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+The Project Gutenberg EBook of A Vista Alegre: apontamentos para a sua
+historia, by João Augusto Marques Gomes
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Vista Alegre: apontamentos para a sua historia
+
+Author: João Augusto Marques Gomes
+
+Release Date: November 11, 2010 [EBook #34276]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VISTA ALEGRE: APONTAMENTOS ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano
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+
+
+
+ A VISTA ALEGRE
+
+ APONTAMENTOS PARA A SUA HISTORIA
+
+ POR
+
+ J. A. MARQUES GOMES
+
+ SOCIO CORRESPONDENTE DO INSTITUTO DE COIMBRA
+ E DAS SOCIEDADES
+ DE GEOGRAPHIA DE LISBOA E PORTO
+
+
+
+ PORTO
+ TYP. COMMERCIO E INDUSTRIA
+ 22, Rua do Corpo da Guarda, 22
+ 1883
+
+
+
+
+ A VISTA ALEGRE
+
+ APONTAMENTOS PARA A SUA HISTORIA
+
+ POR
+
+ J. A. MARQUES GOMES
+
+ SOCIO CORRESPONDENTE DO INSTITUTO DE COIMBRA
+ E DAS SOCIEDADES
+ DE GEOGRAPHIA DE LISBOA E PORTO
+
+
+
+ PORTO
+ TYP. COMMERCIO E INDUSTRIA
+ 22, Rua do Corpo da Guarda, 22
+ 1883
+
+
+
+
+AO SENHOR
+
+Duarte Ferreira Pinto Basto Junior
+
+
+
+
+A menos de dois kilometros de Ilhavo e sobranceira ao braço da ria de
+Aveiro, que liga a chamada Calle da Villa com o Bôcco, fica a Vista
+Alegre. Quadra bem este titulo á risonha povoação em que um dos homens
+mais prestimosos e emprehendedores que Portugal tem conhecido no
+presente seculo, veio fundar a fabrica de porcelanas, que do local toma
+o nome.
+
+A Vista Alegre como povoação em si, tem tambem como o importante
+estabelecimento que a tornou conhecida tanto no paiz como no
+estrangeiro, uma historia sua de quem a lenda por mais d'uma vez se
+apossou já, deturpando-a.
+
+Não nos cançaremos em lhe procurar a etymologia pois é fóra de duvida
+que o nome lhe proveio do formosissimo panorama, que a contorna,
+moldurando-lhe o rosto gentil.
+
+Anteriormente á fundação da fabrica, a Vista Alegre não tinha fóros de
+povoação, era uma quinta apenas. Um templo formosissimo e uma casa
+modesta que servia de habitação aos proprietarios da quinta, eram os
+unicos edificios, que ali existiam, e isto ainda no primeiro quartel do
+seculo XIX.
+
+A fundação d'um tão bello templo, como é o de Nossa Senhora da Penha de
+França, n'um sitio tão ermo, como era a Vista Alegre, fez com que muitos
+principiassem a architectar romances mais ou menos verosimeis.
+Imaginaram-se desterros e deportações, e bem assim fofo ninho de
+criminosos amores d'um prelado illustre com uma dama de elevado
+nascimento e freira professa n'um dos conventos de Lisboa.
+
+Não longe da Vista Alegre, a um kilometro para o sul, fica o antigo
+logar da Ermida, villa e concelho até 1834 a quem D. Manoel deu foral em
+8 de junho de 1514. N'esta povoação houve um praso, cuja origem data de
+seculos, tendo por cabeça uma grande quinta denominada o Paço da Ermida.
+Este praso e quinta andava no senhorio dos Mouras Manoeis, familia muito
+illustre, pois trazem a sua descendencia de D. Branca de Sousa, filha de
+Lopo Dias de Sousa, grão-mestre da Ordem de Christo.
+
+Alguns escriptores teem confundido a quinta da Ermida com a da Vista
+Alegre, e affirmado que foi seu proprietario o bispo de Miranda, D.
+Manoel de Moura Manoel.
+
+Nem a quinta da Vista Alegre já foi conhecida por quinta da Ermida, nem
+tão pouco aquelle prelado foi dono de qualquer d'ellas.
+
+É fóra de duvida que D. Manoel de Moura Manoel vinha frequentes vezes
+passar alguns dias e ás vezes, mezes até, á quinta da Ermida, que
+conjunctamente com o praso do mesmo nome pertencia a seu irmão
+primogenito Ruy de Moura Manoel. Durante a sua estada aqui, travou
+relações com o proprietario da quinta da Vista Alegre, o Dr. Manoel
+Furtado Botelho, relações que se foram tornando cada vez mais intimas de
+sorte que passados annos edificou em terrenos dependentes da mesma
+quinta a Capella de Nossa Senhora da Penha de França.
+
+Por morte de Ruy de Moura Manoel, passou a quinta da Ermida para seu
+filho Rodrigo de Moura Manoel, que tendo casado com D. Rosalia da Silva,
+filha de Luiz Lobo da Silva, governador e capitão general de Angola
+morreu sem successão, pelo que os seus bens passaram para suas irmãs. A
+Ermida pertenceu a D. Maria Maximilianna, casada com Jeronimo de
+Castilho. Por morte d'este, ficou sendo senhor d'ella seu filho Jeronimo
+Antonio de Castilho que conjunctamente com sua mulher D. Joaquina Izabel
+Freire de Castro, a vendeu por escriptura lavrada nas notas do tabellião
+da então villa de Aveiro, Manoel de Sousa Bastos em 15 de janeiro de
+1727, a Zeferino Rodrigues Caudello. Em 17 de março de 1812 fez venda da
+mesma quinta ao snr. José Ferreira Pinto Basto, D. Bernarda Thereza
+Umbelina Caudello de Maviz Sarmento, néta do referido Zeferino Rodrigues
+Caudello.
+
+O proprietario da quinta da Vista Alegre Dr. Manoel Furtado Botelho,
+tendo fallecido em 9 de setembro de 1733, dispoz dos seus bens como se
+vê da parte do seu testamento que passâmos a transcrever do livro dos
+obitos da freguezia de Ilhavo, no anno de 1733: «que seria sepultado na
+capella de Nossa Senhora da Penha de França, e deixava entre outras
+missas, cincoenta pela alma do seu amigo o snr. Bispo que foi de
+Miranda. Instituia por sua universal herdeira D. Theodora de Castro
+Moura Manoel, de seus bens, e que esta poderia vender d'elles o que lhe
+parecesse para dividas e ser freira sem constrangimento de pessoa alguma
+nem justiça alguma lhe tomaria conta, nem lhe fariam inventario; e os
+bens que ficassem por sua morte d'ella, iriam ao usufructo do seu
+testamenteiro o padre licenciado Domingos Ferreira da Graça, cura de
+Ilhavo, e por morte d'este a Nossa Senhora da Penha de França da Vista
+Alegre, que entrando na posse seria obrigada a fabrica da capella a
+fazer uma festa á dita Senhora em 8 de setembro de cada anno, da qual o
+capellão daria contas ao Dr. Vizitador.»
+
+Não foram, ao que parece, totalmente cumpridas as disposições do
+testador, pois é certo que os seus bens tiveram um destino muito
+differente do que o que lhe havia marcado.
+
+D. Theodora de Castro Moura Manoel era como o proprio nome o indica
+filha do bispo de Miranda, a quem pertencia tambem o appellido _Castro_
+pois o houve de sua mãe, D. Maria de Castro. Aquella senhora, destinada
+segundo parece para a vida claustral, não tomou o habito, nem tão pouco
+chegou a casar, mas teve um filho, a quem deu o nome de seu pae, d'ella,
+Manoel Pereira de Moura Manoel, que ordenando-se foi abbade da freguezia
+de S. Romão de Guimarães.
+
+O appellido _Pereira_, do mesmo modo que o de _Castro_ era tambem
+pertença do bispo, pois era segundo neto de João Rodrigues da Costa e de
+sua mulher D. Isabel _Pereira_.
+
+O abbade Manoel Pereira de Moura Manoel morreu ainda em vida de sua mãe,
+mas não sem deixar successão, pois teve uma filha de D. Clara Maria
+de Barros, natural de Gondar, no concelho de Guimarães, D. Josepha
+Caetana de Castro, que casou em 20 de novembro de 1748 com o capitão
+Manoel Alvares Brandão, de Santa Marinha de Taboa, no bispado de
+Coimbra. D'este consorcio nasceram duas filhas e um filho que todos
+foram baptisados na egreja de S. Salvador de Ilhavo, a cuja parochia
+pertence a Vista Alegre.
