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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/34275-8.txt b/34275-8.txt new file mode 100644 index 0000000..ac4cbbb --- /dev/null +++ b/34275-8.txt @@ -0,0 +1,3061 @@ +The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Da Loucura e das Manias em Portugal + +Author: Júlio César Machado + +Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +DA + +LOUCURA EM PORTUGAL + + + + +Lallement frères, Typ. Lisboa, 1871 + + + + + DA LOUCURA + + E DAS + + MANIAS EM PORTUGAL + + ESTUDOS HUMORISTICOS + + POR + + JULIO CESAR MACHADO + + + + + LISBOA + LIVRARIA DE A. M. PEREIRA--Editor + 50--Rua Augusta--51 + 1871 + + + + +RILHAFOLES + + + + +I + +Os doidos + + +Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,--da porta para +dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle +jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca +das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos +não são outra cousa senão buracos luzidios; cavam-se as faces, +parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos significação, as feições +são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são personalidades +phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se entende; gente +estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!... + +Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e +transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, +envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão +avistando ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que +conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos +olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado +e insolito quanto por lá se ouve! + +Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como +nós somos e portar-se como nos portamos--é ser affectado, é ser pedante; +que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, +assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem +vulgar não poderia dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que +juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que +em nós ha simplesmente mudança de convenções; que elles estão mais perto +do estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as +julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o +amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de +beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito +nupcial de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas +anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada, +estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um +casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em +inscripções!... + +Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem +varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo +dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de +tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais +exacto!... + +Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta +e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças +idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o +numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por +fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o +edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vão +pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes. +Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as +commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis, +ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição separada; os da +1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum. + +Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a +requerimento de particular,--com attestado do medico, auto de +investigação, e, se são pobres, certidão do parocho,--e ficam quinze +dias em observação; findos elles, ou a doença não se verifica e são +immediatamente despedidos, ou, verificada a alienação, colloca-se o +doente na repartição que o director lhe destina, e segue o tratamento. + +O tratamento! Isto é,--o estudo, a observação constante, as +experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão +e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, +de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de +enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como +moralista,--unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. São +doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,--a de um, que +nunca perde a pista do caracter que tem, e em tudo que diz e no que +faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde +juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante +os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, +que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, +excepto de logares, ou de datas!? + +Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e +singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada +passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é +preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia, que +não cança nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando, +gritando, fallando--este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede, +outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as +ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as vaidades. +Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam: + + «Elogio + á exma. sra. D. L. de S. F. + no dia natalicio de seu nascimento + dividido em tres partes. + Passado, presente e futuro.» + +Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo: + + «_Grande globo + do + Grande enredo_ + + Jornal das mentiras purificadas + e saidas do funil + estampadas calligraphicamente em + papel, respeitando + as dignissimas auctoridades.» + +Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores, +trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, +dos banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a +secretaria, está logo a primeira aptidão aproveitada,--o continuo, que é +um doido! Leva papeis, traz papeis, dá recados; está ali a toda a +hora, desempenha perfeitamente, e não ganha nada.--Que lição... a +continuos!... + +Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, +homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,--todo grave, cortez, +benevolo--não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde +abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se +sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do +carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi +entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede +novo, a quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali +entram. + +--Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda. + +--Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado. + +--É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá! + +--_Num quero_, dizia o carvoeiro. _Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos +na minha bida! Arreda para lá!_ + +--É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para a +saude, e de grande aceio. + +O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o +seu banhosito n'uma d'aquellas magnificas tinas de marmore, admirado +ao mesmo tempo de tantas attenções que tinham com elle n'este +estabelecimento do estado. + +Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem +elles todos e não se ouve por lá outra cousa. + +--Ámanhã, disse-lhe o guarda. + +--Ámanhã!?! redarguiu o homem. + +--Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre +de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã, +quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae +vocemecê passear. + +--_Paxar a bixita!_ uivou o carvoeiro. _Eu n'um estou doido, démo!_ + +E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam +pelo... que não era,--até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o +mandou para a rua, mudado tambem--como aquelles seus compatriotas do +poço, de quem já de uma vez contei a historia,--porque tambem tinha... +lavado a cara! + +A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê +sempre em Rilhafolles o _lasciate ogni speranza_, um beco sem saida, o +mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o +chicote dos enfermeiros... Entretanto ella é o menos triste que uma +casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em que está collocada, +o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o sr. +Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É +preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado +carinho são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos +elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos. + +E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um +corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se +propõe em todas as legislaturas, e anda constantemente a ensaiar +discursos.--Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é +marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha, +conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.--Um piloto da +barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças do mar e cae +n'uma melancolia profunda.--Um, que foi porteiro do sr. barão de Santos, +conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar +junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois +roubado.--Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões +do chamado _jogo da gloria_, e manda ao pae o dinheiro que ganha n'isso. +Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, +enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:--«Diga-me, +pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario?»--«Pois +está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.»--Um, alegre +e risonho, philosopho sem o cuidar, coração que ainda não saiu da +infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por +uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus palacios, e algum +particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios que todos +lhe pertencem.--Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.--O famoso +Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a +villa inteira, conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com +vontade sempre de matar alguem. + +E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de +passagem, quando me vêem tomar apontamentos: + +--Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!... + + + + +II + +As doidas + + +N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se +primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão +abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a +familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas são as +felizes; ainda têem lá de vez em quando quem as visite, quem lhes +leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para +apetites--comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as +fidalgas,--_as fidalgas de Rilhafolles!..._ + +Passam n'aquelle corredor enorme--que o espectaculo monstruoso d'ellas +torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras +fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, +entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas +ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente. + +Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer +com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver +n'elle nada de novo--grito melancholico, que tem atravessado as edades; +idéa triste e fria. + +Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma +chimera,--coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi +tudo,--odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha +nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, +como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das +forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos +espiritos. + +Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de +alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é +risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a +d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha +outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem +era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella +dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas +caixinhas,--tão fechadas que ninguem as podia abrir,--que os pescadores +das _Mil e uma noites_ achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas +fendas! + +A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, +deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: +reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, +pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, +compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de +réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras +tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue +apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de +fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações +colossaes como as que a terra produzia quando era nova e que +absorviam em si umas poucas de existencias!... + +As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver +visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e +continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel +ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se +tambem serão...--se as doentes tambem serão enfermeiras? + +Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra +doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas +essas empregadas, e corrigem um pouco pela sua presença a impressão +penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro. + +As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do +director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já... + +--Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã. + +E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:--Ámanhã! + +Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz +senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e +ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, +tranquillamente, prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite, +a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura! + +Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está +sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa +de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam +contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua +adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás +solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, +por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á +janella a olhar para os campos e a farejar tormenta em tudo--no +voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter +conhecido a vida, á sua custa;--a peor maneira de conhecer as coisas. Ás +vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem +apanha; previnem-me disto. + +Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e +papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da +campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem +a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido +de cauda grande, quer ver-se nos espelhos, quer que a achem galante, +que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de +tal, que tambem deu uma _soirée_ onde estava a primeira sociedade, que a +sua _toilette_ era primorosa, que está já em vesperas de partir para o +campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa +comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os +anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a +manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os +_Lanceiros_, faz-nos a cortezia. + +Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um quarto +onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer _crochet_. Olha +para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo +isso, pergunta-lhe se me conhece. + +--Parece-me que conheço, responde ella. + +O director diz-lhe o meu nome. + +--É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro. + +É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez +d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,--o +chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos +fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem baixo, +vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta, +tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do +meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido +um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;--era o +pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com +difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o +verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes +depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!... + +A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave e +resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de +tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar +como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e +cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, +euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras +baralham tudo: + + Amei, infanta e leda como a aurora + Dos sonhos d'esse infante adormecido; + Ao rei o teu gemido, o teu trovar, + Ao throno o teu sondar encanecido. + + Harpejo d'alma, lhana, feiticeira, + Gotejo em teu rollar mil alegrias, + E colho em cada nota que desfiro + Insomnias do porvir, crueis magias. + +Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; +e vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas. + +A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa +rapariga que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante +atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um +canto; parecendo não reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos +no chão, com a cabeça encostada ás mãos, ar de recolhimento profundo e +invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e +irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não sei o quê na esperança +de que ella responderia. O director, que se prestou com a mais +amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe: + +--Vamos; levante-se; estão fallando comsigo! + +Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, +a mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, +olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello +negro e farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça +aspera; o que quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa +verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca! + +Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella +que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos +fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá +estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai +Jesus»! Taes são as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem +dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um «ai», e o nome +por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as +esperanças, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a +alumiam: = Jesus!... + +Havia já tres horas que andavamos por aquelles corredores e por +aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair +não pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches: + +--Emfim! + +Mas o director sorriu-se, e retrocou: + +--Falta-lhe ver os idiotas. + + + + +III + +Os idiotas + + +Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa +confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos +empregados de Rilhafolles,--é inevitavel o olhar, de quando em quando, +como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de nos +formar sequito, com um molho de chaves na mão. + +Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e +dotados de inexhaurivel fonte de branduras--estou persuadido; mas dão ás +vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como +piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, +mas que o sentimento febril de terror--que invencivelmente se apodera de +quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá--transforma em +indicios de uma perfidia atroz! + +Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns +corredores que se me figuraram mais escuros, e descemos por uma +escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava +tempo a pensar,--um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de +corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões +pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos +de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e +serpentes;--lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos +dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá... + +Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes +que me olhava elle tambem de soslaio. É o terror, horror, pavor, de +Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. +Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em +que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar +dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos. + +--Nunca viste? perguntava-lhe o doutor. + +--Não, nunca vi. + +--Pois has de ver. É curioso. + +Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas +finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo. + +O sujeito olhava para elles pouco á vontade, pensando de si para si +no nadinha imperceptivel que separa a razão da loucura... + +Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer +para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um +pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram--e +que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e +respondeu: + +--Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me +para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão +depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas +fechadas. + +O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de +que aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo +relogio, pediu desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, +despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr. + +É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, +ha uma vertigem peor ainda--é a que resulta de os ouvir. + +Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos +elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo +riscos na terra com o dedo. Não lhes importa ar puro, nem horisonte; +que o terreno seja vasto ou não seja, que haja verdura ou não, que +estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos +joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á cabeça como os bonecos +da feira, n'um movimento sempre igual. + +Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço +dos banhos,--um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de +tiple--mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos +idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de +cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse se a gente +gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que +se toque a campainha em querendo que elles appareçam de novo, e estacam +de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses são os idiotas +tafues, os idiotas como se quer. Não servem para muito; mas, bem +aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado +fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,--como janotas! + +O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de +não se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue +logo: + +--Se gosto de musica! Mas eu como musica, senhor, musica é que eu +como!... + +E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar +faluas, larga a tocar coisas incalculaveis. + +Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua +portugueza de Fonseca--«_Idiota_, adj. es. de 2 g. _ignorante, sem +estudos_.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o +diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de +uma aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, +que falla e toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, +guincham, riem, e babam-se. Esses são um pouco mais do que +_ignorante e sem estudos_, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a +cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo +levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe +devia,--tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a +taça do Cesar idolatra,--com a differença de que estes manes, que são as +idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!... + +Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e +quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do nariz, +capazes de ficar encostados á parede o dia todo... + +Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber +para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; +o horror sem lances. + +Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo, +bonacheirão,--certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa. + +Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a +seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a +Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. +Depois, vergando a cabeça, fica a olhar para ellas... + +Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a +parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é +que morre em não tendo ossos dentro. + +Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que +será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece +que elles é que não existem já. + +Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o +_formica leo_ d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, +e alguns não ouvem? se o destino os seccou como o sol secca os +regueiros!... + +Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem +cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos +hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão +figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um +palhaço morto!... + +Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; +e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; +recommendam-lhe que não metta os dedos no nariz, e que não ande de +joelhos pelo chão para não estragar as calças. Elle ouve, e esquece-se. + +Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a +rir sosinhos... + +A _macaca_ apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem +outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas +acenam-lhe e dizem-lhe:--«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que +foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para +ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo +pela peior das portas,--pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, +cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial; ali lhe tem crescido o +corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso. +Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de +sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando +vão dar-lh'as, come-as,--sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento +de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e +que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. +É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus +vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu +lhe apalpasse a cabeça para vêr até que ponto é molle. Consideram +geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. +E dahi,--talvez! Pobre _macaca_! Desraizada do mundo, e plantada na vida +como uma cebola de jacintho na agua!... + +Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros--não +sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; +toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até +os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes +faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:--elles não se +lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é mais do que elles! a +aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella +casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra, +o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão +exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos +furiosos! + + + + +IV + +Os furiosos + + +Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,--triste prova +de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia +vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente +mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, +saltam-lhes por entre os beiços corádos pela febre, como por um +arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!... + +Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, +grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem +descanço,--para um--para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. +Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade +visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. +Mas,--nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar... + +--Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo +agrado felino, o risinho da hyena,--a morrerem de desejo de nos +saccudir de encontro ás grades. + +Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. +Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... +Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,--d'essas +mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares +de ir n'um andor--e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é +profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda +conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os +outros, papel doirado, para fazerem corôas; nem ha coberta na +enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores... + +Donde provêm o mal? + +Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem +nos diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, +não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante +as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás +escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, +ligeiro para nós, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitação e +de tortura,--com as mãos atadas, os braços presos, as rações da +comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico +horisonte e unica companhia!... + +Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem +velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, +dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente +acorda; um ou outro tem a mão finissima, mão de quem não faz nada, de +quem não trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte +com pelle por cima... em ar de luva! + +Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias +insondaveis da desesperação. Só a mãe de algum ou a mulher, vão +vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que não abandonam as angustias +persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em +Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe +companhia--colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo +sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que +havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que +parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na +eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio! + +Mas, em geral, como se os olhos humanos não devessem contemplar o +espectaculo d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os +visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto +d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim +libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as orações +que lhes disser... + +Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São +os poetas da casa;--sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro +aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,--e isso mesmo é +arriscado ás vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que +dizem ser excellente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho +curioso:--uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira +para Santa Philomena,--santa com que tinha grande devoção uma enfermeira +de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de freiras de Leiria, e +que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fôra empregada. +As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga companheira, +conservam o culto á santa. + +O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o +banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a +mostrar-nos as suas obras. + +--Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e +travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco. + +--Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos +d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho. + +Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço +com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os +trata. É isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar +exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o +medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de +injurias e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres +furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de +vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, +para não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de +intelligencia, que ás vezes só de passagem está nublada. + +Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os +furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial. + +De ordinario os doidos que representam,--dos mais quietos, já se vê, e +dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem dar signaes +de alienação--dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes +expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e +completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos. + +Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do +companheiro:--os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir +gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!... + +O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que +perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair! + +As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario +agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que +succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e +tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas +tendencias malfazejas--atirando sempre que podem uma tigella contra as +grades, e os cacos á cara de quem vae. + +Algumas são verdadeiramente horriveis. + +Uma gira todo o dia--mas todo o dia!