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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:58:23 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Guelfos e Gibelinos + Tentativa critica sobre a actual polemica litteraria + +Author: Eduardo Augusto Vidal + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32870] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + GUELFOS E GIBELINOS + + TENTATIVA CRITICA + + SOBRE A ACTUAL + + POLEMICA LITTERARIA + + POR + + E. A. VIDAL + + + LISBOA + LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA + 50--RUA AUGUSTA--52 + + 1866 + + + + + GUELFOS E GIBELINOS + + TENTATIVA CRITICA + + SOBRE A ACTUAL + + POLEMICA LITTERARIA + + POR + + E. A. VIDAL + + + LISBOA + LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA + 50--RUA AUGUSTA--52 + + 1866 + + + + LISBOA--TYP. DE SOUSA NEVES, RUA DO CALDEIRA, 17 + + + + +I + + +Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos, +quer dizer, entre _brancos e negros_, entre os homens da claridade e os +do entenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de +Alecrim e Mangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as +excellencias d'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes +d'est'outra, transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida, +a que, por desgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os +insultos que nada vencem. + +Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu o +seguinte:--«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce, +converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará +por uma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do +cormentalismo com os austeros contempladores do infinito.»--A prophecia +realisou-se finalmente; a liça é já pequena para os contendores que +descem a ella, e o ruido das armas perturba o somno e a digestão dos +indifferentes. + +Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria contemplar em +silencio este duello litterario? Diz-me que não a consciencia. Acima +d'estas aggressões pequenas em que tanto uns como outros procuram +derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria já feita, eu vejo +a questão da arte, a questão dos principios, a questão das tendencias; +questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens de rancor +que nos obscureçam o espirito. + +Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males +que a escola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha +terroristas que o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não +vejo na seita de Coimbra, tal qual se nos apresenta agora, força +bastante para depravar a arte; mas creio ao mesmo tempo que é dever de +bom cidadão tomar o passo a qualquer que lhe invade a terra, para que os +ignorantes não acclamem o intruso, e em vez de lhe invergarem a tunica +do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpura dos Cesares. O que +hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhã engrossar e +converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou sem ella, +incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e +florescem sempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa +congrega-se, apedreja o indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os +pés do milagreiro. É a historia de todos os tempos e de todos os povos. +Este cair no abysmo, este fugir da luz para as trevas, este negar a Deus +para affirmar a Iblis, eis o que eu temo por agora. + + + + +II + + +Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra +existia ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se +provocavam. Ainda mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção +pelos rasgos de talento que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura +pelos seus não poucos dislates. Este livro era a _Visão dos tempos_. A +tal apparecimento reuniram-se os magnates, perfilaram-se os +admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram +assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os +cirios arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A +devoção dos fieis crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul +olympica deixava cair sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da +sua graça. Desde as camaras douradas até ás mansardas obscuras, desde o +academico até o noticiarista, desde o rico homem até o pobre-diabo, +ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava n'outro livro. Lisboa teve +de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar em hastilhas n'uma +explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos depois Theophilo +Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que a escola +de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito +entre parenthesis, chamava-se _Tempestades sonoras_. _Tempestatesque +sonoras._ Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os +desgraçados trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço, +e recolheram-se aos limbos da sua insufficiencia microscopica. + +De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a +guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os +que d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros, +entretecidos com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam? +A carta do sr. Castilho escripta a proposito do _Poema da Mocidade_ foi +a faúla caída sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu +furiosa; as labaredas do incendio lamberam todos os diademas. + + --«Como farpadas linguas de serpentes» + +para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou a lide, +trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre Tejo +levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego. +Hoje estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este +alvoroto? De um despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto +o melindre de dois mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas +frechas contra o poeta dos _Ciumes do Bardo_. Havia desacato em proceder +de tal modo, havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um +lavor litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente, +podiam cair esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta +juntaram-se, então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e +respeitado; os arraiaes desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios +entraram na faina belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e +fariscado no folhetim e no pamphleto; de uma e de outra banda o insulto +gratuito e a frioleira chistosa tomaram o posto de honra. Os que +deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz, em nome dos eternos +principios de bom senso, quando os horisontes litterarios haviam +começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o _Io triumphe_ nos +labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu, +por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha +para vir papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento +litterario. + +Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem. +Podia o sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o +affigura o auctor das _Odes modernas_, que estas nem por isso subiriam +nem mais um furo na bitola da boa critica. A questão, por agora, não +consiste em dissecar as obras do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse +rigorosa, em as submetter a uma stricta chimica-litteraria, para +averiguar as dózes de bem e de mal que ellas encerram. A questão +reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico, grandioso, +regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores famosos; +qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o ideal +na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a +humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a +_Sciencia nova_ tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A +questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no +verso, devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao +obscurecimento; que um soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso; +que