+
+D. Theodora de Castro Moura Manoel falleceu em 1767, sendo sepultada na
+capella de Nossa Senhora da Penha de França, quaes porém as suas
+disposições testamentárias se as deixou, são desconhecidas.
+
+O testamenteiro do dr. Manoel Furtado Botelho, o padre licenciado
+Domingos Ferreira da Graça, para quem devia passar o usufructo da
+herança que aquelle havia deixado a D. Theodora de Castro Moura Manoel,
+sobreviveu ainda a esta, pois só falleceu em 7 de maio de 1772, mas se
+elle usufruiu ou não a herança é que é ponto muito duvidoso, sendo certo
+porém que tal herança por venda ficticia ou por outro qualquer meio,
+nunca chegou a pertencer á fabrica da capella de Nossa Senhora da Penha
+de França, pois passou para o capitão Manoel Alvares Brandão e d'este
+para seus filhos, um dos quaes Alexandre de Castro Brandão, que foi
+capitão-mór de Cantanhede, vendeu em 1815 a quinta e capella da Vista
+Alegre ao snr. José Ferreira Pinto Basto.
+
+Esboçamos a historia da Vista Alegre, agora resta-nos reunir aqui alguns
+apontamentos biographicos do fundador da capella de Nossa Senhora da
+Penha de França e fazer uma descripção ainda que rapida da mesma capella.
+
+D. Manoel de Moura Manoel nasceu em Serpa, sendo seus paes, Lopo
+Alvares de Moura e D. Maria de Castro. Filho segundo d'uma casa
+vinculada como era a sua, e não querendo seguir a carreira das armas,
+abraçou a que lhe restava, segundo o seu nascimento--a ecclesiastica.
+Seguindo os estudos superiores na Universidade de Coimbra, doutorou-se
+em Canones, e na qualidade de oppositor a uma das cadeiras d'esta
+faculdade, foi eleito collegial do Real Collegio de Paulo em 28 de julho
+de 1638, sendo reitor do mesmo o dr. Ambrosio Trigueiros Semmedo.
+
+Em 17 de dezembro de 1660 foi nomeado conego doutoral da Sé de Lamego,
+d'onde passou para a de Braga por promoção que obteve no 1.º de maio de
+1666.
+
+Nomeado deputado da Inquisição de Évora passou para Inquisidor da de
+Coimbra em 13 de outubro de 1663, e a deputado do Conselho Geral do
+Santo Officio em 13 de abril de 1674.
+
+Eleito em lista triplice para reitor da Universidade, foi provido n'este
+logar por el-rei D. Pedro II, em 23 de agosto de 1683, que o nomeou por
+essa occasião sumilher da cortina. Havendo prestado juramento em 16 de
+novembro daquelle anno, governou a Universidade até o 1.º de fevereiro
+de 1690 em que foi eleito o seu successor D. Nuno da Silva Telles.
+
+Durante o seu reitorado residiu por differentes vezes em Lisboa,
+principalmente nos annos de 1688 e 1689.
+
+Escolhido para bispo de Miranda em 28 de abril de 1689, foi sagrado em
+outubro do mesmo anno na egreja parochial de Nossa Senhora dos Anjos de
+Lisboa, pelo cardeal D. Verissimo de Lencastre, sendo assistentes D.
+Fr. Luiz da Silva, bispo da Guarda, e D. Simão da Gama, bispo do Algarve.
+
+Fazendo jornada para as Caldas de S. Pedro do Sul, adoeceu gravemente
+nos Ferreiros, proximo a Vizeu, e ahi falleceu em 7 de setembro de 1699.
+Durante a doença foi-lhe enfermeiro sollicito o bispo d'aquella diocese,
+D. Jeronimo Soares, que assistiu tambem ao seu funeral e ordenou que
+fosse sepultado na capella-mór da egreja d'aquella freguezia, d'onde as
+suas cinzas foram trasladadas para a Vista Alegre em 1706.
+
+Ignora-se o anno em que D. Manoel de Moura Manoel mandou edificar a
+capella de Nossa Senhora da Penha de França, mas ainda assim parece não
+haver duvida que foi já depois de estar bispo em Miranda.
+
+É de bello aspecto a frontaria do templo, avistando-se a algumas leguas
+de distancia os corucheus das suas duas torres. O interior não é menos
+elegante. As paredes do corpo da capella são forradas d'alto a baixo de
+bons azulejos, todos coevos da sua fundação--fins do seculo XVII,--é a
+aboboda ornatada de boas pinturas a fresco. Tem dois altares lateraes de
+boa talha dourada, dedicados ambos á Virgem, sob a invocação do Rosario
+e da Conceição. O retabulo e altar da capella-mór são trabalhos
+primorosos em fino marmore de Italia.
+
+Embebido na parede da mesma capella e do lado da epistola, está o tumulo
+do fundador, fabricado primorosamente de granito de Ançã.
+
+A urna funerária é sustentada por tres leões de farta juba, que parecem
+prestes a ser esmagados pelo seu peso.
+
+No centro da urna, levantado em alto relevo, está um escudo oval
+partido, com as armas dos Mouras Manoeis, tendo por timbre um chapeu
+episcopal.
+
+Sobre ella está a figura do bispo, de vestes prelaticias, meia deitada,
+com a mão esquerda sobre o peito e a direita estendida com que a apontar
+para o Tempo, que está ao fundo sobraçando o panno mortuario que deve
+cobrir o sarcophago.
+
+A execução é primorosa, conhecendo-se até nos mais pequenos lavores o
+primor do cinzel que o trabalhou.
+
+O povo rude das aldeias visinhas, acredita que tal obra não podia ser
+executada por mãos de homens, e por isso attribue-a ao diabo, creando
+uma lenda que o snr. Brito Aranha reproduziu já no seu bello livro
+_Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de
+Portugal_.
+
+O nome do esculptor Claudio de Laplada cahiu com effeito no olvido, de
+sorte que o forasteiro, que visitando a Vista Alegre perguntasse quem
+havia feito o tumulo do bispo, recebia sempre em resposta aquella lenda.
+
+Fronteiro a este tumulo, está um outro, muito mais modesto, sem duvida,
+mas ainda assim digno de ser apreciado, como obra que é do mesmo
+artista. Sobre uma urna funeraria, onde se vê tambem um escudo, com as
+armas dos Castros, está sentada uma figura de mulher sustentando na mão
+esquerda um baixo relevo, representando uma cabeça de freira, allusão
+sem duvida á vida monachal que o bispo desejava que sua filha D.
+Theodora de Castro Moura Manoel abraçasse, pois era, como as treze
+arruellas dos Castros do escudo o indicam, para ella destinado o
+moimento.
+
+Por debaixo d'este tumulo e por tanto fronteiro ao do bispo está uma
+grande lapide de marmore branco, tendo gravada a seguinte inscripção
+latina:
+
+ _Deo opt.º Max.º
+ Deiparae virgini
+ Diei ultimae_
+
+ _Supremo Judicio Supremus Judex:
+ Rectrici universi Rector universitatis:
+ Episcopo animarum Animosus episcopus._
+
+ _In
+ Mortis asylum, voti titulum, gratitudinis
+ tropheum,
+ Hoc templum, hanc aram, hunc tumulum
+ dedicat sacrat signat
+ Ill.mus et R.mus Dõnus
+ D. Emmanuel de Moura Manuel
+ Qui
+ A B. Ferdinando Castellae Rege progenitus,
+ sanctorum soboles, electum genus est:
+ Armis et literis, ordine, et cursu manens,
+ stella micans, et dimicans fuit:
+ Aulae supernae cum Pontificibus ascriptus
+ simili gloria sacerdos Christi erit.
+ Favente natura, comite, virtute, auxiliante
+ gratia.
+ Cui
+ Ortum dedere Serpae ter maxime conjuges
+ Lupus Alvares de Moura,
+ commendator de Trancoso,
+ Trium Ecclesiarum Patronus, Trium
+ maioratuum Dõnus
+ Et D. Maria de Castro
+ Ex Imperiali Emmanuelium stirpe pari
+ nobilitate decorata.
+ Quem
+ Serenissimi Portugaliae Reges
+ Destinarunt caducco, Selegerunt consilio:
+ Sancti Officii Tribunal
+ Judicem habuit Deputatum Inquisitorum
+ dignissimum:
+ Academia Conimbricensis
+ Collegam educavit, Rectorem coluit.
