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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:02:46 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by
+Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Bispo: Nova «Heresia», em verso
+
+Author: Guilherme Braga
+ José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34961]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO ***
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+Produced by Mike Silva
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+
+
+
+ Guilherme Braga
+
+
+ O BISPO
+
+ NOVA «HERESIA», EM VERSO
+
+ ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
+ Il faut donc la sonder a toute profondeur,
+ Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.
+
+ ÉMILE DESCHAMPS.
+
+
+
+ Segunda edição com o retrato
+ e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
+ J. PEREIRA SAMPAIO (_Bruno_)
+
+
+
+
+
+ PORTO
+ LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS
+ 136, Rua das Flores, 138
+ M DCCC XCV
+
+
+
+
+ O BISPO
+
+
+
+
+ PORTO
+ TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
+ Rua da Fabrica, 80
+ 1895
+
+
+
+ [Retrato de Guilherme Braga]
+
+
+
+
+ Guilherme Braga
+
+
+ O BISPO
+
+ NOVA «HERESIA», EM VERSO
+
+ ...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.
+ Il faut donc la sonder a toute profondeur,
+ Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.
+
+ ÉMILE DESCHAMPS.
+
+
+ Segunda edição com o retrato
+ e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo por
+ J. PEREIRA SAMPAIO (Bruno)
+
+
+
+
+ PORTO
+ LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS
+ 136, Rua das Flores, 138
+ M DCCC XCV
+
+
+
+
+AOS
+
+LIBERAES
+
+PORTUGUEZES E BRAZILEIROS
+
+DAS TERRAS DE SANTA CRUZ;
+
+A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIÕES
+ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS
+
+
+
+ _Offerece_
+
+ este humilimo testemunho d'adhesão ás suas ideas
+ e de sympathia pelo seu esforço
+
+ _Guilherme Braga,
+ o condemnado auctor dos «Falsos Apostolos». _
+
+
+
+
+_ADVERTENCIA_
+
+AO
+
+Bispo do Pará
+
+ Embora sobre mim peze
+ O teu anathema, ahi,
+ Eu, bispo d'outra diocése,
+ Tambem te excommungo a ti!
+
+
+
+
+Antes de lêr
+
+
+Propõe-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras
+patrias inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade
+dos exemplares d'uma edição limitada parecia indefectivelmente votal-o,
+o pamphleto poetico a que estas linhas servem de preambulo explicativo.
+
+As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso
+pensado escriptas; e em curtos dizeres ellas poderão ser interpretadas
+segundo a modestia real das suas proporções.
+
+É claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, mercê do
+plano proprio da pouco custosa publicação, lhe são concedidas, o
+redactor d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que em
+competencia lhe escasseia, não poderia abalançar-se á critica d'uma
+individualidade litteraria tão viva, espontaneamente accentuada como a
+de Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpressão.
+
+Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas
+mais altas culminancias, á categoria esthetica que o critico parisiense
+Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados
+_Poetas de combate_--ociosa banalidade seria, que não primava sequer
+pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi
+simultaneamente um poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera
+emotividade, admiravel n'essa sublime elegia _Cadaveres_, que é uma das
+raras paginas supremas, definitivas, em nossa moderna litteratura.
+
+Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem não parece
+tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordações de Pedro de Lima,
+melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe,
+trespassa de lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam
+abundantes de factos, acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas
+apreciações as laudas que á gloria de Guilherme Braga consagrou o dr.
+Rodrigues Cordeiro.
+
+Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria até
+cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido
+historico da composição que reapparece perante um publico novo,
+differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da
+elaboração poetica.
+
+Na verdade, o _Bispo_, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua
+leitura, algumas notas que o reintegrem nas condições peculiares da sua
+primitiva producção, poderá, talvez, a espiritos prevenidos ou
+scepticos, (pois que os extremos se toquem), poderá a esses espiritos,
+indifferentes ou hostis, parecer a aberração d'uma phantasia, forte e
+alta, mas desproporcional, e afflictivamente torcionada pela perseguição
+d'um delirio.
+
+É, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens
+torna-se indispensavel desde que a actual geração está já bem longe da
+flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da
+vivacidade sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao
+aspero egoismo que hoje é norma e criterio, lemma e regra, principio e
+conclusão, alpha e omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de
+quaesquer crises subjectivas.
+
+Isto, já se vê, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evolução
+que vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo
+amplo que, com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se
+prende na vida collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes,
+se perfiguram, derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos
+e complexos.
+
+Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi
+apocalyptico do genio de Victor Hugo, por então em vulcanicas erupções
+consecutivas, atropellantes, os circummandou em tôrno do seu paiz,
+d'esta viagem moral elles regressaram desmoralisados, desfolhados, da
+desesperadora desillusão, tão deprimente se lhes antolhara o espectaculo
+observado.
+
+Com effeito, entre nós, como, de resto, em todos os povos continentaes,
+o constitucionalismo gorára. Os seus theoristas ou tinham morrido,
+anonymamente, como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam
+mergulhado na atonia d'um desespero quieto e môrno. Os que quedaram na
+brecha, aos poucos, foram sendo envolvidos na vaga da corrupção politica
+dimanada das altas regiões; ou, ainda, cansados de tantos, tantos annos
+de batalhas, incapazes, de resto, de grandes idéas de conjuncto,
+almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe, como José Estevão com
+os interesses da sua terra natal, como Sá da Bandeira, nobre,
+ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso
+da escravidão colonial.
+
+A convenção de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria
+impotencia. Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha,
+á fé e mercê do facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as
+consciencias que a causa proxima da vasta catastrophe publica, Costa
+Cabral, veio a ter de se affastar da politica e do paiz, menos pelo
+irrisorio conluio da Regeneração do que porisso que, doutrinario
+fiel aos seus chimericos principios de crear uma nacionalidade,
+progressiva e forte, pelo influxo descendente do factor da auctoridade,
+elle já não tinha presa sobre a nação. Não havia mais nem amigos firmes
+nem inimigos estimulantes.
+
+A éra dos homens de convicção, logicos n'um concebido plano renovante,
+sobranceiros ás miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades
+do concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes,
+visando a um stadio moralistamente caracterisado, passára.
+
+A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as
+contemporisações, para os sophismas grossos, para as communs, as
+triviaes patuscadas, para as opposições fingidas, para os votos comprados.
+
+Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e
+nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa
+Cabral, era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de
+chatins, escravos ventrudos e satisfeitos. Não luziam já as estrellas,
+claras e ardentes, para os grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu
+pardo, era o instante dos chacaes, das hyenas, dos lobos, das raposas.
+Logicamente, entrou em scena Rodrigo da Fonseca Magalhães.
+
+Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mãos, poz a
+mordaça das conveniencias; a tribuna papagueou o taramellar
+radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom independente;
+cada cidadão encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se pela
+sentença, volvida regra da conducta, de que _tão bons são uns como os
+outros_; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se,
+estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem
+a educação dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria,
+mineira, fabril; emfim, as amplas reclamações doutrinaes cessaram, e o
+silencio, o bem-amado, o suspirado silencio fez-se.
+
+Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a França seja a
+promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel
+successo consagrara-se definitivamente na Europa.
+
+A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a
+romper do moroso torpôr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmão,
+o duque de Morny, pudera assegurar, alegremente, á curiosa dama que o
+interrogava, na Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que,
+em qualquer hypothese, _dado que vassourada houvesse, elle se poria do
+lado do cabo da vassoura_.
+
+Um ingurgitante refluxo de retrogradação se produziu nos destinos da
+humanidade, e uma reacção theocratica, cynicamente mystica da banda de
+antigos carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e
+logicamente, de tatear o desfecho nos medos supersticiosos, _ad usum
+Delphini_ procurados na propaganda jesuitica.
+
+Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento
+do imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedição de
+Roma, as ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos,
+esmagados em Mentana, onde os _chassepots fizeram maravilhas_, não
+revestiram um caracter sporadico. Tudo é concordante no mundo; ellas
+representaram o estado moral de todo o conjuncto das instituições a de
+lá dos Pyrineus.
+
+Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de lá e a de cá.
+
+A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se
+sentir entre nós, logo desde o primeiro instante; e seria curioso,
+n'este ponto de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a
+incredulidade lunatica de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e
+idealista, procurava dissipar os echos lusitanos das retumbosas
+conferencias do padre Ventura de Raulica em Nôtre-Dame.
+
+Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito,
+povoado de boas, vagas intenções, convergindo a realisar entre nós o
+typo d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno
+do virus dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a
+investigação, historica e fria, do emphatico Pelletan.
+
+Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido, não pondo ao
+serviço das suas aspirações mais do que a mediania d'um talento
+inconsistente, D. Pedro V pertencia á especie corrente d'esses
+incomprehendidos romanescos que, como José II, d'Austria, fluctuam entre
+os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e
+as reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que
+lhes acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente
+improliferas.
+
+De volta da costumada viagem de educação emprehendida pelos herdeiros ao
+estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das
+facticias pompas com que despontara o 2.º imperio; e o seu anhelo de
+imitação d'um modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos
+insignificantes pormenores, como na introducção do uso do _képi_.
+
+Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas
+imaginações promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela
+irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva,
+inconstitucional protecção votada aos humildes, para cujo serviço
+instituirá, na famosa _caixa verde_, um meio, facil e seguro, de sempre
+communicarem com as altas regiões. A affeição com que vestia as suas
+relações pessoaes, buscando occultar sob doces familiaridades a
+supremacia da sua situação excepcional, como no baile celebre da Sala do
+Risco para com o duque de Loulé, abria-lhe uma immensa zona de
+sympathias. Na verdade, tal é a monstruosa educação secular do
+preconceito da realeza que, d'entre os proprios homens cultos, nem mesmo
+os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo das condições
+politicas idóneas á extirpação das dynastias, se furtam a este effeito,
+atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e
+transcendentemente fóra da humanidade.
+
+A lenidade, a doçura do temperamento, a candidez de coração succedera ao
+irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas,
+intractando no seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha
+impopularisavel, a favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar
+o bruto tio, toureiro e forçudo, tão sympathico á plebe pelo seu bestial
+feitio genuinamente portuguez.
+
+Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em
+torno do moço monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos,
+se encontrou, sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a
+effeito quaesquer idéas positivas, se porventura elle podesse emergir da
+nevoa dos semi-pensamentos, em que se esfarrapava, dissolvia a sua alma
+chimerica.
+
+O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado
+imperador, com o typo physico, a similhança mental. De sorte que a
+utopia que latejara no cérebro do avô revivia a dentro do craneo do
+neto: ideologos, um e outro, as mesmas fórmas da chimera, como no
+sonho iberico, reproduziam-se, por descendencia.
+
+Era-lhes analoga a feição moral; egualmente possessos d'um identico,
+insaciavel desejo de saber, de vêr tudo, de conhecer tudo, de alterar
+tudo, de remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funcção de
+reformadores, a um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas
+concretos da vida progressiva dos povos, a pôr todo o empenho nos
+remodelamentos das concepções abstractas que regulam a existencia moral
+das nações.
+
+Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da
+constituição do seu paiz, introduzir a nova noção da realeza, referida
+ao poder moderadôr por Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do
+embaixadôr hespanhol Pastor Diaz, por uma especie de monomania
+metaphysica, que lhe tomava as attenções para os mais abstrusos,
+estereis pontos da philosophia transcendental. N'este pendôr, não é de
+estranhar a pretensão, que começou a patentear-se no monarcha, a rehaver
+um mando, supremo e incondicional, nem será absurdo o suppôr que o pobre
+idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia
+silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo
+particular das naturezas moraes como a de El-Rei é, com effeito, o da
+innovação, da intervenção, da substituição, o afan era refazer um povo
+por meio de decretos. O que longos annos d'um desenvolvimento
+continuo e previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado,
+e substituir-se a immediata vontade autocratica á vontade tardia da
+historia; utilisar aos homens, mas como se creanças fossem, incapazes de
+formular racionalmente um voto para a melhoria das suas condições, gente
+a servir, como Louis Blanc o discriminou nos accidentes do abortado
+austriaco, sem que se receie, sem que se ame, tractando-a como cartas
+adscriptas ás combinações do jogadôr.
+
+Que idéas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porém, o
+rei? Que planos amadurecêra pela reflexão e pelo estudo? A que alvo
+visavam os seus esforços?
+
+Tudo nos indica hoje que nenhuma idéa, nitida, clara, precisa, o
+monarcha se formava da sua situação e da do paiz, e que lhe seria
+impossivel redigir n'um programma de doutrina ou n'um projecto de actos
+as apparencias de pensamento que eram a miragem do seu coração, enganado
+de si-mesmo.
