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Tavares Cardoso e Irmão, 1900"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: 0.7em; + text-align: right; + color: gray; + } + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + a {text-decoration: none; color: navy; font-size: 0.7em; font-family: sans-serif;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Alexandre Herculano + +Author: Diogo Rosa Machado + +Release Date: November 12, 2010 [EBook #34286] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + + +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 2em;">ALEXANDRE HERCULANO</p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p style="font-size: 0.8em;">CONFERENCIA PÚBLICA<br> + +REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,<br> + +NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">DIOGO ROSA MACHADO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 15%;"> +<p style="font-size: 1.2em;">PREÇO 200 REIS</p> +<hr style="width: 15%;"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> +TAVARES CARDOSO & IRMÃO<br> +<small>5—LARGO DE CAMÕES—6</small><br> +<small>MDCCCC</small></p> +</div> + + + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 2em;">ALEXANDRE HERCULANO</p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p style="font-size: 0.8em;">CONFERENCIA PÚBLICA<br> + +REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,<br> + +NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">DIOGO ROSA MACHADO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 15%;"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +<small>LIVRARIA EDITORA</small><br> +TAVARES CARDOSO & IRMÃO<br> +<small>5—LARGO DE CAMÕES—6</small><br> +<small>MDCCCC</small></p> +</div> + +<p><span class="pn">{2}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> +<p style="text-align: center;">Typ a vapor da Empreza Litteraria e Typographica<br> +Rua de D. Pedro, 184—Porto.</p> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<div id="corpo"> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><small>MEUS SENHORES.</small></p> + +<p> </p> + +<p>O homem nasceu para viver em sociedade. Apesar +de todos os paradoxos sustentados por João Jacques +Rousseau contra o estado social, é incontestavel que só +neste estado é que elle se póde aperfeiçoar intellectual +e moralmente. O selvagem é feroz, cruel e sanguinario.</p> + +<p>Com as nações succede o mesmo que com os individuos. +Assim como os individuos isolados não progridem, +assim tambem as nações que vivem separadas +das outras permanecem estacionarias. Quanto mais amplas +forem as relações sociaes maior será o desenvolvimento +da intelligencia humana. Se o commercio abre +o caminho para a civilização e fraternidade dos povos, +é a mais alta cultura litteraria e scientifica que poderá +fazê-las attingir o seu auge. A cultura litteraria, além +de ser indispensavel a todo o homem, seja qual fôr a +sua posição social, é o factor mais poderoso da solidariedade +universal. Quando as obras litterarias e scientificas +em que se revela a maior pujança do espirito humano +estiverem vulgarizadas em todos os paises, então<span class="pn">{4}</span> +a fraternidade universal não será certamente um sonho +vão, prestar-se-ha o culto mais ardente á liberdade e á +egualdade, finalizarão as guerras, que são verdadeiros crimes +sociaes. São os eloquentes escriptores, os sublimes +poetas e os eminentes sabios que mais têm contribuido +para o progresso intellectual e moral do genero humano; +devemos pois tributar as mais ardentes homenagens +a todos os bemfeitores da humanidade, a todos os +grandes homens que a têm honrado com o seu genio +litterario, scientifico ou philosophico.</p> + +<p>São rarissimas as manifestações populares que não +são excitadas pelas paixões politicas. Este facto é um +triste symptoma da profunda ignorancia que ainda lavra +no nosso pais.</p> + +<p>As homenagens prestadas aos grandes escriptores e +aos sabios eximios devem ter por unica origem a gratidão +popular pelos relevantissimos serviços que prestaram, +pelos grandes esforços por elles envidados para +instruir e moralizar a sociedade.</p> + +<p>Bem sei que a politica é indispensavel para o progresso +dos povos, mas tambem é certo que no campo +da politica se põem ordinariamente as paixões partidarias +acima dos affectos mais nobres e sublimes do coração +humano, acima do amor da verdade e da justiça, +da rectidão e da imparcialidade que devem caracterizar +todo o homem de bem, todo o cidadão honrado e +virtuoso. É um espectaculo assás desagradavel o vêr +que, no campo da politica vil e mesquinha, de um lado +se encontram homens sempre promptos a adular os poderosos +da terra, todos os tyrannos; seja qual fôr a denominação<span class="pn">{5}</span> +que se lhes dê; do outro, individuos que, +sob a mascara das doutrinas mais avançadas, procuram +lisonjear as paixões muitas vezes ignobeis e mesquinhas +das turbas analphabetas, ignorantes e fanaticas. +O homem que só procura a verdade e o bem, que não +se deixa dominar pelas paixões politicas, que é imparcial +e recto, que ousa fallar ou escrever sem preconceitos +contra a profunda corrupção do seu seculo e do +seu pais, que não hesita em vituperar os vicios de todas +as classes sociaes, que não vende a sua consciencia +no mercado dos poderosos nem procura illudir a +plebe ignorante e fanatica, que muitas vezes applaude +inconscientemente os discursadores frivolos, cujo merito +apenas consiste na verbosidade vacua e na habilidade +para afagar as preoccupações populares, o homem +que considera a mentira um crime, que louva ou vitupera +com toda a sinceridade e justiça, forcejando por +não faltar á verdade, que não mercadeja com a sua +intelligencia, que Deus só lhe deu para conhecer o bello, +o verdadeiro e o justo, aquelle que assim procede +com toda a dignidade é sempre o alvo das censuras +mais acres e injustas, chega a ser muitas vezes calumniado +pelos fanaticos de todas as escolas e de todos +os partidos; mas, no meio d'estas grandes miserias sociaes, +ha sempre um grupo de homens sensatos e moderados, +illustrados e honestos, que comprehendem o +seu modo de pensar e de sentir e lhe fazem a devida +justiça; quando isto não succedesse, bastar-lhe-hia a +pureza da sua consciencia para o consolar, para lhe +suavizar as amarguras provenientes da injustiça dos<span class="pn">{6}</span> +homens, porque a consciencia é para todo o homem +sincero, imparcial e recto a fonte dos prazeres mais intensos +e duradouros, porque é a voz da consciencia que +o impelle a proseguir denodado e imperturbavel o caminho +da verdade e da justiça, sem lhe importarem os +murmurios, os vituperios que em volta d'elle possam +levantar todos os ignorantes e maus, todos os homens +dominados pelo fanatismo religioso, philosophico ou politico.</p> + +<p>Ha uma cousa muito mais nobre e elevada do que +a politica, uma occupação que não degrada os caracteres +nem corrompe os costumes, em que não é preciso +sacrificar a consciencia nem praticar a injustiça, que +nos serve de consolação no meio de todas as angustias: +é a cultura litteraria e scientifica. Sem esta cultura tão +proveitosa não poderiam realizar-se nas sociedades +transformações beneficas, solidas e duradouras, não teriam +os povos consciencia dos seus direitos e dos seus +deveres, não conheceriam o seu passado nem saberiam +como proceder para se tornarem mais moralizados e felizes, +não poderia haver politica liberal e sensata.</p> + +<p>Quando se trata de prestar homenagens áquelles +grandes vultos que tanta luz irradiaram nos seus escriptos, +todos, sem distincção de partidos, de escolas philosophicas +e litterarias, devem unir-se para mostrar a +sua gratidão para com aquelles que tão poderosamente +contribuiram para o progresso intellectual e moral da +sua patria e da humanidade.</p> + +<p>Ninguem mais digno das nossas homenagens do +que o grande vulto de cujas virtudes e meritos litterarios<span class="pn">{7}</span> +e scientificos venho hoje fallar-vos. Ninguem mais +digno das nossas homenagens do que o eminente escriptor +que se chamava Alexandre Herculano de Carvalho +e Araujo. Ninguem mais digno das nossas homenagens +do que aquelle cidadão illustre que foi a maior +gloria portuguesa d'este seculo e uma das maiores glorias +portuguesas de todos os seculos.</p> + +<p>Lisboa, que foi o berço de Camões e de Vieira, de +Diogo de Couto e de D. Francisco Manuel de Mello, tambem +possue a gloria de ser a terra onde nasceu um escriptor +em cuja alma se achavam, por assim dizer, +conglobados muitos dos predicados que adornavam os +espiritos d'aquelles grandes homens; um escriptor que +chegou a adquirir na litteratura universal um dos nomes +mais illustres; um grande lyrico, cujo sentimento +religioso é profundo como o de Lamartine, cujo amor +da liberdade é vehemente como o de Victor Hugo, cujo +patriotismo é ardente como o de Béranger; um romancista +que, alem de rivalizar com Walter Scott na erudição +e no estylo, revela, na pintura das grandes paixões, +a energia de Shakspeare e Byron, e nas descripções +de batalhas se parece com Homero; um historiador +eloquente como Tito Livio, vigoroso como Tacito, conciso +como Sallustio, elegante como Xenophonte, claro como +Taine, consciencioso e erudito como Thierry, imparcial +como Maccaulay, philosophico como Guizot e poetico +como Michelet; um epistolographo sentimental como +Rousseau e sobrio como Voltaire; um polemista cujo estylo +não é menos grandioso que o de Lamennais e que +na vehemencia da indignação rivaliza com Juvenal.<span class="pn">{8}</span> +Ser tudo isto ao mesmo tempo é um dos phenomenos +mais raros e maravilhosos que nos póde apresentar a +historia litteraria. Pois tudo isto foi Herculano; este +phenomeno extraordinario e verdadeiramente maravilhoso +é-nos apresentado pela sua obra monumental e +complexa.</p> + +<p>É immensa a gloria de Herculano, mas tambem é +immensa a gloria de Portugal por ter sido a patria de +um escriptor tão insigne e de um varão tão austero. +Herculano foi incontestavelmente um dos principaes +mestres da nossa lingua, um dos pensadores mais profundos +da nação portuguesa e um dos historiadores +mais eloquentes, exactos e imparciaes que o mundo tem +produzido. A immensidade do seu genio levou o grande +historiador inglês, o illustre Maccaulay, tão sobrio em +louvores, a proferir esta phrase enthusiastica: «A Hespanha +deveria esforçar-se por conquistar Portugal só +para possuir Herculano.»</p> + +<p>O principe dos historiadores portugueses nasceu no +dia vinte e oito de março de mil e oitocentos e dez. +Ha por consequencia noventa annos que neste bello +pais, nesta formosa cidade banhada pelo Tejo, debaixo +d'este ceu puro e limpido, nasceu um escriptor em cujo +coração se abrigava a sensibilidade ardente de um poeta +e em cujo cerebro fulgia a intelligencia profunda de +um philosopho. Ha noventa annos que nasceu em Portugal +um dos seus escriptores mais brilhantes, fecundos +e eruditos e o seu prosador mais eminente. Ha noventa +annos que veiu ao mundo um dos artistas mais +varonis, um dos caracteres mais austeros, um dos corações<span class="pn">{9}</span> +mais sensiveis, energicos e apaixonados, um dos +mais brilhantes luminares da sciencia historica.