+ Ecclesiae Luzitanae
+ Canonicum nutrierunt alumnum, et sponsum
+ receperunt Episcopum.
+ Tot gradus Providentia Supponente,
+ Ut meritis augeretur, quod sanguini
+ debebatur.
+ Cujus
+ Magnutudinem Integritatem Sapientiam
+ Multiplex fama loquitur,
+ Ipsa Juvidia fatetur,
+ Hoc opus salamonicum testatur.
+ Quo
+ Arca coronata, suffulciens, Propitiatorium,
+ Custodit miraculosum simulachrum
+ Virgae Virginis quae rupit rupem.
+ De cujus nativitate, quam celebrat, gaudens,
+ Sub cujus umbra, quam desiderat, sedens,
+ Zoculo fecit locum;
+ Munimentum construxit monumento.
+ Herculeas columnas, vel potius Machabaicas,
+ Saxeas fixit, non terreas finxil,
+ Ut viderentur ab omnibus navigantibus mare:
+ Non plus ultra.
+ Hujus tanti viri si effigiem quaeris,
+ Inspict utrumque antrum:
+ Franci--hispanicum scilicet, et
+ Bethlemiticum.
+ Quibus
+ Ut simon dormit; ut Pastor vigilat;
+ Immo etiam vigilat, cum dormit;
+ Nam illic spiritus inter vigiles associatur
+ Caelesti militiae,
+ Dum hoc corpus, virginis protectione securum
+ Requiescit in pace.
+ Hoc Epitaphium insculptum Fuit anno
+ Domini 1697._
+
+ * * * * *
+
+ TRADUCÇÃO
+
+ Ao Deus Omnipotente
+ Á Virgem Mãe de Deus
+ para o ultimo dia.
+
+ Juizo supremo
+ Moderador do Universo
+ Bispo das almas.
+
+
+ Supremo Juiz
+ Reitor da Universidade
+ Bispo animoso
+ Para
+ Asylo na morte, satisfação d'um voto
+ monumento de sua gratidão
+ dedica este templo, consagra este altar;
+ erige este tumulo
+ o Ill.mo e Rev.mo Snr.
+ D. Manoel de Moura Manoel,
+ a quem
+ O sangue do bemaventurado D. Fernando
+ Rei de Castella
+ Communicou as virtudes d'uma raça d'eleições
+ nunca desmentidas:
+ --nas armas, nas letras, na gerarchia;--
+ no progredir
+ Astro de brilho constante,
+ Inscripto entre os Pontifices na superna
+ Curia partilhara similhante
+ gloria no sacerdocio de Christo:
+ Não lh'o nega a natureza; acompanha-o
+ a virtude, auxilia-o a graça.
+ Viu a luz em Serpa
+ gerado dos preclarissimos esposos
+ --Lopo Alvares de Moura--
+ Commendador de Trancoso,
+ Padroeiro de tres Egrejas e Senhor
+ de tres morgados,
+ e--D. Maria de Castro--
+ descendencia não menos illustre:
+ da familia imperial dos Manoeis.
+ Os Serenissimos Reis de Portugal
+ destinaram-o para o Caducco, e elegeram-o
+ para o seu Conselho;
+ O Tribunal do Santo Officio
+ no cargo de Juiz deputado o possuiu como
+ lustre de inquisidores.
+ A Academia Conimbricense
+ houve-o por collega, e o recebeu
+ por seu Reitor.
+ As Egrejas de Portugal
+ o occuparam no tirocinio de Conego,
+ venerando-o depois como Bispo.
+ Permittiu a Providencia quando passasse por
+ estas provas, para que adquirisse
+ pelos meritos o que ao sangue era devido.
+ A fama sem descanço apregoou
+ a sua magnanimidade, inteireza, sabedoria, e
+ mesmo a inveja isto confessa;
+ e testemunha-o esta obra Salomniaca
+ em que
+ qual arca curvada, para abrigo, Propiciatorio,
+ se venera a miraculosa imagem
+ da vara da Virgem, que fende a rocha,
+ Em honra da sua natividade, que celebra
+ jubiloso levantou grande monumento
+ em pequeno recinto, esperando
+ repousar á sua sombra, porque aspira.
+ N'elle
+ Construiu para defesa do monumento
+ Columnas d'Hercules ou antes Machabaicas
+ fortes, e não frageis;[1]
+ para que todos quantos correm o mar
+ saibam
+ que se não pode passar além.
+ Se desejas conhecer o retrato de tão
+ illustre varão, busca-o nas duas grutas,
+ na franca hispanica e na bethelemica.
+ Se
+ n'ellas como Pedro dorme, está vigilante
+ como pastor;
+ ou antes seu somno é a vigilia;
+ pois além se associa á celeste milicia entre
+ os vigilantes espiritos,
+ aqui o seu corpo está sob a guarda da Virgem,
+ Repousa em paz.
+ Este epitaphio foi feito no anno
+ de Christo de 1697.
+
+ [1] Refere-se ás torres da capella.
+
+Um outro monumento antigo da Vista Alegre, é a fonte do Carapichel, hoje
+quasi soterrada, mandada construir em 1696 pelo bispo D. Manoel de Moura
+Manoel, e notavel pela sua fórma e excellente agua, e muito
+principalmente por uma inscripção em caracteres gothicos e que é a que
+passamos a transcrever:
+
+ «Esta fonte, ó navegante,
+ cuja liquida corrente
+ cristaes prodiga desata
+ attenções vistosa prende.
+ Esta nympha que ao Vouga
+ só em leguas mais de sete
+ adoça as aguas salgadas,
+ feita Nayade ou Nereide.
+ Esta agua que o bem commum
+ á vara liberal deve
+ de um sabio pastor sacro
+ militar, juiz, regente.
+ Esta veia cuja origem
+ a do Paraiso excede;
+ pois da casa da Senhora
+ mais bem nascida descende.
+ Contém todas as virtudes
+ das fontes mais excellentes
+ e dá remedios á vida
+ depois de dar morte á sede
+ se a frequentas por agrado.
+
+
+ * * * * *
+
+ «Sendo aos narcisos enfeite
+ é das graças Natalis
+ e das musas Hippocrene
+ e Aratuhsa de Alpheo
+ mas por modo differente:
+ pois de um rio a outro rio
+ aquella foge, esta segue.
+ Egeria de melhor Numa
+ que magnifico e prudente
+ na arca o numero invoca
+ no tanque a prata dispende.
+ Biblis que, sem culpa, ao rio
+ irmão por parte de Thetis
+ murmurando a esquivança
+ vae abraçar docemente.
+ Fonte emfim do sol contigua
+ ao templo de Deus dos Deuses
+ contra a calma a fonte fria
+ para o frio fonte quente.
+ Se a buscas por medicina
+ é qual a de Circe ou Séthys.
+
+
+ * * * * *
+
+ «Fonte que as doenças cura
+ cristal que a vista esclarece
+ iguala a fonte de Marsyas
+ com benéfica antitheses:
+ pois se aquella pedras cria
+ est'outra pedras derrete.
+ Não se turba com as vozes,
+ antes para que a celebrem,
+ sarando-as como a de Samos
+ as louva como a de Eleasis.
+ Ao que estuda suas margens
+ activa a memoria sempre
+ como a fonte de Beocia,
+ opposta ao curso de Lethes.
+ A quem da fonte Salmacis
+ bebeu as aguas ardentes
+ esta agua banhando as fontes
+ livra do amor, qual Seleno,
+ e quando perdido abrindes
+ achas no Vouga ou heyncestes
+ esta qual fonte de Erigon
+
+
+ * * * * *
+
+ «faz com que o vinho aborreces.
+ Se por devoção visitas
+ sua affluencia perenne
+ é choro com que olhos pios
+ na capella á Virgem servem.
+ É fonte de Jerichó
+ que as plantas da rosa vestem
+ e que outro Eliseu com Moura
+ fez suave, lenta e fertil.
+ É fonte prophetisada se tanto póde dizer-se
+ pois sae do templo santo
+ e vae regando a torrente.
+ Do mar de graças Maria
+ o rio e fonte procedem
+ mas lá junto á lapa mana
+ cá da mesma penha desce.
+ Bebe, pois, bebe á vontade
+ acharás que é (muitas vezes)
+ tão util para a saude
+ quão para a vista alegre.»
