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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:02:46 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Nuvem
+ Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
+
+Author: Luiz Couceiro
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34964]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+LUIZ COUCEIRO
+
+A NUVEM
+
+Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
+
+
+
+
+AVEIRO
+
+Typ. "Minerva Central"
+
+1910
+
+
+
+
+
+LUIZ COUCEIRO
+
+A NUVEM
+
+Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
+
+
+
+
+AVEIRO
+
+Typ. "Minerva Central"
+
+1910
+
+
+
+
+PERSONAGENS
+
+ Henrique
+ Fernando
+ Arminda
+ Margarida
+ Maria, creada
+ Uma creança de 6 mezes
+
+
+
+
+PROLOGO
+
+Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á qual
+Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de escrever.
+
+
+SCENA PRIMEIRA
+
+
+HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA
+
+Henrique _(só)_
+
+ «Corre um anno de vida desgarrada
+ Que sempre tem levado o teu amante,
+ E outra vida, decerto, attribulada,
+ Suavisar, se procura, n'este instante.
+ Vou partir, Margarida, e sê feliz;
+ Porque emfim, cêdo apenas a um esforço
+ De sentimento são; e ás almas vis
+ Cabe-lhe sempre o premio do remorso!
+ Adeus! E vae fazendo o que poderes
+ Para esquecer este homem transviado
+ Do trilho, da conducta, e dos deveres!
+ Adeus! A nada mais sou obrigado!»
+
+_(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)_
+
+ Sim! sim! jámais podéra ser possivel
+ Combater contra a minha reflexão!
+ E depois, que diabo! não é crivel
+ Mudar-se o santuario da união
+ Pelo louco viver do mundanismo;
+ Não, não é crivel ter a vida assim,
+ E salvar-me, procuro, d'este abysmo,
+ Quando, demais, alguem soffre por mim!
+
+
+_(Pausa e reflectindo depois)_
+
+ De facto, Margarida tem encantos,
+ Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente
+ Que a tornam fascinada só de quantos
+ A pretendam gosar satyramente!
+ Goso estupido, goso só brutal,
+ Que nos converte em féras, ou ainda
+ N'um ente desprezivel e anormal!
+
+
+_(Pausa, exclamando depois com sentimento)_
+
+ E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,
+ Levado na corrente d'esse imperio!
+
+_(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)_
+
+ Oh! rosto tão suave de mulher!
+ Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,
+ Como não será muito o teu soffrer!
+ Semblante de bondade, a contrastar
+ Com falsos attractivos de mundanas!
+ Aqui, traços de paz bem salutar,
+
+_(Em meditação)_
+
+ N'aquellas... linhas torpes e profanas!
+ Rosto meigo que outr'ora me prendeu,
+ A elle regresso, a elle vão meus passos,
+ E crê que vou guiado pelo ceu,
+ Buscando, d'amizade, os santos laços.
+
+
+_(Beijando o retrato e levantando-se de subito)_
+
+ Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!
+ Nem me lembrava d'esse poderio!...
+ Foi a fatalidade do meu trilho,
+ E complemento do meu desvario...
+ Comtudo, não importa, porque em suma,
+
+_(Conformando-se)_
+
+ É producto de falsas relações
+ Que se dissolvem, qual tenue espuma...
+ Existe uma creança; mas razões
+ Me forçam a esquece-la já tambem.
+
+_(Tirando do bolso uma carteira)_
+
+ Concedendo dinheiro em abundancia
+ Para que Margarida, como mãe,
+ Provenha ao alimento dessa infancia.
+
+_(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta
+lateral)_
+
+ Coitadita da pobre creancinha!...
+ A dormir!... Tem nos labios um sorriso...
+
+_(Atirando-lhe um beijo)_
+
+ Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...
+
+_(Retirando-se a custo)_
+
+
+ Custa-me... mas então? Se me é preciso!
+ E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro,
+ Que farei tudo quanto fôr humano
+ Para vellar por ella no futuro!
+
+_(Pausa, depois da qual, com coragem)_
+
+
+ Vamos!
+
+_(Parando e com desalento)_
+
+ É bem profundo o desengano!
+
+_(Pegando no chapeu)_
+
+ De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...
+ E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,
+ Onde, só de virtude, a vida é rica,
+ E onde chego humilhado e bem contricto!
+
+_(Sae rapidamente)_.
+
+
+SCENA SEGUNDA
+
+Margarida _(só)_
+
+_(Entrando por uma porta lateral e esfregando os
+olhos)_
+
+ Safa! Que dormir tão pesado o meu!
+ Nem que fosse uma noite d'hymeneu,
+ A prolongar um somno de fadiga!
+ E então, que curiosa lucta e briga
+ Com os sonhos, os mais extravagantes...
+ A vêr-me rodeada só d'amantes,
+ Que disputavam a honra e primazia
+ Da posse luxuriante d'uma _Lia_!
+ Safa! Que pezadello interminavel...
+
+
+_(Pausa, depois da qual, repara na carta)_
+
+ Olá! Temos missiva? D'um amavel
+ D. Juan, talvez?
+
+_(Vendo a letra)_
+
+ Mas não, porque esta letra
+ Pertence ao cavalheiro que penetra
+ No aposento. É do meu nobre senhor!
+ Não ha duvida! Ou antes, e melhor:
+ É d'um obediente e humilde escravo!
+
+_(Lendo a carta e cynicamente admirada)_
+
+ An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo!
+ Muito bem! Apoiado! É admiravel!
+
+_(Largando gargalhada sarcastica)_
+
+ Eis uma acção esplendida, louvavel!
+
+_(Sentando-se)_
+
+ Coitado! Que desgraça! Pobresito,
+ Que diz voltar em tudo bem contricto
+ Aos braços da mulher! _(rindo)_ sim, sim, coitado
+ Do triste e pobre errante, transviado
+ Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo!
+ Vae-te menino, vae-te, que o consôlo
+ Não me falta, acredita; pódes crêr!
+ E lança-te nos braços da mulher,
+ Pois que duvida? Ora essa? Porque não?
+
+
+_(Com sarcasmo)_
+
+ Mas que parvo, irrisorio e toleirão,
+ Não veem!? Que ridiculo ignorante,
+ Que nem ao menos sabe ser amante!
+ E deixa carta, sem ter a coragem
+ De dizer que se acolhe na frondagem
+ Da virtude!
+
+_(Reconsiderando)_
+
+ Virtude! Mas que é isso?!
+ Um nome que se torna ôco e omisso
+ Entre nós. A virtude é ter dinheiro
+ Que bem nos sustente o orgico viveiro,
+ Porque amantes, se atiram para o lixo,
+ Vindo outros que sustentem o capricho!
+
+_(Indo para sentar-se e reparando na carteira)_
+
+ Ah! espera! deixou uma carteira!
+ E tem notas! Lembrança bem certeira,
+ Porque... emfim... é só isto o essencial
+ P'ra presidir á nossa bachanal...
+
+_(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução,
+senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha)_.
+
+
+SCENA TERCEIRA
+
+
+MARGARIDA E UMA CREADA
+
+Maria
+
+_(Entrando de fundo)_
+
+ Que deseja?
+
+Margarida
+
+ Recado algo importante
+ Que desempenharás já, n'este instante.
+
+_(Levantando-se)_
+
+ Levarás esta carta ao outro andar,
+ Mas não te deves nada demorar
+ Porque inda outro negocio bem urgente
+ Teremos que cumprir, presentemente.
+
+_(Entregando a carta á creada, que sáe)_
+
+ Vae...
+
+
+SCENA QUARTA
+
+Margarida _(só)_
+
+ Ora pois... sou livre por minutos
+ Dos élos deshonestos e corruptos!
+ Mas não tão livre, não tão livre ainda,
+ Que Henrique não levasse á D. Arminda
+ O fructo do transvio de seu marido.
+ Coitado! Mas que triste arrependido!
+
+_(Rindo)_
+
+ E talvez concebesse que o seu filho,
+ De futuro, me sirva d'impecilho.
+ Ná, ná! Quem se desliga a compromissos,
+ Não o faz com intuitos só postiços.
+ Pois que!? Foge da vida deshonesta,
+ E deixa aqui o pomo de tal festa?!
+ Ná! que o leve; que o leve para o lar,
+ Onde a contricção vae representar.
+ E depois, almas vis, más e preversas,
+ Pódem ás vezes ser nobres e adversas
+ Ao crime.
+
+_(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma creança de
+seis mezes)_
+
+
+ Vaes gosar creação casta,
+ Que te infiltra dignissima _Madrasta_:
+ Vaes sahir d'este reles ambiente,
+ Onde se perde muita e muita gente!
+
+_(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á testa)_
+
+ An?! Que digo? Que disse eu inda agora?!
+ Não seria um lampejo, ou uma aurora
+ De verdade, que acaso illuminou
+ A minha alma, e p'la mente me passou...
+
+_(Com resolução)_
+
+ Sim, minha filha, quero que vás. Vae;
+ Vae acolher-te á sombra de teu pae;
+ Vae abrigar-te n'essas consciencias
+ Que salvam e redimem existencias!
+
+
+SCENA QUINTA
+
+
+MARGARIDA E MARIA
+
+Maria _(entrando)_
+
+ Satisfeito foi já o seu recado...
+
+Margarida
+
+ Pois outro tem de ser executado
+ E deligentemente. Espera um pouco,
+ Emquanto escrevo á _Dona_ d'esse louco
+ Que hoje me abandonou. E na pequena
+ Segura já.
+
+_(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)_
+
+ Alguns traços de pena,
+ E prompto. Nada mais ha a fazer
+ Na consciencia de tão reles mulher!
+
+_(Dictando o que escreve)_
+
+ «Senhora!
+ Deposito essa creança,
+ Filha de seu marido, e esperança
+ Tenho que irá ser muito mais feliz,
+ Do que no antro que apenas só se diz
+ Do vicio, da vergonha!»
+
+_(Entregando a carta á creada)_
+
+ Ora aqui tens...
+
+_(Á parte)_
+
+ E inda dizem que são más estas mães!
+
+_(Á creada)_
+
+ Desejo que sem perda de momento
+ Ás minhas ordens tragas cumprimento.
+ Procuras indagar qual a morada
+ Do fugitivo Henrique, e lá, na escada,
+ A pequenita deves collocar,
+ Bem como a carta junta ahi deixar.
+ Depois, tens que affastar-te de repente,
+ Percebes?
+
+Maria
+
+ Muito bem, e fico sciente.
+
+_(Estupefacta)_
+
+ Porém, senhora! nem sequer um beijo
+ Na creancinha?!
+
+Margarida _(imperiosa)_
+
+ Basta-me o desejo
+ Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno,
+ Muito embora com alma de veneno!
+
+Maria
+
+_(Indo a sahir e parando ao fundo)_
+
+ Mas... mas de que é feito esse coração?!
+
+Margarida _(indicando-se)_
+
+ É coisa que não ha na habitação!
+ Vae...
+
+Maria _(repentina)_
+
+ Irei. _(sáe)_.
+
+
+SCENA SEXTA
+
+
+MARGARIDA E FERNANDO
+
+Fernando _(entrando)_
+
+ Margarida! A que dever
+ A honra e o distinctissimo prazer
+ Da sua carta?
+
+Margarida
+
+_(Approximando-se de Fernando)_
+
+ Irá sabel-o já,
+ Meu caro e bom Fernando! Venha cá?
+
+_(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)_
+
+ Julgo que conquistou ardente feito!
+
+_(Apontando para o quarto)_
+
+ Ora diga? O que vê d'aqui?
+
+Fernando _(olhando)_
+
+ Um leito!
+
+Margarida
+
+ Em que ha pouco vagou certo logar...
+
+Fernando _(interrogando)_
+
+ ... E então?!
+
+Margarida
+
+ Querendo... Venha-o occupar.
+
+Cae o panno
+
+
+FIM DO PROLOGO
+
+
+
+
+ACTO I
+
+Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao fundo. Á
+direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre de
+fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao
+centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se
+encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza,
+vae contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa.
+
+
+SCENA PRIMEIRA
+
+Arminda _(só)_
+
+ ... E vinte!...
+ O indispensavel enxoval
+ P'ra essa creança, que é filha do mal!
+ Apenas o preciso p'ra o conchego
+ Do ente, que, desvario tolo e cego,
+ Arrumou para o mundo, e que o destino
+ Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino
+ Deus! A vossa vontade seja feita!
+ E a mulher, que a desdita sempre espreita,
+ Curva-se ante o poder d'essa grandeza,
+ Que a ella me ligou e me traz preza!
+
+
+_(Com dôr)_
+
+ Um pequeno enxoval, mas sufficiente
+ Para poder cuidar d'esse innocente
+ Que a vil libertinagem engeitou!
+ Que a infamia, por onde só errou
+ A vida impura, incasta e illegitima,
+ Trouxe aos portaes da sua triste victima!
+
+_(Affastando-se da meza)_
+
+ E que havia a fazer?... Repudiar
+ O fructo da loucura?... Regeitar
+ A offerenda, que, quem sabe? foi Deus
+ A salva-la do mar, dos escarceus
+ Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem
+ A doa-la aos carinhos d'outra mãe!
+ Que havia de fazer? Tornar-me ré
+ Da deshonra, e com simples pontapé
+ Exclamar:--Vae, vae para a sociedade
+ Em que se mancha e perde a honestidade!
+ Vae tambem corromper-te em sacrificio
+ D'essa libertinagem, e do vicio!
+ Não! Não! Ninguem me dá esse direito,
+ Que apenas crearia mais um leito
+ Na impudica mansarda da baixeza!
+ Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza.
+ Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede,
+ Nem jámais a minha alma diz e pede
+ Que lance p'ra mizeria e para o crime
+ Uma outra alma que d'elle se redime!...
+
+
+_(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução)_
+
+ Fica, pobre creança! Assim o quero
+ Fica, porque eu respeito e mui venero
+ O que o destino dá.
+
+_(Com pausa e sentimento)_
+
+ Elle predisse,
+ Em leis, que essa cruel libertinice
+ D'um marido não tinha o grave jús
+ De arrumar-te, impiedosa, para o púz
+ Virulento d'infame corrupção!
+
+_(Curvando-se sobre o berço)_
+
+ Fica sim! Tens aqui um coração
+ Repleto de carinho e sentimento!
+ Fica no lar, que, como deserta ilha,
+ Escolhos cerca! Fica, és minha filha!...
+ E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo.
+ Fica creança, fica... Eu te abençôo!
+
+_(Sentando-se junto do berço)_
+
+
+ E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,
+ Do gérmen d'essa orgia productiva!
+
+_(Pausa)_
+
+ Não quiz Deus dar-me um filho que pedia,
+ E que n'este deserto tanto urgia,
+ Para que n'um momento, n'um instante.
+ Tenha d'acalentar o que é da amante!
+ Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...
+
+
+_(Pausa)_
+
+ Marido... foge ao lar por onde a fé
+ Do amor pode ser a unica sincera...
+ E lá vae, lá vae elle como a féra
+ Viciada, em procura do covil,
+ Onde recebe o goso d'essas mil
+ Desgraçadas sem alma, sem consciencia!
+ Lá vae elle, deixando esta innocencia
+ Do altar que a pura Egreja solidou,
+ Em troca do que nunca, nunca amou;
+ Porque amar, nunca e nunca sabe, quem
+ Se ausenta de tão santo amor de mãe!
+ Lá vae, lá anda n'essa podridão
+ Que rouba o sentimento e a razão!
+ Que destroe, injuría e enxovalha,
+ Que infecta, que corrompe, prende e emalha
+ A noção do respeito p'lo dever!
+ Lá anda n'esse impudico prazer,
+ Cujas garras tão vis, cynicamente
+ Arrebatam do puro e casto ambiente
+ Todo esse bem, que n'elle se creara;
+ Cujas garras, de força bruta, avára.
+ Arrebatam do lar santificado
+ O descanço e o bem que lhes é dado!
+ Lá anda, lá vegeta no monturo
+ Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,
+ Que a desgraça creou, sustenta e nutre;
+ Filando com intuitos só de abutre,
+ E attributos de farça e d'ironia,
+ As prezas de tão grande vilania!
+ Vilania,--que em seu lubrico espasmo,
+ Chasqueia da virtude, com sarcasmo,
+ Ri da fé, desvirtua a honestidade,
+ Deprava o sentimento e a dignidade.
+ Insulta, zomba e rasga sem respeito
+ O véu do precioso preconceito!
+ Suja, quebra, dissolve e inutilisa,
+ Macúla, estraga e já esterilisa
+ A pureza e o brilho do que é são!
+ Abala, derrue, prosta em confusão,
+ Det'riora, desfaz, calca e elimina
+ A graça do bom lar, graça Divina!...
+
+
+_(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando
+dolorosamente)_
+
+ E foi... foi assim que essa vilania
+ Me roubou o socego e a alegria!
+ Foi assim, assim, que ella aqui entrou,
+ E que de mim se riu e só zombou!
+
+_(Encosta-se sentidamente ao berço)_
+
+
+SCENA SEGUNDA
+
+
+ARMINDA E HENRIQUE
+
+Henrique
+
+_(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e penetrando
+a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz)._
+
+ Ninguem!... Sómente a paz religiosa
+ Da verdade!... Só graça harmoniosa
+ Da virtude!... Sómente o ar suavissimo
+ Do bem!... O perfumado e o dulcissimo
+ Aroma a castidade.. que trahi!...
+
+_(Respirando desafogadamente)_
+
+ Ah! Como se respira bem aqui!...
+ Deixai-me que, aspirando a longos tragos
+ O balsamo do amor e dos affagos,
+ Eu bem me purifique no sacrario
+ Que envolve o precioso relicario
+ Do natural, do justo, do acceitavel!
+
+_(Suspirando de novo)_
+
+ Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel
+ A realidade!
+
+_(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e se não ouvem
+um ao outro)_
+
+Arminda
+
+_(Parecendo despertar dum sonho)_
+
+ E tudo, só tudo isto,
+ Se me afigura um sonho!...
+
+Henrique
+
+_(Olhando para o ambiente)_
+
+ Além, um Christo,
+ Em expressão suavissima, a espargir
+ Bondade, a abençoar, a redimir!
+
+Arminda
+
+_(Olhando para a creança)_
+
+ Coitada! Que destino o teu seria!?
+
+Henrique
+
+_(Continuando a reparar em tudo)_
+
+ Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria,
+ Recebendo o amor em seus ternos braços.
+
+Arminda
+
+_(Descobrindo o rosto da creança)_
+
+ E em verdade, verdade, muitos traços
+ D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...
+
+_(com ternura)_
+
+ Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!
+
+Henrique
+
+_(Voltando-se para a meza)_
+
+ Aqui, vejo uma cesta com roupinha...
+
+Arminda
+
+_(Continuando a examinar a creança)_
+
+ E também se parece esta boquinha
+ Bem rosada...
+
+Henrique
+
+_(Analysando a roupa)_
+
+ Enxoval d'uma creança,
+ Posto em disposição cuidada e mansa.
