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diff --git a/34275-8.txt b/34275-8.txt new file mode 100644 index 0000000..ac4cbbb --- /dev/null +++ b/34275-8.txt @@ -0,0 +1,3061 @@ +The Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Da Loucura e das Manias em Portugal + +Author: Júlio César Machado + +Release Date: November 11, 2010 [EBook #34275] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +DA + +LOUCURA EM PORTUGAL + + + + +Lallement frères, Typ. Lisboa, 1871 + + + + + DA LOUCURA + + E DAS + + MANIAS EM PORTUGAL + + ESTUDOS HUMORISTICOS + + POR + + JULIO CESAR MACHADO + + + + + LISBOA + LIVRARIA DE A. M. PEREIRA--Editor + 50--Rua Augusta--51 + 1871 + + + + +RILHAFOLES + + + + +I + +Os doidos + + +Tudo é alegre, á entrada: flores e arvores. D'ali a nada,--da porta para +dentro parece já que passou o outomno por cima da primavera d'aquelle +jardim!... Apagam-se as côres, escurece o céo, ouve-se estalar a casca +das arvores... Principiam as physionomias a transtornar-se; já os olhos +não são outra cousa senão buracos luzidios; cavam-se as faces, +parecem caretas os sorrisos, não teem os gestos significação, as feições +são vagas, a fórma tem contornos indecisos; tudo são personalidades +phantasticas, existencias ficticias; linguagem que não se entende; gente +estranha, que dá idéa dos habitantes da lua!... + +Alguns dançam, e cantam; e passa a tristeza n'aquella alegria, e +transpõem-se effeitos de claro escuro na musica e na voz delles, +envolvendo-lhes a idéa como n'um crepusculo!... Parece que se estão +avistando ali as visões de Swedenborg, aquelles espiritos do ar que +conversavam uns com os outros e que se entendiam pelo piscar dos +olhos... Como essas taes conversas no fundo das nuvens, assim é desusado +e insolito quanto por lá se ouve! + +Ás vezes chega a parecer-nos que é natural tudo aquillo; que o ser como +nós somos e portar-se como nos portamos--é ser affectado, é ser pedante; +que assim como na natureza tanto ha sensitivas como ha cevada e centeio, +assim deve haver nas creaturas sentimentos complexos que a linguagem +vulgar não poderia dar; que são elles quem tem juizo; melhor do que +juizo, talento: a finura, o guindado, a quinta essencia do espirito; que +em nós ha simplesmente mudança de convenções; que elles estão mais perto +do estado natural; que tudo vae da maneira de ver as cousas e de as +julgar; da opinião dos homens e do genio e moda dos tempos; que tambem o +amor já foi outro quando inspirava as filhas dos patriarchas a dar de +beber aos pastores; e depois, na Illiada, quando levava Helena ao leito +nupcial de Páris; na Grecia, creança a quem ensinavam gracinhas +anacreonticas; ébrio, nas orgias de Roma; na idade media, fada, +estrella, anjo; mais tarde tendo azas como os desejos; e sendo hoje um +casamento commercial, um dote de noiva, cem contos de réis em +inscripções!... + +Assim chega a pensar-se ali, que a vida, que é um entrudo, tambem +varíe de mascaras, de modas, de elegancia e de fallas; e que o estylo +dos pobresinhos doidos, comquanto diverso do dos tempos em que vamos de +tanto tino e conceito, seja talvez mais subtil, mais colorido, e mais +exacto!... + +Ha ali, hoje, quinhentos e onze d'esses infelizes; duzentas e cincoenta +e sete mulheres, duzentos e cincoenta e quatro homens; tres creanças +idiotas. Quando o marechal Saldanha fundou este hospital em 1850 o +numero dos alienados era de trezentos; ultimamente tem crescido por +fórma que foi preciso augmental-o, acrescentar um pavimento, e annexar o +edificio de recolhidas na travessa de S. Bernardino, onde vão +pernoitar cem dos tranquillos e invalidos. Ha pensionistas e indigentes. +Os pensionistas dividem-se em quatro classes: e pagam, conforme as +commodidades e o numero de enfermeiros que requerem, 800 réis, 480 réis, +ou 240 réis por dia, tendo os seus quartos em repartição separada; os da +1.ª, 2.ª e 3.ª no mesmo pavimento; os da 4.ª em sala commum. + +Os doentes entram ali por ordem da auctoridade publica, ou a +requerimento de particular,--com attestado do medico, auto de +investigação, e, se são pobres, certidão do parocho,--e ficam quinze +dias em observação; findos elles, ou a doença não se verifica e são +immediatamente despedidos, ou, verificada a alienação, colloca-se o +doente na repartição que o director lhe destina, e segue o tratamento. + +O tratamento! Isto é,--o estudo, a observação constante, as +experiencias, mil tentativas, o diligenciar permanente de chamar á razão +e ao sentimento das cousas aquellas pobres cabeças cançadas de sonhos, +de lutas, de prazer ás vezes, de amarguras, de esperanças, de +enganos!... Vêl-os como medico, como philosopho, e como +moralista,--unica maneira de poder assenhorear-se-lhe dos segredos. São +doidos; mas de onde provém cada uma d'aquellas loucuras,--a de um, que +nunca perde a pista do caracter que tem, e em tudo que diz e no que +faz vae de accordo sempre com a sua mania; a do outro que não póde +juntar idéas; a d'aquelle, que conserva a lembrança do que fez durante +os accessos, e pede depois desculpa brandamente, humildemente; a d'este, +que perdeu de todo a memoria; a d'aquell'outro, que a conserva de tudo, +excepto de logares, ou de datas!? + +Ah! É preciso vêl-os, por aquelles corredores interminaveis e +singularmente alegres, em que a luz entra por todos os lados, e a cada +passo por alguma janella se avistam campos e se descobre a cidade; é +preciso vêl-os nos vae-vens de uma carreira e de uma fallacia, que +não cança nunca, para um lado, para o outro, d'aqui, d'além, accionando, +gritando, fallando--este a si mesmo, aquelle a ninguem, um á parede, +outro ao céo!... Reis, sabios, escriptores, millionarios, todas as +ambições, todos os orgulhos, todas as preoccupações, todas as vaidades. +Lá vi um poeta; mostrou-me os seus ultimos versos, que se intitulam: + + «Elogio + á exma. sra. D. L. de S. F. + no dia natalicio de seu nascimento + dividido em tres partes. + Passado, presente e futuro.» + +Um jornalista deu-me o programma do seu jornal novo: + + «_Grande globo + do + Grande enredo_ + + Jornal das mentiras purificadas + e saidas do funil + estampadas calligraphicamente em + papel, respeitando + as dignissimas auctoridades.» + +Alguns têem grande habilidade, habilidade util e séria, são pintores, +trabalham nas officinas, e fazem os differentes serviços do hospital, +dos banhos, e da quinta. Á entrada, entre o gabinete do director e a +secretaria, está logo a primeira aptidão aproveitada,--o continuo, que é +um doido! Leva papeis, traz papeis, dá recados; está ali a toda a +hora, desempenha perfeitamente, e não ganha nada.--Que lição... a +continuos!... + +Por isso, quando se chega ali e a gente o vê, aquelle curioso porteiro, +homem forte e sizudo, com o seu fatinho de briche,--todo grave, cortez, +benevolo--não deixa de vir á idéa que, se lhe der na vineta, elle póde +abrir a porta para se entrar... e não a querer abrir depois para se +sair; e vae uma pessoa lembrando-se mesmo sem querer do caso do +carvoeiro... O carvoeiro tinha lá ido para tratar de negocio, e foi +entrando por ali dentro até o apanhar um guarda que o tomou por hospede +novo, a quem se devia dar um banho, como é costume quando para ali +entram. + +--Vamos ao banho, vamos! dizia o guarda. + +--Qual banho?! retorquia o carvoeiro pasmado. + +--É muito bom. Para se ficar limpinho. Vá, vá! + +--_Num quero_, dizia o carvoeiro. _Leba de xalaxas! Nunca tomei banhos +na minha bida! Arreda para lá!_ + +--É uma ceremonia, replicava o guarda; só uma ceremonia. É optimo para a +saude, e de grande aceio. + +O carvoeiro, como viu que instavam tanto, consentiu por fim em tomar o +seu banhosito n'uma d'aquellas magnificas tinas de marmore, admirado +ao mesmo tempo de tantas attenções que tinham com elle n'este +estabelecimento do estado. + +Vestiu-se depois outra vez, muito fresco, e quiz sair. Mas, sair querem +elles todos e não se ouve por lá outra cousa. + +--Ámanhã, disse-lhe o guarda. + +--Ámanhã!?! redarguiu o homem. + +--Sim proseguiu o guarda! habituado áquellas exigencias e provido sempre +de paciencia e de fallas dôces para se entender com os enfermos. Ámanhã, +quando o sr. director passar a visita, provavelmente dá-lhe alta, e vae +vocemecê passear. + +--_Paxar a bixita!_ uivou o carvoeiro. _Eu n'um estou doido, démo!_ + +E ahi se zangava, e ahi gritava, e quanto mais se agitava mais o tomavam +pelo... que não era,--até que chegou o fiscal que esclareceu o caso e o +mandou para a rua, mudado tambem--como aquelles seus compatriotas do +poço, de quem já de uma vez contei a historia,--porque tambem tinha... +lavado a cara! + +A casa é triste; não poderia deixar de sêl-o, porque a imaginação vê +sempre em Rilhafolles o _lasciate ogni speranza_, um beco sem saida, o +mais fatal dos carceres, e cuida sempre ouvir os gritos dos furiosos e o +chicote dos enfermeiros... Entretanto ella é o menos triste que uma +casa d'essas póde ser, pelas condições especiaes em que está collocada, +o ar e a luz, e tambem pela dedicação notavel do director o sr. +Guilherme Abranches, e pela escrupulosa diligencia dos empregados. É +preciso ver com que methodo, com que bondade affavel, com que resignado +carinho são ali tratados aquelles infelizes; conhecem-o quasi todos +elles, dizem-o, disseram-m'o a mim uns poucos. + +E todavia que balburdia, que capharnaum! Em todo o comprimento de um +corredor gira impaciente um ambicioso que quer ser deputado, que se +propõe em todas as legislaturas, e anda constantemente a ensaiar +discursos.--Um, que nos diz que é coronel, e d'ali a nada que é +marechal, e um instante depois que é elle o proprio marechal Saldanha, +conta-nos os seus feitos d'armas da vespera e do dia.--Um piloto da +barra, que entrou esta semana, mergulha nas lembranças do mar e cae +n'uma melancolia profunda.--Um, que foi porteiro do sr. barão de Santos, +conta como foi que endoideceu, e é a verdade: indo a Loures enterrar +junto de uma arvore duzentos mil réis de economias, e achando-se depois +roubado.--Um moço, filho de gente pobre, entretem-se em cobrir cartões +do chamado _jogo da gloria_, e manda ao pae o dinheiro que ganha n'isso. +Um mathematico, bom latinista, que tem o curso do seminario de Santarem, +enche o quarto de papelada e a papelada de calculos:--«Diga-me, +pergunta-lhe o director, o senhor já prégava lá no seminario?»--«Pois +está visto, responde elle; como prégo aqui; a mesma coisa.»--Um, alegre +e risonho, philosopho sem o cuidar, coração que ainda não saiu da +infancia, nascido para ser alvo de qualquer ajuntamento, mostra-nos por +uma janella os campos, os cabeços virentes, os seus palacios, e algum +particular gracioso e ainda não observado d'aquelles sitios que todos +lhe pertencem.--Outro vae-se comsigo só pousar a um canto.--O famoso +Bertholo do Cadaval, que uma noite com uma faca na mão poz em susto a +villa inteira, conserva-se de collete de forças, pallido e sinistro, com +vontade sempre de matar alguem. + +E riem-se uns dos outros; e uns dos outros me dizem ao ouvido de +passagem, quando me vêem tomar apontamentos: + +--Não faça caso, não escreva o que elles dizem; são doidos!... + + + + +II + +As doidas + + +N'um comprido corredor com quartos de um lado e outro encontram-se +primeiro as que ainda têem alguem n'este mundo; as que não estão +abandonadas de todo pela sorte á hediondez da sua desgraça, e a quem a +familia, ou algum parente, paga o quarto em que vivem. Essas são as +felizes; ainda têem lá de vez em quando quem as visite, quem lhes +leve algum presentinho, quem lhes dê um dinheirito qualquer para +apetites--comprar marmelada quasi sempre. São as felizes, essas; são as +fidalgas,--_as fidalgas de Rilhafolles!..._ + +Passam n'aquelle corredor enorme--que o espectaculo monstruoso d'ellas +torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras +fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, +entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas +ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente. + +Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer +com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver +n'elle nada de novo--grito melancholico, que tem atravessado as edades; +idéa triste e fria. + +Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma +chimera,--coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi +tudo,--odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha +nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, +como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das +forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos +espiritos. + +Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de +alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é +risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a +d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha +outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem +era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella +dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas +caixinhas,--tão fechadas que ninguem as podia abrir,--que os pescadores +das _Mil e uma noites_ achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas +fendas! + +A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, +deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: +reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, +pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, +compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de +réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras +tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue +apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de +fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações +colossaes como as que a terra produzia quando era nova e que +absorviam em si umas poucas de existencias!... + +As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver +visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e +continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel +ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se +tambem serão...