as lagrimas de uma creança não valem o phalerno das antisterias; que +os anjos teem de cercear as azas para se ensambenitarem de philosophos. +Eis o ponto, eis o campo, eis o assumpto em resumo. + +Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração +humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa +porta, não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de +parvoiçadas e de truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para +testemunho de horror ás boas obras; aquentai-vos em volta d'essa +fogueira immensa; e quando das maiores glorias do espirito humano só +restar o fumo e a cinza, levantae um altar a todos esses innovadores do +subjectivo e da transcendencia, e annunciae a redempção dos povos. + +Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte +nos seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos +fluctuantes e imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no +coração a chamma dos nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo +das aspiraçães remontadas. O poeta é o sublime enviado do futuro, que +vem preparar a geração de hoje para o amanhan grandioso e prospero. Como +se hade levantar e moralisar este ignorante enorme que se chama a +humanidade? o que entende ella das vossas philosophias? de que lhe +servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor: commovei-a +até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio. + + «Fais ce que tu voudras, qu'importe! + Pourvu que le vrai soit content, + Pourvu que l'alouette sorte + Parfois de ta strophe en chantant; + + Pourvu qu'en ton poeme tremble + L'azur réel des claires eaux, + Pourvu que le brin d'herbe y semble + Bon au nid des petits oiseaux!» + +Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna. +Não duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do +vosso gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos +agita, eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos, +naturaes, intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos +vossos cantos se perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que +principia no fremito da relva e que termina na musica das espheras. + +Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos +desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de +fogo, é a inspiração ou a _simbolica_? qual é o vosso modelo, Creuzer ou +o Homem? Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas +realidades. + +Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas +para depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca, +nunca. «_L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des +cruches._»--O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade. +Eschylo diz estas palavras: «--Desde todo o principio o poeta servio o +homem. Orpheu ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o +divino Homero o heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para +que todo o cidadão procure imitar os grandes homens.»-- + +Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as +subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta +a liberdade. + +Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras +contra a qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores +cavavam e alqueivavam a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma +noute perdida em cogitações mysteriosas deixavam cair a fronte calva e +extenuada sobre os _in-folios_ obscuros; emquanto elles discutiam o +incomprehensivel, e atacavam de frente o desconhecido, á similhança do +pagem da ballada que limpava a sombra de um cavallo com a sombra de uma +escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando rasgar as brumas que +lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do idyllio e da +canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a +inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando +o fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a +elevar a Deos entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por +todos,--fazendo romper o sol da consolação e da esperança do seio do +vasto mar das lagrimas humanas! + +Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca? +Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha +o que julga ella de Herder ou de Schelling; responder-vos-ha +pensativa, e como a Carlola de Werther:--«Klopstock!»-- + + + + +III + + +Quererei eu dizer com isto que tenho a alta philosophia por inutil? +Oxalá que o não suspeitem. Creio nos transcendentes como poderia crêr +nos alchimistas. Estes perseguem o absoluto sobre a terra, procuram a +pedra philosophal e a panacêa universal, e encontram ao cabo d'esta +navegação nas sombras, o opio, o mercurio, o zinco e o antimonio. Porque +não ha de a philosophia, descobrir tambem verdades importantes, quando +procura hallucinada entrever os grandes segredos do abysmo? + +Não; o que eu quero só é que a arte se manifeste, isempta d'estas +preoccupações terriveis. A poesia é como a mocidade, alegre, +enthusiastica, expansiva, boa, amando a luz do céo e as flores da terra, +brincando por entre as ramas floridas, revendo-se nos lagos tranquillos, +crendo, esperando, pensando no alvorecer que ha de apontar talvez mais +bello, nos botões das rosas que hão de desabrochar perfumados, e +balbuciando depois aquellas preces que lhe ensinaram no berço entre +sorrisos e affagos. A poesia enfatuada e superlativa é a creança +doutorona, que em vez de folgar discute, que se amezenda entre os +velhos, que lenta engrossar a voz aflautada, e que, se não usa +cabelleira é só com medo que o rapazio do bairro se lhe divirta com o +rabicho. Deixemos lucubrar os philosophos e cantar os poetas; não +queiramos ensinar os rouxinoes a psalmear o _de profundis_. Os que +apparecem com a inspiração na fronte, passam, levados pelo sopro divino, +deixando cair sobre a terra os germens que hão de fructificar mais +tarde. Que lhes importa a elles toda essa algaravia de vocabulos? o que +entenderiam d'ella? Oh, que admiraveis prelecções de cosmogonia deve +fazer o monte Branco? como as estrellas hão de fallar de Kepler e de +Newton! + +E esta pobre da natureza, que ha não sei quantos mil annos se veste +de primaveras, a julgar que é grande cousa porque amadurece o trigo, +porque enfolha as oliveiras, porque desdobra os rios, porque inflamma a +aurora, e porque ensina os passarinhos a chilrear na copa das arvores. +Tolla, tolla; que sabes tu das monadas? que pensas do atomo? que idéa +fórmas da synderese? E a transhumanação, e o symbolismo, e a ascese da +via purgativa, e o palavriado, e Kant, e Fichte, e as ostras de +Hamburgo? Que tens tu feito com os teus cantos? de que nos servem os +teus perfumes? Vae longe o tempo em que os Anteos da poesia procuravam +no teu seio a força e a vida; hoje, a nova escola, a que hade +terraplenar e amanhar tudo, percorre o espaço, não cingida de festões de +rosa, mas involta em uma impenetravel neblina. + +Sejamos, todavia justos; a escola de Coimbra desce algumas vezes +insensivelmente da sua peanha transcendental, e põe-se ao livel dos +assumptos comesinhos. O seu melhor poeta, ou, para nos expressarmos com +verdade, o seu unico poeta, não deixou de banda a musa que lhe segredava +estes versos: + + --Se a visses á janella + Cuidando em seu bordado! + Pudesses, como eu, vêl-a + De traz do cortinado! + .................... + .................... + .................... + E se á janella, triste, + Vem pôr sua gaiola, + Se vem deitar alpiste + No comedouro á rôla? + + Ai rôla, quem podesse + Gozar os teus carinhos; + Que a vida me parece + Um thalamo de espinhos.»