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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:45 -0700 |
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diff --git a/34952-h/34952-h.htm b/34952-h/34952-h.htm new file mode 100644 index 0000000..def3385 --- /dev/null +++ b/34952-h/34952-h.htm @@ -0,0 +1,1782 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Nas trevas, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Edition" + content="Lisboa. Livraria editora, Tavares Cardoso e Irmão, 1890."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: 8px; + text-align: right; + color: silver; + } + .prosa p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + .prosa p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + h1 {text-align: center; margin-top: 5em; margin-bottom: 5em; border-top: solid 3px #000;border-bottom: solid 3px #000; padding: 1em;} + h2, h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + a {text-decoration: none;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Nas trevas + Sonetos sentimentaes e humoristicos + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: January 13, 2011 [EBook #34952] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> + +<hr> + +<p style="font-size: 1.6em;">NAS</p> + +<p style="font-size: 2.5em; color: red;">TREVAS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;"><em>Sonetos sentimentaes e humoristicos</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>LISBOA</em><br> + +<small>LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO<br> + +6, LARGO DO CAMÕES, 6</small><br> + +—<br> + +1890</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<hr style="width: 30%;"> +<p style="text-align:center; font-size: 1.6em;">NAS TREVAS</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> + +<hr> + +<p style="font-size: 1.6em;">NAS</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">TREVAS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;"><em>Sonetos sentimentaes e humoristicos</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>LISBOA</em><br> + +<small>LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO<br> + +6, LARGO DO CAMÕES, 6</small><br> + +—<br> + +1890</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> +<p style="text-align:center;">Typ. +Christovão—60, Rua de S. Paulo, 62</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:justify; margin-left: 2em; text-indent: -2em;"><em>Á memoria immaculada do Conde de S. Salvador +de Mattosinhos, consagra o author estas derradeiras pulsações da sua vida +litteraria.</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + +<h2>Nota Illustrativa</h2> + +<div class="prosa"> +<p>No soneto XVI d'esta collecção, dirigido ao sr. conselheiro e ministro +d'estado honorario Thomaz Ribeiro, a posteridade, louvando o caracter honesto +d'este funccionario, invectiva indirectamente a probidade de muitos +comtemporaneos d'aquelle honrado secretario d'estado. Os versos dignos de +reparo são estes:</p> + +<blockquote> + «Dirão de ti as porvindouras eras:<br> + «Ministro pobre em Portugal!... Chimeras!<br> + «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro..»</blockquote> + +<p>Eu já respondi á posteridade injusta nas<span class="pn"><a +name="pag_8">{8}</a></span> paginas d'um livro provavelmente esquecido: +«<em>Maria da Fonte</em>:»</p> + +<p>«O bispo de Vizeu, algumas vezes ministro, quando estava no poder, cedia os +rendimentos da mitra e não podia sustentar dois sobrinhos em Coimbra por falta +de meios; e por sua morte, o espolio da guarda-roupa prelaticia eram dois pares +de calças, umas muito no fio, outras com fundilhos. Antonio Rodrigues Sampaio +um luctador de meio seculo, legou á sua familia um miseravel monte-pio. O conde +de Thomar estava pouco menos de pobre quando o conde de Ferreira lhe legou cem +contos. E a alma immaculada do gentilissimo duque de Loulé? E o austero duque +d'Avila encouraçado de commendas e cruses para que o demonio dos maus +pensamentos lhe não penetrasse no peito? E Rodrigo da Fonseca, rival de Passos +Manuel no desinteresse? E Fontes<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> +Pereira de Mello, invulneravel em pontos de honra, como Anselmo Braamcamp? +Antonio de Serpa, Mendes Leal e Andrade Corvo, quando deixaram de ser ministros +iam ganhar a sua vida no jornalismo e no magisterio, e saldar com esses +mesquinhos salarios as suas dividas contrahidas no poder. E Lobo d'Avila, um +destro gymnasta do talento que se tem dado por bem pago com a benemerita +reputação de muito esperto? E Latino Coelho? um ministro que, em materia de +ladroagem, só correu eminente risco de ser roubado nos diamantes do seu estylo, +se se demorasse no gabinete a ler e a subscrever portarias bordalengas? E o +lovelaciano Barjona, grande salteador de corações incautos e mais nada? Não se +viu Thomaz Ribeiro, quando largou segunda vez a pasta, abrir escriptorio de +advogado? E Lopo Vaz, que tem sahido do governo mais illibado e<span +class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> menos martyr do que sahiu do +governo da India outro Lopo Vaz, seu problematico avô? Pinheiro Chagas escreve +correspondencias para o Brasil e artigos avulsos nos jornaes litterarios afim +de conservar a velha freguezia dos seus admiradores. José Luciano de Castro +acinge-se ás restricções de uma austera parcimonia, para educar os filhos com o +seu patrimonio. Ao Conde de Casal Ribeiro perguntem-lhe por metade dos seus +haveres!