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+ <title>Alexandre Herculano, por Diogo Rosa Machado</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Alexandre Herculano
+
+Author: Diogo Rosa Machado
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+Release Date: November 12, 2010 [EBook #34286]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ALEXANDRE HERCULANO ***
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+Produced by Mike Silva
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 2em;">ALEXANDRE HERCULANO</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p style="font-size: 0.8em;">CONFERENCIA PÚBLICA<br>
+
+REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,<br>
+
+NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">DIOGO ROSA MACHADO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 15%;">
+<p style="font-size: 1.2em;">PREÇO 200 REIS</p>
+<hr style="width: 15%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>LIVRARIA EDITORA</small><br>
+TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO<br>
+<small>5&mdash;LARGO DE CAMÕES&mdash;6</small><br>
+<small>MDCCCC</small></p>
+</div>
+
+
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 2em;">ALEXANDRE HERCULANO</p>
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+<p style="font-size: 0.8em;">CONFERENCIA PÚBLICA<br>
+
+REALIZADA NO ATHENEU COMMERCIAL DE LISBOA,<br>
+
+NA NOITE DE 15 DE JULHO DE 1900</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
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+<p style="font-size: 1.4em;">DIOGO ROSA MACHADO</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PROFESSOR DE LINGUA E LITTERATURA PORTUGUEZA</p>
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+<p>&nbsp;</p>
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+
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+<small>LIVRARIA EDITORA</small><br>
+TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO<br>
+<small>5&mdash;LARGO DE CAMÕES&mdash;6</small><br>
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+</div>
+
+<p><span class="pn">{2}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+<p style="text-align: center;">Typ a vapor da Empreza Litteraria e Typographica<br>
+Rua de D. Pedro, 184&mdash;Porto.</p>
+
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right; margin-right: 2em;"><small>MEUS SENHORES.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O homem nasceu para viver em sociedade. Apesar
+de todos os paradoxos sustentados por João Jacques
+Rousseau contra o estado social, é incontestavel que só
+neste estado é que elle se póde aperfeiçoar intellectual
+e moralmente. O selvagem é feroz, cruel e sanguinario.</p>
+
+<p>Com as nações succede o mesmo que com os individuos.
+Assim como os individuos isolados não progridem,
+assim tambem as nações que vivem separadas
+das outras permanecem estacionarias. Quanto mais amplas
+forem as relações sociaes maior será o desenvolvimento
+da intelligencia humana. Se o commercio abre
+o caminho para a civilização e fraternidade dos povos,
+é a mais alta cultura litteraria e scientifica que poderá
+fazê-las attingir o seu auge. A cultura litteraria, além
+de ser indispensavel a todo o homem, seja qual fôr a
+sua posição social, é o factor mais poderoso da solidariedade
+universal. Quando as obras litterarias e scientificas
+em que se revela a maior pujança do espirito humano
+estiverem vulgarizadas em todos os paises, então<span class="pn">{4}</span>
+a fraternidade universal não será certamente um sonho
+vão, prestar-se-ha o culto mais ardente á liberdade e á
+egualdade, finalizarão as guerras, que são verdadeiros crimes
+sociaes. São os eloquentes escriptores, os sublimes
+poetas e os eminentes sabios que mais têm contribuido
+para o progresso intellectual e moral do genero humano;
+devemos pois tributar as mais ardentes homenagens
+a todos os bemfeitores da humanidade, a todos os
+grandes homens que a têm honrado com o seu genio
+litterario, scientifico ou philosophico.</p>
+
+<p>São rarissimas as manifestações populares que não
+são excitadas pelas paixões politicas. Este facto é um
+triste symptoma da profunda ignorancia que ainda lavra
+no nosso pais.</p>
+
+<p>As homenagens prestadas aos grandes escriptores e
+aos sabios eximios devem ter por unica origem a gratidão
+popular pelos relevantissimos serviços que prestaram,
+pelos grandes esforços por elles envidados para
+instruir e moralizar a sociedade.</p>
+
+<p>Bem sei que a politica é indispensavel para o progresso
+dos povos, mas tambem é certo que no campo
+da politica se põem ordinariamente as paixões partidarias
+acima dos affectos mais nobres e sublimes do coração
+humano, acima do amor da verdade e da justiça,
+da rectidão e da imparcialidade que devem caracterizar
+todo o homem de bem, todo o cidadão honrado e
+virtuoso. É um espectaculo assás desagradavel o vêr
+que, no campo da politica vil e mesquinha, de um lado
+se encontram homens sempre promptos a adular os poderosos
+da terra, todos os tyrannos; seja qual fôr a denominação<span class="pn">{5}</span>
+que se lhes dê; do outro, individuos que,
+sob a mascara das doutrinas mais avançadas, procuram
+lisonjear as paixões muitas vezes ignobeis e mesquinhas
+das turbas analphabetas, ignorantes e fanaticas.
+O homem que só procura a verdade e o bem, que não
+se deixa dominar pelas paixões politicas, que é imparcial
+e recto, que ousa fallar ou escrever sem preconceitos
+contra a profunda corrupção do seu seculo e do
+seu pais, que não hesita em vituperar os vicios de todas
+as classes sociaes, que não vende a sua consciencia
+no mercado dos poderosos nem procura illudir a
+plebe ignorante e fanatica, que muitas vezes applaude
+inconscientemente os discursadores frivolos, cujo merito
+apenas consiste na verbosidade vacua e na habilidade
+para afagar as preoccupações populares, o homem
+que considera a mentira um crime, que louva ou vitupera
+com toda a sinceridade e justiça, forcejando por
+não faltar á verdade, que não mercadeja com a sua
+intelligencia, que Deus só lhe deu para conhecer o bello,
+o verdadeiro e o justo, aquelle que assim procede
+com toda a dignidade é sempre o alvo das censuras
+mais acres e injustas, chega a ser muitas vezes calumniado
+pelos fanaticos de todas as escolas e de todos
+os partidos; mas, no meio d'estas grandes miserias sociaes,
+ha sempre um grupo de homens sensatos e moderados,
+illustrados e honestos, que comprehendem o
+seu modo de pensar e de sentir e lhe fazem a devida
+justiça; quando isto não succedesse, bastar-lhe-hia a
+pureza da sua consciencia para o consolar, para lhe
+suavizar as amarguras provenientes da injustiça dos<span class="pn">{6}</span>
+homens, porque a consciencia é para todo o homem
+sincero, imparcial e recto a fonte dos prazeres mais intensos
+e duradouros, porque é a voz da consciencia que
+o impelle a proseguir denodado e imperturbavel o caminho
+da verdade e da justiça, sem lhe importarem os
+murmurios, os vituperios que em volta d'elle possam
+levantar todos os ignorantes e maus, todos os homens
+dominados pelo fanatismo religioso, philosophico ou politico.</p>
+
+<p>Ha uma cousa muito mais nobre e elevada do que
+a politica, uma occupação que não degrada os caracteres
+nem corrompe os costumes, em que não é preciso
+sacrificar a consciencia nem praticar a injustiça, que
+nos serve de consolação no meio de todas as angustias:
+é a cultura litteraria e scientifica. Sem esta cultura tão
+proveitosa não poderiam realizar-se nas sociedades
+transformações beneficas, solidas e duradouras, não teriam
+os povos consciencia dos seus direitos e dos seus
+deveres, não conheceriam o seu passado nem saberiam
+como proceder para se tornarem mais moralizados e felizes,
+não poderia haver politica liberal e sensata.</p>
+
+<p>Quando se trata de prestar homenagens áquelles
+grandes vultos que tanta luz irradiaram nos seus escriptos,
+todos, sem distincção de partidos, de escolas philosophicas
+e litterarias, devem unir-se para mostrar a
+sua gratidão para com aquelles que tão poderosamente
+contribuiram para o progresso intellectual e moral da
+sua patria e da humanidade.</p>
+
+<p>Ninguem mais digno das nossas homenagens do
+que o grande vulto de cujas virtudes e meritos litterarios<span class="pn">{7}</span>
+e scientificos venho hoje fallar-vos. Ninguem mais
+digno das nossas homenagens do que o eminente escriptor
+que se chamava Alexandre Herculano de Carvalho
+e Araujo. Ninguem mais digno das nossas homenagens
+do que aquelle cidadão illustre que foi a maior
+gloria portuguesa d'este seculo e uma das maiores glorias
+portuguesas de todos os seculos.</p>
+
+<p>Lisboa, que foi o berço de Camões e de Vieira, de
+Diogo de Couto e de D. Francisco Manuel de Mello, tambem
+possue a gloria de ser a terra onde nasceu um escriptor
+em cuja alma se achavam, por assim dizer,
+conglobados muitos dos predicados que adornavam os
+espiritos d'aquelles grandes homens; um escriptor que
+chegou a adquirir na litteratura universal um dos nomes
+mais illustres; um grande lyrico, cujo sentimento
+religioso é profundo como o de Lamartine, cujo amor
+da liberdade é vehemente como o de Victor Hugo, cujo
+patriotismo é ardente como o de Béranger; um romancista
+que, alem de rivalizar com Walter Scott na erudição
+e no estylo, revela, na pintura das grandes paixões,
+a energia de Shakspeare e Byron, e nas descripções
+de batalhas se parece com Homero; um historiador
+eloquente como Tito Livio, vigoroso como Tacito, conciso
+como Sallustio, elegante como Xenophonte, claro como
+Taine, consciencioso e erudito como Thierry, imparcial
+como Maccaulay, philosophico como Guizot e poetico
+como Michelet; um epistolographo sentimental como
+Rousseau e sobrio como Voltaire; um polemista cujo estylo
+não é menos grandioso que o de Lamennais e que
+na vehemencia da indignação rivaliza com Juvenal.<span class="pn">{8}</span>
+Ser tudo isto ao mesmo tempo é um dos phenomenos
+mais raros e maravilhosos que nos póde apresentar a
+historia litteraria. Pois tudo isto foi Herculano; este
+phenomeno extraordinario e verdadeiramente maravilhoso
+é-nos apresentado pela sua obra monumental e
+complexa.</p>
+
+<p>É immensa a gloria de Herculano, mas tambem é
+immensa a gloria de Portugal por ter sido a patria de
+um escriptor tão insigne e de um varão tão austero.
+Herculano foi incontestavelmente um dos principaes
+mestres da nossa lingua, um dos pensadores mais profundos
+da nação portuguesa e um dos historiadores
+mais eloquentes, exactos e imparciaes que o mundo tem
+produzido. A immensidade do seu genio levou o grande
+historiador inglês, o illustre Maccaulay, tão sobrio em
+louvores, a proferir esta phrase enthusiastica: «A Hespanha
+deveria esforçar-se por conquistar Portugal só
+para possuir Herculano.»</p>
+
+<p>O principe dos historiadores portugueses nasceu no
+dia vinte e oito de março de mil e oitocentos e dez.
