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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:58:23 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Leituras Populares
+
+Author: Antero de Quental
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32871]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+ ANTHERO DE QUENTAL
+
+
+
+ ANTHERO DE QUENTAL
+
+
+ LEITURAS POPULARES
+
+
+
+
+ BARCELLOS
+ Typographia da _Aurora do Cavado_
+ Editor--_R. V._
+ 1896
+
+
+
+ Tiragem apenas de 100 exemplares:
+ 20 em papel de linho.
+ 80 em papel d'algodão.
+ N.º___
+
+
+
+
+Um dos periodicos academicos em que Anthero de Quental mais collaborou
+durante o seu curso universitario foi o quinzenario _Preludios
+Litterarios_, publicado em Coimbra desde dezembro de 1858 a janeiro de
+1861, tendo por fundador, director e redactor principal Vicente da
+Silveira. Para elles escreveram os mais talentosos d'entre os academicos
+d'então, contando-se n'este numero Augusto Filippe Simões, Adolpho
+Ferreira Loureiro, Antonio da Silva Gayo, Eduardo José Coelho, Antonio
+Lopes dos Santos Valente, Augusto Luciano Simões de Carvalho, Bernardino
+Pinheiro, Francisco Beirão, Guimarães Fonseca, Joaquim Simões Ferreira,
+o divino João de Deus, e ainda outros.
+
+De Anthero de Quental, entre outros trabalhos que n'elles inseriu,
+conta-se a serie de artigos que epigraphou _Leituras Populares_ e que
+sahiu em seu volume II e nos. 2, pag. 9 e 10: n.º 3, pag. 17 a 19; n.º
+4, pag. 25 e 26; n.º 6, pag. 41 e 42; n.º 8, pag. 57 e 58; n.º 15, pag.
+116; e n.º 20, pag. 153.
+
+Comprehendem-se n'esta serie a apreciação das _Bibliothecas Ruraes_, por
+Cormenin, o eminente publicista francez, que tanto illustrou seu nome
+como ainda o pseudonimo de _Timon_, com que firmou alguns de seus
+trabalhos; a exposição e apreciação dos _Estudos sobre a reforma em
+Portugal_ de J. F. Henriques Nogueira, incontestavelmente o primeiro de
+nossos publicistas em este paiz, cujos trabalhos estão reclamando
+instantemente uma edição completa e popular, que os torne conhecidos de
+todos e evangelho da democracia, que bem o merecem elles pela elevação e
+amplidão admiraveis de suas vistas e alcance; e a exposição e apreciação
+da _Felicidade pela agricultura_, a obra peregrina de Antonio
+Feliciano de Castilho, em que tudo é ouro de lei, desde sua linguagem, a
+mais portugueza e formosa, até seus ensinamentos os mais santos e justos
+e proveitosos.
+
+Coube agora a vez de virem esses inestimaveis estudos de Anthero á nossa
+modesta collecção de seus trabalhos dispersos, e não ficarão elles sendo
+uma das menos brilhantes paginas d'ella.
+
+
+ _Rodrigo Velloso_
+
+
+
+
+LEITURAS POPULARES
+
+ Derramai a instrucção sobre a cabeça do povo,
+ que bem lhe deveis esse baptismo.
+
+ _Alm. de França_
+
+
+I
+
+Bibliothecas ruraes
+
+Um dos grandes symptomas de regeneração e progresso moral do
+seculo, em que vivemos, é, sem duvida, o desvelado carinho com que,
+quasi por toda a parte, cuidam grandes e pequenos, com interesse ou
+desinteresseiramente no melhoramento e instrucção do povo--esse grande,
+inculto, e interessante engeitado--como d'elle diz um grande poeta. É
+que a grande voz da democracia quando fala, inspirada pela boca dos
+Kossuths e dos Mazzinis, falas de amor e de esperança, não sei de
+coração generoso aonde não tope um echo.
+
+
+II
+
+Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da
+tyrannia, comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a
+illustração pelo meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na
+França, na Italia, na Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada
+passo escholas para o pobre, e não é raro topar o trabalhador, pela hora
+da sésta, entretendo-se a folhear, lêr e entender livrinhos, que,
+apesar de mui comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de
+o iniciar no saber.
+
+É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não
+são os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e
+bayonetas: são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por
+elle velam, e cuja voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de
+proscripta e desterrada, brada tão alto, que a propria tyrannia, em que
+lhe pese, se vê forçada a se sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses
+representantes da opinião: parece que a providencia capricha em haver os
+tyrannos por instrumento da propria ruina; pois só a illustração, que dá
+ao homem a consciencia de seus direitos, póde derribar ruins governos e
+oppressores. Assim a instrucção progride e gradualmente estende a
+sua rede, anhelando abraçar todas as camadas da sociedade, ministrando á
+terra virgem, mas productivel semente de muita ideia, que se há de
+resolver em ainda muito mais obras de bem e só para o bem.
+
+
+III
+
+Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de
+Portugal; e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos
+remedios, ai de nós, por que um povo que possue a liberdade sem
+instrucção, que só o póde n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que
+se resolve, a custo poderá conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem
+abusar.
+
+Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar
+para grangear uma alma nova, para reconquistar a austera mãe dos
+povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos, reminiscencias
+odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é só a
+instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos
+irmãos, e conduzir-nos a bom fim.
+
+Qual é pois a causa da ignorancia--indigna do seculo--em que vegeta todo
+o nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario,
+é tambem a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos
+e liberdades, considerando-os, indifferente, como uma invenção do
+seculo, e desconhecendo que só elles são as garantias unicas e
+segurissimas da sua individualidade e progresso.
+
+A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e
+de elevado merito; nem mesmo na indifferença do povo portuguez, que
+sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez compenetrado
+por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um grande
+Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os
+elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um _a vontade dos que
+podem_.
+
+
+IV
+
+A carencia d'uma boa organisação de escholas, d'um bom regulamento
+litterario, e um ministerio--proprio de instrucção--o campo que se
+acanha a quem sabe, e só se alarga a quem tem e póde; eis as causas do
+menospreso e quasi aversão, que entre nós soffrem lettras e sciencias.
+Esta é a causa, e só causa de tantos males.
+
+Sei que é dura e fere o ouvido, e mais ainda o coração, esta
+verdade, comtudo é uma e tão amarga, que custa a confessar, parecendo
+melhor desculpa, a mingoa de livros bons e baratos.
+
+É fado que entre todos os povos cultos, sendo que as nossas bibliothecas
+gemem debaixo do peso de boas obras nacionaes, somos porém um dos que
+menos livros possuimos maneiros e de facil comprehensão. Abundam as
+nossas livrarias em pesados volumes, de ainda mais pesada erudição e
+elevado estylo: mas ao alcance do obreiro, do agricultor, do proprio
+camponez, volumes, que por seu tamanho, preço e clareza a elles se
+amoldem, que lhes mitiguem, por sua amenidade e instrucção, o rustico e
+affanoso lidar, a custo se depara com um ou outro.
+
+N'isso differimos da França, da Italia, da Allemanha, que os tem aos
+cardumes, emquanto que os nossos escriptores parece falarem-se mais
+entre si do que com o povo.
+
+
+V
+
+Com tudo, para quem tiver sêde de instrucção, para quem bem os procurar,
+ainda ha que se achem e que sirvam.
+
+As grandes, ideias, se vieram encontrar Portugal adormecido nos braços
+da ignorancia, ainda houveram almas nobres e intelligencias elevadas
+aonde fisessem echo; e a geração nova tem continuado, de testemunhar á
+Europa, que os elevados pensamentos da fraternidade não deram com
+corações esquivos em peitos portuguezes. Ainda ha quem trate com afan do
+que convem ao seu paiz e quem se não peje de dar testemunho, com
+palavras ou com escriptos, do seu pensar, crêr ou esperar.
+
+Nem temor deve haver de que esta, que em tão boa senda; porque a era é
+nova e a ideia virgem e longe o dia vem, em que tem de ceder o passo a
+outra maior e mais elevada.
+
+O dever de todos, quantos sômos, que pugnamos pelas liberdades e bem do
+povo, é seguir sempre a grande ideia, atravez de todos estorvos e
+revezes, com o peito ao vento, o rosto alto, os olhos só fitos no
+futuro. Abrir bem o coração a voz que vem de cima, e cerral-o á das
+paixões da terra.
+
+
+VI
+
+Dissera eu não serem elementos de felicidade que nos faltavam; mas
+só o querer dos que podem tirar d'elles materia de muito bem. Temos a
+ideia e temos os meios; tenhamos tambem a vontade, e para todo o mal se
+deparará remedio.
+
+Um pequeno alvitre quero eu lembrar que, com ser pequeno e de pouco
+custo, talvez não deixe de gerar bom fructo.
+
+Ideia d'um grande francez e grande amigo do povo, Mr. Cormenin, soube
+ella insinuar-se em o animo d'um governo illustrado, que a soube
+aproveitar, e d'ella já hoje em França vão brotando fructos de muito bem.
+
+Se o exemplo d'um povo tem algum peso no obrar dos outros, por que não
+applicaremos e experimentaremos entre nós a ideia do grande homem
+sendo que ella produz, como tem produzido, resultados tão elevadamente
+civilisadores?
+
+Tal experiencia quizera eu se realisasse em nossa terra, que certo estou
+de nos não deixar illudidos.
+
+
+VII
+
+A ideia refere-se maximamente aos habitadores dos campos, esses, mais
+que todos, engeitados da civilisação moderna.
+
+E comtudo é á sua illustração que de mais vontade nos deveremos
+applicar. A agricultura é a melhor e mais verdadeira mãe dos povos, e,
+como diz Castilho,--só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com
+desenganada preferencia, só esse é rico, rico sem fausto, mas sem
+receio de empobrecer--o trabalho da terra é a fonte de todos os outros
+trabalhos, e assim, não é justo que nós, que em ocio desfructamos o
+trabalho do camponez, lh'o suavisemos em troca--com algumas gottas do
+balsamo da instrucção?
+
+Além d'isso, se trabalhamos em proveito da sua illustração, é em
+proveito nosso que trabalhamos.
+
+O cultivador, que ler, conhecerá melhor o tempo, as estações, a
+qualidade do torrão, da semente, o que mais convém a este ou est'outro
+terreno, e que especie de grão deve lançar á terra. Com este progresso
+na agricultura o lavrador produzirá melhor, mais, e mais barato.
+
+Não será, pois, tambem em o nosso proveito?
+
+Ainda que não fossem elles homens, e, como taes, com igual direito a se
+illustrarem, bastaria a perspectiva do proprio lucro para nos fazer
+cuidar d'elles com affinco, pois que, curando d'elles, de nós curamos em
+realidade.
+
+
+VIII
+
+Entendera Cormenin que o rustico, por ser rustico, nem por isso devia
+ficar privado d'esse pão do espirito, que é a leitura.
