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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:46 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Bispo: Nova «Heresia», em verso + +Author: Guilherme Braga + José Pereira de Sampaio (Bruno) + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34961] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + + Guilherme Braga + + + O BISPO + + NOVA «HERESIA», EM VERSO + + ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie. + Il faut donc la sonder a toute profondeur, + Et, pour seul antidote, étaler sa hideur. + + ÉMILE DESCHAMPS. + + + + Segunda edição com o retrato + e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por + J. PEREIRA SAMPAIO (_Bruno_) + + + + + + PORTO + LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS + 136, Rua das Flores, 138 + M DCCC XCV + + + + + O BISPO + + + + + PORTO + TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL + Rua da Fabrica, 80 + 1895 + + + + [Retrato de Guilherme Braga] + + + + + Guilherme Braga + + + O BISPO + + NOVA «HERESIA», EM VERSO + + ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie. + Il faut donc la sonder a toute profondeur, + Et, pour seul antidote, étaler sa hideur. + + ÉMILE DESCHAMPS. + + + Segunda edição com o retrato + e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por + J. PEREIRA SAMPAIO (Bruno) + + + + + PORTO + LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS + 136, Rua das Flores, 138 + M DCCC XCV + + + + +AOS + +LIBERAES + +PORTUGUEZES E BRAZILEIROS + +DAS TERRAS DE SANTA CRUZ; + +A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIÕES +ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS + + + + _Offerece_ + + este humilimo testemunho d'adhesão ás suas ideas + e de sympathia pelo seu esforço + + _Guilherme Braga, + o condemnado auctor dos «Falsos Apostolos». _ + + + + +_ADVERTENCIA_ + +AO + +Bispo do Pará + + Embora sobre mim peze + O teu anathema, ahi, + Eu, bispo d'outra diocése, + Tambem te excommungo a ti! + + + + +Antes de lêr + + +Propõe-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras +patrias inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade +dos exemplares d'uma edição limitada parecia indefectivelmente votal-o, +o pamphleto poetico a que estas linhas servem de preambulo explicativo. + +As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso +pensado escriptas; e em curtos dizeres ellas poderão ser interpretadas +segundo a modestia real das suas proporções. + +É claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, mercê do +plano proprio da pouco custosa publicação, lhe são concedidas, o +redactor d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que em +competencia lhe escasseia, não poderia abalançar-se á critica d'uma +individualidade litteraria tão viva, espontaneamente accentuada como a +de Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpressão. + +Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas +mais altas culminancias, á categoria esthetica que o critico parisiense +Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados +_Poetas de combate_--ociosa banalidade seria, que não primava sequer +pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi +simultaneamente um poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera +emotividade, admiravel n'essa sublime elegia _Cadaveres_, que é uma das +raras paginas supremas, definitivas, em nossa moderna litteratura. + +Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem não parece +tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordações de Pedro de Lima, +melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe, +trespassa de lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam +abundantes de factos, acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas +apreciações as laudas que á gloria de Guilherme Braga consagrou o dr. +Rodrigues Cordeiro. + +Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria até +cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido +historico da composição que reapparece perante um publico novo, +differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da +elaboração poetica. + +Na verdade, o _Bispo_, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua +leitura, algumas notas que o reintegrem nas condições peculiares da sua +primitiva producção, poderá, talvez, a espiritos prevenidos ou +scepticos, (pois que os extremos se toquem), poderá a esses espiritos, +indifferentes ou hostis, parecer a aberração d'uma phantasia, forte e +alta, mas desproporcional, e afflictivamente torcionada pela perseguição +d'um delirio. + +É, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens +torna-se indispensavel desde que a actual geração está já bem longe da +flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da +vivacidade sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao +aspero egoismo que hoje é norma e criterio, lemma e regra, principio e +conclusão, alpha e omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de +quaesquer crises subjectivas. + +Isto, já se vê, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evolução +que vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo +amplo que, com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se +prende na vida collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes, +se perfiguram, derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos +e complexos. + +Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi +apocalyptico do genio de Victor Hugo, por então em vulcanicas erupções +consecutivas, atropellantes, os circummandou em tôrno do seu paiz, +d'esta viagem moral elles regressaram desmoralisados, desfolhados, da +desesperadora desillusão, tão deprimente se lhes antolhara o espectaculo +observado. + +Com effeito, entre nós, como, de resto, em todos os povos continentaes, +o constitucionalismo gorára. Os seus theoristas ou tinham morrido, +anonymamente, como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam +mergulhado na atonia d'um desespero quieto e môrno. Os que quedaram na +brecha, aos poucos, foram sendo envolvidos na vaga da corrupção politica +dimanada das altas regiões; ou, ainda, cansados de tantos, tantos annos +de batalhas, incapazes, de resto, de grandes idéas de conjuncto, +almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe, como José Estevão com +os interesses da sua terra natal, como Sá da Bandeira, nobre, +ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso +da escravidão colonial. + +A convenção de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria +impotencia. Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha, +á fé e mercê do facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as +consciencias que a causa proxima da vasta catastrophe publica, Costa +Cabral, veio a ter de se affastar da politica e do paiz, menos pelo +irrisorio conluio da Regeneração do que porisso que, doutrinario +fiel aos seus chimericos principios de crear uma nacionalidade, +progressiva e forte, pelo influxo descendente do factor da auctoridade, +elle já não tinha presa sobre a nação. Não havia mais nem amigos firmes +nem inimigos estimulantes. + +A éra dos homens de convicção, logicos n'um concebido plano renovante, +sobranceiros ás miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades +do concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes, +visando a um stadio moralistamente caracterisado, passára. + +A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as +contemporisações, para os sophismas grossos, para as communs, as +triviaes patuscadas, para as opposições fingidas, para os votos comprados. + +Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e +nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa +Cabral, era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de +chatins, escravos ventrudos e satisfeitos. Não luziam já as estrellas, +claras e ardentes, para os grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu +pardo, era o instante dos chacaes, das hyenas, dos lobos, das raposas. +Logicamente, entrou em scena Rodrigo da Fonseca Magalhães. + +Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mãos, poz a +mordaça das conveniencias; a tribuna papagueou o taramellar +radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom independente; +cada cidadão encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se pela +sentença, volvida regra da conducta, de que _tão bons são uns como os +outros_; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se, +estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem +a educação dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria, +mineira, fabril; emfim, as amplas reclamações doutrinaes cessaram, e o +silencio, o bem-amado, o suspirado silencio fez-se. + +Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a França seja a +promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel +successo consagrara-se definitivamente na Europa. + +A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a +romper do moroso torpôr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmão, +o duque de Morny, pudera assegurar, alegremente, á curiosa dama que o +interrogava, na Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que, +em qualquer hypothese, _dado que vassourada houvesse, elle se poria do +lado do cabo da vassoura_. + +Um ingurgitante refluxo de retrogradação se produziu nos destinos da +humanidade, e uma reacção theocratica, cynicamente mystica da banda de +antigos carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e +logicamente, de tatear o desfecho nos medos supersticiosos, _ad usum +Delphini_ procurados na propaganda jesuitica. + +Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento +do imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedição de +Roma, as ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos, +esmagados em Mentana, onde os _chassepots fizeram maravilhas_, não +revestiram um caracter sporadico. Tudo é concordante no mundo; ellas +representaram o estado moral de todo o conjuncto das instituições a de +lá dos Pyrineus. + +Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de lá e a de cá. + +A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se +sentir entre nós, logo desde o primeiro instante; e seria curioso, +n'este ponto de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a +incredulidade lunatica de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e +idealista, procurava dissipar os echos lusitanos das retumbosas +conferencias do padre Ventura de Raulica em Nôtre-Dame. + +Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito, +povoado de boas, vagas intenções, convergindo a realisar entre nós o +typo d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno +do virus dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a +investigação, historica e fria, do emphatico Pelletan. + +Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido, não pondo ao +serviço das suas aspirações mais do que a mediania d'um talento +inconsistente, D. Pedro V pertencia á especie corrente d'esses +incomprehendidos romanescos que, como José II, d'Austria, fluctuam entre +os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e +as reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que +lhes acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente +improliferas. + +De volta da costumada viagem de educação emprehendida pelos herdeiros ao +estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das +facticias pompas com que despontara o 2.