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+The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by
+Júlio César Machado
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Da Loucura e das Manias em Portugal
+
+Author: Júlio César Machado
+
+Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+DA
+
+LOUCURA EM PORTUGAL
+
+
+
+
+Lallement frères, Typ. Lisboa, 1871
+
+
+
+
+ DA LOUCURA
+
+ E DAS
+
+ MANIAS EM PORTUGAL
+
+ ESTUDOS HUMORISTICOS
+
+ POR
+
+ JULIO CESAR MACHADO
+
+
+
+
+ LISBOA
+ LIVRARIA DE A. M. PEREIRA--Editor
+ 50--Rua Augusta--51
+ 1871
+
+
+
+
+RILHAFOLES
+
+
+
+
+I
+
+Os doidos
+
+
+Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,--da porta para
+dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle
+jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca
+das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos
+não são outra cousa senão buracos luzidios; cavam-se as faces,
+parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos significação, as feições
+são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são personalidades
+phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se entende; gente
+estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...
+
+Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e
+transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles,
+envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão
+avistando ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que
+conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos
+olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado
+e insolito quanto por lá se ouve!
+
+Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como
+nós somos e portar-se como nos portamos--é ser affectado, é ser pedante;
+que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio,
+assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem
+vulgar não poderia dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que
+juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que
+em nós ha simplesmente mudança de convenções; que elles estão mais perto
+do estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as
+julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o
+amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de
+beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito
+nupcial de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas
+anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada,
+estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um
+casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em
+inscripções!...
+
+Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem
+varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo
+dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de
+tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais
+exacto!...
+
+Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta
+e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças
+idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o
+numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por
+fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o
+edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vão
+pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes.
+Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as
+commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis,
+ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição separada; os da
+1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum.
+
+Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a
+requerimento de particular,--com attestado do medico, auto de
+investigação, e, se são pobres, certidão do parocho,--e ficam quinze
+dias em observação; findos elles, ou a doença não se verifica e são
+immediatamente despedidos, ou, verificada a alienação, colloca-se o
+doente na repartição que o director lhe destina, e segue o tratamento.
+
+O tratamento! Isto é,--o estudo, a observação constante, as
+experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão
+e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos,
+de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de
+enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como
+moralista,--unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. São
+doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,--a de um, que
+nunca perde a pista do caracter que tem, e em tudo que diz e no que
+faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde
+juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante
+os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este,
+que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo,
+excepto de logares, ou de datas!?
+
+Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e
+singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada
+passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é
+preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia, que
+não cança nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando,
+gritando, fallando--este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede,
+outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as
+ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as vaidades.
+Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam:
+
+ «Elogio
+ á exma. sra. D. L. de S. F.
+ no dia natalicio de seu nascimento
+ dividido em tres partes.
+ Passado, presente e futuro.»
+
+Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:
+
+ «_Grande globo
+ do
+ Grande enredo_
+
+ Jornal das mentiras purificadas
+ e saidas do funil
+ estampadas calligraphicamente em
+ papel, respeitando
+ as dignissimas auctoridades.»
+
+Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores,
+trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital,
+dos banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a
+secretaria, está logo a primeira aptidão aproveitada,--o continuo, que é
+um doido! Leva papeis, traz papeis, dá recados; está ali a toda a
+hora, desempenha perfeitamente, e não ganha nada.--Que lição... a
+continuos!...
+
+Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro,
+homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,--todo grave, cortez,
+benevolo--não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde
+abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se
+sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do
+carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi
+entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede
+novo, a quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali
+entram.
+
+--Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.
+
+--Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.
+
+--É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!
+
+--_Num quero_, dizia o carvoeiro. _Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos
+na minha bida! Arreda para lá!_
+
+--É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para a
+saude, e de grande aceio.
+
+O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o
+seu banhosito n'uma d'aquellas magnificas tinas de marmore, admirado
+ao mesmo tempo de tantas attenções que tinham com elle n'este
+estabelecimento do estado.
+
+Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem
+elles todos e não se ouve por lá outra cousa.
+
+--Ámanhã, disse-lhe o guarda.
+
+--Ámanhã!?! redarguiu o homem.
+
+--Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre
+de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã,
+quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae
+vocemecê passear.
+
+--_Paxar a bixita!_ uivou o carvoeiro. _Eu n'um estou doido, démo!_
+
+E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam
+pelo... que não era,--até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o
+mandou para a rua, mudado tambem--como aquelles seus compatriotas do
+poço, de quem já de uma vez contei a historia,--porque tambem tinha...
+lavado a cara!
+
+A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê
+sempre em Rilhafolles o _lasciate ogni speranza_, um beco sem saida, o
+mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o
+chicote dos enfermeiros... Entretanto ella é o menos triste que uma
+casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em que está collocada,
+o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o sr.
+Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É
+preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado
+carinho são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos
+elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos.
+
+E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um
+corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se
+propõe em todas as legislaturas, e anda constantemente a ensaiar
+discursos.--Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é
+marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha,
+conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.--Um piloto da
+barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças do mar e cae
+n'uma melancolia profunda.--Um, que foi porteiro do sr. barão de Santos,
+conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar
+junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois
+roubado.--Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões
+do chamado _jogo da gloria_, e manda ao pae o dinheiro que ganha n'isso.
+Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem,
+enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:--«Diga-me,
+pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario?»--«Pois
+está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.»--Um, alegre
+e risonho, philosopho sem o cuidar, coração que ainda não saiu da
+infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por
+uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus palacios, e algum
+particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios que todos
+lhe pertencem.--Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.--O famoso
+Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a
+villa inteira, conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com
+vontade sempre de matar alguem.
+
+E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de
+passagem, quando me vêem tomar apontamentos:
+
+--Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!...
+
+
+
+
+II
+
+As doidas
+
+
+N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se
+primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão
+abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a
+familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas são as
+felizes; ainda têem lá de vez em quando quem as visite, quem lhes
+leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para
+apetites--comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as
+fidalgas,--_as fidalgas de Rilhafolles!..._
+
+Passam n'aquelle corredor enorme--que o espectaculo monstruoso d'ellas
+torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras
+fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as,
+entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas
+ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.
+
+Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer
+com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver
+n'elle nada de novo--grito melancholico, que tem atravessado as edades;
+idéa triste e fria.
+
+Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma
+chimera,--coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi
+tudo,--odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha
+nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa,
+como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das
+forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos
+espiritos.
+
+Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de
+alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é
+risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a
+d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha
+outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem
+era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella
+dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas
+caixinhas,--tão fechadas que ninguem as podia abrir,--que os pescadores
+das _Mil e uma noites_ achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas
+fendas!
+
+A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se,
+deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada:
+reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida,
+pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se,
+compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de
+réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras
+tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue
+apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de
+fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações
+colossaes como as que a terra produzia quando era nova e que
+absorviam em si umas poucas de existencias!...
+
+As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver
+visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e
+continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel
+ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se
+tambem serão...--se as doentes tambem serão enfermeiras?
+
+Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra
+doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas
+essas empregadas, e corrigem um pouco pela sua presença a impressão
+penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.
+
+As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do
+director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...
+
+--Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.
+
+E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:--Ámanhã!
+
+Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz
+senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e
+ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo,
+tranquillamente, prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite,
+a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!
+
+Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está
+sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa
+de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam
+contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua
+adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás
+solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá,
+por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á
+janella a olhar para os campos e a farejar tormenta em tudo--no
+voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter
+conhecido a vida, á sua custa;--a peor maneira de conhecer as coisas. Ás
+vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem
+apanha; previnem-me disto.
+
+Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e
+papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da
+campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem
+a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido
+de cauda grande, quer ver-se nos espelhos, quer que a achem galante,
+que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de
+tal, que tambem deu uma _soirée_ onde estava a primeira sociedade, que a
+sua _toilette_ era primorosa, que está já em vesperas de partir para o
+campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa
+comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os
+anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a
+manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os
+_Lanceiros_, faz-nos a cortezia.
+
+Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um quarto
+onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer _crochet_. Olha
+para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo
+isso, pergunta-lhe se me conhece.
+
+--Parece-me que conheço, responde ella.
+
+O director diz-lhe o meu nome.
+
+--É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.
+
+É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez
+d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,--o
+chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos
+fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem baixo,
+vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta,
+tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do
+meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido
+um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;--era o
+pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com
+difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o
+verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes
+depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...
+
+A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave e
+resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de
+tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar
+como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e
+cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos,
+euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras
+baralham tudo:
+
+ Amei, infanta e leda como a aurora
+ Dos sonhos d'esse infante adormecido;
+ Ao rei o teu gemido, o teu trovar,
+ Ao throno o teu sondar encanecido.
+
+ Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,
+ Gotejo em teu rollar mil alegrias,
+ E colho em cada nota que desfiro
+ Insomnias do porvir, crueis magias.
+
+Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga;
+e vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.
+
+A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa
+rapariga que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante
+atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um
+canto; parecendo não reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos
+no chão, com a cabeça encostada ás mãos, ar de recolhimento profundo e
+invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e
+irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não sei o quê na esperança
+de que ella responderia. O director, que se prestou com a mais
+amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe:
+
+--Vamos; levante-se; estão fallando comsigo!
+
+Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima,
+a mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada,
+olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello
+negro e farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça
+aspera; o que quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa
+verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca!
+
+Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella
+que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos
+fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá
+estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai
+Jesus»! Taes são as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem
+dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um «ai», e o nome
+por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as
+esperanças, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a
+alumiam: = Jesus!...
+
+Havia já tres horas que andavamos por aquelles corredores e por
+aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair
+não pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches:
+
+--Emfim!
+
+Mas o director sorriu-se, e retrocou:
+
+--Falta-lhe ver os idiotas.
+
+
+
+
+III
+
+Os idiotas
+
+
+Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa
+confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos
+empregados de Rilhafolles,--é inevitavel o olhar, de quando em quando,
+como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de nos
+formar sequito, com um molho de chaves na mão.
+
+Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e
+dotados de inexhaurivel fonte de branduras--estou persuadido; mas dão ás
+vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como
+piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei,
+mas que o sentimento febril de terror--que invencivelmente se apodera de
+quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá--transforma em
+indicios de uma perfidia atroz!
+
+Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns
+corredores que se me figuraram mais escuros, e descemos por uma
+escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava
+tempo a pensar,--um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de
+corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões
+pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos
+de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e
+serpentes;--lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos
+dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...
+
+Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes
+que me olhava elle tambem de soslaio. É o terror, horror, pavor, de
+Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece.
+Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em
+que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar
+dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.
+
+--Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.
+
+--Não, nunca vi.
+
+--Pois has de ver. É curioso.
+
+Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas
+finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.
+
+O sujeito olhava para elles pouco á vontade, pensando de si para si
+no nadinha imperceptivel que separa a razão da loucura...
+
+Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer
+para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um
+pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram--e
+que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e
+respondeu:
+
+--Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me
+para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão
+depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas
+fechadas.
+
+O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de
+que aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo
+relogio, pediu desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa,
+despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr.
+
+É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados,
+ha uma vertigem peor ainda--é a que resulta de os ouvir.
+
+Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos
+elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo
+riscos na terra com o dedo. Não lhes importa ar puro, nem horisonte;
+que o terreno seja vasto ou não seja, que haja verdura ou não, que
+estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos
+joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á cabeça como os bonecos
+da feira, n'um movimento sempre igual.
+
+Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço
+dos banhos,--um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de
+tiple--mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos
+idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de
+cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse se a gente
+gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que
+se toque a campainha em querendo que elles appareçam de novo, e estacam
+de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses são os idiotas
+tafues, os idiotas como se quer. Não servem para muito; mas, bem
+aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado
+fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,--como janotas!
+
+O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de
+não se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue
+logo:
+
+--Se gosto de musica! Mas eu como musica, senhor, musica é que eu
+como!...
+
+E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar
+faluas, larga a tocar coisas incalculaveis.
+
+Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua
+portugueza de Fonseca--«_Idiota_, adj. es. de 2 g. _ignorante, sem
+estudos_.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o
+diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de
+uma aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta,
+que falla e toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam,
+guincham, riem, e babam-se. Esses são um pouco mais do que
+_ignorante e sem estudos_, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a
+cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo
+levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe
+devia,--tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a
+taça do Cesar idolatra,--com a differença de que estes manes, que são as
+idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!...
+
+Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e
+quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do nariz,
+capazes de ficar encostados á parede o dia todo...
+
+Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber
+para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama;
+o horror sem lances.
+
+Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo,
+bonacheirão,--certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa.
+
+Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a
+seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a
+Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido.
+Depois, vergando a cabeça, fica a olhar para ellas...
+
+Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a
+parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é
+que morre em não tendo ossos dentro.
+
+Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que
+será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece
+que elles é que não existem já.
+
+Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o
+_formica leo_ d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos,
+e alguns não ouvem? se o destino os seccou como o sol secca os
+regueiros!...
+
+Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem
+cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos
+hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão
+figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um
+palhaço morto!...
+
+Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral;
+e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças;
+recommendam-lhe que não metta os dedos no nariz, e que não ande de
+joelhos pelo chão para não estragar as calças. Elle ouve, e esquece-se.
+
+Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a
+rir sosinhos...
+
+A _macaca_ apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem
+outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas
+acenam-lhe e dizem-lhe:--«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que
+foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para
+ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo
+pela peior das portas,--pela porta de Rilhafolles. Era enfesada,
+cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial; ali lhe tem crescido o
+corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso.
+Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de
+sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando
+vão dar-lh'as, come-as,--sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento
+de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e
+que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas.
+É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus
+vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu
+lhe apalpasse a cabeça para vêr até que ponto é molle. Consideram
+geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz.
+E dahi,--talvez! Pobre _macaca_! Desraizada do mundo, e plantada na vida
+como uma cebola de jacintho na agua!...
+
+Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros--não
+sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada;
+toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até
+os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes
+faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:--elles não se
+lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é mais do que elles! a
+aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella
+casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra,
+o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão
+exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos
+furiosos!
+
+
+
+
+IV
+
+Os furiosos
+
+
+Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,--triste prova
+de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia
+vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente
+mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida,
+saltam-lhes por entre os beiços corádos pela febre, como por um
+arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...
+
+Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação,
+grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem
+descanço,--para um--para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga.
+Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade
+visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão.
+Mas,--nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...
+
+--Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo
+agrado felino, o risinho da hyena,--a morrerem de desejo de nos
+saccudir de encontro ás grades.
+
+Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos.
+Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se...
+Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,--d'essas
+mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares
+de ir n'um andor--e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é
+profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda
+conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os
+outros, papel doirado, para fazerem corôas; nem ha coberta na
+enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...
+
+Donde provêm o mal?
+
+Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem
+nos diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade,
+não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante
+as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás
+escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno,
+ligeiro para nós, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitação e
+de tortura,--com as mãos atadas, os braços presos, as rações da
+comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico
+horisonte e unica companhia!...
+
+Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem
+velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os,
+dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente
+acorda; um ou outro tem a mão finissima, mão de quem não faz nada, de
+quem não trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte
+com pelle por cima... em ar de luva!
+
+Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias
+insondaveis da desesperação. Só a mãe de algum ou a mulher, vão
+vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que não abandonam as angustias
+persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em
+Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe
+companhia--colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo
+sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que
+havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que
+parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na
+eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!
+
+Mas, em geral, como se os olhos humanos não devessem contemplar o
+espectaculo d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os
+visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto
+d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim
+libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as orações
+que lhes disser...
+
+Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São
+os poetas da casa;--sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro
+aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,--e isso mesmo é
+arriscado ás vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que
+dizem ser excellente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho
+curioso:--uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira
+para Santa Philomena,--santa com que tinha grande devoção uma enfermeira
+de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de freiras de Leiria, e
+que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fôra empregada.
+As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga companheira,
+conservam o culto á santa.
+
+O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o
+banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a
+mostrar-nos as suas obras.
+
+--Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e
+travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.
+
+--Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos
+d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.
+
+Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço
+com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os
+trata. É isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar
+exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o
+medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de
+injurias e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres
+furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de
+vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo,
+para não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de
+intelligencia, que ás vezes só de passagem está nublada.
+
+Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os
+furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.
+
+De ordinario os doidos que representam,--dos mais quietos, já se vê, e
+dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem dar signaes
+de alienação--dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes
+expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e
+completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos.
+
+Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do
+companheiro:--os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir
+gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...
+
+O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que
+perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!
+
+As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario
+agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que
+succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e
+tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas
+tendencias malfazejas--atirando sempre que podem uma tigella contra as
+grades, e os cacos á cara de quem vae.
+
+Algumas são verdadeiramente horriveis.
+
+Uma gira todo o dia--mas todo o dia!--descalça, em roda do quarto.
+Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena
+na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e
+enrosca-se.
+
+Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar
+de collete porque marinha pelas grades.
+
+Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em
+pedaços--para as almas!
+
+Esta, de Guimarães,--com certo ar de astucia machiavelica no fundo da
+loucura--está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está
+doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.
+
+--Como está? pergunta-lhe o director.
+
+--Sempre estou boa! responde ella.
+
+--Ah! E então?
+
+--Então sardinha com pão!
+
+E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel,
+hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as
+caretas da loucura.
+
+Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder
+dobrar o pescoço--porque se morde.--Um velho grita por tal fórma, que ás
+vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em
+procura do sitio de onde vem aquelles ais...
+
+Passados dias,--por não haver trazido apontamentos dos furiosos na
+primeira visita que fiz a Rilhafolles,--tive de voltar ali.
+
+A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se
+d'aquellas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme
+Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles
+corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens
+sentados á porta de um quarto.
+
+--Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director.
+
+Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem
+amortalhado,--um boneco, suppuz eu,--e duas tochas ao lado.
+
+Não era boneco, era deveras um cadaver.
+
+Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os
+seus, mandou o presidente da _Sociedade hebraica_ dois homens para
+envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de
+cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como
+era sabbado--dia santo para elles--não lhe mechiam em quanto não fossem
+nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e
+cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o
+no alto do Varejão.
+
+Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já
+não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos
+de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos tambem,
+de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se
+agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem
+são a materia--que é da alma?...
+
+........................................................................
+
+Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas
+pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta
+a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste--por cima d'aquella
+miseria continua!...
+
+
+
+
+V
+
+Telha
+
+
+Tambem os ha cá por fóra!
+
+Mansos, com falla, sem _collete_, passando a vida á procura do
+motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar
+com o _deficit_, da perfeição no amor, do circulo bicudo...
+
+Avista-os a gente por essas ruas, sequiosos de barulho, persuadidos
+de que têem para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma
+causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa
+que, sem se saber de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais
+os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que
+os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente,
+tribunos e heroes, prégando umas celebreiras no tom de quem salva a patria!
+
+Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de
+visinho--descarapuçado e de chinellas--sem mais bagagem do que a sua
+insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multidão.
+
+Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela
+sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva,
+deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella;
+desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja
+o caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito;
+sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este
+genero:--«É o homem que faz o titulo, e não o titulo que faz o
+homem»;--e pondo-se a caminho pela vida adiante, pé cá, pé lá, como quem
+vae com botas de andar leguas, para ficarem estatelados na estrada
+sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força
+viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas
+que os tremoços, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres
+sem grandeza, dôres que dão riso aos mais!
+
+Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera
+em menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol
+de dia, quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade.
+
+Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento
+com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:
+
+--É melhor não casar com esta.
+
+--Porquê?
+
+--Tem o dobro da edade que eu tenho!
+
+--E depois?
+
+--E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem!
+
+O pae fica embuchado, e medita.
+
+Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico.
+Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só
+palavra--supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a
+uma reunião politica, onde se discutem os maiores problemas. É n'um
+terceiro andar. Muito escura a escada. Dão-lhe um rolinho. Aceita;
+desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho
+de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás
+escuras,--pensando sempre em economias...
+
+Quantos! Quantos andam por essas ruas!...
+
+Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes
+nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande--como
+qualquer de nós; mas tem a preoccupação constante do _shoking_, usa bota
+de duas solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete
+inglezado, gravata de seda frouxa com as pontas pendentes,
+caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mão um
+bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós...
+Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor,
+refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das
+praças a examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para
+parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a
+estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos,
+medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem
+perder tempo;--_time is money!_ E passeia; e corta; e gira; e vae
+indo, inglezmente, até ao alto de S. João. Estão abertas de par em par
+as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as
+inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe pareça commodo, e
+senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o _Times_.
+O _Times_ está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o _Times_ com
+imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de
+cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É
+noite; vae para casa,--acabou de ser inglez até ao outro dia!
+
+Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores se
+chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das
+sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer--agua
+vae. Elle respondia sempre, e responde--que já não bebe, que lhe fazia
+mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que não vale a pena... Engana os
+outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e
+sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se
+fallasse com alguem:
+
+--Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!
+
+E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si
+proprio:
+
+--É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes,
+um copo de Collares.
+
+--É Collares picado o que posso offerecer-te!
+
+E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.
+
+--Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o
+queijo amavelmente.
+
+--Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?
+
+--Dás-me muito gosto.
+
+--Uma saude com um copo de Xerez generoso.
+
+--O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos
+n'este...
+
+--Mais um copo, visto isso, de Collares; e passaremos ao Porto, que
+de certo não te faz nervoso como os vinhos brancos?
+
+--Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?
+
+--Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!
+
+E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer
+companhia á do Alemtejo e á de Collares.
+
+--Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos.
+
+--Á tua saude! prosegue, bebendo ambos.
+
+Ah! Quantos, quantos!
+
+Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam a
+parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos não
+reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, não vêem o
+tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;--uns exaltados ridiculos, a
+arder em aspirações phantasticas;--uns pimpões de palavra, sempre em
+prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da
+sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos,
+vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir,
+arrazar: _tutto parole, parole, parole!_--Um que quer cantar sem voz, e
+móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas,
+concertos, cantando tudo, dizendo que dá o _dó_, e não dando cousa
+nenhuma senão cabo da paciencia á gente!
+
+O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda--como outros vão de
+bamburrio em bamburrio--para cair no abysmo, para que se lhe devore a
+ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que
+a mão da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...
+
+O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e
+massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como
+pingos de chuva da rama de um chorão...--O que attribue tudo aos
+jesuitas, não scisma, não dorme, não sonha senão com jesuitas. Tudo
+a mão de Roma, a mão de Roma...--O que, em apanhando piano, principia
+logo a tocar com um dedo horas a fio.
+
+Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a
+cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista...
+
+A antithese d'esses:--velhos precoces, já enfastiados de tudo em
+meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão
+consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra
+mãe dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias de Babylonia.
+Não sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do chão! Aos
+vinte annos já não dançam, e usam luneta côr de fumo nos olhos
+fatigados... do gaz do Martinho!
+
+Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da
+namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,--quer
+trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos;
+qualquer coisa; exemplo:.--«As ginjas são talvez melhores á sobremesa,
+do que para prato de meio.» Conceitos!--Outro, leva o anno inteiro a
+scismar como ha de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a
+cara, o que ha de pôr no nariz...--Outro, conversa muito alto,
+n'este estylo que lhe parece optimo:--Diga-me se não é anomalo,
+acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as nações
+atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos
+tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da
+ignorancia. O meu amigo é ecletico?
+
+E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não
+cumprir, nunca vão a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle
+diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a
+rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes não se
+esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo,
+da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga;
+trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de
+assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires
+quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já
+a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não
+pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam
+parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes
+diga como elles se chamam, e irem então reclamar a carta; a correr,
+antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_,
+e rija!...
+
+Digamos o peior;--quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha
+principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda
+a gente anda com _telha_...
+
+Quem ha,--dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam
+tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como
+que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma
+remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de
+saudades da patria que perdeu... A terra parece triste então,
+embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e
+consegue-o ás vezes... De noite, quando não se póde dormir, mas está
+tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as
+flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros
+e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o
+olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo
+então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,--a _telha!_...
+
+
+
+
+VI
+
+Enguiços
+
+
+Quente... quente...
+
+Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram,
+com quem viveram, parente, amigo, visinho...
+
+O diccionario de Moraes explica-o assim:--«Enguiço é o mal que se causa
+de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.» Até
+aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se
+avenham.--«Consiste,--continua--em ficar acanhado.» Estão satisfeitos?
+Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiçar o mesmo
+auctor exprime-se assim:--«Dizem que o torto olhando para alguem
+enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é,
+faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.
+
+D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e
+incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da
+creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e
+cousa pouca, que moem e affligem os enguiçados,--gente nervosa,
+delicada e phantastica.
+
+Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A
+influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o
+vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e
+sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela
+doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das
+ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não
+se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço,
+que falla dentro d'elles, e compõe, e ordena, e retem, e impelle...
+
+Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia
+preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe
+um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:
+
+--Ó José?
+
+--Senhor.
+
+--Tu deste-me a corda inteira?
+
+--Dei, sim senhor.
+
+--Toda, toda?
+
+--Dei-lhe a corda toda, sim senhor.
+
+--Está bom!
+
+Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para
+as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi
+brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda.
+
+Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é
+ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em
+redondo ao prato.
+
+Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é
+empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os
+dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor
+a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:
+
+«Um.
+
+«Dois.
+
+«Tres.»
+
+Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.
+
+Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a
+quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café
+ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não
+envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje
+Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades
+sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete
+annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido
+pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,--encontrou as portas
+fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se
+d'elle; os jornaes contaram o caso.
+
+Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;--a religião do enguiço.
+Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje
+de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora
+decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando
+apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o
+beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou
+eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a
+palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha
+outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que
+immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar
+das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia
+guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio,
+largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O
+cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por
+felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo que elle levava em
+sua companhia.
+
+Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude
+em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes
+ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no
+ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao
+saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos
+trambulhões.
+
+Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de
+pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não
+consentia por ter dó de obrigar os moleques a estarem para ali
+espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um
+creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.
+
+Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;--faz casas
+para não morrer. Lá diz o proverbio campesino--«ninho feito, pêga
+morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer
+predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando
+sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a
+capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e
+cal!
+
+Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a
+parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os
+raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das
+apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a
+namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no
+Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas,
+pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão
+solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo
+Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á
+entrada uma prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...
+
+Que dança! que dança!
+
+Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé
+direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas,
+contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto
+em vez de dádiva.--Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não
+estender a mão seis vezes não lh'a beijam.--Uns têem terror ás aranhas;
+outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em
+certas ruas senão do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a
+gente, são timidos com as creanças. As creanças têem o que quer que
+seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na _Chronica de D. João I_, cita
+uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de
+Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas
+creanças uma veneração profunda; os que não a leram--tambem. Batia na
+mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna--para
+onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada,
+conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se
+costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados
+estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa
+semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:
+
+--Porque é que tu já me não bates?
+
+E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a
+prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se,
+escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço:
+
+--Tenho medo de acordar o pequeno!...
+
+De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem
+ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os
+corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão
+fartos de o saber; e por isso são tão joviaes. Andam sempre a
+rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso,
+porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca
+desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver
+encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um
+d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome
+riam-se!--encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o
+desenguiçar de outro que havia visto.
+
+Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma
+moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.
+Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias!
+quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa
+tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem
+posto a policia em bolandas--sómente para garantir a giba do contacto
+impudico da moeda preservativa.
+
+Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que
+a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette
+acabar com elles,--e não haverá mais enguiçados por este accidente!...
+
+Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,--sujeitos de
+pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça
+nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas
+pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias,
+que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia;
+consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.
+
+São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens
+grandes no corpo e na força;--homens grandes no espirito; phantasistas,
+poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os
+ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis--ha uns
+tempos--andam muito enguiçados!...
+
+Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular
+harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles,
+nem com o acaso;--os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se
+entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma
+pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi
+está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a
+espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou
+mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no
+papel...--Basta! Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu
+podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.
+
+
+
+
+VII
+
+Agouros
+
+
+Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente
+o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação
+diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo
+canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu
+futura divino_) e por extensão conjecturar de qualquer modo.
+N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes
+insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro.
+
+O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras
+vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se
+espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede
+levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar;
+atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas
+urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um
+relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a materia muda
+tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer
+das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que
+reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga...
+Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no
+canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão...
+
+Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e
+á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;--a fatalidade
+delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico.
+Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma questões
+insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que
+arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e
+que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a
+quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear
+commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do
+norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,--condemnados de manhã ao
+Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas
+ventanias.
+
+Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão
+seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa,
+confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da
+fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como
+outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello
+resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse...
+Os artistas principalmente,--os que são dignos d'este nome, os notaveis,
+os verdadeiros artistas--têem superstições indestructiveis e muitas
+vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha
+exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e
+ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a
+quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não
+era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do
+contracto, dizia-me em frente do Tejo:
+
+--Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio
+funesto.
+
+As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais
+singular ainda do que o agouro!
+
+Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar
+o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a
+perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em
+miseria ou em asneira.
+
+Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá
+arranjou ser deputado--mas o que não arranjou é fallar, porque os
+agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é
+saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia
+dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os
+adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das
+maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta
+dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um
+lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a
+proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E
+tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se
+quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe
+avisos:--«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de
+ouro. Calla essa boca!...»
+
+Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame
+prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a
+agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata
+d'ellas--mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em
+cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar
+á casca;--não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe
+não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar
+para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--não
+permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,--pobreza
+imminente;--não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem
+fatal;--e por cousa alguma morará em «casa de esquina,--morte ou ruina!»
+
+Este, se vê um «ladrão» na véla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em
+caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.
+
+Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre;
+o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da
+Ascenção do Senhor.
+
+Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque,
+se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao
+domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim
+dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.
+
+Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios.
+A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da
+Trindade--é um pinhal de agouros. Vamos vêl-os com cautella; se
+têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado
+n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender
+o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero
+_treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official
+foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que
+commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero
+vinte e seis, que é duas vezes _treze_. Assentou praça no 2.º batalhão
+movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela
+primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em
+theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi
+escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia _treze_ de maio de
+1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de março
+de 1853. E--para corôar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S.
+Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado,
+triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero--que o não foi
+no calcanhar.
+
+Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O
+actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve
+entre elle e Francisco Palha--não quiz apparecer pela primeira vez
+no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira
+recita de _Frou-frou_. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os
+camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera,
+segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Chá_; no ultimo acto
+vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou
+com elles o _can-can_ com que terminava a peça. Na noite immediata
+representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da
+Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se
+assim.
+
+O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já
+principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se
+alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze
+repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12--12.
+
+Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a
+algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um
+amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e
+lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se
+principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer,
+que acabára de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não
+o largaram senão ao café.
+
+Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que
+vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para
+ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e
+mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do
+valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das
+cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a
+terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé--e morreu á beira da
+realisação da sua idéa...
+
+A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os
+agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é
+capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a
+bordo, é salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento
+de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao
+mar, predispõe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do
+vento para evitar o empandeiramento do velame.
+
+Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das
+creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles
+armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é
+signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem
+conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo?
+Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são _o tinha de ser_:
+consolação--de quem não tem outra!...
+
+
+
+
+VIII
+
+Feitiços
+
+
+Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer
+mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas--sem outra culpa
+ás vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um
+bem:--falta, porque se aspirou a elle; receia-se semsaboria: ella
+que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do coração é
+uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a
+coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a quem tem sede, e agua a
+quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, e quem for só
+rico de appetite--pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que
+o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a
+chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do
+tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da
+lampada, o amante acordou e fugiu... Voltou-se Orpheu para ver
+Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitiço
+é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, levantando-o entre
+as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor,
+e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a pernear,
+salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais
+distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma
+apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos
+extraordinarios para se entreter, e não gosta senão do que fôr
+maravilha, do que estiver superior á humanidade, do que ella não
+entender... Não se vê na _Iliada_ andarem sempre os deuses a fazer
+costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio
+sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;--este as
+romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou
+da Guia: mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que
+acredita na Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em
+perdendo coisa, não ha fazer com que a procure sem resar um responso a
+Santo Antonio;--o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um
+espelho, por ser possivel ver-se morto, ou ver outra imagem em vez
+da sua...
+
+Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está
+alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a
+deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae
+saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro...
+
+ Alguidar, alguidar
+ Que foste feito ao luar,
+ Debaixo das sete estrellas,
+ Com cuspinhos de donzellas
+ Te mandei eu amassar...
+
+As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do
+mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a
+desgraça outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas
+nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra,
+e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas com moderação;--e
+era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o paiz a ponto de
+levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia tão
+desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se
+usassem em Lisboa nem em seu termo--«obra de feitiços, nem de ligamento,
+nem de descantações, nem de viadeira, nem de carantulas, nem
+outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás
+portas, nem furtar aguas, nem lançar sortes.»
+
+Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a
+mania de que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou
+inclinações humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo
+de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregação de petas que
+offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal
+mez ha de morrer um grande personagem:--sempre morre, e seria um
+transtorno se assim não succedesse, n'uma terra como esta em que se
+aponta a dedo quem não é conselheiro!--que no mez de tal ha de correr
+uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, no
+mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará
+um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio,
+ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços
+irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!...
+
+Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços.
+Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a
+doença que ninguem entende, chorando e rindo ao acaso, torcendo os
+dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo
+e ralando as pessoas de quem mais gostar,--tem feitiço. As artistas, ou
+porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte
+as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia das Neves,
+pontualissima aliaz em ir aos ensaios,--ensaia todavia os papeis em casa
+mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella
+calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas.
+Antes do _Gladiador de Ravenna_ se representar, já as criadas da famosa
+actriz--por espreitar ás portas e escutar--sabiam de cór o papel de
+Tusnelda. A sala é a grande preparação;--o tablado é o dever; a sala é o
+feitiço. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista
+tem a sua invocação: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral
+torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto.
+
+Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem
+fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços.
+Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal
+da Graça, á direita o sitio chamado a Gloria, e á esquerda a rua do
+Paraiso!...
+
+Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta
+pastelleiro, o Matta artista,--o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam.
+Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei
+que lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem
+bem; assim como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser
+incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei
+a quem me dirijo. Vamos.--Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco.
+Quem uma vez na vida pelo menos não frigiu uns ovos, não fez um
+biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha muito quem
+conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja
+incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola--por nunca haver
+posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos
+perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus
+frageis dias,--os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a
+saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos
+resultados para os pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o
+soldado entre as balas,--com a differença de que para elle todos os
+dias que Deus dá são de combate, e combate que não dá postos nem
+condecorações! E dirige e tempéra, e tira e põe,--mas de avental; mesmo
+que não se trate senão de dar a voz de commando,--de avental sempre:
+aliás, tudo se perde, entra na comida o _bispo_,--unico que não tem nem
+terá partido,--agúa-se o môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle
+por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do
+paraiso,--porque a serpente não seduziu Eva com uma maçã, como se
+espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; seduziu-a
+com geléa: geléa que se apanhava da rezina das arvores. E não lhe
+fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,--porque o
+não tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o
+seu pae, é o seu feitiço!...
+
+Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a
+gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da _Ciosa_, de
+Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado
+que teve e possa ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella
+ lava teu rosto com ella,
+ tornar-te-has na compostura
+ e fegura
+ do que se foi.»
+
+No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da
+gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e
+secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz.
+
+Dizem que ha sitios no mar,--o cabo da Boa Esperança, por exemplo,--em
+que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de
+feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o
+gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a
+cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem
+emfim sepultura.
+
+Os feitiços no mar representam a attracção do elemento, o
+magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem
+caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se
+põem a dançar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar,
+e mal vae ao piloto em os feitiços dando no barco.
+
+Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar,
+por lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando
+lhe quebram de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle
+está guardado; que acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer
+chamar, mas lhe tapam a boca para que não grite, e elle adormece
+outra vez...
+
+As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto
+vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça
+ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á
+escuta, repara-se se diz _sim_ ou _não_ quem vae passando.--Em Lisboa,
+pelas festas de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento
+na esperança de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se
+ella deita espiga.--Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de
+esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido
+como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo
+no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.--Quem tiver sete filhos está
+em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmão ser
+padrinho,--ou nascerá defeituoso.--Enrolam-se tres papelinhos, com seu
+nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua:
+outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha
+de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,--metade da
+casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres
+entre os colxões. De manhã, tira-se uma; se traz casca, vem vestida
+e a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser
+pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada...
+
+O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó
+morenas,--o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,--sois vós!
+Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós!
+
+
+
+
+IX
+
+Encantos
+
+
+Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia,
+converteu em porcos os companheiros de Ulysses:
+
+ _Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis_
+
+Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma
+methamorphose muito agradavel!--O grande impostor do Simão magico,
+contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos
+deuses quiz voar por cima de Roma--como o nosso Bartholomeu Lourenço por
+cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia á experiencia, fez por intermedio
+das suas orações que caisse das alturas e se despedaçasse...
+
+Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das
+mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a
+dominação mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar--para melhor
+guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis,
+saphiras, cordões de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de
+diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini.
+Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e
+desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza
+e voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias.
+Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á
+meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,--como diz Garrett na _D.
+Branca_:
+
+ E ai! se o gallo cantou, que á meia noite
+ Encantos quebram, e o poder lh'acaba.
+
+Muitas vivem nas fontes.--Algumas têem ido á India n'uma casca de
+ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as
+encantadas ruins não embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos
+por baptisar.--Algumas têem-se fingido encantadas, para as desencantarem
+melhor. Á sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e não
+poucas se serviram d'isso para apanhar marido. Lá o indica bem a trova
+da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e encontra no arvoredo uma
+donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar
+n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e dá-lhe
+a escolher:
+
+ Ou nas ancas ou na sella
+ Onde fôr mais honra minha.
+
+Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga
+a rir, a rir...--Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...
+
+No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,--no
+mar--ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o
+reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das
+nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas,
+provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam Ulysses com
+o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro
+do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,--e, o que é mais,
+mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de
+não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um
+capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu
+casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do
+tecto;--affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle
+bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o
+que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar um padre,
+confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia
+noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo
+sitio...
+
+Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que
+sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos
+ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas
+opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a
+encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e
+pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as
+manhãsinhas á praça fazer compras; eram conhecidas por terem sempre
+molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que
+andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com
+moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de
+coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma;
+appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos
+que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe
+vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se
+perderam todos n'essa noite...
+
+Teem genio proprio do elemento em que vivem; graciosas e crueis;
+amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o
+que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que
+não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira
+de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a
+existencia humana.
+
+Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá
+têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz
+padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de
+encantadas,--que ora lhe appareciam á borda dos regatos a pentear
+os _cabellos de oiro_, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do
+mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um
+muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...
+
+Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher
+da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:--mas
+conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber,
+e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já
+lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A _Deuza dos Mares_,
+a _Flor de Lisboa_, e os vapores do sr. Burnay, assustaram-as.
+Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá
+para cima senão os mudos,... que são os peixes!...
+
+De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura
+poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e
+pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande
+segredo do seu poder,--porque a graça precisa de ser picante. É como com
+as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas
+bonitas,--mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente
+o põe--n'uma creatura, n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania.
+Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma
+particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás
+vezes--como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor
+especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima»
+na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que
+transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz
+reparo:--a vontade.
+
+Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas--tem ella o encanto
+de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado
+Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um
+navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete
+dias até fundear no porto de Santos!
+
+O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de
+apparencia inanimada,--nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo:
+trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o
+adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se
+muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:--depois, em se
+apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica
+encharcado põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo
+contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça
+de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo
+por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de
+elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua--não chovendo,
+e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo
+do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva;
+representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,--a borrasca e a
+bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o
+ceu, e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella
+curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima,
+ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que
+vae cá por baixo!
+
+O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer.
+Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este
+mundo--Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe
+chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer
+das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre
+inferiores--haja vista aquelle do Minho, que esteve ha annos em
+exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer
+profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é
+de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se
+exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma
+escada de mão para se lhes fazer festas na cara!
+
+Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um
+metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas
+não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens,
+porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão uma cabeçada nos callos
+de quem vae passando...
+
+Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz
+lhes ha de dar um beijo;--em lhes comendo a palma da mão, já a gente
+sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a
+logo;--a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a
+esquerda, alguem nos corta na pelle.--Na madrugada de S. João quem fôr
+lavar a cara á fonte, fica bonito:--e quem nadar n'essa noite alcança o
+que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores
+sorriem...
+
+Os dois encantos negros são as almas penadas e os lobis-homens. A
+preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa
+morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em
+malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia
+lamentosamente:
+
+--_Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu
+difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho
+sapateio..._
+
+--Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a
+preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!
+
+E pagou. E o sapateiro foi arrecadando a moeda, dizendo com
+modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela
+noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia
+pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu:
+
+--Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não
+dou mais rial ao vijinho sapateio!
+
+E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a
+penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e
+nunca mais lhe deu vintem.
+
+As almas penadas são d'esta qualidade; e tambem defuntos, que por
+lhes faltar alguem á palavra dada--vagam n'este mundo, até que lhes
+satisfaçam as ultimas vontades.
+
+Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario,
+mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa
+apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo,
+mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,--espojavam-se. Isso não
+continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para
+variar, e que tem por ahi apparecido seu burro--mudado em homem.
+
+
+
+
+X
+
+Sonhos
+
+
+Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar
+n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar
+talvez a monotonia da agua dormente--_mare mortuum_! Querem casos,
+avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis
+nem faziveis... A antiguidade espantava-se com o assoviar das
+serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da
+terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o
+progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, _desgosto e feridas_: com
+dados, _perder os bens_: com espelho, _traição_: com favas, _doença_:
+com herança, _miseria_: com padre, _morte_!
+
+Alguns, não sei porque,--pode ser que por fazerem o mesmo
+acordados--sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser,
+que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia
+libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo mudado;
+fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e
+Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria,
+crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma
+chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que
+torce sempre o nariz--limite de seu horisonte--a tudo que vae pelo
+mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o
+Apollo de Belvedere é _piteireiro_: a Venus de Milo assa castanhas,
+Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de
+capa de asperges!...
+
+Porque será que se sonha?! Chega a parecer que a alma não está nas
+pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz
+suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem
+com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é
+dada,--obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para
+onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar
+o fio o deixe bambo:--qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar
+e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e
+acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos,
+trazendo-nos idéas e imagens que não têem parentesco com as imagens
+e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que
+fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!
+
+Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.--Que a ultima
+coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.--Outros
+affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle
+não vem, e certo está em o evitando;--principios um pouco alheios aos do
+Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não
+batas e abrir-te-hão!
+
+A maneira de dormir deve ter n'isto influencia. Cama desengonçada e
+velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de
+fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão,
+saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra,
+de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo
+n'essas condições?
+
+As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece
+sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos
+sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres
+luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com casamento.--E crê-se
+entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem
+attribuir-lhes a fortuna:--os que costumam ser desgraçados, já se vê,
+que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus
+merecimentos!--E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos;
+e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de
+visões, ora de insomnias:--e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter
+pulgas no quarto!
+
+Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das
+apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e
+apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão
+para saguão,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a
+loucura!
+
+É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que
+nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado,
+merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que não teem
+desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos
+livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em não havendo causas grandes,
+as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco
+de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao
+chão do mesmo modo.
+
+--Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!
+
+--Ai! Com cominhos!
+
+--São pragas! É praga que me rogaram.
+
+--Credo! É facil ser!
+
+E dá-se credito.
+
+Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril
+de polvora sem pegar fogo--estou que não acreditam ao ponto de se
+deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha
+seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto
+matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra
+_prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem
+se atreverá a pôl-o em duvida?!
+
+Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,--por tal fórma os males
+imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu
+ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi
+pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou
+dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e
+metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a
+conseguil-o:
+
+ «Gloriosa Santa Helena
+ Filha da rainha Irena
+ Moira foste, christã vos tornaste.
+ Nas ondas do mar andaste,
+ Com as onze mil virgens vos encontraste.
+ Com ellas pão e queijo ceaste.
+ Ao crucifixo vos encostaste
+ Tres cravos que tinha lhe tiraste.
+
+ O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo
+ déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a
+ batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha
+ gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae
+ em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas
+ lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim não
+ é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras
+ e aguas turvas, _Amen_.»
+
+Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos
+dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo
+seu pé. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de
+Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse
+em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter
+mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites
+depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha--foi
+atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã
+lavar a loiça;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa
+limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi
+deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se
+passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o
+gallego.
+
+--Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!
+
+Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno,
+interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos
+acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu
+a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em
+si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte
+pergunta:
+
+--Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?
+
+Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e
+sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que
+perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.
+
+De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso....
+Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á
+noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, já se vê:
+
+--É verdade que tu andas de cabeça no ar?
+
+--Ando.
+
+--Por causa de quem?
+
+--Do primo José Maria.
+
+--É possivel! E porque é isso?
+
+--Porque elle é bonito, e tu és feio.
+
+Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.
+
+A grande preoccupação popular são os pesadelos,--sonhos negros,
+carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça
+que causámos.---«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na
+_Nova Castro_. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances
+mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os
+primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os
+chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois
+de morto, para confessar um peccado que não tinha dito.
+
+Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo,
+faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos
+a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos,
+reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas
+com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a
+ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que
+se vê!
+
+Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz--quando não se possa
+sel-o de outra fórma. Sempre são horas de ganho sobre os enfados e
+cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se
+alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da
+Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os
+claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos,
+que morreu espertando.»--É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e ás
+vezes da felicidade!
+
+
+
+
+XI
+
+Sinas
+
+
+Portugal é a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o
+paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas...
+e as grandes, ao pé do amigo lar.
+
+Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os
+gatos): de 13 de fevereiro a 20 de março, nascem os que hão de ser
+gastronomos:--de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes,
+com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum
+animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma
+grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho,
+os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente
+destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;--de 23 de julho até 25
+de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de
+esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou
+aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro
+escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de
+setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a
+gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de
+namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:--de 24 de agosto a
+21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos
+ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se
+emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na
+patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:--de 24 de
+outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia;
+mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;--de 23 de
+novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á
+navegação; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de
+janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco
+saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho,
+brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros,
+quasi todos militares.
+
+Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo.
+Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos
+succeder depois de nascer... ou antes. A mão o dirá. Na mão ha
+muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e já se vê
+que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:
+
+--Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!
+
+Ou:
+
+Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!
+
+Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:
+
+Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;--avareza, mão dura e
+encarquilhada;--luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos
+na base;--ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mãos
+compridas e ossudas;--preguiça, mão branda e macia:
+
+Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as
+linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão
+direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que
+isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre
+a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que
+logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão _esquerda_!
+
+A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter
+poesia se fosse dita e sentida de outra fórma. Comprehende-se que
+quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações
+que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por
+exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem
+lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma
+coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das
+magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os
+raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não
+passa de ser mais um satelite--e a esperança é um dos nossos tambem,
+nuvem de guarda que nos vae consolando com as visões...
+
+A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de
+cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se
+gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque
+motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para
+ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os
+defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se
+lhe tem?!
+
+É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem
+no tronco centenario dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros
+negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir
+fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros
+armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa
+material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!
+
+Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de
+continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria
+das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais
+bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util
+entregar-se, termo medio, de sete em sete annos áquella operação.
+Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna--sem ver
+apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de
+voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda
+representação de vaccina:--trinta segundos; depois, já se vê, da meia
+hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres
+borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha
+febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois
+annos tem bexigas. Diz o povo:
+
+--Era a sua sina!
+
+As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do
+fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi
+sempre fatidicos; lá se diz na _Chronica de D. Sebastião_ por Fr.
+Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado
+Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia:
+«Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a
+sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que
+mudasse para outra mais alegre.
+
+Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho,
+porque até os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco,
+por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para
+mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para
+o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso,
+o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o
+espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle!
+
+Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada,
+não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde
+zombar, póde não crer;--a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa,
+cassoista. Um moço elegante e pallido que durante um tempo foi
+grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a
+côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha
+memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as
+mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que
+tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder
+de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe
+tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua
+respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz
+complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse--deixou-o
+esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes,
+conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O
+outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á
+perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O
+das mãos grandes, sempre lendo, disse:
+
+--Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, _tó_, _tó_, anda cá
+tollo...
+
+E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...
+
+O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia
+perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão
+phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...
+
+Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás
+vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da
+vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma
+borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá
+sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é
+isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer
+dar ás azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar,
+alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!
+
+A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a
+_buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a
+assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e
+escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de
+rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle
+mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia
+tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas,
+o canto do cuco!
+
+A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de
+_D. Branca_:
+
+ Por onde o traz seu fado?
+ Oh! negra sina entrou n'essa familia...
+
+Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de
+ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força
+alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para
+ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões,
+e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um
+freguez, que a unica coisa que não furtava era a má fama que tinha.
+Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão
+tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão
+obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez
+quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--«Pratos 800 réis.»
+
+--Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?
+
+--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.
+
+A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os
+cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz
+sempre justiça, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os
+monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes
+e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do
+pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem.
+Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a
+que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice!
+
+
+
+
+XII
+
+Coisa má
+
+
+«Coisa má!»
+
+«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser
+preferivel á ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma
+canellada do que encontrar certas caras!
+
+«Coisa má» é a lua de março; a lua marcina, como lhe chamam no
+campo--que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não
+passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e
+não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de
+varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que
+passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram
+sem que recebessem cinco réis em troca...
+
+Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços,
+armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não
+ha objecto que não tenha morador, que não tenha inquilino, que não
+tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com
+o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja
+e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis,
+pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça...
+
+Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente--que nem que fosse um
+cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo
+chapeu novo, é sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira
+vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder precalço; anda um
+homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam
+pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se
+está passando...
+
+Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno,
+capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na
+estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos
+sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo.
+
+Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde
+te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de
+fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali
+roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de
+algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a
+ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel!
+
+Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do
+trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo
+á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,--ou, o que
+ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por
+não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites
+sem graça e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a
+vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?
+
+Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do
+trinco--não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo
+preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e
+toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta,
+até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!
+
+Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil
+historias de «coisa má,»--poços que atiram para fóra com o que se lhes
+deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos
+pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz...
+
+Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz
+e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de
+inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar...
+Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que
+cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite
+origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite.
+Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas,
+e adoral-a por não saber que explicação lhe dar.
+
+Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que
+havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos
+principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no
+poema da _Monocléa_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e
+zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da
+sua gloria:
+
+ De um olho claudicava de tal arte
+ Que celebre se fez em toda a parte.
+
+Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um
+agiota, sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres,
+debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e
+financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança--a 9 por cento.
+
+Dizia-lhe um amigo:
+
+--Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus
+vê tudo, e estou que não te perdôa essa!
+
+--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de
+cima parece um 6.
+
+Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em
+que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde
+o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de
+barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que
+até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos
+sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto
+do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz
+carta ou traz más novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o
+fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em
+casa;--ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar
+castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mão;--é
+n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas
+horas, e fica sem o botão do collarinho...
+
+Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series
+como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não
+chegam mais dois; tres é o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem
+haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar
+n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra
+vez a bomba.
+
+É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha
+aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas
+relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e
+tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos
+consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira
+carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é
+raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a
+pera e o queijo o fado de João Brandão!
+
+Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa
+tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem,
+muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim,
+que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a
+gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama
+das arvores;--ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem
+attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está
+no fundo a coisa má;--e esses objectos a que mais se quer serão os que
+hão de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o
+quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo
+contra vontade!
+
+E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»--o amor, a formosura, a
+mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que
+ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que até têem azas como os
+anjos, e voam como as andorinhas!
+
+Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e
+chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem
+sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o
+estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim
+desgraçado de homens notaveis,--Euripides despedaçado por uma matilha de
+cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a
+mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o
+caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:
+
+--É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que
+falla francez!
+
+--Sério? perguntavam todos.
+
+--Ha quem o ouvisse.
+
+Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta
+quando appareceram os primeiros em Lisboa.
+
+--É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...
+
+--Sim, sim.
+
+--Deixa andar a mãe a pedir esmola...
+
+--Sim senhor.
+
+--Até anda de chale-manta!
+
+--O quê?!
+
+--Palavra de honra.
+
+Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha
+«coisa má»--e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já
+ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da
+sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre
+que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se
+alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A
+mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra
+qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se
+manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae
+azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado
+de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso.
+
+«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a
+quem; querer remar e não ter braços. O _politicão_ que passa a vida a
+recusar pastas que não lhe offerecem--diz que o paiz tem «coisa má;» o
+beberrão que troca as pernas--accusa de ter «coisa má» o vinho de mais
+que bebeu.
+
+«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não
+tem!...
+
+
+
+
+XIII
+
+As mulheres de virtude
+
+
+O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e
+de vista--apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a
+que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca
+quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a
+dignar-se sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal
+de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa
+não os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe
+as costas e dá ás de Villa Diogo!
+
+De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores
+para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude
+na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao
+
+ _Pero Pico
+ que viveu pouco e pobre
+ e finou rico!_
+
+As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a vida
+seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em
+philtros, ás _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ são as
+_chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As
+crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da
+melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem
+elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das
+cartas tudo que vae pelo mundo.
+
+Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas
+_mulheres de virtude_, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam
+de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as
+ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas
+onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de
+roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com
+liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres
+casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se
+enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um
+cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia,
+esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas
+ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á meia noite de sexta feira em
+que fosse lua nova.
+
+As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem
+condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas
+no lar domestico, creadas na solidão--mais profunda sempre que a do
+homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida.
+Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas
+mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes
+parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:--acreditam
+todas na fatalidade--e a fatalidade é a mãe da bruxaria.
+
+Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que
+lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma
+escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela
+senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha
+com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires
+com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em
+cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa,
+dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:
+
+ _Deus te fez,
+ Deus te creou,
+ Deus te desolhe
+ De quem mal te olhou.
+ Se é torto ou excommungado,
+ Deus te desolhe do seu mal olhado._
+
+Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a
+cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos,
+vão resmungando de fórma que mal se perceba--«Sant'Anna teve a Virgem, a
+Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal
+olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae,
+não tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer
+obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer
+dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á
+consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje
+um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para
+fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...--Sei tudo isto
+por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.
+
+Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar,
+vellas de cêra, e--como diz o povo--_para compôr_, um pouco de cabello.
+O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello dá amor,
+lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica.
+Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o
+amor conjugal a limites extremos--o que não o impediu de casar por duas
+vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe
+por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para
+conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que
+haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranças de
+cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera
+a desgraça de as perder, e mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o
+topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma
+côr--mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem
+nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de
+virtude!...
+
+Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que só dá por
+isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem
+soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite
+correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados,
+logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras:
+«Vôa, vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não
+sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite,
+espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a
+resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o
+espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou
+de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima
+de toda a folha!» disse:--«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!»
+Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a
+rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...
+
+Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a
+si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas
+lhe estão chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me
+que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende.
+
+Ora as _mulheres de virtude_ são bruxas que aprendem. Vae aquella arte
+de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás
+vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber:
+até se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir
+seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer não; a
+sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na
+cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao
+genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher
+de virtude_ é o que tem havido melhor!
+
+Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra.
+Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo,
+dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam
+nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e
+choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece
+com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio...
+Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados;
+ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama
+piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas
+tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como
+que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de
+contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as
+cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella
+estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima,
+apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o
+_amante_, o cinco de copas são _lagrimas_, o az de paus _fandangos_
+(amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres
+de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus
+_prisão_, e a espadilha _affirma_!
+
+É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma
+estupidez--é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de
+casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!
+
+Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a
+inquietação, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e
+de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na
+mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas
+rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no
+fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza,
+no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e
+clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de
+alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no
+palavrorio de resa que precede o _botar a falla_:
+--Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho
+e arruda--maravalhas e palhas de alhos!
+
+Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia
+na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do
+acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os
+conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas
+essas allucinações de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguiços_,
+_encantos_, _agouros_, _feitiços_, _sonhos_, _sinas_, _coisa má_,
+provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas _mulheres de
+virtude_. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer
+no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor
+não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas
+que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a
+chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão
+em duas coisas,--em enguiços e em economias! O mesmo _deficit_ de que
+tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim
+somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+INDICE DOS CAPITULOS
+
+ PAG.
+ I--Os doidos................... 5
+ II--As doidas................... 23
+ III--Os idiotas.................. 41
+ IV--Os furiosos................. 59
+ V--Telha....................... 77
+ VI--Enguiços.................... 97
+ VII--Agouros..................... 117
+ VIII--Feitiços.................... 135
+ IX--Encantos.................... 155
+ X--Sonhos...................... 175
+ XI--Sinas....................... 193
+ XII--Coisa má.................... 213
+ XIII--As mulheres de virtude...... 231
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by
+Júlio César Machado
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***
+
+***** This file should be named 34275-8.txt or 34275-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
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+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+creating derivative works based on this work or any other Project
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
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+
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+ <title>Da Loucura e das Manias em Portugal, por Júlio César Machado</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by
+Júlio César Machado
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Da Loucura e das Manias em Portugal
+
+Author: Júlio César Machado
+
+Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+<div style="text-align: center">
+<p style="font-size: 1.4em;">DA</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">LOUCURA EM PORTUGAL</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
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+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Lallement
+frères, Typ. Lisboa, 1871</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div style="text-align: center">
+<p style="font-size: 1.4em;">DA LOUCURA</p>
+
+<p>E DAS</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">MANIAS EM PORTUGAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDOS HUMORISTICOS</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">JULIO CESAR MACHADO</p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<hr style="width: 35%;">
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">LISBOA<br>
+LIVRARIA DE A. M. PEREIRA&mdash;Editor<br>
+<small>50&mdash;Rua Augusta&mdash;51</small><br>
+1871</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>RILHAFOLES</h1>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<h2>I</h2>
+
+<h2>Os doidos</h2>
+
+<p>Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,&mdash;da porta
+para dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle
+jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca das
+arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos não são
+outra cousa<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span> senão buracos
+luzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos
+significação, as feições são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são
+personalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se
+entende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...</p>
+
+<p>Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e
+transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles,
+envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão avistando
+ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns com
+os outros e que se entendiam pelo piscar dos<span class="pn"><a
+name="pag_7">{7}</a></span> olhos... Como essas taes conversas no fundo das
+nuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!</p>
+
+<p>Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nós
+somos e portar-se como nos portamos&mdash;é ser affectado, é ser pedante; que
+assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim deve
+haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar não poderia
+dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, o
+guindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudança de
+convenções; que elles estão mais perto do<span class="pn"><a
+name="pag_8">{8}</a></span> estado natural; que tudo vae da maneira de ver as
+cousas e de as julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que
+tambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de
+beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcial
+de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio,
+nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azas
+como os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cem
+contos de réis em inscripções!...</p>
+
+<p>Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem<span
+class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> varíe de mascaras, de modas, de
+elegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diverso
+do dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil,
+mais colorido, e mais exacto!...</p>
+
+<p>Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta e
+sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças idiotas.
+Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienados
+era de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi preciso
+augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o edificio de recolhidas na
+travessa de S. Bernardino, onde vão<span class="pn"><a
+name="pag_10">{10}</a></span> pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha
+pensionistas e indigentes. Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e
+pagam, conforme as commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800
+réis, 480 réis, ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição
+separada; os da 1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum.</p>
+
+<p>Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a requerimento de
+particular,&mdash;com attestado do medico, auto de investigação, e, se são
+pobres, certidão do parocho,&mdash;e ficam quinze dias em observação; findos
+elles, ou a doença não se verifica e são immediatamente<span class="pn"><a
+name="pag_11">{11}</a></span> despedidos, ou, verificada a alienação,
+colloca-se o doente na repartição que o director lhe destina, e segue o
+tratamento.</p>
+
+<p>O tratamento! Isto é,&mdash;o estudo, a observação constante, as
+experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão e ao
+sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, de lutas, de
+prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de enganos!... Vêl-os como
+medico, como philosopho, e como moralista,&mdash;unica maneira de poder
+assenhorear-se-lhe dos segredos. São doidos; mas de onde provém cada uma
+d'aquellas loucuras,&mdash;a de um, que nunca perde a pista do caracter<span
+class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> que tem, e em tudo que diz e no que
+faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde juntar
+idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante os accessos, e
+pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, que perdeu de todo a
+memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, excepto de logares, ou de
+datas!?</p>
+
+<p>Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e singularmente
+alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada passo por alguma
+janella se avistam campos e se descobre a cidade; é preciso vêl-os nos vae-vens
+de uma carreira e de uma fallacia,<span class="pn"><a
+name="pag_13">{13}</a></span> que não cança nunca, para um lado, para o outro,
+d'aqui, d'além, accionando, gritando, fallando&mdash;este a si mesmo, aquelle a
+ninguem, um á parede, outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios,
+todas as ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as
+vaidades. Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se
+intitulam:</p>
+
+<p class="centrado">«Elogio<br>
+á ex.<sup>ma</sup> sr.<sup>a</sup> D. L. de S. F.<br>
+no dia natalicio de seu nascimento<br>
+dividido em tres partes.<br>
+Passado, presente e futuro.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:<span class="pn"><a
+name="pag_14">{14}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">«<em>Grande globo<br>
+do<br>
+Grande enredo</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="centrado">Jornal das mentiras purificadas<br>
+e saidas do funil<br>
+estampadas calligraphicamente em<br>
+papel, respeitando<br>
+as dignissimas auctoridades.»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores,
+trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, dos
+banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a secretaria,
+está logo a primeira aptidão aproveitada,&mdash;o continuo, que é um doido!
+Leva papeis, traz papeis,<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> dá
+recados; está ali a toda a hora, desempenha perfeitamente, e não ganha
+nada.&mdash;Que lição... a continuos!...</p>
+
+<p>Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro,
+homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,&mdash;todo grave, cortez,
+benevolo&mdash;não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde
+abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se sair; e vae
+uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do carvoeiro... O carvoeiro
+tinha lá ido para tratar de negocio, e foi entrando por ali dentro até o
+apanhar um guarda que o tomou por hospede novo, a<span class="pn"><a
+name="pag_16">{16}</a></span> quem se devia dar um banho, como é costume quando
+para ali entram.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.</p>
+
+<p>&mdash;Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.</p>
+
+<p>&mdash;É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!</p>
+
+<p>&mdash;<em>Num quero</em>, dizia o carvoeiro. <em>Leba de xalaxas! Nunca
+tomei banhos na minha bida! Arreda para lá!</em></p>
+
+<p>&mdash;É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para
+a saude, e de grande aceio.</p>
+
+<p>O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o seu
+banhosito n'uma d'aquellas<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span>
+magnificas tinas de marmore, admirado ao mesmo tempo de tantas attenções que
+tinham com elle n'este estabelecimento do estado.</p>
+
+<p>Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem
+elles todos e não se ouve por lá outra cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã, disse-lhe o guarda.</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã!?! redarguiu o homem.</p>
+
+<p>&mdash;Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido
+sempre de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã,
+quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae
+vocemecê passear.<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;<em>Paxar a bixita!</em> uivou o carvoeiro. <em>Eu n'um estou doido,
+démo!</em></p>
+
+<p>E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam
+pelo... que não era,&mdash;até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o
+mandou para a rua, mudado tambem&mdash;como aquelles seus compatriotas do poço,
+de quem já de uma vez contei a historia,&mdash;porque tambem tinha... lavado a
+cara!</p>
+
+<p>A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê sempre
+em Rilhafolles o <em>lasciate ogni speranza</em>, um beco sem saida, o mais
+fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o chicote dos
+enfermeiros... Entretanto<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span> ella
+é o menos triste que uma casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em
+que está collocada, o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o
+sr. Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É
+preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado carinho
+são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos elles, dizem-o,
+disseram-m'o a mim uns poucos.</p>
+
+<p>E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um
+corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se propõe em
+todas as legislaturas, e anda constantemente<span class="pn"><a
+name="pag_20">{20}</a></span> a ensaiar discursos.&mdash;Um, que nos diz que é
+coronel, e d'ali a nada que é marechal, e um instante depois que é elle o
+proprio marechal Saldanha, conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do
+dia.&mdash;Um piloto da barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças
+do mar e cae n'uma melancolia profunda.&mdash;Um, que foi porteiro do sr. barão
+de Santos, conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar
+junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois
+roubado.&mdash;Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões do
+chamado <em>jogo da gloria</em>, e manda ao pae o dinheiro que ganha<span
+class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> n'isso. Um mathematico, bom
+latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, enche o quarto de papelada
+e a papelada de calculos:&mdash;«Diga-me, pergunta-lhe o director, o senhor já
+prégava lá no seminario?»&mdash;«Pois está visto, responde elle; como prégo
+aqui; a mesma coisa.»&mdash;Um, alegre e risonho, philosopho sem o cuidar,
+coração que ainda não saiu da infancia, nascido para ser alvo de qualquer
+ajuntamento, mostra-nos por uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus
+palacios, e algum particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios
+que todos lhe pertencem.&mdash;Outro vae-se comsigo só pousar a um
+canto.&mdash;O famoso<span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> Bertholo
+do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a villa inteira,
+conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com vontade sempre de
+matar alguem.</p>
+
+<p>E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de passagem,
+quando me vêem tomar apontamentos:</p>
+
+<p>&mdash;Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!...<span
+class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<h2>As doidas</h2>
+
+<p>N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro
+as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão abandonadas de todo
+pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a familia, ou algum parente,
+paga o quarto em que vivem. Essas são as felizes; ainda têem lá<span
+class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> de vez em quando quem as visite,
+quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para
+apetites&mdash;comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as
+fidalgas,&mdash;<em>as fidalgas de Rilhafolles!...</em></p>
+
+<p>Passam n'aquelle corredor enorme&mdash;que o espectaculo monstruoso d'ellas
+torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás
+enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos,
+saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado
+orgulhosamente, desdenhosamente.</p>
+
+<p>Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer<span
+class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> com a vista que tudo é sempre o
+mesmo n'este mundo e que não ha ver n'elle nada de novo&mdash;grito
+melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.</p>
+
+<p>Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma
+chimera,&mdash;coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi
+tudo,&mdash;odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha
+nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como
+se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das forças
+ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.<span
+class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p>
+
+<p>Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. É
+moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é risonho, e ella
+sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a
+outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha outra riqueza senão ella
+gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o
+outro. E o resto? O resto não quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao
+mar n'uma d'aquellas caixinhas,&mdash;tão fechadas que ninguem as podia
+abrir,&mdash;que os pescadores das <em>Mil e uma noites</em> achavam ás vezes e
+de que sahia fumo escuro pelas fendas!<span class="pn"><a
+name="pag_27">{27}</a></span></p>
+
+<p>A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se,
+deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais
+sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no
+amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando,
+anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus
+quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e
+de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta,
+opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas
+organisações colossaes<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span> como as
+que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de
+existencias!...</p>
+
+<p>As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver
+visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam
+caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se
+estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem serão...&mdash;se
+as doentes tambem serão enfermeiras?</p>
+
+<p>Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra doente
+que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas,
+e corrigem<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span> um pouco pela sua
+presença a impressão penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste
+captiveiro.</p>
+
+<p>As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do director
+ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...</p>
+
+<p>&mdash;Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.</p>
+
+<p>E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:&mdash;Ámanhã!</p>
+
+<p>Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz senão
+costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e ralham, e
+atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,<span
+class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> prudentemente, como se fôra o sol
+no meio da noite, a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!</p>
+
+<p>Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a
+rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a
+observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para
+sempre e sem partilhas o objecto da sua adoração; e que, se se dirigem mais
+homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que
+ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de
+dedicação. Está á janella a olhar para os campos<span class="pn"><a
+name="pag_31">{31}</a></span> e a farejar tormenta em tudo&mdash;no voejar dos
+passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua
+custa;&mdash;a peor maneira de conhecer as coisas. Ás vezes não é segura, e
+quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.</p>
+
+<p>Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel
+de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. É a
+catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem a mania das modas,
+préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer
+ver-se nos espelhos,<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> quer que
+a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no
+baile de tal, que tambem deu uma <em>soirée</em> onde estava a primeira
+sociedade, que a sua <em>toilette</em> era primorosa, que está já em vesperas
+de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E
+conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os
+anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a manga,
+e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os
+<em>Lanceiros</em>, faz-nos a cortezia.</p>
+
+<p>Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um<span
+class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> quarto onde estão algumas mais
+tranquillas a costurar e a fazer <em>crochet</em>. Olha para mim fixamente e
+como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me
+conhece.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que conheço, responde ella.</p>
+
+<p>O director diz-lhe o meu nome.</p>
+
+<p>&mdash;É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.</p>
+
+<p>É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e
+toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,&mdash;o chamado
+Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo
+outomno procurou-me uma manhã um homem<span class="pn"><a
+name="pag_34">{34}</a></span> baixo, vermelho, atochado, de cabeça grande,
+sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em
+velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava
+dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera
+conhecer-me;&mdash;era o pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle
+fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos
+até o verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes
+depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...</p>
+
+<p>A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave<span
+class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> e resignado. As poucas coisas que
+disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é
+natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer
+versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos,
+euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras
+baralham tudo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Amei, infanta e leda como a aurora<br>
+ Dos sonhos d'esse infante adormecido;<br>
+ Ao rei o teu gemido, o teu trovar,<br>
+ Ao throno o teu sondar encanecido.</p>
+
+ <p>Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,<br>
+ Gotejo em teu rollar mil alegrias,<br>
+ E colho em cada nota que desfiro<br>
+ Insomnias do porvir, crueis magias.<span class="pn"><a
+ name="pag_36">{36}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e
+vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.</p>
+
+<p>A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa rapariga
+que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as
+diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo não reparar
+no que se passava em redor d'ella, de olhos no chão, com a cabeça encostada ás
+mãos, ar de recolhimento profundo e invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo
+por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não
+sei o quê na esperança de que<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span>
+ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a
+todas as minhas curiosidades, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos; levante-se; estão fallando comsigo!</p>
+
+<p>Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, a
+mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos
+grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e
+farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça aspera; o que
+quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura
+dos montes e das serras, ardente e pittoresca!<span class="pn"><a
+name="pag_38">{38}</a></span></p>
+
+<p>Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella que
+se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia
+já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao
+sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai Jesus»! Taes são as duas
+unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de
+mezes para ali entrou; um «ai», e o nome por excellencia, o nome divino, que
+diz todas as agonias e todas as esperanças, emblema da humanidade e symbolo de
+todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...</p>
+
+<p>Havia já tres horas que andavamos<span class="pn"><a
+name="pag_39">{39}</a></span> por aquelles corredores e por aquellas salas; e,
+ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair não pude deixar de dizer ao
+sr. dr. Abranches:</p>
+
+<p>&mdash;Emfim!</p>
+
+<p>Mas o director sorriu-se, e retrocou:</p>
+
+<p>&mdash;Falta-lhe ver os idiotas.<span class="pn"><a
+name="pag_40">{40}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<h2>Os idiotas</h2>
+
+<p>Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confiança
+que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de
+Rilhafolles,&mdash;é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que
+receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de<span class="pn"><a
+name="pag_42">{42}</a></span> nos formar sequito, com um molho de chaves na
+mão.</p>
+
+<p>Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e
+dotados de inexhaurivel fonte de branduras&mdash;estou persuadido; mas dão ás
+vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os
+olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o
+sentimento febril de terror&mdash;que invencivelmente se apodera de quem ali se
+encontra, sem estar habituado a ir lá&mdash;transforma em indicios de uma
+perfidia atroz!</p>
+
+<p>Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns
+corredores que se me figuraram<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span>
+mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava
+tempo a descer, e dava tempo a pensar,&mdash;um diacho de escada que acordava
+idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com
+hyerogliphicos e procissões pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir
+dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de
+gaviões e serpentes;&mdash;lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas
+que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...</p>
+
+<p>Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que
+me olhava elle tambem<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> de
+soslaio. É o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só
+ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o
+dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma
+occasião a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Não, nunca vi.</p>
+
+<p>&mdash;Pois has de ver. É curioso.</p>
+
+<p>Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas
+que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.</p>
+
+<p>O sujeito olhava para elles pouco<span class="pn"><a
+name="pag_45">{45}</a></span> á vontade, pensando de si para si no nadinha
+imperceptivel que separa a razão da loucura...</p>
+
+<p>Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para
+levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que
+tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram&mdash;e que parecia de
+alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me
+para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão depressa cá
+as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.<span
+class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p>
+
+<p>O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que
+aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo relogio, pediu
+desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao
+chegar ao pateo largou a correr.</p>
+
+<p>É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, ha
+uma vertigem peor ainda&mdash;é a que resulta de os ouvir.</p>
+
+<p>Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles
+como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra
+com o dedo. Não lhes importa ar puro,<span class="pn"><a
+name="pag_47">{47}</a></span> nem horisonte; que o terreno seja vasto ou não
+seja, que haja verdura ou não, que estejam presos ou livres, para elles é o
+mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á
+cabeça como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.</p>
+
+<p>Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço dos
+banhos,&mdash;um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de
+tiple&mdash;mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos
+idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de cortezia
+benevola, perguntam com affectuoso interesse <span class="pn"><a
+name="pag_48">{48}</a></span> se a gente gosta da agoa sobre o quente,
+recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que
+elles appareçam de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo!
+Ah! esses são os idiotas tafues, os idiotas como se quer. Não servem para
+muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas
+pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,&mdash;como
+janotas!</p>
+
+<p>O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de não
+se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:</p>
+
+<p>&mdash;Se gosto de musica! Mas eu<span class="pn"><a
+name="pag_49">{49}</a></span> como musica, senhor, musica é que eu como!...</p>
+
+<p>E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas,
+larga a tocar coisas incalculaveis.</p>
+
+<p>Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua
+portugueza de Fonseca&mdash;«<em>Idiota</em>, adj. es. de 2 g. <em>ignorante,
+sem estudos</em>.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o
+diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de uma
+aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, que falla e
+toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, guincham,<span
+class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> riem, e babam-se. Esses são um
+pouco mais do que <em>ignorante e sem estudos</em>, e a gente ao vel-os tem
+vontade de segurar a cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes
+Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que
+lhe devia,&mdash;tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como
+a taça do Cesar idolatra,&mdash;com a differença de que estes manes, que são as
+idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!...</p>
+
+<p>Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e
+quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do<span class="pn"><a
+name="pag_51">{51}</a></span> nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia
+todo...</p>
+
+<p>Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para
+onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror
+sem lances.</p>
+
+<p>Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo,
+bonacheirão,&mdash;certo ar de paspalhice, immobilidade de figura
+decorativa.</p>
+
+<p>Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a seu
+modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de
+Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois,
+vergando<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span> a cabeça, fica a
+olhar para ellas...</p>
+
+<p>Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a
+parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que
+morre em não tendo ossos dentro.</p>
+
+<p>Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será
+feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece que elles é
+que não existem já.</p>
+
+<p>Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o <em>formica
+leo</em> d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns
+não ouvem? se o destino<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> os
+seccou como o sol secca os regueiros!...</p>
+
+<p>Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem
+cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros:
+uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão figurando um
+saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palhaço morto!...</p>
+
+<p>Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; e
+está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; recommendam-lhe
+que não metta os dedos no nariz, e que não ande de joelhos pelo chão para<span
+class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> não estragar as calças. Elle ouve,
+e esquece-se.</p>
+
+<p>Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir
+sosinhos...</p>
+
+<p>A <em>macaca</em> apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não
+tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas
+acenam-lhe e dizem-lhe:&mdash;«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que foi
+alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5
+de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das
+portas,&mdash;pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas
+grandes, ar bestial;<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span> ali lhe
+tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa
+isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de
+sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando vão
+dar-lh'as, come-as,&mdash;sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de
+quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e que o sol
+nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. É abrir a bocca,
+e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O
+director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabeça para
+vêr<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> até que ponto é molle.
+Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e
+feliz. E dahi,&mdash;talvez! Pobre <em>macaca</em>! Desraizada do mundo, e
+plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...</p>
+
+<p>Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros&mdash;não
+sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; toda a
+gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até os animaes teem
+memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem
+as pessoas com quem teem vivido:&mdash;elles não se lembram nem conhecem
+ninguem. Uma aranha é<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> mais do
+que elles! a aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra
+d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a
+honra, o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão
+exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos
+furiosos!<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<h2>Os furiosos</h2>
+
+<p>Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,&mdash;triste prova
+de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia vivaz e
+animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente mettidos pelas
+orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, saltam-lhes por entre
+os<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> beiços corádos pela febre,
+como por um arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...</p>
+
+<p>Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, grandes
+accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem descanço,&mdash;para
+um&mdash;para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir ás grades;
+segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade visivel de apanhar
+alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. Mas,&mdash;nem mesa, nem
+cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...</p>
+
+<p>&mdash;Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo
+agrado felino, o risinho<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> da
+hyena,&mdash;a morrerem de desejo de nos saccudir de encontro ás grades.</p>
+
+<p>Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros,
+de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têem
+ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,&mdash;d'essas mesmas grandezas
+pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares de ir n'um andor&mdash;e
+gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é profunda nas creaturas a
+vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda conservam a idéa de alardear
+possança! Mas já não têem sequer, como os outros, papel doirado,<span
+class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> para fazerem corôas; nem ha coberta
+na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...</p>
+
+<p>Donde provêm o mal?</p>
+
+<p>Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem nos
+diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, não seja
+simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante as horas do
+ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás escuras para que a
+claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, ligeiro para nós, pesado
+e cruel para elles, quantos dias de agitação e de tortura,&mdash;com as
+mãos<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> atadas, os braços presos,
+as rações da comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por
+unico horisonte e unica companhia!...</p>
+
+<p>Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem velhos:
+a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, dissecam-os as
+furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente acorda; um ou outro tem
+a mão finissima, mão de quem não faz nada, de quem não trabalha ha annos; de
+outras vezes parecem os ossos da morte com pelle por cima... em ar de luva!</p>
+
+<p>Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias
+insondaveis da desesperação.<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span>
+Só a mãe de algum ou a mulher, vão vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que
+não abandonam as angustias persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o
+mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e
+fazer-lhe companhia&mdash;colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo
+sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia
+representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia,
+lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a
+alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!</p>
+
+<p>Mas, em geral, como se os olhos<span class="pn"><a
+name="pag_65">{65}</a></span> humanos não devessem contemplar o espectaculo
+d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os visite, e ali se
+conservam até que um dia o padre do hospital vá junto d'aquella enxerga
+resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim libertar-se do mundo, fazer a
+diligencia de que elles repitam as orações que lhes disser...</p>
+
+<p>Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São os
+poetas da casa;&mdash;sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro aquelle
+que pode aproveital-o uma hora ou outra,&mdash;e isso mesmo é arriscado ás
+vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que dizem ser excellente
+marceneiro<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span> e de quem me
+mostraram um trabalho curioso:&mdash;uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe,
+um nicho de madeira para Santa Philomena,&mdash;santa com que tinha grande
+devoção uma enfermeira de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de
+freiras de Leiria, e que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde
+fôra empregada. As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga
+companheira, conservam o culto á santa.</p>
+
+<p>O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o
+banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a mostrar-nos as
+suas obras.<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e
+travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos
+d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.</p>
+
+<p>Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço com
+que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os trata. É isto
+resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar exemplo aos empregados
+de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o medo aconselha cobardemente
+toda a especie de crueldade. Em vez de injurias<span class="pn"><a
+name="pag_68">{68}</a></span> e de chicotadas, como se usava d'antes para com
+os pobres furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que
+de vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, para
+não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de intelligencia,
+que ás vezes só de passagem está nublada.</p>
+
+<p>Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os
+furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.</p>
+
+<p>De ordinario os doidos que representam,&mdash;dos mais quietos, já se vê, e
+dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem<span class="pn"><a
+name="pag_69">{69}</a></span> dar signaes de alienação&mdash;dizem os seus
+papeis regularmente, mas falta-lhes expressão de physionomia, gesto, movimento,
+olhar, tudo que auxilia e completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do
+que recreativos.</p>
+
+<p>Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do
+companheiro:&mdash;os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir
+gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...</p>
+
+<p>O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que
+perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!</p>
+
+<p>As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario<span
+class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> agitam-se durante horas, depois
+caem prostrados no somno lethargico que succede á furia. Ellas, fallam e
+berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notaveis nos insultos, no
+descomposto do fato, e até nas tendencias malfazejas&mdash;atirando sempre que
+podem uma tigella contra as grades, e os cacos á cara de quem vae.</p>
+
+<p>Algumas são verdadeiramente horriveis.</p>
+
+<p>Uma gira todo o dia&mdash;mas todo o dia!&mdash;descalça, em roda do quarto.
+Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena na
+jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e enrosca-se.<span
+class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p>
+
+<p>Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar de
+collete porque marinha pelas grades.</p>
+
+<p>Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em
+pedaços&mdash;para as almas!</p>
+
+<p>Esta, de Guimarães,&mdash;com certo ar de astucia machiavelica no fundo da
+loucura&mdash;está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida,
+trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.</p>
+
+<p>&mdash;Como está? pergunta-lhe o director.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre estou boa! responde ella.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! E então?</p>
+
+<p>&mdash;Então sardinha com pão!<span class="pn"><a
+name="pag_72">{72}</a></span></p>
+
+<p>E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel,
+hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as caretas
+da loucura.</p>
+
+<p>Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder
+dobrar o pescoço&mdash;porque se morde.&mdash;Um velho grita por tal fórma, que
+ás vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em
+procura do sitio de onde vem aquelles ais...</p>
+
+<p>Passados dias,&mdash;por não haver trazido apontamentos dos furiosos na
+primeira visita que fiz a Rilhafolles,&mdash;tive de voltar ali.</p>
+
+<p>A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se
+d'aquellas<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> tristes paredes. Ao
+passar com o sr. dr. Guilherme Abranches, que teve ainda a bondade de me
+acompanhar, por um d'aquelles corredores que serpenteiam ali em todas as
+direcções, vi dois homens sentados á porta de um quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director.</p>
+
+<p>Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem
+amortalhado,&mdash;um boneco, suppuz eu,&mdash;e duas tochas ao lado.</p>
+
+<p>Não era boneco, era deveras um cadaver.</p>
+
+<p>Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os seus,
+mandou o presidente<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> da
+<em>Sociedade hebraica</em> dois homens para envolverem o cadaver n'um lençol,
+deposital-o n'um quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e
+ficarem de guarda á porta. Como era sabbado&mdash;dia santo para
+elles&mdash;não lhe mechiam em quanto não fossem nove horas. Haviam pedido,
+para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam
+partir para levarem o cadaver e enterral-o no alto do Varejão.</p>
+
+<p>Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já não
+ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de
+desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos<span class="pn"><a
+name="pag_75">{75}</a></span> tambem, de alguma maneira; mas é de mais, e é
+pouco! Se aquelles braços que se agitam, se aquellas vozes que estrugem, se
+aquelles dentes que rangem são a materia&mdash;que é da alma?...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas
+pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta a
+cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste&mdash;por cima d'aquella
+miseria continua!...<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<h2>Telha</h2>
+
+<p>Tambem os ha cá por fóra!</p>
+
+<p>Mansos, com falla, sem <em>collete</em>, passando a vida á procura do
+motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar com o
+<em>deficit</em>, da perfeição no amor, do circulo bicudo...</p>
+
+<p>Avista-os a gente por essas ruas,<span class="pn"><a
+name="pag_78">{78}</a></span> sequiosos de barulho, persuadidos de que têem
+para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma causa, fazer
+tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa que, sem se saber
+de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais os visse entrar n'uma
+escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que os quiz empregar n'alguma
+cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, tribunos e heroes, prégando umas
+celebreiras no tom de quem salva a patria!</p>
+
+<p>Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de
+visinho&mdash;descarapuçado e de chinellas&mdash;sem mais bagagem do que a
+sua<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> insolencia, altivos e
+petulantes, por entre a risota da multidão.</p>
+
+<p>Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela
+sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva,
+deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella;
+desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja o
+caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; sustentando-se de
+theorias; compondo maximas e conceitos d'este genero:&mdash;«É o homem que faz
+o titulo, e não o titulo que faz o homem»;&mdash;e pondo-se a caminho pela vida
+adiante, pé cá, pé lá, como quem vae com botas de andar leguas,<span
+class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span> para ficarem estatelados na estrada
+sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força viver de
+litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas que os tremoços,
+e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres sem grandeza, dôres que
+dão riso aos mais!</p>
+
+<p>Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera em
+menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol de dia,
+quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade.</p>
+
+<p>Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento com
+uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:<span class="pn"><a
+name="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;É melhor não casar com esta.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Tem o dobro da edade que eu tenho!</p>
+
+<p>&mdash;E depois?</p>
+
+<p>&mdash;E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter
+cem!</p>
+
+<p>O pae fica embuchado, e medita.</p>
+
+<p>Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. Quer
+endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só palavra&mdash;supprimir.
+No fervor da crise das economias vae de uma vez a uma reunião politica, onde se
+discutem os maiores problemas. É n'um terceiro andar. Muito escura<span
+class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span> a escada. Dão-lhe um rolinho.
+Aceita; desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um
+bocadinho de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás
+escuras,&mdash;pensando sempre em economias...</p>
+
+<p>Quantos! Quantos andam por essas ruas!...</p>
+
+<p>Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes nacionaes,
+e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande&mdash;como qualquer de
+nós; mas tem a preoccupação constante do <em>shoking</em>, usa bota de duas
+solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete inglezado,
+gravata de seda frouxa com<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> as
+pontas pendentes, caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente
+na mão um bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos
+nós... Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor,
+refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das praças a
+examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para parecer que
+veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a estatua de D. José,
+examinando, estudando, tomando apontamentos, medindo, comparando, admirando,
+criticando com gestos expressivos, sem perder tempo;&mdash;<em>time is
+money!</em> E passeia; e corta;<span class="pn"><a
+name="pag_84">{84}</a></span> e gira; e vae indo, inglezmente, até ao alto de
+S. João. Estão abertas de par em par as portas do cemiterio... Entra, segue uma
+das ruas, examinando as inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe
+pareça commodo, e senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler
+o <em>Times</em>. O <em>Times</em> está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o
+<em>Times</em> com imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um
+raminho de cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É
+noite; vae para casa,&mdash;acabou de ser inglez até ao outro dia!</p>
+
+<p>Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores<span
+class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span> se chamam piteireiros, pareceu
+esconder-se. Os amigos, companheiros das sucias, estranharam que assim se
+despedisse do vinho sem dizer&mdash;agua vae. Elle respondia sempre, e
+responde&mdash;que já não bebe, que lhe fazia mal, que ia a soffrer por causa
+d'isso, que não vale a pena... Engana os outros, mas, o que é mais singular,
+engana-se a si. Em casa, fechado e sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e
+dois copos. Depois, como se fallasse com alguem:</p>
+
+<p>&mdash;Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!</p>
+
+<p>E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si
+proprio:<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se
+insistes, um copo de Collares.</p>
+
+<p>&mdash;É Collares picado o que posso offerecer-te!</p>
+
+<p>E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o
+queijo amavelmente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?</p>
+
+<p>&mdash;Dás-me muito gosto.</p>
+
+<p>&mdash;Uma saude com um copo de Xerez generoso.</p>
+
+<p>&mdash;O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos
+n'este...</p>
+
+<p>&mdash;Mais um copo, visto isso, de<span class="pn"><a
+name="pag_87">{87}</a></span> Collares; e passaremos ao Porto, que de certo não
+te faz nervoso como os vinhos brancos?</p>
+
+<p>&mdash;Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?</p>
+
+<p>&mdash;Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!</p>
+
+<p>E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer companhia
+á do Alemtejo e á de Collares.</p>
+
+<p>&mdash;Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos.</p>
+
+<p>&mdash;Á tua saude! prosegue, bebendo ambos.</p>
+
+<p>Ah! Quantos, quantos!</p>
+
+<p>Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam<span
+class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span> a parecer serias; os folicularios,
+inaptos ou calumniadores; inaptos não reparam que se cortam no proprio gume da
+arma; calumniadores, não vêem o tribunal da Boa Hora e têem-o diante de
+si;&mdash;uns exaltados ridiculos, a arder em aspirações
+phantasticas;&mdash;uns pimpões de palavra, sempre em prologo de valentia,
+pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da sala em passo gymnastico,
+preparando casos, annunciando heroismos, vociferando contra este e aquelle,
+resolvendo castigar, destruir, arrazar: <em>tutto parole, parole,
+parole!</em>&mdash;Um que quer cantar sem voz, e móe os ouvidos das pessoas por
+casas particulares, festas, concertos,<span class="pn"><a
+name="pag_89">{89}</a></span> cantando tudo, dizendo que dá o <em>dó</em>, e
+não dando cousa nenhuma senão cabo da paciencia á gente!</p>
+
+<p>O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda&mdash;como outros vão de
+bamburrio em bamburrio&mdash;para cair no abysmo, para que se lhe devore a
+ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que a mão
+da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...</p>
+
+<p>O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e massa
+com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como pingos de chuva
+da rama de um chorão...&mdash;O que attribue tudo aos jesuitas, não
+scisma,<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span> não dorme, não sonha
+senão com jesuitas. Tudo a mão de Roma, a mão de Roma...&mdash;O que, em
+apanhando piano, principia logo a tocar com um dedo horas a fio.</p>
+
+<p>Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a
+cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista...</p>
+
+<p>A antithese d'esses:&mdash;velhos precoces, já enfastiados de tudo em
+meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão
+consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra mãe dos
+sete peccados mortaes e excedesse as orgias<span class="pn"><a
+name="pag_91">{91}</a></span> de Babylonia. Não sabe a gente, ao ouvil-os, se
+está no Azul se no meio do chão! Aos vinte annos já não dançam, e usam luneta
+côr de fumo nos olhos fatigados... do gaz do Martinho!</p>
+
+<p>Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da
+namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,&mdash;quer
+trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; qualquer
+coisa; exemplo:.&mdash;«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, do que para
+prato de meio.» Conceitos!&mdash;Outro, leva o anno inteiro a scismar como ha
+de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a cara,<span class="pn"><a
+name="pag_92">{92}</a></span> o que ha de pôr no nariz...&mdash;Outro, conversa
+muito alto, n'este estylo que lhe parece optimo:&mdash;Diga-me se não é
+anomalo, acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as
+nações atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos
+tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da
+ignorancia. O meu amigo é ecletico?</p>
+
+<p>E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não cumprir,
+nunca vão a horas&mdash;o maior dos erros, exemplo aquelle diplomata que chegou
+tarde á morte do seu principe e foi dar com a rainha a fazer
+papelotes!&mdash;que<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> se
+esquecem de tudo, ou antes não se esquecendo&mdash;pensando n'outra coisa,
+diversa sempre da que estão fazendo, da que estão dizendo. Gente que baralha
+tudo, troca, atropella, estraga; trapalhões de officio e de geito. Um deita
+rapé no chá em vez de assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um
+tostão no pires quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do
+Casino ia já a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se
+o não pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam
+parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes diga
+como elles se chamam, e irem então<span class="pn"><a
+name="pag_94">{94}</a></span> reclamar a carta; a correr, antes que lhes
+esqueça o nome outra vez!..: <em>Telha</em>, pois que?&mdash;<em>telha</em>, e
+rija!...</p>
+
+<p>Digamos o peior;&mdash;quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha
+principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda a
+gente anda com <em>telha</em>...</p>
+
+<p>Quem ha,&mdash;dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam
+tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como que
+exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma
+remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de saudades
+da patria que perdeu... A terra parece<span class="pn"><a
+name="pag_95">{95}</a></span> triste então, embebe-se o animo na nostalgia do
+céu, quer a idéa voar para lá, e consegue-o ás vezes... De noite, quando não se
+póde dormir, mas está tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda,
+vêem-se brilhar as flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos
+n'alma suspiros e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos
+perde o olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo
+então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,&mdash;a
+<em>telha!</em>...<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<h2>Enguiços</h2>
+
+<p>Quente... quente...</p>
+
+<p>Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, com
+quem viveram, parente, amigo, visinho...</p>
+
+<p>O diccionario de Moraes explica-o assim:&mdash;«Enguiço é o mal que se causa
+de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.»<span class="pn"><a
+name="pag_98">{98}</a></span> Até aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos
+«accidentes». Lá se avenham.&mdash;«Consiste,&mdash;continua&mdash;em ficar
+acanhado.» Estão satisfeitos? Eu, não. Procuremos mais, procuremos
+sempre;&mdash;no verbo enguiçar o mesmo auctor exprime-se assim:&mdash;«Dizem
+que o torto olhando para alguem enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça
+(d'outrem) enguiça; isto é, faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.</p>
+
+<p>D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e
+incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da
+creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e cousa
+pouca, que<span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span> moem e affligem os
+enguiçados,&mdash;gente nervosa, delicada e phantastica.</p>
+
+<p>Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A influencia
+do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o vento sul, torna-os
+tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e sem vêr. Parecem acordar
+na primavera pelo canto dos passaros e pela doçura do ar; e ouvem tudo então,
+as vozes que passam no murmurio das ondas, na rama das arvores, ouvem o que se
+diz ao longe, ouvem o que não se chegou a dizer,&mdash;ouvem-se a si,
+unicamente a si; a voz do enguiço, que falla dentro d'elles, e compõe,<span
+class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> e ordena, e retem, e
+impelle...</p>
+
+<p>Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia
+preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe um
+alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:</p>
+
+<p>&mdash;Ó José?</p>
+
+<p>&mdash;Senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Tu deste-me a corda inteira?</p>
+
+<p>&mdash;Dei, sim senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Toda, toda?</p>
+
+<p>&mdash;Dei-lhe a corda toda, sim senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Está bom!</p>
+
+<p>Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para<span
+class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span> as vinte e quatro horas, como um
+relogio de algibeira. Se o empurrão foi brando, a machina pára a qualquer hora
+do dia e precisa nova corda.</p>
+
+<p>Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é ainda
+mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em redondo ao
+prato.</p>
+
+<p>Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é
+empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os dias
+antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor a porta,
+que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:<span class="pn"><a
+name="pag_102">{102}</a></span></p>
+
+<p>«Um.</p>
+
+<p>«Dois.</p>
+
+<p>«Tres.»</p>
+
+<p>Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.</p>
+
+<p>Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem
+por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo
+botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não envenenava os
+freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua
+do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em
+indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle<span
+class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> acabou de jantar, foi muito
+lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,&mdash;encontrou as
+portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se
+d'elle; os jornaes contaram o caso.</p>
+
+<p>Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;&mdash;a religião do
+enguiço. Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em
+traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora
+decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando apparecem
+as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o beato Antonio haveria
+arriscado um olho, como<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span> o
+meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.&mdash;Conheci um que, quando lia
+n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao
+ar.&mdash;Ha outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que
+immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar das
+impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um
+carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou
+immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo,
+sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade não
+deu cabo do enguiçado e do amigo<span class="pn"><a
+name="pag_105">{105}</a></span> que elle levava em sua companhia.</p>
+
+<p>Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em
+que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais
+forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as mãos
+ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao saltar para a cama; não o
+conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulhões.</p>
+
+<p>Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de pintar
+pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não consentia por
+ter dó de<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span> obrigar os
+moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao
+quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a
+cara de preto.</p>
+
+<p>Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;&mdash;faz casas
+para não morrer. Lá diz o proverbio campesino&mdash;«ninho feito, pêga morta.»
+Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Suppõe que
+em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra
+terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras.
+Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal!<span class="pn"><a
+name="pag_107">{107}</a></span></p>
+
+<p>Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer
+criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o
+fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehensões. Tem sete
+filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a namorar os que hoje são seus
+maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Estão ricas e felizes as
+duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que
+ás tres que estão solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr
+aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia,
+resmungando á entrada uma<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span>
+prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...</p>
+
+<p>Que dança! que dança!</p>
+
+<p>Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé
+direito.&mdash;Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando
+que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de
+dádiva.&mdash;Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não estender a
+mão seis vezes não lh'a beijam.&mdash;Uns têem terror ás aranhas; outros
+assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em certas ruas senão
+do mesmo lado sempre.&mdash;Alguns, brutos com toda a gente, são timidos com as
+creanças. As<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> creanças têem o
+que quer que seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na <em>Chronica de D. João
+I</em>, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz,
+rei de Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas
+creanças uma veneração profunda; os que não a leram&mdash;tambem. Batia na
+mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna&mdash;para
+onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com
+a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda.
+N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido
+parecia esquecer-se da tósa<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span>
+semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:</p>
+
+<p>&mdash;Porque é que tu já me não bates?</p>
+
+<p>E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a prisão
+imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando,
+respondeu de mansinho, apontando para o berço:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho medo de acordar o pequeno!...</p>
+
+<p>De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem ficar
+enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem
+isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão fartos de o saber; e<span
+class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> por isso são tão joviaes. Andam
+sempre a rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso,
+porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca desde o
+principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver encontrado dois
+corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado
+um sujeito&mdash;se eu lhes dissesse o nome riam-se!&mdash;encerrado n'um
+portal á espera que passasse um corcunda para o desenguiçar de outro que havia
+visto.</p>
+
+<p>Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma
+moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.<span class="pn"><a
+name="pag_112">{112}</a></span> Mas&mdash;para obter o remedio&mdash;quantas
+difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre
+prevenido e não se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais
+de uma vez tem posto a policia em bolandas&mdash;sómente para garantir a giba
+do contacto impudico da moeda preservativa.</p>
+
+<p>Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que a
+sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com
+elles,&mdash;e não haverá mais enguiçados por este accidente!...</p>
+
+<p>Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,&mdash;sujeitos de<span
+class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> pouca fortuna, sedentarios que
+fazem gallos na nuca a dar com a cabeça nas costas da cadeira; peões para quem
+estão de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes
+das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquietações para todas
+as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.</p>
+
+<p>São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens
+grandes no corpo e na força;&mdash;homens grandes no espirito; phantasistas,
+poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os
+ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis&mdash;ha<span class="pn"><a
+name="pag_114">{114}</a></span> uns tempos&mdash;andam muito enguiçados!...</p>
+
+<p>Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia!
+Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, nem com o
+acaso;&mdash;os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem,
+lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se
+comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este
+instante a penna não quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como
+se lhe repugnasse escrever.&mdash;Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior!
+Deitou-me um borrão no papel...&mdash;Basta!<span class="pn"><a
+name="pag_115">{115}</a></span> Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu
+podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.<span class="pn"><a
+name="pag_116">{116}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span></p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<h2>Agouros</h2>
+
+<p>Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o
+sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação diversa.
+Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das
+aves (<em>ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino</em>) e por extensão
+conjecturar<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de qualquer
+modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes
+insignificantes&mdash;a que chamamos agouros&mdash;queremos predizer o
+futuro.</p>
+
+<p>O terror&mdash;de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras
+vezes&mdash;torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se espalham
+sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o
+pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao
+atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas urzes; vêem imagens, conhecidas
+nos montões de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para
+elles até a<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span> materia muda tem
+lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer das
+folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as
+figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no
+orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no
+mocho, nos morcegos, no uivar do cão...</p>
+
+<p>Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á
+esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;&mdash;a fatalidade
+delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de
+cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma<span class="pn"><a
+name="pag_120">{120}</a></span> questões insoluveis, corre-lhes nas veias com
+preguiça um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doença em que
+ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa
+e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear
+commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e
+para quem a vida é um supplicio atroz,&mdash;condemnados de manhã ao Chiado,
+abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.</p>
+
+<p>Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão seguindo
+na vida como a Electra<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> dos
+gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem
+murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os
+sacrificios;&mdash;dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os;
+offereceriam o pescoço ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel,
+se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,&mdash;os que são dignos
+d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas&mdash;têem superstições
+indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes
+rasão. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e
+ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio<span class="pn"><a
+name="pag_122">{122}</a></span> de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado
+um vapor conduzindo a companhia, que não era aquelle que se lhe havia
+promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio
+funesto.</p>
+
+<p>As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,&mdash;um pouco mais
+singular ainda do que o agouro!</p>
+
+<p>Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar o
+mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a perros para
+assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em miseria ou em
+asneira.<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p>
+
+<p>Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá arranjou
+ser deputado&mdash;mas o que não arranjou é fallar, porque os agouros o
+impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é saber ouvir e
+callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia dizer-se o contrario do
+que se havia dito tempo antes; que os adversarios abusam d'isso e ficam
+causticando o sujeito; que a força das maiorias consiste em votar sem abrir o
+bico; que assim como o nauta dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme
+sopra o vento de um lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém
+variar a proposito conforme as circumstancias,&mdash;com<span class="pn"><a
+name="pag_124">{124}</a></span> socego, e sem bulha. E tudo isto lh'o diz o
+azeite quando se entorna, e o espelho quando se quebra, e uma aranha no tecto,
+e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe avisos:&mdash;«Calla-te, calla-te. As
+fallas são de prata, e o silencio é de ouro. Calla essa boca!...»</p>
+
+<p>Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame prévio
+de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a agouros; não
+sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata d'ellas&mdash;mas
+sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em cima do corpo, que é
+signal de desmedrar, emmagrecer,<span class="pn"><a
+name="pag_125">{125}</a></span> definhar, dar á casca;&mdash;não corta o
+cabello em quarto minguante com receio de que lhe não torne a crescer; evita
+quando está na cama cortar as unhas e olhar para um espelho ao mesmo tempo,
+indicio de estar jogado aos dados;&mdash;não permitte que em sua casa deitem
+lixo fóra de noite,&mdash;pobreza imminente;&mdash;não póde vêr sem sobresalto
+duas facas em cruz, desordem fatal;&mdash;e por cousa alguma morará em «casa de
+esquina,&mdash;morte ou ruina!»</p>
+
+<p>Este, se vê um «ladrão» na véla&mdash;sabe que vae ter carta.&mdash;Aquelle,
+em caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.<span
+class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span></p>
+
+<p>Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; o
+mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da Ascenção do
+Senhor.</p>
+
+<p>Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu
+casamento,&mdash;porque, se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem
+cáe de cama ao domingo, nunca mais se levanta.&mdash;No campo, em os martyrios
+de um jardim dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.</p>
+
+<p>Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. A
+vida de Isidoro&mdash;o nosso popular actor Isidoro, do theatro da
+Trindade&mdash;é um pinhal de agouros.<span class="pn"><a
+name="pag_127">{127}</a></span> Vamos vêl-os com cautella; se têem medo, tragam
+luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado n'uma <em>sexta
+feira</em>, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender o officio de
+tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero <em>treze</em>;
+trabalhou dois annos no tear numero <em>treze</em>; depois de official foi
+obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que commetteu na
+<em>sexta feira</em> de Passos de 1845, e ficou tendo o numero vinte e seis,
+que é duas vezes <em>treze</em>. Assentou praça no 2.º batalhão movel em 1846,
+e durante oito annos foi numero <em>treze</em>. Representou pela primeira vez
+em theatro particular a<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span>
+<em>treze</em> de junho de 1846; em theatro publico n'uma <em>sexta feira</em>,
+30 de novembro de 1849. Foi escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia
+<em>treze</em> de maio de 1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma
+<em>sexta feira</em>, 11 de março de 1853. E&mdash;para corôar este catalogo de
+<em>memoranda</em>&mdash;casou em dia de S. Bartholomeu!... Por entre este
+capharnaum de vaticinios tem lidado, triumphado, mais invulneravel do que o
+capitão de Homero&mdash;que o não foi no calcanhar.</p>
+
+<p>Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O
+actor Santos,&mdash;depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve entre
+elle e Francisco<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span>
+Palha&mdash;não quiz apparecer pela primeira vez no tablado da Trindade n'uma
+terça feira que se destinára para primeira recita de <em>Frou-frou</em>. Mas já
+estavam afixados os cartazes, alugados os camarotes: que remedio havia de
+dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, segunda feira, ao palco; representava-se a
+<em>Flor de Chá</em>; no ultimo acto vestiu-se de china; na ultima scena,
+perdido entre os comparsas, dançou com elles o <em>can-can</em> com que
+terminava a peça. Na noite immediata representou <em>Frou-frou</em>; era a
+segunda vez que apparecia ao publico da Trindade; não o sabia ninguem, mas
+sabia-o elle! Os agouros contentam-se assim.<span class="pn"><a
+name="pag_130">{130}</a></span></p>
+
+<p>O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já
+principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se alugar
+unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze repetido, e já
+não se vê por cima da porta senão 12&mdash;12.</p>
+
+<p>Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a
+algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um amigo
+meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e lhe explicaram
+ser indispensavel a sua presença á mesa para se principiar a jantar. O rapaz
+allegava que não tinha vontade de comer, que acabára de jantar<span
+class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> com os paes n'aquelle instante.
+Debalde! Não o largaram senão ao café.</p>
+
+<p>Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem
+das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas
+o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres.
+Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus
+revoltosos, já com saudades da escravidão e das cebolas: e desanimou e julgou
+estar doido, e o certo é que avistou a terra da promissão, mas não conseguiu
+pôr lá o pé&mdash;e morreu á beira da realisação da sua idéa...<span
+class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span></p>
+
+<p>A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os
+agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é
+capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.&mdash;Mulato a
+bordo, é salceirada frequente, e por vezes&mdash;na linguagem
+maritima&mdash;vento de <em>gaveas nos terceiros</em> e de <em>traquete na
+passadeira</em>.&mdash;Cadaver ao mar, predispõe para <em>tareia</em> e tem de
+se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do
+velame.</p>
+
+<p>Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das
+creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles<span class="pn"><a
+name="pag_133">{133}</a></span> armando barretinas, arranjando bandeirolas, e
+travando combates, é signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se
+fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo?
+Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são <em>o tinha de ser</em>:
+consolação&mdash;de quem não tem outra!...<span class="pn"><a
+name="pag_134">{134}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<h2>Feitiços</h2>
+
+<p>Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer
+mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas&mdash;sem outra culpa ás
+vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um
+bem:&mdash;falta, porque se aspirou a elle; receia-se<span class="pn"><a
+name="pag_136">{136}</a></span> semsaboria: ella que chega porque a attrahimos.
+O pulsar inquieto e ancioso do coração é uma especie de bulha de passos que faz
+com que fuja a creatura ou a coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a
+quem tem sede, e agua a quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos,
+e quem for só rico de appetite&mdash;pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as
+seáras que o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que
+a chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do tempo
+adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da lampada, o
+amante acordou e fugiu...<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span>
+Voltou-se Orpheu para ver Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no
+inferno. O feitiço é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos,
+levantando-o entre as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade,
+dá-lhes fulgor, e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a
+pernear, salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam
+mais distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma
+apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos extraordinarios
+para se entreter, e não gosta senão do que fôr maravilha, do que estiver
+superior á<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> humanidade, do
+que ella não entender... Não se vê na <em>Iliada</em> andarem sempre os deuses
+a fazer costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio
+sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;&mdash;este as
+romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou da Guia:
+mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que acredita na
+Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em perdendo coisa, não ha
+fazer com que a procure sem resar um responso a Santo Antonio;&mdash;o outro
+tem scisma com o passar de noite defronte de um espelho, por ser possivel
+ver-se morto,<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span> ou ver outra
+imagem em vez da sua...</p>
+
+<p>Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está alguem na
+sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a deitar-lhes uma sorte.
+Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae saindo das resas, dos
+ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro...</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Alguidar, alguidar<br>
+ Que foste feito ao luar,<br>
+ Debaixo das sete estrellas,<br>
+ Com cuspinhos de donzellas<br>
+ Te mandei eu amassar...</p>
+</blockquote>
+
+<p>As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do<span
+class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span> mal, que eram madrinhas. Vinham
+uns ao mundo para as venturas, para a desgraça outros, conforme o querer do ceu
+ou da natureza. Mas as fadas nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz,
+os bracinhos de fóra, e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas
+com moderação;&mdash;e era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o
+paiz a ponto de levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da
+poesia tão desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se
+usassem em Lisboa nem em seu termo&mdash;«obra de feitiços, nem de ligamento,
+nem de descantações, nem de viadeira,<span class="pn"><a
+name="pag_141">{141}</a></span> nem de carantulas, nem outrosim medir cinta,
+nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás portas, nem furtar aguas, nem
+lançar sortes.»</p>
+
+<p>Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a mania de
+que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou inclinações
+humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo de fazer folhinhas
+de porta e de algibeira, uma carregação de petas que offerecem á gente como
+chegadas directamente dos planetas. Que em tal mez ha de morrer um grande
+personagem:&mdash;sempre morre, e seria um transtorno se assim não
+succedesse,<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span> n'uma terra como
+esta em que se aponta a dedo quem não é conselheiro!&mdash;que no mez de tal ha
+de correr uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças,
+no mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará um
+emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, ou se
+dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços irremediaveis! Foram-se
+as fadas, vieram os almanaks!...</p>
+
+<p>Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. Mulher
+pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a doença que
+ninguem entende,<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span> chorando e
+rindo ao acaso, torcendo os dedos por qualquer coisa, quebrando o leque,
+rasgando por gosto, moendo e ralando as pessoas de quem mais gostar,&mdash;tem
+feitiço. As artistas, ou porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso,
+ou porque a arte as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia
+das Neves, pontualissima aliaz em ir aos ensaios,&mdash;ensaia todavia os
+papeis em casa mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala
+que ella calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as
+quedas. Antes do <em>Gladiador de Ravenna</em> se representar, já as criadas da
+famosa actriz&mdash;por<span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span>
+espreitar ás portas e escutar&mdash;sabiam de cór o papel de Tusnelda. A sala é
+a grande preparação;&mdash;o tablado é o dever; a sala é o feitiço. Depois nos
+bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista tem a sua invocação: uns
+benzem-se simplesmente, outros affagam um coral torcido, outros tomam a figa de
+um breloque, para evitar o quebranto.</p>
+
+<p>Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem
+fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. Abriu os
+olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal da Graça, á
+direita o sitio chamado a Gloria,<span class="pn"><a
+name="pag_145">{145}</a></span> e á esquerda a rua do Paraiso!...</p>
+
+<p>Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta
+pastelleiro, o Matta artista,&mdash;o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam.
+Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei que
+lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem bem; assim
+como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser incomprehensivel,
+assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei a quem me dirijo.
+Vamos.&mdash;Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. Quem uma vez na vida
+pelo menos não frigiu uns<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span>
+ovos, não fez um biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha
+muito quem conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que
+seja incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola&mdash;por nunca haver
+posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos
+perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus frageis
+dias,&mdash;os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a saude,
+comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos resultados para os
+pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o soldado entre as
+balas,&mdash;com a differença de<span class="pn"><a
+name="pag_147">{147}</a></span> que para elle todos os dias que Deus dá são de
+combate, e combate que não dá postos nem condecorações! E dirige e tempéra, e
+tira e põe,&mdash;mas de avental; mesmo que não se trate senão de dar a voz de
+commando,&mdash;de avental sempre: aliás, tudo se perde, entra na comida o
+<em>bispo</em>,&mdash;unico que não tem nem terá partido,&mdash;agúa-se o
+môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle por assim dizer reformou, essa
+querida geléa que data do paraiso,&mdash;porque a serpente não seduziu Eva com
+uma maçã, como se espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna;
+seduziu-a com geléa: geléa que se apanhava da rezina<span class="pn"><a
+name="pag_148">{148}</a></span> das arvores. E não lhe fallem de tirar o
+avental, em se tratando de jantar grande,&mdash;porque o não tira; é ao avental
+branco que elle deve tudo; o avental branco é o seu pae, é o seu feitiço!...</p>
+
+<p>Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a gente,
+como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da <em>Ciosa</em>, de Antonio
+Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado que teve e possa
+ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella<br>
+lava teu rosto com ella,<br>
+tornar-te-has na compostura<br>
+e fegura<br>
+do que se foi.»<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span></p>
+
+<p>No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da
+gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e secca,
+encalha o navio ou tem de voltar para traz.</p>
+
+<p>Dizem que ha sitios no mar,&mdash;o cabo da Boa Esperança, por
+exemplo,&mdash;em que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras
+inteiras, de feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar
+alto é o gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a
+cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem emfim
+sepultura.</p>
+
+<p>Os feitiços no mar representam<span class="pn"><a
+name="pag_150">{150}</a></span> a attracção do elemento, o magnetismo da
+natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem caprichos perigosos. Em
+estando alguem para se afogar já na vespera se põem a dançar por cima das
+ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, e mal vae ao piloto em os
+feitiços dando no barco.</p>
+
+<p>Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, por
+lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando lhe quebram
+de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle está guardado; que
+acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer chamar, mas lhe tapam a boca
+para<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> que não grite, e elle
+adormece outra vez...</p>
+
+<p>As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto vae-se á
+capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça ouvir nas vozes
+do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á escuta, repara-se se diz
+<em>sim</em> ou <em>não</em> quem vae passando.&mdash;Em Lisboa, pelas festas
+de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento na esperança de se
+conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se ella deita
+espiga.&mdash;Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de esmola a um
+pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido<span class="pn"><a
+name="pag_152">{152}</a></span> como se chama o homem da esmolinha. Da
+alcachofra, dos bochechos, do ovo no copo d'agua, é quasi inutil
+fallar-lhes.&mdash;Quem tiver sete filhos está em mau caso: ou o ultimo se ha
+de chamar Mauricio, e um irmão ser padrinho,&mdash;ou nascerá
+defeituoso.&mdash;Enrolam-se tres papelinhos, com seu nome cada um, bem
+enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: outro para traz da porta:
+debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha de ser o nome do noivo. Extrae-se
+toda a casca a uma fava,&mdash;metade da casca a outra, e junta-se ás duas uma
+fava com casca; mettem-se as tres entre os colxões. De manhã, tira-se uma;
+se<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span> traz casca, vem vestida e
+a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser pobre; se
+traz metade da casca, a pessoa será remediada...</p>
+
+<p>O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó
+morenas,&mdash;o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,&mdash;sois vós!
+Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós!<span class="pn"><a
+name="pag_154">{154}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<h2>IX</h2>
+
+<h2>Encantos</h2>
+
+<p>Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, converteu
+em porcos os companheiros de Ulysses:</p>
+
+<blockquote>
+ <p><em>Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma
+methamorphose muito agradavel!&mdash;O<span class="pn"><a
+name="pag_156">{156}</a></span> grande impostor do Simão magico, contemporaneo
+dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos deuses quiz voar por cima
+de Roma&mdash;como o nosso Bartholomeu Lourenço por cima de Lisboa. S. Pedro,
+que assistia á experiencia, fez por intermedio das suas orações que caisse das
+alturas e se despedaçasse...</p>
+
+<p>Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das mouras.
+Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a dominação mourisca,
+e vivam escondidas nas covas e no mar&mdash;para melhor guardarem os seus
+thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, saphiras,<span
+class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> cordões de ouro, brincos, anneis,
+pulseiras, e broches de diamantes de um primor de desenho superior ao do
+florentino Cellini. Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens,
+e desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza e
+voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias.
+Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á meia noite
+se lhes acaba o encanto e o poder,&mdash;como diz Garrett na <em>D.
+Branca</em>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E ai! se o gallo cantou, que á meia noite<br>
+ Encantos quebram, e o poder lh'acaba.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Muitas vivem nas fontes.&mdash;Algumas<span class="pn"><a
+name="pag_158">{158}</a></span> têem ido á India n'uma casca de ovo. No campo
+ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as encantadas ruins não
+embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos por baptisar.&mdash;Algumas
+têem-se fingido encantadas, para as desencantarem melhor. Á sombra dos encantos
+tem havido muita casta de obra, e não poucas se serviram d'isso para apanhar
+marido. Lá o indica bem a trova da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e
+encontra no arvoredo uma donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um
+dia, e completar n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo,
+e dá-lhe a escolher:<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ou nas ancas ou na sella<br>
+ Onde fôr mais honra minha.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga a
+rir, a rir...&mdash;Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...</p>
+
+<p>No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,&mdash;no
+mar&mdash;ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o
+reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das
+nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas,
+provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam<span class="pn"><a
+name="pag_160">{160}</a></span> Ulysses com o soltarem a voz deliciosa, e o
+faziam torcer-se todo, preso ao mastro do navio; mas descendentes, mas netas
+d'ellas,&mdash;e, o que é mais, mulheres como as outras, dos bicos dos pés á
+cabeça! Conta-se o caso de não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir
+casar com a filha de um capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o
+noivo ergueu casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do
+tecto;&mdash;affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle
+bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o que
+queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar<span class="pn"><a
+name="pag_161">{161}</a></span> um padre, confessou-se, pediu os Sacramentos, e
+dispoz-se a bem morrer. Á meia noite expirou, depois de recommendar muito que o
+enterrassem em certo sitio...</p>
+
+<p>Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que sejam
+feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos ficam parecendo
+olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas opiniões desencontradas;
+porque, variavel como a onda que a encobre, a encantada no mar deve ora ser
+horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e pura como a agua transparente.