--se as doentes tambem serão enfermeiras? + +Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra +doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas +essas empregadas, e corrigem um pouco pela sua presença a impressão +penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro. + +As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do +director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já... + +--Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã. + +E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:--Ámanhã! + +Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz +senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e +ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, +tranquillamente, prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite, +a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura! + +Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está +sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa +de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam +contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua +adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás +solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, +por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á +janella a olhar para os campos e a farejar tormenta em tudo--no +voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter +conhecido a vida, á sua custa;--a peor maneira de conhecer as coisas. Ás +vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem +apanha; previnem-me disto. + +Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e +papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da +campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem +a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido +de cauda grande, quer ver-se nos espelhos, quer que a achem galante, +que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de +tal, que tambem deu uma _soirée_ onde estava a primeira sociedade, que a +sua _toilette_ era primorosa, que está já em vesperas de partir para o +campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa +comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os +anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a +manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os +_Lanceiros_, faz-nos a cortezia. + +Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um quarto +onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer _crochet_. Olha +para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo +isso, pergunta-lhe se me conhece. + +--Parece-me que conheço, responde ella. + +O director diz-lhe o meu nome. + +--É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro. + +É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez +d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,--o +chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos +fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem baixo, +vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta, +tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do +meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido +um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;--era o +pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com +difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o +verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes +depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!... + +A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave e +resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de +tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar +como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e +cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, +euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras +baralham tudo: + + Amei, infanta e leda como a aurora + Dos sonhos d'esse infante adormecido; + Ao rei o teu gemido, o teu trovar, + Ao throno o teu sondar encanecido. + + Harpejo d'alma, lhana, feiticeira, + Gotejo em teu rollar mil alegrias, + E colho em cada nota que desfiro + Insomnias do porvir, crueis magias. + +Felizmente ellas não teem a consciencia da miseria humana que as esmaga; +e vão vivendo, vivendo até chegarem a velhas, algumas. + +A que, de todas, me produziu mais viva impressão foi uma formosa +rapariga que não quer fallar, e que tem levado a teima por diante +atravez de todas as diligencias. Estava n'uma das salas, agachada a um +canto; parecendo não reparar no que se passava em redor d'ella, de olhos +no chão, com a cabeça encostada ás mãos, ar de recolhimento profundo e +invencivel. É o primeiro exemplo de mutismo por teima que tenho visto; e +irreflectidamente, insensivelmente, disse-lhe não sei o quê na esperança +de que ella responderia. O director, que se prestou com a mais +amavel paciencia a todas as minhas curiosidades, disse-lhe: + +--Vamos; levante-se; estão fallando comsigo! + +Ella poz-se de pé. É uma rapariga alta, bem feita, de cabeça lindissima, +a mais bonita cabeça de mulher que se póde vêr, brilhante, inspirada, +olhos grandes e melancholicos resguardados por longas pestanas, cabello +negro e farto, feições accentuadas, expressão dominadora; certa graça +aspera; o que quer que seja de caça brava; a bellesa crua, como fructa +verde; uma formosura dos montes e das serras, ardente e pittoresca! + +Teem sido baldadas quantas tentativas se teem feito para alcançar d'ella +que se resolva a fallar. Ultimamente o director recorreu aos banhos +fortes; e havia já conseguido, na vespera exactamente do dia em que lá +estive, que, ao sobresaltar-se com o calor da agua, ella dissesse: «Ai +Jesus»! Taes são as duas unicas palavras que essa pobre creatura tem +dado desde que ha uns poucos de mezes para ali entrou; um «ai», e o nome +por excellencia, o nome divino, que diz todas as agonias e todas as +esperanças, emblema da humanidade e symbolo de todos os emblemas que a +alumiam: = Jesus!... + +Havia já tres horas que andavamos por aquelles corredores e por +aquellas salas; e, ao descer uma das escadas, suppondo que iamos sair +não pude deixar de dizer ao sr. dr. Abranches: + +--Emfim! + +Mas o director sorriu-se, e retrocou: + +--Falta-lhe ver os idiotas. + + + + +III + +Os idiotas + + +Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa +confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos +empregados de Rilhafolles,--é inevitavel o olhar, de quando em quando, +como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de nos +formar sequito, com um molho de chaves na mão. + +Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e +dotados de inexhaurivel fonte de branduras--estou persuadido; mas dão ás +vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como +piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, +mas que o sentimento febril de terror--que invencivelmente se apodera de +quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá--transforma em +indicios de uma perfidia atroz! + +Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns +corredores que se me figuraram mais escuros, e descemos por uma +escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava +tempo a pensar,--um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de +corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões +pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos +de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e +serpentes;--lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos +dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá... + +Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes +que me olhava elle tambem de soslaio. É o terror, horror, pavor, de +Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. +Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em +que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar +dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos. + +--Nunca viste? perguntava-lhe o doutor. + +--Não, nunca vi. + +--Pois has de ver. É curioso. + +Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas +finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo. + +O sujeito olhava para elles pouco á vontade, pensando de si para si +no nadinha imperceptivel que separa a razão da loucura... + +Depois, por acaso, perguntou ao dr. Pulido como é que costumava fazer +para levar para ali os enfermos. O dr. Pulido fixou-o com o olhar um +pouco vago que tinha, bem devem lembrar-se d'isto os que o conheceram--e +que parecia de alguma maneira ser o reflexo do olhar dos doentes, e +respondeu: + +--Não custa nada. Em sendo pessoas de certa classe, a familia pede-me +para ir vel-as, convidam-se a jantar, veem sem desconfiança, e, tão +depressa cá as apanho, em ellas querendo ir-se embora já acham as portas +fechadas. + +O outro ouviu isto cobrindo-se de suores frios, e acudiu-lhe a idéa de +que aquelle convite tambem fosse um laço. Á sobremesa puchou pelo +relogio, pediu desculpa de não se poder demorar, levantou-se á pressa, +despediu-se, e ao chegar ao pateo largou a correr. + +É que, além do estonteamento em que se fica ao vêr aquelles desgraçados, +ha uma vertigem peor ainda--é a que resulta de os ouvir. + +Quando chegámos ao pateo dos idiotas, estavam acocorados quasi todos +elles como as gallinhas no choco, pasmadinhos para o muro, ou fazendo +riscos na terra com o dedo. Não lhes importa ar puro, nem horisonte; +que o terreno seja vasto ou não seja, que haja verdura ou não, que +estejam presos ou livres, para elles é o mesmo. Fincam os cotovellos nos +joelhos, encostam a cara ás mãos, e vão dando á cabeça como os bonecos +da feira, n'um movimento sempre igual. + +Ha lá uns patetas, que quasi toda a gente conhece por andarem no serviço +dos banhos,--um sobretudo, que é popularissimo, o que tem voz de +tiple--mas esses são a conta d'aquella missanga; a nata, a flor dos +idiotas!... Preparam os banhos com a maior diligencia, são modelos de +cortezia benevola, perguntam com affectuoso interesse se a gente +gosta da agoa sobre o quente, recommendam, com agrado que captiva, que +se toque a campainha em querendo que elles appareçam de novo, e estacam +de bocca aberta em avistando o bello sexo! Ah! esses são os idiotas +tafues, os idiotas como se quer. Não servem para muito; mas, bem +aproveitados, até podiam servir para se encostar ás esquinas pelo Chiado +fóra, ou espécar ás portas das salas nos bailes,--como janotas! + +O tal que tem voz de tiple, toca flauta. Toca flauta, e é um melomano de +não se parar com elle. Em se lhe fallando de gostar de musica, redargue +logo: + +--Se gosto de musica! Mas eu como musica, senhor, musica é que eu +como!... + +E ahi tira da flauta, e com uma ancia de sopro capaz de fazer virar +faluas, larga a tocar coisas incalculaveis. + +Mas isso são idiotas á maneira do que manda o diccionario da lingua +portugueza de Fonseca--«_Idiota_, adj. es. de 2 g. _ignorante, sem +estudos_.» E disse. A natureza, porém, vae um pouco mais longe do que o +diccionario; e a pobre creatura humana recua atterrada na presença de +uma aluvião de desgraçados que ha em Rilhafolles, não como o da flauta, +que falla e toca, mas dos que não fallam: não pensam: não ouvem: chiam, +guincham, riem, e babam-se. Esses são um pouco mais do que +_ignorante e sem estudos_, e a gente ao vel-os tem vontade de segurar a +cabeça, fragil como aquelle vaso de cristal a cujos manes Heliogabalo +levantou um mausoleu para eternisar a memoria das ebriedades que lhe +devia,--tal é o medo que se sente de que ella estale e se quebre como a +taça do Cesar idolatra,--com a differença de que estes manes, que são as +idéas e as paixões, em se caindo em idiota... não voltariam nunca mais!... + +Estão para ali, no pateo; uns, passivos, fixos, sem sensações, parados e +quietos, como o soldado na guarita, olhando no direito do nariz, +capazes de ficar encostados á parede o dia todo... + +Outros, agachados, conchegando o peito e as pernas, olhando sem saber +para onde, nem se perceber para o quê; existencia vasia; vida sem drama; +o horror sem lances. + +Um, está gordo. Testa de um dedo de largura, cara de pau, pançudo, +bonacheirão,--certo ar de paspalhice, immobilidade de figura decorativa. + +Este, sentado no chão, junta um montinho de folhas, e depois dispõe-as a +seu modo em carreirinhos: mas, se succede desmandarem-se-lhe, faz como a +Sibylla de Cumas, que em o vento lh'as espalhando tirava dali o sentido. +Depois, vergando a cabeça, fica a olhar para ellas... + +Já estiveram alguma vez ao pé de uma cova aberta no cemiterio? Chega a +parecer que os cadaveres são as almas dos tumulos, e que o sepulchro é +que morre em não tendo ossos dentro. + +Tambem com os idiotas, quando a gente olha para elles, pergunta o que +será feito do que devia ter havido dentro d'aquellas cabeças, e parece +que elles é que não existem já. + +Não se lhes falla: que poderia dizer-se-lhes, se o da flauta é o +_formica leo_ d'aquelle pateo horrivel? se elles percebem mal os gestos, +e alguns não ouvem? se o destino os seccou como o sol secca os +regueiros!... + +Lembram o cortejo de Momo. Anda-lhes o corpo a cavallo nas pernas; teem +cabeça de quem viu bicho; esgroviados: sorrir bruto: dando sempre aos +hombros: uma especie, nos modos, do perfil de uma bengalla com castão +figurando um saguí; voz difficil; meio gagos: o que quer que seja de um +palhaço morto!... + +Um, perdeu de todo a memoria, depois de um ataque de congestão cerebral; +e está para ali sem dar accordo de si. Tratam-o como ás creanças; +recommendam-lhe que não metta os dedos no nariz, e que não ande de +joelhos pelo chão para não estragar as calças. Elle ouve, e esquece-se. + +Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a +rir sosinhos... + +A _macaca_ apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem +outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas +acenam-lhe e dizem-lhe:--«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que +foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para +ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo +pela peior das portas,--pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, +cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial; ali lhe tem crescido o +corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso. +Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de +sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando +vão dar-lh'as, come-as,--sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento +de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e +que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. +É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus +vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu +lhe apalpasse a cabeça para vêr até que ponto é molle. Consideram +geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. +E dahi,--talvez! Pobre _macaca_! Desraizada do mundo, e plantada na vida +como uma cebola de jacintho na agua!... + +Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros--não +sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; +toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até +os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes +faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:--elles não se +lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é mais do que elles! a +aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella +casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra, +o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão +exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos +furiosos! + + + + +IV + +Os furiosos + + +Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,--triste prova +de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia +vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente +mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, +saltam-lhes por entre os beiços corádos pela febre, como por um +arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!... + +Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, +grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem +descanço,--para um--para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. +Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade +visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. +Mas,--nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar... + +--Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo +agrado felino, o risinho da hyena,--a morrerem de desejo de nos +saccudir de encontro ás grades. + +Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. +Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... +Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,--d'essas +mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares +de ir n'um andor--e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é +profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda +conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os +outros, papel doirado, para fazerem corôas; nem ha coberta na +enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores... + +Donde provêm o mal? + +Quem poderá sabel-o! De alguma paixão desordenada, enorme, extrema. Quem +nos diz até que a loucura n'aquelle grau, a loucura d'aquella qualidade, +não seja simplesmente a paixão levada ao excesso?... Estão ali durante +as horas do ataque, as horas da furia, fechados nos quartos, quasi ás +escuras para que a claridade lhes não fira a vista. No decorrer do anno, +ligeiro para nós, pesado e cruel para elles, quantos dias de agitação e +de tortura,--com as mãos atadas, os braços presos, as rações da +comida diminuidas; e as grades, as grades frias e negras, por unico +horisonte e unica companhia!... + +Já não ha ver ali a gordura pagã; são magros quasi todos, e parecem +velhos: a loucura ainda envelhece mais do que as paixões; abatem-os, +dissecam-os as furias; alguns parecem esqueletos, que a ira unicamente +acorda; um ou outro tem a mão finissima, mão de quem não faz nada, de +quem não trabalha ha annos; de outras vezes parecem os ossos da morte +com pelle por cima... em ar de luva! + +Ali gastam e consomem a vida, separados, presos, isolados, nas agonias +insondaveis da desesperação. Só a mãe de algum ou a mulher, vão +vêl-o; unicas dedicações n'este mundo que não abandonam as angustias +persistentes. Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em +Portugal, e sua esposa ali foi todos os dias vel-o e fazer-lhe +companhia--colhendo no ceu a palma do combate terrestre e vendo +sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que +havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que +parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na +eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio! + +Mas, em geral, como se os olhos humanos não devessem contemplar o +espectaculo d'aquella dôr horrivel, poucos são os que teem quem os +visite, e ali se conservam até que um dia o padre do hospital vá junto +d'aquella enxerga resar-lhes ao ouvido, e, na hora em que vão emfim +libertar-se do mundo, fazer a diligencia de que elles repitam as orações +que lhes disser... + +Todos ali, mais ou menos, se entreteem e se divertem. Só elles não. São +os poetas da casa;--sonhar, soffrer. Mesmo se teem officio, é raro +aquelle que pode aproveital-o uma hora ou outra,--e isso mesmo é +arriscado ás vezes. Lá vi, quando fomos visitar as officinas, um que +dizem ser excellente marceneiro e de quem me mostraram um trabalho +curioso:--uma maquineta, como costuma chamar-se-lhe, um nicho de madeira +para Santa Philomena,--santa com que tinha grande devoção uma enfermeira +de Rilhafolles, que fôra educada n'um convento de freiras de Leiria, e +que morreu ultimamente doida n'este mesmo hospital onde fôra empregada. +As outras enfermeiras, em obsequio á memoria da sua antiga companheira, +conservam o culto á santa. + +O nem sempre amavel marceneiro estava logo á entrada das officinas com o +banco e a ferramenta, na occasião em que o director o convidou a +mostrar-nos as suas obras. + +--Mostrar o que? berrou elle; e logo se lhe injectaram os olhos; e +travando de um pedaço de taboa partiu-a, batendo com ella no banco. + +--Bem, bem! disse o director. Hoje estás muito zangado; deixemo-nos +d'isso! E virou logo comigo pelo mesmo caminho. + +Uma circumstancia interessante é a placidez do director, o desembaraço +com que anda por entre os doidos, e a bondade e descanço com que os +trata. É isto resultado do seu genio, e em parte tambem de querer dar +exemplo aos empregados de que não deve ter-se medo dos doidos, porque o +medo aconselha cobardemente toda a especie de crueldade. Em vez de +injurias e de chicotadas, como se usava d'antes para com os pobres +furiosos, sem se lembrar ninguem de que mais humana seria a lei que de +vez os condemnasse á morte, emprega-se o geito, a doçura, o bom modo, +para não espatifar brutalmente, e apagar de todo aquelles restos de +intelligencia, que ás vezes só de passagem está nublada. + +Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os +furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial. + +De ordinario os doidos que representam,--dos mais quietos, já se vê, e +dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem dar signaes +de alienação--dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes +expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e +completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos. + +Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do +companheiro:--os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir +gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!... + +O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que +perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair! + +As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario +agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que +succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e +tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas +tendencias malfazejas--atirando sempre que podem uma tigella contra as +grades, e os cacos á cara de quem vae. + +Algumas são verdadeiramente horriveis. + +Uma gira todo o dia--mas todo o dia!--descalça, em roda do quarto. +Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena +na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e +enrosca-se. + +Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar +de collete porque marinha pelas grades. + +Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em +pedaços--para as almas! + +Esta, de Guimarães,--com certo ar de astucia machiavelica no fundo da +loucura--está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está +doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões. + +--Como está? pergunta-lhe o director. + +--Sempre estou boa! responde ella. + +--Ah! E então? + +--Então sardinha com pão! + +E, sem mais nada, enfurece-se, grita, ameaça, quer saltar, terrivel, +hedionda, como se a noite e as Parcas lhe desenhassem no semblante as +caretas da loucura. + +Um moço esbelto e forte conserva-se de gravata de coiro, para não poder +dobrar o pescoço--porque se morde.--Um velho grita por tal fórma, que ás +vezes, de noite, as patrulhas de Arroios têem ido, sem saber o que é, em +procura do sitio de onde vem aquelles ais... + +Passados dias,--por não haver trazido apontamentos dos furiosos na +primeira visita que fiz a Rilhafolles,--tive de voltar ali. + +A tarde declinava, e os ultimos raios do sol iam a despedir-se +d'aquellas tristes paredes. Ao passar com o sr. dr. Guilherme +Abranches, que teve ainda a bondade de me acompanhar, por um d'aquelles +corredores que serpenteiam ali em todas as direcções, vi dois homens +sentados á porta de um quarto. + +--Estão de guarda ao cadaver! disse-me o director. + +Entrámos no quarto, vi um embrulho no chão, como que o corpo de um homem +amortalhado,--um boneco, suppuz eu,--e duas tochas ao lado. + +Não era boneco, era deveras um cadaver. + +Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os +seus, mandou o presidente da _Sociedade hebraica_ dois homens para +envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de +cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como +era sabbado--dia santo para elles--não lhe mechiam em quanto não fossem +nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e +cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o +no alto do Varejão. + +Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já +não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos +de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos tambem, +de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se +agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem +são a materia--que é da alma?... + +........................................................................ + +Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas +pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta +a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste--por cima d'aquella +miseria continua!... + + + + +V + +Telha + + +Tambem os ha cá por fóra! + +Mansos, com falla, sem _collete_, passando a vida á procura do +motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar +com o _deficit_, da perfeição no amor, do circulo bicudo... + +Avista-os a gente por essas ruas, sequiosos de barulho, persuadidos +de que têem para cumprir uma missão, exercer um sacerdocio, defender uma +causa, fazer tremular victorioso um estandarte; e observa com estranhesa +que, sem se saber de onde vêem nem o que querem, sem que alguem jámais +os visse entrar n'uma escola ou comprar um livro, desprezem o mundo que +os quiz empregar n'alguma cousa, e embirrem em ser tribunos unicamente, +tribunos e heroes, prégando umas celebreiras no tom de quem salva a patria! + +Pasma-se de ver outros atravessando a vida com ares de +visinho--descarapuçado e de chinellas--sem mais bagagem do que a sua +insolencia, altivos e petulantes, por entre a risota da multidão. + +Alguns, pobres moços, levados da esperança, vivendo mal, açoitados pela +sorte, emmagrecendo na luta; rindo sempre na bochecha da vida positiva, +deitando a lingua de fóra entre desdens ás exigencias e riscos d'ella; +desprezando o dinheiro, nervo de todas as cousas, que aplaina e floreja +o caminho, torna facil estudar, dá independencia ao espirito; +sustentando-se de theorias; compondo maximas e conceitos d'este +genero:--«É o homem que faz o titulo, e não o titulo que faz o +homem»;--e pondo-se a caminho pela vida adiante, pé cá, pé lá, como quem +vae com botas de andar leguas, para ficarem estatelados na estrada +sem solas e sem palmilhas. E para que, tudo isso? Para querer á força +viver de litterato, n'uma terra em que as letras se vendem mais baratas +que os tremoços, e cair agonisante, sem gloria e sem fortuna, em dôres +sem grandeza, dôres que dão riso aos mais! + +Já de creança, ás vezes, deixam perceber o que d'ali sairá! Um, pondera +em menino que o sol não tem prestimo; e que a lua, sim: porque faz sol +de dia, quando não é preciso, e de noite a lua dá claridade. + +Vae crescendo, vivendo, engordando; quer a familia fazer-lhe casamento +com uma viuva; mas o rapaz scisma, e diz: + +--É melhor não casar com esta. + +--Porquê? + +--Tem o dobro da edade que eu tenho! + +--E depois? + +--E depois, é muito. Quando eu tiver cincoenta annos, vem ella a ter cem! + +O pae fica embuchado, e medita. + +Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. +Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só +palavra--supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a +uma reunião politica, onde se discutem os maiores problemas. É n'um +terceiro andar. Muito escura a escada. Dão-lhe um rolinho. Aceita; +desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho +de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás +escuras,--pensando sempre em economias... + +Quantos! Quantos andam por essas ruas!... + +Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes +nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande--como +qualquer de nós; mas tem a preoccupação constante do _shoking_, usa bota +de duas solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete +inglezado, gravata de seda frouxa com as pontas pendentes, +caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mão um +bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós... +Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, +refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das +praças a examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para +parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a +estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos, +medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem +perder tempo;--_time is money!_ E passeia; e corta; e gira; e vae +indo, inglezmente, até ao alto de S. João. Estão abertas de par em par +as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as +inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe pareça commodo, e +senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o _Times_. +O _Times_ está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o _Times_ com +imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de +cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É +noite; vae para casa,--acabou de ser inglez até ao outro dia! + +Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores se +chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das +sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer--agua +vae. Elle respondia sempre, e responde--que já não bebe, que lhe fazia +mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que não vale a pena... Engana os +outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e +sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se +fallasse com alguem: + +--Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo! + +E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si +proprio: + +--É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes, +um copo de Collares. + +--É Collares picado o que posso offerecer-te! + +E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos. + +--Deixa-o sempre levar aos beiços. Não é traiçoeiro, e acompanha o +queijo amavelmente. + +--Mas nota bem que quero fazer-te uma saude!? + +--Dás-me muito gosto. + +--Uma saude com um copo de Xerez generoso. + +--O Xerez contende commigo. Vinho aguardentado e febril. Conservemo-nos +n'este... + +--Mais um copo, visto isso, de Collares; e passaremos ao Porto, que +de certo não te faz nervoso como os vinhos brancos? + +--Está dito. Acceito o Porto. De que anno o tens? + +--Não bebas datas. Contenta-te que seja bom. Que te importa o anno?! + +E uma garrafa de Porto vae muito lampeira, em cima da mesa, fazer +companhia á do Alemtejo e á de Collares. + +--Á tua saude! diz elle, enchendo dois copos. + +--Á tua saude! prosegue, bebendo ambos. + +Ah! Quantos, quantos! + +Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam a +parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos não +reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, não vêem o +tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;--uns exaltados ridiculos, a +arder em aspirações phantasticas;--uns pimpões de palavra, sempre em +prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da +sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos, +vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir, +arrazar: _tutto parole, parole, parole!_--Um que quer cantar sem voz, e +móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas, +concertos, cantando tudo, dizendo que dá o _dó_, e não dando cousa +nenhuma senão cabo da paciencia á gente! + +O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda--como outros vão de +bamburrio em bamburrio--para cair no abysmo, para que se lhe devore a +ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que +a mão da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!... + +O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e +massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como +pingos de chuva da rama de um chorão...--O que attribue tudo aos +jesuitas, não scisma, não dorme, não sonha senão com jesuitas. Tudo +a mão de Roma, a mão de Roma...--O que, em apanhando piano, principia +logo a tocar com um dedo horas a fio. + +Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a +cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista... + +A antithese d'esses:--velhos precoces, já enfastiados de tudo em +meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão +consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra +mãe dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias de Babylonia. +Não sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do chão! Aos +vinte annos já não dançam, e usam luneta côr de fumo nos olhos +fatigados... do gaz do Martinho! + +Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da +namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,--quer +trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; +qualquer coisa; exemplo:.--«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, +do que para prato de meio.» Conceitos!--Outro, leva o anno inteiro a +scismar como ha de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a +cara, o que ha de pôr no nariz...--Outro, conversa muito alto, +n'este estylo que lhe parece optimo:--Diga-me se não é anomalo, +acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as nações +atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos +tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da +ignorancia. O meu amigo é ecletico? + +E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não +cumprir, nunca vão a horas--o maior dos erros, exemplo aquelle +diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a +rainha a fazer papelotes!--que se esquecem de tudo, ou antes não se +esquecendo--pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo, +da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga; +trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de +assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires +quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já +a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não +pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam +parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes +diga como elles se chamam, e irem então reclamar a carta; a correr, +antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: _Telha_, pois que?