º imperio; e o seu anhelo de +imitação d'um modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos +insignificantes pormenores, como na introducção do uso do _képi_. + +Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas +imaginações promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela +irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva, +inconstitucional protecção votada aos humildes, para cujo serviço +instituirá, na famosa _caixa verde_, um meio, facil e seguro, de sempre +communicarem com as altas regiões. A affeição com que vestia as suas +relações pessoaes, buscando occultar sob doces familiaridades a +supremacia da sua situação excepcional, como no baile celebre da Sala do +Risco para com o duque de Loulé, abria-lhe uma immensa zona de +sympathias. Na verdade, tal é a monstruosa educação secular do +preconceito da realeza que, d'entre os proprios homens cultos, nem mesmo +os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo das condições +politicas idóneas á extirpação das dynastias, se furtam a este effeito, +atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e +transcendentemente fóra da humanidade. + +A lenidade, a doçura do temperamento, a candidez de coração succedera ao +irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas, +intractando no seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha +impopularisavel, a favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar +o bruto tio, toureiro e forçudo, tão sympathico á plebe pelo seu bestial +feitio genuinamente portuguez. + +Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em +torno do moço monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos, +se encontrou, sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a +effeito quaesquer idéas positivas, se porventura elle podesse emergir da +nevoa dos semi-pensamentos, em que se esfarrapava, dissolvia a sua alma +chimerica. + +O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado +imperador, com o typo physico, a similhança mental. De sorte que a +utopia que latejara no cérebro do avô revivia a dentro do craneo do +neto: ideologos, um e outro, as mesmas fórmas da chimera, como no +sonho iberico, reproduziam-se, por descendencia. + +Era-lhes analoga a feição moral; egualmente possessos d'um identico, +insaciavel desejo de saber, de vêr tudo, de conhecer tudo, de alterar +tudo, de remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funcção de +reformadores, a um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas +concretos da vida progressiva dos povos, a pôr todo o empenho nos +remodelamentos das concepções abstractas que regulam a existencia moral +das nações. + +Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da +constituição do seu paiz, introduzir a nova noção da realeza, referida +ao poder moderadôr por Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do +embaixadôr hespanhol Pastor Diaz, por uma especie de monomania +metaphysica, que lhe tomava as attenções para os mais abstrusos, +estereis pontos da philosophia transcendental. N'este pendôr, não é de +estranhar a pretensão, que começou a patentear-se no monarcha, a rehaver +um mando, supremo e incondicional, nem será absurdo o suppôr que o pobre +idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia +silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo +particular das naturezas moraes como a de El-Rei é, com effeito, o da +innovação, da intervenção, da substituição, o afan era refazer um povo +por meio de decretos. O que longos annos d'um desenvolvimento +continuo e previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado, +e substituir-se a immediata vontade autocratica á vontade tardia da +historia; utilisar aos homens, mas como se creanças fossem, incapazes de +formular racionalmente um voto para a melhoria das suas condições, gente +a servir, como Louis Blanc o discriminou nos accidentes do abortado +austriaco, sem que se receie, sem que se ame, tractando-a como cartas +adscriptas ás combinações do jogadôr. + +Que idéas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porém, o +rei? Que planos amadurecêra pela reflexão e pelo estudo? A que alvo +visavam os seus esforços? + +Tudo nos indica hoje que nenhuma idéa, nitida, clara, precisa, o +monarcha se formava da sua situação e da do paiz, e que lhe seria +impossivel redigir n'um programma de doutrina ou n'um projecto de actos +as apparencias de pensamento que eram a miragem do seu coração, enganado +de si-mesmo. + +D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu +poder foi grande; pois que, nas affeições creadas, o enthusiasmo +meridional, excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, não +conheceu limites ao seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com +elle conviveram, que accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios +philosophantes os quaes, no propicio silencio da noite, se lançam, a +todo o vapor, no phantasmagorico mundo das previsões do futuro, +acabaram por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha, +fanatismo tanto mais perigoso quanto elle se não isolava do sentimento +publico, que manifestara a sua fé nas virtudes reaes por meio d'esses +inacreditaveis cartazes pregados nas esquinas das ruas das cidades, +bradando: _Viva D. Pedro V, rei absoluto._ Theophilo Braga ainda os viu, +amarellecidos das chuvas, nas paredes de Coimbra. + +Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no +vasio onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com +phraseologias symbolicas, como as lançadas á mocidade universitaria que +o saudava:--_Tanto vale a alma quanto a intelligencia_, profissão de fé +dos egoismos intellectivamente orgulhosos. E não se humilhava de fazer +publica confissão de ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino +positivo, consoante nas curtas inquirições, ao engenheiro Mousinho de +Albuquerque propostas no Porto. O rei era um metaphysico, um doutrinario +retardado, e assim se explica o seu desdem pelo problema das grandes +linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma economia infantil. + +A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos +aspectos, curiosamente dotadas, não cessou, attrahindo-o, de o +ludibriar. Esse foi o triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu +ardor em se crear uma fé, não encontrou em torno de si senão o +desanimo que, na bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se +penitencia por se encontrar maior do que o do rei. + +Abandonado a si proprio, desamparado até nas suas acanhadas iniciativas, +oriundas d'uma primeira educação, humanista e litteraria, como lhe +succedeu no tentamen do _Curso superior de lettras_, o monarcha acabou +por derivar no plano inclinado que leva á traição da liberdade. As suas +usurpações constitucionaes foram successivamente accumulando os +aggravos, ao ponto de prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades +dos serventuarios do principio dynastico. + +Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do _Rei +de Sião_. + +Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para +um confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o +presente. Tudo o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos tão +atrophiadas raizes embebia no resistente terreno da dura razão que, +celebre pela philanthropia, ás escondidas assignava ignoradas sentenças +de morte, para os longes coloniaes, como a do rebelde indiano. De modo +que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio de aspirações cerce +amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto; quando, +acabrunhado, partido, não tendo havido n'elle de sublime senão o desejo, +finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz do +seu transcurso terrestre. A sua duração mais larga assignalar-se-hia, +porventura, de terriveis catastrophes, visto como a ignorancia publica, +que o idealisara, tendia a oppôl-o, symbolo de reacção, aos restos da +iniciativa civica das classes liberaes e cultas. + +Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na +resignada quietação dos grupos intermedios que, junto aos poderes +publicos, servem a multidão, o povo começava a formar, em volta do nome +do seu rei, a legenda piedosa que fundamenta e alicerça os despotismos. + +A historia inicia-nos na psychologia das multidões; nada é menos +democrata, no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idéas +condul-a sempre á auctoridade d'um só, facto moral naturalissimo desde +que se pense em que, apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a +tendencia será para se entregar nas mãos da competencia, tanto mais +comprehensivel e tanto mais responsavel quanto mais centralisadamente +reduzida. Ora, no paiz, tradiccionalmente monarchico e catholico, a +solução estava encontrada desde que o seu rei se inspirasse, +representativamente, dos sentimentos da população, trabalhada no momento +por uma recrudescencia espantosa do religiosismo missionario. O monarcha +chegara á crise e, pela tremenda peste que assolou Lisboa, o espirito +soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse golpe em que +Buckle buscou o coefficiente da exaltação mystica dos povos +peninsulares. + +Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso, +pela abnegação; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento +francez, pela introducção dos lazaristas, das irmãs de caridade no +reino; mergulhou nas leituras symptomaticas, como as que lhe deu o +conhecimento do Dante, conforme se revela da sua bella carta posthuma ao +conselheiro Viale. + +A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido, +porém, tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do +ultramontanismo procurou, n'um collectivo manifesto eloquente, +communicar ao paiz Alexandre Herculano, nem a rude, a furiosa campanha +de José Estevão, que, leão dormente, um instante restituiu ao parlamento +essa interessada vehemencia que tanto surprehendera o principe de +Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara multidão. Tão certo é o +erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o producto, directo +e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das massas, +degeneram estas logo em suas escravas. + +Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear +o seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como +elle se não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos, +haviam-o envenenado, ao misero! + +O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do +bem-amado estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos +olhos humanos. O principe successor feria pelos modos bruscos de homem +do mar, repentinamente avocado a um meio que, por completo, desconhecia. +Se, em sua estupidez, as calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um +ultimo sopro de recto bom-senso, envergonhado da infame torpeza, o certo +é que as tristes apprehensões ficavam, escorias no fundo do cadinho. O +que seria? O que viria? + +E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a +docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos, +como n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os +politicos temiam pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta +de seu amo; e os poetas, inconscientes interpretes do sentimento +popular, atravez os subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia +respeitadora das conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto, +debruçar-se da beira dourada dos camarotes dos theatros, a apontar ao +principe, pallido da audacia, o espectro arsenicado de seu irmão, +gritando-lhe n'um terror: + + _Imita-o, imita-o bem!_ + +Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente +colleando, seguiu de rastos, ao cantochão ultramontano, até á beira +do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra lutulenta, os homens +de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia tomou para zona +da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o mesmo +palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do +espirito que o fundou diz: _Progredior_, eu avanço. + +Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello +adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a +mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr, +de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme. + +A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade, +intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica +apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo: + + _La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore!_ + +Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta +começava a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha +Marinho, recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho +publico do joven poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que +vé agora as honras, tardias, da reimpressão. + +Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta +hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se +fazer benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da +respeitosa sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia. + + BRUNO. + + + + +O BISPO + + +I + +*Na cathedral.