+Ha por consequencia noventa annos que neste bello
+pais, nesta formosa cidade banhada pelo Tejo, debaixo
+d'este ceu puro e limpido, nasceu um escriptor em cujo
+coração se abrigava a sensibilidade ardente de um poeta
+e em cujo cerebro fulgia a intelligencia profunda de
+um philosopho. Ha noventa annos que nasceu em Portugal
+um dos seus escriptores mais brilhantes, fecundos
+e eruditos e o seu prosador mais eminente. Ha noventa
+annos que veiu ao mundo um dos artistas mais
+varonis, um dos caracteres mais austeros, um dos corações<span class="pn">{9}</span>
+mais sensiveis, energicos e apaixonados, um dos
+mais brilhantes luminares da sciencia historica.</p>
+
+<p>A natureza difficilmente produz os grandes homens;
+são rarissimos em todas as nações. Por isso devemos admirá-los
+e glorificá-los como entes extraordinarios que
+a Providencia destinou para conduzir a humanidade
+pela estrada do progresso e da civilização.</p>
+
+<p>Se attendermos á pequenez do territorio que occupamos
+na Europa e á respectiva população, Portugal é
+uma das nações que maior numero de homens illustres
+têm produzido. O nosso pais tem sido o berço dos mais
+arrojados heroes e dos mais eloquentes escriptores. A
+litteratura portuguesa é tão rica e luxuriante como o
+solo da nossa patria.</p>
+
+<p>A excellente posição geographica do nosso pais, o
+delicioso clima que possuimos, as bellezas naturaes que
+adornam esta abençoada terra sulcada de rios ora graves
+e imponentes, ora risonhos e graciosos, os valles amenos
+e serras magestosas de que ella é matizada e
+que despertam em nós o sentimento do bello, esse vasto
+e profundo oceano que nos offerece o espectaculo
+mais grandioso tornando-nos scismadores e melancolicos
+e impellindo-nos ás mais altas cogitações e ao mais
+profundo sentimentalismo, a aptidão assimiladora da
+nossa raça, cujo vigor não poude ser completamente
+destruido por mais de duzentos annos de educação jesuitica
+e de tyrannia inquisitorial, tudo ha contribuido
+poderosamente para que Portugal tenha produzido grande
+numero de homens distinctos em todos os ramos de
+litteratura, especialmente na poesia e na historia, que<span class="pn">{10}</span>
+são os generos litterarios que mais se coadunam com a
+nossa indole nacional. No meio de tantos poetas e prosadores
+eminentes occupa Herculano incontestavelmente
+um dos primeiros logares.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano era um d'aquelles homens em
+quem se acham reunidos os predicados mais oppostos;
+possuia uma sensibilidade ardente e uma profundeza
+admiravel, uma imaginação vulcanica e uma grande
+perspicacia na investigação da verdade; a sua intelligencia
+era eminentemente analytica e synthetica; o seu
+espirito era simultaneamente poetico e philosophico;
+nas suas obras encontra-se um estylo ao mesmo tempo
+simples e solemne, conciso e energico, claro e imaginoso,
+sobrio e elegante. Era verdadeiramente assombroso
+o poder e a harmonia das suas faculdades. Herculano
+foi um dos genios mais notaveis do seu seculo
+e do seu pais; ninguem ainda revelou uma sensibilidade
+mais energica e varonil do que elle. Em todas as litteraturas
+rarissimas vezes se encontra um escriptor dotado
+ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e numerosas.</p>
+
+<p>Não se deve estudar a vida de Herculano independentemente
+das suas obras, porque em todas se revela
+o fogo sagrado que o anima, a sua grande imaginação,
+a poderosa energia do seu temperamento, a rigidez do
+seu caracter, o seu ardente enthusiasmo por tudo quanto
+é nobre e bello, o seu amor da sciencia e da virtude,
+a sua paixão pela liberdade e a sua profunda abnegação;
+numa palavra, porque em todas as suas obras
+está vigorosamente estampado o seu nobre caracter e o
+seu grandioso espirito.<span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>A indole eminentemente poetica e philosophica de
+Herculano revelou-se desde a infancia; as impressões
+que se experimentam nos primeiros annos da vida têm
+grande analogia com as inclinações dos ultimos annos:
+nas tendencias infantis já se descobre o que se ha de
+vir a ser na edade de homem.</p>
+
+<p>Pelos escriptos de Herculano conhecemos muitos factos
+da sua vida, narrados com a sinceridade que caracterizava
+o eminente escriptor. No Monge de Cister diz
+elle, referindo-se aos dias-santos dos seus tenros annos:
+«Á tarde corria pela relva com os outros moços da minha
+edade, e travava luctas e gritava e ria e suava e
+tripudiava nos jogos e brinquedos, que são proprios
+d'aquella edade; mas, quando o sol descia para o horizonte,
+ia assentar-me á sombra de uma grande nogueira,
+sósinho, a ouvir cair num tanque uma pequena
+bica d'agua, e alli ficava muito tempo a scismar. Em
+que? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas scismava
+e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de
+tranquilla melancolia, fumosinho que se condensava
+brevemente nos olhos em lagrimas, que não chegavam
+a rolar, mas que nelles bailavam. E alli me achava a
+noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas
+ficava-me cá a saudade...»</p>
+
+<p>Estas palavras eloquentes e repassadas da mais vehemente
+poesia mostram-nos que já na sua infancia Herculano
+revelava uma grande tendencia para a solidão,
+um temperamento melancolico, um espirito assás meditabundo,
+um coração muito impressionavel, uma alma
+verdadeiramente poetica, onde se começava a accender<span class="pn">{12}</span>
+o amor da natureza. As suas tendencias infantis não
+denunciariam já o grave e austero solitario de Valle de
+Lobos? Aquella creança prodigiosa, que se afastava dos
+seus companheiros para meditar, havia de ser mais
+tarde o vigoroso cantor da <em>Semana Santa</em> e da <em>Arrabida</em>,
+o sublime idealista do <em>Eurico</em> e o renovador dos
+estudos historicos em Portugal.</p>
+
+<p>Para bem se avaliarem os escriptos e as opiniões de
+Herculano é mister que examinemos a sua educação.
+Não ha homem algum, por maior que seja o seu espirito,
+em quem a educação não exerça uma poderosa influencia;
+são profundos os vestigios que deixam no espirito
+os primeiros habitos e idéas.</p>
+
+<p>Herculano era naturalmente religioso como a maior
+parte dos grandes poetas, mas a educação que recebeu
+contribuiu poderosamente para que no seu espirito ficassem
+profundamente gravadas as crenças christãs. Estas
+crenças foram certamente modificadas pelo espirito philosophico
+de que a natureza o dotara, mas, embora chegasse
+a combater com a maior energia os novos dogmas
+que Roma introduziu no catholicismo, nunca em
+seu espirito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou
+um só dos principios fundamentaes do verdadeiro christianismo.
+Em toda a sua vida foi um crente sincero, um enthusiasta
+da moral evangelica, um espiritualista ardente.
+Era um velho catholico, um sectario intransigente da
+igreja primitiva. Foi considerado hereje por uma grande
+parte do clero, mas aquelle hereje era um verdadeiro
+christão, que não admittia innovações no catholicismo
+nem transigia com a Companhia de Jesus.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>A lucta que se travava no seu espirito entre a fé e
+o raciocinio, entre a religião e a philosophia, e que só
+póde ser devidamente avaliada por aquellas almas apaixonadas
+que, depois de receberem uma educação eminentemente
+christã, se acham invadidas pelo verme
+roedor do scepticismo, essa lucta dolorosa em que se
+estorce a alma do crente illustrado está admiravelmente
+descripta no magnifico prologo do «Parocho d'aldeia»,
+onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade
+rivaliza com a dos mais bellos monumentos da poesia
+religiosa de todos os seculos:</p>
+
+<p>«Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os
+caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança
+postas pela religião além da morte, sem que um
+momento vacille; sem que um momento a luz se apague
+ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha
+abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar
+a Jesus:&mdash;«Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti,
+porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e
+virtuoso; porque, filho da raça soffredora e austera
+chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão
+bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão.
+Creio, creio, oh Nazareno! porque até á hora de expirar
+na ignominia, até á hora da grande prova, nunca
+desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno!
+porque tu só nos explicaste o mysterio d'esta
+associação monstruosa da saude, do ouro, do poderio e
+dos crimes a um lado, e a da enfermidade, da pobreza,
+da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste
+como os destinos humanos se compensavam além<span class="pn">{14}</span>
+do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu
+soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem
+horizonte, e os terrores á completa felicidade sem termo
+na vida collocando no logar do destino a Providencia,
+e no do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno!
+porque a intensidade do teu viver é um impossivel
+humano; a victoria da tua doutrina severa contra
+a philosophia e o paganismo, um milagre; a gloria do teu
+nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais
+altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste na
+verdade um Deus?»</p>
+
+<p>Como é profundamente arrebatador este bellissimo
+trecho, onde o sentimento religioso é expresso com tanto
+vigor como nos Pensamentos de Pascal ou nos Sermões
+de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se
+reunem do modo mais assombroso! No eloquentissimo
+prologo do «Parocho d'aldeia» ha mais profundeza, energia
+e solemnidade do que nos mais bellos capitulos do
+«Genio do christianismo» de Chateaubriand. Este admiravel
+prologo é um verdadeiro poema philosophico, onde
+se revela um raciocinio vigoroso alliado a uma pujante
+imaginação e ardentissima sensibilidade.</p>
+
+<p>Como Pascal, Herculano caiu no scepticismo philosophico
+e, vendo quão profundas eram as dores que
+a duvida produzia na sua alma e quão grande era
+a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz,
+procurando refugio na religião, que era para elle uma
+fonte perenne de consolações e onde encontrava tudo
+quanto havia mais bello e grandioso para o seu coração
+ardentissimo, tudo quanto podia satisfazer a sua<span class="pn">{15}</span>
+grande imaginação de poeta. Para Herculano o christianismo
+era não só a mais sublime de todas as religiões
+mas a causa principal da civilização moderna. Não ensinou
+Christo que todos os homens eram eguaes perante
+Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi elle quem
+primeiro prégou a fraternidade universal e a tolerancia?