--_telha_, +e rija!... + +Digamos o peior;--quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha +principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda +a gente anda com _telha_... + +Quem ha,--dos que pensam, é claro, e dos que, por assim dizer, costumam +tomar o pulso ao espirito, que não se tenha sentido em certos dias como +que exilado n'este mundo e tentado juntar, unir, ligar no fundo d'alma +remeniscencias vagas de melhores tempos, enleiando-se n'uma especie de +saudades da patria que perdeu... A terra parece triste então, +embebe-se o animo na nostalgia do céu, quer a idéa voar para lá, e +consegue-o ás vezes... De noite, quando não se póde dormir, mas está +tudo socegado, some-se o mundo em que a gente anda, vêem-se brilhar as +flores colhidas que o tempo murchou, ouvem-se chorar-nos n'alma suspiros +e ais conhecidos, e passam na penumbra duvidosa em que se nos perde o +olhar certas creaturas que só nós sabemos bem quem sejam... O mundo +então chama a isso ás vezes ser poeta; e é ainda, talvez,--a _telha!_... + + + + +VI + +Enguiços + + +Quente... quente... + +Já estão a lembrar-se de alguem do seu conhecimento, com quem lidaram, +com quem viveram, parente, amigo, visinho... + +O diccionario de Moraes explica-o assim:--«Enguiço é o mal que se causa +de ser olhado por algum torto ou outro qualquer accidente.» Até +aqui, o mais notavel é elle chamar aos tortos «accidentes». Lá se +avenham.--«Consiste,--continua--em ficar acanhado.» Estão satisfeitos? +Eu, não. Procuremos mais, procuremos sempre;--no verbo enguiçar o mesmo +auctor exprime-se assim:--«Dizem que o torto olhando para alguem +enguiça-o. Passar a perna por cima da cabeça (d'outrem) enguiça; isto é, +faz que desmedre, que se faça pêcco e pobre. + +D'ahi vem tudo; os habitos excentricos, pueris ou ridiculos; o vasto e +incalculavel mal que resulta d'isto ou d'aquillo, conforme o capricho da +creatura; a ignorancia creadora; successos triviaes, centos de cousas e +cousa pouca, que moem e affligem os enguiçados,--gente nervosa, +delicada e phantastica. + +Tudo os inquieta. Fal-os tremer um nada, um nadinha os anima. A +influencia do tempo ataca-lhes a saude como um barometro. Abate-os o +vento sul, torna-os tristes a chuva. Ficam, ás vezes, horas sem fallar e +sem vêr. Parecem acordar na primavera pelo canto dos passaros e pela +doçura do ar; e ouvem tudo então, as vozes que passam no murmurio das +ondas, na rama das arvores, ouvem o que se diz ao longe, ouvem o que não +se chegou a dizer,--ouvem-se a si, unicamente a si; a voz do enguiço, +que falla dentro d'elles, e compõe, e ordena, e retem, e impelle... + +Um levanta-se da cama, veste-se e prepara-se para sair. Sente-se todavia +preso ao chão, e não póde dar um passo emquanto o creado não vem dar-lhe +um alentado empurrão que lhe quebre o enguiço. Volta-se então para o servo: + +--Ó José? + +--Senhor. + +--Tu deste-me a corda inteira? + +--Dei, sim senhor. + +--Toda, toda? + +--Dei-lhe a corda toda, sim senhor. + +--Está bom! + +Aquella resposta affirmativa convence-o de que tem movimento para +as vinte e quatro horas, como um relogio de algibeira. Se o empurrão foi +brando, a machina pára a qualquer hora do dia e precisa nova corda. + +Um irmão d'este (os enguiços são familiares e hereditarios, o que é +ainda mais pasmoso!) não póde comer a sobremesa sem dar tres voltas em +redondo ao prato. + +Um velhote anguloso, magro e verde, que se avista na repartição onde é +empregado de barretinho de seda preta e mangas de algodão, faz todos os +dias antes de entrar para a secretaria um joguinho de passos ao transpor +a porta, que consiste em marcar tres vezes estes tres numeros: + +«Um. + +«Dois. + +«Tres.» + +Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra. + +Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a +quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café +ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não +envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje +Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades +sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete +annos o botequim fechou, elle acabou de jantar, foi muito lepido +pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,--encontrou as portas +fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se +d'elle; os jornaes contaram o caso. + +Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;--a religião do enguiço. +Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje +de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora +decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando +apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o +beato Antonio haveria arriscado um olho, como o meu amigo leitor ou +eu, fecham elles ambos.--Conheci um que, quando lia n'um jornal a +palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.--Ha +outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que +immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar +das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia +guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, +largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O +cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por +felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo que elle levava em +sua companhia. + +Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude +em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes +ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no +ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao +saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos +trambulhões. + +Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de +pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não +consentia por ter dó de obrigar os moleques a estarem para ali +espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um +creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto. + +Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;--faz casas +para não morrer. Lá diz o proverbio campesino--«ninho feito, pêga +morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer +predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando +sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a +capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e +cal! + +Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a +parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os +raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das +apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a +namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no +Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, +pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão +solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo +Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á +entrada uma prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende... + +Que dança! que dança! + +Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé +direito.--Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, +contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto +em vez de dádiva.--Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não +estender a mão seis vezes não lh'a beijam.--Uns têem terror ás aranhas; +outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em +certas ruas senão do mesmo lado sempre.--Alguns, brutos com toda a +gente, são timidos com as creanças. As creanças têem o que quer que +seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na _Chronica de D. João I_, cita +uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de +Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas +creanças uma veneração profunda; os que não a leram--tambem. Batia na +mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna--para +onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, +conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se +costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados +estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa +semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez: + +--Porque é que tu já me não bates? + +E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a +prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, +escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço: + +--Tenho medo de acordar o pequeno!... + +De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem +ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os +corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão +fartos de o saber; e por isso são tão joviaes. Andam sempre a +rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, +porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca +desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver +encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um +d'estes dias foi encontrado um sujeito--se eu lhes dissesse o nome +riam-se!--encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o +desenguiçar de outro que havia visto. + +Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma +moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda. +Mas--para obter o remedio--quantas difficuldades! quantas astucias! +quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa +tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem +posto a policia em bolandas--sómente para garantir a giba do contacto +impudico da moeda preservativa. + +Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que +a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette +acabar com elles,--e não haverá mais enguiçados por este accidente!... + +Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,--sujeitos de +pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça +nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas +pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, +que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia; +consolem-se uns com os outros, porque ha muitos. + +São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens +grandes no corpo e na força;--homens grandes no espirito; phantasistas, +poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os +ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis--ha uns +tempos--andam muito enguiçados!... + +Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular +harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, +nem com o acaso;--os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se +entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma +pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi +está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a +espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.--Vou +mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no +papel...--Basta! Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu +podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais. + + + + +VII + +Agouros + + +Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente +o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação +diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo +canto, gesto, e pasto das aves (_ex avium cantu, gestu, vel pastu +futura divino_) e por extensão conjecturar de qualquer modo. +N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes +insignificantes--a que chamamos agouros--queremos predizer o futuro. + +O terror--de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras +vezes--torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se +espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede +levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; +atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas +urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um +relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a materia muda +tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer +das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que +reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... +Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no +canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão... + +Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e +á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;--a fatalidade +delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. +Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma questões +insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que +arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e +que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a +quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear +commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do +norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,--condemnados de manhã ao +Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas +ventanias. + +Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão +seguindo na vida como a Electra dos gregos, devota e severa, +confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da +fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;--dir-se-hia que, como +outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello +resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... +Os artistas principalmente,--os que são dignos d'este nome, os notaveis, +os verdadeiros artistas--têem superstições indestructiveis e muitas +vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha +exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e +ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio de Janeiro, e a +quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não +era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do +contracto, dizia-me em frente do Tejo: + +--Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio +funesto. + +As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,--um pouco mais +singular ainda do que o agouro! + +Da maior parte das vezes, as superstições dirigem-se unicamente a evitar +o mal e aplanar o caminho; mas, o peior é, que, a poder de se darem a +perros para assegurar a felicidade, transformam-a quasi sempre em +miseria ou em asneira. + +Um, que cuidou sentir-se chamado a representar papel na camara, lá +arranjou ser deputado--mas o que não arranjou é fallar, porque os +agouros o impedem. Os agouros dizem-lhe que a habilidade do orador é +saber ouvir e callar; que, por pouco que se falle, lá succede um dia +dizer-se o contrario do que se havia dito tempo antes; que os +adversarios abusam d'isso e ficam causticando o sujeito; que a força das +maiorias consiste em votar sem abrir o bico; que assim como o nauta +dextro caça a véla, e muda o rumo ao leme conforme sopra o vento de um +lado ou do outro do horisonte, assim a elle lhe convém variar a +proposito conforme as circumstancias,--com socego, e sem bulha. E +tudo isto lh'o diz o azeite quando se entorna, e o espelho quando se +quebra, e uma aranha no tecto, e um besouro que passa no ar a rosnar-lhe +avisos:--«Calla-te, calla-te. As fallas são de prata, e o silencio é de +ouro. Calla essa boca!...» + +Outro não se move, não vae d'aqui para ali, sem recorrer a um exame +prévio de tudo que o cérca. Sabe este mundo e o outro no que respeita a +agouros; não sabe mais nada, é certo, não sabe das suas cousas nem trata +d'ellas--mas sabe d'aquillo. Não permitte que lhe cosam a fazenda em +cima do corpo, que é signal de desmedrar, emmagrecer, definhar, dar +á casca;--não corta o cabello em quarto minguante com receio de que lhe +não torne a crescer; evita quando está na cama cortar as unhas e olhar +para um espelho ao mesmo tempo, indicio de estar jogado aos dados;--não +permitte que em sua casa deitem lixo fóra de noite,--pobreza +imminente;--não póde vêr sem sobresalto duas facas em cruz, desordem +fatal;--e por cousa alguma morará em «casa de esquina,--morte ou ruina!» + +Este, se vê um «ladrão» na véla--sabe que vae ter carta.--Aquelle, em +caindo uma thesoura e espetando os bicos no chão, espera uma má visita. + +Muitos não se desfazem de pombos. Ou não os ter nunca, ou tel-os sempre; +o mais a que chegam é dar o ultimo casal ao Espirito Santo no dia da +Ascenção do Senhor. + +Ha noivos que fogem de ir ouvir os banhos para o seu casamento,--porque, +se os ouvem, ou não casam ou morrem. Diz-se que quem cáe de cama ao +domingo, nunca mais se levanta.