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+The Project Gutenberg EBook of Castilho e Quental: Reflexões sobre a
+actual questão litteraria, by Augusto Malheiro Dias
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Castilho e Quental: Reflexões sobre a actual questão litteraria
+
+Author: Augusto Malheiro Dias
+
+Release Date: November 21, 2010 [EBook #34386]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CASTILHO E QUENTAL ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ AUGUSTO MALHEIRO DIAS
+
+
+ CASTILHO E QUENTAL
+
+ REFLEXÕES
+
+ SOBRE A ACTUAL QUESTÃO LITTERARIA
+
+
+
+
+
+ AUGUSTO MALHEIRO DIAS
+
+
+ CASTILHO E QUENTAL
+
+ REFLEXÕES
+
+ SOBRE A ACTUAL QUESTÃO LITTERARIA
+
+
+
+
+ PORTO
+ LIVRARIA E TYP. DE FRANCISCO GOMES DA FONSECA, EDITOR
+ 1866
+
+
+
+
+AO SEU AMIGO
+
+
+IGNACIO DE VILHENA BARBOSA
+
+SOCIO DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA E REDACTOR DO
+ARCHIVO PITTORESCO
+
+ _Off._
+
+ O AUCTOR.
+
+
+
+
+REFLEXÕES
+
+SOBRE A ACTUAL QUESTÃO LITTERARIA
+
+
+I
+
+Na _Carta ao Editor Pereira_, que precede o _Poema da Mocidade_, o snr.
+Castilho fulminou a escola de Coimbra com um despiedoso anathema, que
+veio levantar uma grande procella no mundo litterario. Causou isso
+estranheza. Ha muito que em Portugal não havia tempestades litterarias;
+bonança e calmaria constantes permittiam seguir todos os rumos, vogar
+pelo vasto oceano das lettras sem que impetuosas correntes, ventos
+contrarios ou perigosos parceis estorvassem a passagem.
+
+Escondêra a critica as suas agudas garras; sobre as ruinas da
+imparcialidade levantára-se orgulhosa a escola do elogio-mutuo,
+apoiando-se nas theocracias litterarias. Aplanaram-se todos os caminhos,
+arredaram-se com carinhoso disvelo as sarças agudas e os asperos seixos,
+tapetaram-se de flôres os inhospitos desvios, coroaram-se de louros
+todas as frontes e elevaram-se ao Capitolio todos os escriptores.
+Desapparecêra o fel, o odio e a inveja, e os thuribularios do
+elogio-mutuo entornaram o mel do Hymetho sobre todas as obras, sobre
+todos os escriptos. A baba immunda de Bavio fôra condemnada ao
+ostracismo. Era bom? era máo? não sei:--se as tempestades não fecundam o
+oceano, fecundal-o-hão a bonança e a calmaria?
+
+Desencadeou-se alfim a procella; ergueram-se altas serras d'agua e
+cavaram-se fundos abysmos. Revolveu-se Encélado nos seios da montanha, e
+desentranhou-se o vulcão em ardente lava. Os odios adormecidos, as
+rivalidades mascaradas, os despeitos mesquinhos, despertaram do longo
+somno, arrojaram os mantos que os acobertavam e estão face a face,
+provando as forças e os brios. As armas de cortezia foram postas de
+parte, vestiram-se os arnezes de prova, empunharam-se as espadas
+açacaladas, travou-se a lucta, renhida, desapiedada, terrivel, e para
+aquelle que ficar vencido no campo da batalha, não haverá perdão nem
+misericordia. É odio de familia, o peior de todos os odios, que lhes
+guia os fundos golpes.
+
+São dois os campeões que se avançam ousados a perturbar a paz; um, cheio
+de mocidade, de vida e de fogo, o outro velho e cego--cego!--mas não
+importa: a experiencia, equiparando as forças, supre o valor da
+mocidade; a sciencia da vida, o esforço não inferior ao do mancebo,
+igualam os annos, equilibram as probalidades da victoria.
+
+Qual será o resultado da lucta? Qual será o vencedor e qual o vencido?