+Não causaram as suas palavras vibrantes e sonoras, os
+seus discursos profundamente liberaes tanto susto aos
+tyrannos e hypocritas?</p>
+
+<p>Para Herculano o christianismo era um facto altamente
+grandioso não só pelo lado poetico mas tambem
+pelo lado social; para elle tinham uma significação
+profundamente analoga estas duas palavras: redempção
+e liberdade.</p>
+
+<p>Em Herculano havia duas almas, que mantinham
+entre si um perfeito equilibrio: uma, religiosa e poetica;
+outra, philosophica e propensa ao scepticismo. A
+primeira fez d'elle um escriptor de primeira ordem; a
+segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa
+historia tudo quanto nella havia phantastico e milagroso.</p>
+
+<p>Herculano não era certamente um inimigo da philosophia;
+o que apenas teve em vista no prologo do
+«Parocho d'aldeia» foi exprimir as agonias intimas produzidas
+pelo scepticismo involuntario e mostrar quão doce
+era a tranquillidade gerada pela crença viva. O homem
+que introduziu em Portugal a philosophia da historia e
+que tão eloquentemente advogou nalguns dos seus escriptos
+a causa da instrucção popular, deu bastantes
+provas de quanto amava a cultura scientifica e philosophica.<span class="pn">{16}</span>
+Aquelle prologo é apenas um desabafo de
+poeta, uma manifestação sincera e profundamente lancinante
+dos tormentos que opprimiam a sua alma, que
+gemia na duvida, embora nella estivesse profundamente
+gravado o sentimento religioso.</p>
+
+<p>Os escriptores mais eloquentes têm ordinariamente
+sido religiosos. Se a nossa imaginação se transportar á
+Grecia, á patria da poesia, da eloquencia e da philosophia,
+lá encontraremos a propagar o idealismo o divino
+Platão, aquelle grande philosopho a quem Mithridates
+levantou uma estatua e Aristoteles um altar e cujo estylo
+poetico, enthusiastico, doce e harmonioso ainda
+hoje causa a admiração do mundo. Com que energia
+não é expresso o sentimento religioso nas sublimes odes
+de Pindaro e nas solemnes e magestosas tragedias de
+Eschylo!</p>
+
+<p>Passemos a Roma, e lá acharemos o sentimento religioso
+revelado nas obras de Virgilio, de Cicero e de
+Tito Livio. O grande Lucrecio, o mais profundo e um
+dos mais eloquentes poetas romanos, que no seu brilhante
+poema «Da natureza das cousas» romanizou o epicurismo,
+negou a existencia dos deuses e a immortalidade
+da alma, divinizou a materia, explicou a origem
+do mundo sem intervenção divina e aconselhou o suicidio,
+foi sem duvida uma excepção.</p>
+
+<p>Mas em nenhuma litteratura da antiguidade se exprimiu
+o sentimento religioso com tanta simplicidade,
+força, doçura, nobreza e sublimidade como na litteratura
+hebraica. Ainda nenhum escriptor antigo ou moderno
+conseguiu ser mais sublime do que Isaias, nem mais<span class="pn">{17}</span>
+sentimental e terno do que David, nem mais magestoso
+do que Moysés, nem mais melancolico do que Jeremias.</p>
+
+<p>Na edade média apparece-nos o sublime Dante, o
+cantor do catholicismo, produzindo essa obra prima intitulada
+<em>A Divina Comedia</em>, que levará o nome do seu
+auctor á mais remota posteridade e que é uma das
+mais bellas producções do espirito humano.</p>
+
+<p>Nos tempos modernos foi o sentimento religioso que
+inspirou a Milton a sua maravilhosa e sublime epopeia
+<em>O Paraizo Perdido</em>, a Bossuet as suas eloquentes <em>Orações
+funebres</em> e a Pascal os seus profundos e magestosos
+<em>Pensamentos</em>.</p>
+
+<p>No seculo dezoito, nesse seculo philosophico e revolucionario
+em que fizeram grandes progressos o scepticismo
+e a incredulidade e se propagaram com immensa
+actividade as doutrinas que deviam produzir
+as grandes tempestades politicas e sociaes, nesse grande
+seculo, ao qual devemos comtudo immensos beneficios,
+João Jacques Rousseau, um dos mais eloquentes
+prosadores franceses, defendeu com muito enthusiasmo
+a existencia de Deus e a immortalidade da alma e exaltou
+a moral evangelica, distinguindo-se pelo seu deismo
+ardente, que elle manifestou num estylo tão suave
+e harmonioso que faz lembrar o de Platão.</p>
+
+<p>No seculo dezanove, o seculo dos estudos historicos
+e da philosophia positiva, vemos o sentimento religioso
+expresso com uma vivacidade admiravel nas obras de
+Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand, Manzoni, Walter
+Scott, Lamennais, Renan, Thierry, Guizot, Michelet,<span class="pn">{18}</span>
+Flammarion, Tolstoi e muitos outros. Este sentimento
+sublime do coração humano existe não só nos que professam
+o christianismo ou qualquer outra religião positiva
+mas tambem em todos os sectarios da religião natural.</p>
+
+<p>Como a religião tem raizes profundas no coração do
+homem, hão de existir sempre, por mais alto que se
+eleve a sua intelligencia, almas apaixonadas que se
+comprazam em estar abrasadas no fogo sagrado do
+sentimento religioso. Eu não creio que este venha a
+extinguir-se no seio da humanidade mas estou profundamente
+convicto de que com o progresso da civilização
+a religião individual se ha de tornar cada vez mais
+pura, isto é, se ha de ir libertando das superstições
+com que a têm deturpado a imaginação e a ignorancia
+dos povos e os interesses sacerdotaes. Embora se derribassem
+os altares e se destruissem os templos, a religiosidade
+havia de existir perpetuamente no coração do
+homem porque bastaria a contemplação da natureza
+magestosa e bella que nos circumda para despertar em
+nós a idéa mais sublime a que se elevou a intelligencia
+humana, a idéa de Deus.</p>
+
+<p>Se Herculano, além de ser um grande poeta, foi
+um dos prosadores mais poeticos e eloquentes que
+têm existido em todos os seculos, que admira que o
+seu espirito fosse eminentemente religioso? Todas as
+crenças são dignas do maximo respeito comtanto que
+haja sinceridade naquelles que as professam. O homem
+que não respeita as opiniões alheias é inimigo da tolerancia
+e da liberdade, por mais avançadas que pareçam<span class="pn">{19}</span>
+as suas idéas. O fanatismo philosophico é para mim
+tão reprehensivel como o fanatismo religioso. Considero
+pois injusto, absurdo e ridiculo o deprimir Herculano
+por causa da sua paixão ardente pelo christianismo, da
+sua crença em Deus e na immortalidade da alma, como
+o têm feito alguns d'esses criticos superficiaes ou mal intencionados
+que costumam apparecer em todas as epochas
+para depreciar as obras mais excellentes que tem
+produzido o genio do homem.</p>
+
+<p>É indubitavel que o christianismo exerceu uma influencia
+benefica no genio litterario de Herculano. Foi
+nas paginas sublimes da Biblia que Herculano bebeu
+uma parte das suas inspirações; foi no estylo biblico
+que elle escreveu o terrivel e eloquente opusculo <em>A Voz
+do propheta</em> e os sublimes e dolorosos cantos do presbytero
+de Carteia, que fazem parte do seu mais bello e
+magestoso romance, a que deu o titulo de <em>Eurico</em>. Mas,
+no emprego do estylo biblico, Herculano, longe de ser
+um simples imitador, revelou sempre a poderosa originalidade
+que caracteriza todos os seus escriptos.</p>
+
+<p>O sr. Theophilo Braga, na sua <em>Historia do romantismo</em>,
+diz que Herculano não se elevou acima da metaphysica
+christã; mas o distincto professor esqueceu-se
+de accrescentar que no tempo de Herculano a maior
+parte dos grandes espiritos que tanto illustraram o seu
+seculo nos paizes mais adiantados da Europa e da America,
+se achavam no mesmo estado psychologico e que
+a philosophia positiva ainda não conseguiu derribar o
+espiritualismo.</p>
+
+<p>Em todas as escolas philosophicas tem havido pensadores<span class="pn">{20}</span>
+profundos. O espiritualismo christão não impediu
+Herculano de ser um dos mais eminentes historiadores
+do seu seculo, assim como não tirou mais modernamente
+ao immortal Pasteur a glória de ser um sabio
+de primeira ordem, um dos maiores bemfeitores da
+humanidade. Não obstante as grandes modificações por
+que passou o altissimo espirito de Victor Hugo, eu considero
+o seu christianismo, embora philosophico, incomparavelmente
+mais puro do que o de Torquemada e S.
+Domingos de Gusmão, cujo procedimento fanatico estava
+em completo antagonismo com os principios sublimes,
+com as maximas sacrosantas proclamadas no Evangelho.
+Victor Hugo, apesar do seu espiritualismo ardente
+e do seu enthusiasmo pela moral evangelica, foi um dos
+escriptores mais eloquentes e philosophicos que a França
+tem produzido. Se Guizot e Thierry na França, Cantu
+na Italia, Maccaulay na Inglaterra, Herder e Niebuhr
+na Allemanha, Prescott nos Estados-Unidos da America
+puderam ser ao mesmo tempo historiadores de primeira
+ordem e espiritualistas christãos, porque não poderia
+succeder o mesmo em Portugal a Alexandre Herculano?
+Condemnar este grande homem pelo seu espiritualismo
+ardente e pelas suas crenças religiosas seria o mesmo
+que condemnar a sua epocha e a escola romantica de
+que elle foi um dos mais distinctos ornamentos, seria
+faltar á justiça e imparcialidade que deve ter o verdadeiro
+critico.</p>
+
+<p>Creio que, em quanto a humanidade existir, ha de
+haver sempre discordancia em materia philosophica. A
+historia da philosophia, diz Herculano, é a historia de<span class="pn">{21}</span>
+um edificio começado ha milhares d'annos em que um
+seculo revolve os fundamentos que outro lançou, para
+lançar os seus, os quaes egualmente são revolvidos pelo
+seculo seguinte, cujos trabalhos condemnará o que vier
+após elle. A duvida, a que o espirito de Herculano era
+naturalmente propenso, como se revela em muitos dos
+seus escriptos, impedia-o de se deixar dominar completamente
+pelas crenças religiosas, que nunca exerceram
+a minima influencia nas suas investigações historicas.
+Esta minha opinião é completamente opposta á que o
+sr. Theophilo Braga manifesta na Historia do romantismo
+quando nega a Herculano a possibilidade de comprehender
+a vida politica do povo portuguez pelo facto de ser
+um christão fervoroso e poetico. Mas o distincto escriptor
+contradiz-se na mesma página quando, para deprimir
+Herculano, faz os maiores elogios a Agostinho
+Thierry, que não era menos christão do que o principe
+dos historiadores portugueses.</p>
+
+<p>Nenhum escriptor do romanticismo foi apreciado tão
+injustamente pelos seus adversarios como Alexandre
+Herculano, o que para mim é mais uma prova do seu
+immenso valor. Herculano, que foi accusado de impio
+pelos partidarios da reacção ultramontana e do jesuitismo,
+tem sido criticado injustamente por alguns escriptores
+que, declarando-se sectarios do positivismo, estão
+muito longe de seguir as pisadas de Taine e de Littré,
+dois positivistas eminentes que, pelo seu caracter austero,
+espirito philosophico e estylo elegante, primoroso,
+correcto e limpido, se tornaram dignos da veneração
+não só da França mas de todo o mundo. Venero todos<span class="pn">{22}</span>
+os grandes homens, seja qual for a sua escola, porque
+todos têm contribuido poderosamente para o progresso;
+o que detesto é a injustiça, a maledicencia e o fanatismo.
+O critico, para ser eminente, deve pôr a sua consciencia
+acima de todos os preconceitos, de todo o espirito
+do partido.</p>
+
+<p>O amor da verdade é a principal qualidade do historiador.
+Foi esta qualidade, associada a muitas outras,
+que fez com que Herculano fosse um dos maiores
+historiadores do mundo. Eu não quero dizer que elle
+não se enganasse, porque isso seria contrario á natureza
+humana; não ha ninguem infallivel, a não ser
+o padre santo para os partidarios do neo-catholicismo
+ou do catholicismo influenciado pela Companhia de Jesus.
