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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:59:52 -0700
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+Project Gutenberg's Scenas de viagem, by Alfredo d'Escragnolle Taunay
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas de viagem
+ Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto
+ de Miranda : memoria descriptiva
+
+Author: Alfredo d'Escragnolle Taunay
+
+Release Date: September 2, 2010 [EBook #33611]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DE VIAGEM ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
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+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Setembro 2010)
+
+
+
+
+SCENAS DE VIAGEM
+
+EXPLORAÇÃO
+
+entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda.
+
+MEMORIA DESCRIPTIVA
+
+PELO 1^o TENENTE D'ARTILHARIA
+
+Alfredo d'Escragnolle Taunay
+
+
+Engenheiro geographo,
+bacharel em bellas letras pelo Imperial collegio de Pedro II,
+bacharel em mathematicas e sciencias physicas,
+official da Imperial ordem da Rosa,
+condecorado com a medalha de campanha
+das forças do sul de Mato-Grosso e ex-ajudante da commissão
+de engenheiros junto áquellas forças.
+
+
+
+RIO DE JANEIRO
+
+Typographia--Americana--rua dos Ourives n. 19
+
+1868
+
+
+
+
+Ao Illm. e Exm. Sr.
+
+Tenente-General Conselheiro
+
+Polydoro da Fonseca Quintanilha Jordão
+
+O. D. C.
+
+O Autor
+
+
+
+
+ Exm. Sr. General.
+
+
+Tomo a liberdade de offerecer a V. Exc. estes apontamentos colhidos
+n'uma viagem trabalhosa e rodeada de perigos.
+
+Quando eu a executava, o sentimento do dever era o meio seguro para
+achar menos arduas as contrariedades incessantes que me acommettião. A
+esse sentimento unia-se o desejo de corresponder á espectativa de minha
+familia e de meus chefes, cumprindo á risca as ordens que me havião sido
+dadas.
+
+A lembrança de V. Exc. me era presente n'aquelles momentos e desde então
+formei a resolução de collocar debaixo de sua prestigiosa protecção
+qualquer trabalho que emprehendesse sobre essa exploração.
+
+Hoje cumpro com uma divida.
+
+Assigno-me de V. Exc.
+
+
+ Muito respeitoso amigo e subordinado
+
+ Alfredo d'Escragnolle Taunay.
+
+
+Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 1867.
+
+
+
+
+PREFAÇÃO
+
+
+Incumbido de uma exploração importante n'uma zona de mais de cincoenta
+legoas, colhi os dados que ora apresento, procurando tomar notas
+minuciosas de tudo quanto pudesse interessar e coordenando-as desde
+logo, de modo que formassem com pouco custo um trabalho simples e
+despido de pretenções, porém de alguma vantagem para novos e mais
+habilitados exploradores, fornecendo-lhes apenas uma base para futuros
+desenvolvimentos.
+
+Coube-me a felicidade de ter para companheiro n'essa viagem, o muito
+illustrado e digno engenheiro, o meu amigo Dr. Antonio Florencio Pereira
+do Lago, capitão d'estado-maior de 1^a classe, cujo espirito
+eminentemente methodico e cultivado e cuja intelligencia, ornada dos
+mais preciosos dotes da alma, vão-se tornando, felizmente para a nobre
+classe a que pertence, de dia em dia mais conhecidos.
+
+Nas crises, porém, de uma peregrinação atribulada, como a que fizemos,
+vi-o desenvolver qualidades que demonstrão grande energia e sangue-frio,
+e que, servindo-me de proveitosa lição, tornárão para mim a sua amizade
+ainda mais preciosa.
+
+Procurei tirar á minha narrativa o caracter official. Em muitas
+occasiões não pude livrar-me da technologia scientifica; usei d'ella,
+com parcimonia, e, organisando um trabalho singelo, envidei esforços
+para que fosse consciencioso e sobretudo veridico.
+
+
+
+
+SCENAS DE VIAGEM
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+
+As forças destinadas ás operações no districto de Miranda, achavão-se,
+desde o dia 20 de Dezembro do anno de 1865, acampadas na margem direita
+do rio Taquary, occupando, desde a confluencia d'este com o rio Coxim,
+uma extensão de mais de legoa.
+
+Sobre este local existira grande controversia; uns o apresentavão como
+excellente ponto de estação para os nossos soldados, dando-lhe as honras
+de posição estrategica, outros, contrariando fortemente tal opinião,
+fundados no conhecimento da localidade, tiravão-lhe toda a importancia
+de que era revestido. Na realidade, o melhor possivel para a formação de
+uma colonia, como existe desde 1862 projecto, acha-se o ponto falto de
+todas as condições para ser considerado como militar, pronunciando-se a
+commissão de engenheiros contra a escolha d'elle, quando fôra
+consultada.
+
+Entretanto ahi passárão as forças os mezes da estação pluviosa. Esta
+phase do anno, determinada claramente, durante o verão, nas provincias
+do interior do Brasil, começa geralmente a 8 de Setembro e vai, com mais
+ou menos regularidade, até os fins de Abril. As enchentes e
+trasbordamentos de rios n'uma zona baixa e plana, como a de quasi toda a
+provincia de Mato-Grosso, são correspondentes a esta época chuvosa,
+formando-se, n'uma extensão importantissima, um immenso terreno alagado,
+d'onde surgem, de quando em quando, alguns pontos firmes, devidos ás
+ondulações dos campos. Entre o Coxim e a villa de Miranda estendião-se
+então, impedindo a passagem até a viajantes escoteiros, esses pantanaes
+que, chegando em certos _corixos_ a dar nado, impossibilitavão
+totalmente a marcha da expedição acompanhada por bagagem pesada e
+viaturas de artilharia.
+
+Achava-se assim, pela força das circumstancias, detida a columna, bem
+que o commandante d'ella, o bravo coronel Galvão, ardesse em desejos de
+começar o trabalho de reoccupação do districto, ainda n'aquelle tempo
+todo em poder do inimigo. Por isso acolheu elle pressuroso as
+informações que fornecêrão alguns fugitivos da villa de Miranda,
+refugiados no Coxim, sobre a possibilidade de abrir uma trilha, que,
+seguindo a base da serra de Maracajú, permittisse, pelo desvio dos
+pantanaes, a passagem até o rio Aquidauana. Fôra por ahi que se déra a
+fuga d'elles, havendo encontrado tão sómente pequenas difficuldades.
+Apressou-se pois o commando em ordenar que dous engenheiros seguissem a
+reconhecer aquelles terrenos, informando sobre a praticabilidade da
+viação e procedendo a uma exploração cuidadosa d'aquella fralda de
+serra. Tocou-nos essa commissão sobremaneira penosa, em companhia do
+capitão Lago.
+
+No dia 11 de Fevereiro fôra expedida a ordem; fizemo-nos prestes e, no
+dia 13, effectuou-se a nossa partida depois de melancolica despedida aos
+nossos companheiros, que deixámos, com as forças, do outro lado do
+Taquary, onde devião demorar-se ainda perto de tres mezes.
+
+As difficuldades no fornecimento de viveres durante a estada no Coxim,
+reflectião-se dolorosamente na nossa matalotagem, onde só viamos, em
+quantidade não muito satisfactoria, os generos da mais urgente
+necessidade. Não tinhamos a pretenção de viajar como Nababos, nem
+possibilidade para isso; mas as provisões, ainda quando para uma
+excursão não muito custosa, nos faltavão de todo e antolhavamos
+horisontes de certo pouco risonhos. Com immensa dóse de resignação, o
+melhor dos provimentos para taes casos, partimos, escudados um no outro
+e estribados n'esse sentimento, natural em todos e eminentemente
+precioso, que constitue uma opinião philosophica, uma seita; o
+optimismo. Partimos.--_Arcades ambo_, ou melhor--_milites ambo_.
+
+Antes de deixarmos o Coxim, talvez para sempre, algumas palavras; e
+sejão ellas o nosso adeos, adeos sem saudades, apezar do seu magestoso
+Taquary[1], de sua verde mataria, de suas lindas garças, de seu _facies_
+melancolico, de seu céo puro e noites scintillantes que terião feito
+surgir em nós poeticos sonhos, se o estomago--e quantas vezes!--não
+reagisse dolorosamente com exigencias difficeis de satisfazer. A posição
+do Coxim é pitoresca,--salutar relativamente á zona em que se ergue esse
+torrão--a vegetação bonita. Os terrenos patenteão superabundancia de
+arêa, alguma argila; são ondulados sensivelmente, elevando-se até em
+outeiros que vão se unir á grande cadêa de Maracajú, a qual, dez a doze
+legoas além, levanta-se ao longo do caminho do rio Negro.
+
+O aspecto phytologico não é novo: continuação dos _cerrados_ de Goyaz,
+os quaes em occasião opportuna havemos procurado descrever, apresenta os
+arbustos que lhes são mais communs: muitas _myrtaceas_, das quaes uma, a
+_eugenia dysenterica_ (cagaiteira) quando lá chegámos, curvava-se ao
+peso de seus lindos fructos côr de ouro; várias _malpighiaceas_,
+avultando o _mureci_ (byrsonima verbascifolia) que tinha seu valor no
+mercado improvisado do Coxim, assim como o _piqui_ (caryocar
+brasiliense) de Saint-Hilaire e a _marmelada_[2] que é da familia das
+_rubiaceas_. Com flôres vimos uma bellissima acanthacea[3], diversas
+_hyptis_ e outras labiadas que resistião ao término da estacão da
+florescencia. Muitas melastomaceas das tribus _lavoisiera_[4] (capsulas
+seccas) e _osbeckia_ (sementes cochleiformes[5]) salpicavão os prados,
+formando grupos com _araticús_ (anonaceas) em monticulos, respeitados
+pelas aguas, onde sempre encontravamos um _araçá_ rasteiro, de folhas
+largas. As _anonaceas_ ahi são muito frequentes, chegando algumas vezes
+a attingirem a altura de grandes arbustos.
+
+Junto ao rio, como sempre, a vegetação é mais abundante e luxuriante:
+madeiras de construcção, como _aroeiras_, _perobas_, _ipés_, etc.,
+muitas _figueiras_, _guanandys_[6], etc, corôão as barrancas que encanão
+o rio.
+
+Na passagem para o outro lado apresenta o Taquary a largura de 70
+braças, ganhando em profundidade o que perde em superficie: ahi a
+velocidade é diminuta; é já um curso importante que mansa e
+socegadamente obedece á lei da gravidade. Não ha mais o buliçoso
+movimento, o atirar louco, de encontro ás rochas, de alvos lençóes de
+liquido, a precipitada corrente ao receber o Coxim, na confusão das
+aguas; é a calma de quem não acha mais obstaculos que vencer; a
+tranquillidade do descanço. Comtudo no nado a que forão obrigados os
+nossos pobres pachidermes, enfraquecidos pelas pessimas pastagens do
+local, essa correnteza levou-os a percorrer a diagonal de 140 braças,
+impossibilitando-nos longa viagem. N'esse dia, andámos tão sómente um
+quarto de legoa até o ribeirão da Fortaleza, caminhando n'uma encosta
+elevada, coberta por _papilionaceas_ rasteiras e mato baixo de
+_araticús_.
+
+Este tributario do Taquary rola limpidas aguas sobre chão de alvacenta
+arêa, e, já sobre tarde, pudemos distinctamente ver innumeros cardumes
+de _pirapitangas_ e _corimbatás_ subirem contra a correnteza, descendo
+todos, ao alvorecer. Na margem direita uma lindissima _anonacea_, com
+folhas lustrosas e ramos pendentes, attrahia as vistas, surgindo com uma
+_cecropia_ (embaiba) de um grupo de _melastomaceas_ (rhexias[7]),
+_solaneas_ e _araticús_.
+
+D'este ponto começão os terrenos baixos: a barranca abrupta do ribeirão,
+na margem esquerda, é o córte alcantilado do ponto firme que se chama
+Coxim; pelo outro lado não existe ribanceira; um chão plano, a modo de
+lezira, com ligeiras ondulações, se estende quasi de nivel com as aguas,
+que, nas enchentes, com summa facilidade invadem grande extensão.
+
+Á noite, furioso furacão açoutou cruelmente as nossas barracas
+esburacadas: a nossa comitiva muito soffreu. Os soldados, sem abrigo,
+semi-nús, supportárão a inclemencia do tempo; junto a um fogo extincto
+que provavelmente os aquecia intencionalmente. Além de dous camaradas,
+acompanhavão-nos seis praças e um furriel do corpo de cavallaria do
+coronel Dias, os quaes, achando-se transviados, desde a invasão
+paraguaya e occultos em diversos pontos, áquem e álém Aquidauana, poucos
+dias antes se tinhão espontaneamente apresentado ao commandante das
+forças, que os designára para nos servirem de guias em nossos
+reconhecimentos.
+
+De alguns dos seus typos conservamos lembrança curiosa. O furriel
+Salvador Rodrigues da Silva e os dous irmãos Campos Leite muito nós
+ajudárão, e, apezar de terem sido no principio mal considerados,
+desmentindo a nossa prevenção contra elles, sempre derão provas de
+grande dedicação e disciplina.
+
+Começavamos a nossa viagem debaixo das mais tristes impressões. A
+incerteza que nos dominava sobre o estado da zona a percorrer, inundada
+completamente,--pantanal medonho--, a approximação dos pontos occupados
+pelos inimigos com a força de protecção, em nada respeitavel, que nos
+cercava, a perspectiva desanimadora de pouco fornecimento para a
+excursão, não constituião motivos para que figurassemos aquella
+exploração um passeio agradavel, quando de todos os lados assomavão
+senão perigos, pelo menos innumeras contrariedades.
+
+Era pois explicavel o sentimento de tristeza e melancolia que nos
+apertou o coração, ao recebermos os abraços de nossos collegas; e, á
+noute, quando os échos longinquos repercutírão o signal de _silencio_,
+que atroava no acampamento do Coxim, pelas bocas metallicas de suas
+muitas cornetas, alvoroçárão-se em nós, na duvida de crises maiores, as
+saudades do tempo que tinhamos passado ao lado de nossos companheiros,
+se bem houvesse sido pouco invejavel. A braços com a fome, na mais
+completa penuria, ahi se tinhão esgotado dias penosos, angustiados até,
+em que no soffrer intimo não apparecia o vislumbre de compensação, o
+raio de esperança por melhores tempos. Como densas nuvens, prenhes de
+tempestades, mil incommodos, prestes a desfecharem maiores males,
+pesavão sobre nossos espiritos e relampagos de quando em quando
+escurecião-nos as vistas. Entretanto a união que sempre existíra entre
+nós, a cordialidade de convivencia, a consolação reciproca, o apoio
+mutuo, fazião communs e menos sentidos os desgostos que nos acommettião,
+adoçavão os amargores da situação, amenisavão os espinhos do presente.
+(Nota A)
+
+Fizemos as nossas despedidas ao Coxim, do alto de um monticulo que
+domina o ponto de reunião d'este com o Taquary, o qual de longe rola as
+turvas aguas, até encontrar-se com o alvo contingente de seu tributario.
+Demos então as costas ao Norte, indo logo depois demandar a margem
+esquerda do bello Taquarymirim, que ora afasta-se, ora approxima-se
+muito do caminho. É este cortado de continuo por pequenos corregos, os
+quaes, ufanos n'aquella época, fenecem ao approximar a estação fria e
+secca.
+
+Os campos, que nos cercavão, erão cobertos de _cerrados_; vegetação
+baixa, arborescente, comtudo mais vistosa que a de Goyaz. Até ás vezes
+algum _vinhatico_[8] levanta-se alteroso, bem que retorcido e sem as
+proporções a que attinge nas matas do Rio de Janeiro, como demonstração
+da inferioridade de terrenos, cujas causas não hão de ser removidas tão
+cedo. Dos outros typos ha abundancia: muitas _myrtaceas_,
+_malpighiaceas_, _bombaceas_, _anacardeas_, _terebinthaceas_ e
+_dilleniaceas_, das quaes a _lixeira_[9] pareceu-nos commum a todos os
+cerrados, _cassias_, _papilionaceas_, _bignoniaceas_, algumas
+_melastomaceas_; entretanto predominão ahi visivelmente as _anonoceas_.
+(Nota B)
+
+Nosso pouso foi n'uma baixada viçosa, coberta por verdejante tapiz de
+bonita gramma, fronteiro a uma das cabeceiras do Taquarymirim e ao lado
+de bellos grupos de _boritys_. Lugar encantador para um espirito
+tranquillo, cheio de maravilhas para a imaginação de um poeta, fonte de
+inspirações para um adorador da natureza, não nos provocou elle mais do
+que o prazer do descanço, fruido depois de cançativa e morosa viagem de
+duas e meia legoas. Entretanto, quão bellas erão as puras aguas que
+revolvião-se em cachões de encontro a cabeços de rochas e, espumantes,
+traçavão mil caprichosas curvas?! Da singeleza magestosa e melancolica
+do bority nunca se ha de fallar sobejamente. (Nota C)
+
+N'esse mesmo lugar, que denominámos _Pouso dos Boritys_[10], existião os
+vestigios de um acampamento paraguayo, formado por occasião do
+prolongamento da invasão, em Abril de 1865, até o Coxim e a fazenda de
+Luiz Theodoro[11]. Galhos fincados no chão e apoiados uns nos outros,
+com a ramagem para cima, formavão ranchos improvisados, em que se havião
+abrigado os soldados, sob a coberta do ponche estendido por cima. A
+certa distancia, achava-se um cercado para a cavalhada e, pelos
+arredores, estavão varios objectos de picaria, ao lado de ossadas dos
+cavallos, que erão degolados, á medida que afrouxavão. A ida dos
+paraguayos ao Coxim foi feita com celeridade estupenda; a artilharia
+passou por lugares medonhos e, em poucos dias, completárão elles uma
+viagem redonda de 146 legoas, no tempo da maior inclemencia de aguas. Se
+bem tivessem levado excellente cavalhada, voltárão muitos dos
+expedicionarios a pé, pois que a peste, commum n'estas localidades,
+incessantemente derribava os seus melhores animaes de sella.
+
+Um anno depois, no mesmo mez, occupavão o acampamento dos Boritys, as
+forças brasileiras, em marcha sobre os pontos em poder do inimigo e os
+seus soldados, aproveitando os ranchinhos paraguayos, procuravão n'elles
+substitutos ás barracas que lhes faltavão.
+
+D'ahi por diante os vestigios da passagem dos invasores tornão-se cada
+vez mais frequentes; as inscripções nas arvores são amiudadas, umas em
+hespanhol, outras em guarany.
+
+No corrego da Porteira, a meia legoa do pouso dos Boritys, uma d'essas
+palmeiras tem o tronco coberto de disticos, infelizmente quasi todos
+apagados. N'um d'elles pudemos comtudo decifrar o genero de amabilidades
+que dirigião-nos os nossos visinhos republicanos. Além da necessaria
+invectiva de _infames esclavos_, lia-se--_Los brasileros non son hombres
+delante de Lopez_. Mão brasileira exarára já, no meio d'esses insultos,
+o contraprotesto _Morrão os paraguayos_, e datára--11 de Junho de
+1865.--Singular coincidencia! No dia, talvez na mesma hora em que se
+escrevião, no meio dos sertões, essas palavras fatidicas, a bravura, o
+canhão e o patriotismo brasileiros executavão aos olhos do mundo aquella
+sentença fatal. Riachuelo tinha a sua repercussão instantanea, electrica
+e o grito que erguia aos ares a valente maruja do Brasil, echoava, para
+assim dizer, n'aquelles longinquos e desertos páramos.
+
+É bem comprehender a monotonia da viagem que faziamos, para avaliar a
+impressão moral por nós sentida, ao acordarem-se milhares de
+pensamentos, com essa approximação que abria as azas á imaginação desde
+muito adormecida.
+
+
+ «Est Deus in nobis, agitante calescimus illo»
+
+
+Com muito mais animação, tocámos os animaes e, d'ahi a perto de duas
+horas, entravamos na sombria coberta do ribeirão da Mata. N'esta zona os
+bosques são mui viçosos; os matagaes mais juntos, mais espessos; os
+cerrados em menor numero; demais, a agua dos corregos é limpida e pura
+até o rio Negro. Esperem os viandantes pela compensação e despeção-se de
+ante-mão de tudo quanto fôr agua mais ou menos potavel.
+
+Por emquanto goza-se junto áquelle bello ribeirão de todas as vantagens
+de um excellente pouso: frescor constante, vista sempre amena de pura
+lympha, bonita mataria e um pouco além excellente pastagem para animaes.
+Quem viaja pelo interior dos sertões deve penetrar-se da importancia
+d'essa condição, para que o pouso mereça escolha. Reduzidas, ha muito,
+pela falta de milho, á simples alimentação herbacea, as nossas
+cavalgaduras não apresentavão fórmas para poderem figurar em torneios,
+e, a não ser o receio de descahir de assumpto, fallariamos por extenso
+nos nossos transes em poupal-as e nas difficuldades em que nos vimos,
+logo nos primeiros dias de viagem, pela morte de uma d'ellas.
+
+O nosso microcosmo indispensavel á vida, bem que o mais diminuto
+possivel, não podia soffrer córtes e a carga, que ficava por terra pelo
+afracamento de um animal, era imparcialmente repartida pelos restantes.
+Curvavão-se sob o peso de cargas babylonicas, porém avançavão sempre.
+
+Começando já a avistar a cadêa de Maracajú, fomos, do ribeirão da Mata,
+cortando bonitas pradarias, mais ou menos accidentadas, ornadas, de
+quando em quando, por esses grupos de bella vegetação, a que chamão
+_capões_[12]. Devidos á acção da humidade, são quasi sempre orlados por
+fileiras de _boritys_, que misturão agradavelmente os seus leques á
+folhagem tão diversa das _dicotyledoneas_.
+
+Os terrenos continuão seccos, argilo-silicosos; de vez em quando algum
+atoleiro, algumas braças inundadas que fazião já termos por certo a
+approximação dos tão temidos pantanaes. Entretanto só os deviamos
+atravessar poucas legoas áquem do rio Negro e além.... sempre.
+
+Com uma legoa de marcha passámos o _ribeirão Claro_, que bem merece esse
+nome pela alvura de suas aguas rapidas e encachoeiradas.
+
+O desbastamento das margens concorre para que essa côr não seja alterada
+pela reflexão do verde escuro das arvores. Um unico _bority_, direito
+como um mastro, coroado pelas flabelladas palmas, erguia-se garboso no
+seu isolamento. A sua posição especial o condemnava naturalmente aos
+olhos de quem intentasse lançar um pontilhão para o transito; não
+escapou pois aos machados, quando nossos collegas vierão preparando o
+caminho para a descida da força sobre Miranda. A utilidade artistica não
+o pôde salvar.
+
+Mais além encontrámos outra corrente de agua, ainda mais bella que as
+precedentes: o _ribeirão Verde_, que corre, com velocidade consideravel,
+por entre margens altas, cobertas de sombria e espessa mataria. O leito
+de grandes lages, forradas de limo, e a folhagem basta, dão ás aguas
+crystallinas a apparencia que serve para aquella denominação.
+
+O lugar é encantador: massas liquidas de um bello verde se deslisão
+prestesmente, galgando as pedras desiguaes que tapetão o alveo, e
+precipitão-se, de um degráo, n'uma bacia bastante regular, que recebe a
+quéda. Grandes bandos de peixinhos dourados e _pirapitangas_ brincão
+entre as rochas, cortando rapidamente a correnteza, quando envolvidos no
+turbilhão de aguas.
+
+A disposição de espirito necessaria para dar o devido apreço a essas
+bellezas, não se achava em nós. A passagem a váo, difficultosa para os
+nossos animaes de sella, tornou-se quasi impossivel para os cargueiros,
+que, aos tombos e mergulhando as canastras, transpuzerão, á custa de
+muitos esforços, o ribeirão. E aprecie-se assim a natureza!
+
+Á noute, felizmente depois de acampados, copiosa chuva, como nos mais
+dias, veio avivar-nos a lembrança de que estavamos na estação das aguas.
+
+Malditas aguas!
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+
+A manhã levantou-se serena e bella. Ao longe resplandecião de novo
+verdor os prados: o ribeirão engrossado, bem que sempre limpido, rolava
+bramantes cachões de aguas esverdeadas e o frescor agradavel da
+natureza, depois da trovoada da vespera, tornava o sitio tão magicamente
+aprazivel, que se ergueu, no fundo de nossas almas, um hymno de gratidão
+ao Creador. Entretanto, d'ahi a pouco, a reunião dos nossos animaes veio
+arrancar-nos da contemplação de scena tão louçã e nunca se devem dar
+poucas graças aos céos clementes, quando se os encontrão ás horas
+propicias.
+
+_Away_ pois!
+
+Para medirmos com alguma exactidão as distancias, que tinhão de ser
+ministradas ao commando das forças, viamo-nos obrigados a acompanhar um
+dos cargueiros que nos dava a maior uniformidade de movimento. A
+estimativa era a media do tempo gasto em diversas observações, para
+percorrer uma extensão medida, havendo sido tomado para unidade o
+minuto, que achámos correspondente a 30 braças ,355.
+
+A nossa qualidade official não nos permittia o pouco mais ou menos:
+entretanto caminhar assim, é sobre fastidioso, em extremo cançativo.
+Accresce ainda a urgencia de não distrahir-se um momento, consultar a
+todo instante o relogio, tomar nota das menores particularidades,
+verificar qualquer parada e visar, de quarto em quarto de legoa, o rumo
+magnetico, em que se marcha, para o que nos servia a excellente bussola
+prismatica do capitão Karter, tão commoda e propria para esses
+trabalhos.
+
+Depois de 60 minutos de marcha, passámos uma matinha e, d'ahi a 30
+minutos, outra, chamada do _Major_, por pertencer a um official da
+guarda nacional de Minas d'esse posto, que explorára aquelles terrenos.
+
+Prolonga-se essa matinha até a descida de uma abrupta rampa
+escorregadia, que finda n'um corrego insignificante, o qual se espraia
+n'um almargeal. Os pontos encharcados vão-se tornando mais frequentes:
+ahi tivemos uma amostrasinha de pantanal. Durante mais de 5 minutos
+seguimos uma vereda aberta no capim alto, toda coberta de agua e com um
+fundo de hervas entresachadas, que tivemos algum trabalho em vencer.
+
+Com a menor secca acaba esse alagadiço, que se fórma tambem logo ás
+primeiras chuvas, devido ao represamento, n'uma pequena extensão, de
+aguas, por dous firmes de terra.
+
+Depois de nova mata e novo charco, o terreno começa a dar mostras de
+pedregoso, a levantar-se sensivelmente e afinal a subir estreitado entre
+massas de rochedos até a celebre passagem do Portão de Roma.
+
+Dous massiços erguem-se ahi, cortados a pique, um fronteiro ao outro,
+deixando intermedia uma estreita trilha, toda embaraçada com grandes
+lages e matosinhos.
+
+Não sabemos a razão de tal denominação. As difficuldades, os espinhos de
+sua vereda, a aberta n'um céo anilado, como se nos afigurava, quando
+subiamos a encosta e viamos duas linhas sombrias destacarem-se na
+abobada celeste, justificavão muito mais a especificação de _Portão do
+Paraiso_. A menos de ligar-se á cidade eterna um sentimento muito
+especial de religiosidade, que nunca correu naturalmente pelo espirito
+de quem[13] lhe deu o nome, parece elle completamente deslocado n'estas
+paragens.
+
+O sitio é sobremaneira agreste e sombrio.
+
+Salvador Rosa, nas fragosidades da Calabria, não encontraria melhor typo
+para seu modo artistico. Um salteador, de arcabuz ao lado, dominando o
+caminho, outro estirado sobre uma rocha lisa, á espreita, transportarião
+a scena para aquellas serranias e nem faltavão, para completo da côr
+local, os _agaves_ (pita[14]), que surgião por entre as fendas, nem a
+_figueira_ tenaz, a qual, agarrada ás asperezas da pedra, estirava
+grossos ramos sobre a senda.
+
+Os paraguayos fizerão rolar as carretas de artilharia por essa passagem
+difficultosissima, que obrigou, para o transito das forças, a um prévio
+trabalho, feito pelos engenheiros.
+
+Considerado debaixo do ponto de vista scientifico, o Portão de Roma é
+uma aberta praticada pelas aguas em rochas metamorphicas. Todos os
+rochedos dos lados e leito da trilha, são de grés argiloso concreto. A
+verdade tornou-se-nos bem patente, quando, depois de margearmos um
+pequeno pantanal, subimos o monticulo fronteiro ao alcantil do Portão.
+Ao longe divisavamos uma serie de montes encadeados, que trazião na
+superficie diversas linhas continuadas parallelas, as quaes, segundo
+parece-nos, mostrão as differentes alturas a que tocárão as aguas de um
+antigo lago geologico, que outr'ora aquella bacia encerrou.
+
+Nos cumulos que forão cobertos de todo e depois rapidamente deixados
+pela massa liquida, apresentão-se erosões profundas e córtes a prumo,
+como os que acabavamos de apreciar.
+
+A mesma disposição de rochedos acha-se no Lageadinho, onde acampámos
+n'esse dia (16) junto a um fio de agua que se deslisava por sobre um
+chão de pedras, indo de quéda em quéda, perder-se na varzea proxima.
+
+Procuravamos sempre seguir os pousos que as forças, pelas nossas
+recommendações, devessem escolher: assim proporcionavamos, de antemão,
+as marchas e attendiamos ás conveniencias dos acampamentos futuros.
+
+Do ribeirão Verde ao Lageadinho tinhamos caminhado duas legoas e um
+quarto, e, pela natureza do terreno e impedimentos com que se podião
+contar, era marcha já penosa. Soubemos comtudo, ao depois, que, por ter
+seccado aquelle lagrimal, contra as informações que haviamos colhido,
+prolongára-se ella uma legoa além.
+
+No Lageadinho a abundancia de guabirobas (eugenias) forneceu-nos
+excellentes fructosinhos. Entre todas faremos especial menção da
+_guavyra_[15], cujo fructo assucarado tem sabor mais agradavel e menos
+adstringente que o araçá de corôa e é sobretudo muito maior em dimensão.
+
+É um arbusto baixo, de folhas largas, tronco pardacento claro.
+
+Diversas especies de guabirobas ahi se vião, umas do tamanho de plantas
+fruticulosas, outras frutescentes; umas com fructos miudinhos
+amarellados, outras com bagas maiores, d'aquella côr ou ainda,
+esverdeadas.
+
+Á tarde, como de costume, cahio copiosa chuva. Amainou promptamente.
+Depois d'ella, descambou o sol por traz de nuvens rôxas, orladas de
+fimbrias de ouro e prata, que, por largo tempo, atirárão lindos reflexos
+sobre as campinas, até se confundirem com os pallidos clarões da lua, a
+qual illuminou, com baça luz, os negros penhascos, portaes d'aquella
+entrada colossal, com que defrontavamos.
+
+Deixando o Lageadinho, fomos, com tres e meia legoas, acampar junto ao
+corrego da Volta, atravessando sempre campos virentes, cortados ora por
+fios de agua alimentados pelas chuvas, ora por matasinhas e capões que
+vão apparecendo mais frequentemente, á medida que raleão os cerrados.
+
+Tinhamos dividido a extensão a viajar. Ao meio dia, depois de duas
+legoas, descançámos junto ao corrego, chamado do Castelhano, por ter ahi
+sido, segundo nos disserão os soldados, fuzilado um official paraguayo
+na occasião da excursão ao Coxim.
+
+Repousámos debaixo da folhosa coberta de uma lixeira (dilleniacea[16]),
+para comermos um pseudo-jantar, em nada conforme ás regras de
+Berchoux[17].
+
+
+ .... tu, Tityre, lentus in umbrâ, etc.
+
+
+Tambem os gastronomos nunca imaginárão a possibilidade de figurar em
+idyllios, sobretudo a modo dos nossos, e tal vida não comporta
+exigencias culinarias.
+
+N'esses casos, quanto mais simples o manjar, tanto mais aturavel. Assim
+um pedaço de carne, fisgada n'um espeto de páo, um pouco de sal, fórmão
+um _churrasco_ appetitoso que se come com grande gosto, quando o
+acompanhão algumas colheres de farinha.
+
+No Coxim, comiamos pura e simplesmente o churrasco: o habito custára-nos
+a adquirir, mas o organismo accommodára-se.
+
+Com a tarde, continuámos viagem, percorrendo mais légoa e meia até uma
+matinha que o já citado corrego da Volta atravessa. Obrigados pela
+noute, armámos barracas.... «_Suadentque cadentia sidera somnos_».
+Infelizmente nuvens de mosquitos se alvoroçárão ao derredor dos ouvidos,
+perturbando as doces consequencias de um somno reparador, ao passo que
+imprecações de continuo levantavão-se do grupo dos nossos camaradas, a
+despeito da fogueira colossal que havião preparado. Assim pois,
+decidimos nunca mais acampar dentro de matas, abandonando além d'isso
+aquelle modo de viajar que, sobre não dar o descanço preciso aos
+animaes, fatiga-os com excesso pelo facto de receberem cargas e serem
+descarregados quatro vezes seguidamente.
+
+Reunida a nossa recovagem, démos, no dia seguinte, começo á viagem
+habitual, passando, d'ahi a hora e quarto, o bonito corrego do Perdigão,
+assim chamado, do nome de um sertanejo que levantára uma choupana junto
+á sua margem esquerda.
+
+Muitas e bonitas macaúbas[18] dominão o baixo matagal que as cérca,
+vencendo-as em altura um grupo de _boritys_, cujos fructos attrahião
+innumeros bandos de aráras, umas todas azues[19], outras de papo
+vermelho[20] ou amarello alaranjado[21].
+
+A mais que modesta habitação de Perdigão não escapou á furia
+incendiadora dos paraguayos, ficando como vestigios os esteios
+carburetados. Ainda sobrevivião á invasão do mato alguns restos de
+cultura e poucos pés de quingombôs (hibiscus esculentus), e algodoeiros
+(gossypium), entre aboboreiras e pés de melancia (cucurbita citrullus)
+resistião ao abandono.
+
+O que levára aquelle pobre fugitivo da sociedade a procurar tão remotos
+sertões, pisados a vez primeira pela planta de seu pé, abandonando os
+povoados, alheio a todo o resto do mundo, vivendo vida de exilado? Fôra
+a necessidade para, por tal preço, obter a impunidade, ou o espirito
+melancolico de retiramento? Ainda ahi não se achou em salvo: os
+invasores paraguayos topárão a trilhada que elle abrira e o expulsárão
+de seus dominios pacificos e incontestados.
+
+Hoje aquella trilha é caminho muito seguido, dando passagem contínua a
+viajantes, carros e lotes de animaes, de modo que o anachoreta Perdigão
+deve procurar novos desertos onde vá a gosto «_placatâ omnia mente
+tueri_», na phrase de Lucrecio.
+
+Do corrego do Perdigão, levou-nos a trilha, depois de 41 minutos de
+marcha, á mata que intitulámos das _Jaós_[22], pelos incessantes pios
+que denunciavão ahi a presença d'aquellas aves. É uma gallinacea, do
+tamanho de um frango, sem cauda, de côr pardacenta clara: anda
+commummente em terra, dando, como a perdiz, um vôo horisontal e pouco
+prolongado: a carne é alva e muito delicada.
+
+O seu pio começa por uma nota destacada e alta, a que succedem, com
+intervallo de dous a tres segundos, tres outras rapidas e mais baixas.
+
+N'essa mata havião os paraguayos deixado uma barcaça (nota D), que
+vinhão puxando desde o rio Aquidauana, para os casos de passagens de
+rios: media 45 palmos de comprimento e 4 de boca.
+
+Achando-se em bom estado, com mui pequenas reparações, podia
+perfeitamente servir para as forças, quando chegassem á margem direita
+do rio Negro.
+
+N'esse dia fomos, sem chuva, acampar, depois de 2-{1/4} legoas de
+marcha, perto do corrego _Fundo_, que obrigou-nos á parada pelo estado
+atoladiço de suas margens, posto que a quantidade de boritys não
+tornasse difficil o lançamento de um pontilhão, para nos dar segura
+passagem.
+
+Entre o capim crescia ahi uma linda _orchidea_ terrestre cuja flôr de um
+rôxo suave, apresentava a massa pollinica pulverulenta, caracter
+particular á tribu das _neottias_ de Lindley.
+
+Reconhecemos tambem nos campos uma _scrophularinea_ de flôr esverdeada,
+e uma _bignoniacea_, com caule um tanto sarmentoso, a qual expandia
+lindas flôres, côr _solferino_ (carmesim ligeiramente roxeado) que vimos
+depois com admiração nos pantanaes, como adiante o diremos.
+
+Nos cerrados repetem-se os typos com frequencia: mangabeiras (hancornia
+speciosa, Gomez) com suas candidas flôres hypocrateriformes, muitas
+myrtaceas, _lixeiras_, grandes e pequenas[23] (dilleniaceas), etc., etc.
+Entretanto o aspecto de todos elles é muito mais vistoso, continuando a
+predominar em numero os _araticús_ (anonaceas).
+
+Na margem esquerda do rio Negrinho, a tres legoas do corrego Fundo, as
+quaes constituírão a marcha do dia 18, acampámos debaixo de magnifica
+cópa de folhudas arvores, formando um excellente pouso, se não fossemos
+atormentados pelos muitos _mosquitos_, _muriçócas_ ou _pernilongos_.
+
+Obrigava as vistas uma bella figueira, com volumoso tronco, ao lado de
+uma _pitombeira_[24], que deu-nos excellentes fructinhos, e a cujos pés
+florescia uma_ cof[oe]a_ ostentando, nas suas flôres azues, um brilho
+metallico muito especial.
+
+O rio Negrinho, entre margens sempre umbrosas, vai perto confundir suas
+aguas com as do rio Negro, trasbordando com extrema facilidade, depois
+de algumas chuvas e inundando as cercanias. Perto d'elle, haviamos
+atravessado algumas braças de pessimo transito, pois que o caminho vara
+por um aguaçal com fundo lodoso. A côr sombria do capim, a tarde que
+descahia depois de um dia toldado de nuvens e chuvoso, os comoros
+pardacentos de cupins, tornavão aquella natureza tristonha e melancolica
+em extremo.
+
+O rio Negrinho não dava commodo váo: passámos por cima de uma pinguela
+natural que a quéda de um grosso madeiro formára, transportando as
+nossas cargas ás costas.
+
+Depois de legoa e meia, feita em terrenos já bastante encharcados, ás
+vezes por extensos almargeaes[25], outras por matas, em que existem
+bastantemente os _aucurys_ (palmeiras de folha estreita) chegámos ao
+_Potreiro_, onde um grande rancho de palha abrigou-nos contra a chuva,
+que começava a cahir e promettia dever de durar.
+
+O Potreiro é um vallesinho, fechado quasi circularmente, por dous ramos
+da serra de Maracajú, a qual vinhamos avistando, havia mais de dez
+legoas.
+
+Era ahi que se fazia a reunião do gado, pertencente ao cidadão Alves
+Ribeiro, com destino ao acampamento do Coxim e cuja obtenção, pela falta
+de cavalhada, ia se tornando cada vez mais custosa.
+
+O lugar é insalubre, em razão da humidade que ressumbra constantemente
+do solo: por isso a estada n'esse ponto, prolongada por mais de mez, foi
+extremamente nociva ás forças, sobretudo quando as aguas, em Maio,
+contra a expectação, attingirão ao maximo crescimento, nos pantanaes.
+
+No Potreiro organisámos os trabalhos, que deviamos enviar ao commandante
+das forças: traçámos o caminho topographicamente, acompanhando-o uma
+ligeira memoria descriptiva, que marcava os pousos e os lugares, onde se
+tornavão precisos alguns melhoramentos.
+
+O caminho, como já o havemos feito sentir, é uma simples trilha. De
+natureza argilo-silicosa (época terciaria), póde ser considerado secco,
+com excepção de alguns pontos, que serião facilmente transpostos. Com
+exclusão do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho, margens de
+corregos e ribeirões, os declives são sempre bons.
+
+Refazendo-nos de forças e tomando provisão de carne, deixámos o Potreiro
+no dia 26 de Fevereiro, para dirigirmo-nos á passagem do rio Negro, onde
+começava a vereda, que dizião ter sido deixada por alguns fugitivos de
+Miranda.
+
+Ahi nascião tambem as incertezas; dominava a indecisão. Sem guia, iamos
+correr risco de uma exploração que nos parecia, como realmente o foi,
+penosissima, cheia de perigos e sobretudo infructifera.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+
+A nossa verdadeira missão ia ter principio. Verificar a possibilidade de
+uma passagem, até o Aquidauana, no tempo das aguas, quando os pantanaes
+se tornão intransitaveis, seguir, ao longo da serra de Maracajú, uma
+pretendida senda, que fugitivos havião aberto; observar a natureza dos
+terrenos e os obstaculos que pudessem impedir a descida das forças nos
+mezes de Abril e Maio, continuar ainda mais a exploração até o rio
+Aquidauana, cuja margem esquerda estava occupada pelo inimigo, apromptar
+os meios de passagem para aquelle rio, era o nosso programma, vasto e
+brilhante, importando não pequena responsabilidade, mas cuja boa
+execução principalmente dependia de meios, que não nos tinhão sido
+ministrados. Oito soldados nos acompanhavão e, d'esses, nenhum tinha
+conhecimento da tal passagem, aliás com rações, sómente para onze dias,
+e armados com fuzis de pederneira, nos quaes as balas só entravão
+partidas!
+
+Um unico machado era propriedade nossa particular.
+
+As chuvas que não cessavão, cahindo de continuo fortes rajadas, havião
+arruinado, quasi totalmente, a carne preparada no Potreiro, de modo que,
+de lá, partimos com as provisões meio esgotadas, confiados apenas no
+muito gado que vaguea pelos campos, por onde deviamos passar. Iamos
+viajar á tôa, esperançados em que nosso bom fado nos facilitasse caminho
+e alimento.
+
+Era muito exigir.
+
+Não procuravamos, nem mereciamos a terra de Promissão; nunca nos guiou
+portanto a nuvem de fogo, nunca nos cahio o manná de Jehovah.
+
+Desde a sahida do Potreiro, comprehendemos as difficuldades que nos
+esperavão, e forão desde logo se complicando.
+
+As terras, já nimiamente baixas, apresentavão grandes extensões
+completamente alagadas, a que se seguião matas de _aucurys_ (nota E),
+onde a humidade continua mantinha o terreno ennatado, sempre lodacento,
+que nos custou boas horas para vencer.
+
+A trilha ia, além de tudo, tornando-se cada vez mais apagada: as
+_taquaras_, nos cerrados, cruzavão-se emmaranhadas, deixando apenas
+passagem para pedestres; nas varzeas, a agua já era muita e as abertas
+indecisas.
+
+Viagem fadigosa, em que se descarregavão incessantemente os cargueiros,
+vencendo depois de um dia completo de marcha, legoa e meia tão sómente!
+
+Quasi ao cahir a noute, acossados logo dos mosquitos, entravamos na mata
+do rio Negro, quando nos deteve os passos uma _corixa_ (nota F), fonte
+de novas contrariedades.
+
+Esta _corixa_ dava nado em toda sua extensão, obrigando-nos a fazer
+_pelotas_, que devião transportar nossas cargas. Nada mais expedito: um
+couro bem secco, levantado nas quatro pontas, que se ligão por cordeis
+ou tiras, recebe os pesos que, são solidamente amarrados, de modo a
+formarem um systema immovel, em cima do qual assenta-se o passageiro,
+como melhor puder. Depois de lançada á agua com todo o cuidado, atira-se
+um nadador á frente da pelota, levando entre os dentes a cordinha que a
+guia, ao passo que um segundo ajuda a mantel-a na boa direcção,
+empurrando-a de quando em quando.
+
+A impressão que recebe o viajante bisonho, ao sentir-se em tão singular
+embarcação, é profunda; parece-lhe que, a lodo momento, o fragil bóte
+improvisado vai submergindo-se pouco a pouco e que a agua invade por
+todos os lados.
+
+Entretanto depois passavamos, com perfeita tranquillidade, não as mansas
+aguas de corixas, mas a forte correnteza de rios caudalosos, em pelotas
+que levavão para mais de seis arrobas: tal era a confiança que nos
+inspirava a pericia natatoria dos irmãos Campos Leite, homens preciosos
+para esse serviço e incansaveis.
+
+O tempo que haviamos gasto na transposição d'essa corixa, fez com que
+chegassemos, com a noute já fechada, á margem direita do rio Negro, e,
+muito depois de nós os animaes de carga e camaradas.
+
+A lua veio então esclarecer a nossa posição, que podia, por momentos,
+tornar-se muito critica.
+
+De nivel com a margem, corria furioso o rio, parecendo dever trasbordar
+e invadir o terreno, em que contavamos passar a noute; e a rapidez das
+aguas, a mataria baixa, com vestigios recentes de uma d'essas temiveis
+cheias, não pouco nos inquietavão.
+
+Entretanto imaginámos expedientes, que, salvando-nos momentaneamente,
+não nos promettião agradavel perspectiva: soltar os animaes, suspender
+as canastras e mais objectos nas arvores mais altas, procurando nós
+mesmos refugio na rama extrema.
+
+Tivemos crueis momentos de anxiedade.
+
+Por isso, com prazer immenso, indescriptivel, ouvimos um dos soldados
+gritar: o rio está baixando!
+
+Corremos todos a examinal-o.
+
+A descensão das aguas era, na realidade, sensivel aos olhos: em breve,
+deixárão meio palmo descoberto, minutos depois, dous palmos e, d'ahi a
+pouco, meia braça. A facilidade, com que se davão essas oscillações,
+demonstrão a proximidade das cabeceiras: com effeito, a pouca distancia
+ficava a serra, d'onde procedem as nascentes do rio.
+
+Á hora em que nos recolhemos, elle baixára mais de braça e, no dia
+seguinte, as margens estavão barrancosas, como o são normalmente.
+
+O rio Negro apresenta ahi 20 a 30 braças de largura: a velocidade é de 3
+a 4 palmos por segundo, profundidade de 10 a 12, não fazendo váo em
+parte alguma. Depois de um curso muito irregular por terrenos
+empantanados, recebe o Tabôco, e, ora entre margens, ora espraiando-se
+pelos campos, vai ter ao rio Paraguay.
+
+As suas proximidades são perigosas pelos paúes, que com elle visinhão:
+as febres intermittentes, paludosas e outras graves enfermidades
+originão-se ahi dos miasmas deleterios, produzidos pela acção solar
+sobre os depositos vegetaes que as enchentes atirão nos campos e
+abandonão, quando dá-se o escoamento das aguas.
+
+Na etiologia da molestia, que grassou na força e a dizimou, depois da
+sua estada junto ao rio Negro, a--paralysia dos membros inferiores ou
+paraplegia--, devem ser assignalados o ar humido e vapores corruptos,
+que, por mais de mez, respirárão aquelles que se achárão debaixo de sua
+perniciosa influencia.
+
+O chão, sobre que assentava o acampamento geral, era uma verdadeira
+_turbeira_: com poucos palmos de profundidade, tiravão os soldados,
+junto ás barrancas, agua, de poças d'onde sahião páos, que, seccados,
+servião para alimentar o fogo de suas modestas cosinhas.
+
+Mais tarde fallaremos, com algum desenvolvimento, n'essa enfermidade,
+que roubou-nos tantos companheiros, n'um curto intervallo de tempo.
+
+Passámos o rio Negro em pelotas, e, ás 10 horas do dia 26 de Fevereiro,
+achavamo-nos na sua margem esquerda, n'uma estreita trilha que devia-nos
+guiar, sempre em _rumo certo_, asseverára-nos na vespera, _seriamente_,
+um indio do Potreiro.
+
+O tal aborigene não professava os principios de Epaminondas: entretanto,
+ainda n'aquelle dia, davamos á sua asserção toda a fé, a estimavamos
+valiosa,
+
+
+ «N'aquelle engano d'alma, ledo e cego,
+ Que a fortuna não deixa durar muito.»
+
+
+Fomos acampar junto á serra que, a 500 braças do rio, ergue-se empinada;
+e ahi aproveitámos o sol para seccar as nossas roupas, que tinhão-se
+ensopado em diversos mergulhos de canastra, nos alagadiços.
+
+Diante de nós abrião-se os campos além, com cerrados ao longe; á nossa
+direita, havia um matosinho com olhos d'agua, e, á esquerda,
+levantava-se uma serrania elevada, cujos cabeços mais proximos
+reflectião ao sol, grandes quebradas vermelho-rubras, confundindo-se os
+mais afastados, n'uma linha continua, com o azul do céo.
+
+A serra de _Maracajú_[26] percorre a direcção constante, media de N. N.
+E. a S. S. O., desde perto do Piquiry até as ramificações na republica
+do Paraguay e na provincia do Paraná. Interrompida de quando em quando,
+ás vezes seguida, e com alturas diversas, destaca ramos, que correm, ou
+parallelamente, ou ainda perpendicularmente, como o vimos no Potreiro.
+
+A sua estructura geologica é de grés argiloso, compacto em certos
+pontos; tendo soffrido a acção de aguas, manifestada, em muitos lugares,
+pelas extensas linhas parallelas, como já o haviamos observado na serra
+da Cabelleira, em Goyaz, e em todos os serrotes do caminho do Coxim.
+
+É evidente que o lago, cuja existencia parece-nos[27] tão claramente
+patenteada, tomava proporções de mediterraneo, á vista da extensão
+occupada, e o estudo comparativo das diversas alturas, que se notão
+n'essas differentes cadêas, deve trazer resultados interessantes, dando
+certeza scientifica n'esta curiosa questão.
+
+A serra de Maracajú não foi, de certo, resultado de erupção, mas sim de
+levantamento, devido a algum terremoto, das camadas da região que a
+cerca, e que apresenta os mesmos typos geologicos.
+
+A vegetação acompanha as dobras e declives da serra até o topo: só os
+pedaços de desaggregação achão-se desnudados.
+
+O aspecto que esses pontos apresentão, é quasi sempre regular: ora, são
+córtes a pique, ora, fórmas abauladas; algumas vezes, á semelhança de
+arcos com irradiações, outras, traços continuados e dispostos
+parallelamente: a côr é visivelmente de barro, a disposição schistosa.
+
+Existe controversia sobre o nome que deva ter essa cadêa de montanha:
+para uns é a serra de Amambahy[28], para outros, de Maracajú. Parece-nos
+que o primeiro nome só póde convir á sua parte meridional, quando dá
+nascimento ao rio d'aquelle nome, antes de penetrar no territorio da
+republica e de estender os seus braços para as provincias do Paraná e
+Rio-Grande do Sul, a cujo systema oreographico vão pertencer.
+
+No primeiro pouso junto á serra, verificámos que o nosso ultimo pedaço
+de carne estava arruinado: comemos comtudo um saboroso churrasco de
+queixada, morto na vespera, cujos restos forão devorados pelos nossos
+camaradas.
+
+Embaidos com esperanças no muito gado, não consideravamos então o perigo
+de nossa situação e adormecemos com a doce persuasão, que em breve
+concluiriamos aquella peregrinação.
+
+No dia seguinte (27) puzemo-nos em marcha, encontrando, logo ao sahir,
+tres a quatro trilhas, que levavão para direcções mui differentes.
+
+Seguindo, ao acaso, por uma d'ellas, fomos esbarrar n'um pantanal:
+tomando outra, de volta ao ponto de partida, fomos ter a um matagal
+impenetravel. Comprehendemos então, que erão ellas formadas pelas
+pisadas do gado, que deviamos só confiar na bussola, e, quanto nos fosse
+possivel, ir cortando sempre a rumo sul.
+
+Essa marcha, cançativa para nossos animaes e sobretudo para os homens
+que nos acompanhavão de pé, não pôde prolongar-se por muito tempo, pela
+grande quantidade de _sapé_ cortante (anatherium bicorne) e _cragoatás_
+(bromelia spinosa).
+
+Esbarrámos de novo com uma mata fechada de _mimosaceas_ espinhosas, que
+foi necessario rodear, depois de perdermos muito tempo.
+
+Logo depois atravessámos uma campina, coberta por gramineas mui
+rasteiras, na qual gastámos mais de uma hora, pela natureza do chão
+fôfo, em que se atolavão os animaes. Observámos que, n'aquellas
+pradarias perfidas, não se nota o rasto de nenhum animal, e que, por
+instincto, procurão sempre desviar-se d'ellas, percorrendo uma fita mais
+solida, intermedia entre o campo e os bosques, que bordão a fralda da
+serra.
+
+Essa zona, além de difficultosa, a unica viavel, offerece desvios mui
+longos, voltas muito extensas, de modo que, para marcharmos um quarto de
+legoa, na boa direcção S., faziamos tres quartos, virando quasi sempre
+para L., mas raras vezes a O.
+
+A viagem, assim em zig-zag, tornava-se muito monotona; pois que, tomando
+ponto de referencia em alguns dos cabeços da serra, sempre os viamos na
+mesma posição em que os tinhamos observado.
+
+Desanimados, sem róta certa nem esperança de a encontrarmos, acampámos,
+quasi ao anoitecer, n'uma varzea, não muito humida, despida de arvores,
+a que chamão _barreiro_.
+
+São campos salinos, em que se fórmão poças de agua notavelmente salgada,
+com sabor muito apreciavel para os animaes, que ahi se reunem, em grande
+quantidade, não só mammiferos como aves.
+
+Uma graminea pardacenta, muito baixa, que parece vegetar com
+difficuldade, algumas _synanthereas_, espalhadas aqui e acolá, e poucos
+pés de _mimosas_, constituem o aspecto botanico d'esses barreiros. Ás
+vezes tambem apparece uma bignoniacea, o _para-tudo_[29], principalmente
+para os lados do Apa e norte da republica do Paraguay.
+
+N'esse barreiro vimos innumeras pégádas de gado. Ao longe mugião rezes,
+acordando em nós a esperança de fazer caçada proveitosa, pois que
+confiavamos na certeza dos tiros de nossos soldados.
+
+
+ «Desejos sempre vãos, reaes só dôres!»
+
+
+D'ahi a horas, voltárão os caçadores, cabisbaixos, merencorios: nenhuma
+pontaria acertára. O gado, bravio em extremo, fugia apenas presentia
+qualquer vulto e sua obtenção, por arma de fogo, tornava-se tão
+difficil, quanto a de qualquer animal das selvas. Refreando as redeas á
+appetencia, que se havia despertado ao som dos tiros, para melhores
+occasiões, passámos a noite, impacientes pela manhã. Entretanto esse
+primeiro dia devia de ser o resumo de toda a nossa viagem.
+
+A narrativa de infelicidades sempre uniformes não póde de certo affectar
+senão uma fórma descriptiva, cuja prolongação hade impreterivelmente
+tocar, tão de perto, os dominios da monotonia, que a repercussão é
+infallivel no espirito do leitor.
+
+Consideremos, pois, as miserias por alto, englobadamente e apressemos a
+narração, que não deixa de ser custosa.
+
+Fiquem os soffrimentos por minutos, por segundos, aos que lhes sentirão
+os espinhos.
+
+Em todos os dias subsequentes, andámos perdidos; ora, estacados por
+muitos dias em pousos, á espera de nossos animaes que fugião, 6 e 7
+legoas atraz, perseguidos dos mosquitos; ora, caminhando por cerrados
+inundados, ora abrindo veredas em taquaraes, que afinal nos obrigavão a
+retroceder, ora emfim, rodeando as campinas, de que fallámos já,
+cahindo, para distracção, em grandes pantanaes.
+
+A zona que percorriamos era uma baixada, alagada pelas aguas da serra e
+estreitada por duas lombas; uma junto ao monte, coberta de
+_taquarissima_ e _aucurys_ e a outra fronteira com cerrados, que não
+podiamos alcançar em razão dos pantanaes, que encontravamos, apenas
+tentavamos descer.
+
+Aquella região é a mais ingrata possivel.
+
+Com o gado, que entretanto avistavamos, pastando em grandes manadas, não
+podiamos mais contar: milhares de decepções tinhão-nos convencido da
+impossibilidade em obtel-o.
+
+Tudo nos corria em contrario: nenhum fructo, a agua pessima e sempre
+quente: os nossos animaes afracando, outros fugidos, nós completamente
+perdidos e arcando, desde muitos dias, não com essa falta de alimentação
+que haviamos anteriormente sentido no Coxim, mas com a verdadeira
+_fome_, descarnada e horrorosa.
+
+Sustentavamo-nos com duas chicaras de chá, uma ao sahir do pouso, outra
+ao anoitecer, medidas e reguladas, em attenção ao terrivel _ámanhã_.
+
+Os soldados chupavão miolo[30] de macaubeiros; comião _jatobás_[31]
+verdes, cujo sabor desagradavel sobrepuja ao cheiro nauseabundo.
+
+Esses nossos fieis companheiros de viagem e soffrimentos trazião-nos
+sempre, com admiravel lealdade, a sua insufficiente colheita de fructos.
+
+N'esse estado de depauperamento de forças, a anorexia era completa;
+custára-nos apenas o primeiro dia de fome, nos outros, sentiamos
+nauseas, syncopes frequentes e completa turbação de vista.
+
+Entretanto nunca o desanimo pairou sobre nós. Como n'um naufragio,
+procuravamos, luctando e debatendo-nos, uma sahida para essa crise.
+
+Abandonámos cargas e canastras no mato.
+
+Alliviando os animaes, que nos restavão, caminhavamos sem cessar, apezar
+do estado de fraqueza que nos acabrunhava, interrogando as menores
+treitas, consultando a cada momento o horisonte, fazendo continuo fogo
+sobre rezes, cuja vida illesa ficava garantida pelo nosso
+_caiporismo_... e, sobretudo, pela distancia, em que erão atiradas.
+
+Oito dias d'esse martyrio ingente que nos esgotava as forças, havião-se
+passado, nos quaes só tinhamos vencido onze legoas.
+
+Decidimos, tomando para O., ir cahir na parte conhecida do pantanal,
+embora estivesse ella completamente coberta pelas aguas. Não podiamos
+continuar semelhante viagem, debaixo de auspicios tão negros e
+terriveis; não deviamos, sem grave imprudencia, teimar em achar caminho,
+por onde só havião passado algumas pessoas, acossadas do inimigo, e
+occultando os signaes de sua fuga.
+
+Assim, pois, voltando as costas á serra, seguimos por uma trilha firme
+de gado, em direcção ao poente, caminhando n'este rumo mais de uma
+legoa.
+
+Encontrámos, com alegria estrondosa, córtes nas arvores, que
+significavão a passagem recente de um homem. Ainda mais, esbarrámos n'um
+pouso de fugitivos abandonado, e, o que é melhor, com um mato de
+palmeiras, que nos derão palmitos e côcos.
+
+A agua excellente de um corrego e aquelles ingredientes formárão uma
+refeição solemne, com a qual surgio em nós a esperança de podermos ter
+outras melhores: vestibulo para momentos mais suaves, a que tinhamos
+feito completo jus.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+
+No dia 4 de Março, pelas onze horas da manhã, alcançámos o caminho do
+pantanal.
+
+Haviamos, na nossa digressão, escapado aos alagadiços do rio Negro, que
+davão nado, e restava-nos a parte mais secca, para chegarmos ao Tabôco
+e, com facilidade, á aldêa da Piranhinha, d'onde deviamos ir ter aos
+Morros.
+
+Esta parte, mais enxuta, apresentava comtudo uma profundidade em aguas,
+que nos incommodava sobremaneira. Viajando continuamente com as botas
+molhadas, chegámos ao pouso da Piuva[32], onde um soldado conseguio
+emfim..... matar uma rez.
+
+A rapidez, com que foi ella esquartejada, a fogueira, que chammejou
+logo, atirando ardente calor sobre immensos pedaços de carne espetados,
+o olhar devorador de todos, a impaciencia que obrigava a comer partes
+semi-crúas, attestárão a importancia d'esse tiro abençoado.
+
+Julgavamos, eu e o meu companheiro, dever de ter appetite feroz, como o
+dos soldados: entretanto, nossos estomagos mais delicados, mal podérão
+aceitar uma minima porção da alimentação necessaria.
+
+Apraziamo-nos, porém, em apreciar o movimento continuo das facas, o
+trabalho incessante dos queixos que funccionavão, depois de tantos dias
+de quasi absoluto descanço, a modo das mandibulas dos heróes
+pantaguelicos de Rabelais.
+
+Durante toda a noite não se cessou de comer.
+
+A fogueira, de continuo, assava _churrascos_, que desapparecião
+fantasmagoricamente e despedia, sobre aquelle grupo faminto, reflexos,
+que fazião reluzir a avidez de seus olhares, a sofreguidão de sua
+occupação.
+
+A manhã de 5 pareceu-nos mais risonha.
+
+O aspecto das cousas havia-se modificado radicalmente e podiamo-nos
+considerar salvos do perigo imminente.
+
+Então, por uma das prerogativas felizes do espirito humano--a
+reluctancia ás reminiscencias desagradaveis--os tempos de desgraça
+parecia-nos se tinhão passado em época mui remota, talvez nos dominios
+de tétrico sonho.
+
+Só cuidavamos no presente, que se abria para um futuro de doces
+compensações.
+
+Accresceu á nossa satisfação um pucaro de delicioso mel de _jaty_ (Nota
+G), que nos trouxe um camarada.
+
+N'aquelles cerrados havia grande abundancia de colmêas, e, d'ahi por
+diante, podiamos adoçar alguma bebida.
+
+Até a margem direita do rio Tabôco, o terreno todo constitue, com
+pequenos intervallos, um pantanal de muitas legoas de extensão, o qual
+nos não custou, comtudo, muitos dias de viagem, pela firmeza da trilha
+em que se anda.
+
+No principio das aguas e no seu final, pelo embeber das terras e depois
+pelo seu deseccamento lento, o transito é mais penoso, quando a natureza
+do sólo não se opponha á formação de atoleiros e tremedaes[33], como em
+alguns pontos em que prevalece o elemento arenoso.
+
+Os pantanaes, no districto de Miranda, produzidos, como dissemos atraz,
+durante a estação chuvosa, pelo trasbordar de todos os rios, ribeirões,
+corregos e regatos, que cortão aquella zona de terreno muito baixa e
+plana, estendem-se entre o Aquidauána e o rio Negro, occupando muitas
+legoas, desde a base da serra do Maracajú até o rio Paraguay, nas quaes,
+só de ponto em ponto distante, se encontra lugar firme e secco, em
+alguma collina mais elevada nas planicies.
+
+A invasão das aguas nos campos, sensivel nos principios de Novembro,
+toca ao maximo nos meiados de Fevereiro e Março, decrescendo em Abril e
+escoando-se em principios de Maio.
+
+Esta regra, fixa para a zona que percorremos, soffre grande alteração
+nas proximidades do rio Paraguay, por isso que, quando os rios seus
+tributarios já inundárão os campos, elle vai lentamente engrossando;
+trasbordando por seu turno, quando os contingentes tendem a baixar,
+dando-se o escoamento dos pantanaes de Miranda.
+
+O caracter, que tem o trasbordamento d'aquella massa enorme de aguas, é
+muito importante.
+
+Os lugares proximos ficão completamente alagados; as mais altas arvores,
+cobertas, mal deixão vêr a extrema rama, e grandes canôas, senão
+vapores, navegão livremente, a tres e quatro legoas de distancia do
+verdadeiro alveo do Paraguay.
+
+As enchentes, ás vezes, forção a que os rios do districto de Miranda
+sejão refluidos e despejem de novo nos campos a agua que não encontra
+vasante.
+
+N'essa occasião, a navegação faz-se com extrema facilidade e celeridade;
+as canôas cortão, como diz-se, a _rumo certo_, e abrevião de muitos dias
+a viagem, sobretudo quando ella se faz rio acima, por encontrarem aguas
+placidas e dormentes, e não a correnteza contraria de um curso veloz.
+
+A _zinga_ habitual, que o barqueiro finca no leito do rio, para fazer
+caminhar a canôa, é então substituida por compridos páos de forquilha,
+para aproveitar os ramos das arvores submersas e afastar d'elles a
+barquinha, na occasião precisa.
+
+Os pantanaes, que atravessámos, offerecem á vista um aspecto de
+vegetação com caracter particular, o qual reproduz-se uniformemente pelo
+numero limitado de generos de plantas que resistem, em inundações
+periodicas, á immersão de suas raizes, durante mezes inteiros, e á
+seccura completa, durante o resto do anno.
+
+_Monocotyledoneas_, sobretudo _cyperaceas_, abundão naturalmente,
+durante as aguas, e differentes especies de capim, entre o qual
+_nympheaceas_ e outras plantas palustres se expandem, cobrem grandes
+espaços, nos quaes só cresce um arbusto, o _mureci-penina_[34]
+(byrsonima chrysophylla), unico que apparece nos verdadeiros pantanaes.
+Nos campos alagados, capões e cerrados, surgem de dentro d'agua.
+
+Com admiração vimos lindas _convolvulaceas_, cujas flôres azul-celestes
+(hypom[oe]a) casavão-se agradavelmente com as corollas, côr-solferino
+(carmim-roxeado), de uma notavel bignoniacea (caule sarmentoso).
+
+Muitos grupos de _araçás_, chamados vulgarmente de corôa, levantão-se,
+aqui e alli, no meio do capim. Disserão-nos que esses fructos produzem
+febres intermittentes; a razão nos não parece clara, entretanto nenhum
+sertanejo deixa de afiançar, com toda a energia, que o _araçá do
+pantáno_[35] _dá sempre maleitas_.
+
+Observámos que, á medida que as aguas vão subindo, o capim
+desenvolve-se; razão pela qual, nas proximidades do rio Paraguay,
+podem-se arrancar pés de algumas braças de comprimento. As abertas
+n'elle indicão as trilhas e pisadas de gado, as quaes são excellentes
+guias para lugares enxutos.
+
+O aspecto de um pantanal é profundamente melancolico: o viajante fica
+possuido de um sentimento contristador, ao atravessar aquellas paragens,
+em que o perigo póde sorprehendel-o a cada instante.
+
+O chão furta-se ás suas vistas indagadoras. O bater monotono dos pés dos
+animaes na agua, os sombrios aspectos que o cercão, os comoros de cupins
+que, com escura côr, surgem, aqui, acolá, de entre moutas de capim
+pardacento, o silencio de toda essa natureza tristonha e anormal,
+acabrunhão a alma e a prostrão grandemente.
+
+O horisonte parece acanhado: o céo como que pesa, com curva mais
+abatida, sobre aquella scena de desolação.
+
+O sertanejo, comtudo, passa calmo e cantando: apenas, de vez em quando,
+examina, debruçando-se sobre as aguas paradas, se os perfidos enleios
+das hervas não lhe impedirão a passagem.
+
+Muitas vezes, para um viajor novato, o receio não é fóra de proposito.
+De repente sobe a altura da agua: já toca o sellim; mais um passo, o
+cobrirá--é uma _corixa_--. Apear-se dentro d'agua, formar uma pelota
+para as suas cargas, atirar-se, prestes a nado, com a corda entre os
+dentes, é questão de minutos, para o prático, e origem de mil
+aborrecimentos, para quem não o fôr.
+
+Os viventes, que se encontrão nos pantanaes, achão-se em relação com o
+seu _facies_ tristonho. É o desadornado _socó_, que esvoaça pesadamente,
+indo pousar desairoso sobre as torres de cupim; é o desaprasivel
+_tuyuyú_, com o pescoço vermelho e bico longo, que cruza-se nos ares com
+o desengraçado _tabu-yáyá_[36]. Alegra, de quando em quando, a vista
+alguma _garça_ que, com rapidez, corta o azul do céo, estirando o
+elegante collo e reflectindo, ao sol, o branco esplendido de sua
+plumagem; rompem, de quando em quando, o silencio, barulhentos bandos de
+_patos_ (anas) e _marrequinhas_, que erguem custoso vôo ao minimo ruido.
+
+Nos firmes, as pégádas da temivel _onça pintada_ não são raras, assim
+como as do _tamanduá bandeira_ (myrmecophaga jubata) que encontra sobeja
+alimentação nos muitos formigueiros e casas de cupins.
+
+O gado dá-se perfeitamente no pantanal: durante o dia, desce elle todo
+para os lugares inundados, porém não atoladiços (o que evitão com muito
+cuidado) recolhendo-se, á prima noite, para os pontos descobertos ou
+para os _barreiros_, onde pastão em grandes manadas.
+
+Estas salsas pousadas constituem uma das grandes riquezas da provincia,
+para a creação de rezes: ahi achão ellas o sal necessario para a
+alimentação, tornando-se-lhes a carne tão saborosa, que dispensa
+qualquer preparação, para ser deliciosa ao paladar.
+
+As poças, que se fórmão nas depressões d'aquellas regiões salinas,
+contém uma agua que os animaes bebem com avidez, voltando, de muitas
+legoas além, para saciarem ahi a sêde, apezar de qualquer outra que
+possão encontrar.
+
+Já o dissemos, é um lugar curioso de reunião: nas arvores pousão grandes
+cohortes de aligeros e melodiosos cantores[37], ao passo que numerosos
+rastos de _porcos_[38], _veados_, _antas_, _tatús_, e etc., indicão a
+continua frequencia d'esses animaes.
+
+Assim como o homem ahi vai esperar motivos para grandes façanhas
+cynegeticas, a _onça_, por instinctos mais naturaes, nunca se arreda
+muito d'esses lugares, tão bem providos para os seus appetites ferozes.
+Bem junta ao chão, atraz de qualquer moutasinha, prepara ella o bóte que
+deve dar-lhe a posse do pobre vivente, que se colloca na sua terrivel
+esphera de actividade. Obrigada a retirada cautelosa, quando se
+approximão as numerosas varas de _queixadas_, vai ella mais longe
+esperar algum, que se atraze e separe-se da columna respeitavel
+d'aquelles suinos, cujos dentes compridos e aguçados, com razão, lhe
+inspirão receios.
+
+Nos barreiros o chão é sempre firme e, apezar de inundado por muitos
+mezes, nunca se torna atoladiço. Tinhamos feito observação que, em todos
+aquelles campos, onde crescem as _synanthereas_--perpetuas do campo--, o
+terreno é sempre estavel: de modo que, de longe, ao avistarmos as
+campinas, que só differençavão-se, por terem ou não aquellas plantinhas,
+podiamos com confiança atravessal-as ou procuravamos cuidadosamente
+rodeal-as.
+
+Poder-se-hia, com menos certeza comtudo, dizer o mesmo, quanto a umas
+_mimosaceas_, indicadoras quasi sempre de um local enxuto.
+
+Fugiamos, pelo contrario, cautelosamente das varzeas limpas e vistosas,
+em que traiçoeira e virente grama occultava atoleiros continuos e
+perigosos--_Latet anguis in herbâ_.
+
+Custosa experiencia fez-nos observar essas particularidades, que de
+muito servirão-nos, no seguimento d'aquella viagem.
+
+Os habitantes do sul de Mato-Grosso procurão, nas épocas de grande
+carencia de sal e sua consequente e excessiva carestia, tirar, dos
+terrenos salinos, aquelle necessario condimento, a despeito de haver
+difficuldade n'essa extracção e os meios empregados serem mui
+grosseiros.
+
+Nas proximidades de Coimbra existem terrenos, já conhecidos e explorados
+com vantagem, d'onde extrahe-se o chamado _sal da terra_, que vende-se
+completamente impuro.
+
+Em 1855, quando as communicações terrestres, interrompidas pela previsão
+da proxima navegação do Paraguay, por alguns mezes, deixárão de fornecer
+o sal para consumo de todos os pontos da provincia, aquelles
+barreiros[39] tornárão-se fonte de extraordinario ganho para alguns e,
+por isso, centro de attracção para muitos especuladores.
+
+Entretanto a ganancia achou-se a tempo frustrada, pela entrada de um
+navio que, cortando aguas acima o Paraguay, foi abastecer de sal o porto
+de Corumbá e a capital da provincia. Era uma barca de nacionalidade
+paraguaya; a primeira que aproveitava-se do tratado de navegação entre o
+Imperio e a Republica.
+
+A essa seguirão-se logo outras, estabelecendo um movimento commercial
+activo, que deu o ultimo golpe á especulação da utilisação dos
+barreiros.
+
+A decepção foi merecida, a idéa comtudo não deve perder-se.
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+
+A crise, em que se achou a provincia de Mato-Grosso, por occasião da
+invasão de 1865, veio renovar os apuros pela falta de sal, até que de
+novo recomeçassem as recovagens a transportar este genero das provincias
+beira-mar. Era a renovação obrigatoria dos meios de communicação
+antigos, cujo estabelecimento demorado deu lugar ao espirito
+ganancieiro.
+
+Em Cuyabá vendeu-se o alqueire de sal a 600$000 rs. e em pouco tempo
+subio a mais de conto!
+
+Entretanto um pouco de industria[40] suppriria ao sal recebido do
+exterior, ou, pelo menos, attenuaria muito as consequencias de sua
+diminuição.
+
+A França, por occasião do bloqueio continental, recorreu aos seus sabios
+e o assucar de beterraba livrou-a do jugo colonial: a sciencia deu as
+mãos á industria, ajudando a politica espantosa, que podia desfechar
+golpe mortal no poder inglez.
+
+Em Mato-Grosso, não se tornavão precisos os esforços intellectuaes dos
+mestres da sciencia. Com pequenos melhoramentos, força de vontade e de
+trabalho, tirar-se-ião grandes quantidades de sal, cortando os vôos á
+especulação abusiva e altamente reprovavel. Todos comtudo se sujeitão ás
+imposições dos monopolistas, que, na razão crescente da carencia,
+alteavão cada vez mais o preço de seu genero, na carreira vertiginosa de
+lucros exorbitantes.
+
+Entretanto os barreiros jazem abandonados, entregues aos animaes, que
+ali obtem, pela lambedura, o que tanto custa aos homens.
+
+A indolencia parece ter assentado sua séde em Mato-Grosso.
+
+Existe nos campos d'aquella provincia, uma população _sui generis_,
+meramente entregue á creação de gado, com habitos arraigados, que a
+inhabilitão para qualquer outro trabalho.
+
+No districto de Miranda, ou se é negociante ou fazendeiro.
+
+A vida do fazendeiro é marcar, em certas épocas do anno, os bezerros,
+_costear_ o gado, de quando em quando, e negociar com elle.
+
+Sua fazenda é uma área de terreno indeterminada, muitas vezes com 5, 10,
+20 e mais legoas de extensão, tendo, em certo ponto, um rancho, coberto
+quase sempre de palha, raras vezes de telha, que serve de vivenda ao
+dono d'essas gigantescas propriedades, onde caberião, á larga, dez a
+doze grão-ducados ou principados allemães.
+
+Ahi passará elle toda sua existencia; 50, 60 annos, sem que lhe corra
+pela idéa a necessidade de um melhoramento em suas terras, em sua
+palhoça, a fruição de um canto aprazivel, de um pomar. Raras vaccas
+mansas rodeão um espaço limpo só pelas patas do gado; porém dezenas de
+milhares de rezes percorrem as suas campinas desertas e innumeros touros
+mugem ao longe.
+
+Este aspecto desolador é o mais frequente: entretanto a descripção, que
+nos fizerão, da fazenda das Pirapitangas[41], pertencente ao Sr. barão
+de Villa-Maria, indica da parte do seu proprietario, espirito de
+actividade e gosto pelo trabalho, pouco communs na provincia.
+
+Uma alteração profunda no systema actual de viver não hade comtudo
+soffrer detença: a passagem para a vida agricola.
+
+A epidemia que grassa entre os cavallos, produzirá a modificação de que
+fallamos.
+
+Não ha cavallo que resista a essa peste, depois de poucos annos de
+trabalho, de modo que, em certas épocas, qualquer animal attinge a
+preços despropositados.
+
+Em alguns annos, a difficuldade em obter cavalhada tem impossibilitado o
+_costêo_[42], sem o qual o gado se torna arisco e bravio, como o que
+avistavamos na base da serra de Maracajú.
+
+Transportada da Bolivia em 1857, começou aquella enfermidade a grassar
+entre os cavallos, com todos os caracteres de epidemica. Hoje tornou-se
+endemica.
+
+A destruição foi quasi completa; mal escapárão alguns, em localidades
+salubres e aos quaes se poupára o excesso de serviço.
