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+ <title>Nas trevas, por Camilo Castelo Branco</title>
+ <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco">
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+ content="Lisboa. Livraria editora, Tavares Cardoso e Irmão, 1890.">
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+
+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Nas trevas
+ Sonetos sentimentaes e humoristicos
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 13, 2011 [EBook #34952]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+</pre>
+
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
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+<p style="font-size: 2.5em; color: red;">TREVAS</p>
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+<p style="font-size: 1.2em;"><em>Sonetos sentimentaes e humoristicos</em></p>
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+<p> </p>
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+<p> </p>
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+<p><em>LISBOA</em><br>
+
+<small>LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO<br>
+
+6, LARGO DO CAMÕES, 6</small><br>
+
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+1890</p>
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+
+<small>LIVRARIA EDITORA, TAVARES CARDOSO &amp; IRMÃO<br>
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+6, LARGO DO CAMÕES, 6</small><br>
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+1890</p>
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+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<hr>
+<p style="text-align:center;">Typ.
+Christovão&mdash;60, Rua de S. Paulo, 62</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:justify; margin-left: 2em; text-indent: -2em;"><em>Á memoria immaculada do Conde de S. Salvador
+de Mattosinhos, consagra o author estas derradeiras pulsações da sua vida
+litteraria.</em></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> <span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+<h2>Nota Illustrativa</h2>
+
+<div class="prosa">
+<p>No soneto XVI d'esta collecção, dirigido ao sr. conselheiro e ministro
+d'estado honorario Thomaz Ribeiro, a posteridade, louvando o caracter honesto
+d'este funccionario, invectiva indirectamente a probidade de muitos
+comtemporaneos d'aquelle honrado secretario d'estado. Os versos dignos de
+reparo são estes:</p>
+
+<blockquote>
+ «Dirão de ti as porvindouras eras:<br>
+ «Ministro pobre em Portugal!... Chimeras!<br>
+ «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro..»</blockquote>
+
+<p>Eu já respondi á posteridade injusta nas<span class="pn"><a
+name="pag_8">{8}</a></span> paginas d'um livro provavelmente esquecido:
+«<em>Maria da Fonte</em>:»</p>
+
+<p>«O bispo de Vizeu, algumas vezes ministro, quando estava no poder, cedia os
+rendimentos da mitra e não podia sustentar dois sobrinhos em Coimbra por falta
+de meios; e por sua morte, o espolio da guarda-roupa prelaticia eram dois pares
+de calças, umas muito no fio, outras com fundilhos. Antonio Rodrigues Sampaio
+um luctador de meio seculo, legou á sua familia um miseravel monte-pio. O conde
+de Thomar estava pouco menos de pobre quando o conde de Ferreira lhe legou cem
+contos. E a alma immaculada do gentilissimo duque de Loulé? E o austero duque
+d'Avila encouraçado de commendas e cruses para que o demonio dos maus
+pensamentos lhe não penetrasse no peito? E Rodrigo da Fonseca, rival de Passos
+Manuel no desinteresse? E Fontes<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span>
+Pereira de Mello, invulneravel em pontos de honra, como Anselmo Braamcamp?
+Antonio de Serpa, Mendes Leal e Andrade Corvo, quando deixaram de ser ministros
+iam ganhar a sua vida no jornalismo e no magisterio, e saldar com esses
+mesquinhos salarios as suas dividas contrahidas no poder. E Lobo d'Avila, um
+destro gymnasta do talento que se tem dado por bem pago com a benemerita
+reputação de muito esperto? E Latino Coelho? um ministro que, em materia de
+ladroagem, só correu eminente risco de ser roubado nos diamantes do seu estylo,
+se se demorasse no gabinete a ler e a subscrever portarias bordalengas? E o
+lovelaciano Barjona, grande salteador de corações incautos e mais nada? Não se
+viu Thomaz Ribeiro, quando largou segunda vez a pasta, abrir escriptorio de
+advogado? E Lopo Vaz, que tem sahido do governo mais illibado e<span
+class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span> menos martyr do que sahiu do
+governo da India outro Lopo Vaz, seu problematico avô? Pinheiro Chagas escreve
+correspondencias para o Brasil e artigos avulsos nos jornaes litterarios afim
+de conservar a velha freguezia dos seus admiradores. José Luciano de Castro
+acinge-se ás restricções de uma austera parcimonia, para educar os filhos com o
+seu patrimonio. Ao Conde de Casal Ribeiro perguntem-lhe por metade dos seus
+haveres!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>Outro soneto que remetti ao meu amigo Thomaz Ribeiro era acompanhado de
+algumas quadras significativas da conformidade com que eu me recolhi ás minhas
+trevas como d'antes ao meu gabinete de trabalho cheio de luz.</p>
+
+<p>A imprensa jornalistica, transcrevendo<span class="pn"><a
+name="pag_11">{11}</a></span> essas singelas coplas, revelou, de par com o