+O que é certo é que Herculano examinava com a
+mais profunda attenção tudo quanto escrevia, empregava
+todos os meios de não falsear a historia, tudo sacrificava
+ao amor da verdade, fazia fallar os factos, não
+enchia a historia de generalizações falsas, intempestivas
+e absurdas; tudo quanto dizia firmava-se em documentos
+que elle criticava com a maior severidade e de
+cuja authenticidade estava profundamente convicto; não
+fazia syntheses que não se estribassem na mais profunda
+e rigorosa analyse. O mais abalisado analysta historico
+que Portugal tem produzido teve sempre receio
+de cair nessa laboração subjectiva, falsa e imaginosa,
+que caracteriza muitos espiritos do seculo dezanove.</p>
+
+<p>Quantas obras historicas se não tem escripto, que,
+em vez da verdadeira philosophia da historia, nos apresentam
+a philosophia dos seus auctores! Os trabalhos<span class="pn">{23}</span>
+historicos de Herculano foram incomparavelmente mais
+syntheticos do que tudo quanto no seu genero se havia
+escripto anteriormente em Portugal; mas, se a generalização
+philosophica não existe nelles mais copiosamente
+é porque ainda se não tinham realizado com a amplitude
+indispensavel as investigações eruditas sem as quaes
+toda a philosophia da historia seria apenas um edificio
+sem base; é porque ainda escasseavam os materiaes
+sufficientes para se poderem fazer em larga escala syntheses
+profundas, exactas e rigorosas.</p>
+
+<p>Quantas syntheses formuladas no seculo dezanove
+não serão materia de riso para o seculo vigesimo! Os
+escriptores gongoricos e nebulosos, que têm falsificado
+a historia com syntheses falsas e temerarias, parecem-se
+com aquelle fidalgo da Mancha, chamado D. Quichote,
+que em cada moinho de vento via um gigante, em cada
+rebanho um grande exercito; no seu furor de generalizar,
+os modernos gongoristas em cada facto vêem
+uma lei.</p>
+
+<p>Diz o snr. Theophilo Braga que Herculano não possuia
+disciplina philosophica; eu estou profundamente
+convicto do contrario. Foi a disciplina philosophica que
+deu a Herculano o mais excellente methodo no modo de
+escrever historia; foi ella que fez com que o nosso
+grande historiador procedesse sensatamente, começando
+pelo exame rigoroso dos documentos, passando á anályse
+exacta e minuciosa dos factos e por fim á generalização
+philosophica, de que elle usou com a devida sobriedade.
+Os historiadores que, em vez de ter o maximo rigor na
+investigação dos acontecimentos, enchem a historia de<span class="pn">{24}</span>
+syntheses phantasticas e plagiadas, é que revelam falta
+de disciplina philosophica.</p>
+
+<p>O methodo seguido por Herculano está em perfeita
+harmonia com as doutrinas de um dos maiores luminares
+da philosophia, o grande Bacon, que sustentava que
+a generalização se devia fazer vagarosamente, considerando
+as syntheses feitas á pressa como um grande
+obstaculo ao progresso das sciencias e uma causa poderosa
+da multiplicação das polemicas.</p>
+
+<p>Só um genio historico verdadeiramente prodigioso
+como Herculano, poderia realizar em Portugal o que lá
+fóra se fez com muito mais elementos. O eminente historiador
+estava num pais atrazadissimo em estudos historicos
+e philosophicos, num pais em que uma parte do
+clero ora roubava documentos ora se recusava energicamente
+a entregá-los, num pais em que os monumentos
+historicos dispersos pelas collegiadas e mosteiros desappareceriam
+completamente se Herculano os não tivesse
+colligido. Póde alguem, diz Oliveira Martins, avaliar o
+trabalho do obreiro sem ferramenta nem trabalho são?</p>
+
+<p>O amor da verdade e da justiça predominava de tal
+modo em Herculano que seria capaz de sacrificar-lhe
+todos os outros affectos do seu coração; elle punha a
+verdade acima de tudo. Herculano nunca teve em mira
+sacrificar a sua consciencia ao serviço de qualquer seita
+ou partido; no seu rigoroso espirito a paixão pela
+verdade estava acima da religião e do patriotismo. A
+grande imparcialidade com que Herculano apreciava
+não só os papas mas tambem aquelles homens a quem
+a igreja canonizou, mostra-nos evidentemente que o espirito<span class="pn">{25}</span>
+catholico não suffocou nelle a paixão mais nobre
+do verdadeiro historiador, o amor da verdade. O seguinte
+trecho do segundo volume da <em>Historia de Portugal</em>
+é uma prova da veracidade da minha asserção:</p>
+
+<p>«Ao passo que um homem de genio, Innocencio
+<small>III</small>, se assentava no solio pontificio para manter a acção
+da jerarchia sacerdotal, surgiam da obscuridade outros
+dous homens que haviam de hasteiar de novo a bandeira
+da abnegação e fazer abraçar pelos seus sectarios
+a rigorosa pobreza repellida das congregações monasticas,
+instituindo em frente d'ellas as congregações mendicantes.
+Ninguem ignora os nomes d'estes dous individuos:
+Francisco de Assis e Domingos de Gusmão:
+aquelle, humilde mas abastado burguês italiano que,
+depois de convertido ao mysticismo, seguia com tanto
+ardor a vereda da mortificação como antes seguira a
+espaçosa estrada dos deleites; este, nobre e altivo hespanhol,
+já revestido de dignidades ecclesiasticas e que
+se arrojara á grande empreza da reforma sem perder
+os caracteres da sua raça. Austero e inflexivel, homem
+cujos avós pelejaram sempre contra os sarracenos com
+o ferro numa das mãos e o facho do incendio na outra,
+dir-se-hia que mal sabe combater de diverso modo os
+que não crêem como elle. A sua exaltação religiosa é
+intolerante: a luz suave do Evangelho não póde vê-la
+senão reflexa na espada polida, senão retincta em sangue.
+O gemido do hereje no patibulo é para elle um
+hymno ao manso cordeiro do Calvario: para elle o algoz
+exerce um sacerdocio.»</p>
+
+<p>Neste eloquentissimo parallelo, um dos mais concisos,<span class="pn">{26}</span>
+energicos e claros de todas as litteraturas, mostra-nos
+Herculano a profunda differença que houve entre
+os fundadores das duas ordens dos franciscanos e dominicanos.
+O fanatismo do terrivel S. Domingos de Gusmão
+foi por elle estigmatizado num estylo vigorosamente
+poetico; o facto da igreja ter posto este homem
+feroz, cruel e sanguinario no numero dos santos não
+impediu Herculano de pintá-lo com toda a fidelidade.</p>
+
+<p>É de admirar que, referindo-se o eminente historiador
+a estes dois vultos da igreja, não fizesse a mais
+leve menção do santo mais popular para os portugueses,
+de Santo Antonio, que não só pertenceu á ordem
+franciscana mas tambem viveu no reinado de D. Affonso
+<small>II</small> e cuja gloria o clero português quasi que olvidou
+durante seculos deixando-o envolto na lenda milagreira
+e chegando apenas a occupar-se dos seus escriptos e a
+enaltecer a sua influencia social quando pretendeu fazer
+manifestações reaccionarias e jesuiticas. Estou profundamente
+convicto de que, se o grave historiador,
+apesar de ser eminentemente christão e patriota, não
+se occupou do referido santo, é porque, relativamente
+a esta gloria nacional, não encontrou nos cartorios que
+tão activamente revolveu documentos que satisfizessem
+o seu espirito extremamente severo e rigoroso. Aquelle
+grande philosopho, a quem o sr. Theophilo Braga chama
+catholico ferrenho, punha sempre o amor da verdade
+acima do proprio catholicismo. Até no modo de considerar
+a religião christã se revela a poderosa autonomia
+da sua vasta e profunda intelligencia. Com que energia
+não combateu Herculano as ambições clericaes, a politica<span class="pn">{27}</span>
+da igreja! O catholicismo, que elle apreciava não
+só poeticamente mas tambem debaixo do aspecto prático,
+não o impediu de tirar conclusões, como pretende o auctor
+da <em>Historia do romantismo</em>. O espirito de Herculano
+era ainda mais positivo do que o de alguns positivistas
+que se deixam seduzir pelas miragens da sua imaginação
+e muitas vezes da imaginação alheia.</p>
+
+<p>Nas Questões de litteratura e arte diz o sr. Theophilo
+Braga que as primeiras impressões do espirito de
+Herculano o tornaram um padre por dentro. Porque motivo
+o distincto escriptor não deu este epitheto a tantos
+outros portugueses illustres que não só foram catholicos
+mas nunca luctaram com os padres, nunca ousaram
+combater energicamente a reacção ultramontana e o
+jesuitismo, nunca se preoccuparam com os progressos
+que a Companhia de Jesus tem feito em Portugal? Que
+um homem rude, sem instrucção, tendo apenas algumas
+idéas superficiaes ministradas pelo jornalismo politico,
+chegue a confundir a religião com o jesuitismo, isso
+não me admira; o que me causa verdadeiro assombro,
+o que me impressiona muito desagradavelmente é que
+o sr. Theophilo Braga, cujo talento é assás notavel,
+procure deprimir Herculano dando-lhe o epitheto de padre.
+O grande lyrico João de Deus, vivendo numa epocha
+menos religiosa, foi um catholico fervoroso que
+nunca desagradou ao clero como Alexandre Herculano;
+mas quem se lembrou de dar ao espontaneo, singelo e
+mavioso poeta do <em>Campo de flores</em> o epitheto de padre?
+Almeida Garrett, o glorioso reformador do theatro nacional,
+escreveu um elegantissimo tratado de educação,<span class="pn">{28}</span>
+onde não se revela menos catholico do que Herculano;
+todavia qual foi o critico que procurou deprimi-lo chamando-lhe
+padre? Não me consta que alguem désse este
+epitheto nem a Rebello da Silva por ter sido o auctor
+dos <em>Fastos da Igreja</em> nem a Camillo Castello Branco por
+haver escripto uma obra religiosissima, a <em>Divindade de
+Jesus</em>. A seguirmos a critica do sr. Theophilo Braga, não
+só poderiamos affirmar que o mosteiro dos Jeronymos
+ficaria em breve repleto de padres se quizessemos continuar
+a trasladar para aquelle sumptuoso monumento
+os restos mortaes dos nossos grandes homens, mas tambem
+dariamos o referido epitheto á maior parte desses
+genios prodigiosos cujos descobrimentos scientificos contribuiram
+tão poderosamente para o progresso da humanidade
+como Kepler, Newton, Leibnitz, Pascal, Descartes,
+Claude Bernard, Pasteur e tantos outros, cujo espirito
+eminentemente religioso é bem notorio.</p>
+
+<p>Herculano era da maxima tolerancia para com aquelles
+cujas opiniões divergiam das suas; não admittia
+restricções para a livre manifestação do pensamento.