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Outro soneto que remetti ao meu amigo Thomaz Ribeiro era acompanhado de +algumas quadras significativas da conformidade com que eu me recolhi ás minhas +trevas como d'antes ao meu gabinete de trabalho cheio de luz.</p> + +<p>A imprensa jornalistica, transcrevendo<span class="pn"><a +name="pag_11">{11}</a></span> essas singelas coplas, revelou, de par com o +sentimento da commiseração, uma especie de contentamento pela ressurreição da +minha alma n'este mundo escuro em que a saudade da luz faz o milagre de me +representar por momentos as coisas tragicas e as risonhas da minha vida +passada.</p> + +<p>Aqui estão as quadras que eu não posso estremar dos outros versos meditados +na minha longa e já agora perpetua escuridade.</p> + +<blockquote> + <b>A Thomaz Ribeiro</b></blockquote> + +<blockquote> + Se cá vens jantar, meu anjo!<br> + Dou-te o esplendido soneto,<br> + Que n'esta data remetto,<br> + E talvez te faça arranjo.</blockquote> + +<blockquote> + Uma prenda caprichosa<br> + Dá-se em mim e não t'a nego:<br> + É que depois que estou cego,<br> + Já não sei fallar em prosa.<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> +</blockquote> + +<blockquote> + Tem delicias esta cruz<br> + Feita de pranto e poesia!<br> + Ah! que estranha anomalia...<br> + Quanto mais trevas mais luz!</blockquote> + +<blockquote> + Homero, Milton, Castilho,<br> + Portentos d'inspiração,<br> + Acharam na escuridão<br> + Sóes d'eterno e immenso brilho.</blockquote> + +<blockquote> + Poetas epicos d'Iliadas<br> + Temos duzias; mas eu colho<br> + Que tinha apenas um olho<br> + O que escreveu os <em>Lusiadas</em>.</blockquote> + +<blockquote> + Quando regressou da Persia,<br> + Um perfeito proletario!<br> + Touxe um olho solitario<br> + Sempre a chorar por Natercia.</blockquote> + +<blockquote> + Tivesse elle olhos normaes,<br> + Com algumas Inscripções,<br> + Faria chilras canções<br> + Sonetos e madrigaes.</blockquote> + +<blockquote> + Assentemos sem refolhos<br> + Que não seria o cantor<br> + Do feroz Adamastor<br> + Se possuisse os dois olhos.<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span> +</blockquote> + +<blockquote> + Por que Deus, quando escurece<br> + A luz brilhante de fóra,<br> + Faz repontar nova aurora<br> + Dentro d'alma que amanhece.</blockquote> + +<blockquote> + Seja pois abençoada<br> + A Providencia divina<br> + Que apagando-me a retina<br> + Me fez da treva, alvorada!</blockquote> + +<blockquote> + Se eu tiver um cenotaphio,<br> + Em que caibam tres palavras,<br> + A ti te rogo que as abras<br> + Com este humilde epitaphio:</blockquote> + +<blockquote> + «Venceu emfim as procellas<br> + «E o pavor da escuridade!<br> + «Dai-lhe a vossa claridade,<br> + «Ó lucilantes estrellas!</blockquote> + +<p>O soneto relativo ao sr. Oliveira Martins não carece de prosa que o +desculpe. Este eminente escriptor e fecundissimo talento sabe, ha muitos annos, +quanto eu admiro as suas aptidões litterarias e virtudes civicas.<span +class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span></p> + +<p>Esses versos foram ditados no dia em que se esperava a nomeação de S. Ex.ª +para os conselhos da corôa, onde o discreto publicista não quiz subir, para não +descer.</p> + +<p>A flecha da satyra pode alvejar certos homens porem não os fere. A couraça +do talento, retemperada pela honra, é impenetravel.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O soneto <em>Te-Deum Laudamus</em> d'esta collecção necessita de +esclarecimentos que me absolvam da culpa da maledicencia. Eu não tive em vista +satyrisar nem sequer ligeiramente melindrar o cavalheiro protogonista d'esse +inoffensivo poemeto.</p> + +<p>Destinei enviar a um jornalista eminente o soneto com uma carta que lhe +tirasse as asperesas da mordacidade. Não sei que motivo se deu para que as +rimas ficassem até<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> agora +ineditas. Isso não impede que os versos e a prosa sejam publicados. Dizia assim +a carta:</p> + +<p>«Considero com respeitosa admiração as faculdades civicas e os talentos do +sr. conselheiro Marianno de Carvalho. Ha-de haver 15 annos que Antonio Augusto +Teixeira de Vasconcellos m'o assignalou como o mais esperançoso luctador da +arena politica.</p> + +<p>«Li muitos dos seus artigos humoristicos onde achei confirmado o vaticinio +do grande mestre da polemica e da critica.</p> + +<p>«Congratulei-me com os amigos de S. Ex.ª quando, ha poucos dias, uma +eventualidade auspiciosa o salvou do desastre d'um descarrillamento na via +ferrea d'Hespanha.</p> + +<p>«Assisti espiritualmente ás missas que se resaram em acção de graças por +esse motivo. V. Ex.