-- + +Nada mais infantil nem mais gracioso, nada mais simples nem mais bello. +Sente-se uma pessoa desafogar interiormente quando recita estes versos. +Uma creança que deita alpiste a uma avesinha querida enche de aroma um +idyllio; Jupiter franzindo o sobr'olho enche de magestade uma epopêa. Um +gesto, um sorriso colhido entre os labios, um volver d'olhos triste, +a vermelhidão do pejo affogueando um semblante, eis a simplicidade e ao +mesmo tempo a poesia. Dante nunca subio tão alto como quando descreveu +uma leitura entre dois amantes. Onde foi elle buscar o segredo +d'aquelles encantos, a singeleza d'aquelles traços, a paixão d'aquellas +fallas? Ensinou-lhos a philosophia ou o seu coração ardente? vieram-lhe +das profundezas da sciencia ou de uma recordação de Beatriz? + + --«Noi leggevamo un giorno per diletto + Di Lancilloto come amor lo strinse: + Soli eravamo e senza alcun sospetto. + +Quando chegardes áquelle tercetto assombroso de verdade e de candura, em +que depois do primeiro beijo elles fecham para sempre o livro, + + --«Quel giorno pui non vi leggemmo avante,»-- + +abjurae a metaphysica moderna, ou, se o não poderdes fazer, ide então, +novos OEdipos, decifrar o + + Raphel mai amech isabi alini + +que o poeta põe na bocca de Nemrod! + + + + +IV + + +Deixemo-nos de distincções futeis, de demarcações impossiveis, de +banalidades pueris; em litteratura só pode haver uma escola--a da +verdade. Ninguem inventa, ninguem innova; todos exprimem, todos modelam, +todos traduzem, todos sublimam na forma. A humanidade é o solo immenso +sobre que o poeta levanta os seus monumentos. Todos elles são feitos do +mesmo bronze, todos elles transsudam as mesmas claridades. No frontal +d'essas moles altissimas o architecto grava o seu nome, imprime o seu +cunho, chancella a sua obra, e deixa-a ás gerações. O Pantheon é de +marmore como a cathedral gothica; n'aquelle ha, todavia, a simplicidade +correcta, n'esta os enredamentos e as laçarias caprichosas. De que +differente especie são feitos esses portentosos edificios que se +chamam o _Livro_ de _Job_ e a _Illiada_? Não saem ambos da natureza? não +respiram o mesmo calor de affectos, não revelam o mesmo alevantamento de +espirito? Em que se distinguem? o que os estrema? o que os separa? +Depois da _Illiada_ não surge a _Orestia_? depois de Job não apparece +Shakespeare? O que divide ainda estes d'aquelles? Helena é porventura +uma innovação ou Clytemnestra um improviso? Job carpindo-se no muladar é +acaso uma licção ou Hamlet é apenas um desvario? + +A originalidade na arte é a individualidade na forma. A poesia é tudo +quanto é verdadeiro, simples e harmonioso; o grande problema de hoje é a +producção do real no ideal, a pintura exacta da humanidade alcançada por +meio do engrandecimento do homem. Os verdadeiros poetas, os genios, não +inventam. São immensos, são multiplices, tem o azul do ceo e a escuridão +da treva, o suspiro e o bramido, a alegria e o desespero, as flores e as +rochas, a vida e a morte. Por isso V. Hugo os compara ao oceano. Quem +inventa é Davenant, é Jeronymo Vahia, é Chapelain, é o padre de +Saint-Louis. Os genios são a verdade radiante; os mediocres são o +artificio abstruso. A _Magdaleneida_ é mais original que o _Othelo_; a +heroina do reverendo carmelita excede no descommunal das formas a +trivial, a ramerraneira, a naturalissima verdade d'aquelle eterno typo +de Desdemona. + +Que significa, pois, o entono com que fallaes no ideal? O que entendeis +por esta palavra? O lyrismo apaixonado, o arrebatamento epico, a verdade +esplendida, o incitamento á virtude, o amor da gloria, o anjo saindo do +homem, o bem santificando o bello? Não! O que hoje se adora, o que hoje +se divinisa, é esse mesmo idolo eterno do fetichismo litterario--Vichnou +de innumeras encarnações, que em todos os seculos tem tido o seu cortejo +de bonzos. + +«Ideal, ideal;--ouço eu bradar o coro dos levitas que vão levando em +peso a arca santa da moderna civilisação--ponham-se de banda esses +arrulhos de pomba, aquentem-se os fogões d'alem do Rheno com toda essa +farraparia inutil que principia no _Cantico dos Canticos_ e que vem até +as _Folhas Cahidas_: sepulte-se no enxurro das frioleiras quanto +respirar a perfume dos balsedos e a grata fresquidão da relva luzente, +começae pelo livro de Ruth e acabae no _Pastor fido_. Sêde homens, sêde +reformadores, a sociedade carece de sangue novo, o espirito lateja nas +ancias do absoluto. O nosso Deos não é o «pae que está no +ceo»--_pffu_!... o nosso Deos é o infinito. Svedenborg é o seu propheta. +Caminhae, progredi, solevantai-vos da terra, saccudi do calcanhar os +limos mundanos, quebrae o ergastulo, espedaçae o involucro que vos +estringe, + + --«Atae as mãos ao vosso vão receio. + +soltae o rumo, navegadores do abysmo! O amor é uma parvulez ephemera, a +saudade um fumo que nos enturva, o enthusiasmo uma sobrexcitação de +nescios. Hegel aperta as nadegas possantes para rir ás gargalhadas dos +colloquios de Paulo e Virginia. + +Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis, +escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos +hombros do Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas +adversarios. Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia +novo, _les diables s'en vont_, isto é, desapparecem os cantores +pedestres; a immensidade rebôa ao galopar de ginetes que se approximam. +Vencemos Alarico! Temperem-se os alaudes, afinem-se os psalterios, e o +canto dos bardos glorifique as nossas façanhas!» + +--«Barbaros, barbaros!»--diz então uma voz que se chama a consciencia! + + + + +V + + +Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a +actual polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem +aquelle bando, mas simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto +que se debate, dando de mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o +papel de propugnador de A. F. de Castilho; tenho para mim que defendel-o +seria injurial-o, seria duvidar da robustez d'aquello talento. Elle +bem sabe que ha atheos na arte como os ha na religião;--homens que negam +a divindade. Que se lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a +tortura? nunca. O _crê_ ou _morre_ é a razão suprema da tyrannia +estupida. Quando alguem ousa profanar o altar ante o qual deveria +curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o pagão, e cathequisal-o em seguida. + +Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e +encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram +Efialto e Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos +da terra? Nada é de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A +serenidade magestosa é o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a +longanimidade do sr. Castilho; mais lhe applaudiria ainda o silencio +completo. Ninguem o maculou, ninguem o ferio; passe a mão pelo rosto e +verá que o sente incolume. As ballas rojaram-lhe pelos pés, frias e +inoffensivas. O arcabuz que as despedira não tinha alcance para tão +alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos? Estamos, +principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia anda +a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de +um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos +para o oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A +escola de Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo _escola_), +parece estar convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios +devem fazer-se ouvir, como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros. +Eu creio o inverso; o que ahi fica dito é, portanto, a minha carta de +crença litteraria. Lamento as intelligencias que se trasmontam como as +ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse pastor nas lettras +tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto? como +adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por +desgraça tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo +convencimento. Antes d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as +luctas. Quando as armas da razão se quebrarem nas mãos dos combatentes, +ficar-lhes-ha nos labios o praguejar insultuoso. Não queiramos para nós +este recurso. + +Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada da +philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota em demanda de +novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o, não +sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores +sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então +a contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena +guinda, navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse +pavilhão que tem por mote = _dignidade_ e _independencia_ = que os +sinaleiros do infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles +que se lhes quer beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes +prégou a servidão como evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias +tragam ao pescoço um trambolho, como os cães por tempo de vindima? +Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que se affirma, o que se protesta +é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que vieram até nós fazendo +escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes caminhos para o +futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que jurar a cada +momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve ensinar a +derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto uma +chimera de treslidos, um ideal avariado. + +O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto +sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem, +lavar o que é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido, +allumiar o que é sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos +cogumelos do atheismo risivel a planta nascente que se apruma para o +céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem attenta contra a vossa dignidade +de homens de lettras. Pensaes edificar para os seculos e trabalhaes para +o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as trevas. A vossa obra +é como o abysmo de Milton, + + --«_A dungeon horrible on all sides round,_ + _--yet from those flames_ + _No light, buth ralher darkness visible._»-- + +D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a +implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as +censuras bem cabidas. Despresar aquellas é dever, aceitar estas +prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos +nossos escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida +n'esta pugna, diz bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola +como isso. A faisca póde tornar-se incendio, como a raiz póde +converter-se em floresta. Defendem-se as immunidades da arte como se +defendem as da patria; os sacerdotes do bello vigiam pelo seu culto. + +Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a +publico, não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como +simples leigo, que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do +rito, tem, pelo menos, fé viva na religião dos seus maiores. + + +FIM + + + + +CATALOGO CHRONOLOGICO + +DOS OPUSCULOS PUBLICADOS ATÉ HOJE + +SOBRE A ACTUAL + +QUESTÃO LITTERARIA + +1--*A. F. de Castilho*--Carta ao editor A. M. Pereira sobre o _Poema da +Mocidade_, impressa no fim do poema (Esta memoravel carta de critica +litteraria é que suscitou a famosa questão que se está debatendo) 1 vol. +brox. 600 + +2--*Anthero do Quental*--Bom senso e bom gosto, carta ao exmo. sr. A. +F. de Castilho, 3.ª edição, br. 100 + +3--*M. Pinheiro Chagas*--Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da +carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho br. 100 + +4--*Manuel Roussado*--Bom senso e bom gosto, resposta á carta que o sr. +Anthero do Quental dirigiu ao exmo. sr. A. F. de Castilho, br. 100 + +5--*Elmano da Cunha*--Carta em resposta a outra bom senso e bom gosto +dirigida por Anthero do Quental ao exmo. sr. A. F. de Castilho o +incomparavel traductor dos Fastos de Ovidio, obra em que se faz o +confronto de Romulo e Jesus-Christo, offerecida ao incomparavel duque de +Saldanha, br. 100 + +6--*Julio de Castilho*--O sr. Antonio Feliciano de Castilho e o sr. +Anthero do Quental, 2.ª edição, br. 160 + +7--*Theophilo Braga*--As theocracias litterarias, br. 100 + +8--*Anthero do Quental*--A dignidade das lettras e as litteraturas +officiaes, br. 160 + +9--*Rui de Porto Carrero*--Lisboa, Coimbra e Porto e a questão +litteraria.--A carta do sr. Anthero do Quental ante os srs. Pinheiro +Chagas, M. Roussado e Julio de Castilho, 2.ª edição, br. 160 + +10--*A. Ferreira de Freitas*--Os litteratos em Lisboa--poemeto +illustrado por Jeronymo da Silva Motta, bacharel nas faculdades de +theologia e direito, br. 240 + +11--*Amaro Mendes Gaveta*--O mau senso e o mau gosto--Carta mui +respeitosa ao exmo. sr. A. F. de Castilho em que se falla de todos e de +muitas pessoas mais, com uma conversação preambular por Gaveta Mendes +Amaro, br. 100 + +12--*S. de A.*--Bom senso e bom gosto--Carta de boas festas a Manuel +Roussado, br. 100 + +13--*J. D. Ramalho Ortigão*--Litteratura de hoje, br. 100 + +14--*Camillo Castello Branco*--Vaidades irritadas e irritantes--opusculo +ácerca de uns que se dizem offendidos em sua liberdade de consciencia +litteraria, br. 200 + +15--*Augusto Malheiro Dias*--Castilho e Quental--reflexões sobre a +actual questão litteraria, br. 100 + +16--*Urbano Loureiro*--Questão de palheiro; Coimbrões e lisboetas, br. 100 + +17--*Ermita do Chiado*--Garrett, Castilho, Herculano e a escola coimbrã, +ou dissertação ácerca da genealogia da moderna escola, contendo um +esboço rapido e pittoresco da litteratura contemporanea, br. 100 + +18--*C. F.*--A litteratura ramalhuda a proposito dos srs. Castilho e +Ramalho Ortigao, br. 100 + +19--*A. F. de Castilho e J. A. de Freitas e Oliveira*--A questão +litteraria--a proposito do jazigo de José Estevão, br. 60 + +20--*José Francisco*--Os coimbrões; questão em que tambem entra pelos +cem réis, José Francisco, caiador da rainha do Congo; com uma +dedicatoria por Diogo Bernardes, br. 100 + +21--*José Feliciano de Castilho*--A escola coimbrã.--Cartas ao redactor +do Correio Mercantil, do Rio de Janeiro (este folheto contem as tres +primeiras cartas; as seguintes formarão outro folheto que já está no +prelo), br. 100 + +22--*Eduardo A. Vidal*--Guelfos e gibelinos. Tentativa critica sobre a +actual polemica litteraria, br. 100 + +23--*P. W. de Brito Aranha*--Bom senso e bom gosto. Humilde parecer com +uma carta do exmo. sr. A. F. de Castilho, br. 100 + +24--*Eduardo Salgado*--Litteratura de ámanhã, duas palavras ao sr. +Anthero do Quental, br. 100 + +25--*Carlos Borges*--Penna e espada, duas palavras ácerca da +_Litteratura de hoje_, de Ramalho Ortigão br. 100 + +26--*Anonymo*--Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão, br. 100 + + + + + +End of Project Gutenberg's Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS *** + +***** This file should be named 32870-8.txt or 32870-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/7/32870/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/32870-8.zip b/32870-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d570752 --- /dev/null +++ b/32870-8.zip diff --git a/32870-h.zip b/32870-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fd04f01 --- /dev/null +++ b/32870-h.zip diff --git a/32870-h/32870-h.htm b/32870-h/32870-h.htm new file mode 100644 index 0000000..a76d3e5 --- /dev/null +++ b/32870-h/32870-h.htm @@ -0,0 +1,1105 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Guelfos e Gibelinos, por E. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Guelfos e Gibelinos + Tentativa critica sobre a actual polemica litteraria + +Author: Eduardo Augusto Vidal + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32870] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 1px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 2em;">GUELFOS E GIBELINOS</p> + +<hr> + +<p style="font-size: 1.4em;">TENTATIVA CRITICA</p> + +<p>SOBRE A ACTUAL</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">POLEMICA LITTERARIA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">E. A. VIDAL</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><b>LISBOA</b><br> + +LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>50—RUA AUGUSTA—52</small></p> + +<p><b>1866</b></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 2em;">GUELFOS E GIBELINOS</p> + +<hr> + +<p style="font-size: 1.4em;">TENTATIVA CRITICA</p> + +<p>SOBRE A ACTUAL</p> + +<p style="font-size: 1.6em;">POLEMICA LITTERARIA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">E. A. VIDAL</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><b>LISBOA</b><br> + +LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREIRA<br> + +<small>50—RUA AUGUSTA—52</small></p> + +<p><b>1866</b></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 90%"> +<p style="text-align:center;"><small>LISBOA—TYP. +DE SOUSA NEVES, RUA DO CALDEIRA, 17</small></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>I</h1> + +<p>Assistimos, ha muito, a uma travada peleja entre guelfos e gibelinos, quer +dizer, entre <i>brancos e negros</i>, entre os homens da claridade e os do +entenebrecimento. O que ao principio se assimilhava a uma contenda de Alecrim e +Mangerona, contenda em que de um lado pleiteava D. Gilvaz as excellencias +d'aquella planta, e do outro D. Fuas proclamava as virtudes d'est'outra, +transformou-se no correr dos tempos em uma batalha renhida, a que, por +desgraça, não tem faltado as chufas que nada provam, nem os insultos que nada +vencem.