--Revelações d'um satyro* + + No claro azul d'um frio céu d'inverno, + Sobre a collina onde a cidade dorme, + Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme + D'antiga cathedral; + Fica-lhe ao lado a succursal do inferno, + --Velho epigramma ao lugubre edificio, + --Largo covil doirado, aberto ao vicio,-- + O paço episcopal... + + Bate o luar nos porticos escuros, + Abrigo á noite de sinistras aves; + Lá dentro, as altas, magestosas naves + Envolve a solidão. + Sobem, crescem mil sombras pelos muros, + D'um bronzeo lampadario á luz distante, + Sob as curvas da abobada ondulante + Que estampa os arcos no marmoreo chão. + + O côro é largo e bello. Ali se abriga, + D'um capitel nos rendilhados folhos, + Um satyro, que ri, piscando os olhos, + Lascivo como Pan. + Dizer parece á cathedral antiga: + «Porque me tens aqui, mostras-te ufana? + Pobre igreja catholica-romana! + Pobre igreja christã!» + + Diz com orgulho, gracejando, ao Christo: + «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto, + Ao vêr-te assim crucificado e morto, + Ó déspota dos meus! + Não desejo ser Deus... se Deus é isto: + --Um cadaver perpetuo exposto ao frio-- + E, velho fauno desdentado, eu rio, + Eu rio-me de ti!--de ti, que és Deus! + + Vês alem, por detraz do lampadario, + Um satanaz assoberbando um globo? + Deitado aos pés de Deus, parece um bobo + Deitado aos pés d'um rei. + Ao vê-lo assim, tristonho e solitario, + Tive dó d'aquell'alma taciturna, + E, na mudez da escuridão nocturna, + Com elle me liguei. + + Vago rumor de vozes mal distinctas + Nos guiou para os porticos do paço: + Eu, sabendo que o bispo era um devasso, + Previa a bacchanal... + Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas + Chammejante de pejo o rosto frio, + Tudo o que eu vi no lupanar sombrio, + No infame lupanar sacerdotal: + + +II + +*A humildade do bispo* + + Era um bello aposento, + Que Faublas prezaria sem desdouro... + --Ninho d'abutres, perfumado e fôfo, + A que dava um revérbero sangrento, + Á froixa luz d'um candelabro d'ouro, + A adamascada purpura do estôfo.-- + + Molles coxins, em largas ottomanas, + Convidavam a languidas posturas + As Aspasias catholicas-romanas, + As lúbricas sultanas + D'aquelle _harem_ christão, meio ás escuras! + + Mil fragrancias subtis no morno ambiente; + Ao centro a meza,--o impuro altar da orgia;-- + Sobre a meza a baixella resplendente... + A baixella roubada á sacristia: + Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos, + Todo esse lustre a espaços reflectido, + Da luz da orgia á froixa claridade... + + Satanaz debruçou-se ao meu ouvido + Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos + Aconselham ao bispo esta humildade!» + + +III + +*Dolores* + + Sentado á meza, o principe da Igreja + Inclina a calva fronte aos seios tumidos + D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja, + E em cujos labios humidos, + Rindo, o prazer de beijos s'enebria! + + Ao vêr-te assim, myrrada + Pelos impuros halitos da orgia; + Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada + Dos canteiros nataes a impura alcôva, + Quem ha que se commova, + Pobre flôr dos jardins da Andaluzia? + + Tem por nome _Dolores_... + Por officio, vender a quem lh'os paga, + Como não tem amor, os seus amores. + + É soberba e formosa! + Brilhante e seductora!--imagem vaga + D'Eva... já criminosa, + Escondendo a nudez por entre as flores! + + Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo, + D'éden occulto e precipicio aberto, + Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata! + Para quem dorme, em extasis, coberto + Pelas ondas gentis do seu cabello, + É como no deserto + A mancenilha, que adormenta e mata! + + Os braços nus da joven messallina + Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla + A carne branca, avelludada e fina, + Que lhe é dado gosar... mesmo sem _bula_. + + Collam-se, em longo beijo, + As duas bocas ávidas, famintas... + + Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas + O rosto frio a chammejar de pejo! + + +IV + +*Supplicas e promessas.--Caracter +evangelico do bispo* + + DOLORES + + Prende-me ás tranças formosas, + Se tu és o meu amante, + As joias mais preciosas + Da tua mitra brilhante! + + Fulgirão co'as pedras tuas, + Cheias de raios inquietos, + Meus soltos cabellos pretos + Nas alvas espaduas nuas! + + Haja depois quem se affoite + A julgar outras mais bellas... + São tranças da côr da noite, + Precisam d'essas estrellas! + + + O BISPO + + Rainha das feiticeiras! + Venus, que sahes d'este mar! + Pede tudo o que tu queiras, + Tudo o que eu te possa dar. + + Louca, aos meus beijos entrega + Teus hombros, teus seios nus!... + Dou-te a igreja, o paço, a adega, + O báculo, o annel, a cruz; + + As altas seges vermelhas + Que tem cem annos, ou mais, + E as gordas, rijas parelhas + Das mulas episcopaes... + + Toda a riqueza que brilha + No pomposo altar de Deus, + E um dos meus cónegos, filha, + Por cada beijo dos teus!... + + + DOLORES + + Eu gosto de sentir nos braços froixos + O enorme pezo do teu corpo exangue, + Mas, se te collo a boca aos labios roixos + Acho em teus labios um sabor a sangue!... + + Amas o sangue? + + + O BISPO + + Adoraria a gloria + De ter sentido, eu só, n'esta existencia, + Todo o sangue dos martyres da historia + Cair-me, gota a gota, na consciencia! + + Quizera ter colhido o goso ardente + De vêr no circo, em Roma, as feras brutas; + Nero a rir-se feroz, ébrio e contente, + Nos braços nús das ébrias prostitutas! + + Os pallidos christãos,--torpes escravos,-- + Expirando entre as garras das pantheras, + E a turba inquieta prerompendo em bravos... + Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras! + + Quizera, quando as sombras da heresia, + Sobre um povo servil, grosseiro e baixo, + Rasgava, escurecendo a luz do dia, + Do Santo Officio o pavoroso facho. + + Quizera dar a humanidade inteira + Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos, + E, dos pôtros no horror, e na fogueira, + Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos! + + Mil peçonhentas viboras no seio + A infame contra nós, sem medo, abriga. + Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio, + A humanidade, a nossa escrava antiga! + + Podesse eu ter, ó pallida Dolores, + Do sangue d'ella trasbordando o calix!... + Era um rebanho vil; nós, os pastores, + E a Realeza era o _canis pastoralis_... + + Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas, + Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora! + Quebrou, raivando, as solidas algemas, + E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora! + + Mas que aurora, mulher! que vasto incendio + Nos sombrios dominios do passado! + Que opprobrio para nós! que vilipendio! + Que roubo infame ao _senhorio herdado_! + + E assim ficamos nós, sem que lavasse + De sangue um rio a nodoa!...--escura ideia! + E assim trazêmos na orgulhosa face + Perpetua a marca vil da mão plebeia!» + + +V + +Movimentos de fera.--Risos longinquos + + Ergueu-se, febril, d'um salto, + Como um tigre nos juncaes; + Seus olhos chispavam lume + Como os dos lobos cervaes; + Crispava as mãos como garras; + Tinha rugidos na voz! + --Satanaz tremia, ao vêr-lhe + O rude aspecto feroz. + + Correu á larga janella + E, abrindo-a de par em par, + D'um anáthema ruidoso + Fez os espaços vibrar... + --Ouvia-se, ao longe, ao longe, + O rir convulso do mar. + + +VI + +*O anáthema, fragmento do «Syllabus».-- +Angustias d'uma alma piedosa* + + «Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade! + Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime; + Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade; + Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime! + + Vêde: por toda a parte as hydras do peccado + Erguem altivo o collo, iradas contra nós, + E o nosso bom cutello esconde-se embotado + Na cova onde repousa o nosso extincto algoz! + + Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos + Como as feras no matto, os reis d'origem pura; + Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos... + E assim chamaes aurora á noite escura... escura! + + Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma; + Rebrame o vendaval no espaço onde rugis, + --Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma, + E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris! + + Erguendo para os céus a pavorosa fronte + O anjo da Assolação atraz de vós caminha; + Quando o incendio alumia a extrema do horisonte + Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha! + + E para que desmaie o fogo da heresia, + O fogo a que se aquenta a sordida relé, + Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria, + Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé! + + Ó pavidos heroes da lugubre tragedia + Que a historia do passado aos seculos ensina! + Ó despotas feudaes da torva idade-media! + Ó soffregos irmãos das aves de rapina! + + Padres, em cuja mão fulgia a núa espada + Co'as mil scintillações d'um raio abrazador, + E em cujo ferreo peito a veste consagrada + Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor! + + Monges de frio aspecto e d'animo impassivel + Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos; + Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel, + Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos! + + Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga, + Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis, + Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga, + O clero envilecido, os infamados reis? + + No carro do Progresso ostenta-se a gentalha, + --A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma, + E, ao cruzar triumphante a arena da batalha, + Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama. + + Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada, + Como um idolo torpe, a imagem de Jesus, + E do eterno Voltaire a eterna gargalhada + Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz! + + Fervem inda no espaço os odios implacaveis + De que innundára a terra uma sinistra ideia, + --A ideia que do lodo exalta os miseraveis + E inspira «Oitenta e nove»,--a tragica epopeia! + + Para que espante os céus, para que o mundo aterre, + Quantos éccos talvez de novo accordará, + Fria como uma espada, a voz de Robespierre, + Ardente como um raio, o grito de Marat?! + + Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços, + A ignobil multidão, potente em seu reinado, + Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos, + Onde expia a Realeza as glorias do passado; + + Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve! + Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção, + Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve, + Passando sobre a terra, a terra assolarão! + + Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha + Que peza sobre nós, de tanto horror transidos; + Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha + Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos! + + Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte: + Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral, + E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte, + Das barbaras legiões a marcha triumphal! + + Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada, + Clama contra a revolta, obscura, su'terranea, + Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada + Nos braços varonis dos povos da Germania... + + Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas + Co'a sussurrante voz das santas orações: + Os servos do Senhor descem ás catacumbas; + Acolhem-se do _nada_ ás frias solidões! + + Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde, + Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia? + «É tarde!» disse alguem.--Não! inda não é tarde! + Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia! + + Os que são contra nós inspiram medo e asco, + --Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal... + Ah! podesse eu punir,--punir, como o carrasco! + Ah! podesse eu vencer,--vencer, como o chacal! + + Podesses tu, risonha, eu placido e sereno, + Approveitando o amor, o lubrico pretexto, + Encher pelos festins as taças de veneno! + Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!» + + +VII + +*Remeniscencias da canção dum proscripto* + + Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza, + Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos, + Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza, + Vibrarem mil clarins ao som da _Marselheza_, + E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!» + + Loucuras da hespanhola, + Que uma vez, n'um café da Andaluzia, + Tinha ouvido soltar-se aquelle grito + Dos labios d'um francez, moço e proscripto, + Que depois de cantar pedia esmola... + + +VIII + +*Orgia.