+
+Partindo d'esta verdade, imaginou elle uma bibliotheca de 200 ou 300
+volumes de materia comezinha e de facil digestão para o povo: cada
+concelho possue uma d'estas bibliothecas dividida em tantas menores,
+quantas as aldeias e logares que em si conta, e em relação a ellas
+numeradas. Cada uma d'estas livrariasinhas é enviada pelo
+administrador do concelho ao parocho de cada aldeia, a fim d'elle
+distribuir gratuitamente os volumes a quem d'elles precisar e os pedir,
+assentando o nome de cada leitor n'um rol, e riscando-o á maneira, que
+se vier fazendo entrega dos volumes.
+
+Depois de seis mezes passados, todas as obras que compõem a
+livrariasinha se devem achar em casa do parocho, que a remette á aldeia
+que tem a Bibliotheca de numero immediato, recebendo em troca a que lá
+estava para o mesmo fim.
+
+Passado tempo, quando cada aldeia tenha tido por espaço de seis mezes
+cada uma das bibliothecas parciaes, isto é, todos os livros do concelho
+por partes e por varias vezes, far-se-há troca da bibliotheca toda com a
+do concelho seguinte, continuando sempre assim com o mesmo systema
+de leitura, de sorte que em poucos annos poucos livros terão, passando
+por milhares de mãos e através de milhares de intelligencias, feito o
+gyro do paiz, e levado a instrucção aos mais necessitados, sem que para
+isso se exijam grandes despezas.
+
+A este alvitre, tão simples como economico e proficuo, chamou
+Cormenin.--Systema das Bibliothecas Ruraes Ambulantes.
+
+
+IX
+
+A bondade de tal alvitre por si e claramente se deixa vêr. Realisar o
+desideratum da civilisação moderna--a instrucção do povo--em tão grande
+escala, tão bem, e por tal preço, cuido que outro algum o poderá fazer
+melhor.
+
+Nos primeiros annos poucos resultados bons se tirarão, porque ainda
+os habitadores dos nossos campos desconhecem as vantagens da
+leitura, mas, acostumados pelo uso, por assim dizer, aclimatados com o
+systema, e maximamente, vendo os fructos que hão-de colher os que leram,
+dentro em breve toda a população dos campos correrá em busca de livros e
+será com injustiça, que o soberbo habitante da cidade lhes poderá
+chamar--boçaes.
+
+
+X
+
+Na escolha dos livros é que se deve requerer toda a cautella, para que a
+instrucção não degenere em leituras prejudiciaes ou sem proveito.
+
+Deverá constar cada bibliothecasinha de pequenos volumes sobre sciencias
+naturaes, medecina domestica, livros de religião, de agricultura, de
+politica geral, de administração, historia, geographia e viagens;
+tudo isto escolhido por pessoa versada e idonea.
+
+Na nossa terra, nomeadamente, deve-se curar principalmente de os
+procurar ou traduzir em chã linguagem das estrangeiras, escolhendo entre
+todos os melhores e os mais uteis.
+
+Comtudo é não acobardar, que ainda se adiam livros bons e uteis, e os
+que não houverem podem bem supprir-se com versões dos melhores dos
+outros paizes mais adiantados que nós, n'este genero de litteratura
+popular.
+
+
+XI
+
+Alguns livros ha, assentei eu, que estão no caso de percorrerem a
+estrada de tal missão: originaes portuguezes uns; outros vertidos na
+nossa lingua das estrangeiras. E que muito importa essa differença? já
+disse alguem que o genio não tinha patria: um bom livro, que
+appareça hoje, já amanhã falará todas as linguas, e será lido com ardor
+por todos, quantos elles são, os povos cultos do globo.
+
+D'alguns livros sei eu, que satisfazem as exigencias: poucos em verdade
+são elles, mas bons, mas bonissimos: quasi todos conhecidos e animados
+do publico; alguns não tanto; a todos o nome do auctor lhes é caução.
+Folgo de ter falado n'elles um pouco de longo, porque tão bons são, que
+lhes desejára ainda mais carinhos, mais diffusão por entre o povo. Com
+elles quizera eu se começasse a obra civilisadora das--Bibliothecas Ruraes.
+
+
+XII
+
+Aquelle, que primeiro convém que o povo leia e releia, e por elle seja
+mui manuseado, mui meditado, tem em si a propria recommendação: vem
+assignado por nome portuguez e dos maiores. D'elle disse
+Castilho--aquelle que em alguns paragraphos pretender julgar uma obra
+tão cheia, tão variada, tão germinal toda ella, como é este livro,
+provaria, ou que não a lera, ou que não era digno de a ler. Nós a lemos,
+a relemos, temol-a ainda aberta, e aberta a deixaremos sobre a meza para
+nossas meditações.
+
+Seu titulo é:
+
+
+
+
+Estudos sobre a reforma em Portugal
+
+POR
+
+_J. F. Henriques Nogueira_
+
+ Não é um livro; é uma obra.
+ G. Planche.
+
+
+I
+
+O livro cujo valor apregoamos, e ao qual outorgamos um primeiro
+e eminente logar na nossa ora ideal--mas tão realisavel
+bibliothecasinha popular,--é digno de tal occupar, sendo que entre todos
+é elle o mais util e accommodado á intelligencia do nosso povo--ainda
+mal--tão inculto, tão por mondar de cardos e ruins ervas, e, o que peor
+é, com tão pouca esperança de proximo e util cultivo.
+
+O auctor do livro, como bom philosopho, cura menos do que é, ou póde
+ser, do que indaga o que em sã razão devera existir: e ao tempo que, em
+succinto mas substancial quadro, alevanta o rude trabalhador ao nivel de
+seus direitos, não se mostra remisso no estudo dos deveres que se lhe
+oppõem; accrescendo ainda um catechismo acabado dos meios de realisação
+d'uns e de satisfação dos outros. Ajuntai ainda uma expressão clara, por
+correcta; uma viveza toda meridional de imagens; um finissimo tacto ou,
+por assim dizer, um como faro mui mimoso no descobrimento dos males
+sob que geme a sociedade, e a mão segura em alvitrar meios de prompto
+remedio; e em limitadas phrases havereis o livro.
+
+
+II
+
+Diz modestissimamente o auctor, que o livro não é mais do que a selecção
+de pequeninos estudos ácerca d'esta ou d'est'outra reforma. Sobremodo
+maior é o seu merecimento, e em conta de maior obra o tenho eu. É um
+systema de organisação social completo e cheio; resumo, conciso sim, mas
+germinal das reformas, que ha mister um povo e uma sociedade já gastos.
+Dai-me população e territorio, que meios de organisar um governo no
+livro os acho eu todos; mas governo racional, philosophico sem que seja
+irreligioso (e é este o dizer verdadeiro da palavra); governo,
+finalmente como o deve ser um no seculo dezenove.
+
+Se desejaes um testemunho do seu bem querer, lêde com que tocante
+singeleza resume elle, em poucas palavras, o seu credo politico e
+social, onde, a par do grande reformador, deparareis com o poeta e com o
+cidadão honesto, e amante da sua patria.
+
+
+III
+
+Eis os termos em que se expressa:
+
+--Quizera que, n'um paiz como o nosso emancipado por cruentos esforços
+da tutela humiliante, egoista e sanguinaria da monarchia absoluta,
+cansado do regimen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarchia
+constitucional, necessitado de restaurar as forças perdidas em luctas
+estereis e de cicatrizar feridas, que ainda gotejam, ávido, emfim, de
+gozar as doçuras da liberdade, por que tanto ha soffrido; quizera
+que o governo do estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma
+nobre, philosophica e prestigiosa de--Republica.
+
+--Quizera que o poder supremo, emanado do voto universal, residisse na
+assembleia dos representantes do povo e que o poder executivo fosse
+confiado a um ministerio de tres membros, nomeados pela assembleia.
+
+--Quizera que a administração da justiça corresse imparcial, rapida e
+gratuita; que os serviços feitos ao paiz tivessem uma recompensa
+condigna; que os crimes achassem correcção em vez de vingança, e que a
+pena de morte, vestigio maximo da barbaridade, fosse abolida.
+
+--Quizera que a guarda nacional, milicia gratuita, que não obriga o
+cidadão a abandonar as suas ocupações, constituisse o grosso da
+força armada; e que o exercito subsidiario se reduzisse unicamente aos
+corpos scientificos.
+
+--Quizera que a despeza publica fosse inferior á receita; que se
+proscrevesse o ruinoso systema das dividas; e que a applicação dos
+rendimentos do Estado fosse inteiramente productiva, illustrada e
+philantropica.
+
+--Quizera que a rede tributaria, que ameaça de estancar o paiz, ficasse
+reduzida a um só imposto progressivo sobre a renda, cobrado sem despeza
+e realisado sem agio.
+
+--Quizera que os capitaes, pela barateza do juro, auxiliassem a
+producção, em logar de absorverem a maior e melhor parte de seus lucros.
+
+--Quizera que o direito á subsistencia pelo trabalho tivesse nas
+officinas, colonias e obras publicas, uma util garantia; que o trabalho
+das mulheres ganhasse uma area mais vasta, e que fosse melhor
+retribuido.
+
+--Quizera que a Agricultura, a Industria fabril e o Commercio recebessem
+do estado uma desvelada protecção, como fontes principaes da riqueza.
+
+--Quizera que as estradas, os canaes, as barras, e em geral, todos os
+meios de viação merecessem a preferencia no extenso capitulo das nossas
+necessidades.
+
+--Quizera que a communicação do pensamento não achasse obstaculos; e que
+o correio fosse inteiramente gratuito, tanto para as cartas como para os
+escriptos periodicos.
+
+--Quizera que os orphãos, os doentes e os invalidos, que dependem da
+caridade publica, encontrassem nas casas de mesericordia lenitivo para
+os seus males; e que se franqueassem a todos os operarios as
+instituições economicas e preventivas da miseria.
+
+--Quizera que os cuidados exercidos sobre a saude publica conseguissem
+minorar e extinguir, se tanto fosse possivel, as causas de infecção, que
+vão minando gradualmente a robustez das gerações.
+
+--Quizera que o derramamento da instrucção chegasse ás ultimas camadas
+sociaes; que a imprensa publica se tornasse um instrumento de progresso;
+e que o estado protegesse o talento abandonado, que a falta de cultura
+não deixa medrar.
+
+--Quizera que a religião de nossos paes não servisse de escudo a
+interesses egoistas e mundanos, mas que acompanhasse o progresso da
+humanidade; que os bispos fossem, como n'outros tempos, eleitos pelo
+povo; e que os parochos se elevassem á altura de mestres e de
+moralisadores.
+
+--Quizera que os interesses da localidade fossem attendidos primeiro
+do que tudo; que o territorio se dividisse para todos os effeitos em
+grandes e bem regidos municipios; e que as aldeias tivessem os
+melhoramentos indispensaveis ao bem commum dos moradores.