</p> + +<p>Antes das cousas terem chegado a este ponto malfadado, escrevia eu o +seguinte:—«Essa polemica litteraria, que de dia para dia cresce, +converter-se-ha em verdadeira revolta, e, se eu não me engano, terminará por +uma lucta cruenta e decisiva, onde se hão de gladiar os homens do cormentalismo +com os austeros contempladores do infinito.»—A prophecia realisou-se +finalmente; a liça é já pequena para os contendores que descem a ella, e o +ruido das armas perturba o somno e a digestão dos indifferentes.</p> + +<p>Deveria eu permanecer no meu retiro obscuro? Deveria<span +class="pn">{4}</span> contemplar em silencio este duello litterario? Diz-me que +não a consciencia. Acima d'estas aggressões pequenas em que tanto uns como +outros procuram derribar, quer uma reputação nascente, quer uma gloria já +feita, eu vejo a questão da arte, a questão dos principios, a questão das +tendencias; questão que é necessario tratar no verdadeiro pé, sem nuvens de +rancor que nos obscureçam o espirito.</p> + +<p>Póde a chamada escola coimbrã causar á litteratura portugueza os males que a +escola marinesca occasionou á italiana? As opiniões divergem, ha terroristas +que o affirmam, e ha patriarchas que o contestam. Eu não vejo na seita de +Coimbra, tal qual se nos apresenta agora, força bastante para depravar a arte; +mas creio ao mesmo tempo que é dever de bom cidadão tomar o passo a qualquer +que lhe invade a terra, para que os ignorantes não acclamem o intruso, e em vez +de lhe invergarem a tunica do opprobrio, lhe atirem sobre os hombros a purpura +dos Cesares. O que hoje é riacho, sem limpidez nem bellesa, póde ámanhã +engrossar e converter-se em oceano. Depois, o erro, prégado com boa fé ou sem +ella, incute-se e enraiza-se facilmente. Os falsos prophetas medram e florescem +sempre. Quando se lhes quer pôr travanco, a plebe furiosa congrega-se, apedreja +o indiscreto, e vae mais reverente ainda beijar os pés do milagreiro. É a +historia de todos os tempos e de todos os povos. Este cair no abysmo, este +fugir da luz para as trevas, este negar a Deus para affirmar a Iblis, eis o que +eu temo por agora.</p> + +<h1>II</h1> + +<p>Digamos antes do tudo, e sobretudo, uma verdade. A escola de Coimbra existia +ha muito, a de Lisboa sabia-o, e nem esta nem aquella se provocavam. Ainda +mais. Apparecera entre nós um livro, digno de menção pelos rasgos de talento +que ostentava, e ao mesmo tempo digno de censura pelos seus não poucos +dislates. Este livro era a <i>Visão dos tempos</i>. A tal apparecimento +reuniram-se os magnates,<span class="pn">{5}</span> perfilaram-se os +admiradores, a critica desbarretou-se, os minoristas da imprensa vieram +assaralhopados, e de naveta em punho, botar incenso nos thuribulos, os cirios +arderam profusamente em volta d'este Genesis sacrosanto. A devoção dos fieis +crescia de ponto; o moço poeta repotreado na sua curul olympica deixava cair +sobre as multidões boquiabertas um raio de luz da sua graça. Desde as camaras +douradas até ás mansardas obscuras, desde o academico até o noticiarista, desde +o rico homem até o pobre-diabo, ninguem via, ninguem pensava, ninguem fallava +n'outro livro. Lisboa teve de abrir as suas valvulas de salvação, para não voar +em hastilhas n'uma explosão de enthusiasmo. Esta é que é a verdade. Tempos +depois Theophilo Braga dava a lume outro poema. Apesar do supremo despreso que +a escola de Coimbra parece votar ás frandulagens latinas, esse livro, seja dito +entre parenthesis, chamava-se <i>Tempestades sonoras</i>. <i>Tempestatesque +sonoras.</i> Os triumphos da vespera cresceram e dilataram-se; os desgraçados +trovadores olysiponenses metteram as lyras debaixo do braço, e recolheram-se +aos limbos da sua insufficiencia microscopica.</p> + +<p>De que veio, pois, todo este reviramento? porque se alçou de repente a +guerra? porque é que Troya se esbrazea em chammas? porque se gladiam os que +d'antes se abraçavam? porque se entorna o fel sobre esses louros, entretecidos +com tanto amor para coroar frontes que hoje se conspurcam? A carta do sr. +Castilho escripta a proposito do <i>Poema da Mocidade</i> foi a faúla caída +sobre o barril de polvora. A má vontade latente irrompeu furiosa; as labaredas +do incendio lamberam todos os diademas.</p> + +<blockquote> + —«Como farpadas linguas de serpentes» </blockquote> + +<p class="ni">para me servir de um bello verso do sr. Theophilo Braga. Começou +a lide, trocaram-se os primeiros tiros, assestaram-se as bombardas, o padre +Tejo levantou-se do seu leito resolvido a arrepellar as barbas do Mondego. Hoje +estamos em plena conflagração. De que procedeu, portanto, este alvoroto? De um +despeito pueril. A carta do sr. Castilho ferira de rosto o melindre de dois +mancebos; estes sairam a campo, e arremeçaram as suas frechas contra o poeta +dos <i>Ciumes do Bardo</i>. Havia desacato em proceder de tal modo,<span +class="pn">{6}</span> havia orgulho em suspeitar que quarenta annos de um lavor +litterario que a posteridade tem de aquilatar imparcialmente, podiam cair +esphacelados ante as injurias e os apodos. Em torno do poeta juntaram-se, +então, de momento, os que o tinham sempre applaudido e respeitado; os arraiaes +desfraldaram as suas bandeiras, os fundibularios entraram na faina +belligerante. O nome do sr. Castilho foi remechido e fariscado no folhetim e no +pamphleto; de uma e de outra banda o insulto gratuito e a frioleira chistosa +tomaram o posto de honra. Os que deveriam ter saido, e feito ouvir a sua voz, +em nome dos eternos principios de bom senso, quando os horisontes litterarios +haviam começado a ennevoar-se, esses tinham acolhido com o <i>Io triumphe</i> +nos labios, os que depois buscariam precipitar nas gemonias do despreso. Eu, +por mim, não sou coimbrão nem olysiponense, não recebo santo nem senha para vir +papear em raso; lamento os desvarios, e tremo pelo decahimento litterario. </p> + +<p>Estas disputações de nomes e de pessoas não decidem nem esclarecem. Podia o +sr. Castilho, como escriptor, valer tão pouco quanto nol-o affigura o auctor +das <i>Odes modernas</i>, que estas nem por isso subiriam nem mais um furo na +bitola da boa critica. A questão, por agora, não consiste em dissecar as obras +do sr. Castilho, em lhes fazer uma analyse rigorosa, em as submetter a uma +stricta chimica-litteraria, para averiguar as dózes de bem e de mal que ellas +encerram. A questão reduz-se em saber qual é o pensamento salutar, benefico, +grandioso, regenerador e depurativo que vae no lábaro d'estes campeadores +famosos; qual o seu mote, o seu ficto, a sua aurora. A questão é saber se o +ideal na arte significa apenas um revolutear de bugiarias teutonicas; se a +humanidade se ha de redemir sob as aspersões de Vico, ou se consta que a +<i>Sciencia nova</i> tenha preparado os melhores cidadãos da republica. A +questão é provar que a suavidade, a singelesa, a graça, o lyrismo no verso, +devem de ser immolados á duresa, á enfatuação e ao obscurecimento; que um +soluço é ridiculo ante o bravejar de um possesso; que as lagrimas de uma +creança não valem o phalerno das antisterias; que os anjos teem de cercear as +azas para se ensambenitarem de philosophos. Eis o ponto, eis o campo, eis o +assumpto em resumo.