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+The Project Gutenberg EBook of Historia de Portugal: Tomo I, by
+Joaquim Pedro de Oliveira Martins
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Historia de Portugal: Tomo I
+
+Author: Joaquim Pedro de Oliveira Martins
+
+Release Date: November 21, 2010 [EBook #34387]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA DE PORTUGAL: TOMO I ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+
+ *Notas de transcrição:*
+
+ O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
+ em 1908.
+
+ Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido
+ corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a
+ leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.
+
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+
+
+HISTORIA DE PORTUGAL
+
+TOMO I
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+J. P. OLIVEIRA MARTINS
+
+OBRAS COMPLETAS
+
+I. Historia nacional:
+
+HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ª ed. (1897), 1 vol., br. 700 rs.
+Enc. 900.
+
+HISTORIA DE PORTUGAL, 7.ª ed. (1908), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
+
+O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 4.ª ed. (1888). 1 vol., br. 700 rs.
+Enc. 900.
+
+PORTUGAL CONTEMPORANEO, 4.ª ed. (1907). 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.
+
+PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
+
+CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br. 600
+rs. Enc. 800.
+
+NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (_ed. do Ateneo de
+Madrid_, 1892). 1 vol. (não entrou no commercio.)
+
+A VIDA DE NUN'ALVARES, 2.ª ed. (1894). 1 vol., br. 2$000 rs. Cart.
+2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.
+
+OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ª ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
+
+O PRINCIPE PERFEITO, (1895), 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas
+doiradas, 3$200.
+
+II. Historia geral:
+
+ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ª ed. (1885), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
+
+AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc.
+1$800.
+
+SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 3.ª ed. (1895), 1 vol., br. 800 rs. Enc.
+1$000.
+
+QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ª ed. (1893), 1 vol., br. 800 rs.
+Enc. 1$000.
+
+O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ª ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
+
+HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ª ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. Enc.
+2$400.
+
+O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc.
+1$000.
+
+TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. 1$000
+rs. Encadernado 1$200.
+
+III. Varia:
+
+A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ª ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.
+
+A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, opusculo, (1877), br. 150 rs.
+
+O ARTIGO «BANCO», no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol.,
+br. 500.
+
+POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
+
+PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado á camara dos deputados na
+sessão de 1887_, 1 vol., br. 300 rs.
+
+ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol.
+(esgotado).
+
+THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869) (esgotado).
+
+O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)
+
+AS ELEIÇÕES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs.
+
+CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol., br.
+400 rs.
+
+A INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ª ed., 1 vol., br. 600
+rs. Enc. 800.
+
+CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ HISTORIA
+
+ DE
+
+ PORTUGAL
+
+ POR
+
+ J. P. Oliveira Martins
+
+ Setima edição
+
+
+ TOMO PRIMEIRO
+
+
+ 1908
+ PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
+ LIVRARIA EDITORA
+ _Rua Augusta--44 a 54_
+ LISBOA
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ Composto e impresso na typographia
+ DA
+ Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
+ _Rua Augusta, 44 a 54_
+ LISBOA
+
+
+
+
+
+
+MEMORIA
+
+DE
+
+ALEXANDRE HERCULANO
+
+mestre e amigo
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+ «Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião,
+ assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se
+ delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos aos bõos
+ fezessem cobiça auer pera as semelhentes cousas faseram.»
+
+ _Coronica do Condestabre._
+
+
+A historia é sobre tudo uma lição moral: eis a conclusão que, a nosso
+vêr, sáe de todos os eminentes progressos ultimamente realisados no fôro
+das sciencias sociaes. A realidade é a melhor mestra dos costumes, a
+critica a melhor bussola da intelligencia: por isso a historia exige
+sobretudo observação directa das fontes primordiaes, pintura verdadeira
+dos sentimentos, descripção fiel dos acontecimentos, e, ao lado d'isto,
+a frieza impassivel do critico, para coordenar, comparar, de um modo
+impessoal ou objectivo, o systema dos sentimentos geradores e dos actos
+positivos.
+
+O desenvolvimento do criterio racional e o predominio crescente dos
+processos proprios das sciencias, baniram os modelos antigos e fizeram
+da historia um genero novo. Nem os discursos moraes ou litterarios
+_sobre_ a historia, á maneira do XVII seculo, nem o doutrinarismo secco
+do XVIII que sobre factos e instituições mal conhecidos construia
+systemas geraes chimericos, nem a opinião, muito seguida em nossos dias,
+de considerar a historia unicamente nos seus phenomenos exteriores,
+averiguando eruditamente as epochas e as condições dos successos,
+merecem, a nosso vêr, imitação.
+
+Todos estes systemas, porém, ensaios successivos para determinar o
+genero de um modo definitivo, teem um lado de verdade aproveitavel. Os
+modelos classicos fizeram sentir o caracter moral da historia; os
+modelos abstractos, a necessidade de comprehender os phenomenos n'um
+systema de leis geraes; os modelos eruditos, finalmente, a condição
+imprescriptivel de um conhecimento real e positivo da chronologia e dos
+elementos que compõem o _meio_ externo ou phisico das sociedades.[1]
+
+Nada d'isto, porém, é ainda realmente a historia, embora todas essas
+condições sejam indispensaveis para a sua comprehensão. O intimo e
+essencial consiste no systema das instituições e no systema das idéas
+collectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos
+são para o individuo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos
+costumes o dos caracteres, na pintura animada dos logares e accessorios
+que formam o scenario do theatro historico.
+
+Estes dois aspectos são egualmente essenciaes; porque a coexistencia
+independente dos motivos collectivos e naturaes, e dos actos
+individuaes, é um facto incontestavel na vida das sociedades.
+
+Na _Historia da civilização iberica_ tratámos de estudar o systema de
+instituições e de idéas da sociedade peninsular, para expôr a sua vida
+collectiva, organica e moral. Tomámos ahi a sociedade como um individuo,
+e procurámos retratal-o phisica e moralmente. Agora o nosso proposito é
+diverso. Tratando da historia particular portugueza, somos levados a
+encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciaes da historia
+geral. A sociedade portugueza, como molecula que é do organismo social
+iberico, peninsular, ou hespanhol--estas tres expressões teem aqui um
+alcance equivalente--obedeceu, nos seus movimentos collectivos, ao
+systema de causas e condições proprias da historia geral da peninsula
+hispanica. Por isso procurámos sempre, na obra referida, indicar o modo
+pelo qual as leis geraes se realisavam simultaneamente nas duas nações
+hespanholas: duas, porque a historia assim constituiu politicamente a
+Peninsula.
+
+Metade da historia portugueza está, portanto, escripta na _Historia da
+civilisação iberica_: a metade que trata da vida da sociedade, como um
+ser organico. Comprehender-se-ha, pois, que nos abstenhamos agora de
+repetir o que está dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse
+livro; indicando, quando fôr necessario, o logar onde poderá encontrar a
+explicação das causas geraes a que no texto se tem de alludir.
+
+Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que ha de particular
+na historia portugueza; resta fazer viver os seus homens, e representar
+de um modo real a scena em que se agitam: tal é o programma d'este
+livro, cujas difficuldades de execução excedem em muito as do anterior.
+N'esse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como
+foram as cousas, outro para nos indicar o principio e o systema da
+civilisação. Agora carece-se do faro especial da intuição historica, e
+d'um estylo que traduza a animação propria das cousas vivas. Toda a
+longanimidade do leitor será pois necessaria para desculpar as
+imperfeições da obra.
+
+É mistér indicar ainda outro assumpto e prevenir uma impressão, natural
+em quem ler successivamente as duas obras. A _Historia de Portugal_
+consiste n'uma serie de quadros, em que, na maxima parte das vezes, os
+caracteres dos homens, os seus actos, os motivos immediatos que os
+determinam e as condições e modo porque se realisam, merecem antes a
+nossa reprovação do que o nosso applauso. Crimes brutaes, paixões vis,
+abjecções e miserias, compõem, por via de regra, a existencia humana; e
+por isso mais de um moralista tem condemnado o estudo da historia como
+pernicioso para a educação.--Por outro lado, a _Historia da civilisação
+iberica_ respira um enthusiasmo optimista que, ao primeiro exame,
+pareceria contradictorio com o pessimo e mesquinho caracter que as
+acções dos homens apresentam. Um exemplo bastará para demonstrar este
+antagonismo: além considerámos as conquistas americanas e asiaticas uma
+obra heroica, e agora veremos que montanha de ignominias foi o imperio
+portuguez no Oriente.
+
+Esta contradicção, real para o criterio abstracto, não existe, porém,
+para o criterio historico. Toda a boa philosophia nos diz que o homem
+real é a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo
+inconscientemente, e que todas as acções dos homens, maculadas de
+defeitos e vicios, obedecem a um systema de leis, idealmente sublimes. É
+esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adagio: Deus escreve
+direito por linhas tortas.
+
+Pesada esta consideração, que não podemos agora desenvolver de um modo
+cabal, vêr-se-ha como na historia de uma civilisação os caracteres
+particulares das acções dos homens, fundindo-se no systema geral de
+principios e leis que os determinam, perdem individualidade, e não valem
+senão como elementos componentes de um todo superior: que sejam
+humanamente bons ou maus, importa nada, porque só nos cumpre attender ao
+destino que os determina, e a moral é um criterio incompetente para a
+esphera ou categoria collectiva de que se trata.
+
+Na esphera dos movimentos de instituições e idéas, na categoria da vida
+social, as acções dos homens são sempre absolutamente excellentes;
+porque a supremacia da sociedade sobre o individuo consiste no facto da
+existencia de uma consciencia superior da Idéa, no organismo que se diz
+sociedade. Os poetas épicos, seres privilegiados cuja voz não é propria,
+senão collectiva, são os orgãos vivos da consciencia de uma civilisação:
+assim Camões sente e exprime a grandeza historica do imperio das Indias,
+que na propria opinião particular do poeta são uma Babylonia, um poço de
+ignominias.
+
+Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e
+rapido, resta-nos dizer que na segunda metade da historia, na que trata
+dos individuos e dos episodios, na que pinta os costumes e os
+pensamentos, o criterio é outro: por isso affirmámos que a historia é
+uma lição moral. Nos vicios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na
+perversidade e na nobreza dos individuos que foram, ha um exemplo
+excellente. Na sabedoria ou na loucura dos actos politicos e
+administrativos passados ha um meio de prevenir e encaminhar a direcção
+dos actos futuros. A historia é, n'esse sentido, a grande mestra da vida.
+
+Se os vicios, os erros, o crime e a loucura predominam sobre as
+virtudes, os acertos, a nobreza e a sabedoria dos homens, como sem
+duvida predominam, iremos por isso condemnar a historia por perniciosa?
+Não, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade é o melhor modo de
+educar, se reconhecemos no homem uma fibra intima de aspirações ideaes e
+justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si
+proprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condição da
+virtude.
+
+ [1] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
+ pp. VI-XXII.
+
+ * * * * *
+
+
+HISTORIA DE PORTUGAL
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+LIVRO PRIMEIRO
+
+Descripção de Portugal
+
+ «Onde a terra se acaba e o mar começa.»
+ CAMÕES, _Lusiadas_, III, 20
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+I
+
+Os lusitanos
+
+
+«O povo desde o qual os historiadores têem tecido a genealogia
+portugueza está achado: é o dos lusitanos. Na opinião d'esses
+escriptores, atravez de todas as phases politicas e sociaes da Hespanha,
+durante mais de tres mil annos, aquella raça de celtas soube sempre,
+como Anteu, erguer-se viva e forte: reproduzir-se, immortal na sua
+essencia; e nós os portuguezes do seculo XIX temos a honra de ser os
+seus legitimos herdeiros e representantes.»
+
+Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano[2] os
+seus predecessores, historiographos nacionaes, e, segurando com valor a
+férula magistral, castigava o povo culpado de acreditar n'uma tradição
+que tem para o erudito, além de outros defeitos, o de ser recente. Só
+desde o fim do XV seculo o nome de _lusitani_ começa a substituir o do
+_portugalenses_, nos livros; mas essa innovação, perpetuando-se entre os
+eruditos, torna-se por fim uma crença nacional e quasi popular.
+
+Que valor merece a innovação? Nenhum; e por varios motivos. «Tudo falta:
+a conveniencia de limites territoriaes, a identidade da raça, a filiação
+da lingua, para estabelecermos uma transição natural entre os povos
+barbaros e nós.» Ora estes argumentos, decisivos para o sabio
+historiador, não nos parece a nós--perdoe-se-nos o atrevimento--que o
+sejam. Outro tanto succede com todas as nações, ou quasi todas, desde
+que procuramos estabelecer a arvore genealogica, indo aos arcanos de um
+passado ignoto reconhecer a phisionomia dos mortos de muitos seculos e
+determinar d'entre elles os primeiros avós de uma nação. Seria absurdo
+exigir conveniencia de limites territoriaes, ou por outra, identidade de
+fronteiras, entre a localisação de uma tribu primitiva, e a de uma nação
+moderna: nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam,
+pura, uma raça, poderia fazer-se tal exigencia. Se ha ou não identidade
+de raça, é exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso,
+negal-o é proceder dogmatica e não scientificamente.
+
+Allega-se que são indecisas as noções de Strabão com respeito ás
+fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que não coincidem com as que
+Augusto deu á provincia da Lusitania.[3] O geographo antigo, ora parece
+incluir os callaicos nos lusitanos, entendendo as fronteiras d'estes
+ultimos até á costa do norte da Peninsula; ora os separa, dando-lhes o
+Douro como divisoria. A demarcação de Augusto adoptou esta segunda
+versão. As fronteiras orientaes extendiam-se, quer para o geographo,
+quer, depois, para a administração romana, muito além da raia
+portugueza, incluindo Salamanca, e subindo quasi até proximo de Toledo.
+D'alli para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do
+Guadiana, os lusitanos de Strabão e a Lusitania de Augusto tinham como
+limite este rio, quasi desde as suas fontes, e até á sua foz, na costa
+do nosso Algarve.
+
+Se ligassemos, pois, um valor positivo ás resenhas dos antigos
+geographos, e um alcance social-historico á identidade das fronteiras
+primitivas e actuaes, parece-nos que poucas nações poderiam com melhores
+motivos achar na etimologia dos antigos o fundamento da sua vida
+moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da
+Lusitania sobre a Gallecia) retráia-se a fronteira de leste ao Douro
+(conquista da Tarraconense sobre a Lusitania) e teremos feito coincidir
+os antigos com as actuaes limites. Qual é, dos primitivos, o povo que no
+decurso da sua vida historica deixou de conquistar e de ser conquistado?
+qual é o que não ganhou ou não perdeu, de um lado ou d'outro, sobre ou
+para os visinhos?
+
+Se a maneira porque, a partir do seculo XV ou XVI, os historiographos
+nacionaes filiam o Portugal moderno na antiga Lusitania justifica as
+fundadas ironias do nosso grande historiador, não nos parece que o
+processo por elle seguido para negar a doutrina, seja conveniente, nem
+até verdadeira a opinião de que entre portugueses e lusitanos nada haja
+de commum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e d'alli
+affirmar-se no espirito popular, a tradição nacional germanica, a
+italiana e até a romania: que valor tem o facto da tradição lusitana ter
+estado obliterada por seculos, para só resurgir n'uma epocha
+relativamente proxima e de um modo erudito? Se os portuguezes da
+Edade-media não sabiam de seus avós lusitanos, acaso saberiam de seus
+avós, italos, romanos ou teutonicos, os piemonteses, os vallacos, ou os
+prussianos até ao XVIII seculo? Acaso, tambem, ser-lhes-ha mais possivel
+do que a nós estabelecer uma transição natural e uma historia
+ininterrupta desde as primeiras edades até ás modernas? Não, decerto. Se
+a erudição podesse demonstrar a unidade da raça iberica, então os
+lusitanos baixariam á condição de uma variedade sem autonomia; facto é,
+porém, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de
+lusitanos em particular, e por isso as fabulas dos velhos antiquarios
+não merecem a attenção moderna. Não haverá, porém, acaso outro caminho
+para atacar este problema? Á falta de monumentos escriptos, nada poderá
+valer-nos? Entre a fabula ingenua dos antiquarios e as exigencias seccas
+e formaes dos eruditos modernos, não estará outra via? Affigura-se-nos
+que sim.[4]
+
+Todos reconhecem hoje a indestructivel tenacidade das populações
+primitivas. Raizes profundas que nenhuma charrua destroe apesar de
+revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagadas as folhas
+e troncos pelo tropear dos cavallos de guerra, depois de queimados e
+reduzidos a cinzas pelos incendios das invasões: embora se lancem novas
+sementes á terra e nasçam vegetações novas, essas raizes profundas
+tornam a reverdecer, crescem, dominam um chão que é seu, e afinal
+convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro,
+lento, mas invencivel as plantas intrusas.
+
+A permanencia dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje
+indiscutivel, permitte fazer--consinta-se-nos a expressão--a historia ao
+inverso: julgar de hoje para hontem, inferir do actual para o passado. A
+questão da raça lusitana apresenta-se-nos pois n'estes termos: ha uma
+originalidade collectiva no povo portuguez, em frente dos demais povos
+da Peninsula? Crêmos que a ha circumscripta porém a traços secundarios.
+Crêmos que as diversas populações da Hespanha, individualisadas sim,
+formam, comtudo, no seu conjuncto, um corpo ethnologico dotado de
+caracteres geraes communs a todas. A unidade da historia peninsular,
+apesar do dualismo politico dos tempos modernos, é a prova mais patente
+d'esta opinião.[5]
+
+Esse dualismo, porém, leva-nos tambem a crêr que entre as diversas
+tribus ibericas, a lusitana era, senão a mais, uma das mais
+individualmente caracterisadas. Não esquecemos, decerto, a influencia
+posterior dos successos da historia particular portugueza: mas elles,
+por si só, não bastam para explicar o feitio diverso com que cousas
+identicas se representam ao nosso espirito nacional. Ha no genio
+portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a
+terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma
+nobreza que differe da furia dos nossos visinhos; ha nas nossas letras e
+no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental, ironica ou meiga,
+que em vão se buscaria na historia da civilisação castelhana, violenta
+sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas
+alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnanima sem caridade,
+mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a
+entestar com as féras. Tragica e ardente sempre, a historia hespanhola
+differe da portugueza que é mais propriamente epica; e as differenças da
+historia traduzem as dessimilhanças do caracter.
+
+Poderemos regressar agora ao passado, e perguntar-lhe a causa primaria
+d'este phenomeno? Decerto não. Ou sombras impenetraveis o encobrem, ou a
+escassez do nosso saber nos não deixou ainda desvendal-o. Como
+hypothese--e do nosso atrevimento será escusa a nossa modestia--somos
+levados a crêr que a individualidade do caracter dos lusitanos (quer
+n'elles incluamos os callaicos, quer não) provém de uma dose maior de
+sangue celtico ou celta (questionou-se outr'ora sobre isto) que gira em
+nossas veias, de mistura com o nosso sangue iberico. Os nomes proprios
+de logares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscripções
+latinas da Lusitania e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal,
+provam a preponderancia de um elemento celtico. As vagas indicações dos
+antigos falam-nos dos celtas das margens do Guadiana, e dão-nol-os na
+costa Occidental da Peninsula. Vale porém mais do que isso a analogia
+evidente entre as manifestações particulares dos lusitanos e dos
+gallegos, e aquella phisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas
+da França e da Irlanda teem determinado a estes ultimos.[6]
+Tentámos ha pouco esboçar a nossa phisionomia differencial: escusado é
+tornar agora ao assumpto. Se a idéa de uma filiação dos lusitanos foi
+expressa de um modo ridiculo pelos antiquarios classicos, a idéa de uma
+filiação celtica ou celta teve já a mesma sorte quando, quasi em nossos
+dias, houve quem pretendesse filiar directamente o portuguez na lingua
+dos bardos. Paz do esquecimento a todas as chimeras!
+
+ [2] V. o seu retrato no _Portugal Contemporaneo_ (2.ª ed.) II,
+ pp. 283 a 327.
+
+ [3] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 11-15 e
+ _Taboas de chronol._, pp. 256-7.
+
+ [4] V. ácerca dos lusitanos. _As raças humanas_, I, pp. 198-201,
+ e 209-11, _nota_.
+
+ [5] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. XXXIV-XLIV.
+
+ [6] V. _As raças humanas_, liv. II, p. 4.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+II
+
+Fundamentos da nacionalidade
+
+
+Que valor tem o problema da nacionalidade perante a questão da
+independencia politica?
+
+Causas complexas, de ordem a mais diversa, e de merecimento mais
+distante, circumstancias que não vêm agora ao caso desenvolver, fizeram
+com que no nosso tempo se substituisse, ao principio do equilibrio
+internacional, o principio das nacionalidades, na organisação dos corpos
+politicos independentes da Europa.[7]
+
+Invasora como todas as doutrinas, e além d'isso habilmente explorada
+pelos estadistas, a das nacionalidades tentou--se não tenta
+ainda--predominar absoluta no triplo conjuncto de causas naturaes que de
+facto determinaram sempre, e sempre determinarão, a existencia das
+nações: a geographia, a raça, e as necessidades de ponderação: uma vez
+que a Europa é de facto uma amphictyonia. Sobre estes tres elementos
+naturaes, ou antes coarctado por elles, o egoismo das nações e a ambição
+dos imperantes talharam no mappa a delimitação das fronteiras. Por
+escasso que seja o conhecimento da historia, ninguem ignora que de todos
+tres o que mais impunemente tem sido e é atacado pela vontade dos
+homens, é o primeiro. A rebeldia dos dois segundos traduz-se de um modo
+mais immediato e efficaz nas guerras de equilibrio e nas guerras
+commerciaes ou estrategicas. Guerras, propria e exclusivamente de raça,
+são raras, se é que alguma houve; e os povos opprimidos por extranhos,
+quando teem o sentimento como que religioso da communidade de origem,
+extinguem-se, ou em revoltas estereis, ou emigrando. O equilibrio, o
+commercio, a estrategia, porém, muitas vezes aproveitam o sentimento da
+raça, fomentando-o, para dar com elle ás guerras a sancção que n'outros
+tempos se achava, de um modo analogo, nas crenças propriamente religiosas.
+
+Até hoje todas as successivas tentativas para descobrir a nossa _raça_
+teem falhado. Latinos, celtas, lusitanos e afinal mosarabes, teem
+passado: ficam os portuguezes, cuja _raça_, se tal nome convém empregar,
+foi formada por sete seculos de historia. D'essa historia nasceu a idéa
+de uma patria, idéa culminante que exprime a cohesão acabada de um corpo
+social[8] e que, mais ou menos consciente, constitue como
+que a alma das nações, independentemente da maior ou menor homogeneidade
+das suas origens ethnicas. O patriotismo tanto póde, com effeito, provir
+das tradições de uma descendencia commum, como das consequencias da vida
+historica. Não ha duvida, porém, que, se assenta sobre a affinidade
+ethnogenica, resiste mais ao imperio extranho do que quando provém
+apenas de uma communidade de historia. No dia em que a independencia
+politica se perde, obliteram-se mais rapidamente os caracteres
+autonomicos, embora durante a lucta valham menos os elementos de força
+provenientes da homogeneidade ethnogenica. Assim tantas nações perderam
+na Europa moderna a sua autonomia, sem que restem vestigios vivos da sua
+antiga independencia; ao passo que as individualidades ethnicas
+apparecem ainda hoje distinctas no seio de nações politicamente
+unificadas desde largos seculos: taes são o paiz basco, a Galliza e o
+Aragão, na Hespanha: a Irlanda e a Escocia, de raça celtica, na
+Inglaterra; a Provença, ou a Bretanha, em França: e, na Russia, a
+Finlandia que é scandinava, ou as provincias balticas que são
+germanicas.[9]
+
+O patriotismo portuguez não é pois argumento a favor nem contra o
+problema da unidade de sangue das populações com que Portugal se formou.
+O jornalismo e a politica podem explorar rhetoricamente todas as cousas,
+confundindo-as; mas á sciencia impassivel e soberana fica mal deixar-se
+arrastar por motivos inferiores. O patriotismo é excellente, no seu
+logar. Negar que durante os tres seculos da dynastia de Aviz a nação
+portugueza viveu de um modo forte e positivo, animada por um sentimento
+arraigado da sua cohesão, seria um absurdo. Essa cohesão que fôra ganha
+nas luctas e campanhas da primeira dynastia, perde-se no XVI seculo, por
+causa das consequencias do imperio oriental e da educação dos jesuitas.
+Portugal acaba; os _Lusiadas_ são um epitaphio.
+
+Deixemos pois celtas e lusitanos em paz, e aproximemo-nos dos tempos que
+precederam a formação da monarchia portugueza. N'essa epocha, o Mondego
+divide em duas metades o territorio nacional e as differenças typicas da
+população deviam ser então ainda mais acentuadas do que o são hoje. Na
+metade do sul o typo vae confundir-se com os limitrophes de além da
+fronteira do reino: e na metade do norte, diz um nosso illustre
+escriptor[10], «a Galliza, que tem comnosco de commum a
+lingua, que é uma continuação natural da zona geographica portugueza,
+podia muito melhor formar com Portugal uma nação, do que Portugal com
+Castella». A Galliza, cuja lingua se tornou litteraria sob o nome de
+portuguez[11], vem com effeito até ao Mondego: o mosteiro
+de Lorvão dá-se em antigos documentos como situado _in finibus Galleciæ_.
+
+O fallecido Soromenho (_Or. da ling. port._) dizia que «entre a lingua
+usada na provincia de Entre-Douro-e-Minho e a que mais tarde apparece
+nas terras do Cima-Côa e na Estremadura ha uma differença bastante
+sensivel. Póde sem receio dizer-se que, á similhança do que succedia
+além dos Pyreneus, em Portugal havia tambem uma _langue d'oc_ e uma
+_langue d'oil_, a lingua do Norte e a lingua do Sul... O Mondego é a
+lingua divisoria... ainda um seculo depois de D. Diniz ter abandonado o
+latim como lingua official». Esta differença coincide singularmente com
+as differenças, evidentes para todos, no clima, na vegetação, no
+caracter das populações do Norte e do Sul do nosso paiz. E a
+uniformidade posterior da lingua explica-se natural e comesinhamente
+pelo facto de sete seculos de unidade nacional. «A importancia que o
+portuguez adquiriu repentinamente, diz o sr. Ad. Coelho (_A lingua
+portugueza_), _resultou da introducção da cultura poetica na côrte
+portugueza_». É conhecido o papel da politica no sentido do unificar as
+linguas do uma nação; abundam os exemplos de linguas substituidas, e nem
+sempre a lingua denuncia a stirpe[12]. Os normandos perderam em França o
+seu idioma scandinavo, os burgundios o os lombardos, na França e na
+Italia, os seus idiomas germanicos; á maneira dos oseos e umbrios[13]
+que tinham trocado pelo latim as suas linguas.
+
+Não se pretenda por fórma alguma dizer, comtudo, que ao sul do Mondego
+houvesse uma lingua diversa: diga-se, porém, que o argumento da _unidade
+actual_ da lingua, depois de sete seculos de vida nacional, não tem
+valor. Todos vêem ainda hoje como é rara a população no sul, menos
+densos portanto os laços collectivos: e todos sabem como essas regiões,
+sujeitas por seculos a guerras exterminadoras habitadas por mosarabes,
+invadidas por berberes, taladas pelo fanatismo almoravide[14] passaram
+para sob o imperio da monarchia nascida na Galliza portugueza. Como não
+receberiam a lingua do vencedor? Não podia haver lucta entre duas
+linguas romanicas, porque a arabisação do sul fôra completa: podel-a-hia
+haver entre o arabe e o portuguez, quando a população captiva passava á
+condição de escrava? quando as novas terras conquistadas eram povoadas
+por colonias frankas, ou pelos cavalleiros hyerosalemitanos?
+
+Por taes motivos parece evidente a ausencia de uma causa ethnogenica no
+facto da formação da monarchia portugueza, cujas razões de existir são
+comesinhas, praticamente comprehensiveis, sem theorias subtis. A lingua
+vale decerto muito, como argumento: mas não valerá nada o homem que a
+fala? Não se acham por esse mundo homens de uma mesma raça falando
+idiomas diversos, e populações de um mesmo idioma, pertencendo a raças
+differentes?[15] Ora quem trilhou Portugal e a Hespanha visinha observou
+decerto--ou não tem olhos para vêr--uma affinidade incontestavel do
+aspecto e do caracter, um parentesco evidente, entre as populações dos
+dois lados do Minho, dos dois lados do Guadiana, dos dois lados da raia
+secca de leste. Se esses homens não falassem, ninguem distinguiria duas
+nações. E por outro lado, confundiu já alguem um algarvio, ou um
+alemtejano puro, com um puro minhoto? A historia commum funde, não
+scinde; e quando vêmos, depois de sete seculos, differenças tão
+marcadas, a observação dos homens leva-nos a crêr que com effeito em
+Portugal faltou uma unidade de raça, sobrando pelo contrario uma vontade
+energica e uma capacidade notavel nos seus principes e barões. Com um
+retalho da Galliza, outro retalho de Leão, outro da Hespanha meridional
+sarracena, esses principes compozeram para si um Estado.[16]
+
+ * * * * *
+
+A raça é de facto o mais tenue dos laços proprios para garantir a
+cohesão independente de um povo. E além d'isso a doutrina--se
+admittissemos a identidade d'ella e do facto--exigiria que á expressão
+de raça se ligassem sempre certos caracteres correspondentes á vastidão
+necessaria, á eminencia sempre crescente das funcções organicas, e á
+originalidade activa, das nações modernas. Mal de nós, pois, se ao facto
+de termos ou não termos sido os lusitanos, ou outros quaesquer, formos
+pedir argumentos para defender a nossa independencia nacional; porque
+esse facto não augmentará, nem a nossa força, nem as nossas razões:
+porque esse facto nem sequer chega para motivar a nossa separação da
+monarchia leoneza.
+
+Não nos levantámos contra ella como lusitanos opprimidos: nós nem
+tinhamos a menor idéa de que fossemos lusitanos, ou qualquer outra
+cousa. A população do condado portucalense, ibera, cruzada de celtas,
+romanisada, submettida ao governo dos godos, depois aos arabes, e
+finalmente ao monarcha leonez, não podia ter decerto um sentimento de
+cohesão collectiva ou nacional, incompativel com o estado da sua
+cultura, com a tradição, e com a situação social e politica: é isso o
+que todos os documentos historicos nos revelam. «Portugal, diz o snr.
+Herculano, nascido no XII seculo em um angulo da Galliza, dilatando-se
+pelo territorio do Al-Gharb sarraceno, e buscando até augmentar a sua
+população com as colonias trazidas de além dos Pyreneus, é uma nação
+inteiramente moderna.» É decerto; sem isso, porém, impedir que tenha
+raizes antigas. Não confundamos esta questão com a da independencia, e
+teremos, cremos nós, pisado o verdadeiro e solido terreno da historia.
+
+A causa da separação de Portugal do corpo da monarchia leoneza não é
+obscura, nem carece de largas divagações para definir-se: é a ambição de
+independencia do governador do condado, que o tinha do rei suzerano: é o
+afastamento d'esta nova região roubada aos sarracenos; é a necessidade
+de pulverisação da soberania, que a alliança d'esta idéa com a de
+propriedade, e a ignorancia de meios administrativos capazes de manter a
+ordem em terrenos dilatados, tornam inevitavel na Edade-media.[17]
+Portugal separava-se, da mesma fórma que o reino da Navarra
+se dividira em tres, e pelos mesmos motivos. Portugal defende a
+separação: o monarcha suzerano impugna-a. Debate-se mais de uma vez a
+questão com as armas: não porque se chocassem os sentimentos nacionaes,
+mas porque os principes defendiam o que era, ou julgavam ser,
+propriedade sua. Estas primeiras guerras portuguezas não depõem decerto
+de um modo particular em favor da independencia, porque eram a lei de
+toda a Hespanha, a lei de toda a Europa--podemos dizer assim. É um
+preconceito fazer do conde D. Henrique o fundador consciente da
+independencia de uma nação, quando o conde apenas cuidava da
+independencia pessoal e propria. O sentimento de independencia nacional,
+a idéa de que os reis são os chefes e representantes de uma nação, e não
+os donos de uma propriedade que defendem e tratam de alargar, bem se
+póde dizer que só data da dynastia de Aviz, depois do dia memoravel de
+Aljubarrota.[18]
+
+No XII e XIII seculos Portugal é um certo territorio, propriedade de um
+certo principe: d'onde vem? quem é? pouco importa. O conde D. Henrique
+era francez. Assim, a epocha da primeira dynastia desmente por todos os
+lados, e de todas as fórmas, a idéa de uma raça, possuindo, de um modo
+mais ou menos definido, a consciencia da sua existencia collectiva.
+
+É essa consciencia que dá porém o caracter eminente á segunda dynastia,
+ou de Aviz, em cujas mãos Portugal desempenha um papel bem similhante ao
+dos phenicios da Antiguidade.[19] Como aos phenicios succedeu aos
+portugueses: no momento em que a razão de ser da sua acção na
+civilisação da Europa desappareceu, a nação definhou, sumiu-se, perdendo
+tudo até perder a independencia.
+
+É verdade que a nossa independencia restaura-se em 1640. Mas como, de
+que modo? Atrever-se-ha alguem a dizer que é uma resurreição? Não será a
+historia da Restauração a nova historia de um paiz, que, destruida a
+obra do imperio ultramarino, surge, no XVI seculo, como no nosso
+appareceu a Belgica, filho das necessidades do equilibrio europeu? Não
+vivemos desde 1641 sob o protectorado da Inglaterra? Não chegámos a ser
+positivamente uma feitoria britannica? E ainda no decurso d'esta
+historia o Brazil veiu, enchendo-nos de oiro, prestar-nos um ponto do
+apoio extra-europeu, e como que restaurar o antigo caracter do Portugal
+manuelino, capital europêa de um imperio ultramarino, á maneira da
+Hollanda. E que melhor prova póde haver da nossa desorganização do que a
+duração ephemera da obra do marquez de Pombal--o estadista que concebeu
+a verdadeira restauração de Portugal, chegando por um momento a fazer
+d'elle outra vez uma nação independente? que melhor prova do que a
+reacção victoriosa de D. Maria I?
+
+A perda do Brazil, reduzindo o reino á miseria, veiu mostrar a
+fragilidade do nosso edificio politico. Os inglezes tiveram de nos
+tutelar para manter, como lhes convinha, a dynastia de Bragança; e
+passada, vencida a crise, appareceu com o liberalismo a impotencia
+manifesta de restaurar a vida historica de uma nação imperial ou
+colonial.[20]
+
+Não confundamos, pois, pelo amor de tudo o que ha sensato, o patriotismo
+com as questões e problemas scientificos das origens naturaes ethnicas.
+Tambem a Suissa, alleman, italiana, franceza, odiou o austriaco, á
+maneira por que nós _odiamos Castella_. Basta a historia, basta o
+interesse, para dar homogeneidade social e politica a um povo; e basta
+essa homogeneidade para crear um patriotismo. Ora o patriotismo das
+raças assim formadas exprime-se na acção, e não em miragens enganadoras
+de um passado que a historia acaba. Na sua lingua, nas suas tradições,
+no seu caracter, o celta da Irlanda encontra sempre um ponto de apoio
+vivo e positivo. Quereis uma prova da differença? Os pontos de apoio que
+nós buscamos são mortos ou negativos: morto o imperio maritimo e
+colonial, a India, e toda a historia que terminou com os _Lusiadas_ em
+1580: negativo, o _odio a Castella_, que nem nos opprime, nem nos odeia.
+
+ * * * * *
+
+Se a unidade da raça primitiva se não vê, menos ainda Portugal obedece
+na sua formação ás ordens da geographia: os barões audazes, ávidos e
+turbulentos são ao mesmo tempo ignorantes de theorias e systemas. Vão
+até onde vae a ponta da sua espada: tudo lhes convém, tudo lhes serve,
+com tanto que alarguem o seu dominio.
+
+Por isso as fronteiras de Portugal oscillam durante os primeiros dois
+seculos á mercê dos azares das guerras, com Leão e Castella de um lado,
+com os sarracenos do outro; e Portugal vem a ser formado com dois
+fragmentos: do reino leonez, um, dos émirados sarracenos, outro.
+
+Quando Fernando-Magno de Castella, descendo do oriente, conquistou a
+moderna Beira aos musulmanos,[21] a Galliza encontrou em
+Coimbra e na linha de defeza do Mondego uma fronteira que a punha ao
+abrigo de futuras correrias, até ou além do valle do Douro. Pelo meiado
+do XI seculo a expressão geographica de Galliza ia, pois, até ao
+Mondego; porém, as novas conquistas tinham sido constituidas pelo rei
+n'um governo, ou condado, cujos limites eram, pelo norte, o Douro; e a
+leste, uma linha passada por Lamego, Vizeu e Cêa, e que, descendo de
+novo á costa, acompanhava os pendores setentrionaes da serra da
+Estrella. Condado de Galliza ao norte, de Coimbra ao sul do Douro,
+sarracenos ao sul do Mondego: eis ahi a condição do territorio do
+moderno Portugal na segunda metade do XI seculo.
+
+Já, porém, n'esta epocha, uma expressão a que não correspondia valor
+politico, militar ou administrativo, apparece a designar o territorio de
+entre o Douro e o Minho e a moderna provincia de Traz-os-Montes: a essa
+parte do condado da Galliza chama-se já Portucale.
+
+Nos ultimos annos do XI seculo correrias felizes deram ao celebre
+Affonso VI a posse de Santarem, Lisboa e Cintra, alargando as fronteiras
+christans até á linha do Tejo. Os nossos territorios de entre Mondego e
+Tejo foram creados em condado ou governo, e confiados á guarda de
+Gonçalo Mendes da Maia, o nomeado _lidador_: e os tres governos que
+tinham por limites successivos o Douro, o Mondego e o Tejo, constituiram
+em favor do genro de Affonso VI, Raymundo de Borgonha, uma especie de
+vice-reino. Breve foi, porém, a duração d'este periodo; porque logo em
+1097, depois do desbarato do conde borguinhão e da perda da fronteira do
+Tejo, Affonso VI effectua uma nova divisão do territorio, dando
+autonomia politica á expressão geographica de Portucale ou Portugal, e
+annexando-lhe o antigo condado de Coimbra. O condado portucalense, por
+tal fórma engrandecido, foi dado a um primo do conde da Galliza, e os
+seus dominios recuavam assim de golpe desde o Tejo até ao Minho. Esse
+primo era o conde D. Henrique, tambem genro do poderoso Affonso VI.
+
+Na primeira metade do XII seculo, o conde e a viuva sua herdeira levam
+as fronteiras do seu Estado, para leste, até Zamora, e para norte, por
+entre Minho e Bivey, até Tuy e Orense. As guerras civis dos Estados da
+Peninsula davam e tiravam assim, constantemente, territorios e
+povoações. A fronteira norte-leste breve regressa, porém, aos seus
+actuaes limites de além-Douro; mas o governo de Affonso Henriques, o
+primeiro que ousou quebrar de todo os laços tenues da vassallagem a
+Leão, viu alargar-se do lado opposto a raia até á linha do Sado, desde
+que, no meiado do XII seculo, Lisboa, Santarem, Cintra, Almada e
+Palmella cairam definitivamente em seu poder, accrescentando novas
+terras ás do primitivo condado portucalense.
+
+As fronteiras do norte e leste, no além-Douro, eram já, ao tempo da
+accessão de Sancho I ao throno, as mesmas de hoje: margem esquerda do
+Minho, por Melgaço a Lindoso, d'ahi a Bragança por Miranda, entestar com
+o Douro no ponto em que agora se extremam Portugal e a Hespanha. A
+fronteira de leste, entre Douro e Tejo, só no tempo de D. Diniz se
+demarcou por onde hoje passa: no fim do XII seculo a raia seguia desde a
+foz do Coa, rio acima, até á confluencia do Pinhel, e, acompanhando-o,
+passava entre Sabugal e Sortelha, em demanda das fontes do Elga. D'ahi
+ao Tejo, então e agora, a fronteira é a mesma.
+
+Ao sul do Tejo é difficil, senão impossivel, determinar
+chronologicamente as fronteiras portuguesas. A nacionalidade do dominio
+nas cidades do Alemtejo permittiria traçar geographicamente a linha da
+fronteira com uma aproximação conveniente, tanto mais que os territorios
+de entre as cidades, devastados e ermos, eram posse de quem no momento
+os pisava armado. Mas as successivas correrias de lado a lado, a tomada,
+logo a queda; depois a reconquista de uma mesma cidade, ás vezes n'um
+periodo de mezes, tornam impossivel demarcar a fronteira antes da epocha
+em que definitivamente uma certa região passa para o dominio portuguez,
+para d'elle não mais saír. Assim, a tomada de Evora em 1166 dá á linha
+do Sado, pouco antes conquistada, um ponto de apoio a leste contra as
+fortalezas sarracenas de Jerumenha, Elvas e Badajoz. Por ahi a raia
+portugueza iria até Marvão, acaso até Arronches.
+
+Tal é a linha das primeiras fronteiras do moderno Portugal.
+
+No primeiro quartel do XIII seculo, Alcacer do Sal, base estrategica da
+linha sarracena ao sul, e Elvas, padrasto avançado da linha de leste,
+cáem em poder dos portuguezes; e á determinação final da nossa raia
+alemtejana vem juntar-se, até ao meiado do seculo, a conquista do
+Algarve, completando, entre o Guadiana e o mar, o moderno Portugal.
+
+No ferir das guerras da conquista não são os musulmanos que põem um
+freio á ambição pessoal dos principes, porque a sorte do imperio do
+Islam estava lançada, e para a consummar concorriam todos os Estados
+christãos da Peninsula. Será porventura a raça que delimita as
+fronteiras da nova nação? Ocioso é já responder. Será a geographia? Não
+parece; desde que vêmos a raia cortar de lado a lado as planicies do
+Alemtejo, as bacias do Tejo e do Douro, e cair perpendicularmente sobre
+as cumiadas das montanhas em vez de lhes seguir a orientação. Qual dos
+tres elementos nos resta? O equilibrio. O equilibrio é com effeito o
+elemento ponderador: á ambição dos principes de Portugal oppõe-se a
+resistencia dos reis de Leão; as armas, invocadas, demonstram que, se um
+dos antagonistas não tem força bastante para submetter o adversario, o
+outro tem de usar com prudencia de um poder limitado. Quando tenta
+passar além do Minho, ou adquirir para si Badajoz, a reacção mostra-lhe
+até onde póde ir a acção dos meios de que dispõe. Do equilibrio ou
+ponderação das duas forças antagonicas nasce a determinação geographica
+do Portugal moderno, para o qual só no extremo norte e no extremo sul,
+sobre o Minho e sobre o Guadiana, se assentou em admittir uma fronteira
+natural.
+
+Estas já longas explicações bastarão, parece-nos, a expôr claramente o
+nosso pensamento. Ha ou não ha uma nacionalidade portugueza? Questão
+absurda, assim formulada. Evidentemente ha, se nacionalidade quer dizer
+nação. Se por nacionalidade se entende, porém, um corpo de população
+ethnogenicamente homogeneo, localisado n'uma região naturalmente
+delimitada, insistimos em dizer que tal cousa se não dá comnosco. Se por
+nacionalidade se entende, finalmente, essa unidade social que a historia
+imprime em povos submettidos ao regime de um governo, de uma lingua, de
+uma religião irmans, como nós o temos sido durante sete seculos,
+evidentemente a resposta só póde ser uma.
+
+ [7] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chron._,
+ pp., XXII e segg.
+
+ [8] V. _As raças humanas_, introd., pp. LXVII e segg.
+
+ [9] V. _Instit. primitivas_, pp. 290-306.
+
+ [10] O sr. F. Ad. Coelho.
+
+ [11] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.), pp. 122-5.
+
+ [12] V. As raças humanas, I, pp. 20-5.
+
+ [13] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 117-45.
+
+ [14] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 81-111.
+
+ [15] V. _As raças humanas_, I, pp 20-5.
+
+ [16] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
+ pp. XXX-I.
+
+ [17] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
+ pp. XXVI-VII e _Instit. primit._, pp. 222 e segg.
+
+ [18] V. _Instit. primitivas_, pp. 233-43.
+
+ [19] V. _Raças humanas_, I, IV, 2, 3.
+
+ [20] V. _Portugal contemporaneo_, II, pp. 119-37.
+
+ [21] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 116-7.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+III
+
+Geographia portugueza
+
+
+Quando se observa o retalho da Peninsula, de que a historia fez
+Portugal, separado do corpo geographico a que pertence, desde logo se vê
+como a vontade dos homens pôde sobrepujar as tendencias da natureza. Os
+rios e as serranias descem, perpendiculares sobre a costa occidental,
+proseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para
+muito além das fronteiras, até ao coração do corpo peninsular. As
+cumiadas das montanhas e os valles extensos mudam de nacionalidade
+n'aquelle ponto convencional que aos homens aprouve fixar.
+
+Não falta, porém, quem pretenda encontrar, no nosso proprio territorio,
+motivos determinantes da constituição primordial da nação: tanto póde a
+obcecação doutrinaria! Diz um que essa separação dos litoraes é uma
+regra;[22] nega outro o caracter arbitrario da linha das
+fronteiras de leste, affirmando que essa linha coincide com os limites
+extremos até onde os nossos rios são navegaveis. Decerto nunca os viu
+quem tal affirma. No Guadiana apenas se navega até Serpa, e entretanto o
+rio é portuguez nas duas margens até Monsarás, formando a raia d'ahi até
+Elvas. O Douro para cima da Regoa é tão navegavel até Zamora como até á
+Barca-d'Alva. No Tejo, passando Abrantes, tanto se vae até Alcantara,
+como até Aranjuez. Onde está pois a concordancia da fronteira com a
+parte navegavel dos rios? A allegada _base geographica_ da nacionalidade
+desapparece pois, se é que uma tal expressão não quer apenas denunciar o
+destino maritimo, como que phenicio, da nação.
+
+As duas cousas não devem, porém, confundir-se, pois n'um caso
+encontramos a causa determinante da aggregação social, emquanto no outro
+se observa a consequencia do facto da existencia anterior d'essa
+aggregação, fortuitamente constituida n'um litoral. É evidente que o
+caracter maritimo e colonial da nação portugueza, na segunda dynastia,
+não podia ter influido no facto já secular da independencia. É sabido
+que D. Affonso Henriques, o author d'ella, não tinha navios, servindo-se
+dos dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcacer. A marinha foi uma creação
+da monarchia e um producto da nação, depois de constituida: o caracter
+maritimo é historico, não é primitivo em um povo rural, como era o
+portuguez dos primeiros tempos, e ainda hoje o é o gallego. O movimento
+de deslocação da capital do reino para o sul, as medidas de D. Diniz, as
+de D. Fernando, depois a empreza do Infante D. Henrique, são momentos
+successivos de uma historia que é o nervo intimo da vida portugueza.
+Desde a reunião das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de
+Lisboa, desde a introducção dos genovezes, que vieram ensinar-nos a
+navegar, vê-se começar a formar-se essa nação cosmopolita, destinada á
+vida commercial, maritima e colonisadora.[23]
+
+É essa a nação que a historia fórma: e por isso mesmo que a vida
+portugueza foi maritima, e o destino da sua historia o mar: por isso
+mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as
+cidades maritimas de um paiz cuja capital é um dos melhores portos do
+mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa não teria resistido á força
+absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular.
+
+Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as
+ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente,
+adquiriu d'esta localisação um caracter seu: ao mesmo tempo que nos
+habitantes de Portugal acaso uma diversa combinação de sangue favorecia
+uma tendencia particular. Assim como, porém, as cristas das montanhas,
+e, pelo coração dos valles, o curso dos nossos rios, são as veias e os
+tendões que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue
+os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma raça irman.
+
+E se temos uma phisionomia moral, distincta sem ser diversa, tambem as
+condições do nosso territorio nos dão um genero de destino differente,
+mas encaminhado a um mesmo fim. As navegações e descobertas são a nossa
+gloria e a nossa maior façanha. Mareando a interrogar as mudas ondas,
+construimos; conquistando, derrocámos. Navegadores e não conquistadores,
+desvendámos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no
+Oriente foi um desastre, para o Oriente e para nós. A bordo fomos tudo;
+em terra apenas podémos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a
+incapacidade do nosso dominio. Façanhas de homens que dirigem instinctos
+devotos e pensamentos de cubiça, eis ahi o que nós veremos ser o nosso
+imperio oriental. Epopêa do espirito indagador, audaz e paciente, as
+nossas navegações, as nossas explorações colonisadoras, tornam-nos os
+genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma
+celtica nos attrahia. Quando á Europa humilhada o castelhano impõe a lei
+com a espada e o mosquete, nós, amarrados ao banco dos remeiros,
+segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fóra a nau, com o
+olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao
+longo das costas... Ninguem nos vê: só as ondas ouvem as melopêas
+monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da
+vaga contra o costado.--Elles vão, emplumados e vestidos de aço,
+arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico,
+ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irmãos; e
+são-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento
+egual, que está no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que
+arde no cerne da Terra, dando origem a rochas tão diversas no aspecto,
+na côr, na rigeza, na structura, no merito.
+
+Portugal é um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que é uma
+arena. A vastidão do circo desafia e provoca tentações nos espectadores,
+arrastando-os afinal á laboriosa empreza das navegações, que era para
+elles um destino desde que a politica os destacára do corpo da Peninsula.
+
+ * * * * *
+
+Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da nação occidental
+da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras
+peninsulares, galgando uns até ao mar, terminando outros mais distante
+da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos
+que podem dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul,
+delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.
+
+No systema do norte, o Douro é a arteria central d'uma região montuosa,
+coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras
+culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou
+degraus successivos d'essa platéa de montanhas que se fecha áquem da
+fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depressões se
+precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza,
+o Lima, o Cávado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o
+Mondego. As serras de entre Minho e Lima são as do Suajo; as de entre
+Lima e Douro, as do Gerez e do Marão, separadas pelo Tamega, confluente
+d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e
+Mondego, Caramullo.
+
+No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida,
+constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a
+zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto
+pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo,
+desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o
+Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado,
+que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.
+
+Se a metade norte de Portugal é fechada a leste por um systema de
+contrafortes avançados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro
+das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a
+opinião dos que vêem na orographia a base necessaria da delimitação das
+fronteiras nacionaes.
+
+A começar do sul, o Guadiana fende a cordilheira andaluza penetrando no
+interior da Peninsula. Curvando a sua orientação em Badajoz, o Guadiana,
+depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direcção leste
+atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados
+apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa
+fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de
+nação sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes
+avançados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a
+Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul.
+No troço de fronteira ao norte d'esta como que garra lançada pela
+ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo
+valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle,
+Estremadura em fóra, até Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da
+Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a
+serra da Estrella.
+
+O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins
+sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e
+como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente
+fronteiro, cujo clima e producções partilha.
+
+ * * * * *
+
+Geognosticamente, o territorio portuguez póde dividir-se em tres regiões
+principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos
+secundarios, e a dos terrenos terciarios.
+
+Tracemos uma linha que, partindo de Aveiro para norte, ao longo da
+costa, se dobre para nascente acompanhando a fronteira marginal do
+Minho. D'ahi extende-se por toda a raia de leste até ás serras do
+Algarve, baixando-a em direcção poente, para a prolongar com a costa até
+Sines. Depois, interne-se a contornar a bacia do Sado, por Grandola,
+Cercal, Panoias, Aljustrel, Ferreira, Torrão até Vendas-Novas; em
+seguida a do Sorraia, por Lavre, Mora, Ponte-de-Sôr, caíndo sobre o Tejo
+em Abrantes, e caminhando para norte por Thomar, Alvaiazere, Anadia--e
+ter-se-ha encerrado em Aveiro um perimetro que abrange cerca de tres
+quartas partes da superficie total da nação. É a região dos terrenos
+primitivos.
+
+A dos terrenos secundarios compõe-se de dois retalhos isolados. O
+primeiro extende-se ao longo da margem direita do Tejo, desde Lisboa até
+á Barquinha; entestando d'ahi até Aveiro com a linha anteriormente
+traçada, e vindo ao longo da costa, a descer para o sul, circumscrever a
+serra de Cintra, chegando outra vez a Lisboa. O segundo é constituido
+pelo litoral do Algarve, no pendor sul das serras, até ao mar.
+
+A terceira região, finalmente, a dos terrenos terciarios, desce pela
+costa, desde a ponta do Bogio, ao sul do Tejo, até Sines, alargando-se
+pelas duas zonas divergentes dos valles do Sado e do Sorraia,
+contornados pela linha determinada antes ao delimitar a raia da primeira
+região.
+
+Esta ultima é, como se viu, a mais extensa e importante. Abrange as duas
+provincias ao norte do Douro, a quasi totalidade das duas Beiras e do
+Alemtejo, e boa metade do Algarve. A Estremadura quasi por si só compõe
+as duas segundas regiões--uma ao norte, outra ao sul do Tejo[24].
+
+Na do norte predominam os terrenos cretaceos e jurassicos, formando
+tambem estes ultimos a quasi totalidade do retalho algarvio da segunda
+região. Uma pequena mancha de granitos em Cintra, os basaltos dos
+arredores de Lisboa, e as dunas da costa, desde a Marinha-grande até
+Aveiro, são os phenomenos esporadicos da geognosia d'esta parte de
+Portugal.
+
+Na região do sul do Tejo apenas a Arrabida e S. Thiago de Cacem
+apresentam breves nodoas de terrenos jurassicos; e estes, os terrenos
+modernos formados pelas alluviões do Tejo e Sado e que lhes bordam as
+margens, e os areaes da costa entre o Bogio e o cabo de Espichel, são as
+unicas excepções do vasto lençol da região dos terrenos terciarios.
+
+Na primeira e mais extensa das zonas geognosticas de Portugal tambem o
+Tejo póde dar lugar a uma divisão em duas sub-regiões differentemente
+caracterisadas. Tomadas ambas como um todo, os terrenos, schistosos
+quanto á structura, e primarios ou paleozoicos quanto á edade,
+predominam em massa, envolvendo as rochas eruptivas ou igneas. Porém ao
+norte do Tejo o volume d'estas rochas, exclusivamente graniticas, é
+proximamente egual á dos schistos; ao passo que ao sul, além d'estes
+ultimos predominarem, apparecem não só granitos mas porphyros e
+diorites.
+
+Entre Castello-de-Vide, Portalegre, Niza e o Crato, inscreve-se acaso o
+maior e mais compacto affloramento de granitos ao sul do Tejo. Depois
+d'este vem o de Evora, bracejando de um modo irregular, para norte até
+Vimeiro, para nordeste até Lavre, e no lado opposto até Vianna, Aguiar e
+S. Manços. Afinal, as pequenas nodoas de Galveas, de Santa Eulalia, de
+Freia, de Reguengos, da Vidigueira, e de Valle-Vargo a nascente de
+Serpa, completam o systema de affloramentos graniticos da sub-região do
+sul do Tejo. Os porphyros e diorites constituem um longo dorso que vem
+de sueste a nordeste, desde Serpa, por Beja, Alvito, Torrão, Alcaçovas,
+terminar junto de Cabrella, quasi na raia da região terciaria. Além
+d'esta formação principal, encontram-se destacadas as manchas sporadicas
+de Alter, de Bonnavilla, de Monforte, e as duas mais consideraveis de
+Campo-maior e de Elvas, proximo da fronteira.
+
+Ao norte do Tejo as condições variam. A massa de rochas eruptivas
+predomina sobre a dos schistos. Depois do macisso schistoso da
+Guardunha, entre Castello-Branco e o Fundão, transposto o valle do
+Zezere, encontra-se a base alastrada da serra da Estrella, e afinal os
+alicerces de Monte-muro. Os granitos vêem desde a fronteira, entre
+Alfaiates e a Barca d'Alva, pela Covilhan e Taboa ao sul, por Vizeu a
+poente, entestar no Douro, cuja margem esquerda sobe até á raia de Leão.
+Pequenas são as nodoas schistosas na área circumscripta: S.
+João-da-Pesqueira e Villa-nova-da-Foscoa, na margem do Douro:
+Villa-da-Egreja ás origens do Vouga; Pinhel e Valhelhas no pendor sul da
+serra da Estrella.
+
+Porém as abas occidentaes das serras da Guardunha, da Estrella e do
+Montemuro, ladeadas ao sul pelo Tejo, formam duas vastas zonas de
+terrenos paleozoicos, uma cortada pelo Zezere, outra pelo Mondego e pelo
+Vouga: são estas zonas que vêem raiar com a região dos terrenos
+secundarios até Aveiro, e com o mar desde Aveiro até â foz do Douro,
+tendo de permeio a facha de dunas da costa.
+
+Ao norte do Douro os schistos predominam para cima da linha
+Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto
+até á Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas
+eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a
+poente do Tamega, lançando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos,
+a Vianna e até Caminha.
+
+A leste da linha Chaves-Regoa são irregulares e dispersos os
+affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde
+Bemposta até Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do
+norte; vêem de Montalegre, por Chaves até Valpassos e Torre-de-D. Chama;
+e pela serra do Marão, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e
+Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Marão,
+da Campean a Santa Martha, as alturas á esquerda do Corgo, a maxima
+parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, são formados pelos
+terrenos paleozoicos.
+
+ [22] V. _As raças humanas_, introd., pp. XXXI-II.
+
+ [23] V. _O Brasil e as colonias portuguezas_ (2.ª ed.) pp. 1-29.
+
+ [24] V. para a geologia terciaria do Tejo, os _Elem. de Anthropologia_
+ (3.ª ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da região
+ portugueza com o da Peninsula no seu todo na _Hist. da
+ civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. VII-XXI.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+IV
+
+A terra e o homem
+
+
+Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente
+indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos
+subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar
+a phisionomia natural das diversas regiões do territorio portuguez.
+
+A sua antiga divisão em provincias obedecia mais a estas condições
+naturaes do que a moderna divisão em districtos: as causas determinantes
+de uma e de outra são o motivo d'esta differença. As provincias
+formaram-se historicamente em obediencia ás condições naturaes; os
+districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo até
+certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das
+regiões, e a administração limitára-se a reconhecer factos naturaes:
+outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios
+administrativos e estatisticos (área, quantidade de população, etc.),
+fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos
+e climatologicos. Por estes motivos nós agora estudaremos por
+provincias, e não por districtos, o territorio portuguez; deixando para
+o lugar competente o estudo das condições modernas da nação.[25]
+
+A divisão das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor
+eminente. Começando pelo norte, o territorio de além-Douro inscreve duas
+zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste,
+Entre-Douro-e-Minho. Além de obedecer, como se vê, á geographia,
+buscando nos rios fronteiras naturaes, a divisão das duas provincias
+consagrava differenças essenciaes: as geognosticas já por nós observadas
+(rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e além
+d'ellas as climatericas. Portugal, segundo já se disse n'outro lugar, é
+em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano.
+Esta circumstancia caracterisa para logo as regiões de um modo tambem
+geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as
+cis e as transmontanas; as que estão directamente expostas á acção das
+brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os
+degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por
+cumiadas occidentaes sobranceiras.
+
+Esta circumstancia dá caracteres inteiramente diversos ás duas
+provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias
+do Gerez e do Marão, que roubam a ultima á acção das brisas maritimas.
+Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda
+differença da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de áquem e
+de além d'esse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto, destaca-se para
+logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e
+ingenuo. Além do Tamega o clima é secco (40 a 60% de humidade relativa)
+poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande
+o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas;
+intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as montanhas e gelam a
+agua pelas baixas (12 a 15° temp. média). Áquem, as brisas do mar,
+estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as
+chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de
+oriente é sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos
+valles, reunindo-se junto á costa, formam ao longo d'ella a primeira das
+planicies litoraes de Portugal. Habita essa região pingue uma população
+abundante, activa, mas sem distincção de caracter, nem elevação de
+espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta
+essa especie de tonificação propria do ar secco e dos largos horizontes
+recortados n'um céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, não uma
+Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes,
+e no estio 80 a 200) sobre um chão lavrado de caudaes; a humidade (70 a
+100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade
+intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo
+faz fermentar, á maneira do que succede nas zonas genesiacas dos
+tropicos. Temperado o clima (12 a 15°), sem excessivos afastamentos
+hibernaes, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de
+ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem
+cousa alguma de aládo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.
+
+O clima determina a paizagem. Além Tamega as louras messes do trigo, os
+pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os
+pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no
+inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento,
+dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que é de elevado
+no espirito. A natureza vive na luz, e a alma sente que os elementos
+teem dentro em si forças que os animam.
+
+Áquem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegetações
+abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de
+plantas: mas como o solo é breve, como a rocha afflora por toda a parte,
+e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do
+granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos
+sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho
+maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas
+varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da
+natureza n'uma região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe
+uma similhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com
+ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bretões e
+flamengos. A vegetação, de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão
+dos homens: as necessidades implacaveis da população abundante produzem
+uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos,
+circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus,
+decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto
+formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos, atraz d'uns
+boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de
+um carro. Sob um céu ennuveado quasi sempre, pisando um chão quasi
+sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em
+torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem
+abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, não
+podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com os
+seus bois, os seus arados e enxadas, fórma um todo d'onde se não ergue
+uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de
+resistencia utilitaria.[26] A paizagem é rural, não é agricola; a poesia
+dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez
+subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas
+espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados
+de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de
+um largo folego de ideal, e de uma viva inspiração de luz. Apenas aqui e
+acolá, engastado na monotonia da côr dos milhos, um canto do verde
+alegre do linho vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um lugar
+para o idyllio infantil do amor.
