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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:58:23 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Leituras Populares + +Author: Antero de Quental + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32871] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + ANTHERO DE QUENTAL + + + + ANTHERO DE QUENTAL + + + LEITURAS POPULARES + + + + + BARCELLOS + Typographia da _Aurora do Cavado_ + Editor--_R. V._ + 1896 + + + + Tiragem apenas de 100 exemplares: + 20 em papel de linho. + 80 em papel d'algodão. + N.º___ + + + + +Um dos periodicos academicos em que Anthero de Quental mais collaborou +durante o seu curso universitario foi o quinzenario _Preludios +Litterarios_, publicado em Coimbra desde dezembro de 1858 a janeiro de +1861, tendo por fundador, director e redactor principal Vicente da +Silveira. Para elles escreveram os mais talentosos d'entre os academicos +d'então, contando-se n'este numero Augusto Filippe Simões, Adolpho +Ferreira Loureiro, Antonio da Silva Gayo, Eduardo José Coelho, Antonio +Lopes dos Santos Valente, Augusto Luciano Simões de Carvalho, Bernardino +Pinheiro, Francisco Beirão, Guimarães Fonseca, Joaquim Simões Ferreira, +o divino João de Deus, e ainda outros. + +De Anthero de Quental, entre outros trabalhos que n'elles inseriu, +conta-se a serie de artigos que epigraphou _Leituras Populares_ e que +sahiu em seu volume II e nos. 2, pag. 9 e 10: n.º 3, pag. 17 a 19; n.º +4, pag. 25 e 26; n.º 6, pag. 41 e 42; n.º 8, pag. 57 e 58; n.º 15, pag. +116; e n.º 20, pag. 153. + +Comprehendem-se n'esta serie a apreciação das _Bibliothecas Ruraes_, por +Cormenin, o eminente publicista francez, que tanto illustrou seu nome +como ainda o pseudonimo de _Timon_, com que firmou alguns de seus +trabalhos; a exposição e apreciação dos _Estudos sobre a reforma em +Portugal_ de J. F. Henriques Nogueira, incontestavelmente o primeiro de +nossos publicistas em este paiz, cujos trabalhos estão reclamando +instantemente uma edição completa e popular, que os torne conhecidos de +todos e evangelho da democracia, que bem o merecem elles pela elevação e +amplidão admiraveis de suas vistas e alcance; e a exposição e apreciação +da _Felicidade pela agricultura_, a obra peregrina de Antonio +Feliciano de Castilho, em que tudo é ouro de lei, desde sua linguagem, a +mais portugueza e formosa, até seus ensinamentos os mais santos e justos +e proveitosos. + +Coube agora a vez de virem esses inestimaveis estudos de Anthero á nossa +modesta collecção de seus trabalhos dispersos, e não ficarão elles sendo +uma das menos brilhantes paginas d'ella. + + + _Rodrigo Velloso_ + + + + +LEITURAS POPULARES + + Derramai a instrucção sobre a cabeça do povo, + que bem lhe deveis esse baptismo. + + _Alm. de França_ + + +I + +Bibliothecas ruraes + +Um dos grandes symptomas de regeneração e progresso moral do +seculo, em que vivemos, é, sem duvida, o desvelado carinho com que, +quasi por toda a parte, cuidam grandes e pequenos, com interesse ou +desinteresseiramente no melhoramento e instrucção do povo--esse grande, +inculto, e interessante engeitado--como d'elle diz um grande poeta. É +que a grande voz da democracia quando fala, inspirada pela boca dos +Kossuths e dos Mazzinis, falas de amor e de esperança, não sei de +coração generoso aonde não tope um echo. + + +II + +Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da +tyrannia, comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a +illustração pelo meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na +França, na Italia, na Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada +passo escholas para o pobre, e não é raro topar o trabalhador, pela hora +da sésta, entretendo-se a folhear, lêr e entender livrinhos, que, +apesar de mui comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de +o iniciar no saber. + +É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não +são os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e +bayonetas: são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por +elle velam, e cuja voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de +proscripta e desterrada, brada tão alto, que a propria tyrannia, em que +lhe pese, se vê forçada a se sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses +representantes da opinião: parece que a providencia capricha em haver os +tyrannos por instrumento da propria ruina; pois só a illustração, que dá +ao homem a consciencia de seus direitos, póde derribar ruins governos e +oppressores. Assim a instrucção progride e gradualmente estende a +sua rede, anhelando abraçar todas as camadas da sociedade, ministrando á +terra virgem, mas productivel semente de muita ideia, que se há de +resolver em ainda muito mais obras de bem e só para o bem. + + +III + +Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de +Portugal; e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos +remedios, ai de nós, por que um povo que possue a liberdade sem +instrucção, que só o póde n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que +se resolve, a custo poderá conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem +abusar. + +Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar +para grangear uma alma nova, para reconquistar a austera mãe dos +povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos, reminiscencias +odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é só a +instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos +irmãos, e conduzir-nos a bom fim. + +Qual é pois a causa da ignorancia--indigna do seculo--em que vegeta todo +o nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario, +é tambem a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos +e liberdades, considerando-os, indifferente, como uma invenção do +seculo, e desconhecendo que só elles são as garantias unicas e +segurissimas da sua individualidade e progresso. + +A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e +de elevado merito; nem mesmo na indifferença do povo portuguez, que +sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez compenetrado +por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um grande +Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os +elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um _a vontade dos que +podem_. + + +IV + +A carencia d'uma boa organisação de escholas, d'um bom regulamento +litterario, e um ministerio--proprio de instrucção--o campo que se +acanha a quem sabe, e só se alarga a quem tem e póde; eis as causas do +menospreso e quasi aversão, que entre nós soffrem lettras e sciencias. +Esta é a causa, e só causa de tantos males. + +Sei que é dura e fere o ouvido, e mais ainda o coração, esta +verdade, comtudo é uma e tão amarga, que custa a confessar, parecendo +melhor desculpa, a mingoa de livros bons e baratos. + +É fado que entre todos os povos cultos, sendo que as nossas bibliothecas +gemem debaixo do peso de boas obras nacionaes, somos porém um dos que +menos livros possuimos maneiros e de facil comprehensão. Abundam as +nossas livrarias em pesados volumes, de ainda mais pesada erudição e +elevado estylo: mas ao alcance do obreiro, do agricultor, do proprio +camponez, volumes, que por seu tamanho, preço e clareza a elles se +amoldem, que lhes mitiguem, por sua amenidade e instrucção, o rustico e +affanoso lidar, a custo se depara com um ou outro. + +N'isso differimos da França, da Italia, da Allemanha, que os tem aos +cardumes, emquanto que os nossos escriptores parece falarem-se mais +entre si do que com o povo. + + +V + +Com tudo, para quem tiver sêde de instrucção, para quem bem os procurar, +ainda ha que se achem e que sirvam. + +As grandes, ideias, se vieram encontrar Portugal adormecido nos braços +da ignorancia, ainda houveram almas nobres e intelligencias elevadas +aonde fisessem echo; e a geração nova tem continuado, de testemunhar á +Europa, que os elevados pensamentos da fraternidade não deram com +corações esquivos em peitos portuguezes. Ainda ha quem trate com afan do +que convem ao seu paiz e quem se não peje de dar testemunho, com +palavras ou com escriptos, do seu pensar, crêr ou esperar. + +Nem temor deve haver de que esta, que em tão boa senda; porque a era é +nova e a ideia virgem e longe o dia vem, em que tem de ceder o passo a +outra maior e mais elevada. + +O dever de todos, quantos sômos, que pugnamos pelas liberdades e bem do +povo, é seguir sempre a grande ideia, atravez de todos estorvos e +revezes, com o peito ao vento, o rosto alto, os olhos só fitos no +futuro. Abrir bem o coração a voz que vem de cima, e cerral-o á das +paixões da terra. + + +VI + +Dissera eu não serem elementos de felicidade que nos faltavam; mas +só o querer dos que podem tirar d'elles materia de muito bem. Temos a +ideia e temos os meios; tenhamos tambem a vontade, e para todo o mal se +deparará remedio. + +Um pequeno alvitre quero eu lembrar que, com ser pequeno e de pouco +custo, talvez não deixe de gerar bom fructo. + +Ideia d'um grande francez e grande amigo do povo, Mr. Cormenin, soube +ella insinuar-se em o animo d'um governo illustrado, que a soube +aproveitar, e d'ella já hoje em França vão brotando fructos de muito bem. + +Se o exemplo d'um povo tem algum peso no obrar dos outros, por que não +applicaremos e experimentaremos entre nós a ideia do grande homem +sendo que ella produz, como tem produzido, resultados tão elevadamente +civilisadores? + +Tal experiencia quizera eu se realisasse em nossa terra, que certo estou +de nos não deixar illudidos. + + +VII + +A ideia refere-se maximamente aos habitadores dos campos, esses, mais +que todos, engeitados da civilisação moderna. + +E comtudo é á sua illustração que de mais vontade nos deveremos +applicar. A agricultura é a melhor e mais verdadeira mãe dos povos, e, +como diz Castilho,--só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com +desenganada preferencia, só esse é rico, rico sem fausto, mas sem +receio de empobrecer--o trabalho da terra é a fonte de todos os outros +trabalhos, e assim, não é justo que nós, que em ocio desfructamos o +trabalho do camponez, lh'o suavisemos em troca--com algumas gottas do +balsamo da instrucção? + +Além d'isso, se trabalhamos em proveito da sua illustração, é em +proveito nosso que trabalhamos. + +O cultivador, que ler, conhecerá melhor o tempo, as estações, a +qualidade do torrão, da semente, o que mais convém a este ou est'outro +terreno, e que especie de grão deve lançar á terra. Com este progresso +na agricultura o lavrador produzirá melhor, mais, e mais barato. + +Não será, pois, tambem em o nosso proveito? + +Ainda que não fossem elles homens, e, como taes, com igual direito a se +illustrarem, bastaria a perspectiva do proprio lucro para nos fazer +cuidar d'elles com affinco, pois que, curando d'elles, de nós curamos em +realidade. + + +VIII + +Entendera Cormenin que o rustico, por ser rustico, nem por isso devia +ficar privado d'esse pão do espirito, que é a leitura. + +Partindo d'esta verdade, imaginou elle uma bibliotheca de 200 ou 300 +volumes de materia comezinha e de facil digestão para o povo: cada +concelho possue uma d'estas bibliothecas dividida em tantas menores, +quantas as aldeias e logares que em si conta, e em relação a ellas +numeradas. Cada uma d'estas livrariasinhas é enviada pelo +administrador do concelho ao parocho de cada aldeia, a fim d'elle +distribuir gratuitamente os volumes a quem d'elles precisar e os pedir, +assentando o nome de cada leitor n'um rol, e riscando-o á maneira, que +se vier fazendo entrega dos volumes. + +Depois de seis mezes passados, todas as obras que compõem a +livrariasinha se devem achar em casa do parocho, que a remette á aldeia +que tem a Bibliotheca de numero immediato, recebendo em troca a que lá +estava para o mesmo fim. + +Passado tempo, quando cada aldeia tenha tido por espaço de seis mezes +cada uma das bibliothecas parciaes, isto é, todos os livros do concelho +por partes e por varias vezes, far-se-há troca da bibliotheca toda com a +do concelho seguinte, continuando sempre assim com o mesmo systema +de leitura, de sorte que em poucos annos poucos livros terão, passando +por milhares de mãos e através de milhares de intelligencias, feito o +gyro do paiz, e levado a instrucção aos mais necessitados, sem que para +isso se exijam grandes despezas. + +A este alvitre, tão simples como economico e proficuo, chamou +Cormenin.