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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:01:19 -0700 |
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MARQUES GOMES + + SOCIO CORRESPONDENTE DO INSTITUTO DE COIMBRA + E DAS SOCIEDADES + DE GEOGRAPHIA DE LISBOA E PORTO + + + + PORTO + TYP. COMMERCIO E INDUSTRIA + 22, Rua do Corpo da Guarda, 22 + 1883 + + + + + A VISTA ALEGRE + + APONTAMENTOS PARA A SUA HISTORIA + + POR + + J. A. MARQUES GOMES + + SOCIO CORRESPONDENTE DO INSTITUTO DE COIMBRA + E DAS SOCIEDADES + DE GEOGRAPHIA DE LISBOA E PORTO + + + + PORTO + TYP. COMMERCIO E INDUSTRIA + 22, Rua do Corpo da Guarda, 22 + 1883 + + + + +AO SENHOR + +Duarte Ferreira Pinto Basto Junior + + + + +A menos de dois kilometros de Ilhavo e sobranceira ao braço da ria de +Aveiro, que liga a chamada Calle da Villa com o Bôcco, fica a Vista +Alegre. Quadra bem este titulo á risonha povoação em que um dos homens +mais prestimosos e emprehendedores que Portugal tem conhecido no +presente seculo, veio fundar a fabrica de porcelanas, que do local toma +o nome. + +A Vista Alegre como povoação em si, tem tambem como o importante +estabelecimento que a tornou conhecida tanto no paiz como no +estrangeiro, uma historia sua de quem a lenda por mais d'uma vez se +apossou já, deturpando-a. + +Não nos cançaremos em lhe procurar a etymologia pois é fóra de duvida +que o nome lhe proveio do formosissimo panorama, que a contorna, +moldurando-lhe o rosto gentil. + +Anteriormente á fundação da fabrica, a Vista Alegre não tinha fóros de +povoação, era uma quinta apenas. Um templo formosissimo e uma casa +modesta que servia de habitação aos proprietarios da quinta, eram os +unicos edificios, que ali existiam, e isto ainda no primeiro quartel do +seculo XIX. + +A fundação d'um tão bello templo, como é o de Nossa Senhora da Penha de +França, n'um sitio tão ermo, como era a Vista Alegre, fez com que muitos +principiassem a architectar romances mais ou menos verosimeis. +Imaginaram-se desterros e deportações, e bem assim fofo ninho de +criminosos amores d'um prelado illustre com uma dama de elevado +nascimento e freira professa n'um dos conventos de Lisboa. + +Não longe da Vista Alegre, a um kilometro para o sul, fica o antigo +logar da Ermida, villa e concelho até 1834 a quem D. Manoel deu foral em +8 de junho de 1514. N'esta povoação houve um praso, cuja origem data de +seculos, tendo por cabeça uma grande quinta denominada o Paço da Ermida. +Este praso e quinta andava no senhorio dos Mouras Manoeis, familia muito +illustre, pois trazem a sua descendencia de D. Branca de Sousa, filha de +Lopo Dias de Sousa, grão-mestre da Ordem de Christo. + +Alguns escriptores teem confundido a quinta da Ermida com a da Vista +Alegre, e affirmado que foi seu proprietario o bispo de Miranda, D. +Manoel de Moura Manoel. + +Nem a quinta da Vista Alegre já foi conhecida por quinta da Ermida, nem +tão pouco aquelle prelado foi dono de qualquer d'ellas. + +É fóra de duvida que D. Manoel de Moura Manoel vinha frequentes vezes +passar alguns dias e ás vezes, mezes até, á quinta da Ermida, que +conjunctamente com o praso do mesmo nome pertencia a seu irmão +primogenito Ruy de Moura Manoel. Durante a sua estada aqui, travou +relações com o proprietario da quinta da Vista Alegre, o Dr. Manoel +Furtado Botelho, relações que se foram tornando cada vez mais intimas de +sorte que passados annos edificou em terrenos dependentes da mesma +quinta a Capella de Nossa Senhora da Penha de França. + +Por morte de Ruy de Moura Manoel, passou a quinta da Ermida para seu +filho Rodrigo de Moura Manoel, que tendo casado com D. Rosalia da Silva, +filha de Luiz Lobo da Silva, governador e capitão general de Angola +morreu sem successão, pelo que os seus bens passaram para suas irmãs. A +Ermida pertenceu a D. Maria Maximilianna, casada com Jeronimo de +Castilho. Por morte d'este, ficou sendo senhor d'ella seu filho Jeronimo +Antonio de Castilho que conjunctamente com sua mulher D. Joaquina Izabel +Freire de Castro, a vendeu por escriptura lavrada nas notas do tabellião +da então villa de Aveiro, Manoel de Sousa Bastos em 15 de janeiro de +1727, a Zeferino Rodrigues Caudello. Em 17 de março de 1812 fez venda da +mesma quinta ao snr. José Ferreira Pinto Basto, D. Bernarda Thereza +Umbelina Caudello de Maviz Sarmento, néta do referido Zeferino Rodrigues +Caudello. + +O proprietario da quinta da Vista Alegre Dr. Manoel Furtado Botelho, +tendo fallecido em 9 de setembro de 1733, dispoz dos seus bens como se +vê da parte do seu testamento que passâmos a transcrever do livro dos +obitos da freguezia de Ilhavo, no anno de 1733: «que seria sepultado na +capella de Nossa Senhora da Penha de França, e deixava entre outras +missas, cincoenta pela alma do seu amigo o snr. Bispo que foi de +Miranda. Instituia por sua universal herdeira D. Theodora de Castro +Moura Manoel, de seus bens, e que esta poderia vender d'elles o que lhe +parecesse para dividas e ser freira sem constrangimento de pessoa alguma +nem justiça alguma lhe tomaria conta, nem lhe fariam inventario; e os +bens que ficassem por sua morte d'ella, iriam ao usufructo do seu +testamenteiro o padre licenciado Domingos Ferreira da Graça, cura de +Ilhavo, e por morte d'este a Nossa Senhora da Penha de França da Vista +Alegre, que entrando na posse seria obrigada a fabrica da capella a +fazer uma festa á dita Senhora em 8 de setembro de cada anno, da qual o +capellão daria contas ao Dr. Vizitador.» + +Não foram, ao que parece, totalmente cumpridas as disposições do +testador, pois é certo que os seus bens tiveram um destino muito +differente do que o que lhe havia marcado. + +D. Theodora de Castro Moura Manoel era como o proprio nome o indica +filha do bispo de Miranda, a quem pertencia tambem o appellido _Castro_ +pois o houve de sua mãe, D. Maria de Castro. Aquella senhora, destinada +segundo parece para a vida claustral, não tomou o habito, nem tão pouco +chegou a casar, mas teve um filho, a quem deu o nome de seu pae, d'ella, +Manoel Pereira de Moura Manoel, que ordenando-se foi abbade da freguezia +de S. Romão de Guimarães. + +O appellido _Pereira_, do mesmo modo que o de _Castro_ era tambem +pertença do bispo, pois era segundo neto de João Rodrigues da Costa e de +sua mulher D. Isabel _Pereira_. + +O abbade Manoel Pereira de Moura Manoel morreu ainda em vida de sua mãe, +mas não sem deixar successão, pois teve uma filha de D. Clara Maria +de Barros, natural de Gondar, no concelho de Guimarães, D. Josepha +Caetana de Castro, que casou em 20 de novembro de 1748 com o capitão +Manoel Alvares Brandão, de Santa Marinha de Taboa, no bispado de +Coimbra. D'este consorcio nasceram duas filhas e um filho que todos +foram baptisados na egreja de S. Salvador de Ilhavo, a cuja parochia +pertence a Vista Alegre. + +D. Theodora de Castro Moura Manoel falleceu em 1767, sendo sepultada na +capella de Nossa Senhora da Penha de França, quaes porém as suas +disposições testamentárias se as deixou, são desconhecidas. + +O testamenteiro do dr. Manoel Furtado Botelho, o padre licenciado +Domingos Ferreira da Graça, para quem devia passar o usufructo da +herança que aquelle havia deixado a D. Theodora de Castro Moura Manoel, +sobreviveu ainda a esta, pois só falleceu em 7 de maio de 1772, mas se +elle usufruiu ou não a herança é