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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:02:46 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of A Verdade a Passo Lento ou Guerra do
+Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto, by Unknown
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Verdade a Passo Lento ou Guerra do Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto
+
+Author: Unknown
+
+Editor: João Nunes Esteves
+
+Release Date: January 14, 2011 [EBook #34960]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VERDADE A PASSO LENTO OU ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
+
+
+
+
+A VERDADE A PASSO LENTO,
+
+OU
+
+GUERRA DO ESCARAVELHO
+
+CONTRA
+
+_A BORBOLETA_
+
+CONSTITUCIONAL
+
+DO PORTO
+
+OS N. N. 131 E SEGUINTES.
+
+PRIMEIRA PROPOSIÇÃO,
+
+em que se mostra a sua impiedade.
+
+DADA Á LUZ
+
+Pelo Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+LISBOA:
+NA IMPRESSÃO DE JOÃO NUNES ESTEVES,
+Rua dos Correeiros N. 144.
+ANNO 1822.
+
+
+
+
+_Te conscintiae stimulans maleficiorum tuorum, quocumque aspexeris, ut
+furiae, sic tuae tibi occurrunt injuriae; quae te respirare non sinunt._
+
+O conhecimento das tuas maldades te atormenta, e em qualquer parte que
+ponhas os olhos, não achas senão os teus crimes, que como furias te
+perseguem, e não te deixão se quer, livre o respirar. _Raf. Blut. T. 1.
+verb. atorm. cit. a Cic._
+
+ * * * * *
+
+«Amigo, espero me faça logo imprimir o Folhetinho, pois as Imprensas do
+Porto estão occupadas com Periodicos, de maneira que não ha lugar para
+outra cousa, [a não se darem grandes sômmas] e tenho motivos a julgar
+que os Periodiqueiros daquella Cidade estão casados com a Senhora
+Borbolêta, e por esta razão para que lhes não salte ao pelo, pois tem
+medo della, que se pélão, á excepção de hum, nada admittem contra, do
+que he para a demora deste insignificante papelinho, vai em dois mezes.
+Cançado de escrever Cartas, e de esperar tomo esta ultima resolução,
+que, supposto vai tarde, ainda virá a tempo para desenganar os crédulos,
+e não fanáticos. Sou como sempre seu affectivo C.
+
+ _F. B. J. M.»_
+
+
+
+
+BENÉVOLO LEITOR.
+
+
+Não soffre hum estômago debilitado muita comida, nem a impetuosa
+torrente, que se lhe opponhão obstaculos; em huma e outra crise he
+necessario muita prudencia, pois he nestes lances, que o primeiro repôem
+com tédio, o que devia servir-lhe d'alimento, e o segundo arrasta diante
+de si quanto pertende impedir o livre curso das suas agoas. Nestas
+mesmas circunstancias me achava eu, quando o Povo do Porto, e d'outras
+muitas terras deste Reino, por effeito de hum papel verdadeiramente
+ridiculo, intitulado «Borbolêta,» que narrando hum facto acontecido no
+Convento dos Padres Carmelitas Descalços, não só obteve pela soltura da
+sua lingua mordaz o crédito da gentalha sempre amiga de novidades, e
+facil em acreditar as cousas «maxime» quando vem em letra redonda, que
+então julga tudo tão verdade, como se fôra hum Evangelho, mas ainda o
+crédito de muitos homens cordátos, que se persuadirão das suas
+imposturas; fazendo-se geral a opinião de que os taes Padres erão
+«crueis, e barbaros,» pois sem piedade castigavão com tanto rigor hum
+seu alumno innocente. Vendo eu a calumnia, o descaramento, e a
+cordilheira de mentiras mais altas que o Ararat, e mais extensas que as
+montanhas da Persia, e ao mesmo tempo o opprobrio, que padecião os ditos
+Padres, tão sem razão, pois sabía a sua innocencia, quiz desaffrontalos
+por meio das minhas reflexões, e dar ao mundo hum monumento veridico do
+justificado procedimento de toda a Corporação, contra os aleives, e
+impiedades do tal papel, cheio de incoherencias, falsidades, e até de
+hum aggregado de sandices, e de hypocrisias. Apresentar tudo isto de
+chapada era infartar hum Povo, que, preocupado com as idêas da
+Borbolêta, longe de abraçar as verdades, que lhe propunha, as
+rejeitaria, como outras tantas quimeras; pois hé certo, que enche o
+cantaro primeiro, (a não ser pirguiçoso) quem primeiro chega á fonte, e
+custa muito a desvanecer as primeiras impressões. Como somos mais faceis
+em acreditar o mal do que o bem, pois temos para hum propensão natural,
+e para o outro certa repugnancia, tambem seria difficil o fazer mudar a
+todos de conceito em hum tempo, em que a bilis estava exaltada, e as
+cabeças em effervescencia. Não era por tanto conveniente oppor-me a hum,
+e a outro, e por isso determinei fazer o que os Medicos aos estômagos
+fracos, isto he, dar pouco a pouco, e deixar passar a tempestade, para
+depois formar hum dique, que atalhasse a corrente. Com estas vistas
+procurei inserir por partes, as minhas reflexões em algum Periodico,
+pois até por este meio se espalhavão melhor, e vinhão assim a
+dervanecer-se as idéas sinistras, de que o povo estava imbuído. Tendo
+chegado á minha mão o papel da Borbolêta, o N. 131 no dia 21 de Outubro,
+logo no dia seguinte enviei ao Redactor do Correio do Porto a primeira
+Carta, pedindo-lhe de mercê a publicasse no seu Periodico, e que eu iria
+continuando a remetter-lhe todos os correios, ou quando as minhas
+occupações me dessem lugar, as provas de cada huma das quatro
+proposições, que lhe indicava. São já passados quasi dous mezes, e nada
+tem apparecido, e por esta causa, rogado dos meus amigos, determino-me a
+dar ao Publico as ditas reflexões, em quatro folhetos separados, posto
+que o primeiro vai sem mudança, e do mesmo modo, que o remetti ao
+Redactor do Correio do Porto, por não haver tempo de o reduzir a hum
+novo methodo, visto ser tão urgente a necessidade de desenganar o mundo
+illudido com os desparates da Borbolêta, e acudir pelo credito de homens
+tão benemeritos, quaes os Padres Carmelitas Descalços. Adoptei o titulo
+de «Verdade a passo lento» não só porque ella custa a chegar a todos,
+mas sim porque irei pouco a pouco assoalhando as mentiras da Borbolêta,
+pondo-lhe guerra como Escaravelho, cujas pontas são mais agudas, e de
+maior poder. Alem de andar mui vagaroso, tem o Escaravelho de mais a
+mais huma maçã, com que lhe pode ensaboar as barbas, ou faze-la
+retroceder com o cheirinho. Fio dos amantes da verdade que farão justiça
+ao Escaravelho contra a decantada Borbolêta, os N. N. 131 e seguintes e
+a imparcialidade decidirá, que não só nenhum credito merece o tal papel,
+mas antes he digno de que todos o detestem, tornando-se por este modo
+defensores da innocencia opprimida, assim como eu me protesto ser sempre
+até á morte
+
+Inimigo declarado dos Impostores, verdadeiro Constitucional.
+
+ Vale.
+
+
+
+
+PRIMEIRA
+
+CARTA
+
+22 DE OUTUBRO DE 1821.
+
+_Senhor Redactor do Correio do Porto._
+
+
+Por hum lance imprevisto veio ter á minha mão a folha de hum Periodico
+intitulado = Borbolêta Constitucional = e vem a ser o N.º 131. Fiquei
+suspenso, e como fóra de mim ao lêr no frontespicio desta Obra, (que
+deve ser d'algum máo trolha) a Epigraphe em letras maiuscuas = Serão só
+sepultados vivos os Frades Carmelitas Descalços? = Com esta pasmosa
+interrogação suspeitei logo que os taes Frades terião comettido algum
+crime de lesa Magestade Divina, ou lesa Nação; pois só por hum tal
+attentado se póde merecer hum castigo tão atróz, usado só por vezes
+entre as Nações barbaras. Que farião, Deos meu, estes bons Padres, dizia
+eu cá para mim sósinho? Que farião elles? Conheço ha tantos annos a sua
+bondade, e o seu porte regular, e edificante, mas no estado presente não
+faltão malvados, e vem tempo, em que as cousas boas tambem degenerão;
+certamente temos por aqui alguma corcundisse, ou hypocrisia!!! mas
+reparo que a Epigraphe diz = Serão sepultados vivos? Então, disse eu, o
+crime he maior, que o de Corcunda, e de hypocrita! Na verdade tremi de
+frio susto, e assim mesmo botei-me a lêr a malgamação de cousas, de que
+estava cheia a tal folha da Borbolêta, e confesso que do estado
+apathico, em que me vi, passei rapidamente ao de frenetico. E não teria
+eu razão bastante, Senhor Redactor? Hum papel público, que anda pelas
+mãos de todos, hum Periodico, que vai correndo o mundo, e que se julga
+apologista da verdade, critico exacto, illustrador da Nação, amante da
+humanidade, e da sua Patria, não ter nada disto! Quero dizer, ser hum
+impostor, mentiroso, injuriador maligno dos membros da Nação, sem
+caridade, e até sem patriotismo!!! Isto he que faz escandecer o «Caco».
+Li, Senhor Redactor, e reli o tal papel, e desejei ser hum Hercules
+verdadeiro para descobrir, e pôr ao sól o vasio craneo deste novo «Caco»
+mais manhoso, que o primeiro, de que falla a fabula. Tive intentos de me
+fazer Periodiqueiro, não pelo lucro, mas sim para dar ao Público huma
+desforra sobre a impiedade do tal homem «Borbolêta»: mas lembrei-me que
+por este meio não conseguia o meu intento. He hum Rifão de Direito, que
+«as cousas se desfazem pelos mesmos principios, ou causas, a que devem a
+origem,» e por isso julguei conveniente inserir as minhas reflexões em
+algumas das Folhas, que se publicão nessa Cidade, e me lembrei da sua, e
+assim pelo mesmo modo, e meios que se publicou a mentira, chegava a
+todos a noticia da verdade. Não conheço (nem me ficão desejos disso) o
+Author da Borbolêta, e por este motivo não atacarei sua pessoa: he
+verdade que o merecia bem, pois ella ataca huma Corporação inteira, tão
+respeitavel em Portugal pela sua decidida observancia; e, se em algum
+lance convinha a pena de talião, era este a meu vêr, o mais decidido; e
+ainda assim não ficava equibrado o castigo com a grandesa do delicto. A
+Borbolêta desauthorisa, e enxovalha, e tracta de ridiculo huma
+Corporação inteira, cheia de homens honrados, sábios, e virtuosos; e a
+Borbolêta he hum insecto vil, huma metamorphose nojenta, inteiramente
+inutil ao mundo, e que nada se perde se a lançarem ao fogo, ou a
+enterrarem viva. Com tudo respeitarei sua pessoa, por dar exercicio á
+Caridade, e esta virtude pede que assim se tracte, ainda que seja hum
+inimigo: pretexto faze-lo assim com este lobo disfarçado, ou raposa
+solapada com mais ronha, que huma cabra velha. Pelos seus escriptos
+penetro a bondade das suas intenções, e pureza de sentimentos, vejo a
+boa indole, que o aníma, e até me parece que adivinho de que he composta
+a sua entidade physica. Nada porém direi, torno a repetir, senão do seu
+escripto verdadeiramente = Impio = cheio de = Falsidades = Anti-fradesco
+= Anti-Christão = Darei a conhecer ao Público (este he o assumpto geral)
+a nenhuma fé, que merece o tal papel, ou, melhor, quanto deve ser
+abominado pelo seu máo animo, falta de logica, de Charidade, e de
+Patriotismo, pois tudo isto se acha nelle. «Abque eo, quod intrinsecus
+latet.»
+
+Sirva-se, Senhor Redactor, de publicar no seu Periodico esta primeira
+Carta, que servirá como Exordio de Sermão ás quatro proposições
+indicadas, que tenho de provar pouco a pouco, e, se me não engano, darão
+ao seu Periodico materia para muito tempo. Não me dirijo ao Author da
+Borbolêta, não porque lhe tenha medo, pois o tal bicho a ninguem o mete,
+mas sim porque o não julgo tão despido de amor proprio, (pelo seu
+escripto parece ter cara d'aço) para ser sincero, e fiel nesta Causa, em
+que elle he réo, ou parte; e he necessario ter huma alma muito boa, e
+huma virtude não vulgar, para que hum réo, ou parte deponha contra si,
+quando tem na mão os monumentos do seu crime, e que póde rasgar a seu
+salvo sem que alguem o possa presumir. A distancia do lugar, aonde vivo,
+fará retardar as minhas participações, assim como retardão os papeis,
+que chegão á minha mão, e os monumentos, que espero dessa Cidade. No
+estado presente queria ter azas de Borbolêta para voar á sua Officina, e
+dar-lhe ahi boas torquezadas, mas não me quiz dar o Céo o que
+liberalisou a este animalejo, e o remedio está na paciencia. Espero que
+v. m. a terá com este, que he deveras.
+
+
+Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+P. S.
+
+
+Senhor Redactor, depois desta feita, recebo o N. 132 da Borbolêta. Veja,
+veja lá como, sacudindo as azas, veio a cegar a gente com tanta poeira![1]
+Acuda a isto, Senhor Redactor; por Deus lh'o peço, imprimindo logo esta
+para bem da humanidade, e até da mesma Borbolêta; pois, se lhe não cortâmos
+os voadouros da lingua, temo que diga mal até do SS. Sacramento. Sou, como
+devo,
+
+Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+
+
+SEGUNDA CARTA.
+
+Quinta feira 25 de Outubro.
+
+«Impius odit lucem» = E a luz mata a Borbolêta.
+
+
+Senhor Redactor, vou principiar o meu Discurso, ou Sermão, de que já lhe
+remetti o Exordio. A primeira proposição, que prometti mostrar, era
+= O papel da Borbolêta, o N.º 131, he verdadeiramente = Impio. = Não
+será difficil prova-lo, attendendo á genérica accepção da palavra.