+
+Arminda
+
+ O narisito não. Destôa um pouco
+ Do perfil d'esse mau e d'esse louco...
+
+Henrique
+
+_(Pegando em algumas peças de roupa)_
+
+ Chambrinhos e babeíros; camisinhas...
+
+Arminda
+
+_(Descobrindo a creança)_
+
+ São perfeitos os braços e as perninhas...
+
+Henrique
+
+_(Continuando a analysar a roupita)_
+
+ E outra tanta roupinha de petiz,
+
+_(Admirado)_
+
+ Decerto, para algum ente feliz,
+ A quem Arminda serve de madrinha.
+
+Arminda
+
+_(Cobrindo a creança)_
+
+ Pobresita! Afinal és isentinha
+ Do peccado...
+
+Henrique
+
+_(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)_
+
+ Ella é meiga e caridosa...
+ É tão 'smoler, é tão affectuosa
+ Para os pobres...
+
+Arminda
+
+_(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente sahindo do
+biombo para entrar na salla e exclama)_
+
+ Meu Deus! Meu bom Senhor!
+ P'la Infinita vontade e grande amor,
+
+_(Sahindo do biombo)_
+
+ Ahi fica, ahi fica essa creança,
+ Que n'este triste abrigo a sorte lança...
+
+Henrique
+
+_(Avançando, surprehendido, para Arminda)_
+
+ Senhora!...
+
+Arminda
+
+_(Recuando atonita)_
+
+ Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?
+
+Henrique
+
+_(Suffocado)_
+
+ Buscar essa amizade que perdi...
+
+Arminda
+
+_(Surprehendida e admirada)_
+
+ An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!
+
+Henrique
+
+_(Avançando um pouco)_
+
+ No saudoso ambiente d'esta cella!
+
+Arminda
+
+_(Cada vez mais surprehendida)_
+
+ O quê?! Aqui?! Decerto se enganou,
+ E sem duvida, creio, a porta errou.
+ Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...
+
+Henrique
+
+ Abrigar-me ás caricias da mulher...
+
+Arminda
+
+_(Profundamente admirada)_
+
+ Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu
+ Que o senhor se enganou, e qual judeu
+ Errante, anda passando em falsa estrada,
+ Illudindo-se ao certo na morada!
+
+Henrique
+
+_(Avançando mais)_
+
+ Arminda!...
+
+Arminda
+
+ Ah! sim, sim! É esse o meu nome;
+ Porém, tal coincidencia não assome
+ O direito de crer-me quem procura;
+ E revella sómente muita uzura,
+ Imaginar, que cá, por este mundo,
+ Esse nome de mim seja oriundo!...
+ Sim! Armindas ha muitas, acredite,
+ E tantas, tantas, que bem me permitte
+ Repetir quanto falham seus caminhos!...
+
+Henrique
+
+_(Com sentimento)_
+
+ Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos.
+ Senhora!...
+
+Arminda
+
+_(Impaciente)_
+
+ Vamos! Vamos! Que deseja?
+
+Henrique
+
+_(Contricto)_
+
+ Confessar uma culpa que me peja.
+ E se ha muito, se ha muito ando perdido,
+ Bem penitente aqui tem seu marido!...
+
+Arminda
+
+_(Com repugnancia)_
+
+ Que diz o senhor?! Meu marido?!...
+
+Henrique
+
+_(Corajoso)_
+
+ Sim,
+ E n'essa qualidade eu aqui vim...
+
+Arminda
+
+_(Com serenidade)_
+
+ E como tal pretende apresentar-se?!...
+
+Henrique
+
+ Se dá licença?...
+
+Arminda
+
+_(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma cadeira)_
+
+ Então! Queira sentar-se.
+
+_(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa)_
+
+ Com effeito... e em verdade, ideia tenho
+ De que alguem, com astucia e muito engenho,
+ Um dia conseguiu vêr-me no altar
+ Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar
+ Tal acto ou sacramento d'evangelhos,
+ Ante um homem dobrei os meus joelhos!
+ Então... padre d'aspecto venerando,
+ As orações do rito foi rezando,
+ Emquanto duas almas se fundiam
+ Á lei de Deus, e dois peitos se uniam
+ Ao regimen da mais pratica escola!
+ Deram-se as mãos; depois, a branca estóla
+ As cobriu, invocando o juramento
+ Que firmaria o Santo Sacramento!
+
+_(Descançando)_
+
+
+ E jurámos, jurámos n'esse exemplo,
+ Que nos manda crear o bello templo
+ Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto
+ Sómente a guarda e abrigo d'um affecto!
+ É mais, que de sublime, tem o vulto!
+ É n'elle edificar paz, honra e culto!
+
+ E assim, bem se jurou mais egualmente
+ Que, obreiros de castissimo ambiente,
+ Erigissem alli, em devoção,
+ O respeito, dever, religião!
+
+
+_(Pausa, depois proseguindo)_
+
+ Realmente, senhor, lembra-me que um dia,
+ Quando sã madrugada alvorescia
+ Toda em perfumes, canticos e flôres,
+ Alguem, que de mim tinha por amores,
+ O symbolo d'aliança me entregava,
+ E em meu peito dizia que se achava!
+ Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor,
+ Tão lindo despertar, tão lindo alvôr
+ Da pura realidade dos meus sonhos,
+ Feitos de beijos castos e risonhos,
+ De melodias suaves e plangentes!
+
+_(Com mais vida, erguendo-se)_
+
+ Se me lembra a manhã em que dois entes,
+ Deleitados na força da paixão,
+ Se uniam em solemne sagração
+ D'um tributo!...
+
+_(Pausa, depois com magua)_
+
+ Recorda-me... Entoava
+ O orgão religiosos sons! Resava
+ Por assim dizer preces ao Bom Deus
+ Pelo bem de sagrados hymineus.
+ E que sons! E que sons tão inspirados
+ Na graciosidade d'uns noivados!
+ Que harmonia e conjunctos fervorosos,
+ Embalando a união de dois esposos!
+ Que accordes, que hymnos tão sentimentaes,
+ Incensando d'amor uns esponsaes!...
+ Sim!... Recordo em verdade o sorridente
+ Dia, e conservo ainda bem presente
+ Toda a felicidade que senti!...
+
+
+_(Pausa e apontando a porta de fundo)_
+
+ Olhe... repare... foi... foi por ali
+ Que eu entrei com soberba magestade,
+ Envolta no meu véu de virgindade!
+ Foi por ali que entrei; e junto a mim
+ Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»
+
+Henrique
+
+_(Levantando-se e interrompendo-a)_
+
+ E esse noivo, senhora, era...
+
+Arminda
+
+_(Atalhando)_
+
+ Era alguem,
+ Que na ambição de posse que se tem,
+ N'essa grande ambição a que se aspira,
+ Julgou depois que tudo era mentira,
+ Falsidade, illusão, tolice e asneira!
+ Era alguem, que fitando em pasmaceira
+ A vitrine d'objecto precioso,
+ Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso,
+ Exagerára as suas qualidades,
+ E se precipitara nas vontades!
+
+Henrique
+
+_(Pretendendo interrompel-a)_
+
+ Mas, senhora...
+
+Arminda
+
+_(Atalhando-o)_
+
+ Não queira ter o arrojo
+ De desmentir-me, pois qual, qual estojo,
+ A guardar um brilhante lapidado,
+ Assim foi e era o meu véu de noivado;
+ Assim foi o meu véu, que descoberto,
+ Lhe mostrou, afinal, o que de incerto
+ Era o seu pensamento em ideal...
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Mas hoje, o positivo e o real...
+
+Arminda
+
+_(Impondo silencio)_
+
+ Nada d'interrupções! Estou fallando,
+ E desejo ir a pouco demonstrando
+ O meu sentir. Dizia eu ha bocado
+ Que, tal como brilhante lapidado,
+ Era a mulher sahida da innocencia
+ Para o mundo da prova e exp'riencia.
+ E... e senão, vejamos! Em geral,
+ Tem a mulher encanto natural,
+ E attracções de que muito foi dotada;
+ Mas quando pretendida, quando amada,
+ Eil-a que se transforma em maravilha,
+ E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!...
+ Anjo do ceu, que assim tanto seduz,
+ Astro de fé, de vida, d'alma e luz;
+ A guia, o norte, a briza perfumada.
+ A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada,
+ Tudo, emfim, de tal modo concebida,
+ De tal maneira olhada e percebida,
+ Que um Velasques, Murillo ou Raphael
+ Jámais produziriam do pincel
+ Inspiração egual! Mas, como as flôres
+ Que em jardim vão brotando de mil côres,
+ A ellas bem se assemelham as mulheres.
+
+ Cravos, jasmins, tulipas e outros seres
+ Que da especie Deus pôz em geração,
+ Um ha que nos merece distincção,
+ E para elle vae vista attenciosa.
+
+ D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa,
+ Pela côr e finura de formato;
+ Aroma que daria suave extracto,
+ E viço tal, que lagrimas d'orvalho
+ Pousando-lhe com arte e lindo talho,
+ De perolas, imita, collar fino,
+ A guarnecer um collo alabastrino!
+
+ Elegancia suprema, ar donairoso,
+ A rosa attrahe olhar ganancioso:
+ E com motivo, pelo mundo inteiro
+ Lhe chamam a rainha do canteiro!
+
+ Admira-se, contempla-se a belleza
+ Que a nossos olhos deu a natureza!
+ Pasma-se em fascinante adoração
+ Absorvendo o producto, a creação
+ Genial! E depois, não resistindo
+ Ao desejo de ter o fructo lindo,
+ Corta-se o encanto, o iman attractivo,
+ Para figurar qual decorativo
+ N'uma jarra de _Sevres_, ou crystal!
+
+ Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!...
+ A pobresita já dias após
+ Não escutava nem ouvia a voz
+ Da admiração! E ha pouco despresada,
+ Sem carinhos, de todo abandonada,
+ Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba!
+ Nem sequer o perfume que exhalava
+ Vem recordar a sua contextura!
+ Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...
+
+
+_(Com desalento)_
+
+ Assim é a mulher que s'enaltece:
+ Tambem se apaga, cahe e desfallece...
+
+_(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)_
+
+Henrique
+
+ Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir
+ A voz de quem pretende redimir
+ Os erros de uma vida attribulada...
+
+_(Redobram os vagidos da criança)_
+
+Arminda
+
+_(Procurando affastar-se)_
+
+ Não posso! Veja que outra vida brada
+ Pela minha presença, e bem m'incute
+ Um dever! Veja! attenda? escute, escute
+ Os vagidos d'aquelle innocentinho
+ Pedindo o meu conforto e meu carinho!
+
+Henrique
+
+_(Attonito e escutando)_
+
+ Os vagidos!? Os choros de criança?!...
+
+_(Confuso)_
+
+ Mas, minha senhora!
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ É uma herança,
+ Que chama os meus cuidados!
+
+Henrique
+
+_(Inquieto)_
+
+ Mas perdão!
+ Apenas um minuto d'attenção!
+
+_(Em confusão d'ideias)_
+
+ Aquelle choro!... tão infantil!...
+ Traduz-me a existencia de um ardil!...
+ Espere: Espere?
+
+_(Avançando)_
+
+Arminda
+
+ Diga, mas depressa,
+ Pois que aquelle lamento jámais cessa
+ Sem ternuras de mãe!
+
+Henrique
+
+_(Atalhando)_
+
+ Senhora!
+
+Arminda
+
+_(Cruzando os braços)_
+
+ Que ha?!...
+
+Henrique
+
+_(Aparentando soffrimento)_
+
+ O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná...
+ Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?!
+ A que data, a que data, sim, se liga
+ O nascimento d'esse seu vivente?
+
+Arminda
+
+_(Impassivel)_
+
+ Tem seis mezes approximadammte!...
+
+Henrique
+
+_(Muito surprehendido)_
+
+ An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!
+
+Arminda
+
+ A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...
+
+Henrique
+
+_(Dolorosamente invocando a memoria)_
+
+ Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia
+ Não condiz com a minha grande ausencia
+ Desta casa! Senhora! Por quem e?
+ Veja o que em meu semblante já se lê,
+ Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno
+ Me ausentei... E esse filho... é...
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ É profano!...
+
+Henrique
+
+_(Avançando de punhos cerrados e exclamando)_
+
+ Ah!...
+
+Arminda
+
+_(Imperiosa)_
+
+ Suspenda! suspenda, desgraçado!
+ Que não tremo ante o facto consumado!
+ Suspenda, porque não me atemorisa
+ A ira de quem adopta por divisa
+ A infamia! Pare, pare, não avance,
+ Que não vacilarei em frente ao lance
+ Despotico de tão vil caminheiro
+ Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro,
+ Suspenda, porque não tremo perante
+ Affirmar... que esse filho...
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ É?...
+
+Arminda
+
+_(Altiva)_
+
+ D'um amante!...
+
+Henrique
+
+_(Interrogando)_
+
+ E a mãe!...
+
+Arminda
+
+ É a mulher que deshonrou
+ O nome d'um marido, que aviltou
+ A dignidade dum sêr conjugal,
+ E se lançou para esse lodaçal
+ Da miseria humana! É a mulher
+ Que na loucura d'orgico praser
+ Se lançou ao enxurro da corrente,
+ Vestal indecorosa e deprimente!...
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo, e convencido de ser victima de cilada)_
+
+ É a mulher, que, sem honra e vergonha,
+ Buscou a aviltantissima peçonha
+ Da desforra cruel, não é verdade?
+ A mulher que, perdendo a dignidade,
+ Em troco de torpissima vingança,
+ A mostra, com a prova da creança
+ Existente no lar, que de novo ora
+ Procuro. Que se não vexa, nem cora,
+ Com a pratica d'um crime aviltante;
+ A mulher que na sêde devorante
+ De debitar affrontas, só reclama
+ A moeda emprestada, e a si chama
+ O direito d'um plano indecoroso,
+ Pagando-se com acto vergonhoso;
+ Atirando-me ao rosto grave insulto,
+ E corrompendo todo, todo o culto
+ Que deve ter-se pela honestidade!
+ A mulher que despresa a probidade,
+ E que na hora da minha reflexão,
+ Aponta esse signal de corupção,
+ Como atroz vilipendio e atroz injuria!
+ É a mulher ardendo em odio e furia
+ Vingativa, sem alma, sem nobresa,
+ Sem outro qualquer dom de que se presa
+ A sociedade, pois não é assim?
+ É a mulher que jura contra mim
+ A guerra, de, a façanha, outra façanha,
+ E que em descaramento me arreganha
+ Os dentes da villesa e da traição!
+ A mulher que transforma o coração
+ Em veneno odioso e repelente,
+ Para em dado momento, e ardilmente,
+ O injectar em minha alma, proclamando
+ Um feito immoralissimo e execrando!
+ A mulher que s'isenta do civismo
+ E logo se mascara do cynismo
+ Que ultraja, sem que ao menos se recorde
+ Que a raiva que inocula, quando morde,
+ Encerra sempre o virus e o microbio
+ Para sua deshonra e seu oprobio!
+ É a mulher, emfim, que, sem virtude,
+ A taes proezas tão vilmente allude!
+ A mulher, que tal nome não merece,
+ Quando só se desprende e só se esquece
+ Do fim para que fôra concebida!
+ É a mulher, em suma, confundida
+ Na escoria da miseria, que profana,
+ Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Ora nem mais, diz bem! É essa mesma:
+ É essa tal, o monstro, essa abantesma
+ Que descreve, acredite? É essa, é essa
+ Misera que se expõe e que confessa...
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ O proceder infame d'uma esposa!
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo indignada)_
+
+ É lá! Suspenda a phrase rancorosa,
+ E não se atreva, não se atreva a tanto!
+ Falla-se da mulher, saiba; porquanto,
+ A esposa, está aqui, embora diga
+ Que deixou de o ser, para quem se abriga
+ No mal.
+
+Henrique
+
+_(Furioso)_
+
+ E a senhora? Onde se abrigou?
+
+Arminda
+
+_(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, cahindo de
+bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo todos os
+movimentos.)_
+
+ N'esta vida que Deus me destinou!
+
+Henrique
+
+_(Crusando os braços)_
+
+ Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes
+ Que se abriga ao producto d'uns amantes!
+ Que se abraça á tristissima irrisão
+ Da mais adulterina concepção!
+ Diga antes, que se acolhe na sentença
+ Que me fôra ditada; e que em presença
+ D'esse escarneo, se prova a hediondez
+ D'um crime, que a vingança traz e fêz!
+ Diga-me, antes, senhora, que aconchega
+ O fructo que a immoral lhe deu e lega
+ Como espelho constante de traição,
+ Como sobrio reflexo da illusão
+ Em que cahi!...
+
+Arminda
+
+_(Levantando-se e enchendo-se de coragem)_
+
+ Pois seja! Assim o diga!...
+ Esta creança...
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ O insulto!...
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ É o castigo!
+
+Henrique
+
+_(Recuando e disposto a sahir)_
+
+ Passe Vossa Excellencia muito bem
+ Minha Senhora!!
+
+_(Apontando para a porta)_
+
+ Aquella porta, tem
+ O condão de se abrir ante a passagem
+ D'este tão illudido personagem;
+ E se aqui vim, buscando honestidade,
+ Convicto saio e vou, da falsidade
+ Com que ella se proclama e annuncia!
+ Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia,
+ Variando sómente em sociedade;
+ Porquanto; se lá fora a indignidade
+ Se expõe, aqui se occulta no cynismo
+ Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo,
+ Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo
+ Ante o revoltantissimo sarcasmo
+ Que preside á mudança d'este lar
+ No mais indecoroso lupanar!
+
+Arminda
+
+_(Revoltadissima)_
+
+ E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor,
+ Do biltre que, sem honra e pondonor,
+ Se arroja a censurar, altivamente,
+ A esposa que despreza infamemente!
+
+
+_(Altiva, apontando-lhe a porta)_
+
+ Saia! Que jámais tem auctoridade
+ Para insultar, quem só na indignidade
+ Vagueia e lá procura o seu viver!
+
+Henrique
+
+_(Altivo)_
+
+ Mas eu sou homem!
+
+Arminda
+
+_(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae recuando para
+sahir)_
+
+ E eu... eu sou mulher!
+
+_(Indica-lhe a porta)_
+
+Fim do primeiro acto
+
+
+
+
+ACTO II
+
+A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição. Dentro do
+biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena,
+encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo
+fundo Henrique e Margarida.
+
+
+SCENA PRIMEIRA
+
+
+HENRIQUE E MARGARIDA
+
+Henrique
+
+ Ora aqui tem os novos aposentos
+ Que servirão de galla aos meus intentos.
+ Repare? Veja o luxo d'esta salla,
+ Que a nada, mesmo a nada mais se eguala.
+ Hein! Hein! Que lhe parece?!
+
+Margarida
+
+_(Admirada)_
+
+ Realmente,
+ É soberbo! ideal! Mas, francamente,
+ Acho bello de mais: bello de mais
+ P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...