--descalça, em roda do quarto. +Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena +na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e +enrosca-se. + +Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar +de collete porque marinha pelas grades. + +Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em +pedaços--para as almas! + +Esta, de Guimarães,--com certo ar de astucia machiavelica no fundo da +loucura--está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está +doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões. + +--Como está? pergunta-lhe o director. + +--Sempre estou boa! responde ella. + +--Ah! E então? + +--Então sardinha com pão! + +E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel, +hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as +caretas da loucura. + +Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder +dobrar o pescoço--porque se morde.--Um velho grita por tal fórma, que ás +vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em +procura do sitio de onde vem aquelles ais... + +Passados dias,--por não haver trazido apontamentos dos furiosos na +primeira visita que fiz a Rilhafolles,--tive de voltar ali. + +A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se +d'aquellas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme +Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles +corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens +sentados á porta de um quarto. + +--Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director. + +Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem +amortalhado,--um boneco, suppuz eu,--e duas tochas ao lado. + +Não era boneco, era deveras um cadaver. + +Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os +seus, mandou o presidente da _Sociedade hebraica_ dois homens para +envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de +cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como +era sabbado--dia santo para elles--não lhe mechiam em quanto não fossem +nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e +cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o +no alto do Varejão. + +Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já +não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos +de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos tambem, +de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se +agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem +são a materia--que é da alma?... + +........................................................................ + +Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas +pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta +a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste--por cima d'aquella +miseria continua!... + + + + +V + +Telha + + +Tambem os ha cá por fóra! + +Mansos, com falla, sem _collete_, passando a vida á procura do +motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar +com o _deficit_, da perfeição no amor, do circulo bicudo... + +Avista-os a gente por essas ruas, sequiosos de barulho, persuadidos +de que têem para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma +causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa +que, sem se saber de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais +os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que +os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, +tribunos e heroes, prégando umas celebreiras no tom de quem salva a patria! + +Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de +visinho--descarapuçado e de chinellas--sem mais bagagem do que a sua +insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multidão. + +Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela +sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva, +deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella; +desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja +o caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; +sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este +genero:--«É o homem que faz o titulo, e não o titulo que faz o +homem»;--e pondo-se a caminho pela vida adiante, pé cá, pé lá, como quem +vae com botas de andar leguas, para ficarem estatelados na estrada +sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força +viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas +que os tremoços, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres +sem grandeza, dôres que dão riso aos mais! + +Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera +em menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol +de dia, quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade. + +Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento +com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz: + +--É melhor não casar com esta. + +--Porquê? + +--Tem o dobro da edade que eu tenho! + +--E depois? + +--E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem! + +O pae fica embuchado, e medita. + +Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. +Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só +palavra--supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a +uma reunião politica, onde se discutem os maiores problemas. É n'um +terceiro andar. Muito escura a escada. Dão-lhe um rolinho. Aceita; +desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho +de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás +escuras,--pensando sempre em economias... + +Quantos! Quantos andam por essas ruas!... + +Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes +nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande--como +qualquer de nós; mas tem a preoccupação constante do _shoking_, usa bota +de duas solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete +inglezado, gravata de seda frouxa com as pontas pendentes, +caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mão um +bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós... +Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, +refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das +praças a examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para +parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a +estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos, +medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem +perder tempo;--_time is money!_ E passeia; e corta; e gira; e vae +indo, inglezmente, até ao alto de S. João. Estão abertas de par em par +as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as +inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe pareça commodo, e +senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o _Times_. +O _Times_ está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o _Times_ com +imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de +cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É +noite; vae para casa,--acabou de ser inglez até ao outro dia! + +Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores se +chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das +sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer--agua +vae. Elle respondia sempre, e responde--que já não bebe, que lhe fazia +mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que não vale a pena... Engana os +outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e +sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se +fallasse com alguem: + +--Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo! + +E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si +proprio: + +--É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes, +um copo de Collares. + +--É Collares picado o que posso offerecer-te! + +E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos. + +--Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o +queijo amavelmente. + +--Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!? + +--Dás-me muito gosto. + +--Uma saude com um copo de Xerez generoso. + +--O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos +n'este... + +--Mais um copo, visto isso, de Collares; e passaremos ao Porto, que +de certo não te faz nervoso como os vinhos brancos? + +--Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens? + +--Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?! + +E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer +companhia á do Alemtejo e á de Collares. + +--Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos. + +--Á tua saude! prosegue, bebendo ambos. + +Ah! Quantos, quantos! + +Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam a +parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos não +reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, não vêem o +tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;--uns exaltados ridiculos, a +arder em aspirações phantasticas;--uns pimpões de palavra, sempre em +prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da +sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos, +vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir, +arrazar: _tutto parole, parole, parole!_--Um que quer cantar sem voz, e +móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas, +concertos, cantando tudo, dizendo que dá o _dó_, e não dando cousa +nenhuma senão cabo da paciencia á gente! + +O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda--como outros vão de +bamburrio em bamburrio--para cair no abysmo, para que se lhe devore a +ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que +a mão da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!... + +O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e +massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como +pingos de chuva da rama de um chorão...--O que attribue tudo aos +jesuitas, não scisma, não dorme, não sonha senão com jesuitas. Tudo +a mão de Roma, a mão de Roma...--O que, em apanhando piano, principia +logo a tocar com um dedo horas a fio. + +Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a +cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista... + +A antithese d'esses:--velhos precoces, já enfastiados de tudo em +meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão +consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra +mãe dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias de Babylonia. +Não sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do chão! Aos +vinte annos já não dançam, e usam luneta côr de fumo nos olhos +fatigados... do gaz do Martinho! + +Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da +namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,--quer +trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; +qualquer coisa; exemplo:.--«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, +do que para prato de meio.» Conceitos!--Outro, leva o anno inteiro a +scismar como ha de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a +cara, o que ha de pôr no nariz...--Outro, conversa muito alto, +n'este estylo que lhe parece optimo:--Diga-me se não é anomalo, +acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as nações +atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos +tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da +ignorancia. O meu amigo é ecletico? + +E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não +cumprir, nunca vão a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle +diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a +rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes não se +esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo, +da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga; +trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de +assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires +quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já +a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não +pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam +parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes +diga como elles se chamam, e irem então reclamar a carta; a correr, +antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_, +e rija!... + +Digamos o peior;--quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha +principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda +a gente anda com _telha_... + +Quem ha,--dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam +tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como +que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma +remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de +saudades da patria que perdeu... A terra parece triste então, +embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e +consegue-o ás vezes... De noite, quando não se póde dormir, mas está +tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as +flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros +e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o +olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo +então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,--a _telha!_... + + + + +VI + +Enguiços + + +Quente... quente... + +Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, +com quem viveram, parente, amigo, visinho... + +O diccionario de Moraes explica-o assim:--«Enguiço é o mal que se causa +de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.» Até +aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se +avenham.--«Consiste,--continua--em ficar acanhado.» Estão satisfeitos? +Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiçar o mesmo +auctor exprime-se assim:--«Dizem que o torto olhando para alguem +enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é, +faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre. + +D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e +incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da +creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e +cousa pouca, que moem e affligem os enguiçados,--gente nervosa, +delicada e phantastica. + +Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A +influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o +vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e +sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela +doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das +ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não +se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço, +que falla dentro d'elles, e compõe, e ordena, e retem, e impelle... + +Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia +preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe +um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo: + +--Ó José? + +--Senhor. + +--Tu deste-me a corda inteira? + +--Dei, sim senhor. + +--Toda, toda? + +--Dei-lhe a corda toda, sim senhor. + +--Está bom! + +Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para +as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi +brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda. + +Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é +ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em +redondo ao prato. + +Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é +empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os +dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor +a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros: + +«Um. + +«Dois. + +«Tres.» + +Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra. + +Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a +quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café +ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não +envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje +Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades +sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete +annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido +pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,--encontrou as portas +fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se +d'elle; os jornaes contaram o caso. + +Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;--a religião do enguiço. +Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje +de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora +decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando +apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o +beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou +eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a +palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha +outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que +immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar +das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia +guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, +largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O +cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por +felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo que elle levava em +sua companhia. + +Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude +em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes +ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no +ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao +saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos +trambulhões. + +Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de +pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não +consentia por ter dó de obrigar os moleques a estarem para ali +espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um +creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto. + +Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;--faz casas +para não morrer. Lá diz o proverbio campesino--«ninho feito, pêga +morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer +predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando +sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a +capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e +cal! + +Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a +parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os +raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das +apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a +namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no +Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, +pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão +solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo +Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á +entrada uma prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende... + +Que dança! que dança! + +Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé +direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, +contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto +em vez de dádiva.--Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não +estender a mão seis vezes não lh'a beijam.--Uns têem terror ás aranhas; +outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em +certas ruas senão do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a +gente, são timidos com as creanças. As creanças têem o que quer que +seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na _Chronica de D. João I_, cita +uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de +Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas +creanças uma veneração profunda; os que não a leram--tambem. Batia na +mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna--para +onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, +conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se +costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados +estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa +semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez: + +--Porque é que tu já me não bates? + +E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a +prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, +escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço: + +--Tenho medo de acordar o pequeno!... + +De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem +ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os +corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão +fartos de o saber; e por isso são tão joviaes. Andam sempre a +rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, +porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca +desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver +encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um +d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome +riam-se!--encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o +desenguiçar de outro que havia visto. + +Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma +moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda. +Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias! +quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa +tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem +posto a policia em bolandas--sómente para garantir a giba do contacto +impudico da moeda preservativa. + +Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que +a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette +acabar com elles,--e não haverá mais enguiçados por este accidente!... + +Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,--sujeitos de +pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça +nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas +pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, +que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia; +consolem-se uns com os outros, porque ha muitos. + +São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens +grandes no corpo e na força;--homens grandes no espirito; phantasistas, +poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os +ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis--ha uns +tempos--andam muito enguiçados!... + +Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular +harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, +nem com o acaso;--os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se +entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma +pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi +está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a +espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou +mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no +papel...--Basta! Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu +podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais. + + + + +VII + +Agouros + + +Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente +o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação +diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo +canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu +futura divino_) e por extensão conjecturar de qualquer modo. +N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes +insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro. + +O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras +vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se +espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede +levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; +atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas +urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um +relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a materia muda +tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer +das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que +reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... +Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no +canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão... + +Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e +á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;--a fatalidade +delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. +Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma questões +insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que +arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e +que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a +quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear +commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do +norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,--condemnados de manhã ao +Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas +ventanias. + +Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão +seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa, +confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da +fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como +outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello +resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... +Os artistas principalmente,--os que são dignos d'este nome, os notaveis, +os verdadeiros artistas--têem superstições indestructiveis e muitas +vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha +exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e +ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a +quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não +era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do +contracto, dizia-me em frente do Tejo: + +--Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio +funesto. + +As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais +singular ainda do que o agouro! + +Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar +o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a +perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em +miseria ou em asneira. + +Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá +arranjou ser deputado--mas o que não arranjou é fallar, porque os +agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é +saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia +dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os +adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das +maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta +dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um +lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a +proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E +tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se +quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe +avisos:--«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de +ouro. Calla essa boca!...» + +Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame +prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a +agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata +d'ellas--mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em +cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar +á casca;--não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe +não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar +para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--não +permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,--pobreza +imminente;--não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem +fatal;--e por cousa alguma morará em «casa de esquina,--morte ou ruina!» + +Este, se vê um «ladrão» na véla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em +caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita. + +Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; +o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da +Ascenção do Senhor. + +Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque, +se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao +domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim +dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa. + +Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. +A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da +Trindade--é um pinhal de agouros. Vamos vêl-os com cautella; se +têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado +n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender +o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero +_treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official +foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que +commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero +vinte e seis, que é duas vezes _treze_. Assentou praça no 2.º batalhão +movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela +primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em +theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi +escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia _treze_ de maio de +1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de março +de 1853. E--para corôar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S. +Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado, +triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero--que o não foi +no calcanhar. + +Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O +actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve +entre elle e Francisco Palha--não quiz apparecer pela primeira vez +no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira +recita de _Frou-frou_. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os +camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, +segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Chá_; no ultimo acto +vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou +com elles o _can-can_ com que terminava a peça. Na noite immediata +representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da +Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se +assim. + +O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já +principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se +alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze +repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12--12. + +Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a +algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um +amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e +lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se +principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer, +que acabára de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não +o largaram senão ao café. + +Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que +vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para +ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e +mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do +valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das +cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a +terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé--e morreu á beira da +realisação da sua idéa... + +A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os +agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é +capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a +bordo, é salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento +de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao +mar, predispõe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do +vento para evitar o empandeiramento do velame. + +Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das +creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles +armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é +signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem +conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? +Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são _o tinha de ser_: +consolação--de quem não tem outra!... + + + + +VIII + +Feitiços + + +Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer +mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas--sem outra culpa +ás vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um +bem:--falta, porque se aspirou a elle; receia-se semsaboria: ella +que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do coração é +uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a +coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a quem tem sede, e agua a +quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, e quem for só +rico de appetite--pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que +o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a +chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do +tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da +lampada, o amante acordou e fugiu... Voltou-se Orpheu para ver +Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitiço +é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, levantando-o entre +as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor, +e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a pernear, +salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais +distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma +apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos +extraordinarios para se entreter, e não gosta senão do que fôr +maravilha, do que estiver superior á humanidade, do que ella não +entender... Não se vê na _Iliada_ andarem sempre os deuses a fazer +costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio +sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;--este as +romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou +da Guia: mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que +acredita na Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em +perdendo coisa, não ha fazer com que a procure sem resar um responso a +Santo Antonio;--o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um +espelho, por ser possivel ver-se morto, ou ver outra imagem em vez +da sua... + +Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está +alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a +deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae +saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro... + + Alguidar, alguidar + Que foste feito ao luar, + Debaixo das sete estrellas, + Com cuspinhos de donzellas + Te mandei eu amassar... + +As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do +mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a +desgraça outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas +nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra, +e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas com moderação;--e +era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o paiz a ponto de +levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia tão +desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se +usassem em Lisboa nem em seu termo--«obra de feitiços, nem de ligamento, +nem de descantações, nem de viadeira, nem de carantulas, nem +outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás +portas, nem furtar aguas, nem lançar sortes.» + +Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a +mania de que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou +inclinações humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo +de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregação de petas que +offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal +mez ha de morrer um grande personagem:--sempre morre, e seria um +transtorno se assim não succedesse, n'uma terra como esta em que se +aponta a dedo quem não é conselheiro!