+
+ * * * * *
+
+Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira
+litoral, dão-se differenças analogas ás que distinguem o Minho e
+Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e não identicas, porque n'esta nova
+região começam a sentir-se as influencias de causas geraes, como são as
+da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41° e 42°;
+as Beiras descem até 39° 30'. Portugal, inscripto entre 37° e 42°, e
+lançado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regiões
+uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes são
+a altitude, a exposição e a constituição geognostica das montanhas, no
+sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.
+
+N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da
+Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos
+declives transmontanos oppostos, reunidos á Guardunha, o nome de
+Beira-baixa. Tres zonas compõem a região das duas provincias: o litoral
+formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes
+ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.
+
+A serra da Estrella é a mais elevada das cordilheiras portuguezas; é o
+prolongamento da espinha dorsal da Peninsula; é a divisoria das duas
+metades de Portugal, tão diversas de phisionomia e temperamento; é
+finalmente como que o coração do paiz--e acaso nas suas quebradas e
+declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino
+representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez:
+se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma
+raça ante-historica onde possamos filiar-nos, é ahi que o havemos de
+procurar, e não entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os
+turdetanos da costa do sul, nem entre as populações do litoral cruzadas
+com o sangue de muitas raças e com os sentimentos e costumes das mais
+variadas nações.
+
+O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens
+(1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles,
+seguindo o rebanho de ovelhas louras, é talvez o descendente dos
+companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no
+estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a
+subir: só o pastor nómada as habita. Do alto do seu throno de rochas vê
+gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro,
+rasteiro e roído pelo gado, circumda os altos nús; logo apparecem os
+piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, já a meia altura da
+encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal,
+na extrema baixa, o lençol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas
+em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos
+canaes.
+
+A serra da Estrella, reforçada ao norte pelo contraforte de Monte-muro,
+fecha, com o Marão e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar
+estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua--duas
+fendas--essa barreira, cujos picos sobem até 2:000m., encerra e protege
+o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do
+clima creador do litoral de além-Mondego.
+
+O beirão, habitante da encosta occidental onde o ar é mais humido do que
+em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200
+millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro,
+o carvalho e o pinheiro bravo põem na paizagem todos os tons e essa
+grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beirão é menos vivo,
+mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a
+structura herculea dos seus homens, cuja face, não luzindo com os
+brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno
+desenvolvimento da vida animal. Berço dos audazes bandidos, anachronicos
+representantes de uma independencia de outras edades,[27] a
+Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores, que vão todos os annos,
+pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as
+bragas curtas de linho, descalços, com a camisola de lan agasalhando o
+tronco, o barrete phrigio na cabeça, a manta e a enxada ao hombro.
+
+Descendo ao litoral, o beirão é amphibio: pescador e lavrador. A lavoura
+nasce do mar: os carros são barcos, adubos o _molisso_ de algas e
+mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de sal. O mar
+insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma
+arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa vê-se
+fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra
+humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre á enxada. O calor
+(15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as
+sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa
+e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo
+prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja á raiz das
+montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e
+veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.
+
+A exposição oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos
+cerros subalternos da Guardunha dá á provincia da Beira-baixa um outro
+aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas são menos abundantes: os
+olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam á vida agricola a
+industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a força das
+torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.
+
+Já similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa é a
+transição da metade norte para a metade sul do paiz.
+
+Caminhemos de oriente para occidente. O Alto-Alemtejo tem o clima de
+Traz-os-Montes; a temperatura média é mais elevada (16 a 17.), porque a
+menor altura das montanhas dá frios menos intensos no inverno; as chuvas
+estivaes são menores tambem (30 a 50 mill.). Fronteira aberta da
+Hespanha, a raia apenas convencionalmente o divide da Estremadura
+castelhana. As mesmas planicies onduladas, as mesmas culturas
+cerealiferas, as mesmas florestas de sobros e azinhos, as mesmas vinhas,
+os mesmos costumes, os mesmos homens, estão de um lado e do outro da
+fronteira. Torrada pelo sol a face barbeada, de olhar vivo, gesto livre,
+porte nobre e seguro, bizarro, folgasão, hospitaleiro e communicativo, o
+alemtejano exprime no seu todo a grandeza um tanto austera do chão sobre
+que vive. Não é decerto um grego de Athenas, mas é um grego da Beocia.
+Os seus campos são um granel, os seus montados um viveiro. Quando nas
+longas e alinhadas estradas, entre lençoes de mattas de azinho escuro,
+sob o calor de um sol dardejante, divisamos ao longe uma pequena nuvem
+de poeira, que a luz illumina, e ouvimos o tilintar alegre das
+campainhas e guizos nas colleiras dos machos--é o cazeiro, que a trote
+largo, com a cara redonda e alegre, o ventre apertado nos seus calções
+de briche preto, vae á feira de Villa-Viçosa em maio, ou á de Evora em
+junho, tratar dos negocios da lavoura. A distancia, vem o arreeiro no
+seu carro toldado, guiando a récua de machos carregados de odres de
+vinho: logo o pastor com o guarda-mato de pelle de cabra, o cajado ao
+hombro, conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou
+a boiada loura de longas hastes. O sol ardente dá tom a todas as côres,
+vida a todos os movimentos: suffoca-se, a poeira céga, e as bagas de
+suor camarinham na testa. O alemtejano diz pouco, e raro canta; não é
+misanthropia, é indifferença. O idyllio não póde seduzir a quem vive em
+ampla communhão com o campo largo, o céu sempre azul, o sol sempre em
+fogo. Apenas, de verão, baila ao som da guitarra nas noites calmosas,
+fazendo a vigilia aos seus santos favoritos, não para esquecer um
+trabalho que lhe não dóe, mas para dar largas aos seus amores de um
+momento.
+
+Os que uma vez embarcaram abaixo de Serpa, onde as cataratas põem ponto
+á navegação, Guadiana em fóra até ao Algarve, terão sentido ao chegar á
+foz a impressão de quem entra, de um sertão, em um jardim: de quem deixa
+uma gruta escura por uma planicie luminosa. Breve é a extensão do
+Algarve, desde Villa-Real até Lagos, abrigado pela ponta do cabo de S.
+Vicente; mas esse trajecto sombrio do Guadiana divide duas regiões
+caracteristicamente accentuadas. O algarvio é um andaluz. Ao contrario
+do alemtejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanencia,
+com uma vivacidade quasi infantil. No Algarve não ha o silencio e a
+impassibilidade: ha o movimento constante, o falar, o cantar de uma
+população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios
+costeiros, ora occupados nos seus campos, que são jardins. Se a planicie
+e os longos horizontes das montanhas dão ao espirito a placidez solemne,
+tambem o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruçado como um
+eirado, está o Algarve, põe no pensamento uma agitação permanente,
+meio-tonta, mas encantadora. Ao calor de um sol já africano, durante o
+estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o
+algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios o obrigam á
+industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para
+comer. Emquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando,
+contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a
+laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os annos
+em fructos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos
+vallados, pedem apenas que lhes colham os fructos e os ramos; e o
+mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as
+trocar por dinheiro.
+
+ * * * * *
+
+No decurso da nossa viagem deixámos em claro as mortiferas baixas do
+Guadiana: nem vale a pena demorarmo-nos n'essa região desolada; porque
+agora, regressando pela costa acima, o litoral do Alemtejo e a parte
+occidental da Estremadura transtagana partilham com ella os caracteres
+tristonhos e doentios. Entramos na região dos terrenos terciarios: as
+aguas estagnam e apodrecem nas baixas; as populações definham. Ou
+torradas pelo arido suão, que os areaes ardentes não podem suavisar, e
+sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se; ou
+envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe n'uma
+fermentação permanente, as populações amarellecidas e magras definham,
+curvadas pelo trabalho mortifero das marinhas de sal, ou da cultura
+pantanosa do arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas
+baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade creadora; aqui o ar
+secco (500 a 700 mil. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade, 30 a 80%)
+duro e carregado de emanações mephiticas. Além, uma temperatura branda;
+aqui um calor (med. 17°) excessivo. Além, uma população exuberante:
+aqui, as solidões e os areaes nús, matizados pela traiçoeira cevadilha,
+e pelo áloes orgulhoso, levantando com imperio o seu penacho côr de
+fogo. Além, homens laboriosos e familias; aqui tribus esfarrapadas em
+choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de lume:
+mulheres esqualidas, creanças verde-negras, homens na indifferenca de
+desolação, ou na vertigem do crime.
+
+ * * * * *
+
+Entre estas duas regiões litoraes extremas está porém a central, a
+vingar-nos da miseria de uma e da opulencia da outra. Quem desce, de
+Canha e Alcacer-do-Sal até Setubal na peninsula de entre Tejo e Sado, e
+domina, desde o promontorio da Arrabida, a paizagem circumdante, respira
+afinal a longos traços uma plena vida e uma doce alegria. Acaso não ha
+no reino panorama nem mais bello, nem maior, nem mais nobre, nem mais
+variado. A nossos pés descem as anfractuosidades da serra vestidas de
+espessas matas: as giestas douradas, as bagas carmineas dos medronhos, o
+rosmaninho, a alfazema, misturando todos os seus aromas inebriantes.
+Sobranceiros a Palmella, vemos-lhe os muros ameiados: Setubal desenha-se
+no valle encastoada n'um jardim de laranjaes; no fundo quebram-se as
+ondas contra as rochas do Cabo; e para o lado opposto as collinas da
+fidalga Azeitão ondulam por sobre o espesso tapete de pinhaes extendido
+até ao Tejo. Erguendo a vista, divisamos além do mar a ponta de S.
+Vicente e o sul; para leste, Evora de um lado, as campinas do Riba-Tejo
+do outro; para norte, Lisboa em amphitheatro sobre a sua bahia; além
+d'ella, Cintra e os montes da Estremadura cistagana, a qual, até ao
+Mondego, fórma a primeira zona extremenha, por onde vamos entrar no
+exame da ultima das regiões do nosso territorio.
+
+O litoral do centro, entre o Mondego e o Tejo, é a parte mais benigna do
+paiz. Ahi o ar temperado pelas brisas maritimas mantém um grau de
+humidade, (60 a 85%), e as chuvas, regulares sem serem copiosas (700 a
+800 mil. annuaes, e 20 a 30 no estio), uma rega, que fertilisam os
+terrenos sem os tornar gordos, como os do norte. Nem o calor (15 a 16°)
+tisna de verão as vegetações, nem o frio do inverno as atrophia. Por
+tudo isto, a população abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o
+habitante reune á laboriosidade de uma vida agricola a liberdade de uma
+existencia mais ampla. Por tudo isto, além dos caracteres geognosticos
+da região, a flora é variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a
+vinha, a oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio. Desde os
+campos que o Mondego todos os annos fertiliza, por Leiria e Alcobaça
+vestidas de florestas, pelas veigas do Nabão, chegamos ao Tejo; e,
+transpondo-o, entramos no seu valle, que é para nós como o Nilo é para o
+Egypto. N'elle com effeito o campino nos traz á idéa o typo d'essas
+raças da Africa setentrional, lybios ou mouros, cujo sangue anda
+misturado em nossas veias. A cavallo, de pampilho ao hombro, grossos
+sapatos ferrados, gorro vermelho na cabeça, o ribatejano, pastoreando os
+rebanhos de touros nas campinas humidas e vicejantes, é como um beduino
+do Nilo. A vasta planicie matizada de povoações e bosques de choupos, de
+salgueiros e de álamos, contornada ao longe pelas cumiadas das serras,
+tem o caracter das paizagens do Egypto, ou de Tunis, dominadas pelo
+esqueleto giganteo do Atlas[28].
+
+Como o beirão, tambem o ribatejano reune á vida agricola a maritima ou
+fluvial: é elle quem vem nos seus barcos de _agua-acima_, até Lisboa,
+trazer o seu tributo de cereaes e fructas. Pelo Tejo, o Portugal
+maritimo abraça o Portugal agricola fundindo n'uma as duas phisionomias
+typicas da nação. Rio acima, o Alemtejo de um lado, a Beira do outro,
+por esta fórma se communicam com a população maritima do litoral.
+Lisboa, com Sines ao sul, Aveiro ao norte, eis os pontos cardeaes d'essa
+costa Occidental, d'onde tantas grandes aventuras, tão dilatadas viagens
+se emprehenderam. Capital geographica, Lisboa é tambem a nossa capital
+maritima; e se as viagens e descobertas são o coração da nossa historia
+particular nacional, Lisboa é tambem a nossa capital historica. As
+toadas plangentes que ao som da guitarra se ouvem por toda a costa do
+occidente; essas cantigas, monotonas como o ruido do mar, tristes como a
+vida dos nautas, desferidas á noute sobre o Vouga, sobre o Mondego,
+sobre o Tejo e sobre o Sado, traduzirão lembranças inconscientes de
+alguma antiga raça, que, demorando-se na nossa costa, pozesse em nós as
+vagas esperanças de um futuro mundo a descobrir, de perdidas terras a
+conquistar ao mar?
+
+Os sonhos cheios de encanto e melancolia, por tão longos tempos
+embalados pelo incessante murmurio do mar bretão e pelo ciciar das
+florestas druidicas; o carinho da natureza pelo homem, traduzido n'essas
+lendas piedosas em que os animaes falam, os passaros veem fazer ninhos
+na mão dos santos, e a voz das fadas se mistura com o ramalhar das
+arvores e o murmurar das aguas: esse vaporoso e encantador botão da alma
+celtica, porventura desabrochava no espirito nacional portuguez, quando
+a conclusão das guerras da independencia assim o ordenou.
+
+D. João de Castro, o marinheiro, tem, como um druida, o amor ingenuo da
+natureza: «Ó vergonha e grande cubiça dos homens, que por haver as
+desventuras dos metaes cavam tanto a terra que lhe tiram fóra as tripas,
+derribam grandes outeiros, abaixam asperas e altissimas serras no andar
+e olivel dos campos, e não contentes de _estragarem tanto a terra_,
+rompem e furam pelo mar por haverem uma perla--e para esculdrinhar uma
+obra maravilhosa da natureza são timidos e preguiçosos!»
+
+ [25] V. _Portugal contemporaneo_, pass.
+
+ [26] V. _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 183-91.
+
+ [27] V. _Portugal contemporaneo_, (2.ª ed.) II, pp. 51-3.
+
+ [28] V. _Elem. de Anthropologia_ (3.ª ed.) p. 232.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+V
+
+A historia nacional
+
+
+D'esta viagem, breve, pallida, e incorrectamente esboçada,
+ficaria--ousamos crêl-o--no espirito do leitor uma impressão por isso
+mesmo verdadeira. Pallida e como que indeterminada, sem fortes côres nem
+linhas pronunciadas, é a phisionomia da nação, quer na paizagem, quer
+nos homens. Nenhum traço profundo distingue a nossa geographia; benigno,
+médio ou temperado é o nosso clima, e tambem o nosso caracter.
+
+Se alguma cousa de facto nos individualisa, é a falta de affirmação do
+nosso genio. Aquellas a que poderemos chamar qualidades peculiares
+nossas, consistem na facilidade com que recebemos e assimilamos as de
+extranhos. Navegadores--e só por si este caracter não imprime em nós um
+cunho distincto dos demais povos maritimos--a maneira por que nos
+aventurámos ao mar, retrata ainda a nossa phisionomia collectiva: fomos
+prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em
+ilha, no oceano, caminhando passo a passo, avançando sempre, tenazes,
+mas jámais temerarios[29].
+
+Essa individualidade passiva do nosso genio traduz-se na nossa historia.
+Ninguem busque n'ella movimentos originaes e profundamente
+caracterisados por uma idéa nacional: esperal-o-hia o castigo reservado
+a todas as chimeras. Ninguem busque tampouco o systema de um
+desenvolvimento proprio e organico, obedecendo a leis particulares, e
+constituindo, no seu todo, aquillo a que se chama uma civilisação: por
+esse lado apparecemos indestructivelmente ligados ao corpo peninsular; e
+apesar de politicamente separados, obedecemos ás leis geraes que lhe
+determinam a vida historica. O conjuncto dos nossos pensamentos moraes,
+o caracter dos movimentos que compõem o systema do desenvolvimento das
+instituições, o das condições das classes, e até as linhas geraes da
+nossa vida politica, são apenas um aspecto do systema da historia da
+peninsula iberica. Por isso nós, que, em outro livro,[30]
+tratamos d'este assumpto, não voltaremos agora a occupar-nos d'elle,
+para não fatigarmos o leitor com repetições inuteis. Procuraremos n'esta
+obra determinar o modo particular, proprio ou nacional, com que
+realisámos um programma historico geral, definindo a nossa
+individualidade collectiva; procuraremos tambem indicar os movimentos
+politicos, em que resolutamente defendemos a nossa autonomia; e
+finalmente mostrar que, sendo a ausencia de caracter nacional
+affirmativo, e a malleabilidade com que recebemos e assimilamos as
+influencias extranhas, o que mais pronunciadamente nos individualisa
+como povo, a independencia da nação não proveiu de factos naturaes,
+porém sim dos actos de vontade dos seus homens. Causas de outra ordem
+houve de certo que vieram dar-lhes um apoio energico, e, não falando
+agora nas maritimas e coloniaes, referimo-nos ás influencias extranhas á
+Hespanha, que por momentos nos pozeram, a nós, seus filhos, n'um estado
+de antagonismo transitorio com o desenvolvimento da historia peninsular.
+É sabido que a nossa primeira dynastia procedia de Borgonha; nos
+primeiros tempos são numerosos os fidalgos e soldados estrangeiros entre
+nós: e as conquistas de Lisboa, de Alcacer, do Algarve, effectuam-se com
+o auxilio de exercitos e armadas forasteiros. Mais tarde veem combater
+ao lado de D. João I os inglezes, com quem já ao tempo de D. Diniz
+celebráramos tratados de commercio, e que, nossos alliados no tempo do
+D. Fernando, nos impressionavam com os seus costumes e lettras. D'então
+data a generalisação dos nomes inglezes como Tristão, Jorge, Duarte, que
+se começam a encontrar ao lado dos antigos nomes romanos e gothicos. As
+allianças inglezas repetem-se nos primeiros tempos da dynastia de Aviz,
+até que o desenvolvimento do nosso imperio colonial nos torna soberanos.
+Annexados á Hespanha depois, voltamos a depender da Inglaterra ou da
+França, quando readquirimos a independencia. Generaes francezes
+commandam as campanhas da Restauração, patrocinada pela França; generaes
+inglezes, as guerras do principio do seculo subsidiadas pela Inglaterra.
+E duas vezes, quando se tentou chamar a nação á vida eminente da
+sciencia; duas vezes, quando D. João III e o marquez de Pombal
+reformaram a Universidade; duas vezes se importaram mestres extrangeiros.
+
+De tudo o que deixamos escripto o leitor decerto comprehendeu já o
+systema de preceitos a que vae obedecer o nosso estudo; e
+affigura-se-nos ser este o caminho verdadeiramente scientifico de
+encarar a historia nacional, despindo-a de illusões patrioticas, e de
+phantasias chimericas. Mal de nós, se, amando do coração a nossa
+independencia, imaginarmos que ella póde manter-se firme sobre um
+alicerce de fabulas, contra a recta e indestructivel verdade da
+sciencia! A independencia dos povos assenta sobre tudo na vontade
+collectiva: tal foi a base da nossa, tal continuam a ser, se com a
+vontade tivermos o juizo correspondente. Sem elle, o querer é apenas um
+capricho.
+
+Obedecendo pois ao enunciado, dividimos a historia patria em quatro
+periodos successivos. No primeiro, o da dynastia de Borgonha, não nos
+destacamos ainda bem do systema dos Estados peninsulares: somos um
+d'elles, e a independencia provém exclusivamente do espirito separatista
+da Edade-média personalisado no ciume absolutista dos reis e barões
+portuguezes.--Depois de Aljubarrota, porém, o sentimento de
+independencia nacional torna-se popular, desde que a revolução do Mestre
+d'Aviz o faz coincidir com o interesse particular da região portugueza.
+Entretanto a vida maritima fôra-se desenvolvendo: e a nova dynastia
+obedece conquistando o litoral da Africa aos marroquinos, á corrente
+historica peninsular: e inicia, com as navegações e descobertas, um
+movimento particularmente nacional. Póde então dizer-se que por um
+momento Portugal esteve á testa da historia da Hespanha.
+
+A terceira epocha abrange, a nosso vêr, a infeliz empreza do Imperio
+oriental, onde o movimento maritimo nos levou. Os elementos de vida
+propria, formados na epocha anterior, produziram uma colonisação á
+antiga e uma litteratura néo-latina: n'estas duas circumstancias
+provavamos faltar-nos uma fibra de intima originalidade nacional. A
+perversão dos costumes, a vastidão das emprezas, o limitado dos nossos
+meios, os erros politicos, finalmente, condemnam-nos á perda da
+independencia.--Se na quarta e final das epochas da nossa historia
+voltamos a reganhal-a, a nossa vida apparece, comtudo, outra. Ao imperio
+oriental perdido, vem a exploração e colonisação do Brazil
+substituir-se, dando um ponto de apoio externo ao pequeno corpo europeu;
+e mais tarde, perdido a seu turno o Brazil, voltamo-nos agora, a vêr se
+a Africa póde dar-nos os meios de custearmos as despezas de um paiz
+pequeno e mediocremente abastado, sobre o qual pesam os encargos cada
+vez maiores do machinismo nacional. Hollanda do extremo occidente,
+radicada no corpo da Hespanha, como ella o está no corpo germanico, só
+n'um ponto de apoio externo podemos fundar o alicerce de uma
+independencia excepcional; só á custa de recursos coloniaes poderemos
+talvez satisfazer as multiplas e dispendiosas exigencias da organisação
+economica, scientifica e moral, hoje inseparaveis e indispensaveis á
+existencia de uma nação.[31]
+
+ [29] V. _O Brazil e as colonias portuguezas_ (3.ª ed.) pp. 2-6.
+
+ [30] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.).
+
+ [31] V. _O Brazil e as colon. port._ liv. IV-V, e
+ _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.) liv. VI, 1, 3.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+LIVRO SEGUNDO
+
+HISTORIA DA INDEPENDENCIA
+
+(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)
+
+
+ «He nossa entençon curtamente fallar, nom come buscador de novas
+ razõoes, per propria invençom achadas, mas come aiumtador em huum
+ breve moolho, dos ditos dalguns que nos prouguerom.»
+
+ F. LOPES, _Chr. de D. Pedro I_.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+I
+
+A separação de Portugal
+
+
+O condado portucalense, creado nos ultimos annos do XI seculo a favor do
+conde borguinhão D. Henrique, genro de Affonso VI, pouco tempo existiu
+sob o regime de uma vassallagem indiscutidamente reconhecida. Era essa a
+epocha em que a Hespanha tendia a constituir-se n'um systema de Estados
+independentes, á medida que successivas regiões iam saíndo de sob o
+dominio musulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos
+seus actuaes alliados;[32] e o condado portucalense obedecia a esta
+tendencia geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a
+morte do sogro.
+
+É com effeito da data do obito de Affonso VI que deve contar-se a éra da
+independencia de Portugal; embora por largos annos ella seja mais uma
+ambição do que um facto: embora essa ambição traduza um pensamento que
+os acontecimentos posteriores da historia impediram se realisasse.
+Qualquer que fosse o valor dado no XI seculo á expressão geographica de
+_Portucale_, é facto provado por todas as memorias e documentos d'esses
+tempos, que para ninguem deixava de considerar-se o territorio de entre
+Minho e Mondego como parte da Galliza. O facto da constituição do
+condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a
+formação dos Estados medievaes, na Peninsula e fóra d'ella, jámais
+obedecia ás prescripções geographicas ou etimologicas. Não se attribua
+pois a causas d'esta ordem, nem á consciencia de uma solidariedade
+nacional, o facto da desmembração da Galliza dos fins do XI seculo. A
+scisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem politica.
+
+Isto mesmo, porém, deu causa a uma ambição, na qual devemos reconhecer o
+principio da vitalidade da nação portugueza, durante estas primeiras e
+ainda indecisas epochas da sua existencia. A solidariedade nacional
+espontanea existia de facto para os gallegos; e desde que a Galliza fôra
+dividida pela politica em duas, áquem e além Minho, restava saber qual
+d'essas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de
+independencia, commum a todos os membros ainda então disconnexos do
+corpo peninsular.
+
+Varias causas concorriam para attribuir este papel á metade portugueza
+da Galliza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal
+do conde portuguez. Circumstancias d'esta ordem eram decisivas n'uma
+epocha em que a anarchia systematica da constituição da sociedade fazia
+principalmente depender os destinos immediatos d'ella da perspicacia ou
+da bravura dos seus chefes. Nada ha de commum entre a vida d'estes
+tempos e a dos posteriores: e n'um certo sentido póde até dizer-se que
+os factos de ordem politica são independentes dos de ordem social,
+porque a sociedade é como um elemento passivo que por este lado (mas por
+elle apenas) obedece ás consequencias do desordenado capricho dos actos
+e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a
+representarem.
+
+Nos primeiros tres seculos, isto é, na primeira epocha da historia
+portuguesa, a independencia é um facto originado no merecimento pessoal
+dos chefes militares dos barões de áquem Minho. Nacionalidade
+propriamente dita, não a ha; ou pelo menos não nol-a revelam os
+monumentos historicos, unanimes, tambem, em revelar uma ambição
+collectiva ou social que se estende a toda a Galliza. Ao merecimento
+pessoal reune-se, nos primeiros monarchas portuguezes, a circumstancia
+de serem os interpretes d'este sentimento. Por isso a tendencia
+permanente e o principio claramente definido da politica portugueza, nos
+primeiros seculos, é unificar a Galliza, constituindo a noroeste da
+Peninsula um Estado tão homogeneo, como o Aragão ou a Navarra a
+nordeste.
+
+N'este proposito se filiam todas as guerras civis--se este nome convém
+ainda aos conflictos entre Portugal e Leão--e as repetidas allianças dos
+barões gallegos das duas zonas divididas pelo Minho. A facilidade com
+que os reis portuguezes transpõem armados as aguas d'esse rio, o se
+apossam por varias vezes dos territorios da Galliza leoneza, são provas
+evidentes da opinião exposta.
+
+Não quiz a sorte que chegasse a realizar-se este primeiro pensamento
+politico, a que chamaremos hegemonia de Portugal na Galliza, para
+usarmos de expressões modernas; antes ordenou que os limites
+convencionaes do condado portucalense apenas inscrevessem o ponto de
+partida da formação de uma nação, cujo caracter, ulteriormente definida,
+proveiu principalmente da phisionomia geographica da região; de uma
+nação, repetimos, que veiu a perder a tradição d'essa primitiva origem,
+desde que o genio das populações de entre Mondego e Tejo sobrepujou o
+das do norte, na direcção e impulso dados á vida collectiva portuguesa.
+
+Se n'esta primeira epocha da nossa historia o pensamento occulto que
+dirige com maior ou menor consciencia a politica, é incontestavelmente o
+da hegemonia de Portugal na Galliza, seria absurdo suppôr que, ao lado
+d'este principio, decadente desde certa epocha, se não fossem tambem
+manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os
+symptomas da deslocação do centro vital da nação.
+
+A circumstancia que mais decisivamente determina este caracter da nossa
+historia primitiva é a conquista dos territorios sarracenos de áquem
+Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxilios do
+suzerano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os
+laços de solidariedade entre os gallegos leonezes e os portugueses, vae
+gradualmente addicionando a estes ultimos os _Lusitanos_ (seja-nos
+licito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento) até
+ao ponto de os ultimos predominarem na phisionomia posterior da nação,
+transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino:
+fazendo substituir á vida rural, primeiro quasi exclusiva, a vida
+commercial e maritima depois predominante e quasi absoluta.
+
+A primeira epocha da historia portugueza offerece pois á observação do
+critico dois movimentos[33], oppostos n'um sentido, concordes em outro,
+que é o da affirmação positiva da independencia. Mas, se essa afirmação,
+terminante nas guerras leonezas, e tambem nas sarracenas, exprime de um
+lado a politica da hegemonia na Galliza, do outro exprime, de um modo
+todavia inteiramente inconsciente e espontaneo, uma tendencia contraria.
+É a da formação de uma nação _lusitana_, de que a Galliza portugueza
+desce á condição de provincia ao norte, como o Algarve, mais
+propriamente turdetano, vem a sel-o ao sul. O entre Douro e Guadiana,
+isto é, a espinha dorsal da Estrella, ladeada pelas Beiras ao norte,
+polo Alemtejo a sul, pela Estremadura a poente: eis ahi o que, logo
+desde o XIV seculo, começa a representar o corpo homogeneo da nação
+portugueza.
+
+ * * * * *
+
+No Portugal primitivo, a politica da hegemonia na Galliza não se
+fundava, porém, sómente em uma indeterminada ambição collectiva. Era um
+pensamento decisivo e fixo dos monarchas, e trazia origens tão antigas
+como a propria constituição do condado portucalense.
+
+Creado por uma desmembração da Galliza, o condado cedido ao borguinhão
+não é natural que satisfizesse os desejos ambiciosos do principe. Como
+as almas que, desorientadas pelas extravagancias do barbaro
+christianismo medieval, viviam n'um estado de aspirações nebulosamente
+infinitas: assim a ausencia de um criterio fixo, intellectual ou moral,
+e a lei da pura força em que existiam, lançavam os barões n'uma vida de
+aventuras, cujo criterio unico era a sua ambição, cujo unico limite era
+o limite imposto por uma força adversa. O poder do rei leonez era, para
+o conde borguinhão, o limite forçado das suas temeridades.
+
+Logo porém que Affonso VI morreu, deixando um vasto espolio a dividir,
+D. Henrique exigiu para si um largo quinhão. Quebrada pela morte a
+cadeia da vassallagem a um rei poderoso, e acaso desobrigado já da
+gratidão para com um sogro que tanto favorecera o conde, é d'esta éra
+que, a nosso vêr, data a independencia de Portugal: e não da éra, de
+resto indecisa e impossivel de determinar, em que Affonso Henriques
+tomou para si o titulo de rei. É dar uma demasiada importancia ao facto
+exterior e secundario do titulo, o fazer d'elle o symbolo da
+independencia da nação. Apesar de rei, D. Affonso Henriques prestou
+vassallagem: e a sua monarchia não é, de facto, mais nem menos
+independente, como monarchia, do que o condado de D. Henrique, ou o
+infantado de D. Thereza. A força e não a definição de um dominio, só
+effectivo quando se estriba nas armas, eis ahi o que exclusivamente
+caracterisa os movimentos dos seculos XI e XII.
+
+Ora essa força era já para D. Henrique um facto, desde que lhe morrera o
+sogro. A unidade que o seu valente braço dava ao dominio sobre os
+territorios herdados ou conquistados, levara-a Affonso VI comsigo para o
+tumulo; e entre os dois herdeiros rivaes, D. Urraca e o rei de Aragão, o
+conde portugalense tinha um logar bem preparado para exercer a sua
+astuciosa influencia, e para impôr condições e preço a uma alliança que
+ambos egualmente ambicionavam.
+
+Passemos longe d'essas chronicas de perfidias, de violencias, de
+adulterios e barbaridades que constituem a historia da herança de
+Affonso VI. Como os generaes de Alexandre, os principes da Peninsula
+retalham o manto do imperador: e a Edade-média, tão phantasiosamente
+pintada com traços de nobreza e galhardia, não é de facto menos corrupta
+e asquerosa do que a edade dos satrapas do Oriente. A ferocidade é mais
+violenta, a luxuria menos requintada, a perfidia mais ingenua, porque os
+homens são verdadeiramente barbaros, e não gregos barbarisados[34].
+
+Do pacto de alliança de D. Henrique e D. Urraca resultou o
+engrandecimento do condado, para o norte na Galliza e para leste ao
+longo da bacia do Douro, abrangendo Tuy, Vigo, Santiago, por um lado,
+Zamora, Salamanca, Toro e até Valladolid pelo outro. A divisão e
+demarcação do novo Estado chegou a fazer-se com a possivel solemnidade,
+e com a concorrencia de barões leonezes e castelhanos. Era a definição
+de um Portugal que a historia não consentiu se mantivesse.
+
+N'este convenio ou tratado vieram posteriormente fundando-se todas as
+pretenções dos soberanos portuguezes á posse da Galliza, e d'aquella
+parte da Castella-velha geographicamente denominada Terra-de-Campos:
+territorios que o conde D. Henrique soubera ganhar para si na disputa da
+herança de Affonso VI. Tres annos apenas gosou o conde a posse d'esses
+seus dilatados dominios. Morrendo, a mesma historia de ignominias,
+adulterios e barbaridades ia assignalar o governo de sua viuva herdeira,
+como tinha assinalado o da viuva do conde Raymundo. Eram irmãs tambem,
+no caracter e nos appetites sensuaes, as duas filhas do D. Affonso VI.
+
+Morrendo, o velho conde portuguez, ao sitiar Astorga, chamou para junto
+de si o filho, em cujo peito borbulhavam ambições: «Filho, toma esforço
+no meu coração! Toda a terra que eu deixo, que é d'Astorga até Leão e
+até Coimbra, não percas d'ella cousa nenhuma, que eu a tomei com muito
+trabalho. Filho, toma esforço no meu coração! e sê similhante a mim, e
+sê companheiro dos fidalgos e dá-lhes todos os seus direitos, aos
+concelhos. Filho, toma esforço no meu coração!»
+
+Tal era o testamento do conde; já deixava ao filho uma nação constituida
+nas suas duas faces parallelas e correlativas: a nobreza, os concelhos.
+«E depois que houve castigado o filho d'estas cousas e outras muitas que
+aqui não dizemos, morreu.»
+
+ * * * * *
+
+A viuva de D. Henrique, publicamente amancebada com o conde gallego
+Fernando Peres, deu com os seus escandalos pretexto para uma revolta,
+que poz em risco a conservação dos vastos dominios herdados de seu
+marido. Assim tambem succedera a D. Urraca, perdida de amores pelo conde
+de Trava.
+
+Dissemos pretexto e não motivo, porque nos costumes ingenuamente
+dissolutos da Edade-média a mancebia não era caso que offendesse o pudor
+particular nem publico: os amantes das princesas offendiam, porém, o
+ciume dos seus collegas em fidalguia; e o poder effectivo de que um
+d'elles dispunha, á sombra do amor que o preferira, enchia de inveja e
+odio os companheiros.
+
+As memorias do tempo retratam-nos D. Thereza como uma mulher sagaz, viva
+e bella. A astucia combinava-se no seu espirito com um amor que a levava
+a _comprometter-se_, como diriamos na nossa linguagem moderna. Uma vez,
+na cathedral de Vizeu, apresentou-se com o amante, no meio da egreja
+apinhada de povo, e em frente do prelado que prégava. A authoridade dos
+bispos corria então parelhas com a rudeza das suas liberdades; e o de
+Vizeu não duvidou dizer á rainha, em voz alta, do pulpito ou dos degraus
+do altar, que abandonasse o amante ou se casasse: era um escandalo
+aquella união, uma vergonha proceder de tal modo. A condessa, vermelha
+de colera e confusão, fugiu rapidamente da egreja seguida pelo amante.
+
+Porque não succederia ao escandalo a vingança, para não quebrar a
+constante alliança da impudicicia e da crueldade, dominantes na
+Edade-média? Porque naturalmente as invectivas do bispo traduziam a
+força do partido dos invejosos e rebeldes, que já faziam do moço filho
+de D. Henrique um pendão de revolta contra a viuva apaixonada. Nem por
+tão pouco se affligiria a consciencia do bispo, pois o clero demasiado
+ouvia tambem os conselhos da carne, e os amores sacrilegos eram tão
+frequentes como os amores livres ou adulterinos.
+
+A princeza não era menos sagaz do que voluptuosa, e adiava para mais
+tarde a vingança. Beijos lascivos, perfidias indignas e barbaridades
+ferinas, eis os elementos que constituiam a mulher da Meia-Edade. Os
+dotes femininos eram naturalmente pervertidos por um ambiente de
+brutalidade anarchica nos sentimentos e nas acções; e, quando a mulher
+dispunha da aucthoridade e da força, ou como a Fredegonda dos Merowigues
+cevava em sangue a sua féra natureza, ou satisfazia n'uma impudicicia
+desesperada as necessidades sensuaes do seu temperamento. Nem a
+crueldade, nem a sensualidade eram menores nos homens: mas a natureza
+que n'elles dá o predominio aos pensamentos, como o dá aos sentimentos
+nas mulheres, fazia com que a rudeza dos primeiros andasse
+subalternisada á ambição e aos calculos politicos, ou á bravura e ás
+façanhas guerreiras.
+
+Não se imagine, porém, a mulher da Edade-média um ser apenas formado de
+crueldade e amor; menos se supponha D. Thereza uma similhante creatura.
+A condessa, infanta ou rainha de Portugal--porque de todos estes titulos
+usou--era tambem sagaz e astuta, qualidades que o filho veiu a herdar
+com o sangue. Não tinha o animo varonil de uma amazona, mas tinha a
+perspicacia e o juizo proprios dos principes d'esses tempos. Sabia
+moderar a colera e engulir affrontas como a de Vizeu, quando não podia
+vingar-se d'ellas. O amor traduzia apenas uma exigencia dos sentidos,
+deixando livre e independente a acção da intelligencia. No meio das
+agitadas circumstancias do seu breve governo, não deixou abandonadas as
+conveniencias proprias, como dona e senhora do Estado portuguez.
+
+Muitas vezes se lêem descripções de uma vida sentimental e heroica, em
+que as mulheres andam loucas de paixões poeticas, e os homens, typos de
+nobreza e audacia, são victimas dos conflictos do amor e da honra. Não
+ha nada mais differente da verdadeira, do que essa Edade-média das
+operas. A carnalidade desenfreada, o cynismo e a perfidia, uma frieza
+sempre calculadora, uma ambição feroz, uma avareza sordida, uma
+corrupção de todas as fontes da vida moral: eis ahi o que de facto
+constitue a vida aristocratica da Edade-média. Onde está a causa de
+tamanhas desordens? Está na coexistencia e no conjuncto de condições
+barbaras e de tradições cultas. D'onde provém a illusão com que muitos
+suppozeram bellezas espontaneas nos caracteres, e nobres dedicações nos
+actos, creando com a phantasia um falso quadro de encantos? Da
+ingenuidade dos typos barbaros.
+
+Ha, com effeito, na natureza espontanea o quer que é de seductoramente
+bello, que nos chama para uma região de deleites inconscientes: assim
+todas as descripções das sociedades primitivas produzem em nós uma
+impressão vivificante, e desde logo somos levados a engrandecer e
+nobilitar os homens ainda não corrompidos pelas aberrações da
+civllisação. É mistér porém observar que taes homens primitivos não são
+os do XI seculo; que na Edade-média existem e vivem, principalmente por
+via da Egreja, todas as tradições da cultura antiga; e que a conjuncção
+da barbarie e do requinte lança nos caracteres uma semente de perversão,
+prompta a rebentar em actos monstruosos, tão corrompidos no principio,
+como barbaros na fórma. É popular o sentimento de tédio e nojo para com
+o imperio de Byzancio; pois as causas originarias d'essa repugnancia são
+tambem communs ás sociedades néo-latinas, ou néo-godas da Hespanha.[35]
+Só variam as proporções: os elementos combinados são os
+mesmos. No Oriente a cultura é maior, os costumes mais requintados: aqui
+é maior a rudeza, e a feição barbara predomina. Por isso os vicios
+procuravam, além, esconder-se sob o manto das convenções; e aqui se
+expandem ingenua e francamente, á luz de uma ignorancia quasi primitiva.
+
+ * * * * *
+
+Assim que D. Urraca morreu. Affonso VII, depois de reconquistadas ao
+visinho aragonez as cidades de Castella, olhou para oeste, afim de
+reconstituir de novo a monarchia leoneza, fazendo regressar ao seu
+dominio os territorios de Campos e da Galliza. A invasão e a guerra
+duraram apenas uma campanha; e a amorosa Thereza curvou-se ao imperio
+das condições, reconheceu o facto da conquista, e confessou com
+humildade a vassallagem ao sobrinho leonez.
+
+Portugal retrahia-se aos primeiros limites--do Minho ao Mondego--do
+condado creado por Affonso VI; e os calculos do conde borguinhão
+frustravam-se, depois de menos de vinte annos de indeciso dominio.
+
+Esse infortunio da _regina_ de Portugal acabou de decidir os invejosos
+do conde gallego, seu amante. As tendencias de sublevação, até ahi
+sopitadas ou mal definidas, tomaram corpo e unidade; e a revolta
+declarada dos barões achou nos desastres de 1127 motivo sufficiente para
+se erguer em campo aberto.
+
+Capitaneava a revolta o infante portuguez. Não é esta a unica occasião
+em que vemos erguerem-se em armas os filhos contra os paes, os irmãos
+contra os irmãos, como prova de que, se os sentimentos andavam
+pervertidos pelos instinctos brutaes, ou vinculos de familia eram apenas
+laços tenues que se rompiam ao impulso de qualquer exigencia da colera
+ou da ambição. Nem sentimentos, nem instituições fixas: uma anarchia
+total no individuo e na sociedade, uma desordem acabada na moral e no
+direito, eis ahi as bases historicas da Edade-média, cujo deus é a força.
+
+D. Affonso Henriques, o primeiro rei portuguez, ou capitaneava ou era o
+pendão apenas--hypothese que a sua curta edade justifica--da revolta que
+tinha por chefes o arcebispo de Braga D. Paio, Sueiro Mendes o _grosso_,
+Ermigio Moniz, Sancho Nunes, genro da _regina_ Thereza, e Garcia Soares.
+Aos pactos de Braga succedeu o encontro de Guimarães. A rainha, abraçada
+ao seu amante, vinha seguida por barões fieis de áquem, e pelos barões
+de além-Minho, que se tinham submettido a Affonso VII[36].
+A batalha decidiu-se pelo filho, e a rainha fugiu a esconder no condado
+do amante o desespero da derrota. De protectora, os acasos da guerra
+faziam-na agora protegida; e a historia deve ainda ao conde gallego a
+justiça de mencionar que a não abandonou, quando a viu despojada do
+poder e do titulo. Os prazeres da paixão acaso suavisariam á formosa
+filha do grande Affonso a infelicidade das armas, e porventura tambem o
+desespero maternal, se é que os vinculos de sangue tinham para a mãe um
+merecimento superior ao que tinham para o filho.
+
+No seio da barberie corrupta em que se revolvia, a Edade-média tinha,
+porém, não só o instincto dos deveres, innato nos homens, como o medo
+dos castigos divinos prégados por uma religião que até para o proprio
+clero baixára ás condições de um quasi fetichismo. As lendas contam que,
+vencedor, o filho encarcerára a mãe, e põem na bocca de D. Thereza este
+anathema terrivel: «Affonso Henriques, meu filho, prendeste-me e
+metteste-me em ferros e exherdaste-me da minha terra que me deixou meu
+padre, e quitaste-me de meu marido: rogo a Deus sejas assi como eu sou,
+e porque metteste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas
+com ferros. Mande Deus que isto assim seja!» E o anathema cumpriu-se em
+Badajoz, annos depois, porque Deus vingador não perdoava os crimes
+frequentes dos filhos contra os paes. Assim pensavam esses homens simples.
+
+Á batalha de Guimarães ligava-se, porém, um alcance maior do que o de
+uma simples questão de familia: era a ruptura de solidariedade entre as
+duas metades da Galliza, e a victoria da portugueza sobre a leoneza. Era
+o primeiro symptoma de uma direcção nova, que se ia imprimindo na vida
+historica nacional. Essa ruptura da solidariedade, e a força da
+monarchia leoneza sob Affonso VII, serão dois motivos concorrentes para
+impedir que as tentativas do primeiro rei portuguez tenham sobre o norte
+resultados efficazes.
+
+Logo depois de Guimarães, Affonso Henriques, preferindo o papel de
+invasor ao de atacado, procura reivindicar as fronteiras perdidas em
+1127 por D. Thereza. Duas vezes invade a Galliza transminhota: duas
+vezes é forçado a recuar, em 1130 e em 1132; mas depois de Guimarães,
+depois da lide de Val-de-Vez em que os portuguezes venceram, já a
+independencia de facto estava conquistada. Sellados os preliminares de
+paz, Affonso Henriques occupou-se em _acalmar_ as terras do seu senhorio
+afim que nunca «lhe acontecesse outro tal desavisamento,» e conquistou
+«todallas fortalezas de portugal assy como se fossem de mouros.»
+
+Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á maneira
+porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia as
+condições necessarias para consolidar uma independencia até ahi
+precaria. Era audaz, temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem
+tão commum no tempo, como a muitos acaso pareça. Fraco general, ao que
+se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonezas perdeu-as
+sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, caía
+de improviso sobre um logar, e a furia irresistivel do ataque deu-lhe a
+maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das emprezas o assustava,
+nem as distancias o impediam de acudir a um tempo, do extremo norte,
+quasi ao extremo sul no paiz. A estes dotes militares reunia outros não
+menos valiosos, na precaria situação em que se apossára do reino. Era
+secco, astuto, friamente ambicioso, sem chimeras, nem illusões. Era um
+espirito agudo e pratico, e isso fazia boa parte da sua força. Mal dos
+politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a tenra haste que verga á mais
+leve brisa do cannavial, assim Affonso Henriques, sem rebuços obedecia,
+logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta erguia-se; e á
+facilidade astuta com que se humilhava, respondia logo a teima perfida
+com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Tinha o quer que é de
+fugitivo, na sua politica e no modo porque fazia a guerra. Ubiquo
+militarmente, era nos negocios um proteu. Os seus amigos, leonezes,
+sarracenos, não achavam por onde prendel-o. Submisso e humilde quando se
+achava vencido, subscrevia a todas as condições, acceitava todas as
+durezas; para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os
+tratados, com uma franqueza ingenua, uma simplicidade natural, que
+chegavam a espantar a propria Edade-média. Nem brios cavalleirosos, nem
+sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças estupendas:
+nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum sentimento poetico,
+enchiam a sua cabeça, estreita, e inteiramente occupada pela idéa fixa
+de consolidar a sua independencia. O predominio absoluto de uma idéa
+pratica, servida por uma intelligencia lucida, por um caracter sem
+grandeza, e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda
+mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o similhante a uma lamina de
+aço, um instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida
+quando livre, e impossivel de manter curvada desde que se acha solta. O
+seu pensamento tinha a tenacidade da mola, e não a rigeza do bronze nem
+o peso do chumbo. Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu
+refoio: assaltado, investia, despedaçando tudo com as fortes prezas.
+Perseguido, fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem a astucia ferina do
+tigre: possuia apenas a tenacidade brava e bronca do javali. Um fraco
+apenas lhe notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse
+defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.
+
+Affonso Henriques foi quem verdadeiramente consummou a separação de
+Portugal, não pelos meritos proprios apenas, mas porque a direcção
+politica do reino começou no seu tempo a ser encaminhada pelos factos no
+sentido de definir de um modo positivo a independencia da nação.
+
+Uma parte dos barões da Galliza leoneza, sublevados contra o suzerano,
+acolheu-se em 1137 sob a protecção de Affonso Henriques, prestando-lhe
+vassallagem, e, assim, de novo se levantou a questão das fronteiras do
+norte de Portugal. Affonso VII não pudera, nos annos anteriores, descer
+a rebater as invasões do turbulento visinho, occupado como estava a
+debellar o navarro; agora, porém, tinha já os movimentos livres, e
+apressou-se a submetter a Galliza. Por seu lado Affonso Henriques era
+solicitado a defender a fronteira austral, onde os sarracenos tinham
+vindo n'uma álgara feliz derrocar o castello de Leiria. É por estes
+annos que o destino de Portugal se debate entre a Lusitania e a Galliza,
+quando a actividade do guerreiro é solicitada, ora do norte contra os
+leonezes, ora do sul contra os sarracenos. Oscillante ainda e indeciso,
+breve assistiremos ao definitivo pender da balança no sentido do
+alargamento das fronteiras austraes.
+
+A simultaneidade do ataque leonez e sarraceno em 1137 obriga Affonso
+Henriques a curvar a cabeça, assignando as pazes de Tuy, nas quaes
+desiste das suas pretensões de além-Minho, confessando, ao mesmo tempo,
+vassallagem ao suzerano de Leão. _Ut arundo fragilis ferebatur_: vergava
+como o cannavial o principe, a este sopro da fortuna adversa! Desistia
+de tudo, da ambição e até da independencia. Quem se fia, porém, na
+palavra do pertinaz batalhador? Defendido o seu senhorio por norte, não
+se demora a persistir n'uma guerra leal mas perigosa. Espera melhor
+oocasião para a desforra; porque lhe não custa subscrever a um tratado,
+a que não pensa decerto submetter-se, senão emquanto a força das cousas
+a isso o violentar. Não assim os fronteiros de nordeste que, apesar das
+pazes de Tuy, continuam a guerra por conta propria: tão frageis eram
+ainda os laços, que reuniam os vassallos ao conde soberano de Portugal!
+De Tuy, o leonez, subindo pelo valle do Lima atravez da Galliza
+portugueza que assolára, vae encontrar as mesnadas dos ricos-homens
+sublevados nos Arcos-de-Val-de-Vez. Resam as tradições de um torneio ou
+_bufurdio_[37] em que os cavalleiros inimigos batalharam
+por seus exercitos, vencendo os portuguezes na estacada, onde numerosos
+combatentes ficaram mortos, segundo as regras da cavallaria. Apesar de
+victoriosos, porém, os portuguezes não podiam resistir a Affonso VII,
+tanto mais que D. Affonso Henriques desistira de continuar uma guerra
+improficua.
+
+Que fazia entretanto o principe? Tratava da desforra de Leiria; e em
+1139 levava a cabo o temerario fossado de Ourique, pagando uma estocada
+com outra; e preludiando esse duello de morte, entre Portugal e o
+Al-Gharb sarraceno, com um golpe que foi, com a rapidez penetrante do
+raio, ferir o corpo musulmano quasi junto a Chelb ou Silves, o coração
+da Hespanha austral. A esta aventura temeraria, mas feliz, ia succeder
+em curtos annos a empreza mais seria e importante da conquista da linha
+estrategica do Tejo: facto de um alcance capital, n'esse periodo em que
+o futuro destino da nação fluctuava ainda indeciso entre a Galliza e a
+Lusitania.
+
+ * * * * *
+
+Desde que o antigo condado portucalense, batido na sua tendencia de
+absorver a Galliza, conquistava a região de entre Mondego e Tejo,
+chegando a avançar padrastos ameaçadores para o sul, era evidente que um
+novo Estado se formava; e esse Estado nascia dos actos proprios do conde
+portuguez, não de concessões ou beneficios do suzerano. Esse Estado era
+pois um reino, uma vez que a esta palavra andava ligada, de um modo mais
+ou menos definido, a idéa da independencia, segundo o direito politico
+dos godos. Foi, portanto, quando o plano de se apossar do sul do reino
+começou a occupar o espirito do guerreiro, orgulhoso pela victoria de
+Ourique, isto é, em 1139 ou 1140 (a erudição não conseguiu determinar a
+éra) que Affonso Henriques tomou para si o titulo de rei. O caso não era
+novo, porque por vezes a mãe usára chamar-se rainha de Portugal;
+dava-se, porém, agora a circumstancia de que esse titulo, embora
+juridicamente usurpado, o era com tamanho fundamento, que nunca mais
+deixou de ser o dos soberanos portuguezes.
+
+A razão politica da independencia, evidente hoje para a critica, não o
+estava de certo para o rei, a quem as conquistas apenas satisfaziam a
+ambição, e o titulo a vaidade. Via-se mais poderoso e grande; mas não
+tinha de certo a consciencia de que isso importasse o primeiro passo no
+caminho da formação de uma nova nação peninsular. Ferido, tirára do
+sarraceno uma desforra completa; mas faltava ainda apagar a nodoa de
+Tuy, rasgar esses tratados que ligavam, como vassalla, á corôa soberana
+de Leão, a sua corôa ainda mal assente, o seu reino precario ainda. Uma
+volta da fortuna podia outra vez precipital-o, das eminencias onde as
+suas ambições o erguiam, na humilde condição de conde de Portugal.
+
+Em Val-de-Vez Affonso VII assignára os preliminares de uma paz que os
+acontecimentos dos annos posteriores não tinham consentido se traduzisse
+n'um tratado definitivo; e agora não era já licito ao leonez exigir, nem
+ao portuguez acceitar as duras condições de uma perfeita vassallagem.
+
+O papado exercia então na Europa uma especie de suzerania espiritual
+sobre os principes christãos; porque no meio d'esses guerreiros, bravios
+e timidos como selvagens, o sacerdote tinha verdadeiramente o poder de
+condemnar em nome de Deus.[38] Uma excommunhão valia muitas
+vezes mais do que um exercito. Assim, o cardeal Guido, legado do papa, é
+quem em 1143 dicta em Zamora, onde Affonso Henriques foi vêr-se com o
+imperador (d'esse titulo usava Affonso VII) as condições do tratado de
+paz. O portuguez desiste ahi das suas pretenções ás fronteiras cedidas
+por D. Urraca, e Affonso VII por seu turno reconhece a independencia do
+novo reino e o titulo do seu soberano. Esta soberania e independencia
+não eram, porém, absolutas. Na jerarchia feudal havia graus diversos de
+suzerania e vassallagem correspondente; e os tratados de Zamora
+alteravam a natureza, mas não quebravam de todo os laços que prendiam
+Portugal ao corpo da grande monarchia peninsular. Affonso Henriques
+ficava sendo um rei, mas o seu reino nem por isso deixava de fazer parte
+do imperio da Hespanha; nem elle proprio, por tal fórma, deixava de
+ficar n'uma situação subalterna perante o imperador. Era uma vassallagem
+politica, substituindo a pura vassallagem pessoal do regime anterior. O
+direito feodal não se obliterára, porém, ainda ao ponto de prescindir de
+uma obrigação pessoal; e por isso o soberano portuguez continuava a ser
+vassallo do visinho, não como soberano, mas como senhor de Astorga, para
+esse effeito doada a Affonso Henriques.[39]
+
+Estas subtilezas propriamente byzantinas, inspiradas pela politica
+ecclesiastica que imprimia o seu cunho ao feodalismo, formavam um
+systema de enganos reciprocos, de mentiras mais ou menos sinceras, com
+que se revestiam os actos brutaes da força, e os actos perfidos da astucia.
+
+Affonso Henriques, _regendi imperii jam bene sciolus_, mestre acabado na
+arte de enganar e na arte de combater, tinha já formado o seu plano, e
+por isso subscrevia sem reserva a todas as exigencias do tratado. A
+independencia e a soberania que elle lhe dava eram apenas pessoaes e
+vitalicias, e nas idéas aristocraticas a hereditariedade era inseparavel
+do dominio. O seu reino era pois um falso reino, desde que, não havendo
+no direito politico dos godos outra base para a successão, além da
+electiva, ou Portugal seria por sua morte absorvido no imperio
+hespanhol, em via de cristalisação, ou o filho de Affonso Henriques
+teria de recomeçar a debater com as armas a questão vital da
+independencia. Os termos do tratado decerto o não illudiam,
+garantindo-lhe apenas pessoalmente a independencia e a soberania; e se
+da parte do leonez houvera o intento perfido de o enganar, elle
+preparava uma licção ao mestre, e tão eloquente como fôra cruel a licção
+que dera ao sarraceno.
+
+Entre os dous litigantes o italiano perspicaz foi provavelmente o
+conselheiro de ambos. Guido, como o insecto artificioso e cheio de
+habilidades, teceu a trama. Ao leonez mostraria o modo de illudir o
+adversario: conceder-lhe tudo, deixando esse tenue cordão umbilical de
+Astorga, para no momento opportuno fazer reverter os territorios
+portuguezes ao corpo da monarchia soberana. Voltando-se depois, com um
+sorriso, diria baixo ao portuguez, que o tratado não valia nada de
+principio a fim, se elle quizesse seguir-lhe os conselhos. Todas as
+habilidades do imperador provariam inuteis: tinha um meio
+seguro!--Affonso Henriques devia ouvir com attenção tenaz as
+confidencias do cardeal. Havia um direito superior ao direito feodal:
+era o canonico. Havia um soberano, rei dos reis: o papa. Porque não
+seria Affonso Henriques vassallo do papa? Collocasse os seus reinos sob
+a suzerania papal, e nenhum imperador das Hespanhas ousaria tocar-lhes.
+Só assim a sua corôa ficaria segura na cabeça, d'elle e de seus
+descendentes. A suzerania do papa era de resto infinitamente menos
+incommoda. Reduzia-se a uma pequena somma de dinheiro. Um nada! Quatro
+onças de ouro por anno, nem mereciam a pena contar-se deante da
+independencia de facto. Se o rei acceitasse, elle proprio em pessoa
+redigiria a carta, elle que redigira o tratado; elle proprio seria
+portador da missiva ao papa. Se viera a Hespanha fazer a paz, iria de
+Hespanha com o coração contente, por ter conquistado mais um vassallo
+para a Egreja.--E mais um censo annual para o thesouro romano,
+accrescentaria mentalmente!
+
+Affonso Henriques desde logo acceitou. Pouco lhe importava o censo,
+porque não tinha sequer a certeza de ser fiel ao pagamento. O cardeal
+illudia-se, se suppunha que o rei tremia das excommunhões: um rei que
+não havia de hesitar em rasgar as bullas pontificias, e pôr e depôr
+bispos, como bem lhe approuvesse!
+
+O cardeal partiu levando a carta do rei; e emquanto este ia formando a
+tenção de supprimir o pagamento do censo, logo que lhe conviesse
+fazel-o, o cardeal foi pela viagem ruminando o modo de colher as onças
+de ouro, sem se inimisar com o leonez. Só annos depois Affonso VII veio
+a saber como o visinho e já quasi émulo illudira as disposições do
+tratado de Zamora. Insistindo com o papa para que recusasse a
+vassallagem, não o consegue; mas tampouco Affonso Henriques consegue
+aquillo por que pagára o preço de quatro onças de ouro annuaes; pois nas
+piedosas cartas que lhe escreve, como suzerano a vassallo, o papa
+cuidadosamente evita chamar-lhe _rei_, e _reino_ a Portugal.
+
+Em vão Affonso Henriques insta e exige. Por fim, já nos derradeiros
+annos do seu reinado, e á custa de um presente de mil morabitinos e do
+augmento do censo annual, Alexandre III decide-se, e sancciona-lhe o
+titulo, garantindo-lhe a hereditariedade, sob condição de preito e
+confirmação outorgada aos seus successores.
+
+ * * * * *
+
+Portugal, que já a esse tempo tinha uma razão de ser territorial
+independente da Galliza, achava agora um fundamento juridico de
+independencia de Leão. A suzerania do papa collocava o novo reino ao
+abrigo das pretenções da monarchia leoneza; e se Affonso Henriques não
+saía da condição subalterna de vassallo, porque apenas mudára de
+protector ou suzerano, o facto é que na mudança ganhava uma liberdade
+real, esperando o que de facto veiu a conseguir: que a vassallagem se
+tornasse nominal apenas.
+
+Ainda no tempo do primeiro rei portuguez de novo se ateia a guerra com
+Leão; mas basta um exame superficial dos monumentos historicos para vêr
+que o caracter e as condições d'essa nova campanha são já totalmente
+outros. Não é um vassallo rebelde pugnando pela independencia: é o
+choque de duas monarchias que reciprocamente se reconhecem como taes. A
+serie de guerras entre os diversos estados da Peninsula--caminho por
+onde ella chegou a determinar as condições definitivas das suas
+constituições politicas--tem na campanha de 1160 um episodio. Affonso
+Henriques, já rei de facto e de direito, já senhor da linha estrategica
+de Santarem, e possuindo além d'isso, como vedetas avançadas para o sul,
+varias praças do Alemtejo, dispunha de forças sufficientes para pesar
+com a sua espada no debate das questões politicas dos Estados
+peninsulares. Desde que se decidisse a fazel-o, é natural que a velha
+ambição das fronteiras dilatadas de norte e nordeste fosse a causa
+efficiente dos seus actos.
+
+Fernando II de Leão casára com uma filha do rei portuguez, mas nem ao
+genro nem á filha Affonso Henriques cedia os seus ambiciosos propositos.
+Raras vezes a politica tomou em consideração os vinculos de familia. O
+rei de Leão usurpára a corôa de Castella, e contava que a esposa lhe
+trouxesse a alliança do portuguez; porventura teria havido
+intelligencias positivas entre os dois monarchas. Quando com uma livre
+audacia se rompiam as pazes mais solemnes, que admira que se mentisse a
+convenios ou ajustes privados? Affonso Henriques era, como se sabe,
+mestre na arte de reinar. O facto é que, logo um anno depois do
+casamento da infanta, aproveita o momento em que o rei Fernando se
+achava a braços com a insurreição dos castelhanos, para mandar seu filho
+e herdeiro, Sancho, á batalha de Arganal, onde foi batido (1165).
+Invadindo em pessoa a Galliza, o rei apossára-se facilmente de Tuy e do
+districto de Toronho até ao Lerez, seguindo d'ahi para leste (1166).
+Essa nova occupação portugueza da Galliza dura até ao desastre de
+Badajoz (1169).
+
+Correndo então ao sul, Affonso Henriques decide-se a consolidar as suas
+possessões do Alemtejo, conquistando Badajoz aos sarracenos. Este acto,
+porém, era simultaneamente um episodio da guerra com Leão, porque o wali
+de Badajoz se collocára sob a suzerania de Fernando II, e porque a praça
+ficava para fóra dos limites de leste, marcados em Zamora ás futuras
+conquistas do rei de Portugal sobre os musulmanos.
+
+A cidade caiu sobre o ataque do portuguez. Colhidos por surpreza, os
+defensores encerraram-se na alcaçova, resistindo. Poz-se o cerco, mas
+entretanto o rei de Leão, avisado, correu a defender o que era seu; e
+Affonso Henriques foi colhido entre dois inimigos. De sitiante viu-se
+cercado.