+Muitos Authores, diz o Abbade Bergier, dão o nome de impio só áquelle,
+que blasfema de hum Deos, que acredita e adora no fundo do seu coração;
+mas o uso ordinario he dar este nome ao desprezo formal, e affectado da
+Religião, dos seus Ministros, das Cousas Santas, dos actos de virtude, e
+devoção dos Povos: pode tambem qualquer acto de crueza chamar-se
+impiedade; porque neste genero, diz hum Author, he impiedade e barbaro
+gosto de ver padecer a outro. Deixando para tempo opportuno os outros
+membros do periodo, principiemos pelo ultimo = He impiedade o barbaro
+gosto de ver padecer o outro. = Neste ponto he mais que impio o papel da
+Borbolêta, pois teve o barbaro gosto de ver sepultados na ignominia,
+feitos objecto da mófa publica, dos insultos dos libertinos, apupadas
+dos rapazes, e da gentalha os respeitaveis, e até agora mui dignos de
+louvor, os Padres Carmelitas Descalços, enchendo-os elle mesmo nos seus
+Diarios, tão repetidas vezes, de baldões, affrontas, ironías, sátyras
+picantes, e grandes escarcéos. E isto por que? Por que tinhão preso
+hum Frade, cuja prisão, cárcere, e tractamento não só pintou com as mais
+negras côres, mas com as mais despregadas mentiras, e falsidades. Se
+pois o barbaro gosto de ver padecer a outro he impiedade, a que gráo não
+sóbe a Borbolêta, vendo padecer a tantos, sendo ella a causa, e o motivo
+principal do enxovalho nas Cidades, onde estes homens são conhecidos, e
+nos lugares aonde o não são? «Quod est causae est causa causati in eodem
+genere causae.» Este axioma da Philosophia antiga he ainda hoje
+verdadeirissimo, e assenta como chapéo de carneiro na cabeça da
+Borbolêta. Ainda mais: Se o barbaro gosto de ver padecer a outro, ainda
+que seja culpado, pois a humanidade pede a compaixão, he impiedade, que
+impiedade não he o ser o seu flagello, açoute, e verdugo? Por outra: se
+o barbaro gosto de ver padecer o culpado, ser causa e verdugo do seu
+padecimento, he grande impiedade, porque este mostra ter coração de
+fera, o ser causa de padecerem tantos innocentes, e ser elle mesmo o seu
+flagello, e verdugo he o «non plus ultra» da impiedade: o effeito tem
+necessaria connexão com a sua causa. A não ser a narração emphatica,
+mentirosa, e aturdidora do papel da Borbolêta, não serião os Padres
+enxovalhados em toda a parte, como forão. Pobres Padres! Se por
+impossivel o Soberano Congresso entregasse os papeis da causa á
+Borbolêta, e lhe cometesse a decisão aonde pararieis vós, quando, sem
+conhecimento de causa, sem informação, e sem exame já vos sentencea não
+menos que a ser enterrados vivos!!! Pela regra da moralidade cresce
+a enormidade do delicto á medida da pessoa ultrajada, e os crimes
+multiplicão-se em numero quantos são os offendidos. Não fallo ainda do
+escandalo, e hum escandalo tão público, que vai chegando a toda a
+Europa, se não he já a todo o Mundo! Quem diria que hum animal de
+cornitos tão pequenos havia de fazer tantos estragos..?
+
+Mas serão innocentes os Padres Carmelitas? Sim, cornigera Borbolêta, ao
+menos a maior parte, e isto ainda suppondo ficticio o roubo, como
+declaradamente apregoa a sua folha, e o que a seu tempo mostrarei falso.
+Ande agora comigo, Senhora Borbolêta, se he que póde, e vá discorrendo.
+Fr. Gabriel de Santa Thereza achava-se no carcere do Porto cumprindo
+huma sentença, e chama-se justa ou injusta huma sentenca, se o crime
+imputado he falso, ou verdadeiro: quando ella he injusta, os culpados na
+injustica são as testemunhas, que depozerão falso, ou o Juiz que
+falsificou os depoimentos, ou «contra allegata, et probata» assim mesmo
+sentenciou hum réo, que o não era: Suppondo por agora falso o roubo
+imputado a Fr. Gabriel, e a sentença injusta vem a recahir a culpa sobre
+os Padres existentes no Porto nesse tempo, os quaes deposerão contra
+elle, e os Juizes que sentencearão sem razão. Logo os que ahi não
+estavão, nem depozerão não entrão nesta conta; não entrão os que vivião
+n'outros Conventos, os do Brazil e Angolla, os empregados nas Missões,
+os que forão para a tal Ordem, e Professarão depois disso. Logo estes,
+que são os mais, são innocentes; e deverão taõbem ser enterrados
+vivos? Acaso este crime será o peccado original, que se transmitte a
+todos? Acúa Sr.ª Borbolêta! tome alento que ainda vamos no principio da
+carreira. Sendo, como fica demonstrado, a maior parte innocente, ainda
+suppondo o roubo fingido, e a sentença injusta, segue-se legitimamente
+que he a ultima impiedade o querer que tantos innocentes sejão
+sepultados vivos. Tem-se visto muitas Testemunhas falsas, muitos
+Tribunaes corruptos, e tem-se dado muitas Sentenças injustas: isto he
+frequente no mundo, e o será sempre, a não crear Deos homens de outra
+raça, livres de paixões e prejuizos. Supponha-se toda, e qualquer
+Sociedade, todo e qualquer Governo, de necessidade hãode haver falhas,
+quebras, padrinhos, afilhados, valídos, interessados, hãode haver
+descuidos, preocupações, enganos, desejos de agradar para conseguir
+maior fortuna, e afinal a ambição, que em toda a parte cega os homens:
+esta a razão de se verem tantas testemunhas falsas, e tantas Sentenças
+injustas; entre estas a mais impia e injusta foi a de Pilatos contra
+Christo, pois o entregou á mórte, receoso de perder a Dignidade: mas
+depois desta não sei que haja outra mais injusta que a da Borbolêta
+contra os Frades Mariannos, pois, para conservar o caracter de
+maldizente, quer que todos elles sejão enterrados vivos, e ninguem dirá
+que hum tal sentimento posto em papeis publicos não seja a maior das
+impiedades. A Borbolêta não quererá que se arrasem todos os Tribunaes,
+nem que sejão queimados todos os Juizes, nem enterrados vivos todos
+os que jurão em causas crimes, só precisamente porque tem havido
+Tribunaes injustos, máos Ministros, e testemunhas falsas; e hade querer
+acabar de todo com os Frades Carmelitas, só porque castigárão hum seu
+alumno, fosse elle culpado ou innocente? Soffre-se no mundo tanta
+injustiça, e não se hade perdoar a huma, quando appareça no Claustro?
+Dizem que he humanidade acudir pelo innocente castigado, e eu taõbem
+concordo neste principio; mas será rasoavel que, para libertar hum
+innocente, se condemnem, e enterrem vivos a mais de tresentos
+innocentes? Esta humanidade foi, he, e será sempre desconhecida no
+mundo, á excepção da Borbolêta. Mas deveras he innocente Fr. Grabriel,
+de quem tractâmos? Serão culpadas as testemunhas, e os seus Juizes?
+Eis-aqui a mina de carôço, onde a Borbolêta achou hum thesouro, com que
+enchêo a bolsa á custa de hum Povo crédulo, que devorou as suas pêtas
+embrulhadas em palavrinhas, bem como pirola dourada, que, contendo
+mortal veneno, engana os simples e pouco acautelados. A Borbolêta
+suppõem innocente o tal Fradepio, e não sei como o não canonisa de
+Santo, pois o tracta de Religioso, e Reverendissimo, sendo aliás hum
+Leigo com corôa aberta, e de casco mais rebelde, que o seixo ao fogo; e
+aos Padres suppõem todos culpados, e os tracta de machiaveis,
+hypocritas, tyrannos, e verdugos infernaes.... Por certo que Mafoma não
+fallou tão mal, nem disse tanto do toucinho! O Impio Luthero não
+blasfemou com mais impeto contra a Santa Igreja, e contra o Papa, a
+quem chamava o Anti-Christo. Pouco importa, e de nada vale o dizer a
+Borbolêta que refere o que sabe por differentes vias sem animo de
+injuriar a Corporação Carmelitana Descalça, quando diz tão mal della, ou
+dos seus individuos, que he o mesmo, com tanto furor e acrimonia. Hum
+semelhante protesto, junto com o infame relatorio, he desfazer com os
+pés o que tinha feito com as mãos; huma refinada hypocrisia para melhor
+se fazer acreditar; huma impiedade solapada para córar o seu veneno:
+este modo de proceder chamou-se em outro tempo «protecção á Franceza.»
+Injuriar publicamente hum homem, (muito mais huma Corporação inteira)
+imputar-lhe falsamente grandes crimes, e divulgalos por toda a parte,
+meter-lhe em fim a espada até aos copos, continuando a dar-lhe estocadas
+mortaes, e protestar ao mesmo tempo que não tem animo de o offender...
+quem não vê que isto he estupidez? e, se não quer que seja assim, então
+vem a ser o que eu já disse = o non plus ultra = da impiedade. Mas
+talvez que a Borbolêta admitta a existencia do peccado philosophico, e,
+a ser assim, eu o desculpo pela compaixão, que tenho da sua cegueira.
+
+He certo, torno a repetir, que a Borbolêta suppõe innocente o tal
+Fradepio, e tomo a meu cargo mostrar-lhe para o Correio, em como he
+culpado, e mui culpado. Na terra onde vivo tenho participações as mais
+veridicas sobre este ponto, e protesto, e juro a Deos (o caso pede que
+se jure para que o mundo conheça a verdade) ser mais fiel e sincero que
+a Borbolêta em relatar os factos. Antes de os expôr convem dar huma
+noção exacta do caracter de Fr. Gabriel de Santa Theresa. (perdoem-me os
+Padres Carmelitas se mostrar ao mundo os crimes de hum seu Irmão) Julgo
+que a sua Religião nada perde com isto, antes a meu ver se acredita por
+isso mesmo, que castigou como devia os seus delictos, nem offendo a
+caridade mostrando os crimes de hum Frade indigno até de estar na
+Sociedade dos homens, e que nenhum direito tem já á sua honra. Para o
+Correio porei este caso em toda a luz possivel, para vêr se queimamos a
+Borbolêta, ou ella mesma se queima na sua impiedade. Tenha paciencia
+Senhor Redactor em aturar este, que he sem refolho.
+
+
+Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+
+
+TERCEIRA CARTA.
+
+Segunda feira 29 de Outubro.
+
+«Impius facit opus instabile»
+
+
+Senhor Redactor, vou continuando a primeira parte do meu Discurso, ou do
+meu Sermão: ficou elle substancialmente nas duas interrogações; 1.ª se
+Fr. Gabriel he innocente? 2.ª se as testemunhas, que deposérão na
+devassa, e os Juizes, que dérão a Sentença, serão culpados? Da verdade
+de huma destas proposições segue-se necessariamente a falsidade da
+outra: Logo, se o primeiro for culpado, devemos concluir de certo que os
+segundos são innocentes, e impio o tal papel da Borbolêta; pois a torto,
+e a travez quer que os Padres sejão «barbaros, crueis, tyrannos,» e por
+consequencia merecedores de mais alguma cousa, que serem enterrados
+vivos. Entremos primeiro na descripção de Fr. Gabriel, ou do seu
+caracter, que prometti, e eu a dou em tudo confórme ás participacões
+delle, nem mais, nem menos. «Agoente agora hum pouco, Sr. Borbolêta, e
+venha vindo a passo.» Fr. Gabriel de Santa Theresa, de idade de 53, a 54
+annos, pouco depois de professo no Convento do Porto, e logo no
+principio do seu Coristado mostrou huma indole tal, que nunca a sua
+Religião se servio delle, nem o promovêo a Ordem alguma, por não
+dar, nem sequer, esperanças para o desempenho do menor gráo do
+Sacerdocio. Já no tempo de Noviço as deu bem fracas de cumprir os
+devêres da profissão, e foi admittido a ella, presumindo-se que com a
+frequencia dos Exercicios Religiosos, bons exemplos, exhortações, e com
+o tempo em fim se ligaria aos seus devêres; mas enganárão-se os bons
+Padres, porque = de pequeno verás o Boi que terás. = Suas propenções,
+falta d'amor á observancia, de sentimentos religiosos, e até christãos,
+erão taes que, por exercicio á Caridade, e respeito á sua Corporação,
+não os especifico. Repetidas vezes arguio, e castigado de mil infracções
+do que tinha professado, seu genio inquieto, seu coração endocil tudo
+atropelava, zombava de tudo. Seu entendimento rombo, e ao mesmo tempo
+manhoso, só inclinado ás cousas da terra o affoutou a pedir aos Prelados
+que, da profissão, que fizéra para Religioso do Côro, o passassem para a
+de Leigo. «Toupeira nos sentimentos quiz trocar os olhos pelo rabo,
+estimando mais ser bicho de cosinha, do que pegar no Breviario.» Que tal
+he o Rmo. da Borbolêta!!! Em varios tempos, e por varias vezes mostrou o
+«séstro» de rapinante, não sei porque infeliz e funesto fado! Em 1804
+foi convencido de haver tirado huns cordões d'ouro, e algumas peças á
+tal Senhora, a quem chama a Borbolêta, como de mófa, = Rica
+Proprietaria; e, de mais a mais, de abrir com gasua, ou chave falsa os
+mealheiros, ou caixinhas, em que os Fieis devotos deitão as suas esmolas
+aos Santos: (talvez julgasse erradamente lhe competia este espolio,
+por ser elle mais santo, ao menos na razão de simples) Convencido deste
+crime foi então prezo, e do tempo da prizão nada nada me informão de
+positivo. Não se emendou com esta pena a tal «ave de rapina:» deu traças
+a huma chave, a que chamão mestra, a qual abre as portas das Cellas
+todas, e em horas, que lá sabia, hia sisando o que achava bem guardado:
+houve alguns queixosos, e entre elles o Comprador da Communidade, que se
+via afflicto, por lhe faltar muitas vezes o dinheiro da Cella, e a Cella
+sempre fechada. Depois de longo tempo, desconfiado do tal merlo,
+armou-lhe a ratoeira, e logo á primeira vez cahio nella a «Ratasana.» He
+galante esta historia, e mostra bem quanto são finos os taes Fradinhos.