+Foi um catholico liberal como o celebre historiador e
+theologo allemão Doellinger, que fazia d'elle o mais alto
+conceito e o admirava enthusiasticamente, consultantando-o
+sobre muitos pontos historicos e chegando a
+occupar-se, nos Annaes historicos de Munich, da vida e
+obras do nosso eminente prosador, a quem fez os maiores
+elogios. Na questão religiosa, Doellinger, o grande
+historiador da igreja, um dos mais profundos theologos
+da Allemanha, desempenhou um papel semelhante ao
+de Herculano; foi o denodado campeão do partido dos<span class="pn">{29}</span>
+velhos catholicos allemães, que ousaram arrostar as
+furias de Roma; como escriptor e lente de theologia,
+exerceu um grande prestigio no seu pais, combatendo
+energicamente as novas modificações feitas no christianismo
+e procurando assim desviar a mocidade catholica
+allemã da influencia nefasta dos jesuitas; por isso
+era mal visto em Roma, era detestado pelo partido jesuitico,
+pelos sectarios do neo-catholicismo.</p>
+
+<p>Herculano foi o adversario mais temivel que os jesuitas
+tiveram em Portugal; era dentro do christianismo
+que elle os combatia com o maximo vigor; os seus vastos
+e profundos conhecimentos de theologia e de historia
+ecclesiastica foram as armas mais poderosas por elle
+manejadas para demonstrar os erros dos ultramontanos
+e a grande differença que existia entre as doutrinas jesuiticas
+e as que haviam professado os christãos dos
+primeiros seculos; era expondo lucidamente as opiniões
+dos Padres da Igreja e dos antigos papas que elle dava
+os golpes mais profundos na Companhia de Jesus e no
+partido ultramontano. Na verdade os jesuitas têm-se
+afastado tanto da igreja primitiva que não é mister
+sair do christianismo para combatê-los; é com o Evangelho
+na mão que mais solidamente se podem refutar
+os seus erros gravissimos. O Manifesto da Associação
+popular promotora da educação do sexo feminino, redigido
+por Herculano, o qual se acha inserto no segundo
+volume dos <em>Opusculos</em>, é a obra mais eloquente e profunda
+que em Portugal se tem escripto contra a educação
+jesuitica; é um livro que deve ser lido por todos
+aquelles que ainda se preoccupam com o futuro da<span class="pn">{30}</span>
+nossa patria e prezam a moralidade da familia portuguesa.
+D'este brilhante opusculo vou reproduzir o seguinte
+trecho, que é sem duvida um dos mais eloquentes
+que se têm escripto em todas as linguas:</p>
+
+<p>«O procedimento dos poderes publicos durante dez
+annos e as suas tristes hesitações na actual conjunctura
+legitimam, santificam a nossa resolução; porque se trata
+do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento
+moral da familia. Uma lei d'esta terra, uma lei
+de sete seculos, uma lei cuja duração representa um
+profundo sentimento de honra, diz que se póde ser homicida
+sem crime quando a prostituição do adulterio
+vai ennodoar o seio da familia. É que a familia é a molecula
+social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se
+num monte de podridão. Vamos muito menos longe
+que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminarios
+da reacção não se hostiliza só a liberdade: ensina-se
+tambem a revelar á donzella e á mãe de familia
+delicias mais monstruosos que o adulterio. Defendemos
+nossas mulheres, nossas irmãs, nossas filhas: defendemos
+as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de
+vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia,
+o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos,
+não tergiversamos; a nossa linguagem é simples
+e explicita como as nossas intenções.»</p>
+
+<p>Herculano foi inimigo acerrimo da hypocrisia e do
+fanatismo; o seu culto era incomparavelmente mais interno
+do que externo; pela contemplação da natureza é
+que elle principalmente se elevava á idéa de Deus.</p>
+
+<p>Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano mandou<span class="pn">{31}</span>
+construir uma capella em Valle de Lobos. Isso não admira
+porque, sendo Herculano toda a vida um grande
+poeta, como o revelam as suas obras tanto em verso
+como em prosa, devia comprazer-se em ter deante dos
+olhos objectos que lhe recordassem os bellos e saudosos
+tempos da sua infancia. Na casa onde Herculano nasceu
+e passou os seus primeiros annos havia uma ermida
+onde um frade arrabido costumava dizer missa
+os dias-santos. No <em>Monge de Cister</em> pinta-nos elle com
+as mais vivas côres a profunda saudade que lhe causava
+a lembrança dos dias-santos da sua infancia,
+do altar onde no sabbado á noite se punham jarras de
+flores, do frade que lhe contava lindas historias ao almoço.
+Os verdadeiros poetas, os grandes sentimentalistas
+amam sempre o passado. Os homens demasiadamente
+positivos não podem comprehender o sentimentalismo
+vehemente das grandes almas. Se a cruz era para Herculano
+o symbolo da liberdade, da fraternidade e do
+progresso, não é de admirar que elle a amasse entusiasticamente,
+como o revelou na sua eloquente e philosophica
+poesia <em>A cruz mutilada</em>, escripta na sua mocidade.
+O ter mandado Herculano construir uma capella
+em Valle de Lobos não é pois uma prova de que o seu
+espirito retrocedesse com a edade. Alem d'isso o grande
+escriptor não deixou de ser christão em epocha alguma
+da sua vida. Rousseau, a quem os padres chamam
+impio, nunca zombava da religião como Voltaire. É porque
+o auctor do <em>Emilio</em> era um sentimentalista ardente
+como Herculano. Littré, apesar de positivista, não queria
+perturbar sua mulher quando ella estava deante do oratorio<span class="pn">{32}</span>
+fazendo oração. Foi a instancias de sua esposa que
+Herculano mandou construir a capella de que já fiz
+menção. Ainda que elle não fosse catholico, haveria
+porventura neste procedimento alguma cousa digna de
+censura? O verdadeiro philosopho, o amigo da tolerancia
+e da liberdade conserva sempre no seu coração o
+mais profundo respeito pelas crenças alheias. A liberdade
+de consciencia é um dos principios mais sacrosantos,
+um dos direitos mais sagrados, não só na sociedade
+mas até no lar domestico, no sanctuario da familia. O
+chefe de familia não é um despota nem a mulher uma
+escrava. A religiosidade é uma tendencia natural da
+mulher, a crença é uma das condições da sua vida moral;
+se quizerem extinguir-lhe no coração o sentimento
+religioso, lançar-se-ha no caminho do jesuitismo, o que
+certamente será um grande mal para a familia e para
+a sociedade. A religião é um instrumento poderoso nas
+mãos do jesuita; quem conseguir arrancar-lhe esta arma
+prestará incontestavelmente um grande serviço ás
+gerações futuras. É por meio da propaganda verdadeiramente
+religiosa que se dão os golpes mais profundos
+na Companhia de Jesus. A religião nasce do coração e
+a philosophia da intelligencia. Se a mulher é mais dominada
+pelo sentimento do que pela idéa, como poderá
+ella comprehender systemas philosophicos que estejam
+em antagonismo com o seu estado psychologico, com as
+grandiosas aspirações do seu nobre coração? Embora
+todas as opiniões sinceras sejam para mim respeitaveis,
+eu entendo que, em vez de se aggredir o christianismo,<span class="pn">{33}</span>
+falsificadores, que são os jesuitas e todos os padres cujas
+doutrinas sejam identicas ás dos filhos de Loyola.</p>
+
+<p>Herculano, com a sua crença religiosa, ficou profundamente
+impressionado pelos estragos que a Companhia
+de Jesus fazia no christianismo; por isso mostra-nos,
+em muitas das suas paginas immortaes, quão perigosa
+é para o futuro da nossa patria essa sociedade fundada
+no seculo dezaseis por Santo Ignacio de Loyola e cujas
+intrigas obrigaram a sair de Portugal os lentes mais
+distinctos da Universidade de Coimbra. Na prosa mais
+poetica e viril que nos apresenta a nossa litteratura, expoz
+e criticou os factos mais interessantes da historia
+do ultramontanismo; com a sua vista de aguia previu
+os progressos que o jesuitismo havia de fazer em nossos
+dias.</p>
+
+<p>O sr. Theophilo Braga censura a Herculano o seu
+ardor em combater o jesuitismo e os novos dogmas introduzidos
+na religião catholica, dizendo que elle dispendeu
+as suas forças contra os moinhos de vento do
+marianismo, do infallibilismo e do syllabismo e que o
+jesuitismo se tornou para elle uma preoccupapão constante;
+mas, como o auctor da <em>Historia do romantismo</em>
+se tem occupado dos mesmos assumptos, é evidente
+que escreve contra si proprio, o que me causa verdadeiro
+pasmo. Alem d'isto a censura feita a Herculano
+recae sobre a propria imprensa republicana, que muito
+frequentemente narra e estigmatiza escandalos jesuiticos.</p>
+
+<p>É o poder da igreja tão pequeno que se não devam
+combater com a maxima energia as suas doutrinas contrarias<span class="pn">{34}</span>
+ao bem social? Tem porventura o jesuitismo tão
+pouca força que se deva considerar um elemento desprezivel?
+Não tem a Companhia de Jesus progredido
+assombrosamente no nosso pais? Não estão os collegios
+jesuiticos repletos de alumnos? Leibnitz, um dos genios
+mais vastos e profundos não só da Allemanha mas de
+todo o mundo, disse muito sensatamente: «Dae-me a
+educação, que eu transformarei a Europa em menos de
+um seculo.» Alexandre Herculano, com o seu profundo
+criterio, conhecia a grande força da educação; por isso
+receava que o jesuitismo viesse causar a decadencia
+intellectual e moral da sua patria.</p>
+
+<p>A moral perversa dos jesuitas foi no seculo dezasete
+posta a descoberto não por um impio, não por um
+atheu, mas por um dos mais eloquentes e profundos
+apologistas do christianismo, por um genio prodigioso
+que, depois de ter feito os mais assombrosos descobrimentos
+scientificos, depois de ter penetrado varios segredos
+da natureza, depois de ter resolvido os mais
+difficeis problemas da mathematica, levantou, em favor
+do christianismo, esse grandioso monumento philosophico
+intitulado <em>Pensamentos</em>, que, apesar de ter ficado
+incompleto, revela a profundeza do genio que o traçou;
+este grande homem, este escriptor religiosissimo, este
+moralista austero, que se chamava Blaise Pascal, foi
+quem mais poderosamente contribuiu para a queda dos
+jesuitas no seculo dezoito. As suas <em>Provinciaes</em>, escriptas
+num estylo comico e vigoroso, espalharam-se por
+toda a Europa e as maximas corruptas dos jesuitas foram
+ridicularizadas não só nas academias mas até nos<span class="pn">{35}</span>
+palacios dos reis. Como poderia Herculano, o enthusiasta
+ardente da moral pura e severa do Evangelho, deixar
+de combater energicamente as doutrinas anti-christãs
+da seita jesuitica?</p>
+
+<p>Diz o sr. Theophilo Braga que Herculano, depois
+de se mostrar partidario do casamento civil, veiu a casar-se
+catholicamente; o distincto professor acha este
+procedimento contradictorio com as opiniões de Herculano.