+
+D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu
+poder foi grande; pois que, nas affeições creadas, o enthusiasmo
+meridional, excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, não
+conheceu limites ao seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com
+elle conviveram, que accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios
+philosophantes os quaes, no propicio silencio da noite, se lançam, a
+todo o vapor, no phantasmagorico mundo das previsões do futuro,
+acabaram por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha,
+fanatismo tanto mais perigoso quanto elle se não isolava do sentimento
+publico, que manifestara a sua fé nas virtudes reaes por meio d'esses
+inacreditaveis cartazes pregados nas esquinas das ruas das cidades,
+bradando: _Viva D. Pedro V, rei absoluto._ Theophilo Braga ainda os viu,
+amarellecidos das chuvas, nas paredes de Coimbra.
+
+Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no
+vasio onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com
+phraseologias symbolicas, como as lançadas á mocidade universitaria que
+o saudava:--_Tanto vale a alma quanto a intelligencia_, profissão de fé
+dos egoismos intellectivamente orgulhosos. E não se humilhava de fazer
+publica confissão de ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino
+positivo, consoante nas curtas inquirições, ao engenheiro Mousinho de
+Albuquerque propostas no Porto. O rei era um metaphysico, um doutrinario
+retardado, e assim se explica o seu desdem pelo problema das grandes
+linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma economia infantil.
+
+A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos
+aspectos, curiosamente dotadas, não cessou, attrahindo-o, de o
+ludibriar. Esse foi o triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu
+ardor em se crear uma fé, não encontrou em torno de si senão o
+desanimo que, na bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se
+penitencia por se encontrar maior do que o do rei.
+
+Abandonado a si proprio, desamparado até nas suas acanhadas iniciativas,
+oriundas d'uma primeira educação, humanista e litteraria, como lhe
+succedeu no tentamen do _Curso superior de lettras_, o monarcha acabou
+por derivar no plano inclinado que leva á traição da liberdade. As suas
+usurpações constitucionaes foram successivamente accumulando os
+aggravos, ao ponto de prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades
+dos serventuarios do principio dynastico.
+
+Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do _Rei
+de Sião_.
+
+Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para
+um confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o
+presente. Tudo o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos tão
+atrophiadas raizes embebia no resistente terreno da dura razão que,
+celebre pela philanthropia, ás escondidas assignava ignoradas sentenças
+de morte, para os longes coloniaes, como a do rebelde indiano. De modo
+que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio de aspirações cerce
+amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto; quando,
+acabrunhado, partido, não tendo havido n'elle de sublime senão o desejo,
+finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz do
+seu transcurso terrestre. A sua duração mais larga assignalar-se-hia,
+porventura, de terriveis catastrophes, visto como a ignorancia publica,
+que o idealisara, tendia a oppôl-o, symbolo de reacção, aos restos da
+iniciativa civica das classes liberaes e cultas.
+
+Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na
+resignada quietação dos grupos intermedios que, junto aos poderes
+publicos, servem a multidão, o povo começava a formar, em volta do nome
+do seu rei, a legenda piedosa que fundamenta e alicerça os despotismos.
+
+A historia inicia-nos na psychologia das multidões; nada é menos
+democrata, no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idéas
+condul-a sempre á auctoridade d'um só, facto moral naturalissimo desde
+que se pense em que, apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a
+tendencia será para se entregar nas mãos da competencia, tanto mais
+comprehensivel e tanto mais responsavel quanto mais centralisadamente
+reduzida. Ora, no paiz, tradiccionalmente monarchico e catholico, a
+solução estava encontrada desde que o seu rei se inspirasse,
+representativamente, dos sentimentos da população, trabalhada no momento
+por uma recrudescencia espantosa do religiosismo missionario. O monarcha
+chegara á crise e, pela tremenda peste que assolou Lisboa, o espirito
+soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse golpe em que
+Buckle buscou o coefficiente da exaltação mystica dos povos
+peninsulares.
+
+Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso,
+pela abnegação; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento
+francez, pela introducção dos lazaristas, das irmãs de caridade no
+reino; mergulhou nas leituras symptomaticas, como as que lhe deu o
+conhecimento do Dante, conforme se revela da sua bella carta posthuma ao
+conselheiro Viale.
+
+A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido,
+porém, tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do
+ultramontanismo procurou, n'um collectivo manifesto eloquente,
+communicar ao paiz Alexandre Herculano, nem a rude, a furiosa campanha
+de José Estevão, que, leão dormente, um instante restituiu ao parlamento
+essa interessada vehemencia que tanto surprehendera o principe de
+Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara multidão. Tão certo é o
+erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o producto, directo
+e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das massas,
+degeneram estas logo em suas escravas.
+
+Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear
+o seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como
+elle se não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos,
+haviam-o envenenado, ao misero!
+
+O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do
+bem-amado estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos
+olhos humanos. O principe successor feria pelos modos bruscos de homem
+do mar, repentinamente avocado a um meio que, por completo, desconhecia.
+Se, em sua estupidez, as calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um
+ultimo sopro de recto bom-senso, envergonhado da infame torpeza, o certo
+é que as tristes apprehensões ficavam, escorias no fundo do cadinho. O
+que seria? O que viria?
+
+E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a
+docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos,
+como n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os
+politicos temiam pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta
+de seu amo; e os poetas, inconscientes interpretes do sentimento
+popular, atravez os subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia
+respeitadora das conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto,
+debruçar-se da beira dourada dos camarotes dos theatros, a apontar ao
+principe, pallido da audacia, o espectro arsenicado de seu irmão,
+gritando-lhe n'um terror:
+
+ _Imita-o, imita-o bem!_
+
+Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente
+colleando, seguiu de rastos, ao cantochão ultramontano, até á beira
+do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra lutulenta, os homens
+de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia tomou para zona
+da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o mesmo
+palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do
+espirito que o fundou diz: _Progredior_, eu avanço.
+
+Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello
+adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a
+mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr,
+de colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.
+
+A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade,
+intrepida como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica
+apotheose um derradeiro, simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:
+
+ _La gloire au front te baise, oh toi si jeune encore!_
+
+Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta
+começava a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha
+Marinho, recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho
+publico do joven poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que
+vé agora as honras, tardias, da reimpressão.
+
+Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta
+hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se
+fazer benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da
+respeitosa sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.
+
+ BRUNO.
+
+
+
+
+O BISPO
+
+
+I
+
+*Na cathedral.--Revelações d'um satyro*
+
+ No claro azul d'um frio céu d'inverno,
+ Sobre a collina onde a cidade dorme,
+ Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme
+ D'antiga cathedral;
+ Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,
+ --Velho epigramma ao lugubre edificio,
+ --Largo covil doirado, aberto ao vicio,--
+ O paço episcopal...
+
+ Bate o luar nos porticos escuros,
+ Abrigo á noite de sinistras aves;
+ Lá dentro, as altas, magestosas naves
+ Envolve a solidão.
+ Sobem, crescem mil sombras pelos muros,
+ D'um bronzeo lampadario á luz distante,
+ Sob as curvas da abobada ondulante
+ Que estampa os arcos no marmoreo chão.
+
+ O côro é largo e bello. Ali se abriga,
+ D'um capitel nos rendilhados folhos,
+ Um satyro, que ri, piscando os olhos,
+ Lascivo como Pan.
+ Dizer parece á cathedral antiga:
+ «Porque me tens aqui, mostras-te ufana?
+ Pobre igreja catholica-romana!
+ Pobre igreja christã!»
+
+ Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:
+ «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,
+ Ao vêr-te assim crucificado e morto,
+ Ó déspota dos meus!
+ Não desejo ser Deus... se Deus é isto:
+ --Um cadaver perpetuo exposto ao frio--
+ E, velho fauno desdentado, eu rio,
+ Eu rio-me de ti!--de ti, que és Deus!
+
+ Vês alem, por detraz do lampadario,
+ Um satanaz assoberbando um globo?
+ Deitado aos pés de Deus, parece um bobo
+ Deitado aos pés d'um rei.
+ Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,
+ Tive dó d'aquell'alma taciturna,
+ E, na mudez da escuridão nocturna,
+ Com elle me liguei.
+
+ Vago rumor de vozes mal distinctas
+ Nos guiou para os porticos do paço:
+ Eu, sabendo que o bispo era um devasso,
+ Previa a bacchanal...
+ Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
+ Chammejante de pejo o rosto frio,
+ Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,
+ No infame lupanar sacerdotal:
+
+
+II
+
+*A humildade do bispo*
+
+ Era um bello aposento,
+ Que Faublas prezaria sem desdouro...
+ --Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,
+ A que dava um revérbero sangrento,
+ Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,
+ A adamascada purpura do estôfo.--
+
+ Molles coxins, em largas ottomanas,
+ Convidavam a languidas posturas
+ As Aspasias catholicas-romanas,
+ As lúbricas sultanas
+ D'aquelle _harem_ christão, meio ás escuras!
+
+ Mil fragrancias subtis no morno ambiente;
+ Ao centro a meza,--o impuro altar da orgia;--
+ Sobre a meza a baixella resplendente...
+ A baixella roubada á sacristia:
+ Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,
+ Todo esse lustre a espaços reflectido,
+ Da luz da orgia á froixa claridade...
+
+ Satanaz debruçou-se ao meu ouvido
+ Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos
+ Aconselham ao bispo esta humildade!»
+
+
+III
+
+*Dolores*
+
+ Sentado á meza, o principe da Igreja
+ Inclina a calva fronte aos seios tumidos
+ D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,
+ E em cujos labios humidos,
+ Rindo, o prazer de beijos s'enebria!
+
+ Ao vêr-te assim, myrrada
+ Pelos impuros halitos da orgia;
+ Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada
+ Dos canteiros nataes a impura alcôva,
+ Quem ha que se commova,
+ Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?
+
+ Tem por nome _Dolores_...
+ Por officio, vender a quem lh'os paga,
+ Como não tem amor, os seus amores.
+
+ É soberba e formosa!
+ Brilhante e seductora!--imagem vaga
+ D'Eva... já criminosa,
+ Escondendo a nudez por entre as flores!
+
+ Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,
+ D'éden occulto e precipicio aberto,
+ Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!
+ Para quem dorme, em extasis, coberto
+ Pelas ondas gentis do seu cabello,
+ É como no deserto
+ A mancenilha, que adormenta e mata!
+
+ Os braços nus da joven messallina
+ Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla
+ A carne branca, avelludada e fina,
+ Que lhe é dado gosar... mesmo sem _bula_.
+
+ Collam-se, em longo beijo,
+ As duas bocas ávidas, famintas...
+
+ Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas
+ O rosto frio a chammejar de pejo!
+
+
+IV
+
+*Supplicas e promessas.--Caracter
+evangelico do bispo*
+
+ DOLORES
+
+ Prende-me ás tranças formosas,
+ Se tu és o meu amante,
+ As joias mais preciosas
+ Da tua mitra brilhante!
+
+ Fulgirão co'as pedras tuas,
+ Cheias de raios inquietos,
+ Meus soltos cabellos pretos
+ Nas alvas espaduas nuas!
+
+ Haja depois quem se affoite
+ A julgar outras mais bellas...
+ São tranças da côr da noite,
+ Precisam d'essas estrellas!
+
+
+ O BISPO
+
+ Rainha das feiticeiras!
+ Venus, que sahes d'este mar!
+ Pede tudo o que tu queiras,
+ Tudo o que eu te possa dar.
+
+ Louca, aos meus beijos entrega
+ Teus hombros, teus seios nus!...
+ Dou-te a igreja, o paço, a adega,
+ O báculo, o annel, a cruz;
+
+ As altas seges vermelhas
+ Que tem cem annos, ou mais,
+ E as gordas, rijas parelhas
+ Das mulas episcopaes...
+
+ Toda a riqueza que brilha
+ No pomposo altar de Deus,
+ E um dos meus cónegos, filha,
+ Por cada beijo dos teus!...
+
+
+ DOLORES
+
+ Eu gosto de sentir nos braços froixos
+ O enorme pezo do teu corpo exangue,
+ Mas, se te collo a boca aos labios roixos
+ Acho em teus labios um sabor a sangue!...
+
+ Amas o sangue?
+
+
+ O BISPO
+
+ Adoraria a gloria
+ De ter sentido, eu só, n'esta existencia,
+ Todo o sangue dos martyres da historia
+ Cair-me, gota a gota, na consciencia!
+
+ Quizera ter colhido o goso ardente
+ De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;
+ Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,
+ Nos braços nús das ébrias prostitutas!
+
+ Os pallidos christãos,--torpes escravos,--
+ Expirando entre as garras das pantheras,
+ E a turba inquieta prerompendo em bravos...
+ Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!
+
+ Quizera, quando as sombras da heresia,
+ Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,
+ Rasgava, escurecendo a luz do dia,
+ Do Santo Officio o pavoroso facho.