+
+Henrique
+
+ Engano, Margarida, puro engano;
+ Tudo isto é impostura e só profano!
+ Apenas a mudança de scenario,
+ Com quanto lhe pareça um relicario
+ O que está vendo, creia. Tão sómente
+ D'aspecto a mutação, mas apparente
+ E falso, no que indica, pois de facto,
+ Quanto vê, é traidor e bem ingrato;
+ Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto
+ O mais completo, o mais perfeito assumpto,
+ Para que se analyse e fundamente
+ Toda, toda a ironia d'este ambiente;
+ E descrever, eu vou, essa ironia,
+ Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.
+ Queira ouvir:
+
+Margarida
+
+ Ouvirei...
+
+Henrique
+
+ Repare então:
+ O que se nota n'esta perfeição,
+ Unicamente serve p'ra esconder
+ A cynica existencia da mulher!
+
+Margarida
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Minha rival? Talvez!?
+
+Henrique
+
+ Nem mais, diz bem!
+ Sua rival, que arrojo mostra e tem
+ Para se apresentar envaidecida
+ No luxo de que a salla é guarnecida.
+ Conhece-a?...
+
+Margarida
+
+ Talvez não... eu nunca a vi...
+
+Henrique
+
+ Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:
+ Mas antes, extasie-se no espavento
+ D'estas decorações, cujo elemento
+ Só pretende encobrir o que lá fóra
+ Se chama a todo o instante e a toda a hora
+ Miseria, corrupção e tudo o mais
+ Que tanto affronta e insulta bons mortaes!
+ Admire-se perante as bambinellas
+ Que, pendentes das portas e janellas,
+ Servem para vedar todo este centro
+ A bachanaes, passadas aqui dentro!
+ Reveja-se em vestaes tapeçarias
+ Soffucando o ruido das orgias;
+ Nos estofos que abafam enthusiasmos,
+ Os gritos de volupia, os espasmos
+ D'uma lubricidade illimitada...
+
+Margarida
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Mas diga? Não será exagerada
+ A affirmativa?
+
+Henrique
+
+ Como assim? Duvida?
+
+Margarida
+
+_(Admirada)_
+
+ É que, em verdade, nunca em minha vida
+ Soube como se possa conjugar
+ Toda a revolução do lupanar
+ Com esta ordem e acceio que estou vendo;
+ E com effeito, Henrique, não entendo,
+ Não percebo a harmonia que se avista,
+ Sómente discordante e antagonista
+ Ao meio onde se espalha a corrupção.
+
+Henrique
+
+ É o que lhe parece...
+
+Margarida
+
+ Qual? Não; não
+ Posso acreditar, não, no que me diz,
+ Pois que a nossa existencia jámais quiz
+ Acceitar os cuidados d'este apuro.
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...
+
+Margarida
+
+_(Em duvida)_
+
+ Será, mas... mas para isso não se admitte
+ A apparencia do arranjo, que transmitte
+ Não sei que, de completa opposição
+ Á anarchia da nossa profissão;
+ E eu sinto que d'instante para instante
+ O esp'rito se consulta, inquietante,
+ Na atmosphera que aqui dentro respiro...
+ Diga? Diga? Onde estou eu?!...
+
+Henrique
+
+ N'um retiro
+ Cuja devassidão bem se proclama,
+ Repito, muito embora tenha a fama
+ D'honesto, muito embora elle se incense
+ D'um perfume que nunca lhe pertence.
+ Duvida ainda?
+
+Margarida
+
+ Sim! eu... eu duvido!
+ Porque não póde ter aqui vivido
+ A mulher que appelida de devassa;
+ E affirmarei, senhor, que a nossa raça
+ Foge a toda e qualquer preoccupação,
+ Que não seja gosar devassidão!
+
+_(Olhando para tudo)_
+
+ Tudo isto que a meus olhos se depara,
+ É coisa que se torna muito rara
+ A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,
+ Sem valôr, pueril, impropria, futil,
+ Para quem como nós, p'ra quem como eu,
+ Se ceva nos instinctos que me deu
+ A sorte, e se refaz insaciada
+ Na sêde d'uma vida depravada!
+
+Henrique
+
+_(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida
+para se sentar)_
+
+ Está bem Margarida, venha cá;
+ Sentemo-nos, que mui não tardará
+ Que momento opportuno e bom ensejo
+ Apresente mil provas de sobejo,
+ Destrahindo, negando e desmentindo
+ Tão errada impressão que está sentindo.
+
+Margarida
+
+_(Sentando-se)_
+
+ Impressão tal, senhor, que, na verdade,
+ Se apossa de mim com necessidade
+ De profundar o fim deste recanto,
+ Receosa de crêr que seja o manto
+ Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê!
+ Aonde e em que parte é que ella se vê
+ Vegetando assim? Diga-me: em que parte
+ Ella pode adorar a belleza e arte
+ Do conjuncto tão bem disposto aqui?
+ Não, Henrique! A deshonra folga e ri
+ No turbilhão d'immenso desalinho,
+ Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho
+ E trato da vivenda que se habita;
+ A deshonra sómente tem escripta
+ Na mansarda a legivel taboleta
+ Que annuncia onde pára, onde vegeta.
+ E as nossas mãos, que apenas tem o dom
+ De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,
+ Não sabem como tudo isto se faz
+ Dentro da ordem e d'esta santa paz.
+ As nossas mãos têm o unico mister
+ De procurar os gosos e o prazer
+ Do ouro, que só se emprega na razão
+ Do luxo, necessario á attracção
+ Da vista indagadora das orgias,
+ E indispensavel para a concorrencia
+ Da prostituidora residencia!...
+ As nossas mãos sómente se utilisam
+ Nos postiços que tanto symbolisam
+ O antro por onde sempre rezidi,
+ E já n'elle então, uma vez ali,
+ Quando na ausencia, quando no despojo
+ Das seducções, só tudo logo é nojo
+ No labyrintho d'horas viciosas,
+ Na balburdia de noites amorosas!
+ Uma vez ali, tudo vem dizer
+ Do estado social d'uma mulher!
+
+ E quer, senhor, fazer-me convencer,
+ Que possa n'esta casa só viver
+ Alguem que a minha classe represente?
+
+Henrique
+
+ Quero sim; quero, e muito facilmente...
+
+Margarida
+
+ Porém, como? No luxo do aposento
+ Não, porque n'elle ha todo o sentimento
+ Que eu ignoro. Na graça e harmonia
+ Muito menos, por quanto a apostasia
+ De virtudes se não traduz assim,
+ E nem ella se adquire com tal fim!
+
+Henrique
+
+ Porque o sabe?
+
+Margarida
+
+ No exemplo d'esta vida,
+ Que uma outra aniquilou e fez perdida!
+ Nas provas da existencia que atravesso,
+ Demonstrando que tudo isto é avesso
+ Á desorganisada habitação
+ De quem só s'expõe á prostituição!
+
+_(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)_
+
+ Ouça: se, como diz e me affiança,
+ Estamos sob um tecto d'aliança
+ Deshonesta; se, como bem proclama
+ A devassidão n'este lar se inflama
+ Por impudica e má camaradagem...
+
+_(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem da
+Virgem, n'um quadro)_
+
+ Que faz, senhor, além, aquella imagem?
+ E inda est'outra aqui? tanto a destoar
+ Do cortejo que envolve o lupanar?
+
+Henrique
+
+ São os taes attributos da mentira,
+ Ante os quaes se revê e mui se admira!
+
+Margarida
+
+ Mentira?! Mas onde, onde apparece ella?
+ E como e de que fórma se revella,
+ Se, por muito que faça, inda a não vi...
+
+
+SCENA SEGUNDA
+
+
+OS MESMOS E ARMINDA
+
+Arminda
+
+_(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando dolorosamente
+surprehendida)_
+
+ Ah!...
+
+Henrique
+
+_(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)_
+
+ Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!
+
+Arminda
+
+_(Altivamente)_
+
+ Mas que significa este atrevimento?!
+
+Henrique
+
+ Coisa de mero e simples argumento,
+ Não se assuste!
+
+_(Pegando n'uma das mãos de Margarida)_
+
+ Apresento a minha amante...
+
+Margarida
+
+_(Timida)_
+
+ Senhor! a que se atreve!?...
+
+Arminda
+
+_(Cruzando os braços)_
+
+ Que farçante!
+
+Henrique
+
+ Serei; no entanto, como as bôas farças
+ Reclamam a presença de comparsas,
+ Queira representar o seu papel,
+ Indicando com essa alma de fel
+ A peçonha do mal que tanto encobre
+ Nas apparencias d'uma casa nobre!...
+ Vamos? Queira sahir d'esse mutismo
+ Que estampa hypocrisia e diz cynismo!
+ Queira tirar a mascara traidora
+ E mostrar ante mim e esta senhora
+ Como a deshonra n'este lar se fez
+ E abunda por aqui aos pontapés!...
+
+Arminda
+
+_(Com repugnancia)_
+
+ E porque não, indigno cavalheiro!
+ Porque não hei-de, em modo sobranceiro,
+ Indicar-lhe o que pede no momento?
+ Porque não hei-de dar conhecimento
+ Ao que exige em palavras que só são
+ Proferidas p'la bocca d'um villão!
+ Porque não hei-de com toda a altivez,
+ Mostrar como anda o mal a pontapés?!
+
+_(Apontando para Margarida)_
+
+ Mire-se no instrumento de façanhas
+ E d'outras mil proezas que são ganhas
+ Na desgraça. O mal, paira por alli,
+ E tambem d'egual fórma o veja em si,
+ Como estigma do mais reles exemplo
+ Da profanação d'um culto e d'um templo!
+
+Margarida
+
+_(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a Henrique)_
+
+ Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!
+
+Henrique
+
+ Na casa de quem só rivalisou
+ Com a miseria a outros imputada
+ E que, insultando mesmo, toda irada,
+ A presença das nossas entidades,
+ O faz, creia, nas mesmas igualdades
+ Do direito com que eu deva insultar,
+ Da causa, que m'instiga p'ra accusar;
+ E, se insultos se pagam com insultos,
+ Veremos então quem profana os cultos
+ Do bom caminho; quem mancha e arruina
+ O que a moralidade nos ensina!
+ Veremos então quem mais enodeia,
+ E quem com crime e farça mais hombreia!
+
+Arminda
+
+_(Indignadissima)_
+
+ É o homem que, sem brio e pundonor,
+ Assim falla! É o biltre, cujo horror
+ Repugna a toda, a toda a consciencia,
+ E talvez até á d'essa existencia
+ Que ora aqui trouxe para mais vexame
+ Meu! É o homem preverso, mau, infame,
+ Ultrajando o que só é digno e honesto!
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Mas que ao mais pequenino e simples gesto
+ Irá destruir essa honestidade
+ Apregoada com tanta falsidade!
+
+Margarida
+
+_(Antepondo-se)_
+
+ E é já tempo, senhor, para o fazer,
+ Visto que me pretende convencer
+ Do que vem affirmando.
+
+Arminda
+
+ Ouça, senhora:
+ Creio bem que, ante força vingadora,
+ Me encontro n'esta salla; e é bem certo
+ Que, seja p'lo que for, eu já desperto
+ Mais ou menos da minha inconsciencia,
+ Para crêr que pratico irreverencia
+ Encontrando-me n'estes aposentos.
+ E eu então, que não tenho sentimentos
+ Senão os que a desdita me deixou,
+ Sinto que dentro em mim ora soou
+ Alguma coisa sã, e não sei quê
+ D'extranho, a confirmar a crença e fé
+ Que ha pouco me assistia, suspeitando
+ De que, por aqui, não anda pairando
+ O mal...
+
+Henrique
+
+_(Atalhando)_
+
+ Mas... como assim?! Se tal suspeita,
+ Vae muito brevemente ser desfeita
+ Ante o espelho fiel, e reflectir...
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Do grande soffrimento e minha dôr!
+ Mas como Deus em tudo dá coragem,
+ Eu propria mostrarei toda a miragem
+ Do espelho que pretende descobrir.
+
+_(Com altivez)_
+
+ Mas veja bem, que só vae reflectir
+ A verdade, e ella, saiba, que aniquilla
+ Os infames, tornando mui tranquilla
+ A consciencia accusada! E a verdade,
+ Chamando os villões á realidade,
+ Vae prostra-los na immensa confusão
+ De crimes, sem desculpa, nem perdão!
+ A verdade, esse grande dom do mundo,
+ No peito dos malvados crava a fundo
+ O punhal do castigo merecido!
+ E ai de si, miseravel! se vencido
+ Ficar na falsa lucta que travou!
+ Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou
+ A redempção, á face do mysterio
+ Que lhe auctorisa tão cynico imperio
+ D'insidiar, lançando-me labeus
+ Que apenas tanto o attingem e são seus!
+
+_(Com arrogancia)_
+
+ Pois bem! Perante mim, e n'este instante,
+ Se defrontam marido e sua amante!
+
+Margarida
+
+_(Surprehendida)_
+
+ Senhora!? Que dizeis?! É seu marido
+ Este homem que comigo tem vivido
+ E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...
+
+Arminda
+
+ É! Mas melhor seria que o não fosse!
+ Vamos : Perante mim e n'este instante,
+ Se defrontam marido e sua amante.
+ Procurando em vilissima baixeza
+ O mal que tão sómente a elles lhe peza!
+ E se era meu dever escorraçar
+ Quem se arroja e atreve a enxovalhar
+ Com descáro, a virtude d'esta casa,
+ Só muito antes a minha alma se empraza
+ A repudiar bem altivamente
+ Os instinctos de tão ignobil gente,
+ Ordenando que fiquem, por minutos,
+ Na expiação de feitos e seus fructos.
+
+Henrique
+
+_(Interrompendo)_
+
+ Mas essa altivez, é demais, senhora,
+ Para quem se transforma em peccadora!
+ Essa altivez repugna por excesso,
+ Na mulher que adoptou egual processo
+ D'ilegitimidade em relações?!...
+
+Arminda
+
+_(Com desprezo)_
+
+ Basta! Basta d'infames allusões!
+
+Margarida
+
+_(Antepondo-se)_
+
+ Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais,
+ Porque as suas palavras são fataes,
+ Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras
+ Para quem se dirigem, salvadoras
+ P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,
+
+_(Apontando para Arminda)_
+
+ Em nome da verdade occulta em dôr!
+
+Arminda
+
+_(Surprehendida)_
+
+ Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!
+
+Margarida
+
+_(Com pezar)_
+
+ Qualquer coisa da minha consciencia!
+
+_(Ouvem-se uns gemidos de criança)._
+
+Henrique
+
+_(Perturbado e levando as mãos á cabeça)_
+
+ E agora falla a vós d'alta vingança
+ Nos gemidos que solta essa criança!...
+
+Margarida
+
+_(Subitamente e apontando para o biombo)_
+
+ Senhora! Quem... quem é que chora além?!...
+
+Arminda
+
+ É um pedaço d'alma que vil mãe
+ Despresou!
+
+Margarida
+
+_(Cahindo de joelhos)_
+
+ Ah! Meu Deus! perdão! perdão!...
+ Porque falla agora este coração!...
+
+Henrique
+
+_(Admirado perante a posição de Margarida)_
+
+ Surprehende-me esse humilde movimento?!...
+
+Arminda
+
+ Falla o remorso em forte sentimento!
+
+Margarida
+
+_(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)_
+
+ Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu,
+ Duvidando de que isto fosse reu
+ Do cynismo que tanto apregoava!...
+
+Henrique
+
+_(Surprezo)_
+
+ Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava
+ O producto do crime e da traição?!
+
+Margarida
+
+ Era a voz da verdade e da razão,
+ Illuminando as trevas da mentira!
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ É a prova do mal que tanto aspira.
+ Para me confundir n'essa torpeza
+ Que inventou, e que sempre se despreza
+ Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa,
+ Bem se torna a mulher crente, e ciosa
+ Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando
+ Isolada p'lo pessimo desmando
+ Do marido, mesmo inda que atirada
+ Para o jus da vingança provocada.
+ Orgulhosa se torna esta mulher
+ Que, no direito d'um mau proceder,
+ Em desforço do seu procedimento,
+ Só antes se acoberta ao sentimento
+ Que a sã moralidade nos indica,
+ E ao bem que tudo, tudo dignifica!
+
+ E é então o senhor, que, sem nobreza
+ D'aquilo onde se lê, estuda e reza
+ A melhor oração da nossa vida,
+ Vem hoje, perante esta alma esquecida,
+ Interrogar na mais dura exigencia
+ Quaes as razões porque tenra existencia
+ Se acalenta no leito de innocentes,
+ Com meus affagos ternos e dolentes!
+
+ E é então o senhor, é o senhor,
+ Que, aggravando inda mais a minha dôr,
+ Vem hoje aqui no intuito de saber
+ Porque se encontra ao lado da mulher
+ Desposada, a criança que acalenta?
+ E sabe porque? Sabe porque dentro
+ D'este lar se aconchega esse vivente?
+ Porque, sem duvida, é seu descendente!
+
+Henrique
+
+_(Surprehendido de subito)_
+
+ Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa
+ Para suas desculpas e evasiva!
+ Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?!
+ Só se a este lar se dá, faculta e presta
+ O mysierio da tal santa doutrina!
+ Talvez! Talvez que a _Graça_, a _obra Divina_,
+ Por aqui estendesse o puro manto,
+ E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo,
+ Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez
+ O mysterio julgasse pôr-me aos pés
+ O filho que me indica, não é assim?...
+
+_(Irado)_
+
+ Ora vamos senhora! Ponha fim
+ Á comedia tão mal representada,
+ E diga como essa alma envenenada
+ Concebeu a pequena creatura
+
+Arminda
+
+_(Apontando para Henrique e Margarida)_
+
+ No desvario do pae e na loucura
+ Da mãe!...
+
+Margarida
+
+_(Levantando-se e avançando para Henrique)_
+
+ Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor,
+ Que na ancia de vingança e de rancôr,
+ Me desfiz da creança que me deu.
+ A mãe maldita, está aqui, sou eu,
+ Que em cegueira da minha profissão
+ Atirei com a nossa creação
+ Ao sabôr dos instinctos d'esta vida.
+ A mãe, que tem por nome Margarida,
+ E por mister o vicio infamante,
+ Sou eu! Esta que foi a sua amante,
+ E de cuja união sahe oriundo
+ Esse fructo que vê a luz do mundo.
+ A mãe, sou eu, que na brutalidade
+ Do meu sentir e tão baixa maldade,
+ Apunhalou por fórma audaciosa
+ O socego do lar, e o bem da esposa!
+ A mãe senhor, sou eu, esta mulher,
+ Que um pedaço de carne faz viver
+ P'ra orgia, palpitando em sangue vil!
+ A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil
+ Clientes de tão indigna alla mundana,
+ E que, vivendo sob a fórma humana,
+ Só renegam os dons da Natureza
+ Por bem degeneradas em baixeza!
+ A mãe sou eu, que tal nome invocando,
+ Se affronta um predicado venerando.