+Quando, ao ler a <em>Historia do romantismo</em>, encontrei
+esta asserção tão infundada, fiquei realmente
+estupefacto. O sr. Theophilo Braga inverte completamente
+as doutrinas de Herculano, expostas com tanta
+lucidez nos seus <em>Estudos sobre o casamento civil</em>, e
+colloca-se a uma distancia que lhe torna impossivel
+apreciá-lo com exactidão.</p>
+
+<p>Não ha escripto algum em que Herculano tivesse
+combatido o casamento catholico; pelo contrario, elle
+admittia duas especies de casamento: o catholico e o
+civil. O que repugnava ao seu espirito profundamente
+liberal e tolerante é que os individuos que não acreditassem
+no catholicismo se vissem obrigados a receber
+o sacramento do matrimonio, a praticar um acto contrario
+ao seu modo de pensar e que elle considerava
+um verdadeiro sacrilegio, uma offensa á religião. Se
+Herculano era um velho catholico, se elle estava convicto
+de que o sacramento do matrimonio remontava
+aos primeiros seculos do christianismo, como procedeu
+o grande historiador contra as suas opiniões casando-se
+catholicamente? Herculano nunca defendeu leis que
+prohibissem a qualquer individuo o seguir as suas crenças,<span class="pn">{36}</span>
+tinha o mais profundo respeito pela liberdade de
+consciencia, era inimigo de todas as violencias feitas
+ao espirito humano, queria liberdade para todos, não
+era intolerante como os hypocritas da liberdade, que
+não respeitam a consciencia alheia. Herculano sustentou
+que devia existir um registo civil especial para os casamentos
+dos não catholicos, não admittindo que os
+nubentes fossem interrogados ácerca das suas crenças
+religiosas, o que, segundo a sua opinião, seria um attentado
+contra a liberdade de consciencia, um processo
+verdadeiramente inquisitorial. Quanto ao casamento catholico,
+considerava-o debaixo de dois aspectos: como
+sacramento e como contracto. Estando num país, cuja
+maioria era constituida por catholicos, admittia que o
+registo ecclesiastico servisse de registo civil. Era assim
+que o grande historiador procurava conciliar o principio
+sacrosanto da liberdade de consciencia com o respeito á
+religião do estado. Sejam quaes forem as opiniões ácerca
+das doutrinas sustentadas por Herculano relativamente
+ao casamento civil, é incontestavel que não ha
+fundamento algum para se affirmar que o seu casamento
+catholico esteve em contradicção com as suas idéas.</p>
+
+<p>O seguinte trecho dos <em>Estudos sobre o casamento
+civil</em> é uma prova evidente de quanto é inexacta a
+opinião do sr. Theophilo Braga:</p>
+
+<p>«O catholicismo puro e desinteressado não tem culpa
+d'esta horrivel e immensa traição que nas altas regiões
+da jerarchia sacerdotal se está perpetrando contra elle.
+Não tem culpa de que o vendam por trinta dinheiros ao
+anjo mau da reacção politica. O catholicismo não quer<span class="pn">{37}</span>
+que forcem os que não crêem nelle a receber um sacramento,
+porque não pede um acto que lhe repugna,
+que reputa uma profanação; não pede que os poderes
+publicos constranjam os membros do proprio gremio a
+não peccarem, porque a inquisição é para elle a maior
+affronta que lhe têm feito os homens. O catholicismo
+puro não confunde o sacramento, que é cousa espiritual,
+com o contracto, que é materia juridica, porque
+desde os tempos apostolicos, conforme temos visto, jámais
+os confundiram as tradições legitimas da igreja.
+Considerada a questão á exclusiva luz do direito, o sacerdote
+que auctorisa o contracto e o abençoa é, no
+primeiro caso, official civil, e no segundo, ministro da
+religião. É uma cousa simples, clara, inoffensiva. Em
+nome da liberdade, deixemo-la ficar na lei.»</p>
+
+<p>O sr. Theophilo Braga tambem cae noutra inexactidão
+dizendo que Herculano, tendo-se manifestado contra
+o direito de propriedade litteraria, se contradisse vendendo
+o manuscripto do <em>Diccionario</em> que o conselheiro
+Ramalho lhe deixára. Mas onde é que Herculano confundiu
+a innegavel propriedade de um livro, de um
+manuscripto ou de qualquer objecto tangivel com o que
+se chama propriedade litteraria?</p>
+
+<p>A questão da propriedade litteraria é uma d'essas
+questões altamente transcendentes em que ha grande
+divergencia de opiniões; Herculano tratou-a com muita
+profundeza e originalidade, revelando o seu espirito
+eminentemente philosophico, a sua vigorosa dialectica.
+Ha certamente mais de uma opinião ácerca das suas
+doutrinas, mas o que nenhum critico imparcial poderá<span class="pn">{38}</span>
+affirmar é que entre ellas e a venda do <em>Diccionario</em> de
+Ramalho á Academia existiu a minima contradicção.</p>
+
+<p>Herculano foi de uma coherencia admiravel nas
+opiniões religiosas, philosophicas e politicas que manifestou
+em toda a sua vida. Só quem interpretrar mal as
+suas palavras poderá affirmar o contrario. O seu espirito,
+que amava ardentemente a luz, nunca deixou de progredir.</p>
+
+<p>Diz o sr. Theophilo Braga que foi o ataque do clero
+por causa da suppressão do milagre de Ourique que fez
+com que Herculano de catholico ferrenho se tornasse
+um christão semi-deista; isto está de accordo com o
+que tenho ouvido dizer a alguns padres, relativamente
+aos escriptos em que Herculano condemna a proclamação
+dos novos dogmas da infallibilidade do papa e da
+immaculada Conceição de Maria. Tudo quanto dizem os
+adversarios de Herculano a este respeito é completamente
+falso: nem são capazes de apresentar prova alguma
+em favor de tal asserção.</p>
+
+<p>O caracter de Herculano foi muito superior ao do
+padre Lamennais, que, tendo defendido com muita eloquencia,
+no seu «Ensaio» sobre a indifferença em materia
+religiosa e noutros escriptos, as doutrinas ultramontanas
+mais retrogadas, abraçou quasi de repente o racionalismo
+depois que lhe foram condemnadas algumas
+obras. Este padre, tão notavel pelo seu talento litterario
+e philosophico, não recebeu na infancia uma educação
+religiosa como Herculano; só aos vinte e dois
+annos é que fez a primeira communhão: póde haver
+por consequencia muitas duvidas ácerca da sua sinceridade.<span class="pn">{39}</span>
+Mas o espirito de Herculano não passou por transformações
+tão bruscas; em nenhuma epocha da sua
+vida se mostrou partidario do ultramontanismo; nunca
+defendeu a infallibilidade do papa; até nas suas poesias
+simultaneamente religiosas, philosophicas e liberaes,
+onde estão profundamente gravados os sentimentos
+e idéas da sua ardente mocidade, transluzem referencias
+aos padres hypocritas e fanaticos.</p>
+
+<p>Na <em>Harpa do crente</em>, nessa magnifica colleccão de
+poesias em que se revela um grande poeta, um profundo
+metaphysico, um christão ardente e um patriota
+liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem
+parte do seu bello e magestoso hymno intitulado <em>Deus</em>
+e nos quaes certamente faz allusão áquelles padres que,
+pondo em pratica a mais ignobil hypocrisia e tendo em
+mira exercer sobre a plebe fanatica o seu dominio nefasto,
+procuravam aterrorizá-la com a pintura horrivel
+dos tormentos infernaes:</p>
+
+<blockquote>
+<p>«Embora vis hypocritas te pintem<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Qual barbaro tyranno<br>
+Mentem, por dominar com ferreo sceptro<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O vulgo cego e insano.<br>
+Quem os crê é um impio! Recear-te<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É maldizer-te, oh Deus;<br>
+É o throno dos despotas da terra<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Ir collocar nos céus.<br>
+Eu, por mim, passarei entre os abrolhos<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dos males da existencia<br>
+Tranquillo, e sem temor, á sombra posto<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Da tua Providencia.»<span class="pn">{40}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>O Deus de Herculano não é terrivel como o d'aquelles
+inquisidores que fizeram derramar tantas lagrimas,
+que condemnaram á morte mais horrivel tantos milhares
+de innocentes e procuravam abafar com o sangue
+de tantos martyres a idéa que procurava expandir-se.
+O Deus de Herculano não é o Deus que os jesuitas pintam
+como um tyranno para satisfazerem a sua infrene
+e desordenada ambição, para dominarem a sociedade,
+para converterem o mundo num montão de cadaveres,
+sobre cujas ruinas se assentariam com um riso hypocrita,
+satanico e cruel. O Deus de Herculano é o Deus
+de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus
+que derrama os seus copiosos beneficios sobre os justos
+e os peccadores, é o Deus de Fénelon e de Lamartine,
+é o Deus das almas generosas e puras, como elle proprio
+o confessa no seu eloquente e philosophico poemeto
+<em>A semana santa</em>, escripto quando apenas tinha dezanove
+annos.</p>
+
+<p>Ninguem em Portugal ainda defendeu com tanta
+eloquencia o espiritualismo christão como Herculano,
+mas é principalmente debaixo do aspecto pratico que
+elle o considera; pode-se até affirmar que Herculano foi
+um dos escriptores mais positivos que Portugal tem
+produzido em todos os seculos: é pelo lado pratico, é
+baseando-se em factos que elle encara especialmente
+todas as questões religiosas, philosophicas e politicas;
+por isso a convicção que produz no animo dos leitores
+é profundissima; sem se engolphar nas mais transcendentes
+abstracções metaphysicas, que muitas vezes são
+inuteis, nem cair nas syntheses abstrusas e nebulosas,<span class="pn">{41}</span>
+que falsificam o criterio, analysa os factos com tal clareza
+e severidade, que neste ponto ainda ninguem o excedeu
+nem egualou em Portugal; não se deixa arrastar
+pela imaginação como alguns positivistas; possue no
+mais alto grau uma qualidade bastante recommendavel:
+o bom senso.</p>
+
+<p>Herculano pouca importancia ligou á discussão ácerca
+da parte dogmatica do christianismo; o que lhe attrahiu
+principalmente a attenção foi a moral christã.
+Sejam quaes forem as opiniões ácerca d'esta materia, o
+que é certo é que nenhum critico sensato póde contestar
+a Herculano a pureza das intenções. O grande escriptor
+prentendia fazer d'este povo um povo simultaneamente
+instruido e moralizado.</p>
+
+<p>Se algumas vezes se refere aos dogmas do christianismo,
+foi ora para mostrar a conveniencia pratica da
+immutabilidade da fé, ora para combater o jesuitismo,
+que se ia alastrando em Portugal e cuja influencia chegou
+a ser tão poderosa em Roma que obrigou o papa
+Pio <small>IX</small> e a maioria dos bispos do mundo catholico a modificar
+profundamente o christianismo, a proclamar como
+dogmas o marianismo e o infallibilismo, que Herculano
+considerava duas heresias, a romper com as tradições
+apostolicas, a tornar o catholicismo muito differente do
+de S. Paulo e Santo Agostinho e a condemnar os principios
+sacrosantos da liberdade no concilio do Vaticano,
+nesse concilio que é a pagina mais negra e vergonhosa
+da historia ecclesiastica no seculo dezanove.</p>
+
+<p>Entre as opiniões religiosas que Herculano manifestou
+no seu eloquente opusculo ácerca da suppressão das<span class="pn">{42}</span>
+conferencias do Casino, escripto no anno de mil e oitocentos
+e setenta e um, isto é, seis annos antes da sua
+morte, e as que havia exposto nos primorosos artigos
+ácerca do christianismo, publicados no <em>Panorama</em> muitos
+annos antes do clero ignorante e reaccionario o ter insultado
+nos pulpitos por causa da suppressão do milagre
+de Ourique, não existe a minima contradicção, o que
+prova cabalmente que não ha rasão alguma para que
+se diga que foi o ataque do clero que levou Alexandre
+Herculano a ser adversario do neo-catholicismo, o que
+seria contrario ao elevadissimo caracter do grande escriptor,
+cujas convicções eram profundas e firmes e que
+punha sempre o amor da verdade acima de todas as
+vinganças, como o revelou na <em>Tentativa historica da
+origem e estabelecimento da inquisição em Portugal</em>,
+obra que o sr. Theophilo Braga, no seu <em>Curso de litteratura</em>
+portuguesa, qualifica de capital e cuja exactidão
+scientifica é tão notavel que levou o eximio orador
+sagrado, o sr. Alves Mendes, a chamar no pulpito a
+Herculano o severo analysta da <em>Historia da Inquisição</em>.
