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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:58 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Flirts + +Author: Henrique de Vasconcellos + +Release Date: January 26, 2011 [EBook #35073] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLIRTS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +*Notas de transcrição:* + +O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1905. + +Foi mantida a grafia usada na edição original de 1905, tendo sido +corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura +do texto, e que por isso não foram assinalados. + + + + + +HENRIQUE DE VASCONCELLOS + +FLIRTS + +(CONTOS) + +LISBOA +Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores +_132, Rua Aurea, 138_ + +1905 + + + + + +FLIRTS + + + +HENRIQUE DE VASCONCELLOS + +FLIRTS + + +LISBOA +Ferreira & Oliveira, Lda.--Editores +_132, Rua do Ouro, 138_ + +1905 + + + +DE HENRIQUE DE VASCONCELLOS + + _PRIMEIRAS POESIAS, EM QUATRO VOLUMES:_ + + FLORES CINZENTAS (exgotado) + OS ESOTERICOS (exgotado) + A HARPA DE VANADIO + AMÔR PERFEITO (exgotado) + + _PROSA:_ + + A MENTIRA VITAL, um volume. + CONTOS NOVOS, um volume. + + + + L'art et la science sont independants. La morale ne doit avoir + aucune prise sur eux; jamais l'artiste, avant de faire une statue, + jamais le philosophe avant de faire une loi, ne doivent se demander + si cette statue sera utile aux m½urs, si cette loi portera les + hommes à la vertu. L'artiste n'a pour but que de produire le beau, + le savant n'a pour but que de trouver le vrai. Les changer en + predicateurs, c'est les detruire. Il n'y a plus de science ni art + dès que l'art et la science devienent des instruments de pedagogie + et de gouvernement. + + H. TAINE. + + * * * * * + +A ESCOLA DE FLIRT + + AO CONDE DE FIGUEIRÓ + + + + +A ESCOLA DE FLIRT + + O PROFESSOR.--Sem edade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que + envelheceu, ou mocidade que dura _quand même_, «je meurs où je + m'attache». Toda a pelle do rosto é sulcada por imperceptiveis rugas + finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda + brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha + para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que + adivinhou. + + Elegante, uma ponta de preciosismo,--muito pouco!--apenas presentida + na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as + d'uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais ás festas mundanas + do que aos museus, leu mais jornaes do que livros. + + A DISCIPULA.--Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando + tudo. Vestida um pouco _à la diable_, seria positivamente _fagotée_ + sem a elegancia do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e + dos labios côr de rosa. + + A discipula vae procurar o professor da Escola de Flirt, + discretamente annunciada por meio de circulares em papel lilaz com + dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É n'um + minusculo jardim seculo XVIII portuguez, com um delgado repuxo a + partir-se n'um pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por + buxeiros. No centro d'um, uma anagua forma uma copa verde-clara de + onde pendem as campanulas brancas que perfumam. + + +O PROFESSOR--É v. ex.ª que... + +A DISCIPULA--Sim, senhor... Venho aqui tomar algumas lições. Fiz a minha +educação no convento; não tive occasião de aprender os rendimentos +do Flirt. Casei sem amor, sem noivado, sem lua de mel... Um casamento de +conveniencia... para o meu tutor. Escusou de prestar contas. Vim ha +pouco para Lisboa. Aqui, toda a gente flirtea um pouco. Troçam do meu +acanhamento, chamam-me Pires, até Possidonia, dizem que sou «old style», +do tempo da rainha Anna... Recommendaram-me esta escola. Se não ensinam +aqui as cortezias, dança, diversas maneiras de trazer as _mouches_, como +no tempo de Moliére, mostram-nos como se conduz um flirt com a pericia +com que o Jeronymo Condeixa guiava _four-in-hands_. + +O PROFESSOR--V. ex.ª é intelligente? + +A DISCIPULA--(_Modestamente_)--Sou. + +O PROFESSOR--Formosa, vejo que é. (_A discipula agradece_) Gosta de +toilettes? + +A DISCIPULA--_Fagotée_ durante a minha interminavel mocidade--vinte +annos na provincia!--não possuo a complicada arte da _fanfreluche_. + +O PROFESSOR--Mas tem tendencias? + +A DISCIPULA--Enormes! Passo horas ao espelho a compor o meu pobre +cabello, a pôr uma fita... + +O PROFESSOR--Mais tout ça c'est l'affaire de la femme de chambre! + +A DISCIPULA--(_Indignada_) Entregar-me a mãos mercenarias?! + +O PROFESSOR--Mas minha senhora! Deve v. ex.ª fazer... permitta-me a +expressão--as proprias meias? Passar as noites em compridos serões a +alinhavar os corpetes com essas mãos que adivinho lindas sob a pellica +da luva? (_A discipula agradece._) Com certeza que não. Bem o vejo nos +seus olhos que são, deixe-me dizer-lhe, d'um brilho incomparavel. (_A +discipula torna a agradecer._) Todos esses cuidados pertencem aos +fornecedores. É por acaso a propria rosa que póda a roseira? Não! Ha +jardineiros de mãos calosas e almas rudimentares que preparam a eclosão +das orgulhosas flores que são o pasmo e o encantamento dos jardins. Ha +creaturas que se dobram dias inteiros sobre sedas e rendas, pensando em +cosinhadas e roes de roupa suja, e constroem fantasticas teias em que +nos vamos prender, as deliciosas toilettes dos Redfern e dos Rouff... +Porque se não deixa preparar por ellas? Ha cabelleireiras habeis que +ageitam deliciosos penteados. Seja paciente, consinta que ellas a penteiem. + +A DISCIPULA--É absolutamente preciso? Não poderei prescindir? + +O PROFESSOR--Absolutamente... absolutamente... não... A formosura de v. +ex.ª suppre muito... tudo... Mas é util. + +A DISCIPULA--Bem... E depois? + +O PROFESSOR--Sabe conversar? + +A DISCIPULA--Meu Deus! No convento, no que conversavamos mais era nas +Irmãs... para dizer mal d'ellas. + +O PROFESSOR--Dizer mal... é bom... mas de quando em quando... Senão +cae-se nas soirées do _Sporting_.--Lê? + +A DISCIPULA--O _Diario Illustrado_, todas as manhãs... + +O PROFESSOR--É pouco. Bourget--fala do coração. É um bom tema. Tudo o +que se disser é verdadeiro e falso, de fórma que uma opinião é voltada +do avesso com a maior facilidade. Falla de mulheres, _toilettes_ e +almas, pezares e córtes _tailleurs_, amores e rendas de corpetes...--uma +_macedoine_ que, para a conversação, tem o encanto da variedade. + +A DISCIPULA--Tenho o Larousse. + +O PROFESSOR--Bah! O Larousse é muito comprido. Não se pode falar em +sociedade, como se não deve falar no diabo e em outras coisas do uso +diario. Outro: Theuriet--é sentimental, cheio de lamurias; no campo, um +chorão, n'uma sala, um piano. É optimo para as noites de luar, na praia, +emquanto se faz a digestão. + +A DISCIPULA--Uma pastilha de Vichy em trezentas paginas. + +O PROFESSOR--Pouco mais ou menos. É um filho de Lamartine... Olhe, este +é preciso cital-o... ás vezes... a troçar... Depois, todos os +_vient-de-paraitre_. O _Figaro_ assignala-os. A proposito: são +muitos. Leia dez paginas no começo, vinte no meio e as tres ultimas. +Terá assim um verniz literario... completo. + +A DISCIPULA--Tenho entendido. + +O PROFESSOR--Mas isto é longo. Prefere entrar? Quer a primeira lição +aqui ou na aula? Aqui? + +A DISCIPULA--Sim. Acho melhor. Sob as arvores, junto ás flores, a ouvir +o murmurio dolente da agua que corre. + +O PROFESSOR--É poetica? + +A DISCIPULA--Quasi, ás vezes. + +O PROFESSOR--Não fica mal um pouco de poesia... Falar do mar e do +estremecimento da lua sobre as aguas inquietas, comparar-se á agua +movediça e infiel... Emfim são coisas para mais tarde. Vamos aos +preliminares. Ah! Antes de mais nada: o nome de v. ex.ª? + +A DISCIPULA--Carmo... Maria do Carmo. As minhas amigas chamam-me +a Carminho. + +O PROFESSOR--Um nome lindo... + +A DISCIPULA--Não se presta a madrigaes. + +O PROFESSOR--Um nome sabendo a flores silvestres... + +A DISCIPULA--Pires... + +O PROFESSOR--(_Vae tomando calor_)--Pelo contrario. Um nome que se +desfaz na boca como um _fondant_, nome para murmurar nas horas +perturbantes, nome que finalisa n'um franzir de labios, como para um +beijo... Delicioso! + +A DISCIPULA--Muito obrigada. + +O PROFESSOR--Bem. Bem. Passemos á lição. (_Toma um falso ar amavel, faz +brilhar na boca um sorriso, retorce o bigode loiro_). + +A DISCIPULA--Ouvil-o-hei com toda a attenção. + +O PROFESSOR--(_Agradece com um gesto largo._) _Flirt_ é uma palavra +ingleza que deriva do francez. Já tem fóros de portugueza: Garrett +empregou-a. É como uma batalha de flores entre duas pessoas de diferente +sexo. + +A DISCIPULA--Com os espinhos? + +O PROFESSOR--Conforme: ha varias especies de flirt. Ha um em que as +rosas são quasi todas guardadas por numerosos regimentos de espinhos: é +o flirt agressivo, feito de recriminações. Ha quem lhe encontre encanto. +Pff! Não lh'o aconselho. É bom para velhas de sessenta annos com os +_vieux beaux_ que foram seus namoros. Ha o flirt sentimental, aquelle a +quem me referi ha pouco, com _clair-de-lune_ e regatos prateados, o +flirt com Theuriet e Alfred de Musset dos proverbios, um assucareiro em +que caiu agua e vae entornando calda que pinga e lambusa. Horrivel! Mas +tem os seus adoradores, misses _sur le retour_, tias, meninas da Baixa +espremidas nos espartilhos de baleia e aço--crosta d'um peixe que a +ichtyologia ignora; é muito usado lá para os lados excentricos da +Estefania. Ha--tome toda a attenção, pois é o que convem ao seu +genero de belleza... + +A DISCIPULA--V. Ex.ª confunde-me... + +O PROFESSOR--O que ha de mais sincero!... Ha um genero, o meu +predilecto... (_Ageita-se no banco, torna a retorcer o bigode, olha +amorosamente para as unhas rosadas_). É o flirt perfumado e finissimo, o +fumo das cassoletas com perfumes leves, como se queimassem flores, +petalas tremulas d'anemonas... + +A DISCIPULA--Como V. Ex.ª é eloquente! + +O PROFESSOR (_Baboso_)--É V. Ex.ª que me inspira! + +A DISCIPULA--Os seus olhos sublinham com tal calor as frases! + +O PROFESSOR--Um pouco de luz que vem dos seus!... Um reflexo do seu +admiravel olhar! É por isso que falo assim. (_Approxima-se d'ella_). É o +flirt em que o coração apenas perfuma... O que tem de bom uma flor? A +propria materia? Não, que essa é unica, a mesma na couve lombarda e no +lyrio. É o perfume e a côr. Do coração, tambem, só devemos permutar o +perfume. Ora imagine: entregar um coração cheio de sangue, a palpitar +como um peixe quando acaba de ser pescado! + +A DISCIPULA--Até mete medo! + +O PROFESSOR--Tem razão. Até mete medo. V. Ex.ª tem sempre razão. + +A DISCIPULA--Muito obrigada. + +O PROFESSOR--As pessoas formosas--e V. Ex.ª é divinamente +formosa--teem sempre razão. + +A DISCIPULA--V. Ex.ª é muito lisonjeiro. + +O PROFESSOR--A lisonja é o aroma da verdade. V. Ex.ª merece tudo. + +A DISCIPULA--V. Ex.ª é extraordinariamente amavel. + +O PROFESSOR--Podesse eu ser amavel para que todas as senhoras bonitas me +amassem! + +A DISCIPULA--Todas? + +O PROFESSOR--Quando digo todas... V. Ex.ª comprehende que me refiro a +uma só. + +A DISCIPULA--Feliz aquella... + +O PROFESSOR--Acha feliz? + +A DISCIPULA--Deve sentir o peito em festa... + +O PROFESSOR--Oh minha senhora! + +A DISCIPULA--Lembrar-me-hei de si. Nas noites infindaveis, quando me +sento ao piano e os meus dedos correm sem fito sobre o teclado... + +O PROFESSOR--Como nardos que andassem... + +A DISCIPULA--Como póde dizer isso, se nunca as viu? + +O PROFESSOR--Adivinho-as. Mas gostaria de as vêr (_Toma-lhe a mão_). +Estas luvas são de Paris? + +A DISCIPULA--Não senhor: são dos Gatos. + +O PROFESSOR--(_Um pouco desapontado_). Não importa. As mãos são lindas. +(_Vae desabotoando uma das luvas_). + +A DISCIPULA--(_Consentindo_). O que faz? + +O PROFESSOR--Estes botões são feios. Mas a pelle é finissima. + +A DISCIPULA--A da luva? + +O PROFESSOR--Não, a da mão. + +A DISCIPULA--Agradecida. + +O PROFESSOR--(_Curva mais a cabeça approximando-se mais, assim, da mão_). + +A DISCIPULA--(_Sem a retirar_). O que faz? + +O PROFESSOR--Nada, minha senhora... ia vêr melhor o grão da pelle. + +A DISCIPULA--(_Ligeiramente desapontada_). Ah! julguei... + +O PROFESSOR--Oh minha senhora! Pensar tal a meu respeito! Não sabe que o +flirt é o amor sem desejo, a sombra do Amor? Eu não podia dar-lhe um +beijo! + + * * * * * + + + + +FLIRTS + + A ANTONIO BANDEIRA + + +FLIRTS + + Maria do Carmo, curvada sobre a meza, folheia os ultimos _envois_ de + Paquin e Redfern. Um candieiro com um largo quebra-luz de seda e + rendas lança-lhe sobre o cabello uma aureola de oiro. O corpo está + mergulhado na penumbra. Na sala, os moveis tomam aspectos + fantasticos. Os espelhos teem um brilho pallido. Gonçalo, ao entrar, + beija a mão que Maria do Carmo lhe estende, sem levantar os olhos + dos papeis. + + MARIA DO CARMO--trinta annos, com dez de casamento. Sem filhos. A + vida passa-se-lhe em visitas, _raouts_, recéções e bailes. Alguns + livros da moda, recommendados por Marcel Ballot, no _Figaro_, e Jean + Lorrain, por curiosidade. Interessante como um enigma, ás vezes + perversa. Não se lhe conhece um amante, mas indicam-se muitos. Não + toca piano. + + GONÇALO--não tem uma branca, mas no meio da animação, ficticia, + vê-se um grande cançaço de viver, como se tivesse experimentado + tudo. Procura por toda a parte, como um _gourmet_, o manjar fino. + Epicurista, delicadamente depravado, como um _roué_ da Restauração, + ou um elegante do fim da republica romana. + + +--Ainda bem que veiu!... Preciso do seu bom conselho... + +--Como sempre, depois de ter feito alguma tolice?... + +--Impertinente! + +--É sempre assim. Pede-me o conselho depois de não precisar d'elle! De +resto, dá na mesma: ninguem segue conselhos. + +--Não. Tenho aqui estes dois albuns. De Paquin... De Redfern... São as +ultimas creações. Estou tentada a escolher quasi tudo e a não escolher +nenhum... Quer acreditar que tenho dias vazios na minha vida? Dias sem +vontade, d'uma grande lassidão, em que nem sequer tenho forças para +fingir que sorrío!... + +--Ame um pouco... + +--É coisa que se encommende? Acordo um dia, com a resolução de amar. É +logo. O primeiro que me apparece na Avenida, aquelle que melhor dorme em +S. Carlos, o caixeiro que me vende as fitas no Martins! Vê-se bem que +nunca amou! + +--Não amei! Mas eu não _sou_, eu _amo_. É a minha maneira de existir. Um +nasce cego; nasci amoroso... + +--Calle-se! Diga lá, qual d'estes vestidos prefere? + +--Sabe que é muito difficil escolher um vestido pelos desenhos feitos +_d'après_ os manequins? O mesmo vestido toma aspectos differentes +conforme as pessoas... + +--Não faça filosofia. Olhe este de Paquin: ligeiro, todo em rendas, em +coisas leves, parece feito com flôres; o Redfern é mais hieratico; mesmo +nos vestidos de baile conserva a _raideur_ dos córtes _tailleur_. São +vestidos para a Bouro, que parece ameaçar-nos constantemente com a sua +corôa de marqueza. Este? + +--Não lhe irá bem, talvez... O talhe da saia engrossa a sua figura, a +que não vão bem... + +--O senhor treslê... Tudo me vae bem... Deixe lá os figurinos... Não +sabe nada de vestidos... É como do coração. Aconselha-me a que ame... + +--E dou-lhe um bom conselho. Nem parece que sou seu amigo. + +--Trouxe hoje a alma de cinico? + +--Era a que tinha mais á mão. Estava ao cimo da gaveta... + +--Continuo a dizer: não percebe nada dos negocios do coração... + +--Não ha negocios do coração. O coração dá-se... + +--Não; troca-se... + +--Para quê? Não é preciso, no amor, ser-se correspondido. Basta amar. É +possivel que para a felicidade seja necessaria a permuta... + +--O amor é o choque... + +--Muitas vezes o cheque. + +--Que _jeu de mots_ tão velho! É o choque de duas almas. É preciso que +girem bem, no encontro. São duas electricidades que se combinam. Conhece +a theoria das duas metades da maçã? + +--Conheço: é uma figura de rétorica... + +--Não é. Andam duas creaturas por esse mundo, ignorando o seu futuro, +achando a vida sem rasão, idiota... + +--Escolhe uma mentira vital, como diz Ibsen. Conheço-lhe o _charabia_... + +--Deixe-me acabar. Corre mundos, faz tolices, fecha-se dias em casa, até +vae ao circo ver as focas... E nada! Um dia, sem saber como nem porquê, +uns olhos encontram-se com os seus, numa multidão. Ha a faisca... Pode +ser um santo ou um bandido, lindo como o Rubempré, estupido como um +tenor, candidato á grilheta ou futil como um janota. Fica-se presa; +somos d'elle para toda a vida, ficamos amarradas a elle, como uma +sombra... É assim o Amor, é feito de imprevistos... Não tem rasão alguma +de ser, mas é. + +--Uma coisa fatal? Tem que ser? + +--Sim. + +--Permite-me que discorde? + +--É teimoso. + +--Sou. Já viu alguma discussão dar resultado? O amor é sempre creado por +nós. Não amamos senão a pessoa que queremos amar. É, como tudo, um acto +voluntario. Ha escolha. Vemos uma mulher, vinte, trinta vezes, sem nos +fazer impressão alguma. Um dia ella repara em nós. Se é bonita, +elegante, calça no Chapelle e veste na Lippman, pelo menos, a nossa +vaidade sente-se satisfeita e começamos a descobrir-lhe encantos, a +crear alguns, a afeiçoal-a ao nosso geito. Ao conversar com ella, pomos +intensão nas frases ôcas que diz, vemos mysterio no seu sorriso... +Estamos presos.--Um bello dia, porém, por qualquer motivo, torna-se util +acabar com o pesadello da mulher que aparece em toda a parte: sae das +brasas do fogão, a que nos aquecemos, da pagina que lemos, do fumo do +cigarro, do papel em branco em que vamos escrever ao nosso procurador. +Repara-se um pouco nella. Descobre-se o primeiro defeito. Exageramol-o +para o grotesco. E da deusa perfeita tambem as flores e fica uma caração +que faz rir. + +--Uma theoria... + +--Não é, creia. Acontece-me isso duas ou tres vezes por anno. Sabe que +ando sempre com uma paixoneta... ou mais. Levo oito dias a fazel-as cair +do peito. + +--E vive feliz? + +--Inteiramente feliz. Saber contentar-se não é a suprema sabedoria? Para +que se inventou o _flirt?_ + +--O _flirt?_ Que horrivel coisa? É a «sombra chineza» do Amor... + +--É melhor. É o perfume. Os delicados contentam-se. É preciso comer uma +flor? Não, basta respirar-lhe o aroma. Ora essas conversas, meio +sentimentaes, a um canto, ditas em voz baixa, sublinhadas pelos olhos +que toda a alma illumina, são como o roçar de azas que fossem flores. Ha +o ligeiro premir dos dedos, sob os leques, certos tremores de labios, +como se os beijos n'elles esvoaçassem, uma concentração de todo o +ser, que parece boiar no ether, leve... As phrases não se arrastam, n'um +espasmo. Teem palpitações, lançam-se n'uma curva larga, até desapparecer +em estrella. Não conhece o _flirt_. Todo o ser é livre e vae +entregar-se, rendido... Cada palavra toma um sentido misterioso... +Vou-lhe contar um _flirt_... Estava na Suissa. + +--Internacional? + +--Cosmopolita. N'um d'esses cantos, que ultimamente o Cook estraga, na +Engadine. Paisagem de gelo, hotel de gente podre... + +--De chic? + +--De chic. Conheci uma americana, deliciosa como um fructo acre, que +vivia fora da _coterie swell_. O americano vae-se tornando terrivelmente +_rasta_. Trinta annos? Talvez... Mas trinta annos frescos, sem rugas, +viuva depois de dois mezes de escasso matrimonio com um formidavel +_brasseur d'affaires_ de New-York, cerebro em ebulição permanente que +acabou n'uma neurasthenia aguda. Iamos passear sós, pelo gelo. +Sentavamo-nos nos pontos de vista que o B½deker não indica, paisagens +tristes de tanta brancura, sem uma mancha. Fugiamos dos _five-ó-clock_, +das _parties_ bulhentas em complicada companhia. Comecei a amal-a. +Tinhamos lido os mesmos livros, sobre elles fallavamos: gostavamos das +mesmas musicas, d'esse Schumann cheio de côr, dolente e envenenado; +preferiamos aos flamengos gordurosos e aos hespanhoes sombrios, o +delicado misterio dos Vinci, a graça fina e brilhante de Raphael. + +A fallar de quadros e de romances, as nossas almas tocavam-se, porque um +sentido novo brilhava em cada palavra; e parecia que cada frase +terminava n'um beijo. Ás vezes, levemente, as nossas mãos tocavam-se. +Era rapido e delicioso. D'esse contacto ficava uma lembrança, como d'um +perfume. Amor platonico? Não. Um _flirt_. Sem arroubamentos. Sempre a +Alma livre, sempre o beijo a tremer na bocca, sem cair... Uma ou outra +vez, comprehende, por esquecimento... + +--Comprehendo. Sem malicia... + +--Essa mulher tinha realisado todo o meu sonho! De resto acontece-me +isto muitas vezes. O sonho varía com as mulheres que nos interessam. Mas +essa parecia realisar tudo. No seu corpo ambiguo, de egipcia, parecia +conservar-se, como um fructo no gelo, uma adolescencia eterna. As suas +mãos finas, pesadas de tantos anneis em que Vever pozera todo o seu +genio estranho, floriam gestos d'uma caricia delicada e terna. A sua +alma, que parecia ter visto tudo, ainda sentia a vida com frescura. As +horas que passei junto d'ella! O perfume, uma mistura sabia +d'Houbigants, então _dernier bateau_, perturbava... Longe d'ella, não +pensava n'outra coisa. Recordava-me dos gestos, os pequenos detalhes +da _toilette_ e da conversa, um rosar de pelle sob as rendas, uma +palavra, um _grain de beauté_, que tinha na nuca. Sabe como acabou? Ella +propoz-me casar. Fechei-me no quarto, horrorisado. Casar, eu? Uma mulher +que me julgava capaz d'isso! Era preciso abater esse amor orgulhoso, que +crescia no meu peito. Que defeito tinha ella? A principio não vi +nenhum... Fui procurando. Tinha, ás vezes, quando fallavamos em francez, +erros de grammatica deliciosos. Comecei a achar ridiculo essa +ignorancia. D'ahi passou para os vestidos, para o corpo, o peito chato, +sem ancas... Tudo caiu. Essa mulher pareceu-me horrorosa... Comecei a +troçar d'ella, do seu _bas-bleuismo_... Por fim ella resolveu partir. +Lembro-me perfeitamente. O gerente do hotel levou-lhe um enorme ramo de +_bluets_, os raros amigos tambem lhe levaram flôres. Todo o carro estava +cheio de flôres. Sentou-se entre ellas, afagava-as, cortára algumas para +cheirar. Chorára. Ainda me deitou um molho, que tinha beijado. O carro +partiu, como se fosse um açafate. E a sua face branca era como uma flôr +triste... Não tive pena. O amor já caira. A gente ou gosta ou não gosta, +conforme quer.--Vamos fazer um _flirt_ para experimentar? + + * * * * * + + + + +LOGICA + + A ANTONIO DA COSTA CABRAL (THOMAR) + + +LOGICA + + N'um _garden-party_. Emquanto no _tennis_ se cruzam as palavras + inglezas, e no kiosque, d'onde caem chuveiros de glicinias, se + discutem mãos de _bridge_, afastados, junto a um roseiral, Joanna, + Maria e Miguel veem jogar. + + JOANNA--Toda a face branca é illuminada por dois largos olhos + negros. Casada ha dois annos com um _sportsman enragé_, que prefere + o cabo de uma _raquette_, o leme d'um _outrigger_, o _guidon_ d'um + automovel, á mais terna caricia da mulher. Usando e abusando do + flirt, um em cada dia, ás vezes dois, tem periodos de fidelidade: + quando quer torturar alguem. Provoca-o, chama-o, fal-o entontecer + com promessas. Quando o vê absolutamente rendido, foge, para pensar + n'outra coisa, ou em coisa alguma. Não vae ao fim de nada. Desenha, + mas nunca terminou um esboço; toca piano, mas deixa sempre o trecho + de musica suspenso a meio d'um compasso. Tem medo de acabar. É uma + natureza hesitante. + + MIGUEL--Nada intellectual. Um bom animal intelligente. Tem viajado. + Mas prefere o _steeple-chase_ de Auteuil a uma _première_ no + Vaudeville. Admira a força. É um leal. Dá o seu coração sem + reservas. É, actualmente, o flirt fixo de Joanna. + + MARIA--Vão-lhe falhando os admiradores. Os cabellos brancos não lhe + ficam bem. Não sente muito a falta, nem se irrita com a felicidade + alheia. Natureza simpatica, hoje rara. + + +MARIA--... Encontrou o Cerqueira a passear d'um lado para o outro, no +terraço do Hotel, a balbuciar phrases, os olhos fechados, um livro na +mão.--Que estás tu a fazer?--Tenho hoje de fazer uma declaração á +Clotilde. Estou a estudar aqui no Bourget duas phrases tezas!... + +(_Joanna e Miguel riem-se, mas deixam cair a conversa_). + +MARIA--A Clotilde merecia-o. Quando se começaram a usar os _flous_, para +que é preciso _postiches_, ella tinha escrupulos e explicava:--«Sei lá +se o cabello pertenceu a alguma creatura damnada! E hei-de pôr na minha +cabeça uma coisa de alguem que hoje está a arder nas profundas dos +infernos!» O que acham vocês? + +(_Joanna e Miguel tornam a rir-se, sem responder_). + +MARIA--Já comprehendo. Vocês querem ficar sós... (_levanta-se_). + +JOANNA (_sem convicção_)--Não. Deixa-te estar... + +MIGUEL (_a mesma coisa_)--Pelo amor de Deus!... + +(_Maria afasta-se, voltando ainda a cabeça para sorrir-lhes_). + +MIGUEL (a _principio, parece hesitar, por fim decide-se_)--Afinal, o que +quer de mim, ao certo? + +JOANNA--Eu? + +MIGUEL--Sim. O que quer de mim? + +JOANNA--Não comprehendo... + +MIGUEL--É bem facil!... + +JOANNA--Quer chamar-me estupida? Ha de concordar que é pouco amavel!... + +MIGUEL--Não desvie a conversa. Sabe que mesmo que o pensasse não lh'o +diria... + +JOANNA--Então pensa-o? + +MIGUEL--Não o penso; sabe isso muito bem. + +JOANNA--Uff! Respiro... Não poderia entrar na Academia, se fizesse tal +conceito da minha intelectualidade... Não é assim que se diz, nos meios +_très dernier bateau_? + +MIGUEL--Oh! por mim!... + +JOANNA--É o seu ambiente, o meio cosmopolita; é inseparavel dos +diplomatas, delicia-se no Tyrol e em Roma... + +MIGUEL--Quer outra vez mudar a conversa. Não é verdade? + +JOANNA--Confesso-lhe que sim... Não percebo o que quer!... + +MIGUEL--Repito-lhe: é facil. O que quer de mim? + +JOANNA--Olhe: dê-me d'ali a minha sombrinha... N'este momento é a unica +coisa que quero de si. + +(_Miguel traz-lhe a sombrinha vermelha, que ella abre. A luz parece +incendiar-lhe o chapeu branco, e toda a face branca_). + +MIGUEL--Fallemos a serio, um pouco... + +JOANNA--Já me viu brincar? Na minha edade!... + +MIGUEL--Fishing for compliments? + +JOANNA--Será, se quizer... Oiço-lh'os tão poucas vezes! + +MIGUEL--Queria passar a vida, como um d'esses pagens antigos, sentado a +seus pés a cantar-lhe endeixas. Mas o seu sorriso paralisa, na minha +bocca, o amor que vae a sair. + +JOANNA--É o que o Cerqueira chamava uma phrase tesa! + +MIGUEL--Porque troça de mim? Porque faz de mim seu joguete? Eu andava +feliz e livre, sem mulher alguma que me preocupasse. Nunca andei tão +alegre. Vivia a minha vida, livremente. Todas as mulheres bonitas me +pareciam eguaes. Joanna começou a chamar-me, a dizer-me phrases que me +prendiam, que me entonteciam. Tinha olhares para mim tão cheios de +promessas, que corri como um esfomeado, diante d'uma mão que se lhe +estende, carregada de vitualhas. E junto de si senti-me perturbado. +Foram para mim as palavras mais carinhosas, aquellas que tinham um +sentido ambiguo, banal para os estranhos, para mim precioso e comovido. +Parecia um flirt terno. Subitamente, tudo mudou. Parece escolher tudo o +que possa desagradar para dizer-me. É o flirt agressivo, em que d'uma +das partes não ha amor, ou o quer esconder. E a conversa é toda feita de +botes de florete, que muitas vezes arranham e podem até matar o amor. + +JOANNA--Tout passe, tout casse, tout lasse... Porque não ha de ser assim +o Amôr?... + +MIGUEL--Mas deixe-o acabar por si, como uma flôr n'um jardim +deserto, que se desfolha aos poucos... + +JOANNA--Para apodrecer?... + +MIGUEL--Ó não, não apodrece. Evapora-se como uma essencia e deixa um +perfume suave--uma recordação... + +JOANNA--Outra phrase tesa. Está terrivel! + +MIGUEL--Faça-me a justiça de pensar que não a li... + +JOANNA--Não. Ouviu-a em alguma peça... Você diz-me que não lê nada... + +MIGUEL--Leio o _Seculo_, todas as manhãs. + +JOANNA--Não acredito... + +MIGUEL--Palavra! Por causa das cotações da bolsa. Tenho uns dinheiros +nos fundos russos... Mas não sobem... Ando infeliz em tudo: no jogo e +nos amores. + +JOANNA--Nos amores? Diz isso a mim? Você é muito ingrato, Miguel! + +MIGUEL--Continua a brincar comigo! + +JOANNA--Agora é occasião de eu tambem fallar a serio. E faço-lhe a mesma +pergunta que me fez ha pouco:--O que quer de mim? + +MIGUEL--(_não atina com a resposta_) Eu? + +JOANNA--Sim. O que quer? Tem um flirt comigo... É o meu preferido... + +MIGUEL--Diga antes favorito, como se tratasse d'um cavallo de corridas. + +JOANNA--É o meu favorito, seja. Gosta de mim? Muito. É o que ia a dizer, +com alguma rétorica. Não gosto eu de si? Não me ponho pelos cantos a +fallar comsigo, a sós? Não estou aqui a apanhar sol, só por sua causa, +para poder estar comsigo, em liberdade, sem ter ninguem que nos oiça? +Não vou á Avenida todas as tardes para o vêr? Não olho para si sempre no +theatro? Não lhe digo os dias em que vou _shopping_ pelo Chiado? Para +quê? Para estarmos juntos! Então que quer? Quer casar comigo? Mas sou +casada e felizmente não ha o divorcio entre nós. + +MIGUEL (_tristemente_)--Felizmente? + +JOANNA--Sim! Felizmente. Primeiro, é contra a religião; depois, escusa a +gente de se arrepender varias vezes de ter casado. Assim arrepende-se +uma só. Não pode casar commigo. Então o que quer? + +(_Miguel olha-a estupefacto. Não encontra resposta. A expressão de +Joanna é equivoca. Miguel não sabe se falla ingenuamente, se quer +mystifical-o. Cala-se_). + +JOANNA--Então bem vê que não tem razão para se queixar de mim! + +MIGUEL (_Tem o ar de quem apanhou de surpresa uma grande pancada. +Olha para Joanna, para si, para os outros. Pensa que o desfrutam. +Acodem-lhe á boca frases energicas. Levanta-se, ageita o fraque e +despede-se_).