ª sabe que no amago das coisas mais serias e graves ha +sempre um sedimento<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> comico, o +qual, bem esgaravatado, apparece. Este meu soneto, é o sedimento metrificado em +rimas ordinarias e pouco felizes. Eu me persuado que o alto espirito do sr. +Marianno de Carvalho se riu das taes missas, primeiramente que eu. Essa +luminosa pratica do Catholicismo, que enveste Nosso Senhor Jesus Christo da +qualidade, pouco divina, de fiscal e arbitro dos desastres em caminhos de +ferro, figura-se-me um contra-senso prehistorico a todas as religiões +conhecidas. Seria para mim um germem de revolta e descrença na suprema justiça, +saber eu que o sr. conselheiro Marianno de Carvalho saiu do descarrillamento +illeso de perigo, sem uma ligeira escoriação na sua epiderme, tendo-me +succedido ha 9 annos sahir d'igual desastre com a cabeça oito vezes fendida. +Não me posso convencer de que Sua Divina Magestade revellasse tamanha ausencia +de<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> imparcialidade, como +architecto supremo que dirige as cousas do Universo, e principalmente as que em +Portugal respeitam ao sr. Marianno de Carvalho e a mim, quando viajamos. Seja +como fôr, desejo ardentemente que o sr. conselheiro, dando-me a honra de ler +este soneto, haja por bem de o applaudir com um sorriso.»</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O Soneto: <em>Logica de ferro</em>, foi enviado com a seguinte carta a um +jornal que o regeitou como inconveniente e desorganisador do systema de +convenções methodicas em que todos estamos mais ou menos illaqueados.</p> + +<p>«Mande publicar o soneto que lhe envio, senão fôr hostil ás suas opiniões +theologicas, em tal assumpto. Eu por mim, pendo a favor<span class="pn"><a +name="pag_18">{18}</a></span> do Patriarcha, padre catholico, na linha recta +dos seus deveres, entre os SS. PP. e os concilios. Aquelles que invectivam o +Cardeal, e ao mesmo tempo promovem suffragios por alma d'El-Rei, não digo sejam +hypocritas; mas aproveitam a methaphysica do catholicismo para alardearem um +espalhafato de piedade.</p> + +<p>«O padre catholico opera convicto e por consequencia correcto. Os outros +servem-se da religião theatralmente. Como quer que seja, eu me persuado que +El-Rei D. Luiz I está serenamente recostado no seu leito de marmore no Pantheon +de S. Vicente de Fora; e quem se lembrar da bondade da sua alma, no transcurso +de 28 annos de prospero reinado, presta á sua memoria a mais sagrada homenagem +com que os vivos podem suffragar os mortos.»<span class="pn"><a +name="pag_19">{19}</a></span></p> +</div> + +<h1>SENTIMENTO</h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span></p> + +<h3>I<br> +O Conde de S. Salvador de Mattosinhos</h3> + +<blockquote> + O conde entrou no albergue arruinado<br> + De S. Miguel de Seide. Era anciosa<br> + A vida que eu vivia tormentosa,<br> + Á cegueira fatal já condemnado.</blockquote> + +<blockquote> + Eu vi-lhe o coração bondoso e honrado<br> + Na face ingenua e triste e maviosa;<br> + Pulsava n'elle a nota dolorosa<br> + Do estranho soffrimento recatado.</blockquote> + +<blockquote> + Chorava ao despedir-se. Era a tristeza<br> + De me deixar na formidavel presa<br> + Da treva, em quanto a morte a não dissolve.</blockquote> + +<blockquote> + Partiu chorando. E nunca mais nos vimos.<br> + Mortos! Ao mesmo tempo, ambos cahimos<br> + Na eterna escuridão que nos envolve.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<h3>II<br> +Visconde de Benalcanfor</h3> + +<blockquote> + Já morto! Dilacera-me a saudade.<br> + Não tenho mais ninguem d'aquelles dias<br> + De ephemeras, vibrantes alegrias,<br> + Que me illumine a escura mocidade.</blockquote> + +<blockquote> + Que ridente e subtil jovialidade!<br> + Que brilhantes hyperboles fazias,<br> + Com graça encantadora, quando rias<br> + Dos sérios carnavaes da sociedade!</blockquote> + +<blockquote> + A dor de envelhecer não a venceste;<br> + Pois que do coração sempre viveste,<br> + Matou-te finalmente o coração.</blockquote> + +<blockquote> + Vencido luctador, meu pobre amigo,<br> + Desde hontem que tu dormes no jazigo<br> + O sinistro dormir da podridão.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p> + +<h3>III<br> +A maior dor humana</h3> + +<p style="text-align:center;"><small>(Na morte quasi simultânea dos dois filhos +unicos de Theophilo Braga)</small></p> + +<blockquote> + Que immensas agonias se formaram<br> + Sob os olhos de Deus! Sinistra hora<br> + Em que o homem surgiu! Que negra aurora,<br> + Que amargas condições o escravisaram!</blockquote> + +<blockquote> + As mãos, que um filho amado amortalharam,<br> + Erguidas buscam Deus. A Fé implora...<br> + E o ceu que respondeu? As mãos baixaram<br> + Para abraçar a filha morta agora.</blockquote> + +<blockquote> + Depois, um pai que em trevas vae sonhando,<br> + E apalpa as sombras d'elles onde os viu<br> + Nascer, florir, morrer!... Desastre infando!</blockquote> + +<blockquote> + Ao teu abysmo, pai, não vão confortos...<br> + És coração que a dôr impedreniu,<br> + Sepulchro vivo de dois filhos mortos.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span></p> + +<h3>IV<br> +Luiz—O Bom</h3> + +<blockquote> + Quando El-Rei D. Luiz for accolhido<br> + Aos penetraes da escura eternidade,<br> + Será pungente a funeral saudade<br> + Que mais pondera e chora o bem perdido...</blockquote> + +<blockquote> + Não houve em seu reinado um só gemido<br> + De guerra fratricida! A Magestade,<br> + Passando o sceptro ás mãos da Caridade,<br> + Baixava ao lar sem pão, do desvalido.