que é ponto muito duvidoso, sendo certo +porém que tal herança por venda ficticia ou por outro qualquer meio, +nunca chegou a pertencer á fabrica da capella de Nossa Senhora da Penha +de França, pois passou para o capitão Manoel Alvares Brandão e d'este +para seus filhos, um dos quaes Alexandre de Castro Brandão, que foi +capitão-mór de Cantanhede, vendeu em 1815 a quinta e capella da Vista +Alegre ao snr. José Ferreira Pinto Basto. + +Esboçamos a historia da Vista Alegre, agora resta-nos reunir aqui alguns +apontamentos biographicos do fundador da capella de Nossa Senhora da +Penha de França e fazer uma descripção ainda que rapida da mesma capella. + +D. Manoel de Moura Manoel nasceu em Serpa, sendo seus paes, Lopo +Alvares de Moura e D. Maria de Castro. Filho segundo d'uma casa +vinculada como era a sua, e não querendo seguir a carreira das armas, +abraçou a que lhe restava, segundo o seu nascimento--a ecclesiastica. +Seguindo os estudos superiores na Universidade de Coimbra, doutorou-se +em Canones, e na qualidade de oppositor a uma das cadeiras d'esta +faculdade, foi eleito collegial do Real Collegio de Paulo em 28 de julho +de 1638, sendo reitor do mesmo o dr. Ambrosio Trigueiros Semmedo. + +Em 17 de dezembro de 1660 foi nomeado conego doutoral da Sé de Lamego, +d'onde passou para a de Braga por promoção que obteve no 1.º de maio de +1666. + +Nomeado deputado da Inquisição de Évora passou para Inquisidor da de +Coimbra em 13 de outubro de 1663, e a deputado do Conselho Geral do +Santo Officio em 13 de abril de 1674. + +Eleito em lista triplice para reitor da Universidade, foi provido n'este +logar por el-rei D. Pedro II, em 23 de agosto de 1683, que o nomeou por +essa occasião sumilher da cortina. Havendo prestado juramento em 16 de +novembro daquelle anno, governou a Universidade até o 1.º de fevereiro +de 1690 em que foi eleito o seu successor D. Nuno da Silva Telles. + +Durante o seu reitorado residiu por differentes vezes em Lisboa, +principalmente nos annos de 1688 e 1689. + +Escolhido para bispo de Miranda em 28 de abril de 1689, foi sagrado em +outubro do mesmo anno na egreja parochial de Nossa Senhora dos Anjos de +Lisboa, pelo cardeal D. Verissimo de Lencastre, sendo assistentes D. +Fr. Luiz da Silva, bispo da Guarda, e D. Simão da Gama, bispo do Algarve. + +Fazendo jornada para as Caldas de S. Pedro do Sul, adoeceu gravemente +nos Ferreiros, proximo a Vizeu, e ahi falleceu em 7 de setembro de 1699. +Durante a doença foi-lhe enfermeiro sollicito o bispo d'aquella diocese, +D. Jeronimo Soares, que assistiu tambem ao seu funeral e ordenou que +fosse sepultado na capella-mór da egreja d'aquella freguezia, d'onde as +suas cinzas foram trasladadas para a Vista Alegre em 1706. + +Ignora-se o anno em que D. Manoel de Moura Manoel mandou edificar a +capella de Nossa Senhora da Penha de França, mas ainda assim parece não +haver duvida que foi já depois de estar bispo em Miranda. + +É de bello aspecto a frontaria do templo, avistando-se a algumas leguas +de distancia os corucheus das suas duas torres. O interior não é menos +elegante. As paredes do corpo da capella são forradas d'alto a baixo de +bons azulejos, todos coevos da sua fundação--fins do seculo XVII,--é a +aboboda ornatada de boas pinturas a fresco. Tem dois altares lateraes de +boa talha dourada, dedicados ambos á Virgem, sob a invocação do Rosario +e da Conceição. O retabulo e altar da capella-mór são trabalhos +primorosos em fino marmore de Italia. + +Embebido na parede da mesma capella e do lado da epistola, está o tumulo +do fundador, fabricado primorosamente de granito de Ançã. + +A urna funerária é sustentada por tres leões de farta juba, que parecem +prestes a ser esmagados pelo seu peso. + +No centro da urna, levantado em alto relevo, está um escudo oval +partido, com as armas dos Mouras Manoeis, tendo por timbre um chapeu +episcopal. + +Sobre ella está a figura do bispo, de vestes prelaticias, meia deitada, +com a mão esquerda sobre o peito e a direita estendida com que a apontar +para o Tempo, que está ao fundo sobraçando o panno mortuario que deve +cobrir o sarcophago. + +A execução é primorosa, conhecendo-se até nos mais pequenos lavores o +primor do cinzel que o trabalhou. + +O povo rude das aldeias visinhas, acredita que tal obra não podia ser +executada por mãos de homens, e por isso attribue-a ao diabo, creando +uma lenda que o snr. Brito Aranha reproduziu já no seu bello livro +_Memorias historico-estatisticas de algumas villas e povoações de +Portugal_. + +O nome do esculptor Claudio de Laplada cahiu com effeito no olvido, de +sorte que o forasteiro, que visitando a Vista Alegre perguntasse quem +havia feito o tumulo do bispo, recebia sempre em resposta aquella lenda. + +Fronteiro a este tumulo, está um outro, muito mais modesto, sem duvida, +mas ainda assim digno de ser apreciado, como obra que é do mesmo +artista. Sobre uma urna funeraria, onde se vê tambem um escudo, com as +armas dos Castros, está sentada uma figura de mulher sustentando na mão +esquerda um baixo relevo, representando uma cabeça de freira, allusão +sem duvida á vida monachal que o bispo desejava que sua filha D. +Theodora de Castro Moura Manoel abraçasse, pois era, como as treze +arruellas dos Castros do escudo o indicam, para ella destinado o +moimento. + +Por debaixo d'este tumulo e por tanto fronteiro ao do bispo está uma +grande lapide de marmore branco, tendo gravada a seguinte inscripção +latina: + + _Deo opt.º Max.º + Deiparae virgini + Diei ultimae_ + + _Supremo Judicio Supremus Judex: + Rectrici universi Rector universitatis: + Episcopo animarum Animosus episcopus._ + + _In + Mortis asylum, voti titulum, gratitudinis + tropheum, + Hoc templum, hanc aram, hunc tumulum + dedicat sacrat signat + Ill.mus et R.mus Dõnus + D. Emmanuel de Moura Manuel + Qui + A B. Ferdinando Castellae Rege progenitus, + sanctorum soboles, electum genus est: + Armis et literis, ordine, et cursu manens, + stella micans, et dimicans fuit: + Aulae supernae cum Pontificibus ascriptus + simili gloria sacerdos Christi erit. + Favente natura, comite, virtute, auxiliante + gratia. + Cui + Ortum dedere Serpae ter maxime conjuges + Lupus Alvares de Moura, + commendator de Trancoso, + Trium Ecclesiarum Patronus, Trium + maioratuum Dõnus + Et D. Maria de Castro + Ex Imperiali Emmanuelium stirpe pari + nobilitate decorata. + Quem + Serenissimi Portugaliae Reges + Destinarunt caducco, Selegerunt consilio: + Sancti Officii Tribunal + Judicem habuit Deputatum Inquisitorum + dignissimum: + Academia Conimbricensis + Collegam educavit, Rectorem coluit. + Ecclesiae Luzitanae + Canonicum nutrierunt alumnum, et sponsum + receperunt Episcopum. + Tot gradus Providentia Supponente, + Ut meritis augeretur, quod sanguini + debebatur. + Cujus + Magnutudinem Integritatem Sapientiam + Multiplex fama loquitur, + Ipsa Juvidia fatetur, + Hoc opus salamonicum testatur. + Quo + Arca coronata, suffulciens, Propitiatorium, + Custodit miraculosum simulachrum + Virgae Virginis quae rupit rupem. + De cujus nativitate, quam celebrat, gaudens, + Sub cujus umbra, quam desiderat, sedens, + Zoculo fecit locum; + Munimentum construxit monumento. + Herculeas columnas, vel potius Machabaicas, + Saxeas fixit, non terreas finxil, + Ut viderentur ab omnibus navigantibus mare: + Non plus ultra. + Hujus tanti