+Hum dia fingio o Comprador sahir para fóra, e no tempo de Vesperas foi
+ao Côro tomar a benção ao Prelado; mas, em lugar de sahir, foi meter-se
+em huma Cella fronteira á sua, e pôz-se á espreita, tendo avisado a não
+sei quantos, que perto e disfarçados acudissem á primeira voz. Serião
+três horas pouco mais ou menos, eis que, cantando ao som de Esgueira, ou
+Borda-d'agoa = trai, li, la-ro, veio correndo o Dormitorio o
+Reverendissimo Fr. Gabriel, que suppunha fóra o Comprador, e os demais
+na Cerca divertindo-se: feitas as tentativas para que ninguem o visse
+metêo a chave, abrio a porta, e entrou affouto deixando a tal chave na
+fechadura; fatal descuido! Sahe depressa como galgo sobre lebre o
+Comprador, juntão-se os outros, que pilhárão o Reverendissimo mechendo,
+se não foi já embolçando algum dinheiro. Eis-aqui o innocente, que
+tanta piedade merece á Borbolêta! Deos por sua alta piedade lhe encha a
+casa dellas, ainda que [ persuado-me ] não terão muito que levar.
+Castigado novamente o Reverendissimo teve a soffrer o carcere, e tãobem
+não me dizem por quanto tempo, mas sim que o fôra por Sentença. Estes
+Padres tem lá suas Leis, e Judicatura particular, e por ella costumão
+processar os Réos; e, a fallar verdade, fazem bem; porque aonde não ha
+castigo ha huma tropa de levantados, e cada qual faz o que quer. O homem
+de honra dirige-se pela nobreza dos sentimentos, que o animão, e quem a
+não tem atropella tudo, e para estes he necessario aguilhão, e hum
+chusso. Na colisão de dous Governos hum molle, e outro rijo deve
+preferir-se este ao molle; porque no rijo o homem de bem nada teme,
+porque obra por decóro, e honra propria e o malévolo contem-se pelo
+temor de que o castiguem: pelo contrario no Governo molle o mesmo homem
+de honra muitas vezes se relaxa, e o máo que neste estado não teme o
+castigo, faz-se pessimo, audaz, e insolente. A vara, e o freio doma os
+cavallos, e para os homens máos são necessarios os castigos: mas a
+Borbolêta he tão boa que não quer hajão máos no mundo, nem que elles se
+castiguem; os bons isso sim, esses sejão sepultados vivos, e ainda
+alguma cousa mais. Eis-aqui huma politica estranha, ou huma piedade
+verdadeiramente impia; e, a valer esta regra, tem de viver muitos
+seculos a Borbolêta, ainda que o seu sustento sejão «acelgas, e
+beldroegas.» Na sua linguagem he Fr. Gabriel hum infeliz
+barbaramente encarcerado, e os Padres são huns hypocritas, crueis,
+solapados, huns verdugos, e verdugos infernaes. «Apague! Este rasgo de
+eloquencia pedantesca escandalisa, ainda que seja hum Fariseo. He huma
+verdade, pois o diz Espirito Santo [ por ser de tal author julgo o não
+negará a Borbolêta, ainda que tem cabedal para muito mais ] diz o
+Espirito Santo, que a boca falla da abundancia do coração, e quem lança
+taes fezes pela boca [ digo eu ] he sinal que foi meter a lingua em
+parte bem nojenta. Acho-me tãobem agora com vagar, e por isso contarei a
+minha anecdota.» Ahi vai, acredite quem quizer, e quem não quizer não
+acredite. Em certa terra deste Reino entrou hum homem alta noite em huma
+casa a não sei que pertenção; porem sentido pelo dono, e não podendo
+escapar-lhe d'outro modo, descêo de hum golpe por hum buraco a huma
+loja, onde infelizmente se enterrou até á cinta: o pobre miseravel
+forcejando como burro em atoleiro, pôde escapar á inundação, e aos fios
+da espada, com que o outro o perseguia: atravessou algumas ruas, e para
+mais desgraça veio dar aonde estava huma sentinella; gritou este como
+era de costume = quem vem lá para á guarda? = mas o tal homem fez-se
+mouta, e com pés de lã deu mais hum passo adiante porem o Sentinella
+gritou mais alto = quem vem lá para á guarda? Então o miseravel, vendo
+que o voltar atraz era cahir nas mãos do inimigo, e que os gritos de
+sentinella o descobrião, disse em voz submissa = he o diabo
+carregado d'esterco, = (por decencia não se diz a palavra) ao que
+respondêo o Sentinella, = passe de largo, que o cheiro bem o mostra. =
+Tornemos agora ao Reverendissimo Fr. Gabriel, [dar-lhe-hei sempre este
+titulo que de tão boa mente lhe concede a Borbolêta] e ao facto de 1813,
+que ella conta em ar dogmatico, e decisivo. Muito perdêo o Patriarcha
+Grego em não ter ao pé de si esta rica Borbolêta! passaria por hum homem
+inspirado, e a força da sua loquella faria scismatico o mais emperrado
+Turco. Em 1813, no dia 14 de Junho ás 5 horas da manhã, appareceo
+roubada a Senhora da porta, como diz a Borbolêta, mas não diz tudo; he
+velhaca, ou não teve informações exactas, e escrevêo ao Deos-dará:
+appareceo tãobem roubada a Senhora do Altar Mór, Calices, Custodia, e
+demais prata da Sacristia, e até a Patena dos Santos Oleos, que estava
+fechada n'hum cantinho.... Foi esta apparição, de menos, da fórma que
+vou dizer, e do modo que me informão pessoas de todo o credito, que a
+presenciárão ellas mesmas. Os Padres Carmelitas Descalços tem por
+instituto, o levantarem-se em todo o anno hum pouco antes das 5 horas da
+manhã; e no tempo que toca o sino juntão-se no Côro para fazerem Oração.
+Costumão nas terras grandes descer nesse tempo alguns Padres a dizer
+Missa ao Povo, que no Porto he sempre em quantidade: abrio o Porteiro a
+Igreja, e o Sacristão a porta da Sacristia, e eis-aqui o pasmo, e o
+assombro em huma e outra parte ao mesmo tempo... Os Padres não achão
+Calices, e o Povo vê o Nixo da Senhora aberto, o Menino aos pés da
+Mãi, e ambos despojados de corôas, joias, e dinheiro, e tãobem a
+Senhora, e Menino do Altar Mór sem as suas corôas. Armou-se tal barulho
+na Igreja, que os Padres, deixando a Oração, correrão á grade do Côro
+para saberem a causa do motim: então hum delles [dizem-me que se chama
+Fr. Manoel de S. Lourenço, e que ainda móra no dito Convento] perguntou
+ao visinho, que era o Reverendissimo Fr. Gabriel--isto que he? que
+succedeo?.. He disse o tal Reverendissimo, he que roubárão a Igreja, e
+Sacristia. Como assim, lhe replicou o Padre, se a porta da Sacristia he
+páo ferro, e só á força de machados, e com muito estrondo he que podia
+arrombar-se? Não foi por essa porta, respondeo o Reverendissimo, forão
+pela escada da Sacristia, arrombárão a porta do Presbyterio, e dahi
+forão pela Capella do Sacramento á Sacristia. N. B. Os Padres,
+regularmente recolhem-se ás Cellas das déz ás onze horas da noite, e
+levantão-se para o Côro ás cinco, como já disse: a Communidade estava
+então no Côro, e lá estava tãobem o Reverendissimo; os demais ignoravão
+o que se passava, e o que era, e o Reverendissimo Fr. Gabriel, sem sahir
+do Côro, já sabia não só do roubo, mas de tão miudas circunstancias como
+= o terem ido pela escada da Sacristia, o arrombamento da porta do
+Presbyterio, a passagem á Capella do Sacramento &c. &c. Se não foi elle
+o ladrão, parece que andou com elles; ou, aliás, advinhou. Seria isto
+porque estes Padres tem por brasão o ser filhos dos Profetas, e Fr.
+Gabriel, entrando nesta successão por artes de «berliques berloques,»
+consultou alguma bruxa, que tendo o espirito d'Apollo Pythio, lhe
+revelou de noite tantos segredos; pois dizem [valha a verdade] que os
+espectros costumão apparecer, e fallar huns aos outros. Conhecido o
+furto, (digo a verdade, e só esta he que he verdade, diga quantas
+mentiras quizer a Borbolêta) desconfiárão os Padres dos Soldados, pois,
+sendo feito o roubo pelo interior da Casa; tinhão motivos racionaveis
+para isto. Chamárão o Sargento, perguntárão aos Guardas da Portaria se
+virão entrar, ou sahir alguem em toda a noite; e, respondido que ninguem
+entrára nem sahíra, dous Padres com o dito Sargento derão huma busca
+ligeira ás Cellas, onde os Soldados estavâo aquartelados, e nada
+apparecêo: foi busca ligeira, por que huma grande Custodia, sete, ou
+oito Calices, Patenas, Corôas, &c. &c. não erão trastes, que se metessem
+no bolço, ou na patrona. Nessa manhã veio ao Convento o Chanceller, a
+quem o Prior foi rogar para isso, o qual, examinando o lugar, por onde
+se fez o roubo, os sitios onde as cousas estavão, e demais
+circunstancias, disse por fim ao Prior, e Padres, que o
+acompanhavão--Padre Prior, tenho experiencia porque tracto de
+semelhantes causas ha muitos annos; pelo que observo o furto foi feito
+por pessoa, que sabia muito dos escaninhos, sitios, chaves, e lugares:
+veja se tem em casa alguem capaz disto, e não se escandalize, porque
+taõbem no Apostolado houve hum Judas. Ora este sim, que foi Profeta!
+Nós veremos como elle advinhou. Para o Correio, Senhor Redactor,
+continuarei o meu aranzel, assim como continuo a ser
+
+Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+
+
+CARTA IV.
+
+«Impietas impii erit super eum.»
+
+
+Senhor Redactor, já lhe remetti a descripção do caracter de Fr. Gabriel,
+e o modo como se fez o furto, e ficámos em ver como advinhou, sem ser
+bruxo, o Illustre Chanceller. A pezar do seu pronostico tão claro e
+decisivo, nem por isso se declárão os Padres contra o Reverendissimo,
+ainda que lá no coração muitos o suspeitarião: assim mesmo, apenas hum,
+ou dois por entre dentes disserão que desconfiavão delle; porem a
+perturbação, a mágoa, e o sentimento em todos era tal, que os não
+deixava discorrer: andavão como attónitos, e assombrados, e foi tão
+grande a pena, que o pobre do Prior em três dias deu á casca, isto he,
+morreo de apaixonado. Descobrio-se o furto nesse mesmo dia, ou no
+seguinte, e foi da maneira que vou contar, nem mais nem menos.
+Recolhidos depois de cea os Religiosos, erão pouco mais de onze horas,
+quando vem á Cella do Superior aquelle sujeitinho, que tinha pilhado da
+outra vez a «Ratasana» era o mesmo Comprador, de que acima fallámos, e
+lhe disse desta maneira «Padre Superior, eu já estava deitado, e não
+posso dormir, nem descançar com a lembrança de que o furto está em casa,
+e de que o ladrão de certo, ao que me parece, foi Fr. Gabriel; (perdoe
+que me esquecêo agora o Reverendissimo, fique para outra vez) lembro-me
+que por cima da abobada da Igreja ao lado da Epistola, e sobre o Altar
+da Santa Theresa ha hum profundo escondrijo, onde escapárão muitas
+cousas aos Francezes [não escapou depois disso huma mala, e parece que o
+Reverendissimo lhe deitou a fatexa de cinco pontas, pois me dizem anda
+appensa aos Autos huma carta delle a certo amigo da Cidade, em que o
+avisa tenha muito cuidado na mala, e a não dê a ninguem para o não
+perderem &c.] Certamente ahi está o roubo: venha comigo, e vamos ver.»
+Foi com elle outro Religioso, e mesmo, lá mesmo no tal sitio mesmo, lá
+estava, mas não tudo: Corrêo logo com tal alvoroço o tal Comprador, que,
+sendo alta noite, e tempo de silencio assim mesmo gritou nos Dormitorios
+em altas vozes = Padre Superior, apparecêo; cá está; venha, venha que
+appareceu.... Ao estrondo destas vozes levantou-se o Superior á pressa
+meio vestido; levantárão-se os demais como em tumultos e todos, á
+maneira de quem acode ao fogo, correndo cada qual mais depressa, se
+dirigião ao sitio para ver o tal «achado.» Todo este barulho passou pela
+porta do Reverendissimo, e á porta delle he que gritou o Comprador; mas
+deixou-se ficar quietinho, e estirado como bom cação; talvez tivesse
+escrúpulo de quebrantar o silencio, porque foi sempre mui observante
+neste ponto: póde ser que nada disto o acordasse; mas, a ser assim, hum
+sono tão profundo indica bem a necessidade de descanço; elle o
+precisava, pois tinha perdido a noite antecedente. Cumpre notar que até
+os Padres mais velhos, e venerandos se levantárão para assistir ao acto
+da «achada,» e o Reverendissimo, e venerabundo Fr. Gabriel devia
+ficar-se pelo pouco, ou nenhum interesse, que lhe resultava de hum roubo
+tão consideravel, e que tanta magoa causou aos seus Irmãos. Apparecêrão
+Calices, Patenas, Custodia, a pequena Alampada, e a Corôa grande, mas
+não as colherinhas dos Calices, joias, dinheiro, e tudo o mais que não
+era volumoso. Depois desta descoberta encaminhou-se o Prior, e Padres do
+Governo á Cella do Reverendissimo Gabriel, e o forão condusindo para
+outra, que tinha grades, servio, e serve algumas vezes de hospedaria:
+aqui o deixárão ficar em quanto elle não teve arrombados os ferros,
+porque então foi preciso muda-lo para outra Cella taõbem de grades, e,
+se vê já de forro. Metido nesta Cella deu traças a fugir, e para isto
+furou a abobada, o que deu motivo a fazer-se-lhe hum segundo solho, ou
+pavimento sobre o primeiro. Ao Religioso, que o servia, em quem achou
+alguma confiança, e demasiada benevolencia, deu 2400 para que lhe
+comprasse huma lima surda, ou serra d'asso, afim de cortar os ferros da
+janella, e por-se ao fresco; pedio mais ao dito Padre lhe levasse
+hum Gabinardo, que tinha em certo sitio, e huma corda a qual lhe disse a
+tinha escondida detraz dos folles do Orgão, e lá se achou. «Estes
+trastes denotão que elle costumava fazer suas sortidas; ou que já os
+tinha de prevenção para o que désse, e viesse.» Nada se achou na Cella
+do Reverendissimo concernente ao furto, nem era da esperar, porque já
+estava destro; com tudo, depois de alguns dias, lhe mandárão despisse
+toda a roupa, e apparecêo cosida na fralda da camisa a quantia de 12$ e
+tantos reis. Tãobem isto, dirá a Borbolêta, que he fingidi? Estes Padres
+são mui finos, e certamente por alguma nova magica forão-lhe lá coser o
+dinheiro, mas este remendo botado assim he mal cosido. Nada apparecêo
+até ao dia de hoje, de cordões, joias, dinheiro, «que foi em quantidade
+o que levou da gaveta da Sacristia,» e d'outras miudesas, e he crivel,
+que tudo enterrasse na Cerca, e ha razão de o desconfiar; por quanto,
+propondo o Reverendissimo ao Padre, que o servia, os intentos de fugir
+pela janella para a Cerca, este lhe aconselhava o não fizesse por esse
+lado; que de noite, arrombando a delgada taipa, que divide a Cella,
+podia escapar-se muito bem, pois a Portaria estava aberta, e os Soldados
+o deixarião ir livremente, dizendo-lhes que era Religioso; a estes e
+outros conselhos repugnava sempre o Reverendissimo, teimando sahir pela
+janella, e pela Cerca; ora isto [dizem-me] são motivos para desconfiar,
+de que as joias, dinheiro &c. estão na Cerca enterradas, e que elle
+os queria levar comsigo quando fugisse; por quanto, perdida esta
+occasião, não lhe ficava outra para as levar sem muito risco, e grande
+perigo de ser pilhado, se voltasse. Não damos porem como certo o
+enterramento, para sermos em tudo sinceros, e não cahir nos absurdos da
+Borbolêta: o facto he veridico; mas, se estes erão os seus intentos.