--que no mez de tal ha de correr +uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, no +mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará +um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, +ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços +irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!... + +Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. +Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a +doença que ninguem entende, chorando e rindo ao acaso, torcendo os +dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo +e ralando as pessoas de quem mais gostar,--tem feitiço. As artistas, ou +porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte +as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia das Neves, +pontualissima aliaz em ir aos ensaios,--ensaia todavia os papeis em casa +mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella +calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas. +Antes do _Gladiador de Ravenna_ se representar, já as criadas da famosa +actriz--por espreitar ás portas e escutar--sabiam de cór o papel de +Tusnelda. A sala é a grande preparação;--o tablado é o dever; a sala é o +feitiço. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista +tem a sua invocação: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral +torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto. + +Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem +fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. +Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal +da Graça, á direita o sitio chamado a Gloria, e á esquerda a rua do +Paraiso!... + +Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta +pastelleiro, o Matta artista,--o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. +Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei +que lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem +bem; assim como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser +incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei +a quem me dirijo. Vamos.--Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. +Quem uma vez na vida pelo menos não frigiu uns ovos, não fez um +biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha muito quem +conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja +incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola--por nunca haver +posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos +perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus +frageis dias,--os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a +saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos +resultados para os pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o +soldado entre as balas,--com a differença de que para elle todos os +dias que Deus dá são de combate, e combate que não dá postos nem +condecorações! E dirige e tempéra, e tira e põe,--mas de avental; mesmo +que não se trate senão de dar a voz de commando,--de avental sempre: +aliás, tudo se perde, entra na comida o _bispo_,--unico que não tem nem +terá partido,--agúa-se o môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle +por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do +paraiso,--porque a serpente não seduziu Eva com uma maçã, como se +espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; seduziu-a +com geléa: geléa que se apanhava da rezina das arvores. E não lhe +fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,--porque o +não tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o +seu pae, é o seu feitiço!... + +Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a +gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da _Ciosa_, de +Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado +que teve e possa ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella + lava teu rosto com ella, + tornar-te-has na compostura + e fegura + do que se foi.» + +No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da +gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e +secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz. + +Dizem que ha sitios no mar,--o cabo da Boa Esperança, por exemplo,--em +que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de +feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o +gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a +cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem +emfim sepultura. + +Os feitiços no mar representam a attracção do elemento, o +magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem +caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se +põem a dançar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, +e mal vae ao piloto em os feitiços dando no barco. + +Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, +por lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando +lhe quebram de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle +está guardado; que acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer +chamar, mas lhe tapam a boca para que não grite, e elle adormece +outra vez... + +As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto +vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça +ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á +escuta, repara-se se diz _sim_ ou _não_ quem vae passando.--Em Lisboa, +pelas festas de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento +na esperança de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se +ella deita espiga.--Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de +esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido +como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo +no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.--Quem tiver sete filhos está +em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmão ser +padrinho,--ou nascerá defeituoso.--Enrolam-se tres papelinhos, com seu +nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: +outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha +de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,--metade da +casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres +entre os colxões. De manhã, tira-se uma; se traz casca, vem vestida +e a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser +pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada... + +O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó +morenas,--o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,--sois vós! +Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós! + + + + +IX + +Encantos + + +Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, +converteu em porcos os companheiros de Ulysses: + + _Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis_ + +Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma +methamorphose muito agradavel!--O grande impostor do Simão magico, +contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos +deuses quiz voar por cima de Roma--como o nosso Bartholomeu Lourenço por +cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia á experiencia, fez por intermedio +das suas orações que caisse das alturas e se despedaçasse... + +Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das +mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a +dominação mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar--para melhor +guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, +saphiras, cordões de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de +diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini. +Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e +desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza +e voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias. +Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á +meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,--como diz Garrett na _D. +Branca_: + + E ai! se o gallo cantou, que á meia noite + Encantos quebram, e o poder lh'acaba. + +Muitas vivem nas fontes.--Algumas têem ido á India n'uma casca de +ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as +encantadas ruins não embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos +por baptisar.--Algumas têem-se fingido encantadas, para as desencantarem +melhor. Á sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e não +poucas se serviram d'isso para apanhar marido. Lá o indica bem a trova +da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e encontra no arvoredo uma +donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar +n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e dá-lhe +a escolher: + + Ou nas ancas ou na sella + Onde fôr mais honra minha. + +Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga +a rir, a rir...--Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!... + +No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,--no +mar--ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o +reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das +nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, +provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam Ulysses com +o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro +do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,--e, o que é mais, +mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de +não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um +capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu +casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do +tecto;--affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle +bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o +que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar um padre, +confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia +noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo +sitio... + +Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que +sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos +ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas +opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a +encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e +pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as +manhãsinhas á praça fazer compras; eram conhecidas por terem sempre +molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que +andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com +moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de +coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma; +appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos +que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe +vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se +perderam todos n'essa noite... + +Teem genio proprio do elemento em que vivem; graciosas e crueis; +amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o +que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que +não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira +de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a +existencia humana. + +Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá +têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz +padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de +encantadas,--que ora lhe appareciam á borda dos regatos a pentear +os _cabellos de oiro_, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do +mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um +muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra... + +Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher +da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:--mas +conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, +e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já +lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A _Deuza dos Mares_, +a _Flor de Lisboa_, e os vapores do sr. Burnay, assustaram-as. +Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá +para cima senão os mudos,... que são os peixes!... + +De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura +poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e +pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande +segredo do seu poder,--porque a graça precisa de ser picante. É como com +as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas +bonitas,--mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente +o põe--n'uma creatura, n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania. +Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma +particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás +vezes--como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor +especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» +na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que +transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz +reparo:--a vontade. + +Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas--tem ella o encanto +de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado +Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um +navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete +dias até fundear no porto de Santos! + +O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de +apparencia inanimada,--nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: +trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o +adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se +muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:--depois, em se +apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica +encharcado põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo +contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça +de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo +por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de +elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua--não chovendo, +e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo +do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; +representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,--a borrasca e a +bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o +ceu, e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella +curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima, +ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que +vae cá por baixo! + +O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. +Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este +mundo--Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe +chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer +das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre +inferiores--haja vista aquelle do Minho, que esteve ha annos em +exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer +profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é +de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se +exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma +escada de mão para se lhes fazer festas na cara! + +Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um +metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas +não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, +porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão uma cabeçada nos callos +de quem vae passando... + +Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz +lhes ha de dar um beijo;--em lhes comendo a palma da mão, já a gente +sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a +logo;--a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a +esquerda, alguem nos corta na pelle.--Na madrugada de S. João quem fôr +lavar a cara á fonte, fica bonito:--e quem nadar n'essa noite alcança o +que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores +sorriem... + +Os dois encantos negros são as almas penadas e os lobis-homens. A +preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa +morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em +malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia +lamentosamente: + +--_Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu +difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho +sapateio..._ + +--Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a +preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio! + +E pagou. E o sapateiro foi arrecadando a moeda, dizendo com +modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela +noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia +pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu: + +--Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não +dou mais rial ao vijinho sapateio! + +E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a +penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e +nunca mais lhe deu vintem. + +As almas penadas são d'esta qualidade; e tambem defuntos, que por +lhes faltar alguem á palavra dada--vagam n'este mundo, até que lhes +satisfaçam as ultimas vontades. + +Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, +mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa +apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, +mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,--espojavam-se. Isso não +continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para +variar, e que tem por ahi apparecido seu burro--mudado em homem. + + + + +X + +Sonhos + + +Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar +n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar +talvez a monotonia da agua dormente--_mare mortuum_! Querem casos, +avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis +nem faziveis... A antiguidade espantava-se com o assoviar das +serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da +terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o +progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, _desgosto e feridas_: com +dados, _perder os bens_: com espelho, _traição_: com favas, _doença_: +com herança, _miseria_: com padre, _morte_! + +Alguns, não sei porque,--pode ser que por fazerem o mesmo +acordados--sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, +que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia +libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo mudado; +fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e +Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria, +crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma +chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que +torce sempre o nariz--limite de seu horisonte--a tudo que vae pelo +mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o +Apollo de Belvedere é _piteireiro_: a Venus de Milo assa castanhas, +Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de +capa de asperges!... + +Porque será que se sonha?! Chega a parecer que a alma não está nas +pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz +suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem +com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é +dada,--obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para +onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar +o fio o deixe bambo:--qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar +e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e +acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos, +trazendo-nos idéas e imagens que não têem parentesco com as imagens +e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que +fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio! + +Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.--Que a ultima +coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.--Outros +affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle +não vem, e certo está em o evitando;--principios um pouco alheios aos do +Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não +batas e abrir-te-hão! + +A maneira de dormir deve ter n'isto influencia. Cama desengonçada e +velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de +fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, +saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, +de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo +n'essas condições? + +As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece +sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos +sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres +luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com casamento.--E crê-se +entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem +attribuir-lhes a fortuna:--os que costumam ser desgraçados, já se vê, +que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus +merecimentos!--E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; +e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de +visões, ora de insomnias:--e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter +pulgas no quarto! + +Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das +apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e +apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão +para saguão,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a +loucura! + +É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que +nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, +merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que não teem +desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos +livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em não havendo causas grandes, +as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco +de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao +chão do mesmo modo. + +--Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos! + +--Ai! Com cominhos! + +--São pragas! É praga que me rogaram. + +--Credo! É facil ser! + +E dá-se credito. + +Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril +de polvora sem pegar fogo--estou que não acreditam ao ponto de se +deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha +seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto +matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra +_prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem +se atreverá a pôl-o em duvida?! + +Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,--por tal fórma os males +imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu +ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi +pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou +dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e +metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a +conseguil-o: + + «Gloriosa Santa Helena + Filha da rainha Irena + Moira foste, christã vos tornaste. + Nas ondas do mar andaste, + Com as onze mil virgens vos encontraste. + Com ellas pão e queijo ceaste. + Ao crucifixo vos encostaste + Tres cravos que tinha lhe tiraste. + + O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo + déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a + batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha + gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae + em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas + lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim não + é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras + e aguas turvas, _Amen_.» + +Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos +dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo +seu pé. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de +Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse +em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter +mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites +depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha--foi +atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã +lavar a loiça;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa +limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi +deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se +passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o +gallego. + +--Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir! + +Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, +interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos +acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu +a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em +si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte +pergunta: + +--Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande? + +Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e +sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que +perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz. + +De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... +Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á +noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, já se vê: + +--É verdade que tu andas de cabeça no ar? + +--Ando. + +--Por causa de quem? + +--Do primo José Maria. + +--É possivel! E porque é isso? + +--Porque elle é bonito, e tu és feio. + +Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo. + +A grande preoccupação popular são os pesadelos,--sonhos negros, +carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça +que causámos.---«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na +_Nova Castro_. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances +mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os +primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os +chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois +de morto, para confessar um peccado que não tinha dito. + +Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, +faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos +a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, +reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas +com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a +ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que +se vê! + +Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz--quando não se possa +sel-o de outra fórma. Sempre são horas de ganho sobre os enfados e +cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se +alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da +Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os +claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos, +que morreu espertando.»--É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e ás +vezes da felicidade! + + + + +XI + +Sinas + + +Portugal é a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o +paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... +e as grandes, ao pé do amigo lar. + +Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os +gatos): de 13 de fevereiro a 20 de março, nascem os que hão de ser +gastronomos:--de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes, +com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum +animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma +grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho, +os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente +destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;--de 23 de julho até 25 +de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de +esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou +aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro +escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de +setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a +gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de +namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:--de 24 de agosto a +21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos +ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se +emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na +patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:--de 24 de +outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia; +mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;--de 23 de +novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á +navegação; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de +janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco +saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho, +brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros, +quasi todos militares. + +Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo. +Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos +succeder depois de nascer... ou antes. A mão o dirá. Na mão ha +muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e já se vê +que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes: + +--Disponha de mim, até onde estiver na minha mão! + +Ou: + +Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão! + +Procurêmos por exemplo os peccados mortaes: + +Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;--avareza, mão dura e +encarquilhada;--luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos +na base;--ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mãos +compridas e ossudas;--preguiça, mão branda e macia: + +Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as +linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão +direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que +isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre +a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que +logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão _esquerda_! + +A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter +poesia se fosse dita e sentida de outra fórma. Comprehende-se que +quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações +que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por +exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem +lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma +coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das +magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os +raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não +passa de ser mais um satelite--e a esperança é um dos nossos tambem, +nuvem de guarda que nos vae consolando com as visões... + +A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de +cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se +gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque +motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para +ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os +defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se +lhe tem?! + +É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem +no tronco centenario dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros +negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir +fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros +armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa +material, que tem sina tambem como a natureza intelligente! + +Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de +continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria +das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais +bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util +entregar-se, termo medio, de sete em sete annos áquella operação. +Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna--sem ver +apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de +voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda +representação de vaccina:--trinta segundos; depois, já se vê, da meia +hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres +borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha +febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois +annos tem bexigas. Diz o povo: + +--Era a sua sina! + +As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do +fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi +sempre fatidicos; lá se diz na _Chronica de D. Sebastião_ por Fr. +Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado +Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia: +«Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a +sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que +mudasse para outra mais alegre. + +Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho, +porque até os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco, +por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para +mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para +o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso, +o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o +espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle! + +Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, +não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde +zombar, póde não crer;--a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, +cassoista. Um moço elegante e pallido que durante um tempo foi +grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a +côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha +memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as +mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que +tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder +de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe +tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua +respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz +complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse--deixou-o +esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes, +conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O +outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á +perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O +das mãos grandes, sempre lendo, disse: + +--Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, _tó_, _tó_, anda cá +tollo... + +E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha... + +O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia +perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão +phenomenal de que elle tanto se rira sempre!... + +Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás +vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da +vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma +borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá +sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é +isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer +dar ás azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar, +alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada! + +A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a +_buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a +assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e +escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de +rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle +mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia +tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas, +o canto do cuco! + +A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de +_D. Branca_: + + Por onde o traz seu fado? + Oh! negra sina entrou n'essa familia... + +Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de +ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força +alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para +ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, +e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um +freguez, que a unica coisa que não furtava era a má fama que tinha. +Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão +tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão +obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez +quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--«Pratos 800 réis.» + +--Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta? + +--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado. + +A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os +cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz +sempre justiça, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os +monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes +e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do +pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem. +Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a +que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice! + + + + +XII + +Coisa má + + +«Coisa má!» + +«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser +preferivel á ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma +canellada do que encontrar certas caras! + +«Coisa má» é a lua de março; a lua marcina, como lhe chamam no +campo--que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não +passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e +não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de +varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que +passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram +sem que recebessem cinco réis em troca... + +Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, +armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não +ha objecto que não tenha morador, que não tenha inquilino, que não +tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com +o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja +e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis, +pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça... + +Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente--que nem que fosse um +cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo +chapeu novo, é sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira +vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder precalço; anda um +homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam +pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se +está passando... + +Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, +capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na +estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos +sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo. + +Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde +te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de +fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali +roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de +algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a +ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel! + +Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do +trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo +á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,--ou, o que +ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por +não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites +sem graça e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a +vagabundar e a ir bater quem sabe onde!? + +Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do +trinco--não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo +preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e +toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, +até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta! + +Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil +historias de «coisa má,»--poços que atiram para fóra com o que se lhes +deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos +pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz... + +Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz +e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de +inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... +Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que +cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite +origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. +Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, +e adoral-a por não saber que explicação lhe dar. + +Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que +havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos +principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no +poema da _Monocléa_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e +zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da +sua gloria: + + De um olho claudicava de tal arte + Que celebre se fez em toda a parte. + +Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um +agiota, sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres, +debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e +financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança--a 9 por cento. + +Dizia-lhe um amigo: + +--Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus +vê tudo, e estou que não te perdôa essa! + +--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de +cima parece um 6. + +Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em +que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde +o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de +barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que +até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos +sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto +do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz +carta ou traz más novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o +fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em +casa;--ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar +castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mão;--é +n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas +horas, e fica sem o botão do collarinho... + +Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series +como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não +chegam mais dois; tres é o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem +haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar +n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra +vez a bomba. + +É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha +aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas +relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e +tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos +consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira +carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é +raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a +pera e o queijo o fado de João Brandão! + +Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa +tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, +muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim, +que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a +gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama +das arvores;--ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem +attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está +no fundo a coisa má;--e esses objectos a que mais se quer serão os que +hão de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o +quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo +contra vontade! + +E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»--o amor, a formosura, a +mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que +ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que até têem azas como os +anjos, e voam como as andorinhas! + +Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e +chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem +sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o +estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim +desgraçado de homens notaveis,--Euripides despedaçado por uma matilha de +cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a +mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o +caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz: + +--É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que +falla francez! + +--Sério? perguntavam todos. + +--Ha quem o ouvisse. + +Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta +quando appareceram os primeiros em Lisboa. + +--É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos... + +--Sim, sim. + +--Deixa andar a mãe a pedir esmola... + +--Sim senhor. + +--Até anda de chale-manta! + +--O quê?! + +--Palavra de honra. + +Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha +«coisa má»--e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já +ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da +sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre +que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se +alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A +mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra +qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se +manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae +azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado +de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso. + +«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a +quem; querer remar e não ter braços. O _politicão_ que passa a vida a +recusar pastas que não lhe offerecem--diz que o paiz tem «coisa má;» o +beberrão que troca as pernas--accusa de ter «coisa má» o vinho de mais +que bebeu. + +«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não +tem!... + + + + +XIII + +As mulheres de virtude + + +O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e +de vista--apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a +que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca +quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a +dignar-se sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal +de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa +não os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe +as costas e dá ás de Villa Diogo! + +De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores +para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude +na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao + + _Pero Pico + que viveu pouco e pobre + e finou rico!_ + +As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a vida +seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em +philtros, ás _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ são as +_chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As +crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da +melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem +elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das +cartas tudo que vae pelo mundo. + +Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas +_mulheres de virtude_, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam +de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as +ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas +onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de +roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com +liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres +casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se +enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um +cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia, +esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas +ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á meia noite de sexta feira em +que fosse lua nova. + +As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem +condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas +no lar domestico, creadas na solidão--mais profunda sempre que a do +homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. +Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas +mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes +parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:--acreditam +todas na fatalidade--e a fatalidade é a mãe da bruxaria. + +Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que +lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma +escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela +senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha +com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires +com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em +cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa, +dizendo tres vezes o nome d'ella e resando: + + _Deus te fez, + Deus te creou, + Deus te desolhe + De quem mal te olhou. + Se é torto ou excommungado, + Deus te desolhe do seu mal olhado._ + +Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a +cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos, +vão resmungando de fórma que mal se perceba--«Sant'Anna teve a Virgem, a +Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal +olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, +não tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer +obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer +dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á +consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje +um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para +fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...--Sei tudo isto +por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas. + +Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, +vellas de cêra, e--como diz o povo--_para compôr_, um pouco de cabello. +O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello dá amor, +lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. +Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o +amor conjugal a limites extremos--o que não o impediu de casar por duas +vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe +por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para +conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que +haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranças de +cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera +a desgraça de as perder, e mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o +topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma +côr--mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem +nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de +virtude!... + +Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que só dá por +isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem +soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite +correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, +logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: +«Vôa, vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não +sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite, +espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a +resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o +espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou +de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima +de toda a folha!» disse:--«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» +Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a +rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados... + +Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a +si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas +lhe estão chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me +que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende. + +Ora as _mulheres de virtude_ são bruxas que aprendem. Vae aquella arte +de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás +vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: +até se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir +seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer não; a +sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na +cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao +genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher +de virtude_ é o que tem havido melhor! + +Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. +Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, +dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam +nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e +choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece +com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio... +Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados; +ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama +piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas +tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como +que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de +contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as +cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella +estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima, +apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o +_amante_, o cinco de copas são _lagrimas_, o az de paus _fandangos_ +(amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres +de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus +_prisão_, e a espadilha _affirma_! + +É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma +estupidez--é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de +casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror! + +Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a +inquietação, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e +de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na +mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas +rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no +fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, +no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e +clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de +alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no +palavrorio de resa que precede o _botar a falla_: +--Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho +e arruda--maravalhas e palhas de alhos! + +Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia +na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do +acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os +conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas +essas allucinações de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguiços_, +_encantos_, _agouros_, _feitiços_, _sonhos_, _sinas_, _coisa má_, +provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas _mulheres de +virtude_. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer +no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor +não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas +que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a +chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão +em duas coisas,--em enguiços e em economias! O mesmo _deficit_ de que +tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim +somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes! + + +FIM + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + PAG. + I--Os doidos................... 5 + II--As doidas................... 23 + III--Os idiotas.................. 41 + IV--Os furiosos................. 59 + V--Telha....................... 77 + VI--Enguiços.................... 97 + VII--Agouros..................... 117 + VIII--Feitiços.................... 135 + IX--Encantos.................... 155 + X--Sonhos...................... 175 + XI--Sinas....................... 193 + XII--Coisa má.................... 213 + XIII--As mulheres de virtude...... 231 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + +***** This file should be named 34275-8.txt or 34275-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34275-8.zip b/34275-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..20d0a74 --- /dev/null +++ b/34275-8.zip diff --git a/34275-h.zip b/34275-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..51ff035 --- /dev/null +++ b/34275-h.zip diff --git a/34275-h/34275-h.htm b/34275-h/34275-h.htm new file mode 100644 index 0000000..b63319e --- /dev/null +++ b/34275-h/34275-h.htm @@ -0,0 +1,3255 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Da Loucura e das Manias em Portugal, por Júlio César Machado</title> + <meta name="Author" content="Machado, Júlio César, 1835-1890"> + <meta name="Edition" + content="Lisboa: Livraria de A. M. Pereira, 1871."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: 8pt; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em; } + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: small; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo.rodape p {text-indent: 0;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Da Loucura e das Manias em Portugal + +Author: Júlio César Machado + +Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center"> +<p style="font-size: 1.4em;">DA</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">LOUCURA EM PORTUGAL</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Lallement +frères, Typ. Lisboa, 1871</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center"> +<p style="font-size: 1.4em;">DA LOUCURA</p> + +<p>E DAS</p> + +<p style="font-size: 2em;">MANIAS EM PORTUGAL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">ESTUDOS HUMORISTICOS</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">JULIO CESAR MACHADO</p> +<p> </p> +<p> </p> +<hr style="width: 35%;"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">LISBOA<br> +LIVRARIA DE A. M. PEREIRA—Editor<br> +<small>50—Rua Augusta—51</small><br> +1871</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<div id="corpo"> +<h1>RILHAFOLES</h1> +<hr style="width: 30%;"> + +<h2>I</h2> + +<h2>Os doidos</h2> + +<p>Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,—da porta +para dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle +jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca das +arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos não são +outra cousa<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span> senão buracos +luzidios; cavam-se as faces, parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos +significação, as feições são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são +personalidades phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se +entende; gente estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!...</p> + +<p>Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e +transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, +envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão avistando +ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que conversavam uns com +os outros e que se entendiam pelo piscar dos<span class="pn"><a +name="pag_7">{7}</a></span> olhos... Como essas taes conversas no fundo das +nuvens, assim é desusado e insolito quanto por lá se ouve!</p> + +<p>Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como nós +somos e portar-se como nos portamos—é ser affectado, é ser pedante; que +assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, assim deve +haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem vulgar não poderia +dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que juizo, talento: a finura, o +guindado, a quinta essencia do espirito; que em nós ha simplesmente mudança de +convenções; que elles estão mais perto do<span class="pn"><a +name="pag_8">{8}</a></span> estado natural; que tudo vae da maneira de ver as +cousas e de as julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que +tambem o amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de +beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito nupcial +de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas anacreonticas; ébrio, +nas orgias de Roma; na idade media, fada, estrella, anjo; mais tarde tendo azas +como os desejos; e sendo hoje um casamento commercial, um dote de noiva, cem +contos de réis em inscripções!...</p> + +<p>Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem<span +class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> varíe de mascaras, de modas, de +elegancia e de fallas; e que o estylo dos pobresinhos doidos, comquanto diverso +do dos tempos em que vamos de tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, +mais colorido, e mais exacto!...</p> + +<p>Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta e +sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças idiotas. +Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o numero dos alienados +era de trezentos; ultimamente tem crescido por fórma que foi preciso +augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o edificio de recolhidas na +travessa de S. Bernardino, onde vão<span class="pn"><a +name="pag_10">{10}</a></span> pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha +pensionistas e indigentes. Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e +pagam, conforme as commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 +réis, 480 réis, ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição +separada; os da 1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum.</p> + +<p>Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a requerimento de +particular,—com attestado do medico, auto de investigação, e, se são +pobres, certidão do parocho,—e ficam quinze dias em observação; findos +elles, ou a doença não se verifica e são immediatamente<span class="pn"><a +name="pag_11">{11}</a></span> despedidos, ou, verificada a alienação, +colloca-se o doente na repartição que o director lhe destina, e segue o +tratamento.</p> + +<p>O tratamento! Isto é,—o estudo, a observação constante, as +experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão e ao +sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, de lutas, de +prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de enganos!... Vêl-os como +medico, como philosopho, e como moralista,—unica maneira de poder +assenhorear-se-lhe dos segredos. São doidos; mas de onde provém cada uma +d'aquellas loucuras,—a de um, que nunca perde a pista do caracter<span +class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> que tem, e em tudo que diz e no que +faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde juntar +idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante os accessos, e +pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, que perdeu de todo a +memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, excepto de logares, ou de +datas!?</p> + +<p>Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e singularmente +alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada passo por alguma +janella se avistam campos e se descobre a cidade; é preciso vêl-os nos vae-vens +de uma carreira e de uma fallacia,<span class="pn"><a +name="pag_13">{13}</a></span> que não cança nunca, para um lado, para o outro, +d'aqui, d'além, accionando, gritando, fallando—este a si mesmo, aquelle a +ninguem, um á parede, outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, +todas as ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as +vaidades. Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se +intitulam:</p> + +<p class="centrado">«Elogio<br> +á ex.<sup>ma</sup> sr.<sup>a</sup> D. L. de S. F.<br> +no dia natalicio de seu nascimento<br> +dividido em tres partes.<br> +Passado, presente e futuro.»</p> + +<p> </p> + +<p>Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo:<span class="pn"><a +name="pag_14">{14}</a></span></p> + +<p class="centrado">«<em>Grande globo<br> +do<br> +Grande enredo</em></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">Jornal das mentiras purificadas<br> +e saidas do funil<br> +estampadas calligraphicamente em<br> +papel, respeitando<br> +as dignissimas auctoridades.»</p> + +<p> </p> + +<p>Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores, +trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, dos +banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a secretaria, +está logo a primeira aptidão aproveitada,—o continuo, que é um doido! +Leva papeis, traz papeis,<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> dá +recados; está ali a toda a hora, desempenha perfeitamente, e não ganha +nada.—Que lição... a continuos!...</p> + +<p>Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, +homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,—todo grave, cortez, +benevolo—não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde +abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se sair; e vae +uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do carvoeiro... O carvoeiro +tinha lá ido para tratar de negocio, e foi entrando por ali dentro até o +apanhar um guarda que o tomou por hospede novo, a<span class="pn"><a +name="pag_16">{16}</a></span> quem se devia dar um banho, como é costume quando +para ali entram.</p> + +<p>—Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda.</p> + +<p>—Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado.</p> + +<p>—É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá!</p> + +<p>—<em>Num quero</em>, dizia o carvoeiro. <em>Leba de xalaxas! Nunca +tomei banhos na minha bida! Arreda para lá!</em></p> + +<p>—É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para +a saude, e de grande aceio.</p> + +<p>O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o seu +banhosito n'uma d'aquellas<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> +magnificas tinas de marmore, admirado ao mesmo tempo de tantas attenções que +tinham com elle n'este estabelecimento do estado.</p> + +<p>Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem +elles todos e não se ouve por lá outra cousa.</p> + +<p>—Ámanhã, disse-lhe o guarda.</p> + +<p>—Ámanhã!?! redarguiu o homem.</p> + +<p>—Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido +sempre de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã, +quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae +vocemecê passear.<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span></p> + +<p>—<em>Paxar a bixita!</em> uivou o carvoeiro. <em>Eu n'um estou doido, +démo!</em></p> + +<p>E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam +pelo... que não era,—até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o +mandou para a rua, mudado tambem—como aquelles seus compatriotas do poço, +de quem já de uma vez contei a historia,—porque tambem tinha... lavado a +cara!</p> + +<p>A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê sempre +em Rilhafolles o <em>lasciate ogni speranza</em>, um beco sem saida, o mais +fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o chicote dos +enfermeiros... Entretanto<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span> ella +é o menos triste que uma casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em +que está collocada, o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o +sr. Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É +preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado carinho +são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos elles, dizem-o, +disseram-m'o a mim uns poucos.</p> + +<p>E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um +corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se propõe em +todas as legislaturas, e anda constantemente<span class="pn"><a +name="pag_20">{20}</a></span> a ensaiar discursos.—Um, que nos diz que é +coronel, e d'ali a nada que é marechal, e um instante depois que é elle o +proprio marechal Saldanha, conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do +dia.—Um piloto da barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças +do mar e cae n'uma melancolia profunda.—Um, que foi porteiro do sr. barão +de Santos, conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar +junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois +roubado.—Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões do +chamado <em>jogo da gloria</em>, e manda ao pae o dinheiro que ganha<span +class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> n'isso. Um mathematico, bom +latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, enche o quarto de papelada +e a papelada de calculos:—«Diga-me, pergunta-lhe o director, o senhor já +prégava lá no seminario?»—«Pois está visto, responde elle; como prégo +aqui; a mesma coisa.»—Um, alegre e risonho, philosopho sem o cuidar, +coração que ainda não saiu da infancia, nascido para ser alvo de qualquer +ajuntamento, mostra-nos por uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus +palacios, e algum particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios +que todos lhe pertencem.—Outro vae-se comsigo só pousar a um +canto.