</blockquote> + +<blockquote> + Senhor! deram-te as lettras ledos dias,<br> + E as intimas, supremas alegrias<br> + De quem trabalha—Eterna e sancta lei!</blockquote> + +<blockquote> + Revives na saudade, alma serena!<br> + Se a patria em que reinaste era pequena,<br> + Fôras em maior reino um grande rei.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<h3>V<br> +Lagrimas</h3> + +<blockquote> + Senhora! em vosso rosto macerado<br> + Transluz da alma afflicta a immensa dôr!<br> + D'um lado, a morte; do outro, o vosso Amor<br> + Tremenda lucta ao pé do Esposo amado!</blockquote> + +<blockquote> + Contaes as pulsações do peito anciado<br> + Em estos convulsivos do estertor;<br> + Só podem vossos labios dar calor<br> + Áquelle corpo inerte, hirto, gelado.</blockquote> + +<blockquote> + Vós bem vêdes, Senhora, este quebranto<br> + Que enluta Portugal! Ergue-se o pranto,<br> + Quando a morte do Paço se avisinha...</blockquote> + +<blockquote> + Pois quanto uma nação póde soffrer<br> + Não tem o acerbo e intenso padecer<br> + Das vossas sanctas lagrimas, Rainha!</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p> + +<h3>VI<br> +Corôa de espinhos</h3> + +<blockquote> + Das trevas d'alem-mundo o esposo amado,<br> + Rainha, é Rei comvosco! Inda reinaes,<br> + Que o vosso throno assenta em pedestaes<br> + Dos corações que tendes conquistado.</blockquote> + +<blockquote> + Mas que delicias tem esse reinado?!<br> + Senhora, alguma vez não invejaes<br> + Os remançosos dias sempre iguaes,<br> + D'um doce egoismo calmo e recatado?</blockquote> + +<blockquote> + Reinar!... reinar chorando a cada hora!<br> + O vendaval da dôr que ruge fóra<br> + E a propria dôr!... Chimeras dolorosas!</blockquote> + +<blockquote> + Ha tanto abysmo em flóridos caminhos...<br> + O diadema de Christo era de espinhos!...<br> + Sagradas sois, corôas tormentosas!</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span></p> + +<h3>VII<br> +Velhos problemas sagrados</h3> + +<blockquote> + Pergunta-se á divina Providencia<br> + Que segredos são estes do Destino?<br> + Ha vidas triumphaes: parecem hymno<br> + Sem nota de penosa intercadencia.</blockquote> + +<blockquote> + Mimosas em regalos d'opulencia,<br> + Não soffrem o revez d'um desatino:<br> + Se o buscam, acham sempre o Velocino,<br> + Sem medo que naufrague a consciencia.</blockquote> + +<blockquote> + Outros vão sobre espinhos arrastados<br> + Pela mão da Virtude, acorrentados<br> + Aos preceitos sanctissimos do Eterno!</blockquote> + +<blockquote> + Quem deu á infamia vida tão folgada?<br> + Quem dilacera a honra? É Deus ou Nada?<br> + Responde, Excelso auctor do meu inferno!</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<h3>VIII<br> +Rachel</h3> + +<blockquote> + Libavas, borboleta, a flôr da vida<br> + No parque ameno d'ideaes chimeras.<br> + Que seja amor, não sabes; mas esperas<br> + Vencer captiva, e captivar vencida.</blockquote> + +<blockquote> + Chega a paixão... Retraes-te espavorida!<br> + Saudade tens das quinze primaveras,<br> + Em que, menina e moça, amada eras,<br> + Sempre isenta, risonha e distrahida.</blockquote> + +<blockquote> + Vence a paixão... E o teu anjo innocente,<br> + Desligado de ti, mésto e dolente,<br> + Regressa para o ceo; mas vai chamando-te...</blockquote> + +<blockquote> + Não foste! És presa á minha desventura!<br> + Em grande amor te dei grande amargura...<br> + Fui teu verdugo, mas verdugo amando-te.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<h3>IX<br> +Alexandre da Conceição</h3> + +<blockquote> + Bem me lembra que o vi, na juventude,<br> + Rosado pela aurora d'essa idade.<br> + Eram prismas d'amor e d'amisade<br> + Os carmes do seu mystico alahude.</blockquote> + +<blockquote> + Sendo fatal que degenere e mude<br> + A crença, o affecto e o bem da mocidade,<br> + Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade,<br> + Nos arranques da briga azeda e rude.</blockquote> + +<blockquote> + Mais tarde o encontrei. Já era o homem<br> + Ralado por desgostos que consomem,<br> + E põem na face um gesto acre e severo.</blockquote> + +<blockquote> + Se o seu bondozo riso era apagado,<br> + Restava-lhe este honroso predicado:<br> + Prégando o Socialismo, era sincero.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p> + +<h3>X<br> +Paciencia</h3> + +<blockquote> + Quem pode conceber que Deus creasse<br> + Tanta obra perfeitissima, esmaltada<br> + Pelo espaço infinito, e a desgraçada<br> + Raça humanal de imperfeições manchasse?</blockquote> + +<blockquote> + Quem pode conceber o acerbo enlace<br> + De miserias que esmagam, condemnada<br> + A creação mais nobre, atormentada<br> + Desde o berço até ás ancias do trespasse?</blockquote> + +<blockquote> + É certo que as desgraças são enormes;<br> + Mas tu, Deus abscondito, não dormes,<br> + Quando eu te invoco a divinal clemencia.</blockquote> + +<blockquote> + Ao dar-me as penas com que me torturas,<br> + Um thesouro me deste de venturas:<br> + Chama-se este thesouro a P<small>ACIENCIA</small>.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p> + +<h3>XI<br> +Veterano</h3> + +<blockquote> + Sensiveis corações, ouvi meus brados!<br> + Nasci lá nas montanhas de Barroso.