+Deos o sabe, e cada qual ajuize como quizer.
+
+
+Foi do modo que fica exposto o furto, e o seu achado, ao que se seguio
+depois huma devassa, que lá fizerão os Padres, conforme determinão seus
+Estatutos, e o que depozerão as testemunhas nem o sei, nem se me
+communica: Sei sim que foi sentenciado, e que a norma da Sentença foi
+dada por hum Juris-consulto Secular á vista dos Autos; homem tal que,
+disse ao Prior o honrado Juiz do Crime no dia 14 de Outubro, era a
+melhor cousa que tinha Portugal em materias criminaes: [se mentio por
+alma lhe preste, pois agora mente-se muito, e custa saber de que parte
+está a verdade.] Sendo pois testemunhas de probidade as que depozérão,
+porque forão Religiosos, e não se póde dizer sem blasfemea, que todos
+jurassem falso, e sendo a Sentença dictada por hum Ministro
+desinteressado, e sem suspeita, segue-se legitimamente que o
+Reverendissimo Fr. Gabriel foi «irté» pronunciado criminoso no furto, e
+por consequencia igualmente legitima, os demais Religiosos innocentes.
+Ora, e deverão elles, por castigarem o Reverendissimo depois de
+sentenciado, ir todos lá para essa Ilha dos mortos, ou dos Lagartos, e
+serem sepultados vivos? Admiro a grande caridade para soltar hum preso,
+e ao mesmo tempo o esforço, e energia em enterrar os sôltos. Quem não vê
+que isto he huma grande impiedade?..
+
+Apesar de não saber o que as testemunhas deposerão; assim mesmo não sou
+temerario em chamar criminoso ao Reverendissimo, porque para isto basta
+saber que foi juridicamente sentenceado: mas, ainda quando o não fosse,
+appello desde já para o Juizo de todo o mundo racional, [fica excluida a
+Borbolêta, porquo he animal sem razão] e diga elle se tantos, e tão
+grandes indicios, como os expostos, não são prova prudente, ainda que
+não infallivel, de que Fr. Gabriel foi o auctor do roubo? Saber o modo,
+as circunstancias, e todos os abanicos do furto, quando os mais
+ignoravão ainda o que se passava! isto só quem fez o roubo, ou assistio
+a elle; e neste caso tão ladrão he o que furta como o que consente, e
+para ser de outra maneira he muito advinhar: além de que, para se fazer
+este roubo, era necessario estar dentro de casa, descer pela escada
+interior do Convento, saber da porta do Presbyterio, da passagem da
+porta do Sacramento para a Sacristia e ahi saber das chaves para abrir
+Armarios, caixões, gavetas, e saber em fim os lugares, em que paravão as
+cousas, e conduzilas pelo interior do Convento, e saber do escondrijo. E
+então não foi o Reverendissimo Fr. Gabriel quem fez o roubo? Eis-aqui o
+que disse hum rústico = Ladrão he elle, assim o eu fôra. = Além
+disto he certa a regra do Cêsteiro, «quem faz hum cesto faz hum cento;»
+quero dizer, tendo sido o Reverendissimo convencido de dous roubos,
+quasi da mesma natureza, de hum Relogio, que safou a outro, e que,
+depois de o negar, lhe achárão na Cella, e de outras minudencias. &c.
+&c. que devemos nós suppôr? A regra de Direito presume sempre máo
+aquelle, que o foi huma só vez, «Semel malus, semper præsumitur malus» e
+não devemos nós suppôr máo aquelle, que o foi tantas vezes? Não o sería;
+o que por huma excepção extraordinaria, e fóra de toda a regra póde
+acontecer; mas para que tinha elle o Gabinardo? Sería para representar
+na Opera? Galante figura! Mas, a não ser isto, para que era a corda?
+Seria para se enforcar quando se visse atacado? Ainda que he estúpido no
+ultimo ponto não tem semelhantes sentimentos. Agora por tudo isto... Já
+me esquecia o dinheiro! Sim, o dinheiro: se era delle, para que o foi
+cozer em parte tão secreta? Alem de que, se era inocente e tão santinho,
+como o suppõe a Borbolêta, para que intentou tantas vezes, e com tanto
+perigo a fugida? Quem não deve não teme. Para que em fim assignou
+voluntariamente a Sentença, acceitando-a, quando aliás diante de
+testemunhas lhe disse o Prelado, intimando-lha, que a aggravasse, ou
+appelasse para Tribunal. Superior, pois tinha este recurso, e se lhe
+concedia de boa mente? Se he certo o adagio = quem cala consente, muito
+mais certo he, quem subscreve de proprio punho sem violencia. Por
+tudo isto... Agora venha cá, Senhora Borbolêta, que lhe quero depennar
+as azas: Vê tudo isto! Olhe bem! Vê!.. esta narração desde o começo até
+ao fim he o facto viridico e tão certo, como he certo estar vossa mercê
+pintada no seu papel digo por causa de equivocação, gravada no seu
+papel. Ora, diga-me, não lhe mostrei que a maior parte dos Padres
+Carmelitas Descalços era innocente, pois só os do Porto he que entrárão
+na festa de Fr. Gabriel? Não vio depois que o erão todos, pois pelos
+factos, e provas de Direito se mostra criminoso o Reverendissimo seu
+apaixonado? E não será impiedadade o querer que tantos innocentes sejão
+enterrados vivos? Não o he ainda maior o desejar-lhes ainda maior
+castigo? Tanta gente sepultada viva! Póde haver pena maior? Não he o
+superlativo da impiedade o fazer acreditar ao Público tão grandes
+aleives, dos quaes veio a seguir-se huma infamia pública contra tantos,
+e tão bons Religiosos? Não foi o seu papel huma e outra vez impresso com
+as mesmas fanfarronadas, e de quando em quando certas pancadinhas a
+causa delles serem apupados publicamente, insultados pelos rapazes,
+garotos, lacaios, e regateiras; nas ruas, nas praças, e nas casas
+particulares; feitos a fabula não só do Povo do Porto, que sempre he
+Povo, ainda que vossa mercê lhe chama «comedido, pacato» &c. &c. mas de
+todas as terras do Reino, e fóra delle? Não está vossa mercê obrigada a
+restituir o credito a estes homens tão injustamente roubados, e de mais
+a mais o dinheiro, que levou tão mal, porca, e indevidamente pejo
+seu papel, cheio de mentiras, aleives, e impiedades? Olhe, dou-lhe hum
+conselho, se quer salvar-se vá para a Thebaida fazer penitencia, ou ao
+menos meta-se leigo na Cartuxa: estou certo que isto nem lhe faz móssas
+nem escrupulo: como v. m. metêo dinheiro na aljava, isso he o que lhe
+interessa, lá do mais quem sabe... Mas, fallando agora nas cousas da
+terra, diga-me, merecerá o seu papel algum credito de hoje em diante?
+Não he digno de que todos o detestem, e aborreção? Não he assim mesmo
+verdade, que «semel mal semper præsumitur malus;» ou, aliás, a regra do
+cesteiro? Será injustiça quando se lhe appliquem estas mesmas regras?
+Não tem o seu papel merecimentos de sobejo para isso? Vai ao chão com
+tanto peso, Senhora Borbolêta? Deita sangue porque lhe puxei as azas?
+Não o póde vedar? Pois agora morra com esta sangria, e, se não quer, não
+grite tão alto, ou vá esconder-se onde nunca mais appareça diante de
+gente, se he que lhe restão ainda sentimentos: Mas assento que o não
+fará, porque me lembro agora do que succedeo em caso identico a hum
+Gallego descarado. Vou contar-lho, porque vem aqui muito a proposito.
+Convencido de certo crime o tal Gallego levou, salvo seja, em tal parte
+hum par de açoutes, e tres voltas em roda da forca; e, sendo posto em
+liberdade, logo immediatamente pegou na tranca, e no chouriço e poz-se a
+ganhar a vida como d'antes: hum companheiro no officio, porem de
+melhores sentimentos, apenas o vê deste feitio lhe disse estimulado
+= homem de Deos, ou do diabo, e tu não tens vergonha: He possivel que,
+levando hontem açoutes por essas Ruas, e, costeando a forca, andes hoje
+em público por esse modo? Se tal me succedêra fugia para onde ninguem me
+conhecesse; metia a cara n'hum folle, e andaria assim mascarado toda a
+minha vida: por Deos: que ao menos largava o officio para não
+envergonhar os outros = ao que respondeo o desavergonhado = Pois bem
+está; tu fazias isso, e eu não: são genios, e a mim que mal me vai? Os
+açoutes não me dóem, aqui poucos me conhecem, e eu ganho dinheiro....
+
+Senhor Redactor, como Escaravelho fui indo devagarinho, e a passo lento
+para pilhar de geito a Borbolêta: encontrei-a no meu quintal chupando as
+couves para depois deixar ficar a semente das lagartinhas, que destróem
+as hortas, e investi com ella tão animoso como o General Chixagophe com
+os seus Cossacos sobre os Francezes, e a primeira descarga foi huma
+torquezada no bandulho, que lhe fez sahir as tripas fóra, e por isso
+creio morrerá cedo das feridas. He verdade que este animalêjo de alado
+passa a bicho, e renasce depois de morto; mas eu hei de pôr sentinellas,
+e guardas avançadas; e, alem do Exercito que está no campo
+entrincheirado, tenho hum grande corpo de reserva: he por isto que estou
+sempre certo da victoria. Bem sei eu que para tão insignificante inimigo
+não era mister nem tanta gente, nem tanto barulho; porem a Borbolêta,
+tendo algum espirito sem ter forças, faz sempre o que os fracos
+nestes lances, isto he, chama para seu lado valentões basofias, que
+animados de hum espirito ainda mais bravo procurão despica-la. «Assumit
+spiritus nequiores se.» Eu irei sosinho á batalha, como S. Martinho, sem
+espada, nem escudo: tenho hum bom Santo Lenho, e hum Breve de boa marca,
+e com estas insignias lhes farei os Exorcismos. Veremos fugir estes
+espiritos malignos, e o seu ultimo estado será mais infeliz, que o
+primeiro. Por fim, Senhor Redactor, he tempo de concluir: parece-me que
+mostrei soffrivelmente a primeira proposição, que prometti sobre o papel
+da Borbolêta; isto he, a sua Impiedade, e que nella se verificão á letra
+os textos, 1.º «Impius facit opus instabile.» Prover. 11. v. 18. 2.º
+«Impietas impei erit super eum» Ezech. 18. v. 20. Ponha esta fazenda em
+Praça pública, que não deixará de haver bastantes compradores, e, ainda
+que he fabricada cá no Reino, he da ultima moda, e de que muito gostão
+os pataratas. Para o Correio remetterei mais, pois tenho na minha loja
+grandissimo sortimento. Protesto-lhe, que ainda sou devéras, e serei com
+a mesma efficacia «usque ad mortem.»
+
+
+Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.
+
+
+ [1] O N. 152 he huma copia fiel do que relatou no dia
+ antecedente, ao qual accrescentou «que podéra alcançar mais huns pós
+ de verisimilhança para credito dos que os seus raciocinios não forão
+ destituidos de probabilidade etc. Falla de noventa dias de jejum a
+ pão, e agua, e «afirma,» que nada derão de comer os Padres aos
+ Soldados etc. do fracasso desastroso para quebra do verniz da
+ Santidade do Escapulario Carmelitano etc. etc. etc.» A seu tempo
+ mostrarei que nada tem de verisimilhança o que refere, que mente
+ tanto nos jejuns, como na comida dos Soldados, e dar-lhe-hei com
+ verniz gordo pelas ventas.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Verdade a Passo Lento ou Guerra do
+Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto, by Unknown
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VERDADE A PASSO LENTO OU ***
+
+***** This file should be named 34960-8.txt or 34960-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34960/
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+Produced by Mike Silva
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
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+electronic works
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+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>A verdade a passo lento</title>
+ <meta name="Author" content="Desconhecido">
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+ <style type="text/css">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of A Verdade a Passo Lento ou Guerra do
+Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto, by Unknown
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: A Verdade a Passo Lento ou Guerra do Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto
+
+Author: Unknown
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+Editor: João Nunes Esteves
+
+Release Date: January 14, 2011 [EBook #34960]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VERDADE A PASSO LENTO OU ***
+
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+Produced by Mike Silva
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+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">A VERDADE A PASSO LENTO,</p>
+
+<p>OU</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">GUERRA DO ESCARAVELHO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">CONTRA</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;"><em>A BORBOLETA</em></p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">CONSTITUCIONAL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">DO PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">OS N. N. 131 E SEGUINTES.</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PRIMEIRA PROPOSIÇÃO,</p>
+
+<p>em que se mostra a sua impiedade.</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">DADA Á LUZ</p>
+
+<p>Pelo Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">LISBOA:</p>
+
+<p>NA IMPRESSÃO DE JOÃO NUNES ESTEVES, <br>
+<small>Rua dos Correeiros N. 144. <br>
+ANNO 1822.</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<div style="font-size:small;">
+<p><em>Te conscintiae stimulans maleficiorum tuorum, quocumque aspexeris, ut
+furiae, sic tuae tibi occurrunt injuriae; quae te respirare non sinunt.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O conhecimento das tuas maldades te atormenta, e em qualquer parte que
+ponhas os olhos, não achas senão os teus crimes, que como furias te perseguem,
+e não te deixão se quer, livre o respirar. <em>Raf. Blut. T. 1. verb. atorm.
