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+The Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os netos de Camillo
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ Notas de transcrição:
+
+ O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
+ em 1901.
+
+ Foi mantida a grafia usada na edição original de 1901, tendo
+ sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não
+ alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
+
+
+
+
+ _ALBERTO PIMENTEL_
+
+
+ _Os Netos de Camillo_
+
+ LISBOA
+ EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+ Sociedade editora
+ LIVRARIA MODERNA
+ _R. Augusta, 91_
+ TYPOGRAPHIA
+ _35, R. Ivens, 37_
+ MDCCCCI
+
+
+
+
+ OS NETOS DE CAMILLO
+
+
+
+
+ [Ilustração: CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+ _(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande
+ escriptor)_]
+
+
+
+
+
+ _ALBERTO PIMENTEL_
+
+
+ _Os Netos de Camillo_
+
+
+ Das flôres surgirão pomos?...
+ Se Deus regar os arbustos!
+
+ TOMAZ RIBEIRO.
+
+ LISBOA
+ EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
+ Sociedade editora
+ LIVRARIA MODERNA
+ _R. Augusta, 91_
+ TYPOGRAPHIA
+ _35, R. Ivens, 37_
+ MDCCCCI
+
+
+
+
+ [Ilustração: D. ANNA ROSA CORREIA]
+
+
+
+
+OS NETOS DE CAMILLO
+
+
+Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de
+saudade.
+
+Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei
+nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.
+
+Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em
+peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa
+solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora
+resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.
+
+Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S.
+Miguel de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como
+a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em
+Francfort.
+
+É ou deve ser.
+
+Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello
+desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias
+gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...
+
+Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.
+
+Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.
+
+Vi de passagem a cêrca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da
+familia Leal e Sousa.
+
+Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir
+n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de
+cicerone.
+
+Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a
+mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver;
+entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.
+
+A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do
+tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da
+bola», que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos
+mal conservado.
+
+As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...
+
+Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras
+enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas
+fôra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de menção,
+uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e é, por
+isso, madeira apreciada.
+
+Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria
+phantasiado muito a respeito do _Cego de Landim_.
+
+--Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um
+perverso homem.
+
+--E onde morava aqui?
+
+--N'uma casa por detraz d'aquella capella.
+
+Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma
+pomposa festa, com arraial e feira.
+
+Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em
+que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho
+da sua provincia.
+
+O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda
+envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.
+
+Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma
+casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos
+sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.
+
+Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das
+dez horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido
+intensa, dissipara-se completamente.
+
+ * * * * *
+
+Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra
+de Camillo.
+
+Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e eu.
+
+De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que
+pendem sobre elle.
+
+--É ali! disse eu.
+
+--É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.
+
+E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da
+egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos
+de Camillo, a dois passos de distancia.
+
+Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar,
+sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de
+Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista,
+casada no Porto.
+
+Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda
+muito viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.
+
+Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me
+lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador
+fervoroso de Camillo.
+
+Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns
+de seus filhos, não todos, porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham
+sahido pela manhã.
+
+Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças
+herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa
+curiosidade.
+
+Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida
+alguma sobre a minha identidade.
+
+Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso
+de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle
+morreu.
+
+Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e
+elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo
+passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago
+olhar revela morbidez e melancolia.
+
+--Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da avó.
+
+--Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi
+escolhido por Camillo.
+
+--Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um
+sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa,
+mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz
+na familia. Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...
+
+--Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado.
+Com esse nome foi designada a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos
+amorosos que ella lhe inspirou.
+
+--Exactamente. É verdade.
+
+Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e
+Simão, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um
+accentuado typo de familia.
+
+--Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.
+
+A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.
+
+--É o do protogonista do _Amôr de perdição_, acrescentei. Oxalá que este
+menino seja mais feliz.
+
+ * * * * *
+
+Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber
+que era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a
+respeito de seus irmãos.
+
+E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando
+appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no
+olhar suavemente penetrante e perspicaz.
+
+--Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no
+mesmo dia em que o avô fazia annos. Nos _Amores de Camillo_ vem esta
+observação, que é exacta.
+
+Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me
+fosse agradavel a certeza de que a sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e
+indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas.
+
+A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre
+todos os netos do grande romancista.
+
+Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo
+robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e
+menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade
+prematura quando escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque
+padece de dureza de ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que
+elle seja o continuador da gloria literaria do avô. Esta convicção
+parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do
+grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo:
+
+--Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.
+
+Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou
+seu dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar
+convenientemente a educação d'este filho.
+
+O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno
+do curso geral dos lyceus.
+
+ * * * * *
+
+As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão
+numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas,
+apenas. Mas para educar tantas creanças não chegam. De mais a mais estão
+oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo e centeio,
+pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á
+Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso
+pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi
+mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito
+superior em capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista
+viveu e morreu.
+
+A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.
+
+A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco,
+cessou com a morte de seu filho Jorge.
+
+Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como
+deve, terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação
+condigna do nome illustre que representam.
+
+--Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este
+menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.
+
+E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a
+envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de
+melancolicas apprehensões.
+
+ [Ilustração: FLORA]
+
+--Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem
+d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão
+difficil esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos
+outros irmãos é analphabeto. Manuel, que não lhe posso apresentar, está
+em Landim a dar lição; só recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem
+repugnancia pela instrucção, nem é preciso chamal-os para irem á escola,
+sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se
+tiver de lhes dar um destino que não seja o das letras. Mas não posso...
+não posso.