+ Alma não a tenho; odios ha alguns;
+ Nada d'amor e meritos nenhuns.
+ A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...
+
+Henrique
+
+_(Mal comprehendendo a situação)_
+
+ Margarida! Que diz?!...
+
+Margarida
+
+ Digo, senhor,
+ A primeira verdade em minha vida;
+ Digo que essa criança foi nascida
+ Das nossas relações, e existe aqui,
+ Em virtude do mal com que eu agi.
+ É minha filha! e sua o é tambem,
+ Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!
+
+Henrique
+
+_(Attonito)_
+
+ É minha filha?! Mas então... então...
+ O que se fez da minha sã razão?!...
+
+Arminda
+
+_(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a ficar
+visivel o interior aos personagens)_
+
+ De ha muito anda perdida.
+
+_(Apontando para a criança)_
+
+ E aqui tem
+ Os espinhos da estrada d'onde vem!
+
+Henrique
+
+_(Approximando-se um pouco)_
+
+ Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita?
+ Sim! é ella! Mas, como se acredita
+ Tudo isto?!
+
+Margarida
+
+ Pela fórma com que obrei
+ Em face d'esta nossa infame grei.
+
+Henrique
+
+_(Encolerisado e avançando para Margarida)_
+
+ Porém, com que direito me levou
+ A proclamar um crime que tramou?
+
+Margarida
+
+_(Humilde e avançando um pouco)_
+
+ Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê,
+ Que nós obramos sem alma nem fé.
+ Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá
+ O que fiz? Foi apenas o que dá
+ Esta vil creatura! Foi sómente
+ A pratica d'um acto inconsciente!...
+
+Arminda
+
+_(Interrompendo)_
+
+ E que, talvez, por essa inconsciencia,
+ Um porvir se consiga da innocencia...
+
+_(Apontando para o berço)_
+
+ Descança ella no leito que lhe dei,
+ Embalada p'la dôr que alimentei.
+ E nas minhas canções, mesmo chorando,
+ A pouco e pouco irei sempre insuflando
+ A redempção. Depois, quando mais tarde,
+ Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde
+ E d'esta virgindade faça alguem,
+ Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.
+
+_(Approximando-se do berço)_
+
+ Vejam? Sonha decerto na ventura
+ Que o acaso lhe trouxe, e na candura
+ Do berço onde dormita! Berço pobre
+ De brocados, mas rico, rico e nobre
+ Do bem! Sonha decerto na esperança
+ Com que se entrega á minha confiança:
+ Sonha, quem sabe? na libertação
+ Da cadeia que traz humilhação!...
+
+Margarida
+
+_(Avançando e exclamando)_
+
+ Minha filha! Meu Deus! Grande verdade!
+ É a isto que se chama honestidade?
+
+Arminda
+
+_(Continuando, emquanto Henrique fita a creança succumbida)_
+
+ Vejam?! E era, era então este senhor,
+ O grande, o grande espelho reflector
+ Do meu crime?!
+
+_(Vendo que Henrique emudece)_
+
+ Ande? Diga? accuse e insulte,
+ Para que todo o mundo veja e ausculte
+ A farça attribuida! Vamos, falle?
+ Porque emudece?
+
+_(Apontando para a creança)_
+
+ Tem aqui o mal,
+ E é ante elle que deve demonstrar
+ O cynismo, a baixeza d'este lar,
+ E tudo o mais que omitto, occulto e callo!
+
+Henrique
+
+_(Timido e a custo)_
+
+ Fallar? Eu... eu... senhora?
+
+_(Com pausa)_
+
+ Sim, eu fallo...
+ Eu vou fallar, consente?...
+
+Arminda
+
+_(Altiva)_
+
+ Porque não?!
+
+Henrique
+
+_(Curvando-se humilde)_
+
+ Pois fallarei! _(pausa)_ Perdão!
+
+Margarida
+
+_(Cahindo de novo aos pés de Arminda)_
+
+ Perdão! Perdão!
+
+Arminda
+
+ Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!
+
+Henrique
+
+ Do remorso que assiste, e se antevê!
+
+Margarida
+
+ P'la crença, de que abjuro e reneguei
+ P'ra sempre o caminho em que me abysmei.
+
+Arminda
+
+_(Levantando os olhos para o ceu)_
+
+ Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia,
+ Venha a vossa infinita miser'cordia!
+
+
+CAHE O PANO
+
+Fim do segundo acto
+
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, encontra-se
+sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e
+completamente succumbida.
+
+
+SCENA PRIMEIRA
+
+Margarida _(só)_
+
+ Eu a chorar! e lagrimas ardentes
+ Deslisando nas faces reviventes
+ De vergonha! Deus na alma! e ao coração
+ Amor! Ao meu espir'to a reflexão!
+ Na consciencia a revolta e o remorso
+ Em que já me debato e me contorso!
+
+ O que é? que póde ser? A reacção
+ Convulsionando o corpo, e a razão
+ Subjugando-me, por demais vencida!
+ O que é? _(Pausa)_
+ É a verdade, Margarida!
+
+ Verdade?! E quem responde? Quem me falla?
+ É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala
+ Esta mulher aos dons da Natureza?
+ Sim. Porque se nasceu para a baixeza,
+ Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto
+ E pequei, pois agora mesmo eu sinto
+ Que para o mal o mundo me não doou.
+ Nem Deus para a baixeza me creou!
+ Deus, amando, só cria para amar,
+ E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,
+ Apenas a sonhar, sim, porque alguem
+ Sepultou do meu sonho todo o bem!
+ Eu nasci para amar, e amei; amei
+ Quanto pude ante a bôa e pura lei
+ Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava,
+ Disse-me um dia que isso não passava
+ De um mytho, e foi-se andando na procura
+ D'aquillo que á pobreza salva a agrura;
+ Foi-se andando na busca de riqueza,
+ Porque eu era pobre, e isso se despreza!
+ E é então, é então que o meu amor
+ Se arrebata nas garras do impudor;
+ É então, que me afundo nas camadas
+ Que alimentam as tristes depravadas!
+ Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,
+ Que por causa de amor tão puro e santo.
+ Busquei embriagar-me n'esta orgia,
+ Para que o grande Deus a ninguem cria!
+
+_(Pausa)_
+
+ Eu a chorar!... e lagrimas ardentes
+ Deslisando nas faces reviventes
+ De vergonha! Porque? E que fiz eu?
+ Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;
+ Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,
+ E nada, nada pela inconsciencia.
+ E porque alguem, alguem me aniquilou,
+ Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!
+
+_(Pausa)_
+
+ Eu a chorar! e lagrimas ardentes,
+ Velando os olhos bem reminiscentes
+ Do que vi!...
+
+ E que vi eu?... A mulher,
+ A mulher como ella é e deve ser.
+ Vi-a altiva e com toda a magestade
+ Destruindo o insulto á sombra da verdade!
+ Vi-a repudiando com nobreza
+ Os feitos da maldade e da torpeza!
+ Vi-a... vi-a tomando nos seus braços
+ O fructo que proveio de devassos!
+ Vi-a, evocando graças divinaes
+ N'uma orchestra de sons tão maternaes
+ P'rá criança que a minha embriaguez
+ Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!
+ E como tudo ainda fosse pouco,
+ Em paga d'um agir mau, vil e louco,
+ Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!
+ Pedir que me enviasses lá dos céus
+ O perdão!
+
+ Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...
+ Fiz... o que faz mulher desnaturada!
+
+_(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)_
+
+
+SCENA SEGUNDA
+
+
+MARGARIDA E FERNANDO
+
+Fernando
+
+_(Entrando pelo fundo)_
+
+ Ora até que emfim, linda Margarida!?
+ Por onde tem andado tão perdida?
+
+Margarida
+
+_(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi de
+indignação)_
+
+ Ah!...
+
+Fernando
+
+_(Avançando e continuando)_
+
+ Por onde se tem tornado preza
+ E errante a sua graça e gentileza?!
+
+Margarida
+
+_(Dissimulando a tristeza)_
+
+ Em parte alguma, creia...
+
+Fernando
+
+ Não parece...
+ E olhe que o promettido não se esquece.
+ Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!
+
+Margarida
+
+ Chorar? Eu?! Eu?!
+
+_(Á parte, limpando os olhos)_
+
+ Oh! sim! não se enganou!
+ _(alto)_ Chorar? Eu?! Não!
+
+Fernando
+
+ Mas, seus olhos vermelhos,
+ São de tal flagrantissimos espelhos!
+
+Margarida
+
+_(Dissimulando)_
+
+ Nada isso diz, embora lhe pareça;
+ Effeitos só de dôres de cabeça
+ Que ha dias me apoquentam...
+
+Fernando
+
+ E que, espero,
+ Melhorem ante o meu voto sincero,
+ E não impeçam minha estada aqui,
+ Já que de novo me honra, e me sorri
+ O convite, tornando-se occupado
+ O logar que me disse ter vagado.
+
+Margarida
+
+_(N'um rapido estremecimento)_
+
+ O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!
+
+Fernando
+
+_(Com estranheza)_
+
+ Duvída? Mas que grande exquisitice
+ Representa essa duvida!...
+
+Margarida
+
+ Porque?!...
+
+Fernando
+
+_(Tirando do bolso um cartão)_
+
+ Em face do bilhete onde se lê
+ O seu pedido, e ainda mesmo, quando
+ Claramente dizendo e bem frizando
+
+_(Approximando-se de uma porta latteral)_
+
+ Certas palavras, junto d'esta porta;
+ A não ser que, que seja letra morta
+ O que me affirmou!
+
+Margarida
+
+_(Com repulsão)_
+
+ Não! Não me recorda?!
+
+Fernando
+
+ Veremos, n'esse caso, se, se aborda
+ A phrase muito nitida ao ouvido,
+ Para que ella jámais tenha esquecido.
+
+ Foi aqui, veja, foi n'este logar
+ Que, apontando-me altiva e sem pezar,
+
+_(Olhando para o interior d'um quarto)_
+
+ Certa vaga que ali dentro existia,
+ Perguntou o que lá se achava e via.
+
+ Respondi... o que ainda vejo:
+ Um leito.
+
+_(Malicioso)_
+
+ E por signal que estava bem desfeito,
+ Em contraste com toda a compostura
+ Que ora se nota. Então, é n'esta altura
+ Que assim exclama:
+ «Está ao seu dispôr».
+
+Margarida
+
+ Lembra-me com effeito! _(Á parte)_
+
+ Mas que horror!
+
+_(Alto e approximando-se de Fernando)_
+
+ É verdade! E a verdade diz, Fernando!
+ Mas foi um dito mau, dito execrando!
+ Dito que não devia proclamar
+
+_(Com desespero)_
+
+ E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.
+
+Fernando
+
+_(Surprehendido)_
+
+ Porém, nada percebo, e muito menos
+ Com taes palavras, cujo modo e acenos
+ São expostos em termo áspero e rude.
+
+Margarida
+
+_(Apontando o leito)_
+
+ Aquella vaga, occupa-a hoje a _Virtude_.
+
+Fernando
+
+_(Estupefacto)_
+
+ Como assim?! Isso é dito com ironia?!...
+
+Margarida
+
+ Fallo com consciencia e ufania
+ De a possuir!
+
+Fernando
+
+ Verdade?! Isso é verdade?!...
+
+Margarida
+
+ Digo-lh'o com a mor sinceridade.
+ O leito que em orgias se desfez,
+ Hoje... sómente cobre a honradez!
+
+Fernando
+
+_(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)_
+
+ Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo,
+ Espero que me explique por miudo
+ O que em vida de gran desfaçatez
+ Se entende por virtude ou honradez.
+
+Margarida
+
+_(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)_
+
+ Será um sacrifício, mas, emfim,
+ Cumprirei seu desejo.
+
+Fernando
+
+_(Rindo)_
+
+ E quanto a mim,
+ Agradeço a irrisoria explicação,
+ Que ouvirei com a maxima attenção.
+
+ Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...
+
+Margarida
+
+_(Com amargura)_
+
+ Sabel-o no passado, eu nunca pude,
+ Mas no presente, d'ella tenho a fé!
+ Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...
+
+_(Com certo desprezo)_
+
+ É... o que o senhor nunca comprehendeu!...
+
+Fernando
+
+_(Cada vez mais surprehendido)_
+
+ Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!
+
+Margarida
+
+ Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca
+ Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca
+ Do vicio a mulher que disse amar,
+ A virtude não sabe interpretar.
+
+Fernando
+
+ Allude então...
+
+Margarida
+
+_(Atalhando)_
+
+ Á minha triste historia
+ Muito bem reflectida na memoria!
+
+Fernando
+
+ Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto...
+
+Margarida
+
+ Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto
+ Volte a offuscar-me as faces de vergonha,
+ Rememoro o que em epocha risonha
+ D'uma vida serviu para o transporte
+ Da reles existencia e fraca sorte.
+
+ Creança, inda bem nova, inexp'riente,
+ Senti n'alma o que sente toda a gente.
+ Despertando p'ra quadra d'um amor:
+ E a pouco extasiada n'esse alvôr,
+ Deixei que me prendessem sympathias
+ Que vibravam n'um canto de harmonia:
+ Tudo então me sorria e tudo amava!
+ A graciosa manhã que despontava
+ No melodico trio de avesinhas,
+ O sol que vivifica as floresinhas,
+ O declinar da tarde, as noites bellas,
+ Da lua o brilho, a graça das estrellas,
+ O conchego, a familia, o trabalho,
+ A paz, tranquilidade e o agasalho,
+ A invocação, a biblia e a reza;
+ Eu amava, emfim, toda a natureza,
+ Pelo proprio amor da juventude,
+ A vibrar como cordas de alaúde
+ N'um peito que se alava para o bem!
+ Mas de subito, meu Deus! esse alguem
+ Que me elevara aos paramos do amor;
+ Quem me ajudara a crel-o no primôr
+ Da verdade, e guiava o norte meu,
+ Que devia subir até ao ceu...
+ Corta, derruba, as azas d'este alar,
+ E obriga-me a cahir, faz-me tombar
+ No grande turbilhão da tempestade,
+ Na hecatombe e na mór fatalidade!
+ E tudo, tudo então quanto eu amava,
+ Breve se convertia e se trocava
+ Pela renegação, pela baixeza,
+ Deixando já d'amar a Natureza,
+ Para me filiar em quê? Em quê?
+ Nas hostes dos que nunca teem fé!
+
+ E tombei! E cahi! _(chorando)._
+ Sim, sim, tombei!
+ Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!
+
+_(A Fernando)_
+
+ Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono
+ Que me precipitou n'aquelle somno,
+ Cuja lethargia obra o desvario
+ N'um corpo molestado e doentio,
+ Em proveito de todo o esquecimento
+ Do que de bem havia em sentimento!
+
+ Pois se eu amava tanto, e d'esse amor
+ Em si depositei e puz, senhor,
+ A esperança ditosa de meus dias,
+ Sem que se me opposessem phantasias;
+ Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida,
+ Para que tornar tão desvanecida
+ A fraqueza da minha confiança?...
+
+Fernando
+
+_(Pretendendo desculpar-se)_
+
+ Porque eu... porque eu tambem era creança...
+
+_(Levanta-se)_
+
+Margarida
+
+ Não! Não! Diga que foi a sêde e fome
+ De usufruir, e após, pensar que o nome
+ Humilhava, e jámais lhe serviria
+ P'ra linda sugestão que me incutia;
+ Diga: foi o que muita gente faz,
+ Captivando, prendendo em fórma audaz
+ O debil ser, a fragil creatura,
+ Que ora subjugada ante a noite escura
+ Do vosso infame e vil, e vil narcotico,
+ Obedece depois ao espasmodico
+ Furôr de saciar as intenções
+ Com que se roubam fracos corações.
+ Não é isto?
+
+Fernando
+
+_(Perturbado)_
+
+ Mas...
+
+Margarida
+
+_(Levantando-se)_
+
+ Mas... senhor Fernando
+ Queira explicar-me agora quando, quando
+ Foi por si concebida a qualidade
+ Virtuosa, por entre a sociedade?!
+
+Fernando
+
+_(Succumbido)_
+
+ Actualmente á face da razão...
+ Que decerto ditou a reacção
+ Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus
+ Do mundo!
+
+_(Pausa e estendendo a mão a Margarida)_
+
+ Margarida... adeus!...
+
+Margarida
+
+_(Apertando a mão de Fernando)_
+
+ Adeus...
+
+_(Fernando sae)_
+
+
+SCENA FINAL
+
+Margarida
+
+_(Só, depois d'um momento de silencio e de olhar toda a sala)_
+
+ E nada, nada mais d'esse passado
+ Que abomino!
+
+_(Levantando os olhos para o ceu)_
+
+ Deus! Meu Deus!
+ Obrigado!
+
+CAHE O PANNO
+
+Fim da peça
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
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+redistribution.