+A grande imparcialidade com que Herculano escreveu
+esta obra monumental depois de ser ignobilmente injuriado
+por uma grande parte do clero, mostra-nos quão
+elevado era o seu caracter. Não se devem fazer affirmações
+em desabono de um morto illustre, cuja voz
+emmudeceu no tumulo, sem que se possa demonstrar
+cabalmente o que se affirma.</p>
+
+<p>Herculano era a logica personificada. Depois de admittir
+um principio tirava d'elle as consequencias com
+o maximo rigor. Nos seus escriptos não é facil achar<span class="pn">{43}</span>
+contradições. Se por vezes modifica as suas opiniões,
+é o proprio auctor quem o confessa com toda a franqueza
+e sinceridade, o que é a prova mais evidente
+do seu altissimo caracter. O sr. Theophilo Braga pretende
+apresentar-nos Herculano como um espirito incoherente
+e voluvel, mas quem, depois da leitura da <em>Historia
+do romantismo</em>, ler as obras do mais eminente
+historiador que Portugal tem produzido, ficará á primeira
+vista profundamente convicto de que a sua firmeza
+de convicções foi tão rara e admiravel que poucos escriptores
+em todo o mundo o teem egualado neste ponto.</p>
+
+<p>No anno de 1843, isto é, tres annos antes da publicação
+do primeiro volume da <em>Historia de Portugal</em>,
+escreveu Herculano no <em>Panorama</em> um excellente artigo
+ácerca do christianismo e da philosophia, onde mostra
+não só a grande discordancia que tem reinado entre
+os philosophos em materia de moral, mas tambem a
+constancia e immutabilidade das crenças religiosas;
+nelle se encontram os seguintes periodos:</p>
+
+<p>«Desde a moral de Platão deduzida do amor da formosura
+divina: desde a moral de Epicuro, moral negativa,
+que põe o profundo desprezo da humanidade como
+pedra angular do proceder humano: desde as escolas
+da Grecia até o materialismo grosseiro dos encyclopedistas,
+que maximas, que regra de acções deixou de
+ter altares, deixou de ser condemnada? Nenhuma.</p>
+
+<p>«Constancia, perpetuidade só teem os preceitos immutaveis
+das crenças religiosas.»</p>
+
+<p>Estes periodos eloquentissimos provam claramente
+que, antes de ser aggredido pelo clero, já Herculano<span class="pn">{44}</span>
+admittia o principio da immutabilidade da fé; era em virtude
+d'este principio que elle, sem condemnar a philosophia
+e a consciencia, que tambem considerava fontes
+das boas acções, dava a preferencia á religião como
+instrumento de moralidade.</p>
+
+<p>Na carta que Herculano escreveu ácerca da suppressão
+das conferencias do Casino encontra-se o seguinte
+trecho, que revela a sua grande e admiravel coherencia
+e onde censura o papa e os bispos catholicos não só
+pela profunda modificação que fizeram nas doutrinas da
+igreja primitiva mas tambem pela condemnação dos
+principios sacrosantos da liberdade:</p>
+
+<p>«Desde a promulgação da Carta tem-se realisado gradualmente
+uma revolução na igreja catholica. Com assombro
+da gente illustrada e sincera, vimos transformar
+em dogma uma superstição dos seculos de trevas, rendoso
+mealheiro de franciscanos, tinctura de pelagianismo,
+aproveitada hoje para aviar receitas na botica de S.
+Ignacio, a immaculada conceição de Maria, dogma que
+forçadamente conduz ou á ruina do christianismo pela
+base, tornando inconcebivel a Redempção, ou á deificação
+da mulher, á mulher Deus, á mulher redemptora,
+recurso tremendo nas mãos do jesuitismo, que, lisongeando
+a paixão mais energica do sexo fragil, a vaidade,
+o converte em instrumento seu para dilacerar e
+corromper a familia, e pela familia a sociedade. Depois,
+ludibrio d'esses homens de trevas, vemos o papa, celebrando
+uma especie de concilio disperso, mandar perguntar
+pelas portas dos bispos que tal acham aquelle
+appendiculo á fé catholica. Os bispos, pela maior parte,<span class="pn">{45}</span>
+encolhem os hombros ou riem-se, dizem-lhe que está
+vistoso e vão jantar. Depois, os que falam em nome do
+pontifice, tendo tornado virtualmente absurdo, por inutil,
+o sacrificio do Golgotha para a redempção da humanidade,
+ou dando ao Christo um adjuncto na sua obra
+divina, divertem-se em negar no Syllabus os dogmas,
+um pouco mais verdadeiros, da civilização moderna, e
+tendo elevado o erro, apenas tolerado, e ainda mal que
+tolerado, nos dominios do opinativo, a dogma indisputavel,
+e sanctificado assim uma opinião peor que ridicula,
+convidam a sociedade temporal á guerra civil. É a
+Companhia de Jesus na sua manifestação mais caracteristica.
+Os principios da Carta, como de todas as constituições
+analogas, são condemnados, anathematisados,
+exterminados in petto.</p>
+
+<p>«É a communa de Paris, perfigurada em Roma, a arrasar
+e queimar, em vez de edificios, todas as conquistas
+do progresso social, todas as verdades fundamentaes da
+philosophia politica. Ao concilio vagabundo segue-se
+então o concilio parado. É que falta ao Syllabus a sancção
+divina. Dar-lh'a-ha a infallibilidade indossada pelo
+episcopado ou á sua ordem. Ajuntam-se não sei quantos
+bispos, muitos bispos; uns reaes, outros pintados: aggremiam-se;
+e o papa pergunta ao gremio, em vez de
+o perguntar a si mesmo, se é infallivel. Os bispos tornam
+a encolher os hombros ou a rir-se, dizem-lhe que
+sim e vão ceiar. O papa infallivel, que não sabia se
+era fallivel, fica emfim, descançado, e os bispos ceiados,
+dormidos e desappressados do <em>visum est Spiritui
+Sancto et nobis</em> do concilio apostolico de Jerusalem,<span class="pn">{46}</span>
+transferido definitivamente para a Casa-professa, voltam
+a annunciar aos respectivos rebanhos essa nova correcção
+das erroneas doutrinas da primitiva igreja.</p>
+
+<p>«Taes são os deploraveis e incriveis successos que
+temos presenciado. O jesuitismo converte o infeliz Pio
+<small>IX</small> num Liberio ou num Honorio, induzindo-o a subscrever
+heresias, e a grande maioria dos bispos, creando
+na igreja uma situação analoga á dos tempos em que o
+arianismo dominava por toda a parte, e abandonando a
+maxima sacrosanta da immutabilidade da fé, tornam-se
+em arautos e pregoeiros dos desvarios de Roma. As novidades
+religiosas vêm perturbar as consciencias, e o
+marianismo e o infallibilismo quasi levam o christianismo
+de vencida na igreja catholica.»</p>
+
+<p>Neste trecho energico e ao mesmo tempo graciosamente
+satyrico revela-se o espirito logico e intransigente
+de Herculano; não ha ninguem que seja capaz
+de provar que entre as idéas nelle expendidas e as crenças
+religiosas da sua mocidade existe o menor antagonismo.
+Herculano permaneceu fiel ao velho catholicismo;
+foi a igreja quem introduziu novidades na religião;
+foi ella quem deixou de observar a maxima da immutabilidade
+da fé, que Herculano considerava sacrosanta,
+e que durante muitos seculos foi seguida pela grande
+legião dos varões illustres da igreja, como S. Boaventura,
+S. Jeronymo e muitos outros; por consequencia
+foram os padres obedientes ao pontifice que se afastavam
+das doutrinas da igreja primitiva. O Espirito Santo
+illuminou o papa e este obrigou os fieis, sob pena de
+excommunhão, a acreditar em dogmas que d'antes não<span class="pn">{47}</span>
+existiam e sem os quaes se podia muito bem entrar no
+ceu. Os padres chamavam hereje a Herculano mas este,
+por sua vez, considerava heresias todas as novidades
+introduzidas na religião catholica. Pio nono era para
+elle um verdadeiro hereje, um inimigo acerrimo do
+christianismo puro, um instrumento da Companhia de
+Jesus.</p>
+
+<p>O Chateaubriand português, o defensor mais eloquente
+que o christianismo teve em Portugal e cujo merito
+litterario é comparavel ao de S. Paulo e Santo Agostinho,
+foi tambem o adversario mais implacavel do jesuitismo
+e da reacção ultramontana. O sublime auctor da <em>Harpa
+do crente</em> e do <em>Parocho d'aldeia</em> recebeu do beaterio
+fanatico e d'aquelles hypocritas para quem a religião é
+apenas um instrumento de politica os epithetos de impio,
+de irreligioso, de anti-christão e até de atheu. É
+porque entre a religião de Herculano e a religião dos
+jesuitas ha uma differenca enorme e considerabilissima.
+O sentimento religioso de Herculano nascia de um coração
+puro, sincero e desinteressado; a religião era
+para elle um balsamo suave no meio das amarguras da
+existencia e a fonte mais caudal das boas acções. Pelo
+contrario, para o jesuita a religião é a arma mais poderosa
+de que se serve para corromper e dominar a
+sociedade. Herculano amava ardentemente o christianismo,
+não o christianismo impuro e falsificado dos jesuitas
+e dos neo-catholicos, não o christianismo de Santo
+Ignacio de Loyola e de S. Vicente de Paulo, mas o
+christianismo puro, o christianismo do Evangelho, essa
+religião sublime que se resume nos principios sacrosantos<span class="pn">{48}</span>
+da liberdade, egualdade e fraternidade, que, embora
+nunca se possam realizar em toda a sua plenitude, são
+as mais nobres e grandiosas aspirações do coração humano.
+Para Herculano o christianismo era o grande civilizador
+dos tempos mordernos.</p>
+
+<p>Com effeito, o que é a egualdade perante a lei senão
+uma traducção da egualdade perante Deus, proclamada
+no Evangelho? Não são porventura os povos
+christãos que caminham na vanguarda do progresso e
+da civilização? O que têm produzido as outras religiões
+senão a tyrannia e o despotismo? Que culpa tem o
+christianismo de que os padres o tenham adulterado e
+falsificado? Ha porventura alguma comparação entre os
+padres da igreja primitiva, que prégavam a liberdade
+de consciencia e a tolerancia, e os modernos jesuitas e
+lazaristas, que, em vez de explicarem ao povo as maximas
+sublimes do Evangelho, fazem consistir a religião
+principalmente nos exercicios de devoção externa?</p>
+
+<p>Poeta e philosopho ao mesmo tempo, Herculano era
+profundamente melancolico. Como Bernardin de Saint-Pierre
+e Rousseau, amava ardentemente a natureza.