<span class="pn">{7}</span></p> + +<p>Queimae toda essa litteratura aprasivel e deliciosa por onde o coração +humano se tem espraiado em lautos seculos; fazei um auto-de-fé á vossa porta, +não á similhança do Cura de Cervantes, para desbaste de parvoiçadas e de +truanescas phantasmagorias, mas como o de Omar, para testemunho de horror ás +boas obras; aquentai-vos em volta d'essa fogueira immensa; e quando das maiores +glorias do espirito humano só restar o fumo e a cinza, levantae um altar a +todos esses innovadores do subjectivo e da transcendencia, e annunciae a +redempção dos povos.</p> + +<p>Deixemos a philosophia nos seus recessos de meditação; sigamos a arte nos +seus arrobes de enthusiasmo. Para que despir a musa dos seus veos fluctuantes e +imprensal-a n'uma garnacha ponderosa? Cumpre accender no coração a chamma dos +nobres affectos; cumpre levar ao espirito o fogo das aspiraçães remontadas. O +poeta é o sublime enviado do futuro, que vem preparar a geração de hoje para o +amanhan grandioso e prospero. Como se hade levantar e moralisar este ignorante +enorme que se chama a humanidade? o que entende ella das vossas philosophias? +de que lhe servem as vossas saraivadas-germanicas? Cantae-lhe o amor: +commovei-a até as lagrimas, impelli-a até o sacrificio.</p> + +<blockquote> + «Fais ce que tu voudras, qu'importe!<br> + Pourvu que le vrai soit content,<br> + Pourvu que l'alouette sorte<br> + Parfois de ta strophe en chantant;<br> + <br> + Pourvu qu'en ton poeme tremble<br> + L'azur réel des claires eaux,<br> + Pourvu que le brin d'herbe y semble<br> + Bon au nid des petits oiseaux!» </blockquote> + +<p>Ahi tendes compendiada n'estas duas quadras toda a arte poetica moderna. Não +duvidareis de certo da auctoridade do mestre, não o repellireis do vosso +gremio. Fazei o que vos aprouver, celebrae na estrophe o que vos agita, +eternisae no hymno o que vos inflamma, mas sêde humanos, naturaes, +intelligiveis; deixae que vos comprehendam, deixae que nos vossos cantos se +perceba uma nota d'esse murmurio inefavel, que principia no fremito da relva e +que termina na musica das espheras.<span class="pn">{8}</span></p> + +<p>Que novo systema de poesia tendes em mente estatuir? porque caminhos +desconhecidos quereis agora levar a arte? qual é a vossa colunma de fogo, é a +inspiração ou a <i>simbolica</i>? qual é o vosso modelo, Creuzer ou o Homem? +Sacrificae ao povo; descei das abstracções e pousae nas realidades.</p> + +<p>Tendes isso por deslustre? pensaes que a poesia desce a certas almas para +depois se erguer d'ellas em fragrancias inuteis? Nunca, nunca, nunca. +«<i>L'amphore qui refuse d'aller à la fontaine mérite la huée des +cruches.</i>»—O poeta é o anjo do bem posto ao serviço da humanidade. Eschylo +diz estas palavras: «—Desde todo o principio o poeta servio o homem. Orpheu +ensinou o horror do assassinio, Hesiodo a agricultura, o divino Homero o +heroismo, e eu, depois de Homero, cantei Patroclo, para que todo o cidadão +procure imitar os grandes homens.»—</p> + +<p>Affeiçoae ao nosso seculo esta maxima eterna, ensinae aos homens, não as +subtilezas que vos prendem, mas o amor que gera a familia e que alimenta a +liberdade.</p> + +<p>Ahi tendes a missão d'essa deosa de olhos azues e de tranças louras contra a +qual vos rebellaes acinte. Em quanto os vossos pensadores cavavam e alqueivavam +a grande leira da ontologia, e ao cabo de uma noute perdida em cogitações +mysteriosas deixavam cair a fronte calva e extenuada sobre os <i>in-folios</i> +obscuros; emquanto elles discutiam o incomprehensivel, e atacavam de frente o +desconhecido, á similhança do pagem da ballada que limpava a sombra de um +cavallo com a sombra de uma escova; em quanto bracejavam furiosos, procurando +rasgar as brumas que lhes encapotavam o espirito; ella, a deosa, a musa do +idyllio e da canção amorosa, do rompante bellico e da endeixa suave, ella, a +inspiração, o anjo, atravessava o mundo radiante e carinhosa, alentando o +fraco, abençoando o innocente, recebendo a prece da orphan para a elevar a Deos +entre canticos, amando, padecendo, trabalhando por todos,—fazendo romper o sol +da consolação e da esperança do seio do vasto mar das lagrimas humanas!</p> + +<p>Perguntae á Grecia antiga o que sabia ella da philosophia eleusiaca? +Socrates declarava não perceber Heraclito. Perguntae á propria Alemanha o que +julga ella de<span class="pn">{9}</span> Herder ou de Schelling; +responder-vos-ha pensativa, e como a Carlola de Werther:—«Klopstock!»—</p> + +<h1>III</h1> + +<p>Quererei eu dizer com isto que tenho a alta philosophia por inutil? Oxalá +que o não suspeitem. Creio nos transcendentes como poderia crêr nos +alchimistas. Estes perseguem o absoluto sobre a terra, procuram a pedra +philosophal e a panacêa universal, e encontram ao cabo d'esta navegação nas +sombras, o opio, o mercurio, o zinco e o antimonio. Porque não ha de a +philosophia, descobrir tambem verdades importantes, quando procura hallucinada +entrever os grandes segredos do abysmo?</p> + +<p>Não; o que eu quero só é que a arte se manifeste, isempta d'estas +preoccupações terriveis. A poesia é como a mocidade, alegre, enthusiastica, +expansiva, boa, amando a luz do céo e as flores da terra, brincando por entre +as ramas floridas, revendo-se nos lagos tranquillos, crendo, esperando, +pensando no alvorecer que ha de apontar talvez mais bello, nos botões das rosas +que hão de desabrochar perfumados, e balbuciando depois aquellas preces que lhe +ensinaram no berço entre sorrisos e affagos. A poesia enfatuada e superlativa é +a creança doutorona, que em vez de folgar discute, que se amezenda entre os +velhos, que lenta engrossar a voz aflautada, e que, se não usa cabelleira é só +com medo que o rapazio do bairro se lhe divirta com o rabicho. Deixemos +lucubrar os philosophos e cantar os poetas; não queiramos ensinar os rouxinoes +a psalmear o <i>de profundis</i>. Os que apparecem com a inspiração na fronte, +passam, levados pelo sopro divino, deixando cair sobre a terra os germens que +hão de fructificar mais tarde. Que lhes importa a elles toda essa algaravia de +vocabulos? o que entenderiam d'ella? Oh, que admiraveis prelecções de +cosmogonia deve fazer o monte Branco? como as estrellas hão de fallar de Kepler +e de Newton!</p> + +<p>E esta pobre da natureza, que ha não sei quantos mil<span +class="pn">{10}</span> annos se veste de primaveras, a julgar que é grande +cousa porque amadurece o trigo, porque enfolha as oliveiras, porque desdobra os +rios, porque inflamma a aurora, e porque ensina os passarinhos a chilrear na +copa das arvores. Tolla, tolla; que sabes tu das monadas? que pensas do atomo? +que idéa fórmas da synderese? E a transhumanação, e o symbolismo, e a ascese da +via purgativa, e o palavriado, e Kant, e Fichte, e as ostras de Hamburgo? Que +tens tu feito com os teus cantos? de que nos servem os teus perfumes? Vae longe +o tempo em que os Anteos da poesia procuravam no teu seio a força e a vida; +hoje, a nova escola, a que hade terraplenar e amanhar tudo, percorre o espaço, +não cingida de festões de rosa, mas involta em uma impenetravel neblina.</p> + +<p>Sejamos, todavia justos; a escola de Coimbra desce algumas vezes +insensivelmente da sua peanha transcendental, e põe-se ao livel dos assumptos +comesinhos. O seu melhor poeta, ou, para nos expressarmos com verdade, o seu +unico poeta, não deixou de banda a musa que lhe segredava estes versos:</p> + +<blockquote> + —Se a visses á janella<br> + Cuidando em seu bordado!<br> + Pudesses, como eu, vêl-a<br> + De traz do cortinado!<br> + ....................<br> + ....................<br> + ....................<br> + E se á janella, triste,<br> + Vem pôr sua gaiola,<br> + Se vem deitar alpiste<br> + No comedouro á rôla?<br> + <br> + Ai rôla, quem podesse<br> + Gozar os teus carinhos;<br> + Que a vida me parece<br> + Um thalamo de espinhos.»