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+
+Title: A Nuvem
+ Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo
+
+Author: Luiz Couceiro
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34964]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+
+<p> </p>
+<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">LUIZ COUCEIRO</p>
+
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+
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+<p style="font-size: 3em;">A NUVEM</p>
+
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+<p>Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo</p>
+
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+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>AVEIRO<br>
+Typ. "Minerva Central"<br>
+<small>1910</small></p>
+</div>
+
+<div id="capa">
+
+<p> </p>
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+<p style="font-size: 3em;">A NUVEM</p>
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+Typ. "Minerva Central"<br>
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+
+<p> </p>
+</div>
+
+<h2>PERSONAGENS</h2>
+
+<p>Henrique</p>
+
+<p>Fernando</p>
+
+<p>Arminda</p>
+
+<p>Margarida</p>
+
+<p>Maria, creada</p>
+
+<p>Uma creança de 6 mezes</p>
+
+<p> </p>
+
+<h1>PROLOGO</h1>
+
+<p class="desc_acto">Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao
+centro, á qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de
+escrever.</p>
+
+<h2>SCENA PRIMEIRA</h2>
+
+<h3>H<small>ENRIQUE, DEPOIS</small> M<small>ARGARIDA E</small>
+M<small>ARIA</small></h3>
+
+<p class="fala">Henrique <em>(só)</em></p>
+
+<p>«Corre um anno de vida desgarrada<br>
+Que sempre tem levado o teu amante,<br>
+E outra vida, decerto, attribulada,<br>
+Suavisar, se procura, n'este instante.<br>
+Vou partir, Margarida, e sê feliz;<br>
+Porque emfim, cêdo apenas a um esforço<br>
+De sentimento são; e ás almas vis<br>
+Cabe-lhe sempre o premio do remorso!<br>
+Adeus! E vae fazendo o que poderes<br>
+Para esquecer este homem transviado<br>
+Do trilho, da conducta, e dos deveres!<br>
+Adeus! A nada mais sou obrigado!»</p>
+
+<p class="inst"><em>(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento
+resoluto)</em></p>
+
+<p>Sim! sim! jámais podéra ser possivel<br>
+Combater contra a minha reflexão!<br>
+E depois, que diabo! não é crivel<br>
+Mudar-se o santuario da união<br>
+Pelo louco viver do mundanismo;<br>
+Não, não é crivel ter a vida assim,<span class="pn">{6}</span><br>
+E salvar-me, procuro, d'este abysmo,<br>
+Quando, demais, alguem soffre por mim!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa e reflectindo depois)</em></p>
+
+<p>De facto, Margarida tem encantos,<br>
+Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente<br>
+Que a tornam fascinada só de quantos<br>
+A pretendam gosar satyramente!<br>
+Goso estupido, goso só brutal,<br>
+Que nos converte em féras, ou ainda<br>
+N'um ente desprezivel e anormal!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, exclamando depois com sentimento)</em></p>
+
+<p>E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,<br>
+Levado na corrente d'esse imperio!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)</em></p>
+
+<p>Oh! rosto tão suave de mulher!<br>
+Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,<br>
+Como não será muito o teu soffrer!<br>
+Semblante de bondade, a contrastar<br>
+Com falsos attractivos de mundanas!<br>
+Aqui, traços de paz bem salutar,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Em meditação)</em></p>
+
+<p>N'aquellas... linhas torpes e profanas!<br>
+Rosto meigo que outr'ora me prendeu,<br>
+A elle regresso, a elle vão meus passos,<br>
+E crê que vou guiado pelo ceu,<br>
+Buscando, d'amizade, os santos laços.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Beijando o retrato e levantando-se de subito)</em></p>
+
+<p>Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!<br>
+Nem me lembrava d'esse poderio!...<br>
+Foi a fatalidade do meu trilho,<br>
+E complemento do meu desvario...<br>
+Comtudo, não importa, porque em suma,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Conformando-se)</em></p>
+
+<p>É producto de falsas relações<br>
+Que se dissolvem, qual tenue espuma...<br>
+Existe uma creança; mas razões<br>
+Me forçam a esquece-la já tambem.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Tirando do bolso uma carteira)</em></p>
+
+<p>Concedendo dinheiro em abundancia<br>
+Para que Margarida, como mãe,<br>
+Provenha ao alimento dessa infancia.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a
+uma porta lateral)</em><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Coitadita da pobre creancinha!...<br>
+A dormir!... Tem nos labios um sorriso...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atirando-lhe um beijo)</em></p>
+
+<p>Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Retirando-se a custo)</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Custa-me... mas então? Se me é preciso!<br>
+E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro,<br>
+Que farei tudo quanto fôr humano<br>
+Para vellar por ella no futuro!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, depois da qual, com coragem)</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Vamos!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Parando e com desalento)</em></p>
+
+<p>       É bem profundo o desengano!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pegando no chapeu)</em></p>
+
+<p>De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...<br>
+E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,<br>
+Onde, só de virtude, a vida é rica,<br>
+E onde chego humilhado e bem contricto!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Sae rapidamente)</em>.</p>
+
+<h2>SCENA SEGUNDA</h2>
+
+<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando por uma porta lateral e esfregando os<br>
+olhos)</em></p>
+
+<p>Safa! Que dormir tão pesado o meu!<br>
+Nem que fosse uma noite d'hymeneu,<br>
+A prolongar um somno de fadiga!<br>
+E então, que curiosa lucta e briga<br>
+Com os sonhos, os mais extravagantes...<br>
+A vêr-me rodeada só d'amantes,<br>
+Que disputavam a honra e primazia<br>
+Da posse luxuriante d'uma <em>Lia</em>!<br>
+Safa! Que pezadello interminavel...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, depois da qual, repara na carta)</em></p>
+
+<p>Olá! Temos missiva? D'um amavel<br>
+D. Juan, talvez?</p>
+
+<p class="inst"><em>(Vendo a letra)</em></p>
+
+<p>                 Mas não, porque esta letra<br>
+Pertence ao cavalheiro que penetra<br>
+No aposento. É do meu nobre senhor!<br>
+Não ha duvida! Ou antes, e melhor:<span class="pn">{8}</span><br>
+É d'um obediente e humilde escravo!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Lendo a carta e cynicamente admirada)</em></p>
+
+<p>An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo!<br>
+Muito bem! Apoiado! É admiravel!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Largando gargalhada sarcastica)</em></p>
+
+<p>Eis uma acção esplendida, louvavel!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Sentando-se)</em></p>
+
+<p>Coitado! Que desgraça! Pobresito,<br>
+Que diz voltar em tudo bem contricto<br>
+Aos braços da mulher! <em>(rindo)</em> sim, sim, coitado<br>
+Do triste e pobre errante, transviado<br>
+Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo!<br>
+Vae-te menino, vae-te, que o consôlo<br>
+Não me falta, acredita; pódes crêr!<br>
+E lança-te nos braços da mulher,<br>
+Pois que duvida? Ora essa? Porque não?</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Com sarcasmo)</em></p>
+
+<p>Mas que parvo, irrisorio e toleirão,<br>
+Não veem!? Que ridiculo ignorante,<br>
+Que nem ao menos sabe ser amante!<br>
+E deixa carta, sem ter a coragem<br>
+De dizer que se acolhe na frondagem<br>
+Da virtude!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Reconsiderando)</em></p>
+
+<p>            Virtude! Mas que é isso?!<br>
+Um nome que se torna ôco e omisso<br>
+Entre nós. A virtude é ter dinheiro<br>
+Que bem nos sustente o orgico viveiro,<br>
+Porque amantes, se atiram para o lixo,<br>
+Vindo outros que sustentem o capricho!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Indo para sentar-se e reparando na carteira)</em></p>
+
+<p>Ah! espera! deixou uma carteira!<br>
+E tem notas! Lembrança bem certeira,<br>
+Porque... emfim... é só isto o essencial<br>
+P'ra presidir á nossa bachanal...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida
+resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha)</em>.</p>
+
+<h2>SCENA TERCEIRA</h2>
+
+<h3>M<small>ARGARIDA E UMA CREADA</small></h3>
+
+<p class="fala">Maria</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando de fundo)</em></p>
+
+<p>Que deseja?<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>            Recado algo importante<br>
+Que desempenharás já, n'este instante.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se)</em></p>
+
+<p>Levarás esta carta ao outro andar,<br>
+Mas não te deves nada demorar<br>
+Porque inda outro negocio bem urgente<br>
+Teremos que cumprir, presentemente.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entregando a carta á creada, que sáe)</em></p>
+
+<p>Vae...</p>
+
+<h2>SCENA QUARTA</h2>
+
+<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p>
+
+<p>       Ora pois... sou livre por minutos<br>
+Dos élos deshonestos e corruptos!<br>
+Mas não tão livre, não tão livre ainda,<br>
+Que Henrique não levasse á D. Arminda<br>
+O fructo do transvio de seu marido.<br>
+Coitado! Mas que triste arrependido!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Rindo)</em></p>
+
+<p>E talvez concebesse que o seu filho,<br>
+De futuro, me sirva d'impecilho.<br>
+Ná, ná! Quem se desliga a compromissos,<br>
+Não o faz com intuitos só postiços.<br>
+Pois que!? Foge da vida deshonesta,<br>
+E deixa aqui o pomo de tal festa?!<br>
+Ná! que o leve; que o leve para o lar,<br>
+Onde a contricção vae representar.<br>
+E depois, almas vis, más e preversas,<br>
+Pódem ás vezes ser nobres e adversas<br>
+Ao crime.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma
+creança de seis mezes)</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>          Vaes gosar creação casta,<br>
+Que te infiltra dignissima <em>Madrasta</em>:<br>
+Vaes sahir d'este reles ambiente,<br>
+Onde se perde muita e muita gente!</p>
+
+<p class="inst"><em>(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á
+testa)</em></p>
+
+<p>An?! Que digo? Que disse eu inda agora?!<br>
+Não seria um lampejo, ou uma aurora<br>
+De verdade, que acaso illuminou<span class="pn">{10}</span><br>
+A minha alma, e p'la mente me passou...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com resolução)</em></p>
+
+<p>Sim, minha filha, quero que vás. Vae;<br>
+Vae acolher-te á sombra de teu pae;<br>
+Vae abrigar-te n'essas consciencias<br>
+Que salvam e redimem existencias!</p>
+
+<h2>SCENA QUINTA</h2>
+
+<h3>M<small>ARGARIDA E</small> M<small>ARIA</small></h3>
+
+<p class="fala">Maria <em>(entrando)</em></p>
+
+<p>Satisfeito foi já o seu recado...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Pois outro tem de ser executado<br>
+E deligentemente. Espera um pouco,<br>
+Emquanto escrevo á <em>Dona</em> d'esse louco<br>
+Que hoje me abandonou. E na pequena<br>
+Segura já.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)</em></p>
+
+<p>           Alguns traços de pena,<br>
+E prompto. Nada mais ha a fazer<br>
+Na consciencia de tão reles mulher!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Dictando o que escreve)</em></p>
+
+<p>«Senhora!<br>
+          Deposito essa creança,<br>
+Filha de seu marido, e esperança<br>
+Tenho que irá ser muito mais feliz,<br>
+Do que no antro que apenas só se diz<br>
+Do vicio, da vergonha!»</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entregando a carta á creada)</em></p>
+
+<p>                        Ora aqui tens...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Á parte)</em></p>
+
+<p>E inda dizem que são más estas mães!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Á creada)</em></p>
+
+<p>Desejo que sem perda de momento<br>
+Ás minhas ordens tragas cumprimento.<br>
+Procuras indagar qual a morada<br>
+Do fugitivo Henrique, e lá, na escada,<br>
+A pequenita deves collocar,<br>
+Bem como a carta junta ahi deixar.<br>
+Depois, tens que affastar-te de repente,<br>
+Percebes?<span class="pn">{11}</span></p>
+
+<p class="fala">Maria</p>
+
+<p>          Muito bem, e fico sciente.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Estupefacta)</em></p>
+
+<p>Porém, senhora! nem sequer um beijo<br>
+Na creancinha?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida <em>(imperiosa)</em></p>
+
+<p>                Basta-me o desejo<br>
+Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno,<br>
+Muito embora com alma de veneno!</p>
+
+<p class="fala">Maria</p>
+
+<p class="inst"><em>(Indo a sahir e parando ao fundo)</em></p>
+
+<p>Mas... mas de que é feito esse coração?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida <em>(indicando-se)</em></p>
+
+<p>É coisa que não ha na habitação!<br>
+Vae...</p>
+
+<p class="fala">Maria <em>(repentina)</em></p>
+
+<p>       Irei. <em>(sáe)</em>.</p>
+
+<h2>SCENA SEXTA</h2>
+
+<h3>M<small>ARGARIDA E</small> F<small>ERNANDO</small></h3>
+
+<p class="fala">Fernando <em>(entrando)</em></p>
+
+<p>                    Margarida! A que dever<br>
+A honra e o distinctissimo prazer<br>
+Da sua carta?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se de Fernando)</em></p>
+
+<p>              Irá sabel-o já,<br>
+Meu caro e bom Fernando! Venha cá?</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)</em></p>
+
+<p>Julgo que conquistou ardente feito!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para o quarto)</em></p>
+
+<p>Ora diga? O que vê d'aqui?<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p class="fala">Fernando <em>(olhando)</em></p>
+
+<p>                           Um leito!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Em que ha pouco vagou certo logar...</p>
+
+<p class="fala">Fernando <em>(interrogando)</em></p>
+
+<p>... E então?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>              Querendo... Venha-o occupar.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center;">Cae o panno</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM DO PROLOGO<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<h1>ACTO I</h1>
+
+<p class="desc_acto">Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao
+fundo. Á direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre
+de fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao
+centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se
+encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza, vae
+contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa.</p>
+
+<h2>SCENA PRIMEIRA</h2>
+
+<p class="fala">Arminda <em>(só)</em></p>
+
+<p>... E vinte!...<br>
+               O indispensavel enxoval<br>
+P'ra essa creança, que é filha do mal!<br>
+Apenas o preciso p'ra o conchego<br>
+Do ente, que, desvario tolo e cego,<br>
+Arrumou para o mundo, e que o destino<br>
+Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino<br>
+Deus! A vossa vontade seja feita!<br>
+E a mulher, que a desdita sempre espreita,<br>
+Curva-se ante o poder d'essa grandeza,<br>
+Que a ella me ligou e me traz preza!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Com dôr)</em></p>
+
+<p>Um pequeno enxoval, mas sufficiente<br>
+Para poder cuidar d'esse innocente<br>
+Que a vil libertinagem engeitou!<br>
+Que a infamia, por onde só errou<span class="pn">{14}</span><br>
+A vida impura, incasta e illegitima,<br>
+Trouxe aos portaes da sua triste victima!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Affastando-se da meza)</em></p>
+
+<p>E que havia a fazer?... Repudiar<br>
+O fructo da loucura?... Regeitar<br>
+A offerenda, que, quem sabe? foi Deus<br>
+A salva-la do mar, dos escarceus<br>
+Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem<br>
+A doa-la aos carinhos d'outra mãe!<br>
+Que havia de fazer? Tornar-me ré<br>
+Da deshonra, e com simples pontapé<br>
+Exclamar:--Vae, vae para a sociedade<br>
+Em que se mancha e perde a honestidade!<br>
+Vae tambem corromper-te em sacrificio<br>
+D'essa libertinagem, e do vicio!<br>
+Não! Não! Ninguem me dá esse direito,<br>
+Que apenas crearia mais um leito<br>
+Na impudica mansarda da baixeza!<br>
+Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza.<br>
+Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede,<br>
+Nem jámais a minha alma diz e pede<br>
+Que lance p'ra mizeria e para o crime<br>
+Uma outra alma que d'elle se redime!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando no biombo, e junto ao berço, com
+resolução)</em></p>
+
+<p>Fica, pobre creança! Assim o quero<br>
+Fica, porque eu respeito e mui venero<br>
+O que o destino dá.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com pausa e sentimento)</em></p>
+
+<p>                   Elle predisse,<br>
+Em leis, que essa cruel libertinice<br>
+D'um marido não tinha o grave jús<br>
+De arrumar-te, impiedosa, para o púz<br>
+Virulento d'infame corrupção!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Curvando-se sobre o berço)</em></p>
+
+<p>Fica sim! Tens aqui um coração<br>
+Repleto de carinho e sentimento!<br>
+Fica no lar, que, como deserta ilha,<br>
+Escolhos cerca! Fica, és minha filha!...<br>
+E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo.<br>
+Fica creança, fica... Eu te abençôo!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Sentando-se junto do berço)</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,<br>
+Do gérmen d'essa orgia productiva!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa)</em><span class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>Não quiz Deus dar-me um filho que pedia,<br>
+E que n'este deserto tanto urgia,<br>
+Para que n'um momento, n'um instante.<br>
+Tenha d'acalentar o que é da amante!<br>
+Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa)</em></p>
+
+<p>Marido... foge ao lar por onde a fé<br>
+Do amor pode ser a unica sincera...<br>
+E lá vae, lá vae elle como a féra<br>
+Viciada, em procura do covil,<br>
+Onde recebe o goso d'essas mil<br>
+Desgraçadas sem alma, sem consciencia!<br>
+Lá vae elle, deixando esta innocencia<br>
+Do altar que a pura Egreja solidou,<br>
+Em troca do que nunca, nunca amou;<br>
+Porque amar, nunca e nunca sabe, quem<br>
+Se ausenta de tão santo amor de mãe!<br>
+Lá vae, lá anda n'essa podridão<br>
+Que rouba o sentimento e a razão!<br>
+Que destroe, injuría e enxovalha,<br>
+Que infecta, que corrompe, prende e emalha<br>
+A noção do respeito p'lo dever!<br>
+Lá anda n'esse impudico prazer,<br>
+Cujas garras tão vis, cynicamente<br>
+Arrebatam do puro e casto ambiente<br>
+Todo esse bem, que n'elle se creara;<br>
+Cujas garras, de força bruta, avára.<br>
+Arrebatam do lar santificado<br>
+O descanço e o bem que lhes é dado!<br>
+Lá anda, lá vegeta no monturo<br>
+Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,<br>
+Que a desgraça creou, sustenta e nutre;<br>
+Filando com intuitos só de abutre,<br>
+E attributos de farça e d'ironia,<br>
+As prezas de tão grande vilania!<br>
+Vilania,--que em seu lubrico espasmo,<br>
+Chasqueia da virtude, com sarcasmo,<br>
+Ri da fé, desvirtua a honestidade,<br>
+Deprava o sentimento e a dignidade.<br>
+Insulta, zomba e rasga sem respeito<br>
+O véu do precioso preconceito!<br>
+Suja, quebra, dissolve e inutilisa,<br>
+Macúla, estraga e já esterilisa<br>
+A pureza e o brilho do que é são!<br>
+Abala, derrue, prosta em confusão,<span class="pn">{16}</span><br>
+Det'riora, desfaz, calca e elimina<br>
+A graça do bom lar, graça Divina!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando
+dolorosamente)</em></p>
+
+<p>E foi... foi assim que essa vilania<br>
+Me roubou o socego e a alegria!<br>
+Foi assim, assim, que ella aqui entrou,<br>
+E que de mim se riu e só zombou!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Encosta-se sentidamente ao berço)</em></p>
+
+<h2>SCENA SEGUNDA</h2>
+
+<h3>A<small>RMINDA E</small> H<small>ENRIQUE</small></h3>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e
+penetrando a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz).</em></p>
+
+<p>Ninguem!... Sómente a paz religiosa<br>
+Da verdade!... Só graça harmoniosa<br>
+Da virtude!... Sómente o ar suavissimo<br>
+Do bem!... O perfumado e o dulcissimo<br>
+Aroma a castidade.. que trahi!...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Respirando desafogadamente)</em></p>
+
+<p>Ah! Como se respira bem aqui!...<br>
+Deixai-me que, aspirando a longos tragos<br>
+O balsamo do amor e dos affagos,<br>
+Eu bem me purifique no sacrario<br>
+Que envolve o precioso relicario<br>
+Do natural, do justo, do acceitavel!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Suspirando de novo)</em></p>
+
+<p>Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel<br>
+A realidade!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e
+se não ouvem um ao outro)</em></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Parecendo despertar dum sonho)</em></p>
+
+<p>            E tudo, só tudo isto,<br>
+Se me afigura um sonho!...<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Olhando para o ambiente)</em></p>
+
+<p>                          Além, um Christo,<br>
+Em expressão suavissima, a espargir<br>
+Bondade, a abençoar, a redimir!<br>
+</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Olhando para a creança)</em></p>
+