viri si effigiem quaeris, + Inspict utrumque antrum: + Franci--hispanicum scilicet, et + Bethlemiticum. + Quibus + Ut simon dormit; ut Pastor vigilat; + Immo etiam vigilat, cum dormit; + Nam illic spiritus inter vigiles associatur + Caelesti militiae, + Dum hoc corpus, virginis protectione securum + Requiescit in pace. + Hoc Epitaphium insculptum Fuit anno + Domini 1697._ + + * * * * * + + TRADUCÇÃO + + Ao Deus Omnipotente + Á Virgem Mãe de Deus + para o ultimo dia. + + Juizo supremo + Moderador do Universo + Bispo das almas. + + + Supremo Juiz + Reitor da Universidade + Bispo animoso + Para + Asylo na morte, satisfação d'um voto + monumento de sua gratidão + dedica este templo, consagra este altar; + erige este tumulo + o Ill.mo e Rev.mo Snr. + D. Manoel de Moura Manoel, + a quem + O sangue do bemaventurado D. Fernando + Rei de Castella + Communicou as virtudes d'uma raça d'eleições + nunca desmentidas: + --nas armas, nas letras, na gerarchia;-- + no progredir + Astro de brilho constante, + Inscripto entre os Pontifices na superna + Curia partilhara similhante + gloria no sacerdocio de Christo: + Não lh'o nega a natureza; acompanha-o + a virtude, auxilia-o a graça. + Viu a luz em Serpa + gerado dos preclarissimos esposos + --Lopo Alvares de Moura-- + Commendador de Trancoso, + Padroeiro de tres Egrejas e Senhor + de tres morgados, + e--D. Maria de Castro-- + descendencia não menos illustre: + da familia imperial dos Manoeis. + Os Serenissimos Reis de Portugal + destinaram-o para o Caducco, e elegeram-o + para o seu Conselho; + O Tribunal do Santo Officio + no cargo de Juiz deputado o possuiu como + lustre de inquisidores. + A Academia Conimbricense + houve-o por collega, e o recebeu + por seu Reitor. + As Egrejas de Portugal + o occuparam no tirocinio de Conego, + venerando-o depois como Bispo. + Permittiu a Providencia quando passasse por + estas provas, para que adquirisse + pelos meritos o que ao sangue era devido. + A fama sem descanço apregoou + a sua magnanimidade, inteireza, sabedoria, e + mesmo a inveja isto confessa; + e testemunha-o esta obra Salomniaca + em que + qual arca curvada, para abrigo, Propiciatorio, + se venera a miraculosa imagem + da vara da Virgem, que fende a rocha, + Em honra da sua natividade, que celebra + jubiloso levantou grande monumento + em pequeno recinto, esperando + repousar á sua sombra, porque aspira. + N'elle + Construiu para defesa do monumento + Columnas d'Hercules ou antes Machabaicas + fortes, e não frageis;[1] + para que todos quantos correm o mar + saibam + que se não pode passar além. + Se desejas conhecer o retrato de tão + illustre varão, busca-o nas duas grutas, + na franca hispanica e na bethelemica. + Se + n'ellas como Pedro dorme, está vigilante + como pastor; + ou antes seu somno é a vigilia; + pois além se associa á celeste milicia entre + os vigilantes espiritos, + aqui o seu corpo está sob a guarda da Virgem, + Repousa em paz. + Este epitaphio foi feito no anno + de Christo de 1697. + + [1] Refere-se ás torres da capella. + +Um outro monumento antigo da Vista Alegre, é a fonte do Carapichel, hoje +quasi soterrada, mandada construir em 1696 pelo bispo D. Manoel de Moura +Manoel, e notavel pela sua fórma e excellente agua, e muito +principalmente por uma inscripção em caracteres gothicos e que é a que +passamos a transcrever: + + «Esta fonte, ó navegante, + cuja liquida corrente + cristaes prodiga desata + attenções vistosa prende. + Esta nympha que ao Vouga + só em leguas mais de sete + adoça as aguas salgadas, + feita Nayade ou Nereide. + Esta agua que o bem commum + á vara liberal deve + de um sabio pastor sacro + militar, juiz, regente. + Esta veia cuja origem + a do Paraiso excede; + pois da casa da Senhora + mais bem nascida descende. + Contém todas as virtudes + das fontes mais excellentes + e dá remedios á vida + depois de dar morte á sede + se a frequentas por agrado. + + + * * * * * + + «Sendo aos narcisos enfeite + é das graças Natalis + e das musas Hippocrene + e Aratuhsa de Alpheo + mas por modo differente: + pois de um rio a outro rio + aquella foge, esta segue. + Egeria de melhor Numa + que magnifico e prudente + na arca o numero invoca + no tanque a prata dispende. + Biblis que, sem culpa, ao rio + irmão por parte de Thetis + murmurando a esquivança + vae abraçar docemente. + Fonte emfim do sol contigua + ao templo de Deus dos Deuses + contra a calma a fonte fria + para o frio fonte quente. + Se a buscas por medicina + é qual a de Circe ou Séthys. + + + * * * * * + + «Fonte que as doenças cura + cristal que a vista esclarece + iguala a fonte de Marsyas + com benéfica antitheses: + pois se aquella pedras cria + est'outra pedras derrete. + Não se turba com as vozes, + antes para que a celebrem, + sarando-as como a de Samos + as louva como a de Eleasis. + Ao que estuda suas margens + activa a memoria sempre + como a fonte de Beocia, + opposta ao curso de Lethes. + A quem da fonte Salmacis + bebeu as aguas ardentes + esta agua banhando as fontes + livra do amor, qual Seleno, + e quando perdido abrindes + achas no Vouga ou heyncestes + esta qual fonte de Erigon + + + * * * * * + + «faz com que o vinho aborreces. + Se por devoção visitas + sua affluencia perenne + é choro com que olhos pios + na capella á Virgem servem. + É fonte de Jerichó + que as plantas da rosa vestem + e que outro Eliseu com Moura + fez suave, lenta e fertil. + É fonte prophetisada se tanto póde dizer-se + pois sae do templo santo + e vae regando a torrente. + Do mar de graças Maria + o rio e fonte procedem + mas lá junto á lapa mana + cá da mesma penha desce. + Bebe, pois, bebe á vontade + acharás que é (muitas vezes) + tão util para a saude + quão para a vista alegre.» + + * * * * * + +Historiamos ainda que a largos traços a historia da Vista Alegre e +fizemos a descripção dos seus monumentos antigos, agora é mister que nos +occupemos da sua historia moderna e do importante estabelecimento que a +fez florescer e tornou conhecida no mundo da Arte. + +Os portuguezes que haviam sido os primeiros povos da Europa, que +introduziram a porcelana oriental no commercio do Occidente, foram quasi +que os ultimos a ensaiarem o seu fabrico. Datam apenas do ultimo quartel +do seculo XVIII estes ensaios, realisados em Lisboa pelo brigadeiro +Bartholomeu da Costa e no Rio de Janeiro, pelo professor regio, João +Manso Pereira. + +Parece que as experiencias de Bartholomeu da Costa para obter a +porcelana dura, foram feitas na antiga fabrica do Rato, empregando como +materia prima, differentes barros explorados nas visinhanças de +Aveiro. + +Ignora-se hoje quaes seriam estes barros, não obstante o affirmar-se, +não sabemos com que fundamento, que foi o de Talhadella, concelho de +Albergaria. O que é certo porém é que no arsenal do Exercito em Lisboa, +quando se estudava o melhor systema de fundir a estatua de El-Rei D. +José I, se reuniu uma importante collecção de barros de differentes +pontos do paiz, contando-se n'este numero o de Talhadella, que foi o +preferido para a edificação do forno onde se deluiu o metal. + +As qualidades refractarias d'este barro eram conhecidas já então, pois +havia annos antes que um chimico francez,--Drout, o havia descoberto, +fazendo até com elle magnificos tijolos refractarios, para o que +estabeleceu um forno nas proximidades d'Aveiro, segundo