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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:03:05 -0700 |
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Miguel de Seide, by Alberto Pimentel</title> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: 7pt; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1 {text-align: left; margin-top: 3em; margin-bottom:2em; text-decoration:underline; } + h1.pg {text-align: center; margin-top: 0em; margin-bottom:0em; text-decoration:none; } + h3 small {font-weight: normal;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 20%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: small; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo.rodape p {text-indent: 0;} + + hr.full { width: 100%; + margin-top: 3em; + margin-bottom: 0em; + margin-left: auto; + margin-right: auto; + height: 4px; + border-width: 4px 0 0 0; /* remove all borders except the top one */ + border-style: solid; + border-color: #000000; + clear: both; } + pre {font-size: 85%;} + </style> +</head> +<body> +<h1 class="pg">The Project Gutenberg eBook, Uma visita ao primeiro romancista portuguez +em S. Miguel de Seide, by Alberto Pimentel</h1> +<pre> +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at <a href = "http://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a> + +</pre> +<p>Title: Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide</p> +<p>Author: Alberto Pimentel</p> +<p>Release Date: January 31, 2011 [eBook #35130]</p> +<p>Language: Portuguese</p> +<p>Character set encoding: ISO-8859-15</p> +<p>***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK UMA VISITA AO PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ EM S. MIGUEL DE SEIDE***</p> +<br><br><center><h3>E-text prepared by Pedro Saborano</h3></center><br><br> +<p> </p> +<hr class="full"> +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: double 5px #000;"> +<p> </p> +<p> </p> +<p style="font-size: 1.5em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2.5em;">UMA VISITA</p> + +<p>AO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ</p> + +<p>EM</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">S. MIGUEL DE SEIDE</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>LIVRARIA PORTUENSE DE LOPES & C.ª—EDITORES<br> +119—Rua do Almada—123<br> +1885</small></p> + +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align: center;"> +<p> </p> +<p> </p> +<p style="font-size: 1.5em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2.5em;">UMA VISITA</p> + +<p>AO</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ</p> + +<p>EM</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">S. MIGUEL DE SEIDE</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO<br> +<small>LIVRARIA PORTUENSE DE LOPES & C.ª—EDITORES<br> +119—Rua do Almada—123<br> +1885</small></p> + +</div> + + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<div style="text-align:center"> + +<hr> + +<p><small>PORTO—IMPRENSA PORTUGUEZA—BOMJARDIM, 181</small></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> <span class="pn">{3}</span></p> + + + +<p style="font-size: 1.4em;">UMA VISITA</p> + +<p>AO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ</p> + +<p style="font-size: 1.1em;">EM S. MIGUEL DE SEIDE</p> +</div> + +<div id="corpo"> + +<p> </p> + +<p>Eram onze horas da manhã. Acabava, +na egreja de Santo Thyrso, a <em>missa do dia</em>. +Para o largo do mosteiro vinham sahindo +os ranchos dos homens e das mulheres do +campo; algumas senhoras, poucas. A manhã +tinha estado fresca, segundo me disseram, +mas eu perdi a manhã, pela simples +razão de ter perdido a noite no arraial da +Senhora das Dôres, na Trofa, aonde condescendentemente +me deixei arrastar. Quando +sahi de casa, seguido pelo criado que levava +de redea a garrana, o sol descobria. +A consciencia de não ter nascido fadado +para cavallarias altas, obrigou-me a ir a<span class="pn">{4}</span> +pé até um sitio que julguei propicio para +me lançar a cima do sellim sem grande +concurso de publico.