+
+ * * * * *
+
+Historiamos ainda que a largos traços a historia da Vista Alegre e
+fizemos a descripção dos seus monumentos antigos, agora é mister que nos
+occupemos da sua historia moderna e do importante estabelecimento que a
+fez florescer e tornou conhecida no mundo da Arte.
+
+Os portuguezes que haviam sido os primeiros povos da Europa, que
+introduziram a porcelana oriental no commercio do Occidente, foram quasi
+que os ultimos a ensaiarem o seu fabrico. Datam apenas do ultimo quartel
+do seculo XVIII estes ensaios, realisados em Lisboa pelo brigadeiro
+Bartholomeu da Costa e no Rio de Janeiro, pelo professor regio, João
+Manso Pereira.
+
+Parece que as experiencias de Bartholomeu da Costa para obter a
+porcelana dura, foram feitas na antiga fabrica do Rato, empregando como
+materia prima, differentes barros explorados nas visinhanças de
+Aveiro.
+
+Ignora-se hoje quaes seriam estes barros, não obstante o affirmar-se,
+não sabemos com que fundamento, que foi o de Talhadella, concelho de
+Albergaria. O que é certo porém é que no arsenal do Exercito em Lisboa,
+quando se estudava o melhor systema de fundir a estatua de El-Rei D.
+José I, se reuniu uma importante collecção de barros de differentes
+pontos do paiz, contando-se n'este numero o de Talhadella, que foi o
+preferido para a edificação do forno onde se deluiu o metal.
+
+As qualidades refractarias d'este barro eram conhecidas já então, pois
+havia annos antes que um chimico francez,--Drout, o havia descoberto,
+fazendo até com elle magnificos tijolos refractarios, para o que
+estabeleceu um forno nas proximidades d'Aveiro, segundo affirma Raton.
+
+Dos resultados obtidos por Bartholomeu da Costa para o fabrico da
+porcelana, são hoje apenas conhecidas uma medalha representando em
+relevo a estatua equestre do Terreiro do Paço, e uns camafeus com o
+busto de D. Maria I. Tanto aquella, como estes, são copias de medalhas
+abertas em 1775, por um dos nossos mais notaveis gravadores e illustre
+filho d'Aveiro--João de Figueiredo.
+
+Depois d'estas tentativas para obter uma verdadeira porcelana outras se
+fizeram em Coimbra, mas sem melhor, ou nem mesmo igual, resultado, até
+que o snr. José Ferreira Pinto Basto, estabeleceu um pequeno laboratorio
+chimico no jardim do seu palacio do largo das Duas Egrejas em Lisboa,
+isto em 1820 ou 1822, afim de descobrir barros com os requisitos
+necessarios para fabricar porcelana.
+
+Parece que quem incutiu no animo esclarecido d'aquelle benemerito
+patriota esta ideia foi o general José Pedro Celestino Soares, que
+possuia alguns dos produtos obtidos por Bartholomeu da Costa.
+
+Foram, segundo consta, pouco animadores os resultados agora obtidos pelo
+snr. José Ferreira Pinto Basto, mas como o seu animo emprehendedor não
+tolerava peias nem tão pouco afrouxava perante qualquer contrariedade
+fosse ella qual fosse, resolveu proseguir as experiencias iniciadas,
+fundando desde logo uma grande fabrica.
+
+O local aprazado foi Aveiro, e isto por a tradicção indicar como sendo
+d'aqui o barro de que Bartholomeu da Costa obteve a sua chamada porcelana.
+
+Apesar de possuir as duas magnificas propriedades da Ermida e da Vista
+Alegre, o snr. José Ferreira Pinto Basto, quiz estabelecer a nova
+fabrica na propria cidade, e para isso entabolou negociações com o
+proprietario da Quinta dos Santos Martyres, para a adquirir, o que não
+poude conseguir por esta propriedade fazer parte de um antigo vinculo.
+Attenta esta difficuldade, resolveu então estabelecer a fabrica na Vista
+Alegre, para o que se principiaram a fazer ali differentes edificações.
+
+Foi em janeiro de 1824, que principiaram os trabalhos para a fabrica, a
+que veio presidir um dos filhos do fundador, o snr. Augusto Ferreira
+Pinto Basto.
+
+Uma das obras que primeiro se concluiu foi um pequeno forno para cozer
+louça, feito segundo as indicações e immediata direcção de Domingos
+Raimão, oleiro d'uma fabrica de Coimbra.
+
+Em abril fizeram-se as primeiras experiencias para obter a porcelana.
+Realisou-as Bento Fernandes, mestre de olaria na fabrica de Rato, com o
+barro de Util, concelho de Cantanhede,--e o de Talhadella, do
+concelho de Albergaria a Velha. Foi pouco satisfatorio o resultado
+obtido, mas ainda assim a ideia da fundação da fabrica não soffreu
+quebra de sorte que o snr. José Ferreira Pinto Basto pediu a El-Rei D.
+João VI para que lhe fossem concedidos os privilegios de que gosava a
+fabrica de vidros da Marinha Grande, o que obteve como consta dos
+documentos que segue:
+
+«D. João, por graça de Deus, rei do reino unido de Portugal, Brazil e
+Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa, Senhor de Guiné, etc., etc.
+
+Faço saber que José Ferreira Pinto Basto me representou por sua petição,
+que elle pretendia erigir para estabelecimento de todos os seus filhos
+com egual interesse, ainda mesmo os menores logo que cheguem á idade
+competente, uma grande fabrica de louça, porcelana, vidraria e processos
+chimicos, na sua quinta chamada da Vista Alegre da Ermida, freguezia de
+Ilhavo, comarca de Aveiro, visinha á barra, pedindo-me que eu houvesse
+por bem de auctorisar este estabelecimento na fórma proposta e
+conceder-lhe a isenção de direitos de todos os materiaes que necessarios
+lhe forem para a sua laboração; assim como tambem das manufacturas que
+exportar para o Brazil ou para qualquer parte deste reino e dos paizes
+estrangeiros, e todas as mais graças, privilegios e isenções de que
+gosam, ou gosarem de futuro as fabricas nacionaes, e particularmente a
+dos vidros da Marinha Grande, no que lhe forem applicaveis; e tendo em
+consideração, ao dito requerimento, e constando-me por informação do
+corregedor da comarca, a que mandei proceder, que o projectado
+estabelecimento deve ser de grande utilidade para os povos pela vastidão
+dos seus differentes ramos; que é construido em edificio proprio, em
+que já se teem feito avultadissimas despezas; que o seu local é o mais
+vantajoso por ficar nas margens de um rio navegavel, rodeado de
+pinheiros e outras materias combustiveis, assim como de excellentes
+barros, areias finas e brancas, e seixo crystallisado, tudo proprio para
+as vidrarias e porcelanas, como se tem verificado por felizes ensaios; e
+finalmente que o supplicante é um dos negociantes mais ricos e grande
+proprietario de muitos predios, tanto n'aquella comarca, como nas do
+Porto e Penafiel, sendo além d'isso dotado de um genio emprehendedor, a
+quem as difficuldades não embaraçam, nem desanimam as despezas; por
+todos estes motivos: hei por bem de approvar o mesmo estabelecimento na
+fórma pedida, concedendo-lhe todas as graças, privilegios, e isenções de
+que gosam ou vierem a gosar as outras fabricas de identica natureza: e
+mando a todas as justiças e mais pessoas a quem o conhecimento d'esta
+pertencer, que assim o cumpram e façam cumprir como n'ella se contêm,
+sem duvida ou embaraço algum.
+
+El-Rei nosso senhor o mandou pelos ministros abaixo assignados,
+deputados da real junta do commercio, agricultura, fabricas e navegação.
+_Anselmo de Souza Machado Corrêa de Mello_ a fez. Lisboa, em 1 de julho
+de 1824.--D'esta 800 reis.--No impedimento do deputado secretario, _José
+Antonio Gonçalves_ a fez escrever.--(Assignados) _José Manoel Placido de
+Moraes e José Antonio Gonçalves_».
+
+«Seguem-se os registos da real junta do commercio de 22 de fevereiro de
+1826; da alfandega de Lisboa de 23 de fevereiro de 1826: da alfandega do
+Porto de 1 de maio de 1826; da alfandega de Aveiro de 19 de maio de
+1826; da alfandega de Villa do Conde de 9 de junho de 1825».
+
+ * * * * *
+
+«D. João, por graça de Deus, imperador do Brazil, e rei de Portugal e
+dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa, Senhor de Guiné, etc., etc.