--Muito boa tarde! + + * * * * * + + + + +ROMANTICO + + AO CONDE DE ARNOSO + + +ROMANTICO + + +--Ajude-me a servir o chá, primo... + +Levantou-se. Na quasi obscuridade da sala, que tinha uma luz +violacea--coada pelos vitraes onde se curvam lirios roxos--Clara parecia +nascer dos tapetes, como uma graciosa e alta flôr de espuma. «Toilette» +branca e ligeira, como pennas de ave, toda em musselinas, apenas +indicando a elegancia do seu corpo fino, ia morrer no tapete branco... + +Ia por entre os moveis, offerecendo as chavenas onde fumegava o chá +perfumado, que da China trazem lentas caravanas, por tortuosos caminhos. +O seu corpo agil descrevia carinhosas curvas. O ruido das conversas +continuava... Um «flirt» a um canto murmurava, como se as palavras +ficassem nos labios. Paulo, de grupo em grupo, uma chavena na mão, +contente por ser alguma coisa, junto d'ella, tinha na bôcca um sorriso +beato. + +N'aquella tarde nem conversava. Entravam e saiam as visitas, umas +apressadas,--«apenas para saber de ti, Clara»--outras morosas, dando +«rendez-vous» no salão elegante e discreto, onde na meia luz quasi se +não conheciam as pessoas, podia-se estar sem ser visto. E Paulo, calado, +n'um fauteuil a um canto, sorria para si proprio, olhando a figura +indecisa de Clara, os cabellos loiros, na sala como enevoada onde apenas +o fogão, por baixo do para-feu, tinha um brilho vermelho. + +Lembrava-se de todo o comprido caminho percorrido desde aquella noite em +Cascaes, em que o impressionara a graciosidade de Clara, o seu aspecto +de flôr fresca, sempre em «toilettes» leves, abundantes em gazas, +crepons tenues. Certamente que, companheiro e parente, admirára sempre a +belleza da prima, mas seguira outros caminhos, nunca reparára bem para o +enigma perturbante dos olhos verdes, para a elegancia moderna, feita de +graça, a gentil figurinha de Boldini, princeza de cera e de seda, cujas +mãos eram dignas de vêr florir entre os dedos os anneis mais preciosos +que Vever e Lalique inventam, em combinações de moribundas gemas. Nunca +olhára bem para ella com olhos de vêr. Habituára-se desde a puberdade a +vêl-a. E seus cubiçosos olhares procuravam outras mais distantes, que +julgava conhecer menos, pelo encanto do imprevisto. + +Mas essa noite! Como lhe apparecia ainda, depois de tantos mezes, +nitidamente, essa noite d'um ceu leitoso, com uma lua enevoada, que se +espalhava sobre o mar, sem brilho. Na varanda do Casino, quasi deserta, +os Auers incidiam fortemente sobre Clara. No mar, em baixo, fogachos +prateados tremiam. E além, as raras luzes da Cidadella; na Esplanada os +focos esverdeados tiravam da sombra manchas de palmeiras e listravam de +luz a agua inquieta, gemebunda e misteriosa. + +Paulo, recostado n'uma cadeira, olhava a mancha mais negra do yacht +real, apagado, apezar das suas lanternas que tremeluziam no mar. O +charuto caíra-lhe da boca. Foi uma frase preciosa de Clara que o acordou: + +--Quem me dirá um dia a cantilena do mar? Como ella embala! Como seria +bom dormir a ouvir junto de nós a suave cantilena! + +Paulo olhou para ella surprehendido. Pois quê? Clara, a ultima +florescencia dos _raouts_ e dos _teas_, teria phrases de heroina de +Rosseti, seria leitora de Ruskin? Foi então que reparou nos olhos cheios +de sonhos e de misterio, na bocca dolorosa, a vermelha e fina bocca, no +seu collo de infanta apenas nubil, em toda a adolescencia que se +conservava intacta no corpo precioso, como um fructo no gelo. + +Começou então a seguil-a. Dura lhe foi a vida em theatros, jantares e +bailes. Não faltava a uma _sauterie_, a uma _party_, que d'antes o +deixavam indifferente, ficando nas interminaveis partidas de _bluff_. A +dolorosa expressão que na bocca se vincára n'aquella noite do Casino +desapparecera; um grande contentamento da vida parecia boiar á flor dos +olhos garços e os movimentos rythmicos, que ella fazia, como se fosse ao +som d'uma musica, eram livres, felizes, sem promessas. + +Não voltar o abandono d'aquella noite! Paulo desejava que Clara outra +vez abrisse a sua alma, para elle sentir a caricia deliciosa. + +Mas a mulher amada conservava-se indifferente, risonha, um pouco +_coquette_. + +Para os seus madrigaes escolhidos, preparados com antecedencia, buscados +em livros de auctores novos, phrases perturbantes de Lorrain, perfumados +disticos de Henri de Regnier, licenciosas palavras de Lionel des Rieux, +com um sabor antigo, até o proprio d'Annunzio servira para a +pilhagem,--para todos esses periodos carinhosos ella tinha o mesmo riso, +que abria a bocca fina, descórada, que o traço de carmim violentaria a +macerada pallidez da sua face: + +--Ah! Paulo! Ah! Paulo! Apaixonado por mim! Tenho-lhe conhecido tantas +paixões? Só na semana passada, tres! + +--Se não penso senão em si! + +--Quando está commigo? Nem isso! + +--Clara! Clara! Se me conhecesse bem, veria como a minha alma se fez +para si um fresco bordão de assucenas... + +E outro riso claro cantava na bocca exangue, a troçar da phrase +pretenciosa. + +Uma tarde, n'um _garden party_, emquanto no _court_ de _tennis_ as +palavras inglezas crusavam-se e os jogadores corriam, a _raquette_ no +ar, elles um pouco afastados, juntos a um macisso de jasmineiros que +floria, cobrindo-se d'uma renda fina e branca de pequeninos jasmins, +Paulo, esquecendo-se das phrases decoradas nos romances, deixou sair da +bocca, livremente, toda a força e toda a anciedade do amor que parecia +abrir-lhe uma chaga no peito, teve palavras em que fulgiam desejos, os +olhos brilhavam, enternecidos, agarrou-lhe nas mãos, encheu de beijos as +palmas roseas, puxou-a para si, e pôde dar-lhe, de surpresa, um grande +beijo na bocca, soffrego, que Clara não pôde evitar. + +Voltada a si do pasmo, espantada pelo insolito atrevimento que a sua +ligeira _coquetterie_ não permitira, quiz zangar-se; mas voltou a +rir-se, como se esse beijo, que lhe deixara na boca um calor de chama, +tivesse sido apenas uma phrase, das grandes phrases de Annunzio, tão +cheias de volupia que entontecem, como os largos calices das magnolias +n'um pequeno jardim fechado. E sempre a sentir na bocca a impressão +ardente d'esse beijo, Clara correu para o _tennis_, a querer jogar +tambem para esquecer-se. + +Era d'esse beijo que Paulo vivia, tomado de assalto, como n'uma pilhagem +de egreja. + +E, apesar de Clara continuar a ser indifferente e risonha para elle, +lembrava-se da perturbação que levára á alma ligeira da preciosa +bonequinha de Nuremberg; olhos abertos, continuava a sonhar que esmagava +os labios exangues sobre a pressão da sua bocca ávida. + +Paulo era um romantico. Paulo vivia de pouco, como as aves do ceu. + + * * * * * + + + + +A BISANTINA + + A LUIZ FERREIRA DE CASTRO + + +A Bisantina + + +No café, diante do _cocktail_ vulgar, eu esperava um amigo. Fôra mais +cedo para a entrevista, de maneira que antes da hora lêra os jornaes, +folheára as revistas, olhára para o relogio, consultára até o barometro, +interessado. Iam saindo os clientes, aos poucos. Conforme se levantavam +das mezas, o criado, n'um _crac_ apagava a lampada electrica. Eu ficára +já, n'um canto, quasi na meia luz. No fundo da sala as lampadas +faiscavam nos espelhos, telintavam os pratos, as discussões cruzavam-se. + +Esperava em vão... Comecei a ceiar. + +D'ahi a pouco um rapaz veiu sentar-se ao pé de mim. Conhecia-o de o vêr +nos cafés nocturnos, quasi sempre em companhia de mulheres faceis, +estardalhando, contando façanhas de orgias nas _vadrouilles_ de +Montmartre; de quando em quando, como n'uma expansão, falava de um +quadro que entrevira n'um museu, alguma luminosa festa da +Renascença, um nú veneziano, ou preciosas figurinhas dos primitivos, +simples e mal desenhadas, entre brocados de oiro. + +Mas nunca me ligára, correndo a minha vida n'outra direcção. N'essa +noite, admirei-me de elle deixar a bulhenta sociedade que _sabrait le +champagne_, para se acolher ao silencio, á quasi obscuridade. + +A principio bebeu a pequenos goles o Bucellas que mandou buscar. Tinha o +ar de quem hesita em praticar um acto, o recolhimento subito d'um gesto +esboçado, ensimesmava-se, enchia novamente o copo, lia attentamente o +rotulo da garrafa. + +Por fim debruçou-se para a minha meza: + +--O senhor gosta de coisas exoticas, das mulheres finamente perversas, +do brilho das podridões... + +--Ó, não! Apenas do _faisandé_!... + +--É uma questão de palavras... Tudo o que é ambiguo, perturbante, +insexual, tenta-o; compraz-se no esmiuçamento das taras, é o chronista +do irregular, do _à coté_. Prefere as monstruosas orchideas ás rosas, o +enigma dos Vincis, á belleza forte dos Rubens. Deixa-me contar-lhe uma +historia? + +Por certo que a minha phisionomia traiu o receio da maçada eminente. +Toda a gente imagina que a sua vida é um «motivo» interessante para +um livro. E eu tenho deixado cair, como folhas secas, tantos casos que +me contam, compridamente, com meandros de detalhes! + +--O senhor tem o dever de me ouvir e não se arrependerá! O senhor é um +psicologo... + +--Não faço profissão... + +--Não importa. Tem obrigação. + +--N'esse caso... + +Resignei-me. + +O noctambulo começou a contar. Tinha a linguagem pittoresca, imageada, +parecia comprazer-se com a sua phrase. Notei-lhe grande copia de +estrangeirismos. Mas o caso pareceu-me interessante. Aqui o deixo +registado. + +--Comprehende que eu, _fetard_ cançado, que tenho visto museus entre +duas ceias no Maxim ou no Carlton, que aprecio mais o _tea-room_ do +Grand Hotel, de Roma, que o _Salon Carré_ do Louvre ou a sala de +Velasquez, no Prado, só lhe poderei fallar da mulher ou do amor. E das +mulheres que tenho conhecido, um pouco por todo o mundo, d'aquellas que +teem ficado com um pouco da minha mocidade entre os dentes brancos ou os +dedos esguios, só me recordo da ultima, que é a melhor e a peior, a que +faz rir e soluçar, curva-nos n'uma somnolencia em que nos apparece muito +mais bella do que é realmente, cingida com todas as joias com que a +nossa phantasia a enfeita, mais cruel tambem, porque o amor torna mais +cruciante as dores, intensifica o desespero, cria a halucinação da +Magua, inventa a Chiméra da turtura, essa Chimera de afiadas garras que +nos retalham... Estou muito eloquente. Faça-me signal, quando lhe +parecer Cicero... + +Imagine que conheci, n'uma pequena cidade italiana onde me fôra curar +d'uma paixoneta recente, uma creatura singular, cujo encanto me prendeu +quasi de subito. Era uma figura de bisantina, atavismo talvez, +influencia das pinturas de Ravenna, onde passára a mocidade. E, artista, +cultivava essa feição, arranjava penteados hieraticos, sem complicadas e +rutilantes gemas, que o cofre do pae, mediscatro qualquer, não era +abundante, mas com flores, essas rosas vermelhas de Pæstum, que ella +propria cultivava, amorosamente, no pequeno jardim de sua casa. O que +tinha de bisantina realmente, era a bocca fresca, a bocca innocente que +sorria apenas, n'uma candura de primeira commungante, uma bocca que +deixava em nós a impressão de que era um seraphim a sorrir. E não +apetecia beijal-a: apenas quedar-se a gente deante d'ella á espera que +nascesse a claridade auroral do sorriso, em que mostrava levemente o +traço branco dos pequeninos dentes. Mas os olhos escuros desmentiam toda +a infantilidade da bocca, o aspecto angelical do seu corpo magro +d'adolescente, o collo branco e purissimo. Os olhos brilhavam como +n'um assalto, a ferir, sem ternura, no fundo uma repulsão ou um +escarneo... + +Essa mulher tentou-me. Largos mezes fui todos os dias á sua casa onde me +recebeu com palavras dulcissimas. Estendia-me a mão deliciosa para +beijar, dizia-me frases que entonteciam como um vinho aspero, fazia +passar por mim o perfume forte que punha nos longos cabellos, que ás +vezes caíam pesadamente da cabeça, estendiam-se pelas costas, como uma +rosa que se desfolha, d'uma vez, da haste. Ás vezes furtivamente, +apertava-me a mão com força. E sorria-se ingenuamente a face de perola, +eu via a innocencia de toda aquella figura, porque ella fechava os +olhos, como se todo o seu ser adormecesse n'um espasmo. + +Ao sair, tinha remorsos de não ter beijado a bocca fresquissima, de não +ter, sob a pressão dos meus labios, maguado os olhos maus. + +E toda a noite soluçava, enraivecido a desejal-a, até que de tarde ia +visital-a, encontrava-a estendida, n'uma atitude de imperatriz, +bisantina, em sedas _moirées_, toda a gama do verde e do lilaz, a +garganta descoberta. E n'um gesto estudado, estendia-me a mão, que eu +beijava longamente, essa mão em que as gemas não brilhavam: escuras, +opacas, pedras finas, opalas, como gottas de agua d'um lago envenenado. + +E a scena repetia-se. Eram perturbadores oaristos, que deixavam os +nervos tensos e vibrantes. Na voz amortecida e doce, dizia as +palavras magicas que accendem fogachos. E quando ella via toda a minha +Alma arremessada para ella, tinha o fechar de olhos, abria o sorriso +celeste, e eu fugia com medo de mim e com medo d'ella. Como? Uma creança +ingenua! Era preciso fugir! + +Um dia tive que partir. + +Tinha, na pequena cidade, perdido largos mezes. Fui a uma ultima +entrevista, chorei como uma creança ao dizer-lhe a magua immensa de a +deixar. Contei-lhe toda a tortura d'aquelle tempo de infinita delicia e +infinita tortura; pela primeira vez disse-lhe claramente, entre lagrimas +tristes, quanto amára todo o seu ser, todo o seu corpo flexivel, todo o +seu espirito cançado, mas mesmo assim brilhante. Que me dissesse uma +palavra de esperança, que me deixasse levar uma harmonia divina, uma +palavra de amor! + +Teve uma frase, apenas, com uma expressão de immenso sentimento: + +--E não trouxe um fonografo! + + * * * * * + + + + +MÁ-LINGUA + + A JOSÉ LEITE NOGUEIRA PINTO + + +MÁ-LINGUA + + +N'aquella mesa de _bluff_, era feroz a _debinage_... Apenas o Barros, +que ganhava com uma _veine_ espantosa, sorria beatificamente, cheio de +indulgencia, e para as arrojadas arremettidas dos parceiros, tinha +sempre a mesma phrase: + +--Mais caridade, meus senhores... + +Eram sempre occasiões em que o Leite mostrava «quatro cartas» ou «street +flesh.» + +O baile, na sala proxima, corria animado. As valsas, o pas-de-quatre e +as quadrilhas martelladas ao piano, tinham concorrencia. E uma ou outra +que fugia do calôr, para as salas de jogo, era apanhada na passagem, +amarfanhada, esmiuçavam-lhe a chronica, apimentada de notas ineditas, +calumnias talvez. + +--A Gracinda Fortes! + +O conde de Marvilla teve um sobresalto. Voltou-se para trás. A Gracinda +vinha com um vestido de tonkin cinzento que mostrava toda a graça +fragil do seu corpo magro. O conde commentou, eriçando mais o bigode +loiro, cortado á ingleza: + +--Um cabide para vestidos!... + +--Mais caridade!... + +--Ah, já sei: tem pelo menos um flesh na mão... Passo! + +Depois, olhando ainda a figura esbelta que sahia... + +--Mas ella não é uma mulher--é uma boneca de Nuremberg!... Vejam o andar +articulado, mechanico... Tudo aquillo se mexe por molas! E aquella +cabeça d'arara a dar a dar, como se estivesse presa ás espaduas por um +parafuso lasso? E depois, meus amigos, ella é toda postiça... O cabello +loiro pertenceu já a tres cabeças... É uma mulher feita de collaboração +por um cabelleireiro, um droguista e uma costureira. Tudo aquillo é +sustentado por baleias e faixas, senão desabava, de lasso... Imaginam +que o marido está arruinado por causa dos vestidos? Não: pelos +cosmeticos... Á quantidade de drogas que anda por aquella pelle é +inconcebivel. Já repararam em como se não decóta nunca, completamente, +que o collo é sempre coberto por uma gaze ou uma renda? É que a pelle, +estragada por uma pitiriasis qualquer, esfarella-se. Todas as manhãs a +creada de quarto tira-lhe kilos de farellos da cama. E já não pode com o +serviço de maquilhagem--tapar buracos, concertar rugas, +pés-de-gallinha, disfarçar sardas e signaes de variola--manda chamar um +trolha... + +--Seu amante? + +--Talvez... Para a rebocar. Para que ande, é preciso dar-lhe corda. Anda +sempre da mesma maneira, ás continencias, cabeça para cima e para baixo, +como um d'esses bonecos movidos por relojoarias. Imagina que aquillo é o +andar rythmico das parisienses, esse andar leve e airoso como o d'um +passaro... É parisiense, é: tambem são parisienses as macacas que nascem +no _Jardin des Plantes_... Ainda por cima, velha. Não tem frescura nem +mesmo nos olhos parados, conçados do espelho. A pelle despega-se da +carne e na cara faz papeiras em feitio de bambinellas. E toda aquella +pintura, ás chapadas, faz sombras, augmenta-lhe as papeiras... + +--Tens-lhe odio!... + +--Não, tenho olhos. Não é preciso mais. Por causa d'ella lá me fez você +um _bluff_ sem eu dar por isso...--Conheço-a muito. Veiu da provincia e +por ahi andou a mostrar ao Chiado e á Avenida as suas _toilettes_, como +um manequim de loja de modas em furor de reclame. Ninguem a recebia, +senão as casas em delirio de festas, onde a ida d'um conde, dos feitos +ultimamente ás canastradas, enche de jubilo os amaveis donos da casa, +como se diz nos jornaes. Mas a sua ambição era do podre-de-chic, e +não podendo suppôr-se com sangue azul--a mercearia do pae, ainda lá está +a falsificar--imaginava-se com o chá das cinco horas nas veias... Um chá +requentado como o espirito d'ella, estudado em velhos almanachs. + +Emquanto não entrou na sociedade, vestia-se seis vezes ao dia, e nos +intervallos injuriava o idiota do marido, essa bola de cebo com suissas +brancas, que, atolambado, não lhe respondia que não tinha culpa de não +convidarem uma amostra de cocotte do Maxim para casas de familias +honestas. E era uma vida dura, atroz, n'aquella casa, ella de mau humôr, +acre, dizendo horrores na voz impertinente, sem inflexões, monocorda, e +elle angustiado, sempre em calculos diabolicos para saldar as contas +monstruosas que lhe mandava o Goodefroy, dos cosmeticos e _postiches_ +com que se engalanava a mulher. + +A vida n'aquella casa! Vocês não calculam a expressão dura, injuriosa, +que se estampava n'aquella cara agora risonha, quando recolhia, á tarde, +cançada de fazer a Avenida, quasi sem um chapeu a comprimental-a, sem +meios para ter uma carruagem, olhando, gulosa, as pessoas chics que +passavam, sorrindo ás saudações. E na mesa de jantar, silenciosa, apenas +se ouvia o tilintar dos talheres e uma ou outra phrase grosseira ao +Fortes, que abanava a cabeça, todo elle se agachava, no receio, +talvez, d'um prato ou d'um copo arremessado na furia. + +Depois das refeições, separavam-se, elle para a rua tomar ar, fugindo da +perigosa visinhança, ella a arrastar-se nos quartos, a enfeitar-se de +joias, punha-as todas, enchia as mãos d'anneis, rodeava a garganta magra +com todos os collares, enchia os braços de pulseiras quasi até o +cotovello e via-se ao espelho estudando sorrisos, gestos de comprimento +para os grandes bailes a que havia de ser convidada um dia. + +--Para fallar d'esse modo é preciso ter sido _éconduit_... + +O conde córou, encolheu os hombros: + +--Ás vezes não se levantava da cama em dias de chuva em que se tornava +impossivel fazer a parada nas ruas, _troteuse_ á cata d'olhares: vestia +uma camisa de noite de que cahiam _valenciennes_ e cobria a cabeça com +pentes e travessas d'oiro com pedras finas, e as mãos floriam-se de toda +a collecção d'anneis. Era oiro por toda a parte, sem fallar nos dentes +em que se combinavam todos os metaes e todas as massas. Ouvi que se lhe +podia dirigir o epigramma de Marcial: Não te rias porque só tens tres +dentes e esses mesmos são de buxo. + +--Conheces tão intimamente? + +--Pela creada do quarto... Agora, saracoteia-se, esqueleto feito +manequim, arrebanhando os rapasolas inexperientes para _flirts_--ó +só _flirts_! não por virtude ou amor conjugal, mas porque a pitiriasis +não permitte o desnudamento--_flirts_ que acabavam logo que um mais +affoito fallasse em beijar a pelle perfumada. + +--Schiu! Lá vem ella! + +O conde olhou para a porta, por onde entrára, fina e flexivel como haste +florida, a Gracinda Fortes. A bocca pequena, que o cosmetico fazia +sangrar, abria-se n'um sorriso fresco, que mostrava os dentes brancos. E +de todo esse corpo magro exhalava-se, como um perfume que entontece, um +encanto perturbante. + +E seguiu-a com os olhos, commovidamente, até que desappareceu, como um +sonho... + + * * * * * + + + + +A RAINHA DE SABÁ + + A EUGENIO DE CASTRO + + +A RAINHA DE SABÁ + + +Balkis esperava. Entre as sumptuosidades do seu palacio de Mareb, a +Rainha vivia, solitaria, escondida, só com a sua belleza. + +Em vão os povos e os senhores, ouvindo fallar da immaculada formosura +accorriam dos remotos reinos onde a sua lei governava, Sabá, Mareb e +Yemen, e, defronte do palacio immenso e fechado, pediam para vêr a +deslumbrante adolescente. Em vão os sacerdotes quizeram vêr os olhos +puros. Ninguem o conseguiu. + +Apenas uma velha ama a vira nua, quando menina. Era como um lirio o seu +corpo. + +Sete aposentos eram os da Rainha. E cada uma das sete portas uma chave +d'oiro fechava. E no ultimo, a rainha vivia. Grandes espelhos de cobre +mandavam-se uns aos outros, como écos, a imagem quasi divina. E Balkis, +apenas vestida de joias, passava os dias na contemplação dos +intactos esplendores da sua adolescencia. + +Entravam pela janella que abria sobre o jardim fechado e callado, os +pavões brancos e os pavões polichromos. Aquelles formavam, estendendo as +caudas, pequenas luas macias; estes faziam fulgir constellações, doçuras +de velludos, coruscantes gemmas. E Balkis era mais branca do que os +pavões brancos, mais brilhavam as suas cinturas e manilhas pesadas do +que as caudas scintillantes. + +Nas noites escuras sahia ao jardim. Deixava cair entre as moitas de +flôres, a cintura, as manilhas, os anneis e o diadema. Soltavam-se-lhe +os cabellos d'oiro, que eram, no ar azul escuro, como um cometa pallido; +e nua, como uma flôr graciosa, dirigia-se para o tanque de marmore onde +adormecera a agua perfumada. Os seus pés, ao entrar no tanque, eram como +um raio de lua... + +Deitada no tanque, os braços abertos, as mãos á tona d'agua, como dois +lótos brancos, Balkis espreitava o ceu onde se movia o doirado +formigueiro d'astros. As estrellas vinham reproduzir-se na agua, como +molhadas flôres d'oiro, em indecisos contornos; uma lhe brincava no +seio, quasi á flôr d'agua. Era como uma joia a correr, com o movimento +do corpo. Ás vezes, n'um gesto mais largo, a gemma cahia, para outra vez +voltar, n'uma festa, a percorrer todo o corpo branco, que era, na +agua escura, polvilhado de brilhos, como um nenuphar enorme, em que se +agitassem grandes abelhas fulgentes. + +Depois, quieta, ouvindo sómente, de quando em quando, o ruido ligeiro +das flôres que tombavam, murchas, na areia discreta do jardim, os braços +a appoiar a cabeça, como um diadema feito de duas hastes d'açucenas, a +Rainha pensava. + +E esperava... + +Balkis esperava o noivo que havia de vir. + +De todas as partes, chamados pela fama da sua belleza, dos seus +thesouros ou dos seus exercitos, tinham acorrido os principes da Asia. +Poetas uns, avaros outros, na maior parte guerreiros, todos vinham em +cavalgadas surprehendentes, cobertos d'oiro e de joias. No seu throno +altissimo d'oiro e prata, invisivel, mas a todos vendo, a Rainha ouvia +as imagens aladas que fulgem e perfumam, a descripção dos poços +profundos, abarrotados de barras d'oiro, de vasos de cobre, de moedas de +todos os feitios, de pedrarias de todos os brilhos; diziam-lhe historias +compridas de cruentas façanhas, batalhas mortiferas em que as flechas e +as espadas, a bater contra os escudos, produziam chispas de incendio, +contra os corpos, rios de sangue. Os guerreiros, com o desejo de +augmentar os exercitos bellicosos, aprendiam uma eloquencia +calorosa. Eram os que mais fallavam, regosijando-se com a recordação das +chacinas. Mas a um signal da Rainha iam-se, despedidos, os poetas com as +lagrimas nos olhos, as cabeças curvadas, como sobre o peso das mithras, +os avaros e os guerreiros batendo com força, nos ladrilhos polichromos, +as sandalias ligeiras. + +E Balkis voltava para o recuado aposento do seu palacio populoso. Alli, +só, admirava nos espelhos a gracilidade do seu corpo esbelto e firme. +Deixava cahir sobre o corpo branco, como uma flôr inundada de sol, o +cabello loiro. + +Depois de admirar toda a sua belleza, Balkis dizia-se: + +--Aquelle que eu amar possuir-me-ha intacta, como uma flôr que vive no +meio d'uma floresta guardada pelos Medos. Ninguem lhe aspirou o perfume, +ninguem viu a côr deslumbrante, ninguem a maculou. N'esta terra cheia de +sol, em que as côres não brilham, ardem, e as cassoletas não perfumam, +estonteiam, eu sou branca, o sol nunca me viu. Entre os muros dourados +dos meus sete aposentos, a vida é quieta e facil! + +Balkis esperava. + +Os mezes passavam ligeiros. No jardim fechado, as rosas desabrochavam, +perfumavam e morriam. Outras vinham com egual brilho e egual frescura, +enormes rosas escarlates, como boccas em que os beijos deixam +feridas, do desejo intenso. Balkis conservava, no seu corpo nubil, +intactos, os esplendores d'uma adolescencia eterna. Untava-se com oleos, +alisava com pentes d'oiro os seus cabellos d'oiro. Vestia-se apenas com +joias, joia ella mesma. E nos seus olhos azues, largos e serenos, +brilhava a mocidade. + +Não a viam olhos humanos. Nenhum desejo maculou o seu corpo. + +E quando Salomão, filho de David, que no seu palacio de Jerusalem tinha +mais concubinas que de estrellas ha no ceu n'uma noite de lua, quando +Salomão a veiu buscar, ella entregou-se-lhe, pura, radiosa e immaculada, +como uma flôr crescida n'uma floresta insondavel, cujo perfume ninguem +aspirou. + +Virgens, guardae para o desconhecido Amado, o vosso corpo e a vossa +alma, como, se é verdade a lenda arabe, para Salomão, filho de David, +guardou Balkis, Rainha de Sabá! + + * * * * * + + + + +CHIARA LILIAM + + A VICENTE D'ARNOSO. + + +CHIARA LILIAM + + +Barcelona e o seu porto com incendiados espelhamentos de sol nas aguas +que se agitam em pequenas ondas, aguas-fortes de mastros a distancia, +toda a geometria do horizonte cinzento cortado pelos perfis dos vapores! +Ha dorsos vermelhos de navios, nodoas negras das barcaças de carvão, até +a florescencia d'um yacht que emerge entre a poeira negra da fumaraça, e +os fardos, e as pipas, como uma delgada flôr de prata... + +Para alem da cinta da docka, ao rez do mar, o ceu toma tons brancos que +se esbatem e degradam na ascenção, accentuando-se na cupula um azul +fino. E os vapores passam, pequeninos, carregados de vagas multidões +para Barcelonete. + +Para alem da formidavel estatua de Colombo, as Ramblas sacodem os ramos +verdes dos platanos e o Tibidabo recorta-se, escalvado. + +--É ámanhã o vapor para Mallorca, informam-me. + +Volto para traz, deixando o ruido dos guindastes e das sereias, a bulha +dos catraeiros e descarregadores, para entrar n'outro bulicio tão +grande, o zumbido dos milhares de boccas que cruzam a Rambla, as +campainhadas dos tranvias, a buzina dos automoveis, com gritos diversos, +pragas, pregões, injurias guturaes dos catalães