+Ficará a pendencia por decidir? Julgo que sim; só se algum Brenno audaz
+vier lançar a sua espada na balança da contenda--mas a raça dos Brennos
+está extincta!--
+
+Anthero do Quental levantou a luva, que lhe lançára o auctor da
+Primavera, e vem ousado e destemido rasgar e calcar aos pés a purpura,
+que cobria os hombros do illustre cego.
+
+O mancebo inspirado, cheio de vida e de talento, e o velho com os pés na
+sepultura, o Homero portuguez, estão frente a frente. Um quer cortar
+as azas á aguia que paira no espaço, o outro despenhar do pedestal da
+gloria o poeta laureado pelas academias, saudado e applaudido nas duas
+extremas plagas do Atlantico.
+
+Ha entre os dois um abysmo: a distancia que medeia entre o mais alto
+pincaro do Hymalaia, escondido entre as nuvens, e o profundo ribeiro que
+se enrosca lá na sua extrema fralda; não na intelligencia, no talento;
+não me cabe averiguar isso; mas na escola, nas idêas, nas tendencias.
+Um, é o resto d'um seculo lançado pelas ondas do tempo nas praias
+d'outro seculo, um ecco do passado, uma reminiscencia da idade d'Augusto
+e de Pericles, enfeitada com as galas ridiculas e piegas da Arcadia; é
+um grego, um romano resuscitado no seculo desenove, sem ter atravessado
+a Egreja mystica, sem lhe terem borrifado as mãos as lagrimas da
+Magdalena, sem a corôa d'espinhos de Jesus Christo lhe macerar a fronte,
+sem que um raio divino lhe rasgasse o véo, que encobre o ideal. Debalde
+Theocrito e Virgilio lhe emprestaram a agreste frauta, Pindaro e Ovidio
+as lyras d'ouro; não o visita a inspiração celeste, vagueia entre o céo
+e a terra; se não é humilde tardigrado, que se arrasta preguiçoso e
+confundido com a urze da charneca, tambem não é a aguia altiva, que
+encara ousada o esplendor do sol.
+
+O outro, Anthero do Quental, imbuido de todas as virtudes, de todos os
+vicios do seculo, baloiçado e combatido pelas doutrinas scepticas e
+desoladoras do tempo presente, d'espaço a espaço illuminadas por um
+brilhante lampejo de vivissima fé, de confiança no futuro, não detem
+sequer um instante, nos tempos que já lá vão, o olhar perdido em vagas
+contemplações.
+
+A esplendente luz da inspiração abre-lhe as portas dos mundos
+invisiveis, elevando-lhe a alma para o ideal e mostrando-lhe as suas
+aspirações realisadas: as cadeias, que algemam o pensamento,
+partidas, as nevoas do futuro dispersas como fumo, a humanidade
+caminhando sempre, sempre, como Ashavero, aproximando-se pouco a pouco
+da perfeição infinita.
+
+N'esse vasto quadro do progresso o Christianismo apparece-lhe como um
+passo collossal; um monumento gigante, um pharol luminoso; mas não o
+ultimo estadio da perfeição;--além dos mundos mais mundos, além da
+perfeição finita a perfeição infinita, além do real o ideal!...
+
+As sarças do caminho não entorpecem o passo do audaz caminheiro, vae
+sempre ávante--um momento de reflexão, um volver d'olhos para o incendio
+de Sodoma, não o metamorphoseariam em estatua de sal?--e de que monta
+isso?--a phantasia sabe doirar tudo.
+
+A doutrina do progresso indefinido prégada por Leroux e Pelletan, apezar
+de profundamente abalada e desmantelada pela logica de Proudhon e pelos
+anathemas de Lamartine, tem ganho adeptos em toda a parte. As
+consolações que derrama, o orgulho e a confiança que insufla, podem mais
+no espirito do que a aragem desoladora d'esse vento frio e regelado
+chamado Proudhon, e do que os raios d'esse pallido sol d'outomno, que
+tem por nome Lamartine--a illusão vence a realidade. É mais doce, mais
+agradavel, viver embalado por sonhos encantadores do que arcar com as
+difficuldades da existencia, do que encarar com as tristuras da vida
+real. Se essa crença no progresso indefinido não resiste ao ataque do
+raciocinio, se é um devaneio de imaginações brilhantes, tem prestado
+grandes serviços á poesia, tem feito desentranhar a lyra em sons bem
+harmoniosos, cheios de magica melodia, repassados de vivida
+esperança!--e o Christianismo não fez da esperança uma virtude?