+
+Afinal o temerario capitão caía em poder do adversario, afinal o caçador
+colhia-o fóra do refoio. Debate-se, estrebuxa e, ainda vencido, lucta
+desesperado; mas está pesado, velho e gasto. Faltam-lhe as forças para
+arremetter como d'antes, com a cabeça baixa e as presas activas, contra
+a matilha dos lebreus. Tropeça e cáe. É colhido. Cumpria-se o anathema:
+Deus castigava o filho que prendera sua mãe! Prisioneiro, curva-se
+submisso, recolhendo a colera e os dentes açulados, perante o seu nobre
+vencedor. Tal nome convem de facto a Fernando II, cuja magnanimidade
+perdoou as perfidias e ataques do visinho e sogro. «Restitua o que
+roubou, guarde o que é seu, e vá em paz!» Cabisbaixo, com o joelho
+ferido, a coxear, Affonso Henriques parte d'alli a Santarem, concluir o
+que lhe resta de vida. Não tem coleras, nem fundas magoas pela afronta
+que soffreu: só lamenta a virente Galliza, perdida para todo o sempre.
+
+Como o avarento, em cuja alma a paixão exclusiva absorveu todos os
+sentimentos e paixões humanas, assim na alma de Affonso Henriques a
+monomania da conquista, doença vulgar nos principes da Edade-média,
+atrophiára o desenvolvimento de tudo o mais. Mas, se entre os consocios
+de uma patria irman, se entre os herdeiros de uma historia commum, ha o
+amor por essa patria e a veneração pelos antepassados, nenhum merece na
+alma dos portuguezes respeito maior, do que o primeiro de todos aquelles
+a cujo braço esforçado se deve a obra da constituição politica da nação.
+N'este sentido as manias chegam a ser sublimes. Um salteador é, não
+raro, um verdadeiro heroe; a perfidia é uma virtude, a crueldade é um
+titulo de gloria, porque o espirito collectivo substitue o criterio
+moral e abstracto pelo criterio historico, o qual tem como base a
+consagração dos factos consummados.
+
+A separação de Portugal foi um facto consummado, graças ao valente
+mediocre, tenaz, brutal e perfido caracter de Affonso Henriques.
+
+ [32] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.), liv. III, 1.
+
+ [33] Resumimos á politica o campo das nossas observações, por
+ termos deixado na _Hist. da civil. iberica_ desenhados
+ os traços geraes dos movimentos propriamente sociaes. V.
+ Livro III; pass.
+
+ [34] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 309-48.
+
+ [35] _V. Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 113 e segg.
+
+ [36] V. _Instit. primitiv._, p. 215.
+
+ [37] V. _Instit. primitivas_, p. 165.
+
+ [38] _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._, XXXII-III.
+
+ [39] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 267-75.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+II
+
+A conquista do Al-Gharb
+
+
+Nas suas emprezas contra Leão, Affonso Henriques, batido sempre como
+guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astucia. Das
+duas faces que apresenta a historia da fundação da monarchia, vimos a
+primeira: resta-nos vêr a segunda. Assistimos aos actos do politico;
+vamos assistir agora ás fecundas emprezas do conquistador.
+
+O principe trazia para a guerra as manhas da côrte, sem prejudicar a
+firmeza necessaria, a bravura, o sangue-frio e a audacia. Com este
+conjuncto de elementos dava um caracter original á guerra (_novo genere
+pugnandi_). Ia de noute, ás escondidas (_furtim_), como um chefe de
+bandidos em assalto a algum villar, fortificado, no pendor de uma serra
+distante (_quasi per latrocinium_). Assim investiu e tomou Santarem.
+«Assim conquistou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha
+e Al-Kassr, este inimigo de Deus!» diz o chronista arabe. O ponto de
+ataque era de antemão escolhido. Por uma noute escura e tempestuosa
+punha-se a caminho com um troço de homens resolutos: dir-se-hia uma
+quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distancias, e chegados
+ao destino, apeiavam-se, approximando-se caladamente dos muros. Affonso
+Henriques encostado á escada, era o primeiro a subir com o punhal preso
+entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respiração
+suspensa: afinal pousava ancioso o pé entre as ameias, e apertando o
+punhal nas mãos, cozia-se com os muros. Na sombra não o distinguiam.
+Caía como um falcão sobre a sentinella, e apunhalava-a antes que ella
+podesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando
+reunia-se na esplanada, armado e resoluto, o ao grito de «Santiago!»
+caía sobre a guarnição adormecida e trucidava-a. «Tal foi o modo por que
+este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castellos das provincias de
+Belatha e Al-Kassr!»
+
+Havia porém ainda outra maneira de guerrear, cuja invenção não pertence
+a Affonso Henriques: era o systema de álgaras, fossados ou correrias,
+atravez dos extensos territorios fronteiros. De um lado e de outro,
+n'uma zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constituição
+geographica e a estrategia, desdobravam-se as charnecas periodicamente
+assoladas. Aqui e além, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as
+povoações, em cuja volta, como oasis, appareciam malhas de terrenos
+agricultados. Confiar ao nervo e á velocidade dos cavallos o transpôr as
+passagens perigosas d'esses desertos onde as sortidas dos castellos
+podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas,
+incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardivagos,
+matando-os; talando os campos, cortando as arvores, incendiando as
+casas, e voltando rapidamente com as prezas feitas: tal era o processo
+egualmente seguido por christãos e sarracenos; reduzido já a um systema
+de invasões annuaes na epocha das colheitas, e contado como principal
+recurso financeiro da rude economia do tempo.
+
+Se a tomada de Santarem (1147) é um typo da primeira especie, a batalha
+de Ourique, ou Orik (1139), é o typo da segunda. A fortuna accendia a
+audacia de Affonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes
+posições de Santarem e Alcacer, deixando Palmella, Cintra e Lisboa na
+retaguarda; atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou
+Silves, emporio sarraceno da Hespanha lusitana. Poucas vezes, porém, um
+fossado era apenas uma correria e um saque. As guarnições dos castellos
+passavam signal, combinavam sortidas; e o episodio de uma batalha
+acompanhava quasi sempre a obra de depredação. A batalha de Ourique,
+qualquer que tivesse sido a importancia numerica dos combatentes, deu a
+Affonso Henriques uma victoria que o encheu de animo para entrar em
+campanhas mais regulares e fecundas.
+
+Os primeiros nove annos do governo do principe tinham sido absorvidos
+pelas questões leonezas, quando em 1137 uma invasão sarracena veiu
+destruir Leiria, que elle erguera para defender Coimbra das subitas
+investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por
+outro lado remediava reconstruindo o castello, então fronteiro do
+extremo sul dos seus Estados. Mas logo o musulmano responde, voltando
+como uma onda que, alastrando o territorio christão, vae rolando até aos
+altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de
+Leiria. Affonso Henriques consegue dominar a invasão, que retrocede ao
+abrigo da linha do Tejo; e retribue logo a visita com uma tentativa
+frustrada sobre Lisboa. Depois, alliado ao wali de Mertola contra o de
+Santarem, vae assolar os districtos de Merida e Beja. Nos intervallos
+d'estas correrias, o rei ferira as batalhas do tratado de Zamora, e
+ganhára a victoria que lhe preparou o cardeal Guido.
+
+O periodo de dez annos que está entre 1137 e 1147 offerece n'estas
+guerras o aspecto de um movimento que oscilla, como um pendulo suspenso
+de um ponto que é Lisboa: invasões sarracenas para o norte, portuguesas
+para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo d'este
+movimento era evidentemente Lisboa e o systema das suas linhas de
+defeza--Cintra-Almada-Palmella-Santarem. A conquista da linha do Tejo
+tornava-se a condição indeclinavel, não já do alargamento, mas até da
+conservação da monarchia de Affonso Henriques.
+
+Demasiado, porém, sabia elle que os recursos militares de que dispunha,
+se chegavam para os fossados annuaes, se bastavam para conquistar _quasi
+per latrocinium_ os castellos isolados, eram demasiado escassos para
+tentar empreza tão vasta como a da conquista do systema de fortalezas
+que formavam o nucleo defensivo do centro do que foi depois o reino
+portuguez. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 fôra
+ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperanças estribavam-se
+n'um auxilio d'essa ordem: até porque, sem forças navaes para entrar no
+Tejo--ainda então não havia marinha militar--seria absurdo tentar a
+empreza.
+
+Entretanto, sete annos iam passados depois d'essa primeira apparição dos
+Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe occasião para realisar
+os seus designios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da
+correria de Beja (1145), seguro do lado de Leão pelas pazes de Zamora,
+forte pela confirmação do seu titulo, confiado na protecção papal--o
+sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar Santarem, (1147) _á sua moda_,
+isto é, por surpreza. Pela calada da noute appareceu á raiz das muralhas
+da villa. Pozeram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma _vela_
+(sentinella); depois subiu outro, depois terceiro, «e depois que todos
+tres foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramancham,
+quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: «Manahu!» e elle
+respondeu-lhe em aravia e fel-o descer, e logo que foi em baixo
+cortou-lhe a cabeça e deitou-o aos de fóra. E então elles poseram outra
+escada e subiram por ambas o mais toste que poderam, e foram tantos que
+se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram elrey e os
+que com elle foram. E d'esta guisa foi furtada a villa de Santarem aos
+mouros.» O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a
+temeridade teria arrastado o rei a proseguir do mesmo modo contra
+Lisboa? Não foi, porém, necessario. Esse anno vieram os Cruzados[40] por
+quem suspirava, e com elles metteu hombros á empreza.
+
+A guerra toma desde então um caracter regular de cercos e campanhas. Os
+meios correspondem aos propositos, e estes á idéa da nação que começava
+a definir-se.
+
+ * * * * *
+
+A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da nação portugueza, até
+ahi envolvida nos limbos da geração. O cerco affigura-se-nos como o
+concilio internacional, uma especie de congresso guerreiro, em que a
+Europa baptisa o recem-vindo á luz da historia. Creado pelos actos
+geradores da vontade de um homem, abrigado pela égide da Egreja,
+Portugal tem a existencia confirmada pela sancção dos exercitos cruzados
+da Europa. O caracter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior
+phisionomia politica, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um
+baptismo, quando, em frente d'essa piscina do Tejo, onde fundeiam
+duzentas naus coroadas pelos pavilhões de tantas nações da Europa, se
+estende o cordão do exercito de flamengos, lotharingios, allemães e
+inglezes.
+
+As columnas dos cavalleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos
+barões portuguezes, estendendo-se em meia lua, a investir o morro de
+Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto
+que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os frankos e inglezes,
+colossaes de estatura, rubros de sangue, herculeos de musculos, vêem
+italianos sagazes, mestres consummados na arte das minas ou sapas. Sobre
+os navios e do lado da terra a arte acorre em auxilio da força. Os
+inglezes montavam as suas manganellas ou catapultas, os frankos as suas
+torres; e Affonso Henriques pasmava d'esses maravilhosos instrumentos
+deante dos quaes a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam
+miseraveis. Acaso a comparação offendia a sua opinião, bem fundada, de
+atrevido; acaso achava mais rapido e simples confiar o resultado aos
+seus expedientes favoritos de condôr: o facto é que decidiu começar por
+um assalto. Foi no dia 3 de agosto que pela primeira vez rebombou a
+trovoada dos golpes do moganons, o stridente sibilar das settas
+despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas,[41]
+o clamor apocalyptico dos combatentes, erguendo um côro de
+imprecações ferozes, proferidas nas mais desvairadas linguas. Á tormenta
+dos sons respondiam os relampagos do pez, do azeite, da estopa
+incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes,
+ajudando o sol que, illuminando a scena, congestionava as cabeças dos
+filhos da algida Germania, da Britannia ou da Frankonia. Ás ondas de
+lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo clarão de chammas e de
+grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de scentelhas a
+perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repellido; a tentativa
+falhára.
+
+Começou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do
+norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares,
+villas, cazaes e granjas. Dentro da cidade escasseiavam os mantimentos,
+e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam
+perseguiam-nos com surriadas de pedras. Os gastadores minavam, atulhando
+a sapa com lenha cortada nos arredores: no dia decisivo, o fogo,
+consumindo esses transitorios esteios, roubaria a base ás muralhas. Os
+italianos construiam uma grande torre, que ficou terminada em meiado de
+outubro, quando a resistencia de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se
+os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as columnas de
+soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um panno
+inteiro das muralhas que se derrocava do lado do oriente.
+
+Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor do ouro, da prata, e das
+mulheres formosas, (_auri et argenti et pulcherrimarum fæminarum
+volupias_) que os levava á Syria; e Affonso Henriques tomou posse da
+cidade. As fortalezas satellites de Lisboa não podiam resistir: Cintra,
+Palmella, e Almada Cairam em curto espaço nas mãos dos vencedores.
+
+A base geographico-maritima de Portugal estava ganha para não mais se
+perder; e se o rei fôra o author do facto da separação, era o rei quem
+todos os dias ia adiantando a obra de uma independencia positiva e
+formal. Lisboa não valia menos, para tal fim, do que a protecção de Roma.
+
+ * * * * *
+
+Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do
+reinado do primeiro monarcha portuguez. Batido em Badajoz pelo genro
+leonez (1169), foi-o tambem nas suas novas conquistas, pelo sarraceno
+(1161-71). Affonso Henriques não era já o mesmo homem: a edade
+quebrára-lhe o vigor de outros annos; e o perdão de Badajoz e as armadas
+dos Cruzados deviam ter quebrado tambem a cega confiança que punha nos
+seus recursos e habilidades. Via que no coração dos homens podia haver
+mais do que ambição e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos
+do que a escada e o punhal, a _razzia_ e o assalto nocturno. Taes
+observações, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido
+roiam o velho capitão no seu antro de Santarem (1171).
+
+O enthusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impellido a proseguir,
+aproveitando a commoção triste dos vencidos e o apparecimento de novas
+frotas que agora, christan Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar,
+nas suas viagens para a Palestina.
+
+Al-Kassr, ou Alcacer-do-Sal, era, para além de Lisboa, o centro
+estrategico da linha de defeza do Alem-Tejo, que guardava Chelb ou
+Silves. Logo depois de rendida Palmella, Affonso Henriques, confiando
+demasiado nas proprias forças, investira, só e ao modo antigo, o
+castello de Alcacer, mas fôra cruelmente vencido (1151). Annos depois,
+vale-se do auxilio de uma frota ingleza, sem conseguir render a desejada
+praça (1157), que afinal cáe perante o ataque combinado das forças
+portuguezas e alliadas da Cruzada de 1158. Evora e Beja cedem tambem por
+essa occasião; e dir-se-hia que Silves, desguarnecida da sua linha de
+fortalezas fronteiras, ia cair rapidamente nas mãos do afortunado principe.
+
+Não era, porém, assim. Essas successivas conquistas das praças do
+Alemtejo não tinham a importancia decisiva que tivera a de Lisboa.
+Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos
+desolados, as praças do Alemtejo offereciam aos guerreiros abundantes
+prezas; e por isto os Cruzados de tão boa vontade paravam aqui, a
+preludiar na Hespanha o programma feito para a Syria. Saqueadas,
+incendiadas, porém, ou arrazadas, o seu valor para o reino era por certo
+lado pequeno ou nullo. O rei não dispunha de forças bastantes para
+guarnecer tão numerosos castellos e tão dilatadas fronteiras. Já para
+conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar ás ordens
+monastico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as praças
+rayanas de Thomar, de Palmella, de Leiria. Os territorios despovoados e
+nús não vinham augmentar-lhe o numero de soldados, nem a riqueza. Para
+que isso succedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o
+desenvolvimento natural das forças economicas. Assim, desde que as
+armadas dos Cruzados, abarrotadas de prezas, largavam a bahia do Tejo,
+Affonso Henriques, tornando a achar-se a sós com os seus recursos
+militares, era forçado a abandonar as conquistas avançadas do Alemtejo.
+Annos havia, tomára e deixára Beja: e agora (1158), das praças
+conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcacer.
+
+Estas campanhas do Alemtejo estão perante Silves como, antes, as da
+Estremadura perante Lisboa: emquanto o sarraceno pisar o Algarve, serão
+precarias todas as conquistas n'este largo trato de terreno devastado
+que não poderá nutrir-se e prosperar, emquanto não estiver ao abrigo das
+invasões. Porque não foi Affonso Henriques cair directamente sobre
+Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de
+consumir as suas forças na empreza esteril das correrias, conquistas e
+saques das praças do Alemtejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga
+vista das aguias dominadoras, tendo só o que é commum a todas as aves de
+rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de força e tenacidade.
+
+Depois de saquearem Alcacer, os Cruzados tinham partido; e a noticia dos
+successivos desastres dos ultimos onze annos decidira os almuhades[42]
+a tratar seriamente de pôr cobro aos progressos de Affonso
+Henriques. Invadem o Alemtejo; e junto de Alcacer, seis mil portuguezes
+mortos, o exercito desbaratado, decidem a perda de todo o Alemtejo
+(1161) pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmella e
+Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na
+peninsula de entre o Tejo e Sado. Desde que outras emprezas obrigaram a
+retirar o exercito almuhade depois de fortificar Alcacer, já Affonso
+Henriques, e os seus discipulos em aventuras podiam á vontade recomeçar
+as correrias e assaltos. Effectivamente, em 1162, um troço de burguezes
+toma Beja por surpreza; e em 1166 um bando de salteadores, com Giraldo á
+frente, de escada ao hombro, punhal nos dentes, entra uma noute em
+Evora, que saqueia e atulha de cadaveres. Eram portugueses? eram
+sarracenos? eram de uns e d'outros; eram uma das muitas companhias de
+bandidos que batalhavam por conta propria, sem noção de patria a que
+pertencessem, nem de religião que seguissem. Tinham por culto apenas a
+ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matança. Eram de
+todas as nações; e falavam uma algaravia, mosarabe nos christãos,
+_most_'latina nos musulmanos--uma lingua franca.
+
+Affonso Henriques não podia socegar vendo essas façanhas. Eil-o outra
+vez a cavallo, Alemtejo em fóra, a correr charnecas e arremetter
+cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura
+hespanhola, Caceres o Tordjala, ou Trujillo (1166). Essa era a sua
+paixão, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se
+erguia de novo a bandeira musulmana nas muralhas que escalára á traição?
+Elle tambem voltaria, no verão seguinte, a repetir a sua façanha. E
+assim, por falta do genio militar do conquistador, as scenas
+repetiam-se, os castellos passavam successivamente de mão em mão, e
+portuguezes e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que
+actualmente pisavam. Se as forças proprias do portuguez lhe não
+consentiam outra cousa: se, sem o auxilio dos Cruzados, não podia
+abalançar-se á empreza de Silves, melhor fôra sacrificar a paixão ao
+interesse proprio, consolidando o dominio, do que pôr em perigo o
+Portugal cistagano, por consumir de um modo esteril as forças militares
+do novo reino nas correrias transtaganas. O rudo capitão não tinha porém
+intelligencia para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a
+guerra governava-o a elle, em vez de ser elle quem governava a guerra.
+Sem plano fixo, á toa, á aventura, internára-se até Trujillo e queria
+tomar Badajoz, invadindo territorios que, apesar de sarracenos, eram
+vassallos do visinho monarcha de Leão. A sua loucura teve a sorte de
+todas as loucuras; e já o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho
+e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarem (1169).
+
+O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-gharb, onde as
+correrias e façanhas do bando de Affonso Henriques espalhavam a angustia
+e o terror; e o musulmano, inimigo por patria e religião, não devia ao
+bulhento principe a generosidade magnanima do genro leonez. Um novo e
+poderoso exercito transpõe o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarem
+(1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os
+resentimentos pessoaes, deante de um perigo commum para todos os
+principes christãos da Peninsula. Duas vezes salvo pelo genro que o
+vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Affonso Henriques já não é
+o irrequieto soldado de outros tempos. Santarem que ganhára por esforço
+proprio, escalando os muros, era o seu tumulo. Ahi n'um leito gemia
+dores de muitas especies: todo o Alemtejo estava perdido; e agora (1184)
+Jussuf, o grande émir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o
+exercito, cercal-o outra vez. Acudiria o genro outra vez a salval-o?
+Cinco annos havia que o exercito musulmano passeiava triumphante pelos
+seus reinos. Não pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruido Coruche,
+que era para a defeza de Lisboa e da linha do Tejo, como fôra Leiria
+para Coimbra e para a linha do Mondego. Evora apenas resistiria ás
+invasões, que tinham levado Alcacer e Serpa, Beja, Moura, Jerumenha e
+todo o Alemtejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido,
+o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das
+lanças nas suas carnes abatidas pela edade, e o quebrar dos seus ossos
+tão rijos ainda, mas mal governados pelos tendões flacidos. Chorava;
+talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porém mais uma vez, os
+acasos imprevistos concorriam para o salvar. Á magnanimidade do genro
+devera o não ter ido acabar n'alguma masmorra escondida nas montanhas
+das Asturias; e a esta circumstancia, verdadeiramente excepcional, de um
+principe generoso, devera tambem o salvar-se do primeiro cerco. Em vez
+de Fernando, que não acudiu agora, veiu em seu auxilio a sorte que matou
+o émir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exercito almuhade.
+
+Levantou-se o cerco, Affonso Henriques pôde respirar ainda livre os
+ultimos annos da sua já acabada vida.
+
+ * * * * *
+
+O pensamento que elle não soubera ou não pudera realisar, coube ao filho
+e herdeiro pôr em pratica. O modo serio de conquistar o Alemtejo era ir
+com os Cruzados, por mar, investir Silves. Logo que Sancho I herdou o
+reino, e desde que appareceu no Tejo a primeira armada, decidiu-se levar
+a cabo a empreza. Já então havia uma frota portugueza; e se á
+constituição geographica do corpo da nação faltava a metade meridional,
+o coração, Lisboa, pulsava já independente e vivo; os navios da primeira
+expedição do Algarve são d'isso a prova. Abria-se agora uma segunda
+epocha; e, ou filha do genio do monarcha, ou proveniente da expansão
+natural das forças nacionaes, ou resultado das duas causas combinadas, o
+facto é que, entrados n'uma segunda edade, respiramos um ar diverso,
+observamos um typo differente e uma nova phisionomia da nação.
+
+Consolidam-se as conquistas, povoam-se e fortificam-se as villas, começa
+a esboçar-se a administração, abandona-se a guerra de escada e punhal.
+Ha um pensamento na politica e uma idéa nas campanhas. Sancho I é já um
+rei: Affonso Henriques fôra como um bandido, á imitação de Pelayo.
+
+O districto de Chenchir ou Al-faghar--assim os arabes denominavam o
+nosso moderno Algarve,--era o que é hoje ainda: um jardim estendido
+sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos
+ventos do norte. A guerra não conseguira mirral-o, como succedeu á costa
+da Berberia, fronteira. Retalho da Africa, scindido pelo mar do Calpe,
+no Algarve tinham os arabes achado um pedaço da sua patria. O clima, a
+flóra, não eram bem europeus; e quem, nos fins do XII seculo, visitasse
+Silves, ou Chelb, dir-se-hia transportado a uma cidade oriental. D'entre
+as varias raças que tinham vindo á Peninsula, foram os arabes do Yemen
+que principalmente a povoaram. Chelb ao sul, Hayrun (Faro) mais ao
+norte, eram as duas cidades principaes do Al-faghar; mas a primeira
+excedia em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era
+opulenta em thesouros e formosa em construcções. Davam-lhe a primazia
+entre as cidades da Hespanha arabe. Vestida de palacios coroados pelos
+terraços de marmore, cortada de ruas com bazares recheiados de
+preciosidades orientaes, cercada de pomares viçosos e jardins, Chelb era
+a perola de Chenchir, onde os prodigos da Mauritania vinham gosar com as
+mulheres formosas, de puro sangue arabe, os seus ocios luxuosos. Era ao
+mesmo tempo uma praça temivelmente fortificada.
+
+Quando pela primeira vez as armadas combinadas, dos portuguezes e dos
+Cruzados, appareceram na costa de Al-faghar, Chelb intimidou os
+guerreiros frisios e dinamarquezes, a ponto de lhes dominar a avidez com
+que namoravam uma preza de tamanho quilate. Não se atreveram a atacar,
+limitando-se a tomar Albur (Alvôr), e retirando com um saque abundante.
+
+Para os Cruzados, homens louros do norte que, sob a ingenuidade azul dos
+olhos, escondem uma crueldade fria e pratica e um desvairado appetite
+dos gosos vedados aos climas setentrionaes, a empreza de Chelb tinha o
+valor da riqueza a roubar, das bellas mulheres, d'esse Oriente
+mysterioso e seductor, a gozar sobre os leitos de sedas da India ou nos
+fôfos tapetes da Persia. Eram voluptuosidades que antegostavam;
+calculando ao mesmo tempo os thesouros de pedrarias, os marfins, os
+estofos preciosos, a myrrha, o incenso, os metaes reluzentes, com que
+voltariam ás suas agrestes serras, ás suas costas algidas, deslumbrar as
+noutes veladas á luz baça da candeia, de azeite de phoca. Positivos e
+praticos ao mesmo tempo, mediam bem o impossivel da aventura, e por isso
+preferiram á temeridade de atacar Chelb, a modestia de saquear Albur.
+Bastava-lhes o que levavam.
+
+Não succedia outro tanto a Sancho I. A conquista do Al-faghar tinha para
+elle um alcance maior. E os portuguezes mais familiarisados com as
+seducções dos costumes arabes, menos sensiveis ás tentações da carne,
+mais abertos aos arrebatamentos da paixão, como todos os homens do sul,
+tinham um proposito mais firme e intenções diversas.
+
+Logo depois da primeira tentativa frustrada no proposito essencial,
+appareceu no Tejo uma segunda e mais poderosa armada de guerreiros do
+norte. Decidiu-se então a conquista de Silves. Sancho e as tropas
+portuguezas iriam por terra, atravez do Alemtejo, investir a cidade pelo
+norte, cortando os soccorros de Alcacer e das demais praças
+transtaganas: emquanto as armadas combinadas iriam por mar e, subindo a
+ria de Silves, poriam o cerco pelo sul, apoiando-se nos navios.
+
+Silves, collocada n'uma eminencia e defendida por fortes muralhas, em
+cujo recinto, no coração da cidade, se erguia a almedina ou alkassba,
+estava ligada a uma torre albarran por uma couraça. A torre defendia uma
+vasta cisterna que dava agua á cidade: conquistal-a seria, portanto, o
+preludio do cerco. Desembarcados, os Cruzados começaram por assolar os
+arrabaldes, destruindo quintas e casaes, trucidando os tardivagos,
+incendiando e roubando, segundo a regra invariavelmente seguida n'estas
+emprezas. Quando em torno dos muros não havia mais do que destroços,
+ruinas e cinzas, atacaram a torre albarran. Foi em 21 de julho de 1189,
+esta primeira tentativa frustrada. Em 29 chegou por terra el-rei Sancho,
+cerrou-se o cerco, e prepararam-se os meios do ataque decisivo. Os
+sitiados, no desespero, açulavam o furor e a cubiça dos inimigos com
+insultos e crueldades. Nas ameias da torre albarran penduravam pelos pés
+os prisioneiros christãos; e alli, em frente do exercito, como exemplo e
+ameaça, matavam-nos ás lançadas. Era ardente o furor, incansavel o
+trabalho. Estavam preparadas e promptas as machinas de guerra: começaram
+os assaltos. Os allemães tinham montado um vae-vem coberto, cujas pontas
+de ferro trabalhavam impunemente na derrocada dos muros: era a _origa_
+dos gregos, a _testudo_ de Vitruvio, o _ericius_ das guerras dos
+romanos, em portuguez _ouriço_--uma catapulta couraçada contra as massas
+de estopa a arder em azeite que sobre ella os defensores vasavam. Muitas
+torres, numerosos trons batiam os muros e levantavam os sitiadores á
+altura das ameias. A albarran caíu por fim, entulhou-se a cisterna. As
+fontes dos pateos ajardinados de Chelb deixaram de correr, e a sede veiu
+auxiliar as machinas e as armas dos christãos. Os musulmanos,
+fortificados na almedina, resistiam, comtudo.
+
+O cerco entrava desde esse momento n'uma phase nova. Os assaltos
+repetiam-se, infructiferos, e a alkassba parecia intomavel.
+Soccorreram-se ás artes dos mineiros de Italia; mas os arabes eram
+egualmente mestres na engenharia. As galerias subterraneas cruzavam-se,
+encontravam-se, rompiam-se. Fatigados de pelejar em vão, á luz de um sol
+abrazador, transferiram os combates para o coração da terra. Os
+gastadores eram soldados, e rijas batalhas eccoaram n'essas galerias. A
+lenha accumulada ardia presa do fogo; e á luz das chammas, buscavam-se,
+um a um, os inimigos, ferozes como tigres, punhal ou alfange em punho, e
+estrangulavam-se, despedaçavam-se, como feras. O crepitar do fogo
+acompanhava as imprecações roucas, e nos olhos havia mais chammas do que
+nos montes de troncos e ramos incendiados. O sangue corria dando á lama
+das galerias subterraneas a côr do barro com que em tempos mais felizes
+os arabes ladrilhavam os seus eirados alegres e os seus pateos ajardinados.
+
+A furia dos combates era excitada pelos calores da sêde. Os sitiados
+ardiam em febres. Viam-se nús estendidos sobre as lages das ruas, sobre
+os ladrilhos das casas, para refrescar a pelle. Comiam o barro do chão.
+Estorciam-se, desesperados, e morriam pelas esquinas. As ruas deixavam
+apodrecer os cadaveres, e as mães engeitavam os filhos, quebrando-lhes
+os craneos tenros contra as umbreiras das portas.
+
+Nos sitiantes a furia era outra. Durava já um mez o cerco, o não fôra
+para tão demorada campanha que os Cruzados tinham vindo. A alkassba não
+caía! os perros musulmanos não se rendiam! Entretanto elles, Cruzados,
+iam morrendo de feridas, de insolações; e o despojo promettido não
+chegava. Não podiam perder assim o seu tempo. Isto diziam uns; outros
+não queriam abandonar o trabalho gasto, e despedir-se de uma presa meio
+conquistada. Sancho I, desanimado, pensou em retirar. Então rebentaram
+as iras; porque a segunda opinião vencera no animo dos Cruzados. Quasi
+chegaram ás mãos, os portuguezes e os homens louros do norte. Finalmente
+a alkassba rendeu-se nos primeiros dias de setembro; mas isso deu logar
+a novas rixas. O rei queria uma cidade, e não um despojo. Os Cruzados
+queriam o contrario. Sancho offereceu pagar-lhes o valor da presa; os
+Cruzados recusaram. Havia uma cousa que o rei não podia pagar com ouro:
+era o delirio do saque, a orgia das matanças e dos estupros. Esses
+ferozes caçadores de mouros queriam retoiçar-se pelo interior das
+alcovas mysteriosas, e enterrar os braços nas arcas dos thesouros,
+ensopar em sangue as almofadas macias sobre que iam abraçar as morenas
+filhas do Yemen.
+
+Cevados, partiram logo. Sancho pedia-lhes que acabassem a empreza,
+tomando Hayrun. Recusaram; não queriam arriscar os lucros, e estavam
+turgidos de goso. Só ambicionavam tornar á patria, para contar os seus
+feitos, e depôr aos pés das louras e ingenuas donzellas do norte, de
+suas noivas e de suas filhas, os collares, os brincos, as manilhas de
+ouro arrendado, que tinham roubado nos leitos, com a honra e a vida, ás
+filhas de Mafoma.
+
+Sancho I, não podendo seduzil-os, nem convencel-os, desistiu da empreza;
+e deixando Silves guarnecida, e occupado o oeste do Algarve, retirou
+para o norte. Afim de consolidar a conquista, tomou Beja. Mas, emquanto
+o velho Faro se conservava em poder do sarraceno, não devia o rei
+portuguez considerar seu o Al-faghar.
+
+ * * * * *
+
+Effectivamente durou pouco o primeiro dominio portuguez no extremo sul
+do reino. Quando o filho de Jussuf, Jacub, chegou a soccorrer Chelb, já
+a cidade estava perdida; e elle não soube ou não pôde retomal-a.
+Vingou-se irrompendo pelo reino; e, galgando o Tejo, assolou a
+Estremadura toda, pondo cerco a Thomar. Tampouco soube ou pôde vencer, e
+retirou-se; mas para voltar no anno seguinte. Então Silves caíu de novo
+em poder do sarraceno (1191) que, victorioso, tomou Beja, e na sua
+_gaswat_ fulminante, veiu ameaçar Lisboa, desde os muros de Almada,
+conquistada.
+
+Portugal recuava outra vez aos limites do Tejo; porém Silves, embora
+perdida, indicava o futuro inevitavel d'este longo e mortifero duello. O
+rei occupava-se em consolidar os seus Estados, povoando, e organisando a
+administração. Na impossibilidade de levar a cabo a conquista do
+Al-faghar, enfraquecido militarmente o reino pelas correrias,
+desilludido sobre a efficacia do auxilio dos Cruzados, abandonou com
+razão o systema das álgaras e surprezas, com que, sem conseguir
+manter-se um dominio estavel, se extenuavam as forças vivas da nação. O
+seu governo sabio preparou as decisivas emprezas posteriores.
+
+A primeira d'essas foi a tomada de Alcacer em 1217. No tempo de Affonso
+II já os portuguezes se tinham achado na batalha das Navas de Tolosa
+(1212), em que os principes christãos da Peninsula, tomando uma cruel
+desforra do desastre de Alarcos, deram o ultimo golpe no dominio
+sarraceno. Affonso II não tinha amor pela guerra. O lado organisador e
+administrativo do governo de seu pae imprimira-lhe paixões pacificas.
+Instigava-o ainda mais a sua avareza natural, e a condição dura em que a
+fraqueza dos ultimos annos de Sancho I o collocara, por ter doado o
+reino inteiro, thesouros e castellos, aos nobres e ao clero. Affonso II
+não quiz tomar parte da empreza de Alcacer, porque andava occupado a
+reivindicar para si o reino.
+
+Kassr-al-Fetah, Castello-da-porta ou da entrada, se dizia essa chave do
+Alemtejo; e sem a posse de um tal ponto estrategico, eram vans as
+tentativas de consolidação do dominio portuguez ao sul do Tejo. Castello
+sobre todos nocivo, chamam-lhe as memorias coevas, (_Castrum super omnia
+castra nocivum_, GUSUINI CARMEN) porque d'ahi iam annualmente para
+Marrocos cem prisioneiros christãos, arrebatados aos territorios
+fronteiros até Lisboa, nas álgaras de todos os annos.
+
+Com o auxilio de uma forte esquadra de Cruzados, Alcacer ficou
+definitivamente em poder dos christãos no meiado de 1217. Nove annos
+depois, Sancho II, em quem renascia o espirito guerreiro dos avós,
+recomeçou a conquista do Algarve, caminhando ao longo da fronteira de
+leste, valle do Guadiana abaixo, e tomando successivamente Elvas, Serpa,
+Moura, Mertola, Ayamonte, Tavira e Cacella, que os arabes denominavam
+Hisn-Kastala (1226). As deploraveis pendencias que lhe roubaram a corôa
+não deixaram a Sancho II consummar a conquista do Algarve, que no meiado
+do XIII seculo cáe por fim (1249), obscuramente, em poder do usurpador
+da corôa fraterna, Affonso III.
+
+Consolidada a separação, constituido geographicamente o paiz, resta-nos
+agora observar os movimentos internos da nação; para vêrmos como dentro
+d'ella se affirma a independencia, só plena e cabalmente definida,
+porém, na crise que poz termo á dynastia de Borgonha.
+
+ [40] V. nas _Taboas de chronologia_, a das Cruzadas, a p. 219.
+
+ [41] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 251-5, a descripção
+ das machinas de guerra dos antigos, que eram as da Edade-média.
+
+ [42] _Taboas de chronologia_, pp. 43 e 271.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+III
+
+A monarchia e a justiça
+
+
+«D. Diniz foi um aváro. Affonso IV um homem de juizo, Pedro I um doido
+com intervallos lucidos de justiça e economia.» Assim A. Herculano
+caracterisa os tres monarchas, a quem já fôra concedido reinar sobre
+Portugal integralmente constituido, dentro dos limites das suas
+fronteiras actuaes. Mas que eram então um rei e um reino?
+
+Errada idéa formará d'essas epochas aquelle que não puder desprender-se
+das impressões resultantes de periodos mais proximos de nós. Foi só
+desde o XV seculo que o desenvolvimento das nações peninsulares
+permittiu aos reis começarem a ter consciencia do caracter
+juridico-social do seu cargo[43]. Até ao XIV seculo, os
+Estados peninsulares, ou--limitando-nos agora ao campo exclusivo das
+nossas observações--Portugal, não merece propriamente o nome de nação,
+se a este vocabulo dermos o valor moderno. As comparações illustram
+superiormente a historia: e em nossos dias temos exemplos de similhança
+quasi absoluta. Esses principados slavos, onde a occupação da Turquia
+jámais deixou de encontrar resistencias, são como foram a Hespanha. O
+Montenegro reproduz as tradições das Asturias, ninho dos bandidos de
+Pelayo; a Servia ou a Herzegovina, em cujas campinas, avassalladas pelo
+turco, as quadrilhas dos indomitos montanheses veem periodicamente fazer
+as suas razzias, são como foi Portugal. A historia repete-se ainda na
+independencia final, ganha pela irradiação do fóco de resistencia
+invencivel.
+
+Regiões fadadas a tal existencia não podem ser propriamente nações: não
+attingiram esse momento de existencia collectiva, não sairam dos
+periodos preparatorios da organisação. O processo tem, n'este caso, dois
+graus caracteristicos. Primeiro apparece o bando, depois a familia. O
+rei é o chefe dos bandidos, antes de ser o protector, o pae, dos seus
+subditos. Se a guerra é antes um systema de rapinas do que uma successão
+de campanhas, a justiça é tambem mais a expressão arbitraria de um
+instincto, do que a applicação regular de um principio. A sociedade que
+se desenvolve de um modo espontaneo, á lei da natureza, vae
+successivamente definindo as idéas collectivas, á maneira que progride
+na serie das fórmas evolutivas do seu organismo[44].
+
+A substituição do principio da justiça--no qual incluimos as relações
+entre individuos, e entre classes e instituições--principio militar,
+marca o momento da primeira transformação que é a passagem do organismo
+do bando para a fórma social primitiva: a familia nacional, cujo pae ou
+patriarcha é o rei.
+
+A loucura de D. Pedro I vale, portanto, a nosso vêr, tanto como o
+bandidismo de Affonso Henriques. Os dois reis são os dois typos--da
+guerra e da justiça. Assim como a primeira era selvagem e feroz, assim a
+segunda é irregular, cheia de caprichos e arbitraria. Mas se Affonso
+Henriques foi o chefe do bando, D. Pedro I é decerto o _pae_ da familia
+portugueza.
+
+O seu furor justiceiro não é mais louco, do que o furor guerreiro do
+primeiro rei. Tentámos esboçar a phisionomia d'essa epocha primitiva:
+buscaremos agora, indo beber á fonte limpa das chronicas mais proximas,
+accentuar as feições do segundo periodo. Na guerra não havia regra, nem
+planos: era uma correria solta. Na justiça não ha processos, nem
+garantias: é o dominio livre do capricho. Mas se, n'um caso, a bravura
+engrandecia e a victoria exaltava os actos do bandido, no outro, a
+rectidão dava força, e a protecção paternal coroava as decisões do
+_kadi_. O rei é o grande Juiz da familia portugueza: a sua vontade é
+lei, as suas sentenças são oraculos[45].
+
+A justiça de Pedro I caracterisa-se, pois, para nós, com o merecimento
+de um typo, da mesma fórma que a guerra de Affonso Henriques. São tambem
+os dois individuos symbolicos, por isso mesmo que são como que doidos.
+As phisionomias dos outros reis esbatem-se mais no fundo do quadro,
+confundem-se de um modo mais ou menos completo na massa dos sentimentos
+do povo; e os seus actos acompanham o desenvolvimento das forças e
+instinctos collectivos, sem os dominarem de uma fórma superior e typica.
+O leitor perspicaz não esquece que estas apreciações excluem a do
+merecimento individual das pessoas. Sancho I tem uma bella vida
+tristemente rematada n'um torpor de fraqueza. Affonso II tem uma
+phisionomia commum e antipathica, sem nobreza, mas forte e penetrante.
+Sancho II possue muito do seu predecessor em nome. Affonso III
+destaca-se pela educação franceza, que lhe ensinara a dissimulação, a
+perfidia, de mãos dadas com o bom-senso governativo. Diniz é um aváro;
+Affonso IV é um homem de juizo, no dizer de Herculano. Todos reunidos,
+porém, n'um grupo, formam um corpo de phisionomias indecisas ou communs:
+são mais ou menos guerreiros, são pessoalmente melhores ou peiores, o
+que á historia importa pouco; são bons ou maus administradores da
+republica, seu patrimonio, cuja riqueza fomentam, acompanhando o
+desenvolvimento natural da sociedade.
+
+No principio e no fim d'esta serie estão, porém, os dois individuos
+typos, os dois loucos--um, phrenetico, brandindo o punhal mortifero;
+outro, carrancudo e fero, empunhando o latego do algoz e a vara de juiz,
+ou risonho e folgasão, dançando e cantando nas ruas no meio da sua
+familia, como um pae.
+
+Pedro I tinha a paixão da justiça; era n'elle uma mania, como em seu avô
+o fôra a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os
+criminosos vinham á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando
+algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da
+meza, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os
+algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos
+réos. Nunca abandonava o açoute: enrolado á cinta em viagem, tomava
+d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe traziam.
+Os adulteros mereciam-lhe um odio especial: jámais lhes perdoava. D.
+Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, _luitador e trovador de
+grandes ligeirices_, a quem embora amasse _mais que se deve aqui dizer_,
+o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse.--O rapaz
+engrossou e morreu depois da _sua natural door_. Certa mulher era infiel
+ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e mandando-a
+queimar, respondeu ao esposo desolado que lhe devia alviçaras pelo ter
+vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da boda
+forçara a mulher. Roussou? morra. Enforcou-o, entre os choros e
+supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne
+perseguia com furor as alcouvetas; e as feiticeiras não lhe mereciam
+menos cuidados.
+
+Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda
+mais terrivel a expressão da sua phisionomia. A fala não lhe deixava
+traduzir bem as cóleras; e rubro, grosso, agitando o latego, n'um
+delirio, mettia espanto. Os gagos, porém, teem isto de particular: tanto
+o defeito accrescenta ao horror na furia, como põe nas horas mansas o
+quer que é de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caçador tenaz,
+descansava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido pelos moços
+com os nebris e falcões, e pelas matilhas de caens. Então o seu rosto
+aplacava-se, e era benigno, bemfazejo, liberal, folgasão. _Foi grande
+criador de fidalgos._ Glotão, passava horas esquecidas á meza, onde a
+vianda era em grande abastança.
+
+Punir os maus, enfrear os fortes, «querendo fazer graça e mercê ao nosso
+poboo» era o seu constante desvelo paternal. Nas côrtes que reuniu em
+Elvas (maio de 1361) vê-se pelas respostas aos capitulos dos povos como
+o seu governo era protector. Queixavam-se os conselhos de que as casas
+dos mestres das ordens, dos bispos e priores, dentro das villas, caíam
+em ruinas; e o rei decide de um modo simples: _filhem_ as nossas
+justiças aos proprietarios o que for necessario para as obras. Filhem
+mais, para as pôr em grangeio, as herdades e vinhas ermas. Os
+ricos-homens veem ao concelho e pousam em casa de mulheres honestas,
+perdendo-lhes a reputação; pousam nas adegas e nos celleiros de trigo, e
+fazem d'elles cavallariças, allega o povo--e o rei ameaça o fidalgo que
+assim fizer. O clero, isento como estava dos serviços militares da hoste
+ou do appellido, recusa-se a acudir na hora de um perigo imminente? Que
+os clerigos acudam com os leigos, diz o rei, quando haja fogo ou inimigos.
+
+Mas o «nosso poboo» ás vezes exige de mais, como uma creança que se
+sente adorada. Modere-se: o rei é um pae, mas o pae é um juiz, sempre
+benigno e amoravel porém. Quando recusa, não se vê arrogancia, apenas
+uma reserva prudente: «mostrem e declarem aquello em que lhis vam contra
+seus foros, graças e mercees que ham e que, nos lhas faremos guardar.»
+Exigir que as meretrizes e barregans andem estremadas pelo trajo, é
+querer muito n'essa Edade-média prostituta e adultera, faminta e
+leprosa, que vive de carnalidades, violencias e feiticerias: «Tragam
+suas vestiduras como as poderem aver, porque perderiam muito em os
+pannos que teem feitos e nos adubos que em elles tragem.» Mas quando o
+povo se queixa do que soffre com os serviços militares, obrigado o
+villão a ter cavallo e armas desde que possue uma certa _quantia_ de
+bens, o rei attende e ordena que não sejam quantiados a nenhum os pannos
+de seu vestir e de sua mulher até dois pares, nem as roupas de suas camas.
+
+Sobre a cabeça do povo humilde pesam duas ameaças constantes: o nobre
+com a sua violencia, o judeu com a sua manha. O fidalgo e o onzeneiro
+são a desgraça da gente, a perdição das filhas e a ruina das searas.
+Quem nos protegerá senão o rei? Se o judeu onzenar, responde este, «nós
+o mandaremos matar e lhe tomar quanto houver.» Mas ninguem se atreva com
+elle, a não ser a justiça, que anda sobranceira a todos, a tudo. De uma
+vez D. Pedro mandou matar dois escudeiros por terem roubado a um judeu;
+e se tambem cortou a cabeça a outro, dos bons, de Entre-Douro-e-Minho,
+por ter partido os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, foi
+elle o proprio que mandou degolar o sobrinho do alcaide de Lisboa por
+depennar as barbas a um porteiro.
+
+A justiça havia de ser tremenda quando os costumes eram barbaros,
+corruptos e ingenuos ao mesmo tempo; quando o incesto, o adulterio, o
+assassinato, o estupro, o roubo, e essa offensa extravagante da
+merdinbuca (_stercum in ore_), tão frequente nos foraes, acompanham as
+linhagens das familias e enchem as paginas das cartas dos
+concelhos.[46] O juiz não será um algoz, mas é mistér que
+seja um tyranno; e o symbolo da justiça não está na balança com o seu
+fiel sensivel, mas antes na espada e no latego, na furia e no amor, no
+capricho benevolente e na sanha vingadora de um rei temido como foi D.
+Pedro.
+
+Assim como a sua justiça era, pois, destituida de magestade, assim o
+eram as suas folganças. Dir-se-hia um rustico feito rei; e acaso por
+isso o povo o amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas, no
+sentimento, nem no trato. Em tudo era brutal. Se confundia em si o juiz
+e o algoz, as suas festas eram _kermesses_ extravagantes e plebeias. Os
+instinctos aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, os torneios, as
+lanças, não tinham n'elle um amador. Era um democrata, um _tyranno_ á
+moda antiga, em cujo espirito encarnara toda a brutalidade popular: por
+isso mesmo era adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em
+bocca, faziam-lhe um pedestal de força; e as suas continuas folganças
+populares cimentavam essa força com o amor intimo que nos merece quem
+tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D.
+Pedro.
+
+Quando voltava em bateis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta saía a
+recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da turba,
+dançando ao som das _longas_ (trombetas) como um rei David. Estas folias
+apaixonavam-no quasi tanto, como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava
+a fazer loucuras. Certas noites, no paço, a insomnia perseguia-o:
+levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o
+pelas ruas, dançando e atroando tudo com os berros das longas. As
+gentes, que dormiam, saíam com espanto ás janellas, a vêr o que era. Era
+o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim tão
+ledo!--Vestiam-se todos á pressa, desciam ainda tontos de somno; e as
+ruas, um momento antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes, e
+tinham o clamor da multidão em vivas e o movimento das danças universaes.
+
+Era uma loucura? Seria. A Edade-média é uma vertigem. O povo, afflicto
+pelas miserias do mundo e pelos terrores do céo, vivia n'um sonho feito
+de dôres positivas e de medos transcendentes: rodopiava n'um _sabbath_.
+Deus abençoe o rei que nos defende por sua mão! que vem comnosco bailar
+ás noites por essas ruas lugubres! que persegue os incantadores e
+feiticeiras! É o nosso justo juiz, o nosso bom pae, o nosso amigo e
+irmão: adoremol-o!
+
+Não eram só justiça e festas que o rei lhes dava: era pão. Sabio
+administrador, juntava grandes thesouros; e esta noticia augmentava, ao
+medo e ao amor, o respeito por um rei tão bom. A brutalidade e o egoismo
+dos costumes medievaes traduzia-se a miude n'um flagello terrivel--a
+fome, de que o pobre povo soffria sempre mais ou menos. A fome e as
+guerras geravam pestes. A primeira metade do seculo XIV fôra uma cadeia
+de desgraças. «No anno do Senhor, de 1830, diz o livro de Ceiça, foi a
+pestilencia grande e morreram então em dois mezes cento e cincoenta
+religiosos. Os lazaros eram tantos e tão antigos que D. Diniz
+deixara-lhes em testamento duas mil libras. Em 1333 houve fome, e os
+mortos já não cabiam nos adros das egrejas, enterrados aos seis em cada
+cova. No dia de S. Bartholomeu do anno de 1346, tremera a terra a ponto
+de os sinos tocarem nas torres, pavorosamente, um dobre de finados,
+annunciando o acabar do mundo. Depois veiu a peste de 48; e em 55, dois
+annos antes da morte de Affonso IV, foi a secca, havendo outra fome
+medonha. Da gafaria para a cova, ameaçado por todos, na terra e no céo,
+o povo infeliz e faminto congregava-se em volta do throno protector,
+adorando o rei justiceiro e providente, inimigo das pestes, das guerras,
+das fomes, e sentia-se rico dos thesouros guardados nas torres do
+castello. Além d'isso, D. Pedro fartava-o. As suas folias não eram só
+danças e musicas. Quando Affonso Tello foi armado cavalleiro houve uma
+kermesse monumental. Durante a vigilia d'armas, cinco mil tochas
+illuminavam as ruas, desde S. Domingos até ao paço; e o rei, entre as
+alas de lumes, radioso e bom, na sua gaguez, dançou com o povo a noite
+inteira. Ao outro dia o Rocio estava coalhado de tendas e montanhas de
+pão e grandes tinas cheias de vinho. Nas fogueiras, em espetos
+collossaes, assavam-se vaccas inteiras. Havia de comer para toda Lisboa.
+O povo exultava, n'esses ágapes da monarchia.
+
+A velha tragedia dos seus amores e da sua rebellião augmentava-lhe ainda
+as sympathias. O tyranno apparecia, justiceiro e bondoso, sobre o fundo
+de um azul de amores infelizes que encantavam a alma popular. Ignez de
+Castro, a sombra de um anjo, coroava-o de além do tumulo. Mas esta
+piedosa recordação era, na alma do rei, um espinho que o mordia sem
+cessar. O seu genio cruel pedia vinganças. Entendeu-se com o visinho de
+Castella, e pôde haver ás mãos dois dos assassinos. O povo não approvou
+o escambo; e o rei muito perdeu de sua fama, diz o chronista. O castigo
+dos assassinos foi duro: D. Pedro estava fóra de si, as palavras
+atropellavam-se-lhe na garganta, e não podendo satisfazel-o as muitas
+injurias, deshonestas e feias, vingou-se a chicotear os infelizes na
+cara. A sua colera attingia a ironia soez. Queria cebola e vinagre, para
+comer o Coelho em molho-de-villão. Por fim mandou que lhes arrancassem,
+vivos, os corações, a um pelo peito, a outro pelas costas. Gozou-lhes a
+morte, e acabou vingado.
+
+Pedro I é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os
+vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis
+e as amisades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo onde acaso
+alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam
+o caracter d'esse rei que é verdadeiramente um symbolo. Por isso o povo,
+vendo-se n'elle retratado, o adorou.
+
+ * * * * *
+
+A politica da independencia puzera no seio da familia portugueza um
+membro, cujas arrogancias e pretenções ameaçavam desnortear o fiel da
+justiça social. O clero aspirava a usurpar a authoridade á monarchia.
+Além da força que as tradições juridicas lhe davam; além da authoridade
+espiritual e do espectro das bullas de excommunhão, pavor das almas
+ingenuamente crentes; além do poderio fundado n'uma riqueza excessiva e
+na machina absorvente da mão-morta, poço onde caíam as heranças e
+legados dos rudes batalhadores arrependidos; além de todas as causas
+geraes, o clero invocava em Portugal um argumento particular: o rei era
+vassallo, o papa suzerano. Por tal preço obtivera Affonso Henriques um
+simulacro de sancção juridica para a sua rebellião.
+
+A situação do clero catholico no seio da primitiva sociedade
+portugueza--e das coevas em geral--resulta de um tal concurso de
+elementos heterogeneos, que nenhuma das faces do systema dos costumes
+retrata, melhor do que esta, a confusão cahotica d'esse novo mundo que
+se formava sobre as ruinas e destroços do antigo. Politicamente, o facto
+de um poder, superior por ter um fundamento transcendente, estranho ao
+poder civil, é a primeira causa de conflictos.[47] Perante
+a Egreja, todos são egualmente subditos, desde o rei até ao infimo dos
+_viliores_. A base religiosa d'esse poder consolida-se com a força que
+dá a riqueza. Os barões, crendo de facto na verdade da revelação, e
+n'uma outra vida onde hão de ser julgados, teem uma religião feita de
+medo; e como no fundo são barbaros, vivem na terra á lei da força,
+remindo com esmolas e legados, á hora da morte, os longos rosarios de
+crimes. Julgando-se proximos a apparecer perante o supremo juiz,
+reconhecendo á hora da morte a inutilidade da força e da perfidia
+perante quem tudo póde e tudo vê, compram o perdão com o fructo das
+rapinas e dos crimes; e assim formam o alicerce de um poder real,
+verdadeiro e mundano. Salvos os mortos, os que ficam teem de entender-se
+com o clero herdeiro; teem de debater por todos os meios a influencia e
+o poder, para outra vez, á hora da morte, repetirem os actos causadores
+das luctas que lhes encheram a vida. Por tal fórma se encerra um circulo
+vicioso que a politica não póde romper, porque a religião o não
+consente. Desde que as raças germanicas, avassallando o imperio antigo,
+não tinham podido desenvolver a sua independencia religiosa e acceitaram
+o christianismo, força era que assim fosse, emquanto os dogmas christãos
+governassem as consciencias.
+
+N'este sentido é perfeitamente legitima a influencia do clero; e não o é
+menos por virtude da authoridade que lhe dá o saber, com effeito já
+pervertido, mas ainda preponderante sobre reis e principes analphabetos.
+Legitima a sua influencia, historicamente legitima a sua força, o clero,
+porém, recebia por seu turno a acção reflexa do meio ambiente em que
+vivia. Era tão aváro, tão feroz, tão barbaro, tão vicioso, como os
+seculares; e a sua cultura accrescentava ainda, aos defeitos da
+brutalidade, os da civilisação. As perversidades requintadas, as
+perfidias subtís tinham n'elle os melhores mestres; e por sua via
+entravam no corpo de uma sociedade barbara. Os sacerdotes eram os
+educadores politicos dos principes, quando não eram os seus declarados
+adversarios. Ensinavam as manhas, a quem apenas sabia commetter os actos
+brutaes. Aos vicios do instincto sabiam juntar as perversidades da
+intelligencia.
+
+Se os principes da Egreja influiam de tal modo, a plebe ecclesiastica
+acompanhava as massas no rodopio lugubre e sanguinario da dança infernal
+da Edade-média. Os homens da Egreja commettiam todos os crimes.
+Sacerdotes, habitando os templos e os mosteiros, os seus erros eram
+outros tantos sacrilegios, pela qualidade dos delinquentes e pela
+condição do lugar. Roubavam, feriam, matavam, mentiam. Os casados
+andavam bigamos; os solteiros, publicamente amancebados. Davam o braço
+ás prostitutas, viviam com ellas, e desfloravam donzellas. Engeitavam os
+filhos, repudiavam as esposas. Além de criminosos, eram indignos.
+Faziam-se carniceiros em praça publica, matando e degollando as rezes,
+vendendo carnes. Eram jograes, tafues, bufões. Escondiam a corôa,
+deixavam crescer o cabello, e abandonavam o trajo ecclesiastico, para
+mais á solta poderem abandonar-se aos seus desvarios.
+
+E, obrando taes crimes, desvirtuando por tal modo os legitimos
+privilegios do sacerdocio e da illustração, não deixavam de reclamar o
+fôro de uma justiça especial. D'ahi resultava que o rei podia enforcar
+um réo, por ser secular, e o cumplice ecclesiastico ficava impune.
+Testemunhas seculares não valiam contra elles, e ecclesiasticas não
+appareciam, porque o vedava a solidariedade da classe. O desvario era
+tamanho, que havia quem chegasse a ordenar-se, unicamente para commetter
+crimes impunemente.
+
+Juntem-se estes costumes aos costumes bravios da epocha; junte-se mais a
+serie de conflictos politicos e economicos, levantados pela condição
+particular da Egreja; addicione-se a situação especial de vassallo em
+que Affonso Henriques collocára o throno portuguez--e desde logo se
+comprehenderão os motivos dos longos e pittorescos conflictos da
+primeira época da historia nacional.
+
+A erudição lançou para o campo das lendas os episodios tradicionaes do
+tempo de Affonso Henriques; mas a historia não póde desprezar esses
+traços pittorescos com que o povo retrata, infiel mas typicamente, as
+tendencias e os costumes. Sabe-se a historia do bispo negro de S. Cruz
+de Coimbra; e os monumentos remotos contam o que Affonso Henriques, se
+não fez, poderia ter feito ao legado que veiu de Roma excommungal-o por
+se ter levantado contra a mãe, pela ter mettido a ferros e não a querer
+soltar--segundo resa a chronica. Era homem «muy bravo de grande coraçom»
+o principe a quem a rebeldia do clero irritava. Foi esperar o legado ao
+Vimieiro, chegou-se a elle, travou-lhe do cabeção, sacou da espada e
+quizera cortar-lhe a cabeça. Os cavalleiros do rei acudiram: «Dirão em
+Roma que sois herege!» O cardeal tremia de medo, o rei de colera, mas
+baixou a espada e voltou: «Pois quero que Portugal não seja excommungado
+em todos os meus dias e que não leveis d'aqui ouro, nem prata, nem
+bestas, senão tres!» E proseguia exigindo uma carta de Roma garantindo a
+posse «d'isto (Portugal) ca eu o ganhei com esta minha espada.» O
+sobrinho do cardeal ficaria em refens: teria a cabeça cortada se a carta
+não viesse em quatro mezes. O cardeal, diz-se, prometteu, annuindo a
+tudo; e o leitor sabe, pelo modo como lhe contámos os pactos de Zamora,
+qual é a verdade que esta scena pittoresca exprime. O rei que «em sua
+mancebia foi muito bravo e esquivo,» prosegue a lenda, feitas as pazes,
+disse ao cardeal: «Agora vede como sou herege!» E despindo-se,
+mostrou-lhe as feridas de todo o corpo, contando-lhe as batalhas em que
+as tinha havido. Resolvida a contenda, satisfeita a cubiça, aplacada a
+colera, apparecia depois do guerreiro violento o homem timido e crente,
+com a visão do inferno e o terror da excommunhão.
+
+Por isso os prelados de Braga, Coimbra e Porto eram como tres reis no
+reino, cujos limites já para um unico provavam escassos. Se as guerras
+da separação, primeiro, depois a conquista do sul do reino e a
+deslocação do seu centro para Lisboa, marcam os momentos geographicos
+decisivos da historia da independencia, a resolução dos conflictos
+ecclesiasticos e a consolidação do poder monarchico marcam, decerto, o
+movimento tambem decisivo d'essa historia, sob o aspecto mais intimo e
+organico da justiça social.
+
+Dos tres reis mitrados, o do Porto foi o que mais trabalhos deu aos
+monarchas portuguezes. O reinado de D. Sancho I, tão brilhantemente
+iniciado pela conquista de Silves, e com tanta sabedoria dirigido para a
+consolidação do centro assolado do paiz, é dos mais notaveis na historia
+dos conflictos com o clero. O rei era tão irascivel como credulo:
+acompanhava-o sempre uma feiticeira, diariamente consultada. Não tinha o
+furor bellico do pae, nem a energia justiceira do neto: parece ter sido
+um homem commum, mas serio.
+
+Na primeira decada do XIII seculo governava o bispado do Porto Martinho
+Rodrigues, homem atrevido, ambicioso, cheio de força e vicios. A
+authoridade da corôa limitava-se por esses tempos ao velho Porto, hoje o
+suburbio de Gaya, e o bispo imperava na cidade. Exacções e tyrannias,
+communs a todos os senhorios feudaes, levaram os burguezes do Porto a
+rebellar-se contra o bispo, invocando o auxilio que o rei lhes não
+refusou. Acclamado pelo povo, Sancho I entra na cidade; arrombam-se as
+portas das egrejas, a turba invade e assola os templos, conspurca os
+altares; e o bispo fica cinco mezes preso no palacio episcopal, até que
+finge submetter-se ás exigencias, com o proposito, que realisa, de ir a
+Roma pedir desforra ao papa. Entretanto o de Coimbra encerrava os
+templos e negava os serviços religiosos aos fieis: era esse um dos meios
+ordinarios de combate. Sancho I vae a Coimbra, faz de bispo, obriga os
+padres, á força, a celebrarem os officios divinos, mandando arrancar os
+olhos aos recalcitrantes.
+
+Voltou a final (1210) Martinho Rodrigues, de Roma, com bullas de
+Innocencio III. O nuncio ou legado do papa devia em pessoa lel-as ao
+rei; porque o chanceller Julião, valendo-se da ignorancia do soberano,
+usava alterar o que lia. Sancho I ouviu com humildade a monitoria papal.