+cit. a Cic.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>«Amigo, espero me faça logo imprimir o Folhetinho, pois as Imprensas do
+Porto estão occupadas com Periodicos, de maneira que não ha lugar para outra
+cousa, [a não se darem grandes sômmas] e tenho motivos a julgar que os
+Periodiqueiros daquella Cidade estão casados com a Senhora Borbolêta, e por
+esta razão para que lhes não salte ao pelo, pois tem medo della, que se pélão,
+á excepção de hum, nada admittem contra, do que he para a demora deste
+insignificante papelinho, vai em dois mezes. Cançado de escrever Cartas, e de
+esperar tomo esta ultima resolução, que, supposto vai tarde, ainda virá a tempo
+para desenganar os crédulos, e não fanáticos. Sou como sempre seu affectivo
+C.</p>
+
+<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"
+class="assin"><em>F. B. J. M.»</em></p>
+
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>BENÉVOLO LEITOR.</h2>
+
+<p class="ni"><big>N</big>ão soffre hum estômago debilitado muita comida, nem a
+impetuosa torrente, que se lhe opponhão obstaculos; em huma e outra crise he
+necessario muita prudencia, pois he nestes lances, que o primeiro repôem com
+tédio, o que devia servir-lhe d'alimento, e o segundo arrasta diante de si
+quanto pertende impedir o livre curso das suas agoas. Nestas mesmas
+circunstancias me achava eu, quando o Povo do Porto, e d'outras muitas terras
+deste Reino, por effeito de hum papel verdadeiramente ridiculo, intitulado
+«Borbolêta,» que narrando hum facto acontecido no Convento dos Padres
+Carmelitas Descalços, não só obteve pela soltura da sua lingua mordaz o crédito
+da gentalha sempre amiga de novidades, e facil em acreditar as cousas «maxime»
+quando vem em letra redonda, que então julga tudo tão verdade, como se fôra hum
+Evangelho, mas ainda o crédito de muitos homens cordátos, que se persuadirão
+das suas imposturas; fazendo-se geral a opinião de que os taes Padres erão
+«crueis, e barbaros,» pois sem piedade castigavão com tanto rigor hum seu
+alumno innocente. Vendo eu a calumnia, o descaramento, e a cordilheira de
+mentiras mais altas que o Ararat, e mais extensas que as montanhas da Persia, e
+ao mesmo tempo o opprobrio, que padecião os ditos Padres, tão sem razão, pois
+sabía a sua innocencia, quiz desaffrontalos por meio das minhas reflexões, e
+dar ao mundo hum monumento veridico do justificado procedimento de toda a
+Corporação, contra os aleives, e impiedades do tal papel, cheio de
+incoherencias, falsidades, e até de hum aggregado de sandices, e de
+hypocrisias. Apresentar tudo isto de chapada era infartar hum Povo, que,
+preocupado com as idêas da Borbolêta, longe de abraçar as verdades, que lhe
+propunha, as rejeitaria, como outras tantas quimeras; pois hé certo, que enche
+o cantaro primeiro, (a não ser pirguiçoso) quem primeiro chega á fonte, e custa
+muito a desvanecer as primeiras impressões. Como somos mais faceis em acreditar
+o mal do que o bem, pois temos para hum propensão natural, e para o outro certa
+repugnancia, tambem seria difficil o fazer mudar a todos de conceito em hum
+tempo, em que a bilis estava exaltada, e as cabeças em effervescencia. Não era
+por tanto conveniente oppor-me a hum, e a outro, e por isso determinei fazer o
+que os Medicos aos estômagos fracos, isto he, dar pouco a pouco, e deixar
+passar a tempestade, para depois formar hum dique, que atalhasse a corrente.
+Com estas vistas procurei inserir por partes, as minhas reflexões em algum
+Periodico, pois até por este meio se espalhavão melhor, e vinhão assim a
+dervanecer-se as idéas sinistras, de que o povo estava imbuído. Tendo chegado á
+minha mão o papel da Borbolêta, o N. 131 no dia 21 de Outubro, logo no dia
+seguinte enviei ao Redactor do Correio do Porto a primeira Carta, pedindo-lhe
+de mercê a publicasse no seu Periodico, e que eu iria continuando a
+remetter-lhe todos os correios, ou quando as minhas occupações me dessem lugar,
+as provas de cada huma das quatro proposições, que lhe indicava. São já
+passados quasi dous mezes, e nada tem apparecido, e por esta causa, rogado dos
+meus amigos, determino-me a dar ao Publico as ditas reflexões, em quatro
+folhetos separados, posto que o primeiro vai sem mudança, e do mesmo modo, que
+o remetti ao Redactor do Correio do Porto, por não haver tempo de o reduzir a
+hum novo methodo, visto ser tão urgente a necessidade de desenganar o mundo
+illudido com os desparates da Borbolêta, e acudir pelo credito de homens tão
+benemeritos, quaes os Padres Carmelitas Descalços. Adoptei o titulo de «Verdade
+a passo lento» não só porque ella custa a chegar a todos, mas sim porque irei
+pouco a pouco assoalhando as mentiras da Borbolêta, pondo-lhe guerra como
+Escaravelho, cujas pontas são mais agudas, e de maior poder. Alem de andar mui
+vagaroso, tem o Escaravelho de mais a mais huma maçã, com que lhe pode ensaboar
+as barbas, ou faze-la retroceder com o cheirinho. Fio dos amantes da verdade
+que farão justiça ao Escaravelho contra a decantada Borbolêta, os N. N. 131 e
+seguintes e a imparcialidade decidirá, que não só nenhum credito merece o tal
+papel, mas antes he digno de que todos o detestem, tornando-se por este modo
+defensores da innocencia opprimida, assim como eu me protesto ser sempre até á
+morte</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, verdadeiro Constitucional.</p>
+
+<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;"
+class="assin">Vale.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><small>PRIMEIRA</small><br>
+CARTA</h1>
+
+<h2>22 DE OUTUBRO DE 1821.</h2>
+
+<p class="assin"><em>      Senhor Redactor do Correio do Porto.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="ni"><big>P</big>or hum lance imprevisto veio ter á minha mão a folha
+de hum Periodico intitulado = Borbolêta Constitucional = e vem a ser o N.º 131.
+Fiquei suspenso, e como fóra de mim ao lêr no frontespicio desta Obra, (que
+deve ser d'algum máo trolha) a Epigraphe em letras maiuscuas = Serão só
+sepultados vivos os Frades Carmelitas Descalços? = Com esta pasmosa
+interrogação suspeitei logo que os taes Frades terião comettido algum crime de
+lesa Magestade Divina, ou lesa Nação; pois só por hum tal attentado se póde
+merecer hum castigo tão atróz, usado só por vezes entre as Nações barbaras. Que
+farião, Deos meu, estes bons Padres, dizia eu cá para mim sósinho? Que farião
+elles? Conheço ha tantos annos a sua bondade, e o seu porte regular, e
+edificante, mas no estado presente não faltão malvados, e vem tempo, em que as
+cousas boas tambem degenerão; certamente temos por aqui alguma corcundisse, ou
+hypocrisia!!! mas reparo que a Epigraphe diz = Serão sepultados vivos? Então,
+disse eu, o crime he maior, que o de Corcunda, e de hypocrita! Na verdade tremi
+de frio susto, e assim mesmo botei-me a lêr a malgamação de cousas, de que
+estava cheia a tal folha da Borbolêta, e confesso que do estado apathico, em
+que me vi, passei rapidamente ao de frenetico. E não teria eu razão bastante,
+Senhor Redactor? Hum papel público, que anda pelas mãos de todos, hum
+Periodico, que vai correndo o mundo, e que se julga apologista da verdade,
+critico exacto, illustrador da Nação, amante da humanidade, e da sua Patria,
+não ter nada disto! Quero dizer, ser hum impostor, mentiroso, injuriador
+maligno dos membros da Nação, sem caridade, e até sem patriotismo!!! Isto he
+que faz escandecer o «Caco». Li, Senhor Redactor, e reli o tal papel, e desejei
+ser hum Hercules verdadeiro para descobrir, e pôr ao sól o vasio craneo deste
+novo «Caco» mais manhoso, que o primeiro, de que falla a fabula. Tive intentos
+de me fazer Periodiqueiro, não pelo lucro, mas sim para dar ao Público huma
+desforra sobre a impiedade do tal homem «Borbolêta»: mas lembrei-me que por
+este meio não conseguia o meu intento. He hum Rifão de Direito, que «as cousas
+se desfazem pelos mesmos principios, ou causas, a que devem a origem,» e por
+isso julguei conveniente inserir as minhas reflexões em algumas das Folhas, que
+se publicão nessa Cidade, e me lembrei da sua, e assim pelo mesmo modo, e meios
+que se publicou a mentira, chegava a todos a noticia da verdade. Não conheço
+(nem me ficão desejos disso) o Author da Borbolêta, e por este motivo não
+atacarei sua pessoa: he verdade que o merecia bem, pois ella ataca huma
+Corporação inteira, tão respeitavel em Portugal pela sua decidida observancia;
+e, se em algum lance convinha a pena de talião, era este a meu vêr, o mais
+decidido; e ainda assim não ficava equibrado o castigo com a grandesa do
+delicto. A Borbolêta desauthorisa, e enxovalha, e tracta de ridiculo huma
+Corporação inteira, cheia de homens honrados, sábios, e virtuosos; e a
+Borbolêta he hum insecto vil, huma metamorphose nojenta, inteiramente inutil ao
+mundo, e que nada se perde se a lançarem ao fogo, ou a enterrarem viva. Com
+tudo respeitarei sua pessoa, por dar exercicio á Caridade, e esta virtude pede
+que assim se tracte, ainda que seja hum inimigo: pretexto faze-lo assim com
+este lobo disfarçado, ou raposa solapada com mais ronha, que huma cabra velha.
+Pelos seus escriptos penetro a bondade das suas intenções, e pureza de
+sentimentos, vejo a boa indole, que o aníma, e até me parece que adivinho de
+que he composta a sua entidade physica. Nada porém direi, torno a repetir,
+senão do seu escripto verdadeiramente = Impio = cheio de = Falsidades =
+Anti-fradesco = Anti-Christão = Darei a conhecer ao Público (este he o assumpto
+geral) a nenhuma fé, que merece o tal papel, ou, melhor, quanto deve ser
+abominado pelo seu máo animo, falta de logica, de Charidade, e de Patriotismo,
+pois tudo isto se acha nelle. «Abque eo, quod intrinsecus latet.»</p>
+
+<p>Sirva-se, Senhor Redactor, de publicar no seu Periodico esta primeira Carta,
+que servirá como Exordio de Sermão ás quatro proposições indicadas, que tenho
+de provar pouco a pouco, e, se me não engano, darão ao seu Periodico materia
+para muito tempo. Não me dirijo ao Author da Borbolêta, não porque lhe tenha
+medo, pois o tal bicho a ninguem o mete, mas sim porque o não julgo tão despido
+de amor proprio, (pelo seu escripto parece ter cara d'aço) para ser sincero, e
+fiel nesta Causa, em que elle he réo, ou parte; e he necessario ter huma alma
+muito boa, e huma virtude não vulgar, para que hum réo, ou parte deponha contra
+si, quando tem na mão os monumentos do seu crime, e que póde rasgar a seu salvo
+sem que alguem o possa presumir. A distancia do lugar, aonde vivo, fará
+retardar as minhas participações, assim como retardão os papeis, que chegão á
+minha mão, e os monumentos, que espero dessa Cidade. No estado presente queria
+ter azas de Borbolêta para voar á sua Officina, e dar-lhe ahi boas torquezadas,
+mas não me quiz dar o Céo o que liberalisou a este animalejo, e o remedio está
+na paciencia. Espero que v. m. a terá com este, que he deveras.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.<span
+class="pn">{11}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>P. S.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Senhor Redactor, depois desta feita, recebo o N. 132 da Borbolêta. Veja,
+veja lá como, sacudindo as azas, veio a cegar a gente com tanta poeira!<a
+name="tex2html1" href="#foot22" id="tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Acuda a isto,
+Senhor Redactor; por Deus lh'o peço, imprimindo logo esta para bem da
+humanidade, e até da mesma Borbolêta; pois, se lhe não cortâmos os voadouros da
+lingua, temo que diga mal até do SS. Sacramento. Sou, como devo,</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>SEGUNDA CARTA.</h2>
+
+<p class="centrado">Quinta feira 25 de Outubro.</p>
+
+<p class="centrado">«Impius odit lucem» = E a luz mata a Borbolêta.</p>
+
+<p><big>S</big>enhor Redactor, vou principiar o meu Discurso, ou Sermão, de que
+já lhe remetti o Exordio. A primeira proposição, que prometti mostrar,<span
+class="pn">{12}</span> era = O papel da Borbolêta, o N.º 131, he
+verdadeiramente = Impio. = Não será difficil prova-lo, attendendo á genérica
+accepção da palavra. Muitos Authores, diz o Abbade Bergier, dão o nome de impio
+só áquelle, que blasfema de hum Deos, que acredita e adora no fundo do seu
+coração; mas o uso ordinario he dar este nome ao desprezo formal, e affectado
+da Religião, dos seus Ministros, das Cousas Santas, dos actos de virtude, e
+devoção dos Povos: pode tambem qualquer acto de crueza chamar-se impiedade;
+porque neste genero, diz hum Author, he impiedade e barbaro gosto de ver
+padecer a outro. Deixando para tempo opportuno os outros membros do periodo,
+principiemos pelo ultimo = He impiedade o barbaro gosto de ver padecer o outro.