+
+O auctor da Primavera embalado no berço pelos murmurios do Tibre, pelas
+cataractas d'Albano e de Tibur, pelo manso susurrar da fonte do
+Pausilippo, pelas ondas doiradas do oceano que se quebram mansamente
+junto do cabo Sunium, pelo melodioso ramalhar dos pinheiraes do Ida,
+agitados pelas brisas tepidas do Oriente, por todas essas harmonias
+reflectidas nos versos de Ovidio e de Virgilio, de Mochus e de Hesiodo,
+pantheista e pagão, entregue todo ás saudades do passado, não crê nas
+aspirações do tempo presente. O poeta de Coimbra nasce na época da
+renovação em que as velhas instituições se desmoronam, em que o martello
+do iconoclasta derruba sem piedade as divindades gregas e romanas; nasce
+no tempo em que os homens crêem num só Deus, não são pantheistas, nem
+pagãos, nem atheus--atheus!... crêem em Deus todo poderoso; mas ousam
+travar uma lucta, arca por arca, com a divindade, novos Titans, collocam
+_Prometheu_ sobre _Ashavero_, _Ashavero_ sobre _Napoleão_ e escalam os
+céos; nasceu no tempo em que Edgard Quinet, Renan, Victor Hugo, Hegel,
+Vico, Heine, tentando ultrapassar as raias, que separam o finito do
+infinito, quebraram as columnas d'Hercules, recuaram os limites de tudo;
+mas, fraco vislumbre de pejo! encobriram as suas aspirações, as suas
+arrojadas doutrinas, os seus devaneios, as suas profanações, com os
+nevoeiros metaphysicos e mysticos de Swedenborg e de Boehm; nasceu no
+tempo em que as intelligencias elevadas, sonhando um ideal para além do
+céo, procurando a idêa além do mundo real, não encontraram as mais das
+vezes senão o phantasma, a sombra d'ella, abraçaram a nuvem, julgando
+apertarem nos braços profanos a formosa Juno!
+
+Castilho cultiva a fórma, a feição litteraria, a harmonia e a melodia
+das palavras, cinzela a taça com perfeição; mas esquece-se do incenso
+oloroso, que dentro d'ella hade arder. Despreza Quental os lavores, não
+cuida dos adornos, dos arabescos; escolhe só a essencia que hade lançar
+dentro do vaso, descurando cinzelal-o com esmero.
+
+Deprehende-se d'isto, que levamos dito, que são diversissimas as
+escolas dos dois contendores; mas ha, n'uma e n'outra, bom e máo. São
+bôas todas as escolas, não ha escolas más, ha máos artistas.
+
+
+II
+
+A reforma ou renovação romantica, que os vastos genios de Goethe,
+Chateaubriand e Byron operaram no mundo das lettras, ganhou adeptos em
+toda a Europa.