+
+Não foi como consolação banal que lhe respondi:
+
+--Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões,
+e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração
+publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome,
+do que dar um triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos
+que esta ou aquella pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela
+generosidade do que pela justiça. Mas a que se conceder á memoria de
+Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos até á maioridade d'elles,
+alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, será a mais justa entre
+as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo é um d'estes
+escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra é a alma de um
+povo.
+
+A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito
+claro, tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa
+vigilia.
+
+Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no
+incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica
+força que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia e
+envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos!
+
+Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias
+literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos
+depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a
+sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que
+seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa.
+
+Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois
+campos hypothecados, não téem a espreital-os a _reportagem_ dos jornaes,
+a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros
+literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os
+de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante
+dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação
+d'este opusculo.
+
+Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de
+perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha,
+que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã,
+no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde
+do Minho.
+
+Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas,
+podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e
+genuinas glorias nacionaes?
+
+Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que
+se deixaram enfermar de leviandades e desacertos continuados. Nós somos
+um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes,
+brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender.
+
+Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.
+
+O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide,
+foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893.
+
+O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do
+grande romancista.
+
+A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles,
+privilegio que a sua edade, aliás, explica.
+
+ * * * * *
+
+Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa
+e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente
+deshabitada, com excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.
+
+Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos
+cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que
+as folhas verdes coavam.
+
+Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existir o
+monumento commemorativo da visita de Castilho, «o principe da lyra
+portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.
+
+Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha
+alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeira
+_côrte n'aldeia_, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna
+Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.
+
+A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das
+pessoas a quem ella se referia. Cresceram hervagens e ramos que
+sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na
+solidão de um cemiterio.
+
+Recordei então a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro.
+
+Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa
+de uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que
+desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me
+denunciou logo o camponez polido.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o
+conhecia: era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de
+Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho.
+
+Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho,
+muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de
+Camillo, parára um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita
+inesperada, facto que de longe a longe acontecia.
+
+Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem.
+Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o
+extraordinario caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado
+ali sem destino.
+
+Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para
+elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse
+extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.
+
+Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade
+longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto,
+primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido
+n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de
+todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente
+a existencia.
+
+Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára
+com elle algumas palavras.
+
+Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a
+seu tempo.
+
+Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do
+monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.
+
+--Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram
+cantadores, entre os quaes se distinguiram o _Gallego_ e a _Rosa
+Cantadeira_. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do
+_Gallego_, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos.
+«Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena
+tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta
+expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o
+sr. Carvalho, poderei esquecer essa noite de festa, que foi talvez a
+unica noite feliz n'esta casa.
+
+Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um
+rapaz, poisei os olhos sobre a _acacia do Jorge_, de cujas amplas
+frondes cahia uma sombra profunda e saudosa.
+
+E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:
+
+ Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,
+ Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que
+iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:
+
+--Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!
+
+Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»
+
+Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores,
+se não o melhor, havia recentemente cantado _A acacia do Jorge_ em
+quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente,
+como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria.
+
+Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a
+poesia de Affonso Lopes Vieira:
+
+ A ACACIA DO JORGE
+
+ Camillo! como acreditar, como hei de
+ Entender estes versos que deixaste?
+ Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,
+ Cada anno te espera,--e não voltaste!
+
+ Já tantas vezes deu a sombra amiga,
+ Que tu gostavas tanto de gozar...
+ Florida, tem um ar de festa antiga
+ Na esperança de te vêr voltar!
+
+ Voltar? A velha arvore que cance!...
+ Por fim ha de ruir, n'uma amargura.
+ Prepáras lá um ultimo romance?
+ Suprema indiscreção! Genio e loucura!
+
+ Dolorosa novella desmanchada,
+ E que nos deixe pallidos e absortos,
+ Onde nos digas, grande camarada,
+ O gordo amor de brazileiros mortos!
+
+ Os Amorosos, que se vão chorando
+ Á porta do convento, e amortalhar-se...
+ Com habitos de terra aconchegando
+ Os esqueletos de ossos a chocar-se...
+
+ Um romance da cova, com morgados
+ Que o além desbastou; com almas finas
+ De mysticas de Amor, lindas Meninas
+ Em mosteiros chorando, abandonados!
+
+ E a descomposta, lugubre risada
+ De romantica bocca, que era a tua,
+ N'esses reinos da Morte gargalhada
+ Sobre defuntos namorando á lua!
+
+ E toda a vã e toda a derradeira
+ Esperança do cabo da viagem;
+ Com descriptivos, á tua maneira,
+ D'esse Minho da Morte da paisagem...
+
+ Ó Acacia! é já tempo: desesperas?
+ Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...
+ Nunca mais voltará esse que esperas,
+ Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!
+
+ E os versos d'elle, onde a saudade existe,
+ Que á despedida te gritou tambem,
+ Ah! não são mais que uma mentira triste:
+ Como tudo, a final, que nos faz bem.
+
+ Poetas! perguntae ao pensamento
+ Que mais chimeras e desgraças forge?
+ Antes te séque um raio, ou parta o vento!
+ Ó Acacia do Jorge...
+
+ * * * * *
+
+Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual
+pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as
+portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo,
+respeitosamente.
+
+A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu
+espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva.
+
+Eu ia dizendo:
+
+--Era aqui a casa de jantar.
+
+ [Ilustração: CAMILLO]
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.
+
+Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava
+receber as suas visitas de maior cerimonia.
+
+A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:
+
+--Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.
+
+E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de
+desespero atroz.
+
+--O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio,
+onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha
+visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando
+chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr.