+sentimento da commiseração, uma especie de contentamento pela ressurreição da
+minha alma n'este mundo escuro em que a saudade da luz faz o milagre de me
+representar por momentos as coisas tragicas e as risonhas da minha vida
+passada.</p>
+
+<p>Aqui estão as quadras que eu não posso estremar dos outros versos meditados
+na minha longa e já agora perpetua escuridade.</p>
+
+<blockquote>
+      <b>A Thomaz Ribeiro</b></blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se cá vens jantar, meu anjo!<br>
+ Dou-te o esplendido soneto,<br>
+ Que n'esta data remetto,<br>
+ E talvez te faça arranjo.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Uma prenda caprichosa<br>
+ Dá-se em mim e não t'a nego:<br>
+ É que depois que estou cego,<br>
+ Já não sei fallar em prosa.<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Tem delicias esta cruz<br>
+ Feita de pranto e poesia!<br>
+ Ah! que estranha anomalia...<br>
+ Quanto mais trevas mais luz!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Homero, Milton, Castilho,<br>
+ Portentos d'inspiração,<br>
+ Acharam na escuridão<br>
+ Sóes d'eterno e immenso brilho.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Poetas epicos d'Iliadas<br>
+ Temos duzias; mas eu colho<br>
+ Que tinha apenas um olho<br>
+ O que escreveu os <em>Lusiadas</em>.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quando regressou da Persia,<br>
+ Um perfeito proletario!<br>
+ Touxe um olho solitario<br>
+ Sempre a chorar por Natercia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Tivesse elle olhos normaes,<br>
+ Com algumas Inscripções,<br>
+ Faria chilras canções<br>
+ Sonetos e madrigaes.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Assentemos sem refolhos<br>
+ Que não seria o cantor<br>
+ Do feroz Adamastor<br>
+ Se possuisse os dois olhos.<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Por que Deus, quando escurece<br>
+ A luz brilhante de fóra,<br>
+ Faz repontar nova aurora<br>
+ Dentro d'alma que amanhece.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Seja pois abençoada<br>
+ A Providencia divina<br>
+ Que apagando-me a retina<br>
+ Me fez da treva, alvorada!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se eu tiver um cenotaphio,<br>
+ Em que caibam tres palavras,<br>
+ A ti te rogo que as abras<br>
+ Com este humilde epitaphio:</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Venceu emfim as procellas<br>
+ «E o pavor da escuridade!<br>
+ «Dai-lhe a vossa claridade,<br>
+ «Ó lucilantes estrellas!</blockquote>
+
+<p>O soneto relativo ao sr. Oliveira Martins não carece de prosa que o
+desculpe. Este eminente escriptor e fecundissimo talento sabe, ha muitos annos,
+quanto eu admiro as suas aptidões litterarias e virtudes civicas.<span
+class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span></p>
+
+<p>Esses versos foram ditados no dia em que se esperava a nomeação de S. Ex.ª
+para os conselhos da corôa, onde o discreto publicista não quiz subir, para não
+descer.</p>
+
+<p>A flecha da satyra pode alvejar certos homens porem não os fere. A couraça
+do talento, retemperada pela honra, é impenetravel.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O soneto <em>Te-Deum Laudamus</em> d'esta collecção necessita de
+esclarecimentos que me absolvam da culpa da maledicencia. Eu não tive em vista
+satyrisar nem sequer ligeiramente melindrar o cavalheiro protogonista d'esse
+inoffensivo poemeto.</p>
+
+<p>Destinei enviar a um jornalista eminente o soneto com uma carta que lhe
+tirasse as asperesas da mordacidade. Não sei que motivo se deu para que as
+rimas ficassem até<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> agora
+ineditas. Isso não impede que os versos e a prosa sejam publicados. Dizia assim
+a carta:</p>
+
+<p>«Considero com respeitosa admiração as faculdades civicas e os talentos do
+sr. conselheiro Marianno de Carvalho. Ha-de haver 15 annos que Antonio Augusto
+Teixeira de Vasconcellos m'o assignalou como o mais esperançoso luctador da
+arena politica.</p>
+
+<p>«Li muitos dos seus artigos humoristicos onde achei confirmado o vaticinio
+do grande mestre da polemica e da critica.</p>
+
+<p>«Congratulei-me com os amigos de S. Ex.ª quando, ha poucos dias, uma
+eventualidade auspiciosa o salvou do desastre d'um descarrillamento na via
+ferrea d'Hespanha.</p>
+
+<p>«Assisti espiritualmente ás missas que se resaram em acção de graças por
+esse motivo. V. Ex.ª sabe que no amago das coisas mais serias e graves ha
+sempre um sedimento<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> comico, o
+qual, bem esgaravatado, apparece. Este meu soneto, é o sedimento metrificado em
+rimas ordinarias e pouco felizes. Eu me persuado que o alto espirito do sr.
+Marianno de Carvalho se riu das taes missas, primeiramente que eu. Essa
+luminosa pratica do Catholicismo, que enveste Nosso Senhor Jesus Christo da
+qualidade, pouco divina, de fiscal e arbitro dos desastres em caminhos de
+ferro, figura-se-me um contra-senso prehistorico a todas as religiões
+conhecidas. Seria para mim um germem de revolta e descrença na suprema justiça,
+saber eu que o sr. conselheiro Marianno de Carvalho saiu do descarrillamento
+illeso de perigo, sem uma ligeira escoriação na sua epiderme, tendo-me
+succedido ha 9 annos sahir d'igual desastre com a cabeça oito vezes fendida.