<br> + Meu pae foi um pastor libidinoso,<br> + Que brutalmente fez alguns peccados.</blockquote> + +<blockquote> + Foi minha mãe pastora de cevados.<br> + Morreu quando eu nasci; mas tão mimoso<br> + Que foi meu berço! um antro penhascoso...<br> + Setenta e quatro annos são passados.</blockquote> + +<blockquote> + Soldado fui; servi, em Caçadores,<br> + Dois amos, ambos elles <em>mais peores</em>:<br> + Um era D. Miguel; o outro, o irmão</blockquote> + +<blockquote> + Metteram-me tres balas n'este flanco...<br> + Bem me custa, arrastado, andar tão manco<br> + De porta em porta a mendigar o pão.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<h3>XII<br> +Scena trivial</h3> + +<blockquote> + Este homem que me vem pedir esmola,<br> + Muito bem conheci, galhardamente<br> + Vibrando o pingalim no dorso ardente<br> + Dos seus nedios frisões. Fez alta escola.</blockquote> + +<blockquote> + Quando o fulvo ginete encaracola<br> + E assesta o seu monoculo insolente<br> + Nas timidas donzellas, cuida a gente<br> + Que João Tenorio a virgindade assola!</blockquote> + +<blockquote> + Que descalabro é esse em que se liga<br> + Este esqualido velho que mendiga<br> + Ao dandy esvelto e triumphal que eu vi?!</blockquote> + +<blockquote> + Inquiro o desabar em tal miseria...<br> + Responde: «Essa pergunta será séria?<br> + «Fui rico, hoje sou pobre...»<br> + Ah! percebi...</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p> + +<h3>XIII<br> +Alcacer Kibir</h3> + +<blockquote> + Verdugo, que esmagaste a India aos pés<br> + Eis aqui, Portugal, o que tu fôste!<br> + Repulsivo morphetico d'Aoste...<br> + Eis aqui, Portugal, o que tu és!</blockquote> + +<blockquote> + Os Gamas, Albuquerques e Sodrés,<br> + Alçando a cruz em sanguinoso poste,<br> + Bradam ser Christo o general da hoste,<br> + Se os povos sangra o ferro portuguez.</blockquote> + +<blockquote> + Terrivel vae mostrar-se a Providencia,<br> + Arrancando das mãos da prepotencia<br> + A levantina raça acorrentada.</blockquote> + +<blockquote> + India, escrava gentil, espera um pouco...<br> + Lá vem sobre Marrocos um rei louco...<br> + Eis Alcacer-Kibir! estás vingada.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<h3>XIV<br> +Jorge</h3> + +<blockquote> + Constantemente vejo o filho amado<br> + Na minha escuridão, onde fulgura<br> + A extatica pupila da loucura.<br> + Sinistra luz d'um cerebro queimado.</blockquote> + +<blockquote> + Nas rugas de seu rosto macerado<br> + Transpira a cruciantissima tortura<br> + Que escurentou na pobre alma tão pura<br> + Talento, aspirações... tudo apagado!</blockquote> + +<blockquote> + Meu triste filho, passas vagabundo<br> + Por sobre um grande mar calmo, profundo.<br> + Sem bussola, sem norte e sem pharol!</blockquote> + +<blockquote> + Nem goso nem paixão te altera a vida!<br> + Eu choro sem remedio a luz perdida...<br> + Bem mais feliz és tu, que vês o sol.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<h1>HUMORISMOS</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p> + +<h3>XV<br> +Critica do auctor</h3> + +<blockquote> + Estes velhos sonetos não rutilam<br> + Brilhantes Documentos sociologicos,<br> + Nem modernos processos biologicos,<br> + Leis que os vates senis não assimilam.</blockquote> + +<blockquote> + Abundam lentejoulas que scintillam<br> + Disfarçando microbios pathologicos,<br> + Fermentações de vicios phisiologicos,<br> + Basofias anormaes, lesões que opilam.</blockquote> + +<blockquote> + Escreve alguem: «Quem reina é Sancho Pança.»<br> + Serodio D. Quixote, jámais podes<br> + Sanar a podridão que avulta e avança.</blockquote> + +<blockquote> + Se os preconceitos, velho, não sacodes,<br> + Se não deixas de ser sempre creança,<br> + Fazem-te o que ás creanças fez Herodes.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p> + +<h3>XVI<br> +Thomaz Ribeiro</h3> + +<blockquote> + Ao cantor de <em>D. Jayme</em> era ousadia<br> + Dedicar uns insipidos sonetos,<br> + Bem pallidos, mesquinhos esbocetos<br> + Dos <em>Ridiculos</em> grandes d'hoje em dia.</blockquote> + +<blockquote> + A ti que illeso passas n'esta orgia,<br> + Modesto, honrado e amado, que amulêtos<br> + Te salvam d'estes pantanos infectos<br> + Em que chafurda a esqualida anarchia?</blockquote> + +<blockquote> + Tantas vezes Governo!... E não tens pejo<br> + De ser pobre, ó Thomaz ?... Isto que vejo<br> + Me inspira o vaticinio que registro:</blockquote> + +<blockquote> + Dirão de ti as porvindouras eras:<br> + «Ministro pobre em Portugal! Chimeras!...<br> + «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!»</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<h3>XVII<br> +Remorso</h3> + +<blockquote> + Eu choro quando, ás vezes, me concentro<br> + A meditar nas horas malogradas,<br> + Noites de inverno, gelidas, passadas<br> + Nos Carnavaes rhetoricos do Centro.</blockquote> + +<blockquote> + Convidam-me a ser socio. Acceito e entro,<br> + Deixando solitarias, consternadas,<br> + Três Marilias que amei! Estaes vingadas!<br> + Remorsos me excruciam cá por dentro.</blockquote> + +<blockquote> + Dizia-me um <em>dynastico-esquerdista</em>:<br> + «Prepara-se você para estadista?<br> + «Aspira a ser ministro? A escola é esta.»