+
+--Quizera que a associação, origem de maravilhas, se estendesse a todas
+as classes da sociedade e principalmente áquellas que vivem do seu salario.
+
+--Quizera que a familia, instituição primitiva e santa, não apresentasse
+o quadro odioso dos direitos de primogenitura, que dão a uns filhos a
+regalia de senhores, em quanto conservam outros na humiliação de servos.
+
+--Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se
+estendesse ao maior numero de individuos; e que para completar a
+liberdade da terra se permitisse a remissão de todos os encargos que a
+oneram.
+
+--Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas
+conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na--Federação--com os
+outros povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira
+independencia que lhe faltam na sua tão escarnecida nacionalidade...
+
+.........................................................................
+
+Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande
+philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario?
+
+
+IV
+
+Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á
+maneira que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas,
+não póde, precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um
+de seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente consoladores de
+esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.
+
+A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas
+vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade,
+a anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no
+coração dos bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais
+christãos.
+
+Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a
+dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de
+poeta; mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade.
+Muitos dirão com o poeta:
+
+ Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.
+
+Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que,
+verdade é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.
+
+Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é:
+quem acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda
+sereno e firme na sua fé, tem uma nobre missão:--a de abrir e
+esclarecer, sentinella do porvir, a estrada da nova era; que outros,
+vagarosos, de prudentes, só mais tarde pisarão.
+
+Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás
+regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha
+face de verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este
+caminhar providencial.
+
+Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho
+que diz a tudo quanto soffre cá na terra:
+
+--Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:--Soffre, que para o teu
+mal não ha salvação nem lenitivo!
+
+
+
+
+FELICIDADE PELA AGRICULTURA
+
+POR
+
+Antonio Feliciano de Castillo
+
+ Da terra saímos; á terra volvemos:
+ A terra nos veste, nos traz, nos mantem.
+ Quem mais do que a terra merece os extremos,
+ Que obtem dos bons filhos a próvida mãe?
+
+ A. F. de Castilho
+
+
+I
+
+Eis agora aqui um livro, que, em meio da geral fermentação de
+tumultuosas paixões e ambições immoderadas que agitam as nossas
+modernas sociedades; em meio d'este lamentavel estado de geral
+descontentamento e desgosto de que todos mais ou menos somos victimas;
+quando, segundo judiciosamente observa Aimé Martin, o artista descrê da
+arte, o padre de Deus, o mancebo do futuro, e até a mulher do amor, e
+nem um só tem o menor vislumbre de esperança na felicidade com que ainda
+póde topar no estado que lhe deparou a providencia; eis agora--digo
+eu--um livro que, em meio de tudo isto, nos promette essa almejada
+felicidade, que nos aponta o como a poderemos alcançar, que o prova--e o
+que mais é--não fala em referencia aos grandes, aos poderosos, aos que
+por si tem todos os dons da fortuna, mas ao pobre, ao desvalido, ao que
+chora e soffre em meio das trevas da ignorancia, da miseria, quasi,
+direi, da servidão.
+
+É mister ser-se um grande poeta--poeta de muito crêr e muito
+esperar,--para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas
+populações miseraveis dos nossos campos--orphãs da moderna
+civilisação--palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os
+queixumes, conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda
+crente, mais crente talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e
+felicidade para esses que por cruel ironia só lhes respondem com
+lagrimas e gemidos.
+
+
+II
+
+É que o poeta recebeu de Deus o condão mago de ler na noite de arredado
+futuro; de vêr luz e muita luz aonde outros só vêem trevas; flores de
+amor e de vida, aonde para muitos só brotam os goivos do sepulchro.
+
+Esse lê bem, que assim lê em lettras de ouro paginas de esperança e
+felicidade no grande livro dos destinos da humanidade.
+
+Crê e espera--mas não lhe vem só do coração--de seu condão de
+poeta--essa crença e essa esperança.--Estudou, pensou, viu muito pelos
+olhos de sua intelligencia, e n'este estudo firmou elle em grande parte
+essa crença, que lhe dá a força de prometter ainda felicidade e muita
+felicidade para os campos, para os habitadores dos campos e para todos
+por via d'elles.
+
+«Aconselhar a agricultura ao povo, diz o auctor, é aconselhar-lhe a
+propria felicidade».
+
+Veremos se o alvitre é tão bom como se apregoa, se não cegou o poeta a
+propria inspiração.
+
+
+III
+
+Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de
+fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como
+iniciação nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos
+conquistando, de tal arte nos cegou a novidade da conquista, tão
+afanosos nos mostramos no empenho de a bem guardar, que de todo nos
+esquecemos de que não é ella o fim unico (como se já suppoz) dos humanos
+destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros progressos; um
+primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma mera
+iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos
+arraiaes do futuro.
+
+Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que
+assim nos traz presa a vista e a alma, sem nos lembrarmos, que em
+volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos, outras e muito
+formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam fructo, á
+mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que--a haver boa vontade--se lhes
+poderia dar vida ás raizes sequiosas.
+
+A agricultura, com ser a mais esperançosa para bom fructo, de todas
+essas flôres, que vão murchando no pó ao minguar-lhes o alimento, é por
+ventura de todas ellas a que mais soffre, e a quem mais se recusa esse
+alento e essa protecção, de que por tantos titulos nos é credora.
+
+
+IV
+
+Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes
+homens da maior nação se não envergonhavam de serem encontrados, em
+meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro, que
+tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais
+altos cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a
+toga da dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e
+felizes em voltarem cobertos de louros para o trabalho de seus campos,
+que em meio haviam deixado!
+
+Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos
+não cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos
+sorrir, de nos convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas
+verduras, com todos os seus matizes de mil flores.
+
+Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou
+e a todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias
+de tribulação, lá a temos sempre, que nos estende os braços com
+affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até que
+por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o
+ser, e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só
+a ella, que toda essa grandeza se deve attribuir!...
+
+
+V
+
+Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho,
+se póde conceber tal desprezo e tal ingratidão.
+
+A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais
+carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de
+desprezivel.
+
+Tão velha como o homem, como as suas primeiras necessidades, é-lhe a
+sua antiguidade segura garantia de excellencia e de nobreza; desprezivel
+ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as sciencias a
+veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará
+maiores serviços.
+
+As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças,
+grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio
+destruidor das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo
+ao outro os productos de todos os climas: todas essas maravilhas de
+grandeza e intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto
+por lá se creou; tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de
+atribulação e de angustia, lembrar-se com saudade da humilde mas
+pacifica choça, d'onde primeiro desabrochara á luz do sol; tudo isto ha
+de deixar de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por
+fim, que elles hão de continuar ainda, por muito tempo, depois do homem
+talvez, a vecejar, a florir, a fructificar, sempre bellos e sempre
+risonhos, agora e depois, como no primeiro dia da creação!
+
+
+VI
+
+A industria e o commercio, os dois mais poderosos e mais incansaveis
+agentes e creadores da riqueza das nações, lá tem nos campos alicerce,
+lá foram buscar á agricultura todas as forças com que operam, todas as
+galas de que se revestem.
+
+O ferro, com que o homem fabricou novos orgãos, para ajudar os que a
+natureza lhe déra; o carvão, com o auxilio do qual centuplica as suas
+forças; lá lh'os tinha a terra guardados no seu seio, como mãe
+carinhosa: o linho, de que fabrica os vestidos que o revestem, tambem já
+lourejou pela encosta de suas collinas: o madeiro, que recurvado sulca
+as ondas em busca de novos mundos, tambem orgulhoso e gigante se ergueu
+outr'ora no meio de suas florestas: o grão, que o nutre; o fructo, que o
+delicia; o vinho, que lhe dá mais vida e alegria; tudo isto tambem por
+lá cresceu e medrou, tudo isto de lá saiu.
+
+A sciencia, a mais nobre de todas as sciencias de Deus, porque é a
+sciencia do infinito--a astronomia--tambem lá vae nos campos buscar a
+sua origem: lá nasceu entre humildes pastores, lá se desenvolveu, até
+que o homem das cidades, orgulhoso já de sua grandeza, a veio usurpar
+aos que primeiro a descobriram, para, no remanso do gabinete, ou no
+terraço do observatorio lhe dar ainda maior desenvolvimento.
+
+A geometria--por ventura mãe da astronomia, tambem nos campos tem seu
+berço.
+
+Todas as artes lá vão buscar as materias com que operam, muitas tambem
+as suas melhores inspirações.
+
+
+VII
+
+Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas
+ao paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem
+para o mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem
+rude e aspera a agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios.
+
+Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com
+entranhavel amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber
+dar afagos e carinhos, para esse, similhante á cidra fabulosa, tem
+ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e
+belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe
+procreadora de prodigios sem conta.
+
+Qual há, porem, vara magica de fada, que--trocando-a--a chame á vida, a
+faça abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas
+essas flôres de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que
+sem estranho auxilio não podem desabrochar nem medrar?
+
+Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago
+condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra
+de Portugal.
+
+
+VIII
+
+É a associação mãe de taes prodigios, de tantos beneficios, fonte
+perenne e inesgotavel, que apregoar-lhe valor e necessidade, além de
+desnecessario, fôra loucura quasi rematada.
+
+Com effeito, hoje, á luz do seculo XIX, quando é orgulho e timbre de
+toda a sciencia o prescrutar bem fundo a alma, a intelligencia e o corpo
+humano, procurando ahi todas as leis da sua natureza, para n'ellas--e só
+n'ellas--se estribarem theorias e instituições, hoje desatino seria
+buscar ainda provas para aquillo, que d'ellas menos carece, sendo que a
+sociabilidade é, de todas as leis naturaes, aquella que mais
+exuberantemente demonstram as theorias da sciencia, e a mais que todas
+inexoravel e severa logica dos factos.
+
+A muitas d'estas leis póde desobedecer o homem, contra outras se póde
+totalmente revoltar, mas contra esta, por sem duvida o tenho, seria tal
+attentado, que assento jámais poderá realisar-se.
+
+Subtrahi os homens--um só momento que seja--ao seu influxo benefico, e
+para logo os vereis amesquinhar-se, quando não desapparecer da face da
+terra.
+
+Condição primaria de sua existencia e progresso, ha de com elle mais e
+mais desenvolver-se, que não há ahi decreto de rei da terra--fôra elle
+Cesar ou Napoleão--que ouse derogar o decreto do Eterno!...
+
+
+IX
+
+É pois a associação o cumprimento d'uma lei natural.
+
+Na progressiva evolução d'essa lei e a par d'ella, vejo eu caminhar a
+humanidade; desinvolver-se, se se ella cumpre; estacar, se pára;
+definhar, se esmorece; seguindo-a sempre e resentindo-se de suas
+menores alterações.
+
+E é de razão, porque, a ser o fim do homem na terra o desenvolvimento de
+suas faculdades, que outra há mais nobre e importante; que mais influa
+nos seus destinos que esta lei da sociabilidade?