+
+Faço saber aos que esta provisão virem, que subindo á minha imperial e
+real presença, pela real junta do commercio, a consulta a que mandei
+proceder sobre o requerimento de José Ferreira Pinto Basto, em que pedia
+privilegio exclusivo por vinte annos, para o fabrico de porcelana,
+vidraria, e processos chimicos da sua fabrica, estabelecida e approvada
+por provisão de 1 de julho de 1824, na sua quinta da Vista Alegre, sita
+no termo e freguezia de Ilhavo, comarca de Aveiro, supplicando
+igualmente a prohibição absoluta de se exportarem as materias primas da
+mesma porcelana, para que outros emprehendedores não usem tirar commodo
+dos assiduos trabalhos, fadigas e grandes despezas, que empregou na
+descoberta das referidas materias nas visinhanças do Porto e Aveiro,
+sendo elle o primeiro descobridor. E constando pela mencionada consulta
+e averiguações que lhe precederam, estar o supplicante nas
+circumstancias de obter as graças que implora: fui servido conformar-me
+com o parecer d'ella, por minha immediata resolução de 5 de dezembro do
+dito anno: e hei por bem conceder ao supplicante o exclusivo que pede
+por tempo de vinte annos, ampliando o de quatorze, que a lei em geral
+permitte; em attenção á utilidade e circumstancias particulares d'este
+estabelecimento; ficando-lhe outrosim concedida a absoluta
+prohibição de se exportarem as materias primas para a porcelana,
+descobertas pelo supplicante, e confirmados os mesmos privilegios e
+prorogativas de que gosam as mais fabricas do reino como se expressa, na
+primeira provisão. E mando ás justiças e mais pessoas a quem o
+conhecimento d'esta pertencer, que a cumpram e guardem conforme n'ella
+se contém, fazendo tranzito pela chancellaria mór do reino».
+
+Pagou de novos direitos 540 reis, que se carregaram ao thesoureiro
+d'elles a fl. 165 v. do livro 40.º e se registou o conhecimento a fl.
+119 v. do livro 96.º
+
+O imperador e rei nosso senhor o mandou pelos ministros abaixo
+assignados deputados da real junta do commercio, agricultura, fabricas e
+navegação.--_José Antonio Ribeiro Soares_ a fez em Lisboa, a 3 de março
+de 1826.--D'esta 800 reis.--Na ausencia do deputado secretario, a fez
+escrever e assignou _Luiz Antonio Rebello e José Antonio Gonçalves_».
+
+Seguem-se os mesmos registos copiados na provisão anterior.
+
+Estava portanto fundada a fabrica de porcelana, mas restava descobrir o
+kaulin de que ella se obtem. Fabricava-se louça é verdade, mas esta
+louça era má faiança em vez de boa porcelana. Procuraram-se barros em
+differentes pontos do paiz, e construiram-se novos fornos, conforme
+plantas vindas de Sevres, mas nada disto deu o resultado que se
+desejava, de sorte que em 1826 o fundador contractou na Saxonia tres
+artistas para virem dirigir o fabrico da porcelana e ensinal-o aos
+operarios portuguezes.
+
+Dos tres só vieram dois, sendo apenas verdadeiro artista um, José
+Scórder, pois o outro não passava de um charlatão. Scórder, que era um
+modelador de merito, prestou importantes serviços á fabrica, creando
+bons discipulos que lhe perpetuaram o nome.
+
+Como o artista contractado na Allemanha, que não chegou a partir, apesar
+de haver recebido já um importante subsidio para as despezas da viagem,
+era quem devia tomar a direcção da officina de pintura, contractou o
+snr. José Ferreira Pinto Basto, n'aquelle mesmo anno, dois pintores de
+louça, João Maria Fabri e Manoel de Moraes, discipulos da Casa-pia de
+Lisboa. Aquelle morreu um anno depois de ter vindo para a Vista Alegre;
+este conservou-se ali até 1833, não como pintor, mas sim como esculptor,
+produzindo n'este genero bons trabalhos.
+
+Tudo parecia agourar um feliz resultado, mas tal resultado cada vez se
+ia tornando mais demorado e incerto, de sorte que a empresa teria
+succumbido ás innumeras difficuldades que surgiram de todos os lados, se
+á testa d'ella e dominando tudo não estivesse a incansavel actividade, a
+poderosa energia, e invencivel perseverança do snr. José Ferreira Pinto
+Basto.
+
+Os operarios estrangeiros conheciam o trabalho dos materiaes a que nos
+seus paizes estavam habituados, e não podiam fazer obra por aquelles que
+na Vista Alegre se lhes offereciam; a sua aptidão sendo como era
+puramente pratica não podia por si só crear ou modificar processos;
+necessitava que o genio inventivo e a sciencia viessem em seu auxilio. O
+snr. Ferreira Pinto reconheceu esta verdade, de sorte que em 1830 mandou
+seu filho o snr. Augusto Ferreira Pinto Basto, a França, a fim de
+estudar na fabrica de Sevres, verdadeira escola das artes ceramicas, os
+melhores processos e meios de investigação.
+
+Ali recebeu aquelle cavalheiro sabios conselhos e preciosas
+indicações do director d'aquella importante manufactura, o illustre
+Brogniart, que lhe fez ver a completa impossibilidade de se fabricar
+porcelana, sem o kaulin, que era o que faltava na Vista Alegre.
+
+O snr. Augusto Ferreira Pinto regressou a Portugal trazendo amostras do
+kaulin empregado em Sevres, e depois da sua chegada os ensaios e
+experiencias continuaram incessantemente na Vista Alegre, mas sempre sem
+melhor resultado, até que em 1834 se descobriu o verdadeiro kaulin.
+
+O snr. Ferreira Pinto tinha mandado vir de differentes pontos do paiz,
+por intermedio dos administradores do contracto do tabaco, de que elle
+era arrematante, amostras de quantos barros havia mais ou menos
+conhecidos, a fim de se ver se entre elles se encontrava o desejado
+kaulin. Estes barros eram todos submettidos a um exame chimico, mas com
+resultado sempre negativo para o fim que se tinha em vista.
+
+Ao mesmo tempo que se procedia a estes exames um aprendiz de oleiro,
+fazia por conta propria algumas experiencias não só com aquelles barros,
+mas com outros que a pedido seu lhe eram trasidos por operarios que dos
+concelhos de Ovar e Feira vinham trabalhar nas construcções que na Vista
+Alegre se estavam fazendo. Entre estes barros veio o kaulin de Val Rico,
+d'aquelle ultimo concelho; trouxe-o um trolha e foi reconhecido pelo
+aprendiz oleiro que, no meio da sua humilde obscuridade, prestou o
+grandiosissimo serviço á fabrica de lhe descobrir a materia prima para o
+fabrico da porcelana, serviço este que não tinha podido ser prestado por
+os administradores do contracto do tabaco, do paiz inteiro, que d'isso
+haviam sido encarregados.
+
+O descobridor pois do kaulin empregado hoje na Vista Alegre foi Luiz
+Pereira Capote, natural de Ilhavo, que falleceu em 1870.
+
+Descoberto o kaulin, principiou desde então a fabrica a produzir
+porcelana dura, datando portanto de 1834 o seu fabrico, que se foi
+aperfeiçoando gradualmente, de fórma que em 1840 principiou a Vista
+Alegre, a poder competir em qualidade com fabricas estrangeiras, o que
+não succedeu com os preços, pois produzia só caro.
+
+O elevado dos preços difficultou durante alguns annos a extracção de
+louça, tornando-a pouco conhecida. Os armazens da fabrica estavam
+atulhados de louça, quando em maio de 1846 rebentou no Minho a revolução
+popular. Os proprietarios da fabrica receiosos de que ella fosse victima
+da furia popular annunciaram a venda por lotes de toda a louça em
+deposito, venda que se realisou por preços bastante convidativos, que
+fez com que os productos da Vista Alegre se espalhassem, divulgando o
+seu bem acabado e a sua barateza. Estava aberto um novo periodo de
+prosperidade para a fabrica, mas este periodo só principiou a sentir-se
+de 1848 em diante, pois o resto do anno de 1846 e maior parte do de
+1847, a fabrica nada produziu, pois estava fechada em resultado dos
+acontecimentos politicos d'essa epocha.