+
+Philinto Elysio, respirando em Pariz as primeiras brisas da estação
+moderna, lançou em Portugal as sementes da revolução romantica com as
+suas versões dos _Martyres_ e do _Oberon_, e Bocage, deslumbrado pela
+esplendente luz, que alumiava a França, principiou insensivelmente a
+vasar, na estreita fórma das regras classicas, a idêa romantica, mas
+ainda entorpecida pelos assumptos da invenção pagan; veio depois o
+auctor de D. Branca trazer o facho, que nos encaminhou pelas novas
+veredas. Mas a revolução romantica, no principio, estendeu mais a sua
+authoridade pelos dominios da idêa do que pelos da fórma; se a fórma foi
+um pouco alterada, deve-se achar a causa dessa alteração na corrente
+impetuosa das idêas que arrastava os velhos padrões, modelando-os e
+reformando-os á feição do pensamento, que haviam de revestir. O que era
+bom era aproveitado e enfeitado, o máo repellido ou melhorado; mas
+comtudo o pensamento, como força primordial, sujeitou sempre o estylo á
+sua authoridade. Os sectarios da nova escola, depois, transviados da
+brilhante senda, illuminada pelo ingenho dos authores de Werther, de
+Atala e Childe-Harold, exaggeraram a fórma e desprezaram a idêa. Era
+obvia a razão. Facil era variar a contextura do periodo, cambiar a
+harmonia, ajuntar palavras melodiosas, e difficilimo innovar o
+pensamento. O vôo ousado até o throno do Senhor, o pensamento soberano,
+o genio, a revelação do poeta é luz que illumina poucas frontes; só
+os escolhidos, os eleitos, se elevam a tão altas paragens no extasis da
+inspiração. Raros são os videntes, as intelligencias elevadas que
+encontram o ideal, lembrança e saudade do céo que adeja no pensamento da
+creatura, ou aspirações anhelantes e anciosas para os sublimes
+esplendores do paraiso; só do coração dos verdadeiros poetas é que se
+desdobra a aza que transporta o espirito aos mundos invisiveis. A
+execução, pelo contrario, filha do estudo, é a arte material; por todos
+os lados a cercam alcantiladas muralhas; algemam-n'a as regras, as
+escolas e até as modas, e o circulo limitado, que lhe traça a imitação,
+não a deixa attingir as alturas aonde floresce o Ideal; mas se o lado
+subjectivo, o pensamento e a idêa escapam ao seu dominio, a parte
+pittoresca e objectiva, assim rodeada de tantos perigos e escolhos,
+quando é vasada num molde artistico, quando se deixa fecundar pelo
+Bello, tem direito a homenagem profunda.
+
+A escola da fórma, julgou que o estylo constituia a primeira e unica
+belleza das obras d'arte, e considerando esse theorema como axioma, veio
+a naufragar nos parceis do ridiculo. Não podendo, ou não ousando,
+transpor a funda barreira que separa o finito do infinito, o visivel do
+invisivel, desprezou essa escola o pensamento--enlevada do amor do
+corpo, que havia de revestir a idêa, deixou escapar atravez dos seus
+dedos sensuaes a paixão e o ideal. Mas comtudo se não tinha essa escola
+o arrojo de ir roubar ao céos o fogo sagrado como Prometheu, deliciava o
+ouvido com musica harmoniosa e encantadora, se não elevava a alma,
+deleitava os sentidos.
+
+Ha vinte annos a esta parte operou-se então uma nova revolução no mundo
+das lettras. A idêa, com o seu poder soberano, tendo ganho no desterro
+novas forças e ousadia, partiu as gramalheiras que a algemavam e campeou
+de novo, ousada e destemida. Mas não se mostrou aos olhos de quem a
+procurava, nua como a Verdade sahindo do poço, cercou-se de pudico
+nevoeiro, que só olhos d'aguia podiam atravessar. Até ahi a melodia e a
+musica das palavras nada significavam, depois a idêa, envolvida e
+encoberta em expressões sybillinas, em vagas abstracções, em symbolos
+mysticos, que só os adeptos e os iniciados podiam comprehender,
+arrojou-se a taes alturas, perdeu-se em tão alto vôo, que quem ousasse
+seguil-a até essas longinquas paragens arriscava-se á sorte de Icaro;
+mas que importa?... contemplava mais de perto a brilhante claridade do
+sol, os esplendores, que depois encontrava, pagavam-n'o dos perigos que
+soffrera. Muitas vezes o audaz caminheiro transviava-se por entre os
+nevoeiros espessos e densos, que o cercavam; mas se a vontade era
+robusta, que luz divina vinha de quando em quando illuminar-lhe a fronte!
+
+Para encontrar o veio d'ouro, escondido nos seios da montanha, que
+escuridões é preciso atravessar, que perigos, que horrores! mas não
+augmenta depois o prazer com a reminiscencia dos penosos trabalhos que
+se soffreram? Que difficuldades em comprehender a Biblia! mas que
+alegria tambem quando algum tenue clarão nos esclarece o mystico sentido
+das palavras, escriptas sob a inspiração divina!
+
+Escutemos bater o coração e arrojemos o odioso cilicio; deitemos por
+terra tudo o que estorva o ar vivo das montanhas e das florestas, e as
+frescas brisas do oceano, de afagarem as frontes inspiradas. É o methodo
+o valhacouto dos estereis; a republica das letras vive do ar, do espaço,
+do imprevisto. Mas tambem, terrivel dilemma! o que é um livro sem
+estylo? de que vale? que significa?