+<p>Coitada! Que destino o teu seria!?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Continuando a reparar em tudo)</em></p>
+
+<p>Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria,<br>
+Recebendo o amor em seus ternos braços.</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Descobrindo o rosto da creança)</em></p>
+
+<p>E em verdade, verdade, muitos traços<br>
+D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...</p>
+
+<p class="inst"><em>(com ternura)</em></p>
+
+<p>Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!<br>
+</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Voltando-se para a meza)</em></p>
+
+<p>Aqui, vejo uma cesta com roupinha...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Continuando a examinar a creança)</em></p>
+
+<p>E também se parece esta boquinha<br>
+Bem rosada...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Analysando a roupa)</em></p>
+
+<p>             Enxoval d'uma creança,<br>
+Posto em disposição cuidada e mansa.</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>O narisito não. Destôa um pouco<br>
+Do perfil d'esse mau e d'esse louco...<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pegando em algumas peças de roupa)</em></p>
+
+<p>Chambrinhos e babeíros; camisinhas...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Descobrindo a creança)</em></p>
+
+<p>São perfeitos os braços e as perninhas...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Continuando a analysar a roupita)</em></p>
+
+<p>E outra tanta roupinha de petiz,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Admirado)</em></p>
+
+<p>Decerto, para algum ente feliz,<br>
+A quem Arminda serve de madrinha.</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cobrindo a creança)</em></p>
+
+<p>Pobresita! Afinal és isentinha<br>
+Do peccado...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)</em></p>
+
+<p>             Ella é meiga e caridosa...<br>
+É tão 'smoler, é tão affectuosa<br>
+Para os pobres...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente
+sahindo do biombo para entrar na salla e exclama)</em></p>
+
+<p>                 Meu Deus! Meu bom Senhor!<br>
+P'la Infinita vontade e grande amor,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Sahindo do biombo)</em></p>
+
+<p>Ahi fica, ahi fica essa creança,<br>
+Que n'este triste abrigo a sorte lança...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando, surprehendido, para Arminda)</em></p>
+
+<p>Senhora!...<span class="pn">{19}</span><br>
+</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Recuando atonita)</em></p>
+
+<p>           Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Suffocado)</em></p>
+
+<p>Buscar essa amizade que perdi...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprehendida e admirada)</em></p>
+
+<p>An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando um pouco)</em></p>
+
+<p>No saudoso ambiente d'esta cella!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cada vez mais surprehendida)</em></p>
+
+<p>O quê?! Aqui?! Decerto se enganou,<br>
+E sem duvida, creio, a porta errou.<br>
+Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Abrigar-me ás caricias da mulher...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Profundamente admirada)</em></p>
+
+<p>Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu<br>
+Que o senhor se enganou, e qual judeu<br>
+Errante, anda passando em falsa estrada,<br>
+Illudindo-se ao certo na morada!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando mais)</em></p>
+
+<p>Arminda!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>           Ah! sim, sim! É esse o meu nome;<br>
+Porém, tal coincidencia não assome<span class="pn">{20}</span><br>
+O direito de crer-me quem procura;<br>
+E revella sómente muita uzura,<br>
+Imaginar, que cá, por este mundo,<br>
+Esse nome de mim seja oriundo!...<br>
+Sim! Armindas ha muitas, acredite,<br>
+E tantas, tantas, que bem me permitte<br>
+Repetir quanto falham seus caminhos!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com sentimento)</em></p>
+
+<p>Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos.<br>
+Senhora!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Impaciente)</em></p>
+
+<p>           Vamos! Vamos! Que deseja?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Contricto)</em></p>
+
+<p>Confessar uma culpa que me peja.<br>
+E se ha muito, se ha muito ando perdido,<br>
+Bem penitente aqui tem seu marido!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com repugnancia)</em></p>
+
+<p>Que diz o senhor?! Meu marido?!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Corajoso)</em></p>
+
+<p>                                   Sim,<br>
+E n'essa qualidade eu aqui vim...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com serenidade)</em></p>
+
+<p>E como tal pretende apresentar-se?!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Se dá licença?...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma
+cadeira)</em></p>
+
+<p>                 Então! Queira sentar-se.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de
+pausa)</em><span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>Com effeito... e em verdade, ideia tenho<br>
+De que alguem, com astucia e muito engenho,<br>
+Um dia conseguiu vêr-me no altar<br>
+Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar<br>
+Tal acto ou sacramento d'evangelhos,<br>
+Ante um homem dobrei os meus joelhos!<br>
+Então... padre d'aspecto venerando,<br>
+As orações do rito foi rezando,<br>
+Emquanto duas almas se fundiam<br>
+Á lei de Deus, e dois peitos se uniam<br>
+Ao regimen da mais pratica escola!<br>
+Deram-se as mãos; depois, a branca estóla<br>
+As cobriu, invocando o juramento<br>
+Que firmaria o Santo Sacramento!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Descançando)</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>E jurámos, jurámos n'esse exemplo,<br>
+Que nos manda crear o bello templo<br>
+Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto<br>
+Sómente a guarda e abrigo d'um affecto!<br>
+É mais, que de sublime, tem o vulto!<br>
+É n'elle edificar paz, honra e culto!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>E assim, bem se jurou mais egualmente<br>
+Que, obreiros de castissimo ambiente,<br>
+Erigissem alli, em devoção,<br>
+O respeito, dever, religião!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, depois proseguindo)</em></p>
+
+<p>Realmente, senhor, lembra-me que um dia,<br>
+Quando sã madrugada alvorescia<br>
+Toda em perfumes, canticos e flôres,<br>
+Alguem, que de mim tinha por amores,<br>
+O symbolo d'aliança me entregava,<br>
+E em meu peito dizia que se achava!<br>
+Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor,<br>
+Tão lindo despertar, tão lindo alvôr<br>
+Da pura realidade dos meus sonhos,<br>
+Feitos de beijos castos e risonhos,<br>
+De melodias suaves e plangentes!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com mais vida, erguendo-se)</em></p>
+
+<p>Se me lembra a manhã em que dois entes,<br>
+Deleitados na força da paixão,<br>
+Se uniam em solemne sagração<br>
+D'um tributo!...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa, depois com magua)</em><span
+class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>                Recorda-me... Entoava<br>
+O orgão religiosos sons! Resava<br>
+Por assim dizer preces ao Bom Deus<br>
+Pelo bem de sagrados hymineus.<br>
+E que sons! E que sons tão inspirados<br>
+Na graciosidade d'uns noivados!<br>
+Que harmonia e conjunctos fervorosos,<br>
+Embalando a união de dois esposos!<br>
+Que accordes, que hymnos tão sentimentaes,<br>
+Incensando d'amor uns esponsaes!...<br>
+Sim!... Recordo em verdade o sorridente<br>
+Dia, e conservo ainda bem presente<br>
+Toda a felicidade que senti!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa e apontando a porta de fundo)</em></p>
+
+<p>Olhe... repare... foi... foi por ali<br>
+Que eu entrei com soberba magestade,<br>
+Envolta no meu véu de virgindade!<br>
+Foi por ali que entrei; e junto a mim<br>
+Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se e interrompendo-a)</em></p>
+
+<p>E esse noivo, senhora, era...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p>
+
+<p>                             Era alguem,<br>
+Que na ambição de posse que se tem,<br>
+N'essa grande ambição a que se aspira,<br>
+Julgou depois que tudo era mentira,<br>
+Falsidade, illusão, tolice e asneira!<br>
+Era alguem, que fitando em pasmaceira<br>
+A vitrine d'objecto precioso,<br>
+Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso,<br>
+Exagerára as suas qualidades,<br>
+E se precipitara nas vontades!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pretendendo interrompel-a)</em></p>
+
+<p>Mas, senhora...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atalhando-o)</em></p>
+
+<p>               Não queira ter o arrojo<br>
+De desmentir-me, pois qual, qual estojo,<span class="pn">{23}</span><br>
+A guardar um brilhante lapidado,<br>
+Assim foi e era o meu véu de noivado;<br>
+Assim foi o meu véu, que descoberto,<br>
+Lhe mostrou, afinal, o que de incerto<br>
+Era o seu pensamento em ideal...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Mas hoje, o positivo e o real...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Impondo silencio)</em></p>
+
+<p>Nada d'interrupções! Estou fallando,<br>
+E desejo ir a pouco demonstrando<br>
+O meu sentir. Dizia eu ha bocado<br>
+Que, tal como brilhante lapidado,<br>
+Era a mulher sahida da innocencia<br>
+Para o mundo da prova e exp'riencia.<br>
+E... e senão, vejamos! Em geral,<br>
+Tem a mulher encanto natural,<br>
+E attracções de que muito foi dotada;<br>
+Mas quando pretendida, quando amada,<br>
+Eil-a que se transforma em maravilha,<br>
+E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!...<br>
+Anjo do ceu, que assim tanto seduz,<br>
+Astro de fé, de vida, d'alma e luz;<br>
+A guia, o norte, a briza perfumada.<br>
+A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada,<br>
+Tudo, emfim, de tal modo concebida,<br>
+De tal maneira olhada e percebida,<br>
+Que um Velasques, Murillo ou Raphael<br>
+Jámais produziriam do pincel<br>
+Inspiração egual! Mas, como as flôres<br>
+Que em jardim vão brotando de mil côres,<br>
+A ellas bem se assemelham as mulheres.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Cravos, jasmins, tulipas e outros seres<br>
+Que da especie Deus pôz em geração,<br>
+Um ha que nos merece distincção,<br>
+E para elle vae vista attenciosa.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa,<br>
+Pela côr e finura de formato;<br>
+Aroma que daria suave extracto,<br>
+E viço tal, que lagrimas d'orvalho<span class="pn">{24}</span><br>
+Pousando-lhe com arte e lindo talho,<br>
+De perolas, imita, collar fino,<br>
+A guarnecer um collo alabastrino!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Elegancia suprema, ar donairoso,<br>
+A rosa attrahe olhar ganancioso:<br>
+E com motivo, pelo mundo inteiro<br>
+Lhe chamam a rainha do canteiro!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Admira-se, contempla-se a belleza<br>
+Que a nossos olhos deu a natureza!<br>
+Pasma-se em fascinante adoração<br>
+Absorvendo o producto, a creação<br>
+Genial! E depois, não resistindo<br>
+Ao desejo de ter o fructo lindo,<br>
+Corta-se o encanto, o iman attractivo,<br>
+Para figurar qual decorativo<br>
+N'uma jarra de <em>Sevres</em>, ou crystal!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!...<br>
+A pobresita já dias após<br>
+Não escutava nem ouvia a voz<br>
+Da admiração! E ha pouco despresada,<br>
+Sem carinhos, de todo abandonada,<br>
+Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba!<br>
+Nem sequer o perfume que exhalava<br>
+Vem recordar a sua contextura!<br>
+Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Com desalento)</em></p>
+
+<p>Assim é a mulher que s'enaltece:<br>
+Tambem se apaga, cahe e desfallece...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)</em></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir<br>
+A voz de quem pretende redimir<br>
+Os erros de uma vida attribulada...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Redobram os vagidos da criança)</em></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Procurando affastar-se)</em></p>
+
+<p>Não posso! Veja que outra vida brada<br>
+Pela minha presença, e bem m'incute<span class="pn">{25}</span><br>
+Um dever! Veja! attenda? escute, escute<br>
+Os vagidos d'aquelle innocentinho<br>
+Pedindo o meu conforto e meu carinho!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Attonito e escutando)</em></p>
+
+<p>Os vagidos!? Os choros de criança?!...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Confuso)</em></p>
+
+<p>Mas, minha senhora!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>                   É uma herança,<br>
+Que chama os meus cuidados!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Inquieto)</em></p>
+
+<p>                           Mas perdão!<br>
+Apenas um minuto d'attenção!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Em confusão d'ideias)</em></p>
+
+<p>Aquelle choro!... tão infantil!...<br>
+Traduz-me a existencia de um ardil!...<br>
+Espere: Espere?</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando)</em></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>                Diga, mas depressa,<br>
+Pois que aquelle lamento jámais cessa<br>
+Sem ternuras de mãe!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p>
+
+<p>                    Senhora!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cruzando os braços)</em></p>
+
+<p>                            Que ha?!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Aparentando soffrimento)</em></p>
+
+<p>O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná...<br>
+Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?!<br>
+A que data, a que data, sim, se liga<br>
+O nascimento d'esse seu vivente?<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Impassivel)</em></p>
+
+<p>Tem seis mezes approximadammte!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Muito surprehendido)</em></p>
+
+<p>An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Dolorosamente invocando a memoria)</em></p>
+
+<p>Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia<br>
+Não condiz com a minha grande ausencia<br>
+Desta casa! Senhora! Por quem e?<br>
+Veja o que em meu semblante já se lê,<br>
+Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno<br>
+Me ausentei... E esse filho... é...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>                                   É profano!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando de punhos cerrados e exclamando)</em></p>
+
+<p>Ah!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Imperiosa)</em></p>
+
+<p>      Suspenda! suspenda, desgraçado!<br>
+Que não tremo ante o facto consumado!<br>
+Suspenda, porque não me atemorisa<br>
+A ira de quem adopta por divisa<br>
+A infamia! Pare, pare, não avance,<br>
+Que não vacilarei em frente ao lance<br>
+Despotico de tão vil caminheiro<br>
+Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro,<br>
+Suspenda, porque não tremo perante<br>
+Affirmar... que esse filho...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>                             É?...<span class="pn">{27}</span></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Altiva)</em></p>
+
+<p>                                  D'um amante!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrogando)</em></p>
+
+<p>E a mãe!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>           É a mulher que deshonrou<br>
+O nome d'um marido, que aviltou<br>
+A dignidade dum sêr conjugal,<br>
+E se lançou para esse lodaçal<br>
+Da miseria humana! É a mulher<br>
+Que na loucura d'orgico praser<br>
+Se lançou ao enxurro da corrente,<br>
+Vestal indecorosa e deprimente!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo, e convencido de ser victima de
+cilada)</em></p>
+
+<p>É a mulher, que, sem honra e vergonha,<br>
+Buscou a aviltantissima peçonha<br>
+Da desforra cruel, não é verdade?<br>
+A mulher que, perdendo a dignidade,<br>
+Em troco de torpissima vingança,<br>
+A mostra, com a prova da creança<br>
+Existente no lar, que de novo ora<br>
+Procuro. Que se não vexa, nem cora,<br>
+Com a pratica d'um crime aviltante;<br>
+A mulher que na sêde devorante<br>
+De debitar affrontas, só reclama<br>
+A moeda emprestada, e a si chama<br>
+O direito d'um plano indecoroso,<br>
+Pagando-se com acto vergonhoso;<br>
+Atirando-me ao rosto grave insulto,<br>
+E corrompendo todo, todo o culto<br>
+Que deve ter-se pela honestidade!<br>
+A mulher que despresa a probidade,<br>
+E que na hora da minha reflexão,<br>
+Aponta esse signal de corupção,<br>
+Como atroz vilipendio e atroz injuria!<br>
+É a mulher ardendo em odio e furia<br>
+Vingativa, sem alma, sem nobresa,<br>
+Sem outro qualquer dom de que se presa<br>
+A sociedade, pois não é assim?<span class="pn">{28}</span><br>
+É a mulher que jura contra mim<br>
+A guerra, de, a façanha, outra façanha,<br>
+E que em descaramento me arreganha<br>
+Os dentes da villesa e da traição!<br>
+A mulher que transforma o coração<br>
+Em veneno odioso e repelente,<br>
+Para em dado momento, e ardilmente,<br>
+O injectar em minha alma, proclamando<br>
+Um feito immoralissimo e execrando!<br>
+A mulher que s'isenta do civismo<br>
+E logo se mascara do cynismo<br>
+Que ultraja, sem que ao menos se recorde<br>
+Que a raiva que inocula, quando morde,<br>
+Encerra sempre o virus e o microbio<br>
+Para sua deshonra e seu oprobio!<br>
+É a mulher, emfim, que, sem virtude,<br>
+A taes proezas tão vilmente allude!<br>
+A mulher, que tal nome não merece,<br>
+Quando só se desprende e só se esquece<br>
+Do fim para que fôra concebida!<br>
+É a mulher, em suma, confundida<br>
+Na escoria da miseria, que profana,<br>
+Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Ora nem mais, diz bem! É essa mesma:<br>
+É essa tal, o monstro, essa abantesma<br>
+Que descreve, acredite? É essa, é essa<br>
+Misera que se expõe e que confessa...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>O proceder infame d'uma esposa!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo indignada)</em></p>
+
+<p>É lá! Suspenda a phrase rancorosa,<br>
+E não se atreva, não se atreva a tanto!<br>
+Falla-se da mulher, saiba; porquanto,<br>
+A esposa, está aqui, embora diga<br>
+Que deixou de o ser, para quem se abriga<br>
+No mal.<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Furioso)</em></p>
+
+<p>E a senhora? Onde se abrigou?</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança,
+cahindo de bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo
+todos os movimentos.)</em></p>
+
+<p>N'esta vida que Deus me destinou!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Crusando os braços)</em></p>
+
+<p>Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes<br>
+Que se abriga ao producto d'uns amantes!<br>
+Que se abraça á tristissima irrisão<br>
+Da mais adulterina concepção!<br>
+Diga antes, que se acolhe na sentença<br>
+Que me fôra ditada; e que em presença<br>
+D'esse escarneo, se prova a hediondez<br>
+D'um crime, que a vingança traz e fêz!<br>
+Diga-me, antes, senhora, que aconchega<br>
+O fructo que a immoral lhe deu e lega<br>
+Como espelho constante de traição,<br>
+Como sobrio reflexo da illusão<br>
+Em que cahi!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se e enchendo-se de coragem)</em></p>
+
+<p>               Pois seja! Assim o diga!...<br>
+Esta creança...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>               O insulto!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>                            É o castigo!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Recuando e disposto a sahir)</em></p>
+
+<p>Passe Vossa Excellencia muito bem<br>
+Minha Senhora!! </p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para a porta)</em><span
+class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>               Aquella porta, tem<br>
+O condão de se abrir ante a passagem<br>
+D'este tão illudido personagem;<br>
+E se aqui vim, buscando honestidade,<br>
+Convicto saio e vou, da falsidade<br>
+Com que ella se proclama e annuncia!<br>
+Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia,<br>
+Variando sómente em sociedade;<br>
+Porquanto; se lá fora a indignidade<br>
+Se expõe, aqui se occulta no cynismo<br>
+Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo,<br>
+Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo<br>
+Ante o revoltantissimo sarcasmo<br>
+Que preside á mudança d'este lar<br>
+No mais indecoroso lupanar!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Revoltadissima)</em></p>
+
+<p>E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor,<br>
+Do biltre que, sem honra e pondonor,<br>
+Se arroja a censurar, altivamente,<br>
+A esposa que despreza infamemente!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><em>(Altiva, apontando-lhe a porta)</em></p>
+
+<p>Saia! Que jámais tem auctoridade<br>
+Para insultar, quem só na indignidade<br>
+Vagueia e lá procura o seu viver!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Altivo)</em></p>
+
+<p>Mas eu sou homem!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae
+recuando para sahir)</em></p>
+
+<p>                 E eu... eu sou mulher!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Indica-lhe a porta)</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim do
+primeiro acto</p>
+
+<p><span class="pn">{31}</span></p>
+
+<h1>ACTO II</h1>
+
+<p class="desc_acto">A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição.