+visconde parecia tranquillo antes do medico chegar.
+
+O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:
+
+--Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em
+frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr.
+visconde disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.»
+Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte!
+
+--É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde
+ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O
+doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O
+sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação
+para evitar um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª
+viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se
+então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava
+prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento,
+ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue
+aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.
+
+--O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?
+
+--Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando
+para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns
+projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto.
+Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.
+
+--De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:
+
+--Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras.
+Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.
+
+E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos
+demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se
+vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de
+baloiço, morrendo.
+
+ * * * * *
+
+Subimos depois ao segundo andar.
+
+Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.
+
+No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do
+antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.
+
+A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a
+irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a
+impressão de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do
+ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que
+prostrára o valoroso artifice.
+
+Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados
+de mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns _croquis_ do Jorge,
+e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.
+
+Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha
+dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seus _croquis_, prestei
+attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os
+bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como
+companheiros fieis e amigos intimos.
+
+São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse
+que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.
+
+Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o chefe do estado-maior no
+exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do
+romantismo.
+
+A sua _toilette_ caracterisa nitidamente essa época literaria, em que os
+neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e
+_épater le bourgeois_ exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e
+do córte.
+
+Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de
+cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os
+literatos e os pintores.
+
+Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido
+resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os
+mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de
+cortezãos de Luiz XV.
+
+Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa
+noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.
+
+A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de
+hoje.
+
+Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação
+archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça
+humana.
+
+Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava
+ainda, veste casaco de alamares--esse casaco-broquel, que defendia os
+corações romanticos.
+
+O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por
+isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que
+fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.
+
+No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro
+antigo.
+
+Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de
+nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao
+pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de
+marmore ou de um granadeiro em formatura.
+
+Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de
+aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma
+encadernação condigna, forte e austera.
+
+Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de
+fitas garridas para adorno de damas.
+
+E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso,
+se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as
+gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços.
+
+O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem
+buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o
+effeito da _toileite_ compensa, como excentricidade de _pose_, a
+deficiencia da cabelladura.
+
+Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço, e sobre ella um
+amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um
+jardineiro, como a um escriptor em actividade--porque tudo isso foi o
+auctor das _Guépes_, sendo elle proprio uma obra em trez volumes.
+
+Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer
+sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas
+desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.
+
+Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a
+fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e
+Karr.
+
+Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.
+
+ * * * * *
+
+Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de
+Correia Botelho, igualmente desmobilado.
+
+Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e
+expirou.
+
+D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um
+aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.
+
+Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte
+surprehendel-a.
+
+Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.
+
+Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.
+
+Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega
+quando morreu.
+
+Já não podia lêr, nem escrever.
+
+Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.
+
+Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o
+amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira
+feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes
+o mesmo calix de amargura.
+
+Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de
+«pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.
+
+Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali,
+evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.
+
+Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:
+
+--Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa
+Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe
+que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o
+chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir
+para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o
+«bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha
+comprado no Porto.
+
+ * * * * *
+
+Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do
+grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado,
+aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.
+
+--O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e
+manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?
+
+Obtive esta resposta:
+
+--Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os
+não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.
+
+Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.
+
+Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu
+conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse
+n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha
+casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom
+ministro... constitucional.»
+
+Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.
+
+O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe:
+
+--V. Ex.ª vai sem paletot?
+
+Camillo respondeu passivamente:
+
+ [Ilustração: NUNO]
+
+--A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.
+
+Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:
+
+--V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.
+
+Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot
+chegasse.
+
+Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa,
+passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou,
+olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço.
+Por isso é que eu o soffro.»
+
+Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o
+Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre
+do que tinha ido.
+
+Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio
+do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.
+
+E de repente ataquei um assumpto novo:
+
+--Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.
+
+A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:
+
+--Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.
+
+Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:
+
+--V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto?
+
+--Estou, sim, senhor.
+
+--Tambem eu, minha senhora.
+
+O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com
+grande hombridade:
+
+--Negal-o foi uma loucura.
+
+Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara
+que me constrangia.
+
+--Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter
+que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo
+declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora
+peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi
+imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia,
+na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de
+familia, lhe causasse desgosto.
+
+O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com
+indulgente cortezia, dizendo:
+
+--Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. Em 1892 o Nuno, estando nós
+na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_; no dia seguinte tornámos a
+vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver
+aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é
+certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar
+n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a
+pessoa que hoje me visitava com nome differente.
+
+O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir
+triumphalmente, esperando a occasião de dizer:
+
+--A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa:
+«Este não é o Alberto Pimentel?»
+
+E o sr. Adriano Trêpa confirmou:
+
+--Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.
+
+--O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.
+
+--Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.
+
+O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na
+Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu
+ali fôra visitar Camillo.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me
+officialmente o sr. Carvalho:
+
+--É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito.
+
+E, sorrindo, acrescentou:
+
+--É o «José Fistula» do _Eusebio Macario_...
+
+O sr. Carvalho atalhou jovialmente:
+
+--Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o _Fado_.
+Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o.
+
+ * * * * *
+
+É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha
+familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é
+um camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo
+Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita
+perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se
+João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete
+inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande
+romancista em horas de bom humor. Por exemplo:
+
+
+Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de
+Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um
+pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.
+
+ ----
+
+Em francez, _bonne nuit_ é boa noite; e _bon soir_, boa tarde.
+
+Em inglez, _good night_ é boa noite.
+
+ ----
+
+O verbo ser conjuga-se assim em francez
+
+ Je suis
+ Tu es
+ Il est
+ Nous sommes
+ Vous êtes
+ Ils sont
+
+ ----
+
+A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em
+territorio.