+
+O estylo constitue a primeira belleza d'uma obra litteraria--é verdade
+mil vezes repetida; mas verdade quasi sem objecção. Mudam as idêas,
+tomam novo curso, succedem-se umas ás outras como as vagas do
+oceano, e se o estylo as não adorna, se as galas da linguagem as não
+enfeitam, as não endeusam, o livro lido hontem com interesse, com
+entranhado prazer, é hoje repellido com tedio e fastio. Se o livro tiver
+estylo viverá; atravessará, brilhante e esplendente, as idades futuras,
+faltando-lhe essa condição, entre o levantar do sol no oriente e o
+mergulhar-se no occidente, desapparecerá da face da terra a sua memoria,
+ainda que o sentimento do infinito transpareça em todas as suas paginas.
+
+Não ha contradicção no que dizemos; o que se deprehende fatalmente
+d'aqui, é que a critica tem o direito de procurar nas obras d'arte, o
+que se encontra na creação; o pensamento e o estylo, o espirito e a
+fórma, a intelligencia e o corpo, que a reveste: será um inspirado
+sublime, um semi-deus aquelle, que reunir estas duas forças.
+
+Não é sómente a poesia o perfume das flores da terra, nem a chamma
+accesa nos céos, é necessario que o perfume habite um calice trabalhado
+por Deus, é forçoso que o finito se não separe do infinito, que o Bello
+visivel falle do Bello invisivel, como a creação, o universo, fallam de
+Deus.
+
+Mas assignalados serviços fizeram á litteratura estas duas escolas. Se a
+escola da fórma não tinha o vôo ousado, que eleva a alma até ás regiões
+do infinito, se sensual e material, violava os mysterios do coração e
+não tinha o segredo de os possuir, contribuiu poderosamente para apurar
+e enriquecer as linguas; a outra se desprezava os ouropeis, com que se
+enfeita o pensamento, se escreveu sem freio, sonhando por toda a parte
+um ideal para além do céo, elevou o sentimento moral rebaixado, e
+manteve as aspirações do espirito, levantando a alma e o coração para as
+celestes visões dos mundos melhores, sem as quaes a terra seria um vasto
+e triste deserto.
+
+
+III
+
+A Arte, a Poesia, na sua missão suprema, devem aspirar sempre ao
+infinito, trepando a montanha invisivel, que desce até aos nossos pés, e
+que se eleva até o throno de Deus. Sobre essa alcantilada montanha é que
+floresce o Ideal. São necessarios vontade robusta e impulso divino para
+subir até á extrema agulha--a poucos é dado lá chegar! O cansaço e a
+fadiga prostram os caminheiros, alquebrados e sem forças, a metade da
+encosta; mas, quem não tiver os pulmões assaz vastos para chegar até á
+corôa do gigante alcantil, tome por uma larga estrada, que se abre na
+lombada do elevado monte, enroscando-se nas suas viçosas e verdejantes
+fraldas; ao cabo d'esse caminho, encontrará o viajeiro a verdade, a
+outra face radiosa do Bello. Ha duas sendas a seguir para attingir o
+Bello--ou caminhar pela terra, ou elevar-se aos céos, ou o sabor agreste
+da natureza, ou as pulsações do coração, ou o vôo ousado da aguia, ou o
+rastejar da timida arvéola. O Ideal e a Verdade, eis os dois supremos
+caracteres da Arte, da Poesia. Mas que Jano potente reune as duas faces
+radiosas do Bello?...
+
+Mas comtudo o Bello, _o esplendor do Verdadeiro_, encontra-se sómente no
+ideal--entre a verdade, que os nossos olhos podem encontrar e a verdade
+que a arte deve escolher, ha um abysmo.--O fim supremo da Arte não é a
+realidade; não se deve a invenção limitar a traduzir, a copiar
+servilmente a natureza, tem um fim mais nobre, mais elevado:
+transformar, interpretar, comprehender a realidade na sua significação
+mais intima, e achar para essa significação, isto é, para a Verdade, uma
+expressão cabal e completa. Desconhecer a distancia que separa a
+realidade da verdade, é desconhecer a propria essencia do Bello--não
+ha arte sem a amplificação, sem a interpretação da natureza.