affirma Raton. + +Dos resultados obtidos por Bartholomeu da Costa para o fabrico da +porcelana, são hoje apenas conhecidas uma medalha representando em +relevo a estatua equestre do Terreiro do Paço, e uns camafeus com o +busto de D. Maria I. Tanto aquella, como estes, são copias de medalhas +abertas em 1775, por um dos nossos mais notaveis gravadores e illustre +filho d'Aveiro--João de Figueiredo. + +Depois d'estas tentativas para obter uma verdadeira porcelana outras se +fizeram em Coimbra, mas sem melhor, ou nem mesmo igual, resultado, até +que o snr. José Ferreira Pinto Basto, estabeleceu um pequeno laboratorio +chimico no jardim do seu palacio do largo das Duas Egrejas em Lisboa, +isto em 1820 ou 1822, afim de descobrir barros com os requisitos +necessarios para fabricar porcelana. + +Parece que quem incutiu no animo esclarecido d'aquelle benemerito +patriota esta ideia foi o general José Pedro Celestino Soares, que +possuia alguns dos produtos obtidos por Bartholomeu da Costa. + +Foram, segundo consta, pouco animadores os resultados agora obtidos pelo +snr. José Ferreira Pinto Basto, mas como o seu animo emprehendedor não +tolerava peias nem tão pouco afrouxava perante qualquer contrariedade +fosse ella qual fosse, resolveu proseguir as experiencias iniciadas, +fundando desde logo uma grande fabrica. + +O local aprazado foi Aveiro, e isto por a tradicção indicar como sendo +d'aqui o barro de que Bartholomeu da Costa obteve a sua chamada porcelana. + +Apesar de possuir as duas magnificas propriedades da Ermida e da Vista +Alegre, o snr. José Ferreira Pinto Basto, quiz estabelecer a nova +fabrica na propria cidade, e para isso entabolou negociações com o +proprietario da Quinta dos Santos Martyres, para a adquirir, o que não +poude conseguir por esta propriedade fazer parte de um antigo vinculo. +Attenta esta difficuldade, resolveu então estabelecer a fabrica na Vista +Alegre, para o que se principiaram a fazer ali differentes edificações. + +Foi em janeiro de 1824, que principiaram os trabalhos para a fabrica, a +que veio presidir um dos filhos do fundador, o snr. Augusto Ferreira +Pinto Basto. + +Uma das obras que primeiro se concluiu foi um pequeno forno para cozer +louça, feito segundo as indicações e immediata direcção de Domingos +Raimão, oleiro d'uma fabrica de Coimbra. + +Em abril fizeram-se as primeiras experiencias para obter a porcelana. +Realisou-as Bento Fernandes, mestre de olaria na fabrica de Rato, com o +barro de Util, concelho de Cantanhede,--e o de Talhadella, do +concelho de Albergaria a Velha. Foi pouco satisfatorio o resultado +obtido, mas ainda assim a ideia da fundação da fabrica não soffreu +quebra de sorte que o snr. José Ferreira Pinto Basto pediu a El-Rei D. +João VI para que lhe fossem concedidos os privilegios de que gosava a +fabrica de vidros da Marinha Grande, o que obteve como consta dos +documentos que segue: + +«D. João, por graça de Deus, rei do reino unido de Portugal, Brazil e +Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa, Senhor de Guiné, etc., etc. + +Faço saber que José Ferreira Pinto Basto me representou por sua petição, +que elle pretendia erigir para estabelecimento de todos os seus filhos +com egual interesse, ainda mesmo os menores logo que cheguem á idade +competente, uma grande fabrica de louça, porcelana, vidraria e processos +chimicos, na sua quinta chamada da Vista Alegre da Ermida, freguezia de +Ilhavo, comarca de Aveiro, visinha á barra, pedindo-me que eu houvesse +por bem de auctorisar este estabelecimento na fórma proposta e +conceder-lhe a isenção de direitos de todos os materiaes que necessarios +lhe forem para a sua laboração; assim como tambem das manufacturas que +exportar para o Brazil ou para qualquer parte deste reino e dos paizes +estrangeiros, e todas as mais graças, privilegios e isenções de que +gosam, ou gosarem de futuro as fabricas nacionaes, e particularmente a +dos vidros da Marinha Grande, no que lhe forem applicaveis; e tendo em +consideração, ao dito requerimento, e constando-me por informação do +corregedor da comarca, a que mandei proceder, que o projectado +estabelecimento deve ser de grande utilidade para os povos pela vastidão +dos seus differentes ramos; que é construido em edificio proprio, em +que já se teem feito avultadissimas despezas; que o seu local é o mais +vantajoso por ficar nas margens de um rio navegavel, rodeado de +pinheiros e outras materias combustiveis, assim como de excellentes +barros, areias finas e brancas, e seixo crystallisado, tudo proprio para +as vidrarias e porcelanas, como se tem verificado por felizes ensaios; e +finalmente que o supplicante é um dos negociantes mais ricos e grande +proprietario de muitos predios, tanto n'aquella comarca, como nas do +Porto e Penafiel, sendo além d'isso dotado de um genio emprehendedor, a +quem as difficuldades não embaraçam, nem desanimam as despezas; por +todos estes motivos: hei por bem de approvar o mesmo estabelecimento na +fórma pedida, concedendo-lhe todas as graças, privilegios, e isenções de +que gosam ou vierem a gosar as outras fabricas de identica natureza: e +mando a todas as justiças e mais pessoas a quem o conhecimento d'esta +pertencer, que assim o cumpram e façam cumprir como n'ella se contêm, +sem duvida ou embaraço algum. + +El-Rei nosso senhor o mandou pelos ministros abaixo assignados, +deputados da real junta do commercio, agricultura, fabricas e navegação. +_Anselmo de Souza Machado Corrêa de Mello_ a fez. Lisboa, em 1 de julho +de 1824.--D'esta 800 reis.--No impedimento do deputado secretario, _José +Antonio Gonçalves_ a fez escrever.--(Assignados) _José Manoel Placido de +Moraes e José Antonio Gonçalves_». + +«Seguem-se os registos da real junta do commercio de 22 de fevereiro de +1826; da alfandega de Lisboa de 23 de fevereiro de 1826: da alfandega do +Porto de 1 de maio de 1826; da alfandega de Aveiro de 19 de maio de +1826; da alfandega de Villa do Conde de 9 de junho de 1825». + + * * * * * + +«D. João, por graça de Deus, imperador do Brazil, e rei de Portugal e +dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa, Senhor de Guiné, etc., etc. + +Faço saber aos que esta provisão virem, que subindo á minha imperial e +real presença, pela real junta do commercio, a consulta a que mandei +proceder sobre o requerimento de José Ferreira Pinto Basto, em que pedia +privilegio exclusivo por vinte annos, para o fabrico de porcelana, +vidraria, e processos chimicos da sua fabrica, estabelecida e approvada +por provisão de 1 de julho de 1824, na sua quinta da Vista Alegre, sita +no termo e freguezia de Ilhavo, comarca de Aveiro, supplicando +igualmente a prohibição absoluta de se exportarem as materias primas da +mesma porcelana, para que outros emprehendedores não usem tirar commodo +dos assiduos trabalhos, fadigas e grandes despezas, que empregou na +descoberta das referidas materias nas visinhanças do Porto e Aveiro, +sendo elle o primeiro descobridor. E constando pela mencionada consulta +e averiguações que lhe precederam, estar o supplicante nas +circumstancias de obter as graças que implora: fui servido conformar-me +com o parecer d'ella, por minha immediata resolução de 5 de dezembro do +dito anno: e hei por bem conceder ao supplicante o exclusivo que pede +por tempo de vinte annos, ampliando o de quatorze, que a lei em geral +permitte; em attenção á utilidade e circumstancias particulares d'este +estabelecimento; ficando-lhe outrosim concedida a absoluta +prohibição de se exportarem as materias primas para a porcelana, +descobertas pelo supplicante, e confirmados os mesmos privilegios e +prorogativas de que gosam as mais fabricas do reino como se expressa, na +primeira provisão. E mando ás justiças e mais pessoas a quem o +conhecimento d'esta pertencer, que a cumpram e guardem conforme n'ella +se contém, fazendo tranzito pela chancellaria mór do reino». + +Pagou de novos direitos 540 reis, que se carregaram ao thesoureiro +d'elles a fl. 165 v. do livro 40.