+Como S. Jeronymo e S. Basilio, era apaixonado pela solidão
+campestre; comprazia-se em viver longe do bulicio
+dos homens. O amor do infinito, que abrasava o coração
+de Santo Agostinho, tambem incendiava o coração
+de Herculano.</p>
+
+<p>Alexandre Herculano foi um dos principaes representantes
+da alma portugueza. A tristeza, que tem caracterizado
+o povo português em todos as epochas, tambem
+caracterizava a grande alma de Herculano.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>O celebre critico Villemain diz que o português era
+reflectido e melancolico antes da epocha em que todos
+os povos o deviam ser. Esta meditação melancolica, que
+nos distingue dos outros povos meridionaes e nos assemelha
+aos povos do norte, revelou-se muito cedo na
+nossa litteratura.</p>
+
+<p>A profunda melancolia que se observa nas deliciosas
+paginas da <em>Menina e moça</em> de Bernardim Ribeiro e nos
+seus versos singelos e melodiosos, nas poesias sentimentaes
+de Christovão Falcão, de Camões e de Soares
+de Passos e na maravilhosa relação de naufragios intitulada
+<em>Historia tragico-maritima</em>, essa profunda melancolia
+tambem é vigorosamente expressa nas Poesias de
+Herculano e principalmente no seu magestoso, soberbo
+e sublime <em>Monasticon</em>.</p>
+
+<p>Não é, porém, só na vigorosa expressão da melancolia
+que Herculano é um dos mais notaveis representantes
+da alma portuguesa; tambem o é na poderosa
+energia com que exprime todos os sentimentos nobres
+e elevados. O amor, a coragem, o patriotismo e a generosidade
+são affectos caracteristicos do povo português;
+Herculano exprimiu-os de um modo verdadeiramente
+assombroso.</p>
+
+<p>Como Camões, foi simultaneamente poeta e soldado.
+O principe dos prosadores tem muitos pontos de contacto
+com o principe dos poetas. Camões combateu na
+Africa e na Asia em prol da patria; Herculano pelejou
+no cêrco do Porto a favor da liberdade. Camões esteve
+desterrado em Macau; Herculano viu-se obrigado a
+emigrar para se esquivar ás perseguições do governo<span class="pn">{50}</span>
+absoluto de D. Miguel. Camões, impellido pelo seu ardente
+patriotismo e pela immensidade do seu genio, escreveu
+os <em>Lusiadas</em>, narrando em bellos e magnificos
+versos os feitos mais brilhantes da nossa historia; Herculano,
+levado pelas suas tendencias especiaes para os
+estudos historicos e pelo seu grande amor da patria,
+escreveu num estylo magestoso como o de Barros, harmonioso
+como o de Fr. Luis de Sousa, vigoroso como o
+de Tacito, vernaculo como o de Vieira e singelo como
+o de Fernão Lopes, a <em>Historia de Portugal</em>, o mais
+grandioso de todos os seus monumentos, a obra mais
+eminentemente nacional que em Portugal se escreveu
+depois dos <em>Lusiadas</em>.</p>
+
+<p>O sentimento de dignidade pessoal era egual em
+ambos os escriptores. Camões nunca lisonjeou os poderosos
+no meio das maiores privações; Herculano nunca
+fez o minimo sacrificio da propria consciencia, foi sempre
+amigo da verdade e da justiça.</p>
+
+<p>Em ambos brilhou o patriotismo no mais alto grau.
+Em Camões exerceu uma impressão dolorosa o desastre
+de Alcacer-Kibir; Herculano soffreu profundamente com
+o progresso da nossa corrupção moral e com a nossa decadencia
+politica. Camões, numa carta que dirigiu a D.
+Francisco de Almeida quando Portugal estava proximo
+a perder a sua independencia, escreveu: «Em fim acabarei
+a vida, e verão todos que fui tão affeiçoado á minha
+patria que não me contentei de morrer nella mas
+com ella.» Herculano, pouco antes da sua morte, profundamente
+sensibilizado pela decadencia moral e politica<span class="pn">{51}</span>
+do seu pais, exclamou: «Isto dá vontade da gente
+morrer!»</p>
+
+<p>Na vivacidade do dialogo, na virilidade do estylo e
+no ardente enthusiasmo que transmitte aos leitores, tambem
+se assemelha Herculano ao grande épico. É admiravel
+a energia com que o nosso mais eminente romancista
+historico pinta as almas dos seus heroes, fazendo
+resurgir o espirito religioso, patriotico e guerreiro de
+epochas remotissimas. No seu pequeno mas excellente
+romance <em>O castello de Faria</em>, que faz parte das <em>Lendas
+e narrativas</em>, encontra-se o seguinte trecho, cuja eloquencia
+simples, magestosa e robusta nos traz á memoria
+as passagens mais eloquentes dos Lusiadas:</p>
+
+<p>«Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda
+inimiga e caminhou para a barbacã; todas as béstas se
+inclinaram para o chão, e o ranger das machinas converteu-se
+num silencio profundo.</p>
+
+<p>«&mdash;Moço alcaide, moço alcaide! bradou o arauto, teu
+pae captivo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento,
+adiantado da Galliza pelo muito excellente e temido D.
+Henrique de Castella, deseja falar comtigo, de fóra do
+teu castello.</p>
+
+<p>«Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou
+então o terreiro, e, chegando á barbacã, disse ao
+arauto:</p>
+
+<p>«A Virgem proteja meu pae: dizei-lhe que eu o espero.</p>
+
+<p>«O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam
+Nuno Gonçalves, e, depois de breve demora, o tropel
+approximou-se da barbacã. Chegados ao pé della, o<span class="pn">{52}</span>
+velho guerreiro saiu d'entre os seus guardadores, e fallou
+com o filho:</p>
+
+<p>«&mdash;Sabes tu, Conçalo Nunes, de quem é este castello,
+que, segundo o regimento de guerra, entreguei
+á tua guarda, quando sai em soccorro e ajuda do esforçado
+conde de Ceia?</p>
+
+<p>«&mdash;É, respondeu Gonçalo Nunes, de nosso rei e senhor,
+D. Fernando de Portugal, a quem por elle fizeste
+preito e menagem.</p>
+
+<p>«&mdash;Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um
+leal alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o
+seu castello a inimigos, embora fique enterrado debaixo
+das ruinas delle?</p>
+
+<p>«&mdash;Sei, oh meu pae! proseguiu Gonçalo Nunes em
+voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que
+começavam a murmurar.&mdash;Mas não vês que a tua
+morte é certa se os inimigos perceberem que me aconselhaste
+a resistencia?</p>
+
+<p>«Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões
+do filho, clamou então:</p>
+
+<p>«&mdash;Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do
+castello de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu
+no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os
+que me cercam entrarem nesse castello sem tropeçarem
+no teu cadaver.</p>
+
+<p>«&mdash;Morra! gritou o almocadem castelhano, morra o
+que nos atraiçoou!</p>
+
+<p>«E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de
+muitas espadas e lanças.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>«Defende-te, alcaide!» foram as ultimas palavras
+que elle murmurou.</p>
+
+<p>«Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã,
+clamando vingança.</p>
+
+<p>«Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros;
+grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram
+o proprio sangue com o sangue do homem leal
+ao juramento.»</p>
+
+<p>Este trecho eloquentissimo, cuja energia é inexcedivel,
+revela-nos a maravilhosa aptidão que Herculano
+possuia para pintar as grandes paixões, as paixões heroicas.
+A falla que Nuno Gonçalves dirige a seu filho
+Gonçalo Nunes excitando-o a defender corajosamente o
+castello, embora com sacrificio da propria vida, não produz
+menos enthusiasmo no meu coração do que a falla
+de D. Nuno Alvares Pereira no Conselho de Guerra, que
+é incontestavelmente um dos trechos mais eloquentes
+dos Lusiadas. O estylo de Herculano é incomparavelmente
+mais epico do que o de todos os poetas que em
+Portugal têm florescido depois de Camões; é principalmente
+pela nobreza e virilidade do seu estylo magico
+que Herculano ha de ser sempre considerado um dos
+maiores prosadores do mundo. Assim como Platão possuia
+o enthusiasmo de Homero, assim nas obras de Herculano
+revela-se o ardente enthusiasmo do principe dos
+nossos poetas.</p>
+
+<p>Todo o homem recebe uma influencia poderosa do
+meio em que vive; Herculano não podia deixar de receber
+esta influencia mas, pelos seus vastos e profundos
+conhecimentos e pela sua eloquencia energica, solemne<span class="pn">{54}</span>
+e magestosa, elevou-se muito acima dos seus contemporaneos,
+alcançando sobre elles um poder espiritual
+tão assombroso que os seus escriptos eram considerados
+evangelhos.</p>
+
+<p>A influencia que Herculano exerceu neste seculo foi
+muito superior á influencia de Sá de Miranda no seculo
+dezaseis porque, apesar da grande semelhança de caracter
+que tiveram os dois illustres escriptores, Herculano
+possuiu um talento mais genial e vasto. Quando Herculano
+residia no seu eremiterio da Ajuda, agrupavam-se
+em volta d'elle os talentos mais notaveis que Portugal
+possuia naquella epocha, e até o bondoso e illustrado
+rei D. Pedro V o visitava frequentemente para lhe pedir
+os seus conselhos. Herculano foi para o nosso país
+o grande patriarcha do seculo dezanove; nenhum escriptor
+ainda conseguiu neste seculo exercer sobre a
+sociedade portuguesa uma influencia egual á sua; ninguem,
+depois de Camões, influiu tão poderosamente na
+nossa litteratura e civilisação.&mdash;Disse.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.6em;">ULTIMAS PUBLICAÇÕES</p>
+
+<p><em>MARIA A. V. DE CARVALHO</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">CARTAS A UMA NOIVA</p>
+
+<p>2.ª edição, melhorada, 1 vol........ 700 réis</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>A. PIMENTEL</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">DESCOBRIMENTO DO BRASIL</p>
+
+<p>2.ª edição, refundida, 1 vol........ 700 réis</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>CARLOS MALHEIRO DIAS</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">FILHO DAS HERVAS</p>
+
+<p>1 vol. 800 réis</p>
+
+<p style="text-align: justify; text-indent: 2em;">Romance genuinamente nacional e especialmente dedicado ás mães, o
+<em>Filho das Hervas</em> é incontestavelmente o mais notavel romance português
+d'estes ultimos annos.</p>
+
+<p style="text-align: justify; text-indent: 2em;">De uma riqueza incomparavel de vocabulario, cheio de côr e de melodia,
+tem todas as qualidades para fazer vibrar, até ás mais altas notas do
+sentimento humano, todos os corações, especialmente os das Mães.</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>E. ZOLA</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">FECUNDIDADE</p>
+
+<p>TRADUCÇÃO AUCTORISADA</p>
+
+<p>1 vol. de 728 pagmas................. 800 réis</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>P. MANTEGAZZA</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">O PROBLEMA DO CASAMENTO</p>
+
+<p><em>Arte de escolher esposa e arte de escolher marido</em></p>
+
+<p>Traduccão auctorisada do original italiano por Candido de Figueiredo</p>
+
+<p>1 vol........ 700 réis</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">FISIOLOGIA DA MULHER</p>
+
+<p>Traduccão auctorisada do original italiano por Candido de Figueiredo</p>
+
+<p>1 vol........ 700 réis</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>COELHO NETTO</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">SALDUNES</p>
+
+<p>ACÇÃO LEGENDARIA EM 3 EPISODIOS</p>
+
+<p>1 vol. luxuosamente impresso a côres e em papel de linho, 500 réis</p>
+
+<hr>
+
+<p><em>JOAQUIM LEITÃO</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;"><em>DO CIVISMO E DA ARTE NO BRASIL</em></p>
+
+<p>1 vol. de 330 paginas</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Alexandre Herculano, by Diogo Rosa Machado
+
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+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
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+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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