--Systema das Bibliothecas Ruraes Ambulantes. + + +IX + +A bondade de tal alvitre por si e claramente se deixa vêr. Realisar o +desideratum da civilisação moderna--a instrucção do povo--em tão grande +escala, tão bem, e por tal preço, cuido que outro algum o poderá fazer +melhor. + +Nos primeiros annos poucos resultados bons se tirarão, porque ainda +os habitadores dos nossos campos desconhecem as vantagens da +leitura, mas, acostumados pelo uso, por assim dizer, aclimatados com o +systema, e maximamente, vendo os fructos que hão-de colher os que leram, +dentro em breve toda a população dos campos correrá em busca de livros e +será com injustiça, que o soberbo habitante da cidade lhes poderá +chamar--boçaes. + + +X + +Na escolha dos livros é que se deve requerer toda a cautella, para que a +instrucção não degenere em leituras prejudiciaes ou sem proveito. + +Deverá constar cada bibliothecasinha de pequenos volumes sobre sciencias +naturaes, medecina domestica, livros de religião, de agricultura, de +politica geral, de administração, historia, geographia e viagens; +tudo isto escolhido por pessoa versada e idonea. + +Na nossa terra, nomeadamente, deve-se curar principalmente de os +procurar ou traduzir em chã linguagem das estrangeiras, escolhendo entre +todos os melhores e os mais uteis. + +Comtudo é não acobardar, que ainda se adiam livros bons e uteis, e os +que não houverem podem bem supprir-se com versões dos melhores dos +outros paizes mais adiantados que nós, n'este genero de litteratura +popular. + + +XI + +Alguns livros ha, assentei eu, que estão no caso de percorrerem a +estrada de tal missão: originaes portuguezes uns; outros vertidos na +nossa lingua das estrangeiras. E que muito importa essa differença? já +disse alguem que o genio não tinha patria: um bom livro, que +appareça hoje, já amanhã falará todas as linguas, e será lido com ardor +por todos, quantos elles são, os povos cultos do globo. + +D'alguns livros sei eu, que satisfazem as exigencias: poucos em verdade +são elles, mas bons, mas bonissimos: quasi todos conhecidos e animados +do publico; alguns não tanto; a todos o nome do auctor lhes é caução. +Folgo de ter falado n'elles um pouco de longo, porque tão bons são, que +lhes desejára ainda mais carinhos, mais diffusão por entre o povo. Com +elles quizera eu se começasse a obra civilisadora das--Bibliothecas Ruraes. + + +XII + +Aquelle, que primeiro convém que o povo leia e releia, e por elle seja +mui manuseado, mui meditado, tem em si a propria recommendação: vem +assignado por nome portuguez e dos maiores. D'elle disse +Castilho--aquelle que em alguns paragraphos pretender julgar uma obra +tão cheia, tão variada, tão germinal toda ella, como é este livro, +provaria, ou que não a lera, ou que não era digno de a ler. Nós a lemos, +a relemos, temol-a ainda aberta, e aberta a deixaremos sobre a meza para +nossas meditações. + +Seu titulo é: + + + + +Estudos sobre a reforma em Portugal + +POR + +_J. F. Henriques Nogueira_ + + Não é um livro; é uma obra. + G. Planche. + + +I + +O livro cujo valor apregoamos, e ao qual outorgamos um primeiro +e eminente logar na nossa ora ideal--mas tão realisavel +bibliothecasinha popular,--é digno de tal occupar, sendo que entre todos +é elle o mais util e accommodado á intelligencia do nosso povo--ainda +mal--tão inculto, tão por mondar de cardos e ruins ervas, e, o que peor +é, com tão pouca esperança de proximo e util cultivo. + +O auctor do livro, como bom philosopho, cura menos do que é, ou póde +ser, do que indaga o que em sã razão devera existir: e ao tempo que, em +succinto mas substancial quadro, alevanta o rude trabalhador ao nivel de +seus direitos, não se mostra remisso no estudo dos deveres que se lhe +oppõem; accrescendo ainda um catechismo acabado dos meios de realisação +d'uns e de satisfação dos outros. Ajuntai ainda uma expressão clara, por +correcta; uma viveza toda meridional de imagens; um finissimo tacto ou, +por assim dizer, um como faro mui mimoso no descobrimento dos males +sob que geme a sociedade, e a mão segura em alvitrar meios de prompto +remedio; e em limitadas phrases havereis o livro. + + +II + +Diz modestissimamente o auctor, que o livro não é mais do que a selecção +de pequeninos estudos ácerca d'esta ou d'est'outra reforma. Sobremodo +maior é o seu merecimento, e em conta de maior obra o tenho eu. É um +systema de organisação social completo e cheio; resumo, conciso sim, mas +germinal das reformas, que ha mister um povo e uma sociedade já gastos. +Dai-me população e territorio, que meios de organisar um governo no +livro os acho eu todos; mas governo racional, philosophico sem que seja +irreligioso (e é este o dizer verdadeiro da palavra); governo, +finalmente como o deve ser um no seculo dezenove. + +Se desejaes um testemunho do seu bem querer, lêde com que tocante +singeleza resume elle, em poucas palavras, o seu credo politico e +social, onde, a par do grande reformador, deparareis com o poeta e com o +cidadão honesto, e amante da sua patria. + + +III + +Eis os termos em que se expressa: + +--Quizera que, n'um paiz como o nosso emancipado por cruentos esforços +da tutela humiliante, egoista e sanguinaria da monarchia absoluta, +cansado do regimen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarchia +constitucional, necessitado de restaurar as forças perdidas em luctas +estereis e de cicatrizar feridas, que ainda gotejam, ávido, emfim, de +gozar as doçuras da liberdade, por que tanto ha soffrido; quizera +que o governo do estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma +nobre, philosophica e prestigiosa de--Republica. + +--Quizera que o poder supremo, emanado do voto universal, residisse na +assembleia dos representantes do povo e que o poder executivo fosse +confiado a um ministerio de tres membros, nomeados pela assembleia. + +--Quizera que a administração da justiça corresse imparcial, rapida e +gratuita; que os serviços feitos ao paiz tivessem uma recompensa +condigna; que os crimes achassem correcção em vez de vingança, e que a +pena de morte, vestigio maximo da barbaridade, fosse abolida. + +--Quizera que a guarda nacional, milicia gratuita, que não obriga o +cidadão a abandonar as suas ocupações, constituisse o grosso da +força armada; e que o exercito subsidiario se reduzisse unicamente aos +corpos scientificos. + +--Quizera que a despeza publica fosse inferior á receita; que se +proscrevesse o ruinoso systema das dividas; e que a applicação dos +rendimentos do Estado fosse inteiramente productiva, illustrada e +philantropica. + +--Quizera que a rede tributaria, que ameaça de estancar o paiz, ficasse +reduzida a um só imposto progressivo sobre a renda, cobrado sem despeza +e realisado sem agio. + +--Quizera que os capitaes, pela barateza do juro, auxiliassem a +producção, em logar de absorverem a maior e melhor parte de seus lucros. + +--Quizera que o direito á subsistencia pelo trabalho tivesse nas +officinas, colonias e obras publicas, uma util garantia; que o trabalho +das mulheres ganhasse uma area mais vasta, e que fosse melhor +retribuido. + +--Quizera que a Agricultura, a Industria fabril e o Commercio recebessem +do estado uma desvelada protecção, como fontes principaes da riqueza. + +--Quizera que as estradas, os canaes, as barras, e em geral, todos os +meios de viação merecessem a preferencia no extenso capitulo das nossas +necessidades. + +--Quizera que a communicação do pensamento não achasse obstaculos; e que +o correio fosse inteiramente gratuito, tanto para as cartas como para os +escriptos periodicos. + +--Quizera que os orphãos, os doentes e os invalidos, que dependem da +caridade publica, encontrassem nas casas de mesericordia lenitivo para +os seus males; e que se franqueassem a todos os operarios as +instituições economicas e preventivas da miseria. + +--Quizera que os cuidados exercidos sobre a saude publica conseguissem +minorar e extinguir, se tanto fosse possivel, as causas de infecção, que +vão minando gradualmente a robustez das gerações. + +--Quizera que o derramamento da instrucção chegasse ás ultimas camadas +sociaes; que a imprensa publica se tornasse um instrumento de progresso; +e que o estado protegesse o talento abandonado, que a falta de cultura +não deixa medrar. + +--Quizera que a religião de nossos paes não servisse de escudo a +interesses egoistas e mundanos, mas que acompanhasse o progresso da +humanidade; que os bispos fossem, como n'outros tempos, eleitos pelo +povo; e que os parochos se elevassem á altura de mestres e de +moralisadores. + +--Quizera que os interesses da localidade fossem attendidos primeiro +do que tudo; que o territorio se dividisse para todos os effeitos em +grandes e bem regidos municipios; e que as aldeias tivessem os +melhoramentos indispensaveis ao bem commum dos moradores. + +--Quizera que a associação, origem de maravilhas, se estendesse a todas +as classes da sociedade e principalmente áquellas que vivem do seu salario. + +--Quizera que a familia, instituição primitiva e santa, não apresentasse +o quadro odioso dos direitos de primogenitura, que dão a uns filhos a +regalia de senhores, em quanto conservam outros na humiliação de servos. + +--Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se +estendesse ao maior numero de individuos; e que para completar a +liberdade da terra se permitisse a remissão de todos os encargos que a +oneram. + +--Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas +conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na--Federação--com os +outros povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira +independencia que lhe faltam na sua tão escarnecida nacionalidade... + +......................................................................... + +Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande +philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario? + + +IV + +Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á +maneira que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas, +não póde, precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um +de seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente consoladores de +esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario. + +A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas +vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade, +a anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no +coração dos bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais +christãos. + +Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a +dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de +poeta; mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade. +Muitos dirão com o poeta: + + Vãos desejos, talvez: mas bons de certo. + +Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que, +verdade é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres. + +Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é: +quem acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda +sereno e firme na sua fé, tem uma nobre missão:--a de abrir e +esclarecer, sentinella do porvir, a estrada da nova era; que outros, +vagarosos, de prudentes, só mais tarde pisarão. + +Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás +regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha +face de verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este +caminhar providencial. + +Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho +que diz a tudo quanto soffre cá na terra: + +--Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:--Soffre, que para o teu +mal não ha salvação nem lenitivo! + + + + +FELICIDADE PELA AGRICULTURA + +POR + +Antonio Feliciano de Castillo + + Da terra saímos; á terra volvemos: + A terra nos veste, nos traz, nos mantem. + Quem mais do que a terra merece os extremos, + Que obtem dos bons filhos a próvida mãe? + + A. F. de Castilho + + +I + +Eis agora aqui um livro, que, em meio da geral fermentação de +tumultuosas paixões e ambições immoderadas que agitam as nossas +modernas sociedades; em meio d'este lamentavel estado de geral +descontentamento e desgosto de que todos mais ou menos somos victimas; +quando, segundo judiciosamente observa Aimé Martin, o artista descrê da +arte, o padre de Deus, o mancebo do futuro, e até a mulher do amor, e +nem um só tem o menor vislumbre de esperança na felicidade com que ainda +póde topar no estado que lhe deparou a providencia; eis agora--digo +eu--um livro que, em meio de tudo isto, nos promette essa almejada +felicidade, que nos aponta o como a poderemos alcançar, que o prova--e o +que mais é--não fala em referencia aos grandes, aos poderosos, aos que +por si tem todos os dons da fortuna, mas ao pobre, ao desvalido, ao que +chora e soffre em meio das trevas da ignorancia, da miseria, quasi, +direi, da servidão. + +É mister ser-se um grande poeta--poeta de muito crêr e muito +esperar,--para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas +populações miseraveis dos nossos campos--orphãs da moderna +civilisação--palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os +queixumes, conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda +crente, mais crente talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e +felicidade para esses que por cruel ironia só lhes respondem com +lagrimas e gemidos. + + +II + +É que o poeta recebeu de Deus o condão mago de ler na noite de arredado +futuro; de vêr luz e muita luz aonde outros só vêem trevas; flores de +amor e de vida, aonde para muitos só brotam os goivos do sepulchro. + +Esse lê bem, que assim lê em lettras de ouro paginas de esperança e +felicidade no grande livro dos destinos da humanidade. + +Crê e espera--mas não lhe vem só do coração--de seu condão de +poeta--essa crença e essa esperança.--Estudou, pensou, viu muito pelos +olhos de sua intelligencia, e n'este estudo firmou elle em grande parte +essa crença, que lhe dá a força de prometter ainda felicidade e muita +felicidade para os campos, para os habitadores dos campos e para todos +por via d'elles. + +«Aconselhar a agricultura ao povo, diz o auctor, é aconselhar-lhe a +propria felicidade». + +Veremos se o alvitre é tão bom como se apregoa, se não cegou o poeta a +propria inspiração. + + +III + +Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de +fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como +iniciação nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos +conquistando, de tal arte nos cegou a novidade da conquista, tão +afanosos nos mostramos no empenho de a bem guardar, que de todo nos +esquecemos de que não é ella o fim unico (como se já suppoz) dos humanos +destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros progressos; um +primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma mera +iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos +arraiaes do futuro. + +Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que +assim nos traz presa a vista e a alma, sem nos lembrarmos, que em +volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos, outras e muito +formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam fructo, á +mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que--a haver boa vontade--se lhes +poderia dar vida ás raizes sequiosas. + +A agricultura, com ser a mais esperançosa para bom fructo, de todas +essas flôres, que vão murchando no pó ao minguar-lhes o alimento, é por +ventura de todas ellas a que mais soffre, e a quem mais se recusa esse +alento e essa protecção, de que por tantos titulos nos é credora. + + +IV + +Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes +homens da maior nação se não envergonhavam de serem encontrados, em +meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro, que +tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais +altos cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a +toga da dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e +felizes em voltarem cobertos de louros para o trabalho de seus campos, +que em meio haviam deixado! + +Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos +não cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos +sorrir, de nos convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas +verduras, com todos os seus matizes de mil flores. + +Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou +e a todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias +de tribulação, lá a temos sempre, que nos estende os braços com +affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até que +por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o +ser, e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só +a ella, que toda essa grandeza se deve attribuir!... + + +V + +Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho, +se póde conceber tal desprezo e tal ingratidão. + +A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais +carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de +desprezivel. + +Tão velha como o homem, como as suas primeiras necessidades, é-lhe a +sua antiguidade segura garantia de excellencia e de nobreza; desprezivel +ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as sciencias a +veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará +maiores serviços. + +As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças, +grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio +destruidor das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo +ao outro os productos de todos os climas: todas essas maravilhas de +grandeza e intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto +por lá se creou; tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de +atribulação e de angustia, lembrar-se com saudade da humilde mas +pacifica choça, d'onde primeiro desabrochara á luz do sol; tudo isto ha +de deixar de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por +fim, que elles hão de continuar ainda, por muito tempo, depois do homem +talvez, a vecejar, a florir, a fructificar, sempre bellos e sempre +risonhos, agora e depois, como no primeiro dia da creação! + + +VI + +A industria e o commercio, os dois mais poderosos e mais incansaveis +agentes e creadores da riqueza das nações, lá tem nos campos alicerce, +lá foram buscar á agricultura todas as forças com que operam, todas as +galas de que se revestem. + +O ferro, com que o homem fabricou novos orgãos, para ajudar os que a +natureza lhe déra; o carvão, com o auxilio do qual centuplica as suas +forças; lá lh'os tinha a terra guardados no seu seio, como mãe +carinhosa: o linho, de que fabrica os vestidos que o revestem, tambem já +lourejou pela encosta de suas collinas: o madeiro, que recurvado sulca +as ondas em busca de novos mundos, tambem orgulhoso e gigante se ergueu +outr'ora no meio de suas florestas: o grão, que o nutre; o fructo, que o +delicia; o vinho, que lhe dá mais vida e alegria; tudo isto tambem por +lá cresceu e medrou, tudo isto de lá saiu. + +A sciencia, a mais nobre de todas as sciencias de Deus, porque é a +sciencia do infinito--a astronomia--tambem lá vae nos campos buscar a +sua origem: lá nasceu entre humildes pastores, lá se desenvolveu, até +que o homem das cidades, orgulhoso já de sua grandeza, a veio usurpar +aos que primeiro a descobriram, para, no remanso do gabinete, ou no +terraço do observatorio lhe dar ainda maior desenvolvimento. + +A geometria--por ventura mãe da astronomia, tambem nos campos tem seu +berço. + +Todas as artes lá vão buscar as materias com que operam, muitas tambem +as suas melhores inspirações. + + +VII + +Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas +ao paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem +para o mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem +rude e aspera a agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios. + +Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com +entranhavel amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber +dar afagos e carinhos, para esse, similhante á cidra fabulosa, tem +ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e +belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe +procreadora de prodigios sem conta. + +Qual há, porem, vara magica de fada, que--trocando-a--a chame á vida, a +faça abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas +essas flôres de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que +sem estranho auxilio não podem desabrochar nem medrar? + +Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago +condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra +de Portugal. + + +VIII + +É a associação mãe de taes prodigios, de tantos beneficios, fonte +perenne e inesgotavel, que apregoar-lhe valor e necessidade, além de +desnecessario, fôra loucura quasi rematada. + +Com effeito, hoje, á luz do seculo XIX, quando é orgulho e timbre de +toda a sciencia o prescrutar bem fundo a alma, a intelligencia e o corpo +humano, procurando ahi todas as leis da sua natureza, para n'ellas--e só +n'ellas--se estribarem theorias e instituições, hoje desatino seria +buscar ainda provas para aquillo, que d'ellas menos carece, sendo que a +sociabilidade é, de todas as leis naturaes, aquella que mais +exuberantemente demonstram as theorias da sciencia, e a mais que todas +inexoravel e severa logica dos factos. + +A muitas d'estas leis póde desobedecer o homem, contra outras se póde +totalmente revoltar, mas contra esta, por sem duvida o tenho, seria tal +attentado, que assento jámais poderá realisar-se. + +Subtrahi os homens--um só momento que seja--ao seu influxo benefico, e +para logo os vereis amesquinhar-se, quando não desapparecer da face da +terra. + +Condição primaria de sua existencia e progresso, ha de com elle mais e +mais desenvolver-se, que