</blockquote> + +<blockquote> + Pois, senhores, dez mezes decorridos,<br> + Bom politico, em todos os sentidos,<br> + Sahi do Centro, mas sahi mais besta.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p> + +<h3>XVIII<br> +Te-Deum Laudamus</h3> + +<blockquote> + Vai grande barafunda lá no Empyreo!<br> + Acaba de chegar um estafeta,<br> + Que diz ser natural d'este planeta,<br> + E as noticias que dá causam delirio.</blockquote> + +<blockquote> + Formou-se logo um luzitano cyrio;<br> + E o Marquez de Pombal, lendo a gazeta,<br> + Fita em Garrett a celebre luneta<br> + E diz: «Veja, collega, este martyrio!</blockquote> + +<blockquote> + «O nosso Portugal tornou-se um Congo!...<br> + «Resam missas Lisboa e mais Vallongo,<br> + «Por que um feliz descarrillou sem damno.</blockquote> + +<blockquote> + «Recebo agora officio do governo,<br> + «Pedindo-me agradeça ao Padre Eterno<br> + «O favor de salvar o Marianno.»</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p> + +<h3>XIX<br> +7:500 contos</h3> + +<blockquote> + Finou-se em França, ha pouco, um millionario<br> + Nascido em Portugal.—Honra é dizel-o!<br> + Sahindo d'um cardenho de Lordello,<br> + Foi no Brasil doutor e boticario.</blockquote> + +<blockquote> + Não tem seu nome algum Nobiliario;<br> + Não foi conde sequer, ou não quiz sel-o,<br> + Qual outro seu collega, do Restello,<br> + E outros mais fidalgos d'Hervanario.</blockquote> + +<blockquote> + Seu nome é conhecido em toda a Europa;<br> + Que um tal Nababo rara vez se topa<br> + Com opulencia tal, mais que aziatica!</blockquote> + +<blockquote> + Tendo quinze milhões, soffria um mal<br> + Rebelde ao milagroso capital...<br> + Morreu d'uma anazarcha aneurysmatica.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p> + +<h3>XX<br> +Lua de mel</h3> + +<blockquote> + Aquelle teu amigo de Peniche<br> + Casou, já sabes? Com a «Celidonia»,<br> + Horisontal, (<em>hectaira</em>, em lingua jonia)<br> + De labio rubro e olho d'azeviche.</blockquote> + +<blockquote> + Naufragou muitas vezes no beliche<br> + De notaveis pilotos da Parvonia;<br> + Vogou desde Monção á Patagonia,<br> + E, voltando, não topa onde se aniche.</blockquote> + +<blockquote> + Emfim, com sete filhos engeitados<br> + E os musculos bastante escanifrados,<br> + Pilha um palerma que jámais lhe escapa!</blockquote> + +<blockquote> + São noivos. Vão <em>fazer a lua</em> em Cintra.<br> + Pergunta agora tu ao tal pelintra<br> + Se a lua foi de mel ou de jalapa.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<h3>XXI<br> +Messias</h3> + +<blockquote> + Oliveira Martins, por toda a parte,<br> + Se augura que será novo Pombal!<br> + Vou dar-lhe uns leves toques d'immortal<br> + N'um soneto pomposo, primor d'arte!</blockquote> + +<blockquote> + Prostrada Lusitania, irmã de Marte,<br> + Emerge d'este podre tremedal!<br> + Levanta-te, caduco Portugal,<br> + Que os philtros do Martins vão remoçar-te!</blockquote> + +<blockquote> + Ouvides estrallar o Terramoto?<br> + O sangue dos ladrões, continuo moto,<br> + Já faz nas praças charcos e meandros!</blockquote> + +<blockquote> + Ministro redemptor, não retrogrades!<br> + Se Joaquim d'Aguiar foi <em>mata-frades</em>,<br> + Sê tu, bravo Martins, <em>mata-malandros</em>.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p> + +<h3>XXII<br> +Portugal Contemporaneo</h3> + +<blockquote> + Não se olvidem jámais os casos serios,<br> + E as epicas façanhas dos Archontes!<br> + Ó Musa da calumnia, não me contes,<br> + D'esta luza Calabria altos mysterios.</blockquote> + +<blockquote> + Fulminavam-se outr'ora os ministerios,<br> + Porque tinham ladrões; depois, o Fontes,<br> + Rasgando á patria novos horisontes,<br> + Exterminou os Verres deleterios.</blockquote> + +<blockquote> + Sumiram-se os fataes homens sinistros!<br> + Já não são sacerdotes os ministros<br> + Do vil bezerro d'ouro, ou da bezerra.</blockquote> + +<blockquote> + No tocante a ladroes, não ha nenhum;<br> + Já não se encontram três, nem dois, nem um...<br> + No pinhal da Azambuja e na Falperra.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span></p> + +<h3>XXIII<br> +Logica de ferro</h3> + +<blockquote> + Nas bemaventuradas regiões,<br> + Onde existe do mundo o Directorio,<br> + Não entram almas sem, no Purgatorio,<br> + Purgarem a peçonha das paixões.</blockquote> + +<blockquote> + Que são indispensaveis orações,<br> + Em desconto das culpas, é notorio;<br> + Dil-o Affonso Maria de Ligorio,<br> + Confirma-o Frei José dos Corações.</blockquote> + +<blockquote> + Arguir de fanatismo o Patriarcha<br> + É sandice ou má fé que excede a marca:<br> + É não saber do Cathecismo a lei.</blockquote> + +<blockquote> + Se entendem que o bom Rei já vive em gloria,<br> + De que serve essa vã Deprecatoria<br> + De suffragios e missas pelo Rei?</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<h3>XXIV<br> +Aromas</h3> + +<blockquote> + Meu lindo Portugal, mina de heroes,<br> + Ser teu filho é bem bom, e até bonito!<br> + Percorre a gente as ruas sem apito,<br> + Sobraçando os pacatos guardas-soes.</blockquote> + +<blockquote> + Matronas de comprados caracoes,<br> + Que ao ceu não vão de certo com palmito,<br> + Se, primeiro, parecem de granito,<br> + De borracha é que são; mas é depois...