+
+Desde então, annualmente reapparece: ora, atacando com pouca
+intensidade, ora, levando cavallos aos centos, augmentando com o calor,
+na estação das aguas, diminuindo com o frio e lavrando, sobretudo, na
+razão da agglomeração de animaes muares, como aconteceu com os da
+expedição, durante a estada no Coxim, onde morrêrão quasi todos os
+burros, não escapando um só cavallo.
+
+A zona, em que actua esse mal, estende-se do sul do districto de Miranda
+até Cuyabá, exactamente em todos os pontos, onde se dão as inundações
+periodicas e o alagamento dos campos.
+
+Nos lugares mais altos, em Nioac e junto á serra, é molestia pouco
+conhecida, e, do outro lado da cadêa, não penetrou ella, ficando
+limitada nos locaes, em que achou condições favoraveis para o seu
+desenvolvimento.
+
+O governo da provincia, attendendo á estabilidade d'essa molestia, cujos
+effeitos ruinosos, ha muito, se fazem sensiveis, mandou contratar um
+veterinario em França, para vir estuda-la e fornecer meios de
+combate-la, visto como, sem resultados apreciaveis, continuão as
+applicações, que experimentão os fazendeiros.
+
+Disserão-nos que se déra a vinda para o Brasil d'esse especialista, o
+qual, porém, ficára no Rio de Janeiro; não se tratando mais de chama-lo
+á provincia, em cujo seio dão-se, em escala crescente, os casos de
+destruição de todos os animaes muares.
+
+Os prodromos da molestia são variadissimos. Ás vezes, manisfestão-se por
+simples ruidos no ventre: excrementos reseccados e duros, inappetencia
+completa, magreza repentina. Outras vezes, com falta de todos aquelles
+symptomas, apparece a impossibilidade ou difficuldade em beber, ficando,
+comtudo, largo tempo, o animal, com a cabeça mettida n'agua,
+demonstrando o seu desejo.
+
+Succedem-se então phenomenos, cujo final obrigatorio é a morte.
+
+Ora os animaes ficão tristonhos e, em poucos dias, vão definhando até
+morrerem; ora tornão-se espantadiços; correm, sem direcção certa,
+girando até cahirem, ou seguindo diagonalmente; ora completamente cégos;
+ora surdos.
+
+Em todos os casos, as cadeiras ficão tolhidas, a parte posterior
+derreada e o animal arrastra as patas trazeiras com difficuldade e
+cançaço, d'onde provém a especificação de _peste-cadeira_ ou de
+_cadeiras_.
+
+Pessoa habilitada procedeu á autopsia de um cavallo, victima d'aquella
+enfermidade, e encontrou, como era natural, alteração profunda na medula
+espinhal.
+
+Um curioso de algum merecimento, o Sr. João Lemes do Prado, depois de
+esgotados muitos remedios, para subtrahir algum de seus cavallos á
+peste, usou com proveito do _crótalo_, extrahido da cobra cascavel.
+
+Entretanto, nunca os escapos recobravão o antigo vigor e, apezar de
+gordos, empregavão extraordinario esforço nas subidas e descidas de
+rampas.
+
+Parece fóra de duvida, pelos singulares phenomenos na locomoção,
+inherentes a essa enfermidade[43], que a lesão na espinha dorsal,
+propaga-se ou repercute-se nos lóbulos cervicaes, como o demonstrão as
+interessantes experiencias e acertadas indagações de Flourens, na
+vivi-secção.
+
+Havemos, mais adiante, de verificar curiosas relações entre a peste dos
+animaes, e a que dizimou parte da columna expedicionaria, confirmando a
+esclarecida opinião de Backewel, Chadwick, Harrison e Graves, quando
+tratão da connexão entre as epidemias e epizootias.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+
+Entretanto, a 10 de Março, achavamo-nos na margem direita do rio Tabôco,
+o qual, contra as previsões de nossos soldados, que trilhavão já caminho
+conhecido, dava nado de lado a lado, n'uma extensão de mais de 30
+braças, quando a sua largura normal não excede de 18 a 20.
+
+Passámos a noite debaixo de um laranjal, que servia de pomar á casa do
+cidadão Joaquim Alves de Souza, a qual teve de hospedar aos paraguayos,
+quando elles ião para o Coxim, e fôra testemunha dos attentados que ahi
+praticárão.
+
+Esses hospedes incommodos forão tratados com urbanidade tão bem fingida,
+que não duvidárão em deixar o dono da casa em sua fazenda, com promessas
+de leva-lo com toda familia para a villa de Miranda. Um camarada,
+havendo, n'essa occasião, tentado fugir, foi pelos soldados fustigado,
+amarrado a um pé de _piuva_[44] (peroba) e quasi esfolado pelas pontas
+do açoute.
+
+Depois d'aquella execução barbara, a que assistio o misero patrão, com
+custosa indifferença, partírão elles, promettendo voltar breve,
+concluida a expedição ao norte do districto.
+
+Se elles cumprírão a palavra, Joaquim Alves julgou-se com razões
+ponderosas para não fazer o mesmo.
+
+Apenas voltárão as costas, fugio com toda sua gente para os matos,
+tomando depois caminho de Sant'Anna do Paranahyba.
+
+Vingárão-se os paraguayos do logro, feito á ingenuidade de homens
+brutaes e barbaros, queimando as casas e dependencias, e destruindo tudo
+quanto encontrárão.
+
+A denominação de _Tabôco_ é de origem guaycurú: significa _fundo_,
+apezar de seu pouco volume de aguas habitual.
+
+Alguns indios, porém, d'aquella nação, havendo habitado junto a um
+peráu, formado n'uma das voltas do rio, derão-lhe em toda a extensão
+aquella especificação pouco conveniente.
+
+Officialmente e nos mappas da provincia diz-se _Dabôco_, muito
+erradamente e sem razão.
+
+Suscitando-se, em Agosto de 1866, a dúvida a respeito do nome exacto,
+colhemos a certeza não só da boca de pessoas conhecedoras da lingua
+guaycurú[45], senão dos proprios naturaes d'aquella nação.
+
+Os que dizem _Dabôco_ a todo o trance, não se firmão em principio algum,
+a menos que apresentem, como autoridade, dous ou tres mappas da
+provincia, em que apparece aquella palavra escripta por um _D_.
+
+O rio, no lugar da passagem, tem a margem direita alta, a esquerda baixa
+e paludosa depois das inundações, frequentes, em razão da proximidade
+das cabeceiras, se bem de pouca duração. Bellas figueiras e alguns pés
+de _ingá_ (ingá edulis) tornão esse lado umbroso, ao passo que o outro é
+completamente descoberto.
+
+Um pouco abaixo, o rio bifurca-se: um ramo segue direcção, no rumo médio
+O.; o outro diverge para S. O., deixando intermedia uma comprida insua
+rasa e arenosa.
+
+Os desmoronamentos da barranca direita deixão perceber a natureza
+completamente arenacea dos terrenos proximos, o que tambem póde explicar
+o nome de _fundo_, dado em certa época a um rio que, carregando grandes
+porções de arêa, modifica com facilidade o leito em que corre.
+
+Fallárão-nos, na realidade, nas diversas phases por que elle tem
+passado, assignalando-se datas, não mui remotas, em que a sua
+profundidade variou extraordinariamente.
+
+Ao chegarmos junto ao Tabôco, a noite, ha muito, tinha cahido. Nuvens
+carregadas de chuva pesavão no horisonte, estendendo um véo tristonho,
+por entre o qual a lua, a custo, diffundia raios amortecidos e tibios.
+
+As arvores, formando densa mouteira, lançavão sombras vigorosas sobre a
+superficie turva do rio que rolava, engrossado pelas chuvas passadas,
+toldadas aguas, em cujo seio, de quando em quando, abria-se, com o
+espadanar do salto de algum peixe, um vão luminoso.
+
+Com o nosso approximar, um bando de _capivaras_[46] (hydroch[oe]rus
+capibara) atirou-se ao rio, afundindo-se com estrondo, e indo surgir na
+margem opposta, ao passo que barulhentos _quero-quero_[47], acordando,
+com estrepitosos gritos, os echos, cruzavão-se nos ares com precipitado
+vôo.
+
+Ahi achavão-se vestigios da passagem de numerosa comitiva, e, ao aclarar
+o dia, reconhecêrão os soldados serem pisadas de indios, a despeito de
+não apreciarmos os signaes que differençassem essas pégádas, das de
+qualquer outra planta de pé, como com razão o affiançavão elles.
+
+Esses homens são de uma sagacidade espantosa; nunca se enganão e
+conhecem perfeitamente os rastos de todos os animaes. Ao depois, vimos
+nos indios demonstração de um tino tão fino, que reconhecem, pela
+impressão do pé no terreno, a pessoa que a deixára.
+
+O Tabôco dava nado de lado a lado: recorremos aos couros e o passámos
+com difficuldade, perigando, n'essa occasião, a fragil pelota, em que se
+mettêra o nosso collega Lago.
+
+N'esse dia (10) deviamos emfim chegar á aldêa dos indios da Piranhinha:
+aligeirando pois a marcha, tomámos aquella direcção, tendo á frente dous
+soldados, conhecedores d'esses lugares, que caminhavão com a confiança
+que lhes faltára junto á serra, isto é, cortando campos, seguindo
+trilhas imperceptiveis e rompendo por veredas cobertas pelo matagal e
+capim.
+
+Haviamos deixado a serra de Maracajú e iamos então fraldejando um ramo
+d'ella, o qual segue para o sul, parallelamente á cadêa, em cujo novo
+encontro achava-se a aldêa.
+
+Os campos são pouco dobrados; o verdor das arvores, o capim crescido
+denotavão, que, havia tempo, não lavrava fogo n'elles.
+
+Cerrados, como sempre, se estendem por todos os lados; n'elles apparecem
+com frequencia as _bignoniaceas_[48], as quaes tem menos representantes
+nos das outras provincias: continuão comtudo a predominar os _araticús_.
+
+Caminhando uma legoa e tres quartos na direcção media S., attingimos ao
+morrete que faz ponta ao ramo, que, então, diverge para N. S. e vai
+unir-se á serra, a qual avistavamos de novo, dominando, com pincaros
+recortados, o aldêamento da Piranhinha.
+
+D'aquella ponta de morro, parte o caminho, que leva ao Aquidauana e ao
+porto, chamado do Souza, onde existia então um destacamento paraguayo,
+com uma guarnição de pouco mais de cem homens, a qual vigiava o rio e a
+estrada do Tabôco, pela qual presumião dever de descer a força
+brasileira.
+
+Ao dobrarmos aquelle promontorio, avistámos, na distancia de tres a
+quatro legoas, uma columna de fumaça, que, maculando com rolos
+alvacentos o puro campo do céo, subia pesadamente, destacando de si
+ligeiros flócos, em breve dissipados ao sopro da brisa.
+
+Era o fogo do invasor atirado aos campos do Brasil, era o signal da
+usurpação.
+
+Indicava aquelle ponto negro a posse, depois da perfidia, o dominio após
+a violencia: posse momentanea que o governo de Lopes havia de pagar bem
+caro, dominio temporario, que custou milhares de vidas, nas grandes
+questões á mão armada, que se debatêrão nas planicies da republica do
+Paraguay.
+
+Caminhando uma legoa e um quarto d'aquelle morro, passámos o lindo
+regato das Piranhinhas, no meio de luxuriante mata, finda a qual,
+começámos a trilhar estrada, que mostrava signaes de muita frequencia.
+
+Na realidade n'uma volta além, achava-se a aldêa, cujos ruidos, cada vez
+mais crescentes, denunciavão vida e animação.
+
+Os baques de machados, confundião-se com o cantar de gallos e o vozear
+de homens, formando um concerto, que então preferiamos aos mais sublimes
+acórdes do autor de Ernani, pois significava-nos o final de todos os
+soffrimentos; alegrava-nos o espirito e o corpo, abrindo largos
+horisontes ao nosso direito de compensações.
+
+Em breve, diante de nós, corrêra um indio.
+
+Noticia importante circulou pela aldêa.
+
+Ouviamos grande vozeria, algazarra continuada, e, quando surgírão ante
+nós as primeiras palhoças, uma chusma de gente armada se atirou ao nosso
+encontro.
+
+O aspecto não era agradavel. Chegárão alguns a apontar para nós: a vista
+porém dos soldados que lhes erão conhecidos, o nosso passo pouco
+bellicoso, o nosso acompanhamento, em nada medonho, dissipárão logo
+qualquer dúvida.
+
+A reacção foi estrepitosa. Explicámos a razão de nossa chegada, e,
+cercados, quasi em braços, no meio d'aquella boa gente, fomos ter a casa
+do capitão José Pedro, que nos acolheu, não como chefe de indios, mas
+como um filho da civilisação.
+
+Não pouca estranheza nos causava a apparencia de nossos novos amigos,
+pintados de _genipapo_ e _urucú_. Fallavão, com volubilidade espantosa,
+lingua que nos parecia então extraordinariamente aspera e estavão
+armados, uns com lanças, chuços, espadas, quasi todos com espingardas e
+clavinas.
+
+Depois de fartarem, por mais de uma hora, a curiosidade, que lhes
+causavamos, a um aceno do capitão deixárão a palhoça, em que nos
+achavamos, e podémos, afinal, comer socegadamente uma gallinha cosida
+com arroz, que teria merecimento em qualquer parte do mundo.
+
+A noite passou-se em narrar a José Pedro os acontecimentos que havião
+precedido a guerra com o Paraguay, os successos do sul e os nossos
+triumphos, que muito o enthusiasmárão.
+
+Fallou-nos elle, com verdadeiro sentimento respeitoso, do Imperador, de
+Suas altas attribuições e mostrou-se conhecedor reconhecido da
+benevolencia, que o monarcha brasileiro nutre pelos indios de Seu
+Imperio.
+
+Narrou-nos, com côres vivas e expressivas, a invasão, suas phases;
+elogiou o comportamento de varios individuos de sua tribu, nunca fallou
+de si, e, mostrando sempre os principios de uma boa educação esboçada,
+deu-nos prova de intelligencia clara e capaz de desenvolvimento.
+
+O capitão José Pedro de Souza sabia lêr e escrever; mantinha em sua
+aldêa severa disciplina; organisára uma escola de meninos, na qual
+figuravão os seus dous filhos e sempre se havia mostrado affeiçoado aos
+brasileiros, unindo-se com elles nas horas de infelicidade.
+
+Era digno, debaixo de todos os titulos, de obter do governo imperial a
+confirmação do posto, que lhe fôra concedido pelo virtuoso missionario
+frei Marianno de Bagnaia, sob cujas vistas foi educado, na aldêa dos
+Quiniquináos do Bom-Conselho, além do rio Paraguay[49].
+
+Estabelecidos na aldêa do _Naxe-daxe_ ou de _Santa Cruz_, a 6 legoas da
+villa de Miranda, tinhão os indios Terenas procurado um refugio, por
+occasião da invasão dos paraguayos, dedicando-se logo ao plantio, apezar
+da carencia de sementes e grãos, em que se achárão.
+
+Entretanto, quando chegámos, já havião colhido boa quantidade de arroz,
+algum milho e mandioca, da qual fazem excellente farinha.
+
+Na manhã do dia seguinte, aquelles generos com mel e rapaduras figurárão
+nos presentes, que o mulherio, em peso, veio offerecer aos dous hospedes
+da nação terena.
+
+Retribuimos com moedas de prata de duzentos réis; o que causou alegria
+manifesta.
+
+Muitas mulheres, na confusão, accusavão não ter sido contempladas e só
+se retiravão depois de satisfeitas as suas exigencias, voltando com
+dadivas novas para fazerem jus á nova distribuição de dinheiro.
+
+O capitão livrou-nos de mais sacrificios pecuniarios, levando-nos a
+passeio. A aldêa preparava-se para uma festa e varios indios _padres_
+cantavão debaixo de alpendres de _perypery_[50], para que o mel colhido,
+de dias, fermentasse depressa.
+
+Fallaremos, em capitulo separado, de todas essas ceremonias e mais
+costumes dos indios de Miranda; ainda depois do muito que se tem dito a
+este respeito, é estudo curioso esmerilhar as praticas especiaes d'essa
+gente, que tem conservado o seu typo bem caracteristico, apezar do longo
+contacto com os brancos.
+
+
+
+
+CAPITULO VII
+
+
+No dia 11 de Março, dizendo adeos áquella boa gente e acompanhados pelo
+capitão José Pedro e mais alguns dos seus, tomámos a trilha que
+communicava a aldêa com a localidade em que se achavão os refugiados, a
+3-{1/2} legoas. (Nota H)
+
+Para penetrarmos no reconcavo da Piranhinha, haviamos caminhado
+completamente a E.; desfazendo a volta, isto é, tomando rumo O.,
+chegámos de novo á ponta de morro, de que acima fallámos e dirigimo-nos
+para a serrania.
+
+Em breve começou a ascensão.
+
+As matas tornavão-se mais frequentes: o declive era já agro.
+
+De repente desciamos; logo após subiamos cançativa rampa.
+
+A trilha, entaliscada entre fileiras de rochedos altos, seguia ora por
+baixo de taquaraes, ora por entre densos matagaes.
+
+Comprehendia-se que era caminho de refugiados.
+
+A meiga luz da tarde nos esclarecia paisagens lindissimas: erão
+quebradas de montanhas, que deixavão a vista estender-se por sobre um
+rico docel de verdura, nos declives além: erão crystallinas aguas, que,
+serpeando entre grossos matacões, despenhavão-se--borbulhantes
+cascatas--riscando de branco a pedra negra e sumindo-se por escuras
+fendas.
+
+As sombras cobrião já as profundezas do valle, que muito ao longe
+avistavamos; galgavão apressadas as primeiras dobras da montanha e só
+alguns raios descorados de sol allumiavão a rama extrema das arvores,
+que corôavão o topo da serra.
+
+Haviamos caminhado já tres legoas e um quarto, e temiamos, que a noite
+nos sorprehendesse n'essas brenhas.
+
+Com o cahir da tarde, subimos uma rampa tão ingreme, que obrigou-nos a
+apear de animal e a galgal-a de pé.
+
+Era o ultimo degráo que restava vencer, antes de chegar ao chapadão, que
+se estende sobre a cadêa.
+
+Na realidade, pouco depois, pisavamos um terreno plano, silicoso,
+coberto de cerrados.
+
+O crepusculo, cada vez mais fraco, mal deixava distinguir a trilha.
+Emfim cahia a noite fechada, quando, por entre a folhagem de umas
+moutas, vimos brilhar luzes......
+
+Era o final de nossa viagem: era o repouso, não para algumas horas, para
+uma noite; mas sim para dias, semanas......
+
+Era o descanço, a tranquillidade! a vida!
+
+Era o socego depois de tantos trabalhos, a quietação depois de tanto
+movimento!
+
+Quantos sentimentos em nós se alvoroçárão!
+
+A responsabilidade official estava salva. Haviamos cumprido a parte mais
+custosa de nossas instrucções, e cumprido, com risco de saude, com
+sacrificio penoso, com perigo de vida.
+
+Démos tudo por bem empregado.
+
+O recebimento cordial e espontaneo, que nos esperava, constitue um
+d'esses factos, que o homem de sentimento nunca mais esquece. Homo
+sum......
+
+O nosso actual amigo, o Sr. João Pacheco de Almeida recebeu-nos e
+acolheu-nos, em sua palhoça, com a nobreza, com que um principe
+hospedaria em seu palacio.
+
+A longa convivencia, na qual estivemos, por muitos mezes, com esse digno
+cavalheiro, é uma lembrança, que sempre em nós desperta a gratidão.
+
+ * * * * *
+
+Passámos a noite em excellentes redes: o somno foi reparador.
+
+A curiosidade, de que se achavão possuidos todos os refugiados, em
+saberem noticias da força que os vinha proteger, do que se passára desde
+Janeiro de 1865, era modificada pelo desejo de dar-nos o descanço depois
+de tanta atribulação e assim podémos desfructar repouso longo e
+tranquillo, que ainda durava, quando o sol já ia alto......
+
+O acampamento de João Pacheco occupava uma área de 20 braças quadradas.
+Um bello corrego dividia-o em duas partes, ambas sombreadas, mais do que
+convinha á saude, por magnificas arvores de construcção.
+
+Amontoavão-se, n'esse pequeno espaço, 18 a 20 casinhas que parecia
+tinhão-se encostado umas ás outras, apertando o circulo, para
+protegerem-se reciprocamente.
+
+Á medida que o receio dos paraguayos[51] diminuia, as palhoças ião se
+affastando, a procurarem mais espaço e liberdade.
+
+A meia legoa d'esse nucleo, formára-se outro ao redor do fazendeiro
+Francisco Dias, cujo nome servia para designar aquelle acampamento. A
+posição era muito pitoresca: a serra faz ahi um reconcavo, todo cercado
+por morros alcantilados, que fechão uma planura de pouca extensão, porém
+muito aprazivel.
+
+As fórmas singulares, que tomão as montanhas, a brisa constante que ahi
+reina, mantida por duas grandes abertas que correspondem, tornão esse
+lugar eminentemente ameno e saudavel.
+
+Todas as pessoas, em numero superior a 100, que compunhão aquelle
+acampamento, vierão comprimentar-nos no dia seguinte ao de nossa
+chegada, e no rancho de João Pacheco reunio-se a quasi totalidade do que
+o districto de Miranda continha em autoridades e fazendeiros.
+
+A desgraça extrema não se descreve: esses homens achavão-se todos de pés
+no chão, cobertos de farrapos, ostentando no rosto o soffrimento
+prolongado, o martyrio de muitos mezes.
+
+Obrigados ao trabalho para viverem, manejavão, com ardor digno de
+admiração, o machado e a fouce e luctavão com todas as dificuldades da
+inexperiencia n'esse serviço pesado, para proverem o sustento de suas
+familias.
+
+As mulheres, por seu lado, não se esquivavão da mais ardua tarefa.
+Causava dó vêr debeis moças socando, por esforço de braços, o milho para
+reduzil-o a farinha ou descascando no pilão o arroz.
+
+Todos com persistencia exemplar e espirito immenso de resignação,
+curvavão-se ás crueis exigencias da occasião e, cumprindo com a
+imperiosa lei do trabalho, vivião vida penosa e altamente precaria,
+depois do esbulho de todos os seus bens e dos dolorosos trances de fuga
+ante um inimigo feroz e implacavel.
+
+
+
+
+CAPITULO VIII
+
+
+No dia 24 de Março, partimos em direcção ao rio Aquidauana, cuja margem
+direita deviamos explorar, como recommendavão-nos as instrucções.
+
+Alguns moradores dos Morros nos acompanhavão n'este reconhecimento, em
+que havia perigos a correr, por qualquer eventualidade possivel, quando
+não provavel.
+
+O Sr. João Pacheco, entre todos, primava pela dedicação e energia;
+costumado a andar de pé longas distancias, servia-nos de excellente
+guia, caminhando com toda a galhardia diante de nossas cavalgaduras, que
+com difficuldade seguião-lhe os ligeiros passos.
+
+O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha divisoria material
+entre o Brasil e a republica do Paraguay e o districto todo de Miranda,
+a mais linda porção da provincia de Mato Grosso, achava-se occupado
+debaixo do titulo de districto militar de Mbotety[52].
+
+A margem esquerda era guardada por um forte destacamento e
+cuidadosamente rondada em toda sua extensão, e, bem que, desde Maio de
+1865, o presidente Lopez houvesse prohibido[53] a transposição do rio
+aos seus soldados, as correrias, no outro lado, tinhão-se dado varias
+vezes, com grande susto da população dos Morros.
+
+Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar um verdadeiro
+reconhecimento militar.
+
+Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco Dias, que distava do
+nosso meia legoa, como já o havemos dito, reunimos ahi mais alguns
+companheiros, com os quaes galgámos a encosta oriental da bacia em que
+está encerrado aquelle acampamento.
+
+A trilha, aberta pelos cascos de animaes, dá difficil transito, subindo
+as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.
+
+De certa altura, dominámos os picos vizinhos: alargou-se-nos o
+horisonte; as grandes cópas dos madeiros ficárão ao nivel comnosco e
+nossos olhares se atiravão além e bem ao longe.
+
+No cume, a paizagem tomou amplidão immensa. Erão campos, a perder de
+vista, verdejantes aqui, azues mais adiante e roxeados nos extremos
+limites, cortados por grupos raros de bosques, ao passo que continua
+mataria mostra o curso das aguas do Aquidauana.
+
+Taes aspectos da natureza são profundamente melancolicos: o espirito
+como que se atira por essas immensidades, que recordão o indefinido do
+oceano, sem terem comtudo aquella magestade que encanta a alma,
+lançando-a n'uma prostração incomprehensivel.
+
+Para o habitante do litoral, as vastidões terrestres acordão milhares de
+recordações saudosas; suave tristeza se apodera de nós e transporta o
+espirito ás bellas praias do mar.
+
+Outro sentimento contristador dominava-nos então.
+
+Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda, presa do
+estrangeiro e fogos, em um ponto e outro pela campina, lembravão a
+occupação inimiga.
+
+Muitos dos nossos companheiros se embebecêrão então na contemplação
+sombria que dominára o mouro, quando, do alto da rocha dos Suspiros,
+elle lançára as derradeiras vistas sobre os formosos campos de Granada e
+talvez as palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como exprobração
+merecida.
+
+Essa scena desappareceu no descambar da serra.
+
+Por todos os lados novamente cercárão-nos matas espessas, e o sol, a
+furto, desenhava, por entre a folhagem, seus circulos fugaces no
+caminho.
+
+Os ribeirões succedião uns aos outros, tombando de quéda em quéda e
+despenhando-se pelos declives abaixo.
+
+Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando nomes que nos
+parecião mais convenientes, ora procurando um distinctivo que os
+tornasse facilmente conhecidos; ora consagrando-os á lembrança de
+nymphas classicas ou americanas; assim passámos o ribeirão da
+Congonha[54], mais adiante o de Euterpe e, meia legoa além, o de
+Catharina Pazes, uma lindissima quiniquináo, que habitava nos Morros.
+
+Junto a este ultimo, tomámos ligeira refeição, comendo, debaixo de
+aprazivel sombra, a matalotagem preparada de vespera e bebendo a pura
+lympha d'aquelle bello riacho.
+
+Continuando a descer, achámo-nos em breve na planicie, abrindo-se ante
+nós os campos, que levão a _Camapuan_[55], illuminados então pelo brilho
+do sol em seu zenith.
+
+Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados a 7 legoas do
+ponto de nossa partida: por isso tomavamos direcção E., da qual deviamos
+divergir para S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.
+
+Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais tres legoas, fomos
+pousar junto ao lindo corrego das _Palmeiras_, na casa do cidadão
+Valerio de Arruda Botelho que recebeu-nos franca e amavelmente.
+
+Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou a
+jovialidade de nosso amphitryão.
+
+Foragido de Miranda, Botelho conservára-se, por muitos mezes, occulto
+com sua familia nas matas de sua propria fazenda do Embauval, perto do
+rio Miranda, apesar da passagem continua dos paraguayos por suas terras.
+
+Afinal transportára-se com crianças, e cargas para a margem direita do
+Aquidauana, depois de uma perigosa viagem de dias, entre as rondas
+inimigas.
+
+O lugar de sua nova habitação era encantador: magestosos boritys,
+banhando os pés nas aguas rapidas do corrego, se erguião fronteiros a
+ella, e na fralda de um morro abaulado coberto de vegetação, que se
+estende para N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema
+perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada como
+sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeirão das Pirapitangas, que
+deviamos atravessar quatro vezes.
+
+Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de Valerio fomos á aldêa
+do _Oauassú_[56] onde alguns indios quiniquináos havião procurado
+refugio, depois de expulsos de suas palhoças do _Euagaxigo_, além
+Aquidauana.
+
+Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauassú ao aldeamento da
+_Boa-Vista_, formado pelos indios laianos, distante do outro tres e meia
+legoas. O caminho de communicação era uma apertada trilha atirada por
+sobre lindos campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou
+menos profundamente.
+
+De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles picos destacados ou
+passavamos por abertas estreitas entre morretes, cujos córtes a prumo
+obrigavão a attenção.
+
+A aldêa da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado a varios
+morros e constava de cincoenta a sessenta ranchos de palha.
+
+Os indios nos acolhêrão do modo o mais sympathico e cordial. Achámos um
+rancho feito de proposito, em attenção á nossa visita e ahi nos
+obsequiárão com grandes mostras de respeito.
+
+Os laianos da Boa-Vista moravão, antes da invasão, a uma e meia legoa da
+villa de Miranda, e d'entre elles se tiravão os melhores camaradas para
+o trabalho de roças, serviço de canôas e _costêo_ de gado. Como quasi
+todos os indios, são excellentes cavalleiros e domadores destemidos.
+
+Em honra á nossa chegada, o capitão José Vieira organisou dançados, que
+durárão até alta noute, formados tão sómente pelo desejo de
+festejar-nos, posto que faltasse o incentivo obrigatorio para taes
+divertimentos a--aguardente.
+
+Diante de um pifaro e um tambor, collocárão-se tres rapazes e igual
+numero de raparigas, os quaes, de mãos dadas, avançavão e recuavão,
+imitando os gestos e movimentos titubantes dos embriagados.
+
+Conforme a perfeição ou inexactidão na imitação, colhião os dançadores
+applausos dos circumstantes ou apupadas, o que fazem batendo a mão
+aberta de encontro á boca.
+
+A toada é sobremaneira monotona; o dançado igualmente; quando não ha o
+elemento que transforme o fingido em triste realidade: então todos tem
+n'elle parte com ardor e furia indescriptiveis, até cahirem
+completamente exhaustos.
+
+Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.
+
+Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira, sobre o ponto de
+reunião em que elle devia se achar com vinte de seus indios[57] junto ao
+Aquidauana, despedimo-nos d'aquella gente simples, voltando á casa de
+Valerio, onde de novo falhámos um dia.
+
+
+
+
+CAPITULO IX
+
+
+Acabada a digressão, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio
+Aquidauana.
+
+Atravessando o ribeirão das _Pirapitangas_, fomos seguindo, de novo, a
+serra na direcção S., até chegarmos junto á margem do rio, depois de
+2-{1/2} legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuão os mesmos.
+
+As margens são aprumadas, cobertas de vegetação vigorosa, na qual
+avultão os elegantes taquarussús, que fórmão grupos compactos,
+entremeados com elevadas macaúbeiras.
+
+O Aquidauana é o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o
+districto de Miranda: as mais lindas paizagens se fórmão em seu correr;
+as mais animadas scenas se achão em suas vizinhanças.
+
+A abundancia de pesca e caça ahi se encontra por modo prodigioso.
+
+A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas
+matarias tão verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a
+reflectirem um céo de saphyra, a serra azulando ao longe, levão o extase
+a uma alma artistica e a atirão n'essa alegria pura e suave, repassada
+de tristeza, que Horacio tão bem exprimio pelo--_flebile nescio quid_.
+
+Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares
+do ente menos admirador do bello.
+
+O rio, ahi, descendo em rapida _corredeira_, morre de repente n'uma
+bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a
+pique.
+
+Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespão a
+superficie,--ultimos impulsos da correnteza--e, em ondulações
+concentricas, vão desapparecer de encontro ás margens.
+
+Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarussús e brinca sobre as
+aguas; ora é o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella
+scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.
+
+No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecião aos embates de
+forte sopro: as elevadas cannas se enroscavão, se confundião, se
+debatião frementes, ás vezes, ligando os flexuosos topos ás copas das
+macaúbas, outras abatendo-os até tocarem o chão.
+
+O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando,
+o sombrio de nuvens que orlavão o azul celeste das abertas, por entre as
+quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.
+
+Centenares de passaros esvoaçavão: uns tocados pelo vento, com as azas
+meio encolhidas; outros cortando, com vôo mais firme, a ventania e
+suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavão n'agua, sobre a
+qual brancas garças deslisavão-se veloces, ao passo que lontras fazião
+reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com
+ligeireza.
+
+Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas,
+produzindo mil sons differentes que, combinados no espaço, davão á
+natureza aquella animação e vida, só proprias das obras do Creador.
+
+Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as
+aguas não se movião; as arvores não se mexião.
+
+O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa
+expressão arrojada.
+
+Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava
+tudo.
+
+A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, não tinha
+mysterios; as arêas apparecião no fundo de esverdeadas aguas, e só
+cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavão em todos os
+sentidos.....
+
+O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracajú[58].
+Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e
+Cachoeira, tomando desde então importante volume de aguas, engrossado
+pelos ribeirões _Dous Irmãos_, do _Taquarussú_ e _Uacôgo_[59], que
+entrão pela margem esquerda e de _João Dias_, corregos do _Paxexi_ e da
+_Paixão_, que desaguão pela margem direita.
+
+Do ribeirão de João Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso é
+livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos,
+e largura média de 30 braças.
+
+Navegavel para grandes canôas n'uma extensão de quasi 40 legoas, fenece
+no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e
+puras ás revoltas e barrentas d'aquelle rio.
+
+O seu nome é de origem uaycurú.
+
+Um capitão dos cadiuéos tem a mesma denominação, com o accrescimo de um
+T.--Taquidauana.
+
+Não nos podérão explicar o que significa.
+
+Nas matas d'esse rio habitão os animaes vulgares da fauna brasileira:
+_onças_ (felis variarum specierum), _antas_ (tapirus americanus),
+_lobinhos_, _jaguatiricas_, (felis pardalis, Neuwied), _raposas_,
+_macacos_, (simia v. sp.), _tamanduás_, _tatús_ (Dasypus v. sp.), muitos
+_queixadas_ (dicotyles labiatus), etc.; _lontras_ (lutra), _ariranhas_
+(lutra brasiliensis) e _capiváras_ atravessão, a todo instante, a
+correnteza; em seus campos proximos pullulão _cervos_ (cervus paludosus,
+Desm.), _veados_ (cervus rufus, c. campestris), _emas_ (rhea americana),
+_ceryemas_ (dicholophus cristatus.); nos cerrados, _jabotís_ (testudo
+tabulata), muitas _cobras_ venenosas (crotalus horridus, bothrops
+Neuwiedi, b. surucucú, boipébas, urutús, etc.) e reptis de outras
+sortes.
+
+Em aves ha os _jacús_ (penelope marail), _jacu-cácas_ (penelope
+jacucáca, Spix.), _jacutingas_ (penelope leucoptera, Neuwied), _mutuns_
+(crax v. sp.), _jaós_ (crypturus noctivagus) e _aracuans_[60], _tucanos_
+(rhamphastos v. sp.), _araçaris_ (pteroglossus), muitas _pombas_,
+_gralhas_, _periquitos_ (psittacula v. sp.), _papagaios_, (psittacus v.
+sp.), _aráras_, enfeitão a ramagem das arvores, ao passo que os
+_inhumas_[61] (palamedea chavaria), _jaburús_ ou _tuyuyús_[62],
+_tabuyayás_[63] (ciconia m.), _socós_ (ardea), _curicácas_ (ibis
+melanopsis) e bandos de numerosos _patos_ (anas) e _marrequinhas_ pousão
+nas ribeiras ou se agrupão nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)
+
+Em pescado o Aquidauana é fartissimo.
+
+Abundão os _jaús_, os _sorubys_, _dourados_, em certos mezes _pacús_,
+_pirapitangas_, _corimbatás_ e _pacu-pebas_, _papa-terras_ (geophagus,
+Heckel), _raias_, etc., etc.
+
+O _jaú_ é o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamente voraz, não
+duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando
+agarrado ao anzol, é prodigiosa e não são raros os exemplos de grandes
+canôas viradas na sua pesca.
+
+O _soruby_ (platystoma), chamado mais commummente na
+provincia--pintado--, é peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo
+escuro. A cabeça é chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um
+terço do comprimento total: a carne é saborosa, bem que um tanto forte.
+
+O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de
+Mato-Grosso é o _pacú_, (prochilodus, Agassiz) tambem chamado _caranha_,
+do qual Pison diz: «melioris saporis et nutrimenti habetur, quàm sargus
+Europeus»: tem côr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com
+reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento. É achatado.
+
+Em certas occasiões, dá tal abundancia de gordura, que alimenta
+proveitoso commercio de azeite. A quantidade é prodigiosa.
+
+Nas enchentes do Paraguay, os _pacús_ seguem o movimento das aguas em
+grandes cardumes, que ficão, na retirada d'ellas, presos em poças dos
+campos e lagôas, onde morrem á mingoa d'agua e por causa da elevada
+temperatura.
+
+O ar fica então inficionado muitas legoas em derredor.
+
+Contárão-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay, fica o chão
+forrado, em extensões importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses
+restos.
+
+A gordura do pacú é preconisada para varias molestias: dizem ser de
+grande efficacia na pica malacia, pelo enjôo que causa ao enfermo.
+
+Um dos peixes, com razão, mais apreciados dos rios da provincia, é a
+_pirapitanga_ (species characini), chamado em Goyaz _jurupensen_ (?) e
+pelos indios guanás _araráitiissi_ (peixe de rabo vermelho). As suas
+dimensões nunca são extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de
+comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com
+listras vermelhas, é consistente, saborosa, bem que, como a dos outros
+peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.
+
+As pirapitangas sobem os ribeirões e corregos até onde encontrão agua
+sufficiente. Muitas vezes, ficão retidas em poças mais fundas até a
+época das enchentes. No corrego dos Laianas apanhámos algumas de bom
+tamanho, apezar da agua ter apenas 1/2 palmo de profundidade.
+
+No Aquidauana é muito rara a presença dos monstruosos _sucurys_, assim
+como a das perigosissimas _piranhas_ (myletes macropomus).
+
+São habitantes predilectos do grande Paraguay.
+
+Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste
+aos dentes aguçados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da
+fome, devorão-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.
+
+Os _sucurys_[66] (boa murina), verdadeiros representantes
+antediluvianos, chegão a dimensões que os tornão entes deslocados na
+natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com
+30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo
+muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, João
+Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito além de 6 braças,
+contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de
+sucurys.
+
+N'uma viagem a Cuyabá, passando elle pelos pantanaes do Piquiry,
+observára de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos,
+parecendo retido por um extenso cipó, que conheceu era um enorme sucury.
+De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de
+estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros
+ao chão, o seu adversario exhausto.
+
+Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio á
+disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si até ficar da grossura
+de tres dedos: depois começou a encolher-se, arrastando a presa que,
+extenuada por tantos esforços, de novo se deixára cahir.
+
+A victoria era certa; o final conhecido.
+
+Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O facão do homem, de um
+golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de
+um só pulo, sacudio a cabeça e, arrojando-se pela campina, com o tronco
+da serpente pendurada ao pescoço, em breve desappareceu d'aquelle
+theatro, onde devêra achar a morte.
+
+Ás vezes, os sucurys atacão as onças e antas com exito[67]. Entretanto
+n'uma margem do Paraguay, o capitão Francisco Domingos da Costa Pereira
+vio uma onça arrebentar um sucury, por quem fôra enlaçada.
+
+Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes:
+basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a
+desapertar os seus fataes enleios.
+
+Já em occasião opportuna fallámos sobre os ferrões que os sucurys tem ao
+redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].
+
+As rochas, sobre que rolão as aguas do Aquidauana, são de grés; em
+muitas partes, o seu leito é completamente silicoso, em outras,
+argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se os
+_corimbatás_[69] (schizodon, Agassiz), _piáus_, _traíras_ (erythrinus),
+_bagres_, etc. Os seixos rolados abundão nas margens e entre elles o
+_silex_ e os _silicatos_ de ferro.
+
+As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordão,
+não só pela elevação dos barrancos, senão pela facilidade com que se
+escoão as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis
+de serem inundados.
+
+
+
+
+CAPITULO X
+
+
+Do primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O. fraldejando sempre
+a serra, que se eleva, cada vez mais, com pincaros escalvados e talhados
+até a base.
+
+Os sitios são agrestes e sombrios; as plantas sexatiles se agrupão de
+lado a lado da trilha que sobe e desce, conforme as dobras extremas da
+serrania.
+
+De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio, cujo ruido se ouve
+de longe; de vez em quando descortinão-se pedaços de campo distante, com
+lindas arvores, a modo de vergeis.
+
+N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um córte a pique de montanha:
+a paizagem é ahi muito curiosa e eminentemente pitoresca.
+
+Penetra-se então n'uma fenda monstruosa que dá passagem ao viajante,
+entaliscando-o n'um corredor humido, cujas gotejantes paredes achão-se
+tapetadas por achamalotadas _begonias_, _argyrostigmas_,
+_capillus-veneris_, _adiantos_, etc.
+
+Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra[70].
+
+As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdecião depois das ultimas
+chuvas, e se estendião vicejantes, a perder de vista, como tapiz vistoso
+salpicado de flôresinhas mimosas[71].
+
+Caminhámos 2-{1/2} legoas até o corrego do Paxexi, onde fizemos pouso,
+aproveitando ranchos abandonados e em ruinas.
+
+A noite cahio serena: a trovoada do dia dissipára-se ao sopro de forte
+ventania e tão sómente fugaces relampagos rasgavão um massiço de nuvens,
+amontoadas em um ponto do horisonte. Roncos longinquos, intervallados,
+mal se ouvião, rompendo o silencio crepuscular, tão solemne n'aquellas
+paragens.
+
+A lua subio então, espargindo sua meiga luz sobre a natureza e
+infundindo aquella doce tristura, que acompanha essas noites de calma e
+tranquillidade.
+
+O dia da Paixão de Christo, em que estavamos, mais nos engolfava n'essa
+meditação melancolica, que, sem méta, sem direcção certa, se atira no
+espaço, e durante a qual os olhos da materia se fixão, sem vista, n'um
+ponto, ao tempo que os olhos da alma vagueão pelos mundos além creados,
+pelo indefinido e indeterminado.
+
+De repente, atraz de um morro erguêrão-se nuvens rubras, densas na base,
+flocadas acima e adelgaçadas. «São os paraguayos, disse-nos o velho
+indio Palhá, que estão vaquejando no Taquarussú, a 5 legoas d'aqui;
+queimão á noite os campos, para chamar o gado _esparramado_
+(espalhado)...»
+
+Sahindo de Paxexí com a madrugada, fomos em direcção ao porto de D.
+Maria Domingas, o qual deviamos examinar como ponto de passagem para as
+forças. Estavamos então a uma legoa de distancia d'elle.
+
+Já se havião reunido a nós os indios da Boa-Vista, que vinhão constituir
+a nossa guarda de protecção. Montados em bois, marchavão uns atraz dos
+outros, com a lentidão grave d'aquelles ruminantes, a qual não sería
+alterada, ainda quando apparecessem os inimigos.
+
+Já começavamos então a avistar grandes manadas de gado: as _pontas_
+pastavão em compactos grupos, que se apartavão com a nossa chegada,
+fugindo as vaccas e bezerros, ao passo que os touros paravão, para
+olhar-nos com desconfiança e sobranceria. Ás vezes, de um ponto
+afastado, corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao caminho
+e ahi nos esperava com ar de desafio e resolução. Bastava, comtudo, um
+simples grito, um aceno para desvial-o, senão para afugental-o bem
+longe[72].
+
+O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe em campo limpo, ora
+d'elle se separa por uma mata espessa e sombria.
+
+Passavamos, de quando em quando, por tapéras[73]; erão ranchos vastos
+cobertos de _herva de S. Caetano_[74], rodeados de urzes e espinhos;
+erão moendas, engenhos, queimados em parte, cortados pelos machados do
+invasor; em toda a parte, signaes de desolação e destruição inutil e
+barbara. Só a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava ao
+derredor as vistas, cançadas de tamanhas provas de vandalismo; ella que,
+embora desfigurada pela mão do homem, procura de continuo reparar os
+estragos que tenha soffrido.
+
+O porto de _D. Maria Domingas_, chamado pelos indios, _alinána_, é uma
+larga aberta na mata. Dava passagem aos carros que, das fazendas da
+margem direita do rio, se dirigião para a villa de Miranda.
+
+Esse lugar fôra testemunha de uma das poucas scenas de resistencia no
+longo periodo da occupação paraguaya e apresentava gloriosas mostras
+d'aquelle feito de armas: varias arvores varadas por balas e cinco
+ossadas humanas.
+
+Em Maio de 186 , dezeseis indios terenas, occupados em fazer ahi
+rapaduras, tinhão sido atacados por duzentos paraguayos, os quaes,
+recebidos de dentro da mata por um fogo vivo e certeiro, em poucos
+minutos forão obrigados á retirada, abandonando não só mortos como
+feridos, que morrêrão ás mãos de seus encarniçados inimigos.
+
+Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses restos,
+levanta-se um clamor immenso: uns quebrão os ossos, outros insultão as
+caveiras, cuspindo n'ellas e calcando-as aos pés; outros riem-se
+estrepitosamente e dirigem motejos aos manes paraguayos.
+
+Prohibimos demonstrações d'essa barbara expansão ao nosso sequito, que,
+a custo, conservou-se calado, ao passar duas vezes por diante dos
+alvejantes craneos, na entrada e sahida da mata: entretanto alguns
+indios, descendo de seus bois, apanhárão uns ossos que levárão
+escondidos.
+
+O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores condições para uma
+passagem de forças, estando a outra margem occupada pelo inimigo. Pouco
+frequentado, afastado da estrada por onde os paraguayos presumião dever
+descer a nossa gente, com váo seguro e commodo, com uma boa mataria para
+protecção na transposição, era além d'isso o ponto onde convergião todos
+os caminhos do districto e cuja posse cortava as communicações entre os
+postos do Taquarussú e Souza, então existentes mais proximos do rio e
+que deviamos primeiro atacar.
+
+Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalhámos sempre n'esse
+sentido, apezar dos estorvos que se levantárão contra essa escolha
+razoavel e conveniente. Como, entretanto, não se realisárão as nossas
+previsões e falhárão os nossos planos pela demora das forças brasileiras
+e retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte essas questões
+que tinhão interesse immenso no momento e que o terião no futuro, se
+houvessem surtido effeito as providencias, que n'aquelle sentido
+tomámos.
+
+As terras, que atravessámos, pertencião a D. Maria Domingas de Faria,
+senhora estimada pelas suas excellentes qualidades e virtudes. As suas
+posses importantes estèndião-se em toda a margem direita e esquerda do
+Aquidauana e n'ellas estavão estabelecidos os seus parentes mais
+chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de contar um amigo, o
+sympathico fazendeiro--João Mamede Cordeiro de Faria.
+
+Tangidos violentamente de suas propriedades pela invasão, havião todos
+esses pacificos habitantes fugido de suas fazendas, indo, depois de mil
+trabalhos e peripecias, se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio
+Taquary, a 7 legoas do lugar onde acampou a força no Coxim.
+
+Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar no laranjal de
+Francisco Dias, que estava então acoutado nos Morros, e, no dia
+seguinte, chegámos ao porto do Pires, a uma legoa do entrincheiramento
+paraguayo.
+
+Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado com vinte e
+tantos moradores dos Morros, para que nos fossem esperar n'aquelle
+ponto, bem armados e com munição sufficiente para defesa, no caso de
+sermos perturbados na ultima legoa, que restava fazer.
+
+Apressáramos a viagem, com o fim de não nos tornar esperados; deixáramos
+de parte muita curiosidade que examinar; haviamos desprezado o
+entretenimento de pescas e caçadas em completa perda.
+
+Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas, achámo-nos com
+18 pessoas mal armadas e municiadas só a um ou dous cartuxos.
+
+Os indios revelavão receio latente: a cada instante ouvião toques de
+caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar de nossa boa audição,
+nunca podémos perceber.
+
+A cada instante nos avisavão que os paraguayos estavão em vigilancia
+continua e que erão muito valentes. Accrescia ainda que, n'aquelle dia,
+haviamos desconfiado da passagem de gente para a margem direita, por
+causa de pontas de gado que parecião vir tangidas dos lados do porto do
+Souza e que, por diversas vezes, havião passado diante de nós, n'uma
+corrida tremenda.
+
+Assim pois, perigos nos cercavão sem a protecção conveniente para os
+casos de aperto: continuar, fôra temeridade improficua; proseguir, passo
+inconsiderado.
+
+Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando campo em
+direcção a um dos picos da serra em que ficava a nossa pousada.
+
+Assim, voltámos as costas ao sul, havendo préviamente lançado fogo á
+campina que, abrasada pelo sol, incontinente despedio ao céo rolos de
+negrejante fumaça.
+
+Minutos depois apparecia, na margem de lá, outra fumaça, em signal de
+aceitação de desafio, como usavão os paraguayos.
+
+Desappareceu, porém, debaixo do formidavel aguaceiro que, por mais de
+meia hora, despejárão as nuvens, protegendo a nossa retirada e impedindo
+qualquer tentativa de perseguição.
+
+N'esse mesmo dia (2 de Abril) chegámos ao nosso acampamento, onde
+encontrámos os commodos que tanto consolo nos havião dado depois dos
+dias penosos de nossa primeira viagem; ficando em nós, d'aquella
+digressão ás bellas margens do Aquidauana, a immarcessivel recordação de
+dias alegres e felizes.
+
+
+
+
+CAPITULO XI
+
+
+Depois de alguns dias de obrigatorio descanso, remettemos ao commando
+das forças, acampadas então no rio Negro, os desenhos e relatorios de
+nossa viagem ao Aquidauana, cuidando desde então nos meios de passagem
+d'aquelle rio, a qual, segundo as communicações que recebiamos, devia se
+effectuar em meiados de Junho.
+
+Esperámos comtudo desde Abril até principios de Julho. As mil
+difficuldades que embaraçárão a marcha das forças, a peste, a fome que
+acommettêrão os nossos infelizes soldados, o fallecimento de officiaes e
+afinal do commandante o bravo general Galvão, erão as causas d'essa
+demora desesperadora que, retendo a expedição em mortiferos paúes, ia,
+mezes depois, produzir a medonha enfermidade,--a paralysia reflexa--,
+adquirida n'aquelle periodo fatal.
+
+Não assistimos ás scenas desoladoras do rio Negro; não presenciámos os
+duros trances em que se vio a columna: haviamos, de antecedencia, pago
+pesado tributo, com quinhão consideravel de soffrimentos.
+
+Á nossa penna, além d'isso, faltão a precisa energia, as côres vivas
+para descrever tão extremas necessidades, a força e enthusiasmo para
+traçar a abnegação, o heroismo e resignação que, n'aquelles momentos
+tormentosos, patenteou o nobre soldado brasileiro.
+
+ * * * * *
+
+Durante a estada prolongada, que tivemos nos morros, procurámos estudar
+a sociedade que existíra no Baixo-Paraguay, analysar a indole dos
+indios, o elemento mais numeroso n'elle, investigar o gráo de
+civilisação em que se achão e os resultados da convivencia com os
+brancos.
+
+Nunca se apresentará occasião tão favoravel para um espirito indagador.
+As grandes provanças descarnão os homens.
+
+No soffrimento e na desgraça, o caracter bondadoso se requinta; o máu se
+exaspera e se _irrita_; as paixões nobres ou baixas apparecem então ao
+descoberto da mascara que as convenções e conveniencias da sociedade
+apresentão aos olhos incautos.
+
+Tinhão se dado as scenas angustiosas da invasão.
+
+O organismo social desarranjado, acabára com as formalidades que, a bem
+da moralidade, se costumão respeitar: a hypocrisia fugíra ao longe; a
+falsa amizade desapparecêra.
+
+Nos dias lugubres da fugida ante os paraguayos os verdadeiros amigos
+forão raros: apresentárão-se rasgos de nobreza de caracter em quem tal
+não era de esperar e amesquinhárão-se aquelles com quem se contava.
+
+Nunca o egoismo desenvolveu-se em tão larga escala.
+
+Alguns atopetárão as suas canôas[75] com os objectos mais inuteis,
+trazendo de Miranda até garrafas vasias, ao passo que negavão passagem
+aos seus affeiçoados da vespera, pretextando falta de espaço.
+
+Outros prohibião a matança de seu gado a pobres refugiados,
+maltratando-os por cartas, que declaravão ser-lhes preferivel o roubo
+dos paraguayos.
+
+Do conflicto d'esses sentimentos resultárão collisões, cuja lembrança
+não deve occupar a attenção d'aquelles que aprecião o homem como typo de
+nobreza, e sujeitão ás suas virtudes moraes, a ordem physica das cousas,
+brutal e necessaria.
+
+O valor absoluto das idéas do utopista é tão precioso que, ainda com
+prejuizo da indispensavel necessidade do conhecimento dos homens,
+devemos desviar os olhos das lições d'aquella perigosa experiencia:
+bastão os desgostos no correr da vida normal, bastão os desenganos na
+sociedade polida, no mundo civilisado, em seus eixos, em seu curso
+natural.
+
+
+
+
+CAPITULO XII
+
+OS INDIOS DO DISTRICTO DE MIRANDA
+
+
+Em dous importantes grupos se divide a raça india, habitante de Miranda:
+os _guaycurús_ e os _chanés_. Os primeiros comprehendem tres tribus: a
+_guaycurú_, propriamente dita, que vai desapparecendo pelo contacto
+immediato com a gente branca, os _cadiuéos_ que, pelo contrario,
+conservão-se no estado quasi selvatico, em terrenos proximos aos rios
+Paraguay e Nabilek, ainda não bem explorados, e os _beaquiéos_ que
+habitão com os cadiuéos[76].
+
+Os _chanés_ subdividem-se em quatro ramificações: os _terenas_, que
+constituem os tres quintos da população aborigene, os _laianas_, os
+_quiniquináos_ e os _guanás_ ou _chooronós_, de entre todos, os mais
+doceis e civilisados.
+
+A lingua é a mesma para todos estes, com algumas alterações que
+entretanto não lhes impedem a facil comprehensão reciproca. Os costumes
+e praticas geraes: o seu typo, porém, conservando um _facies_ bem
+determinado offerece distincções que assignalão caracteristicamente cada
+uma d'estas tribus.
+
+O _terena_ é agil e activo: o seu parecer exprime mobilidade; a sua
+intelligencia é astuciosa e com propensão ao mal. Aceita com
+difficuldade as nossas idéas e conserva arreigados os seus usos
+especiaes, talvez por espirito mais firme de liberdade. O homem é
+robusto, corpulento, de boa estatura; o seu semblante apresenta o nariz
+um tanto achatado na base; as sobrancelhas pouco obliquas, em alguns
+individuos bastas e desenhadas com regularidade; ás vezes é pugibarba,
+outras tem buço e barbas bem apparentes. A desconfiança transluz nos
+seus olhares inquietos, vivos; a dobrez nos seus gestos. Escondem com
+gosto os sentimentos que os agitão; fallão com volubilidade, usando do
+seu idioma sempre que podem, e indicando o aborrecimento em se
+expressarem em portuguez.
+
+As mulheres são de estatura baixa: tem a cara larga, beiços finos,
+cabellos grossos e compridos. Ás vezes, o seu typo tem um cunho de
+amenidade que admira, grande regularidade nas feições e expressão de
+intelligencia. Trazem commummente parte do busto descoberto e uma
+julata[77] de algodão cingido abaixo dos seios, com uma das pontas
+passada entre as coxas e segura na cintura. Raras mulheres sabem fallar
+o portuguez: todas porém o comprehendem bem, apezar de fingirem não
+entendel-o. São as mais laboriosas e industriosas da raça india,
+guardada a relação necessaria entre a actividade e indolencia proprias
+das nações indias.
+
+O _laiana_ é um typo de transição: tem muito melhores instinctos, menos
+aversão aos brancos, de cuja lingua se servem sem repugnancia, pelo
+contrario, com gosto e facilidade. O homem é mais delgado que o terena,
+menos inquieto; a physionomia com tudo é muito menos viva e
+intelligente. Os seus habitos de trabalho são mais aproveitaveis, porém
+menos constantes e esforçados.
+
+As mulheres geralmente são feias: tem os olhos commummente apertados, a
+côr dubia: não é o avermelhado franco do corpo da terena nem o amarello,
+algum tanto macilento, da quiniquináo. Entretanto, como em quasi todas
+as indias chanés, o talho do corpo é elegante e esbelto, as mãos e pés
+pequenos e delicados.
+
+O typo _quiniquináo_ é já mui diverso dos dous precedentes: o homem traz
+estampadas no rosto a apathia e placidez: as feições, sem animação, são
+regulares e proximamente bellas. A sua força de trabalho é muito
+diminuta: elle passa os dias, deitado sobre um couro pellado, sem
+saudades do passado, nem receios do futuro; cultiva, com grande custo,
+alguns cereaes que a familia come na proporção da colheita; se
+abundante, muito; tudo em poucos dias; se nenhuma, passará a côcos e
+fructas[78] do mato.
+
+A mulher quiniquináo é bella: pela mistura de raças, facil n'essa tribu
+mais relacionada com os brancos e negros e encostada a elles, a côr ou é
+de um amarello escuro de canella (caburé) ou de um branco ligeiramente
+amarellado. N'este caso, as faces são delicadamente rosadas; a tez pura,
+os labios rubros, as gengivas vermelhas. Quasi todas comprehendem o
+portuguez: fazem esforços para fallal-o, apezar do vexame que mostrão
+experimentar.
+
+O _guaná_, no districto, quasi tem desapparecido nas raças branca, india
+ou negra, que o cercão. Vimos porém uma india, chamada Antonia, filha de
+pae quiniquináo e mãe guaná, que, sobre ser um verdadeiro typo de
+belleza pela venustade do rosto, pelo delicado da epiderme e elegancia
+do corpo, tinha summa graciosidade e donaire.
+
+Os _guaycurús_, homens em extremo vigorosos, tem as feições brutaes e
+grosseiras; estatura maior que meiã, avantajada, ás vezes, por modo
+estranhavel.
+
+O capitão Lapagates, chefe de uma aldêa de cadiuéos, o qual vimos no
+Tabôco, era um varão imponente, com rosto expressivo e olhar
+intelligente; tinha no trato uma amenidade bondadosa que muito
+caracterisava aquelle heróe do forte--Olympo.
+
+É geral a todos os indios aguçarem os dentes, formando pontas finas; é
+tambem geral usarem de _urucú_[79] e _genipapo_, para pintarem no rosto
+arabescos, figurando desenhos singulares ou para fingirem barbas e
+bigodes.
+
+Entre os cadiuéos, comtudo, é isto regalia peculiar ás mulheres e filhas
+dos capitães: os mais pintão tão sómente ao redor da boca, o que lhes dá
+aspecto curiosamente feroz.
+
+Esses desenhos são, ás vezes, feitos com muita regularidade, ora
+simplesmente com alguma tinta corante em vesperas de solemnidades, ora
+marcados indelevelmente com uma ponta de agulha em brasa.
+
+É tambem commum a todos os indios do districto[80] o habito da mais
+apurada limpeza: lavão o corpo tres ou quatro vezes por dia; por
+qualquer tempo que faça, calor ou frio. As mulheres cuidão muito na
+alvura de seus pannos e procurão sempre andar limpas, exceptas as velhas
+que dão, com o tempo, de mão a esses cuidados.
+
+Os terenas, como acima dissemos, fórmão a maior parte da população india
+do districto: as suas aldêas estavão situadas no _Naxedaxe_, a 6 legoas
+da villa de Miranda; no _Ipêgue_, a 7-{1/2}; na _Cachoeirinha_, e n'um
+lugar a 3 legoas, constituindo um aldeamento chamado _Grande_, além de
+outros pequenos centros. Tres a quatro mil individuos moravão n'esses
+diversos pontos.
+
+Os quiniquináos aldeavão no _Euagaxigo_, a 7 legoas N. E. de Miranda; os
+guanás no _Eponadigo_ e no _Lauiád_[81], em numero de 30 a 40; e os
+laianas a meia legoa da villa.
+
+Os guaycurús habitavão no _Lalima_ e perto de _Nioac_ e os indomitos e
+falsos cadiuéos em _Amagalobida_ e _Nabilek_, para os lados do rio
+Paraguay.
+
+O aldeamento modelo no Baixo Paraguay era incontestavelmente o do
+_Mato-Grande_ ou do _Bom-Successo_, perto de Albuquerque, onde os
+quiniquináos, debaixo da paternal e intelligente direcção do
+virtuosissimo missionario Frei Marianno de Bagnaia, apresentavão os
+fructos valiosos da catechese bem entendida. Ahi os indios obrigados a
+um trabalho regular, vivião na abundancia, entregavão-se a diversos
+officios e aprendião as artes liberaes. Havia uma banda de musica, toda
+composta de indigenas. Uma escola de primeiras letras funccionava com
+numero crescido de alumnos estudiosos e n'ella se incutião os principios
+de religião, de que tanto necessitão aquellas infelizes creaturas.
+
+Uma tribu, que desappareceu do districto quasi totalmente, é a dos
+_guaxís_, da qual se encontrão só alguns individuos, confundidos com
+gente de outra nação. Esta extincção é devida ao habito
+extraordinariamente immoral da morte dos fetos no ventre das mães, as
+quaes produzem os vómitos, usando de hervas e raizes apropriadas. Os
+laianas vão tambem pouco a pouco se extinguindo e, apezar do contacto
+continuo com os mirandenses, iguaes factos se dão entre quiniquináos e
+terenas.
+
+Entre os indios acima mencionados, apparecem alguns _caiuás_. Habitantes
+do norte da republica do Paraguay, nas cabeceiras do rio Aquidaván, são
+prisioneiros de guerra nas correrias que os cadiuéos costumavão fazer
+nas terras d'aquella republica. Para esse fim sahião do Nabilek,
+passavão os campos da Pedra de Cal[82] e, costeando a serra de Dourados,
+ião ter ás aguas do Iguatemy, contravertente do Aquidaván.
+
+Os caiuás erão vendidos depois e passavão, de mão em mão, na qualidade
+de captivos, aos quaes chamão _captiveiros_.
+
+A escravidão é a mais doce possivel. O _captiveiro_ faz parte da
+familia, come com ella, é tratado como filho da casa; tem até regalias
+especiaes. A senhora irá buscar agua á fonte e lavar a roupa que
+pertença ao seu escravo e nunca o obrigará a estes serviços. Entretanto
+os captivos são vendidos com summa facilidade e por qualquer ninharia,
+apezar da longa convivencia que os unão ao senhor.
+
+Os indios do districto vivem na maior ignorancia e indifferença em
+materia de religião. A catechese acha-se muito atrazada e tem sido mal
+dirigida. Poucos quiniquináos conhecem a significação da Cruz e sómente
+alguns guanás usão de nossas preces.
+
+O mais existe nas maiores trévas: entretanto elles tem na lingua uma
+palavra para exprimirem Deos, a quem chamão _Nhande-iára_[83].
+
+Cada tribu tem porém um certo numero de _padres_ cantores, os quaes
+servem ao mesmo tempo de medicos e feiticeiros: são destinados desde a
+infancia ao sacerdocio e ainda crianças aprendem as poucas cantigas que
+lhes são particulares. Homens e mulheres servem indistinctamente: nenhum
+signal os distingue: nenhum respeito os rodêa.
+
+O mais absurdo fetichismo pareceu-nos ser a religião dos padres: por
+qualquer motivo, colheitas, chuva continua, sol ardente, _pendoar_ do
+milho, etc., cantarão noites inteiras, denunciando presagios e
+conversando com a ave _macauán_, que elles fingem chamar de longe,
+imitando o cantar tristonho.
+
+Este passaro é pois para elles um ente sagrado. Entretanto os outros
+indios matão o macauán[84] com tão pouca reverencia, que indica o pouco
+caso que d'elle fazem. Temos por sem duvida que os proprios padres, em
+occasião opportuna, saboreem a carne d'aquella ave, dando de mão aos
+principios religiosos e ao encargo de consciencia.
+
+Ás vezes, no meio de suas praticas, o padre faz grosseiros exercicios de
+prestidigitação: finge engolir pennas compridas, tira-as do nariz,
+introduz flechas no estomago, etc., etc.; entretanto os seus admiradores
+são quasi sempre crianças e velhas; os homens passão por diante d'elle,
+lançando olhares do mais completo indifferentismo, quiçá incredulidade.
+
+O _padre_, para suas vigilias, veste-se com uma _julata_, ornada de
+lentejóulas e presa á cintura por uma especie de talim de contas; pinta
+o thorax, braços e cara com genipapo e urucú. Estende um couro diante de
+sua porta e n'elle caminha, lenta e compassadamente, avançando e
+recuando, a cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa e monotona,
+com acompanhamento de um chocalho, que elle segura na mão direita. Na
+esquerda empunha um espanador feito de pennas de ema e bordado com
+desenhos caprichosos.
+
+Uma familia inteira póde ser de padres: assim pae, mãe e filhos cantão
+juntamente noites inteiras, cada um no seu couro, com seu espanador,
+cabaça e mais adornos; as mulheres, como os homens, trazem a parte
+superior do corpo núa e pintada.
+
+O canto de madrugada soffre uma parada longa: de repente sôa muito ao
+longe o grito do _macauán_: responde-lhe o padre; vem-se approximando o
+passaro com pios cada vez mais proximos, e, afinal, começão as suas
+revelações ao sacerdote. Essa scena não deixa de impressionar, pois a
+imitação do cantar do macauán ao longe e successivamente mais e mais
+perto, é feita com toda a perfeição.
+
+O padre, como medico, é da mais crassa ignorancia; não usa das plantas
+medicinaes que o rodêão e cujas propriedades medicamentosas parece
+desconhecer completamente. Elle aparta tão sómente o doente do contacto
+com os outros, apalpa-o diversas vezes, sopra no lugar enfermo[85] e
+canta frequentemente, consultando o macauán. É a verdadeira medicina
+expectante, com formulas charlatanicas proprias da intelligencia do
+facultativo e do medicando.
+
+Quando o doente fallece, o medico jacta-se de tel-o deixado morrer por
+gosto[86]; nos casos de cura, recebe presentes e por muitos dias é ainda
+sustentado pela familia do convalescente[87], a qual tem esta obrigação
+durante toda a molestia.
+
+Quando morre um individuo, a aldêa toda entra em alvoroto. A casa do
+morto é invadida, e n'ella levantão-se gemidos e gritos agudissimos,
+soltos pelo mulherio e crianças[88]. Ora, é um barulho ingente dominado
+pelo soluçar estrepitoso do parente mais proximo; ora, é um murmurio
+confuso que dura alguns minutos, recomeçando aquellas lamentações, que
+se ouvem muito longe.
+
+O corpo fica em casa duas ou tres horas sómente: é logo amarrado em uma
+rede enfiada n'um varapáo, que vai carregado por dous parentes. O
+enterro dirige-se para o cemiterio, acompanhado por todas as pessoas das
+casas por defronte das quaes vai passando; a grita se ergue assim cada
+vez mais intensa: todos lamentão-se, todos urrão.
+
+No acto de entregar o cadaver á terra, junto á cova matão-se os animaes
+mais queridos do morto, ao qual enterrão com todos os objectos, que mais
+affeiçoára. Se, n'esse acto, se apresenta alguem pedindo qualquer animal
+ou objecto, obtem-o logo sem difficuldade nem paga, ficando desde ahi
+propriedade d'elle.
+
+Os parentes cedem por esse modo rezes, manadas de egoas, etc., etc.,
+procurando desfazer-se de tudo quanto pertencêra ao defunto.
+
+De volta do cemiterio, o rancho é abandonado: toda a familia muda-se:
+entretanto, durante muito tempo, conserva-se, na palhada desoccupada,
+agoa, fogo e cigarros, para que a alma do morto beba, se aqueça e fume.
+
+Eis a idéa que manifestão da immortalidade da alma.
+
+Quando é uma mulher que morre, de volta do enterro, quebrão-se todos os
+potes, pratos, etc. O rancho tambem é completamente desmanchado.
+
+Os signaes porque os chanés manifestão a sua dôr, são extremamente
+ruidosos. O seu lamentar é em altos gritos.
+
+Mezes depois do fallecimento de um parente, qualquer recordação[89]
+provoca scenas de dôr estrepitosa, que é logo acompanhada por todas as
+velhas da aldêa: assim, o aspecto de um animal que se pareça com um,
+outr'ora affeiçoado do defunto, o apparecimento da lua, a vista de uma
+roupagem, são causas de explosão de gritos, que durão muitas horas.
+
+O luto consiste--nas mulheres--em tirar os seus adornos de prata e
+ouro[90], brincos e collares, e cortar os cabellos na altura das
+faces:--nos homens--em usar de roupas escuras, sem distinctivos nem
+enfeites.
+
+A duração do luto varía conforme o gráo de parentesco: o de filho obriga
+a um anno; de pae e mãe a muito menos tempo.
+
+Perto de nosso rancho de palha, nos Morros, habitava uma pobre india
+velha que lamentava, noute e dia, da morte de seu filho unico, agarrado
+pelos paraguayos em fins de 1865 e morto por elles a lançadas. O seu
+soluçar mostrava a dôr profunda em que jazia, entretanto seus olhos erão
+seccos e nenhuma lagrima se deslisava pelas rugosas faces. Os indios
+chorão com muita difficuldade. Ora ella enumerava, n'um cantar monotono,
+as virtudes de seu filho; ora pedia á lua que recebesse a alma d'elle;
+ora rogava ao sol que aquecesse o lugar em que fôra alanceado.
+
+Era essa infeliz mulher um typo de dôr materna: estava magra como um
+esqueleto e vivia n'uma agitação constante.
+
+Quasi sempre aquellas manifestações são indifferentemente patenteadas,
+quer pelo fallecimento de um homem ou uma mulher, quer pelo de uma
+criança de peito: em todos os casos, é o mesmo ulular; identicas as
+ceremonias.
+
+A affeição que as mães demonstrão pelos filhos, que um pae tributa á
+familia, a amizade que une os irmãos, são edificantes, os extremos
+tocantes.
+
+Assim os paes servirão com toda a dedicação a seus filhos, que lhes
+obedecem cegamente. Isto em cada grupo, em cada circulo. Não notámos
+particular respeito aos velhos, deferencia á velhice, como acontece aos
+indios da America do norte, de cujos costumes, um tanto poetisados, fez
+Chateaubriant assumpto de um poema.
+
+D'essa submissão resulta a verdadeira venda que se executa entre o pae
+de uma mulher nubil e qualquer homem que a queira para companheira ou
+para mero passatempo: a filha sujeitar-se-ha á imposição paterna,
+aceitando sem murmurar o esposo, que lhe apresentem ou despresando
+aquelle, cuja separação aconselharem.
+
+As mulheres amamentão as crianças por tempo indeterminado: vimos
+rapagotes de seis a sete annos, que vinhão correndo suspender-se aos
+seios de suas complacentes mães.
+
+Esta pratica faz com que, depois que parem, fiquem as mulheres
+completamente estragadas: os seus seios, com a prolongada pressão,
+pendem ao longo do corpo, o qual tambem, pelo habito de carregarem as
+crianças cavalgando n'um dos quadris, fica arqueado e desengraçado.
+
+O casamento é ceremonia pouco usual: os meios de contrahirem-se nupcias
+são presentes e dinheiro, fonte d'onde dimana a mais horrorosa
+immoralidade, visto que a ganancia dos paes simplifica todos os
+preliminares, que, sem dúvida, erão primitivamente exigidos.
+
+Por dinheiro obtem-se mulher: quer indio, quer branco ou negro, tem
+necessidade de sujeitar-se ás condições dos paes, os quaes tambem
+aconselhão ás suas filhas a liberdade a mais completa em materia de
+fidelidade.
+
+O genio dos indios do districto, em que o ciume é sentimento quasi
+desconhecido, concorre para desenvolvimento da mais reprovavel
+devassidão de costumes, augmentada pela indole dos habitantes de
+Miranda, como adiante mostraremos na parte em que tratarmos das relações
+entre as duas raças.
+
+No casamento mais regular e muito mais raro, o noivo escolhe a sua
+esposa, quando ainda ella é criança: trata d'ella, dá-lhe roupa,
+concorre para a alimentação dos paes dos quaes é considerado filho e
+recebe tal tratamento.
+
+Aos 10 annos, mal apontão os peitos, ainda não nubil, é a noiva entregue
+ao seu marido e enrolada com elle n'uma esteira, ao redor da qual os
+convidados danção, cantando, bebendo aguardente e comendo os presentes
+que são a parte mais importante do casamento.
+
+Esse habito de entregarem meninas a homens é geral: d'elle tirão os
+progenitores maior lucro, dimanado da luxuria em seus desmandos brutaes,
+pois essas infelizes crianças são procuradas e obtem quasi sempre altos
+preços. É o effeito de idéas desmoralisadoras e nojentas.
+
+Os indios, que são modelos de affeição pelos filhos, que os tratão com
+amizade extremosa, nenhum mal enxergão n'esses estupros, de que as
+victimas vem impreterivelmente a soffrer em seu organismo e
+desenvolvimento.
+
+As mulheres envelhecem com extrema rapidez: aos 14 annos estão na sua
+maior expansão corporea, aos 20 começão a desmerecer, e aos 30 são
+velhas (_memés_), cuja decrepidez não se faz esperada.
+
+Para sobrestar essa marcha infallivel e temida, procurarão ellas sempre
+provocar os móvitos, para o que usão, por conselhos de suas proprias
+mães e velhas da aldêa, de hervas[91], e sobretudo choques e apertos no
+ventre. Assim rara é a india, que tenha tres filhos; quasi sempre um ou
+dous, concebidos na idade em que a faceirice não é de uso.
+
+Nos Morros, havia uma quiniquináo que, com dezesete annos, abortára já
+seis vezes.
+
+No ultimo parto o feto, completamente desenvolvido, havia sido, na
+sahida do utero, estrangulado pela propria avó, a qual, desde muito,
+declarára que só perdoaria, se a criança fosse do sexo masculino.
+
+Tambem era uma familia de padres, em que todos os componentes pae, mãe,
+filhos e filhas, cantavão de continuo, nos atordoando os ouvidos e
+perturbando as doces horas do somno. Além d'isso muito se distinguião no
+brutal brinquedo chamado _tadik_.
+
+É esse jogo um exercicio a sôcos, á maneira do _box_ inglez[92]. Para
+elle enfileirão-se rapazes, mulheres e crianças uns defronte dos outros,
+procurando, com o punho fechado, offender a cara do adversario, dando
+pancadas sómente até o queixo. Muitas vezes, furão-se os olhos, quebrão
+o nariz e com o esforço chegão a desarticular o polegar.
+
+Assistimos ao _tadik_ entre quiniquináos e terenas e, ao prazer do jogo,
+união-se sentimentos de grande rivalidade. Entretanto os velhos
+separavão logo os contendores, quando estes mostravão animosidade
+excessiva. Os dous partidos, havião tomado os nomes de _luzia_ e
+_saquarema_, repercussão longinqua das lutas politicas do Brasil!
+Où-est-ce que la politique s'était nichée?!....
+
+Acabou a festança, bebendo-se _garapa_ fermentada, que substituia a
+aguardente.
+
+ * * * * *
+
+Cada aldêa tem o seu chefe ou capitão, nomeado, ou pelo governo imperial
+ou pelo respectivo director ou pelo consenso de sua gente. O respeito
+que elles merecem, é pouco extenso: a subordinação aos chefes é muito
+limitada; muitas vezes é um mero titulo sem distincção nem regalias.
+
+Quanto mais civilisados, tanto menos consideração os indios tem pelos
+seus capitães. Os guanás não aceitão mais chefe especial. Os
+quiniquináos pouco caso fazem do seu velho capitão Flaviano Botelho. Os
+laianas sujeitão-se mais; emfim os terenas observão tal ou qual
+deferencia, respeitando mais os seus cabeças de tribu.
+
+Quando viajavamos na margem direita do rio Aquidauana, observavamos as
+relações que existem entre a civilisação e os filhos das matas.
+
+Em nossos pousos, representavamos (guardadas as proporções e salva a
+modestia) o centro civilisado: a poucos passos, com a nossa camaradagem,
+pousavão alguns guanás, mais adiante ficavão os quiniquináos, os quaes,
+de quando em quando, vinhão misturar-se com a nossa gente; n'um raio
+duplo, do nosso ponto ao dos quiniquináos, reunião-se os laianas e,
+afinal, a boa distancia, congregavão-se os terenas.
+
+As relações reciprocas entre esses indios erão de cordialidade algum
+tanto duvidosa; os terenas são accusados pelos guanás e quiniquináos de
+máos e inimigos dos brancos e elles accusão aos outros de serem falsos e
+escravos dos portuguezes[93].
+
+ * * * * *
+
+As raças que habitão o districto, partírão evidentemente da margem
+direita do rio Paraguay, do lugar onde hoje existe a nação enima, de que
+ellas são naturalmente ramificação. As provas parecem-nos claras e
+irrecusaveis.