furiosos. + +Sentira desejos de vêr Palma de Mallorca em que me fallára Teixeira +Gomes, as suas egrejas caladas, os seus palacios antigos. Por elle sabia +que a cidade conservára-se immovel, tipica, como no principio do seculo +XIX. E a sua conversa luminosa e pittoresca acirrara-me o desejo de +visitar uma terra que, na convulsa marcha do seculo industrial, +immobilisára-se nos seus antigos sonhos de pedra. + +Aborrecera-me já Barcelona, commercial, trabalhadora, respirando pelas +mil boccas das suas chaminés; parecia que a alma da cidade andava +triturada pelos poderosos engenhos das suas fabricas. Vira os seus +theatros, os seus museus, Santa Maria de la Mar perdida entre o casario; +mas em toda a parte o commercio abria ruas, estendia fazendas, +crusavam-se os _camions_. + +Ah! Salamanca parada e quieta, a morrer n'uma agonia d'oiro! As saudades +que tive da paz das suas ruas bordadas de egrejas e de palacios, das +cathedraes sumptuosas e desertas, das pequeninas parochias, onde se +descobrem ainda, atravez dos vandalismos, curvas d'arcos romanicos, +flores de capiteis graciosos; de Santo Esteban e o seu claustro que a +hera invadiu, do balneario, antigo claustro de convento e do Monterrey +maravilhoso, da Universidade quasi sem estudantes! + +Aborrecia-me Barcelona, toda entre arvores, Barcelona e o soturno +Monjuich com a lenda dos supplicios dos anarchistas. + +Ainda um dia! Era preciso depois de jantar subir á _Gran Via_ e ir ao +tumultuoso café ouvir a gritaria ensurdecedora, passear pelas Ramblas +entre uma multidão compacta que espairece, vêr as caras angustiosas dos +operarios, sempre na vespera d'uma revolta, e os pobres que nos +perseguem pela esmola, e as raparigas sujas, enrugadas, que se +offerecem, n'um chale rôto. + +Ao entrar no «Paseo de la Aduana» para esperar um tranvia que me levasse +ao Parque, vi passar n'uma carruagem, fresca, toda vestida de branco, +como um ramo de goivos brancos, Chiara Liliam, a cantora italiana que +mezes antes conhecera em Genebra, no Kursaal, e com quem passeára no +Leman, pelas tardes quietas de agosto e pelas noites de luar, ouvindo-a +cantar, não as operas transcendentes com que regalava os suissos e +inglezes, mas ligeiras canções napolitanas, que tomavam na sua bocca uma +voluptuosidade mais fina e adormeciam, envenenando-as, as nossas Almas. + +Ah! Chiara Liliam! As tardes limpidas e serenas em que vimos a paisagem +doce, fecunda, do cantão de Genebra, no vapor da carreira, alheiados das +inglezas de Cook, de dentes monumentaes e _canotiers_ ridiculos! E as +noites frias, em que deixavamos o Kursaal e os _petits chevaux_ e iamos, +costeando o caes illuminado, n'um pequeno bote que o ruivo barqueiro +conduzia serenamente, respirar a delicia do luar pastoso, que parecia +ter em si um pouco da neve do Monte Branco! + +Lord Carnehan, o seu amante, acompanhava-nos. A tristeza da sua face, de +todo o seu corpo cançado! Parecia ter sentido, aquelle rapaz de trinta +annos, todo o travo da vida, visto desfolhar-se, uma a uma, todas as +illusões, as ambições murchar, como quem assistisse ao incendio de todos +os seus haveres e dos proprios castellos no ar que a sua mente creára. + +Nem alcoolico, nem etheromano, abominando a morfina e a cocaina, tomando +uma leve taça de café, apenas, resignára-se na vida, «deixava-se +morrer», dizia. + +Andava com Chiara, porque era preciso ter uma amante, como uma _ecurie_, +um palacio em Londres, um castello na Escocia e uma villa na +Riviera, decorada por Burne Jones. + +Chiara Liliam era a sua vontade. Ia para onde ella quizesse, para fazer +alguma coisa e não ficar, no hall do Metropole Hotel, de olhos pasmados +para os decotes largos das _ladies_, que liam jornaes. + +Mas nenhum amor, nem mesmo sabia, talvez, se era macia a pelle da +cantora. E assim viviam, ella feliz pela liberdade, risonha como um +galho d'_eglantines_, elle, com uma razão de viver: acompanhar Chiara. + +Chiara, que viu o meu cumprimento, mandou-me subir para o trem. + +--Venha comigo ao parque... se não tem melhor... + +--Ia justamente para lá aborrecer-me... + +--Então venho a proposito... + +Perguntei-lhe por lord Carnehan. + +--Ó meu Deus! Lord Carnehan tornou-se para mim uma obsessão. Era como um +vidro negro que me punham nos olhos para eu vêr a vida. Nada me parecia +claro, luminoso, florido. Julgava olhar sempre para dentro d'um poço +secco. Essa creatura estragou-me alguns mezes de existencia. A principio +ainda eu ria, pelo movimento adquirido. Mais tarde, porém, o riso +desappareceu. Sempre aquelle somnolento homem que só abria a bocca para +perguntar pelas horas, como se tivesse pressa d'alguma coisa, elle +que não fazia nada, ou para dizer alguma sentença, um aphorismo de +Schopenhauer ou d'alguns dos fulminantes catholicos, á maneira +hespanhola, sombrios, repulsivos. Comecei a olhar para o espelho, a vêr +se sabia rir. Não sabia. Vinha uma careta ao contrahir a bocca; +parecia-me de pedra os labios, ao querer abril-os n'um sorriso. Quiz +mortifical-o, fazer com que, atraz de mim, os amorosos corressem; +empreguei, ante os seus olhos pardos, o requinte do coquetismo; mostrei +todo o artificio de mulher e de actriz. Nada. Sempre lord Carnehan +indifferente, a cabeça sobre o peito, as mãos pendidas, a perguntar-me +periodicamente:--Que horas são? De quando em quando, sem lhe dizer aonde +ia, deixava-o todo o dia; ás vezes, aborrecida, nem ia á rua. Ficava no +meu quarto, as lagrimas nos olhos, a vêr o movimento dos +_bateaux-mouches_ a atravessar o Leman; os raros automoveis que passavam +pela rua e alguns ranchos de forasteiros arregimentados pelas agencias. +Arrastava-se o tempo; defronte de mim, o lago que á esquerda se curva, +limpido, transparente. Na outra margem, o parque Jean Jacques, alinhado +e limpo, como um desenho do concurso. E era alli, á direita, a arvore +que dera sombra, na tarde criminosa, em que o anarchista matára a +Imperatriz Isabel. Pensava no fim tragico que ali procurara, sob um +pequeno platano viçoso, a alma aventureira e poetica, a dama de +todas as viagens, que vira tantos ceus ensolados e tantos mares em +procella... Quando voltava, de proposito despenteada, com muito rouge na +face, a fingir córada, lord Carnehan levantava com esforço os olhos para +mim e perguntava-me, na voz pausada, sem um estremecimento: + +--Que horas são? + +Eu era o relogio, para elle! N'essa terra fria, geometrica, regular no +andamento como uma machina--a alma de Genebra é um relogio--eu não era +nada mais do que um chronometro em que se tem confiança. Um dia, +furiosa, comprei um relogio e offereci-lh'o. Imagina que acabou a +historia? Não. Comecei a fazer-lhe scenas, a dizer-lhe improperios em +calão dos bairros infimos de Londres--uma artista conhece tudo e o +resto--phrases de marujo; elle ouvia, ouvia, e depois tirava o relogio +da algibeira e dizia-me: + +--Por força que este relogio atraza! Que horas são? + +Quiz matal-o. Uma noite entrei no seu quarto. A lamparina envolvia tudo +em penumbra. Até a dormir tinha o ar cançado. Levava uma mascara de +cloroformio... Conhece o conto de Lorrain sobre as mascaras de Londres? +foi n'elle que me inspirei... Ia para lh'a pôr na cara e acabar com +elle. Tropecei n'uma cadeira. Carnehan acordou sem sobresalto. Olhou +para mim: + +--O quê? já manhã? Que horas são? + +Não! Não era possivel! Pensei em atirar-me da janella abaixo. Não podia +mais com a vida. O diabo é que estragava o penteado! Resolvi fugir. Fiz +as malas, guardei joias e dinheiro, rompi a escriptura com o emprezario, +perguntei por minha vez que horas eram a Carnehan--a cara que elle +fez!--e metti-me n'um comboio e vim para a Hespanha, onde ha sol, ha +muito sol e não quero nunca saber que horas são!» + +A sua face parecia uma flôr de perola, e na bocca fortemente pintada um +sorriso brilhou... + + * * * * * + + + + +A MARCIA + + A SILVA GRAÇA. + + +A MARCIA + + +Aquella velha encarquilhada e ignobil que encontrei na estrada de +Cascaes, pelo crepusculo suave, tinha uma historia. + +Estava bebeda. A bocca onde dois unicos dentes se mostravam, careados, +no gargalhar, a bocca de beiços finos e roxos, sabendo a alcool e a +podridão, tinha gritado dores, tinha tambem beijado. + +Contou-me tudo, como n'um vomito. Caiu-lhe d'um jacto toda a sua +historia e toda a sua alma; e pareceu-me que o crepusculo que fazia de +perola o horizonte longiquo e trazia a calma á ligeira inquietação do +Mar, se enchia de gangrenas, extravasava lodo, manchava o Ceu purissimo +em que nem um farrapo de nuvem a esgarçar-se perturbava o estranho socego. + +No mar azulado, pairavam, sem velas, as faluas da pesca. Ao longe +esfumavam-se as montanhas que correm para o Espichel, mais +acentuadas na poeira de cinza e de perola do horisonte. A baixo da +estrada corre a fita d'oiro fosco do areal, que nas angras se alastra, +para desapparecer nos cachopos violaceos. É toda debruada d'oiro a larga +curva da Cidadella ao Hospital de Parede. As pequenas ondas, na tarde +quieta, vinham franjar de renda branca a seda do areal. + +Eu seguia do Estoril para Cascaes. Queria vêr ainda o mar, fixar em +imagens subtis a palpitação dos ultimos brilhos solares na agua, +conhecer como vivem e estremecem, sob a agua azul, as longas petalas de +luz multicôr e fina em que desabrocha o poente; diluir toda a minha alma +na Paz da tarde, que, por ser tamanha, dava a illusão de ser eterna. E a +velha não me deixava! Ia atraz de mim a gargalhar, desfiando, por entre +os labios resequidos, palavras desconexas, chamando-me a attenção. + +O velho trapo! Na cabeça calva a cuia á banda era grotesca. E no +movimento sacudido da embriaguez e do _delirium-tremens_, as vestes +esgarçadas pareciam agitar bandeirolas, saia de farrapos, corpo de lona. + +E não me deixava! Comigo cruzou a linha ferrea, parando para, as mãos +abertas sobre os olhos, espreitar se vinha algum comboio. + +Como sombra minha atravessou as ruellas de Cascaes, o passeio Maria +Pia. Passámos a _villa_ Arnoso e a _villa_ O'Neill. + +A noite caía do Ceu resignadamente. O mar escurecia. + +Por certo que o ar fresco da tarde diminuira a embriaguez, porque as +palavras formavam serie, embora as dissesse n'uma toada de cantilena. + +Sentei-me nos rochedos da Boca do Inferno. Ouvia-se o confuso lamento do +mar na cova onde se agachava uma sombra mais densa. + +A velha não podia suster mais tempo a sua historia. Sentou-se ao pé de +mim e contou-m'a. Ha pessoas que teem a alma pequena. As imagens +intensas e poderosas não podem viver lá dentro. É preciso que as deitem +para fóra. É por isso que os bebedos são em geral loquazes e +indiscretos. A capacidade psychica conservando-se a mesma e +engrandecendo-se as imagens pelo poder ampliatorio do vinho, elles +fallam, confessam-se, vão sós pela rua a dizer os seus segredos; foi por +isso que a velha me contou a historia, como a podia ter contado a um +poste do telegrafo ou a um pedregulho da praia. + +--Se me visse quando eu era nova! Ih! Ih! Não tinha esta cara, não, nem +só estes dois dentes--e um d'elles já abala! Era bonita! Era loira. +Tinha os olhos azues. Que elles agora, de chorar pelas desgraças e de +chorar com o vinho, já não teem côr. Olhe para elles, não tenha medo! + +Não tinham côr os olhos. Dentre as palpebras vermelhas e sem cilios eram +deslavados e estupidos. + +--E os meus cabellos louros e finos! Tenho só algumas mechas brancas, +porque começaram a cair aos punhados d'uma doença que tive. E fiquei +assim com a cabeça... E embranqueceram-se os que ficaram... + +Tirou a cuia. Metia nojo essa bola em que luziam chagas. Raras mechas de +cabello a enfeitavam. A velha tornou a rir-se, o mesmo ih! ih! +contrafeito em que abria a bocca putrida. + +--O meu corpo era lindo, delgado e forte. Os seios eram brancos e +firmes. Olhe como ficaram! + +Tirou, n'um sacão, da bluza encardida e rota, os seios murchos que +bambolearam como dois figos a desprender-se d'um galho. E depois contou, +atropellando as palavras, a querer acabar a historia, para se vêr livre +d'ella, como se se esquecesse, m'a transmitisse, com o encargo da sua +angustia, e podesse, sem esse pezo, caminhar mais ligeira, ferindo menos +os pés descalços nas pedras das estradas e nas silvas dos atalhos. + + +O pae era um pequeno lavrador, que vivia feliz entre as suas vinhas e os +seus milhos. + +Um dia casou com a mãe, uma pobre rapariga da cidade, que cozia a dias. +Louçã, fresca, de grandes olhos claros, gostava dos vestidos de seda, +dos brincos d'oiro e das rendas. Depois do primeiro anno, tiveram +Marcia, que poz no lar contente um ponto de luz. Em volta d'ella os +carinhos adejaram. E as mãos habeis da mãe cançaram-se a arranjar-lhe +touquinhas, camisinhas, pequenas coisas de linhos finos que iam á cidade +comprar. Parecia uma filha de gente rica, tão garrida andava. + +E linda, com o seu cabellito loiro e os olhos azues muito largos, sempre +abertos como a querer aprehender toda a vida, todo o mundo. + +Aos sete annos adoeceu gravemente. O medico ia duas e tres vezes a casa, +cada dia. E á noite, depois de vêr a pequena, ficava ali, emquanto o pae +somnoleava, a conversar com a mãe. O medico era novo, janota, tinha os +bigodes pretos retorcidos e dizia versos. A mãe caiu-lhe nos braços, uma +noite em que Marcia ficára livre de perigo. + +--O que eu vi! Vocemecê não acredita, mas vejo ainda! É como se +estivesse diante d'elles na minha caminha! Elles punham-se aos beijos e +aos abraços, pensando que eu dormia. Eu não dizia nada, nem sabia o que +era. O pae ficava fóra, a dormitar, na salla de meza. Uma noite elle +entrou e apanhou-os abraçados. Voltou sem fazer bulha para dentro. +Trouxe uma foice comsigo. E degolou-os ali, o medico primeiro, a +mãesinha depois. + +«Agarrou-o pelo cabello e foi como quem monda herva, só d'uma vez. E +atirou para o chão a cabeça, de que escorria sangue. A mãe nem pôde +gritar. Nem eu, que sentia um peso aqui, na garganta. Tambem degolou a +mãe e atirou para o chão com a cabeça. A mãe custou mais. Foi aos sacões +que a acabou. Depois poz as cabeças e os corpos fóra a pontapés. A +pontapés! E então? Parecia doido! E o quarto parecia-me todo vermelho, e +meu pae, e eu mesma sentia o sangue escorregar-me pelas mãos. E queria +limpal-as e não podia. Parecia que tinha as mãos atadas e sangue na +bocca! Depois, meu pae, que pensava que eu dormia, veiu lavar a casa, +muito devagar, para não fazer bulha. Depois chamou os creados. Então +todos choraram. Mas meu pae não chorou. Veiu para o pé de mim e passou +toda a noite a vêr ao candieiro se tinha sangue nas mãos. Chegava-se +muito á luz para vêr as unhas. Depois lavava as mãos e sentava-se, +punha-se a olhar muito para ellas, a esfregal-as, e ia laval-as mais! + +A velha calou-se por momentos. Depois proseguiu: + +--É tal e qual! Vejo como se fosse vocemecê! As barbas do pae, que eram +pretas, pareciam encarnadas. E tudo, tudo estava tingido de encarnado! + +«O pae foi preso, mas d'ahi a mezes saiu livre.» + +Olhou para mim, e com terror: + +--Parece que podia matar! + +«Fiquei em casa com a mulher que me servira d'ama e melhorei. Antes Deus +me tivesse matado, que não tinha soffrido tanto! Lembro-me de tudo! De +tudo! É por isso que bebo. Quando bebo muito, parece-me que os casos se +deram com outros; parecem coisas que me contaram. E bebo muito, bebo +sempre, mas nada me esquece, senão quando cáio na estrada a dormir!» + +E voltou á historia dolorosa da sua vida, sempre apressada, a querer +acabal-a quanto antes. + +Ficára com o pae, sombrio sempre, que lhe dizia palavras severas d'uma +moral cruel e sanguinaria. Foi crescendo sem alegria na casa de crime e +de amor. Um dia alguem a possuiu tambem. Sentiu os beijos que são +vermelhos como o sangue e como sangue embriagam, nas boccas amorosas. +Sentiu os abraços que apertam como uma cadeia de flores venenosas. Não +me disse o nome do amante, não me deu uma unica indicação. Tratava-o por +«alguem», sem odio. + +Um dia sentiu que uma vida estranha se agitava dentro d'ella; confusa e +alarmada, disse-o ao amante. + +--«Nunca mais appareceu. Escrevia-lhe, mas as minhas cartas ficavam sem +resposta. Até que soube que «alguem» tinha abalado da terra.» + +Referiu-me com terror os mezes angustiosos que passou a querer esconder +o seu «peccado», como ella dizia. Eram sobresaltos continuos. Não o +queria confessar a ninguem, não queria confidentes. Mesmo na quaresma +fingiu-se doente e não foi á desobriga. Até do padre tinha medo, não +fosse elle dizel-o ao pae. Este não via nada, absorvido sempre, +ensimesmado, como quem tinha dentro de si imagens sufficientes para não +recorrer ao mundo exterior. Vivia do passado, enlisado na noite vermelha +em que matára os amantes que se beijavam. + +Uma noite, no quarto escuro, onde não se atreveu a acender um candieiro, +o filho nasceu entre estertores, ralos que Marcia mordia, para não +despertar ninguem, para que ninguem suspeitasse do seu segredo. E n'essa +noite, emquanto as dores do parto lhe rasgavam todas as fibras, +estorciam todos os nervos e punham-lhe nos olhos a figura da morte +horrivel, outras imagens se levantavam, nitidas, deante d'ella: o pae +com a foice, os amantes que se abraçavam, e as cabeças decepadas a rolar +no chão, com esguichos de sangue. O quarto era todo vermelho, outra vez, +apezar da noite escura. E Marcia rasgava com os dentes os lençoes, +mordia os travesseiros, e o linho tinha um gosto a sangue dos +proprios labios, mas dos _outros_, pensava. + +O filho nasceu, n'um vagido. Marcia beijou-o, para o calar. Apezar de se +sentir desmaiar, pegou n'elle amorosamente e embalou-o. Mas outro gemido +saiu da massa informe. Parecia-lhe que era estridente, enchia todo o +quarto, acordaria, talvez, a villa, como os sinos quando tocam, +anciosos, a rebate. + +As suas mãos magras apertaram a garganta do pequenino ser. Nem um ai. O +filho devia estar morto. Levantou-se, a cambalear. As pernas +dobravam-se. Com o pequeno n'um braço, de rastos, os olhos cheios de +sangue da allucinação, rojou-se pelo quarto, abriu a porta, desceu as +escadas ás arrecuas, saiu á rua. + +Era uma noite clara, sem lua. As estrellas formigavam no ceu. A via +latea, no azul escuro e transparente, era uma poeira de mica. As arvores +faziam pastas de sombra na paisagem. Uma fonte doloridamente se +lamentava, n'um tanque de pedra. Lembrava-se de todos os promenores. Na +abegoaria mugiu uma vacca. E o cão veiu apressado e contente lamber-lhe +as mãos. Ninguem sentira. Mas Marcia pensava ouvir passadas no estalido +seco das folhas murchas que caíam e na brisa pelas ramadas, o mexer de +vestes de pessoas a perseguil-a. + +Em cada canto mais denso de sombra, via olhos a espreital-a. E, em +camisa, quiz correr, sem forças. De onde em onde, sentava-se, forçada, +porque as pernas não podiam mais. Ouvia gritar a morta. E as suas unhas +cravavam-se desvairadamente na garganta do innocente. Chegou ao fundo da +quinta, um terreno de trigo já ceifado. Verão seco, a terra chistosa era +dura. + +--Foi com as minhas mãos que cavei a terra. Como era dura! Parecia que +eram pedras que eu partia com as mãos. E ellas encheram-se de sangue. E +eu, no meio d'aquelle trabalho feroz, ainda ouvia o innocentinho gritar. +E apertava-lhe mais a garganta. E voltava a cavar, queria cavar fundo, +para que não dessem com o corpinho quando lavrassem a terra para semear +de novo. E não havia maneira! Não tinha força nem coragem para ir +procurar uma enxada, um ferro, qualquer coisa com que podesse abrir a +terra tão dura, que me fazia doer tanto as mãos. Sentia que rasgava os +dedos. E tinha medo de que amanhecesse. Olhava para o Ceu, a vêr se já +despontava a claridade. E parecia-me sempre vêr o ceu mais claro, ás +vezes até pensava que havia sol de meio dia. E voltava a cavar, os olhos +fechados, com raiva, sem saber bem o que fazia!» + +Conseguiu fazer uma cova. Grande? Pequena? Não sabia dizel-o. Deitou +terra por cima do cadaver ensanguentado, calcou-o com raiva, e então +poude correr, por entre as arvores, a bater nos galhos e nos +troncos, a rasgar a camisa e as carnes, até casa. Ia amanhecendo. Um +traço alaranjado corria na nascente. Metteu-se na cama e dormiu. + +Calou-se. Estendeu-se nas pedras, de borco, a olhar fixamente para o +mar. Era já noite. As estrellas palpitavam no céu transparente. O mar +enchera-se de sombra. Os barcos tinham recolhido já. Ouvia-se apenas o +quebrar das vagas na Bocca do Inferno. + +Marcia levantou-se e estendeu-me a mão, supplicante: + +--Dá-me um tostão para aguardente?! + + * * * * * + + + + +O CEGO + + A ALBERTO D'OLIVEIRA. + + +O CEGO + + +O Pintor, que vivera intensamente na luminosa communhão das coisas +bellas, no culto da Fórma e da Côr, sorvendo a Belleza religiosamente, +como se aprecia um vinho velho, de repente cegára. + +E no tumulo do seu atelier de que haviam fugido os modelos, errava +angustiado, querendo com a mão sentir a linha das figuras que o seu +divino pincel traçara, nas manhãs claras, entre tapetes que amorteciam +os passos e ás vezes a queda dos corpos dos divans acolhedores. + +Sentava-se no mesmo escabello veneziano, marchetado, tendo diante de si, +no cavallete, uma tela. E vagarosamente ia traçando linhas, julgando +ainda desenhar figuras, compôr peitos firmes, contornar curvas musicaes +de quadris, illuminar olhos abertos, cheios de sonho e de volupia. + +Mas o pincel empastava tintas, inexperiente na mão do grande mestre, +como na d'uma creança de peito. + +Depois do inutil esforço, não podendo vêr, lançava ao chão, com raiva, a +tela, e punha-se a passear, cambaleante, hesitante, como um ebrio, as +mãos estendidas, como se da ponta dos dedos nascessem olhos, a guial-o. + +E vivia apenas com um velho servo. O _atelier_ morria ao abandono. Para +quê a molleza dos tapetes persas, os brilhos dos espelhos de Veneza, os +marmores das estatuas e a radiosa formosura dos seus proprios quadros +divinisando a Vida? Para quê? Se tudo adormeceu sob a cinza que se +acumulára nos seus olhos d'antes d'um tamanho brilho, esses olhos leaes, +sem ironia, cheios d'amor por tudo o que tivesse uma particula de Belleza? + +Fôra um grande pintor afamado. Retratára as mais elegantes senhoras da +côrte, em vestidos sumptuosos que mostravam, n'um decóte largo, o cóllo +nu, como uma enorme flôr. E nos seus quadros punha tanta voluptuosidade +que a marqueza de Bouro, devota e pudica, recusára com horror o retrato; +apesar do pequeno decóte, da garganta alva pareciam nascer rubras +florescencias de desejos. + +E nunca mais pintou retratos. Ideou quadros em que a mulher e a vida +eram divinisados. Fez bacchanaes, em que as sacerdotisas nuas agitam +tirsos enramados, coroadas de flôres, numa loucura divina. Compôz uma +scena das vindimas em que as mulheres comem as uvas, sob as latadas +viçosas, das boccas dos amantes. Fez Leda e o cysne, em que, n'um lago +transparente, as virgens descuidosas se banham. Um cysne apparece, +airoso, vagaroso, o macio pescoço n'uma curva larga. E ellas querem +apanhal-o á porfia. + +E esses quadros d'uma athmosphera tão clara, d'um ceu tão luminoso, com +carnaduras frescas, admiraveis seios que exhalavam, como uma flôr de +tropico, um perfume estonteante, tinham-lhe dado a riqueza e a gloria. + +A multidão apontava-o, nas ruas, com reverencia. As mulheres +lançavam-lhe ternamente cobiçosos olhares. E o pintor gosava a vida, sem +se prender, beijando as bôccas, aspirando o aroma das cabelleiras +fartas, que caiam sobre as nucas, sobre as costas, como mantos finissimos. + +Até que um dia cegou. Fechou a sua casa, como se tivesse partido para +uma longa viagem, não querendo deixar vêr a ninguem o espectaculo +turturante da sua angustia. E continuava a querer pintar, ainda o +cerebro povoado pelas risonhas imagens, concupiscentes seios, rios +translucidos, gemas coruscantes, dobras sensuaes de sedas, sobre o +ambar da pelle das morenas, sobre a magnolia das epidermes branquissimas. + +Um dia, soube-se. Vagamente correu na cidade que o pintor magnifico +cegára. A curiosidade durou tres dias. Os possuidores dos quadros viram +com prazer a sua valorisação. Os collegas secretamente exultaram pelo +desapparecimento do rival vencedor... E tudo caiu, tudo esqueceu. + +Uma apenas se lembrou d'elle. Carinhosa, amorosa, forçou a porta +teimosamente fechada. E entregou-se ao cego. + +Dias passaram cruzados de angustias e de intensos prazeres. Até que um +dia o pintor lhe disse: + +--Eu tinha que coroar de rosas--a minha mão inutil nem para isso +serve--a tua cabeça. Devia ajoelhar diante de ti e dar-te todo o meu +sangue, pois que te dei já todas as minhas lagrimas. Vieste accender uma +aurora no crepusculo eterno da minha cegueira. Permittiste que eu +revisse a Belleza da Fórma. Com os meus dedos pude sentir como é pura a +curva do teu seio, a linha das tuas espaduas e lindos os teus dedos. +Trouxeste-me o aroma da carne moça, como uma brisa benefica leva a um +prisioneiro o cheiro do feno. Senti outra vez a musica deliciosa das +palavras de amor. E no teu corpo pequeno e flexivel, o teu rosto +deve ser como o luar d'um lirio sobre a sua haste... + +Calou-se. Hesitou alguns momentos. Pareceu encher-se de coragem +e continuou: + +--Mas não posso vêr-te! Vivo comtigo, como n'uma somnolencia--um pouco +de realidade e um pouco de sonho. Pode ser que os annos tenham feito +brancos os teus cabellos compridos; que alguma doença má tenha +esverdeado a tua pelle macia. Nas palavras que dizes, oiço ás vezes uma +promessa, outras um retraimento. Não posso vêr nos teus olhos palpitar a +tua alma. É como se todos os dias me apparecesses, ás escuras, com uma +mascara na cara, um dominó a velar-te o corpo. Entrevistas em jardins +frondosos, ás escuras. Tudo silencio, mesmo na minha alma. Chegaria até +nós, lugubremente, o adormecimento da vida. E não serias inteiramente +minha, apenas uma parte de ti me pertenceria, e a outra, uma promessa +vaga. «Penso que nos encontraremos, dirias... Etheromana em busca de +excitantes, romantica, caçando aventuras, feia sem remedio a esconder +aleijões e a querer ouvir palavras que nunca ouviu, sou mais que tudo +isso, acredita, e menos que uma illusão!» Que importariam as tuas +palavras? No arroubamento dos beijos sentir-se-hia o travo do prazer +incompleto. E beijo-te um pouco como se beija um phantasma. Se eu te +podesse vêr, dir-te-ia que arrancasses a mascara, ou que te fosses +para sempre. Quereria ver-te, ou realidade inteira, deliciosa na pureza +da atmosphera, ou sonho puro, como sei sonhar. Não posso com a tortura +do meio mysterio que a nevoa dos meus olhos cegos cria... Podesses ser +toda minha, conseguisse eu deitar abaixo a mascara, vêr-te na gloria da +tua formosura, mesmo na miseria de alguma incuravel doença, fixaria na +tela, com estrellas fulgentes, com sucos magicos de flôres +desconhecidas, essa radiosa Belleza, ou essa deformidade, que se +illuminaria, subiria aos ceus, como S. Julião quando beijou a bocca +gangrenada do leproso. Apparecesses tu! Mas não. Ficas na meia luz como +um phantasma! + +E o cego, em passadas incertas, as mãos estendidas, saiu do atelier, +onde a unica nota de vida era o soluçar da amante. + + * * * * * + + + + +A GLORIA + + A CARLOS MALHEIRO DIAS. + + +A GLORIA + + Qu'est-ce que ça fait que je sois une grande artiste, si je ne suis + pas heureuse? + + Anatole France--_Histoire Comique_. + + +Gonçalo Freire, o escriptor que um romance intenso tornára celebre, +estava triste e desanimado no seu gabinete de trabalho. + +Os candelabros Luiz XV brilhavam nas multiplas velas brancas, faziam +saltar faiscas dos cobres doirados, das faianças onde corriam idilios em +jardins frondosos. O seu _studio_ era sempre luminoso, quer de manhã, +com as largas janellas abertas sobre o rio, quer de noite com as +resplandecencias das luzes. Dizia que assim a imagem surgia mais +precisa, mais clara, mais _latina_. + +Gonçalo não gostava do nevoeiro que os escriptores do Norte deixam entre +os seus periodos. Amava o sol e os ceus macios, o mar incendiado, +as praias do Algarve d'areia doirada, os rios transparentes, onde, á +tarde sómente, boia um fumo tenue. + +Esse romance, «A Face do Homem» revelava esse amor da clareza e do +equilibrio. Pondo de parte os intuitos sociaes que prevertiam a +literatura moderna, ligára quadros d'uma emarcessivel belleza por um +enredo