+Refere-se que em tempos iam todas as manhãsinhas á praça<span class="pn"><a
+name="pag_162">{162}</a></span> fazer compras; eram conhecidas por terem sempre
+molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que andavam de
+olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com moedas de dez réis
+furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de coisa certa. Mostra-se perto
+das Berlengas o sitio em que fallou uma; appareceu, ao sair do luar, com um
+espelho na mão, e gritou aos marujos que não tivessem medo porque estavam perto
+de terra: mas em elles lhe vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o
+caso foi que ali se perderam todos n'essa noite...</p>
+
+<p>Teem genio proprio do elemento<span class="pn"><a
+name="pag_163">{163}</a></span> em que vivem; graciosas e crueis; amantes e
+perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o que tambem era a
+balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que não é por mal; até ás
+vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira de os consolar por esses mares
+de Christo da travessura de lhes roubar a existencia humana.</p>
+
+<p>Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá têem
+acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz padeiro que morreu
+doido por causa de encantamentos, e de encantadas,&mdash;que ora lhe appareciam
+á borda dos regatos a<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span>
+pentear os <em>cabellos de oiro</em>, ora á tona d'agua nos poços, ora nas
+ondas do mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um
+muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...</p>
+
+<p>Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher da
+rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:&mdash;mas conservaram-se
+sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, e, tão depressa
+puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já lá vae. Hoje, as
+banhistas fazem-lhes concorrencia. A <em>Deuza dos Mares</em>, a <em>Flor de
+Lisboa</em>, e os vapores do<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span>
+sr. Burnay, assustaram-as. Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho
+liquido já não saem cá para cima senão os mudos,... que são os peixes!...</p>
+
+<p>De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura
+poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e pouco
+quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande segredo do seu
+poder,&mdash;porque a graça precisa de ser picante. É como com as flores;
+roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas bonitas,&mdash;mas
+sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente o põe&mdash;n'uma
+creatura,<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> n'uma vaidade,
+n'uma paixão, n'uma mania. Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para
+alguns, uma particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás
+vezes&mdash;como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor
+especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» na
+Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que transforma
+tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz reparo:&mdash;a
+vontade.</p>
+
+<p>Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas&mdash;tem ella o encanto
+de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado<span
+class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> Manuel Corrêa, que em 1838 viveu
+no Rio de Janeiro, guiou sósinho um navio, que a tripulação abandonára, no meio
+da tormenta navegando sete dias até fundear no porto de Santos!</p>
+
+<p>O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de
+apparencia inanimada,&mdash;nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo:
+trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o adivinha
+com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se muito lampeira á
+hesitação em que uma pessoa está:&mdash;depois, em se apanhando fóra de
+penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica encharcado<span class="pn"><a
+name="pag_168">{168}</a></span> põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a
+rir... Pelo contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a
+caraça de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo
+por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de elle ter
+tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua&mdash;não chovendo, e ficando
+o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo do braço. Ha
+encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; representam a vida
+debaixo dos seus principaes aspectos,&mdash;a borrasca e a bonança, a tormenta
+e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o ceu,<span class="pn"><a
+name="pag_169">{169}</a></span> e a bengalla volta-se para o chão; elle
+levanta-se, e ella curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que
+vem de cima, ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do
+que vae cá por baixo!</p>
+
+<p>O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer.
+Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este
+mundo&mdash;Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe chorou
+no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer das coisas não
+é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre inferiores&mdash;haja vista aquelle
+do Minho, que esteve ha<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span>
+annos em exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer
+profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é de mau
+fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se exponham a affrontar
+seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma escada de mão para se lhes
+fazer festas na cara!</p>
+
+<p>Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um metro
+de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas não se póde
+dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, porque ás vezes, mesmo
+sem querer, lá dão<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span> uma
+cabeçada nos callos de quem vae passando...</p>
+
+<p>Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz
+lhes ha de dar um beijo;&mdash;em lhes comendo a palma da mão, já a gente sabe
+que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a
+logo;&mdash;a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a
+esquerda, alguem nos corta na pelle.&mdash;Na madrugada de S. João quem fôr
+lavar a cara á fonte, fica bonito:&mdash;e quem nadar n'essa noite alcança o
+que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores
+sorriem...</p>
+
+<p>Os dois encantos negros são as<span class="pn"><a
+name="pag_172">{172}</a></span> almas penadas e os lobis-homens. A preta
+Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa morava um
+sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em malandrinices. Alta
+noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia lamentosamente:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o
+teu difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho
+sapateio...</em></p>
+
+<p>&mdash;Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a
+preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!</p>
+
+<p>E pagou. E o sapateiro foi arrecadando<span class="pn"><a
+name="pag_173">{173}</a></span> a moeda, dizendo com modestia que não era
+pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela noite velha, ora por
+dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia pagando até que uma vez se
+cançou do encanto e lhe redarguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não
+dou mais rial ao vijinho sapateio!</p>
+
+<p>E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a penar
+deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e nunca mais
+lhe deu vintem.</p>
+
+<p>As almas penadas são d'esta qualidade;<span class="pn"><a
+name="pag_174">{174}</a></span> e tambem defuntos, que por lhes faltar alguem á
+palavra dada&mdash;vagam n'este mundo, até que lhes satisfaçam as ultimas
+vontades.</p>
+
+<p>Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario,
+mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa apanham
+encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, mudam-se n'elle, e
+espojam-se tambem. Isto é,&mdash;espojavam-se. Isso não continua, e até já ouvi
+dizer que succede agora ao contrario, para variar, e que tem por ahi apparecido
+seu burro&mdash;mudado em homem.<span class="pn"><a
+name="pag_175">{175}</a></span></p>
+
+<h2>X</h2>
+
+<h2>Sonhos</h2>
+
+<p>Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um
+inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a
+monotonia da agua dormente&mdash;<em>mare mortuum</em>! Querem casos, avisos,
+phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis nem
+faziveis...<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> A antiguidade
+espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os
+vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a
+civilisação e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, <em>desgosto e
+feridas</em>: com dados, <em>perder os bens</em>: com espelho,
+<em>traição</em>: com favas, <em>doença</em>: com herança, <em>miseria</em>:
+com padre, <em>morte</em>!</p>
+
+<p>Alguns, não sei porque,&mdash;pode ser que por fazerem o mesmo
+acordados&mdash;sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, que
+fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia libra,
+Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo<span class="pn"><a
+name="pag_177">{177}</a></span> mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel
+Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a
+alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada
+n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que
+torce sempre o nariz&mdash;limite de seu horisonte&mdash;a tudo que vae pelo
+mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo
+de Belvedere é <em>piteireiro</em>: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa
+uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de
+asperges!...</p>
+
+<p>Porque será que se sonha?! Chega<span class="pn"><a
+name="pag_178">{178}</a></span> a parecer que a alma não está nas pessoas: que
+está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da mão de
+Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros
+com menos á direcção que lhes é dada,&mdash;obedecer é ser virtuoso, e ser
+criminoso é não querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque
+Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:&mdash;qualquer brisa do ceu n'essa
+occasião faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as
+creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não
+conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens<span class="pn"><a
+name="pag_179">{179}</a></span> que não têem parentesco com as imagens e as
+idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que fazem que a
+gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!</p>
+
+<p>Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.&mdash;Que a
+ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.&mdash;Outros
+affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle não vem,
+e certo está em o evitando;&mdash;principios um pouco alheios aos do Evangelho,
+e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não batas e
+abrir-te-hão!</p>
+
+<p>A maneira de dormir deve ter<span class="pn"><a
+name="pag_180">{180}</a></span> n'isto influencia. Cama desengonçada e velha,
+que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima
+da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, saltando, roendo; depois, o
+dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bruços... Como ha de ter sonhos
+felizes e côr de rosa um estafermo n'essas condições?</p>
+
+<p>As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece
+sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos
+porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na
+alcova fazem sonhar com morte ou com<span class="pn"><a
+name="pag_181">{181}</a></span> casamento.&mdash;E crê-se entre nós firmemente
+em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:&mdash;os
+que costumam ser desgraçados, já se vê, que os felizes não tenham medo que a
+attribuam nunca senão aos seus merecimentos!&mdash;E baralham tudo, o que
+sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas,
+febris; e queixam-se ora de visões, ora de insomnias:&mdash;e ás vezes, vae a
+ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!</p>
+
+<p>Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das apparições
+que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam,<span class="pn"><a
+name="pag_182">{182}</a></span> e apreciam, e consultam-se gravemente de
+janella para janella de saguão para saguão,&mdash;com mais cautela sempre em
+esconderem o juizo do que a loucura!</p>
+
+<p>É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos
+faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, merencorio
+e fusco, <em>gatos pingados</em> por natureza! Os que não teem desgostos,
+engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de
+tormentos,&mdash;os sonhos. Em não havendo causas grandes, as pequenas nos
+bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco de arvore, escorrega
+n'uma casca de<span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span>
+laranja,&mdash;e vae de ventas ao chão do mesmo modo.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!</p>
+
+<p>&mdash;Ai! Com cominhos!</p>
+
+<p>&mdash;São pragas! É praga que me rogaram.</p>
+
+<p>&mdash;Credo! É facil ser!</p>
+
+<p>E dá-se credito.</p>
+
+<p>Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de
+polvora sem pegar fogo&mdash;estou que não acreditam ao ponto de se deixarem
+ficar para assistir ao caso,&mdash;mas que sonhar com uma concha seja signal de
+<em>perder o credito</em>, com um copo de agua de <em>prompto matrimonio</em>,
+com damascos de <em>grande alegria</em>, com<span class="pn"><a
+name="pag_184">{184}</a></span> guitarra <em>prazeres dispendiosos</em>, e com
+papagaio <em>descoberta de um segredo</em>, quem se atreverá a pôl-o em
+duvida?!</p>
+
+<p>Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,&mdash;por tal fórma os
+males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles&mdash;como
+succedeu ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi
+pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou dal-a tal
+qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa;
+conforme m'a disseram, que não me custou pouco a conseguil-o:<span
+class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>«Gloriosa Santa Helena<br>
+ Filha da rainha Irena<br>
+ Moira foste, christã vos tornaste.<br>
+ Nas ondas do mar andaste,<br>
+ Com as onze mil virgens vos encontraste.<br>
+ Com ellas pão e queijo ceaste.<br>
+ Ao crucifixo vos encostaste<br>
+ Tres cravos que tinha lhe tiraste.</p>
+
+ <p>O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o
+ ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o
+ terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo
+ cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é
+ como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos
+ verdejantes:&mdash;se assim não é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em
+ roupas sujas, casas negras e aguas turvas, <em>Amen</em>.»</p>
+</blockquote>
+
+<p>Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a <em>rara avis</em><span
+class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span> dos dormentes. A dormir fallam, a
+dormir vão de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo
+d'elles;&mdash;principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com
+uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem
+ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e
+quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita
+á cosinha&mdash;foi atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego
+pela manhã lavar a loiça;&mdash;estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a
+esposa limpou-os todos, depois engraixou<span class="pn"><a
+name="pag_187">{187}</a></span> as botas do marido, e foi deitar-se outra vez.
+Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se passara durante a noite;
+unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.</p>
+
+<p>&mdash;Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!</p>
+
+<p>Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno,
+interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos acontecimentos
+politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu a todas as intenções,
+conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em si de contente. De uma
+occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte pergunta:<span class="pn"><a
+name="pag_188">{188}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?</p>
+
+<p>Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte&mdash;comprou o bilhete e
+sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que
+perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.</p>
+
+<p>De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... Constara-lhe
+que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á noite
+perguntou-lhe&mdash;quando ella estava a dormir, já se vê:</p>
+
+<p>&mdash;É verdade que tu andas de cabeça no ar?</p>
+
+<p>&mdash;Ando.</p>
+
+<p>&mdash;Por causa de quem?</p>
+
+<p>&mdash;Do primo José Maria.<span class="pn"><a
+name="pag_189">{189}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;É possivel! E porque é isso?</p>
+
+<p>&mdash;Porque elle é bonito, e tu és feio.</p>
+
+<p>Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.</p>
+
+<p>A grande preoccupação popular são os pesadelos,&mdash;sonhos negros,
+carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça que
+causámos.&mdash;-«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na
+<em>Nova Castro</em>. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances
+mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os primeiros
+momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os chronistas
+referem o caso de se haver D. Pedro I<span class="pn"><a
+name="pag_190">{190}</a></span> levantado depois de morto, para confessar um
+peccado que não tinha dito.</p>
+
+<p>Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, faz
+sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos a dar
+voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, reanimando-se as
+lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas com os sons, e
+acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a ver o que se ouve, n'um
+nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que se vê!</p>
+
+<p>Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz&mdash;quando não se
+possa sel-o de outra fórma. Sempre<span class="pn"><a
+name="pag_191">{191}</a></span> são horas de ganho sobre os enfados e cruezas
+da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se alcança. Só tem o
+contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da Graça havia uma sepultura,
+que os frades depois levaram para os claustros, que dizia assim: «Aqui jaz
+Manuelinho, mercador, de 15 annos, que morreu espertando.»&mdash;É o perigo de
+acordar. Acorda-se do sonho&mdash;e ás vezes da felicidade!<span class="pn"><a
+name="pag_192">{192}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_193">{193}</a></span></p>
+
+<h2>XI</h2>
+
+<h2>Sinas</h2>
+
+<p>Portugal é a terra das sinas,&mdash;historias quentes e coloridas como o
+paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... e as
+grandes, ao pé do amigo lar.</p>
+
+<p>Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os
+gatos): de 13 de fevereiro<span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span> a
+20 de março, nascem os que hão de ser gastronomos:&mdash;de 21 de março a 19 de
+abril, os engenhosos e prudentes, com signal visivel no corpo e ameaçados pela
+ferocidade de algum animal:&mdash;de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de
+casar rico, dar uma grande queda (talvez essa!) e ser careca:&mdash;de 21 de
+maio a 22 de junho, os de sentimentos humanitarios:&mdash;de 23 de junho a 22
+de julho, gente destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;&mdash;de 23 de
+julho até 25 de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de
+esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou aguas do
+mar, felizes nos<span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span> negocios,
+achando algum thesouro escondido (o do Lavradio, por exemplo!):&mdash;de 24 de
+agosto a 21 de setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós
+toda a gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de
+namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:&mdash;de 24 de agosto a 21
+de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos ruivos:&mdash;de
+22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se emprehende, honradez, passar
+melhor em terras estranhas do que na patria; mulheres elegantes com uma
+queimadura n'um dos pés:&mdash;de 24 de outubro a 22 de novembro, teimosos,
+inclinados á astrologia;<span class="pn"><a name="pag_196">{196}</a></span>
+mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;&mdash;de 23 de novembro
+a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á navegação; mulheres com
+falta de cabello;&mdash;de 22 de dezembro a 20 de janeiro, genio iracundo,
+mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco saudaveis; mulheres tafulas, que
+hão de ser mordidas por algum bicho, brancas, de olhos castanhos, gostando de
+bailes, tendo muitos namoros, quasi todos militares.</p>
+
+<p>Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;&mdash;tudo.
+Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos succeder
+depois de nascer...<span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span> ou
+antes. A mão o dirá. Na mão ha muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e
+reconhece n'ella,&mdash;e já se vê que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:</p>
+
+<p>&mdash;Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!</p>
+
+<p>Ou:</p>
+
+<p>Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!</p>
+
+<p>Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:</p>
+
+<p>Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;&mdash;avareza, mão dura e
+encarquilhada;&mdash;luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos
+na base;&mdash;ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;&mdash;inveja, mãos
+compridas e ossudas;&mdash;preguiça,<span class="pn"><a
+name="pag_198">{198}</a></span> mão branda e macia:</p>
+
+<p>Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as linhas
+confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão direita para
+isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que isto não é mais uma
+velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre a chamar as attenções e a
+armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que logo pelo nome principia a
+perder, coitada, a pobre mão <em>esquerda</em>!</p>
+
+<p>A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter
+poesia se fosse dita e sentida<span class="pn"><a
+name="pag_199">{199}</a></span> de outra fórma. Comprehende-se que quem estiver
+cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações que o devoram, a
+querer ler no firmamento. O astro de Saturno por exemplo tem o que quer que
+seja de curioso na aureola que o cerca sem lhe tocar, diadema que não se lhe
+segura na fronte; ha n'isso alguma coisa parecida com a esperança, nimbo de luz
+que brilha no escuro das magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da
+cabeça e afasta os raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle
+annel não passa de ser mais um satelite&mdash;e a esperança é um dos nossos
+tambem, nuvem de guarda<span class="pn"><a name="pag_200">{200}</a></span> que
+nos vae consolando com as visões...</p>
+
+<p>A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de
+cumprir-se,&mdash;apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se
+gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque motivo se
+deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para ir ter paixões
+devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os defeitos, a quem em certa
+maneira chega a odiar-se dentro do amor que se lhe tem?!</p>
+
+<p>É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem no
+tronco centenario<span class="pn"><a name="pag_201">{201}</a></span> dos
+chorões, e a era a abraçar-se aos muros negros e rachados? Não dizem que as
+abelhas do Oriente gostam de ir fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não
+se vê os passaros armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da
+naturesa material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!</p>
+
+<p>Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de continuar
+a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria das nações diz-lhe
+que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais bonito que o braço seja;
+que não basta a vaccina da infancia; que é util entregar-se,<span class="pn"><a
+name="pag_202">{202}</a></span> termo medio, de sete em sete annos áquella
+operação. Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã
+Anna&mdash;sem ver apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi
+tem de voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda
+representação de vaccina:&mdash;trinta segundos; depois, já se vê, da meia hora
+de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres borbulhinhas
+vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha febre, ha tudo: d'esta
+vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois annos tem bexigas. Diz o
+povo:</p>
+
+<p>&mdash;Era a sua sina!<span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span></p>
+
+<p>As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do fado
+á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi sempre
+fatidicos; lá se diz na <em>Chronica de D. Sebastião</em> por Fr. Bernardo da
+Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado Madeira foi pelo mar
+cantando á viola a el-rei um romance que dizia: «Hontem eras rei e hoje nem
+casa tens», trova em que vinha saindo a sina, e que fez tal impressão nos
+animos que logo se lhe disse que mudasse para outra mais alegre.</p>
+
+<p>Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe&mdash;nem pessoa nem bicho,
+porque até os animaes teem<span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span> a
+sua sorte escripta:&mdash;a sina do porco, por exemplo, é ser comido! Ser
+comido, haja o que houver; não serve para mais nada; o boi é para a lavoura, o
+cavallo para a guerra, as aves para o ar: o porco é para a pucilga; as aves são
+poeticas, o boi é laborioso, o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem
+prestimo se não para o espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina
+d'elle!</p>
+
+<p>Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, não ha
+outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde zombar, póde não
+crer;&mdash;a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, cassoista. Um
+moço<span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span> elegante e pallido que
+durante um tempo foi grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda,
+fez um dia a côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que
+ha memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;&mdash;o mancebo detestava as
+mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que tão
+peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder de esforços
+conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe tres minutos, tres
+minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua respeitosa adoração, quando
+se ouviu bater á porta. O susto traz<span class="pn"><a
+name="pag_206">{206}</a></span> complicações medonhas, e a senhora por não
+saber o que fizesse&mdash;deixou-o esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso
+homem das mãos grandes, conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e
+poz-se a ler. O outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma
+calça justa á perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma
+bulha. O das mãos grandes, sempre lendo, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, <em>tó</em>,
+<em>tó</em>, anda cá tollo...</p>
+
+<p>E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...</p>
+
+<p>O outro lembrou-se que qualquer<span class="pn"><a
+name="pag_207">{207}</a></span> suspeita n'aquellas alturas podia perdel-o; e
+de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão phenomenal de que elle
+tanto se rira sempre!...</p>
+
+<p>Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás
+vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da vida o
+amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma borboleta, está
+feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá sempre tarde. Os poetas
+podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é isto, simplesmente isto&mdash;uma
+borboleta pregada, a querer fugir, a querer dar ás azas sem
+poder&mdash;porque,<span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span> de cada
+vez que as quer librar, alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!</p>
+
+<p>A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a
+<em>buena-dicha</em>. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a
+assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e
+escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de rumo
+se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle mensageiro da
+primavera que annuncia as folhas&mdash;e dizem que annuncia tambem outras
+coisas,&mdash;canto um pouco extravagante, canto de duas notas, o canto do
+cuco!<span class="pn"><a name="pag_209">{209}</a></span></p>
+
+<p>A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de
+<em>D. Branca</em>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>          Por onde o traz seu fado?<br>
+ Oh! negra sina entrou n'essa familia...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de ser;
+por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força alguma;
+nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para ricos, aquelles
+para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, e que não podem deixar
+de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um freguez, que a unica coisa
+que<span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span> não furtava era a má
+fama que tinha. Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O
+Simão tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão
+obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez quando
+o homem pediu a conta teve o gosto de ler:&mdash;«Pratos 800 réis.»</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?</p>
+
+<p>&mdash;Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.</p>
+
+<p>A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os
+cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz sempre
+justiça, e apesar<span class="pn"><a name="pag_211">{211}</a></span> de
+destruir, por maiores que sejam, os monumentos, apesar de arrasar thronos e
+imperios, respeita certos nomes e conserva-os levantados como pharoes no
+horisonte da historia e do pensamento. A felicidade não póde estar senão em se
+ser gente de bem. Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio
+fadista a que se chame <em>sina</em>, parece-me uma impiedade e uma
+tolice!<span class="pn"><a name="pag_212">{212}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span></p>
+
+<h2>XII</h2>
+
+<h2>Coisa má</h2>
+
+<p>«Coisa má!»</p>
+
+<p>«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser preferivel á
+ruindade humana;&mdash;que mais vale dar uma topada ou uma canellada do que
+encontrar certas caras!</p>
+
+<p>«Coisa má» é a lua de março;<span class="pn"><a
+name="pag_214">{214}</a></span> a lua marcina, como lhe chamam no
+campo&mdash;que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não
+passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e não
+produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de varzea; coisa má
+é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que passasse tres vezes o
+Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram sem que recebessem cinco réis
+em troca...</p>
+
+<p>Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços,
+armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não ha
+objecto que não<span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span> tenha
+morador, que não tenha inquilino, que não tenha «coisa má» em si; espiritos
+malignos que espreitam pelos poros com o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á
+alegria em que uma pessoa esteja e rompem em risota perante as maguas que nos
+pesam... Demonios hostis, pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça
+de nos pregar peça...</p>
+
+<p>Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente&mdash;que nem que fosse
+um cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo chapeu
+novo, é sabido que ha de chover.&mdash;Fato que se vista pela primeira vez, não
+deita ao sol posto sem lhe succeder<span class="pn"><a
+name="pag_216">{216}</a></span> precalço; anda um homem com calafrios na golla,
+e acrescimos nas abas, passam pressentimentos nas pernas, e apertam-se as
+fivellas com susto do que se está passando...</p>
+
+<p>Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, capote
+das rapaziadas e das aventuras,&mdash;que de extensas marchas na estrada da
+vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos sabem do feitio, e que
+se ageitam bem ao corpo.</p>
+
+<p>Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde te
+porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de fresco, lá
+ha de vir caso urgente que leve uma pessoa<span class="pn"><a
+name="pag_217">{217}</a></span> a ir por ali roçar-se e arranjar divisas na
+manga como um sargento; ou um diabrete de algum preguito que tenha estado annos
+n'aquella umbreira sem fazer mal a ninguem, até que nos apanhe com um farpão
+formidavel!</p>
+
+<p>Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do
+trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo á
+porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,&mdash;ou, o que ainda
+é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por não ter comsigo
+a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites sem graça e sem gosto,
+quasi sempre<span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span> a chover, e o
+pobre diabo a vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?</p>
+
+<p>Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do
+trinco&mdash;não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo
+preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e toca a
+procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, até que vão
+achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!</p>
+
+<p>Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil
+historias de «coisa má,»&mdash;poços que atiram para fóra com o que se lhes
+deita; hervas de maleficio<span class="pn"><a name="pag_219">{219}</a></span>
+que se mettem de proposito debaixo dos pés da gente, pedregulhos em que mora
+ferrabraz, satanaz, caiphaz...</p>
+
+<p>Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz e
+influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de inquietações,
+a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... Por isso faziam bem
+os egypcios,&mdash;nunca houve povo com mais juizo!&mdash;que cortavam as
+curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite origem de tudo
+quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. Armar em dogma e em
+artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, e<span class="pn"><a
+name="pag_220">{220}</a></span> adoral-a por não saber que explicação lhe
+dar.</p>
+
+<p>Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que
+havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos principios
+do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no poema da
+<em>Monocléa</em>; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e zanagas, e em
+que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da sua gloria:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>De um olho claudicava de tal arte<br>
+ Que celebre se fez em toda a parte.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um agiota,<span
+class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span> sempre certo no Terreiro do Paço,
+da uma hora ás tres, debaixo da arcada, emprestava dinheiro&mdash;n'uns tempos
+de crise politica e financeira, de que o paiz ficou guardando má
+lembrança&mdash;a 9 por cento.</p>
+
+<p>Dizia-lhe um amigo:</p>
+
+<p>&mdash;Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus
+vê tudo, e estou que não te perdôa essa!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá
+de cima parece um 6.</p>
+
+<p>Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em que as
+contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series;<span class="pn"><a
+name="pag_222">{222}</a></span> desde o saltar da cama até ao deitar á noite
+como que se vae caindo de barranco em barranco; parece estar-se destinado como
+o Sybarita a que até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para
+nos sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto do
+torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz carta ou traz
+más novas;&mdash;sae-se para a rua sem haver escovado o fato;&mdash;as pessoas
+a quem se procura, em morando alto não estão em casa;&mdash;ao voltar da
+esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar castanhas, e entorna por
+cima da gente o copo que tem na<span class="pn"><a
+name="pag_223">{223}</a></span> mão;&mdash;é n'esse dia quasi sempre que um
+homem se constipa, rompe a espirrar duas horas, e fica sem o botão do
+collarinho...</p>
+
+<p>Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series como o
+povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não chegam mais dois;
+tres é o numero.&mdash;Decorrem dias, semanas, mezes, sem haver incendio; mas,
+em tocando a fogo, dizem que é certo não parar n'aquelle, e os gallegos ficam
+logo de pé no ar para irem buscar outra vez a bomba.</p>
+
+<p>É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha aqui a
+tudo que seja casos<span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span>
+sombrios, dias nefastos, e cousas relamborias. É sabido! Precisamos
+absolutamente de tudo que for mofino e tetrico. Indifferentes, preguiçosos,
+desenchabidos, de tudo isto nos consolamos com tanto que venha de tempos a
+tempos alguma celebreira carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou
+de Castilho é raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar
+entre a pera e o queijo o fado de João Brandão!</p>
+
+<p>Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa tem
+por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, muito melhor
+que n'outras, n'uma certa; ha um recanto<span class="pn"><a
+name="pag_225">{225}</a></span> do jardim, que cheira mil vezes bem depois
+d'estes chuviscos do outomno, e onde a gente gosta de estar ao cair da tarde
+espreitando o ceu por entre a rama das arvores;&mdash;ha até simples objectos,
+coisitas de nada, que exercem attracção nos animos e nos dão gosto em os ver...
+Mas lá está, lá está no fundo a coisa má;&mdash;e esses objectos a que mais se
+quer serão os que hão de perder-se mais depressa,&mdash;e os sitios queridos, a
+casa, o quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo
+contra vontade!</p>
+
+<p>E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»&mdash;o amor, a formosura, a
+mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas<span class="pn"><a
+name="pag_226">{226}</a></span> melhores que ha; e tambem as que mais depressa
+fogem,&mdash;que até têem azas como os anjos, e voam como as andorinhas!</p>
+
+<p>Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e
+chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem sabia
+fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o estudar fazia
+mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim desgraçado de homens
+notaveis,&mdash;Euripides despedaçado por uma matilha de cães, Cicero degolado,
+Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a mercador, outro a cadete,<span
+class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span> o mais gordinho ia para padre. Em
+todo o caso&mdash;nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:</p>
+
+<p>&mdash;É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem
+que falla francez!</p>
+
+<p>&mdash;Sério? perguntavam todos.</p>
+
+<p>&mdash;Ha quem o ouvisse.</p>
+
+<p>Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta quando
+appareceram os primeiros em Lisboa.</p>
+
+<p>&mdash;É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa andar a mãe a pedir esmola...</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Até anda de chale-manta!<span class="pn"><a
+name="pag_228">{228}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;O quê?!</p>
+
+<p>&mdash;Palavra de honra.</p>
+
+<p>Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha «coisa
+má»&mdash;e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já ouvi contar
+de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da sorte e por saber os
+perigos que resultam das cartas de amores&mdash;sempre que escrevia alguma
+punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se alguem de casa lh'a apanhasse,
+pudesse a obra passar por brincadeira. A mania de se julgar perseguido pela
+sorte é uma loucura como outra qualquer, muito frequente em Portugal e tanto
+mais<span class="pn"><a name="pag_229">{229}</a></span> perigosa que se
+manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae azedando o
+genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado de ferocidade que
+póde dar com um homem em doido furioso.</p>
+
+<p>«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a
+quem; querer remar e não ter braços. O <em>politicão</em> que passa a vida a
+recusar pastas que não lhe offerecem&mdash;diz que o paiz tem «coisa má;» o
+beberrão que troca as pernas&mdash;accusa de ter «coisa má» o vinho de mais que
+bebeu.</p>
+
+<p>«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não
+tem!...<span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span></p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_231">{231}</a></span></p>
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<h2>As mulheres de virtude</h2>
+
+<p>O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e de
+vista&mdash;apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a que
+horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca quando recolhe.
+Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a dignar-se<span class="pn"><a
+name="pag_232">{232}</a></span> sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão
+em signal de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma
+pessoa não os traz comsigo... nem com outro&mdash;a marota da felicidade
+volta-lhe as costas e dá ás de Villa Diogo!</p>
+
+<p>De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores para a
+quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude na vespera de
+nos dar a riqueza, como succedeu lá ao</p>
+
+<blockquote>
+ <p>     <em>Pero Pico<br>
+ que viveu pouco e pobre<br>
+ e finou rico!</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a<span
+class="pn"><a name="pag_233">{233}</a></span> vida seja isto e porfiam em
+comprar a sorte a retalho, nas cartas e em philtros, ás <em>mulheres de
+virtude</em>. As <em>mulheres de virtude</em> são as <em>chirogromanas</em>, as
+<em>chiromantes</em>, as <em>cartemantes</em> de Portugal. As crendices
+populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da melhor as vae
+consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem elixires para attrair o
+amor e artificios para encantar; e sabem das cartas tudo que vae pelo mundo.</p>
+
+<p>Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas
+<em>mulheres de virtude</em>, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam
+de uma casa na rua dos Correeiros, onde<span class="pn"><a
+name="pag_234">{234}</a></span> tinham ido exercer as ladras funcções da sua
+industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas onde entravam. Haviam roubado
+quatrocentos e tantos mil réis, além de roupas a titulo de serem lavadas em
+agua benta. Vendiam frasquinhos com liquidos especiaes para conservar o amor, e
+ensinavam ás mulheres casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para
+elles nunca se enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim
+molhado n'um cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o
+policia, esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas
+ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á<span class="pn"><a
+name="pag_235">{235}</a></span> meia noite de sexta feira em que fosse lua
+nova.</p>
+
+<p>As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem condemnadas
+pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas no lar domestico,
+creadas na solidão&mdash;mais profunda sempre que a do homem, que se distrae
+alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. Depois, e isto em qualquer paiz, a
+faculdade mais desenvolvida nas mulheres não costuma ser a logica; em desejando
+uma coisa, já lhes parece justa; em a receando, já se lhes figura
+provavel:&mdash;acreditam todas na fatalidade&mdash;e a fatalidade é a mãe da
+bruxaria.<span class="pn"><a name="pag_236">{236}</a></span></p>
+
+<p>Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que lhes
+ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma escada que
+range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela senhora fulana, a
+senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha com bigodes, ou uma
+grande verruga no queixo, que traz para ali um pires com agua e a lamparina da
+noite com azeite, resa um credo em cruz em cima do pires que tem agua, e molha
+no azeite o dedo minimo da pessoa, dizendo tres vezes o nome d'ella e
+resando:<span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>     <em>Deus te fez,<br>
+      Deus te creou,<br>
+      Deus te desolhe<br>
+      De quem mal te olhou.<br>
+ Se é torto ou excommungado,<br>
+ Deus te desolhe do seu mal olhado.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p>Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a
+cliente,&mdash;fregueza, victima,&mdash;assustando-a com a vista, com os modos,
+vão resmungando de fórma que mal se perceba&mdash;«Sant'Anna teve a Virgem, a
+Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal
+olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, não
+tem&mdash;e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer
+obstaculos,<span class="pn"><a name="pag_238">{238}</a></span> descobrir de
+onde vem o mal e acabar com elle;&mdash;quer dizer que cumpre principiar a
+mugir o caso e a roubar dinheiro á consultante. Precisam um dia de uma coisa,
+no outro dia de outra. Hoje um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte
+de seda preta para fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma
+promessa...&mdash;Sei tudo isto por uma mulher que esteve como criada em casa
+de uma d'ellas.</p>
+
+<p>Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar,
+vellas de cêra, e&mdash;como diz o povo&mdash;<em>para compôr</em>, um pouco de
+cabello. O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello<span
+class="pn"><a name="pag_239">{239}</a></span> dá amor, lembrança, consolação; o
+cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. Havia um homem em Alcantara que
+morreu velhissimo, que levava sempre o amor conjugal a limites extremos&mdash;o
+que não o impediu de casar por duas vezes. Tinha o vicio das mulheres de
+virtude, e ellas aconselharam-lhe por tal fórma o ter cabello da pessoa amada
+que o homem resolveu&mdash;para conservar sempre fresca e amorosa a lembrança
+das duas mulheres que haviam feito a felicidade da sua
+existencia&mdash;aproveitar as tranças de cabellos que lhes tinha cortado
+piedosa e successivamente quando tivera a desgraça de as perder, e<span
+class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span> mandar fazer daquillo um chinó.
+Cobria o topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma
+côr&mdash;mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem
+nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de virtude!...</p>
+
+<p>Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,&mdash;mas que só dá
+por isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem
+soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite correndo e
+saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, logo que digam a
+sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: «Vôa,<span class="pn"><a
+name="pag_241">{241}</a></span> vôa, por cima de toda a folha!» O marido de
+uma, que não sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta
+noite, espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a
+resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o espaço por
+ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou de dizer a
+oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima de toda a folha!»
+disse:&mdash;«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» Sentiu-se levado por força
+occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a rasgar-se, por baixo das arvores
+e por baixo dos silvados...<span class="pn"><a
+name="pag_242">{242}</a></span></p>
+
+<p>Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a si
+proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas lhe estão
+chupando o sangue&mdash;accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me que a boa
+bruxa é a de nascença, e não a que aprende.</p>
+
+<p>Ora as <em>mulheres de virtude</em> são bruxas que aprendem. Vae aquella
+arte de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás
+vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: até se
+lhes chama <em>sabias</em>. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir seres
+privilegiados para a instruirem, quer<span class="pn"><a
+name="pag_243">{243}</a></span> queira, quer não; a sibylla de Gumas, Orpheo,
+Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na cara do sujeito, ou no Gall,
+capaz de cortar o cabello á escovinha ao genero humano para lhe apalpar melhor
+as bossas. De tudo isto a <em>mulher de virtude</em> é o que tem havido
+melhor!</p>
+
+<p>Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. Dilata-se-lhes a
+palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, dão á cabeça, batem o pé
+no chão, guincham, resam, praguejam, misturam nomes de santos e nomes de
+bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e choram... A pessoa que as consulta,
+senhora quasi sempre, estremece<span class="pn"><a
+name="pag_244">{244}</a></span> com aquelle olhar de fascinação, com aquellas
+palavras de sortilegio... Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como
+se fossem animados; ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é
+como se a dama piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de
+espadas tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como
+que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de contente,
+hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as cartas... E como se o
+espirito da verdade fallando pela boca d'ella estivesse a patentear o quadro
+das vicissitudes da vida intima, apalpando<span class="pn"><a
+name="pag_245">{245}</a></span> o presente, avistando o futuro... O valete de
+ouros é o <em>amante</em>, o cinco de copas são <em>lagrimas</em>, o az de paus
+<em>fandangos</em> (amores), sete d'espadas <em>desgosto formal</em>, az de
+ouros <em>prenda</em>, tres de copas <em>com certeza</em>, dois de paus <em>a
+caminho</em>, quatro de paus <em>prisão</em>, e a espadilha
+<em>affirma</em>!</p>
+
+<p>É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma
+estupidez&mdash;é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de
+casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!</p>
+
+<p>Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a inquietação, a
+angustia, as noites raladas<span class="pn"><a name="pag_246">{246}</a></span>
+de ciume, de despeito e de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade
+em tudo&mdash;na mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira
+côxa, nas rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no
+fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, no galo
+grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e clara d'ovo, no
+sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de alecrim, no espelho, na
+thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no palavrorio de resa que precede o
+<em>botar a falla</em>:&mdash;Credo&mdash;cruzes&mdash;canhoto&mdash;temos
+bruxaria&mdash;saramago&mdash;mostarda&mdash;alho<span class="pn"><a
+name="pag_247">{247}</a></span> e arruda&mdash;maravalhas e palhas de alhos!</p>
+
+<p>Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia na
+gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do acaso,
+saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os conventos, casas
+por excellencia para a indole sombria que temos. Todas essas allucinações de
+que lhes tenho fallado, <em>telha</em>, <em>enguiços</em>, <em>encantos</em>,
+<em>agouros</em>, <em>feitiços</em>, <em>sonhos</em>, <em>sinas</em>, <em>coisa
+má</em>, provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas
+<em>mulheres de virtude</em>. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é
+crer; crer no renascer das folhas; na<span class="pn"><a
+name="pag_248">{248}</a></span> volta da quadra florida; crer que a dor não é
+sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas que saram. A
+fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a chegar-se á alma. Toda a
+nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão em duas coisas,&mdash;em
+enguiços e em economias! O mesmo <em>deficit</em> de que tanto por ahi se
+falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim somos. Enguiços e
+economias! Tristes e pobres;&mdash;duas vezes tristes!</p>
+
+<p class="centrado">FIM</p>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_249">{249}</a></span></p>
+</div>
+
+<table border="0" align="center" summary="Indice">
+ <tbody>
+<tr><th colspan="3">INDICE DOS CAPITULOS</th></tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td> </td>
+ <td style="text-align:right;"><small>PAG.</small></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">I</td>
+ <td>&mdash;Os doidos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">II</td>
+ <td>&mdash;As doidas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">III</td>
+ <td>&mdash;Os idiotas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_41">41</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IV</td>
+ <td>&mdash;Os furiosos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_59">59</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">V</td>
+ <td>&mdash;Telha</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_77">77</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VI</td>
+ <td>&mdash;Enguiços</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_97">97</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VII</td>
+ <td>&mdash;Agouros</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_117">117</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">VIII</td>
+ <td>&mdash;Feitiços</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_135">135</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">IX</td>
+ <td>&mdash;Encantos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">X</td>
+ <td>&mdash;Sonhos</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_175">175</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XI</td>
+ <td>&mdash;Sinas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_193">193</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XII</td>
+ <td>&mdash;Coisa má</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_213">213</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align:right;">XIII</td>
+ <td>&mdash;As mulheres de virtude</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pag_231">231</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by
+Júlio César Machado
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS ***
+
+***** This file should be named 34275-h.htm or 34275-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
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+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+active links or immediate access to the full terms of the Project
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+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
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+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
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+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
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+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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