</blockquote> + +<blockquote> + Ha povos que se nutrem só de flores,<br> + É Camões quem o diz. Tambem Lisboa,<br> + Vapora fragrantissimos odôres.</blockquote> + +<blockquote> + Mas eu não sei dizer-lhes, meus senhores,<br> + Se os taes cheiros são coisa má ou boa:<br> + Sei que é d'elles que vivem os auctores.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p> + +<h3>XXV<br> +Lisboa bucolica</h3> + +<blockquote> + Na lusa Babylonia ha parvoices<br> + Atavicas, talvez; pois bons auctores<br> + Carimbam de sandeus os fundadores,<br> + E chamam parvo ao seu caudilho Ulysses.</blockquote> + +<blockquote> + Assim começa o rol das taes tolices:<br> + Familias vão, nos mezes dos calores,<br> + Refrigerar no campo os seus ardores,<br> + E haurir das frescas brisas as meiguices.</blockquote> + +<blockquote> + Alugam-se uns casebres purulentos,<br> + Onde os ratos vorazes e macrobios<br> + Esfarelam a dente os vigamentos.</blockquote> + +<blockquote> + Mettidas n'esses fetidos cenobios,<br> + Depois de incalculaveis soffrimentos,<br> + Voltam do campo cheias de microbios.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span></p> + +<h3>XXVI<br> +A outra metade</h3> + +<blockquote> + Quando este corpo meu esfacellado<br> + Baixar á leiva humida da cova,<br> + Hão-de os jornaes carpir a infausta nova,<br> + Taxando-me de sabio consumado.</blockquote> + +<blockquote> + Estalará na imprensa enorme brado,<br> + Pedindo a resurgencia d'um Canova,<br> + Que a morta face em marmore renova<br> + Para insculpir meu busto laureado.</blockquote> + +<blockquote> + E algum dos imbecis necrologistas,<br> + Com soluçantes vozes de saudade,<br> + Dirá em ricas phrases nunca vistas:</blockquote> + +<blockquote> + «Esse genio immortal, rei dos artistas,<br> + «No ceu pede ao Senhor que a <em>outra metade</em><br> + «Reparta por vossês, ó jornalistas!»</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p> + +<h3>XXVII<br> +Comedia humana</h3> + +<blockquote> + Litteratos! chorai-me, que eu sou digno<br> + Da vossa gemebunda e velha tactica!<br> + Se acaso tendes crimes em grammatica,<br> + Farei que vos perdoe o Deus benigno.</blockquote> + +<blockquote> + Demais conheço a proza inflada, emphatica,<br> + Com que choraes os mortos; e o maligno<br> + Desaffecto aos que vivem... Não me indigno...<br> + Sei o que sois em theoria e em practica.</blockquote> + +<blockquote> + Quando o avô d'esta vã litteratura<br> + Garrett, era levado á sepultura,<br> + Viu-se a imprensa verter prantos sem fim...</blockquote> + +<blockquote> + Pois seis dos litteratos mais magoados,<br> + Sahiram, n'essa noite embriagados,<br> + Da crapulosa tasca do Penim.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<h3>XXVIII<br> +<small>(Recordação dos 9 annos)</small><br> +Ao visconde d'Ouguella</h3> + +<blockquote> + Nós aprendemos juntos a grammatica<br> + Do insigne e facundissimo Lobato.<br> + O nosso pedagogo intemerato<br> + Nos <em>Calafates</em> fez resurgir Attica.</blockquote> + +<blockquote> + Afora esta funcção assaz sympathica<br> + O mestre era guerreiro; e o desbarato<br> + Que fez nos miguelistas, não relato,<br> + Que eu da guerra civil detesto a tactica.</blockquote> + +<blockquote> + Devemos-lhe os segredos do <em>dativo</em><br> + E os mysterios do occulto <em>adjectivo</em><br> + E os do <em>supino</em>, e mais coisas supinas.</blockquote> + +<blockquote> + Visconde, é gratidão dizer ao mundo<br> + Que quem nos deu o litterario fundo<br> + Foi mestre João Ignacio Luiz Minas.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span></p> + +<h3>XXIX<br> +Triumphos da eloquencia</h3> + +<blockquote> + Se o bruto (<em>b</em> pequeno) desalforja,<br> + Desbragadas injurias nos comicios,<br> + Contra argentarios, padres e patricios,<br> + Explue nos olhos crispações de forja.</blockquote> + +<blockquote> + Esmurra o peito e jura pela gorja,<br> + Que o Vaticano cai podre de vicios.<br> + Se pede para os reis forcas, supplicios,<br> + <em>Hurrahs</em> sanguineos vocifera a corja.</blockquote> + +<blockquote> + Este luso Rigault é petrolista;<br> + Na lingua tem navalha de fadista;<br> + De resto, faz pagode e rija pandega.</blockquote> + +<blockquote> + Está compondo agora outro discurso<br> + Com que espera alcançar, mas sem concurso,<br> + Ser despachado capataz d'Alfandega!</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<h3>XXX<br> +Derrocada</h3> + +<blockquote> + Ao passo que vasqueja e expira a luz<br> + Do Templo onde, algum dia, celebraram<br> + O Passos, e o Mousinho e os que arrastaram<br> + Em terra estranha a esmagadora cruz,</blockquote> + +<blockquote> + Na imprensa, uns pugilistas, braços nus,<br> + Uns contra os outros, rábidos, disparam<br> + Sarcasmos, que ao diabo não lembraram...<br> + Que linguas, sancto nome de Jesus!</blockquote> + +<blockquote> + O Deus dos seis Affonsos e das Quinas!<br> + Se um vil desabamento nos destinas,<br> + Escuta o meu sincero e ardente voto:</blockquote> + +<blockquote> + Faz pena este acabar quasi indecente...<br> + Concede-nos morrer mais seriamente:<br> + Transmitte-nos, Senhor, um terramoto.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p> + +<h3>XXXI<br> +O ultimo romantico</h3> + +<blockquote> + O extravagante Arthur, em Compostella,<br> + Viu desnalgar-se uma gitana Lola,<br> + Que tocava pandeiro e castanhola,<br> + E jurava que nunca foi donzella.