+
+Além da tendencia manifesta que os terenas tem para fugirem para as
+bandas do Chaco boliviano a reunirem-se com outros da mesma tribu que
+vivem com os enimas, na lingua existem palavras que demonstrão que a
+presença dos guanás[94] no districto foi devida a uma grande immigração.
+
+Assim usão frequentemente do termo _maiána_, que quer dizer semelhante,
+quando referem, a objectos familiares, outros que lhes erão estranhos,
+por associação natural de idéas.
+
+Chamão pois ao bority--maiana hérena, á semelhança do _carandá_; á
+anta--maiana camú, semelhante ao cavallo, etc., o que presuppõe o
+conhecimento do carandá e cavallo, anterior ao do bority e anta.
+
+Ora, os boritys existem em grande quantidade em todo o districto, assim
+como as antas, e, do outro lado do rio Paraguay não se os conhecem,
+sendo pelo contrario extremamente communs os carandás e cavallos.
+
+A conclusão é facil e vem em soccorro do que procuramos sustentar.
+
+A lingua guaná, de formação muito irregular, provém evidentemente do
+guarany: ha n'ella palavras identicas, iguaes; exemplo: iuquí, _sal_;
+moreví, _anta_;--segundo os laianas: buricá, (guarany) muricá, (guaná)
+_burro_.
+
+A sua derivação do idioma guaycurú é clara; não só alguns vocabulos
+servem para as duas nações; exemplo _catépaga_, pacú; _achuánaga_,
+dourado; mas muitos são sensivelmente modificações, assim é o _aîca_
+(guaycurú) e o _acó_ (guaná) que significão _não_.
+
+Comtudo a indole totalmente diversa das duas nacionalidades, as suas
+idéas, os seus habitos fizerão com que essas linguas soffressem
+alteração profunda, quando falladas. A maneira do guaycurú expressar-se
+é arrogante, pausada; as aspirações são energicas; as palavras,
+terminando mais particularmente em _a_ e _o_ fechados, são quasi sempre
+esdruxulas ou graves. Ha mais abundancia de consoantes e essas com som
+dobrado e guttural.
+
+O guaná falla rapidamente, com ligeiras aspirações; a sua linguagem é
+uma especie de sibilar continuo: os _i_ repetem-se com frequencia e as
+vogaes seguem-se umas ás outras, com quasi tanta profusão quanto, na
+lingua allemã, as consoantes.
+
+Na phrase do espirituoso escriptor francez Oscar Commettant «nas
+palavras germanicas as vogaes se afogão n'um oceano de
+consoantes:--Apparent rari nantes in gurgite vasto».
+
+No guaná é a inversa, com mais moderação comtudo.
+
+As modificações, que cada uma das tribus introduzio, com o tempo, na
+lingua chané, constituírão quatro dialectos, os quaes entretanto são
+facilmente comprehendidos pelos indios de toda aquella nação.
+
+A tribu guaná[95] falla arrastando a lingua n'uma toada de chôro; cantão
+á maneira do pronunciar em certas localidades de S. Paulo, apoiando
+muito n'uma syllaba para correrem sobre as outras.
+
+Os quiniquináos tem seus idiotismos especiaes: palavras proprias. Os
+laianas tambem as tem.
+
+Os terenas, segundo pareceu-nos, usão do idioma com mais justeza e
+perfeição.
+
+Os verbos, n'esse dialecto, são mais regularmente formados, apezar do
+capricho que presidio em geral á sua conjugação, as analogias mais
+frequentes, as phrases mais completas.
+
+É por esta razão que os brancos do districto aprendem de preferencia a
+maneira do fallar dos terenas, e os comprehendem com mais facilidade.
+
+Na lingua guaycurú existe uma particularidade interessante: os homens
+fallão por certo modo, as mulheres por outro. Entre os guanás esta
+differença existe, porém não se estende a toda a phraseologia.
+
+
+
+
+VOCABULARIO DA LINGUA GUANÁ OU CHANÉ
+
+
+A
+
+
+PORTUGUEZ GUANÁ
+
+Abobora Camé.
+Aborreço Bôópi.[96]
+Acarus (bicho da sarna) Tchetchá-uahatí (filho da sarna)
+Adeos Biónne.
+Agua Unné.
+Agulha Tôpé.
+Ai! (exclamação) Vûi, ou acacái.
+Aipim Tchupú.
+Aipim (secco) Catchó.
+Aldêa Ptiuôcó.
+Alegre Elloketí.[97]
+Amanhã [-A]rôti.
+Amar Gâchá.
+Anta Maiána-camú.[98]
+Anus Cicicó.
+Aonde vai? Náiênó?
+Aprender Cequechivó.
+Aracuan (passaro) Uaragá.
+Arára Parauá.[99]
+Arroz Nacacú.
+Arvore Tagatí.
+Avental Juláta.
+
+
+B
+
+Bala Poití-akêtí.
+Banana Bánana.
+Barba Inguenôió.
+Barriga Djurá.
+Bebamos Venóutí.
+Beber Venóuó.
+Bebo Venóuondí.
+Beijo (entre os guanás) Innê.
+Beijo (entre os terenas) Inní.
+Beijo (entre os quiniquináos) Soquirí.
+Bezerro Tchetchá-uacá.
+Biuá branco (passaro) Veragajín.
+Biuá preto Veragaiê.
+Boca Bahó.
+Bocado Iapi-tchá.
+Boi Uó-ôi.
+Bom Unatí.
+Bonito Unatí.
+Borboleta Uacá-vacáí.
+Bority Maiána hérena.
+Braço Daké.
+Bugio Coxêagá.
+
+
+C
+
+Cabaça Tóróró.
+Cabeça Duúti.
+Cahi Ingôrôcôóné.
+Cahidor Icôróóconó.
+Cahio Iricôóné.
+Cahiste? Icôrôôcôóné?
+Calça Bôoró.
+Camisa Iembênó.
+Campo Mehúm.
+Canella Gô-tchó.
+Cançado Meomí.
+Cão Tamucú.
+Capoeira Içomoikéneti.
+Cara Nôné.
+Carandá (palmeira) Hêrena.
+Casa Pêti.
+Casar Ongôiêno.
+Cascavel Ipôcó.
+Cateitú Couécó.
+Cavallo Camú.
+Cachaça Cumâ-á.
+Céo Uanukê.
+Cerrado Chopotícoti.
+Cervo Uá-iá-jó.
+Chão Poké.
+Chóro Inhondi.
+Chover Ennucó.
+Chumbo Aketí.
+Chuva Ucó.
+Cobra Coit-chôé.
+Coitado Quixauó.
+Colhér Tchurupé.
+Come Niké.
+Comer Ningá.
+Comida Nicoconóti.
+Comida (entre os quiniquináos) Nicôningá.
+Como Cutiá.
+Conhecer Indjá.
+Conheces? Ietchòá.
+Copular Capiú.
+Coração Ommindjòn (j espanhol).
+Corpo Munhó.
+Corrego Notoagá.
+Corta (imperativo) Tetucá.
+Cortar Tetócoti.
+Cortaste? Iatêtucôá.
+Côxa Djuró-kunó.
+Criança Calliuônó.
+Cuia Pocó.
+Custar Côicú.
+Custar (entre os quiniquináos) Ocôòcorí.
+
+
+D
+
+Dá-me Pêrétchá.
+Dar Boritchá.
+Dedo do pé Guiiri-djêvé.
+Deita Imêcá.
+De mim Nuti.
+Dente Onué.
+Deos Iandeará.
+Deos Ech[-a]iuánukê.
+Depois Poinú.
+Depois d'amanhã Poinú-arôti.
+De tarde Kiacátche.
+Devéras Quâti.
+Dia Cátche.
+Diga Iocó-iucuá.
+Digo Gôe.
+Dinheiro Ararapeti.
+Doente Carineti.
+Dormes? Imé-coné?
+Dormir Móngoti.
+Dou Boritchá-pi.
+Dourado (peixe) Achuánaga.
+Dous Pïátcho.
+
+
+E
+
+Egoa Senó-camú.
+Ema Kip[-a]é.
+Espada[100] Ann[-a]iti-piritáo.
+Espelho Nochiògueti (sc. olhador)
+Espingarda Capuiá-igapêtí.
+Espirrar Andiicotí.
+Esposa Iêno.
+Escravo Hangahá.
+Está aqui Anníe.
+Estás alegre? Ellóketi-iôcouó?
+Está alegre Ellóketi-ôcouó.
+Estou alegre Ellóketi-ongôuó.
+Estás bom? Iúnati?
+Estou bom Unnandí.
+Estás cançado? Meomí?
+Estou cançado Memondí.
+Estás com fome? Epê-cati-cimágati?
+Estou com fome Hapê-canú-cimágati.
+Está no chão Annêgó poké.
+Estrella Hêquêrê.
+Eu Ondí.
+Excrementos Ciquêé.
+
+
+F
+
+Faca Piritáu.
+Fallo comtigo Iundz[-a]i-copí.
+Farinha Tutup[-a]i.
+Farinha (entre os terenas) Ramucú.
+Faze Itticá.
+Fazer Ittuketí.
+Febre Tchikiití.
+Feio Cãunati (sc. não bonito).
+Filho Tchétchá.
+Fogo Iucú.
+Fouce Tchápilócoti.
+Frio Câssati.
+Fumo Tchâhím.
+
+
+G
+
+Gallinha Tâpihí.
+Gallo Oiênó-tapihí.
+Garrafa Limetá.
+Gato Maracaiá.[101]
+Gordo Kínnati.
+Gostar Gâchá-á.[102]
+Gostas? Queachá?
+Gostas de mim? Queachá-nuti.
+Gosto Gâchá.
+Gosto de ti Gâchá-piti.
+Gostoso Uchetí.
+Grande Annáiti.
+Guaná (tribu) Uaná _ou_ Tchòuórô-ônô.
+Guaycurú Uaicurú _ou_ Mãiápenó.
+
+
+H
+
+Historia Chêti.
+Hoje Cohoihênné (os _h_ aspirados).
+Homem Oiênó.
+Hontem Tiipó.
+
+
+I
+
+Idioma (lingua) Nhumdzó.
+Irmã (entre os terenas) Haîlê.
+Irmão (entre os terenas) Lêlê.
+Irmã mais velha Luké.
+Irmã do meio Moguêtchá.
+Irmã mais moça Atí _ou_ Anndí.
+Isto Aará.
+
+
+J
+
+Jaburú (passaro) Côjó.
+Jacú-tinga (passaro) Maiána-uaragá.
+Já foi embora Piônne.
+Jaty (mel de abelha) Tchulí-tchulí.
+Já veio Annègò.
+Jaú (peixe) Muiôti.
+Joelho Buiú.
+
+
+L
+
+Lagarto Iunãi.
+Laiána (indio) Láiana.[103]
+Lambary (peixe) Chivôupè.
+Lavar Angicãuotí.
+Lavemo-nos Uachicapú.
+Linguagem Iundzó.
+Lingua Nahênê.
+Lua Co-tchêé.
+
+
+M
+
+Machado Pôhóti.
+Macho Oiênó-muricá.
+Maduro Itóuónné.
+Mãe Mêmê.[104]
+Mãe Hennó.
+Mais Poí.
+Magro Uporití.
+Mamma Iênné.
+Mandary (mel) Rôoró.
+Máo Cáunati.
+Mão Uon-húm.
+Marido Immá.
+Matar Inzucôti.
+Mato Uó-hi.
+Mecher Ivirikê.
+Meche (imperativo) Ivirikêá.
+Mel Mópó.
+Melancia Andiá.
+Menos Calliánna.
+Mentira Ninicó.
+Menstruo Ittiná.
+Meu Induguê.
+Milho Tuupí.
+Miolo de palmeira Namuculi.
+Milho fôfo Sóbóró.
+Muito (adverbio) Opôicoati.
+Muito (adjectivo) Tapuiá.
+Muito bom Unati-âtcho.
+Muito gostoso Uchêti-âtcho.
+Mula Senó-muricá.
+Mulher Senó.
+Mutum Maiána-uatutú.
+
+
+N
+
+Nadar Alaongôati.
+Não Acó.
+Não custa Acó-cõicú.
+Não custa (entre os
+ quiniquináos) Acó-ocô-ocorí.
+Não quero Acon-gâchá.
+Nascer Ipuchicá.
+Nariz Guiirí.
+Negro Hahóóti.
+Ninho Nôcó.
+Nós Uutí.
+Nosso Utiguê.
+Noute Ihotí.[105]
+Nuvem Capací.[106]
+
+
+O
+
+Olhos Unguê ou uké.
+Onça Sêni.
+Orelha Inguênó.
+
+
+P
+
+Padre Côchômònetí.
+Pae Tatá.
+Palmito Momoôn.
+Papagaio Coêrú.
+Panella Tchôrôné.
+Parente Inhénó.
+Parente Iningôné.
+Passaro Chohopennó.
+Passeiar Iapacicá.
+Pato Pohahí.
+Pé Djèvé.
+Pega isto Oiá-aará.
+Peito Djahá.
+Peixe Chojé.[107]
+Pensar Iquichá.
+Perdiz Itidichú.
+Perna Gônú.
+Pescoço Annúm.
+Penis Kiú.
+Pennas Kipahí.
+Pimenta Têité.
+Pinto Tchétcha-tapihi.
+Piolho Aná.
+Pirapitanga (peixe) Araraitti-issí.[108]
+Piriquito Tchulí-tchulí.
+Polvora Poití.
+Porco Gôré.
+Porco do mato Kimão.
+Prato Uutá.
+Preguiçoso Tchuléketi.
+Prompto Oçoné.
+Pulga Anatamacú.[109]
+
+
+Q
+
+Quando Namanó.
+Quatí (animal) Còtéchú.
+Quebrar Heocoti.
+Queixo Nónhí.
+Quem sabe? Emó?
+Qente Cótotí.
+Quero Gâchá.
+Queres? Queachá?
+Queria Gácha-niní.
+Quiniquináo Koinu-kunó.[110]
+
+
+R
+
+Rapaz Omoheháu.
+Rede Toití.
+Regrada Ittiná.
+Remar Ivirikê.
+Rio Uêhó.
+
+
+S
+
+Saber Indjá.
+Sabes? Iétchoa.
+Sangue Iti.
+Sapo Tôrumó.
+Sarna Uahatí.
+Saudades Inanguòró.
+Seu Iutí ou iú.
+Sentar-se Iavapoquehí.
+Seriema (ave) Uatutú.
+Siga (imperativo) Tchicá.
+Sobrancelha Indjêukê.
+Sol Cátche.
+Soldado Andâru.
+Sombra Epêuôgôpê.
+Sonhar Chapuchatí.
+Sonhas? Chaputchôné.
+Sonho Indja-putchatí.
+Sovaco Umbêkêcu.
+Sucury Oiênaga.
+Suruby (peixe) Apópaga.[111]
+Sua Itiguê.
+
+
+T
+
+Tatú Copohé.
+Taquara Hetágati.
+Temos Hape-utí.
+Temer Bicuátine.
+Tens? Iapê?
+Ter Hapê.
+Teréna Térena.[112]
+Terra Marihípa.
+Testa Inucú.
+Tolo Ietôré.
+Tomar Mambatí. Namacá.
+Touro Tôôró.
+Trazer Iamané.
+Tres Mopoá.
+Trovão Unobotí.
+Tu Iti.
+
+
+U
+
+Um Poichácho.
+Umbigo Unró.
+Unha Djiipó.
+Urubú Uarututú.
+
+
+V
+
+Vá Pehehévo.
+Vamos comer Nicotiúti.
+Vamo-nos embora Peháoti.[113]
+Vamo-nos lavar Uachicapú.
+Vás buscar? Viapána?
+Veado Tiipé.
+Veio (do v. vir) entre os
+ quiniquináos Simêné.
+Vem cá Iôcó.
+Vento Onauotí.
+Verde Aõitapú.
+Via lactea Chamôcôé.
+Vim (entre os quiniquináos) Simôné.
+Vim (para ficar) Intzioponné.
+Vim (para voltar) Indzimonné.
+Você Ití.
+Vou buscar Veaponotí.
+Vou-me embora Bohoponé.
+Vulva Iusí.
+
+ * * * * *
+
+No incendio e saque de Nioac, a 2 de Junho de 1867, perdemos um
+diccionario guaná com perto de dous mil vocabulos. Nos papeis que
+encontrámos esparsos pelo campo e podémos ajuntar, achavão-se algumas
+folhas com as palavras, ainda não em ordem alphabetica, d'este
+incompleto vocabulario.
+
+
+ * * * * *
+
+
+*Algumas indicações*
+
+Os pronomes possessivos isolados são:
+
+
+Induguê Meu
+Itiguê Teu
+Iuti ou iú. Seu
+Utiguê Nosso
+
+
+Entretanto são quasi sempre contrahidos nas palavras, como por exemplo:
+
+
+_Possessivos da 1^a pessoa_ _Possessivos da 2^a pessoa_
+
+Minha cabeça Duutí. Tua cabeça Totihé.
+Minha testa Inucú. Tua testa Inicú.
+Meu nariz Guiirí. Teu nariz Quiirí.
+Minha boca Bahó. Tua boca Pehahó.
+Meu dente Onué. Teu dente Iahoé.
+Meu queixo Nónhí. Teu queixo Neôió.
+Meus olhos Ungê. Teus olhos Iuukê.
+Minha orelha Inguênó. Tua orelha Keinó.[114]
+Meu corpo Munhó. Teu corpo Muió.
+Meu pescoço Anúm. Teu pescoço Ianúm.
+Meu braço Daké. Teu braço Tiakí.
+Meu peito Djahá. Teu peito Tchiní.
+Minha mão Uonhúm. Tua mão Veaú.
+Minha barriga Djurá. Tua barriga Iurá.
+Minha côxa Djuró-cunó Tua côxa Chiró-cunó.
+Minha canella Gôtchó. Tua canella Guetchá.
+Minha casa Imbenó. Tua casa Pinó.
+Meu pé Djêvê. Teu pé Hiné.
+Meu dedo do pé Quiri-djêvê. Teu dedo do pé Kiriúêvê.
+Meu filho Indjétchá. Teu filho Tchi-tchá.
+Nossa casa Vuóvogú.
+
+
+Os possessivos da terceira pessoa são quasi sempre formados com os
+pronomes _iú_.
+
+ * * * * *
+
+Os adjectivos numeraes vão só até tres:
+
+
+Um Poichâcho.[115]
+Dous Piátcho.
+Tres Mopoá.
+
+
+Os indios continuão presentemente[116] com as palavras portuguezas,
+algum tanto adulteradas:
+
+
+Quatro Uátro.
+Cinco Cinquê.
+Seis Siês.
+Sete Siéte.
+Oito Otcho.
+Nove Nôie.
+Dez Iéce, etc.
+
+
+ * * * * *
+
+Os pronomes pessoaes são os seguintes:
+
+
+Ondí eu. Ití tu. Uutí nós. Nôê elles.
+ Nutí de mim. Ni de ti.
+
+
+Com os verbos emprega-se a particula _pi_ em lugar de _ondi_. Esses
+pronomes vão sempre depois do verbo.
+
+ * * * * *
+
+A conjugação dos verbos é irregularissima e difficil senão impossivel.
+São sempre defectivos.
+
+
+PRESENTE DO INDICATIVO DO VERBO TER (HAPÉ)
+
+
+Eu tenho Hapê ondí.
+Tu tens Iapê.
+Elle tem Hapê.
+Nós temos Hapé utí.
+Elles tem Hapé noé.
+
+
+Para a formação do imperfeito accrescentão _nini_.
+
+
+Inindjoa, nini ondi Eu tinha.
+Innitchiécô Tu tinhas, etc.
+
+
+Outro exemplo:
+
+
+Eu quero Gâcha pi
+Tu queres Queachá.
+Elle quer Gachá.
+Nós queremos Gachá uti.
+Elles querem Gachá nôê.
+
+
+IMPERFEITO
+
+
+Eu queria Gachá nini ondi.
+Tu querias Queachá nini.
+
+
+Nunca pude organisar a conjugação de outros tempos.[117]
+
+
+Phrases e exemplos
+
+
+Sonho comtigo? Chaputchononetí (sc. penso na tua cara).
+
+Tenho saudades de ti Inangoró gopi ni (sc. saudades eu _pi_,
+ de ti _ni_).
+
+Dá-me noticias Iticá chetí (sc. faze historia).
+
+Nada sei Acó índja.
+
+Não estás contente? Acó elloketí?
+
+O que tens? Estás incommodado? Cuti iapê? Calliána unatí?
+
+Estou doente dos olhos Carineti ukê (sc. doente olhos)
+
+Desde muitos dias? Tápuiá cátche?
+
+Desde ante hontem Poinú tiipó.
+
+Coitada Quixauó.
+
+Adeos Biónne (Eu vou indo).
+
+Adeos Pehehêvo (Pois vá).
+
+
+ * * * * *
+
+
+Estás com fome? Epê cati cimagatí?
+
+Sim Aspiração guttural não exprimivel.
+
+Senta-te e come. Toma arroz com Iavapoquê, niké. Viá nacacú cuanê uacá.
+ carne. Queres farinha? Queachá ramucú?
+
+Não, senhor: quero aipim e aboboras. Acó, unãi: gachá tchupú iocó camé.
+
+Traz facas e farinha. Iamané piritáu, cuané ramucú.
+
+O seu jantar está muito bom. Sua Unati niké. Cuáti êchotí itucôati
+ mulher sabe cosinhar muito nica ienô. Auó ningá onuongú
+ bem: na minha casa nunca cutiá ionogú.[118]
+ comi assim.
+
+Come mais então. Niké, igopó.
+
+Não, obrigado. Agora quero agua Acó mondóuané. Poiáne unné
+ e vou-me embora gachá. Behopótine.
+
+Quando has de vir? Namõ kenaacá.
+
+Outro dia Poinu cátche.
+
+Quem sabe se amanhã? Etchuáne coecú arôti.[119]
+
+É facto Ennómone.
+
+
+ * * * * *
+
+_Pois_ e _porém_ vão sempre depois da primeira palavra, exemplo: pois
+toma; _nemucá_ toma, _copó_ pois; porém come; _niké_ come _copoé_ porém.
+
+Quando, _namanó_, vem sempre antes. Quando has de vir? _Namanó kinoôké_.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+A
+
+Já tivemos a occasião de dizel-o officialmente: a estada do Coxim foi um
+lento martyrio, no qual todos extremárão em resignação e calma. A esse
+respeito diziamos, depois de examinarmos as fontes de abastecimento que
+poderião fornecer viveres ao acampamento do Coxim e reconhecermos a
+impossibilidade em que se achavão de satisfazer tal compromisso:
+
+«N'este estado desesperado a força achou-se a braços com a mais completa
+mingoa. Reduzida a simples carne, por espaço de mais de mez, muitas
+vezes faltou-lhe aquella alimentação exclusiva, que deu em resultado o
+apparecimento de varias molestias. Os generos de primeira necessidade
+chegárão a preços exorbitantes, aproveitando-se a ganancia e o espirito
+de lucro abusivo, da desgraça, a que todos se vião reduzidos. Um
+conjuncto, comtudo, de factos tão tristes fez mais realçar as virtudes
+que imperão no soldado brasileiro, patenteando o seu caracter
+eminentemente soffredor e resignado, a subordinação e disciplina, que
+lhe são naturaes.
+
+«Depois de dias, em que nada se distribuia, nenhuma queixa se erguia,
+nenhuma exigencia se ouvia: todos se penetravão das difficuldades que
+presidião a qualquer providencia que tomar, e calmos esperavão pelo que
+lhes reservava a sorte. Não nos compete a apreciação dos factos que
+derão em resultado esta ordem de cousas: consignamos simplesmente as
+phases por que passou a expedição, nas quaes sempre presenciámos o
+comportamento altamente recommendavel do pessoal que a compunha;
+galhardo nas marchas e prompto para todos os trabalhos, supportando,
+emfim, as maiores privações, a que póde ser sujeito o homem na guerra,
+sobretudo nas condições difficeis, que proporcionão distancias immensas
+e sertões inhospitos. Depois da mais penosa marcha por centenares de
+legoas, rodeada de perigos e incommodos, na qual de continuo lutava-se
+com circumstancias imprevistas, acompanhadas de innumeras afflicções,
+veio a estada prolongada do Coxim pôr á prova a abnegação e o sentimento
+intimo do dever, de que tantos exemplos brilhantes tem dado o
+brasileiro, que enverga os distinctivos da vida de privações e de
+soffrimentos». Relatorio geral da commissão de engenheiros nas forças em
+operações ao sul da provincia de Mato-Grosso, 1866 pag. 48 (Annexo ao
+relatorio do ministerio da guerra, 1867).
+
+Quadro exacto da triste situação que apresentava a expedição de
+Mato-Grosso, atirada a um canto da provincia, que vinha soccorrer,
+reduzida á inacção por obstaculos invenciveis de um lado, do outro pelos
+poucos meios, de que dispunha, para, sómente sobre si, emprehender a
+offensiva. De nenhum consolo lhe servia o titulo pomposo, com que, a
+pedido, a havião agraciado. _Forças_ lhe faltavão; _operações_ era uma
+ironia cruel para um espirito philosophico e o sul da provincia de
+Mato-Grosso é tão vasto, tão medonhamente erriçado de difficuldades,
+sobretudo n'aquella época, quanto o erão os sinistros paúes da Germania
+em que se abysmárão as bizarras legiões de Varo. Assim, pois, não nos
+illudiamos sobre o presente; e o futuro, como derivação natural, não nos
+abria horisontes de flôres.
+
+
+B
+
+Na viagem, que levámos, nunca podémos fazer senão estudos perfunctorios
+d'aquillo que acompanha o caminho: da vegetação só vimos a fita que
+segue o trilho, em mineraes, só o que se achava em seu percorrer. Por
+isto não nos julgamos habilitados para avançar uma proposição fixa e com
+força de regra; entretanto, certo cuidado na observação permitte termos
+por certo um facies especial, que distinga, mais ou menos, os _cerrados_
+de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Mato-Grosso, que fomos atravessando.
+Na primeira d'estas provincias pareceu-nos predominarem as _cassiaceas_
+e _terebinthaceas_; na segunda, ao menos na nesga que atravessámos,
+_myrtaceas_, na terceira, especialmente _malpighiaceas_ (murecys) até a
+villa dos Aboboras, e, d'ahi por diante, de envolta com ellas, uma
+_myrtacea_, a _cagaiteira_. Em Mato-Grosso, para os lados do Piquiry, a
+quantidade de _guabirobas_ nos cerrados é prodigiosa, e, entre o Coxim e
+o rio Negro, na zona em que nos achavamos, figurão com especialidade os
+_araticús_ e _rollinias_. Em todos os _cerrados_, todas aquellas
+familias se achão representadas, porém o que procuramos fazer notar, é o
+predominio de uma d'ellas ou pelo menos o de um genero.
+
+Debaixo do ponto de vista do desenvolvimento, em iguaes condições
+apparentes, os mais vistosos são os de Mato-Grosso; os menos, os de S.
+Paulo: ahi chega o aspecto d'elles a ser senão desolador, ao menos
+contristador. Talvez lhe achemos a causa na maior frequencia de
+queimadas de campos, que annualmente são feitas, na approximação das
+chuvas.
+
+Os terrenos arenosos apresentão os mesmos typos botanicos; entretanto,
+mais desenvolvidos do que nos argilosos. Os areaes entre Bahùs e Coxim e
+nas immediações de Sant'Anna do Paranahyba são prova do que avançamos;
+assim tambem certos pontos da provincia de Goyaz, quasi ao chegar á
+villa das Dôres do rio Verde (Aboboras).
+
+Nos verdadeiros cerrados até Mato-Grosso, observámos a pouca frequencia
+das _melastomaceas_, comtudo tão facil de distinguir. Ao entrar, porém,
+n'essa provincia, tornão-se ellas muito frequentes, apresentando bellos
+exemplares, pelo seu desenvolvimento geral.
+
+Em todos os cerrados sempre notámos a bem conhecida _canella de ema_.
+
+As arvores dos _cerrados_ são quasi todas tortuosas; a casca sempre
+escamosa, fendida irregularmente, grossa, merecendo por isso muitas
+d'ellas o nome de _jacarés_, devida, ao que nos pareceu, á acção annual
+do fogo que provoca esse desenvolvimento do _liber_, obstaculo á
+carbonisação que permitte ao vegetal poder continuar o seu penoso
+crescimento. As _cassias_, sobre todas, são notaveis por essa alteração
+da camada cortical.
+
+
+C
+
+A folhagem verde-escura da _mauritia_, abre-se como um leque, sustentado
+por longos peciolos alveolados no topo de um estipite liso e pardacento
+claro, no qual se notão os traços parallelos formados pela quéda das
+voltas semi-amplexicaules das folhas. Ao lado d'aquella formosa
+monocotyledonea, a _macaybeira_ (acrocomia sclerocarpa) parece acanhada
+e fica completamente offuscada; das palmeiras, cujas folhas são todas
+revestidas por foliolos, a unica que rivalisa em elegancia e altaneria é
+o _auassú_ que os guaycurús chamão _chatellôd_.
+
+Do bority extrahe-se um succo saccharino, usado, depois da fermentação,
+como bebida e do qual se póde tirar excellente assucar, como o fez um
+official das forças. Os fructos dão em compridos cachos; são ovoides,
+com casca rija, amarello-avermelhada, escura e brilho metallico, todos
+cobertos por escamas rhomboidaes, que encobrem uma polpa pouco saborosa,
+ainda quando preparada com assucar. A amendoa acha-se n'uma loja
+monospermica. Em épocas de fome, de muito servírão aos soldados que
+procuravão não só os côcos, em concurrencia com as aráras, como em razão
+do miôlo que chupavão com grande gosto. Os boritys são sempre indicio de
+agua, nascendo só em lugares humidos.
+
+No caminho para Uberaba apparecem, pela primeira vez, no pouso dos
+Boritys (a 84 legoas do littoral), nas proximidades do rio Grande,
+divisa entre as provincias de S. Paulo e Minas. D'esse ponto em diante,
+acompanhão a trilha, que seguírão as forças, atravessando Minas, Goyaz e
+Mato-Grosso. Até o rio Negro, a abundancia de boritys é extrema; d'ahi
+por diante, vão-se tornando menos frequentes e, para os lados de Nioac e
+sul do districto de Miranda, vêem-se raramente.
+
+
+D
+
+Comprehendendo, de ante-mão, as difficuldades com que lutarião os nossos
+collegas na promptificação de canôas, sem as ferramentas precisas nem
+trabalhadores habilitados, fizemos lembrada a conveniencia em
+transportar aquella barca para junto áquelle rio. As nossas previsões
+realizárão-se completamente e os obstaculos que embaraçárão os
+engenheiros, no desempenho da commissão a este respeito, justificárão a
+importancia que haviamos dado áquella conducção.
+
+
+E
+
+O _aucury_, do genero attalea, affeiçôa, como os boritys, os lugares
+humidos, apparecendo só n'aquelles que são commummente encharcados. O
+seu aspecto é baixo; o estipite fino, ás vezes engrossando
+extraordinariamente junto ao coroamento das folhas, as quaes tem longos
+foliolos delgados. Os fructos (cujos côcos tem 3 bagas monospermias) com
+uma bonita côr amarello-alaranjada, e revestidos por uma casca
+filamentosa (que não tem máo sabor, sobretudo assada), dão em cachos,
+que ás vezes pendem junto ao chão, servindo de pasto aos porcos do mato,
+que os procurão com avidez.
+
+Por isso, quando atravessavamos os aucurisaes do rio Negro, onde a
+abundancia d'esses côcos era extrema, grandes varas de _queixadas_
+(dicotyles labiatus) fugião diante de nós, sendo facil a um dos soldados
+derribar alguns d'elles.
+
+
+F
+
+Qualquer depressão de terreno, qualquer encontro de declives
+transforma-se n'essa zona em profundas sanjas, que quasi sempre vírão em
+escoantes para os rios. Eis a _corixa_ ou o _corixo_.
+
+A retenção da agua, por muitos mezes, desenvolve então uma vegetação
+palustre no meio de moutas de capim, reunindo-se n'ellas frequentemente
+as terriveis _piranhas_ (myletes macropomus), que tornão essas passagens
+perigosas, pelos lados do Piquiry.
+
+
+G
+
+A qualidade de mel que dá o jaty é boa, perfumada e clara; entretanto a
+quantidade é commummente muito diminuta.
+
+A colmêa é no tronco das arvores, quasi sempre junto ao chão. Pelo
+contrario, sempre na parte superior, na _dichotomia_ ou bifurcação de
+ramos, faz o seu cortiço a abelha _mandory_ ou _mondori_: _mondé_,
+colher, _ira_, mel, o qual é superior ao do jaty, rivalisando com o do
+_cacheta_ em sabor e limpidez. A abelha _mandory_ é especie grande,
+preta, rajada de amarello.
+
+Seguem-se em qualidade: o _achupé_ (grande e preta), o _sanharão_, o
+_borá_ (grande e amarella), o _uruçú_, o _lambe-olhos_, etc.
+
+D'essas abelhas, fomos, no seguimento da viagem, encontrando individuos.
+Além d'isso frequentes arvores, cortadas nos lados do caminho,
+mostravão-nos a copiosa colheita que fazem os indios, os quaes,
+justamente n'aquella época, recolhião o mel para fermental-o, o que dá
+lugar ás festas religiosas, em que estavão empenhados, quando chegámos á
+aldêa da Piranhinha.
+
+
+H
+
+Levavamos então um chapéo que compráramos na aldêa: era de palha de
+_carandá_ (copernicia cerifera), e muito bem trançado. Esta palmeira,
+bastante frequente no norte da provincia, é mais rara no districto. Pela
+primeira vez a tinhamos visto quasi ao chegarmos ao Tabôco, occupando um
+vasto barreiro com lindos specimens, cujo aspecto era-nos totalmente
+novo. Mais alto que a _carnaúba_, com quem tem muitos pontos de relação
+(se não fôr ella propria), com estipite, porém, mais fino e ligeiramente
+flexuoso, tem as folhas supportadas por longos peciolos erectos, que
+fórmão um coroamento em leques, como o do _bority_, mas cujos foliolos
+são rigidos e terminados por pontas espinhosas.
+
+A reunião de muitas d'essas palmeiras, cujo tronco é aproveitado para
+construcção de casas e curraes, cuja palha é muito utilisada para
+chapéos e cujos fructos, pequenos e em cachos compridos, dão algum
+azeite, chama-se um _carandal_.
+
+Ahi fórmão ellas moutas compostas de palmeiras rasteiras, no meio das
+quaes surge alguma mais desenvolvida, levando agarrados cipós e
+parasitas, que vivem nos sulcos das folhas cahidas.
+
+Algumas nopaleas, sobretudo a _opuntia_, com o aspecto tão original, e
+uma ou outra dicotyledonea, cuja folhagem agrada tanto pela disparidade,
+constituem, ao redor dos elegantes _carandás_, grupos, como que
+arranjados pela mão artistica de algum horticultor intelligente.
+
+O _carandá_, que vimos pela primeira vez perto da Piranhinha, apparece,
+com abundancia, entre Nioac e a colonia de Miranda. Talvez, no districto
+de Miranda, possão ser, por meio de linhas longitudinaes, assignaladas
+tres zonas de palmeiras predominantes: a dos _boritys_, do Coxim á villa
+de Miranda; dos _carandás_, da villa á colonia de Miranda, e das
+_macaúbas_; da colonia ao Apa.
+
+
+I
+
+Nas proximidades do Aquidauana e na localidade de refugio no cimo da
+serra de Maracajú, distante d'aquelle rio cinco legoas, vimos em _aves_,
+além das mencionadas: na familia dos _accipitres_, muitos _urubús_
+(percnopterus jota), alguns dos quaes completamente brancos
+(urubutingas) _gaviões_ e innumeros _caracarás_ (polyborus chimango) que
+esvoaçavão, com estridentes pios, por cima das queimadas, para agarrarem
+as cobras e reptis, acoçados do fogo. Na familia dos _trepadores_,
+avistámos: a _arara azul_ (ara ararauna) com as costas e cauda azul,
+peito amarello-alaranjado, a _vermelha_ (ara aracanga), a _rôxa_ (ara
+hyacinthinus), á qual convinha mais o epitheto de ararauna (arara
+preta), côr que, de longe, parece ter; _tucanos de papo branco_
+(rhamphastos toco) especie grande e rara, de _bico preto_ (rhamphastos
+ariel), _de papo amarello_ (ramphastos discolorus), que são derribados,
+mal lhes toque um bago de chumbo o bico: nas arvores, o desconfiado
+_alma de gato_ (coccyzus cayanus) se esgueirava ligeiro por entre os
+galhos e o lindo _jacamacira_ (galbula viridis) n'elles pousava
+gravemente, emquanto os _pica-páos_ (picus melachloris, robustus, etc.)
+em zig-zag se atrepavão, agarrados aos troncos. Entre os _passaros_
+figuravão os _sabiás_ (turdus flavipes, _una_, e rufiventer,
+_larangeira_), o _bemtevi_ (tyrannus sulphuratus), o _serra-serra_
+(carduelis nitens), o _canario da terra_ (carduelis brasilienses), o
+_avinhado_ (pitylus nasutus), os _caraúnas_ ou _virabostas_ (icterus
+violaceus) os mais animados e barulhentos cantores do sertão, os
+_encontros_ (xanthornus tristis) e muitos outros notaveis pela plumagem
+e canto que não conheciamos e viamos pela primeira vez.
+
+Nos campos ha poucas _perdizes_ e _codornizes_: na planura de cima da
+serra não as vimos: em compensação, a volateria é sobremaneira
+importante em outras qualidades, como já mostrámos.
+
+Entre os _reptis_, além dos _ophidios_ já apontados, avulta o _lagarto_:
+os _bactracios_ são os conhecidos geralmente.
+
+Entre os _insectos_ todas as subdivisões são mais ou menos bem
+representadas: entre os _nevropteros_ apparece com abundancia o _térmes_
+(cupim), nos _hymenopteros_, muitas especies de _maribondos_, de
+_formigas_ e _abelhas_: poucos _lepidopteros_: nos _dipteros_ muitos
+_mosquitos_, _muriçocas_, _mucuins_ ou _polvoras_, _moscas_, etc., em
+alguns pontos do rio, em outros são rarissimos.
+
+Entre as _arachnides_, não pode ser esquecido o _acaride-arachnide_,
+_carrapato_ (ixodes) um dos grandes incommodos de quem viaja pelas
+matas. No Aquidauana eramos flagellados pelo _rodeleiro_ ou _estrella_
+(especie grande), _ruivo_ (especie menor) e _piolho de gallinha_
+(especie mui pequena).
+
+N'um dos affluentes do Aquidauana encontrámos curiosos molluscos, com a
+conformação do _mechilhão_ (mytilus) e com o interior da costa calcarea
+brilhante, a modo de madreperola. «O Pacheco e o Valerio, diz uma de
+minhas notas de viagem, affianção que, em certo ponto do rio Paraguay,
+ha muitos d'esses restos, sendo até uma bahia denominada das _Conchas_».
+Achámos tambem d'essas conchas no ribeirão do Euagaxigo, a 3-{1/2}
+legoas da villa de Miranda.
+
+
+
+
+APPENDICE
+
+
+
+
+APPENDICE
+
+
+Memoria descriptiva do reconhecimento do caminho entre os rios Taquary e
+Aquidauana, feito pelos engenheiros capitão bacharel Antonio Florencio
+Pereira do Lago e 2^o tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle Taunay,
+ajudantes da commissão de engenheiros junto ás forças em operações no
+sul da província de Mato-Grosso.
+
+
+I
+
+Exploração entre os rios Taquary e Negro
+
+
+No dia 13 de Fevereiro passámos, defronte do acampamento goyano, o rio
+Taquary e margeando-o á esquerda, fomos, pela necessidade de descanço em
+consequencia do grande nado a que tinhão sido obrigados os animaes,
+pousar junto ao ribeirão da Fortaleza, com 20 minutos em tempo de
+distancia percorrida. A sua margem esquerda é escarpada e necessita ser
+rampada para a descida de carros; a direita é baixa e arenosa como o
+alveo d'este tributario do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega
+passagem a váo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade 3, 1-{1/2}
+por segundo de velocidade e a elle segue-se uma mata onde existem varias
+rampas que podem ser facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o
+Taquary e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim, que, pouco
+depois, desapparece, começámos a acompanhar o Taquary-mirim, o qual ora
+afasta-se, ora approxima-se muito perto do caminho, transpondo-se com 32
+minutos de marcha um pequeno corrego, cujas ribanças necessitão ser
+modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas condições. Com mais
+41 minutos passámos um ribeirinho cujos barrancos devem ser cortados
+para facilitar a passagem, e pouco depois chegámos á cachoeira do
+Taquary-mirim (pouso dos Boritys), junto á qual existem vestigios de um
+acampamento dos paraguayos e onde pernoitámos.
+
+A distancia percorrida foi sempre em terreno secco, de base
+argilo-arenosa, entre cerrados em que predominão _anonaceas_ (araticús
+do campo) e varias especies de _byrsonima_: o caminho é uma simples
+trilha, muito visivel porém e sempre seguido.
+
+
+Tempo gasto 4 horas e 32 minutos.
+[120]Distancia percorrida 8,265 braças, ou 2-{3/4} legoas proximamente.
+
+
+Deixando o pouso dos Boritys que offerecerá um acampamento regular para
+as forças em marcha, com 36 milhas de marcha fomos ter ao corrego da
+Porteira, a 77 minutos do qual passámos outro, chegando ao ribeirão da
+Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braças antes d'esta
+corrente, existe um terreno baixo que ha de tornar-se alagadiço com a
+continuação de chuvas, podendo ser praticada, n'este caso, uma extensa
+estiva pelo muito mato, que cobre as margens do ribeirão.
+
+O leito d'este é arenoso; a largura média de 50 palmos, 2 de
+profundidade, chegando a negar váo no tempo de grandes enchentes. Ahi
+podérão acampar as forças depois de ter sido facilitada a passagem,
+rampando-se a margem esquerda.
+
+
+Tempo gasto 4 horas 0 minutos.
+Distancia percorrida 7,285 braças, ou 2-{8/2} legoas proximamente.
+
+
+A 16 minutos do ribeirão da Mata, existe uma casa abandonada, proxima a
+um capão, denominado Tapera, assim como o corrego, que, pouco adiante,
+dirige-se para E. entre margens pouco firmes, permittindo porém a
+proximidade do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem de
+cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passámos um pequeno pantano de 30
+braças, que póde dar boa passagem, se as chuvas não augmentarem e o
+tempo tornar-se secco; devendo ser este espaço estivado no caso
+contrario. Continuando, atravessámos o ribeirão Claro, cujas margens
+altas e nemorosas precisão ser melhoradas, com leito pedregoso, largura
+de 35 palmos e profundidade de 1-{1/2}. Depois de chuvas continuadas
+impede o transito. Depois de 110 minutos chegámos ao ribeirão Verde que
+tem margens abruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages, váo
+pessimo para a passagem de animaes carregados. Tem de largura 65 palmos,
+3-{1/2} de profundidade, augmentada porém, durante as aguas, a ponto de
+vedar o transito.
+
+A força póde acampar em sua margem direita depois de rampados os
+barrancos que encanão este ribeirão.
+
+
+Tempo gasto 3 horas 0 minutos.
+Distancia percorrida 5,463 braças, ou 1-{1/3} legoas proximamente.
+
+
+Sahindo do ribeirão Verde, passámos com 63 minutos de marcha um bosque e
+d'ahi a 30 minutos a mata ou capoeira do Major com abrupta descida que
+vai ter a um pantano, em que gastámos 5 minutos, seguindo-se nova mata e
+outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno começa a subir:
+torna-se pedregoso e entra-se no Portão de Roma: pessima e difficultosa
+passagem embaraçada com grandes lages e rochas que se achão na trilha
+que serve para a viação. As carretas dos paraguayos passárão por este
+desfiladeiro: entretanto será necessario um trabalho preliminar ou um
+desvio para conseguir-se facil transito. Continuando a caminhar,
+margeámos um lugar pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44
+minutos fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal dá agua em
+toda esta estação.
+
+
+Tempo gasto 3 horas e 49 minutos.
+Distancia percorrida 6,951 braças, ou 2-{1/4} legoas proximamente.
+
+
+Deixando o Lageadinho, passámos um lagrimal depois de 65 minutos de
+marcha e com mais 65 o corrego do Castelhano, entrando d'ahi a 15
+minutos n'uma mata, atravessada por um filete d'agua, seguindo-se
+outras, cortadas, de distancia em distancia, por campos dobrados até o
+corrego da Volta, onde poderá formar-se o acampamento das forças.
+
+
+Tempo gasto 5 horas e 19 minutos.
+Distancia percorrida 9,683 braças, ou 3-{3/2} legoas proximamente.
+
+
+Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passámos n'um matagal, e
+com mais 32 minutos o ribeirão do Perdigão, cujas margens hão de
+necessitar de concertos para a facil transposição.
+
+D'este ribeirão, com 44 minutos, entrámos na mata dos Jaós, de 3 minutos
+de extensão, onde os paraguayos deixárão uma canôa, que poderá servir
+para a passagem do rio Negro, caso seja concertada e transportada para
+aquelle ponto. Com 65 minutos chegámos ao corrego da Cachoeirinha, e,
+d'ahi ao corrego Fundo, gastámos mais de 40 minutos. Poderá acampar a
+força, depois de feita uma estiva nas margens pouco firmes d'este
+corrego.
+
+
+Tempo gasto 3 horas e 46 minutos
+Distancia percorrida 6,860 braças, ou 2-{1/4} legoas proximamente.
+
+
+Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo a um pequeno olho
+d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal e com mais 81 minutos ao rio
+Negrinho, passando antes por um terreno baixo e alagado. O rio dá váo
+commodo no tempo secco: n'esta estação, porém, a profundidade é de 7
+palmos, sendo a sua largura de 63. Uma arvore cahida, de uma margem á
+outra, servio-nos para a passagem das cargas, e com pouco trabalho
+ter-se-ha uma boa pinguela. O váo acha-se a 30 braças mais ou menos
+acima do lugar em que está a arvore, subindo pela margem esquerda. O
+acampamento na margem direita, depois de passar a mata, é melhor, ainda
+que mais distante da agua.
+
+
+Tempo gasto 4 horas e 37 minutos.
+Distancia percorrida 8,408 braças, ou 2-{3/4} legoas proximamente.
+
+
+Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois de passarmos pela sua
+mata (onde existem depressões, chamadas _corixas_, que ficão cheias
+d'agua e dão nado durante as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de
+viagem ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidadãos Antonio Alves
+Ribeiro, e Tiberio, onde não encontrámos além do gado, que não póde ser
+reunido por falta de cavalhada, recurso de qualidade alguma para a
+força, nem pessoal para trabalhar na construcção de canôas para a
+passagem do rio Negro. D'este ponto até o rio, o caminho apaga-se quasi
+completamente; é apenas uma trilha mal aberta por alguns fugitivos de
+Miranda, a qual atravessa grandes pantanaes, duas corixas cheias,
+charcos e mata muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem
+promptos, deverá a força ir acampar na margem do rio; no caso contrario,
+demorar-se-ha junto ao Potreiro.
+
+
+Tempo gasto 4 horas e 48 minutos.
+Distancia percorrida 8,742 braças, ou 3 legoas proximamente.
+
+
+A passagem para a infantaria é sempre commoda e facil até o Potreiro;
+para os carros, porém, e bagagem será necessario rampar as margens das
+correntes que atravessão o caminho e fazer estivados em differentes
+pontos. Nas matas, e nos cerrados, ha páos e taquaras que embaráção o
+transito; pelo que deverá ir, sempre dianteiro á força, um certo numero
+de homens armados de machados e fouces, para removerem estes obstaculos.
+Do Potreiro, porém, ao rio Negro, até para homens a pé, o caminho é de
+difficil viabilidade, e necessita ser aberto e melhorado para o
+transito.
+
+Com excepção do Portão de Roma, proximidades do Lageadinho e margem dos
+corregos e ribeirões, os declives do caminho são sempre bons: o leito é
+uma estreita trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco até pouco
+adiante do Potreiro.
+
+Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos encontrado guia para
+o caminho que segue a fralda da serra de Maracajú até a aldêa da
+Piranhinha, o qual os soldados desconhecem, e vamos encetar viagem á tôa
+e sem indicações certas.
+
+Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.
+
+
+POUSOS PARA A FORÇA
+
+
+Ao pouso dos Boritys 2-{3/4} legoas
+Ao ribeirão da Mata 2-{1/2} »
+Ao ribeirão Verde 1-{3/4} »
+Ao Lageadinho 2-{1/4} »
+Ao corrego da Volta 3-{1/2} »
+Ao corrego Fundo 2-{1/4} »
+Ao rio Negrinho 2-{3/4} »
+Ao rio Negro 3 »
+ -------
+ Somma 20-{3/4} »
+Do rio Taquary ao rio Negro 20-{3/4} »
+
+
+A planta topographica indicará outros pousos, caso não convenhão estes,
+e dá os accidentes de terreno e direcções magneticas.
+
+
+II
+
+Exploração entre o rio Negro e os Morros
+
+
+No dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma pelota,
+transportámo-nos para a sua margem esquerda, baixa, paludosa e coberta
+da mesma vegetação que já tinhamos achado do outro lado. Por espaço de
+um quarto de legoa lutámos n'ella com os obstaculos provenientes das
+enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, em pelota, de
+corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados) e á marcha em terreno
+sempre humido e atoladiço. Abre-se depois o campo com cerrados ao longe,
+e achámo-nos na base da serra de Maracajú, que era o nosso unico meio de
+direcção na procura da trilha, que dizião ter sido aberta pelos
+fugitivos de Miranda, na invasão d'este districto no anno passado. Com
+effeito avistavamos uma longa e continuada serrania que tinhamos de
+deixar á esquerda, fraldejando a sua aba e fugindo ás aguas que cobrião
+a estrada seguida no tempo secco até o rio Aquidauana.
+
+A questão era examinar a qualidade de terreno, em que tinhamos de
+marchar e saber das vantagens da abertura de um caminho para a força nos
+seus primeiros movimentos para o Baixo-Paraguay.
+
+Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de marcha,
+reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer na procura
+d'aquella supposta trilha e dos vestigios da passagem, bem que recente,
+de um homem a cavallo, apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pégádas
+do gado que vaguêa pelos campos, indo a final esbarrar em uma mata tão
+cerrada que roubou-nos boa porção do dia, não nos permittindo caminhar
+mais de legoa e meia. No pouso verificámos que a carne secca, que
+haviamos preparado no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito
+dias, pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias
+anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade de termos
+recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima porção de gado recolhido,
+fôra levado da fazenda do Retiro para o Coxim e a esperança de podermos
+matar alguma das rezes que encontravamos, não nos permittírão duvida
+sobre o que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando sempre, ora
+em terreno pantanoso e atoladiço, até a fralda da serra, ora em cerrados
+de difficultosa passagem, achavamo-nos com todos os recursos de boca
+completamente esgotados e com a certeza desesperadora da quasi
+impossibilidade em matarmos á bala rezes, completamente selvagens e
+ariscas.
+
+Os nossos males crescêrão com a fuga de todos os animaes, o que nos
+reteve nas mais crueis necessidades, junto ao corrego da Afflicção,
+durante dous dias nos quaes sustentámo-nos de fructos silvestres, que os
+soldados podérão colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes,
+proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e canastras
+escondidas na mata proxima, alimentando-nos desde então por oito dias de
+miôlo de palmeiras e de alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas
+torrenciaes e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11
+legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando charcos
+perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de intrincadissima taquára.
+Em parte alguma viamos uma trilha seguida: quando nos suppunhamos
+perdidos, deparavamos algum rancho abandonado, uma arvore cortada, um
+signal que indicava acharmo-nos no rumo seguido pelos fugitivos, os
+quaes, sem duvida, tiverão interesse em occultar os seus vestigios,
+acoçados dos paraguayos, que demandavão o mesmo caminho, como o vimos
+pelos signaes de acampamento de forças. Tomando afinal o rumo O. fomos
+trilhar a parte, transitavel hoje, do caminho do pantanal, onde podémos
+dar fim aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez. No dia 10
+passámos o rio _Tabôco_ que achámos de nado e, visitando no dia seguinte
+o aldeamento dos indios na Piranhinha, chegámos no dia 11 ao
+arranchamento do cidadão João Pacheco de Almeida, onde tivemos
+recebimento hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos agasalhados.
+
+
+CAMINHO QUE A FORÇA DEVE SEGUIR
+
+Não existe trilha alguma junto á fralda da serra de Maracajú. O pantanal
+que vai até a base d'esta serrania é em terreno fôfo e de perigoso
+transito, sobretudo para grande numero de cargueiros e carros: nos
+cerrados, o sapé alto, capins e taquaras maltratão os infantes e canção
+sobremodo os animaes. Só nos principios de Maio poderão, segundo
+informações de pessoas praticas, achar-se estes lugares seccos; época em
+que o caminho, chamado do pantanal, conhecido por muitos e trilhado, dá
+excellente passagem por occasião da retirada das aguas. A vantagem de
+ser a trilha do pantanal sempre firme, não póde deixar duvida sobre o
+caminho a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes lugares
+que dê indicações dos lugares em que se encontrão boas aguadas. O
+_capataz_ da fazenda do _Tabôco_, o cidadão Antonio Maria Tonhá, é muito
+proprio para este serviço.
+
+
+CONTINGENTE PARA A FORÇA
+
+_Guarda nacional._--Os guardas nacionaes, que existem debaixo das ordens
+do tenente coronel Albuquerque, não podem perfazer o numero de 100:
+melhores informações sobre seu armamento, fardamento e municiamento,
+teremos depois de recebermos resposta ao nosso officio de 17 do corrente
+ou conversarmos com o tenente coronel commandante; o que tudo havemos de
+communicar com a brevidade possivel.
+
+
+_Indios._--No aldeamento dos indios terenas, da Piranhinha, encontrámos
+a melhor disposição na gente do capitão José Pedro: apresentárão-se-nos
+60 moços bons atiradores e proprios para servirem de excellente tropa em
+sorprezas e emboscadas.
+
+No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos, em estado de
+pegarem em armas: achão-se armados, e só lhes falta cartuxame.
+
+Da gente quiniquináo, acampada em diversos pontos, póde-se contar com 30
+homens.
+
+São ao todo 130 indios que estão no caso de servir de contingente á
+força. Falta-nos comtudo visitar, a oito ou dez legoas d'aqui, dous
+aldeamentos, um quiniquináo e outro laiana, que devem augmentar o numero
+de homens e dar alguns alqueires de arroz e milho. Áquem de Miranda ha
+tambem outros pontos em que existem indios foragidos.
+
+A indole dos indios é guerreira: votão odio encarniçado aos paraguayos e
+estão com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e
+ferocidade de ambos os lados tem trazido temor e receio reciprocos;
+entretanto a inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na
+disposição de espirito e firmeza para arrostarem no campo e de frente o
+inimigo, os torna apenas proprios para atiradores em matas e
+guerrilheiros.
+
+
+RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FORÇA
+
+_Gado._--Desde o rio Negro até a Piranhinha vimos immensa quantidade de
+rezes, vagando pelos campos em grandes manadas. Entretanto a
+necessidade, para o fornecimento, de bons cavallos para rodear-se o
+gado, obrigará á espera da terminação da peste que grassa entre os
+animaes até fins de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o
+Coxim até estes lugares.
+
+Um contractador, de posse comtudo de bons animaes, poderá com
+facilidade, em todos os pousos da força, reunir a quantidade precisa de
+rezes nas fazendas de Joaquim Alves, Fialho, capitão Pires (prisioneiro
+dos paraguayos), José Alves de Arruda e outros.
+
+Os cidadãos que pelas informações colhidas, poderão se encarregar do
+fornecimento são: Joaquim Alves e Canuto Virgolino de Faria (no Coxim);
+mas deverão de antemão comprar cavallos para se acharem em
+circumstancias de cumprir com os seus compromissos.
+
+Calcula-se em 13,000 cabeças o gado que existe nas fazendas apontadas
+acima, e só póde haver difficuldade na obtenção de rezes com a falta de
+cavallos, para o que devem ser tomadas providencias acertadas.
+
+
+_Cereaes._--As plantações dos refugiados de Miranda, além das limitadas
+proporções em que forão effectuadas para proverem unicamente á
+subsistencia particular, não derão colheita satisfactoria. O milho veio
+muito falhado; o arroz abaixo da expectação: são comtudo os dous generos
+que mais avultão. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho existente
+á farinha, ou á cangica, pela falta de um monjólo; promettem alguns
+alqueires á custa de braços.
+
+Não ha nenhum feijão recolhido: apenas algumas quartas plantadas, que
+comtudo pouco podem dar pela falta de chuva e má época em que forão
+lançadas em terra.
+
+
+_Sal._--Ha grande carencia de sal: apenas existem 2 ou 3 alqueires que
+estão sendo vendidos.
+
+Os dados que seguem forão todos colhidos com a maior minuciosidade, e
+são o resumo de quantidades parciaes, como se vê do mappa annexo:
+
+
+Milho 50 alqueires
+Cangica 57 »
+Farinha 10 »
+Arroz com casca 110 »
+Arroz socado 155 »
+ ----
+Somma 382 »
+
+
+
+FORÇA INIMIGA
+
+Interrogando diversas pessoas e indios, que têm, desde Janeiro até fins
+de Fevereiro, visitado os lugares ainda occupados por forças, colhemos
+as seguintes informações:
+
+
+Na fazenda do Souza 50 a 150 homens
+No Espenidio 200 »
+Na Forquilha 100 »
+Em Nioac 360 »
+ --------
+Ao todo 810 »
+
+
+No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos de meia legoa do
+rio, e entre estes dous pontos uma guarda rendida diariamente, que serve
+para vigiar o Aquidauana. N'este entrincheiramento houve ultimamente
+augmento de força, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques de
+corneta, o que não acontecia até fins de Janeiro: ha uma peça de
+artilharia para defendel-o e uma palissada de grossos madeiros de
+aroeira. Iremos com as precauções precisas visitar estes pontos,
+communicando logo o que tivermos observado.
+
+A Forquilha e o Espenidio achão-se no caminho de Nioac á villa de
+Miranda. Este ultimo ponto está presentemente abandonado, todas as casas
+forão queimadas e não ha mais guarnição. É informação de André José dos
+Santos, que nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi
+reconhecer o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.
+
+A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim Coelho, assistindo,
+de uma mata proxima, ao exercicio de um batalhão de infantaria pesada,
+formado em 6 pelotões de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se
+acha na fazenda do Souza é aguerrida e regular, o resto dizem constar de
+soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles dispõem, é boa, como
+vimos por alguns cavallos roubados pelos indios.
+
+Usa a infantaria de espingardas á Minié de 1,000 passos, e a cavallaria
+de lanças que manejão com muita destreza, de clavinas e espadas. Nas
+cartuxeiras trazem os soldados 80 cartuxos: os indios afianção que são
+máos atiradores, fazendo comtudo justiça completa á coragem e valor
+nunca desmentidos do inimigo.
+
+Os paraguayos desde Maio do anno passado não fizerão mais correrias na
+margem direita do Aquidauana; provêem-se de gado, abundantissimo no
+outro lado, e considerão o rio divisa do territorio brasileiro.
+
+Existe uma estrada, chamada do Canastrão, pela qual, de Dourados, onde
+ha força, e da fronteira podem vir soccorros para coadjuvarem os
+contingentes espalhados no districto de Miranda.
+
+Esperão-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso dos paraguayos,
+que foi visitado pelo indio laiana Joaquim da Silva em Fevereiro, o qual
+dá noticia de mais destacamentos na Ariranha e no Esbarrancado, a 8
+legoas além de Nioac.
+
+Suppõe-se que os destacamentos no Souza e Espenidio têem ordem para
+concentrar-se, com o apparecimento de nossas forças, em Nioac, afim de,
+attrahindo-as até este ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo
+caminho do Canastrão, que vem do Paraguay a Miranda.
+
+
+RESUMO
+
+O movimento da força brasileira póde effectuar-se nos primeiros dias de
+Maio, tomando o caminho do rio Negro, e depois o do pantanal, que deve
+de estar completamente secco, reunida que seja boa cavalhada para o
+fornecimento de gado durante a marcha. Com poucos generos póde contar
+dos Morros e dos indios. Nas operações, além do Aquidauna, deve esperar
+encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados o mais das vezes, e
+dispostos á resistencia.
+
+
+RIOS QUE PASSÁMOS
+
+O rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 braças: entretanto como
+a força deverá vir pelo caminho do pantanal, indicado no nosso trabalho
+pelo traço colorido que vai ligarse ao caminho do roteiro do primeiro
+reconhecimento, além do Potreiro, é necessario visitar o rio mais baixo
+e conhecer a sua largura.
+
+O rio Tabôco tem 30 braças de largura.
+
+
+_Meios de passagem._--Para o rio Negro devem-se promptificar barcas,
+pois que as margens baixas e atoladiças não facilitão a construcção de
+uma ponte. O rio[121] tem lugares de bom váo, como o afiança o pratico
+Tonhá, que conhece-os perfeitamente. O rio Tabôco é vadeavel.
+
+Para o Aquidauana precisão ser trazidas ao porto do Jatobá, ou ao de D.
+Maria Domingas, as canôas do tenente coronel Albuquerque da sua fazenda
+do rio Negro e a prancha do cidadão Cardoso Guaporé, o qual já foi
+examinar o estado em que ella se acha, por estar escondida, ha mais de
+anno, n'uma volta do rio.
+
+
+DISTANCIA QUE PERCORREMOS
+
+
+Do rio Negro á entrada do Pantanal 13 legoas
+
+D'ahi á Piuva. 1-{1/4} »
+
+Da Piuva aos Dous Corregos. 1-{1/2} »
+
+Dos Dous Corregos ao Tabôco. 3-{1/2} »
+
+Do Tabôco á ponta do morro
+ d'onde o caminho segue para
+ o Aquidauana. 1-{3/4} »
+
+D'aquella ponta á Piranhinha. 1-{1/4} »
+
+ » » a João Pacheco. 3-{1/4} »
+
+De João Pacheco a Francisco Dias. 1/2 »
+ --------
+Somma 26 »
+
+
+A volta pelo caminho do Pantanal não póde exceder de 4 legoas.
+
+Morros, 20 de Março de 1866.
+
+
+III
+
+Exploração á margem direita do rio Aquidauana
+
+
+A necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios e reconhecermos a
+margem direita do rio Aquidauana e seus diversos portos que derão
+passagem aos paraguayos, na invasão do anno passado, fez-nos emprehender
+nova viagem, effectuando a nossa partida para aquelles pontos, no dia 24
+do mez proximo passado. Seguindo ás vezes a base da serra que viemos
+fraldejando, desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e
+profundas depressões, visitámos a 7-{1/4} legoas de nosso ponto de
+partida o acampamento dos laianas, onde apenas encontrámos 20 homens em
+estado de pegar em armas, e viveres em quantidade insufficiente, até
+para sustento proprio.
+
+No aldeamento do Oauassú, a 3 legoas do outro, ha igual carencia de
+mantimentos e só 9 indios para augmentarem o contingente, que dá a tribu
+dos quiniquináos. Tomando d'ahi rumo S., procurámos o Aquidauana, indo
+acampar junto á sua margem direita que, desde então, seguimos até a
+tapera do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.
+
+Achão-se junto á borda do rio, que margeámos, differentes casas
+abandonadas por occasião da entrada dos paraguayos, as quaes tem cada
+qual a sua passagem para o outro lado e porto no rio.
+
+Assim são os portos do Canuto, até onde chegou uma partida inimiga vinda
+do Taquarussú, de João Dias, Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que
+vão apontados no reconhecimento topographico. Examinando cada um d'elles
+com cuidado, para indicarmos a passagem mais conveniente para a força,
+pareceu-nos o porto de D. Maria Domingas o que satisfaz a todas as
+condições precisas. É o unico que dá váo em toda a extensão (30 braças)
+com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando assim não só a passagem da
+infantaria, como tambem o serviço das barcas, que será feito com muito
+mais presteza, tocadas e puxadas á mão.
+
+Além d'isto a força, occupando a margem esquerda, corta a communicação
+entre o entrincheiramento do porto do Souza e o do Espenidio e impede
+qualquer movimento de concentração que os inimigos procurem fazer. Do
+largo da Piranhinha deverão as forças dirigir-se para o porto de D.
+Maria Domingas, tendo á frente um bom pratico d'estas localidades, caso
+não seja tomada outra determinação.
+
+D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda contão-se 4 legoas de
+trilha completamente secca e, a não querer cortar campo, é d'elle que
+partem caminhos para Miranda, Forquilha, Nioac, etc.
+
+
+Do porto de D. Maria Domingas ao Eponadig 4 legoas
+Do Eponadig á Forquilha 7 »
+Da Forquilha a Nioac 10 »
+ ---
+Do porto a Nioac 21 »
+
+
+Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza, occupados pelos
+paraguayos, fórmão uma linha que fecha em circulo a villa de Miranda;
+razão por que foi ella abandonada e queimada, reforçando-se os pontos
+estabelecidos em derredor. Assim pois a retirada de Miranda não tem
+significação de evacuação de forças, parecendo, pelo contrario, dever
+indicar a tenção de melhor defender o territorio, em que se achão e que
+fechárão por um cordão de destacamentos desde o Apa até o Souza.
+
+A este ultimo ponto não podémos chegar, pois que um desencontro na
+remessa de cartuxos, que tinhamos requisitado do Illm. Sr. tenente
+coronel Albuquerque, obrigou-nos a não effectuar este reconhecimento
+arriscado e que só póde ser feito á mão armada, pela vigilancia que,
+sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mandámos comtudo uma
+partida de indios[122] reconhecer, de dentro da mata, a estacada e,
+apezar de seus habitos e habilidade na espionagem, não podérão passar
+além do piquete que, como já participámos, existe entre o rio e o
+entrincheiramento. Este piquete compõe-se de 10 a 12 praças, que se
+achavão montadas em burros (o que indica a falta de cavallos) para
+cercarem as rezes que conservão, encostadas á margem do rio, para o
+consumo. Na frente ha uma bandeira vermelha, junto a um _mangrulho_,
+d'onde uma sentinella devassa grande extensão de terreno.
+
+(Os paraguayos chamão _mangrulho_ a uma guarita elevada sobre 2 ou 4
+esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a vista se estende muito ao longe).
+
+Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4 legoas de marcha ao
+porto do Jatobá, que dizem ser vadeavel, depois de um pequeno nado e que
+dista do Souza, pela margem esquerda, 2-{1/2} legoas.
+
+Em geral todas as trilhas achão-se apagadas pelo muito capim e falta de
+transito: devem ser preparadas quando a força tiver de dirigir-se ao
+porto escolhido para a sua passagem.
+
+Distancia que percorremos 23 legoas.
+
+
+CONTINGENTE PARA A FORÇA OPERADORA
+
+_Guarda nacional._--Segundo as informações, que nos prestou o Illm. Sr.
+tenente coronel Albuquerque, commandante do batalhão n. 7 da guarda
+nacional, existem 85 praças mal armadas e sem fardamento e poucos
+officiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para diversos pontos
+longinquos d'esta provincia. Achão-se os guardas espalhados n'uma larga
+zona e são elles os que preparão a maior quantidade de mantimentos, o
+que deve ser attendido por occasião de sua reunião que desfalcará, pela
+falta de braços, o numero de alqueires de mantimentos com que poderia a
+força contar.
+
+Estão tambem qualificados guardas nacionaes indios quiniquináos e
+terenas que melhores serviços prestarião englobados nas suas respectivas
+tribus, como por exemplo o indio José Pedro, capitão dos terenas, que
+deve ser conservado á frente de sua gente pelo respeito que tem sabido
+infundir e obediencia que lhe prestão os seus companheiros.
+
+A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro do anno passado, junto
+ao capão dos Boritys, tendo-se ahi reunido 66 praças desarmadas, que
+forão licenciadas para cuidarem em roçados e plantações. Existe algum
+cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos cartuxos
+deteriorados e inserviveis.
+
+
+_Indios._--Informações frescas colhidas do Sr. João da Costa Lima, que
+chegou das aldêas além Aquidauana, dão-nos os meios de apresentar o
+total de indios que, além dos guaycurús, cujo capitão Nadô consta vir-se
+apresentar com toda a sua tribu, poderá coadjuvar a força.
+
+
+Terenas 216
+Quiniquináos 39
+Laianas 20
+ ---
+ 275 homens.
+
+
+Estes indios mostrão a melhor disposição, offerecendo-se com
+espontaneidade e servindo com toda a dedicação, como verificámos nos
+nossos ultimos reconhecimentos. Achão-se muito atemorisados com a
+chegada da força, pois que repetidas ameaças dos fazendeiros, refugiados
+aqui e em outros lugares, por causa das rezes que elles são obrigados a
+matar para a sua alimentação, tem incutido o temor de que as forças
+virão escravisal-os e tratal-os com todo o rigor da guerra. Procurámos
+tranquillisar esta pobre gente que, nos calamitosos mezes de invasão,
+portárão-se com moderação não natural na esphera e condição em que
+vivem.
+
+Os _cadiuéos_, inimigos figadaes dos paraguayos, não merecem confiança
+alguma e têem, em varias occasiões, causado tantos damnos aos
+brasileiros como aos inimigos.
+
+
+RECURSOS
+
+Insistindo ainda sobre a importantissima questão de fornecimento e
+acquisição de gado, que se tem tornado muito difficultoso, depois da
+peste dos cavallos, levámos ao conhecimento do commando das forças a
+falta absoluta de cavalhada desde o Coxim até os Morros, onde os
+fugitivos de Miranda se achão desprovidos de carne para sustento
+proprio, pela destruição completa de todos os animaes, desde Dezembro do
+anno passado. O tenente coronel Albuquerque indica os cidadãos, de que
+fallámos na nossa ultima participação, prestando-se-lhes os meios para
+munirem-se de cavallos.
+
+Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos, que se podem
+obter dos habitantes dos Morros, devem ser addicionados mais 45 de
+arroz, e de cangica 22. Ponderamos comtudo de novo que o chamamento dos
+guardas nacionaes ao serviço das armas, deve diminuir a quantidade de
+viveres indicada n'aquelle mappa, por não se achar a colheita concluida,
+e pertencerem quasi todos os seus possuidores á guarda nacional. A
+requisição que, segundo as nossas instrucções, fizemos de homens para a
+construcção de canôas no rio Negro, impossibilita varios cidadãos de
+promptificarem os mantimentos que tinhão promettido.
+
+Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra que poderião
+mandar viveres para as forças no districto de Miranda, apontárão-nos a
+villa de Santa Anna do Paranahyba, que dista de Camapuam 60 legoas,
+ficando este ultimo lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da
+villa de Miranda; por agua fallárão-nos na communicação muito frequente
+antes da invasão, entre Porto Feliz, em S. Paulo, e o acampamento de
+Nioac, descendo canôas carregadas os rios Tieté e Paraná, e subindo o
+Ivinheima e Brilhante até Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegavão
+carros a Nioac. Esta viagem, que fazião em 4 mezes, ida e volta, póde
+fornecer abundante provimento ás forças no caso de sua demora no
+Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese possivel e dever
+cuidar-se quanto antes na reunião de viveres que, de mais á mais, hão de
+tornar-se escassos em territorio devastado e sem recursos.
+
+
+MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANA
+
+Guiando-nos pelas nossas participações anteriores, que aconselhão a
+marcha das forças do Coxim nos primeiros dias de Maio, requisitámos a 6
+do corrente 12 guardas nacionaes e indios para irem construir barcos
+para a passagem da expedição.
+
+Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel commandante,
+estão-se reunindo as praças pedidas, faltando completamente toda a
+especie de ferramenta. Estes homens, como melhores trabalhadores, são os
+que preparão a maior quantidade de mantimentos para a força, não se
+achando ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo não tem
+meio algum de conduzir viveres que cheguem para alimentação, durante o
+mez necessario de parada n'um local totalmente falto de recursos como é
+o rio Negro. Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes
+guardas, requisitando mais 12, á vista das instrucções que nos mandão
+preparar meios de passagem nos differentes rios, para o trabalho que
+temos de fazer nas canôas que servirão no Aquidauana.
+
+Para este ultimo rio deverão subir as canôas do tenente coronel
+Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro, ficando nós aqui para
+mandarmos preparar, com uma serra e um machado, taboas e barrotes que
+formarão as barcas na occasião da approximação da força, pois que
+qualquer trabalho precipitado póde ser inutilisado pelo inimigo, o qual
+parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente as margens do rio.
+
+Força maior nos impede de acompanhar os homens que vão ao rio Negro:
+levarão para dirigil-os um official carpinteiro habilitado na factura
+das canôas. Para guia das forças até o Aquidauana recommendamos denovo o
+pratico Antonio Maria Tonhá, homem utilissimo por conhecer perfeitamente
+os caminhos e campos por onde se possão abreviar as marchas e saber dos
+lugares onde existão boas aguadas.
+
+Para Miranda e Nioac há n'esta localidade muitas pessoas proprias para
+servirem de guia.
+
+
+DISTANCIAS ALÉM DO AQUIDAUANA
+
+
+Do porto do Souza a Miranda 10 legoas
+De Miranda ao Eponadig 9 »
+Do Eponadig á Forquilha 7 »
+Da Forquilha a Nioac 10 »
+ ---
+Do porto do Souza a Nioac 36 »
+
+
+FORÇA INIMIGA
+
+Duas extensas cartas, cuja integra remettemos, que recebêrão os
+moradores d'este lugar do cidadão João Barbosa Bronzique, prisioneiro
+dos paraguayos em sua fazenda, desde o anno passado, derão-nos
+informações do estado a que se achão reduzidos os inimigos e da força
+espalhada em diversos pontos: tem elles nas colonias de Dourados e
+Miranda 100; no Brilhante 100; Sete Voltas 10; Vaccaria 100; Agua fria
+30; Nioac 500; Taquarussú 200; Porto do Souza 200. Ao todo 1,240 homens,
+a que se devem acrescentar os 50 de Miranda que vierão para o Espenidio
+e Souza e outros que existem junto do Apa e morro do Canastrão, onde
+possuem boa cavalhada. Desde o Porto do Souza até o de Maria Domingas,
+os paraguayos têem ultimamente lançado fogo a todos os campos e
+desbastado as margens, parecendo ter assim conhecimento dos proximos
+movimentos de nossa força.
+
+Morros, 16 de Abril de 1866.
+
+
+
+
+Notas:
+
+
+[1] Tacoára hy, (tupi).
+
+[2] Não é o _marmeleiro_ de que trata Saint-Hilaire, sob o nome de
+Maprounea brasiliensis (euphorbiacea).
+
+[3] Temos o desenho d'ella no album de viagem. Folhas oppostas; corolla
+monopetala com um labéolo; antheras didynamas; ovario sobre disco
+hypoginio. Flôr com 2-{1/2} pollegadas de comprido; Stygma bipartido.
+
+[4] Folhagem muito delicada; folhas tomentosas e ovario livre; sementes
+ovoides.
+
+[5] Em fórma de colher (cochlear).
+
+[6] Calophyllum brasiliense, (Saint-Hilaire). Oanandim, lantim ou
+olandy; excellente páo para canôas.
+
+[7] As folhas d'esta planta são muito desenvolvidas. No corrego da
+Pontinha (a 8 legoas de Camapuan) vimos algumas com um palmo de largura
+e palmo e meio de comprido, lustrosas e completamente glabras.
+
+[8] _Acacia maleolens_ de Freire Allemão.
+
+[9] É conhecido nos sertões do norte por _cajueiro bravo_ ou melhor
+_çaimbahiba_ (_çaimbé_ aspera, _yba_ arvore). Curatella çaimbahiba.
+(Saint-Hilaire).
+
+[10] Bority ou mority.--Do tupi, _mooro_, nutrir, _ty_, succo.
+(_Mauritia vinifera_. Mart. _flexuosa_. Lin.)
+
+[11] A 6 legoas do rio Piquiry; _picá_, pomba; (r) _hy_, agua (L. T.)
+
+[12] Esta palavra derivada do tupi (_caa-poam_, ilha) é com razão
+geralmente empregada em todo o Brasil.
