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diff --git a/34952-8.txt b/34952-8.txt new file mode 100644 index 0000000..d6d1592 --- /dev/null +++ b/34952-8.txt @@ -0,0 +1,1572 @@ +The Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Nas trevas + Sonetos sentimentaes e humoristicos + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: January 13, 2011 [EBook #34952] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Camillo Castello Branco + + NAS + + TREVAS + + _Sonetos sentimentaes e humoristicos_ + + + _LISBOA_ + LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO + 6, LARGO DO CAMÕES, 6 + -- + 1890 + + + + + NAS TREVAS + + + + + + Camillo Castello Branco + + NAS + + TREVAS + + _Sonetos sentimentaes e humoristicos_ + + + _LISBOA_ + LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO & IRMÃO + 6, LARGO DO CAMÕES, 6 + -- + 1890 + + + + + Typ. Christovão--60, Rua de S. Paulo, 62 + + + + +_Á memoria immaculada do Conde de S. Salvador de Mattosinhos, consagra o +author estas derradeiras pulsações da sua vida litteraria._ + + + + +Nota Illustrativa + + +No soneto XVI d'esta collecção, dirigido ao sr. conselheiro e ministro +d'estado honorario Thomaz Ribeiro, a posteridade, louvando o caracter +honesto d'este funccionario, invectiva indirectamente a probidade de +muitos comtemporaneos d'aquelle honrado secretario d'estado. Os versos +dignos de reparo são estes: + + «Dirão de ti as porvindouras eras: + «Ministro pobre em Portugal!... Chimeras! + «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro..» + +Eu já respondi á posteridade injusta nas paginas d'um livro provavelmente +esquecido: «_Maria da Fonte_:» + +«O bispo de Vizeu, algumas vezes ministro, quando estava no poder, cedia os +rendimentos da mitra e não podia sustentar dois sobrinhos em Coimbra por +falta de meios; e por sua morte, o espolio da guarda-roupa prelaticia eram +dois pares de calças, umas muito no fio, outras com fundilhos. Antonio +Rodrigues Sampaio um luctador de meio seculo, legou á sua familia um +miseravel monte-pio. O conde de Thomar estava pouco menos de pobre quando o +conde de Ferreira lhe legou cem contos. E a alma immaculada do gentilissimo +duque de Loulé? E o austero duque d'Avila encouraçado de commendas e cruses +para que o demonio dos maus pensamentos lhe não penetrasse no peito? E +Rodrigo da Fonseca, rival de Passos Manuel no desinteresse? E Fontes +Pereira de Mello, invulneravel em pontos de honra, como Anselmo Braamcamp? +Antonio de Serpa, Mendes Leal e Andrade Corvo, quando deixaram de ser +ministros iam ganhar a sua vida no jornalismo e no magisterio, e saldar com +esses mesquinhos salarios as suas dividas contrahidas no poder. E Lobo +d'Avila, um destro gymnasta do talento que se tem dado por bem pago com a +benemerita reputação de muito esperto? E Latino Coelho? um ministro que, em +materia de ladroagem, só correu eminente risco de ser roubado nos diamantes +do seu estylo, se se demorasse no gabinete a ler e a subscrever portarias +bordalengas? E o lovelaciano Barjona, grande salteador de corações incautos +e mais nada? Não se viu Thomaz Ribeiro, quando largou segunda vez a pasta, +abrir escriptorio de advogado? E Lopo Vaz, que tem sahido do governo mais +illibado e menos martyr do que sahiu do governo da India outro Lopo Vaz, +seu problematico avô? Pinheiro Chagas escreve correspondencias para o +Brasil e artigos avulsos nos jornaes litterarios afim de conservar a velha +freguezia dos seus admiradores. José Luciano de Castro acinge-se ás +restricções de uma austera parcimonia, para educar os filhos com o seu +patrimonio. Ao Conde de Casal Ribeiro perguntem-lhe por metade dos seus +haveres! + + * * * * * + +Outro soneto que remetti