--No campo, em os martyrios de um jardim +dando muita flôr, julga-se breve a morte do dono da casa. + +Na existencia de alguns parecem agrupar-se maliciosamente os presagios. +A vida de Isidoro--o nosso popular actor Isidoro, do theatro da +Trindade--é um pinhal de agouros. Vamos vêl-os com cautella; se +têem medo, tragam luz... Nasceu em dia de finados de 1828; foi baptisado +n'uma _sexta feira_, 2 de janeiro de 1829; principiou em 1842 a aprender +o officio de tecelão na fabrica de Xabregas, e foi tres annos numero +_treze_; trabalhou dois annos no tear numero _treze_; depois de official +foi obrigado a dar seis mezes de aprendiz em castigo de uma falta que +commetteu na _sexta feira_ de Passos de 1845, e ficou tendo o numero +vinte e seis, que é duas vezes _treze_. Assentou praça no 2.º batalhão +movel em 1846, e durante oito annos foi numero _treze_. Representou pela +primeira vez em theatro particular a _treze_ de junho de 1846; em +theatro publico n'uma _sexta feira_, 30 de novembro de 1849. Foi +escripturado para o Porto e embarcou para lá no dia _treze_ de maio de +1851. Fez o primeiro ensaio no Gymnasio n'uma _sexta feira_, 11 de março +de 1853. E--para corôar este catalogo de _memoranda_--casou em dia de S. +Bartholomeu!... Por entre este capharnaum de vaticinios tem lidado, +triumphado, mais invulneravel do que o capitão de Homero--que o não foi +no calcanhar. + +Não só é dia de agouro a sexta feira; tambem para muitos o é a terça. O +actor Santos,--depois de uns arrufos de artista com poeta, que houve +entre elle e Francisco Palha--não quiz apparecer pela primeira vez +no tablado da Trindade n'uma terça feira que se destinára para primeira +recita de _Frou-frou_. Mas já estavam afixados os cartazes, alugados os +camarotes: que remedio havia de dar-lhe? E deu-lh'o. Foi na vespera, +segunda feira, ao palco; representava-se a _Flor de Chá_; no ultimo acto +vestiu-se de china; na ultima scena, perdido entre os comparsas, dançou +com elles o _can-can_ com que terminava a peça. Na noite immediata +representou _Frou-frou_; era a segunda vez que apparecia ao publico da +Trindade; não o sabia ninguem, mas sabia-o elle! Os agouros contentam-se +assim. + +O quarto treze nas hospedarias está de voluto quasi sempre. Agora já +principiam a adoptar um expediente malicioso, e, visto o treze não se +alugar unicamente por ser treze, substituem-lhe o numero por um doze +repetido, e já não se vê por cima da porta senão 12--12. + +Treze pessoas á mesa, prophetisa que isso custará a vida brevemente a +algumas d'ellas. Ha pouco tempo esteve retido n'uma casa o filho de um +amigo meu, que ia passear as tardes, quando o chamaram d'uma janella e +lhe explicaram ser indispensavel a sua presença á mesa para se +principiar a jantar. O rapaz allegava que não tinha vontade de comer, +que acabára de jantar com os paes n'aquelle instante. Debalde! Não +o largaram senão ao café. + +Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que +vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para +ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e +mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do +valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das +cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a +terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé--e morreu á beira da +realisação da sua idéa... + +A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os +agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é +capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.--Mulato a +bordo, é salceirada frequente, e por vezes--na linguagem maritima--vento +de _gaveas nos terceiros_ e de _traquete na passadeira_.--Cadaver ao +mar, predispõe para _tareia_ e tem de se aguardar vigilante o salto do +vento para evitar o empandeiramento do velame. + +Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das +creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles +armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é +signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem +conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? +Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são _o tinha de ser_: +consolação--de quem não tem outra!... + + + + +VIII + +Feitiços + + +Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer +mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas--sem outra culpa +ás vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um +bem:--falta, porque se aspirou a elle; receia-se semsaboria: ella +que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do coração é +uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a +coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a quem tem sede, e agua a +quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, e quem for só +rico de appetite--pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que +o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a +chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do +tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da +lampada, o amante acordou e fugiu... Voltou-se Orpheu para ver +Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitiço +é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, levantando-o entre +as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor, +e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a pernear, +salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais +distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma +apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos +extraordinarios para se entreter, e não gosta senão do que fôr +maravilha, do que estiver superior á humanidade, do que ella não +entender... Não se vê na _Iliada_ andarem sempre os deuses a fazer +costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio +sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;--este as +romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou +da Guia: mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que +acredita na Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em +perdendo coisa, não ha fazer com que a procure sem resar um responso a +Santo Antonio;--o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um +espelho, por ser possivel ver-se morto, ou ver outra imagem em vez +da sua... + +Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está +alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a +deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae +saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro... + + Alguidar, alguidar + Que foste feito ao luar, + Debaixo das sete estrellas, + Com cuspinhos de donzellas + Te mandei eu amassar... + +As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do +mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a +desgraça outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas +nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra, +e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas com moderação;--e +era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o paiz a ponto de +levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia tão +desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se +usassem em Lisboa nem em seu termo--«obra de feitiços, nem de ligamento, +nem de descantações, nem de viadeira, nem de carantulas, nem +outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás +portas, nem furtar aguas, nem lançar sortes.» + +Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a +mania de que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou +inclinações humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo +de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregação de petas que +offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal +mez ha de morrer um grande personagem:--sempre morre, e seria um +transtorno se assim não succedesse, n'uma terra como esta em que se +aponta a dedo quem não é conselheiro!--que no mez de tal ha de correr +uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, no +mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará +um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, +ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços +irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!... + +Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. +Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a +doença que ninguem entende, chorando e rindo ao acaso, torcendo os +dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo +e ralando as pessoas de quem mais gostar,--tem feitiço. As artistas, ou +porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte +as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia das Neves, +pontualissima aliaz em ir aos ensaios,--ensaia todavia os papeis em casa +mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella +calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas. +Antes do _Gladiador de Ravenna_ se representar, já as criadas da famosa +actriz--por espreitar ás portas e escutar--sabiam de cór o papel de +Tusnelda. A sala é a grande preparação;--o tablado é o dever; a sala é o +feitiço. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista +tem a sua invocação: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral +torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto. + +Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem +fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. +Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal +da Graça, á direita o sitio chamado a Gloria, e á esquerda a rua do +Paraiso!... + +Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta +pastelleiro, o Matta artista,--o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. +Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei +que lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem +bem; assim como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser +incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei +a quem me dirijo. Vamos.--Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. +Quem uma vez na vida pelo menos não frigiu uns ovos, não fez um +biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha muito quem +conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja +incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola--por nunca haver +posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos +perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus +frageis dias,--os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a +saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos +resultados para os pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o +soldado entre as balas,--com a differença de que para elle todos os +dias que Deus dá são de combate, e combate que não dá postos nem +condecorações! E dirige e tempéra, e tira e põe,--mas de avental; mesmo +que não se trate senão de dar a voz de commando,--de avental sempre: +aliás, tudo se perde, entra na comida o _bispo_,--unico que não tem nem +terá partido,--agúa-se o môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle +por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do +paraiso,--porque a serpente não seduziu Eva com uma maçã, como se +espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; seduziu-a +com geléa: geléa que se apanhava da rezina das arvores. E não lhe +fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,--porque o +não tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o +seu pae, é o seu feitiço!... + +Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a +gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da _Ciosa_, de +Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado +que teve e possa ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella + lava teu rosto com ella, + tornar-te-has na compostura + e fegura + do que se foi.» + +No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da +gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e +secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz. + +Dizem que ha sitios no mar,--o cabo da Boa Esperança, por exemplo,--em +que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de +feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o +gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a +cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem +emfim sepultura. + +Os feitiços no mar representam a attracção do elemento, o +magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem +caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se +põem a dançar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, +e mal vae ao piloto em os feitiços dando no barco. + +Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, +por lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando +lhe quebram de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle +está guardado; que acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer +chamar, mas lhe tapam a boca para que não grite, e elle adormece +outra vez... + +As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto +vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça +ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á +escuta, repara-se se diz _sim_ ou _não_ quem vae passando.--Em Lisboa, +pelas festas de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento +na esperança de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se +ella deita espiga.--Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de +esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido +como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo +no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.--Quem tiver sete filhos está +em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmão ser +padrinho,--ou nascerá defeituoso.--Enrolam-se tres papelinhos, com seu +nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: +outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha +de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,--metade da +casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres +entre os colxões. De manhã, tira-se uma; se traz casca, vem vestida +e a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser +pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada... + +O peor dos feitiços, porém, ó leitoras! o feitiço mais arriscado, ó +morenas,--o feitiço mais perigoso, ó loiras, é o amor,--sois vós! +Aquella de quem a gente gosta, e aquella que gostar de nós! + + + + +IX + +Encantos + + +Os encantos veem de longe. Circe, a encantadora por excellencia, +converteu em porcos os companheiros de Ulysses: + + _Carminibus Circe socios mutavit Ulyssis_ + +Para quem combatera na guerra dos dez annos não deve ter sido uma +methamorphose muito agradavel!--O grande impostor do Simão magico, +contemporaneo dos apostolos, para mostrar o seu poder egual ao dos +deuses quiz voar por cima de Roma--como o nosso Bartholomeu Lourenço por +cima de Lisboa. S. Pedro, que assistia á experiencia, fez por intermedio +das suas orações que caisse das alturas e se despedaçasse... + +Nos tempos modernos em Portugal os grandes encantos teem sido os das +mouras. Querem muitos que ellas hajam ficado no nosso paiz desde a +dominação mourisca, e vivam escondidas nas covas e no mar--para melhor +guardarem os seus thesouros, que constam de perolas, esmeraldas, rubis, +saphiras, cordões de ouro, brincos, anneis, pulseiras, e broches de +diamantes de um primor de desenho superior ao do florentino Cellini. +Parece que saem de madrugada para arejar em terra os bens, e +desapparecem aos primeiros raios do sol, apagando-se-lhes logo a riqueza +e voltando outra vez a guardar á sombra a sua formosura e as suas joias. +Pretendem outros que ellas se recolhem antes do cantar do gallo, e á +meia noite se lhes acaba o encanto e o poder,--como diz Garrett na _D. +Branca_: + + E ai! se o gallo cantou, que á meia noite + Encantos quebram, e o poder lh'acaba. + +Muitas vivem nas fontes.--Algumas têem ido á India n'uma casca de +ovo. No campo ainda se usa hoje quebrar a casca dos ovos para que as +encantadas ruins não embarquem nellas, e vão chupar o sangue de meninos +por baptisar.