+Não me posso convencer de que Sua Divina Magestade revellasse tamanha ausencia
+de<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> imparcialidade, como
+architecto supremo que dirige as cousas do Universo, e principalmente as que em
+Portugal respeitam ao sr. Marianno de Carvalho e a mim, quando viajamos. Seja
+como fôr, desejo ardentemente que o sr. conselheiro, dando-me a honra de ler
+este soneto, haja por bem de o applaudir com um sorriso.»</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*     *</p>
+
+<p>O Soneto: <em>Logica de ferro</em>, foi enviado com a seguinte carta a um
+jornal que o regeitou como inconveniente e desorganisador do systema de
+convenções methodicas em que todos estamos mais ou menos illaqueados.</p>
+
+<p>«Mande publicar o soneto que lhe envio, senão fôr hostil ás suas opiniões
+theologicas, em tal assumpto. Eu por mim, pendo a favor<span class="pn"><a
+name="pag_18">{18}</a></span> do Patriarcha, padre catholico, na linha recta
+dos seus deveres, entre os SS. PP. e os concilios. Aquelles que invectivam o
+Cardeal, e ao mesmo tempo promovem suffragios por alma d'El-Rei, não digo sejam
+hypocritas; mas aproveitam a methaphysica do catholicismo para alardearem um
+espalhafato de piedade.</p>
+
+<p>«O padre catholico opera convicto e por consequencia correcto. Os outros
+servem-se da religião theatralmente. Como quer que seja, eu me persuado que
+El-Rei D. Luiz I está serenamente recostado no seu leito de marmore no Pantheon
+de S. Vicente de Fora; e quem se lembrar da bondade da sua alma, no transcurso
+de 28 annos de prospero reinado, presta á sua memoria a mais sagrada homenagem
+com que os vivos podem suffragar os mortos.»<span class="pn"><a
+name="pag_19">{19}</a></span></p>
+</div>
+
+<h1>SENTIMENTO</h1>
+
+<p> <span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span></p>
+
+<h3>I<br>
+O Conde de S. Salvador de Mattosinhos</h3>
+
+<blockquote>
+ O conde entrou no albergue arruinado<br>
+ De S. Miguel de Seide. Era anciosa<br>
+ A vida que eu vivia tormentosa,<br>
+ Á cegueira fatal já condemnado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Eu vi-lhe o coração bondoso e honrado<br>
+ Na face ingenua e triste e maviosa;<br>
+ Pulsava n'elle a nota dolorosa<br>
+ Do estranho soffrimento recatado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Chorava ao despedir-se. Era a tristeza<br>
+ De me deixar na formidavel presa<br>
+ Da treva, em quanto a morte a não dissolve.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Partiu chorando. E nunca mais nos vimos.<br>
+ Mortos! Ao mesmo tempo, ambos cahimos<br>
+ Na eterna escuridão que nos envolve.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<h3>II<br>
+Visconde de Benalcanfor</h3>
+
+<blockquote>
+ Já morto! Dilacera-me a saudade.<br>
+ Não tenho mais ninguem d'aquelles dias<br>
+ De ephemeras, vibrantes alegrias,<br>
+ Que me illumine a escura mocidade.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que ridente e subtil jovialidade!<br>
+ Que brilhantes hyperboles fazias,<br>
+ Com graça encantadora, quando rias<br>
+ Dos sérios carnavaes da sociedade!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A dor de envelhecer não a venceste;<br>
+ Pois que do coração sempre viveste,<br>
+ Matou-te finalmente o coração.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Vencido luctador, meu pobre amigo,<br>
+ Desde hontem que tu dormes no jazigo<br>
+ O sinistro dormir da podridão.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p>
+
+<h3>III<br>
+A maior dor humana</h3>
+
+<p style="text-align:center;"><small>(Na morte quasi simultânea dos dois filhos
+unicos de Theophilo Braga)</small></p>
+
+<blockquote>
+ Que immensas agonias se formaram<br>
+ Sob os olhos de Deus! Sinistra hora<br>
+ Em que o homem surgiu! Que negra aurora,<br>
+ Que amargas condições o escravisaram!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ As mãos, que um filho amado amortalharam,<br>
+ Erguidas buscam Deus. A Fé implora...<br>
+ E o ceu que respondeu? As mãos baixaram<br>
+ Para abraçar a filha morta agora.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Depois, um pai que em trevas vae sonhando,<br>
+ E apalpa as sombras d'elles onde os viu<br>
+ Nascer, florir, morrer!... Desastre infando!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ao teu abysmo, pai, não vão confortos...<br>
+ És coração que a dôr impedreniu,<br>
+ Sepulchro vivo de dois filhos mortos.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span></p>
+
+<h3>IV<br>
+Luiz&mdash;O Bom</h3>
+
+<blockquote>
+ Quando El-Rei D. Luiz for accolhido<br>
+ Aos penetraes da escura eternidade,<br>
+ Será pungente a funeral saudade<br>
+ Que mais pondera e chora o bem perdido...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Não houve em seu reinado um só gemido<br>
+ De guerra fratricida! A Magestade,<br>
+ Passando o sceptro ás mãos da Caridade,<br>
+ Baixava ao lar sem pão, do desvalido.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Senhor! deram-te as lettras ledos dias,<br>
+ E as intimas, supremas alegrias<br>
+ De quem trabalha&mdash;Eterna e sancta lei!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Revives na saudade, alma serena!<br>
+ Se a patria em que reinaste era pequena,<br>
+ Fôras em maior reino um grande rei.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<h3>V<br>
+Lagrimas</h3>
+
+<blockquote>
+ Senhora! em vosso rosto macerado<br>
+ Transluz da alma afflicta a immensa dôr!<br>
+ D'um lado, a morte; do outro, o vosso Amor<br>