+
+Por ella se póde aferir o grau de civilisação d'este ou d'est'outro povo
+porque ahi onde mais o homem se estreitar com o homem, aonde mais de um
+irmão ajudar o outro irmão, ahi tambem mais o espirito tenderá a
+elevar-se--e de feito se há-de elevar--elevação que toda se desata em
+muita sciencia, muito bem e muita ventura.
+
+Reconhecidos estes principios, reconhecidos--quasi
+direi--demasiadamente, houve quem d'elles se possuisse a ponto de
+n'elles querer buscar todo um systema de organisacão social.
+
+Desvairou-os o amor d'um principio, o conhecimento d'uma lei natural,
+por ventura a ignorancia de muitas outras; e, encarando o homem por lado
+restricto, quizeram o desenvolvimento d'uma faculdade á custa das outras
+todas.
+
+Não quer isto porém a harmonia, essa outra lei de Deus, que tem de
+presidir--como revelando-a--a toda a creação.
+
+É mister que a todas as faculdades seja dado um maximo desenvolvimento;
+mas é mister tambem que cada uma, ao alargar a sua esphera, não vá
+calcar outras, a quem egual direito assiste...
+
+
+X
+
+Por que é lei da natureza humana a liberdade, porque deve o homem
+responder por suas acções, não quer a boa justiça, não quer a boa rasão,
+que á força--que não com a arma da persuação--se lhe imponha o
+cumprimento d'uma obrigação qualquer, fôra ella tão santa, tão
+prescripta por Deus, tão filha da natureza do mesmo homem como esta da
+sociabilidade.
+
+Assim, é com a liberdade e só pela liberdade, que tem de effectuar-se
+este grande pensamento da associação, este grande abraço que obedecendo
+ás leis do proprio ser, tem de--no futuro--dar homens e povos,
+estreitando cada vez mais os laços que os unem, e centuplicando forças,
+sympathias e vida.
+
+Problema longo tempo agitado, dá-lhe hoje a sciencia cabal resolução.
+Desde que esta, despresando theorias incertas e imaginosas, foi buscar
+como base de seu estudo, para ahi fazer alicerce seguro, aos principios
+que tinha de formular, a natureza do ser, a quem todos tinham de ser
+applicados; desde essa occasião ganha estava a causa da liberdade.
+
+Podem offerecer-se-lhe mil estorvos, levantar-se contra ella as maiores
+tormentas, que ella, atravez de tudo, lá ha-de ir sempre seguindo seu
+caminho, ganhando o terreno palmo a palmo sobre os seus adversarios, e
+libertando o homem cada vez mais do jugo da miseria, da escravidão e do
+embrutecimento.
+
+
+XI
+
+Associação e Liberdade: são estas as duas ideias salvadoras--e só
+ellas--que, uma pela outra completando-se, podem levar a bom fim as
+nossas modernas sociedades.
+
+Associação livre--eis o que em nome da sciencia podemos affoutos
+responder a esses nobres, mas desvairados, sonhadores de utopias,
+que na fé de uma imaginosa organisação social, toda artificio humano,
+que não segundo as leis do natural organismo, e em nome das santas
+esperanças e fraternaes aspirações, que em abundancia lhes enchem as
+almas generosas, nos promettem, há meio seculo, o progresso da perfeita
+felicidade--porventura mais do que ao homem é dado esperar na terra.
+
+
+XII
+
+A sciencia toma o facto, especula-lhe a essencia e natureza, observa-lhe
+as relações, e de tudo deduz as leis que lhe presidem. Póde
+desempedidamente apresental-as á luz do dia, e para o futuro concluir
+affoutamente do passado; póde e deve-o, que outra não é sua missão.
+
+Mas o que muita vez o frio calculo e analyse reflectida deixam por
+mesquinho ou vulgar, sem d'ahi tirarem materia para considerações,
+toma-o para si o coração sensivel do poeta; pela imaginação o nobilita e
+engrandece, na mente lhe fórma a robusta estatura; até que apparece em
+fim gigante de crescidas forças, esse que ainda há pouco, de mesquinho e
+pigmeu, nem sequer attrahia as vistas do investigador curioso.
+
+É assim que a imaginação e a analyse, a sciencia e a inspiração, uma
+pela outra se completam, trabalhando cada qual na esphera que por
+natureza lhe compete, e para fim commum--a _Verdade_, concorrendo uma e
+outra na medida de suas forças e aptidões.
+
+São (ou antes deverem ser) duas irmãs queridas e extremosas, em obra
+commum, empregando desvellos e cuidados; nunca, como até hoje, rivaes,
+que por um mesmo amor, e em nome da mesma causa, se detestam e
+guerreiam.
+
+
+XIII
+
+É d'estes dous elementos--sciencia e inspiração--que brotam as nobres
+ideias e grandes verdades, que por vezes têm mudado a face de uma
+civilisação, quando, em vez de uma á outra se mostrarem hostis para fim
+commum se têm dado mãos amigas.
+
+Nas porfiosas luctas politicas do seculo, em que--mais ou menos--todos
+temos sido actores ou espectadores, se encontra clara prova e exemplo
+manifesto da proposição que aventamos.
+
+Por longo tempo trabalharam em bandos oppostos e á sombra de vario
+pendão os modernos representantes d'esses bons principios, uns e outros
+promettendo-nos felicidade, mas cada qual em nome de mui diferente
+divindade; até que, passados que foram os tempos de mais escandecida
+lucta e acalorada discussão, a mesma força da verdade os trouxe a si; e
+a commum e amigavel união lhes soube chamar os animos discordes.
+
+Ambos em parte transviados, a ambos comtudo assistiam tambem em parte
+principios de verdade. Inimigos, seriam sempre viajantes perdidos em
+densas trevas, cada vez a se affastarem mais das veredas trilhadas;
+reconciliados, um ao outro se guiam e ajudam, com as luzes e forças
+proprias, em nome d'uma longa amizade no futuro, postas em commum.
+
+E de feito, não é hoje que, no meio d'essa pleiade illustre de generosos
+espiritos, que anhelando anciosos por um melhor futuro, trabalham
+afanosos para alivio e engrandecimento dos que choram; não é hoje
+que entre elles se encontrarão rivalidades d'eschola, mas indignas
+d'homens, ao bem dos homens votados.
+
+São hoje irmãos. Os erros de cada qual, ao despirem-se dos velhos
+rancores, sacrificaram-nos no altar da nova alliança; e d'entre as
+cinzas impuras, que o vento dispersa ao longe, sahiu--nova Phenix--a
+flôr immarcessivel da verdade eterna.
+
+
+XIV
+
+Associação e Liberdade dissera eu serem essas duas ideias aonde se
+depara mais verdade e que, ambas fundidas em factos, podem dar fructo
+mais sasonado e proveitoso; o leito por onde placida póde correr,
+demandando seu termo, a torrente--ora revolta e turbada por mil
+encontrados elementos que ahi se revolvem e guerreiam--da vida das
+modernas sociedades.
+
+E como não seria assim, se ramos frondosos de arvore, que no coração do
+homem tem fundas as raizes--a propria natureza, têm por fim,
+entrelaçando-se estreitamente e em mutuo amplexo apertando-se,
+ampararem-se e defenderem-se uns a outos, porque assim reciprocamente se
+protejam no crescer e no fructificar? Se são ara sacro-santa aonde os
+animos discordes em busca da verdade--mas que d'alma a buscam, tem de
+vir pactuar a alliança, queimando ahi, em holocausto incruento, o fel de
+paixões ruins e desamoraveis ¿como poderão ellas, por estranho desapego
+e ingratidão mentir ao que, em nome de futuro melhor, nos promettem, e a
+que, na fé d'esse almejado futuro prestamos crença e esperança
+illimitadas?
+
+Não podem. Quanto á intelligencia e coração do homem se revela uma
+verdade, tam rica de evidencia, tam promettedora de consolações, não
+póde «_Aquelle_» que ao espirito a revelara deixal-a sem que pela
+revelação dos factos receba confirmação e com ella foros de inconfutavel.
+
+Uma ideia assim nunca mente.
+
+
+XV
+
+Descendo das subidas regiões da abstracção ao campo mais arido e
+abrolhoso--mas porventura mais util, das realidades, da theoria aos
+factos; o livro, cujo bom espirito por todos quiseramos diffundido, como
+vaso de balsamo suave, que a todos vae ungindo e perfumando, apontando
+alvitres, que d'estes bons principios descendem testemunhando não
+escasso cabedal de saber,--testifica tambem aquilatado amor pela
+sciencia e pelos homens; que em muito conta o amor e o enthusiasmo
+para o descobrimento da verdade.
+
+De tantos e tão bons alvidramentos, quantos o livro encerra, um há que,
+como base de systema, os resume em si, d'onde todos descendem, ponto
+culminante, centro em volta do qual, satelites a lhe reflectirem o
+brilho, volteiam todos os outros, compartilhando com elle a verdade e
+prestimo com que é dotado.
+
+É este o projecto das «Associações Agricolas».
+
+
+Fim
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES ***
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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@@ -0,0 +1,1414 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
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+ <title>Leituras Populares, por Anthero de Quental</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Leituras Populares
+
+Author: Antero de Quental
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32871]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
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+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 2em;">ANTHERO DE QUENTAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.5em;">ANTHERO DE QUENTAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">LEITURAS POPULARES</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>BARCELLOS <br>
+<small>Typographia da <i>Aurora do Cavado</i></small> <br>
+Editor&mdash;<i>R. V.</i> <br>
+1896</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="margin: 10%;text-align:center;">
+<p>Tiragem apenas de 100 exemplares:</p>
+
+<p>20 em papel de linho.</p>
+
+<p>80 em papel d'algodão.</p>
+
+<p>N.º___</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p>Um dos periodicos academicos em que Anthero de Quental mais collaborou
+durante o seu curso universitario foi o quinzenario <i>Preludios
+Litterarios</i>, publicado em Coimbra desde dezembro de 1858 a janeiro de 1861,
+tendo por fundador, director e redactor principal Vicente da Silveira. Para
+elles escreveram os mais talentosos d'entre os academicos d'então,
+contando-se<span class="pn">{6}</span> n'este numero Augusto Filippe Simões,
+Adolpho Ferreira Loureiro, Antonio da Silva Gayo, Eduardo José Coelho, Antonio
+Lopes dos Santos Valente, Augusto Luciano Simões de Carvalho, Bernardino
+Pinheiro, Francisco Beirão, Guimarães Fonseca, Joaquim Simões Ferreira, o
+divino João de Deus, e ainda outros.</p>
+
+<p>De Anthero de Quental, entre outros trabalhos que n'elles inseriu, conta-se
+a serie de artigos que epigraphou <i>Leituras Populares</i> e que sahiu em seu
+volume II e n.<sup>os</sup> 2, pag. 9 e 10: n.º 3, pag. 17 a 19; n.º 4, pag. 25
+e 26; n.º 6, pag. 41 e 42; n.º 8, pag. 57 e 58; n.º 15, pag. 116; e n.º 20,
+pag. 153.</p>
+
+<p>Comprehendem-se n'esta serie a apreciação das <i>Bibliothecas Ruraes</i>,
+por Cormenin, o eminente publicista francez, que tanto illustrou seu nome como
+ainda o pseudonimo de <i>Timon</i>, com que firmou alguns de seus trabalhos; a
+exposição e apreciação dos <i>Estudos sobre a reforma em Portugal</i> de J. F.