+Estava doente, já fatigado da vida, e na perspectiva da proximidade da
+viagem para o outro-mundo, memorava tudo o que tinha feito, os desacatos
+e sacrilegios. Os remorsos enchiam de terror o seu animo duro, obtuso e
+bravio. Curvou-se e penitenciou-se. Este era sempre o momento infallivel
+da victoria da Egreja: a superstição entregava-lhe, manietados e
+submissos, os seus terriveis inimigos, na hora da morte imminente.
+Sancho I pedia aos monges de Alcobaça que rezassem por sua alma esses
+lugubres psalmos, que pareciam aos infelizes como um ecco das terriveis
+symphonias da eternidade. Reclinado no leito da morte, o rei, apavorado,
+via a face medonha do supremo Juiz; e sentia-se já precipitado nos
+abysmos ardentes, no seio das chammas crepitantes, roído, macerado pelos
+monstros diabolicos, a gritar em dôres infernaes.
+
+Desistiu de tudo; abandonou á sua miseranda sorte os burguezes fieis,
+deu rendas, legados, terras, senhorios. Deu mais até do que possuia!
+Conseguiria por tal preço obter o perdão? Os padres diziam-lhe que sim,
+e abençoavam-no promettendo-lhe a salvação.
+
+Fóra da camara, onde o rei agonisava (1211), o herdeiro, Affonso II,
+vulgar e obeso, avarento e incapaz de perceber a situação cruel do pae,
+ruminava porém, com o chanceller Gonçalo Mendes, discipulo de Julião, o
+plano da desforra. Começou por confirmar tudo o que o fallecido doára ao
+clero, porque primeiro tinha que liquidar contas com os irmãos e com o
+seu partido. Sancho I deixára-lhes metade do reino. Affonso queria-o
+inteiro para si: e era muito bastante para vêr que não podia bater-se ao
+mesmo tempo com todos os adversarios. Faltava no caracter do filho a
+nobreza do caracter do pae. Nas côrtes de 1211 confirma ainda a isenção
+dos cargos publicos, mas prohibe ao mesmo tempo ao clero a compra de
+bens de raiz. O de Braga protesta, e Affonso II manda-lhe arrazar os
+campos, destruir as granjas e confiscar as rendas. Estava outra vez
+declarada a guerra entre a monarchia e o clero. O rei morre,
+impenitente, apesar das ameaças das bullas de Honorio III.
+
+O segundo Sancho tinha muito do caracter do primeiro: era sinceramente
+devoto, e na Edade-média a sinceridade implicava certeza de derrota. É
+verdade que já a este tempo o terror das excommunhões diminuira: tão
+excessivo uso o clero dellas tinha feito. Os interdictos e a denegação
+de sepultura em sagrado eram acompanhamento constante de todas as
+pretenções ecclesiasticas. Se, porém, a força das armas canonicas
+minguára, não tinha diminuido o poderio positivo do clero, que era a
+classe mais opulenta do reino. O que os bispos exigiam de Sancho era
+demasiado; e como lhes foi negado, depozeram o bom e valente rei (1245).
+Em França, o usurpador subscreveu a tudo; sentado no throno, o terceiro
+Affonso, soube defender-se como se defendera o segundo. Trazia de fóra a
+muita experiencia, a manha, e a pertinacia consummadas, que aprendera
+nas côrtes mais polidas da Europa central.
+
+Evidentemente o clero baixa n'esta longa e interessante batalha. O
+fundamento juridico das suas pretenções vae gradualmente fugindo, á
+medida que as tradições romanistas e o espirito secular inspiram as
+acções dos monarchas, primando sobre as maximas do direito canonico.
+Esta substituição traduz o aclaramento gradual que se dá nas
+consciencias, á maneira que as superstições infantis d'essas primeiras e
+obscuras alvoradas, se vão abrindo no dia claro do renascimento da
+cultura intellectual.
+
+D. Diniz (1279-325) já não é analphabeto, e mede bem o valor da
+sciencia: prova-o a fundação das Escholas. Por outro lado, vê que a
+principal causa da força do clero está no ultramontanismo, palavra então
+desconhecida ainda para exprimir a influencia e authoridade soberanas
+dos papas sobre as Egrejas nacionaes. Libertar-se d'essa perigosa
+intervenção era o meio de diminuir a gravidade dos conflictos. Acaso a
+tradição dos concilios da Hespanha visigothica influiu para a creação
+das assembléas de prelados, cujas _concordatas_, registrando os fóros da
+Egreja, a subtrahiam á influencia estrangeira, por tornarem nacional o
+clero e internas as suas questões. O rei, que assim fomentava a educação
+e nacionalisava a Egreja, cimentando por outro lado o desenvolvimento
+economico do paiz, tinha uma intuição dos caracteres modernos das
+nações. Portugal caminhava de facto, rapidamente, na estrada da sua
+independencia, isto é, da sua constituição organica. O povo costumou-se
+a dizer: «El-rei D. Diniz fez tudo o que quiz.»
+
+Pedro, o justiceiro, com a sua typica individualidade conclue de um modo
+terminante e brusco a velha questão da influencia de Roma, quando
+estabelece o _placito regito_: «Nenhumas bullas, nem lettras pontificias
+serão publicadas em Portugal sem consentimento meu.»
+
+Procedia summariamente: e a sua politica, toda pessoal, acclamada com
+enthusiasmo por um povo que o adorava, era a voz indomavel da nação que
+falava por sua bocca. A sua loucura era a synthese do pensamento
+collectivo. Quando o bispo do Porto reagiu, o rei foi lá em pessoa, diz
+a chronica, fechou-se com elle n'uma sala, despiu o gibão para ficar
+mais á vontade: trazia por baixo uma saia de escarlata. O bispo,
+transido de susto, esperava, sem ousar pedir soccorro. D. Pedro
+chegou-se e, placidamente, tirou-lhe a capa; desenrolou o latego, e
+correu-o a açoites, dizendo-lhe a rir, gaguejando: vae! anda! toma!
+
+Não podia conceber leis, a cuja sombra os criminosos ficassem impunes; e
+por isso dava-se-lhe pouco de enforcar os padres.--E as regalias da
+Egreja?--«Vam-no enforcando, respondia com bom humor e pausa, porque não
+podia falar depressa. Vam-no enforcando: por esse caminho lá vae para
+Jesus Christo, seu vigario, que no outro-mundo o julgará!»
+
+E ficava-se a rir, vendo o tonsurado espernear na forca.
+
+Tudo mudára. Os tempos eram diversos; as excommunhões, papeis
+rabiscados; as regalias da Egreja, uma tradição apenas. O rei parado,
+com os olhos na forca, ria!
+
+«E diziam as gentes que taes dez annos nunca ouve em Portugal como estes
+que reinara el-rei dom Pedro.(Fernão Lopes.)
+
+ * * * * *
+
+A fidalguia não tem uma historia tão grave como a do clero. As condições
+peculiares da constituição do reino portuguez augmentavam ainda os
+embaraços que em toda a Hespanha houve para a formação acabada de um
+feudalismo.[48] Todos os conflictos da nobreza com a Corôa
+proveem, não de uma questão de ambição politica, não de um pensamento
+definido de emancipação revolucionaria, como a do clero; mas da avareza,
+da cubiça, da brutalidade pessoal dos homens, nos quaes é mistér incluir
+tambem os reis.
+
+A não serem, por outro lado, as revoltas do Porto, e as guerras entre
+Bragança e outros concelhos transmontanos, por causa do senhorio de
+Lamas, nada se encontra em Portugal que dê idéa de uma descentralisação
+de dominio politico, similhante á que lavra para além das nossas
+fronteiras[49].
+
+Poucos são os conflictos entre o rei e os barões que não tenham por
+origem a _pilhagem_ dos realengos. Distante, e por isso mais fraca a
+acção da Corôa, o fidalgo do logar não receava chamar seu e apossar-se
+violentamente do terreno visinho, pertencente ao rei. Além d'isto, os
+nobres forjavam titulos, inventavam doações, para _honrarem_ territorios
+sujeitos á acção das justiças reaes. D'estas causas provinham confusões
+inextricaveis, que a força apenas decidia. Quando o mordomo do rei, ou o
+seu aguazil, appareciam a cobrar um tributo ou reclamar um preso, o
+fidalgo usurpador, ou, do terreno, ou do privilegio apenas, saía com os
+seus homens: «Ca por aqui é _honra_!» E enforcava-os. Enforcava-os, ou
+matava-os mais barbaramente ainda. Um porteiro, que ia fazer uma
+penhora, teve as mãos cortadas, e foi depois assassinado. Outro, atado á
+cauda de um cavallo, foi de rastos, levado a galope em volta de toda a
+_honra_. Um foi _pendurado pelos braços_. Outra vez o fidalgo _prendidit
+eos per gargantas_: os processos eram tão barbaros como o latim.
+
+Entretanto, embora destituidas de um alcance ou significação
+politico-feudal, não faltam nas primeiras epochas portuguezas revoltas e
+desordens oriundas das necessidades bulhentas da fidalguia. Batalhar era
+o unico meio de passar o tempo, ganhando fama e dinheiro ou terras. Mais
+pacifico o reino occidental da Peninsula, «em aquell tempo os fidallgos
+portuguezes hiam a Castella muitas vezes por se provarem pellos corpos
+quando em Portugall mesteres nom avia.» Mesteres eram desordens, como a
+que assolou o paiz no tempo de Sancho II e levou á deposição do rei. Eis
+aqui um episodio do livro das _Linhagens_: «E este Raymão Viegas de
+Portocarrero, sendo vassallo d'elrey D. Sancho de Portugal, veio uma
+noute a Coimbra com a companha de Martim Gil Soverosa, onde el-rey jazia
+dormindo na sua cama; e roubaram-lhe a rainha D. Mecia sua mulher de
+apar d'elle e levaram-na para Ourem. O rei lançou-se apoz d'elles e só
+os pôde alcançar em Ourem que era então muy forte. Disse-lhes que
+abrissem as portas, pois era elrey D. Sancho, e levava seu preponto
+vestido de seus signaes e seu escudo e seu pendão ante si, e deram-lhe
+muy grandes sétadas e muy grandes pedradas no seu escudo e no seu pendão
+e assim se houve ende (d'alli) a tornar.» Mesteres eram estas guerras
+civis frequentes; mesteres, porém, menos nobres, eram as vinganças
+crueis exercidas sobre o povo inerme, como a de um tal Martim Esteves,
+que matou os doze melhores homens de Alter-do-Chão «por deshonra que lhe
+ahi fizeram.»
+
+Mesteres ainda, são os desaggravos do thalamo tão a miude violado. Houve
+um Dom Rodrigo Gonsalves casado com Dona Ignez Sanchez; ella, estando no
+Castello de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e o marido,
+certo d'isto, chegou ahi, cercou as portas do castello, e queimou-a a
+ella e ao frade e homens e mulheres e bestas e caens e gatos e gallinhas
+e todas as cousas vivas, e queimou a camara e pannos de vestir e cama, e
+não deixou cousa movel.
+
+Nos mesteres amorosos tambem essa gente barbara se «provava pellos
+corpos» mas sem necessidade de ir a Castella. Quando em tão pouco se
+tinha a vida alheia, como se teria em muito a honra? De Affonso
+Henriques, o rei «muito bravo e esquivo em mancebo», conta a historia
+que foi um dia hospedar-se em Unhão, a casa de um homem-bom que havia
+nome Gonçalo de Sousa, e emquanto elle ia adubando o comer, foi elrey
+vêr-lhe a mulher que tinha por nome Dona Sancha Alvares e
+começou-lh'a... E Dom Gonçalo de Sousa entrou pela porta e viu assim ser
+e pesou-lhe d'ahi muito e disse-lhe: Senhor, levantae-vos, ca adubado o
+tendes. E o rei foi sentar-se, e comeu e partiu; e o marido pegou da
+esposa, montou-a n'um jumento com a cara para a cauda, e mandou-a assim
+á côrte entregar ao rei.
+
+Estes escrupulos do fidalgo não eram, porém, geraes, e fazem-lhe honra.
+A promiscuidade repugnante, o incesto, o sacrilegio são casos communs.
+Um fez um filho em Tereja Mendes, abbadessa de Lorvão e levou-o para a
+côrte, onde D. Diniz lhe deu muito bem e muita mercê. Outro «ouve um
+filho, Ruy, que foi privado d'elrey D. Diniz e ouvidor de sua caza.» Os
+reis, os nobres teem barregans publicas e legiões de bastardos. Quando
+D. Maria Paes, amazia de Sancho I, vinha do enterro do rei em Coimbra,
+encontrou em Avelans Gomes Lourenço, que lhe saíu ao caminho e a
+_filhou_ por força, roussando-a. Elvira Annes roussou-a Ruy Gomes de
+Briteiros. E D. Fernão Mendes, o bravo, «foi o que matou sua madre na
+pelle da ussa e pose-lhe os caens, porque lhe baralhara com a barregan.»
+A bestialidade nem respeita o sangue, nem um incesto impede o casamento
+das nobres damas. «Dona Thereza Gil foi de mau preço e ouve filhos de
+seu primo co-irmão»; Dom Pedro Garcia _jouve_ com sua irman e «fez em
+ella semel.» Dona Mor Garcia não foi casada, mas roussou a seu irmão
+Pedro e «fez em ella Martim Tavaya.» Outrotanto succedeu a uma Maria
+Mendes, que depois casou com Lourenço Soares de Valladares. É longa a
+lista das torpezas das _Linhagens_ da fidalguia. Taes são os poeticos
+amores da Edade-média, cujo brio é perfidia, cuja bravura é crueldade,
+cuja nobreza é astucia. A carne, o sangue e o ouro, a orgia bestial, a
+carniceria e o roubo são os elementos d'essas historias, em que a rudeza
+barbara apparece manchada de podridões asquerosas.
+
+O roubo e o assassinato compõem essa epopêa aristocratica, cujos amores
+são _roussos_, estupros, adulterios, cujo espirito é a avareza e a
+perfidia.[50] _Filhar_ as terras do rei, é a primeira das
+emprezas da _cavallaria_ em Portugal. E o rei não vale mais do que os
+cavalleiros. Quantas vezes, com effeito, não seria usurpadora a sua
+intervenção? quantas vezes a ira brutal do fidalgo não teria um
+fundamento justo? Affonso II leva metade do seu reinado a espoliar da
+herança os irmãos, e todo elle a _inquirir_ o fundamento legal da posse
+dos dominios aristocraticos: faz-se idéa da regularidade do segundo
+processo, depois de observada a primeira façanha. A confusão é tão
+grande, que D. Diniz (1309) decide abolir todas as _honras_ posteriores
+a 1290.
+
+É tambem no seu tempo que um outro acto de grande alcance vem diminuir o
+poder da nobreza, de um modo analogo ao que succedera ao clero. Assim
+como, fóra da nação, o clero tinha em Roma o seu chefe supremo; assim
+tambem as Ordens militares, estabelecidas em Portugal, tinham fóra do
+reino os seus mestrados. Nacionalisar as Ordens militares (1310)
+equivalia ao que se conseguira com as assembléas do clero. O _Templo_,
+poderosa machina destruida por Clemente V, legava os seus bens ao
+_Hospital_, mas os tres reis de Castella, Aragão e Portugal, _como todos
+tres fuessemos uno a catar nuestro drecho_, conseguem nacionalisar os
+bens dos templarios. É com elles que D. Diniz funda a ordem portugueza
+de Christo.
+
+ * * * * *
+
+Os monges militares[51] tinham representado um papel
+importante no movimento da reconstituição economica dos territorios
+portuguezes. Desde os primeiros tempos que ás Ordens jerosalemitanas
+fôra confiada a guarda de numerosas povoações. O Templo, o Hospital e o
+Sepulcro fruiam de abundantes doações; e Affonso Henriques concedera á
+primeira a terça parte de todas as conquistas ao sul do Tejo. Á inopia
+de forças para levar a cabo as grandes emprezas de Lisboa, Alcacer e
+Silves, pontos decisivos da conquista do sul do reino, remediavam os
+Cruzados; mas as esquadras partiam com o saque, e sósinhos os
+portuguezes não podiam conservar o adquirido. N'este motivo se fundára a
+concessão permanente de terras ás Ordens militares. Como vimos, Sancho
+II estendeu as fronteiras do reino pelo alto-Alemtejo; e sem recursos
+para conservar as conquistas, chamou para o reino os cavalleiros de
+Santiago e Calatrava, cujo mestrado era castelhano.
+
+Tal era o unico meio de guarnecer os castellos dispersos pelas vastas
+campinas assoladas do sul do reino. A instabilidade do dominio e a
+escassez da população--ainda hoje sentimos as consequencias d'essas
+prolongadas guerras--não permittiam que a cultura se estendesse; e á
+falta de productos da terra, christãos e sarracenos tinham de
+soccorrer-se ao systema de correrias e algaras permanentes. Como em
+nossos tempos na Servia, o lavrador trabalhava armado, na limitada área
+aproveitada em torno dos lugares fortificados. Além da occupação
+constante de _alancear mouros_, havia os grandes fossados annuaes, no
+tempo em que as searas estavam maduras; e isto fazia precaria e
+transitoria a agricultura. Todas estas causas reunidas produziam em
+resultado a devastação universal, já consummada na edade de que nos
+occupamos. Nos foraes dos primeiros seculos da monarchia, o alfoz dos
+concelhos é demarcado por uma certa penedia no alto da serra, pelo
+carvalho insulado, pela _velha_ estrada mourisca, por certa pedra de côr
+diversa; jámais por casas, villares ou granjas.
+
+O norte do reino, abrigado das invasões, defendido pelas linhas
+estrategicas do Tejo e do Mondego, não era, desde seculos, theatro da
+guerra santa. As depredações, menos geraes e menos frequentes, provinham
+ahi apenas das rixas dos senhores e das guerras civis. Affonso II mandou
+arrasar as propriedades do arcebispo de Braga. As guerras entre os
+filhos de Sancho I, as commoções que acompanharam a queda de Sancho II,
+a rebellião armada de Affonso (depois IV) contra seu pae, a do viuvo de
+Ignez de Castro, entre outras, trouxeram decerto ruinas e desastres, mas
+não para comparar com as assolações do sul, nem sequer com os males dos
+primeiros tempos, quando a ambição de conquistar a Galliza fazia do
+Minho o theatro das luctas quasi constantes com Leão.
+
+As guerras castelhanas do tempo de D. Fernando teem um novo theatro,
+porque o antigo condado portucalense descera já á condição de provincia
+portuguesa. O coração do reino está em Lisboa, a terra querida d'elrey
+Diniz, _ca hy nascera, hy fora criado y bautizado, e hy fora rey_. Nem o
+norte do Mondego, rico e populoso, nem o sul do Sado, demasiado bravio e
+inhospito, chamam a attenção administrativa dos governos. Toda ella se
+applica para o centro do reino, a renovar e agricultar, e para o
+desenvolvimento da navegação e do commercio pelo magnifico porto onde
+todos os navios, em viagem dos mares do norte para o Mediterraneo,
+vinham refrescar, desde que Lisboa era christan. D. Diniz lavrou o
+primeiro tratado mercantil com a Inglaterra (1308). Os armadores da
+Normandia, da Flandres e da Inglaterra, já no fim do XIII seculo
+demandavam o Tejo, para mercadejar; e os cuidados dos reis não se
+limitavam apenas a favorecer esse commercio, porque as plantações de
+vastos pinhaes nas costas teem como motivo proporcionar madeiras ás
+construcções navaes, e ao mesmo tempo defender as terras da invasão das
+dunas, no litoral de entre o Tejo e Mondego.
+
+O ultimo d'esta serie de phenomenos que demonstram a formação crescente
+de um organismo nacional, é o apparecimento de Lisboa, a cidade querida,
+como um centro de actividade maritima e commercial. Definitivamente
+separado de Leão, obliteradas as ambições da absorpção da Galliza,
+geographicamente completo até ao mar do Algarve, rota a dependencia
+feudal de Roma, nacionalisado o clero e as Ordens militares, fortalecido
+o poder dos reis, iniciada a organisação da justiça, da administração,
+do ensino--o corpo da nação portugueza, até ahi acephalo, achava em
+Lisboa a capital. A cidade do Tejo dava mais do que um centro de vida
+organica, dava um destino definido--o maritimo--a uma nação que na terra
+da Hespanha não tinha individualidade, nem por uma indole homogenea e
+particular dos habitantes, nem por uma conformação especial e autónoma
+do territorio.
+
+Corintho ou Veneza do occidente, Lisboa _grande cidade de muytas e
+desvairadas gentes_ era mais do que a capital do reino: era a razão de
+ser da sua independencia.
+
+ [43] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) liv. III, 4.
+
+ [44] V. _Instit. primit._, pp. 233 e segg.
+
+ [45] V. _Instit. primitivas_, pp. 137-47.
+
+ [46] V. para os usos judiciaes, etc., na Edade-média portuguesa,
+ o _Quadro das Instit. primit._, pp. 17-18, 154, 163-4, 170-1,
+ 175-8 e 181-205; e _Regime das Riquezas_, pp. 172-4.
+
+ [47] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 158 e segg.
+
+ [48] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 127-32 e 143-9.
+
+ [49] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 135-43
+
+ [50] V. _Instit. primit._, pp. 98 e 157.
+
+ [51] V. _Instit. primit._, p. 263.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+IV
+
+A crise
+
+
+Quando Portugal se encaminhava, por fim, no sentido de uma rapida e
+definitiva constituição, quiz o acaso que o throno coubesse por herança
+a um principe de fracas, mas sympathicas qualidades.
+
+ Do justo e duro Pedro nasce o brando
+ (Vede da natureza o desconcerto!)
+ Remisso e sem cuidado algum Fernando.
+
+O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas
+qualidades e defeitos. Não era, decerto, aquelle homem de que a nação
+carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um
+sentido póde dizer-se que as condições em que se achou foram a causa dos
+males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para
+realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era
+inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos,
+mas não sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou
+para fomentar a navegação e o commercio, honrarão eternamente a sua
+intelligencia e a fina percepção com que via no desenvolvimento maritimo
+o futuro da patria. A obra consideravel das fortificações da capital
+(1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia a verdade--cruamente por
+elle aprendida--de que Portugal era já, e seria sempre Lisboa.
+Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro
+remedio havia então contra a penuria do thesouro? que outros exemplos
+davam os demais principes? que outro exemplo damos nós ainda hoje,
+quando, para não cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos
+papel?--Accusam-no porque _hordenou almotaçaria em todallas cousas_
+(1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os
+monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos
+tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida
+quasi até nossos dias; obrigar os detentores á venda dos cereaes,
+determinar a partilha dos grãos, foram actos de salvação publica
+repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a
+suspender as garantias, ou justiça civil. Mas o rei que cerceava as
+moedas e ordenava a almotaçaria em todas as cousas, era o que fundava a
+marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, não se
+esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a
+cultival-os, ou a aforal-os. A administração de D. Fernando é um
+cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nação chegava a um
+momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A
+população e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que,
+havia mais de um seculo, terminára a reconquista do territorio aos
+musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) dá ao reino 4:800
+besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750.
+Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e
+muitas villas que depois definharam eram ainda importantes: Sines,
+Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que são hoje:
+Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino
+robusto e forte.
+
+Mas o pobre rei, tão bom e tão sagaz, tinha porém um fraco, que
+estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-média, a
+pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como
+um indicio e um typo mal esboçado de futuros personagens. Superior na
+intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder.
+Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o
+desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da
+vontade, ou do caracter, faz tão commum em nossos dias. Para Cesar, D.
+Fernando era, porém, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que
+o perdia, porque á indifferença não reunia o cynismo. Era, no fundo, um
+pobre homem de talento. Este genero de individuos é sempre sympathico; e
+por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas
+fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O
+povo sabia que no fundo o caracter do rei não era perverso. Não o podia
+respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas
+extravagancias. Era o filho prodigo da nação.
+
+Ás suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil,
+cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, «gran criador de fidalgos e
+muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e
+lançador atavolado»--o jogo era uma das basofias do fidalgo
+medieval--dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros.
+A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que não
+infundia respeito. Os reis de fóra, sabendo-o tão singularmente bom e
+simples, riam-se d'elle.
+
+Era um infeliz, no sentido que a expressão tem popularmente em
+castelhano. Dava tudo pela caça: uma paixão desenfreada. Só falcoeiros
+de besta contava quarenta e cinco, e não estava satisfeito: queria
+povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves,
+nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre açores e falcões,
+gerifaltes e negris, todas _primas_. Tinha um regimento de mouros para
+apresarem as garças e outras aves, que iam buscar a caça nas lagôas. Não
+perdoava sequer os innocentes pombos. Eram ás legiões as matilhas de
+cães para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos
+era o seu _grande sabor e desenfadamento_. O do seu avô Henriques fôra
+correr mouros e atirar ás ameias dos castellos: os tempos, os
+temperamentos, eram já inteiramente diversos.
+
+Ainda assim, não era a caça que perdia o rei. Namorado sempre e
+mulherengo, «amador de mulheres o achegador a ellas,» diz F. Lopes,
+tinha um feitio terno, _amavioso_. A carnalidade arrastava-o aos maiores
+excessos, e é provavel que tivesse vicios ingenuos. Sua irman solteira,
+a infanta D. Beatriz, fôra cinco vezes offerecida, outras tantas
+recusada, a diversos principes, nas varias combinações politicas que a
+sua fertil imaginação creava, e que a sua indolencia invencivel punha
+logo de parte. A côrte d'essa irman era um viveiro de donas, onde o rei
+permanentemente satisfazia os seus gostos mulherengos. Foi n'essa côrte
+que viu e se perdeu de amores por Leonor Telles. Parece, comtudo, que
+antes d'isso não amava; porque é proprio dos temperamentos, como era o
+do rei, não ter paixões. A sua delicia era o gozar indolente dos
+carinhos e meiguices das mulheres, não era amar. Não é provavel, pois,
+«a suspeita deshonesta que alguns tinham da virgindade da infanta ser
+por elle minguada.» Bastavam ao rei «os jogos e fallas tão a meude
+misturadas com beijos e abraços e outros desenfados de similhante
+preço.» Só aos fortes corações é dado amar e enlouquecer. D. Fernando
+não tinha essa virilidade de caracter. Distincto, perspicaz, engenhoso
+de espirito, bom, affavel de genio, faltavam-lhe o valor que faz os
+homens, e a vontade que faz os reis. Era uma indolencia formada de
+espirito e sensualidade; uma creatura romantica e sympathica; uma
+mulher, fraca e intelligente, sentada no throno. Leonor Telles
+conquistou-o, porque tinha o genio de um Homem; e o segredo d'essa
+alliança tenaz não está n'uma paixão do rei, está na inversão das
+pessoas e dos sexos. Ella fez-se rei; elle tornou-se a amante, passiva,
+indolente, sensual.
+
+ * * * * *
+
+O tempo de D. Fernando foi uma serie de guerras com o visinho reino de
+Castella. As muitas desgraças d'essas emprezas loucas tiveram de bom o
+affirmar de um modo terminante a independencia formal e positiva da
+nação, como sáe da batalha de Aljubarrota. Á maneira de certas
+enfermidades agudas, quando atacam o homem de temperamento indeciso e
+constituição debil, na edade em que attinge a virilidade, e determinam
+uma revolução organica, fixando e consolidando a saude--assim as guerras
+castelhanas de D. Fernando. são, para Portugal, uma crise. O seu destino
+vacillante, os seus orgãos esboçados apenas, soffrem a prova de uma
+commoção violenta. Acordam outra vez as tentações antigas, já
+anachronicas, da conquista da Galliza; o reino é mais de uma vez
+invadido; a miseria, a ruina, as devastações e a penuria affligem, como
+uma febre ardente, o corpo da nação. Falta decerto um rei que a dirija,
+um homem forte que a represente e guie; mas isso mesmo concorre para
+caracterisar a crise, demonstrando que a vitalidade collectiva existia
+já, e não provinha apenas da imposição forte de um braço guerreiro. Em
+dois seculos Portugal tornara-se de um amalgama de populações ruraes,
+cuja unidade estava apenas no genio dos seus barões, em um organismo,
+cuja consciencia de uma vida collectiva era real e definida. Tal é, a
+nosso vêr, o merecimento d'essa revolução nacional, cujo supposto chefe,
+o Mestre de Aviz, é mais o instrumento do que o heroe.
+
+Não precipitemos, porém, a narrativa.
+
+D. Fernando julgára convir-lhe apoiar a usurpação do throno de Castella
+por Henrique de Trastamara, quando o poder do rei D. Pedro ainda chegava
+para bater o rival em Najera. Depois que o usurpador, voltando de França
+com o auxilio de Duguesclin, consegue desthronar o rei perdido, D.
+Fernando julga conveniente alliar-se ao do Aragão e ao mouro de Granada,
+contra o Trastamara victorioso. Formára o chimerico plano de bater o
+vencedor com o partido vencido que o invocava; esperando sentar-se no
+bello throno de Castella, de que promettia um retalho ao aragonez, outro
+ao granadino. A empreza não destoava dos antecedentes historicos; porque
+o regime politico da Hespanha, retalhada em varias monarchias, era um
+systema de conquistas successivas de reinos. Era, porém, chimerica por
+dous motivos, um ignorado então, outro evidente: a incapacidade do rei,
+e o destino que marcava á Hespanha a solução unitária. Se Portugal pôde
+escapar aos preceitos d'esse fado, deveu-o ao movimento que, por lhe dar
+Lisboa, fazia d'elle uma nação cosmopolita, commercial e maritima, e não
+propriamente hespanhola: outra Hollanda, no corpo de outra
+Allemanha[52].
+
+A politica de D. Fernando era, pois, historicamente insensata, falta que
+seria absurdo irrogar ao rei; mas era tambem pessoalmente absurda,
+porque os seus planos eram chimeras, tão breve nascidas como
+abandonadas. Haveria no espirito do rei o pensamento, mais ou menos
+definido, de se substituir ao castelhano na obra da unificação politica
+dos Estados peninsulares? Nada authorisa a suppol-o; e até porque tal
+pensamento não estava ainda cabalmente definido para os monarchas de
+Castella.
+
+O facto é que D. Fernando declarou a guerra e abriu a campanha,
+invadindo a Galliza (1369); «mas sua ida foi de tal guisa que mais sua
+honra fora não ir alla dessa vegada.» Muitos barões gallegos correram a
+recebel-o, a acclamal-o. Tradições de outras eras? Ambições, ainda
+vivas, de uma independencia, que mais de uma vez tinham considerado
+solidaria com a soberania de Portugal? É provavel; mas é tambem certo
+que a rapina era o motivo immediato da adhesão, porque «muytos vinham-se
+a ele e pediam-lhe os bees dos que se iam para D. Henrique, o que era
+dado ledamente.» O inimigo, de Castella, fazia outro tanto. O conde
+Andeiro foi o mais caloroso dos partidarios gallegos de D. Fernando.
+Saíu ao encontro do rei, alvoroçado, a gritar: «Hu vem aqui meu senhor
+Elrey D. Fernando?» E o rei, esporeando o cavallo, radioso e feliz por
+uma tão facil conquista, vendo-se já sentado no throno de Castella,
+avançou, respondendo: «Eu som! eu som!» A invasão tornava-se um passeio
+até á Corunha; mas pouco adivinhavam ambos, o conde e o rei, quanto
+haviam de pagar caro os prazeres desses dias breves.
+
+O castelhano corre sobre a Galliza, e D. Fernando foge a esconder-se em
+Coimbra. A resaca assoladora vem até Braga e Guimarães, atravez de todo
+o Minho. A provincia inteira gritava por soccorro: Aqui d'el-rei, contra
+o castelhano!--O rei, indeciso, indolente, esperava a realisação da sua
+chimera:--não é mister batalhar; Castella inteira vem entregar-se, como
+se entregára, de braços abertos, a Galliza!--Passeava-se, entretanto,
+com o exercito, entre Santarem e Lisboa. Ia, vinha, avançava e
+retrocedia, tão tonto que já o povo da capital ria d'esses passeios:
+_exvollo vae, exvollo vem!_[53]
+
+Afinal em Coimbra--cidade funesta aos dois Fernandos[54]--decidiu-se a
+acudir ao Minho, quando o rei de Castella, depois de assolar tudo, tinha
+já partido para além da fronteira. Pela raia, porém, o batalhar
+continuava, e tambem na costa andaluza o bloqueio maritimo: já Portugal
+tinha armadas. Mas a guerra dilatava-se; e Castella, decididamente, não
+o chamava para seu rei. Começou a _assentar-se del a covardice_,
+abandonou os alliados; e aborrecido e desilludido por esta vez, assignou
+as pazes de Alcoutim.
+
+A sua chimera só, porém, o deixou quieto por tres annos.
+
+D. Pedro tinha morrido em Montiel, assassinado ás mãos de Trastamara
+(1369); a filha mais velha do defunto era casada com o duque João de
+Lencastre, da casa de Inglaterra: d'ahi vinham as pretenções d'este á
+corôa castelhana e o bravo duello que a Inglaterra e a França debateram
+na Hespanha por muitos annos. A influencia franceza era dominante em
+Castella; e para logo, nas successivas e ulteriores convulsões, a
+alliança ingleza venceu em Portugal. D. Fernando, ou movido pelo desejo
+de desforra, ou pensando ainda nas suas velhas ambições, e esperando
+ludibriar o alliado, assigna em Braga (1372) o tratado de alliança com o
+inglez, contra o castelhano. Henrique de Trastamara, em cuja côrte
+andavam diversos fidalgos portuguezes, como os gallegos da invasão
+anterior andavam com D. Fernando, manda Pacheco (o terceiro assassino de
+D. Ignez de Castro) vêr se effectivamente o rei se dispunha á guerra.
+Era tão voluvel o seu caracter, que o castellão não acreditava ainda.
+Voltou Pacheco: sem duvida o rei estava disposto a entrar em campanha.
+Então D. Henrique, com bondade, lhe pede que abandone essa chimera, e
+insta pela paz. Elle, excitado pelas _hespanholadas_ de Affonso Tello,
+suppõe que a fraqueza era o motivo da insistencia. Inuteis as
+observações, o rei de Castella prefere invadir a ser invadido; e
+rapidamente entra pela Beira (1372), cáe sobre Lisboa, cujo cêrco uma
+esquadra, ao mesmo tempo partida de Sevilha, encerra por mar (1373).
+
+Que fazia D. Fernando? Do alto dos muros de Santarem, onde se fechára,
+via passar o exercito inimigo, sem ousar mover-se. Dois motivos lh'o
+impediam. Esperava a toda a hora o soccorro do inglez; e se o fructo
+d'essa guerra lhe era destinado a elle, bom seria que em pessoa o
+disputasse. Deixar, porém, invadir assim o reino, pôr cêrco á capital,
+abandonar o povo, abandonar Lisboa, era vergonhoso, decerto. Mas se
+n'esses dias Leonor Telles, enferma, estava de cama, com as dôres do
+parto? Como havia de o pobre rei acudir aos dois deveres? A quem
+obedecer primeiro: ao tyranno politico, a corôa, ou ao domestico, a
+rainha? Como todos os fracos, decidiu-se pelo mais proximo; tapou os
+ouvidos aos clamores da nação, para attender só aos ais da enferma. Não
+era por paixão que o fazia, era por indolencia: sempre esperava que
+Lisboa afinal havia de resistir, e saberia defender-se!
+
+Com effeito, não se enganava. A cidade valia muito mais do que o rei.
+Quando viu approximar-se o castelhano, chegou a ser temeraria; porque
+pretendeu defender com barricadas os arrabaldes, fóra dos muros. Lisboa
+tinha a homogeneidade na resistencia; e em vão D. Diniz (o infante que
+por condemnar o casamento de Leonor Telles fugira para Castella), em vão
+Pacheco e os mais portuguezes de D. Henrique buscavam convencer os
+lisbonenses da vantagem da rendição. Não estamos agora no norte, meio
+gallego, onde a idéa de nacionalidade vogava indecisa nos dois lados do
+Minho: estamos no coração do paiz, e n'uma terra sem tradições leonezas,
+que não foi _separada_, que nunca obedeceu a outro rei mais do que ao
+portuguez, a quem deve o que é. Inuteis as tentativas de D. Diniz, de
+Pacheco, e dos mais, o exercito approximou-se. Viu-se então a temeridade
+de defender os arrabaldes; e á pressa, recolheram-se todos para dentro
+dos muros. O enxame acudia ás portas, correndo curvado com o peso das
+trouxas, das arcas, onde salvára o que tinha mais precioso. Vinham as
+familias em grupos, as mães, carpindo, arrastando os cordões de
+creanças, espantadas de tudo aquillo. Já os castelhanos entravam pelos
+casaes e quintas dos arredores: o lume ardia ainda na lareira, a porta
+estava aberta, os quartos vasios. Arrazaram e queimaram tudo, desde as
+hervas até aos telhados.
+
+No rei assentára outra vez a covardice: e, como o inglez não acudia,
+acceitou a paz, e foi de Santarem a Vallada assignal-a (1373). «Quanto
+eu _haarricado_ venho!» dizia a rir, na volta. Effectivamente não queria
+mal algum a D. Henrique; e, se a empreza falhára, o melhor era fazer
+cara alegre, e acabar por uma vez com o muito que, do cêrco, padecia
+Lisboa. Além d'isso, agradára-lhe o trato do inimigo: agradára-lhe
+tanto, que lhe concedeu a irman, D. Beatriz, para casar com o irmão do
+castelhano, Sancho. Triste destino o d'esta princeza, que era, nas mãos
+do rei, como os joguetes que as creanças dão, tiram, voltam a dar, ao
+sabor do seu capricho infantil!
+
+Este mesmo modo de que usava com a irman, estava reservado á filha: a
+outra Beatriz nascida em Santarem durante a invasão precedente. Henrique
+de Trastamara tinha morrido; e o herdeiro, João I, na idéa de reunir as
+duas corôas de Castella e Portugal, pedira a D. Fernando (que não tinha
+outro filho) a mão da pequena D. Beatriz; ao que este annuira,
+celebrando-se tratados, porque para casamento era cedo ainda: a pequena
+teria oito annos, se tanto.
+
+Mas o rei, diz o chronista, trazia sempre sua fala com os inglezes, o
+mais encobertamente que podia. Que falas eram essas? Era a alliança de
+Lencaster, na qual D. Fernando via talvez ainda luzir a possibilidade de
+realisar a sua chimera. O conde Andeiro, que na primeira guerra abrira a
+Galliza ao portuguez, fôra desterrado para Inglaterra, na occasião de
+Alcoutim, por exigencia do castelhano. Era Andeiro o confidente do rei,
+e o seu agente para com Lencaster. Veiu de Inglaterra, escondido, a
+Extremoz, onde o rei, ao tempo, assistia: trazia novos tratos e
+combinações, com a promessa de uma esquadra. O rei acceitou com
+facilidade, e afiançou ao duque inglez a mão da filha promettida ao de
+Castella.
+
+D'esta vez decidiu-se a proceder com energia. O castelhano, porém, já
+conhecedor de tudo, mandára começar as escaramuças pelas fronteiras de
+entre Tejo e Guadiana, theatro das façanhas de Nunalvares (o futuro
+condestavel, que agora começa a sua epopêa) em quanto dispunha o grosso
+das forças para a campanha de Lisboa. A energia do portuguez consistiu
+em enviar a esquadra a Sevilha destruir a inimiga. Com effeito, em
+quanto mandasse no Tejo, Lisboa não podia ser efficazmente cercada. Mas
+a _sandia presumpção_ de Affonso Tello perdeu a esquadra em Saltes
+(1381). A armada castelhana, victoriosa, entrou no Tejo, trazendo a
+bordo o infante D. João, irmão do rei, filho de D. Pedro o crú, que se
+homisiára de cá por ter assassinado a mulher, Maria Telles, irman de
+Leonor. Tambem lhe tinham acenado com a mão da pequena D. Beatriz, e a
+ambição perdera-o! D. João repete as palavras de D. Diniz na campanha
+precedente; mas é recebido a tiro, o infeliz. As surriadas de trons e
+virotões exprimiram a eloquencia independente de Lisboa; e o infante,
+humilhado, levou para Castella o desmentido formal a todas as sedições
+que annunciára e promettera.
+
+Chegou, afinal, por mar o Lencaster com os seus, trazendo novo alimento
+á guerra, já accesa por todo o Alemtejo. Castella declarára-se pelo papa
+de Avinhão, Clemente VII: os inglezes e o rei D. Fernando pronunciam-se
+pelo papa de Roma. Urbano VI. A religião vinha azedar ainda mais os
+odios dos combatentes. E os inglezes do duque, mercenarios o barbaros do
+Norte duro, lançaram-se a este pedaço do Meio-dia, como lebreus famintos
+a um regabofe. Estas gentes dos inglezes, refere o chronista, não vinham
+como a defender a terra, mas para a destruir e buscar todo o mal,
+matando, roubando e forçando mulheres. Nem se limitavam a tão pouco. De
+uma guerra que lhes era indifferente, nas causas e motivos, entre povos
+inimigos que não distinguiam, inimigos eram para elles todos, e cevar-se
+o seu constante proposito. Guerreavam por conta propria, para saquearem.
+Tomam aos portuguezes Monsarás, o Redondo e Evora; e as populações, por
+fim desesperadas, acodem-se ao processo classicamente peninsular das
+surprezas e assassinatos. «As gentes começaram a matar muitos d'elles
+escusamente», a ponto de que mais de um terço ficou enterrado pelos
+campos e aldeias do Alemtejo. Na extraordinaria confusão em que a
+indolencia e as chimeras do rei punham o paiz, já cada um combatia por
+si proprio, com o proposito unico da defeza nacional.
+
+Se os inglezes deixaram em volta do Tejo alguma cousa a roubar, ou algum
+campo a queimar, os castelhanos da esquadra, desembarcando, quando o
+exercito anglo-luso tinha subido para Evora a encontrar o inimigo,
+acabaram a obra destruidora n'uma razzia monumental, a que não escapou
+eira nem beira, nem arvore, nem cousa viva. Em volta das muralhas de
+Lisboa ficou tudo um deserto morno e secco.
+
+Pela terceira vez assentou no rei a covardice; e sem combater, voltando
+as costas ao inglez logrado, assignou as pazes de Badajoz com o
+castelhano (1381). De novo a pequena infanta D. Beatriz torna a ser
+promettida a outro noivo: Fernando, de Castella, que não vem ainda,
+comtudo, a ser seu marido; porque, ao voltar para casa, o rei João,
+enviuvando, teima no antigo plano da fusão dos reinos. O casamento da
+filha com o valetudinario monarcha visinho, é o ultimo e o mais
+insensato dos actos de D. Fernando. Extinguia-se com elle a dynastia; e
+por herança legava, do leito da morte, a independencia em perigo ao povo
+que, apesar de tão dorido, ainda e sempre lhe queria.
+
+ * * * * *
+
+Fôra no viveiro feminino da côrte da irman que o rei Fernando vira
+Leonor Telles. Era a terceira Leonor que escolhia para companheira, e
+foi, desastradamente, a unica que veiu a ter. A primeira, de Aragão,
+recusou-lh'a o perspicaz pae, por vêr quanto era defeituoso e fraco o
+caracter do promettido genro. A segunda, de Castella, repudiou-a, desde
+que viu e se namorou da terceira.
+
+Maria Telles, irman de Leonor, era aia da infanta D. Beatriz. Leonor,
+casada, vivia no seu solar da Beira. Estava em Lisboa, de passagem, a
+visitar a irman, quando o rei a viu. Como começaram esses amores? Os
+antecedentes do rei e o caracter da futura rainha deixam vêr bem que não
+deveu ter havido uma d'estas paixões fulminantes, communs nos homens
+d'armas, mas de que D. Fernando era incapaz, e Leonor Telles tambem.
+
+A fria ambição calculadora era commum ás duas irmãs. A aia da infanta,
+por quem o infeliz e louco D. João se namorára com paixão, preparára-lhe
+cuidadosamente uma entrevista, á noute, no seu quarto. Quando o infante
+chega, soffrego de amor, vê um altar e um padre diante do leito.
+Casemo-nos primeiro, amaremos depois. O infante, coacto pela paixão,
+casou-se para amar; mas a aia pagou mais tarde, com a vida, o erro de
+brincar com um leão, como so fôra um rafeiro.
+
+Leonor Telles tinha em si o saber sufficiente para ensinar: não carecia
+das lições da irman. Percebeu que o rei, nas suas ligeirices, a preferia
+á propria infanta; mas o papel de amante não lhe convinha: queria o de
+rainha. Foi-se deixando ficar, e acirrava com tentações a inclinação do
+monarcha sensual e passivo. «Era louçan, aposta, e de bom corpo». D.
+Fernando costumou-se ás denguices da sereia: nos fracos, o costume gera
+necessidades imperiosas, a que tudo sacrificam. Com o tempo, a idéa de
+que Leonor era casada, naturalmente a insistencia com que ella, séria e
+affectando decóro, falaria na necessidade de voltar para casa, para o
+marido, fizeram sentir ao rei a impossibilidade de quebrar o habito dos
+seus amores innocentes e molles. A indolencia é muito mais teimosa nas
+suas exigencias do que a força; um habito sensual tem maior tenacidade
+do que uma paixão. Leonor Telles devia saber isto perfeitamente. O
+momento decisivo approximava-se: não podia continuar por mais tempo em
+Lisboa, o marido chamava-a, as más linguas podiam falar...
+
+O rei lembrou-se então de que para alguma cousa lhe podia servir sel-o:
+desmancharia esse casamento, porque uma dama tão senhoril e casta não
+podia ser sua amante. D. Fernando não tinha, o ingenuo, nem ponta de
+cynismo. Falou seriamente, em particular, á irman. Mulheril como era,
+este caso tinha maior gravidade do que uma guerra com Castella, pelo
+repudio da princeza que lhe estava promettida nos tratados de Alcoutim.
+«Melhor fizera elrey, dizia o povo, tel-a por tempo e depois casar com
+outra mulher.» Bons conselhos! para quem vivia todo na atmosphera
+feminina e molle da côrte de D. Beatriz, onde Maria Telles reinava. Como
+se Maria, Leonor, não fossem excellentes senhoras, recatadas, mas
+seductoras na sua terna dignidade!
+
+Maria poz por condição o casamento; Leonor Telles concordou em que muito
+queria ao rei, mas ainda mais ao seu nome. Combinaram tudo em segredo, e
+foram, ás escondidas, ao norte, casar-se (1371) a Leça do Bailio, junto
+ao Porto. Tinham, com effeito, medo de Lisboa. Quando regressaram á
+côrte e os rumores se confirmaram, as opiniões moveram-se na capital. O
+commum das gentes accusava o rei com odios apaixonados; mas não faltavam
+os experientes a observar placidamente, «que não era maravilha; já a
+outros acontecera cousa semelhante; todo o homem namorado tinha uma
+especie de sandice; o amor era como dôr que doe e não doe ao mesmo
+tempo». Muita gente se ria do marido infeliz que sensatamente fugira
+para Castella, e para prevenir os motejos mandára pôr no barrete dois
+cornos de ouro em fórma de plumas; muitos notavam a facilidade com que o
+papa fazia e desfazia casamentos; e esta cumplicidade da religião e do
+amor não augmentava em nada o respeito pela Egreja. Em summa, desde que
+o riso entrava na questão, o odio do povo não era muito; e Lisboa
+esperava para ver o resultado d'essa comedia, e tomar o pulso ao
+caracter da rainha. Ninguem sabia ainda de quantas manhas elle era formado.
+
+Mas nem em todos a longanimidade era tão grande; e uma parte da plebe
+decidiu-se a pedir contas, a reclamar garantias, e até a protestar.
+Esses adivinhavam a perversidade da rainha. No rei assentou a covardice,
+e Leonor Telles não podia ainda contar com partido proprio. Fugiram,
+pois, ás escondidas, para Santarem: e o povo, burlado, ficou em vão
+esperando o rei no atrio de S. Domingos, para onde o comicio fôra
+aprazado. Pelo caminho, na fuga, o rei carinhoso observava: «Olha
+aquelles villões traidores, como se juntavam: prendiam-me certamente, se
+lá vou.» E não podia esconder o susto, conchegando-se ao collo da
+rainha, no seio d'uma inclinação protectora. Leonor Telles sorria,
+calada. Era rainha, mas apupada: o plano da vingança acordava-lhe no
+animo, e tambem o desdem por esse pobre rei, perdido e fraco.
+
+Este primeiro acto da nova rainha foi decerto o seu primeiro erro. Desde
+logo, até os mais indulgentes viram que não havia remedio; e o partido
+dos seus inimigos cresceu em numero e ganhou forças e atrevimento. Ella
+prejudicára os seus planos por um acto precipitado; e todos os esforços
+que empenhava em ganhar sympathias eram vãos. «Era mui grada e liberal a
+quaesquer que lhe pediam, mas quanto fazia tudo damnava; e a sua
+caridade e as suas manhas não podiam encobrir os seus deshonestos feitos.»
+
+Com effeito, a rainha nem melhorava a fraqueza do rei, nem o afastava
+das suas loucuras e emprezas perdidas; e por sobre isto era
+reconhecidamente má. Accusavam-na de ter preparado o assassinato da
+irman pelo infante seu marido; e era publico que, no meio da agitação da
+terceira guerra castelhana, tentára matar o Mestre de Aviz, forjando
+para tanto um falso alvará. O povo já a descrevia como uma féra
+sangrenta; e o povo sabia quantos odios comprimidos ella guardava contra
+essa Lisboa miseravel que a insultava e a apupava. Toda a gente se
+sentia offendida, humilhada, com a humilhação do pobre rei. Contava-se
+como era com elle ousada e faladora; e como el-rei, submisso e
+indolente, curvava a cabeça e se calava. Era uma desgraça que entrára no
+palacio. Depois, além de cruel, sanguinaria, e descomposta no modo, era
+de uma deshonestidade publica. Todos sabiam que nas barbas do marido
+tinha o amante no paço. E o pobre rei não desconfiava, na sua cegueira.
+Quando o Andeiro viera de Inglaterra, escondido, com os tratos de
+Lencaster, el-rei recolheu-o na torre do seu paço de Extremoz. A sala da
+sesta era o quarto do conde; e o rei ia-se, e a rainha vinha passar
+horas esquecidas a sós com o amante. O rei, como homem de são coração,
+não via o que escandalisava a todos. Pouco se lhe dava d'isso a ella,
+chegando a fazer gala dos seus desvarios. O adulterio e a crueldade, o
+prazer e o sangue, alliavam-se bem n'esse genio perverso, mas
+intelligente e altivo, tão desdenhoso como impudico. Queria firmar sobre
+o odio uma força que não pudera conquistar pelo amor. Repellida,
+accusada, escarnecida por um povo, para quem talvez quiz ser boa,
+decidiu impôr-se-lhe pelo desabrido do odio e pelo desplante do
+comportamento. Vingava-se á maneira antiga, como uma Cleópatra.
+
+No outomno de 1383 falleceu D. Fernando; e logo que a tampa caiu sobre o
+caixão do defunto, rebentou a revolução.
+
+ * * * * *
+
+A revolução de 1383-5 tem um caracter de um Juizo-de-Deus. A dynastia
+mentira ao papel justiceiro: morra por ello! Por uma serie de
+extravagancias domesticas e politicas, D. Fernando levára a uma crise a
+obra lenta e demorada da independencia nacional, iniciada com uma espada
+por Affonso Henriques, assegurada com um açoite por Pedro o crú. É
+verdade que não deixára de fomentar a consistencia material interna do
+corpo da nação; mas de que valia isso, pois que a deixava outra vez a
+braços com o problema vital da successão, o problema da independencia?
+
+Logo que o rei morreu, os differentes actores da tragedia começaram a
+tomar os seus logares na scena.
+
+O castelhano immediatamente encarcera em Toledo o infante D. João, o
+mais perigoso dos seus émulos por direito de herança, mas perdido
+perante o povo pela nodoa do ataque de Lisboa, na esquadra inimiga.
+
+A rainha viuva, julgando o momento opportuno para conquistar sympathias,
+representa uma scena de prantos. Abandonára por um instante a sua
+politica de vingança, agora que tudo podia perder, se a não escudassem o
+respeito, ou o amor dos seus. Ella não queria entregar o reino a
+Castella: queria que a filha fosse acclamada rainha, e ella, como
+regente, rei de facto. Talvez pensasse em casar-se com o Andeiro, a quem
+parece amava do coração: seria esse o castigo fatal dos seus crimes, por
+ser a causa da sua perdição?
+
+Como a rainha sabia a ruim opinião que havia a seu respeito, «fingia-se
+mui desconsolada e chorava em grandes prantos. Em uma camara escura,
+coberta de dó, com lagrimas e soluços--que ás mulheres não faltam quando
+lhes servem--se lamentava, com as visitas, do seu desamparo,
+queixando-se do governo que o rei déra ao reino, agora pobre e infeliz.»
+(Fernão Lopes) Na sua dôr, na boa vontade que tem de servir a nação
+(para que ella a não expulse do throno) está por tudo. Com effeito, a
+morte do marido punha-a á mercê da vontade do povo. «Era em tudo
+obedecida, assim dos povos como dos grandes; mas bem via que essa
+obediencia nada tinha de pessoal, porque ninguem a amava, nem a
+respeitava. De um momento para outro podia perder tudo. Os de Lisboa
+queriam que se constituisse um conselho de governo composto de dois
+homens-bons de cada comarca: annuiu a essa tutela. Quando fôra a
+acclamação da rainha D. Beatriz, mulher do castelhano, observára os
+tumultos geraes e os votos desencontrados das cidades. Em Lisboa, a
+acclamação provocára rixas e conflictos; muita gente era pelo infante D.
+João ou pelo infante D. Diniz, que andavam por Castella; outros
+gritavam: _Arreal, arreal, cujo for o reino, leval-o-há!_ Em Santarem o
+infante D. João foi positivamente acclamado. Elvas, para não se decidir,
+no meio de tanta confusão, gritou: _Arreal, arreal, por Portugal!_
+
+Esse era effectivamente o grito da nação: por Portugal! Ninguem se
+recommendava bastante, no animo do povo, para merecer uma corôa
+disponivel, para se sentar n'um throno vago. O que Portugal não queria,
+era que n'esse throno viesse sentar-se o castelhano. A rainha não o
+queria tampouco; e era toda esforços para ganhar a si o povo, para
+herdar de facto o reino. Organisada a regencia, pensou desde logo na
+guerra; porque o rei de Castella já se preparava para vir occupar
+Portugal. Nomeou os fronteiros do reino, e deu ao Mestre de Aviz a zona
+de entre Tejo e Guadiana.
+
+Havia porém dois homens que, no fundo, protestavam: Nunalvares e Alvaro
+Paes. O primeiro é a mais nobre, a mais bella figura que a Edade-média
+portugueza nos deixou. O typo cristallisado nos romances, o typo do
+cavalheirismo e da pureza, tinha encarnado na pessoa do futuro
+condestavel. «Usava muito de ouvir e lêr livros de historias, e
+especialmente usava mais lêr a historia de Galaaz, em que se continha a
+somma da tavola redonda.» Tinha a nobreza ideal do cavalleiro, e a
+castidade de um mystico. Era uma açucena na alma, e um leão na bravura e
+na generosidade. Resistira por muito tempo ao pae que o queria casar,
+porque não curava de mulheres, nem isso lhe alegrava o coração. Por tudo
+isto, a infamia da rainha abraçada ao amante, e as lagrimas fingidas
+pelo marido, córavam-lhe as faces de pejo e enchiam-no de indignação.
+Nunca a obra indispensavel de salvar Portugal podia levar-se a cabo com
+tal mulher: Deus não consente aos impuros os grandes actos, «Um dia,
+passeando só no paço, a cuidar no que havia de ser do reino»,
+occorreu-lhe a idéa de que só a morte do Andeiro podia pôr termo ás
+desgraças publicas.
+
+O cavalleiro tinha então 24 annos; e esse rapaz, typo ingenuo e puro de
+virtude, é a imagem de uma nação, tambem joven, e ainda crente n'um
+futuro proximo. Á indignação da candidez forte junta-se a sabedoria fria
+e o calculo experiente de Alvaro Paes, padrasto do futuro grão-doctor.
+Tudo se conspirava para matar o Andeiro, para perder a rainha.--Era
+verdadeiramente o juizo de Deus, cuja sentença, logo que fosse publica,
+seria acclamada pela nação inteira. Isto assegurava ao mestre de Aviz
+Alvaro Paes em Lisboa. Falava por sua bocca a cidade que Leonor Telles
+tanto odiava, e que tamanhos medos tinha da rainha. Pensaria já o author
+do plano do dia 6 de dezembro (1383) na fundação de uma nova dynastia?
+Queria acaso matar apenas o valido para aterrorisar a rainha; e
+entregal-a, assim, manietada, ao poder de uma oligarchia urbana, em que
+Lisboa se arrogasse o papel de defensora do reino, tendo á frente de um
+conselho de governo, com a regente vilipendiada e coacta, o Mestre,
+homem simples, por instrumento e chefe? Era um plano atrevido, mas mais
+de uma vez posto em pratica por diversas cidades opulentas da Hespanha.
+Não contava, porém, Alvaro Paes, nem com a arte que os annos
+desenvolveram no Mestre; nem com o generoso e nobre caracter de
+Nunalvares; nem com a força invencivel dos futuros textos e doutrinas do
+grão-doctor João das Regras.
+
+Combinado o programma do dia 6, Alvaro Paes abraçou e beijou o Mestre.
+N'esse dia foi este ao paço despedir-se da rainha: partia para a sua
+fronteira do Alemtejo. Momentos depois voltou acompanhado por alguns
+fidalgos dos seus. A rainha, surprehendida, interrogou-o.--A fronteira
+era muito _grossa_, levava pouca gente, os arrolamentos estavam errados,
+queria examinal-os...
+
+Leonor Telles estava então na sua camara, sentada no meio das suas
+damas, costurando, sobre o estrado. De joelhos, aos pés da rainha, o
+Andeiro, de corpo bem disposto, _lustroso_, viril (40 annos), vestindo,
+apesar do luto, um gibão de setim cramesi e um tabardo de panno preto,
+sem o burel branco do estylo, falava manso com ella. Era um quadro de
+familia, e tudo parecia sereno, menos o tom e o aspecto do Mestre e dos
+seus, de pé, carrancudos e indecisos, como quem tem na mente um crime.
+
+A rainha, inquieta, mas simulando indifferença e sangue frio, chamou o
+escrivão da puridade e mandou abrir o livro dos vassallos da comarca:
+Escolhesse o Mestre os que quizesse. O escrivão de pé, com o livro
+aberto, ia lendo, indifferentemente _item_, _Dom_... etc, mas o Mestre
+não lhe prestava grande attenção. Uns perante outros, os personagens da
+tragedia adivinhavam-se, mas não se confessavam. Só, porventura, o
+escrivão, no seu tabardo negro, com a voz monotona, era sincero. Andeiro
+levantou-se, saíu a outra sala, a avisar os seus sequazes: o que o
+Mestre vendo, receiou perder-se, ou que o ensejo lhe fugisse. Levou-o
+comsigo para fóra. A rainha, no meio das suas damas, sobre o estrado,
+costurava. O momento agudo da crise chegára: era mistér consummar o
+acto. O Mestre empurra então o conde para o vão de uma janella. Elle ia
+a fallar... «sendo, porém, mais tempo de o matar, do que de o ouvir»,
+deu-lhe uma cutilada na cabeça, a valer. Desarmado, o infeliz não podia
+defender-se; e assim que inclinou a cabeça rachada pelo meio, a gente do
+Mestre acabou-o alli ás estocadas. Foi uma façanha arteiramente
+combinada, barbara e cobardemente executada. Nunalvares, quando a mesma
+solução lhe occorrera, pensou decerto n'um plano diverso.
+
+Consummado o assassinato, poz-se em scena a comedia do contra-regras,
+Alvaro Paes. Foi mandado um pagem a gritar pelas ruas que acudissem ao
+Mestre, que o matavam no paço. Entretanto, dentro d'elle, era grande o
+alvoroço. Uns fugiam pelas janellas, outros pelos telhados: todos
+corriam como doidos, cheios de susto, e se acotovellavam nos corredores
+e entre as portas. A rainha levantando-se, ao ouvir que lhe tinham
+matado o amante, rugiu de colera, como a fera a quem roubam os filhos:
+era a sua cruel fraqueza! Viu tambem a sua vida em perigo, e por ventura
+n'este momento desejou a morte[55]. Animosa, mandou perguntar ao Mestre,
+que n'um eirado do palacio, á vontade, descançava das commoções
+violentas, se tambem a queria matar. Elle voltou, respeitosamente, que
+não. Era um homem simples, costumado a vêr em Leonor Telles a mulher do
+rei: e por isso, além de ser muito novo (26 annos), não se atrevia a
+tanto. Era fogoso, brutal, e de instinctos pesados: um instrumento capaz
+de executar os planos manhosos do Alvaro Paes, prompto para tudo, porque
+não distinguia bem a linha que separa a nobreza da villania--como, de
+resto, succedia a quasi todos os homens d'armas da Edade-média. Foram a
+revolução, os companheiros e depois a mulher, quem fez d'elle na edade
+madura um sabio rei.
+
+Na rua, Alvaro Paes vinha a cavallo (por excepção rara, que era velho já
+e pesado) á frente da procissão de energumenos, bradando por desvairadas
+maneiras. A plebe, investindo com o palacio, quebrava os cancellos de
+ferro, trazia escadas para o assalto e montes de lenha para queimar
+tudo. Era uma algazarra incrivel de improperios e nomes deshonestos,
+dirigidos á rainha. Já de dentro havia medo de que o fogo pegasse, e que
+o fim da tragedia fosse um incendio justiceiro. Extenuavam-se a gritar
+que o Mestre estava vivo, Andeiro morto; mas ninguem tinha ouvidos no
+meio do clamor da turba. Por fim, o Mestre de Aviz appareceu a uma
+janella e foi victoriado: «Vinde para nós, gritavam-lhe, e dáe ao démo
+esses paços!» Alli mesmo, ao pé do palacio, ficava a Sé; Era necessario
+solemnisar a festa com os repiques dos sinos, conforme a plebe o
+ordenava; mas os padres, recolhidos no alto da torre, não sabiam o que
+queriam d'elles: e por esse crime foram precipitados á rua o bispo e
+mais dois: e os cadaveres, arrastados ao Rocio, ahi ficaram para pasto
+dos caens.