não há ahi decreto de rei da terra--fôra elle +Cesar ou Napoleão--que ouse derogar o decreto do Eterno!... + + +IX + +É pois a associação o cumprimento d'uma lei natural. + +Na progressiva evolução d'essa lei e a par d'ella, vejo eu caminhar a +humanidade; desinvolver-se, se se ella cumpre; estacar, se pára; +definhar, se esmorece; seguindo-a sempre e resentindo-se de suas +menores alterações. + +E é de razão, porque, a ser o fim do homem na terra o desenvolvimento de +suas faculdades, que outra há mais nobre e importante; que mais influa +nos seus destinos que esta lei da sociabilidade? + +Por ella se póde aferir o grau de civilisação d'este ou d'est'outro povo +porque ahi onde mais o homem se estreitar com o homem, aonde mais de um +irmão ajudar o outro irmão, ahi tambem mais o espirito tenderá a +elevar-se--e de feito se há-de elevar--elevação que toda se desata em +muita sciencia, muito bem e muita ventura. + +Reconhecidos estes principios, reconhecidos--quasi +direi--demasiadamente, houve quem d'elles se possuisse a ponto de +n'elles querer buscar todo um systema de organisacão social. + +Desvairou-os o amor d'um principio, o conhecimento d'uma lei natural, +por ventura a ignorancia de muitas outras; e, encarando o homem por lado +restricto, quizeram o desenvolvimento d'uma faculdade á custa das outras +todas. + +Não quer isto porém a harmonia, essa outra lei de Deus, que tem de +presidir--como revelando-a--a toda a creação. + +É mister que a todas as faculdades seja dado um maximo desenvolvimento; +mas é mister tambem que cada uma, ao alargar a sua esphera, não vá +calcar outras, a quem egual direito assiste... + + +X + +Por que é lei da natureza humana a liberdade, porque deve o homem +responder por suas acções, não quer a boa justiça, não quer a boa rasão, +que á força--que não com a arma da persuação--se lhe imponha o +cumprimento d'uma obrigação qualquer, fôra ella tão santa, tão +prescripta por Deus, tão filha da natureza do mesmo homem como esta da +sociabilidade. + +Assim, é com a liberdade e só pela liberdade, que tem de effectuar-se +este grande pensamento da associação, este grande abraço que obedecendo +ás leis do proprio ser, tem de--no futuro--dar homens e povos, +estreitando cada vez mais os laços que os unem, e centuplicando forças, +sympathias e vida. + +Problema longo tempo agitado, dá-lhe hoje a sciencia cabal resolução. +Desde que esta, despresando theorias incertas e imaginosas, foi buscar +como base de seu estudo, para ahi fazer alicerce seguro, aos principios +que tinha de formular, a natureza do ser, a quem todos tinham de ser +applicados; desde essa occasião ganha estava a causa da liberdade. + +Podem offerecer-se-lhe mil estorvos, levantar-se contra ella as maiores +tormentas, que ella, atravez de tudo, lá ha-de ir sempre seguindo seu +caminho, ganhando o terreno palmo a palmo sobre os seus adversarios, e +libertando o homem cada vez mais do jugo da miseria, da escravidão e do +embrutecimento. + + +XI + +Associação e Liberdade: são estas as duas ideias salvadoras--e só +ellas--que, uma pela outra completando-se, podem levar a bom fim as +nossas modernas sociedades. + +Associação livre--eis o que em nome da sciencia podemos affoutos +responder a esses nobres, mas desvairados, sonhadores de utopias, +que na fé de uma imaginosa organisação social, toda artificio humano, +que não segundo as leis do natural organismo, e em nome das santas +esperanças e fraternaes aspirações, que em abundancia lhes enchem as +almas generosas, nos promettem, há meio seculo, o progresso da perfeita +felicidade--porventura mais do que ao homem é dado esperar na terra. + + +XII + +A sciencia toma o facto, especula-lhe a essencia e natureza, observa-lhe +as relações, e de tudo deduz as leis que lhe presidem. Póde +desempedidamente apresental-as á luz do dia, e para o futuro concluir +affoutamente do passado; póde e deve-o, que outra não é sua missão. + +Mas o que muita vez o frio calculo e analyse reflectida deixam por +mesquinho ou vulgar, sem d'ahi tirarem materia para considerações, +toma-o para si o coração sensivel do poeta; pela imaginação o nobilita e +engrandece, na mente lhe fórma a robusta estatura; até que apparece em +fim gigante de crescidas forças, esse que ainda há pouco, de mesquinho e +pigmeu, nem sequer attrahia as vistas do investigador curioso. + +É assim que a imaginação e a analyse, a sciencia e a inspiração, uma +pela outra se completam, trabalhando cada qual na esphera que por +natureza lhe compete, e para fim commum--a _Verdade_, concorrendo uma e +outra na medida de suas forças e aptidões. + +São (ou antes deverem ser) duas irmãs queridas e extremosas, em obra +commum, empregando desvellos e cuidados; nunca, como até hoje, rivaes, +que por um mesmo amor, e em nome da mesma causa, se detestam e +guerreiam. + + +XIII + +É d'estes dous elementos--sciencia e inspiração--que brotam as nobres +ideias e grandes verdades, que por vezes têm mudado a face de uma +civilisação, quando, em vez de uma á outra se mostrarem hostis para fim +commum se têm dado mãos amigas. + +Nas porfiosas luctas politicas do seculo, em que--mais ou menos--todos +temos sido actores ou espectadores, se encontra clara prova e exemplo +manifesto da proposição que aventamos. + +Por longo tempo trabalharam em bandos oppostos e á sombra de vario +pendão os modernos representantes d'esses bons principios, uns e outros +promettendo-nos felicidade, mas cada qual em nome de mui diferente +divindade; até que, passados que foram os tempos de mais escandecida +lucta e acalorada discussão, a mesma força da verdade os trouxe a si; e +a commum e amigavel união lhes soube chamar os animos discordes. + +Ambos em parte transviados, a ambos comtudo assistiam tambem em parte +principios de verdade. Inimigos, seriam sempre viajantes perdidos em +densas trevas, cada vez a se affastarem mais das veredas trilhadas; +reconciliados, um ao outro se guiam e ajudam, com as luzes e forças +proprias, em nome d'uma longa amizade no futuro, postas em commum. + +E de feito, não é hoje que, no meio d'essa pleiade illustre de generosos +espiritos, que anhelando anciosos por um melhor futuro, trabalham +afanosos para alivio e engrandecimento dos que choram; não é hoje +que entre elles se encontrarão rivalidades d'eschola, mas indignas +d'homens, ao bem dos homens votados. + +São hoje irmãos. Os erros de cada qual, ao despirem-se dos velhos +rancores, sacrificaram-nos no altar da nova alliança; e d'entre as +cinzas impuras, que o vento dispersa ao longe, sahiu--nova Phenix--a +flôr immarcessivel da verdade eterna. + + +XIV + +Associação e Liberdade dissera eu serem essas duas ideias aonde se +depara mais verdade e que, ambas fundidas em factos, podem dar fructo +mais sasonado e proveitoso; o leito por onde placida póde correr, +demandando seu termo, a torrente--ora revolta e turbada por mil +encontrados elementos que ahi se revolvem e guerreiam--da vida das +modernas sociedades. + +E como não seria assim, se ramos frondosos de arvore, que no coração do +homem tem fundas as raizes--a propria natureza, têm por fim, +entrelaçando-se estreitamente e em mutuo amplexo apertando-se, +ampararem-se e defenderem-se uns a outos, porque assim reciprocamente se +protejam no crescer e no fructificar? Se são ara sacro-santa aonde os +animos discordes em busca da verdade--mas que d'alma a buscam, tem de +vir pactuar a alliança, queimando ahi, em holocausto incruento, o fel de +paixões ruins e desamoraveis ¿como poderão ellas, por estranho desapego +e ingratidão mentir ao que, em nome de futuro melhor, nos promettem, e a +que, na fé d'esse almejado futuro prestamos crença e esperança +illimitadas? + +Não podem. Quanto á intelligencia e coração do homem se revela uma +verdade, tam rica de evidencia, tam promettedora de consolações, não +póde «_Aquelle_» que ao espirito a revelara deixal-a sem que pela +revelação dos factos receba confirmação e com ella foros de inconfutavel. + +Uma ideia assim nunca mente. + + +XV + +Descendo das subidas regiões da abstracção ao campo mais arido e +abrolhoso--mas porventura mais util, das realidades, da theoria aos +factos; o livro, cujo bom espirito por todos quiseramos diffundido, como +vaso de balsamo suave, que a todos vae ungindo e perfumando, apontando +alvitres, que d'estes bons principios descendem testemunhando não +escasso cabedal de saber,--testifica tambem aquilatado amor pela +sciencia e pelos homens; que em muito conta o amor e o enthusiasmo +para o descobrimento da verdade. + +De tantos e tão bons alvidramentos, quantos o livro encerra, um há que, +como base de systema, os resume em si, d'onde todos descendem, ponto +culminante, centro em volta do qual, satelites a lhe reflectirem o +brilho, volteiam todos os outros, compartilhando com elle a verdade e +prestimo com que é dotado. + +É este o projecto das «Associações Agricolas». + + +Fim + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES *** + +***** This file should be named 32871-8.txt or 32871-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/7/32871/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Typographia da Aurora do Cavado, 1896."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + h4.sinopse {text-align: justify; margin: 1em; text-indent: -1em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; } + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Leituras Populares + +Author: Antero de Quental + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32871] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 2em;">ANTHERO DE QUENTAL</p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.5em;">ANTHERO DE QUENTAL</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">LEITURAS POPULARES</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>BARCELLOS <br> +<small>Typographia da <i>Aurora do Cavado</i></small> <br> +Editor—<i>R. V.</i> <br> +1896</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="margin: 10%;text-align:center;"> +<p>Tiragem apenas de 100 exemplares:</p> + +<p>20 em papel de linho.</p> + +<p>80 em papel d'algodão.</p> + +<p>N.º___</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p>Um dos periodicos academicos em que Anthero de Quental mais collaborou +durante o seu curso universitario foi o quinzenario <i>Preludios +Litterarios</i>, publicado em Coimbra desde dezembro de 1858 a janeiro de 1861, +tendo por fundador, director e redactor principal Vicente da Silveira. Para +elles escreveram os mais talentosos d'entre os academicos d'então, +contando-se<span class="pn">{6}</span> n'este numero Augusto Filippe Simões, +Adolpho Ferreira Loureiro, Antonio da Silva Gayo, Eduardo José Coelho, Antonio +Lopes dos Santos Valente, Augusto Luciano Simões de Carvalho, Bernardino +Pinheiro, Francisco Beirão, Guimarães Fonseca, Joaquim Simões Ferreira, o +divino João de Deus, e ainda outros.</p> + +<p>De Anthero de Quental, entre outros trabalhos que n'elles inseriu, conta-se +a serie de artigos que epigraphou <i>Leituras Populares</i> e que sahiu em seu +volume II e n.<sup>os</sup> 2, pag. 9 e 10: n.º 3, pag. 17 a 19; n.º 4, pag. 25 +e 26; n.º 6, pag. 41 e 42; n.º 8, pag. 57 e 58; n.º 15, pag. 116; e n.º 20, +pag. 153.