</p> + +<p>A natureza difficilmente produz os grandes homens; +são rarissimos em todas as nações. Por isso devemos admirá-los +e glorificá-los como entes extraordinarios que +a Providencia destinou para conduzir a humanidade +pela estrada do progresso e da civilização.</p> + +<p>Se attendermos á pequenez do territorio que occupamos +na Europa e á respectiva população, Portugal é +uma das nações que maior numero de homens illustres +têm produzido. O nosso pais tem sido o berço dos mais +arrojados heroes e dos mais eloquentes escriptores. A +litteratura portuguesa é tão rica e luxuriante como o +solo da nossa patria.</p> + +<p>A excellente posição geographica do nosso pais, o +delicioso clima que possuimos, as bellezas naturaes que +adornam esta abençoada terra sulcada de rios ora graves +e imponentes, ora risonhos e graciosos, os valles amenos +e serras magestosas de que ella é matizada e +que despertam em nós o sentimento do bello, esse vasto +e profundo oceano que nos offerece o espectaculo +mais grandioso tornando-nos scismadores e melancolicos +e impellindo-nos ás mais altas cogitações e ao mais +profundo sentimentalismo, a aptidão assimiladora da +nossa raça, cujo vigor não poude ser completamente +destruido por mais de duzentos annos de educação jesuitica +e de tyrannia inquisitorial, tudo ha contribuido +poderosamente para que Portugal tenha produzido grande +numero de homens distinctos em todos os ramos de +litteratura, especialmente na poesia e na historia, que<span class="pn">{10}</span> +são os generos litterarios que mais se coadunam com a +nossa indole nacional. No meio de tantos poetas e prosadores +eminentes occupa Herculano incontestavelmente +um dos primeiros logares.</p> + +<p>Alexandre Herculano era um d'aquelles homens em +quem se acham reunidos os predicados mais oppostos; +possuia uma sensibilidade ardente e uma profundeza +admiravel, uma imaginação vulcanica e uma grande +perspicacia na investigação da verdade; a sua intelligencia +era eminentemente analytica e synthetica; o seu +espirito era simultaneamente poetico e philosophico; +nas suas obras encontra-se um estylo ao mesmo tempo +simples e solemne, conciso e energico, claro e imaginoso, +sobrio e elegante. Era verdadeiramente assombroso +o poder e a harmonia das suas faculdades. Herculano +foi um dos genios mais notaveis do seu seculo +e do seu pais; ninguem ainda revelou uma sensibilidade +mais energica e varonil do que elle. Em todas as litteraturas +rarissimas vezes se encontra um escriptor dotado +ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e numerosas.</p> + +<p>Não se deve estudar a vida de Herculano independentemente +das suas obras, porque em todas se revela +o fogo sagrado que o anima, a sua grande imaginação, +a poderosa energia do seu temperamento, a rigidez do +seu caracter, o seu ardente enthusiasmo por tudo quanto +é nobre e bello, o seu amor da sciencia e da virtude, +a sua paixão pela liberdade e a sua profunda abnegação; +numa palavra, porque em todas as suas obras +está vigorosamente estampado o seu nobre caracter e o +seu grandioso espirito.<span class="pn">{11}</span></p> + +<p>A indole eminentemente poetica e philosophica de +Herculano revelou-se desde a infancia; as impressões +que se experimentam nos primeiros annos da vida têm +grande analogia com as inclinações dos ultimos annos: +nas tendencias infantis já se descobre o que se ha de +vir a ser na edade de homem.</p> + +<p>Pelos escriptos de Herculano conhecemos muitos factos +da sua vida, narrados com a sinceridade que caracterizava +o eminente escriptor. No Monge de Cister diz +elle, referindo-se aos dias-santos dos seus tenros annos: +«Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha +edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e +tripudiava nos jogos e brinquedos, que são proprios +d'aquella edade; mas, quando o sol descia para o horizonte, +ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira, +sósinho, a ouvir cair num tanque uma pequena +bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em +que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava +e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de +tranquilla melancolia, fumosinho que se condensava +brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam +a rolar, mas que nelles bailavam. E alli me achava a +noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas +ficava-me cá a saudade...»</p> + +<p>Estas palavras eloquentes e repassadas da mais vehemente +poesia mostram-nos que já na sua infancia Herculano +revelava uma grande tendencia para a solidão, +um temperamento melancolico, um espirito assás meditabundo, +um coração muito impressionavel, uma alma +verdadeiramente poetica, onde se começava a accender<span class="pn">{12}</span> +o amor da natureza. As suas tendencias infantis não +denunciariam já o grave e austero solitario de Valle de +Lobos? Aquella creança prodigiosa, que se afastava dos +seus companheiros para meditar, havia de ser mais +tarde o vigoroso cantor da <em>Semana Santa</em> e da <em>Arrabida</em>, +o sublime idealista do <em>Eurico</em> e o renovador dos +estudos historicos em Portugal.</p> + +<p>Para bem se avaliarem os escriptos e as opiniões de +Herculano é mister que examinemos a sua educação. +Não ha homem algum, por maior que seja o seu espirito, +em quem a educação não exerça uma poderosa influencia; +são profundos os vestigios que deixam no espirito +os primeiros habitos e idéas.</p> + +<p>Herculano era naturalmente religioso como a maior +parte dos grandes poetas, mas a educação que recebeu +contribuiu poderosamente para que no seu espirito ficassem +profundamente gravadas as crenças christãs. Estas +crenças foram certamente modificadas pelo espirito philosophico +de que a natureza o dotara, mas, embora chegasse +a combater com a maior energia os novos dogmas +que Roma introduziu no catholicismo, nunca em +seu espirito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou +um só dos principios fundamentaes do verdadeiro christianismo. +Em toda a sua vida foi um crente sincero, um enthusiasta +da moral evangelica, um espiritualista ardente. +Era um velho catholico, um sectario intransigente da +igreja primitiva. Foi considerado hereje por uma grande +parte do clero, mas aquelle hereje era um verdadeiro +christão, que não admittia innovações no catholicismo +nem transigia com a Companhia de Jesus.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>A lucta que se travava no seu espirito entre a fé e +o raciocinio, entre a religião e a philosophia, e que só +póde ser devidamente avaliada por aquellas almas apaixonadas +que, depois de receberem uma educação eminentemente +christã, se acham invadidas pelo verme +roedor do scepticismo, essa lucta dolorosa em que se +estorce a alma do crente illustrado está admiravelmente +descripta no magnifico prologo do «Parocho d'aldeia», +onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade +rivaliza com a dos mais bellos monumentos da poesia +religiosa de todos os seculos:</p> + +<p>«Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os +caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança +postas pela religião além da morte, sem que um +momento vacille; sem que um momento a luz se apague +ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha +abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar +a Jesus:—«Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, +porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e +virtuoso; porque, filho da raça soffredora e austera +chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão +bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. +Creio, creio, oh Nazareno! porque até á hora de expirar +na ignominia, até á hora da grande prova, nunca +desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! +porque tu só nos explicaste o mysterio d'esta +associação monstruosa da saude, do ouro, do poderio e +dos crimes a um lado, e a da enfermidade, da pobreza, +da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste +como os destinos humanos se compensavam além<span class="pn">{14}</span> +do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu +soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem +horizonte, e os terrores á completa felicidade sem termo +na vida collocando no logar do destino a Providencia, +e no do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! +porque a intensidade do teu viver é um impossivel +humano; a victoria da tua doutrina severa contra +a philosophia e o paganismo, um milagre; a gloria do teu +nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais +altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste na +verdade um Deus?»</p> + +<p>Como é profundamente arrebatador este bellissimo +trecho, onde o sentimento religioso é expresso com tanto +vigor como nos Pensamentos de Pascal ou nos Sermões +de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se +reunem do modo mais assombroso! No eloquentissimo +prologo do «Parocho d'aldeia» ha mais profundeza, energia +e solemnidade do que nos mais bellos capitulos do +«Genio do christianismo» de Chateaubriand. Este admiravel +prologo é um verdadeiro poema philosophico, onde +se revela um raciocinio vigoroso alliado a uma pujante +imaginação e ardentissima sensibilidade.</p> + +<p>Como Pascal, Herculano caiu no scepticismo philosophico +e, vendo quão profundas eram as dores que +a duvida produzia na sua alma e quão grande era +a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz, +procurando refugio na religião, que era para elle uma +fonte perenne de consolações e onde encontrava tudo +quanto havia mais bello e grandioso para o seu coração +ardentissimo, tudo quanto podia satisfazer a sua<span class="pn">{15}</span> +grande imaginação de poeta. Para Herculano o christianismo +era não só a mais sublime de todas as religiões +mas a causa principal da civilização moderna. Não ensinou +Christo que todos os homens eram eguaes perante +Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi elle quem +primeiro prégou a fraternidade universal e a tolerancia? +Não causaram as suas palavras vibrantes e sonoras, os +seus discursos profundamente liberaes tanto susto aos +tyrannos e hypocritas?</p> + +<p>Para Herculano o christianismo era um facto altamente +grandioso não só pelo lado poetico mas tambem +pelo lado social; para elle tinham uma significação +profundamente analoga estas duas palavras: redempção +e liberdade.