+
+ ----
+
+Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de
+Camillo, ha um botequim conhecido pelo _Café do Gato_.
+
+«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com
+filhos pequenos.
+
+Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.
+
+Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja
+rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha
+presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos
+ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.
+
+--Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.
+
+Resposta d'elle:
+
+--Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.
+
+É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do
+Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o
+proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para
+dentro.
+
+Mas o caso vem a proposito para mostrar que n'estas e outras
+rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em
+Seide na treva e no desespero.
+
+O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para
+exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.
+
+Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome
+bucolico de _boninas_ as stratificações fecaes que matizam e embalsamam
+os caminhos nas villas e aldeias do Minho.
+
+Tem verdadeira graça pastoril: boninas!
+
+ * * * * *
+
+Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce.
+
+A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha
+desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois
+da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de
+familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com
+palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo.
+
+O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:
+
+--Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do _Protesto_,
+disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer
+a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»
+
+--Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido e não tinha
+odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe
+mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima.
+
+Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa
+deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas
+uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o
+dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu
+nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que
+até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se
+nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de
+que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto.
+
+No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se
+eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado
+ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do
+_Protesto_ me causou.
+
+Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.
+
+O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se
+muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:
+
+--Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr.
+visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso
+dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,
+procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção.
+
+ * * * * *
+
+D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da
+bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas
+estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de
+ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois
+meus: _A Jornada dos Seculos_ e a _Flor de myosótis_.
+
+Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava
+temporadas.
+
+É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam
+espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de
+montes longinquos.
+
+Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia
+contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os
+bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o
+aposento.
+
+A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que
+a floresta dormente.
+
+Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um
+passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.
+
+Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu
+camilliano.
+
+ [Ilustração: RACHEL]
+
+Foi n'esse mesmo andar que Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito
+de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia.
+
+Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da
+casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge
+entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano--esse piano que
+era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do
+Porto--mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das
+muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em
+noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta.
+
+Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe
+fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.
+
+No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A
+porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:
+
+--Sr. Jorge, são horas do almoço.
+
+Elle respondeu:
+
+--Já vou.
+
+Mas passou tempo sem que se levantasse.
+
+Tornaram a chamal-o.
+
+--Já vou, repetiu elle.
+
+Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela
+janella, o que foi empreza difficil.
+
+Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico que, n'esse
+momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade.
+
+ * * * * *
+
+D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se
+inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da
+illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por
+mim já publicada.
+
+Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de
+uma folha diaria:
+
+
+«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz
+Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a
+companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e
+enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos.
+
+«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de
+Landim, que logo previu o desenlace fatal.
+
+«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter
+debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro
+laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo
+com desmaios e não podendo conciliar o somno.
+
+«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em
+quando gemia e invocava a Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em
+que morreu, foi ungido.
+
+«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes
+apparece nas doenças mentaes.
+
+«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que
+só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D.
+Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.
+
+«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado
+da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da
+nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e
+soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se
+engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral.
+
+«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá
+desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma
+campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas
+bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os
+dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que
+eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso
+avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se
+parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se
+prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo
+d'este seu neto e afilhado, feita em casa de Nuno e sobre um piano, por
+lhe ficar mais a geito.
+
+«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde
+viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada
+de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de
+Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora,
+esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste.
+
+«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre
+
+ De V. etc.
+
+ _José de Azevedo e Meneses._
+
+S/C do Vinhal, 16-9-900.»
+
+ * * * * *
+
+Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello
+Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão,
+os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.
+
+Dizia o correspondente de Famalicão para _O Commercio do Porto_:
+
+
+
+«FAMALICÃO, 12.--Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello
+Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.
+
+«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos
+e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu
+fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande
+romancista, pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava
+tambem a educação das creanças, que agora ficam ao desamparo.--(_M. G._)»
+
+
+Escrevia o _Lusitano_, de Famalicão, no mesmo dia 12:
+
+
+«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello
+Branco, o pobre louco tão amado pelo immortal auctor do _Amor de
+Perdição_ e tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na
+litteratura nacional.
+
+«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia
+completamente do convivio social.
+
+«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa
+pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos
+no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae.
+
+«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na
+miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.
+
+«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.
+
+«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve
+o governo continuar a dar a seus netos a pequena quantia que deu ao
+Jorge durante alguns annos.
+
+«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao
+desamparo.
+
+«Quem sabe até se, educados os netos do genial _Solitario de Seide_,
+algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a
+honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido
+Mestre?»
+
+ * * * * *
+
+A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto
+depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:
+
+
+«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em
+reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras
+patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é
+concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e
+vitalicia de 1:000$000 réis.
+
+«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de
+quaesquer impostos, e será abonada desde a data do decreto que a
+concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fôr.
+
+Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»
+
+
+Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes
+faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem
+chronologica do nascimento:
+
+Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.
+
+Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu
+o avô, que era seu padrinho.
+
+Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.
+
+Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.
+
+Simão, nascido a 6 de julho de 1891.
+
+Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.
+
+Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas
+transcripções do jornal de Famalicão, _O Lusitano_, apezar de em
+qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que
+eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu.
+
+Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.
+
+Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.
+
+Dizia _O Lusitano_ no seu numero de 29 de agosto do corrente anno:
+
+
+«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de
+Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto
+Pimentel.