+
+ Quizera dar a humanidade inteira
+ Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,
+ E, dos pôtros no horror, e na fogueira,
+ Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!
+
+ Mil peçonhentas viboras no seio
+ A infame contra nós, sem medo, abriga.
+ Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,
+ A humanidade, a nossa escrava antiga!
+
+ Podesse eu ter, ó pallida Dolores,
+ Do sangue d'ella trasbordando o calix!...
+ Era um rebanho vil; nós, os pastores,
+ E a Realeza era o _canis pastoralis_...
+
+ Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,
+ Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!
+ Quebrou, raivando, as solidas algemas,
+ E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!
+
+ Mas que aurora, mulher! que vasto incendio
+ Nos sombrios dominios do passado!
+ Que opprobrio para nós! que vilipendio!
+ Que roubo infame ao _senhorio herdado_!
+
+ E assim ficamos nós, sem que lavasse
+ De sangue um rio a nodoa!...--escura ideia!
+ E assim trazêmos na orgulhosa face
+ Perpetua a marca vil da mão plebeia!»
+
+
+V
+
+Movimentos de fera.--Risos longinquos
+
+ Ergueu-se, febril, d'um salto,
+ Como um tigre nos juncaes;
+ Seus olhos chispavam lume
+ Como os dos lobos cervaes;
+ Crispava as mãos como garras;
+ Tinha rugidos na voz!
+ --Satanaz tremia, ao vêr-lhe
+ O rude aspecto feroz.
+
+ Correu á larga janella
+ E, abrindo-a de par em par,
+ D'um anáthema ruidoso
+ Fez os espaços vibrar...
+ --Ouvia-se, ao longe, ao longe,
+ O rir convulso do mar.
+
+
+VI
+
+*O anáthema, fragmento do «Syllabus».--
+Angustias d'uma alma piedosa*
+
+ «Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!
+ Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;
+ Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;
+ Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!
+
+ Vêde: por toda a parte as hydras do peccado
+ Erguem altivo o collo, iradas contra nós,
+ E o nosso bom cutello esconde-se embotado
+ Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!
+
+ Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos
+ Como as feras no matto, os reis d'origem pura;
+ Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...
+ E assim chamaes aurora á noite escura... escura!
+
+ Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;
+ Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,
+ --Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,
+ E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!
+
+ Erguendo para os céus a pavorosa fronte
+ O anjo da Assolação atraz de vós caminha;
+ Quando o incendio alumia a extrema do horisonte
+ Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!
+
+ E para que desmaie o fogo da heresia,
+ O fogo a que se aquenta a sordida relé,
+ Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,
+ Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!
+
+ Ó pavidos heroes da lugubre tragedia
+ Que a historia do passado aos seculos ensina!
+ Ó despotas feudaes da torva idade-media!
+ Ó soffregos irmãos das aves de rapina!
+
+ Padres, em cuja mão fulgia a núa espada
+ Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,
+ E em cujo ferreo peito a veste consagrada
+ Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!
+
+ Monges de frio aspecto e d'animo impassivel
+ Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;
+ Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,
+ Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!
+
+ Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,
+ Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,
+ Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,
+ O clero envilecido, os infamados reis?
+
+ No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,
+ --A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,
+ E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,
+ Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.
+
+ Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,
+ Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,
+ E do eterno Voltaire a eterna gargalhada
+ Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!
+
+ Fervem inda no espaço os odios implacaveis
+ De que innundára a terra uma sinistra ideia,
+ --A ideia que do lodo exalta os miseraveis
+ E inspira «Oitenta e nove»,--a tragica epopeia!
+
+ Para que espante os céus, para que o mundo aterre,
+ Quantos éccos talvez de novo accordará,
+ Fria como uma espada, a voz de Robespierre,
+ Ardente como um raio, o grito de Marat?!
+
+ Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,
+ A ignobil multidão, potente em seu reinado,
+ Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,
+ Onde expia a Realeza as glorias do passado;
+
+ Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!
+ Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,
+ Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,
+ Passando sobre a terra, a terra assolarão!
+
+ Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha
+ Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;
+ Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha
+ Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!
+
+ Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:
+ Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,
+ E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,
+ Das barbaras legiões a marcha triumphal!
+
+ Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,
+ Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,
+ Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada
+ Nos braços varonis dos povos da Germania...
+
+ Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas
+ Co'a sussurrante voz das santas orações:
+ Os servos do Senhor descem ás catacumbas;
+ Acolhem-se do _nada_ ás frias solidões!
+
+ Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,
+ Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?
+ «É tarde!» disse alguem.--Não! inda não é tarde!
+ Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!
+
+ Os que são contra nós inspiram medo e asco,
+ --Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...
+ Ah! podesse eu punir,--punir, como o carrasco!
+ Ah! podesse eu vencer,--vencer, como o chacal!
+
+ Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,
+ Approveitando o amor, o lubrico pretexto,
+ Encher pelos festins as taças de veneno!
+ Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»
+
+
+VII
+
+*Remeniscencias da canção dum proscripto*
+
+ Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,
+ Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,
+ Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,
+ Vibrarem mil clarins ao som da _Marselheza_,
+ E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»
+
+ Loucuras da hespanhola,
+ Que uma vez, n'um café da Andaluzia,
+ Tinha ouvido soltar-se aquelle grito
+ Dos labios d'um francez, moço e proscripto,
+ Que depois de cantar pedia esmola...
+
+
+VIII
+
+*Orgia.--Amor e vinho.--
+Ainda o caracter evangelico do bispo.--
+Mane, Thezel, Phares!*
+
+ Eil-os de novo no calor da orgia:
+
+
+ O BISPO
+
+ O symbolo da Fé,
+ O largo calix d'oiro
+ Do velho altar da Sé,
+ Enche-o de vinho transparente e loiro!
+
+ Bebamos! Quem bebe acalma
+ Todas as máguas que tem.
+ Cá dentro, ás vezes, noss'alma
+ Parece beber tambem.
+
+ Não sabes como eu abranjo
+ Os mundos que tu não vês?
+ Colla aos teus hombros d'archanjo
+ As azas da Embriaguez!
+
+ Ai! verás como te elevas
+ Nos sonhos que ella produz...
+ Passarás da luz ás trevas!
+ Irás das trevas á luz!
+
+ Ha de abrazar-te em desejos
+ Que ella mesma apagará;
+ Has de sentir muitos beijos
+ Sem nunca vêr quem t'os dá!
+
+ Ora, a nudez, que enthusiasma,
+ Pelo abysmo encobrirás,
+ Fugindo como um phantasma
+ Aos braços de Satanaz;
+
+ Ora, ante os olhos do Eterno,
+ Rolarás sem um só véu,
+ Tentando, em nome do inferno,
+ A castidade do céu!
+
+ Ai! bebe, flôr do serralho,
+ Como a rosa, a tua irmã,
+ Bebe as perolas do orvalho
+ De que se enfeita a manhã!
+
+ Molha os labios á vontade
+ No santo vinho hespanhol:
+ As gôtas d'essa humidade
+ Hei de eu seccar, como o sol!
+
+ Quanto prazer se resume
+ Nem tu calculas, talvez,
+ No suavissimo perfume
+ Do _Madeira_ e do _Gerez_!
+
+ É justo que me acompanhe
+ Tua alegria sem par:
+ Venha o _Champanhe_! o _Champanhe_!
+ Saltem as rolhas ao ar!
+
+ Canta, ó deusa, que me abraças
+ Cheia d'indomito ardor!
+ D'entre o tinido das taças
+ Solte-se um canto d'amor!
+
+ Qu'importa o grito da plebe
+ Que a miseria escravisou?
+ Eu folgo; tu canta e bebe!
+ És quem és: eu sou quem sou!
+
+ Dizem que por essas ruas
+ Andam vagando, ao desdem,
+ Descalças e quasi nuas,
+ Umas crianças sem mãe;
+
+ Que, onde a miseria rebrame
+ Contra a nossa ostentação,
+ Avulta uma cousa infame
+ Chamada prostituição;
+
+ Que a sombra é vasta e profunda
+ Nos desherdados casaes,
+ Que a espaços a chuva innunda
+ E abalam os temporaes;
+
+ Que, entre a noite escura e triste,
+ Por terem fome, uns atheus
+ Perguntam se Deus existe,
+ E, se existe, onde está Deus?;
+
+ Que uns velhos, a quem se deve
+ Profiqua gloria sem fim,
+ Dormem, cobertos de neve,
+ Ás portas do meu jardim;
+
+ Que, sem tecto onde se acoite,
+ Um bando de paes e mães
+ Inveja, durante a noite,
+ A casota dos meus cães;
+
+ Que a Justiça, em vis calvarios
+ Onde é vergonha morrer,
+ Crucifica os operarios
+ Que já não tem que fazer!
+
+ Será, póde ser verdade...
+ Mas, tão distante do céu,
+ O archanjo da caridade
+ Decerto que não sou eu!
+
+ Canta! Bebamos! Scintille
+ Noss'alma d'amor jovial!
+ Haja um quarto do _Mabile_
+ No palacio episcopal!
+
+ Quando, nas lagens marmóreas
+ D'igrejas, ditas christãs,
+ Já se exaltaram as glorias
+ E o nome das certezas,(1)
+
+ Qu'importa que n'estes paços,
+ Longe do olhar de Jesus,
+ Morra, na cruz de teus braços,
+ Um sacerdote da Cruz?
+
+ Canta, como as filomelas!
+ Canta, como os roixinoes,
+ Á flôr, ao lago, ás estrellas
+ Dos teus jardins hespanhoes!
+
+ Mas não cedes ao meu rôgo?
+ Filha, em que estás a scismar?
+
+ DOLORES
+
+ Scismo nas letras de fogo
+ Dos muros de Balthazar...
+
+
+IX
+
+*Pejo do satyro.--Satanaz e Deus.--
+A immobilidade de Jesus.*
+
+ Não posso dizer mais... não sei... não quero!
+ Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,
+ E ambos, deixando o tenebroso paço,
+ Voltamos para aqui:
+
+ Rudes convivas dos festins de Nero!
+ Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!
+ Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!
+ Vós sabeis o que eu vi!
+
+ Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto
+ Do eterno tentador... N'aquella orgia,
+ Se lá coubesse Deus, Deus rolaria
+ Aos pés de Satanaz!...»
+
+ Calou-se de repente e, meio occulto
+ Do capitel nos rendilhados folhos,
+ Ria cada vez mais, piscando os olhos,
+ O fauno,--o hereje audaz.
+
+ Jesus, no entanto, immovel, silencioso,
+ A fronte morta para o chão pendia,
+ Na terrivel postura da agonia
+ A que o forçára a cruz...
+
+ E ha quem espere um grito doloroso
+ D'aquell'alma sublime? Ha quem espere
+ Vêr passar o sorriso de Voltaire
+ Nos labios de Jesus!
+
+
+X
+
+*Na immensidade*
+
+ Longe, ao longe, na abobada do espaço
+ Calma, impassivel, luminosa e fria,
+ Pairava ancioso, vigiando o paço,
+ Das orgias o archanjo,--a Apoplexia...
+
+
+
+
+AO POVO INGENUO
+
+
+ Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!
+ Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,
+ Ir, de joelhos, á capella ardente
+ Beijar os santos pés ao bispo morto...
+
+ No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,
+ Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...
+ Tu, que poisas na mão que te despoja
+ Mil ósculos d'amor crente e sincero!
+
+ Se elle houvesse o «direito do mais forte»
+ Arrastarias vergonhosa algema;
+ Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!
+ Derradeira abjecção! baixesa extrema!
+
+ Quando has de tu deixar as vis doutrinas,
+ As vis superstições dos tempos velhos,
+ E fazer cathedraes das officinas,
+ E procurar na Sciencia os Evangelhos?
+
+ Quando has de tu surgir calcando arminhos,
+ Nos salões onde, altivos do seu _nada_,
+ Ri a mitra da c'roa dos espinhos,
+ E o sceptro inutil da prestante enxada?
+
+ Quando has de tu entrar na grande liça,
+ E, saccudindo o teu grilhão desfeito,
+ Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»
+ Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?
+
+ Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;
+ As armas do trabalho á carabina!
+ Onde estava a prisão surja uma eschola,
+ E um theatro onde estava a guilhotina!
+
+ Da liberdade atalayando o asylo,
+ Sê magestoso e bom, sê grande e puro;
+ Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,
+ A sagrada bandeira do futuro!
+
+ É já longo o caminho do Calvario
+ Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...
+ Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!
+ Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!
+
+ Porto, 12 de novembro de 1873.
+
+
+
+
+NOTA
+
+
+ (1) Quando nas lagens marmoreas
+ D'igrejas, ditas christãs,
+ Já se exaltaram as glorias
+ E o nome das cortezãs...
+
+ «... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara
+ (Roma), o tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de
+ Leão X. Haviam-lhe gravado no marmore a seguinte inscripção,
+ exaltadora da formosura d'aquella mulher:
+
+ _«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter
+ homines formæ specimen dedit, vixit annos XXVI, diis XII, obiit
+ 1511, die 15 Augusti.»_
+
+ A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado
+ á memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula!
