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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:46 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Nuvem + Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo + +Author: Luiz Couceiro + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34964] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +LUIZ COUCEIRO + +A NUVEM + +Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo + + + + +AVEIRO + +Typ. "Minerva Central" + +1910 + + + + + +LUIZ COUCEIRO + +A NUVEM + +Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo + + + + +AVEIRO + +Typ. "Minerva Central" + +1910 + + + + +PERSONAGENS + + Henrique + Fernando + Arminda + Margarida + Maria, creada + Uma creança de 6 mezes + + + + +PROLOGO + +Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á qual +Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de escrever. + + +SCENA PRIMEIRA + + +HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA + +Henrique _(só)_ + + «Corre um anno de vida desgarrada + Que sempre tem levado o teu amante, + E outra vida, decerto, attribulada, + Suavisar, se procura, n'este instante. + Vou partir, Margarida, e sê feliz; + Porque emfim, cêdo apenas a um esforço + De sentimento são; e ás almas vis + Cabe-lhe sempre o premio do remorso! + Adeus! E vae fazendo o que poderes + Para esquecer este homem transviado + Do trilho, da conducta, e dos deveres! + Adeus! A nada mais sou obrigado!» + +_(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)_ + + Sim! sim! jámais podéra ser possivel + Combater contra a minha reflexão! + E depois, que diabo! não é crivel + Mudar-se o santuario da união + Pelo louco viver do mundanismo; + Não, não é crivel ter a vida assim, + E salvar-me, procuro, d'este abysmo, + Quando, demais, alguem soffre por mim! + + +_(Pausa e reflectindo depois)_ + + De facto, Margarida tem encantos, + Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente + Que a tornam fascinada só de quantos + A pretendam gosar satyramente! + Goso estupido, goso só brutal, + Que nos converte em féras, ou ainda + N'um ente desprezivel e anormal! + + +_(Pausa, exclamando depois com sentimento)_ + + E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda, + Levado na corrente d'esse imperio! + +_(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)_ + + Oh! rosto tão suave de mulher! + Perfil tão nobre, tão grande, tão sério, + Como não será muito o teu soffrer! + Semblante de bondade, a contrastar + Com falsos attractivos de mundanas! + Aqui, traços de paz bem salutar, + +_(Em meditação)_ + + N'aquellas... linhas torpes e profanas! + Rosto meigo que outr'ora me prendeu, + A elle regresso, a elle vão meus passos, + E crê que vou guiado pelo ceu, + Buscando, d'amizade, os santos laços. + + +_(Beijando o retrato e levantando-se de subito)_ + + Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho! + Nem me lembrava d'esse poderio!... + Foi a fatalidade do meu trilho, + E complemento do meu desvario... + Comtudo, não importa, porque em suma, + +_(Conformando-se)_ + + É producto de falsas relações + Que se dissolvem, qual tenue espuma... + Existe uma creança; mas razões + Me forçam a esquece-la já tambem. + +_(Tirando do bolso uma carteira)_ + + Concedendo dinheiro em abundancia + Para que Margarida, como mãe, + Provenha ao alimento dessa infancia. + +_(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta +lateral)_ + + Coitadita da pobre creancinha!... + A dormir!... Tem nos labios um sorriso... + +_(Atirando-lhe um beijo)_ + + Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!... + +_(Retirando-se a custo)_ + + + Custa-me... mas então? Se me é preciso! + E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro, + Que farei tudo quanto fôr humano + Para vellar por ella no futuro! + +_(Pausa, depois da qual, com coragem)_ + + + Vamos! + +_(Parando e com desalento)_ + + É bem profundo o desengano! + +_(Pegando no chapeu)_ + + De resto, casa, orgia... tudo ahi fica... + E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto, + Onde, só de virtude, a vida é rica, + E onde chego humilhado e bem contricto! + +_(Sae rapidamente)_. + + +SCENA SEGUNDA + +Margarida _(só)_ + +_(Entrando por uma porta lateral e esfregando os +olhos)_ + + Safa! Que dormir tão pesado o meu! + Nem que fosse uma noite d'hymeneu, + A prolongar um somno de fadiga! + E então, que curiosa lucta e briga + Com os sonhos, os mais extravagantes... + A vêr-me rodeada só d'amantes, + Que disputavam a honra e primazia + Da posse luxuriante d'uma _Lia_! + Safa! Que pezadello interminavel... + + +_(Pausa, depois da qual, repara na carta)_ + + Olá! Temos missiva? D'um amavel + D. Juan, talvez? + +_(Vendo a letra)_ + + Mas não, porque esta letra + Pertence ao cavalheiro que penetra + No aposento. É do meu nobre senhor! + Não ha duvida! Ou antes, e melhor: + É d'um obediente e humilde escravo! + +_(Lendo a carta e cynicamente admirada)_ + + An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo! + Muito bem! Apoiado! É admiravel! + +_(Largando gargalhada sarcastica)_ + + Eis uma acção esplendida, louvavel! + +_(Sentando-se)_ + + Coitado! Que desgraça! Pobresito, + Que diz voltar em tudo bem contricto + Aos braços da mulher! _(rindo)_ sim, sim, coitado + Do triste e pobre errante, transviado + Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo! + Vae-te menino, vae-te, que o consôlo + Não me falta, acredita; pódes crêr! + E lança-te nos braços da mulher, + Pois que duvida? Ora essa? Porque não? + + +_(Com sarcasmo)_ + + Mas que parvo, irrisorio e toleirão, + Não veem!? Que ridiculo ignorante, + Que nem ao menos sabe ser amante! + E deixa carta, sem ter a coragem + De dizer que se acolhe na frondagem + Da virtude! + +_(Reconsiderando)_ + + Virtude! Mas que é isso?! + Um nome que se torna ôco e omisso + Entre nós. A virtude é ter dinheiro + Que bem nos sustente o orgico viveiro, + Porque amantes, se atiram para o lixo, + Vindo outros que sustentem o capricho! + +_(Indo para sentar-se e reparando na carteira)_ + + Ah! espera! deixou uma carteira! + E tem notas! Lembrança bem certeira, + Porque... emfim... é só isto o essencial + P'ra presidir á nossa bachanal... + +_(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução, +senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha)_. + + +SCENA TERCEIRA + + +MARGARIDA E UMA CREADA + +Maria + +_(Entrando de fundo)_ + + Que deseja? + +Margarida + + Recado algo importante + Que desempenharás já, n'este instante. + +_(Levantando-se)_ + + Levarás esta carta ao outro andar, + Mas não te deves nada demorar + Porque inda outro negocio bem urgente + Teremos que cumprir, presentemente. + +_(Entregando a carta á creada, que sáe)_ + + Vae... + + +SCENA QUARTA + +Margarida _(só)_ + + Ora pois... sou livre por minutos + Dos élos deshonestos e corruptos! + Mas não tão livre, não tão livre ainda, + Que Henrique não levasse á D. Arminda + O fructo do transvio de seu marido. + Coitado! Mas que triste arrependido! + +_(Rindo)_ + + E talvez concebesse que o seu filho, + De futuro, me sirva d'impecilho. + Ná, ná! Quem se desliga a compromissos, + Não o faz com intuitos só postiços. + Pois que!? Foge da vida deshonesta, + E deixa aqui o pomo de tal festa?! + Ná! que o leve; que o leve para o lar, + Onde a contricção vae representar. + E depois, almas vis, más e preversas, + Pódem ás vezes ser nobres e adversas + Ao crime. + +_(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma creança de +seis mezes)_ + + + Vaes gosar creação casta, + Que te infiltra dignissima _Madrasta_: + Vaes sahir d'este reles ambiente, + Onde se perde muita e muita gente! + +_(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á testa)_ + + An?! Que digo? Que disse eu inda agora?! + Não seria um lampejo, ou uma aurora + De verdade, que acaso illuminou + A minha alma, e p'la mente me passou... + +_(Com resolução)_ + + Sim, minha filha, quero que vás. Vae; + Vae acolher-te á sombra de teu pae; + Vae abrigar-te n'essas consciencias + Que salvam e redimem existencias! + + +SCENA QUINTA + + +MARGARIDA E MARIA + +Maria _(entrando)_ + + Satisfeito foi já o seu recado... + +Margarida + + Pois outro tem de ser executado + E deligentemente. Espera um pouco, + Emquanto escrevo á _Dona_ d'esse louco + Que hoje me abandonou. E na pequena + Segura já. + +_(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)_ + + Alguns traços de pena, + E prompto. Nada mais ha a fazer + Na consciencia de tão reles mulher! + +_(Dictando o que escreve)_ + + «Senhora! + Deposito essa creança, + Filha de seu marido, e esperança + Tenho que irá ser muito mais feliz, + Do que no antro que apenas só se diz + Do vicio, da vergonha!» + +_(Entregando a carta á creada)_ + + Ora aqui tens... + +_(Á parte)_ + + E inda dizem que são más estas mães! + +_(Á creada)_ + + Desejo que sem perda de momento + Ás minhas ordens tragas cumprimento. + Procuras indagar qual a morada + Do fugitivo Henrique, e lá, na escada, + A pequenita deves collocar, + Bem como a carta junta ahi deixar. + Depois, tens que affastar-te de repente, + Percebes? + +Maria + + Muito bem, e fico sciente. + +_(Estupefacta)_ + + Porém, senhora! nem sequer um beijo + Na creancinha?! + +Margarida _(imperiosa)_ + + Basta-me o desejo + Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno, + Muito embora com alma de veneno! + +Maria + +_(Indo a sahir e parando ao fundo)_ + + Mas... mas de que é feito esse coração?! + +Margarida _(indicando-se)_ + + É coisa que não ha na habitação! + Vae... + +Maria _(repentina)_ + + Irei. _(sáe)_. + + +SCENA SEXTA + + +MARGARIDA E FERNANDO + +Fernando _(entrando)_ + + Margarida! A que dever + A honra e o distinctissimo prazer + Da sua carta? + +Margarida + +_(Approximando-se de Fernando)_ + + Irá sabel-o já, + Meu caro e bom Fernando! Venha cá? + +_(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)_ + + Julgo que conquistou ardente feito! + +_(Apontando para o quarto)_ + + Ora diga? O que vê d'aqui? + +Fernando _(olhando)_ + + Um leito! + +Margarida + + Em que ha pouco vagou certo logar... + +Fernando _(interrogando)_ + + ... E então?! + +Margarida + + Querendo... Venha-o occupar. + +Cae o panno + + +FIM DO PROLOGO + + + + +ACTO I + +Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao fundo. Á +direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre de +fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao +centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se +encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza, +vae contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa. + + +SCENA PRIMEIRA + +Arminda _(só)_ + + ... E vinte!... + O indispensavel enxoval + P'ra essa creança, que é filha do mal! + Apenas o preciso p'ra o conchego + Do ente, que, desvario tolo e cego, + Arrumou para o mundo, e que o destino + Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino + Deus! A vossa vontade seja feita! + E a mulher, que a desdita sempre espreita, + Curva-se ante o poder d'essa grandeza, + Que a ella me ligou e me traz preza! + + +_(Com dôr)_ + + Um pequeno enxoval, mas sufficiente + Para poder cuidar d'esse innocente + Que a vil libertinagem engeitou! + Que a infamia, por onde só errou + A vida impura, incasta e illegitima, + Trouxe aos portaes da sua triste victima! + +_(Affastando-se da meza)_ + + E que havia a fazer?... Repudiar + O fructo da loucura?... Regeitar + A offerenda, que, quem sabe? foi Deus + A salva-la do mar, dos escarceus + Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem + A doa-la aos carinhos d'outra mãe! + Que havia de fazer? Tornar-me ré + Da deshonra, e com simples pontapé + Exclamar:--Vae, vae para a sociedade + Em que se mancha e perde a honestidade! + Vae tambem corromper-te em sacrificio + D'essa libertinagem, e do vicio! + Não! Não! Ninguem me dá esse direito, + Que apenas crearia mais um leito + Na impudica mansarda da baixeza! + Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza. + Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede, + Nem jámais a minha alma diz e pede + Que lance p'ra mizeria e para o crime + Uma outra alma que d'elle se redime!... + + +_(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução)_ + + Fica, pobre creança! Assim o quero + Fica, porque eu respeito e mui venero + O que o destino dá. + +_(Com pausa e sentimento)_ + + Elle predisse, + Em leis, que essa cruel libertinice + D'um marido não tinha o grave jús + De arrumar-te, impiedosa, para o púz + Virulento d'infame corrupção! + +_(Curvando-se sobre o berço)_ + + Fica sim! Tens aqui um coração + Repleto de carinho e sentimento! + Fica no lar, que, como deserta ilha, + Escolhos cerca! Fica, és minha filha!... + E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo. + Fica creança, fica... Eu te abençôo! + +_(Sentando-se junto do berço)_ + + + E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva, + Do gérmen d'essa orgia productiva! + +_(Pausa)_ + + Não quiz Deus dar-me um filho que pedia, + E que n'este deserto tanto urgia, + Para que n'um momento, n'um instante. + Tenha d'acalentar o que é da amante! + Não quiz Deus conceder-me tal mercê!... + + +_(Pausa)_ + + Marido... foge ao lar por onde a fé + Do amor pode ser a unica sincera... + E lá vae, lá vae elle como a féra + Viciada, em procura do covil, + Onde recebe o goso d'essas mil + Desgraçadas sem alma, sem consciencia! + Lá vae elle, deixando esta innocencia + Do altar que a pura Egreja solidou, + Em troca do que nunca, nunca amou; + Porque amar, nunca e nunca sabe, quem + Se ausenta de tão santo amor de mãe! + Lá vae, lá anda n'essa podridão + Que rouba o sentimento e a razão! + Que destroe, injuría e enxovalha, + Que infecta, que corrompe, prende e emalha + A noção do respeito p'lo dever! + Lá anda n'esse impudico prazer, + Cujas garras tão vis, cynicamente + Arrebatam do puro e casto ambiente + Todo esse bem, que n'elle se creara; + Cujas garras, de força bruta, avára. + Arrebatam do lar santificado + O descanço e o bem que lhes é dado! + Lá anda, lá vegeta no monturo + Mais ignobil, mais baixo, mais impuro, + Que a desgraça creou, sustenta e nutre; + Filando com intuitos só de abutre, + E attributos de farça e d'ironia, + As prezas de tão grande vilania! + Vilania,--que em seu lubrico espasmo, + Chasqueia da virtude, com sarcasmo, + Ri da fé, desvirtua a honestidade, + Deprava o sentimento e a dignidade. + Insulta, zomba e rasga sem respeito + O véu do precioso preconceito! + Suja, quebra, dissolve e inutilisa, + Macúla, estraga e já esterilisa + A pureza e o brilho do que é são! + Abala, derrue, prosta em confusão, + Det'riora, desfaz, calca e elimina + A graça do bom lar, graça Divina!... + + +_(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando +dolorosamente)_ + + E foi... foi assim que essa vilania + Me roubou o socego e a alegria! + Foi assim, assim, que ella aqui entrou, + E que de mim se riu e só zombou! + +_(Encosta-se sentidamente ao berço)_ + + +SCENA SEGUNDA + + +ARMINDA E HENRIQUE + +Henrique + +_(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e penetrando +a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz)._ + + Ninguem!... Sómente a paz religiosa + Da verdade!... Só graça harmoniosa + Da virtude!... Sómente o ar suavissimo + Do bem!... O perfumado e o dulcissimo + Aroma a castidade.. que trahi!... + +_(Respirando desafogadamente)_ + + Ah! Como se respira bem aqui!... + Deixai-me que, aspirando a longos tragos + O balsamo do amor e dos affagos, + Eu bem me purifique no sacrario + Que envolve o precioso relicario + Do natural, do justo, do acceitavel! + +_(Suspirando de novo)_ + + Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel + A realidade! + +_(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e se não ouvem +um ao outro)_ + +Arminda + +_(Parecendo despertar dum sonho)_ + + E tudo, só tudo isto, + Se me afigura um sonho!... + +Henrique + +_(Olhando para o ambiente)_ + + Além, um Christo, + Em expressão suavissima, a espargir + Bondade, a abençoar, a redimir! + +Arminda + +_(Olhando para a creança)_ + + Coitada! Que destino o teu seria!? + +Henrique + +_(Continuando a reparar em tudo)_ + + Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria, + Recebendo o amor em seus ternos braços. + +Arminda + +_(Descobrindo o rosto da creança)_ + + E em verdade, verdade, muitos traços + D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos... + +_(com ternura)_ + + Aos d'elle, se assemelham teus olhitos! + +Henrique + +_(Voltando-se para a meza)_ + + Aqui, vejo uma cesta com roupinha... + +Arminda + +_(Continuando a examinar a creança)_ + + E também se parece esta boquinha + Bem rosada... + +Henrique + +_(Analysando a roupa)_ + + Enxoval d'uma creança, + Posto em disposição cuidada e mansa. + +Arminda + + O narisito não. Destôa um pouco + Do perfil d'esse mau e d'esse louco... + +Henrique + +_(Pegando em algumas peças de roupa)_ + + Chambrinhos e babeíros; camisinhas... + +Arminda + +_(Descobrindo a creança)_ + + São perfeitos os braços e as perninhas... + +Henrique + +_(Continuando a analysar a roupita)_ + + E outra tanta roupinha de petiz, + +_(Admirado)_ + + Decerto, para algum ente feliz, + A quem Arminda serve de madrinha. + +Arminda + +_(Cobrindo a creança)_ + + Pobresita! Afinal és isentinha + Do peccado... + +Henrique + +_(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)_ + + Ella é meiga e caridosa... + É tão 'smoler, é tão affectuosa + Para os pobres... + +Arminda + +_(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente sahindo do +biombo para entrar na salla e exclama)_ + + Meu Deus! Meu bom Senhor! + P'la Infinita vontade e grande amor, + +_(Sahindo do biombo)_ + + Ahi fica, ahi fica essa creança, + Que n'este triste abrigo a sorte lança... + +Henrique + +_(Avançando, surprehendido, para Arminda)_ + + Senhora!... + +Arminda + +_(Recuando atonita)_ + + Ah!... Mas... Que vem fazer aqui? + +Henrique + +_(Suffocado)_ + + Buscar essa amizade que perdi... + +Arminda + +_(Surprehendida e admirada)_ + + An?! Buscar amizade?! Onde está ella?! + +Henrique + +_(Avançando um pouco)_ + + No saudoso ambiente d'esta cella! + +Arminda + +_(Cada vez mais surprehendida)_ + + O quê?! Aqui?! Decerto se enganou, + E sem duvida, creio, a porta errou. + Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!... + +Henrique + + Abrigar-me ás caricias da mulher... + +Arminda + +_(Profundamente admirada)_ + + Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu + Que o senhor se enganou, e qual judeu + Errante, anda passando em falsa estrada, + Illudindo-se ao certo na morada! + +Henrique + +_(Avançando mais)_ + + Arminda!... + +Arminda + + Ah! sim, sim! É esse o meu nome; + Porém, tal coincidencia não assome + O direito de crer-me quem procura; + E revella sómente muita uzura, + Imaginar, que cá, por este mundo, + Esse nome de mim seja oriundo!... + Sim! Armindas ha muitas, acredite, + E tantas, tantas, que bem me permitte + Repetir quanto falham seus caminhos!... + +Henrique + +_(Com sentimento)_ + + Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos. + Senhora!... + +Arminda + +_(Impaciente)_ + + Vamos! Vamos! Que deseja? + +Henrique + +_(Contricto)_ + + Confessar uma culpa que me peja. + E se ha muito, se ha muito ando perdido, + Bem penitente aqui tem seu marido!... + +Arminda + +_(Com repugnancia)_ + + Que diz o senhor?! Meu marido?!... + +Henrique + +_(Corajoso)_ + + Sim, + E n'essa qualidade eu aqui vim... + +Arminda + +_(Com serenidade)_ + + E como tal pretende apresentar-se?!... + +Henrique + + Se dá licença?... + +Arminda + +_(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma cadeira)_ + + Então! Queira sentar-se. + +_(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa)_ + + Com effeito... e em verdade, ideia tenho + De que alguem, com astucia e muito engenho, + Um dia conseguiu vêr-me no altar + Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar + Tal acto ou sacramento d'evangelhos, + Ante um homem dobrei os meus joelhos! + Então... padre d'aspecto venerando, + As orações do rito foi rezando, + Emquanto duas almas se fundiam + Á lei de Deus, e dois peitos se uniam + Ao regimen da mais pratica escola! + Deram-se as mãos; depois, a branca estóla + As cobriu, invocando o juramento + Que firmaria o Santo Sacramento! + +_(Descançando)_ + + + E jurámos, jurámos n'esse exemplo, + Que nos manda crear o bello templo + Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto + Sómente a guarda e abrigo d'um affecto! + É mais, que de sublime, tem o vulto! + É n'elle edificar paz, honra e culto! + + E assim, bem se jurou mais egualmente + Que, obreiros de castissimo ambiente, + Erigissem alli, em devoção, + O respeito, dever, religião! + + +_(Pausa, depois proseguindo)_ + + Realmente, senhor, lembra-me que um dia, + Quando sã madrugada alvorescia + Toda em perfumes, canticos e flôres, + Alguem, que de mim tinha por amores, + O symbolo d'aliança me entregava, + E em meu peito dizia que se achava! + Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor, + Tão lindo despertar, tão lindo alvôr + Da pura realidade dos meus sonhos, + Feitos de beijos castos e risonhos, + De melodias suaves e plangentes! + +_(Com mais vida, erguendo-se)_ + + Se me lembra a manhã em que dois entes, + Deleitados na força da paixão, + Se uniam em solemne sagração + D'um tributo!... + +_(Pausa, depois com magua)_ + + Recorda-me... Entoava + O orgão religiosos sons! Resava + Por assim dizer preces ao Bom Deus + Pelo bem de sagrados hymineus. + E que sons! E que sons tão inspirados + Na graciosidade d'uns noivados! + Que harmonia e conjunctos fervorosos, + Embalando a união de dois esposos! + Que accordes, que hymnos tão sentimentaes, + Incensando d'amor uns esponsaes!... + Sim!... Recordo em verdade o sorridente + Dia, e conservo ainda bem presente + Toda a felicidade que senti!... + + +_(Pausa e apontando a porta de fundo)_ + + Olhe... repare... foi... foi por ali + Que eu entrei com soberba magestade, + Envolta no meu véu de virgindade! + Foi por ali que entrei; e junto a mim + Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!» + +Henrique + +_(Levantando-se e interrompendo-a)_ + + E esse noivo, senhora, era... + +Arminda + +_(Atalhando)_ + + Era alguem, + Que na ambição de posse que se tem, + N'essa grande ambição a que se aspira, + Julgou depois que tudo era mentira, + Falsidade, illusão, tolice e asneira! + Era alguem, que fitando em pasmaceira + A vitrine d'objecto precioso, + Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso, + Exagerára as suas qualidades, + E se precipitara nas vontades! + +Henrique + +_(Pretendendo interrompel-a)_ + + Mas, senhora... + +Arminda + +_(Atalhando-o)_ + + Não queira ter o arrojo + De desmentir-me, pois qual, qual estojo, + A guardar um brilhante lapidado, + Assim foi e era o meu véu de noivado; + Assim foi o meu véu, que descoberto, + Lhe mostrou, afinal, o que de incerto + Era o seu pensamento em ideal... + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + Mas hoje, o positivo e o real... + +Arminda + +_(Impondo silencio)_ + + Nada d'interrupções! Estou fallando, + E desejo ir a pouco demonstrando + O meu sentir. Dizia eu ha bocado + Que, tal como brilhante lapidado, + Era a mulher sahida da innocencia + Para o mundo da prova e exp'riencia. + E... e senão, vejamos! Em geral, + Tem a mulher encanto natural, + E attracções de que muito foi dotada; + Mas quando pretendida, quando amada, + Eil-a que se transforma em maravilha, + E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!... + Anjo do ceu, que assim tanto seduz, + Astro de fé, de vida, d'alma e luz; + A guia, o norte, a briza perfumada. + A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada, + Tudo, emfim, de tal modo concebida, + De tal maneira olhada e percebida, + Que um Velasques, Murillo ou Raphael + Jámais produziriam do pincel + Inspiração egual! Mas, como as flôres + Que em jardim vão brotando de mil côres, + A ellas bem se assemelham as mulheres. + + Cravos, jasmins, tulipas e outros seres + Que da especie Deus pôz em geração, + Um ha que nos merece distincção, + E para elle vae vista attenciosa. + + D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa, + Pela côr e finura de formato; + Aroma que daria suave extracto, + E viço tal, que lagrimas d'orvalho + Pousando-lhe com arte e lindo talho, + De perolas, imita, collar fino, + A guarnecer um collo alabastrino! + + Elegancia suprema, ar donairoso, + A rosa attrahe olhar ganancioso: + E com motivo, pelo mundo inteiro + Lhe chamam a rainha do canteiro! + + Admira-se, contempla-se a belleza + Que a nossos olhos deu a natureza! + Pasma-se em fascinante adoração + Absorvendo o producto, a creação + Genial! E depois, não resistindo + Ao desejo de ter o fructo lindo, + Corta-se o encanto, o iman attractivo, + Para figurar qual decorativo + N'uma jarra de _Sevres_, ou crystal! + + Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!... + A pobresita já dias após + Não escutava nem ouvia a voz + Da admiração! E ha pouco despresada, + Sem carinhos, de todo abandonada, + Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba! + Nem sequer o perfume que exhalava + Vem recordar a sua contextura! + Morreu e foi-se, foi-se a formosura!... + + +_(Com desalento)_ + + Assim é a mulher que s'enaltece: + Tambem se apaga, cahe e desfallece... + +_(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)_ + +Henrique + + Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir + A voz de quem pretende redimir + Os erros de uma vida attribulada... + +_(Redobram os vagidos da criança)_ + +Arminda + +_(Procurando affastar-se)_ + + Não posso! Veja que outra vida brada + Pela minha presença, e bem m'incute + Um dever! Veja! attenda? escute, escute + Os vagidos d'aquelle innocentinho + Pedindo o meu conforto e meu carinho! + +Henrique + +_(Attonito e escutando)_ + + Os vagidos!? Os choros de criança?!... + +_(Confuso)_ + + Mas, minha senhora! + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + É uma herança, + Que chama os meus cuidados! + +Henrique + +_(Inquieto)_ + + Mas perdão! + Apenas um minuto d'attenção! + +_(Em confusão d'ideias)_ + + Aquelle choro!... tão infantil!... + Traduz-me a existencia de um ardil!... + Espere: Espere? + +_(Avançando)_ + +Arminda + + Diga, mas depressa, + Pois que aquelle lamento jámais cessa + Sem ternuras de mãe! + +Henrique + +_(Atalhando)_ + + Senhora! + +Arminda + +_(Cruzando os braços)_ + + Que ha?!... + +Henrique + +_(Aparentando soffrimento)_ + + O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná... + Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?! + A que data, a que data, sim, se liga + O nascimento d'esse seu vivente? + +Arminda + +_(Impassivel)_ + + Tem seis mezes approximadammte!... + +Henrique + +_(Muito surprehendido)_ + + An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?! + +Arminda + + A verdade! Foi Deus que assim o quiz!... + +Henrique + +_(Dolorosamente invocando a memoria)_ + + Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia + Não condiz com a minha grande ausencia + Desta casa! Senhora! Por quem e? + Veja o que em meu semblante já se lê, + Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno + Me ausentei... E esse filho... é... + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + É profano!... + +Henrique + +_(Avançando de punhos cerrados e exclamando)_ + + Ah!... + +Arminda + +_(Imperiosa)_ + + Suspenda! suspenda, desgraçado! + Que não tremo ante o facto consumado! + Suspenda, porque não me atemorisa + A ira de quem adopta por divisa + A infamia! Pare, pare, não avance, + Que não vacilarei em frente ao lance + Despotico de tão vil caminheiro + Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro, + Suspenda, porque não tremo perante + Affirmar... que esse filho... + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + É?... + +Arminda + +_(Altiva)_ + + D'um amante!... + +Henrique + +_(Interrogando)_ + + E a mãe!... + +Arminda + + É a mulher que deshonrou + O nome d'um marido, que aviltou + A dignidade dum sêr conjugal, + E se lançou para esse lodaçal + Da miseria humana! É a mulher + Que na loucura d'orgico praser + Se lançou ao enxurro da corrente, + Vestal indecorosa e deprimente!... + +Henrique + +_(Interrompendo, e convencido de ser victima de cilada)_ + + É a mulher, que, sem honra e vergonha, + Buscou a aviltantissima peçonha + Da desforra cruel, não é verdade? + A mulher que, perdendo a dignidade, + Em troco de torpissima vingança, + A mostra, com a prova da creança + Existente no lar, que de novo ora + Procuro. Que se não vexa, nem cora, + Com a pratica d'um crime aviltante; + A mulher que na sêde devorante + De debitar affrontas, só reclama + A moeda emprestada, e a si chama + O direito d'um plano indecoroso, + Pagando-se com acto vergonhoso; + Atirando-me ao rosto grave insulto, + E corrompendo todo, todo o culto + Que deve ter-se pela honestidade! + A mulher que despresa a probidade, + E que na hora da minha reflexão, + Aponta esse signal de corupção, + Como atroz vilipendio e atroz injuria! + É a mulher ardendo em odio e furia + Vingativa, sem alma, sem nobresa, + Sem outro qualquer dom de que se presa + A sociedade, pois não é assim? + É a mulher que jura contra mim + A guerra, de, a façanha, outra façanha, + E que em descaramento me arreganha + Os dentes da villesa e da traição! + A mulher que transforma o coração + Em veneno odioso e repelente, + Para em dado momento, e ardilmente, + O injectar em minha alma, proclamando + Um feito immoralissimo e execrando! + A mulher que s'isenta do civismo + E logo se mascara do cynismo + Que ultraja, sem que ao menos se recorde + Que a raiva que inocula, quando morde, + Encerra sempre o virus e o microbio + Para sua deshonra e seu oprobio! + É a mulher, emfim, que, sem virtude, + A taes proezas tão vilmente allude! + A mulher, que tal nome não merece, + Quando só se desprende e só se esquece + Do fim para que fôra concebida! + É a mulher, em suma, confundida + Na escoria da miseria, que profana, + Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!... + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + Ora nem mais, diz bem! É essa mesma: + É essa tal, o monstro, essa abantesma + Que descreve, acredite? É essa, é essa + Misera que se expõe e que confessa... + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + O proceder infame d'uma esposa! + +Arminda + +_(Interrompendo indignada)_ + + É lá! Suspenda a phrase rancorosa, + E não se atreva, não se atreva a tanto! + Falla-se da mulher, saiba; porquanto, + A esposa, está aqui, embora diga + Que deixou de o ser, para quem se abriga + No mal. + +Henrique + +_(Furioso)_ + + E a senhora? Onde se abrigou? + +Arminda + +_(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, cahindo de +bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo todos os +movimentos.)_ + + N'esta vida que Deus me destinou! + +Henrique + +_(Crusando os braços)_ + + Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes + Que se abriga ao producto d'uns amantes! + Que se abraça á tristissima irrisão + Da mais adulterina concepção! + Diga antes, que se acolhe na sentença + Que me fôra ditada; e que em presença + D'esse escarneo, se prova a hediondez + D'um crime, que a vingança traz e fêz! + Diga-me, antes, senhora, que aconchega + O fructo que a immoral lhe deu e lega + Como espelho constante de traição, + Como sobrio reflexo da illusão + Em que cahi!... + +Arminda + +_(Levantando-se e enchendo-se de coragem)_ + + Pois seja! Assim o diga!... + Esta creança... + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + O insulto!... + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + É o castigo! + +Henrique + +_(Recuando e disposto a sahir)_ + + Passe Vossa Excellencia muito bem + Minha Senhora!! + +_(Apontando para a porta)_ + + Aquella porta, tem + O condão de se abrir ante a passagem + D'este tão illudido personagem; + E se aqui vim, buscando honestidade, + Convicto saio e vou, da falsidade + Com que ella se proclama e annuncia! + Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia, + Variando sómente em sociedade; + Porquanto; se lá fora a indignidade + Se expõe, aqui se occulta no cynismo + Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo, + Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo + Ante o revoltantissimo sarcasmo + Que preside á mudança d'este lar + No mais indecoroso lupanar! + +Arminda + +_(Revoltadissima)_ + + E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor, + Do biltre que, sem honra e pondonor, + Se arroja a censurar, altivamente, + A esposa que despreza infamemente! + + +_(Altiva, apontando-lhe a porta)_ + + Saia! Que jámais tem auctoridade + Para insultar, quem só na indignidade + Vagueia e lá procura o seu viver! + +Henrique + +_(Altivo)_ + + Mas eu sou homem! + +Arminda + +_(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae recuando para +sahir)_ + + E eu... eu sou mulher! + +_(Indica-lhe a porta)_ + +Fim do primeiro acto + + + + +ACTO II + +A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição. Dentro do +biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena, +encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo +fundo Henrique e Margarida. + + +SCENA PRIMEIRA + + +HENRIQUE E MARGARIDA + +Henrique + + Ora aqui tem os novos aposentos + Que servirão de galla aos meus intentos. + Repare? Veja o luxo d'esta salla, + Que a nada, mesmo a nada mais se eguala. + Hein! Hein! Que lhe parece?! + +Margarida + +_(Admirada)_ + + Realmente, + É soberbo! ideal! Mas, francamente, + Acho bello de mais: bello de mais + P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!... + +Henrique + + Engano, Margarida, puro engano; + Tudo isto é impostura e só profano! + Apenas a mudança de scenario, + Com quanto lhe pareça um relicario + O que está vendo, creia. Tão sómente + D'aspecto a mutação, mas apparente + E falso, no que indica, pois de facto, + Quanto vê, é traidor e bem ingrato; + Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto + O mais completo, o mais perfeito assumpto, + Para que se analyse e fundamente + Toda, toda a ironia d'este ambiente; + E descrever, eu vou, essa ironia, + Sem lhe oppôr a mais leve phantasia. + Queira ouvir: + +Margarida + + Ouvirei... + +Henrique + + Repare então: + O que se nota n'esta perfeição, + Unicamente serve p'ra esconder + A cynica existencia da mulher! + +Margarida + +_(Interrompendo)_ + + Minha rival? Talvez!? + +Henrique + + Nem mais, diz bem! + Sua rival, que arrojo mostra e tem + Para se apresentar envaidecida + No luxo de que a salla é guarnecida. + Conhece-a?... + +Margarida + + Talvez não... eu nunca a vi... + +Henrique + + Pois para isso a conduzo eu hoje aqui: + Mas antes, extasie-se no espavento + D'estas decorações, cujo elemento + Só pretende encobrir o que lá fóra + Se chama a todo o instante e a toda a hora + Miseria, corrupção e tudo o mais + Que tanto affronta e insulta bons mortaes! + Admire-se perante as bambinellas + Que, pendentes das portas e janellas, + Servem para vedar todo este centro + A bachanaes, passadas aqui dentro! + Reveja-se em vestaes tapeçarias + Soffucando o ruido das orgias; + Nos estofos que abafam enthusiasmos, + Os gritos de volupia, os espasmos + D'uma lubricidade illimitada... + +Margarida + +_(Interrompendo)_ + + Mas diga? Não será exagerada + A affirmativa? + +Henrique + + Como assim? Duvida? + +Margarida + +_(Admirada)_ + + É que, em verdade, nunca em minha vida + Soube como se possa conjugar + Toda a revolução do lupanar + Com esta ordem e acceio que estou vendo; + E com effeito, Henrique, não entendo, + Não percebo a harmonia que se avista, + Sómente discordante e antagonista + Ao meio onde se espalha a corrupção. + +Henrique + + É o que lhe parece... + +Margarida + + Qual? Não; não + Posso acreditar, não, no que me diz, + Pois que a nossa existencia jámais quiz + Acceitar os cuidados d'este apuro. + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + E comtudo, affirmo, é um lar prejuro... + +Margarida + +_(Em duvida)_ + + Será, mas... mas para isso não se admitte + A apparencia do arranjo, que transmitte + Não sei que, de completa opposição + Á anarchia da nossa profissão; + E eu sinto que d'instante para instante + O esp'rito se consulta, inquietante, + Na atmosphera que aqui dentro respiro... + Diga? Diga? Onde estou eu?!... + +Henrique + + N'um retiro + Cuja devassidão bem se proclama, + Repito, muito embora tenha a fama + D'honesto, muito embora elle se incense + D'um perfume que nunca lhe pertence. + Duvida ainda? + +Margarida + + Sim! eu... eu duvido! + Porque não póde ter aqui vivido + A mulher que appelida de devassa; + E affirmarei, senhor, que a nossa raça + Foge a toda e qualquer preoccupação, + Que não seja gosar devassidão! + +_(Olhando para tudo)_ + + Tudo isto que a meus olhos se depara, + É coisa que se torna muito rara + A nossos olhos! Coisa vaga, inutil, + Sem valôr, pueril, impropria, futil, + Para quem como nós, p'ra quem como eu, + Se ceva nos instinctos que me deu + A sorte, e se refaz insaciada + Na sêde d'uma vida depravada! + +Henrique + +_(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida +para se sentar)_ + + Está bem Margarida, venha cá; + Sentemo-nos, que mui não tardará + Que momento opportuno e bom ensejo + Apresente mil provas de sobejo, + Destrahindo, negando e desmentindo + Tão errada impressão que está sentindo. + +Margarida + +_(Sentando-se)_ + + Impressão tal, senhor, que, na verdade, + Se apossa de mim com necessidade + De profundar o fim deste recanto, + Receosa de crêr que seja o manto + Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê! + Aonde e em que parte é que ella se vê + Vegetando assim? Diga-me: em que parte + Ella pode adorar a belleza e arte + Do conjuncto tão bem disposto aqui? + Não, Henrique! A deshonra folga e ri + No turbilhão d'immenso desalinho, + Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho + E trato da vivenda que se habita; + A deshonra sómente tem escripta + Na mansarda a legivel taboleta + Que annuncia onde pára, onde vegeta. + E as nossas mãos, que apenas tem o dom + De sentir, do dinheiro, o timbre e o som, + Não sabem como tudo isto se faz + Dentro da ordem e d'esta santa paz. + As nossas mãos têm o unico mister + De procurar os gosos e o prazer + Do ouro, que só se emprega na razão + Do luxo, necessario á attracção + Da vista indagadora das orgias, + E indispensavel para a concorrencia + Da prostituidora residencia!... + As nossas mãos sómente se utilisam + Nos postiços que tanto symbolisam + O antro por onde sempre rezidi, + E já n'elle então, uma vez ali, + Quando na ausencia, quando no despojo + Das seducções, só tudo logo é nojo + No labyrintho d'horas viciosas, + Na balburdia de noites amorosas! + Uma vez ali, tudo vem dizer + Do estado social d'uma mulher! + + E quer, senhor, fazer-me convencer, + Que possa n'esta casa só viver + Alguem que a minha classe represente? + +Henrique + + Quero sim; quero, e muito facilmente... + +Margarida + + Porém, como? No luxo do aposento + Não, porque n'elle ha todo o sentimento + Que eu ignoro. Na graça e harmonia + Muito menos, por quanto a apostasia + De virtudes se não traduz assim, + E nem ella se adquire com tal fim! + +Henrique + + Porque o sabe? + +Margarida + + No exemplo d'esta vida, + Que uma outra aniquilou e fez perdida! + Nas provas da existencia que atravesso, + Demonstrando que tudo isto é avesso + Á desorganisada habitação + De quem só s'expõe á prostituição! + +_(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)_ + + Ouça: se, como diz e me affiança, + Estamos sob um tecto d'aliança + Deshonesta; se, como bem proclama + A devassidão n'este lar se inflama + Por impudica e má camaradagem... + +_(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem da +Virgem, n'um quadro)_ + + Que faz, senhor, além, aquella imagem? + E inda est'outra aqui? tanto a destoar + Do cortejo que envolve o lupanar? + +Henrique + + São os taes attributos da mentira, + Ante os quaes se revê e mui se admira! + +Margarida + + Mentira?! Mas onde, onde apparece ella? + E como e de que fórma se revella, + Se, por muito que faça, inda a não vi... + + +SCENA SEGUNDA + + +OS MESMOS E ARMINDA + +Arminda + +_(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando dolorosamente +surprehendida)_ + + Ah!... + +Henrique + +_(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)_ + + Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi! + +Arminda + +_(Altivamente)_ + + Mas que significa este atrevimento?! + +Henrique + + Coisa de mero e simples argumento, + Não se assuste! + +_(Pegando n'uma das mãos de Margarida)_ + + Apresento a minha amante... + +Margarida + +_(Timida)_ + + Senhor! a que se atreve!?... + +Arminda + +_(Cruzando os braços)_ + + Que farçante! + +Henrique + + Serei; no entanto, como as bôas farças + Reclamam a presença de comparsas, + Queira representar o seu papel, + Indicando com essa alma de fel + A peçonha do mal que tanto encobre + Nas apparencias d'uma casa nobre!... + Vamos? Queira sahir d'esse mutismo + Que estampa hypocrisia e diz cynismo! + Queira tirar a mascara traidora + E mostrar ante mim e esta senhora + Como a deshonra n'este lar se fez + E abunda por aqui aos pontapés!... + +Arminda + +_(Com repugnancia)_ + + E porque não, indigno cavalheiro! + Porque não hei-de, em modo sobranceiro, + Indicar-lhe o que pede no momento? + Porque não hei-de dar conhecimento + Ao que exige em palavras que só são + Proferidas p'la bocca d'um villão! + Porque não hei-de com toda a altivez, + Mostrar como anda o mal a pontapés?! + +_(Apontando para Margarida)_ + + Mire-se no instrumento de façanhas + E d'outras mil proezas que são ganhas + Na desgraça. O mal, paira por alli, + E tambem d'egual fórma o veja em si, + Como estigma do mais reles exemplo + Da profanação d'um culto e d'um templo! + +Margarida + +_(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a Henrique)_ + + Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?! + +Henrique + + Na casa de quem só rivalisou + Com a miseria a outros imputada + E que, insultando mesmo, toda irada, + A presença das nossas entidades, + O faz, creia, nas mesmas igualdades + Do direito com que eu deva insultar, + Da causa, que m'instiga p'ra accusar; + E, se insultos se pagam com insultos, + Veremos então quem profana os cultos + Do bom caminho; quem mancha e arruina + O que a moralidade nos ensina! + Veremos então quem mais enodeia, + E quem com crime e farça mais hombreia! + +Arminda + +_(Indignadissima)_ + + É o homem que, sem brio e pundonor, + Assim falla! É o biltre, cujo horror + Repugna a toda, a toda a consciencia, + E talvez até á d'essa existencia + Que ora aqui trouxe para mais vexame + Meu! É o homem preverso, mau, infame, + Ultrajando o que só é digno e honesto! + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + Mas que ao mais pequenino e simples gesto + Irá destruir essa honestidade + Apregoada com tanta falsidade! + +Margarida + +_(Antepondo-se)_ + + E é já tempo, senhor, para o fazer, + Visto que me pretende convencer + Do que vem affirmando. + +Arminda + + Ouça, senhora: + Creio bem que, ante força vingadora, + Me encontro n'esta salla; e é bem certo + Que, seja p'lo que for, eu já desperto + Mais ou menos da minha inconsciencia, + Para crêr que pratico irreverencia + Encontrando-me n'estes aposentos. + E eu então, que não tenho sentimentos + Senão os que a desdita me deixou, + Sinto que dentro em mim ora soou + Alguma coisa sã, e não sei quê + D'extranho, a confirmar a crença e fé + Que ha pouco me assistia, suspeitando + De que, por aqui, não anda pairando + O mal... + +Henrique + +_(Atalhando)_ + + Mas... como assim?! Se tal suspeita, + Vae muito brevemente ser desfeita + Ante o espelho fiel, e reflectir... + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + Do grande soffrimento e minha dôr! + Mas como Deus em tudo dá coragem, + Eu propria mostrarei toda a miragem + Do espelho que pretende descobrir. + +_(Com altivez)_ + + Mas veja bem, que só vae reflectir + A verdade, e ella, saiba, que aniquilla + Os infames, tornando mui tranquilla + A consciencia accusada! E a verdade, + Chamando os villões á realidade, + Vae prostra-los na immensa confusão + De crimes, sem desculpa, nem perdão! + A verdade, esse grande dom do mundo, + No peito dos malvados crava a fundo + O punhal do castigo merecido! + E ai de si, miseravel! se vencido + Ficar na falsa lucta que travou! + Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou + A redempção, á face do mysterio + Que lhe auctorisa tão cynico imperio + D'insidiar, lançando-me labeus + Que apenas tanto o attingem e são seus! + +_(Com arrogancia)_ + + Pois bem! Perante mim, e n'este instante, + Se defrontam marido e sua amante! + +Margarida + +_(Surprehendida)_ + + Senhora!? Que dizeis?! É seu marido + Este homem que comigo tem vivido + E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!... + +Arminda + + É! Mas melhor seria que o não fosse! + Vamos : Perante mim e n'este instante, + Se defrontam marido e sua amante. + Procurando em vilissima baixeza + O mal que tão sómente a elles lhe peza! + E se era meu dever escorraçar + Quem se arroja e atreve a enxovalhar + Com descáro, a virtude d'esta casa, + Só muito antes a minha alma se empraza + A repudiar bem altivamente + Os instinctos de tão ignobil gente, + Ordenando que fiquem, por minutos, + Na expiação de feitos e seus fructos. + +Henrique + +_(Interrompendo)_ + + Mas essa altivez, é demais, senhora, + Para quem se transforma em peccadora! + Essa altivez repugna por excesso, + Na mulher que adoptou egual processo + D'ilegitimidade em relações?!... + +Arminda + +_(Com desprezo)_ + + Basta! Basta d'infames allusões! + +Margarida + +_(Antepondo-se)_ + + Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais, + Porque as suas palavras são fataes, + Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras + Para quem se dirigem, salvadoras + P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor, + +_(Apontando para Arminda)_ + + Em nome da verdade occulta em dôr! + +Arminda + +_(Surprehendida)_ + + Mas... o que falla ahi, n'essa existencia! + +Margarida + +_(Com pezar)_ + + Qualquer coisa da minha consciencia! + +_(Ouvem-se uns gemidos de criança)._ + +Henrique + +_(Perturbado e levando as mãos á cabeça)_ + + E agora falla a vós d'alta vingança + Nos gemidos que solta essa criança!... + +Margarida + +_(Subitamente e apontando para o biombo)_ + + Senhora! Quem... quem é que chora além?!... + +Arminda + + É um pedaço d'alma que vil mãe + Despresou! + +Margarida + +_(Cahindo de joelhos)_ + + Ah! Meu Deus! perdão! perdão!... + Porque falla agora este coração!... + +Henrique + +_(Admirado perante a posição de Margarida)_ + + Surprehende-me esse humilde movimento?!... + +Arminda + + Falla o remorso em forte sentimento! + +Margarida + +_(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)_ + + Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu, + Duvidando de que isto fosse reu + Do cynismo que tanto apregoava!... + +Henrique + +_(Surprezo)_ + + Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava + O producto do crime e da traição?! + +Margarida + + Era a voz da verdade e da razão, + Illuminando as trevas da mentira! + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + É a prova do mal que tanto aspira. + Para me confundir n'essa torpeza + Que inventou, e que sempre se despreza + Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa, + Bem se torna a mulher crente, e ciosa + Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando + Isolada p'lo pessimo desmando + Do marido, mesmo inda que atirada + Para o jus da vingança provocada. + Orgulhosa se torna esta mulher + Que, no direito d'um mau proceder, + Em desforço do seu procedimento, + Só antes se acoberta ao sentimento + Que a sã moralidade nos indica, + E ao bem que tudo, tudo dignifica! + + E é então o senhor, que, sem nobreza + D'aquilo onde se lê, estuda e reza + A melhor oração da nossa vida, + Vem hoje, perante esta alma esquecida, + Interrogar na mais dura exigencia + Quaes as razões porque tenra existencia + Se acalenta no leito de innocentes, + Com meus affagos ternos e dolentes! + + E é então o senhor, é o senhor, + Que, aggravando inda mais a minha dôr, + Vem hoje aqui no intuito de saber + Porque se encontra ao lado da mulher + Desposada, a criança que acalenta? + E sabe porque? Sabe porque dentro + D'este lar se aconchega esse vivente? + Porque, sem duvida, é seu descendente! + +Henrique + +_(Surprehendido de subito)_ + + Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa + Para suas desculpas e evasiva! + Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?! + Só se a este lar se dá, faculta e presta + O mysierio da tal santa doutrina! + Talvez! Talvez que a _Graça_, a _obra Divina_, + Por aqui estendesse o puro manto, + E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo, + Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez + O mysterio julgasse pôr-me aos pés + O filho que me indica, não é assim?... + +_(Irado)_ + + Ora vamos senhora! Ponha fim + Á comedia tão mal representada, + E diga como essa alma envenenada + Concebeu a pequena creatura + +Arminda + +_(Apontando para Henrique e Margarida)_ + + No desvario do pae e na loucura + Da mãe!... + +Margarida + +_(Levantando-se e avançando para Henrique)_ + + Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor, + Que na ancia de vingança e de rancôr, + Me desfiz da creança que me deu. + A mãe maldita, está aqui, sou eu, + Que em cegueira da minha profissão + Atirei com a nossa creação + Ao sabôr dos instinctos d'esta vida. + A mãe, que tem por nome Margarida, + E por mister o vicio infamante, + Sou eu! Esta que foi a sua amante, + E de cuja união sahe oriundo + Esse fructo que vê a luz do mundo. + A mãe, sou eu, que na brutalidade + Do meu sentir e tão baixa maldade, + Apunhalou por fórma audaciosa + O socego do lar, e o bem da esposa! + A mãe senhor, sou eu, esta mulher, + Que um pedaço de carne faz viver + P'ra orgia, palpitando em sangue vil! + A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil + Clientes de tão indigna alla mundana, + E que, vivendo sob a fórma humana, + Só renegam os dons da Natureza + Por bem degeneradas em baixeza! + A mãe sou eu, que tal nome invocando, + Se affronta um predicado venerando. + Alma não a tenho; odios ha alguns; + Nada d'amor e meritos nenhuns. + A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!... + +Henrique + +_(Mal comprehendendo a situação)_ + + Margarida! Que diz?!... + +Margarida + + Digo, senhor, + A primeira verdade em minha vida; + Digo que essa criança foi nascida + Das nossas relações, e existe aqui, + Em virtude do mal com que eu agi. + É minha filha! e sua o é tambem, + Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe! + +Henrique + +_(Attonito)_ + + É minha filha?! Mas então... então... + O que se fez da minha sã razão?!... + +Arminda + +_(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a ficar +visivel o interior aos personagens)_ + + De ha muito anda perdida. + +_(Apontando para a criança)_ + + E aqui tem + Os espinhos da estrada d'onde vem! + +Henrique + +_(Approximando-se um pouco)_ + + Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita? + Sim! é ella! Mas, como se acredita + Tudo isto?! + +Margarida + + Pela fórma com que obrei + Em face d'esta nossa infame grei. + +Henrique + +_(Encolerisado e avançando para Margarida)_ + + Porém, com que direito me levou + A proclamar um crime que tramou? + +Margarida + +_(Humilde e avançando um pouco)_ + + Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê, + Que nós obramos sem alma nem fé. + Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá + O que fiz? Foi apenas o que dá + Esta vil creatura! Foi sómente + A pratica d'um acto inconsciente!... + +Arminda + +_(Interrompendo)_ + + E que, talvez, por essa inconsciencia, + Um porvir se consiga da innocencia... + +_(Apontando para o berço)_ + + Descança ella no leito que lhe dei, + Embalada p'la dôr que alimentei. + E nas minhas canções, mesmo chorando, + A pouco e pouco irei sempre insuflando + A redempção. Depois, quando mais tarde, + Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde + E d'esta virgindade faça alguem, + Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe. + +_(Approximando-se do berço)_ + + Vejam? Sonha decerto na ventura + Que o acaso lhe trouxe, e na candura + Do berço onde dormita! Berço pobre + De brocados, mas rico, rico e nobre + Do bem! Sonha decerto na esperança + Com que se entrega á minha confiança: + Sonha, quem sabe? na libertação + Da cadeia que traz humilhação!... + +Margarida + +_(Avançando e exclamando)_ + + Minha filha! Meu Deus! Grande verdade! + É a isto que se chama honestidade? + +Arminda + +_(Continuando, emquanto Henrique fita a creança succumbida)_ + + Vejam?! E era, era então este senhor, + O grande, o grande espelho reflector + Do meu crime?! + +_(Vendo que Henrique emudece)_ + + Ande? Diga? accuse e insulte, + Para que todo o mundo veja e ausculte + A farça attribuida! Vamos, falle? + Porque emudece? + +_(Apontando para a creança)_ + + Tem aqui o mal, + E é ante elle que deve demonstrar + O cynismo, a baixeza d'este lar, + E tudo o mais que omitto, occulto e callo! + +Henrique + +_(Timido e a custo)_ + + Fallar? Eu... eu... senhora? + +_(Com pausa)_ + + Sim, eu fallo... + Eu vou fallar, consente?... + +Arminda + +_(Altiva)_ + + Porque não?! + +Henrique + +_(Curvando-se humilde)_ + + Pois fallarei! _(pausa)_ Perdão! + +Margarida + +_(Cahindo de novo aos pés de Arminda)_ + + Perdão! Perdão! + +Arminda + + Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?! + +Henrique + + Do remorso que assiste, e se antevê! + +Margarida + + P'la crença, de que abjuro e reneguei + P'ra sempre o caminho em que me abysmei. + +Arminda + +_(Levantando os olhos para o ceu)_ + + Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia, + Venha a vossa infinita miser'cordia! + + +CAHE O PANO + +Fim do segundo acto + + + + + +EPILOGO + +A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, encontra-se +sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e +completamente succumbida. + + +SCENA PRIMEIRA + +Margarida _(só)_ + + Eu a chorar! e lagrimas ardentes + Deslisando nas faces reviventes + De vergonha! Deus na alma! e ao coração + Amor! Ao meu espir'to a reflexão! + Na consciencia a revolta e o remorso + Em que já me debato e me contorso! + + O que é? que póde ser? A reacção + Convulsionando o corpo, e a razão + Subjugando-me, por demais vencida! + O que é? _(Pausa)_ + É a verdade, Margarida! + + Verdade?! E quem responde? Quem me falla? + É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala + Esta mulher aos dons da Natureza? + Sim. Porque se nasceu para a baixeza, + Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto + E pequei, pois agora mesmo eu sinto + Que para o mal o mundo me não doou. + Nem Deus para a baixeza me creou! + Deus, amando, só cria para amar, + E eu amei... oh! amei, mas a sonhar, + Apenas a sonhar, sim, porque alguem + Sepultou do meu sonho todo o bem! + Eu nasci para amar, e amei; amei + Quanto pude ante a bôa e pura lei + Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava, + Disse-me um dia que isso não passava + De um mytho, e foi-se andando na procura + D'aquillo que á pobreza salva a agrura; + Foi-se andando na busca de riqueza, + Porque eu era pobre, e isso se despreza! + E é então, é então que o meu amor + Se arrebata nas garras do impudor; + É então, que me afundo nas camadas + Que alimentam as tristes depravadas! + Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto, + Que por causa de amor tão puro e santo. + Busquei embriagar-me n'esta orgia, + Para que o grande Deus a ninguem cria! + +_(Pausa)_ + + Eu a chorar!... e lagrimas ardentes + Deslisando nas faces reviventes + De vergonha! Porque? E que fiz eu? + Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu; + Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia, + E nada, nada pela inconsciencia. + E porque alguem, alguem me aniquilou, + Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou! + +_(Pausa)_ + + Eu a chorar! e lagrimas ardentes, + Velando os olhos bem reminiscentes + Do que vi!... + + E que vi eu?... A mulher, + A mulher como ella é e deve ser. + Vi-a altiva e com toda a magestade + Destruindo o insulto á sombra da verdade! + Vi-a repudiando com nobreza + Os feitos da maldade e da torpeza! + Vi-a... vi-a tomando nos seus braços + O fructo que proveio de devassos! + Vi-a, evocando graças divinaes + N'uma orchestra de sons tão maternaes + P'rá criança que a minha embriaguez + Ousou depositar, lançar-lhe aos pés! + E como tudo ainda fosse pouco, + Em paga d'um agir mau, vil e louco, + Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus! + Pedir que me enviasses lá dos céus + O perdão! + + Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada... + Fiz... o que faz mulher desnaturada! + +_(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)_ + + +SCENA SEGUNDA + + +MARGARIDA E FERNANDO + +Fernando + +_(Entrando pelo fundo)_ + + Ora até que emfim, linda Margarida!? + Por onde tem andado tão perdida? + +Margarida + +_(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi de +indignação)_ + + Ah!... + +Fernando + +_(Avançando e continuando)_ + + Por onde se tem tornado preza + E errante a sua graça e gentileza?! + +Margarida + +_(Dissimulando a tristeza)_ + + Em parte alguma, creia... + +Fernando + + Não parece... + E olhe que o promettido não se esquece. + Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?! + +Margarida + + Chorar? Eu?! Eu?! + +_(Á parte, limpando os olhos)_ + + Oh! sim! não se enganou! + _(alto)_ Chorar? Eu?! Não! + +Fernando + + Mas, seus olhos vermelhos, + São de tal flagrantissimos espelhos! + +Margarida + +_(Dissimulando)_ + + Nada isso diz, embora lhe pareça; + Effeitos só de dôres de cabeça + Que ha dias me apoquentam... + +Fernando + + E que, espero, + Melhorem ante o meu voto sincero, + E não impeçam minha estada aqui, + Já que de novo me honra, e me sorri + O convite, tornando-se occupado + O logar que me disse ter vagado. + +Margarida + +_(N'um rapido estremecimento)_ + + O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?! + +Fernando + +_(Com estranheza)_ + + Duvída? Mas que grande exquisitice + Representa essa duvida!... + +Margarida + + Porque?!... + +Fernando + +_(Tirando do bolso um cartão)_ + + Em face do bilhete onde se lê + O seu pedido, e ainda mesmo, quando + Claramente dizendo e bem frizando + +_(Approximando-se de uma porta latteral)_ + + Certas palavras, junto d'esta porta; + A não ser que, que seja letra morta + O que me affirmou! + +Margarida + +_(Com repulsão)_ + + Não! Não me recorda?! + +Fernando + + Veremos, n'esse caso, se, se aborda + A phrase muito nitida ao ouvido, + Para que ella jámais tenha esquecido. + + Foi aqui, veja, foi n'este logar + Que, apontando-me altiva e sem pezar, + +_(Olhando para o interior d'um quarto)_ + + Certa vaga que ali dentro existia, + Perguntou o que lá se achava e via. + + Respondi... o que ainda vejo: + Um leito. + +_(Malicioso)_ + + E por signal que estava bem desfeito, + Em contraste com toda a compostura + Que ora se nota. Então, é n'esta altura + Que assim exclama: + «Está ao seu dispôr». + +Margarida + + Lembra-me com effeito! _(Á parte)_ + + Mas que horror! + +_(Alto e approximando-se de Fernando)_ + + É verdade! E a verdade diz, Fernando! + Mas foi um dito mau, dito execrando! + Dito que não devia proclamar + +_(Com desespero)_ + + E que fez mal, só mal, em m'o lembrar. + +Fernando + +_(Surprehendido)_ + + Porém, nada percebo, e muito menos + Com taes palavras, cujo modo e acenos + São expostos em termo áspero e rude. + +Margarida + +_(Apontando o leito)_ + + Aquella vaga, occupa-a hoje a _Virtude_. + +Fernando + +_(Estupefacto)_ + + Como assim?! Isso é dito com ironia?!... + +Margarida + + Fallo com consciencia e ufania + De a possuir! + +Fernando + + Verdade?! Isso é verdade?!... + +Margarida + + Digo-lh'o com a mor sinceridade. + O leito que em orgias se desfez, + Hoje... sómente cobre a honradez! + +Fernando + +_(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)_ + + Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo, + Espero que me explique por miudo + O que em vida de gran desfaçatez + Se entende por virtude ou honradez. + +Margarida + +_(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)_ + + Será um sacrifício, mas, emfim, + Cumprirei seu desejo. + +Fernando + +_(Rindo)_ + + E quanto a mim, + Agradeço a irrisoria explicação, + Que ouvirei com a maxima attenção. + + Vamos. Comece. O que é honra e virtude?... + +Margarida + +_(Com amargura)_ + + Sabel-o no passado, eu nunca pude, + Mas no presente, d'ella tenho a fé! + Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É... + +_(Com certo desprezo)_ + + É... o que o senhor nunca comprehendeu!... + +Fernando + +_(Cada vez mais surprehendido)_ + + Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?! + +Margarida + + Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca + Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca + Do vicio a mulher que disse amar, + A virtude não sabe interpretar. + +Fernando + + Allude então... + +Margarida + +_(Atalhando)_ + + Á minha triste historia + Muito bem reflectida na memoria! + +Fernando + + Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto... + +Margarida + + Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto + Volte a offuscar-me as faces de vergonha, + Rememoro o que em epocha risonha + D'uma vida serviu para o transporte + Da reles existencia e fraca sorte. + + Creança, inda bem nova, inexp'riente, + Senti n'alma o que sente toda a gente. + Despertando p'ra quadra d'um amor: + E a pouco extasiada n'esse alvôr, + Deixei que me prendessem sympathias + Que vibravam n'um canto de harmonia: + Tudo então me sorria e tudo amava! + A graciosa manhã que despontava + No melodico trio de avesinhas, + O sol que vivifica as floresinhas, + O declinar da tarde, as noites bellas, + Da lua o brilho, a graça das estrellas, + O conchego, a familia, o trabalho, + A paz, tranquilidade e o agasalho, + A invocação, a biblia e a reza; + Eu amava, emfim, toda a natureza, + Pelo proprio amor da juventude, + A vibrar como cordas de alaúde + N'um peito que se alava para o bem! + Mas de subito, meu Deus! esse alguem + Que me elevara aos paramos do amor; + Quem me ajudara a crel-o no primôr + Da verdade, e guiava o norte meu, + Que devia subir até ao ceu... + Corta, derruba, as azas d'este alar, + E obriga-me a cahir, faz-me tombar + No grande turbilhão da tempestade, + Na hecatombe e na mór fatalidade! + E tudo, tudo então quanto eu amava, + Breve se convertia e se trocava + Pela renegação, pela baixeza, + Deixando já d'amar a Natureza, + Para me filiar em quê? Em quê? + Nas hostes dos que nunca teem fé! + + E tombei! E cahi! _(chorando)._ + Sim, sim, tombei! + Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?! + +_(A Fernando)_ + + Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono + Que me precipitou n'aquelle somno, + Cuja lethargia obra o desvario + N'um corpo molestado e doentio, + Em proveito de todo o esquecimento + Do que de bem havia em sentimento! + + Pois se eu amava tanto, e d'esse amor + Em si depositei e puz, senhor, + A esperança ditosa de meus dias, + Sem que se me opposessem phantasias; + Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida, + Para que tornar tão desvanecida + A fraqueza da minha confiança?... + +Fernando + +_(Pretendendo desculpar-se)_ + + Porque eu... porque eu tambem era creança... + +_(Levanta-se)_ + +Margarida + + Não! Não! Diga que foi a sêde e fome + De usufruir, e após, pensar que o nome + Humilhava, e jámais lhe serviria + P'ra linda sugestão que me incutia; + Diga: foi o que muita gente faz, + Captivando, prendendo em fórma audaz + O debil ser, a fragil creatura, + Que ora subjugada ante a noite escura + Do vosso infame e vil, e vil narcotico, + Obedece depois ao espasmodico + Furôr de saciar as intenções + Com que se roubam fracos corações. + Não é isto? + +Fernando + +_(Perturbado)_ + + Mas... + +Margarida + +_(Levantando-se)_ + + Mas... senhor Fernando + Queira explicar-me agora quando, quando + Foi por si concebida a qualidade + Virtuosa, por entre a sociedade?! + +Fernando + +_(Succumbido)_ + + Actualmente á face da razão... + Que decerto ditou a reacção + Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus + Do mundo! + +_(Pausa e estendendo a mão a Margarida)_ + + Margarida... adeus!... + +Margarida + +_(Apertando a mão de Fernando)_ + + Adeus... + +_(Fernando sae)_ + + +SCENA FINAL + +Margarida + +_(Só, depois d'um momento de silencio e de olhar toda a sala)_ + + E nada, nada mais d'esse passado + Que abomino! + +_(Levantando os olhos para o ceu)_ + + Deus! Meu Deus! + Obrigado! + +CAHE O PANNO + +Fim da peça + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM *** + +***** This file should be named 34964-8.txt or 34964-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34964/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Typ. Minerva, 1910."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: 7PX; + text-align: right; + color: gray; + } + h1,h2,h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + h4 i {font-weight: normal;} + p {margin: 0; font-size: 90%;} + .desc_acto {text-align: justify; margin: 0; margin-left: 1em; text-indent: -1em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {border: dotted 1px red; font-size: small;} + p.inst {margin-left: 2em; text-indent: -1em;} + p.fala {text-align: center; font-weight: bold;} + p.fala em {font-weight: normal;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Nuvem + Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo + +Author: Luiz Couceiro + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34964] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<p> </p> +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">LUIZ COUCEIRO</p> + +<hr> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">A NUVEM</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>AVEIRO<br> +Typ. "Minerva Central"<br> +<small>1910</small></p> +</div> + +<div id="capa"> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.2em;">LUIZ COUCEIRO</p> + +<hr> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">A NUVEM</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>AVEIRO<br> +Typ. "Minerva Central"<br> +<small>1910</small></p> +</div> + +<p> </p> +</div> + +<h2>PERSONAGENS</h2> + +<p>Henrique</p> + +<p>Fernando</p> + +<p>Arminda</p> + +<p>Margarida</p> + +<p>Maria, creada</p> + +<p>Uma creança de 6 mezes</p> + +<p> </p> + +<h1>PROLOGO</h1> + +<p class="desc_acto">Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao +centro, á qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de +escrever.</p> + +<h2>SCENA PRIMEIRA</h2> + +<h3>H<small>ENRIQUE, DEPOIS</small> M<small>ARGARIDA E</small> +M<small>ARIA</small></h3> + +<p class="fala">Henrique <em>(só)</em></p> + +<p>«Corre um anno de vida desgarrada<br> +Que sempre tem levado o teu amante,<br> +E outra vida, decerto, attribulada,<br> +Suavisar, se procura, n'este instante.<br> +Vou partir, Margarida, e sê feliz;<br> +Porque emfim, cêdo apenas a um esforço<br> +De sentimento são; e ás almas vis<br> +Cabe-lhe sempre o premio do remorso!<br> +Adeus! E vae fazendo o que poderes<br> +Para esquecer este homem transviado<br> +Do trilho, da conducta, e dos deveres!<br> +Adeus! A nada mais sou obrigado!»</p> + +<p class="inst"><em>(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento +resoluto)</em></p> + +<p>Sim! sim! jámais podéra ser possivel<br> +Combater contra a minha reflexão!<br> +E depois, que diabo! não é crivel<br> +Mudar-se o santuario da união<br> +Pelo louco viver do mundanismo;<br> +Não, não é crivel ter a vida assim,<span class="pn">{6}</span><br> +E salvar-me, procuro, d'este abysmo,<br> +Quando, demais, alguem soffre por mim!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa e reflectindo depois)</em></p> + +<p>De facto, Margarida tem encantos,<br> +Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente<br> +Que a tornam fascinada só de quantos<br> +A pretendam gosar satyramente!<br> +Goso estupido, goso só brutal,<br> +Que nos converte em féras, ou ainda<br> +N'um ente desprezivel e anormal!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, exclamando depois com sentimento)</em></p> + +<p>E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,<br> +Levado na corrente d'esse imperio!</p> + +<p class="inst"><em>(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)</em></p> + +<p>Oh! rosto tão suave de mulher!<br> +Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,<br> +Como não será muito o teu soffrer!<br> +Semblante de bondade, a contrastar<br> +Com falsos attractivos de mundanas!<br> +Aqui, traços de paz bem salutar,</p> + +<p class="inst"><em>(Em meditação)</em></p> + +<p>N'aquellas... linhas torpes e profanas!<br> +Rosto meigo que outr'ora me prendeu,<br> +A elle regresso, a elle vão meus passos,<br> +E crê que vou guiado pelo ceu,<br> +Buscando, d'amizade, os santos laços.</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Beijando o retrato e levantando-se de subito)</em></p> + +<p>Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!<br> +Nem me lembrava d'esse poderio!...<br> +Foi a fatalidade do meu trilho,<br> +E complemento do meu desvario...<br> +Comtudo, não importa, porque em suma,</p> + +<p class="inst"><em>(Conformando-se)</em></p> + +<p>É producto de falsas relações<br> +Que se dissolvem, qual tenue espuma...<br> +Existe uma creança; mas razões<br> +Me forçam a esquece-la já tambem.</p> + +<p class="inst"><em>(Tirando do bolso uma carteira)</em></p> + +<p>Concedendo dinheiro em abundancia<br> +Para que Margarida, como mãe,<br> +Provenha ao alimento dessa infancia.</p> + +<p class="inst"><em>(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a +uma porta lateral)</em><span class="pn">{7}</span></p> + +<p>Coitadita da pobre creancinha!...<br> +A dormir!... Tem nos labios um sorriso...</p> + +<p class="inst"><em>(Atirando-lhe um beijo)</em></p> + +<p>Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...</p> + +<p class="inst"><em>(Retirando-se a custo)</em></p> + +<p> </p> + +<p>Custa-me... mas então? Se me é preciso!<br> +E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro,<br> +Que farei tudo quanto fôr humano<br> +Para vellar por ella no futuro!</p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, depois da qual, com coragem)</em></p> + +<p> </p> + +<p>Vamos!</p> + +<p class="inst"><em>(Parando e com desalento)</em></p> + +<p> É bem profundo o desengano!</p> + +<p class="inst"><em>(Pegando no chapeu)</em></p> + +<p>De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...<br> +E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,<br> +Onde, só de virtude, a vida é rica,<br> +E onde chego humilhado e bem contricto!</p> + +<p class="inst"><em>(Sae rapidamente)</em>.</p> + +<h2>SCENA SEGUNDA</h2> + +<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p> + +<p class="inst"><em>(Entrando por uma porta lateral e esfregando os<br> +olhos)</em></p> + +<p>Safa! Que dormir tão pesado o meu!<br> +Nem que fosse uma noite d'hymeneu,<br> +A prolongar um somno de fadiga!<br> +E então, que curiosa lucta e briga<br> +Com os sonhos, os mais extravagantes...<br> +A vêr-me rodeada só d'amantes,<br> +Que disputavam a honra e primazia<br> +Da posse luxuriante d'uma <em>Lia</em>!<br> +Safa! Que pezadello interminavel...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, depois da qual, repara na carta)</em></p> + +<p>Olá! Temos missiva? D'um amavel<br> +D. Juan, talvez?</p> + +<p class="inst"><em>(Vendo a letra)</em></p> + +<p> Mas não, porque esta letra<br> +Pertence ao cavalheiro que penetra<br> +No aposento. É do meu nobre senhor!<br> +Não ha duvida! Ou antes, e melhor:<span class="pn">{8}</span><br> +É d'um obediente e humilde escravo!</p> + +<p class="inst"><em>(Lendo a carta e cynicamente admirada)</em></p> + +<p>An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo!<br> +Muito bem! Apoiado! É admiravel!</p> + +<p class="inst"><em>(Largando gargalhada sarcastica)</em></p> + +<p>Eis uma acção esplendida, louvavel!</p> + +<p class="inst"><em>(Sentando-se)</em></p> + +<p>Coitado! Que desgraça! Pobresito,<br> +Que diz voltar em tudo bem contricto<br> +Aos braços da mulher! <em>(rindo)</em> sim, sim, coitado<br> +Do triste e pobre errante, transviado<br> +Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo!<br> +Vae-te menino, vae-te, que o consôlo<br> +Não me falta, acredita; pódes crêr!<br> +E lança-te nos braços da mulher,<br> +Pois que duvida? Ora essa? Porque não?</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Com sarcasmo)</em></p> + +<p>Mas que parvo, irrisorio e toleirão,<br> +Não veem!? Que ridiculo ignorante,<br> +Que nem ao menos sabe ser amante!<br> +E deixa carta, sem ter a coragem<br> +De dizer que se acolhe na frondagem<br> +Da virtude!</p> + +<p class="inst"><em>(Reconsiderando)</em></p> + +<p> Virtude! Mas que é isso?!<br> +Um nome que se torna ôco e omisso<br> +Entre nós. A virtude é ter dinheiro<br> +Que bem nos sustente o orgico viveiro,<br> +Porque amantes, se atiram para o lixo,<br> +Vindo outros que sustentem o capricho!</p> + +<p class="inst"><em>(Indo para sentar-se e reparando na carteira)</em></p> + +<p>Ah! espera! deixou uma carteira!<br> +E tem notas! Lembrança bem certeira,<br> +Porque... emfim... é só isto o essencial<br> +P'ra presidir á nossa bachanal...