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+The Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ao de Leve
+
+Author: Manuel de Brito Camacho
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34963]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+
+AO DE LEVE
+
+
+
+
+ _Composto e impresso na Imprensa_
+ _de Manuel Lucas Torres_
+ _Rua do Diario de Noticias, 93_
+
+
+
+
+BRITO CAMACHO
+
+
+_Ao de leve_
+
+
+
+
+1913
+Livraria Editora
+GUIMARÃES & C.ª
+68, Rua do Mundo, 70
+LISBOA
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na
+ cabeça, já falleceu._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!
+
+Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e
+todos os defeitos--se um filho póde ter defeitos para a mãe que o
+estremece!
+
+Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando
+ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham
+posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda
+um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que
+elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.
+
+Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia
+os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam. Mas
+o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a
+garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a
+alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido--era como
+se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.
+
+Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!
+
+Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que
+ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade,
+e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que
+a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os
+olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.
+
+Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve
+prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o
+do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava
+as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma
+protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por
+ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae,
+orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.
+
+Como não havia de adoral-o!
+
+Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle
+acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua
+profissão. Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham
+agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os
+mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.
+
+Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa
+alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres
+fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica
+razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a
+matar?
+
+Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe
+escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro
+linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as
+enxugar com os labios.
+
+Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico,
+para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e
+defeitos--defeitos que para ella eram qualidades!
+
+Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do
+carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá
+possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria
+por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a.
+
+Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o
+carteiro não voltou.
+
+Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?
+
+Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe
+um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe
+enterrassem nas carnes uma choupa em braza.
+
+Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham
+retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.
+
+Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um
+nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.
+
+Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao
+hospital, onde os medicos verificaram o obito.
+
+Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.
+
+Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.
+
+Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro
+o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o
+soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:
+
+--Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua
+descendencia, o miseravel assassino!
+
+Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Se fores um dia ao mar,_
+ _Que a fortuna te não deixe;_
+ _Bota a rede e vae-te embora,_
+ _--Quanto mais burro mais peixe._
+
+
+Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante
+intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas
+com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois
+chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que
+entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o
+sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais
+altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para
+onde.
+
+Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia
+verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns
+poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o
+doutor topou o milagrante collega na rua, e reconheceu n'elle o seu
+velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com
+diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio,
+curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da
+Egreja, havia uma extraordinaria multidão.
+
+--Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?
+
+--Uns milhares.
+
+--E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?
+
+--Algumas duzias.
+
+--Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.
+
+Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem
+do jornal, que o administrador acha pequena.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a
+ impôr sacrificios aos funccionarios._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.
+
+O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu
+_Turco_, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão
+pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.
+
+Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando
+saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma
+liberdade que não conhecia, mas que adivinhava.
+
+Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros,
+virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a
+cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os
+ventos, o pescoço muito extendido, o focinho alto, as narinas muito
+abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava
+com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões
+inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.
+
+Que bom devia ser a liberdade!
+
+Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do
+quartel, todos os dias a mesma coisa--comendo e bebendo por toques de
+clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas
+era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,--uma creança faria
+d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general
+que o seu _Turco_ tinha rebentado o impedido com uma parelha de coices.
+Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido,
+soffrendo horrivelmente.
+
+--Tu que fizeste ao cavallo!
+
+--Nada, meu general.
+
+--É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?
+
+--Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por
+brincadeira, mexi-lhe na barriga.
+
+--Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.
+
+Era um grande philosopho, o general.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Uma sogra nem de barro á porta._
+
+
+Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a
+Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se
+tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto
+de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse
+gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor.
+
+O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse
+servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que
+era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que
+a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace
+fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de
+assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo
+que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença.
+
+Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em
+progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse
+possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o
+medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse
+meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já
+lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o
+partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente
+para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio,
+com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o
+medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor
+perlando-lhe a vasta fronte.
+
+--... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e
+posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se
+hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.
+
+Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para
+cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê
+irremediavelmente ludibriado:
+
+--E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os
+ cidadãos pacificos, realizando muitas prisões._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do
+jardim, marginada de choupos e eucalyptos.
+
+Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da
+vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros
+rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de
+trabalho, muito pacifica e muito humilde.
+
+Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do
+sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando
+e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos
+abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.
+
+Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi
+escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a
+estrada, açulando-os ás canelas de quem passava. _Csi, csi_, e
+arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer
+barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos
+homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta,
+levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.
+
+Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse
+os cães--_csi, csi_--contra um bando alegre de camponezes, rapazes e
+raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho,
+ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um
+corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois
+que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes
+que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando
+paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de
+ desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma
+façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi
+concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle
+tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma
+vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um
+acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como
+percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella
+malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava
+longe d'alli uns poucos de metros.
+
+Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava
+quem acreditasse nas proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio
+da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a
+familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o
+preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da
+estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso,
+pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em
+pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome,
+apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da
+companheira:
+
+--Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os
+charutos.
+
+Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o
+succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.
+
+--Se lá estivesse, rachava-os.
+
+E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de
+ duas horas._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...
+
+--Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a
+finança.
+
+--Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem
+menos em negocios por assim dizer caseiros...
+
+--Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um
+negocio exclusivamente nacional.
+
+--Hom'essa! Queres então dizer...
+
+--Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de
+interesses internacionaes...
+
+--Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...
+
+--Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim,
+dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...
+
+--Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens
+de theatro--mesmo quando estão fóra do palco, representam.
+
+--Julgava-me com direito a maior consideração da parte...
+
+--Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me
+conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho
+atraz da orelha.
+
+--O que? Pois...
+
+--Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma
+seriedade á altura das tuas prosapias...
+
+--Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...
+
+--É como o uso do cachimbo--faz a bocca torta. Sempre me sahiste um
+gajo!...
+
+--Espero que não fique zangado...
+
+--Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.
+
+--Sempre amavel!...
+
+--Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...
+
+--Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras
+sem proveito...
+
+--E quanto achas tu...
+
+--Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.
+
+--Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem,
+menos vintem... Que te parece?
+
+--Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande
+generosidade.
+
+--Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está
+dito; faço a coisa pelos duzentos.
+
+--É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.
+
+--Quero ser generoso...
+
+--Do pão do nosso compadre...
+
+--Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a
+viola...
+
+--Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.
+
+--Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda.
+Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra
+mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem
+ninguem pelo meu lado.
+
+--Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de
+nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.
+
+--E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?
+
+--Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia, depois do facto
+consumado... Mas é absurdo o suppôr...
+
+--Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os
+gajos repontarão?
+
+--Que tem lá que repontem?...
+
+--Está claro. Isto é como dizia o de Braga--ou comem todos, ou ha-de
+haver moralidade.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem
+ distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Não queria que a conhecessem.