</p> + +<p>Comprehendem-se n'esta serie a apreciação das <i>Bibliothecas Ruraes</i>, +por Cormenin, o eminente publicista francez, que tanto illustrou seu nome como +ainda o pseudonimo de <i>Timon</i>, com que firmou alguns de seus trabalhos; a +exposição e apreciação dos <i>Estudos sobre a reforma em Portugal</i> de J. F. +Henriques Nogueira, incontestavelmente o primeiro de nossos publicistas em este +paiz, cujos trabalhos estão reclamando instantemente uma edição completa e +popular, que os torne conhecidos de todos e evangelho da democracia, que bem o +merecem elles pela elevação e amplidão admiraveis de suas vistas e alcance; e a +exposição e apreciação da <i>Felicidade pela agricultura</i>, a obra +peregrina<span class="pn">{7}</span> de Antonio Feliciano de Castilho, em que +tudo é ouro de lei, desde sua linguagem, a mais portugueza e formosa, até seus +ensinamentos os mais santos e justos e proveitosos.</p> + +<p>Coube agora a vez de virem esses inestimaveis estudos de Anthero á nossa +modesta collecção de seus trabalhos dispersos, e não ficarão elles sendo uma +das menos brilhantes paginas d'ella.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;"><i>Rodrigo Velloso</i></p> + +<p><span class="pn">{8}<br> +{9}</span></p> + +<h1>LEITURAS POPULARES</h1> + +<blockquote style="margin-left:8em"> + <p>Derramai a instrucção sobre a cabeça do povo, que bem lhe deveis esse + baptismo.</p> + + <blockquote> + <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"><i>Alm. de + França</i></p> + </blockquote> +</blockquote> + +<h2>I<br> +Bibliothecas ruraes</h2> + +<p>Um dos grandes symptomas de regeneração e progresso moral do seculo, em que +vivemos, é, sem duvida, o desvelado carinho com que, quasi por toda a parte, +cuidam grandes e pequenos, com<span class="pn">{10}</span> interesse ou +desinteresseiramente no melhoramento e instrucção do povo—esse grande, +inculto, e interessante engeitado—como d'elle diz um grande poeta. É que a +grande voz da democracia quando fala, inspirada pela boca dos Kossuths e dos +Mazzinis, falas de amor e de esperança, não sei de coração generoso aonde não +tope um echo.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Bem que a Europa jazia manietada mais ou menos pelos grilhões da tyrannia, +comtudo não se mostram os governos descuidosos em promover a illustração pelo +meio das massas: por toda a parte, nomeadamente na França, na Italia, na +Allemanha e até na inculta Russia, se veem a cada passo escholas para o pobre, +e não é raro topar o trabalhador, pela hora da sésta, entretendo-se a<span +class="pn">{11}</span> folhear, lêr e entender livrinhos, que, apesar de mui +comesinhos e de popular expressão, nem por isso deixam de o iniciar no saber. +</p> + +<p>É certo que os verdadeiros promotores d'este progresso intellectual não são +os oppressores, que mal têm elles tempo de se rodearem de lanças e bayonetas: +são os democratas, os verdadeiros amigos do povo, que por elle velam, e cuja +voz, que é a voz da verdade e da justiça, apezar de proscripta e desterrada, +brada tão alto, que a propria tyrannia, em que lhe pese, se vê forçada a se +sujeitar mais ou menos aos mandatos d'esses representantes da opinião: parece +que a providencia capricha em haver os tyrannos por instrumento da propria +ruina; pois só a illustração, que dá ao homem a consciencia de seus direitos, +póde derribar ruins governos e oppressores. Assim a instrucção progride e +gradualmente<span class="pn">{12}</span> estende a sua rede, anhelando abraçar +todas as camadas da sociedade, ministrando á terra virgem, mas productivel +semente de muita ideia, que se há de resolver em ainda muito mais obras de bem +e só para o bem.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Remissa e vagarosa, porém, vae a instrucção por esta boa terra de Portugal; +e ai de nós se não se attende a este grave mal com promptos remedios, ai de +nós, por que um povo que possue a liberdade sem instrucção, que só o póde +n'ella iniciar e nos sagrados direitos em que se resolve, a custo poderá +conserval-a, e o que é mais, conserval-a sem abusar.</p> + +<p>Saidos apenas d'um baptismo de sangue, em que nos foi mister mergulhar para +grangear uma alma nova,<span class="pn">{13}</span> para reconquistar a austera +mãe dos povos, a liberdade, conservamos ainda vestigios cruentos, +reminiscencias odiosas d'essa lucta fratricida, bem que em prol da patria; e é +só a instrução que nos póde lavar da fronte as manchas do sangue de nossos +irmãos, e conduzir-nos a bom fim.</p> + +<p>Qual é pois a causa da ignorancia—indigna do seculo—em que vegeta todo o +nosso povo e grande parte da burguezia? Porque não é só o proletario, é tambem +a classe media em grande escala, que não cura de seus direitos e liberdades, +considerando-os, indifferente, como uma invenção do seculo, e desconhecendo que +só elles são as garantias unicas e segurissimas da sua individualidade e +progresso.</p> + +<p>A causa não está na escassez de livros populares, que alguns temos nós e de +elevado merito; nem mesmo na indifferença<span class="pn">{14}</span> do povo +portuguez, que sabido tem elle mostrar o como zela seus direitos, uma vez +compenetrado por elles. A resposta já de ha muito a deu um grande homem e um +grande Portuguez, quando se lastimava de que possuindo nós ainda todos os +elementos d'uma grande ventura, só nos faltasse um <i>a vontade dos que +podem</i>.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>A carencia d'uma boa organisação de escholas, d'um bom regulamento +litterario, e um ministerio—proprio de instrucção—o campo que se acanha a +quem sabe, e só se alarga a quem tem e póde; eis as causas do menospreso e +quasi aversão, que entre nós soffrem lettras e sciencias. Esta é a causa, e só +causa de tantos males.</p> + +<p>Sei que é dura e fere o ouvido, e<span class="pn">{15}</span> mais ainda o +coração, esta verdade, comtudo é uma e tão amarga, que custa a confessar, +parecendo melhor desculpa, a mingoa de livros bons e baratos.</p> + +<p>É fado que entre todos os povos cultos, sendo que as nossas bibliothecas +gemem debaixo do peso de boas obras nacionaes, somos porém um dos que menos +livros possuimos maneiros e de facil comprehensão. Abundam as nossas livrarias +em pesados volumes, de ainda mais pesada erudição e elevado estylo: mas ao +alcance do obreiro, do agricultor, do proprio camponez, volumes, que por seu +tamanho, preço e clareza a elles se amoldem, que lhes mitiguem, por sua +amenidade e instrucção, o rustico e affanoso lidar, a custo se depara com um ou +outro.</p> + +<p>N'isso differimos da França, da Italia, da Allemanha, que os tem aos +cardumes, emquanto que os nossos escriptores<span class="pn">{16}</span> parece +falarem-se mais entre si do que com o povo.</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Com tudo, para quem tiver sêde de instrucção, para quem bem os procurar, +ainda ha que se achem e que sirvam.</p> + +<p>As grandes, ideias, se vieram encontrar Portugal adormecido nos braços da +ignorancia, ainda houveram almas nobres e intelligencias elevadas aonde +fisessem echo; e a geração nova tem continuado, de testemunhar á Europa, que os +elevados pensamentos da fraternidade não deram com corações esquivos em peitos +portuguezes. Ainda ha quem trate com afan do que convem ao seu paiz e quem se +não peje de dar testemunho,<span class="pn">{17}</span> com palavras ou com +escriptos, do seu pensar, crêr ou esperar.</p> + +<p>Nem temor deve haver de que esta, que em tão boa senda; porque a era é nova +e a ideia virgem e longe o dia vem, em que tem de ceder o passo a outra maior e +mais elevada.</p> + +<p>O dever de todos, quantos sômos, que pugnamos pelas liberdades e bem do +povo, é seguir sempre a grande ideia, atravez de todos estorvos e revezes, com +o peito ao vento, o rosto alto, os olhos só fitos no futuro. Abrir bem o +coração a voz que vem de cima, e cerral-o á das paixões da terra.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Dissera eu não serem elementos<span class="pn">{18}</span> de felicidade que +nos faltavam; mas só o querer dos que podem tirar d'elles materia de muito bem. +Temos a ideia e temos os meios; tenhamos tambem a vontade, e para todo o mal se +deparará remedio.</p> + +<p>Um pequeno alvitre quero eu lembrar que, com ser pequeno e de pouco custo, +talvez não deixe de gerar bom fructo.</p> + +<p>Ideia d'um grande francez e grande amigo do povo, Mr. Cormenin, soube ella +insinuar-se em o animo d'um governo illustrado, que a soube aproveitar, e +d'ella já hoje em França vão brotando fructos de muito bem.</p> + +<p>Se o exemplo d'um povo tem algum peso no obrar dos outros, por que não +applicaremos e experimentaremos entre nós a ideia do<span +class="pn">{19}</span> grande homem sendo que ella produz, como tem produzido, +resultados tão elevadamente civilisadores?</p> + +<p>Tal experiencia quizera eu se realisasse em nossa terra, que certo estou de +nos não deixar illudidos.</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>A ideia refere-se maximamente aos habitadores dos campos, esses, mais que +todos, engeitados da civilisação moderna.</p> + +<p>E comtudo é á sua illustração que de mais vontade nos deveremos applicar. A +agricultura é a melhor e mais verdadeira mãe dos povos, e, como diz +Castilho,—só um povo que lhe quer, e a quer, e a serve com desenganada +preferencia, só esse é rico, rico sem fausto,<span class="pn">{20}</span> mas +sem receio de empobrecer—o trabalho da terra é a fonte de todos os outros +trabalhos, e assim, não é justo que nós, que em ocio desfructamos o trabalho do +camponez, lh'o suavisemos em troca—com algumas gottas do balsamo da +instrucção?</p> + +<p>Além d'isso, se trabalhamos em proveito da sua illustração, é em proveito +nosso que trabalhamos.</p> + +<p>O cultivador, que ler, conhecerá melhor o tempo, as estações, a qualidade do +torrão, da semente, o que mais convém a este ou est'outro terreno, e que +especie de grão deve lançar á terra. Com este progresso na agricultura o +lavrador produzirá melhor, mais, e mais barato.</p> + +<p>Não será, pois, tambem em o nosso proveito?<span class="pn">{21}</span></p> + +<p>Ainda que não fossem elles homens, e, como taes, com igual direito a se +illustrarem, bastaria a perspectiva do proprio lucro para nos fazer cuidar +d'elles com affinco, pois que, curando d'elles, de nós curamos em realidade. +</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Entendera Cormenin que o rustico, por ser rustico, nem por isso devia ficar +privado d'esse pão do espirito, que é a leitura.</p> + +<p>Partindo d'esta verdade, imaginou elle uma bibliotheca de 200 ou 300 volumes +de materia comezinha e de facil digestão para o povo: cada concelho possue uma +d'estas bibliothecas dividida em tantas menores, quantas as aldeias e logares +que em si conta, e em relação a ellas numeradas. Cada uma d'estas<span +class="pn">{22}</span> livrariasinhas é enviada pelo administrador do concelho +ao parocho de cada aldeia, a fim d'elle distribuir gratuitamente os volumes a +quem d'elles precisar e os pedir, assentando o nome de cada leitor n'um rol, e +riscando-o á maneira, que se vier fazendo entrega dos volumes.</p> + +<p>Depois de seis mezes passados, todas as obras que compõem a livrariasinha se +devem achar em casa do parocho, que a remette á aldeia que tem a Bibliotheca de +numero immediato, recebendo em troca a que lá estava para o mesmo fim.