</p> + +<p class="inst"><em>(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida +resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha)</em>.</p> + +<h2>SCENA TERCEIRA</h2> + +<h3>M<small>ARGARIDA E UMA CREADA</small></h3> + +<p class="fala">Maria</p> + +<p class="inst"><em>(Entrando de fundo)</em></p> + +<p>Que deseja?<span class="pn">{9}</span></p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Recado algo importante<br> +Que desempenharás já, n'este instante.</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se)</em></p> + +<p>Levarás esta carta ao outro andar,<br> +Mas não te deves nada demorar<br> +Porque inda outro negocio bem urgente<br> +Teremos que cumprir, presentemente.</p> + +<p class="inst"><em>(Entregando a carta á creada, que sáe)</em></p> + +<p>Vae...</p> + +<h2>SCENA QUARTA</h2> + +<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p> + +<p> Ora pois... sou livre por minutos<br> +Dos élos deshonestos e corruptos!<br> +Mas não tão livre, não tão livre ainda,<br> +Que Henrique não levasse á D. Arminda<br> +O fructo do transvio de seu marido.<br> +Coitado! Mas que triste arrependido!</p> + +<p class="inst"><em>(Rindo)</em></p> + +<p>E talvez concebesse que o seu filho,<br> +De futuro, me sirva d'impecilho.<br> +Ná, ná! Quem se desliga a compromissos,<br> +Não o faz com intuitos só postiços.<br> +Pois que!? Foge da vida deshonesta,<br> +E deixa aqui o pomo de tal festa?!<br> +Ná! que o leve; que o leve para o lar,<br> +Onde a contricção vae representar.<br> +E depois, almas vis, más e preversas,<br> +Pódem ás vezes ser nobres e adversas<br> +Ao crime.</p> + +<p class="inst"><em>(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma +creança de seis mezes)</em></p> + +<p> </p> + +<p> Vaes gosar creação casta,<br> +Que te infiltra dignissima <em>Madrasta</em>:<br> +Vaes sahir d'este reles ambiente,<br> +Onde se perde muita e muita gente!</p> + +<p class="inst"><em>(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á +testa)</em></p> + +<p>An?! Que digo? Que disse eu inda agora?!<br> +Não seria um lampejo, ou uma aurora<br> +De verdade, que acaso illuminou<span class="pn">{10}</span><br> +A minha alma, e p'la mente me passou...</p> + +<p class="inst"><em>(Com resolução)</em></p> + +<p>Sim, minha filha, quero que vás. Vae;<br> +Vae acolher-te á sombra de teu pae;<br> +Vae abrigar-te n'essas consciencias<br> +Que salvam e redimem existencias!</p> + +<h2>SCENA QUINTA</h2> + +<h3>M<small>ARGARIDA E</small> M<small>ARIA</small></h3> + +<p class="fala">Maria <em>(entrando)</em></p> + +<p>Satisfeito foi já o seu recado...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Pois outro tem de ser executado<br> +E deligentemente. Espera um pouco,<br> +Emquanto escrevo á <em>Dona</em> d'esse louco<br> +Que hoje me abandonou. E na pequena<br> +Segura já.</p> + +<p class="inst"><em>(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)</em></p> + +<p> Alguns traços de pena,<br> +E prompto. Nada mais ha a fazer<br> +Na consciencia de tão reles mulher!</p> + +<p class="inst"><em>(Dictando o que escreve)</em></p> + +<p>«Senhora!<br> + Deposito essa creança,<br> +Filha de seu marido, e esperança<br> +Tenho que irá ser muito mais feliz,<br> +Do que no antro que apenas só se diz<br> +Do vicio, da vergonha!»</p> + +<p class="inst"><em>(Entregando a carta á creada)</em></p> + +<p> Ora aqui tens...</p> + +<p class="inst"><em>(Á parte)</em></p> + +<p>E inda dizem que são más estas mães!</p> + +<p class="inst"><em>(Á creada)</em></p> + +<p>Desejo que sem perda de momento<br> +Ás minhas ordens tragas cumprimento.<br> +Procuras indagar qual a morada<br> +Do fugitivo Henrique, e lá, na escada,<br> +A pequenita deves collocar,<br> +Bem como a carta junta ahi deixar.<br> +Depois, tens que affastar-te de repente,<br> +Percebes?<span class="pn">{11}</span></p> + +<p class="fala">Maria</p> + +<p> Muito bem, e fico sciente.</p> + +<p class="inst"><em>(Estupefacta)</em></p> + +<p>Porém, senhora! nem sequer um beijo<br> +Na creancinha?!</p> + +<p class="fala">Margarida <em>(imperiosa)</em></p> + +<p> Basta-me o desejo<br> +Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno,<br> +Muito embora com alma de veneno!</p> + +<p class="fala">Maria</p> + +<p class="inst"><em>(Indo a sahir e parando ao fundo)</em></p> + +<p>Mas... mas de que é feito esse coração?!</p> + +<p class="fala">Margarida <em>(indicando-se)</em></p> + +<p>É coisa que não ha na habitação!<br> +Vae...</p> + +<p class="fala">Maria <em>(repentina)</em></p> + +<p> Irei. <em>(sáe)</em>.</p> + +<h2>SCENA SEXTA</h2> + +<h3>M<small>ARGARIDA E</small> F<small>ERNANDO</small></h3> + +<p class="fala">Fernando <em>(entrando)</em></p> + +<p> Margarida! A que dever<br> +A honra e o distinctissimo prazer<br> +Da sua carta?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se de Fernando)</em></p> + +<p> Irá sabel-o já,<br> +Meu caro e bom Fernando! Venha cá?</p> + +<p class="inst"><em>(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)</em></p> + +<p>Julgo que conquistou ardente feito!</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para o quarto)</em></p> + +<p>Ora diga? O que vê d'aqui?<span class="pn">{12}</span></p> + +<p class="fala">Fernando <em>(olhando)</em></p> + +<p> Um leito!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Em que ha pouco vagou certo logar...</p> + +<p class="fala">Fernando <em>(interrogando)</em></p> + +<p>... E então?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Querendo... Venha-o occupar.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Cae o panno</p> + +<p style="text-align:center;">FIM DO PROLOGO<span class="pn">{13}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>ACTO I</h1> + +<p class="desc_acto">Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao +fundo. Á direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre +de fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao +centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se +encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza, vae +contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa.</p> + +<h2>SCENA PRIMEIRA</h2> + +<p class="fala">Arminda <em>(só)</em></p> + +<p>... E vinte!...<br> + O indispensavel enxoval<br> +P'ra essa creança, que é filha do mal!<br> +Apenas o preciso p'ra o conchego<br> +Do ente, que, desvario tolo e cego,<br> +Arrumou para o mundo, e que o destino<br> +Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino<br> +Deus! A vossa vontade seja feita!<br> +E a mulher, que a desdita sempre espreita,<br> +Curva-se ante o poder d'essa grandeza,<br> +Que a ella me ligou e me traz preza!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Com dôr)</em></p> + +<p>Um pequeno enxoval, mas sufficiente<br> +Para poder cuidar d'esse innocente<br> +Que a vil libertinagem engeitou!<br> +Que a infamia, por onde só errou<span class="pn">{14}</span><br> +A vida impura, incasta e illegitima,<br> +Trouxe aos portaes da sua triste victima!</p> + +<p class="inst"><em>(Affastando-se da meza)</em></p> + +<p>E que havia a fazer?... Repudiar<br> +O fructo da loucura?... Regeitar<br> +A offerenda, que, quem sabe? foi Deus<br> +A salva-la do mar, dos escarceus<br> +Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem<br> +A doa-la aos carinhos d'outra mãe!<br> +Que havia de fazer? Tornar-me ré<br> +Da deshonra, e com simples pontapé<br> +Exclamar:--Vae, vae para a sociedade<br> +Em que se mancha e perde a honestidade!<br> +Vae tambem corromper-te em sacrificio<br> +D'essa libertinagem, e do vicio!<br> +Não! Não! Ninguem me dá esse direito,<br> +Que apenas crearia mais um leito<br> +Na impudica mansarda da baixeza!<br> +Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza.<br> +Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede,<br> +Nem jámais a minha alma diz e pede<br> +Que lance p'ra mizeria e para o crime<br> +Uma outra alma que d'elle se redime!...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Entrando no biombo, e junto ao berço, com +resolução)</em></p> + +<p>Fica, pobre creança! Assim o quero<br> +Fica, porque eu respeito e mui venero<br> +O que o destino dá.</p> + +<p class="inst"><em>(Com pausa e sentimento)</em></p> + +<p> Elle predisse,<br> +Em leis, que essa cruel libertinice<br> +D'um marido não tinha o grave jús<br> +De arrumar-te, impiedosa, para o púz<br> +Virulento d'infame corrupção!</p> + +<p class="inst"><em>(Curvando-se sobre o berço)</em></p> + +<p>Fica sim! Tens aqui um coração<br> +Repleto de carinho e sentimento!<br> +Fica no lar, que, como deserta ilha,<br> +Escolhos cerca! Fica, és minha filha!...<br> +E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo.<br> +Fica creança, fica... Eu te abençôo!</p> + +<p class="inst"><em>(Sentando-se junto do berço)</em></p> + +<p> </p> + +<p>E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,<br> +Do gérmen d'essa orgia productiva!</p> + +<p class="inst"><em>(Pausa)</em><span class="pn">{15}</span></p> + +<p>Não quiz Deus dar-me um filho que pedia,<br> +E que n'este deserto tanto urgia,<br> +Para que n'um momento, n'um instante.<br> +Tenha d'acalentar o que é da amante!<br> +Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa)</em></p> + +<p>Marido... foge ao lar por onde a fé<br> +Do amor pode ser a unica sincera...<br> +E lá vae, lá vae elle como a féra<br> +Viciada, em procura do covil,<br> +Onde recebe o goso d'essas mil<br> +Desgraçadas sem alma, sem consciencia!<br> +Lá vae elle, deixando esta innocencia<br> +Do altar que a pura Egreja solidou,<br> +Em troca do que nunca, nunca amou;<br> +Porque amar, nunca e nunca sabe, quem<br> +Se ausenta de tão santo amor de mãe!<br> +Lá vae, lá anda n'essa podridão<br> +Que rouba o sentimento e a razão!<br> +Que destroe, injuría e enxovalha,<br> +Que infecta, que corrompe, prende e emalha<br> +A noção do respeito p'lo dever!<br> +Lá anda n'esse impudico prazer,<br> +Cujas garras tão vis, cynicamente<br> +Arrebatam do puro e casto ambiente<br> +Todo esse bem, que n'elle se creara;<br> +Cujas garras, de força bruta, avára.<br> +Arrebatam do lar santificado<br> +O descanço e o bem que lhes é dado!<br> +Lá anda, lá vegeta no monturo<br> +Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,<br> +Que a desgraça creou, sustenta e nutre;<br> +Filando com intuitos só de abutre,<br> +E attributos de farça e d'ironia,<br> +As prezas de tão grande vilania!<br> +Vilania,--que em seu lubrico espasmo,<br> +Chasqueia da virtude, com sarcasmo,<br> +Ri da fé, desvirtua a honestidade,<br> +Deprava o sentimento e a dignidade.<br> +Insulta, zomba e rasga sem respeito<br> +O véu do precioso preconceito!<br> +Suja, quebra, dissolve e inutilisa,<br> +Macúla, estraga e já esterilisa<br> +A pureza e o brilho do que é são!<br> +Abala, derrue, prosta em confusão,<span class="pn">{16}</span><br> +Det'riora, desfaz, calca e elimina<br> +A graça do bom lar, graça Divina!...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando +dolorosamente)</em></p> + +<p>E foi... foi assim que essa vilania<br> +Me roubou o socego e a alegria!<br> +Foi assim, assim, que ella aqui entrou,<br> +E que de mim se riu e só zombou!</p> + +<p class="inst"><em>(Encosta-se sentidamente ao berço)</em></p> + +<h2>SCENA SEGUNDA</h2> + +<h3>A<small>RMINDA E</small> H<small>ENRIQUE</small></h3> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e +penetrando a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz).</em></p> + +<p>Ninguem!... Sómente a paz religiosa<br> +Da verdade!... Só graça harmoniosa<br> +Da virtude!... Sómente o ar suavissimo<br> +Do bem!... O perfumado e o dulcissimo<br> +Aroma a castidade.. que trahi!...</p> + +<p class="inst"><em>(Respirando desafogadamente)</em></p> + +<p>Ah! Como se respira bem aqui!...<br> +Deixai-me que, aspirando a longos tragos<br> +O balsamo do amor e dos affagos,<br> +Eu bem me purifique no sacrario<br> +Que envolve o precioso relicario<br> +Do natural, do justo, do acceitavel!</p> + +<p class="inst"><em>(Suspirando de novo)</em></p> + +<p>Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel<br> +A realidade!</p> + +<p class="inst"><em>(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e +se não ouvem um ao outro)</em></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Parecendo despertar dum sonho)</em></p> + +<p> E tudo, só tudo isto,<br> +Se me afigura um sonho!...<span class="pn">{17}</span></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Olhando para o ambiente)</em></p> + +<p> Além, um Christo,<br> +Em expressão suavissima, a espargir<br> +Bondade, a abençoar, a redimir!<br> +</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Olhando para a creança)</em></p> + +<p>Coitada! Que destino o teu seria!?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Continuando a reparar em tudo)</em></p> + +<p>Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria,<br> +Recebendo o amor em seus ternos braços.</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Descobrindo o rosto da creança)</em></p> + +<p>E em verdade, verdade, muitos traços<br> +D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...</p> + +<p class="inst"><em>(com ternura)</em></p> + +<p>Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!<br> +</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Voltando-se para a meza)</em></p> + +<p>Aqui, vejo uma cesta com roupinha...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Continuando a examinar a creança)</em></p> + +<p>E também se parece esta boquinha<br> +Bem rosada...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Analysando a roupa)</em></p> + +<p> Enxoval d'uma creança,<br> +Posto em disposição cuidada e mansa.</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>O narisito não. Destôa um pouco<br> +Do perfil d'esse mau e d'esse louco...<span class="pn">{18}</span></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Pegando em algumas peças de roupa)</em></p> + +<p>Chambrinhos e babeíros; camisinhas...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Descobrindo a creança)</em></p> + +<p>São perfeitos os braços e as perninhas...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Continuando a analysar a roupita)</em></p> + +<p>E outra tanta roupinha de petiz,</p> + +<p class="inst"><em>(Admirado)</em></p> + +<p>Decerto, para algum ente feliz,<br> +A quem Arminda serve de madrinha.</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Cobrindo a creança)</em></p> + +<p>Pobresita! Afinal és isentinha<br> +Do peccado...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)</em></p> + +<p> Ella é meiga e caridosa...<br> +É tão 'smoler, é tão affectuosa<br> +Para os pobres...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente +sahindo do biombo para entrar na salla e exclama)</em></p> + +<p> Meu Deus! Meu bom Senhor!<br> +P'la Infinita vontade e grande amor,</p> + +<p class="inst"><em>(Sahindo do biombo)</em></p> + +<p>Ahi fica, ahi fica essa creança,<br> +Que n'este triste abrigo a sorte lança...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando, surprehendido, para Arminda)</em></p> + +<p>Senhora!...<span class="pn">{19}</span><br> +</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Recuando atonita)</em></p> + +<p> Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Suffocado)</em></p> + +<p>Buscar essa amizade que perdi...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Surprehendida e admirada)</em></p> + +<p>An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando um pouco)</em></p> + +<p>No saudoso ambiente d'esta cella!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Cada vez mais surprehendida)</em></p> + +<p>O quê?! Aqui?! Decerto se enganou,<br> +E sem duvida, creio, a porta errou.<br> +Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Abrigar-me ás caricias da mulher...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Profundamente admirada)</em></p> + +<p>Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu<br> +Que o senhor se enganou, e qual judeu<br> +Errante, anda passando em falsa estrada,<br> +Illudindo-se ao certo na morada!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando mais)</em></p> + +<p>Arminda!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p> Ah! sim, sim! É esse o meu nome;<br> +Porém, tal coincidencia não assome<span class="pn">{20}</span><br> +O direito de crer-me quem procura;<br> +E revella sómente muita uzura,<br> +Imaginar, que cá, por este mundo,<br> +Esse nome de mim seja oriundo!...<br> +Sim! Armindas ha muitas, acredite,<br> +E tantas, tantas, que bem me permitte<br> +Repetir quanto falham seus caminhos!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Com sentimento)</em></p> + +<p>Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos.<br> +Senhora!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Impaciente)</em></p> + +<p> Vamos! Vamos! Que deseja?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Contricto)</em></p> + +<p>Confessar uma culpa que me peja.<br> +E se ha muito, se ha muito ando perdido,<br> +Bem penitente aqui tem seu marido!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Com repugnancia)</em></p> + +<p>Que diz o senhor?! Meu marido?!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Corajoso)</em></p> + +<p> Sim,<br> +E n'essa qualidade eu aqui vim...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Com serenidade)</em></p> + +<p>E como tal pretende apresentar-se?!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Se dá licença?...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma +cadeira)</em></p> + +<p> Então! Queira sentar-se.</p> + +<p class="inst"><em>(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de +pausa)</em><span class="pn">{21}</span></p> + +<p>Com effeito... e em verdade, ideia tenho<br> +De que alguem, com astucia e muito engenho,<br> +Um dia conseguiu vêr-me no altar<br> +Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar<br> +Tal acto ou sacramento d'evangelhos,<br> +Ante um homem dobrei os meus joelhos!<br> +Então... padre d'aspecto venerando,<br> +As orações do rito foi rezando,<br> +Emquanto duas almas se fundiam<br> +Á lei de Deus, e dois peitos se uniam<br> +Ao regimen da mais pratica escola!<br> +Deram-se as mãos; depois, a branca estóla<br> +As cobriu, invocando o juramento<br> +Que firmaria o Santo Sacramento!</p> + +<p class="inst"><em>(Descançando)</em></p> + +<p> </p> + +<p>E jurámos, jurámos n'esse exemplo,<br> +Que nos manda crear o bello templo<br> +Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto<br> +Sómente a guarda e abrigo d'um affecto!