+
+Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar
+as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer
+outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os
+que a conheciam cumprimentavam-na--bons dias, minha senhora!--e os que a
+não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito
+apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o
+resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava
+que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir
+uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a _Caridade_.
+Envelheceu muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia,
+encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a _Caridade
+Evangelica_.
+
+Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma
+creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar
+quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento,
+como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava
+aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe
+enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava
+esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo
+largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar,
+como quem passeia um reclame:
+
+--É a Dona Caridade?
+
+--Não; é a Exploração da Miseria.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando
+ a admiração dos seus professores._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era um prodigio, o garoto.
+
+Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um
+pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres
+mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes,
+dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos
+que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos
+noves mezes dizia--bolas!--e foi essa a sua primeira palavra. Comia
+de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos,
+como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto,
+d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa
+perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho--_Naturalmente,
+um genio, doutor?_ E o doutor, encolhendo os hombros em ar de
+duvida--_Naturalmente um idiota!_
+
+Aos cinco annos já sabia tudo--quantas pernas tem um cão, quantas
+orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada
+dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento
+incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um
+historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor
+como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um
+cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto
+lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das
+fronteiras nacionaes.
+
+Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde
+fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os
+comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.
+
+E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do
+seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram
+todos--para bem de todos nós.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de
+ leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»_
+
+ (Carta anonyma).
+
+
+_Oh! la pauvre bête!..._
+
+Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta,
+largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente
+sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um
+burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de
+uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das
+suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta
+exclamação blasphema:--_Benza-o Deus, como é bonito!..._
+
+Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o
+focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse
+uma mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira.
+Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a
+alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um
+crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o
+burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a
+alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras
+que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas
+nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido
+aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte,
+chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu
+idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia,
+desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae
+o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o
+assim:
+
+--A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para
+comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura.
+Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?
+
+E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.
+
+--Dá-lhe palha, Procopio amigo...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estava perdida...
+
+Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar
+sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença
+encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle
+terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias
+ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha
+dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis
+a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o
+peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do
+mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na
+cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em
+golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica, incapaz
+de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as
+aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava
+tisica.
+
+Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente
+pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos
+boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á
+miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora
+do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua
+cama como um _frou-frou_ de sedas, muito pallida, muito magra, quasi
+cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na
+visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia
+d'um delirio:
+
+--Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá
+o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no
+ mais rigoroso incognito._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Que frio cortante, meu Deus!
+
+O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas
+cinzas--uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas
+pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os
+farrapos as carnes enregeladas.
+
+Que frio cortante. Deus do céu!
+
+A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe
+dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de
+misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha
+cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.
+
+Que frio cortante. Senhor!
+
+E é então que a Opulencia desce ao antro onde agoniza o miseravel,
+pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.
+
+Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos
+céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar
+noção do que seja a equidade?
+
+Que frio cortante, meu Deus!
+
+Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá
+vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os
+desgraçados.
+
+Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam
+nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo
+sincero e grande de fazer obra meritoria.
+
+Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...
+
+--Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso
+pagar-lhe.
+
+--É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...
+
+--Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum
+tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á
+gloria?
+
+--Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado
+do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu
+me não ver envergonhado com os meus credores.
+
+--O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle
+serviço á larga, pelo menos com certa generosidade, como seria justo que
+se fizesse?...
+
+--Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava
+um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e
+abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o
+companheiro:--_já cá cantam dois mil réis_. E toda a gente dizia por
+alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para
+dirigir aquella manobra.
+
+--Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella
+gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente.
+Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e
+fica mudo como um peixe.
+
+--Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno
+agora, é porque me parece a occasião favoravel.
+
+--Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a
+téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes,
+porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu
+amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a
+dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com
+um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora
+acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...
+
+--De maneira que...
+
+--De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como
+realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais
+que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da
+estação.
+
+--Que pagará...
+
+--Quando houver outra manifestação espontanea.
+
+Resmungava o alfaiate, descendo a escada--Que grande pulha!
+
+Dizia o vivographo, fechando a porta--Que grande idiota!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados,
+ por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a
+muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do
+mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada
+resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle
+vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um
+homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira
+politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco.
+Não havia duvida possivel--estava alli um prodigioso talento, uma
+organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir
+um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella
+austeridade de manequim, n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella
+fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á
+multidão, e gritou-lhe nas bochechas--é fundamentalmente estupido!
+
+Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o
+presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a
+camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que
+fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura
+dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem,
+deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas--_Parece-me
+que fiz asneira!_
+
+E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande
+homem se mostrou intelligente.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda
+ possivel é a abdicação._
+
+ (Nas entrelinhas dos jornaes).
+
+
+Era uma conspirata.
+
+Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa
+reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz
+de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De
+modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma
+velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada,
+farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte
+nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de
+chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira,
+ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de
+uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.
+
+Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada,
+correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que
+tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que
+tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores
+mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas
+Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como
+uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de
+definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro,
+homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do
+que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um
+tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a
+chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda,
+e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos
+conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:
+
+--Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que
+a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu
+primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro,
+costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas--creio que ha
+uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com
+ violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Se tivesse echo!...
+
+Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que
+tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro.
+Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e
+economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as
+noites, ao fechar da loja, consultava o livro de _razão_, e como visse
+que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com
+torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama
+tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a
+sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera;
+encontrava-se de novo com os rapazes da sua geração, e abalavam todos de
+restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu,
+aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o
+vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma
+escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas.
+O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o
+echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado
+das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o
+echo--_quem está lá!_--e fechava os olhos, n'um esforço enorme de
+concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então,
+principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo
+acordado--_quem está lá!_--victima d'uma allucinação do ouvido. Por
+maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar
+uma quinta que tivesse _echo_, não se importando pagar o seu capricho a
+peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a
+instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle
+nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro,
+com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa
+curiosa:--quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das
+testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus
+pulmões--Ó João!--o pobre diabo, escondido por detraz d'uma pedra,
+ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta
+annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom
+humilde--_Meu senhor!_
+
+Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento,
+espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que
+funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a
+maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as
+bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a
+encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o
+rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da
+balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de
+barytono:--_Que é lá isso ó seus gajos?_
+
+Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo,
+lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do
+sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Vaidade das vaidades--tudo é vaidade!_
+
+
+Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia
+endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe
+hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as
+injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os
+nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao
+mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o
+irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da
+sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as
+coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o
+odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a
+força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse
+tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no
+espaço, sem ponto de apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o
+Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea,
+olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante
+e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a
+suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais
+extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da
+Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta
+em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco
+toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como
+lhe perguntassem, _in articulo mortis_, se não receava pela salvação da
+sua alma, respondeu, tartamudeando muito--_Receio que me mettam no céo.
+Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos._
+
+Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e
+modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes
+dizeres biblicos:--_Vanitas vanitatum_, o que traduzido em portuguez
+quer simplesmente dizer:
+
+--_Ora bolas para tanta embofia!..._
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das
+ finanças a qualidade de portuguez._
+
+ (Dos jornaes)
+
+
+--Contente que nem um rato, não é verdade?
+
+--Não sei porquê...
+
+--Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber
+de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras,
+apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias
+sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?
+
+--Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito
+proveito de todas, conforme as circumstancias.
+
+--Mas os seus direitos...
+
+--Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha
+qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas,
+no meu entender, a faculdade de realizar um certo lucro, da mesma fórma
+que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida
+commercial faz-se com estes dois termos--ganhos e perdas.
+
+--Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo
+ganhou.
+
+--Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados
+immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados
+vantajosos; mas...
+
+--Mas...
+
+--Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde
+prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de
+nacionalidade mais uma vez.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe
+ sobejou da viagem._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,
+pregava-lhe duas bofetadas.
+
+Era aquillo um proceder de principe?
+
+Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que
+fosse, muito menos dinheiro.
+
+Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até
+quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como
+se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.
+
+De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.
+
+Quem sabe?
+
+Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta mentira os jornaes!... Ha
+gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes
+por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.
+
+E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos,
+mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam
+que lhe fosse desagradavel.
+
+--Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?
+
+Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto
+infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até
+alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.
+
+Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,
+era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.
+
+Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do
+seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza,
+que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.
+
+Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é
+sempre de maior edade...
+
+Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos
+saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.
+
+--Ias sair, avózinha?
+
+--Ia procurar-te.
+
+--Parece que não estás contente?
+
+--E com razão.
+
+Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a
+noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:
+
+--Isto é verdade?
+
+O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.
+
+--É então mentira?
+
+--Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais
+intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa,
+pelas quaes tenho um verdadeiro culto.
+
+Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso
+de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado
+loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma
+lucta.
+
+E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não
+ser ouvida:
+
+--Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia.
+Revejo n'elle toda a nobreza da raça.
+
+E adormeceu.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á
+ comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje
+ luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado._
+
+ («A Lucta»).
+
+
+Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...
+
+A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas,
+cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida
+aos céus por milhares de labios virginaes.
+
+Morrer, dormir!...
+
+Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape
+festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos,
+reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.
+
+Dormir, sonhar!...
+
+A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica de uma regularidade
+geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um
+boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se
+inflammar.
+
+Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...
+
+E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque
+sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns
+padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.
+
+Quem sabe!
+
+Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se
+conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e
+inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta
+pagina é hoje um canto do cemiterio!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A morte perdendo a foice_
+ _Creu sua força desfeita._
+ _Disse-lhe um medico insigne:_
+ _Aqui tens esta receita._
+
+
+Chamava-se Corvo, e era alfaiate.
+
+Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres
+ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então
+aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da
+farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era
+pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido
+na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a
+espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que
+o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao
+_sitio_, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista
+de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de
+vir alli, apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras
+vezes matava quantos se _faziam_; mas sempre se divertia immenso, a
+puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de
+_beijar_ a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no
+desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.
+
+Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa,
+subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe
+accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer,
+n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem
+tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se
+morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa
+o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do
+alfaiate, que não tugiu nem mugiu.
+
+Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos
+annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa
+para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem
+nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo
+no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.
+
+O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão
+eximio caçador:
+
+--Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um barbeiro, não vejo razão
+para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa
+pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se
+fosse um pombo que se _fizesse_, e apanhasse a carga em cheio.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não _estava_
+para ninguem, absolutamente ninguem.
+
+Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir
+passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados,
+cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.
+
+Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que
+ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára
+na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no
+parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse
+a materia por discutida, a um signal do _leader_. Mas trabalhava muito,
+estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade em que
+vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle
+proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.
+
+Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não,
+fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços,
+remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo
+cobro a muitos escandalos.
+
+Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.
+
+Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra
+reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em
+termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.
+
+Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto
+da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o
+_bonet_ na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.
+
+--Que ha?
+
+--Um senhor que deseja falar a v. ex.ª
+
+--Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?
+
+--É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v.
+ex.ª não o recebesse.
+
+Mandou entrar immediatamente.
+
+--É você?...
+
+--Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?
+
+--O quê?
+
+--Talvez não dure 48 horas.
+
+--Coitado! E a familia?...
+
+--Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.
+
+--Mas que posso eu fazer?
+
+--Uma coisa muito simples--um adeantamento.
+
+--Mas se elle está a morrer!...
+
+--Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.
+
+--E depois de morto?
+
+--Continua a descontar... no outro mundo.
+
+E assim se fez.--Era uma bagatela de dez contos redondos.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era dia de assignatura.
+
+Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns
+fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas
+varias,--as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do
+dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem
+fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o
+aposento n'aquelle dia lindo.
+
+Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da
+barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções,
+deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de
+espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de
+casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer
+coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.
+
+Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a
+cumprimentar, quasi envergonhados do seu _á vontade_, como n'um casino,
+e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas,
+notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de
+fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a
+cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.
+
+--Não sei se incommodo v. exas...
+
+--Ora essa! Por forma nenhuma.
+
+--V. ex.ª é...
+
+--O pintor da casa.
+
+E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas
+telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um
+trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra
+representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz,
+pelos seus trabalhos maritimos.
+
+--E V. ex.ª traz isto...
+
+--São os meus decretos; trago-os á assignatura.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr_. _D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo
+ Pequeno._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Está aqui tudo?
+
+--Creio que não falta nada.
+
+Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas
+vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente
+transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de
+ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia,
+que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle
+disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e
+o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito
+para elle--por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata,
+poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma
+campainha electrica.
+
+--Se não soubesse...
+
+--De primeira ordem, não é verdade?
+
+--Uma transfiguração á Rocambole.
+
+--Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
+
+--Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.
+
+--De modo que não haverá perigo...
+
+--Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.
+
+--Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa.
+Has de comprar-me um bilhete de sol.
+
+Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou
+um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por
+disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função
+principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela
+primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado.
+Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o _sol_ inteiro
+gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel,
+enthusiasmadissimo com um _cambio_.
+
+No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo,
+entrou a dar-lhe conversa.
+
+--Vê-se que o amigo é amador.
+
+--Como poucos. Isto é um divertimento real.
+
+--Lá isso real...
+
+--Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...
+
+--Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...
+
+--E agora já não vem?
+
+--Acho que cortou a coleta.
+
+--Elle, afinal, tudo aborrece.