+
+Tambem o Mestre já sentia fome, depois de tamanho dia. Foi com Alvaro
+Paes comer socegadamente. O homem cumprira o que tinha promettido: e, á
+mesa, na satisfação da victoria, instruiu o rapaz sobre o que lhe
+restava fazer: pedir perdão á rainha, depois de jantar. Quem sabe?
+dir-lhe-hia elle, mastigando, mais tarde... casar com ella... E o
+mestre, bastardo, pobre, ambicioso e simples, via abrirem-se-lhe
+horisontes seductores.
+
+Com effeito, depois de jantar, o Mestre de Aviz foi ao paço e, de
+joelhos, pediu perdão á rainha. Tamanha simplez encheu-a a ella de
+espanto. Estava calada, não sabia que responder: e como o pobre
+insistia, ella, afinal com desdem, voltou-lhe: Falemos de outras
+cousas... O Mestre saía desorientado e corrido, atraz d'elle as suas
+guardas, quando a rainha, seguindo-os, deu de chofre com o cadaver do
+conde empoçado em sangue e coberto com um tapete velho. Não pôde mais
+conter-se; e o seu animo, perdido, rebentou em duras queixa: «Enterrae-o
+ao menos, já que o mataste tão deshonradamente!» Elles não curaram
+d'isso, nem se doeram do adverbio da rainha, e foram para suas pousadas.
+Era tempo perdido.
+
+Ao outro dia a rainha partiu para Alemquer--suffocada em odios contra
+Lisboa: queria vel-a arrazada e queimada de mau fogo, queria uma
+tonelada de linguas das suas mulheres. Queria uma vingança, uma desforra
+que désse brado ao mundo. Que lhe importavam, á sua alma desvairada, a
+nação e a independencia? No egoismo absoluto de uma paixão, esquecia
+tudo; e por isso mudou de rumo á sua politica, e convidou o rei de
+Castella a vir tomar posse de Portugal. Perdia-se irremediavelmente.
+
+Entretanto a maxima parte da nobreza acompanhava-a, e a fidalguia era
+então o exercito. Uns não queriam pactuar com a revolta da plebe de
+Lisboa, nem curvar a cerviz ao imperio de Alvaro Paes. Outros eram fieis
+á legitimidade da regencia. O resto dos que não acompanhavam a rainha e
+grande parte das classes médias eram pelo infante D. João, preso em
+Toledo. O plano de Alvaro Paes e o partido do mestre de Aviz caiam
+tanto, que, desanimado, o ultimo decide-se a abandonar a empreza e a
+fugir para Inglaterra--como fez depois o seu successor na historia, o
+Prior do Crato. Poderam, porém, contel-o. Para que? Para o decidirem a
+uma segunda vergonha. Eram incapazes de nenhuma grande audacia, de
+nenhum plano temerario; e só um d'esses poderia dar a victoria. Não
+sentiam o palpitar violento de uma nação forte que aspirava á vida. Os
+seus meios eram mesquinhos, soezes e crueis. Conquistaram o castello em
+Lisboa, levando á frente de si as mulheres e os filhos dos que o
+defendiam pelo infante D. João. Angariavam sequazes, comprando-os a
+dinheiro, segundo a regra de Alvaro Paes: _dae o que não é vosso,
+promettei o que não tendes, e perdoae a quem vos errou._ A rapina e a
+impunidade eram o alicerce da força do partido, já ridiculamente
+alcunhado do _Mexias de Lisboa_. O segundo plano proposto, para evitar a
+fuga do _Mexias_, era a antiga idéa commum e soez de Alvaro Paes:
+casal-o com Leonor Telles. O Mestre accedeu; e propoz o caso á rainha,
+que respondeu com uma gargalhada. Podia-se acaso descer mais? Não podia.
+
+Quem faz, porém, os Messias é o povo. Valham pouco, valham nada, pouco
+importa. São um lábaro, onde a turba escreve um moto. Vão, mas não
+guiam. Portugal com effeito gerava uma revolução messianica; pedia em
+altos brados que o salvassem; tinha a consciencia de que podia e havia
+de ser salvo. Esta força latente e invencivel, era, porém, ignota para a
+simplez do Mestre e para o lerdo instincto de Alvaro Paes. Andavam ambos
+como cégos em torno de um pharol, sem o verem. Eram ambos como certos
+animaes das trevas, a quem a desnecessidade priva de olhos.
+
+Para vêr e para sentir a gravidade do momento, para conceber a audacia
+da revolução, era mistér, ou a ingenua candura dos fortes, ou a refinada
+sabedoria dos mestres. O de Aviz teve a fortuna de encontrar dois homens
+que o fizeram rei, e tornaram o seu titulo ridiculo de _Mexias_, no
+titulo verdadeiro e forte de Defensor-do-reino, positivo messias da
+nação (1384).
+
+Termina o reinado de Alvaro Paes, desde que o futuro condestavel e o
+grão-doctor tomam conta, um da guerra, outro da politica. Temerarias,
+audazes, quasi loucas ambas, exprimem ambas a suprema sabedoria; porque
+traduzem o até ahi indefinido querer do povo, e empregam os meios unicos
+de salvação. Nunalvares faz de toda a fronteira o theatro de incessantes
+campanhas, pouco ou nada attende ás ordens do Defensor-do-reino, por
+vezes desobedece formalmente. Á medida que o Mestre via o resultado das
+armas do nobre capitão, ia reconhecendo a propria inferioridade; e a
+simplez natural do seu genio tinha de bom o abrir-lhe os olhos á
+verdade. Nos actos alheios, aprendia a pesar os seus, ganhando com isso
+a attitude de um moderador prudente. Era sábia a arte com que ponderava
+os conflictos inevitaveis de Nunalvares com João das Regras: do
+cavalleiro idealista e heroico, e do habil, consummado politico: do
+representante ingenuo de douradas phantasias, com o frio calculador das
+cousas positivas; do ultimo homem da Edade-média, com o primeiro do novo
+Portugal monarchico. Entre ambos, o Mestre de Aviz era um pendulo
+regulador das duas forças em opposição.
+
+A politica ia buscar outra vez as allianças inglezas, acordando a antiga
+ambição castelhana da casa de Lencaster; e a guerra, ora terrivel em
+batalhas, ora fidalga em reptos e duellos, ia acordar por todo o paiz a
+revolução. Os grandes, os alcaides das terras, eram por Castella ou pelo
+infante D. João; mas o povo era pelo Messias: cria e esperava o milagre.
+Formavam-se _uniões_ espontaneas; e as levas de populares conquistavam
+para o Mestre os castellos e villas fortificados aos senhores e aos
+alcaides dos concelhos.
+
+Uma grande parte do reino obedecia ao governo de Lisboa; mas a rainha, o
+rei de Castella e o exercito invasor, na sua marcha sobre a capital,
+occupavam Coimbra. Leonor Telles acabou ahi. Arrependida de ter chamado
+o castelhano que a desprezava; reconhecendo que erradamente, por uma
+precipitação, forjára por suas proprias mãos as cadeias do seu
+captiveiro, vendo agora quanto se illudira, e que erro fôra o seu em não
+avaliar a justa vitalidade do paiz, tentou ainda urdir uma trama para se
+libertar, perdendo o genro e a filha. Os seus planos falharam; e anojada
+e cheia de desespero, seguiu a ordem do genro, que de Coimbra a mandou
+enterrar no mosteiro de Tordesillas. Como acabaria a sua vida? Quem
+sabe? talvez arrependida, santamente amortalhada no burel monastico?
+acaso roída de desespero, impenitente?
+
+O exercito castelhano desceu sobre Lisboa, e este segundo cêrco da
+capital (1384) foi mais cruel ainda do que o primeiro, no tempo de D.
+Fernando. Veiu a fome perseguir os heroicos lisbonenses, que andavam já
+doentes das cousas que comiam. Por fóra a peste alastrava, porém, de
+cadaveres os arrayaes castelhanos; e quando, um dia, a rainha de
+Castella, pretendente de Portugal, adoeceu tambem, os inimigos
+levantaram o cêrco. O povo encontrava n'isto motivos para crer n'uma
+protecção do céu.
+
+Por mais de um anno se prolongaram ainda as guerras pelas provincias
+afastadas; mas Lisboa, Coimbra e todo o centro do paiz era, já em 1385,
+pelo Mestre. Os ultimos actos da revolução iam consummar-se: as côrtes
+de Coimbra e a batalha de Aljubarrota.
+
+Em Coimbra o grão-doctor é o general e o chefe. Essa batalha de
+discursos era diversa, mas não menos brava de pelejar; porque uma grande
+parte da nobreza, decidida a defender o reino do castelhano, não o
+estava a acclamar rei o Mestre de Aviz. Legitimista, considerava-se
+ligada ao infante D. João; e a união dos fidalgos, completa para a
+defeza, não existia, agora que se tratava de consolidar, com uma nova
+dynastia, a independencia e a constituição definitiva do reino.
+
+O rei de Castella era schismatico e excommungado por apoiar Clemente VII
+contra Urbano VI; e além d'isso os maus costumes de Leonor Telles não
+deixavam ter certeza sobre a legitimidade de D. Beatriz.--Todos apoiavam
+João das Regras, porque ninguem queria o castelhano.--D. João,
+continuava o doutor (e aqui principiavam os murmurios) é bastardo,
+porque el-rei D. Pedro jámais se casou com D. Ignez de Castro.--Um
+momento houve em que Nunalvares esteve a ponto de brigar com o
+_roncador_ Martim Vasques, o chefe dos _leaes_; e as côrtes por um triz
+se tornavam n'uma batalha. Interveiu o Mestre de Aviz, apasiguando o
+exaltado capitão, melhor no campo do que no conselho.
+
+Ahi reinava o _grão-doctor_. Além de illegitimos, continuava sem se
+perturbar, os filhos de D. Ignez de Castro tinham tomado armas contra a
+patria; e este argumento, proprio a impressionar os leaes, pesou, mas
+não os decidiu. Então o doutor lançou mão das reservas e venceu.
+Apresentou as bullas, nas quaes o papa recusára acceder aos pedidos do
+rei D. Pedro para a legitimação dos filhos. Podia haver prova mais
+solemne? Ousaria ainda alguem conservar duvidas? E apoz isto desenrolava
+todas as consequencias: a divisão das forças do reino perante o
+castelhano, inimigo commum; a impossibilidade de acclamar rei um
+principe preso em Castella, etc. O ataque era irresistivel; e tudo
+cedeu, declarando-se vago o throno, e elegendo-se para o occupar o
+Mestre de Aviz, D. João I.
+
+Que melhor prova podia dar-se da vitalidade da nação e da sua
+independencia já acabada, do que estas côrtes de 1385, em que ella
+exalta uma dynastia, sem base na tradição nem na herança, unicamente
+enraizada no querer absoluto, commum dos portuguezes? É só n'este
+momento que bem de facto se póde dizer terminada a historia da
+independencia; porque a dynastia de Borgonha trazia comsigo o peccado
+original da doação primitiva, segundo o direito feodal: o reino era um
+senhorio, sublevado, como por tantas vezes e por tão longos tempos o
+tinham sido, na propria Hespanha, a Galliza e a Biscaya.[56] Agora as
+cousas mudavam; e mudavam, porque a nação, alargando-se para o sul,
+recebendo novas gentes em seu seio, fomentando a actividade commercial e
+maritima em Lisboa, ao mesmo tempo que se constituia interna ou
+organicamente, era já um ser diverso do antigo, e um ser dotado de vida
+independente e propria. A crise, que temos vindo historiando--com um
+vagar desculpavel pela sua significação excepcional--parece ter, para a
+vida nacional portugueza, a importancia que a natureza dá ás crises que
+determinam a passagem de uns para outros dos seus typos organicos.[57]
+
+Não bastava porém uma acclamação, era necessario um baptismo, á nova
+monarchia. Aljubarrota respondeu com as armas á eloquencia das côrtes;
+e, victorioso no conselho e no campo, o throno de D. João I ficou
+inabalavel. Segundo o parecer dos inglezes, seus alliados e mestres na
+nova tactica militar com que vieram a esmagar em Azincourt a cavallaria
+franceza, o Mestre d'Aviz entrincheira o seu pequeno exercito.
+Nortberry, Hartcelle e d'Artherry, capitães, traçaram a _carriagem_.
+Cortaram-se ramos de arvores com os quaes se levantou uma estacada para
+paralysar as cargas da cavallaria; ao meio d'essa estacada um carreiro
+estreito, internamente bordado por archeiros e bésteiros de pé, estava
+aberto, como uma tentação e um laço ao ardor fidalgo dos inimigos.
+
+A desproporção do numero era grande entre os combatentes. O castelhano
+trazia comsigo vinte mil homens de cavallo, nos quaes entravam dois mil
+francezes, gascões e bearnezes: com a peonagem, o seu exercito ia a mais
+metade. Em volta de D. João I não havia mais de duas mil lanças,
+oitocentos bésteiros, e quatro mil peões: alguns elevam a dez mil o
+total. Evidentemente, só a força da arte podia vencer a desproporção do
+numero. Pelo meio dia appareceu o exercito inimigo, victoriosamente
+composto na galhardia das armas reluzentes com o sol, dos pendões e
+bandeiras blazonadas, das mesnadas dos ricos homens da Hespanha e da
+França meridional, montados nos seus cavallos de guerra. Os portuguezes,
+calados, humildes e obscuros, por detraz das suas trincheiras, esperavam
+o choque d'essa brilhante móle. Havia em muitos valentia e enthusiasmo,
+mas não faltava o temor, menos ainda a decisão firme de morrer vencidos,
+na desesperança de rebater um ataque tão poderoso. O condestavel e os
+cavalleiros excitavam o ardor bellico; os bispos, confessando,
+absolvendo, dando a commungar, distribuiam a paz ás consciencias,
+preparavam para a morte, accendendo a coragem com os odios religiosos.
+Havia exaltação, votos singulares, ditos agudos, mas sobradas duvidas
+sobre o resultado do dia. Os padres resavam no seu latim: _Verbum caro
+factum est_, e os soldados traduziam d'esta fórma o evangelho: muito
+caro feito é este: Havia até medo n'essas levas de gente bisonha do
+campo, soldados saídos de uma população rural; mas uns trinta peões que
+fugiram, apavorados, foram trucidados pelos castelhanos: o que nos
+prestou o serviço de evitar as deserções, consolidando o proposito da
+defeza.
+
+O exercito inimigo não se tinha decidido ainda sobre o modo de operar.
+Uns optavam pela prudencia: vinham de longe, cansados da viagem, não
+tinham comido ainda: esperassem, e os portuguezes, como javardos no seu
+covil, seriam forçados a saír por lhes faltar o mantimento. Outros
+achavam uma vergonha, para tão fidalgos cavalleiros, o parar deante
+d'uma estacada mal defendida por um punhado de soldados bisonhos. Apesar
+do rei vir em andas, doente com sezões, venceu a ultima opinião, e
+atacaram galhardamente. «Em esto os ginetes dos inimigos provavam a
+miude d'entrar na carriagem dos portuguezes, mas tudo achavam apercebido
+de guisa que lhes non podiam empecer. De fórma que os castellãos tiveram
+de apear e combater com armas curtas.» (F. Lopes).
+
+Realisava-se a previsão, e a batalha acabou por um destroço completo da
+cavallaria orgulhosa. O rei de Castella fugiu nas suas andas. Toda a
+bagagem do seu exercito caiu em poder dos vencedores. Eram carretas e
+azemolas sem numero e dezenas de milhar de cabeças de gado.
+
+Como para a Europa central foi depois Azincourt, assim Aljubarrota foi
+na Hespanha: o ultimo dia da cavallaria feodal, e o primeiro ensaio
+d'esses combates de pé, com que dois seculos mais tarde a infanteria
+castelhana de Carlos V havia de conquistar a Europa.
+
+A Edade-média portugueza acaba no dia de Aljubarrota, com a primeira
+epoca da nação, com o periodo da sua formação trabalhosa e lenta. Novos
+horizontes, vastas ambições, pensamentos ainda inconscientes de um largo
+futuro, amadurecem encobertos, no seio da nação, formada, acclamada,
+baptizada em sangue. Chama-a de longe um dubio tentador--o Mar!
+
+ [52] V. _As raças humanas_, I, pp. XXXI-III.
+
+ [53] Curiosa coincidencia a repetição d'esta scena em 1834 na
+ guerra civil: (_Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 371).
+
+ D. Pedro vae
+ D. Pedro vem,
+ Mas não entra
+ Em Santarem!
+
+ O estribilho do tempo de D. Fernando acabava--_de Lisboa
+ a Santarem_.
+
+ [54] V. _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 291.
+
+ [55] V. _Instit. primit._, p. 157.
+
+ [56] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) a pp. 118-21 os
+ quadros dos estados peninsulares.
+
+ [57] V. _Elem. de Anthropologia_ (3.ª ed.), pp. 13-20.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+LIVRO TERCEIRO
+
+A CONQUISTA DO MAR TENEBROSO
+
+(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)
+
+
+ ... quantas vezes estive mettido de baxo das bravas ondas por saber
+ o fundo das barras e para que parte endereçavam os canais, e entrada
+ dos rios até então nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi
+ mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e
+ remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas,
+ deferença das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada
+ lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas,
+ rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e
+ disposição natural.
+
+ DOM JOHAM DE CASTRO, _Primeiro roteiro da costa da India._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+I
+
+O Infante D. Henrique
+
+
+Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da
+existencia de um imperio christão no extremo Oriente. O nuncio da Egreja
+da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado João,
+cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que
+reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera
+numerosas conquistas, o Preste-Joham.[58] Esta lenda, espalhada na
+Europa, excitava tanto mais a pia curiosidade dos christãos, quanto
+essas distantes regiões se pintavam como paraizos carregados de ouro e
+encantos.
+
+Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas ácerca do
+Atlantico.[59] As tradições obliteradas pela ignorancia davam caracteres
+phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas
+d'Africa, e ás ilhas do mar atlantico.[60] Esse infinito de aguas, onde
+mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras
+extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas
+barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas
+costas da França, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham
+chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para
+cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de
+Marrocos.[61]
+
+As tradições dos geographos antigos, idealisadas pela imaginação bretan,
+tinham dado logar á formação de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era
+um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com
+muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens
+estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em
+phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar
+n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, «ainda que os mareantes,
+diz Ibn-Khaldún, conheçam os rumos dos ventos, não havendo, para além,
+paiz algum habitado, perder-se-hão irremediavelmente, porque o limite do
+oceano não é outro, senão o proprio oceano».
+
+Além d'estas tentações maritimas, havia a ambição do Oriente e do seu
+commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais
+particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupação
+arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a
+Edade-média. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do
+oceano indico. D'ahi as carregações se dirigiam para a Europa e para a
+Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas,
+caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da
+Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a
+Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando
+em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.
+
+Tinha, porém, no começo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho
+vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de
+chegar por mar--como veiu a chegar-se--ao imperio do Preste-Joham das
+Indias? Parece-nos que não. Devassar o mar tenebroso em demanda das
+ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir
+occupando gradualmente a costa occidental da Africa--parecem ter sido
+emprezas ainda não ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do
+Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, não occupava menos o espirito do
+principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por
+terra. A conquista de Ceuta prende-se directa e principalmente a este
+pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da
+Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de
+Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e,
+porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em
+todo o caso a terra offerecia um campo de exploração mais definido do
+que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.
+
+No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o
+imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o
+monopolio do commercio do Sudão;[63] e ao mesmo tempo conquistar ás
+trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das
+costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de
+caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem
+o dobram as lagrimas do irmão infeliz sacrificado em Tanger, nem as
+supplicas do outro irmão, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto
+em Alfarrobeira. Ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás
+navegações os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas
+obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta
+amplidão dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é
+deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero
+dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro
+Affonso e de João II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero
+do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe pertinaz e duro, a cuja
+força Portugal deveu a honra de preceder as nações da Europa na obra do
+reconhecimento e vassallagem de todo o globo.
+
+ * * * * *
+
+A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do grão-doctor João das
+Regras, a explosão da força nacional, tinham feito de D. João I quasi um
+heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes.
+Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa
+virtuosa e nobre na princeza, cuja lição e cujo exemplo põem a semente
+das suas grandes acções no coração dos infantes--D. Pedro, acaso o typo
+mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos
+desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei
+sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os
+destinos futuros de Portugal. É uma pleiade de homens celebres,
+presidindo a uma nação constituida e robusta. Com taes elementos
+consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes não se
+parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A côrte apresenta uma
+phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em
+cousas sábias, escreve o seu _Leal conselheiro_. D. Pedro, cujas
+dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lição,
+muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia
+occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmão primogenito o
+seu tratado da _Virtuosa benfeitoria_. Á noute, nos serões, lêem-se,
+_pouco, passo, e bem apontado_, como D. Duarte manda na sua obra, as
+historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristão. Não é uma côrte
+da Edade-média, é já uma côrte da Renascença, cheia de idéas novas e de
+uma cultura eminente. A educação transforma a politica, e as theorias
+monarchicas da Italia são applaudidas e adoptadas. Bole-se na
+legislação, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes,
+adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes,
+valentes e sabios, são estadistas, no moderno sentido da palavra; e o
+rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás lições de
+João das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe
+mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar
+Ceuta--primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam
+perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha,
+orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o
+marido a partir. D. João I, passivo agora e sempre, obedece; e, do
+principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com
+os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha
+porém a habilidade propria dos homens de juizo--a de pesar, vêr, e
+julgar com rectidão.
+
+ * * * * *
+
+Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvação do rei, que lhe
+dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante
+carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera
+uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa
+da Africa.
+
+Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mãos á obra, e
+estabeleceu-se em Sagres. Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e
+acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a
+academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda
+ignotos da nação. Os antigos tinham chamado _sacrum_, sagrado, a esse
+promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na
+linguagem, a passada denominação. Sagres ia ser no XV seculo, como fôra
+nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos
+celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[64] que no templo circular
+do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas
+conversas com esse mar cheio de enganos e tentações, aberto ao capricho
+dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas
+erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, não deuses, mas
+homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regiões
+desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religião era outra:--era a da
+Renascença--a sciencia, a tentação irresistivel que arrastava os homens
+para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos
+mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de
+dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: «quantas vezes
+estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e
+para que parte endereçavam os canaes!»
+
+Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que então dispunham a
+cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens
+o manuscripto das peregrinações de Marco Paolo. Esses livros, os mappas
+de Valseca, as narrativas e roteiros dos pilotos, as rudes cartas
+maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu
+cosmographo, Jayme de Mayorca, então celebre, rodeado de discipulos,
+passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os
+enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as
+drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio
+da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o
+segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava
+desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e
+enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.
+
+Essa paixão naturalista da Renascença nos seus primeiros tempos, essa
+tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo
+religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da
+ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á
+imaginação: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos
+meios positivos. «Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes,
+que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram
+indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos
+de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que são as cousas
+de que os cosmographos hão de andar apercebidos. Levavam cartas mui
+particularmente rumadas, e não já as que os antigos usavam, que não
+tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.» A
+bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedições maritimas
+enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a
+descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Açores foram por
+esta fórma arrancadas ás trevas do mar.[65] Mas, apesar das
+successivas investidas, não se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador,
+limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os
+navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a
+um muro de terrores phantasticos.
+
+Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo
+não acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse
+_finis-terrae_ da Africa? Gil Eannes voltou para responder
+affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram
+seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de
+satisfação, os mareantes aprisionam os primeiros negros--os azenegues do
+Senegal.[66]
+
+Era um antegosto das horrorosas façanhas a que as tentações do mar os
+haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o
+dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o
+enthusiasmo do principio. Não acabava, jámais, a costa da Africa! e o
+Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela
+_malagueta_ da Guiné.[67]
+
+O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das
+navegações. A empreza, primeiro esboçada, parecia colossal de mais para
+as forças da nação: não podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem
+Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos,
+desanimava, e fazia sentir cansaço.
+
+ * * * * *
+
+Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de
+registrar brevemente a da formação das forças navaes portuguezas,
+indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das
+expedições militares á costa da Berberia.
+
+Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, não ha marinha na Hespanha
+occidental. As luctas da reconquista, então feridas, eram-no por terra
+exclusivamente; e a impericia maritima dos christãos, junta aos
+relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a
+conservação das praças litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham
+apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios
+regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa
+occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munições e
+gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de
+talar os campos dos christãos e captivar os tardivagos ou indefesos. Já,
+porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova
+pilotos, sob cuja inspecção construiu duas galés que foram ás costas do
+Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os
+genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.
+
+Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com
+cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo
+accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o
+imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do
+reino. Á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vão já navios
+portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e
+systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr
+que d'ahi deve datar-se a fundação da marinha militar portugueza. Com
+effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III,
+como o provam as expedições maritimas que terminaram pela conquista
+definitiva do Algarve, e as façanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia
+então já um corpo de tropas especiaes de embarque.
+
+Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de
+tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas
+praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construcção e os typos
+d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus
+tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[68] Vel-a-ha, real e
+verdadeiramente, se, com a imaginação, substituir por armas os
+utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida,
+descarregaram--hoje o peixe, então as presas, os mantimentos e a
+gente--homens e mulheres, fincadas as mãos sobre os joelhos, curvados,
+com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle,
+impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar
+sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa
+scena repetia-se para pôr a enxuto, e para pôr a nado as embarcações; e
+Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas
+praias de pescadores: mandou construir _debadoyras_ (cabrestantes) para
+encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o
+poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios vão em
+soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do
+norte á Cruzada.
+
+O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra na historia da marinha
+nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar,
+os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a
+primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a
+Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de
+Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as
+dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo
+pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por
+morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo
+andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna.
+Nacionalizada, a familia dos Peçanhas tem por largos tempos o condado do
+mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia então.
+
+Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos,
+com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas
+emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o _amavioso_ e
+infeliz rei, merece n'esta historia uma menção condigna. Apesar das
+chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a
+sabedoria e o alcance economico da sua legislação dão-lhe o direito de
+preeminencia na historia da formação do poder naval dos portuguezes. Já
+então a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil
+dobras:[69] o que demonstra o progresso commercial do reino,
+e comprova a opinião expressa no livro anterior, da deslocação do centro
+de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia
+adquirida depois do antigo caso da separação do condado portuguez do
+corpo da monarchia leoneza.
+
+O rei que pretendia, com justiça, impedir aos proprietarios a detenção
+improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem
+por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e
+fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já então uma cidade
+cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos,
+milanezes, corsos, biscainhos, gentes de tão variadas partes--de toda a
+Hespanha e das costas circum-mediterraneas--fixavam-se em Lisboa a
+commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de
+vinho, sem contar o dos navios da segunda carregação, em março. Os
+navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital
+«grande cidade de muitas e desvairadas gentes». Era uma Veneza que se
+formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da
+Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos
+nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do
+porto-franco de Lisboa.
+
+O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia
+commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a
+lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de
+certos generos exclusivos. Creou _bolsas_ de seguros maritimos, mutuos,
+em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lançada sobre
+o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a
+metade os direitos de importação dos generos trazidos por navios
+nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a
+cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses.
+Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas
+mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construcção naval, e
+os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á
+exportação dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por
+sobre esta protecção efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores
+capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos
+lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.
+
+N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fôra um cesarísmo, e
+com effeito o foi de todos os modos: na sábia protecção dada ao fomento
+material da nação, na violencia das medidas de salvação publica, na
+desordem dos costumes da côrte, e no caracter bondoso e ingenuamente
+devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á
+nação, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada
+ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma
+imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um
+imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento
+individual dos governantes autocratas, mais do que á força espontanea de
+um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituições
+e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos
+os fundadores do Portugal maritimo D. Fernando é o maior; e se as
+queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os
+portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razão
+absoluta--a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Camões
+fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal
+para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lançado
+os athenienses no caminho das emprezas maritimas.
+
+Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade
+positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. Não tivesse a
+Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se
+teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. Não tivessemos
+alargado pelo mar um nome sem razão de ser na Europa, e, jungidos á
+Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos
+dôres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O
+proprio nome de Portugal não teria existido, senão como lembrança
+erudita de um certo condado, que, nas mãos de principes astutos e
+atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nação
+hespanhola.
+
+Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? Não, decerto.
+Infeliz de quem não viveu; e viver, para os homens e para as nações,
+differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer
+as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade,
+providencia, determinação, ou como se queira dizer--traduzido com as
+successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio
+eterno--elege ou condemna--escolham tambem os sectarios entre as duas
+expressões--os homens e as nações a uma determinada obra. Nós fomos
+elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que
+o enchia de vagas ambições ou de funebres terrores.
+
+Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca
+da empreza nacional, do seu destino, da sua missão, ou como aprouver
+melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar--descrevendo
+previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela
+consolidação do poder cesarêo dos reis--necessitava ser julgada: agora
+que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se não
+desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.
+
+Essa esquadra, que fundeia no Tejo, era já poderosa ao tempo de D.
+Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abraçavam
+tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372)
+era, no dizer do chronista, _formosa campanha de ver_. Mice Lançarote
+Peçanha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da
+nova patria portugueza vê-se bem no nome dos capitães: um João Focin
+castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa
+recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este
+agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sairá, no momento
+culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito
+nacional-natural e a noção de uma patria moral ou ideal, como foi a
+patria de Virgilio.
+
+A esquadra de Sevilha contava trinta e duas galés, trinta náus redondas,
+afóra as que vieram _per ella da costa do mar_. Vinte e tres mezes teve
+bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi tão
+poderosa como esta, foi ainda ao Mediterraneo, na seguinte guerra de
+Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da
+temeridade do fanfarrão Affonso Tello.
+
+Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir
+conquistar Ceuta, em Africa.
+
+ [58] V. _As raças humanas_, I, pp. 96-9.
+
+ [59] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. VII-VIII e
+ _Elem. de Anthropol._ (3.ª ed.) pp. 126-7 e 215-17.
+
+ [60] V. _As raças humanas_, liv. IV, 2.
+
+ [61] _Ibid._, pp. 111-18.
+
+ [62] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas,
+ com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos
+ nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.
+
+ [63] V. _As raças humanas_, I, pp, 94-6 e _O Brazil e as colon.
+ port._, (2.ª ed.), pp. 244-8.
+
+ [64] V. _As raças humanas_, I, p. 184.
+
+ [65] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no
+ _Brazil e as colonias portuguezas_ (2.ª ed.) pp. 2-3.
+
+ [66] V. _As raças humanas_, I, pp. 116-7.
+
+ [67] V. _O Brazil e as colon. port._, (2.ª ed.), pp. 14-5.
+
+ [68] V. no _Regimen das riquezas_, pp. 81-8, a evolução dos
+ vehiculos maritimos.
+
+ [69] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o
+ marco de ouro cojo valor moderno é de 120$000 rs; a dobra
+ equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de
+ 84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista,
+ «400 a 500 navios de carregação» e em Sacavem e no Montijo,
+ a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo
+ que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro
+ viagens n'um anno, e sabendo nós que a sua lotação média
+ regularia por 100 toneladas--vemos que o movimento do porto
+ attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos.
+ Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos idéa
+ do grau de franquia do porto.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+II
+
+Portugal em Africa
+
+
+Todos estavam impacientes por partir; mas o vento norte fresco, o vento
+de monção, assobiava contra as paredes do quarto onde jazia moribunda,
+com a peste, a rainha D. Philippa. Ninguem pozera na empreza melhor amor
+do que ella: mandára fazer tres espadas cravadas de pedraria para os
+filhos, que em Ceuta haviam de ser armados cavalleiros; mas o destino
+não lhe consentiu vêr terminada a façanha. Morreu; e ainda não se tinham
+acabado de arrancar das paredes do convento de Odivellas os pannos de dó
+do enterro, quando a armada partia. Morrera a 20; são hoje 25 do mez de
+julho de 1415.
+
+As pazes celebradas com Castella no anno anterior tinham dado o socego a
+uma côrte onde fervia o desejo de praticar grandes cousas. Diz-se que o
+rei pensára em abrir em Lisboa um torneio de um anno, onde viriam os
+mais celebres cavalleiros da Europa medir-se com os portuguezes; mas
+esse plano extravagante foi substituido pelo projecto mais sensato de ir
+a Ceuta. Para não prevenir os inimigos, conservára-se um segredo
+absoluto sobre o destino da grossa frota que se reunia em Lisboa. Todos
+temiam: o aragonez, e principalmente o mouro de Granada. Vinham de
+varias partes soldados e navios. D. Duarte apparelhára em Lisboa oito
+galeões, e D. Henrique tinha chegado do Porto com uma divisão de
+cincoenta e dois navios de toda a classe. Havia inglezes, francezes e
+allemães na armada, que, depois de inteiramente reunida, contava 33
+galeões grandes, 27 menores, de tres bancos de remeiros, 32 galeras e
+120 fustas, transportes, e outros vasos secundarios. Iam embarcados
+cincoenta mil homens.
+
+Ao passarem á vista do cabo de S. Vicente os navios baixaram as velas
+_por razam das reliquias que ali havia_. Ainda em Sagres não existia ao
+tempo a eschola do infante, mas o preito dado ao logar sagrado para
+muitos parecerá symbolico. Era esta a primeira grande empreza maritima
+de Portugal; ou antes e melhor, era a primeira vez que as esquadras
+portuguezas saíam de Lisboa com o fito de alargar o reino para além do
+mar. Inexperientes ainda os pilotos, as correntes do estreito dispersam
+a poderosa armada, parte da qual é arrastada até Malaga, indo o resto
+fundear em Ceuta.
+
+Não nos permittem as proporções d'esta obra narrar todas as batalhas e
+cercos, nem isso importa; pois que, salvas excepções que temos tomado em
+conta, todos se parecem entre si. Nenhum caracter novo, nem particular,
+apresentou a tomada da cidade que, colhida de improviso, não pôde
+resistir. Os moradores abandonaram-na depois de um combate em que
+obtiveram a prova da inutilidade da defeza; e os christãos saquearam a
+cidade deserta, arrancando as columnas de alabastro, os marmores das
+portas e janellas, os tectos lavrados em paineis dourados, dos palacios
+da opulenta Ceuta. Emquanto a turba dos soldados se espalhava pelos
+meandros das ruas e pelas casas da cidade abandonada, os fugitivos, de
+longe, sobre as collinas, bradavam desesperados e miseraveis n'um triste
+clamor de perdidos. Ficavam-lhes além, dentro dos muros da cidade
+tomada, afóra tudo o que possuiam, os cadaveres insepultos dos muitos
+que na vespera tinham morrido no combate.
+
+Ceuta era portugueza; e uns sinos, antigamente tomados em Lagos, serviam
+desde logo para solemnisar a sagração da mesquita dos infieis. O infante
+D. Henrique, principal author, denodado executor da empreza, recebeu o
+titulo de duque, novo então em Portugal. Todos os tres irmãos foram
+armados cavalleiros.
+
+Que se faria porém de Ceuta? Muitos opinavam pelo abandono, recolhido,
+como estava, o saque: eram os que ignoravam os vastos designios do
+infante, ou os não approvavam.
+
+Ceuta guardou-se como principio de mais dilatadas emprezas.
+
+ * * * * *
+
+Vinte annos decorridos--em que o infante se déra principalmente aos seus
+trabalhos de Sagres,--e vendo acaso que as descobertas das ilhas do
+Atlantico não valiam assaz perante os sonhos da sua ambição, e que ao
+longo de Africa pouco se adiantou por mar, torna a preoccupal-o a idea
+das conquistas marroquinas, desde tempo postas de parte. A Atlantida
+mysteriosa teimava em não apparecer; ou reduzia-se afinal á Madeira, ou
+ao archipelago açoriano, onde não havia, nem encantos, nem muralhas
+d'ouro, nem estranhas gentes: só desertos cerrados de florestas, bravios
+de abrir, e pouco remuneradores. O reino encantado do Preste-Joham
+fugiria deante dos navios aventureiros, como uma miragem enganadora?
+
+Já D. João I morrera a este tempo, e governava o reino o bom, infeliz D.
+Duarte. O ambicioso irmão levou-o a emprehender a conquista de Tanger,
+depois de ter convencido a que o acompanhasse o infante D. Fernando. O
+rei, ou approvou, ou não teve energia bastante para se oppôr á temeraria
+empreza. No conselho em que ella se debateu, porém, o outro irmão, D.
+Pedro--cuja sensatez parece tel-o já a esta epocha afastado de uma
+côrte, onde a irrequieta ambição de D. Henrique governava--observa que
+tudo falta, para esperar um bom exito. Não havia dinheiro para custear o
+exercito, e, sem grande cargo de sua consciencia, o rei não o podia
+tomar aos povos. Mudar a moeda (enfraquecel-a) em proveito proprio, não
+o devia: fallece-vos o principal cimento da passagem! Posto que Tanger
+se tomasse, e Arzilla, e Azamor, que se lhes faria? Do reino, despovoado
+e mingoado, era loucura enviar gente a guarnecel-as: seria trocar boa
+capa por mau capello, perder Portugal sem por isso ganhar a Africa. O
+exemplo dos castelhanos não colhia, porque dispunham de mais vastos
+recursos.--O infante vira muito mundo, e aprendera a medir pelo seu
+justo peso a importancia limitada da nação. A ignorancia, mãe de todas
+as temeridades e audacias, não o cegava.
+
+D. Henrique, pertinaz, decidido e, por sobre isso, violento e sem
+carinho, não perdoou decerto a sabia prudencia com que o irmão se
+oppunha aos seus designios. As relações de ambos, já frias, azedaram-se
+talvez; e porventura aqui esteja o motivo da indifferença com que D.
+Henrique ouviu os rogos do irmão, quando mais tarde lhe pedia que o
+servisse perante o sobrinho, Affonso V--indifferença que decerto
+concorreu para a morte de D. Pedro em Alfarrobeira, se porventura a não
+causou.
+
+As advertencias do principe no conselho eram tanto mais graves, quanto
+os seus argumentos eram absolutamente fundados, positivos; e grandes os
+creditos da sua opinião, merecido o respeito que todos tributavam ao seu
+caracter. Por isso, apesar da nenhuma brecha que os argumentos, por via
+de regra, fazem nas teimas, o rei (ou D. Henrique) julgou necessario
+escudar-se com o parecer do papa. Consultou-se, pois, Roma; e a
+resposta, que de lá veiu honra o nome do que a deu: «Se as terras foram
+christans e ha templos convertidos em mesquitas, a guerra é santa; se o
+não foram, deve distinguir-se: são visinhos incommodos e põem em perigo
+os christãos? admoestem-se, ameacem-se e só em ultimo caso se recorra ás
+armas. Não é este, porém, o caso? então, deixem-nos em paz, porque a
+terra e a abundancia d'ella é do Senhor, que faz nascer o sol sobre os
+bons e os maus, e dá de comer a todas as aves do céu.»
+
+Esta ultima das tres hypotheses indicadas pelo papa era a verdadeira, o
+que não impediu o infante de proseguir na sua teima. «A gente do reino
+havia esta ida por tão pesada, que a mais d'ella preferia pagar as
+multas (impostas aos refractarios ao alistamento) a arriscar as vidas.»
+Nem as multas, nem o dinheiro do rei, nem os emprestimos, bastavam,
+porém, para supprir o orçamento da armada; e por isso lançou-se mão dos
+bens dos orfãos. Porém, apesar de tudo, dos 14:000 homens com que se
+contava para a ida, apenas 6:000 se conseguiu reunir.
+
+Partiram, afinal, os dois irmãos; mas logo um mau agoiro entristeceu os
+soldados: o vento despedaçou a bandeira do infante, quando a
+desfraldava. Essa bandeira, sobre que o mouro havia de cuspir affrontas,
+ia já rota de Portugal...
+
+O resultado correspondeu ás previsões geraes: depois de batida, a
+expedição portugueza teve de capitular sob os muros do Tanger (1437),
+deixando D. Fernando em refens de Ceuta, que era o preço da liberdade do
+exercito. Tristes lagrimas de desespero orvalharam então as areias da
+costa africana: não seriam as ultimas, nem as mais copiosas. D. Henrique
+voltava com as reliquias da sua expedição, deixando o irmão preso. «Que
+el-rey se lembre de mim... roguem por minha alma, que é a ultima vez que
+nos veremos!» dizia o infeliz ao despedir-se, em lagrimas. D'alli os
+mouros levaram-no a Fez. Ia como Isaac para o altar, ou como Jesus para
+o Calvario. Conduziram-no montado n'um sendeiro mui magro, desferrado,
+tendo por freio umas tamiças, a sella esfarrapada, os arções
+despregados. Deram-lhe tambem uma canna, para guiar a azemola. Atraz
+d'elle iam os outros prisioneiros amarrados sobre as bestas de carga. A
+gente acudia ao caminho de Fez, chamada pelo pregão: «Venham vêr o rei
+dos christãos!» E os apupos, as pedradas, os escarros, caíam sobre os
+infelizes, chouteando, na sua paixão, esmagados por um sol abrazador.
+Uns, com os apupos, remordiam-se colericos; o infante, submisso e
+conformado, lembrava-se de que outro tanto, e mais ainda, soffrera Jesus
+por elle. Antes, porém, ser de uma vez crucificado, do que acabar
+lentamente nas lobregas estrebarias de Fez, varrendo as immundicies,
+comido de bichos, devorado de febres, porque nem a lentidão do martyrio
+lhe poupou o cadaver aos insultos da turba. Pendurado nú, pelos pés, nas
+ameias da cidade, foi a sorte que lhe deram. Antes, pregado na cruz,
+tivesse expirado como Christo. O pobre infante é o primeiro martyr da
+nossa epopêa; e se nos honramos do muito que fizemos, é agora o momento
+de deixar aqui uma lagrima de saudade e pena por esse infeliz precursor
+do nosso imperio!
+
+ * * * * *
+
+De volta ao reino, e salvo, D. Henrique oppoz-se decididamente á entrega
+de Ceuta. O rei, lavado em lagrimas pela sorte do irmão, morreu logo no
+anno seguinte, triste e taciturno. Com a deshumanidade de um apostolo,
+D. Henrique sacrificava tudo e todos á sua fé. Por cousa nenhuma
+consentiria que se entregasse Ceuta: e os reinos do Preste-Johan? e o
+imperio do Oriente? Homens, familia, palavra, tudo era vão, diante
+d'essa miragem que, desde tantos annos, lhe punha a cabeça em delirio.
+
+Com o seu braço conquistára Ceuta: arrastára a Tanger o irmão; deixára-o
+lá perdido, nas mãos féras dos inimigos: tudo isto eram holocaustos no
+altar da sua idéa. Quem sabe se elle mesmo não choraria a sós a
+crueldade do seu destino, e a desgraça do irmão que levára ao cepo do
+sacrificio? Não é, comtudo, provavel. Pelo menos, a impressão que o
+leitor d'estas historias recebe da narração dos seus actos consecutivos,
+é a de que no caracter do infante não primava a humanidade.
+
+Voltou a encerrar-se em Sagres, com os seus livros, os seus mappas, os
+seus cosmographos e mareantes: voltou a olhar para o mar--pois que, por
+largos annos, para sempre talvez! estava perdida metade da sua empreza.
+Os seus navegadores iam vogando e _resgatando_[70] ao longo
+da costa da Africa: e as ilhas dos Açores iam successivamente saindo dos
+arcanos do Mar Tenebroso. O papa (Nicolau V) dava-lhe o senhorio e
+dominio sobre todas as descobertas na Africa (1454): e o infante, no
+meio das contrariedades, não desanimava na sua fé.
+
+Entretanto o reino passára, das mãos da rainha viuva, para as do infante
+D. Pedro (1438) e d'estas, finalmente, para as de Affonso V (1446);
+entretanto miseraveis intrigas, a que D. Henrique não quiz oppor-se para
+salvar o irmão que lh'o pedia, tinham levado á desgraça de Alfarrobeira
+(1449); e o infante, com a influencia que exercia no curto espirito do
+sobrinho, facilmente o decide a lançar-se nas aventuras africanas: já
+morrera D. Pedro, para vir repetir o que dissera nas vesperas de Tanger.
+Quando, em 1460, morreu D. Henrique, esse principe tão funesto aos seus,
+mas tão proveitoso para o reino, já Affonso V tinha conseguido tomar
+Alcacer-Seguer (1458). Dez annos depois, a conquista de Arzilla importa
+a rendição de Tanger. O dominio portuguez na costa de Marrocos chegava
+ao apogeu; mas qual era o resultado d'essas emprezas? Vinha por ahi a
+Portugal o commercio das Indias, como D. Henrique pensára? Não.
+Monopolisado pelos arabes no Oriente, logo que Ceuta foi para elles
+perdida, desviou-se para outros portos do Mediterraneo. Varrida essa
+illusão, que restava? Uma serie de praças fortes, eschola de soldados,
+fonte de permanentes conflictos, esteril em proventos, pasto para a van
+necessidade batalhadora da nação: precipicio aberto, que ia tragando,
+improficua e ingloriamente, muitas forças vivas do paiz. A opinião do
+sabio principe D. Pedro era absolutamente verdadeira: nós não tinhamos
+recursos, no reino pequeno e pobre de gente, para povoar Marrocos; e
+mudar parte de uma população escassa, de Portugal para a Africa, era
+trocar «uma boa capa, por um mau capello». Á conquista de Ceuta movera
+ainda uma illusão: mas agora, varrida ella, as campanhas de Africa eram
+uma serie de emprezas quixotescas, que viriam a terminar pela doidice
+varrida de D. Sebastião.
+
+Contra uma opinião muito acceite, nós pensamos, pois, que a decisão de
+D. João III, abandonando as praças africanas, só peccou por serodia; e
+que Portugal nada tinha a esperar do seu dominio na Barberia--desde que
+o destino o levava para o Oriente, e desde que era manifestamente
+provado não poder chegar-se lá por via de Marrocos. Incidente na nossa
+vida nacional, o dominio portuguez das praças do litoral d'Africa é
+apenas um episodio da grande historia das descobertas e conquistas
+ultramarinas; e o seu melhor merecimento foi de servir de eschola para
+os guerreiros da India, de posto de acclimação--como hoje Malta ou
+Gibraltar, para os inglezes. Para padrão das façanhas de Affonso V e das
+lançadas de Lopo Barriga, não valia a pena que custou, ainda quando não
+fosse a causa da final catastrophe de D. Sebastião.
+
+ [70] _Regime das Riquezas_, pp. 92 e 107-9.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+III
+
+O principe perfeito
+
+
+Perfeito não quer dizer sem nodoa, mas sim acabado, completo; não tem
+aqui uma significação moral, tem um valor politico. D. João II é um
+exemplar _perfeito_ do genero dos principes da Renascença, para quem
+Machiavel escreveu (um pouco depois) o cathecismo: é um mestre da
+moderna arte de reinar.
+
+O exemplo mesquinho da pessoa do antecessor e pae, Affonso V, as
+desordens do reino e a fraqueza do rei, tinham educado o espirito agudo
+e observador do moço principe.
+
+A tragedia de Alfarrobeira (1449) começára com um crime o espectaculoso
+mas triste reinado do _africano_; e o epitheto dado ao rei ajudou a
+formar a tradição de um homem cheio de valor e tenacidade, coisa que o
+pobre Affonso V jámais foi. Combater com denodo, n'um momento de furia,
+era uma qualidade commum que lhe não faltava; mas d'ahi ao valor
+consummado vae uma distancia enorme. O grande defeito da sua mocidade
+fôra a facilidade com que se deixava lisongear. Tutelado na sua
+menoridade, pela mãe primeiro, pelo tio e sogro depois, o pobre rei
+soffreu as consequencias communs a quasi todos os principes, como elle
+acclamados em creanças. Em volta do rei, pupillo de futuro imperante,
+formou-se um partido de adversarios da regencia, ambiciosos a quem não
+satisfazia o juizo do infante D. Pedro, cheios de esperanças na
+liberalidade e no caracter desegual do moço rei. Exploravam-lhe as
+fraquezas, açulando-lhe os odios nos momentos de colera, distrahindo-o
+com facecias e ditos nas horas de abatimento, gabando-lhe tudo: os
+arremeços e as cobardias, a brandura e a colera, como aduladores de
+officio. Da insensatez do rei esperavam colher uma farta ração de
+beneficios e presentes. Apesar de o infante já ter feito entrega da
+regencia, temiam-no ainda sobremaneira, e não cessavam de o malquistar
+no animo do sobrinho e genro. D. Pedro em vão instava com o irmão, D.
+Henrique, para que desmanchasse essas perfidias. Aborrecido de viver,
+desejoso de deixar o mundo, o ex-regente via que tudo se conspirava para
+o perder. «Era grande principe, de grande conselho, prudente, de viva
+memoria, bem latinado, e assaz mixtico em sciencias e doutrinas de
+letras, e dado muito ao estudo.» Era um dos poucos, a quem a sabedoria
+tornára realmente bons.
+
+Os seus brios offendidos, a perfidia dos validos, o tonto desvairamento
+do rei, levaram ao encontro de Alfarrobeira, quando o principe vinha á
+côrte justificar-se das calumnias: e vinha armado, por saber que no
+caminho o esperavam para o matar. Effectivamente o mataram, a elle, e ao
+seu fiel Achates, o nobre conde de Avranches, typo de lealdade
+cavalheiresca, sempre rara, e agora de todo ausente em côrtes
+italianisadas. Morto o seu principe, o conde prepara-se para morrer
+tambem, vingando-se: «Ó corpo! já sinto que não podes mais; tu, minha
+alma, já tardas!» E com furia, defendia-se e matava. Quando por fim o
+derrubaram, ferido, cruzou os braços, dizendo: «Fartar, rapazes! vingar,
+vilanagem!» E morreu, trespassado de lanças.
+
+Livre do importuno conselheiro, Affonso V e os fidalgos da sua roda, tão
+simples e estouvados como o rei, puderam abandonar-se á vontade ao
+capricho das suas loucuras e batalhas. Fatigando o povo com impostos,
+desbaratando com prodigalidades o patrimonio da corôa, o rei, levado
+pela sua mania, sacrifica tudo ás correrias africanas, que a
+decomposição interna do imperio marroquino já tornava possiveis.
+
+Mais de vinte annos consumiu em taes emprezas que o envelheceram. Era
+corpulento, e com os annos tornára-se gordo, a ponto de não poder já
+usar senão vestiduras soltas. Tinha a barba espessa, e era calvo; os
+cabellos ennegreciam-lhe as mãos, as orelhas, o nariz, accusando a
+vulgaridade e a violencia bravia do seu temperamento. Apesar de bem
+proporcionado, era tão commum no aspecto como no espirito. Brutal e
+vingativo, obtuso mas teimoso, e até cruel, a sua phisionomia reproduzia
+a do commum dos homens d'armas; e imprimiu o cunho a esses guerreiros de
+Africa, broncos, sem o menor requinte de perversidade fina, nem ponta de
+elevação distincta: como touros que marram ás cegas e qualquer destro
+bandarilheiro dóma.
+
+Foi isto mesmo que succedeu a Affonso V em França, onde Luiz XI se
+fartou de rir do simples, illudindo-o com promessas, fatigando-o com
+viagens, picando-o com ironias perdidas, carregando-lhe a nuca de
+lisonjas, cumprimentos e attenções, como o bandarilheiro faz ao touro,
+quando o carrega de vistosas farpas, bem aguçadas.
+
+Affonso V fôra a França pedir auxilio, porque o castelhano batera-o. Em
+1474, Henrique IV de Castella ao morrer, deixava por herdeira D. Joanna,
+a _beltraneja_ (assim os adulterios da mãe tinham denominado a filha)
+confiando o governo do reino ao visinho de Portugal, e pedindo-lhe que
+casasse com a sobrinha. Affonso V julgou que o reino de Castella era a
+nova Africa da sua velhice, e poz-se em campo para conquistar a corôa
+testada; conquistar, dizemos, porque os castelhanos invocavam contra a
+_beltraneja_ os mesmos argumentos que, um seculo antes, nós invocavamos
+contra a mulher de João I, D. Beatriz. Castella offerecia o throno a
+Isabel, como nós o tinhamos dado ao Mestre de Aviz.
+
+Affonso V poz-se em campo. Já ao seu lado se via a reservada figura do
+filho. Receioso das loucuras do velho, arrancára da sua fraqueza um
+titulo secreto, pelo qual o rei annullava todas as doações superiores a
+dez mil réis de renda que fizesse durante a guerra. O pae dava e não
+dava, o filho dobrava cuidadosamente o papel, guardando-o para o futuro...
+
+A batalha de Toro (1476) não foi propriamente uma derrota militar,
+mas foi uma derrota para o rei e para as suas ambições. O pobre
+velho, gordo, estafado, sem poder comsigo, foi correndo abrigar-se
+em Castro-Nuño, e deitou-se logo a dormir. Avendaño, o fidalgo do
+lugar, declarára-se por elle: mas a mulher, castelhana esperta,
+apontava-lhe o volume de carnes, para alli deitado a resonar
+ruidosamente, como os gordos, e dizia ao marido:--«Olha lá por quem te
+perdeste!»--Effectivamente o rei não valia para cousa alguma. Os
+castelhanos rebeldes desde logo reconheceram o seu erro, e Affonso V
+tomou a resolução de ir pedir a Luiz XI que lhe valesse.
+
+O principe herdeiro aprendia muito, porque observava tudo, com o seu
+olhar profundo e sagaz. Deixou ir o pae, e ficando a reger o reino,
+continuou, por amor da honra, mas sem calor, uma guerra que elle decerto
+via não conduzir ao fim desejado. Emquanto o pae andava por fóra,
+acclamaram-no, ou acclamou-se rei: diz-se que de França lhe viera uma
+abdicação. Porém Affonso V, desilludido afinal, decidiu-se a voltar; e o
+principe entregou-lhe immediatamente a corôa. Guardal-a, para que? Se
+elle, de facto, continuava a reinar em nome do pae, desfeiteado,
+vencido, quasi moribundo? Todas as maximas que Machiavel escreveu no seu
+livro do _Principe_, tinha-as antecipadamente D. João II na memoria:--É
+melhor ser louvado do que aborrecido, mas só quando isso não prejudica;
+o bem é preferivel ao mal, quando se póde escolher entre ambos para se
+conseguir um fim.--Por isso, como sabio principe, decidia-se a reinar
+sob o nome do pae, já inteiramente docil e subjugado por tantas
+miserias, esperando o momento proximo de outra vez tomar o nome de
+rei--méra formalidade.
+
+No decorrer de dois annos (1479-81) a paz, negociada pelo principe
+_perfeito_, fazia da _beltraneja_, encerrada n'um convento, a
+_excellente-senhora_, e do rei um cadaver, afogado n'uma agonia de
+afflicções pungentes.
+
+O filho não tinha nada dos loucos desvarios do pae, e desde logo vira o
+absurdo da guerra de Castella. Seria mais nobre e cavalleiroso proseguir
+valentemente na defeza dos direitos da corôa, da honra do velho, e da
+vida e sorte da infeliz princeza confiada á guarda de Portugal? Seria.
+Mas D. João II pensava (Machiavel) que o principe não deve preoccupar-se
+com a infamia dos seus actos, quando sejam necessarios á conservação do
+Estado; e que, depois de tudo bem pesado, praticar uma certa virtude
+póde muitas vezes trazer a ruina, quando a infamia traria comsigo a
+segurança e a fortuna.
+
+Este era effectivamente o caso em 1479. Dizia o principe que tempos
+havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão. Não traduzia,
+porventura, com uma concisão mais eloquente, as palavras do
+italiano?--«O principe deverá imitar bem os brutos (porque ha duas
+maneiras de combater: com as leis e com a força; a primeira dos homens,
+a segunda dos brutos) e saber empregar as artes da raposa e do leão;
+pois o leão não se defende dos laços, nem a raposa dos lobos: é portanto
+mistér ser raposa para conhecer as redes, e leão para assustar os
+lobos.»--D. João II, menos classico ainda, recorria aos exemplos
+venatorios da Edade-media; tempos havia para usar de coruja, tempos para
+voar como falcão!
+
+Os filhos de D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da
+Renascença, chamando sabios, viajando, formando bibliothecas, tinham
+lançado á terra dura do velho Portugal as sementes italianas. Affonso V
+rebentára do solo como um cardo antigo, rijo e bravo, cheio de espinhos.
+Fôra um aborto, ou um anachronismo medieval. D. João II nascia
+italianisado, com todos os vicios e virtudes da cultura da Renascença. A
+sua côrte era um retrato das pequenas côrtes de Italia; e o principe
+como um italiano, cheio de perfidias e ambições, de lucidez e de manha,
+de instinctos sanguinarios e fortes decisões politicas.
+
+Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar
+com as tontices do pae; rei agora (1481), seria o falcão. Mas para ser
+verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o habito da ave
+nocturna, até vêr por terra o poder d'essa fidalguia que os erros do pae
+tinham ensoberbado. Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas
+ambições. O _homem_, como Isabel de Castella o designava com espanto,
+mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, elle ou os seus
+herdeiros, no throno de uma Hespanha unida, affagára-lhe o espirito em
+moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realisal-a. Depois, rechaçado,
+mas não desesperado, fez de coruja em 1479; contando voar de falcão no
+momento opportuno. Nem paravam ahi as suas ambições: lembrava-se do
+fallecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que
+tinham fervido n'aquelle cerebro. A sua monarchia dilatava-se da
+Hespanha á India: e com a Peninsula na Europa, com a Africa, a India, o
+encantado reino do Preste-Joham, sonhou a monarchia de Philippe II...
+
+ * * * * *
+
+N'uma só cousa o portuguez primava ao italiano: era sobrio, severo,
+detestava o luxo--que prohibiu. A sua côrte apresentava o quer que é de
+funebre e austero, sempre agradavel a portuguezes. A sua figura, tambem,
+nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os habitos de coruja davam-lhe
+mais caracter do que os de falcão: ás duas aves, porém, pedia a côr que
+punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, e
+_mixtico pera todalas cousas_, de memoria viva e esperta, faltavam-lhe
+porém os dotes exteriores. Não tinha elegancia, nem no corpo, nem no
+dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era
+alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam «com menencoria ser muy
+temido». Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 annos já tinha cans na
+barba o nos cabellos; só n'essa edade deixou de ser abstemio. A força
+muscular, dote necessario aos principes dos bons tempos, tornava-o
+celebre: cortava com um golpe de espada tres e quatro tochas de cera
+reunidas. «Muy grande astucioso e acquiridor, sem deixar de ser inteiro
+e dadivoso, era muy manhoso em todalas boas manhas que um principe deve
+ter.» A natureza não o ajudava, decerto; e tambem, na sua educação de
+principe, deixava de obedecer á regra de Machiavel: «Não é necessario
+ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensavel
+affectal-as;--possuil-as e servir-se d'ellas póde chegar a ser perigoso:
+fingil-as é sempre util;--seja-se fiel, clemente, humano, religioso e
+integro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o
+contrario, quando a isso o caso obrigue.»--D. João não era, nem
+clemente, nem humano, e não julgava necessario ao seu papel fingil-o:
+isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal: fazendo com
+que, se a maior parte o temia, ninguem o amasse, o que se tornava peior
+ainda. A perspicacia e authoridade não eram n'elle bastantes para que
+soubesse envolvel-as n'uma simulada bonhomia, porque doçura ou
+humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato,
+á italiana, mas tinha a fraqueza portugueza de confessar como isso se
+praticava. Lopo Vaz, a quem Affonso V fizera conde, levantou-se em Moura
+defendendo o titulo revogado ou não confirmado, e o rei «por não fiar já
+d'elle... determinou de o mandar matar... por certos cavalleiros que
+manhosamente lá mandou e o mataram á traição, aos quaes o principe fez
+boas mercês». Mas o cardeal D. Jorge da Costa, o _alpedrinha_, vendo-se
+ameaçado, temeu e fugiu para Roma: o rei expozera-lhe um modo facil do
+acabar com elle--mandal-o tomar por quatro moços de esporas, afogal-o em
+um rio e dizer que caira e se afogára por desastre.
+
+Assim que o pae morreu, D. João II convocou côrtes (1482) e mostrou quem
+era. Mandou examinar as jurisdições dos donatarios da corôa,
+prescrevendo que os corregedores entrassem nas terras de doação no
+cumprimento dos mandados regios, abolindo o direito de asylo dos
+criminosos usurpado por muitos terrenos não coutados; e ao mesmo tempo
+que assim coarctava as regalias historicas da nobreza, punha cobro ás
+invasões anarchicas dos fidalgos no fôro dos concelhos, prohibindo o
+lançamento de _pedidos_, o intrometterem-se na jurisdição do crime e nas
+eleições e officios municipaes. O rei, inspirado pelas novas idéas
+ácerca da authoridade soberana, começava por investir com a nobreza:
+seria o successor, D. Manoel, que, reformando os foraes, atrophiaria a
+outra face do systema duplo de instituições, cujo equilibrio mais ou
+menos estavel formára a vida politica da Edade-media[71].