</p> + +<p>Passado tempo, quando cada aldeia tenha tido por espaço de seis mezes cada +uma das bibliothecas parciaes, isto é, todos os livros do concelho por partes e +por varias vezes, far-se-há troca da bibliotheca toda com a do concelho +seguinte, continuando sempre assim com o<span class="pn">{23}</span> mesmo +systema de leitura, de sorte que em poucos annos poucos livros terão, passando +por milhares de mãos e através de milhares de intelligencias, feito o gyro do +paiz, e levado a instrucção aos mais necessitados, sem que para isso se exijam +grandes despezas.</p> + +<p>A este alvitre, tão simples como economico e proficuo, chamou +Cormenin.—Systema das Bibliothecas Ruraes Ambulantes.</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>A bondade de tal alvitre por si e claramente se deixa vêr. Realisar o +desideratum da civilisação moderna—a instrucção do povo—em tão grande escala, +tão bem, e por tal preço, cuido que outro algum o poderá fazer melhor.</p> + +<p>Nos primeiros annos poucos resultados bons se tirarão, porque ainda os<span +class="pn">{24}</span> habitadores dos nossos campos desconhecem as vantagens +da leitura, mas, acostumados pelo uso, por assim dizer, aclimatados com o +systema, e maximamente, vendo os fructos que hão-de colher os que leram, dentro +em breve toda a população dos campos correrá em busca de livros e será com +injustiça, que o soberbo habitante da cidade lhes poderá chamar—boçaes.</p> + +<h2>X</h2> + +<p>Na escolha dos livros é que se deve requerer toda a cautella, para que a +instrucção não degenere em leituras prejudiciaes ou sem proveito.</p> + +<p>Deverá constar cada bibliothecasinha de pequenos volumes sobre sciencias +naturaes, medecina domestica, livros de religião, de agricultura, de politica +geral, de administração, historia, geographia<span class="pn">{25}</span> e +viagens; tudo isto escolhido por pessoa versada e idonea.</p> + +<p>Na nossa terra, nomeadamente, deve-se curar principalmente de os procurar ou +traduzir em chã linguagem das estrangeiras, escolhendo entre todos os melhores +e os mais uteis.</p> + +<p>Comtudo é não acobardar, que ainda se adiam livros bons e uteis, e os que +não houverem podem bem supprir-se com versões dos melhores dos outros paizes +mais adiantados que nós, n'este genero de litteratura popular.</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Alguns livros ha, assentei eu, que estão no caso de percorrerem a estrada de +tal missão: originaes portuguezes uns; outros vertidos na nossa lingua das +estrangeiras. E que muito importa essa differença? já disse alguem que o +genio<span class="pn">{26}</span> não tinha patria: um bom livro, que appareça +hoje, já amanhã falará todas as linguas, e será lido com ardor por todos, +quantos elles são, os povos cultos do globo.</p> + +<p>D'alguns livros sei eu, que satisfazem as exigencias: poucos em verdade são +elles, mas bons, mas bonissimos: quasi todos conhecidos e animados do publico; +alguns não tanto; a todos o nome do auctor lhes é caução. Folgo de ter falado +n'elles um pouco de longo, porque tão bons são, que lhes desejára ainda mais +carinhos, mais diffusão por entre o povo. Com elles quizera eu se começasse a +obra civilisadora das—Bibliothecas Ruraes.</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>Aquelle, que primeiro convém que o povo leia e releia, e por elle seja +mui<span class="pn">{27}</span> manuseado, mui meditado, tem em si a propria +recommendação: vem assignado por nome portuguez e dos maiores. D'elle disse +Castilho—aquelle que em alguns paragraphos pretender julgar uma obra tão +cheia, tão variada, tão germinal toda ella, como é este livro, provaria, ou que +não a lera, ou que não era digno de a ler. Nós a lemos, a relemos, temol-a +ainda aberta, e aberta a deixaremos sobre a meza para nossas meditações.</p> + +<p> Seu titulo é:</p> + +<h1>Estudos sobre a reforma em Portugal</h1> + +<p +style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><small>POR</small></p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><i>J. F. +Henriques Nogueira</i></p> + +<blockquote style="margin-left:8em"> + <p>Não é um livro; é uma obra.</p> + + <p style="margin-left:4em">G. Planche. </p> +</blockquote> + +<h2>I</h2> + +<p>O livro cujo valor apregoamos, e ao qual outorgamos um primeiro e +eminente<span class="pn">{28}</span> logar na nossa ora ideal—mas tão +realisavel bibliothecasinha popular,—é digno de tal occupar, sendo que entre +todos é elle o mais util e accommodado á intelligencia do nosso povo—ainda +mal—tão inculto, tão por mondar de cardos e ruins ervas, e, o que peor é, com +tão pouca esperança de proximo e util cultivo.</p> + +<p>O auctor do livro, como bom philosopho, cura menos do que é, ou póde ser, do +que indaga o que em sã razão devera existir: e ao tempo que, em succinto mas +substancial quadro, alevanta o rude trabalhador ao nivel de seus direitos, não +se mostra remisso no estudo dos deveres que se lhe oppõem; accrescendo ainda um +catechismo acabado dos meios de realisação d'uns e de satisfação dos outros. +Ajuntai ainda uma expressão clara, por correcta; uma viveza toda meridional de +imagens; um finissimo tacto ou, por assim dizer, um como faro<span +class="pn">{29}</span> mui mimoso no descobrimento dos males sob que geme a +sociedade, e a mão segura em alvitrar meios de prompto remedio; e em limitadas +phrases havereis o livro.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Diz modestissimamente o auctor, que o livro não é mais do que a selecção de +pequeninos estudos ácerca d'esta ou d'est'outra reforma. Sobremodo maior é o +seu merecimento, e em conta de maior obra o tenho eu. É um systema de +organisação social completo e cheio; resumo, conciso sim, mas germinal das +reformas, que ha mister um povo e uma sociedade já gastos. Dai-me população e +territorio, que meios de organisar um governo no livro os acho eu todos; mas +governo racional, philosophico sem que seja irreligioso (e é este o dizer +verdadeiro<span class="pn">{30}</span> da palavra); governo, finalmente como o +deve ser um no seculo dezenove.</p> + +<p>Se desejaes um testemunho do seu bem querer, lêde com que tocante singeleza +resume elle, em poucas palavras, o seu credo politico e social, onde, a par do +grande reformador, deparareis com o poeta e com o cidadão honesto, e amante da +sua patria.</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Eis os termos em que se expressa:</p> + +<p>—Quizera que, n'um paiz como o nosso emancipado por cruentos esforços da +tutela humiliante, egoista e sanguinaria da monarchia absoluta, cansado do +regimen espoliador, traiçoeiro e faccioso da monarchia constitucional, +necessitado de restaurar as forças perdidas em luctas estereis e de cicatrizar +feridas, que ainda gotejam, ávido, emfim, de gozar as<span +class="pn">{31}</span> doçuras da liberdade, por que tanto ha soffrido; quizera +que o governo do estado fosse feito pelo povo e para o povo, sob a forma nobre, +philosophica e prestigiosa de—Republica.</p> + +<p>—Quizera que o poder supremo, emanado do voto universal, residisse na +assembleia dos representantes do povo e que o poder executivo fosse confiado a +um ministerio de tres membros, nomeados pela assembleia.</p> + +<p>—Quizera que a administração da justiça corresse imparcial, rapida e +gratuita; que os serviços feitos ao paiz tivessem uma recompensa condigna; que +os crimes achassem correcção em vez de vingança, e que a pena de morte, +vestigio maximo da barbaridade, fosse abolida.</p> + +<p>—Quizera que a guarda nacional, milicia gratuita, que não obriga o cidadão +a abandonar as suas ocupações, constituisse<span class="pn">{32}</span> o +grosso da força armada; e que o exercito subsidiario se reduzisse unicamente +aos corpos scientificos.</p> + +<p>—Quizera que a despeza publica fosse inferior á receita; que se +proscrevesse o ruinoso systema das dividas; e que a applicação dos rendimentos +do Estado fosse inteiramente productiva, illustrada e philantropica.</p> + +<p>—Quizera que a rede tributaria, que ameaça de estancar o paiz, ficasse +reduzida a um só imposto progressivo sobre a renda, cobrado sem despeza e +realisado sem agio.</p> + +<p>—Quizera que os capitaes, pela barateza do juro, auxiliassem a producção, +em logar de absorverem a maior e melhor parte de seus lucros.</p> + +<p>—Quizera que o direito á subsistencia pelo trabalho tivesse nas officinas, +colonias e obras publicas, uma util garantia; que o trabalho das mulheres<span +class="pn">{33}</span> ganhasse uma area mais vasta, e que fosse melhor +retribuido.</p> + +<p>—Quizera que a Agricultura, a Industria fabril e o Commercio recebessem do +estado uma desvelada protecção, como fontes principaes da riqueza.</p> + +<p>—Quizera que as estradas, os canaes, as barras, e em geral, todos os meios +de viação merecessem a preferencia no extenso capitulo das nossas necessidades. +</p> + +<p>—Quizera que a communicação do pensamento não achasse obstaculos; e que o +correio fosse inteiramente gratuito, tanto para as cartas como para os +escriptos periodicos.</p> + +<p>—Quizera que os orphãos, os doentes e os invalidos, que dependem da +caridade publica, encontrassem nas casas de mesericordia lenitivo para os seus +males; e que se franqueassem a todos os operarios as instituições economicas e +preventivas da miseria.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>—Quizera que os cuidados exercidos sobre a saude publica conseguissem +minorar e extinguir, se tanto fosse possivel, as causas de infecção, que vão +minando gradualmente a robustez das gerações.</p> + +<p>—Quizera que o derramamento da instrucção chegasse ás ultimas camadas +sociaes; que a imprensa publica se tornasse um instrumento de progresso; e que +o estado protegesse o talento abandonado, que a falta de cultura não deixa +medrar.</p> + +<p>—Quizera que a religião de nossos paes não servisse de escudo a interesses +egoistas e mundanos, mas que acompanhasse o progresso da humanidade; que os +bispos fossem, como n'outros tempos, eleitos pelo povo; e que os parochos se +elevassem á altura de mestres e de moralisadores.</p> + +<p>—Quizera que os interesses da localidade<span class="pn">{35}</span> fossem +attendidos primeiro do que tudo; que o territorio se dividisse para todos os +effeitos em grandes e bem regidos municipios; e que as aldeias tivessem os +melhoramentos indispensaveis ao bem commum dos moradores.</p> + +<p>—Quizera que a associação, origem de maravilhas, se estendesse a todas as +classes da sociedade e principalmente áquellas que vivem do seu salario.</p> + +<p>—Quizera que a familia, instituição primitiva e santa, não apresentasse o +quadro odioso dos direitos de primogenitura, que dão a uns filhos a regalia de +senhores, em quanto conservam outros na humiliação de servos.</p> + +<p>—Quizera que a propriedade, direito natural e civilisador, se estendesse ao +maior numero de individuos; e que para completar a liberdade da terra se +permitisse a remissão de todos os encargos que a oneram.<span +class="pn">{36}</span></p> + +<p>—Quizera, por ultimo, que Portugal, como povo pequeno e opprimido, mas +conscio e zeloso da sua dignidade, procurasse na—Federação—com os outros +povos peninsulares a força, a importancia, e a verdadeira independencia que lhe +faltam na sua tão escarnecida nacionalidade...</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Não há querer mais nobre, aspirações mais santas; a par do grande +philosopho, haverá ahi quem desconheça o poeta e o humanitario?