<br> +É mais, que de sublime, tem o vulto!<br> +É n'elle edificar paz, honra e culto!</p> + +<p> </p> + +<p>E assim, bem se jurou mais egualmente<br> +Que, obreiros de castissimo ambiente,<br> +Erigissem alli, em devoção,<br> +O respeito, dever, religião!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, depois proseguindo)</em></p> + +<p>Realmente, senhor, lembra-me que um dia,<br> +Quando sã madrugada alvorescia<br> +Toda em perfumes, canticos e flôres,<br> +Alguem, que de mim tinha por amores,<br> +O symbolo d'aliança me entregava,<br> +E em meu peito dizia que se achava!<br> +Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor,<br> +Tão lindo despertar, tão lindo alvôr<br> +Da pura realidade dos meus sonhos,<br> +Feitos de beijos castos e risonhos,<br> +De melodias suaves e plangentes!</p> + +<p class="inst"><em>(Com mais vida, erguendo-se)</em></p> + +<p>Se me lembra a manhã em que dois entes,<br> +Deleitados na força da paixão,<br> +Se uniam em solemne sagração<br> +D'um tributo!...</p> + +<p class="inst"><em>(Pausa, depois com magua)</em><span +class="pn">{22}</span></p> + +<p> Recorda-me... Entoava<br> +O orgão religiosos sons! Resava<br> +Por assim dizer preces ao Bom Deus<br> +Pelo bem de sagrados hymineus.<br> +E que sons! E que sons tão inspirados<br> +Na graciosidade d'uns noivados!<br> +Que harmonia e conjunctos fervorosos,<br> +Embalando a união de dois esposos!<br> +Que accordes, que hymnos tão sentimentaes,<br> +Incensando d'amor uns esponsaes!...<br> +Sim!... Recordo em verdade o sorridente<br> +Dia, e conservo ainda bem presente<br> +Toda a felicidade que senti!...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Pausa e apontando a porta de fundo)</em></p> + +<p>Olhe... repare... foi... foi por ali<br> +Que eu entrei com soberba magestade,<br> +Envolta no meu véu de virgindade!<br> +Foi por ali que entrei; e junto a mim<br> +Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se e interrompendo-a)</em></p> + +<p>E esse noivo, senhora, era...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p> + +<p> Era alguem,<br> +Que na ambição de posse que se tem,<br> +N'essa grande ambição a que se aspira,<br> +Julgou depois que tudo era mentira,<br> +Falsidade, illusão, tolice e asneira!<br> +Era alguem, que fitando em pasmaceira<br> +A vitrine d'objecto precioso,<br> +Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso,<br> +Exagerára as suas qualidades,<br> +E se precipitara nas vontades!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Pretendendo interrompel-a)</em></p> + +<p>Mas, senhora...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Atalhando-o)</em></p> + +<p> Não queira ter o arrojo<br> +De desmentir-me, pois qual, qual estojo,<span class="pn">{23}</span><br> +A guardar um brilhante lapidado,<br> +Assim foi e era o meu véu de noivado;<br> +Assim foi o meu véu, que descoberto,<br> +Lhe mostrou, afinal, o que de incerto<br> +Era o seu pensamento em ideal...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Mas hoje, o positivo e o real...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Impondo silencio)</em></p> + +<p>Nada d'interrupções! Estou fallando,<br> +E desejo ir a pouco demonstrando<br> +O meu sentir. Dizia eu ha bocado<br> +Que, tal como brilhante lapidado,<br> +Era a mulher sahida da innocencia<br> +Para o mundo da prova e exp'riencia.<br> +E... e senão, vejamos! Em geral,<br> +Tem a mulher encanto natural,<br> +E attracções de que muito foi dotada;<br> +Mas quando pretendida, quando amada,<br> +Eil-a que se transforma em maravilha,<br> +E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!...<br> +Anjo do ceu, que assim tanto seduz,<br> +Astro de fé, de vida, d'alma e luz;<br> +A guia, o norte, a briza perfumada.<br> +A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada,<br> +Tudo, emfim, de tal modo concebida,<br> +De tal maneira olhada e percebida,<br> +Que um Velasques, Murillo ou Raphael<br> +Jámais produziriam do pincel<br> +Inspiração egual! Mas, como as flôres<br> +Que em jardim vão brotando de mil côres,<br> +A ellas bem se assemelham as mulheres.</p> + +<p> </p> + +<p>Cravos, jasmins, tulipas e outros seres<br> +Que da especie Deus pôz em geração,<br> +Um ha que nos merece distincção,<br> +E para elle vae vista attenciosa.</p> + +<p> </p> + +<p>D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa,<br> +Pela côr e finura de formato;<br> +Aroma que daria suave extracto,<br> +E viço tal, que lagrimas d'orvalho<span class="pn">{24}</span><br> +Pousando-lhe com arte e lindo talho,<br> +De perolas, imita, collar fino,<br> +A guarnecer um collo alabastrino!</p> + +<p> </p> + +<p>Elegancia suprema, ar donairoso,<br> +A rosa attrahe olhar ganancioso:<br> +E com motivo, pelo mundo inteiro<br> +Lhe chamam a rainha do canteiro!</p> + +<p> </p> + +<p>Admira-se, contempla-se a belleza<br> +Que a nossos olhos deu a natureza!<br> +Pasma-se em fascinante adoração<br> +Absorvendo o producto, a creação<br> +Genial! E depois, não resistindo<br> +Ao desejo de ter o fructo lindo,<br> +Corta-se o encanto, o iman attractivo,<br> +Para figurar qual decorativo<br> +N'uma jarra de <em>Sevres</em>, ou crystal!</p> + +<p> </p> + +<p>Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!...<br> +A pobresita já dias após<br> +Não escutava nem ouvia a voz<br> +Da admiração! E ha pouco despresada,<br> +Sem carinhos, de todo abandonada,<br> +Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba!<br> +Nem sequer o perfume que exhalava<br> +Vem recordar a sua contextura!<br> +Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Com desalento)</em></p> + +<p>Assim é a mulher que s'enaltece:<br> +Tambem se apaga, cahe e desfallece...</p> + +<p class="inst"><em>(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)</em></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir<br> +A voz de quem pretende redimir<br> +Os erros de uma vida attribulada...</p> + +<p class="inst"><em>(Redobram os vagidos da criança)</em></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Procurando affastar-se)</em></p> + +<p>Não posso! Veja que outra vida brada<br> +Pela minha presença, e bem m'incute<span class="pn">{25}</span><br> +Um dever! Veja! attenda? escute, escute<br> +Os vagidos d'aquelle innocentinho<br> +Pedindo o meu conforto e meu carinho!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Attonito e escutando)</em></p> + +<p>Os vagidos!? Os choros de criança?!...</p> + +<p class="inst"><em>(Confuso)</em></p> + +<p>Mas, minha senhora!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p> É uma herança,<br> +Que chama os meus cuidados!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Inquieto)</em></p> + +<p> Mas perdão!<br> +Apenas um minuto d'attenção!</p> + +<p class="inst"><em>(Em confusão d'ideias)</em></p> + +<p>Aquelle choro!... tão infantil!...<br> +Traduz-me a existencia de um ardil!...<br> +Espere: Espere?</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando)</em></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p> Diga, mas depressa,<br> +Pois que aquelle lamento jámais cessa<br> +Sem ternuras de mãe!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p> + +<p> Senhora!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Cruzando os braços)</em></p> + +<p> Que ha?!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Aparentando soffrimento)</em></p> + +<p>O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná...<br> +Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?!<br> +A que data, a que data, sim, se liga<br> +O nascimento d'esse seu vivente?<span class="pn">{26}</span></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Impassivel)</em></p> + +<p>Tem seis mezes approximadammte!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Muito surprehendido)</em></p> + +<p>An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Dolorosamente invocando a memoria)</em></p> + +<p>Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia<br> +Não condiz com a minha grande ausencia<br> +Desta casa! Senhora! Por quem e?<br> +Veja o que em meu semblante já se lê,<br> +Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno<br> +Me ausentei... E esse filho... é...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p> É profano!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando de punhos cerrados e exclamando)</em></p> + +<p>Ah!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Imperiosa)</em></p> + +<p> Suspenda! suspenda, desgraçado!<br> +Que não tremo ante o facto consumado!<br> +Suspenda, porque não me atemorisa<br> +A ira de quem adopta por divisa<br> +A infamia! Pare, pare, não avance,<br> +Que não vacilarei em frente ao lance<br> +Despotico de tão vil caminheiro<br> +Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro,<br> +Suspenda, porque não tremo perante<br> +Affirmar... que esse filho...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p> É?...<span class="pn">{27}</span></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Altiva)</em></p> + +<p> D'um amante!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrogando)</em></p> + +<p>E a mãe!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p> É a mulher que deshonrou<br> +O nome d'um marido, que aviltou<br> +A dignidade dum sêr conjugal,<br> +E se lançou para esse lodaçal<br> +Da miseria humana! É a mulher<br> +Que na loucura d'orgico praser<br> +Se lançou ao enxurro da corrente,<br> +Vestal indecorosa e deprimente!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo, e convencido de ser victima de +cilada)</em></p> + +<p>É a mulher, que, sem honra e vergonha,<br> +Buscou a aviltantissima peçonha<br> +Da desforra cruel, não é verdade?<br> +A mulher que, perdendo a dignidade,<br> +Em troco de torpissima vingança,<br> +A mostra, com a prova da creança<br> +Existente no lar, que de novo ora<br> +Procuro. Que se não vexa, nem cora,<br> +Com a pratica d'um crime aviltante;<br> +A mulher que na sêde devorante<br> +De debitar affrontas, só reclama<br> +A moeda emprestada, e a si chama<br> +O direito d'um plano indecoroso,<br> +Pagando-se com acto vergonhoso;<br> +Atirando-me ao rosto grave insulto,<br> +E corrompendo todo, todo o culto<br> +Que deve ter-se pela honestidade!<br> +A mulher que despresa a probidade,<br> +E que na hora da minha reflexão,<br> +Aponta esse signal de corupção,<br> +Como atroz vilipendio e atroz injuria!<br> +É a mulher ardendo em odio e furia<br> +Vingativa, sem alma, sem nobresa,<br> +Sem outro qualquer dom de que se presa<br> +A sociedade, pois não é assim?<span class="pn">{28}</span><br> +É a mulher que jura contra mim<br> +A guerra, de, a façanha, outra façanha,<br> +E que em descaramento me arreganha<br> +Os dentes da villesa e da traição!<br> +A mulher que transforma o coração<br> +Em veneno odioso e repelente,<br> +Para em dado momento, e ardilmente,<br> +O injectar em minha alma, proclamando<br> +Um feito immoralissimo e execrando!<br> +A mulher que s'isenta do civismo<br> +E logo se mascara do cynismo<br> +Que ultraja, sem que ao menos se recorde<br> +Que a raiva que inocula, quando morde,<br> +Encerra sempre o virus e o microbio<br> +Para sua deshonra e seu oprobio!<br> +É a mulher, emfim, que, sem virtude,<br> +A taes proezas tão vilmente allude!<br> +A mulher, que tal nome não merece,<br> +Quando só se desprende e só se esquece<br> +Do fim para que fôra concebida!<br> +É a mulher, em suma, confundida<br> +Na escoria da miseria, que profana,<br> +Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Ora nem mais, diz bem! É essa mesma:<br> +É essa tal, o monstro, essa abantesma<br> +Que descreve, acredite? É essa, é essa<br> +Misera que se expõe e que confessa...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>O proceder infame d'uma esposa!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo indignada)</em></p> + +<p>É lá! Suspenda a phrase rancorosa,<br> +E não se atreva, não se atreva a tanto!<br> +Falla-se da mulher, saiba; porquanto,<br> +A esposa, está aqui, embora diga<br> +Que deixou de o ser, para quem se abriga<br> +No mal.<span class="pn">{29}</span></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Furioso)</em></p> + +<p>E a senhora? Onde se abrigou?</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, +cahindo de bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo +todos os movimentos.)</em></p> + +<p>N'esta vida que Deus me destinou!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Crusando os braços)</em></p> + +<p>Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes<br> +Que se abriga ao producto d'uns amantes!<br> +Que se abraça á tristissima irrisão<br> +Da mais adulterina concepção!<br> +Diga antes, que se acolhe na sentença<br> +Que me fôra ditada; e que em presença<br> +D'esse escarneo, se prova a hediondez<br> +D'um crime, que a vingança traz e fêz!<br> +Diga-me, antes, senhora, que aconchega<br> +O fructo que a immoral lhe deu e lega<br> +Como espelho constante de traição,<br> +Como sobrio reflexo da illusão<br> +Em que cahi!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se e enchendo-se de coragem)</em></p> + +<p> Pois seja! Assim o diga!...<br> +Esta creança...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p> O insulto!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p> É o castigo!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Recuando e disposto a sahir)</em></p> + +<p>Passe Vossa Excellencia muito bem<br> +Minha Senhora!! </p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para a porta)</em><span +class="pn">{30}</span></p> + +<p> Aquella porta, tem<br> +O condão de se abrir ante a passagem<br> +D'este tão illudido personagem;<br> +E se aqui vim, buscando honestidade,<br> +Convicto saio e vou, da falsidade<br> +Com que ella se proclama e annuncia!<br> +Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia,<br> +Variando sómente em sociedade;<br> +Porquanto; se lá fora a indignidade<br> +Se expõe, aqui se occulta no cynismo<br> +Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo,<br> +Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo<br> +Ante o revoltantissimo sarcasmo<br> +Que preside á mudança d'este lar<br> +No mais indecoroso lupanar!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Revoltadissima)</em></p> + +<p>E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor,<br> +Do biltre que, sem honra e pondonor,<br> +Se arroja a censurar, altivamente,<br> +A esposa que despreza infamemente!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Altiva, apontando-lhe a porta)</em></p> + +<p>Saia! Que jámais tem auctoridade<br> +Para insultar, quem só na indignidade<br> +Vagueia e lá procura o seu viver!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Altivo)</em></p> + +<p>Mas eu sou homem!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae +recuando para sahir)</em></p> + +<p> E eu... eu sou mulher!</p> + +<p class="inst"><em>(Indica-lhe a porta)</em></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim do +primeiro acto</p> + +<p><span class="pn">{31}</span></p> + +<h1>ACTO II</h1> + +<p class="desc_acto">A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição. +Dentro do biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena, +encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo fundo +Henrique e Margarida.</p> + +<h2>SCENA PRIMEIRA</h2> + +<h3>H<small>ENRIQUE E</small> M<small>ARGARIDA</small></h3> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Ora aqui tem os novos aposentos<br> +Que servirão de galla aos meus intentos.<br> +Repare? Veja o luxo d'esta salla,<br> +Que a nada, mesmo a nada mais se eguala.<br> +Hein! Hein! Que lhe parece?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Admirada)</em></p> + +<p> Realmente,<br> +É soberbo! ideal! Mas, francamente,<br> +Acho bello de mais: bello de mais<br> +P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Engano, Margarida, puro engano;<br> +Tudo isto é impostura e só profano!<br> +Apenas a mudança de scenario,<br> +Com quanto lhe pareça um relicario<br> +O que está vendo, creia. Tão sómente<span class="pn">{32}</span><br> +D'aspecto a mutação, mas apparente<br> +E falso, no que indica, pois de facto,<br> +Quanto vê, é traidor e bem ingrato;<br> +Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto<br> +O mais completo, o mais perfeito assumpto,<br> +Para que se analyse e fundamente<br> +Toda, toda a ironia d'este ambiente;<br> +E descrever, eu vou, essa ironia,<br> +Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.<br> +Queira ouvir:</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Ouvirei... </p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p> Repare então:<br> +O que se nota n'esta perfeição,<br> +Unicamente serve p'ra esconder<br> +A cynica existencia da mulher!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Minha rival? Talvez!?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p> Nem mais, diz bem!<br> +Sua rival, que arrojo mostra e tem<br> +Para se apresentar envaidecida<br> +No luxo de que a salla é guarnecida.<br> +Conhece-a?...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Talvez não... eu nunca a vi...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:<br> +Mas antes, extasie-se no espavento<br> +D'estas decorações, cujo elemento<br> +Só pretende encobrir o que lá fóra<br> +Se chama a todo o instante e a toda a hora<br> +Miseria, corrupção e tudo o mais<br> +Que tanto affronta e insulta bons mortaes!<br> +Admire-se perante as bambinellas<span class="pn">{33}</span><br> +Que, pendentes das portas e janellas,<br> +Servem para vedar todo este centro<br> +A bachanaes, passadas aqui dentro!<br> +Reveja-se em vestaes tapeçarias<br> +Soffucando o ruido das orgias;<br> +Nos estofos que abafam enthusiasmos,<br> +Os gritos de volupia, os espasmos<br> +D'uma lubricidade illimitada...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Mas diga? Não será exagerada<br> +A affirmativa?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p> Como assim? Duvida?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Admirada)</em></p> + +<p>É que, em verdade, nunca em minha vida<br> +Soube como se possa conjugar<br> +Toda a revolução do lupanar<br> +Com esta ordem e acceio que estou vendo;<br> +E com effeito, Henrique, não entendo,<br> +Não percebo a harmonia que se avista,<br> +Sómente discordante e antagonista<br> +Ao meio onde se espalha a corrupção.