+
+ EUGÈNE BRIFFAULT--_Le secret de Rome au XIX.me siècle._
+
+
+
+
+ EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA
+
+ Á doce e affavel companheira dos meus actuaes
+ dias de soffrimento,
+ á companheira affectuosa de oito annos, até
+ 19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão
+ mais felizes, numa modestissima existencia--se o
+ Destino quizer--
+ Offerece
+ para guardar como segredo
+ GUILHERME.
+
+
+ _Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida,
+ E inda não tens um_ Bispo? _Ha mezes!... que preguiça!
+ São cousas da cabeça, um tanto distrahida,
+ Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!_
+
+ _23--maio, de 1874._
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by
+Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO ***
+
+***** This file should be named 34961-8.txt or 34961-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+works. See paragraph 1.E below.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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@@ -0,0 +1,1698 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>O Bispo, por Guilherme Braga</title>
+ <meta name="Author" content="Guilherme Braga">
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by
+Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Bispo: Nova «Heresia», em verso
+
+Author: Guilherme Braga
+ José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34961]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO ***
+
+
+
+
+Produced by Mike Silva
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style=" font-size: 1.8em;">Guilherme Braga</p>
+
+<p style=" font-size: 3em;">O BISPO</p>
+
+<p style=" font-size: 1.4em;">NOVA «HERESIA», EM VERSO</p>
+
+<blockquote style="margin-left:40%; font-size: 0.7em;">
+ <p style="text-align:left;margin-left:0;margin-right:auto;">
+...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.<br>
+Il faut donc la sonder a toute profondeur,<br>
+Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.</p>
+
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">É<small>MILE</small> D<small>ESCHAMPS</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Segunda edição com o retrato<br>
+e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo<br>
+por<br>
+<strong>J. PEREIRA SAMPAIO <em>(Bruno)</em></strong></p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style=" font-size: 1.2em;">PORTO<br>
+LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS<br>
+<small>136, Rua das Flores, 138</small><br>
+M DCCC XCV</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 2em;">O BISPO</p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>PORTO<br>
+TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL<br>
+Rua da Fabrica, 80<br>
+1895<br>
+</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center;"><img src="images/gbraga.png" alt="Retrato de Guilherme Braga" border="0" ></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style=" font-size: 1.8em;">Guilherme Braga</p>
+
+<p style=" font-size: 3em;">O BISPO</p>
+
+<p style=" font-size: 1.4em;">NOVA «HERESIA», EM VERSO</p>
+
+<blockquote style="margin-left:40%; font-size: 0.7em;">
+ <p style="text-align:left;margin-left:0;margin-right:auto;">
+...Aucun baume, helas! ne peut secher la plaie.<br>
+Il faut donc la sonder a toute profondeur,<br>
+Et, pour seul antidote, étaler sa hideur.</p>
+
+ <p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">É<small>MILE</small> D<small>ESCHAMPS</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Segunda edição com o retrato<br>
+e uma poesia inedita do auctor, e um preambulo<br>
+por<br>
+<strong>J. PEREIRA SAMPAIO <em>(Bruno)</em></strong></p>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style=" font-size: 1.2em;">PORTO<br>
+LIVRARIA CAMÕES DE FERNANDES POSSAS<br>
+<small>136, Rua das Flores, 138</small><br>
+M DCCC XCV</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style=" font-size: 1.6em;">AOS</p>
+
+<p style=" font-size: 2em;">LIBERAES</p>
+
+<p style=" font-size: 1.6em;">PORTUGUEZES E BRAZILEIROS</p>
+
+<p style=" font-size: 1.2em;">DAS TERRAS DE SANTA CRUZ;</p>
+
+<p>A TODOS AQUELLES QUE N'ESSAS REGIÕES<br>
+ESMAGARAM DENODADAMENTE AS VIBORAS JESUITICAS</p>
+
+<p> </p>
+
+<div style="margin-left:6em">
+<p style=" font-size: 0.8em;"><em>Offerece</em></p>
+
+<p style=" font-size: 0.8em;">este humilimo testemunho d'adhesão ás suas ideas e de sympathia pelo seu
+esforço</p>
+
+<p style=" font-size: 0.8em;"><em><big>Guilherme Braga</big>,<br>
+o condemnado auctor dos «Falsos Apostolos». </em></p>
+</div>
+</div>
+
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;"><em>ADVERTENCIA</em></p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.2em;">AO</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">Bispo do Pará</p>
+
+<blockquote style="margin-left:6em">
+ <p>Embora sobre mim peze<br>
+ O teu anathema, ahi,<br>
+ Eu, bispo d'outra diocése,<br>
+ Tambem te excommungo a ti!<span class="pn">{IX}</span></p>
+</blockquote>
+
+<div id="corpo">
+<h2>Antes de lêr</h2>
+
+<p>Propõe-se um editor novel, mas que benemerentemente para as lettras patrias
+inicia a sua carreira, salvar do esquecimento, a que a raridade dos exemplares
+d'uma edição limitada parecia indefectivelmente votal-o, o pamphleto poetico a
+que estas linhas servem de preambulo explicativo.</p>
+
+<p>As apparentemente pretenciosas palavras ultimas foram muito de caso pensado
+escriptas; e em curtos dizeres ellas poderão ser interpretadas segundo a
+modestia real das suas proporções.</p>
+
+<p>É claro que, no restricto acanhamento das algumas paginas que, mercê do
+plano proprio da pouco custosa publicação, lhe são concedidas, o redactor<span
+class="pn">{X}</span> d'estas linhas, ainda que lhe sobrasse em meritos o que
+em competencia lhe escasseia, não poderia abalançar-se á critica d'uma
+individualidade litteraria tão viva, espontaneamente accentuada como a de
+Guilherme Braga, auctor do opusculo em reimpressão.</p>
+
+<p>Repetir, pela centesima vez, que o vate portuense pertence, nas suas mais
+altas culminancias, á categoria esthetica que o critico parisiense
+Laurent-Pichat marcou e definiu para os, por elle, primeiro, chamados
+<em>Poetas de combate</em>&mdash;ociosa banalidade seria, que não primava sequer
+pelo exacto rigor do asserto, visto como Guilherme Braga foi simultaneamente um
+poeta lyrico notabilissimo, d'uma sincera emotividade, admiravel n'essa sublime
+elegia <em>Cadaveres</em>, que é uma das raras paginas supremas, definitivas,
+em nossa moderna litteratura.</p>
+
+<p>Bosquejar uma resenha biographica do prematuro morto, tambem não parece
+tentamen, ahi, onde choram as pessoaes recordações de Pedro de Lima,
+melancholicamente penetrantes pela saudade amiga que as embebe, trespassa de
+lagrimas. E, se chronica critica se deseja, destacam abundantes de factos,
+acertadamente dispostos, e opulentas de sisudas apreciações as laudas que á
+gloria de Guilherme Braga consagrou o dr. Rodrigues Cordeiro.</p>
+
+<p>Assim, entendeu-se que melhor caberia, e, em certa maneira, seria até
+cumprimento de quasi obliterado dever, o explanar aqui um rapido historico da
+composição que reapparece perante um publico<span class="pn">{XI}</span> novo,
+differente na moral idyosincrasia d'aquelle que se agitava ao tempo da
+elaboração poetica.</p>
+
+<p>Na verdade, o <em>Bispo</em>, de Guilherme Braga, sem que o precedam, em sua
+leitura, algumas notas que o reintegrem nas condições peculiares da sua
+primitiva producção, poderá, talvez, a espiritos prevenidos ou scepticos, (pois
+que os extremos se toquem), poderá a esses espiritos, indifferentes ou hostis,
+parecer a aberração d'uma phantasia, forte e alta, mas desproporcional, e
+afflictivamente torcionada pela perseguição d'um delirio.</p>
+
+<p>É, pois, de saber o que determinou esta obra; e a busca das suas origens
+torna-se indispensavel desde que a actual geração está já bem longe da
+flagrancia dos episodios que occorreram e tambem, infelizmente, da vivacidade
+sentimental que elles despertavam em gentes menos addictas ao aspero egoismo
+que hoje é norma e criterio, lemma e regra, principio e conclusão, alpha e
+omega de todas as coisas e sentimento resolutivo de quaesquer crises
+subjectivas.</p>
+
+<p>Isto, já se vê, pela rama e deslisando sobre a superficie d'uma evolução que
+vinha de longe, pois que, completa, tarefa esta seria para um estudo amplo que,
+com a paciencia do leitor, largo levava. Visto como tudo se prende na vida
+collectiva, e os factos, que mais locaes, mesmo pessoaes, se perfiguram,
+derivam, aliaz, de motivos genericos, remotos, multiplos e complexos.<span
+class="pn">{XII}</span></p>
+
+<p>Quando Guilherme Braga, erguendo os olhos de sobre o frenesi apocalyptico do
+genio de Victor Hugo, por então em vulcanicas erupções consecutivas,
+atropellantes, os circummandou em tôrno do seu paiz, d'esta viagem moral elles
+regressaram desmoralisados, desfolhados, da desesperadora desillusão, tão
+deprimente se lhes antolhara o espectaculo observado.</p>
+
+<p>Com effeito, entre nós, como, de resto, em todos os povos continentaes, o
+constitucionalismo gorára. Os seus theoristas ou tinham morrido, anonymamente,
+como Mousinho da Silveira; ou, consoante Herculano, haviam mergulhado na atonia
+d'um desespero quieto e môrno. Os que quedaram na brecha, aos poucos, foram
+sendo envolvidos na vaga da corrupção politica dimanada das altas regiões; ou,
+ainda, cansados de tantos, tantos annos de batalhas, incapazes, de resto, de
+grandes idéas de conjuncto, almejavam pelo repouso nos episodios de detalhe,
+como José Estevão com os interesses da sua terra natal, como Sá da Bandeira,
+nobre, ingenuamente occupado com o problema da civica honra collectiva, no caso
+da escravidão colonial.</p>
+
+<p>A convenção de Gramido assignara o reconhecimento da transitoria impotencia.
+Capitulara-se incondicionalmente, sem as honras da campanha, á fé e mercê do
+facil, incombatido vencedor. Tanto amolleceram as consciencias que a causa
+proxima da vasta catastrophe publica, Costa Cabral, veio a ter de se affastar
+da politica e do paiz, menos pelo irrisorio<span class="pn">{XIII}</span>
+conluio da Regeneração do que porisso que, doutrinario fiel aos seus chimericos
+principios de crear uma nacionalidade, progressiva e forte, pelo influxo
+descendente do factor da auctoridade, elle já não tinha presa sobre a nação.