forte, interessante e commovido. + +Pessimista á feição de Nietzche, descrevera a miseria da face humana, +depois de arrancada a mascara; puzera o homem diante de si, n'um +espelho, e o homem sentira-se asqueroso. Mas, crendo no culto dionisico, +esperava pela Arte cobrir a fealdade da vida. E, perto do homem, a +mulher, florida pelo amor, representava o Sonho, a Illusão que cobre com +um veo azul, a distancia, os montes escarpados. + +O publico gostára. Seis edições successivas se tinham esgotado, entre +aclamações, em dois mezes. Os jornaes tinham publicado o seu retrato com +artigos encomiasticos, comparando-o a Camillo, pela riqueza e +propriedade do vocabulario, a Eça pela ironia, a Fialho pelo vigor do +descritivo, sendo superior a todos pelo interesse e pela suprema Belleza +do seu ideal de latino. + +Era um d'Annunzio com mais sinthese. + +Todas as revistas e jornaes sollicitavam a preciosa colaboração; o +_Suisso_ chamára-lhe plagiario e idiota, apontára-lhe seis erros de +concordancia, descobrira que em Coimbra roubára versos a Anthero do +Quental, n'um poemeto que correra impresso, _Sunt lacrimae rerum_, em +que Gonçalo Freire acreditava no Inconsciente, segundo Hartman e na +Vontade, segundo Schopenhauer. + +Quasi todos os dias o editor lhe mandava molhos de cartas de +admiradoras, umas apenas a dizer a palavra quente da sua admiração, +outras pedindo autografos e uma ou outra marcando, misteriosa, uma +entrevista, n'um _coupé_, em sitio escuso. + +N'essa noite, ao entrar em casa depois d'uma _bridge party_, fora +sentar-se, a querer trabalhar n'uma novella, de que esboçara já o plano. +O creado levou-lhe a correspondencia que Gonçalo abriu, aborrecido. Uma +carta d'um editor que lhe pedia um livro para lançar a sua livraria; uma +actriz nova e elegante, que lhe lembrava a vaga promessa d'uma peça, +duas amorosas a pedir-lhe entrevistas e um escriptor hespanhol que +solicitava auctorisação para traduzir «A Face do Homem». A lapis azul, +no summario do _Mercure de France_, chamavam-lhe a attenção para um +longo artigo de Philéas Lebesgue, em que o critico entoava um hymno em +seu louvôr, enaltecendo a harmoniosa belleza do romance, «mais subtil, +como psychologia do que Bourget, mais moderno que Jean Lorrain, e +tão puro de estylo como Anatole France». Recommendava-o a Herelle, como +sendo a obra d'um Annunzio mais intenso. + +Era a gloria, vinda do anonymo, não a celebridade feita pelos amigos. + +Moço ainda, trinta annos, rico, representante d'uma casa antiquissima +com o brazão registado muito antes de D. João III, parecia um d'aquelles +principes que as fadas assistem no baptismo, dando-lhes todas as venturas. + +Mas, triste, Gonçalo foi á janella e rasgou cada uma d'aquellas cartas, +lançando ao vento os pedaços de papel, que baixavam, pareciam hesitar e +sumiam-se no escuro. + +Na noite sem lua pareciam nascer no espaço as luzes dos navios, que +punham na agua um reflexo de estrella. Encostado ao parapeito, Gonçalo +muito tempo olhou para a escuridão que enchia o rio. Um ou outro ruido +de carro chegava até elle, sem o despertar; de quando em quando na rua, +ao longe, brilhava por um instante um electrico, como um meteóro. + +E Gonçalo poz-se a pensar no amor que dentro de si trazia, sem +esperanças, um amôr que tivera uma demorada cristalisação. Essa mulher +surgia, luminosa e florida, deante d'elle, no escuro. Via o seu corpo +magro e esbelto, a florescencia clara do rosto um pouco duro, o olhar +indiferente. Era sempre assim. E, ensimesmando-se, a figura +aparecia-lhe, como uma obsessão, para acentuar o alheiamento, +atormental-o mais. + +Muitas vezes, quando compunha, largava a pena, porque a mulher vinha +para defronte d'elle e não havia maneira de fechar-se no seu pensamento, +continuar o periodo interrompido pela visita. + +E punha-se a recordar de como nascera aquelle amôr. Vira-a muitas vezes +nas festas, nas ruas, nos theatros, indiferentemente. Uma mulher +elegante e nada mais, feita talvez pelas costureiras que dispõem de +espartilhos, de faixas que apertam os quadris, de _bouffants_ que +disfarçam chatezas de peito, de tecidos leves, que dão a aparencia de +ligeireza aos corpos. + +Não a conhecia. Nunca fôra forçoso conhecel-a e como não o interessava, +não se aproximou. Era a Maria do Amparo. Quando ella passava pelo +_Turf_, alguem dizia, ou o proprio Gonçalo: + +--A Ampáro vae hoje bem. + +--É uma mulher interessante. + +--Veste-se bem, principalmente. + +E tanto tempo a vêl-a, outras o chamaram, trouxe o seu coração envolvido +em outros amores risonhos, quasi sem se prender. E a Maria do Amparo +continuava a aparecer em toda a parte, elegante, um pouco preciosa, +viva, um sorriso na boca fina que mordia para avivar o traço roseo dos +labios. + +Uma noite, em S. Carlos, n'uma visita a um camarote, Gonçalo +encontrou-a. Amparo falou-lhe nos artigos que Gonçalo publicara n'um +jornal, chronicas vivas sobre o Culto da Belleza, a belleza na cidade, +nos monumentos, nos jardins e nas praças, belleza no lar cheio de +flores, com moveis elegantes e comodos, belleza na mulher, +artificialmente rectificada, por maquilhagens habeis e vestidos +sabiamente confeccionados por mãos peritas. Attraiu-o a conversa. Amparo +tocou com intelligencia e tacto nos pontos mais originaes, mostrou +comprehender e sentir a Belleza, rodeou-o de frases amaveis, em que +havia, ora no sentido, ora na entoação, alguma coisa de carinhoso, poz +em campo toda a seducção de mulher elegante, chamando-o a si, +lançando-lhe a perturbante luz dos seus olhos claros. A conversa, apesar +de curta, um entreacto e o começo d'um acto, acabara n'um _flirt_. + +Gonçalo procurou vêl-a. Esperou-a attento e ancioso no Chiado, +frequentou as casas onde poderia encontral-a. E as tardes de recepções, +os raouts, as sauteries, e mesmo as empertigadas recepções diplomaticas, +eram leves _flirtations_, que o deixavam absorto, andando pelas ruas sem +attender a nada, sorrindo-se ás vezes de alguma palavra dita por ella, +de um gesto mais expontaneo. + +Todos os elementos de seducção foram postos em pratica por Amparo. +E na alma de Gonçalo começara a cristalisação; a rede ia-o apertando, +avassalava-o a mulher deliciosa, como os antigos retiarios os seus +adversarios nos circos romanos. + +Gonçalo já não pensava em mais nada. Logo depois do almoço, em vez de +sentar-se á meza, a trabalhar, ia para a rua sem destino, com a vaga +esperança de a encontrar, de a vêr na carruagem. E em todas as festas se +aborrecia até chegar a Amparo. No Gremio pedia todos os jornaes, sem +poder lêr nenhum, porque se alheava, recordava os momentos felizes, +idealisava impossiveis sonhos, uma fuga para algum paiz onde ninguem o +conhecesse, e Amparo vivesse só para elle, esquecida do hediondo marido, +de todas as caricias, de toda a vida interior. Se por acaso lhe passava +pela mente a ideia justa de que Amparo nunca deixaria a vida mundana, a +«consideração», a «situação», logo Gonçalo a sacudia por importuna, e +enlevava-se no sonho. + +Era uma vida feliz, apesar do pouco que ella dava--olhares, commovidas +palavras, promessas n'um futuro remoto e impreciso, e, um ou outro beijo +nas mãos que tinha macias, palidas, mãos entre sensuaes e misticas da +Gioconda, sem a aristocracia das mãos de Velasquez ou Van Dick, sem a +luxuria que rosea os dedos das figuras do pintor de Verona. + +De repente, porém, começou a esquivar-se a Amparo. Houve palavras +dubias, falou de consciencia e de dever; prometeu um amor eterno, mas +ideal, sem pecado, um amor que lhes cubrisse a vida com uma gaze leve, +como um zaimpho. E mais e mais se foi esquivando, emquanto em Gonçalo o +amôr se tornava mais forte, enchia-lhe o peito de desespero, +amachucava-lhe todas as energias e dava-lhe a sensação de ter, dentro de +si a alma, como o chapeu alto d'um clown. + +E diante da noite, rasgando as cartas d'amor das outras e as aclamações +do publico, Gonçalo, a chorar, repetia a frase da heroina da _Histoire +Comique_: + +--Que importa que eu seja um grande artista, se não sou feliz? + + * * * * * + + + + +A FESTA DE MAIO + + A M. TEIXEIRA GOMES. + + +A FESTA DE MAIO + + +--Violante! Violante! gritou o marquez para o jardim. + +André, no cimo da escada, d'onde ageitava ramos no entablamento, +conseguiu desenroscar-se dos molhos de madre-silvas que o coroavam, o +envolviam, e voltou-se. Ao ver o pae sorriu-se. + +--Admira-se? + +--A estas horas, já levantado, e em casa? + +André abriu na bocca pallida um sorriso exangue; mesmo assim o sorriso +brilhou nos olhos negros, fez viver toda aquella adolescencia, que +parecia finar-se lentamente: + +--Não me deitei. + +--Ouves, Violante? Não se deitou! + +A marqueza apareceu á porta, n'uma blusa clara, tremente nas rendas +amarelladas, ainda aberto o guarda-sol lilaz, por onde se filtrava o +sol, que extranhamente lhe coloria o cabello. + +--Ó André! Que tolice! + +--Prometti vir ajudar-te, e mesmo que não promettesse, no dia da tua +festa, eu não deixaria de vir arranjar a capella. Não está linda? Digam... + +--Lindissima. + +A pequena capella, em estylo da Renascença italiana, branca nos seus +marmores puros, sobria d'ornatos, sorria nos festões de madre-silva, nas +grinaldas de rosas, nos vasos trabalhados de que escorriam glicinias +roxas, nas peanhas onde santos olhavam, suaves, os grandes lyrios +abertos, em toda a florida vegetação que manchava a nitidez do marmore +pallido, correndo sobre os frisos, despenhando-se pelas janellas largas, +envolvendo-se ás columnas, vindo morrer no lagedo claro do chão. + +Toda aquella architectura, feminina, sensual,--até na figura do Baptista +o esculptor puzera um quebranto--brilhava e vivia uma vida lasciva e +fina, ornatos delicados, sem exhuberancias, curvas que lembravam a +doçura calida de corpos nus, no tom ambarino do marmore velho. + +André desceu. A marqueza trazia nas mãos, ainda molhadas da rega, um +molho de grandes orchideas d'um azul doente, listrado de esverdinhadas +veias como feridas a apodrecer. + +--E estas orchideas, onde as hei de pôr? + +--Aqui não! Para o mez de Maria, para a festa de maio, orchideas não. +Ponha-as no gabinete do papá, junto das estampas de Goya... Aqui não! + +--Tens razão, annuiu o marquez. Antes tragam maias... + +--Vou eu buscal-as, lembraram André e a marqueza. + +--Não. + +--Não. Vou eu, Violante! insistiu André. + +--Vamos ambos... + +--Querem que eu tambem vá? offereceu sem enthusiasmo o marquez. + +--Não. Deixe-se estar; vamos nós. + +Ao sahir da capella, passando os pinheiros mansos, em circulo, como a +formar um adro, descia uma escada balaustrada, n'uma curva larga, +ladeada de roseiras. Depois dois caminhos direitos, onde branquejavam +estatuas, cantavam repuxos esguios que no alto se abriam, como lirios de +cristal perpetuamente a florir e a quebrar n'um ruido claro. + +--Onde ha maias? perguntou André. + +--Não sabes? É alli no fim, uma grande encosta, por baixo do tanque dos +tristões... Não conheces a quinta! + +--Como queres que a conheça? Não venho cá nunca! + +--Hei de mostrar-te a quinta, agora... Has de gostar. Vaes-lhe tomar +gosto. Olha, é aqui... + +No fundo verde abriam-se, sorriam, na manhã clara, como pequenas +estrellas, as maias d'oiro. Desde o caminho apertado entre fitas de +marmores que as roseiras invadiam, marinhando pelas estatuas dos deuses +e das graças, luziam maias. + +A fonte despejava, pelas buzinas brancas de tres tristões, cujas caudas +se enroscavam, fitas d'agua. + +Tudo cantava, tudo era alegre, na manhã radiosa. A encosta descia, verde +da relva, das arvores copadas, mosqueada pela brancura dos marmores, +brilhos de flores, sobre tudo rosas-chá, enormes e delicadas, flores de +cera e flores de carne, sensuaes e finas, como um beijo em que os labios +mal se tocam, na pressa, mas em que as almas se confundem, n'uma +vertigem. Em baixo continuava a descida rapida da colina, viam-se tectos +angulosos de casas, faiscas que o sol levantava das janellas, linhas +tortuosas de ruas, arvores de praças, o Rocio, como um lago de fogo a +brilhar nas pedras claras, a Avenida n'uma chapada verde; vivamente um +monte subia em apertadas casarias, alastrava-se por todos os lados a +cidade, perdiam-se na perspectiva os telhados irregulares, até os montes +violacios da Outra Banda, que se esbatiam no ceu claro, no ceu risonho e +roseo da manhã de primavera. No rio embandeiravam-se navios ligeiros e +airosos. Velas de faluas passavam, largas, pandas, como monstruosas +gaivotas n'um vôo sereno. E do rio sahia uma grande alegria, como +um fumo: fazia tremular as bandeiras, doirava mais o sol, percorria toda +a cidade, extraía das ruas acordadas um ruido confuso, chiar de carros, +pregões, coleras, risadas, que se misturavam, fundiam-se, e lá cima +chegavam n'uma voz unica como um rumor de vaga. + +--Vamos a vêr quem apanha mais! E a marqueza deixando a sombrinha, +desceu por entre as maias, afagando-as com as mãos brancas.--Que lindas +são! Como sorriem para mim... Tenho pena de cortal-as. + +--Vê se caes... Eu dou-te o braço. E André alcançou-a. + +--Não. Não. Vamos apanhal-as! Vamos a vêr quem apanha mais! Vamos a vêr! + +Febrilmente, começaram a apanhal-as, a cortar grandes braçadas. Ás vezes +as suas mãos encontravam-se, apertavam-as e riam-se. + +--Não são maias... são os meus dedos. + +E continuavam, já corados, a marqueza curvada, a cabeça d'um loiro +quente quasi entre as maias. + +--Estou cançada. Estou cançada! + +--Que lindo quadro. Todo de flores! Espera, vou enfeitar-te. E André +coroou-a de maias, toda a sua cabeça ficou florida. E a marqueza, +risonha e córada, protestava a rir-se: + +--Olha que me despenteias! + +--Que importa? Que importa? Estás melhor assim... Agora este ramo +para o peito... Mais estas... Um grande ramo... Como estás linda; oiro e +lilaz! E o teu cabello é d'oiro. O papá vae ficar encantado quando te +vir assim... + +Subiram, ainda a rir-se. André deu-lhe o braço e foram, quasi a correr. +Ao passar por um repuxo: + +--Vamos molhar as flôres, ficam mais bonitas, como se tivesse acabado de +cahir o rócio. + +--Pois sim, pois sim. + +O cristal dos repuxos altos cahiu sobre as grandes braçadas de maias. + +--Vamos lá, vamos lá, que se faz tarde para o almoço! + +No altar da Virgem estavam apenas largas rosas brancas, flôres d'um +aroma subtil e angelico. + +--Onde pôr as maias? + +--No chão, junto ao altar. São as primicias da primavera oferecidas á +Virgem. + +--Pagão! censurou a marqueza. + +--Não importa. Ficam bem. Aqui no chão, como um monte de estrellas, aos +pés da Virgem: + +Para que fosses mais formosa Deus deu-te a lua por chapins e as +estrellas por caminho. + +A sineta tocou para o almoço. + +Rodearam a casa e entraram pela estufa, cheia de begonias e de cravos. + +Emquanto André se vestia, o marquez perguntou se Violante se não +admirava do seu procedimento. + +--Ha quantos annos não fica elle em casa? Tresnoitado, entrando muitas +vezes quando eu já rodo pelo jardim, escondendo-me d'elle, para fingir +ignorar os desatinos, elle dormia e almoçava aqui, fóra d'horas, +escondido da Felicia, que resmunga contra elle coisas terriveis, +chama-lhe perdido, sustenta que está possesso... + +--Uma paixoneta, que trata de curar... Disse-me tambem, que agora ia +começar vida nova, talvez fosse para a Quinta dos Limoeiros, para se +desaffeiçoar... Isto passa-lhe... Para a semana lá o teremos na mesma +vida; theatros, actrizes, ceias... + +--E se o pudesses reter em casa! Vê se o divertes... Fal-o sahir +comtigo. Agora que vou a Paris podias conseguir que te acompanhasse a +visitas, bailes, _soirées_... Já o quiz interessar com as estampas, mas +perguntou-me se eu julgava que havia de passar os dias a vêr bonecos... + +O almoço foi alegre. Violante e André fallaram no que era preciso fazer, +nas passadeiras a pôr na egreja, nas cadeiras, na disposição dos bancos +no adro, á sombra dos velhos pinheiros, até sob o arco dos limoeiros pôr +cadeiras, que convidassem os flirts a recolherem-se na discreta +arcada. André promptificou-se a tudo fazer; sahiu para o jardim, +illuminado pelo sol, cantante nas aguas abundantes dos tanques e +cascatas, misterioso nas sombras que o arvoredo formava, rico de côr, +verdes diversos, vermelhos, azues, lilazes das flores, mosto fresco das +olaias floridas; mas, sob a copa larga e tremente d'um choupo do Canadá, +deitou-se e adormeceu profundamente. + +O jardim antigo, desenhado por um artista italiano, não tinha as placas +relvosas dos parques inglezes e o seu frio alinhamento. Cresciam por +toda a parte altas e poderosas arvores, que apertavam a architectura +renascença do palacio; por toda a parte cantavam em fontes, em cascatas, +em repuxos, aguas claras. + +Havia macissos de roseiras que cresciam livremente e se enrolavam aos +marmores, aos soclos, iam florescer e perfumar nos collos brancos dos +bustos, entre braços finos dos grupos mitologicos, rondas de estações, +danças das Horas, cheias de movimento e de belleza. Escadas brancas de +balaustradas ligavam as depressões de terreno; e por toda a parte uma +grande alegria de flôres e de arvores viçosas, pinheiros, carvalhos, +arbustos de folhas variados, jasmineiros trepadeiros, que sorriam, +trementes, nos minusculos jasmins, entre a folhagem verde. + +Por toda a parte uma exhuberancia de flores, que nasciam em +canteiros, amores perfeitos de velludos quentes, pequeninos myosotis, +quasi brancos no seu azul virginal; outras que subiam pelas arvores; +estrelavam-se clematites, umas roxas, outras brancas, enroscavam-se aos +troncos, iam florir na copa larga dos castanheiros. Em pequenas sebes de +cana os craveiros inclinavam-se, cravos vermelhos d'um perfume que +entontece, cravos brancos, mosqueados de violeta, cravos estranhos como +nodoas nas epidermes. + +Tudo sorria, tudo gritava, na confusão da manhã clara; estendia-se pelo +ceu o sol, batia nos flocos de nuvens que se doiravam, extraindo de toda +a terra uma alegria immensa, que subia no fumo, que cantava na viração +leve arrastando-se pelas arvores altas, manifestava-se nas folhagens +claras, envolvia tudo. + +Em grandes placas floresciam as maias e, no inverno, violetas de Parma, +d'um lilaz moribundo. Por toda a parte flores, estendendo-se pela terra, +ou subindo e perfumando. E as aguas cantavam, cristallinas, corriam, iam +beijar nos regos abertos folhas viridentes. Era a Quinta Alegre, o +jardim magico. Nos ornatos das janellas e das portas, nos baixos relevos +e nas pinturas das salas, reproduziam-se em linhas puras os motivos de +volupia e de belleza. Até na capela havia uma exuberancia de vida. +Viam-se figuras nuas, como nas Loggias do Vaticano. Os monstros não +tinham, como nos ornamentos goticos, uma aparencia terrivel: eram +elegantes, d'uma aparencia risonha e as retorcidas caudas terminavam, +estilisadas, em caules de flores. A vida era triunfante nos collos +sensuaes das mulheres, nos cachos de fructos, romãs abertas de que sahia +um riso vermelho, laranjas doiradas, cepas que subiam espalhando-se em +ramos com grossas uvas, como a de Corinto, figuras aladas, sensuaes, +antes amôres contentes, do que anjos misticos e salvadores. + +Havia uma volupia fina, uma delicada sensualidade cada um dos ornatos, +como em cada um dos caminhos da Quinta Alegre. A mesma latada verde +clara, em que se via a poeira dos cachos que cresciam, se reproduzia e +multiplicava nos marmores das sallas e da capella; e os corpos alvos das +ninfas, das graças, hamadriadas contentes, dos faunos lascivos +levantavam-se e sorriam no marmore das estatuas. + +Era alli que todo o anno viviam os marquezes de Runa, salvo um mez na +Bretanha, setembro, em alguma praia tranquilla e ensolada, d'onde +voltavam, apressados, logo aos primeiros frios, apenas uma pequena +paragem em Paris, para as necessarias visitas da marqueza a Redfern, +Paquin, e pequenas e especialissimas lojas d'outros fornecedores. + +O marquez, Christiano Spinola d'Acciaioli, descendia de duas familias +italianas, os marquezes Spinolas e os marquezes d'Acciaioli, que foram +duques d'Athenas, de que vieram ramos para Portugal. No seculo XVII fôra +um seu tio, Simão de Vasconcellos Acciaioli casar a Florença com a filha +unica do marquez d'Acciaioli, para não acabar o nome. E d'ahi os dois +ramos conservaram sempre relações intimas, visitas dos portuguezes e +italianos, e mesmo o marquez passára parte da sua mocidade em Florença +na casa senhorial de seus avós. + +Novo, voltára a Portugal e amára com um tranquillo amôr sua primeira +mulher D. Estevaninha Henriques, descendente do celebre conde D. +Henrique Henriques. + +Vira-a por uma manhã de sol a atravessar o pateo branco e calado do seu +palacio de Sevilha. E a languidez do seu andar, o seu ar triste, +n'aquella casa quasi morta--calado e morto é o tanque esbelto e branco e +sobre os arcos apenas touristes passam, silenciosos--impressionavam. Os +seus olhos habituaram-se a vêr nas praças, nas ruas ensombradas pelos +toldos, a face branca, onde ardiam os grandes olhos pretos de D. +Estevaninha, a risca sensual e fina dos labios vermelhos, como num traço +de sangue, que a faziam mais pallida. + +Conhecendo os duques de Medina, facil lhe foi ajustar o casamento. + +Depois d'uma luzida boda, aberta de par em par a Puerta del Pardon da +Catedral para a passagem dos convidados entre os quaes a infanta, que +representava a Rainha, vieram para Lisboa esconder o seu amôr na Quinta +Alegre, cheia de rumores d'aguas e de folhagens que gemiam e riam á +passagem da brisa. + +Mas aquella casa alegre, onde tudo era voluptuoso, d'uma volupia fina, +em que todos se tinham habituado a amar a vida em todas as suas +manifestações, parecera hostil ao sentimento hespanhol da doce +Estevaninha, na nudez dos corpos, até no desabrochar das flores de +marmore, que pareciam tentar. + +Certamente, que junto de si, para a amparar e dirigir, estava sempre, +rotundo e oleoso, o conego D. Benito, que com ella viera de Sevilha, e +na capella risonha e branca constantemente ardiam lumes fumarentos de +tochas; certamente, que as missas, as novenas, as trezenas, +lausperennes--fôra difficilimo conseguir do Senhor Patriarcha um dia de +lausperenne, cada mez, mas conseguira-o a protecção decidida da baronesa +d'Angra--todas as festas e macerações da egreja se sucediam na capella +clara; as confissões, as comunhões multiplicavam-se; um cilicio de crina +fazia, ás sextas-feiras, gemer a branca noiva, mas tudo parecia falso, +porque a capella tinha sempre o ar de rir e de tentar, nas volutas +floridas dos seus capiteis, nas figuras nuas, que mostravam em cada +ruga da pelle, em cada grão de marmore, um desejo impuro que era uma +tentação e um escarneo. + +E a marqueza não se sentia feliz. Preferia o seu viver austero na sua +casa d'Andaluzia, entre paisagens asperas, crueza de sol pelos desolados +campos onde as piteiras aguçam as pontas de suas folhas curvas, e as +egrejas hespanholas, severas e sem luz; em vão lhe dizia D. Benito que +um sátiro confessára Christo a S. Jeronymo, e lhe trouxera flôres para +enfeitar o altar do verdadeiro Deus; debalde lhe assegurou o frade +affeiçoado ás sombras quietas da quinta, aos tuneis de verdura, onde a +pretexto de ler o breviario, nas tardes calmosas de verão, adormecia +ecclesiasticamente, que as apparencias nada eram e que a verdade estava +em Deus--D. Estevaninha redobrava de supplicios, os jejuns, as +penitencias rudes que abalavam o delicado corpo magro e gracil, que +palpitava na aproximação do marido, cheia d'angustioso terror e de +volupia; e pouco a pouco se definhou, e pela noite fria do Natal, á hora +em que na egreja, entre resplendores de cirios e uma chuva de flores, se +festeja o Nascimento de Christo, morreu aos gritos, ao dar á luz André. + +Para o marquez a morte de D. Estevaninha não foi um desastre dos que +abrem no coração um vinco duradoiro. + +Gostára d'aquella face triste e habituára-se ao ardôr receoso do corpo +fino e doirado da andaluza; mas a casa fina, elegante e pagã, ia tomando +aspectos sombrios. Na ante-camara, como nos corredores episcopaes, +murmuravam grupos de padres. E atravessaram a Quinta fallando baixo, +olhando para as areias dos caminhos, dizendo sempre palavras unctuosas, +a querer vender o ceu. Monsenhores de cintas arroxeadas, bispos +imponentes, a cruz d'oiro a brilhar no peito, camareiros de S. +Santidade, frades que batiam as sandalias n'um ruido surdo, cruzavam-se +nas escadas, junctos sahiam, sempre a mesma maneira hypocrita d'olhar as +coisas, sempre os mesmos labios mentirosos e distilar frases decoradas. +O marquez recolhera-se á bibliotheca onde dispunha a sua collecção de +estampas, por que dia a dia se apaixonara mais. Vinham da Italia e da +Allemanha e da França e da Inglaterra em rolos, em caixotes, que os +agentes enviavam, ás dezenas. Reunira uma preciosa collecção de +aguas-fortes de Rembrandt e as gravuras de Dürer; tinha desenhos de +Vinci, de Raphael, esboços de Ticiano e de Ribera. Tudo o que fosse +arte, desde o balbuciar dos primeiros «primitivos», até á exuberancia +formidavel de Rubens, misterios de sombra de Rembrandt, torcionarias +figuras de Ribera, suaves santas carnudas de Murillo, extranhas mascaras +de angustia ou de grotesco de Goya, tudo o que fosse arte e não +tivesse côr o seduzia, proves avant la lettre, exemplares rotos, em que +se visse uma mancha bem posta, elle os guardava, catalogando, apenas se +distrahindo em passeios pelo parque, grandes voltas, descendo até o +extremo da quinta, onde repousava, vendo o multiplo esguicho que saía +das duplas flautas de tres aulitridas, n'um gesto elegante de dança nas +transparentes tunicas que tornavam mais attrahentes a nudez dos +seus corpos. + +Com a morte da marqueza, o palacio voltou a ser mais silencioso e mais +claro. Parecia que na quinta as aves cantavam mais. Apenas D. Benito +ficára, «por amor al niño de la señora marqueza», protestava, mas porque +se afeiçoára ás sombras frescas, onde dormia. + +André foi crescendo livremente entre os creados e D. Benito. Aos tres +annos andava pela quinta, arrancando flôres, quebrando vasos, e +interrompendo com gritarias e surpresas as prolongadas séstas do conego. + +André foi crescendo livremente, em correrias doidas, traquinas e +imprudentes, subindo ás arvores, despindo-se e atirando-se para as +bacias de marmore, sempre perseguido pela miss loira e terna, que lhe +ensinava inglez. + +As feições da mãe reproduziam-se, graciosas, no filho. O pae via, com +inquietação o mesmo fallar da mãe, os mesmos olhos tristes, a mesma +boca fina, apenas, em André, mais exangue. Teve medo que a +intellectualidade desequilibrada da devota tivesse continuado no filho a +vida de pavores christãos, e ao conego e á miss recommendou que o +deixassem livre, que o fizessem um animal forte e feliz, com poucas +resas e pouca grammatica. Quiz que elle aprendesse a ter o Amôr da Vida, +que aquelles pulmões respirassem sem medo e sem pecado as grandes rosas +que desabrochavam lentamente, petala a petala nos caminhos da quinta. +Que visse no canto das aguas um hymno d'alegria, no chilrear dos +passaros e no balançar dos ramos uma festa da Natureza, que elle proprio +tivesse a alma constantemente em festa. + +Assim lhe foi ensinado o pensamento dos antigos. Disse-lhe a alegria +imortal das fabulas gregas, os deuses que no vôo rapido desciam do +recurvo Olympo e vinham á terra violar os corpos nubeis das filhas dos +reis; a dança dos satyros e das faunezas nas clareiras das florestas +quietas, as festas da lavoura, as procissões a Céres no tempo em que os +trigaes amadurecem, a Dyonisos, quando os cachos são côr de rubim e de +esmeralda. + +Levou-o ás suas terras do Douro a vêr as vindimas, quando elle tinha +sete annos. Pelos montes verdes, onde a vinha ri, rasteira, curvada ao +peso dos cachos, bandos de trabalhadores curvados cortam, cantando, os +cachos e levantam-se um pouco para os lançar nos cestos; de quando +em quando a fileira move-se, forma-se em semi-circulo, desdobrando-se +como um exercito n'um movimento largo, agrupam-se para debandar outra +vez, com rythmo e graça. E as camisas brancas contrastam com os lenços +vermelhos, e riem as faces trigueiras, ha uma grande alegria, cantam as +boccas, e o mesmo movimento regular dos bustos que se levantam, dos +braços que deitam, n'um movimento