+
+--Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou
+de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se
+parece...
+
+Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem
+o chamava.
+
+D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um
+trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas
+nas pernas.
+
+--Ninguem desconfiou, é claro?
+
+--É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se
+me não safo tão depressa...
+
+--E disse-lhe alguma inconveniencia?
+
+--Lá bem inconveniencia...
+
+--O melhor, para outra vez...
+
+--O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
+
+--E a _quadrilha_?
+
+--Lá isso fica como estava.
+
+E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:
+
+--Isto é que é uma cambada!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças,
+ e pronunciou alli um grande discurso._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Muito interessante a festa, não é verdade?
+
+--Sim, foi interessante.
+
+--Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que
+estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como
+todos, como se fossem todos do mesmo collegio?
+
+--Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu
+cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.
+
+--Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova
+que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.
+
+--Assim o espero.
+
+--Assim o creio. E falaste ás creanças?
+
+--Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que
+havia de dizer-lhes.
+
+--Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar,
+muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?
+
+--Houve só um discurso...
+
+--Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?
+
+--Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle
+disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro,
+muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço
+de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante
+d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um
+canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das
+orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo
+de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era
+divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do
+garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo
+que...
+
+--De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.
+
+--Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe
+dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são
+dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?
+
+--Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens
+dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos
+creados, e cumprem-n'as.
+
+--Credo! Mas isso é o fim do mundo.
+
+--Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do
+ partido republicano em Lisboa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que
+estava o jantar na mesa.
+
+Que teria havido!
+
+Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a
+manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda
+mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado.
+Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando
+vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a
+segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia
+respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de
+portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos
+ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.
+
+Que teria havido!
+
+Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos
+sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De
+modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se
+atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse
+desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo
+tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que
+uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado.
+Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por
+Victor Hugo.
+
+De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se
+nas fructas.
+
+--Então?...
+
+--Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde
+dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra,
+d'essas que andam na memoria dos homens.
+
+--De modo que o prestigio d'essa creatura...
+
+--Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de
+povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...
+
+--Foi então?...
+
+--Foi o prestigio d'uma ideia.
+
+
+Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse o espirito para uma
+região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e
+acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que
+lhe ficava mais perto:
+
+--Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem
+fóra estas cascas.
+
+No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu
+ para Biarritz, onde se encontra sua noiva._
+
+ (Telegramma de Madrid).
+
+
+Pois se elle tem vinte annos!..
+
+Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e
+ministros, aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a
+algumas horas apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada
+póde e tudo offerece porque tudo espera receber em troca.
+
+Pois se elle tem vinte annos apenas!...
+
+Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é
+uma especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma
+vida ephemera.
+
+Pois se elle é tão novo!...
+
+Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando
+conselheiros e ministros, gente da burocracia e bugigangas heraldicas,
+quando ella está a poucas horas da capital, talvez a alongar os olhos na
+direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua frente,
+radiante de mocidade.
+
+Pois se elle tem vinte annos apenas!...
+
+E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do
+governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz
+as promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.
+
+Pois se elle é tão novo!...
+
+Depois ella é tão bella!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no
+Paço._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Venho dizer-te adeus...
+
+--Para onde vaes?
+
+--Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens.
+Imaginavas que ia esquecer-me do teu anniversario?
+
+--É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava.
+
+Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma
+illustração ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado,
+e evocava um tempo muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na
+desolação da sua viuvez, mais phantastico do que real.
+
+O seu anniversario!
+
+O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um
+throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a das
+virgens de Raphael, o diadema régio tinha scintillações estranhas e
+coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em comparação dos seus
+olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, e toda a
+limpidez do crystal da rocha.
+
+Tambem ella reinára!
+
+Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de
+cortezãos tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que
+ella nem sempre lhes concedia, muito altiva, muito sobranceira, no
+throno, julgando-se muito perto do Olympo, e fóra do throno vendo-se
+muito acima da humanidade vulgar.
+
+O seu anniversario!
+
+Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o
+desfile do immenso e luzido cortejo--os diplomatas com os seus
+fardamentos ricos, bordados a oiro; os ministros com as suas librés de
+luxo, salpicadas de veneras; os bravos militares suffocando impetos
+guerreiros, n'uma attitude de respeitosa fidelidade, e o numero infinito
+de fidalgos e fidalgas dobrando o joelho no primeiro degrau do throno e
+babujando-lhe a mão aristocratica com a saliva do cortezanismo mais
+rasteiro e mais falso.
+
+O seu anniversario!
+
+De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o
+charuto sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face
+apergaminhada, n'uma caricia muito terna:
+
+--Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou
+gentil...
+
+--Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para
+commigo, mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus
+creados de pasta.
+
+E não houve recepção.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto.
+ Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo
+Pequeno._
+
+ (Dos jornaes.)
+
+
+--Está doente?...
+
+--Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo,
+se estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o
+presidente...
+
+--Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...
+
+--É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?
+
+--Por mais voltas que dê á imaginação...
+
+--Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se.
+Sabes que dia é amanhã?
+
+--É domingo.
+
+--E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?
+
+--Como não sou aficionado...
+
+--Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o
+Fuentes. Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão
+lá para o norte, a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.
+
+--Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...
+
+--Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda
+não abre bico!
+
+--Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos;
+pensa pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece
+melhor.
+
+--E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?
+
+--A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.
+
+--E se eu não quizer que seja assim?
+
+--Se não quizer que seja assim...
+
+--Como será então?
+
+--Então... será peior!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O teu amor e uma cabana!_
+
+
+Fôra uma loucura aquelle amor.
+
+Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli
+de visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se
+andassem pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na
+Praia, amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a
+tagarelar, tu cá, tu lá, e tomassem banho juntos.
+
+Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um
+_pas de quatre_, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão
+depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella
+tinha os paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que
+lhe rendia vinte mil réis por mez.
+
+Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a
+encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos
+na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a sua gracil
+pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á entrada
+da sala, n'um extase de devoto.
+
+--Que languidez, Virgem Santa!
+
+Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da
+Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a
+banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu
+ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel
+metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal
+feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento
+entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma
+estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir
+no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina
+mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com
+o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de
+sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera
+de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro
+tempo, murmurando por entre dentes:
+
+--Que desmazelo, meu Deus!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Dio del oro, del mundo signor._
+
+
+Noite de festa.
+
+Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete
+como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de
+sair n'elle a sorte grande.
+
+--Compra-se uma cadeira!
+
+--Ha quem venda uma geral ou camarote?
+
+Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao
+_guichet_, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem
+de se ir embora.--Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e
+manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de
+abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu _fauteuil_.
+
+Era noite de festa.
+
+Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em
+todas as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella
+polychromia bizarra, um aspecto singularmente phantastico, em que se
+perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente vestidas, largamente
+decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e formavam uma
+galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os
+esculptores de genio.