+
+[13] O sertanejo Perdigão.
+
+[14] Fourcroya gigantea.
+
+[15] _Gua_, baga; _yrob_, acre (lingua tupi). Psidium _Vell_.--Eugenia
+_Mart_.
+
+[16] Familia entre as rosaceas e magnoliaceas.
+
+[17] Autor do poema _La Gastronomie_, publicado em 1800.
+
+[18] _Amaca_, rede; _yva_, arvore (lingua tupi).
+
+[19] Ara Ararauna (especie particular aos sertões de Goyaz e Mato
+Grosso).
+
+[20] Ara Aracanga.
+
+[21] Ara Hyacinthinus (Descourtils).
+
+[22] _Crypturus noctivagus._ Começa a piar apenas descamba a tarde.
+Martius chama-a _tinamus_ nocturna. Em algumas partes do imperio é
+conhecida por _sabelé_. [23] Os banhos das folhas d'esta plantinha são
+efficassissimos nas orchites. (Davilla elliptica, Saint-Hilaire).
+
+[24] Sapindus (Saint-Hilaire).
+
+[25] Lugares empantanados, pascigos do gado.
+
+[26] Em lingua tupi quer dizer _páu de cajú_ (mara-cajú). Segundo alguns
+_cascavel ao pé_ (maracá jub) da serra. (Glossario).
+
+[27] Toda audacia é permittida em hypotheses. Impressionárão-nos, de
+passagem, sem estudo, aquellas linhas que correm parallelas por muitas
+legoas. Serão na realidade indicação do que acima tocámos, ou
+simplesmente effeitos de infiltrações vagarosas em estratificações,
+erosões, etc.?
+
+[28] Amambahy ou Ambaibahy--_Hy_, agua.--_Ambaiba_ ou _embauba_
+(urticacea do genero Cecropia). Castelnau dá á porção de serra, que
+conhecemos, o nome muito apropriado de serra da Chapada: entretanto
+nunca o ouvimos nas localidades, onde os moradores usavão só da
+denominação de Maracajú.
+
+[29] Na provincia de Minas chama-se _paratudo_ a uma
+amaranthacea,--gomphrena officinalis. A causa do paratudo (bignoniacea)
+tem grandes propriedades febrifugas e sudorificas.
+
+[30] Os indios Guanás o chamão _namuculí_.
+
+[31] Esta arvore, _hymenæa_, abundantissima no rio Negro, ia-se tornando
+cada vez mais rara. Os seus fructos, quando maduros, são supportaveis e
+muito nutrientes: os nossos soldados, no acampamento do rio Negro,
+sustentavão-se quasi exclusivamente d'elles.
+
+[32] Contracção de ipé, uva (arvore).
+
+[33] O que, no interior do paiz, se chamão tijucaes, palavra brasileira
+tirada da lingua tupi, _tyjuca_ (lama). Usa-se tambem muito do verbo
+_entijucar_ por enlamear.
+
+[34] _Mureci penina_ ou pintado. Em Mato Grosso assim chamão o mureci do
+pantano. Será com certeza--chrysophylla--a especie? Em todo caso, o
+genero é _byrsonima_, bem caracterisado. Com ser malpighiacea, vêm-se os
+pares de glandulas bem apparentes; ás vezes desenvolvidas em extremo, em
+cada sepala. Do fructo do _mureci_, diz com justeza Pison:--Fructus
+maturi gratissimi quidem acore pulatum vellicant, sed stuporem tandem
+dentibus inferunt simulque astringendo intensè refrigerant. (De
+facultatis simplicium Lib. IV).
+
+[35] Em Mato-Grosso quasi todos pronuncião esta palavra grave.
+
+[36] Ciconia Maguari (G. Temm).
+
+[37] Vimos nas _mimosaceas_ dos barreiros myriades de _vira-bostas_,
+(Icterus violaceus, Desc.); _encontros_ (Xanthornus tristis, Desc.) e
+_anús_ (Crotophaga, Marcgravio).
+
+[38] Cateitus (dicotyles torquatus) e porcos do mato (dicotyles
+labiatus).
+
+[39] Na bahia Negra, abaixo do porto de Coimbra. A proporção de sal para
+a terra era, n'um alqueire de mistura, tres quartas partes.
+
+[40] As salinas da margem direita do rio Paraguay são muito mais ricas
+em sal, do que as da margem esquerda. Antes da invasão, havia prohibição
+de tirar-se sal da bahia Negra, por estar o barreiro em territorio
+contestado entre o Brasil e a republica do Paraguay.
+
+[41] Na margem esquerda do rio Paraguay, defronte de Corumbá.
+
+[42] É palavra geralmente usada nas fazendas de gado.
+
+[43] Devida a uma intoxicação paludosa.
+
+[44] Aspidosperma.
+
+[45] Os nossos amigos os Srs. tenente João Faustino do Prado e João
+Mamede Cordeiro de Faria.
+
+[46] _Caapi-iára_, dono do capim (Gloss.). Com mais razão, diz Gonçalves
+Dias _capi-uara_, derivando uára de goára (habitante que mora, em
+determinada parte, por vontade propria). Das capivaras, diz Marcgrav com
+exageração notavel:--Noctu ingentem clamorem excitant et horribile fere,
+ut Asini solent.
+
+[47] Vanellus cayennensis (Vieill.).
+
+[48] Em Agosto, deviamos de apreciar a magestosa florescencia d'aquellas
+bignoniaceas; _ipés_, Tecoma speciosa Vall., _para-tudos e carobinhas_
+(jacarandá procera) ostentavão então massiços amarellos e azues da maior
+belleza.
+
+[49] Obteve em fins de 1867 esta distincção e em Janeiro do anno
+seguinte falleceu na cidade de S. Paulo, onde se achava, depois de uma
+viagem ao Rio de Janeiro, com alguns de sua tribu.
+
+[50] _Pery_, junco (tupi).
+
+[51] Desde Maio de 1865 não fazião senão raras incursões, na margem
+direita do rio Aquidauana.
+
+[52] Denominação indigena do rio Miranda ou Embotety e Embotetiú, das
+palavras, _enimbo_ laço, _tui_ periquito--laço para piriquito. Tambem
+tem nome de Aranhahy, Guaxihy e alguns escriptores portuguezes lhe dão o
+de Mondego, ainda que pareça este só convir, depois da confluencia com o
+Aquidauana.
+
+[53] Uma carta de João Barbosa Bronzique, prisioneiro dos paraguayos, em
+sua fazenda do Bonito, deu noticia d'essa prohibição devida, ao que elle
+suppunha, aos ataques repetidos dos indios, que se occultavão nas matas
+do lado direito do rio.
+
+[54] Ilex congonha, familia das Illicineas (Aquifoliaceas de de
+Candolle). Das congonhas fazem os habitantes uma agradabilissima
+infusão.
+
+[55] _Cama_ mama, _apuam_ redonda (tupi).
+
+[56] Os oauassús, chamados pelos guaycurus _chatellôd_, são as
+magestosas palmeiras de que já temos fallado: os grupos que ellas
+fórmão, são imponentes. Os troncos lisos, ligeiramente engorgitados na
+base, as cópas erectas e compridas folhas, com um prateado fugaz, as
+distinguem de muito longe. Os côcos de bom tamanho dão amendoas com o
+valor approximado ás da Bahia e constituem durante certas épocas a
+alimentação quasi exclusiva dos indios. Pelo systema phyllotaxico,
+preconisado pelo professor Agassiz, a fracção 1/3 representa a
+disposição das folhas, occupando os intervallos, as espadices da
+inflorescencia. Assemelhão-se os oauassús ás magnificas _oreodoxas_, tão
+em moda no Rio de Janeiro: Martius deu-lhes o nome de _attalea
+spectabilis_. Em lingua tupi significão folha grande: _oau_ ou _oba_
+folha, _assú_ grande.
+
+[57] O laiana pertence á numerosa familia chané: a sua linguagem é a
+mesma que a dos quiniquináos, terenas e guanás com algumas alterações:
+os seus costumes identicos. O seu typo é caracteristico; a physionomia
+muito menos expressiva que a do terena e menos delicada que a dos
+quiniquináos; elles têm o nariz afilado, ás vezes pontudo, os olhos
+algum tanto divergentes, os labios finos e apertados.
+
+As suas plantações consistião em arroz, milho, feijão; porém as chuvas
+falhadas impedião que ellas tivessem aspecto satisfactorio; por esta
+razão, não podérão os seus possuidores prometter cousa alguma para as
+forças.
+
+[58] O corrego da _Pontinha_, perto de _Camapuam_, é uma das cabeceiras
+mais afastadas.
+
+[59] _Uacôgo_, corrego dos Couros (guaycurú).
+
+[60] As _aracuans_, Penelope aracuan (Spix.), são aves de plumagem
+escura, pernas curtas, bico preto e forte. É caça procurada pela alvura
+e sabor da carne. Este passaro offerece uma particularidade singular.
+Quando um grita, é logo acompanhado por todos os companheiros, de modo
+que, por qualquer ruido, levanta-se grande alarido em ambas as margens,
+o qual vai-se propagando e crescendo. É muito applicavel o--_Vires
+acquirit eundo_.
+
+[61] Esta ave conhecida tambem por _inhuma-póca_ canta com regularidade,
+de modo que, dizem, póde marcar as horas e tambem annunciar mudanças de
+tempo. Tem como a _palamedea cornuta_ excrescencia na cabeça. Marcgravio
+diz do canto: Terribilem clamorem edit--_vihu vihu_--vociferando.
+
+[62] O _tuyuyú_ (micteria americana) é a maior das aves ribeirinhas:
+todo branco com uma colleira vermelha, tem um bico longo e tubulado.
+Nutre-se de peixe e anda no lodo das bordas de rios. A sua altura, fóra
+o pescoço, é de 1, m. 2.
+
+[63] O _tabuyayá_ (ciconia maguari) é maior que a garça; tem azas pretas
+malhadas de branco: o bico e pernas compridos. Em guarany chama-se
+baguary (Martius).
+
+[64] Na nossa passagem do Aquidauana, um soldado foi arrebatado por um
+jaù.
+
+[65] Pison diz com razão da carne: «Edulis non solum caro ejus
+albissima, sed quod friabilis et sicca optimi saporis».
+
+[66] Familia dos Aproterodontes--Gen. boa--Esp. murina (Principe de
+Neuwied e Sellow): boa scytale (Lin.) Estas serpentes apparecem raras
+vezes nos affluentes do rio Paraguay, ao passo que abundão nos do rio
+Paraná. O grito d'ellas, ê, dizem, estridente. Nunca ouvimos esse ronco
+de que tanto se falla no sertão.
+
+[67] Entre as absurdas historias, tocantes a essas serpentes, sobresahe
+a referida por Charlevoix, na sua historia do Paraguay, o qual diz que
+os sucurys se atirão sobre as mulheres com outro fim, que não o de
+devoral-as e cita o testemunho do padre Montoya que confessára, em certa
+occasião, uma india _in extremis_: «laquelle étant occupée à laver du
+linge sur le bord d'une rivière, avait été attaquée par un de ces
+animaux, qui lui avait fait, dit elle, violence: le Missionaire la
+trouva étendue par terre au même endroit, etc.»
+
+[68] Relatorio geral da commissão de engenheiros (pag. 22 e 31).
+
+[69] Spix chama-o _pacú-argenteus_, não sabemos se com razão; o pacú
+pouca semelhança tem com o corimbatá.
+
+[70] Contra ella tambem bate o rio Aquidauana, formando uma curva
+apertadissima. Além, no outro lado, eleva-se o _Morro Azul_, seguindo de
+novo a serra até Nioac e para os lados do Apa; baixa, porém, e com
+disposição de morretes.
+
+[71] Citaremos uma lindissima _apocynea_ (nerium?), varias _salvia_, a
+_ardísia_ (_Ardisacea_), a curiosa _aristolochea galeata_, que se
+enrosca nos mais flexiveis encostos; a fragrante _saudade_ do campo
+(scabiosa-dipsacea), hyptis (labiadas), _malpighiaceas_ rasteiras com
+cambiantes samaridios, a vistosa _gomphrena officinalis_ (o para-tudo de
+Minas) _malvaiscos_, etc.
+
+[72] Erão os restos da abundantissima colheita paraguaya; esses campos,
+poucos mezes antes, havião contido muitos milhares de rezes. O districto
+de Miranda possuia 150,000 cabeças de gado: d'essas, segundo o
+testemunho de vista de João Barbosa Bronzique, o infeliz prisioneiro de
+que já temos fallado, 60,000 passárão para a republica do Paraguay em
+varias pontas e ainda no tempo em que viajavamos pelo Aquidauana
+continuavão amiudadas as remessas. A carne do gado d'essas vargens è
+saborosissima.
+
+[73] Palavra tupi, usada geralmente: significa _casa abandonada_.
+
+[74] Momordica operculata (Velloso), charantia.
+
+[75] Quasi todos os habitantes de Miranda fugírão embarcados, descendo o
+rio Miranda, entrando no Aquidauana e subindo por este até perto do
+porto do Souza. Ahi se refugiárão nas fragosidades da serra de Maracajú
+(Morros); alguns tomárão caminho de Sant' Anna do Paranahyba. A villa
+ficou deserta a 4 de Janeiro de 1865: a 12 entrárão os paraguayos que
+n'ella estiverão até fins de Fevereiro d'aquelle anno.
+
+[76] Das outras tribus que refere Castelnau, não ouvimos fallar. Talvez
+estejão extinctas ou confundidas com estas.
+
+[77] Tanga, avental.
+
+[78] Muito aprecião o _tarumá_ (Vitex montevidensis) que em Dezembro de
+1866 constituia a principal alimentação da gente quiniquináo dos Morros.
+
+[79] Bixa orellana.--Genipa americana.
+
+[80] Léry faz esta justiça ás indias em geral, quando diz: «qu'á toutes
+les fontaines et rivières claires, qu'elles rencontrent, s'accroupissans
+sur le bord ou se mettans dedans, elles jettent, avec les deux mains de
+l'eau sur leur teste et se lavent et plongent ainsi tout leur corps
+comme cannes, tel jour sera plus de douze fois» (Histoire de l'Amérique,
+pag. 128).
+
+[81] Quasi todos os nomes de lugares e rios do districto de Miranda são
+de origem guaycurú.--_Euagaxigo_, significa bando de capivaras;
+_Eponadigo_, bando de trairas; _Lauiád_, campo bello; _Nioac_, clavicula
+quebrada.
+
+[82] Esses lindissimos lugares forão explorados a vez primeira pelo
+intrepido sertanejo José Francisco Lopes, o qual encontrou, n'uma de
+suas viagens, uma numerosa partida de cadiuéos, que o acompanhou até
+terras do Paraguay.
+
+[83] Palavra guarany que significa Nosso-Senhor. Os terenas usão d'esse
+vocabulo. Os outros guanás dizem _Ech[-a]i-uanuké_ (que está no céo).
+
+[84] Herpethoteres. Azara chama _Macaguá_: alguns _acauan_ ou _oacaoam_.
+
+[85] O mesmo fazião os medicos entre os guaranys (Padre Loçano).
+
+[86] Não sabemos se deve merecer fé o que diz Castelnau sobre
+assassinatos dos padres.
+
+[87] O mesmo dava-se entre os padres dos guaranys (Padre Montoya).
+
+[88] Léry diz dos tupinambás:--«Ils lamentent de telle façon, que si
+nous nous trouvions en quelque village où il eust un mort, ou il ne
+fallait pas faire éstat d'y coucher, ou ne se pas attendre de dormir la
+nuit. Mais c'éstait merveille d'ouyr les femmes, lesquelles braïllent si
+fort et si haut que vous diriez, que ce sont hurlemens de chiens et de
+loups» (Histoire de l'Amérique, pag. 392).
+
+[89] Léry refere: «Si elles se ressouviennent de leurs feus parents, ce
+sera, faisant les regrets accoutumez, á hurler de telle façon, qu'elles
+se font ouyr d'une demi-lieue (H. de l'Amérique, pag. 400).
+
+[90] A que chamão na provincia _lavrados_.
+
+[91] Principalmente o _timbó_ (paullinia pinnata) que tem violentas
+propriedades toxicas.]
+
+[92] Batem-se a punho secco, ainda mais geitosamente que os albiões (M.
+Ayres de Casal C. B. pag. 234).
+
+[93] Todo o homem branco, pardo ou preto, é portuguez; os indios nunca
+usão da denominação de brasileiros: os paraguayos são ainda para elles
+castelhanos.
+
+[94] Temos por vezes usado d'essa denominação de uma das tribus da nação
+chané, como que abrangendo a todas as outras, porque no districto de
+Miranda conhecem-se todos os indios chanés por guanás. Entretanto
+perguntando eu, certo dia, a um terena se elle era guaná: _Acó chooronó,
+chané cuané téreno enómone_; guaná não, chané ou terena na verdade
+(litt.).
+
+[95] Esta tribu habitou primitivamente quasi toda junta á serra chamada
+do Chané, no lado direito do rio Paraguay, acima da do Albuquerque,
+dando a cordilheirasinha o nome da nação a que pertence? Ou lá esteve
+toda a nação? Nas minhas notas encontro ainda uma confirmação de que a
+denominação de chané, é valiosissima. Disse-me um quiniquináo:
+_Humn[-a]i quechatí cequexivó nhumzó chané?_ O senhor quer aprender a
+minha lingua chané? e acrescentou: _Encre nhumzó acó ocohocorí
+iaquexovói chané_. Pois minha lingua não custa aprender o chané
+(litteralmente). Ao illustrado viajante Henrique de Beaurepaire Rohan
+não escapou esta particularidade importante.
+
+[96] O ultimo accento é o tonico: os outros modificão o som das vogaes.
+
+[97] Os dois _l_ soão claramente.
+
+[98] Os laianas dizem _moreví_, como em guarany.
+
+[99] Na lingua tupi _paraguá_, papagaio; d'onde _paraguá hy_, rio dos
+papagaios.
+
+[100] Castelnau no seu inexactissimo vocabulario _guaná_ exprime esta
+palavra por _ann[-a]iti_ que significa _grande_, ignorando a sua
+qualidade de adjectivo, o qual vai modificar _piritáo_, faca. Não merece
+confiança a traducção dos outros vocabulos.
+
+[101] Os indios chamavão-me _ungê-maracaiá_, olho de gato. Os guaranys
+dizem _mbaracaiá_; na lingua tupi _maracayá_ ou _maracajá_.
+
+[102] Talvez se devesse escrever _ingâchá-á_: em todo o caso não se
+pronuncia claramente o _in_, fazendo só soar o _g_, arrastando-o.
+
+[103] A palavra é esdruxula: não sabemos porque se a pronuncia grave.
+
+[104] _Mámá_ em lingua caiuá, muito approximada ao guarany, senão o
+proprio.
+
+[105] Os _h_ são todos aspirados com energia.
+
+[106] _Noné capací_, cara de nuvem, era a antonomasia de um de nossos
+soldados, por causa da guedelha desgrenhada.
+
+[107] Este _j_ sôa, como em hespanhol, gutturalmente.
+
+[108] Significa _peixe de rabo de sangue_ (vermelho).
+
+[109] Quer dizer _piolho de cão_.
+
+[110] Vê-se claramente que quiniquináo é alteração da palavra india.
+
+[111] Os nomes de peixes são, como este e muitos outros, guaycurús.
+
+[112] Esdruxulo, quando em portuguez é grave.
+
+[113] Os quiniquináos dizem _pahapáti_.
+
+[114] Observa-se a irregularidade de formação. São novas palavras.
+
+[115] Esta palavra é de mui difficil pronuncia. Nunca a podêmos escrever
+conforme a ouvimos.
+
+[116] Além de tres dizem _tápuia_ muito, ou _opôicoati_. Para marcarem
+épocas, serve-lhes a florescencia do _para-tudo_. Um indio disse-nos:
+«Já o para-tudo deu flôres duas vezes e os castelhanos ainda estão em
+Miranda».
+
+[117] Os imperativos, que elles empregão muito, terminão quasi todos em
+_ca_, exemplo: _iticá_ faze, _tetucá_ corta, _nicá_ come, _angicá_ lava;
+dos verbos _ittuketi fazer_, _tetocoti cortar_, _ningá comer_,
+_angicóati_ lavar.
+
+[118] Litteralmente _unati_ bom, _niké_ comida. _Cuati_ deveras,
+_echoti_ sabe, _itucoati_ fazer, _nica_ comida, _ienó_ sua mulher.
+
+[119] Tambem diz-se _emó_? quem sabe?
+
+[120] Tomámos para estimativa da distancia vencida a média, em diversas
+observações, do tempo gasto por um animal carregado em percorrer uma
+certa extensão medida; sendo a unidade o minuto que achámos
+correspondente a 30 braças, 355.
+
+[121] O rio pareceu-nos profundo e suppomos nunca poder dar váo bom á
+artilharia e cargueiros.
+
+[122] Commandada pelo capitão José Pedro de Souza, o qual sempre se
+prestou a coadjuvar-nos efficazmente em todos os nossos trabalhos.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +-----------+--------------------------+-------------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +-----------+--------------------------+-------------------------+
+ |#pág. 15| ininvejavel | invejavel |
+ |#pág. 20| nás difficuldades | nas difficuldades |
+ |#pág. 23/24| estimativativa | estimativa |
+ |#pág. 81| Pararaguay | Paraguay |
+ |#pág. 113| abuntante | abundante |
+ |#pág. 128| fequentemente | frequentemente |
+ |#pág. 130| syllada | syllaba |
+ | | | |
+ |#nota 52| escriptores. portuguezes | escriptores portuguezes |
+ +-----------+--------------------------+-------------------------+
+
+Quando há indicações de data em que o ano não se encontra completo, optámos
+por apresentá-lo como no original.
+
+Mantiveram-se versões da palavra Aquidauana, tais como Aquidauna.
+
+
+
+
+
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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+Project Gutenberg's Scenas de viagem, by Alfredo d'Escragnolle Taunay
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas de viagem
+ Exploração entre os rios Taquary e Aquidauana no districto
+ de Miranda : memoria descriptiva
+
+Author: Alfredo d'Escragnolle Taunay
+
+Release Date: September 2, 2010 [EBook #33611]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DE VIAGEM ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div>
+<div class="fbox"> <b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+exist&ecirc;ncia de erros tipogr&aacute;ficos neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Setembro 2010)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h2>SCENAS DE VIAGEM
+</h2>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h3>
+EXPLORA&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<h3>
+entre os rios Taquary e Aquidauana<br />
+
+no districto de Miranda.
+</h3>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>MEMORIA DESCRIPTIVA
+</h3>
+
+<h4>
+PELO 1&ordm; TENENTE D'ARTILHARIA
+</h4>
+
+<h4>
+Alfredo d'Escragnolle Taunay
+</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Engenheiro geographo,<br />
+
+bacharel em bellas letras pelo Imperial collegio de Pedro II,<br />
+
+bacharel em mathematicas e sciencias physicas,<br />
+
+official da Imperial ordem da Rosa,<br />
+
+condecorado com a medalha de campanha<br />
+
+das for&ccedil;as do sul de Mato-Grosso e ex-ajudante da
+commiss&atilde;o<br />
+
+de engenheiros junto &aacute;quellas for&ccedil;as.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 129px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<h4>
+RIO DE JANEIRO<br />
+
+Typographia&mdash;Americana&mdash;rua dos Ourives n. 19<br />
+
+<br />
+
+1868</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+Ao Illm. e Exm. Sr.<br />
+
+<br />
+
+Tenente-General Conselheiro<br />
+
+<br />
+
+</h4>
+
+<h3>Polydoro da Fonseca Quintanilha Jord&atilde;o<br />
+
+</h3>
+
+<h4>O. D. C.<br />
+
+</h4>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right;"><b>O Autor</b><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Exm. Sr. General.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tomo a liberdade de offerecer a V. Exc. estes apontamentos colhidos
+n'uma viagem trabalhosa e rodeada de perigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando eu a executava, o sentimento do dever era o meio seguro para
+achar menos arduas as contrariedades incessantes que me
+acommetti&atilde;o.
+A esse sentimento unia-se o desejo de corresponder &aacute;
+espectativa de minha
+familia e de meus chefes, cumprindo &aacute; risca as ordens que me
+havi&atilde;o sido
+dadas.
+<br />
+
+<br />
+
+A lembran&ccedil;a de V. Exc. me era presente n'aquelles momentos e
+desde
+ent&atilde;o formei a resolu&ccedil;&atilde;o de collocar
+debaixo de sua prestigiosa protec&ccedil;&atilde;o
+qualquer trabalho que emprehendesse sobre essa
+explora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje cumpro com uma divida.
+<br />
+
+<br />
+
+Assigno-me de V. Exc.<br />
+
+<h4>Muito respeitoso amigo e subordinado<br />
+
+<br />
+
+Alfredo d'Escragnolle Taunay.</h4>
+
+<br />
+
+Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 1867.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>PREFA&Ccedil;&Atilde;O
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Incumbido de uma explora&ccedil;&atilde;o importante n'uma zona
+de mais
+de cincoenta legoas, colhi os dados que ora apresento, procurando
+tomar notas minuciosas de tudo quanto pudesse interessar e
+coordenando-as
+desde logo, de modo que formassem com pouco custo
+um trabalho simples e despido de preten&ccedil;&otilde;es,
+por&eacute;m de alguma
+vantagem para novos e mais habilitados exploradores, fornecendo-lhes
+apenas uma base para futuros desenvolvimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Coube-me a felicidade de ter para companheiro n'essa viagem, o
+muito illustrado e digno engenheiro, o meu amigo Dr. Antonio
+Florencio Pereira do Lago, capit&atilde;o d'estado-maior de
+1&ordf;
+classe,
+cujo espirito eminentemente methodico e cultivado e cuja intelligencia,
+ornada dos mais preciosos dotes da alma, v&atilde;o-se tornando,
+felizmente para a nobre classe a que pertence, de dia em
+dia mais conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas crises, por&eacute;m, de uma peregrina&ccedil;&atilde;o
+atribulada, como a que
+fizemos, vi-o desenvolver qualidades que demonstr&atilde;o grande
+energia
+e sangue-frio, e que, servindo-me de proveitosa
+li&ccedil;&atilde;o, torn&aacute;r&atilde;o
+para mim a sua amizade ainda mais preciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Procurei tirar &aacute; minha narrativa o caracter official. Em
+muitas
+occasi&otilde;es n&atilde;o pude livrar-me da technologia
+scientifica; usei d'ella,
+com parcimonia, e, organisando um trabalho singelo, envidei
+esfor&ccedil;os
+para que fosse consciencioso e sobretudo veridico.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>SCENAS DE VIAGEM
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO I
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As for&ccedil;as destinadas &aacute;s
+opera&ccedil;&otilde;es no districto de Miranda,
+achav&atilde;o-se, desde o dia 20 de Dezembro do anno de 1865,
+acampadas na margem direita do rio Taquary, occupando,
+desde a confluencia d'este com o rio Coxim, uma extens&atilde;o
+de mais de legoa.
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre este local existira grande controversia; uns o
+apresentav&atilde;o como excellente ponto de
+esta&ccedil;&atilde;o para os
+nossos soldados, dando-lhe as honras de posi&ccedil;&atilde;o
+estrategica,
+outros, contrariando fortemente tal opini&atilde;o, fundados
+no conhecimento da localidade, tirav&atilde;o-lhe toda a
+importancia de que era revestido. Na realidade, o melhor
+possivel para a forma&ccedil;&atilde;o de uma colonia, como
+existe
+desde 1862 projecto, acha-se o ponto falto de todas as
+condi&ccedil;&otilde;es para ser considerado como militar,
+pronunciando-se
+a commiss&atilde;o de engenheiros contra a escolha d'elle,
+quando f&ocirc;ra consultada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span>
+Entretanto ahi pass&aacute;r&atilde;o as for&ccedil;as os
+mezes da esta&ccedil;&atilde;o
+pluviosa. Esta phase do anno, determinada claramente,
+durante o ver&atilde;o, nas provincias do interior do Brasil,
+come&ccedil;a geralmente a 8 de Setembro e vai, com mais
+ou menos regularidade, at&eacute; os fins de Abril. As enchentes
+e trasbordamentos de rios n'uma zona baixa e plana,
+como a de quasi toda a provincia de Mato-Grosso, s&atilde;o
+correspondentes
+a esta &eacute;poca chuvosa, formando-se, n'uma
+extens&atilde;o importantissima, um immenso terreno alagado,
+d'onde surgem, de quando em quando, alguns pontos firmes,
+devidos &aacute;s ondula&ccedil;&otilde;es dos campos.
+Entre o Coxim e
+a villa de Miranda estendi&atilde;o-se ent&atilde;o, impedindo
+a passagem
+at&eacute; a viajantes escoteiros, esses pantanaes que,
+chegando em certos <em>corixos</em> a dar
+nado, impossibilitav&atilde;o
+totalmente a marcha da expedi&ccedil;&atilde;o acompanhada por
+bagagem
+pesada e viaturas de artilharia.
+<br />
+
+<br />
+
+Achava-se assim, pela for&ccedil;a das circumstancias, detida
+a columna, bem que o commandante d'ella, o bravo coronel
+Galv&atilde;o, ardesse em desejos de come&ccedil;ar o trabalho
+de reoccupa&ccedil;&atilde;o do districto, ainda n'aquelle
+tempo todo
+em poder do inimigo. Por isso acolheu elle pressuroso
+as informa&ccedil;&otilde;es que
+fornec&ecirc;r&atilde;o alguns fugitivos da villa
+de Miranda, refugiados no Coxim, sobre a possibilidade
+de abrir uma trilha, que, seguindo a base da serra de
+Maracaj&uacute;, permittisse, pelo desvio dos pantanaes, a passagem
+at&eacute; o rio Aquidauana. F&ocirc;ra por ahi que se
+d&eacute;ra
+a fuga d'elles, havendo encontrado t&atilde;o s&oacute;mente
+pequenas
+difficuldades. Apressou-se pois o commando em ordenar
+que dous engenheiros seguissem a reconhecer aquelles
+terrenos, informando sobre a praticabilidade da
+via&ccedil;&atilde;o e
+<span class="pagenum">[11]</span>
+procedendo a uma explora&ccedil;&atilde;o cuidadosa d'aquella
+fralda de
+serra. Tocou-nos essa commiss&atilde;o sobremaneira penosa,
+em companhia do capit&atilde;o Lago.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 11 de Fevereiro f&ocirc;ra expedida a ordem; fizemo-nos
+prestes e, no dia 13, effectuou-se a nossa partida
+depois de melancolica despedida aos nossos companheiros,
+que deix&aacute;mos, com as for&ccedil;as, do outro lado do
+Taquary,
+onde devi&atilde;o demorar-se ainda perto de tres mezes.
+<br />
+
+<br />
+
+As difficuldades no fornecimento de viveres durante a
+estada no Coxim, reflecti&atilde;o-se dolorosamente na nossa
+matalotagem, onde s&oacute; viamos, em quantidade n&atilde;o
+muito
+satisfactoria, os generos da mais urgente necessidade.
+N&atilde;o tinhamos a preten&ccedil;&atilde;o de viajar
+como Nababos, nem
+possibilidade para isso; mas as provis&otilde;es, ainda quando
+para uma excurs&atilde;o n&atilde;o muito custosa, nos
+faltav&atilde;o de
+todo e antolhavamos horisontes de certo pouco risonhos.
+Com immensa d&oacute;se de resigna&ccedil;&atilde;o, o
+melhor dos provimentos
+para taes casos, partimos, escudados um no outro
+e estribados n'esse sentimento, natural em todos e
+eminentemente precioso, que constitue uma opini&atilde;o
+philosophica,
+uma seita; o optimismo. Partimos.&mdash;<em>Arcades
+ambo</em>, ou melhor&mdash;<em>milites
+ambo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de deixarmos o Coxim, talvez para sempre,
+algumas palavras; e sej&atilde;o ellas o nosso adeos, adeos
+sem saudades, apezar do seu magestoso Taquary<sup><a href="#n1">[1]</a></sup>,
+de
+sua verde mataria, de suas lindas gar&ccedil;as, de seu
+<em>facies</em>
+melancolico, de seu c&eacute;o puro e noites scintillantes que
+teri&atilde;o feito surgir em n&oacute;s poeticos sonhos, se o
+estomago&mdash;e
+<span class="pagenum">[12]</span>
+quantas vezes!&mdash;n&atilde;o reagisse dolorosamente
+com exigencias difficeis de satisfazer. A posi&ccedil;&atilde;o
+do Coxim
+&eacute; pitoresca,&mdash;salutar relativamente &aacute;
+zona em que
+se
+ergue esse torr&atilde;o&mdash;a
+vegeta&ccedil;&atilde;o bonita.
+Os terrenos patente&atilde;o
+superabundancia de ar&ecirc;a, alguma argila; s&atilde;o
+ondulados
+sensivelmente, elevando-se at&eacute; em outeiros que
+v&atilde;o
+se unir &aacute; grande cad&ecirc;a de Maracaj&uacute;, a
+qual, dez a doze
+legoas al&eacute;m, levanta-se ao longo do caminho do rio Negro.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto phytologico n&atilde;o &eacute; novo:
+continua&ccedil;&atilde;o dos
+<em>cerrados</em> de Goyaz, os quaes em
+occasi&atilde;o opportuna
+havemos procurado descrever, apresenta os arbustos que
+lhes s&atilde;o mais communs: muitas
+<em>myrtaceas</em>, das quaes
+uma, a <em>eugenia dysenterica</em>
+(cagaiteira) quando l&aacute; cheg&aacute;mos,
+curvava-se ao peso de seus lindos fructos c&ocirc;r
+de ouro; v&aacute;rias
+<em>malpighiaceas</em>, avultando o
+<em>mureci</em> (byrsonima
+verbascifolia) que tinha seu valor no mercado
+improvisado do Coxim, assim como o
+<em>piqui</em> (caryocar
+brasiliense) de Saint-Hilaire e a
+<em>marmelada</em><sup><a href="#n2">[2]</a></sup>
+que &eacute;
+da familia das <em>rubiaceas</em>. Com
+fl&ocirc;res vimos uma bellissima
+acanthacea<sup><a href="#n3">[3]</a></sup>,
+diversas <em>hyptis</em> e
+outras labiadas
+que resisti&atilde;o ao t&eacute;rmino da estac&atilde;o da
+florescencia. Muitas
+melastomaceas das tribus
+<em>lavoisiera</em><sup><a href="#n4">[4]</a></sup>
+(capsulas seccas) e
+<span class="pagenum">[13]</span>
+<em>osbeckia</em> (sementes cochleiformes<sup><a href="#n5">[5]</a></sup>)
+salpicav&atilde;o os prados,
+formando grupos com
+<em>aratic&uacute;s</em> (anonaceas) em
+monticulos,
+respeitados pelas aguas, onde sempre encontravamos um
+<em>ara&ccedil;&aacute;</em>
+rasteiro, de folhas largas. As
+<em>anonaceas</em> ahi s&atilde;o
+muito frequentes, chegando algumas vezes a attingirem a
+altura de grandes arbustos.
+<br />
+
+<br />
+
+Junto ao rio, como sempre, a vegeta&ccedil;&atilde;o
+&eacute; mais abundante
+e luxuriante: madeiras de construc&ccedil;&atilde;o, como
+<em>aroeiras</em>,
+<em>perobas</em>,
+<em>ip&eacute;s</em>, etc., muitas
+<em>figueiras</em>,
+<em>guanandys</em><sup><a href="#n6">[6]</a></sup>,
+etc, cor&ocirc;&atilde;o as
+barrancas que encan&atilde;o o rio.
+<br />
+
+<br />
+
+Na passagem para o outro lado apresenta o Taquary a
+largura de 70 bra&ccedil;as, ganhando em profundidade o que
+perde em superficie: ahi a velocidade &eacute; diminuta;
+&eacute; j&aacute;
+um curso importante que mansa e socegadamente obedece
+&aacute; lei da gravidade. N&atilde;o ha mais o
+buli&ccedil;oso movimento, o
+atirar louco, de encontro &aacute;s rochas, de alvos
+len&ccedil;&oacute;es de
+liquido, a precipitada corrente ao receber o Coxim, na
+confus&atilde;o
+das aguas; &eacute; a calma de quem n&atilde;o acha mais
+obstaculos
+que vencer; a tranquillidade do descan&ccedil;o. Comtudo
+no nado a que for&atilde;o obrigados os nossos pobres
+pachidermes, enfraquecidos pelas pessimas pastagens do
+local, essa correnteza levou-os a percorrer a diagonal de
+140 bra&ccedil;as, impossibilitando-nos longa viagem. N'esse dia,
+and&aacute;mos t&atilde;o s&oacute;mente um quarto de legoa
+at&eacute; o ribeir&atilde;o
+da Fortaleza, caminhando n'uma encosta elevada, coberta
+por <em>papilionaceas</em> rasteiras e mato
+baixo de <em>aratic&uacute;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+Este tributario do Taquary rola limpidas aguas sobre
+ch&atilde;o de alvacenta ar&ecirc;a, e, j&aacute; sobre
+tarde, pudemos distinctamente
+ver innumeros cardumes de
+<em>pirapitangas</em> e
+<em>corimbat&aacute;s</em> subirem contra
+a correnteza, descendo todos,
+ao alvorecer. Na margem direita uma lindissima
+<em>anonacea</em>,
+com folhas lustrosas e ramos pendentes, attrahia as
+vistas, surgindo com uma <em>cecropia</em>
+(embaiba) de um
+grupo de <em>melastomaceas</em> (rhexias<sup><a href="#n7">[7]</a></sup>),
+<em>solaneas</em> e
+<em>aratic&uacute;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+D'este ponto come&ccedil;&atilde;o os terrenos baixos: a
+barranca
+abrupta do ribeir&atilde;o, na margem esquerda, &eacute; o
+c&oacute;rte alcantilado
+do ponto firme que se chama Coxim; pelo outro
+lado n&atilde;o existe ribanceira; um ch&atilde;o plano, a modo
+de
+lezira, com ligeiras ondula&ccedil;&otilde;es, se estende quasi
+de nivel
+com as aguas, que, nas enchentes, com summa facilidade
+invadem grande extens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; noite, furioso furac&atilde;o a&ccedil;outou
+cruelmente as nossas
+barracas esburacadas: a nossa comitiva muito soffreu.
+Os soldados, sem abrigo, semi-n&uacute;s,
+support&aacute;r&atilde;o a inclemencia
+do tempo; junto a um fogo extincto que provavelmente
+os aquecia intencionalmente. Al&eacute;m de dous camaradas,
+acompanhav&atilde;o-nos seis pra&ccedil;as e um furriel do
+corpo
+de cavallaria do coronel Dias, os quaes, achando-se transviados,
+desde a invas&atilde;o paraguaya e occultos em diversos
+pontos, &aacute;quem e &aacute;l&eacute;m Aquidauana,
+poucos dias
+antes se
+<span class="pagenum"><a name="p15" id="p15">[15]</a></span>
+tinh&atilde;o espontaneamente apresentado ao commandante das
+for&ccedil;as, que os design&aacute;ra para nos servirem de
+guias em
+nossos reconhecimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+De alguns dos seus typos conservamos lembran&ccedil;a curiosa.
+O furriel Salvador Rodrigues da Silva e os dous
+irm&atilde;os Campos Leite muito n&oacute;s
+ajud&aacute;r&atilde;o, e, apezar de
+terem sido no principio mal considerados, desmentindo a
+nossa preven&ccedil;&atilde;o contra elles, sempre
+der&atilde;o provas de
+grande dedica&ccedil;&atilde;o e disciplina.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;avamos a nossa viagem debaixo das mais tristes
+impress&otilde;es. A incerteza que nos dominava sobre o estado
+da zona a percorrer, inundada completamente,&mdash;pantanal
+medonho&mdash;, a approxima&ccedil;&atilde;o dos pontos
+occupados
+pelos
+inimigos com a for&ccedil;a de protec&ccedil;&atilde;o, em
+nada respeitavel,
+que nos cercava, a perspectiva desanimadora de pouco
+fornecimento para a excurs&atilde;o, n&atilde;o
+constitui&atilde;o motivos para
+que figurassemos aquella explora&ccedil;&atilde;o um passeio
+agradavel,
+quando de todos os lados assomav&atilde;o sen&atilde;o
+perigos,
+pelo menos innumeras contrariedades.
+<br />
+
+<br />
+
+Era pois explicavel o sentimento de tristeza e melancolia
+que nos apertou o cora&ccedil;&atilde;o, ao recebermos os
+abra&ccedil;os de
+nossos collegas; e, &aacute; noute, quando os &eacute;chos
+longinquos
+repercut&iacute;r&atilde;o o signal de
+<em>silencio</em>, que atroava no acampamento
+do Coxim, pelas bocas metallicas de suas muitas
+cornetas, alvoro&ccedil;&aacute;r&atilde;o-se em
+n&oacute;s, na duvida de crises maiores,
+as saudades do tempo que tinhamos passado ao lado
+de nossos companheiros, se bem houvesse sido pouco <a href="#e1">invejavel</a>.
+A
+bra&ccedil;os com a fome, na mais completa penuria,
+ahi se tinh&atilde;o esgotado dias penosos, angustiados
+at&eacute;,
+em que no soffrer intimo n&atilde;o apparecia o vislumbre de
+<span class="pagenum">[16]</span>
+compensa&ccedil;&atilde;o, o raio de esperan&ccedil;a por
+melhores tempos.
+Como densas nuvens, prenhes de tempestades, mil incommodos,
+prestes a desfecharem maiores males, pesav&atilde;o
+sobre nossos espiritos e relampagos de quando em quando
+escureci&atilde;o-nos as vistas. Entretanto a uni&atilde;o que
+sempre
+exist&iacute;ra entre n&oacute;s, a cordialidade de
+convivencia, a consola&ccedil;&atilde;o
+reciproca, o apoio mutuo, fazi&atilde;o communs e menos
+sentidos os desgostos que nos acommetti&atilde;o,
+ado&ccedil;av&atilde;o os
+amargores da situa&ccedil;&atilde;o, amenisav&atilde;o os
+espinhos do presente. (<a href="#na">Nota A</a>)
+<br />
+
+<br />
+
+Fizemos as nossas despedidas ao Coxim, do alto de um
+monticulo que domina o ponto de reuni&atilde;o d'este com o
+Taquary, o qual de longe rola as turvas aguas, at&eacute;
+encontrar-se
+com o alvo contingente de seu tributario. Demos
+ent&atilde;o as costas ao Norte, indo logo depois demandar a
+margem esquerda do bello Taquarymirim, que ora afasta-se,
+ora approxima-se muito do caminho. &Eacute; este cortado
+de continuo por pequenos corregos, os quaes, ufanos
+n'aquella &eacute;poca, fenecem ao approximar a
+esta&ccedil;&atilde;o fria
+e secca.
+<br />
+
+<br />
+
+Os campos, que nos cercav&atilde;o, er&atilde;o cobertos de
+<em>cerrados</em>;
+vegeta&ccedil;&atilde;o baixa, arborescente, comtudo mais
+vistosa
+que a de Goyaz. At&eacute; &aacute;s vezes algum
+<em>vinhatico</em><sup><a href="#n8">[8]</a></sup>
+levanta-se alteroso, bem que retorcido e sem as
+propor&ccedil;&otilde;es
+a que attinge nas matas do Rio de Janeiro, como
+demonstra&ccedil;&atilde;o da inferioridade de terrenos, cujas
+causas
+n&atilde;o h&atilde;o de ser removidas t&atilde;o cedo. Dos
+outros typos ha
+abundancia: muitas <em>myrtaceas</em>,
+<em>malpighiaceas</em>,
+<em>bombaceas</em>,
+<span class="pagenum">[17]</span>
+<em>anacardeas</em>,
+<em>terebinthaceas</em> e
+<em>dilleniaceas</em>, das quaes
+a <em>lixeira</em><sup><a href="#n9">[9]</a></sup>
+pareceu-nos commum a
+todos os cerrados,
+<em>cassias</em>,
+<em>papilionaceas</em>,
+<em>bignoniaceas</em>, algumas
+<em>melastomaceas</em>;
+entretanto predomin&atilde;o ahi visivelmente as
+<em>anonoceas</em>. (<a href="#nb">Nota B</a>)
+<br />
+
+<br />
+
+Nosso pouso foi n'uma baixada vi&ccedil;osa, coberta por verdejante
+tapiz de bonita gramma, fronteiro a uma das
+cabeceiras do Taquarymirim e ao lado de bellos grupos
+de <em>boritys</em>. Lugar encantador para um
+espirito tranquillo,
+cheio de maravilhas para a imagina&ccedil;&atilde;o de um
+poeta,
+fonte de inspira&ccedil;&otilde;es para um adorador da
+natureza, n&atilde;o
+nos provocou elle mais do que o prazer do descan&ccedil;o, fruido
+depois de can&ccedil;ativa e morosa viagem de duas e meia legoas.
+Entretanto, qu&atilde;o bellas er&atilde;o as puras aguas que
+revolvi&atilde;o-se em cach&otilde;es de encontro a
+cabe&ccedil;os de rochas e,
+espumantes, tra&ccedil;av&atilde;o mil caprichosas curvas?! Da
+singeleza
+magestosa e melancolica do bority nunca se ha de fallar
+sobejamente. (<a href="#nc">Nota C</a>)
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse mesmo lugar, que denomin&aacute;mos <em>Pouso
+dos Boritys</em><sup><a href="#n10">[10]</a></sup>,
+existi&atilde;o os vestigios de um acampamento paraguayo,
+formado por occasi&atilde;o do prolongamento da invas&atilde;o,
+em Abril de 1865, at&eacute; o Coxim e a fazenda de Luiz
+Theodoro<sup><a href="#n11">[11]</a></sup>.
+Galhos fincados no ch&atilde;o e apoiados uns nos
+outros, com a ramagem para cima, formav&atilde;o ranchos
+improvisados,
+<span class="pagenum">[18]</span>
+em que se havi&atilde;o abrigado os soldados, sob a
+coberta do ponche estendido por cima. A certa distancia,
+achava-se um cercado para a cavalhada e, pelos arredores,
+estav&atilde;o varios objectos de picaria, ao lado de ossadas
+dos cavallos, que er&atilde;o degolados, &aacute; medida que
+afrouxav&atilde;o. A ida dos paraguayos ao Coxim foi feita com
+celeridade estupenda; a artilharia passou por lugares medonhos
+e, em poucos dias, complet&aacute;r&atilde;o elles uma viagem
+redonda de 146 legoas, no tempo da maior inclemencia
+de aguas. Se bem tivessem levado excellente cavalhada,
+volt&aacute;r&atilde;o muitos dos expedicionarios a
+p&eacute;, pois que a peste,
+commum n'estas localidades, incessantemente derribava os
+seus melhores animaes de sella.
+<br />
+
+<br />
+
+Um anno depois, no mesmo mez, occupav&atilde;o o acampamento
+dos Boritys, as for&ccedil;as brasileiras, em marcha sobre
+os pontos em poder do inimigo e os seus soldados, aproveitando
+os ranchinhos paraguayos, procurav&atilde;o n'elles substitutos
+&aacute;s barracas que lhes faltav&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi por diante os vestigios da passagem dos invasores
+torn&atilde;o-se cada vez mais frequentes; as
+inscrip&ccedil;&otilde;es
+nas arvores s&atilde;o amiudadas, umas em hespanhol, outras
+em guarany.
+<br />
+
+<br />
+
+No corrego da Porteira, a meia legoa do pouso dos
+Boritys, uma d'essas palmeiras tem o tronco coberto de
+disticos, infelizmente quasi todos apagados. N'um d'elles
+pudemos comtudo decifrar o genero de amabilidades
+que dirigi&atilde;o-nos os nossos visinhos republicanos.
+Al&eacute;m
+da necessaria invectiva de <em>infames
+esclavos</em>, lia-se&mdash;<em>Los
+brasileros non son hombres delante de Lopez</em>.
+M&atilde;o brasileira exar&aacute;ra j&aacute;, no meio
+d'esses insultos, o
+<span class="pagenum">[19]</span>
+contraprotesto <em>Morr&atilde;o os
+paraguayos</em>, e dat&aacute;ra&mdash;11 de
+Junho de 1865.&mdash;Singular coincidencia! No dia, talvez na
+mesma hora em que se escrevi&atilde;o, no meio dos
+sert&otilde;es,
+essas palavras fatidicas, a bravura, o canh&atilde;o e o
+patriotismo
+brasileiros executav&atilde;o aos olhos do mundo aquella
+senten&ccedil;a fatal. Riachuelo tinha a sua repercuss&atilde;o
+instantanea,
+electrica e o grito que erguia aos ares a valente
+maruja do Brasil, echoava, para assim dizer,
+n'aquelles longinquos e desertos p&aacute;ramos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; bem comprehender a monotonia da viagem que
+faziamos, para avaliar a impress&atilde;o moral por n&oacute;s
+sentida,
+ao acordarem-se milhares de pensamentos, com essa
+approxima&ccedil;&atilde;o que abria as azas &aacute;
+imagina&ccedil;&atilde;o desde
+muito adormecida.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="center">&laquo;Est Deus in
+nobis, agitante calescimus illo&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Com muito mais anima&ccedil;&atilde;o, toc&aacute;mos os
+animaes e, d'ahi
+a perto de duas horas, entravamos na sombria coberta
+do ribeir&atilde;o da Mata. N'esta zona os bosques s&atilde;o
+mui
+vi&ccedil;osos; os matagaes mais juntos, mais espessos; os
+cerrados em menor numero; demais, a agua dos corregos
+&eacute; limpida e pura at&eacute; o rio Negro. Esperem os
+viandantes pela compensa&ccedil;&atilde;o e
+despe&ccedil;&atilde;o-se de ante-m&atilde;o
+de tudo quanto f&ocirc;r agua mais ou menos potavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Por emquanto goza-se junto &aacute;quelle bello ribeir&atilde;o
+de
+todas as vantagens de um excellente pouso: frescor constante,
+vista sempre amena de pura lympha, bonita mataria
+e um pouco al&eacute;m excellente pastagem para animaes.
+Quem viaja pelo interior dos sert&otilde;es deve penetrar-se
+<span class="pagenum"><a name="p20" id="p20">[20]</a></span>
+da importancia d'essa condi&ccedil;&atilde;o, para que o pouso
+mere&ccedil;a
+escolha. Reduzidas, ha muito, pela falta de milho,
+&aacute; simples alimenta&ccedil;&atilde;o herbacea, as
+nossas cavalgaduras
+n&atilde;o apresentav&atilde;o f&oacute;rmas para poderem
+figurar em torneios,
+e, a n&atilde;o ser o receio de descahir de assumpto, fallariamos
+por extenso nos nossos transes em poupal-as e <a href="#e2">nas
+difficuldades</a> em que nos vimos, logo nos primeiros dias
+de viagem, pela morte de uma d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso microcosmo indispensavel &aacute; vida, bem que o
+mais diminuto possivel, n&atilde;o podia soffrer c&oacute;rtes
+e a
+carga, que ficava por terra pelo afracamento de um
+animal, era imparcialmente repartida pelos restantes.
+Curvav&atilde;o-se sob o peso de cargas babylonicas,
+por&eacute;m
+avan&ccedil;av&atilde;o sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;ando j&aacute; a avistar a cad&ecirc;a de
+Maracaj&uacute;, fomos,
+do ribeir&atilde;o da Mata, cortando bonitas pradarias, mais ou
+menos accidentadas, ornadas, de quando em quando, por
+esses grupos de bella vegeta&ccedil;&atilde;o, a que
+cham&atilde;o
+<em>cap&otilde;es</em><sup><a href="#n12">[12]</a></sup>.
+Devidos &aacute; ac&ccedil;&atilde;o da humidade,
+s&atilde;o quasi sempre orlados
+por fileiras de <em>boritys</em>, que
+mistur&atilde;o agradavelmente os
+seus leques &aacute; folhagem t&atilde;o diversa das
+<em>dicotyledoneas</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os terrenos continu&atilde;o seccos, argilo-silicosos; de vez
+em quando algum atoleiro, algumas bra&ccedil;as inundadas
+que fazi&atilde;o j&aacute; termos por certo a
+approxima&ccedil;&atilde;o dos t&atilde;o
+temidos pantanaes. Entretanto s&oacute; os deviamos atravessar
+poucas legoas &aacute;quem do rio Negro e al&eacute;m....
+sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+Com uma legoa de marcha pass&aacute;mos o
+<em>ribeir&atilde;o Claro</em>,
+<span class="pagenum">[21]</span>
+que bem merece esse nome pela alvura de suas aguas rapidas
+e encachoeiradas.
+<br />
+
+<br />
+
+O desbastamento das margens concorre para que essa
+c&ocirc;r n&atilde;o seja alterada pela reflex&atilde;o do
+verde escuro das
+arvores. Um unico <em>bority</em>, direito
+como um mastro, coroado
+pelas flabelladas palmas, erguia-se garboso no seu
+isolamento. A sua posi&ccedil;&atilde;o especial o condemnava
+naturalmente
+aos olhos de quem intentasse lan&ccedil;ar um pontilh&atilde;o
+para o transito; n&atilde;o escapou pois aos machados,
+quando nossos collegas vier&atilde;o preparando o caminho para
+a descida da for&ccedil;a sobre Miranda. A utilidade artistica
+n&atilde;o o p&ocirc;de salvar.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais al&eacute;m encontr&aacute;mos outra corrente de agua,
+ainda
+mais bella que as precedentes: o <em>ribeir&atilde;o
+Verde</em>, que
+corre, com velocidade consideravel, por entre margens
+altas, cobertas de sombria e espessa mataria. O leito
+de grandes lages, forradas de limo, e a folhagem basta,
+d&atilde;o &aacute;s aguas crystallinas a apparencia que serve
+para
+aquella denomina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O lugar &eacute; encantador: massas liquidas de um bello
+verde se deslis&atilde;o prestesmente, galgando as pedras desiguaes
+que tapet&atilde;o o alveo, e precipit&atilde;o-se, de um
+degr&aacute;o,
+n'uma bacia bastante regular, que recebe a qu&eacute;da. Grandes
+bandos de peixinhos dourados e
+<em>pirapitangas</em> brinc&atilde;o
+entre as rochas, cortando rapidamente a correnteza, quando
+envolvidos no turbilh&atilde;o de aguas.
+<br />
+
+<br />
+
+A disposi&ccedil;&atilde;o de espirito necessaria para dar o
+devido
+apre&ccedil;o a essas bellezas, n&atilde;o se achava em
+n&oacute;s. A passagem
+a v&aacute;o, difficultosa para os nossos animaes de
+sella, tornou-se quasi impossivel para os cargueiros, que,
+<span class="pagenum">[22]</span>
+aos tombos e mergulhando as canastras, transpuzer&atilde;o,
+&aacute;
+custa de muitos esfor&ccedil;os, o ribeir&atilde;o. E
+aprecie-se assim
+a natureza!
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; noute, felizmente depois de acampados, copiosa chuva,
+como nos mais dias, veio avivar-nos a lembran&ccedil;a de
+que estavamos na esta&ccedil;&atilde;o das aguas.
+<br />
+
+<br />
+
+Malditas aguas!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO II
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; levantou-se serena e bella. Ao longe
+resplandeci&atilde;o
+de novo verdor os prados: o ribeir&atilde;o engrossado,
+bem que sempre limpido, rolava bramantes cach&otilde;es de
+aguas esverdeadas e o frescor agradavel da natureza, depois
+da trovoada da vespera, tornava o sitio t&atilde;o magicamente
+aprazivel, que se ergueu, no fundo de nossas almas,
+um hymno de gratid&atilde;o ao Creador. Entretanto, d'ahi a
+pouco, a reuni&atilde;o dos nossos animaes veio arrancar-nos da
+contempla&ccedil;&atilde;o de scena t&atilde;o
+lou&ccedil;&atilde; e nunca se devem dar
+poucas gra&ccedil;as aos c&eacute;os clementes, quando se os
+encontr&atilde;o
+&aacute;s horas propicias.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Away</em> pois!
+<br />
+
+<br />
+
+Para medirmos com alguma exactid&atilde;o as distancias, que
+tinh&atilde;o de ser ministradas ao commando das for&ccedil;as,
+viamo-nos
+obrigados a acompanhar um dos cargueiros que nos
+dava a maior uniformidade de movimento. A <a href="#e3">estimativa</a>
+<span class="pagenum"><a name="p24" id="p24">[24]</a></span>
+era a media do tempo
+gasto em diversas observa&ccedil;&otilde;es,
+para percorrer uma extens&atilde;o medida, havendo sido tomado
+para unidade o minuto, que ach&aacute;mos correspondente
+a 30 bra&ccedil;as ,355.
+<br />
+
+<br />
+
+A nossa qualidade official n&atilde;o nos permittia o pouco
+mais ou menos: entretanto caminhar assim, &eacute; sobre
+fastidioso,
+em extremo can&ccedil;ativo. Accresce ainda a urgencia
+de n&atilde;o distrahir-se um momento, consultar a todo instante
+o relogio, tomar nota das menores particularidades, verificar
+qualquer parada e visar, de quarto em quarto de
+legoa, o rumo magnetico, em que se marcha, para o que
+nos servia a excellente bussola prismatica do capit&atilde;o
+Karter,
+t&atilde;o commoda e propria para esses trabalhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de 60 minutos de marcha, pass&aacute;mos uma matinha
+e, d'ahi a 30 minutos, outra, chamada do
+<em>Major</em>,
+por pertencer a um official da guarda nacional de Minas
+d'esse posto, que explor&aacute;ra aquelles terrenos.
+<br />
+
+<br />
+
+Prolonga-se essa matinha at&eacute; a descida de uma abrupta
+rampa escorregadia, que finda n'um corrego insignificante,
+o qual se espraia n'um almargeal. Os pontos encharcados
+v&atilde;o-se tornando mais frequentes: ahi tivemos
+uma amostrasinha de pantanal. Durante mais de 5 minutos
+seguimos uma vereda aberta no capim alto, toda
+coberta de agua e com um fundo de hervas entresachadas,
+que tivemos algum trabalho em vencer.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a menor secca acaba esse alagadi&ccedil;o, que se
+f&oacute;rma
+tambem logo &aacute;s primeiras chuvas, devido ao represamento,
+n'uma pequena extens&atilde;o, de aguas, por dous firmes
+de terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de nova mata e novo charco, o terreno come&ccedil;a
+<span class="pagenum">[25]</span>
+a dar mostras de pedregoso, a levantar-se sensivelmente
+e afinal a subir estreitado entre massas de rochedos at&eacute; a
+celebre passagem do Port&atilde;o de Roma.
+<br />
+
+<br />
+
+Dous massi&ccedil;os erguem-se ahi, cortados a pique, um
+fronteiro ao outro, deixando intermedia uma estreita trilha,
+toda embara&ccedil;ada com grandes lages e matosinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sabemos a raz&atilde;o de tal
+denomina&ccedil;&atilde;o. As difficuldades,
+os espinhos de sua vereda, a aberta n'um c&eacute;o anilado,
+como se nos afigurava, quando subiamos a encosta e
+viamos duas linhas sombrias destacarem-se na abobada
+celeste, justificav&atilde;o muito mais a
+especifica&ccedil;&atilde;o de
+<em>Port&atilde;o
+do Paraiso</em>. A menos de ligar-se &aacute; cidade
+eterna um
+sentimento muito especial de religiosidade, que nunca correu
+naturalmente pelo espirito de quem<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>
+lhe deu o
+nome, parece elle completamente deslocado n'estas paragens.
+<br />
+
+<br />
+
+O sitio &eacute; sobremaneira agreste e sombrio.
+<br />
+
+<br />
+
+Salvador Rosa, nas fragosidades da Calabria, n&atilde;o encontraria
+melhor typo para seu modo artistico. Um salteador,
+de arcabuz ao lado, dominando o caminho, outro
+estirado sobre uma rocha lisa, &aacute; espreita,
+transportari&atilde;o
+a scena para aquellas serranias e nem faltav&atilde;o, para
+completo
+da c&ocirc;r local, os <em>agaves</em>
+(pita<sup><a href="#n14">[14]</a></sup>),
+que surgi&atilde;o por
+entre as fendas, nem a <em>figueira</em>
+tenaz, a qual, agarrada
+&aacute;s asperezas da pedra, estirava grossos ramos sobre a
+senda.
+<br />
+
+<br />
+
+Os paraguayos fizer&atilde;o rolar as carretas de artilharia
+por essa passagem difficultosissima, que obrigou, para o
+<span class="pagenum">[26]</span>
+transito das for&ccedil;as, a um pr&eacute;vio trabalho, feito
+pelos engenheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Considerado debaixo do ponto de vista scientifico, o
+Port&atilde;o de Roma &eacute; uma aberta praticada pelas aguas
+em
+rochas metamorphicas. Todos os rochedos dos lados e
+leito da trilha, s&atilde;o de gr&eacute;s argiloso concreto. A
+verdade
+tornou-se-nos bem patente, quando, depois de margearmos
+um pequeno pantanal, subimos o monticulo fronteiro ao
+alcantil do Port&atilde;o. Ao longe divisavamos uma serie de
+montes encadeados, que trazi&atilde;o na superficie diversas
+linhas continuadas parallelas, as quaes, segundo parece-nos,
+mostr&atilde;o as differentes alturas a que
+toc&aacute;r&atilde;o as
+aguas de um antigo lago geologico, que outr'ora aquella
+bacia encerrou.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos cumulos que for&atilde;o cobertos de todo e depois rapidamente
+deixados pela massa liquida, apresent&atilde;o-se
+eros&otilde;es profundas e c&oacute;rtes a prumo, como os que
+acabavamos
+de apreciar.
+<br />
+
+<br />
+
+A mesma disposi&ccedil;&atilde;o de rochedos acha-se no
+Lageadinho,
+onde acamp&aacute;mos n'esse dia (16) junto a um fio de
+agua que se deslisava por sobre um ch&atilde;o de pedras, indo
+de qu&eacute;da em qu&eacute;da, perder-se na varzea proxima.
+<br />
+
+<br />
+
+Procuravamos sempre seguir os pousos que as for&ccedil;as,
+pelas nossas recommenda&ccedil;&otilde;es, devessem escolher:
+assim
+proporcionavamos, de antem&atilde;o, as marchas e attendiamos
+&aacute;s conveniencias dos acampamentos futuros.
+<br />
+
+<br />
+
+Do ribeir&atilde;o Verde ao Lageadinho tinhamos caminhado
+duas legoas e um quarto, e, pela natureza do terreno e
+impedimentos com que se podi&atilde;o contar, era marcha
+j&aacute;
+penosa. Soubemos comtudo, ao depois, que, por ter seccado
+<span class="pagenum">[27]</span>
+aquelle lagrimal, contra as informa&ccedil;&otilde;es que
+haviamos
+colhido, prolong&aacute;ra-se ella uma legoa al&eacute;m.
+<br />
+
+<br />
+
+No Lageadinho a abundancia de guabirobas (eugenias)
+forneceu-nos excellentes fructosinhos. Entre todas faremos
+especial men&ccedil;&atilde;o da
+<em>guavyra</em><sup><a href="#n15">[15]</a></sup>,
+cujo fructo assucarado
+tem sabor mais agradavel e menos adstringente
+que o ara&ccedil;&aacute; de cor&ocirc;a e &eacute;
+sobretudo muito maior em
+dimens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um arbusto baixo, de folhas largas, tronco pardacento
+claro.
+<br />
+
+<br />
+
+Diversas especies de guabirobas ahi se vi&atilde;o, umas do
+tamanho de plantas fruticulosas, outras frutescentes; umas
+com fructos miudinhos amarellados, outras com bagas
+maiores, d'aquella c&ocirc;r ou ainda, esverdeadas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; tarde, como de costume, cahio copiosa chuva. Amainou
+promptamente. Depois d'ella, descambou o sol por
+traz de nuvens r&ocirc;xas, orladas de fimbrias de ouro e prata,
+que, por largo tempo, atir&aacute;r&atilde;o lindos reflexos
+sobre as
+campinas, at&eacute; se confundirem com os pallidos
+clar&otilde;es da
+lua, a qual illuminou, com ba&ccedil;a luz, os negros penhascos,
+portaes d'aquella entrada colossal, com que defrontavamos.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixando o Lageadinho, fomos, com tres e meia legoas,
+acampar junto ao corrego da Volta, atravessando
+sempre campos virentes, cortados ora por fios de agua
+alimentados pelas chuvas, ora por matasinhas e cap&otilde;es que
+v&atilde;o apparecendo mais frequentemente, &aacute; medida que
+rale&atilde;o
+os cerrados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[28]</span>
+Tinhamos dividido a extens&atilde;o a viajar. Ao meio dia,
+depois de duas legoas, descan&ccedil;&aacute;mos junto ao
+corrego,
+chamado do Castelhano, por ter ahi sido, segundo nos
+disser&atilde;o os soldados, fuzilado um official paraguayo na
+occasi&atilde;o da excurs&atilde;o ao Coxim.
+<br />
+
+<br />
+
+Repous&aacute;mos debaixo da folhosa coberta de uma lixeira
+(dilleniacea<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>),
+para comermos um pseudo-jantar, em nada
+conforme &aacute;s regras de Berchoux<sup><a href="#n17">[17]</a></sup>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="center">.... tu, Tityre, lentus
+in umbr&acirc;, etc.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem os gastronomos nunca imagin&aacute;r&atilde;o a
+possibilidade
+de figurar em idyllios, sobretudo a modo dos nossos,
+e tal vida n&atilde;o comporta exigencias culinarias.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esses casos, quanto mais simples o manjar, tanto
+mais aturavel. Assim um peda&ccedil;o de carne, fisgada n'um
+espeto de p&aacute;o, um pouco de sal, f&oacute;rm&atilde;o
+um <em>churrasco</em>
+appetitoso que se come com grande gosto, quando o
+acompanh&atilde;o algumas colheres de farinha.
+<br />
+
+<br />
+
+No Coxim, comiamos pura e simplesmente o churrasco:
+o habito cust&aacute;ra-nos a adquirir, mas o organismo
+accommod&aacute;ra-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Com a tarde, continu&aacute;mos viagem, percorrendo mais
+l&eacute;goa e meia at&eacute; uma matinha que o j&aacute;
+citado corrego
+da Volta atravessa. Obrigados pela noute, arm&aacute;mos
+barracas.... &laquo;<em>Suadentque cadentia sidera
+somnos</em>&raquo;. Infelizmente
+nuvens de mosquitos se alvoro&ccedil;&aacute;r&atilde;o ao
+derredor
+<span class="pagenum">[29]</span>
+dos ouvidos, perturbando as doces consequencias de
+um somno reparador, ao passo que impreca&ccedil;&otilde;es de
+continuo
+levantav&atilde;o-se do grupo dos nossos camaradas, a
+despeito da fogueira colossal que havi&atilde;o preparado. Assim
+pois, decidimos nunca mais acampar dentro de matas,
+abandonando al&eacute;m d'isso aquelle modo de viajar que, sobre
+n&atilde;o dar o descan&ccedil;o preciso aos animaes, fatiga-os
+com
+excesso pelo facto de receberem cargas e serem descarregados
+quatro vezes seguidamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Reunida a nossa recovagem, d&eacute;mos, no dia seguinte,
+come&ccedil;o &aacute; viagem habitual, passando, d'ahi a hora
+e
+quarto, o bonito corrego do Perdig&atilde;o, assim chamado, do
+nome de um sertanejo que levant&aacute;ra uma choupana junto
+&aacute; sua margem esquerda.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas e bonitas maca&uacute;bas<sup><a href="#n18">[18]</a></sup>
+domin&atilde;o o baixo
+matagal
+que as c&eacute;rca, vencendo-as em altura um grupo de
+<em>boritys</em>, cujos fructos
+attrahi&atilde;o innumeros bandos de ar&aacute;ras,
+umas todas azues<sup><a href="#n19">[19]</a></sup>,
+outras de papo vermelho<sup><a href="#n20">[20]</a></sup>
+ou amarello alaranjado<sup><a href="#n21">[21]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+A mais que modesta habita&ccedil;&atilde;o de
+Perdig&atilde;o n&atilde;o escapou
+&aacute; furia incendiadora dos paraguayos, ficando como
+vestigios os esteios carburetados. Ainda sobrevivi&atilde;o
+&aacute; invas&atilde;o
+do mato alguns restos de cultura e poucos p&eacute;s de
+quingomb&ocirc;s (hibiscus esculentus), e algodoeiros (gossypium),
+<span class="pagenum">[30]</span>
+entre aboboreiras e p&eacute;s de melancia (cucurbita
+citrullus) resisti&atilde;o ao abandono.
+<br />
+
+<br />
+
+O que lev&aacute;ra aquelle pobre fugitivo da sociedade a
+procurar t&atilde;o remotos sert&otilde;es, pisados a vez
+primeira pela
+planta de seu p&eacute;, abandonando os povoados, alheio a
+todo o resto do mundo, vivendo vida de exilado? F&ocirc;ra
+a necessidade para, por tal pre&ccedil;o, obter a impunidade,
+ou o espirito melancolico de retiramento? Ainda
+ahi n&atilde;o se achou em salvo: os invasores paraguayos
+top&aacute;r&atilde;o a trilhada que elle abrira e o
+expuls&aacute;r&atilde;o de seus
+dominios pacificos e incontestados.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje aquella trilha &eacute; caminho muito seguido, dando
+passagem cont&iacute;nua a viajantes, carros e lotes de animaes,
+de modo que o anachoreta Perdig&atilde;o deve procurar
+novos desertos onde v&aacute; a gosto
+&laquo;<em>placat&acirc; omnia mente
+tueri</em>&raquo;, na phrase de Lucrecio.
+<br />
+
+<br />
+
+Do corrego do Perdig&atilde;o, levou-nos a trilha, depois de 41
+minutos de marcha, &aacute; mata que intitul&aacute;mos das
+<em>Ja&oacute;s</em><sup><a href="#n22">[22]</a></sup>,
+pelos incessantes pios que denunciav&atilde;o ahi a
+presen&ccedil;a
+d'aquellas aves. &Eacute; uma gallinacea, do tamanho de um frango,
+sem cauda, de c&ocirc;r pardacenta clara: anda commummente
+em terra, dando, como a perdiz, um v&ocirc;o horisontal
+e pouco prolongado: a carne &eacute; alva e muito delicada.
+<br />
+
+<br />
+
+O seu pio come&ccedil;a por uma nota destacada e alta, a
+que succedem, com intervallo de dous a tres segundos,
+tres outras rapidas e mais baixas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span>
+N'essa mata havi&atilde;o os paraguayos deixado uma
+barca&ccedil;a
+(<a href="#nd">nota D</a>), que vinh&atilde;o
+puxando desde o rio Aquidauana,
+para os casos de passagens de rios: media 45
+palmos de comprimento e 4 de boca.
+<br />
+
+<br />
+
+Achando-se em bom estado, com mui pequenas
+repara&ccedil;&otilde;es,
+podia perfeitamente servir para as for&ccedil;as, quando
+chegassem &aacute; margem direita do rio Negro.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse dia fomos, sem chuva, acampar, depois de 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas de marcha, perto do corrego
+<em>Fundo</em>, que obrigou-nos
+&aacute; parada pelo estado atoladi&ccedil;o de suas margens,
+posto
+que a quantidade de boritys n&atilde;o tornasse difficil o
+lan&ccedil;amento
+de um pontilh&atilde;o, para nos dar segura passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre o capim crescia ahi uma linda
+<em>orchidea</em> terrestre
+cuja fl&ocirc;r de um r&ocirc;xo suave, apresentava a massa
+pollinica
+pulverulenta, caracter particular &aacute; tribu das
+<em>neottias</em>
+de Lindley.
+<br />
+
+<br />
+
+Reconhecemos tambem nos campos uma
+<em>scrophularinea</em>
+de fl&ocirc;r esverdeada, e uma
+<em>bignoniacea</em>, com caule um
+tanto sarmentoso, a qual expandia lindas fl&ocirc;res,
+c&ocirc;r <em>solferino</em>
+(carmesim ligeiramente roxeado) que vimos depois
+com admira&ccedil;&atilde;o nos pantanaes, como adiante o
+diremos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos cerrados repetem-se os typos com frequencia: mangabeiras
+(hancornia speciosa, Gomez) com suas candidas
+fl&ocirc;res hypocrateriformes, muitas myrtaceas,
+<em>lixeiras</em>, grandes
+e pequenas<sup><a href="#n23">[23]</a></sup>
+(dilleniaceas), etc., etc. Entretanto o
+aspecto de todos elles &eacute; muito mais vistoso, continuando
+a predominar em numero os
+<em>aratic&uacute;s</em> (anonaceas).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[32]</span>
+Na margem esquerda do rio Negrinho, a tres legoas do
+corrego Fundo, as quaes constitu&iacute;r&atilde;o a marcha do
+dia 18,
+acamp&aacute;mos debaixo de magnifica c&oacute;pa de folhudas
+arvores,
+formando um excellente pouso, se n&atilde;o fossemos atormentados
+pelos muitos <em>mosquitos</em>,
+<em>muri&ccedil;&oacute;cas</em> ou
+<em>pernilongos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Obrigava as vistas uma bella figueira, com volumoso
+tronco, ao lado de uma
+<em>pitombeira</em><sup><a href="#n24">[24]</a></sup>,
+que deu-nos
+excellentes
+fructinhos, e a cujos p&eacute;s florescia uma<em>
+cof&oelig;a</em>
+ostentando, nas suas fl&ocirc;res azues, um brilho metallico
+muito especial.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Negrinho, entre margens sempre umbrosas, vai
+perto confundir suas aguas com as do rio Negro, trasbordando
+com extrema facilidade, depois de algumas chuvas
+e inundando as cercanias. Perto d'elle, haviamos
+atravessado algumas bra&ccedil;as de pessimo transito, pois
+que o caminho vara por um agua&ccedil;al com fundo lodoso.
+A c&ocirc;r sombria do capim, a tarde que descahia depois
+de um dia toldado de nuvens e chuvoso, os comoros
+pardacentos de cupins, tornav&atilde;o aquella natureza tristonha
+e melancolica em extremo.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Negrinho n&atilde;o dava commodo v&aacute;o:
+pass&aacute;mos por
+cima de uma pinguela natural que a qu&eacute;da de um grosso
+madeiro form&aacute;ra, transportando as nossas cargas
+&aacute;s costas.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de legoa e meia, feita em terrenos j&aacute; bastante
+encharcados, &aacute;s vezes por extensos almargeaes<sup><a href="#n25">[25]</a></sup>, outras
+por matas, em que existem bastantemente os
+<em>aucurys</em><span class="pagenum">[33]</span>
+(palmeiras de folha estreita) cheg&aacute;mos ao
+<em>Potreiro</em>, onde
+um grande rancho de palha abrigou-nos contra a chuva,
+que come&ccedil;ava a cahir e promettia dever de durar.
+<br />
+
+<br />
+
+O Potreiro &eacute; um vallesinho, fechado quasi circularmente,
+por dous ramos da serra de Maracaj&uacute;, a qual
+vinhamos avistando, havia mais de dez legoas.
+<br />
+
+<br />
+
+Era ahi que se fazia a reuni&atilde;o do gado, pertencente ao
+cidad&atilde;o Alves Ribeiro, com destino ao acampamento do
+Coxim e cuja obten&ccedil;&atilde;o, pela falta de cavalhada,
+ia se
+tornando cada vez mais custosa.
+<br />
+
+<br />
+
+O lugar &eacute; insalubre, em raz&atilde;o da humidade que
+ressumbra
+constantemente do solo: por isso a estada n'esse
+ponto, prolongada por mais de mez, foi extremamente
+nociva &aacute;s for&ccedil;as, sobretudo quando as aguas, em
+Maio,
+contra a expecta&ccedil;&atilde;o, attingir&atilde;o ao
+maximo crescimento,
+nos pantanaes.
+<br />
+
+<br />
+
+No Potreiro organis&aacute;mos os trabalhos, que deviamos enviar
+ao commandante das for&ccedil;as: tra&ccedil;&aacute;mos o
+caminho topographicamente,
+acompanhando-o uma ligeira memoria
+descriptiva, que marcava os pousos e os lugares, onde se
+tornav&atilde;o precisos alguns melhoramentos.