— </blockquote> + +<p>Nada mais infantil nem mais gracioso, nada mais simples nem mais bello. +Sente-se uma pessoa desafogar interiormente quando recita estes versos. Uma +creança que deita alpiste a uma avesinha querida enche de aroma um idyllio; +Jupiter franzindo o sobr'olho enche de magestade uma epopêa. Um gesto, um +sorriso colhido entre os labios, um volver<span class="pn">{11}</span> d'olhos +triste, a vermelhidão do pejo affogueando um semblante, eis a simplicidade e ao +mesmo tempo a poesia. Dante nunca subio tão alto como quando descreveu uma +leitura entre dois amantes. Onde foi elle buscar o segredo d'aquelles encantos, +a singeleza d'aquelles traços, a paixão d'aquellas fallas? Ensinou-lhos a +philosophia ou o seu coração ardente? vieram-lhe das profundezas da sciencia ou +de uma recordação de Beatriz?</p> + +<blockquote> + —«Noi leggevamo un giorno per diletto<br> + Di Lancilloto come amor lo strinse:<br> + Soli eravamo e senza alcun sospetto. </blockquote> + +<p>Quando chegardes áquelle tercetto assombroso de verdade e de candura, em que +depois do primeiro beijo elles fecham para sempre o livro,</p> + +<blockquote> + —«Quel giorno pui non vi leggemmo avante,»— </blockquote> + +<p class="ni">abjurae a metaphysica moderna, ou, se o não poderdes fazer, ide +então, novos Œdipos, decifrar o</p> + +<blockquote> + Raphel mai amech isabi alini </blockquote> + +<p class="ni">que o poeta põe na bocca de Nemrod! </p> + +<h1>IV</h1> + +<p>Deixemo-nos de distincções futeis, de demarcações impossiveis, de +banalidades pueris; em litteratura só pode haver uma escola—a da verdade. +Ninguem inventa, ninguem innova; todos exprimem, todos modelam, todos traduzem, +todos sublimam na forma. A humanidade é o solo immenso sobre que o poeta +levanta os seus monumentos. Todos elles são feitos do mesmo bronze, todos elles +transsudam as mesmas claridades. No frontal d'essas moles altissimas o +architecto grava o seu nome, imprime o seu cunho, chancella a sua obra, e +deixa-a ás gerações. O Pantheon é de marmore como a cathedral gothica; +n'aquelle ha, todavia, a simplicidade correcta, n'esta os enredamentos e as +laçarias caprichosas. De que differente especie são feitos esses +portentosos<span class="pn">{12}</span> edificios que se chamam o <i>Livro</i> +de <i>Job</i> e a <i>Illiada</i>? Não saem ambos da natureza? não respiram o +mesmo calor de affectos, não revelam o mesmo alevantamento de espirito? Em que +se distinguem? o que os estrema? o que os separa? Depois da <i>Illiada</i> não +surge a <i>Orestia</i>? depois de Job não apparece Shakespeare? O que divide +ainda estes d'aquelles? Helena é porventura uma innovação ou Clytemnestra um +improviso? Job carpindo-se no muladar é acaso uma licção ou Hamlet é apenas um +desvario?</p> + +<p>A originalidade na arte é a individualidade na forma. A poesia é tudo quanto +é verdadeiro, simples e harmonioso; o grande problema de hoje é a producção do +real no ideal, a pintura exacta da humanidade alcançada por meio do +engrandecimento do homem. Os verdadeiros poetas, os genios, não inventam. São +immensos, são multiplices, tem o azul do ceo e a escuridão da treva, o suspiro +e o bramido, a alegria e o desespero, as flores e as rochas, a vida e a morte. +Por isso V. Hugo os compara ao oceano. Quem inventa é Davenant, é Jeronymo +Vahia, é Chapelain, é o padre de Saint-Louis. Os genios são a verdade radiante; +os mediocres são o artificio abstruso. A <i>Magdaleneida</i> é mais original +que o <i>Othelo</i>; a heroina do reverendo carmelita excede no descommunal das +formas a trivial, a ramerraneira, a naturalissima verdade d'aquelle eterno typo +de Desdemona.</p> + +<p>Que significa, pois, o entono com que fallaes no ideal? O que entendeis por +esta palavra? O lyrismo apaixonado, o arrebatamento epico, a verdade +esplendida, o incitamento á virtude, o amor da gloria, o anjo saindo do homem, +o bem santificando o bello? Não! O que hoje se adora, o que hoje se divinisa, é +esse mesmo idolo eterno do fetichismo litterario—Vichnou de innumeras +encarnações, que em todos os seculos tem tido o seu cortejo de bonzos.</p> + +<p>«Ideal, ideal;—ouço eu bradar o coro dos levitas que vão levando em peso a +arca santa da moderna civilisação—ponham-se de banda esses arrulhos de pomba, +aquentem-se os fogões d'alem do Rheno com toda essa farraparia inutil que +principia no <i>Cantico dos Canticos</i> e que vem até as <i>Folhas +Cahidas</i>: sepulte-se no enxurro das frioleiras quanto<span +class="pn">{13}</span> respirar a perfume dos balsedos e a grata fresquidão da +relva luzente, começae pelo livro de Ruth e acabae no <i>Pastor fido</i>. Sêde +homens, sêde reformadores, a sociedade carece de sangue novo, o espirito lateja +nas ancias do absoluto. O nosso Deos não é o «pae que está no +ceo»—<i>pffu</i>!... o nosso Deos é o infinito. Svedenborg é o seu propheta. +Caminhae, progredi, solevantai-vos da terra, saccudi do calcanhar os limos +mundanos, quebrae o ergastulo, espedaçae o involucro que vos estringe,</p> + +<blockquote> + —«Atae as mãos ao vosso vão receio. </blockquote> + +<p class="ni">soltae o rumo, navegadores do abysmo! O amor é uma parvulez +ephemera, a saudade um fumo que nos enturva, o enthusiasmo uma sobrexcitação de +nescios. Hegel aperta as nadegas possantes para rir ás gargalhadas dos +colloquios de Paulo e Virginia.</p> + +<p>Derroca-se o mundo velho, desmoronam-se os poemas intelligiveis, +escalavra-se o vocabulario terreno, Quijote encancha-se nos largos hombros do +Sancho materialão e positivo, e accommete os Guaramantas adversarios. +Arraiam-se os horisontes com os primeiros albores do dia novo, <i>les diables +s'en vont</i>, isto é, desapparecem os cantores pedestres; a immensidade rebôa +ao galopar de ginetes que se approximam. Vencemos Alarico! Temperem-se os +alaudes, afinem-se os psalterios, e o canto dos bardos glorifique as nossas +façanhas!»</p> + +<p>—«Barbaros, barbaros!»—diz então uma voz que se chama a consciencia!</p> + +<h1>V</h1> + +<p>Finalisemos por agora. Traçando estas breves considerações sobre a actual +polemica litteraria não tive em mente aggredir nem este nem aquelle bando, mas +simplesmente dizer o que penso a respeito do assumpto que se debate, dando de +mão a incidentes. Não quiz, tampouco, assumir o papel de propugnador de A. F. +de Castilho; tenho para mim que defendel-o seria injurial-o, seria duvidar da +robustez<span class="pn">{14}</span> d'aquello talento. Elle bem sabe que ha +atheos na arte como os ha na religião;—homens que negam a divindade. Que se +lhes ha de fazer? punir-lhes a descrença com a tortura? nunca. O <i>crê</i> ou +<i>morre</i> é a razão suprema da tyrannia estupida. Quando alguem ousa +profanar o altar ante o qual deveria curvar-se respeitoso, cumpre admoestar o +pagão, e cathequisal-o em seguida.</p> + +<p>Quem são esses gigantes que ousam escalar o ceo, sotopando os montes, e +encumiando-se n'elles com a mais esbagaxada pantalonice? Resurgiram Efialto e +Briareu, ou os vulcões espirram no estrebuxar d'estes filhos da terra? Nada é +de certo. Os gigantes dormem, e os deoses permanecem. A serenidade magestosa é +o caracteristico d'estes ultimos. Applaudo a longanimidade do sr. Castilho; +mais lhe applaudiria ainda o silencio completo. Ninguem o maculou, ninguem o +ferio; passe a mão pelo rosto e verá que o sente incolume. As ballas +rojaram-lhe pelos pés, frias e inoffensivas. O arcabuz que as despedira não +tinha alcance para tão alto. Que ha novo n'estes accommettimentos audaciosos? +Estamos, principalmente, n'uma épocha de reacção; o fermento da philosophia +anda a levedar por todos os lados; a arte sente-se trabalhada pelas ancias de +um parto laborioso. Teremos um Deos ou um murganho? Volvamos os olhos para o +oriente, proclamemos a luz, combatamos a obscuridade; eis tudo. A escola de +Coimbra, (não façamos questão sobre este vocabulo <i>escola</i>), parece estar +convencida que o bello é o inextrincavel, que os genios devem fazer-se ouvir, +como os heroes de Ossian, atravez dos nevoeiros. Eu creio o inverso; o que ahi +fica dito é, portanto, a minha carta de crença litteraria. Lamento as +intelligencias que se trasmontam como as ovelhas que se trasmalham. Se eu fosse +pastor nas lettras tresnoutar-me-ía para as encarreirar. Que fazer alem d'isto? +como adoptar outros alvitres? Este tumulto que se levantou, e que por desgraça +tem tomado um corpo desmedido, só pode terminar pelo convencimento. Antes +d'isso a lucta ha de padecer do mal de todas as luctas. Quando as armas da +razão se quebrarem nas mãos dos combatentes, ficar-lhes-ha nos labios o +praguejar insultuoso. Não queiramos para nós este recurso.