+= Neste ponto he mais que impio o papel da Borbolêta, pois teve o barbaro gosto
+de ver sepultados na ignominia, feitos objecto da mófa publica, dos insultos
+dos libertinos, apupadas dos rapazes, e da gentalha os respeitaveis, e até
+agora mui dignos de louvor, os Padres Carmelitas Descalços, enchendo-os elle
+mesmo nos seus Diarios, tão repetidas vezes, de baldões, affrontas, ironías,
+sátyras picantes, e grandes escarcéos. E isto por que? Por que tinhão<span
+class="pn">{13}</span> preso hum Frade, cuja prisão, cárcere, e tractamento não
+só pintou com as mais negras côres, mas com as mais despregadas mentiras, e
+falsidades. Se pois o barbaro gosto de ver padecer a outro he impiedade, a que
+gráo não sóbe a Borbolêta, vendo padecer a tantos, sendo ella a causa, e o
+motivo principal do enxovalho nas Cidades, onde estes homens são conhecidos, e
+nos lugares aonde o não são? «Quod est causae est causa causati in eodem genere
+causae.» Este axioma da Philosophia antiga he ainda hoje verdadeirissimo, e
+assenta como chapéo de carneiro na cabeça da Borbolêta. Ainda mais: Se o
+barbaro gosto de ver padecer a outro, ainda que seja culpado, pois a humanidade
+pede a compaixão, he impiedade, que impiedade não he o ser o seu flagello,
+açoute, e verdugo? Por outra: se o barbaro gosto de ver padecer o culpado, ser
+causa e verdugo do seu padecimento, he grande impiedade, porque este mostra ter
+coração de fera, o ser causa de padecerem tantos innocentes, e ser elle mesmo o
+seu flagello, e verdugo he o «non plus ultra» da impiedade: o effeito tem
+necessaria connexão com a sua causa. A não ser a narração emphatica, mentirosa,
+e aturdidora do papel da Borbolêta, não serião os Padres enxovalhados em toda a
+parte, como forão. Pobres Padres! Se por impossivel o Soberano Congresso
+entregasse os papeis da causa á Borbolêta, e lhe cometesse a decisão aonde
+pararieis vós, quando, sem conhecimento de causa, sem informação, e sem exame
+já vos sentencea não menos que a ser enterrados vivos!!! Pela regra da
+moralidade cresce a<span class="pn">{14}</span> enormidade do delicto á medida
+da pessoa ultrajada, e os crimes multiplicão-se em numero quantos são os
+offendidos. Não fallo ainda do escandalo, e hum escandalo tão público, que vai
+chegando a toda a Europa, se não he já a todo o Mundo! Quem diria que hum
+animal de cornitos tão pequenos havia de fazer tantos estragos..?</p>
+
+<p>Mas serão innocentes os Padres Carmelitas? Sim, cornigera Borbolêta, ao
+menos a maior parte, e isto ainda suppondo ficticio o roubo, como
+declaradamente apregoa a sua folha, e o que a seu tempo mostrarei falso. Ande
+agora comigo, Senhora Borbolêta, se he que póde, e vá discorrendo. Fr. Gabriel
+de Santa Thereza achava-se no carcere do Porto cumprindo huma sentença, e
+chama-se justa ou injusta huma sentenca, se o crime imputado he falso, ou
+verdadeiro: quando ella he injusta, os culpados na injustica são as
+testemunhas, que depozerão falso, ou o Juiz que falsificou os depoimentos, ou
+«contra allegata, et probata» assim mesmo sentenciou hum réo, que o não era:
+Suppondo por agora falso o roubo imputado a Fr. Gabriel, e a sentença injusta
+vem a recahir a culpa sobre os Padres existentes no Porto nesse tempo, os quaes
+deposerão contra elle, e os Juizes que sentencearão sem razão. Logo os que ahi
+não estavão, nem depozerão não entrão nesta conta; não entrão os que vivião
+n'outros Conventos, os do Brazil e Angolla, os empregados nas Missões, os que
+forão para a tal Ordem, e Professarão depois disso. Logo estes, que são os
+mais, são innocentes; e<span class="pn">{15}</span> deverão taõbem ser
+enterrados vivos? Acaso este crime será o peccado original, que se transmitte a
+todos? Acúa Sr.ª Borbolêta! tome alento que ainda vamos no principio da
+carreira. Sendo, como fica demonstrado, a maior parte innocente, ainda suppondo
+o roubo fingido, e a sentença injusta, segue-se legitimamente que he a ultima
+impiedade o querer que tantos innocentes sejão sepultados vivos. Tem-se visto
+muitas Testemunhas falsas, muitos Tribunaes corruptos, e tem-se dado muitas
+Sentenças injustas: isto he frequente no mundo, e o será sempre, a não crear
+Deos homens de outra raça, livres de paixões e prejuizos. Supponha-se toda, e
+qualquer Sociedade, todo e qualquer Governo, de necessidade hãode haver falhas,
+quebras, padrinhos, afilhados, valídos, interessados, hãode haver descuidos,
+preocupações, enganos, desejos de agradar para conseguir maior fortuna, e
+afinal a ambição, que em toda a parte cega os homens: esta a razão de se verem
+tantas testemunhas falsas, e tantas Sentenças injustas; entre estas a mais
+impia e injusta foi a de Pilatos contra Christo, pois o entregou á mórte,
+receoso de perder a Dignidade: mas depois desta não sei que haja outra mais
+injusta que a da Borbolêta contra os Frades Mariannos, pois, para conservar o
+caracter de maldizente, quer que todos elles sejão enterrados vivos, e ninguem
+dirá que hum tal sentimento posto em papeis publicos não seja a maior das
+impiedades. A Borbolêta não quererá que se arrasem todos os Tribunaes, nem que
+sejão queimados todos os Juizes, nem enterrados<span class="pn">{16}</span>
+vivos todos os que jurão em causas crimes, só precisamente porque tem havido
+Tribunaes injustos, máos Ministros, e testemunhas falsas; e hade querer acabar
+de todo com os Frades Carmelitas, só porque castigárão hum seu alumno, fosse
+elle culpado ou innocente? Soffre-se no mundo tanta injustiça, e não se hade
+perdoar a huma, quando appareça no Claustro? Dizem que he humanidade acudir
+pelo innocente castigado, e eu taõbem concordo neste principio; mas será
+rasoavel que, para libertar hum innocente, se condemnem, e enterrem vivos a
+mais de tresentos innocentes? Esta humanidade foi, he, e será sempre
+desconhecida no mundo, á excepção da Borbolêta. Mas deveras he innocente Fr.
+Grabriel, de quem tractâmos? Serão culpadas as testemunhas, e os seus Juizes?
+Eis-aqui a mina de carôço, onde a Borbolêta achou hum thesouro, com que enchêo
+a bolsa á custa de hum Povo crédulo, que devorou as suas pêtas embrulhadas em
+palavrinhas, bem como pirola dourada, que, contendo mortal veneno, engana os
+simples e pouco acautelados. A Borbolêta suppõem innocente o tal Fradepio, e
+não sei como o não canonisa de Santo, pois o tracta de Religioso, e
+Reverendissimo, sendo aliás hum Leigo com corôa aberta, e de casco mais
+rebelde, que o seixo ao fogo; e aos Padres suppõem todos culpados, e os tracta
+de machiaveis, hypocritas, tyrannos, e verdugos infernaes.... Por certo que
+Mafoma não fallou tão mal, nem disse tanto do toucinho! O Impio Luthero não
+blasfemou com mais impeto contra a Santa Igreja,<span class="pn">{17}</span> e
+contra o Papa, a quem chamava o Anti-Christo. Pouco importa, e de nada vale o
+dizer a Borbolêta que refere o que sabe por differentes vias sem animo de
+injuriar a Corporação Carmelitana Descalça, quando diz tão mal della, ou dos
+seus individuos, que he o mesmo, com tanto furor e acrimonia. Hum semelhante
+protesto, junto com o infame relatorio, he desfazer com os pés o que tinha
+feito com as mãos; huma refinada hypocrisia para melhor se fazer acreditar;
+huma impiedade solapada para córar o seu veneno: este modo de proceder
+chamou-se em outro tempo «protecção á Franceza.» Injuriar publicamente hum
+homem, (muito mais huma Corporação inteira) imputar-lhe falsamente grandes
+crimes, e divulgalos por toda a parte, meter-lhe em fim a espada até aos copos,
+continuando a dar-lhe estocadas mortaes, e protestar ao mesmo tempo que não tem
+animo de o offender... quem não vê que isto he estupidez? e, se não quer que
+seja assim, então vem a ser o que eu já disse = o non plus ultra = da
+impiedade. Mas talvez que a Borbolêta admitta a existencia do peccado
+philosophico, e, a ser assim, eu o desculpo pela compaixão, que tenho da sua
+cegueira.</p>
+
+<p>He certo, torno a repetir, que a Borbolêta suppõe innocente o tal Fradepio,
+e tomo a meu cargo mostrar-lhe para o Correio, em como he culpado, e mui
+culpado. Na terra onde vivo tenho participações as mais veridicas sobre este
+ponto, e protesto, e juro a Deos (o caso pede que se jure para que o mundo
+conheça a verdade) ser mais fiel e sincero que a Borbolêta<span
+class="pn">{18}</span> em relatar os factos. Antes de os expôr convem dar huma
+noção exacta do caracter de Fr. Gabriel de Santa Theresa. (perdoem-me os Padres
+Carmelitas se mostrar ao mundo os crimes de hum seu Irmão) Julgo que a sua
+Religião nada perde com isto, antes a meu ver se acredita por isso mesmo, que
+castigou como devia os seus delictos, nem offendo a caridade mostrando os
+crimes de hum Frade indigno até de estar na Sociedade dos homens, e que nenhum
+direito tem já á sua honra. Para o Correio porei este caso em toda a luz
+possivel, para vêr se queimamos a Borbolêta, ou ella mesma se queima na sua
+impiedade. Tenha paciencia Senhor Redactor em aturar este, que he sem
+refolho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.<span
+class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>TERCEIRA CARTA.</h2>
+
+<p class="centrado">Segunda feira 29 de Outubro.</p>
+
+<p class="centrado">«Impius facit opus instabile»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><big>S</big>enhor Redactor, vou continuando a primeira parte do meu
+Discurso, ou do meu Sermão: ficou elle substancialmente nas duas interrogações;
+1.ª se Fr. Gabriel he innocente? 2.ª se as testemunhas, que deposérão na
+devassa, e os Juizes, que dérão a Sentença, serão culpados? Da verdade de huma
+destas proposições segue-se necessariamente a falsidade da outra: Logo, se o
+primeiro for culpado, devemos concluir de certo que os segundos são innocentes,
+e impio o tal papel da Borbolêta; pois a torto, e a travez quer que os Padres
+sejão «barbaros, crueis, tyrannos,» e por consequencia merecedores de mais
+alguma cousa, que serem enterrados vivos. Entremos primeiro na descripção de
+Fr. Gabriel, ou do seu caracter, que prometti, e eu a dou em tudo confórme ás
+participacões delle, nem mais, nem menos. «Agoente agora hum pouco, Sr.
+Borbolêta, e venha vindo a passo.» Fr. Gabriel de Santa Theresa, de idade de
+53, a 54 annos, pouco depois de professo no Convento do Porto, e logo no
+principio do seu Coristado mostrou huma indole tal, que nunca a sua Religião se
+servio delle, nem o promovêo<span class="pn">{20}</span> a Ordem alguma, por
+não dar, nem sequer, esperanças para o desempenho do menor gráo do Sacerdocio.
+Já no tempo de Noviço as deu bem fracas de cumprir os devêres da profissão, e
+foi admittido a ella, presumindo-se que com a frequencia dos Exercicios
+Religiosos, bons exemplos, exhortações, e com o tempo em fim se ligaria aos
+seus devêres; mas enganárão-se os bons Padres, porque = de pequeno verás o Boi
+que terás. = Suas propenções, falta d'amor á observancia, de sentimentos
+religiosos, e até christãos, erão taes que, por exercicio á Caridade, e
+respeito á sua Corporação, não os especifico. Repetidas vezes arguio, e
+castigado de mil infracções do que tinha professado, seu genio inquieto, seu
+coração endocil tudo atropelava, zombava de tudo. Seu entendimento rombo, e ao
+mesmo tempo manhoso, só inclinado ás cousas da terra o affoutou a pedir aos
+Prelados que, da profissão, que fizéra para Religioso do Côro, o passassem para
+a de Leigo. «Toupeira nos sentimentos quiz trocar os olhos pelo rabo, estimando
+mais ser bicho de cosinha, do que pegar no Breviario.» Que tal he o R.<sup>mo</sup> da Borbolêta!!! Em varios
+tempos, e por varias vezes mostrou o «séstro» de rapinante, não sei porque
+infeliz e funesto fado! Em 1804 foi convencido de haver tirado huns cordões
+d'ouro, e algumas peças á tal Senhora, a quem chama a Borbolêta, como de mófa,
+= Rica Proprietaria; e, de mais a mais, de abrir com gasua, ou chave falsa os
+mealheiros, ou caixinhas, em que os Fieis devotos deitão as suas esmolas aos
+Santos: (talvez julgasse erradamente<span class="pn">{21}</span> lhe competia
+este espolio, por ser elle mais santo, ao menos na razão de simples) Convencido
+deste crime foi então prezo, e do tempo da prizão nada nada me informão de
+positivo. Não se emendou com esta pena a tal «ave de rapina:» deu traças a huma
+chave, a que chamão mestra, a qual abre as portas das Cellas todas, e em horas,
+que lá sabia, hia sisando o que achava bem guardado: houve alguns queixosos, e
+entre elles o Comprador da Communidade, que se via afflicto, por lhe faltar
+muitas vezes o dinheiro da Cella, e a Cella sempre fechada. Depois de longo
+tempo, desconfiado do tal merlo, armou-lhe a ratoeira, e logo á primeira vez
+cahio nella a «Ratasana.» He galante esta historia, e mostra bem quanto são
+finos os taes Fradinhos. Hum dia fingio o Comprador sahir para fóra, e no tempo
+de Vesperas foi ao Côro tomar a benção ao Prelado; mas, em lugar de sahir, foi
+meter-se em huma Cella fronteira á sua, e pôz-se á espreita, tendo avisado a
+não sei quantos, que perto e disfarçados acudissem á primeira voz. Serião três
+horas pouco mais ou menos, eis que, cantando ao som de Esgueira, ou
+Borda-d'agoa = trai, li, la-ro, veio correndo o Dormitorio o Reverendissimo Fr.