</p> + +<p>O criado dizia-me que não conhecia +besta melhor do que a garrana.</p> + +<p>—Muito fiel! accrescentava elle, inspirando-me +confiança, e descendo os estribos.</p> + +<p>Para além da ponte, cavalguei.</p> + +<p>Pareceu-me que effectivamente a garrana +tinha apreciaveis prendas de caracter; +entreguei-me á sua lealdade, e posso asseverar +que não foi desmentida, durante todo +o dia, por nenhum incidente desagradavel.</p> + +<p>É a besta mais honrada com que tenho +lidado. O criado tinha razão.</p> + +<p>—A que horas estaremos em S. Miguel +de Seide?—perguntei eu ao Bernardo do +João de Deus, nome e alcunha do meu companheiro, +para estabelecer dialogo, visto +que a garrana não podia, por um erro da +natureza, conversar comigo.</p> + +<p>—D'aqui a uma hora, n'este passo, respondeu +elle. De Landim lá, é um instante.</p> + +<p>Landim! repeti eu mentalmente.</p> + +<p>Estava, pois, nos vastos dominios romanticos +de Camillo, no proscenio florido +das suas <em>Novellas do Minho</em>, uma das<span class="pn">{5}</span> +quaes se intitula <em>O cego de Landim</em>. Á minha +direita ficava <em>Monte Cordova</em>, de cuja +bruxa o eminente romancista escrevera a +commovente historia.</p> + +<p>O sol descobrira de todo; os seus raios, +como flechas de oiro, cahiam sobre os campos, +doirando-os. O calor principiava a ser +intenso.</p> + +<p>O criado ralhou comigo amoravelmente.</p> + +<p>Que se eu me tivesse levantado mais +cedo, ponderava elle, não apanharia tamanha +calma. E depois podia ser que eu não +estivesse habituado. Finalmente, accrescentára +que o sr. visconde, prevenido da minha +visita, de certo me teria esperado para +o almoço.</p> + +<p>Que me importava a mim a calma, por +maior que fosse? Eu ia vêr, abraçar aquelle +que sempre fora para mim o mais dedicado +dos mestres, e o melhor dos amigos. O +acaso que durante alguns annos nos juntara, +separara-nos um dia: elle ficara quasi +sempre no Minho; eu vivia em Lisboa. +Havia já dez annos que nos não avistaramos. +Por isso, ainda que se tornasse preciso +um grande sacrificio, de boa vontade +eu o teria feito para comprar a felicidade<span class="pn">{6}</span> +de estar alguns momentos em S. Miguel +de Seide.</p> + +<p>O caminho não me sahira tão cruel +como eu esperava. A breve trecho havia arvores +que déssem sombra. Em torno de +mim, para qualquer lado que lançasse os +olhos, a vegetação era opulenta, feracissima. +Os meus pulmões fortificavam-se com +delicia n'um bom banho de oxygenio. E, +por antithese, lembravam-me os saguões +e as escadas dos predios da <em>baixa</em>, em +Lisboa, onde se respira um ar mephitico, +que asphyxia. De longe a longe, uma casa +e um parreiral; os cachos pendentes da latada +davam na vista ao criado, que observava:</p> + +<p>—Vão amadurecendo bem, graças a +Deus!</p> + +<p>E tirava o chapeu, respeitosamente, em +homenagem ao Creador dos homens e dos +cachos.</p> + +<p>Um ou outro cão vinha ladrar-nos ao +muro do quintal.</p> + +<p>Bernardo, todo embevecido na contemplação +da <em>novidade</em>, dizia-me que reparasse +nas <em>ramadas</em>, onde as travessas de madeira +teem sido substituidas por fios de arame.