ao meu amigo Thomaz Ribeiro era acompanhado de +algumas quadras significativas da conformidade com que eu me recolhi ás +minhas trevas como d'antes ao meu gabinete de trabalho cheio de luz. + +A imprensa jornalistica, transcrevendo essas singelas coplas, revelou, de +par com o sentimento da commiseração, uma especie de contentamento pela +ressurreição da minha alma n'este mundo escuro em que a saudade da luz faz +o milagre de me representar por momentos as coisas tragicas e as risonhas +da minha vida passada. + +Aqui estão as quadras que eu não posso estremar dos outros versos +meditados na minha longa e já agora perpetua escuridade. + + *A Thomaz Ribeiro* + + Se cá vens jantar, meu anjo! + Dou-te o esplendido soneto, + Que n'esta data remetto, + E talvez te faça arranjo. + + Uma prenda caprichosa + Dá-se em mim e não t'a nego: + É que depois que estou cego, + Já não sei fallar em prosa. + + Tem delicias esta cruz + Feita de pranto e poesia! + Ah! que estranha anomalia... + Quanto mais trevas mais luz! + + Homero, Milton, Castilho, + Portentos d'inspiração, + Acharam na escuridão + Sóes d'eterno e immenso brilho. + + Poetas epicos d'Iliadas + Temos duzias; mas eu colho + Que tinha apenas um olho + O que escreveu os _Lusiadas_. + + Quando regressou da Persia, + Um perfeito proletario! + Touxe um olho solitario + Sempre a chorar por Natercia. + + Tivesse elle olhos normaes, + Com algumas Inscripções, + Faria chilras canções + Sonetos e madrigaes. + + Assentemos sem refolhos + Que não seria o cantor + Do feroz Adamastor + Se possuisse os dois olhos. + + Por que Deus, quando escurece + A luz brilhante de fóra, + Faz repontar nova aurora + Dentro d'alma que amanhece. + + Seja pois abençoada + A Providencia divina + Que apagando-me a retina + Me fez da treva, alvorada! + + Se eu tiver um cenotaphio, + Em que caibam tres palavras, + A ti te rogo que as abras + Com este humilde epitaphio: + + «Venceu emfim as procellas + «E o pavor da escuridade! + «Dai-lhe a vossa claridade, + «Ó lucilantes estrellas! + +O soneto relativo ao sr. Oliveira Martins não carece de prosa que o +desculpe. Este eminente escriptor e fecundissimo talento sabe, ha muitos +annos, quanto eu admiro as suas aptidões litterarias e virtudes civicas. + +Esses versos foram ditados no dia em que se esperava a nomeação de S. +Ex.ª para os conselhos da corôa, onde o discreto publicista não quiz +subir, para não descer. + +A flecha da satyra pode alvejar certos homens porem não os fere. A +couraça do talento, retemperada pela honra, é impenetravel. + + * * * * * + +O soneto _Te-Deum Laudamus_ d'esta collecção necessita de esclarecimentos +que me absolvam da culpa da maledicencia. Eu não tive em vista satyrisar +nem sequer ligeiramente melindrar o cavalheiro protogonista d'esse +inoffensivo poemeto. + +Destinei enviar a um jornalista eminente o soneto com uma carta que lhe +tirasse as asperesas da mordacidade. Não sei que motivo se deu para que +as rimas ficassem até agora ineditas. Isso não impede que os versos +e a prosa sejam publicados. Dizia assim a carta: + +«Considero com respeitosa admiração as faculdades civicas e os talentos +do sr. conselheiro Marianno de Carvalho. Ha-de haver 15 annos que +Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos m'o assignalou como o mais +esperançoso luctador da arena politica. + +«Li muitos dos seus artigos humoristicos onde achei confirmado o +vaticinio do grande mestre da polemica e da critica. + +«Congratulei-me com os amigos de S. Ex.ª quando, ha poucos dias, uma +eventualidade auspiciosa o salvou do desastre d'um descarrillamento na +via ferrea d'Hespanha. + +«Assisti espiritualmente ás missas que se resaram em acção de graças por +esse motivo. V. Ex.