largo a uva nos balseiros escuros. + +Depois das vindimas, os balseiros cheios despejam-se nas dornas, nos +lagares. O vinho ferve, com um aroma forte. E os trabalhadores cantam, +como no tempo da Hellada, glorificando a Terra e glorificando os Deuses. + +Habituou-o a vêr coisas bellas, a reparar nas minucias das plantas, na +finura dos sarmentos, na delicadeza dos coloridos das flôres, quiz que +elle amasse as paisagens quietas. E com o pae, André ia contente; não +lhe ensinava resas, nem o obrigava a saber lições. + +O conego e a miss, por um momento accordados, esquecendo as rivalidades +das Egrejas Catholica e Reformada, que os separavam e os traziam n'uma +lucta constante, censuravam o marquez por aquella educação original, que +seria muito bem cabida n'um gentio, mas não n'um cavalleiro portuguez. E +o conego desolava-se: + +--É para admirar que a alma da senhora marqueza não tenha ainda +apparecido... Que se ella vivesse, isto era tamanha mortificação, que +morreria de desgosto. + +E miss Lucy, fazendo com a linda boca vermelha um gesto de desdem, +terminava n'um tom cortante: + +--Improper! + +E André ia crescendo. Gostava da miss, porque era linda, tinha uns olhos +verdes, côr do mar, e uma pelle fina, branca como as gardenias, e o +cabello tão loiro, que André lhe perguntava se aquillo era oiro. Mas não +gostava do conego, porque, em o apanhando nas correrias do costume pelo +jardim, logo o prendia entre os joelhos e o fazia recitar, durante muito +tempo tantos rosarios d'Avés, padrenossos, de credos, salve rainhas, +actos de contricção que André chorava no fim. E D. Benito alegrava-se, +dizia que era o Diabo que fugia do corpo del niño. + +André não se aventurava já a puxar pela batina enodoada do conego, +quando elle dormitava no jardim: limitava-se a gritar de longe, e quando +D. Benito sobresaltado acordava e voltava para elle a face gorda, André +corria a esconder-se no regaço virginal da miss, que se fingia severa: + +--Aoh! Naughty boy! Very naughty boy. What did you do to D. Benito? + +Mas ria-se das partidas d'André e beijava a face pallida, os olhos tristes. + +De vez em quando apparecia a baroneza d'Angra a visitar o marquez. Mal a +presentia, André ia esconder-se n'algum recanto misterioso do parque, +atraz d'uma estatua, entre buxos altos. Não era que não achasse +agradavel estar com a baroneza, pequenina e gentil, com uns lindos olhos +frescos e em quem sentia, quando a beijava, um perfume doce; e mesmo os +labios d'ella eram mais vermelhos ainda do que os da miss, que os tinha +tão vermelhos e emanava d'elles tamanho ardor sensual, que a creança o +sentia confusamente. + +Mas, passadas as primeiras ternuras, a baroneza fazia-lhe um minucioso +exame de doutrina, diante do marquez que enrugava a testa, descontente. + +--Diga lá o menino os mandamentos!... + +André dizia contrafeito e arrastado. + +--E os artigos da fé?... E as virtudes cardeaes?... E os Novissimos do +Homem?... + +--Mundo... Diabo... Carne... + +--Carne, não, interrompia o marquez. Osso! Não é verdade, prima? + +André não comprehendia, mas gostava, porque a baroneza deixava-o logo e +voltando-se para o marquez: + +--O primo tem esta creança como um filho d'heretico. Já conheci um +inglez, e era protestante, que ensinava o catecismo aos filhos! Mas +o primo que tem papas na familia... + +--Chegam para salvar o resto. Escusamos nós de pensar nisso, sorria. + +--É pena ser seu filho. Tão lindo! Vê aquelles olhos tristes?... + +--Gostava mais que fossem alegres!... + +--Ora!... O primo não entende nada d'isto... Que lindos olhos!... Bem... +Bem... Tenho de ir á novena. + +Ao sair, sempre a mesma frase a proposito da escada onde figuras nuas se +perseguiam, num lavor elegante e sobrio: + +--O primo tem a casa cheia de indecencias! Acabo por não voltar cá! + +André, porem, ia a fazer doze annos; não podia continuar entre o +catecismo de D. Benito e o inglez doce da miss. O marquez mandou-o +para o colégio. Mas á tarde, quando o conego o trouxe para casa, André +abraçou-se ao pae a chorar e a pedir-lhe para não voltar ali. + +A disciplina escolar, os olhos curiosos dos camaradas que o troçavam, o +olhar duro dos mestres, o mau cheiro, a falta d'ar fizeram-lhe ter medo +do colégio. E prometeu ao pae tudo, para não voltar. + +--Até aprender as resas de D. Benito e as da tia Angra! + +Com grande escandalo de D. Benito, o marquez anuiu. + +--Escusas de aprender resas. Vou-te arranjar, quando a miss se fôr +embora, uma mestra franceza e professores que virão a casa dar-te lições. + +André ficou admirado. Então a miss ia-se embora? Porquê? + +--Acaba o seu contracto... + +André foi, a correr, perguntar á miss. Cheio d'angustia, com uma suplica +na voz: + +--Então vae deixar-me? + +--Yes, yes, my little André... E afagou-lhe os cabelos. + +André agarrou-se a miss Lucy a soluçar nervosamente. A miss +acariciava-o, queria beijal-o, chorava tambem, comovida, lagrimas de +prata que se prendiam nos compridos cilios d'oiro. + +Fôra a miss, até então, a unica mulher de que André gostára. A ella +fazia as suas confidencias, contava-lhe as proezas de brigas terriveis +com os amigos, as diabruras feitas ao conego. E a miss tinha sempre um +sorriso e um afago para a creança, nunca lhe ensinára orações, não o +castigava por não saber a lição, falta que se repetia a miudo; apenas +lhe dera uma biblia com gravuras recomendando-lhe a leitura--sem resultado. + +Á noite contava-lhe lendas poeticas da Inglaterra, castelãs brancas e +tristes, almas de mortos que vagueiam e a voz dorida dos pagens +soluçando d'amor... + +Muitas vezes, quando era mais mocinho, fôra a miss, no inverno, +aconchegar-lhe a roupa no pequenino leito. Ao adormecer, a sensação +branda das mãos delgadas de Lucy na sua face. E cantava como uma musica, +a voz que dizia, ao fechar mansamente a porta: + +--Good night, my little André. + +Mas a miss partiu em lagrimas dolorosas. André foi acompanhal-a ao vapor +com o velho «footman». Já ia longe o navio e ainda André acenava, os +olhos molhados, o soluço a contrair a garganta; a miss tambem agitava o +lenço, chorando... + +Tempo depois apareceu em casa, de manhã cedo, quando André andava a +regar os seus canteiros, a professora franceza que chegára de Paris. O +seu andar era ligeiro e miudo como o dum passaro e evolavam-se d'ella +uma gracilidade suave, desde os cabellos palidos até a curva rapida da +cinta delgada. Tinha nos pequenos olhos cinzentos uma malicia e um riso. +André, que se voltára, ficou boquiaberto. Certamente que a miss era +linda como uma santa e doces as suas mãos e a tia Angra tinha os labios +vermelhos e um perfume delicioso; mas nunca vira creatura assim airosa, +alta e delgada, que balançava o seu corpo quando andava, como se fosse +uma flôr, como um bloco de gracilidade a deslocar-se. + +Ao saber, porém, que era a mestra franceza, não a quiz vêr mais; +nem a cumprimentou. Estava persuadido de que era culpada da partida da +miss e guardava-lhe no peito, antes de a conhecer, um grande rancor. +Fugiu, a correr, para o fundo da quinta e ali ficou a chorar com +saudades da miss. + +Ao almoço André foi repreendido. Ficou calado, os olhos baixos sem +explicar o procedimento. O marquez disse-lhe que ia ter outros mestres, +pois não podia ficar a saber apenas o latim, as vagas e erroneas noções +de coisas que lhe dera D. Benito e as poeticas baladas de miss Lucy. + +A principio a vida foi dura para André entre os professores +indifferentes que tomavam as lições sonoleando, e mademoiselle Renée, +hostil, que, pensava elle, tinha causado a partida da miss, linda como +uma dessas santas serenas e indulgentes, que teem sempre, nos dedos em +fuso, o gesto da benção. + +André olhava para Renée, disfarçadamente; admirava a graça do seu corpo +de que saia um perfume tenue, as mãos brancas, as unhas cuidadosamente +tratadas, e, quando ella se abaixava, o palido reflexo da sua nuca +doirada. O perfume era subtil e perturbante. Respondia com maneiras +bruscas ás perguntas feitas numa voz macia e quente, falava-lhe muitas +vezes inglez, fingindo ignorar os termos franceses, para lhe ser +desagradavel. Mas Renée Viardot tudo suportava com paciencia, +lançava-lhe olhares enternecidos, queria afagal-o até, beijal-o num +impeto em que brilhavam os seus olhos claros; mas André fugia logo, +apesar dos quatorze annos, como uma creança indocil. + +No verão davam as lições na quinta, em baixo, junto aos tritões, numa +rotunda assombreada. Numa tarde quieta e quente, como estivessem juntos +e Renée tivesse ao cólo um livro que interessava André e de que lhe +explicava uma passagem, elle inclinou-se mais sobre o seu braço, quasi a +tocar-lhe na musselina transparente da blusa, poude sentir o perfume +brando e sensual e, interrompendo mademoiselle, perguntou-lhe bruscamente: + +--Que perfume usa? + +Nos seus olhos negros havia um quebranto e na face palida duas rosas +vivas despertaram. + +Renée agarrou-lhe na cabeça e mergulhando-lh'a na musselina da blusa: + +--Est-ce que tu aimes mon parfum? Dis! + +A impressão foi demasiadamente violenta. André fugiu, a tremer; foi +sentar-se sobre o arco verde e doirado dos limoeiros, a tremer, os olhos +parados, pensando na sensação deliciosa e rude que tivera. + +O aroma das rosas que lentamente se desfolhavam, o perfume dos lilazes +brancos e dos lilazes roxos que punham nos lilazeiros uma espuma branca +e uma espuma roxa, mesmo o cheiro acre dos limões maduros não +conseguiram vencer o aroma subtil e sensual do peito farto de mademoiselle. + +Dias seguidos, André pretextou enxaquecas, fugiu de Renée, espreitando-a +de longe com receio e com desejo de se approximar d'ella, outra vez +mergulhar a cara na frescura da musselina e muito tempo sorver o +inibriante aroma. Um dia, na estufa aberta, examinava langorosamente os +cravos que iam já a murchar. Havia-os de toda a côr. Todos os vermelhos, +desde a purpura sombria, até ás descolorações das rosas anemicas; +gritavam alguns côr de vinho, surgiam roseos e triumphantes, até que +desmaiavam rosados puros de geraneos, como bocas novas que querem beijar. + +E aos vermelhos, quer heroicos, quer tenues, uniam-se outras côres, +outras n'elles se fundiam ou se embutiam, perpassavam em alguns laivos +fortes de violetas, n'outros espraiava-se um branco que hesitava em ser +rosa; aqui um, desesperado, as petalas revoltas, como em arrepelos, era +d'um violeta ardido, além outro era todo branco, d'uma quasi irreal +alvura, como se anjos os houvessem beijado nas horas suaves em que do +ceu cae o rócio... Outro, tambem branco, beijos de abelhas o tinham +mordido, n'elle gotejava um sangue avermelhado; mas os vermelhos +combatiam, aqui vinho, além quasi roxo, havia como uma lucta de que +resaltavam gotejos, que pareciam cristalisar em coraes; em certos, +o vermelho do fundo degradava-se, triunfava fortalecido, até que nas +pontas recurvas se franjava de roxo. Havia retalhos de tunica do Senhor +dos Passos, carnes a apodrecer, pedaços de pelles virginaes, estriados, +franzidos, sempre frizados, raiados de côres diversas: aquelles eram +«modern style» em côres estranhas que se reuniam, certos cremes onde se +dilue o vermelho, tons sem brilho, onde a luz morre, côres de tijollo, +esverdeados longiquos que pareciam dormir sob os roseos. + +Mas todos tinham frescura, todos viviam uma vida impertinente que se +affirmava no odor sensual, perturbante e voluptuoso, todos eram d'uma +ardente mocidade, quer saissem dos tubos, entre folhas de musgo, quer +baloiçassem em hastes longas de craveiros, como que ejaculados, tal a +sua soberba. E mesmo os que eram enormes e faziam vergar a haste, como +um corpo cançado, na seda fina das petalas tinham sempre sorrisos, um +sorriso que excitava. + +Eram todos sensuaes. Faziam lembrar _croupes_ fortes de espanholas +d'olhos languidos e cabeleiras negras mordidas por pentes d'oiro. + +O langor das flôres, junto á puberdade que nascia e se afirmava e +entontecia, como as grandes olaias de marfineo calice, pelos jardins +calados nas noites d'agosto, perturbavam, embriagavam André, tal um copo +de capitoso vinho que se bebe d'um trago n'uma convalescença. + +Pé ante pé, Renée entrou e, curvando o corpo n'uma atitude provocante, +agarrou-lhe na mão e segredou-lhe: + +--Quer saber o meu perfume? + +A bocca vermelha e seca ria-se, contrafeita. + +--Ha dias, não tive tempo para lhe dizer... + +Aproximou-se d'André, apertou-lhe as mãos, deitava-lhe, ao falar, um +halito perfumado e quente. + +--Quer saber?--insistiu. + +André córou e quiz fugir; mas mademoiselle agarrou-o mais, tomou-lhe a +outra mão e apertando-lh'as, n'uma caricia sabia, palma com palma: + +--Não faço segredo: é uma mistura de resedá e jasmim do cabo. Quer vêr? + +Sem que lhe désse tempo para responder, poz-se nos bicos dos pés, mãos +nas mãos, olhos nos olhos, e approximou-lhe da face o cólo tremente. +Largando-lhe as mãos deitou para trás a cabeça palida de adolescente e +reavivou com um longo beijo a flôr exangue dos seus labios virgens. + +André beijou-a tambem, os olhos fechados, os corpos unidos, arcobotados +um contra o outro. + +Quando terminou o demorado abraço, André olhou para ella a medo. E por +sua vez agarrou na cabecita linda e beijou-lhe a boca longamente, +sofregamente... + +A noite, para André, foi toda de revoltas no leito, olhos abertos, +labios em febre, franzidos, a procurar outros labios que não vinham, a +desejar beijos, como se elles adejassem esparsos pelo ar e podessem +pousar na sua boca. Comparava os beijos suaves da miss com os beijos de +fogo que lhe dera Renée. E como era doce dormir depois de sentir as mãos +alvas de Lucy a afagar-lhe os cabellos n'um somno tranquillo e doce! e +como lhe era difficil adormecer, a revirar-se na cama, apagava e acendia +a luz, sempre a lembrar-se da caricia extranha e inedita, do perfume +estonteante, do calor dos labios secos, da macieza do cabello loiro, +como se fosse de seda, de todo o corpo fino e flexivel que se colára ao +seu, e n'elle deixára como cauterisadas placas de feridas, era bom e era +terrivel. E toda a noite passou assim, até que de madrugada adormeceu +murmurando em segredo o nome de Renée. + +Era a puberdade que aparecia subitamente, irrompendo d'um jacto, como um +poço artesiano de repente aberto. + +Longo tempo durou esse noivado vermelho. + +Certa tarde, D. Benito que ainda se arrastava pelo palacio, achacoso e +velho, fazendo do dia uma comprida sésta, surprehendeu-os a +beijarem-se. + +Clamando contra as iniquidades da terra, foi-se encontrar com o marquez, +que á sombra d'uma tilia meditava Marco Aurelio, e contou-lhe, vermelho, +esquecido do reumatismo que lhe tolhia as pernas, entremelando a lingua +numa algaravia inconcebivel, a abominação das abominações. + +O marquez, que pousára sobre o banco de marmore o livro antigo, +mostrou-lhe uma haste toda coberta de goivos brancos: + +--Vê esta planta, D. Benito? É algum peccado que na época propria se +cubra de flôres? Repare para ellas. Com que voluptuosidade mergulham-se +na atmosfera! Riem n'uma alegria clara e vívida por terem nascido. Da +raiz sobe, triunfante, a seiva para as alimentar. Perfumam hoje, +morrerão ámanhã, sem pecado, felizes por terem integralmente vivido. O +seu polen voará para fecundar outras flores, D. Benito. Deixe que a vida +se manifeste, deixe que todos sejam felizes! + +O conego arriscou uma apoplexia ao ouvir a blasfemia do fidalgo. Teve +forças para ir para casa embrulhar as escassas roupas e na mesma noite +partiu para Sevilha--queria morrer entre gente cristã, dizia. Não se +despediu d'André, nem de mademoiselle, apenas um comprimento seco ao +marquez. + +Fingiu este ignorar o que entre o filho e a mestra se passava. +Continuavam no seu idilio. Mas os annos passavam, André fez os seus +estudos e o marquez mandou-o para Florença. + +Renée regressou a França. Partiram juntos, por mar, para Barcelona. + +Foi entre beijos, que sulcaram o Mediterraneo calmo e transparente, aqui +azul-ferrete, além verde-claro, logo ensolado e doirado, sempre +transparente. E de noite iam vêr, sós, as mãos nas cintas, muitas vezes +os braços se uniam--a fosforescencia que se levantava na prôa, +brilhante, n'uma espuma fina, como uma poeira de mica. + +Como dois amorosos que acabam de dar o primeiro beijo, e logo, na ancia, +querem contar mais de mil, mal viram Cadiz branca e pequena, a luzir no +recurvo golfo azul; em Malaga não repararam no ar dolente das flamencas, +que cantam cheias de volupia, e mesmo no _Paseo_ sacodem as ancas, como +n'um convite para uma volupia triste, e os seus vinhedos claros; apenas +na cathedral feia e banal, se extasiaram diante d'um quadro, imagem de +uma santa. Qual? Não o souberam e chamaram-lhe Nossa Senhora do Desejo +insatisfeito. N'uma pequena tela um busto de mulher trigueira, andaluza, +forte, pelle doirada, olha para o ceu. Os olhos teem a expressão +dolorosa de quem muito deseja. E o vermelho dos labios carnudos, as +narinas dilatadas, dizem o que ha de sensual n'aquella expressão +ardente. O collo é aberto. E as mãos, ao tapal-o com um lenço +vermelho, ainda mais aquecem o tom quente do collo doirado. + +Indifferentes, viram Valencia entre vergeis, clara e voluptuosa na +planicie fertil e o Grao rumoroso, onde moirejam descarregadores nas +docas e operarios nas fabricas. E Barcelona que se alastra em renques de +arvores nas ruas largas, com seus palacios, suas avenidas, as Ramblas +onde se apertam catalães silenciosos, os mercados de flôres cheios de +gardenias, de jasmins e rosas, pareceu-lhes triste, porque alli se +deviam separar. + +Em vão subiram ao Tibidabo; donde se vê toda a Barcelona estendida, como +um tapete, cortada de ruas; correm, ora direitas, ora em sinuosidades, +linhas claras de platanos. Estendem-se as casas até junto ao mar azul, +de onde em onde raras torres se levantam e entre ellas sobresahe o vulto +gothico e afilado de Santa Maria de la Mar. + +A ligeira neblina que se levanta do porto e envolve a estatua de +Colombo, negra sobre a pedra branca da doca, parecia que envolvia tudo, +que dava ás coisas a tristeza que estava n'elles. E Renée chorava, +abraçava-se muito a André, obrigava-o a prometer-lhe longas e amiudadas +cartas e uma viagem a Paris, quando voltasse, no anno seguinte, +de Florença. + +E assim, por uma tarde triste, conseguiu André leval-a, pelo +passeio da Aduana fóra, entre as palmeiras, á estação. + +E os beijos cantaram, demorados e angustiosos, nas bocas dos amantes, +até que uma voz rouca gritou:--Viajeros, al tren!--e o comboio silvou e +partiu. André ficou a vêr o lenço de Renée e o comboio que se perdeu +n'uma curva, fumegando. + +Dolorosa foi, para André, essa noite. + +Pareceu-lhe vasia e silenciosa a pequena alcova onde durante uma semana +tinham dormido. Perseguia-o a lembrança do perfume, a macieza e a côr do +cabello d'um loiro palido como um sol convalescente, a frescura da pelle +fina, todo o encanto e todo o Amôr da deliciosa Renée que o iniciára e +que o amára e de quem sentia ainda as lagrimas amargas que se misturavam +aos beijos tristes que ella lhe dera nos curtos dias da despedida. E +André chorou. + +Na manhã seguinte partiu para Genova n'um _liner_ da Liguria. Com elle +regressavam á Italia cantoras do Liceu. Notou uma comprimaria delgada de +cabellos e olhos pretos, que trazia do mercado da Rambla um grande mólho +de flôres. Olhou para ella com desejo e n'esse desejo se surpreendeu, +quasi esquecido de Renée. Facilmente feito o conhecimento, os dois dias +de viagem foram rapidos em inconsequentes flirts, alegrias de dança na +tolda e leves concertos no salão. Em Genova se separaram e André +partiu para Florença ligeiro e esquecido, com um certo prazer de se ter +separado de Renée, que, agora o sentia, começava a pesar-lhe. + +Em Italia a vida foi-lhe facil entre monumentos e mulheres, em cujos +olhos boia uma grande alegria de viver. + +Teve paixões e conquistas; quiz realisar quadros dos mestres florentinos +que diariamente via no Pitti e nos Uffizi; procurou por toda a parte os +typos ambiguos, perturbantes no seu enigma, entre efebos e mulheres, +adolescentes sempre, ovaes perfeitos de rostos brancos, bocas sensuaes e +vermelhas. + +Nos _corsos_ da Italia passeou em cavallos inglezes; em Veneza poetisou, +no Grande Canal, pelas noites claras, sentindo humidade e paixão, até +que aos dezoito annos voltou a Lisboa sempre a mesma palôr na face, os +mesmos olhos tristes e boca exangue. + +O marquez aprestava o seu casamento com Violante Cerquedo, filha dos +condes de Cerquedo. + +Só no palacio, sem os risos do filho, procurou distrações na vida +mundana. Novo ainda, puzera-se a amar Violante, graciosa e intelligente, +cujos vinte annos cantavam triunfantes, como uma primavera florida. +Seduziu Violante a intelligencia do marquez, a sua figura aristocratica +e a maneira amorosa como a olhava, como se fosse uma obra d'arte. + +Pouco tempo depois do regresso de André, por um inverno chuvoso e frio, +a capella do palacio encheu-se de lumes e casaram. + +André não deixou os costumes que trouxera de Italia. Paixonetas diversas +amorteciam-lhe o coração, até que um dia, perseguindo Martha, uma actriz +loura e chique, que lhe fugia um pouco, a tornar-se difficil e desejada, +julgou ter «a verdadeira paixão da sua vida», como confessára, depois +d'uma ceia fausta e turbulenta, a Jacintho Roquette, seu irmão em letras +e seu confidente. + +André lançára-se, á volta de Italia, doidamente na literatura. +Frequentava redações e jornaes, theatros e cafés onde se reuniam jovens +escriptores cheios de esperanças e de imprecações, revolvendo as ideias +e os livros sem cerimonia, com o ar de quem, do alto d'uma montanha +inaccessivel á plebe, residencia olimpica de escolhidos, considerou já +os homens e as coisas. + +Instintivamente fugira d'elles, da sua imperturbavel confiança, do +azedume que d'elles suava quando se lembravam d'um exito. Ligou-se ainda +mais com Jacintho Roquette, caustico e risonho, com um real talento que +desperdiçava em cavaqueiras de café e em artigos feitos a trouxe-mouxe +para jornaes e revistas, sempre a luzirem, atravez da luneta, os olhos +azues, que dir-se-hiam infantis, no fundo uma grande bondade e um +caracter firme. + +As primeiras impressões d'André tinham tido um certo exito pelo seu +paganismo, uma maneira leve de escrever, lembrando a finura que teem os +mestres florentinos nas suas medalhas nitidas. + +Dissera recantos de paisagens, brilhos de mares azues, figurinhas que +tinham passado, subtis, pela sua vista, desaparecendo logo, na rapidez +das viagens, no imprevisto das caminhadas pelos campos serenos da Toscana. + +Ser delicado e cético, saboreou a ironia viva e o céticismo escarnica de +Jacintho Roquette e juntos andavam pelos theatros, vendo retalhos de +peças e demorando-se pelos camarins em flirts com actrizes, ceias +pacatas, que as companheiras não supportavam, by their own +respectability, orgias triunfaes, até que se apaixonou por Martha, essa +actriz magrisella, que guerreava a velhice com pastas de cosmeticos e +massagens, a unica mesmo que conhecia e usava os processos parisienses +para a guerra da galanteria. + +Martha tinha uma vida irregular, tecida em mentiras, misterios, certos +hiatos de treva, na sua vida, até para os mais intimos. + +Nunca um só amante, nunca num trimestre inteiro o seu leito conheceu o +mesmo corpo, antes variavam, mudavam, com sinceros _beguins_, ás +vezes o seu coração e o seu corpo pareciam uma estalagem de +entroncamento, como um vertiginoso vae-vem de passageiros. + +André, n'uma noite feliz, em que uma joia brilhou ante os olhos de +Martha, teve a ventura de a acompanhar a casa n'um trem que se +desarticulava, guiado por um batedor experimentado. + +E de manhã, ao almoço, satisfez, contente uma pequena conta de chapeus. + +Reconhecida a uma generosidade tal, Martha, durante tres dias, foi fiel +a André. Mas ao quarto dia, pretextando enxaqueca, recusou-lhe o leito +de pau santo e os braços brancos, ferteis em caricias. + +As enxaquecas repetiram-se e André entrou a desconfiar, a carpir-se +tristemente da infidelidade de Martha, a Jacintho Roquette que chasqueava: + +--Ella recebe-os ambos ao mesmo tempo? Não. Que te importa então? Os +beijos que ella te dá teem o mesmo sabôr? Teem. Que te importa o resto? +Encontras um perfume estranho no seu corpo? Mas é uma _coquetterie_ o +querer variar de perfume. Então? + +As rasões aduzidas não convenciam André e, lentamente, o que fôra talvez +um capricho, o desejo infantil de possuir a mulher da moda que era chic +possuir, foi-se transformando em obsessão, em ideia fixa, tinha a +necessidade de estar com ella constantemente, rondar-lhe o camarim, +espreitava-a entre os bastidores á espera da _deixa_, ia ao meio dia +esperal-a á porta do theatro, quando entrava para o ensaio, e, nas +noites de enxaqueca, desolado, nervoso, ia com o Roquette dizer mal +d'ella, pôr-lhe a nu todos os defeitos, inventando alguns, mas tendo +sempre um secreto desejo de a possuir, mesmo nas passagens mais +verrinosas surgia a imagem de Martha, nua, a bocca pequena espremida +n'um beijo, a offerecer-se-lhe. + +E André redobrava de violencia, dizia a vida postiça e infame da amante, +a teia de mentiras que urdia, as suas baixezas, com um prazer cruel +enumerava o rol comprido dos amantes, e terminava quasi a soluçar: + +--C'est une catin; il faut la tuer; «morte la catin, mort le chagrin.» + +--Mais uma filipica! concluiu, rindo-se, o Roquette. Vou-te apresentar +hoje uma das minhas amigas, a Princeza das Botas Cambadas. Curar-te-hei +pela hom½pathia: dentada de cabra, com pello de cabra se cura. + +Mas Miguel sentia-se frio e aborrecido, e triste, diante das princesas +do Roquette, até que um dia, sem dizer nada, decidiu-se a recolher-se á +Quinta Alegre, onde havia cinco annos não se demorava, pois depois da +sua viagem, tivera uma vida de estroina, que o fazia fugir de casa após +o almoço tardio, para só recolher a altas horas ou noite, até +madrugada clara. + +Fizera de Violante sua confidente, e a ella contou, polidas as +asperezas, o mal d'amor de que soffria, e o desejo de o curar. + +--Vou ser teu medico. Deste-te mal com as mulheres... Experimenta as +flôres. São mais lindas e fazem sofrer menos. Dirigirás o jardim. Manda +fazer as obras que quizeres. Precisamente tens aqui no «Studio» um +artigo sobre a architectura dos jardins. Faze modificações á tua +vontade. O teu pae concorda; eu ajudo-te, travamos relações, porque, +para dizer a verdade, mal nos conhecemos. Desde que foste para Florença +que não fallo comtigo, senão á pressa, quando te preparas para sahir. +Ainda te vejo menos do que quando eu era uma menina grave e te batia em +casa da tia Talleiros, pelas tuas partidas. Olha, ámanhã começa o mez de +Maria... Enfeita a capella. Tens ás tuas ordens o jardineiro e o jardim +todo. Tens invenção e gosto... olha que eu exijo genio!... + +--Oh! Genio... sabes?... + +--Bom; contento-me com talento. + +--Vá lá, prometto... + +Apanhando um grande ramo de lilazes brancos, poz-lh'o na cabeça, como um +diadema: + +--Está enfeitada a Santa! + + * * * * * + + + + +TIBIDABO + + AO SR. BARÃO DE S. PEDRO. + + +TIBIDABO + + +Na tarde de agosto quente, fugira de Barcelona para a escalvada montanha +que a fanfarronada hespanhola bátisou de Tibidabo, o sitio da Judeia +onde Satan prometeu a Christo as grandezas do Mundo e os fulgores do +Peccado. + +O monte levanta-se, precipitadamente, do fundo da planicie em que +Barcelona ondeia. E querem dizer talvez na sua os catalães, que Satanaz +ergue as creaturas que quer tentar e, firmando-as nos cimos d'este +monte, oferece-lhes a cidade, imagem brilhante dos esplendores mundanos. + +Sob o toldo do restaurante deserto me acolhi, a sentir a brisa +preguiçosa. Espalmava-se em baixo a cidade. Corriam as suas avenidas +arborisadas, as «Ramblas» que se seguem como uma bicha, e a «Gran-Via», +a infindavel «Cortes», que corta Barcelona em diagonal. Quedava-se o +Parque enorme e, ao fundo, n'um vago de nevoeiro, o mar azul, +riscado pela linha cinzenta da doca, onde os navios acolhidos eram imoveis. + +Vinha caindo a tarde sobre as raras torres das egrejas. Brilhavam um a +um os bicos de gaz e as janellas em que o poente puzera uma luz de oiro. + +Longo tempo ali estive. Sonhei? Foi real? Não