<span class="pn">{7}</span> +Uma innovação recentemente introduzida +no Minho.</p> + +<p>—Isto—o arame—observava o Bernardo, +dura a vida de um homem.</p> + +<p>O calor ia apertando, mordendo. Eu, de +quando em quando, aproveitava a sombra +de uma arvore para accender um cigarro. +A garrana, com uma grande deferencia +pelas minhas commodidades e pelos meus +vicios, esperava pachorrentamente que eu +embrulhasse o cigarro e o accendesse. Eu, +em compensação, para ser grato, sacudia-lhe +as moscas com a ponta da vergasta. E +não se pense que me custava pouco esta +retribuição amavel da minha parte: as moscas, +enxotadas da garrana, vinham para +mim. Uma mordeu-me no pescoço com a +mesma gana com que o teria feito á cavalgadura, +em igual sitio.</p> + +<p>Confundiu-nos! o diabo da mosca!</p> + +<p>O Bernardo pedira licença para despir +a jaqueta. Já não podia aguental-a com o +calor. Ás vezes tirava o chapeu, e limpava-se. +A sua cara escorria ressumbrações de +suor. Não obstante, o Bernardo acompanhava +a garrana com o seu passo largo e +firme, de caminheiro intrépido e experimentado.<span class="pn">{8}</span> +Eu disse-lhe que sentia haver-lhe +dado incommodo em dois dias consecutivos, +porque na vespera fôra elle de Santo +Thyrso a Seide, por ordem minha, com +uma carta para o visconde de Correia Botelho, +a fim de me certificar de que o encontraria +no dia seguinte.</p> + +<p>—Isto não é nada, respondeu o Bernardo. +Pelo S. Thiago fui ao Porto e vim, no +mesmo dia.</p> + +<p>E com o corpo lançado para diante, +meneiando os braços n'uma oscillação de +pendulo, continuava a acompanhar intrepidamente +a garrana, não suando menos +do que ella.</p> + +<p>Elle ia-me nomeando os sitios por que +passavamos:</p> + +<p>—Isto aqui é a Fonte da Gallega.</p> + +<p>E mais adiante:</p> + +<p>—Isto aqui é a egreja da Lama. Uma +freguezia pequenita.</p> + +<p>Eu perguntava:</p> + +<p>—Landim ainda fica muito longe?</p> + +<p>—Não, senhor; é ali adeante.</p> + +<p>E, para me distrair, por conhecer que +eu tinha pressa de chegar, armava conversa:<span class="pn">{9}</span></p> + +<p>—Hontem, quando vim trazer a carta +ao sr. visconde, topei perto de Landim uma +grande bicha.</p> + +<p>—Uma cobra?</p> + +<p>—Pois é mesmo. Tomava toda a largura +da estrada. Eu não gosto de encontrar +aquellas bichas. Não trazia nada comigo, +por isso parei para a deixar passar.</p> + +<p>—Ella viu-o?</p> + +<p>—Ella viu-me, mas foi-se andando. Enfiou +por entre umas pedras da parede, e +desappareceu.</p> + +<p>E após um breve silencio:</p> + +<p>—Estes bichinhos, disséra o Bernardo +apontando para o chão, onde um formigueiro +enorme mourejava, não são tão maldosos. +A bem dizer, tirante a alma, fel-os +Deus mais amigos do trabalho do que alguns +homens.</p> + +<p>Parei a garrana, e olhei.</p> + +<p>Era uma alluvião de formigas que punha +uma nodoa preta e ondulante á orla da valeta.</p> + +<p>Ainda na vespera, estando eu junto á +estação de Vizella, á espera do comboio que +devia descer de Guimarães, tinha sido impressionado +por uma d'estas obscuras scenas<span class="pn">{10}</span> +de realismo campestre em que os pequenos +insectos avultam na grandeza da +sua humildade... Fôra tambem uma formiga +o protogonista silencioso d'esse rapido +drama, em que eu figurei de comparsa +e em que fiquei pensando o bastante para +extrahir d'elle o elevado ensinamento, que +agradeci á natureza, visto que tendo de esperar +alguns momentos, julguei que nada poderia +haver ali que os occupasse utilmente.</p> + +<p>E emquanto o comboio não chegava, +uma serie de pensamentos imprevistos fôra +alinhando-se metricamente no meu espirito +e acolchetando-se, pensamento a pensamento, +pela attracção mysteriosa da consonancia.