--Algumas têem-se fingido encantadas, para as desencantarem +melhor. Á sombra dos encantos tem havido muita casta de obra, e não +poucas se serviram d'isso para apanhar marido. Lá o indica bem a trova +da «Encantada»: o cavalleiro vae á caça e encontra no arvoredo uma +donzella que lhe diz achar-se ali por sete annos e um dia, e completar +n'esse dia o fadario. Offerece-lhe elle saltar para o cavallo, e dá-lhe +a escolher: + + Ou nas ancas ou na sella + Onde fôr mais honra minha. + +Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga +a rir, a rir...--Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!... + +No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,--no +mar--ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o +reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das +nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, +provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam Ulysses com +o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro +do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,--e, o que é mais, +mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de +não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um +capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu +casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do +tecto;--affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle +bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o +que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar um padre, +confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia +noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo +sitio... + +Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que +sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos +ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas +opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a +encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e +pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as +manhãsinhas á praça fazer compras; eram conhecidas por terem sempre +molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que +andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com +moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de +coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma; +appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos +que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe +vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se +perderam todos n'essa noite... + +Teem genio proprio do elemento em que vivem; graciosas e crueis; +amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o +que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que +não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira +de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a +existencia humana. + +Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá +têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz +padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de +encantadas,--que ora lhe appareciam á borda dos regatos a pentear +os _cabellos de oiro_, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do +mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um +muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra... + +Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher +da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:--mas +conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, +e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já +lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A _Deuza dos Mares_, +a _Flor de Lisboa_, e os vapores do sr. Burnay, assustaram-as. +Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá +para cima senão os mudos,... que são os peixes!... + +De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura +poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e +pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande +segredo do seu poder,--porque a graça precisa de ser picante. É como com +as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas +bonitas,--mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente +o põe--n'uma creatura, n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania. +Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma +particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás +vezes--como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor +especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» +na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que +transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz +reparo:--a vontade. + +Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas--tem ella o encanto +de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado +Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um +navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete +dias até fundear no porto de Santos! + +O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de +apparencia inanimada,--nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: +trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o +adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se +muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:--depois, em se +apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica +encharcado põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo +contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça +de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo +por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de +elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua--não chovendo, +e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo +do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; +representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,--a borrasca e a +bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o +ceu, e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella +curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima, +ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que +vae cá por baixo! + +O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. +Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este +mundo--Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe +chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer +das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre +inferiores--haja vista aquelle do Minho, que esteve ha annos em +exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer +profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é +de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se +exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma +escada de mão para se lhes fazer festas na cara! + +Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um +metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas +não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, +porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão uma cabeçada nos callos +de quem vae passando... + +Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz +lhes ha de dar um beijo;--em lhes comendo a palma da mão, já a gente +sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a +logo;--a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a +esquerda, alguem nos corta na pelle.--Na madrugada de S. João quem fôr +lavar a cara á fonte, fica bonito:--e quem nadar n'essa noite alcança o +que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores +sorriem... + +Os dois encantos negros são as almas penadas e os lobis-homens. A +preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa +morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em +malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia +lamentosamente: + +--_Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu +difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho +sapateio..._ + +--Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a +preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio! + +E pagou. E o sapateiro foi arrecadando a moeda, dizendo com +modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela +noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia +pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu: + +--Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não +dou mais rial ao vijinho sapateio! + +E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a +penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e +nunca mais lhe deu vintem. + +As almas penadas são d'esta qualidade; e tambem defuntos, que por +lhes faltar alguem á palavra dada--vagam n'este mundo, até que lhes +satisfaçam as ultimas vontades. + +Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, +mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa +apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, +mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,--espojavam-se. Isso não +continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para +variar, e que tem por ahi apparecido seu burro--mudado em homem. + + + + +X + +Sonhos + + +Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar +n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar +talvez a monotonia da agua dormente--_mare mortuum_! Querem casos, +avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis +nem faziveis... A antiguidade espantava-se com o assoviar das +serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da +terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o +progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, _desgosto e feridas_: com +dados, _perder os bens_: com espelho, _traição_: com favas, _doença_: +com herança, _miseria_: com padre, _morte_! + +Alguns, não sei porque,--pode ser que por fazerem o mesmo +acordados--sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, +que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia +libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo mudado; +fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e +Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria, +crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma +chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que +torce sempre o nariz--limite de seu horisonte--a tudo que vae pelo +mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o +Apollo de Belvedere é _piteireiro_: a Venus de Milo assa castanhas, +Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de +capa de asperges!... + +Porque será que se sonha?! Chega a parecer que a alma não está nas +pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz +suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem +com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é +dada,--obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para +onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar +o fio o deixe bambo:--qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar +e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e +acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos, +trazendo-nos idéas e imagens que não têem parentesco com as imagens +e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que +fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio! + +Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.--Que a ultima +coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.--Outros +affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle +não vem, e certo está em o evitando;--principios um pouco alheios aos do +Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não +batas e abrir-te-hão! + +A maneira de dormir deve ter n'isto influencia. Cama desengonçada e +velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de +fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, +saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, +de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo +n'essas condições? + +As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece +sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos +sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres +luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com casamento.--E crê-se +entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem +attribuir-lhes a fortuna:--os que costumam ser desgraçados, já se vê, +que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus +merecimentos!--E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; +e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de +visões, ora de insomnias:--e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter +pulgas no quarto! + +Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das +apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam, e +apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão +para saguão,--com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a +loucura! + +É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que +nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, +merencorio e fusco, _gatos pingados_ por natureza! Os que não teem +desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos +livres. A falta de tormentos,--os sonhos. Em não havendo causas grandes, +as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco +de arvore, escorrega n'uma casca de laranja,--e vae de ventas ao +chão do mesmo modo. + +--Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos! + +--Ai! Com cominhos! + +--São pragas! É praga que me rogaram. + +--Credo! É facil ser! + +E dá-se credito. + +Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril +de polvora sem pegar fogo--estou que não acreditam ao ponto de se +deixarem ficar para assistir ao caso,--mas que sonhar com uma concha +seja signal de _perder o credito_, com um copo de agua de _prompto +matrimonio_, com damascos de _grande alegria_, com guitarra +_prazeres dispendiosos_, e com papagaio _descoberta de um segredo_, quem +se atreverá a pôl-o em duvida?! + +Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,--por tal fórma os males +imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles--como succedeu +ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi +pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou +dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e +metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a +conseguil-o: + + «Gloriosa Santa Helena + Filha da rainha Irena + Moira foste, christã vos tornaste. + Nas ondas do mar andaste, + Com as onze mil virgens vos encontraste. + Com ellas pão e queijo ceaste. + Ao crucifixo vos encostaste + Tres cravos que tinha lhe tiraste. + + O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo + déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a + batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha + gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae + em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas + lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:--se assim não + é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras + e aguas turvas, _Amen_.» + +Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a _rara avis_ dos +dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo +seu pé. Muita gente tem medo d'elles;--principalmente desde o caso de +Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse +em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter +mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites +depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha--foi +atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã +lavar a loiça;--estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa +limpou-os todos, depois engraixou as botas do marido, e foi +deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se +passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o +gallego. + +--Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir! + +Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, +interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos +acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu +a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em +si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte +pergunta: + +--Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande? + +Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte--comprou o bilhete e +sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que +perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz. + +De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... +Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á +noite perguntou-lhe--quando ella estava a dormir, já se vê: + +--É verdade que tu andas de cabeça no ar? + +--Ando. + +--Por causa de quem? + +--Do primo José Maria. + +--É possivel! E porque é isso? + +--Porque elle é bonito, e tu és feio. + +Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo. + +A grande preoccupação popular são os pesadelos,--sonhos negros, +carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça +que causámos.