+Henriques Nogueira, incontestavelmente o primeiro de nossos publicistas em este
+paiz, cujos trabalhos estão reclamando instantemente uma edição completa e
+popular, que os torne conhecidos de todos e evangelho da democracia, que bem o
+merecem elles pela elevação e amplidão admiraveis de suas vistas e alcance; e a
+exposição e apreciação da <i>Felicidade pela agricultura</i>, a obra
+peregrina<span class="pn">{7}</span> de Antonio Feliciano de Castilho, em que
+tudo é ouro de lei, desde sua linguagem, a mais portugueza e formosa, até seus
+ensinamentos os mais santos e justos e proveitosos.</p>
+
+<p>Coube agora a vez de virem esses inestimaveis estudos de Anthero á nossa
+modesta collecção de seus trabalhos dispersos, e não ficarão elles sendo uma
+das menos brilhantes paginas d'ella.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;"><i>Rodrigo Velloso</i></p>
+
+<p><span class="pn">{8}<br>
+{9}</span></p>
+
+<h1>LEITURAS POPULARES</h1>
+
+<blockquote style="margin-left:8em">
+ <p>Derramai a instrucção sobre a cabeça do povo, que bem lhe deveis esse
+ baptismo.</p>
+
+ <blockquote>
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><i>Alm. de
+ França</i></p>
+ </blockquote>
+</blockquote>
+
+<h2>I<br>
+Bibliothecas ruraes</h2>
+
+<p>Um dos grandes symptomas de regeneração e progresso moral do seculo, em que
+vivemos, é, sem duvida, o desvelado carinho com que, quasi por toda a parte,
+cuidam grandes e pequenos, com<span class="pn">{10}</span> interesse ou
+desinteresseiramente no melhoramento e instrucção do povo&mdash;esse grande,
+inculto, e interessante engeitado&mdash;como d'elle diz um grande poeta. É que a
+grande voz da democracia quando fala, inspirada pela boca dos Kossuths e dos
+Mazzinis, falas de amor e de esperança, não sei de coração generoso aonde não
+tope um echo.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da tyrannia,
+comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a illustração pelo
+meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na França, na Italia, na
+Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada passo escholas para o pobre,
+e não é raro topar o trabalhador, pela hora da sésta, entretendo-se a<span
+class="pn">{11}</span> folhear, lêr e entender livrinhos, que, apesar de mui
+comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de o iniciar no saber.
+</p>
+
+<p>É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não são
+os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e bayonetas:
+são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por elle velam, e cuja
+voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de proscripta e desterrada,
+brada tão alto, que a propria tyrannia, em que lhe pese, se vê forçada a se
+sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses representantes da opinião: parece
+que a providencia capricha em haver os tyrannos por instrumento da propria
+ruina; pois só a illustração, que dá ao homem a consciencia de seus direitos,
+póde derribar ruins governos e oppressores. Assim a instrucção progride e
+gradualmente<span class="pn">{12}</span> estende a sua rede, anhelando abraçar
+todas as camadas da sociedade, ministrando á terra virgem, mas productivel
+semente de muita ideia, que se há de resolver em ainda muito mais obras de bem
+e só para o bem.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de Portugal;
+e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos remedios, ai de
+nós, por que um povo que possue a liberdade sem instrucção, que só o póde
+n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que se resolve, a custo poderá
+conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem abusar.</p>
+
+<p>Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar para
+grangear uma alma nova,<span class="pn">{13}</span> para reconquistar a austera
+mãe dos povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos,
+reminiscencias odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é
+só a instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos
+irmãos, e conduzir-nos a bom fim.</p>
+
+<p>Qual é pois a causa da ignorancia&mdash;indigna do seculo&mdash;em que vegeta todo o
+nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario, é tambem
+a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos e liberdades,
+considerando-os, indifferente, como uma invenção do seculo, e desconhecendo que
+só elles são as garantias unicas e segurissimas da sua individualidade e
+progresso.</p>
+
+<p>A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e de
+elevado merito; nem mesmo na indifferença<span class="pn">{14}</span> do povo
+portuguez, que sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez
+compenetrado por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um
+grande Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os
+elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um <i>a vontade dos que
+podem</i>.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>A carencia d'uma boa organisação de escholas, d'um bom regulamento
+litterario, e um ministerio&mdash;proprio de instrucção&mdash;o campo que se acanha a
+quem sabe, e só se alarga a quem tem e póde; eis as causas do menospreso e
+quasi aversão, que entre nós soffrem lettras e sciencias. Esta é a causa, e só
+causa de tantos males.</p>
+
+<p>Sei que é dura e fere o ouvido, e<span class="pn">{15}</span> mais ainda o
+coração, esta verdade, comtudo é uma e tão amarga, que custa a confessar,
+parecendo melhor desculpa, a mingoa de livros bons e baratos.</p>
+
+<p>É fado que entre todos os povos cultos, sendo que as nossas bibliothecas
+gemem debaixo do peso de boas obras nacionaes, somos porém um dos que menos
+livros possuimos maneiros e de facil comprehensão. Abundam as nossas livrarias
+em pesados volumes, de ainda mais pesada erudição e elevado estylo: mas ao
+alcance do obreiro, do agricultor, do proprio camponez, volumes, que por seu
+tamanho, preço e clareza a elles se amoldem, que lhes mitiguem, por sua
+amenidade e instrucção, o rustico e affanoso lidar, a custo se depara com um ou
+outro.</p>
+
+<p>N'isso differimos da França, da Italia, da Allemanha, que os tem aos
+cardumes, emquanto que os nossos escriptores<span class="pn">{16}</span> parece
+falarem-se mais entre si do que com o povo.</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Com tudo, para quem tiver sêde de instrucção, para quem bem os procurar,
+ainda ha que se achem e que sirvam.</p>
+
+<p>As grandes, ideias, se vieram encontrar Portugal adormecido nos braços da
+ignorancia, ainda houveram almas nobres e intelligencias elevadas aonde
+fisessem echo; e a geração nova tem continuado, de testemunhar á Europa, que os
+elevados pensamentos da fraternidade não deram com corações esquivos em peitos
+portuguezes. Ainda ha quem trate com afan do que convem ao seu paiz e quem se
+não peje de dar testemunho,<span class="pn">{17}</span> com palavras ou com
+escriptos, do seu pensar, crêr ou esperar.</p>
+
+<p>Nem temor deve haver de que esta, que em tão boa senda; porque a era é nova
+e a ideia virgem e longe o dia vem, em que tem de ceder o passo a outra maior e
+mais elevada.</p>
+
+<p>O dever de todos, quantos sômos, que pugnamos pelas liberdades e bem do
+povo, é seguir sempre a grande ideia, atravez de todos estorvos e revezes, com
+o peito ao vento, o rosto alto, os olhos só fitos no futuro. Abrir bem o
+coração a voz que vem de cima, e cerral-o á das paixões da terra.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Dissera eu não serem elementos<span class="pn">{18}</span> de felicidade que
+nos faltavam; mas só o querer dos que podem tirar d'elles materia de muito bem.
+Temos a ideia e temos os meios; tenhamos tambem a vontade, e para todo o mal se
+deparará remedio.</p>
+
+<p>Um pequeno alvitre quero eu lembrar que, com ser pequeno e de pouco custo,
+talvez não deixe de gerar bom fructo.</p>
+
+<p>Ideia d'um grande francez e grande amigo do povo, Mr. Cormenin, soube ella
+insinuar-se em o animo d'um governo illustrado, que a soube aproveitar, e
+d'ella já hoje em França vão brotando fructos de muito bem.</p>
+
+<p>Se o exemplo d'um povo tem algum peso no obrar dos outros, por que não
+applicaremos e experimentaremos entre nós a ideia do<span
+class="pn">{19}</span> grande homem sendo que ella produz, como tem produzido,
+resultados tão elevadamente civilisadores?</p>
+
+<p>Tal experiencia quizera eu se realisasse em nossa terra, que certo estou de
+nos não deixar illudidos.</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>A ideia refere-se maximamente aos habitadores dos campos, esses, mais que
+todos, engeitados da civilisação moderna.</p>
+
+<p>E comtudo é á sua illustração que de mais vontade nos deveremos applicar. A
+agricultura é a melhor e mais verdadeira mãe dos povos, e, como diz
+Castilho,&mdash;só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com desenganada
+preferencia, só esse é rico, rico sem fausto,<span class="pn">{20}</span> mas
+sem receio de empobrecer&mdash;o trabalho da terra é a fonte de todos os outros
+trabalhos, e assim, não é justo que nós, que em ocio desfructamos o trabalho do
+camponez, lh'o suavisemos em troca&mdash;com algumas gottas do balsamo da
+instrucção?</p>
+
+<p>Além d'isso, se trabalhamos em proveito da sua illustração, é em proveito
+nosso que trabalhamos.</p>
+
+<p>O cultivador, que ler, conhecerá melhor o tempo, as estações, a qualidade do
+torrão, da semente, o que mais convém a este ou est'outro terreno, e que
+especie de grão deve lançar á terra. Com este progresso na agricultura o
+lavrador produzirá melhor, mais, e mais barato.</p>
+
+<p>Não será, pois, tambem em o nosso proveito?<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>Ainda que não fossem elles homens, e, como taes, com igual direito a se
+illustrarem, bastaria a perspectiva do proprio lucro para nos fazer cuidar
+d'elles com affinco, pois que, curando d'elles, de nós curamos em realidade.