</p> + +<p>Esses versos, que só teem o merito +unico da espontaneidade casual, inspirados +e principiados junto á estação de Vizella, +eram horas depois concluidos, postoque +não limados. Como recordação da minha +viagem ao Minho, cujo fim principal fôra a +visita á quinta de S. Miguel de Seide, tomo +a liberdade de offerecel-os á sr.ª D. Anna +Augusto Placido, como rustica oblata deposta +por um romeiro sincero no altar da +amizade antiga. Intitulam-se:<span class="pn">{11}</span></p> + + +<blockquote> + +<p> <b>A FORMIGA</b></p> + +<p>Oh! que grande cobardia<br> +Esta em que eu ia cahindo!<br> +Pobre formiga, fugia!<br> +Com que pressa ia fugindo<br> +Toda cheia de canseira,<br> +Por haver roubado da eira<br> +De loiro trigo um só bago!<br> +E eu de entretido que ia<br> +Por um triz que a não esmago!</p> + +<p>Sem querer, era cobarde.<br> +Mas juro por minha fé<br> +Que passava mal a tarde<br> +Se lhe tenho posto o pé.</p> + +<p>Que a formiga é tão activa.<br> +Tão mansa e laboriosa,<br> +Do seu trabalho captiva,<br> +Do seu viver cuidadosa!<br> +Passa e não deixa um vestigio!<br> +Não mancha as folhas da rosa!<br> +Chega mesmo a ser prodigio<br> +Que um tão pequenino insecto<br> +Que se arrasta aos pés da gente,<br> +Trabalhe tão diligente,<br> +Tão delicado e discreto!</p> + +<p>Ha insectos bem maiores<br> +Que vivem na mandriice,<br> +São panreas, são mandriões,<br> +E dizem co'os seus botões<br> +Que o trabalhar é tolice.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>A cigarra é cantadeira,<br> +Não faz nada a descuidosa.<br> +Por mais que a gente a condemne.<br> +Até o bom Lafontaine<br> +Lá lhe chamou preguiçosa.<br> +Nem assim se envergonhou!<br> +Vive inda entregue á cantiga!<br> +Canta, cantará, cantou...<br> +E talvez até que diga<br> +Vendo a formiga cansada,<br> +Tão activa e carregada:<br> +«Ora a tola da formiga!»</p> + +<p>Mas a formiga, coitada!<br> +Tão pequenita, que até<br> +De qualquer criança o pé<br> +A deixa logo esmagada,<br> +Vae lidando a sua lida,<br> +Soffrendo a sua canseira:<br> +Aqui vence uma barreira<br> +—Alguma hervinha mimosa!—<br> +Ali transpõe um barranco,<br> +Uma montanha altrerosa,<br> +—Qualquer seixosito branco!</p> + +<p>Corre risco de afogar-se<br> +No oceano temeroso<br> +De qualquer gota de orvalho!<br> +Eu, quando a vejo arrastar-se<br> +No seu lidar canseiroso,<br> +Bemdigo n'ella o Trabalho.</p> + +<p>E escuto uma voz amiga<br> +Que me diz, vendo-a passar:<br> +«Tu és irmão da formiga<br> +«Na condição do lidar.»<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>O mundo é vasto, é enorme<br> +E os grandes formam-n'o todo!<br> +O rico descansa e dorme<br> +Tendo delicias a rodo.<br> +D'esta rêde de grandeza<br> +Só rompe o espesso tecido<br> +O pobre que na pobreza<br> +Fôr do mais pobre doído.</p> + +<p>Lida a formiga, trabalha<br> +E á força de trabalhar<br> +Consegue que a dura malha<br> +Ceda para ella passar.</p> + +<p>«O que tu tens feito é isto.<br> +—Diz da consciencia a voz sã,<br> +Sempre sincera e amiga—<br> +«Deixa passar a formiga,<br> +«Que a formiga é tua irmã.»</p> + +<p>«Grande gloria o vencel-a<br> +«Quando co'um bago de trigo<br> +«Vae passando carregada!<br> +«Vaidade! havia de tel-a<br> +«O grande que te esmagasse<br> +«Na tua lide suada!»</p> + +<p>Deixae que a formiga passe<br> +Evitando o mar-orvalho<br> +E a cordilheira-pedrinha.<br> +A formiga é o Trabalho...<br> +Poupai-a, se ella caminha.