---«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na +_Nova Castro_. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances +mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os +primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os +chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I levantado depois +de morto, para confessar um peccado que não tinha dito. + +Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, +faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos +a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, +reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas +com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a +ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que +se vê! + +Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz--quando não se possa +sel-o de outra fórma. Sempre são horas de ganho sobre os enfados e +cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se +alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da +Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os +claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos, +que morreu espertando.»--É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho--e ás +vezes da felicidade! + + + + +XI + +Sinas + + +Portugal é a terra das sinas,--historias quentes e coloridas como o +paiz; contos que nas noites de inverno entretem as creanças pequenas... +e as grandes, ao pé do amigo lar. + +Quem nascer nos fins de janeiro será sujeito a paixões amorosas (como os +gatos): de 13 de fevereiro a 20 de março, nascem os que hão de ser +gastronomos:--de 21 de março a 19 de abril, os engenhosos e prudentes, +com signal visivel no corpo e ameaçados pela ferocidade de algum +animal:--de 20 de abril a 20 de maio, o que ha de casar rico, dar uma +grande queda (talvez essa!) e ser careca:--de 21 de maio a 22 de junho, +os de sentimentos humanitarios:--de 23 de junho a 22 de julho, gente +destinada a demandas, e a viver até os 73 annos;--de 23 de julho até 25 +de agosto, os bonitos que hão de casar com mulher que soffra de +esterico, ter no decurso da vida perigo grande de golpe de ferro ou +aguas do mar, felizes nos negocios, achando algum thesouro +escondido (o do Lavradio, por exemplo!):--de 24 de agosto a 21 de +setembro, os que hão de exercer cargos do governo (entre nós toda a +gente!); as senhoras ficarão solteiras, apesar de grande numero de +namoros, e hão de gostar muito de côres espantadas:--de 24 de agosto a +21 de setembro, homens castos (oh!), mulheres activas; cabellos +ruivos:--de 22 de setembro a 23 de outubro, ventura no que se +emprehende, honradez, passar melhor em terras estranhas do que na +patria; mulheres elegantes com uma queimadura n'um dos pés:--de 24 de +outubro a 22 de novembro, teimosos, inclinados á astrologia; +mulheres robustas, de beiços grossos e dentes grandes;--de 23 de +novembro a 21 de dezembro, caracter vergonhoso, afavel, dado á +navegação; mulheres com falta de cabello;--de 22 de dezembro a 20 de +janeiro, genio iracundo, mentiroso, vão; costume de fallar só; pouco +saudaveis; mulheres tafulas, que hão de ser mordidas por algum bicho, +brancas, de olhos castanhos, gostando de bailes, tendo muitos namoros, +quasi todos militares. + +Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;--tudo. +Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos +succeder depois de nascer... ou antes. A mão o dirá. Na mão ha +muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,--e já se vê +que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes: + +--Disponha de mim, até onde estiver na minha mão! + +Ou: + +Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão! + +Procurêmos por exemplo os peccados mortaes: + +Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;--avareza, mão dura e +encarquilhada;--luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos +na base;--ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;--inveja, mãos +compridas e ossudas;--preguiça, mão branda e macia: + +Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as +linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão +direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que +isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre +a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que +logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão _esquerda_! + +A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter +poesia se fosse dita e sentida de outra fórma. Comprehende-se que +quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações +que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por +exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem +lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma +coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das +magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os +raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não +passa de ser mais um satelite--e a esperança é um dos nossos tambem, +nuvem de guarda que nos vae consolando com as visões... + +A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de +cumprir-se,--apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se +gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque +motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para +ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os +defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se +lhe tem?! + +É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem +no tronco centenario dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros +negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir +fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros +armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa +material, que tem sina tambem como a natureza intelligente! + +Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de +continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria +das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais +bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util +entregar-se, termo medio, de sete em sete annos áquella operação. +Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna--sem ver +apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de +voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda +representação de vaccina:--trinta segundos; depois, já se vê, da meia +hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres +borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha +febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois +annos tem bexigas. Diz o povo: + +--Era a sua sina! + +As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do +fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi +sempre fatidicos; lá se diz na _Chronica de D. Sebastião_ por Fr. +Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado +Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia: +«Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a +sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que +mudasse para outra mais alegre. + +Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe--nem pessoa nem bicho, +porque até os animaes teem a sua sorte escripta:--a sina do porco, +por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para +mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para +o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso, +o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o +espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle! + +Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, +não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde +zombar, póde não crer;--a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, +cassoista. Um moço elegante e pallido que durante um tempo foi +grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a +côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha +memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;--o mancebo detestava as +mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que +tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder +de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe +tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua +respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz +complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse--deixou-o +esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes, +conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O +outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á +perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O +das mãos grandes, sempre lendo, disse: + +--Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, _tó_, _tó_, anda cá +tollo... + +E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha... + +O outro lembrou-se que qualquer suspeita n'aquellas alturas podia +perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão +phenomenal de que elle tanto se rira sempre!... + +Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás +vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da +vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma +borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá +sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é +isto, simplesmente isto--uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer +dar ás azas sem poder--porque, de cada vez que as quer librar, +alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada! + +A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a +_buena-dicha_. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a +assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e +escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de +rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle +mensageiro da primavera que annuncia as folhas--e dizem que annuncia +tambem outras coisas,--canto um pouco extravagante, canto de duas notas, +o canto do cuco! + +A sina vae de geração em geração. De Aben-Afan diz Garrett no poema de +_D. Branca_: + + Por onde o traz seu fado? + Oh! negra sina entrou n'essa familia... + +Querem dizer que todos vêem ao mundo destinados já para o que hão de +ser; por este systema, a vontade, o juizo, e a educação, não têem força +alguma; nascem uns para padres, outros para sachristães, estes para +ricos, aquelles para pobres; até se diz que muitos nascem para ladrões, +e que não podem deixar de o ser: ia á casa de pasto do antigo Simão um +freguez, que a unica coisa que não furtava era a má fama que tinha. +Levava as colheres, os guardanapos, tudo o que podia apanhar. O Simão +tinha muito dó d'elle, por entender que não fazia com aquillo senão +obedecer á sua sina; deu ordem para não se lhe dizer nada, e de uma vez +quando o homem pediu a conta teve o gosto de ler:--«Pratos 800 réis.» + +--Que é isto! exclamou. Então vocês mettem os pratos na conta? + +--Cuidei que o senhor os levava! disse-lhe o criado. + +A sina é o que a gente a faz ser. A inteireza e o trabalho, que são os +cimentos do commercio da vida, dão resultado certo. Até o tempo faz +sempre justiça, e apesar de destruir, por maiores que sejam, os +monumentos, apesar de arrasar thronos e imperios, respeita certos nomes +e conserva-os levantados como pharoes no horisonte da historia e do +pensamento. A felicidade não póde estar senão em se ser gente de bem. +Tirar a Deus a tutela do mundo para a ir dar a um poder meio fadista a +que se chame _sina_, parece-me uma impiedade e uma tolice! + + + + +XII + +Coisa má + + +«Coisa má!» + +«Coisa má» se lhe chama; e por peior que seja sempre ha de ser +preferivel á ruindade humana;--que mais vale dar uma topada ou uma +canellada do que encontrar certas caras! + +«Coisa má» é a lua de março; a lua marcina, como lhe chamam no +campo--que nem deixa saber se haverá trigo ou milho emquanto ella não +passar; coisa má é a terra esquentadiça e delgada, a terra que aperta e +não produz, defronte mesmo de chão fresco, chão de barro, ao pé de +varzea; coisa má é o lameiro virgem; a espada que matasse homem, ou que +passasse tres vezes o Douro e o Minho; o lenço de assoar que nos deram +sem que recebessem cinco réis em troca... + +Salta nos atomos a ironia, as moleculas andam a rir-se; são laços, +armadilhas, ratoeiras, os corpos mortos que nos rodeiam; parece que não +ha objecto que não tenha morador, que não tenha inquilino, que não +tenha «coisa má» em si; espiritos malignos que espreitam pelos poros com +o seu olhinho gasio, fazem caretinhas á alegria em que uma pessoa esteja +e rompem em risota perante as maguas que nos pesam... Demonios hostis, +pequerruxinhos, invisiveis, que estão sempre á caça de nos pregar peça... + +Anda, ás vezes, mezes a fio «coisa má» com a gente--que nem que fosse um +cão escondido de que só se aviste a baba e a mordedela... Em se pondo +chapeu novo, é sabido que ha de chover.--Fato que se vista pela primeira +vez, não deita ao sol posto sem lhe succeder precalço; anda um +homem com calafrios na golla, e acrescimos nas abas, passam +pressentimentos nas pernas, e apertam-se as fivellas com susto do que se +está passando... + +Ah! rico palletot velho, chapeu companheiro das noites de inverno, +capote das rapaziadas e das aventuras,--que de extensas marchas na +estrada da vida! Esses trastinhos é que são amigos, esses é que nos +sabem do feitio, e que se ageitam bem ao corpo. + +Que differença com o fato novo, que se trata como a Santo Antoninho onde +te porei! Se na cidade toda não houver mais do que uma porta pintada de +fresco, lá ha de vir caso urgente que leve uma pessoa a ir por ali +roçar-se e arranjar divisas na manga como um sargento; ou um diabrete de +algum preguito que tenha estado annos n'aquella umbreira sem fazer mal a +ninguem, até que nos apanhe com um farpão formidavel! + +Ha coisas que se perdem sempre; outras que sempre esquecem: a chave do +trinco, por exemplo. Que de noites fica o sujeito durante horas batendo +á porta, na esperança de que o visinho se compadeça d'elle,--ou, o que +ainda é peor, que de noites tem o homem de ir dormir fóra de casa por +não ter comsigo a chave do trinco! Noites de aventura forçada, noites +sem graça e sem gosto, quasi sempre a chover, e o pobre diabo a +vagabundar e a ir bater quem sabe onde!? + +Que, diga-se a verdade e não deitemos toda a carga ao lombo da chave do +trinco--não é só ella que tem coisa má, são todas as chaves. Em sendo +preciso abrir porta, caixa, armario, ou malla, ahi se somem ellas, e +toca a procurar d'aqui, a buscar d'acolá, e vae e gira e anda e volta, +até que vão achar-se muito bem fechadas n'uma gaveta! + +Em antigas relações de autos da fé e sentenças da Inquisição ha mil +historias de «coisa má,»--poços que atiram para fóra com o que se lhes +deita; hervas de maleficio que se mettem de proposito debaixo dos +pés da gente, pedregulhos em que mora ferrabraz, satanaz, caiphaz... + +Ás vezes é o mau olhado. Está a «coisa má» nos olhos, no feitio, na luz +e influencia d'elles; e a gente deixa-se levar de apprehensões, de +inquietações, a recear de tudo, e a querer saber, a querer explicar... +Por isso faziam bem os egypcios,--nunca houve povo com mais juizo!