+ Tremenda lucta ao pé do Esposo amado!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Contaes as pulsações do peito anciado<br>
+ Em estos convulsivos do estertor;<br>
+ Só podem vossos labios dar calor<br>
+ Áquelle corpo inerte, hirto, gelado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Vós bem vêdes, Senhora, este quebranto<br>
+ Que enluta Portugal! Ergue-se o pranto,<br>
+ Quando a morte do Paço se avisinha...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Pois quanto uma nação póde soffrer<br>
+ Não tem o acerbo e intenso padecer<br>
+ Das vossas sanctas lagrimas, Rainha!</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span></p>
+
+<h3>VI<br>
+Corôa de espinhos</h3>
+
+<blockquote>
+ Das trevas d'alem-mundo o esposo amado,<br>
+ Rainha, é Rei comvosco! Inda reinaes,<br>
+ Que o vosso throno assenta em pedestaes<br>
+ Dos corações que tendes conquistado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas que delicias tem esse reinado?!<br>
+ Senhora, alguma vez não invejaes<br>
+ Os remançosos dias sempre iguaes,<br>
+ D'um doce egoismo calmo e recatado?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Reinar!... reinar chorando a cada hora!<br>
+ O vendaval da dôr que ruge fóra<br>
+ E a propria dôr!... Chimeras dolorosas!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ha tanto abysmo em flóridos caminhos...<br>
+ O diadema de Christo era de espinhos!...<br>
+ Sagradas sois, corôas tormentosas!</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span></p>
+
+<h3>VII<br>
+Velhos problemas sagrados</h3>
+
+<blockquote>
+ Pergunta-se á divina Providencia<br>
+ Que segredos são estes do Destino?<br>
+ Ha vidas triumphaes: parecem hymno<br>
+ Sem nota de penosa intercadencia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mimosas em regalos d'opulencia,<br>
+ Não soffrem o revez d'um desatino:<br>
+ Se o buscam, acham sempre o Velocino,<br>
+ Sem medo que naufrague a consciencia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Outros vão sobre espinhos arrastados<br>
+ Pela mão da Virtude, acorrentados<br>
+ Aos preceitos sanctissimos do Eterno!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quem deu á infamia vida tão folgada?<br>
+ Quem dilacera a honra? É Deus ou Nada?<br>
+ Responde, Excelso auctor do meu inferno!</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<h3>VIII<br>
+Rachel</h3>
+
+<blockquote>
+ Libavas, borboleta, a flôr da vida<br>
+ No parque ameno d'ideaes chimeras.<br>
+ Que seja amor, não sabes; mas esperas<br>
+ Vencer captiva, e captivar vencida.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Chega a paixão... Retraes-te espavorida!<br>
+ Saudade tens das quinze primaveras,<br>
+ Em que, menina e moça, amada eras,<br>
+ Sempre isenta, risonha e distrahida.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Vence a paixão... E o teu anjo innocente,<br>
+ Desligado de ti, mésto e dolente,<br>
+ Regressa para o ceo; mas vai chamando-te...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Não foste! És presa á minha desventura!<br>
+ Em grande amor te dei grande amargura...<br>
+ Fui teu verdugo, mas verdugo amando-te.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p>
+
+<h3>IX<br>
+Alexandre da Conceição</h3>
+
+<blockquote>
+ Bem me lembra que o vi, na juventude,<br>
+ Rosado pela aurora d'essa idade.<br>
+ Eram prismas d'amor e d'amisade<br>
+ Os carmes do seu mystico alahude.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Sendo fatal que degenere e mude<br>
+ A crença, o affecto e o bem da mocidade,<br>
+ Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade,<br>
+ Nos arranques da briga azeda e rude.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mais tarde o encontrei. Já era o homem<br>
+ Ralado por desgostos que consomem,<br>
+ E põem na face um gesto acre e severo.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se o seu bondozo riso era apagado,<br>
+ Restava-lhe este honroso predicado:<br>
+ Prégando o Socialismo, era sincero.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span></p>
+
+<h3>X<br>
+Paciencia</h3>
+
+<blockquote>
+ Quem pode conceber que Deus creasse<br>
+ Tanta obra perfeitissima, esmaltada<br>
+ Pelo espaço infinito, e a desgraçada<br>
+ Raça humanal de imperfeições manchasse?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quem pode conceber o acerbo enlace<br>
+ De miserias que esmagam, condemnada<br>
+ A creação mais nobre, atormentada<br>
+ Desde o berço até ás ancias do trespasse?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ É certo que as desgraças são enormes;<br>
+ Mas tu, Deus abscondito, não dormes,<br>
+ Quando eu te invoco a divinal clemencia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ao dar-me as penas com que me torturas,<br>
+ Um thesouro me deste de venturas:<br>
+ Chama-se este thesouro a P<small>ACIENCIA</small>.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p>
+
+<h3>XI<br>
+Veterano</h3>
+
+<blockquote>
+ Sensiveis corações, ouvi meus brados!<br>
+ Nasci lá nas montanhas de Barroso.<br>
+ Meu pae foi um pastor libidinoso,<br>
+ Que brutalmente fez alguns peccados.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Foi minha mãe pastora de cevados.<br>
+ Morreu quando eu nasci; mas tão mimoso<br>
+ Que foi meu berço! um antro penhascoso...<br>
+ Setenta e quatro annos são passados.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Soldado fui; servi, em Caçadores,<br>
+ Dois amos, ambos elles <em>mais peores</em>:<br>
+ Um era D. Miguel; o outro, o irmão</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Metteram-me tres balas n'este flanco...<br>