+
+«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta,
+passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos
+seria desagradavel saber se o nosso estimado confrade do _Popular_
+tomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo
+que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os
+malaventurados netos do grandioso estylista.
+
+«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha,
+entre aquellas seis creanças, uma--o Camillo--possuidora de
+intelligencia rara.
+
+«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao
+aproveitamento d'aquelle rapaz?
+
+«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor
+dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro
+aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do
+Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis.
+
+«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que
+aquillo é, comparativamente com outros tempos.
+
+«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna
+e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de
+amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita
+que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que
+constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do
+nosso meio.»
+
+ [Ilustração: SIMÃO]
+
+Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu
+procedimento.
+
+Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no
+_Popular_ as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos
+netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo
+fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que
+aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.
+
+Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.
+
+ * * * * *
+
+Poucos dias depois de ter lido a noticia do _Lusitano_, acima
+transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e
+escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás
+impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a
+fazer em favor da pensão.
+
+Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da
+seguinte noticia que _O Lusitano_ publicou no dia 3 de setembro:
+
+
+«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente,
+perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor
+dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e
+jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no
+sentido rogado.
+
+«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos
+netos de Camillo.
+
+«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o
+auxilio de Antonio e José de Azevedo.
+
+«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços
+possiveis junto do parlamento e do governo.»
+
+«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se
+com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais
+sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense
+conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem
+merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a
+advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a
+patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que o _Primeiro de
+Janeiro_ publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido
+directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de
+Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel
+homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro
+José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o
+_Diario da Tarde_, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de
+Lisboa.
+
+«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois
+auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa
+dos netos de Camillo.
+
+_P. S._--_O Regenerador_ refere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta
+antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes
+um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e
+procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».
+
+Trabalhemos todos--todos os que veneramos a memoria de Camillo--sem
+excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a
+Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.
+
+É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores;
+honremo-nos pagando.
+
+ * * * * *
+
+A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu
+disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a
+gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier
+e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo.
+
+Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr
+na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.
+
+Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e
+collar no tampo da moldura:
+
+ «ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE»
+ «CAMA DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EM»
+ «S. MIGUEL DE SEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS»
+ «SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,»
+ «NA PRESENÇA DO SR. ADRIANO DE SOUZA»
+ «TREPA, DE SANTO THYRSO, E FRANCISCO»
+ «CORRÊA DE CARVALHO, DE SEIDE.--ALBER-»
+ «TO PIMENTEL.»
+
+Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede,
+fronteira ás janellas.
+
+Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de
+Seide.
+
+Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de
+Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes
+conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso
+commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar--por tantos
+dias e tantas noites.
+
+Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte
+de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de
+montes.
+
+Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz
+pelo Minho, o bulicio pelo silencio, os _boulevards_ pelos pinheiraes, a
+capital do mundo pela aldeia erma e profunda.
+
+Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros
+tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa
+alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna
+quasi uma religião: não ha meio de arrancar o camponez ao seu tugurio e
+o marinheiro ao seu beliche.
+
+Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava,
+virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha
+janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e
+asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na
+claridade limpida do ar.
+
+Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor
+vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei
+amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse--como a de dois
+inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.
+
+Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra
+offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da
+viscondessa de Corrêa Botelho.
+
+Quando publiquei _Os amores de Camillo_, muito desejei eu obter este
+retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido
+não seria uma inconveniencia irritante.
+
+Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me
+offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois,
+tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson,
+boulevard des Capucines, 3.
+
+Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'_Os amores de Camillo_, se
+algum dia a fizer. Aqui não é o seu logar proprio. Mas quero dar uma
+rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face
+glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha
+direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata
+em laço. _Toilette_ de velho, harmonisando com a physionomia; mas de
+velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.
+
+Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.
+
+Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de
+S. Miguel de Seide.
+
+ * * * * *
+
+Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos,
+parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.
+
+Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte
+n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que
+seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na
+solidão profunda de uma aldêa minhota.
+
+--Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas
+noites aqui deviam ser horriveis!
+
+O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:
+
+--As tardes, as tardes de Camillo é que eram ainda mais agitadas e
+tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito;
+excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.
+
+É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.
+
+As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com
+as _dores fulgurantes_ (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas.
+Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises
+visceraes, a gastralgia é frequente.
+
+O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.
+
+Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando
+treguas ao pobre Camillo.
+
+Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou
+o grande romancista.
+
+Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.
+
+Estive ali no mez de agosto de 1885.
+
+O opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de
+Seide_ recorda esse facto.
+
+Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das
+pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido,
+Jorge e Nuno Castello Branco.
+
+Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia
+inteira.
+
+É que a fatalidade de certos destinos iguala-os na vida e na morte,
+regulando as suas horas por uma unica ampulheta.
+
+Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.
+
+Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e
+meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.
+
+O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do
+naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um
+acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre
+montões de espuma.
+
+Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é
+hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais
+ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns
+palmos de terra sêcca e hypothecada.
+
+Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a
+fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.
+
+Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os
+amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a
+gloria do avô immortal.
+
+ [Ilustração: MANUEL]
+
+Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios
+exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já
+visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela
+alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos
+realidade o que parece haver sido prophecia do grande espirito de
+Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que
+prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia
+«outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado
+para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a
+gloria do seu nome.
+
+Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de
+despertar a patria adormecida.
+
+Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos
+as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente
+muitas horas da vossa vida, desde o _Anathema_, uma estreia, até aos
+_Vulcões de lama_, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a
+apagar-se.
+
+Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.
+
+
+Santo Thyrso--Lisboa.