ª sabe que no amago das coisas mais serias e graves ha +sempre um sedimento comico, o qual, bem esgaravatado, apparece. Este meu +soneto, é o sedimento metrificado em rimas ordinarias e pouco felizes. Eu +me persuado que o alto espirito do sr. Marianno de Carvalho se riu das taes +missas, primeiramente que eu. Essa luminosa pratica do Catholicismo, que +enveste Nosso Senhor Jesus Christo da qualidade, pouco divina, de fiscal e +arbitro dos desastres em caminhos de ferro, figura-se-me um contra-senso +prehistorico a todas as religiões conhecidas. Seria para mim um germem de +revolta e descrença na suprema justiça, saber eu que o sr. conselheiro +Marianno de Carvalho saiu do descarrillamento illeso de perigo, sem uma +ligeira escoriação na sua epiderme, tendo-me succedido ha 9 annos sahir +d'igual desastre com a cabeça oito vezes fendida. Não me posso convencer de +que Sua Divina Magestade revellasse tamanha ausencia de imparcialidade, +como architecto supremo que dirige as cousas do Universo, e principalmente +as que em Portugal respeitam ao sr. Marianno de Carvalho e a mim, quando +viajamos. Seja como fôr, desejo ardentemente que o sr. conselheiro, +dando-me a honra de ler este soneto, haja por bem de o applaudir com um +sorriso.» + + * * * * * + +O Soneto: _Logica de ferro_, foi enviado com a seguinte carta a um +jornal que o regeitou como inconveniente e desorganisador do systema de +convenções methodicas em que todos estamos mais ou menos illaqueados. + +«Mande publicar o soneto que lhe envio, senão fôr hostil ás suas +opiniões theologicas, em tal assumpto. Eu por mim, pendo a favor do +Patriarcha, padre catholico, na linha recta dos seus deveres, entre os +SS. PP. e os concilios. Aquelles que invectivam o Cardeal, e ao mesmo +tempo promovem suffragios por alma d'El-Rei, não digo sejam hypocritas; +mas aproveitam a methaphysica do catholicismo para alardearem um +espalhafato de piedade. + +«O padre catholico opera convicto e por consequencia correcto. Os outros +servem-se da religião theatralmente. Como quer que seja, eu me persuado +que El-Rei D. Luiz I está serenamente recostado no seu leito de marmore +no Pantheon de S. Vicente de Fora; e quem se lembrar da bondade da sua +alma, no transcurso de 28 annos de prospero reinado, presta á sua +memoria a mais sagrada homenagem com que os vivos podem suffragar os +mortos.» + + + + +SENTIMENTO + + + + +I + +O Conde de S. Salvador de Mattosinhos + + + O conde entrou no albergue arruinado + De S. Miguel de Seide. Era anciosa + A vida que eu vivia tormentosa, + Á cegueira fatal já condemnado. + + Eu vi-lhe o coração bondoso e honrado + Na face ingenua e triste e maviosa; + Pulsava n'elle a nota dolorosa + Do estranho soffrimento recatado. + + Chorava ao despedir-se. Era a tristeza + De me deixar na formidavel presa + Da treva, em quanto a morte a não dissolve. + + Partiu chorando. E nunca mais nos vimos. + Mortos! Ao mesmo tempo, ambos cahimos + Na eterna escuridão que nos envolve. + + + + +II + +Visconde de Benalcanfor + + + Já morto! Dilacera-me a saudade. + Não tenho mais ninguem d'aquelles dias + De ephemeras, vibrantes alegrias, + Que me illumine a escura mocidade. + + Que ridente e subtil jovialidade! + Que brilhantes hyperboles fazias, + Com graça encantadora, quando rias + Dos sérios carnavaes da sociedade! + + A dor de envelhecer não a venceste; + Pois que do coração sempre viveste, + Matou-te finalmente o coração. + + Vencido luctador, meu pobre amigo, + Desde hontem que tu dormes no jazigo + O sinistro dormir da podridão. + + + + +III + +A maior dor humana + +(Na morte quasi simultânea dos dois filhos unicos de Theophilo Braga) + + + Que immensas agonias se formaram + Sob os olhos de