+</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Entendera Cormenin que o rustico, por ser rustico, nem por isso devia ficar
+privado d'esse pão do espirito, que é a leitura.</p>
+
+<p>Partindo d'esta verdade, imaginou elle uma bibliotheca de 200 ou 300 volumes
+de materia comezinha e de facil digestão para o povo: cada concelho possue uma
+d'estas bibliothecas dividida em tantas menores, quantas as aldeias e logares
+que em si conta, e em relação a ellas numeradas. Cada uma d'estas<span
+class="pn">{22}</span> livrariasinhas é enviada pelo administrador do concelho
+ao parocho de cada aldeia, a fim d'elle distribuir gratuitamente os volumes a
+quem d'elles precisar e os pedir, assentando o nome de cada leitor n'um rol, e
+riscando-o á maneira, que se vier fazendo entrega dos volumes.</p>
+
+<p>Depois de seis mezes passados, todas as obras que compõem a livrariasinha se
+devem achar em casa do parocho, que a remette á aldeia que tem a Bibliotheca de
+numero immediato, recebendo em troca a que lá estava para o mesmo fim.</p>
+
+<p>Passado tempo, quando cada aldeia tenha tido por espaço de seis mezes cada
+uma das bibliothecas parciaes, isto é, todos os livros do concelho por partes e
+por varias vezes, far-se-há troca da bibliotheca toda com a do concelho
+seguinte, continuando sempre assim com o<span class="pn">{23}</span> mesmo
+systema de leitura, de sorte que em poucos annos poucos livros terão, passando
+por milhares de mãos e através de milhares de intelligencias, feito o gyro do
+paiz, e levado a instrucção aos mais necessitados, sem que para isso se exijam
+grandes despezas.</p>
+
+<p>A este alvitre, tão simples como economico e proficuo, chamou
+Cormenin.&mdash;Systema das Bibliothecas Ruraes Ambulantes.</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>A bondade de tal alvitre por si e claramente se deixa vêr. Realisar o
+desideratum da civilisação moderna&mdash;a instrucção do povo&mdash;em tão grande escala,
+tão bem, e por tal preço, cuido que outro algum o poderá fazer melhor.</p>
+
+<p>Nos primeiros annos poucos resultados bons se tirarão, porque ainda os<span
+class="pn">{24}</span> habitadores dos nossos campos desconhecem as vantagens
+da leitura, mas, acostumados pelo uso, por assim dizer, aclimatados com o
+systema, e maximamente, vendo os fructos que hão-de colher os que leram, dentro
+em breve toda a população dos campos correrá em busca de livros e será com
+injustiça, que o soberbo habitante da cidade lhes poderá chamar&mdash;boçaes.</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Na escolha dos livros é que se deve requerer toda a cautella, para que a
+instrucção não degenere em leituras prejudiciaes ou sem proveito.</p>
+
+<p>Deverá constar cada bibliothecasinha de pequenos volumes sobre sciencias
+naturaes, medecina domestica, livros de religião, de agricultura, de politica
+geral, de administração, historia, geographia<span class="pn">{25}</span> e
+viagens; tudo isto escolhido por pessoa versada e idonea.</p>
+
+<p>Na nossa terra, nomeadamente, deve-se curar principalmente de os procurar ou
+traduzir em chã linguagem das estrangeiras, escolhendo entre todos os melhores
+e os mais uteis.</p>
+
+<p>Comtudo é não acobardar, que ainda se adiam livros bons e uteis, e os que
+não houverem podem bem supprir-se com versões dos melhores dos outros paizes
+mais adiantados que nós, n'este genero de litteratura popular.</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Alguns livros ha, assentei eu, que estão no caso de percorrerem a estrada de
+tal missão: originaes portuguezes uns; outros vertidos na nossa lingua das
+estrangeiras. E que muito importa essa differença? já disse alguem que o
+genio<span class="pn">{26}</span> não tinha patria: um bom livro, que appareça
+hoje, já amanhã falará todas as linguas, e será lido com ardor por todos,
+quantos elles são, os povos cultos do globo.</p>
+
+<p>D'alguns livros sei eu, que satisfazem as exigencias: poucos em verdade são
+elles, mas bons, mas bonissimos: quasi todos conhecidos e animados do publico;
+alguns não tanto; a todos o nome do auctor lhes é caução. Folgo de ter falado
+n'elles um pouco de longo, porque tão bons são, que lhes desejára ainda mais
+carinhos, mais diffusão por entre o povo. Com elles quizera eu se começasse a
+obra civilisadora das&mdash;Bibliothecas Ruraes.</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>Aquelle, que primeiro convém que o povo leia e releia, e por elle seja
+mui<span class="pn">{27}</span> manuseado, mui meditado, tem em si a propria
+recommendação: vem assignado por nome portuguez e dos maiores. D'elle disse
+Castilho&mdash;aquelle que em alguns paragraphos pretender julgar uma obra tão
+cheia, tão variada, tão germinal toda ella, como é este livro, provaria, ou que
+não a lera, ou que não era digno de a ler. Nós a lemos, a relemos, temol-a
+ainda aberta, e aberta a deixaremos sobre a meza para nossas meditações.</p>
+
+<p>    Seu titulo é:</p>
+
+<h1>Estudos sobre a reforma em Portugal</h1>
+
+<p
+style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><small>POR</small></p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><i>J. F.
+Henriques Nogueira</i></p>
+
+<blockquote style="margin-left:8em">
+ <p>Não é um livro; é uma obra.</p>
+
+ <p style="margin-left:4em">G. Planche. </p>
+</blockquote>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>O livro cujo valor apregoamos, e ao qual outorgamos um primeiro e
+eminente<span class="pn">{28}</span> logar na nossa ora ideal&mdash;mas tão
+realisavel bibliothecasinha popular,&mdash;é digno de tal occupar, sendo que entre
+todos é elle o mais util e accommodado á intelligencia do nosso povo&mdash;ainda
+mal&mdash;tão inculto, tão por mondar de cardos e ruins ervas, e, o que peor é, com
+tão pouca esperança de proximo e util cultivo.</p>
+
+<p>O auctor do livro, como bom philosopho, cura menos do que é, ou póde ser, do
+que indaga o que em sã razão devera existir: e ao tempo que, em succinto mas
+substancial quadro, alevanta o rude trabalhador ao nivel de seus direitos, não
+se mostra remisso no estudo dos deveres que se lhe oppõem; accrescendo ainda um
+catechismo acabado dos meios de realisação d'uns e de satisfação dos outros.
+Ajuntai ainda uma expressão clara, por correcta; uma viveza toda meridional de
+imagens; um finissimo tacto ou, por assim dizer, um como faro<span
+class="pn">{29}</span> mui mimoso no descobrimento dos males sob que geme a
+sociedade, e a mão segura em alvitrar meios de prompto remedio; e em limitadas
+phrases havereis o livro.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Diz modestissimamente o auctor, que o livro não é mais do que a selecção de
+pequeninos estudos ácerca d'esta ou d'est'outra reforma. Sobremodo maior é o
+seu merecimento, e em conta de maior obra o tenho eu. É um systema de
+organisação social completo e cheio; resumo, conciso sim, mas germinal das
+reformas, que ha mister um povo e uma sociedade já gastos. Dai-me população e
+territorio, que meios de organisar um governo no livro os acho eu todos; mas
+governo racional, philosophico sem que seja irreligioso (e é este o dizer
+verdadeiro<span class="pn">{30}</span> da palavra); governo, finalmente como o
+deve ser um no seculo dezenove.</p>
+
+<p>Se desejaes um testemunho do seu bem querer, lêde com que tocante singeleza
+resume elle, em poucas palavras, o seu credo politico e social, onde, a par do
+grande reformador, deparareis com o poeta e com o cidadão honesto, e amante da
+sua patria.</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Eis os termos em que se expressa:</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que, n'um paiz como o nosso emancipado por cruentos esforços da
+tutela humiliante, egoista e sanguinaria da monarchia absoluta, cansado do
+regimen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarchia constitucional,
+necessitado de restaurar as forças perdidas em luctas estereis e de cicatrizar
+feridas, que ainda gotejam, ávido, emfim, de gozar as<span
+class="pn">{31}</span> doçuras da liberdade, por que tanto ha soffrido; quizera
+que o governo do estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma nobre,
+philosophica e prestigiosa de&mdash;Republica.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que o poder supremo, emanado do voto universal, residisse na
+assembleia dos representantes do povo e que o poder executivo fosse confiado a
+um ministerio de tres membros, nomeados pela assembleia.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a administração da justiça corresse imparcial, rapida e
+gratuita; que os serviços feitos ao paiz tivessem uma recompensa condigna; que
+os crimes achassem correcção em vez de vingança, e que a pena de morte,
+vestigio maximo da barbaridade, fosse abolida.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a guarda nacional, milicia gratuita, que não obriga o cidadão
+a abandonar as suas ocupações, constituisse<span class="pn">{32}</span> o
+grosso da força armada; e que o exercito subsidiario se reduzisse unicamente
+aos corpos scientificos.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a despeza publica fosse inferior á receita; que se
+proscrevesse o ruinoso systema das dividas; e que a applicação dos rendimentos
+do Estado fosse inteiramente productiva, illustrada e philantropica.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a rede tributaria, que ameaça de estancar o paiz, ficasse
+reduzida a um só imposto progressivo sobre a renda, cobrado sem despeza e
+realisado sem agio.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que os capitaes, pela barateza do juro, auxiliassem a producção,
+em logar de absorverem a maior e melhor parte de seus lucros.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que o direito á subsistencia pelo trabalho tivesse nas officinas,
+colonias e obras publicas, uma util garantia; que o trabalho das mulheres<span
+class="pn">{33}</span> ganhasse uma area mais vasta, e que fosse melhor
+retribuido.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a Agricultura, a Industria fabril e o Commercio recebessem do
+estado uma desvelada protecção, como fontes principaes da riqueza.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que as estradas, os canaes, as barras, e em geral, todos os meios
+de viação merecessem a preferencia no extenso capitulo das nossas necessidades.