º e se registou o conhecimento a fl. +119 v. do livro 96.º + +O imperador e rei nosso senhor o mandou pelos ministros abaixo +assignados deputados da real junta do commercio, agricultura, fabricas e +navegação.--_José Antonio Ribeiro Soares_ a fez em Lisboa, a 3 de março +de 1826.--D'esta 800 reis.--Na ausencia do deputado secretario, a fez +escrever e assignou _Luiz Antonio Rebello e José Antonio Gonçalves_». + +Seguem-se os mesmos registos copiados na provisão anterior. + +Estava portanto fundada a fabrica de porcelana, mas restava descobrir o +kaulin de que ella se obtem. Fabricava-se louça é verdade, mas esta +louça era má faiança em vez de boa porcelana. Procuraram-se barros em +differentes pontos do paiz, e construiram-se novos fornos, conforme +plantas vindas de Sevres, mas nada disto deu o resultado que se +desejava, de sorte que em 1826 o fundador contractou na Saxonia tres +artistas para virem dirigir o fabrico da porcelana e ensinal-o aos +operarios portuguezes. + +Dos tres só vieram dois, sendo apenas verdadeiro artista um, José +Scórder, pois o outro não passava de um charlatão. Scórder, que era um +modelador de merito, prestou importantes serviços á fabrica, creando +bons discipulos que lhe perpetuaram o nome. + +Como o artista contractado na Allemanha, que não chegou a partir, apesar +de haver recebido já um importante subsidio para as despezas da viagem, +era quem devia tomar a direcção da officina de pintura, contractou o +snr. José Ferreira Pinto Basto, n'aquelle mesmo anno, dois pintores de +louça, João Maria Fabri e Manoel de Moraes, discipulos da Casa-pia de +Lisboa. Aquelle morreu um anno depois de ter vindo para a Vista Alegre; +este conservou-se ali até 1833, não como pintor, mas sim como esculptor, +produzindo n'este genero bons trabalhos. + +Tudo parecia agourar um feliz resultado, mas tal resultado cada vez se +ia tornando mais demorado e incerto, de sorte que a empresa teria +succumbido ás innumeras difficuldades que surgiram de todos os lados, se +á testa d'ella e dominando tudo não estivesse a incansavel actividade, a +poderosa energia, e invencivel perseverança do snr. José Ferreira Pinto +Basto. + +Os operarios estrangeiros conheciam o trabalho dos materiaes a que nos +seus paizes estavam habituados, e não podiam fazer obra por aquelles que +na Vista Alegre se lhes offereciam; a sua aptidão sendo como era +puramente pratica não podia por si só crear ou modificar processos; +necessitava que o genio inventivo e a sciencia viessem em seu auxilio. O +snr. Ferreira Pinto reconheceu esta verdade, de sorte que em 1830 mandou +seu filho o snr. Augusto Ferreira Pinto Basto, a França, a fim de +estudar na fabrica de Sevres, verdadeira escola das artes ceramicas, os +melhores processos e meios de investigação. + +Ali recebeu aquelle cavalheiro sabios conselhos e preciosas +indicações do director d'aquella importante manufactura, o illustre +Brogniart, que lhe fez ver a completa impossibilidade de se fabricar +porcelana, sem o kaulin, que era o que faltava na Vista Alegre. + +O snr. Augusto Ferreira Pinto regressou a Portugal trazendo amostras do +kaulin empregado em Sevres, e depois da sua chegada os ensaios e +experiencias continuaram incessantemente na Vista Alegre, mas sempre sem +melhor resultado, até que em 1834 se descobriu o verdadeiro kaulin. + +O snr. Ferreira Pinto tinha mandado vir de differentes pontos do paiz, +por intermedio dos administradores do contracto do tabaco, de que elle +era arrematante, amostras de quantos barros havia mais ou menos +conhecidos, a fim de se ver se entre elles se encontrava o desejado +kaulin. Estes barros eram todos submettidos a um exame chimico, mas com +resultado sempre negativo para o fim que se tinha em vista. + +Ao mesmo tempo que se procedia a estes exames um aprendiz de oleiro, +fazia por conta propria algumas experiencias não só com aquelles barros, +mas com outros que a pedido seu lhe eram trasidos por operarios que dos +concelhos de Ovar e Feira vinham trabalhar nas construcções que na Vista +Alegre se estavam fazendo. Entre estes barros veio o kaulin de Val Rico, +d'aquelle ultimo concelho; trouxe-o um trolha e foi reconhecido pelo +aprendiz oleiro que, no meio da sua humilde obscuridade, prestou o +grandiosissimo serviço á fabrica de lhe descobrir a materia prima para o +fabrico da porcelana, serviço este que não tinha podido ser prestado por +os administradores do contracto do tabaco, do paiz inteiro, que d'isso +haviam sido encarregados. + +O descobridor pois do kaulin empregado hoje na Vista Alegre foi Luiz +Pereira Capote, natural de Ilhavo, que falleceu em 1870. + +Descoberto o kaulin, principiou desde então a fabrica a produzir +porcelana dura, datando portanto de 1834 o seu fabrico, que se foi +aperfeiçoando gradualmente, de fórma que em 1840 principiou a Vista +Alegre, a poder competir em qualidade com fabricas estrangeiras, o que +não succedeu com os preços, pois produzia só caro. + +O elevado dos preços difficultou durante alguns annos a extracção de +louça, tornando-a pouco conhecida. Os armazens da fabrica estavam +atulhados de louça, quando em maio de 1846 rebentou no Minho a revolução +popular. Os proprietarios da fabrica receiosos de que ella fosse victima +da furia popular annunciaram a venda por lotes de toda a louça em +deposito, venda que se realisou por preços bastante convidativos, que +fez com que os productos da Vista Alegre se espalhassem, divulgando o +seu bem acabado e a sua barateza. Estava aberto um novo periodo de +prosperidade para a fabrica, mas este periodo só principiou a sentir-se +de 1848 em diante, pois o resto do anno de 1846 e maior parte do de +1847, a fabrica nada produziu, pois estava fechada em resultado dos +acontecimentos politicos d'essa epocha. + +Prosperando sempre d'anno para anno, a fabrica chegou ao apuro em que +hoje está, apresentando largas tendencias para progredir, tal é a activa +e intelligente direcção que hoje tem. Para se avaliar dos progressos da +fabrica basta dizer-se que os seus productos tem sido premiados em todas +as exposições de Londres, Paris, Philadelphia, Vienna d'Austria, Rio +de Janeiro e Porto; do consumo que tem obtido os mesmos productos +são prova irrefutavel os seguintes algarismos: + +Em 1860 . . . . . 21:949$000 + +Em 1870 . . . . . 26:994$000 + +Em 1880 . . . . . 