+ Bem me custa, arrastado, andar tão manco<br>
+ De porta em porta a mendigar o pão.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span></p>
+
+<h3>XII<br>
+Scena trivial</h3>
+
+<blockquote>
+ Este homem que me vem pedir esmola,<br>
+ Muito bem conheci, galhardamente<br>
+ Vibrando o pingalim no dorso ardente<br>
+ Dos seus nedios frisões. Fez alta escola.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quando o fulvo ginete encaracola<br>
+ E assesta o seu monoculo insolente<br>
+ Nas timidas donzellas, cuida a gente<br>
+ Que João Tenorio a virgindade assola!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que descalabro é esse em que se liga<br>
+ Este esqualido velho que mendiga<br>
+ Ao dandy esvelto e triumphal que eu vi?!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Inquiro o desabar em tal miseria...<br>
+ Responde: «Essa pergunta será séria?<br>
+ «Fui rico, hoje sou pobre...»<br>
+                                         Ah! percebi...</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p>
+
+<h3>XIII<br>
+Alcacer Kibir</h3>
+
+<blockquote>
+ Verdugo, que esmagaste a India aos pés<br>
+ Eis aqui, Portugal, o que tu fôste!<br>
+ Repulsivo morphetico d'Aoste...<br>
+ Eis aqui, Portugal, o que tu és!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Os Gamas, Albuquerques e Sodrés,<br>
+ Alçando a cruz em sanguinoso poste,<br>
+ Bradam ser Christo o general da hoste,<br>
+ Se os povos sangra o ferro portuguez.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Terrivel vae mostrar-se a Providencia,<br>
+ Arrancando das mãos da prepotencia<br>
+ A levantina raça acorrentada.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ India, escrava gentil, espera um pouco...<br>
+ Lá vem sobre Marrocos um rei louco...<br>
+ Eis Alcacer-Kibir! estás vingada.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p>
+
+<h3>XIV<br>
+Jorge</h3>
+
+<blockquote>
+ Constantemente vejo o filho amado<br>
+ Na minha escuridão, onde fulgura<br>
+ A extatica pupila da loucura.<br>
+ Sinistra luz d'um cerebro queimado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nas rugas de seu rosto macerado<br>
+ Transpira a cruciantissima tortura<br>
+ Que escurentou na pobre alma tão pura<br>
+ Talento, aspirações... tudo apagado!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Meu triste filho, passas vagabundo<br>
+ Por sobre um grande mar calmo, profundo.<br>
+ Sem bussola, sem norte e sem pharol!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Nem goso nem paixão te altera a vida!<br>
+ Eu choro sem remedio a luz perdida...<br>
+ Bem mais feliz és tu, que vês o sol.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p>
+
+<h1>HUMORISMOS</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span></p>
+
+<h3>XV<br>
+Critica do auctor</h3>
+
+<blockquote>
+ Estes velhos sonetos não rutilam<br>
+ Brilhantes Documentos sociologicos,<br>
+ Nem modernos processos biologicos,<br>
+ Leis que os vates senis não assimilam.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Abundam lentejoulas que scintillam<br>
+ Disfarçando microbios pathologicos,<br>
+ Fermentações de vicios phisiologicos,<br>
+ Basofias anormaes, lesões que opilam.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Escreve alguem: «Quem reina é Sancho Pança.»<br>
+ Serodio D. Quixote, jámais podes<br>
+ Sanar a podridão que avulta e avança.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se os preconceitos, velho, não sacodes,<br>
+ Se não deixas de ser sempre creança,<br>
+ Fazem-te o que ás creanças fez Herodes.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span></p>
+
+<h3>XVI<br>
+Thomaz Ribeiro</h3>
+
+<blockquote>
+ Ao cantor de <em>D. Jayme</em> era ousadia<br>
+ Dedicar uns insipidos sonetos,<br>
+ Bem pallidos, mesquinhos esbocetos<br>
+ Dos <em>Ridiculos</em> grandes d'hoje em dia.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A ti que illeso passas n'esta orgia,<br>
+ Modesto, honrado e amado, que amulêtos<br>
+ Te salvam d'estes pantanos infectos<br>
+ Em que chafurda a esqualida anarchia?</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Tantas vezes Governo!... E não tens pejo<br>
+ De ser pobre, ó Thomaz ?... Isto que vejo<br>
+ Me inspira o vaticinio que registro:</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Dirão de ti as porvindouras eras:<br>
+ «Ministro pobre em Portugal! Chimeras!...<br>
+ «Ou viveu farto, ou nunca foi ministro!»</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<h3>XVII<br>
+Remorso</h3>
+
+<blockquote>
+ Eu choro quando, ás vezes, me concentro<br>
+ A meditar nas horas malogradas,<br>
+ Noites de inverno, gelidas, passadas<br>
+ Nos Carnavaes rhetoricos do Centro.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Convidam-me a ser socio. Acceito e entro,<br>
+ Deixando solitarias, consternadas,<br>
+ Três Marilias que amei! Estaes vingadas!<br>
+ Remorsos me excruciam cá por dentro.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Dizia-me um <em>dynastico-esquerdista</em>:<br>
+ «Prepara-se você para estadista?<br>
+ «Aspira a ser ministro? A escola é esta.»</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Pois, senhores, dez mezes decorridos,<br>
+ Bom politico, em todos os sentidos,<br>
+ Sahi do Centro, mas sahi mais besta.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p>
+
+<h3>XVIII<br>
+Te-Deum Laudamus</h3>
+
+<blockquote>
+ Vai grande barafunda lá no Empyreo!<br>
+ Acaba de chegar um estafeta,<br>
+ Que diz ser natural d'este planeta,<br>