--Amor e vinho.-- +Ainda o caracter evangelico do bispo.-- +Mane, Thezel, Phares!* + + Eil-os de novo no calor da orgia: + + + O BISPO + + O symbolo da Fé, + O largo calix d'oiro + Do velho altar da Sé, + Enche-o de vinho transparente e loiro! + + Bebamos! Quem bebe acalma + Todas as máguas que tem. + Cá dentro, ás vezes, noss'alma + Parece beber tambem. + + Não sabes como eu abranjo + Os mundos que tu não vês? + Colla aos teus hombros d'archanjo + As azas da Embriaguez! + + Ai! verás como te elevas + Nos sonhos que ella produz... + Passarás da luz ás trevas! + Irás das trevas á luz! + + Ha de abrazar-te em desejos + Que ella mesma apagará; + Has de sentir muitos beijos + Sem nunca vêr quem t'os dá! + + Ora, a nudez, que enthusiasma, + Pelo abysmo encobrirás, + Fugindo como um phantasma + Aos braços de Satanaz; + + Ora, ante os olhos do Eterno, + Rolarás sem um só véu, + Tentando, em nome do inferno, + A castidade do céu! + + Ai! bebe, flôr do serralho, + Como a rosa, a tua irmã, + Bebe as perolas do orvalho + De que se enfeita a manhã! + + Molha os labios á vontade + No santo vinho hespanhol: + As gôtas d'essa humidade + Hei de eu seccar, como o sol! + + Quanto prazer se resume + Nem tu calculas, talvez, + No suavissimo perfume + Do _Madeira_ e do _Gerez_! + + É justo que me acompanhe + Tua alegria sem par: + Venha o _Champanhe_! o _Champanhe_! + Saltem as rolhas ao ar! + + Canta, ó deusa, que me abraças + Cheia d'indomito ardor! + D'entre o tinido das taças + Solte-se um canto d'amor! + + Qu'importa o grito da plebe + Que a miseria escravisou? + Eu folgo; tu canta e bebe! + És quem és: eu sou quem sou! + + Dizem que por essas ruas + Andam vagando, ao desdem, + Descalças e quasi nuas, + Umas crianças sem mãe; + + Que, onde a miseria rebrame + Contra a nossa ostentação, + Avulta uma cousa infame + Chamada prostituição; + + Que a sombra é vasta e profunda + Nos desherdados casaes, + Que a espaços a chuva innunda + E abalam os temporaes; + + Que, entre a noite escura e triste, + Por terem fome, uns atheus + Perguntam se Deus existe, + E, se existe, onde está Deus?; + + Que uns velhos, a quem se deve + Profiqua gloria sem fim, + Dormem, cobertos de neve, + Ás portas do meu jardim; + + Que, sem tecto onde se acoite, + Um bando de paes e mães + Inveja, durante a noite, + A casota dos meus cães; + + Que a Justiça, em vis calvarios + Onde é vergonha morrer, + Crucifica os operarios + Que já não tem que fazer! + + Será, póde ser verdade... + Mas, tão distante do céu, + O archanjo da caridade + Decerto que não sou eu! + + Canta! Bebamos! Scintille + Noss'alma d'amor jovial! + Haja um quarto do _Mabile_ + No palacio episcopal! + + Quando, nas lagens marmóreas + D'igrejas, ditas christãs, + Já se exaltaram as glorias + E o nome das certezas,(1) + + Qu'importa que n'estes paços, + Longe do olhar de Jesus, + Morra, na cruz de teus braços, + Um sacerdote da Cruz? + + Canta, como as filomelas! + Canta, como os roixinoes, + Á flôr, ao lago, ás estrellas + Dos teus jardins hespanhoes! + + Mas não cedes ao meu rôgo? + Filha, em que estás a scismar? + + DOLORES + + Scismo nas letras de fogo + Dos muros de Balthazar... + + +IX + +*Pejo do satyro.--Satanaz e Deus.-- +A immobilidade de Jesus.* + + Não posso dizer mais... não sei... não quero! + Satanaz, a tremer, tomou-me o braço, + E ambos, deixando o tenebroso paço, + Voltamos para aqui: + + Rudes convivas dos festins de Nero! + Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia! + Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia! + Vós sabeis o que eu vi! + + Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto + Do eterno tentador... N'aquella orgia, + Se lá coubesse Deus, Deus rolaria + Aos pés de Satanaz!...» + + Calou-se de repente e, meio occulto + Do capitel nos rendilhados folhos, + Ria cada vez mais, piscando os olhos, + O fauno,--o hereje audaz. + + Jesus, no entanto, immovel, silencioso, + A fronte morta para o chão pendia, + Na terrivel postura da agonia + A que o forçára a cruz... + + E ha quem espere um grito doloroso + D'aquell'alma sublime? Ha quem espere + Vêr passar o sorriso de Voltaire + Nos labios de Jesus! + + +X + +*Na immensidade* + + Longe, ao longe, na abobada do espaço + Calma, impassivel, luminosa e fria, + Pairava ancioso, vigiando o paço, + Das orgias o archanjo,--a Apoplexia... + + + + +AO POVO INGENUO + + + Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente! + Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto, + Ir, de joelhos, á capella ardente + Beijar os santos pés ao bispo morto... + + No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja, + Ao vêr no esquife o Patriarcha austero... + Tu, que poisas na mão que te despoja + Mil ósculos d'amor crente e sincero! + + Se elle houvesse o «direito do mais forte» + Arrastarias vergonhosa algema; + Vivo, odiou-te: adóral-o na morte! + Derradeira abjecção! baixesa extrema! + + Quando has de tu deixar as vis doutrinas, + As vis superstições dos tempos velhos, + E fazer cathedraes das officinas, + E procurar na Sciencia os Evangelhos? + + Quando has de tu surgir calcando arminhos, + Nos salões onde, altivos do seu _nada_, + Ri a mitra da c'roa dos espinhos, + E o sceptro inutil da prestante enxada? + + Quando has de tu entrar na grande liça, + E, saccudindo o teu grilhão desfeito, + Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!» + Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»? + + Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola; + As armas do trabalho á carabina! + Onde estava a prisão surja uma eschola, + E um theatro onde estava a guilhotina! + + Da liberdade atalayando o asylo, + Sê magestoso e bom, sê grande e puro; + Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo, + A sagrada bandeira do futuro! + + É já longo o caminho do Calvario + Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!... + Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario! + Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos! + + Porto, 12 de novembro de 1873. + + + + +NOTA + + + (1) Quando nas lagens marmoreas + D'igrejas, ditas christãs, + Já se exaltaram as glorias + E o nome das cortezãs... + + «... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara + (Roma), o tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de + Leão X. Haviam-lhe gravado no marmore a seguinte inscripção, + exaltadora da formosura d'aquella mulher: + + _«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter + homines formæ specimen dedit, vixit annos XXVI, diis XII, obiit + 1511, die 15 Augusti.»_ + + A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado + á memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula! + + EUGÈNE BRIFFAULT--_Le secret de Rome au XIX.me siècle._ + + + + + EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA + + Á doce e affavel companheira dos meus actuaes + dias de soffrimento, + á companheira affectuosa de oito annos, até + 19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão + mais felizes, numa modestissima existencia--se o + Destino quizer-- + Offerece + para guardar como segredo + GUILHERME. + + + _Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida, + E inda não tens um_ Bispo? _Ha mezes!... que preguiça! + São cousas da cabeça, um tanto distrahida, + Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!_ + + _23--maio, de 1874._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by +Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno) + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO *** + +***** This file should be named 34961-8.txt or 34961-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34961/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Bispo: Nova «Heresia», em verso + +Author: Guilherme Braga + José Pereira de Sampaio (Bruno) + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34961] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO *** + + + + +Produced by Mike Silva + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style=" font-size: 1.8em;">Guilherme Braga</p> + +<p style=" font-size: 3em;">O BISPO</p> + +<p style=" font-size: 1.4em;">NOVA «HERESIA», EM VERSO</p> + +<blockquote style="margin-left:40%; font-size: 0.7em;"> + <p style="text-align:left;margin-left:0;margin-right:auto;"> +...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.<br> +Il faut donc la sonder a toute profondeur,<br> +Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.</p> + + <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">É<small>MILE</small> D<small>ESCHAMPS</small>.</p> +</blockquote> + +<p>Segunda edição com o retrato<br> +e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo<br> +por<br> +<strong>J. PEREIRA SAMPAIO <em>(Bruno)</em></strong></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style=" font-size: 1.2em;">PORTO<br> +LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS<br> +<small>136, Rua das Flores, 138</small><br> +M DCCC XCV</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 2em;">O BISPO</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p>PORTO<br> +TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL<br> +Rua da Fabrica, 80<br> +1895<br> +</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><img src="images/gbraga.png" alt="Retrato de Guilherme Braga" border="0" ></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style=" font-size: 1.8em;">Guilherme Braga</p> + +<p style=" font-size: 3em;">O BISPO</p> + +<p style=" font-size: 1.4em;">NOVA «HERESIA», EM VERSO</p> + +<blockquote style="margin-left:40%; font-size: 0.7em;"> + <p style="text-align:left;margin-left:0;margin-right:auto;"> +...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.<br> +Il faut donc la sonder a toute profondeur,<br> +Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.</p> + + <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">É<small>MILE</small> D<small>ESCHAMPS</small>.</p> +</blockquote> + +<p>Segunda edição com o retrato<br> +e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo<br> +por<br> +<strong>J. PEREIRA SAMPAIO <em>(Bruno)</em></strong></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style=" font-size: 1.2em;">PORTO<br> +LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS<br> +<small>136, Rua das Flores, 138</small><br> +M DCCC XCV</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style=" font-size: 1.6em;">AOS</p> + +<p style=" font-size: 2em;">LIBERAES</p> + +<p style=" font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES E BRAZILEIROS</p> + +<p style=" font-size: 1.2em;">DAS TERRAS DE SANTA CRUZ;</p> + +<p>A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIÕES<br> +ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS</p> + +<p> </p> + +<div style="margin-left:6em"> +<p style=" font-size: 0.8em;"><em>Offerece</em></p> + +<p style=" font-size: 0.8em;">este humilimo testemunho d'adhesão ás suas ideas e de sympathia pelo seu +esforço</p> + +<p style=" font-size: 0.8em;"><em><big>Guilherme Braga</big>,<br> +o condemnado auctor dos «Falsos Apostolos». </em></p> +</div> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;"><em>ADVERTENCIA</em></p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">AO</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">Bispo do Pará</p> + +<blockquote style="margin-left:6em"> + <p>Embora sobre mim peze<br> + O teu anathema, ahi,<br> + Eu, bispo d'outra diocése,<br> + Tambem te excommungo a ti!<span class="pn">{IX}</span></p> +</blockquote> + +<div id="corpo"> +<h2>Antes de lêr</h2> + +<p>Propõe-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras patrias +inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade dos exemplares +d'uma edição limitada parecia indefectivelmente votal-o, o pamphleto poetico a +que estas linhas servem de preambulo explicativo.</p> + +<p>As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso pensado +escriptas; e em curtos dizeres ellas poderão ser interpretadas segundo a +modestia real das suas proporções.