</p> + +<p>Em Herculano havia duas almas, que mantinham +entre si um perfeito equilibrio: uma, religiosa e poetica; +outra, philosophica e propensa ao scepticismo. A +primeira fez d'elle um escriptor de primeira ordem; a +segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa +historia tudo quanto nella havia phantastico e milagroso.</p> + +<p>Herculano não era certamente um inimigo da philosophia; +o que apenas teve em vista no prologo do +«Parocho d'aldeia» foi exprimir as agonias intimas produzidas +pelo scepticismo involuntario e mostrar quão doce +era a tranquillidade gerada pela crença viva. O homem +que introduziu em Portugal a philosophia da historia e +que tão eloquentemente advogou nalguns dos seus escriptos +a causa da instrucção popular, deu bastantes +provas de quanto amava a cultura scientifica e philosophica.<span class="pn">{16}</span> +Aquelle prologo é apenas um desabafo de +poeta, uma manifestação sincera e profundamente lancinante +dos tormentos que opprimiam a sua alma, que +gemia na duvida, embora nella estivesse profundamente +gravado o sentimento religioso.</p> + +<p>Os escriptores mais eloquentes têm ordinariamente +sido religiosos. Se a nossa imaginação se transportar á +Grecia, á patria da poesia, da eloquencia e da philosophia, +lá encontraremos a propagar o idealismo o divino +Platão, aquelle grande philosopho a quem Mithridates +levantou uma estatua e Aristoteles um altar e cujo estylo +poetico, enthusiastico, doce e harmonioso ainda +hoje causa a admiração do mundo. Com que energia +não é expresso o sentimento religioso nas sublimes odes +de Pindaro e nas solemnes e magestosas tragedias de +Eschylo!</p> + +<p>Passemos a Roma, e lá acharemos o sentimento religioso +revelado nas obras de Virgilio, de Cicero e de +Tito Livio. O grande Lucrecio, o mais profundo e um +dos mais eloquentes poetas romanos, que no seu brilhante +poema «Da natureza das cousas» romanizou o epicurismo, +negou a existencia dos deuses e a immortalidade +da alma, divinizou a materia, explicou a origem +do mundo sem intervenção divina e aconselhou o suicidio, +foi sem duvida uma excepção.</p> + +<p>Mas em nenhuma litteratura da antiguidade se exprimiu +o sentimento religioso com tanta simplicidade, +força, doçura, nobreza e sublimidade como na litteratura +hebraica. Ainda nenhum escriptor antigo ou moderno +conseguiu ser mais sublime do que Isaias, nem mais<span class="pn">{17}</span> +sentimental e terno do que David, nem mais magestoso +do que Moysés, nem mais melancolico do que Jeremias.</p> + +<p>Na edade média apparece-nos o sublime Dante, o +cantor do catholicismo, produzindo essa obra prima intitulada +<em>A Divina Comedia</em>, que levará o nome do seu +auctor á mais remota posteridade e que é uma das +mais bellas producções do espirito humano.</p> + +<p>Nos tempos modernos foi o sentimento religioso que +inspirou a Milton a sua maravilhosa e sublime epopeia +<em>O Paraizo Perdido</em>, a Bossuet as suas eloquentes <em>Orações +funebres</em> e a Pascal os seus profundos e magestosos +<em>Pensamentos</em>.</p> + +<p>No seculo dezoito, nesse seculo philosophico e revolucionario +em que fizeram grandes progressos o scepticismo +e a incredulidade e se propagaram com immensa +actividade as doutrinas que deviam produzir +as grandes tempestades politicas e sociaes, nesse grande +seculo, ao qual devemos comtudo immensos beneficios, +João Jacques Rousseau, um dos mais eloquentes +prosadores franceses, defendeu com muito enthusiasmo +a existencia de Deus e a immortalidade da alma e exaltou +a moral evangelica, distinguindo-se pelo seu deismo +ardente, que elle manifestou num estylo tão suave +e harmonioso que faz lembrar o de Platão.</p> + +<p>No seculo dezanove, o seculo dos estudos historicos +e da philosophia positiva, vemos o sentimento religioso +expresso com uma vivacidade admiravel nas obras de +Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Manzoni, Walter +Scott, Lamennais, Renan, Thierry, Guizot, Michelet,<span class="pn">{18}</span> +Flammarion, Tolstoi e muitos outros. Este sentimento +sublime do coração humano existe não só nos que professam +o christianismo ou qualquer outra religião positiva +mas tambem em todos os sectarios da religião natural.</p> + +<p>Como a religião tem raizes profundas no coração do +homem, hão de existir sempre, por mais alto que se +eleve a sua intelligencia, almas apaixonadas que se +comprazam em estar abrasadas no fogo sagrado do +sentimento religioso. Eu não creio que este venha a +extinguir-se no seio da humanidade mas estou profundamente +convicto de que com o progresso da civilização +a religião individual se ha de tornar cada vez mais +pura, isto é, se ha de ir libertando das superstições +com que a têm deturpado a imaginação e a ignorancia +dos povos e os interesses sacerdotaes. Embora se derribassem +os altares e se destruissem os templos, a religiosidade +havia de existir perpetuamente no coração do +homem porque bastaria a contemplação da natureza +magestosa e bella que nos circumda para despertar em +nós a idéa mais sublime a que se elevou a intelligencia +humana, a idéa de Deus.</p> + +<p>Se Herculano, além de ser um grande poeta, foi +um dos prosadores mais poeticos e eloquentes que +têm existido em todos os seculos, que admira que o +seu espirito fosse eminentemente religioso? Todas as +crenças são dignas do maximo respeito comtanto que +haja sinceridade naquelles que as professam. O homem +que não respeita as opiniões alheias é inimigo da tolerancia +e da liberdade, por mais avançadas que pareçam<span class="pn">{19}</span> +as suas idéas. O fanatismo philosophico é para mim +tão reprehensivel como o fanatismo religioso. Considero +pois injusto, absurdo e ridiculo o deprimir Herculano +por causa da sua paixão ardente pelo christianismo, da +sua crença em Deus e na immortalidade da alma, como +o têm feito alguns d'esses criticos superficiaes ou mal intencionados +que costumam apparecer em todas as epochas +para depreciar as obras mais excellentes que tem +produzido o genio do homem.</p> + +<p>É indubitavel que o christianismo exerceu uma influencia +benefica no genio litterario de Herculano. Foi +nas paginas sublimes da Biblia que Herculano bebeu +uma parte das suas inspirações; foi no estylo biblico +que elle escreveu o terrivel e eloquente opusculo <em>A Voz +do propheta</em> e os sublimes e dolorosos cantos do presbytero +de Carteia, que fazem parte do seu mais bello e +magestoso romance, a que deu o titulo de <em>Eurico</em>. Mas, +no emprego do estylo biblico, Herculano, longe de ser +um simples imitador, revelou sempre a poderosa originalidade +que caracteriza todos os seus escriptos.</p> + +<p>O sr. Theophilo Braga, na sua <em>Historia do romantismo</em>, +diz que Herculano não se elevou acima da metaphysica +christã; mas o distincto professor esqueceu-se +de accrescentar que no tempo de Herculano a maior +parte dos grandes espiritos que tanto illustraram o seu +seculo nos paizes mais adiantados da Europa e da America, +se achavam no mesmo estado psychologico e que +a philosophia positiva ainda não conseguiu derribar o +espiritualismo.</p> + +<p>Em todas as escolas philosophicas tem havido pensadores<span class="pn">{20}</span> +profundos. O espiritualismo christão não impediu +Herculano de ser um dos mais eminentes historiadores +do seu seculo, assim como não tirou mais modernamente +ao immortal Pasteur a glória de ser um sabio +de primeira ordem, um dos maiores bemfeitores da +humanidade. Não obstante as grandes modificações por +que passou o altissimo espirito de Victor Hugo, eu considero +o seu christianismo, embora philosophico, incomparavelmente +mais puro do que o de Torquemada e S. +Domingos de Gusmão, cujo procedimento fanatico estava +em completo antagonismo com os principios sublimes, +com as maximas sacrosantas proclamadas no Evangelho. +Victor Hugo, apesar do seu espiritualismo ardente +e do seu enthusiasmo pela moral evangelica, foi um dos +escriptores mais eloquentes e philosophicos que a França +tem produzido. Se Guizot e Thierry na França, Cantu +na Italia, Maccaulay na Inglaterra, Herder e Niebuhr +na Allemanha, Prescott nos Estados-Unidos da America +puderam ser ao mesmo tempo historiadores de primeira +ordem e espiritualistas christãos, porque não poderia +succeder o mesmo em Portugal a Alexandre Herculano? +Condemnar este grande homem pelo seu espiritualismo +ardente e pelas suas crenças religiosas seria o mesmo +que condemnar a sua epocha e a escola romantica de +que elle foi um dos mais distinctos ornamentos, seria +faltar á justiça e imparcialidade que deve ter o verdadeiro +critico.</p> + +<p>Creio que, em quanto a humanidade existir, ha de +haver sempre discordancia em materia philosophica. A +historia da philosophia, diz Herculano, é a historia de<span class="pn">{21}</span> +um edificio começado ha milhares d'annos em que um +seculo revolve os fundamentos que outro lançou, para +lançar os seus, os quaes egualmente são revolvidos pelo +seculo seguinte, cujos trabalhos condemnará o que vier +após elle. A duvida, a que o espirito de Herculano era +naturalmente propenso, como se revela em muitos dos +seus escriptos, impedia-o de se deixar dominar completamente +pelas crenças religiosas, que nunca exerceram +a minima influencia nas suas investigações historicas. +Esta minha opinião é completamente opposta á que o +sr. Theophilo Braga manifesta na Historia do romantismo +quando nega a Herculano a possibilidade de comprehender +a vida politica do povo portuguez pelo facto de ser +um christão fervoroso e poetico. Mas o distincto escriptor +contradiz-se na mesma página quando, para deprimir +Herculano, faz os maiores elogios a Agostinho +Thierry, que não era menos christão do que o principe +dos historiadores portugueses.</p> + +<p>Nenhum escriptor do romanticismo foi apreciado tão +injustamente pelos seus adversarios como Alexandre +Herculano, o que para mim é mais uma prova do seu +immenso valor. Herculano, que foi accusado de impio +pelos partidarios da reacção ultramontana e do jesuitismo, +tem sido criticado injustamente por alguns escriptores +que, declarando-se sectarios do positivismo, estão +muito longe de seguir as pisadas de Taine e de Littré, +dois positivistas eminentes que, pelo seu caracter austero, +espirito philosophico e estylo elegante, primoroso, +correcto e limpido, se tornaram dignos da veneração +não só da França mas de todo o mundo. Venero todos<span class="pn">{22}</span> +os grandes homens, seja qual for a sua escola, porque +todos têm contribuido poderosamente para o progresso; +o que detesto é a injustiça, a maledicencia e o fanatismo. +O critico, para ser eminente, deve pôr a sua consciencia +acima de todos os preconceitos, de todo o espirito +do partido.