Deus! Sinistra hora + Em que o homem surgiu! Que negra aurora, + Que amargas condições o escravisaram! + + As mãos, que um filho amado amortalharam, + Erguidas buscam Deus. A Fé implora... + E o ceu que respondeu? As mãos baixaram + Para abraçar a filha morta agora. + + Depois, um pai que em trevas vae sonhando, + E apalpa as sombras d'elles onde os viu + Nascer, florir, morrer!... Desastre infando! + + Ao teu abysmo, pai, não vão confortos... + És coração que a dôr impedreniu, + Sepulchro vivo de dois filhos mortos. + + + + +IV + +Luiz--O Bom + + + Quando El-Rei D. Luiz for accolhido + Aos penetraes da escura eternidade, + Será pungente a funeral saudade + Que mais pondera e chora o bem perdido... + + Não houve em seu reinado um só gemido + De guerra fratricida! A Magestade, + Passando o sceptro ás mãos da Caridade, + Baixava ao lar sem pão, do desvalido. + + Senhor! deram-te as lettras ledos dias, + E as intimas, supremas alegrias + De quem trabalha--Eterna e sancta lei! + + Revives na saudade, alma serena! + Se a patria em que reinaste era pequena, + Fôras em maior reino um grande rei. + + + + +V + +Lagrimas + + + Senhora! em vosso rosto macerado + Transluz da alma afflicta a immensa dôr! + D'um lado, a morte; do outro, o vosso Amor + Tremenda lucta ao pé do Esposo amado! + + Contaes as pulsações do peito anciado + Em estos convulsivos do estertor; + Só podem vossos labios dar calor + Áquelle corpo inerte, hirto, gelado. + + Vós bem vêdes, Senhora, este quebranto + Que enluta Portugal! Ergue-se o pranto, + Quando a morte do Paço se avisinha... + + Pois quanto uma nação póde soffrer + Não tem o acerbo e intenso padecer + Das vossas sanctas lagrimas, Rainha! + + + + +VI + +Corôa de espinhos + + + Das trevas d'alem-mundo o esposo amado, + Rainha, é Rei comvosco! Inda reinaes, + Que o vosso throno assenta em pedestaes + Dos corações que tendes conquistado. + + Mas que delicias tem esse reinado?! + Senhora, alguma vez não invejaes + Os remançosos dias sempre iguaes, + D'um doce egoismo calmo e recatado? + + Reinar!... reinar chorando a cada hora! + O vendaval da dôr que ruge fóra + E a propria dôr!... Chimeras dolorosas! + + Ha tanto abysmo em flóridos caminhos... + O diadema de Christo era de espinhos!... + Sagradas sois, corôas tormentosas! + + + + +VII + +Velhos problemas sagrados + + + Pergunta-se á divina Providencia + Que segredos são estes do Destino? + Ha vidas triumphaes: parecem hymno + Sem nota de penosa intercadencia. + + Mimosas em regalos d'opulencia, + Não soffrem o revez d'um desatino: + Se o buscam, acham sempre o Velocino, + Sem medo que naufrague a consciencia. + + Outros vão sobre espinhos arrastados + Pela mão da Virtude, acorrentados + Aos preceitos sanctissimos do Eterno! + + Quem deu á infamia vida tão folgada? + Quem dilacera a honra? É Deus ou Nada? + Responde, Excelso auctor do meu inferno! + + + + +VIII + +Rachel + + + Libavas, borboleta, a flôr da vida + No parque ameno d'ideaes chimeras. + Que seja amor, não sabes; mas esperas + Vencer captiva, e captivar vencida. + + Chega a paixão... Retraes-te espavorida! + Saudade tens das quinze primaveras, + Em que, menina e moça, amada eras, + Sempre isenta, risonha e distrahida. + + Vence a paixão... E o teu anjo innocente, + Desligado de ti, mésto e dolente, + Regressa para o ceo; mas vai chamando-te... + + Não foste! És presa á minha desventura! + Em grande amor te dei grande amargura... + Fui teu verdugo, mas verdugo amando-te. + + + + +IX + +Alexandre da Conceição + + + Bem me lembra que o vi, na juventude, + Rosado pela aurora d'essa idade. + Eram prismas d'amor e d'amisade + Os carmes do seu mystico alahude. + + Sendo fatal que degenere e mude + A crença, o affecto e o bem