</p> + +<p>É claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, mercê do +plano proprio da pouco custosa publicação, lhe são concedidas, o redactor<span +class="pn">{X}</span> d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que +em competencia lhe escasseia, não poderia abalançar-se á critica d'uma +individualidade litteraria tão viva, espontaneamente accentuada como a de +Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpressão.</p> + +<p>Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas mais +altas culminancias, á categoria esthetica que o critico parisiense +Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados +<em>Poetas de combate</em>—ociosa banalidade seria, que não primava sequer +pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi simultaneamente um +poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera emotividade, admiravel n'essa sublime +elegia <em>Cadaveres</em>, que é uma das raras paginas supremas, definitivas, +em nossa moderna litteratura.</p> + +<p>Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem não parece +tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordações de Pedro de Lima, +melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe, trespassa de +lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam abundantes de factos, +acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas apreciações as laudas que á +gloria de Guilherme Braga consagrou o dr. Rodrigues Cordeiro.</p> + +<p>Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria até +cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido historico da +composição que reapparece perante um publico<span class="pn">{XI}</span> novo, +differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da +elaboração poetica.</p> + +<p>Na verdade, o <em>Bispo</em>, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua +leitura, algumas notas que o reintegrem nas condições peculiares da sua +primitiva producção, poderá, talvez, a espiritos prevenidos ou scepticos, (pois +que os extremos se toquem), poderá a esses espiritos, indifferentes ou hostis, +parecer a aberração d'uma phantasia, forte e alta, mas desproporcional, e +afflictivamente torcionada pela perseguição d'um delirio.</p> + +<p>É, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens +torna-se indispensavel desde que a actual geração está já bem longe da +flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da vivacidade +sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao aspero egoismo +que hoje é norma e criterio, lemma e regra, principio e conclusão, alpha e +omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de quaesquer crises +subjectivas.</p> + +<p>Isto, já se vê, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evolução que +vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo amplo que, +com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se prende na vida +collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes, se perfiguram, +derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos e complexos.<span +class="pn">{XII}</span></p> + +<p>Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi apocalyptico do +genio de Victor Hugo, por então em vulcanicas erupções consecutivas, +atropellantes, os circummandou em tôrno do seu paiz, d'esta viagem moral elles +regressaram desmoralisados, desfolhados, da desesperadora desillusão, tão +deprimente se lhes antolhara o espectaculo observado.</p> + +<p>Com effeito, entre nós, como, de resto, em todos os povos continentaes, o +constitucionalismo gorára. Os seus theoristas ou tinham morrido, anonymamente, +como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam mergulhado na atonia +d'um desespero quieto e môrno. Os que quedaram na brecha, aos poucos, foram +sendo envolvidos na vaga da corrupção politica dimanada das altas regiões; ou, +ainda, cansados de tantos, tantos annos de batalhas, incapazes, de resto, de +grandes idéas de conjuncto, almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe, +como José Estevão com os interesses da sua terra natal, como Sá da Bandeira, +nobre, ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso +da escravidão colonial.</p> + +<p>A convenção de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria impotencia. +Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha, á fé e mercê do +facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as consciencias que a causa +proxima da vasta catastrophe publica, Costa Cabral, veio a ter de se affastar +da politica e do paiz, menos pelo irrisorio<span class="pn">{XIII}</span> +conluio da Regeneração do que porisso que, doutrinario fiel aos seus chimericos +principios de crear uma nacionalidade, progressiva e forte, pelo influxo +descendente do factor da auctoridade, elle já não tinha presa sobre a nação. +Não havia mais nem amigos firmes nem inimigos estimulantes.</p> + +<p>A éra dos homens de convicção, logicos n'um concebido plano renovante, +sobranceiros ás miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades do +concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes, visando a um +stadio moralistamente caracterisado, passára.</p> + +<p>A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as +contemporisações, para os sophismas grossos, para as communs, as triviaes +patuscadas, para as opposições fingidas, para os votos comprados.</p> + +<p>Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e +nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa Cabral, +era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de chatins, escravos +ventrudos e satisfeitos. Não luziam já as estrellas, claras e ardentes, para os +grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu pardo, era o instante dos chacaes, +das hyenas, dos lobos, das raposas. Logicamente, entrou em scena Rodrigo da +Fonseca Magalhães.</p> + +<p>Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mãos, poz a mordaça +das conveniencias;<span class="pn">{XIV}</span> a tribuna papagueou o +taramellar radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom +independente; cada cidadão encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se +pela sentença, volvida regra da conducta, de que <em>tão bons são uns como os +outros</em>; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se, +estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem a +educação dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria, mineira, +fabril; emfim, as amplas reclamações doutrinaes cessaram, e o silencio, o +bem-amado, o suspirado silencio fez-se.</p> + +<p>Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a França seja a +promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel successo +consagrara-se definitivamente na Europa.</p> + +<p>A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a +romper do moroso torpôr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmão, o duque +de Morny, pudera assegurar, alegremente, á curiosa dama que o interrogava, na +Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que, em qualquer hypothese, +<em>dado que vassourada houvesse, elle se poria do lado do cabo da +vassoura</em>.</p> + +<p>Um ingurgitante refluxo de retrogradação se produziu nos destinos da +humanidade, e uma reacção theocratica, cynicamente mystica da banda de antigos +carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e logicamente, de +tatear o desfecho nos<span class="pn">{XV}</span> medos supersticiosos, <em>ad +usum Delphini</em> procurados na propaganda jesuitica.</p> + +<p>Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento do +imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedição de Roma, as +ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos, esmagados em Mentana, +onde os <em>chassepots fizeram maravilhas</em>, não revestiram um caracter +sporadico. Tudo é concordante no mundo; ellas representaram o estado moral de +todo o conjuncto das instituições a de lá dos Pyrineus.</p> + +<p>Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de lá e a de cá.</p> + +<p>A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se +sentir entre nós, logo desde o primeiro instante; e seria curioso, n'este ponto +de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a incredulidade lunatica +de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e idealista, procurava dissipar os echos +lusitanos das retumbosas conferencias do padre Ventura de Raulica em +Nôtre-Dame.</p> + +<p>Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito, +povoado de boas, vagas intenções, convergindo a realisar entre nós o typo +d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno do virus +dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a investigação, +historica e fria, do emphatico Pelletan.</p> + +<p>Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido,<span +class="pn">{XVI}</span> não pondo ao serviço das suas aspirações mais do que a +mediania d'um talento inconsistente, D. Pedro V pertencia á especie corrente +d'esses incomprehendidos romanescos que, como José II, d'Austria, fluctuam +entre os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e as +reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que lhes +acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente +improliferas.</p> + +<p>De volta da costumada viagem de educação emprehendida pelos herdeiros ao +estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das facticias +pompas com que despontara o 2.º imperio; e o seu anhelo de imitação d'um +modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos insignificantes +pormenores, como na introducção do uso do <em>képi</em>.</p> + +<p>Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas +imaginações promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela +irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva, inconstitucional +protecção votada aos humildes, para cujo serviço instituirá, na famosa +<em>caixa verde</em>, um meio, facil e seguro, de sempre communicarem com as +altas regiões. A affeição com que vestia as suas relações pessoaes, buscando +occultar sob doces familiaridades a supremacia da sua situação excepcional, +como no baile celebre da Sala do Risco para com o duque de Loulé, abria-lhe uma +immensa zona<span class="pn">{XVII}</span> de sympathias. Na verdade, tal é a +monstruosa educação secular do preconceito da realeza que, d'entre os proprios +homens cultos, nem mesmo os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo +das condições politicas idóneas á extirpação das dynastias, se furtam a este +effeito, atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e +transcendentemente fóra da humanidade.</p> + +<p>A lenidade, a doçura do temperamento, a candidez de coração succedera ao +irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas, intractando no +seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha impopularisavel, a +favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar o bruto tio, toureiro e +forçudo, tão sympathico á plebe pelo seu bestial feitio genuinamente portuguez. +</p> + +<p>Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em torno +do moço monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos, se encontrou, +sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a effeito quaesquer idéas +positivas, se porventura elle podesse emergir da nevoa dos semi-pensamentos, em +que se esfarrapava, dissolvia a sua alma chimerica.</p> + +<p>O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado imperador, +com o typo physico, a similhança mental. De sorte que a utopia que latejara no +cérebro do avô revivia a dentro do craneo do neto: ideologos, um e outro, as +mesmas fórmas<span class="pn">{XVIII}</span> da chimera, como no sonho iberico, +reproduziam-se, por descendencia.</p> + +<p>Era-lhes analoga a feição moral; egualmente possessos d'um identico, +insaciavel desejo de saber, de vêr tudo, de conhecer tudo, de alterar tudo, de +remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funcção de reformadores, a +um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas concretos da vida +progressiva dos povos, a pôr todo o empenho nos remodelamentos das concepções +abstractas que regulam a existencia moral das nações.