+Agosto a setembro de 1901.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+PAGINA 6
+
+«... a cêrca do antigo mosteiro de Landim.»
+
+Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o
+fundado por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.
+
+Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de
+Entre-Douro-e-Minho, o de _Landim_ é designado como sendo a de Nossa
+Senhora de _Namdim_.
+
+O conde D. Pedro, em seu _Nobiliario_, tambem diz _Namdim_.
+
+
+PAG. 15
+
+«o monumento commemorativo da visita de Castilho, «principe da lyra
+portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.»
+
+As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no
+Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se
+encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então
+morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em
+honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos de _Um Livro_.
+
+N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho, relatando o
+que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e
+prosador de elevado merito, etc.»
+
+Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a
+referencia a Camillo dizendo que _essa amizade_, então começada no
+Porto, ficou cimentada para sempre. (_O Instituto_, de Coimbra, n.º 9,
+vol. 48.º)
+
+Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me
+ensinou a amar Castilho.
+
+Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas
+historias de reis e principes encantados.
+
+Camillo, que foi de algum modo o meu _niñero_ espiritual, falava-me
+muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe
+chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador
+das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela
+agricultura.
+
+Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como Œdipo,
+o famoso rei de Thebas.
+
+E assim como Œdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para
+guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus
+filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos
+incertos e vacillantes.
+
+Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá
+eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance _Agulha em
+palheiro_:
+
+
+ _Ao poeta das creanças, das flores, do amor,
+ da melancholia e dos desgraçados,
+ ao illustrissimo e excellentissimo senhor
+ Antonio Feliciano de Castilho,
+ honra da patria
+ honra dos que o prezam, e amam a patria
+ offerece
+ o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor
+ Camillo Castello Branco_
+
+
+Em outro livro, _No Bom Jesus do Monte_, cita Castilho a par de
+Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho
+de o proferir».
+
+Durante a _Questão Coimbrã_, nas _Vaidades irritadas e irritantes_ vem á
+estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais
+enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe
+devesse e o amasse...»
+
+Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com
+Camillo a amar Castilho.
+
+
+PAG. 16
+
+«a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro.»
+
+Diz o texto d'essa dedicatoria:
+
+ A
+
+ THOMAZ RIBEIRO
+
+ «São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a
+ pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos
+ antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os
+ homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da
+ columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de
+ meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas
+ lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido,
+ meu poeta da patria e da alma:
+
+ «S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»
+
+
+PAG. 16
+
+«A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das
+pessoas a quem ella se referia.»
+
+O modesto monumento, de que fiz mais larga menção no opusculo _Uma
+visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_, Porto,
+1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito
+viva entre as mais gratas lembranças do passado.
+
+D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho,
+fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de
+1901.
+
+Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa--o que
+não sei se é proprio do teor das annotações--não posso ter mão em mim
+que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide
+com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de
+Castilho e Thomaz Ribeiro.
+
+ * * * * *
+
+Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...
+
+Lembram-se? Vem nos _Logares selectos_, do padre Cardoso: é um excerpto
+da _Côrte na aldeia_, de Rodrigues Lobo--dois livros bons, cada qual no
+seu genero; bons como se faziam d'antes.
+
+Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem,
+o que nem sempre se faz agora.
+
+Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.
+
+Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é
+que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os
+quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão
+bons, como foram esses.
+
+ [Ilustração: A ACACIA DO JORGE]
+
+Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha
+excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra--Lá
+vem um!
+
+Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos,
+que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os
+comparo com os de hoje.
+
+Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á
+gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença--é como o frio de
+janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.
+
+Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era
+elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras,
+andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal
+na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.
+
+Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos.
+Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos
+mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho
+uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e
+novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem
+respirar á vontade.
+
+Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era
+pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se
+julgava maior que elle.
+
+Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das
+estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.
+
+Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria
+teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma
+hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram
+tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o lume
+para as refeições do espirito. Mesa posta para os _gourmets_ da
+intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem
+gregos ou troyanos.
+
+Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme
+bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes
+e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo:
+era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas.
+
+Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das
+letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um
+cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o
+rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o
+dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava
+citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um
+momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz.
+
+Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já
+vinha apurada de longe.
+
+Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o
+seu _alter ego_. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver
+um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam
+n'uma só.
+
+Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por
+longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o
+muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais
+incisiva, a mais cruel de todas as saudades.
+
+Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas,
+era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de
+intelligencia vivacissima.
+
+Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o
+que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali,
+n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.
+
+Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que
+morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.
+
+Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um
+morto que vivia longe dos vivos.
+
+O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então,
+como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o
+correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só
+alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao
+Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos
+frente a frente.
+
+Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas
+em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas _Patria, contra a
+Iberia_, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor
+officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.
+
+Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu
+amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados
+na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo.
+
+Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos
+literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o
+terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade.
+
+Quanto á factura artistica, o poema _Patria_ trazia a marca da fabrica:
+Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora.
+
+Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e
+transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem
+ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:
+
+ Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?
+ alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.
+
+ Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho
+ aos loireiros do val á busca de algum ninho.
+
+ Sob este parreiral tão verde e tão fragrante
+ beijei apaixonado a minha terna amante.
+
+ Costumava ir de tarde ao moinho da serra
+ vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.
+
+ Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava
+ ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.
+
+ Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas
+ ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.
+
+ Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso
+ dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.
+
+ Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro
+ poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.
+
+ Ao canto do quintal da casa onde eu morava
+ uma anágua plantara, e flores que eu regava.