</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>É o que lhe parece...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Qual? Não; não<br> +Posso acreditar, não, no que me diz,<br> +Pois que a nossa existencia jámais quiz<br> +Acceitar os cuidados d'este apuro.</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Em duvida)</em></p> + +<p>Será, mas... mas para isso não se admitte<span class="pn">{34}</span><br> +A apparencia do arranjo, que transmitte<br> +Não sei que, de completa opposição<br> +Á anarchia da nossa profissão;<br> +E eu sinto que d'instante para instante<br> +O esp'rito se consulta, inquietante,<br> +Na atmosphera que aqui dentro respiro...<br> +Diga? Diga? Onde estou eu?!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p> N'um retiro<br> +Cuja devassidão bem se proclama,<br> +Repito, muito embora tenha a fama<br> +D'honesto, muito embora elle se incense<br> +D'um perfume que nunca lhe pertence.<br> +Duvida ainda?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Sim! eu... eu duvido!<br> +Porque não póde ter aqui vivido<br> +A mulher que appelida de devassa;<br> +E affirmarei, senhor, que a nossa raça<br> +Foge a toda e qualquer preoccupação,<br> +Que não seja gosar devassidão!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Olhando para tudo)</em></p> + +<p>Tudo isto que a meus olhos se depara,<br> +É coisa que se torna muito rara<br> +A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,<br> +Sem valôr, pueril, impropria, futil,<br> +Para quem como nós, p'ra quem como eu,<br> +Se ceva nos instinctos que me deu<br> +A sorte, e se refaz insaciada<br> +Na sêde d'uma vida depravada!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a +Margarida para se sentar)</em></p> + +<p>Está bem Margarida, venha cá;<br> +Sentemo-nos, que mui não tardará<br> +Que momento opportuno e bom ensejo<br> +Apresente mil provas de sobejo,<br> +Destrahindo, negando e desmentindo<br> +Tão errada impressão que está sentindo.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Sentando-se)</em></p> + +<p>Impressão tal, senhor, que, na verdade,<br> +Se apossa de mim com necessidade<br> +De profundar o fim deste recanto,<br> +Receosa de crêr que seja o manto<br> +Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê!<br> +Aonde e em que parte é que ella se vê<br> +Vegetando assim? Diga-me: em que parte<br> +Ella pode adorar a belleza e arte<br> +Do conjuncto tão bem disposto aqui?<br> +Não, Henrique! A deshonra folga e ri<br> +No turbilhão d'immenso desalinho,<br> +Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho<br> +E trato da vivenda que se habita;<br> +A deshonra sómente tem escripta<br> +Na mansarda a legivel taboleta<br> +Que annuncia onde pára, onde vegeta.<br> +E as nossas mãos, que apenas tem o dom<br> +De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,<br> +Não sabem como tudo isto se faz<br> +Dentro da ordem e d'esta santa paz.<br> +As nossas mãos têm o unico mister<br> +De procurar os gosos e o prazer<br> +Do ouro, que só se emprega na razão<br> +Do luxo, necessario á attracção<br> +Da vista indagadora das orgias,<br> +E indispensavel para a concorrencia<br> +Da prostituidora residencia!...<br> +As nossas mãos sómente se utilisam<br> +Nos postiços que tanto symbolisam<br> +O antro por onde sempre rezidi,<br> +E já n'elle então, uma vez ali,<br> +Quando na ausencia, quando no despojo<br> +Das seducções, só tudo logo é nojo<br> +No labyrintho d'horas viciosas,<br> +Na balburdia de noites amorosas!<br> +Uma vez ali, tudo vem dizer<br> +Do estado social d'uma mulher!</p> + +<p> </p> + +<p>E quer, senhor, fazer-me convencer,<br> +Que possa n'esta casa só viver<br> +Alguem que a minha classe represente?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Quero sim; quero, e muito facilmente...<span class="pn">{36}</span></p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Porém, como? No luxo do aposento<br> +Não, porque n'elle ha todo o sentimento<br> +Que eu ignoro. Na graça e harmonia<br> +Muito menos, por quanto a apostasia<br> +De virtudes se não traduz assim,<br> +E nem ella se adquire com tal fim!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Porque o sabe?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> No exemplo d'esta vida,<br> +Que uma outra aniquilou e fez perdida!<br> +Nas provas da existencia que atravesso,<br> +Demonstrando que tudo isto é avesso<br> +Á desorganisada habitação<br> +De quem só s'expõe á prostituição!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)</em></p> + +<p>Ouça: se, como diz e me affiança,<br> +Estamos sob um tecto d'aliança<br> +Deshonesta; se, como bem proclama<br> +A devassidão n'este lar se inflama<br> +Por impudica e má camaradagem...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para um Christo que está na parede e para a +imagem da Virgem, n'um quadro)</em></p> + +<p>Que faz, senhor, além, aquella imagem?<br> +E inda est'outra aqui? tanto a destoar<br> +Do cortejo que envolve o lupanar?</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>São os taes attributos da mentira,<br> +Ante os quaes se revê e mui se admira!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Mentira?! Mas onde, onde apparece ella?<br> +E como e de que fórma se revella,<br> +Se, por muito que faça, inda a não vi...<span class="pn">{37}</span></p> + +<h2>SCENA SEGUNDA</h2> + +<h3>O<small>S MESMOS E</small> A<small>RMINDA</small></h3> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando +dolorosamente surprehendida)</em></p> + +<p>Ah!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)</em></p> + +<p>Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Altivamente)</em></p> + +<p>Mas que significa este atrevimento?!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Coisa de mero e simples argumento,<br> +Não se assuste!</p> + +<p class="inst"><em>(Pegando n'uma das mãos de Margarida)</em></p> + +<p> Apresento a minha amante...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Timida)</em></p> + +<p>Senhor! a que se atreve!?...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Cruzando os braços)</em></p> + +<p> Que farçante!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Serei; no entanto, como as bôas farças<br> +Reclamam a presença de comparsas,<br> +Queira representar o seu papel,<br> +Indicando com essa alma de fel<br> +A peçonha do mal que tanto encobre<br> +Nas apparencias d'uma casa nobre!...<br> +Vamos? Queira sahir d'esse mutismo<br> +Que estampa hypocrisia e diz cynismo!<br> +Queira tirar a mascara traidora<span class="pn">{38}</span><br> +E mostrar ante mim e esta senhora<br> +Como a deshonra n'este lar se fez<br> +E abunda por aqui aos pontapés!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Com repugnancia)</em></p> + +<p>E porque não, indigno cavalheiro!<br> +Porque não hei-de, em modo sobranceiro,<br> +Indicar-lhe o que pede no momento?<br> +Porque não hei-de dar conhecimento<br> +Ao que exige em palavras que só são<br> +Proferidas p'la bocca d'um villão!<br> +Porque não hei-de com toda a altivez,<br> +Mostrar como anda o mal a pontapés?!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para Margarida)</em></p> + +<p>Mire-se no instrumento de façanhas<br> +E d'outras mil proezas que são ganhas<br> +Na desgraça. O mal, paira por alli,<br> +E tambem d'egual fórma o veja em si,<br> +Como estigma do mais reles exemplo<br> +Da profanação d'um culto e d'um templo!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a +Henrique)</em></p> + +<p>Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Na casa de quem só rivalisou<br> +Com a miseria a outros imputada<br> +E que, insultando mesmo, toda irada,<br> +A presença das nossas entidades,<br> +O faz, creia, nas mesmas igualdades<br> +Do direito com que eu deva insultar,<br> +Da causa, que m'instiga p'ra accusar;<br> +E, se insultos se pagam com insultos,<br> +Veremos então quem profana os cultos<br> +Do bom caminho; quem mancha e arruina<br> +O que a moralidade nos ensina!<br> +Veremos então quem mais enodeia,<br> +E quem com crime e farça mais hombreia!<span class="pn">{39}</span></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Indignadissima)</em></p> + +<p>É o homem que, sem brio e pundonor,<br> +Assim falla! É o biltre, cujo horror<br> +Repugna a toda, a toda a consciencia,<br> +E talvez até á d'essa existencia<br> +Que ora aqui trouxe para mais vexame<br> +Meu! É o homem preverso, mau, infame,<br> +Ultrajando o que só é digno e honesto!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Mas que ao mais pequenino e simples gesto<br> +Irá destruir essa honestidade<br> +Apregoada com tanta falsidade!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Antepondo-se)</em></p> + +<p>E é já tempo, senhor, para o fazer,<br> +Visto que me pretende convencer<br> +Do que vem affirmando.</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p> Ouça, senhora:<br> +Creio bem que, ante força vingadora,<br> +Me encontro n'esta salla; e é bem certo<br> +Que, seja p'lo que for, eu já desperto<br> +Mais ou menos da minha inconsciencia,<br> +Para crêr que pratico irreverencia<br> +Encontrando-me n'estes aposentos.<br> +E eu então, que não tenho sentimentos<br> +Senão os que a desdita me deixou,<br> +Sinto que dentro em mim ora soou<br> +Alguma coisa sã, e não sei quê<br> +D'extranho, a confirmar a crença e fé<br> +Que ha pouco me assistia, suspeitando<br> +De que, por aqui, não anda pairando<br> +O mal...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p> + +<p> Mas... como assim?! Se tal suspeita,<br> +Vae muito brevemente ser desfeita<br> +Ante o espelho fiel, e reflectir...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Do grande soffrimento e minha dôr!<span class="pn">{40}</span><br> +Mas como Deus em tudo dá coragem,<br> +Eu propria mostrarei toda a miragem<br> +Do espelho que pretende descobrir.</p> + +<p class="inst"><em>(Com altivez)</em></p> + +<p>Mas veja bem, que só vae reflectir<br> +A verdade, e ella, saiba, que aniquilla<br> +Os infames, tornando mui tranquilla<br> +A consciencia accusada! E a verdade,<br> +Chamando os villões á realidade,<br> +Vae prostra-los na immensa confusão<br> +De crimes, sem desculpa, nem perdão!<br> +A verdade, esse grande dom do mundo,<br> +No peito dos malvados crava a fundo<br> +O punhal do castigo merecido!<br> +E ai de si, miseravel! se vencido<br> +Ficar na falsa lucta que travou!<br> +Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou<br> +A redempção, á face do mysterio<br> +Que lhe auctorisa tão cynico imperio<br> +D'insidiar, lançando-me labeus<br> +Que apenas tanto o attingem e são seus!</p> + +<p class="inst"><em>(Com arrogancia)</em></p> + +<p>Pois bem! Perante mim, e n'este instante,<br> +Se defrontam marido e sua amante!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Surprehendida)</em></p> + +<p>Senhora!? Que dizeis?! É seu marido<br> +Este homem que comigo tem vivido<br> +E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>É! Mas melhor seria que o não fosse!<br> +Vamos : Perante mim e n'este instante,<br> +Se defrontam marido e sua amante.<br> +Procurando em vilissima baixeza<br> +O mal que tão sómente a elles lhe peza!<br> +E se era meu dever escorraçar<br> +Quem se arroja e atreve a enxovalhar<br> +Com descáro, a virtude d'esta casa,<br> +Só muito antes a minha alma se empraza<br> +A repudiar bem altivamente<br> +Os instinctos de tão ignobil gente,<br> +Ordenando que fiquem, por minutos,<br> +Na expiação de feitos e seus fructos.<span class="pn">{41}</span></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>Mas essa altivez, é demais, senhora,<br> +Para quem se transforma em peccadora!<br> +Essa altivez repugna por excesso,<br> +Na mulher que adoptou egual processo<br> +D'ilegitimidade em relações?!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Com desprezo)</em></p> + +<p>Basta! Basta d'infames allusões!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Antepondo-se)</em></p> + +<p>Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais,<br> +Porque as suas palavras são fataes,<br> +Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras<br> +Para quem se dirigem, salvadoras<br> +P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para Arminda)</em></p> + +<p>Em nome da verdade occulta em dôr!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Surprehendida)</em></p> + +<p>Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Com pezar)</em></p> + +<p>Qualquer coisa da minha consciencia!</p> + +<p class="inst"><em>(Ouvem-se uns gemidos de criança).</em></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Perturbado e levando as mãos á cabeça)</em></p> + +<p>E agora falla a vós d'alta vingança<br> +Nos gemidos que solta essa criança!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Subitamente e apontando para o biombo)</em></p> + +<p>Senhora! Quem... quem é que chora além?!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>É um pedaço d'alma que vil mãe<br> +Despresou!<span class="pn">{42}</span></p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Cahindo de joelhos)</em></p> + +<p> Ah! Meu Deus! perdão! perdão!...<br> +Porque falla agora este coração!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Admirado perante a posição de Margarida)</em></p> + +<p>Surprehende-me esse humilde movimento?!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>Falla o remorso em forte sentimento!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)</em></p> + +<p>Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu,<br> +Duvidando de que isto fosse reu<br> +Do cynismo que tanto apregoava!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Surprezo)</em></p> + +<p>Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava<br> +O producto do crime e da traição?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Era a voz da verdade e da razão,<br> +Illuminando as trevas da mentira!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>É a prova do mal que tanto aspira.<br> +Para me confundir n'essa torpeza<br> +Que inventou, e que sempre se despreza<br> +Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa,<br> +Bem se torna a mulher crente, e ciosa<br> +Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando<br> +Isolada p'lo pessimo desmando<br> +Do marido, mesmo inda que atirada<br> +Para o jus da vingança provocada.<br> +Orgulhosa se torna esta mulher<br> +Que, no direito d'um mau proceder,<span class="pn">{43}</span><br> +Em desforço do seu procedimento,<br> +Só antes se acoberta ao sentimento<br> +Que a sã moralidade nos indica,<br> +E ao bem que tudo, tudo dignifica!</p> + +<p> </p> + +<p>E é então o senhor, que, sem nobreza<br> +D'aquilo onde se lê, estuda e reza<br> +A melhor oração da nossa vida,<br> +Vem hoje, perante esta alma esquecida,<br> +Interrogar na mais dura exigencia<br> +Quaes as razões porque tenra existencia<br> +Se acalenta no leito de innocentes,<br> +Com meus affagos ternos e dolentes!</p> + +<p> </p> + +<p>E é então o senhor, é o senhor,<br> +Que, aggravando inda mais a minha dôr,<br> +Vem hoje aqui no intuito de saber<br> +Porque se encontra ao lado da mulher<br> +Desposada, a criança que acalenta?<br> +E sabe porque? Sabe porque dentro<br> +D'este lar se aconchega esse vivente?<br> +Porque, sem duvida, é seu descendente!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Surprehendido de subito)</em></p> + +<p>Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa<br> +Para suas desculpas e evasiva!<br> +Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?!<br> +Só se a este lar se dá, faculta e presta<br> +O mysierio da tal santa doutrina!<br> +Talvez! Talvez que a <em>Graça</em>, a <em>obra Divina</em>,<br> +Por aqui estendesse o puro manto,<br> +E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo,<br> +Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez<br> +O mysterio julgasse pôr-me aos pés<br> +O filho que me indica, não é assim?...</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Irado)</em></p> + +<p>Ora vamos senhora! Ponha fim<br> +Á comedia tão mal representada,<br> +E diga como essa alma envenenada<br> +Concebeu a pequena creatura<span class="pn">{44}</span></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para Henrique e Margarida)</em></p> + +<p>No desvario do pae e na loucura<br> +Da mãe!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se e avançando para Henrique)</em></p> + +<p> Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor,<br> +Que na ancia de vingança e de rancôr,<br> +Me desfiz da creança que me deu.<br> +A mãe maldita, está aqui, sou eu,<br> +Que em cegueira da minha profissão<br> +Atirei com a nossa creação<br> +Ao sabôr dos instinctos d'esta vida.<br> +A mãe, que tem por nome Margarida,<br> +E por mister o vicio infamante,<br> +Sou eu! Esta que foi a sua amante,<br> +E de cuja união sahe oriundo<br> +Esse fructo que vê a luz do mundo.<br> +A mãe, sou eu, que na brutalidade<br> +Do meu sentir e tão baixa maldade,<br> +Apunhalou por fórma audaciosa<br> +O socego do lar, e o bem da esposa!<br> +A mãe senhor, sou eu, esta mulher,<br> +Que um pedaço de carne faz viver<br> +P'ra orgia, palpitando em sangue vil!<br> +A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil<br> +Clientes de tão indigna alla mundana,<br> +E que, vivendo sob a fórma humana,<br> +Só renegam os dons da Natureza<br> +Por bem degeneradas em baixeza!<br> +A mãe sou eu, que tal nome invocando,<br> +Se affronta um predicado venerando.<br> +Alma não a tenho; odios ha alguns;<br> +Nada d'amor e meritos nenhuns.<br> +A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Mal comprehendendo a situação)</em></p> + +<p>Margarida! Que diz?!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Digo, senhor,<span class="pn">{45}</span><br> +A primeira verdade em minha vida;<br> +Digo que essa criança foi nascida<br> +Das nossas relações, e existe aqui,<br> +Em virtude do mal com que eu agi.<br> +É minha filha! e sua o é tambem,<br> +Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Attonito)</em></p> + +<p>É minha filha?! Mas então... então...<br> +O que se fez da minha sã razão?!...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a +ficar visivel o interior aos personagens)</em></p> + +<p>De ha muito anda perdida.</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para a criança)</em></p> + +<p> E aqui tem<br> +Os espinhos da estrada d'onde vem!