+<br />
+
+<br />
+
+O caminho, como j&aacute; o havemos feito sentir, &eacute; uma
+simples
+trilha. De natureza argilo-silicosa (&eacute;poca terciaria),
+p&oacute;de ser considerado secco, com
+excep&ccedil;&atilde;o de alguns pontos,
+que seri&atilde;o facilmente transpostos. Com exclus&atilde;o
+do
+Port&atilde;o de Roma, proximidades do Lageadinho, margens
+de corregos e ribeir&otilde;es, os declives s&atilde;o sempre
+bons.
+<br />
+
+<br />
+
+Refazendo-nos de for&ccedil;as e tomando provis&atilde;o de
+carne,
+deix&aacute;mos o Potreiro no dia 26 de Fevereiro, para
+dirigirmo-nos
+&aacute; passagem do rio Negro, onde come&ccedil;ava a
+<span class="pagenum">[34]</span>
+vereda, que dizi&atilde;o ter sido deixada por alguns fugitivos
+de Miranda.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi nasci&atilde;o tambem as incertezas; dominava a
+indecis&atilde;o.
+Sem guia, iamos correr risco de uma explora&ccedil;&atilde;o
+que nos parecia, como realmente o foi, penosissima,
+cheia de perigos e sobretudo infructifera.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO III
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A nossa verdadeira miss&atilde;o ia ter principio. Verificar
+a possibilidade de uma passagem, at&eacute; o Aquidauana, no
+tempo das aguas, quando os pantanaes se torn&atilde;o
+intransitaveis,
+seguir, ao longo da serra de Maracaj&uacute;, uma pretendida
+senda, que fugitivos havi&atilde;o aberto; observar a natureza
+dos terrenos e os obstaculos que pudessem impedir
+a descida das for&ccedil;as nos mezes de Abril e Maio, continuar
+ainda mais a explora&ccedil;&atilde;o at&eacute; o rio
+Aquidauana, cuja margem
+esquerda estava occupada pelo inimigo, apromptar os meios
+de passagem para aquelle rio, era o nosso programma, vasto
+e brilhante, importando n&atilde;o pequena responsabilidade, mas
+cuja boa execu&ccedil;&atilde;o principalmente dependia de
+meios, que
+n&atilde;o nos tinh&atilde;o sido ministrados. Oito soldados
+nos acompanhav&atilde;o
+e, d'esses, nenhum tinha conhecimento da tal
+passagem, ali&aacute;s com ra&ccedil;&otilde;es,
+s&oacute;mente para onze dias, e
+armados com fuzis de pederneira, nos quaes as balas s&oacute;
+entrav&atilde;o partidas!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[36]</span>
+Um unico machado era propriedade nossa particular.
+<br />
+
+<br />
+
+As chuvas que n&atilde;o cessav&atilde;o, cahindo de continuo
+fortes
+rajadas, havi&atilde;o arruinado, quasi totalmente, a carne
+preparada
+no Potreiro, de modo que, de l&aacute;, partimos com as
+provis&otilde;es meio esgotadas, confiados apenas no muito gado
+que vaguea pelos campos, por onde deviamos passar. Iamos
+viajar &aacute; t&ocirc;a, esperan&ccedil;ados em que nosso
+bom fado nos
+facilitasse caminho e alimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Era muito exigir.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o procuravamos, nem mereciamos a terra de
+Promiss&atilde;o;
+nunca nos guiou portanto a nuvem de fogo, nunca
+nos cahio o mann&aacute; de Jehovah.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde a sahida do Potreiro, comprehendemos as difficuldades
+que nos esperav&atilde;o, e for&atilde;o desde logo se
+complicando.
+<br />
+
+<br />
+
+As terras, j&aacute; nimiamente baixas, apresentav&atilde;o
+grandes
+extens&otilde;es completamente alagadas, a que se
+segui&atilde;o matas
+de <em>aucurys</em> (<a href="#ne">nota E</a>),
+onde a humidade
+continua mantinha
+o terreno ennatado, sempre lodacento, que nos custou boas
+horas para vencer.
+<br />
+
+<br />
+
+A trilha ia, al&eacute;m de tudo, tornando-se cada vez mais
+apagada: as <em>taquaras</em>, nos cerrados,
+cruzav&atilde;o-se emmaranhadas,
+deixando apenas passagem para pedestres; nas
+varzeas, a agua j&aacute; era muita e as abertas indecisas.
+<br />
+
+<br />
+
+Viagem fadigosa, em que se descarregav&atilde;o incessantemente
+os cargueiros, vencendo depois de um dia completo
+de marcha, legoa e meia t&atilde;o s&oacute;mente!
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi ao cahir a noute, acossados logo dos mosquitos,
+entravamos na mata do rio Negro, quando nos deteve os
+passos uma <em>corixa</em> (<a href="#nf">nota
+F</a>), fonte de
+novas contrariedades.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+Esta <em>corixa</em> dava nado em toda sua
+extens&atilde;o, obrigando-nos
+a fazer <em>pelotas</em>, que
+devi&atilde;o transportar nossas
+cargas. Nada mais expedito: um couro bem secco, levantado
+nas quatro pontas, que se lig&atilde;o por cordeis ou
+tiras, recebe os pesos que, s&atilde;o solidamente amarrados, de
+modo a formarem um systema immovel, em cima do qual
+assenta-se o passageiro, como melhor puder. Depois de
+lan&ccedil;ada &aacute; agua com todo o cuidado, atira-se um
+nadador
+&aacute; frente da pelota, levando entre os dentes a cordinha
+que a guia, ao passo que um segundo ajuda a mantel-a
+na boa direc&ccedil;&atilde;o, empurrando-a de quando em
+quando.
+<br />
+
+<br />
+
+A impress&atilde;o que recebe o viajante bisonho, ao sentir-se
+em t&atilde;o singular embarca&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; profunda; parece-lhe que, a
+lodo momento, o fragil b&oacute;te improvisado vai submergindo-se
+pouco a pouco e que a agua invade por todos os lados.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto depois passavamos, com perfeita tranquillidade,
+n&atilde;o as mansas aguas de corixas, mas a forte correnteza
+de rios caudalosos, em pelotas que levav&atilde;o para
+mais de seis arrobas: tal era a confian&ccedil;a que nos inspirava
+a pericia natatoria dos irm&atilde;os Campos Leite, homens
+preciosos para esse servi&ccedil;o e incansaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+O tempo que haviamos gasto na transposi&ccedil;&atilde;o d'essa
+corixa,
+fez com que chegassemos, com a noute j&aacute; fechada,
+&aacute;
+margem direita do rio Negro, e, muito depois de n&oacute;s os
+animaes de carga e camaradas.
+<br />
+
+<br />
+
+A lua veio ent&atilde;o esclarecer a nossa
+posi&ccedil;&atilde;o, que podia,
+por momentos, tornar-se muito critica.
+<br />
+
+<br />
+
+De nivel com a margem, corria furioso o rio, parecendo
+dever trasbordar e invadir o terreno, em que contavamos
+passar a noute; e a rapidez das aguas, a mataria baixa,
+<span class="pagenum">[38]</span>
+com vestigios recentes de uma d'essas temiveis cheias,
+n&atilde;o pouco nos inquietav&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto imagin&aacute;mos expedientes, que, salvando-nos
+momentaneamente, n&atilde;o nos prometti&atilde;o agradavel
+perspectiva:
+soltar os animaes, suspender as canastras e mais
+objectos nas arvores mais altas, procurando n&oacute;s mesmos
+refugio na rama extrema.
+<br />
+
+<br />
+
+Tivemos crueis momentos de anxiedade.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, com prazer immenso, indescriptivel, ouvimos
+um dos soldados gritar: o rio est&aacute; baixando!
+<br />
+
+<br />
+
+Corremos todos a examinal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+A descens&atilde;o das aguas era, na realidade, sensivel aos
+olhos: em breve, deix&aacute;r&atilde;o meio palmo descoberto,
+minutos
+depois, dous palmos e, d'ahi a pouco, meia bra&ccedil;a. A
+facilidade, com que se dav&atilde;o essas
+oscilla&ccedil;&otilde;es, demonstr&atilde;o
+a proximidade das cabeceiras: com effeito, a pouca distancia
+ficava a serra, d'onde procedem as nascentes do rio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora em que nos recolhemos, elle baix&aacute;ra mais
+de
+bra&ccedil;a e, no dia seguinte, as margens estav&atilde;o
+barrancosas,
+como o s&atilde;o normalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Negro apresenta ahi 20 a 30 bra&ccedil;as de largura:
+a velocidade &eacute; de 3 a 4 palmos por segundo, profundidade
+de 10 a 12, n&atilde;o fazendo v&aacute;o em parte alguma.
+Depois de um curso muito irregular por terrenos empantanados,
+recebe o Tab&ocirc;co, e, ora entre margens, ora
+espraiando-se pelos campos, vai ter ao rio Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+As suas proximidades s&atilde;o perigosas pelos pa&uacute;es,
+que com
+elle visinh&atilde;o: as febres intermittentes, paludosas e outras
+graves enfermidades origin&atilde;o-se ahi dos miasmas deleterios,
+produzidos pela ac&ccedil;&atilde;o solar sobre os depositos
+vegetaes
+<span class="pagenum">[39]</span>
+que as enchentes atir&atilde;o nos campos e
+abandon&atilde;o,
+quando d&aacute;-se o escoamento das aguas.
+<br />
+
+<br />
+
+Na etiologia da molestia, que grassou na for&ccedil;a e a dizimou,
+depois da sua estada junto ao rio Negro, a&mdash;paralysia
+dos membros inferiores ou paraplegia&mdash;, devem ser
+assignalados o ar humido e vapores corruptos, que, por
+mais de mez, respir&aacute;r&atilde;o aquelles que se
+ach&aacute;r&atilde;o debaixo
+de sua perniciosa influencia.
+<br />
+
+<br />
+
+O ch&atilde;o, sobre que assentava o acampamento geral, era
+uma verdadeira <em>turbeira</em>: com poucos
+palmos de profundidade,
+tirav&atilde;o os soldados, junto &aacute;s barrancas, agua, de
+po&ccedil;as d'onde sahi&atilde;o p&aacute;os, que,
+seccados, servi&atilde;o para alimentar
+o fogo de suas modestas cosinhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde fallaremos, com algum desenvolvimento,
+n'essa enfermidade, que roubou-nos tantos companheiros,
+n'um curto intervallo de tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos o rio Negro em pelotas, e, &aacute;s 10 horas
+do
+dia 26 de Fevereiro, achavamo-nos na sua margem esquerda,
+n'uma estreita trilha que devia-nos guiar, sempre
+em <em>rumo certo</em>,
+assever&aacute;ra-nos na vespera,
+<em>seriamente</em>,
+um indio do Potreiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O tal aborigene n&atilde;o professava os principios de Epaminondas:
+entretanto, ainda n'aquelle dia, davamos &aacute; sua
+asser&ccedil;&atilde;o toda a f&eacute;, a estimavamos
+valiosa,<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1">&laquo;N'aquelle engano d'alma,
+ledo e cego,<br />
+
+Que a fortuna n&atilde;o deixa durar muito.&raquo;</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Fomos acampar junto &aacute; serra que, a 500 bra&ccedil;as do
+rio,
+ergue-se empinada; e ahi aproveit&aacute;mos o sol para seccar
+<span class="pagenum">[40]</span>
+as nossas roupas, que tinh&atilde;o-se ensopado em diversos
+mergulhos de canastra, nos alagadi&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Diante de n&oacute;s abri&atilde;o-se os campos
+al&eacute;m, com cerrados
+ao longe; &aacute; nossa direita, havia um matosinho com olhos
+d'agua, e, &aacute; esquerda, levantava-se uma serrania elevada,
+cujos cabe&ccedil;os mais proximos reflecti&atilde;o ao sol,
+grandes
+quebradas vermelho-rubras, confundindo-se os mais afastados,
+n'uma linha continua, com o azul do c&eacute;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A serra de <em>Maracaj&uacute;</em><sup><a href="#n26">[26]</a></sup>
+percorre a direc&ccedil;&atilde;o constante,
+media de N. N. E. a S. S. O., desde perto do Piquiry at&eacute;
+as ramifica&ccedil;&otilde;es na republica do Paraguay e na
+provincia
+do Paran&aacute;. Interrompida de quando em quando, &aacute;s
+vezes
+seguida, e com alturas diversas, destaca ramos, que correm,
+ou parallelamente, ou ainda perpendicularmente, como
+o vimos no Potreiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua estructura geologica &eacute; de gr&eacute;s argiloso,
+compacto
+em certos pontos; tendo soffrido a ac&ccedil;&atilde;o de
+aguas, manifestada,
+em muitos lugares, pelas extensas linhas parallelas,
+como j&aacute; o haviamos observado na serra da Cabelleira,
+em Goyaz, e em todos os serrotes do caminho do
+Coxim.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; evidente que o lago, cuja existencia parece-nos<sup><a href="#n27">[27]</a></sup>
+t&atilde;o claramente patenteada, tomava
+propor&ccedil;&otilde;es de mediterraneo,
+<span class="pagenum">[41]</span>
+&aacute; vista da extens&atilde;o occupada, e o
+estudo comparativo
+das diversas alturas, que se not&atilde;o n'essas differentes
+cad&ecirc;as, deve trazer resultados interessantes, dando
+certeza scientifica n'esta curiosa quest&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A serra de Maracaj&uacute; n&atilde;o foi, de certo, resultado
+de
+erup&ccedil;&atilde;o, mas sim de levantamento, devido a algum
+terremoto,
+das camadas da regi&atilde;o que a cerca, e que apresenta
+os mesmos typos geologicos.
+<br />
+
+<br />
+
+A vegeta&ccedil;&atilde;o acompanha as dobras e declives da
+serra
+at&eacute; o topo: s&oacute; os peda&ccedil;os de
+desaggrega&ccedil;&atilde;o ach&atilde;o-se desnudados.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto que esses pontos apresent&atilde;o, &eacute; quasi
+sempre
+regular: ora, s&atilde;o c&oacute;rtes a pique, ora,
+f&oacute;rmas abauladas;
+algumas vezes, &aacute; semelhan&ccedil;a de arcos com
+irradia&ccedil;&otilde;es,
+outras, tra&ccedil;os continuados e dispostos parallelamente: a
+c&ocirc;r &eacute; visivelmente de barro, a
+disposi&ccedil;&atilde;o schistosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Existe controversia sobre o nome que deva ter essa cad&ecirc;a
+de montanha: para uns &eacute; a serra de Amambahy<sup><a href="#n28">[28]</a></sup>,
+para outros, de Maracaj&uacute;. Parece-nos que o primeiro nome
+s&oacute; p&oacute;de convir &aacute; sua parte meridional,
+quando d&aacute; nascimento
+ao rio d'aquelle nome, antes de penetrar no territorio
+da republica e de estender os seus bra&ccedil;os para as
+provincias do Paran&aacute; e Rio-Grande do Sul, a cujo systema
+oreographico v&atilde;o pertencer.
+<br />
+
+<br />
+
+No primeiro pouso junto &aacute; serra, verific&aacute;mos que
+o
+<span class="pagenum">[42]</span>
+nosso ultimo peda&ccedil;o de carne estava arruinado: comemos
+comtudo um saboroso churrasco de queixada, morto na
+vespera, cujos restos for&atilde;o devorados pelos nossos
+camaradas.
+<br />
+
+<br />
+
+Embaidos com esperan&ccedil;as no muito gado, n&atilde;o
+consideravamos
+ent&atilde;o o perigo de nossa situa&ccedil;&atilde;o e
+adormecemos
+com a doce persuas&atilde;o, que em breve concluiriamos
+aquella peregrina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte (27) puzemo-nos em marcha, encontrando,
+logo ao sahir, tres a quatro trilhas, que levav&atilde;o
+para direc&ccedil;&otilde;es mui differentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguindo, ao acaso, por uma d'ellas, fomos esbarrar
+n'um pantanal: tomando outra, de volta ao ponto de partida,
+fomos ter a um matagal impenetravel. Comprehendemos
+ent&atilde;o, que er&atilde;o ellas formadas pelas pisadas do
+gado, que deviamos s&oacute; confiar na bussola, e, quanto
+nos fosse possivel, ir cortando sempre a rumo sul.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa marcha, can&ccedil;ativa para nossos animaes e sobretudo
+para os homens que nos acompanhav&atilde;o de p&eacute;,
+n&atilde;o
+p&ocirc;de prolongar-se por muito tempo, pela grande quantidade
+de <em>sap&eacute;</em> cortante
+(anatherium bicorne) e
+<em>cragoat&aacute;s</em>
+(bromelia spinosa).
+<br />
+
+<br />
+
+Esbarr&aacute;mos de novo com uma mata fechada de
+<em>mimosaceas</em>
+espinhosas, que foi necessario rodear, depois de
+perdermos muito tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo depois atravess&aacute;mos uma campina, coberta por
+gramineas mui rasteiras, na qual gast&aacute;mos mais de uma
+hora, pela natureza do ch&atilde;o f&ocirc;fo, em que se
+atolav&atilde;o os
+animaes. Observ&aacute;mos que, n'aquellas pradarias perfidas,
+n&atilde;o se nota o rasto de nenhum animal, e que, por instincto,
+<span class="pagenum">[43]</span>
+procur&atilde;o sempre desviar-se d'ellas, percorrendo
+uma fita mais solida, intermedia entre o campo e os
+bosques, que bord&atilde;o a fralda da serra.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa zona, al&eacute;m de difficultosa, a unica viavel, offerece
+desvios mui longos, voltas muito extensas, de modo que,
+para marcharmos um quarto de legoa, na boa
+direc&ccedil;&atilde;o S.,
+faziamos tres quartos, virando quasi sempre para L., mas
+raras vezes a O.
+<br />
+
+<br />
+
+A viagem, assim em zig-zag, tornava-se muito monotona;
+pois que, tomando ponto de referencia em alguns
+dos cabe&ccedil;os da serra, sempre os viamos na mesma
+posi&ccedil;&atilde;o
+em que os tinhamos observado.
+<br />
+
+<br />
+
+Desanimados, sem r&oacute;ta certa nem esperan&ccedil;a de a
+encontrarmos,
+acamp&aacute;mos, quasi ao anoitecer, n'uma varzea,
+n&atilde;o muito humida, despida de arvores, a que
+cham&atilde;o
+<em>barreiro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o campos salinos, em que se f&oacute;rm&atilde;o
+po&ccedil;as de agua
+notavelmente salgada, com sabor muito apreciavel para os
+animaes, que ahi se reunem, em grande quantidade, n&atilde;o
+s&oacute; mammiferos como aves.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma graminea pardacenta, muito baixa, que parece
+vegetar com difficuldade, algumas
+<em>synanthereas</em>, espalhadas
+aqui e acol&aacute;, e poucos p&eacute;s de
+<em>mimosas</em>, constituem o
+aspecto botanico d'esses barreiros. &Aacute;s vezes tambem apparece
+uma bignoniacea, o <em>para-tudo</em><sup><a href="#n29">[29]</a></sup>,
+principalmente
+para os lados do Apa e norte da republica do Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+N'esse barreiro vimos innumeras p&eacute;g&aacute;das de gado.
+Ao
+longe mugi&atilde;o rezes, acordando em n&oacute;s a
+esperan&ccedil;a de
+fazer ca&ccedil;ada proveitosa, pois que confiavamos na certeza
+dos tiros de nossos soldados.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="center">&laquo;Desejos sempre
+v&atilde;os, reaes s&oacute;
+d&ocirc;res!&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a horas, volt&aacute;r&atilde;o os ca&ccedil;adores,
+cabisbaixos, merencorios:
+nenhuma pontaria acert&aacute;ra. O gado, bravio em extremo,
+fugia apenas presentia qualquer vulto e sua
+obten&ccedil;&atilde;o,
+por arma de fogo, tornava-se t&atilde;o difficil, quanto a de
+qualquer
+animal das selvas. Refreando as redeas &aacute; appetencia, que
+se havia despertado ao som dos tiros, para melhores
+occasi&otilde;es,
+pass&aacute;mos a noite, impacientes pela manh&atilde;.
+Entretanto
+esse primeiro dia devia de ser o resumo de toda a
+nossa viagem.
+<br />
+
+<br />
+
+A narrativa de infelicidades sempre uniformes n&atilde;o
+p&oacute;de
+de certo affectar sen&atilde;o uma f&oacute;rma descriptiva,
+cuja prolonga&ccedil;&atilde;o
+hade impreterivelmente tocar, t&atilde;o de perto, os
+dominios da monotonia, que a repercuss&atilde;o &eacute;
+infallivel no
+espirito do leitor.
+<br />
+
+<br />
+
+Consideremos, pois, as miserias por alto, englobadamente
+e apressemos a narra&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o deixa
+de ser custosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Fiquem os soffrimentos por minutos, por segundos, aos
+que lhes sentir&atilde;o os espinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os dias subsequentes, and&aacute;mos perdidos; ora,
+estacados por muitos dias em pousos, &aacute; espera de nossos
+animaes que fugi&atilde;o, 6 e 7 legoas atraz, perseguidos dos
+mosqui
+Em todos os dias subsequentes, and&aacute;mos perdidos; ora,
+estacados por muitos dias em pousos, &aacute; espera de nossos
+animaes que fugi&atilde;o, 6 e 7 legoas atraz, perseguidos dos
+mosquitos; ora, caminhando por cerrados inundados, ora
+abrindo veredas em taquaraes, que afinal nos obrigav&atilde;o a
+<span class="pagenum">[45]</span>
+retroceder, ora emfim, rodeando as campinas, de que fall&aacute;mos
+j&aacute;, cahindo, para distrac&ccedil;&atilde;o, em
+grandes pantanaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A zona que percorriamos era uma baixada, alagada pelas
+aguas da serra e estreitada por duas lombas; uma junto
+ao monte, coberta de <em>taquarissima</em> e
+<em>aucurys</em> e a outra
+fronteira com cerrados, que n&atilde;o podiamos alcan&ccedil;ar
+em
+raz&atilde;o dos pantanaes, que encontravamos, apenas tentavamos
+descer.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquella regi&atilde;o &eacute; a mais ingrata possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o gado, que entretanto avistavamos, pastando em
+grandes manadas, n&atilde;o podiamos mais contar: milhares de
+decep&ccedil;&otilde;es tinh&atilde;o-nos convencido da
+impossibilidade em
+obtel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo nos corria em contrario: nenhum fructo, a agua
+pessima e sempre quente: os nossos animaes afracando,
+outros fugidos, n&oacute;s completamente perdidos e arcando,
+desde muitos dias, n&atilde;o com essa falta de
+alimenta&ccedil;&atilde;o que
+haviamos anteriormente sentido no Coxim, mas com a
+verdadeira <em>fome</em>, descarnada e
+horrorosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Sustentavamo-nos com duas chicaras de ch&aacute;, uma ao sahir
+do pouso, outra ao anoitecer, medidas e reguladas, em
+atten&ccedil;&atilde;o ao terrivel
+<em>&aacute;manh&atilde;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Os soldados chupav&atilde;o miolo<sup><a href="#n30">[30]</a></sup>
+de macaubeiros;
+comi&atilde;o
+<em>jatob&aacute;s</em><sup><a href="#n31">[31]</a></sup>
+verdes, cujo
+sabor desagradavel sobrepuja ao
+cheiro nauseabundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+Esses nossos fieis companheiros de viagem e soffrimentos
+trazi&atilde;o-nos sempre, com admiravel lealdade, a sua
+insufficiente
+colheita de fructos.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse estado de depauperamento de for&ccedil;as, a anorexia
+era completa; cust&aacute;ra-nos apenas o primeiro dia de fome,
+nos outros, sentiamos nauseas, syncopes frequentes e completa
+turba&ccedil;&atilde;o de vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto nunca o desanimo pairou sobre n&oacute;s. Como
+n'um naufragio, procuravamos, luctando e debatendo-nos,
+uma sahida para essa crise.
+<br />
+
+<br />
+
+Abandon&aacute;mos cargas e canastras no mato.
+<br />
+
+<br />
+
+Alliviando os animaes, que nos restav&atilde;o, caminhavamos
+sem cessar, apezar do estado de fraqueza que nos acabrunhava,
+interrogando as menores treitas, consultando a
+cada momento o horisonte, fazendo continuo fogo sobre
+rezes, cuja vida illesa ficava garantida pelo nosso
+<em>caiporismo</em>...
+e, sobretudo, pela distancia, em que er&atilde;o atiradas.
+<br />
+
+<br />
+
+Oito dias d'esse martyrio ingente que nos esgotava as
+for&ccedil;as, havi&atilde;o-se passado, nos quaes
+s&oacute; tinhamos vencido
+onze legoas.
+<br />
+
+<br />
+
+Decidimos, tomando para O., ir cahir na parte conhecida
+do pantanal, embora estivesse ella completamente coberta
+pelas aguas. N&atilde;o podiamos continuar semelhante
+viagem, debaixo de auspicios t&atilde;o negros e terriveis;
+n&atilde;o
+deviamos, sem grave imprudencia, teimar em achar caminho,
+por onde s&oacute; havi&atilde;o passado algumas pessoas,
+acossadas
+do inimigo, e occultando os signaes de sua fuga.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, pois, voltando as costas &aacute; serra, seguimos por
+uma trilha firme de gado, em direc&ccedil;&atilde;o ao poente,
+caminhando
+n'este rumo mais de uma legoa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+Encontr&aacute;mos, com alegria estrondosa, c&oacute;rtes nas
+arvores,
+que significav&atilde;o a passagem recente de um homem. Ainda
+mais, esbarr&aacute;mos n'um pouso de fugitivos abandonado, e,
+o que &eacute; melhor, com um mato de palmeiras, que nos
+der&atilde;o palmitos e c&ocirc;cos.
+<br />
+
+<br />
+
+A agua excellente de um corrego e aquelles ingredientes
+form&aacute;r&atilde;o uma refei&ccedil;&atilde;o
+solemne, com a qual surgio
+em n&oacute;s a esperan&ccedil;a de podermos ter outras
+melhores:
+vestibulo para momentos mais suaves, a que tinhamos
+feito completo jus.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO IV
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 4 de Mar&ccedil;o, pelas onze horas da manh&atilde;,
+alcan&ccedil;&aacute;mos
+o caminho do pantanal.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviamos, na nossa digress&atilde;o, escapado aos
+alagadi&ccedil;os do
+rio Negro, que dav&atilde;o nado, e restava-nos a parte mais
+secca, para chegarmos ao Tab&ocirc;co e, com facilidade,
+&aacute; ald&ecirc;a
+da Piranhinha, d'onde deviamos ir ter aos Morros.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta parte, mais enxuta, apresentava comtudo uma profundidade
+em aguas, que nos incommodava sobremaneira.
+Viajando continuamente com as botas molhadas, cheg&aacute;mos
+ao pouso da Piuva<sup><a href="#n32">[32]</a></sup>,
+onde um soldado conseguio emfim.....
+matar uma rez.
+<br />
+
+<br />
+
+A rapidez, com que foi ella esquartejada, a fogueira, que
+chammejou logo, atirando ardente calor sobre immensos
+peda&ccedil;os de carne espetados, o olhar devorador de todos,
+<span class="pagenum">[50]</span>
+a impaciencia que obrigava a comer partes semi-cr&uacute;as,
+attest&aacute;r&atilde;o
+a importancia d'esse tiro aben&ccedil;oado.
+<br />
+
+<br />
+
+Julgavamos, eu e o meu companheiro, dever de ter
+appetite feroz, como o dos soldados: entretanto, nossos estomagos
+mais delicados, mal pod&eacute;r&atilde;o aceitar uma minima
+por&ccedil;&atilde;o da alimenta&ccedil;&atilde;o
+necessaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Apraziamo-nos, por&eacute;m, em apreciar o movimento continuo
+das facas, o trabalho incessante dos queixos que
+funccionav&atilde;o, depois de tantos dias de quasi absoluto
+descan&ccedil;o,
+a modo das mandibulas dos her&oacute;es pantaguelicos
+de Rabelais.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante toda a noite n&atilde;o se cessou de comer.
+<br />
+
+<br />
+
+A fogueira, de continuo, assava
+<em>churrascos</em>, que
+desappareci&atilde;o
+fantasmagoricamente e despedia, sobre aquelle
+grupo faminto, reflexos, que fazi&atilde;o reluzir a avidez de
+seus olhares, a sofreguid&atilde;o de sua
+occupa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A manh&atilde; de 5 pareceu-nos mais risonha.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto das cousas havia-se modificado radicalmente e
+podiamo-nos considerar salvos do perigo imminente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, por uma das prerogativas felizes do espirito
+humano&mdash;a
+reluctancia &aacute;s reminiscencias desagradaveis&mdash;os
+tempos de desgra&ccedil;a parecia-nos se tinh&atilde;o passado
+em
+&eacute;poca mui remota, talvez nos dominios de t&eacute;trico
+sonho.
+<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; cuidavamos no presente, que se abria para um futuro
+de doces compensa&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Accresceu &aacute; nossa satisfa&ccedil;&atilde;o um pucaro
+de delicioso
+mel de <em>jaty</em> (<a href="#ng">Nota G</a>),
+que nos trouxe
+um camarada.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquelles cerrados havia grande abundancia de colm&ecirc;as,
+e, d'ahi por diante, podiamos ado&ccedil;ar alguma
+bebida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span>
+At&eacute; a margem direita do rio Tab&ocirc;co, o terreno todo
+constitue, com pequenos intervallos, um pantanal de muitas
+legoas de extens&atilde;o, o qual nos n&atilde;o custou,
+comtudo,
+muitos dias de viagem, pela firmeza da trilha em que
+se anda.
+<br />
+
+<br />
+
+No principio das aguas e no seu final, pelo embeber
+das terras e depois pelo seu deseccamento lento, o transito
+&eacute; mais penoso, quando a natureza do s&oacute;lo
+n&atilde;o se
+opponha &aacute; forma&ccedil;&atilde;o de atoleiros e
+tremedaes<sup><a href="#n33">[33]</a></sup>,
+como em
+alguns pontos em que prevalece o elemento arenoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Os pantanaes, no districto de Miranda, produzidos, como
+dissemos atraz, durante a esta&ccedil;&atilde;o chuvosa, pelo
+trasbordar
+de todos os rios, ribeir&otilde;es, corregos e regatos, que
+cort&atilde;o aquella zona de terreno muito baixa e plana,
+estendem-se
+entre o Aquidau&aacute;na e o rio Negro, occupando
+muitas legoas, desde a base da serra do Maracaj&uacute;
+at&eacute; o rio
+Paraguay, nas quaes, s&oacute; de ponto em ponto distante, se
+encontra lugar firme e secco, em alguma collina mais
+elevada nas planicies.
+<br />
+
+<br />
+
+A invas&atilde;o das aguas nos campos, sensivel nos principios
+de Novembro, toca ao maximo nos meiados de Fevereiro
+e Mar&ccedil;o, decrescendo em Abril e escoando-se em
+principios de Maio.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta regra, fixa para a zona que percorremos, soffre
+grande altera&ccedil;&atilde;o nas proximidades do rio
+Paraguay, por
+isso que, quando os rios seus tributarios j&aacute;
+inund&aacute;r&atilde;o os
+<span class="pagenum">[52]</span>
+campos, elle vai lentamente engrossando; trasbordando
+por seu turno, quando os contingentes tendem a baixar,
+dando-se o escoamento dos pantanaes de Miranda.
+<br />
+
+<br />
+
+O caracter, que tem o trasbordamento d'aquella massa
+enorme de aguas, &eacute; muito importante.
+<br />
+
+<br />
+
+Os lugares proximos fic&atilde;o completamente alagados; as
+mais altas arvores, cobertas, mal deix&atilde;o v&ecirc;r a
+extrema
+rama, e grandes can&ocirc;as, sen&atilde;o vapores,
+naveg&atilde;o livremente,
+a tres e quatro legoas de distancia do verdadeiro
+alveo do Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+As enchentes, &aacute;s vezes, for&ccedil;&atilde;o a que
+os rios do districto
+de Miranda sej&atilde;o refluidos e despejem de novo nos
+campos a agua que n&atilde;o encontra vasante.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa occasi&atilde;o, a navega&ccedil;&atilde;o faz-se
+com extrema facilidade
+e celeridade; as can&ocirc;as cort&atilde;o, como diz-se, a
+<em>rumo
+certo</em>, e abrevi&atilde;o de muitos dias a viagem,
+sobretudo
+quando ella se faz rio acima, por encontrarem aguas placidas
+e dormentes, e n&atilde;o a correnteza contraria de um
+curso veloz.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>zinga</em> habitual, que o barqueiro
+finca no leito do rio,
+para fazer caminhar a can&ocirc;a, &eacute; ent&atilde;o
+substituida por compridos
+p&aacute;os de forquilha, para aproveitar os ramos das arvores
+submersas e afastar d'elles a barquinha, na occasi&atilde;o
+precisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Os pantanaes, que atravess&aacute;mos, offerecem &aacute; vista
+um
+aspecto de vegeta&ccedil;&atilde;o com caracter particular, o
+qual reproduz-se
+uniformemente pelo numero limitado de generos
+de plantas que resistem, em inunda&ccedil;&otilde;es
+periodicas, &aacute; immers&atilde;o
+de suas raizes, durante mezes inteiros, e &aacute; seccura
+completa, durante o resto do anno.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[53]</span>
+<em>Monocotyledoneas</em>, sobretudo
+<em>cyperaceas</em>, abund&atilde;o
+naturalmente,
+durante as aguas, e differentes especies de
+capim, entre o qual <em>nympheaceas</em> e
+outras plantas palustres
+se expandem, cobrem grandes espa&ccedil;os, nos quaes
+s&oacute; cresce um arbusto, o
+<em>mureci-penina</em><sup><a href="#n34">[34]</a></sup>
+(byrsonima
+chrysophylla), unico que apparece nos verdadeiros pantanaes.
+Nos campos alagados, cap&otilde;es e cerrados, surgem
+de dentro d'agua.
+<br />
+
+<br />
+
+Com admira&ccedil;&atilde;o vimos lindas
+<em>convolvulaceas</em>, cujas
+fl&ocirc;res
+azul-celestes (hypom&oelig;a) casav&atilde;o-se agradavelmente
+com
+as corollas, c&ocirc;r-solferino (carmim-roxeado), de uma notavel
+bignoniacea (caule sarmentoso).
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos grupos de
+<em>ara&ccedil;&aacute;s</em>,
+chamados vulgarmente de cor&ocirc;a,
+levant&atilde;o-se, aqui e alli, no meio do capim.
+Disser&atilde;o-nos
+que esses fructos produzem febres intermittentes; a raz&atilde;o
+nos n&atilde;o parece clara, entretanto nenhum sertanejo deixa
+de afian&ccedil;ar, com toda a energia, que o
+<em>ara&ccedil;&aacute; do pant&aacute;no</em><sup><a href="#n35">[35]</a></sup><em>
+d&aacute; sempre maleitas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Observ&aacute;mos que, &aacute; medida que as aguas
+v&atilde;o subindo,
+o capim desenvolve-se; raz&atilde;o pela qual, nas proximidades
+do rio Paraguay, podem-se arrancar p&eacute;s de algumas
+bra&ccedil;as
+<span class="pagenum">[54]</span>
+de comprimento. As abertas n'elle indic&atilde;o as trilhas e
+pisadas
+de gado, as quaes s&atilde;o excellentes guias para lugares
+enxutos.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto de um pantanal &eacute; profundamente melancolico:
+o viajante fica possuido de um sentimento contristador,
+ao atravessar aquellas paragens, em que o perigo
+p&oacute;de sorprehendel-o a cada instante.
+<br />
+
+<br />
+
+O ch&atilde;o furta-se &aacute;s suas vistas indagadoras. O
+bater monotono
+dos p&eacute;s dos animaes na agua, os sombrios aspectos
+que o cerc&atilde;o, os comoros de cupins que, com escura
+c&ocirc;r, surgem, aqui, acol&aacute;, de entre moutas de capim
+pardacento,
+o silencio de toda essa natureza tristonha e anormal,
+acabrunh&atilde;o a alma e a prostr&atilde;o grandemente.
+<br />
+
+<br />
+
+O horisonte parece acanhado: o c&eacute;o como que pesa,
+com curva mais abatida, sobre aquella scena de
+desola&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O sertanejo, comtudo, passa calmo e cantando: apenas,
+de vez em quando, examina, debru&ccedil;ando-se sobre as aguas
+paradas, se os perfidos enleios das hervas n&atilde;o lhe
+impedir&atilde;o
+a passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes, para um viajor novato, o receio n&atilde;o
+&eacute; f&oacute;ra
+de proposito. De repente sobe a altura da agua: j&aacute; toca
+o sellim; mais um passo, o cobrir&aacute;&mdash;&eacute;
+uma
+<em>corixa</em>&mdash;.
+Apear-se dentro d'agua, formar uma pelota para as suas
+cargas, atirar-se, prestes a nado, com a corda entre os dentes,
+&eacute; quest&atilde;o de minutos, para o pr&aacute;tico,
+e origem de
+mil aborrecimentos, para quem n&atilde;o o f&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Os viventes, que se encontr&atilde;o nos pantanaes,
+ach&atilde;o-se
+em rela&ccedil;&atilde;o com o seu
+<em>facies</em> tristonho. &Eacute; o
+desadornado
+<em>soc&oacute;</em>, que
+esvoa&ccedil;a pesadamente, indo pousar desairoso
+sobre as torres de cupim; &eacute; o desaprasivel
+<em>tuyuy&uacute;</em>, com o
+<span class="pagenum">[55]</span>
+pesco&ccedil;o vermelho e bico longo, que cruza-se nos ares com
+o desengra&ccedil;ado
+<em>tabu-y&aacute;y&aacute;</em><sup><a href="#n36">[36]</a></sup>.
+Alegra, de quando em quando,
+a vista alguma <em>gar&ccedil;a</em> que,
+com rapidez, corta o azul
+do c&eacute;o, estirando o elegante collo e reflectindo, ao sol, o
+branco esplendido de sua plumagem; rompem, de quando
+em quando, o silencio, barulhentos bandos de
+<em>patos</em> (anas)
+e <em>marrequinhas</em>, que erguem custoso
+v&ocirc;o ao minimo ruido.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos firmes, as p&eacute;g&aacute;das da temivel
+<em>on&ccedil;a pintada</em>
+n&atilde;o
+s&atilde;o raras, assim como as do
+<em>tamandu&aacute; bandeira</em>
+(myrmecophaga
+jubata) que encontra sobeja alimenta&ccedil;&atilde;o nos
+muitos formigueiros e casas de cupins.
+<br />
+
+<br />
+
+O gado d&aacute;-se perfeitamente no pantanal: durante o
+dia, desce elle todo para os lugares inundados, por&eacute;m
+n&atilde;o
+atoladi&ccedil;os (o que evit&atilde;o com muito cuidado)
+recolhendo-se,
+&aacute; prima noite, para os pontos descobertos ou para os
+<em>barreiros</em>,
+onde past&atilde;o em grandes manadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Estas salsas pousadas constituem uma das grandes riquezas
+da provincia, para a crea&ccedil;&atilde;o de rezes: ahi
+ach&atilde;o
+ellas o sal necessario para a alimenta&ccedil;&atilde;o,
+tornando-se-lhes a
+carne t&atilde;o saborosa, que dispensa qualquer
+prepara&ccedil;&atilde;o, para
+ser deliciosa ao paladar.
+<br />
+
+<br />
+
+As po&ccedil;as, que se f&oacute;rm&atilde;o nas
+depress&otilde;es d'aquellas regi&otilde;es
+salinas, cont&eacute;m uma agua que os animaes bebem
+com avidez, voltando, de muitas legoas al&eacute;m, para saciarem
+ahi a s&ecirc;de, apezar de qualquer outra que poss&atilde;o
+encontrar.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; o dissemos, &eacute; um lugar curioso de
+reuni&atilde;o: nas arvores
+pous&atilde;o grandes cohortes de aligeros e melodiosos cantores<sup><a href="#n37">[37]</a></sup>,
+<span class="pagenum">[56]</span>
+ao passo que numerosos rastos de
+<em>porcos</em><sup><a href="#n38">[38]</a></sup>,
+<em>veados</em>,
+<em>antas</em>,
+<em>tat&uacute;s</em>, e etc.,
+indic&atilde;o a continua frequencia
+d'esses animaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim como o homem ahi vai esperar motivos para
+grandes fa&ccedil;anhas cynegeticas, a
+<em>on&ccedil;a</em>, por instinctos mais
+naturaes, nunca se arreda muito d'esses lugares, t&atilde;o bem
+providos para os seus appetites ferozes. Bem junta ao ch&atilde;o,
+atraz de qualquer moutasinha, prepara ella o b&oacute;te que deve
+dar-lhe a posse do pobre vivente, que se colloca na sua
+terrivel esphera de actividade. Obrigada a retirada cautelosa,
+quando se approxim&atilde;o as numerosas varas de
+<em>queixadas</em>,
+vai ella mais longe esperar algum, que se atraze
+e separe-se da columna respeitavel d'aquelles suinos, cujos
+dentes compridos e agu&ccedil;ados, com raz&atilde;o, lhe
+inspir&atilde;o receios.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos barreiros o ch&atilde;o &eacute; sempre firme e, apezar de
+inundado
+por muitos mezes, nunca se torna atoladi&ccedil;o. Tinhamos
+feito observa&ccedil;&atilde;o que, em todos aquelles campos,
+onde
+crescem as <em>synanthereas</em>&mdash;perpetuas
+do campo&mdash;, o terreno
+&eacute; sempre estavel: de modo que, de longe, ao avistarmos
+as campinas, que s&oacute; differen&ccedil;av&atilde;o-se,
+por terem ou
+n&atilde;o aquellas plantinhas, podiamos com confian&ccedil;a
+atravessal-as
+ou procuravamos cuidadosamente rodeal-as.
+<br />
+
+<br />
+
+Poder-se-hia, com menos certeza comtudo, dizer o mesmo,
+quanto a umas <em>mimosaceas</em>,
+indicadoras quasi sempre de
+um local enxuto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span>
+Fugiamos, pelo contrario, cautelosamente das varzeas
+limpas e vistosas, em que trai&ccedil;oeira e virente grama
+occultava
+atoleiros continuos e perigosos&mdash;<em>Latet anguis in
+herb&acirc;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Custosa experiencia fez-nos observar essas particularidades,
+que de muito servir&atilde;o-nos, no seguimento d'aquella
+viagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Os habitantes do sul de Mato-Grosso procur&atilde;o, nas
+&eacute;pocas de grande carencia de sal e sua consequente e
+excessiva
+carestia, tirar, dos terrenos salinos, aquelle necessario
+condimento, a despeito de haver difficuldade n'essa
+extrac&ccedil;&atilde;o e os meios empregados serem mui
+grosseiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas proximidades de Coimbra existem terrenos, j&aacute; conhecidos
+e explorados com vantagem, d'onde extrahe-se o chamado
+<em>sal da terra</em>, que vende-se
+completamente impuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Em 1855, quando as communica&ccedil;&otilde;es terrestres,
+interrompidas
+pela previs&atilde;o da proxima navega&ccedil;&atilde;o do
+Paraguay,
+por alguns mezes, deix&aacute;r&atilde;o de fornecer o sal para
+consumo
+de todos os pontos da provincia, aquelles barreiros<sup><a href="#n39">[39]</a></sup>
+torn&aacute;r&atilde;o-se
+fonte de extraordinario ganho para alguns e, por
+isso, centro de attrac&ccedil;&atilde;o para muitos
+especuladores.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto a ganancia achou-se a tempo frustrada, pela
+entrada de um navio que, cortando aguas acima o Paraguay,
+foi abastecer de sal o porto de Corumb&aacute; e a capital
+da provincia. Era uma barca de nacionalidade paraguaya;
+a primeira que aproveitava-se do tratado de
+navega&ccedil;&atilde;o
+entre o Imperio e a Republica.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[58]</span>
+A essa seguir&atilde;o-se logo outras, estabelecendo um movimento
+commercial activo, que deu o ultimo golpe &aacute;
+especula&ccedil;&atilde;o
+da utilisa&ccedil;&atilde;o dos barreiros.
+<br />
+
+<br />
+
+A decep&ccedil;&atilde;o foi merecida, a id&eacute;a
+comtudo n&atilde;o deve perder-se.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO V
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A crise, em que se achou a provincia de Mato-Grosso,
+por occasi&atilde;o da invas&atilde;o de 1865, veio renovar os
+apuros
+pela falta de sal, at&eacute; que de novo recome&ccedil;assem
+as recovagens
+a transportar este genero das provincias beira-mar.
+Era a renova&ccedil;&atilde;o obrigatoria dos meios de
+communica&ccedil;&atilde;o
+antigos, cujo estabelecimento demorado deu lugar ao espirito
+ganancieiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Cuyab&aacute; vendeu-se o alqueire de sal a 600$000 rs.
+e em pouco tempo subio a mais de conto!
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto um pouco de industria<sup><a href="#n40">[40]</a></sup>
+suppriria ao sal
+recebido do exterior, ou, pelo menos, attenuaria muito as
+consequencias de sua diminui&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span>
+A Fran&ccedil;a, por occasi&atilde;o do bloqueio continental,
+recorreu
+aos seus sabios e o assucar de beterraba livrou-a do jugo
+colonial: a sciencia deu as m&atilde;os &aacute; industria,
+ajudando a
+politica espantosa, que podia desfechar golpe mortal no
+poder inglez.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Mato-Grosso, n&atilde;o se tornav&atilde;o precisos os
+esfor&ccedil;os
+intellectuaes dos mestres da sciencia. Com pequenos melhoramentos,
+for&ccedil;a de vontade e de trabalho, tirar-se-i&atilde;o
+grandes quantidades de sal, cortando os v&ocirc;os &aacute;
+especula&ccedil;&atilde;o
+abusiva e altamente reprovavel. Todos comtudo se
+sujeit&atilde;o &aacute;s imposi&ccedil;&otilde;es dos
+monopolistas, que, na raz&atilde;o
+crescente da carencia, alteav&atilde;o cada vez mais o
+pre&ccedil;o de
+seu genero, na carreira vertiginosa de lucros exorbitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto os barreiros jazem abandonados, entregues
+aos animaes, que ali obtem, pela lambedura, o que tanto
+custa aos homens.
+<br />
+
+<br />
+
+A indolencia parece ter assentado sua s&eacute;de em Mato-Grosso.
+<br />
+
+<br />
+
+Existe nos campos d'aquella provincia, uma
+popula&ccedil;&atilde;o
+<em>sui generis</em>, meramente entregue
+&aacute; crea&ccedil;&atilde;o de gado, com
+habitos arraigados, que a inhabilit&atilde;o para qualquer outro
+trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+No districto de Miranda, ou se &eacute; negociante ou fazendeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A vida do fazendeiro &eacute; marcar, em certas &eacute;pocas
+do
+anno, os bezerros, <em>costear</em> o gado,
+de quando em quando,
+e negociar com elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Sua fazenda &eacute; uma &aacute;rea de terreno indeterminada,
+muitas
+vezes com 5, 10, 20 e mais legoas de extens&atilde;o, tendo,
+em certo ponto, um rancho, coberto quase sempre de palha,
+<span class="pagenum">[61]</span>
+raras vezes de telha, que serve de vivenda ao dono
+d'essas gigantescas propriedades, onde caberi&atilde;o,
+&aacute; larga,
+dez a doze gr&atilde;o-ducados ou principados allem&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi passar&aacute; elle toda sua existencia; 50, 60 annos,
+sem que lhe corra pela id&eacute;a a necessidade de um melhoramento
+em suas terras, em sua palho&ccedil;a, a
+frui&ccedil;&atilde;o
+de um canto aprazivel, de um pomar. Raras vaccas
+mansas rode&atilde;o um espa&ccedil;o limpo s&oacute; pelas
+patas do gado;
+por&eacute;m dezenas de milhares de rezes percorrem as suas
+campinas desertas e innumeros touros mugem ao longe.
+<br />
+
+<br />
+
+Este aspecto desolador &eacute; o mais frequente: entretanto
+a descrip&ccedil;&atilde;o, que nos fizer&atilde;o, da
+fazenda das Pirapitangas<sup><a href="#n41">[41]</a></sup>,
+pertencente ao Sr. bar&atilde;o de Villa-Maria, indica da
+parte do seu proprietario, espirito de actividade e gosto
+pelo trabalho, pouco communs na provincia.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma altera&ccedil;&atilde;o profunda no systema actual de viver
+n&atilde;o hade comtudo soffrer deten&ccedil;a: a passagem para
+a vida
+agricola.
+<br />
+
+<br />
+
+A epidemia que grassa entre os cavallos, produzir&aacute; a
+modifica&ccedil;&atilde;o de que fallamos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha cavallo que resista a essa peste, depois de poucos
+annos de trabalho, de modo que, em certas &eacute;pocas,
+qualquer animal attinge a pre&ccedil;os despropositados.
+<br />
+
+<br />
+
+Em alguns annos, a difficuldade em obter cavalhada tem
+impossibilitado o
+<em>cost&ecirc;o</em><sup><a href="#n42">[42]</a></sup>,
+sem o qual o
+gado se torna
+arisco e bravio, como o que avistavamos na base da serra
+de Maracaj&uacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[62]</span>
+Transportada da Bolivia em 1857, come&ccedil;ou aquella enfermidade
+a grassar entre os cavallos, com todos os caracteres
+de epidemica. Hoje tornou-se endemica.
+<br />
+
+<br />
+
+A destrui&ccedil;&atilde;o foi quasi completa; mal
+escap&aacute;r&atilde;o alguns,
+em localidades salubres e aos quaes se poup&aacute;ra o excesso
+de servi&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde ent&atilde;o, annualmente reapparece: ora, atacando
+com pouca intensidade, ora, levando cavallos aos centos,
+augmentando com o calor, na esta&ccedil;&atilde;o das aguas,
+diminuindo
+com o frio e lavrando, sobretudo, na raz&atilde;o da
+agglomera&ccedil;&atilde;o de animaes muares, como aconteceu
+com
+os da expedi&ccedil;&atilde;o, durante a estada no Coxim, onde
+morr&ecirc;r&atilde;o
+quasi todos os burros, n&atilde;o escapando um s&oacute;
+cavallo.
+<br />
+
+<br />
+
+A zona, em que actua esse mal, estende-se do sul do
+districto de Miranda at&eacute; Cuyab&aacute;, exactamente em
+todos os
+pontos, onde se d&atilde;o as inunda&ccedil;&otilde;es
+periodicas e o alagamento
+dos campos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos lugares mais altos, em Nioac e junto &aacute; serra,
+&eacute; molestia
+pouco conhecida, e, do outro lado da cad&ecirc;a, n&atilde;o
+penetrou ella, ficando limitada nos locaes, em que achou
+condi&ccedil;&otilde;es favoraveis para o seu desenvolvimento.
+<br />
+
+<br />
+
+O governo da provincia, attendendo &aacute; estabilidade d'essa
+molestia, cujos effeitos ruinosos, ha muito, se fazem sensiveis,
+mandou contratar um veterinario em Fran&ccedil;a, para vir
+estuda-la e fornecer meios de combate-la, visto como, sem
+resultados apreciaveis, continu&atilde;o as
+applica&ccedil;&otilde;es, que experiment&atilde;o
+os fazendeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Disser&atilde;o-nos que se d&eacute;ra a vinda para o Brasil
+d'esse
+especialista, o qual, por&eacute;m, fic&aacute;ra no Rio de
+Janeiro; n&atilde;o
+se tratando mais de chama-lo &aacute; provincia, em cujo seio
+<span class="pagenum">[63]</span>
+d&atilde;o-se, em escala crescente, os casos de
+destrui&ccedil;&atilde;o de todos
+os animaes muares.
+<br />
+
+<br />
+
+Os prodromos da molestia s&atilde;o variadissimos. &Aacute;s
+vezes,
+manisfest&atilde;o-se por simples ruidos no ventre: excrementos
+reseccados e duros, inappetencia completa, magreza repentina.
+Outras vezes, com falta de todos aquelles symptomas,
+apparece a impossibilidade ou difficuldade em beber,
+ficando, comtudo, largo tempo, o animal, com a cabe&ccedil;a
+mettida
+n'agua, demonstrando o seu desejo.
+<br />
+
+<br />
+
+Succedem-se ent&atilde;o phenomenos, cujo final obrigatorio
+&eacute;
+a morte.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora os animaes fic&atilde;o tristonhos e, em poucos dias,
+v&atilde;o
+definhando at&eacute; morrerem; ora torn&atilde;o-se
+espantadi&ccedil;os; correm,
+sem direc&ccedil;&atilde;o certa, girando at&eacute;
+cahirem, ou seguindo
+diagonalmente; ora completamente c&eacute;gos; ora surdos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os casos, as cadeiras fic&atilde;o tolhidas, a parte
+posterior derreada e o animal arrastra as patas trazeiras
+com difficuldade e can&ccedil;a&ccedil;o, d'onde
+prov&eacute;m a especifica&ccedil;&atilde;o
+de <em>peste-cadeira</em> ou de
+<em>cadeiras</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Pessoa habilitada procedeu &aacute; autopsia de um cavallo,
+victima d'aquella enfermidade, e encontrou, como era natural,
+altera&ccedil;&atilde;o profunda na medula espinhal.
+<br />
+
+<br />
+
+Um curioso de algum merecimento, o Sr. Jo&atilde;o Lemes
+do Prado, depois de esgotados muitos remedios, para subtrahir
+algum de seus cavallos &aacute; peste, usou com proveito
+do <em>cr&oacute;talo</em>, extrahido da
+cobra cascavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, nunca os escapos recobrav&atilde;o o antigo vigor
+e, apezar de gordos, empregav&atilde;o extraordinario
+esfor&ccedil;o nas
+subidas e descidas de rampas.
+<br />
+
+<br />
+
+Parece f&oacute;ra de duvida, pelos singulares phenomenos na
+<span class="pagenum">[64]</span>
+locomo&ccedil;&atilde;o, inherentes a essa enfermidade<sup><a href="#n43">[43]</a></sup>, que
+a les&atilde;o
+na espinha dorsal, propaga-se ou repercute-se nos l&oacute;bulos
+cervicaes, como o demonstr&atilde;o as interessantes experiencias
+e acertadas indaga&ccedil;&otilde;es de Flourens, na
+vivi-sec&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Havemos, mais adiante, de verificar curiosas
+rela&ccedil;&otilde;es
+entre a peste dos animaes, e a que dizimou parte da columna
+expedicionaria, confirmando a esclarecida opini&atilde;o de
+Backewel, Chadwick, Harrison e Graves, quando trat&atilde;o da
+connex&atilde;o entre as epidemias e epizootias.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO VI
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, a 10 de Mar&ccedil;o, achavamo-nos na margem
+direita do rio Tab&ocirc;co, o qual, contra as previs&otilde;es
+de
+nossos soldados, que trilhav&atilde;o j&aacute; caminho
+conhecido,
+dava nado de lado a lado, n'uma extens&atilde;o de mais de
+30 bra&ccedil;as, quando a sua largura normal n&atilde;o excede
+de
+18 a 20.
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos a noite debaixo de um laranjal, que servia de
+pomar &aacute; casa do cidad&atilde;o Joaquim Alves de Souza, a
+qual
+teve de hospedar aos paraguayos, quando elles i&atilde;o para o
+Coxim, e f&ocirc;ra testemunha dos attentados que ahi
+pratic&aacute;r&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Esses hospedes incommodos for&atilde;o tratados com urbanidade
+t&atilde;o bem fingida, que n&atilde;o
+duvid&aacute;r&atilde;o em deixar o dono
+da casa em sua fazenda, com promessas de leva-lo com
+toda familia para a villa de Miranda. Um camarada,
+havendo, n'essa occasi&atilde;o, tentado fugir, foi pelos soldados
+<span class="pagenum">[66]</span>
+fustigado, amarrado a um p&eacute; de
+<em>piuva</em><sup><a href="#n44">[44]</a></sup>
+(peroba) e quasi
+esfolado pelas pontas do a&ccedil;oute.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois d'aquella execu&ccedil;&atilde;o barbara, a que assistio
+o misero
+patr&atilde;o, com custosa indifferen&ccedil;a,
+part&iacute;r&atilde;o elles, promettendo
+voltar breve, concluida a expedi&ccedil;&atilde;o ao norte do
+districto.
+<br />
+
+<br />
+
+Se elles cumpr&iacute;r&atilde;o a palavra, Joaquim Alves
+julgou-se
+com raz&otilde;es ponderosas para n&atilde;o fazer o mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Apenas volt&aacute;r&atilde;o as costas, fugio com toda sua
+gente
+para os matos, tomando depois caminho de Sant'Anna do
+Paranahyba.
+<br />
+
+<br />
+
+Ving&aacute;r&atilde;o-se os paraguayos do logro, feito
+&aacute; ingenuidade
+de homens brutaes e barbaros, queimando as casas e dependencias,
+e destruindo tudo quanto encontr&aacute;r&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A denomina&ccedil;&atilde;o de
+<em>Tab&ocirc;co</em> &eacute; de
+origem guaycur&uacute;: significa
+<em>fundo</em>, apezar de seu pouco volume de
+aguas habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns indios, por&eacute;m, d'aquella na&ccedil;&atilde;o,
+havendo habitado
+junto a um per&aacute;u, formado n'uma das voltas do rio,
+der&atilde;o-lhe em toda a extens&atilde;o aquella
+especifica&ccedil;&atilde;o pouco
+conveniente.
+<br />
+
+<br />
+
+Officialmente e nos mappas da provincia diz-se
+<em>Dab&ocirc;co</em>,
+muito erradamente e sem raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Suscitando-se, em Agosto de 1866, a d&uacute;vida a respeito
+do nome exacto, colhemos a certeza n&atilde;o s&oacute; da boca
+de
+pessoas conhecedoras da lingua guaycur&uacute;<sup><a href="#n45">[45]</a></sup>, sen&atilde;o
+dos proprios
+naturaes d'aquella na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+Os que dizem <em>Dab&ocirc;co</em> a todo
+o trance, n&atilde;o se firm&atilde;o em
+principio algum, a menos que apresentem, como autoridade,
+dous ou tres mappas da provincia, em que apparece aquella
+palavra escripta por um <em>D</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio, no lugar da passagem, tem a margem direita alta,
+a esquerda baixa e paludosa depois das
+inunda&ccedil;&otilde;es, frequentes,
+em raz&atilde;o da proximidade das cabeceiras, se bem
+de pouca dura&ccedil;&atilde;o. Bellas figueiras e alguns
+p&eacute;s de <em>ing&aacute;</em>
+(ing&aacute; edulis) torn&atilde;o esse lado umbroso, ao passo
+que o
+outro &eacute; completamente descoberto.
+<br />
+
+<br />
+
+Um pouco abaixo, o rio bifurca-se: um ramo segue
+direc&ccedil;&atilde;o, no rumo m&eacute;dio O.; o outro
+diverge para S. O., deixando
+intermedia uma comprida insua rasa e arenosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Os desmoronamentos da barranca direita deix&atilde;o perceber
+a natureza completamente arenacea dos terrenos proximos,
+o que tambem p&oacute;de explicar o nome de
+<em>fundo</em>, dado
+em certa &eacute;poca a um rio que, carregando grandes
+por&ccedil;&otilde;es
+de ar&ecirc;a, modifica com facilidade o leito em que corre.
+<br />
+
+<br />
+
+Fall&aacute;r&atilde;o-nos, na realidade, nas diversas phases
+por que
+elle tem passado, assignalando-se datas, n&atilde;o mui remotas,
+em que a sua profundidade variou extraordinariamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao chegarmos junto ao Tab&ocirc;co, a noite, ha muito, tinha
+cahido. Nuvens carregadas de chuva pesav&atilde;o no horisonte,
+estendendo um v&eacute;o tristonho, por entre o qual a lua, a
+custo, diffundia raios amortecidos e tibios.
+<br />
+
+<br />
+
+As arvores, formando densa mouteira, lan&ccedil;av&atilde;o
+sombras
+vigorosas sobre a superficie turva do rio que rolava, engrossado
+pelas chuvas passadas, toldadas aguas, em cujo
+seio, de quando em quando, abria-se, com o espadanar do
+salto de algum peixe, um v&atilde;o luminoso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Com o nosso approximar, um bando de
+<em>capivaras</em><sup><a href="#n46">[46]</a></sup>
+(hydroch&oelig;rus
+capibara) atirou-se ao rio, afundindo-se com estrondo,
+e indo surgir na margem opposta, ao passo que
+barulhentos <em>quero-quero</em><sup><a href="#n47">[47]</a></sup>,
+acordando, com estrepitosos gritos,
+os echos, cruzav&atilde;o-se nos ares com precipitado
+v&ocirc;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi achav&atilde;o-se vestigios da passagem de numerosa comitiva,
+e, ao aclarar o dia, reconhec&ecirc;r&atilde;o os soldados
+serem pisadas de indios, a despeito de n&atilde;o apreciarmos os
+signaes que differen&ccedil;assem essas
+p&eacute;g&aacute;das, das de qualquer
+outra planta de p&eacute;, como com raz&atilde;o o
+affian&ccedil;av&atilde;o
+elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Esses homens s&atilde;o de uma sagacidade espantosa; nunca
+se engan&atilde;o e conhecem perfeitamente os rastos de todos os
+animaes. Ao depois, vimos nos indios demonstra&ccedil;&atilde;o
+de
+um tino t&atilde;o fino, que reconhecem, pela impress&atilde;o
+do p&eacute;
+no terreno, a pessoa que a deix&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+O Tab&ocirc;co dava nado de lado a lado: recorremos aos couros
+e o pass&aacute;mos com difficuldade, perigando, n'essa
+occasi&atilde;o,
+a fragil pelota, em que se mett&ecirc;ra o nosso collega Lago.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse dia (10) deviamos emfim chegar &aacute; ald&ecirc;a dos
+indios
+da Piranhinha: aligeirando pois a marcha, tom&aacute;mos
+aquella direc&ccedil;&atilde;o, tendo &aacute; frente dous
+soldados, conhecedores
+d'esses lugares, que caminhav&atilde;o com a confian&ccedil;a
+que
+lhes falt&aacute;ra junto &aacute; serra, isto &eacute;,
+cortando campos, seguindo
+<span class="pagenum">[69]</span>
+trilhas imperceptiveis e rompendo por veredas cobertas
+pelo matagal e capim.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviamos deixado a serra de Maracaj&uacute; e iamos
+ent&atilde;o
+fraldejando um ramo d'ella, o qual segue para o sul, parallelamente
+&aacute; cad&ecirc;a, em cujo novo encontro achava-se a
+ald&ecirc;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Os campos s&atilde;o pouco dobrados; o verdor das arvores,
+o capim crescido denotav&atilde;o, que, havia tempo, n&atilde;o
+lavrava
+fogo n'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Cerrados, como sempre, se estendem por todos os lados;
+n'elles apparecem com frequencia as
+<em>bignoniaceas</em><sup><a href="#n48">[48]</a></sup>,
+as quaes
+tem menos representantes nos das outras provincias:
+continu&atilde;o
+comtudo a predominar os
+<em>aratic&uacute;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Caminhando uma legoa e tres quartos na direc&ccedil;&atilde;o
+media
+S., attingimos ao morrete que faz ponta ao ramo,
+que, ent&atilde;o, diverge para N. S. e vai unir-se &aacute;
+serra, a qual
+avistavamos de novo, dominando, com pincaros recortados,
+o ald&ecirc;amento da Piranhinha.
+<br />
+
+<br />
+
+D'aquella ponta de morro, parte o caminho, que leva ao
+Aquidauana e ao porto, chamado do Souza, onde existia
+ent&atilde;o um destacamento paraguayo, com uma
+guarni&ccedil;&atilde;o
+de pouco mais de cem homens, a qual vigiava o rio e a
+estrada do Tab&ocirc;co, pela qual presumi&atilde;o dever de
+descer a
+for&ccedil;a brasileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao dobrarmos aquelle promontorio, avist&aacute;mos, na distancia
+de tres a quatro legoas, uma columna de fuma&ccedil;a,
+<span class="pagenum">[70]</span>
+que, maculando com rolos alvacentos o puro campo do
+c&eacute;o, subia pesadamente, destacando de si ligeiros
+fl&oacute;cos,
+em breve dissipados ao sopro da brisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o fogo do invasor atirado aos campos do Brasil,
+era o signal da usurpa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Indicava aquelle ponto negro a posse, depois da perfidia,
+o dominio ap&oacute;s a violencia: posse momentanea que
+o governo de Lopes havia de pagar bem caro, dominio
+temporario, que custou milhares de vidas, nas grandes
+quest&otilde;es &aacute; m&atilde;o armada, que se
+debat&ecirc;r&atilde;o nas planicies da
+republica do Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+Caminhando uma legoa e um quarto d'aquelle morro,
+pass&aacute;mos o lindo regato das Piranhinhas, no meio de
+luxuriante
+mata, finda a qual, come&ccedil;&aacute;mos a trilhar estrada,
+que mostrava signaes de muita frequencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Na realidade n'uma volta al&eacute;m, achava-se a ald&ecirc;a,
+cujos
+ruidos, cada vez mais crescentes, denunciav&atilde;o vida e
+anima&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Os baques de machados, confundi&atilde;o-se com o cantar de
+gallos e o vozear de homens, formando um concerto, que
+ent&atilde;o preferiamos aos mais sublimes ac&oacute;rdes do
+autor de
+Ernani, pois significava-nos o final de todos os soffrimentos;
+alegrava-nos o espirito e o corpo, abrindo largos horisontes
+ao nosso direito de compensa&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Em breve, diante de n&oacute;s, corr&ecirc;ra um indio.
+<br />
+
+<br />
+
+Noticia importante circulou pela ald&ecirc;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouviamos grande vozeria, algazarra continuada, e, quando
+surg&iacute;r&atilde;o ante n&oacute;s as primeiras
+palho&ccedil;as, uma chusma
+de gente armada se atirou ao nosso encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+O aspecto n&atilde;o era agradavel. Cheg&aacute;r&atilde;o
+alguns a apontar
+<span class="pagenum">[71]</span>
+para n&oacute;s: a vista por&eacute;m dos soldados que lhes
+er&atilde;o conhecidos,
+o nosso passo pouco bellicoso, o nosso acompanhamento,
+em nada medonho, dissip&aacute;r&atilde;o logo qualquer
+d&uacute;vida.
+<br />
+
+<br />
+
+A reac&ccedil;&atilde;o foi estrepitosa. Explic&aacute;mos
+a raz&atilde;o de nossa
+chegada, e, cercados, quasi em bra&ccedil;os, no meio d'aquella
+boa gente, fomos ter a casa do capit&atilde;o Jos&eacute;
+Pedro, que
+nos acolheu, n&atilde;o como chefe de indios, mas como um
+filho da civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pouca estranheza nos causava a apparencia de nossos
+novos amigos, pintados de <em>genipapo</em> e
+<em>uruc&uacute;</em>.
+Fallav&atilde;o,
+com volubilidade espantosa, lingua que nos parecia ent&atilde;o
+extraordinariamente aspera e estav&atilde;o armados, uns com
+lan&ccedil;as, chu&ccedil;os, espadas, quasi todos com
+espingardas e
+clavinas.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de fartarem, por mais de uma hora, a curiosidade,
+que lhes causavamos, a um aceno do capit&atilde;o
+deix&aacute;r&atilde;o
+a palho&ccedil;a, em que nos achavamos, e pod&eacute;mos,
+afinal, comer socegadamente uma gallinha cosida com arroz,
+que teria merecimento em qualquer parte do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite passou-se em narrar a Jos&eacute; Pedro os acontecimentos
+que havi&atilde;o precedido a guerra com o Paraguay, os
+successos do sul e os nossos triumphos, que muito o
+enthusiasm&aacute;r&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Fallou-nos elle, com verdadeiro sentimento respeitoso, do
+Imperador, de Suas altas attribui&ccedil;&otilde;es e
+mostrou-se conhecedor
+reconhecido da benevolencia, que o monarcha brasileiro
+nutre pelos indios de Seu Imperio.
+<br />
+
+<br />
+
+Narrou-nos, com c&ocirc;res vivas e expressivas, a
+invas&atilde;o,
+suas phases; elogiou o comportamento de varios individuos
+de sua tribu, nunca fallou de si, e, mostrando sempre os
+<span class="pagenum">[72]</span>
+principios de uma boa educa&ccedil;&atilde;o
+esbo&ccedil;ada, deu-nos prova
+de intelligencia clara e capaz de desenvolvimento.
+<br />
+
+<br />
+
+O capit&atilde;o Jos&eacute; Pedro de Souza sabia l&ecirc;r
+e escrever;
+mantinha em sua ald&ecirc;a severa disciplina;
+organis&aacute;ra uma
+escola de meninos, na qual figurav&atilde;o os seus dous filhos
+e sempre se havia mostrado affei&ccedil;oado aos brasileiros,
+unindo-se com elles nas horas de infelicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Era digno, debaixo de todos os titulos, de obter do governo
+imperial a confirma&ccedil;&atilde;o do posto, que lhe
+f&ocirc;ra concedido
+pelo virtuoso missionario frei Marianno de Bagnaia,
+sob cujas vistas foi educado, na ald&ecirc;a dos
+Quiniquin&aacute;os do
+Bom-Conselho, al&eacute;m do rio Paraguay<sup><a href="#n49">[49]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Estabelecidos na ald&ecirc;a do
+<em>Naxe-daxe</em> ou de
+<em>Santa Cruz</em>,
+a 6 legoas da villa de Miranda, tinh&atilde;o os indios Terenas
+procurado um refugio, por occasi&atilde;o da invas&atilde;o dos
+paraguayos,
+dedicando-se logo ao plantio, apezar da carencia
+de sementes e gr&atilde;os, em que se
+ach&aacute;r&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, quando cheg&aacute;mos, j&aacute; havi&atilde;o
+colhido boa quantidade
+de arroz, algum milho e mandioca, da qual fazem
+excellente farinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; do dia seguinte, aquelles generos com mel e
+rapaduras figur&aacute;r&atilde;o nos presentes, que o
+mulherio, em peso,
+veio offerecer aos dous hospedes da na&ccedil;&atilde;o terena.
+<br />
+
+<br />
+
+Retribuimos com moedas de prata de duzentos r&eacute;is; o
+que causou alegria manifesta.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas mulheres, na confus&atilde;o, accusav&atilde;o
+n&atilde;o ter sido
+<span class="pagenum">[73]</span>
+contempladas e s&oacute; se retirav&atilde;o depois de
+satisfeitas as suas
+exigencias, voltando com dadivas novas para fazerem jus
+&aacute; nova distribui&ccedil;&atilde;o de dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O capit&atilde;o livrou-nos de mais sacrificios pecuniarios,
+levando-nos
+a passeio. A ald&ecirc;a preparava-se para uma festa
+e varios indios <em>padres</em>
+cantav&atilde;o debaixo de alpendres de
+<em>perypery</em><sup><a href="#n50">[50]</a></sup>,
+para que o mel
+colhido,
+de dias, fermentasse
+depressa.
+<br />
+
+<br />
+
+Fallaremos, em capitulo separado, de todas essas ceremonias
+e mais costumes dos indios de Miranda; ainda depois
+do muito que se tem dito a este respeito, &eacute; estudo
+curioso esmerilhar as praticas especiaes d'essa gente, que
+tem conservado o seu typo bem caracteristico, apezar do
+longo contacto com os brancos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO VII</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 11 de Mar&ccedil;o, dizendo adeos &aacute;quella boa
+gente
+e acompanhados pelo capit&atilde;o Jos&eacute; Pedro e mais
+alguns
+dos seus, tom&aacute;mos a trilha que communicava a ald&ecirc;a
+com
+a localidade em que se achav&atilde;o os refugiados, a 3 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas. (<a href="#nh">Nota H</a>)
+<br />
+
+<br />
+
+Para penetrarmos no reconcavo da Piranhinha, haviamos
+caminhado completamente a E.; desfazendo a volta,
+isto &eacute;, tomando rumo O., cheg&aacute;mos de novo
+&aacute; ponta de
+morro, de que acima fall&aacute;mos e dirigimo-nos para a serrania.
+<br />
+
+<br />
+
+Em breve come&ccedil;ou a ascens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+As matas tornav&atilde;o-se mais frequentes: o declive era
+j&aacute;
+agro.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente desciamos; logo ap&oacute;s subiamos
+can&ccedil;ativa
+rampa.
+<br />
+
+<br />
+
+A trilha, entaliscada entre fileiras de rochedos altos, seguia
+<span class="pagenum">[76]</span>
+ora por baixo de taquaraes, ora por entre densos
+matagaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Comprehendia-se que era caminho de refugiados.
+<br />
+
+<br />
+
+A meiga luz da tarde nos esclarecia paisagens lindissimas:
+er&atilde;o quebradas de montanhas, que deixav&atilde;o a vista
+estender-se por sobre um rico docel de verdura, nos declives
+al&eacute;m: er&atilde;o crystallinas aguas, que, serpeando
+entre
+grossos matac&otilde;es,
+despenhav&atilde;o-se&mdash;borbulhantes
+cascatas&mdash;riscando
+de branco a pedra negra e sumindo-se por escuras
+fendas.
+<br />
+
+<br />
+
+As sombras cobri&atilde;o j&aacute; as profundezas do valle,
+que muito
+ao longe avistavamos; galgav&atilde;o apressadas as primeiras
+dobras da montanha e s&oacute; alguns raios descorados de sol
+allumiav&atilde;o a rama extrema das arvores, que
+cor&ocirc;av&atilde;o o
+topo da serra.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviamos caminhado j&aacute; tres legoas e um quarto, e temiamos,
+que a noite nos sorprehendesse n'essas brenhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o cahir da tarde, subimos uma rampa t&atilde;o ingreme,
+que obrigou-nos a apear de animal e a galgal-a de p&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o ultimo degr&aacute;o que restava vencer, antes de chegar
+ao chapad&atilde;o, que se estende sobre a cad&ecirc;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Na realidade, pouco depois, pisavamos um terreno plano,
+silicoso, coberto de cerrados.
+<br />
+
+<br />
+
+O crepusculo, cada vez mais fraco, mal deixava distinguir
+a trilha. Emfim cahia a noite fechada, quando, por
+entre a folhagem de umas moutas, vimos brilhar luzes......
+<br />
+
+<br />
+
+Era o final de nossa viagem: era o repouso, n&atilde;o para
+algumas horas, para uma noite; mas sim para dias, semanas......
+<br />
+
+<br />
+
+Era o descan&ccedil;o, a tranquillidade! a vida!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Era o socego depois de tantos trabalhos, a
+quieta&ccedil;&atilde;o
+depois de tanto movimento!
+<br />
+
+<br />
+
+Quantos sentimentos em n&oacute;s se
+alvoro&ccedil;&aacute;r&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+A responsabilidade official estava salva. Haviamos cumprido
+a parte mais custosa de nossas instruc&ccedil;&otilde;es, e
+cumprido,
+com risco de saude, com sacrificio penoso, com perigo
+de vida.
+<br />
+
+<br />
+
+D&eacute;mos tudo por bem empregado.
+<br />
+
+<br />
+
+O recebimento cordial e espontaneo, que nos esperava,
+constitue um d'esses factos, que o homem de sentimento
+nunca mais esquece. Homo sum......
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso actual amigo, o Sr. Jo&atilde;o Pacheco de Almeida
+recebeu-nos e acolheu-nos, em sua palho&ccedil;a, com a nobreza,
+com que um principe hospedaria em seu palacio.
+<br />
+
+<br />
+
+A longa convivencia, na qual estivemos, por muitos mezes,
+com esse digno cavalheiro, &eacute; uma lembran&ccedil;a, que
+sempre
+em n&oacute;s desperta a gratid&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos a noite em excellentes redes: o somno foi
+reparador.
+<br />
+
+<br />
+
+A curiosidade, de que se achav&atilde;o possuidos todos os
+refugiados, em saberem noticias da for&ccedil;a que os vinha
+proteger, do que se pass&aacute;ra desde Janeiro de 1865, era
+modificada pelo desejo de dar-nos o descan&ccedil;o depois de
+tanta atribula&ccedil;&atilde;o e assim pod&eacute;mos
+desfructar repouso longo
+e tranquillo, que ainda durava, quando o sol j&aacute; ia
+alto......