</p> + +<p>O amor da verdade é a principal qualidade do historiador. +Foi esta qualidade, associada a muitas outras, +que fez com que Herculano fosse um dos maiores +historiadores do mundo. Eu não quero dizer que elle +não se enganasse, porque isso seria contrario á natureza +humana; não ha ninguem infallivel, a não ser +o padre santo para os partidarios do neo-catholicismo +ou do catholicismo influenciado pela Companhia de Jesus. +O que é certo é que Herculano examinava com a +mais profunda attenção tudo quanto escrevia, empregava +todos os meios de não falsear a historia, tudo sacrificava +ao amor da verdade, fazia fallar os factos, não +enchia a historia de generalizações falsas, intempestivas +e absurdas; tudo quanto dizia firmava-se em documentos +que elle criticava com a maior severidade e de +cuja authenticidade estava profundamente convicto; não +fazia syntheses que não se estribassem na mais profunda +e rigorosa analyse. O mais abalisado analysta historico +que Portugal tem produzido teve sempre receio +de cair nessa laboração subjectiva, falsa e imaginosa, +que caracteriza muitos espiritos do seculo dezanove.</p> + +<p>Quantas obras historicas se não tem escripto, que, +em vez da verdadeira philosophia da historia, nos apresentam +a philosophia dos seus auctores! Os trabalhos<span class="pn">{23}</span> +historicos de Herculano foram incomparavelmente mais +syntheticos do que tudo quanto no seu genero se havia +escripto anteriormente em Portugal; mas, se a generalização +philosophica não existe nelles mais copiosamente +é porque ainda se não tinham realizado com a amplitude +indispensavel as investigações eruditas sem as quaes +toda a philosophia da historia seria apenas um edificio +sem base; é porque ainda escasseavam os materiaes +sufficientes para se poderem fazer em larga escala syntheses +profundas, exactas e rigorosas.</p> + +<p>Quantas syntheses formuladas no seculo dezanove +não serão materia de riso para o seculo vigesimo! Os +escriptores gongoricos e nebulosos, que têm falsificado +a historia com syntheses falsas e temerarias, parecem-se +com aquelle fidalgo da Mancha, chamado D. Quichote, +que em cada moinho de vento via um gigante, em cada +rebanho um grande exercito; no seu furor de generalizar, +os modernos gongoristas em cada facto vêem +uma lei.</p> + +<p>Diz o snr. Theophilo Braga que Herculano não possuia +disciplina philosophica; eu estou profundamente +convicto do contrario. Foi a disciplina philosophica que +deu a Herculano o mais excellente methodo no modo de +escrever historia; foi ella que fez com que o nosso +grande historiador procedesse sensatamente, começando +pelo exame rigoroso dos documentos, passando á anályse +exacta e minuciosa dos factos e por fim á generalização +philosophica, de que elle usou com a devida sobriedade. +Os historiadores que, em vez de ter o maximo rigor na +investigação dos acontecimentos, enchem a historia de<span class="pn">{24}</span> +syntheses phantasticas e plagiadas, é que revelam falta +de disciplina philosophica.</p> + +<p>O methodo seguido por Herculano está em perfeita +harmonia com as doutrinas de um dos maiores luminares +da philosophia, o grande Bacon, que sustentava que +a generalização se devia fazer vagarosamente, considerando +as syntheses feitas á pressa como um grande +obstaculo ao progresso das sciencias e uma causa poderosa +da multiplicação das polemicas.</p> + +<p>Só um genio historico verdadeiramente prodigioso +como Herculano, poderia realizar em Portugal o que lá +fóra se fez com muito mais elementos. O eminente historiador +estava num pais atrazadissimo em estudos historicos +e philosophicos, num pais em que uma parte do +clero ora roubava documentos ora se recusava energicamente +a entregá-los, num pais em que os monumentos +historicos dispersos pelas collegiadas e mosteiros desappareceriam +completamente se Herculano os não tivesse +colligido. Póde alguem, diz Oliveira Martins, avaliar o +trabalho do obreiro sem ferramenta nem trabalho são?</p> + +<p>O amor da verdade e da justiça predominava de tal +modo em Herculano que seria capaz de sacrificar-lhe +todos os outros affectos do seu coração; elle punha a +verdade acima de tudo. Herculano nunca teve em mira +sacrificar a sua consciencia ao serviço de qualquer seita +ou partido; no seu rigoroso espirito a paixão pela +verdade estava acima da religião e do patriotismo. A +grande imparcialidade com que Herculano apreciava +não só os papas mas tambem aquelles homens a quem +a igreja canonizou, mostra-nos evidentemente que o espirito<span class="pn">{25}</span> +catholico não suffocou nelle a paixão mais nobre +do verdadeiro historiador, o amor da verdade. O seguinte +trecho do segundo volume da <em>Historia de Portugal</em> +é uma prova da veracidade da minha asserção:</p> + +<p>«Ao passo que um homem de genio, Innocencio +<small>III</small>, se assentava no solio pontificio para manter a acção +da jerarchia sacerdotal, surgiam da obscuridade outros +dous homens que haviam de hasteiar de novo a bandeira +da abnegação e fazer abraçar pelos seus sectarios +a rigorosa pobreza repellida das congregações monasticas, +instituindo em frente d'ellas as congregações mendicantes. +Ninguem ignora os nomes d'estes dous individuos: +Francisco de Assis e Domingos de Gusmão: +aquelle, humilde mas abastado burguês italiano que, +depois de convertido ao mysticismo, seguia com tanto +ardor a vereda da mortificação como antes seguira a +espaçosa estrada dos deleites; este, nobre e altivo hespanhol, +já revestido de dignidades ecclesiasticas e que +se arrojara á grande empreza da reforma sem perder +os caracteres da sua raça. Austero e inflexivel, homem +cujos avós pelejaram sempre contra os sarracenos com +o ferro numa das mãos e o facho do incendio na outra, +dir-se-hia que mal sabe combater de diverso modo os +que não crêem como elle. A sua exaltação religiosa é +intolerante: a luz suave do Evangelho não póde vê-la +senão reflexa na espada polida, senão retincta em sangue. +O gemido do hereje no patibulo é para elle um +hymno ao manso cordeiro do Calvario: para elle o algoz +exerce um sacerdocio.»</p> + +<p>Neste eloquentissimo parallelo, um dos mais concisos,<span class="pn">{26}</span> +energicos e claros de todas as litteraturas, mostra-nos +Herculano a profunda differença que houve entre +os fundadores das duas ordens dos franciscanos e dominicanos. +O fanatismo do terrivel S. Domingos de Gusmão +foi por elle estigmatizado num estylo vigorosamente +poetico; o facto da igreja ter posto este homem +feroz, cruel e sanguinario no numero dos santos não +impediu Herculano de pintá-lo com toda a fidelidade.</p> + +<p>É de admirar que, referindo-se o eminente historiador +a estes dois vultos da igreja, não fizesse a mais +leve menção do santo mais popular para os portugueses, +de Santo Antonio, que não só pertenceu á ordem +franciscana mas tambem viveu no reinado de D. Affonso +<small>II</small> e cuja gloria o clero português quasi que olvidou +durante seculos deixando-o envolto na lenda milagreira +e chegando apenas a occupar-se dos seus escriptos e a +enaltecer a sua influencia social quando pretendeu fazer +manifestações reaccionarias e jesuiticas. Estou profundamente +convicto de que, se o grave historiador, +apesar de ser eminentemente christão e patriota, não +se occupou do referido santo, é porque, relativamente +a esta gloria nacional, não encontrou nos cartorios que +tão activamente revolveu documentos que satisfizessem +o seu espirito extremamente severo e rigoroso. Aquelle +grande philosopho, a quem o sr. Theophilo Braga chama +catholico ferrenho, punha sempre o amor da verdade +acima do proprio catholicismo. Até no modo de considerar +a religião christã se revela a poderosa autonomia +da sua vasta e profunda intelligencia. Com que energia +não combateu Herculano as ambições clericaes, a politica<span class="pn">{27}</span> +da igreja! O catholicismo, que elle apreciava não +só poeticamente mas tambem debaixo do aspecto prático, +não o impediu de tirar conclusões, como pretende o auctor +da <em>Historia do romantismo</em>. O espirito de Herculano +era ainda mais positivo do que o de alguns positivistas +que se deixam seduzir pelas miragens da sua imaginação +e muitas vezes da imaginação alheia.</p> + +<p>Nas Questões de litteratura e arte diz o sr. Theophilo +Braga que as primeiras impressões do espirito de +Herculano o tornaram um padre por dentro. Porque motivo +o distincto escriptor não deu este epitheto a tantos +outros portugueses illustres que não só foram catholicos +mas nunca luctaram com os padres, nunca ousaram +combater energicamente a reacção ultramontana e o +jesuitismo, nunca se preoccuparam com os progressos +que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que +um homem rude, sem instrucção, tendo apenas algumas +idéas superficiaes ministradas pelo jornalismo politico, +chegue a confundir a religião com o jesuitismo, isso +não me admira; o que me causa verdadeiro assombro, +o que me impressiona muito desagradavelmente é que +o sr. Theophilo Braga, cujo talento é assás notavel, +procure deprimir Herculano dando-lhe o epitheto de padre. +O grande lyrico João de Deus, vivendo numa epocha +menos religiosa, foi um catholico fervoroso que +nunca desagradou ao clero como Alexandre Herculano; +mas quem se lembrou de dar ao espontaneo, singelo e +mavioso poeta do <em>Campo de flores</em> o epitheto de padre? +Almeida Garrett, o glorioso reformador do theatro nacional, +escreveu um elegantissimo tratado de educação,<span class="pn">{28}</span> +onde não se revela menos catholico do que Herculano; +todavia qual foi o critico que procurou deprimi-lo chamando-lhe +padre? Não me consta que alguem désse este +epitheto nem a Rebello da Silva por ter sido o auctor +dos <em>Fastos da Igreja</em> nem a Camillo Castello Branco por +haver escripto uma obra religiosissima, a <em>Divindade de +Jesus</em>. A seguirmos a critica do sr. Theophilo Braga, não +só poderiamos affirmar que o mosteiro dos Jeronymos +ficaria em breve repleto de padres se quizessemos continuar +a trasladar para aquelle sumptuoso monumento +os restos mortaes dos nossos grandes homens, mas tambem +dariamos o referido epitheto á maior parte desses +genios prodigiosos cujos descobrimentos scientificos contribuiram +tão poderosamente para o progresso da humanidade +como Kepler, Newton, Leibnitz, Pascal, Descartes, +Claude Bernard, Pasteur e tantos outros, cujo espirito +eminentemente religioso é bem notorio.</p> + +<p>Herculano era da maxima tolerancia para com aquelles +cujas opiniões divergiam das suas; não admittia +restricções para a livre manifestação do pensamento. +Foi um catholico liberal como o celebre historiador e +theologo allemão Doellinger, que fazia d'elle o mais alto +conceito e o admirava enthusiasticamente, consultantando-o +sobre muitos pontos historicos e chegando a +occupar-se, nos Annaes historicos de Munich, da vida e +obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores +elogios. Na questão religiosa, Doellinger, o grande +historiador da igreja, um dos mais profundos theologos +da Allemanha, desempenhou um papel semelhante ao +de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos<span class="pn">{29}</span> +velhos catholicos allemães, que ousaram arrostar as +furias de Roma; como escriptor e lente de theologia, +exerceu um grande prestigio no seu pais, combatendo +energicamente as novas modificações feitas no christianismo +e procurando assim desviar a mocidade catholica +allemã da influencia nefasta dos jesuitas; por isso +era mal visto em Roma, era detestado pelo partido jesuitico, +pelos sectarios do neo-catholicismo.