</p> + +<p>Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da constituição do +seu paiz, introduzir a nova noção da realeza, referida ao poder moderadôr por +Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do embaixadôr hespanhol Pastor +Diaz, por uma especie de monomania metaphysica, que lhe tomava as attenções +para os mais abstrusos, estereis pontos da philosophia transcendental. N'este +pendôr, não é de estranhar a pretensão, que começou a patentear-se no monarcha, +a rehaver um mando, supremo e incondicional, nem será absurdo o suppôr que o +pobre idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia +silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo particular das +naturezas moraes como a de El-Rei é, com effeito, o da innovação, da +intervenção, da substituição, o afan era refazer um povo por meio de decretos. +O que longos annos d'um desenvolvimento<span class="pn">{XIX}</span> continuo e +previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado, e substituir-se a +immediata vontade autocratica á vontade tardia da historia; utilisar aos +homens, mas como se creanças fossem, incapazes de formular racionalmente um +voto para a melhoria das suas condições, gente a servir, como Louis Blanc o +discriminou nos accidentes do abortado austriaco, sem que se receie, sem que se +ame, tractando-a como cartas adscriptas ás combinações do jogadôr.</p> + +<p>Que idéas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porém, o rei? +Que planos amadurecêra pela reflexão e pelo estudo? A que alvo visavam os seus +esforços?</p> + +<p>Tudo nos indica hoje que nenhuma idéa, nitida, clara, precisa, o monarcha se +formava da sua situação e da do paiz, e que lhe seria impossivel redigir n'um +programma de doutrina ou n'um projecto de actos as apparencias de pensamento +que eram a miragem do seu coração, enganado de si-mesmo.</p> + +<p>D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu poder +foi grande; pois que, nas affeições creadas, o enthusiasmo meridional, +excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, não conheceu limites ao +seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com elle conviveram, que +accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios philosophantes os quaes, no +propicio silencio da noite, se lançam, a todo o vapor, no<span +class="pn">{XX}</span> phantasmagorico mundo das previsões do futuro, acabaram +por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha, fanatismo tanto mais +perigoso quanto elle se não isolava do sentimento publico, que manifestara a +sua fé nas virtudes reaes por meio d'esses inacreditaveis cartazes pregados nas +esquinas das ruas das cidades, bradando: <em>Viva D. Pedro V, rei +absoluto.</em> Theophilo Braga ainda os viu, amarellecidos das chuvas, nas +paredes de Coimbra.</p> + +<p>Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no vasio +onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com phraseologias +symbolicas, como as lançadas á mocidade universitaria que o saudava:—<em>Tanto +vale a alma quanto a intelligencia</em>, profissão de fé dos egoismos +intellectivamente orgulhosos. E não se humilhava de fazer publica confissão de +ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino positivo, consoante nas curtas +inquirições, ao engenheiro Mousinho de Albuquerque propostas no Porto. O rei +era um metaphysico, um doutrinario retardado, e assim se explica o seu desdem +pelo problema das grandes linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma +economia infantil.</p> + +<p>A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos aspectos, +curiosamente dotadas, não cessou, attrahindo-o, de o ludibriar. Esse foi o +triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu ardor em se crear uma fé, não +encontrou em torno de si senão<span class="pn">{XXI}</span> o desanimo que, na +bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se penitencia por se encontrar +maior do que o do rei.</p> + +<p>Abandonado a si proprio, desamparado até nas suas acanhadas iniciativas, +oriundas d'uma primeira educação, humanista e litteraria, como lhe succedeu no +tentamen do <em>Curso superior de lettras</em>, o monarcha acabou por derivar +no plano inclinado que leva á traição da liberdade. As suas usurpações +constitucionaes foram successivamente accumulando os aggravos, ao ponto de +prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades dos serventuarios do +principio dynastico.</p> + +<p>Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do <em>Rei de +Sião</em>.</p> + +<p>Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para um +confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o presente. Tudo +o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos tão atrophiadas raizes +embebia no resistente terreno da dura razão que, celebre pela philanthropia, ás +escondidas assignava ignoradas sentenças de morte, para os longes coloniaes, +como a do rebelde indiano. De modo que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio +de aspirações cerce amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto; +quando, acabrunhado, partido, não tendo havido n'elle de sublime senão o +desejo, finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz +do seu<span class="pn">{XXII}</span> transcurso terrestre. A sua duração mais +larga assignalar-se-hia, porventura, de terriveis catastrophes, visto como a +ignorancia publica, que o idealisara, tendia a oppôl-o, symbolo de reacção, aos +restos da iniciativa civica das classes liberaes e cultas.</p> + +<p>Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na +resignada quietação dos grupos intermedios que, junto aos poderes publicos, +servem a multidão, o povo começava a formar, em volta do nome do seu rei, a +legenda piedosa que fundamenta e alicerça os despotismos.</p> + +<p>A historia inicia-nos na psychologia das multidões; nada é menos democrata, +no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idéas condul-a sempre á +auctoridade d'um só, facto moral naturalissimo desde que se pense em que, +apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a tendencia será para se +entregar nas mãos da competencia, tanto mais comprehensivel e tanto mais +responsavel quanto mais centralisadamente reduzida. Ora, no paiz, +tradiccionalmente monarchico e catholico, a solução estava encontrada desde que +o seu rei se inspirasse, representativamente, dos sentimentos da população, +trabalhada no momento por uma recrudescencia espantosa do religiosismo +missionario. O monarcha chegara á crise e, pela tremenda peste que assolou +Lisboa, o espirito soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse +golpe em que Buckle<span class="pn">{XXIII}</span> buscou o coefficiente da +exaltação mystica dos povos peninsulares.</p> + +<p>Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso, pela +abnegação; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento francez, +pela introducção dos lazaristas, das irmãs de caridade no reino; mergulhou nas +leituras symptomaticas, como as que lhe deu o conhecimento do Dante, conforme +se revela da sua bella carta posthuma ao conselheiro Viale.</p> + +<p>A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido, porém, +tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do ultramontanismo +procurou, n'um collectivo manifesto eloquente, communicar ao paiz Alexandre +Herculano, nem a rude, a furiosa campanha de José Estevão, que, leão dormente, +um instante restituiu ao parlamento essa interessada vehemencia que tanto +surprehendera o principe de Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara +multidão. Tão certo é o erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o +producto, directo e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das +massas, degeneram estas logo em suas escravas.</p> + +<p>Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear o +seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como elle se +não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos, haviam-o envenenado, +ao misero!<span class="pn">{XXIV}</span></p> + +<p>O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do bem-amado +estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos olhos humanos. O +principe successor feria pelos modos bruscos de homem do mar, repentinamente +avocado a um meio que, por completo, desconhecia. Se, em sua estupidez, as +calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um ultimo sopro de recto bom-senso, +envergonhado da infame torpeza, o certo é que as tristes apprehensões ficavam, +escorias no fundo do cadinho. O que seria? O que viria?</p> + +<p>E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a +docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos, como +n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os politicos temiam +pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta de seu amo; e os +poetas, inconscientes interpretes do sentimento popular, atravez os +subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia respeitadora das +conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto, debruçar-se da beira dourada +dos camarotes dos theatros, a apontar ao principe, pallido da audacia, o +espectro arsenicado de seu irmão, gritando-lhe n'um terror:</p> + +<p style="text-align:center;"><em>Imita-o, imita-o bem!</em></p> + +<p>Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente +colleando, seguiu de rastos,<span class="pn">{XXV}</span> ao cantochão +ultramontano, até á beira do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra +lutulenta, os homens de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia +tomou para zona da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o +mesmo palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do +espirito que o fundou diz: <em>Progredior</em>, eu avanço.</p> + +<p>Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello +adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a +mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr, de +colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.</p> + +<p>A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade, intrepida +como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica apotheose um derradeiro, +simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:</p> + +<p style="text-align:center;"><em>La gloire au front te baise, oh toi si jeune +encore!</em></p> + +<p>Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta começava +a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha Marinho, +recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho publico do joven +poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que vé agora as honras, +tardias, da reimpressão.<span class="pn">{XXVI}</span></p> + +<p>Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta +hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se fazer +benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da respeitosa +sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.</p> + +<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">BRUNO.<span +class="pn">{XXVII}</span></p> + +<h1>O BISPO</h1> + +<p><span class="pn">{XXVIII}<br> +{XXIX}</span></p> + +<blockquote> + <p style="text-align:center;"><strong>I</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Na cathedral.—Revelações d'um + satyro</strong></p> + + <p>No claro azul d'um frio céu d'inverno,<br> + Sobre a collina onde a cidade dorme,<br> + Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme<br> + D'antiga cathedral;<br> + Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,<br> + —Velho epigramma ao lugubre edificio,<br> + —Largo covil doirado, aberto ao vicio,—<br> + O paço episcopal...<span class="pn">{XXX}</span></p> + + <p>Bate o luar nos porticos escuros,<br> + Abrigo á noite de sinistras aves;<br> + Lá dentro, as altas, magestosas naves<br> + Envolve a solidão.<br> + Sobem, crescem mil sombras pelos muros,<br> + D'um bronzeo lampadario á luz distante,<br> + Sob as curvas da abobada ondulante<br> + Que estampa os arcos no marmoreo chão.</p> + + <p>O côro é largo e bello. Ali se abriga,<br> + D'um capitel nos rendilhados folhos,<br> + Um satyro, que ri, piscando os olhos,<br> + Lascivo como Pan.<br> + Dizer parece á cathedral antiga:<br> + «Porque me tens aqui, mostras-te ufana?<br> + Pobre igreja catholica-romana!<br> + Pobre igreja christã!»