—O famoso<span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> Bertholo +do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a villa inteira, +conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com vontade sempre de +matar alguem.</p> + +<p>E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de passagem, +quando me vêem tomar apontamentos:</p> + +<p>—Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!...<span +class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<h2>II</h2> + +<h2>As doidas</h2> + +<p>N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se primeiro +as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão abandonadas de todo +pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a familia, ou algum parente, +paga o quarto em que vivem. Essas são as felizes; ainda têem lá<span +class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> de vez em quando quem as visite, +quem lhes leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para +apetites—comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as +fidalgas,—<em>as fidalgas de Rilhafolles!...</em></p> + +<p>Passam n'aquelle corredor enorme—que o espectaculo monstruoso d'ellas +torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás +enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, +saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado +orgulhosamente, desdenhosamente.</p> + +<p>Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer<span +class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> com a vista que tudo é sempre o +mesmo n'este mundo e que não ha ver n'elle nada de novo—grito +melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.</p> + +<p>Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma +chimera,—coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi +tudo,—odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha +nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como +se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das forças +ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.<span +class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span></p> + +<p>Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. É +moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é risonho, e ella +sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a +outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha outra riqueza senão ella +gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o +outro. E o resto? O resto não quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao +mar n'uma d'aquellas caixinhas,—tão fechadas que ninguem as podia +abrir,—que os pescadores das <em>Mil e uma noites</em> achavam ás vezes e +de que sahia fumo escuro pelas fendas!<span class="pn"><a +name="pag_27">{27}</a></span></p> + +<p>A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, +deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais +sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no +amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, +anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus +quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e +de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, +opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas +organisações colossaes<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span> como as +que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de +existencias!...</p> + +<p>As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver +visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam +caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se +estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem serão...—se +as doentes tambem serão enfermeiras?</p> + +<p>Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra doente +que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, +e corrigem<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span> um pouco pela sua +presença a impressão penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste +captiveiro.</p> + +<p>As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do director +ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...</p> + +<p>—Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.</p> + +<p>E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:—Ámanhã!</p> + +<p>Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz senão +costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e ralham, e +atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,<span +class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> prudentemente, como se fôra o sol +no meio da noite, a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!</p> + +<p>Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a +rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a +observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para +sempre e sem partilhas o objecto da sua adoração; e que, se se dirigem mais +homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que +ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de +dedicação. Está á janella a olhar para os campos<span class="pn"><a +name="pag_31">{31}</a></span> e a farejar tormenta em tudo—no voejar dos +passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua +custa;—a peor maneira de conhecer as coisas. Ás vezes não é segura, e +quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.</p> + +<p>Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel +de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. É a +catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem a mania das modas, +préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer +ver-se nos espelhos,<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> quer que +a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no +baile de tal, que tambem deu uma <em>soirée</em> onde estava a primeira +sociedade, que a sua <em>toilette</em> era primorosa, que está já em vesperas +de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E +conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os +anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a manga, +e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os +<em>Lanceiros</em>, faz-nos a cortezia.</p> + +<p>Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um<span +class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span> quarto onde estão algumas mais +tranquillas a costurar e a fazer <em>crochet</em>. Olha para mim fixamente e +como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me +conhece.</p> + +<p>—Parece-me que conheço, responde ella.</p> + +<p>O director diz-lhe o meu nome.</p> + +<p>—É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.</p> + +<p>É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e +toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,—o chamado +Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo +outomno procurou-me uma manhã um homem<span class="pn"><a +name="pag_34">{34}</a></span> baixo, vermelho, atochado, de cabeça grande, +sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em +velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava +dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera +conhecer-me;—era o pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle +fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos +até o verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes +depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...</p> + +<p>A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave<span +class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> e resignado. As poucas coisas que +disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é +natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer +versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, +euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras +baralham tudo:</p> + +<blockquote> + <p>Amei, infanta e leda como a aurora<br> + Dos sonhos d'esse infante adormecido;<br> + Ao rei o teu gemido, o teu trovar,<br> + Ao throno o teu sondar encanecido.</p> + + <p>Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,<br> + Gotejo em teu rollar mil alegrias,<br> + E colho em cada nota que desfiro<br> + Insomnias do porvir, crueis magias.<span class="pn"><a + name="pag_36">{36}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; e +vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas.</p> + +<p>A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa rapariga +que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante atravez de todas as +diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um canto; parecendo não reparar +no que se passava em redor d'ella, de olhos no chão, com a cabeça encostada ás +mãos, ar de recolhimento profundo e invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo +por teima que tenho visto; e irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não +sei o quê na esperança de que<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> +ella responderia. O director, que se prestou com a mais amavel paciencia a +todas as minhas curiosidades, disse-lhe:</p> + +<p>—Vamos; levante-se; estão fallando comsigo!</p> + +<p>Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, a +mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, olhos +grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello negro e +farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça aspera; o que +quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa verde; uma formosura +dos montes e das serras, ardente e pittoresca!<span class="pn"><a +name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<p>Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella que +se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos fortes; e havia +já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá estive, que, ao +sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai Jesus»! Taes são as duas +unicas palavras que essa pobre creatura tem dado desde que ha uns poucos de +mezes para ali entrou; um «ai», e o nome por excellencia, o nome divino, que +diz todas as agonias e todas as esperanças, emblema da humanidade e symbolo de +todos os emblemas que a alumiam: = Jesus!...</p> + +<p>Havia já tres horas que andavamos<span class="pn"><a +name="pag_39">{39}</a></span> por aquelles corredores e por aquellas salas; e, +ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair não pude deixar de dizer ao +sr. dr. Abranches:</p> + +<p>—Emfim!</p> + +<p>Mas o director sorriu-se, e retrocou:</p> + +<p>—Falta-lhe ver os idiotas.<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p> + +<h2>III</h2> + +<h2>Os idiotas</h2> + +<p>Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confiança +que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de +Rilhafolles,—é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que +receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de<span class="pn"><a +name="pag_42">{42}</a></span> nos formar sequito, com um molho de chaves na +mão.</p> + +<p>Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e +dotados de inexhaurivel fonte de branduras—estou persuadido; mas dão ás +vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os +olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o +sentimento febril de terror—que invencivelmente se apodera de quem ali se +encontra, sem estar habituado a ir lá—transforma em indicios de uma +perfidia atroz!</p> + +<p>Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns +corredores que se me figuraram<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> +mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava +tempo a descer, e dava tempo a pensar,—um diacho de escada que acordava +idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com +hyerogliphicos e procissões pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir +dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de +gaviões e serpentes;—lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas +que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...</p> + +<p>Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que +me olhava elle tambem<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> de +soslaio. É o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só +ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o +dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma +occasião a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.</p> + +<p>—Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.</p> + +<p>—Não, nunca vi.</p> + +<p>—Pois has de ver. É curioso.</p> + +<p>Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas +que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.</p> + +<p>O sujeito olhava para elles pouco<span class="pn"><a +name="pag_45">{45}</a></span> á vontade, pensando de si para si no nadinha +imperceptivel que separa a razão da loucura...</p> + +<p>Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer para +levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um pouco vago que +tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram—e que parecia de +alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e respondeu:</p> + +<p>—Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me +para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão depressa cá +as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas fechadas.<span +class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p> + +<p>O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de que +aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo relogio, pediu +desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, despediu-se, e ao +chegar ao pateo largou a correr.</p> + +<p>É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, ha +uma vertigem peor ainda—é a que resulta de os ouvir.</p> + +<p>Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos elles +como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo riscos na terra +com o dedo. Não lhes importa ar puro,<span class="pn"><a +name="pag_47">{47}</a></span> nem horisonte; que o terreno seja vasto ou não +seja, que haja verdura ou não, que estejam presos ou livres, para elles é o +mesmo. Fincam os cotovellos nos joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á +cabeça como os bonecos da feira, n'um movimento sempre igual.</p> + +<p>Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço dos +banhos,—um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de +tiple—mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos +idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de cortezia +benevola, perguntam com affectuoso interesse <span class="pn"><a +name="pag_48">{48}</a></span> se a gente gosta da agoa sobre o quente, +recommendam, com agrado que captiva, que se toque a campainha em querendo que +elles appareçam de novo, e estacam de bocca aberta em avistando o bello sexo! +Ah! esses são os idiotas tafues, os idiotas como se quer. Não servem para +muito; mas, bem aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas +pelo Chiado fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,—como +janotas!</p> + +<p>O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de não +se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue logo:</p> + +<p>—Se gosto de musica! Mas eu<span class="pn"><a +name="pag_49">{49}</a></span> como musica, senhor, musica é que eu como!...</p> + +<p>E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar faluas, +larga a tocar coisas incalculaveis.</p> + +<p>Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua +portugueza de Fonseca—«<em>Idiota</em>, adj. es. de 2 g. <em>ignorante, +sem estudos</em>.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o +diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de uma +aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, que falla e +toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, guincham,<span +class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> riem, e babam-se. Esses são um +pouco mais do que <em>ignorante e sem estudos</em>, e a gente ao vel-os tem +vontade de segurar a cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes +Heliogabalo levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que +lhe devia,—tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como +a taça do Cesar idolatra,—com a differença de que estes manes, que são as +idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!...</p> + +<p>Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e +quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do<span class="pn"><a +name="pag_51">{51}</a></span> nariz, capazes de ficar encostados á parede o dia +todo...</p> + +<p>Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber para +onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; o horror +sem lances.</p> + +<p>Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo, +bonacheirão,—certo ar de paspalhice, immobilidade de figura +decorativa.</p> + +<p>Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a seu +modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a Sibylla de +Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. Depois, +vergando<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span> a cabeça, fica a +olhar para ellas...</p> + +<p>Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a +parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é que +morre em não tendo ossos dentro.</p> + +<p>Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que será +feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece que elles é +que não existem já.</p> + +<p>Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o <em>formica +leo</em> d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, e alguns +não ouvem? se o destino<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> os +seccou como o sol secca os regueiros!...</p> + +<p>Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem +cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos hombros: +uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão figurando um +saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um palhaço morto!...</p> + +<p>Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; e +está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; recommendam-lhe +que não metta os dedos no nariz, e que não ande de joelhos pelo chão para<span +class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> não estragar as calças. Elle ouve, +e esquece-se.</p> + +<p>Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir +sosinhos...</p> + +<p>A <em>macaca</em> apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não +tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas +acenam-lhe e dizem-lhe:—«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que foi +alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 +de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das +portas,—pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas +grandes, ar bestial;<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span> ali lhe +tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa +isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de +sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando vão +dar-lh'as, come-as,—sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de +quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e que o sol +nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. É abrir a bocca, +e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O +director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabeça para +vêr<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> até que ponto é molle. +Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e +feliz. E dahi,—talvez! Pobre <em>macaca</em>! Desraizada do mundo, e +plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...</p> + +<p>Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros—não +sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; toda a +gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até os animaes teem +memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem +as pessoas com quem teem vivido:—elles não se lembram nem conhecem +ninguem. Uma aranha é<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> mais do +que elles! a aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra +d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a +honra, o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão +exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos +furiosos!<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p> + +<h2>IV</h2> + +<h2>Os furiosos</h2> + +<p>Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,—triste prova +de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia vivaz e +animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente mettidos pelas +orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, saltam-lhes por entre +os<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> beiços corádos pela febre, +como por um arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...</p> + +<p>Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, grandes +accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem descanço,—para +um—para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir ás grades; +segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade visivel de apanhar +alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. Mas,—nem mesa, nem +cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...</p> + +<p>—Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo +agrado felino, o risinho<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> da +hyena,—a morrerem de desejo de nos saccudir de encontro ás grades.</p> + +<p>Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros, +de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têem +ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,—d'essas mesmas grandezas +pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares de ir n'um andor—e +gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é profunda nas creaturas a +vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda conservam a idéa de alardear +possança! Mas já não têem sequer, como os outros, papel doirado,<span +class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> para fazerem corôas; nem ha coberta +na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...</p> + +<p>Donde provêm o mal?</p> + +<p>Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem nos +diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, não seja +simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante as horas do +ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás escuras para que a +claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, ligeiro para nós, pesado +e cruel para elles, quantos dias de agitação e de tortura,—com as +mãos<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span> atadas, os braços presos, +as rações da comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por +unico horisonte e unica companhia!...</p> + +<p>Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem velhos: +a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, dissecam-os as +furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente acorda; um ou outro tem +a mão finissima, mão de quem não faz nada, de quem não trabalha ha annos; de +outras vezes parecem os ossos da morte com pelle por cima... em ar de luva!</p> + +<p>Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias +insondaveis da desesperação.<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span> +Só a mãe de algum ou a mulher, vão vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que +não abandonam as angustias persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o +mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e +fazer-lhe companhia—colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo +sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia +representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, +lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a +alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!</p> + +<p>Mas, em geral, como se os olhos<span class="pn"><a +name="pag_65">{65}</a></span> humanos não devessem contemplar o espectaculo +d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os visite, e ali se +conservam até que um dia o padre do hospital vá junto d'aquella enxerga +resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim libertar-se do mundo, fazer a +diligencia de que elles repitam as orações que lhes disser...</p> + +<p>Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São os +poetas da casa;—sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro aquelle +que pode aproveital-o uma hora ou outra,—e isso mesmo é arriscado ás +vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que dizem ser excellente +marceneiro<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span> e de quem me +mostraram um trabalho curioso:—uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, +um nicho de madeira para Santa Philomena,—santa com que tinha grande +devoção uma enfermeira de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de +freiras de Leiria, e que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde +fôra empregada. As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga +companheira, conservam o culto á santa.</p> + +<p>O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o +banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a mostrar-nos as +suas obras.<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span></p> + +<p>—Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e +travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco.</p> + +<p>—Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos +d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho.</p> + +<p>Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço com +que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os trata. É isto +resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar exemplo aos empregados +de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o medo aconselha cobardemente +toda a especie de crueldade. Em vez de injurias<span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span> e de chicotadas, como se usava d'antes para com +os pobres furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que +de vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, para +não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de intelligencia, +que ás vezes só de passagem está nublada.</p> + +<p>Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os +furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.</p> + +<p>De ordinario os doidos que representam,—dos mais quietos, já se vê, e +dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem<span class="pn"><a +name="pag_69">{69}</a></span> dar signaes de alienação—dizem os seus +papeis regularmente, mas falta-lhes expressão de physionomia, gesto, movimento, +olhar, tudo que auxilia e completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do +que recreativos.</p> + +<p>Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do +companheiro:—os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir +gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...</p> + +<p>O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que +perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!</p> + +<p>As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario<span +class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> agitam-se durante horas, depois +caem prostrados no somno lethargico que succede á furia. Ellas, fallam e +berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notaveis nos insultos, no +descomposto do fato, e até nas tendencias malfazejas—atirando sempre que +podem uma tigella contra as grades, e os cacos á cara de quem vae.</p> + +<p>Algumas são verdadeiramente horriveis.</p> + +<p>Uma gira todo o dia—mas todo o dia!—descalça, em roda do quarto. +Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena na +jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e enrosca-se.<span +class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p> + +<p>Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar de +collete porque marinha pelas grades.</p> + +<p>Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em +pedaços—para as almas!</p> + +<p>Esta, de Guimarães,—com certo ar de astucia machiavelica no fundo da +loucura—está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida, +trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.</p> + +<p>—Como está? pergunta-lhe o director.</p> + +<p>—Sempre estou boa! responde ella.</p> + +<p>—Ah! E então?</p> + +<p>—Então sardinha com pão!<span class="pn"><a +name="pag_72">{72}</a></span></p> + +<p>E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel, +hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as caretas +da loucura.</p> + +<p>Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder +dobrar o pescoço—porque se morde.—Um velho grita por tal fórma, que +ás vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em +procura do sitio de onde vem aquelles ais...</p> + +<p>Passados dias,—por não haver trazido apontamentos dos furiosos na +primeira visita que fiz a Rilhafolles,—tive de voltar ali.</p> + +<p>A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se +d'aquellas<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> tristes paredes. Ao +passar com o sr. dr. Guilherme Abranches, que teve ainda a bondade de me +acompanhar, por um d'aquelles corredores que serpenteiam ali em todas as +direcções, vi dois homens sentados á porta de um quarto.</p> + +<p>—Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director.</p> + +<p>Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem +amortalhado,—um boneco, suppuz eu,—e duas tochas ao lado.</p> + +<p>Não era boneco, era deveras um cadaver.</p> + +<p>Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os seus, +mandou o presidente<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> da +<em>Sociedade hebraica</em> dois homens para envolverem o cadaver n'um lençol, +deposital-o n'um quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e +ficarem de guarda á porta. Como era sabbado—dia santo para +elles—não lhe mechiam em quanto não fossem nove horas. Haviam pedido, +para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam +partir para levarem o cadaver e enterral-o no alto do Varejão.</p> + +<p>Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já não +ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de +desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos<span class="pn"><a +name="pag_75">{75}</a></span> tambem, de alguma maneira; mas é de mais, e é +pouco! Se aquelles braços que se agitam, se aquellas vozes que estrugem, se +aquelles dentes que rangem são a materia—que é da alma?...</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas +pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta a +cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste—por cima d'aquella +miseria continua!...<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<h2>V</h2> + +<h2>Telha</h2> + +<p>Tambem os ha cá por fóra!</p> + +<p>Mansos, com falla, sem <em>collete</em>, passando a vida á procura do +motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar com o +<em>deficit</em>, da perfeição no amor, do circulo bicudo...</p> + +<p>Avista-os a gente por essas ruas,<span class="pn"><a +name="pag_78">{78}</a></span> sequiosos de barulho, persuadidos de que têem +para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma causa, fazer +tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa que, sem se saber +de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais os visse entrar n'uma +escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que os quiz empregar n'alguma +cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, tribunos e heroes, prégando umas +celebreiras no tom de quem salva a patria!</p> + +<p>Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de +visinho—descarapuçado e de chinellas—sem mais bagagem do que a +sua<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> insolencia, altivos e +petulantes, por entre a risota da multidão.</p> + +<p>Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela +sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva, +deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella; +desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja o +caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; sustentando-se de +theorias; compondo maximas e conceitos d'este genero:—«É o homem que faz +o titulo, e não o titulo que faz o homem»;—e pondo-se a caminho pela vida +adiante, pé cá, pé lá, como quem vae com botas de andar leguas,<span +class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span> para ficarem estatelados na estrada +sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força viver de +litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas que os tremoços, +e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres sem grandeza, dôres que +dão riso aos mais!</p> + +<p>Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera em +menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol de dia, +quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade.</p> + +<p>Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento com +uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz:<span class="pn"><a +name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<p>—É melhor não casar com esta.</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Tem o dobro da edade que eu tenho!</p> + +<p>—E depois?</p> + +<p>—E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter +cem!</p> + +<p>O pae fica embuchado, e medita.</p> + +<p>Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. Quer +endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só palavra—supprimir. +No fervor da crise das economias vae de uma vez a uma reunião politica, onde se +discutem os maiores problemas. É n'um terceiro andar. Muito escura<span +class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span> a escada. Dão-lhe um rolinho. +Aceita; desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um +bocadinho de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás +escuras,—pensando sempre em economias...