+
+Era noite de festa.
+
+Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu
+que um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres
+magnificas que havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que
+pendiam dos camarotes, n'uma polychromia bizarra, no meio da qual se
+destacavam bustos admiraveis de mulheres, como se fossem outros tantos
+peccados irresistiveis, servidos em papel de seda pelo demo tentador.
+
+No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente
+electrica, mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como
+todos se levantaram, n'um movimento egual e isochrono, para a mais
+amoravel e sincera ovação de que possa haver registo.
+
+Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces
+apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança
+para agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua,
+soltando um grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um _divan_, que
+para alli tinham posto.
+
+Estava morta.
+
+No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite
+festiva em que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma
+polychromia bizarra bustos esculturaes de mulheres eram como grandes
+fructos de carne servidos em papel de seda, o emprezario commentava:
+
+--Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi
+ atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada
+ soffreram._
+
+ (Dos jornaes, em telegramma de Madrid).
+
+
+Emfim!
+
+Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle
+radiante de felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma
+ebriedade d'amor que os punha fóra do mundo real.
+
+--Querida Eugenia!
+
+--Querido Affonso!
+
+Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella
+multidão que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim
+os ares de quem espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por
+maneira que ao chegarem ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante
+de mocidade, respiraram com muita força, e teriam caido nos braços um do
+outro, ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não
+os chamasse á realidade!
+
+Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os
+ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos
+intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente
+escandecida, e como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse
+ardentemente desejada.
+
+N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror
+sae de milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de
+confusão indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem
+se dá pelas convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não
+fugiram concentra-se totalmente n'aquellas duas creanças--ella radiante
+de belleza, elle radiante de mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando
+mil coisas loucas, n'uma ebriedade d'amor, que os punha fóra do mundo real.
+
+Estavam salvos.
+
+A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba
+não tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de
+sepulcro--como se não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia
+que alvorece.
+
+--_Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer._
+
+Fôra realmente extraordinaria a commoção, de modo que já no leito, sob a
+luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro da alcova, tendo
+ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como que vendo
+alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos
+paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem
+estoica no meio do perigo, recommendando a todos _calma, mucha calma! No
+ha pasado nada_, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi
+covarde, anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então
+muito calmo, muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe
+os beiços que ella estendia n'uma momice cheia de graça:
+
+--_Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido._
+
+E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças
+gemeas.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços
+ extraordinarios._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.
+
+--De que se trata então?
+
+--Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que
+vimos...
+
+--Está bem; mas o que desejam?
+
+--Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres
+que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a
+descontos.
+
+--Perfeitamente; mas os senhores são empregados...
+
+--Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.
+
+--Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o
+ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida.
+
+--Se V. Ex.ª dá licença...
+
+--Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim
+restaural-a...
+
+--Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem
+nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...
+
+--A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...
+
+--Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr.
+conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...
+
+--É que não vejo maneira...
+
+--O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou
+a quem quer que seja.
+
+--Em summa, o que é que os senhores desejam?
+
+--Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.
+
+--Gatos da Alfandega?!!...
+
+--É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000
+réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.
+
+--Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?
+
+--Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a
+valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas
+mulheres e dos nossos filhos...
+
+--Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?
+
+--Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.
+
+--Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a
+ser isso de gatos de Alfandega?
+
+--Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito
+nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos
+os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada
+a corporação dos _Gatos da Alfandega_, para a sustentação da qual ha uma
+verba de proximamente trinta mil réis por mez.
+
+--Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
+
+--Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu
+dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque
+arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para
+receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se
+gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
+
+--Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me
+pelos senhores.
+
+--Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª
+
+Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o
+conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres
+nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do
+ministro, ou revisores do caminho de ferro.
+
+Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi
+cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as
+nomeações no _Diario do Governo_.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o
+ monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Eram congressistas.
+
+Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e
+como se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam
+de repente, em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais
+velho, typo acabado de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e
+oculos d'ouro, erguendo ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento
+respeitoso, em que havia muito de admiração, exclama com grande
+convencimento:--_Schön! Schr schön!_ E logo os outros todos, em unisono,
+como se fosse um echo alli proximo, possuidos d'aquelle arroubamento
+esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, exclamaram
+tambem!--_Schr schön!_ O mais velho, erguendo os oculos d'ouro para a
+testa ampla, como a querer illuminar o pensamento, feita uma ligeira
+reverencia á estatua immovel explicou:--Ribeiro Sanches... Foi um medico
+notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto valor. Formado em
+Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os hospitaes de
+Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com
+Boerhaave--todos se descobriram--em Leyder, durante tres annos, e a tal
+ponto se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco
+tendo-lhe pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes
+medicos, que fossem exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro
+nome que lhe accudiu foi o de Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos
+imperiaes, fez a campanha da Polonia, em 1735, e ainda n'essa qualidade
+andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez estudos de
+anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon--e todos
+se descobriram de novo.--Viveu em Paris, com muitas difficuldades,
+sempre estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos
+valiosos sobre economia, historia e medicina.
+
+Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o
+seu caracter pelos conselhos de Montaigne.
+
+Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá
+mandava eram uma especie de contrabando, que o marquez de Pombal fez
+passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes Sachetti.
+
+A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma
+doença grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente,
+quando elle se viu na capital da França, a braços com a miseria.
+
+E assim pôde viver e publicar o seu _Methodo de estudar a medicina_, e
+um tratado de _Conservação da saude_ dos povos, e outros muitos
+trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do
+seu tempo. Um grande sabio! _Ein gross gelehrt! Viel berühmht!_--E todos
+em unisono, como se fosse um echo ali perto:--_Viel berühmht!_
+
+Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse
+embasbacados, approximou-se do grupo:
+
+--É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli
+pôr isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda--talvez os senhores tenham
+ouvido falar.
+
+Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas
+cavalgaduras!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou
+ um pão n'uma padaria da Baixa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Tinha roubado um pão.
+
+A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer,
+e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda
+a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas
+lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um
+cão. _Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a
+deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando
+agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho--_dá-me
+cincoreisinhos, meu senhor?_--entrando além n'uma loja, d'onde os
+caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade
+inteira, extendendo a mão a toda a gente, e toda a gente olhando para
+elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua
+miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que
+passava, extendendo a mão suplicante.--_Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava,
+n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma
+senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi
+encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e
+deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos
+que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a
+toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram
+surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os
+caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.
+
+Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas
+pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida,
+genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o
+signal da cruz.
+
+Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta
+d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco.
+
+Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente,
+noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve
+tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns
+frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia
+apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze
+annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito,
+soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas
+sem comer.
+
+Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e
+a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas--vejam o
+cynismo do malandro!--e a vergonha faz-lhe esconder a cara--admirem a
+astucia do patife!