+Gabriel, que suppunha fóra o Comprador, e os demais na Cerca divertindo-se:
+feitas as tentativas para que ninguem o visse metêo a chave, abrio a porta, e
+entrou affouto deixando a tal chave na fechadura; fatal descuido! Sahe depressa
+como galgo sobre lebre o Comprador, juntão-se os outros, que pilhárão o
+Reverendissimo mechendo, se não foi já embolçando algum dinheiro.<span
+class="pn">{22}</span> Eis-aqui o innocente, que tanta piedade merece á
+Borbolêta! Deos por sua alta piedade lhe encha a casa dellas, ainda que [
+persuado-me ] não terão muito que levar. Castigado novamente o Reverendissimo
+teve a soffrer o carcere, e tãobem não me dizem por quanto tempo, mas sim que o
+fôra por Sentença. Estes Padres tem lá suas Leis, e Judicatura particular, e
+por ella costumão processar os Réos; e, a fallar verdade, fazem bem; porque
+aonde não ha castigo ha huma tropa de levantados, e cada qual faz o que quer. O
+homem de honra dirige-se pela nobreza dos sentimentos, que o animão, e quem a
+não tem atropella tudo, e para estes he necessario aguilhão, e hum chusso. Na
+colisão de dous Governos hum molle, e outro rijo deve preferir-se este ao
+molle; porque no rijo o homem de bem nada teme, porque obra por decóro, e honra
+propria e o malévolo contem-se pelo temor de que o castiguem: pelo contrario no
+Governo molle o mesmo homem de honra muitas vezes se relaxa, e o máo que neste
+estado não teme o castigo, faz-se pessimo, audaz, e insolente. A vara, e o
+freio doma os cavallos, e para os homens máos são necessarios os castigos: mas
+a Borbolêta he tão boa que não quer hajão máos no mundo, nem que elles se
+castiguem; os bons isso sim, esses sejão sepultados vivos, e ainda alguma cousa
+mais. Eis-aqui huma politica estranha, ou huma piedade verdadeiramente impia;
+e, a valer esta regra, tem de viver muitos seculos a Borbolêta, ainda que o seu
+sustento sejão «acelgas, e beldroegas.» Na sua linguagem<span
+class="pn">{23}</span> he Fr. Gabriel hum infeliz barbaramente encarcerado, e
+os Padres são huns hypocritas, crueis, solapados, huns verdugos, e verdugos
+infernaes. «Apague! Este rasgo de eloquencia pedantesca escandalisa, ainda que
+seja hum Fariseo. He huma verdade, pois o diz Espirito Santo [ por ser de tal
+author julgo o não negará a Borbolêta, ainda que tem cabedal para muito mais ]
+diz o Espirito Santo, que a boca falla da abundancia do coração, e quem lança
+taes fezes pela boca [ digo eu ] he sinal que foi meter a lingua em parte bem
+nojenta. Acho-me tãobem agora com vagar, e por isso contarei a minha anecdota.»
+Ahi vai, acredite quem quizer, e quem não quizer não acredite. Em certa terra
+deste Reino entrou hum homem alta noite em huma casa a não sei que pertenção;
+porem sentido pelo dono, e não podendo escapar-lhe d'outro modo, descêo de hum
+golpe por hum buraco a huma loja, onde infelizmente se enterrou até á cinta: o
+pobre miseravel forcejando como burro em atoleiro, pôde escapar á inundação, e
+aos fios da espada, com que o outro o perseguia: atravessou algumas ruas, e
+para mais desgraça veio dar aonde estava huma sentinella; gritou este como era
+de costume = quem vem lá para á guarda? = mas o tal homem fez-se mouta, e com
+pés de lã deu mais hum passo adiante porem o Sentinella gritou mais alto = quem
+vem lá para á guarda? Então o miseravel, vendo que o voltar atraz era cahir nas
+mãos do inimigo, e que os gritos de sentinella o descobrião, disse em voz
+submissa = he o diabo<span class="pn">{24}</span> carregado d'esterco, = (por
+decencia não se diz a palavra) ao que respondêo o Sentinella, = passe de largo,
+que o cheiro bem o mostra. = Tornemos agora ao Reverendissimo Fr. Gabriel,
+[dar-lhe-hei sempre este titulo que de tão boa mente lhe concede a Borbolêta] e
+ao facto de 1813, que ella conta em ar dogmatico, e decisivo. Muito perdêo o
+Patriarcha Grego em não ter ao pé de si esta rica Borbolêta! passaria por hum
+homem inspirado, e a força da sua loquella faria scismatico o mais emperrado
+Turco. Em 1813, no dia 14 de Junho ás 5 horas da manhã, appareceo roubada a
+Senhora da porta, como diz a Borbolêta, mas não diz tudo; he velhaca, ou não
+teve informações exactas, e escrevêo ao Deos-dará: appareceo tãobem roubada a
+Senhora do Altar Mór, Calices, Custodia, e demais prata da Sacristia, e até a
+Patena dos Santos Oleos, que estava fechada n'hum cantinho.... Foi esta
+apparição, de menos, da fórma que vou dizer, e do modo que me informão pessoas
+de todo o credito, que a presenciárão ellas mesmas. Os Padres Carmelitas
+Descalços tem por instituto, o levantarem-se em todo o anno hum pouco antes das
+5 horas da manhã; e no tempo que toca o sino juntão-se no Côro para fazerem
+Oração. Costumão nas terras grandes descer nesse tempo alguns Padres a dizer
+Missa ao Povo, que no Porto he sempre em quantidade: abrio o Porteiro a Igreja,
+e o Sacristão a porta da Sacristia, e eis-aqui o pasmo, e o assombro em huma e
+outra parte ao mesmo tempo... Os Padres não achão Calices, e o Povo vê o
+Nixo<span class="pn">{25}</span> da Senhora aberto, o Menino aos pés da Mãi, e
+ambos despojados de corôas, joias, e dinheiro, e tãobem a Senhora, e Menino do
+Altar Mór sem as suas corôas. Armou-se tal barulho na Igreja, que os Padres,
+deixando a Oração, correrão á grade do Côro para saberem a causa do motim:
+então hum delles [dizem-me que se chama Fr. Manoel de S. Lourenço, e que ainda
+móra no dito Convento] perguntou ao visinho, que era o Reverendissimo Fr.
+Gabriel--isto que he? que succedeo?.. He disse o tal Reverendissimo, he que
+roubárão a Igreja, e Sacristia. Como assim, lhe replicou o Padre, se a porta da
+Sacristia he páo ferro, e só á força de machados, e com muito estrondo he que
+podia arrombar-se? Não foi por essa porta, respondeo o Reverendissimo, forão
+pela escada da Sacristia, arrombárão a porta do Presbyterio, e dahi forão pela
+Capella do Sacramento á Sacristia. N. B. Os Padres, regularmente recolhem-se ás
+Cellas das déz ás onze horas da noite, e levantão-se para o Côro ás cinco, como
+já disse: a Communidade estava então no Côro, e lá estava tãobem o
+Reverendissimo; os demais ignoravão o que se passava, e o que era, e o
+Reverendissimo Fr. Gabriel, sem sahir do Côro, já sabia não só do roubo, mas de
+tão miudas circunstancias como = o terem ido pela escada da Sacristia, o
+arrombamento da porta do Presbyterio, a passagem á Capella do Sacramento
+&amp;c. &amp;c. Se não foi elle o ladrão, parece que andou com elles; ou,
+aliás, advinhou. Seria isto porque estes Padres tem por brasão<span
+class="pn">{26}</span> o ser filhos dos Profetas, e Fr. Gabriel, entrando nesta
+successão por artes de «berliques berloques,» consultou alguma bruxa, que tendo
+o espirito d'Apollo Pythio, lhe revelou de noite tantos segredos; pois dizem
+[valha a verdade] que os espectros costumão apparecer, e fallar huns aos
+outros. Conhecido o furto, (digo a verdade, e só esta he que he verdade, diga
+quantas mentiras quizer a Borbolêta) desconfiárão os Padres dos Soldados, pois,
+sendo feito o roubo pelo interior da Casa; tinhão motivos racionaveis para
+isto. Chamárão o Sargento, perguntárão aos Guardas da Portaria se virão entrar,
+ou sahir alguem em toda a noite; e, respondido que ninguem entrára nem sahíra,
+dous Padres com o dito Sargento derão huma busca ligeira ás Cellas, onde os
+Soldados estavâo aquartelados, e nada apparecêo: foi busca ligeira, por que
+huma grande Custodia, sete, ou oito Calices, Patenas, Corôas, &amp;c. &amp;c.
+não erão trastes, que se metessem no bolço, ou na patrona. Nessa manhã veio ao
+Convento o Chanceller, a quem o Prior foi rogar para isso, o qual, examinando o
+lugar, por onde se fez o roubo, os sitios onde as cousas estavão, e demais
+circunstancias, disse por fim ao Prior, e Padres, que o acompanhavão--Padre
+Prior, tenho experiencia porque tracto de semelhantes causas ha muitos annos;
+pelo que observo o furto foi feito por pessoa, que sabia muito dos escaninhos,
+sitios, chaves, e lugares: veja se tem em casa alguem capaz disto, e não se
+escandalize, porque taõbem<span class="pn">{27}</span> no Apostolado houve hum
+Judas. Ora este sim, que foi Profeta! Nós veremos como elle advinhou. Para o
+Correio, Senhor Redactor, continuarei o meu aranzel, assim como continuo a ser</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.<span
+class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>CARTA IV.</h2>
+
+<p class="centrado">«Impietas impii erit super eum.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><big>S</big>enhor Redactor, já lhe remetti a descripção do caracter de Fr.
+Gabriel, e o modo como se fez o furto, e ficámos em ver como advinhou, sem ser
+bruxo, o Illustre Chanceller. A pezar do seu pronostico tão claro e decisivo,
+nem por isso se declárão os Padres contra o Reverendissimo, ainda que lá no
+coração muitos o suspeitarião: assim mesmo, apenas hum, ou dois por entre
+dentes disserão que desconfiavão delle; porem a perturbação, a mágoa, e o
+sentimento em todos era tal, que os não deixava discorrer: andavão como
+attónitos, e assombrados, e foi tão grande a pena, que o pobre do Prior em três
+dias deu á casca, isto he, morreo de apaixonado. Descobrio-se o furto nesse
+mesmo dia, ou no seguinte, e foi da maneira que vou contar, nem mais nem menos.
+Recolhidos depois de cea os Religiosos, erão pouco mais de onze horas, quando
+vem á Cella do Superior aquelle sujeitinho, que tinha pilhado da outra vez a
+«Ratasana» era o mesmo Comprador, de que acima fallámos, e lhe<span
+class="pn">{29}</span> disse desta maneira «Padre Superior, eu já estava
+deitado, e não posso dormir, nem descançar com a lembrança de que o furto está
+em casa, e de que o ladrão de certo, ao que me parece, foi Fr. Gabriel; (perdoe
+que me esquecêo agora o Reverendissimo, fique para outra vez) lembro-me que por
+cima da abobada da Igreja ao lado da Epistola, e sobre o Altar da Santa Theresa
+ha hum profundo escondrijo, onde escapárão muitas cousas aos Francezes [não
+escapou depois disso huma mala, e parece que o Reverendissimo lhe deitou a
+fatexa de cinco pontas, pois me dizem anda appensa aos Autos huma carta delle a
+certo amigo da Cidade, em que o avisa tenha muito cuidado na mala, e a não dê a
+ninguem para o não perderem &amp;c.] Certamente ahi está o roubo: venha comigo,
+e vamos ver.» Foi com elle outro Religioso, e mesmo, lá mesmo no tal sitio
+mesmo, lá estava, mas não tudo: Corrêo logo com tal alvoroço o tal Comprador,
+que, sendo alta noite, e tempo de silencio assim mesmo gritou nos Dormitorios
+em altas vozes = Padre Superior, apparecêo; cá está; venha, venha que
+appareceu.... Ao estrondo destas vozes levantou-se o Superior á pressa meio
+vestido; levantárão-se os demais como em tumultos e todos, á maneira de quem
+acode ao fogo, correndo cada qual mais depressa, se dirigião ao sitio para ver
+o tal «achado.» Todo este barulho passou pela porta do Reverendissimo, e á
+porta delle he que gritou o Comprador; mas deixou-se ficar quietinho, e
+estirado<span class="pn">{30}</span> como bom cação; talvez tivesse escrúpulo
+de quebrantar o silencio, porque foi sempre mui observante neste ponto: póde
+ser que nada disto o acordasse; mas, a ser assim, hum sono tão profundo indica
+bem a necessidade de descanço; elle o precisava, pois tinha perdido a noite
+antecedente. Cumpre notar que até os Padres mais velhos, e venerandos se
+levantárão para assistir ao acto da «achada,» e o Reverendissimo, e venerabundo
+Fr. Gabriel devia ficar-se pelo pouco, ou nenhum interesse, que lhe resultava
+de hum roubo tão consideravel, e que tanta magoa causou aos seus Irmãos.