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se um pouco)</em></p> + +<p>Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita?<br> +Sim! é ella! Mas, como se acredita<br> +Tudo isto?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p> Pela fórma com que obrei<br> +Em face d'esta nossa infame grei.</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Encolerisado e avançando para Margarida)</em></p> + +<p>Porém, com que direito me levou<br> +A proclamar um crime que tramou?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Humilde e avançando um pouco)</em></p> + +<p>Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê,<br> +Que nós obramos sem alma nem fé.<br> +Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá<br> +O que fiz? Foi apenas o que dá<br> +Esta vil creatura! Foi sómente<br> +A pratica d'um acto inconsciente!...<span class="pn">{46}</span></p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo)</em></p> + +<p>E que, talvez, por essa inconsciencia,<br> +Um porvir se consiga da innocencia...</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para o berço)</em></p> + +<p>Descança ella no leito que lhe dei,<br> +Embalada p'la dôr que alimentei.<br> +E nas minhas canções, mesmo chorando,<br> +A pouco e pouco irei sempre insuflando<br> +A redempção. Depois, quando mais tarde,<br> +Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde<br> +E d'esta virgindade faça alguem,<br> +Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se do berço)</em></p> + +<p>Vejam? Sonha decerto na ventura<br> +Que o acaso lhe trouxe, e na candura<br> +Do berço onde dormita! Berço pobre<br> +De brocados, mas rico, rico e nobre<br> +Do bem! Sonha decerto na esperança<br> +Com que se entrega á minha confiança:<br> +Sonha, quem sabe? na libertação<br> +Da cadeia que traz humilhação!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando e exclamando)</em></p> + +<p>Minha filha! Meu Deus! Grande verdade!<br> +É a isto que se chama honestidade?</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Continuando, emquanto Henrique fita a creança +succumbida)</em></p> + +<p>Vejam?! E era, era então este senhor,<br> +O grande, o grande espelho reflector<br> +Do meu crime?!</p> + +<p class="inst"><em>(Vendo que Henrique emudece)</em></p> + +<p> Ande? Diga? accuse e insulte,<br> +Para que todo o mundo veja e ausculte<br> +A farça attribuida! Vamos, falle?<br> +Porque emudece?</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando para a creança)</em></p> + +<p> Tem aqui o mal,<br> +E é ante elle que deve demonstrar<br> +O cynismo, a baixeza d'este lar,<br> +E tudo o mais que omitto, occulto e callo!<span class="pn">{47}</span></p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Timido e a custo)</em></p> + +<p>Fallar? Eu... eu... senhora?</p> + +<p class="inst"><em>(Com pausa)</em></p> + +<p> Sim, eu fallo...<br> +Eu vou fallar, consente?...</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Altiva)</em></p> + +<p> Porque não?!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p class="inst"><em>(Curvando-se humilde)</em></p> + +<p>Pois fallarei! <em>(pausa)</em> Perdão!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Cahindo de novo aos pés de Arminda)</em></p> + +<p> Perdão! Perdão!</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p>Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!</p> + +<p class="fala">Henrique</p> + +<p>Do remorso que assiste, e se antevê!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>P'la crença, de que abjuro e reneguei<br> +P'ra sempre o caminho em que me abysmei.</p> + +<p class="fala">Arminda</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando os olhos para o ceu)</em></p> + +<p>Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia,<br> +Venha a vossa infinita miser'cordia!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">CAHE O PANO</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim do segundo +acto</p> + +<p><span class="pn">{48}</span><span class="pn"><br> +{49}</span><br> +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>EPILOGO</h1> + +<p class="desc_acto">A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, +encontra-se sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e +completamente succumbida.</p> + +<h2>SCENA PRIMEIRA</h2> + +<p class="fala">Margarida <em>(só)</em></p> + +<p>Eu a chorar! e lagrimas ardentes<br> +Deslisando nas faces reviventes<br> +De vergonha! Deus na alma! e ao coração<br> +Amor! Ao meu espir'to a reflexão!<br> +Na consciencia a revolta e o remorso<br> +Em que já me debato e me contorso!</p> + +<p> </p> + +<p>O que é? que póde ser? A reacção<br> +Convulsionando o corpo, e a razão<br> +Subjugando-me, por demais vencida!<br> +O que é? <em>(Pausa)</em><br> + É a verdade, Margarida!</p> + +<p> </p> + +<p>Verdade?! E quem responde? Quem me falla?<br> +É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala<br> +Esta mulher aos dons da Natureza?<br> +Sim. Porque se nasceu para a baixeza,<br> +Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto<br> +E pequei, pois agora mesmo eu sinto<br> +Que para o mal o mundo me não doou.<br> +Nem Deus para a baixeza me creou!<br> +Deus, amando, só cria para amar,<br> +E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,<span class="pn">{50}</span><br> +Apenas a sonhar, sim, porque alguem<br> +Sepultou do meu sonho todo o bem!<br> +Eu nasci para amar, e amei; amei<br> +Quanto pude ante a bôa e pura lei<br> +Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava,<br> +Disse-me um dia que isso não passava<br> +De um mytho, e foi-se andando na procura<br> +D'aquillo que á pobreza salva a agrura;<br> +Foi-se andando na busca de riqueza,<br> +Porque eu era pobre, e isso se despreza!<br> +E é então, é então que o meu amor<br> +Se arrebata nas garras do impudor;<br> +É então, que me afundo nas camadas<br> +Que alimentam as tristes depravadas!<br> +Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,<br> +Que por causa de amor tão puro e santo.<br> +Busquei embriagar-me n'esta orgia,<br> +Para que o grande Deus a ninguem cria!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><i>(Pausa)</i></p> + +<p>Eu a chorar!... e lagrimas ardentes<br> +Deslisando nas faces reviventes<br> +De vergonha! Porque? E que fiz eu?<br> +Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;<br> +Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,<br> +E nada, nada pela inconsciencia.<br> +E porque alguem, alguem me aniquilou,<br> +Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!</p> + +<p> </p> + +<p class="inst"><i>(Pausa)</i></p> + +<p>Eu a chorar! e lagrimas ardentes,<br> +Velando os olhos bem reminiscentes<br> +Do que vi!...</p> + +<p> </p> + +<p> E que vi eu?... A mulher,<br> +A mulher como ella é e deve ser.<br> +Vi-a altiva e com toda a magestade<br> +Destruindo o insulto á sombra da verdade!<br> +Vi-a repudiando com nobreza<br> +Os feitos da maldade e da torpeza!<br> +Vi-a... vi-a tomando nos seus braços<br> +O fructo que proveio de devassos!<br> +Vi-a, evocando graças divinaes<br> +N'uma orchestra de sons tão maternaes<br> +P'rá criança que a minha embriaguez<br> +Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!<span class="pn">{51}</span><br> +E como tudo ainda fosse pouco,<br> +Em paga d'um agir mau, vil e louco,<br> +Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!<br> +Pedir que me enviasses lá dos céus<br> +O perdão!</p> + +<p> </p> + +<p> Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...<br> +Fiz... o que faz mulher desnaturada!</p> + +<p class="inst"><em>(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)</em></p> + +<h2>SCENA SEGUNDA</h2> + +<h3>M<small>ARGARIDA E</small> F<small>ERNANDO</small></h3> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Entrando pelo fundo)</em></p> + +<p>Ora até que emfim, linda Margarida!?<br> +Por onde tem andado tão perdida?</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e +quasi de indignação)</em></p> + +<p>Ah!...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Avançando e continuando)</em></p> + +<p> Por onde se tem tornado preza<br> +E errante a sua graça e gentileza?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Dissimulando a tristeza)</em></p> + +<p>Em parte alguma, creia...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p> Não parece...<br> +E olhe que o promettido não se esquece.<br> +Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Chorar? Eu?! Eu?!</p> + +<p class="inst"><em>(Á parte, limpando os olhos)</em></p> + +<p> Oh! sim! não se enganou!<br> +<em>(alto)</em> Chorar? Eu?! Não!<span class="pn">{52}</span></p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p> Mas, seus olhos vermelhos,<br> +São de tal flagrantissimos espelhos!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Dissimulando)</em></p> + +<p>Nada isso diz, embora lhe pareça;<br> +Effeitos só de dôres de cabeça<br> +Que ha dias me apoquentam...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p> E que, espero,<br> +Melhorem ante o meu voto sincero,<br> +E não impeçam minha estada aqui,<br> +Já que de novo me honra, e me sorri<br> +O convite, tornando-se occupado<br> +O logar que me disse ter vagado.</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(N'um rapido estremecimento)</em></p> + +<p>O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Com estranheza)</em></p> + +<p>Duvída? Mas que grande exquisitice<br> +Representa essa duvida!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Porque?!...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Tirando do bolso um cartão)</em></p> + +<p>Em face do bilhete onde se lê<br> +O seu pedido, e ainda mesmo, quando<br> +Claramente dizendo e bem frizando<br> +</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se de uma porta latteral)</em></p> + +<p>Certas palavras, junto d'esta porta;<br> +A não ser que, que seja letra morta<br> +O que me affirmou!<span class="pn">{53}</span></p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Com repulsão)</em></p> + +<p> Não! Não me recorda?!</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p>Veremos, n'esse caso, se, se aborda<br> +A phrase muito nitida ao ouvido,<br> +Para que ella jámais tenha esquecido.</p> + +<p> </p> + +<p>Foi aqui, veja, foi n'este logar<br> +Que, apontando-me altiva e sem pezar,</p> + +<p class="inst"><em>(Olhando para o interior d'um quarto)</em></p> + +<p>Certa vaga que ali dentro existia,<br> +Perguntou o que lá se achava e via.</p> + +<p> </p> + +<p>Respondi... o que ainda vejo:<br> + Um leito.</p> + +<p class="inst"><em>(Malicioso)</em></p> + +<p>E por signal que estava bem desfeito,<br> +Em contraste com toda a compostura<br> +Que ora se nota. Então, é n'esta altura<br> +Que assim exclama:<br> + «Está ao seu dispôr».</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Lembra-me com effeito! <em>(Á parte)</em></p> + +<p> Mas que horror!<br> +</p> + +<p class="inst"><em>(Alto e approximando-se de Fernando)</em></p> + +<p>É verdade! E a verdade diz, Fernando!<br> +Mas foi um dito mau, dito execrando!<br> +Dito que não devia proclamar</p> + +<p class="inst"><em>(Com desespero)</em></p> + +<p>E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Surprehendido)</em></p> + +<p>Porém, nada percebo, e muito menos<br> +Com taes palavras, cujo modo e acenos<br> +São expostos em termo áspero e rude.</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Apontando o leito)</em></p> + +<p>Aquella vaga, occupa-a hoje a <em>Virtude</em>.<span +class="pn">{54}</span></p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Estupefacto)</em></p> + +<p>Como assim?! Isso é dito com ironia?!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Fallo com consciencia e ufania<br> +De a possuir!</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p> Verdade?! Isso é verdade?!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Digo-lh'o com a mor sinceridade.<br> +O leito que em orgias se desfez,<br> +Hoje... sómente cobre a honradez!</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)</em></p> + +<p>Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo,<br> +Espero que me explique por miudo<br> +O que em vida de gran desfaçatez<br> +Se entende por virtude ou honradez.</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)</em></p> + +<p>Será um sacrifício, mas, emfim,<br> +Cumprirei seu desejo.</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Rindo)</em></p> + +<p> E quanto a mim,<br> +Agradeço a irrisoria explicação,<br> +Que ouvirei com a maxima attenção.</p> + +<p> </p> + +<p>Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Com amargura)</em></p> + +<p>Sabel-o no passado, eu nunca pude,<br> +Mas no presente, d'ella tenho a fé!<br> +Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...<span class="pn">{55}</span></p> + +<p class="inst"><em>(Com certo desprezo)</em></p> + +<p>É... o que o senhor nunca comprehendeu!...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Cada vez mais surprehendido)</em></p> + +<p>Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca<br> +Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca<br> +Do vicio a mulher que disse amar,<br> +A virtude não sabe interpretar.</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p>Allude então...<br> +</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Atalhando)</em></p> + +<p> Á minha triste historia<br> +Muito bem reflectida na memoria!<br> +</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p>Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto... </p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto<br> +Volte a offuscar-me as faces de vergonha,<br> +Rememoro o que em epocha risonha<br> +D'uma vida serviu para o transporte<br> +Da reles existencia e fraca sorte.</p> + +<p> </p> + +<p>Creança, inda bem nova, inexp'riente,<br> +Senti n'alma o que sente toda a gente.<br> +Despertando p'ra quadra d'um amor:<br> +E a pouco extasiada n'esse alvôr,<br> +Deixei que me prendessem sympathias<br> +Que vibravam n'um canto de harmonia:<br> +Tudo então me sorria e tudo amava!<br> +A graciosa manhã que despontava<br> +No melodico trio de avesinhas,<br> +O sol que vivifica as floresinhas,<br> +O declinar da tarde, as noites bellas,<br> +Da lua o brilho, a graça das estrellas,<span class="pn">{56}</span><br> +O conchego, a familia, o trabalho,<br> +A paz, tranquilidade e o agasalho,<br> +A invocação, a biblia e a reza;<br> +Eu amava, emfim, toda a natureza,<br> +Pelo proprio amor da juventude,<br> +A vibrar como cordas de alaúde<br> +N'um peito que se alava para o bem!<br> +Mas de subito, meu Deus! esse alguem<br> +Que me elevara aos paramos do amor;<br> +Quem me ajudara a crel-o no primôr<br> +Da verdade, e guiava o norte meu,<br> +Que devia subir até ao ceu...<br> +Corta, derruba, as azas d'este alar,<br> +E obriga-me a cahir, faz-me tombar<br> +No grande turbilhão da tempestade,<br> +Na hecatombe e na mór fatalidade!<br> +E tudo, tudo então quanto eu amava,<br> +Breve se convertia e se trocava<br> +Pela renegação, pela baixeza,<br> +Deixando já d'amar a Natureza,<br> +Para me filiar em quê? Em quê?<br> +Nas hostes dos que nunca teem fé!</p> + +<p> </p> + +<p>E tombei! E cahi! <em>(chorando).</em><br> + Sim, sim, tombei!<br> +Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!</p> + +<p class="inst"><em>(A Fernando)</em></p> + +<p>Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono<br> +Que me precipitou n'aquelle somno,<br> +Cuja lethargia obra o desvario<br> +N'um corpo molestado e doentio,<br> +Em proveito de todo o esquecimento<br> +Do que de bem havia em sentimento!</p> + +<p> </p> + +<p>Pois se eu amava tanto, e d'esse amor<br> +Em si depositei e puz, senhor,<br> +A esperança ditosa de meus dias,<br> +Sem que se me opposessem phantasias;<br> +Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida,<br> +Para que tornar tão desvanecida<br> +A fraqueza da minha confiança?...</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Pretendendo desculpar-se)</em></p> + +<p>Porque eu... porque eu tambem era creança...</p> + +<p class="inst"><em>(Levanta-se)</em><span class="pn">{57}</span><br> +</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p>Não! Não! Diga que foi a sêde e fome<br> +De usufruir, e após, pensar que o nome<br> +Humilhava, e jámais lhe serviria<br> +P'ra linda sugestão que me incutia;<br> +Diga: foi o que muita gente faz,<br> +Captivando, prendendo em fórma audaz<br> +O debil ser, a fragil creatura,<br> +Que ora subjugada ante a noite escura<br> +Do vosso infame e vil, e vil narcotico,<br> +Obedece depois ao espasmodico<br> +Furôr de saciar as intenções<br> +Com que se roubam fracos corações.<br> +Não é isto?</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Perturbado)</em></p> + +<p> Mas...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando-se)</em></p> + +<p> Mas... senhor Fernando<br> +Queira explicar-me agora quando, quando<br> +Foi por si concebida a qualidade<br> +Virtuosa, por entre a sociedade?!</p> + +<p class="fala">Fernando</p> + +<p class="inst"><em>(Succumbido)</em></p> + +<p>Actualmente á face da razão...<br> +Que decerto ditou a reacção<br> +Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus<br> +Do mundo!</p> + +<p class="inst"><em>(Pausa e estendendo a mão a Margarida)</em></p> + +<p> Margarida... adeus!...</p> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Apertando a mão de Fernando)</em></p> + +<p> Adeus...</p> + +<p class="inst"><em>(Fernando sae)</em><span class="pn">{58}</span><br> +</p> + +<h2>SCENA FINAL</h2> + +<p class="fala">Margarida</p> + +<p class="inst"><em>(Só, depois d'um momento de silencio e de olhar toda a +sala)</em></p> + +<p>E nada, nada mais d'esse passado<br> +Que abomino!</p> + +<p class="inst"><em>(Levantando os olhos para o ceu)</em></p> + +<p> Deus! Meu Deus!<br> + Obrigado!</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">CAHE O +PANNO</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">Fim da peça</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Nuvem, by Luiz Couceiro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM *** + +***** This file should be named 34964-h.htm or 34964-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34964/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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