+</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a communicação do pensamento não achasse obstaculos; e que o
+correio fosse inteiramente gratuito, tanto para as cartas como para os
+escriptos periodicos.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que os orphãos, os doentes e os invalidos, que dependem da
+caridade publica, encontrassem nas casas de mesericordia lenitivo para os seus
+males; e que se franqueassem a todos os operarios as instituições economicas e
+preventivas da miseria.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quizera que os cuidados exercidos sobre a saude publica conseguissem
+minorar e extinguir, se tanto fosse possivel, as causas de infecção, que vão
+minando gradualmente a robustez das gerações.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que o derramamento da instrucção chegasse ás ultimas camadas
+sociaes; que a imprensa publica se tornasse um instrumento de progresso; e que
+o estado protegesse o talento abandonado, que a falta de cultura não deixa
+medrar.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a religião de nossos paes não servisse de escudo a interesses
+egoistas e mundanos, mas que acompanhasse o progresso da humanidade; que os
+bispos fossem, como n'outros tempos, eleitos pelo povo; e que os parochos se
+elevassem á altura de mestres e de moralisadores.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que os interesses da localidade<span class="pn">{35}</span> fossem
+attendidos primeiro do que tudo; que o territorio se dividisse para todos os
+effeitos em grandes e bem regidos municipios; e que as aldeias tivessem os
+melhoramentos indispensaveis ao bem commum dos moradores.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a associação, origem de maravilhas, se estendesse a todas as
+classes da sociedade e principalmente áquellas que vivem do seu salario.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a familia, instituição primitiva e santa, não apresentasse o
+quadro odioso dos direitos de primogenitura, que dão a uns filhos a regalia de
+senhores, em quanto conservam outros na humiliação de servos.</p>
+
+<p>&mdash;Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se estendesse ao
+maior numero de individuos; e que para completar a liberdade da terra se
+permitisse a remissão de todos os encargos que a oneram.<span
+class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas
+conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na&mdash;Federação&mdash;com os outros
+povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira independencia que lhe
+faltam na sua tão escarnecida nacionalidade...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande
+philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario?</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á maneira
+que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas, não póde,
+precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um de<span
+class="pn">{37}</span> seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente
+consoladores de esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.</p>
+
+<p>A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas
+vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade, a
+anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no coração dos
+bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais christãos.</p>
+
+<p>Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a
+dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de poeta;
+mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade. Muitos dirão com o
+poeta:</p>
+
+<blockquote>
+ Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.<span class="pn">{38}</span>
+</blockquote>
+
+<p>Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que, verdade
+é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.</p>
+
+<p>Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é: quem
+acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda sereno e firme
+na sua fé, tem uma nobre missão:&mdash;a de abrir e esclarecer, sentinella do
+porvir, a estrada da nova era; que outros, vagarosos, de prudentes, só mais
+tarde pisarão.</p>
+
+<p>Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás
+regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha face de
+verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este caminhar
+providencial.</p>
+
+<p>Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho<span
+class="pn">{39}</span> que diz a tudo quanto soffre cá na terra:</p>
+
+<p>&mdash;Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:&mdash;Soffre, que para o teu mal
+não ha salvação nem lenitivo!</p>
+
+<h1>FELICIDADE PELA AGRICULTURA </h1>
+
+<p
+style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><small>POR</small></p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Antonio
+Feliciano de Castillo </p>
+
+<div align="center">
+</div>
+
+<blockquote style="margin-left:6em">
+ Da terra saímos; á terra volvemos: <br>
+ A terra nos veste, nos traz, nos mantem. <br>
+ Quem mais do que a terra merece os extremos, <br>
+ Que obtem dos bons filhos a próvida mãe?
+
+ <p style="margin-left:4em">A. F. de Castilho</p>
+</blockquote>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Eis agora aqui um livro, que, em meio da geral fermentação de tumultuosas
+paixões e ambições immoderadas que agitam as nossas modernas sociedades;<span
+class="pn">{40}</span> em meio d'este lamentavel estado de geral
+descontentamento e desgosto de que todos mais ou menos somos victimas; quando,
+segundo judiciosamente observa Aimé Martin, o artista descrê da arte, o padre
+de Deus, o mancebo do futuro, e até a mulher do amor, e nem um só tem o menor
+vislumbre de esperança na felicidade com que ainda póde topar no estado que lhe
+deparou a providencia; eis agora&mdash;digo eu&mdash;um livro que, em meio de tudo isto,
+nos promette essa almejada felicidade, que nos aponta o como a poderemos
+alcançar, que o prova&mdash;e o que mais é&mdash;não fala em referencia aos grandes, aos
+poderosos, aos que por si tem todos os dons da fortuna, mas ao pobre, ao
+desvalido, ao que chora e soffre em meio das trevas da ignorancia, da miseria,
+quasi, direi, da servidão.</p>
+
+<p>É mister ser-se um grande poeta&mdash;poeta<span class="pn">{41}</span> de muito
+crêr e muito esperar,&mdash;para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas
+populações miseraveis dos nossos campos&mdash;orphãs da moderna
+civilisação&mdash;palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os queixumes,
+conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda crente, mais crente
+talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e felicidade para esses que
+por cruel ironia só lhes respondem com lagrimas e gemidos.</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>É que o poeta recebeu de Deus o condão mago de ler na noite de arredado
+futuro; de vêr luz e muita luz aonde outros só vêem trevas; flores de amor e de
+vida, aonde para muitos só brotam os goivos do sepulchro.</p>
+
+<p>Esse lê bem, que assim lê em lettras<span class="pn">{42}</span> de ouro
+paginas de esperança e felicidade no grande livro dos destinos da humanidade.
+</p>
+
+<p>Crê e espera&mdash;mas não lhe vem só do coração&mdash;de seu condão de poeta&mdash;essa
+crença e essa esperança.&mdash;Estudou, pensou, viu muito pelos olhos de sua
+intelligencia, e n'este estudo firmou elle em grande parte essa crença, que lhe
+dá a força de prometter ainda felicidade e muita felicidade para os campos,
+para os habitadores dos campos e para todos por via d'elles.</p>
+
+<p>«Aconselhar a agricultura ao povo, diz o auctor, é aconselhar-lhe a propria
+felicidade».</p>
+
+<p>Veremos se o alvitre é tão bom como se apregoa, se não cegou o poeta a
+propria inspiração.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de
+fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como iniciação
+nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos conquistando, de tal arte
+nos cegou a novidade da conquista, tão afanosos nos mostramos no empenho de a
+bem guardar, que de todo nos esquecemos de que não é ella o fim unico (como se
+já suppoz) dos humanos destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros
+progressos; um primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma
+mera iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos
+arraiaes do futuro.</p>
+
+<p>Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que
+assim nos traz presa a vista e a alma,<span class="pn">{44}</span> sem nos
+lembrarmos, que em volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos,
+outras e muito formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam
+fructo, á mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que&mdash;a haver boa vontade&mdash;se
+lhes poderia dar vida ás raizes sequiosas.</p>
+
+<p>A agricultura, com ser a mais esperançosa para bom fructo, de todas essas
+flôres, que vão murchando no pó ao minguar-lhes o alimento, é por ventura de
+todas ellas a que mais soffre, e a quem mais se recusa esse alento e essa
+protecção, de que por tantos titulos nos é credora.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes homens
+da maior nação se não envergonhavam<span class="pn">{45}</span> de serem
+encontrados, em meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro,
+que tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais altos
+cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a toga da
+dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e felizes em voltarem
+cobertos de louros para o trabalho de seus campos, que em meio haviam deixado!
+</p>
+
+<p>Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos não
+cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos sorrir, de nos
+convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas verduras, com todos os
+seus matizes de mil flores.</p>
+
+<p>Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou e a
+todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias de
+tribulação,<span class="pn">{46}</span> lá a temos sempre, que nos estende os
+braços com affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até
+que por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o ser,
+e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só a ella, que
+toda essa grandeza se deve attribuir!...</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho, se
+póde conceber tal desprezo e tal ingratidão.</p>
+
+<p>A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais
+carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de
+desprezivel.</p>
+
+<p>Tão velha como o homem, como as<span class="pn">{47}</span> suas primeiras
+necessidades, é-lhe a sua antiguidade segura garantia de excellencia e de
+nobreza; desprezivel ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as
+sciencias a veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará
+maiores serviços.</p>
+
+<p>As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças,
+grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio destruidor
+das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo ao outro os
+productos de todos os climas: todas essas maravilhas de grandeza e
+intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto por lá se creou;
+tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de atribulação e de angustia,
+lembrar-se com saudade da humilde mas pacifica choça, d'onde primeiro
+desabrochara á luz do sol; tudo isto ha de deixar<span class="pn">{48}</span>
+de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por fim, que elles hão de
+continuar ainda, por muito tempo, depois do homem talvez, a vecejar, a florir,
+a fructificar, sempre bellos e sempre risonhos, agora e depois, como no
+primeiro dia da creação!</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>A industria e o commercio, os dois mais poderosos e mais incansaveis agentes
+e creadores da riqueza das nações, lá tem nos campos alicerce, lá foram buscar
+á agricultura todas as forças com que operam, todas as galas de que se
+revestem.</p>
+
+<p>O ferro, com que o homem fabricou novos orgãos, para ajudar os que a
+natureza lhe déra; o carvão, com o auxilio do qual centuplica as suas forças;
+lá lh'os tinha a terra guardados no seu<span class="pn">{49}</span> seio, como
+mãe carinhosa: o linho, de que fabrica os vestidos que o revestem, tambem já
+lourejou pela encosta de suas collinas: o madeiro, que recurvado sulca as ondas
+em busca de novos mundos, tambem orgulhoso e gigante se ergueu outr'ora no meio
+de suas florestas: o grão, que o nutre; o fructo, que o delicia; o vinho, que
+lhe dá mais vida e alegria; tudo isto tambem por lá cresceu e medrou, tudo isto
+de lá saiu.</p>
+
+<p>A sciencia, a mais nobre de todas as sciencias de Deus, porque é a sciencia
+do infinito&mdash;a astronomia&mdash;tambem lá vae nos campos buscar a sua origem: lá
+nasceu entre humildes pastores, lá se desenvolveu, até que o homem das cidades,
+orgulhoso já de sua grandeza, a veio usurpar aos que primeiro a descobriram,
+para, no remanso do gabinete, ou no terraço do observatorio lhe dar ainda maior
+desenvolvimento.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>A geometria&mdash;por ventura mãe da astronomia, tambem nos campos tem seu berço.
+</p>
+
+<p>Todas as artes lá vão buscar as materias com que operam, muitas tambem as
+suas melhores inspirações.</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas ao
+paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem para o
+mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem rude e aspera a
+agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios.</p>
+
+<p>Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com entranhavel
+amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber dar afagos e
+carinhos, para esse, similhante á cidra<span class="pn">{51}</span> fabulosa,
+tem ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e
+belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe procreadora de
+prodigios sem conta.</p>
+
+<p>Qual há, porem, vara magica de fada, que&mdash;trocando-a&mdash;a chame á vida, a faça
+abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas essas flôres
+de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que sem estranho auxilio
+não podem desabrochar nem medrar?</p>
+
+<p>Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago
+condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra de
+Portugal.</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>É a associação mãe de taes prodigios,<span class="pn">{52}</span> de tantos
+beneficios, fonte perenne e inesgotavel, que apregoar-lhe valor e necessidade,
+além de desnecessario, fôra loucura quasi rematada.</p>
+
+<p>Com effeito, hoje, á luz do seculo XIX, quando é orgulho e timbre de toda a
+sciencia o prescrutar bem fundo a alma, a intelligencia e o corpo humano,
+procurando ahi todas as leis da sua natureza, para n'ellas&mdash;e só n'ellas&mdash;se
+estribarem theorias e instituições, hoje desatino seria buscar ainda provas
+para aquillo, que d'ellas menos carece, sendo que a sociabilidade é, de todas
+as leis naturaes, aquella que mais exuberantemente demonstram as theorias da
+sciencia, e a mais que todas inexoravel e severa logica dos factos.</p>
+
+<p>A muitas d'estas leis póde desobedecer o homem, contra outras se póde
+totalmente revoltar, mas contra esta, por sem duvida o tenho, seria tal
+attentado,<span class="pn">{53}</span> que assento jámais poderá realisar-se.
