style="text-align:justify;font-size: 0.9em;">
+<p>1&mdash;<b>A. F. de Castilho</b>&mdash;Carta ao editor A. M. Pereira sobre o <i>Poema
+da Mocidade</i>, impressa no fim do poema (Esta memoravel carta de critica
+litteraria é que suscitou a famosa questão que se está debatendo) 1 vol. brox.
+600</p>
+
+<p>2&mdash;<b>Anthero do Quental</b>&mdash;Bom senso e bom gosto, carta ao
+ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, 3.ª edição, br. 100</p>
+
+<p>3&mdash;<b>M. Pinheiro Chagas</b>&mdash;Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da
+carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho br. 100</p>
+
+<p>4&mdash;<b>Manuel Roussado</b>&mdash;Bom senso e bom gosto, resposta á carta que o sr.
+Anthero do Quental dirigiu ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, br.
+100</p>
+
+<p>5&mdash;<b>Elmano da Cunha</b>&mdash;Carta em resposta a outra bom senso e bom gosto
+dirigida por Anthero do Quental ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho o
+incomparavel traductor dos Fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de
+Romulo e Jesus-Christo, offerecida ao incomparavel duque de Saldanha, br.
+100</p>
+
+<p>6&mdash;<b>Julio de Castilho</b>&mdash;O sr. Antonio Feliciano de Castilho e o sr.
+Anthero do Quental, 2.ª edição, br. 160</p>
+
+<p>7&mdash;<b>Theophilo Braga</b>&mdash;As theocracias litterarias, br. 100</p>
+
+<p>8&mdash;<b>Anthero do Quental</b>&mdash;A dignidade das lettras e as litteraturas
+officiaes, br. 160</p>
+
+<p>9&mdash;<b>Rui de Porto Carrero</b>&mdash;Lisboa, Coimbra e Porto e a questão
+litteraria.&mdash;A carta do sr. Anthero do Quental ante os srs. Pinheiro Chagas, M.
+Roussado e Julio de Castilho, 2.ª edição, br. 160</p>
+
+<p>10&mdash;<b>A. Ferreira de Freitas</b>&mdash;Os litteratos em Lisboa&mdash;poemeto
+illustrado por Jeronymo da Silva Motta, bacharel nas faculdades de theologia e
+direito, br. 240</p>
+
+<p>11&mdash;<b>Amaro Mendes Gaveta</b>&mdash;O mau senso e o mau gosto&mdash;Carta mui
+respeitosa ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho em que se falla de todos e
+de muitas pessoas mais, com uma conversação preambular por Gaveta Mendes Amaro,
+br. 100</p>
+
+<p>12&mdash;<b>S. de A.</b>&mdash;Bom senso e bom gosto&mdash;Carta de boas festas a Manuel
+Roussado, br. 100</p>
+
+<p>13&mdash;<b>J. D. Ramalho Ortigão</b>&mdash;Litteratura de hoje, br. 100</p>
+
+<p>14&mdash;<b>Camillo Castello Branco</b>&mdash;Vaidades irritadas e
+irritantes&mdash;opusculo ácerca de uns que se dizem offendidos em sua liberdade de
+consciencia litteraria, br. 200</p>
+
+<p>15&mdash;<b>Augusto Malheiro Dias</b>&mdash;Castilho e Quental&mdash;reflexões sobre a
+actual questão litteraria, br. 100</p>
+
+<p>16&mdash;<b>Urbano Loureiro</b>&mdash;Questão de palheiro; Coimbrões e lisboetas, br.
+100</p>
+
+<p>17&mdash;<b>Ermita do Chiado</b>&mdash;Garrett, Castilho, Herculano e a escola
+coimbrã, ou dissertação ácerca da genealogia da moderna escola, contendo um
+esboço rapido e pittoresco da litteratura contemporanea, br. 100</p>
+
+<p>18&mdash;<b>C. F.</b>&mdash;A litteratura ramalhuda a proposito dos srs. Castilho e
+Ramalho Ortigao, br. 100</p>
+
+<p>19&mdash;<b>A. F. de Castilho e J. A. de Freitas e Oliveira</b>&mdash;A questão
+litteraria&mdash;a proposito do jazigo de José Estevão, br. 60</p>
+
+<p>20&mdash;<b>José Francisco</b>&mdash;Os coimbrões; questão em que tambem entra pelos
+cem réis, José Francisco, caiador da rainha do Congo; com uma dedicatoria por
+Diogo Bernardes, br. 100</p>
+
+<p>21&mdash;<b>José Feliciano de Castilho</b>&mdash;A escola coimbrã.&mdash;Cartas ao redactor
+do Correio Mercantil, do Rio de Janeiro (este folheto contem as tres primeiras
+cartas; as seguintes formarão outro folheto que já está no prelo), br. 100</p>
+
+<p>22&mdash;<b>Eduardo A. Vidal</b>&mdash;Guelfos e gibelinos. Tentativa critica sobre a
+actual polemica litteraria, br. 100</p>
+
+<p>23&mdash;<b>P. W. de Brito Aranha</b>&mdash;Bom senso e bom gosto. Humilde parecer com
+uma carta do ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, br. 100</p>
+
+<p>24&mdash;<b>Eduardo Salgado</b>&mdash;Litteratura de ámanhã, duas palavras ao sr.
+Anthero do Quental, br. 100</p>
+
+<p>25&mdash;<b>Carlos Borges</b>&mdash;Penna e espada, duas palavras ácerca da
+<i>Litteratura de hoje</i>, de Ramalho Ortigão br. 100</p>
+
+<p>26&mdash;<b>Anonymo</b>&mdash;Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão, br. 100</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS ***
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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