+
+O estudo e a reproducção litteral da realidade são um ensaio util, uma
+prova indispensavel, uma como que iniciação; mas a realidade nunca deve
+ser o fim, o alvo, aonde se dirigem os esforços do Artista; cumpre, que
+seja um meio, e nada mais.
+
+A imaginação humana, manifestando-se sob as suas fórmas diversas, deve
+seguir este trilho para attingir o Bello, e a poesia que dimana
+directamente da imaginação, que faz, por assim dizer, parte da sua
+essencia, que é quasi a antithese da realidade, deve elevar-se sempre
+para as regiões sublimes, para os mundos ideaes, solta dos asperos e
+incorrectos limites da natureza. Não é sómente a Arte a combinação
+judiciosa dos elementos da realidade, a reunião de parcellas reaes
+escolhidas com discernimento e criterio, é a transformação logica, mas
+ousada e atrevida, da realidade.
+
+A lucta travada pela escola _realista_ é uma lucta insensata, é uma
+lucta acima das forças humanas; porque é insensata, porque é acima das
+forças humanas, a esperança de reproduzir a natureza, de copiar a
+realidade. Não prendem a admiração as obras _realistas_; o pensamento
+que presidiu á sua creação basêa-se num principio falso e impotente,
+traz comsigo a morte. E é obvio o motivo d'essa impotencia: é impossivel
+reproduzir a natureza com meios tão differentes daquelles de que ella
+dispõe.
+
+Exaggerar, amplificar a verdade, não é renegal-a. É um dom sublime,
+divino, da phantasia crear segunda vez a realidade, metamorphoseando-a.
+Não é a natureza mais bella, não se adorna com galas mais vistosas,
+illuminada pelos esplendores do sol da Primavera?...
+
+O snr. Anthero do Quental que tentou subir até os altos pincaros onde
+floresce o Ideal, e o snr. Castilho, que seguiu pelo caminho da
+Verdade, encontraram o Bello? O que pesará mais na balança? os vôos
+ousados do auctor das Odes modernas, livres das peias do estylo, ou o
+rastejar do cantor da Primavera, adornado com as galas da linguagem,
+enfeitado com os ouropeis da fórma? É o snr. Castilho um architecto
+habil, ou ajuntou os materiaes e não soube construir o edificio? A
+escola de Coimbra encontrou o Ideal, ou abraçou como Ixion uma nuvem
+phantastica, uma sombra?
+
+Difficil é a resposta; difficilima para nós, que não queremos aventar um
+juizo erroneo.
+
+A escola de Coimbra envolveu os seus pensamentos, a sua doutrina, em
+nevoeiros talvez metaphysicos de mais, cahiu em monstruosa
+exaggeração--e a exaggeração não é um indicio de depravação de gosto?..
+e esses nevoeiros, que teem uma harmonia intima, um laço mysterioso com
+a fria athmosphera do Norte, que povôa de phantasmas os campos e as
+florestas, poder-se-hão transplantar para os climas do sul, terão a
+mesma razão de ser, diante dos esplendores do sol do Meio-dia, do sol de
+Portugal?
+
+É necessario ser um iniciado nesses mysterios d'Isis e de Eleusis, um
+hierophante, para encontrar, por entre esses hieroglyphos, o pensamento
+e a idêa, é necessário ter o fio de Ariadna para penetrar n'esses
+labyrinthos--e penetrando... que montões de duvidas! Quando se solta
+assim tão alto vôo, para as elevadas regiões do desconhecido, deixa-se á
+porta a Verdade, como esses aventureiros, que não vendo a fortuna junto
+do seu modesto e humilde lar, vão, atravez de mil perigos e fadigas,
+procural-a em longinquas plagas.
+
+Será a aza da sabedoria que encaminha os sectarios da escola de Coimbra
+para esses incognitos paizes? viajam... chegarão ao porto?... mas será
+tambem a fórma das poesias do snr. Castilho haurida na pura e
+crystallina fonte do Bello? Duvidamos.