+
+Prosperando sempre d'anno para anno, a fabrica chegou ao apuro em que
+hoje está, apresentando largas tendencias para progredir, tal é a activa
+e intelligente direcção que hoje tem. Para se avaliar dos progressos da
+fabrica basta dizer-se que os seus productos tem sido premiados em todas
+as exposições de Londres, Paris, Philadelphia, Vienna d'Austria, Rio
+de Janeiro e Porto; do consumo que tem obtido os mesmos productos
+são prova irrefutavel os seguintes algarismos:
+
+Em 1860 . . . . . 21:949$000
+
+Em 1870 . . . . . 26:994$000
+
+Em 1880 . . . . . 49:750$000
+
+ * * * * *
+
+Conjunctamente com a fabrica de porcelana, fundou o snr. José Ferreira
+Pinto, na Vista Alegre no mesmo anno de 1824 uma outra de vidro e
+cristal, que lhe ficou annexa. Os primeiros trabalhos foram dirigidos
+por um allemão, Francisco Miller, que havia annos já estava dirigindo a
+do Côvo, no concelho de Oliveira d'Azemeis, o qual foi substituido em
+1826 por João da Cruz e Costa, de Lisboa, que esteve a dirigir o fabrico
+do vidro até 1834.
+
+Foram desde logo bastante satisfatorios os resultados obtidos, de sorte
+que o fundador procurou pol-a logo a par das melhores do estrangeiro,
+mandando vir mestres experimentados para as differentes officinas de
+lapidação e floristagem.
+
+Para aquella contractou em 1820 na Inglaterra Samuel Hunles, que veio
+para a Vista Alegre ganhar 2$400 reis diarios, e ali esteve até 1828,
+deixando bons discipulos.
+
+O mestre de florista era italiano, e não passou de Lisboa, onde chegou
+em 1827, por alguem lhe affirmar que era muito miasmatico o clima da
+Vista Alegre. Para ali foram os aprendizes d'esta officina, que ao fim
+de tres annos de pratica foram dados por promptos, affirmando o
+mestre que um d'elles João Ferreira Ribeiro, de Vagos, estava já mais
+mestre do que elle, o que não era sem fundamento, pois veio para a Vista
+Alegre dirigir a officina de florista o que fez com talento.
+
+No periodo decorrido de 1836 a 1840, foi enorme a producção do vidro, e
+todo da melhor qualidade, pois alguns dos productos fabricados n'esta
+epocha são de uma perfeição inexcedivel.
+
+Quando n'aquelle anno o fabrico da porcelana entrou na phase de
+aperfeiçoamento e progresso a que já nos referimos, o do vidro
+principiou a decahir consideravelmente até que cessou de todo em maio de
+1846.
+
+Em meados de 1848 continuou a fabricar-se mas em muito menor quantidade
+e esta mesma só de liso, pois os lapidarios e floristas, durante aquelle
+interregno, uns tinham ido para a fabrica da Marinha Grande, outros
+applicaram-se a outros misteres, de fórma que os tempos aureos da
+fabricação do vidro na Vista Alegre, passaram para nunca mais voltarem.
+
+Em 1880 acabou de todo a fabrica de vidro, demolindo-se o respectivo
+forno, mas mesmo já até a esta epocha eram grandes as interrupções que
+se davam com o seu fabrico, estando por vezes muitos mezes sem trabalhar.
+
+ * * * * *
+
+Annexo á fabrica de porcelana e vidro, houve tambem um laboratorio
+chimico, e a elle se referem os reaes Alvarás de 1 de julho de 1824 e 3
+de março de 1826. Foi fundado como aquellas fabricas em 1824. De
+1827 a 1832 teve por director D. Euzebio Roiz, official de cavallaria do
+exercito hespanhol e chimico muito distincto, que veio para Portugal
+como emigrado em 1820. Depois da sua sahida acabou o laboratorio, do
+qual não podemos obter mais noticias.
+
+ * * * * *
+
+De 1827 a 1835 foram os productos da fabrica marcados com um V. A. entre
+duas palmas rematadas por uma corôa. Esta marca era gravada, sendo o
+carimbo aberto por Manoel de Moraes, de quem já fizemos menção. De 1838
+a 1861 não foi geralmente marcada a louça, pois só em alguns serviços
+d'almaço de maior preço apparece um V. A. dourado. De 1861 em diante é
+marcada toda a louça, tanto branca como pintada, com um V. A. em azul.
+
+ * * * * *
+
+Com o fim de crear artistas habeis para as duas fabricas de porcelana e
+vidro, fundou em 1826 o snr. José Ferreira Pinto Basto, na Vista Alegre
+um collegio com o internato, onde se ensinava, além d'um dos misteres da
+fabrica, instrucção primaria e musica.
+
+A inauguração foi feita com grande solemnidade, vindo assistir a ella o
+fundador.
+
+Os primeiros alumnos admittidos foram treze, e o director José Vicente
+Soares, de Penafiel. Esta instituição acabou em 1842, chegando a ter
+nos ultimos annos quarenta alumnos.
+
+ * * * * *
+
+Como dependencia da fabrica, ha tambem na Vista Alegre, um pequeno mas
+elegante theatro, que além da galeria ou camarote destinado aos
+proprietarios da fabrica, tem platea com capacidade para cento e oitenta
+logares. Foi fundado em 1851, realisando-se a inauguração com as
+comedias _Um duello em Campolide_, _O quarto de duas camas_, _Util e
+agradavel_.
+
+O panno de bocca e bem assim o tecto foi pintado pelo director da
+officina de pintura Chartier Rousseau. Aquelle representa a Vista da
+Praia Grande de Macau, e este Apollo e as nove musas.
+
+Anteriormente á fundação do actual theatro houveram dois, datando a
+fundação do mais antigo de 1825 ou 1827, e que foi inaugurado com a
+representação da comedia _O gallego lorpa_.
+
+ * * * * *
+
+Como dependencia do collegio organisou-se tambem em 1826 uma
+phylarmonica privativa da fabrica, e composta unica e exclusivamente de
+operarios d'ella.
+
+Esta phylarmonica ainda continua a existir e tem tido desde o seu
+principio até hoje os seguintes regentes:--José Vicente Soares, de 1820
+a 1828: Prudencio Apolinario, de 1830 a 1834; Filippe Marcelino Classe,
+de 1834 a 1838; Antonio Dias, de 1838 a 1845: João Antonio Ferreira,
+de 1847 a 1851; Antonio Dias, de 1852 a 1866; e Joaquim Martins Rosa, de
+1867, em diante.
+
+ * * * * *
+
+Os pruductos da fabrica da Vista Alegre tem sido premiados com medalhas
+de cobre e prata em todas as exposições do Londres, Paris, Philadelphia,
+Vienna d'Austria, Rio de Janeiro e Internacional do Porto.
+
+ * * * * *
+
+A fabrica da Vista Alegre tambem tomou parte muito activa nos
+acontecimentos politicos de 1846 e 1847. Quando em 14 de maio d'aquelle
+anno a cidade de Aveiro adheriu ao pronunciamento popular iniciado no
+Minho, a população operaria da Vista Alegre pronunciou-se tambem e
+fraternisando com os que n'aquella cidade se haviam revolucionado,
+marchou com elles para Cantanhede e d'aqui para Coimbra, a fim de
+receber ordens e instrucções da junta governativa, que ali se havia
+installado. De Coimbra marcharam os operarios da Vista Alegre e os
+populares d'Aveiro para Villa Nova de Gaya, onde se conservaram até que
+o Porto adheriu tambem á causa que elles defendiam.
+
+Feita a revolução no Porto em 9 d'outubro contra o _golpe de Estado_ de
+6 do mesmo mez, os operarios da Vista Alegre abraçaram logo com
+enthusiasmo a causa da junta, procedendo immediatamente á organisação
+d'um corpo de voluntarios, com o nome de Batalhão Nacional do
+Concelho d'Ilhavo. No dia 23 de outubro marchou o batalhão para o Porto,
+levando por commandante um dos proprietarios e administrador da fabrica,
+o snr. Alberto Ferreira Pinto Basto, e por major o director da mesma
+fabrica, João Maria Rissoto.
+
+No dia 28 de outubro fez o batalhão da Vista Alegre, pois era assim que
+era conhecido, a sua entrada no Porto, indo á sua frente o Visconde de
+Sá da Bandeira, que chegando n'esse mesmo dia de Lisboa, quiz honrar os
+valentes operarios, commandando-os n'aquelle dia.