sei. + + + +Um mancebo pallido e triste abeirou-se de mim: + +--Vês a noite a cair? D'aqui a pouco as ruas vão brilhar do fremito +luminoso dos desejos das multidões. A cubiça e a luxuria porão brazas +nas almas que incendiarão os olhos. As mulheres mostrarão nos bailes e +nos theatros o maculado esplendor dos seios perfumados. Nos mostradores +das lojas, á luz das lampadas electricas, as joias farão percorrer nas +mãos desejos de roubo. A Besta ergue-se--olha como se ilumina a cidade! +Vês um clarão que nasce, sobe e se perde no Ceu? Julgas que é dos +candieiros? Não, é das almas! é toda debruada de vermelho como as chamas +dos incendios. Como é bella a cidade quando é culpada! + +Voltei-me para o mancebo, tranquilamente. Vi que era o Diabo. Não que +tivesse chifres ou cheirasse a enxofre, mas pela belleza triste, de quem +conhece tudo. Não lhe tive horror. O Diabo é o gnomo subtil que +trabalha na sombra as filagranas das tentações. É o Diabo que amontôa as +cidades, inspira os artistas, empurra o homem para as civilisações que +apodrecem e brilham. + +Não lhe respondi... N'um fogacho violaceo, o sol apagára-se no mar. Era +tudo cinzento. Pelos canaes das ruas, por entre as arvores, n'uma sombra +mais densa, cintillavam os bicos e os mostradores das lojas. + +O Diabo continuou: + +--Quero a tua alma... + +Olhei-o atonito. Para quê a minha Alma? O grande colecionador tinha um +museu estranho em que brilhavam todas as taras possiveis. Assassinos +vulgares, ladrões de taberna, mães que vendem as filhas, incestuosos, +ganindo de luxuria, velhos abades macerados e corroidos pelas +disciplinas, que as ilusões vãs de Satanaz venceram, bispos, cardeaes +simoniacos, todos os pecados que se engastam como gemas e possuem um +fulgor lugubre, como se as pedras dos diademas ardessem nas cabeças, as +gargantilhas nos pescoços, as manilhas e pulseiras nos braços, os +compridos cintos nas cinturas! Satan tudo possuia, tragicos homicidas, +capitães que entregam os seus soldados, reis que mancham os altares, +velhas dementes que ululam nas monstruosas orgias, rojando pelo chão os +cabellos pintados, crispando as boccas maquilhadas nos espasmos +lancinantes, poetas que arrastam a lira pelos lameiros, virgens que se +vendem sem amor e sem vicio, toda a constelação dos sete pecados, como +sete soes nocturnos, envenenados pela treva, corroidos pela lepra, um +museu formidavel, sombrio, apesar de todos os brilhos, frio e +angustiante, como um corredor que leva a presentida cilada--era tudo de +Satan e queria-me! + +O pasmo pintou-se na minha cara. + +--Quero a tua alma! Falta-me na coléção. É por isso que hoje abandonei +as ruas das cidades e seus encobertos vicios para subir a esta montanha, +que tem o nome de outra, onde prometi tudo e tudo me recusaram. É o nome +da derrota. Não sou supersticioso. Tens uma alma de amoroso. Amas pelo +Amor. Idealista e sensual, a Fórma bella comove-te como um poema e mais +nada. Não tens as crispações dos lascivos. Amas uma mulher e uma estatua +da mesma maneira profunda, serena e harmoniosa. O amor não rebenta em +beijos violentos, como as folhas das arvores pelas primaveras +risonhas--floresce em imagens. Eu, que não posso amar, que soluço +angustiosamente pela minha impotencia, quero a tua alma! + +Quando o Diabo fallou do amor, do negrume da noite que se apoiara já +fortemente sobre a cidade e o monte, vi passar, no seu andar musical e +casto, tal uma deusa, a Bem-Amada. Foi como se uma via-lactea suave +se accendesse e florissem as flôres da terra sobre as estrelas do Ceu... + +--Não te dou a minha alma. + +--Vão abrir-se, d'aqui a pouco, na cidade enigmatica, as portas escuras +das casas de jogo. Dar-te-hei o segredo de sempre ganhar. Farei correr +por ti os cubos amarelecidos dos dados. As pintas pretas far-se-hão +olhos e verão onde apontas. As bolas das roletas saltarão por ti nas +arestas de cobre... Conhecerás o prazer de ver amontoar na tua frente as +notas e as moedas de oiro, de observar, ironico, os rostos, que a +angustia encarquilha, dos jogadores que perdem. E os sobresaltos do +banqueiro, imovel, mas de olhar esgazeado, far-te-hão rir... + +--Que importa? Jogarei com os sorrisos que brincam nos beiços finos de +Livia. Ganharei sempre porque, quer ella sorria ou não, vel-a-hei e, por +vel-a, andarei contente... + +--Ensinar-te-hei os segredos das cotas, dir-te-hei as confidencias que a +si mesmos mal ousam segredar os financeiros internacionaes. E farás cair +as grandes emprezas que vão dar ao mundo um aspéto novo. Arruinarás +povos inteiros, farás baquear os tronos em que rainhas hirtas se +assentam, no pavor das revoltas. Serás o ordenador magnifico dos cracks, +e, de paiz em paiz, o teu nome correrá, nos fios dos telegrafos, +espalhando o sobresalto e a ruina. + +--Não quero. Basta que o meu nome seja pronunciado n'uma voz suave pela +Bem-Amada. Dito por ella, o meu nome vae, de flôr em flôr, espalhar o +perfume da sua bocca. + +--Amas a mulher? Dar-te-hei as cortezãs vestidas de joias, como idolos +antigos. Virão, de rojo, abraçar-te os joelhos, como escravas. E dos +corpos alvos e brilhantes subirão perfumes que entontecem... Dos seus +braços frescos, como as grinaldas que se entretecem com jasmins, fugirão +as caricias. Terão vozes magoadas a suplicar beijos. E, mais que as suas +joias, brilharão os seus grandes olhos... + +--As joias são flores mortas, retalhos de astros que sucumbiram... Essas +mulheres são como as joias: os beijos puzeram nos seus corações a +dureza, a frieza e a geometrica forma das pedras lapidadas. Prefiro, a +todas ellas, o gesto lento e curvo da Bem-Amada quando compõe o seu +cabello preto. + +--A mulher carinhosa e pura é como uma flôr sem perfume. É preciso que o +vicio lhes ponha um estremecimento. Dar-te-hei aquellas que envenenam a +sorrir, que atraiçoam entre duas caricias, a amante que vae surpreender, +n'um beijo, o segredo do amante, o segredo que leva á Forca, aquellas +que descobriram ineditas lascivias, corrutas e artificiaes, que eu mesmo +vestirei com tecidos fantasticos, que espalham um amavío! + +--Que amavío maior do que ver a Bem-Amada quando descança a face branca +sobre as mãos cruzadas, n'um vagaroso gesto cheio de doçura? + +--Dar-te-hei a alegria e a insaciedade, a embriaguez que exalta, o +redomoinho dos desejos que estrangulam, as bocas avidas e perseguir-te +com beijos e dentadas, toda a loucura incendiaria, a profanação de todos +os cultos, o poder de corromper, os venenos subtis que matam lentamente +e de longe, as misteriosas aguas e misteriosos pós, que fazem definhar, +como flores que se fanam, as creaturas... Serás o senhor das almas e dos +corpos. + +--Basta-me vel-a guardar, a sorrir-se, a carta que lhe escrevo... + +--Entregar-t'a-hei! Poderás tel-a entre os braços, morder a boca fina, +sentir sobre o teu peito o arfar apressado do seu collo amoroso, ver os +olhos cerrar-se como n'uma agonia doce... A sua figura fragil +aconchegar-se-ha entre os teus braços, aquecerás a sua frieza, será tua, +reconhecida, amorosa, fremente de paixão... Queres? Dá-me a tua alma! + +Tive um sobresalto, como quem, passeando n'um jardim florido, pisa um sapo: + +--Não. Basta-me sentir nas noites claras, quando lhe fallo á varanda, o +seu olhar cair gotta a gotta sobre os meus olhos extacticos! + +O creado veiu dizer-me que ia fechar-se o restaurante. A treva +escorregava pelo monte. Um clarão vinha da cidade estendida a meus pés. +E vago, confuso, o ruido da cidade com os seus vicios, seus tumultos, o +cio que começava. + +Desci. E, a acompanhar-me, senti a Bem-Amada, perto de mim, carinhosa, a +olhar-me longamente com os seus largos olhos pretos. + + * * * * * + + + + +A PRINCEZA PERDIDA + + AO SR. JOSÉ DE SOUSA MONTEIRO. + + +A PRINCEZA PERDIDA + + +N'aquella serena tarde de primavera, a princeza descera com as +pequeninas aias e a camareira-mór as escadas de marmore branco e de +marmore roseo do sumptuoso palacio real. + +Era n'uma côrte de complicada pragmatica. Os movimentos eram feitos +consoante regras antigas; cada passo, cada mesura, cada sorriso, vinham +marcadas no grosso livro que um mordomo-mór colligira, a exemplo do que +fizera um imperador bysantino. + +Apesar d'isso, porém, na côrte esplendida havia um pouco de mocidade. E +detraz dos leques de varetas rendilhadas, os labios abriam-se em +sorrisos os olhos franziam-se, quando estava distante a hirta, +camareira-mór. + +Os bailes tinham solemnidade como os officios divinos; mas as cores +frescas das raparigas, a ligeiresa com que dançavam, a graciosidade que +florescia nas suas atitudes rapidamente desmanchadas, logo +substituidas, davam-lhes o ar de festas. + +No grande palacio brilhante, as gentes andavam lentamente, como em +procissão. No rosto do mais alegre era preciso espelhar-se, sombria, a +tristeza que emagrecia a face pallida do rei. Era mister que ninguem +perturbasse, com o tenir fresco d'um riso, a dôr real. Se alguma vez as +donzellas deixavam passar o riso atravez das rendas finas dos seus +leques, logo a camareira-mór intervinha, sevéra, a repreender. Nos +tapetes morriam os sons dos passos; os grossos reposteiros abafavam o +ruido das vozes. O silencio era eterno, como essa grande e aniquilladora +magua que abatera a vigorosa mocidade do Rei. + +Em tempo, o palacio vibrára com o clamor das festas; as musicas +saltitantes riam nas amplas sallas. Os vestidos claros, em cujos decótes +os peitos brancos se mostram, sublinhavam a alegria. Um bobo pequenino e +monstruoso punha um chocalhar de guiso em cada frase. E junto da Rainha, +loira, pallida, delgada, o Rei tambem sorria, a olhar a flôr preciosa e +fragil que pelo braço levava, em movimentos musicaes, como uma ave. + +Junto á sua frescura luminosa, as joias pareciam flores. E o diadema +pesado, sobre os cabellos loiros, era como uma aureola maior n'essa +cabeça fina. + +Ella tambem sorria, olhando os olhos escuros do Rei. E pela bocca +vermelha havia como um palpitar de beijos. A festa continuava. Havia no +ambiente claro de tantas luzes, tantas joias, tantos olhos contentes, +uma alegria maior. Vaporisavam-se os movimentos. As rendas tremiam nos +vestidos das mulheres, nos gibões de seda dos gentishomens. As conversas +d'amor faziam arfar os seios... O Rei e a Rainha continuavam a +sorrir-se, como dois amantes rusticos, que se encontram na vinha, por um +suave outomno. + +Uma noite, porém, a dôr entrou n'esse palacio claro. Ligeiros, para não +fazer ruido, como sombras, os cortesãos, as damas d'honor, as aias, +passavam, murmurando resas, ou trocando, baixinho, as impressões. Era +como um ciciar leve de brisa sobre um campo de flores. Os vultos +cruzavam-se: + +--Então? + +--Na mesma... + +--Impossivel salvar-se... + +--O fisico não atina com o remedio... + +Era a Rainha, que, como certos arbustos que morrem, depois de florir, +finava-se ao dar á luz a pequena princeza. + +A dôr tragica e calada do moço Rei! Nem uma palavra se lhe ouviu da +bocca crispada. Nem um grito na luctuosa camara onde carpiam as senhoras +da côrte. De joelhos junto ao leito magnifico, onde se postára +depois de ter cerrado os largos olhos garços, o Rei chorava em silencio. +Os frades diziam monotonamente, como um esvoaçar de insectos, as resas +rituaes. Um ou outro soluço, a desolação d'um ai, cortavam a funebre +quietude; mas o rei, entre as suas as mãos finas e amarellecidas da +Rainha, não tinha um grito, nem uma palavra. Nos labios da morta ainda +havia o sorriso, esboçado a olhar para o marido... + +O Rei mandou retirar a todos do quarto. Quiz elle proprio vestir aquella +que tanto amára. Beijou-lhe os olhos de palpebras azuladas, beijou os +cabellos, que na imprecisa penumbra, tinham um brilho d'oiro... Outra +vez caiu de joelhos. + +Então as palavras de dôr, abundantes, sairam dos labios tanto tempo +represos. Disse-lhe o grande amôr e a grande magua. Prometteu-lhe viuvez +eterna; que a sua alma se conservaria fechada, como um relicario, a +guardar a imagem quasi divina da mulher primeira amada, unica... + +Longo tempo se conservou, as mãos frias da morta entre as suas, no +quarto silencioso, onde apenas os seus queixumes davam uma nota de vida. +No lampadario já se extinguiam as luzes, que, de quando em quando +lançavam, altas, dentadas, labaredas azues e d'oiro. + +A madrugada clara entrou pelas janellas, como um chilrear de +passaros. A vida renascia, musical, da noite escura. No coração do Rei a +dôr fizera uma sombra eterna. + +Entre os brandões acesos levaram o cadaver, vestido por mãos +mercenarias, que as do Rei nem tinham forças para o peso dos anneis... + +Filas de bispos mitrados, graves e compungidos, seguiam o feretro +atravez as ruas da cidade e por estradas risonhas, até o convento +magnifico em cuja egreja jaziam todos os numerosos reis e rainhas da +casa real; seguiram os fidalgos como seus escudeiros de lucto; seguiu, +commovido, o povo, que pranteou a morte d'aquella que fôra linda e nas +ruas sorria ás criancinhas pobres, que lhe pediam a benção... + +Era uma comprida fila que se perdia nas corcôvas da estrada. As +confrarias, os conventos mandaram os irmãos e os frades, com as +insignias. E áquelle radioso sol d'agosto, que punha na athmosphera uma +tremura, tudo resplandecia, como uma apotheose. Brilhavam as lanças, +brilhavam os ouros, brilhavam os báculos e sobretudo refulgiam as +insolitas pedrarias dos bispos, caminhando magestosos e tristes. E o +psalmejar dos padres, ouvido ao longe, perdia a nota de lamento: era +como o ultimo echo d'um canto de victoria, no dia glorioso... + +No palacio quasi deserto, o Rei ficára no quarto vazio. Como arredal-o +de lá? De joelhos ainda, pensava talvez ter entre as suas mãos os +dedos finos da Rainha morta. De quando em quando um soluço parecia +estalar a garganta. E as lagrimas desciam pela face, iam morrer na barba +perfumada. + +Olhava para o grande espelho, onde a Rainha costumava ageitar, á noite, +os cabellos fartos. Lembrava-se de ter alli visto o gesto gracil, +aquelle pó d'oiro, e o corpo que tinha a frescura e a elegancia d'uma +flôr que vae a desabrochar. Porque não guardam os espelhos as imagens +reflectidas? Teria alli, viva, a Rainha, na attitude de compôr as sedas +das suas tranças... Mas os espelhos deixam tudo escapar. Assim os lagos +não guardam, no seio ligeiro, voluvel, o vôo curvo das pombas que fogem... + +E para alli se quedava, vivendo do passado, como um velho... Que +importava que as guerras na fronteira distante assolassem o paiz? Que +tinha que os povos gemessem, que as catastrophes aluissem as cidades +fulgentes ao luar e ao sol nas suas cathedraes preciosas, que os rios, +saltando os leitos, invadissem as aldeias claras? Que importava a vida +se elle só vivia da morte? Mergulhassem os outros no passado os olhos +cubiçosos e vivessem de tanto explendor de batalhas e de riquezas que +listravam de clarões a historia do reino afortunado. Na miseria +presente, que se recordassem! + +A propria princeza entre as mãos das açafatas, delicada e linda, ia +vivendo, nos grandes olhos verdes, uma tristeza, como quem sabia... No +palacio sevéro, lugubre, sem os tinidos das alabardas e os mantos que +formavam lagôas, nas alcatifas, ninguem se via. E ella, a pequena +princeza, não aprendera a rir e tambem não chorava. + +Uma vez ou outra, ao atravessar silencioso e só as camaras, o Rei via a +princeza; machinalmente as suas mãos pallidas passavam pelos cabellos +loiros da filha. E seguia, taciturno, sempre diante de si a imagem +d'aquella que morrera a sorrir e o esperava na crípta silenciosa do +austero templo gothico. + +Ensinavam as aias á princezinha, não relatos crueis de contendas, nomes +temidos dos reis seus avós, mas historias maravilhosas. Diziam-lhe que á +noite, os grandes calices das magnolias abriam-se, com um ruido musical. +E de dentro saiam côrtes de fadas minusculas, vestidas com mantos +tecidos com raios de luas-cheias. Pelo parque andavam livremente entre +as roseiras explendidas... Contavam-lhe que á meia-noite, as arvores se +desprendem da terra e vão beber, como os gados, ás limpidas ribeiras. +Ella sabia que entre si os animaes falavam, as andorinhas nos bicos dos +telhados, os cisnes brancos nas lagôas azues, os pavões sobre as +arvores, quando espalmam as enjoalhadas caudas, as pombas brancas á +beira dos poços, sobre o marmore polido. + +Conhecia os trabalhos ligeiros dos gnomos, que nas cavernas escuras +trabalhavam o oiro e o ferro; distinguia os alfagemes, que afiam as +espadas mortiferas, e os ourives, que afilagranam os metaes. + +Diziam-lhe as lendas floridas dos amantes, de cujos tumulos saem +sorrisos carregados de rosas, que n'um arco perfumado se abraçam a +misturar os perfumes... + +Mas a pobre princeza, apenas nubil, não conhecia a Vida, nem o Amor, nem +o Riso. + +Um dia, pois, a princeza, com as pequenas aias, desceu ao jardim do +sumptuoso palacio. + +Misterioso por tantas sombras, tantos caminhos que se contorciam por +entre rugosos troncos, tantas aguas que cantavam nos marmores brancos, +tantas flores que dentre a verdura perfumavam... + +De socalco em socalco abriam-se, em leques, as escadarias; saltavam as +aguas das cascatas, despenhavam-se as trepadeiras floridas, rastejavam +as hervas, rosas de toucar e jasmins lançavam os ramos frageis. + +Junto ao palacio o jardim era cuidado, como uma cabeça garrida. As +largas flores espargiam os aromas; os repuxos finos esguichavam fios de +prata, pelas ruas areiadas passavam, magestosos os pavões solemnes... +Mas depois, começava a floresta. As altas arvores luctavam, +estorcidas: algumas subiam, magras como pedintes, n'uma aspiração, muito +direitas para o sol. Outras torciam-se, esta sem forças, esgarçava-se +mirrada. E a hera crescia, vestia os troncos, até nas arvores secas +vicejava, como uma mascara risonha n'uma face de morto. Alguns troncos +de seculares carvalhos continham grutas escuras. E os passaros, dentre +os galhos, ao ruido dos passos, levantavam vôo, alvoroçados. + +Era o «Caminho das Rosas», que alli levava. Rosas de toda a côr: +ensanguentadas, brancas, côr de mel e de marfim, côr de carne, rosas +para florir peitos de danados e para tranças de primeiras commungantes, +rosas que abrem chagas no verde das roseiras, outras que chamam beijos, +como colos nus em festas illuminadas, rosas que teem toda a pureza d'uma +noiva, outras toda a garridice d'uma amante, rosas para tumulos, +brancas, mortas quasi, rosas cheias de vida, que pareciam querer saltar +das hastes, e offerecer-se, lascivas... + +Vinha do seu conjuncto um perfume entontecedor. Por tanto aroma lançarem +no ar, nas noites quentes d'agosto, algumas damas da côrte caiam, em +deliquio. E todas tinham medo d'aquelle portico encantado, que parecia +abrir para um paraiso, mas que podia descer a algum abismo. + +Foi para ali, que, correndo atraz d'uma borboleta, se dirigiu a +princeza. Em vão lhe prenderam as vestes de seda os espinhos das +roseiras, em vão a chamaram as pequenas aias; mesmo foi debalde que a +voz secca da camareira-mór gritou por ella, entre respeitosa e +auctoritaria. A princeza, a rir, córada, continuava atraz da grande +borboleta, deixando tiras de seda nos galhos em flôr que, sacudidos, +lançavam sobre a sua cabeça petalas finas. + +Ninguem, comtudo, se atreveu a ir atraz d'ella. + +Corria no palacio e na cidade uma lenda extranha sobre a floresta, que +continuava o jardim, depois do perfumado «Caminho das Rosas». + +Dizia-se que n'uma epoca remota, no tempo em que pela cidade luminosa e +culpada ainda passavam os santos ensinando a Lei e edificando as gentes, +governava o reino uma rainha pagã. No jardim murmuroso e claro havia +fremitos de beijos. Nas aguas dos tanques brilhavam corpos ligeiros. Nas +sallas que as tochas e os lampadarios illuminavam, mulheres quasi nuas +dançavam levemente ao som de musicas alegres. E o vinho levava das taças +lavradas ás boccas vermelhas a alegria e o Amôr. + +Por toda a parte havia flores, havia risos, havia festas. Os +cavalleiros, nas justas, paravam; morriam as scentelhas em que ardem as +espadas no choque dos combates, e das boccas frescas saíam vozes a +cantar a formosura das florestas, a elegancia das mulheres, a limpidez +das aguas cantantes. + +Um dia, um santo bispo entrou, andrajoso e cançado, a pedir pousada; a +rainha, ao vel-o tão miseravel, mandou-o recolher no canil, com os +creados das matilhas. Os cães, piedosamente, foram lamber os pés em +sangue do santo homem. + +Mas a Rainha não o quiz receber. Como de S. João Baptista, as palavras +subiam para as portas, asperas e condemnatorias. Toda a noite a sua voz +rude annunciava o castigo. + +A Rainha, cançada de ouvir a voz rouca, mandou-o açoitar e expulsar do +palacio, em que reviveu a alegria. Mas durou pouco, porque um dia uma +lingua de fogo saiu da terra, e agitou-se no ar, de sangue e oiro; +espavorida, toda a côrte fugiu, para não mais voltar, para a floresta +misteriosa, que ninguem sabia ao certo onde acabava. + +E todo o reino teve medo, como d'um inferno, d'essa floresta que +começava por uma extranha floração de rosas e terminava porventura pelos +eternos gelos, pelas labaredas, talvez... + +Por ali seguira a princeza, a rir-se. Em vão o Medo guardou durante +seculos a misteriosa entrada. Em vão as rosas se agitaram, como +turibulos, para a entontecer com o perfume, e os galhos a prenderam, e +os espinhos lhe rasgaram as rendas e as sedas. Foi correndo. A +borboleta enorme parecia uma joia a fugir por entre as flores. A +princeza era como uma ave, delgada e linda, atraz d'ella. + +Subitamente a paisagem modificou-se. Do dia glorioso que estava no +jardim do palacio, nasceu um crepusculo doirado, como um velho damasco +amarello. + +A luz parecia um convalescente a rir-se por cima das arvores, pelos +tanques quietos, pelos marmores. E as folhas das arvores tremiam fazendo +brilhar os filamentos d'oiro. As flores tinham todas um aroma ligeiro, +como os frascos de perfumes, que durante longos annos se guardam, +vasios, nos armarios fechados. Eram brancas todas as rosas e as petalas +enrugadas, como pelles finas de velhas, que viveram nos claustros, entre +cosmeticos. + +Quando a princeza deu pela mudança da luz e da paisagem lembrou-se da +lenda pavorosa que afastava as gentes da floresta e do Caminho das Rosas. + +--Onde estão as linguas avidas do fogo? perguntava-se. Onde os gelos que +prendem e matam? Onde os dragões? + +A paisagem era toda serena e d'um riso triste. Dir-se-iam anemicas as +flores palidas, as anemonas de seda velha, de cera transparente, que por +toda a parte deixavam cair, de cançadas, as petalas finas. E nos +caminhos a areia preta era crusada pelos veios das hervas +rasteiras, coberta pelos galhos dos arbustos, aqui sacudiam-se rosas, +alem os geranios frescos. Pelos troncos direitos das arvores a hera +enroscava-se, a subir. Nas curvas dos tanques, dormiam os nenuphares. +Nos marmores dos poços as trepadeiras cobriam os lavores. Havia um +silencio leve, por onde perpassava o espirito d'um canto, como um aroma +que a brisa traz de longe. + +Os templos tinham as portas abertas. A princeza para elles entrou, a +medo, a espreitar, afastando os loureiros e os mirtos, que quasi +fechavam a entrada. + +Ninguem. Apenas os deuses de marmore, calmos, esperavam as oferendas. +Mas as aras dos sacrificios tinham humidade da lavagem recente. As +cinzas eram quentes; no templo d'uma deusa havia grinaldas de rosas e +pennas de pombas brancas soltas pelo chão. + +Alguem ali vivia, pensava a princeza. Mas quem? Genio malfazejo, que a +mataria, ou fada carinhosa? Seria ali que nas noites claras virião +passear as côrtes sumptuosas que moram nos calices das magnolias? + +Habituada ao silencio sombrio da côrte não a inquietava aquelle silencio +leve. E continuava a explorar a encantada floresta, onde parecia +agitar-se um simulacro de vida. + +Como um coração que vive da saudade dos tempos remotos, assim ali +parecia existir a repercursão d'uma vida antiga. A cada passo a princeza +encontrava signaes de sandalias, flores cortadas, uma fita, indicios de +vida. Mas d'onde partiam? Quem os deixava? + +Viveria ali, n'aquelle paiz de luz anemica, uma côrte de feiticeiras +tragicas, que esperam, para sair das cavernas, as badaladas lugubres da +meia-noite? Mas não. As feiticeiras escolhem as montanhas altas e +escarpadas onde chegue o canto soturno do mar revolto, sem arvores que +impeçam o vôo incendiario das blasphemias e das imprecações para o ceu +sem lua e sem estrellas. + +Ia caminhando a princeza. Via ribeiros claros que escorregavam sobre +seixos brancos; lagôas azues, fachadas de templos, quincuncios bordados +por buxos altos. E as ruas seguiam entre filas d'altas arvores formando +tunel, até serem cortadas por novas ruas, com arvores ou flores. + +Cançou-se a pequena princeza. Um vago terror a invadiu. Quiz regressar +ao palacio, mas não podia. As ruas d'arvores, os templos, os ribeiros, +as estatuas, sucediam-se. Parecia-lhe estar n'um complicado labirintho. +Como conseguir o magico fio? + +Uma noite, que parecia artificial, espalhara-se pelo ceu e envolvia as +coisas. Á tonalidade doirada, succedia uma tonalidade branca, como +se tudo fosse feito de prata. A princeza sentou-se n'um banco, a chorar. + +Ouviu de longe como um passar de brisa leve por harpas suspensas em +arvores. Escutou. Era um canto que um côro fazia subir, ligeiro como um +fumo. Mais se approximava. As vozes eram cançadas, mas limpidas. +Cantavam a vida e as festas, o rir das flôres, a alegria das arvores na +primavera. + +Cada vez se approximavam mais. Dirigiam-se, certamente, para o sitio +onde ficára a princeza, um jardim junto d'um templo de marmore verde. + +Já via as canephoras, com açafates de flores, seguidas pelas escravas +com tamboretes; depois a numerosa theoria de mulheres, com archotes, +que, ao queimar-se, illuminavam e perfumavam. Não havia homens. +Certamente que vinham para a festa atheniense das Thesmophorias. + +Eram as habitantes da floresta. Caminhavam lentamente, as cunharicas +fluctuantes sobre as tunicas amarellas. As hidrophoras traziam as urnas +na cabeça. N'um gesto gracioso, seguravam-as com uma das mãos; os braços +nus eram tão brancos como os marmores transparentes das urnas. + +Quando viram a princeza, medrosa, a esconder-se entre as arvores, a +procissão parou, as vozes calaram-se, a meio do canto. + +Em voz baixa concertavam entre si a resolução a tomar. A princeza ouvia +apenas um zumbido confuso, como os das abelhas, quando nos dias quentes +se cruzam pelos jardins floridos. Colada a um tronco, palida como um +ex-voto de cera, viu com pavor approximar-se d'ella uma das habitantes +da floresta. Era porém, tamanha a sua beleza e a sua gracilidade, que o +medo tombou do espirito da princeza. Pensava-se ver uma haste florida a +andar. Vagarosa, os seus gestos curvos e lentos pareciam fazer nascer no +ar quieto uma harmonia... + +--Perdi-me aqui! Perdi-me aqui! + +--D'onde vens? + +--Do palacio. Sou a princeza. As minhas aias não se atreveram. Eu corri +para apanhar uma borboleta. A borboleta fugiu. Fiquei sem saber onde +estava, que caminho tomar. Isto é tão lindo! Mas faz tanto medo não se +saber onde se está! + +--E queres voltar? Deixaste teu pae e tua mãe... + +--Minha mãe morreu. Meu pae não o vejo... quasi nunca. É um velho triste +e duro, que não fala... Tenho medo da camareira-mór. E as aias estão a +chorar ás escondidas d'ella como sempre... A vida é triste, triste, no +palacio... + +--Preferes ficar comnosco? + +A boca fina pareceu sorrir-se. A princeza olhava para as mais que se +tinham acercado. Eram todas lindas e moças, mas sem frescura, como +as rosas que abrem pelas chuvas e ventanias. + +--Se me quiserem. Se me quiserem. + +--Pois ficarás! Ficarás! Vem comnosco! + +Poz-se em marcha o cortejo, novamente. Entraram no templo com a princeza. + + +E a princeza ali ficou, porque nos rostos se conservava a mocidade e não +havia a dôr, nem o constrangimento. Tudo era claro e sereno. E não +voltou mais ao palacio, onde as aias choravam e a camareira-mór, seca e +hirta, tinha uma voz esganiçada e autoritaria. + + * * * * * + + + + +NOITE DE FESTA + + A ARMANDO NAVARRO. + + +NOITE DE FESTA + + +Era o jantar de despedida de Dowanov, que partia para o Mexico, +promovido a ministro. Jantar de secretarios de legação, que formam uma +confraria, para, na critica dos chefes, tirar uma consolação do exilio, +correra um pouco triste. + +A minha intimidade com o novo plenipotenciario, que viera da communidade +de vistas sobre a numismatica bisantina, abrira em meu favor uma excepção. + +No pequeno gabinete do Avenida Palace, a conversa versára sobre +diplomatas e postos. Dowanov, como todo o bom russo, suspirava por +Paris, onde estivera adido. Contava as suas tribulações junto do +embaixador solemne e desdenhoso, que, sabendo-o apaixonado por corridas, +nos dias de steeples e handicaps sensacionaes, sob pretexto de serviço o +mandava chamar com urgencia, mas realmente para o impedir de divertir-se +em Auteil e Longchamps. Apesar de tudo, porem, sorriam-se-lhe os +olhos ao lembrar-se das pequenas colhidas _un peu partout_. + +A minha presença não permitia as confidencias sobre a monotonia da +pequena cidade da provincia que é Lisboa. Havia um constrangimento. Por +isso falaram de companheiros, indicaram silhuetas vistas um momento, +logo esquecidas. + +--O que será feito d'esse roliço Kordst, que estava, no meu tempo, +encarregado de negocios em Bucharest? Nunca mais soube d'elle? Devia ter +morrido da falta d'um bilhete. Lembro-me que ia provocando uma questão +internacional, porque o ministro d'Austria, ao apresentar-lhe o adido +russo, disse primeiro o nome de Kordst. Moravamos no mesmo hotel. Foi +procurar-me apoplético: + +--O que terá contra mim o ministro d'Austria? Não lhe fiz coisa +alguma!... Não me lembro. Ainda hontem, na recepção, lhe dei o meu logar +no sofá!... + +--Kordst? Com o amor que tinha aos bilhetes de visita, fez-se litografo, +provavelmente... Sabem de Camusot, o adido militar francez, que tinha +uma mulher que andava aos saltos, como uma pêga? Não conheceram? Você, +Poliano? Não me disse que tinha estado com elle em Vienna?... + +--Não. Encontrei-o em Roma. A mulher realisava o typo perfeito da +_gaffeuse_... Em que liquidou? + +--_Croupier_ de batota, em Spa... Tinha ar... Um dia, no Jockey, +perceberam que corrigia a sorte, no baccará. + +--E Blumen, o chanceller da embaixada allemã, que conheci, de relance, +em Madrid? + +--Em missão junto de Menelick. Emborracha-se com o Negus, +formidavelmente, com cerveja de Munich. Tem a simpatia dos ras; ouvi que +iam crear em sua honra a ordem do Bock, na Abyssinia... + +--Era o intimo do conde de Strifforth... Que é feito de Strifforth? +Herdou já o _peerage_? Diziam-o muito considerado no Foreign Office. +Pensou-se n'elle para sub-secretario de Estado... + +--Nunca lhes contei a morte de Strifforth? + +--Morreu? + +--Vi-o suicidar-se. Acompanhei-o nos ultimos dias. Foi em Sevilha. +Tinha-o conhecido em Londres, no seu ultimo _congé_; quando fui +promovido para Madrid démo-nos muito ali. Morreu d'uma maneira singular, +n'uma festa da marqueza de Carrillos, na sua quinta de Eritaña... A +melhor festa de Hespanha... A mais elegante e romanesca; dava a sensação +da embriaguez d'uma boneca de Saxe, n'um Walpurgis. Havia feiticeiras +novas, ou melhor, ninfas. A quinta é deliciosa, um pouco acima de +Sevilha; o rio corta-a e para passar d'um lado a outro ha pequenas +gondolas com camaras para duas pessoas sómente. A Carrillos, um pouco +artista, um quasi nada doida, levou uma ranchada de gente para o seu +palacio, do tempo de Pedro, o Cru, para uma festa de mascaras pela +Piñata. Era tudo gente nova, salvo uma ou outra mãe que ia fazer a +decencia. Mas achavam-se deslocadas no meio da nossa alegria e, +intelligentemente, retiravam-se para sensacionaes partidas de bridge. Só +nos viamos ás refeições. Uma _party_ deliciosa, que acabou n'uma +tragedia, um pouco de _guignol dernier bateau_, entre musicas leves... É +melhor contar tudo, ab ovo... + +--Sim... Desde o congresso de Vienna. O pae foi secretario d'um dos +plenipotenciarios inglezes... + +--Ainda de peito? + +--Não. Strifforth era filho de velho... Isso explica muito o seu +temperamento. + +--Vá, psicologo! + +--Este Mumm não me diz nada! Traga Montebello! É um pouco da Carreira. + +--Por afinidade? + +--Então o antigo embaixador? + +--_En disgrace?