</p> + +<p>Quantos! Quantos andam por essas ruas!...</p> + +<p>Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes nacionaes, +e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande—como qualquer de +nós; mas tem a preoccupação constante do <em>shoking</em>, usa bota de duas +solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete inglezado, +gravata de seda frouxa com<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> as +pontas pendentes, caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente +na mão um bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos +nós... Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, +refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das praças a +examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para parecer que +veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a estatua de D. José, +examinando, estudando, tomando apontamentos, medindo, comparando, admirando, +criticando com gestos expressivos, sem perder tempo;—<em>time is +money!</em> E passeia; e corta;<span class="pn"><a +name="pag_84">{84}</a></span> e gira; e vae indo, inglezmente, até ao alto de +S. João. Estão abertas de par em par as portas do cemiterio... Entra, segue uma +das ruas, examinando as inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe +pareça commodo, e senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler +o <em>Times</em>. O <em>Times</em> está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o +<em>Times</em> com imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um +raminho de cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É +noite; vae para casa,—acabou de ser inglez até ao outro dia!</p> + +<p>Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores<span +class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span> se chamam piteireiros, pareceu +esconder-se. Os amigos, companheiros das sucias, estranharam que assim se +despedisse do vinho sem dizer—agua vae. Elle respondia sempre, e +responde—que já não bebe, que lhe fazia mal, que ia a soffrer por causa +d'isso, que não vale a pena... Engana os outros, mas, o que é mais singular, +engana-se a si. Em casa, fechado e sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e +dois copos. Depois, como se fallasse com alguem:</p> + +<p>—Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!</p> + +<p>E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si +proprio:<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p> + +<p>—É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se +insistes, um copo de Collares.</p> + +<p>—É Collares picado o que posso offerecer-te!</p> + +<p>E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.</p> + +<p>—Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o +queijo amavelmente.</p> + +<p>—Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!?</p> + +<p>—Dás-me muito gosto.</p> + +<p>—Uma saude com um copo de Xerez generoso.</p> + +<p>—O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos +n'este...</p> + +<p>—Mais um copo, visto isso, de<span class="pn"><a +name="pag_87">{87}</a></span> Collares; e passaremos ao Porto, que de certo não +te faz nervoso como os vinhos brancos?</p> + +<p>—Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens?</p> + +<p>—Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?!</p> + +<p>E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer companhia +á do Alemtejo e á de Collares.</p> + +<p>—Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos.</p> + +<p>—Á tua saude! prosegue, bebendo ambos.</p> + +<p>Ah! Quantos, quantos!</p> + +<p>Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam<span +class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span> a parecer serias; os folicularios, +inaptos ou calumniadores; inaptos não reparam que se cortam no proprio gume da +arma; calumniadores, não vêem o tribunal da Boa Hora e têem-o diante de +si;—uns exaltados ridiculos, a arder em aspirações +phantasticas;—uns pimpões de palavra, sempre em prologo de valentia, +pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da sala em passo gymnastico, +preparando casos, annunciando heroismos, vociferando contra este e aquelle, +resolvendo castigar, destruir, arrazar: <em>tutto parole, parole, +parole!</em>—Um que quer cantar sem voz, e móe os ouvidos das pessoas por +casas particulares, festas, concertos,<span class="pn"><a +name="pag_89">{89}</a></span> cantando tudo, dizendo que dá o <em>dó</em>, e +não dando cousa nenhuma senão cabo da paciencia á gente!</p> + +<p>O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda—como outros vão de +bamburrio em bamburrio—para cair no abysmo, para que se lhe devore a +ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que a mão +da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...</p> + +<p>O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e massa +com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como pingos de chuva +da rama de um chorão...—O que attribue tudo aos jesuitas, não +scisma,<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span> não dorme, não sonha +senão com jesuitas. Tudo a mão de Roma, a mão de Roma...—O que, em +apanhando piano, principia logo a tocar com um dedo horas a fio.</p> + +<p>Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a +cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista...</p> + +<p>A antithese d'esses:—velhos precoces, já enfastiados de tudo em +meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão +consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra mãe dos +sete peccados mortaes e excedesse as orgias<span class="pn"><a +name="pag_91">{91}</a></span> de Babylonia. Não sabe a gente, ao ouvil-os, se +está no Azul se no meio do chão! Aos vinte annos já não dançam, e usam luneta +côr de fumo nos olhos fatigados... do gaz do Martinho!</p> + +<p>Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da +namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,—quer +trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; qualquer +coisa; exemplo:.—«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, do que para +prato de meio.» Conceitos!—Outro, leva o anno inteiro a scismar como ha +de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a cara,<span class="pn"><a +name="pag_92">{92}</a></span> o que ha de pôr no nariz...—Outro, conversa +muito alto, n'este estylo que lhe parece optimo:—Diga-me se não é +anomalo, acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as +nações atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos +tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da +ignorancia. O meu amigo é ecletico?</p> + +<p>E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não cumprir, +nunca vão a horas—o maior dos erros, exemplo aquelle diplomata que chegou +tarde á morte do seu principe e foi dar com a rainha a fazer +papelotes!—que<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> se +esquecem de tudo, ou antes não se esquecendo—pensando n'outra coisa, +diversa sempre da que estão fazendo, da que estão dizendo. Gente que baralha +tudo, troca, atropella, estraga; trapalhões de officio e de geito. Um deita +rapé no chá em vez de assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um +tostão no pires quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do +Casino ia já a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se +o não pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam +parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes diga +como elles se chamam, e irem então<span class="pn"><a +name="pag_94">{94}</a></span> reclamar a carta; a correr, antes que lhes +esqueça o nome outra vez!..: <em>Telha</em>, pois que?—<em>telha</em>, e +rija!...</p> + +<p>Digamos o peior;—quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha +principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda a +gente anda com <em>telha</em>...</p> + +<p>Quem ha,—dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam +tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como que +exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma +remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de saudades +da patria que perdeu... A terra parece<span class="pn"><a +name="pag_95">{95}</a></span> triste então, embebe-se o animo na nostalgia do +céu, quer a idéa voar para lá, e consegue-o ás vezes... De noite, quando não se +póde dormir, mas está tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, +vêem-se brilhar as flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos +n'alma suspiros e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos +perde o olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo +então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,—a +<em>telha!</em>...<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a></span></p> + +<h2>VI</h2> + +<h2>Enguiços</h2> + +<p>Quente... quente...</p> + +<p>Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, com +quem viveram, parente, amigo, visinho...</p> + +<p>O diccionario de Moraes explica-o assim:—«Enguiço é o mal que se causa +de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.»<span class="pn"><a +name="pag_98">{98}</a></span> Até aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos +«accidentes». Lá se avenham.—«Consiste,—continua—em ficar +acanhado.» Estão satisfeitos? Eu, não. Procuremos mais, procuremos +sempre;—no verbo enguiçar o mesmo auctor exprime-se assim:—«Dizem +que o torto olhando para alguem enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça +(d'outrem) enguiça; isto é, faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre.</p> + +<p>D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e +incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da +creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e cousa +pouca, que<span class="pn"><a name="pag_99">{99}</a></span> moem e affligem os +enguiçados,—gente nervosa, delicada e phantastica.</p> + +<p>Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A influencia +do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o vento sul, torna-os +tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e sem vêr. Parecem acordar +na primavera pelo canto dos passaros e pela doçura do ar; e ouvem tudo então, +as vozes que passam no murmurio das ondas, na rama das arvores, ouvem o que se +diz ao longe, ouvem o que não se chegou a dizer,—ouvem-se a si, +unicamente a si; a voz do enguiço, que falla dentro d'elles, e compõe,<span +class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> e ordena, e retem, e +impelle...</p> + +<p>Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia +preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe um +alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo:</p> + +<p>—Ó José?</p> + +<p>—Senhor.</p> + +<p>—Tu deste-me a corda inteira?</p> + +<p>—Dei, sim senhor.</p> + +<p>—Toda, toda?</p> + +<p>—Dei-lhe a corda toda, sim senhor.</p> + +<p>—Está bom!</p> + +<p>Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para<span +class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span> as vinte e quatro horas, como um +relogio de algibeira. Se o empurrão foi brando, a machina pára a qualquer hora +do dia e precisa nova corda.</p> + +<p>Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é ainda +mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em redondo ao +prato.</p> + +<p>Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é +empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os dias +antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor a porta, +que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros:<span class="pn"><a +name="pag_102">{102}</a></span></p> + +<p>«Um.</p> + +<p>«Dois.</p> + +<p>«Tres.»</p> + +<p>Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.</p> + +<p>Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem +por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo +botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não envenenava os +freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua +do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em +indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle<span +class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span> acabou de jantar, foi muito +lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,—encontrou as +portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se +d'elle; os jornaes contaram o caso.</p> + +<p>Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;—a religião do +enguiço. Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em +traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora +decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando apparecem +as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o beato Antonio haveria +arriscado um olho, como<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span> o +meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.—Conheci um que, quando lia +n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao +ar.—Ha outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que +immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar das +impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um +carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou +immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo, +sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade não +deu cabo do enguiçado e do amigo<span class="pn"><a +name="pag_105">{105}</a></span> que elle levava em sua companhia.</p> + +<p>Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em +que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais +forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as mãos +ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao saltar para a cama; não o +conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulhões.</p> + +<p>Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de pintar +pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não consentia por +ter dó de<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span> obrigar os +moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao +quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a +cara de preto.</p> + +<p>Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;—faz casas +para não morrer. Lá diz o proverbio campesino—«ninho feito, pêga morta.» +Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Suppõe que +em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra +terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras. +Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal!<span class="pn"><a +name="pag_107">{107}</a></span></p> + +<p>Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer +criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o +fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehensões. Tem sete +filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a namorar os que hoje são seus +maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Estão ricas e felizes as +duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que +ás tres que estão solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr +aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, +resmungando á entrada uma<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span> +prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...</p> + +<p>Que dança! que dança!</p> + +<p>Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé +direito.—Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando +que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de +dádiva.—Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não estender a +mão seis vezes não lh'a beijam.—Uns têem terror ás aranhas; outros +assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em certas ruas senão +do mesmo lado sempre.—Alguns, brutos com toda a gente, são timidos com as +creanças. As<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span> creanças têem o +que quer que seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na <em>Chronica de D. João +I</em>, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, +rei de Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas +creanças uma veneração profunda; os que não a leram—tambem. Batia na +mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna—para +onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com +a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda. +N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido +parecia esquecer-se da tósa<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span> +semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:</p> + +<p>—Porque é que tu já me não bates?</p> + +<p>E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a prisão +imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando, +respondeu de mansinho, apontando para o berço:</p> + +<p>—Tenho medo de acordar o pequeno!...</p> + +<p>De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem ficar +enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem +isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão fartos de o saber; e<span +class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> por isso são tão joviaes. Andam +sempre a rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, +porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca desde o +principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver encontrado dois +corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado +um sujeito—se eu lhes dissesse o nome riam-se!—encerrado n'um +portal á espera que passasse um corcunda para o desenguiçar de outro que havia +visto.</p> + +<p>Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma +moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.<span class="pn"><a +name="pag_112">{112}</a></span> Mas—para obter o remedio—quantas +difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre +prevenido e não se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais +de uma vez tem posto a policia em bolandas—sómente para garantir a giba +do contacto impudico da moeda preservativa.</p> + +<p>Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que a +sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com +elles,—e não haverá mais enguiçados por este accidente!...</p> + +<p>Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,—sujeitos de<span +class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> pouca fortuna, sedentarios que +fazem gallos na nuca a dar com a cabeça nas costas da cadeira; peões para quem +estão de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes +das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquietações para todas +as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.</p> + +<p>São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens +grandes no corpo e na força;—homens grandes no espirito; phantasistas, +poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os +ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis—ha<span class="pn"><a +name="pag_114">{114}</a></span> uns tempos—andam muito enguiçados!...</p> + +<p>Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia! +Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, nem com o +acaso;—os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem, +lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se +comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este +instante a penna não quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como +se lhe repugnasse escrever.—Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior! +Deitou-me um borrão no papel...—Basta!<span class="pn"><a +name="pag_115">{115}</a></span> Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu +podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.<span class="pn"><a +name="pag_116">{116}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span></p> + +<h2>VII</h2> + +<h2>Agouros</h2> + +<p>Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o +sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação diversa. +Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das +aves (<em>ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino</em>) e por extensão +conjecturar<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span> de qualquer +modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes +insignificantes—a que chamamos agouros—queremos predizer o +futuro.</p> + +<p>O terror—de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras +vezes—torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se espalham +sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o +pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao +atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas urzes; vêem imagens, conhecidas +nos montões de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para +elles até a<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span> materia muda tem +lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer das +folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as +figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no +orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no +mocho, nos morcegos, no uivar do cão...</p> + +<p>Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á +esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;—a fatalidade +delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de +cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma<span class="pn"><a +name="pag_120">{120}</a></span> questões insoluveis, corre-lhes nas veias com +preguiça um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doença em que +ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa +e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear +commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e +para quem a vida é um supplicio atroz,—condemnados de manhã ao Chiado, +abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.</p> + +<p>Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão seguindo +na vida como a Electra<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> dos +gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem +murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os +sacrificios;—dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; +offereceriam o pescoço ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel, +se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,—os que são dignos +d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas—têem superstições +indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes +rasão. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e +ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio<span class="pn"><a +name="pag_122">{122}</a></span> de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado +um vapor conduzindo a companhia, que não era aquelle que se lhe havia +promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:</p> + +<p>—Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio +funesto.</p> + +<p>As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,—um pouco mais +singular ainda do que o agouro!</p> + +<p>Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar o +mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a perros para +assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em miseria ou em +asneira.<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span></p> + +<p>Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá arranjou +ser deputado—mas o que não arranjou é fallar, porque os agouros o +impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é saber ouvir e +callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia dizer-se o contrario do +que se havia dito tempo antes; que os adversarios abusam d'isso e ficam +causticando o sujeito; que a força das maiorias consiste em votar sem abrir o +bico; que assim como o nauta dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme +sopra o vento de um lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém +variar a proposito conforme as circumstancias,—com<span class="pn"><a +name="pag_124">{124}</a></span> socego, e sem bulha. E tudo isto lh'o diz o +azeite quando se entorna, e o espelho quando se quebra, e uma aranha no tecto, +e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe avisos:—«Calla-te, calla-te. As +fallas são de prata, e o silencio é de ouro. Calla essa boca!...»</p> + +<p>Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame prévio +de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a agouros; não +sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata d'ellas—mas +sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em cima do corpo, que é +signal de desmedrar, emmagrecer,<span class="pn"><a +name="pag_125">{125}</a></span> definhar, dar á casca;—não corta o +cabello em quarto minguante com receio de que lhe não torne a crescer; evita +quando está na cama cortar as unhas e olhar para um espelho ao mesmo tempo, +indicio de estar jogado aos dados;—não permitte que em sua casa deitem +lixo fóra de noite,—pobreza imminente;—não póde vêr sem sobresalto +duas facas em cruz, desordem fatal;—e por cousa alguma morará em «casa de +esquina,—morte ou ruina!»</p> + +<p>Este, se vê um «ladrão» na véla—sabe que vae ter carta.—Aquelle, +em caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita.<span +class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span></p> + +<p>Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; o +mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da Ascenção do +Senhor.</p> + +<p>Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu +casamento,—porque, se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem +cáe de cama ao domingo, nunca mais se levanta.—No campo, em os martyrios +de um jardim dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa.</p> + +<p>Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. A +vida de Isidoro—o nosso popular actor Isidoro, do theatro da +Trindade—é um pinhal de agouros.<span class="pn"><a +name="pag_127">{127}</a></span> Vamos vêl-os com cautella; se têem medo, tragam +luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado n'uma <em>sexta +feira</em>, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender o officio de +tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero <em>treze</em>; +trabalhou dois annos no tear numero <em>treze</em>; depois de official foi +obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que commetteu na +<em>sexta feira</em> de Passos de 1845, e ficou tendo o numero vinte e seis, +que é duas vezes <em>treze</em>. Assentou praça no 2.º batalhão movel em 1846, +e durante oito annos foi numero <em>treze</em>. Representou pela primeira vez +em theatro particular a<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> +<em>treze</em> de junho de 1846; em theatro publico n'uma <em>sexta feira</em>, +30 de novembro de 1849. Foi escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia +<em>treze</em> de maio de 1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma +<em>sexta feira</em>, 11 de março de 1853. E—para corôar este catalogo de +<em>memoranda</em>—casou em dia de S. Bartholomeu!... Por entre este +capharnaum de vaticinios tem lidado, triumphado, mais invulneravel do que o +capitão de Homero—que o não foi no calcanhar.</p> + +<p>Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O +actor Santos,—depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve entre +elle e Francisco<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span> +Palha—não quiz apparecer pela primeira vez no tablado da Trindade n'uma +terça feira que se destinára para primeira recita de <em>Frou-frou</em>. Mas já +estavam afixados os cartazes, alugados os camarotes: que remedio havia de +dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, segunda feira, ao palco; representava-se a +<em>Flor de Chá</em>; no ultimo acto vestiu-se de china; na ultima scena, +perdido entre os comparsas, dançou com elles o <em>can-can</em> com que +terminava a peça. Na noite immediata representou <em>Frou-frou</em>; era a +segunda vez que apparecia ao publico da Trindade; não o sabia ninguem, mas +sabia-o elle! Os agouros contentam-se assim.<span class="pn"><a +name="pag_130">{130}</a></span></p> + +<p>O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já +principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se alugar +unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze repetido, e já +não se vê por cima da porta senão 12—12.</p> + +<p>Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a +algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um amigo +meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e lhe explicaram +ser indispensavel a sua presença á mesa para se principiar a jantar. O rapaz +allegava que não tinha vontade de comer, que acabára de jantar<span +class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> com os paes n'aquelle instante. +Debalde! Não o largaram senão ao café.</p> + +<p>Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem +das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas +o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres. +Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus +revoltosos, já com saudades da escravidão e das cebolas: e desanimou e julgou +estar doido, e o certo é que avistou a terra da promissão, mas não conseguiu +pôr lá o pé—e morreu á beira da realisação da sua idéa...<span +class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span></p> + +<p>A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os +agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é +capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.—Mulato a +bordo, é salceirada frequente, e por vezes—na linguagem +maritima—vento de <em>gaveas nos terceiros</em> e de <em>traquete na +passadeira</em>.—Cadaver ao mar, predispõe para <em>tareia</em> e tem de +se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do +velame.</p> + +<p>Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das +creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles<span class="pn"><a +name="pag_133">{133}</a></span> armando barretinas, arranjando bandeirolas, e +travando combates, é signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se +fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? +Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são <em>o tinha de ser</em>: +consolação—de quem não tem outra!...<span class="pn"><a +name="pag_134">{134}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span></p> + +<h2>VIII</h2> + +<h2>Feitiços</h2> + +<p>Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer +mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas—sem outra culpa ás +vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um +bem:—falta, porque se aspirou a elle; receia-se<span class="pn"><a +name="pag_136">{136}</a></span> semsaboria: ella que chega porque a attrahimos. +O pulsar inquieto e ancioso do coração é uma especie de bulha de passos que faz +com que fuja a creatura ou a coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a +quem tem sede, e agua a quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, +e quem for só rico de appetite—pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as +seáras que o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que +a chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do tempo +adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da lampada, o +amante acordou e fugiu...<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span> +Voltou-se Orpheu para ver Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no +inferno. O feitiço é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, +levantando-o entre as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, +dá-lhes fulgor, e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a +pernear, salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam +mais distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma +apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos extraordinarios +para se entreter, e não gosta senão do que fôr maravilha, do que estiver +superior á<span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span> humanidade, do +que ella não entender... Não se vê na <em>Iliada</em> andarem sempre os deuses +a fazer costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio +sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;—este as +romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou da Guia: +mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que acredita na +Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em perdendo coisa, não ha +fazer com que a procure sem resar um responso a Santo Antonio;—o outro +tem scisma com o passar de noite defronte de um espelho, por ser possivel +ver-se morto,<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span> ou ver outra +imagem em vez da sua...</p> + +<p>Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está alguem na +sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a deitar-lhes uma sorte. +Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae saindo das resas, dos +ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro...</p> + +<blockquote> + <p>Alguidar, alguidar<br> + Que foste feito ao luar,<br> + Debaixo das sete estrellas,<br> + Com cuspinhos de donzellas<br> + Te mandei eu amassar...</p> +</blockquote> + +<p>As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do<span +class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span> mal, que eram madrinhas. Vinham +uns ao mundo para as venturas, para a desgraça outros, conforme o querer do ceu +ou da natureza. Mas as fadas nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, +os bracinhos de fóra, e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas +com moderação;—e era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o +paiz a ponto de levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da +poesia tão desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se +usassem em Lisboa nem em seu termo—«obra de feitiços, nem de ligamento, +nem de descantações, nem de viadeira,<span class="pn"><a +name="pag_141">{141}</a></span> nem de carantulas, nem outrosim medir cinta, +nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás portas, nem furtar aguas, nem +lançar sortes.»