+Apparecêrão Calices, Patenas, Custodia, a pequena Alampada, e a Corôa grande,
+mas não as colherinhas dos Calices, joias, dinheiro, e tudo o mais que não era
+volumoso. Depois desta descoberta encaminhou-se o Prior, e Padres do Governo á
+Cella do Reverendissimo Gabriel, e o forão condusindo para outra, que tinha
+grades, servio, e serve algumas vezes de hospedaria: aqui o deixárão ficar em
+quanto elle não teve arrombados os ferros, porque então foi preciso muda-lo
+para outra Cella taõbem de grades, e, se vê já de forro. Metido nesta Cella deu
+traças a fugir, e para isto furou a abobada, o que deu motivo a fazer-se-lhe
+hum segundo solho, ou pavimento sobre o primeiro. Ao Religioso, que o servia,
+em quem achou alguma confiança, e demasiada benevolencia, deu 2400 para que lhe
+comprasse huma lima surda, ou serra d'asso, afim de cortar os ferros da
+janella, e por-se ao fresco; pedio<span class="pn">{31}</span> mais ao dito
+Padre lhe levasse hum Gabinardo, que tinha em certo sitio, e huma corda a qual
+lhe disse a tinha escondida detraz dos folles do Orgão, e lá se achou. «Estes
+trastes denotão que elle costumava fazer suas sortidas; ou que já os tinha de
+prevenção para o que désse, e viesse.» Nada se achou na Cella do Reverendissimo
+concernente ao furto, nem era da esperar, porque já estava destro; com tudo,
+depois de alguns dias, lhe mandárão despisse toda a roupa, e apparecêo cosida
+na fralda da camisa a quantia de 12$ e tantos reis. Tãobem isto, dirá a
+Borbolêta, que he fingidi? Estes Padres são mui finos, e certamente por alguma
+nova magica forão-lhe lá coser o dinheiro, mas este remendo botado assim he mal
+cosido. Nada apparecêo até ao dia de hoje, de cordões, joias, dinheiro, «que
+foi em quantidade o que levou da gaveta da Sacristia,» e d'outras miudesas, e
+he crivel, que tudo enterrasse na Cerca, e ha razão de o desconfiar; por
+quanto, propondo o Reverendissimo ao Padre, que o servia, os intentos de fugir
+pela janella para a Cerca, este lhe aconselhava o não fizesse por esse lado;
+que de noite, arrombando a delgada taipa, que divide a Cella, podia escapar-se
+muito bem, pois a Portaria estava aberta, e os Soldados o deixarião ir
+livremente, dizendo-lhes que era Religioso; a estes e outros conselhos
+repugnava sempre o Reverendissimo, teimando sahir pela janella, e pela Cerca;
+ora isto [dizem-me] são motivos para desconfiar, de que as joias, dinheiro<span
+class="pn">{32}</span> &amp;c. estão na Cerca enterradas, e que elle os queria
+levar comsigo quando fugisse; por quanto, perdida esta occasião, não lhe ficava
+outra para as levar sem muito risco, e grande perigo de ser pilhado, se
+voltasse. Não damos porem como certo o enterramento, para sermos em tudo
+sinceros, e não cahir nos absurdos da Borbolêta: o facto he veridico; mas, se
+estes erão os seus intentos. Deos o sabe, e cada qual ajuize como quizer.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Foi do modo que fica exposto o furto, e o seu achado, ao que se seguio
+depois huma devassa, que lá fizerão os Padres, conforme determinão seus
+Estatutos, e o que depozerão as testemunhas nem o sei, nem se me communica: Sei
+sim que foi sentenciado, e que a norma da Sentença foi dada por hum
+Juris-consulto Secular á vista dos Autos; homem tal que, disse ao Prior o
+honrado Juiz do Crime no dia 14 de Outubro, era a melhor cousa que tinha
+Portugal em materias criminaes: [se mentio por alma lhe preste, pois agora
+mente-se muito, e custa saber de que parte está a verdade.] Sendo pois
+testemunhas de probidade as que depozérão, porque forão Religiosos, e não se
+póde dizer sem blasfemea, que todos jurassem falso, e sendo a Sentença dictada
+por hum Ministro desinteressado, e sem suspeita, segue-se legitimamente que o
+Reverendissimo Fr. Gabriel foi «irté» pronunciado criminoso no furto, e por
+consequencia igualmente legitima, os demais Religiosos innocentes. Ora,<span
+class="pn">{33}</span> e deverão elles, por castigarem o Reverendissimo depois
+de sentenciado, ir todos lá para essa Ilha dos mortos, ou dos Lagartos, e serem
+sepultados vivos? Admiro a grande caridade para soltar hum preso, e ao mesmo
+tempo o esforço, e energia em enterrar os sôltos. Quem não vê que isto he huma
+grande impiedade?..</p>
+
+<p>Apesar de não saber o que as testemunhas deposerão; assim mesmo não sou
+temerario em chamar criminoso ao Reverendissimo, porque para isto basta saber
+que foi juridicamente sentenceado: mas, ainda quando o não fosse, appello desde
+já para o Juizo de todo o mundo racional, [fica excluida a Borbolêta, porquo he
+animal sem razão] e diga elle se tantos, e tão grandes indicios, como os
+expostos, não são prova prudente, ainda que não infallivel, de que Fr. Gabriel
+foi o auctor do roubo? Saber o modo, as circunstancias, e todos os abanicos do
+furto, quando os mais ignoravão ainda o que se passava! isto só quem fez o
+roubo, ou assistio a elle; e neste caso tão ladrão he o que furta como o que
+consente, e para ser de outra maneira he muito advinhar: além de que, para se
+fazer este roubo, era necessario estar dentro de casa, descer pela escada
+interior do Convento, saber da porta do Presbyterio, da passagem da porta do
+Sacramento para a Sacristia e ahi saber das chaves para abrir Armarios,
+caixões, gavetas, e saber em fim os lugares, em que paravão as cousas, e
+conduzilas pelo interior do Convento, e saber do escondrijo. E então não foi o
+Reverendissimo Fr. Gabriel quem fez o roubo? Eis-aqui o que disse<span
+class="pn">{34}</span> hum rústico = Ladrão he elle, assim o eu fôra. = Além
+disto he certa a regra do Cêsteiro, «quem faz hum cesto faz hum cento;» quero
+dizer, tendo sido o Reverendissimo convencido de dous roubos, quasi da mesma
+natureza, de hum Relogio, que safou a outro, e que, depois de o negar, lhe
+achárão na Cella, e de outras minudencias. &amp;c. &amp;c. que devemos nós
+suppôr? A regra de Direito presume sempre máo aquelle, que o foi huma só vez,
+«Semel malus, semper præsumitur malus» e não devemos nós suppôr máo aquelle,
+que o foi tantas vezes? Não o sería; o que por huma excepção extraordinaria, e
+fóra de toda a regra póde acontecer; mas para que tinha elle o Gabinardo? Sería
+para representar na Opera? Galante figura! Mas, a não ser isto, para que era a
+corda? Seria para se enforcar quando se visse atacado? Ainda que he estúpido no
+ultimo ponto não tem semelhantes sentimentos. Agora por tudo isto... Já me
+esquecia o dinheiro! Sim, o dinheiro: se era delle, para que o foi cozer em
+parte tão secreta? Alem de que, se era inocente e tão santinho, como o suppõe a
+Borbolêta, para que intentou tantas vezes, e com tanto perigo a fugida? Quem
+não deve não teme. Para que em fim assignou voluntariamente a Sentença,
+acceitando-a, quando aliás diante de testemunhas lhe disse o Prelado,
+intimando-lha, que a aggravasse, ou appelasse para Tribunal. Superior, pois
+tinha este recurso, e se lhe concedia de boa mente? Se he certo o adagio = quem
+cala consente, muito mais<span class="pn">{35}</span> certo he, quem subscreve
+de proprio punho sem violencia. Por tudo isto... Agora venha cá, Senhora
+Borbolêta, que lhe quero depennar as azas: Vê tudo isto! Olhe bem! Vê!.. esta
+narração desde o começo até ao fim he o facto viridico e tão certo, como he
+certo estar vossa mercê pintada no seu papel digo por causa de equivocação,
+gravada no seu papel. Ora, diga-me, não lhe mostrei que a maior parte dos
+Padres Carmelitas Descalços era innocente, pois só os do Porto he que entrárão
+na festa de Fr. Gabriel? Não vio depois que o erão todos, pois pelos factos, e
+provas de Direito se mostra criminoso o Reverendissimo seu apaixonado? E não
+será impiedadade o querer que tantos innocentes sejão enterrados vivos? Não o
+he ainda maior o desejar-lhes ainda maior castigo? Tanta gente sepultada viva!
+Póde haver pena maior? Não he o superlativo da impiedade o fazer acreditar ao
+Público tão grandes aleives, dos quaes veio a seguir-se huma infamia pública
+contra tantos, e tão bons Religiosos? Não foi o seu papel huma e outra vez
+impresso com as mesmas fanfarronadas, e de quando em quando certas pancadinhas
+a causa delles serem apupados publicamente, insultados pelos rapazes, garotos,
+lacaios, e regateiras; nas ruas, nas praças, e nas casas particulares; feitos a
+fabula não só do Povo do Porto, que sempre he Povo, ainda que vossa mercê lhe
+chama «comedido, pacato» &amp;c. &amp;c. mas de todas as terras do Reino, e
+fóra delle? Não está vossa mercê obrigada a restituir o credito a estes homens
+tão injustamente roubados, e de mais a mais o dinheiro,<span
+class="pn">{36}</span> que levou tão mal, porca, e indevidamente pejo seu
+papel, cheio de mentiras, aleives, e impiedades? Olhe, dou-lhe hum conselho, se
+quer salvar-se vá para a Thebaida fazer penitencia, ou ao menos meta-se leigo
+na Cartuxa: estou certo que isto nem lhe faz móssas nem escrupulo: como v. m.
+metêo dinheiro na aljava, isso he o que lhe interessa, lá do mais quem sabe...
+Mas, fallando agora nas cousas da terra, diga-me, merecerá o seu papel algum
+credito de hoje em diante? Não he digno de que todos o detestem, e aborreção?
+Não he assim mesmo verdade, que «semel mal semper præsumitur malus;» ou, aliás,
+a regra do cesteiro? Será injustiça quando se lhe appliquem estas mesmas
+regras? Não tem o seu papel merecimentos de sobejo para isso? Vai ao chão com
+tanto peso, Senhora Borbolêta? Deita sangue porque lhe puxei as azas? Não o
+póde vedar? Pois agora morra com esta sangria, e, se não quer, não grite tão
+alto, ou vá esconder-se onde nunca mais appareça diante de gente, se he que lhe
+restão ainda sentimentos: Mas assento que o não fará, porque me lembro agora do
+que succedeo em caso identico a hum Gallego descarado. Vou contar-lho, porque
+vem aqui muito a proposito. Convencido de certo crime o tal Gallego levou,
+salvo seja, em tal parte hum par de açoutes, e tres voltas em roda da forca; e,
+sendo posto em liberdade, logo immediatamente pegou na tranca, e no chouriço e
+poz-se a ganhar a vida como d'antes: hum companheiro no officio, porem de
+melhores sentimentos,<span class="pn">{37}</span> apenas o vê deste feitio lhe
+disse estimulado = homem de Deos, ou do diabo, e tu não tens vergonha: He
+possivel que, levando hontem açoutes por essas Ruas, e, costeando a forca,
+andes hoje em público por esse modo? Se tal me succedêra fugia para onde
+ninguem me conhecesse; metia a cara n'hum folle, e andaria assim mascarado toda
+a minha vida: por Deos: que ao menos largava o officio para não envergonhar os
+outros = ao que respondeo o desavergonhado = Pois bem está; tu fazias isso, e
+eu não: são genios, e a mim que mal me vai? Os açoutes não me dóem, aqui poucos
+me conhecem, e eu ganho dinheiro....</p>
+
+<p>Senhor Redactor, como Escaravelho fui indo devagarinho, e a passo lento para
+pilhar de geito a Borbolêta: encontrei-a no meu quintal chupando as couves para
+depois deixar ficar a semente das lagartinhas, que destróem as hortas, e
+investi com ella tão animoso como o General Chixagophe com os seus Cossacos
+sobre os Francezes, e a primeira descarga foi huma torquezada no bandulho, que
+lhe fez sahir as tripas fóra, e por isso creio morrerá cedo das feridas. He
+verdade que este animalêjo de alado passa a bicho, e renasce depois de morto;
+mas eu hei de pôr sentinellas, e guardas avançadas; e, alem do Exercito que
+está no campo entrincheirado, tenho hum grande corpo de reserva: he por isto
+que estou sempre certo da victoria. Bem sei eu que para tão insignificante
+inimigo não era mister nem tanta gente, nem tanto barulho; porem a Borbolêta,
+tendo algum<span class="pn">{38}</span> espirito sem ter forças, faz sempre o
+que os fracos nestes lances, isto he, chama para seu lado valentões basofias,
+que animados de hum espirito ainda mais bravo procurão despica-la. «Assumit
+spiritus nequiores se.» Eu irei sosinho á batalha, como S. Martinho, sem
+espada, nem escudo: tenho hum bom Santo Lenho, e hum Breve de boa marca, e com
+estas insignias lhes farei os Exorcismos. Veremos fugir estes espiritos
+malignos, e o seu ultimo estado será mais infeliz, que o primeiro. Por fim,
+Senhor Redactor, he tempo de concluir: parece-me que mostrei soffrivelmente a
+primeira proposição, que prometti sobre o papel da Borbolêta; isto he, a sua
+Impiedade, e que nella se verificão á letra os textos, 1.º «Impius facit opus
+instabile.» Prover. 11. v. 18. 2.º «Impietas impei erit super eum» Ezech. 18.
+v. 20. Ponha esta fazenda em Praça pública, que não deixará de haver bastantes
+compradores, e, ainda que he fabricada cá no Reino, he da ultima moda, e de que
+muito gostão os pataratas. Para o Correio remetterei mais, pois tenho na minha
+loja grandissima sortimento. Protesto-lhe, que ainda sou devéras, e serei com a
+mesma efficacia «usque ad mortem.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Inimigo declarado dos Impostores, e verdadeiro Constitucional.</p>
+
+<blockquote class="rodape">
+ <p><a name="foot22" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> O N. 152 he huma
+ copia fiel do que relatou no dia antecedente, ao qual accrescentou «que
+ podéra alcançar mais huns pós de verisimilhança para credito dos que os seus
+ raciocinios não forão destituidos de probabilidade etc. Falla de noventa dias
+ de jejum a pão, e agua, e «afirma,» que nada derão de comer os Padres aos
+ Soldados etc. do fracasso desastroso para quebra do verniz da Santidade do
+ Escapulario Carmelitano etc. etc. etc.» A seu tempo mostrarei que nada tem de
+ verisimilhança o que refere, que mente tanto nos jejuns, como na comida dos
+ Soldados, e dar-lhe-hei com verniz gordo pelas ventas.</p>
+</blockquote>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Verdade a Passo Lento ou Guerra do
+Escaravelho contra a Borboleta Constitucional do Porto, by Unknown
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A VERDADE A PASSO LENTO OU ***
+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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