+
+As poesias do auctor da Primavera são reflexos das tradições gregas e
+romanas, são imitadas dos poetas da antiguidade pagã, com um pronunciado
+ressaibo do seculo desoito; é o snr. Castilho um Theocrito enxertado
+n'um Florian; mas muito, muito superior ao auctor de Estella, e quasi
+igual ao poeta da Grecia. Além de transparecer nas poesias do snr.
+Castilho a imitação da antiguidade, adivinham-se tambem n'ellas as
+numerosas e primorosas (?) versões gregas e latinas.
+
+Não apuram o gosto as traducções, pelo contrario estragam-n'o.
+Fundamentaremos este asserto.
+
+É impossivel conhecer-se e avaliar-se o merito d'um auctor estrangeiro,
+quando principalmente o merito se basêa no estylo e na dicção. Os
+pensamentos, que pertencem ao coração, que são cosmopolitas, sim; porque
+basta possuir-se uma alma elevada e uma intelligencia robusta para
+comprehendel-os; mas a dicção e o estylo, que teem uma terra natal, um
+sol que lhes pertence, não. A individualidade, a nacionalidade dos
+escriptores, dos poetas, teem mysterios que só um compatriota póde
+penetrar.
+
+Se isto, que acabamos de dizer, passa como aphorismo em relação aos
+auctores modernos, é um axioma a respeito dos escriptores da
+antiguidade, separados do tempo em que vivemos por longos seculos, e
+escrevendo numa lingua cuja prosodia se ignora.
+
+Como se poderá fazer idêa da harmonia da prosa de Demosthenes ou Cicero,
+da melodia e da cadencia dos versos de Virgilio ou de Hesiodo,
+articulados e recitados com as regras de pronuncia e de accentuação dos
+idiomas modernos e escutados por ouvidos de _Barbaros_?
+
+
+Por melhor que se conheça um idioma estrangeiro, nunca será possivel
+penetrar no sacrario intimo dos seus mysterios; hade-se confundir
+milhares de vezes o fogo fatuo com o esplendor do sol--falta o leite da
+ama, faltão essas primeiras palavras, brandamente murmuradas ao
+ouvido da criança, preza ainda dos seios maternaes.
+
+E reflectindo, imitando a fórma que se não conhece, o estylo que se não
+póde avaliar, não é seguir um caminho errado?
+
+Se a Musa do snr. Castilho não bebeu na fonte de Hipocrene, se saudosa,
+busca a inspiração no passado, a prosa do auctor dos Quadros Historicos,
+tambem vasada pelo molde dos antigos escriptores portuguezes, não segue
+e acompanha o curso das idêas modernas, retrocede com saudade para os
+tempos que já lá vão; não se deixa ir brandamente ao som da agua, lucta
+contra a corrente do caudaloso rio, tentando, sem cessar, attingir o
+monte d'onde rebenta e se desentranha o manancial.
+
+E este combate entre as idêas novas e as antigas, combate, em que estas
+ultimas ficam sempre vencedoras, não será indicio d'um gosto pouco
+apurado?... De que monta que a linguagem seja bôa, se é máo o estylo?
+
+Deve a linguagem ser filha legitima da lingua materna, ter com ella
+semelhança viva, como que concebida em união amorosa; mas assemelhar-se
+como uma rapariga formosa e louçan se assemelha á sua mãe. Deve, entre a
+belleza, os attractivos viçosos e frescos d'uma e os encantos murchos da
+outra, haver uma relação de parentesco, uma harmonia, um laço intimo e
+mysterioso; mas não se devem sulcar com fundas rugas as faces da gentil
+donzella, embaciar-lhe o brilho dos olhos, desmaiar-lhe o encarnado dos
+labios, denegrir-lhe o branco esmalte dos dentes, substituir-lhe as
+louras e abundantes madeixas por cabellos encanecidos, para a semelhança
+ser mais perfeita, para não haver duvidas sobre a genuinidade do
+parentesco.
+
+Basta, que a imaginação transportada ao futuro, reconstrua na filha os
+estragos, que o tempo fez nos encantos da mãe, e resuscite no rosto
+d'esta, atravez das nuvens do passado, os attractivos viçosos, a
+frescura da mocidade, e as ache depois no pensamento eguaes, gemeas, uma
+Sosia da outra. Mas n'um barranco talvez mais fundo tropeçou o auctor
+das Odes Modernas.