</p> + +<p>Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a mania de +que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou inclinações +humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo de fazer folhinhas +de porta e de algibeira, uma carregação de petas que offerecem á gente como +chegadas directamente dos planetas. Que em tal mez ha de morrer um grande +personagem:—sempre morre, e seria um transtorno se assim não +succedesse,<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span> n'uma terra como +esta em que se aponta a dedo quem não é conselheiro!—que no mez de tal ha +de correr uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, +no mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará um +emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, ou se +dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços irremediaveis! Foram-se +as fadas, vieram os almanaks!...</p> + +<p>Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. Mulher +pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a doença que +ninguem entende,<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span> chorando e +rindo ao acaso, torcendo os dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, +rasgando por gosto, moendo e ralando as pessoas de quem mais gostar,—tem +feitiço. As artistas, ou porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, +ou porque a arte as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia +das Neves, pontualissima aliaz em ir aos ensaios,—ensaia todavia os +papeis em casa mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala +que ella calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as +quedas. Antes do <em>Gladiador de Ravenna</em> se representar, já as criadas da +famosa actriz—por<span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span> +espreitar ás portas e escutar—sabiam de cór o papel de Tusnelda. A sala é +a grande preparação;—o tablado é o dever; a sala é o feitiço. Depois nos +bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista tem a sua invocação: uns +benzem-se simplesmente, outros affagam um coral torcido, outros tomam a figa de +um breloque, para evitar o quebranto.</p> + +<p>Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem +fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. Abriu os +olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal da Graça, á +direita o sitio chamado a Gloria,<span class="pn"><a +name="pag_145">{145}</a></span> e á esquerda a rua do Paraiso!...</p> + +<p>Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta +pastelleiro, o Matta artista,—o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. +Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei que +lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem bem; assim +como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser incomprehensivel, +assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei a quem me dirijo. +Vamos.—Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. Quem uma vez na vida +pelo menos não frigiu uns<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span> +ovos, não fez um biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha +muito quem conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que +seja incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola—por nunca haver +posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos +perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus frageis +dias,—os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a saude, +comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos resultados para os +pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o soldado entre as +balas,—com a differença de<span class="pn"><a +name="pag_147">{147}</a></span> que para elle todos os dias que Deus dá são de +combate, e combate que não dá postos nem condecorações! E dirige e tempéra, e +tira e põe,—mas de avental; mesmo que não se trate senão de dar a voz de +commando,—de avental sempre: aliás, tudo se perde, entra na comida o +<em>bispo</em>,—unico que não tem nem terá partido,—agúa-se o +môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle por assim dizer reformou, essa +querida geléa que data do paraiso,—porque a serpente não seduziu Eva com +uma maçã, como se espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; +seduziu-a com geléa: geléa que se apanhava da rezina<span class="pn"><a +name="pag_148">{148}</a></span> das arvores. E não lhe fallem de tirar o +avental, em se tratando de jantar grande,—porque o não tira; é ao avental +branco que elle deve tudo; o avental branco é o seu pae, é o seu feitiço!...</p> + +<p>Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a gente, +como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da <em>Ciosa</em>, de Antonio +Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado que teve e possa +ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella<br> +lava teu rosto com ella,<br> +tornar-te-has na compostura<br> +e fegura<br> +do que se foi.»<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span></p> + +<p>No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da +gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e secca, +encalha o navio ou tem de voltar para traz.</p> + +<p>Dizem que ha sitios no mar,—o cabo da Boa Esperança, por +exemplo,—em que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras +inteiras, de feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar +alto é o gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a +cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem emfim +sepultura.</p> + +<p>Os feitiços no mar representam<span class="pn"><a +name="pag_150">{150}</a></span> a attracção do elemento, o magnetismo da +natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem caprichos perigosos. Em +estando alguem para se afogar já na vespera se põem a dançar por cima das +ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, e mal vae ao piloto em os +feitiços dando no barco.</p> + +<p>Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, por +lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando lhe quebram +de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle está guardado; que +acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer chamar, mas lhe tapam a boca +para<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span> que não grite, e elle +adormece outra vez...</p> + +<p>As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto vae-se á +capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça ouvir nas vozes +do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á escuta, repara-se se diz +<em>sim</em> ou <em>não</em> quem vae passando.—Em Lisboa, pelas festas +de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento na esperança de se +conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se ella deita +espiga.—Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de esmola a um +pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido<span class="pn"><a +name="pag_152">{152}</a></span> como se chama o homem da esmolinha. Da +alcachofra, dos bochechos, do ovo no copo d'agua, é quasi inutil +fallar-lhes.—Quem tiver sete filhos está em mau caso: ou o ultimo se ha +de chamar Mauricio, e um irmão ser padrinho,—ou nascerá +defeituoso.—Enrolam-se tres papelinhos, com seu nome cada um, bem +enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: outro para traz da porta: +debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha de ser o nome do noivo. Extrae-se +toda a casca a uma fava,—metade da casca a outra, e junta-se ás duas uma +fava com casca; mettem-se as tres entre os colxões. De manhã, tira-se uma; +se<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span> traz casca, vem vestida e +a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser pobre; se +traz metade da casca, a pessoa será remediada...</p> + +<p>O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó +morenas,—o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,—sois vós! +Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós!<span class="pn"><a +name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<h2>IX</h2> + +<h2>Encantos</h2> + +<p>Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, converteu +em porcos os companheiros de Ulysses:</p> + +<blockquote> + <p><em>Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis</em></p> +</blockquote> + +<p>Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma +methamorphose muito agradavel!—O<span class="pn"><a +name="pag_156">{156}</a></span> grande impostor do Simão magico, contemporaneo +dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos deuses quiz voar por cima +de Roma—como o nosso Bartholomeu Lourenço por cima de Lisboa. S. Pedro, +que assistia á experiencia, fez por intermedio das suas orações que caisse das +alturas e se despedaçasse...</p> + +<p>Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das mouras. +Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a dominação mourisca, +e vivam escondidas nas covas e no mar—para melhor guardarem os seus +thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, saphiras,<span +class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> cordões de ouro, brincos, anneis, +pulseiras, e broches de diamantes de um primor de desenho superior ao do +florentino Cellini. Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, +e desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza e +voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias. +Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á meia noite +se lhes acaba o encanto e o poder,—como diz Garrett na <em>D. +Branca</em>:</p> + +<blockquote> + <p>E ai! se o gallo cantou, que á meia noite<br> + Encantos quebram, e o poder lh'acaba.</p> +</blockquote> + +<p>Muitas vivem nas fontes.—Algumas<span class="pn"><a +name="pag_158">{158}</a></span> têem ido á India n'uma casca de ovo. No campo +ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as encantadas ruins não +embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos por baptisar.—Algumas +têem-se fingido encantadas, para as desencantarem melhor. Á sombra dos encantos +tem havido muita casta de obra, e não poucas se serviram d'isso para apanhar +marido. Lá o indica bem a trova da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e +encontra no arvoredo uma donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um +dia, e completar n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, +e dá-lhe a escolher:<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span></p> + +<blockquote> + <p>Ou nas ancas ou na sella<br> + Onde fôr mais honra minha.</p> +</blockquote> + +<p>Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga a +rir, a rir...—Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...</p> + +<p>No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,—no +mar—ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o +reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das +nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, +provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam<span class="pn"><a +name="pag_160">{160}</a></span> Ulysses com o soltarem a voz deliciosa, e o +faziam torcer-se todo, preso ao mastro do navio; mas descendentes, mas netas +d'ellas,—e, o que é mais, mulheres como as outras, dos bicos dos pés á +cabeça! Conta-se o caso de não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir +casar com a filha de um capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o +noivo ergueu casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do +tecto;—affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle +bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o que +queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar<span class="pn"><a +name="pag_161">{161}</a></span> um padre, confessou-se, pediu os Sacramentos, e +dispoz-se a bem morrer. Á meia noite expirou, depois de recommendar muito que o +enterrassem em certo sitio...</p> + +<p>Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que sejam +feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos ficam parecendo +olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas opiniões desencontradas; +porque, variavel como a onda que a encobre, a encantada no mar deve ora ser +horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e pura como a agua transparente. +Refere-se que em tempos iam todas as manhãsinhas á praça<span class="pn"><a +name="pag_162">{162}</a></span> fazer compras; eram conhecidas por terem sempre +molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que andavam de +olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com moedas de dez réis +furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de coisa certa. Mostra-se perto +das Berlengas o sitio em que fallou uma; appareceu, ao sair do luar, com um +espelho na mão, e gritou aos marujos que não tivessem medo porque estavam perto +de terra: mas em elles lhe vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o +caso foi que ali se perderam todos n'essa noite...</p> + +<p>Teem genio proprio do elemento<span class="pn"><a +name="pag_163">{163}</a></span> em que vivem; graciosas e crueis; amantes e +perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o que tambem era a +balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que não é por mal; até ás +vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira de os consolar por esses mares +de Christo da travessura de lhes roubar a existencia humana.</p> + +<p>Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá têem +acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz padeiro que morreu +doido por causa de encantamentos, e de encantadas,—que ora lhe appareciam +á borda dos regatos a<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span> +pentear os <em>cabellos de oiro</em>, ora á tona d'agua nos poços, ora nas +ondas do mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um +muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...</p> + +<p>Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher da +rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:—mas conservaram-se +sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, e, tão depressa +puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já lá vae. Hoje, as +banhistas fazem-lhes concorrencia. A <em>Deuza dos Mares</em>, a <em>Flor de +Lisboa</em>, e os vapores do<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span> +sr. Burnay, assustaram-as. Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho +liquido já não saem cá para cima senão os mudos,... que são os peixes!...</p> + +<p>De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura +poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e pouco +quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande segredo do seu +poder,—porque a graça precisa de ser picante. É como com as flores; +roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas bonitas,—mas +sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente o põe—n'uma +creatura,<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> n'uma vaidade, +n'uma paixão, n'uma mania. Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para +alguns, uma particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás +vezes—como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor +especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» na +Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que transforma +tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz reparo:—a +vontade.</p> + +<p>Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas—tem ella o encanto +de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado<span +class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> Manuel Corrêa, que em 1838 viveu +no Rio de Janeiro, guiou sósinho um navio, que a tripulação abandonára, no meio +da tormenta navegando sete dias até fundear no porto de Santos!</p> + +<p>O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de +apparencia inanimada,—nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: +trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o adivinha +com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se muito lampeira á +hesitação em que uma pessoa está:—depois, em se apanhando fóra de +penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica encharcado<span class="pn"><a +name="pag_168">{168}</a></span> põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a +rir... Pelo contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a +caraça de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo +por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de elle ter +tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua—não chovendo, e ficando +o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo do braço. Ha +encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; representam a vida +debaixo dos seus principaes aspectos,—a borrasca e a bonança, a tormenta +e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o ceu,<span class="pn"><a +name="pag_169">{169}</a></span> e a bengalla volta-se para o chão; elle +levanta-se, e ella curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que +vem de cima, ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do +que vae cá por baixo!</p> + +<p>O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. +Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este +mundo—Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe chorou +no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer das coisas não +é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre inferiores—haja vista aquelle +do Minho, que esteve ha<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span> +annos em exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer +profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é de mau +fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se exponham a affrontar +seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma escada de mão para se lhes +fazer festas na cara!</p> + +<p>Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um metro +de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas não se póde +dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, porque ás vezes, mesmo +sem querer, lá dão<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span> uma +cabeçada nos callos de quem vae passando...</p> + +<p>Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz +lhes ha de dar um beijo;—em lhes comendo a palma da mão, já a gente sabe +que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a +logo;—a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a +esquerda, alguem nos corta na pelle.—Na madrugada de S. João quem fôr +lavar a cara á fonte, fica bonito:—e quem nadar n'essa noite alcança o +que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores +sorriem...</p> + +<p>Os dois encantos negros são as<span class="pn"><a +name="pag_172">{172}</a></span> almas penadas e os lobis-homens. A preta +Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa morava um +sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em malandrinices. Alta +noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia lamentosamente:</p> + +<p>—<em>Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o +teu difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho +sapateio...</em></p> + +<p>—Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a +preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!</p> + +<p>E pagou. E o sapateiro foi arrecadando<span class="pn"><a +name="pag_173">{173}</a></span> a moeda, dizendo com modestia que não era +pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela noite velha, ora por +dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia pagando até que uma vez se +cançou do encanto e lhe redarguiu:</p> + +<p>—Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não +dou mais rial ao vijinho sapateio!</p> + +<p>E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a penar +deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e nunca mais +lhe deu vintem.</p> + +<p>As almas penadas são d'esta qualidade;<span class="pn"><a +name="pag_174">{174}</a></span> e tambem defuntos, que por lhes faltar alguem á +palavra dada—vagam n'este mundo, até que lhes satisfaçam as ultimas +vontades.</p> + +<p>Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, +mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa apanham +encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, mudam-se n'elle, e +espojam-se tambem. Isto é,—espojavam-se. Isso não continua, e até já ouvi +dizer que succede agora ao contrario, para variar, e que tem por ahi apparecido +seu burro—mudado em homem.<span class="pn"><a +name="pag_175">{175}</a></span></p> + +<h2>X</h2> + +<h2>Sonhos</h2> + +<p>Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um +inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a +monotonia da agua dormente—<em>mare mortuum</em>! Querem casos, avisos, +phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis nem +faziveis...<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> A antiguidade +espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os +vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a +civilisação e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, <em>desgosto e +feridas</em>: com dados, <em>perder os bens</em>: com espelho, +<em>traição</em>: com favas, <em>doença</em>: com herança, <em>miseria</em>: +com padre, <em>morte</em>!</p> + +<p>Alguns, não sei porque,—pode ser que por fazerem o mesmo +acordados—sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, que +fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia libra, +Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo<span class="pn"><a +name="pag_177">{177}</a></span> mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel +Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a +alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada +n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que +torce sempre o nariz—limite de seu horisonte—a tudo que vae pelo +mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo +de Belvedere é <em>piteireiro</em>: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa +uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de +asperges!...</p> + +<p>Porque será que se sonha?! Chega<span class="pn"><a +name="pag_178">{178}</a></span> a parecer que a alma não está nas pessoas: que +está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da mão de +Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros +com menos á direcção que lhes é dada,—obedecer é ser virtuoso, e ser +criminoso é não querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque +Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:—qualquer brisa do ceu n'essa +occasião faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as +creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não +conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens<span class="pn"><a +name="pag_179">{179}</a></span> que não têem parentesco com as imagens e as +idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que fazem que a +gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!</p> + +<p>Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.—Que a +ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.—Outros +affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle não vem, +e certo está em o evitando;—principios um pouco alheios aos do Evangelho, +e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não batas e +abrir-te-hão!</p> + +<p>A maneira de dormir deve ter<span class="pn"><a +name="pag_180">{180}</a></span> n'isto influencia. Cama desengonçada e velha, +que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima +da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, saltando, roendo; depois, o +dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bruços... Como ha de ter sonhos +felizes e côr de rosa um estafermo n'essas condições?</p> + +<p>As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece +sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos +porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na +alcova fazem sonhar com morte ou com<span class="pn"><a +name="pag_181">{181}</a></span> casamento.—E crê-se entre nós firmemente +em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:—os +que costumam ser desgraçados, já se vê, que os felizes não tenham medo que a +attribuam nunca senão aos seus merecimentos!—E baralham tudo, o que +sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas, +febris; e queixam-se ora de visões, ora de insomnias:—e ás vezes, vae a +ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!</p> + +<p>Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das apparições +que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam,<span class="pn"><a +name="pag_182">{182}</a></span> e apreciam, e consultam-se gravemente de +janella para janella de saguão para saguão,—com mais cautela sempre em +esconderem o juizo do que a loucura!</p> + +<p>É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos +faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, merencorio +e fusco, <em>gatos pingados</em> por natureza! Os que não teem desgostos, +engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de +tormentos,—os sonhos. Em não havendo causas grandes, as pequenas nos +bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco de arvore, escorrega +n'uma casca de<span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span> +laranja,—e vae de ventas ao chão do mesmo modo.</p> + +<p>—Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!</p> + +<p>—Ai! Com cominhos!</p> + +<p>—São pragas! É praga que me rogaram.</p> + +<p>—Credo! É facil ser!</p> + +<p>E dá-se credito.</p> + +<p>Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de +polvora sem pegar fogo—estou que não acreditam ao ponto de se deixarem +ficar para assistir ao caso,—mas que sonhar com uma concha seja signal de +<em>perder o credito</em>, com um copo de agua de <em>prompto matrimonio</em>, +com damascos de <em>grande alegria</em>, com<span class="pn"><a +name="pag_184">{184}</a></span> guitarra <em>prazeres dispendiosos</em>, e com +papagaio <em>descoberta de um segredo</em>, quem se atreverá a pôl-o em +duvida?!</p> + +<p>Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,—por tal fórma os +males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles—como +succedeu ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi +pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou dal-a tal +qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa; +conforme m'a disseram, que não me custou pouco a conseguil-o:<span +class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span></p> + +<blockquote> + <p>«Gloriosa Santa Helena<br> + Filha da rainha Irena<br> + Moira foste, christã vos tornaste.<br> + Nas ondas do mar andaste,<br> + Com as onze mil virgens vos encontraste.<br> + Com ellas pão e queijo ceaste.<br> + Ao crucifixo vos encostaste<br> + Tres cravos que tinha lhe tiraste.</p> + + <p>O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o + ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o + terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo + cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é + como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos + verdejantes:—se assim não é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em + roupas sujas, casas negras e aguas turvas, <em>Amen</em>.»</p> +</blockquote> + +<p>Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a <em>rara avis</em><span +class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span> dos dormentes. A dormir fallam, a +dormir vão de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo +d'elles;—principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com +uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem +ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e +quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita +á cosinha—foi atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego +pela manhã lavar a loiça;—estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a +esposa limpou-os todos, depois engraixou<span class="pn"><a +name="pag_187">{187}</a></span> as botas do marido, e foi deitar-se outra vez. +Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se passara durante a noite; +unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.</p> + +<p>—Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!</p> + +<p>Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, +interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos acontecimentos +politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu a todas as intenções, +conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em si de contente. De uma +occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte pergunta:<span class="pn"><a +name="pag_188">{188}</a></span></p> + +<p>—Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?</p> + +<p>Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte—comprou o bilhete e +sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que +perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.</p> + +<p>De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... Constara-lhe +que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á noite +perguntou-lhe—quando ella estava a dormir, já se vê:</p> + +<p>—É verdade que tu andas de cabeça no ar?</p> + +<p>—Ando.</p> + +<p>—Por causa de quem?</p> + +<p>—Do primo José Maria.<span class="pn"><a +name="pag_189">{189}</a></span></p> + +<p>—É possivel! E porque é isso?</p> + +<p>—Porque elle é bonito, e tu és feio.</p> + +<p>Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.</p> + +<p>A grande preoccupação popular são os pesadelos,—sonhos negros, +carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça que +causámos.—-«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na +<em>Nova Castro</em>. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances +mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os primeiros +momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os chronistas +referem o caso de se haver D. Pedro I<span class="pn"><a +name="pag_190">{190}</a></span> levantado depois de morto, para confessar um +peccado que não tinha dito.</p> + +<p>Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, faz +sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos a dar +voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, reanimando-se as +lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas com os sons, e +acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a ver o que se ouve, n'um +nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que se vê!</p> + +<p>Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz—quando não se +possa sel-o de outra fórma. Sempre<span class="pn"><a +name="pag_191">{191}</a></span> são horas de ganho sobre os enfados e cruezas +da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se alcança. Só tem o +contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da Graça havia uma sepultura, +que os frades depois levaram para os claustros, que dizia assim: «Aqui jaz +Manuelinho, mercador, de 15 annos, que morreu espertando.»—É o perigo de +acordar. Acorda-se do sonho—e ás vezes da felicidade!<span class="pn"><a +name="pag_192">{192}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_193">{193}</a></span></p> + +<h2>XI</h2> + +<h2>Sinas</h2> + +<p>Portugal é a terra das sinas,—historias quentes e coloridas como o +paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... e as +grandes, ao pé do amigo lar.</p> + +<p>Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os +gatos): de 13 de fevereiro<span class="pn"><a name="pag_194">{194}</a></span> a +20 de março, nascem os que hão de ser gastronomos:—de 21 de março a 19 de +abril, os engenhosos e prudentes, com signal visivel no corpo e ameaçados pela +ferocidade de algum animal:—de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de +casar rico, dar uma grande queda (talvez essa!) e ser careca:—de 21 de +maio a 22 de junho, os de sentimentos humanitarios:—de 23 de junho a 22 +de julho, gente destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;—de 23 de +julho até 25 de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de +esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou aguas do +mar, felizes nos<span class="pn"><a name="pag_195">{195}</a></span> negocios, +achando algum thesouro escondido (o do Lavradio, por exemplo!):—de 24 de +agosto a 21 de setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós +toda a gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de +namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:—de 24 de agosto a 21 +de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos ruivos:—de +22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se emprehende, honradez, passar +melhor em terras estranhas do que na patria; mulheres elegantes com uma +queimadura n'um dos pés:—de 24 de outubro a 22 de novembro, teimosos, +inclinados á astrologia;<span class="pn"><a name="pag_196">{196}</a></span> +mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;—de 23 de novembro +a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á navegação; mulheres com +falta de cabello;—de 22 de dezembro a 20 de janeiro, genio iracundo, +mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco saudaveis; mulheres tafulas, que +hão de ser mordidas por algum bicho, brancas, de olhos castanhos, gostando de +bailes, tendo muitos namoros, quasi todos militares.</p> + +<p>Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;—tudo. +Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos succeder +depois de nascer...