+Mas D. João II via-se tambem forçado a emendar os erros do pae, como o
+segundo Affonso tivera tambem de fazer á morte de Sancho I. O moço rei
+decidira formalmente revogar as doações do antecessor, reivindicar para
+a corôa o que os fidalgos tinham pilhado ao pobre, gordo, Affonso V. De
+todos esses fidalgos, o chefe era o poderoso duque de Bragança, cujos
+dominios contavam cincoenta villas, cidades e castellos, além de
+propriedades sem numero; cuja mesnada subia a 3:000 de cavallo e mais de
+10:000 infantes; um rei no reino, do qual possuia, pelo menos, a terça
+parte. Costumado a considerar o rei como egual, da linhagem de reis, e
+herdeiro do famoso condestavel, o duque sincera e ingenuamente
+acreditava na justiça da sua rebeldia. «Deservia muito grandemente o
+rei, fazendo-lhe guerra calada,» e carteava-se com o conde de Athouguia,
+seu tio, então em Castella, homem prudente, que buscava dissuadil-o,
+respondendo-lhe em enygmas ao gosto da epocha: «Tal não deveis cuidar,
+quanto mais commetter... quereis abrir uma fonte para matar vossa
+sede... achareis a agua tão quente que vos hão de lá ficar as unhas...
+_tradiderunt quos deligebam_.» Com effeito, era atraiçoado, e o rei
+tinha os seus espiões por toda a parte. Um certo Figueiredo vinha a
+escusas referir tudo a D. João II, que lhe respondia, com a sua voz
+demorada, baixa e fanhosa: «Guarda-te o melhor que puderes, e depois te
+farei mercê».--O espião ia e tornava, e quando, afinal, o duque foi
+preso por surpresa e executado, o rei deu a mão a beijar ao Figueiredo:
+«Até agora fiz que te não conhecia, d'ora avante olharei por ti. Pede o
+que quizeres: ha tempos de coruja e tempos de falcão...»
+
+O duque foi degollado publicamente no rocio de Evora (1483), depois de
+um simulacro de processo. Effectivamente, em taes causas os processos
+são apenas formulas. A força impera á solta nas demandas politicas, por
+isso mesmo que ellas põem em questão os fundamentos organicos da
+sociedade, e portanto a lei civil. O duque e o rei eram inimigos velhos;
+e aos odios antigos vinham juntar-se agora as intenções, rebeldes em um,
+tyrannicas no outro. Entretanto, o caracter desnaturado da politica dos
+reis na Renascença levava D. João II a representar um papel repugnante,
+dando ao vencido uma palma como que de martyr; ao passo que a
+sobranceria do fidalgo, quasi-rei, lhe mantinha a dignidade altiva até
+sobre o cadafalso. Recusa prestar-se a responder no tribunal, a tomar
+parte na comedia que o indigna; e quando os carrascos, afflictos, lhe
+vestem o derradeiro trajo, uma loba roçagante, capello e carapuça de dó,
+com os pollegares atados por uma fita ao cinto, elle observa
+serenamente: «Soffrerei tudo, e mais um baraço ao pescoço, se S. A.
+mandar!»
+
+A morte, tão digna, do duque de Bragança excitou ambições de vingança na
+nobreza, e positivamente começou a tramar-se o assassinato do rei, que o
+sabia. Os seus espiões andavam por toda a parte; e a politica dependia
+das intrigas de alcova e dos serviços dos miseraveis. O rei usava de
+todos os instrumentos, e o _sancta sanctis_ da razão-d'Estado absolvia-o
+de todos os crimes. Havia um Tinoco, privado do bispo d'Evora, o qual
+tinha por manceba uma irmã d'elle, e que por isso lhe queria muito. O
+rei descobriu o caso, e comprou-o. Tinoco veiu, disfarçado em frade, a
+Setubal, contar a conspiração em que o prelado estava, e de que o duque
+de Vizeu era chefe; e recebeu cinco mil cruzados em ouro e um beneficio
+de seiscentos mil réis, porque D. João II não regateava o preço dos bons
+serviços. Estava compilada e tratada «a segunda e desleal desaventura de
+que se causou a triste morte do duque de Vizeu». O rei chamou-o a
+Setubal, e matou-o por suas mãos ás punhaladas. Prescindiu de processo,
+mas não de um auto posthumo, com o fim de justificar o seu crime, e a
+perseguição dos mais conjurados. O bispo de Evora foi mettido no fundo
+de uma cisterna, em Palmella, onde com peçonha acabou a vida; os outros
+foram assassinados ou justiçados, onde quer que os encontraram os
+algozes do rei; e um, que conseguira fugir para França, nem por isso
+escapou com vida, porque o rei mandou lá um sicario matal-o.
+
+O principe _perfeito_ mostrava-se consummado na arte de reinar, e
+ninguem ousava já resistir-lhe. A primeira metade do seu programma
+estava realisada--agora o falcão ia alargar os seus vôos amplos!
+
+Ninguem lhe resistia, mas no fundo da consciencia alguma cousa o
+denunciava como assassino. Uma noute, em Santarem, acorda em sobresalto,
+ouvindo alguem chamal-o. Quem era? Ninguem. Illusões! dizia-lhe a rainha
+no leito: era _cousa má_ que andava pelos vãos dos telhados.[72]
+O rei não socegava, porém, e levantou-se, vestiu um roupão,
+tomou a espada e a rodela, na mão esquerda uma tocha, e viu que uma
+sombra o guiava. Quem era? Abria as portas diante do rei, e mostrava-lhe
+o caminho. Foram assim até aos vãos dos telhados, a sombra e o rei. Aos
+gritos da rainha acudiram todos, e acharam-no no sotão, despejado,
+alegre e seguro, diz o chronista mentindo palacianamente. A coruja
+noctivaga perseguia o ambicioso falcão: a educação do principe não
+conseguira apagar de todo a consciencia do homem.
+
+ * * * * *
+
+Fernando e Isabel, de Castella, que lhe haviam tomado o pulso, ainda em
+tempo do pae, admiravam-lhe muito as qualidades e tinham-no em grande
+conta. Elle, nem por ter tratado as pazes de 1479, desistira dos seus
+grandiosos planos. Os reis castelhanos tinham uma filha, D. João II um
+filho: o casamento de ambos seria talvez um meio, mais simples e mais
+rapido do que uma guerra, para dar ao herdeiro um grande throno.
+Tratou-se, ajustou-se e fez-se o casamento (1490); e n'esse dia de
+grandes esperanças, o rei sombrio e fanhoso quiz mostrar que tambem
+sabia ser magnifico. As bodas de Evora ficaram celebres, e
+principalmente o banquete, uma _kermesse_ formidanda. Na sala do jantar,
+onde os noivos, o rei, e toda a côrte se achavam, appareceu uma vasta
+machina: era um estrado com rodas, tendo em cima um carro com dois bois,
+á canga. Os bois estavam assados inteiros, com as pontas e as patas
+doiradas; e o carro carregado de carneiros tambem assados, tambem
+inteiros, com as armas doiradas. Vinha um fidalgo, de aguilhada ao
+hombro a dirigir o carro, e moços empurrando a machina. Deram a volta da
+sala, cumprimentando o castelhano, que gabou muito a idéa; e entre os
+applausos de todos, o carro saiu, e bois e carneiros foram dados ao
+povo, pasmado fóra. Terminado o idyllio culinario, foram-se todos á
+comida, a côrte e o povo. Nos velhos tempos do rei D. Pedro essas festas
+eram uma só: o rei comia na rua entre os seus, e bailava, ao som das
+_longas_, com as raparigas da rua.
+
+Á noute houve _mômos_, que ficaram celebres.
+
+
+ Entrou (el-rei) pelas portas da sala com nove bateis grandes, em
+ cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas do mar feitas de
+ panno de linho e pintadas de maneira que parecia agua. Com grande
+ estrondo de artilheria, que troava, e trombetas, atabales, e
+ menistres altas, que tangiam, e com muitas gritas e alvoroços de
+ muitos apitos de mestres, contramestres e marinheiros, vestidos de
+ brocados e sedas, com trajos de allemães, em bateis cheios de tochas
+ e muitas velas doiradas accesas, com toldos de brocado e muitas e
+ ricas bandeiras.
+
+ E assim vinha uma nau á vela, cousa espantosa, com muitos homens
+ dentro e muitas bombardas, sem ninguem vêr o artificio como andava,
+ que era cousa maravilhosa.
+
+ O toldo de brocado e as velas de tafetá branco e roxo, a cordoada de
+ ouro e seda, e as ancoras doiradas. E assi a nau, como os bateis,
+ com muitas velas de cêra douradas todas accesas, e as bandeiras e
+ estandartes eram das armas d'el-rey e da princeza, todas de damasco
+ e doiradas, e vinha diante do batel d'el-rey, que era o primeiro
+ sobre as ondas, um muito grande e formoso cysne com as pennas
+ brancas e doiradas, e apoz d'elle vinha na prôa do batel o seu
+ cavalleiro em pé, armado de ricas armas, e guiado d'elle, e em nome
+ d'el-rey saíu com sua falla e em joelhos deu á princesa um breve,
+ conforme sua tenção, que era querel-a servir nas festas do seu
+ casamento; e sobre conclusão de amores desafiou para justa de armas,
+ com oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.
+
+ E por rei de armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, se
+ publicou em alta voz o breve e desafio, com as condições das justas
+ e grados d'ellas, assi para o que mais galante viesse á teia como
+ para quem melhor justasse. E acabado, os bateis botaram pranchas
+ fóra, e saiu el-rey com seus requissimos mômos, e a náu e bateis,
+ que enchiam toda a sala, se saíram com grandes gritos e estrondo de
+ artilharia, trombetas, atabales, charamellas e sacabuxas, que
+ parecia que a sala tremia e queria caír em terra.
+
+ El-Rey dançou com a princeza, e os seus mantedores com damas que
+ tomaram, e logo veio o duque com fidalgos da sua casa, com outros
+ requissimos mômos. E veio outro entremez muito grande, em que vinham
+ muitos mômos mettidos em uma fortaleza, entre uma rocha e mata de
+ muitas verdes arvores e dois grandes selvagens á porta, com os quaes
+ um homem de armas pelejou e desbaratou, e cortou umas cadeas e
+ cadeados que tinham cerradas as portas do castello, que logo foram
+ abertas, e por uma ponte levadiça sairam muitos e mui ricos mômos; e
+ em se abrindo as portas, saíram de dentro tantas perdizes vivas e
+ outras aves, que toda a sala foi posta em revolta e cheia de aves
+ que andavam voando por ella até que as tomavam. E saído este grande
+ e custoso entremez, veiu outro em que vinham vinte fidalgos, todos
+ em trajos de peregrinos, com bordões dourados nas mãos, e grandes
+ ramaes de contas douradas ao pescoço, e seus chapeus com muitas
+ imagens, todos com manteos que os cobriam até ao joelho, de brocados
+ e por cima com remendos de veludo e setim... E assi vieram muitos e
+ ricos mômos que não digo... e dançaram todos até antemanhan; e foi
+ tamanha festa que, se não fôra vista de muitos, que ao presente são
+ vivos, eu a não ousara escrever.
+
+
+O principe _perfeito_ sabia tambem ser magnifico, e qual um Medicis, no
+momento opportuno. De facto, o casamento affagava-lhe as esperanças e
+ambições, abrindo horizontes de novas grandezas.
+
+Ainda Colombo não descobrira a America, mas o futuro imperio do principe
+Affonso alargava-se já por ignotas regiões. D. João II queria dar, em
+troca de Castella, um bom dote ao herdeiro; queria-o, além de imperador
+da Hespanha inteira, e da Italia hespanhola, imperador dos Estados
+orientaes do Preste-Joham. As propostas de Colombo, apesar de recusadas,
+excitavam-no; e por terra e mar enviava expedições em busca do lendario
+principe. A empreza iniciada pelo infante D. Henrique proseguia nas mãos
+do rei, que tomára a peito descobrir os mundos remotos. O seu poder
+naval era já tão grande, que o Tejo via com pasmo o famoso galeão de mil
+tonneis, monstro boiando n'agua, erriçado de canhões. Nunca os
+estaleiros tinham produzido navio tão grande; nunca até ahi surgira a
+idéa que o rei teve de artilhar as caravelas, dando um alcance e uma
+mobilidade desconhecida aos trons do mar. No seu pensamento havia um
+proposito firme de o subjugar, desvendando-o até aos seus ultimos
+confins, dissipando inteiramente as trevas e mysterios das ondas. Mandou
+aperfeiçoar as bussolas, desenhar cartas maritimas para orientação das
+rotas; commettendo esses estudos a uma Junta em que entraram os seus
+phisicos, mestre José e mestre Rodrigo, ambos judeus, com o famoso
+allemão Behaim, discipulo de João Monte-Regio, que em Vienna estudára
+astronomia com o celebre Purbach. Foi essa junta que inventou as taboas
+da declinação do sol, permittindo aos navios alongarem-se das costas,
+rumando seguros em alto mar. Traçavam-se como que estradas sobre as
+ondas, estradas tão mysteriosas como as regiões da Mina, cuja navegação
+costeira a astucia do rei envolvia em descripções terriveis para
+afugentar rivaes--á maneira do que os phenicios tinham feito, quando os
+romanos pretendiam seguil-os nas suas viagens mediterraneas.[73]
+A posse dos segredos das costas e dos segredos das rotas
+enchia de confiança o animo do rei no futuro grandioso do seu imperio. O
+cabo da extrema Africa, limite por tanto tempo invencivel, tinha já
+recebido o nome de Boa-Esperança! (1486).
+
+Aladas esperanças eram todas essas que o rei afagava, olhando a cabeça
+do filho. N'este momento, a que podemos e devemos chamar revelador, D.
+João II teve a consciencia do famoso destino que se preparava á
+Hespanha: do seu imperio universal, da extraordinaria vastidão do seu
+poder politico, e da sua influencia moral. Symbolisava tudo isso na
+cabeça do filho amado; porque a cegueira dos homens careceu sempre das
+lunetas de um symbolo para vêr de certo modo a realidade das cousas. Os
+symbolos passam, as cousas ficam; e da mesma fórma os homens morrem e as
+idéas vivem eternamente. E, na sua fraqueza, o espirito humano amortece,
+desespera e cáe quando vê apagado ou destruido o symbolo em que para
+elle estava, mesquinhamente, a realidade inteira.
+
+O funesto acaso da queda de um cavallo, matando o principe Affonso
+(1491), foi para D. João II como o tiro do caçador, quando n'um instante
+precipita, ás voltas, o passaro que de azas pandas vogava, inebriado, no
+oceano do ar e da luz. O largo vôo do falcão estacou, e todas as
+illusões se apagaram deante do cadaver gelado do principe, casado de um
+anno. Essa vida que se finára, levava comsigo todos os sonhos doirados,
+todas as esperanças, todas as chimeras!
+
+Foi um choro universal. «El-rey por tamanha perda, tamanho nojo e
+sentimento, se trosquiou. E elle e a rainha se vestiram de muito baixo
+panno negro. E a princeza trosquiou os seus bellos cabellos e se vestiu
+de almafega e cabeça coberta de negro vaso.» Nas exequias, os homens, as
+mulheres, até as creanças, tomados de vertigem, arrancavam as barbas e
+os cabellos, davam bofetadas nas faces, batiam com as cabeças nas quinas
+da eça funeraria, e arranhavam o rosto a fazer sangue. O luto era geral
+e desvairado. Á imitação do rei e da princeza viuva, toda a gente andava
+tosquiada; o os que não podiam, por pobres, comprar o burel, que
+encarecera excessivamente, adoptaram trajos extravagantes: as mulheres
+vestiam as saias do avêsso, e os homens punham em cima de si os saccos
+de forragens e os xaireis ou cobertas das bestas de carga.
+
+Este incidente imprevisto da morte do principe é um dos que obrigam a
+meditar sobre o valor do acaso na historia. Tivesse-se consummado a
+união dynastica de Portugal ao resto da Hespanha já unificado, e a
+historia da Peninsula, a historia da Europa, seriam diversas.[74]
+Que papel teria tido no mundo um imperio exclusivamente
+senhor de todas as regiões descobertas? Que teria succedido, se Carlos V
+e a dynastia austriaca não viessem reinar em Hespanha, pondo nas mãos de
+um homem o imperio da Allemanha, da Italia e da Peninsula iberica? Acaso
+a união, realisada no periodo ascencional da Hespanha, se tivesse
+consolidado abafando o cristallisar da alma portugueza na éra classica e
+abastardando a semente que nos deu Camões. Unido então, Portugal ficaria
+como se nunca tivesse existido, por isso que não chegára ainda a
+formular o seu pensamento historico, nem a consummar a sua empreza...
+
+D. João II, humilhado, abatido, e rapado por dó, voltou a envergar o
+habito da coruja, para morrer (1495). Agonisante, mal podendo articular
+já as palavras, com uma voz arrastada e fanhosa que a proximidade da
+morte fazia satanica, dizia, encostando a cabeça felina sobre a mão
+descamada: «Persigam-me sem dó os filhos do Bragança!»
+
+ [71] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) p. 137-49.
+
+ [72] _V. Systema dos mythos relig._, p. 291.
+
+ [73] V. _As raças humanas_, liv. IV, 3.
+
+ [74] V. _Theoria da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
+ pp. XXXII-III.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+ IV
+
+ Em demanda do Preste-Joham das Indias
+
+
+No verão de 1486 tinha Bartholomeu Dias partido de Lisboa, para dobrar o
+Cabo da Boa Esperança; o que de facto conseguiu, não podendo porém ir
+mais ávante, porque lh'o não consentiram as tripulações assustadas. No
+mesmo anno mandára o rei, por terra, para o Oriente, Antonio de Lisboa e
+Pero Montaroyo, que não passaram de Jerusalem, por só ahi reconhecerem
+que, não sabendo falar o arabe, não podiam intentar a viagem.
+
+No anno seguinte, portanto, escolhem-se dois homens que sabem arabe,
+para ir por terra descobrir o Preste-Joham. A viagem por mar, ou se
+abandonava por parecer impossivel, ou aprazava-se para mais tarde:
+quando houvesse informações mais cabaes, colhidas nas expedições por
+terra. Affonso de Payva e Pero da Covilhan partiram de Lisboa, via
+Napoles, com cartas de credito sobre o principe banqueiro, Cosme de
+Medicis. D'ahi os viajantes embarcam para Rhodes, depois para
+Alexandria, d'onde seguiram pelo Cairo para Tur, (Tor) na praia do mar
+Vermelho ao sopé do Sinai, como mercadores, acompanhando as caravanas.
+De Tur foram a Aden, onde se separaram: Covilhan para a India, Payva
+para Suâkin (Suaquem) na costa da Abyssinia; aprazando o encontro, á
+volta, no Cairo.
+
+Covilhan, em Aden, embarcou para Kananor, no Malabar, e d'ahi foi a
+Kalikodu (Calecut) e a Gôa. Atravessou, depois, o oceano indico, indo
+parar a Sofala, onde colheu noticias sobre a costa oriental da Africa, e
+sobre a ilha da Lua (Madagascar). Voltou logo ao Cairo, pressuroso de
+enviar a Lisboa as importantes informações obtidas, e ahi soube da
+prematura morte de Payva. Recebidas em Lisboa as cartas do viajante, D.
+João II recambiou logo os arabes seus emissarios, com ordem de visitarem
+Hormuz e a costa da Persia. Executada essa missão, Covilhan, cujo
+primeiro dever era obter noticias do Preste-Joham, partiu para a
+Abyssinia. Já por esta epocha o encantado principe que, segundo Marco
+Paolo, habitava a Asia central, fôra transferido para a Nubia: e a lenda
+personalisava no obscuro Negus o extravagante monarcha, tão falado e
+admirado em tempos anteriores. Covilhan, de quem não houve outras
+cartas, por largos annos aprendêra no Oriente a verdade; mas não podia
+transmittil-a para Portugal. Preso, sem ser maltratado, favorecido e
+rico pelo contrario, viveu por trinta e tres annos na Ethiopia,[75]
+onde acabou.
+
+Se a sua viagem não saciava a curiosidade principal do monarcha
+portuguez, se o Preste-Joham continuava a ser um mytho, o facto é que
+mais valiosos resultados se tinham obtido. A Covilhan cabe a honra de
+ter marcado o itinerario da navegação da India, affirmando que pelo sul
+da Africa se chegaria ao Oriente. Nas cartas que enviou do Cairo, dizia
+que os navios que navegassem ao longo da costa da Guiné, chegariam,
+proseguindo, ao extremo sul do continente africano: e que, aproando ahi
+para leste, em direcção da ilha da Lua, por Sofala, se encontrariam no
+caminho da India.
+
+D'estas e das mais informações recebidas se compoz o programma da
+atrevida expedição do anno de 1497, cujo destino marcado era desde logo
+Kalikodu, ou Calecut, como cá lhe chamavam, e onde Covilhan estivera.
+Vasco da Gama foi escolhido por D. Manuel (já a esse tempo D. João II
+tinha tres annos de fallecido) para commandar a expedição. Era um homem
+ousado mas prudente, e reunia ás qualidades militares as de marinheiro,
+cousa então commum, e depois ainda. Succedeu o mesmo a Affonso
+D'Albuquerque, a D. João de Castro, e a muitos outros; e a esta
+circumstancia deve dar-se um merecido alcance. A separação das aptidões
+não vinha embaraçar os planos; e havia uma unidade no mando, porque o
+capitão era tambem o piloto.
+
+O maior juizo e prudencia dirigiam os preparos da expedição. Pesavam-se
+e debatiam-se todas as noticias do Covilhan, commentando-as com os
+conhecimentos anteriores. Examinavam-se os roteiros e cartas; e
+Bartholomeu Dias de viva voz contava tudo o que lhe succedera, os
+embaraços com que havia a luctar, as difficuldades a vencer. Com a sua
+larga experiencia dirigia a construcção dos navios, banindo os exageros
+nas dimensões, recommendando a solidez dos cavernames. O descobridor do
+Cabo devia acompanhar a expedição até S. Jorge da Mina, e ficar ahi no
+_resgate_ do ouro. Eram quatro náus pequenas, para poderem entrar em
+todos os portos, visitar todas as angras, passar os baixios, ao longo
+das costas. A sua construcção ia aprimorada e forte, como jámais se
+vira: madeiras escolhidas, sans, e de exagerada grossura, pregadura bem
+atacada, demorado e cuidadoso calafeto. As attenções não eram menores
+com o equipamento: levavam tres _esquipações_ de velas armadas e mais
+apparelhos, cordoalha tres vezes dobrada, e mantimentos, armaria e
+bombardas em abastança. Levavam seis padrões de pedra lioz com o brazão
+portuguez e a esphera armillar, que o rei adoptara por emblema,
+esculpidos. Um havia de ser collocado na bahia de S. Braz, outro na foz
+do Zambeze, outro em Moçambique, outro em Melinde, outro em Calecut,
+outro na ilha de Santa Maria. Iam dois capellães a bordo de cada navio;
+iam linguas ou interpretes negros, cafres e arabes; iam dez condemnados
+para qualquer sacrificio necessario, e finalmente iam cento e quarenta e
+oito soldados. Tinham-se escolhido os melhores pilotos, e o rei não
+consentia que se poupasse em cousa alguma. Vinha em pessoa examinar o
+estaleiro, e demorava-se a conversar com os mestres, ouvindo as
+observações de Bartholomeu, de Pedro Dias, e Vasco da Gama, que lhe
+mostrava o novo astrolabio de Behaim, tosco triangulo de madeira, mas
+muito efficaz. Pelo modelo tinham-se mandado fazer outros, mais
+pequenos, de latão.
+
+Tres dos navios levavam os nomes dos tres archanjos: _S. Gabriel_,
+capitanea, de 120 toneis, _S. Miguel_ (antigamente _Berrio_) e _S.
+Raphael_ de 100 toneis. O nome do quarto, de 200 toneis, desconhece-se.
+
+No fim de junho estavam todos concluidos, promptos e fundeados no mar,
+em frente da egreja de Restello, onde os capitães velaram a noute de 7
+de julho. No dia seguinte, depois da missa, acompanhados pelo rei e por
+todo o povo da cidade, seguiram em procissão para a praia, cantando, com
+tochas nas mãos, e embarcaram.
+
+Diz Camões que, n'este momento,
+
+ ... hum velho d'aspeito venerando,
+ Que ficava nas praias entre a gente,
+ .....................................
+ C'hum saber só d'experiencias feito,
+ Taes palavras tirou do experto peito:
+ ......................................
+ Oh maldito o primeiro que no mundo
+ Nas ondas vela poz em sêcco lenho!
+
+No peito de muitos havia, com effeito, uma condemnação formal por essa
+teima persistente dos monarchas em sacrificar dinheiro e gente á chimera
+das navegações.[76] A prudencia de experiencias feita, ronceira e fria,
+não acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas. O
+resultado havia de votar contra ella; mas as palavras do poeta
+prophetisavam as consequencias funebres d'um imperio, que todos porém,
+os audazes e os prudentes, acclamaram quando Vasco da Gama voltou.
+Camões, assistindo já ao declinar do sol, pôde contar as fomes soffridas
+no mar, os temporaes e os naufragios, as peregrinações nos reinos
+adustos do terrivel Adamastor, e o collar de esqueletos brancos
+estendidos ao longo dos areaes das duas Africas--um rosario de tragedias
+funebres! Pôde tambem contar as ondas de protervia e crimes, d'esse mar
+da India, que se estirou até á Europa para afogar Portugal em vasa.
+
+ * * * * *
+
+Com sete dias de viagem, a 15 (julho), chegam ás Canarias, onde um
+nevoeiro dispersa a pequena frota, que, entre 23 e 27, se reunia outra
+vez em Cabo-Verde, para d'ahi partir em 3 de agosto. Tres mezes gastaram
+para descer até Santa Helena (nov. 7), onde refrescaram, porque tinham
+seguido ao largo, sem se internarem no golpho da Guiné. Desembarcaram
+tambem para reconhecer a altura, com o astrolabio, porque a bordo não
+lh'o consentiam os balanços dos navios; tiveram algumas escaramuças com
+os indigenas, e partiram afinal no dia 16 de novembro. A 19 estavam á
+vista do cabo Tormentoso ou da Boa-esperança, dois nomes que egualmente
+justificou d'esta vez. Tres dias alli andaram, batidos pelos temporaes.
+O vento e o mar eram tantos, que os navios mettiam as postiças debaixo
+de agua, e difficilmente se diria se andavam sobre as ondas, ou de
+envolta com ellas. No alto dos castellos, á pôpa, levavam as náus
+retabulos pintados, com a imagem dos santos do seu nome; e quando o mar
+lançava com estrepito os paineis, sobre o tendal, toda a tripulação das
+náus empallidecia de susto. Era um triste prognostico, e parecia que o
+favor divino os queria desamparar. Mares crueis e espantosos vinham pela
+pôpa arrebatando os bateis, arremeçando-os contra os costados das náus,
+avariando os lemes. Amainavam as velas, cortavam os tendaes, começavam a
+alijar carga ao mar... Por fim o tempo abonançou: «Nosso Senhor seja
+louvado, que nas maiores fortunas soccorre com a sua infinita
+misericordia!»
+
+Dobrado o cabo a 22, no dia 25 fundeavam na bahia de S. Braz, onde as
+calmarias os forçaram a demorar-se até 7 do mez seguinte. Navegando uma
+semana ao longo da costa austral d'Africa chegam a 15 aos ilheus-Chãos,
+derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dias. Começavam agora a seguir
+as instrucções do Covilhan, o piloto ausente pelas terras do
+Preste-Joham, a quem demandavam. Queriam seguir ao longo da costa, mas
+as correntes, a que haviam grande medo, lançavam-nos para o pélago do
+sul, vasto e perdido. Os marinheiros revoltam-se inutilmente: Vasco da
+Gama, como um destino, inexoravel e prudente na sua audacia, venceu as
+revoltas e as correntes.
+
+Saíam por fim do Mar Tenebroso, e só agora se podia considerar vencido o
+temivel cabo. As tempestades e as correntes amansaram. De dia a calma e
+o céu de azul puro: á noute, por duas ou tres vezes, no topo dos
+mastros, brilhava a luz de S. Fr. Pedro Gonçalves, o Sant'Elmo de
+Lisboa. Tudo eram promessas de bonança. Subiam aos mastros a vêr os
+signaes do milagre, e traziam, com devoção, os pingos de cera verde que
+o santo lá deixára. Ás vezes chegavam a brigar contra algum incredulo, e
+mais de um d'esses pagou _por ello_. Os marinheiros recordavam-se
+piamente do seu santo, que ficára em Lisboa, e de Xabregas, onde cada
+anno o levavam em procissão, vestindo o melhor que tinham, pondo os seus
+ouros, coroados de coentros e flores, com bailes, musicas, folias e
+merendas, pelas hortas do arrabalde. O bom santo protegia-os: já se não
+rebellavam, e alegres proseguiam, confiados tambem na pericia e valor do
+capitão, que os domava com intrepidez.
+
+A 10 de janeiro tomavam terra em Inhambane, communicando com os cafres:
+a 22 tinham subido até Quilimane, onde veem visital-os a bordo
+_fidalgos_, com toucas de seda lavradas na cabeça. Pela primeira vez
+chegavam _á India_. Viam gentes diversas, e signaes d'essa civilização
+distante, demandada com tanto ardor. Emergiam do mar d'Africa e da
+obscura sombra do continente negro. Esses _fidalgos_, para quem olhavam,
+porém, quasi com amor, como irmãos, seriam os seus mais crueis inimigos.
+
+Ficam um mez em Quilimane, para reparar os navios e restaurar a saude,
+porque o escrobuto começára a lavrar com força nas tripulações; e,
+partidos, chegam em 2 de março a Moçambique. Os symptomas anteriores
+augmentam: veem mais, muitos _fidalgos_: estão, decididamente, ás portas
+da India! vão afinal chegar ao imperio do Preste!
+
+O que observavam augmentava-lhes o desejo, avivando-lhes a curiosidade.
+Tudo era novo para elles, mas tudo avigorava as esperanças de virem a
+encher-se com o saque dessas cousas brilhantes, marfins e sedas, ouros e
+pedras, que luziam nos toucados e vestidos dos _fidalgos_ de Moçambique.
+Em volta da esquadrilha fundeada vogavam os navios da terra, sem coberta
+nem pregaria: as taboas cosidas a couro, e velas de esteiras de
+palma.[77] Os mouros vinham mercadejar com elles. O proprio
+sultão em pessoa quiz cumprimentar Vasco da Gama, que o recebeu a bordo.
+Pediu-lhe pilotos que o guiassem á India, á terra do Preste-Joham;
+pediu-lhe informações ácerca do famigerado imperador. O mouro disse-lhe
+que o Preste era um poderoso principe, com muitas cidades n'aquella
+costa, grandes navios e muita copia de mercadores: foi, pelo menos, isso
+o que Vasco da Gama percebeu, e taes novas encheram-no de alegria.
+
+Mostrou-se depois o sultão perfido, e a esquadrilha, sem os pilotos, foi
+seguindo, costeiramente até Mombas (8 de abril), onde um acaso a salvou
+da traição que _os mouros_ lhe preparavam. Elles tinham descortinado já
+perigosos concorrentes n'esses homens vindos por mar ás regiões que,
+desde a Arabia, o Egypto e a Nubia, eram até ahi imperio seu e
+indisputado. Salvo por um milagre, Vasco da Gama seguiu a Malinda (15),
+onde o _sultão_ o acolheu bem; mas não confiando mais n'esses _fidalgos_
+do Zamgebar, aproveitou de um mouro que se deixára ficar a bordo em
+Moçambique, e que succedeu conhecer a rota para Kalikodu. Fizeram-se ao
+mar, e em vinte e seis dias (24 de abril a 19 de maio) estavam na India.
+Durára a viagem dez mezes e onze dias.
+
+Foi então que o seu espanto chegou ao auge. Tudo o que já tinham visto
+não dava uma idéa, nem distante, do que viam agora, desembarcados. O
+esplendor e o fausto natural do Oriente enchiam-nos de admiração e
+cubiça; e na sua ignorancia religiosa viam por toda a parte os christãos
+do Preste. Os indigenas adoravam a Virgem Maria; e os nossos
+prostravam-se tambem deante de Nossa Senhora na pessoa de Gauri, a deusa
+branca, Sakti de Shiva, o destruidor. Esta confusão, augmentada ainda
+por não se entenderem no que diziam, dava logar a scenas ingenuamente
+comicas. Alguns, duvidosos, observavam que, se os idolos eram diabos, a
+sua reza era só para Deus; e com esta reserva mental ficavam quietos na
+consciencia. Para augmentar o espanto, veiu ter com elles um _mouro_ a
+falar portuguez: «Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas
+esmeraldas!»
+
+E nada d'isto era um sonho, eram «sem mentir, puras verdades.» Os
+indigenas abraçavam-nos, e os broncos alemtejanos, os beirões, os
+marinheiros do Tejo, ingenuos e ignorantes, abraçavam-nos tambem, na
+effusão de um instincto humano, como patricios. Dir-se-ia que se
+conheciam de muito, e que pouco ou nada os distinguia: de Lisboa á India
+era uma curta distancia, porque o sentimento não tem bitolas. Eram todos
+christãos, tambem tinham reis! o mundo era um só, e o homem o mesmo em
+toda a parte! A naturalidade ingenua com que se praticavam as maiores
+cousas, é a grande prova da força heroica dos homens da Renascença.
+
+Por esse tempo, na India--e com este nome designamos todas as costas e
+ilhas incluidas entre os meridianos de Suês e de Tidor, e entre 20° de
+latitude S. e 30° N., theatro das campanhas portuguezas--na India,
+dizemos, raças estranhas impunham uma especie de dominio em tudo
+similhante ao que foi depois o dos portuguezes: um monopolio
+commercial-maritimo, e como consequencia d'elle, feitorias, colonias e
+Estados. Os povos que nós iamos despojar d'esse dominio eram os arabes e
+os ethiopes, os persas, os turkomanos e os afghans, que, descendo do mar
+Vermelho e do mar da Arabia, confundidos na onda religiosa do islamismo,
+tinham avassalado a peninsula do Indo ao Ganges, e a Africa oriental
+desde Adal até Monomotapa. Estendendo-se para o extremo Oriente iam,
+como nós fomos, até Kambodja e Tidor nas Molucas, atravez do Arakan e do
+Pegu, da peninsula de Malaka e de Birma e Shan (Sião) no continente,
+atravez de Sumatra e Borneo e pelo meio do archipelago de Sunda. A todas
+essas gentes chamaram os portuguezes _mouros_,[78] expressão generica já
+usada na Europa para designar os sectarios do Islam, e por isso tambem
+adoptada agora que, tão longe e atravez de tantos mares, iamos
+encontrar-nos de novo, frente a frente, com o _turco_, antagonista do
+_christão_ em todo o mundo.
+
+«Al diablo que te doy! Quien te trouxe acá?» assim um mouro de Tunis, em
+Kalikodu, cumprimentava o portuguez; e como em Moçambique e em Mombas,
+os _mouros_ (usaremos d'ora ávante d'esta expressão generica, já
+explicada) induzem ou obrigam o Samudri-rajah (Çamorim), rei ou conde--a
+India vivia n'um regime simili-feodal--de Kalikodu, a exterminar os
+portuguezes. Kalikodu era o emporio commercial da costa do Malabar, e os
+dominios do seu rajah formavam o chamado reino de Kanará.
+
+Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era
+um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de
+Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que só veiu a
+differençar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por
+um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os
+navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma
+estação, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da
+Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98.
+Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da
+frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira,
+sepultar ahi o irmão que morrera no mar.
+
+O enthusiasmo foi grande em Lisboa, á chegada de Vasco da Gama: tambem
+D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o
+Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira
+vencer o Cabo e achar a India, mas não conseguira decifrar o enigma, que
+a este tempo já contava tres seculos de successivas indagações.
+
+Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a
+decifração do outro enigma, ainda maior--o do Mar Tenebroso. Pouco
+faltava já; e em vinte annos mais, não haveria, na rotunda superficie do
+globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta
+amplidão dos mares. «Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da
+terra e os mysterios e enganos do oceano», os portuguezes, com uma
+curiosidade heroica, tomaram em suas mãos o futuro da Europa, e do
+mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral,
+que para lá fôra mandado com uma imponente esquadra, não resiste á
+tentação da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direcção de leste,
+uma pergunta incessante o persegue: que haverá para o poente? Para esse
+lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haverá
+mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a
+vêr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com
+effeito, descobriu o Brazil;[79] a terra de oeste vinha, desde o extremo
+norte até ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios.
+Só então a America se pôde dizer inteiramente descoberta.
+
+A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na
+côrte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de
+fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao
+menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e,
+contadas, enchiam de cubiça o espirito de toda a gente. Cabral fôra
+mandado a isso, e não a descobrir terras: já eram demais as Cruzes, e os
+nomes do repertorio escasseavam já para denominar ilhas e cabos, portos
+e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras
+esperanças:
+
+«Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
+
+ * * * * *
+
+Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Além da
+necessidade de mostrar ao Çamorim perfido o poder do rei de Portugal,
+era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. Não podia
+ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingança.
+
+Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande
+armada á India; porque agora, sabido o caminho, não havia mais receios,
+nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotação dos navios. Pedro
+Alvares Cabral fôra nomeado almirante da frota, que contava treze náus,
+e levava mil e duzentos homens.
+
+A construcção dos navios tinha progredido com a frequencia e extenção
+das viagens. Naus e galés, embarcações de vela e remo, tinham-se
+preparado melhor, augmentando em dimensões. No primeiro quartel do XVI
+seculo, porém, quando a avidez commercial não pervertia ainda a
+prudencia, a lotação ordinaria não excedia 400 toneladas.[80]
+A náu navegava á vela, jogando dos costados a artilheria, no
+convez ou sob a coberta. Á pôpa e prôa, nos castellos, luxuosamente
+ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhões; e nos cestos
+de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um
+baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os
+mosqueteiros, e se passava á abordagem dos navios inimigos. Muitas náus
+andavam munidas de rostos ou esporões de aço nas prôas, para a
+investida. As galés, navios de remo, dividiam-se em _bastardas_ e
+_subtis_: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peças grossas;
+as segundas de 25 bancos e 5 peças apenas. A artilheria grossa jogava
+sómente á prôa, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porém,
+umas peças menores, a que se chamava _berços_. Havia, além d'isto, as
+_fustas_, galés pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas
+peças grossas. As galés, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham
+dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um só. Havia, porém, galés
+que, por se approximarem mais da armação das náus, se diziam
+_bastardas_: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas
+redondas, e cestos de gavea, como as náus.
+
+A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de
+março do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os
+viradores nos cabrestantes, melopêa triste e funebre como o mar; o surdo
+roçar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as
+manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio
+desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nação que tambem
+partia, no anno de 500, já confessada e bem disposta, para essa longa
+viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao
+cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como é o mar, mudo como elle é
+nas calmas funebres dos tropicos.
+
+Não havia protestos agora, senão esperanças, cubiças, ambições. Não
+partiam á aventura; partiam á conquista do que tinham descoberto, e
+queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o
+capitão levava cartas solemnes do rei para o Çamorim. Em troca d'ellas,
+da sua alliança, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as
+esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de
+Deus!
+
+Já na praia começava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa
+religião do commercio, erguido a Jesus e á Pimenta--os dois deuses que
+viviam no céu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados,
+mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.
+
+O almirante acaso pensava, já no Tejo, n'esse rumo de Oeste, o de
+Colombo, que o levaria á America; e porventura acreditava pouco na
+existencia do lendario Preste-Joham, por cuja causa tantas viagens se
+tinham feito. Não o mandavam descobrir, mandavam-no conquistar; mas elle
+queria tambem inscrever o seu nome na lista dos que, durante o seculo
+anterior, tinham pouco a pouco rasgado as trevas do mar mysterioso. A
+sua viagem, além de iniciar o dominio portuguez na India, teve, com
+effeito, as duas consequencias desejadas. Varreu as duas lendas, a do
+Preste e a do Mar Tenebroso: descobriu o Brazil, e veiu dizer a D.
+Manuel que o supposto imperador do Oriente era um miseravel rei preto,
+infiel, acantonado nas montanhas invias da Abyssinia.
+
+Atraz de uma lenda, attrahido por uma voragem, Portugal descobrira os
+continentes e ilhas do Atlantico e chegára á India. Por uma illusão,
+consummára a realidade que espantava o mundo inteiro. O mundo é uma
+miragem, e os homens sombras levadas pelos sabios ventos do destino...
+
+Reconhecidas as terras, sulcados os mares, por occidente e por oriente,
+faltava porém ainda reunir essas duas metades do mundo conhecido, e
+dar-lhe a volta, para se saber que cabia todo, inteiro, nas mãos do
+homem: eis ahi o valor da viagem de Magalhães, vinte annos mais tarde.
+
+Não ha mais trevas no mar; consummou-se a grande conquista. Mas uma nova
+empreza se desenha agora: devorar o descoberto, digerir o mundo.
+
+Portugal inteiro embarca para a India na esquadra de Cabral[81].
+
+ [75] V. _Regime das riquezas_, p. 109.
+
+ [76] V. _Hist. da repub. romana_, p. I, XIX, _intr._
+
+ [77] V. _Regime das riquezas_, pp. 85-6.
+
+ [78] V. nas _Raças humanas_, a ethnographia do Oriente a
+ pp. 70-85, 90-105 e 122-41 do vol. I.
+
+ [79] V. no _Brazil e as colon. port._ p. 3 (2.ª ed.) a descoberta
+ das costas brazileiras.
+
+ [80] V. no _Brazil e as colonias port._ (2.ª ed.) a composição
+ typo de uma nau da India, a p. 34 _nota_.
+
+ [81] _Hist. da republ. romana_, I, pp. 217-8.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+LIVRO QUARTO
+
+A VIAGEM DA INDIA
+
+
+ Dês o primeiro dia que com a vista a experiencia propria me acabei
+ de desenganar do grande erro que até alli me trazia a fama das
+ cousas da India... me nasceu logo um desejo ardentissimo de fazer
+ por esta via um grande e extraordinario serviço.
+
+ RODRIGUES DA SILVEIRA, _Reformação da milicia e governo do Estado da
+ India oriental._
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+I
+
+D. Francisco d'Almeida
+
+
+Em 13 de Setembro do anno de 500 chegou Cabral a Kalikodu. Não ia, como
+Vasco da Gama fôra--como descobridor; ia como embaixador, á frente de
+uma poderosa armada, para não ser tomado por pirata, mas sim pelo
+emissario, que era, do nobre monarcha portuguez, portador das suas
+cartas e propostas de alliança para o rajah de Kalikodu. Como tal foi
+effectivamente recebido, n'uma audiencia solemne. Os portuguezes,
+vestindo as suas melhores roupas, as suas armas mais bellas e polidas,
+pensavam impôr de ricos ao monarcha do Oriente; mas os representantes da
+pobre e forte Europa iam ficar deslumbrados com as magnificencias da
+India opulenta. O brilho das armaduras era offuscado pelo rutilar da
+pedraria «cujas chammas impediam a vista». O rajah vinha em um palanquim
+ou andor trazido aos hombros pelos nobres, recostado sobre almofadas de
+seda, entre colchas lavradas de fio de ouro caíndo em pregas franjadas
+com borlas cravejadas de pedras preciosas, e pannos de carbaso de linho
+finissimo, cuja alvura sorria ao lado da vermelhidão sanguinea das sedas
+e brocados. Corria a compasso o andor coberto por um pallio de seda
+franjado de ouro, e dentro d'este duplo sacrario via-se o rajah negro
+rutilante de pedras preciosas. Cegava olhal-o. Aos lados do pallio iam
+pagens com leques de pennas de pavão agitando o ar, e á beira do
+palanquim os que levavam as insignias da soberania: a espada e a adaga,
+e estoque de ouro, a flor de liz symbolica, o gomil de agua, e
+finalmente a copa onde o rei cuspia o betele, cujo mascar faz os dentes
+côr de rosa e dá «muito bom bafo».
+
+Em toda a volta e prolongando-se na cauda da procissão, charangas de
+musicos atroavam o ar com os seus tambores, com os tam-tams de prata e
+de ouro, suspensos por cordeis em bambus altos, com as trombetas
+enormes, umas rectas, outras curvas, levantadas para o ar, e que davam
+aos musicos o aspecto de elephantes com trombas douradas, cujos
+pavilhões se viam cravejados de rubis e esmeraldas. Vinha uma grande
+trompa de ouro levada por dois homens a cavallo! Os musicos, negros, iam
+nús, com manilhas nos braços e nas pernas, e á cinta um panno cobrindo
+as vergonhas. Nús iam os nayres e mais tropas do rajah, esgrimindo aos
+saltos em pyrrhicas singulares, parecendo atacados de furia, com as suas
+armas variadas: alfanges curvos para os golpes de cutilada, espadas
+largas e ponteagudas para as estocadas, espadas triangulares com o
+vertice nos copos e na ponta a base espalmada, arcos e molhos de frechas
+de bambu delgados, lanças com anneis tilintantes e guizos, correndo,
+saltando e gritando em brados: «Cucuya!» como na hora das batalhas. Mais
+ao largo, o povo mudo, n'uma impassibilidade de orientaes, olhava.
+
+A recepção do embaixador fez-se no _çarame_ do rajah, á beira-mar,
+pavilhão de fórma oitavada erguido sobre esteios, todo rendado de
+varandas e lavores, marchetado de marfim, chapeado de prata e ouro em
+folhas, com pinaculos e corucheos que se desenhavam levemente no fundo
+azul do ceu--tão azul como o do mar onde fundeava a esquadra de Pedro
+Alvares Cabral. Na longa praia apinhavam-se as choças dos pescadores e
+galeotes e por entre ellas a multidão negra, espantada. Para o interior
+avistava-se a cidade, com os palacios e jardins do rei, dos nobres e dos
+ricos, docemente abrigados contra o sol inclemente pela sombra dos
+palmares e dos bosques de arvores aromaticas. No meio de um turbilhão de
+gritos de guerra, de sons de trombetas, o cortejo encaminhou-se para o
+palacio do rajah.
+
+Ahi o Çamorim estava sentado sobre o véllo preto, insignia da realeza,
+no seu throno de prata com braços de ouro e as espaldas cravejadas de
+rubis, diamantes e esmeraldas, no meio da sua côrte, recostado em macias
+almofadas de seda, sobre fôfos tapetes da Persia, somnolento e immovel.
+Negro, nú, um véo de linho branco descia-lhe em pregas desde o umbigo
+até aos joelhos, com a ponta caída e n'ella enfiados anneis de ouro e
+rubis. Da extremidade pendia uma perola enorme. Os dedos, braços,
+estavam cobertos de anneis e manilhas. Das orelhas caíam arrecadas de
+ouro cravejadas: á cintura trazia um cinto de ouro. Ao pescoço collares
+roliços, de ouro tambem; e duas voltas de um fio de perolas, grandes
+como avellans, que desciam até ao umbigo, suspendiam um enorme coração
+de ouro encastoando a mais bella, a maior esmeralda. Nos cabellos
+compridos e apanhados em nó no alto da cabeça havia perolas e pingentes,
+e a corôa era um deslumbramento. O thesouro inteiro de Kalikodu saíra á
+luz. Ao lado do rajah, em pé, viam-se os pagens nús com pannos de
+purpura, apresentando as espadas e adagas de copos de ouro cravejados, e
+junto ao soberano o da copa de ouro com a toalha a tiracollo, e o da
+boceta cravejada de brilhantes, com o sal delido em agua de rosas, onde
+molhava as folhas de betele, antes de as dar ao brahmane-mór, que detraz
+das espaldas do throno as passava religiosamente ao rajah, para mascar.
+Outros pagens tinham as toalhas, perfumadas de almiscar, com que nas
+occasiões devidas esfregavam os braços e as pernas núas do soberano
+reluzentes de manilhas cravejadas de rubis. Em torno havia castellos de
+alfaias: vasos e urnas de bronze, de prata, de ouro, e os lampadarios de
+metal amarello sempre accesos, segundo os ritos ordenavam. Os escrivães,
+de pé, tinham debaixo do braço as longas folhas de palmeira, seccas,
+onde se registravam as leis e tratados, em sulcos abertos pelos
+estyletes de ferro, que balouçavam entre os dedos. Em frente de Pedro
+Alvares Cabral, que, sentado, lia a carta de D. Manoel em arabigo,
+estava a credencia com os presentes que trazia: uma taça e duas massas
+de prata, quatro almofadas de brocado e dois pannos de Arraz, de um
+desenho primoroso. A côrte, de pé, escutava em torno. Mais longe
+agrupavam-se as mulheres do rajah, untadas de sandalo, e núas da cintura
+para cima, com as cabeças coroadas de flôres, e collares de contas de
+ouro, e pedraria, manilhas grossas nas pernas, braceletes, e anneis
+fulgurantes. O rajah tinha mais de mil, entre amantes e varredeiras,
+escravas e embostadoras. Para além das columnatas de alabastro, nos
+pateos inundados de sol, viam-se os elephantes submissos, com os seus
+collares de campainhas e guizos, cobertos por xaireis de seda recamada
+de ouro; viam-se os pallios e leques do cortejo do soberano; os truões e
+os fakires, rebolando-se no chão, desgrenhados, a uivar gritos. Depois
+formavam alas, ou esgrimiam com tregeitos e cutiladas, os nayres,
+bucellarios do rajah, casta singular e polyandra de quem disse o poeta:
+«geraes são as mulheres porém sómente para os da geração de seus
+maridos.»[82] Mas o que sobretudo enchia de espanto e cubiça os
+portuguezes, envergonhados da sua pobreza, eram os rios luminosos da
+pedraria que, destacando-se do fundo acobreado das pelles indigenas, os
+cegavam: «As chammas que d'elles saíam impediam a vista!» Sobre o ouro
+de Sofala, eram os rubis do Pegú, os diamantes do Dekkan e de Narsinga,
+as saphiras de Simhala (Ceylão) e os seus topazios e turquezas,
+jacinthos e amethistas. Eram as bellas esmeraldas de Babylonia!
+
+De parte a parte, comtudo, passada a recepção solemne, não se entendiam
+bem; e os escrivães em balde mostravam as longas folhas de palmeira
+escriptas, agitando os estyletes de ferro, a indicar as passagens das
+leis que julgavam oppôr-se ao que pensavam serem os pedidos dos
+portuguezes. Estes, em tregeitos, esforçavam-se por lhes fazer perceber
+que queriam pôr alli feitorias, para trazerem por mar, para a Europa, as
+preciosidades da India; e não cessavam de affirmar quante el-rey de
+Portugal era poderoso e forte. Apesar de não ter tantos ouros nem
+pedrarias tinha o bronze das suas peças e o ferro das suas granadas!
+accrescentavam com decidida importancia. Os escrivães iam
+comprehendendo, desconfiados: e os portuguezes desconfiavam tambem dos
+sorrisos do rajah. Apesar d'isto, porém, foi concedido o que pediam; e
+Cabral fundou a primeira feitoria portugueza na India, em Kalikodu.
+
+Logo os mouros vieram reclamar contra os intrusos que os despojavam: e
+favorecidos pelo indigena, caíram sobre a feitoria, trucidando os
+portuguezes que lá havia: cincoenta ao todo. Começava a historia da
+India. Seguiram-se logo as terriveis represalias do almirante. Tomou dez
+náus de mercadores arabes, passou á espada mais de 500 homens
+tripulantes, e, bombardeando a cidade, poz-lhe fogo. O incendio de
+Kalikodu, em 16 de dezembro do anno 1500, era a funebre aurora da
+historia oriental. Se as pedrarias tinham cegado os olhos dos
+portuguezes, agora as chammas cegavam os olhos afflictos do rajah,
+n'essa noute de cruel memoria.
+
+Incendiada Kalikodu, o almirante foi com a esquadra entrar em Katchi
+(Cochim) um pouco ao sul, na mesma costa de Malabar, mas já para além
+dos dominios do rajah perfido de Kalikodu. O terror da recente façanha
+abriu-lhe os braços do pequeno soberano de Katchi; e fundou-se ahi, em
+boa paz e amizade, uma feitoria, tomando o almirante, entretanto,
+refens, para segurança. Triumphára; o brahmane rajah de Katchi,
+revoltára-se abertamente contra o Çamorim seu suzerano. No meiado de
+janeiro (1501) partiu Cabral para Kananor: ahi carregou as suas náus de
+pimenta e canella, e regressou ao reino. Dos treze navios com que
+partira um anno antes, apenas tres o acompanhavam: cinco, desgarrados,
+voltaram por diversas vias, e outros cinco foram tragados pelo Mar
+Tenebroso. Esse inimigo terrivel, embora vencido, não estava domado, e a
+primeira expedição da India, este primeiro acto da tragedia de mais de
+um seculo, esboçava já todos os elementos da acção: assassinatos e
+incendios, morticinios e naufragios; a espada e a pimenta; as armas do
+guerreiro em uma das mãos, as balanças do mercador na outra; uma
+Carthago moderna--e, no fundo, a voragem aberta do mar, prompto a
+devorar homens, navios e riquezas; a fonte perenne do vicio, entornando
+caudaes de torpezas!
+
+ * * * * *
+
+Da curta historia anterior da India resultavam dois factos: a inimisade
+perfida do rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar
+terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a ultima, foi o
+principal motivo da segunda armada, que em 1502 (fevereiro) partiu de
+Lisboa para o Oriente, sob o commando de Vasco da Gama, o capitão
+desapiedado, o fidalgo offendido nos brios pelo miseravel _Çamorim_.
+
+A historia da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova
+d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe
+no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeição ou
+na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se
+taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram os seus actos, a sua
+campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as
+largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a
+India com a crueldade das suas façanhas, e a dominal-a com o terror dos
+seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes, é a
+imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube
+vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama
+pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do
+povo portuguez, acreditou e disse que até as proprias ondas tremiam com
+medo nosso--com medo d'elle!
+
+Navegando porém no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de
+metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma náu de mercadores
+arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes á santa
+Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens
+passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de
+1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda
+horrorisado, ao recordar como a náu foi cobardemente incendiada, com
+todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia
+a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: «Tomámos uma náu de
+Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanças;
+e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos
+10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por
+meio de polvora, no 1.º de outubro.» Satisfeito de si, o capitão rumou
+para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulsão de todos os mouros,
+que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que
+qualquer creado d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, _Çamorim_; e
+que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!--Como era de
+vêr, o rajah recusou; e o capitão que, ao fundear, apresára um numero
+consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as
+mãos, e amontoados n'um barco, foram com a maré varar na praia, levando
+a resposta do Gama á recusa do afflicto principe.[83] Começou logo o
+bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e á população em
+choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros,
+abrigados detraz das amuradas dos navios, junto ás peças que vomitavam
+fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas
+lanças e as settas dos indigenas não podiam medir-se com as granadas,
+despedidas de longe, de bordo das náus. O Gama, cada vez mais satisfeito
+de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao
+reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma
+custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava
+desforra que tomára: o _Çamorim_ estava punido!
+
+Deixára o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de
+Vicente Sodré, personagem tão eminentemente celebre como o proprio
+almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as façanhas brutaes e
+estrondosas; o outro queria mais á pirataria e ao roubo. Com effeito,
+assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando
+porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle
+a expulsão dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao
+poderoso rajah do Canará ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a
+decomposição do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu,
+implorando o auxilio do Sodré, que pouco se lhe dava da feitoria, e a
+abandonou para ir ao corso das náus de Meka: era trabalho de mais
+proveito e menor risco piratear de parceria com a corôa portugueza nas
+costas de Adal e da Arabia, á embocadura do mar Vermelho.[84]
+O producto das náus de Meka pertencia, metade ao rei de
+Portugal, metade ás tripulações: cabendo aos soldados uma parte, aos
+marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e
+outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de braço dado com a Corôa.
+
+Vicente Sodré andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Lourenço, por sua
+conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caçava navios e cobrava
+tributos aos sultões.
+
+O dominio portuguez adquiria logo de começo o caracter duplo que jámais
+perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisação e de
+ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de
+depredações sanguinarias. Vasco da Gama ensinára o modo de imperar com o
+fogo e o sangue; Sodré indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem,
+as náus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do
+dominio portuguez, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.
+
+Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores
+da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia
+de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque
+e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra
+com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India.
+Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e
+navios preparados para o ataque. O heroe--porque este bateu-se como uma
+féra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e
+bravamente--desde logo disse que _toda a festa havia de ser de
+artilheria_. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeço,
+principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e
+bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica a
+possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente
+auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se dão ao
+exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria
+auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de
+metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que
+vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e
+lanças investindo por terra. Mas nem por si só a artilheria seria capaz
+de resistir á onda massiça das columnas inimigas, se a coragem, a
+rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade--póde dizer-se assim--do
+primeiro heroe soldado do Oriente não animasse os poderosos meios de
+defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela
+derrota do Samudri-rajah.
+
+A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505)
+Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas,
+mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar á capitania de S. Jorge da
+Mina, para de lá vir em ferros por _capitulos_ que d'elle deram; para
+jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte
+d'este heroe, diz Goes, «foi de calidade que se pode d'elle tirar
+exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e
+da pouca lembrança que muitas vezes tem d'aquelles a que são em
+obrigação.» Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por
+capitão do mar, Telles Barreto com a missão de _correr as náus de Meca_.
+A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco--um infeliz!--e uma carga
+abundante de especiarias e cousas ricas. A côrte, o rei, em Lisboa,
+quizeram muito mais ás segundas, do que ao primeiro.
+
+Entretanto a este devia D. Manuel a consolidação do seu imperio
+oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrára aos naturaes e aos
+arabes que os portuguezes não eram apenas piratas; e podiam fazer mais
+do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar náus de
+indefesos mercadores e romeiros. A façanha de Katchi fôra o baptismo de
+sangue do novo imperio; e o baluarte, de pé, atestava a força dos novos
+dominadores.
+
+Mas já do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a
+inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os
+homens do ultramar se abocanhavam na côrte; e a inepcia do governo do
+rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das
+accusações, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o
+favoritismo.
+
+Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia já uma
+fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes
+pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas náus de Meka iam
+sendo apresadas. Esboçava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas já
+por fórma tão decisiva, que era mistér organisal-o, dar-lhe uma lei e
+uma direcção.
+
+ * * * * *
+
+D. Francisco de Almeida foi o homem escolhido para governador da India,
+constituida em vice-reino. Das tres successivas phisionomias que o
+imperio portuguez no Oriente apresenta, é elle quem lhe imprime a
+primeira; dos tres vice-reis mais notaveis, é elle o primeiro tambem.
+Sem o heroismo antigo de Albuquerque, um Annibal;[85] sem a
+sympathica pureza ingenua de um Castro, imitador fiel dos typos de
+Plutarcho; Francisco de Almeida, valente como soldado, habil como
+almirante, é sobretudo um estadista.
+
+Pondo de parte o merecimento absoluto d'essa politica commercial,
+fecundo systema de explorar uma região inteira, fielmente executado mais
+tarde e com tamanho exito pelos hollandezes, o facto é que, para
+conseguir o fim desejado de roubar aos arabes o imperio, e a venezianos
+e arabes o commercio do Oriente, a politica de Francisco de Almeida, sem
+grandeza, é lucida, perspicaz e forte. O governo da India formou tres
+grandes homens: Castro, que se póde dizer um santo; Albuquerque, a quem
+melhor cabe o nome de heroe: Almeida, que é um sabio administrador, um
+feitor intelligente.
+
+No seu caminho para a India, o primeiro viso-rei foi ajustar as contas
+antigas com o sultão de Mombas, e arrazou-lhe a cidade (1505, agosto
+14.) Levava tambem ordens para construir fortalezas em Quilua, Kananor,
+Anjediva, além da de Katchi, que seria augmentada e reparada, depois dos
+damnos soffridos no anno anterior. Não iam então as ambições do governo,
+no reino, mais além d'esse pedaço da costa oriental da Africa, com as
+estações fronteiras na costa do Malabar. Entretanto no pensamento do
+viso-rei, maduro pela observação local e pela prova de uma primeira
+guerra maritima com que o impenitente rajah de Kalikodu o recebera,
+formulava-se já todo o seu plano de dominio. Não duvidou expol-o a D.
+Manuel na carta que lhe escreveu, e que é um dos documentos mais
+importantes da historia portugueza no Oriente.
+
+Toda a nossa força seja no mar, dizia; desistamos de nos apropriar da
+terra. As tradições antigas de conquista, o imperio sobre reinos tão
+distantes, não convém.[86] Destruamos estas gentes novas
+(os arabes, afghans, ethiopes, turkomanos) e assentemos as velhas e
+naturaes d'esta terra e costa: depois iremos mais longe. Com as nossas
+esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indigenas, em cujo nome
+reinaremos de facto sobre a India; e se o que queremos são os productos
+d'ella, o nosso imperio maritimo assegurará o monopolio portuguez,
+contra o turco e o veneziano. Imponhamos pesados tributos, exageremos o
+preço das licenças (_cartazes_) para as náus dos mouros navegarem nos
+mares da India e isso as expulsará: as nossas armadas darão corso aos
+contrabandos. Não é mal decerto que tenhamos algumas fortalezas ao longo
+das costas, mas sómente para proteger as feitorias de um golpe de mão;
+porque a verdadeira segurança d'ellas estará na amisade dos rajahs
+indigenas, por nós collocados nos seus thronos, por nossas armadas
+apoiados e defendidos. Substituamo-nos, pura e simplesmente, ao turco; e
+abandonemos a idéa de conquistas, para não padecermos das molestias de
+Alexandre. O que até agora se tem feito é uma anarchia e um esboço
+apenas; um systema de matanças, de piratarias e desordens, a que é
+mistér pôr cobro.--A primeira condição de um imperio seguro é um
+pensamento definido, e tal era o do viso-rei.