_ + +--Sim. Ao quarto filho da czarina elle criticou:--«Ce n'est pas une +femme--c'est une pondeuse!» + +--Conta a historia tragica! + +--A marqueza de Carrillos levára a sua filha, aquella inquieta Mathilde, +noiva por sport, tecendo e desarranjando os casamentos, como Penelope a +famosa teia. Para ella não havia flirts: tudo noivados. É possivel que, +de a experimentar tanto, a grinalda nupcial estivesse já enxovalhada. +Conheceu a Carrillos? Você? Você? Ninguem? Fina como uma _flûte_ de +cristal cheia de champagne _mousseux_, ondulosa, sempre pronta para o +ataque e para a resposta, fazia a chuva e o bom tempo na sociedade, e +tinha um dom especial para pôr alcunhas que logo faziam o giro de Madrid +e crismavam as creaturas. N'um dos seus numerosos noivados a mãe, +oppondo-se, disse-lhe:--«Que sogra vaes ter!» A Mathilde, sem +pestanejar:--«E elle, mamã? E elle?» A marqueza ria-se perdidamente com +os ditos da filha, regosijando-se:--És digna de mim! + +--E Strifforth? + +--Lá vae. Ora fez-se a festa. O costume Luiz XV era de rigor. Por uma +noite estrellada, espalhámo-nos pelo jardim. Pelas janellas do palacio +corriam grinaldas de fogo das _bandes souples_ que as ligavam. Eram +tulipas de todos os córtes que d'entre a folhagem se uniam, pondo um +traço florido entre o incendio que vinha das multiplas janellas abertas +sobre o parque e sobre o caes. Pelos troncos das arvores +envolviam-se em espiras as serpentes luminosas, marchetadas, e abriam-se +em mil luzes nas copas, davam, ao longe, o aspecto de uma joalheria que +ardesse na noite quieta e calada, essas noites amorosas da Andaluzia em +que tudo parece estacar n'um beijo supremo... Pela margem do rio a mesma +florescencia, mergulhando na agua, dando ao rio a aparencia fantastica +de um ceu que se afundasse. + +De repente musicas invisiveis tocaram as melodias leves, _gavottes_ +suspiradas, em que ha um pouco de amor, um pouco de dança, como num +flirt. E do escuro d'uma angra moveram-se gondolas ligeiras, em que +ardiam e estremeciam largos balões venezianos. + +Os remadores, ensaiados, iam quasi ao compasso ligeiro das _gavottes_. +Tinhamos a impressão d'uma dança de gondolas, um sonho estranho de +veneziano, pelas horas misteriosas em que as coisas inanimadas tomam +vida. Do levantar dos remos das aguas, saltavam cintillações de +pedrarias. E a linha tortuosa de balões augmentava o incendio, na +vibração de tantas reluzentes joias a agitarem-se na agua do rio... +Fomo-nos metendo nas gondolas. Os _novios_ acolheram-se prestes ás +gondolas mais pequenas. Uma maior levou muitos de nós, descazalados, a +Mathilde Carrillos, Strifforth, a condessa de Valdelar... + +--Conheci-a em Roma... + +--O marido foi gentil-homem do Papa. Preciso falar d'ella. Foi a +principal figura d'este drama. Typo de hespanhola? Não. Mais italiana do +que hespanhola, com uns largos olhos pretos, cheios de doçura. O seu +gesto era harmonioso e curvo, sem uma aresta, sem um angulo, uns +nascendo dos outros sem solução, como as frases d'uma melodia. Tinha-se, +ao vêl-a, a sensação de que se ouvia uma musica dolente, vagarosa. E os +proprios olhos moviam-se lentamente, como pesados de tanta luz e tanta +belleza... + +Enigmatica, guardando n'um jardim encantado a sua alma, ninguem prudente +ousára definil-a... Poetica talvez, ou simplesmente aborrecida, fugia em +S. Sebastian do Casino e do Hotel du Palais e ia, á tarde, só, vêr as +crispações do poente nas vagas que eriçam de espuma o mar azul. + +Sentava-se n'um dos rochedos, ás vezes desenhando, outras a cabeça a +descançar na mão, e ali se quedava a tarde inteira, alma talvez de +sereia a chorar pelo mar, a querer aprehender no perfume da brisa, +alguma palpitação do oceano. + +Nenhum de nós se atreveu nunca a interrompel-a, apezar da attracção que +todos sentiamos pela sua figura gracil como uma amphora, da sua +_toilette_, de toda a elegancia pessoal e do misterio da alma +ávidamente guardada... Strifforth apaixonou-se por ella. E, solitario, +deixando as excursões amiudadas que fazia ao Casino de Biarritz, andava +de barco para vêr, isolada no rochedo, sem uma tristesa na face, a +condessa de Valdelar, certamente a mais formosa, a mais perturbante das +senhoras de Madrid. + +O conde de Valdelar ficava no hotel, gottoso, na leitura de livros +licenciosos, que salpicava de casquinadas nervosas, irritantes, +indifferente á belleza e á alma da mulher. Strifforth conhecia-a e +procurava todos os raros momentos em que ella apparecia, de manhã na +praia, á tarde no boulevard e, uma ou outra vez, pelas grandes festas, +no Casino, que atravessava n'um andar leve, dando-nos a sensação que +tinha azas que a sustentavam. Nada lhe permitira ainda uma declaração. A +condessa fallava-lhe, como a todos nós, em coisas indifferentes, em +festas, touradas, partidas de tennis, impressões rapidas de viagem e +deixava-o sem pressa, mas sem pezar, absoluctamente correcta. Elle +fallava-lhe do mar, mas a condessa tinha uma phrase banal, mudava +d'assunto, como se tivesse pudor d'esse sentimento, que parecia absorver +toda a sua vida. Foi n'esse tempo que Strifforth começou a picar-se com +morphina difficilmente adquirida, a beber perfumes, com horror aos +cognacs, e a arrastar uma vida d'automato, sempre com esperança de +a vêr, de lhe fallar. E, em a encontrando, pousava sobre ella os olhos +tristes, largas horas, inconvenientemente. + +Em Madrid, todo o inverno foi assim, com menos occasiões de a vêr, +porque a condessa frequentava pouco o Retiro e a Castellana e raramente +aparecia na sociedade, demorando-se o bastante para não parecer +aborrecida, mas saindo logo, com um tacto perfeito. Á vida escondida da +condessa correspondia uma outra vida secreta de Strifforth, ebrio, em +desesperos que o alcool longe de adormecer intensificava, fugindo a tudo +o que fôra d'antes o seu enlevo, até do Museu do Prado, onde ia todas as +manhãs--á minha missa, dizia elle--para vêr os Velasquez e os Grecos... +Mas, quando tinha que ir a alguma parte com esperança de encontrar a +condessa, o meu amigo não bebia para poder gozar inteiramente a presença +e a voz d'aquella que amava. Depois a embriaguez exagerava a impressão, +dava-lhe, quasi real, a presença da Valdelar. Meteu-se no ether, alem da +morphina e dos frascos de perfume--Parece que como flores, +explicou-me--arruinando por completo a saude, tornando mais agudas as +crises de desesperos, mais asperas, pelo enigma que para todos nós era +essa mulher esplendidamente artificial, que trazia uma mascara na sua +face calada. Coquette? Decerto, mas egualmente para todos, porque +os seus movimentos eram regrados por uma musica ineffavel. Mas talvez +coquette só para si, porque nem um só olhar ou palavra auctorisou +ninguem a dizer-lhe um galanteio atrevido. + +Fallou-se na festa da Carrillos, organisou-se a lista, e Strifforth, que +não tinha relações com a marqueza, logo que soube que a Valdeler era da +partida, solicitou, pondo de parte sem hesitação o seu orgulho +exagerado, uma apresentação e um convite, logo alcançados, não só por +ser muito _choyé_, mas tambem porque transpirára a paixão e todos se +interessavam pelo pobre rapaz, havendo até censuras á Valdelar, que de +nada era culpada. + +Fomos n'um expresso vagaroso, atravessando desoladas paisagens, até +Sevilha. Não conhecem Sevilha? É a cidade mais feminina e voluptuosa que +conheço. + +Á tarde, vista da Giralda, ella se nos oferece, nua, ondulosa, apenas +com a cinta azul do seu rio e as joias das cupulas e das janellas que +scintillam ao poente. Parece que estaca o movimento, e que, na alcova +enorme que é a planicie, Sevilha se estende, com flôres no cabello e uma +volupia extrema em todo o seu ser. Anda no ar um amavio. Tudo nos falla +d'amor sensual e quente, até os olhos largos das sevilhanas, que parecem +recortados n'esses enormes amôres perfeitos de velludo. + +Foi ali que tivemos a festa de que lhes fallei. Imaginem que na margem +esquerda, a dois kilometros da quinta da Carrillos, ha uma _venta_, cuja +varanda se debruça entre trepadeiras, sobre o rio. A marqueza tomára-a +sem custo por sua conta e alli varias musicas nos tocaram, não +_gavottes_ leves, mas doridas malagueñas em que se arrasta um langor, +como um beijo em que toda a alma succumbe. Um jacto de luz inundou a +gondola. A condessa levava as mãos dentro de agua, curvada ella propria +para o rio. Strifforth ia sentado sobre a borda. Deixou-se escoar +vagarosamente. + +--Caiu um! + +--Strifforth! + +Logo os braços se estenderam, um dos gondoleiros deitou-se á agua e +poude tirar Strifforth, todo ensopado no seu fato de seda.--Borracho! +Borracho! _Mais vous êtez ivre! Dites_!--Strifforth, não bebera uma +gotta. Eu ficára proximo d'elle. Os musicos não tinham dado por nada. A +musica continuava dolorosa e amorosa. A gondola seguiu, deixando o traço +de luz que brilhava e se quebrava d'encontro ás leves vagas. Houve +risos. Rodearam-o com grinaldas. A Valdelar teve, como os outros um +riso.--Escorreguei!... explicou apenas o conde. Mais adiante, porem, já +a musica se ouvia em surdina, Strifforth deixou-se cair outra vez.--É +demais! Está bebedo! gritaram. As cabeças empoadas inclinaram-se +novamente para a agua. A Valdelar, que tornára a mergulhar no rio os +braços nus em que escorriam as rendas molhadas, ao sentir a queda, +agarrou-o por um braço, indiferente. Strifforth, porem, deu um vigoroso +impulso e desprendeu-se d'ella... + +Houve um panico. Foram buscar archotes. Não calculam o macabro das +nossas figuras de _petits-abbés_ e gentishomens procurando, nos barcos, +que de tanta luz pareciam incendiados, um homem que se queria suicidar. +Os gritos cruzavam. Das pequenas gondolas surgiam vultos negros +iluminados á maneira d'um Rembrandt que tivesse adivinhado Turner e +Whistler, em chapadas de luz multicôr. Na nossa gondola um borborinho +correra. Alguem desmaiára, até. As cabeças empoadas agitavam-se. Ao +longe, as malagueñas continuavam num suspiro lascivo e preguiçoso. A +Valdelar voltára á sua primitiva posição: brincava com a agua, que lhe +passava entre os dedos abertos, pondo-lhe aneis que fugiam, logo +substituidos. Não tornamos a saber de Strifforth. O cadaver nunca +apareceu. + + * * * * * + + + + +CLARA + + A JULIO DE SOUSA. + + +CLARA + + +Friorenta, encolhida no fundo do coupé, tudo era indeciso na figurinha +que passou rapidamente, na tarde a escurecer. + +Nascia da penumbra, sem presisão nos contornos, como certos retratos de +Columbano e de Henner. E entre o chapeu preto e a face branca, o cabello +loiro punha uma esmaecida aureola como uma tenue poeira d'ambar. A boa, +de _renard bleu_, ainda aumentava o indeciso, o fluctuante d'essa +mulher; os olhos claros não brilhavam; o vermelho da bocca desmaiava... +Figurinha de cera e de seda, que passava, olhando para a rua sem +attentar talvez em ninguem, levando o nosso desejo de decifrar enigmas, +indefferente, graciosa, impressionou-me... Ao amigo que me acompanhava +recorri para saber d'ella. Quando me voltei para perguntar, vi que +Roberto se pusera pallido; parecia que á bocca se lhe afivelára uma +boqueira de pedra, mascara trágica a emudecer. + +Seguiu com os olhos a carruagem que trotava pela Avenida até se perder +entre as arvores em Valle de Pereiro. + +--Quem é? gaguejou. Alguma aventureira cosmopolita que veiu _faire le +Portugal_. Um pastel de Antonio de la Gandara, maquilhada como uma +infanta de Velasquez, mais artificial que uma boneca de Nuremberg, sem +vicio, talvez, amante enternecida d'algum _croupier_ de _Cercle_ +ordinario... Sei lá!... encolheu, impaciente, os hombros, a concluir. + +Houve um silencio. Raras carruagens passavam. Estava triste a Avenida. +Descemos. Abriam, simultaneamente, as grandes flôres geladas e luminosas +das lampadas electricas. Rapidos, fulgiam os americanos. Outra vez a +mulher passou, mais indeciso o vulto, apenas destincto o palôr da face +branca no _coupé_ escuro. + +--Porque teria vindo cá, essa mulher? perguntou Roberto, colerico. + +--Conhecel-a? + +--Se a conheço?! Tenho querido arrancal-a de mim, como se arranca d'um +boi uma farpa--violentamente. Tenho querido fugir de mim, para a +esquecer! E quando estou quasi a conseguil-o, quando a tortura da sua +lembrança é em mim apenas uma cicatriz, eil-a que apparece a reavivar a +chaga antiga, a tornal-a mais dolorosa! Clara veiu aqui só por minha +causa, ouves? Para fazer-me soffrer! + +Agarrava-se-me ao braço, a apertal-o violentamente. Na bocca +accentuava-se-lhe, aspero, o vinco da amargura. + +--Foi esta mulher que me fez fugir de tudo, perder o amor a tudo, +desterrar-me para esta passividade, eu que amava a vida dolorosamente, +gosando com tudo, intensamente! + +«Conhecia-a em Hespanha! N'um inverno humido deixei Lisboa e acolhi-me a +Sevilha. Os dias gloriosos de sol que lá gosei pelas margens do +Guadalquivir azul! Andava ebrio de tanta luz que enchia d'oiro e de +triumpho a cidade alegre. Saia para os campos, logo de manhã, a rir-me +com os trigaes e com as flôres. Ia ao parque vêr o sol fulgir nas caudas +abertas dos pavões orgulhosos; descia ao caes para vêr brilhar na agua +incendiada os cobres polidos dos navios; enchiam-me de prazer a +barulheira dos carregadores, o chiar aspero dos guindastes, o estridulo +das sereias, nos vapores que partiam... Tudo era alegria na cidade +maravilhosa mesmo á noite, as lampadas incendiavam a _Sierpee_ +brilhante, onde se apertava uma multidão palradora. Das janellas dos +casinos, das portas dos cafés, dos mostradores das lojas, vinham +chapadas de luz. Misturava-me a toda aquella vida insolente, ria com +todos os risos, todos os labios frescos me chamavam, rodeavam-me todas +as cabelleiras fartas, cheias de flôres. O donaire das andaluzas d'olhar +de volupia fazia-me achar mais bella a Vida. Era como um poema a +enaltecer a obra de Deus. Por todos amar, não amava nenhuma. + +Comprei o sineiro da Cathedral. Do alto da Giralda, uma noite, possui a +cidade, senti que todo o tumulto confuso que até mim chegava, era o seu +sangue que pulsava por mim nas suas arterias; aquella resplandecencia, +brilho de joias com que cobria a nudez. Os tranvias iluminados, cortando +em mil direcções a cidade, eram pedrarias, aqui se apagando uma, para +alem se accender outra, conforme as ia eu tocando com os meus olhos +amorosos. Ella, em baixo, abria os seus braços, entregava todo o seu +corpo, a morena Sevilha, offegante e lasciva! + +«Era feliz, poderosamente feliz. Sentia, em cada palpitação cardiaca, o +sangue remoçado que se espraiava pelo corpo. Foi então que conheci +Clara. Ella passava pela _Sierpes_, junto ao _Credit_, enygmatica, como +a viste. A elegancia do seu porte, ultima florescencia da moda franceza, +quasi immaterial, contrastava com a forte humanidade das sevilhanas +cheias de vida, de sangue e de desejos. Todos se voltaram para ella e +lhe abriram caminho, como se passasse um andor. Fui logo preso pelo +encanto decadente e artificial, esqueci a Vida e a gloria de viver ao +sol nos campos fecundos. Regressei á hyper-civilisação; segui-a e alegre +entrei, atraz d'ella, para o seu e meu hotel. + +«Vergonhosamente a segui como um cão fiel. Vergonhosamente mendiguei um +olhar dos seus olhos parados; e contente fiquei ao vel-a um dia no salão +da leitura, por que pude dirigir-lhe a palavra e pedir-lhe licença para +fumar. Apesar da resposta secca, insisti e entabolámos conhecimento. + +«Doces foram para mim os dias, em que visitámos Sevilha. A casa de +Pilatos e as suas penumbras em que esmaecem estuques e o patio claro de +marmores harmoniosos ouviram as palavras aladas que lhe disse; diante +das Assumpções do Murillo e dos frades de Zurbaran, no museu deserto, +contei-lhe o poema do meu desejo; na _Caridad_, a mostrar-lhe a estatua +de Herrera, ouviu a perfumada e embaladora cantilena. Na Giralda, a vêr +Sevilha doirada, deitada na planicie que ondulava, até perder-se no +horisonte circular, offereci-lhe toda a minha alma e toda a minha vida. +Houve momentos em que seus braços foram a levantar-se para apertar o meu +pescoço; julguei sentir o seu peito leve arfar de commoção: muitas vezes +a boca se apertou para a florescencia dos beijos e seus olhos verdes se +encheram de luz; mas rapido, tudo se desmanchava, e um sorriso tremia na +boca desmaiada, a mostrar a linha branca dos dentes. + +O flirt desabrochava. Uma tarde, nos jardins do Alcaçar, á porta dos +banhos de Maria Padilla, passou por mim o corpo delgado, agil, pela +cara roçou o cabello que tinha um perfume penetrante; fallou-me do seu +corpo e, sentados no salão dos Embaixadores, estendia a perna, para +mostrar o tornosello fino e a meia _ajourée_, que deixou vêr a pele +branquissima. Todas as noites eu pensava, que no dia seguinte beijaria a +boca perfumada. E todas as manhãs via cair a minha esperança, como as +folhas murchas que o vento sacode dos ramos seccos. + +«Certamente que as minhas palavras deviam ser perturbantes, porque +sahiam d'um coração perturbado. E, pesadas de tanto amor, cahiam da boca +vagarosamente. Ás vezes os cilios de oiro abatiam-se sobre os olhos, +como n'um espasmo. Mas logo o sorriso abria-lhe a pequenina boca! + +«Longos dias, longas semanas, durou o encantado oaristo. Já não cuidava +da gloria da natureza; das apoteóses do sol sobre as aguas azues do rio. +Só pensava n'ella, só vivia d'ella. + +«Um dia, porem, eu soube! Alguem, com palavras que julgou caridosas, +veiu pôr no meu coração as sete espadas! A creaturinha delicada e +deliciosa, princeza de balada d'hoje, urna de perfume, a quem me +entregava como um collegial, era uma aventureira das que frequentam a +_Riviera_ no inverno, Aix no verão, Paris na primavera, e que a Sevilha +viera atraz d'um clown, que no circo fazia rebentar estrépitos de +gargalhadas... Ao seu morbido encanto me prendera, e atraz d'ella me fui +a soluçar, flor de lameiro em que puz todo o perfume suave... Fôra nas +mãos d'ella um saxe fragil como que se brinca! + +«Ah, meu amigo! O desespero e a raiva puzeram mãos assassinas a +estrangular-me! N'um impeto, como uma aura que se nos levanta do peito e +nos atira para o ataque epileptico, decidi-me. Levei-a n'um trem para o +campo, para alem da Cartuja, com um cocheiro de confiança. E alli, +desapiedadamente, bati-lhe, arranquei-lhe as sedas e as rendas--parecia, +nua entre os trigaes verdes, uma magnolia enorme!--e o seu corpo +cobriu-se todo de sangue. Clara gemeu, implorando; as lagrimas +empastavam a maquilhagem; via-a sordida, enrolando-se para escapar ás +chicotadas, e fugi, ebrio, doido, a correr, diante do cocheiro espantado +que me metteu no trem e me levou a Sevilha. + +--Senorito, la navaja era mejor, aconselhou-me. + +«Parti. Nunca mais soube d'ella. Trouxe-a dentro de mim como um espinho. +A dôr que lhe causei augmentou a minha pena. De ter visto o corpo magro +e branco, ficou-me a ancia de o beijar. Andei de noite, pelas ruas, a +correr sem forças para fugir de mim e d'ella, porque a figura surgia +deante dos meus olhos, bella de toda a perversidade e de toda a +lascivia, como uma invencivel tentação, a que o maior santo succumbe. + +«Ás vezes conseguia distrahir-me; de repente ella surgia, sentava-se na +minha frente, mostrava os vergões das chicotadas, todo o corpo impudico +perfumava e brilhava, e a boca sorria a escarnecer de mim! + +«Foi algum philtro que me deu. + +«Ia a esquecel-a e eil-a que novamente me apparece, a prender-me, a +levar-me, outra vez para a allucinação, a atiçar o incendio que me +queimava! + +«Talvez queira vingar-se! + + +Não. Não queria vingar-se. Clara veiu a Lisbôa, soube-o mais tarde, +atraz d'um comprimario de S. Carlos, seu _amant de coeur_. + + * * * * * + + + + +IDILIO TRISTE + + A EDUARDO VALERIO VILLAÇA. + + +IDILIO TRISTE + + +No jardim, a tarde de oiro era perfumada pelas rosas e pelos cravos. Nos +canteiros, os cravos levantavam-se impertinentes, risonhos, em delgadas +hastes. E, por toda a parte, entremeiando-se com os buxos, enroscando-se +a uma macieira em flôr, serpenteando pelos muros, subindo pelas sebes, +uma opulenta floração de rosas de toda a côr, rosas de oiro pallido, +rosas roseas, rosas vermelhas a estremecer, como labios de que vão cair +os beijos, rosas escuras, enormes, sensuaes e dolorosas, umas ainda em +botão, misteriosas como as adolescentes, outras já totalmente abertas, +sem enigma, como as amantes antigas--todas ellas misturavam o seu +perfume no jardim quieto, em que as pombas arrulhavam, beijavam-se e +depois partiam em vôos curvos, as azas brancas a brilhar ao sol. + +Os dois amantes iam calados, elle a olhal-a intensamente, como a querer +apreendel-a, como se os olhos fossem bocas e podessem beijar, +braços e conseguissem abraçar--ella um pouco aborrecida, a desfazer +entre os dedos longos uma orchidea azul listrada de vergões esverdinhados. + +--Pensei em ti sempre, dizia elle. No Prado, diante dos tapetes de Goya, +disse o teu louvor. As raparigas esbeltas, que vão á fonte, as bilhas +esguias á cabeça, como as princezas de Homero, não tinham a tua +elegancia... Ás infantas de Velazquez, artificiaes, cadaveres de +bonecas, em que apenas os olhos attonitos teem vida, faltava a tua +belleza. As santas hirtas de Memling não tinham na bôca a primavera que +ruboresce os teus labios... Só na curva do braço de Danae, de Ticiano, +pude ver uma attitude como tens... Por todo o museu me perseguia a tua +imagem, como um canon, para avaliar as obras. As gordurosas flamengas de +Rubens, as cigarreiras sensuaes e extaticas de Murillo, as energicas +mulheres de salteadores em que Ribera se compraz, eram muito diferentes +de ti, d'ellas fugia o meu olhar. Em Raphael havia alguma coisa da tua +doçura risonha, mas demasiado passiva; em Greco, a tua distincção, mas +severa; apenas Leonardo te saberia pintar, quasi irreal por seres tão +bella, indecifravel, como uma esfinge sem segredos... Como uma esfinge +sem segredos... Que segredos teria a suave mulher do Jocondo? Que +segredos terás, alheia a tudo, passando pela vida, ligeiramente, +como a agua que vae n'um ribeiro, correndo e cantando? Vi-te em toda a +parte. Levei-te sempre commigo! Talvez o Moro te tivesse pintado... + +--Viste bem o museu... + +--Vi, porque te buscava... Um dia, ao aproximar-me da escadaria, vi +fugir, n'um automovel ligeiro, uma mulher, que se parecia comtigo... Era +um carro vermelho... Por toda a parte tive a _hantise_ dos automoveis +vermelhos. No _Retiro_ e na _Castellana_, o meu olhar prescrutava, +revolvia todos os automoveis, todas as carruagens, a ver se te +encontrava. Todas as manhãs, pelo museu, andava á tua espera, embora te +soubesse aqui, indiferente. Como te não encontrava, procurei vêr o teu +retrato, n'algum quadro antigo. E puz, em muitos, o reflexo da tua +belleza, porque n'uma atitude, n'um olhar, havia alguma coisa de ti... + +--O governo hespanhol agradeceu-te a valorisação dos quadros? + +--Ri-te. Ri-te de mim... A tua boca, ao abrir-se n'um riso, é uma flor +de nácar e prata...