+Não havia mais nem amigos firmes nem inimigos estimulantes.</p>
+
+<p>A éra dos homens de convicção, logicos n'um concebido plano renovante,
+sobranceiros ás miserias do dia e, nas tortuosidades e nas brutalidades do
+concreto momento successivo, ideologos, como os sinceros liberaes, visando a um
+stadio moralistamente caracterisado, passára.</p>
+
+<p>A hora batera para a comedia dos interesses cynicos, para as
+contemporisações, para os sophismas grossos, para as communs, as triviaes
+patuscadas, para as opposições fingidas, para os votos comprados.</p>
+
+<p>Um duro, um sectario, um fanatico, um convicto, um tyranno, exaltado e
+nobre, sombrio, franco, triste, brutal, violento, sincero, como Costa Cabral,
+era uma figura demasiado pesada sobre uma esboroante terra de chatins, escravos
+ventrudos e satisfeitos. Não luziam já as estrellas, claras e ardentes, para os
+grandes felinos; nas meias sombras d'um ceu pardo, era o instante dos chacaes,
+das hyenas, dos lobos, das raposas. Logicamente, entrou em scena Rodrigo da
+Fonseca Magalhães.</p>
+
+<p>Tudo mudou; o ouro correu; a imprensa, por suas mesmas mãos, poz a mordaça
+das conveniencias;<span class="pn">{XIV}</span> a tribuna papagueou o
+taramellar radotante das argucias que amam conservar o embuste do tom
+independente; cada cidadão encellulou-se no seu personalismo, absolvendo-se
+pela sentença, volvida regra da conducta, de que <em>tão bons são uns como os
+outros</em>; o paiz negociou, tripotou, enriqueceu-se, empobreceu-se,
+estonteado pela febre dos melhoramentos materiaes, avido de lucros, sem a
+educação dos negocios, cabeceando de crise agricola em crise bancaria, mineira,
+fabril; emfim, as amplas reclamações doutrinaes cessaram, e o silencio, o
+bem-amado, o suspirado silencio fez-se.</p>
+
+<p>Entretanto (eis aqui o modulo transcendente, pois que a França seja a
+promotora), entretanto, por assim dizer, de parceria, um terrivel successo
+consagrara-se definitivamente na Europa.</p>
+
+<p>A 2 de dezembro de 1851, o ex-prisioneiro de Ham resolveu-se, emfim, a
+romper do moroso torpôr onde ruminara Machiavelo. Seu adulterino irmão, o duque
+de Morny, pudera assegurar, alegremente, á curiosa dama que o interrogava, na
+Opera, sobre a plausibilidade do golpe-de-Estado, que, em qualquer hypothese,
+<em>dado que vassourada houvesse, elle se poria do lado do cabo da
+vassoura</em>.</p>
+
+<p>Um ingurgitante refluxo de retrogradação se produziu nos destinos da
+humanidade, e uma reacção theocratica, cynicamente mystica da banda de antigos
+carbonarios, voltairianos e livres-pensadores, havia, natural e logicamente, de
+tatear o desfecho nos<span class="pn">{XV}</span> medos supersticiosos, <em>ad
+usum Delphini</em> procurados na propaganda jesuitica.</p>
+
+<p>Este movimento espontaneo foi accelerado ainda pelo idyllico casamento do
+imperador com uma hespanhola fanatica. Assim, sobre a expedição de Roma, as
+ulteriores violencias contra os patriotas garibaldinos, esmagados em Mentana,
+onde os <em>chassepots fizeram maravilhas</em>, não revestiram um caracter
+sporadico. Tudo é concordante no mundo; ellas representaram o estado moral de
+todo o conjuncto das instituições a de lá dos Pyrineus.</p>
+
+<p>Solidariamente, repercutiva, messianicamente, a de lá e a de cá.</p>
+
+<p>A influencia do recente condicionalismo beato da cultura franceza fez-se
+sentir entre nós, logo desde o primeiro instante; e seria curioso, n'este ponto
+de vista, explicar a vehemencia argumentativa com que a incredulidade lunatica
+de Pedro d'Amorim Vianna, mathematico e idealista, procurava dissipar os echos
+lusitanos das retumbosas conferencias do padre Ventura de Raulica em
+Nôtre-Dame.</p>
+
+<p>Subira ao throno portuguez um principe intelligente, honesto, erudito,
+povoado de boas, vagas intenções, convergindo a realisar entre nós o typo
+d'esses reis philosophos, a uma final degenerescencia, pelo veneno do virus
+dynastico, indeclinavelmente propellidos, conforme o amostrou a investigação,
+historica e fria, do emphatico Pelletan.</p>
+
+<p>Naturalmente melancholico, impulsivo mas retrahido,<span
+class="pn">{XVI}</span> não pondo ao serviço das suas aspirações mais do que a
+mediania d'um talento inconsistente, D. Pedro V pertencia á especie corrente
+d'esses incomprehendidos romanescos que, como José II, d'Austria, fluctuam
+entre os indistinctos desejos de renovamentos, parcellarmente entrevistos, e as
+reticencias e as revertencias finaes a uma ordem consuetudinaria que lhes
+acalma o desastre de faculdades sobresaltadas mas fundamentalmente
+improliferas.</p>
+
+<p>De volta da costumada viagem de educação emprehendida pelos herdeiros ao
+estrangeiro, o novo rei trouxera para o paiz o deslumbramento das facticias
+pompas com que despontara o 2.º imperio; e o seu anhelo de imitação d'um
+modelo, levianamente reputado perfeito, descera mesmo aos insignificantes
+pormenores, como na introducção do uso do <em>képi</em>.</p>
+
+<p>Debil, activo e impressionavel, o joven monarcha ferira as nossas
+imaginações promptas, pelo interesse proclamado pela causa publica, pela
+irritada tristeza que lhe causavam os abusos, pela altiva, inconstitucional
+protecção votada aos humildes, para cujo serviço instituirá, na famosa
+<em>caixa verde</em>, um meio, facil e seguro, de sempre communicarem com as
+altas regiões. A affeição com que vestia as suas relações pessoaes, buscando
+occultar sob doces familiaridades a supremacia da sua situação excepcional,
+como no baile celebre da Sala do Risco para com o duque de Loulé, abria-lhe uma
+immensa zona<span class="pn">{XVII}</span> de sympathias. Na verdade, tal é a
+monstruosa educação secular do preconceito da realeza que, d'entre os proprios
+homens cultos, nem mesmo os inimigos, pelas franquias parlamentares dispondo
+das condições politicas idóneas á extirpação das dynastias, se furtam a este
+effeito, atavico, segundo o qual um rei se affigura um ser inteira e
+transcendentemente fóra da humanidade.</p>
+
+<p>A lenidade, a doçura do temperamento, a candidez de coração succedera ao
+irritavel e irritante caracter, ciumento das suas prerogativas, intractando no
+seu orgulho, espessa e epilepticamente incivil, da rainha impopularisavel, a
+favor de quem a habil espada liberal fizera desalojar o bruto tio, toureiro e
+forçudo, tão sympathico á plebe pelo seu bestial feitio genuinamente portuguez.
+</p>
+
+<p>Comprehende-se, pois, a facilidade com que explodiu o enthusiasmo em torno
+do moço monarcha e como este, no esfumado dos seus vastos sonhos, se encontrou,
+sem attritos contaveis, nos termos de poder levar a effeito quaesquer idéas
+positivas, se porventura elle podesse emergir da nevoa dos semi-pensamentos, em
+que se esfarrapava, dissolvia a sua alma chimerica.</p>
+
+<p>O monarcha herdara dos talentos ancestraes; recebera, do finado imperador,
+com o typo physico, a similhança mental. De sorte que a utopia que latejara no
+cérebro do avô revivia a dentro do craneo do neto: ideologos, um e outro, as
+mesmas fórmas<span class="pn">{XVIII}</span> da chimera, como no sonho iberico,
+reproduziam-se, por descendencia.</p>
+
+<p>Era-lhes analoga a feição moral; egualmente possessos d'um identico,
+insaciavel desejo de saber, de vêr tudo, de conhecer tudo, de alterar tudo, de
+remecher em tudo, o modo moralista, peculiar da sua funcção de reformadores, a
+um e a outro, os dispunha a desdenhar dos problemas concretos da vida
+progressiva dos povos, a pôr todo o empenho nos remodelamentos das concepções
+abstractas que regulam a existencia moral das nações.</p>
+
+<p>Assim, o neto do principe que, primeiro, ousou, na lettra da constituição do
+seu paiz, introduzir a nova noção da realeza, referida ao poder moderadôr por
+Benjamin Constant, assignalava-se, aos olhos do embaixadôr hespanhol Pastor
+Diaz, por uma especie de monomania metaphysica, que lhe tomava as attenções
+para os mais abstrusos, estereis pontos da philosophia transcendental. N'este
+pendôr, não é de estranhar a pretensão, que começou a patentear-se no monarcha,
+a rehaver um mando, supremo e incondicional, nem será absurdo o suppôr que o
+pobre idealista coroado pensasse, sob a meia sombra d'uma consciencia
+silenciosa, em modificar por completo um reino arruinado. O modo particular das
+naturezas moraes como a de El-Rei é, com effeito, o da innovação, da
+intervenção, da substituição, o afan era refazer um povo por meio de decretos.
+O que longos annos d'um desenvolvimento<span class="pn">{XIX}</span> continuo e
+previdente mal bastariam a consummar terminal-o n'um reinado, e substituir-se a
+immediata vontade autocratica á vontade tardia da historia; utilisar aos
+homens, mas como se creanças fossem, incapazes de formular racionalmente um
+voto para a melhoria das suas condições, gente a servir, como Louis Blanc o
+discriminou nos accidentes do abortado austriaco, sem que se receie, sem que se
+ame, tractando-a como cartas adscriptas ás combinações do jogadôr.</p>
+
+<p>Que idéas governativas, de conjuncto ou de detalhe, possuia, porém, o rei?
+Que planos amadurecêra pela reflexão e pelo estudo? A que alvo visavam os seus
+esforços?</p>
+
+<p>Tudo nos indica hoje que nenhuma idéa, nitida, clara, precisa, o monarcha se
+formava da sua situação e da do paiz, e que lhe seria impossivel redigir n'um
+programma de doutrina ou n'um projecto de actos as apparencias de pensamento
+que eram a miragem do seu coração, enganado de si-mesmo.</p>
+
+<p>D. Pedro V havia nascido com uma alma bem superior ao seu genio. O seu poder
+foi grande; pois que, nas affeições creadas, o enthusiasmo meridional,
+excessivo nos louvores como indiscreto nas invectivas, não conheceu limites ao
+seu impeto. Assim, os homens de entendimento que com elle conviveram, que
+accenderam no seu o cigarro d'esses devaneios philosophantes os quaes, no
+propicio silencio da noite, se lançam, a todo o vapor, no<span
+class="pn">{XX}</span> phantasmagorico mundo das previsões do futuro, acabaram
+por se gerarem uma especie de fanatismo pelo monarcha, fanatismo tanto mais
+perigoso quanto elle se não isolava do sentimento publico, que manifestara a
+sua fé nas virtudes reaes por meio d'esses inacreditaveis cartazes pregados nas
+esquinas das ruas das cidades, bradando: <em>Viva D. Pedro V, rei
+absoluto.</em> Theophilo Braga ainda os viu, amarellecidos das chuvas, nas
+paredes de Coimbra.</p>
+
+<p>Que importou isso? Esse poder era pequeno para uma vontade, nulla no vasio
+onde se agitava. Desorientado, o espirito real contentava-se com phraseologias
+symbolicas, como as lançadas á mocidade universitaria que o saudava:&mdash;<em>Tanto
+vale a alma quanto a intelligencia</em>, profissão de fé dos egoismos
+intellectivamente orgulhosos. E não se humilhava de fazer publica confissão de
+ignorancia nos pontos mais triviaes do ensino positivo, consoante nas curtas
+inquirições, ao engenheiro Mousinho de Albuquerque propostas no Porto. O rei
+era um metaphysico, um doutrinario retardado, e assim se explica o seu desdem
+pelo problema das grandes linhas ferreas, esteado nos pobres aphorismos d'uma