</p> + +<p>Herculano foi o adversario mais temivel que os jesuitas +tiveram em Portugal; era dentro do christianismo +que elle os combatia com o maximo vigor; os seus vastos +e profundos conhecimentos de theologia e de historia +ecclesiastica foram as armas mais poderosas por elle +manejadas para demonstrar os erros dos ultramontanos +e a grande differença que existia entre as doutrinas jesuiticas +e as que haviam professado os christãos dos +primeiros seculos; era expondo lucidamente as opiniões +dos Padres da Igreja e dos antigos papas que elle dava +os golpes mais profundos na Companhia de Jesus e no +partido ultramontano. Na verdade os jesuitas têm-se +afastado tanto da igreja primitiva que não é mister +sair do christianismo para combatê-los; é com o Evangelho +na mão que mais solidamente se podem refutar +os seus erros gravissimos. O Manifesto da Associação +popular promotora da educação do sexo feminino, redigido +por Herculano, o qual se acha inserto no segundo +volume dos <em>Opusculos</em>, é a obra mais eloquente e profunda +que em Portugal se tem escripto contra a educação +jesuitica; é um livro que deve ser lido por todos +aquelles que ainda se preoccupam com o futuro da<span class="pn">{30}</span> +nossa patria e prezam a moralidade da familia portuguesa. +D'este brilhante opusculo vou reproduzir o seguinte +trecho, que é sem duvida um dos mais eloquentes +que se têm escripto em todas as linguas:</p> + +<p>«O procedimento dos poderes publicos durante dez +annos e as suas tristes hesitações na actual conjunctura +legitimam, santificam a nossa resolução; porque se trata +do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento +moral da familia. Uma lei d'esta terra, uma lei +de sete seculos, uma lei cuja duração representa um +profundo sentimento de honra, diz que se póde ser homicida +sem crime quando a prostituição do adulterio +vai ennodoar o seio da familia. É que a familia é a molecula +social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se +num monte de podridão. Vamos muito menos longe +que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminarios +da reacção não se hostiliza só a liberdade: ensina-se +tambem a revelar á donzella e á mãe de familia +delicias mais monstruosos que o adulterio. Defendemos +nossas mulheres, nossas irmãs, nossas filhas: defendemos +as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de +vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, +o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, +não tergiversamos; a nossa linguagem é simples +e explicita como as nossas intenções.»</p> + +<p>Herculano foi inimigo acerrimo da hypocrisia e do +fanatismo; o seu culto era incomparavelmente mais interno +do que externo; pela contemplação da natureza é +que elle principalmente se elevava á idéa de Deus.</p> + +<p>Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano mandou<span class="pn">{31}</span> +construir uma capella em Valle de Lobos. Isso não admira +porque, sendo Herculano toda a vida um grande +poeta, como o revelam as suas obras tanto em verso +como em prosa, devia comprazer-se em ter deante dos +olhos objectos que lhe recordassem os bellos e saudosos +tempos da sua infancia. Na casa onde Herculano nasceu +e passou os seus primeiros annos havia uma ermida +onde um frade arrabido costumava dizer missa +os dias-santos. No <em>Monge de Cister</em> pinta-nos elle com +as mais vivas côres a profunda saudade que lhe causava +a lembrança dos dias-santos da sua infancia, +do altar onde no sabbado á noite se punham jarras de +flores, do frade que lhe contava lindas historias ao almoço. +Os verdadeiros poetas, os grandes sentimentalistas +amam sempre o passado. Os homens demasiadamente +positivos não podem comprehender o sentimentalismo +vehemente das grandes almas. Se a cruz era para Herculano +o symbolo da liberdade, da fraternidade e do +progresso, não é de admirar que elle a amasse entusiasticamente, +como o revelou na sua eloquente e philosophica +poesia <em>A cruz mutilada</em>, escripta na sua mocidade. +O ter mandado Herculano construir uma capella +em Valle de Lobos não é pois uma prova de que o seu +espirito retrocedesse com a edade. Alem d'isso o grande +escriptor não deixou de ser christão em epocha alguma +da sua vida. Rousseau, a quem os padres chamam +impio, nunca zombava da religião como Voltaire. É porque +o auctor do <em>Emilio</em> era um sentimentalista ardente +como Herculano. Littré, apesar de positivista, não queria +perturbar sua mulher quando ella estava deante do oratorio<span class="pn">{32}</span> +fazendo oração. Foi a instancias de sua esposa que +Herculano mandou construir a capella de que já fiz +menção. Ainda que elle não fosse catholico, haveria +porventura neste procedimento alguma cousa digna de +censura? O verdadeiro philosopho, o amigo da tolerancia +e da liberdade conserva sempre no seu coração o +mais profundo respeito pelas crenças alheias. A liberdade +de consciencia é um dos principios mais sacrosantos, +um dos direitos mais sagrados, não só na sociedade +mas até no lar domestico, no sanctuario da familia. O +chefe de familia não é um despota nem a mulher uma +escrava. A religiosidade é uma tendencia natural da +mulher, a crença é uma das condições da sua vida moral; +se quizerem extinguir-lhe no coração o sentimento +religioso, lançar-se-ha no caminho do jesuitismo, o que +certamente será um grande mal para a familia e para +a sociedade. A religião é um instrumento poderoso nas +mãos do jesuita; quem conseguir arrancar-lhe esta arma +prestará incontestavelmente um grande serviço ás +gerações futuras. É por meio da propaganda verdadeiramente +religiosa que se dão os golpes mais profundos +na Companhia de Jesus. A religião nasce do coração e +a philosophia da intelligencia. Se a mulher é mais dominada +pelo sentimento do que pela idéa, como poderá +ella comprehender systemas philosophicos que estejam +em antagonismo com o seu estado psychologico, com as +grandiosas aspirações do seu nobre coração? Embora +todas as opiniões sinceras sejam para mim respeitaveis, +eu entendo que, em vez de se aggredir o christianismo,<span class="pn">{33}</span> +falsificadores, que são os jesuitas e todos os padres cujas +doutrinas sejam identicas ás dos filhos de Loyola.</p> + +<p>Herculano, com a sua crença religiosa, ficou profundamente +impressionado pelos estragos que a Companhia +de Jesus fazia no christianismo; por isso mostra-nos, +em muitas das suas paginas immortaes, quão perigosa +é para o futuro da nossa patria essa sociedade fundada +no seculo dezaseis por Santo Ignacio de Loyola e cujas +intrigas obrigaram a sair de Portugal os lentes mais +distinctos da Universidade de Coimbra. Na prosa mais +poetica e viril que nos apresenta a nossa litteratura, expoz +e criticou os factos mais interessantes da historia +do ultramontanismo; com a sua vista de aguia previu +os progressos que o jesuitismo havia de fazer em nossos +dias.</p> + +<p>O sr. Theophilo Braga censura a Herculano o seu +ardor em combater o jesuitismo e os novos dogmas introduzidos +na religião catholica, dizendo que elle dispendeu +as suas forças contra os moinhos de vento do +marianismo, do infallibilismo e do syllabismo e que o +jesuitismo se tornou para elle uma preoccupapão constante; +mas, como o auctor da <em>Historia do romantismo</em> +se tem occupado dos mesmos assumptos, é evidente +que escreve contra si proprio, o que me causa verdadeiro +pasmo. Alem d'isto a censura feita a Herculano +recae sobre a propria imprensa republicana, que muito +frequentemente narra e estigmatiza escandalos jesuiticos.</p> + +<p>É o poder da igreja tão pequeno que se não devam +combater com a maxima energia as suas doutrinas contrarias<span class="pn">{34}</span> +ao bem social? Tem porventura o jesuitismo tão +pouca força que se deva considerar um elemento desprezivel? +Não tem a Companhia de Jesus progredido +assombrosamente no nosso pais? Não estão os collegios +jesuiticos repletos de alumnos? Leibnitz, um dos genios +mais vastos e profundos não só da Allemanha mas de +todo o mundo, disse muito sensatamente: «Dae-me a +educação, que eu transformarei a Europa em menos de +um seculo.» Alexandre Herculano, com o seu profundo +criterio, conhecia a grande força da educação; por isso +receava que o jesuitismo viesse causar a decadencia +intellectual e moral da sua patria.</p> + +<p>A moral perversa dos jesuitas foi no seculo dezasete +posta a descoberto não por um impio, não por um +atheu, mas por um dos mais eloquentes e profundos +apologistas do christianismo, por um genio prodigioso +que, depois de ter feito os mais assombrosos descobrimentos +scientificos, depois de ter penetrado varios segredos +da natureza, depois de ter resolvido os mais +difficeis problemas da mathematica, levantou, em favor +do christianismo, esse grandioso monumento philosophico +intitulado <em>Pensamentos</em>, que, apesar de ter ficado +incompleto, revela a profundeza do genio que o traçou; +este grande homem, este escriptor religiosissimo, este +moralista austero, que se chamava Blaise Pascal, foi +quem mais poderosamente contribuiu para a queda dos +jesuitas no seculo dezoito. As suas <em>Provinciaes</em>, escriptas +num estylo comico e vigoroso, espalharam-se por +toda a Europa e as maximas corruptas dos jesuitas foram +ridicularizadas não só nas academias mas até nos<span class="pn">{35}</span> +palacios dos reis. Como poderia Herculano, o enthusiasta +ardente da moral pura e severa do Evangelho, deixar +de combater energicamente as doutrinas anti-christãs +da seita jesuitica?</p> + +<p>Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano, depois +de se mostrar partidario do casamento civil, veiu a casar-se +catholicamente; o distincto professor acha este +procedimento contradictorio com as opiniões de Herculano. +Quando, ao ler a <em>Historia do romantismo</em>, encontrei +esta asserção tão infundada, fiquei realmente +estupefacto. O sr. Theophilo Braga inverte completamente +as doutrinas de Herculano, expostas com tanta +lucidez nos seus <em>Estudos sobre o casamento civil</em>, e +colloca-se a uma distancia que lhe torna impossivel +apreciá-lo com exactidão.