da mocidade, + Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade, + Nos arranques da briga azeda e rude. + + Mais tarde o encontrei. Já era o homem + Ralado por desgostos que consomem, + E põem na face um gesto acre e severo. + + Se o seu bondozo riso era apagado, + Restava-lhe este honroso predicado: + Prégando o Socialismo, era sincero. + + + + +X + +Paciencia + + + Quem pode conceber que Deus creasse + Tanta obra perfeitissima, esmaltada + Pelo espaço infinito, e a desgraçada + Raça humanal de imperfeições manchasse? + + Quem pode conceber o acerbo enlace + De miserias que esmagam, condemnada + A creação mais nobre, atormentada + Desde o berço até ás ancias do trespasse? + + É certo que as desgraças são enormes; + Mas tu, Deus abscondito, não dormes, + Quando eu te invoco a divinal clemencia. + + Ao dar-me as penas com que me torturas, + Um thesouro me deste de venturas: + Chama-se este thesouro a PACIENCIA. + + + + +XI + +Veterano + + + Sensiveis corações, ouvi meus brados! + Nasci lá nas montanhas de Barroso. + Meu pae foi um pastor libidinoso, + Que brutalmente fez alguns peccados. + + Foi minha mãe pastora de cevados. + Morreu quando eu nasci; mas tão mimoso + Que foi meu berço! um antro penhascoso... + Setenta e quatro annos são passados. + + Soldado fui; servi, em Caçadores, + Dois amos, ambos elles _mais peores_: + Um era D. Miguel; o outro, o irmão + + Metteram-me tres balas n'este flanco... + Bem me custa, arrastado, andar tão manco + De porta em porta a mendigar o pão. + + + + +XII + +Scena trivial + + + Este homem que me vem pedir esmola, + Muito bem conheci, galhardamente + Vibrando o pingalim no dorso ardente + Dos seus nedios frisões. Fez alta escola. + + Quando o fulvo ginete encaracola + E assesta o seu monoculo insolente + Nas timidas donzellas, cuida a gente + Que João Tenorio a virgindade assola! + + Que descalabro é esse em que se liga + Este esqualido velho que mendiga + Ao dandy esvelto e triumphal que eu vi?! + + Inquiro o desabar em tal miseria... + Responde: «Essa pergunta será séria? + «Fui rico, hoje sou pobre...» + Ah! percebi... + + + + +XIII + +Alcacer Kibir + + + Verdugo, que esmagaste a India aos pés + Eis aqui, Portugal, o que tu fôste! + Repulsivo morphetico d'Aoste... + Eis aqui, Portugal, o que tu és! + + Os Gamas, Albuquerques e Sodrés, + Alçando a cruz em sanguinoso poste, + Bradam ser Christo o general da hoste, + Se os povos sangra o ferro portuguez. + + Terrivel vae mostrar-se a Providencia, + Arrancando das mãos da prepotencia + A levantina raça acorrentada. + + India, escrava gentil, espera um pouco... + Lá vem sobre Marrocos um rei louco... + Eis Alcacer-Kibir! estás vingada. + + + + +XIV + +Jorge + + + Constantemente vejo o filho amado + Na minha escuridão, onde fulgura + A extatica pupila da loucura. + Sinistra luz d'um cerebro queimado. + + Nas rugas de seu rosto macerado + Transpira a cruciantissima tortura + Que escurentou na pobre alma tão pura + Talento, aspirações... tudo apagado! + + Meu triste filho, passas vagabundo + Por sobre um grande mar calmo, profundo. + Sem bussola, sem norte e sem pharol! + + Nem goso nem paixão te altera a vida! + Eu choro sem remedio a luz perdida... + Bem mais feliz és tu, que vês o sol. + + + + +HUMORISMOS + + + + +XV + +Critica do auctor + + + Estes velhos sonetos não rutilam + Brilhantes Documentos sociologicos, + Nem modernos processos biologicos, + Leis que os vates senis não assimilam. + + Abundam lentejoulas que scintillam + Disfarçando microbios pathologicos, + Fermentações de vicios phisiologicos, + Basofias anormaes, lesões que opilam. + + Escreve alguem: «Quem reina é Sancho Pança.» + Serodio D. Quixote, jámais podes + Sanar a podridão que avulta