+
+ Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta
+ me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.
+
+Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão
+cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle,
+legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o
+ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais
+novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.
+
+Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre
+da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava
+entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria.
+
+Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira esse moço tão bem
+estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades
+da vida adensaram--a doença principalmente.
+
+Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da
+_Folha dos curiosos_, um dos quaes curiosos fui eu.
+
+N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a
+ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com
+inexcedivel brilho, a _Revista universal lisbonense_.
+
+Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor
+locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho
+ali deixou, é primoroso--até o noticiario.
+
+Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o
+professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario
+pelo teor de Castilho.
+
+Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que
+ironia e que pureza castiça de linguagem!
+
+Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo?
+Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer
+Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem,
+a enramilhetar locaes que parecem _bouquets_; Castilho a sorrir de si
+mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não
+ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas
+minimas.
+
+Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens
+esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois
+muito mais pequenos que elles.
+
+Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a
+ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.
+
+Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como
+vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que
+promettia futuro.
+
+Hoje dorme o somno eterno na terra da _Patria_, que elle amava tanto, e
+se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado
+descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou
+primeiro.
+
+ * * * * *
+
+Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do
+Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto,
+recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua
+propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra.
+
+Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço
+ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os
+encontrava á tarde no Penedo da Saudade.
+
+Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.
+
+O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se
+comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na
+memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno
+de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda
+a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.
+
+Esse poema era o _D. Jayme_, de Thomaz Ribeiro.
+
+A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral
+no auditorio.
+
+E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia de todos os moços,
+saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes:
+
+ Um dia... quando, não sei;
+ fui vêr as gastas ruinas
+ d'um velhissimo castello
+ que ao desamparo encontrei,
+ mas que, apesar de esquecido
+ na solidão, era bello.
+
+ Achei-o todo vestido
+ de tenaz era viçosa;
+ e ornado de verde brilho,
+ lembrou-me um velho casquilho
+ que espera noiva formosa.
+
+De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as
+cartas, e escutavam attentos:
+
+ Que triste vida na choça,
+ que funda melancolia,
+ que rostos tão macerados,
+ que suspiros abafados
+ cada noite e cada dia!
+
+ noites de eterna vigilia,
+ dias curtos para a lida,
+ recordações da opulencia,
+ amarguras da indigencia...
+ que vida, Jesus! que vida!
+
+Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso
+literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia
+mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o
+poema, para decoral-o todo.
+
+No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia
+debaxo do braço um livro de capa amarella.
+
+Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.
+
+Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar
+inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a
+pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que
+hoje vou esquecendo...
+
+Annos depois--não foram muitos--quando Castilho protegeu as minhas
+estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro
+escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de
+outras suas escriptas de toda a parte.
+
+Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um
+retrato meu aos dezeseis annos.
+
+Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje
+nenhum exemplar d'essa photographia.
+
+Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do _D. Jayme_? D'isso me
+lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do _Primeiro de Janeiro_,
+cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas,
+Francisco Gomes Moniz e eu.
+
+Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era
+escripto por Latino Coelho.
+
+Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao
+gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.
+
+Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu
+e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a
+ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.
+
+Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.
+
+Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de
+mutua estima.
+
+As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente.
+
+ [Ilustração: Retrato de THEOPHILE GAUTIER que pertenceu a Camillo]
+
+Quando elle partiu para o Brasil, a _Mala da Europa_ quiz dar um numero
+commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o
+auctor do _D. Jayme_. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o
+proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido,
+precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse
+numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua
+tarefa--ardua pela estreiteza do tempo.
+
+Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante
+quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para
+espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra
+que tinha dado.
+
+Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica
+literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.
+
+Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da
+minha mocidade.
+
+Não sei, não posso vel-o de outro modo.
+
+Dou-me, portanto, como suspeito.
+
+Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os
+criticos téem menos auctoridade do que o publico.
+
+Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu
+uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do
+voto adverso dos criticos.
+
+Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais
+popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão;
+dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe
+desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua
+popularidade e, sem querer, a propagavam.
+
+Portugal ficará sendo eternamente o--jardim da Europa á beira mar
+plantado--verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e
+mal, se escreve a respeito do nosso paiz.
+
+A «Conversação preambular» do _D. Jayme_, escripta por Castilho, foi
+tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é
+realmente discutivel em algumas das suas affirmações.
+
+Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz
+mais uma prova da enorme sensação causada pelo _D. Jayme_, até nos
+julgadores de maior competencia profissional.
+
+Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto,
+pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em
+evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr
+que possuia a lingua portugueza.
+
+Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima,
+e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.
+
+Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor
+portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e
+costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da
+provincia--_fogaça, campeiro, velleiro_--com toda a alma de um povo a
+cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto
+relevo no caracter do protogonista:
+
+ Entrei, raivando vinganças,
+ Sahi, jurando perdão.
+
+Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões
+do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim
+aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.
+
+Do _D. Jayme_ nasceram logo outros poemas: Em Lisboa, _Roberto ou a
+dominação dos agiotas_, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil,
+_Leonor_, imitação flagrante.
+
+Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro
+de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a
+sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um
+ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.
+
+Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral
+do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por
+toda a parte.
+
+Tenho deante de mim um romance indiano, _Beatriz ou os mysterios da
+ultima revolta em Goa_, escripto por Fernando de Goa (certamente
+pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.
+
+No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este
+periodo:
+
+
+«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na
+machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas
+visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e
+entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua
+chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de
+atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e
+conceituosas phrases.»