+<br />
+
+<br />
+
+O acampamento de Jo&atilde;o Pacheco occupava uma &aacute;rea
+de 20 bra&ccedil;as quadradas. Um bello corrego dividia-o em
+<span class="pagenum">[78]</span>
+duas partes, ambas sombreadas, mais do que convinha &aacute;
+saude, por magnificas arvores de construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Amontoav&atilde;o-se, n'esse pequeno espa&ccedil;o, 18 a 20
+casinhas
+que parecia tinh&atilde;o-se encostado umas &aacute;s outras,
+apertando o
+circulo, para protegerem-se reciprocamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; medida que o receio dos paraguayos<sup><a href="#n51">[51]</a></sup> diminuia, as
+palho&ccedil;as i&atilde;o se affastando, a procurarem mais
+espa&ccedil;o e liberdade.
+<br />
+
+<br />
+
+A meia legoa d'esse nucleo, form&aacute;ra-se outro ao redor
+do fazendeiro Francisco Dias, cujo nome servia para designar
+aquelle acampamento. A posi&ccedil;&atilde;o era muito
+pitoresca:
+a serra faz ahi um reconcavo, todo cercado por
+morros alcantilados, que fech&atilde;o uma planura de pouca
+extens&atilde;o,
+por&eacute;m muito aprazivel.
+<br />
+
+<br />
+
+As f&oacute;rmas singulares, que tom&atilde;o as montanhas, a
+brisa
+constante que ahi reina, mantida por duas grandes abertas
+que correspondem, torn&atilde;o esse lugar eminentemente
+ameno e saudavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as pessoas, em numero superior a 100, que compunh&atilde;o
+aquelle acampamento, vier&atilde;o comprimentar-nos no
+dia seguinte ao de nossa chegada, e no rancho de Jo&atilde;o
+Pacheco reunio-se a quasi totalidade do que o districto
+de Miranda continha em autoridades e fazendeiros.
+<br />
+
+<br />
+
+A desgra&ccedil;a extrema n&atilde;o se descreve: esses homens
+achav&atilde;o-se todos de p&eacute;s no ch&atilde;o,
+cobertos de farrapos,
+ostentando no rosto o soffrimento prolongado, o martyrio
+de muitos mezes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[79]</span>
+Obrigados ao trabalho para viverem, manejav&atilde;o, com
+ardor digno de admira&ccedil;&atilde;o, o machado e a fouce e
+luctav&atilde;o
+com todas as dificuldades da inexperiencia n'esse
+servi&ccedil;o pesado, para proverem o sustento de suas familias.
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres, por seu lado, n&atilde;o se esquivav&atilde;o da
+mais
+ardua tarefa. Causava d&oacute; v&ecirc;r debeis
+mo&ccedil;as socando, por
+esfor&ccedil;o de bra&ccedil;os, o milho para reduzil-o a
+farinha ou
+descascando no pil&atilde;o o arroz.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos com persistencia exemplar e espirito immenso de
+resigna&ccedil;&atilde;o, curvav&atilde;o-se &aacute;s
+crueis exigencias da occasi&atilde;o
+e, cumprindo com a imperiosa lei do trabalho, vivi&atilde;o vida
+penosa e altamente precaria, depois do esbulho de todos
+os seus bens e dos dolorosos trances de fuga ante um
+inimigo feroz e implacavel.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="p81" id="p81"></a>
+<h3>CAPITULO VIII</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 24 de Mar&ccedil;o, partimos em
+direc&ccedil;&atilde;o ao rio
+Aquidauana, cuja margem direita deviamos explorar, como
+recommendav&atilde;o-nos as instruc&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns moradores dos Morros nos acompanhav&atilde;o n'este
+reconhecimento, em que havia perigos a correr, por qualquer
+eventualidade possivel, quando n&atilde;o provavel.
+<br />
+
+<br />
+
+O Sr. Jo&atilde;o Pacheco, entre todos, primava pela
+dedica&ccedil;&atilde;o
+e energia; costumado a andar de p&eacute; longas distancias,
+servia-nos de excellente guia, caminhando com toda a galhardia
+diante de nossas cavalgaduras, que com difficuldade
+segui&atilde;o-lhe os ligeiros passos.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha
+divisoria material entre o Brasil e a republica do <a href="#e4">Paraguay</a>
+e o districto todo de Miranda, a mais linda
+por&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[82]</span>
+da provincia de Mato Grosso, achava-se occupado debaixo
+do titulo de districto militar de Mbotety<sup><a href="#n52">[52]</a></sup>.<br />
+
+<br />
+
+A margem esquerda era guardada por um forte destacamento
+e cuidadosamente rondada em toda sua extens&atilde;o,
+e, bem que, desde Maio de 1865, o presidente Lopez
+houvesse prohibido<sup><a href="#n53">[53]</a></sup>
+a transposi&ccedil;&atilde;o do rio aos
+seus soldados,
+as correrias, no outro lado, tinh&atilde;o-se dado varias
+vezes, com grande susto da popula&ccedil;&atilde;o dos Morros.
+<br />
+
+<br />
+
+Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar
+um verdadeiro reconhecimento militar.
+<br />
+
+<br />
+
+Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco
+Dias, que distava do nosso meia legoa, como j&aacute; o havemos
+dito, reunimos ahi mais alguns companheiros, com
+os quaes galg&aacute;mos a encosta oriental da bacia em que
+est&aacute; encerrado aquelle acampamento.
+<br />
+
+<br />
+
+A trilha, aberta pelos cascos de animaes, d&aacute; difficil
+transito,
+subindo as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.
+<br />
+
+<br />
+
+De certa altura, domin&aacute;mos os picos vizinhos: alargou-se-nos
+o horisonte; as grandes c&oacute;pas dos madeiros
+fic&aacute;r&atilde;o
+ao nivel comnosco e nossos olhares se atirav&atilde;o
+al&eacute;m e bem
+ao longe.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[83]</span>
+No cume, a paizagem tomou amplid&atilde;o immensa. Er&atilde;o
+campos, a perder de vista, verdejantes aqui, azues mais
+adiante e roxeados nos extremos limites, cortados por grupos
+raros de bosques, ao passo que continua mataria mostra
+o curso das aguas do Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes aspectos da natureza s&atilde;o profundamente melancolicos:
+o espirito como que se atira por essas immensidades,
+que record&atilde;o o indefinido do oceano, sem terem comtudo
+aquella magestade que encanta a alma, lan&ccedil;ando-a
+n'uma prostra&ccedil;&atilde;o incomprehensivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o habitante do litoral, as vastid&otilde;es terrestres
+acord&atilde;o
+milhares de recorda&ccedil;&otilde;es saudosas; suave tristeza
+se
+apodera de n&oacute;s e transporta o espirito &aacute;s bellas
+praias
+do mar.
+<br />
+
+<br />
+
+Outro sentimento contristador dominava-nos ent&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda,
+presa do estrangeiro e fogos, em um ponto e outro
+pela campina, lembrav&atilde;o a occupa&ccedil;&atilde;o
+inimiga.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos dos nossos companheiros se embebec&ecirc;r&atilde;o
+ent&atilde;o
+na contempla&ccedil;&atilde;o sombria que domin&aacute;ra o
+mouro, quando,
+do alto da rocha dos Suspiros, elle lan&ccedil;&aacute;ra as
+derradeiras
+vistas sobre os formosos campos de Granada e talvez as
+palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como
+exprobra&ccedil;&atilde;o
+merecida.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa scena desappareceu no descambar da serra.
+<br />
+
+<br />
+
+Por todos os lados novamente cerc&aacute;r&atilde;o-nos matas
+espessas,
+e o sol, a furto, desenhava, por entre a folhagem,
+seus circulos fugaces no caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ribeir&otilde;es succedi&atilde;o uns aos outros, tombando
+de
+qu&eacute;da em qu&eacute;da e despenhando-se pelos declives
+abaixo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando
+nomes que nos pareci&atilde;o mais convenientes, ora procurando
+um distinctivo que os tornasse facilmente conhecidos;
+ora consagrando-os &aacute; lembran&ccedil;a de nymphas
+classicas ou
+americanas; assim pass&aacute;mos o ribeir&atilde;o da
+Congonha<sup><a href="#n54">[54]</a></sup>,
+mais adiante o de Euterpe e, meia legoa al&eacute;m, o de Catharina
+Pazes, uma lindissima quiniquin&aacute;o, que habitava nos
+Morros.
+<br />
+
+<br />
+
+Junto a este ultimo, tom&aacute;mos ligeira
+refei&ccedil;&atilde;o, comendo,
+debaixo de aprazivel sombra, a matalotagem preparada de
+vespera e bebendo a pura lympha d'aquelle bello riacho.
+<br />
+
+<br />
+
+Continuando a descer, ach&aacute;mo-nos em breve na planicie,
+abrindo-se ante n&oacute;s os campos, que lev&atilde;o a
+<em>Camapuan</em><sup><a href="#n55">[55]</a></sup>,
+illuminados ent&atilde;o pelo brilho do sol em seu zenith.
+<br />
+
+<br />
+
+Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados
+a 7 legoas do ponto de nossa partida: por isso
+tomavamos direc&ccedil;&atilde;o E., da qual deviamos divergir
+para
+S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais
+tres legoas, fomos pousar junto ao lindo corrego das
+<em>Palmeiras</em>,
+na casa do cidad&atilde;o Valerio de Arruda Botelho
+que recebeu-nos franca e amavelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou
+a jovialidade de nosso amphitry&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Foragido de Miranda, Botelho conserv&aacute;ra-se, por muitos
+<span class="pagenum">[85]</span>
+mezes, occulto com sua familia nas matas de sua propria
+fazenda do Embauval, perto do rio Miranda, apesar da
+passagem continua dos paraguayos por suas terras.
+<br />
+
+<br />
+
+Afinal transport&aacute;ra-se com crian&ccedil;as, e cargas
+para a
+margem direita do Aquidauana, depois de uma perigosa
+viagem de dias, entre as rondas inimigas.
+<br />
+
+<br />
+
+O lugar de sua nova habita&ccedil;&atilde;o era encantador:
+magestosos
+boritys, banhando os p&eacute;s nas aguas rapidas do
+corrego, se ergui&atilde;o fronteiros a ella, e na fralda de um
+morro abaulado coberto de vegeta&ccedil;&atilde;o, que se
+estende para
+N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema
+perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada
+como sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeir&atilde;o
+das Pirapitangas, que deviamos atravessar quatro vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de
+Valerio fomos &aacute; ald&ecirc;a do
+<em>Oauass&uacute;</em><sup><a href="#n56">[56]</a></sup>
+onde alguns
+indios
+quiniquin&aacute;os havi&atilde;o procurado refugio, depois de
+expulsos
+de suas palho&ccedil;as do
+<em>Euagaxigo</em>, al&eacute;m
+Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[86]</span>
+Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauass&uacute;
+ao aldeamento da <em>Boa-Vista</em>, formado
+pelos indios laianos,
+distante do outro tres e meia legoas. O caminho de
+communica&ccedil;&atilde;o
+era uma apertada trilha atirada por sobre lindos
+campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou
+menos profundamente.
+<br />
+
+<br />
+
+De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles
+picos destacados ou passavamos por abertas estreitas entre
+morretes, cujos c&oacute;rtes a prumo obrigav&atilde;o a
+atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A ald&ecirc;a da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado
+a varios morros e constava de cincoenta a sessenta
+ranchos de palha.
+<br />
+
+<br />
+
+Os indios nos acolh&ecirc;r&atilde;o do modo o mais sympathico
+e
+cordial. Ach&aacute;mos um rancho feito de proposito, em
+atten&ccedil;&atilde;o
+&aacute; nossa visita e ahi nos obsequi&aacute;r&atilde;o
+com grandes
+mostras de respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+Os laianos da Boa-Vista morav&atilde;o, antes da
+invas&atilde;o, a
+uma e meia legoa da villa de Miranda, e d'entre elles se
+tirav&atilde;o os melhores camaradas para o trabalho de
+ro&ccedil;as,
+servi&ccedil;o de can&ocirc;as e
+<em>cost&ecirc;o</em> de gado. Como quasi
+todos os
+indios, s&atilde;o excellentes cavalleiros e domadores destemidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em honra &aacute; nossa chegada, o capit&atilde;o
+Jos&eacute; Vieira organisou
+dan&ccedil;ados, que dur&aacute;r&atilde;o at&eacute;
+alta noute, formados t&atilde;o
+s&oacute;mente pelo desejo de festejar-nos, posto que faltasse o
+incentivo obrigatorio para taes divertimentos a&mdash;aguardente.
+<br />
+
+<br />
+
+Diante de um pifaro e um tambor, colloc&aacute;r&atilde;o-se
+tres
+rapazes e igual numero de raparigas, os quaes, de m&atilde;os
+dadas, avan&ccedil;av&atilde;o e recuav&atilde;o, imitando
+os gestos e movimentos
+titubantes dos embriagados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Conforme a perfei&ccedil;&atilde;o ou inexactid&atilde;o na
+imita&ccedil;&atilde;o, colhi&atilde;o
+os dan&ccedil;adores applausos dos circumstantes ou apupadas,
+o que fazem batendo a m&atilde;o aberta de encontro
+&aacute; boca.
+<br />
+
+<br />
+
+A toada &eacute; sobremaneira monotona; o dan&ccedil;ado
+igualmente;
+quando n&atilde;o ha o elemento que transforme o fingido
+em triste realidade: ent&atilde;o todos tem n'elle parte com
+ardor e furia indescriptiveis, at&eacute; cahirem completamente
+exhaustos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira,
+sobre o ponto de reuni&atilde;o em que elle devia se achar com
+vinte de seus indios<sup><a href="#n57">[57]</a></sup>
+junto ao Aquidauana, despedimo-nos
+d'aquella gente simples, voltando &aacute; casa de Valerio,
+onde de novo falh&aacute;mos um dia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO IX
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Acabada a digress&atilde;o, dirigimo-nos no dia 29 para a
+margem direita do rio Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessando o ribeir&atilde;o das
+<em>Pirapitangas</em>, fomos seguindo,
+de novo, a serra na direc&ccedil;&atilde;o S., at&eacute;
+chegarmos junto &aacute;
+margem do rio, depois de 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas de marcha. Os aspectos
+do terreno continu&atilde;o os mesmos.
+<br />
+
+<br />
+
+As margens s&atilde;o aprumadas, cobertas de
+vegeta&ccedil;&atilde;o vigorosa,
+na qual avult&atilde;o os elegantes taquaruss&uacute;s, que
+f&oacute;rm&atilde;o grupos compactos, entremeados com elevadas
+maca&uacute;beiras.
+<br />
+
+<br />
+
+O Aquidauana &eacute; o mais bello rio caudal, que se encontra
+em todo o districto de Miranda: as mais lindas paizagens
+se f&oacute;rm&atilde;o em seu correr; as mais animadas scenas
+se ach&atilde;o em suas vizinhan&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+A abundancia de pesca e ca&ccedil;a ahi se encontra por modo
+prodigioso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento,
+aquellas matarias t&atilde;o verdejantes, aquellas aguas
+puras e crystallinas a reflectirem um c&eacute;o de saphyra, a
+serra azulando ao longe, lev&atilde;o o extase a uma alma artistica
+e a atir&atilde;o n'essa alegria pura e suave, repassada
+de tristeza, que Horacio t&atilde;o bem exprimio
+pelo&mdash;<em>flebile
+nescio quid</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que
+attrahiria os olhares do ente menos admirador do bello.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio, ahi, descendo em rapida
+<em>corredeira</em>, morre de
+repente n'uma bacia, que se abre regularmente no reconcavo
+de barrancos, cortados a pique.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encresp&atilde;o
+a superficie,&mdash;ultimos impulsos da correnteza&mdash;e, em
+ondula&ccedil;&otilde;es concentricas, v&atilde;o
+desapparecer de encontro &aacute;s
+margens.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquaruss&uacute;s
+e brinca sobre as aguas; ora &eacute; o vento, que, vergando
+os flexiveis colmos, anima aquella scena com harmonia
+mais grandiosa. Assim a vimos.
+<br />
+
+<br />
+
+No alto das margens alcantilosas, as arvores estremeci&atilde;o
+aos embates de forte sopro: as elevadas cannas se
+enroscav&atilde;o,
+se confundi&atilde;o, se debati&atilde;o frementes,
+&aacute;s vezes, ligando
+os flexuosos topos &aacute;s copas das maca&uacute;bas, outras
+abatendo-os at&eacute; tocarem o ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de
+quando em quando, o sombrio de nuvens que orlav&atilde;o o azul
+celeste das abertas, por entre as quaes o sol estirava raios
+destacados de scintillante luz.
+<br />
+
+<br />
+
+Centenares de passaros esvoa&ccedil;av&atilde;o: uns tocados
+pelo
+<span class="pagenum">[91]</span>
+vento, com as azas meio encolhidas; outros cortando, com
+v&ocirc;o mais firme, a ventania e suspendendo-se n'ella. Muitas
+marrequinhas brincav&atilde;o n'agua, sobre a qual brancas
+gar&ccedil;as deslisav&atilde;o-se veloces, ao passo que
+lontras fazi&atilde;o reluzir
+ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e
+nadando com ligeireza.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas,
+produzindo mil sons differentes que, combinados no
+espa&ccedil;o, dav&atilde;o &aacute; natureza aquella
+anima&ccedil;&atilde;o e vida, s&oacute; proprias
+das obras do Creador.
+<br />
+
+<br />
+
+Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto.
+Tudo era calma; as aguas n&atilde;o se movi&atilde;o; as
+arvores n&atilde;o
+se mexi&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos
+essa express&atilde;o arrojada.
+<br />
+
+<br />
+
+Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante
+penetrava tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios,
+n&atilde;o tinha mysterios; as ar&ecirc;as
+appareci&atilde;o no fundo de esverdeadas
+aguas, e s&oacute; cardumes de peixes, symbolo do
+mutismo, nadav&atilde;o em todos os sentidos.....
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra
+de Maracaj&uacute;<sup><a href="#n58">[58]</a></sup>.
+Recebe, depois de algumas legoas de curso,
+os rios Cachoeirinha e Cachoeira, tomando desde ent&atilde;o
+importante
+volume de aguas, engrossado pelos ribeir&otilde;es
+<em>Dous
+Irm&atilde;os</em>, do
+<em>Taquaruss&uacute;</em> e
+<em>Uac&ocirc;go</em><sup><a href="#n59">[59]</a></sup>,
+que
+entr&atilde;o pela
+<span class="pagenum">[92]</span>
+margem esquerda e de <em>Jo&atilde;o
+Dias</em>, corregos do
+<em>Paxexi</em> e da
+<em>Paix&atilde;o</em>, que
+desagu&atilde;o pela margem direita.
+<br />
+
+<br />
+
+Do ribeir&atilde;o de Jo&atilde;o Dias, onde existe a ultima
+corredeira,
+o seu curso &eacute; livre de obstaculos, com profundidade
+quasi constante de 8 a 10 palmos, e largura m&eacute;dia de 30
+bra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Navegavel para grandes can&ocirc;as n'uma extens&atilde;o de
+quasi
+40 legoas, fenece no rio Miranda pelo lado direito, confundindo
+as suas aguas claras e puras &aacute;s revoltas e barrentas
+d'aquelle rio.
+<br />
+
+<br />
+
+O seu nome &eacute; de origem uaycur&uacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Um capit&atilde;o dos cadiu&eacute;os tem a mesma
+denomina&ccedil;&atilde;o, com
+o accrescimo de um T.&mdash;Taquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos pod&eacute;r&atilde;o explicar o que
+significa.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas matas d'esse rio habit&atilde;o os animaes vulgares da fauna
+brasileira: <em>on&ccedil;as</em> (felis
+variarum specierum), <em>antas</em> (tapirus
+americanus), <em>lobinhos</em>,
+<em>jaguatiricas</em>, (felis pardalis,
+Neuwied),
+<em>raposas</em>,
+<em>macacos</em>, (simia v. sp.),
+<em>tamandu&aacute;s</em>,
+<em>tat&uacute;s</em> (Dasypus
+v. sp.), muitos <em>queixadas</em> (dicotyles
+labiatus), etc.; <em>lontras</em>
+(lutra), <em>ariranhas</em> (lutra
+brasiliensis) e <em>capiv&aacute;ras</em>
+atravess&atilde;o,
+a todo instante, a correnteza; em seus campos proximos
+pullul&atilde;o <em>cervos</em> (cervus
+paludosus, Desm.), <em>veados</em> (cervus
+rufus, c. campestris), <em>emas</em> (rhea
+americana), <em>ceryemas</em>
+(dicholophus cristatus.); nos cerrados,
+<em>jabot&iacute;s</em> (testudo
+tabulata), muitas <em>cobras</em> venenosas
+(crotalus horridus, bothrops
+Neuwiedi, b. surucuc&uacute;, boip&eacute;bas,
+urut&uacute;s, etc.) e reptis
+de outras sortes.
+<br />
+
+<br />
+
+Em aves ha os <em>jac&uacute;s</em>
+(penelope marail),
+<em>jacu-c&aacute;cas</em> (penelope
+jacuc&aacute;ca, Spix.),
+<em>jacutingas</em> (penelope leucoptera,
+Neuwied), <em>mutuns</em> (crax v. sp.),
+<em>ja&oacute;s</em> (crypturus noctivagus)
+<span class="pagenum">[93]</span>
+e <em>aracuans</em><sup><a href="#n60">[60]</a></sup>,
+<em>tucanos</em> (rhamphastos v. sp.),
+<em>ara&ccedil;aris</em>
+(pteroglossus), muitas <em>pombas</em>,
+<em>gralhas</em>,
+<em>periquitos</em>
+(psittacula v. sp.), <em>papagaios</em>,
+(psittacus v. sp.),
+<em>ar&aacute;ras</em>,
+enfeit&atilde;o a ramagem das arvores, ao passo que os
+<em>inhumas</em><sup><a href="#n61">[61]</a></sup>
+(palamedea chavaria),
+<em>jabur&uacute;s</em> ou
+<em>tuyuy&uacute;s</em><sup><a href="#n62">[62]</a></sup>,
+<em>tabuyay&aacute;s</em><sup><a href="#n63">[63]</a></sup>
+(ciconia m.), <em>soc&oacute;s</em>
+(ardea), <em>curic&aacute;cas</em> (ibis
+melanopsis) e bandos de numerosos
+<em>patos</em> (anas) e
+<em>marrequinhas</em>
+pous&atilde;o nas ribeiras ou se agrup&atilde;o nos rochedos
+e insuas do rio. (<a href="#ni">Nota I</a>)
+<br />
+
+<br />
+
+Em pescado o Aquidauana &eacute; fartissimo.
+<br />
+
+<br />
+
+Abund&atilde;o os
+<em>ja&uacute;s</em>, os
+<em>sorubys</em>,
+<em>dourados</em>, em certos
+mezes <em>pac&uacute;s</em>,
+<em>pirapitangas</em>,
+<em>corimbat&aacute;s</em> e
+<em>pacu-pebas</em>,
+<em>papa-terras</em> (geophagus, Heckel),
+<em>raias</em>, etc., etc.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>ja&uacute;</em> &eacute; o
+maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamente
+<span class="pagenum">[94]</span>
+voraz, n&atilde;o duvida atacar o homem<sup><a href="#n64">[64]</a></sup>.
+A resistencia
+que tal monstro faz, quando agarrado ao anzol, &eacute; prodigiosa
+e n&atilde;o s&atilde;o raros os exemplos de grandes
+can&ocirc;as viradas
+na sua pesca.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>soruby</em> (platystoma), chamado mais
+commummente
+na provincia&mdash;pintado&mdash;, &eacute; peixe de pelle,
+com malhas
+pardacentas em fundo escuro. A cabe&ccedil;a &eacute; chata,
+com
+appendiculos como a dos bagres e occupa um ter&ccedil;o do
+comprimento total: a carne &eacute; saborosa, bem que um tanto
+forte.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados
+peixes de Mato-Grosso &eacute; o
+<em>pac&uacute;</em>, (prochilodus,
+Agassiz) tambem chamado <em>caranha</em>, do
+qual Pison diz:
+&laquo;melioris saporis et nutrimenti habetur, qu&agrave;m
+sargus
+Europeus&raquo;: tem c&ocirc;r pardacenta, azulada n'agua,
+escamas
+pequenas com reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos
+de comprimento. &Eacute; achatado.
+<br />
+
+<br />
+
+Em certas occasi&otilde;es, d&aacute; tal abundancia de
+gordura, que
+alimenta proveitoso commercio de azeite. A quantidade &eacute;
+prodigiosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas enchentes do Paraguay, os
+<em>pac&uacute;s</em> seguem o movimento
+das aguas em grandes cardumes, que fic&atilde;o, na retirada
+d'ellas, presos em po&ccedil;as dos campos e lag&ocirc;as, onde
+morrem &aacute; mingoa d'agua e por causa da elevada temperatura.
+<br />
+
+<br />
+
+O ar fica ent&atilde;o inficionado muitas legoas em derredor.
+<br />
+
+<br />
+
+Cont&aacute;r&atilde;o-nos que, em certos pontos perto do rio
+Paraguay,
+<span class="pagenum">[95]</span>
+fica o ch&atilde;o forrado, em extens&otilde;es
+importantes, com
+camadas de 2 a 3 palmos d'esses restos.
+<br />
+
+<br />
+
+A gordura do pac&uacute; &eacute; preconisada para varias
+molestias:
+dizem ser de grande efficacia na pica malacia, pelo
+enj&ocirc;o que causa ao enfermo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos peixes, com raz&atilde;o, mais apreciados dos rios da
+provincia, &eacute; a
+<em>pirapitanga</em> (species characini),
+chamado
+em Goyaz <em>jurupensen</em> (?) e pelos
+indios guan&aacute;s
+<em>arar&aacute;itiissi</em>
+(peixe de rabo vermelho). As suas dimens&otilde;es
+nunca s&atilde;o extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos
+de comprido; mais commummente regula de um 1 a
+2 palmos. A carne, com listras vermelhas, &eacute; consistente,
+saborosa, bem que, como a dos outros peixes de rios,
+seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.
+<br />
+
+<br />
+
+As pirapitangas sobem os ribeir&otilde;es e corregos at&eacute;
+onde
+encontr&atilde;o agua sufficiente. Muitas vezes, fic&atilde;o
+retidas em
+po&ccedil;as mais fundas at&eacute; a &eacute;poca das
+enchentes. No corrego
+dos Laianas apanh&aacute;mos algumas de bom tamanho, apezar
+da agua ter apenas <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+palmo de profundidade.
+<br />
+
+<br />
+
+No Aquidauana &eacute; muito rara a presen&ccedil;a dos
+monstruosos
+<em>sucurys</em>, assim como a das
+perigosissimas <em>piranhas</em> (myletes
+macropomus).
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o habitantes predilectos do grande Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente:
+nada resiste aos dentes agu&ccedil;ados de myriades d'aquelles
+peixes<sup><a href="#n65">[65]</a></sup>,
+que no ardor da fome, devor&atilde;o-se uns aos
+outros, com rapidez prodigiosa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span>
+Os <em>sucurys</em><sup><a href="#n66">[66]</a></sup>
+(boa murina),
+verdadeiros representantes
+antediluvianos, cheg&atilde;o a dimens&otilde;es que os
+torn&atilde;o entes
+deslocados na natureza proporcional de nosso globo. Vimos
+uma d'essas serpentes, com 30 palmos de comprido e 15
+de circumferencia na barriga; era comtudo muito nova,
+pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, Jo&atilde;o
+Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito al&eacute;m de
+6 bra&ccedil;as, contando-nos a este respeito um episodio curioso
+nas historias de sucurys.
+<br />
+
+<br />
+
+N'uma viagem a Cuyab&aacute;, passando elle pelos pantanaes
+do Piquiry, observ&aacute;ra de longe um touro, o qual
+disparava em todos os sentidos, parecendo retido por um
+extenso cip&oacute;, que conheceu era um enorme sucury. De
+mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente,
+depois de estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar,
+trazendo, de rastros ao ch&atilde;o, o seu adversario exhausto.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o approximar de gente, o touro deu um arranco
+desesperado e partio &aacute; disparada, bramando loucamente. O
+sucury deu de si at&eacute; ficar da grossura de tres dedos: depois
+come&ccedil;ou a encolher-se, arrastando a presa que, extenuada
+por tantos esfor&ccedil;os, de novo se deix&aacute;ra cahir.
+<br />
+
+<br />
+
+A victoria era certa; o final conhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O
+fac&atilde;o do homem, de um golpe, cortou o sucury e deu a
+liberdade ao touro. Este, erguendo-se de um s&oacute; pulo, sacudio
+<span class="pagenum">[97]</span>
+a
+cabe&ccedil;a e, arrojando-se pela campina, com o tronco
+da serpente pendurada ao pesco&ccedil;o, em breve desappareceu
+d'aquelle theatro, onde dev&ecirc;ra achar a morte.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, os sucurys atac&atilde;o as on&ccedil;as e
+antas com
+exito<sup><a href="#n67">[67]</a></sup>.
+Entretanto n'uma margem do Paraguay, o capit&atilde;o
+Francisco Domingos da Costa Pereira vio uma on&ccedil;a arrebentar
+um sucury, por quem f&ocirc;ra enla&ccedil;ada.
+<br />
+
+<br />
+
+Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente
+d'essas serpentes: basta uma ligeira picada, levantando
+as escamas para obrigal-as a desapertar os seus fataes
+enleios.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; em occasi&atilde;o opportuna fall&aacute;mos
+sobre os ferr&otilde;es que
+os sucurys tem ao redor do anus, e o que pensamos a
+tal respeito<sup><a href="#n68">[68]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+As rochas, sobre que rol&atilde;o as aguas do Aquidauana,
+s&atilde;o
+de gr&eacute;s; em muitas partes, o seu leito &eacute;
+completamente
+silicoso, em outras, argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes
+ultimos pontos reunem-se os
+<em>corimbat&aacute;s</em><sup><a href="#n69">[69]</a></sup>
+(schizodon,
+Agassiz), <em>pi&aacute;us</em>,
+<em>tra&iacute;ras</em> (erythrinus),
+<em>bagres</em>, etc. Os
+<span class="pagenum">[98]</span>
+seixos rolados abund&atilde;o nas margens e entre elles o
+<em>silex</em>
+e os <em>silicatos</em> de ferro.
+<br />
+
+<br />
+
+As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente
+trasbord&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; pela
+eleva&ccedil;&atilde;o dos barrancos,
+sen&atilde;o pela facilidade com que se esco&atilde;o as aguas
+no rio
+Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis de serem
+inundados.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO X
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O.
+fraldejando sempre a serra, que se eleva, cada vez mais,
+com pincaros escalvados e talhados at&eacute; a base.
+<br />
+
+<br />
+
+Os sitios s&atilde;o agrestes e sombrios; as plantas sexatiles
+se agrup&atilde;o de lado a lado da trilha que sobe e desce,
+conforme
+as dobras extremas da serrania.
+<br />
+
+<br />
+
+De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio,
+cujo ruido se ouve de longe; de vez em quando descortin&atilde;o-se
+peda&ccedil;os de campo distante, com lindas arvores,
+a modo de vergeis.
+<br />
+
+<br />
+
+N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um c&oacute;rte a
+pique de montanha: a paizagem &eacute; ahi muito curiosa e
+eminentemente pitoresca.
+<br />
+
+<br />
+
+Penetra-se ent&atilde;o n'uma fenda monstruosa que d&aacute;
+passagem
+ao viajante, entaliscando-o n'um corredor humido,
+cujas gotejantes paredes ach&atilde;o-se tapetadas por
+achamalotadas
+<span class="pagenum">[100]</span>
+<em>begonias</em>,
+<em>argyrostigmas</em>,
+<em>capillus-veneris</em>,
+<em>adiantos</em>,
+etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra<sup><a href="#n70">[70]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdeci&atilde;o
+depois das ultimas chuvas, e se estendi&atilde;o vicejantes, a
+perder de vista, como tapiz vistoso salpicado de fl&ocirc;resinhas
+mimosas<sup><a href="#n71">[71]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Caminh&aacute;mos 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas at&eacute; o corrego do Paxexi,
+onde
+fizemos pouso, aproveitando ranchos abandonados e em
+ruinas.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite cahio serena: a trovoada do dia dissip&aacute;ra-se ao
+sopro de forte ventania e t&atilde;o s&oacute;mente fugaces
+relampagos
+rasgav&atilde;o um massi&ccedil;o de nuvens, amontoadas em um
+ponto
+do horisonte. Roncos longinquos, intervallados, mal se
+ouvi&atilde;o, rompendo o silencio crepuscular, t&atilde;o
+solemne n'aquellas
+paragens.
+<br />
+
+<br />
+
+A lua subio ent&atilde;o, espargindo sua meiga luz sobre a natureza
+e infundindo aquella doce tristura, que acompanha
+essas noites de calma e tranquillidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O dia da Paix&atilde;o de Christo, em que estavamos, mais
+nos engolfava n'essa medita&ccedil;&atilde;o melancolica, que,
+sem
+<span class="pagenum">[101]</span>
+m&eacute;ta, sem direc&ccedil;&atilde;o certa, se atira no
+espa&ccedil;o, e durante
+a qual os olhos da materia se fix&atilde;o, sem vista, n'um
+ponto, ao tempo que os olhos da alma vague&atilde;o pelos mundos
+al&eacute;m creados, pelo indefinido e indeterminado.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente, atraz de um morro ergu&ecirc;r&atilde;o-se nuvens
+rubras,
+densas na base, flocadas acima e adelga&ccedil;adas.
+&laquo;S&atilde;o os paraguayos,
+disse-nos o velho indio Palh&aacute;, que est&atilde;o
+vaquejando
+no Taquaruss&uacute;, a 5 legoas d'aqui; queim&atilde;o
+&aacute; noite os
+campos, para chamar o gado
+<em>esparramado</em>
+(espalhado)...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Sahindo de Paxex&iacute; com a madrugada, fomos em
+direc&ccedil;&atilde;o
+ao porto de D. Maria Domingas, o qual deviamos examinar
+como ponto de passagem para as for&ccedil;as. Estavamos
+ent&atilde;o a uma legoa de distancia d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se havi&atilde;o reunido a n&oacute;s os indios
+da Boa-Vista, que
+vinh&atilde;o constituir a nossa guarda de
+protec&ccedil;&atilde;o. Montados
+em bois, marchav&atilde;o uns atraz dos outros, com a
+lentid&atilde;o
+grave d'aquelles ruminantes, a qual n&atilde;o ser&iacute;a
+alterada,
+ainda quando apparecessem os inimigos.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; come&ccedil;avamos ent&atilde;o a avistar grandes
+manadas de
+gado: as <em>pontas</em> pastav&atilde;o
+em compactos grupos, que se apartav&atilde;o
+com a nossa chegada, fugindo as vaccas e bezerros,
+ao passo que os touros parav&atilde;o, para olhar-nos com
+desconfian&ccedil;a
+e sobranceria. &Aacute;s vezes, de um ponto afastado,
+corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao
+caminho e ahi nos esperava com ar de desafio e
+resolu&ccedil;&atilde;o.
+Bastava, comtudo, um simples grito, um aceno para
+desvial-o, sen&atilde;o para afugental-o bem longe<sup><a href="#n72">[72]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p102" id="p102">[102]</a></span>
+O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe
+em campo limpo, ora d'elle se separa por uma mata espessa
+e sombria.
+<br />
+
+<br />
+
+Passavamos, de quando em quando, por tap&eacute;ras<sup><a href="#n73">[73]</a></sup>;
+er&atilde;o
+ranchos vastos cobertos de <em>herva de S.
+Caetano</em><sup><a href="#n74">[74]</a></sup>,
+rodeados
+de urzes e espinhos; er&atilde;o moendas, engenhos, queimados
+em parte, cortados pelos machados do invasor; em
+toda a parte, signaes de desola&ccedil;&atilde;o e
+destrui&ccedil;&atilde;o inutil e barbara.
+S&oacute; a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava
+ao derredor as vistas, can&ccedil;adas de tamanhas provas
+de vandalismo; ella que, embora desfigurada pela m&atilde;o do
+homem, procura de continuo reparar os estragos que tenha
+soffrido.
+<br />
+
+<br />
+
+O porto de <em>D. Maria Domingas</em>,
+chamado pelos indios,
+<em>alin&aacute;na</em>, &eacute; uma
+larga aberta na mata. Dava passagem
+aos carros que, das fazendas da margem direita do rio,
+se dirigi&atilde;o para a villa de Miranda.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse lugar f&ocirc;ra testemunha de uma das poucas scenas
+de resistencia no longo periodo da occupa&ccedil;&atilde;o
+paraguaya
+e apresentava gloriosas mostras d'aquelle feito de armas:
+varias arvores varadas por balas e cinco ossadas humanas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Maio de <a href="#ed1">186 </a>, dezeseis
+indios terenas,
+occupados
+<span class="pagenum">[103]</span>
+em fazer ahi rapaduras, tinh&atilde;o sido atacados por duzentos
+paraguayos, os quaes, recebidos de dentro da mata por um
+fogo vivo e certeiro, em poucos minutos for&atilde;o obrigados
+&aacute; retirada, abandonando n&atilde;o s&oacute; mortos
+como feridos, que
+morr&ecirc;r&atilde;o &aacute;s m&atilde;os de seus
+encarni&ccedil;ados inimigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses
+restos, levanta-se um clamor immenso: uns quebr&atilde;o os
+ossos, outros insult&atilde;o as caveiras, cuspindo n'ellas e
+calcando-as
+aos p&eacute;s; outros riem-se estrepitosamente e dirigem
+motejos aos manes paraguayos.
+<br />
+
+<br />
+
+Prohibimos demonstra&ccedil;&otilde;es d'essa barbara
+expans&atilde;o ao
+nosso sequito, que, a custo, conservou-se calado, ao passar
+duas vezes por diante dos alvejantes craneos, na entrada
+e sahida da mata: entretanto alguns indios, descendo de
+seus bois, apanh&aacute;r&atilde;o uns ossos que
+lev&aacute;r&atilde;o escondidos.
+<br />
+
+<br />
+
+O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores
+condi&ccedil;&otilde;es para uma passagem de for&ccedil;as,
+estando a outra
+margem occupada pelo inimigo. Pouco frequentado, afastado
+da estrada por onde os paraguayos presumi&atilde;o dever
+descer a nossa gente, com v&aacute;o seguro e commodo, com
+uma boa mataria para protec&ccedil;&atilde;o na
+transposi&ccedil;&atilde;o, era al&eacute;m
+d'isso o ponto onde convergi&atilde;o todos os caminhos do
+districto
+e cuja posse cortava as communica&ccedil;&otilde;es entre os
+postos do Taquaruss&uacute; e Souza, ent&atilde;o existentes
+mais proximos
+do rio e que deviamos primeiro atacar.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalh&aacute;mos
+sempre n'esse sentido, apezar dos estorvos que se
+levant&aacute;r&atilde;o contra essa escolha razoavel e
+conveniente.
+Como, entretanto, n&atilde;o se realis&aacute;r&atilde;o as
+nossas previs&otilde;es e
+falh&aacute;r&atilde;o os nossos planos pela demora das
+for&ccedil;as brasileiras
+<span class="pagenum">[104]</span>
+e retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte
+essas quest&otilde;es que tinh&atilde;o interesse immenso no
+momento
+e que o teri&atilde;o no futuro, se houvessem surtido effeito as
+providencias, que n'aquelle sentido tom&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+As terras, que atravess&aacute;mos, pertenci&atilde;o a D.
+Maria Domingas
+de Faria, senhora estimada pelas suas excellentes
+qualidades e virtudes. As suas posses importantes
+est&egrave;ndi&atilde;o-se
+em toda a margem direita e esquerda do Aquidauana
+e n'ellas estav&atilde;o estabelecidos os seus parentes
+mais chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de
+contar um amigo, o sympathico fazendeiro&mdash;Jo&atilde;o
+Mamede
+Cordeiro de Faria.
+<br />
+
+<br />
+
+Tangidos violentamente de suas propriedades pela invas&atilde;o,
+havi&atilde;o todos esses pacificos habitantes fugido de
+suas fazendas, indo, depois de mil trabalhos e peripecias,
+se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio Taquary, a 7
+legoas do lugar onde acampou a for&ccedil;a no Coxim.
+<br />
+
+<br />
+
+Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar
+no laranjal de Francisco Dias, que estava ent&atilde;o acoutado
+nos Morros, e, no dia seguinte, cheg&aacute;mos ao porto do
+Pires, a uma legoa do entrincheiramento paraguayo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado
+com vinte e tantos moradores dos Morros, para que
+nos fossem esperar n'aquelle ponto, bem armados e com
+muni&ccedil;&atilde;o sufficiente para defesa, no caso de
+sermos perturbados
+na ultima legoa, que restava fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+Apress&aacute;ramos a viagem, com o fim de n&atilde;o nos
+tornar esperados;
+deix&aacute;ramos de parte muita curiosidade que examinar;
+haviamos desprezado o entretenimento de pescas e
+ca&ccedil;adas em completa perda.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[105]</span>
+Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas,
+ach&aacute;mo-nos com 18 pessoas mal armadas e municiadas
+s&oacute;
+a um ou dous cartuxos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os indios revelav&atilde;o receio latente: a cada instante
+ouvi&atilde;o
+toques de caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar
+de nossa boa audi&ccedil;&atilde;o, nunca pod&eacute;mos
+perceber.
+<br />
+
+<br />
+
+A cada instante nos avisav&atilde;o que os paraguayos
+estav&atilde;o
+em vigilancia continua e que er&atilde;o muito valentes. Accrescia
+ainda que, n'aquelle dia, haviamos desconfiado da passagem
+de gente para a margem direita, por causa de
+pontas de gado que pareci&atilde;o vir tangidas dos lados do
+porto do Souza e que, por diversas vezes, havi&atilde;o passado
+diante de n&oacute;s, n'uma corrida tremenda.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim pois, perigos nos cercav&atilde;o sem a
+protec&ccedil;&atilde;o conveniente
+para os casos de aperto: continuar, f&ocirc;ra temeridade
+improficua; proseguir, passo inconsiderado.
+<br />
+
+<br />
+
+Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando
+campo em direc&ccedil;&atilde;o a um dos picos da serra em
+que ficava a nossa pousada.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, volt&aacute;mos as costas ao sul, havendo
+pr&eacute;viamente
+lan&ccedil;ado fogo &aacute; campina que, abrasada pelo sol,
+incontinente
+despedio ao c&eacute;o rolos de negrejante fuma&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Minutos depois apparecia, na margem de l&aacute;, outra
+fuma&ccedil;a,
+em signal de aceita&ccedil;&atilde;o de desafio, como
+usav&atilde;o os
+paraguayos.
+<br />
+
+<br />
+
+Desappareceu, por&eacute;m, debaixo do formidavel aguaceiro
+que, por mais de meia hora, despej&aacute;r&atilde;o as nuvens,
+protegendo
+a nossa retirada e impedindo qualquer tentativa
+de persegui&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse mesmo dia (2 de Abril) cheg&aacute;mos ao nosso acampamento,
+<span class="pagenum">[106]</span>
+onde encontr&aacute;mos os commodos que tanto consolo
+nos havi&atilde;o dado depois dos dias penosos de nossa primeira
+viagem; ficando em n&oacute;s, d'aquella digress&atilde;o
+&aacute;s bellas
+margens do Aquidauana, a immarcessivel recorda&ccedil;&atilde;o
+de dias alegres e felizes.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XI
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de alguns dias de obrigatorio descanso, remettemos
+ao commando das for&ccedil;as, acampadas ent&atilde;o no rio
+Negro,
+os desenhos e relatorios de nossa viagem ao Aquidauana,
+cuidando desde ent&atilde;o nos meios de passagem
+d'aquelle rio, a qual, segundo as communica&ccedil;&otilde;es
+que recebiamos,
+devia se effectuar em meiados de Junho.
+<br />
+
+<br />
+
+Esper&aacute;mos comtudo desde Abril at&eacute; principios de
+Julho.
+As mil difficuldades que embara&ccedil;&aacute;r&atilde;o a
+marcha das for&ccedil;as,
+a peste, a fome que acommett&ecirc;r&atilde;o os nossos
+infelizes soldados,
+o fallecimento de officiaes e afinal do commandante
+o bravo general Galv&atilde;o, er&atilde;o as causas d'essa
+demora
+desesperadora que, retendo a expedi&ccedil;&atilde;o em
+mortiferos
+pa&uacute;es, ia, mezes depois, produzir a medonha
+enfermidade,&mdash;a
+paralysia reflexa&mdash;, adquirida n'aquelle periodo fatal.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o assistimos &aacute;s scenas desoladoras do rio
+Negro; n&atilde;o
+presenci&aacute;mos os duros trances em que se vio a columna:
+<span class="pagenum">[108]</span>
+haviamos, de antecedencia, pago pesado tributo, com quinh&atilde;o
+consideravel de soffrimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; nossa penna, al&eacute;m d'isso, falt&atilde;o a
+precisa energia,
+as c&ocirc;res vivas para descrever t&atilde;o extremas
+necessidades,
+a for&ccedil;a e enthusiasmo para tra&ccedil;ar a
+abnega&ccedil;&atilde;o, o heroismo
+e resigna&ccedil;&atilde;o que, n'aquelles momentos
+tormentosos, patenteou
+o nobre soldado brasileiro.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Durante a estada prolongada, que tivemos nos morros,
+procur&aacute;mos estudar a sociedade que exist&iacute;ra no
+Baixo-Paraguay,
+analysar a indole dos indios, o elemento mais numeroso
+n'elle, investigar o gr&aacute;o de
+civilisa&ccedil;&atilde;o em que se
+ach&atilde;o e os resultados da convivencia com os brancos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca se apresentar&aacute; occasi&atilde;o t&atilde;o
+favoravel para um
+espirito indagador. As grandes provan&ccedil;as
+descarn&atilde;o os homens.
+<br />
+
+<br />
+
+No soffrimento e na desgra&ccedil;a, o caracter bondadoso se
+requinta; o m&aacute;u se exaspera e se
+<em>irrita</em>; as paix&otilde;es nobres
+ou baixas apparecem ent&atilde;o ao descoberto da mascara
+que as conven&ccedil;&otilde;es e conveniencias da sociedade
+apresent&atilde;o
+aos olhos incautos.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinh&atilde;o se dado as scenas angustiosas da
+invas&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O organismo social desarranjado, acab&aacute;ra com as formalidades
+que, a bem da moralidade, se costum&atilde;o respeitar:
+a hypocrisia fug&iacute;ra ao longe; a falsa amizade
+desapparec&ecirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos dias lugubres da fugida ante os paraguayos os verdadeiros
+amigos for&atilde;o raros: apresent&aacute;r&atilde;o-se
+rasgos de nobreza
+<span class="pagenum">[109]</span>
+de caracter em quem tal n&atilde;o era de esperar e
+amesquinh&aacute;r&atilde;o-se aquelles com quem se contava.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca o egoismo desenvolveu-se em t&atilde;o larga escala.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns atopet&aacute;r&atilde;o as suas can&ocirc;as<sup><a href="#n75">[75]</a></sup> com
+os objectos mais
+inuteis, trazendo de Miranda at&eacute; garrafas vasias, ao passo
+que negav&atilde;o passagem aos seus affei&ccedil;oados da
+vespera, pretextando
+falta de espa&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Outros prohibi&atilde;o a matan&ccedil;a de seu gado a pobres
+refugiados,
+maltratando-os por cartas, que declarav&atilde;o ser-lhes
+preferivel o roubo dos paraguayos.
+<br />
+
+<br />
+
+Do conflicto d'esses sentimentos result&aacute;r&atilde;o
+collis&otilde;es, cuja
+lembran&ccedil;a n&atilde;o deve occupar a
+atten&ccedil;&atilde;o d'aquelles que apreci&atilde;o
+o homem como typo de nobreza, e sujeit&atilde;o &aacute;s suas
+virtudes moraes, a ordem physica das cousas, brutal e
+necessaria.
+<br />
+
+<br />
+
+O valor absoluto das id&eacute;as do utopista &eacute;
+t&atilde;o precioso
+que, ainda com prejuizo da indispensavel necessidade do
+conhecimento dos homens, devemos desviar os olhos das
+li&ccedil;&otilde;es d'aquella perigosa experiencia:
+bast&atilde;o os desgostos
+no correr da vida normal, bast&atilde;o os desenganos na sociedade
+polida, no mundo civilisado, em seus eixos, em seu
+curso natural.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>CAPITULO XII
+</h3>
+
+<h4>
+OS INDIOS DO DISTRICTO DE MIRANDA
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em dous importantes grupos se divide a ra&ccedil;a india, habitante
+de Miranda: os <em>guaycur&uacute;s</em>
+e os <em>chan&eacute;s</em>. Os primeiros
+comprehendem tres tribus: a
+<em>guaycur&uacute;</em>, propriamente
+dita, que vai desapparecendo pelo contacto immediato
+com a gente branca, os
+<em>cadiu&eacute;os</em> que, pelo
+contrario,
+conserv&atilde;o-se no estado quasi selvatico, em terrenos proximos
+aos rios Paraguay e Nabilek, ainda n&atilde;o bem explorados,
+e os <em>beaqui&eacute;os</em> que
+habit&atilde;o com os cadiu&eacute;os<sup><a href="#n76">[76]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>chan&eacute;s</em> subdividem-se
+em quatro ramifica&ccedil;&otilde;es: os
+<em>terenas</em>, que constituem os tres
+quintos da popula&ccedil;&atilde;o aborigene,
+os <em>laianas</em>, os
+<em>quiniquin&aacute;os</em> e os
+<em>guan&aacute;s</em> ou
+<em>chooron&oacute;s</em>,
+de entre todos, os mais doceis e civilisados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[112]</span>
+A lingua &eacute; a mesma para todos estes, com algumas
+altera&ccedil;&otilde;es
+que entretanto n&atilde;o lhes impedem a facil
+comprehens&atilde;o
+reciproca. Os costumes e praticas geraes: o seu typo, por&eacute;m,
+conservando um <em>facies</em> bem
+determinado offerece distinc&ccedil;&otilde;es
+que assignal&atilde;o caracteristicamente cada uma d'estas tribus.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>terena</em> &eacute; agil e activo:
+o seu parecer exprime mobilidade;
+a sua intelligencia &eacute; astuciosa e com propens&atilde;o
+ao mal. Aceita com difficuldade as nossas id&eacute;as e conserva
+arreigados os seus usos especiaes, talvez por espirito
+mais firme de liberdade. O homem &eacute; robusto, corpulento,
+de boa estatura; o seu semblante apresenta o
+nariz um tanto achatado na base; as sobrancelhas pouco
+obliquas, em alguns individuos bastas e desenhadas com
+regularidade; &aacute;s vezes &eacute; pugibarba, outras tem
+bu&ccedil;o e
+barbas bem apparentes. A desconfian&ccedil;a transluz nos seus
+olhares inquietos, vivos; a dobrez nos seus gestos. Escondem
+com gosto os sentimentos que os agit&atilde;o; fall&atilde;o
+com volubilidade,
+usando do seu idioma sempre que podem, e indicando
+o aborrecimento em se expressarem em portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres s&atilde;o de estatura baixa: tem a cara larga,
+bei&ccedil;os finos, cabellos grossos e compridos. &Aacute;s
+vezes, o
+seu typo tem um cunho de amenidade que admira, grande
+regularidade nas fei&ccedil;&otilde;es e express&atilde;o
+de intelligencia.
+Trazem commummente parte do busto descoberto e uma
+julata<sup><a href="#n77">[77]</a></sup>
+de algod&atilde;o cingido abaixo dos seios, com uma
+das pontas passada entre as coxas e segura na cintura.
+Raras mulheres sabem fallar o portuguez: todas
+por&eacute;m o comprehendem bem, apezar de fingirem n&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p113" id="p113">[113]</a></span>
+entendel-o. S&atilde;o as mais laboriosas e industriosas da
+ra&ccedil;a
+india, guardada a rela&ccedil;&atilde;o necessaria entre a
+actividade e
+indolencia proprias das na&ccedil;&otilde;es indias.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>laiana</em> &eacute; um typo de
+transi&ccedil;&atilde;o: tem muito melhores
+instinctos, menos avers&atilde;o aos brancos, de cuja lingua
+se servem sem repugnancia, pelo contrario, com
+gosto e facilidade. O homem &eacute; mais delgado que o terena,
+menos inquieto; a physionomia com tudo &eacute; muito
+menos viva e intelligente. Os seus habitos de trabalho s&atilde;o
+mais aproveitaveis, por&eacute;m menos constantes e
+esfor&ccedil;ados.
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres geralmente s&atilde;o feias: tem os olhos commummente
+apertados, a c&ocirc;r dubia: n&atilde;o &eacute; o
+avermelhado
+franco do corpo da terena nem o amarello, algum tanto
+macilento, da quiniquin&aacute;o. Entretanto, como em quasi
+todas as indias chan&eacute;s, o talho do corpo &eacute;
+elegante e
+esbelto, as m&atilde;os e p&eacute;s pequenos e delicados.
+<br />
+
+<br />
+
+O typo <em>quiniquin&aacute;o</em>
+&eacute; j&aacute; mui diverso dos dous precedentes:
+o homem traz estampadas no rosto a apathia
+e placidez: as fei&ccedil;&otilde;es, sem
+anima&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o regulares e
+proximamente bellas. A sua for&ccedil;a de trabalho &eacute;
+muito
+diminuta: elle passa os dias, deitado sobre um couro
+pellado, sem saudades do passado, nem receios do futuro;
+cultiva, com grande custo, alguns cereaes que a familia
+come na propor&ccedil;&atilde;o da colheita; se <a href="#e5">abundante</a>, muito;
+tudo em poucos dias; se nenhuma, passar&aacute; a c&ocirc;cos e
+fructas<sup><a href="#n78">[78]</a></sup>
+do mato.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+A mulher quiniquin&aacute;o &eacute; bella: pela mistura de
+ra&ccedil;as,
+facil n'essa tribu mais relacionada com os brancos e negros
+e encostada a elles, a c&ocirc;r ou &eacute; de um amarello
+escuro de canella (cabur&eacute;) ou de um branco ligeiramente
+amarellado. N'este caso, as faces s&atilde;o delicadamente
+rosadas; a tez pura, os labios rubros, as gengivas vermelhas.
+Quasi todas comprehendem o portuguez: fazem
+esfor&ccedil;os para fallal-o, apezar do vexame que
+mostr&atilde;o experimentar.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>guan&aacute;</em>, no districto,
+quasi tem desapparecido nas
+ra&ccedil;as branca, india ou negra, que o cerc&atilde;o. Vimos
+por&eacute;m
+uma india, chamada Antonia, filha de pae quiniquin&aacute;o
+e m&atilde;e guan&aacute;, que, sobre ser um verdadeiro typo
+de belleza pela venustade do rosto, pelo delicado da
+epiderme e elegancia do corpo, tinha summa graciosidade
+e donaire.
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>guaycur&uacute;s</em>, homens em
+extremo vigorosos, tem
+as fei&ccedil;&otilde;es brutaes e grosseiras; estatura maior
+que mei&atilde;,
+avantajada, &aacute;s vezes, por modo estranhavel.
+<br />
+
+<br />
+
+O capit&atilde;o Lapagates, chefe de uma ald&ecirc;a de
+cadiu&eacute;os,
+o qual vimos no Tab&ocirc;co, era um var&atilde;o imponente,
+com rosto expressivo e olhar intelligente; tinha no
+trato uma amenidade bondadosa que muito caracterisava
+aquelle her&oacute;e do forte&mdash;Olympo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; geral a todos os indios agu&ccedil;arem os dentes,
+formando
+pontas finas; &eacute; tambem geral usarem de
+<em>uruc&uacute;</em><sup><a href="#n79">[79]</a></sup>
+e <em>genipapo</em>, para pintarem no rosto
+arabescos, figurando
+desenhos singulares ou para fingirem barbas e bigodes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+Entre os cadiu&eacute;os, comtudo, &eacute; isto regalia
+peculiar &aacute;s
+mulheres e filhas dos capit&atilde;es: os mais pint&atilde;o
+t&atilde;o s&oacute;mente
+ao redor da boca, o que lhes d&aacute; aspecto curiosamente
+feroz.
+<br />
+
+<br />
+
+Esses desenhos s&atilde;o, &aacute;s vezes, feitos com muita
+regularidade,
+ora simplesmente com alguma tinta corante em
+vesperas de solemnidades, ora marcados indelevelmente
+com uma ponta de agulha em brasa.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; tambem commum a todos os indios do districto<sup><a href="#n80">[80]</a></sup>
+o habito da mais apurada limpeza: lav&atilde;o o corpo tres
+ou quatro vezes por dia; por qualquer tempo que fa&ccedil;a,
+calor ou frio. As mulheres cuid&atilde;o muito na alvura de
+seus pannos e procur&atilde;o sempre andar limpas, exceptas
+as velhas que d&atilde;o, com o tempo, de m&atilde;o a esses
+cuidados.
+<br />
+
+<br />
+
+Os terenas, como acima dissemos, f&oacute;rm&atilde;o a maior
+parte
+da popula&ccedil;&atilde;o india do districto: as suas
+ald&ecirc;as estav&atilde;o
+situadas no <em>Naxedaxe</em>, a 6 legoas da
+villa de Miranda;
+no <em>Ip&ecirc;gue</em>, a
+7 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>;
+na <em>Cachoeirinha</em>, e
+n'um lugar a
+3 legoas, constituindo um aldeamento chamado
+<em>Grande</em>,
+al&eacute;m de outros pequenos centros. Tres a quatro mil
+individuos
+morav&atilde;o n'esses diversos pontos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os quiniquin&aacute;os aldeav&atilde;o no
+<em>Euagaxigo</em>, a 7 legoas N. E.
+<span class="pagenum">[116]</span>
+de Miranda; os guan&aacute;s no
+<em>Eponadigo</em> e no
+<em>Laui&aacute;d</em><sup><a href="#n81">[81]</a></sup>,
+em numero de 30 a 40; e os laianas a meia legoa da
+villa.
+<br />
+
+<br />
+
+Os guaycur&uacute;s habitav&atilde;o no
+<em>Lalima</em> e perto de
+<em>Nioac</em>
+e os indomitos e falsos cadiu&eacute;os em
+<em>Amagalobida</em> e
+<em>Nabilek</em>,
+para os lados do rio Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+O aldeamento modelo no Baixo Paraguay era incontestavelmente
+o do <em>Mato-Grande</em> ou do
+<em>Bom-Successo</em>, perto
+de Albuquerque, onde os quiniquin&aacute;os, debaixo da paternal
+e intelligente direc&ccedil;&atilde;o do virtuosissimo
+missionario
+Frei Marianno de Bagnaia, apresentav&atilde;o os fructos valiosos
+da catechese bem entendida. Ahi os indios obrigados a um
+trabalho regular, vivi&atilde;o na abundancia,
+entregav&atilde;o-se a
+diversos officios e aprendi&atilde;o as artes liberaes. Havia uma
+banda de musica, toda composta de indigenas. Uma escola
+de primeiras letras funccionava com numero crescido
+de alumnos estudiosos e n'ella se incuti&atilde;o os principios
+de religi&atilde;o, de que tanto necessit&atilde;o aquellas
+infelizes
+creaturas.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma tribu, que desappareceu do districto quasi totalmente,
+&eacute; a dos
+<em>guax&iacute;s</em>, da qual se
+encontr&atilde;o s&oacute; alguns
+individuos, confundidos com gente de outra na&ccedil;&atilde;o.
+Esta
+extinc&ccedil;&atilde;o &eacute; devida ao habito
+extraordinariamente immoral
+da morte dos fetos no ventre das m&atilde;es, as quaes produzem
+os v&oacute;mitos, usando de hervas e raizes apropriadas. Os
+<span class="pagenum">[117]</span>
+laianas v&atilde;o tambem pouco a pouco se extinguindo e, apezar
+do contacto continuo com os mirandenses, iguaes factos
+se d&atilde;o entre quiniquin&aacute;os e terenas.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os indios acima mencionados, apparecem alguns
+<em>caiu&aacute;s</em>. Habitantes do
+norte da republica do Paraguay,
+nas cabeceiras do rio Aquidav&aacute;n, s&atilde;o prisioneiros
+de guerra
+nas correrias que os cadiu&eacute;os costumav&atilde;o fazer
+nas terras
+d'aquella republica. Para esse fim sahi&atilde;o do Nabilek,
+passav&atilde;o os campos da Pedra de Cal<sup><a href="#n82">[82]</a></sup> e, costeando a serra
+de Dourados, i&atilde;o ter &aacute;s aguas do Iguatemy,
+contravertente
+do Aquidav&aacute;n.
+<br />
+
+<br />
+
+Os caiu&aacute;s er&atilde;o vendidos depois e
+passav&atilde;o, de m&atilde;o em
+m&atilde;o, na qualidade de captivos, aos quaes cham&atilde;o
+<em>captiveiros</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A escravid&atilde;o &eacute; a mais doce possivel. O
+<em>captiveiro</em> faz
+parte da familia, come com ella, &eacute; tratado como filho da
+casa; tem at&eacute; regalias especiaes. A senhora ir&aacute;
+buscar
+agua &aacute; fonte e lavar a roupa que perten&ccedil;a ao seu
+escravo
+e nunca o obrigar&aacute; a estes servi&ccedil;os. Entretanto
+os captivos
+s&atilde;o vendidos com summa facilidade e por qualquer
+ninharia, apezar da longa convivencia que os un&atilde;o ao
+senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+Os indios do districto vivem na maior ignorancia e
+indifferen&ccedil;a
+em materia de religi&atilde;o. A catechese acha-se
+muito atrazada e tem sido mal dirigida. Poucos quiniquin&aacute;os
+<span class="pagenum">[118]</span>
+conhecem a significa&ccedil;&atilde;o da
+Cruz e s&oacute;mente alguns
+guan&aacute;s us&atilde;o de nossas preces.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais existe nas maiores tr&eacute;vas: entretanto elles tem
+na lingua uma palavra para exprimirem Deos, a quem
+cham&atilde;o
+<em>Nhande-i&aacute;ra</em><sup><a href="#n83">[83]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada tribu tem por&eacute;m um certo numero de
+<em>padres</em> cantores,
+os quaes servem ao mesmo tempo de medicos e
+feiticeiros: s&atilde;o destinados desde a infancia ao sacerdocio e
+ainda crian&ccedil;as aprendem as poucas cantigas que lhes
+s&atilde;o
+particulares. Homens e mulheres servem indistinctamente:
+nenhum signal os distingue: nenhum respeito os rod&ecirc;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O mais absurdo fetichismo pareceu-nos ser a religi&atilde;o
+dos padres: por qualquer motivo, colheitas, chuva continua,
+sol ardente, <em>pendoar</em> do milho, etc.,
+cantar&atilde;o noites
+inteiras, denunciando presagios e conversando com a ave
+<em>macau&aacute;n</em>, que elles fingem
+chamar de longe, imitando o
+cantar tristonho.
+<br />
+
+<br />
+
+Este passaro &eacute; pois para elles um ente sagrado. Entretanto
+os outros indios mat&atilde;o o macau&aacute;n<sup><a href="#n84">[84]</a></sup> com
+t&atilde;o pouca
+reverencia, que indica o pouco caso que d'elle fazem.
+Temos por sem duvida que os proprios padres, em occasi&atilde;o
+opportuna, saboreem a carne d'aquella ave, dando de
+m&atilde;o aos principios religiosos e ao encargo de consciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes, no meio de suas praticas, o padre faz grosseiros
+<span class="pagenum">[119]</span>
+exercicios de prestidigita&ccedil;&atilde;o: finge
+engolir pennas
+compridas, tira-as do nariz, introduz flechas no estomago,
+etc., etc.; entretanto os seus admiradores s&atilde;o quasi sempre
+crian&ccedil;as e velhas; os homens pass&atilde;o por diante
+d'elle, lan&ccedil;ando
+olhares do mais completo indifferentismo, qui&ccedil;&aacute;
+incredulidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>padre</em>, para suas vigilias,
+veste-se com uma <em>julata</em>,
+ornada de lentej&oacute;ulas e presa &aacute; cintura por uma
+especie
+de talim de contas; pinta o thorax, bra&ccedil;os e cara com
+genipapo
+e uruc&uacute;. Estende um couro diante de sua porta e
+n'elle caminha, lenta e compassadamente, avan&ccedil;ando e
+recuando,
+a cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa
+e monotona, com acompanhamento de um chocalho, que
+elle segura na m&atilde;o direita. Na esquerda empunha um
+espanador feito de pennas de ema e bordado com desenhos
+caprichosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma familia inteira p&oacute;de ser de padres: assim pae,
+m&atilde;e
+e filhos cant&atilde;o juntamente noites inteiras, cada um no seu
+couro, com seu espanador, caba&ccedil;a e mais adornos; as
+mulheres, como os homens, trazem a parte superior do
+corpo n&uacute;a e pintada.
+<br />
+
+<br />
+
+O canto de madrugada soffre uma parada longa: de repente
+s&ocirc;a muito ao longe o grito do
+<em>macau&aacute;n</em>: responde-lhe
+o padre; vem-se approximando o passaro com pios cada
+vez mais proximos, e, afinal, come&ccedil;&atilde;o as suas
+revela&ccedil;&otilde;es
+ao sacerdote. Essa scena n&atilde;o deixa de impressionar, pois
+a imita&ccedil;&atilde;o do cantar do macau&aacute;n ao
+longe e successivamente
+mais e mais perto, &eacute; feita com toda a
+perfei&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre, como medico, &eacute; da mais crassa ignorancia;
+n&atilde;o usa das plantas medicinaes que o
+rod&ecirc;&atilde;o e cujas propriedades
+<span class="pagenum">[120]</span>
+medicamentosas parece desconhecer completamente.
+Elle aparta t&atilde;o s&oacute;mente o doente do contacto com
+os outros, apalpa-o diversas vezes, sopra no lugar enfermo<sup><a href="#n85">[85]</a></sup>
+e canta frequentemente, consultando o macau&aacute;n. &Eacute;
+a verdadeira
+medicina expectante, com formulas charlatanicas proprias
+da intelligencia do facultativo e do medicando.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o doente fallece, o medico jacta-se de tel-o deixado
+morrer por gosto<sup><a href="#n86">[86]</a></sup>;
+nos casos de cura, recebe presentes
+e por muitos dias &eacute; ainda sustentado pela familia
+do convalescente<sup><a href="#n87">[87]</a></sup>,
+a qual tem esta obriga&ccedil;&atilde;o
+durante toda
+a molestia.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando morre um individuo, a ald&ecirc;a toda entra em alvoroto.
+A casa do morto &eacute; invadida, e n'ella levant&atilde;o-se
+gemidos e gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e
+crian&ccedil;as<sup><a href="#n88">[88]</a></sup>.
+Ora, &eacute; um barulho ingente dominado pelo solu&ccedil;ar
+estrepitoso do parente mais proximo; ora, &eacute; um murmurio
+confuso que dura alguns minutos, recome&ccedil;ando aquellas
+lamenta&ccedil;&otilde;es,
+que se ouvem muito longe.
+<br />
+
+<br />
+
+O corpo fica em casa duas ou tres horas s&oacute;mente:
+&eacute;
+logo amarrado em uma rede enfiada n'um varap&aacute;o, que
+<span class="pagenum">[121]</span>
+vai carregado por dous parentes. O enterro dirige-se para
+o cemiterio, acompanhado por todas as pessoas das casas
+por defronte das quaes vai passando; a grita se ergue assim
+cada vez mais intensa: todos lament&atilde;o-se, todos
+urr&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+No acto de entregar o cadaver &aacute; terra, junto &aacute;
+cova
+mat&atilde;o-se os animaes mais queridos do morto, ao qual
+enterr&atilde;o com todos os objectos, que mais
+affei&ccedil;o&aacute;ra. Se,
+n'esse acto, se apresenta alguem pedindo qualquer animal
+ou objecto, obtem-o logo sem difficuldade nem paga,
+ficando desde ahi propriedade d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Os parentes cedem por esse modo rezes, manadas de
+egoas, etc., etc., procurando desfazer-se de tudo quanto
+pertenc&ecirc;ra ao defunto.
+<br />
+
+<br />
+
+De volta do cemiterio, o rancho &eacute; abandonado: toda
+a familia muda-se: entretanto, durante muito tempo, conserva-se,
+na palhada desoccupada, agoa, fogo e cigarros,
+para que a alma do morto beba, se aque&ccedil;a e fume.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis a id&eacute;a que manifest&atilde;o da immortalidade da
+alma.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando &eacute; uma mulher que morre, de volta do enterro,
+quebr&atilde;o-se todos os potes, pratos, etc. O rancho
+tambem &eacute; completamente desmanchado.
+<br />
+
+<br />
+
+Os signaes porque os chan&eacute;s manifest&atilde;o a sua
+d&ocirc;r,
+s&atilde;o extremamente ruidosos. O seu lamentar &eacute; em
+altos
+gritos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mezes depois do fallecimento de um parente, qualquer
+recorda&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#n89">[89]</a></sup>
+provoca scenas de d&ocirc;r
+estrepitosa, que &eacute;
+<span class="pagenum">[122]</span>
+logo acompanhada por todas as velhas da ald&ecirc;a: assim,
+o aspecto de um animal que se pare&ccedil;a com um, outr'ora
+affei&ccedil;oado do defunto, o apparecimento da lua, a vista
+de uma roupagem, s&atilde;o causas de explos&atilde;o de
+gritos,
+que dur&atilde;o muitas horas.
+<br />
+
+<br />
+
+O luto consiste&mdash;nas mulheres&mdash;em tirar os seus
+adornos de prata e ouro<sup><a href="#n90">[90]</a></sup>,
+brincos e collares, e cortar
+os cabellos na altura das faces:&mdash;nos homens&mdash;em usar
+de roupas escuras, sem distinctivos nem enfeites.
+<br />
+
+<br />
+
+A dura&ccedil;&atilde;o do luto var&iacute;a conforme o
+gr&aacute;o de parentesco:
+o de filho obriga a um anno; de pae e m&atilde;e a
+muito menos tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Perto de nosso rancho de palha, nos Morros, habitava
+uma pobre india velha que lamentava, noute e dia, da
+morte de seu filho unico, agarrado pelos paraguayos em
+fins de 1865 e morto por elles a lan&ccedil;adas. O seu
+solu&ccedil;ar
+mostrava a d&ocirc;r profunda em que jazia, entretanto
+seus olhos er&atilde;o seccos e nenhuma lagrima se deslisava
+pelas rugosas faces. Os indios chor&atilde;o com muita
+difficuldade.
+Ora ella enumerava, n'um cantar monotono, as
+virtudes de seu filho; ora pedia &aacute; lua que recebesse a
+alma d'elle; ora rogava ao sol que aquecesse o lugar em
+que f&ocirc;ra alanceado.
+<br />
+
+<br />
+
+Era essa infeliz mulher um typo de d&ocirc;r materna: estava
+magra como um esqueleto e vivia n'uma agita&ccedil;&atilde;o
+constante.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi sempre aquellas manifesta&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o indifferentemente
+patenteadas, quer pelo fallecimento de um homem
+<span class="pagenum">[123]</span>
+ou uma mulher, quer pelo de uma crian&ccedil;a de peito: em
+todos os casos, &eacute; o mesmo ulular; identicas as ceremonias.
+<br />
+
+<br />
+
+A affei&ccedil;&atilde;o que as m&atilde;es
+demonstr&atilde;o pelos filhos, que
+um pae tributa &aacute; familia, a amizade que une os
+irm&atilde;os,
+s&atilde;o edificantes, os extremos tocantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim os paes servir&atilde;o com toda a
+dedica&ccedil;&atilde;o a seus
+filhos, que lhes obedecem cegamente. Isto em cada grupo,
+em cada circulo. N&atilde;o not&aacute;mos particular respeito
+aos velhos,
+deferencia &aacute; velhice, como acontece aos indios da
+America do norte, de cujos costumes, um tanto poetisados,
+fez Chateaubriant assumpto de um poema.
+<br />
+
+<br />
+
+D'essa submiss&atilde;o resulta a verdadeira venda que se executa
+entre o pae de uma mulher nubil e qualquer homem
+que a queira para companheira ou para mero passatempo:
+a filha sujeitar-se-ha &aacute; imposi&ccedil;&atilde;o
+paterna, aceitando sem
+murmurar o esposo, que lhe apresentem ou despresando
+aquelle, cuja separa&ccedil;&atilde;o aconselharem.
+<br />
+
+<br />
+
+As mulheres amament&atilde;o as crian&ccedil;as por tempo
+indeterminado:
+vimos rapagotes de seis a sete annos, que vinh&atilde;o
+correndo suspender-se aos seios de suas complacentes
+m&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta pratica faz com que, depois que parem, fiquem as
+mulheres completamente estragadas: os seus seios, com a
+prolongada press&atilde;o, pendem ao longo do corpo, o qual
+tambem, pelo habito de carregarem as crian&ccedil;as cavalgando
+n'um dos quadris, fica arqueado e desengra&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+O casamento &eacute; ceremonia pouco usual: os meios de
+contrahirem-se nupcias s&atilde;o presentes e dinheiro, fonte
+d'onde dimana a mais horrorosa immoralidade, visto que a
+<span class="pagenum">[124]</span>
+ganancia dos paes simplifica todos os preliminares, que, sem
+d&uacute;vida, er&atilde;o primitivamente exigidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Por dinheiro obtem-se mulher: quer indio, quer branco
+ou negro, tem necessidade de sujeitar-se &aacute;s
+condi&ccedil;&otilde;es dos
+paes, os quaes tambem aconselh&atilde;o &aacute;s suas filhas a
+liberdade
+a mais completa em materia de fidelidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O genio dos indios do districto, em que o ciume &eacute; sentimento
+quasi desconhecido, concorre para desenvolvimento
+da mais reprovavel devassid&atilde;o de costumes, augmentada
+pela indole dos habitantes de Miranda, como adiante mostraremos
+na parte em que tratarmos das rela&ccedil;&otilde;es entre
+as duas ra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+No casamento mais regular e muito mais raro, o noivo
+escolhe a sua esposa, quando ainda ella &eacute;
+crian&ccedil;a: trata
+d'ella, d&aacute;-lhe roupa, concorre para a
+alimenta&ccedil;&atilde;o dos paes
+dos quaes &eacute; considerado filho e recebe tal tratamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos 10 annos, mal apont&atilde;o os peitos, ainda n&atilde;o
+nubil,
+&eacute; a noiva entregue ao seu marido e enrolada com elle
+n'uma esteira, ao redor da qual os convidados
+dan&ccedil;&atilde;o, cantando,
+bebendo aguardente e comendo os presentes que
+s&atilde;o a parte mais importante do casamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse habito de entregarem meninas a homens &eacute; geral:
+d'elle tir&atilde;o os progenitores maior lucro, dimanado da
+luxuria
+em seus desmandos brutaes, pois essas infelizes crian&ccedil;as
+s&atilde;o procuradas e obtem quasi sempre altos pre&ccedil;os.
+&Eacute; o effeito de id&eacute;as desmoralisadoras e nojentas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os indios, que s&atilde;o modelos de affei&ccedil;&atilde;o
+pelos filhos, que
+os trat&atilde;o com amizade extremosa, nenhum mal
+enxerg&atilde;o
+n'esses estupros, de que as victimas vem impreterivelmente
+a soffrer em seu organismo e desenvolvimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+As mulheres envelhecem com extrema rapidez: aos 14
+annos est&atilde;o na sua maior expans&atilde;o corporea, aos
+20 come&ccedil;&atilde;o
+a desmerecer, e aos 30 s&atilde;o velhas
+(<em>mem&eacute;s</em>), cuja decrepidez
+n&atilde;o se faz esperada.
+<br />
+
+<br />
+
+Para sobrestar essa marcha infallivel e temida, procurar&atilde;o
+ellas sempre provocar os m&oacute;vitos, para o que
+us&atilde;o,
+por conselhos de suas proprias m&atilde;es e velhas da
+ald&ecirc;a,
+de hervas<sup><a href="#n91">[91]</a></sup>,
+e sobretudo choques e apertos no ventre.