+economia infantil.</p>
+
+<p>A gloria, fogo fatuo que illude tantas naturezas, aliaz, a certos aspectos,
+curiosamente dotadas, não cessou, attrahindo-o, de o ludibriar. Esse foi o
+triste destino do lastimoso rapaz, que, no seu ardor em se crear uma fé, não
+encontrou em torno de si senão<span class="pn">{XXI}</span> o desanimo que, na
+bocca do que escolhera para mentor, Herculano, se penitencia por se encontrar
+maior do que o do rei.</p>
+
+<p>Abandonado a si proprio, desamparado até nas suas acanhadas iniciativas,
+oriundas d'uma primeira educação, humanista e litteraria, como lhe succedeu no
+tentamen do <em>Curso superior de lettras</em>, o monarcha acabou por derivar
+no plano inclinado que leva á traição da liberdade. As suas usurpações
+constitucionaes foram successivamente accumulando os aggravos, ao ponto de
+prenunciarem vindoiras e mais crueis hostilidades dos serventuarios do
+principio dynastico.</p>
+
+<p>Demonstram-o as primeiras arremettidas da prolongada allegoria do <em>Rei de
+Sião</em>.</p>
+
+<p>Arquejando no difficil caminho dos bons propositos, a sua violencia para um
+confuso porvir foi de molde a correr o risco de se lhe escapar o presente. Tudo
+o que pretendia tentar para o bem dos seus subditos tão atrophiadas raizes
+embebia no resistente terreno da dura razão que, celebre pela philanthropia, ás
+escondidas assignava ignoradas sentenças de morte, para os longes coloniaes,
+como a do rebelde indiano. De modo que, quando a vida se lhe extinguiu, cheio
+de aspirações cerce amputadas, inconsolavel do seu sonho esparso, dissolto;
+quando, acabrunhado, partido, não tendo havido n'elle de sublime senão o
+desejo, finalmente fechou os olhos, poderia reputar-se no unico momento feliz
+do seu<span class="pn">{XXII}</span> transcurso terrestre. A sua duração mais
+larga assignalar-se-hia, porventura, de terriveis catastrophes, visto como a
+ignorancia publica, que o idealisara, tendia a oppôl-o, symbolo de reacção, aos
+restos da iniciativa civica das classes liberaes e cultas.</p>
+
+<p>Com effeito, no desalento collectivo, no abortamento dos partidos, na
+resignada quietação dos grupos intermedios que, junto aos poderes publicos,
+servem a multidão, o povo começava a formar, em volta do nome do seu rei, a
+legenda piedosa que fundamenta e alicerça os despotismos.</p>
+
+<p>A historia inicia-nos na psychologia das multidões; nada é menos democrata,
+no fundo, do que a massa inculta. O rudimento das suas idéas condul-a sempre á
+auctoridade d'um só, facto moral naturalissimo desde que se pense em que,
+apontando-lhe o seu bom-senso a sua ignorancia, a tendencia será para se
+entregar nas mãos da competencia, tanto mais comprehensivel e tanto mais
+responsavel quanto mais centralisadamente reduzida. Ora, no paiz,
+tradiccionalmente monarchico e catholico, a solução estava encontrada desde que
+o seu rei se inspirasse, representativamente, dos sentimentos da população,
+trabalhada no momento por uma recrudescencia espantosa do religiosismo
+missionario. O monarcha chegara á crise e, pela tremenda peste que assolou
+Lisboa, o espirito soffrera, com a morte prematura d'uma esposa adorada, esse
+golpe em que Buckle<span class="pn">{XXIII}</span> buscou o coefficiente da
+exaltação mystica dos povos peninsulares.</p>
+
+<p>Voltou-se para Deus; procurou nos hospitaes dos cholericos o repouso, pela
+abnegação; decididamente, acompanhou o movimento do retrogradamento francez,
+pela introducção dos lazaristas, das irmãs de caridade no reino; mergulhou nas
+leituras symptomaticas, como as que lhe deu o conhecimento do Dante, conforme
+se revela da sua bella carta posthuma ao conselheiro Viale.</p>
+
+<p>A influencia sentimental do bondoso caracter do imperante havia ido, porém,
+tão longe que nem os alarmes que sobre os progressos do ultramontanismo
+procurou, n'um collectivo manifesto eloquente, communicar ao paiz Alexandre
+Herculano, nem a rude, a furiosa campanha de José Estevão, que, leão dormente,
+um instante restituiu ao parlamento essa interessada vehemencia que tanto
+surprehendera o principe de Lichnowsky, conseguiram abrir os olhos da ignara
+multidão. Tão certo é o erro dos que não querem reconhecer que a monarchia é o
+producto, directo e quasi infallivel, da espontaneidade popular. Educadora das
+massas, degeneram estas logo em suas escravas.</p>
+
+<p>Assim, melancholicamente, as gentes se retiraram, recolhidas, a prantear o
+seu rei. Os homens sinistros, que queriam governar em seu lugar, como elle se
+não conformasse a acompanhal-os nos seus crueis desatinos, haviam-o envenenado,
+ao misero!<span class="pn">{XXIV}</span></p>
+
+<p>O novo reinado começou, pois, desconsoladamente; a lembrança do bem-amado
+estava proxima, tarjada de negro, regada da ineffavel agua dos olhos humanos. O
+principe successor feria pelos modos bruscos de homem do mar, repentinamente
+avocado a um meio que, por completo, desconhecia. Se, em sua estupidez, as
+calumniosas suspeitas logo se desfaziam a um ultimo sopro de recto bom-senso,
+envergonhado da infame torpeza, o certo é que as tristes apprehensões ficavam,
+escorias no fundo do cadinho. O que seria? O que viria?</p>
+
+<p>E o certo era que as maneiras altivas do dynasta, tão em contraste com a
+docerosa cortezia que se esvahira, chocavam, arrefeciam os fremitos, como
+n'essa primeira, gelada recepção da segunda cidade do paiz. Os politicos temiam
+pelo futuro; os cortezãos debalde explicavam a conducta de seu amo; e os
+poetas, inconscientes interpretes do sentimento popular, atravez os
+subservientes protestos hypocritas d'uma burguezia respeitadora das
+conveniencias, ousavam, como o snr. Diogo Souto, debruçar-se da beira dourada
+dos camarotes dos theatros, a apontar ao principe, pallido da audacia, o
+espectro arsenicado de seu irmão, gritando-lhe n'um terror:</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>Imita-o, imita-o bem!</em></p>
+
+<p>Mumificada no spasmo mystico, a consciencia publica, catalepticamente
+colleando, seguiu de rastos,<span class="pn">{XXV}</span> ao cantochão
+ultramontano, até á beira do campo-santo jesuitico. Insistentes na sua obra
+lutulenta, os homens de Roma apoderaram-se da eschola, e uma funeraria ironia
+tomou para zona da sua revista de forças, para terreno das insolentes paradas o
+mesmo palacio de civilisação que, na frontaria, humanamente orgulhosa, do
+espirito que o fundou diz: <em>Progredior</em>, eu avanço.</p>
+
+<p>Então, sacudindo a sua merovingia cabelleira romantica, um bello
+adolescente, Guilherme Braga, um bohemio, um doido, como lhe chamava a
+mercearia contemporanea, ergueu, elle só, um formidavel grito, de dôr, de
+colera, de protesto: Os falsos apostolos, por nôme.</p>
+
+<p>A reacção alarmou-se; o impio foi excommungado, em sua mocidade, intrepida
+como a d'aquell'outro ephebo sublime de quem é a unica apotheose um derradeiro,
+simples, musical, maravilhoso verso do velho Hugo:</p>
+
+<p style="text-align:center;"><em>La gloire au front te baise, oh toi si jeune
+encore!</em></p>
+
+<p>Na sua faina concordante, o bispo do Pará (contra cuja obra nefasta começava
+a reagir victoriosamente a eloquencia do advogado Saldanha Marinho,
+recem-fallecido) não conheceu medidas. Propoz-se o enxovalho publico do joven
+poeta, que lhe replicou com o incendiado pamphleto que vé agora as honras,
+tardias, da reimpressão.<span class="pn">{XXVI}</span></p>
+
+<p>Eis, succintamente, as causaes do magistral opusculo. Eis porque, n'esta
+hora triste, de nova reacção jesuitica, o seu actual editor, sobre se fazer
+benemerito das nossas boas lettras, se torna ainda meritente da respeitosa
+sympathia dos verdadeiros amigos da liberdade de consciencia.</p>
+
+<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">BRUNO.<span
+class="pn">{XXVII}</span></p>
+
+<h1>O BISPO</h1>
+
+<p><span class="pn">{XXVIII}<br>
+{XXIX}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p style="text-align:center;"><strong>I</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Na cathedral.&mdash;Revelações d'um
+ satyro</strong></p>
+
+ <p>No claro azul d'um frio céu d'inverno,<br>
+ Sobre a collina onde a cidade dorme,<br>
+ Destaca, ao longe, o escuro vulto enorme<br>
+           D'antiga cathedral;<br>
+ Fica-lhe ao lado a succursal do inferno,<br>
+ &mdash;Velho epigramma ao lugubre edificio,<br>
+ &mdash;Largo covil doirado, aberto ao vicio,&mdash;<br>
+           O paço episcopal...<span class="pn">{XXX}</span></p>
+
+ <p>Bate o luar nos porticos escuros,<br>
+ Abrigo á noite de sinistras aves;<br>
+ Lá dentro, as altas, magestosas naves<br>
+           Envolve a solidão.<br>
+ Sobem, crescem mil sombras pelos muros,<br>
+ D'um bronzeo lampadario á luz distante,<br>
+ Sob as curvas da abobada ondulante<br>
+ Que estampa os arcos no marmoreo chão.</p>
+
+ <p>O côro é largo e bello. Ali se abriga,<br>
+ D'um capitel nos rendilhados folhos,<br>
+ Um satyro, que ri, piscando os olhos,<br>
+           Lascivo como Pan.<br>
+ Dizer parece á cathedral antiga:<br>
+ «Porque me tens aqui, mostras-te ufana?<br>
+ Pobre igreja catholica-romana!<br>
+           Pobre igreja christã!»</p>
+
+ <p>Diz com orgulho, gracejando, ao Christo:<br>
+ «Eu fico, a meu pezar, n'angustia absorto,<br>
+ Ao vêr-te assim crucificado e morto,<br>
+           Ó déspota dos meus!<span class="pn">{XXXI}</span><br>
+ Não desejo ser Deus... se Deus é isto:<br>
+ &mdash;Um cadaver perpetuo exposto ao frio&mdash;<br>
+ E, velho fauno desdentado, eu rio,<br>
+ Eu rio-me de ti!&mdash;de ti, que és Deus!</p>
+
+ <p>Vês alem, por detraz do lampadario,<br>
+ Um satanaz assoberbando um globo?<br>
+ Deitado aos pés de Deus, parece um bobo<br>
+           Deitado aos pés d'um rei.<br>
+ Ao vê-lo assim, tristonho e solitario,<br>
+ Tive dó d'aquell'alma taciturna,<br>
+ E, na mudez da escuridão nocturna,<br>
+           Com elle me liguei.</p>
+
+ <p>Vago rumor de vozes mal distinctas<br>
+ Nos guiou para os porticos do paço:<br>
+ Eu, sabendo que o bispo era um devasso,<br>
+           Previa a bacchanal...<br>
+ Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas<br>
+ Chammejante de pejo o rosto frio,<br>
+ Tudo o que eu vi no lupanar sombrio,<br>
+ No infame lupanar sacerdotal:<span class="pn">{XXXII}</span></p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>II</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>A humildade do bispo</strong></p>
+
+ <p>          Era um bello aposento,<br>
+ Que Faublas prezaria sem desdouro...<br>
+ &mdash;Ninho d'abutres, perfumado e fôfo,<br>
+ A que dava um revérbero sangrento,<br>
+ Á froixa luz d'um candelabro d'ouro,<br>
+ A adamascada purpura do estôfo.&mdash;</p>
+
+ <p>Molles coxins, em largas ottomanas,<br>
+ Convidavam a languidas posturas<br>
+ As Aspasias catholicas-romanas,<br>
+           As lúbricas sultanas<br>
+ D'aquelle harem christão, meio ás escuras!</p>
+
+ <p>Mil fragrancias subtis no morno ambiente;<br>
+ Ao centro a meza,&mdash;o impuro altar da orgia;&mdash;<br>
+ Sobre a meza a baixella resplendente...<br>