</p> + + <p>Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:<br> + «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,<br> + Ao vêr-te assim crucificado e morto,<br> + Ó déspota dos meus!<span class="pn">{XXXI}</span><br> + Não desejo ser Deus... se Deus é isto:<br> + —Um cadaver perpetuo exposto ao frio—<br> + E, velho fauno desdentado, eu rio,<br> + Eu rio-me de ti!—de ti, que és Deus!</p> + + <p>Vês alem, por detraz do lampadario,<br> + Um satanaz assoberbando um globo?<br> + Deitado aos pés de Deus, parece um bobo<br> + Deitado aos pés d'um rei.<br> + Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,<br> + Tive dó d'aquell'alma taciturna,<br> + E, na mudez da escuridão nocturna,<br> + Com elle me liguei.</p> + + <p>Vago rumor de vozes mal distinctas<br> + Nos guiou para os porticos do paço:<br> + Eu, sabendo que o bispo era um devasso,<br> + Previa a bacchanal...<br> + Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas<br> + Chammejante de pejo o rosto frio,<br> + Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,<br> + No infame lupanar sacerdotal:<span class="pn">{XXXII}</span></p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>II</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>A humildade do bispo</strong></p> + + <p> Era um bello aposento,<br> + Que Faublas prezaria sem desdouro...<br> + —Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,<br> + A que dava um revérbero sangrento,<br> + Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,<br> + A adamascada purpura do estôfo.—</p> + + <p>Molles coxins, em largas ottomanas,<br> + Convidavam a languidas posturas<br> + As Aspasias catholicas-romanas,<br> + As lúbricas sultanas<br> + D'aquelle harem christão, meio ás escuras!</p> + + <p>Mil fragrancias subtis no morno ambiente;<br> + Ao centro a meza,—o impuro altar da orgia;—<br> + Sobre a meza a baixella resplendente...<br> + A baixella roubada á sacristia:<span class="pn">{XXXIII}</span><br> + Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,<br> + Todo esse lustre a espaços reflectido,<br> + Da luz da orgia á froixa claridade...</p> + + <p>Satanaz debruçou-se ao meu ouvido<br> + Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos<br> + Aconselham ao bispo esta humildade!»</p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>III</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Dolores</strong></p> + + <p>Sentado á meza, o principe da Igreja<br> + Inclina a calva fronte aos seios tumidos<br> + D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,<br> + E em cujos labios humidos,<br> + Rindo, o prazer de beijos s'enebria!</p> + + <p> Ao vêr-te assim, myrrada<br> + Pelos impuros halitos da orgia;<span class="pn">{XXXIV}</span><br> + Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada<br> + Dos canteiros nataes a impura alcôva,<br> + Quem ha que se commova,<br> + Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?</p> + + <p> Tem por nome <em>Dolores</em>...<br> + Por officio, vender a quem lh'os paga,<br> + Como não tem amor, os seus amores.</p> + + <p> É soberba e formosa!<br> + Brilhante e seductora!—imagem vaga<br> + D'Eva... já criminosa,<br> + Escondendo a nudez por entre as flores!</p> + + <p>Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,<br> + D'éden occulto e precipicio aberto,<br> + Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!<br> + Para quem dorme, em extasis, coberto<br> + Pelas ondas gentis do seu cabello,<br> + É como no deserto<br> + A mancenilha, que adormenta e mata!<span class="pn">{XXXV}</span></p> + + <p>Os braços nus da joven messallina<br> + Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla<br> + A carne branca, avelludada e fina,<br> + Que lhe é dado gosar... mesmo sem <em>bula</em>.</p> + + <p> Collam-se, em longo beijo,<br> + As duas bocas ávidas, famintas...</p> + + <p>Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas<br> + O rosto frio a chammejar de pejo!</p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>IV</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Supplicas e promessas.—Caracter<br> + evangelico do bispo</strong></p> + + <p style="text-align:center;">DOLORES</p> + + <p>Prende-me ás tranças formosas,<br> + Se tu és o meu amante,<br> + As joias mais preciosas<br> + Da tua mitra brilhante!<span class="pn">{XXXVI}</span></p> + + <p>Fulgirão co'as pedras tuas,<br> + Cheias de raios inquietos,<br> + Meus soltos cabellos pretos<br> + Nas alvas espaduas nuas!</p> + + <p>Haja depois quem se affoite<br> + A julgar outras mais bellas...<br> + São tranças da côr da noite,<br> + Precisam d'essas estrellas!</p> + + <p style="text-align:center;">O BISPO</p> + + <p>Rainha das feiticeiras!<br> + Venus, que sahes d'este mar!<br> + Pede tudo o que tu queiras,<br> + Tudo o que eu te possa dar.</p> + + <p>Louca, aos meus beijos entrega<br> + Teus hombros, teus seios nus!...<br> + Dou-te a igreja, o paço, a adega,<br> + O báculo, o annel, a cruz;<span class="pn">{XXXVII}</span></p> + + <p>As altas seges vermelhas<br> + Que tem cem annos, ou mais,<br> + E as gordas, rijas parelhas<br> + Das mulas episcopaes...</p> + + <p>Toda a riqueza que brilha<br> + No pomposo altar de Deus,<br> + E um dos meus cónegos, filha,<br> + Por cada beijo dos teus!...</p> + + <p style="text-align:center;">DOLORES</p> + + <p>Eu gosto de sentir nos braços froixos<br> + O enorme pezo do teu corpo exangue,<br> + Mas, se te collo a boca aos labios roixos<br> + Acho em teus labios um sabor a sangue!...</p> + + <p>Amas o sangue?</p> + + <p style="text-align:center;">O BISPO</p> + + <p> Adoraria a gloria<br> + De ter sentido, eu só, n'esta existencia,<br> + Todo o sangue dos martyres da historia<br> + Cair-me, gota a gota, na consciencia!<span class="pn">{XXXVIII}</span></p> + + <p>Quizera ter colhido o goso ardente<br> + De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;<br> + Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,<br> + Nos braços nús das ébrias prostitutas!</p> + + <p>Os pallidos christãos,—torpes escravos,—<br> + Expirando entre as garras das pantheras,<br> + E a turba inquieta prerompendo em bravos...<br> + Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!</p> + + <p>Quizera, quando as sombras da heresia,<br> + Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,<br> + Rasgava, escurecendo a luz do dia,<br> + Do Santo Officio o pavoroso facho.</p> + + <p>Quizera dar a humanidade inteira<br> + Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,<br> + E, dos pôtros no horror, e na fogueira,<br> + Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!<span + class="pn">{XXXIX}</span></p> + + <p>Mil peçonhentas viboras no seio<br> + A infame contra nós, sem medo, abriga.<br> + Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,<br> + A humanidade, a nossa escrava antiga!</p> + + <p>Podesse eu ter, ó pallida Dolores,<br> + Do sangue d'ella trasbordando o calix!...<br> + Era um rebanho vil; nós, os pastores,<br> + E a Realeza era o <em>canis pastoralis</em>...</p> + + <p>Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,<br> + Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!<br> + Quebrou, raivando, as solidas algemas,<br> + E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!</p> + + <p>Mas que aurora, mulher! que vasto incendio<br> + Nos sombrios dominios do passado!<br> + Que opprobrio para nós! que vilipendio!<br> + Que roubo infame ao <em>senhorio herdado</em>!<span class="pn">{XL}</span></p> + + <p>E assim ficamos nós, sem que lavasse<br> + De sangue um rio a nodoa!...—escura ideia!<br> + E assim trazêmos na orgulhosa face<br> + Perpetua a marca vil da mão plebeia!»</p> + + <p> </p> + + <p + style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><strong>V</strong><br> + <strong>Movimentos de fera.—Risos longinquos</strong></p> + + <p>Ergueu-se, febril, d'um salto,<br> + Como um tigre nos juncaes;<br> + Seus olhos chispavam lume<br> + Como os dos lobos cervaes;<br> + Crispava as mãos como garras;<br> + Tinha rugidos na voz!<br> + —Satanaz tremia, ao vêr-lhe<br> + O rude aspecto feroz.</p> + + <p>Correu á larga janella<br> + E, abrindo-a de par em par,<br> + D'um anáthema ruidoso<span class="pn">{XLI}</span><br> + Fez os espaços vibrar...<br> + —Ouvia-se, ao longe, ao longe,<br> + O rir convulso do mar.</p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>VI</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>O anáthema, fragmento do + «Syllabus».—<br> + Angustias d'uma alma piedosa</strong></p> + + <p>«Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!<br> + Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;<br> + Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;<br> + Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!</p> + + <p>Vêde: por toda a parte as hydras do peccado<br> + Erguem altivo o collo, iradas contra nós,<br> + E o nosso bom cutello esconde-se embotado<br> + Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!<span + class="pn">{XLVII}</span></p> + + <p>Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos<br> + Como as feras no matto, os reis d'origem pura;<br> + Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...<br> + E assim chamaes aurora á noite escura... escura!</p> + + <p>Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;<br> + Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,<br> + —Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,<br> + E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!</p> + + <p>Erguendo para os céus a pavorosa fronte<br> + O anjo da Assolação atraz de vós caminha;<br> + Quando o incendio alumia a extrema do horisonte<br> + Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!</p> + + <p>E para que desmaie o fogo da heresia,<br> + O fogo a que se aquenta a sordida relé,<br> + Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,<br> + Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!<span class="pn">{XLIII}</span></p> + + <p>Ó pavidos heroes da lugubre tragedia<br> + Que a historia do passado aos seculos ensina!<br> + Ó despotas feudaes da torva idade-media!<br> + Ó soffregos irmãos das aves de rapina!</p> + + <p>Padres, em cuja mão fulgia a núa espada<br> + Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,<br> + E em cujo ferreo peito a veste consagrada<br> + Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!</p> + + <p>Monges de frio aspecto e d'animo impassivel<br> + Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;<br> + Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,<br> + Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!</p> + + <p>Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,<br> + Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,<br> + Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,<br> + O clero envilecido, os infamados reis?<span class="pn">{XLIV}</span></p> + + <p>No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,<br> + —A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,<br> + E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,<br> + Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.</p> + + <p>Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,<br> + Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,<br> + E do eterno Voltaire a eterna gargalhada<br> + Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!</p> + + <p>Fervem inda no espaço os odios implacaveis<br> + De que innundára a terra uma sinistra ideia,<br> + —A ideia que do lodo exalta os miseraveis<br> + E inspira «Oitenta e nove»,—a tragica epopeia!</p> + + <p>Para que espante os céus, para que o mundo aterre,<br> + Quantos éccos talvez de novo accordará,<br> + Fria como uma espada, a voz de Robespierre,<br> + Ardente como um raio, o grito de Marat?!<span class="pn">{XLV}</span></p> + + <p>Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,<br> + A ignobil multidão, potente em seu reinado,<br> + Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,<br> + Onde expia a Realeza as glorias do passado;</p> + + <p>Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!<br> + Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,<br> + Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,<br> + Passando sobre a terra, a terra assolarão!</p> + + <p>Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha<br> + Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;<br> + Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha<br> + Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!