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>Sem querer, era cobarde,<br> +Mas juro por minha fé<br> +Que passava mal a tarde<br> +Se lhe tenho posto o pé.</p> +</blockquote> + +<p>Mais adiante ouvimos o estrondo de +morteiros ao longe.</p> + +<p>O Bernardo explicou:</p> + +<p>—É alguma romariasita em Villa Nova +(Famalicão).</p> + +<p>Passado o Pinheiro Torto, avistamos, +finalmente, as torres do mosteiro de Landim.</p> + +<p>—Ainda bem! disse eu.</p> + +<p>—D'aqui a Seide é um pulo.</p> + +<p>—Desconfio sempre, objectei, da rapidez +dos pulos que os senhores dão cá pela +provincia.</p> + +<p>—Não, senhor. Estamos aqui, estamos +lá.</p> + +<p>—Que tempo?</p> + +<p>—Um quarto de hora, quando muito.</p> + +<p>No topo de uma calçada, das Mesuras +se chama ella, levanta-se o mosteiro de Landim. +Eu não podia perder tempo a vêr a +egreja; mas disse-me depois Camillo que +nada tinha de notavel.</p> + +<p>Ao passarmos n'um vasto carvalhal<span class="pn">{15}</span> +sombrio, o Bernardo do João de Deus explicou:</p> + +<p>—Aqui, pela senhora das Candeias, a +dois de fevereiro, faz-se um mercado que +mette gente em barda. E todo esse povoleo +vae cahir além n'aquella venda a comer e +a beber.</p> + +<p>Olhei. Á porta de uma taberna, sentados +á sombra de uma ramada, quatro homens +conversavam na sorna placidez dos +ocios domingueiros. É a <em>Casa Havaneza</em> +do sitio—com menos tabaco, mas talvez +com mais animação: a venda do José Maria, +successor do Fanha.</p> + +<p>Que fresca e encantadora graça a d'um +grupo de crianças, todas ellas loiras e sujas, +que brincavam a uma sombra, á beira +da estrada, no sitio das Campas! Se as lavassem, +se as penteassem, ficariam mais +fidalgas; mais bellas e graciosas, não.</p> + +<p>O calculo do Bernardo fôra excedido no +duplo. Tinha passado cêrca de meia hora, +quando elle me disse:</p> + +<p>—O senhor vê aquellas casas? Pois a +quinta de Seide fica logo ao pé.</p> + +<p>Senti precipitar-se no meu coração uma +onda de sangue; era a commoção da alegria.<span class="pn">{16}</span></p> + +<p>Desembocamos, finalmente, n'um largo +sobre o qual abre o portão azul da quinta +de S. Miguel de Seide. O arvoredo espreita +para fóra por cima do muro. Ladeámos a +casa, de dois andares, pintada de amarello, +e entramos pela porta de serviço, onde um +criado me esperava.</p> + +<p>Passei ao vasto pateo, que vi de relance, +para subir a escada de pedra, que uma trepadeira +de cachos brancos enflora, e uma +copada acacia assombreia.</p> + +<p>Esta acacia tem uma historia triste. +Fora plantada pelo melancolico Jorge, o +filho mais velho de Camillo, que eu ainda +conheci ao collo da ama, e que momentos +depois ia vêr.</p> + +<p>Haverá pouco mais de um mez que todos +os jornaes do paiz reproduziram duas +quadras de Camillo, as quaes foram publicadas +na <em>Alvorada</em>, periodico litterario de +Villa Nova de Famalicão. N'essas duas +bellas estrophes, que se devem considerar +como morbida phantasia de um espirito desalentado, +ha uma referencia maviosa a esta +frondosa acacia que o Jorge plantára aos +oito annos de idade:<span class="pn">{17}</span></p> + +<blockquote> +<p>Á porta do sepulcro, ainda volto a face<br> +Para vêr-te chorar, ó mãe do filho amado,<br> +Que vê como n'um sonho, a scena do trespasse...<br> +Sorver-lhe o eterno abysmo o pae idolatrado.</p> + +<p>Talvez que elle, <em>a sonhar</em>, te diga: «Mãe, não chore,<br> +Que o pae ha de voltar»... Quem sabe se virei?!<br> +Quando a Acacia do Jorge ainda outra vez inflore<br> +Chamae-me, que eu de abril nas auras voltarei.</p> +</blockquote> + +<p>O visconde de Correia Botelho, ouvindo +a minha voz, viera receber-me, acompanhado +pelo sr. Espinho, seu hospede, á +porta da casa do bilhar.