+
+As difficuldades appareciam-lhe tanto mais fortes, quanto «as guerras
+passadas eram com bestas, agora as temos com venezianos e turcos do
+Soldão». Com effeito, a antiga impunidade, de que os nossos gosavam á
+sombra da artilheria, desapparecia, desde que o veneziano e o do Egypto,
+vendo em perigo o seu poder no Oriente, tinham lançado ao mar Vermelho
+uma esquadra poderosa, e tão bem artilhada como as nossas. A guerra
+tomava um caracter novo; e os portuguezes já não se encontravam apenas a
+braços com as armas brancas do indigena. Apparecera a polvora do lado
+dos inimigos; e a esta grave e nova phase das cousas veiu juntar-se, no
+animo do viso-rei, o resultado cruel da temeridade do filho, que em
+Tchala (Chaul) morrera batido pela esquadra egypcia: a armada de
+_Mirocem, capitão-mór do Soldão do Gram Cairo e de Babylonia_--como se
+dizia no tempo.
+
+Confirmando a doutrina com o exemplo, esporeado pelo desejo de vingar a
+morte do filho,[87] e pela necessidade de destruir essa
+armada que ameaçava matar á nascença o dominio portuguez na India.
+
+ ... vem o pae com animo estupendo,
+ Trazendo furia e magoa por antolhos.
+
+Descendo pelo Mar Vermelho, a esquadra egypcia viera deitar ferro em
+Diu, na costa do Gujerât (Guzarate), impondo ao indio a obrigação de ser
+defendido. Entre _mouros_ e portuguezes, que uns a outros disputavam a
+presa do commercio do Oriente, os rajahs, perseguidos pela protecção de
+ambos, não sabiam as mais das vezes por quem se decidir, incertos do
+lado para onde a victoria final penderia. Os vencedores foram sempre os
+fieis alliados de todos os fracos. Tal era a situação do indio de Diu.
+Não teve remedio senão acompanhar os rumes, e aprisionar os portuguezes
+da esquadra batida de Lourenço d'Almeida, guardando-os como penhor, e
+base de argumentos e desculpas para com o viso-rei--caso este vencesse
+com a nova armada em que vinha.
+
+Effectivamente D. Francisco d'Almeida subia ao longo da costa, deixando
+apoz si o rasto de cinzas e sangue, que por toda a parte annunciava a
+passagem dos portuguezes. As faulhas do incendio de Deval (Dabul) e os
+lamentos da população dispersa chegavam até á ria onde fundeavam as
+esquadras do egypcio e do de Diu, já engrossadas com as trezentas fustas
+que o de Kalikodu enviára tambem, para vêr se conseguia exterminar por
+uma vez os incommodos visitantes.
+
+O egypcio, apesar de victorioso, temia o viso-rei; e fundeada a
+esquadra, dispozera que picassem as amarras os navios assim que fossem
+abalroados, dando á costa, e arrastando comsigo os portuguezes, sobre os
+quaes as lanchas e fustas dos indios cairiam então desapiedadamente. Mas
+o viso-rei, percebendo o ardil, mandou preparar as ancoras á pôpa, e os
+navios inimigos foram sosinhos varar na praia. Era 3 de fevereiro (1509)
+festa de S. Braz, pelo meio dia. A viração do mar soprava fresca pela
+pôpa dos navios portuguezes, quando a _capitaina_ desfraldou o guião
+azul á prôa e, toda empavezada, no meio dos gritos de «Senhor Deus;
+misericordia! Santiago!» ao som das charangas de trombetas, soltou a
+primeira banda de artilheria. Um clamor immenso de vozes, de trompas, de
+tiros lhe respondeu, e a batalha generalisou-se com artilheria e arma
+branca, á abordagem. A confusão de gentes que alli combatiam era
+inextricavel; e os pavilhões da Cruz e do Crescente, erguidos nos
+mastros dos navios, abrigavam os sentimentos mais extravagantes, as
+crenças mais disparatadas. É que não se combatia, nem pela fé, nem pela
+patria: disputava-se com furor o saque da India; e a cubiça torna irmãos
+os homens de todas as fés, os filhos de todas as raças. Havia allemães e
+francezes por bombardeiros a bordo das náus portuguezas; havia indios,
+brahmanes e até _mouros_. Havia, do lado opposto, na confusão dos
+navios, desde o nubio até ao arabe, desde o ethiope até ao afghan; havia
+musulmanos de toda a casta, persas, e _rumes_ do Egypto--mercenarios de
+todas as partes, a que se dava este nome generico; havia ao lado da
+multidão dos infieis, o veneziano, renegado ou catholico, mas sobretudo
+mercador, que por ordem da sua republica vinha como artilheiro defender,
+no mar da India, os interesses solidarios dos seus socios no commercio
+oriental. Em volta da população confusa da esquadra dos _rumes_,
+apinhava-se em seus juncos a massa obscura dos indios, de Diu no
+Gujerât, de Kalikodu no Kanará.
+
+Os navios portuguezes eram poucos, mas solidos, e ainda bem construidos
+e artilhados; as suas guarnições não excediam mil homens. Eram náus
+principalmente; mas tambem galés, _bastardas_ e _subtis_, e _fustas_--os
+_avisos_ d'essas antigas esquadras. As náus vomitavam fogo das amuradas.
+Nos castellos de pôpa e prôa fusilava a artilharia menor, baptisada com
+os nomes da monteria feodal, _aguias_, _sacres_ e _falcões_, _leões_ e
+_serpes_, _pedreiras_ que arrojavam balas de granito, _berços_,
+_camellos_, _colubrinas_ e _esperas_. Nos bailéos, de pôpa á prôa, os
+mosqueteiros despediam continuas surriadas de balas; e as xaretas de
+corda, presas nas amuradas, defendiam as náus das abordagens dos juncos
+e galeotas dos indios. A bordo das galés, o capitão sobre o
+chapiteu--Jesus! S. Thomé! Ave-Maria!--excitava os soldados que, de
+espada e rodella, se juntavam á prôa para a abordagem dos navios
+inimigos, ou da pôpa, a tiros, caçavam mouros. As enxarcias appareciam
+crivadas de settas. Da prôa tambem, o castello das galés vomitava fogo;
+e o ligeiro navio, caíndo perpendicularmente sobre o contrario,
+rasgava-lhe o ventre com o esporão, despedaçava-lhe os remos, crivava-o
+de balas. Sentados os forçados, nús e negros, acorrentados aos bancos,
+remavam agil e poderosamente; obedecendo aos gritos do comitre que, de
+espada em punho, corria na coxia, entre as platéas dos bancos,
+distribuindo cutiladas. Sob a coberta, junto ao paiol defendido por
+colchas e cobertores escorrendo agua, o capitão-do-fogo distribuia a
+polvora, tirando-a ás gamellas dos caldeirões. E os bombardeiros, com os
+murrões e bota-fogos a bom resguardo, obedeciam á ordem de atirar. Os
+bailéus, d'onde a taifa dos soldados se lançava ás abordagens, defendiam
+com a mosqueteria os remeiros; e as velas estavam carregadas nos
+mastros, por causa dos incendios. O fogo punha um elemento novo n'este
+antigo modo de batalhar no mar.[88] No meio do enxame das galés e
+caravelas,[89] correndo á caça dos paráos fugitivos, os navios de vela,
+de typos novos, náus e galeões, urcas e carracas, eram como fortalezas
+fluctuantes, vomitando lume, estrondos, fumo, naufragios e morte.
+
+Tingiram-se mais uma vez de vermelho as aguas do mar das Indias;
+morreram innumeros; boiavam feridos, pedindo misericordia e recebendo
+tiros: e por fim, depois de todos os episodios e scenas proprias d'estas
+tragedias, a victoria foi pelo vice-rei que destruiu rumes e indios.
+Esta batalha naval tinha uma importancia superior ainda á das victorias
+de Duarte Pacheco em Katchi: porque os indios, meditando e observando,
+reconheciam que a phalange portugueza não era só invencivel para elles:
+era-o tambem para os rumes do Egypto, e para a artilharia de Veneza...
+
+O de Diu, que estivera sempre indeciso, ao vêr o resultado da batalha,
+veiu pressuroso, desculpar-se, entregar logo os prisioneiros da empreza
+anterior. Guardára-os para os salvar das garras ferozes dos rumes, a
+quem desejava todo o mal, sem lhes ter podido resistir. Mandava-os
+carregados de presentes e parabens, por tão grande victoria, que o
+libertava da odiosa tyrannia dos rumes.
+
+No chapiteu da sua náu, o almirante e vice-rei contemplava a scena de
+carnagem, agora muda, e os destroços que boiavam com os cadaveres no mar
+tinto em sangue; e estava glorioso e contente no meio dos seus, que
+contavam com verbosidade os episodios, o que tinham feito, como se
+tinham saído, cada qual de seu lance... quando chegaram á borda, n'uma
+almadia, os prisioneiros forros, gritando alegres, a pedir que os
+recebessem. O vice-rei lembrou-se então que lhe faltava o filho, e «se
+foi assentar na tolda com um lenço na mão, que não podia estancar as
+lagrimas que lhe corriam!» Acudiram todos a consolal-o; e elle,
+tomando-lhe os animos, ergueu-se, e disse-lhes enxugando os olhos, e
+tratando-os por filhos, que isso já passára e traspassára a sua alma,
+que se alegrassem todos agora com a boa vingança que Nosso Senhor por
+sua misericordia lhes dava!
+
+E regressando, conformado com a sua sorte, ao passar em frente de
+Kananor, salvou á terra para celebrar a victoria; mas, para acabar de
+vingar a morte do filho, mandou amarrar prisioneiros ás boccas das
+bombardas, e as cabeças e membros despedaçados dos infelizes iam cair na
+cidade como pelouros... A morte do filho transtornára o seu lucido
+espirito, mudando as suas opiniões antigas de estadista n'um furor
+carniceiro, attestado pela devastação da costa do Gujerât. Cedêra tambem
+ás intrigas e maledicencias dos capitães que tinham vindo de Hormuz,
+fugindo ao mando terrivel de Albuquerque, atemorisados pela loucura das
+suas emprezas tytanicas. Bulhavam, o governador que acabava o praso do
+governo, e Albuquerque já nomeado de Lisboa para lhe succeder; e á côrte
+haviam chegado noticias perfidas de excessos commettidos pelo sabio
+vice-rei. Em paga dos seus trabalhos esperava-o a masmorra de Duarte
+Pacheco; porém, na viagem para o reino, deu á costa da Cafraria, o foi
+morto pelos negros ás pedradas e zagunchadas.
+
+ * * * * *
+
+O seu plano de governo, por ser sabio, era chimerico, pois que a India
+era uma loucura. Só homens de genio, como Albuquerque, poderiam tornar
+grande uma empreza condemnada; só, como Castro, um santo podia resalvar
+o brio portuguez da nodoa de uma ignominia formal.
+
+Para que o nosso dominio fosse maritimo e mercantil apenas, era
+necessario que essas tradições estivessem na alma portugueza, como
+tinham estado, n'outras edades, na alma de Carthago, e como agora
+estavam na de Veneza. Em Portugal, o espirito patrio fôra formado pela
+religião e pela cavallaria; e exigir dos soldados d'Africa que não
+desembarcassem dos navios, convencel-os de que o verdadeiro modo de
+conquistar fosse prescindir do governo, era querer uma cousa impossivel.
+Alargar, ao contrario, os dominios portuguezes, avassallar territorios,
+fazer conquistas, e crear um imperio á antiga, como o de Alexandre e o
+dos romanos, era o pensamento commum--naturalmente deduzido dos
+antecedentes militares da nação, e agora fomentado de um modo especial
+pela cultura classica, enlevo de todos os bons espiritos da Europa. A
+idéa de que Portugal era uma Roma preoccupava os reis e os escriptores,
+que se fatigavam a procurar origens e a indicar analogias, de certo
+verdadeiras. Albuquerque fez vivo em si um tal pensamento, e viu-se o
+Scipião d'essa Roma[90], ou antes o Alexandre da nova Grecia.
+
+Além dos motivos intimos que tornavam inacceitavel a politica commercial
+e maritima do primeiro vice-rei da India, havia motivos mais praticos.
+Uma das suas justas exigencias era a da prohibição do commercio aos
+soldados, magistrados e capitães do Oriente. Com effeito, o dominio, tal
+como elle o concebia, não era um saque: era uma protecção armada a um
+commercio, franco por um lado, monopolio do Estado, ou apanagio da
+corôa, pelo outro. Os capitães e governadores seriam simultaneamente
+agentes commerciaes de S. A., excelso mercador da Pimenta. Isto exigia
+uma fleugma de que só os hollandezes foram capazes, e ainda assim á
+custa de salarios que supprimem as tentações.
+
+Desde que o rei era o primeiro negociante, porque não seria o vice-rei o
+segundo, os capitães das fortalezas e das armadas os terceiros, os
+soldados os derradeiros? Só isto era, evidentemente, logico; e, apesar
+de todas as confusões, quem bem observa, descobre sempre que a historia
+obedece á logica. Ninguem distinguia bem, na era de 500, entre a pessoa
+individual do rei e a pessoa abstracta ou symbolica do monarcha. Não se
+separavam Rei e Estado; e só com esta perspicacia moderna poderia
+convencer-se o rude soldado da India de que o commercio, bom para o rei,
+era mau para elle; de que uma virtude podia ser um vicio, por mudarem as
+condições. Além d'isto, os portuguezes lançavam-se, famintos, ao
+banquete do Oriente, como seculos antes os povos do norte, ao banquete
+da Gallia, da India, da Hespanha[91]. Ninguem seria capaz
+de lhes arrancar dos dentes essas carnes palpitantes, que devoravam com
+ancia; e eram inevitaveis as consequencias funestas, que D. Francisco
+d'Almeida previa sabiamente.
+
+Fleugmatico e pontual no cumprimento dos seus deveres duplos de capitão
+e caixeiro, o vice-rei, ao mesmo tempo que expunha para Lisboa os seus
+planos de governo, mandava os seus relatorios commerciaes, como um
+correspondente ao seu patrão de Genova ou de Veneza. O vice-rei estudára
+como geographo o Oriente; e para fundamentar o seu plano de imperio
+maritimo dizia, com Barros, que a India «tem entradas e saídas de que
+seu commercio vive, e que são como o corpo animado, que, se lhe tiram a
+entrada e saída das cousas que o sustentam, não tem mais vida.» O
+principal estado consiste na navegação, escrevia o vice-rei; só com ella
+se governará no mar Vermelho e no golpho persico, essas duas correntes
+da exportação da India; só com ella na peninsula de Malaka, que é a
+transição da India para o extremo Oriente; só com ella manteremos o
+privilegio da passagem do cabo da Boa-Esperança, caminho que descobrimos
+para a Europa. Albuquerque em Hormuz, em Goa, em Malaka, assentou na
+terra firme os limites do imperio que para o seu antecessor devia vogar
+fluctuante sobre as ondas.
+
+Estadista e geographo, D. Francisco d'Almeida era ao mesmo tempo um
+mercador cuidadoso e até habil. Dava ao rei minuciosas informações dos
+generos, preços e pezos. «E o lacre que V. A. diz lhe mande, será
+maravilha haver-se, porque estas náus (portadoras de cartas) partem
+cedo, e as náus que o trazem do Pegú e Martamão (Martaban) veem tarde.
+Espero por uma boa somma d'elle, porque o tenho mandado trazer... E assi
+V. A. me manda que a pimenta vá limpa e secca, e que o pezo se faça com
+nossas balanças e pezos... e dá-se tal aviamento que, com duas balanças,
+té vespora pesaram mil quintaes. Se os navios não chegassem tão
+avariados, em vinte dias carregariam e partiriam. O baar de Cochim
+(Katchi) tem tres quintaes e trinta arrateis de pezo velho, e custa o
+quintal mil e quinhentos réis e meio.--Mandei noticiar com pregões que
+todos trouxessem pimenta, e que logo se lhes pagaria á vista: é o meio
+de bater os mouros, que são regatões e compram fiado. Acodem os gentios
+com pimenta, e levam o cobre muito alegres.--Quanto á pimenta e drogas
+que vão ao Levante, são de Malaca, Sumatra e Diu, onde nasce muita
+pimenta longa e redonda, e muito bem sei por onde passa e em que tempo:
+falta-me o principal.--O aljofar e perolas que me manda que lhe envie
+não os posso haver, que os ha em Ceylão e Carle (?); os sinabafos,
+porcellanas e mais cousas de jaez são de mais longe. As escravas que
+quer, tomam-se depressa: que as gentias d'esta terra são pretas e
+mancebas do mundo, como chegam a dez annos.--Tem cobre aqui para cinco
+annos, vermelhão sem numero, chumbo e azougue, pannos de lan a
+apodrecer, escarlatas, espelhos, oculos, chapéus, e sellas ginetas, que
+é mui certa mercadoria para cá.» E continúa assim, misturando toda a
+especie de mercadoria, desde as escravas mancebas do mundo, até ás
+perolas e aljofar.--Porque não manda S. A. papel? Seria um excellente
+negocio.»
+
+Eis ahi o motivo intimo, o principio fundamental, o cuidado superior do
+rei e dos seus governadores na India.[92] D. Manuel perdoava tudo, os
+crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incendios e as
+piratarias, com tanto que lhe mandassem o que elle sobretudo
+ambicionava: curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços
+de Lisboa, e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnifica embaixada.
+«Manda pimenta e deita-te a dormir», dizia mais tarde, da côrte para a
+India, Tristão da Cunha, ao filho Nuno, governador. O saque do
+Oriente--este é o nome que melhor convém ao nosso dominio--ia ordenado
+de Lisboa.
+
+ [82] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 264-7.
+
+ [83] «Então mandou aos bateis que fossem roubar os pageres (barcos)
+ que eram dezeseis e as duas náos, em que todos acharam arroz e
+ muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Então tudo
+ isto recolheram aos navios e a gente toda das náos grandes, e
+ mandou que recolhessem o arroz que quizessem, que tomaram quatro
+ pageres, que vasaram, que não quizeram mais. Então o Capitão-mór
+ mandou a toda a gente cortar as mãos e orelhas e narizes e tudo
+ isto metter em um pager, em o qual mandou metter o frade tambem
+ sem orelhas, nem narizes, nem mãos, que lhas mandou atar ao
+ pescoço com uma ola (folha, carta) para el-rey em que lhe dizia
+ que mandasse fazer caril para comer do que lhe levava o
+ seu _frade_.
+
+ E a todos os negros, assim justiçados, mandou atar os pés,
+ porque não tinham mãos para se desatarem, e porque se não
+ desatassem com os dentes com páos lhes mandou dar n'elles
+ que nas bocas lh'os metteram por dentro, e foram assim
+ carregados uns sobre os outros embrulhados no sangue que d'elles
+ corria e mandou sobre elles deitar esteiras e ola secca e lhe
+ mandou dar as vélas para terra com o fogo posto, que eram mais
+ de 800 mouros, e o pager do _frade_ com todas as mãos e orelhas
+ tambem á véla para terra sem fogo, com que foram logo ter a
+ terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que
+ acharam vivos com que fizeram seus grandes prantos.»
+ Gaspar Correia, _Lendas_, I, p. 302.
+
+ [84] «... em que no mar tomaram náos de Cambaya e Calecut que iam
+ para Meka, a que roubaram o melhor que acharam de que se
+ carregaram os navios e caravellas quanto poderam e mormente
+ roupas de muito preço e muitos mantimentos e mouros para dar
+ ás bombas, e não se occuparam em carregar os navios de pimenta
+ e drogas que levavam as náos de Calecut que a todas, umas e
+ outras, poseram fogo e queimaram com toda a gente sem a nenhum
+ darem vida, mas Vicente Sodré mandou que os Mouros que tinham
+ tomado para a bomba todos os tornaram com os outros e todos
+ forão mortos.» Gaspar Correia, _Lendas_, I, pp. 365-6.
+
+ [85] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 215-80.
+
+ [86] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 211 e segg.
+
+ [87] «O Viso rey estava assentado em uma janella que vinha sobre
+ a praya com o Capitão e com outros fidalgos, e vendo o geito
+ da caravella e o capitão d'ella d'arte que desembarcava, se
+ tirou da janella e se assentou dentro em uma cadeira e poz
+ o braço na cadeira e sobre a mão encostou a face direita e disse:
+
+ --Esta caravella me traz a nova que eu tenho no coração; pois
+ que as náos de Cochim vieram sem meu filho, é que elle é morto.
+
+ Ao que o Camacho entrou com grande tristeza no rosto, o qual
+ antes que fallasse, o Viso rey lhe fallou dizendo:
+
+ --Camacho, ainda que meu filho seja morto, porque não salvaste
+ esta fortaleza: pois não é do pae do morto? Que meu filho não
+ era mais que um só homem... Nem me fica outro.
+
+ O Camacho não lhe respondeu, mas poz os joelhos no chão e com
+ muitas lagrimas disse:
+
+ --Senhor, Nossa Senhora perdeu a seu bento filho posto na Cruz
+ entre dois ladrões, e vós perdestes o vosso filho pelejando com
+ os turcos do Soldão.
+
+ O Viso rey com o rosto muy seguro lhe disse:
+
+ --Ora vos ide a descançar e mandae á caravella que faça sua
+ costumada salva e eu mandarei na Egreja fazer signal pelo
+ defunto e acodirá gente e lhe dirão paternosters pela alma,
+ porque quem o frangão comeu hade comer o galo ou pagal-o.
+
+ Com o que se recolheu para uma ante-camara, onde assentado, o
+ Capitão e fidalgos moveram pratica de sustancias consolatorias
+ para abrandar tamanha dor como sentiam que o pae devia ter com
+ a morte de tal filho. Ao que o Viso rey lhes foi á mão, dizendo:
+
+ --Eu não me posso escusar da dor que a carne me dá, como pae,
+ de força da natureza, mas espero em Nosso Senhor que me ajudará
+ por sua misericordia, e com a ajuda de meus amigos ma dará
+ alegria n'esta dor que ora tenho, em que acabando a vida será
+ para mim o mór descanço. Vão-se Vossas Mercês embora, que as
+ palavras de conforto são das mulheres para suas amigas, quando
+ pranteam seus filhos mortos em acontecimentos como ora foi
+ d'este meu.
+
+ E lhes fazendo sua cortesia se recolheu á sua camara.»
+ Gaspar Correia, _Lendas_, I, 775.
+
+ [88] V. quadros das batalhas navaes dos antigos, _Hist. da republ.
+ romana_, I, pp. 193-8.
+
+ [89] «Não tém cestos de gavea (as caravelas) nem as vergas fazem
+ angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d'uma alça
+ que é triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas que se
+ amuram aos costados do navio são pela parte de baixo grossas
+ como mastareus, e adelgaçam até ao cimo da vela. De vasos
+ d'esta feição se servem na guerra maritima os portuguezes,
+ pelo muito ligeiros que elles são, sendo-lhes mui maneiro
+ apontar á prôa ou á pôpa o conto d'estas vergas, e ainda a
+ meio costado do navio passalas da direita para a esquerda
+ segundo lhes faz feição, ferrar o panno ou disferillo das
+ vergas, a que o atam pelo cepo da entenna, com quem as velas
+ abrem a base do angulo: e qual lhes sopra o vento, tal lhe
+ apresentam o bojo da vela não tardios. Todo o vento lhe fas
+ geito, de modo que com vento de ilharga bolinam em direitura,
+ como se foram arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em
+ senso contrario não tem mais que mudar o velame, o que muy
+ prestes se prefaz.» Osorio, _Vida e feitos d'el-rey D. Manuel_
+ (tr. F. M. do Nascimento) I, p. 193.
+
+ [90] V. _Hist. da republ. romana_, I, pp. 292 e segg.
+
+ [91] V. _As raças humanas_, I, pag. 358 e segg. e _Hist. da
+ civilisação iberica_ (3.ª ed.), pag. 34 e segg.
+
+ [92] _V. Regime das riquezas_, p. 90 e segg.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+II
+
+Affonso de Albuquerque
+
+
+«As cousas da India fazem grandes fumos!» costumava dizer o novo
+governador. Mas que _fumos_ eram esses? Eram a vaidade e os erros de
+tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, encelleirar, e,
+depois de gordos e ricos, pavonearem-se na côrte, allegando serviços,
+com a basofia de quem tudo sabia das cousas do Oriente. Fumos, com
+effeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas
+primeiras viagens, e agora levava já bem definido o seu plano. Levava
+sem o saber os seus _fumos_ tambem: porque em fumo se havia de tornar o
+imperio ephemero que construia na mente...
+
+Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno,
+na armada de Tristão da Cunha; mas o genio do guerreiro não se reprimia
+com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando
+absoluto, para pôr em pratica o seu plano gigantesco. Elle sabia demais
+que, no cháos da India, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e
+que, n'esse vasto campo de batalha, as manobras não obedeciam ao mando
+de um general; iam ao acaso, segundo a audacia e o genio dos capitães.
+De Lisboa a Zamgebar uma armada era um exercito; no mar da India o
+exercito fraccionava-se em batalhões independentes, e cada capitão era
+senhor de proseguir, conforme o seu plano, na vasta empreza de saquear o
+Oriente. O plano de Albuquerque não era o de um saque, era o de um imperio.
+
+A esquadra de Tristão da Cunha foi de caminho, como introducção,
+arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava),[93]
+na costa, acima de Zamgebar, dirigindo-se a Sokotra--essa
+ilha que, junto á ponta extrema da Africa, pelo norte, o cabo de
+Jar-Hafun (Guardafui), era a vedeta sobre a entrada do mar Vermelho, e a
+estação onde os navios de corso ás náus de Meka se deviam abastecer e
+refrescar. Os arabes defenderam a sua ilha em vão; e Cunha matou-os
+todos, sem ficar um só, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida.
+Feito isto, dirigiu-se á India, destacando Albuquerque (impaciente quasi
+até á rebeldia, durante a delonga da construcção do forte) com seis
+navios e quinhentos homens, para a caça das náus, no Estreito.
+
+Afinal, o capitão commandava! Afinal dispunha de uma phalange sua! e
+resolveu não perder um só dia. Logo que as velas de Tristão da Cunha
+desappareceram, na sua viagem para a India, Albuquerque largou de
+Sokotra para a costa da Arabia, ao longo da qual foi subindo
+vagarosamente, assolando tudo. Formára o plano de começar por Hormuz as
+suas conquistas, marcando primeiro o limite por norte e occidente, para
+mais tarde ir ao oriente, pôr em Malaka o extremo do seu imperio.
+Hormuz, Sofala e Malaka são tres quinas de um triangulo, cuja base mede
+70 graus em longitude, cuja altura, até ao vertice de Hormuz, conta 50
+em latitude.
+
+Foi a 10 de agosto do anno de 507 que Affonso de Albuquerque largou de
+Sokotra, em direcção do golpho Persico. A sua esquadrilha compunha-se de
+seis navios apenas, e não contava mais de quinhentos homens; mas a
+poderosa unidade que o mando do atrevido capitão imprimia, a confiança
+que todos tinham no seu genio e na sua sabedoria, e tambem nos mosquetes
+e artilharia das náus, tornavam poderosa como um ariête esta pequena
+divisão. Para nos servirmos da expressão de Francisco d'Almeida,
+tratava-se apenas de combater _com bestas_; e não havia ainda que temer
+em Hormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A
+novidade de um engenho de guerra e a audacia de um guerreiro á antiga,
+iam levar a cabo uma empreza, de facto espantosa, como as de Alexandre
+ou de Cyro.
+
+Seguindo os exemplos d'esses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na
+mente, punha em pratica os antigos meios orientaes. Avançava no meio de
+um côro de afflições e mortes, precedido por uma columna de incendios,
+para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os animos na
+abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arabia assolando e devastando
+todos os logares vassallos do suzerano de Hormuz. Primeiro arrazou
+Kalhât (Calayate) «que é feito de casas de pedra, terradas e muitas
+cobertas de palha, casas espalhadas e mal armadas e fóra do logar á mão
+direita um palmar de palmeiras de tamaras, onde estavam uns poços de
+agua de que bebiam. O logar assenta ao longo d'agua, e por detrás ha
+grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e náus que vem
+aqui carregar cavallos e tamaras e peixe salgado.» (G. C., _Lendas_).
+
+Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a
+todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e
+mutilados, annunciar por toda a parte a fama do seu poder. Em
+Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayât, mutilou
+todos os prisioneiros. Entre elles, porém, estava um velho letrado
+persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo
+livro possuia. O velho applaudia o portuguez, commentando o livro com as
+façanhas do novo heroe; e applaudia-se a si por ter ainda em vida
+assistido á resurreição do filho de Olympias. Acclamava o portuguez, ou
+o grego, confundindo a realidade com a historia; e de joelhos,
+adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.
+
+Em Makât (Mascate), já na entrada do golpho, e quasi fronteiro a Hormuz,
+tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayât e
+Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrivel d'esse heroe
+que se approximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha
+appareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em
+resistir, por vêr que os navios eram tão poucos. Ignoravam, porém, que
+cada um d'elles, com os seus canhões escondidos por detraz das amuradas,
+era um vulcão prompto a rebentar em lava, um inimigo perfido cuja força
+latente não podia medir-se. Maskât foi bombardeada. A mesquita onde os
+infelizes se tinham refugiado caíu a machado, e os captivos, mutilados,
+foram fugindo, chorando, reunir-se á gente da cidade escondida nas
+serras. Havia cadaveres em todas as ruas e o fogo posto começava a
+crepitar lavrando nos armazens cheios de azeite e de melaço. As
+labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraçados, e á maneira
+que o terribil heroe se alongava na praia com os seus para regressar aos
+navios, os _mouros_ vinham anciosos e cheios de medo vêr se podiam ainda
+salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chammas vivas. Era em
+vão. Como uma tromba devastadora, Albuquerque proseguiu deixando um
+rasto de sangue e cinzas. Hormuz estava proximo, e cumpria que a onda do
+terror, que fôra crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso.
+
+Hormuz era então a joia mais preciosa da corôa da Persia. Chamavam-lhe
+_a pedra do annel_ das Indias. Era a Londres oriental, onde todos os
+productos do Oriente vinham desembarcar; d'onde saíam nas longas
+caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartaria e o
+Turquestan, por toda a Asia do norte. Os armadores levavam por mar a
+Hormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus
+de sandalo e brazil, os tamarinhos, o açafrão, a cera, o ferro, as
+cargas do arroz de Dekkan, os côcos, as pedrarias, as porcellanas, o
+benjoim, os pannos de Kambai, de Chala, de Deval, e os cinabasos de
+Bengala. Ahi vinham, de Aden, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o
+azougue, os brocados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da
+Europa, pelo caminho de Alexandria, a Suês, via do mar Vermelho. Toda a
+Persia se abastecia em Hormuz dos generos de fóra; por Hormuz toda ella
+mandava importar os productos indigenas. Os navios carregavam ahi a seda
+e o almiscar, rhuibarbo de Babylonia, e as récuas de cavallos da Arabia,
+tão queridos no Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de
+Cholomandalam (Coromandel) até Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz
+e os pannos que levavam, os commerciantes traziam de Hormuz as tamaras,
+o sal das suas collinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljofar
+grosso, muito procurado em Narsinga.
+
+A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e
+prazer, uma côrte de mercadores. As casas, recheiadas de cousas
+preciosas, eram thesoiros ou museus, com paredes forradas de marmores,
+columnatas, eirados, pateos ajardinados e fontes preciosas. A vida
+custava ahi carissimo, porque o luxo absorvia todos os recursos
+naturaes. A terra, uma salina, era esteril de si: tudo vinha da Persia,
+da Arabia, da India: mas os mercadores tinham defronte, além, na costa
+firme, as quintas e hortas, onde iam com frequencia. Ahi o platano
+magestoso do Oriente, o álamo esguio e esbelto, o negro cypreste
+meditativo, destacavam-se no meio das hortas viçosas, das quintas e
+jardins de rosas, povoados de rouxinoes, abrigando nas encostas á sua
+sombra as vinhas ferteis. Os pomares regados estavam coalhados de
+laranjeiras, de fructos de ouro e flôres de neve perfumada; de
+macieiras, pecegos, albaquorques; de figueiras de fórmas extravagantes e
+amplas folhas; de granadas, com os fructos rebentados a sorrir nos seus
+grãos côr de rubi. No chão serpeavam as redes de hastes dos meloaes,
+louros e perfumados; e das latadas e parreiras caíam com peso os cachos
+de uvas preciosas de todas as côres. Por entre os bastos pomares e do
+seio dos jardins de rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira,
+com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tamaras.
+
+Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a
+defendiam da luz e do calor do sol, formigava uma população de varias
+raças, de côres diversas, occupada em comprar, em vender; mais occupada
+ainda em gozar a vida no seio de uma devassidão torpe. O calor e os
+perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instinctos
+sensuaes. Vinham ali vender neve, de trinta leguas do interior da
+Persia. Amar era o primeiro de todos os commercios de Hormuz; e o persa,
+alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da
+pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram até aborrecidas em
+Hormuz. Os pobres escravos, moços e mutilados, enchiam os harens dos
+ricos, e os bordeis para o commum dos mercadores. Era uma devassidão
+abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam
+sempre seguidos por pagens, com toalhas e jarras de prata e bacias com
+agua. Havia musicas e festas por toda a parte e as bandas e orchestras
+andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham á venda o
+aljofar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos
+estofos, e sobre as camisas brancas de algodão finissimo vestiam-se
+tunicas de chamalote ou gran, cingidas por almejares com grandes adagas
+ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broqueis eram redondos,
+forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de bufalo com cordas
+de seda. Usavam, além do arco e da frecha, do escudo e da adaga,
+machadinhas e maças de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas
+de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um annel e a pedra
+Hormuz. Só a alfandega rendia meio milhão de xerafins.[94]
+
+As noticias de Maskât, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de
+terror essa população embriagada na orgia de uma vida de delicias. No
+porto havia, com effeito, uma poderosa armada que escondia as aguas:
+eram centenas de náus e galeões, uma infinidade de terradas. Tinham-se
+arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a náu de
+Cambaya, a _Meri_, de mil toneis, com gente basta e numerosa artilharia.
+Havia o melhor de duzentos galeões de remo com arrombadas de saccas de
+algodão tão altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os
+laudeis, em vez de corpos de aço, couraçava tambem de algodão os navios.
+As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com
+estandartes garridos «que era cousa fermosa para ver». Na terra, ao
+longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas
+musicas de trombetas e anafis. «As gaitas do mar e terra eram tantas que
+parecia que se fundia o mundo!» Mas os fugitivos abanavam a cabeça
+desesperados, contando como os seis, seis navios apenas portuguezes!
+traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldão persa,
+afflicto, não sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos
+seus navios, que já estavam, terriveis mas quietos como um volcão em
+paz, fundeados no meio do porto, entre os galeões de Hormuz. Albuquerque
+exigia-lhe que abandonasse o persa, e se declarasse vassallo do
+portuguez; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para que
+deixassem em paz--quando o capitão, enfadado com as delongas e
+subtilezas, rompeu inopinadamente o fogo. Começou a varejar em torno o
+estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroços, de naufragios
+e cadaveres que era horroroso de vêr. Estava como um lobo no meio de um
+rebanho de ovelhas. Não era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos
+nadavam n'um mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os
+soldados matavam n'elles ás lançadas e cutiladas. Da amurada das náus os
+grumetes e pagens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de
+visceras fluctuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim
+oitenta _mouros_. E emquanto a armada de Hormuz e as tropas do sultão
+eram chacinadas, desmanchava-se o lançol de barcos como uma teia cujas
+malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espaço a espaço o
+mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, já ardendo, iam
+fugindo em chammas, como trombas de fogo correndo, vogando á mercê do
+vento «que era um grande espectaculo para vêr». Ainda oito dias depois
+do sanguinario caso havia cadaveres boiando no mar, e os portuguezes em
+lanchas occupavam-se n'essa particular especie de pesca. A colheita era
+abundante, os cadaveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anneis
+e alfinetes, as adagas e punhaes tauxiados de ouro e prata com joias
+engastadas. Denudados, vinham a bordo as familias reconhecer os
+cadaveres e leval-os piedosamente, em lagrimas, aos seus sepulcros. A
+façanha fôra tão grande, que parecia milagre: pois não se viam nos
+corpos mortos as chagas das frechas, não havendo similhante arma entre
+os nossos? Milagre! diziam os soldados e os capitães, perante esse caso
+tristemente revelador da confusão do combate com o novo Alexandre da India.
+
+O pobre sultão de Hormuz, afflicto, immediatamente accedeu a tudo:
+consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil
+xerafins de tributo. E d'este concerto se fizeram duas cartas, uma em
+folha de ouro, a modo de livro, escripta em arabico com letras abertas a
+buril e suas brochas de ouro com tres sellos de ouro dependurados por
+cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem commum da terra, e em
+papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Affonso
+d'Albuquerque a el-rei D. Manuel.
+
+ * * * * *
+
+Hormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque: mas isto mesmo
+desesperava os capitães e soldados da esquadrilha, que murmuravam,
+cubiçosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. Não
+comprehendia para que se haviam de demorar alli, a construir uma
+fortaleza; quando, a não saquearem a cidade, mais valia partirem para o
+rendoso corso das náos de Meka, na bocca do Estreito. A intriga
+insinuava-se, dizendo que o capitão-mór queria construir a fortaleza
+para si, e fazer-se rei de Hormuz, levantando-se contra o de Portugal:
+na India não havia ainda mais tradição do que a do saque maritimo, e o
+pensamento imperial de Albuquerque chegava a não ser comprehendido. Nem
+em tres annos, diziam, voltariam á India, perdendo occasião de carregar
+as quintaladas que tinham de ordenado. A cubiça de mãos dadas com a
+violencia e a cegueira agitavam perigosamente as guarnições.
+Albuquerque, impassivel, proseguia. De uma vez que lhe levaram um
+requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da fortaleza, tomou-o
+assim dobrado como lh'o deram, e sem o ler metteu-o debaixo de uma pedra
+do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado
+com as queixas. Mas as lages não pesavam bastante para as abafar, e
+recrudesceram. Além do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20:000
+xerafins pagos pelo de Hormuz, que, esperançado n'estas desordens,
+confiado em promessas de sedição, e nos auxilios que o persa lhe
+enviava, ousou romper as hostilidades. Viera com effeito o cheik Yar
+(Xaquear) trazendo comsigo quatro mil arabes. Albuquerque estava n'um
+serio perigo, e outro qualquer perder-se-hia. Os capitães recusavam ir
+ao combate; mas elle, arrancando as barbas, aos punhados, ao capitão
+Nova, levou diante de si os soldados, sósinho, ás cutiladas. Dos seis
+navios, porém, fugiram-lhe tres, que vieram para a India contar ao
+vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: não podiam resistir
+ao seu mando _terribil_, só lhes era dado fugir! Albuquerque retirou
+tambem de Hormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a
+empreza, abandonado por metade das suas forças. Levantou ferro, voltou a
+Sokotra aprisionar as náus de Meka, e mais um navio o abandonou ahi:
+nenhum podia supportar o ferreo mando do heroe.
+
+Em novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Hormuz,
+estava de regresso á India, em Kananor, onde abriu a carta de Lisboa,
+que lhe confiava o governo do Oriente. N'esse momento a violencia do seu
+genio furioso arrebatou-o: queria castigar os capitães insubordinados,
+queria sobretudo terminar rapidamente o plano das suas conquistas; e
+foram necessarios os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho
+acabava de morrer, para consentir na expedição naval de Diu. Só quando,
+mezes depois, chegou á India a fidalga armada de D. Fernando Coutinho,
+poderam terminar as deploraveis contendas, entre o vice-rei e o seu
+successor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu;
+e, cheio de basofias, lançou-se na empreza em que achou a morte.
+Engolfados na matança e no saque, no meio de parte da cidade incendiada,
+os portuguezes foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os
+colheram dispersos e sem armas.
+
+Só e livre, absoluto senhor do imperio nascente, Albuquerque entregou-se
+com franqueza e decisão ao seu projecto. A primeira condição d'elle era
+a fundação de uma cidade, uma capital portugueza--cousa que até então
+não existira. Katchi, cujo rajah desde o principio se abraçára aos novos
+invasores, era uma cidade India, onde possuiamos apenas uma fortaleza,
+abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa
+para capital. Collocada a meia altura da costa Occidental da peninsula,
+bom porto, a cidade reunia as condições desejaveis. Fazia elle então
+parte do reino de Vijajapur (Bijapor) fracção que no fim do XV seculo se
+separára do de Dekkan, declarando-se o seu khan independente, sob o
+titulo de adil-shah (Adil-Khan, Hidalcão); e o adil-shah do Vijajapur,
+ao tempo de Albuquerque, tinha por nome Yusuf. Por este governava em Goa
+Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em fevereiro de 510
+Albuquerque tomou Goa por surpreza; e pela primeira vez houve no Oriente
+um Estado portuguez. Até então, depois de uma batalha, a tomada de um
+logar significava apenas a substituição da suzerania indigena pela
+nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construcção de fortalezas,
+tinham sómente em vista assegurar o commercio e a cobrança das páreas ou
+tributos de vassallagem, segundo o plano do primeiro vice-rei.
+Albuquerque iniciava um systema differente; creava uma cidade
+propriamente portugueza; e com o novo governador, o nosso dominio
+desembarcava dos navios para a terra firme. A um systema de colonias,
+como fôra em volta do Mediterraneo o dos phenicios ou o dos gregos,
+substituia-se um imperio, como Annibal o sonhára na Italia, e Alexandre
+o fundou na Asia. Albuquerque, porém, não pensava em fazer de Goa uma
+cidade portugueza, no sentido de ser exclusivamente habitada por
+europeus: seria chimerico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto
+fomentou os cruzamentos de portuguezes com mulheres indigenas, creando,
+tanto em Goa como depois em Malaka[95], uma população de mestiços, que
+mais tarde se tornou um dos elementos de dissolução do nosso imperio.
+Sob o dominio portuguez, os naturaes viveriam livremente na sua
+religião, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao imperio
+protector e soberano de Portugal.[96] Era um plano correspondente ao que
+mais tarde os inglezes pozeram em pratica, sem todavia cruzarem com os
+indigenas: da mesma fórma que os hollandezes preferiram os planos
+maritimo-commerciaes de D. Francisco d'Almeida.
+
+Goa occupou ao governador todo o anno de 510; porque o _Sabaio_, tomado
+por surpreza em fevereiro, voltou no verão; e os soldados de Albuquerque
+não quizeram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldições, da furia
+e das ameaças do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os
+planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da India,
+que além de lhes não comprehenderem o alcance, se viam privados de
+saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em agosto; mas logo
+tornou para o dominio portuguez, ganha por assalto em novembro. Os
+soldados obedeciam, porque o commando do governador era _terribil_,
+desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua fé catholica.
+Alexandre cria-se um deus, Albuquerque _viu_ mais de uma vez os milagres
+do céu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavalleiro de armas
+brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os
+_mouros_[97]--conforme a tradição historica portugueza. Nas cidades da
+costa da Arabia, viajando para Hormuz, as suas crueldades tinham sido
+barbaras: em Goa não o foram menos. Além queria impôr pelo medo; aqui
+destruia como politico. Todos os _mouros_ de ambos os sexos, de todas as
+edades, mais de seis mil, foram mortos; e queimados vivos os que se
+tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim «despejada», porque
+para socego d'ella só devia conter gentios. Era o logar escolhido para
+capital do imperio dos novos gregos pelo moderno Alexandre.
+
+Consolidada a posse da capital, no coração da India, Albuquerque
+voltou-se rapido para as duas emprezas que rematariam o seu imperio:
+Malaka e Hormuz. Embarcou, logo no principio de 511, e tocando em
+Ceylão, a terra encantada das pedras preciosas, delicias do mundo,
+patria da canella e das perolas, achamol-o, já em maio, em frente de
+Malaka, no extremo Oriente.
+
+Malaka, na ponta da peninsula da Indo-China, sobre o estreito a que dá o
+nome, era para esta região, como Hormuz, a norte-leste, para a outra.
+Assim como além se permutavam os generos da India com os da Arabia e da
+Persia, e em Adem com os do Egypto; assim em Malaka se faziam todas as
+trocas dos productos occidentaes da China e das Molucas, e de todo o
+extremo Oriente. De Malaka iam as náus a Ternate e a Tidor, a Banda e a
+Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de
+_juncos_ de Java, conduzindo á cidade o arroz, as carnes, a caça e os
+_crizes_ tauxiados de fino aço, em troca dos damascos e brocados, que
+levavam de retorno para as ilhas do archipelago. Amphibios, os malaios
+viviam no mar em permanencia, com a casa e a familia a bordo; e os seus
+_juncos_, com enxarcias de verga, iam buscar a Malaka os pannos de
+Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as
+drogarias de Kambai.
+
+Do saque de Malaka, o governador reservou para si apenas seis leões de
+bronze, destinados ao seu tumulo. Sem se demorar, avassalou todo o
+archipelago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnições; e,
+segura a porta oriental da India, voltou-se a Goa, de caminho para
+Hormuz e Aden, a consolidar o imperio pelo occidente. Em fevereiro de
+513 sáe com uma armada para Aden, que não consegue tomar; viaja em torno
+do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas não sente
+forças para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arabia, indo a Meka
+despedaçar a santa Kaaba. A campanha de 513 não tem portanto resultado
+positivo, desde que Aden consegue resistir ás investidas do governador.
+Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cupula do seu
+edificio e a chave do imperio que vinha construindo. Conquistada Aden,
+as duas emprezas que meditava eram relativamente faceis na sua
+simplicidade temeraria. Levaria quatrocentos homens de cavallo em
+taforeas ou caravellas e iria desembarcar em Liumbo, partindo n'um
+galope até Meka, logar santo mal guardado por gente prostrada em
+adorações. Roubaria o thesouro sagrado e o proprio corpo do propheta:
+com ambos se resgataria o Santo-Sepulcro de Jerusalem, captivo.
+Consumar-se-hia a obra mallograda das Cruzadas, tradição piedosa que na
+Renascença passara das nações do norte para a Italia e para a Hespanha,
+arrastando mais tarde Portugal a Alcacerquibir. Ao mesmo tempo, e por
+outro lado, a grande empreza do mar Vermelho descarregaria um golpe
+mortal no Egypto, que era a joia do imperio dos turcos e o arsenal de
+onde vinham as armadas á India. O seu plano consistia em «cortar uma
+serra muy pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste
+Joham, para lançar as correntes d'elle por outro cabo que não fossem
+regar as terras do Cairo».[98] Desviando o Nilo seccaria o Egypto.[99]
+Já pedira a D. Manuel que lhe mandasse officiaes da Madeira, onde os
+havia mestres no córte das serras para formar as levadas de rega dos
+canaveaes. Tudo isto continha a empreza de Aden, cujo mallogro cortou os
+vôos ás ambições grandiosas do heroe.
+
+Embora no céu, lá para os lados das terras do Preste abexim, tivesse
+fulgurado aos olhos do mystico e terrivel heroe uma cruz vermelha,
+Christo abandonara-o na empreza. Quando o famoso milagre surgiu,
+Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na missão divina em que
+andavam, caíram de rastos adorando a cruz.[100] E o capitão, para
+corresponder ao céu, mandou tanger os córos de trombetas, responder com
+artilheria aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um _estromento_
+assignado pelas guarnições, que veiu para D. Manuel, com a carga de
+pimenta, afervorar a piedade mystica da côrte carthagineza.
+
+Como, porém, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se
+para Hormuz, cujo dominio não estava seguro. Outro Alexandre em
+Persepolis, o heroe condemnou-se em Hormuz: a grandeza das suas façanhas
+tinha-lhe feito nascer um orgulho, que já não distinguia o bem do mal.
+Orientalisado como o imperador, cujos exemplos seguia, não lhe bastavam
+já a crueldade, nem a força: appellava para a perfidia; e
+intromettendo-se nas miseraveis politicas dos persas, chamou á sua tenda
+para uma festa o ministro que então governava o principe idiota de
+Hormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava
+proximo da cova: e a sorte não queria que á historia d'este heroe
+faltasse o epilogo frequente da historia dos heroes: uma abjecção.
+Tampouco a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e
+fraqueza commum. Alexandre mimoseava os litteratos de Athenas para que o
+exaltassem: Albuquerque mandava anneis de pedras preciosas ao chronista
+Ruy de Pina «para escrever com melhor vontade os memoraveis feitos da
+India».
+
+De volta de Hormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como
+fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte
+Pacheco. A côrte de Lisboa já o mandára substituir no governo por Lopo
+Soares de Albergaria, que, chegando, começou por condemnar o seu
+predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar,
+Albuquerque pegou da penna e dirigiu uma carta ao rei--«quando esta
+escrevo a V. A. estou com um soluço que é signal de morte!» E pedia-lhe
+que lhe honrasse a memoria e protegesse o filho: o que o rei fez, honra
+lhe seja. Agonisando, via-se incomprehendido pela tacanha côrte de
+Lisboa, e acceitava de bom grado a morte: «Mal com os homens por amor
+d'elrey, mal com elrey por amor dos homens, bom é acabar». E acabou, á
+vista de Goa. Era homem de mean estatura, rosto comprido e corado. Era
+avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem; mui
+facil na conversação, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar
+com os mouros, muito temido e amado de todos. Nascera filho segundo de
+uma familia de sangue nobre, e educara-se na côrte militar de Affonso V,
+viveiro da geração dos capitães da India amestrados nas guerras de
+Africa. Fôra em 1480 na esquadra mandada a Napoles em auxilio do rei
+Fernando contra os turcos, e nove annos depois partira para Africa a
+defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era
+estribeiro-mór de D. João II e já um grande fidalgo quando, em 1503, D.
+Manuel o mandou á India pela primeira vez. Foi, voltou com bons
+creditos, mas sem nada ter feito de singular; provavelmente observou e
+aprendeu muito, levando já um plano formado quando o rei o mandou como
+capitão na esquadra de Tristão da Cunha. D'essa ida começa a historia
+que narrámos e que termina agora com a sua morte.
+
+Os soldados, a bordo, amortalharam-no no habito de Santiago com
+borzeguins e esporas, espada á cinta, na cabeça uma carapuça de velludo
+e aos hombros uma beca tambem de velludo. O enterro subiu em lanchas, e
+era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de
+Goa. Ao desembarcar, foi levado aos hombros dos soldados, sob o pallio,
+pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos
+meio abertos, a longa barba atada até á cinta, fluctuando, não o criam
+morto: Deus o chamara para alguma façanha no céu! Voltaria breve. E por
+muito tempo houve romarias ao sepulchro do heroe, vindo os naturaes
+pedir-lhe justiça contra os desmandos e perfidias dos portuguezes,
+offerecendo-lhe boninas e azeite para a sua lampada. Do extremo Oriente,
+desde o Pégu até á China, ficaram-lhe chamando o Leão-do-mar.[101]
+
+ * * * * *
+
+Hormuz, Goa, Malaka, os tres pontos cardeaes do imperio fundado por
+Albuquerque no breve periodo de cinco annos (1507-11), valiam o dominio
+em todo o mar das Indias e a vassallagem de todas as costas, desde
+Sofala, em Africa, ao cabo de Jar-Hafun; desde Khor-Fakhan, na Arabia,
+até ao golpho Persico; desde o Indo até ao cabo Kumari (Comorim); d'ahi
+ás boccas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pégu, até Malaka--com
+as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os archipelagos de
+Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Sinhala (Ceylão),[102] e
+Sumatra e Java, Bornéo e as Molucas, até aos pontos extremos de Banda e
+Ambon. Com effeito, depois de Malaka e da viagem temerosa mas esteril de
+513 a Aden, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o
+_terribil_. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os
+principes queriam a amisade do portuguez, e a seus pés arrastavam a
+corôa os rajahs de Ahmednagar e de Kambai, de Vijajapur e de
+Narsinga,[103] o shah da Persia e os sultões de Sião, do Pégu, do
+Arakan; e até o proprio _Hidalcão_, o adil-shah do Kanará, consentindo a
+fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do
+Gujerât, do Konkana, do Karnataka e de Bengala. Desde o Indo até ao
+Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai até Golkonda, o litoral da
+peninsula estava inteiramente submettido ao jugo portuguez.
+
+Entretanto este imperio não podia dizer-se ainda construido: era um
+esboço apenas. Como depois de uma victoria brilhante os timidos se
+curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente. Lançado na
+politica de conquistas, o imperio portuguez ganhava a primeira batalha;
+mas não podia decerto ensarilhar as armas, emquanto a costa da Arabia e
+as margens do mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os
+naturaes da India, avassallados por uma corrupção antiga, acceitavam o
+dominio de qualquer vencedor; mas era necessario, para o manter, que a
+victoria fosse decisiva. Ora o inimigo, o _mouro_, fôra batido, mas não
+fôra expulso. Como n'uma doença, tinham-se debellado muitos symptomas,
+mas não se destruira o principio morbido. Aden continuava a ser o
+emporio do dominio commercial maritimo dos arabes e egypcios no Oriente;
+o mar Vermelho, o Suês, no extremo fundo d'esse estreito corredor, as
+boccas sempre abertas, para vasar sobre a India navios, artilheria e
+soldados. O dominio, que os portuguezes se propunham substituir,
+continuava; e do caracter dual ou mixto que a occupação da India
+apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os _mouros_ e
+com os naturaes, que ora os preferiam a elles, ora a nós. Ninguem, nação
+alguma seria capaz de resistir a um seculo inteiro de similhante vida. O
+destino do imperio portuguez no Oriente dependia do exclusivo do
+dominio, desde que era impossivel pactuar ou dividir a presa entre os
+dois caçadores rivaes.
+
+O genio de Affonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez:
+Aden, Meka, o mar Vermelho, eram a sua preoccupação: «Tres cousas, diz o
+filho e commentador, ha na India que são escapolas de todo o commercio
+das mercadorias d'aquellas partes, e chaves principaes d'ella. A
+primeira é Malaka, que está em tres graus na entrada e sahida do
+estreito de Singapura; a segunda Aden, que está em vinte e um graus de
+altura e na entrada e saída do mar Rôxo; a terceira é Hormuz, a qual
+está em quinze graus e na entrada e saída do estreito do mar da Persia.
+Este Hormuz, a meu vêr, é a principal de todas. E se el-rey de Portugal
+tivera senhoreado Aden podera chamar-se senhor de todo o mundo.» Dar um
+golpe mortal no islamismo era, além de retribuir em Meka a affronta
+humilhante de Jerusalem, mostrar aos musulmanos do Oriente que Jesus
+podia mais do que Mafoma. Mas se o genio excepcional de Albuquerque não
+bastou para levar a empreza ao fim, como poderiam bastar para isso os
+pigmeus que lhe succederam? Valentes muitos ou quasi todos, incansaveis
+no mar e na terra, os governadores da India foram extenuando em um
+seculo de guerra permanente as limitadas forças da nação, sem pensamento
+politico, sem plano definido, á tôa e á mercê d'um capricho, ou d'uma
+idéa a que o ciume imbecil da côrte limitava constantemente os vôos. A
+primeira politica, a maritima, fôra abandonada com a queda de Francisco
+de Almeida; a segunda politica, a imperial, condemnada com a deposição e
+morte de Albuquerque. Faltava assim a condição essencial de um dominio
+estavel e seguro: uma tradição.
+
+Esta falta, comtudo, provinha de causas mais intimas, umas nacionaes,
+outras chronologicas. O absurdo espirito da politica de Lisboa, e a já
+provada incapacidade dominadora dos portuguezes, estão na primeira
+categoria: na segunda estão os costumes e idéas de tempos relativamente
+barbaros. Os portuguezes, ao pôr pé na India, faziam o mesmo que os
+povos germanicos, ao descer dos Alpes sobre a Lombardia: cevavam-se. A
+historia de Affonso de Albuquerque em Hormuz (1507) demonstra bem quanto
+era impossivel impôr disciplina e ordem em campanhas que tinham no saque
+o exclusivo motivo.
+
+ Fomos ao rio de Meca,
+ Pelejámos e roubámos
+ E muito risco passámos.
+
+Estas palavras de Gil-Vicente resumem a historia da India; e com taes
+elementos era possivel saqueal-a, era impossivel dominal-a.
+
+Por isso, n'esse seculo de 500 que a historia da India abrange, o
+conjuncto dos caracteres da occupação portugueza fórma dois systemas: o
+da rapina, contra o qual protesta e reage em vão a espada militar de
+Albuquerque; e depois o da simonia, contra o qual, em vão tambem, reage
+a vara justiceira de D. João de Castro.
+
+Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os
+soldados de Antonio da Silveira, um capitão que andava pela costa, entre
+Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram
+contentes; e assolaram tudo «em tanta maneira que se despovoaram todolos
+logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas não havia
+gente». Em Barava, destruida por Tristão da Cunha, os barbaros cortaram
+as mãos e as orelhas ás mulheres para furtarem as manilhas e brincos de
+ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: «Foi entrada com muito valor,
+e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, não perdoando a
+sexo nem a idade, nem ainda ás alimarias». D. Paulo de Lima «deu na
+cidade de Johore (Jor)--escreve á esposa--e assolou-a _com o favor
+divino_». N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros,
+pedem aos da frente que, _por amor de Deus_, lhes deixem matar um
+_mouro_. Á approximação dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem
+todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por
+tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das náus de
+Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez «fizeram mui
+grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas
+formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a
+vender». O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e
+aos seus, «parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans
+a seu pesar». O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a
+interminaveis guerras: assim os capitães de Malaka originaram as de
+Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian,
+despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros ás sepulturas
+dos reis furtar os ossos, na esperança de receber por elles, mais tarde,
+um grosso resgate. Roubando e pirateando á solta, o genio aventuroso dos
+portuguezes larga as azas, e os exploradores vão até aos confins do
+mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das _Peregrinações_ teem
+uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae á China roubar os
+sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtém o
+titulo de irmão do rei de Pégu, com duzentos mil cruzados de renda e o
+commando do exercito: é o rei, mas morre assassinado, por ter furtado
+uma rapariga. Nem se julgue que só pelos confins do mundo oriental
+portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou só pelas costas, nos seus navios,
+a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na
+propria Gôa, capital, a vida é um combate. Pelas ruas ha batalhas e
+cadaveres insepultos. Um governador prende certos salteadores
+portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto á picota, e degredar para o
+Brazil: logo um pelotão de amigos se amotina em armas para os libertar,
+e, não podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o
+governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das galés; fogem e
+fortificam-se, e é necessario tomar á força o reducto; prisioneiros,
+são, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados. É conhecida
+a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das
+janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e
+rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.
+
+Até dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens
+caír assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares, á meza
+da communhão; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a
+hostia, em procissão, pelas ruas.
+
+Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a má-sorte
+que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro
+indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de
+uma orgia podre mas calma, nos braços do luxo, da opulencia e dos
+prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses
+portuguezes eram enviados para os desgraçar, para os punir talvez! E
+levas esfarrapadas de fugitivos, n'um côro unisono de lagrimas e
+afflicções, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis
+forasteiros, que não sabiam fazer-se amar do indio, tão submisso, tão
+bem disposto para obedecer e servir.
+
+Os _fumos_ da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres
+portuguezes, limitados na Europa á porção congrua do bragal e do aço,
+sujeitos a uma forçada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o
+_fumo_ desenfreava o animal, que se retouçava delirante nas sedas e nos
+perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado
+de pardaus de oiro. Breve, porém, esse _fumo_ se dispersou no ar; e a
+desolação universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e á
+violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.
+
+ [93] «Ao que se achou presente Tristão Alvares, que era feitor do
+ capitão-mór, que não consentiu que ninguem tomasse nada e com
+ João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mór,
+ o qual logo tudo mandou qubrar e ameaçar e deu ao capitão e
+ aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de
+ prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes
+ capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar.»
+ G. Correia, _Lendas_, I, 677.
+
+ [94] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa
+ da-lhe a equivalencia de 300 reis.
+
+ [95] V. _Raças humanas_, I, pp. LX-I.
+
+ [96] Não consentia o governador A. de A. que os portuguezes tratassem
+ (negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser
+ poderosos e valorosos e não ser humildes como mercadores, do
+ que se recreceriam males de os matarem e perderem suas
+ fazendas... e tambem que, se os mouros vissem que lhes
+ tomavamos seus tratos nos teriam mór odio, e mais, que os
+ homens, andando tratando, andavam fóra do serviço de Deus e
+ d'Elrey, de que elle daria muitas contas a Deus: pela qual
+ razão não consentia que nenhum homem andasse fóra do serviço
+ d'Elrey. Com esta pragmatica os portuguezes eram muito temidos
+ por cavalleiros e não mercadores, e tão temidos e obedecidos
+ que ainda que um só portuguez fosse em uma almadia, se o
+ topassem naus de mouros, todas amainavam e lhe iam obedecer,
+ mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos
+ eram assignados por A. de A.»--Gaspar Correia, _Lendas_, I, 518.
+
+ [97] V. _Systema dos mythos relig._, p. 331.
+
+ [98] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) p. 243.
+
+ [99] V. _As raças humanas_, I, pp. 106-10.
+
+ [100] V. _Syst. dos mythos relig._, p. 331.
+
+ [101] Ainda hoje os indios chamam _Affonso d'Albuquerque_ a um
+ certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoologico
+ não podemos apurar. Diz a lenda que o Leão do Mar não morreu:
+ afundou-se, e revive n'esses animaes marinhos. A maxilla
+ inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das
+ figuras portuguezas do seculo XVI: o barrete, as barbas
+ ponteagudas e longas, etc. Os indios pintam esses ossos,
+ dando-lhes phisionomia humana e guardam os _Affonsos de
+ Albuquerques_ como fetiches.
+
+ [102] V. _Inst. primit._, p. 3.
+
+ [103] V. _Ibid._, pag. 163.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+III
+
+D. João de Castro
+
+
+Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e
+abandonada a politica imperial, torna-se á politica maritima; ou antes o
+dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares
+proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylão e
+as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez á India, como
+vice-rei, para vêr se podia pôr cobro ás desordens e á corrupção interna
+das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successões,
+mandadas de Lisboa em cartas, que só se abririam por ordem numerica, na
+falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que
+dava lugar a transmissão do governo. O almirante morreu tres mezes
+depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero
+Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, tão celebre pelas suas
+perfidias.