+ E as noticias que dá causam delirio.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Formou-se logo um luzitano cyrio;<br>
+ E o Marquez de Pombal, lendo a gazeta,<br>
+ Fita em Garrett a celebre luneta<br>
+ E diz: «Veja, collega, este martyrio!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «O nosso Portugal tornou-se um Congo!...<br>
+ «Resam missas Lisboa e mais Vallongo,<br>
+ «Por que um feliz descarrillou sem damno.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Recebo agora officio do governo,<br>
+ «Pedindo-me agradeça ao Padre Eterno<br>
+ «O favor de salvar o Marianno.»</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p>
+
+<h3>XIX<br>
+7:500 contos</h3>
+
+<blockquote>
+ Finou-se em França, ha pouco, um millionario<br>
+ Nascido em Portugal.&mdash;Honra é dizel-o!<br>
+ Sahindo d'um cardenho de Lordello,<br>
+ Foi no Brasil doutor e boticario.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Não tem seu nome algum Nobiliario;<br>
+ Não foi conde sequer, ou não quiz sel-o,<br>
+ Qual outro seu collega, do Restello,<br>
+ E outros mais fidalgos d'Hervanario.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Seu nome é conhecido em toda a Europa;<br>
+ Que um tal Nababo rara vez se topa<br>
+ Com opulencia tal, mais que aziatica!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Tendo quinze milhões, soffria um mal<br>
+ Rebelde ao milagroso capital...<br>
+ Morreu d'uma anazarcha aneurysmatica.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p>
+
+<h3>XX<br>
+Lua de mel</h3>
+
+<blockquote>
+ Aquelle teu amigo de Peniche<br>
+ Casou, já sabes? Com a «Celidonia»,<br>
+ Horisontal, (<em>hectaira</em>, em lingua jonia)<br>
+ De labio rubro e olho d'azeviche.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Naufragou muitas vezes no beliche<br>
+ De notaveis pilotos da Parvonia;<br>
+ Vogou desde Monção á Patagonia,<br>
+ E, voltando, não topa onde se aniche.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Emfim, com sete filhos engeitados<br>
+ E os musculos bastante escanifrados,<br>
+ Pilha um palerma que jámais lhe escapa!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ São noivos. Vão <em>fazer a lua</em> em Cintra.<br>
+ Pergunta agora tu ao tal pelintra<br>
+ Se a lua foi de mel ou de jalapa.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span></p>
+
+<h3>XXI<br>
+Messias</h3>
+
+<blockquote>
+ Oliveira Martins, por toda a parte,<br>
+ Se augura que será novo Pombal!<br>
+ Vou dar-lhe uns leves toques d'immortal<br>
+ N'um soneto pomposo, primor d'arte!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Prostrada Lusitania, irmã de Marte,<br>
+ Emerge d'este podre tremedal!<br>
+ Levanta-te, caduco Portugal,<br>
+ Que os philtros do Martins vão remoçar-te!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ouvides estrallar o Terramoto?<br>
+ O sangue dos ladrões, continuo moto,<br>
+ Já faz nas praças charcos e meandros!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ministro redemptor, não retrogrades!<br>
+ Se Joaquim d'Aguiar foi <em>mata-frades</em>,<br>
+ Sê tu, bravo Martins, <em>mata-malandros</em>.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span></p>
+
+<h3>XXII<br>
+Portugal Contemporaneo</h3>
+
+<blockquote>
+ Não se olvidem jámais os casos serios,<br>
+ E as epicas façanhas dos Archontes!<br>
+ Ó Musa da calumnia, não me contes,<br>
+ D'esta luza Calabria altos mysterios.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Fulminavam-se outr'ora os ministerios,<br>
+ Porque tinham ladrões; depois, o Fontes,<br>
+ Rasgando á patria novos horisontes,<br>
+ Exterminou os Verres deleterios.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Sumiram-se os fataes homens sinistros!<br>
+ Já não são sacerdotes os ministros<br>
+ Do vil bezerro d'ouro, ou da bezerra.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ No tocante a ladroes, não ha nenhum;<br>
+ Já não se encontram três, nem dois, nem um...<br>
+ No pinhal da Azambuja e na Falperra.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span></p>
+
+<h3>XXIII<br>
+Logica de ferro</h3>
+
+<blockquote>
+ Nas bemaventuradas regiões,<br>
+ Onde existe do mundo o Directorio,<br>
+ Não entram almas sem, no Purgatorio,<br>
+ Purgarem a peçonha das paixões.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Que são indispensaveis orações,<br>
+ Em desconto das culpas, é notorio;<br>
+ Dil-o Affonso Maria de Ligorio,<br>
+ Confirma-o Frei José dos Corações.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Arguir de fanatismo o Patriarcha<br>
+ É sandice ou má fé que excede a marca:<br>
+ É não saber do Cathecismo a lei.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se entendem que o bom Rei já vive em gloria,<br>
+ De que serve essa vã Deprecatoria<br>
+ De suffragios e missas pelo Rei?</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p>
+
+<h3>XXIV<br>
+Aromas</h3>
+
+<blockquote>
+ Meu lindo Portugal, mina de heroes,<br>
+ Ser teu filho é bem bom, e até bonito!<br>
+ Percorre a gente as ruas sem apito,<br>
+ Sobraçando os pacatos guardas-soes.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Matronas de comprados caracoes,<br>
+ Que ao ceu não vão de certo com palmito,<br>
+ Se, primeiro, parecem de granito,<br>
+ De borracha é que são; mas é depois...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Ha povos que se nutrem só de flores,<br>
+ É Camões quem o diz. Tambem Lisboa,<br>
+ Vapora fragrantissimos odôres.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mas eu não sei dizer-lhes, meus senhores,<br>