+Assim rara &eacute; a india, que tenha tres filhos; quasi sempre
+um ou dous, concebidos na idade em que a faceirice n&atilde;o
+&eacute; de uso.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos Morros, havia uma quiniquin&aacute;o que, com dezesete
+annos, abort&aacute;ra j&aacute; seis vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+No ultimo parto o feto, completamente desenvolvido,
+havia sido, na sahida do utero, estrangulado pela propria
+av&oacute;, a qual, desde muito, declar&aacute;ra que
+s&oacute; perdoaria, se
+a crian&ccedil;a fosse do sexo masculino.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem era uma familia de padres, em que todos os
+componentes pae, m&atilde;e, filhos e filhas, cantav&atilde;o
+de continuo,
+nos atordoando os ouvidos e perturbando as doces horas do
+somno. Al&eacute;m d'isso muito se distingui&atilde;o no brutal
+brinquedo
+chamado <em>tadik</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; esse jogo um exercicio a s&ocirc;cos, &aacute;
+maneira do <em>box</em>
+inglez<sup><a href="#n92">[92]</a></sup>.
+Para elle enfileir&atilde;o-se rapazes, mulheres e
+crian&ccedil;as
+uns defronte dos outros, procurando, com o punho fechado,
+<span class="pagenum">[126]</span>
+offender a cara do adversario, dando pancadas
+s&oacute;mente
+at&eacute; o queixo. Muitas vezes, fur&atilde;o-se os olhos,
+quebr&atilde;o
+o nariz e com o esfor&ccedil;o cheg&atilde;o a desarticular o
+polegar.
+<br />
+
+<br />
+
+Assistimos ao <em>tadik</em> entre
+quiniquin&aacute;os e terenas e, ao
+prazer do jogo, uni&atilde;o-se sentimentos de grande rivalidade.
+Entretanto os velhos separav&atilde;o logo os contendores,
+quando estes mostrav&atilde;o animosidade excessiva. Os dous
+partidos, havi&atilde;o tomado os nomes de
+<em>luzia</em> e
+<em>saquarema</em>,
+repercuss&atilde;o longinqua das lutas politicas do Brasil!
+O&ugrave;-est-ce
+que la politique s'&eacute;tait nich&eacute;e?!....<br />
+
+<br />
+
+Acabou a festan&ccedil;a, bebendo-se
+<em>garapa</em> fermentada, que
+substituia a aguardente.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Cada ald&ecirc;a tem o seu chefe ou capit&atilde;o, nomeado, ou
+pelo governo imperial ou pelo respectivo director ou pelo
+consenso de sua gente. O respeito que elles merecem,
+&eacute; pouco extenso: a subordina&ccedil;&atilde;o aos
+chefes &eacute; muito limitada;
+muitas vezes &eacute; um mero titulo sem
+distinc&ccedil;&atilde;o nem
+regalias.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto mais civilisados, tanto menos considera&ccedil;&atilde;o
+os
+indios tem pelos seus capit&atilde;es. Os guan&aacute;s
+n&atilde;o aceit&atilde;o
+mais chefe especial. Os quiniquin&aacute;os pouco caso fazem
+do seu velho capit&atilde;o Flaviano Botelho. Os laianas
+sujeit&atilde;o-se
+mais; emfim os terenas observ&atilde;o tal ou qual
+deferencia, respeitando mais os seus cabe&ccedil;as de tribu.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando viajavamos na margem direita do rio Aquidauana,
+observavamos as rela&ccedil;&otilde;es que existem entre a
+civilisa&ccedil;&atilde;o e os filhos das matas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[127]</span>
+Em nossos pousos, representavamos (guardadas as
+propor&ccedil;&otilde;es
+e salva a modestia) o centro civilisado: a poucos
+passos, com a nossa camaradagem, pousav&atilde;o alguns
+guan&aacute;s,
+mais adiante ficav&atilde;o os quiniquin&aacute;os, os quaes,
+de quando
+em quando, vinh&atilde;o misturar-se com a nossa gente; n'um
+raio duplo, do nosso ponto ao dos quiniquin&aacute;os,
+reuni&atilde;o-se os
+laianas e, afinal, a boa distancia, congregav&atilde;o-se os
+terenas.
+<br />
+
+<br />
+
+As rela&ccedil;&otilde;es reciprocas entre esses indios
+er&atilde;o de cordialidade
+algum tanto duvidosa; os terenas s&atilde;o accusados
+pelos guan&aacute;s e quiniquin&aacute;os de m&aacute;os e
+inimigos dos brancos
+e elles accus&atilde;o aos outros de serem falsos e escravos dos
+portuguezes<sup><a href="#n93">[93]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+As ra&ccedil;as que habit&atilde;o o districto,
+part&iacute;r&atilde;o evidentemente
+da margem direita do rio Paraguay, do lugar onde hoje
+existe a na&ccedil;&atilde;o enima, de que ellas s&atilde;o
+naturalmente ramifica&ccedil;&atilde;o.
+As provas parecem-nos claras e irrecusaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m da tendencia manifesta que os terenas tem para
+fugirem para as bandas do Chaco boliviano a reunirem-se
+com outros da mesma tribu que vivem com os enimas,
+na lingua existem palavras que demonstr&atilde;o que a
+presen&ccedil;a dos guan&aacute;s<sup><a href="#n94">[94]</a></sup>
+no districto foi devida a
+uma
+grande immigra&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p128" id="p128">[128]</a></span>
+Assim us&atilde;o <a href="#e6">frequentemente</a>
+do termo
+<em>mai&aacute;na</em>, que quer dizer
+semelhante, quando referem, a objectos familiares, outros
+que lhes er&atilde;o estranhos, por
+associa&ccedil;&atilde;o natural de id&eacute;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Cham&atilde;o pois ao bority&mdash;maiana h&eacute;rena,
+&aacute; semelhan&ccedil;a
+do <em>carand&aacute;</em>; &aacute;
+anta&mdash;maiana cam&uacute;, semelhante ao cavallo,
+etc., o que presupp&otilde;e o conhecimento do carand&aacute;
+e cavallo, anterior ao do bority e anta.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, os boritys existem em grande quantidade em todo
+o districto, assim como as antas, e, do outro lado do
+rio Paraguay n&atilde;o se os conhecem, sendo pelo contrario
+extremamente communs os carand&aacute;s e cavallos.
+<br />
+
+<br />
+
+A conclus&atilde;o &eacute; facil e vem em soccorro do que
+procuramos
+sustentar.
+<br />
+
+<br />
+
+A lingua guan&aacute;, de forma&ccedil;&atilde;o muito
+irregular, prov&eacute;m
+evidentemente do guarany: ha n'ella palavras identicas,
+iguaes; exemplo: iuqu&iacute;,
+<em>sal</em>; morev&iacute;,
+<em>anta</em>;&mdash;segundo os
+laianas: buric&aacute;, (guarany) muric&aacute;,
+(guan&aacute;) <em>burro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua deriva&ccedil;&atilde;o do idioma guaycur&uacute;
+&eacute; clara; n&atilde;o s&oacute;
+alguns vocabulos servem para as duas na&ccedil;&otilde;es;
+exemplo
+<em>cat&eacute;paga</em>,
+pac&uacute;;
+<em>achu&aacute;naga</em>, dourado; mas
+muitos s&atilde;o
+sensivelmente modifica&ccedil;&otilde;es, assim &eacute; o
+<em>a&icirc;ca</em> (guaycur&uacute;)
+e
+o <em>ac&oacute;</em> (guan&aacute;)
+que signific&atilde;o
+<em>n&atilde;o</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Comtudo a indole totalmente diversa das duas nacionalidades,
+as suas id&eacute;as, os seus habitos fizer&atilde;o com que
+essas linguas soffressem altera&ccedil;&atilde;o profunda,
+quando falladas.
+<span class="pagenum">[129]</span>
+A maneira do guaycur&uacute; expressar-se &eacute; arrogante,
+pausada;
+as aspira&ccedil;&otilde;es s&atilde;o energicas; as
+palavras, terminando mais
+particularmente em <em>a</em> e
+<em>o</em> fechados, s&atilde;o quasi
+sempre esdruxulas
+ou graves. Ha mais abundancia de consoantes e
+essas com som dobrado e guttural.
+<br />
+
+<br />
+
+O guan&aacute; falla rapidamente, com ligeiras
+aspira&ccedil;&otilde;es; a
+sua linguagem &eacute; uma especie de sibilar continuo: os
+<em>i</em>
+repetem-se com frequencia e as vogaes seguem-se umas
+&aacute;s outras, com quasi tanta profus&atilde;o quanto, na
+lingua allem&atilde;,
+as consoantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Na phrase do espirituoso escriptor francez Oscar Commettant
+&laquo;nas palavras germanicas as vogaes se afog&atilde;o n'um
+oceano de consoantes:&mdash;Apparent rari nantes in gurgite
+vasto&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+No guan&aacute; &eacute; a inversa, com mais
+modera&ccedil;&atilde;o comtudo.
+<br />
+
+<br />
+
+As modifica&ccedil;&otilde;es, que cada uma das tribus
+introduzio,
+com o tempo, na lingua chan&eacute;,
+constitu&iacute;r&atilde;o quatro dialectos,
+os quaes entretanto s&atilde;o facilmente comprehendidos
+pelos indios de toda aquella na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A tribu guan&aacute;<sup><a href="#n95">[95]</a></sup>
+falla arrastando a lingua n'uma toada
+<span class="pagenum"><a name="p130" id="p130">[130]</a></span>
+de ch&ocirc;ro; cant&atilde;o &aacute; maneira do
+pronunciar em certas localidades
+de S. Paulo, apoiando muito n'uma <a href="#e7">syllaba</a>
+para
+correrem sobre as outras.
+<br />
+
+<br />
+
+Os quiniquin&aacute;os tem seus idiotismos especiaes: palavras
+proprias. Os laianas tambem as tem.
+<br />
+
+<br />
+
+Os terenas, segundo pareceu-nos, us&atilde;o do idioma com
+mais justeza e perfei&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Os verbos, n'esse dialecto, s&atilde;o mais regularmente formados,
+apezar do capricho que presidio em geral &aacute; sua
+conjuga&ccedil;&atilde;o,
+as analogias mais frequentes, as phrases mais
+completas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; por esta raz&atilde;o que os brancos do districto
+aprendem
+de preferencia a maneira do fallar dos terenas, e os comprehendem
+com mais facilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Na lingua guaycur&uacute; existe uma particularidade interessante:
+os homens fall&atilde;o por certo modo, as mulheres por
+outro. Entre os guan&aacute;s esta differen&ccedil;a existe,
+por&eacute;m n&atilde;o
+se estende a toda a phraseologia.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VOCABULARIO<br />
+
+DA<br />
+
+LINGUA GUAN&Aacute; OU CHAN&Eacute;
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>A
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; width: 50%; font-weight: bold;" class="smallcaps">portuguez</td>
+
+ <td style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">guan&aacute;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Abobora</td>
+
+ <td>Cam&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aborre&ccedil;o</td>
+
+ <td>B&ocirc;&oacute;pi.<sup><a href="#n96">[96]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Acarus (bicho da
+sarna)</td>
+
+ <td>Tchetch&aacute;-uahat&iacute; (filho da sarna)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Adeos</td>
+
+ <td>Bi&oacute;nne.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Agua</td>
+
+ <td>Unn&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Agulha</td>
+
+ <td>T&ocirc;p&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ai!
+(exclama&ccedil;&atilde;o)</td>
+
+ <td>V&ucirc;i, ou acac&aacute;i.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aipim</td>
+
+ <td>Tchup&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aipim
+(secco)</td>
+
+ <td>Catch&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ald&ecirc;a</td>
+
+ <td>Ptiu&ocirc;c&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Alegre</td>
+
+ <td>Elloket&iacute;.<sup><a href="#n97">[97]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Amanh&atilde;</td>
+
+ <td>&#256;r&ocirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Amar</td>
+
+ <td>G&acirc;ch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Anta</td>
+
+ <td>Mai&aacute;na-cam&uacute;.<sup><a href="#n98">[98]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Anus</td>
+
+ <td>Cicic&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aonde
+vai?</td>
+
+ <td>N&aacute;i&ecirc;n&oacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[132]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Aprender</td>
+
+ <td>Cequechiv&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Aracuan
+(passaro)</td>
+
+ <td>Uarag&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ar&aacute;ra</td>
+
+ <td>Parau&aacute;.<sup><a href="#n99">[99]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arroz</td>
+
+ <td>Nacac&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arvore</td>
+
+ <td>Tagat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Avental</td>
+
+ <td>Jul&aacute;ta.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>B
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Bala</td>
+
+ <td>Poit&iacute;-ak&ecirc;t&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Banana</td>
+
+ <td>B&aacute;nana.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Barba</td>
+
+ <td>Inguen&ocirc;i&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Barriga</td>
+
+ <td>Djur&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bebamos</td>
+
+ <td>Ven&oacute;ut&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Beber</td>
+
+ <td>Ven&oacute;u&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bebo</td>
+
+ <td>Ven&oacute;uond&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Beijo (entre os
+guan&aacute;s)</td>
+
+ <td>Inn&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Beijo (entre os
+terenas)</td>
+
+ <td>Inn&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Beijo (entre os
+quiniquin&aacute;os)</td>
+
+ <td>Soquir&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bezerro</td>
+
+ <td>Tchetch&aacute;-uac&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Biu&aacute; branco
+(passaro)</td>
+
+ <td>Veragaj&iacute;n.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Biu&aacute;
+preto</td>
+
+ <td>Veragai&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Boca</td>
+
+ <td>Bah&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bocado</td>
+
+ <td>Iapi-tch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Boi</td>
+
+ <td>U&oacute;-&ocirc;i.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bom</td>
+
+ <td>Unat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bonito</td>
+
+ <td>Unat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Borboleta</td>
+
+ <td>Uac&aacute;-vac&aacute;&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bority</td>
+
+ <td>Mai&aacute;na h&eacute;rena.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bra&ccedil;o</td>
+
+ <td>Dak&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Bugio</td>
+
+ <td>Cox&ecirc;ag&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[133]</span>
+<br />
+
+<h3>C
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Caba&ccedil;a</td>
+
+ <td>T&oacute;r&oacute;r&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cabe&ccedil;a</td>
+
+ <td>Du&uacute;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cahi</td>
+
+ <td>Ing&ocirc;r&ocirc;c&ocirc;&oacute;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cahidor</td>
+
+ <td>Ic&ocirc;r&oacute;&oacute;con&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cahio</td>
+
+ <td>Iric&ocirc;&oacute;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cahiste?</td>
+
+ <td>Ic&ocirc;r&ocirc;&ocirc;c&ocirc;&oacute;n&eacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cal&ccedil;a</td>
+
+ <td>B&ocirc;or&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Camisa</td>
+
+ <td>Iemb&ecirc;n&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Campo</td>
+
+ <td>Meh&uacute;m.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Canella</td>
+
+ <td>G&ocirc;-tch&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Can&ccedil;ado</td>
+
+ <td>Meom&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>C&atilde;o</td>
+
+ <td>Tamuc&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Capoeira</td>
+
+ <td>I&ccedil;omoik&eacute;neti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cara</td>
+
+ <td>N&ocirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Carand&aacute;
+(palmeira)</td>
+
+ <td>H&ecirc;rena.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Casa</td>
+
+ <td>P&ecirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Casar</td>
+
+ <td>Ong&ocirc;i&ecirc;no.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cascavel</td>
+
+ <td>Ip&ocirc;c&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cateit&uacute;</td>
+
+ <td>Cou&eacute;c&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cavallo</td>
+
+ <td>Cam&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cacha&ccedil;a</td>
+
+ <td>Cum&acirc;-&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>C&eacute;o</td>
+
+ <td>Uanuk&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cerrado</td>
+
+ <td>Chopot&iacute;coti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cervo</td>
+
+ <td>U&aacute;-i&aacute;-j&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ch&atilde;o</td>
+
+ <td>Pok&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ch&oacute;ro</td>
+
+ <td>Inhondi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Chover</td>
+
+ <td>Ennuc&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Chumbo</td>
+
+ <td>Aket&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Chuva</td>
+
+ <td>Uc&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cobra</td>
+
+ <td>Coit-ch&ocirc;&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Coitado</td>
+
+ <td>Quixau&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Colh&eacute;r</td>
+
+ <td>Tchurup&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Come</td>
+
+ <td>Nik&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Comer</td>
+
+ <td>Ning&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Comida</td>
+
+ <td>Nicocon&oacute;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Comida (entre os
+quiniquin&aacute;os)</td>
+
+ <td>Nic&ocirc;ning&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Como</td>
+
+ <td>Cuti&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Conhecer</td>
+
+ <td>Indj&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Conheces?</td>
+
+ <td>Ietch&ograve;&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Copular</td>
+
+ <td>Capi&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cora&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td>Ommindj&ograve;n (j espanhol).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Corpo</td>
+
+ <td>Munh&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Corrego</td>
+
+ <td>Notoag&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Corta
+(imperativo)</td>
+
+ <td>Tetuc&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cortar</td>
+
+ <td>Tet&oacute;coti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cortaste?</td>
+
+ <td>Iat&ecirc;tuc&ocirc;&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>C&ocirc;xa</td>
+
+ <td>Djur&oacute;-kun&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Crian&ccedil;a</td>
+
+ <td>Calliu&ocirc;n&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cuia</td>
+
+ <td>Poc&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Custar</td>
+
+ <td>C&ocirc;ic&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Custar (entre os
+quiniquin&aacute;os)</td>
+
+ <td>Oc&ocirc;&ograve;cor&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>D
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">D&aacute;-me</td>
+
+ <td>P&ecirc;r&eacute;tch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dar</td>
+
+ <td>Boritch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dedo do
+p&eacute;</td>
+
+ <td>Guiiri-dj&ecirc;v&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Deita</td>
+
+ <td>Im&ecirc;c&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>De
+mim</td>
+
+ <td>Nuti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dente</td>
+
+ <td>Onu&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Deos</td>
+
+ <td>Iandear&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Deos</td>
+
+ <td>Ech&#257;iu&aacute;nuk&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Depois</td>
+
+ <td>Poin&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Depois
+d'amanh&atilde;</td>
+
+ <td>Poin&uacute;-ar&ocirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>De
+tarde</td>
+
+ <td>Kiac&aacute;tche.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dev&eacute;ras</td>
+
+ <td>Qu&acirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dia</td>
+
+ <td>C&aacute;tche.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Diga</td>
+
+ <td>Ioc&oacute;-iucu&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Digo</td>
+
+ <td>G&ocirc;e.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dinheiro</td>
+
+ <td>Ararapeti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Doente</td>
+
+ <td>Carineti.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Dormes?</td>
+
+ <td>Im&eacute;-con&eacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dormir</td>
+
+ <td>M&oacute;ngoti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dou</td>
+
+ <td>Boritch&aacute;-pi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dourado
+(peixe)</td>
+
+ <td>Achu&aacute;naga.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dous</td>
+
+ <td>P&iuml;&aacute;tcho.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>E
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Egoa</td>
+
+ <td>Sen&oacute;-cam&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ema</td>
+
+ <td>Kip&#257;&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Espada<sup><a href="#n100">[100]</a></sup></td>
+
+ <td>Ann&#257;iti-pirit&aacute;o.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Espelho</td>
+
+ <td>Nochi&ograve;gueti (sc. olhador)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Espingarda</td>
+
+ <td>Capui&aacute;-igap&ecirc;t&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Espirrar</td>
+
+ <td>Andiicot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Esposa</td>
+
+ <td>I&ecirc;no.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Escravo</td>
+
+ <td>Hangah&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;
+aqui</td>
+
+ <td>Ann&iacute;e.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;s
+alegre?</td>
+
+ <td>Ell&oacute;keti-i&ocirc;cou&oacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;
+alegre</td>
+
+ <td>Ell&oacute;keti-&ocirc;cou&oacute;. </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estou
+alegre</td>
+
+ <td>Ell&oacute;keti-ong&ocirc;u&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;s
+bom?</td>
+
+ <td>I&uacute;nati?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estou
+bom</td>
+
+ <td>Unnand&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;s
+can&ccedil;ado?</td>
+
+ <td>Meom&iacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estou
+can&ccedil;ado</td>
+
+ <td>Memond&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute;s com
+fome?</td>
+
+ <td>Ep&ecirc;-cati-cim&aacute;gati?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estou com
+fome</td>
+
+ <td>Hap&ecirc;-can&uacute;-cim&aacute;gati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Est&aacute; no
+ch&atilde;o</td>
+
+ <td>Ann&ecirc;g&oacute; pok&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Estrella</td>
+
+ <td>H&ecirc;qu&ecirc;r&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Eu</td>
+
+ <td>Ond&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Excrementos</td>
+
+ <td>Ciqu&ecirc;&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[136]</span>
+<h3>F
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Faca</td>
+
+ <td>Pirit&aacute;u.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fallo
+comtigo</td>
+
+ <td>Iundz&#257;i-cop&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Farinha</td>
+
+ <td>Tutup&#257;i.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Farinha (entre os
+terenas)</td>
+
+ <td>Ramuc&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Faze</td>
+
+ <td>Ittic&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fazer</td>
+
+ <td>Ittuket&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Febre</td>
+
+ <td>Tchikiit&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Feio</td>
+
+ <td>C&atilde;unati (sc. n&atilde;o bonito).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Filho</td>
+
+ <td>Tch&eacute;tch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fogo</td>
+
+ <td>Iuc&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fouce</td>
+
+ <td>Tch&aacute;pil&oacute;coti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Frio</td>
+
+ <td>C&acirc;ssati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Fumo</td>
+
+ <td>Tch&acirc;h&iacute;m.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>G
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Gallinha</td>
+
+ <td>T&acirc;pih&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gallo</td>
+
+ <td>Oi&ecirc;n&oacute;-tapih&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Garrafa</td>
+
+ <td>Limet&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gato</td>
+
+ <td>Maracai&aacute;.<sup><a href="#n101">[101]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gordo</td>
+
+ <td>K&iacute;nnati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gostar</td>
+
+ <td>G&acirc;ch&aacute;-&aacute;.<sup><a href="#n102">[102]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gostas?</td>
+
+ <td>Queach&aacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gostas de
+mim?</td>
+
+ <td>Queach&aacute;-nuti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gosto</td>
+
+ <td>G&acirc;ch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gosto de
+ti</td>
+
+ <td>G&acirc;ch&aacute;-piti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Gostoso</td>
+
+ <td>Uchet&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Grande</td>
+
+ <td>Ann&aacute;iti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Guan&aacute;
+(tribu)</td>
+
+ <td>Uan&aacute; <em>ou</em>
+Tch&ograve;u&oacute;r&ocirc;-&ocirc;n&ocirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Guaycur&uacute;</td>
+
+ <td>Uaicur&uacute; <em>ou</em>
+M&atilde;i&aacute;pen&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>H
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Historia</td>
+
+ <td>Ch&ecirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Hoje</td>
+
+ <td>Cohoih&ecirc;nn&eacute; (os <em>h</em>
+aspirados).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Homem</td>
+
+ <td>Oi&ecirc;n&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Hontem</td>
+
+ <td>Tiip&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>I
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Idioma
+(lingua)</td>
+
+ <td>Nhumdz&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Irm&atilde; (entre os
+terenas)</td>
+
+ <td>Ha&icirc;l&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Irm&atilde;o (entre os
+terenas)</td>
+
+ <td>L&ecirc;l&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Irm&atilde; mais
+velha</td>
+
+ <td>Luk&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Irm&atilde; do
+meio</td>
+
+ <td>Mogu&ecirc;tch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Irm&atilde; mais
+mo&ccedil;a</td>
+
+ <td>At&iacute;<em> ou </em>Annd&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Isto</td>
+
+ <td>Aar&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>J
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Jabur&uacute;
+(passaro)</td>
+
+ <td>C&ocirc;j&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Jac&uacute;-tinga
+(passaro)</td>
+
+ <td>Mai&aacute;na-uarag&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>J&aacute; foi
+embora</td>
+
+ <td>Pi&ocirc;nne.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Jaty (mel de abelha)</td>
+
+ <td>Tchul&iacute;-tchul&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>J&aacute;
+veio</td>
+
+ <td>Ann&egrave;g&ograve;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ja&uacute;
+(peixe)</td>
+
+ <td>Mui&ocirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Joelho</td>
+
+ <td>Bui&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[138]</span>
+<h3>L
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Lagarto</td>
+
+ <td>Iun&atilde;i.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lai&aacute;na
+(indio)</td>
+
+ <td>L&aacute;iana.<sup><a href="#n103">[103]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lambary
+(peixe)</td>
+
+ <td>Chiv&ocirc;up&egrave;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lavar</td>
+
+ <td>Angic&atilde;uot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lavemo-nos</td>
+
+ <td>Uachicap&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Linguagem</td>
+
+ <td>Iundz&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lingua</td>
+
+ <td>Nah&ecirc;n&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Lua</td>
+
+ <td>Co-tch&ecirc;&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>M
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Machado</td>
+
+ <td>P&ocirc;h&oacute;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Macho</td>
+
+ <td>Oi&ecirc;n&oacute;-muric&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Maduro</td>
+
+ <td>It&oacute;u&oacute;nn&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&atilde;e</td>
+
+ <td>M&ecirc;m&ecirc;.<sup><a href="#n104">[104]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&atilde;e</td>
+
+ <td>Henn&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mais</td>
+
+ <td>Po&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Magro</td>
+
+ <td>Uporit&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mamma</td>
+
+ <td>I&ecirc;nn&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mandary
+(mel)</td>
+
+ <td>R&ocirc;or&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&aacute;o</td>
+
+ <td>C&aacute;unati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>M&atilde;o</td>
+
+ <td>Uon-h&uacute;m.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Marido</td>
+
+ <td>Imm&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Matar</td>
+
+ <td>Inzuc&ocirc;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mato</td>
+
+ <td>U&oacute;-hi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mecher</td>
+
+ <td>Ivirik&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meche
+(imperativo)</td>
+
+ <td>Ivirik&ecirc;&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Mel</td>
+
+ <td>M&oacute;p&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Melancia</td>
+
+ <td>Andi&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Menos</td>
+
+ <td>Calli&aacute;nna.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mentira</td>
+
+ <td>Ninic&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Menstruo</td>
+
+ <td>Ittin&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu</td>
+
+ <td>Indugu&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Milho</td>
+
+ <td>Tuup&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Miolo de palmeira</td>
+
+ <td>Namuculi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Milho
+f&ocirc;fo</td>
+
+ <td>S&oacute;b&oacute;r&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Muito
+(adverbio)</td>
+
+ <td>Op&ocirc;icoati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Muito (adjectivo)</td>
+
+ <td>Tapui&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Muito
+bom</td>
+
+ <td>Unati-&acirc;tcho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Muito
+gostoso</td>
+
+ <td>Uch&ecirc;ti-&acirc;tcho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mula</td>
+
+ <td>Sen&oacute;-muric&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mulher</td>
+
+ <td>Sen&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Mutum</td>
+
+ <td>Mai&aacute;na-uatut&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>N
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Nadar</td>
+
+ <td>Alaong&ocirc;ati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&atilde;o</td>
+
+ <td>Ac&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&atilde;o
+custa</td>
+
+ <td>Ac&oacute;-c&otilde;ic&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&atilde;o custa (entre os
+quiniquin&aacute;os)</td>
+
+ <td>Ac&oacute;-oc&ocirc;-ocor&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&atilde;o
+quero</td>
+
+ <td>Acon-g&acirc;ch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nascer</td>
+
+ <td>Ipuchic&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nariz</td>
+
+ <td>Guiir&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Negro</td>
+
+ <td>Hah&oacute;&oacute;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ninho</td>
+
+ <td>N&ocirc;c&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&oacute;s</td>
+
+ <td>Uut&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nosso</td>
+
+ <td>Utigu&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Noute</td>
+
+ <td>Ihot&iacute;.<sup><a href="#n105">[105]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nuvem</td>
+
+ <td>Capac&iacute;.<sup><a href="#n106">[106]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+<h3>O
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Olhos</td>
+
+ <td>Ungu&ecirc; ou uk&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>On&ccedil;a</td>
+
+ <td>S&ecirc;ni.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Orelha</td>
+
+ <td>Ingu&ecirc;n&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>P
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Padre</td>
+
+ <td>C&ocirc;ch&ocirc;m&ograve;net&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pae</td>
+
+ <td>Tat&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Palmito</td>
+
+ <td>Momo&ocirc;n.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Papagaio</td>
+
+ <td>Co&ecirc;r&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Panella</td>
+
+ <td>Tch&ocirc;r&ocirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Parente</td>
+
+ <td>Ining&ocirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Passaro</td>
+
+ <td>Chohopenn&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Passeiar</td>
+
+ <td>Iapacic&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pato</td>
+
+ <td>Pohah&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>P&eacute;</td>
+
+ <td>Dj&egrave;v&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pega
+isto</td>
+
+ <td>Oi&aacute;-aar&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Peito</td>
+
+ <td>Djah&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Peixe</td>
+
+ <td>Choj&eacute;.<sup><a href="#n107">[107]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pensar</td>
+
+ <td>Iquich&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Perdiz</td>
+
+ <td>Itidich&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Perna</td>
+
+ <td>G&ocirc;n&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pesco&ccedil;o</td>
+
+ <td>Ann&uacute;m.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Penis</td>
+
+ <td>Ki&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pennas</td>
+
+ <td>Kipah&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pimenta</td>
+
+ <td>T&ecirc;it&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pinto</td>
+
+ <td>Tch&eacute;tcha-tapihi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Piolho</td>
+
+ <td>An&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[141]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Pirapitanga
+(peixe)</td>
+
+ <td>Araraitti-iss&iacute;.<sup><a href="#n108">[108]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Piriquito</td>
+
+ <td>Tchul&iacute;-tchul&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Polvora</td>
+
+ <td>Poit&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Porco</td>
+
+ <td>G&ocirc;r&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Porco do
+mato</td>
+
+ <td>Kim&atilde;o.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Prato</td>
+
+ <td>Uut&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pregui&ccedil;oso</td>
+
+ <td>Tchul&eacute;keti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Prompto</td>
+
+ <td>O&ccedil;on&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Pulga</td>
+
+ <td>Anatamac&uacute;.<sup><a href="#n109">[109]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>Q
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Quando</td>
+
+ <td>Naman&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quat&iacute;
+(animal)</td>
+
+ <td>C&ograve;t&eacute;ch&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quebrar</td>
+
+ <td>Heocoti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Queixo</td>
+
+ <td>N&oacute;nh&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quem
+sabe?</td>
+
+ <td>Em&oacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Qente</td>
+
+ <td>C&oacute;tot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quero</td>
+
+ <td>G&acirc;ch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Queres?</td>
+
+ <td>Queach&aacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Queria</td>
+
+ <td>G&aacute;cha-nin&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quiniquin&aacute;o</td>
+
+ <td>Koinu-kun&oacute;.<sup><a href="#n110">[110]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>R
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Rapaz</td>
+
+ <td>Omoheh&aacute;u.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Rede</td>
+
+ <td>Toit&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Regrada</td>
+
+ <td>Ittin&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Remar</td>
+
+ <td>Ivirik&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Rio</td>
+
+ <td>U&ecirc;h&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+<h3>S
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Saber</td>
+
+ <td>Indj&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sabes?</td>
+
+ <td>I&eacute;tchoa.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sangue</td>
+
+ <td>Iti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sapo</td>
+
+ <td>T&ocirc;rum&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sarna</td>
+
+ <td>Uahat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Saudades</td>
+
+ <td>Inangu&ograve;r&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Seu</td>
+
+ <td>Iut&iacute; ou i&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sentar-se</td>
+
+ <td>Iavapoqueh&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Seriema
+(ave)</td>
+
+ <td>Uatut&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Siga
+(imperativo)</td>
+
+ <td>Tchic&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sobrancelha</td>
+
+ <td>Indj&ecirc;uk&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sol</td>
+
+ <td>C&aacute;tche.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Soldado</td>
+
+ <td>And&acirc;ru.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sombra</td>
+
+ <td>Ep&ecirc;u&ocirc;g&ocirc;p&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sonhar</td>
+
+ <td>Chapuchat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sonhas?</td>
+
+ <td>Chaputch&ocirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sonho</td>
+
+ <td>Indja-putchat&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sovaco</td>
+
+ <td>Umb&ecirc;k&ecirc;cu.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sucury</td>
+
+ <td>Oi&ecirc;naga.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Suruby
+(peixe)</td>
+
+ <td>Ap&oacute;paga.<sup><a href="#n111">[111]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sua</td>
+
+ <td>Itigu&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>T
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Tat&uacute;</td>
+
+ <td>Copoh&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Taquara</td>
+
+ <td>Het&aacute;gati.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Temos</td>
+
+ <td>Hape-ut&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Temer</td>
+
+ <td>Bicu&aacute;tine.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tens?</td>
+
+ <td>Iap&ecirc;?</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[143]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Ter</td>
+
+ <td>Hap&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ter&eacute;na</td>
+
+ <td>T&eacute;rena.<sup><a href="#n112">[112]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Terra</td>
+
+ <td>Marih&iacute;pa.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Testa</td>
+
+ <td>Inuc&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tolo</td>
+
+ <td>Iet&ocirc;r&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tomar</td>
+
+ <td>Mambat&iacute;. Namac&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Touro</td>
+
+ <td>T&ocirc;&ocirc;r&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Trazer</td>
+
+ <td>Iaman&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tres</td>
+
+ <td>Mopo&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Trov&atilde;o</td>
+
+ <td>Unobot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tu</td>
+
+ <td>Iti.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>U
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Um</td>
+
+ <td>Poich&aacute;cho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Umbigo</td>
+
+ <td>Unr&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Unha</td>
+
+ <td>Djiip&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Urub&uacute;</td>
+
+ <td>Uarutut&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>V
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">V&aacute;</td>
+
+ <td>Peheh&eacute;vo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vamos
+comer</td>
+
+ <td>Nicoti&uacute;ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vamo-nos
+embora</td>
+
+ <td>Peh&aacute;oti.<sup><a href="#n113">[113]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vamo-nos
+lavar</td>
+
+ <td>Uachicap&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>V&aacute;s
+buscar?</td>
+
+ <td>Viap&aacute;na?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Veado</td>
+
+ <td>Tiip&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Veio (do v. vir) entre os
+quiniquin&aacute;os</td>
+
+ <td>Sim&ecirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Vem
+c&aacute;</td>
+
+ <td>I&ocirc;c&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vento</td>
+
+ <td>Onauot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Verde</td>
+
+ <td>A&otilde;itap&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Via
+lactea</td>
+
+ <td>Cham&ocirc;c&ocirc;&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vim (entre os
+quiniquin&aacute;os)</td>
+
+ <td>Sim&ocirc;n&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vim (para
+ficar)</td>
+
+ <td>Intzioponn&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vim (para
+voltar)</td>
+
+ <td>Indzimonn&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Voc&ecirc;</td>
+
+ <td>It&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vou
+buscar</td>
+
+ <td>Veaponot&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vou-me
+embora</td>
+
+ <td>Bohopon&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Vulva</td>
+
+ <td>Ius&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No incendio e saque de Nioac, a 2 de Junho de 1867, perdemos
+um diccionario guan&aacute; com perto de dous mil vocabulos. Nos
+papeis
+que encontr&aacute;mos esparsos pelo campo e pod&eacute;mos
+ajuntar, achav&atilde;o-se
+algumas folhas com as palavras, ainda n&atilde;o em ordem
+alphabetica,
+d'este incompleto vocabulario.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Algumas
+indica&ccedil;&otilde;es</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os pronomes possessivos isolados s&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Indugu&ecirc;</td>
+
+ <td>Meu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Itigu&ecirc;</td>
+
+ <td>Teu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Iuti ou i&uacute;.</td>
+
+ <td>Seu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Utigu&ecirc;</td>
+
+ <td>Nosso</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto s&atilde;o quasi sempre contrahidos nas palavras, como
+por exemplo:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[145]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1"><em>Possessivos da 1&ordf;
+pessoa</em></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1"><em>Possessivos da 2&ordf; pessoa</em></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha
+cabe&ccedil;a</td>
+
+ <td>Duut&iacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+cabe&ccedil;a</td>
+
+ <td>Totih&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha testa</td>
+
+ <td>Inuc&uacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+testa</td>
+
+ <td>Inic&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+nariz</td>
+
+ <td>Guiir&iacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+nariz</td>
+
+ <td>Quiir&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha
+boca</td>
+
+ <td>Bah&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+boca</td>
+
+ <td>Pehah&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+dente</td>
+
+ <td>Onu&eacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+dente</td>
+
+ <td>Iaho&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+queixo</td>
+
+ <td>N&oacute;nh&iacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+queixo</td>
+
+ <td>Ne&ocirc;i&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meus
+olhos</td>
+
+ <td>Ung&ecirc;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teus
+olhos</td>
+
+ <td>Iuuk&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha orelha</td>
+
+ <td>Ingu&ecirc;n&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+orelha</td>
+
+ <td>Kein&oacute;.<sup><a href="#n114">[114]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+corpo</td>
+
+ <td>Munh&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+corpo</td>
+
+ <td>Mui&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+pesco&ccedil;o</td>
+
+ <td>An&uacute;m.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+pesco&ccedil;o</td>
+
+ <td>Ian&uacute;m.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+bra&ccedil;o</td>
+
+ <td>Dak&eacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+bra&ccedil;o</td>
+
+ <td>Tiak&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+peito</td>
+
+ <td>Djah&aacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+peito</td>
+
+ <td>Tchin&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha
+m&atilde;o</td>
+
+ <td>Uonh&uacute;m.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+m&atilde;o</td>
+
+ <td>Vea&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha barriga</td>
+
+ <td>Djur&aacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+barriga</td>
+
+ <td>Iur&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha
+c&ocirc;xa</td>
+
+ <td>Djur&oacute;-cun&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+c&ocirc;xa</td>
+
+ <td>Chir&oacute;-cun&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha canella</td>
+
+ <td>G&ocirc;tch&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+canella</td>
+
+ <td>Guetch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Minha
+casa</td>
+
+ <td>Imben&oacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Tua
+casa</td>
+
+ <td>Pin&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+p&eacute;</td>
+
+ <td>Dj&ecirc;v&ecirc;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+p&eacute;</td>
+
+ <td>Hin&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu dedo do p&eacute;</td>
+
+ <td>Quiri-dj&ecirc;v&ecirc;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu dedo do p&eacute;</td>
+
+ <td>Kiri&uacute;&ecirc;v&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Meu
+filho</td>
+
+ <td>Indj&eacute;tch&aacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Teu
+filho</td>
+
+ <td>Tchi-tch&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nossa
+casa</td>
+
+ <td>Vu&oacute;vog&uacute;.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os possessivos da terceira pessoa s&atilde;o quasi sempre formados
+com os pronomes <em>i&uacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os adjectivos numeraes v&atilde;o s&oacute; at&eacute;
+tres:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Um</td>
+
+ <td>Poich&acirc;cho.<sup><a href="#n115">[115]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dous</td>
+
+ <td>Pi&aacute;tcho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tres</td>
+
+ <td>Mopo&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os indios continu&atilde;o presentemente<sup><a href="#n116">[116]</a></sup> com as palavras
+portuguezas,
+algum tanto adulteradas:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Quatro</td>
+
+ <td>U&aacute;tro.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cinco</td>
+
+ <td>Cinqu&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Seis</td>
+
+ <td>Si&ecirc;s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Sete</td>
+
+ <td>Si&eacute;te.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[146]</span>
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Oito</td>
+
+ <td>Otcho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Nove</td>
+
+ <td>N&ocirc;ie.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Dez</td>
+
+ <td>I&eacute;ce, etc.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os pronomes pessoaes s&atilde;o os seguintes:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center; width: 25%;">Ond&iacute;
+eu.</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 25%;">It&iacute;
+tu.</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 25%;">Uut&iacute;
+n&oacute;s.</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 25%;">N&ocirc;&ecirc;
+elles.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Nut&iacute; de mim.</td>
+
+ <td style="text-align: center;" colspan="2" rowspan="1">Ni de
+ti.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Com os verbos emprega-se a particula
+<em>pi</em> em lugar de
+<em>ondi</em>.
+Esses pronomes v&atilde;o sempre depois do verbo.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A conjuga&ccedil;&atilde;o dos verbos &eacute;
+irregularissima e difficil sen&atilde;o impossivel.
+S&atilde;o sempre defectivos.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">presente do indicativo
+do verbo ter (hap&eacute;)</span></h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Eu tenho</td>
+
+ <td>Hap&ecirc; ond&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tu
+tens</td>
+
+ <td>Iap&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Elle tem</td>
+
+ <td>Hap&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&oacute;s temos </td>
+
+ <td>Hap&eacute; ut&iacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Elles tem </td>
+
+ <td>Hap&eacute; no&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Para a forma&ccedil;&atilde;o do imperfeito
+accrescent&atilde;o <em>nini</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Inindjoa, nini ondi</td>
+
+ <td>Eu tinha.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Innitchi&eacute;c&ocirc;</td>
+
+ <td>Tu tinhas, etc.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Outro exemplo:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Eu
+quero</td>
+
+ <td>G&acirc;cha pi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tu
+queres</td>
+
+ <td>Queach&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Elle
+quer</td>
+
+ <td>Gach&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>N&oacute;s
+queremos</td>
+
+ <td>Gach&aacute; uti.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Elles querem</td>
+
+ <td>Gach&aacute; n&ocirc;&ecirc;.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">imperfeito</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 20%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Eu
+queria</td>
+
+ <td>Gach&aacute; nini ondi.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Tu
+querias</td>
+
+ <td>Queach&aacute; nini.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca pude organisar a conjuga&ccedil;&atilde;o de outros
+tempos.<sup><a href="#n117">[117]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[147]</span>
+<h4>Phrases e exemplos
+</h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Sonho
+comtigo?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Chaputchononet&iacute;
+(sc. penso na tua cara).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Tenho saudades de
+ti</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Inangor&oacute;
+gopi ni (sc. saudades eu <em>pi</em>, de ti <em>ni</em>).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">D&aacute;-me
+noticias</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Itic&aacute;
+chet&iacute; (sc. faze historia).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Nada
+sei</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Ac&oacute;
+&iacute;ndja.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">N&atilde;o
+est&aacute;s
+contente?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Ac&oacute;
+elloket&iacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">O que tens?
+Est&aacute;s incommodado?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Cuti
+iap&ecirc;? Calli&aacute;na
+unat&iacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Estou doente dos
+olhos</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Carineti
+uk&ecirc; (sc. doente olhos)</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Desde muitos
+dias?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">T&aacute;pui&aacute;
+c&aacute;tche?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Desde ante
+hontem</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Poin&uacute;
+tiip&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Coitada</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Quixau&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Adeos</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Bi&oacute;nne
+(Eu vou indo).</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Adeos</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Peheh&ecirc;vo
+(Pois v&aacute;). </td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Est&aacute;s
+com
+fome?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Ep&ecirc; cati
+cimagat&iacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Sim</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Aspira&ccedil;&atilde;o
+guttural n&atilde;o exprimivel.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Senta-te e come.
+Toma arroz
+com carne. Queres
+farinha?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Iavapoqu&ecirc;,
+nik&eacute;. Vi&aacute; nacac&uacute;
+cuan&ecirc; uac&aacute;. Queach&aacute;
+ramuc&uacute;?</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">N&atilde;o,
+senhor: quero aipim e aboboras.</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Ac&oacute;,
+un&atilde;i: gach&aacute; tchup&uacute;
+ioc&oacute; cam&eacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Traz facas e
+farinha.</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Iaman&eacute;
+pirit&aacute;u, cuan&eacute;
+ramuc&uacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">O seu jantar
+est&aacute; muito bom.
+Sua mulher sabe cosinhar
+muito bem: na minha casa
+nunca comi assim.</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Unati
+nik&eacute;. Cu&aacute;ti &ecirc;chot&iacute;
+ituc&ocirc;ati nica ien&ocirc;. Au&oacute;
+ning&aacute; onuong&uacute; cuti&aacute;
+ionog&uacute;.<sup><a href="#n118">[118]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Come
+mais
+ent&atilde;o.</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Nik&eacute;,
+igop&oacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">N&atilde;o,
+obrigado. Agora quero
+agua e vou-me
+embora</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Ac&oacute;
+mond&oacute;uan&eacute;. Poi&aacute;ne
+unn&eacute; gach&aacute;. Behop&oacute;tine.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Quando has de
+vir?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Nam&otilde;
+kenaac&aacute;.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Outro
+dia</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Poinu
+c&aacute;tche.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Quem sabe se
+amanh&atilde;?</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Etchu&aacute;ne
+coec&uacute; ar&ocirc;ti.<sup><a href="#n119">[119]</a></sup></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">&Eacute;
+facto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Enn&oacute;mone.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pois</em> e
+<em>por&eacute;m</em> v&atilde;o
+sempre depois da primeira palavra, exemplo:
+pois toma; <em>nemuc&aacute;</em> toma,
+<em>cop&oacute;</em> pois;
+por&eacute;m come;
+<em>nik&eacute;</em> come
+<em>copo&eacute;</em>
+por&eacute;m.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando, <em>naman&oacute;</em>, vem
+sempre antes. Quando has de vir? <em>Naman&oacute;
+kino&ocirc;k&eacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>NOTAS
+</h3>
+
+<br />
+
+<a name="na" id="na"></a>
+<h4>A
+</h4>
+
+<br />
+
+J&aacute; tivemos a occasi&atilde;o de dizel-o officialmente: a
+estada do Coxim
+foi um lento martyrio, no qual todos extrem&aacute;r&atilde;o
+em resigna&ccedil;&atilde;o e
+calma. A esse respeito diziamos, depois de examinarmos as fontes
+de abastecimento que poderi&atilde;o fornecer viveres ao
+acampamento
+do Coxim e reconhecermos a impossibilidade em que se
+achav&atilde;o de satisfazer tal compromisso:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'este estado desesperado a for&ccedil;a achou-se a
+bra&ccedil;os com a
+mais completa mingoa. Reduzida a simples carne, por espa&ccedil;o
+de
+mais de mez, muitas vezes faltou-lhe aquella
+alimenta&ccedil;&atilde;o exclusiva,
+que deu em resultado o apparecimento de varias molestias.
+Os generos de primeira necessidade cheg&aacute;r&atilde;o a
+pre&ccedil;os exorbitantes,
+aproveitando-se a ganancia e o espirito de lucro abusivo, da
+desgra&ccedil;a, a que todos se vi&atilde;o reduzidos. Um
+conjuncto, comtudo,
+de factos t&atilde;o tristes fez mais real&ccedil;ar as
+virtudes que imper&atilde;o no
+soldado brasileiro, patenteando o seu caracter eminentemente soffredor
+e resignado, a subordina&ccedil;&atilde;o e disciplina, que lhe
+s&atilde;o naturaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[150]</span>
+&laquo;Depois de dias, em que nada se distribuia, nenhuma queixa se
+erguia, nenhuma exigencia se ouvia: todos se penetrav&atilde;o das
+difficuldades
+que presidi&atilde;o a qualquer providencia que tomar, e calmos
+esperav&atilde;o pelo que lhes reservava a sorte. N&atilde;o
+nos compete a
+aprecia&ccedil;&atilde;o dos factos que der&atilde;o em
+resultado esta ordem de cousas:
+consignamos simplesmente as phases por que passou a
+expedi&ccedil;&atilde;o,
+nas quaes sempre presenci&aacute;mos o comportamento altamente
+recommendavel do pessoal que a compunha; galhardo nas marchas
+e prompto para todos os trabalhos, supportando, emfim, as
+maiores priva&ccedil;&otilde;es, a que p&oacute;de ser
+sujeito o homem na guerra,
+sobretudo nas condi&ccedil;&otilde;es difficeis, que
+proporcion&atilde;o distancias
+immensas e sert&otilde;es inhospitos. Depois da mais penosa marcha
+por centenares de legoas, rodeada de perigos e incommodos, na
+qual de continuo lutava-se com circumstancias imprevistas, acompanhadas
+de innumeras afflic&ccedil;&otilde;es, veio a estada prolongada
+do
+Coxim p&ocirc;r &aacute; prova a
+abnega&ccedil;&atilde;o e o sentimento intimo do dever,
+de que tantos exemplos brilhantes tem dado o brasileiro, que enverga
+os distinctivos da vida de priva&ccedil;&otilde;es e de
+soffrimentos&raquo;.
+Relatorio geral da commiss&atilde;o de engenheiros nas
+for&ccedil;as em opera&ccedil;&otilde;es
+ao sul da provincia de Mato-Grosso, 1866 pag. 48 (Annexo
+ao relatorio do ministerio da guerra, 1867).
+<br />
+
+<br />
+
+Quadro exacto da triste situa&ccedil;&atilde;o que apresentava
+a expedi&ccedil;&atilde;o de
+Mato-Grosso, atirada a um canto da provincia, que vinha soccorrer,
+reduzida &aacute; inac&ccedil;&atilde;o por obstaculos
+invenciveis de um lado,
+do outro pelos poucos meios, de que dispunha, para, s&oacute;mente
+sobre si, emprehender a offensiva. De nenhum consolo lhe servia
+o titulo pomposo, com que, a pedido, a havi&atilde;o agraciado.
+<em>For&ccedil;as</em> lhe
+faltav&atilde;o;
+<em>opera&ccedil;&otilde;es</em> era
+uma ironia cruel para um espirito
+philosophico e o sul da provincia de Mato-Grosso &eacute;
+t&atilde;o vasto,
+t&atilde;o medonhamente erri&ccedil;ado de difficuldades,
+sobretudo n'aquella
+&eacute;poca, quanto o er&atilde;o os sinistros
+pa&uacute;es da Germania em que se
+abysm&aacute;r&atilde;o as bizarras legi&otilde;es de Varo.
+Assim, pois, n&atilde;o nos illudiamos
+sobre o presente; e o futuro, como deriva&ccedil;&atilde;o
+natural,
+n&atilde;o nos abria horisontes de fl&ocirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[151]</span><a name="nb" id="nb"></a>
+<h4>B
+</h4>
+
+<br />
+
+Na viagem, que lev&aacute;mos, nunca pod&eacute;mos fazer
+sen&atilde;o estudos
+perfunctorios d'aquillo que acompanha o caminho: da
+vegeta&ccedil;&atilde;o
+s&oacute; vimos a fita que segue o trilho, em mineraes,
+s&oacute; o que se
+achava em seu percorrer. Por isto n&atilde;o nos julgamos
+habilitados
+para avan&ccedil;ar uma proposi&ccedil;&atilde;o fixa e com
+for&ccedil;a de regra; entretanto,
+certo cuidado na observa&ccedil;&atilde;o permitte termos por
+certo um
+facies especial, que distinga, mais ou menos, os
+<em>cerrados</em> de S. Paulo,
+Minas-Geraes, Goyaz e Mato-Grosso, que fomos atravessando. Na
+primeira d'estas provincias pareceu-nos predominarem as
+<em>cassiaceas</em>
+e <em>terebinthaceas</em>; na segunda, ao
+menos na nesga que atravess&aacute;mos,
+<em>myrtaceas</em>, na terceira,
+especialmente <em>malpighiaceas</em>
+(murecys)
+at&eacute; a villa dos Aboboras, e, d'ahi por diante, de envolta
+com ellas,
+uma <em>myrtacea</em>, a
+<em>cagaiteira</em>. Em Mato-Grosso, para os
+lados do Piquiry,
+a quantidade de <em>guabirobas</em> nos
+cerrados &eacute; prodigiosa, e,
+entre o Coxim e o rio Negro, na zona em que nos achavamos,
+figur&atilde;o com especialidade os
+<em>aratic&uacute;s</em> e
+<em>rollinias</em>. Em todos os
+<em>cerrados</em>,
+todas aquellas familias se ach&atilde;o representadas,
+por&eacute;m o que procuramos
+fazer notar, &eacute; o predominio de uma d'ellas ou pelo menos o
+de um genero.
+<br />
+
+<br />
+
+Debaixo do ponto de vista do desenvolvimento, em iguaes
+condi&ccedil;&otilde;es
+apparentes, os mais vistosos s&atilde;o os de Mato-Grosso; os
+menos, os de S. Paulo: ahi chega o aspecto d'elles a ser
+sen&atilde;o
+desolador, ao menos contristador. Talvez lhe achemos a causa na
+maior frequencia de queimadas de campos, que annualmente s&atilde;o
+feitas, na approxima&ccedil;&atilde;o das chuvas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os terrenos arenosos apresent&atilde;o os mesmos typos botanicos;
+entretanto, mais desenvolvidos do que nos argilosos. Os areaes
+entre Bah&ugrave;s e Coxim e nas immedia&ccedil;&otilde;es
+de Sant'Anna do Paranahyba
+s&atilde;o prova do que avan&ccedil;amos; assim tambem certos
+pontos
+da provincia de Goyaz, quasi ao chegar &aacute; villa das
+D&ocirc;res do rio
+Verde (Aboboras).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+Nos verdadeiros cerrados at&eacute; Mato-Grosso,
+observ&aacute;mos a pouca
+frequencia das <em>melastomaceas</em>,
+comtudo t&atilde;o facil de distinguir. Ao
+entrar, por&eacute;m, n'essa provincia, torn&atilde;o-se ellas
+muito frequentes,
+apresentando bellos exemplares, pelo seu desenvolvimento geral.
+<br />
+
+<br />
+
+Em todos os cerrados sempre not&aacute;mos a bem conhecida
+<em>canella
+de ema</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As arvores dos <em>cerrados</em>
+s&atilde;o quasi todas tortuosas; a casca
+sempre escamosa, fendida irregularmente, grossa, merecendo
+por isso muitas d'ellas o nome de
+<em>jacar&eacute;s</em>, devida, ao que
+nos
+pareceu, &aacute; ac&ccedil;&atilde;o annual do fogo que
+provoca esse desenvolvimento
+do <em>liber</em>, obstaculo &aacute;
+carbonisa&ccedil;&atilde;o que permitte ao vegetal
+poder continuar o seu penoso crescimento. As
+<em>cassias</em>,
+sobre todas, s&atilde;o notaveis por essa
+altera&ccedil;&atilde;o da camada cortical.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="nc" id="nc"></a>
+<h4>C
+</h4>
+
+<br />
+
+A folhagem verde-escura da <em>mauritia</em>,
+abre-se como um leque,
+sustentado por longos peciolos alveolados no topo de um
+estipite liso e pardacento claro, no qual se not&atilde;o os
+tra&ccedil;os parallelos
+formados pela qu&eacute;da das voltas semi-amplexicaules das
+folhas.
+Ao lado d'aquella formosa monocotyledonea, a
+<em>macaybeira</em>
+(acrocomia sclerocarpa) parece acanhada e fica completamente
+offuscada; das palmeiras, cujas folhas s&atilde;o todas revestidas
+por
+foliolos, a unica que rivalisa em elegancia e altaneria &eacute; o
+<em>auass&uacute;</em>
+que os guaycur&uacute;s cham&atilde;o
+<em>chatell&ocirc;d</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Do bority extrahe-se um succo saccharino, usado, depois da
+fermenta&ccedil;&atilde;o, como bebida e do qual se
+p&oacute;de tirar excellente assucar,
+como o fez um official das for&ccedil;as. Os fructos d&atilde;o
+em compridos
+cachos; s&atilde;o ovoides, com casca rija, amarello-avermelhada,
+escura e brilho metallico, todos cobertos por escamas rhomboidaes,
+que encobrem uma polpa pouco saborosa, ainda quando
+preparada com assucar. A amendoa acha-se n'uma loja monospermica.
+Em &eacute;pocas de fome, de muito serv&iacute;r&atilde;o
+aos soldados
+que procurav&atilde;o n&atilde;o s&oacute; os
+c&ocirc;cos, em concurrencia com as
+ar&aacute;ras,
+<span class="pagenum">[153]</span>
+como em raz&atilde;o do mi&ocirc;lo que chupav&atilde;o com
+grande gosto. Os
+boritys s&atilde;o sempre indicio de agua, nascendo s&oacute;
+em lugares humidos.
+<br />
+
+<br />
+
+No caminho para Uberaba apparecem, pela primeira vez, no pouso
+dos Boritys (a 84 legoas do littoral), nas proximidades do rio
+Grande, divisa entre as provincias de S. Paulo e Minas. D'esse
+ponto em diante, acompanh&atilde;o a trilha, que
+segu&iacute;r&atilde;o as for&ccedil;as,
+atravessando Minas, Goyaz e Mato-Grosso. At&eacute; o rio Negro, a
+abundancia de boritys &eacute; extrema; d'ahi por diante,
+v&atilde;o-se tornando
+menos frequentes e, para os lados de Nioac e sul do districto
+de Miranda, v&ecirc;em-se raramente.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="nd" id="nd"></a>
+<h4>D
+</h4>
+
+<br />
+
+Comprehendendo, de ante-m&atilde;o, as difficuldades com que
+lutari&atilde;o
+os nossos collegas na promptifica&ccedil;&atilde;o de
+can&ocirc;as, sem as ferramentas
+precisas nem trabalhadores habilitados, fizemos lembrada a conveniencia
+em transportar aquella barca para junto &aacute;quelle rio. As
+nossas previs&otilde;es realiz&aacute;r&atilde;o-se
+completamente e os obstaculos que
+embara&ccedil;&aacute;r&atilde;o os engenheiros, no
+desempenho da commiss&atilde;o a este
+respeito, justific&aacute;r&atilde;o a importancia que haviamos
+dado &aacute;quella conduc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="ne" id="ne"></a>
+<h4>E
+</h4>
+
+<br />
+
+O <em>aucury</em>, do genero attalea,
+affei&ccedil;&ocirc;a, como os boritys, os lugares
+humidos, apparecendo s&oacute; n'aquelles que s&atilde;o
+commummente encharcados.
+O seu aspecto &eacute; baixo; o estipite fino, &aacute;s vezes
+engrossando
+extraordinariamente junto ao coroamento das folhas, as
+<span class="pagenum">[154]</span>
+quaes tem longos foliolos delgados. Os fructos (cujos c&ocirc;cos
+tem 3
+bagas monospermias) com uma bonita c&ocirc;r amarello-alaranjada, e
+revestidos por uma casca filamentosa (que n&atilde;o tem
+m&aacute;o sabor,
+sobretudo assada), d&atilde;o em cachos, que &aacute;s vezes
+pendem junto
+ao ch&atilde;o, servindo de pasto aos porcos do mato, que os
+procur&atilde;o
+com avidez.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso, quando atravessavamos os aucurisaes do rio Negro,
+onde a abundancia d'esses c&ocirc;cos era extrema, grandes varas de
+<em>queixadas</em> (dicotyles labiatus)
+fugi&atilde;o diante de n&oacute;s, sendo facil a
+um dos soldados derribar alguns d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="nf" id="nf"></a>
+<h4>F
+</h4>
+
+<br />
+
+Qualquer depress&atilde;o de terreno, qualquer encontro de declives
+transforma-se n'essa zona em profundas sanjas, que quasi sempre
+v&iacute;r&atilde;o em escoantes para os rios. Eis a
+<em>corixa</em> ou o
+<em>corixo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A reten&ccedil;&atilde;o da agua, por muitos mezes, desenvolve
+ent&atilde;o uma
+vegeta&ccedil;&atilde;o palustre no meio de moutas de capim,
+reunindo-se
+n'ellas frequentemente as terriveis
+<em>piranhas</em> (myletes macropomus),
+que torn&atilde;o essas passagens perigosas, pelos lados do
+Piquiry.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="ng" id="ng"></a>
+<h4>G
+</h4>
+
+<br />
+
+A qualidade de mel que d&aacute; o jaty &eacute; boa, perfumada
+e clara;
+entretanto a quantidade &eacute; commummente muito diminuta.
+<br />
+
+<br />
+
+A colm&ecirc;a &eacute; no tronco das arvores, quasi sempre
+junto ao ch&atilde;o.
+Pelo contrario, sempre na parte superior, na
+<em>dichotomia</em> ou
+bifurca&ccedil;&atilde;o
+de ramos, faz o seu corti&ccedil;o a abelha
+<em>mandory</em> ou
+<em>mondori</em>:
+<span class="pagenum">[155]</span>
+<em>mond&eacute;</em>, colher,
+<em>ira</em>, mel, o qual &eacute;
+superior ao do jaty, rivalisando
+com o do <em>cacheta</em> em sabor e
+limpidez. A abelha <em>mandory</em>
+&eacute; especie grande, preta, rajada de amarello.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguem-se em qualidade: o
+<em>achup&eacute;</em> (grande e preta),
+o <em>sanhar&atilde;o</em>,
+o <em>bor&aacute;</em> (grande e
+amarella), o
+<em>uru&ccedil;&uacute;</em>, o
+<em>lambe-olhos</em>, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+D'essas abelhas, fomos, no seguimento da viagem, encontrando
+individuos. Al&eacute;m d'isso frequentes arvores, cortadas nos
+lados do
+caminho, mostrav&atilde;o-nos a copiosa colheita que fazem os
+indios, os
+quaes, justamente n'aquella &eacute;poca, recolhi&atilde;o o
+mel para fermental-o,
+o que d&aacute; lugar &aacute;s festas religiosas, em que
+estav&atilde;o empenhados,
+quando cheg&aacute;mos &aacute; ald&ecirc;a da Piranhinha.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="nh" id="nh"></a>
+<h4>H
+</h4>
+
+<br />
+
+Levavamos ent&atilde;o um chap&eacute;o que
+compr&aacute;ramos na ald&ecirc;a: era de
+palha de <em>carand&aacute;</em>
+(copernicia cerifera), e muito bem tran&ccedil;ado. Esta
+palmeira, bastante frequente no norte da provincia, &eacute; mais
+rara
+no districto. Pela primeira vez a tinhamos visto quasi ao chegarmos
+ao Tab&ocirc;co, occupando um vasto barreiro com lindos specimens,
+cujo aspecto era-nos totalmente novo. Mais alto que a
+<em>carna&uacute;ba</em>, com quem tem
+muitos pontos de rela&ccedil;&atilde;o (se n&atilde;o
+f&ocirc;r
+ella propria), com estipite, por&eacute;m, mais fino e ligeiramente
+flexuoso,
+tem as folhas supportadas por longos peciolos erectos, que
+f&oacute;rm&atilde;o um coroamento em leques, como o do
+<em>bority</em>, mas cujos
+foliolos s&atilde;o rigidos e terminados por pontas espinhosas.
+<br />
+
+<br />
+
+A reuni&atilde;o de muitas d'essas palmeiras, cujo tronco
+&eacute; aproveitado
+para construc&ccedil;&atilde;o de casas e curraes, cuja palha
+&eacute; muito
+utilisada para chap&eacute;os e cujos fructos, pequenos e em cachos
+compridos, d&atilde;o algum azeite, chama-se um
+<em>carandal</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi f&oacute;rm&atilde;o ellas moutas compostas de palmeiras
+rasteiras, no
+meio das quaes surge alguma mais desenvolvida, levando agarrados
+cip&oacute;s e parasitas, que vivem nos sulcos das folhas cahidas.
+<br />
+
+<br />
+
+Algumas nopaleas, sobretudo a
+<em>opuntia</em>, com o aspecto
+t&atilde;o original,
+e uma ou outra dicotyledonea, cuja folhagem agrada tanto
+<span class="pagenum">[156]</span>
+pela disparidade, constituem, ao redor dos elegantes
+<em>carand&aacute;s</em>,
+grupos, como que arranjados pela m&atilde;o artistica de algum
+horticultor
+intelligente.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>carand&aacute;</em>, que vimos pela
+primeira vez perto da Piranhinha,
+apparece, com abundancia, entre Nioac e a colonia de Miranda.
+Talvez, no districto de Miranda, poss&atilde;o ser, por meio de
+linhas
+longitudinaes, assignaladas tres zonas de palmeiras predominantes:
+a dos <em>boritys</em>, do Coxim &aacute;
+villa de Miranda; dos
+<em>carand&aacute;s</em>,
+da villa &aacute; colonia de Miranda, e das
+<em>maca&uacute;bas</em>; da colonia ao
+Apa.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="ni" id="ni"></a>
+<h4>I
+</h4>
+
+<br />
+
+Nas proximidades do Aquidauana e na localidade de refugio no
+cimo da serra de Maracaj&uacute;, distante d'aquelle rio cinco
+legoas,
+vimos em <em>aves</em>, al&eacute;m das
+mencionadas: na familia dos
+<em>accipitres</em>,
+muitos <em>urub&uacute;s</em>
+(percnopterus jota), alguns dos quaes completamente
+brancos (urubutingas)
+<em>gavi&otilde;es</em> e innumeros
+<em>caracar&aacute;s</em> (polyborus
+chimango) que esvoa&ccedil;av&atilde;o, com estridentes pios,
+por cima
+das queimadas, para agarrarem as cobras e reptis, aco&ccedil;ados
+do
+fogo. Na familia dos <em>trepadores</em>,
+avist&aacute;mos: a <em>arara azul</em>
+(ara ararauna)
+com as costas e cauda azul, peito amarello-alaranjado,
+a <em>vermelha</em> (ara aracanga), a
+<em>r&ocirc;xa</em> (ara hyacinthinus),
+&aacute; qual convinha
+mais o epitheto de ararauna (arara preta), c&ocirc;r que, de longe,
+parece ter; <em>tucanos de papo branco</em>
+(rhamphastos toco) especie
+grande e rara, de <em>bico preto</em>
+(rhamphastos ariel), <em>de papo
+amarello</em>
+(ramphastos discolorus), que s&atilde;o derribados, mal lhes toque
+um
+bago de chumbo o bico: nas arvores, o desconfiado <em>alma
+de gato</em>
+(coccyzus cayanus) se esgueirava ligeiro por entre os galhos e o
+lindo <em>jacamacira</em> (galbula viridis)
+n'elles pousava gravemente,
+emquanto os <em>pica-p&aacute;os</em>
+(picus melachloris, robustus, etc.) em zig-zag
+se atrepav&atilde;o, agarrados aos troncos. Entre os
+<em>passaros</em> figurav&atilde;o
+os <em>sabi&aacute;s</em> (turdus
+flavipes, <em>una</em>, e rufiventer,
+<em>larangeira</em>), o
+<em>bemtevi</em> (tyrannus sulphuratus), o
+<em>serra-serra</em> (carduelis nitens), o
+<em>canario da terra</em> (carduelis
+brasilienses), o <em>avinhado</em> (pitylus
+nasutus),
+<span class="pagenum">[157]</span>
+os <em>cara&uacute;nas</em> ou
+<em>virabostas</em> (icterus violaceus) os
+mais animados
+e barulhentos cantores do sert&atilde;o, os
+<em>encontros</em> (xanthornus
+tristis) e muitos outros notaveis pela plumagem e canto que
+n&atilde;o
+conheciamos e viamos pela primeira vez.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos campos ha poucas <em>perdizes</em> e
+<em>codornizes</em>: na planura de cima
+da serra n&atilde;o as vimos: em compensa&ccedil;&atilde;o,
+a volateria &eacute; sobremaneira
+importante em outras qualidades, como j&aacute;
+mostr&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os <em>reptis</em>, al&eacute;m dos
+<em>ophidios</em> j&aacute; apontados,
+avulta o <em>lagarto</em>:
+os <em>bactracios</em> s&atilde;o os
+conhecidos geralmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os <em>insectos</em> todas as
+subdivis&otilde;es s&atilde;o mais ou menos bem
+representadas: entre os <em>nevropteros</em>
+apparece com abundancia o
+<em>t&eacute;rmes</em>
+(cupim), nos <em>hymenopteros</em>, muitas
+especies de <em>maribondos</em>, de
+<em>formigas</em> e
+<em>abelhas</em>: poucos
+<em>lepidopteros</em>: nos
+<em>dipteros</em> muitos
+<em>mosquitos</em>,
+<em>muri&ccedil;ocas</em>,
+<em>mucuins</em> ou
+<em>polvoras</em>,
+<em>moscas</em>, etc., em alguns pontos do
+rio, em outros s&atilde;o rarissimos.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre as <em>arachnides</em>, n&atilde;o
+pode ser esquecido o
+<em>acaride-arachnide</em>,
+<em>carrapato</em> (ixodes) um dos grandes
+incommodos de quem viaja
+pelas matas. No Aquidauana eramos flagellados pelo
+<em>rodeleiro</em> ou
+<em>estrella</em> (especie grande),
+<em>ruivo</em> (especie menor) e
+<em>piolho de gallinha</em>
+(especie mui pequena).
+<br />
+
+<br />
+
+N'um dos affluentes do Aquidauana encontr&aacute;mos curiosos
+molluscos,
+com a conforma&ccedil;&atilde;o do
+<em>mechilh&atilde;o</em> (mytilus) e com
+o interior
+da costa calcarea brilhante, a modo de madreperola. &laquo;O
+Pacheco e o Valerio, diz uma de minhas notas de viagem,
+affian&ccedil;&atilde;o que, em certo ponto do rio Paraguay, ha
+muitos d'esses
+restos, sendo at&eacute; uma bahia denominada das
+<em>Conchas</em>&raquo;.
+Ach&aacute;mos
+tambem d'essas conchas no ribeir&atilde;o do Euagaxigo, a 3 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas
+da villa de Miranda.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>APPENDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>APPENDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Memoria descriptiva do reconhecimento
+do caminho entre os rios Taquary
+e Aquidauana, feito pelos engenheiros capit&atilde;o bacharel
+Antonio Florencio
+Pereira do Lago e 2&ordm; tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle
+Taunay,
+ajudantes da commiss&atilde;o de engenheiros junto &aacute;s
+for&ccedil;as em opera&ccedil;&otilde;es
+no sul da prov&iacute;ncia de Mato-Grosso.</div>
+
+<br />
+
+<h4>I
+</h4>
+
+<h4>
+Explora&ccedil;&atilde;o entre os rios Taquary e Negro
+</h4>
+
+<br />
+
+No dia 13 de Fevereiro pass&aacute;mos, defronte do acampamento
+goyano, o rio Taquary e margeando-o &aacute; esquerda,
+fomos, pela necessidade de descan&ccedil;o em consequencia do
+grande nado a que tinh&atilde;o sido obrigados os animaes, pousar
+junto ao ribeir&atilde;o da Fortaleza, com 20 minutos em tempo
+de distancia percorrida. A sua margem esquerda &eacute;
+escarpada e necessita ser rampada para a descida de carros;
+a direita &eacute; baixa e arenosa como o alveo d'este tributario
+do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega
+passagem a v&aacute;o. Conta de largura 50 palmos, de profundidade
+3, 1 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+por segundo de velocidade e a elle segue-se
+<span class="pagenum">[162]</span>
+uma mata onde existem varias rampas que podem ser
+facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o Taquary
+e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim,
+que, pouco depois, desapparece, come&ccedil;&aacute;mos a
+acompanhar
+o Taquary-mirim, o qual ora afasta-se, ora approxima-se
+muito perto do caminho, transpondo-se com 32 minutos
+de marcha um pequeno corrego, cujas riban&ccedil;as
+necessit&atilde;o
+ser modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas
+condi&ccedil;&otilde;es. Com mais 41 minutos
+pass&aacute;mos um ribeirinho
+cujos barrancos devem ser cortados para facilitar a passagem,
+e pouco depois cheg&aacute;mos &aacute; cachoeira do
+Taquary-mirim
+(pouso dos Boritys), junto &aacute; qual existem vestigios
+de um acampamento dos paraguayos e onde pernoit&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+A distancia percorrida foi sempre em terreno secco,
+de base argilo-arenosa, entre cerrados em que predomin&atilde;o
+<em>anonaceas</em> (aratic&uacute;s do
+campo) e varias especies de
+<em>byrsonima</em>:
+o caminho &eacute; uma simples trilha, muito visivel
+por&eacute;m
+e sempre seguido.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">4 horas e 32
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;"><sup><a href="#n120">[120]</a></sup>Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">8,265
+bra&ccedil;as, ou 2 <sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deixando o pouso dos Boritys que offerecer&aacute; um acampamento
+regular para as for&ccedil;as em marcha, com 36 milhas
+<span class="pagenum">[163]</span>
+de marcha fomos ter ao corrego da Porteira, a 77
+minutos do qual pass&aacute;mos outro, chegando ao
+ribeir&atilde;o da
+Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 bra&ccedil;as
+antes d'esta corrente, existe um terreno baixo que ha
+de tornar-se alagadi&ccedil;o com a
+continua&ccedil;&atilde;o de chuvas, podendo
+ser praticada, n'este caso, uma extensa estiva pelo
+muito mato, que cobre as margens do ribeir&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O leito d'este &eacute; arenoso; a largura m&eacute;dia de 50
+palmos,
+2 de profundidade, chegando a negar v&aacute;o no tempo de
+grandes enchentes. Ahi pod&eacute;r&atilde;o acampar as
+for&ccedil;as depois
+de ter sido facilitada a passagem, rampando-se a margem
+esquerda.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">4 horas e 0
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">7,285
+bra&ccedil;as, ou 2 <sup>8</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A 16 minutos do ribeir&atilde;o da Mata, existe uma casa
+abandonada,
+proxima a um cap&atilde;o, denominado Tapera, assim
+como o corrego, que, pouco adiante, dirige-se para E. entre
+margens pouco firmes, permittindo por&eacute;m a proximidade
+do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem
+de cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos pass&aacute;mos um
+pequeno pantano de 30 bra&ccedil;as, que p&oacute;de dar boa
+passagem,
+se as chuvas n&atilde;o augmentarem e o tempo tornar-se
+secco; devendo ser este espa&ccedil;o estivado no caso contrario.
+Continuando, atravess&aacute;mos o ribeir&atilde;o Claro, cujas
+margens
+altas e nemorosas precis&atilde;o ser melhoradas, com leito
+pedregoso,
+largura de 35 palmos e profundidade de 1 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>.
+Depois
+de chuvas continuadas impede o transito. Depois de
+110 minutos cheg&aacute;mos ao ribeir&atilde;o Verde que tem
+margens
+<span class="pagenum">[164]</span>
+abruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages,
+v&aacute;o pessimo para a passagem de animaes carregados.
+Tem de largura 65 palmos, 3 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+de profundidade, augmentada
+por&eacute;m, durante as aguas, a ponto de vedar o
+transito.