+</p>
+
+<p>Subtrahi os homens&mdash;um só momento que seja&mdash;ao seu influxo benefico, e para
+logo os vereis amesquinhar-se, quando não desapparecer da face da terra.</p>
+
+<p>Condição primaria de sua existencia e progresso, ha de com elle mais e mais
+desenvolver-se, que não há ahi decreto de rei da terra&mdash;fôra elle Cesar ou
+Napoleão&mdash;que ouse derogar o decreto do Eterno!...</p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<p>É pois a associação o cumprimento d'uma lei natural.</p>
+
+<p>Na progressiva evolução d'essa lei e a par d'ella, vejo eu caminhar a
+humanidade; desinvolver-se, se se ella cumpre; estacar, se pára; definhar,
+se<span class="pn">{54}</span> esmorece; seguindo-a sempre e resentindo-se de
+suas menores alterações.</p>
+
+<p>E é de razão, porque, a ser o fim do homem na terra o desenvolvimento de
+suas faculdades, que outra há mais nobre e importante; que mais influa nos seus
+destinos que esta lei da sociabilidade?</p>
+
+<p>Por ella se póde aferir o grau de civilisação d'este ou d'est'outro povo
+porque ahi onde mais o homem se estreitar com o homem, aonde mais de um irmão
+ajudar o outro irmão, ahi tambem mais o espirito tenderá a elevar-se&mdash;e de
+feito se há-de elevar&mdash;elevação que toda se desata em muita sciencia, muito bem
+e muita ventura.</p>
+
+<p>Reconhecidos estes principios, reconhecidos&mdash;quasi direi&mdash;demasiadamente,
+houve quem d'elles se possuisse a ponto de n'elles querer buscar todo um
+systema de organisacão social.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>Desvairou-os o amor d'um principio, o conhecimento d'uma lei natural, por
+ventura a ignorancia de muitas outras; e, encarando o homem por lado restricto,
+quizeram o desenvolvimento d'uma faculdade á custa das outras todas.</p>
+
+<p>Não quer isto porém a harmonia, essa outra lei de Deus, que tem de
+presidir&mdash;como revelando-a&mdash;a toda a creação.</p>
+
+<p>É mister que a todas as faculdades seja dado um maximo desenvolvimento; mas
+é mister tambem que cada uma, ao alargar a sua esphera, não vá calcar outras, a
+quem egual direito assiste...</p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<p>Por que é lei da natureza humana a liberdade, porque deve o homem responder
+por suas acções, não quer a boa justiça, não quer a boa rasão, que á
+força&mdash;que<span class="pn">{56}</span> não com a arma da persuação&mdash;se lhe
+imponha o cumprimento d'uma obrigação qualquer, fôra ella tão santa, tão
+prescripta por Deus, tão filha da natureza do mesmo homem como esta da
+sociabilidade.</p>
+
+<p>Assim, é com a liberdade e só pela liberdade, que tem de effectuar-se este
+grande pensamento da associação, este grande abraço que obedecendo ás leis do
+proprio ser, tem de&mdash;no futuro&mdash;dar homens e povos, estreitando cada vez mais
+os laços que os unem, e centuplicando forças, sympathias e vida.</p>
+
+<p>Problema longo tempo agitado, dá-lhe hoje a sciencia cabal resolução. Desde
+que esta, despresando theorias incertas e imaginosas, foi buscar como base de
+seu estudo, para ahi fazer alicerce seguro, aos principios que tinha de
+formular, a natureza do ser, a quem todos tinham de ser applicados; desde
+essa<span class="pn">{57}</span> occasião ganha estava a causa da liberdade.
+</p>
+
+<p>Podem offerecer-se-lhe mil estorvos, levantar-se contra ella as maiores
+tormentas, que ella, atravez de tudo, lá ha-de ir sempre seguindo seu caminho,
+ganhando o terreno palmo a palmo sobre os seus adversarios, e libertando o
+homem cada vez mais do jugo da miseria, da escravidão e do embrutecimento.</p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<p>Associação e Liberdade: são estas as duas ideias salvadoras&mdash;e só
+ellas&mdash;que, uma pela outra completando-se, podem levar a bom fim as nossas
+modernas sociedades.</p>
+
+<p>Associação livre&mdash;eis o que em nome da sciencia podemos affoutos responder a
+esses nobres, mas desvairados, sonhadores<span class="pn">{58}</span> de
+utopias, que na fé de uma imaginosa organisação social, toda artificio humano,
+que não segundo as leis do natural organismo, e em nome das santas esperanças e
+fraternaes aspirações, que em abundancia lhes enchem as almas generosas, nos
+promettem, há meio seculo, o progresso da perfeita felicidade&mdash;porventura mais
+do que ao homem é dado esperar na terra.</p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<p>A sciencia toma o facto, especula-lhe a essencia e natureza, observa-lhe as
+relações, e de tudo deduz as leis que lhe presidem. Póde desempedidamente
+apresental-as á luz do dia, e para o futuro concluir affoutamente do passado;
+póde e deve-o, que outra não é sua missão.</p>
+
+<p>Mas o que muita vez o frio calculo e<span class="pn">{59}</span> analyse
+reflectida deixam por mesquinho ou vulgar, sem d'ahi tirarem materia para
+considerações, toma-o para si o coração sensivel do poeta; pela imaginação o
+nobilita e engrandece, na mente lhe fórma a robusta estatura; até que apparece
+em fim gigante de crescidas forças, esse que ainda há pouco, de mesquinho e
+pigmeu, nem sequer attrahia as vistas do investigador curioso.</p>
+
+<p>É assim que a imaginação e a analyse, a sciencia e a inspiração, uma pela
+outra se completam, trabalhando cada qual na esphera que por natureza lhe
+compete, e para fim commum&mdash;a <i>Verdade</i>, concorrendo uma e outra na medida
+de suas forças e aptidões.</p>
+
+<p>São (ou antes deverem ser) duas irmãs queridas e extremosas, em obra commum,
+empregando desvellos e cuidados; nunca, como até hoje, rivaes, que por um mesmo
+amor, e em nome<span class="pn">{60}</span> da mesma causa, se detestam e
+guerreiam.</p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<p>É d'estes dous elementos&mdash;sciencia e inspiração&mdash;que brotam as nobres ideias
+e grandes verdades, que por vezes têm mudado a face de uma civilisação, quando,
+em vez de uma á outra se mostrarem hostis para fim commum se têm dado mãos
+amigas.</p>
+
+<p>Nas porfiosas luctas politicas do seculo, em que&mdash;mais ou menos&mdash;todos temos
+sido actores ou espectadores, se encontra clara prova e exemplo manifesto da
+proposição que aventamos.</p>
+
+<p>Por longo tempo trabalharam em bandos oppostos e á sombra de vario pendão os
+modernos representantes d'esses bons principios, uns e outros promettendo-nos
+felicidade, mas cada qual<span class="pn">{61}</span> em nome de mui diferente
+divindade; até que, passados que foram os tempos de mais escandecida lucta e
+acalorada discussão, a mesma força da verdade os trouxe a si; e a commum e
+amigavel união lhes soube chamar os animos discordes.</p>
+
+<p>Ambos em parte transviados, a ambos comtudo assistiam tambem em parte
+principios de verdade. Inimigos, seriam sempre viajantes perdidos em densas
+trevas, cada vez a se affastarem mais das veredas trilhadas; reconciliados, um
+ao outro se guiam e ajudam, com as luzes e forças proprias, em nome d'uma longa
+amizade no futuro, postas em commum.</p>
+
+<p>E de feito, não é hoje que, no meio d'essa pleiade illustre de generosos
+espiritos, que anhelando anciosos por um melhor futuro, trabalham afanosos para
+alivio e engrandecimento dos que choram;<span class="pn">{62}</span> não é hoje
+que entre elles se encontrarão rivalidades d'eschola, mas indignas d'homens, ao
+bem dos homens votados.</p>
+
+<p>São hoje irmãos. Os erros de cada qual, ao despirem-se dos velhos rancores,
+sacrificaram-nos no altar da nova alliança; e d'entre as cinzas impuras, que o
+vento dispersa ao longe, sahiu&mdash;nova Phenix&mdash;a flôr immarcessivel da verdade
+eterna.</p>
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<p>Associação e Liberdade dissera eu serem essas duas ideias aonde se depara
+mais verdade e que, ambas fundidas em factos, podem dar fructo mais sasonado e
+proveitoso; o leito por onde placida póde correr, demandando seu termo, a
+torrente&mdash;ora revolta e turbada por mil encontrados elementos que ahi<span
+class="pn">{63}</span> se revolvem e guerreiam&mdash;da vida das modernas
+sociedades.</p>
+
+<p>E como não seria assim, se ramos frondosos de arvore, que no coração do
+homem tem fundas as raizes&mdash;a propria natureza, têm por fim, entrelaçando-se
+estreitamente e em mutuo amplexo apertando-se, ampararem-se e defenderem-se uns
+a outos, porque assim reciprocamente se protejam no crescer e no fructificar?
+Se são ara sacro-santa aonde os animos discordes em busca da verdade&mdash;mas que
+d'alma a buscam, tem de vir pactuar a alliança, queimando ahi, em holocausto
+incruento, o fel de paixões ruins e desamoraveis ¿como poderão ellas, por
+estranho desapego e ingratidão mentir ao que, em nome de futuro melhor, nos
+promettem, e a que, na fé d'esse almejado futuro prestamos crença e esperança
+illimitadas?</p>
+
+<p>Não podem. Quanto á intelligencia e<span class="pn">{64}</span> coração do
+homem se revela uma verdade, tam rica de evidencia, tam promettedora de
+consolações, não póde «<i>Aquelle</i>» que ao espirito a revelara deixal-a sem
+que pela revelação dos factos receba confirmação e com ella foros de
+inconfutavel.</p>
+
+<p>Uma ideia assim nunca mente.</p>
+
+<h2>XV</h2>
+
+<p>Descendo das subidas regiões da abstracção ao campo mais arido e
+abrolhoso&mdash;mas porventura mais util, das realidades, da theoria aos factos; o
+livro, cujo bom espirito por todos quiseramos diffundido, como vaso de balsamo
+suave, que a todos vae ungindo e perfumando, apontando alvitres, que d'estes
+bons principios descendem testemunhando não escasso cabedal de
+saber,&mdash;testifica tambem aquilatado amor pela sciencia<span
+class="pn">{65}</span> e pelos homens; que em muito conta o amor e o
+enthusiasmo para o descobrimento da verdade.</p>
+
+<p>De tantos e tão bons alvidramentos, quantos o livro encerra, um há que, como
+base de systema, os resume em si, d'onde todos descendem, ponto culminante,
+centro em volta do qual, satelites a lhe reflectirem o brilho, volteiam todos
+os outros, compartilhando com elle a verdade e prestimo com que é dotado.</p>
+
+<p>É este o projecto das «Associações Agricolas».</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES ***
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
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+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
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+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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+
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