</p> + +<p>Não ha escripto algum em que Herculano tivesse +combatido o casamento catholico; pelo contrario, elle +admittia duas especies de casamento: o catholico e o +civil. O que repugnava ao seu espirito profundamente +liberal e tolerante é que os individuos que não acreditassem +no catholicismo se vissem obrigados a receber +o sacramento do matrimonio, a praticar um acto contrario +ao seu modo de pensar e que elle considerava +um verdadeiro sacrilegio, uma offensa á religião. Se +Herculano era um velho catholico, se elle estava convicto +de que o sacramento do matrimonio remontava +aos primeiros seculos do christianismo, como procedeu +o grande historiador contra as suas opiniões casando-se +catholicamente? Herculano nunca defendeu leis que +prohibissem a qualquer individuo o seguir as suas crenças,<span class="pn">{36}</span> +tinha o mais profundo respeito pela liberdade de +consciencia, era inimigo de todas as violencias feitas +ao espirito humano, queria liberdade para todos, não +era intolerante como os hypocritas da liberdade, que +não respeitam a consciencia alheia. Herculano sustentou +que devia existir um registo civil especial para os casamentos +dos não catholicos, não admittindo que os +nubentes fossem interrogados ácerca das suas crenças +religiosas, o que, segundo a sua opinião, seria um attentado +contra a liberdade de consciencia, um processo +verdadeiramente inquisitorial. Quanto ao casamento catholico, +considerava-o debaixo de dois aspectos: como +sacramento e como contracto. Estando num país, cuja +maioria era constituida por catholicos, admittia que o +registo ecclesiastico servisse de registo civil. Era assim +que o grande historiador procurava conciliar o principio +sacrosanto da liberdade de consciencia com o respeito á +religião do estado. Sejam quaes forem as opiniões ácerca +das doutrinas sustentadas por Herculano relativamente +ao casamento civil, é incontestavel que não ha +fundamento algum para se affirmar que o seu casamento +catholico esteve em contradicção com as suas idéas.</p> + +<p>O seguinte trecho dos <em>Estudos sobre o casamento +civil</em> é uma prova evidente de quanto é inexacta a +opinião do sr. Theophilo Braga:</p> + +<p>«O catholicismo puro e desinteressado não tem culpa +d'esta horrivel e immensa traição que nas altas regiões +da jerarchia sacerdotal se está perpetrando contra elle. +Não tem culpa de que o vendam por trinta dinheiros ao +anjo mau da reacção politica. O catholicismo não quer<span class="pn">{37}</span> +que forcem os que não crêem nelle a receber um sacramento, +porque não pede um acto que lhe repugna, +que reputa uma profanação; não pede que os poderes +publicos constranjam os membros do proprio gremio a +não peccarem, porque a inquisição é para elle a maior +affronta que lhe têm feito os homens. O catholicismo +puro não confunde o sacramento, que é cousa espiritual, +com o contracto, que é materia juridica, porque +desde os tempos apostolicos, conforme temos visto, jámais +os confundiram as tradições legitimas da igreja. +Considerada a questão á exclusiva luz do direito, o sacerdote +que auctorisa o contracto e o abençoa é, no +primeiro caso, official civil, e no segundo, ministro da +religião. É uma cousa simples, clara, inoffensiva. Em +nome da liberdade, deixemo-la ficar na lei.»</p> + +<p>O sr. Theophilo Braga tambem cae noutra inexactidão +dizendo que Herculano, tendo-se manifestado contra +o direito de propriedade litteraria, se contradisse vendendo +o manuscripto do <em>Diccionario</em> que o conselheiro +Ramalho lhe deixára. Mas onde é que Herculano confundiu +a innegavel propriedade de um livro, de um +manuscripto ou de qualquer objecto tangivel com o que +se chama propriedade litteraria?</p> + +<p>A questão da propriedade litteraria é uma d'essas +questões altamente transcendentes em que ha grande +divergencia de opiniões; Herculano tratou-a com muita +profundeza e originalidade, revelando o seu espirito +eminentemente philosophico, a sua vigorosa dialectica. +Ha certamente mais de uma opinião ácerca das suas +doutrinas, mas o que nenhum critico imparcial poderá<span class="pn">{38}</span> +affirmar é que entre ellas e a venda do <em>Diccionario</em> de +Ramalho á Academia existiu a minima contradicção.</p> + +<p>Herculano foi de uma coherencia admiravel nas +opiniões religiosas, philosophicas e politicas que manifestou +em toda a sua vida. Só quem interpretrar mal as +suas palavras poderá affirmar o contrario. O seu espirito, +que amava ardentemente a luz, nunca deixou de progredir.</p> + +<p>Diz o sr. Theophilo Braga que foi o ataque do clero +por causa da suppressão do milagre de Ourique que fez +com que Herculano de catholico ferrenho se tornasse +um christão semi-deista; isto está de accordo com o +que tenho ouvido dizer a alguns padres, relativamente +aos escriptos em que Herculano condemna a proclamação +dos novos dogmas da infallibilidade do papa e da +immaculada Conceição de Maria. Tudo quanto dizem os +adversarios de Herculano a este respeito é completamente +falso: nem são capazes de apresentar prova alguma +em favor de tal asserção.</p> + +<p>O caracter de Herculano foi muito superior ao do +padre Lamennais, que, tendo defendido com muita eloquencia, +no seu «Ensaio» sobre a indifferença em materia +religiosa e noutros escriptos, as doutrinas ultramontanas +mais retrogadas, abraçou quasi de repente o racionalismo +depois que lhe foram condemnadas algumas +obras. Este padre, tão notavel pelo seu talento litterario +e philosophico, não recebeu na infancia uma educação +religiosa como Herculano; só aos vinte e dois +annos é que fez a primeira communhão: póde haver +por consequencia muitas duvidas ácerca da sua sinceridade.<span class="pn">{39}</span> +Mas o espirito de Herculano não passou por transformações +tão bruscas; em nenhuma epocha da sua +vida se mostrou partidario do ultramontanismo; nunca +defendeu a infallibilidade do papa; até nas suas poesias +simultaneamente religiosas, philosophicas e liberaes, +onde estão profundamente gravados os sentimentos +e idéas da sua ardente mocidade, transluzem referencias +aos padres hypocritas e fanaticos.</p> + +<p>Na <em>Harpa do crente</em>, nessa magnifica colleccão de +poesias em que se revela um grande poeta, um profundo +metaphysico, um christão ardente e um patriota +liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem +parte do seu bello e magestoso hymno intitulado <em>Deus</em> +e nos quaes certamente faz allusão áquelles padres que, +pondo em pratica a mais ignobil hypocrisia e tendo em +mira exercer sobre a plebe fanatica o seu dominio nefasto, +procuravam aterrorizá-la com a pintura horrivel +dos tormentos infernaes:</p> + +<blockquote> +<p>«Embora vis hypocritas te pintem<br> + Qual barbaro tyranno<br> +Mentem, por dominar com ferreo sceptro<br> + O vulgo cego e insano.<br> +Quem os crê é um impio! Recear-te<br> + É maldizer-te, oh Deus;<br> +É o throno dos despotas da terra<br> + Ir collocar nos céus.<br> +Eu, por mim, passarei entre os abrolhos<br> + Dos males da existencia<br> +Tranquillo, e sem temor, á sombra posto<br> + Da tua Providencia.»<span class="pn">{40}</span></p> +</blockquote> + +<p>O Deus de Herculano não é terrivel como o d'aquelles +inquisidores que fizeram derramar tantas lagrimas, +que condemnaram á morte mais horrivel tantos milhares +de innocentes e procuravam abafar com o sangue +de tantos martyres a idéa que procurava expandir-se. +O Deus de Herculano não é o Deus que os jesuitas pintam +como um tyranno para satisfazerem a sua infrene +e desordenada ambição, para dominarem a sociedade, +para converterem o mundo num montão de cadaveres, +sobre cujas ruinas se assentariam com um riso hypocrita, +satanico e cruel. O Deus de Herculano é o Deus +de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus +que derrama os seus copiosos beneficios sobre os justos +e os peccadores, é o Deus de Fénelon e de Lamartine, +é o Deus das almas generosas e puras, como elle proprio +o confessa no seu eloquente e philosophico poemeto +<em>A semana santa</em>, escripto quando apenas tinha dezanove +annos.</p> + +<p>Ninguem em Portugal ainda defendeu com tanta +eloquencia o espiritualismo christão como Herculano, +mas é principalmente debaixo do aspecto pratico que +elle o considera; pode-se até affirmar que Herculano foi +um dos escriptores mais positivos que Portugal tem +produzido em todos os seculos: é pelo lado pratico, é +baseando-se em factos que elle encara especialmente +todas as questões religiosas, philosophicas e politicas; +por isso a convicção que produz no animo dos leitores +é profundissima; sem se engolphar nas mais transcendentes +abstracções metaphysicas, que muitas vezes são +inuteis, nem cair nas syntheses abstrusas e nebulosas,<span class="pn">{41}</span> +que falsificam o criterio, analysa os factos com tal clareza +e severidade, que neste ponto ainda ninguem o excedeu +nem egualou em Portugal; não se deixa arrastar +pela imaginação como alguns positivistas; possue no +mais alto grau uma qualidade bastante recommendavel: +o bom senso.</p> + +<p>Herculano pouca importancia ligou á discussão ácerca +da parte dogmatica do christianismo; o que lhe attrahiu +principalmente a attenção foi a moral christã. +Sejam quaes forem as opiniões ácerca d'esta materia, o +que é certo é que nenhum critico sensato póde contestar +a Herculano a pureza das intenções. O grande escriptor +prentendia fazer d'este povo um povo simultaneamente +instruido e moralizado.</p> + +<p>Se algumas vezes se refere aos dogmas do christianismo, +foi ora para mostrar a conveniencia pratica da +immutabilidade da fé, ora para combater o jesuitismo, +que se ia alastrando em Portugal e cuja influencia chegou +a ser tão poderosa em Roma que obrigou o papa +Pio <small>IX</small> e a maioria dos bispos do mundo catholico a modificar +profundamente o christianismo, a proclamar como +dogmas o marianismo e o infallibilismo, que Herculano +considerava duas heresias, a romper com as tradições +apostolicas, a tornar o catholicismo muito differente do +de S. Paulo e Santo Agostinho e a condemnar os principios +sacrosantos da liberdade no concilio do Vaticano, +nesse concilio que é a pagina mais negra e vergonhosa +da historia ecclesiastica no seculo dezanove.</p> + +<p>Entre as opiniões religiosas que Herculano manifestou +no seu eloquente opusculo ácerca da suppressão das<span class="pn">{42}</span> +conferencias do Casino, escripto no anno de mil e oitocentos +e setenta e um, isto é, seis annos antes da sua +morte, e as que havia exposto nos primorosos artigos +ácerca do christianismo, publicados no <em>Panorama</em> muitos +annos antes do clero ignorante e reaccionario o ter insultado +nos pulpitos por causa da suppressão do milagre +de Ourique, não existe a minima contradicção, o que +prova cabalmente que não ha rasão alguma para que +se diga que foi o ataque do clero que levou Alexandre +Herculano a ser adversario do neo-catholicismo, o que +seria contrario ao elevadissimo caracter do grande escriptor, +cujas convicções eram profundas e firmes e que +punha sempre o amor da verdade acima de todas as +vinganças, como o revelou na <em>Tentativa historica da +origem e estabelecimento da inquisição em Portugal</em>, +obra que o sr. Theophilo Braga, no seu <em>Curso de litteratura</em> +portuguesa, qualifica de capital e cuja exactidão +scientifica é tão notavel que levou o eximio orador +sagrado, o sr. Alves Mendes, a chamar no pulpito a +Herculano o severo analysta da <em>Historia da Inquisição</em>. +A grande imparcialidade com que Herculano escreveu +esta obra monumental depois de ser ignobilmente injuriado +por uma grande parte do clero, mostra-nos quão +elevado era o seu caracter. Não se devem fazer affirmações +em desabono de um morto illustre, cuja voz +emmudeceu no tumulo, sem que se possa demonstrar +cabalmente o que se affirma.