+ A baixella roubada á sacristia:<span class="pn">{XXXIII}</span><br>
+ Crystaes por toda a parte, e, nos espelhos,<br>
+ Todo esse lustre a espaços reflectido,<br>
+ Da luz da orgia á froixa claridade...</p>
+
+ <p>Satanaz debruçou-se ao meu ouvido<br>
+ Para dizer-me, a rir-se: «Os Evangelhos<br>
+ Aconselham ao bispo esta humildade!»</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>III</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Dolores</strong></p>
+
+ <p>Sentado á meza, o principe da Igreja<br>
+ Inclina a calva fronte aos seios tumidos<br>
+ D'uma hespanhola, cujo olhar flammeja,<br>
+           E em cujos labios humidos,<br>
+ Rindo, o prazer de beijos s'enebria!</p>
+
+ <p>          Ao vêr-te assim, myrrada<br>
+ Pelos impuros halitos da orgia;<span class="pn">{XXXIV}</span><br>
+ Ao vêr-te assim, na sombra, arremessada<br>
+ Dos canteiros nataes a impura alcôva,<br>
+           Quem ha que se commova,<br>
+ Pobre flôr dos jardins da Andaluzia?</p>
+
+ <p>          Tem por nome <em>Dolores</em>...<br>
+ Por officio, vender a quem lh'os paga,<br>
+ Como não tem amor, os seus amores.</p>
+
+ <p>          É soberba e formosa!<br>
+ Brilhante e seductora!&mdash;imagem vaga<br>
+           D'Eva... já criminosa,<br>
+ Escondendo a nudez por entre as flores!</p>
+
+ <p>Mixto de sombra e luz, de lava e gêlo,<br>
+ D'éden occulto e precipicio aberto,<br>
+ Prende, fascina, attrahe, céga, arrebata!<br>
+ Para quem dorme, em extasis, coberto<br>
+ Pelas ondas gentis do seu cabello,<br>
+           É como no deserto<br>
+ A mancenilha, que adormenta e mata!<span class="pn">{XXXV}</span></p>
+
+ <p>Os braços nus da joven messallina<br>
+ Cingem o padre, que, sorrindo, oscúla<br>
+ A carne branca, avelludada e fina,<br>
+ Que lhe é dado gosar... mesmo sem <em>bula</em>.</p>
+
+ <p>          Collam-se, em longo beijo,<br>
+ As duas bocas ávidas, famintas...</p>
+
+ <p>Escuta, ó Christo, escuta, embora sintas<br>
+ O rosto frio a chammejar de pejo!</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>IV</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Supplicas e promessas.&mdash;Caracter<br>
+ evangelico do bispo</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;">DOLORES</p>
+
+ <p>Prende-me ás tranças formosas,<br>
+ Se tu és o meu amante,<br>
+ As joias mais preciosas<br>
+ Da tua mitra brilhante!<span class="pn">{XXXVI}</span></p>
+
+ <p>Fulgirão co'as pedras tuas,<br>
+ Cheias de raios inquietos,<br>
+ Meus soltos cabellos pretos<br>
+ Nas alvas espaduas nuas!</p>
+
+ <p>Haja depois quem se affoite<br>
+ A julgar outras mais bellas...<br>
+ São tranças da côr da noite,<br>
+ Precisam d'essas estrellas!</p>
+
+ <p style="text-align:center;">O BISPO</p>
+
+ <p>Rainha das feiticeiras!<br>
+ Venus, que sahes d'este mar!<br>
+ Pede tudo o que tu queiras,<br>
+ Tudo o que eu te possa dar.</p>
+
+ <p>Louca, aos meus beijos entrega<br>
+ Teus hombros, teus seios nus!...<br>
+ Dou-te a igreja, o paço, a adega,<br>
+ O báculo, o annel, a cruz;<span class="pn">{XXXVII}</span></p>
+
+ <p>As altas seges vermelhas<br>
+ Que tem cem annos, ou mais,<br>
+ E as gordas, rijas parelhas<br>
+ Das mulas episcopaes...</p>
+
+ <p>Toda a riqueza que brilha<br>
+ No pomposo altar de Deus,<br>
+ E um dos meus cónegos, filha,<br>
+ Por cada beijo dos teus!...</p>
+
+ <p style="text-align:center;">DOLORES</p>
+
+ <p>Eu gosto de sentir nos braços froixos<br>
+ O enorme pezo do teu corpo exangue,<br>
+ Mas, se te collo a boca aos labios roixos<br>
+ Acho em teus labios um sabor a sangue!...</p>
+
+ <p>Amas o sangue?</p>
+
+ <p style="text-align:center;">O BISPO</p>
+
+ <p>                         Adoraria a gloria<br>
+ De ter sentido, eu só, n'esta existencia,<br>
+ Todo o sangue dos martyres da historia<br>
+ Cair-me, gota a gota, na consciencia!<span class="pn">{XXXVIII}</span></p>
+
+ <p>Quizera ter colhido o goso ardente<br>
+ De vêr no circo, em Roma, as feras brutas;<br>
+ Nero a rir-se feroz, ébrio e contente,<br>
+ Nos braços nús das ébrias prostitutas!</p>
+
+ <p>Os pallidos christãos,&mdash;torpes escravos,&mdash;<br>
+ Expirando entre as garras das pantheras,<br>
+ E a turba inquieta prerompendo em bravos...<br>
+ Em bravos ao tyranno, a Roma, ás feras!</p>
+
+ <p>Quizera, quando as sombras da heresia,<br>
+ Sobre um povo servil, grosseiro e baixo,<br>
+ Rasgava, escurecendo a luz do dia,<br>
+ Do Santo Officio o pavoroso facho.</p>
+
+ <p>Quizera dar a humanidade inteira<br>
+ Á nossa chamma augusta, aos pôtros nossos,<br>
+ E, dos pôtros no horror, e na fogueira,<br>
+ Crestar-lhe as carnes, triturar-lhe os ossos!<span
+ class="pn">{XXXIX}</span></p>
+
+ <p>Mil peçonhentas viboras no seio<br>
+ A infame contra nós, sem medo, abriga.<br>
+ Mal sabes tu, mulher, quanto eu a odeio,<br>
+ A humanidade, a nossa escrava antiga!</p>
+
+ <p>Podesse eu ter, ó pallida Dolores,<br>
+ Do sangue d'ella trasbordando o calix!...<br>
+ Era um rebanho vil; nós, os pastores,<br>
+ E a Realeza era o <em>canis pastoralis</em>...</p>
+
+ <p>Tornou-se livre e audaz; mitras, diademas,<br>
+ Báculos, sceptros, esmagou n'um'hora!<br>
+ Quebrou, raivando, as solidas algemas,<br>
+ E a fronte, ergueu, sem medo, á luz da aurora!</p>
+
+ <p>Mas que aurora, mulher! que vasto incendio<br>
+ Nos sombrios dominios do passado!<br>
+ Que opprobrio para nós! que vilipendio!<br>
+ Que roubo infame ao <em>senhorio herdado</em>!<span class="pn">{XL}</span></p>
+
+ <p>E assim ficamos nós, sem que lavasse<br>
+ De sangue um rio a nodoa!...&mdash;escura ideia!<br>
+ E assim trazêmos na orgulhosa face<br>
+ Perpetua a marca vil da mão plebeia!»</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p
+ style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"><strong>V</strong><br>
+ <strong>Movimentos de fera.&mdash;Risos longinquos</strong></p>
+
+ <p>Ergueu-se, febril, d'um salto,<br>
+ Como um tigre nos juncaes;<br>
+ Seus olhos chispavam lume<br>
+ Como os dos lobos cervaes;<br>
+ Crispava as mãos como garras;<br>
+ Tinha rugidos na voz!<br>
+ &mdash;Satanaz tremia, ao vêr-lhe<br>
+ O rude aspecto feroz.</p>
+
+ <p>Correu á larga janella<br>
+ E, abrindo-a de par em par,<br>
+ D'um anáthema ruidoso<span class="pn">{XLI}</span><br>
+ Fez os espaços vibrar...<br>
+ &mdash;Ouvia-se, ao longe, ao longe,<br>
+ O rir convulso do mar.</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>VI</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>O anáthema, fragmento do
+ «Syllabus».&mdash;<br>
+ Angustias d'uma alma piedosa</strong></p>
+
+ <p>«Malditos sejaes vós, Progresso e Liberdade!<br>
+ Gémeos filhos do Mal, irmão e irmã do Crime;<br>
+ Tu, que és um sacrilégio, abôrto da impiedade;<br>
+ Tu, que dás força á plebe e esmagas quem a opprime!</p>
+
+ <p>Vêde: por toda a parte as hydras do peccado<br>
+ Erguem altivo o collo, iradas contra nós,<br>
+ E o nosso bom cutello esconde-se embotado<br>
+ Na cova onde repousa o nosso extincto algoz!<span
+ class="pn">{XLVII}</span></p>
+
+ <p>Por vós andam na sombra, errantes, perseguidos<br>
+ Como as feras no matto, os reis d'origem pura;<br>
+ Aos ministros de Deus preferem-se os bandidos...<br>
+ E assim chamaes aurora á noite escura... escura!</p>
+
+ <p>Comvosco, onde assomaes, a tempestade assoma;<br>
+ Rebrame o vendaval no espaço onde rugis,<br>
+ &mdash;Negro sopro, que apaga as lampadas de Roma,<br>
+ E aviva ao mesmo tempo os fachos de Paris!</p>
+
+ <p>Erguendo para os céus a pavorosa fronte<br>
+ O anjo da Assolação atraz de vós caminha;<br>
+ Quando o incendio alumia a extrema do horisonte<br>
+ Sois vós que perpassaes n'essa abrazada linha!</p>
+
+ <p>E para que desmaie o fogo da heresia,<br>
+ O fogo a que se aquenta a sordida relé,<br>
+ Debalde sopra o clero á cinza inutil, fria,<br>
+ Aos ultimos carvões do extremo auto-da-fé!<span class="pn">{XLIII}</span></p>
+
+ <p>Ó pavidos heroes da lugubre tragedia<br>
+ Que a historia do passado aos seculos ensina!<br>
+ Ó despotas feudaes da torva idade-media!<br>
+ Ó soffregos irmãos das aves de rapina!</p>
+
+ <p>Padres, em cuja mão fulgia a núa espada<br>
+ Co'as mil scintillações d'um raio abrazador,<br>
+ E em cujo ferreo peito a veste consagrada<br>
+ Tinha nodoas de sangue a macular-lhe o alvor!</p>
+
+ <p>Monges de frio aspecto e d'animo impassivel<br>
+ Que, a bem do novo Deus, f'rieis os crentes novos;<br>
+ Ó dérviches de Roma, a cuja voz terrivel,<br>
+ Como á voz de Jehovah, tremiam reis e povos!</p>
+
+ <p>Que é de vós? onde estaes? Que braço vos subjuga,<br>
+ Que, nem como um phantasma, a triste sombra ergueis,<br>
+ Ao vêr passar assim, na vergonhosa fuga,<br>
+ O clero envilecido, os infamados reis?<span class="pn">{XLIV}</span></p>
+
+ <p>No carro do Progresso ostenta-se a gentalha,<br>
+ &mdash;A luctadora vil, que um louco orgulho inflamma,<br>
+ E, ao cruzar triumphante a arena da batalha,<br>
+ Faz que lhe sejam solio os estendaes da lama.</p>
+
+ <p>Da Liberdade aos pés rola, vilipendiada,<br>
+ Como um idolo torpe, a imagem de Jesus,<br>
+ E do eterno Voltaire a eterna gargalhada<br>
+ Persegue a Virgem-Mãe que chora aos pés da cruz!</p>
+
+ <p>Fervem inda no espaço os odios implacaveis<br>
+ De que innundára a terra uma sinistra ideia,<br>
+ &mdash;A ideia que do lodo exalta os miseraveis<br>
+ E inspira «Oitenta e nove»,&mdash;a tragica epopeia!</p>
+
+ <p>Para que espante os céus, para que o mundo aterre,<br>
+ Quantos éccos talvez de novo accordará,<br>
+ Fria como uma espada, a voz de Robespierre,<br>
+ Ardente como um raio, o grito de Marat?!<span class="pn">{XLV}</span></p>
+
+ <p>Esse tempo em que a plebe, os rôtos, os descalços,<br>
+ A ignobil multidão, potente em seu reinado,<br>
+ Tumultúa, a rugir, d'emtorno aos cadafalsos,<br>
+ Onde expia a Realeza as glorias do passado;</p>
+
+ <p>Esse tempo sinistro ha de voltar, e em breve!<br>
+ Cedo as vagas fataes d'immensa revol'ção,<br>
+ Como as ondas do Éri', massa d'espuma e neve,<br>
+ Passando sobre a terra, a terra assolarão!</p>
+
+ <p>Debalde o Vaticano affasta a sombra estranha<br>
+ Que peza sobre nós, de tanto horror transidos;<br>
+ Debalde irrompe a luz dos flancos da montanha<br>
+ Que é fulgido Sinái aos crentes perseguidos!</p>
+
+ <p>Fluctuam já sobre elle a tempestade e a morte:<br>
+ Véla-o, como um sudario, a nevoa sepulchral,<br>
+ E Roma julga ouvir, nos vendavaes do Norte,<br>
+ Das barbaras legiões a marcha triumphal!<span class="pn">{XLVI}</span></p>
+
+ <p>Emquanto a voz d'um velho, em lagrymas banhada,<br>
+ Clama contra a revolta, obscura, su'terranea,<br>
+ Sem pejo se arremessa a Italia deshonrada<br>
+ Nos braços varonis dos povos da Germania...</p>
+
+ <p>Em vão, ó sacro asylo, em vão inda retumbas<br>
+ Co'a sussurrante voz das santas orações:<br>
+ Os servos do Senhor descem ás catacumbas;<br>
+ Acolhem-se do <em>nada</em> ás frias solidões!</p>
+
+ <p>Mas que m'importa a mim que o resto se acobarde,<br>
+ Se eu não cedo ao martyrio os fóros da opulencia?<br>
+ «É tarde!» disse alguem.&mdash;Não! inda não é tarde!<br>
+ Seja a lucta sem dó, sem tregoas, sem clemencia!</p>
+
+ <p>Os que são contra nós inspiram medo e asco,<br>