+ Se os taes cheiros são coisa má ou boa:<br>
+ Sei que é d'elles que vivem os auctores.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span></p>
+
+<h3>XXV<br>
+Lisboa bucolica</h3>
+
+<blockquote>
+ Na lusa Babylonia ha parvoices<br>
+ Atavicas, talvez; pois bons auctores<br>
+ Carimbam de sandeus os fundadores,<br>
+ E chamam parvo ao seu caudilho Ulysses.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Assim começa o rol das taes tolices:<br>
+ Familias vão, nos mezes dos calores,<br>
+ Refrigerar no campo os seus ardores,<br>
+ E haurir das frescas brisas as meiguices.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Alugam-se uns casebres purulentos,<br>
+ Onde os ratos vorazes e macrobios<br>
+ Esfarelam a dente os vigamentos.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Mettidas n'esses fetidos cenobios,<br>
+ Depois de incalculaveis soffrimentos,<br>
+ Voltam do campo cheias de microbios.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span></p>
+
+<h3>XXVI<br>
+A outra metade</h3>
+
+<blockquote>
+ Quando este corpo meu esfacellado<br>
+ Baixar á leiva humida da cova,<br>
+ Hão-de os jornaes carpir a infausta nova,<br>
+ Taxando-me de sabio consumado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Estalará na imprensa enorme brado,<br>
+ Pedindo a resurgencia d'um Canova,<br>
+ Que a morta face em marmore renova<br>
+ Para insculpir meu busto laureado.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E algum dos imbecis necrologistas,<br>
+ Com soluçantes vozes de saudade,<br>
+ Dirá em ricas phrases nunca vistas:</blockquote>
+
+<blockquote>
+ «Esse genio immortal, rei dos artistas,<br>
+ «No ceu pede ao Senhor que a <em>outra metade</em><br>
+ «Reparta por vossês, ó jornalistas!»</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span></p>
+
+<h3>XXVII<br>
+Comedia humana</h3>
+
+<blockquote>
+ Litteratos! chorai-me, que eu sou digno<br>
+ Da vossa gemebunda e velha tactica!<br>
+ Se acaso tendes crimes em grammatica,<br>
+ Farei que vos perdoe o Deus benigno.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Demais conheço a proza inflada, emphatica,<br>
+ Com que choraes os mortos; e o maligno<br>
+ Desaffecto aos que vivem... Não me indigno...<br>
+ Sei o que sois em theoria e em practica.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Quando o avô d'esta vã litteratura<br>
+ Garrett, era levado á sepultura,<br>
+ Viu-se a imprensa verter prantos sem fim...</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Pois seis dos litteratos mais magoados,<br>
+ Sahiram, n'essa noite embriagados,<br>
+ Da crapulosa tasca do Penim.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p>
+
+<h3>XXVIII<br>
+<small>(Recordação dos 9 annos)</small><br>
+Ao visconde d'Ouguella</h3>
+
+<blockquote>
+ Nós aprendemos juntos a grammatica<br>
+ Do insigne e facundissimo Lobato.<br>
+ O nosso pedagogo intemerato<br>
+ Nos <em>Calafates</em> fez resurgir Attica.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Afora esta funcção assaz sympathica<br>
+ O mestre era guerreiro; e o desbarato<br>
+ Que fez nos miguelistas, não relato,<br>
+ Que eu da guerra civil detesto a tactica.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Devemos-lhe os segredos do <em>dativo</em><br>
+ E os mysterios do occulto <em>adjectivo</em><br>
+ E os do <em>supino</em>, e mais coisas supinas.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Visconde, é gratidão dizer ao mundo<br>
+ Que quem nos deu o litterario fundo<br>
+ Foi mestre João Ignacio Luiz Minas.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span></p>
+
+<h3>XXIX<br>
+Triumphos da eloquencia</h3>
+
+<blockquote>
+ Se o bruto (<em>b</em> pequeno) desalforja,<br>
+ Desbragadas injurias nos comicios,<br>
+ Contra argentarios, padres e patricios,<br>
+ Explue nos olhos crispações de forja.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Esmurra o peito e jura pela gorja,<br>
+ Que o Vaticano cai podre de vicios.<br>
+ Se pede para os reis forcas, supplicios,<br>
+ <em>Hurrahs</em> sanguineos vocifera a corja.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Este luso Rigault é petrolista;<br>
+ Na lingua tem navalha de fadista;<br>
+ De resto, faz pagode e rija pandega.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Está compondo agora outro discurso<br>
+ Com que espera alcançar, mas sem concurso,<br>
+ Ser despachado capataz d'Alfandega!</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<h3>XXX<br>
+Derrocada</h3>
+
+<blockquote>
+ Ao passo que vasqueja e expira a luz<br>
+ Do Templo onde, algum dia, celebraram<br>
+ O Passos, e o Mousinho e os que arrastaram<br>
+ Em terra estranha a esmagadora cruz,</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Na imprensa, uns pugilistas, braços nus,<br>
+ Uns contra os outros, rábidos, disparam<br>
+ Sarcasmos, que ao diabo não lembraram...<br>
+ Que linguas, sancto nome de Jesus!</blockquote>
+
+<blockquote>
+ O Deus dos seis Affonsos e das Quinas!<br>
+ Se um vil desabamento nos destinas,<br>
+ Escuta o meu sincero e ardente voto:</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Faz pena este acabar quasi indecente...<br>
+ Concede-nos morrer mais seriamente:<br>
+ Transmitte-nos, Senhor, um terramoto.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span></p>
+
+<h3>XXXI<br>
+O ultimo romantico</h3>
+
+<blockquote>
+ O extravagante Arthur, em Compostella,<br>
+ Viu desnalgar-se uma gitana Lola,<br>
+ Que tocava pandeiro e castanhola,<br>