e avança. + + Se os preconceitos, velho, não sacodes, + Se não deixas de ser sempre creança, + Fazem-te o que ás creanças fez Herodes. + + + + +XVI + +Thomaz Ribeiro + + + Ao cantor de _D. Jayme_ era ousadia + Dedicar uns insipidos sonetos, + Bem pallidos, mesquinhos esbocetos + Dos _Ridiculos_ grandes d'hoje em dia. + + A ti que illeso passas n'esta orgia, + Modesto, honrado e amado, que amulêtos + Te salvam d'estes pantanos infectos + Em que chafurda a esqualida anarchia? + + Tantas vezes Governo!... E não tens pejo + De ser pobre, ó Thomaz ?... Isto que vejo + Me inspira o vaticinio que registro: + + Dirão de ti as porvindouras eras: + «Ministro pobre em Portugal! Chimeras!... + «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!» + + + + +XVII + +Remorso + + + Eu choro quando, ás vezes, me concentro + A meditar nas horas malogradas, + Noites de inverno, gelidas, passadas + Nos Carnavaes rhetoricos do Centro. + + Convidam-me a ser socio. Acceito e entro, + Deixando solitarias, consternadas, + Três Marilias que amei! Estaes vingadas! + Remorsos me excruciam cá por dentro. + + Dizia-me um _dynastico-esquerdista_: + «Prepara-se você para estadista? + «Aspira a ser ministro? A escola é esta.» + + Pois, senhores, dez mezes decorridos, + Bom politico, em todos os sentidos, + Sahi do Centro, mas sahi mais besta. + + + + +XVIII + +Te-Deum Laudamus + + + Vai grande barafunda lá no Empyreo! + Acaba de chegar um estafeta, + Que diz ser natural d'este planeta, + E as noticias que dá causam delirio. + + Formou-se logo um luzitano cyrio; + E o Marquez de Pombal, lendo a gazeta, + Fita em Garrett a celebre luneta + E diz: «Veja, collega, este martyrio! + + «O nosso Portugal tornou-se um Congo!... + «Resam missas Lisboa e mais Vallongo, + «Por que um feliz descarrillou sem damno. + + «Recebo agora officio do governo, + «Pedindo-me agradeça ao Padre Eterno + «O favor de salvar o Marianno.» + + + + +XIX + +7:500 contos + + + Finou-se em França, ha pouco, um millionario + Nascido em Portugal.--Honra é dizel-o! + Sahindo d'um cardenho de Lordello, + Foi no Brasil doutor e boticario. + + Não tem seu nome algum Nobiliario; + Não foi conde sequer, ou não quiz sel-o, + Qual outro seu collega, do Restello, + E outros mais fidalgos d'Hervanario. + + Seu nome é conhecido em toda a Europa; + Que um tal Nababo rara vez se topa + Com opulencia tal, mais que aziatica! + + Tendo quinze milhões, soffria um mal + Rebelde ao milagroso capital... + Morreu d'uma anazarcha aneurysmatica. + + + + +XX + +Lua de mel + + + Aquelle teu amigo de Peniche + Casou, já sabes? Com a «Celidonia», + Horisontal, (_hectaira_, em lingua jonia) + De labio rubro e olho d'azeviche. + + Naufragou muitas vezes no beliche + De notaveis pilotos da Parvonia; + Vogou desde Monção á Patagonia, + E, voltando, não topa onde se aniche. + + Emfim, com sete filhos engeitados + E os musculos bastante escanifrados, + Pilha um palerma que jámais lhe escapa! + + São noivos. Vão _fazer a lua_ em Cintra. + Pergunta agora tu ao tal pelintra + Se a lua foi de mel ou de jalapa. + + + + +XXI + +Messias + + + Oliveira Martins, por toda a parte, + Se augura que será novo Pombal! + Vou dar-lhe uns leves toques d'immortal + N'um soneto pomposo, primor d'arte! + + Prostrada Lusitania, irmã de Marte, + Emerge d'este podre tremedal! + Levanta-te, caduco Portugal, + Que os philtros do Martins vão remoçar-te! + + Ouvides estrallar o Terramoto? + O sangue dos ladrões, continuo moto, + Já faz nas praças charcos e meandros! + + Ministro redemptor, não retrogrades! + Se Joaquim d'Aguiar foi _mata-frades_, + Sê tu, bravo Martins, _mata-malandros_. + + + + +XXII + +Portugal Contemporaneo + + + Não se olvidem jámais os casos serios, + E