+
+Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condições difficeis. As
+torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra nós os
+monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu,
+inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco,
+de mãos dadas com os _mouros_, nossos rivaes. O governador, em quem os
+dotes de guerreiro primavam, decidiu reunir todas as suas forças para ir
+tomar Diu, na costa do Gujerât, castigando por um modo ruidoso a
+insubordinação do de Kambai.
+
+Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a
+transformação que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido
+no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria já pelos descendentes de
+Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer
+pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam já
+mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, senão a
+maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de
+quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e
+multidão de bergantins, galeaças, fustas e catures. Apoz ella vinham os
+juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de
+taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capitães e
+soldados tinham-se preparado como para uma funcção, luxuosamente
+vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As
+mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnição; e
+além das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha
+promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que
+successivamente subissem ás muralhas. Era uma expedição mercenaria, e
+não uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformação que já se
+tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia
+contra ella.
+
+Seguindo as boas tradições, a esquadra foi ao longo da costa deixando o
+seu rasto de carnificinas e investidas covardes, contra os pontos
+indefesos; e quando chegou em frente de Diu, rompeu o bombardeio. Dentro
+da cidade era grande o susto. Os commerciantes mouros agitavam-se,
+escondendo os seus thesouros e preparando-se para a fuga. Os fakirs
+immundos, nús, e de rastos, estrebuxavam, e, erguendo-se como doidos,
+acutilavam os braços e as pernas, ou batiam com calhaus grossos na
+ossatura do peito, como a quererem matar-se n'um delirio de visões
+santas. E o brahmine, com os seus longos cabellos enlaçados em turbante
+no alto da cabeça coroada de flôres, perfumado de aloes e de agua de
+rosas, untado de sandalo branco e açafrão, lançava-lhes uma esmola e
+palavras de paz, para não juntar á desgraça da guerra novas desgraças de
+suicidios! Os senhores de Diu, ricos do Gujerât, principes de Kambai,
+attonitos, vagueavam nas ruas com as mulheres, a procurar refugio contra
+as bombardas que estalavam por toda a parte. Com as caras rapadas á
+navalha e os longos bigodes negros caídos, arrastavam pressurosos as
+compridas camisas de algodão e de seda, calçados nos seus sapatos
+bicudos de cordovão lavrado: e os longos brincos de ouro cravejados de
+pedras balouçavam e tilintavam nas orelhas, em quanto corriam
+desafivelando, cansados, os cintos de ouro rutilantes de esmeraldas.
+Atraz d'elles as mulheres, de uma raça delicada e formosa, com o rosto
+de um branco de leite, meio encoberto em mantos de seda com que vestiam
+o tronco nú, corriam descalças, mostrando nos dedos dos pés os ricos
+anneis, nas pernas as manilhas de ouro e prata, os braços nús carregados
+de pulseiras, as mãos rutilantes de pedras preciosas. Era um terror e
+uma agitação por toda a cidade, ao ouvirem o ribombar da artilheria, e
+ao verem no ar a trajectoria de fogo das bombardas, que vinham sem
+piedade rebentar em estilhas no meio da gente, crivando de lascas o
+corpo côr de perola das mulheres, e as carnes côr de barro dos fakires
+tisnados pelo sol, cobertos de uma camada de lodo secco e de immundicies
+das estrebarias dos elephantes.
+
+As tropas de Kambai, nos seus postos das muralhas, esperavam o assalto,
+para então se medirem com esses homens que, abrigados por detraz das
+suas peças, distribuiam assim impunemente a devastação e a morte.
+Tremiam comtudo; e os mouros, por entre os batalhões, lamentavam-se da
+falta dos artilheiros venezianos e das esquadras dos rumes. Esperavam,
+porém, muito da tropa de elephantes, que eram quinhentos com as prezas
+limadas e o pé triturador, com que haviam de fazer em pastas humidas de
+sangue a phalange portugueza.[104] As balas dos mosquetes
+nada podiam contra a couraça da sua pelle, e esmagando com o peso,
+despedaçando com as prezas, acabariam a obra começada pelos besteiros e
+fundibularios de cima das torres. Mudos e immoveis, os quinhentos
+elephantes de Kambai estavam na planicie, como ancora da salvação de
+Diu; e os soldados olhavam para elles com amor. Além dos elephantes,
+tambem a cavallaria se achava formada, montando á bastarda os leves
+cavallos da Persia, embraçados os seus escudos pequenos e redondos
+forrados de seda, ao cinto duas espadas e uma adaga, ao hombro as settas
+e o arco. Uns vinham defendidos com armaduras e cotas de malha de aço,
+outros com laudeis, que eram mantos de algodão acolchoado, onde todos os
+golpes morriam perdidos. Os cavallos traziam testeiras de aço. Porém,
+apesar de toda a força reunida, a artilheria dos navios aterrorisava-os;
+e já por mais de uma vez alguma bomba, caíndo no meio dos elephantes,
+dispersára as montanhas de carne, a correr em rugidos, com a tromba
+erguida, como um mastro, entre as prezas de marfim. Na cidade havia
+tambem artilheria e mosquetes, mas que nada podiam contra os navios
+distantes: os pelouros disparados recochetavam na agua.
+
+Parou afinal o bombardeio, e todos olhavam com ancia, porque esperavam
+assistir ao desembarque e contavam com a peleja. Viram, porém, com
+surpreza que as náus emmastreavam e as galés mudavam a prôa ao mar,
+afastando-se ao impulso dos remos. Fôra medo? fôra fraqueza? Decerto; e
+a esquadra, atulhada de escravos e mulheres, não tinha forças para uma
+batalha: apenas se arriscava a um canhoneio sem perigos. Já era fóra de
+duvida que os deixava. As velas desfraldadas impelliam os navios na
+volta do mar. A alegria e a assuada substituiram então o pavor e o
+silencio. Todos pulavam contentes, desde o fakir immundo, até ao grave e
+perfumado brahmine; desde os velhos e as creanças, até ás mulheres,
+envolvidas nos seus mantos de seda, com os braços e as pernas núas, a
+correr, agitando os longos brincos, preciosos, tão pesados que lhes
+rasgavam as orelhas. Os commerciantes mouros abriam os bazares e
+desenterravam os cofres; e todos vinham á praia vêr a armada que se
+afastava, despedindo-se d'ella com vaias e gritos de zombaria, tangendo
+musicas, disparando tiros de espingardas para o ar, e mandando, por
+cortezia, pelouros, a arranhar a superficie azul das ondas. Diu estava
+salva das ameaças do portuguez.
+
+Porém quatro annos depois, intervindo nas questões internas dos sultões
+e rajahs da peninsula, Nuno da Cunha obteve a permissão de construir a
+fortaleza de Diu, celebre depois pelo heroismo dos seus cercos. A
+politica do governador não desdenhava, comtudo, o assassinato; e o pobre
+sultão de Kambai, convidado a uma entrevista, foi trucidado, á maneira
+do que já succedera antes em Hormuz. D'ahi proveiu a guerra e o primeiro
+cerco de Diu, sobre-humanamente defendido por Antonio da Silveira.
+
+As chronicas chamam a Nuno da Cunha vencedor de Kambai, heroe de
+Bassaim, de Kalikodu, e fundador de Diu. Basta esta enumeração dos
+lugares para demonstrar que o dominio portuguez na India inclinava já,
+com trinta annos de vida apenas, á decadencia. Os erros politicos
+originavam guerras permanentes; e o poder dos invasores, que n'um
+relampago se alargára por todo o Oriente, não se consolidava: agitava-se
+desordenadamente, no meio de questões sempre renascentes, extenuando as
+forças defensivas, e corrompendo-se intimamente. Se Nuno da Cunha merece
+dos coevos o nome de heroe, não é pelo valor ou alcance dos meritos
+proprios, é pela absoluta incapacidade dos seus predecessores e dos que
+lhe succederam. D. Garcia de Noronha, que veio apoz elle, era um fidalgo
+pobre, sem merecimentos, além do da pobreza e das sympathias do rei, que
+o mandou á India enriquecer. «Honra, eu a tenho: não venho mais que a
+levar dinheiro», dizia mais de um governador. D. Estevam da Gama foi
+ninguem; e Martim Affonso de Souza prégou com o exemplo, francamente
+cynico, a abjecção em que a administração da India se tornára--agora que
+terminára o saque de todas as costas, e as náus de Meka, mais raras e já
+artilhadas e preparadas para rudos combates, não davam com que
+satisfazer a cubiça dos occupantes.
+
+A segunda epocha da historia da India, a da podridão, apparecia já
+desenvolvida e accentuada por tal fórma, que o governo de Lisboa
+reconheceu a necessidade de pôr cobro a tamanha desordem, e nomeou
+viso-rei D. João de Castro, leitor assiduo de Plutarcho e decidido, por
+opinião, a ser um modelo de virtude, e um typo de nobreza á antiga,--ou
+pelo menos á moda do que então se julgava terem sido certos dos antigos
+heroes.
+
+ * * * * *
+
+Effectivamente o estado das cousas exigia remedios energicos. Martim
+Affonso de Souza deve abrir o rol, porque ninguem melhor e mais
+ingenuamente vivia no seio da podridão e o confessava, nas cartas que
+enviava para Lisboa, ao rei. A successão do governo de Vijajapur era
+debatida entre dois principes indigenas; e o governador «tardou em se
+determinar, porque estava esperando quem levava a melhor». Afinal
+decidiu-se pelo _Hidalcão_, que parecia ter mais justiça e era _mais
+firme_, «ainda que vos certifico que da outra (parte) havia tantas
+razões e contrarios que foi necessario _soccorrer-me a missas e
+devoções_». Além das devoções, o vencedor deu-lhe 70:000 pardaus para
+el-rey, 20:000 para elle proprio governador, e uma joia para sua esposa.
+Deus, porém, não se contentando com ajudar o modo por que o governador
+vendia o seu apoio, matou o rival vencido. Tudo corria para o melhor,
+quando, para coroar o caso, vem um privado de Assud-Khan propôr-lhe a
+divisão do thesouro do fallecido: 500:000 pardaus: «Mando 300 a el-rey,
+mas d'estes tomei 30:000 para mi, que é o dizimo que lá mando a minha
+mulher: que em razão está que tenha alguma parte d'isso, pois o podera
+ter todo, que eu podera ter tomado este dinheiro sem o ninguem saber».
+Esta pratica de vender o auxilio nas contendas indigenas não era,
+todavia, privilegio de Martim Affonso. Em Hormuz, sob a tutela dos
+portuguezes, D. Duarte de Menezes substitue a um governo amigo dos
+nossos, um outro que preferia o mouro, porque este lhe deu «cem mil
+pardaus em xerafins novos, e em conta ricas perolas e joias e aljofar».
+Gaspar Correia diz do governador, que gostava de «boas peças e dadivas e
+alvitres de apanhar dinheiro, e banquetes e prazeres, e com mulheres
+solteiras com que ia folgar no tanque de Tinoja, e em tudo era mui
+devasso».
+
+Os capitães seguiam os exemplos dos governadores. De um de Hormuz, Diogo
+de Mello, queixa-se o _rei_, porque o alguazil o ferira e quizera matar
+por lhe não dar dinheiro e joias que exigia; pedindo soccorro, pois se
+lhe não acudissem, despovoava-se a cidade. E nem só as fortalezas, ao
+lado dos soberanos indigenas, eram rendosos meios de rapina: o mar
+produzia tambem muito. Ruy Vaz vae por sua conta a Bengala _ás prezas_; e
+dois navios, mandados expressamente de Lisboa á India com instrucções e
+cartas, para decidir o pleito entre Pero de Mascarenhas e Lopo Vaz,
+fogem para Madagascar _ás prezas_, e ahi se perdem. A pirataria dos
+portuguezes era tão productiva que excitava os estranhos; e de parceria,
+piratas francezes, guiados pelos nossos, dão a volta d'Africa, e vão
+explorar a India. Não era tampouco raro vêr nos mares do Oriente navios
+de arabes guarnecidos por portuguezes mercenarios; os _mouros_ pagavam
+melhor do que o rei. A guarnição da armada com que Lopo Vaz foi ás ilhas
+de Sunda incendeia os navios por falta de pagamento do soldo; e os
+naturaes assaltam os portuguezes á pedrada, obrigando-os a pedir
+capitulação. Effectivamente a sorte dos soldados era tão dura, que se
+recusavam a embarcar em Goa, sem primeiro terem sido pagos. Os
+governadores eram obrigados a mandal-os caçar pelas ruas e casas,
+levando-os algemados ao tronco, e da prisão para a armada.
+
+A vida do soldado da India e a organisação militar eram com effeito
+singulares. Desembarcando sem dinheiro em Goa, depois das doenças da
+viagem, os que não tinham parentes ou amigos na capital da India,
+espalhavam-se pedindo esmola em bandos pelas ruas, dormindo esfarrapados
+e semi-nús debaixo dos alpendres das egrejas, ou nas galés e lanchas
+varadas na praia. Empenhavam o que traziam: a capa, a espada; ou
+preferiam roubar para viver, esperando o arrolamento da armada, que
+todos os annos ia varrer as costas do Malabar, inçadas de piratas arabes
+cujo rei era o Cutiale (Kuuat-Ali).[105] Chegada a epocha,
+lançado o bando, nomeiavam-se os capitães dos navios--logo veremos
+porque artes e maneiras o capitão tratava de angariar a sua gente. A
+_chusma_ da marinhagem compunha-se de negros captivos, agarrados a laço
+pelas ruas. Os soldados recrutavam-se nos bandos já amestrados na rapina
+e que, de volta das expedições, se pavoneavam nas ruas de Goa: era uma
+tropa de salteadores e adulteros, malsins e alcoviteiros, que enchiam a
+cidade de roubos e assassinatos nocturnos, occupando-se a beber nos
+lupanares e a matar por officio e dinheiro. Os _reinoes_ bisonhos
+entravam só nas faltas, até que tivessem por seu turno aprendido como se
+era soldado da India. O capitão dava dez xerafins a cada um dos soldados
+para se prepararem e armarem. Cada qual escolhia as armas que bem lhe
+agradavam, e muitos preferiam gastar o dinheiro em orgias, indo para
+bordo esfarrapados e sem mosquete, nem lança, nem rodella, nem espada:
+com as mãos vazias.
+
+A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e
+_davam-lhes de Santiago_, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se
+todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro
+soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira
+investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o
+roubo, a matança--muitas vezes tambem a reacção dos inimigos. Dispersos,
+deixando as armas ás portas das casas para irem mais leves a roubar, os
+soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de
+Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo,
+por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se
+indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella
+tiravam o melhor dos seus proventos.
+
+Os soldados roubavam, os capitães roubavam com elles, roubavam-nos a
+elles, cerceando-lhes as rações de arroz avariado e podre. E depois da
+façanha, em que muitos ficavam, depois de forçados a fugir em debandada,
+«os capitães-móres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e
+com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa, é tanta a
+bombardada que não ha quem se ouça, e ao sahir em terra tanta pluma e
+bisarrice, como se deixaram destruido o mundo.[106]--E não
+é bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capitães da
+India entram em Gôa triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e
+pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeçados nas praias de
+Calecut.»
+
+Não é bem, decerto; mas não podia ser de outra fórma; e ainda assim a
+basofia, apesar de ser enorme, não era a peior das fraquezas dos
+capitães da India. Pedro não obedecia a Gonçalo por não ser tão fidalgo
+como elle: eram todos _pontinhos e biquinhos de honra_. Em tendo sido
+capitães de quatro fustas, não queriam mais saír fóra sem bandeira na
+quadra; «e alguns não teem mais noticia da guerra que passear ás damas.»
+O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupção apagava todos
+os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os
+doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que
+os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperança, perdiam de todo o
+temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.
+
+Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que
+as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos
+viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um serviço de mãos e
+um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram _as ordinarias_, isto é, o
+preço usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capitães, que o
+tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se
+com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os
+capitães de Malaka tinham náus para irem de sua conta, á China, de um
+lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam
+por mar com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e
+com o Zamgebar. Como negociantes, á imagem do rei, exigiam tambem em
+favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias
+brutaes exercidas sobre os indigenas. «A guarda do _cartaz_
+(salvo-conducto que os navios _mouros_ pagavam para navegar no mar da
+India) é o credito do nosso Estado», diziam os homens-bons do Oriente;
+mas por cima de tudo o mais, os capitães, para fazerem prezas, buscavam
+_bicos_ no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os
+lucros do commercio não lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o
+rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta
+especie. Arrolamentos de guarnições ficticias, matriculas de praças
+mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos
+ordinarios e communs a todas: só d'esta verba um capitão de Hormuz fazia
+30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto:
+fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao
+thesouro da India o preço de guarnições que só existiam no papel. E
+estes roubos eram tão vulgares que não havia pejo em os confessar. Um
+capitão de Hormuz declarava alto e bom som, que não perdoaria um real da
+somma que se tinha decidido a ganhar--300:000 cruzados.
+
+Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praça, accusado, responde que outro
+tanto fizera o seu antecessor, «que sendo _apenas um Lima_ levára
+140:000 pardaus: elle _como Noronha_, havia de levar mais». O brazão da
+sua casa ficaria manchado, seus avós corariam, se gente menos nobre lhe
+passasse adiante em qualquer cousa--até no roubo.
+
+E os crimes dos capitães não podiam ser punidos, porque os viso-reis
+faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia
+de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e
+tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz _para fazer proveito_,
+com doze navios, cujos capitães eram todos seus proximos e afilhados.
+Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e
+males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com
+que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear
+partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os _alcances_ por
+meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta _agoa envôlta_
+muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em _falsar sinaes_,
+deveu o governador o alvará com que espoliou o seu émulo.
+
+As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de
+peculato: as _peitas_, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as
+heranças jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado
+pela Inquisição de Goa; os conluios com os _contadores_, para
+extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificação da
+moda; o roubo do cofre dos orfãos; o fornecimento de material de guerra;
+as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisação dos
+titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preço, e que
+nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.
+
+A turbulencia e devassidão dos soldados provinham dos crimes dos
+commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores
+authorisavam os dos capitães: mas se o governador fosse punido, não
+poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os
+governadores tinham a favor da sua corrupção argumentos muito valiosos,
+e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas
+excepções, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. «Cartas
+se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha
+os descreditos que n'ellas vinham.» Desde o rei até ao mais infimo dos
+moços da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira é o
+lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassidões. Contam que
+D. Manuel em pessoa achava graça ás manhas e expedientes vis, com que se
+explorava a India, quando os que de lá vinham justificavam as artes com
+a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da côrte. Bastante dinheiro
+e um pedaço de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem já falamos
+como heroe, foi condemnado á morte pela Relação de Lisboa; mas _fiqou_
+em morte civil para S. Thomé; depois para Africa; e, por fim, com dar
+500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas
+riquezas dos roubos que n'este mundo não pagou.
+
+Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha
+descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas
+certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia,
+desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer
+modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem
+mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez
+os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o
+viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além
+d'esta justificação de todos os expedientes, os padres confessores da
+_Companhia_, defendendo os que recebiam _luvas_, diziam que o nome de
+_peita_ se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou
+de concerto que se faça para o negocio[107]. Mas se a parte
+fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e
+não uma peita.
+
+Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se
+achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não
+incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os
+assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era
+muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra
+podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O
+imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a
+vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só
+venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador
+com _dois debrums de latim_. As testemunhas custavam em Goa a pardau por
+cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não
+faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?»
+Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias,
+mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se
+dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe
+façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto,
+indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de
+Goa.
+
+A misericordia de S. A. não consentia isso, mas o povo esteve por um
+nada a fazel-o. Quando o conde da Vidigueira, ex-governador, partia para
+o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis
+avô (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma náo, e
+envenenaram ao neto o pasto dos animaes que levava de vitualha para a
+viagem[108].
+
+Mais graves e decisivos symptomas de desaggregação do ephemero imperio
+da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as
+deserções; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou
+nos navios arabes, por miseria, por cubiça, por homizio, arrastados pela
+fome ou pelas _moraxas_ infieis, espalhando-se em Kambai, no
+Balutchistân, no Afghanistân e na Persia, de um lado; em Bengala, do
+opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Pegú, por Malaka, e Kamboja, até
+á China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes
+infieis eram tantos, «que sem muitas lagrimas não se poderá considerar,
+quanto mais escrever... e muitos se põem por soldados em navios de
+chatins, onde, posto que o soldo não seja tão honrado como o d'elrey, é
+mais proveitoso, por ser melhor pago». Em tempo d'elrey D. Sebastião
+havia na India 16:000 portuguezes, e não se poderam mandar 800 homens a
+soccorrer Malaka.
+
+Já em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no começo da
+occupação da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o
+inimigo, conspiravam para se passar aos _mouros_, que pagavam melhor.
+Estes phenomenos, pois, não provinham directamente da decadencia,
+manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no começo
+da empreza.
+
+Além dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer
+feitorias, ninhos de piratas «buscando pão para comer, por não haver
+armadas ou fortalezas em que lh'o deem». Assim em Tchitâgan, assim em
+Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa oriental da India, em Macau e em
+infinitos lugares.[109]
+
+ * * * * *
+
+Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D. João de
+Castro. O quarto viso-rei da India[110] era, havia muito,
+conhecido pela candida nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de
+navegador e guerreiro, e pela vastidão do seu saber, pelo seu amor ás
+boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu
+espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos
+nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em
+publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do
+cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupação romana do XVI seculo em
+Portugal tinha em D. João de Castro um fervoroso sectario; e como o
+genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectação antiga
+tomava para elle as proporções de um culto. As suas phrases e gestos,
+copiados dos antigos heroes, não eram decerto uma mascara postiça,
+embora a nós se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porém, tinha no
+sangue a força de Alexandre; e a D. João de Castro só a imaginação fazia
+um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginação governava-o tanto, que lhe
+moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educação moral
+é capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construcção artificial do
+caracter produzia, comtudo, contradicções necessarias. O amor litterario
+da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, senão
+ridiculas, extravagantes. Não ter em casa uma gallinha para comer,
+enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar á honradez
+natural uma ponta de affectação. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus
+para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por
+penhor; mas, com o symbolo, era forçado a dar tambem uma provisão para o
+thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento
+dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza
+ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educação litteraria.
+
+Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposição do imperio
+oriental? Não, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por
+ser affectada, embora não fosse fingida. Os homens positivos e
+corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao
+mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam
+descansados em que não lhes viria d'ahi mal algum para os seus
+interesses. A propria affectação _antiga_ do viso-rei demonstrava a
+fraqueza do estadista; porque só uma alma ingenua podia ligar tamanho
+amor ás fórmas, e a ingenuidade jámais venceu nos governos. Integro,
+forte, e piedoso no seu fôro intimo, D. João de Castro era um heroe e um
+santo; mas nem essa fórma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram
+nunca os meios de travar o movimento de decomposição de uma sociedade,
+ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas
+duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um João II, ou de um Pombal.
+
+D. João de Castro não tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu
+governo ficou inutil como uma bella pagina de moral: á maneira do livro
+em que lhe escreveram a vida, e que é uma boa pagina de rhetorica.[111]
+Ficou, porém, como um sincero protesto: esse é o seu valor
+social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada
+nos cercos de Diu--quando o sultão da Turquia (Soliman II) mandou de
+reforço quatro mil janisaros, ou _rumes_ sob o commando do pacha do
+Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeçofar), o ministro do rei do
+Gujerât--mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo,
+ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da
+influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas
+acções.
+
+Se é que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo
+de D. João III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por
+distinctos que fossem os dotes de qualquer outro, é tambem facto que a
+empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as forças
+humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.
+
+Ao terminar este rapido esboço da vida politica de Portugal no Oriente,
+convém mencionar a opinião do quarto viso-rei e as suas observações,
+transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. «Cá está tudo,
+escrevia, em estado que não ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro
+para o seu ouro, nem christão que o creio.» E passava a enumerar o
+estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com
+as mãos; e não escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos
+soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto
+chegára o descredito. Fôra um milagre trazer do reino á India, a
+salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em Goa
+lançadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar até a propria
+Italia. Não havia soldado que não tivesse uma ou mais mancebas. Todos
+desobedeciam aos capitães, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa
+das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as náus.
+Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um
+certo rei, pozeram-no a ferros e «forçaram suas mulheres com tamanhas
+desonestidades, que se não póde dizer a V. A.--Todos são ladrões, todos,
+sem excepção, chatins. As cobiças e vicios teem cobrado tamanha posse e
+authoridade, que nenhuma cousa já se póde fazer por feia e torpe, que
+dos homens seja estranha. E são mais as almas perdidas dos portuguezes
+que veem á India, do que se salvam as dos gentios que os prégadores
+religiosos convertem á nossa santa fé.»
+
+ [104] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 161-2 e 275-6.
+
+ [105] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 188-95, a descripção
+ da pirataria mediterranea: causas identicas produzem
+ resultados eguaes.
+
+ [106] V. _Hist. da republica romana_, I, p. 274.
+
+ [107] _Hist. da rep. romana_, II, p. 187.
+
+ [108] V. _Hist. da rep. romana_, I, p. 356
+
+ [109] V. nas _Raças humanas_, a p. LX-I do vol. I, o estado actual
+ dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I,
+ pp. 75 e segg.
+
+ [110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei
+
+ 2 Affonso de Albuquerque 1509
+
+ 3 Lopo Soares de Albergaria 1515
+
+ 4 Diogo Lopes de Sequeira 1518
+
+ 5 D. Duarte de Menezes 1521
+
+ 6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei
+
+ 7 D. Henrique de Menezes 1524
+
+ 8 Lopo Vaz de Sampaio 1526
+
+ 9 Nuno da Cunha 1529
+
+ 10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei
+
+ 11 D. Estevam da Gama 1540
+
+ 12 Martim Affonso de Sousa 1542
+
+ 13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei
+
+ 14 Garcia de Sá 1548
+
+ 15 Jorge Cabral 1549
+
+ 16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei
+
+ 17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei
+
+ 18 Francisco Barreto 1555
+
+ 19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei
+
+ 20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei
+
+ 21 João de Mendonça 1564
+
+ 22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei
+
+ 23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei
+
+ 24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei
+
+ 25 Antonio Moniz Barreto 1573
+
+ 26 D. Diogo de Menezes 1576
+
+ 27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei
+
+ 28 Fernão Telles de Menezes 1581
+
+ 29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei
+
+ 30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei
+
+ 31 Manuel de Sousa Coutinho 1588
+
+ 32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei
+
+ 33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei
+
+ Pela constituição do vice reino da India o mandato dos
+ governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser
+ reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos,
+ e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em
+ cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando
+ occorria a morte do governador abria-se a primeira _successão_,
+ na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas
+ acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram
+ quem governou por _successão_. O titulo de vice-rei, excepcional
+ a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador
+ desde 1550.
+
+ [111] J. Freire de Andrade, _Vida de João de Castro_.
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+IV
+
+Summario da derrota. Volta ao reino
+
+
+Anarchicamente iniciada, a occupação da India foi, de principio a fim,
+uma exploração anarchica. A politica maritima e commercial de D.
+Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso
+reinado de D. João de Castro, provaram egualmente impotentes para
+organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e
+duradouro. Nem a arte, nem a força, nem o santo exemplo, poderam
+disciplinar a turba dos invasores da India.
+
+Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A
+Renascença, apresentando aos homens um sem numero de idéas e impressões
+novas, desorganisando os systemas, as crenças, as instituições e todo o
+organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos
+desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma
+energia affirmativa até alli desconhecida. Heroismo pessoal e
+naturalista, uma grande explosão de força, a devassidão nos costumes e a
+anarchia nas idéas, eis ahi em que se resume, por este lado, a
+Renascença. A França, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha,
+isto é, a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de
+phisionomia bastantes para suppôr que, se a qualquer d'ellas tivesse
+cabido o destino de occupar as Indias, o seu imperio não teria sido
+melhor nem peior do que foi o nosso.
+
+Porventura, porém, ás nações protestantes que nos succederam com
+superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um
+tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes
+de explorar a India, sem a saquear. A nós faltavam-nos os dois
+requisitos. O catholicismo não era então--como o era a religião
+protestante--uma fé intima e absorvente: era uma convicção para uns, uma
+convenção para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento
+para os defensores intolerantes da fé. Havia decerto uma affirmação
+religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e
+espontanea da crença, que radica as religiões. O catholicismo
+atravessára uma crise, de que saíra malferido; e a violencia com que se
+impunha, estava denunciando que ficára sendo, antes uma expressão de
+authoridade, do que uma expansão de sentimento popular. Isto fazia com
+que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse caíndo n'um relaxamento; e
+que, ficando com a religião, deixasse de lhe dar significação ou
+importancia moral. Muita devoção e muita devassidão; eis ahi a
+concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das
+nações catholicas depois da Renascença.
+
+Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que não havia no dominio da
+India uma religião capaz de moralisar o imperio, embora houvesse
+exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvão, o apostolo
+das Molucas. Mas taes exemplos eram excepções, e faltando o primeiro
+elemento de ordem, quando os motivos sociaes não se tinham definido
+ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo
+arrastava os homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os
+crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a força
+intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia
+dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lançar a
+sua semente de corrupção; e o individuo, desarmado, sem crenças nem
+leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixões, caíu n'um
+poço de ignominias, perdendo inteiramente a noção do proprio brio, da
+força, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.
+
+A estas causas geraes é necessario addicionar as causas particulares,
+provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e
+porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o
+genio politico de D. João II teria desde o começo evitado graves
+transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um
+plano só: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as
+riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas
+desconhecidas; e assim vemos que a occupação muda de caracter com os
+successivos governadores, e ao sabor das idéas ou das inclinações de
+cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos
+electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos
+hereditarios; e é n'isso que se fundará sempre a accusação de
+incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.
+
+Porém essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente
+commercialmente á hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos não
+chamava. Nos estadistas não houve a perspicacia bastante para medirem as
+differenças que distinguiam Portugal de Veneza, e as condições do
+commercio anterior do Oriente das condições em que elle ia achar-se,
+desde que nós chegámos por mar, armados, á India. A geographia dera aos
+arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que
+fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do
+commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na
+Europa a Veneza, tinhamos contra nós, não só a geographia, mas ainda e
+principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua
+preza, deviamos commerciar de armas na mão, manter poderosas esquadras
+n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.
+
+Estas causas naturaes, alliadas ás causas egualmente naturaes da falta
+de tirocinio commercial, produziram um genero de exploração, até certo
+ponto novo na historia; porque não é propriamente uma _razzia_, como as
+conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um
+commercio; mas, como o commercio só póde fazer-se á sombra da fortaleza
+ou á vista da esquadra, as transacções andam sempre misturadas com
+pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto dá aos nossos capitães
+da India uma phisionomia original na sua dualidade. Vê-se de um lado um
+mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas vê-se
+no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[112]
+
+Uma tal confusão de cousas, um tão grande cahos de elementos oppostos e
+idéas contradictorias, bastavam para arruinar breve e necessariamente o
+imperio; ainda quando, por sobre tudo isto, o caracter do portuguez,
+pouco vivo na sua audacia, bronco, cheio de orgulho ingenuo, mais
+temerario ainda que valente, presumpçoso e fanfarrão, não viesse
+accrescentar difficuldades; ainda quando o ar inebriante, os venenos
+adormentadores, as seducções perigosas, os vicios extenuantes do
+encantado Oriente, não viessem entorpecer os braços e perverter o
+espirito dos occupadores.
+
+ * * * * *
+
+O padre Manuel Godinho, que estava na India pelo meiado do XVII seculo,
+dividia em quatro epochas a historia do nosso dominio oriental. A
+primeira eram os 24 annos do reinado de D. Manuel; a segunda os 35 do de
+D. João III; a terceira vinha do 1557 a 1600; e a quarta, finalmente,
+até á epocha em que elle viajava no Oriente.
+
+Logo na primeira, o dominio portuguez conseguira alargar-se por todas as
+costas e ilhas, desde Sofala até Malaka; isto é, pela Africa Oriental,
+pela Persia, por todo o Hindustan, do Indo ao Ganges, e pela Indo-China.
+Algumas, poucas, cidades propriamente portuguezas, feitorias e
+fortalezas espalhadas por toda a parte, e a vassallagem dos soberanos em
+cujos Estados assentavam: eis ahi a fórma do nosso dominio. Goa e Malaka
+eram nossas; e tributarios da corôa portugueza os soberanos
+(independentes ou subalternos, porque o regime politico indigena era
+feodal)--o de Hormuz, na Persia; o de Tidore, nas Molucas;[113]
+o de Simhala; o das ilhas Malajas; o de Batukala (Batecalá),
+no Kanará; o de Kollan, em Karnataka, na extremidade austral da
+peninsula da India; e na costa de Africa, os de Malinda e de Quilua.
+Além d'estas suzeranias, algumas dellas consignadas apenas nos tratados,
+varias fortalezas garantiam a vassallagem de outros territorios. A de
+Sofala era a primeira, para quem vinha do reino pelo Cabo; depois a de
+Sokotra na ilha d'esse nome, junto ao Jar-Hafun, dominando a embocadura
+do mar Vermelho; d'ahi Hormuz, na garganta do golpho persico; depois, na
+costa occidental da India, descendo para o sul, Chala, Anjediva,
+fronteira a Goa; Kananor, Kalikodu, onde Vasco da Gama primeiro aportou;
+Kadunguluru (Cranganor); Katchi, theatro das façanhas de Duarte Pacheco;
+e Kollam (Coulão), proximo do cabo Kumâri. Sobre as ilhas do oceano
+indico havia a fortaleza de Malaia (Maldiva), e a de Kola-ambu (Colombo)
+em Ceylão; e finalmente, lá para os confins orientaes, Persaim (Pacem)
+no Pégu,[114] e Ternate nas Molucas.
+
+Os annos do segundo periodo viram consolidar-se estes dilatados dominios
+por meio de numerosas fortalezas que, completando o systema esboçado
+pelas antigas, bordavam de feitorias todas as costas. Na oriental da
+peninsula hindustanica, ou de Cholamandalam (Coromandel), levantaram-se
+os presidios de Nagapatan e de Mahabalipurum (Meliapor, S. Thomé).
+Completou-se a occupação da ilha de Ceylão por meio de fortalezas e
+colonias-feitorias[115] de Jafanapatan, de Negombo, de Kalitura
+(Calaturé) e de Galla, na costa occidental; e de Pattikalo (Baticaloa) e
+Trinkonomali (Triquimalé), na oriental. Bassaim, Daman e Diu, além de
+outros pontos fortificados, asseguraram a costa de Kambai. Incessantes
+guerras, bem succedidas, abateram as revoltas, consolidaram dominios
+antigos, ou alargaram o imperio portuguez. Assim, a derrota final do
+Samudri de Kalikodu, do sultão de Kambai, do Shah de Vijajapur
+(Hidalcão), do Nizam de Ahmednagar (Melique, Isamaluco, Nisamaluco, ou
+Nisamoxá), garantiram a posse pacifica de toda a costa occidental da
+India, no Gujerât, em Kontana, no Kanará. As guerras da Indo-China
+firmaram o poder portuguez em Jadithani (Ujantama), no reino de Annam, e
+em Johor: em Bintang (Bintão), na ponta extrema da peninsula de Malaka;
+em Atchim (Achem), na ilha de Sumatra; e a submissão de todo o
+archipelago de Sunda até ás Molucas completou, por oriente, o
+imperio colonial portuguez, reproducção do velho typo grego e
+liby-phenicio.[116] Por occidente, os resultados eram menos decisivos; e
+se as duas costas que levam ao estreito de Bab-el-Mandeb se confessavam
+tributarias de Portugal, nem em Aden ao norte, nem ao sul, na costa de
+Adal, o nosso dominio era positivo. O musulmano guardava com ciume a
+porta do mar santo de Meka; e os mercadores arabes sabiam que, mais ou
+menos embaraçados, jámais seriam de todo expulsos do commercio da India,
+emquanto possuissem o mar Vermelho, onde os inimigos iam, sim, mas não
+conseguiam fixar-se. De arma ao hombro, na sua ilha de Sokotra, e a
+bordo das armadas que cruzavam no golpho do mar da Arabia, o portuguez
+espiava o armamento das esquadras de rumes e os comboyos das náus de
+Meka; mas não faltavam opportunidades para que umas e outras, astuta ou
+violentamente, conseguissem atravessar o estreito, entrando ou saíndo
+para mercadejar ou combater.
+
+No terceiro periodo conserva-se, não se alarga o dominio da corôa; ainda
+que na Africa oriental e na costa do Malabar apparecem novos presidios.
+São, no Kanará, Barkuluru (Barcelor), Mangaluru (Mangalor), e Hanavare
+(Onor). Na Africa, pela derrota e morte do _rei_ de Laum, a fortaleza de
+Patta; mais ao sul a de Mombas, e a da ilha de Pemba; e além do
+Zamgebar, já avassallado, Monomotapa, na costa de Moçambique. Afóra
+isto, funda-se ainda Sirian, no Pégu; e Hugli (Golim), em Bengala, sobre
+o delta do Ganges.
+
+Porém o acontecimento mais grave d'este periodo foi a guerra simultanea
+do Adil-Shah contra Goa, do de Ahmednagar contra Chala, do Samudri
+contra Kalikodu. Os principes indigenas da India Occidental, collocados
+contra o portuguez, foram porém batidos; ao mesmo tempo que o era o de
+Atchin (Achem) atacando Malaka; e que um pirata incommodo e celebre nos
+mares da India, o _Cunhalle_ (Kunji-Ali-Markar), era degollado em Goa
+depois de tomado o seu forte de Pudepatan, d'onde saía ás prezas.
+
+Apesar dos symptomas de decomposição, o imperio commercial portuguez
+attingia, no fim do XVI seculo, o seu apogeu. As frotas singravam,
+carregadas de preciosidades, até aos mares do Japão e da China, d'onde
+traziam a prata e o ouro, sedas e almiscar. Das Molucas vinha o cravo,
+de Sunda a massa e a noz, de Bengala toda a sorte de finissimos tecidos,
+do Pégu os rubis, de Ceylão a canella, de Mausalipatam os diamantes. Na
+pequena ilha de Manaar, junto a Ceylão, carregavam-se as perolas e
+aljofares; em Atchin, na Sumatra, o benjoim; das ilhas Malajas trazia-se
+o ambar; e Ceylão exportava elephantes, por Jafanapatan. Katchi
+contribuia com os angelins, tekas e couramas; toda a costa com a
+pimenta, e com o gengibre o Kanará. Nas ilhas de Sunda, Madurá fornecia
+o salitre, Solor o pau, e Bornéo dava a camphora. De Kambai vinham o
+anil, o lacar, os tecidos; e Chala era celebre pelas suas baetas. Hormuz
+vendia os cavallos da Arabia, e as sedas e alcatifas da Persia: e, do
+outro lado do mar da India, a Africa dava em Sokotra o azebre, em Sofala
+o ouro, em Moçambique o marfim, o ebano e o ambar. Além dos preciosos
+carregamentos, além dos lastros de arroz do Kanará para mantimentos, e
+de pimenta que era um estanco régio, as náus da corôa levavam, de Diu,
+de Hormuz e de Malaka, as grossas quantias de dinheiro que n'esses tres
+pontos estrategicos se cobravam, pelos _cartazes_ que ahi compravam os
+navios mercantes.
+
+As causas de decadencia, tão antigas como a descoberta, mas avolumadas
+todos os dias, precipitaram porém a queda, logo que, pela união a
+Castella, Portugal se achou envolvido nas guerras com a Inglaterra e a
+Hollanda. Mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro lado, é, porém,
+fóra de duvida que o dominio portuguez na India, corroido de tão grandes
+lepras, cairia, desde que os protestantes, maritimos e mercadores,
+seguissem caminho do Oriente, pelo cabo da Boa-Esperança, na esteira das
+náus portuguezas. Já por vezes piratas francezes tinham ido por ahi á
+India; e se, com o inglez, nem o hollandez lá fôra ainda, era porque
+lh'o impediam as condições e embaraços que, a religião para um, para o
+outro a independencia, levantavam na Europa. Batida a Hespanha pela
+Inglaterra protestante e pelas Provincias-unidas independentes, ambas
+estas nações, alliadas, iam batel-a na India, com a facilidade com que
+se vence um inimigo doente, mal apercebido, cheio de vicios e molestias.
+
+Os que no meiado do XVII seculo observavam o imperio portuguez, diziam
+no estylo pretencioso do tempo: «Está o estado da India tão velho que só
+o temos _por estado_. Se foi gigante é pigmeu. Se foi muito, não é já
+nada.» Era apenas Goa e Macau, Bassaim, Daman, Diu, Moçambique e Mombas.
+Já não havia armadas nos mares; e os hollandezes e inglezes, fomentando
+a rebellião dos naturaes, e auxiliando-os, substituiam-nos, como nós
+tinhamos substituido os arabes--mas com outra arte e muito juizo.
+
+Uns preferiram a Indo-China, outros as partes occidentaes; e em
+cincoenta annos varreram das costas e ilhas os presidios e feitorias
+portuguezas. O inglez combateu ao lado do persa em Hormuz para nos
+expulsar, e o exito levantou todos os naturaes. O soberano do Arakan
+lança-nos fóra do Pégu, o de Bengala despede-nos de Hugli, perdemos
+assim Mahabalipurum e na contra-costa, Mangaluru, Barkuru, Hanavare,
+Chala, Kalikodu. A perda de Hormuz arrastou comsigo Maskat, com a qual
+se foram todos os estabelecimentos no litoral da Arabia até ao mar
+Vermelho; e desguarnecida a costa do norte, inutil era conservar Sokotra
+e os pontos fronteiros no Adal, que foram abandonados com Quilua em
+Africa, as ilhas de Malaja e Anjediva, e Passir (Pacem) em Sumatra.
+
+Os hollandezes herdavam, do nosso imperio do extremo Oriente, tudo o que
+não voltava a caír no poder dos naturaes. Outro tanto succedia na India.
+Da Africa, Arabia, e Persia, isto é, das fronteiras occidentaes,
+ficavam-nos Mombas e Moçambique;[117] das fronteiras orientaes, o ponto
+isolado de Macau, já na China, e Solor; do centro, restavam apenas uma
+cidade e quatro fortes--memoria, mais do que dominio, em frente d'esses
+mares, onde já se não via tremular a bandeira portugueza em poderosas
+esquadras como as de outro tempo.
+
+Ambon, Tidor, Ternate nas Molucas, Malaka na sua peninsula, Madura e
+toda a Sunda, eram hollandezas; os nossos antigos pontos de
+Ceylão--Kola-ambu e Kalitura, Negombo e Battikalo, Trinkonomali, Galla e
+Jafnapatan, com a ilha de Manaar visinha--pertenciam-lhe tambem; e nas
+duas costas da peninsula hindustanica tinham-nos tomado egualmente
+Negapatan de um lado, Kollam, Kadunguluru, Kananor, e Katchi, do outro.
+Abertamente se proclamava a queda do imperio portuguez, e até os mais
+infimos blasonavam. Um regulo do Arrakan escrevia nos seus estandartes:
+«Fatekan, senhor de Sundiva, derramador do sangue dos christãos e
+destruidor da nação portugueza!»
+
+Tudo estava perdido, e a viagem terminada. Não havia outra cousa a
+fazer, senão voltar a casa: embarcar para o reino, com o producto das
+rapinas, dando a pôpa a esse mundo, onde a nossa missão terminára.
+
+Cada capitão que, nos bons tempos, regressava da India, fazia outro
+tanto: cerrava as arcas atulhadas de ouro e pedrarias, arrumava a
+bagagem no porão, e largava as velas á náu, dizendo adeus para sempre ao
+Oriente!
+
+ * * * * *
+
+Assim aconteceu em 1589 a D. Paulo de Lima, o que assolára Johor, na
+Malasia.[118] Foi em janeiro d'esse anno funesto que embarcou em Goa.
+Vinha rico; e a náu gemia com o peso do carregamento, abarrotada com um
+lastro de pimenta a granel, o convez atulhado de arcas, fardos e
+escravos. O capitão trazia comsigo a esposa e domesticos; e embarcaram
+com elle, de passageiros, numerosas pessoas: soldados de retorno,
+frades, clerigos e mulheres.
+
+Como na India não havia estaleiros onde os navios podessem vêr o fundo e
+passar o calafeto, a náu, já velha e demasiadamente grande, voltava em
+mau estado. Ao embarque benziam-se todos e imploravam a protecção dos
+frades, lembrando-se dos muitos naufragios que o tamanho e má condição
+das náus multipticava todos os dias. Este contava que da esquadra de
+Kalikodu, no anno anterior, tinham desapparecido quatro náus com toda a
+gente, vindo um mastro com a cordoalha da enxarcia entrar pelo rio de
+Daman. Aquelle, que já tres vezes fôra á India, narrava o naufragio
+celebre da _Flamenga_, e chamava ás náus sepultura de homens, e vasos de
+desastres: e um, persignando-se, contrito, dizia que as náus iam e
+vinham tão alastradas de peccados, que nas tormentas se ouviam falar os
+demonios claramente. Os religiosos não declaravam que fosse impossivel,
+mas recommendavam resignação e esperança no auxilio divino; intercalando
+nos seus discursos phrases breves, n'um latim sagrado.[119]
+
+Entretanto a viagem seguia feliz com um mar bonançoso. Todos confiavam
+em que Deus não deixaria de proteger um capitão piedoso como era D.
+Paulo de Lima. Isto, porém, não impedia que fossem commentando as
+tristes cousas do mar; e com tanta maior liberdade, que começavam a
+crer-se salvos d'esses perigos, á medida que viam irem-se approximando
+do terrivel cabo da Africa. Asseguravam que nem um terço dos que
+embarcavam em Lisboa chegavam á India, e isto ninguem impugnava, por ser
+verdade reconhecida; e que a volta ao reino acabava os que as doenças da
+terra, a miseria e a guerra tinham poupado no Oriente. Era um sorvedouro
+de homens, era... De 700 a 800 que cada náu levava, só metade vinha a
+servir. Depois, queixavam-se dos calafates que lançavam os navios ao
+mar, mal feitos e mal vedados; e referiam os numerosos casos de
+agua-aberta, dentro do Tejo, em navios novos. Outros accusavam o modo
+deshumano com que se arrumava a bordo muita mais gente do que a lotação
+permittia: iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno
+mortifero das noutes, sem camas nem para os enfermos, respirando o ar
+podre das cobertas: por estas causas havia o escrobuto, as febres
+podres, as dysenterias... como se não bastassem os perigos do mar e dos
+ventos! Na náu em que fôra á India D. Antonio de Noronha iam 900
+pessoas: metade morreu na viagem. Além d'isso os capitães--era
+sabido--roubavam nos mantimentos, e para poupar, escolhiam generos da
+peior especie. Tudo ia avariado e podre, a agua corrompida. N'uma viagem
+de seis mezes, como a da India, abasteciam-se para cinco apenas: d'ahi
+resultavam fomes.
+
+Estas conversas exaltavam muitas vezes os animos. Como punham nos crimes
+o nome dos réus, levantavam-se os partidos; e mais de uma vez houve
+rixas tão bravas, que o capitão se viu forçado a leval-os de roldão,
+para debaixo do castello de prôa; e os frades, atraz, de crucifixos nas
+mãos, prégavam paz e amor, com orações pausadas em latim.
+
+Os fidalgos e religiosos, no chapiteu da pôpa, commentavam as queixas
+dos soldados, reconhecendo que, em verdade, tinham razão; e como eram
+mais letrados, ligavam os effeitos ás causas.
+
+A abundancia da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as
+dimensões dos navios, ainda por cima aggravada pelo excesso das cargas.
+Era funesta uma cubiça, causa de tantas victimas; mas o mal vinha de
+longe, desde o reinado de D. João III. Os navios, mal desenhados, de
+muito porão, e, por cima de tudo, abarrotados, não obedeciam ao leme, e
+eram ronceiros... Verdade seja dita, os antigos não tinham podido
+admirar as monstruosas carracas de sete e oito cobertas, com alojamento
+para dois mil homens e porões para mil tonelladas de carga. Cada um
+d'esses navios parecia um reino! Armavam peças de vinte tonelladas de
+peso e calavam mais de dez braças. O costado media cincoenta palmos
+acima do lume de agua á meia náu, e chegava a oitenta nos castellos á
+pôpa e á prôa. Os baileus, que os ligavam, tinham dois andares: e nos
+cestos de gavea cabiam dez ou doze homens, para manobrar os canhões
+pequenos: berços e sacres. Mas as carracas, observavam tambem, eram
+pessimas no mar: boiavam, não andavam. E um dos fidalgos velhos contava
+como era o _S. João_, o _Botafogo_ em que fôra, em 1535, com a divisão
+portugueza, a Tunis, na expedição de Carlos V.
+
+E por fim, esquecidos de males distantes, todos concordavam em admirar a
+grandeza de Portugal, onde havia sempre para mais de 400 navios de
+alto-bordo, além de perto de 2:000 caravelas e vasos menores... porque o
+tempo ia bonança, e o vento fresco levava-os rapidamente, pelo canal de
+Moçambique, direito ao Cabo.
+
+Estavam em 26° quando, porém, quasi á vista da ponta austral de S.
+Lourenço (Madagascar), deram por uma agua que a náu fazia. Tudo correu
+aos porões, clamando contra os calafates, por cuja causa as náus se
+perdiam, andando pelo mar a Deus misericordia, por pouparem quatro
+cruzados. Afastando a carga, viram que a agua era na prôa, abaixo das
+escôas, ás primeiras picas: cuspia as estopas e as pastas de chumbo do
+fôrro, jorrando no porão, d'um torno tamanho que por elle cabia um
+punho. Mas, como o tempo estava bonança, não se affligiram demasiado,
+depois de terem vedado o rombo com saccas de arroz; e foram rumando para
+o sul, até 32°, a oitenta leguas da terra do Natal. Já levavam tres
+mezes de viagem.
+
+Foi então que o vento rondou a sudoeste, o que os forçou a fazerem-se na
+volta do norte. O mar crescia, e com o quebrar das vagas a náu
+desconjuntava-se, e o torno da prôa, vedado com arroz, cedeu. Agua
+aberta e temporal desfeito: era um dia de juizo! Começaram a ouvir-se os
+demonios, e as mulheres a gritar em ais. Cada qual implorava o seu
+santo, a sua Nossa-Senhora, com uma fé simples e espontanea, beijando os
+relicarios e bentinhos, resando em voz alta, confessando em grita os
+seus peccados, arrepellando os cabellos, estorcendo-se nas ancias do
+medo da morte e do inferno. Decorriam os expedientes devotos e pediam-se
+milagres. O capitão levava a bordo uma cruz de ouro com uma particula do
+Santo-Lenho engastada: reliquia, fetiche, em que todos punham as maiores
+esperanças. Amarraram-na com um fio de retroz, ataram-na piedosamente a
+uma espia, lançaram-na pela pôpa, a vêr se moderavam a sanha do mar. A
+náu rolava com as ondas, o Santo-Lenho, seguro na pôpa, com um prégo
+para o afundar, seguia os balanços do navio. Milagre! milagre!
+exclamaram quando o céu aclarou, amainando o vento, parecendo socegar as
+ondas. Os homens--fidalgos, soldados e escravos, brancos, pretos,
+mulatos e amarellos, pozeram mãos á obra, confiando ainda na salvação.
+Havia seis palmos de agua no porão; mas apesar da ancia, revezando-se
+nos aldropes das bombas, não conseguiam vencel-a. Alijaram ao mar toda a
+carga do convez, para libertar as escotilhas e alliviar a náu que vinha
+abarrotada. Nos porões a carga nadava, e as pranchas de brazil, as pipas
+da aguada, e mais volumes, boiando, eram lançados pelos balanços do mar
+contra o costado, batido por fôra com violencia pelas ondas. O temporal
+recrescia; o Santo-Lenho não queria protegel-os! Era um inferno e um
+desespero de estrondos, com o assobiar sinistro do sudoeste na cordoalha
+das enxarcias. Como as bombas não vasavam os porões, estabeleceram
+forcas nas escotilhas, e por ahi tiravam a agua em barris, como de um
+poço. D. Paulo de Lima não fugia ao trabalho, puxando á corda como os
+escravos. Nem comer podiam; e os frades iam de uns a outros, com agua e
+biscoitos, matando-lhes a fome e a sede, combatendo o cansaço com
+exhortações, e recommendando contra a desesperança que confiassem na
+providencia de Deus...
+
+Tres dias, desde 12 a 14 de março, conservaram a fé e os brios. Ao
+quarto viram que trabalhavam debalde. A agua já inundava a coberta, e só
+no convez se podia estar. As bombas não trabalhavam, entupidas com a
+pimenta a granel do porão; e só á custa do muito que iam alijando--todo
+o fructo das rapinas da India!--conseguiam que o navio não sossobrasse.
+Já tinham resolvido varar na terra; mas o temporal crescia sempre, e no
+meio da cerração plumbea, não podiam governar-se. Para mais, uma vaga
+partiu o leme. O vento sudoeste vinha batido em salseiros rijos, que
+despedaçavam o panno. A pobre náu era um destroço, com que as ondas
+brincavam na sua furia. Assim estiveram, perdidos e já sem esperança,
+duas noites e um dia. De 14 para 16, os transes foram medonhos. Em
+montes, estendidos no convez, os homens, ou blasphemavam, ou se
+confessavam em voz alta, accusando todos os seus crimes, os roubos, as
+violencias, os estupros, as matanças da India, e pedindo em lagrimas,
+aos clerigos, que os salvassem das penas do inferno! As mulheres,
+pranteando-se, levantavam um choro de resas, lembravam-se dos seus
+santos favoritos, as _nossa-senhoras_ particulares da sua devoção,
+fazendo votos e promessas. Os frades ouviam as confissões, absolviam,
+deixando semi-mortos, na confiança do perdão, os que antes clamavam em
+desespero, movidos pelo terror. E por sobre tudo isto os salseiros rijos
+do vento assobiavam nas cordas, bradando: morte! morte! «D. Paulo havia
+que aquelle castigo era por seus peccados.»
+
+No dia 16 o tempo clareou um pouco: e no rumo de nor-nordeste que
+levavam, descobriram terra á prôa. A noute de 17 passou-se em afflicções
+e esperanças; mas quando amanheceu, e os olhos ávidos não poderam tornar
+a vêr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos
+se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de
+viver enlouquecia-os; e D. Paulo em pé sobre o batel, com a espada e a
+adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma
+abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperança,
+apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o
+batel desceu e poisou no mar. Depois veiu remando, pela pôpa da náu,
+para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o
+commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanços da
+náu e o impulso da vaga, o batel ameaçava despedaçar-se a cada momento
+contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lançoes
+e pannos, até ao mar, onde as apanhavam.
+
+Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais
+e o barco afogava-se; os da náu gesticulavam, bradando em furia para que
+os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braços, mostrava-o
+de bordo á mãe que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam
+salvar da morte a creança. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos
+e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos
+abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fôra o
+naufragio da nau _Santiago_, no baixo da India, e tinham-se salvado
+todos em jangadas. Não abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de
+si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde
+todos iriam, guiados pelo batel.
+
+N'este desespero infernal e no meio da explosão de egoismo feroz houve
+um unico heroe: um frade que não saiu de bordo, sem ter confessado todos
+os condemnados. Absolvidos, lançou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao
+batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco
+não ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que
+vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.
+
+Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da náu: os
+remos não podiam vencer a força das ondas, e o vento arrojava-o para o
+mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram fóra seis
+homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da náu
+havia mais de outro tanto.
+
+Condemnados a uma morte inevitavel, já confessados e absolvidos, estavam
+resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou:
+e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do
+batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da
+_nossa-senhora_ do castello da pôpa,[120] diante do qual,
+prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as
+escravas resavam. Os homens faziam procissões sobre o convez, cantando
+ladainhas e hymnos. Pela manhã viram o batel tão perto que chegaram á
+fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes tão profundas e
+piedosas, que mettiam medo e terror.
+
+Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a
+agua, a náu sossobrou: no alto do capitel da pôpa a escrava, com a
+creança nos braços, mostrava-a á mãe, desolada no batel. A náu
+sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e «as cousas da
+India, adquiridas pelos meios que Deus sabe».
+
+ * * * * *
+
+A viagem da India não terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os
+salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria
+e perdição...
+
+O batel foi dar á terra em 27°20' sul, na terra dos _fumos_, a que os
+cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da náu da
+India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de
+polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanças, e ferros
+das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em
+fóra, em demanda de Lourenço Marques.
+
+Á frente ia um frade com a cruz alçada; depois D. Pedro de Lima com
+metade da gente e das armas, na cauda o capitão da náu com o resto; e,
+entre ambos, as mulheres, umas de pé, outras em andores levados por
+marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam
+a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que
+fugiam rebolando-se no chão e em gatinhas, como bogios aos saltos.
+Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam,
+principalmente os caranguejos da praia; levavam os pés empolados e em
+chagas... Em tamanha miseria se tornára o antigo imperio com que tinham
+andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!
+
+Na altura de 26°30' depararam com os restos das jangadas da náo
+_Santiago_; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham
+da India; e esses desastres eram os da nação, que em massa embarcára, e
+agora em massa tambem naufragava. «Estas desventuras e outras, diz o
+chronista, que cada dia se vêem por esta carreira da India poderam
+servir de balizas aos homens, principalmente aos capitães de fortalezas,
+para n'ellas se moderarem com o que Deus á boa mente lhes dá, e deixarem
+viver os pobres».
+
+Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando
+nos cafres a protecção e carinho que negavam no Oriente aos naturaes.
+Dispersaram-se em varias direcções, indo uns por mar a Inhambane; e na
+ilha de Inhaca, D. Paulo «caío em cama, ou para melhor dizer, no chão»,
+e morreu...
+
+Não eram, porém, sómente as ondas que, punindo a desordem e a avidez,
+tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos,
+cruzando nos mares da India, que apresavam as náus portuguezas, como
+outr'ora nós tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.
+
+Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisição de Portugal, fôra para
+Amsterdam, e publicára o que sabia das viagens da India, incitando os
+hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de
+Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperança; e
+já em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem á India. Em 1602
+fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro
+quartel do XVII seculo que o imperio portuguez caíu.
+
+Tudo se desmoronava de um modo simples e rapido. As esquadras perdiam-se
+inteiras; e tantas desgraças abatiam os animos antigos, a ponto de
+tornarem a covardia tão vulgar, como eram de antes a audacia e a
+bravura. Entre outros casos, conta-se o de um philippebote hollandez
+tomando um galeão que montava dobrada artilheria e guarnição. Em 1591 e
+92, de 22 navios de alto bordo saídos da India, só duas náus chegaram ao
+Tejo, porque vinham vasias por velhas. Quer á ida, quer á volta, os
+cruzeiros inimigos caçavam as nossas frotas; e a destruição do poder
+maritimo portuguez garantiu para todo o sempre a destruição consummada
+do imperio do Oriente.
+
+Essa louca viagem, sem pilotos habeis, terminava por um breve naufragio;
+e os mares que, no seculo XV nós vencemos com tamanha audacia,
+vingavam-se, no XVI, do nosso atrevimento. Rasgáramos as nuvens do Mar
+Tenebroso; mas, para além dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos
+nevoeiros prognosticados pelos geographos arabes, no meio das trevas da
+nossa perversidade. A natureza offendida punia-nos com a morte; e o
+destino implacavel retribuia-nos todos os males com que tinhamos
+flagellado o proximo.
+
+ [112] V. _Raças humanas_, II, pp. 185-91, e _Taboas de Chronol._,
+ pp. 45-9.
+
+ [113] V. ácerca dos costumes dos indigenas. _Quadro das instit.
+ primit._, pp. 14-5, 158, 160-1, 174; e _Regime das riquezas_,
+ pp. 56, 65, 85, 109.
+
+ [114] V. _Regime das riquezas_, p. 109.
+
+ [115] V. _O Brazil e as col. port._, L. IV, 3.
+
+ [116] V. _Hist. da rep. romana_, I, pp. 183-91.
+
+ [117] V. _O Brazil e as colon. Port._ (2.ª ed.), p. 36.
+
+ [118] V. _Hist. da republica romana_, II, p. 185.
+
+ [119] V. a estatistica dos naufragios no _Brazil e as colonias
+ port._ (2.ª ed.), p. 34, _nota_.
+
+ [120] V. _Hist. da republ. romana_, I. pag. 194.
+
+
+FIM DO TOMO PRIMEIRO
+
+ * * * * *
+
+
+
+
+INDICE
+
+DO
+
+TOMO PRIMEIRO
+
+
+ ADVERTENCIA
+ LIVRO PRIMEIRO
+ Descripção de Portugal
+ I. Os lusitanos
+ II. Fundamentos da nacionalidade
+ III. Geographia portugueza
+ IV. A terra e o homem
+ V. A historia nacional
+ LIVRO SEGUNDO
+ HISTORIA DA INDEPENDENCIA
+ (DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)
+ I. A separação de Portugal
+ II. A conquista do Al-Gharb
+ III. A monarchia e a justiça
+ IV. A crise
+ LIVRO TERCEIRO
+ A conquista do Mar Tenebroso
+ (DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)
+ I. O Infante D. Henrique
+ II. Portugal em Africa
+ III. O principe perfeito
+ IV. Em demanda do Preste-Joham das Indias
+ LIVRO QUARTO
+ A viagem da India
+ (1500-1640)
+ I. D. Francisco d'Almeida
+ II. Affonso de Albuquerque
+ III. D. João de Castro
+ IV. Summario da derrota. Volta ao reino
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Historia de Portugal: Tomo I, by
+Joaquim Pedro de Oliveira Martins
+
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+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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+your equipment.
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+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
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+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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