+ &mdash;Venenosos reptis á flôr d'um lodaçal...<br>
+ Ah! podesse eu punir,&mdash;punir, como o carrasco!<br>
+ Ah! podesse eu vencer,&mdash;vencer, como o chacal!<span
+ class="pn">{XLVII}</span></p>
+
+ <p>Podesses tu, risonha, eu placido e sereno,<br>
+ Approveitando o amor, o lubrico pretexto,<br>
+ Encher pelos festins as taças de veneno!<br>
+ Ah! fosses tu Vannoza... eu, Alexandre Sexto!»</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>VII</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Remeniscencias da canção dum
+ proscripto</strong></p>
+
+ <p>Disse, e a bella hespanhola, anciando de surpreza,<br>
+ Ia a lançar-lhe ao hombro as encruzadas mãos,<br>
+ Quando julgou ouvir, d'emtorno á lauta meza,<br>
+ Vibrarem mil clarins ao som da <em>Marselheza</em>,<br>
+ E erguer-se um grito ardente: «Ás armas, cidadãos!»</p>
+
+ <p>               Loucuras da hespanhola,<br>
+ Que uma vez, n'um café da Andaluzia,<br>
+ Tinha ouvido soltar-se aquelle grito<br>
+ Dos labios d'um francez, moço e proscripto,<br>
+ Que depois de cantar pedia esmola...<span class="pn">{XLVIII}</span></p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>VIII</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Orgia.&mdash;Amor e vinho.&mdash;<br>
+ Ainda o caracter evangelico do bispo.&mdash;<br>
+ Mane, Thezel, Phares!</strong></p>
+
+ <p>Eil-os de novo no calor da orgia:</p>
+
+ <p style="text-align:center;">O BISPO</p>
+
+ <p>          O symbolo da Fé,<br>
+           O largo calix d'oiro<br>
+           Do velho altar da Sé,<br>
+ Enche-o de vinho transparente e loiro!</p>
+
+ <p>Bebamos! Quem bebe acalma<br>
+ Todas as máguas que tem.<br>
+ Cá dentro, ás vezes, noss'alma<br>
+ Parece beber tambem.</p>
+
+ <p>Não sabes como eu abranjo<br>
+ Os mundos que tu não vês?<br>
+ Colla aos teus hombros d'archanjo<br>
+ As azas da Embriaguez!<span class="pn">{XLIX}</span></p>
+
+ <p>Ai! verás como te elevas<br>
+ Nos sonhos que ella produz...<br>
+ Passarás da luz ás trevas!<br>
+ Irás das trevas á luz!</p>
+
+ <p>Ha de abrazar-te em desejos<br>
+ Que ella mesma apagará;<br>
+ Has de sentir muitos beijos<br>
+ Sem nunca vêr quem t'os dá!</p>
+
+ <p>Ora, a nudez, que enthusiasma,<br>
+ Pelo abysmo encobrirás,<br>
+ Fugindo como um phantasma<br>
+ Aos braços de Satanaz;</p>
+
+ <p>Ora, ante os olhos do Eterno,<br>
+ Rolarás sem um só véu,<br>
+ Tentando, em nome do inferno,<br>
+ A castidade do céu!<span class="pn">{L}</span></p>
+
+ <p>Ai! bebe, flôr do serralho,<br>
+ Como a rosa, a tua irmã,<br>
+ Bebe as perolas do orvalho<br>
+ De que se enfeita a manhã!</p>
+
+ <p>Molha os labios á vontade<br>
+ No santo vinho hespanhol:<br>
+ As gôtas d'essa humidade<br>
+ Hei de eu seccar, como o sol!</p>
+
+ <p>Quanto prazer se resume<br>
+ Nem tu calculas, talvez,<br>
+ No suavissimo perfume<br>
+ Do <em>Madeira</em> e do <em>Gerez</em>!</p>
+
+ <p>É justo que me acompanhe<br>
+ Tua alegria sem par:<br>
+ Venha o <em>Champanhe</em>! o <em>Champanhe</em>!<br>
+ Saltem as rolhas ao ar!<span class="pn">{LI}</span></p>
+
+ <p>Canta, ó deusa, que me abraças<br>
+ Cheia d'indomito ardor!<br>
+ D'entre o tinido das taças<br>
+ Solte-se um canto d'amor!</p>
+
+ <p>Qu'importa o grito da plebe<br>
+ Que a miseria escravisou?<br>
+ Eu folgo; tu canta e bebe!<br>
+ És quem és: eu sou quem sou!</p>
+
+ <p>Dizem que por essas ruas<br>
+ Andam vagando, ao desdem,<br>
+ Descalças e quasi nuas,<br>
+ Umas crianças sem mãe;</p>
+
+ <p>Que, onde a miseria rebrame<br>
+ Contra a nossa ostentação,<br>
+ Avulta uma cousa infame<br>
+ Chamada prostituição;<span class="pn">{LII}</span></p>
+
+ <p>Que a sombra é vasta e profunda<br>
+ Nos desherdados casaes,<br>
+ Que a espaços a chuva innunda<br>
+ E abalam os temporaes;</p>
+
+ <p>Que, entre a noite escura e triste,<br>
+ Por terem fome, uns atheus<br>
+ Perguntam se Deus existe,<br>
+ E, se existe, onde está Deus?;</p>
+
+ <p>Que uns velhos, a quem se deve<br>
+ Profiqua gloria sem fim,<br>
+ Dormem, cobertos de neve,<br>
+ Ás portas do meu jardim;</p>
+
+ <p>Que, sem tecto onde se acoite,<br>
+ Um bando de paes e mães<br>
+ Inveja, durante a noite,<br>
+ A casota dos meus cães;<span class="pn">{LIII}</span></p>
+
+ <p>Que a Justiça, em vis calvarios<br>
+ Onde é vergonha morrer,<br>
+ Crucifica os operarios<br>
+ Que já não tem que fazer!</p>
+
+ <p>Será, póde ser verdade...<br>
+ Mas, tão distante do céu,<br>
+ O archanjo da caridade<br>
+ Decerto que não sou eu!</p>
+
+ <p>Canta! Bebamos! Scintille<br>
+ Noss'alma d'amor jovial!<br>
+ Haja um quarto do <em>Mabile</em><br>
+ No palacio episcopal!</p>
+
+ <p>Quando, nas lagens marmóreas<br>
+ D'igrejas, ditas christãs,<br>
+ Já se exaltaram as glorias<br>
+ E o nome das certezas,<a href="#nota1" name="mnota1">(1)</a><span class="pn">{LIV}</span></p>
+
+ <p>Qu'importa que n'estes paços,<br>
+ Longe do olhar de Jesus,<br>
+ Morra, na cruz de teus braços,<br>
+ Um sacerdote da Cruz?</p>
+
+ <p>Canta, como as filomelas!<br>
+ Canta, como os roixinoes,<br>
+ Á flôr, ao lago, ás estrellas<br>
+ Dos teus jardins hespanhoes!</p>
+
+ <p>Mas não cedes ao meu rôgo?<br>
+ Filha, em que estás a scismar?</p>
+
+ <p style="text-align:center;">DOLORES</p>
+
+ <p>Scismo nas letras de fogo<br>
+ Dos muros de Balthazar...<span class="pn">{LV}</span></p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>IX</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Pejo do satyro.&mdash;Satanaz e Deus.&mdash;<br>
+ A immobilidade de Jesus.</strong></p>
+
+ <p>Não posso dizer mais... não sei... não quero!<br>
+ Satanaz, a tremer, tomou-me o braço,<br>
+ E ambos, deixando o tenebroso paço,<br>
+           Voltamos para aqui:</p>
+
+ <p>Rudes convivas dos festins de Nero!<br>
+ Sardanapálo! ó torvos seids d'Asia!<br>
+ Borgias! Tiberio! Messalina! Aspasia!<br>
+           Vós sabeis o que eu vi!</p>
+
+ <p>Ó Christo! Aos pés de Deus lá dorme o vulto<br>
+ Do eterno tentador... N'aquella orgia,<br>
+ Se lá coubesse Deus, Deus rolaria<br>
+           Aos pés de Satanaz!...»<span class="pn">{LVI}</span></p>
+
+ <p>Calou-se de repente e, meio occulto<br>
+ Do capitel nos rendilhados folhos,<br>
+ Ria cada vez mais, piscando os olhos,<br>
+           O fauno,&mdash;o hereje audaz.</p>
+
+ <p>Jesus, no entanto, immovel, silencioso,<br>
+ A fronte morta para o chão pendia,<br>
+ Na terrivel postura da agonia<br>
+           A que o forçára a cruz...</p>
+
+ <p>E ha quem espere um grito doloroso<br>
+ D'aquell'alma sublime? Ha quem espere<br>
+ Vêr passar o sorriso de Voltaire<br>
+           Nos labios de Jesus!</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>X</strong></p>
+
+ <p style="text-align:center;"><strong>Na immensidade</strong></p>
+
+ <p>Longe, ao longe, na abobada do espaço<br>
+ Calma, impassivel, luminosa e fria,<br>
+ Pairava ancioso, vigiando o paço,<br>
+ Das orgias o archanjo,&mdash;a Apoplexia...<span class="pn">{LVII}</span></p>
+
+ <p> </p>
+
+ <h2>AO POVO INGENUO</h2>
+
+ <p>Bem cedo, ó triste povo, ó pobre gente!<br>
+ Bem cedo eu te hei de vêr, em magua absorto,<br>
+ Ir, de joelhos, á capella ardente<br>
+ Beijar os santos pés ao bispo morto...</p>
+
+ <p>No pó, na cinza, ó povo, a fronte roja,<br>
+ Ao vêr no esquife o Patriarcha austero...<br>
+ Tu, que poisas na mão que te despoja<br>
+ Mil ósculos d'amor crente e sincero!<span class="pn">{LVIII}</span></p>
+
+ <p>Se elle houvesse o «direito do mais forte»<br>
+ Arrastarias vergonhosa algema;<br>
+ Vivo, odiou-te: adóral-o na morte!<br>
+ Derradeira abjecção! baixesa extrema!</p>
+
+ <p>Quando has de tu deixar as vis doutrinas,<br>
+ As vis superstições dos tempos velhos,<br>
+ E fazer cathedraes das officinas,<br>
+ E procurar na Sciencia os Evangelhos?</p>
+
+ <p>Quando has de tu surgir calcando arminhos,<br>
+ Nos salões onde, altivos do seu <em>nada</em>,<br>
+ Ri a mitra da c'roa dos espinhos,<br>
+ E o sceptro inutil da prestante enxada?</p>
+
+ <p>Quando has de tu entrar na grande liça,<br>
+ E, saccudindo o teu grilhão desfeito,<br>
+ Dizer ao Padre: «Eu chamo-me a Justiça!»<br>
+ Dizer ao Rei: «Eu chamo-me o Direito!»?<span class="pn">{LIX}</span></p>
+
+ <p>Succeda á farda a blusa; o ganho á esmola;<br>
+ As armas do trabalho á carabina!<br>
+ Onde estava a prisão surja uma eschola,<br>
+ E um theatro onde estava a guilhotina! </p>
+
+ <p>Da liberdade atalayando o asylo,<br>
+ Sê magestoso e bom, sê grande e puro;<br>
+ Toma, nas rijas mãos, bravo e tranquillo,<br>
+ A sagrada bandeira do futuro!</p>
+
+ <p>É já longo o caminho do Calvario<br>
+ Que trilhas, sob a cruz, ha tantos annos!...<br>
+ Desfaz, quebra, estilhaça o teu rosario!<br>
+ Calca, assoberba, esmaga os teus tyrannos!</p>
+
+ <p>      Porto, 12 de novembro de 1873.</p>
+
+ <p> </p>
+
+ <h2>NOTA</h2>
+
+ <p style="margin-left:4em"><a href="#mnota1" name="nota1">(1)</a> Quando nas lagens marmoreas<br>
+ D'igrejas, ditas christãs,<br>
+ Já se exaltaram as glorias<br>
+ E o nome das cortezãs...</p>
+
+ <p>    «... Foi visto por muito tempo, na igreja de Santa Barbara (Roma), o
+ tumulo da afamada cortezã Imperia, tão celebre no tempo de Leão <small>X</small>. Haviam-lhe
+ gravado no marmore a seguinte inscripção, exaltadora da formosura d'aquella
+ mulher:</p>
+
+ <p>    <em>«Imperia cortisana romana, quæ digna tanto nomine raræ inter
+ homines formæ specimen dedit, vixit annos <small>XXVI</small>, diis <small>XII</small>, obiit 1511, die 15
+ Augusti.»</em></p>
+
+ <p>    A ninguem causava espanto vêr este preito de admiração tributado á
+ memoria d'uma mulher que viveu na devassidão e na crápula!</p>
+
+ <p style="margin-left:4em; font-size: 0.8em;">E<small>UGÈNE</small> B<small>RIFFAULT</small>&mdash;<em>Le
+ secret de Rome au XIX.<sup>me</sup> siècle.</em></p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p> </p>
+
+ <p> </p>
+
+ <h3>EXEMPLAR DE BRINDE DO AUCTOR A SUA ESPOSA</h3>
+
+ <p style="margin-left:30%; font-size: 0.8em;">    Á doce e affavel companheira dos meus actuaes dias de soffrimento,<br>
+    á companheira affectuosa de oito annos, até 19 do corrente, e dos muitos outros que decorrerão mais felizes, numa modestissima existencia--se o Destino quizer--<br>
+    Offerece<br>
+        para guardar como segredo<br>
+               G<small>UILHERME</small>.</p>
+
+
+ <p><em>Sabes que o meu amôr é teu por toda a vida,<br>
+ E inda não tens um</em> Bispo? <em>Ha mezes!... que preguiça!<br>
+ São cousas da cabeça, um tanto distrahida,<br>
+ Pois quanto ao coração fazes-lhe tu justiça!</em></p>
+
+ <p style="font-style: italic;">    <em>23&mdash;maio, de 1874.</em></p>
+
+ <p> </p>
+</blockquote>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Bispo: Nova «Heresia», em verso, by
+Guilherme Braga and José Pereira de Sampaio (Bruno)
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O BISPO: NOVA «HERESIA», EM VERSO ***
+
+***** This file should be named 34961-h.htm or 34961-h.zip *****
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+Produced by Mike Silva
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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