49:750$000 + + * * * * * + +Conjunctamente com a fabrica de porcelana, fundou o snr. José Ferreira +Pinto, na Vista Alegre no mesmo anno de 1824 uma outra de vidro e +cristal, que lhe ficou annexa. Os primeiros trabalhos foram dirigidos +por um allemão, Francisco Miller, que havia annos já estava dirigindo a +do Côvo, no concelho de Oliveira d'Azemeis, o qual foi substituido em +1826 por João da Cruz e Costa, de Lisboa, que esteve a dirigir o fabrico +do vidro até 1834. + +Foram desde logo bastante satisfatorios os resultados obtidos, de sorte +que o fundador procurou pol-a logo a par das melhores do estrangeiro, +mandando vir mestres experimentados para as differentes officinas de +lapidação e floristagem. + +Para aquella contractou em 1820 na Inglaterra Samuel Hunles, que veio +para a Vista Alegre ganhar 2$400 reis diarios, e ali esteve até 1828, +deixando bons discipulos. + +O mestre de florista era italiano, e não passou de Lisboa, onde chegou +em 1827, por alguem lhe affirmar que era muito miasmatico o clima da +Vista Alegre. Para ali foram os aprendizes d'esta officina, que ao fim +de tres annos de pratica foram dados por promptos, affirmando o +mestre que um d'elles João Ferreira Ribeiro, de Vagos, estava já mais +mestre do que elle, o que não era sem fundamento, pois veio para a Vista +Alegre dirigir a officina de florista o que fez com talento. + +No periodo decorrido de 1836 a 1840, foi enorme a producção do vidro, e +todo da melhor qualidade, pois alguns dos productos fabricados n'esta +epocha são de uma perfeição inexcedivel. + +Quando n'aquelle anno o fabrico da porcelana entrou na phase de +aperfeiçoamento e progresso a que já nos referimos, o do vidro +principiou a decahir consideravelmente até que cessou de todo em maio de +1846. + +Em meados de 1848 continuou a fabricar-se mas em muito menor quantidade +e esta mesma só de liso, pois os lapidarios e floristas, durante aquelle +interregno, uns tinham ido para a fabrica da Marinha Grande, outros +applicaram-se a outros misteres, de fórma que os tempos aureos da +fabricação do vidro na Vista Alegre, passaram para nunca mais voltarem. + +Em 1880 acabou de todo a fabrica de vidro, demolindo-se o respectivo +forno, mas mesmo já até a esta epocha eram grandes as interrupções que +se davam com o seu fabrico, estando por vezes muitos mezes sem trabalhar. + + * * * * * + +Annexo á fabrica de porcelana e vidro, houve tambem um laboratorio +chimico, e a elle se referem os reaes Alvarás de 1 de julho de 1824 e 3 +de março de 1826. Foi fundado como aquellas fabricas em 1824. De +1827 a 1832 teve por director D. Euzebio Roiz, official de cavallaria do +exercito hespanhol e chimico muito distincto, que veio para Portugal +como emigrado em 1820. Depois da sua sahida acabou o laboratorio, do +qual não podemos obter mais noticias. + + * * * * * + +De 1827 a 1835 foram os productos da fabrica marcados com um V. A. entre +duas palmas rematadas por uma corôa. Esta marca era gravada, sendo o +carimbo aberto por Manoel de Moraes, de quem já fizemos menção. De 1838 +a 1861 não foi geralmente marcada a louça, pois só em alguns serviços +d'almaço de maior preço apparece um V. A. dourado. De 1861 em diante é +marcada toda a louça, tanto branca como pintada, com um V. A. em azul. + + * * * * * + +Com o fim de crear artistas habeis para as duas fabricas de porcelana e +vidro, fundou em 1826 o snr. José Ferreira Pinto Basto, na Vista Alegre +um collegio com o internato, onde se ensinava, além d'um dos misteres da +fabrica, instrucção primaria e musica. + +A inauguração foi feita com grande solemnidade, vindo assistir a ella o +fundador. + +Os primeiros alumnos admittidos foram treze, e o director José Vicente +Soares, de Penafiel. Esta instituição acabou em 1842, chegando a ter +nos ultimos annos quarenta alumnos. + + * * * * * + +Como dependencia da fabrica, ha tambem na Vista Alegre, um pequeno mas +elegante theatro, que além da galeria ou camarote destinado aos +proprietarios da fabrica, tem platea com capacidade para cento e oitenta +logares. Foi fundado em 1851, realisando-se a inauguração com as +comedias _Um duello em Campolide_, _O quarto de duas camas_, _Util e +agradavel_. + +O panno de bocca e bem assim o tecto foi pintado pelo director da +officina de pintura Chartier Rousseau. Aquelle representa a Vista da +Praia Grande de Macau, e este Apollo e as nove musas. + +Anteriormente á fundação do actual theatro houveram dois, datando a +fundação do mais antigo de 1825 ou 1827, e que foi inaugurado com a +representação da comedia _O gallego lorpa_. + + * * * * * + +Como dependencia do collegio organisou-se tambem em 1826 uma +phylarmonica privativa da fabrica, e composta unica e exclusivamente de +operarios d'ella. + +Esta phylarmonica ainda continua a existir e tem tido desde o seu +principio até hoje os seguintes regentes:--José Vicente Soares, de 1820 +a 1828: Prudencio Apolinario, de 1830 a 1834; Filippe Marcelino Classe, +de 1834 a 1838; Antonio Dias, de 1838 a 1845: João Antonio Ferreira, +de 1847 a 1851; Antonio Dias, de 1852 a 1866; e Joaquim Martins Rosa, de +1867, em diante. + + * * * * * + +Os pruductos da fabrica da Vista Alegre tem sido premiados com medalhas +de cobre e prata em todas as exposições do Londres, Paris, Philadelphia, +Vienna d'Austria, Rio de Janeiro e Internacional do Porto. + + * * * * * + +A fabrica da Vista Alegre tambem tomou parte muito activa nos +acontecimentos politicos de 1846 e 1847. Quando em 14 de maio d'aquelle +anno a cidade de Aveiro adheriu ao pronunciamento popular iniciado no +Minho, a população operaria da Vista Alegre pronunciou-se tambem e +fraternisando com os que n'aquella cidade se haviam revolucionado, +marchou com elles para Cantanhede e d'aqui para Coimbra, a fim de +receber ordens e instrucções da junta governativa, que ali se havia +installado. De Coimbra marcharam os operarios da Vista Alegre e os +populares d'Aveiro para Villa Nova de Gaya, onde se conservaram até que +o Porto adheriu tambem á causa que elles defendiam. + +Feita a revolução no Porto em 9 d'outubro contra o _golpe de Estado_ de +6 do mesmo mez, os operarios da Vista Alegre abraçaram logo com +enthusiasmo a causa da junta, procedendo immediatamente á organisação +d'um corpo de voluntarios, com o nome de Batalhão Nacional do +Concelho d'Ilhavo. No dia 23 de outubro marchou o batalhão para o Porto, +levando por commandante um dos proprietarios e administrador da fabrica, +o snr. Alberto Ferreira Pinto Basto, e por major o director da mesma +fabrica, João Maria Rissoto. + +No dia 28 de outubro fez o batalhão da Vista Alegre, pois era assim que +era conhecido, a sua entrada no Porto, indo á sua frente o Visconde de +Sá da Bandeira, que chegando n'esse mesmo dia de Lisboa, quiz honrar os +valentes operarios, commandando-os n'aquelle dia. + +Organisando-se a divisão com que o Visconde de Sá da Bandeira, devia +operar em Traz-os-montes contra as forças do Barão do Casal, o batalhão +da Vista Alegre foi um dos escolhidos para d'ella fazerem parte, e como +tal entrou na acção de Valle Passos, que teve logar em 10 de novembro. +São bem conhecidos os resultados d'esta acção, para que os relatemos +aqui. Como o nosso proposito é só fallarmos da Vista Alegre, diremos que +o batalhão d'este nome, entrou com galhardia em fogo sustentando-o com +vigor até mesmo depois da deserção dos regimentos 3 e 15 de infanteria. +Não podendo, porém, resistir ao choque da cavallaria e ao d'um +d'aquelles regimentos, que o carregára á bayoneta, o batalhão retirou +com alguma confusão para a rectaguarda, unindo-se depois ao resto das +forças com que Sá da Bandeira voltou para o Porto. + +Durante