</p> + +<p>Herculano era a logica personificada. Depois de admittir +um principio tirava d'elle as consequencias com +o maximo rigor. Nos seus escriptos não é facil achar<span class="pn">{43}</span> +contradições. Se por vezes modifica as suas opiniões, +é o proprio auctor quem o confessa com toda a franqueza +e sinceridade, o que é a prova mais evidente +do seu altissimo caracter. O sr. Theophilo Braga pretende +apresentar-nos Herculano como um espirito incoherente +e voluvel, mas quem, depois da leitura da <em>Historia +do romantismo</em>, ler as obras do mais eminente +historiador que Portugal tem produzido, ficará á primeira +vista profundamente convicto de que a sua firmeza +de convicções foi tão rara e admiravel que poucos escriptores +em todo o mundo o teem egualado neste ponto.</p> + +<p>No anno de 1843, isto é, tres annos antes da publicação +do primeiro volume da <em>Historia de Portugal</em>, +escreveu Herculano no <em>Panorama</em> um excellente artigo +ácerca do christianismo e da philosophia, onde mostra +não só a grande discordancia que tem reinado entre +os philosophos em materia de moral, mas tambem a +constancia e immutabilidade das crenças religiosas; +nelle se encontram os seguintes periodos:</p> + +<p>«Desde a moral de Platão deduzida do amor da formosura +divina: desde a moral de Epicuro, moral negativa, +que põe o profundo desprezo da humanidade como +pedra angular do proceder humano: desde as escolas +da Grecia até o materialismo grosseiro dos encyclopedistas, +que maximas, que regra de acções deixou de +ter altares, deixou de ser condemnada? Nenhuma.</p> + +<p>«Constancia, perpetuidade só teem os preceitos immutaveis +das crenças religiosas.»</p> + +<p>Estes periodos eloquentissimos provam claramente +que, antes de ser aggredido pelo clero, já Herculano<span class="pn">{44}</span> +admittia o principio da immutabilidade da fé; era em virtude +d'este principio que elle, sem condemnar a philosophia +e a consciencia, que tambem considerava fontes +das boas acções, dava a preferencia á religião como +instrumento de moralidade.</p> + +<p>Na carta que Herculano escreveu ácerca da suppressão +das conferencias do Casino encontra-se o seguinte +trecho, que revela a sua grande e admiravel coherencia +e onde censura o papa e os bispos catholicos não só +pela profunda modificação que fizeram nas doutrinas da +igreja primitiva mas tambem pela condemnação dos +principios sacrosantos da liberdade:</p> + +<p>«Desde a promulgação da Carta tem-se realisado gradualmente +uma revolução na igreja catholica. Com assombro +da gente illustrada e sincera, vimos transformar +em dogma uma superstição dos seculos de trevas, rendoso +mealheiro de franciscanos, tinctura de pelagianismo, +aproveitada hoje para aviar receitas na botica de S. +Ignacio, a immaculada conceição de Maria, dogma que +forçadamente conduz ou á ruina do christianismo pela +base, tornando inconcebivel a Redempção, ou á deificação +da mulher, á mulher Deus, á mulher redemptora, +recurso tremendo nas mãos do jesuitismo, que, lisongeando +a paixão mais energica do sexo fragil, a vaidade, +o converte em instrumento seu para dilacerar e +corromper a familia, e pela familia a sociedade. Depois, +ludibrio d'esses homens de trevas, vemos o papa, celebrando +uma especie de concilio disperso, mandar perguntar +pelas portas dos bispos que tal acham aquelle +appendiculo á fé catholica. Os bispos, pela maior parte,<span class="pn">{45}</span> +encolhem os hombros ou riem-se, dizem-lhe que está +vistoso e vão jantar. Depois, os que falam em nome do +pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil, +o sacrificio do Golgotha para a redempção da humanidade, +ou dando ao Christo um adjuncto na sua obra +divina, divertem-se em negar no Syllabus os dogmas, +um pouco mais verdadeiros, da civilização moderna, e +tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que +tolerado, nos dominios do opinativo, a dogma indisputavel, +e sanctificado assim uma opinião peor que ridicula, +convidam a sociedade temporal á guerra civil. É a +Companhia de Jesus na sua manifestação mais caracteristica. +Os principios da Carta, como de todas as constituições +analogas, são condemnados, anathematisados, +exterminados in petto.</p> + +<p>«É a communa de Paris, perfigurada em Roma, a arrasar +e queimar, em vez de edificios, todas as conquistas +do progresso social, todas as verdades fundamentaes da +philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se +então o concilio parado. É que falta ao Syllabus a sancção +divina. Dar-lh'a-ha a infallibilidade indossada pelo +episcopado ou á sua ordem. Ajuntam-se não sei quantos +bispos, muitos bispos; uns reaes, outros pintados: aggremiam-se; +e o papa pergunta ao gremio, em vez de +o perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam +a encolher os hombros ou a rir-se, dizem-lhe que +sim e vão ceiar. O papa infallivel, que não sabia se +era fallivel, fica emfim, descançado, e os bispos ceiados, +dormidos e desappressados do <em>visum est Spiritui +Sancto et nobis</em> do concilio apostolico de Jerusalem,<span class="pn">{46}</span> +transferido definitivamente para a Casa-professa, voltam +a annunciar aos respectivos rebanhos essa nova correcção +das erroneas doutrinas da primitiva igreja.</p> + +<p>«Taes são os deploraveis e incriveis successos que +temos presenciado. O jesuitismo converte o infeliz Pio +<small>IX</small> num Liberio ou num Honorio, induzindo-o a subscrever +heresias, e a grande maioria dos bispos, creando +na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o +arianismo dominava por toda a parte, e abandonando a +maxima sacrosanta da immutabilidade da fé, tornam-se +em arautos e pregoeiros dos desvarios de Roma. As novidades +religiosas vêm perturbar as consciencias, e o +marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo +de vencida na igreja catholica.»</p> + +<p>Neste trecho energico e ao mesmo tempo graciosamente +satyrico revela-se o espirito logico e intransigente +de Herculano; não ha ninguem que seja capaz +de provar que entre as idéas nelle expendidas e as crenças +religiosas da sua mocidade existe o menor antagonismo. +Herculano permaneceu fiel ao velho catholicismo; +foi a igreja quem introduziu novidades na religião; +foi ella quem deixou de observar a maxima da immutabilidade +da fé, que Herculano considerava sacrosanta, +e que durante muitos seculos foi seguida pela grande +legião dos varões illustres da igreja, como S. Boaventura, +S. Jeronymo e muitos outros; por consequencia +foram os padres obedientes ao pontifice que se afastavam +das doutrinas da igreja primitiva. O Espirito Santo +illuminou o papa e este obrigou os fieis, sob pena de +excommunhão, a acreditar em dogmas que d'antes não<span class="pn">{47}</span> +existiam e sem os quaes se podia muito bem entrar no +ceu. Os padres chamavam hereje a Herculano mas este, +por sua vez, considerava heresias todas as novidades +introduzidas na religião catholica. Pio nono era para +elle um verdadeiro hereje, um inimigo acerrimo do +christianismo puro, um instrumento da Companhia de +Jesus.</p> + +<p>O Chateaubriand português, o defensor mais eloquente +que o christianismo teve em Portugal e cujo merito +litterario é comparavel ao de S. Paulo e Santo Agostinho, +foi tambem o adversario mais implacavel do jesuitismo +e da reacção ultramontana. O sublime auctor da <em>Harpa +do crente</em> e do <em>Parocho d'aldeia</em> recebeu do beaterio +fanatico e d'aquelles hypocritas para quem a religião é +apenas um instrumento de politica os epithetos de impio, +de irreligioso, de anti-christão e até de atheu. É +porque entre a religião de Herculano e a religião dos +jesuitas ha uma differenca enorme e considerabilissima. +O sentimento religioso de Herculano nascia de um coração +puro, sincero e desinteressado; a religião era +para elle um balsamo suave no meio das amarguras da +existencia e a fonte mais caudal das boas acções. Pelo +contrario, para o jesuita a religião é a arma mais poderosa +de que se serve para corromper e dominar a +sociedade. Herculano amava ardentemente o christianismo, +não o christianismo impuro e falsificado dos jesuitas +e dos neo-catholicos, não o christianismo de Santo +Ignacio de Loyola e de S. Vicente de Paulo, mas o +christianismo puro, o christianismo do Evangelho, essa +religião sublime que se resume nos principios sacrosantos<span class="pn">{48}</span> +da liberdade, egualdade e fraternidade, que, embora +nunca se possam realizar em toda a sua plenitude, são +as mais nobres e grandiosas aspirações do coração humano. +Para Herculano o christianismo era o grande civilizador +dos tempos mordernos.</p> + +<p>Com effeito, o que é a egualdade perante a lei senão +uma traducção da egualdade perante Deus, proclamada +no Evangelho? Não são porventura os povos +christãos que caminham na vanguarda do progresso e +da civilização? O que têm produzido as outras religiões +senão a tyrannia e o despotismo? Que culpa tem o +christianismo de que os padres o tenham adulterado e +falsificado? Ha porventura alguma comparação entre os +padres da igreja primitiva, que prégavam a liberdade +de consciencia e a tolerancia, e os modernos jesuitas e +lazaristas, que, em vez de explicarem ao povo as maximas +sublimes do Evangelho, fazem consistir a religião +principalmente nos exercicios de devoção externa?</p> + +<p>Poeta e philosopho ao mesmo tempo, Herculano era +profundamente melancolico. Como Bernardin de Saint-Pierre +e Rousseau, amava ardentemente a natureza. +Como S. Jeronymo e S. Basilio, era apaixonado pela solidão +campestre; comprazia-se em viver longe do bulicio +dos homens. O amor do infinito, que abrasava o coração +de Santo Agostinho, tambem incendiava o coração +de Herculano.</p> + +<p>Alexandre Herculano foi um dos principaes representantes +da alma portugueza. A tristeza, que tem caracterizado +o povo português em todos as epochas, tambem +caracterizava a grande alma de Herculano.<span class="pn">{49}</span></p> + +<p>O celebre critico Villemain diz que o português era +reflectido e melancolico antes da epocha em que todos +os povos o deviam ser. Esta meditação melancolica, que +nos distingue dos outros povos meridionaes e nos assemelha +aos povos do norte, revelou-se muito cedo na +nossa litteratura.