+
+Muito lido e versado nas litteraturas do Norte, os vocabulos variados
+que lhe embaração a memoria tornam-lhe confusas as percepções; quando
+lhe apparece a idêa, não sabe o véo com que a ha-de envolver: pensou-a o
+cérebro em differentes linguas, e d'essa união resulta um aborto
+multiplice e indigesto de concepções synchronas. Carece a idêa d'esse
+typo de paternidade e raça, sem o qual as obras da intelligencia se
+assemelham a massas nebulosas. A idêa mais verdadeira não passa muitas
+vezes d'um enigma indecifravel, se o homem que a concebeu não soube
+escolher a fórma que lhe convem.
+
+Não deitemos no leito de Procusto nem o sabio auctor da Primavera, nem o
+inspirado poeta das Odes Modernas; sejamos ecclecticos; saibamos
+distinguir as bellezas, que brilham nos escriptos d'ambos. Se unicamente
+considerarmos o merito litterario, qualquer das obras do snr. Castilho
+pesará mais na balança do que tudo o que tem escripto o snr. Anthero do
+Quental; mas para quem, n'este valle de lagrimas, se quizer sustentar
+d'ambrosia e de ideal, viajando com a imaginação pelos esplendores dos
+mundos invisiveis, dos mundos melhores, que differença entre o poeta
+philosophico e o poeta pagão, entre o Artista que procura o Bello no
+Ideal e o Artista que julga encontral-o na natureza, na verdade! entre o
+sectario da escola realista e o adorador fervente do idealismo!
+
+
+IV
+
+Hoje em dia não ha convicções profundas; o vento gelado do scepticismo
+varre e dispersa como impalpavel poeira as persuasões intimas. Duvida-se
+de tudo; o sol que viu nascer uma opinião, presencêa-lhe varias phases e
+metamorphoses, e assiste-lhe á agonia. A liberdade, o espirito de
+nivellamento e de moralidade, o odio das superioridades, a inveja emfim,
+manifestada sob a fórma da democracia, invadiu os dominios da
+litteratura, como já invadira o resto da sociedade. As theocracias, as
+aristocracias litterarias cahem por terra desfeitas em pó: não se
+reconhecem mestres nem authoridades, nem se admittem regras. São
+consequencias do progresso do seculo. Todos pronunciam e se arrogam
+o direito de julgar, segundo as suas luzes, o seu gosto, o seu systema,
+a sua escola, o seu odio, ou o seu amor. É uma lucta de morte travada
+entre a inveja, origem de todo o poder democratico, e o orgulho, pae de
+todas as aristocracias.
+
+É este o motivo porque nada provam as insinuações do snr. Castilho
+contra Anthero do Quental nem o «Bom-gosto e Bom-senso» d'este ultimo. O
+despeito guia a penna de um, e a diatribe do outro foi dictada sob a
+inspiração d'uma paixão vingativa--despeito e vingança! máos affectos e
+pessimos conselheiros! Mas não será a manifestação d'uma vingança mais
+attendivel e desculpavel, que a manifestação d'um despeito mesquinho?
+Julgo que sim--presuppõe a vingança uma offensa primordial, o que
+d'algum modo a justifica e legitima.
+
+Desceu do Olympo o snr. Castilho e veio á arena combater; mas, dura
+fatalidade! era o seu antagonista um novo Diomedes. Arcaram ousados os
+dois campeões, e o Deus pagão, rotas, aboladas as armas, apartou-se mal
+ferido da peleja--que importa que os seus golpes fossem tambem
+certeiros? estava consummado o sacrilegio.
+
+Tira-se d'esta guerra litteraria uma moralidade: Deus não, mas os deuses
+pódem ter as armas falseadas--de nada vale a tempera do Styge--pódem ser
+feridos, se o braço que lhes atirar os golpes fôr robusto, forte e
+armado pela justiça--mas haverá perdão para o crime de lesa-divindade
+pagan?... se o meu bastasse...
+
+
+Porto--20 de Dezembro de 1865.
+
+ AUGUSTO MALHEIRO DIAS.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Castilho e Quental: Reflexões sobre a
+actual questão litteraria, by Augusto Malheiro Dias
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CASTILHO E QUENTAL ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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