</blockquote> + +<blockquote> + Chamava-lhe <em>Esmeralda</em>, ou <em>Graziela</em><br> + O romantico Arthur da velha escola;<br> + Mas tanto na paixão carnal se atola,<br> + Que os bens que tinha dissipou com ella.</blockquote> + +<blockquote> + Assim que empobreceu, Lola safou-se;<br> + E Arthur a pouco e pouco definhou-se<br> + Até se evaporar sem ter vintem,</blockquote> + +<blockquote> + A ti, que foste o ultimo romantico,<br> + Dedico o meu, talvez, ultimo cantico...<br> + E adeus! Se estás no ceu, porta-te bem.</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<h1>EPILOGO</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<h3>XXXII<br> +Epilogo</h3> + +<blockquote> + Paroxismos da luz! tristes cantares!<br> + Sahis da treva, em treva esquecereis!<br> + Romanticos leitores não choreis;<br> + Poupai-vos para os vossos máos azares.</blockquote> + +<blockquote> + Se navegaes por bonançosos mares,<br> + De subito, no azul do ceu vereis<br> + A nuvem que se rompe nos parceis<br> + De imprevistas borrascas de pezares.</blockquote> + +<blockquote> + Disse Henry Heine, o cego: «Não lastimem<br> + «As lancinantes magoas que me opprimem...<br> + «Espere cada qual chorar por fim.»</blockquote> + +<blockquote> + E eu, que tanto carpi os condemnados,<br> + Os cegos—os supremos desgraçados!—<br> + Já lagrimas não tenho para mim!</blockquote> + +<p><span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<h3>INDICE</h3> + +<table align="center" summary="Indice" cellspacing="4"> + <tbody> + <tr> + <td></td> + <td>Pag.</td> + </tr> + <tr> + <td>Nota Illustrativa </td> + <td><a href="#pag_7">7</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O Conde de S. Salvador de Mattosinhos </td> + <td><a href="#pag_21">21</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Visconde de Benalcanfor </td> + <td><a href="#pag_23">23</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A maior dor humana </td> + <td><a href="#pag_25">25</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Luiz—O Bom </td> + <td><a href="#pag_27">27</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lagrimas </td> + <td><a href="#pag_29">29</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Corôa de espinhos </td> + <td><a href="#pag_31">31</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Velhos problemas sagrados </td> + <td><a href="#pag_33">33</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Rachel </td> + <td><a href="#pag_35">35</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alexandre da Conceição </td> + <td><a href="#pag_37">37</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Paciencia </td> + <td><a href="#pag_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Veterano </td> + <td><a href="#pag_41">41</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Scena trivial </td> + <td><a href="#pag_43">43</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Alcacer Kibir </td> + <td><a href="#pag_45">45</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Jorge </td> + <td><a href="#pag_47">47</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Critica do auctor </td> + <td><a href="#pag_51">51</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Thomaz Ribeiro </td> + <td><a href="#pag_53">53</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Remorso </td> + <td><a href="#pag_55">55</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Te-Deum laudamus </td> + <td><a href="#pag_57">57</a></td> + </tr> + <tr> + <td>7:500 contos </td> + <td><a href="#pag_59">59</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lua de mel </td> + <td><a href="#pag_61">61</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Messias </td> + <td><a href="#pag_63">63</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Portugal Contemporaneo </td> + <td><a href="#pag_65">65</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Logica de ferro </td> + <td><a href="#pag_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Aromas </td> + <td><a href="#pag_69">69</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Lisboa bucolica </td> + <td><a href="#pag_71">71</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A outra metade </td> + <td><a href="#pag_73">73</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Comedia humana </td> + <td><a href="#pag_75">75</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Ao Visconde d'Ouguella </td> + <td><a href="#pag_77">77</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Triumphos da eloquencia </td> + <td><a href="#pag_79">79</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Derrocada </td> + <td><a href="#pag_81">81</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O ultimo romantico </td> + <td><a href="#pag_83">83</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Epilogo </td> + <td><a href="#pag_87">87</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS *** + +***** This file should be named 34952-h.htm or 34952-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/5/34952/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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