--A principio, procurei-te... Depois, como a tortura +fosse muita, quiz fugir da tua imagem. Fui para Sevilha onde tudo é Amor +e resplandece. Deixáras de escrever-me... Só sabia que não pensavas em +mim. Ali, tudo é alegre e luminoso. O sol é o sangue da cidade... Doira +a planicie e as palmeiras de S. Fernando. Levanta scintillações do +calado Guadalquivir azul e da cupula inflamada da Torre del Oro. Enche +de vida o jardim do Alcazar, com seus repuxos com enjoalhadas lagrimas. +Tudo é luminoso e perfumado. O amor, ali, não aniquilla, escalda. Entre +os cravos que guarnecem as grades das janellas, as mulheres olham os +seus namorados com um olhar d'assalto. Ha uma voluptuosidade suspensa no +ar. Tudo vive, tudo ama, parece que tudo é feliz. Ha uma embriaguez de +côr. E nas varetas dos leques saltitam os beijos que caem das bocas. A +Sierpes, á noite, palpita com todo o anceio de tumultuosa cidade... Nos +pateos, sob as pequenas palmeiras e musas, os flirts sussurram palavras +de entontecer... Como tudo brilha! Só o meu coração se apagava e +murchava com saudades... Nos banhos silenciosos de Maria Padilla, pensei +no afortunado amor de favorita, nos lentos passeios pelo jardim, nas +casas de fresca sombra, onde luzem os estuques policromos e os +azulejos... E não deixei de sentir-te ao meu lado... + +--Acredita que não foi por minha culpa... + +--Fugias-me. Deixavas-me a tua imagem, para torturar-me. Mandavas-m'a, a +envenenar-me de longe... A belladona é doce e envenena... Muito mel +embriaga... Tão real a sentia, que, á noite, olhos fechados, queria +abraçar-te, e tinha a desillusão de Pan, quando perseguiu a ninfa +Seringe... Como quem corre atraz do sol e se encontra encerrado +n'um bêco. Nunca mais me escreveste! + +Deixaste cair o teu amor do peito, como as flores que levaste ao baile... + +--Depois d'uma noite de baile, as flores já não perfumam. O amor precisa +do viço. É necessario podar o coração... + +--Bem sei. Não te recrimino. Lamento-me... + +--Lamartiniano!... Julgava-te mais forte e mais moderno. Parecia-me que +a cultura intensiva do Eu tornava impossivel um amor sem esperanças... +Filosofos!... + +--Amar-te, não é para mim uma função: é a propria essencia do meu ser. +Julgo ás vezes que não existes, material e tangivel, que existes mais +real: nasceste e vives no meu cerebro, tanto se casa a tua figura ao meu +sonho de belleza. Pintor, se idealisasse uma mulher, o meu quadro +pareceria o teu retrato, embora nunca te tivesse visto. Poeta, o teu +misterio seduz-me, alma que se guarda, avidamente, sem que ninguem a +adivinhe. Todos passam por ti, sem a possuir, como as quilhas dos navios +que cortam as ondas não maculam a eterna virgindade do mar... Foi ao ver +o mar, que mais pensei em ti. Pelo Mediterraneo socegado, estudei a +onda, sem conseguir conhecel-a. As ondas são graciosas, as suas curvas +teem ternos desenvolvimentos: dir-se-iam mulheres que brincam na relva +fresca. E desfazem-se em flocos de espuma, quebram-se umas contra +as outras com fragilidade de cristaes, são leves como leques, e no +emtanto matam, levantam-se em vagalhões que sacodem os couraçados, +despedaçam os navios. Carinhosas, riem e fogem, como tu; a onda de +esmeralda que saltita, enfeitada de rendas, subitamente é uma gigantesca +aza d'abutre que se curva, para apreender... É um abismo que ri... As +mutações rapidas do mar fizeram-me lembrar o teu amor que desapareceu +sem se saber porquê... + +Nem sequer recrimino. «Não me esqueço», prometeste. E as tuas palavras +que guardei, como guardaria uma estrella, ainda cantam nos meus ouvidos. +E ha tanto que te esqueceste! Vivo do passado. Vive o meu coração do +passado, como as velhinhas, que foram actrizes, e no asilo se lembram +das aclamações quando faziam papeis de rainhas sumptuosas com luzidas +cortes a seguil-as e galãs esbeltos a segredar frases d'amor... + +Mas o passado esgota-se, como as cisternas, quando durante muito tempo +não chove...» + +Ella cortara e desfolhára as margaridas de uma moita viridente. O sol ia +a morrer, n'uma catástrofe... Um rebanho de nuvens encharcava-se em +sangue. N'uma fita delgada, um repuxo subia, dobrava-se e estilhaçava-se +na agua do tanque. + +O amante chorava... + + * * * * * + + + + +PERFIL D'AVENTUREIRO + + A EDUARDO DE MAYA CARDOZO. + + +PERFIL D'AVENTUREIRO + + +Desvairada, a ministra da Esclavonia perseguia sir Arnold Davis, que, de +sala para sala, passava em revista as senhoras em toilettes de baile. +Ia-lhe na piugada, metia-se pelos corredores, apressadamente, para +crusar-se com elle, receber um olhar, fazel-o parar, prendel-o no vão +d'uma janella, onde os seus olhos pareciam tomar d'assalto o rosto +glabro de sir Arnold, mordia a boca fortemente carminada, como para +reter os beijos, que queriam saír. + +As suas mãos magras e longas, as mãos que teem as doadoras e as santas +nos quadros góticos, tremiam ao apertar as de sir Arnold onde opalas +desmaiavam, maléficas e misteriosas. + +Carlota von Hameghen não via o baile, não se rodeava, como de costume, +de politicos e diplomatas, a sondal-os, a irrital-os, _allumeuse_ +internacional á cata de segredos, para vender a todas as chancelarias +que pagassem, generosas e discretas. + +A condessa Carlota von Hameghen, mulher do ministro de Esclavonia, era +quasi fiel ao marido. Apenas grande necessidade, um aperto de dinheiro, +um segredo muito importante, que só se confia nas horas de completo +aniquilamento, depois dos beijos, é que a faziam esquecer o marido, +ainda novo, que trepára na «Carreira» empurrado pela mulher, apesar de +morphimano e um pouco imbecil. Fóra disto, esposa exemplar. Espirito +d'honestidade? Não: impassibilidade; a cirurgia, com uma operação +dolorosa, em Londres, tirára-lhe o vigor da sensação. Vivia para a +ambição, uma vida farta, proporcionada pelos cheques de varias +embaixadas e legações, menos a de Esclavonia que pagava pouco e, por +complicações de finanças internas, a más horas. + +Alguns diplomatas, ao facto do temperamento da condessa, estranhavam +aquelle assalto insistente ao moço inglez, alheio aos segredos das +chancelarias, pouco rico para a condessa, servedoiro de milhões. + +O ministro da Dinamarca, ageitando, como de costume a unica farripa de +cabello que lhe guarnecia o craneo rubro: + +--Ha de ser uma desforra! Sir Arnold vingar-nos-ha... + +--Não ha de levar a melhor... + +--Aposto! Não sabem a força de sir Arnold. Conheço-o muito bem. + +--A Hameghen é uma fortaleza inexpugnavel. + +--Praça sitiada, praça tomada... + +--Mas quem sitía é a condessa!... + +--Estão enganados. Com o ar de quem se defende, sir Arnold ataca +vigorosamente. Conheço-lhe a tática. É toda de sapa. Minas e conminas. O +campo parece tranquilo e mil picaretes abrem galerias. É de primeira +força! Praça a saque, d'aqui a duas semanas, o maximo. + +--Não seja como Port-Arthur que todos os dias é tomado... + +--Verão. Vae custar á condessa, coisa d'um milhão. Sir Arnold lança +pesadas contribuições de guerra. + +--Que paiz pagará? + +--Mr. Alphonse? + +--Il faut vivre. Il n'y a pas de sot metier. A Mariam Ringen... + +--Aquella judia fanhosa? + +--Sim. E que tinha seis dedos em cada pé... Gastou mais de dez mil +libras em tres mezes. + +--É ante-semita. É _bien né_, o ser-se ante-semita! O começo da +liquidação... E depois, douze dedos. Parecia-lhe menos. + +--Contava muito depressa... 12 de cada vez... + +--Se é que contava pelos pés! + +--Sir Arnold interessa-me. Tenho-o examinado, na batalha. É impassivel. +Nunca procura primeiro uma mulher. Aquelle bello corpo d'Apollo +adrescente fascina. Os olhos claros, misteriosos, desequilibram os +nervos das nossas mulheres. E as opalas cheias de maleficios, que para +elle são _porte-bonheur_, dão um quebranto magico. A terrivel fama de +que tão justamente gosa e o precede como uma tenebrosa arauto faz-lhe um +halo. Luz do inferno, que importa? É uma aureola. Se não tivesse motivos +para ter um tal nome, caluniar-se-ia. É capaz de tudo, até d'uma boa +ação... que o não prejudique. Não faz o mal por arte. Para fazer o mal +por principio é necessario afirmar. Sir Arnold nada afirma nem nega. +Negar é, d'alguma fórma, afirmar. E isso é um esforço que elle se não +permite. Se quizesse ser diplomata, estaria hoje embaixador, membro do +Tribunal da Haya, ministro dos negocios estrangeiros. Encaminharia a +politica ingleza com menos soberba que Salisbury e mais firmeza que +Lansdowne, sem a literatura, o romantismo de Rosebery. Nos tempos da +vadiagem diplomatica, dos verdadeiros plenipotenciarios--hoje os nossos +plenos poderes ficam na secretaria, que nol-os vae mandando por conta e +pelo telegrafo--nesse tempo, talharia um imperio para o soberano que o +empregasse. Não, para si. Sir Arnold é um egoista formidavel. Julga-se o +centro do Universo. Nihil humani a me alienum puto. Nada do que +pertence ao homem lhe é alheio, isto é tem direitos sobre tudo, traduz +elle. Não tem outra moral. + +Nietzche estabeleceu os principios que nelle eram instinto. Cuido que +nunca se deu ao trabalho de ler um só volume do discipulo de Stirner... + +A conversa não interessava já. O dinamarquez tinha um pouco a mania +oratoria. O grupo dispersou-se, pelas salas, onde os pares deslisavam ao +som d'uma valsa da moda, langorosa e morbida... Fiquei com elle. +Fomo-nos dirigindo para a estufa. O ministro continuou: + +--Gósto de sir Arnold... pelo lado scientifico, como filósofo. É um +poderoso dissolvente. Todas as dissoluções apressam a evolução. Davis é +um força social. + +--Na boca d'um ministro d'um paiz monarchico, essas palavras são +imprevistas, sorri-me. + +--Tenho uma opinião como diplomata e outra como filósofo. Como +diplomata, sou conservador, como filósofo, anarchista... mas anarchista +com palacios, festas, condecorações... Quando quero pensar como +diplomata, visto a farda, ponho duas gran-cruzes, uma para cada +lado--tenho a Corôa da Prussia--e todas as placas. Quando me decido a +pensar como filósofo, cólo umas barbas postiças, fico em +_robe-de-chambre_. Defronte da minha psyché imperio, dou-me a ideia +d'uma Diogenes limpo. O mais usual, porem, é não pensar... Estou +dispepético: o pensamento é terrivel para nós. Isto não impede que lhe +conte um episodio da vida de Davis. Simpatiso com elle, dou-me até com +elle. Conheci-o em Aix-les-Bains ha seis ou sete annos. Estavamos no +mesmo hotel. Os nossos aposentos eram seguidos. A sacada era a mesma. +Conversavamos muito. Venha para aqui. + +Fomos para um canto isolado da estufa onde agonisavam, minadas por um +mal estranho, orchideas esverdeadas. Nasciam chagas nas suas petalas +recurvas, torcidas, listradas de vergões, varioladas. Sentamo-nos num +sofá. O ministro ofereceu-me um cigarro de Nestor Gianaclis, perfumado e +adormecedor. Escutei-o. + +--Como lhe disse, sir Arnold é um egoista. Quer aumentar o poder, para +empregar a formula de Nietzche. Desenvolve energicamente a +personalidade, segundo ou contra a moral, é-lhe indiferente, torneando +os preceitos dos codigos penaes e os usos sociaes, de maneira a se lhe +não fecharem os palcos onde se exibe, os salões cosmopolitas, mais +faceis e, sobre tudo, mais indulgentes. Elle não diz como o poeta: «je +porte fiérement la honte d'être beau»; não, para Davis não é uma +vergonha, pelo contrario, trata de fazer valer, por toilettes e atitudes +longamente estudadas, por meios artificiaes, a sua belleza clara, loira, +a que os olhos transparentes dão um encanto misterioso, uma sedução +que empolga, fascina, arrasta os pobres mulheres que desmaiam, sucumbem, +diante desse Apollo adolescente e terno, cuja força se adivinha apenas +nas mãos, de dedos firmes, de pelle, apesar dos cosmeticos, um pouco +aspera. Viu-o bem? Reparou em como todo o seu corpo harmonioso d'atléta +toma atitudes cançadas, como os seus olhos pareciam dissolver-se, ao +olhar para a pequena Von Hameghen e a sua boca de labios finos e +imberbes, se contraíam para o espasmo d'um beijo? Ha sete annos era o +mesmo. Parece que para elle o mundo e os dias se conservam imoveis. +Dir-se-hia que essa adolescencia se guarda no gelo. Que pacto teria +feito este homem com o demonio? + +--Talvez o mesmo que Dorian Grey... + +--Bah! Dorian Grey matou Basil... Julga que será Sargent, realista, +amando a força concentrada e não a belleza, quem fará o novo retrato +magico! Ou Lazló? + +Já não ha Basil. Talvez em Hespanha... Sorolla ou Zuloaga... Mas os +hespanhoes são naturalistas e republicanos. Veja Ibañez... A «Catedral» +liquida em artigo de fundo. + +--E Davis? atalhei, pondo um dique á divagação abundante. + +O ministro sorriu-se. Certamente que se lembrou do epigrama de Marcial. + +--Ah, sim! Davis e Aix-les-Bains. Estou prolixo como o bom Tito +Livio. Entro em materia. + +Ali, no canto da estufa, abaixando a voz quando alguem se aproximava, +para o afastar, o dinamarquez contou: + +--Estava no «Splendide» lady Hanswell, que depois de tratar do +reumatismo, com massagens e duchas, chorava poeticamente, pelas alturas +vicejantes do Bourget, os dez annos de casamento feliz com lord Vivian +Hanswell esse extraordinario homem, misto de Heroe, de Poeta e de doido, +que, começando por fazer odes extranhas aos venenos, aos assassinios e +ás traições, acabára em Middlefontain, voluntario da Rainha, o primeiro +na escalada d'uma collina, o monoculo entalado no olho, um livro de +versos na algibeira do kaki enlameado e a cartucheira já vasia, de +tantos tiros dados friamente, como nas suas coutadas ferteis da Irlanda. + +A viuva amára em seu marido a belleza adolescente, todo aquelle ar +gracioso como o d'uma mulher, os largos olhos claros, transparentes, +como gotas d'agua azul; amára o seu espirito extranho de comedor d'opio, +cambiante e misterioso, deleitando-se na posse de coisas frageis, de +flôres que, mal cortadas se fanam, os cristaes finos, as filigranas, as +ceras, os linhos que envolvem, fumos, as mumias egipcias e quasi se +pulverisam ao tocar-se-lhes, os leques de rendas; o imprevisto das suas +áções sem logica, que nada faziam prever, quasi sem realidade, como +essas arvores que teem um metro de raizes fóra da terra. + +Lady Hanswell, já passado o segundo anno de viuvez ainda carpia nas +palavras baixas em que recordava o marido, nos olhos que de tantas +lagrimas regadas eram frescos como fetos nascidos á beira dos regatos, +nas toilettes lilas, com que se vestia, foncées de manhã, claras á +noite, nas perolas cinsentas com que se enfeitava, gargantilhas pesadas, +collares multiplos, caindo sobre o collo, anneis de castães largos, que, +á luz, pareciam cinzas... + +Foi sobre ella que Davis se lançou, decidido, acirrado não só pelos seus +dois milhões de libras, mas tambem pela pelle fina, mate, macerada em +banhos prolongados de perfumes, pelos olhos em que brilhava uma volupia +indecisa, a afogar-se na tristeza, como um reflexo impreciso de estrella +num tanque. + +--A mulher deve ser como o Champagne: _extra dry_. + +Vi-o n'esse cerco, a sitiar a praça, a fazer-se valer, fugindo de lady +Hanswell, de todos, indo pouco ao Grand Cercle e á Villa des Fleurs, +tomando, de manhã, nos Banhos, e á meza, atitudes d'uma tristeza +profunda, maniaca, que interessasse. + +Só á noite, quando fumavamos o derradeiro charuto na varanda, sacudia a +mascara e falava-me do desenvolvimento da personalidade, toda a +theoria de Spencer e de Stirner, poetisada e dramatisada por Nietzche, +nelle menos literaria, menos filosofica, mas mais sincera, floração +inconsciente do seu Ego, sumula emfim da sua maneira de ser, animal +forte, que sabe que a Vida existe e quer apreender sem esforço, +desenvolver-se avidamente, até com detrimento dos outros. + +--É necessario viver a nossa vida, disse-me. + +N'essa noite, Davis, que era d'uma sobriedade exemplar, por calculo +talvez, para impressionar byronicamente lady Hanswell ou por impulso +atavico--gerações a alascar-se em Port-Wine pesam esmagadoramente--por +qualquer motivo, Davis acompanhou todo o jantar de Cliquot. Saimos +juntos, tomamos pelo _Boulevard des Côtes_, que vae contornando a +montanha e mostrando-nos, em cada curva, um aspecto novo d'Aix e do +campo, aqui a massa d'arvores illuminadas dos parques dos dois casinos, +alem a rua de _Genéve_, apagada e quieta, mais alem as montanhas cujos +perfis se recortam docemente no ceu enluarado, n'um outro cotovello o +lago do Bourget, que parece, na noite clara, de mercurio incendiado. +Caminhavamos apressados, subindo sempre, até á nascente d'essa agua +choca que os medicos nos fazem beber de manhã, em jejum. + +Sir Arnold falava com fluencia: + +--Todas as creaturas devem ser, para nós, elementos de desenvolvimento +do poder, utilidades. Extraido d'ellas o que nos pode servir devemos +pol-as á margem. É o que o organismo faz, inconscientemente... Quem +sobrecarrega com sentimentos inuteis o seu coração, apodrece, morre. +Devo todo este ensinamento filosofico, não aos livros, nem ás +conferencias, mas a uma pobre _caissière_, Eva Farland, d'um pequeno +restaurante do Strand onde eu jantava economicamente nos dias em que não +encontrava emprego para o meu mister agradavel de _pique-assietes_. Ali, +por um shelling e meio tinha uma boa talhada de _mutton_ e uma caneca de +cerveja, para desalterar. + +Essa pobre rapariga prendeu-se nos olhos azues de Davis; prenderam-a +seus braços fortes, a sua boca que ao beijar mordia. E foi para elle +como uma escrava, atenta, paciente, devotada, gastando o seu ultimo +penny em futilidades que Davis atirava para o lado, com desdem, +dando-lhe quarto, copiando á noite escritas, para pagar a luz, a lenha, +a agua, porque Davis fôra viver com ella, por economia--era um periodo +de _guigne_ extraordinaria!--persuadindo-se a pobre Eva que era por +amôr. Doce e abençoada mentira que a tornava feliz, dava-lhe coragem +para continuar a vida dura, fornecia-lhe a energia necessaria para estar +á caixa todo o longo dia, esperar, ás vezes, por elle toda a +inferminavel noite, quando o jogo o segurava com a caricia aspera das +suas mãos de aço; resignar-se ás longas ausencias, porque Sir Arnold, em +ganhando alguns guineus, reentrava na sociedade, ia jantar ao club, +frequentava os _music-halls_ nos camarotes do club, reencadernava-se, +emfim, de gentleman. + +Eva era o seu cão, mas cão de cego, util, chorando ás escondidas e +pouco, para não afear o soberbo rosto, não avermelhar os grandes olhos +sensuaes e tristes. + +N'um periodo mais largo de miseria, não chegando para os dois o salario +da amante, nem as copias, ella punha o chapeu, á noite, e ia pelo +Picadilly, misturando-se aos soldados, a fazer-lhes concorrencia, á caça +do guineu pondo em cada sorriso, um soluço. + +Davis via-a sofrer, indiferente, achando rasoavel que por elle outrem +penasse, continuando descuidado, até que um dia a fortuna sorriu-lhe +pela boca desdentada d'uma rainha de qualquer coisa na America, porco +salgado ou azeite de fóca. Nunca mais soube d'Eva, de quem nem sequer se +despediu, e que, se não morreu de dor--o que é pouco provavel--teve com +certeza uma lancinante crise de desespero. + +Ora essa mulher, que por elle fez todos os sacrificios, incluindo o do +pudor da amante, considerava-a elle o seu mestre de egoismo, pois +habituára-o a pensar que o amôr pode ser um modo de vida e a +belleza extranha e fascinante suprir as aptidões para a lucta pela vida. + +Foi a confissão que me fez n'uma noite de vinho, em que o Cliquot d'oiro +levára ao seu coração impassivel o desejo de expandir-se. + +Não tornámos a falar no assunto, persuadi-me até de que elle não tinha +consciencia da propria indiscrição e continuei a examinal-o no +interessante combate travado com lady Hanswell. + +Parece que a embriaguez produziu o seu efeito, porque lady Hanswell +começou a lançar-lhe, por vezes, obliquamente, olhares em que punha +alguma coisa de caloroso, as lagrimas deixaram de borbulhar-lhe nos +olhos, que andavam secos do desejo que ardia dentro. + +Ao começo d'ataque da ingleza, respondeu sir Arnold com um simulacro de +retirada, um mergulho na sua aparente tristeza, abstinencia de comida, +que o levava ás escondidas ao American Bar todas as noites, a leitura +constante do resignado Shelley e do desesperado Byron, cujos livros +deixava ficar sobre as mezas com marcas nos versos adequados á +circunstancia pensando que lady Hanswell não deixaria de ir folhear os +volumes. + +Ia realmente, sofrega, já esquecida do marido, estudando toilettes, não +já ruskinianas, com toda a tristeza doce das figuras dos primitivos, mas +as que fizessem realçar a sua elegancia, largos decótes que +mostravam a flor nevada do seu cólo opulento, fulgiam-lhe nas mãos os +largos costões esverdeados de berilos que Lalique lançára n'esse anno, +remoçava a sua boca escarlate uma primavera de beijos, que se ofereciam, +como as laranjeiras que nos quintaes murados veem sacudir para a estrada +as laranjas d'oiro. + +Lady Hanswell atacava vigorosamente, num assalto de desespero, pondo na +conquista de Davis toda a pertinacia da raça, toda a galantaria e +vaidade do sexo. + +Davis fugia, mas forneceu-lhe a ocasião d'ella se lhe dirigir, +entabolaram relações, elle mais dobrou a sua alma, melancolicamente, +falara-lhe de amôres purissimos, que vicejam nas almas candidas, como +desbotadas flores nas planicies geladas da Noruega. + +Falou-lhe n'uma especie de amor duplo, um amôr platonico por uma, em que +a alma vae em primeira cumungante, e o desejo se dirige para outra. + +E, diante d'ella, passeou pelas alamedas da Villa des Fleurs com Blanche +Lely, e, ostensivamente, durante alguns dias recolheu de manhã, a hora +em que lady Hanswell costumava sair para o banho. + +A tristeza voltou á face branca da ingleza. Durante o jantar olhava para +a porta constantemente, a cada movimento do _paravent_ estremecia, +lançava nos olhares para mim curiosas innterrogações que a minha face +muda deixava sem resposta. Voltou a chorar depois das ducha e das +massagens, como antigamente pelo defunto marido, e, de manhã, quando se +encontrava com sir Arnold o seu olhar tinha caricias, parecia que lhe +lambia a face linda. + +Foi ella que o levou, fremente, na ancia de não perder a presa, já no +carro a cerral-o entre os braços, para as Gorges du Sierroz, onde, +depois do almoço, no gabinete do restaurante rustico, os beijos arderam +e ella poude morder a boca em sangue de sir Arnold. + +Quanto custaram á consolada viuva esses beijos? + + +N'esse momento, sir Arnold Davis passou, levando pelo braço a franzina +Carlota Von Hameghen, que lhe encostava a cabeça ao hombro olhando para +elle n'uma suplica, que o sorriso dos labios finos apoiava fortemente. + + * * * * * + + + + +FUMO + + A LUIZ O'NEIL. + + +FUMO + + +Para fugir da exotica humanidade que enchia as salas do Kursaal de +Genebra, saimos, apezar da noite fria, para o amplo terraço sobre o +Léman tranquillo. + +Eu levára Roberto ali para mostrar-lhe Chiara, a dançarina italiana, que +nas suas danças bisantinas me surpreendera e comovera no Alhambra de +Londres. + +Era a Volupia feita luz e feita dança. N'um _maillot_ de seda, parecia +nua. Uma cintura de oiro, marchetada de largas pedras brilhantes +segurava-lhe os seios firmes. Grossas manilhas mordiam os braços finos e +os tornozellos. Um diadema apertava a massa luminosa dos seus cabellos +loiros. E, na face branca, eram d'um brilho de gema os olhos azues, +quasi violeta-de-Parma. A musica que a acompanhava tinha um envenenado +langor. Chiara deslisava, mal pousando os pés nús sobre o tapete de +Smyrna. E do brilho das joias, como da florescencia musical dos +gestos, brotavam lascivias, ardiam desejos, que faziam correr fremitos +por toda a sala incendiada por lampadas poderosas. + +Aquella dança sabia, apenas ritmada pelas vozes das flautas e das liras +que tocadoras de flauta e tocadoras de lira, vestidas á grega, no +palco tocavam! Uma ou outra vez um pé nú fazia vibrar o bronze dos +crotalos. Era como um grito de vitória, um beijo mordido n'uma boca +sedenta. Chiara tomava então uma atitude de entrega, todo o seu corpo +flexivel e delgado parecia tombar, como uma haste fragil que cede ao +explendor de uma enorme rosa vermelha, e verga e sucumbe. + +A grande flôr d'oiro e luz, em que as abelhas das joias picavam e +pareciam morder, fixas nas lhamas dos engastes! Como a vejo ainda +nitidamente, ramo d'oiro e de rosas, fazendo nascer desejos +cintillantes, chuveiros d'elles, rapidos, fulgentes, descendo como +estrellas d'oiro, como os bocados de astros que voam no ar escuro, nas +noites quietas d'agosto! + +E preso á tentação de vêr a dançarina, deixei Aix e as duchas, _Villa +des Fleurs_ e o seu rebanho de cocottes e, com Roberto, á pressa +envergados os smokings, fomos para o Kursaal. Mas no salão, um aviso e +um certificado medico diziam a doença de Chiara. Um grande desanimo +abateu-me as espaduas. Como passar uma noite na cidade alinhada e +mecanica como um relogio? Em todo o Kursaal, nem um rosto interessante. +Ranchos do Cook, das segundas classes, lyonezas rotundas e vermelhas, +suissas frescas, que parecem esculpidas em manteiga e em cujas faces +contentes os olhos são parados e azues... Caixeiros de Lyon, +aproveitando comboios a preços reduzidos, apertavam-se em volta das +compridas mezas dos _petits chevaux_. Dois americanos silenciosos +chupavam por palhinhas os violentos cocktails. + +Fugimos. + +Na noite escura, o lago era azul escuro. Os focos electricos dos caes +punham na agua fitas brancas, que dançavam e se quebravam contra as +ondas. Pareciam pestanejar as pequenas lanternas vermelhas dos +_bateaux-mouches_. Tudo parecia dormir. Uma brisa ligeira trazia até +junto de nós o silencio da cidade. Apenas do Kursaal as luzes coavam-se +pelas ramadas e, amortecidas, as walsas que acompanhavam mimambos e +acrobatas. + +Um de nós disse: + +--Talvez fosse melhor não ter visto Chiara. Um com a recordação, de que +viu, outro com a imaginação, teem uma imagem mais bella, por incompleta, +e em parte mentirosa, da dançarina e do seu bailado. A melhor maneira de +gosar é criar imagens, viver dentro de nós, alheio ao mundo. Recordando, +vive-se na imprecisão, sem as arestas. Tudo mergulha num nevoeiro, +que, deformando a real aparencia, nimba de misterio; desejando, +ilumina-se mais. Viver deve ser recordar e desejar. + +--Pode-se viver recordando e desejando apenas, no momento presente; mas +para recordar é necessario ter vivido, para desejar é preciso conhecer. +O desejo ilimitado põe a angustia na alma. É mister alguma coisa de +definido a desejar. + +--Quando chegamos á nossa edade, já vivemos tudo. Conhecemos o efemero +feminino. Andámos com o coração por todos os amores, por todas as +angustias. Provámos todos os _crús_, atravessámos mares, dormimos sob +todos os ceus. Podemos recordar. E, como conhecemos tudo, podemos +escolher e desejar. + +--A vida do homem é, como a de toda a natureza, um continuo movimento, +fluxo e refluxo permanentes. + +--Então é preciso agir? + +--É fatal. + +--S. Simeão Stylita gastou anos sobre uma coluna, a orar. Vinham de +desencontradas partes os crentes á espera de milagres. Esposas estereis +tocavam no plinto, certas de que tempo depois amamentariam o filho +desejado; os leprosos, os cegos, os atacados do «mal divino», +arrastavam-se pelos desertos queimados, até á coluna onde o santo +resava... E elle, indiferente, como indiferente era aos soes +asperos, ás ventanias e ás chuvas, continuava a orar. Viveu dentro de +si. A vida deve ser toda interior. + +--A vida do espirito é toda interior, como a vida digestiva. Precisamos +do mundo exterior para d'elle apreendermos as imagens e os alimentos. + +--_Ter comido_, é melhor que _comer_. _Ter gosado_ é melhor que _gosar_. +O momento da posse é doloroso e vão. É melhor recordar. + +--Recordar implica esquecer. E quando das imagens não ficar senão uma +mancha, como preencher a vida? + +--Desejando. + +--Mas a faculdade de desejar desapparece com os annos. O velho dos +Goncourt, quando no restaurante lhe perguntam:--O que deseja? +responde:--Desejava ter um desejo. Viver é agir. Colher todas flores e +todos os espinhos, violar todos os cimos, mergulhar em todos os lodos, +sentir intensamente, pensar todas as doutrinas, apreender do Universo +tudo o que fôr possivel, ver tudo, ouvir tudo! Viver é entrar na +harmonia do Mundo! É ser como o eucalipto, subir para o sol, +triunfalmente, lançar ramadas por todos os lados, espalhar avidas raizes +egoistas e crueis! + +--Viver é recordar e desejar. A vida deve ser feita por nós, como a +composição d'um quadro é arranjada por um pintor. Não devemos ser o +espelho de mostrador que refléte toda a rua, mas a psiché do _boudoir_ +d'uma mulher elegante que só refléte atitudes graciosas, sedas, rendas, +brilhos de pedrarias... + +--Viver... + +Despejava-se o Kursaal. Apagaram-se as lampadas. Fomos para a estação +esperar o expresso de Paris. + + +FIM + + + +INDICE + + A escola de flirt + Flirts + Logica + Romantico + A Bisantina + Má-lingua + A rainha de Sabá + Chiara Liliam + A Marcia + O cego + A gloria + A festa de maio + Tibidabo + A princeza perdida + Noite de festa + Clara + Idilio triste + Perfil d'aventureiro + Fumo + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Flirts, by Henrique de Vasconcellos + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK FLIRTS *** + +***** This file should be named 35073-8.txt or 35073-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/5/0/7/35073/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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