--que +cortavam as curiosidades e as manias com a religião, e fizeram da noite +origem de tudo quanto ha, mundo, estrellas, soes, divindades. Noite. +Armar em dogma e em artigo da fé a escuridão que envolve as coisas, +e adoral-a por não saber que explicação lhe dar. + +Que ás vezes succede que a «coisa má» possa parecer boa. Ahi está que +havendo em Portugal superstição para com os tortos, já um poeta dos +principios do seculo passado, mascarado com um pseudonimo, os cantou no +poema da _Monocléa_; poema destinado ao louvor dos cegos, vesgos e +zanagas, e em que se diz de Camões como quem dá de vez com o segredo da +sua gloria: + + De um olho claudicava de tal arte + Que celebre se fez em toda a parte. + +Tudo vae da disposição d'animo, do interesse, e da optica. Um +agiota, sempre certo no Terreiro do Paço, da uma hora ás tres, +debaixo da arcada, emprestava dinheiro--n'uns tempos de crise politica e +financeira, de que o paiz ficou guardando má lembrança--a 9 por cento. + +Dizia-lhe um amigo: + +--Ó homem! Isso é esfollar de mais! Olha lá o ceu não te castigue. Deus +vê tudo, e estou que não te perdôa essa! + +--Deixa-o ver, respondia o outro. Eu bem sei o que faço. O 9 visto lá de +cima parece um 6. + +Ha dias em que todas as cousas realmente parecem querer-nos mal, e em +que as contrariedades veem em ranchos, em grupos, em series; desde +o saltar da cama até ao deitar á noite como que se vae caindo de +barranco em barranco; parece estar-se destinado como o Sybarita a que +até a prega de uma folha de rosa nos sirva de incommodo para nos +sentarmos. Não se póde trabalhar, nem pensar sequer. O correio, arauto +do torneio da vida que todos de manhã esperam soffregos, ou não traz +carta ou traz más novas;--sae-se para a rua sem haver escovado o +fato;--as pessoas a quem se procura, em morando alto não estão em +casa;--ao voltar da esquina está á porta da taberna um bebedo a comprar +castanhas, e entorna por cima da gente o copo que tem na mão;--é +n'esse dia quasi sempre que um homem se constipa, rompe a espirrar duas +horas, e fica sem o botão do collarinho... + +Em Portugal as classes cultas são tão dadas á superstição das series +como o povo; em lhes succedendo um revez não descançam emquanto não +chegam mais dois; tres é o numero.--Decorrem dias, semanas, mezes, sem +haver incendio; mas, em tocando a fogo, dizem que é certo não parar +n'aquelle, e os gallegos ficam logo de pé no ar para irem buscar outra +vez a bomba. + +É da indole da nossa terra dar vulto a estas manias, pelo amor que ha +aqui a tudo que seja casos sombrios, dias nefastos, e cousas +relamborias. É sabido! Precisamos absolutamente de tudo que for mofino e +tetrico. Indifferentes, preguiçosos, desenchabidos, de tudo isto nos +consolamos com tanto que venha de tempos a tempos alguma celebreira +carregada e tristonha para nos entreter; de Garrett ou de Castilho é +raro o que saiba um verso, mas qualquer será capaz de recitar entre a +pera e o queijo o fado de João Brandão! + +Ha sitios de que se gosta, sem sequer ás vezes saber porque; cada casa +tem por assim dizer uma alma, e dá-se uma pessoa bem, mas muito bem, +muito melhor que n'outras, n'uma certa; ha um recanto do jardim, +que cheira mil vezes bem depois d'estes chuviscos do outomno, e onde a +gente gosta de estar ao cair da tarde espreitando o ceu por entre a rama +das arvores;--ha até simples objectos, coisitas de nada, que exercem +attracção nos animos e nos dão gosto em os ver... Mas lá está, lá está +no fundo a coisa má;--e esses objectos a que mais se quer serão os que +hão de perder-se mais depressa,--e os sitios queridos, a casa, o +quintal, a arvore, têem de ser os que a gente haja de deixar mais cedo +contra vontade! + +E o mesmo succede a tudo que tiver «coisa má;»--o amor, a formosura, a +mocidade: tres coisas realmente boas; as tres coisas melhores que +ha; e tambem as que mais depressa fogem,--que até têem azas como os +anjos, e voam como as andorinhas! + +Nas familias portuguezas o terror pela «coisa má» tem variado muito, e +chegado por vezes a ser jocoso. Houve tempo em que mettia medo quem +sabia fallar francez. Não se queria matar os meninos com estudos; o +estudar fazia mal. Lembravam-se dos exemplos da antiguidade, e do fim +desgraçado de homens notaveis,--Euripides despedaçado por uma matilha de +cães, Cicero degolado, Socrates succumbindo ao veneno! Destinavam um a +mercador, outro a cadete, o mais gordinho ia para padre. Em todo o +caso--nada de fallar francez. Dizia-se de um rapaz: + +--É um extravagante. Jogador, caloteiro. Bate no pae... Até me dizem que +falla francez! + +--Sério? perguntavam todos. + +--Ha quem o ouvisse. + +Depois, e já no meu tempo, inspirava igual panico usar chale-manta +quando appareceram os primeiros em Lisboa. + +--É um bregeiro, dizia-se. Não é limpo de mãos... + +--Sim, sim. + +--Deixa andar a mãe a pedir esmola... + +--Sim senhor. + +--Até anda de chale-manta! + +--O quê?! + +--Palavra de honra. + +Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha +«coisa má»--e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já +ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da +sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores--sempre +que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se +alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A +mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra +qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais perigosa que se +manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae +azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado +de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso. + +«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a +quem; querer remar e não ter braços. O _politicão_ que passa a vida a +recusar pastas que não lhe offerecem--diz que o paiz tem «coisa má;» o +beberrão que troca as pernas--accusa de ter «coisa má» o vinho de mais +que bebeu. + +«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não +tem!... + + + + +XIII + +As mulheres de virtude + + +O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e +de vista--apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a +que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca +quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a +dignar-se sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal +de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa +não os traz comsigo... nem com outro--a marota da felicidade volta-lhe +as costas e dá ás de Villa Diogo! + +De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores +para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude +na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao + + _Pero Pico + que viveu pouco e pobre + e finou rico!_ + +As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a vida +seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em +philtros, ás _mulheres de virtude_. As _mulheres de virtude_ são as +_chirogromanas_, as _chiromantes_, as _cartemantes_ de Portugal. As +crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da +melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem +elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das +cartas tudo que vae pelo mundo. + +Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas +_mulheres de virtude_, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam +de uma casa na rua dos Correeiros, onde tinham ido exercer as +ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas +onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de +roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com +liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres +casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se +enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um +cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia, +esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas +ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á meia noite de sexta feira em +que fosse lua nova. + +As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem +condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas +no lar domestico, creadas na solidão--mais profunda sempre que a do +homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. +Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas +mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes +parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:--acreditam +todas na fatalidade--e a fatalidade é a mãe da bruxaria. + +Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que +lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma +escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela +senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha +com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires +com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em +cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa, +dizendo tres vezes o nome d'ella e resando: + + _Deus te fez, + Deus te creou, + Deus te desolhe + De quem mal te olhou. + Se é torto ou excommungado, + Deus te desolhe do seu mal olhado._ + +Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a +cliente,--fregueza, victima,--assustando-a com a vista, com os modos, +vão resmungando de fórma que mal se perceba--«Sant'Anna teve a Virgem, a +Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal +olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, +não tem--e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer +obstaculos, descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;--quer +dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á +consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje +um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para +fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...--Sei tudo isto +por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas. + +Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, +vellas de cêra, e--como diz o povo--_para compôr_, um pouco de cabello. +O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello dá amor, +lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. +Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o +amor conjugal a limites extremos--o que não o impediu de casar por duas +vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe +por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu--para +conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que +haviam feito a felicidade da sua existencia--aproveitar as tranças de +cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera +a desgraça de as perder, e mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o +topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma +côr--mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem +nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de +virtude!... + +Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,--mas que só dá por +isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem +soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite +correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, +logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: +«Vôa, vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não +sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite, +espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a +resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o +espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou +de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima +de toda a folha!» disse:--«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» +Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a +rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados... + +Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a +si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas +lhe estão chupando o sangue--accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me +que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende. + +Ora as _mulheres de virtude_ são bruxas que aprendem. Vae aquella arte +de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás +vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: +até se lhes chama _sabias_. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir +seres privilegiados para a instruirem, quer queira, quer não; a +sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na +cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao +genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a _mulher +de virtude_ é o que tem havido melhor! + +Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. +Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, +dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam +nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e +choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece +com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio... +Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados; +ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama +piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas +tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como +que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de +contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as +cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella +estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima, +apalpando o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o +_amante_, o cinco de copas são _lagrimas_, o az de paus _fandangos_ +(amores), sete d'espadas _desgosto formal_, az de ouros _prenda_, tres +de copas _com certeza_, dois de paus _a caminho_, quatro de paus +_prisão_, e a espadilha _affirma_! + +É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma +estupidez--é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de +casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror! + +Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a +inquietação, a angustia, as noites raladas de ciume, de despeito e +de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo--na +mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas +rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no +fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, +no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e +clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de +alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no +palavrorio de resa que precede o _botar a falla_: +--Credo--cruzes--canhoto--temos bruxaria--saramago--mostarda--alho +e arruda--maravalhas e palhas de alhos! + +Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia +na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do +acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os +conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas +essas allucinações de que lhes tenho fallado, _telha_, _enguiços_, +_encantos_, _agouros_, _feitiços_, _sonhos_, _sinas_, _coisa má_, +provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas _mulheres de +virtude_. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer +no renascer das folhas; na volta da quadra florida; crer que a dor +não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas +que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a +chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão +em duas coisas,--em enguiços e em economias! O mesmo _deficit_ de que +tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim +somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;--duas vezes tristes! + + +FIM + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + PAG. + I--Os doidos................... 5 + II--As doidas................... 23 + III--Os idiotas.................. 41 + IV--Os furiosos................. 59 + V--Telha....................... 77 + VI--Enguiços.................... 97 + VII--Agouros..................... 117 + VIII--Feitiços.................... 135 + IX--Encantos.................... 155 + X--Sonhos...................... 175 + XI--Sinas....................... 193 + XII--Coisa má.................... 213 + XIII--As mulheres de virtude...... 231 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Da Loucura e das Manias em Portugal, by +Júlio César Machado + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DA LOUCURA E DAS MANIAS *** + +***** This file should be named 34275-8.txt or 34275-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34275/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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