as epicas façanhas dos Archontes! + Ó Musa da calumnia, não me contes, + D'esta luza Calabria altos mysterios. + + Fulminavam-se outr'ora os ministerios, + Porque tinham ladrões; depois, o Fontes, + Rasgando á patria novos horisontes, + Exterminou os Verres deleterios. + + Sumiram-se os fataes homens sinistros! + Já não são sacerdotes os ministros + Do vil bezerro d'ouro, ou da bezerra. + + No tocante a ladroes, não ha nenhum; + Já não se encontram três, nem dois, nem um... + No pinhal da Azambuja e na Falperra. + + + + +XXIII + +Logica de ferro + + + Nas bemaventuradas regiões, + Onde existe do mundo o Directorio, + Não entram almas sem, no Purgatorio, + Purgarem a peçonha das paixões. + + Que são indispensaveis orações, + Em desconto das culpas, é notorio; + Dil-o Affonso Maria de Ligorio, + Confirma-o Frei José dos Corações. + + Arguir de fanatismo o Patriarcha + É sandice ou má fé que excede a marca: + É não saber do Cathecismo a lei. + + Se entendem que o bom Rei já vive em gloria, + De que serve essa vã Deprecatoria + De suffragios e missas pelo Rei? + + + + +XXIV + +Aromas + + + Meu lindo Portugal, mina de heroes, + Ser teu filho é bem bom, e até bonito! + Percorre a gente as ruas sem apito, + Sobraçando os pacatos guardas-soes. + + Matronas de comprados caracoes, + Que ao ceu não vão de certo com palmito, + Se, primeiro, parecem de granito, + De borracha é que são; mas é depois... + + Ha povos que se nutrem só de flores, + É Camões quem o diz. Tambem Lisboa, + Vapora fragrantissimos odôres. + + Mas eu não sei dizer-lhes, meus senhores, + Se os taes cheiros são coisa má ou boa: + Sei que é d'elles que vivem os auctores. + + + + +XXV + +Lisboa bucolica + + + Na lusa Babylonia ha parvoices + Atavicas, talvez; pois bons auctores + Carimbam de sandeus os fundadores, + E chamam parvo ao seu caudilho Ulysses. + + Assim começa o rol das taes tolices: + Familias vão, nos mezes dos calores, + Refrigerar no campo os seus ardores, + E haurir das frescas brisas as meiguices. + + Alugam-se uns casebres purulentos, + Onde os ratos vorazes e macrobios + Esfarelam a dente os vigamentos. + + Mettidas n'esses fetidos cenobios, + Depois de incalculaveis soffrimentos, + Voltam do campo cheias de microbios. + + + + +XXVI + +A outra metade + + + Quando este corpo meu esfacellado + Baixar á leiva humida da cova, + Hão-de os jornaes carpir a infausta nova, + Taxando-me de sabio consumado. + + Estalará na imprensa enorme brado, + Pedindo a resurgencia d'um Canova, + Que a morta face em marmore renova + Para insculpir meu busto laureado. + + E algum dos imbecis necrologistas, + Com soluçantes vozes de saudade, + Dirá em ricas phrases nunca vistas: + + «Esse genio immortal, rei dos artistas, + «No ceu pede ao Senhor que a _outra metade_ + «Reparta por vossês, ó jornalistas!» + + + + +XXVII + +Comedia humana + + + Litteratos! chorai-me, que eu sou digno + Da vossa gemebunda e velha tactica! + Se acaso tendes crimes em grammatica, + Farei que vos perdoe o Deus benigno. + + Demais conheço a proza inflada, emphatica, + Com que choraes os mortos; e o maligno + Desaffecto aos que vivem... Não me indigno... + Sei o que sois em theoria e em practica. + + Quando o avô d'esta vã litteratura + Garrett, era levado á sepultura, + Viu-se a imprensa verter prantos sem fim... + + Pois seis dos litteratos mais magoados, + Sahiram, n'essa noite embriagados, + Da crapulosa tasca do Penim. + + + + +XXVIII + +(Recordação dos 9 annos) + +Ao visconde d'Ouguella + + + Nós aprendemos juntos a grammatica + Do insigne e facundissimo Lobato. + O nosso pedagogo intemerato + Nos _Calafates_ fez resurgir Attica. + + Afora esta funcção assaz sympathica + O mestre era guerreiro; e o desbarato + Que fez nos miguelistas, não relato, + Que eu da guerra civil detesto a tactica. + + Devemos-lhe os segredos do _dativo_ + E os mysterios do occulto _adjectivo_ + E os do _supino_, e mais coisas supinas. + + Visconde, é gratidão dizer ao mundo + Que quem nos deu o litterario fundo + Foi mestre João Ignacio Luiz Minas. + + + + +XXIX + +Triumphos da eloquencia + + + Se o bruto (_b_ pequeno) desalforja, + Desbragadas injurias nos comicios, + Contra argentarios, padres e patricios, + Explue nos olhos crispações de forja. + + Esmurra o peito e jura pela gorja, + Que o Vaticano cai podre de vicios. + Se pede para os reis forcas, supplicios, + _Hurrahs_ sanguineos vocifera a corja. + + Este luso Rigault é petrolista; + Na lingua tem navalha de fadista; + De resto, faz pagode e rija pandega. + + Está compondo agora outro discurso + Com que espera alcançar, mas sem concurso, + Ser despachado capataz d'Alfandega! + + + + +XXX + +Derrocada + + + Ao passo que vasqueja e expira a luz + Do Templo onde, algum dia, celebraram + O Passos, e o Mousinho e os que arrastaram + Em terra estranha a esmagadora cruz, + + Na imprensa, uns pugilistas, braços nus, + Uns contra os outros, rábidos, disparam + Sarcasmos, que ao diabo não lembraram... + Que linguas, sancto nome de Jesus! + + O Deus dos seis Affonsos e das Quinas! + Se um vil desabamento nos destinas, + Escuta o meu sincero e ardente voto: + + Faz pena este acabar quasi indecente... + Concede-nos morrer mais seriamente: + Transmitte-nos, Senhor, um terramoto. + + + + +XXXI + +O ultimo romantico + + + O extravagante Arthur, em Compostella, + Viu desnalgar-se uma gitana Lola, + Que tocava pandeiro e castanhola, + E jurava que nunca foi donzella. + + Chamava-lhe _Esmeralda_, ou _Graziela_ + O romantico Arthur da velha escola; + Mas tanto na paixão carnal se atola, + Que os bens que tinha dissipou com ella. + + Assim que empobreceu, Lola safou-se; + E Arthur a pouco e pouco definhou-se + Até se evaporar sem ter vintem, + + A ti, que foste o ultimo romantico, + Dedico o meu, talvez, ultimo cantico... + E adeus! Se estás no ceu, porta-te bem. + + + + +EPILOGO + + + + +XXXII + +Epilogo + + + Paroxismos da luz! tristes cantares! + Sahis da treva, em treva esquecereis! + Romanticos leitores não choreis; + Poupai-vos para os vossos máos azares. + + Se navegaes por bonançosos mares, + De subito, no azul do ceu vereis + A nuvem que se rompe nos parceis + De imprevistas borrascas de pezares. + + Disse Henry Heine, o cego: «Não lastimem + «As lancinantes magoas que me opprimem... + «Espere cada qual chorar por fim.» + + E eu, que tanto carpi os condemnados, + Os cegos--os supremos desgraçados!-- + Já lagrimas não tenho para mim! + + + + +INDICE + + Pag. + +Nota Illustrativa 7 + +O Conde de S. Salvador de Mattosinhos 21 + +Visconde de Benalcanfor 23 + +A maior dor humana 25 + +Luiz--O Bom 27 + +Lagrimas 29 + +Corôa de espinhos 31 + +Velhos problemas sagrados 33 + +Rachel 35 + +Alexandre da Conceição 37 + +Paciencia 39 + +Veterano 41 + +Scena trivial 43 + +Alcacer Kibir 45 + +Jorge 47 + +Critica do auctor 51 + +Thomaz Ribeiro 53 + +Remorso 55 + +Te-Deum laudamus 57 + +7:500 contos 59 + +Lua de mel 61 + +Messias 63 + +Portugal Contemporaneo 65 + +Logica de ferro 67 + +Aromas 69 + +Lisboa bucolica 71 + +A outra metade 73 + +Comedia humana 75 + +Ao Visconde d'Ouguella 77 + +Triumphos da eloquencia 79 + +Derrocada 81 + +O ultimo romantico 83 + +Epilogo 87 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS *** + +***** This file should be named 34952-8.txt or 34952-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/5/34952/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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