+ E jurava que nunca foi donzella.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Chamava-lhe <em>Esmeralda</em>, ou <em>Graziela</em><br>
+ O romantico Arthur da velha escola;<br>
+ Mas tanto na paixão carnal se atola,<br>
+ Que os bens que tinha dissipou com ella.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Assim que empobreceu, Lola safou-se;<br>
+ E Arthur a pouco e pouco definhou-se<br>
+ Até se evaporar sem ter vintem,</blockquote>
+
+<blockquote>
+ A ti, que foste o ultimo romantico,<br>
+ Dedico o meu, talvez, ultimo cantico...<br>
+ E adeus! Se estás no ceu, porta-te bem.</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p>
+
+<h1>EPILOGO</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<h3>XXXII<br>
+Epilogo</h3>
+
+<blockquote>
+ Paroxismos da luz! tristes cantares!<br>
+ Sahis da treva, em treva esquecereis!<br>
+ Romanticos leitores não choreis;<br>
+ Poupai-vos para os vossos máos azares.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Se navegaes por bonançosos mares,<br>
+ De subito, no azul do ceu vereis<br>
+ A nuvem que se rompe nos parceis<br>
+ De imprevistas borrascas de pezares.</blockquote>
+
+<blockquote>
+ Disse Henry Heine, o cego: «Não lastimem<br>
+ «As lancinantes magoas que me opprimem...<br>
+ «Espere cada qual chorar por fim.»</blockquote>
+
+<blockquote>
+ E eu, que tanto carpi os condemnados,<br>
+ Os cegos&mdash;os supremos desgraçados!&mdash;<br>
+ Já lagrimas não tenho para mim!</blockquote>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p>
+
+<h3>INDICE</h3>
+
+<table align="center" summary="Indice" cellspacing="4">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td></td>
+ <td>Pag.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Nota Illustrativa </td>
+ <td><a href="#pag_7">7</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Conde de S. Salvador de Mattosinhos </td>
+ <td><a href="#pag_21">21</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Visconde de Benalcanfor </td>
+ <td><a href="#pag_23">23</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A maior dor humana </td>
+ <td><a href="#pag_25">25</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Luiz&mdash;O Bom </td>
+ <td><a href="#pag_27">27</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Lagrimas </td>
+ <td><a href="#pag_29">29</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Corôa de espinhos </td>
+ <td><a href="#pag_31">31</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Velhos problemas sagrados </td>
+ <td><a href="#pag_33">33</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Rachel </td>
+ <td><a href="#pag_35">35</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Alexandre da Conceição </td>
+ <td><a href="#pag_37">37</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Paciencia </td>
+ <td><a href="#pag_39">39</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Veterano </td>
+ <td><a href="#pag_41">41</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Scena trivial </td>
+ <td><a href="#pag_43">43</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Alcacer Kibir </td>
+ <td><a href="#pag_45">45</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Jorge </td>
+ <td><a href="#pag_47">47</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Critica do auctor </td>
+ <td><a href="#pag_51">51</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Thomaz Ribeiro </td>
+ <td><a href="#pag_53">53</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Remorso </td>
+ <td><a href="#pag_55">55</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Te-Deum laudamus </td>
+ <td><a href="#pag_57">57</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>7:500 contos </td>
+ <td><a href="#pag_59">59</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Lua de mel </td>
+ <td><a href="#pag_61">61</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Messias </td>
+ <td><a href="#pag_63">63</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Portugal Contemporaneo </td>
+ <td><a href="#pag_65">65</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Logica de ferro </td>
+ <td><a href="#pag_67">67</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Aromas </td>
+ <td><a href="#pag_69">69</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Lisboa bucolica </td>
+ <td><a href="#pag_71">71</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A outra metade </td>
+ <td><a href="#pag_73">73</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Comedia humana </td>
+ <td><a href="#pag_75">75</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Ao Visconde d'Ouguella </td>
+ <td><a href="#pag_77">77</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Triumphos da eloquencia </td>
+ <td><a href="#pag_79">79</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Derrocada </td>
+ <td><a href="#pag_81">81</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O ultimo romantico </td>
+ <td><a href="#pag_83">83</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Epilogo </td>
+ <td><a href="#pag_87">87</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nas trevas, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS TREVAS ***
+
+***** This file should be named 34952-h.htm or 34952-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/9/5/34952/
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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+1.F.
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+DAMAGE.
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
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