+
+O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido
+no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito
+mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda
+quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites
+sem dormir.
+
+Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto
+descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando
+toda a gente--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo,
+ acceitando a Republica._
+
+ (D'um jornal republicano).
+
+
+Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre,
+sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões
+pelo futuro.
+
+Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se
+esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa,
+os ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe
+aligeirarem os bolsos.
+
+Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo
+quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se
+enlevar como um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os
+olhos aos raios d'um sol que não queima, de noite como a querer
+enchel-os d'um luar que adormenta.
+
+Era feliz.
+
+Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões
+de bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.
+
+Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava
+nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações
+tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de
+revolta, que logo germinou e fortificou, avassallando todos os
+espiritos. Áquella gente pacifica repugnavam os actos violentos, e só
+comprehendia que se derramasse sangue para fazer cabidela, ou então para
+evitar congestões, quando assim o entendesse a medicina.
+
+Mas havia o rei...
+
+Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma
+ideia genial, um pensamento sublime--convidar o rei a adherir.
+Elimina-se o rei e cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia,
+pondo arrepios de commoção na espinha de todos os ouvintes.
+
+S. M. adheriu.
+
+Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da
+Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez
+por consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não
+poderia haver para si.
+
+Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de
+longa discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora
+suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um governo, como nas
+outras republicas.
+
+Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito,
+propoz que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns
+dos antigos homens de governo, já com pratica de negocios publicos.
+
+--Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.
+
+Como se visse no ar uma floresta de mãos:
+
+--Approvada por unanimidade.
+
+Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:
+
+--Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.
+
+O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra
+rei, o que deu logar a esta observação do presidente.
+
+--Mas o cidadão, quando era monarcha...
+
+--Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima
+ viagem._
+
+
+--Confessa que te era mais agradavel ir só...
+
+--A falar a verdade...
+
+--Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar
+na tua nobilissima familia.
+
+--Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se
+descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias
+as mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor
+não adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;--_disse
+o tacho á certã, tira-te para lá não me tisnes._
+
+--Não conheço o calão dos toureiros...
+
+--Nem eu a giria dos jesuitas.
+
+--Ao menos podias ser delicado com uma senhora.
+
+--Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.
+
+--Nunca eu tivesse aqui posto os pés.
+
+--Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.
+
+--Se não fossem os filhos e...
+
+--Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros...
+
+--_Je m'en fiche de..._
+
+--Temos calão boulevardiano?
+
+--Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho
+eu, não terá ciumes de ti.
+
+--Nem tu saudades minhas.
+
+--Se te parece!...
+
+--Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um
+prazer enorme, uma satisfação infinita.
+
+--Deixando-te ir em liberdade?
+
+--Não; deixando-me... viuvo.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um
+ velho de 109 annos._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que
+apresentará á assembléa o homem mais velho do mundo.
+
+
+Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala,
+até então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista
+avançou para junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote
+rabitezo, de peitilhos bordados, endomingado como para a desobriga. Era
+o homem mais velho do mundo, como dissera o presidente. Nascido no
+seculo dezoito, atravessára todo o seculo dezenove, e alli estava muito
+fresco, bem disposto, nas felizes disposições de acompanhar o seculo
+vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior. Estavam alli cento e
+nove annos, bonita somma feita com parcelas de tres seculos, muito
+deseguaes em valor.
+
+Tão bem conservado o velhinho!
+
+Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma
+florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por
+certo aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara
+nunca as grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e
+outras consomem como o fogo, abbreviam a existencia,--diluindo-a em
+risos ou afogando-a em lagrimas.
+
+Tão bem conservado, o velhinho!
+
+Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos
+lagos adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.
+
+Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho,
+muito rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820--a unica
+coisa limpa que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o
+congressista que apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um
+phantasma que surgisse da noite dos tempos para contar historias
+tragicas. Mas havia tanta candura no seu olhar curioso! tanta alegria
+infantil no seu riso mal contido, como se tivesse vergonha de não se
+mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella seriedade tinha
+o ar de uma meninice robusta e florida.
+
+Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...
+
+Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote:
+
+--E de saude, que tal?
+
+--Ó meu senhor, graças a Deus...
+
+--Mas nunca esteve doente?
+
+--Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.
+
+--E tomou muitos remedios?
+
+--Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida.
+
+Tão bem conservado, o velhinho!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar
+ d'alguns jornaes._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os
+dois que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:
+
+--A justiça é pontual!...
+
+--E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.
+
+Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de
+jornaes, e assentou-se.
+
+--Ha que fazer?
+
+--Pela parte que me toca...
+
+O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes
+que tinha na sua frente, e leu pausadamente:--_É fóra de duvida que o
+nosso Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não
+só da Europa, mas de todo o mundo._
+
+Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e
+attentou nos collegas, á espera.
+
+--E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse
+jornalista, com certeza monarchico...
+
+--Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do
+jornal, que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...
+
+--Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se
+dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter
+elle escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais
+honestos e intelligentes que o sol cobre?...
+
+--É como acaba de dizer.
+
+--Mas isso é uma loucura!...
+
+--Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a
+lei, e a lei, n'este ponto, é clara.
+
+--O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o
+monarcha é destituido de intelligencia e honestidade?
+
+--O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...
+
+--Mas é então o caso de ser preso por ter cão...
+
+--Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses--a da
+calumnia e a da troça.
+
+Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e
+assim fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então,
+os jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão
+ de Juizes, que o procurou no seu ministerio._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus
+cumprimentos a s. ex.ª.
+
+Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão
+direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o
+braço esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo
+que mandasse entrar.
+
+--Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela
+justa e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.
+
+Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de
+vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem
+mede as palavras:
+
+--Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de
+toda a magistratura, aqui representada por v. exas.
+
+Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio
+sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a _pose_ que
+estudára de vespera para actos officiaes.
+
+E explicou:
+
+--Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da
+corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas
+ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que
+eu chamo _A reforma da bola_.
+
+--A reforma...
+
+--Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa
+inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador,
+embora n'outro campo, e com o melhor resultado.
+
+--Se V. ex.ª...
+
+--É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco
+das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes,
+receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a
+sebenta. É engenhoso não é verdade?
+
+--Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª
+consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola
+do seu numero, nenhum pegaria na sebenta.
+
+--Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará
+os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de
+juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a
+ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a
+empenhoca.
+
+--É maravilhoso!
+
+--Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem
+pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte
+improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.
+
+Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o
+continuo, que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que
+tinham ido apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.
+
+Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:
+
+--Com que então, a bola?
+
+--Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito
+ caloroso e muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi
+ todos os seus collegas._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Passou por alli e entrou.
+
+Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a
+Lisboa, muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha
+muito que fazer, e não podia demorar-se por fóra de casa.