</p> + +<p>A profunda melancolia que se observa nas deliciosas +paginas da <em>Menina e moça</em> de Bernardim Ribeiro e nos +seus versos singelos e melodiosos, nas poesias sentimentaes +de Christovão Falcão, de Camões e de Soares +de Passos e na maravilhosa relação de naufragios intitulada +<em>Historia tragico-maritima</em>, essa profunda melancolia +tambem é vigorosamente expressa nas Poesias de +Herculano e principalmente no seu magestoso, soberbo +e sublime <em>Monasticon</em>.</p> + +<p>Não é, porém, só na vigorosa expressão da melancolia +que Herculano é um dos mais notaveis representantes +da alma portuguesa; tambem o é na poderosa +energia com que exprime todos os sentimentos nobres +e elevados. O amor, a coragem, o patriotismo e a generosidade +são affectos caracteristicos do povo português; +Herculano exprimiu-os de um modo verdadeiramente +assombroso.</p> + +<p>Como Camões, foi simultaneamente poeta e soldado. +O principe dos prosadores tem muitos pontos de contacto +com o principe dos poetas. Camões combateu na +Africa e na Asia em prol da patria; Herculano pelejou +no cêrco do Porto a favor da liberdade. Camões esteve +desterrado em Macau; Herculano viu-se obrigado a +emigrar para se esquivar ás perseguições do governo<span class="pn">{50}</span> +absoluto de D. Miguel. Camões, impellido pelo seu ardente +patriotismo e pela immensidade do seu genio, escreveu +os <em>Lusiadas</em>, narrando em bellos e magnificos +versos os feitos mais brilhantes da nossa historia; Herculano, +levado pelas suas tendencias especiaes para os +estudos historicos e pelo seu grande amor da patria, +escreveu num estylo magestoso como o de Barros, harmonioso +como o de Fr. Luis de Sousa, vigoroso como o +de Tacito, vernaculo como o de Vieira e singelo como +o de Fernão Lopes, a <em>Historia de Portugal</em>, o mais +grandioso de todos os seus monumentos, a obra mais +eminentemente nacional que em Portugal se escreveu +depois dos <em>Lusiadas</em>.</p> + +<p>O sentimento de dignidade pessoal era egual em +ambos os escriptores. Camões nunca lisonjeou os poderosos +no meio das maiores privações; Herculano nunca +fez o minimo sacrificio da propria consciencia, foi sempre +amigo da verdade e da justiça.</p> + +<p>Em ambos brilhou o patriotismo no mais alto grau. +Em Camões exerceu uma impressão dolorosa o desastre +de Alcacer-Kibir; Herculano soffreu profundamente com +o progresso da nossa corrupção moral e com a nossa decadencia +politica. Camões, numa carta que dirigiu a D. +Francisco de Almeida quando Portugal estava proximo +a perder a sua independencia, escreveu: «Em fim acabarei +a vida, e verão todos que fui tão affeiçoado á minha +patria que não me contentei de morrer nella mas +com ella.» Herculano, pouco antes da sua morte, profundamente +sensibilizado pela decadencia moral e politica<span class="pn">{51}</span> +do seu pais, exclamou: «Isto dá vontade da gente +morrer!»</p> + +<p>Na vivacidade do dialogo, na virilidade do estylo e +no ardente enthusiasmo que transmitte aos leitores, tambem +se assemelha Herculano ao grande épico. É admiravel +a energia com que o nosso mais eminente romancista +historico pinta as almas dos seus heroes, fazendo +resurgir o espirito religioso, patriotico e guerreiro de +epochas remotissimas. No seu pequeno mas excellente +romance <em>O castello de Faria</em>, que faz parte das <em>Lendas +e narrativas</em>, encontra-se o seguinte trecho, cuja eloquencia +simples, magestosa e robusta nos traz á memoria +as passagens mais eloquentes dos Lusiadas:</p> + +<p>«Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda +inimiga e caminhou para a barbacã; todas as béstas se +inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se +num silencio profundo.</p> + +<p>«—Moço alcaide, moço alcaide! bradou o arauto, teu +pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, +adiantado da Galliza pelo muito excellente e temido D. +Henrique de Castella, deseja falar comtigo, de fóra do +teu castello.</p> + +<p>«Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou +então o terreiro, e, chegando á barbacã, disse ao +arauto:</p> + +<p>«A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.</p> + +<p>«O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam +Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel +approximou-se da barbacã. Chegados ao pé della, o<span class="pn">{52}</span> +velho guerreiro saiu d'entre os seus guardadores, e fallou +com o filho:</p> + +<p>«—Sabes tu, Conçalo Nunes, de quem é este castello, +que, segundo o regimento de guerra, entreguei +á tua guarda, quando sai em soccorro e ajuda do esforçado +conde de Ceia?</p> + +<p>«—É, respondeu Gonçalo Nunes, de nosso rei e senhor, +D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste +preito e menagem.</p> + +<p>«—Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um +leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o +seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo +das ruinas delle?</p> + +<p>«—Sei, oh meu pae! proseguiu Gonçalo Nunes em +voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que +começavam a murmurar.—Mas não vês que a tua +morte é certa se os inimigos perceberem que me aconselhaste +a resistencia?</p> + +<p>«Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões +do filho, clamou então:</p> + +<p>«—Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do +castello de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu +no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os +que me cercam entrarem nesse castello sem tropeçarem +no teu cadaver.</p> + +<p>«—Morra! gritou o almocadem castelhano, morra o +que nos atraiçoou!</p> + +<p>«E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de +muitas espadas e lanças.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>«Defende-te, alcaide!» foram as ultimas palavras +que elle murmurou.</p> + +<p>«Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, +clamando vingança.</p> + +<p>«Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; +grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram +o proprio sangue com o sangue do homem leal +ao juramento.»</p> + +<p>Este trecho eloquentissimo, cuja energia é inexcedivel, +revela-nos a maravilhosa aptidão que Herculano +possuia para pintar as grandes paixões, as paixões heroicas. +A falla que Nuno Gonçalves dirige a seu filho +Gonçalo Nunes excitando-o a defender corajosamente o +castello, embora com sacrificio da propria vida, não produz +menos enthusiasmo no meu coração do que a falla +de D. Nuno Alvares Pereira no Conselho de Guerra, que +é incontestavelmente um dos trechos mais eloquentes +dos Lusiadas. O estylo de Herculano é incomparavelmente +mais epico do que o de todos os poetas que em +Portugal têm florescido depois de Camões; é principalmente +pela nobreza e virilidade do seu estylo magico +que Herculano ha de ser sempre considerado um dos +maiores prosadores do mundo. Assim como Platão possuia +o enthusiasmo de Homero, assim nas obras de Herculano +revela-se o ardente enthusiasmo do principe dos +nossos poetas.</p> + +<p>Todo o homem recebe uma influencia poderosa do +meio em que vive; Herculano não podia deixar de receber +esta influencia mas, pelos seus vastos e profundos +conhecimentos e pela sua eloquencia energica, solemne<span class="pn">{54}</span> +e magestosa, elevou-se muito acima dos seus contemporaneos, +alcançando sobre elles um poder espiritual +tão assombroso que os seus escriptos eram considerados +evangelhos.</p> + +<p>A influencia que Herculano exerceu neste seculo foi +muito superior á influencia de Sá de Miranda no seculo +dezaseis porque, apesar da grande semelhança de caracter +que tiveram os dois illustres escriptores, Herculano +possuiu um talento mais genial e vasto. Quando Herculano +residia no seu eremiterio da Ajuda, agrupavam-se +em volta d'elle os talentos mais notaveis que Portugal +possuia naquella epocha, e até o bondoso e illustrado +rei D. Pedro V o visitava frequentemente para lhe pedir +os seus conselhos. Herculano foi para o nosso país +o grande patriarcha do seculo dezanove; nenhum escriptor +ainda conseguiu neste seculo exercer sobre a +sociedade portuguesa uma influencia egual á sua; ninguem, +depois de Camões, influiu tão poderosamente na +nossa litteratura e civilisação.—Disse.<span class="pn">{55}</span></p> + +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p style="font-size: 1.6em;">ULTIMAS PUBLICAÇÕES</p> + +<p><em>MARIA A. V. DE CARVALHO</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">CARTAS A UMA NOIVA</p> + +<p>2.ª edição, melhorada, 1 vol........ 700 réis</p> + +<hr> + +<p><em>A. PIMENTEL</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">DESCOBRIMENTO DO BRASIL</p> + +<p>2.ª edição, refundida, 1 vol........ 700 réis</p> + +<hr> + +<p><em>CARLOS MALHEIRO DIAS</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">FILHO DAS HERVAS</p> + +<p>1 vol. 800 réis</p> + +<p style="text-align: justify; text-indent: 2em;">Romance genuinamente nacional e especialmente dedicado ás mães, o +<em>Filho das Hervas</em> é incontestavelmente o mais notavel romance português +d'estes ultimos annos.</p> + +<p style="text-align: justify; text-indent: 2em;">De uma riqueza incomparavel de vocabulario, cheio de côr e de melodia, +tem todas as qualidades para fazer vibrar, até ás mais altas notas do +sentimento humano, todos os corações, especialmente os das Mães.</p> + +<hr> + +<p><em>E. ZOLA</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">FECUNDIDADE</p> + +<p>TRADUCÇÃO AUCTORISADA</p> + +<p>1 vol. de 728 pagmas................. 800 réis</p> + +<hr> + +<p><em>P. MANTEGAZZA</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">O PROBLEMA DO CASAMENTO</p> + +<p><em>Arte de escolher esposa e arte de escolher marido</em></p> + +<p>Traduccão auctorisada do original italiano por Candido de Figueiredo</p> + +<p>1 vol........ 700 réis</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">FISIOLOGIA DA MULHER</p> + +<p>Traduccão auctorisada do original italiano por Candido de Figueiredo</p> + +<p>1 vol........ 700 réis</p> + +<hr> + +<p><em>COELHO NETTO</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;">SALDUNES</p> + +<p>ACÇÃO LEGENDARIA EM 3 EPISODIOS</p> + +<p>1 vol. luxuosamente impresso a côres e em papel de linho, 500 réis</p> + +<hr> + +<p><em>JOAQUIM LEITÃO</em></p> + +<p style="font-size: 1.4em;"><em>DO CIVISMO E DA ARTE NO BRASIL</em></p> + +<p>1 vol. de 330 paginas</p> + +<p> </p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO *** + +***** This file should be named 34286-h.htm or 34286-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/2/8/34286/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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