</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á maneira +que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas, não póde, +precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um de<span +class="pn">{37}</span> seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente +consoladores de esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.</p> + +<p>A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas +vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade, a +anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no coração dos +bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais christãos.</p> + +<p>Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a +dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de poeta; +mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade. Muitos dirão com o +poeta:</p> + +<blockquote> + Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.<span class="pn">{38}</span> +</blockquote> + +<p>Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que, verdade +é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.</p> + +<p>Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é: quem +acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda sereno e firme +na sua fé, tem uma nobre missão:—a de abrir e esclarecer, sentinella do +porvir, a estrada da nova era; que outros, vagarosos, de prudentes, só mais +tarde pisarão.</p> + +<p>Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás +regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha face de +verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este caminhar +providencial.</p> + +<p>Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho<span +class="pn">{39}</span> que diz a tudo quanto soffre cá na terra:</p> + +<p>—Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:—Soffre, que para o teu mal +não ha salvação nem lenitivo!</p> + +<h1>FELICIDADE PELA AGRICULTURA </h1> + +<p +style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><small>POR</small></p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Antonio +Feliciano de Castillo </p> + +<div align="center"> +</div> + +<blockquote style="margin-left:6em"> + Da terra saímos; á terra volvemos: <br> + A terra nos veste, nos traz, nos mantem. <br> + Quem mais do que a terra merece os extremos, <br> + Que obtem dos bons filhos a próvida mãe? + + <p style="margin-left:4em">A. F. de Castilho</p> +</blockquote> + +<h2>I</h2> + +<p>Eis agora aqui um livro, que, em meio da geral fermentação de tumultuosas +paixões e ambições immoderadas que agitam as nossas modernas sociedades;<span +class="pn">{40}</span> em meio d'este lamentavel estado de geral +descontentamento e desgosto de que todos mais ou menos somos victimas; quando, +segundo judiciosamente observa Aimé Martin, o artista descrê da arte, o padre +de Deus, o mancebo do futuro, e até a mulher do amor, e nem um só tem o menor +vislumbre de esperança na felicidade com que ainda póde topar no estado que lhe +deparou a providencia; eis agora—digo eu—um livro que, em meio de tudo isto, +nos promette essa almejada felicidade, que nos aponta o como a poderemos +alcançar, que o prova—e o que mais é—não fala em referencia aos grandes, aos +poderosos, aos que por si tem todos os dons da fortuna, mas ao pobre, ao +desvalido, ao que chora e soffre em meio das trevas da ignorancia, da miseria, +quasi, direi, da servidão.</p> + +<p>É mister ser-se um grande poeta—poeta<span class="pn">{41}</span> de muito +crêr e muito esperar,—para poder lançar um olhar seguro por sobre todas essas +populações miseraveis dos nossos campos—orphãs da moderna +civilisação—palpar-lhes todas as feridas, ouvir-lhes todos os queixumes, +conhecer todo o fundo de seus males, e vir depois ainda crente, mais crente +talvez do que nunca, entoar um hymno de esperança e felicidade para esses que +por cruel ironia só lhes respondem com lagrimas e gemidos.</p> + +<h2>II</h2> + +<p>É que o poeta recebeu de Deus o condão mago de ler na noite de arredado +futuro; de vêr luz e muita luz aonde outros só vêem trevas; flores de amor e de +vida, aonde para muitos só brotam os goivos do sepulchro.</p> + +<p>Esse lê bem, que assim lê em lettras<span class="pn">{42}</span> de ouro +paginas de esperança e felicidade no grande livro dos destinos da humanidade. +</p> + +<p>Crê e espera—mas não lhe vem só do coração—de seu condão de poeta—essa +crença e essa esperança.—Estudou, pensou, viu muito pelos olhos de sua +intelligencia, e n'este estudo firmou elle em grande parte essa crença, que lhe +dá a força de prometter ainda felicidade e muita felicidade para os campos, +para os habitadores dos campos e para todos por via d'elles.</p> + +<p>«Aconselhar a agricultura ao povo, diz o auctor, é aconselhar-lhe a propria +felicidade».</p> + +<p>Veremos se o alvitre é tão bom como se apregoa, se não cegou o poeta a +propria inspiração.<span class="pn">{43}</span></p> + +<h2>III</h2> + +<p>Retemperados pelas aguas lustraes d'um novo Jordão, por esse baptismo de +fogo e sangue, pelo qual á Providencia aprouve fazer-nos passar, como iniciação +nos umbraes do templo da liberdade, que a custo iamos conquistando, de tal arte +nos cegou a novidade da conquista, tão afanosos nos mostramos no empenho de a +bem guardar, que de todo nos esquecemos de que não é ella o fim unico (como se +já suppoz) dos humanos destinos, mas antes um como meio de alcançarmos outros +progressos; um primeiro passo, d'entre os muitos que ainda temos a dar: uma +mera iniciação para aquelles que assentam o seu campo nos ainda mui desertos +arraiaes do futuro.</p> + +<p>Argos vigilantes, perdemo-nos enlevados na contemplação do thesouro, que +assim nos traz presa a vista e a alma,<span class="pn">{44}</span> sem nos +lembrarmos, que em volta a esse pomo d'ouro, que com tanto amor guardamos, +outras e muito formosissimas flores se definham e morrem, sem que produzam +fructo, á mingua talvez d'uma gotta d'agua, com que—a haver boa vontade—se +lhes poderia dar vida ás raizes sequiosas.</p> + +<p>A agricultura, com ser a mais esperançosa para bom fructo, de todas essas +flôres, que vão murchando no pó ao minguar-lhes o alimento, é por ventura de +todas ellas a que mais soffre, e a quem mais se recusa esse alento e essa +protecção, de que por tantos titulos nos é credora.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes homens +da maior nação se não envergonhavam<span class="pn">{45}</span> de serem +encontrados, em meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro, +que tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais altos +cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a toga da +dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e felizes em voltarem +cobertos de louros para o trabalho de seus campos, que em meio haviam deixado! +</p> + +<p>Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos não +cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos sorrir, de nos +convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas verduras, com todos os +seus matizes de mil flores.</p> + +<p>Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou e a +todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias de +tribulação,<span class="pn">{46}</span> lá a temos sempre, que nos estende os +braços com affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até +que por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o ser, +e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só a ella, que +toda essa grandeza se deve attribuir!...</p> + +<h2>V</h2> + +<p>Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho, se +póde conceber tal desprezo e tal ingratidão.</p> + +<p>A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais +carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de +desprezivel.</p> + +<p>Tão velha como o homem, como as<span class="pn">{47}</span> suas primeiras +necessidades, é-lhe a sua antiguidade segura garantia de excellencia e de +nobreza; desprezivel ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as +sciencias a veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará +maiores serviços.</p> + +<p>As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças, +grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio destruidor +das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo ao outro os +productos de todos os climas: todas essas maravilhas de grandeza e +intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto por lá se creou; +tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de atribulação e de angustia, +lembrar-se com saudade da humilde mas pacifica choça, d'onde primeiro +desabrochara á luz do sol; tudo isto ha de deixar<span class="pn">{48}</span> +de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por fim, que elles hão de +continuar ainda, por muito tempo, depois do homem talvez, a vecejar, a florir, +a fructificar, sempre bellos e sempre risonhos, agora e depois, como no +primeiro dia da creação!</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>A industria e o commercio, os dois mais poderosos e mais incansaveis agentes +e creadores da riqueza das nações, lá tem nos campos alicerce, lá foram buscar +á agricultura todas as forças com que operam, todas as galas de que se +revestem.</p> + +<p>O ferro, com que o homem fabricou novos orgãos, para ajudar os que a +natureza lhe déra; o carvão, com o auxilio do qual centuplica as suas forças; +lá lh'os tinha a terra guardados no seu<span class="pn">{49}</span> seio, como +mãe carinhosa: o linho, de que fabrica os vestidos que o revestem, tambem já +lourejou pela encosta de suas collinas: o madeiro, que recurvado sulca as ondas +em busca de novos mundos, tambem orgulhoso e gigante se ergueu outr'ora no meio +de suas florestas: o grão, que o nutre; o fructo, que o delicia; o vinho, que +lhe dá mais vida e alegria; tudo isto tambem por lá cresceu e medrou, tudo isto +de lá saiu.</p> + +<p>A sciencia, a mais nobre de todas as sciencias de Deus, porque é a sciencia +do infinito—a astronomia—tambem lá vae nos campos buscar a sua origem: lá +nasceu entre humildes pastores, lá se desenvolveu, até que o homem das cidades, +orgulhoso já de sua grandeza, a veio usurpar aos que primeiro a descobriram, +para, no remanso do gabinete, ou no terraço do observatorio lhe dar ainda maior +desenvolvimento.<span class="pn">{50}</span></p> + +<p>A geometria—por ventura mãe da astronomia, tambem nos campos tem seu berço. +</p> + +<p>Todas as artes lá vão buscar as materias com que operam, muitas tambem as +suas melhores inspirações.</p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas ao +paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem para o +mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem rude e aspera a +agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios.</p> + +<p>Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com entranhavel +amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber dar afagos e +carinhos, para esse, similhante á cidra<span class="pn">{51}</span> fabulosa, +tem ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e +belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe procreadora de +prodigios sem conta.</p> + +<p>Qual há, porem, vara magica de fada, que—trocando-a—a chame á vida, a faça +abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas essas flôres +de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que sem estranho auxilio +não podem desabrochar nem medrar?