+
+
+A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro
+kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza,
+é Cascaes do Oriente.
+
+Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde
+se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do _D.
+Jayme_, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.
+
+Era uma justa retribuição da consciencia publica aos sentimentos
+patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as
+bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio
+portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu
+districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada
+de Gonta:
+
+ Que fresca aldeia formosa
+ Nas margens do meu Pavia!
+
+Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:
+
+ meu vergado pomar d'um rico outomno,
+ sê meu berço final no ultimo somno.
+
+O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como
+expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não
+como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a
+todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia
+dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado
+solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas,
+desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro.
+
+Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.
+
+Literariamente, ainda falta encarar o auctor do _D. Jayme_ sob outro
+ponto de vista: como recitador.
+
+Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer
+versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.
+
+Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma
+vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria
+da camara dos deputados.
+
+Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.
+
+Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente á resurreiçao do
+exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu.
+
+N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil
+para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.
+
+Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da
+casa Ferrari.
+
+Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a
+Thomaz Ribeiro que recitasse _O tear da rainha_.
+
+Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que
+fomos pedindo mais versos.
+
+Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.
+
+O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes
+declaração de voto, mas a reforma não teve execução.
+
+Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro
+ministro da marinha--primeira pasta que geriu--fui eu que, a seu pedido,
+entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a
+acquisição da propriedade das suas obras.
+
+Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias
+agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se
+numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de
+serenidade para ser dominada.
+
+Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante
+tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é
+ainda desordem da saudade.
+
+Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.
+
+
+PAG. 18
+
+«... esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz
+n'esta casa.»
+
+D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a
+respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15
+de julho de 1866, quando dizia:
+
+
+«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos;
+e a voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.
+
+«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria
+jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria
+de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».
+
+
+Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta
+de Seide.
+
+
+PAG. 26
+
+«Foi ali que essa linda mulher, de formas esculpturaes...»
+
+A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado
+recentemente.
+
+O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo
+Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois
+dias, á espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os
+documentos que eram necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo
+Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na posse d'este segredo;
+ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara
+ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis
+tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido
+retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como
+já tem sido dito.
+
+
+PAG. 30
+
+«Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_.»
+
+Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide
+pela ultima vez, quando já a questão do _Protesto_ nos tinha inimistado.
+
+N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma
+das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu
+brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem
+as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do
+visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos
+reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em
+comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para
+as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu
+fosse então o mesmo homem que hoje sou!
+
+O que é certo é que venci com o povo--a grande classe dos
+pescadores--coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem
+vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as
+batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez.
+Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.
+
+Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito
+cantado nas ruas.
+
+Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro
+eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles
+espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus
+processos poeticos:
+
+ Boa vai ella!
+ Ora viva o Pimentella.
+ Que dá o seu coração
+ P'ra vencer a eleição.
+
+ Boa vai ella!
+ Ora viva a _piscaria_.
+ Vai toda votar em barda
+ Pela nossa melhoria.
+
+ Boa vai ella!
+ Ora viva o Albertinho,
+ Que vai como deputado
+ Cá pelo nosso povinho.
+
+Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo
+diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito
+tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato
+contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas.
+
+N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava
+menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.
+
+Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me
+demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de
+me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o
+desejava, e eu não o recusaria.
+
+ [Ilustração: Retrato de ALPHONSE KARR que pertenceu a Camillo]
+
+
+PAG. 37
+
+«... Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo.»
+
+Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois
+annos de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.
+
+Se o leitor folheou alguma vez _Os amores de Camillo_, lá deve ter
+encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se
+effectuou no Porto.
+
+Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é
+interessante.
+
+Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as
+mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel
+jurisconsulto; o Bastos, do _Nacional_; Antonio de Azevedo; e um
+procurador portuense, cujo nome não lembra.
+
+Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.
+
+Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos
+sainetes.
+
+D. Anna Placido tocou piano.
+
+Camillo tocava trombone no canno de uma bota.
+
+E o Bastos do _Nacional_, que era um homem alto, forte e rosado, dançava
+com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.
+
+O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual,
+conservou-se mero espectador.
+
+Não parece que se está ouvindo um trecho das _Alegres comadres de
+Windsor_, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella
+scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma
+chorea improvisada?
+
+Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S.
+Miguel de Seide!
+
+
+PAG. 53
+
+«Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu».
+
+Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não
+temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros
+escriptores menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.
+
+Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador,
+que foi Ernesto Biester.
+
+Fizeram em commum o drama _Vingança_ (Veja _Esboços de apreciações
+literarias_, pag. 85 e _Revista contemporanea de Portugal e Brazil_,
+vol. IV, pag. 313); e o drama _Penitencia_, em 6 actos e um prologo
+(Veja _Dic. Bib._ de Innocencio, vol. IX, pag. 176).
+
+Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela
+companhia do antigo Theatro Normal.
+
+
+NOTA FINAL
+
+O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um
+a _crayon_ que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel
+de Seide.
+
+Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos,
+e fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de
+Guilherme Braga.
+
+A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.
+
+O retrato a _crayon_ é de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez
+ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente em 1857, quando
+Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte.
+
+Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com
+outros de differentes epocas, no n.º 8-9 da _Illustração moderna_, do
+Porto.
+
+Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez
+reprodusido na revista portuense _Sombra e luz_ (n.º 2).
+
+
+
+Preço 400 réis
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO ***
+
+***** This file should be named 33752-0.txt or 33752-0.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano
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+
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+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
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+
+1.F.
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+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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