</p> + +<p>Dois ou tres mancebos em cujo espirito fez móça a rajada<span +class="pn">{15}</span> da philosophia, seguiram com ella, fazendo a sua derrota +em demanda de novos mundos. Advertil-os era tarefa de piloto experiente. Fel-o, +não sei se com asperesa, mas ao certo com verdade. Os modernos descobridores +sublevaram-se, e feriram o ceo com uma celeuma desatinada. Começou então a +contenda. Nas aguas que primeiro sulcaram alguns bergantins de pequena guinda, +navegam já hoje galeões alterosos. Que significa, todavia, esse pavilhão que +tem por mote = <i>dignidade</i> e <i>independencia</i> = que os sinaleiros do +infinito içam ao tope do arvoredo? Quem lhes disse a elles que se lhes quer +beliscar no fôro intimo de escriptores? quem lhes prégou a servidão como +evangelho do poeta? quem pensa em que as aguias tragam ao pescoço um trambolho, +como os cães por tempo de vindima? Ninguem, que eu saiba. O que se diz, o que +se affirma, o que se protesta é que as theorias ensarilhadas da Allemanha, que +vieram até nós fazendo escalla pela França, nem lá tem estorroado grandes +caminhos para o futuro, nem por cá farão milagre; é que o poeta não tem que +jurar a cada momento por Michelet, como os teutões por Hermann, nem deve +ensinar a derrubar a santidade das crenças para erguer n'esse throno devoluto +uma chimera de treslidos, um ideal avariado.</p> + +<p>O que se diz, o que se affirma, o que se protesta é que a arte, no alto +sentido d'esta palavra, só deve ter por fim dissipar o que é nuvem, lavar o que +é macula, levantar o que é rasteiro, arejar o que é fetido, allumiar o que é +sombra, robustecer o que é anemico, limpar dos cogumelos do atheismo risivel a +planta nascente que se apruma para o céo. Ninguem vos quer enfeudar, ninguem +attenta contra a vossa dignidade de homens de lettras. Pensaes edificar para os +seculos e trabalhaes para o esquecimento; julgaes fazer a luz e amontoaes as +trevas. A vossa obra é como o abysmo de Milton,</p> + +<blockquote> + —«<i>A dungeon horrible on all sides round,</i><br> + <i> —yet from those flames</i><br> + <i>No light, buth ralher darkness visible.</i>»— </blockquote> + +<p>D'esta appreciação, d'este modo de julgar a nova escola que tende a +implantar-se entre nós, tem resultado as vaias descompostas, e as censuras bem +cabidas. Despresar<span class="pn">{16}</span> aquellas é dever, aceitar estas +prova é de discernimento e de cordura. O afan com que a maior parte dos nossos +escriptores, (e alguns de primeira grandesa), anda involvida n'esta pugna, diz +bem alto aos pachorrentos que ella não é tão frivola como isso. A faisca póde +tornar-se incendio, como a raiz póde converter-se em floresta. Defendem-se as +immunidades da arte como se defendem as da patria; os sacerdotes do bello +vigiam pelo seu culto.</p> + +<p>Eu, sem ter vaidades tresloucadas, entendi que poderia vir tambem a publico, +não de mitra e báculo, para exorcismar os energumenos, mas como simples leigo, +que, se não destrinça ainda bem todos os mysterios do rito, tem, pelo menos, fé +viva na religião dos seus maiores.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 100%;"> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">CATALOGO CHRONOLOGICO</p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1em;">DOS OPUSCULOS PUBLICADOS ATÉ HOJE</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 0.9em;">SOBRE A ACTUAL</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.3em">QUESTÃO LITTERARIA</p> + +<div style="text-align:justify;font-size: 0.9em;"> +<p>1—<b>A. F. de Castilho</b>—Carta ao editor A. M. Pereira sobre o <i>Poema +da Mocidade</i>, impressa no fim do poema (Esta memoravel carta de critica +litteraria é que suscitou a famosa questão que se está debatendo) 1 vol. brox. +600</p> + +<p>2—<b>Anthero do Quental</b>—Bom senso e bom gosto, carta ao +ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, 3.ª edição, br. 100</p> + +<p>3—<b>M. Pinheiro Chagas</b>—Bom senso e bom gosto, folhetim a proposito da +carta que o sr. Anthero do Quental dirigiu ao sr. A. F. de Castilho br. 100</p> + +<p>4—<b>Manuel Roussado</b>—Bom senso e bom gosto, resposta á carta que o sr. +Anthero do Quental dirigiu ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, br. +100</p> + +<p>5—<b>Elmano da Cunha</b>—Carta em resposta a outra bom senso e bom gosto +dirigida por Anthero do Quental ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho o +incomparavel traductor dos Fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de +Romulo e Jesus-Christo, offerecida ao incomparavel duque de Saldanha, br. +100</p> + +<p>6—<b>Julio de Castilho</b>—O sr. Antonio Feliciano de Castilho e o sr. +Anthero do Quental, 2.ª edição, br. 160</p> + +<p>7—<b>Theophilo Braga</b>—As theocracias litterarias, br. 100</p> + +<p>8—<b>Anthero do Quental</b>—A dignidade das lettras e as litteraturas +officiaes, br. 160</p> + +<p>9—<b>Rui de Porto Carrero</b>—Lisboa, Coimbra e Porto e a questão +litteraria.—A carta do sr. Anthero do Quental ante os srs. Pinheiro Chagas, M. +Roussado e Julio de Castilho, 2.ª edição, br. 160</p> + +<p>10—<b>A. Ferreira de Freitas</b>—Os litteratos em Lisboa—poemeto +illustrado por Jeronymo da Silva Motta, bacharel nas faculdades de theologia e +direito, br. 240</p> + +<p>11—<b>Amaro Mendes Gaveta</b>—O mau senso e o mau gosto—Carta mui +respeitosa ao ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho em que se falla de todos e +de muitas pessoas mais, com uma conversação preambular por Gaveta Mendes Amaro, +br. 100</p> + +<p>12—<b>S. de A.</b>—Bom senso e bom gosto—Carta de boas festas a Manuel +Roussado, br. 100</p> + +<p>13—<b>J. D. Ramalho Ortigão</b>—Litteratura de hoje, br. 100</p> + +<p>14—<b>Camillo Castello Branco</b>—Vaidades irritadas e +irritantes—opusculo ácerca de uns que se dizem offendidos em sua liberdade de +consciencia litteraria, br. 200</p> + +<p>15—<b>Augusto Malheiro Dias</b>—Castilho e Quental—reflexões sobre a +actual questão litteraria, br. 100</p> + +<p>16—<b>Urbano Loureiro</b>—Questão de palheiro; Coimbrões e lisboetas, br. +100</p> + +<p>17—<b>Ermita do Chiado</b>—Garrett, Castilho, Herculano e a escola +coimbrã, ou dissertação ácerca da genealogia da moderna escola, contendo um +esboço rapido e pittoresco da litteratura contemporanea, br. 100</p> + +<p>18—<b>C. F.</b>—A litteratura ramalhuda a proposito dos srs. Castilho e +Ramalho Ortigao, br. 100</p> + +<p>19—<b>A. F. de Castilho e J. A. de Freitas e Oliveira</b>—A questão +litteraria—a proposito do jazigo de José Estevão, br. 60</p> + +<p>20—<b>José Francisco</b>—Os coimbrões; questão em que tambem entra pelos +cem réis, José Francisco, caiador da rainha do Congo; com uma dedicatoria por +Diogo Bernardes, br. 100</p> + +<p>21—<b>José Feliciano de Castilho</b>—A escola coimbrã.—Cartas ao redactor +do Correio Mercantil, do Rio de Janeiro (este folheto contem as tres primeiras +cartas; as seguintes formarão outro folheto que já está no prelo), br. 100</p> + +<p>22—<b>Eduardo A. Vidal</b>—Guelfos e gibelinos. Tentativa critica sobre a +actual polemica litteraria, br. 100</p> + +<p>23—<b>P. W. de Brito Aranha</b>—Bom senso e bom gosto. Humilde parecer com +uma carta do ex.<sup>mo</sup> sr. A. F. de Castilho, br. 100</p> + +<p>24—<b>Eduardo Salgado</b>—Litteratura de ámanhã, duas palavras ao sr. +Anthero do Quental, br. 100</p> + +<p>25—<b>Carlos Borges</b>—Penna e espada, duas palavras ácerca da +<i>Litteratura de hoje</i>, de Ramalho Ortigão br. 100</p> + +<p>26—<b>Anonymo</b>—Anthero do Quental, e Ramalho Ortigão, br. 100</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Guelfos e Gibelinos, by Eduardo Augusto Vidal + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GUELFOS E GIBELINOS *** + +***** This file should be named 32870-h.htm or 32870-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/7/32870/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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