+Dentro do biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena,
+encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo fundo
+Henrique e Margarida.</p>
+
+<h2>SCENA PRIMEIRA</h2>
+
+<h3>H<small>ENRIQUE E</small> M<small>ARGARIDA</small></h3>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Ora aqui tem os novos aposentos<br>
+Que servirão de galla aos meus intentos.<br>
+Repare? Veja o luxo d'esta salla,<br>
+Que a nada, mesmo a nada mais se eguala.<br>
+Hein! Hein! Que lhe parece?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Admirada)</em></p>
+
+<p>                            Realmente,<br>
+É soberbo! ideal! Mas, francamente,<br>
+Acho bello de mais: bello de mais<br>
+P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Engano, Margarida, puro engano;<br>
+Tudo isto é impostura e só profano!<br>
+Apenas a mudança de scenario,<br>
+Com quanto lhe pareça um relicario<br>
+O que está vendo, creia. Tão sómente<span class="pn">{32}</span><br>
+D'aspecto a mutação, mas apparente<br>
+E falso, no que indica, pois de facto,<br>
+Quanto vê, é traidor e bem ingrato;<br>
+Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto<br>
+O mais completo, o mais perfeito assumpto,<br>
+Para que se analyse e fundamente<br>
+Toda, toda a ironia d'este ambiente;<br>
+E descrever, eu vou, essa ironia,<br>
+Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.<br>
+Queira ouvir:</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>             Ouvirei... </p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>                       Repare então:<br>
+O que se nota n'esta perfeição,<br>
+Unicamente serve p'ra esconder<br>
+A cynica existencia da mulher!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Minha rival? Talvez!?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>                     Nem mais, diz bem!<br>
+Sua rival, que arrojo mostra e tem<br>
+Para se apresentar envaidecida<br>
+No luxo de que a salla é guarnecida.<br>
+Conhece-a?...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>             Talvez não... eu nunca a vi...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:<br>
+Mas antes, extasie-se no espavento<br>
+D'estas decorações, cujo elemento<br>
+Só pretende encobrir o que lá fóra<br>
+Se chama a todo o instante e a toda a hora<br>
+Miseria, corrupção e tudo o mais<br>
+Que tanto affronta e insulta bons mortaes!<br>
+Admire-se perante as bambinellas<span class="pn">{33}</span><br>
+Que, pendentes das portas e janellas,<br>
+Servem para vedar todo este centro<br>
+A bachanaes, passadas aqui dentro!<br>
+Reveja-se em vestaes tapeçarias<br>
+Soffucando o ruido das orgias;<br>
+Nos estofos que abafam enthusiasmos,<br>
+Os gritos de volupia, os espasmos<br>
+D'uma lubricidade illimitada...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Mas diga? Não será exagerada<br>
+A affirmativa?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>              Como assim? Duvida?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Admirada)</em></p>
+
+<p>É que, em verdade, nunca em minha vida<br>
+Soube como se possa conjugar<br>
+Toda a revolução do lupanar<br>
+Com esta ordem e acceio que estou vendo;<br>
+E com effeito, Henrique, não entendo,<br>
+Não percebo a harmonia que se avista,<br>
+Sómente discordante e antagonista<br>
+Ao meio onde se espalha a corrupção.</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>É o que lhe parece...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>                     Qual? Não; não<br>
+Posso acreditar, não, no que me diz,<br>
+Pois que a nossa existencia jámais quiz<br>
+Acceitar os cuidados d'este apuro.</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Em duvida)</em></p>
+
+<p>Será, mas... mas para isso não se admitte<span class="pn">{34}</span><br>
+A apparencia do arranjo, que transmitte<br>
+Não sei que, de completa opposição<br>
+Á anarchia da nossa profissão;<br>
+E eu sinto que d'instante para instante<br>
+O esp'rito se consulta, inquietante,<br>
+Na atmosphera que aqui dentro respiro...<br>
+Diga? Diga? Onde estou eu?!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>                               N'um retiro<br>
+Cuja devassidão bem se proclama,<br>
+Repito, muito embora tenha a fama<br>
+D'honesto, muito embora elle se incense<br>
+D'um perfume que nunca lhe pertence.<br>
+Duvida ainda?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>             Sim! eu... eu duvido!<br>
+Porque não póde ter aqui vivido<br>
+A mulher que appelida de devassa;<br>
+E affirmarei, senhor, que a nossa raça<br>
+Foge a toda e qualquer preoccupação,<br>
+Que não seja gosar devassidão!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Olhando para tudo)</em></p>
+
+<p>Tudo isto que a meus olhos se depara,<br>
+É coisa que se torna muito rara<br>
+A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,<br>
+Sem valôr, pueril, impropria, futil,<br>
+Para quem como nós, p'ra quem como eu,<br>
+Se ceva nos instinctos que me deu<br>
+A sorte, e se refaz insaciada<br>
+Na sêde d'uma vida depravada!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a
+Margarida para se sentar)</em></p>
+
+<p>Está bem Margarida, venha cá;<br>
+Sentemo-nos, que mui não tardará<br>
+Que momento opportuno e bom ensejo<br>
+Apresente mil provas de sobejo,<br>
+Destrahindo, negando e desmentindo<br>
+Tão errada impressão que está sentindo.<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Sentando-se)</em></p>
+
+<p>Impressão tal, senhor, que, na verdade,<br>
+Se apossa de mim com necessidade<br>
+De profundar o fim deste recanto,<br>
+Receosa de crêr que seja o manto<br>
+Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê!<br>
+Aonde e em que parte é que ella se vê<br>
+Vegetando assim? Diga-me: em que parte<br>
+Ella pode adorar a belleza e arte<br>
+Do conjuncto tão bem disposto aqui?<br>
+Não, Henrique! A deshonra folga e ri<br>
+No turbilhão d'immenso desalinho,<br>
+Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho<br>
+E trato da vivenda que se habita;<br>
+A deshonra sómente tem escripta<br>
+Na mansarda a legivel taboleta<br>
+Que annuncia onde pára, onde vegeta.<br>
+E as nossas mãos, que apenas tem o dom<br>
+De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,<br>
+Não sabem como tudo isto se faz<br>
+Dentro da ordem e d'esta santa paz.<br>
+As nossas mãos têm o unico mister<br>
+De procurar os gosos e o prazer<br>
+Do ouro, que só se emprega na razão<br>
+Do luxo, necessario á attracção<br>
+Da vista indagadora das orgias,<br>
+E indispensavel para a concorrencia<br>
+Da prostituidora residencia!...<br>
+As nossas mãos sómente se utilisam<br>
+Nos postiços que tanto symbolisam<br>
+O antro por onde sempre rezidi,<br>
+E já n'elle então, uma vez ali,<br>
+Quando na ausencia, quando no despojo<br>
+Das seducções, só tudo logo é nojo<br>
+No labyrintho d'horas viciosas,<br>
+Na balburdia de noites amorosas!<br>
+Uma vez ali, tudo vem dizer<br>
+Do estado social d'uma mulher!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E quer, senhor, fazer-me convencer,<br>
+Que possa n'esta casa só viver<br>
+Alguem que a minha classe represente?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Quero sim; quero, e muito facilmente...<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Porém, como? No luxo do aposento<br>
+Não, porque n'elle ha todo o sentimento<br>
+Que eu ignoro. Na graça e harmonia<br>
+Muito menos, por quanto a apostasia<br>
+De virtudes se não traduz assim,<br>
+E nem ella se adquire com tal fim!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Porque o sabe?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>              No exemplo d'esta vida,<br>
+Que uma outra aniquilou e fez perdida!<br>
+Nas provas da existencia que atravesso,<br>
+Demonstrando que tudo isto é avesso<br>
+Á desorganisada habitação<br>
+De quem só s'expõe á prostituição!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)</em></p>
+
+<p>Ouça: se, como diz e me affiança,<br>
+Estamos sob um tecto d'aliança<br>
+Deshonesta; se, como bem proclama<br>
+A devassidão n'este lar se inflama<br>
+Por impudica e má camaradagem...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para um Christo que está na parede e para a
+imagem da Virgem, n'um quadro)</em></p>
+
+<p>Que faz, senhor, além, aquella imagem?<br>
+E inda est'outra aqui? tanto a destoar<br>
+Do cortejo que envolve o lupanar?</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>São os taes attributos da mentira,<br>
+Ante os quaes se revê e mui se admira!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Mentira?! Mas onde, onde apparece ella?<br>
+E como e de que fórma se revella,<br>
+Se, por muito que faça, inda a não vi...<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<h2>SCENA SEGUNDA</h2>
+
+<h3>O<small>S MESMOS E</small> A<small>RMINDA</small></h3>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando
+dolorosamente surprehendida)</em></p>
+
+<p>Ah!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)</em></p>
+
+<p>Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Altivamente)</em></p>
+
+<p>Mas que significa este atrevimento?!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Coisa de mero e simples argumento,<br>
+Não se assuste!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pegando n'uma das mãos de Margarida)</em></p>
+
+<p>               Apresento a minha amante...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Timida)</em></p>
+
+<p>Senhor! a que se atreve!?...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cruzando os braços)</em></p>
+
+<p>                            Que farçante!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Serei; no entanto, como as bôas farças<br>
+Reclamam a presença de comparsas,<br>
+Queira representar o seu papel,<br>
+Indicando com essa alma de fel<br>
+A peçonha do mal que tanto encobre<br>
+Nas apparencias d'uma casa nobre!...<br>
+Vamos? Queira sahir d'esse mutismo<br>
+Que estampa hypocrisia e diz cynismo!<br>
+Queira tirar a mascara traidora<span class="pn">{38}</span><br>
+E mostrar ante mim e esta senhora<br>
+Como a deshonra n'este lar se fez<br>
+E abunda por aqui aos pontapés!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com repugnancia)</em></p>
+
+<p>E porque não, indigno cavalheiro!<br>
+Porque não hei-de, em modo sobranceiro,<br>
+Indicar-lhe o que pede no momento?<br>
+Porque não hei-de dar conhecimento<br>
+Ao que exige em palavras que só são<br>
+Proferidas p'la bocca d'um villão!<br>
+Porque não hei-de com toda a altivez,<br>
+Mostrar como anda o mal a pontapés?!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para Margarida)</em></p>
+
+<p>Mire-se no instrumento de façanhas<br>
+E d'outras mil proezas que são ganhas<br>
+Na desgraça. O mal, paira por alli,<br>
+E tambem d'egual fórma o veja em si,<br>
+Como estigma do mais reles exemplo<br>
+Da profanação d'um culto e d'um templo!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a
+Henrique)</em></p>
+
+<p>Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Na casa de quem só rivalisou<br>
+Com a miseria a outros imputada<br>
+E que, insultando mesmo, toda irada,<br>
+A presença das nossas entidades,<br>
+O faz, creia, nas mesmas igualdades<br>
+Do direito com que eu deva insultar,<br>
+Da causa, que m'instiga p'ra accusar;<br>
+E, se insultos se pagam com insultos,<br>
+Veremos então quem profana os cultos<br>
+Do bom caminho; quem mancha e arruina<br>
+O que a moralidade nos ensina!<br>
+Veremos então quem mais enodeia,<br>
+E quem com crime e farça mais hombreia!<span class="pn">{39}</span></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Indignadissima)</em></p>
+
+<p>É o homem que, sem brio e pundonor,<br>
+Assim falla! É o biltre, cujo horror<br>
+Repugna a toda, a toda a consciencia,<br>
+E talvez até á d'essa existencia<br>
+Que ora aqui trouxe para mais vexame<br>
+Meu! É o homem preverso, mau, infame,<br>
+Ultrajando o que só é digno e honesto!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Mas que ao mais pequenino e simples gesto<br>
+Irá destruir essa honestidade<br>
+Apregoada com tanta falsidade!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Antepondo-se)</em></p>
+
+<p>E é já tempo, senhor, para o fazer,<br>
+Visto que me pretende convencer<br>
+Do que vem affirmando.</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>                      Ouça, senhora:<br>
+Creio bem que, ante força vingadora,<br>
+Me encontro n'esta salla; e é bem certo<br>
+Que, seja p'lo que for, eu já desperto<br>
+Mais ou menos da minha inconsciencia,<br>
+Para crêr que pratico irreverencia<br>
+Encontrando-me n'estes aposentos.<br>
+E eu então, que não tenho sentimentos<br>
+Senão os que a desdita me deixou,<br>
+Sinto que dentro em mim ora soou<br>
+Alguma coisa sã, e não sei quê<br>
+D'extranho, a confirmar a crença e fé<br>
+Que ha pouco me assistia, suspeitando<br>
+De que, por aqui, não anda pairando<br>
+O mal...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p>
+
+<p>        Mas... como assim?! Se tal suspeita,<br>
+Vae muito brevemente ser desfeita<br>
+Ante o espelho fiel, e reflectir...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Do grande soffrimento e minha dôr!<span class="pn">{40}</span><br>
+Mas como Deus em tudo dá coragem,<br>
+Eu propria mostrarei toda a miragem<br>
+Do espelho que pretende descobrir.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com altivez)</em></p>
+
+<p>Mas veja bem, que só vae reflectir<br>
+A verdade, e ella, saiba, que aniquilla<br>
+Os infames, tornando mui tranquilla<br>
+A consciencia accusada! E a verdade,<br>
+Chamando os villões á realidade,<br>
+Vae prostra-los na immensa confusão<br>
+De crimes, sem desculpa, nem perdão!<br>
+A verdade, esse grande dom do mundo,<br>
+No peito dos malvados crava a fundo<br>
+O punhal do castigo merecido!<br>
+E ai de si, miseravel! se vencido<br>
+Ficar na falsa lucta que travou!<br>
+Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou<br>
+A redempção, á face do mysterio<br>
+Que lhe auctorisa tão cynico imperio<br>
+D'insidiar, lançando-me labeus<br>
+Que apenas tanto o attingem e são seus!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com arrogancia)</em></p>
+
+<p>Pois bem! Perante mim, e n'este instante,<br>
+Se defrontam marido e sua amante!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprehendida)</em></p>
+
+<p>Senhora!? Que dizeis?! É seu marido<br>
+Este homem que comigo tem vivido<br>
+E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>É! Mas melhor seria que o não fosse!<br>
+Vamos : Perante mim e n'este instante,<br>
+Se defrontam marido e sua amante.<br>
+Procurando em vilissima baixeza<br>
+O mal que tão sómente a elles lhe peza!<br>
+E se era meu dever escorraçar<br>
+Quem se arroja e atreve a enxovalhar<br>
+Com descáro, a virtude d'esta casa,<br>
+Só muito antes a minha alma se empraza<br>
+A repudiar bem altivamente<br>
+Os instinctos de tão ignobil gente,<br>
+Ordenando que fiquem, por minutos,<br>
+Na expiação de feitos e seus fructos.<span class="pn">{41}</span></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>Mas essa altivez, é demais, senhora,<br>
+Para quem se transforma em peccadora!<br>
+Essa altivez repugna por excesso,<br>
+Na mulher que adoptou egual processo<br>
+D'ilegitimidade em relações?!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com desprezo)</em></p>
+
+<p>Basta! Basta d'infames allusões!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Antepondo-se)</em></p>
+
+<p>Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais,<br>
+Porque as suas palavras são fataes,<br>
+Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras<br>
+Para quem se dirigem, salvadoras<br>
+P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para Arminda)</em></p>
+
+<p>Em nome da verdade occulta em dôr!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprehendida)</em></p>
+
+<p>Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com pezar)</em></p>
+
+<p>Qualquer coisa da minha consciencia!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Ouvem-se uns gemidos de criança).</em></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Perturbado e levando as mãos á cabeça)</em></p>
+
+<p>E agora falla a vós d'alta vingança<br>
+Nos gemidos que solta essa criança!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Subitamente e apontando para o biombo)</em></p>
+
+<p>Senhora! Quem... quem é que chora além?!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>É um pedaço d'alma que vil mãe<br>
+Despresou!<span class="pn">{42}</span></p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cahindo de joelhos)</em></p>
+
+<p>          Ah! Meu Deus! perdão! perdão!...<br>
+Porque falla agora este coração!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Admirado perante a posição de Margarida)</em></p>
+
+<p>Surprehende-me esse humilde movimento?!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>Falla o remorso em forte sentimento!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)</em></p>
+
+<p>Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu,<br>
+Duvidando de que isto fosse reu<br>
+Do cynismo que tanto apregoava!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprezo)</em></p>
+
+<p>Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava<br>
+O producto do crime e da traição?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Era a voz da verdade e da razão,<br>
+Illuminando as trevas da mentira!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>É a prova do mal que tanto aspira.<br>
+Para me confundir n'essa torpeza<br>
+Que inventou, e que sempre se despreza<br>
+Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa,<br>
+Bem se torna a mulher crente, e ciosa<br>
+Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando<br>
+Isolada p'lo pessimo desmando<br>
+Do marido, mesmo inda que atirada<br>
+Para o jus da vingança provocada.<br>
+Orgulhosa se torna esta mulher<br>
+Que, no direito d'um mau proceder,<span class="pn">{43}</span><br>
+Em desforço do seu procedimento,<br>
+Só antes se acoberta ao sentimento<br>
+Que a sã moralidade nos indica,<br>
+E ao bem que tudo, tudo dignifica!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E é então o senhor, que, sem nobreza<br>
+D'aquilo onde se lê, estuda e reza<br>
+A melhor oração da nossa vida,<br>
+Vem hoje, perante esta alma esquecida,<br>
+Interrogar na mais dura exigencia<br>
+Quaes as razões porque tenra existencia<br>
+Se acalenta no leito de innocentes,<br>
+Com meus affagos ternos e dolentes!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>E é então o senhor, é o senhor,<br>
+Que, aggravando inda mais a minha dôr,<br>
+Vem hoje aqui no intuito de saber<br>
+Porque se encontra ao lado da mulher<br>
+Desposada, a criança que acalenta?<br>
+E sabe porque? Sabe porque dentro<br>
+D'este lar se aconchega esse vivente?<br>
+Porque, sem duvida, é seu descendente!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprehendido de subito)</em></p>
+
+<p>Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa<br>
+Para suas desculpas e evasiva!<br>
+Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?!<br>
+Só se a este lar se dá, faculta e presta<br>
+O mysierio da tal santa doutrina!<br>
+Talvez! Talvez que a <em>Graça</em>, a <em>obra Divina</em>,<br>
+Por aqui estendesse o puro manto,<br>
+E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo,<br>
+Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez<br>
+O mysterio julgasse pôr-me aos pés<br>
+O filho que me indica, não é assim?...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Irado)</em></p>
+
+<p>Ora vamos senhora! Ponha fim<br>
+Á comedia tão mal representada,<br>
+E diga como essa alma envenenada<br>
+Concebeu a pequena creatura<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para Henrique e Margarida)</em></p>
+
+<p>No desvario do pae e na loucura<br>
+Da mãe!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se e avançando para Henrique)</em></p>
+
+<p>          Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor,<br>
+Que na ancia de vingança e de rancôr,<br>
+Me desfiz da creança que me deu.<br>
+A mãe maldita, está aqui, sou eu,<br>
+Que em cegueira da minha profissão<br>
+Atirei com a nossa creação<br>
+Ao sabôr dos instinctos d'esta vida.<br>
+A mãe, que tem por nome Margarida,<br>
+E por mister o vicio infamante,<br>
+Sou eu! Esta que foi a sua amante,<br>