+
+O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu
+emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava
+por certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua
+curiosidade o sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no
+comboio da tarde, que era rapido, partiria no comboio da noite, muito
+ronceiro, parando em todas as estações, e só chegando á sua terra a uma
+hora bastante incommoda, de madrugada.
+
+Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um
+cartão de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada,
+para a galeria do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor
+poderia disfructar o espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão,
+e pedia desculpa de não vir, porque estava conversando com o ministro a
+respeito d'um melhoramento que tinha pedido lá para o circulo, a ponte
+de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, chovendo muito, estorvava
+a passagem de carros.
+
+Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um
+deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo
+que fossem publicados no _Diario_, e um dos ministros declarou-se
+habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na
+vespera, um illustre deputado da maioria.
+
+Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter
+alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra,
+declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:
+
+--Tem a palavra o sr....
+
+Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora,
+está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo,
+prendeu-lhe a attenção desde o começo. A Camara estava um pouco
+distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a
+impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos
+conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e
+habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a
+sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria
+ficar com a palavra reservada.
+
+--Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho,
+chegam muito bem para o que me falta dizer.
+
+Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns
+apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com
+enternecimento.
+
+Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:
+
+--Muito bem! muito bem!
+
+Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra,
+n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.
+
+--Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.
+
+Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa
+azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.
+
+--Que deseja?
+
+--São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que
+vá buscal-as?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de
+ audacia para fazerem a Republica._
+
+ (Dos jornaes monarchicos).
+
+
+Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que
+se esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão,
+acudiam do fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata.
+Andavam á roda do pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca,
+varando os peixes com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
+
+Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma
+insolencia quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam
+apercebiam-se do minimo gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e
+logo mergulhavam mais, pondo-se inteiramente a salvo.
+
+Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.
+
+Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens
+graves que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles
+peixes de oiro e prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da
+agua, e de quando em quando vindo á superficie, quando das barreiras
+caia um pequeno torrão, que os atraía em vez de os espantar.
+
+--Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita
+lama.
+
+Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo
+desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando
+estupefactos aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os
+peixes, varando-os com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
+
+Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam,
+estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de
+commando. O mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar
+de superioridade desdenhosa:
+
+--Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...
+
+E todos riram á gargalhada.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha._
+
+ (Cantico dos Canticos).
+
+
+Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua
+bocca, e as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os
+balsamos mais preciosos...
+
+Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr
+beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas,
+apascentando os gados, esbelta como a açucena...
+
+Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para
+afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.
+
+Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o
+nardo, rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse
+collocado entre as suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de
+Chypre, de bagos humidos e frescos.
+
+Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a
+Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu
+sonho, perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu
+amado, que lhe bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o
+orvalho da noite.
+
+Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus
+dentes de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem
+fome de beijos nos proprios cedros do Libano.
+
+Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe,
+similhante ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas
+nitentes como frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as
+ondas saltam como cabritos do monte, procurando as folhas verdes!
+
+Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que
+repousa tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce
+o nardo e o açafrão, o cinamomo e a mirrha.
+
+Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as
+faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo,
+esbelta como as açucenas...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Ci git Piron, qui fut vien!..._
+
+
+Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo
+social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava
+para ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da
+ultima novidade, e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de
+que nascera com immensas aptidões, um enorme talento de escriptor, um
+profundo genio d'artista, e que tudo isso lhe fôra roubado, ainda no
+berço, uma noite, estava elle a dormir e a sonhar--um lindo sonho côr de
+rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas suas carninhas de leite.
+Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor como Miguel Angelo,
+um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um poeta como Victor
+Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se lhe não
+tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a
+Natureza.
+
+Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas
+linhas, e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de
+lançar ao papel uma ideia. Quando se punha a fazer pintura,
+escorregava-lhe o pincel borrando a lona, e succedia então que tendo
+feito o desenho para uma rosa, lhe saia inevitavelmente uma couve-flôr.
+Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma esculptura; mas succedeu que
+tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando o passou ao gesso se
+encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas tremendas, um odio
+enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou faziam estatuas,
+affirmando de qualquer forma uma competencia superior--o talento, que
+não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia gerando
+a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.
+
+Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao
+cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um
+bohemio que alli chegou, informando-se de quem era, disse:
+
+--Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter
+a fórma d'um zero.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas,
+ felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado
+da secretaria.
+
+--Pareceu-me ouvir chamar...
+
+--Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?
+
+--E todos elles...
+
+--Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela
+mesma pessoa ou então...
+
+--Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?
+
+--Exactamente, segundo uma formula combinada.
+
+--E já os colleccionaste, conforme te disse?
+
+--De certo. Á medida que chegavam ia...
+
+--Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.
+
+--N'aquella caixa?
+
+--Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.
+
+
+Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte
+outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de
+respeito, de estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido
+redigidos segundo uma formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.
+
+
+--Prompto, já lá estão.
+
+--Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle
+_étagère_, de capa verde...
+
+--Mas é a Carta...
+
+--Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.
+
+
+D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria,
+na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto
+fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.
+
+--Não sei se é a mim que...
+
+--É com o que está de serviço ao bispote.
+
+--Então sou eu.
+
+--Despeja aquella caixa.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo._
+
+ (Crendices populares).
+
+
+No dia seguinte era o baptizado.
+
+Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada
+sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas,
+muito harmonioso na minusculidade das suas formas--como se fosse uma
+esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago
+presentimento da Renascença.
+
+Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os
+sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma
+rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda
+como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a
+ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem
+aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração,
+animada do mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a
+philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como
+ensinam os livros sagrados.
+
+Seria então um peccador, o seu filhinho.
+
+Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao
+nascer, pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a
+aragem soprou mais forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes
+anjinhos irá então soffrer as torturas do purgatorio, espiando uma culpa
+que não tinham, purificando-se de um mal que não fizeram?
+
+Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse
+acreditar que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não
+ascende directa e immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um
+olhar da Virgem Mãe, negaria a justiça divina, muito peor que a dos
+homens...
+
+Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?...
+
+... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu,
+e ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na
+contemplação d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que
+dir-se-ia modelada por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago
+presentimento da Renascença.
+
+No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo
+ que foi espancado á porta ferrea._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Nunca fôra á escola.
+
+Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes
+d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de
+economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos
+n'um trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...
+
+Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero
+alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei,
+deixando o seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da
+caridade publica. Por aquelles sitios não havia trabalhador como elle,
+sempre a lidar com a terra, de semana trabalhando para os outros, nos
+domingos trabalhando para si. Não bebia nem fumava, todos os seus ganhos
+eram para sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria.