+
+Organisando-se a divisão com que o Visconde de Sá da Bandeira, devia
+operar em Traz-os-montes contra as forças do Barão do Casal, o batalhão
+da Vista Alegre foi um dos escolhidos para d'ella fazerem parte, e como
+tal entrou na acção de Valle Passos, que teve logar em 10 de novembro.
+São bem conhecidos os resultados d'esta acção, para que os relatemos
+aqui. Como o nosso proposito é só fallarmos da Vista Alegre, diremos que
+o batalhão d'este nome, entrou com galhardia em fogo sustentando-o com
+vigor até mesmo depois da deserção dos regimentos 3 e 15 de infanteria.
+Não podendo, porém, resistir ao choque da cavallaria e ao d'um
+d'aquelles regimentos, que o carregára á bayoneta, o batalhão retirou
+com alguma confusão para a rectaguarda, unindo-se depois ao resto das
+forças com que Sá da Bandeira voltou para o Porto.
+
+Durante o resto da lucta não tomou parte em qualquer outro combate, mas
+guarneceu por vezes differentes pontos das linhas e alguns d'elles muito
+importantes, até que teve de depôr as armas como as demais forças
+populares, em virtude da convenção assignada em Gramido em 21 de junho
+de 1847.
+
+ * * * * *
+
+No dia 13 de cada mez ha na Vista Alegre, um mercado muito importante,
+conhecido pela triplice denominação da _Feira dos treze, da Ermida, e do
+Bispo_. Este mercado foi estabelecido a requerimento do juiz, vereadores
+e mais povo das villas da Ermida e Ilhavo, por alvará de 15 de junho de
+1693, que ordenou que o mercado mensal se tornasse em annual no dia 13
+de setembro, dia da invocação da padroeira da capella da Vista
+Alegre--Nossa Senhora da Penha de França.
+
+ * * * * *
+
+Fizemos já a historia da fabrica, é justo que agora d'ella façamos
+descripção ainda que rapida, e que digamos tambem alguma cousa do
+systema de fabrico n'ella empregado.
+
+
+DESCRIPÇÃO DA FABRICA
+
+É modestissima a apparencia exterior da fabrica, de fórma que a
+impressão por ella produzida ao forasteiro que pela vez primeira a
+visita, nem por sombras lhe dará a conhecer que elle se acha frente a
+frente com um dos mais importantes estabelecimentos industriaes não só
+do paiz, mas até da Peninsula.
+
+Correndo parallelos com um grande parque, pelo lado do norte, estão os
+armazens da louça branca e pintada, loja de vendas e escriptorio.
+
+Entre estas duas dependencias da fabrica é que fica a entrada que dá
+accesso a um pateo arborisado, á volta do qual estão os armazens já
+referidos, a casa do deposito, e officina de fórmas e moldes, e bem
+assim a das _gazetas_, deposito de material de incendios, casa onde se
+guardam os restos do antigo museu da fabrica, officina de carpentaria, e
+entrada para a estancia das lenhas.
+
+São vastos os armazens de deposito de louça pintada e branca,
+especialmente o d'esta ultima, que era onde antigamente estavam os
+fornos de estender vidraça.
+
+A officina de moldes e _gazetas_ está bem montada como todas as
+restantes da fabrica; no deposito do material de incendios, ha duas
+bombas, machados, e canecos de pau para agua, em profusão, e outros
+objectos proprios, tudo preparado e prompto para acudir a qualquer
+sinistro.
+
+É provisoria a casa onde estão os productos que compõem o chamado muzeu
+da fabrica, o que é deveras para lamentar, pois tornam-se dignos d'uma
+boa collocação, a fim de poderem ser examinados e apreciados, como merecem.
+
+A estancia das lenhas fica ao norte do edificio e está completamente
+isolada d'elle. Mede 67,m60 de comprimento e 52,m de largura. A sua
+superficie é rectangular, tendo á volta, os telheiros que abrigam a
+lenha das chuvas.
+
+D'aquelle pateo passa-se para as officinas da olaria. São duas salas
+bastante espaçosas, onde ha 38 rodas d'oleiro; junta a estas está uma
+outra mais pequena, que é a officina de aprendisagem e deposito de
+modelos. Junto d'aquellas ha um terreno ajardinado onde estão os
+telheiros para seccar a louça.
+
+Da officina de olaria passa-se a um longo corredor ao fim do qual
+estão as officinas de pintura. São duas as salas destinadas para a
+pintura, cheias de luz e bem ventiladas. Ornam-lhe as paredes esboços de
+V. Rosseau, e placas de porcelana com o retrato do fundador da fabrica,
+brasões d'armas, quadros de costumes, fructos, etc.
+
+Á direita d'aquelle corredor fica a lithographia. Montada, segundo todas
+as exigencias do fim a que é destinada, funcciona apenas de 1880 em
+diante. São bastante satisfatorios os resultados obtidos pelo processo
+lithographico, que tem a grande vantagem de ficar muito mais barato do
+que o geralmente seguido na pintura da porcelana, e aqui desde principio
+adoptado.
+
+Em seguida á lithographia fica o deposito da louça que hade ser pintada
+e do lado fronteiro a casa das _muflas_ onde ha tambem duas estufas para
+seccar a louça pintada.
+
+Da sala da pintura desce-se para o deposito do barro preparado e casa da
+amassadura, e d'aqui para a officina de trituração, onde se acham
+montados as galgas e pisões a que dá movimento uma machina a vapor.
+
+Para além da machina estão as estufas para seccar areia, alimentadas com
+o calor perdido das caldeiras, um torno a que ella dá movimento, e as
+officinas de serralheria. Parallela com esta parte do edificio, que é a
+mais vasta de todo elle, fica a estancia do carvão e differentes
+telheiros para a secca do barro. Proximo, está a officina de lavagem e
+escolha de materiaes empregados no fabrico da porcelana.
+
+Os fornos, esses, tres ficam pouco acima d'estas ultimas officinas, e o
+outro que é o maior, junto ao deposito da louça branca, ao pé do
+qual fica tambem a officina de vidrar.
+
+Ao norte da casa dos tres fornos e do lado fronteiro do caminho do
+serviço da fabrica fica a officina de esculptura, o laboratorio em que
+se opera a solução do oiro e preparação de algumas tintas. Está tambem
+ahi junto a caldeira para a calcinação do gesso.
+
+As materias primas empregadas no fabrico da porcelana são em toda a
+parte, em que ella se fabrica, as argilas kaulinicas, o quartzo e o
+feldspatho. Aquellas, vêem para a Vista Alegre, de Valle Rico, concelho
+da Feira e este de Villa Meã, Mangualde e Porto.
+
+As argilas kaulinicas são aqui lavadas e passadas por peneiras a fim de
+se separarem os corpos em diversos estados de aggregação. As areias
+grossas que dellas ficam são depois empregadas como quartzo.
+
+O quartzo e o feldspatho são escolhidos primeiramente tambem afim de
+evitar que levem grandes porções d'oxido de ferro, que ordinariamente
+lhe anda unido, depois calcinam-se e levam-se para as galgas.
+
+Os differentes materiaes que hão de compôr a porcelana, depois de
+devidamente moidos e lavados são compostos e em seguida levados ás mós
+horisontaes para os moer e misturar, e em seguida guardados em depositos
+até adquirirem um certo grau de consistencia.
+
+D'estes depositos vae a massa para a casa da amassadura onde é lançada
+em vasos de barro poroso, de fórma de pyramides conicas troncadas, a que
+se dá o nome de _coques_.
+
+D'estes _coques_ é a massa levada para uma larga banca de pedra, a fim
+de ser amassada a pés. São dois ou mais homens que amassam a porcelana
+na banca referida; amassada ella dividem-a em muitas fracções, com a
+fórma de cones, e que denominam _pélas_.
+
+Estas _pélas_ são em seguida levadas para a officina das rodas de
+oleiro, onde são separadamente amassadas á mão sobre uma pequena banca
+de marmore, a fim da massa ficar mais unida e homogenea, e bem assim
+desapparecerem alguns veios escuros que ás vezes adquire, ficando assim
+apta para ser obrada.
+
+O methodo empregado na Vista Alegre na execução das differentes peças de
+porcelana, é o de _encher_ e o de _moldar_.
+
+As caixas refractarias--_gazetas_--onde se mettem as peças para serem
+levadas aos fornos são fabricadas por meio de moldes de gesso, variando
+as suas dimensões conforme as peças que devem conter.