o resto da lucta não tomou parte em qualquer outro combate, mas +guarneceu por vezes differentes pontos das linhas e alguns d'elles muito +importantes, até que teve de depôr as armas como as demais forças +populares, em virtude da convenção assignada em Gramido em 21 de junho +de 1847. + + * * * * * + +No dia 13 de cada mez ha na Vista Alegre, um mercado muito importante, +conhecido pela triplice denominação da _Feira dos treze, da Ermida, e do +Bispo_. Este mercado foi estabelecido a requerimento do juiz, vereadores +e mais povo das villas da Ermida e Ilhavo, por alvará de 15 de junho de +1693, que ordenou que o mercado mensal se tornasse em annual no dia 13 +de setembro, dia da invocação da padroeira da capella da Vista +Alegre--Nossa Senhora da Penha de França. + + * * * * * + +Fizemos já a historia da fabrica, é justo que agora d'ella façamos +descripção ainda que rapida, e que digamos tambem alguma cousa do +systema de fabrico n'ella empregado. + + +DESCRIPÇÃO DA FABRICA + +É modestissima a apparencia exterior da fabrica, de fórma que a +impressão por ella produzida ao forasteiro que pela vez primeira a +visita, nem por sombras lhe dará a conhecer que elle se acha frente a +frente com um dos mais importantes estabelecimentos industriaes não só +do paiz, mas até da Peninsula. + +Correndo parallelos com um grande parque, pelo lado do norte, estão os +armazens da louça branca e pintada, loja de vendas e escriptorio. + +Entre estas duas dependencias da fabrica é que fica a entrada que dá +accesso a um pateo arborisado, á volta do qual estão os armazens já +referidos, a casa do deposito, e officina de fórmas e moldes, e bem +assim a das _gazetas_, deposito de material de incendios, casa onde se +guardam os restos do antigo museu da fabrica, officina de carpentaria, e +entrada para a estancia das lenhas. + +São vastos os armazens de deposito de louça pintada e branca, +especialmente o d'esta ultima, que era onde antigamente estavam os +fornos de estender vidraça. + +A officina de moldes e _gazetas_ está bem montada como todas as +restantes da fabrica; no deposito do material de incendios, ha duas +bombas, machados, e canecos de pau para agua, em profusão, e outros +objectos proprios, tudo preparado e prompto para acudir a qualquer +sinistro. + +É provisoria a casa onde estão os productos que compõem o chamado muzeu +da fabrica, o que é deveras para lamentar, pois tornam-se dignos d'uma +boa collocação, a fim de poderem ser examinados e apreciados, como merecem. + +A estancia das lenhas fica ao norte do edificio e está completamente +isolada d'elle. Mede 67,m60 de comprimento e 52,m de largura. A sua +superficie é rectangular, tendo á volta, os telheiros que abrigam a +lenha das chuvas. + +D'aquelle pateo passa-se para as officinas da olaria. São duas salas +bastante espaçosas, onde ha 38 rodas d'oleiro; junta a estas está uma +outra mais pequena, que é a officina de aprendisagem e deposito de +modelos. Junto d'aquellas ha um terreno ajardinado onde estão os +telheiros para seccar a louça. + +Da officina de olaria passa-se a um longo corredor ao fim do qual +estão as officinas de pintura. São duas as salas destinadas para a +pintura, cheias de luz e bem ventiladas. Ornam-lhe as paredes esboços de +V. Rosseau, e placas de porcelana com o retrato do fundador da fabrica, +brasões d'armas, quadros de costumes, fructos, etc. + +Á direita d'aquelle corredor fica a lithographia. Montada, segundo todas +as exigencias do fim a que é destinada, funcciona apenas de 1880 em +diante. São bastante satisfatorios os resultados obtidos pelo processo +lithographico, que tem a grande vantagem de ficar muito mais barato do +que o geralmente seguido na pintura da porcelana, e aqui desde principio +adoptado. + +Em seguida á lithographia fica o deposito da louça que hade ser pintada +e do lado fronteiro a casa das _muflas_ onde ha tambem duas estufas para +seccar a louça pintada. + +Da sala da pintura desce-se para o deposito do barro preparado e casa da +amassadura, e d'aqui para a officina de trituração, onde se acham +montados as galgas e pisões a que dá movimento uma machina a vapor. + +Para além da machina estão as estufas para seccar areia, alimentadas com +o calor perdido das caldeiras, um torno a que ella dá movimento, e as +officinas de serralheria. Parallela com esta parte do edificio, que é a +mais vasta de todo elle, fica a estancia do carvão e differentes +telheiros para a secca do barro. Proximo, está a officina de lavagem e +escolha de materiaes empregados no fabrico da porcelana. + +Os fornos, esses, tres ficam pouco acima d'estas ultimas officinas, e o +outro que é o maior, junto ao deposito da louça branca, ao pé do +qual fica tambem a officina de vidrar. + +Ao norte da casa dos tres fornos e do lado fronteiro do caminho do +serviço da fabrica fica a officina de esculptura, o laboratorio em que +se opera a solução do oiro e preparação de algumas tintas. Está tambem +ahi junto a caldeira para a calcinação do gesso. + +As materias primas empregadas no fabrico da porcelana são em toda a +parte, em que ella se fabrica, as argilas kaulinicas, o quartzo e o +feldspatho. Aquellas, vêem para a Vista Alegre, de Valle Rico, concelho +da Feira e este de Villa Meã, Mangualde e Porto. + +As argilas kaulinicas são aqui lavadas e passadas por peneiras a fim de +se separarem os corpos em diversos estados de aggregação. As areias +grossas que dellas ficam são depois empregadas como quartzo. + +O quartzo e o feldspatho são escolhidos primeiramente tambem afim de +evitar que levem grandes porções d'oxido de ferro, que ordinariamente +lhe anda unido, depois calcinam-se e levam-se para as galgas. + +Os differentes materiaes que hão de compôr a porcelana, depois de +devidamente moidos e lavados são compostos e em seguida levados ás mós +horisontaes para os moer e misturar, e em seguida guardados em depositos +até adquirirem um certo grau de consistencia. + +D'estes depositos vae a massa para a casa da amassadura onde é lançada +em vasos de barro poroso, de fórma de pyramides conicas troncadas, a que +se dá o nome de _coques_. + +D'estes _coques_ é a massa levada para uma larga banca de pedra, a fim +de ser amassada a pés. São dois ou mais homens que amassam a porcelana +na banca referida; amassada ella dividem-a em muitas fracções, com a +fórma de cones, e que denominam _pélas_. + +Estas _pélas_ são em seguida levadas para a officina das rodas de +oleiro, onde são separadamente amassadas á mão sobre uma pequena banca +de marmore, a fim da massa ficar mais unida e homogenea, e bem assim +desapparecerem alguns veios escuros que ás vezes adquire, ficando assim +apta para ser obrada. + +O methodo empregado na Vista Alegre na execução das differentes peças de +porcelana, é o de _encher_ e o de _moldar_. + +As caixas refractarias--_gazetas_--onde se mettem as peças para serem +levadas aos fornos são fabricadas por meio de moldes de gesso, variando +as suas dimensões conforme as peças que devem conter. + +Bem seccas as peças que sahiram da roda do oleiro, ou dos moldes, +procede-se ao seu enfornamento, collocando-se primeiramente dentro das +gazetas ou sem ellas. + +Levadas ao forno são collocadas no segundo pavimento, pois agora só +recebem o calor brando, a que chamam--_chacote_. + +Recebida esta primeira cosedura, vão para a