</p> + + <p>Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:<br> + Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,<br> + E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,<br> + Das barbaras legiões a marcha triumphal!<span class="pn">{XLVI}</span></p> + + <p>Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,<br> + Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,<br> + Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada<br> + Nos braços varonis dos povos da Germania...</p> + + <p>Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas<br> + Co'a sussurrante voz das santas orações:<br> + Os servos do Senhor descem ás catacumbas;<br> + Acolhem-se do <em>nada</em> ás frias solidões!</p> + + <p>Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,<br> + Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?<br> + «É tarde!» disse alguem.—Não! inda não é tarde!<br> + Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!</p> + + <p>Os que são contra nós inspiram medo e asco,<br> + —Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...<br> + Ah! podesse eu punir,—punir, como o carrasco!<br> + Ah! podesse eu vencer,—vencer, como o chacal!<span + class="pn">{XLVII}</span></p> + + <p>Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,<br> + Approveitando o amor, o lubrico pretexto,<br> + Encher pelos festins as taças de veneno!<br> + Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»</p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>VII</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Remeniscencias da canção dum + proscripto</strong></p> + + <p>Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,<br> + Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,<br> + Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,<br> + Vibrarem mil clarins ao som da <em>Marselheza</em>,<br> + E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»</p> + + <p> Loucuras da hespanhola,<br> + Que uma vez, n'um café da Andaluzia,<br> + Tinha ouvido soltar-se aquelle grito<br> + Dos labios d'um francez, moço e proscripto,<br> + Que depois de cantar pedia esmola...<span class="pn">{XLVIII}</span></p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>VIII</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Orgia.—Amor e vinho.—<br> + Ainda o caracter evangelico do bispo.—<br> + Mane, Thezel, Phares!</strong></p> + + <p>Eil-os de novo no calor da orgia:</p> + + <p style="text-align:center;">O BISPO</p> + + <p> O symbolo da Fé,<br> + O largo calix d'oiro<br> + Do velho altar da Sé,<br> + Enche-o de vinho transparente e loiro!</p> + + <p>Bebamos! Quem bebe acalma<br> + Todas as máguas que tem.<br> + Cá dentro, ás vezes, noss'alma<br> + Parece beber tambem.</p> + + <p>Não sabes como eu abranjo<br> + Os mundos que tu não vês?<br> + Colla aos teus hombros d'archanjo<br> + As azas da Embriaguez!<span class="pn">{XLIX}</span></p> + + <p>Ai! verás como te elevas<br> + Nos sonhos que ella produz...<br> + Passarás da luz ás trevas!<br> + Irás das trevas á luz!</p> + + <p>Ha de abrazar-te em desejos<br> + Que ella mesma apagará;<br> + Has de sentir muitos beijos<br> + Sem nunca vêr quem t'os dá!</p> + + <p>Ora, a nudez, que enthusiasma,<br> + Pelo abysmo encobrirás,<br> + Fugindo como um phantasma<br> + Aos braços de Satanaz;</p> + + <p>Ora, ante os olhos do Eterno,<br> + Rolarás sem um só véu,<br> + Tentando, em nome do inferno,<br> + A castidade do céu!<span class="pn">{L}</span></p> + + <p>Ai! bebe, flôr do serralho,<br> + Como a rosa, a tua irmã,<br> + Bebe as perolas do orvalho<br> + De que se enfeita a manhã!</p> + + <p>Molha os labios á vontade<br> + No santo vinho hespanhol:<br> + As gôtas d'essa humidade<br> + Hei de eu seccar, como o sol!</p> + + <p>Quanto prazer se resume<br> + Nem tu calculas, talvez,<br> + No suavissimo perfume<br> + Do <em>Madeira</em> e do <em>Gerez</em>!</p> + + <p>É justo que me acompanhe<br> + Tua alegria sem par:<br> + Venha o <em>Champanhe</em>! o <em>Champanhe</em>!<br> + Saltem as rolhas ao ar!<span class="pn">{LI}</span></p> + + <p>Canta, ó deusa, que me abraças<br> + Cheia d'indomito ardor!<br> + D'entre o tinido das taças<br> + Solte-se um canto d'amor!</p> + + <p>Qu'importa o grito da plebe<br> + Que a miseria escravisou?<br> + Eu folgo; tu canta e bebe!<br> + És quem és: eu sou quem sou!</p> + + <p>Dizem que por essas ruas<br> + Andam vagando, ao desdem,<br> + Descalças e quasi nuas,<br> + Umas crianças sem mãe;</p> + + <p>Que, onde a miseria rebrame<br> + Contra a nossa ostentação,<br> + Avulta uma cousa infame<br> + Chamada prostituição;<span class="pn">{LII}</span></p> + + <p>Que a sombra é vasta e profunda<br> + Nos desherdados casaes,<br> + Que a espaços a chuva innunda<br> + E abalam os temporaes;</p> + + <p>Que, entre a noite escura e triste,<br> + Por terem fome, uns atheus<br> + Perguntam se Deus existe,<br> + E, se existe, onde está Deus?;</p> + + <p>Que uns velhos, a quem se deve<br> + Profiqua gloria sem fim,<br> + Dormem, cobertos de neve,<br> + Ás portas do meu jardim;</p> + + <p>Que, sem tecto onde se acoite,<br> + Um bando de paes e mães<br> + Inveja, durante a noite,<br> + A casota dos meus cães;<span class="pn">{LIII}</span></p> + + <p>Que a Justiça, em vis calvarios<br> + Onde é vergonha morrer,<br> + Crucifica os operarios<br> + Que já não tem que fazer!</p> + + <p>Será, póde ser verdade...<br> + Mas, tão distante do céu,<br> + O archanjo da caridade<br> + Decerto que não sou eu!</p> + + <p>Canta! Bebamos! Scintille<br> + Noss'alma d'amor jovial!<br> + Haja um quarto do <em>Mabile</em><br> + No palacio episcopal!</p> + + <p>Quando, nas lagens marmóreas<br> + D'igrejas, ditas christãs,<br> + Já se exaltaram as glorias<br> + E o nome das certezas,<a href="#nota1" name="mnota1">(1)</a><span class="pn">{LIV}</span></p> + + <p>Qu'importa que n'estes paços,<br> + Longe do olhar de Jesus,<br> + Morra, na cruz de teus braços,<br> + Um sacerdote da Cruz?</p> + + <p>Canta, como as filomelas!<br> + Canta, como os roixinoes,<br> + Á flôr, ao lago, ás estrellas<br> + Dos teus jardins hespanhoes!</p> + + <p>Mas não cedes ao meu rôgo?<br> + Filha, em que estás a scismar?</p> + + <p style="text-align:center;">DOLORES</p> + + <p>Scismo nas letras de fogo<br> + Dos muros de Balthazar...<span class="pn">{LV}</span></p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>IX</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Pejo do satyro.—Satanaz e Deus.—<br> + A immobilidade de Jesus.</strong></p> + + <p>Não posso dizer mais... não sei... não quero!<br> + Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,<br> + E ambos, deixando o tenebroso paço,<br> + Voltamos para aqui:</p> + + <p>Rudes convivas dos festins de Nero!<br> + Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!<br> + Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!<br> + Vós sabeis o que eu vi!</p> + + <p>Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto<br> + Do eterno tentador... N'aquella orgia,<br> + Se lá coubesse Deus, Deus rolaria<br> + Aos pés de Satanaz!...»<span class="pn">{LVI}</span></p> + + <p>Calou-se de repente e, meio occulto<br> + Do capitel nos rendilhados folhos,<br> + Ria cada vez mais, piscando os olhos,<br> + O fauno,—o hereje audaz.</p> + + <p>Jesus, no entanto, immovel, silencioso,<br> + A fronte morta para o chão pendia,<br> + Na terrivel postura da agonia<br> + A que o forçára a cruz...</p> + + <p>E ha quem espere um grito doloroso<br> + D'aquell'alma sublime? Ha quem espere<br> + Vêr passar o sorriso de Voltaire<br> + Nos labios de Jesus!</p> + + <p> </p> + + <p style="text-align:center;"><strong>X</strong></p> + + <p style="text-align:center;"><strong>Na immensidade</strong></p> + + <p>Longe, ao longe, na abobada do espaço<br> + Calma, impassivel, luminosa e fria,<br> + Pairava ancioso, vigiando o paço,<br> + Das orgias o archanjo,—a Apoplexia...<span class="pn">{LVII}</span></p> + + <p> </p> + + <h2>AO POVO INGENUO</h2> + + <p>Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!<br> + Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,<br> + Ir, de joelhos, á capella ardente<br> + Beijar os santos pés ao bispo morto...</p> + + <p>No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,<br> + Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...<br> + Tu, que poisas na mão que te despoja<br> + Mil ósculos d'amor crente e sincero!<span class="pn">{LVIII}</span></p> + + <p>Se elle houvesse o «direito do mais forte»<br> + Arrastarias vergonhosa algema;<br> + Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!<br> + Derradeira abjecção! baixesa extrema!</p> + + <p>Quando has de tu deixar as vis doutrinas,<br> + As vis superstições dos tempos velhos,<br> + E fazer cathedraes das officinas,<br> + E procurar na Sciencia os Evangelhos?</p> + + <p>Quando has de tu surgir calcando arminhos,<br> + Nos salões onde, altivos do seu <em>nada</em>,<br> + Ri a mitra da c'roa dos espinhos,<br> + E o sceptro inutil da prestante enxada?</p> + + <p>Quando has de tu entrar na grande liça,<br> + E, saccudindo o teu grilhão desfeito,<br> + Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»<br> + Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?<span class="pn">{LIX}</span></p> + + <p>Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;<br> + As armas do trabalho á carabina!<br> + Onde estava a prisão surja uma eschola,<br> + E um theatro onde estava a guilhotina! </p> + + <p>Da liberdade atalayando o asylo,<br> + Sê magestoso e bom, sê grande e puro;<br> + Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,<br> + A sagrada bandeira do futuro!</p> + + <p>É já longo o caminho do Calvario<br> + Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...<br> + Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!<br> + Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!</p> + + <p> Porto, 12 de novembro de 1873.</p> + + <p> </p> + + <h2>NOTA</h2> + + <p style="margin-left:4em"><a href="#mnota1" name="nota1">(1)</a> Quando nas lagens marmoreas<br> + D'igrejas, ditas christãs,<br> + Já se exaltaram as glorias<br> + E o nome das cortezãs...</p> + + <p> «... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara (Roma), o + tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de Leão <small>X</small>. Haviam-lhe + gravado no marmore a seguinte inscripção, exaltadora da formosura d'aquella + mulher:</p> + + <p> <em>«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter + homines formæ specimen dedit, vixit annos <small>XXVI</small>, diis <small>XII</small>, obiit 1511, die 15 + Augusti.»</em></p> + + <p> A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado á + memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula!</p> + + <p style="margin-left:4em; font-size: 0.8em;">E<small>UGÈNE</small> B<small>RIFFAULT</small>—<em>Le + secret de Rome au XIX.<sup>me</sup> siècle.</em></p> + + <p> </p> + + <p> </p> + + <p> </p> + + <h3>EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA</h3> + + <p style="margin-left:30%; font-size: 0.8em;"> Á doce e affavel companheira dos meus actuaes dias de soffrimento,<br> + á companheira affectuosa de oito annos, até 19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão mais felizes, numa modestissima existencia--se o Destino quizer--<br> + Offerece<br> + para guardar como segredo<br> + G<small>UILHERME</small>.</p> + + + <p><em>Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida,<br> + E inda não tens um</em> Bispo? <em>Ha mezes!... que preguiça!<br> + São cousas da cabeça, um tanto distrahida,<br> + Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!</em></p> + + <p style="font-style: italic;"> <em>23—maio, de 1874.</em></p> + + <p> </p> +</blockquote> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by +Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno) + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO *** + +***** This file should be named 34961-h.htm or 34961-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34961/ + +Produced by Mike Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/34961-h/images/gbraga.png b/34961-h/images/gbraga.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..89e4db2 --- /dev/null +++ b/34961-h/images/gbraga.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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