+E de cuja união sahe oriundo<br>
+Esse fructo que vê a luz do mundo.<br>
+A mãe, sou eu, que na brutalidade<br>
+Do meu sentir e tão baixa maldade,<br>
+Apunhalou por fórma audaciosa<br>
+O socego do lar, e o bem da esposa!<br>
+A mãe senhor, sou eu, esta mulher,<br>
+Que um pedaço de carne faz viver<br>
+P'ra orgia, palpitando em sangue vil!<br>
+A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil<br>
+Clientes de tão indigna alla mundana,<br>
+E que, vivendo sob a fórma humana,<br>
+Só renegam os dons da Natureza<br>
+Por bem degeneradas em baixeza!<br>
+A mãe sou eu, que tal nome invocando,<br>
+Se affronta um predicado venerando.<br>
+Alma não a tenho; odios ha alguns;<br>
+Nada d'amor e meritos nenhuns.<br>
+A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Mal comprehendendo a situação)</em></p>
+
+<p>Margarida! Que diz?!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>                       Digo, senhor,<span class="pn">{45}</span><br>
+A primeira verdade em minha vida;<br>
+Digo que essa criança foi nascida<br>
+Das nossas relações, e existe aqui,<br>
+Em virtude do mal com que eu agi.<br>
+É minha filha! e sua o é tambem,<br>
+Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Attonito)</em></p>
+
+<p>É minha filha?! Mas então... então...<br>
+O que se fez da minha sã razão?!...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a
+ficar visivel o interior aos personagens)</em></p>
+
+<p>De ha muito anda perdida.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para a criança)</em></p>
+
+<p>                         E aqui tem<br>
+Os espinhos da estrada d'onde vem!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se um pouco)</em></p>
+
+<p>Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita?<br>
+Sim! é ella! Mas, como se acredita<br>
+Tudo isto?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>           Pela fórma com que obrei<br>
+Em face d'esta nossa infame grei.</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Encolerisado e avançando para Margarida)</em></p>
+
+<p>Porém, com que direito me levou<br>
+A proclamar um crime que tramou?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Humilde e avançando um pouco)</em></p>
+
+<p>Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê,<br>
+Que nós obramos sem alma nem fé.<br>
+Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá<br>
+O que fiz? Foi apenas o que dá<br>
+Esta vil creatura! Foi sómente<br>
+A pratica d'um acto inconsciente!...<span class="pn">{46}</span></p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p>
+
+<p>E que, talvez, por essa inconsciencia,<br>
+Um porvir se consiga da innocencia...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para o berço)</em></p>
+
+<p>Descança ella no leito que lhe dei,<br>
+Embalada p'la dôr que alimentei.<br>
+E nas minhas canções, mesmo chorando,<br>
+A pouco e pouco irei sempre insuflando<br>
+A redempção. Depois, quando mais tarde,<br>
+Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde<br>
+E d'esta virgindade faça alguem,<br>
+Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se do berço)</em></p>
+
+<p>Vejam? Sonha decerto na ventura<br>
+Que o acaso lhe trouxe, e na candura<br>
+Do berço onde dormita! Berço pobre<br>
+De brocados, mas rico, rico e nobre<br>
+Do bem! Sonha decerto na esperança<br>
+Com que se entrega á minha confiança:<br>
+Sonha, quem sabe? na libertação<br>
+Da cadeia que traz humilhação!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando e exclamando)</em></p>
+
+<p>Minha filha! Meu Deus! Grande verdade!<br>
+É a isto que se chama honestidade?</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Continuando, emquanto Henrique fita a creança
+succumbida)</em></p>
+
+<p>Vejam?! E era, era então este senhor,<br>
+O grande, o grande espelho reflector<br>
+Do meu crime?!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Vendo que Henrique emudece)</em></p>
+
+<p>              Ande? Diga? accuse e insulte,<br>
+Para que todo o mundo veja e ausculte<br>
+A farça attribuida! Vamos, falle?<br>
+Porque emudece?</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando para a creança)</em></p>
+
+<p>               Tem aqui o mal,<br>
+E é ante elle que deve demonstrar<br>
+O cynismo, a baixeza d'este lar,<br>
+E tudo o mais que omitto, occulto e callo!<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Timido e a custo)</em></p>
+
+<p>Fallar? Eu... eu... senhora?</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com pausa)</em></p>
+
+<p>                            Sim, eu fallo...<br>
+Eu vou fallar, consente?...</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Altiva)</em></p>
+
+<p>                           Porque não?!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p class="inst"><em>(Curvando-se humilde)</em></p>
+
+<p>Pois fallarei! <em>(pausa)</em> Perdão!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cahindo de novo aos pés de Arminda)</em></p>
+
+<p>                       Perdão! Perdão!</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p>Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!</p>
+
+<p class="fala">Henrique</p>
+
+<p>Do remorso que assiste, e se antevê!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>P'la crença, de que abjuro e reneguei<br>
+P'ra sempre o caminho em que me abysmei.</p>
+
+<p class="fala">Arminda</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando os olhos para o ceu)</em></p>
+
+<p>Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia,<br>
+Venha a vossa infinita miser'cordia!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">CAHE O PANO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim do segundo
+acto</p>
+
+<p><span class="pn">{48}</span><span class="pn"><br>
+{49}</span><br>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>EPILOGO</h1>
+
+<p class="desc_acto">A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno,
+encontra-se sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e
+completamente succumbida.</p>
+
+<h2>SCENA PRIMEIRA</h2>
+
+<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p>
+
+<p>Eu a chorar! e lagrimas ardentes<br>
+Deslisando nas faces reviventes<br>
+De vergonha! Deus na alma! e ao coração<br>
+Amor! Ao meu espir'to a reflexão!<br>
+Na consciencia a revolta e o remorso<br>
+Em que já me debato e me contorso!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>O que é? que póde ser? A reacção<br>
+Convulsionando o corpo, e a razão<br>
+Subjugando-me, por demais vencida!<br>
+O que é? <em>(Pausa)</em><br>
+                É a verdade, Margarida!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Verdade?! E quem responde? Quem me falla?<br>
+É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala<br>
+Esta mulher aos dons da Natureza?<br>
+Sim. Porque se nasceu para a baixeza,<br>
+Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto<br>
+E pequei, pois agora mesmo eu sinto<br>
+Que para o mal o mundo me não doou.<br>
+Nem Deus para a baixeza me creou!<br>
+Deus, amando, só cria para amar,<br>
+E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,<span class="pn">{50}</span><br>
+Apenas a sonhar, sim, porque alguem<br>
+Sepultou do meu sonho todo o bem!<br>
+Eu nasci para amar, e amei; amei<br>
+Quanto pude ante a bôa e pura lei<br>
+Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava,<br>
+Disse-me um dia que isso não passava<br>
+De um mytho, e foi-se andando na procura<br>
+D'aquillo que á pobreza salva a agrura;<br>
+Foi-se andando na busca de riqueza,<br>
+Porque eu era pobre, e isso se despreza!<br>
+E é então, é então que o meu amor<br>
+Se arrebata nas garras do impudor;<br>
+É então, que me afundo nas camadas<br>
+Que alimentam as tristes depravadas!<br>
+Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,<br>
+Que por causa de amor tão puro e santo.<br>
+Busquei embriagar-me n'esta orgia,<br>
+Para que o grande Deus a ninguem cria!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="inst"><i>(Pausa)</i></p>
+
+<p>Eu a chorar!... e lagrimas ardentes<br>
+Deslisando nas faces reviventes<br>
+De vergonha! Porque? E que fiz eu?<br>
+Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;<br>
+Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,<br>
+E nada, nada pela inconsciencia.<br>
+E porque alguem, alguem me aniquilou,<br>
+Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p class="inst"><i>(Pausa)</i></p>
+
+<p>Eu a chorar! e lagrimas ardentes,<br>
+Velando os olhos bem reminiscentes<br>
+Do que vi!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>             E que vi eu?... A mulher,<br>
+A mulher como ella é e deve ser.<br>
+Vi-a altiva e com toda a magestade<br>
+Destruindo o insulto á sombra da verdade!<br>
+Vi-a repudiando com nobreza<br>
+Os feitos da maldade e da torpeza!<br>
+Vi-a... vi-a tomando nos seus braços<br>
+O fructo que proveio de devassos!<br>
+Vi-a, evocando graças divinaes<br>
+N'uma orchestra de sons tão maternaes<br>
+P'rá criança que a minha embriaguez<br>
+Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!<span class="pn">{51}</span><br>
+E como tudo ainda fosse pouco,<br>
+Em paga d'um agir mau, vil e louco,<br>
+Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!<br>
+Pedir que me enviasses lá dos céus<br>
+O perdão!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>         Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...<br>
+Fiz... o que faz mulher desnaturada!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)</em></p>
+
+<h2>SCENA SEGUNDA</h2>
+
+<h3>M<small>ARGARIDA E</small> F<small>ERNANDO</small></h3>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Entrando pelo fundo)</em></p>
+
+<p>Ora até que emfim, linda Margarida!?<br>
+Por onde tem andado tão perdida?</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e
+quasi de indignação)</em></p>
+
+<p>Ah!...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Avançando e continuando)</em></p>
+
+<p>      Por onde se tem tornado preza<br>
+E errante a sua graça e gentileza?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Dissimulando a tristeza)</em></p>
+
+<p>Em parte alguma, creia...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>                         Não parece...<br>
+E olhe que o promettido não se esquece.<br>
+Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Chorar? Eu?! Eu?!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Á parte, limpando os olhos)</em></p>
+
+<p>                 Oh! sim! não se enganou!<br>
+<em>(alto)</em> Chorar? Eu?! Não!<span class="pn">{52}</span></p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>                        Mas, seus olhos vermelhos,<br>
+São de tal flagrantissimos espelhos!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Dissimulando)</em></p>
+
+<p>Nada isso diz, embora lhe pareça;<br>
+Effeitos só de dôres de cabeça<br>
+Que ha dias me apoquentam...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>                            E que, espero,<br>
+Melhorem ante o meu voto sincero,<br>
+E não impeçam minha estada aqui,<br>
+Já que de novo me honra, e me sorri<br>
+O convite, tornando-se occupado<br>
+O logar que me disse ter vagado.</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(N'um rapido estremecimento)</em></p>
+
+<p>O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com estranheza)</em></p>
+
+<p>Duvída? Mas que grande exquisitice<br>
+Representa essa duvida!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Porque?!...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Tirando do bolso um cartão)</em></p>
+
+<p>Em face do bilhete onde se lê<br>
+O seu pedido, e ainda mesmo, quando<br>
+Claramente dizendo e bem frizando<br>
+</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se de uma porta latteral)</em></p>
+
+<p>Certas palavras, junto d'esta porta;<br>
+A não ser que, que seja letra morta<br>
+O que me affirmou!<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com repulsão)</em></p>
+
+<p>                  Não! Não me recorda?!</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>Veremos, n'esse caso, se, se aborda<br>
+A phrase muito nitida ao ouvido,<br>
+Para que ella jámais tenha esquecido.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Foi aqui, veja, foi n'este logar<br>
+Que, apontando-me altiva e sem pezar,</p>
+
+<p class="inst"><em>(Olhando para o interior d'um quarto)</em></p>
+
+<p>Certa vaga que ali dentro existia,<br>
+Perguntou o que lá se achava e via.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Respondi... o que ainda vejo:<br>
+                             Um leito.</p>
+
+<p class="inst"><em>(Malicioso)</em></p>
+
+<p>E por signal que estava bem desfeito,<br>
+Em contraste com toda a compostura<br>
+Que ora se nota. Então, é n'esta altura<br>
+Que assim exclama:<br>
+                  «Está ao seu dispôr».</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Lembra-me com effeito! <em>(Á parte)</em></p>
+
+<p>                                Mas que horror!<br>
+</p>
+
+<p class="inst"><em>(Alto e approximando-se de Fernando)</em></p>
+
+<p>É verdade! E a verdade diz, Fernando!<br>
+Mas foi um dito mau, dito execrando!<br>
+Dito que não devia proclamar</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com desespero)</em></p>
+
+<p>E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Surprehendido)</em></p>
+
+<p>Porém, nada percebo, e muito menos<br>
+Com taes palavras, cujo modo e acenos<br>
+São expostos em termo áspero e rude.</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apontando o leito)</em></p>
+
+<p>Aquella vaga, occupa-a hoje a <em>Virtude</em>.<span
+class="pn">{54}</span></p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Estupefacto)</em></p>
+
+<p>Como assim?! Isso é dito com ironia?!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Fallo com consciencia e ufania<br>
+De a possuir!</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>             Verdade?! Isso é verdade?!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Digo-lh'o com a mor sinceridade.<br>
+O leito que em orgias se desfez,<br>
+Hoje... sómente cobre a honradez!</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)</em></p>
+
+<p>Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo,<br>
+Espero que me explique por miudo<br>
+O que em vida de gran desfaçatez<br>
+Se entende por virtude ou honradez.</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)</em></p>
+
+<p>Será um sacrifício, mas, emfim,<br>
+Cumprirei seu desejo.</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Rindo)</em></p>
+
+<p>                     E quanto a mim,<br>
+Agradeço a irrisoria explicação,<br>
+Que ouvirei com a maxima attenção.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Com amargura)</em></p>
+
+<p>Sabel-o no passado, eu nunca pude,<br>
+Mas no presente, d'ella tenho a fé!<br>
+Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p class="inst"><em>(Com certo desprezo)</em></p>
+
+<p>É... o que o senhor nunca comprehendeu!...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Cada vez mais surprehendido)</em></p>
+
+<p>Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca<br>
+Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca<br>
+Do vicio a mulher que disse amar,<br>
+A virtude não sabe interpretar.</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>Allude então...<br>
+</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p>
+
+<p>               Á minha triste historia<br>
+Muito bem reflectida na memoria!<br>
+</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p>Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto... </p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto<br>
+Volte a offuscar-me as faces de vergonha,<br>
+Rememoro o que em epocha risonha<br>
+D'uma vida serviu para o transporte<br>
+Da reles existencia e fraca sorte.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Creança, inda bem nova, inexp'riente,<br>
+Senti n'alma o que sente toda a gente.<br>
+Despertando p'ra quadra d'um amor:<br>
+E a pouco extasiada n'esse alvôr,<br>
+Deixei que me prendessem sympathias<br>
+Que vibravam n'um canto de harmonia:<br>
+Tudo então me sorria e tudo amava!<br>
+A graciosa manhã que despontava<br>
+No melodico trio de avesinhas,<br>
+O sol que vivifica as floresinhas,<br>
+O declinar da tarde, as noites bellas,<br>
+Da lua o brilho, a graça das estrellas,<span class="pn">{56}</span><br>
+O conchego, a familia, o trabalho,<br>
+A paz, tranquilidade e o agasalho,<br>
+A invocação, a biblia e a reza;<br>
+Eu amava, emfim, toda a natureza,<br>
+Pelo proprio amor da juventude,<br>
+A vibrar como cordas de alaúde<br>
+N'um peito que se alava para o bem!<br>
+Mas de subito, meu Deus! esse alguem<br>
+Que me elevara aos paramos do amor;<br>
+Quem me ajudara a crel-o no primôr<br>
+Da verdade, e guiava o norte meu,<br>
+Que devia subir até ao ceu...<br>
+Corta, derruba, as azas d'este alar,<br>
+E obriga-me a cahir, faz-me tombar<br>
+No grande turbilhão da tempestade,<br>
+Na hecatombe e na mór fatalidade!<br>
+E tudo, tudo então quanto eu amava,<br>
+Breve se convertia e se trocava<br>
+Pela renegação, pela baixeza,<br>
+Deixando já d'amar a Natureza,<br>
+Para me filiar em quê? Em quê?<br>
+Nas hostes dos que nunca teem fé!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>E tombei! E cahi! <em>(chorando).</em><br>
+                             Sim, sim, tombei!<br>
+Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!</p>
+
+<p class="inst"><em>(A Fernando)</em></p>
+
+<p>Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono<br>
+Que me precipitou n'aquelle somno,<br>
+Cuja lethargia obra o desvario<br>
+N'um corpo molestado e doentio,<br>
+Em proveito de todo o esquecimento<br>
+Do que de bem havia em sentimento!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Pois se eu amava tanto, e d'esse amor<br>
+Em si depositei e puz, senhor,<br>
+A esperança ditosa de meus dias,<br>
+Sem que se me opposessem phantasias;<br>
+Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida,<br>
+Para que tornar tão desvanecida<br>
+A fraqueza da minha confiança?...</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pretendendo desculpar-se)</em></p>
+
+<p>Porque eu... porque eu tambem era creança...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levanta-se)</em><span class="pn">{57}</span><br>
+</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p>Não! Não! Diga que foi a sêde e fome<br>
+De usufruir, e após, pensar que o nome<br>
+Humilhava, e jámais lhe serviria<br>
+P'ra linda sugestão que me incutia;<br>
+Diga: foi o que muita gente faz,<br>
+Captivando, prendendo em fórma audaz<br>
+O debil ser, a fragil creatura,<br>
+Que ora subjugada ante a noite escura<br>
+Do vosso infame e vil, e vil narcotico,<br>
+Obedece depois ao espasmodico<br>
+Furôr de saciar as intenções<br>
+Com que se roubam fracos corações.<br>
+Não é isto?</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Perturbado)</em></p>
+
+<p>           Mas...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando-se)</em></p>
+
+<p>                 Mas... senhor Fernando<br>
+Queira explicar-me agora quando, quando<br>
+Foi por si concebida a qualidade<br>
+Virtuosa, por entre a sociedade?!</p>
+
+<p class="fala">Fernando</p>
+
+<p class="inst"><em>(Succumbido)</em></p>
+
+<p>Actualmente á face da razão...<br>
+Que decerto ditou a reacção<br>
+Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus<br>
+Do mundo!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Pausa e estendendo a mão a Margarida)</em></p>
+
+<p>         Margarida... adeus!...</p>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Apertando a mão de Fernando)</em></p>
+
+<p>                               Adeus...</p>
+
+<p class="inst"><em>(Fernando sae)</em><span class="pn">{58}</span><br>
+</p>
+
+<h2>SCENA FINAL</h2>
+
+<p class="fala">Margarida</p>
+
+<p class="inst"><em>(Só, depois d'um momento de silencio e de olhar toda a
+sala)</em></p>
+
+<p>E nada, nada mais d'esse passado<br>
+Que abomino!</p>
+
+<p class="inst"><em>(Levantando os olhos para o ceu)</em></p>
+
+<p>            Deus! Meu Deus!<br>
+                           Obrigado!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">CAHE O
+PANNO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim da peça</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM ***
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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