officina de vidrar. O +vidrado é dado por immersão das peças dentro d'uma grande tina em que se +acham diluidos em agua os corpos que compõem o esmalte. + +As peças mettem-se e tiram-se rapidamente ficando tambem logo seccas +como se não houvessem recebido banho algum. + +O vidrado é tirado dos pontos de contacto e dado nos pontos em que a +peça não o poude receber na parte coberta pela mão. Os retoques são +feitos com pincel. + +Mettidas novamente dentro das _gazetas_, sobre cujo fundo, se lança +alguma areia, afim de que a elle ellas se não peguem, são outra vez +enfornadas mas agora no outro pavimento do forno, a fim de receberem o +grande calor que termina a cosedura. + +As _gazetas_ são collocadas umas sobre outras, formando pilhas em toda a +altura do forno, a que se dá o nome de _fios_. + +Feito o enfornamento, em que trabalham oito forneiros e um trabalhador, +accendem-se as quatro fornalhas que tem o forno, fazendo para que a +intensidade do lume, seja a mesma, e ao mesmo tempo em todas as +fornalhas, a fim de estabelecer a uniformidade da temperatura. + +Passadas 10 horas de lume brando, a que chamam _lume de esquenta_, +tapam-se as boccas dos fornos com tijolos refractarios, afim de +concentrar a força do calor interiormente, começando então o grande +calor, a que dão o nome de _lume de calda_, renovando successivamente a +lenha nas fornalhas em maior quantidade que para lume brando, +conservando-se assim o fogo bem activo e uniforme ordinariamente por +espaço de vinte e quatro horas, chegando algumas vezes a trinta e seis. + +Conhecendo-se que está completa a cosedura, tira-se a lenha das +fornalhas, diminuindo gradualmente d'este modo o calor dentro do forno, +e conservando a louça dentro d'elle até que esteja completamente fria, +para então se começar a desenfornar. + +De entre as peças vidradas separam-se então as que tem de ser pintadas, +para o que são conduzidas para um armazem junto ás salas da pintura. + +São muitas as côres usadas na pintura da porcelana, quasi todas +vitreficaveis e obtidas por meio de combinações de oxidos, saes +metallicos e fundentes. + +Os oxidos empregados de preferencia são o oxido de choromio, o de ferro, +o de uranio, de manganez, de zinco, de cobalto, de antimonio, de cobre, +de estanho e de iridium. + +Os principaes saes empregados são o chromato de ferro, de barita, de +chumbo e algumas vezes o chloreto de prata. + +Depois de pintada a louça vae á estufa para seccar as tintas e em +seguida para dentro das _muflas_ a fim de fixar em si as tintas, +ganhando as respectivas côres, as quaes se vetrificam com os fundentes. + + +MACHINAS E FORNOS + +A machina a vapor, collocada na officina de trituração, a que já nos +referimos, foi feita em Lisboa por Bachelay. Tem duas caldeiras de fogo +central e força de 14 cavallos. Foi assente em 1855 por Daniel Werlong, +artista de raro merito com o curso de artes e officios em Paris, que +durante alguns annos dirigiu a officina de serralheria da fabrica. + +A chaminé que dá vasão ao fumo das caldeiras tem 14,m de altura e foi +construida em 1879, por operarios do estabelecimento. + +A machina communica movimento por meio d'uma correia sem fim, a um +tambor fixo no veio principal o qual o transmitte por meio de +engrenagens aos differentes engenhos destinados a moer e misturar os +materiaes, empregados no fabrico da porcelana. + +Ha quatro fornos destinados para coser a porcelana, todos com a fórma +cylindrica, construidos com tijolos refractarios fabricados no +estabelecimento. Cada um d'elles tem quatro fornalhas e dois andares; o +maior tem cinco. + +No inferior colloca-se a louça que tem de ser esmaltada, elevando-se a +temperatura ao rubro branco, e no superior a que tem apenas a receber o +calor brando ou pequeno fogo que lhe dá o poder absorvente para ser +vidrada. + +No _chacote_ a cosedura adquire o rubro cereja proximamente a +temperatura da fusão de ferro. O _chacote_ é aquecido pela chamma +perdida do primeiro compartimento. + +Sobre as fornalhas dos fornos ha aberturas rectangulares, chamadas +_vigias_ por onde se _observa_ o grau de calor e se tiram as amostras, +sobre as quaes se verifica directamente o estado da cosedura. + +Além dos quatro grandes fornos ha outros mais pequenos destinados a +fixar as tintas, que são as _muflas_. Estes fornos, se tal nome se lhe +pode applicar, são caixas feitas de argila refractaria, separadas umas +das outras por paredes de igual natureza. + +Contém varios compartimentos formados por folhas de ferro, a que servem +d'apoio calços tambem d'argila refractaria. + +São oito as _muflas_, tendo cada uma d'ellas fornalha independente. + + * * * * * + +Escripta a historia da fabrica e feita a descripção d'ella, nada mais +nos resta do que apresentar uma resenha dos seus administradores, +directores, mestres de pintura e manufactura de porcelana, que é o +que vamos fazer. Eil-a: + + +Administradores:--Os snrs. Augusto Ferreira Pinto Basto, de 1824 a 1828; +Alberto Ferreira Pinto Basto, de 1828 a 1856; Duarte Ferreira Pinto +Basto, de 1856 a 1861; Domingos Ferreira Pinto Basto, de 1861 a 1882; +Duarte Ferreira Pinto Basto Junior, de 15 de maio de 1882 em diante. + +Directores:--Os snrs. Antonio d'Almeida Ferreira Duque, de 1836 a 1840; +João Maria Rissoto, de 1840 a 1878: Duarte Ferreira Pinto Basto Junior, +de 1878 a 1882; João Antonio Ferreira, de 15 de maio de 1882 em diante. + +Mestres de pintura:--Os snrs. Victor Francisco Chartier Rousseau, de +1836 a 1852; Gustavo Fortier, de 1853 a 1856; Filippe Fortier, de 1857 a +1860; Gustavo Fortier, de 1861 a 1865; Joaquim José d'Oliveira, de 1866 +a 1881; Francisco da Rocha Freire, de 1881 em diante. + +Mestres de porcellana:--Os snrs. João da Silva Monteiro, de 1826 a 1833; +João da Silva Monteiro Junior, de 1833 a 1838; João Antonio Ferreira, de +1838 a maio de 1882. Presentemente não ha mestre de porcelana, mas sim +dois contra-mestres, os snrs. Antonio Augusto Affonso, que tem a seu +cargo a preparação das materias primas, fórmas e modelos, e Manoel da +Silva Marianno, que dirige a manufactura. + + +Fim. + + + + +PREÇO 200 REIS + + * * * * * + +OBRAS DO MESMO AUCTOR + +Memorias de Aveiro. + +D. Duarte de Menezes--esboço biographico. + +O Districto de Aveiro; noticia geographica, estatistica, seraldica, +archeologica e biographica da cidade de Aveiro e todas as villas e +freguezias do seu districto. + +A mulher atravez dos seculos; estudo historico sobre a condição +politica, civil, moral e religiosa da mulher: 1.ª parte--sociedades +primitivas, China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel. + +D. Joanna de Portugal (a princeza santa) esboço biographico. + + * * * * * + +EM VIA DE PUBLICAÇÃO + +Luctas caseiras--Portugal de 1836 a 1851. + +Aveiro e o seu concelho. + +JOAQUIM DE VASCONCELLOS E MARQUES GOMES + +Exposição districtal de Aveiro em 1882--Reliquias da arte nacional. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Vista Alegre: apontamentos para a +sua historia, by João Augusto Marques Gomes + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VISTA ALEGRE: APONTAMENTOS *** + +***** This file should be named 34276-8.txt or 34276-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/2/7/34276/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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