+<br />
+
+<br />
+
+A for&ccedil;a p&oacute;de acampar em sua margem direita depois
+de rampados os barrancos que encan&atilde;o este
+ribeir&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">3 horas e
+0
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">5,463
+bra&ccedil;as,
+ou 1 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>3</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sahindo do ribeir&atilde;o Verde, pass&aacute;mos com 63
+minutos
+de marcha um bosque e d'ahi a 30 minutos a mata ou
+capoeira do Major com abrupta descida que vai ter a um
+pantano, em que gast&aacute;mos 5 minutos, seguindo-se nova
+mata e outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno
+come&ccedil;a a subir: torna-se pedregoso e entra-se no
+Port&atilde;o de Roma: pessima e difficultosa passagem
+embara&ccedil;ada
+com grandes lages e rochas que se ach&atilde;o na trilha
+que serve para a via&ccedil;&atilde;o. As carretas dos
+paraguayos pass&aacute;r&atilde;o
+por este desfiladeiro: entretanto ser&aacute; necessario um
+trabalho preliminar ou um desvio para conseguir-se facil
+transito. Continuando a caminhar, marge&aacute;mos um lugar
+pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44 minutos
+fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal
+d&aacute; agua em toda esta esta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">3 horas e
+49
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">6,951
+bra&ccedil;as, ou 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[165]</span>
+Deixando o Lageadinho, pass&aacute;mos um lagrimal depois
+de 65 minutos de marcha e com mais 65 o corrego do
+Castelhano, entrando d'ahi a 15 minutos n'uma mata,
+atravessada por um filete d'agua, seguindo-se outras, cortadas,
+de distancia em distancia, por campos dobrados at&eacute; o
+corrego da Volta, onde poder&aacute; formar-se o acampamento
+das for&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">5 horas e 19
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">9,683
+bra&ccedil;as, ou 3 <sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha pass&aacute;mos
+n'um matagal, e com mais 32 minutos o ribeir&atilde;o
+do Perdig&atilde;o, cujas margens h&atilde;o de necessitar de
+concertos
+para a facil transposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D'este ribeir&atilde;o, com 44 minutos, entr&aacute;mos na mata
+dos Ja&oacute;s, de 3 minutos de extens&atilde;o, onde os
+paraguayos
+deix&aacute;r&atilde;o uma can&ocirc;a, que
+poder&aacute; servir para a passagem
+do rio Negro, caso seja concertada e transportada para
+aquelle ponto. Com 65 minutos cheg&aacute;mos ao corrego da
+Cachoeirinha, e, d'ahi ao corrego Fundo, gast&aacute;mos mais
+de 40 minutos. Poder&aacute; acampar a for&ccedil;a, depois de
+feita
+uma estiva nas margens pouco firmes d'este corrego.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">3 horas e 46
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">6,860
+bra&ccedil;as, ou 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo
+a um pequeno olho d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal
+e com mais 81 minutos ao rio Negrinho, passando
+<span class="pagenum">[166]</span>
+antes por um terreno baixo e alagado. O rio d&aacute;
+v&aacute;o commodo
+no tempo secco: n'esta esta&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m,
+a profundidade
+&eacute; de 7 palmos, sendo a sua largura de 63. Uma
+arvore cahida, de uma margem &aacute; outra, servio-nos para
+a passagem das cargas, e com pouco trabalho ter-se-ha
+uma boa pinguela. O v&aacute;o acha-se a 30 bra&ccedil;as mais
+ou
+menos acima do lugar em que est&aacute; a arvore, subindo
+pela margem esquerda. O acampamento na margem direita,
+depois de passar a mata, &eacute; melhor, ainda que mais
+distante da agua.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">4 horas e 37
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">8,408
+bra&ccedil;as, ou 2 <sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois
+de passarmos pela sua mata (onde existem depress&otilde;es,
+chamadas
+<em>corixas</em>, que fic&atilde;o cheias
+d'agua e d&atilde;o nado durante
+as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de viagem
+ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidad&atilde;os
+Antonio Alves Ribeiro, e Tiberio, onde n&atilde;o
+encontr&aacute;mos
+al&eacute;m do gado, que n&atilde;o p&oacute;de ser reunido
+por falta de cavalhada,
+recurso de qualidade alguma para a for&ccedil;a, nem pessoal
+para trabalhar na construc&ccedil;&atilde;o de can&ocirc;as
+para a passagem
+do rio Negro. D'este ponto at&eacute; o rio, o caminho
+apaga-se quasi completamente; &eacute; apenas uma trilha mal
+aberta por alguns fugitivos de Miranda, a qual atravessa
+grandes pantanaes, duas corixas cheias, charcos e mata
+muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem
+promptos, dever&aacute; a for&ccedil;a ir acampar na margem do
+rio;
+no caso contrario, demorar-se-ha junto ao Potreiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">Tempo
+gasto</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">4 horas e 48
+minutos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top;">Distancia
+percorrida</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">8,742
+bra&ccedil;as, ou 3 legoas proximamente.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A passagem para a infantaria &eacute; sempre commoda e
+facil at&eacute; o Potreiro; para os carros, por&eacute;m, e
+bagagem
+ser&aacute; necessario rampar as margens das correntes que
+atravess&atilde;o
+o caminho e fazer estivados em differentes pontos.
+Nas matas, e nos cerrados, ha p&aacute;os e taquaras que
+embar&aacute;&ccedil;&atilde;o
+o transito; pelo que dever&aacute; ir, sempre dianteiro
+&aacute;
+for&ccedil;a, um certo numero de homens armados de machados
+e fouces, para removerem estes obstaculos. Do Potreiro,
+por&eacute;m, ao rio Negro, at&eacute; para homens a
+p&eacute;, o caminho
+&eacute; de difficil viabilidade, e necessita ser aberto e
+melhorado
+para o transito.
+<br />
+
+<br />
+
+Com excep&ccedil;&atilde;o do Port&atilde;o de Roma,
+proximidades do
+Lageadinho e margem dos corregos e ribeir&otilde;es, os declives
+do caminho s&atilde;o sempre bons: o leito &eacute; uma
+estreita
+trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco at&eacute; pouco
+adiante
+do Potreiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos
+encontrado guia para o caminho que segue a fralda da
+serra de Maracaj&uacute; at&eacute; a ald&ecirc;a da
+Piranhinha, o qual os
+soldados desconhecem, e vamos encetar viagem &aacute; t&ocirc;a
+e
+sem indica&ccedil;&otilde;es certas.
+<br />
+
+<br />
+
+Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+<h4>POUSOS PARA A FOR&Ccedil;A
+</h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao pouso dos
+Boritys</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">legoas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao ribeir&atilde;o da
+Mata</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao ribeir&atilde;o
+Verde</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">1</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao
+Lageadinho</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao corrego da
+Volta</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao corrego
+Fundo</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao rio
+Negrinho</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">2</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Ao rio
+Negro</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">3</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: center;">
+ <hr /></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Somma</td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;"> <sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Do rio Taquary ao rio Negro</td>
+
+ <td><br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: center;">20</td>
+
+ <td style="text-align: center;"><sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A planta topographica indicar&aacute; outros pousos, caso
+n&atilde;o
+convenh&atilde;o estes, e d&aacute; os accidentes de terreno e
+direc&ccedil;&otilde;es
+magneticas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+II<br />
+
+<br />
+
+Explora&ccedil;&atilde;o entre o rio Negro e os Morros
+</h4>
+
+<br />
+
+No dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma
+pelota, transport&aacute;mo-nos para a sua margem esquerda,
+baixa, paludosa e coberta da mesma vegeta&ccedil;&atilde;o que
+j&aacute; tinhamos
+achado do outro lado. Por espa&ccedil;o de um quarto
+de legoa lut&aacute;mos n'ella com os obstaculos provenientes das
+enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, em
+<span class="pagenum">[169]</span>
+pelota, de corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados)
+e &aacute; marcha em terreno sempre humido e atoladi&ccedil;o.
+Abre-se
+depois o campo com cerrados ao longe, e ach&aacute;mo-nos
+na base da serra de Maracaj&uacute;, que era o nosso unico meio
+de direc&ccedil;&atilde;o na procura da trilha, que
+dizi&atilde;o ter sido aberta
+pelos fugitivos de Miranda, na invas&atilde;o d'este districto no
+anno passado. Com effeito avistavamos uma longa e continuada
+serrania que tinhamos de deixar &aacute; esquerda, fraldejando
+a sua aba e fugindo &aacute;s aguas que cobri&atilde;o a
+estrada
+seguida no tempo secco at&eacute; o rio Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+A quest&atilde;o era examinar a qualidade de terreno, em que
+tinhamos de marchar e saber das vantagens da abertura de
+um caminho para a for&ccedil;a nos seus primeiros movimentos
+para o Baixo-Paraguay.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de
+marcha, reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer
+na procura d'aquella supposta trilha e dos vestigios
+da passagem, bem que recente, de um homem a cavallo,
+apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas p&eacute;g&aacute;das
+do
+gado que vagu&ecirc;a pelos campos, indo a final esbarrar em
+uma mata t&atilde;o cerrada que roubou-nos boa
+por&ccedil;&atilde;o do dia, n&atilde;o
+nos permittindo caminhar mais de legoa e meia. No pouso
+verific&aacute;mos que a carne secca, que haviamos preparado
+no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito dias,
+pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias
+anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade
+de termos recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima
+por&ccedil;&atilde;o
+de gado recolhido, f&ocirc;ra levado da fazenda do Retiro para
+o Coxim e a esperan&ccedil;a de podermos matar alguma das
+rezes que encontravamos,
+n&atilde;o nos permitt&iacute;r&atilde;o duvida sobre
+<span class="pagenum">[170]</span>
+o que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando
+sempre, ora em terreno pantanoso e atoladi&ccedil;o, at&eacute;
+a fralda
+da serra, ora em cerrados de difficultosa passagem, achavamo-nos
+com todos os recursos de boca completamente
+esgotados e com a certeza desesperadora da quasi impossibilidade
+em matarmos &aacute; bala rezes, completamente selvagens
+e ariscas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os nossos males cresc&ecirc;r&atilde;o com a fuga de todos os
+animaes,
+o que nos reteve nas mais crueis necessidades, junto
+ao corrego da Afflic&ccedil;&atilde;o, durante dous dias nos
+quaes sustent&aacute;mo-nos
+de fructos silvestres, que os soldados pod&eacute;r&atilde;o
+colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes,
+proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e
+canastras escondidas na mata proxima, alimentando-nos
+desde ent&atilde;o por oito dias de mi&ocirc;lo de palmeiras e
+de
+alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas torrenciaes
+e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11
+legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando
+charcos perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de
+intrincadissima taqu&aacute;ra. Em parte alguma viamos uma
+trilha seguida: quando nos suppunhamos perdidos, deparavamos
+algum rancho abandonado, uma arvore cortada,
+um signal que indicava acharmo-nos no rumo
+seguido pelos fugitivos, os quaes, sem duvida, tiver&atilde;o
+interesse em occultar os seus vestigios, aco&ccedil;ados dos
+paraguayos, que demandav&atilde;o o mesmo caminho, como o
+vimos pelos signaes de acampamento de for&ccedil;as. Tomando
+afinal o rumo O. fomos trilhar a parte, transitavel
+hoje, do caminho do pantanal, onde pod&eacute;mos dar fim
+aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez.
+<span class="pagenum">[171]</span>
+No dia 10 pass&aacute;mos o rio
+<em>Tab&ocirc;co</em> que
+ach&aacute;mos de nado
+e, visitando no dia seguinte o aldeamento dos indios na
+Piranhinha, cheg&aacute;mos no dia 11 ao arranchamento do
+cidad&atilde;o Jo&atilde;o Pacheco de Almeida, onde tivemos
+recebimento
+hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos
+agasalhados.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>CAMINHO QUE A FOR&Ccedil;A DEVE SEGUIR
+</h4>
+
+<br />
+
+N&atilde;o existe trilha alguma junto &aacute; fralda da serra
+de
+Maracaj&uacute;. O pantanal que vai at&eacute; a base d'esta
+serrania
+&eacute; em terreno f&ocirc;fo e de perigoso transito,
+sobretudo
+para grande numero de cargueiros e carros: nos cerrados,
+o sap&eacute; alto, capins e taquaras maltrat&atilde;o os
+infantes
+e can&ccedil;&atilde;o sobremodo os animaes. S&oacute; nos
+principios
+de Maio poder&atilde;o, segundo informa&ccedil;&otilde;es
+de pessoas praticas,
+achar-se estes lugares seccos; &eacute;poca em que o caminho,
+chamado do pantanal, conhecido por muitos e
+trilhado, d&aacute; excellente passagem por occasi&atilde;o da
+retirada
+das aguas. A vantagem de ser a trilha do pantanal
+sempre firme, n&atilde;o p&oacute;de deixar duvida sobre o
+caminho
+a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes
+lugares que d&ecirc; indica&ccedil;&otilde;es dos lugares
+em que se encontr&atilde;o
+boas aguadas. O <em>capataz</em> da fazenda
+do <em>Tab&ocirc;co</em>,
+o cidad&atilde;o Antonio Maria Tonh&aacute;, &eacute; muito
+proprio para
+este servi&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+<h4>CONTINGENTE PARA A FOR&Ccedil;A
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>Guarda nacional.</em>&mdash;Os guardas
+nacionaes, que existem
+<span class="pagenum">[172]</span>
+debaixo das ordens do tenente coronel Albuquerque,
+n&atilde;o podem perfazer o numero de 100: melhores
+informa&ccedil;&otilde;es sobre seu armamento, fardamento e
+municiamento,
+teremos depois de recebermos resposta ao nosso
+officio de 17 do corrente ou conversarmos com o tenente
+coronel commandante; o que tudo havemos de communicar
+com a brevidade possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Indios.</em>&mdash;No aldeamento dos indios
+terenas, da Piranhinha,
+encontr&aacute;mos a melhor disposi&ccedil;&atilde;o na
+gente do capit&atilde;o
+Jos&eacute; Pedro: apresent&aacute;r&atilde;o-se-nos 60
+mo&ccedil;os bons atiradores e
+proprios para servirem de excellente tropa em sorprezas e
+emboscadas.
+<br />
+
+<br />
+
+No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos,
+em estado de pegarem em armas: ach&atilde;o-se armados, e
+s&oacute;
+lhes falta cartuxame.
+<br />
+
+<br />
+
+Da gente quiniquin&aacute;o, acampada em diversos pontos,
+p&oacute;de-se contar com 30 homens.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ao todo 130 indios que est&atilde;o no caso de
+servir de
+contingente &aacute; for&ccedil;a. Falta-nos comtudo visitar, a
+oito ou
+dez legoas d'aqui, dous aldeamentos, um quiniquin&aacute;o e
+outro laiana, que devem augmentar o numero de homens e
+dar alguns alqueires de arroz e milho. &Aacute;quem de Miranda
+ha tambem outros pontos em que existem indios foragidos.
+<br />
+
+<br />
+
+A indole dos indios &eacute; guerreira: vot&atilde;o odio
+encarni&ccedil;ado
+aos paraguayos e est&atilde;o com estes em continua guerra de
+emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os
+lados tem trazido
+A indole dos indios &eacute; guerreira: vot&atilde;o odio
+encarni&ccedil;ado
+aos paraguayos e est&atilde;o com estes em continua guerra de
+emboscada, em que a crueldade e ferocidade de ambos os
+lados tem trazido temor e receio reciprocos; entretanto a
+inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na
+disposi&ccedil;&atilde;o
+de espirito e firmeza para arrostarem no campo e de
+<span class="pagenum">[173]</span>
+frente o inimigo, os torna apenas proprios para atiradores
+em matas e guerrilheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FOR&Ccedil;A
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>Gado.</em>&mdash;Desde o rio Negro
+at&eacute; a Piranhinha vimos immensa
+quantidade de rezes, vagando pelos campos em grandes
+manadas. Entretanto a necessidade, para o fornecimento,
+de bons cavallos para rodear-se o gado, obrigar&aacute;
+&aacute; espera
+da termina&ccedil;&atilde;o da peste que grassa entre os
+animaes at&eacute; fins
+de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o
+Coxim at&eacute; estes lugares.
+<br />
+
+<br />
+
+Um contractador, de posse comtudo de bons animaes,
+poder&aacute; com facilidade, em todos os pousos da
+for&ccedil;a, reunir
+a quantidade precisa de rezes nas fazendas de Joaquim Alves,
+Fialho, capit&atilde;o Pires (prisioneiro dos paraguayos),
+Jos&eacute;
+Alves de Arruda e outros.
+<br />
+
+<br />
+
+Os cidad&atilde;os que pelas informa&ccedil;&otilde;es
+colhidas, poder&atilde;o se
+encarregar do fornecimento s&atilde;o: Joaquim Alves e Canuto
+Virgolino de Faria (no Coxim); mas dever&atilde;o de
+antem&atilde;o
+comprar cavallos para se acharem em circumstancias de cumprir
+com os seus compromissos.
+<br />
+
+<br />
+
+Calcula-se em 13,000 cabe&ccedil;as o gado que existe nas fazendas
+apontadas acima, e s&oacute; p&oacute;de haver difficuldade na
+obten&ccedil;&atilde;o de rezes com a falta de cavallos, para o
+que devem
+ser tomadas providencias acertadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Cereaes.</em>&mdash;As
+planta&ccedil;&otilde;es dos refugiados de Miranda,
+al&eacute;m das limitadas propor&ccedil;&otilde;es em que
+for&atilde;o effectuadas para
+<span class="pagenum">[174]</span>
+proverem unicamente &aacute; subsistencia particular,
+n&atilde;o der&atilde;o
+colheita satisfactoria. O milho veio muito falhado; o arroz
+abaixo da expecta&ccedil;&atilde;o: s&atilde;o comtudo os
+dous generos que
+mais avult&atilde;o. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho
+existente &aacute; farinha, ou &aacute; cangica, pela falta de
+um monj&oacute;lo;
+promettem alguns alqueires &aacute; custa de bra&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha nenhum feij&atilde;o recolhido: apenas algumas
+quartas
+plantadas, que comtudo pouco podem dar pela falta de chuva
+e m&aacute; &eacute;poca em que for&atilde;o
+lan&ccedil;adas em terra.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Sal.</em>&mdash;Ha grande carencia de sal:
+apenas existem 2 ou
+3 alqueires que est&atilde;o sendo vendidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dados que seguem for&atilde;o todos colhidos com a maior
+minuciosidade, e s&atilde;o o resumo de quantidades parciaes, como
+se v&ecirc; do mappa annexo:
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Milho</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">50</td>
+
+ <td style="text-align: center;">alqueires</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Cangica</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">57</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Farinha</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arroz com
+casca</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">110</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Arroz
+socado</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">155</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td><br />
+
+ </td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Somma</td>
+
+ <td style="text-align: right;">382</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<h4>FOR&Ccedil;A INIMIGA
+</h4>
+
+<br />
+
+Interrogando diversas pessoas e indios, que t&ecirc;m, desde
+Janeiro at&eacute; fins de Fevereiro, visitado os lugares ainda
+occupados por for&ccedil;as, colhemos as seguintes
+informa&ccedil;&otilde;es:
+<span class="pagenum">[175]</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>Na fazenda do
+Souza</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">50 a
+150</td>
+
+ <td style="text-align: center;">homens</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>No
+Espenidio</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">200</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Na
+Forquilha</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">100</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Em
+Nioac</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">360</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td><br />
+
+ </td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Ao
+todo</td>
+
+ <td style="text-align: right;">810</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos
+de meia legoa do rio, e entre estes dous pontos uma guarda
+rendida diariamente, que serve para vigiar o Aquidauana.
+N'este entrincheiramento houve ultimamente augmento de
+for&ccedil;a, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques
+de corneta, o que n&atilde;o acontecia at&eacute; fins de
+Janeiro: ha uma
+pe&ccedil;a de artilharia para defendel-o e uma palissada de
+grossos
+madeiros de aroeira. Iremos com as precau&ccedil;&otilde;es
+precisas
+visitar estes pontos, communicando logo o que tivermos
+observado.
+<br />
+
+<br />
+
+A Forquilha e o Espenidio ach&atilde;o-se no caminho de Nioac
+&aacute; villa de Miranda. Este ultimo ponto est&aacute;
+presentemente
+abandonado, todas as casas for&atilde;o queimadas e n&atilde;o
+ha mais
+guarni&ccedil;&atilde;o. &Eacute;
+informa&ccedil;&atilde;o de Andr&eacute; Jos&eacute;
+dos Santos, que
+nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi reconhecer
+o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim
+Coelho, assistindo, de uma mata proxima, ao exercicio de
+um batalh&atilde;o de infantaria pesada, formado em 6
+pelot&otilde;es
+de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se acha na
+fazenda do Souza &eacute; aguerrida e regular, o resto dizem
+constar de
+soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles
+disp&otilde;em, &eacute; boa, como vimos por alguns cavallos
+roubados
+pelos indios.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[176]</span>
+Usa a infantaria de espingardas &aacute; Mini&eacute; de 1,000
+passos,
+e a cavallaria de lan&ccedil;as que manej&atilde;o com muita
+destreza,
+de clavinas e espadas. Nas cartuxeiras trazem os soldados
+80 cartuxos: os indios afian&ccedil;&atilde;o que
+s&atilde;o m&aacute;os atiradores,
+fazendo comtudo justi&ccedil;a completa &aacute; coragem e
+valor nunca
+desmentidos do inimigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os paraguayos desde Maio do anno passado n&atilde;o
+fizer&atilde;o
+mais correrias na margem direita do Aquidauana; prov&ecirc;em-se
+de gado, abundantissimo no outro lado, e consider&atilde;o o rio
+divisa do territorio brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Existe uma estrada, chamada do Canastr&atilde;o, pela qual, de
+Dourados, onde ha for&ccedil;a, e da fronteira podem vir soccorros
+para coadjuvarem os contingentes espalhados no districto
+de Miranda.
+<br />
+
+<br />
+
+Esper&atilde;o-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso
+dos paraguayos, que foi visitado pelo indio laiana Joaquim
+da Silva em Fevereiro, o qual d&aacute; noticia de mais
+destacamentos
+na Ariranha e no Esbarrancado, a 8 legoas al&eacute;m
+de Nioac.
+<br />
+
+<br />
+
+Supp&otilde;e-se que os destacamentos no Souza e Espenidio
+t&ecirc;em ordem para concentrar-se, com o apparecimento de
+nossas for&ccedil;as, em Nioac, afim de, attrahindo-as
+at&eacute; este
+ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo caminho
+do Canastr&atilde;o, que vem do Paraguay a Miranda.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>RESUMO</h4>
+
+<br />
+
+O movimento da for&ccedil;a brasileira p&oacute;de effectuar-se
+nos
+primeiros dias de Maio, tomando o caminho do rio Negro, e
+<span class="pagenum">[177]</span>
+depois o do pantanal, que deve de estar completamente secco,
+reunida que seja boa cavalhada para o fornecimento de
+gado durante a marcha. Com poucos generos p&oacute;de contar
+dos Morros e dos indios. Nas opera&ccedil;&otilde;es,
+al&eacute;m do Aquidauna,
+deve esperar encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados
+o mais das vezes, e dispostos &aacute; resistencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>RIOS QUE PASS&Aacute;MOS
+</h4>
+
+<br />
+
+O rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 bra&ccedil;as:
+entretanto como a for&ccedil;a dever&aacute; vir pelo caminho
+do
+pantanal, indicado no nosso trabalho pelo tra&ccedil;o colorido que
+vai ligarse ao caminho do roteiro do
+primeiro reconhecimento,
+al&eacute;m do Potreiro, &eacute; necessario visitar o rio mais
+baixo e conhecer
+a sua largura.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio Tab&ocirc;co tem 30 bra&ccedil;as de largura.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Meios de passagem.</em>&mdash;Para o rio Negro
+devem-se
+promptificar barcas, pois que as margens baixas e atoladi&ccedil;as
+n&atilde;o facilit&atilde;o a construc&ccedil;&atilde;o
+de uma ponte. O rio<sup><a href="#n121">[121]</a></sup>
+tem lugares de bom v&aacute;o, como o afian&ccedil;a o pratico
+Tonh&aacute;,
+que conhece-os perfeitamente. O rio Tab&ocirc;co &eacute;
+vadeavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o Aquidauana precis&atilde;o ser trazidas ao porto do
+Jatob&aacute;,
+ou ao de D. Maria Domingas, as can&ocirc;as do tenente
+coronel Albuquerque da sua fazenda do rio Negro e a
+prancha do cidad&atilde;o Cardoso Guapor&eacute;, o qual
+j&aacute; foi examinar
+<span class="pagenum">[178]</span>
+o estado em que ella se acha, por estar escondida,
+ha mais de anno, n'uma volta do rio.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>DISTANCIA QUE PERCORREMOS
+</h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Do rio Negro
+&aacute; entrada do Pantanal</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">13</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">legoas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">D'ahi
+&aacute;
+Piuva.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1</td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Da Piuva aos Dous
+Corregos.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1</td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Dos Dous Corregos
+ao
+Tab&ocirc;co.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">3</td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">Do
+Tab&ocirc;co &aacute; ponta do morro
+d'onde o caminho segue para
+o
+Aquidauana.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1</td>
+
+ <td><sup>3</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: left;">D'aquella ponta</td>
+
+ <td>&aacute;
+Piranhinha.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">1</td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ <td style="text-align: left;">&raquo;</td>
+
+ <td>a Jo&atilde;o
+Pacheco.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">3</td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="3" rowspan="1">De
+Jo&atilde;o Pacheco a Francisco
+Dias.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td><sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="text-align: right;">
+ <hr /></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td>Somma</td>
+
+ <td style="text-align: right;">26</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A volta pelo caminho do Pantanal n&atilde;o p&oacute;de exceder
+de 4 legoas.
+<br />
+
+<br />
+
+Morros, 20 de Mar&ccedil;o de 1866.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[179]</span>
+<h4>III<br />
+
+<br />
+
+Explora&ccedil;&atilde;o &aacute; margem direita do rio
+Aquidauana
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios
+e reconhecermos a margem direita do rio Aquidauana
+e seus diversos portos que der&atilde;o passagem aos
+paraguayos, na invas&atilde;o do anno passado, fez-nos emprehender
+nova viagem, effectuando a nossa partida para
+aquelles pontos, no dia 24 do mez proximo passado.
+Seguindo &aacute;s vezes a base da serra que viemos fraldejando,
+desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e profundas
+depress&otilde;es, visit&aacute;mos a 7 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>4</sub>
+legoas de nosso
+ponto
+de partida o acampamento dos laianas, onde apenas
+encontr&aacute;mos
+20 homens em estado de pegar em armas, e viveres
+em quantidade insufficiente, at&eacute; para sustento proprio.
+<br />
+
+<br />
+
+No aldeamento do Oauass&uacute;, a 3 legoas do outro, ha igual
+carencia de mantimentos e s&oacute; 9 indios para augmentarem o
+contingente, que d&aacute; a tribu dos quiniquin&aacute;os.
+Tomando d'ahi
+rumo S., procur&aacute;mos o Aquidauana, indo acampar junto
+&aacute; sua margem direita que, desde ent&atilde;o, seguimos
+at&eacute; a tapera
+do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.
+<br />
+
+<br />
+
+Ach&atilde;o-se junto &aacute; borda do rio, que
+marge&aacute;mos, differentes
+casas abandonadas por occasi&atilde;o da entrada dos
+paraguayos, as quaes tem cada qual a sua passagem para
+o outro lado e porto no rio.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim s&atilde;o os portos do Canuto, at&eacute; onde chegou
+uma
+partida inimiga vinda do Taquaruss&uacute;, de Jo&atilde;o
+Dias,
+<span class="pagenum">[180]</span>
+Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que v&atilde;o apontados
+no reconhecimento topographico. Examinando cada um
+d'elles com cuidado, para indicarmos a passagem mais
+conveniente para a for&ccedil;a, pareceu-nos o porto de D. Maria
+Domingas o que satisfaz a todas as condi&ccedil;&otilde;es
+precisas.
+&Eacute; o unico que d&aacute; v&aacute;o em toda a
+extens&atilde;o (30
+bra&ccedil;as) com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando
+assim n&atilde;o s&oacute; a passagem da infantaria, como
+tambem
+o servi&ccedil;o das barcas, que ser&aacute; feito com muito
+mais
+presteza, tocadas e puxadas &aacute; m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'isto a for&ccedil;a, occupando a margem esquerda,
+corta
+a communica&ccedil;&atilde;o entre o entrincheiramento do porto
+do
+Souza e o do Espenidio e impede qualquer movimento
+de concentra&ccedil;&atilde;o que os inimigos procurem fazer.
+Do largo
+da Piranhinha dever&atilde;o as for&ccedil;as dirigir-se para o
+porto
+de D. Maria Domingas, tendo &aacute; frente um bom pratico
+d'estas localidades, caso n&atilde;o seja tomada outra
+determina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda cont&atilde;o-se
+4 legoas de trilha completamente secca e, a n&atilde;o
+querer cortar campo, &eacute; d'elle que partem caminhos para
+Miranda, Forquilha, Nioac, etc.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td>
+Do porto de D. Maria Domingas ao
+Eponadig</td>
+
+ <td style="text-align: right;">4</td>
+
+ <td style="text-align: center;">legoas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Do Eponadig &aacute;
+Forquilha</td>
+
+ <td style="text-align: right;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Da Forquilha a
+Nioac</td>
+
+ <td style="text-align: right;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Do porto a
+Nioac</td>
+
+ <td style="text-align: right;">21</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza,
+<span class="pagenum">[181]</span>
+occupados pelos paraguayos, f&oacute;rm&atilde;o uma linha que
+fecha
+em circulo a villa de Miranda; raz&atilde;o por que foi ella
+abandonada e queimada, refor&ccedil;ando-se os pontos estabelecidos
+em derredor. Assim pois a retirada de Miranda
+n&atilde;o tem significa&ccedil;&atilde;o de
+evacua&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, parecendo,
+pelo contrario, dever indicar a ten&ccedil;&atilde;o de melhor
+defender
+o territorio, em que se ach&atilde;o e que
+fech&aacute;r&atilde;o por um
+cord&atilde;o de destacamentos desde o Apa at&eacute; o Souza.
+<br />
+
+<br />
+
+A este ultimo ponto n&atilde;o pod&eacute;mos chegar, pois que
+um desencontro na remessa de cartuxos, que tinhamos
+requisitado do Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque,
+obrigou-nos a n&atilde;o effectuar este reconhecimento arriscado
+e que s&oacute; p&oacute;de ser feito &aacute;
+m&atilde;o armada, pela vigilancia
+que, sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mand&aacute;mos
+comtudo uma partida de indios<sup><a href="#n122">[122]</a></sup>
+reconhecer, de
+dentro da mata, a estacada e, apezar de seus habitos
+e habilidade na espionagem, n&atilde;o
+pod&eacute;r&atilde;o passar al&eacute;m
+do piquete que, como j&aacute; particip&aacute;mos, existe
+entre o
+rio e o entrincheiramento. Este piquete comp&otilde;e-se de
+10 a 12 pra&ccedil;as, que se achav&atilde;o montadas em burros
+(o
+que indica a falta de cavallos) para cercarem as rezes que
+conserv&atilde;o, encostadas &aacute; margem do rio, para o
+consumo. Na
+frente ha uma bandeira vermelha, junto a um
+<em>mangrulho</em>,
+d'onde uma sentinella devassa grande extens&atilde;o de terreno.
+<br />
+
+<br />
+
+(Os paraguayos cham&atilde;o
+<em>mangrulho</em> a uma guarita elevada
+sobre 2 ou 4 esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a
+vista se estende muito ao longe).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4
+legoas de marcha ao porto do Jatob&aacute;, que dizem ser
+vadeavel, depois de um pequeno nado e que dista do
+Souza, pela margem esquerda, 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+legoas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em geral todas as trilhas ach&atilde;o-se apagadas pelo
+muito capim e falta de transito: devem ser preparadas
+quando a for&ccedil;a tiver de dirigir-se ao porto escolhido
+para a sua passagem.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%; vertical-align: top;">
+Distancia que
+percorremos</td>
+
+ <td style="vertical-align: top;">23
+legoas.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<h4>CONTINGENTE PARA A FOR&Ccedil;A OPERADORA
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>Guarda nacional.</em>&mdash;Segundo as
+informa&ccedil;&otilde;es, que nos
+prestou o Illm. Sr. tenente coronel Albuquerque, commandante
+do batalh&atilde;o n. 7 da guarda nacional, existem
+85 pra&ccedil;as mal armadas e sem fardamento e poucos
+officiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para
+diversos pontos longinquos d'esta provincia. Ach&atilde;o-se os
+guardas espalhados n'uma larga zona e s&atilde;o elles os que
+prepar&atilde;o a maior quantidade de mantimentos, o que
+deve ser attendido por occasi&atilde;o de sua reuni&atilde;o
+que desfalcar&aacute;,
+pela falta de bra&ccedil;os, o numero de alqueires de
+mantimentos com que poderia a for&ccedil;a contar.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o tambem qualificados guardas nacionaes indios
+quiniquin&aacute;os e terenas que melhores servi&ccedil;os
+prestari&atilde;o
+englobados nas suas respectivas tribus, como por exemplo
+o indio Jos&eacute; Pedro, capit&atilde;o dos terenas, que deve
+ser
+conservado &aacute; frente de sua gente pelo respeito que tem
+sabido infundir e obediencia que lhe prest&atilde;o os seus
+companheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro
+do anno passado, junto ao cap&atilde;o dos Boritys, tendo-se ahi
+reunido 66 pra&ccedil;as desarmadas, que for&atilde;o
+licenciadas
+para cuidarem em ro&ccedil;ados e planta&ccedil;&otilde;es.
+Existe algum
+cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos
+cartuxos deteriorados e inserviveis.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Indios.</em>&mdash;Informa&ccedil;&otilde;es
+frescas colhidas do Sr. Jo&atilde;o da
+Costa Lima, que chegou das ald&ecirc;as al&eacute;m Aquidauana,
+d&atilde;o-nos
+os meios de apresentar o total de indios que, al&eacute;m dos
+guaycur&uacute;s, cujo capit&atilde;o Nad&ocirc; consta
+vir-se apresentar com
+toda a sua tribu, poder&aacute; coadjuvar a for&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">Terenas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">216</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Quiniquin&aacute;os</td>
+
+ <td style="text-align: right;">39</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Laianas</td>
+
+ <td style="text-align: right;">20</td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">275</td>
+
+ <td>homens.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estes indios mostr&atilde;o a melhor
+disposi&ccedil;&atilde;o, offerecendo-se
+com espontaneidade e servindo com toda a
+dedica&ccedil;&atilde;o, como
+verific&aacute;mos nos nossos ultimos reconhecimentos.
+Ach&atilde;o-se
+muito atemorisados com a chegada da for&ccedil;a, pois que
+repetidas
+amea&ccedil;as dos fazendeiros, refugiados aqui e em
+outros lugares, por causa das rezes que elles s&atilde;o obrigados
+a matar para a sua alimenta&ccedil;&atilde;o, tem incutido o
+temor de
+que as for&ccedil;as vir&atilde;o escravisal-os e tratal-os com
+todo o rigor
+da guerra. Procur&aacute;mos tranquillisar esta pobre gente que,
+nos calamitosos mezes de invas&atilde;o,
+port&aacute;r&atilde;o-se com modera&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o natural na esphera e condi&ccedil;&atilde;o em
+que
+vivem.
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>cadiu&eacute;os</em>, inimigos
+figadaes dos paraguayos, n&atilde;o merecem
+<span class="pagenum">[184]</span>
+confian&ccedil;a alguma e t&ecirc;em, em varias
+occasi&otilde;es, causado
+tantos damnos aos brasileiros como aos inimigos.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>RECURSOS</h4>
+
+<br />
+
+Insistindo ainda sobre a importantissima quest&atilde;o de
+fornecimento
+e acquisi&ccedil;&atilde;o de gado, que se tem tornado muito
+difficultoso, depois da peste dos cavallos, lev&aacute;mos ao
+conhecimento
+do commando das for&ccedil;as a falta absoluta de cavalhada
+desde o Coxim at&eacute; os Morros, onde os fugitivos de
+Miranda se ach&atilde;o desprovidos de carne para sustento proprio,
+pela destrui&ccedil;&atilde;o completa de todos os animaes,
+desde
+Dezembro do anno passado. O tenente coronel Albuquerque
+indica os cidad&atilde;os, de que fall&aacute;mos na nossa
+ultima participa&ccedil;&atilde;o,
+prestando-se-lhes os meios para munirem-se de cavallos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos,
+que se podem obter dos habitantes dos Morros, devem ser
+addicionados mais 45 de arroz, e de cangica 22. Ponderamos
+comtudo de novo que o chamamento dos guardas nacionaes
+ao servi&ccedil;o das armas, deve diminuir a quantidade de viveres
+indicada n'aquelle mappa, por n&atilde;o se achar a colheita
+concluida, e pertencerem quasi todos os seus possuidores &aacute;
+guarda nacional. A requisi&ccedil;&atilde;o que, segundo as
+nossas instruc&ccedil;&otilde;es,
+fizemos de homens para a construc&ccedil;&atilde;o de
+can&ocirc;as
+no rio Negro, impossibilita varios cidad&atilde;os de
+promptificarem
+os mantimentos que tinh&atilde;o promettido.
+<br />
+
+<br />
+
+Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra
+que poderi&atilde;o mandar viveres para as for&ccedil;as no
+districto de
+Miranda, apont&aacute;r&atilde;o-nos a villa de Santa Anna do
+Paranahyba,
+<span class="pagenum">[185]</span>
+que dista de Camapuam 60 legoas, ficando este ultimo
+lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da villa
+de Miranda; por agua fall&aacute;r&atilde;o-nos na
+communica&ccedil;&atilde;o muito
+frequente antes da invas&atilde;o, entre Porto Feliz, em S. Paulo,
+e o acampamento de Nioac, descendo can&ocirc;as carregadas os
+rios Tiet&eacute; e Paran&aacute;, e subindo o Ivinheima e
+Brilhante at&eacute;
+Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegav&atilde;o carros a
+Nioac.
+Esta viagem, que fazi&atilde;o em 4 mezes, ida e volta,
+p&oacute;de fornecer
+abundante provimento &aacute;s for&ccedil;as no caso de sua
+demora
+no Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese
+possivel e dever cuidar-se quanto antes na reuni&atilde;o de
+viveres
+que, de mais &aacute; mais, h&atilde;o de tornar-se escassos em
+territorio devastado e sem recursos.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANA
+</h4>
+
+<br />
+
+Guiando-nos pelas nossas participa&ccedil;&otilde;es
+anteriores, que
+aconselh&atilde;o a marcha das for&ccedil;as do Coxim nos
+primeiros dias
+de Maio, requisit&aacute;mos a 6 do corrente 12 guardas nacionaes
+e indios para irem construir barcos para a passagem da
+expedi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel
+commandante, est&atilde;o-se reunindo as pra&ccedil;as pedidas,
+faltando
+completamente toda a especie de ferramenta. Estes homens,
+como melhores trabalhadores, s&atilde;o os que prepar&atilde;o
+a maior
+quantidade de mantimentos para a for&ccedil;a, n&atilde;o se
+achando
+ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo
+n&atilde;o tem meio algum de conduzir viveres que cheguem
+para alimenta&ccedil;&atilde;o, durante o mez necessario de
+parada
+n'um local totalmente falto de recursos como &eacute; o rio Negro.
+<span class="pagenum">[186]</span>
+Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes
+guardas, requisitando mais 12, &aacute; vista das
+instruc&ccedil;&otilde;es que
+nos mand&atilde;o preparar meios de passagem nos differentes
+rios, para o trabalho que temos de fazer nas can&ocirc;as que
+servir&atilde;o no Aquidauana.
+<br />
+
+<br />
+
+Para este ultimo rio dever&atilde;o subir as can&ocirc;as do
+tenente
+coronel Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro,
+ficando n&oacute;s aqui para mandarmos preparar, com uma serra
+e um machado, taboas e barrotes que formar&atilde;o as
+barcas na occasi&atilde;o da approxima&ccedil;&atilde;o da
+for&ccedil;a, pois que
+qualquer trabalho precipitado p&oacute;de ser inutilisado pelo
+inimigo, o qual parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente
+as margens do rio.
+<br />
+
+<br />
+
+For&ccedil;a maior nos impede de acompanhar os homens que
+v&atilde;o ao rio Negro: levar&atilde;o para dirigil-os um
+official carpinteiro
+habilitado na factura das can&ocirc;as. Para guia das
+for&ccedil;as at&eacute; o Aquidauana recommendamos denovo o
+pratico
+Antonio Maria Tonh&aacute;, homem utilissimo por conhecer
+perfeitamente
+os caminhos e campos por onde se poss&atilde;o abreviar
+as marchas e saber dos lugares onde exist&atilde;o boas aguadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Para Miranda e Nioac h&aacute; n'esta localidade muitas pessoas
+proprias para servirem de guia.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>DISTANCIAS AL&Eacute;M DO AQUIDAUANA
+</h4>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 80%; margin-left: 10%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 50%;">
+Do porto do Souza a
+Miranda</td>
+
+ <td style="text-align: right;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">legoas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>De Miranda ao
+Eponadig</td>
+
+ <td style="text-align: right;">9</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Do Eponadig &aacute;
+Forquilha</td>
+
+ <td style="text-align: right;">7</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Da Forquilha a
+Nioac</td>
+
+ <td style="text-align: right;">10</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td>
+ <hr /></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Do porto do Souza a
+Nioac</td>
+
+ <td style="text-align: right;">36</td>
+
+ <td style="text-align: center;">&raquo;</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[187]</span>
+<h4>FOR&Ccedil;A INIMIGA
+</h4>
+
+<br />
+
+Duas extensas cartas, cuja integra remettemos, que
+receb&ecirc;r&atilde;o os moradores d'este lugar do
+cidad&atilde;o Jo&atilde;o Barbosa
+Bronzique, prisioneiro dos paraguayos em sua fazenda, desde
+o anno passado, der&atilde;o-nos informa&ccedil;&otilde;es
+do estado a que se
+ach&atilde;o reduzidos os inimigos e da for&ccedil;a espalhada
+em diversos
+pontos: tem elles nas colonias de Dourados e Miranda 100;
+no Brilhante 100; Sete Voltas 10; Vaccaria 100; Agua
+fria 30; Nioac 500; Taquaruss&uacute; 200; Porto do Souza 200.
+Ao todo 1,240 homens, a que se devem acrescentar os 50 de
+Miranda que vier&atilde;o para o Espenidio e Souza e outros que
+existem junto do Apa e morro do Canastr&atilde;o, onde possuem
+boa cavalhada. Desde o Porto do Souza at&eacute; o de Maria
+Domingas, os paraguayos t&ecirc;em ultimamente lan&ccedil;ado
+fogo
+a todos os campos e desbastado as margens, parecendo ter
+assim conhecimento dos proximos movimentos de nossa
+for&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Morros, 16 de Abril de 1866.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup>
+Taco&aacute;ra hy, (tupi).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup>
+N&atilde;o
+&eacute; o
+<em>marmeleiro</em> de que trata
+Saint-Hilaire, sob o nome de
+Maprounea brasiliensis (euphorbiacea).
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup>
+Temos
+o desenho d'ella no album de viagem. Folhas
+oppostas;
+corolla monopetala com um lab&eacute;olo; antheras didynamas;
+ovario sobre disco hypoginio. Fl&ocirc;r com 2 <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>2</sub>
+pollegadas de
+comprido;
+Stygma bipartido.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup>
+Folhagem
+muito delicada; folhas tomentosas e ovario livre;
+sementes ovoides.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup>
+Em
+f&oacute;rma de colher (cochlear).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup>
+Calophyllum
+brasiliense, (Saint-Hilaire). Oanandim, lantim
+ou
+olandy; excellente p&aacute;o para can&ocirc;as.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup>
+As folhas d'esta planta s&atilde;o muito
+desenvolvidas. No corrego
+da Pontinha (a 8 legoas de Camapuan) vimos algumas com um
+palmo de largura e palmo e meio de comprido, lustrosas e completamente
+glabras.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup>
+<em>Acacia
+maleolens</em> de
+Freire Allem&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup>
+&Eacute;
+conhecido nos sert&otilde;es do norte por
+<em>cajueiro bravo</em> ou melhor
+<em>&ccedil;aimbahiba</em>
+(<em>&ccedil;aimb&eacute;</em>
+aspera, <em>yba</em> arvore). Curatella
+&ccedil;aimbahiba.
+(Saint-Hilaire).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup>
+Bority
+ou mority.&mdash;Do tupi,
+<em>mooro</em>, nutrir,
+<em>ty</em>, succo.
+(<em>Mauritia
+vinifera</em>. Mart.
+<em>flexuosa</em>. Lin.)<br />
+
+<br />
+
+<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup>
+A
+6 legoas do rio Piquiry;
+<em>pic&aacute;</em>, pomba; (r)
+<em>hy</em>, agua (L. T.)<br />
+
+<br />
+
+<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup>
+Esta palavra derivada do tupi
+(<em>caa-poam</em>, ilha) &eacute; com
+raz&atilde;o
+geralmente empregada em todo o Brasil.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup>
+O sertanejo Perdig&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup>
+Fourcroya gigantea.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup>
+<em>Gua</em>, baga;
+<em>yrob</em>, acre (lingua tupi). Psidium
+<em>Vell</em>.&mdash;Eugenia
+<em>Mart</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup>
+Familia entre as rosaceas e magnoliaceas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup>
+Autor do poema <em>La
+Gastronomie</em>, publicado em 1800.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup>
+<em>Amaca</em>, rede;
+<em>yva</em>, arvore (lingua tupi).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n19" id="n19"></a><sup>[19]</sup>
+Ara Ararauna (especie particular aos sert&otilde;es de
+Goyaz e
+Mato Grosso).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n20" id="n20"></a><sup>[20]</sup>
+Ara Aracanga.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n21" id="n21"></a><sup>[21]</sup>
+Ara Hyacinthinus (Descourtils).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n22" id="n22"></a><sup>[22]</sup>
+<em>Crypturus noctivagus.</em>
+Come&ccedil;a a piar apenas descamba a tarde.
+Martius chama-a <em>tinamus</em> nocturna. Em
+algumas partes do imperio
+&eacute; conhecida por
+<em>sabel&eacute;</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n23" id="n23"></a><sup>[23]</sup>
+Os banhos das folhas d'esta plantinha s&atilde;o
+efficassissimos nas
+orchites. (Davilla elliptica, Saint-Hilaire).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n24" id="n24"></a><sup>[24]</sup>
+Sapindus (Saint-Hilaire).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n25" id="n25"></a><sup>[25]</sup>
+Lugares empantanados, pascigos do gado.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n26" id="n26"></a><sup>[26]</sup>
+Em lingua tupi quer dizer <em>p&aacute;u
+de caj&uacute;</em> (mara-caj&uacute;). Segundo
+alguns <em>cascavel ao p&eacute;</em>
+(marac&aacute; jub) da serra. (Glossario).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n27" id="n27"></a><sup>[27]</sup>
+Toda audacia &eacute; permittida em hypotheses.
+Impression&aacute;r&atilde;o-nos,
+de passagem, sem estudo, aquellas linhas que correm parallelas
+por muitas legoas. Ser&atilde;o na realidade
+indica&ccedil;&atilde;o do que acima
+toc&aacute;mos, ou simplesmente effeitos de
+infiltra&ccedil;&otilde;es vagarosas em
+estratifica&ccedil;&otilde;es, eros&otilde;es, etc.?<br />
+
+<br />
+
+<a name="n28" id="n28"></a><sup>[28]</sup>
+Amambahy ou
+Ambaibahy&mdash;<em>Hy</em>,
+agua.&mdash;<em>Ambaiba</em> ou
+<em>embauba</em>
+(urticacea do genero Cecropia). Castelnau d&aacute; &aacute;
+por&ccedil;&atilde;o de serra,
+que conhecemos, o nome muito apropriado de serra da Chapada:
+entretanto nunca o ouvimos nas localidades, onde os moradores
+usav&atilde;o s&oacute; da denomina&ccedil;&atilde;o de
+Maracaj&uacute;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n29" id="n29"></a><sup>[29]</sup>
+Na provincia de Minas chama-se
+<em>paratudo</em> a uma
+amaranthacea,&mdash;gomphrena
+officinalis. A causa do paratudo (bignoniacea)
+tem grandes propriedades febrifugas e sudorificas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n30" id="n30"></a><sup>[30]</sup>
+Os indios Guan&aacute;s o cham&atilde;o
+<em>namucul&iacute;</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n31" id="n31"></a><sup>[31]</sup>
+Esta arvore,
+<em>hymen&aelig;a</em>, abundantissima no
+rio Negro, ia-se
+tornando cada vez mais rara. Os seus fructos, quando maduros,
+s&atilde;o supportaveis e muito nutrientes: os nossos soldados, no
+acampamento
+do rio Negro, sustentav&atilde;o-se quasi exclusivamente d'elles.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n32" id="n32"></a><sup>[32]</sup>
+Contrac&ccedil;&atilde;o de ip&eacute;, uva
+(arvore).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n33" id="n33"></a><sup>[33]</sup>
+O que, no interior do paiz, se cham&atilde;o tijucaes,
+palavra brasileira
+tirada da lingua tupi, <em>tyjuca</em>
+(lama). Usa-se tambem muito
+do verbo <em>entijucar</em> por enlamear.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n34" id="n34"></a><sup>[34]</sup>
+<em>Mureci penina</em> ou
+pintado. Em Mato Grosso assim cham&atilde;o o
+mureci do pantano. Ser&aacute; com
+certeza&mdash;chrysophylla&mdash;a
+especie?
+Em todo caso, o genero &eacute;
+<em>byrsonima</em>, bem caracterisado. Com
+ser malpighiacea,
+v&ecirc;m-se os pares de glandulas bem apparentes; &aacute;s
+vezes
+desenvolvidas em extremo, em cada sepala. Do fructo do
+<em>mureci</em>,
+diz com justeza Pison:&mdash;Fructus maturi gratissimi quidem acore
+pulatum vellicant, sed stuporem tandem dentibus inferunt simulque
+astringendo intens&egrave; refrigerant. (De facultatis simplicium
+Lib. IV).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n35" id="n35"></a><sup>[35]</sup>
+Em Mato-Grosso quasi todos pronunci&atilde;o esta
+palavra grave.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n36" id="n36"></a><sup>[36]</sup>
+Ciconia Maguari (G. Temm).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n37" id="n37"></a><sup>[37]</sup>
+Vimos nas <em>mimosaceas</em>
+dos barreiros myriades de
+<em>vira-bostas</em>,
+(Icterus violaceus, Desc.);
+<em>encontros</em> (Xanthornus tristis,
+Desc.) e
+<em>an&uacute;s</em> (Crotophaga,
+Marcgravio).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n38" id="n38"></a><sup>[38]</sup>
+Cateitus (dicotyles torquatus) e porcos do mato (dicotyles
+labiatus).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n39" id="n39"></a><sup>[39]</sup>
+Na bahia Negra, abaixo do porto de Coimbra. A
+propor&ccedil;&atilde;o de
+sal para a terra era, n'um alqueire de mistura, tres quartas partes.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n40" id="n40"></a><sup>[40]</sup>
+As salinas da margem direita do rio Paraguay
+s&atilde;o muito mais
+ricas em sal, do que as da margem esquerda. Antes da
+invas&atilde;o,
+havia prohibi&ccedil;&atilde;o de tirar-se sal da bahia Negra,
+por estar o barreiro
+em territorio contestado entre o Brasil e a republica do Paraguay.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n41" id="n41"></a><sup>[41]</sup>
+Na margem esquerda do rio Paraguay, defronte de
+Corumb&aacute;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n42" id="n42"></a><sup>[42]</sup>
+&Eacute; palavra geralmente usada nas fazendas de
+gado.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n43" id="n43"></a><sup>[43]</sup>
+Devida a uma intoxica&ccedil;&atilde;o paludosa.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n44" id="n44"></a><sup>[44]</sup>
+Aspidosperma.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n45" id="n45"></a><sup>[45]</sup>
+Os nossos amigos os Srs. tenente Jo&atilde;o Faustino
+do Prado e Jo&atilde;o
+Mamede Cordeiro de Faria.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n46" id="n46"></a><sup>[46]</sup>
+<em>Caapi-i&aacute;ra</em>,
+dono do capim (Gloss.). Com mais raz&atilde;o, diz
+Gon&ccedil;alves
+Dias <em>capi-uara</em>, derivando
+u&aacute;ra de go&aacute;ra (habitante que mora, em
+determinada parte, por vontade propria). Das capivaras, diz Marcgrav
+com exagera&ccedil;&atilde;o notavel:&mdash;Noctu ingentem
+clamorem
+excitant et
+horribile fere, ut Asini solent.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n47" id="n47"></a><sup>[47]</sup>
+Vanellus cayennensis (Vieill.).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n48" id="n48"></a><sup>[48]</sup>
+Em Agosto, deviamos de apreciar a magestosa florescencia
+d'aquellas
+bignoniaceas; <em>ip&eacute;s</em>,
+Tecoma speciosa Vall., <em>para-tudos e
+carobinhas</em>
+(jacarand&aacute; procera) ostentav&atilde;o ent&atilde;o
+massi&ccedil;os amarellos e
+azues da maior belleza.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n49" id="n49"></a><sup>[49]</sup>
+Obteve em fins de 1867 esta
+distinc&ccedil;&atilde;o e em Janeiro do anno seguinte
+falleceu na cidade de S. Paulo, onde se achava, depois de uma
+viagem ao Rio de Janeiro, com alguns de sua tribu.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n50" id="n50"></a><sup>[50]</sup>
+<em>Pery</em>, junco (tupi).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n51" id="n51"></a><sup>[51]</sup>
+Desde Maio de 1865 n&atilde;o fazi&atilde;o
+sen&atilde;o raras incurs&otilde;es, na margem
+direita do rio Aquidauana.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n52" id="n52"></a><sup>[52]</sup>
+Denomina&ccedil;&atilde;o indigena do rio Miranda
+ou Embotety e Emboteti&uacute;,
+das palavras, <em>enimbo</em>
+la&ccedil;o, <em>tui</em>
+periquito&mdash;la&ccedil;o para piriquito.
+Tambem tem nome de Aranhahy, Guaxihy e alguns <a href="#e8">escriptores
+portuguezes</a> lhe d&atilde;o o de Mondego, ainda que
+pare&ccedil;a este s&oacute; convir,
+depois da confluencia com o Aquidauana.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n53" id="n53"></a><sup>[53]</sup>
+Uma carta de Jo&atilde;o Barbosa Bronzique,
+prisioneiro dos paraguayos,
+em sua fazenda do Bonito, deu noticia d'essa
+prohibi&ccedil;&atilde;o
+devida, ao que elle suppunha, aos ataques repetidos dos indios,
+que se occultav&atilde;o nas matas do lado direito do rio.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n54" id="n54"></a><sup>[54]</sup>
+Ilex congonha, familia das Illicineas
+(Aquifoliaceas de
+de
+Candolle).
+Das congonhas fazem os habitantes uma agradabilissima
+infus&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n55" id="n55"></a><sup>[55]</sup>
+<em>Cama</em> mama,
+<em>apuam</em> redonda (tupi).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n56" id="n56"></a><sup>[56]</sup>
+Os oauass&uacute;s, chamados pelos guaycurus
+<em>chatell&ocirc;d</em>, s&atilde;o
+as magestosas
+palmeiras de que j&aacute; temos fallado: os grupos que ellas
+f&oacute;rm&atilde;o, s&atilde;o imponentes. Os troncos
+lisos, ligeiramente engorgitados
+na base, as c&oacute;pas erectas e compridas folhas, com um
+prateado
+fugaz, as distinguem de muito longe. Os c&ocirc;cos de bom tamanho
+d&atilde;o amendoas com o valor approximado &aacute;s da Bahia
+e
+constituem durante certas &eacute;pocas a
+alimenta&ccedil;&atilde;o quasi exclusiva
+dos indios. Pelo systema phyllotaxico, preconisado pelo professor
+Agassiz, a frac&ccedil;&atilde;o <sup>1</sup><big>&frasl;</big><sub>3</sub>
+representa a
+disposi&ccedil;&atilde;o das folhas, occupando
+os intervallos, as espadices da inflorescencia.
+Assemelh&atilde;o-se
+os oauass&uacute;s &aacute;s magnificas
+<em>oreodoxas</em>, t&atilde;o em moda no
+Rio de Janeiro:
+Martius deu-lhes o nome de <em>attalea
+spectabilis</em>. Em lingua
+tupi signific&atilde;o folha grande:
+<em>oau</em> ou
+<em>oba</em> folha,
+<em>ass&uacute;</em> grande.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n57" id="n57"></a><sup>[57]</sup>
+O laiana pertence &aacute; numerosa familia
+chan&eacute;: a sua linguagem
+&eacute; a mesma que a dos quiniquin&aacute;os, terenas e
+guan&aacute;s
+com algumas altera&ccedil;&otilde;es: os seus costumes
+identicos. O seu typo
+&eacute; caracteristico; a physionomia muito menos expressiva que a
+do terena e menos delicada que a dos quiniquin&aacute;os; elles
+t&ecirc;m o
+nariz afilado, &aacute;s vezes pontudo, os olhos algum tanto
+divergentes,
+os labios finos e apertados.
+<br />
+
+<br />
+
+As suas planta&ccedil;&otilde;es consisti&atilde;o em
+arroz, milho, feij&atilde;o; por&eacute;m as
+chuvas falhadas impedi&atilde;o que ellas tivessem aspecto
+satisfactorio;
+por esta raz&atilde;o, n&atilde;o pod&eacute;r&atilde;o
+os seus possuidores prometter cousa
+alguma para as for&ccedil;as.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n58" id="n58"></a><sup>[58]</sup>
+O corrego da <em>Pontinha</em>,
+perto de <em>Camapuam</em>, &eacute; uma
+das cabeceiras
+mais afastadas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n59" id="n59"></a><sup>[59]</sup>
+<em>Uac&ocirc;go</em>,
+corrego dos Couros (guaycur&uacute;).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n60" id="n60"></a><sup>[60]</sup>
+As <em>aracuans</em>, Penelope
+aracuan (Spix.), s&atilde;o aves de plumagem
+escura, pernas curtas, bico preto e forte. &Eacute; ca&ccedil;a
+procurada pela
+alvura e sabor da carne. Este passaro offerece uma particularidade
+singular. Quando um grita, &eacute; logo acompanhado por todos os
+companheiros,
+de modo que, por qualquer ruido, levanta-se grande alarido
+em ambas as margens, o qual vai-se propagando e crescendo. &Eacute;
+muito applicavel o&mdash;<em>Vires acquirit
+eundo</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n61" id="n61"></a><sup>[61]</sup>
+Esta ave conhecida tambem por
+<em>inhuma-p&oacute;ca</em> canta com
+regularidade,
+de modo que, dizem, p&oacute;de marcar as horas e tambem
+annunciar mudan&ccedil;as de tempo. Tem como a
+<em>palamedea cornuta</em> excrescencia
+na cabe&ccedil;a. Marcgravio diz do canto: Terribilem clamorem
+edit&mdash;<em>vihu vihu</em>&mdash;vociferando.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n62" id="n62"></a><sup>[62]</sup>
+O <em>tuyuy&uacute;</em>
+(micteria americana) &eacute; a maior das aves ribeirinhas:
+todo branco com uma colleira vermelha, tem um bico longo e tubulado.
+Nutre-se de peixe e anda no lodo das bordas de rios. A sua
+altura, f&oacute;ra o pesco&ccedil;o, &eacute; de 1, m. 2.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n63" id="n63"></a><sup>[63]</sup>
+O <em>tabuyay&aacute;</em>
+(ciconia maguari) &eacute; maior que a gar&ccedil;a; tem azas
+pretas malhadas de branco: o bico e pernas compridos. Em guarany
+chama-se baguary (Martius).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n64" id="n64"></a><sup>[64]</sup>
+Na no
+Na nossa passagem do Aquidauana, um soldado foi arrebatado
+por um ja&ugrave;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n65" id="n65"></a><sup>[65]</sup>
+Pison diz com raz&atilde;o da carne: &laquo;Edulis
+non solum caro ejus
+albissima, sed quod friabilis et sicca optimi saporis&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n66" id="n66"></a><sup>[66]</sup>
+Familia dos Aproterodontes&mdash;Gen. boa&mdash;Esp. murina
+(Principe
+de Neuwied e Sellow): boa scytale (Lin.) Estas serpentes
+apparecem raras vezes nos affluentes do rio Paraguay, ao passo
+que abund&atilde;o nos do rio Paran&aacute;. O grito d'ellas,
+&ecirc;, dizem, estridente.
+Nunca ouvimos esse ronco de que tanto se falla no sert&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n67" id="n67"></a><sup>[67]</sup>
+Entre as absurdas historias, tocantes a essas serpentes,
+sobresahe
+a referida por Charlevoix, na sua historia do Paraguay, o
+qual diz que os sucurys se atir&atilde;o sobre as mulheres com
+outro
+fim, que n&atilde;o o de devoral-as e cita o testemunho do padre
+Montoya
+que confess&aacute;ra, em certa occasi&atilde;o, uma india
+<em>in extremis</em>: &laquo;laquelle
+&eacute;tant occup&eacute;e &agrave; laver du linge sur le
+bord d'une rivi&egrave;re,
+avait &eacute;t&eacute; attaqu&eacute;e par un de ces
+animaux, qui lui avait fait,
+dit elle, violence: le Missionaire la trouva &eacute;tendue par
+terre au
+m&ecirc;me endroit, etc.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<a name="n68" id="n68"></a><sup>[68]</sup>
+Relatorio geral da commiss&atilde;o de engenheiros
+(pag. 22 e 31).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n69" id="n69"></a><sup>[69]</sup>
+Spix chama-o
+<em>pac&uacute;-argenteus</em>,
+n&atilde;o sabemos se com raz&atilde;o; o pac&uacute;
+pouca semelhan&ccedil;a tem com o corimbat&aacute;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n70" id="n70"></a><sup>[70]</sup>
+Contra ella tambem bate o rio Aquidauana, formando uma
+curva
+apertadissima. Al&eacute;m, no outro lado, eleva-se o
+<em>Morro Azul</em>, seguindo
+de novo a serra at&eacute; Nioac e para os lados do Apa; baixa,
+por&eacute;m, e
+com disposi&ccedil;&atilde;o de morretes.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n71" id="n71"></a><sup>[71]</sup>
+Citaremos uma lindissima
+<em>apocynea</em> (nerium?), varias
+<em>salvia</em>, a
+<em>ard&iacute;sia</em>
+(<em>Ardisacea</em>), a curiosa
+<em>aristolochea galeata</em>, que se enrosca
+nos
+mais flexiveis encostos; a fragrante
+<em>saudade</em> do campo
+(scabiosa-dipsacea),
+hyptis (labiadas), <em>malpighiaceas</em>
+rasteiras com cambiantes
+samaridios, a vistosa <em>gomphrena
+officinalis</em> (o para-tudo de Minas)
+<em>malvaiscos</em>, etc.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n72" id="n72"></a><sup>[72]</sup>
+Er&atilde;o os restos da abundantissima colheita
+paraguaya; esses
+campos, poucos mezes antes, havi&atilde;o contido muitos milhares
+de rezes. O districto de Miranda possuia 150,000
+cabe&ccedil;as de gado: d'essas,
+segundo o testemunho de vista de Jo&atilde;o Barbosa Bronzique, o
+infeliz
+prisioneiro de que j&aacute; temos fallado, 60,000
+pass&aacute;r&atilde;o para a republica
+do Paraguay em varias pontas e ainda no tempo em que viajavamos
+pelo Aquidauana continuav&atilde;o amiudadas as remessas. A carne
+do
+gado d'essas vargens &egrave;
+saborosissima.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n73" id="n73"></a><sup>[73]</sup>
+Palavra tupi, usada geralmente: significa
+<em>casa abandonada</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n74" id="n74"></a><sup>[74]</sup>
+Momordica operculata (Velloso), charantia.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n75" id="n75"></a><sup>[75]</sup>
+Quasi todos os habitantes de Miranda
+fug&iacute;r&atilde;o embarcados,
+descendo o rio Miranda, entrando no Aquidauana e subindo por
+este at&eacute; perto do porto do Souza. Ahi se
+refugi&aacute;r&atilde;o nas fragosidades
+da serra de Maracaj&uacute; (Morros); alguns
+tom&aacute;r&atilde;o caminho
+de Sant' Anna do Paranahyba. A villa ficou deserta a 4 de Janeiro
+de 1865: a 12 entr&aacute;r&atilde;o os paraguayos que n'ella
+estiver&atilde;o at&eacute; fins
+de Fevereiro d'aquelle anno.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n76" id="n76"></a><sup>[76]</sup>
+Das outras tribus que refere Castelnau, n&atilde;o
+ouvimos fallar.
+Talvez estej&atilde;o extinctas ou confundidas com estas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n77" id="n77"></a><sup>[77]</sup>
+Tanga, avental.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n78" id="n78"></a><sup>[78]</sup>
+Muito apreci&atilde;o o
+<em>tarum&aacute;</em> (Vitex
+montevidensis) que em Dezembro
+de 1866 constituia a principal alimenta&ccedil;&atilde;o da
+gente quiniquin&aacute;o
+dos Morros.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n79" id="n79"></a><sup>[79]</sup>
+Bixa orellana.&mdash;Genipa americana.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n80" id="n80"></a><sup>[80]</sup>
+L&eacute;ry faz esta justi&ccedil;a &aacute;s
+indias em geral, quando diz: &laquo;qu'&aacute; toutes
+les fontaines et rivi&egrave;res claires, qu'elles rencontrent,
+s'accroupissans
+sur le bord ou se mettans dedans, elles jettent, avec les deux
+mains de l'eau sur leur teste et se lavent et plongent ainsi tout leur
+corps comme cannes, tel jour sera plus de douze fois&raquo;
+(Histoire de
+l'Am&eacute;rique, pag. 128).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n81" id="n81"></a><sup>[81]</sup>
+Quasi todos os nomes de lugares e rios do districto de
+Miranda
+s&atilde;o de origem
+guaycur&uacute;.&mdash;<em>Euagaxigo</em>,
+significa bando de
+capivaras; <em>Eponadigo</em>, bando de
+trairas; <em>Laui&aacute;d</em>, campo
+bello;
+<em>Nioac</em>, clavicula quebrada.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n82" id="n82"></a><sup>[82]</sup>
+Esses lindissimos lugares for&atilde;o explorados a
+vez primeira pelo
+intrepido sertanejo Jos&eacute; Francisco Lopes, o qual encontrou,
+n'uma
+de suas viagens, uma numerosa partida de cadiu&eacute;os, que o
+acompanhou
+at&eacute; terras do Paraguay.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n83" id="n83"></a><sup>[83]</sup>
+Palavra guarany que significa Nosso-Senhor. Os terenas
+us&atilde;o
+d'esse vocabulo. Os outros guan&aacute;s dizem
+<em>Ech&#257;i-uanuk&eacute;</em> (que est&aacute;
+no c&eacute;o).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n84" id="n84"></a><sup>[84]</sup>
+Herpethoteres. Azara chama
+<em>Macagu&aacute;</em>: alguns
+<em>acauan</em> ou
+<em>oacaoam</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n85" id="n85"></a><sup>[85]</sup>
+O mesmo fazi&atilde;o os medicos entre os guaranys
+(Padre Lo&ccedil;ano).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n86" id="n86"></a><sup>[86]</sup>
+N&atilde;o sabemos se deve merecer f&eacute; o que
+diz Castelnau sobre assassinatos
+dos padres.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n87" id="n87"></a><sup>[87]</sup>
+O mesmo dava-se entre os padres dos guaranys (Padre
+Montoya).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n88" id="n88"></a><sup>[88]</sup>
+L&eacute;ry diz dos
+tupinamb&aacute;s:&mdash;&laquo;Ils lamentent de telle
+fa&ccedil;on, que si
+nous nous trouvions en quelque village o&ugrave; il eust un mort,
+ou il ne
+fallait pas faire &eacute;stat d'y coucher, ou ne se pas attendre
+de dormir la
+nuit. Mais c'&eacute;stait merveille d'ouyr les femmes, lesquelles
+bra&iuml;llent
+si fort et si haut que vous diriez, que ce sont hurlemens de chiens et
+de loups&raquo; (Histoire de l'Am&eacute;rique, pag. 392).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n89" id="n89"></a><sup>[89]</sup>
+L&eacute;ry refere: &laquo;Si elles se
+ressouviennent de leurs feus parents,
+ce sera, faisant les regrets accoutumez, &aacute; hurler de telle
+fa&ccedil;on,
+qu'elles se font ouyr d'une demi-lieue (H. de l'Am&eacute;rique,
+pag. 400).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n90" id="n90"></a><sup>[90]</sup>
+A que cham&atilde;o na provincia
+<em>lavrados</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n91" id="n91"></a><sup>[91]</sup>
+Principalmente o
+<em>timb&oacute;</em> (paullinia pinnata)
+que tem violentas
+propriedades toxicas.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n92" id="n92"></a><sup>[92]</sup>
+Batem-se a punho secco, ainda mais geitosamente que os
+albi&otilde;es
+(M. Ayres de Casal C. B. pag. 234).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n93" id="n93"></a><sup>[93]</sup>
+Todo o homem branco, pardo ou preto, &eacute;
+portuguez; os indios
+nunca us&atilde;o da denomina&ccedil;&atilde;o de
+brasileiros: os paraguayos s&atilde;o
+ainda para elles castelhanos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n94" id="n94"></a><sup>[94]</sup>
+Temos por vezes usado d'essa
+denomina&ccedil;&atilde;o de uma das tribus
+da na&ccedil;&atilde;o chan&eacute;, como que abrangendo a
+todas as outras, porque no districto de Miranda conhecem-se todos os
+indios
+chan&eacute;s por
+guan&aacute;s. Entretanto perguntando eu, certo dia, a um terena se
+elle era guan&aacute;: <em>Ac&oacute;
+chooron&oacute;, chan&eacute; cuan&eacute;
+t&eacute;reno en&oacute;mone</em>;
+guan&aacute;
+n&atilde;o, chan&eacute; ou terena na verdade (litt.).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n95" id="n95"></a><sup>[95]</sup>
+Esta tribu habitou primitivamente quasi toda junta
+&aacute; serra
+chamada do Chan&eacute;, no lado direito do rio Paraguay, acima da
+do
+Albuquerque, dando a cordilheirasinha o nome da
+na&ccedil;&atilde;o a que
+pertence? Ou l&aacute; esteve toda a na&ccedil;&atilde;o?
+Nas minhas notas encontro
+ainda uma confirma&ccedil;&atilde;o de que a
+denomina&ccedil;&atilde;o de chan&eacute;, &eacute;
+valiosissima.
+Disse-me um quiniquin&aacute;o:
+<em>Humn&#257;i quechat&iacute; cequexiv&oacute;
+nhumz&oacute;
+chan&eacute;?</em> O senhor quer aprender a minha
+lingua chan&eacute;? e acrescentou:
+<em>Encre nhumz&oacute; ac&oacute;
+ocohocor&iacute; iaquexov&oacute;i
+chan&eacute;</em>. Pois minha
+lingua n&atilde;o custa aprender o chan&eacute;
+(litteralmente). Ao illustrado
+viajante Henrique de Beaurepaire Rohan n&atilde;o escapou esta
+particularidade
+importante.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n96" id="n96"></a><sup>[96]</sup>
+O ultimo accento &eacute; o tonico: os outros
+modific&atilde;o o som das vogaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n97" id="n97"></a><sup>[97]</sup>
+Os dois <em>l</em>
+so&atilde;o claramente.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n98" id="n98"></a><sup>[98]</sup>
+Os laianas dizem
+<em>morev&iacute;</em>, como em guarany.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n99" id="n99"></a><sup>[99]</sup>
+Na lingua tupi
+<em>paragu&aacute;</em>, papagaio; d'onde
+<em>paragu&aacute; hy</em>, rio dos
+papagaios.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n100" id="n100"></a><sup>[100]</sup>
+Castelnau no seu inexactissimo vocabulario
+<em>guan&aacute;</em> exprime esta
+palavra
+por <em>ann&#257;iti</em> que significa
+<em>grande</em>, ignorando a sua qualidade de
+adjectivo, o
+qual vai modificar
+<em>pirit&aacute;o</em>, faca.
+N&atilde;o merece confian&ccedil;a a
+traduc&ccedil;&atilde;o dos
+outros vocabulos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n101" id="n101"></a><sup>[101]</sup>
+Os indios chamav&atilde;o-me
+<em>ung&ecirc;-maracai&aacute;</em>,
+olho de gato. Os guaranys
+dizem <em>mbaracai&aacute;</em>; na
+lingua tupi <em>maracay&aacute;</em> ou
+<em>maracaj&aacute;</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n102" id="n102"></a><sup>[102]</sup>
+Talvez se devesse escrever
+<em>ing&acirc;ch&aacute;-&aacute;</em>:
+em todo o caso n&atilde;o se pronuncia
+claramente o <em>in</em>, fazendo
+s&oacute; soar o <em>g</em>,
+arrastando-o.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n103" id="n103"></a><sup>[103]</sup>
+A palavra &eacute; esdruxula: n&atilde;o sabemos
+porque se a pronuncia grave.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n104" id="n104"></a><sup>[104]</sup>
+<em>M&aacute;m&aacute;</em> em lingua
+caiu&aacute;, muito approximada ao guarany, sen&atilde;o o
+proprio.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n105" id="n105"></a><sup>[105]</sup>
+Os <em>h</em> s&atilde;o
+todos aspirados com energia.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n106" id="n106"></a><sup>[106]</sup>
+<em>Non&eacute;
+capac&iacute;</em>, cara de nuvem, era a antonomasia
+de um de nossos soldados,
+por causa da guedelha desgrenhada.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n107" id="n107"></a><sup>[107]</sup>
+Este <em>j</em> s&ocirc;a,
+como em hespanhol, gutturalmente.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n108" id="n108"></a><sup>[108]</sup>
+Significa <em>peixe de rabo de
+sangue</em> (vermelho).<br />
+
+<br />
+
+<a name="n109" id="n109"></a><sup>[109]</sup>
+Quer dizer <em>piolho de
+c&atilde;o</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n110" id="n110"></a><sup>[110]</sup>
+V&ecirc;-se claramente que quiniquin&aacute;o
+&eacute; altera&ccedil;&atilde;o da palavra india.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n111" id="n111"></a><sup>[111]</sup>
+Os nomes de peixes s&atilde;o, como este e muitos
+outros, guaycur&uacute;s.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n112" id="n112"></a><sup>[112]</sup>
+Esdruxulo, quando em portuguez &eacute; grave.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n113" id="n113"></a><sup>[113]</sup>
+Os quiniquin&aacute;os dizem
+<em>pahap&aacute;ti</em>.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n114" id="n114"></a><sup>[114]</sup>
+Observa-se a irregularidade de
+forma&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o novas palavras.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n115" id="n115"></a><sup>[115]</sup>
+Esta palavra &eacute; de mui difficil pronuncia. Nunca
+a pod&ecirc;mos escrever
+conforme a ouvimos.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n116" id="n116"></a><sup>[116]</sup>
+Al&eacute;m de tres dizem
+<em>t&aacute;puia</em> muito, ou
+<em>op&ocirc;icoati</em>. Para marcarem
+&eacute;pocas,
+serve-lhes a florescencia do
+<em>para-tudo</em>. Um indio disse-nos:
+&laquo;J&aacute; o para-tudo
+deu fl&ocirc;res duas vezes e os castelhanos ainda est&atilde;o
+em Miranda&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n117" id="n117"></a><sup>[117]</sup>
+Os imperativos, que elles empreg&atilde;o muito,
+termin&atilde;o quasi todos em
+<em>ca</em>, exemplo:
+<em>itic&aacute;</em> faze,
+<em>tetuc&aacute;</em> corta,
+<em>nic&aacute;</em> come,
+<em>angic&aacute;</em> lava; dos verbos
+<em>ittuketi fazer</em>,
+<em>tetocoti cortar</em>,
+<em>ning&aacute; comer</em>,
+<em>angic&oacute;ati</em> lavar.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n118" id="n118"></a><sup>[118]</sup>
+Litteralmente <em>unati</em>
+bom, <em>nik&eacute;</em> comida.
+<em>Cuati</em> deveras,
+<em>echoti</em> sabe,
+<em>itucoati</em> fazer,
+<em>nica</em> comida,
+<em>ien&oacute;</em> sua mulher.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n119" id="n119"></a><sup>[119]</sup>
+Tambem diz-se
+<em>em&oacute;</em>? quem sabe?<br />
+
+<br />
+
+<a name="n120" id="n120"></a><sup>[120]</sup>
+Tom&aacute;mos para estimativa da distancia vencida a
+m&eacute;dia, em
+diversas observa&ccedil;&otilde;es, do tempo gasto por um
+animal carregado em
+percorrer uma certa extens&atilde;o medida; sendo a unidade o
+minuto
+que ach&aacute;mos correspondente a 30 bra&ccedil;as, 355.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n121" id="n121"></a><sup>[121]</sup>
+O rio pareceu-nos profundo e suppomos nunca poder dar
+v&aacute;o
+bom &aacute; artilharia e cargueiros.<br />
+
+<br />
+
+<a name="n122" id="n122"></a><sup>[122]</sup>
+Commandada pelo capit&atilde;o Jos&eacute; Pedro
+de Souza, o qual sempre
+se prestou a coadjuvar-nos efficazmente em todos os nossos
+trabalhos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 75px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p15">#p&aacute;g.
+15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ininvejavel</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">invejavel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p20">#p&aacute;g.
+20</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">n&aacute;s
+difficuldades</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nas
+difficuldades</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p24">#p&aacute;g.
+23/24</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">estimativativa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">estimativa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p81">#p&aacute;g.
+81</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">Pararaguay</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Paraguay </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p113">#p&aacute;g.
+113</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">abuntante</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">abundante</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p128">#p&aacute;g.
+128</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">fequentemente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">frequentemente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p130">#p&aacute;g.
+130</a> </td>
+
+ <td style="text-align: center;">syllada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">syllaba</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"> </a><a href="#n52">#nota 52</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">escriptores.
+portuguezes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">escriptores
+portuguezes</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><a name="ed1"></a>Quando
+h&aacute;
+indica&ccedil;&otilde;es de data em que o <a href="#p102">ano</a>
+n&atilde;o se encontra
+completo, opt&aacute;mos por apresent&aacute;-lo como no
+original.<br />
+
+<br />
+
+Mantiveram-se vers&otilde;es da palavra Aquidauana, tais como
+Aquidauna.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Scenas de viagem, by Alfredo d'Escragnolle Taunay
+
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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