+
+Bem seccas as peças que sahiram da roda do oleiro, ou dos moldes,
+procede-se ao seu enfornamento, collocando-se primeiramente dentro das
+gazetas ou sem ellas.
+
+Levadas ao forno são collocadas no segundo pavimento, pois agora só
+recebem o calor brando, a que chamam--_chacote_.
+
+Recebida esta primeira cosedura, vão para a officina de vidrar. O
+vidrado é dado por immersão das peças dentro d'uma grande tina em que se
+acham diluidos em agua os corpos que compõem o esmalte.
+
+As peças mettem-se e tiram-se rapidamente ficando tambem logo seccas
+como se não houvessem recebido banho algum.
+
+O vidrado é tirado dos pontos de contacto e dado nos pontos em que a
+peça não o poude receber na parte coberta pela mão. Os retoques são
+feitos com pincel.
+
+Mettidas novamente dentro das _gazetas_, sobre cujo fundo, se lança
+alguma areia, afim de que a elle ellas se não peguem, são outra vez
+enfornadas mas agora no outro pavimento do forno, a fim de receberem o
+grande calor que termina a cosedura.
+
+As _gazetas_ são collocadas umas sobre outras, formando pilhas em toda a
+altura do forno, a que se dá o nome de _fios_.
+
+Feito o enfornamento, em que trabalham oito forneiros e um trabalhador,
+accendem-se as quatro fornalhas que tem o forno, fazendo para que a
+intensidade do lume, seja a mesma, e ao mesmo tempo em todas as
+fornalhas, a fim de estabelecer a uniformidade da temperatura.
+
+Passadas 10 horas de lume brando, a que chamam _lume de esquenta_,
+tapam-se as boccas dos fornos com tijolos refractarios, afim de
+concentrar a força do calor interiormente, começando então o grande
+calor, a que dão o nome de _lume de calda_, renovando successivamente a
+lenha nas fornalhas em maior quantidade que para lume brando,
+conservando-se assim o fogo bem activo e uniforme ordinariamente por
+espaço de vinte e quatro horas, chegando algumas vezes a trinta e seis.
+
+Conhecendo-se que está completa a cosedura, tira-se a lenha das
+fornalhas, diminuindo gradualmente d'este modo o calor dentro do forno,
+e conservando a louça dentro d'elle até que esteja completamente fria,
+para então se começar a desenfornar.
+
+De entre as peças vidradas separam-se então as que tem de ser pintadas,
+para o que são conduzidas para um armazem junto ás salas da pintura.
+
+São muitas as côres usadas na pintura da porcelana, quasi todas
+vitreficaveis e obtidas por meio de combinações de oxidos, saes
+metallicos e fundentes.
+
+Os oxidos empregados de preferencia são o oxido de choromio, o de ferro,
+o de uranio, de manganez, de zinco, de cobalto, de antimonio, de cobre,
+de estanho e de iridium.
+
+Os principaes saes empregados são o chromato de ferro, de barita, de
+chumbo e algumas vezes o chloreto de prata.
+
+Depois de pintada a louça vae á estufa para seccar as tintas e em
+seguida para dentro das _muflas_ a fim de fixar em si as tintas,
+ganhando as respectivas côres, as quaes se vetrificam com os fundentes.
+
+
+MACHINAS E FORNOS
+
+A machina a vapor, collocada na officina de trituração, a que já nos
+referimos, foi feita em Lisboa por Bachelay. Tem duas caldeiras de fogo
+central e força de 14 cavallos. Foi assente em 1855 por Daniel Werlong,
+artista de raro merito com o curso de artes e officios em Paris, que
+durante alguns annos dirigiu a officina de serralheria da fabrica.
+
+A chaminé que dá vasão ao fumo das caldeiras tem 14,m de altura e foi
+construida em 1879, por operarios do estabelecimento.
+
+A machina communica movimento por meio d'uma correia sem fim, a um
+tambor fixo no veio principal o qual o transmitte por meio de
+engrenagens aos differentes engenhos destinados a moer e misturar os
+materiaes, empregados no fabrico da porcelana.
+
+Ha quatro fornos destinados para coser a porcelana, todos com a fórma
+cylindrica, construidos com tijolos refractarios fabricados no
+estabelecimento. Cada um d'elles tem quatro fornalhas e dois andares; o
+maior tem cinco.
+
+No inferior colloca-se a louça que tem de ser esmaltada, elevando-se a
+temperatura ao rubro branco, e no superior a que tem apenas a receber o
+calor brando ou pequeno fogo que lhe dá o poder absorvente para ser
+vidrada.
+
+No _chacote_ a cosedura adquire o rubro cereja proximamente a
+temperatura da fusão de ferro. O _chacote_ é aquecido pela chamma
+perdida do primeiro compartimento.
+
+Sobre as fornalhas dos fornos ha aberturas rectangulares, chamadas
+_vigias_ por onde se _observa_ o grau de calor e se tiram as amostras,
+sobre as quaes se verifica directamente o estado da cosedura.
+
+Além dos quatro grandes fornos ha outros mais pequenos destinados a
+fixar as tintas, que são as _muflas_. Estes fornos, se tal nome se lhe
+pode applicar, são caixas feitas de argila refractaria, separadas umas
+das outras por paredes de igual natureza.
+
+Contém varios compartimentos formados por folhas de ferro, a que servem
+d'apoio calços tambem d'argila refractaria.
+
+São oito as _muflas_, tendo cada uma d'ellas fornalha independente.
+
+ * * * * *
+
+Escripta a historia da fabrica e feita a descripção d'ella, nada mais
+nos resta do que apresentar uma resenha dos seus administradores,
+directores, mestres de pintura e manufactura de porcelana, que é o
+que vamos fazer. Eil-a:
+
+
+Administradores:--Os snrs. Augusto Ferreira Pinto Basto, de 1824 a 1828;
+Alberto Ferreira Pinto Basto, de 1828 a 1856; Duarte Ferreira Pinto
+Basto, de 1856 a 1861; Domingos Ferreira Pinto Basto, de 1861 a 1882;
+Duarte Ferreira Pinto Basto Junior, de 15 de maio de 1882 em diante.
+
+Directores:--Os snrs. Antonio d'Almeida Ferreira Duque, de 1836 a 1840;
+João Maria Rissoto, de 1840 a 1878: Duarte Ferreira Pinto Basto Junior,
+de 1878 a 1882; João Antonio Ferreira, de 15 de maio de 1882 em diante.
+
+Mestres de pintura:--Os snrs. Victor Francisco Chartier Rousseau, de
+1836 a 1852; Gustavo Fortier, de 1853 a 1856; Filippe Fortier, de 1857 a
+1860; Gustavo Fortier, de 1861 a 1865; Joaquim José d'Oliveira, de 1866
+a 1881; Francisco da Rocha Freire, de 1881 em diante.
+
+Mestres de porcellana:--Os snrs. João da Silva Monteiro, de 1826 a 1833;
+João da Silva Monteiro Junior, de 1833 a 1838; João Antonio Ferreira, de
+1838 a maio de 1882. Presentemente não ha mestre de porcelana, mas sim
+dois contra-mestres, os snrs. Antonio Augusto Affonso, que tem a seu
+cargo a preparação das materias primas, fórmas e modelos, e Manoel da
+Silva Marianno, que dirige a manufactura.
+
+
+Fim.
+
+
+
+
+PREÇO 200 REIS
+
+ * * * * *
+
+OBRAS DO MESMO AUCTOR
+
+Memorias de Aveiro.
+
+D. Duarte de Menezes--esboço biographico.
+
+O Districto de Aveiro; noticia geographica, estatistica, seraldica,
+archeologica e biographica da cidade de Aveiro e todas as villas e
+freguezias do seu districto.
+
+A mulher atravez dos seculos; estudo historico sobre a condição
+politica, civil, moral e religiosa da mulher: 1.ª parte--sociedades
+primitivas, China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.
+
+D. Joanna de Portugal (a princeza santa) esboço biographico.
+
+ * * * * *
+
+EM VIA DE PUBLICAÇÃO
+
+Luctas caseiras--Portugal de 1836 a 1851.
+
+Aveiro e o seu concelho.
+
+JOAQUIM DE VASCONCELLOS E MARQUES GOMES
+
+Exposição districtal de Aveiro em 1882--Reliquias da arte nacional.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Vista Alegre: apontamentos para a
+sua historia, by João Augusto Marques Gomes
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VISTA ALEGRE: APONTAMENTOS ***
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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