</p> + +<p>Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago +condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra de +Portugal.</p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>É a associação mãe de taes prodigios,<span class="pn">{52}</span> de tantos +beneficios, fonte perenne e inesgotavel, que apregoar-lhe valor e necessidade, +além de desnecessario, fôra loucura quasi rematada.</p> + +<p>Com effeito, hoje, á luz do seculo XIX, quando é orgulho e timbre de toda a +sciencia o prescrutar bem fundo a alma, a intelligencia e o corpo humano, +procurando ahi todas as leis da sua natureza, para n'ellas—e só n'ellas—se +estribarem theorias e instituições, hoje desatino seria buscar ainda provas +para aquillo, que d'ellas menos carece, sendo que a sociabilidade é, de todas +as leis naturaes, aquella que mais exuberantemente demonstram as theorias da +sciencia, e a mais que todas inexoravel e severa logica dos factos.</p> + +<p>A muitas d'estas leis póde desobedecer o homem, contra outras se póde +totalmente revoltar, mas contra esta, por sem duvida o tenho, seria tal +attentado,<span class="pn">{53}</span> que assento jámais poderá realisar-se. +</p> + +<p>Subtrahi os homens—um só momento que seja—ao seu influxo benefico, e para +logo os vereis amesquinhar-se, quando não desapparecer da face da terra.</p> + +<p>Condição primaria de sua existencia e progresso, ha de com elle mais e mais +desenvolver-se, que não há ahi decreto de rei da terra—fôra elle Cesar ou +Napoleão—que ouse derogar o decreto do Eterno!...</p> + +<h2>IX</h2> + +<p>É pois a associação o cumprimento d'uma lei natural.</p> + +<p>Na progressiva evolução d'essa lei e a par d'ella, vejo eu caminhar a +humanidade; desinvolver-se, se se ella cumpre; estacar, se pára; definhar, +se<span class="pn">{54}</span> esmorece; seguindo-a sempre e resentindo-se de +suas menores alterações.</p> + +<p>E é de razão, porque, a ser o fim do homem na terra o desenvolvimento de +suas faculdades, que outra há mais nobre e importante; que mais influa nos seus +destinos que esta lei da sociabilidade?</p> + +<p>Por ella se póde aferir o grau de civilisação d'este ou d'est'outro povo +porque ahi onde mais o homem se estreitar com o homem, aonde mais de um irmão +ajudar o outro irmão, ahi tambem mais o espirito tenderá a elevar-se—e de +feito se há-de elevar—elevação que toda se desata em muita sciencia, muito bem +e muita ventura.</p> + +<p>Reconhecidos estes principios, reconhecidos—quasi direi—demasiadamente, +houve quem d'elles se possuisse a ponto de n'elles querer buscar todo um +systema de organisacão social.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>Desvairou-os o amor d'um principio, o conhecimento d'uma lei natural, por +ventura a ignorancia de muitas outras; e, encarando o homem por lado restricto, +quizeram o desenvolvimento d'uma faculdade á custa das outras todas.</p> + +<p>Não quer isto porém a harmonia, essa outra lei de Deus, que tem de +presidir—como revelando-a—a toda a creação.</p> + +<p>É mister que a todas as faculdades seja dado um maximo desenvolvimento; mas +é mister tambem que cada uma, ao alargar a sua esphera, não vá calcar outras, a +quem egual direito assiste...</p> + +<h2>X</h2> + +<p>Por que é lei da natureza humana a liberdade, porque deve o homem responder +por suas acções, não quer a boa justiça, não quer a boa rasão, que á +força—que<span class="pn">{56}</span> não com a arma da persuação—se lhe +imponha o cumprimento d'uma obrigação qualquer, fôra ella tão santa, tão +prescripta por Deus, tão filha da natureza do mesmo homem como esta da +sociabilidade.</p> + +<p>Assim, é com a liberdade e só pela liberdade, que tem de effectuar-se este +grande pensamento da associação, este grande abraço que obedecendo ás leis do +proprio ser, tem de—no futuro—dar homens e povos, estreitando cada vez mais +os laços que os unem, e centuplicando forças, sympathias e vida.</p> + +<p>Problema longo tempo agitado, dá-lhe hoje a sciencia cabal resolução. Desde +que esta, despresando theorias incertas e imaginosas, foi buscar como base de +seu estudo, para ahi fazer alicerce seguro, aos principios que tinha de +formular, a natureza do ser, a quem todos tinham de ser applicados; desde +essa<span class="pn">{57}</span> occasião ganha estava a causa da liberdade. +</p> + +<p>Podem offerecer-se-lhe mil estorvos, levantar-se contra ella as maiores +tormentas, que ella, atravez de tudo, lá ha-de ir sempre seguindo seu caminho, +ganhando o terreno palmo a palmo sobre os seus adversarios, e libertando o +homem cada vez mais do jugo da miseria, da escravidão e do embrutecimento.</p> + +<h2>XI</h2> + +<p>Associação e Liberdade: são estas as duas ideias salvadoras—e só +ellas—que, uma pela outra completando-se, podem levar a bom fim as nossas +modernas sociedades.</p> + +<p>Associação livre—eis o que em nome da sciencia podemos affoutos responder a +esses nobres, mas desvairados, sonhadores<span class="pn">{58}</span> de +utopias, que na fé de uma imaginosa organisação social, toda artificio humano, +que não segundo as leis do natural organismo, e em nome das santas esperanças e +fraternaes aspirações, que em abundancia lhes enchem as almas generosas, nos +promettem, há meio seculo, o progresso da perfeita felicidade—porventura mais +do que ao homem é dado esperar na terra.</p> + +<h2>XII</h2> + +<p>A sciencia toma o facto, especula-lhe a essencia e natureza, observa-lhe as +relações, e de tudo deduz as leis que lhe presidem. Póde desempedidamente +apresental-as á luz do dia, e para o futuro concluir affoutamente do passado; +póde e deve-o, que outra não é sua missão.</p> + +<p>Mas o que muita vez o frio calculo e<span class="pn">{59}</span> analyse +reflectida deixam por mesquinho ou vulgar, sem d'ahi tirarem materia para +considerações, toma-o para si o coração sensivel do poeta; pela imaginação o +nobilita e engrandece, na mente lhe fórma a robusta estatura; até que apparece +em fim gigante de crescidas forças, esse que ainda há pouco, de mesquinho e +pigmeu, nem sequer attrahia as vistas do investigador curioso.</p> + +<p>É assim que a imaginação e a analyse, a sciencia e a inspiração, uma pela +outra se completam, trabalhando cada qual na esphera que por natureza lhe +compete, e para fim commum—a <i>Verdade</i>, concorrendo uma e outra na medida +de suas forças e aptidões.</p> + +<p>São (ou antes deverem ser) duas irmãs queridas e extremosas, em obra commum, +empregando desvellos e cuidados; nunca, como até hoje, rivaes, que por um mesmo +amor, e em nome<span class="pn">{60}</span> da mesma causa, se detestam e +guerreiam.</p> + +<h2>XIII</h2> + +<p>É d'estes dous elementos—sciencia e inspiração—que brotam as nobres ideias +e grandes verdades, que por vezes têm mudado a face de uma civilisação, quando, +em vez de uma á outra se mostrarem hostis para fim commum se têm dado mãos +amigas.</p> + +<p>Nas porfiosas luctas politicas do seculo, em que—mais ou menos—todos temos +sido actores ou espectadores, se encontra clara prova e exemplo manifesto da +proposição que aventamos.</p> + +<p>Por longo tempo trabalharam em bandos oppostos e á sombra de vario pendão os +modernos representantes d'esses bons principios, uns e outros promettendo-nos +felicidade, mas cada qual<span class="pn">{61}</span> em nome de mui diferente +divindade; até que, passados que foram os tempos de mais escandecida lucta e +acalorada discussão, a mesma força da verdade os trouxe a si; e a commum e +amigavel união lhes soube chamar os animos discordes.</p> + +<p>Ambos em parte transviados, a ambos comtudo assistiam tambem em parte +principios de verdade. Inimigos, seriam sempre viajantes perdidos em densas +trevas, cada vez a se affastarem mais das veredas trilhadas; reconciliados, um +ao outro se guiam e ajudam, com as luzes e forças proprias, em nome d'uma longa +amizade no futuro, postas em commum.</p> + +<p>E de feito, não é hoje que, no meio d'essa pleiade illustre de generosos +espiritos, que anhelando anciosos por um melhor futuro, trabalham afanosos para +alivio e engrandecimento dos que choram;<span class="pn">{62}</span> não é hoje +que entre elles se encontrarão rivalidades d'eschola, mas indignas d'homens, ao +bem dos homens votados.</p> + +<p>São hoje irmãos. Os erros de cada qual, ao despirem-se dos velhos rancores, +sacrificaram-nos no altar da nova alliança; e d'entre as cinzas impuras, que o +vento dispersa ao longe, sahiu—nova Phenix—a flôr immarcessivel da verdade +eterna.</p> + +<h2>XIV</h2> + +<p>Associação e Liberdade dissera eu serem essas duas ideias aonde se depara +mais verdade e que, ambas fundidas em factos, podem dar fructo mais sasonado e +proveitoso; o leito por onde placida póde correr, demandando seu termo, a +torrente—ora revolta e turbada por mil encontrados elementos que ahi<span +class="pn">{63}</span> se revolvem e guerreiam—da vida das modernas +sociedades.</p> + +<p>E como não seria assim, se ramos frondosos de arvore, que no coração do +homem tem fundas as raizes—a propria natureza, têm por fim, entrelaçando-se +estreitamente e em mutuo amplexo apertando-se, ampararem-se e defenderem-se uns +a outos, porque assim reciprocamente se protejam no crescer e no fructificar? +Se são ara sacro-santa aonde os animos discordes em busca da verdade—mas que +d'alma a buscam, tem de vir pactuar a alliança, queimando ahi, em holocausto +incruento, o fel de paixões ruins e desamoraveis ¿como poderão ellas, por +estranho desapego e ingratidão mentir ao que, em nome de futuro melhor, nos +promettem, e a que, na fé d'esse almejado futuro prestamos crença e esperança +illimitadas?</p> + +<p>Não podem. Quanto á intelligencia e<span class="pn">{64}</span> coração do +homem se revela uma verdade, tam rica de evidencia, tam promettedora de +consolações, não póde «<i>Aquelle</i>» que ao espirito a revelara deixal-a sem +que pela revelação dos factos receba confirmação e com ella foros de +inconfutavel.</p> + +<p>Uma ideia assim nunca mente.</p> + +<h2>XV</h2> + +<p>Descendo das subidas regiões da abstracção ao campo mais arido e +abrolhoso—mas porventura mais util, das realidades, da theoria aos factos; o +livro, cujo bom espirito por todos quiseramos diffundido, como vaso de balsamo +suave, que a todos vae ungindo e perfumando, apontando alvitres, que d'estes +bons principios descendem testemunhando não escasso cabedal de +saber,—testifica tambem aquilatado amor pela sciencia<span +class="pn">{65}</span> e pelos homens; que em muito conta o amor e o +enthusiasmo para o descobrimento da verdade.</p> + +<p>De tantos e tão bons alvidramentos, quantos o livro encerra, um há que, como +base de systema, os resume em si, d'onde todos descendem, ponto culminante, +centro em volta do qual, satelites a lhe reflectirem o brilho, volteiam todos +os outros, compartilhando com elle a verdade e prestimo com que é dotado.</p> + +<p>É este o projecto das «Associações Agricolas».</p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Leituras Populares, by Antero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LEITURAS POPULARES *** + +***** This file should be named 32871-h.htm or 32871-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/7/32871/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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