+Como não ha-de ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde
+não ha petizes que ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel
+desenvoltura... Casou, e pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais
+força, mais energia, mais saude. Quando lhe nasceu o primeiro filho, que
+foi tambem o ultimo, já o pae tinha acabado de morrer, pobre velho cego
+e tropego, que um delgado fio prendia á vida, desde que ficára viuvo.
+
+--Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o
+filho.
+
+Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente
+e applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os
+seus condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse
+notavel a sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os
+preparatorios lá foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da
+fabula, já a remirar-se no seu doutor.
+
+--Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura.
+
+Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia,
+tendo-o installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o
+que fosse preciso.
+
+Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves
+em Coimbra. Vinha nos papeis...
+
+--Que foi?
+
+Um dos que estavam no grupo, explicou:
+
+--Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por
+camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal,
+abandonaram os companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...
+
+--O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.
+
+Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas,
+appareceu-lhe o rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.
+
+--Ouve lá, quantos romperam a greve?
+
+--Poucos, talvez uns quatro ou cinco.
+
+--Mas tu...
+
+--Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma
+posição, e para lhe poupar...
+
+--Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste
+nada melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas
+da injustiça.
+
+
+Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia,
+severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de
+camponio para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu
+espirito que o saber deforma o caracter.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Deus fez as almas aos pares._
+
+ (Da sabedoria das nações).
+
+
+Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.
+
+O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo
+amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma
+cathedral augusta a horas mortas da noite.
+
+Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada
+por caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas
+dos vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.
+
+O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal
+na extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral
+augusta a horas mortas da noite.
+
+Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os
+reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de
+pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se tivessem atravessado um
+bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a sorte os reunia...
+
+--Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito
+longe, sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por
+mim palpite!...
+
+--Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos
+muito, cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a
+maior somma de ventura!...
+
+Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito
+pallida, como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e
+baça--tal uma lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.
+
+
+Era dia de finados.
+
+Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava
+sem que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura,
+offertar-lhe flores orvalhadas de lagrimas.
+
+Tinham-se amado tanto!
+
+Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido
+no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre
+egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia
+em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um
+derradeiro beijo.
+
+Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o
+cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi
+ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera
+de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que
+cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade.
+
+Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver
+chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha
+feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as
+mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto,
+anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para
+a porta do cemiterio.
+
+A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro,
+com um grande ramo de flores na mão.
+
+Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o
+com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a
+direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma
+sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas
+para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse
+deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio.
+
+--Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!
+
+--Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado
+d'ella, debaixo da mesma pedra.
+
+--Era então sua mulher!..
+
+--Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar
+antes de nos conhecermos.
+
+
+Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que
+elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas
+de lagrimas.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Não ha bella sem senão._
+
+
+Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que
+outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a
+Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.--Era como se alguem
+mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro.
+
+Tão linda!
+
+Punha-se então a fixal-a muito, muito--como se, debruçado sobre um
+abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus
+olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em
+que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas.
+
+Tão linda!
+
+Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes
+escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que
+percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a.
+
+Tão linda!
+
+Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um
+Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico
+como se o desenhára Frei Angelico.
+
+Tão linda!
+
+Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos
+beijos que outro lhe dera.--As plantas venenosas nunca deviam ser
+bellas, attrahindo para matar--nem as mulheres bellas deviam ser
+perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma
+cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!
+
+Tão linda!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Souvent femme varie_
+ _Bien fou qui s'y fie..._
+
+
+--Tontinho!
+
+--Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
+sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe
+depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a
+seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas
+folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...
+
+--Tontinho!
+
+--Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas
+trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos
+lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas
+tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias,
+e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola
+aberta, pulsar com força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.
+
+--Tontinho!
+
+--Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me
+primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr
+recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem
+espirrando como a lama quando a pisam na rua.
+
+--Tontinho!
+
+Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça,
+como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma _bonne_
+suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e
+perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma
+borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.
+
+Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que
+toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes
+olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados
+aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam
+ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum
+cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...
+
+Tontinhos!
+
+
+Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer annunciar, mal saccudido o
+pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas
+passadas no logar onde as fruira.
+
+Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as
+folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as
+azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé,
+como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos,
+e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.
+
+Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia,
+e discreta como uma velha tia, ou uma _bonne_ suissa. Pareceu-lhe que
+alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais,
+cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido
+d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo
+fundente que lhe instillassem nos ouvidos:
+
+--Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
+sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me
+comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida
+inutil.
+
+--Tontinho!
+
+
+Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se
+escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli já
+noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua
+perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante
+d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas
+maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.
+
+Coitadinho!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Os milagres não se discutem--ou se negam ou se acceitam._
+
+
+Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o
+chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.
+
+Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que
+fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular
+devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um
+homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada
+era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno
+ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe
+dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se
+conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe
+chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não
+queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas
+com os santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire
+de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha
+sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente
+que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do
+santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.
+
+Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria,
+como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em
+nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar
+informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse
+rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no
+potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á
+entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das
+promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse
+bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa,
+para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.
+
+No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa
+do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os
+brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos
+olhos--o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter
+livrado dos especialistas.
+
+--Foi aquelle grandissimo ladrão!
+
+Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado
+gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.
+
+Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados,
+mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que
+só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita
+santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava,
+acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz.
+Então o homemzinho explicou:--A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas,
+entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da
+minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua
+lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os
+tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a
+Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha
+ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella
+não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que
+ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos.
+Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes
+objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a
+Senhora respondeu-me:
+
+--Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é
+um crente sincero, e quando toda a gente negasse o milagre, elle o
+affirmaria como possivel.
+
+Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse
+possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em
+paz, com os brincos e o cordão.
+
+Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:
+
+--Grandissimo ladrão!
+
+E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:
+
+--Reverendissimo burro!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Saudade! gôsto amargo de infelizes..._
+
+ (Garrett).
+
+
+--Fizeste bem em vir...
+
+Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não
+havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a
+bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço
+de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.
+
+--Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e
+muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de
+nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro
+tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.
+
+--Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...
+
+Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um
+suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a
+apertar-lhe o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.
+
+--Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de
+querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...
+
+Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes
+olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida,
+um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás
+vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me
+então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso
+em que se apagassem.
+
+--Custa tanto morrer, sabes?...
+
+Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer
+nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito
+raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos
+calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.
+
+--Vê como se envelhece depressa...
+
+Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com
+elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.
+
+--Lembras-te?...
+
+Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos,
+perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos
+negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era
+tudo o que lhe restava de vida--um sopro apenas de vida, que era um
+bafejo da morte...
+
+--Doidos que nós eramos!..
+
+Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor
+prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas,
+para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como
+n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam
+gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos
+polos.
+
+Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal
+acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica;
+vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na
+translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar
+dentro d'um jazigo, para violar uma morta.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
+
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+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+particular state visit https://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
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