<span class="pn"><a name="pag_197">{197}</a></span> ou +antes. A mão o dirá. Na mão ha muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e +reconhece n'ella,—e já se vê que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:</p> + +<p>—Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!</p> + +<p>Ou:</p> + +<p>Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!</p> + +<p>Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:</p> + +<p>Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;—avareza, mão dura e +encarquilhada;—luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos +na base;—ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;—inveja, mãos +compridas e ossudas;—preguiça,<span class="pn"><a +name="pag_198">{198}</a></span> mão branda e macia:</p> + +<p>Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as linhas +confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão direita para +isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que isto não é mais uma +velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre a chamar as attenções e a +armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que logo pelo nome principia a +perder, coitada, a pobre mão <em>esquerda</em>!</p> + +<p>A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter +poesia se fosse dita e sentida<span class="pn"><a +name="pag_199">{199}</a></span> de outra fórma. Comprehende-se que quem estiver +cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações que o devoram, a +querer ler no firmamento. O astro de Saturno por exemplo tem o que quer que +seja de curioso na aureola que o cerca sem lhe tocar, diadema que não se lhe +segura na fronte; ha n'isso alguma coisa parecida com a esperança, nimbo de luz +que brilha no escuro das magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da +cabeça e afasta os raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle +annel não passa de ser mais um satelite—e a esperança é um dos nossos +tambem, nuvem de guarda<span class="pn"><a name="pag_200">{200}</a></span> que +nos vae consolando com as visões...</p> + +<p>A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de +cumprir-se,—apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se +gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque motivo se +deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para ir ter paixões +devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os defeitos, a quem em certa +maneira chega a odiar-se dentro do amor que se lhe tem?!</p> + +<p>É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem no +tronco centenario<span class="pn"><a name="pag_201">{201}</a></span> dos +chorões, e a era a abraçar-se aos muros negros e rachados? Não dizem que as +abelhas do Oriente gostam de ir fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não +se vê os passaros armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da +naturesa material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!</p> + +<p>Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de continuar +a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria das nações diz-lhe +que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais bonito que o braço seja; +que não basta a vaccina da infancia; que é util entregar-se,<span class="pn"><a +name="pag_202">{202}</a></span> termo medio, de sete em sete annos áquella +operação. Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã +Anna—sem ver apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi +tem de voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda +representação de vaccina:—trinta segundos; depois, já se vê, da meia hora +de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres borbulhinhas +vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha febre, ha tudo: d'esta +vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois annos tem bexigas. Diz o +povo:</p> + +<p>—Era a sua sina!<span class="pn"><a name="pag_203">{203}</a></span></p> + +<p>As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do fado +á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi sempre +fatidicos; lá se diz na <em>Chronica de D. Sebastião</em> por Fr. Bernardo da +Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado Madeira foi pelo mar +cantando á viola a el-rei um romance que dizia: «Hontem eras rei e hoje nem +casa tens», trova em que vinha saindo a sina, e que fez tal impressão nos +animos que logo se lhe disse que mudasse para outra mais alegre.</p> + +<p>Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe—nem pessoa nem bicho, +porque até os animaes teem<span class="pn"><a name="pag_204">{204}</a></span> a +sua sorte escripta:—a sina do porco, por exemplo, é ser comido! Ser +comido, haja o que houver; não serve para mais nada; o boi é para a lavoura, o +cavallo para a guerra, as aves para o ar: o porco é para a pucilga; as aves são +poeticas, o boi é laborioso, o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem +prestimo se não para o espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina +d'elle!</p> + +<p>Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, não ha +outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde zombar, póde não +crer;—a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, cassoista. Um +moço<span class="pn"><a name="pag_205">{205}</a></span> elegante e pallido que +durante um tempo foi grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, +fez um dia a côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que +ha memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;—o mancebo detestava as +mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que tão +peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder de esforços +conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe tres minutos, tres +minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua respeitosa adoração, quando +se ouviu bater á porta. O susto traz<span class="pn"><a +name="pag_206">{206}</a></span> complicações medonhas, e a senhora por não +saber o que fizesse—deixou-o esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso +homem das mãos grandes, conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e +poz-se a ler. O outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma +calça justa á perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma +bulha. O das mãos grandes, sempre lendo, disse:</p> + +<p>—Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, <em>tó</em>, +<em>tó</em>, anda cá tollo...</p> + +<p>E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...</p> + +<p>O outro lembrou-se que qualquer<span class="pn"><a +name="pag_207">{207}</a></span> suspeita n'aquellas alturas podia perdel-o; e +de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão phenomenal de que elle +tanto se rira sempre!...</p> + +<p>Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás +vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da vida o +amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma borboleta, está +feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá sempre tarde. Os poetas +podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é isto, simplesmente isto—uma +borboleta pregada, a querer fugir, a querer dar ás azas sem +poder—porque,<span class="pn"><a name="pag_208">{208}</a></span> de cada +vez que as quer librar, alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!</p> + +<p>A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a +<em>buena-dicha</em>. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a +assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e +escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de rumo +se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle mensageiro da +primavera que annuncia as folhas—e dizem que annuncia tambem outras +coisas,—canto um pouco extravagante, canto de duas notas, o canto do +cuco!<span class="pn"><a name="pag_209">{209}</a></span></p> + +<p>A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de +<em>D. Branca</em>:</p> + +<blockquote> + <p> Por onde o traz seu fado?<br> + Oh! negra sina entrou n'essa familia...</p> +</blockquote> + +<p>Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de ser; +por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força alguma; +nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para ricos, aquelles +para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, e que não podem deixar +de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um freguez, que a unica coisa +que<span class="pn"><a name="pag_210">{210}</a></span> não furtava era a má +fama que tinha. Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O +Simão tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão +obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez quando +o homem pediu a conta teve o gosto de ler:—«Pratos 800 réis.»</p> + +<p>—Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta?</p> + +<p>—Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado.</p> + +<p>A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os +cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz sempre +justiça, e apesar<span class="pn"><a name="pag_211">{211}</a></span> de +destruir, por maiores que sejam, os monumentos, apesar de arrasar thronos e +imperios, respeita certos nomes e conserva-os levantados como pharoes no +horisonte da historia e do pensamento. A felicidade não póde estar senão em se +ser gente de bem. Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio +fadista a que se chame <em>sina</em>, parece-me uma impiedade e uma +tolice!<span class="pn"><a name="pag_212">{212}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_213">{213}</a></span></p> + +<h2>XII</h2> + +<h2>Coisa má</h2> + +<p>«Coisa má!»</p> + +<p>«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser preferivel á +ruindade humana;—que mais vale dar uma topada ou uma canellada do que +encontrar certas caras!</p> + +<p>«Coisa má» é a lua de março;<span class="pn"><a +name="pag_214">{214}</a></span> a lua marcina, como lhe chamam no +campo—que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não +passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e não +produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de varzea; coisa má +é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que passasse tres vezes o +Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram sem que recebessem cinco réis +em troca...</p> + +<p>Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, +armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não ha +objecto que não<span class="pn"><a name="pag_215">{215}</a></span> tenha +morador, que não tenha inquilino, que não tenha «coisa má» em si; espiritos +malignos que espreitam pelos poros com o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á +alegria em que uma pessoa esteja e rompem em risota perante as maguas que nos +pesam... Demonios hostis, pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça +de nos pregar peça...</p> + +<p>Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente—que nem que fosse +um cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo chapeu +novo, é sabido que ha de chover.—Fato que se vista pela primeira vez, não +deita ao sol posto sem lhe succeder<span class="pn"><a +name="pag_216">{216}</a></span> precalço; anda um homem com calafrios na golla, +e acrescimos nas abas, passam pressentimentos nas pernas, e apertam-se as +fivellas com susto do que se está passando...</p> + +<p>Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, capote +das rapaziadas e das aventuras,—que de extensas marchas na estrada da +vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos sabem do feitio, e que +se ageitam bem ao corpo.</p> + +<p>Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde te +porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de fresco, lá +ha de vir caso urgente que leve uma pessoa<span class="pn"><a +name="pag_217">{217}</a></span> a ir por ali roçar-se e arranjar divisas na +manga como um sargento; ou um diabrete de algum preguito que tenha estado annos +n'aquella umbreira sem fazer mal a ninguem, até que nos apanhe com um farpão +formidavel!</p> + +<p>Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do +trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo á +porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,—ou, o que ainda +é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por não ter comsigo +a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites sem graça e sem gosto, +quasi sempre<span class="pn"><a name="pag_218">{218}</a></span> a chover, e o +pobre diabo a vagabundar e a ir bater quem sabe onde!?</p> + +<p>Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do +trinco—não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo +preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e toca a +procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, até que vão +achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta!</p> + +<p>Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil +historias de «coisa má,»—poços que atiram para fóra com o que se lhes +deita; hervas de maleficio<span class="pn"><a name="pag_219">{219}</a></span> +que se mettem de proposito debaixo dos pés da gente, pedregulhos em que mora +ferrabraz, satanaz, caiphaz...</p> + +<p>Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz e +influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de inquietações, +a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... Por isso faziam bem +os egypcios,—nunca houve povo com mais juizo!—que cortavam as +curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite origem de tudo +quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. Armar em dogma e em +artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, e<span class="pn"><a +name="pag_220">{220}</a></span> adoral-a por não saber que explicação lhe +dar.</p> + +<p>Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que +havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos principios +do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no poema da +<em>Monocléa</em>; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e zanagas, e em +que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da sua gloria:</p> + +<blockquote> + <p>De um olho claudicava de tal arte<br> + Que celebre se fez em toda a parte.</p> +</blockquote> + +<p>Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um agiota,<span +class="pn"><a name="pag_221">{221}</a></span> sempre certo no Terreiro do Paço, +da uma hora ás tres, debaixo da arcada, emprestava dinheiro—n'uns tempos +de crise politica e financeira, de que o paiz ficou guardando má +lembrança—a 9 por cento.</p> + +<p>Dizia-lhe um amigo:</p> + +<p>—Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus +vê tudo, e estou que não te perdôa essa!</p> + +<p>—Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá +de cima parece um 6.</p> + +<p>Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em que as +contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series;<span class="pn"><a +name="pag_222">{222}</a></span> desde o saltar da cama até ao deitar á noite +como que se vae caindo de barranco em barranco; parece estar-se destinado como +o Sybarita a que até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para +nos sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto do +torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz carta ou traz +más novas;—sae-se para a rua sem haver escovado o fato;—as pessoas +a quem se procura, em morando alto não estão em casa;—ao voltar da +esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar castanhas, e entorna por +cima da gente o copo que tem na<span class="pn"><a +name="pag_223">{223}</a></span> mão;—é n'esse dia quasi sempre que um +homem se constipa, rompe a espirrar duas horas, e fica sem o botão do +collarinho...</p> + +<p>Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series como o +povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não chegam mais dois; +tres é o numero.—Decorrem dias, semanas, mezes, sem haver incendio; mas, +em tocando a fogo, dizem que é certo não parar n'aquelle, e os gallegos ficam +logo de pé no ar para irem buscar outra vez a bomba.</p> + +<p>É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha aqui a +tudo que seja casos<span class="pn"><a name="pag_224">{224}</a></span> +sombrios, dias nefastos, e cousas relamborias. É sabido! Precisamos +absolutamente de tudo que for mofino e tetrico. Indifferentes, preguiçosos, +desenchabidos, de tudo isto nos consolamos com tanto que venha de tempos a +tempos alguma celebreira carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou +de Castilho é raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar +entre a pera e o queijo o fado de João Brandão!</p> + +<p>Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa tem +por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, muito melhor +que n'outras, n'uma certa; ha um recanto<span class="pn"><a +name="pag_225">{225}</a></span> do jardim, que cheira mil vezes bem depois +d'estes chuviscos do outomno, e onde a gente gosta de estar ao cair da tarde +espreitando o ceu por entre a rama das arvores;—ha até simples objectos, +coisitas de nada, que exercem attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... +Mas lá está, lá está no fundo a coisa má;—e esses objectos a que mais se +quer serão os que hão de perder-se mais depressa,—e os sitios queridos, a +casa, o quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo +contra vontade!</p> + +<p>E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»—o amor, a formosura, a +mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas<span class="pn"><a +name="pag_226">{226}</a></span> melhores que ha; e tambem as que mais depressa +fogem,—que até têem azas como os anjos, e voam como as andorinhas!</p> + +<p>Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e +chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem sabia +fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o estudar fazia +mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim desgraçado de homens +notaveis,—Euripides despedaçado por uma matilha de cães, Cicero degolado, +Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a mercador, outro a cadete,<span +class="pn"><a name="pag_227">{227}</a></span> o mais gordinho ia para padre. Em +todo o caso—nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz:</p> + +<p>—É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem +que falla francez!</p> + +<p>—Sério? perguntavam todos.</p> + +<p>—Ha quem o ouvisse.</p> + +<p>Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta quando +appareceram os primeiros em Lisboa.</p> + +<p>—É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos...</p> + +<p>—Sim, sim.</p> + +<p>—Deixa andar a mãe a pedir esmola...</p> + +<p>—Sim senhor.</p> + +<p>—Até anda de chale-manta!<span class="pn"><a +name="pag_228">{228}</a></span></p> + +<p>—O quê?!</p> + +<p>—Palavra de honra.</p> + +<p>Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha «coisa +má»—e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já ouvi contar +de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da sorte e por saber os +perigos que resultam das cartas de amores—sempre que escrevia alguma +punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se alguem de casa lh'a apanhasse, +pudesse a obra passar por brincadeira. A mania de se julgar perseguido pela +sorte é uma loucura como outra qualquer, muito frequente em Portugal e tanto +mais<span class="pn"><a name="pag_229">{229}</a></span> perigosa que se +manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae azedando o +genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado de ferocidade que +póde dar com um homem em doido furioso.</p> + +<p>«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a +quem; querer remar e não ter braços. O <em>politicão</em> que passa a vida a +recusar pastas que não lhe offerecem—diz que o paiz tem «coisa má;» o +beberrão que troca as pernas—accusa de ter «coisa má» o vinho de mais que +bebeu.</p> + +<p>«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não +tem!...<span class="pn"><a name="pag_230">{230}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_231">{231}</a></span></p> + +<h2>XIII</h2> + +<h2>As mulheres de virtude</h2> + +<p>O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e de +vista—apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a que +horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca quando recolhe. +Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a dignar-se<span class="pn"><a +name="pag_232">{232}</a></span> sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão +em signal de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma +pessoa não os traz comsigo... nem com outro—a marota da felicidade +volta-lhe as costas e dá ás de Villa Diogo!</p> + +<p>De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores para a +quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude na vespera de +nos dar a riqueza, como succedeu lá ao</p> + +<blockquote> + <p> <em>Pero Pico<br> + que viveu pouco e pobre<br> + e finou rico!</em></p> +</blockquote> + +<p>As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a<span +class="pn"><a name="pag_233">{233}</a></span> vida seja isto e porfiam em +comprar a sorte a retalho, nas cartas e em philtros, ás <em>mulheres de +virtude</em>. As <em>mulheres de virtude</em> são as <em>chirogromanas</em>, as +<em>chiromantes</em>, as <em>cartemantes</em> de Portugal. As crendices +populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da melhor as vae +consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem elixires para attrair o +amor e artificios para encantar; e sabem das cartas tudo que vae pelo mundo.</p> + +<p>Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas +<em>mulheres de virtude</em>, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam +de uma casa na rua dos Correeiros, onde<span class="pn"><a +name="pag_234">{234}</a></span> tinham ido exercer as ladras funcções da sua +industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas onde entravam. Haviam roubado +quatrocentos e tantos mil réis, além de roupas a titulo de serem lavadas em +agua benta. Vendiam frasquinhos com liquidos especiaes para conservar o amor, e +ensinavam ás mulheres casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para +elles nunca se enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim +molhado n'um cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o +policia, esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas +ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á<span class="pn"><a +name="pag_235">{235}</a></span> meia noite de sexta feira em que fosse lua +nova.</p> + +<p>As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem condemnadas +pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas no lar domestico, +creadas na solidão—mais profunda sempre que a do homem, que se distrae +alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. Depois, e isto em qualquer paiz, a +faculdade mais desenvolvida nas mulheres não costuma ser a logica; em desejando +uma coisa, já lhes parece justa; em a receando, já se lhes figura +provavel:—acreditam todas na fatalidade—e a fatalidade é a mãe da +bruxaria.<span class="pn"><a name="pag_236">{236}</a></span></p> + +<p>Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que lhes +ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma escada que +range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela senhora fulana, a +senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha com bigodes, ou uma +grande verruga no queixo, que traz para ali um pires com agua e a lamparina da +noite com azeite, resa um credo em cruz em cima do pires que tem agua, e molha +no azeite o dedo minimo da pessoa, dizendo tres vezes o nome d'ella e +resando:<span class="pn"><a name="pag_237">{237}</a></span></p> + +<blockquote> + <p> <em>Deus te fez,<br> + Deus te creou,<br> + Deus te desolhe<br> + De quem mal te olhou.<br> + Se é torto ou excommungado,<br> + Deus te desolhe do seu mal olhado.</em></p> +</blockquote> + +<p>Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a +cliente,—fregueza, victima,—assustando-a com a vista, com os modos, +vão resmungando de fórma que mal se perceba—«Sant'Anna teve a Virgem, a +Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal +olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, não +tem—e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer +obstaculos,<span class="pn"><a name="pag_238">{238}</a></span> descobrir de +onde vem o mal e acabar com elle;—quer dizer que cumpre principiar a +mugir o caso e a roubar dinheiro á consultante. Precisam um dia de uma coisa, +no outro dia de outra. Hoje um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte +de seda preta para fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma +promessa...—Sei tudo isto por uma mulher que esteve como criada em casa +de uma d'ellas.</p> + +<p>Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, +vellas de cêra, e—como diz o povo—<em>para compôr</em>, um pouco de +cabello. O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello<span +class="pn"><a name="pag_239">{239}</a></span> dá amor, lembrança, consolação; o +cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. Havia um homem em Alcantara que +morreu velhissimo, que levava sempre o amor conjugal a limites extremos—o +que não o impediu de casar por duas vezes. Tinha o vicio das mulheres de +virtude, e ellas aconselharam-lhe por tal fórma o ter cabello da pessoa amada +que o homem resolveu—para conservar sempre fresca e amorosa a lembrança +das duas mulheres que haviam feito a felicidade da sua +existencia—aproveitar as tranças de cabellos que lhes tinha cortado +piedosa e successivamente quando tivera a desgraça de as perder, e<span +class="pn"><a name="pag_240">{240}</a></span> mandar fazer daquillo um chinó. +Cobria o topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma +côr—mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem +nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de virtude!...</p> + +<p>Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,—mas que só dá +por isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem +soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite correndo e +saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, logo que digam a +sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: «Vôa,<span class="pn"><a +name="pag_241">{241}</a></span> vôa, por cima de toda a folha!» O marido de +uma, que não sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta +noite, espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a +resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o espaço por +ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou de dizer a +oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima de toda a folha!» +disse:—«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» Sentiu-se levado por força +occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a rasgar-se, por baixo das arvores +e por baixo dos silvados...<span class="pn"><a +name="pag_242">{242}</a></span></p> + +<p>Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a si +proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas lhe estão +chupando o sangue—accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me que a boa +bruxa é a de nascença, e não a que aprende.</p> + +<p>Ora as <em>mulheres de virtude</em> são bruxas que aprendem. Vae aquella +arte de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás +vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: até se +lhes chama <em>sabias</em>. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir seres +privilegiados para a instruirem, quer<span class="pn"><a +name="pag_243">{243}</a></span> queira, quer não; a sibylla de Gumas, Orpheo, +Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na cara do sujeito, ou no Gall, +capaz de cortar o cabello á escovinha ao genero humano para lhe apalpar melhor +as bossas. De tudo isto a <em>mulher de virtude</em> é o que tem havido +melhor!</p> + +<p>Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. Dilata-se-lhes a +palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, dão á cabeça, batem o pé +no chão, guincham, resam, praguejam, misturam nomes de santos e nomes de +bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e choram... A pessoa que as consulta, +senhora quasi sempre, estremece<span class="pn"><a +name="pag_244">{244}</a></span> com aquelle olhar de fascinação, com aquellas +palavras de sortilegio... Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como +se fossem animados; ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é +como se a dama piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de +espadas tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como +que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de contente, +hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as cartas... E como se o +espirito da verdade fallando pela boca d'ella estivesse a patentear o quadro +das vicissitudes da vida intima, apalpando<span class="pn"><a +name="pag_245">{245}</a></span> o presente, avistando o futuro... O valete de +ouros é o <em>amante</em>, o cinco de copas são <em>lagrimas</em>, o az de paus +<em>fandangos</em> (amores), sete d'espadas <em>desgosto formal</em>, az de +ouros <em>prenda</em>, tres de copas <em>com certeza</em>, dois de paus <em>a +caminho</em>, quatro de paus <em>prisão</em>, e a espadilha +<em>affirma</em>!</p> + +<p>É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma +estupidez—é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de +casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!</p> + +<p>Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a inquietação, a +angustia, as noites raladas<span class="pn"><a name="pag_246">{246}</a></span> +de ciume, de despeito e de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade +em tudo—na mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira +côxa, nas rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no +fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, no galo +grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e clara d'ovo, no +sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de alecrim, no espelho, na +thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no palavrorio de resa que precede o +<em>botar a falla</em>:—Credo—cruzes—canhoto—temos +bruxaria—saramago—mostarda—alho<span class="pn"><a +name="pag_247">{247}</a></span> e arruda—maravalhas e palhas de alhos!</p> + +<p>Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia na +gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do acaso, +saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os conventos, casas +por excellencia para a indole sombria que temos. Todas essas allucinações de +que lhes tenho fallado, <em>telha</em>, <em>enguiços</em>, <em>encantos</em>, +<em>agouros</em>, <em>feitiços</em>, <em>sonhos</em>, <em>sinas</em>, <em>coisa +má</em>, provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas +<em>mulheres de virtude</em>. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é +crer; crer no renascer das folhas; na<span class="pn"><a +name="pag_248">{248}</a></span> volta da quadra florida; crer que a dor não é +sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas que saram. A +fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a chegar-se á alma. Toda a +nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão em duas coisas,—em +enguiços e em economias! O mesmo <em>deficit</em> de que tanto por ahi se +falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim somos. Enguiços e +economias! Tristes e pobres;—duas vezes tristes!</p> + +<p class="centrado">FIM</p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_249">{249}</a></span></p> +</div> + +<table border="0" align="center" summary="Indice"> + <tbody> +<tr><th colspan="3">INDICE DOS CAPITULOS</th></tr> + <tr> + <td> </td> + <td> </td> + <td style="text-align:right;"><small>PAG.</small></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">I</td> + <td>—Os doidos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_5">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">II</td> + <td>—As doidas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_23">23</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">III</td> + <td>—Os idiotas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_41">41</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IV</td> + <td>—Os furiosos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_59">59</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">V</td> + <td>—Telha</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_77">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VI</td> + <td>—Enguiços</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_97">97</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VII</td> + <td>—Agouros</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_117">117</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">VIII</td> + <td>—Feitiços</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_135">135</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">IX</td> + <td>—Encantos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_155">155</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">X</td> + <td>—Sonhos</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_175">175</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XI</td> + <td>—Sinas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_193">193</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XII</td> + <td>—Coisa má</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_213">213</a></td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align:right;">XIII</td> + <td>—As mulheres de virtude</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pag_231">231</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + +***** This file should be named 34275-h.htm or 34275-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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