</p> + +<p>—É uma visita posthuma! dissera elle, +abrindo para mim os braços affectuosamente.</p> + +<p>Dei-me pressa em protestar contra esta +phrase devida ao desalento de um trabalhador +infatigavel, que ha mezes se acha condemnado +á inercia por um deploravel accidente +que lhe nublou os olhos já cansados +de uma diuturna applicação.</p> + +<p>Para os que amam o trabalho, os ocios +forçados são cansativos e molestos. Pareceu-me +ser esta a maior enfermidade de +Camillo actualmente. Se elle podesse trabalhar, +escrever um dos seus bellos romances +em quinze dias, como tantas vezes fizera,<span class="pn">{18}</span> +se conseguisse por esse meio arrancar-se +á intuscepção meditativa em que o +seu espirito se concentra, tel-o-iamos de +novo forte na sua fraqueza, robusto no seu +cansaço.</p> + +<p>Mas uma pertinaz nebrina teima em +ennevoar-lhe a visão; é de esperar porém +que a medicina consiga debellar este incommodo +e restituir o eminente romancista +á sua banca do trabalho, que lá está saudosa +no escriptorio de Seide, recordando a +quem a vê que nem menos de cincoenta e +dois romances foram escriptos ali.</p> + +<p>Ao lado de Camillo, compartindo os seus +soffrimentos com uma dedicação heroica, +acompanhando-o com uma solicitude extremosa +de carinhos, destaca o vulto esculptural +d'essa intelligente e formosa senhora +que tão bem soube comprehender a grande +alma de Camillo nas sublimes melancolias +dos seus dias nublados e nas vibrantes alegrias +dos seus dias ridentes.</p> + +<p>Jorge, o filho mais velho de Camillo, é +um espirito dado a vagas tristezas; mas +atravez de um véo de lagrimas, que ás vezes +lhe marejam nos olhos e nas palavras, +descobre-se um talento omnimodo, rico especialmente<span class="pn">{19}</span> +de aptidões artisticas. Jorge é +poeta, é prosador, é musico e desenhista. +Eu devo-lhe a amabilidade de me ter offerecido +muitos dos esboços que enchem a +sua pasta; alguns d'elles teem subido valor, +porque são o retrato a <em>crayon</em> dos personagens +creados por seu pae no <em>Eusebio +Macario</em>: o <em>Fistula</em>, o <em>Barão do Rabaçal</em>, +o <em>Abbade de S. Thiago de Faya</em>, a <em>Troncha</em>, +o proprio <em>Eusebio</em>.</p> + +<p>Nuno, o viuvo, tem vinte annos: é o +pae da innocente criança cuja prematura +morte deixou aberto no coração do visconde +de Correia Botelho o vácuo profundo +da saudade.</p> + +<p>Camillo fallara-me da sua querida netinha—a +candida flôr que durara o que duram +as rosas, apenas uma aurora.</p> + +<p>—Aqui estou, dissera Camillo, na solidão +da aldeia, rodeado de arvores melancolicas, +e de pensamentos tão melancólicos +como as arvores. É notavel, acrescentara, +a febre de saudade com que o meu espirito +vae, pelo passado dentro, á procura de pessoas +que são já mortas, e com as quaes +aliaz eu tive ligeiras relações litterarias ou +pessoaes. É revolvendo memorias que o<span class="pn">{20}</span> +meu espirito trabalha e descansa... Tudo +isto faz profundamente triste esta casa, +onde prematuramente se apagou o unico +raio de sol que podia rarefazer as trevas.</p> + +<p>É ainda ao periodico <em>Alvorada</em> que eu +vou procurar estancias lacrimaveis do avô +saudoso e angustiado. Duas quadras—tambem +duas quadras—de uma belleza peregrina, +que só a saudade de um anjo póde +inspirar:</p> + +<blockquote> +<p>Parecia dormitar: tinha morrido.<br> +Pedi que a não levassem no caixão;<br> +Que a deixassem mirrar e desfazer-se<br> +Como a flor se desfaz sem podridão.</p> + +<p>Teimaram em levar-m'a, e eu cingi-a<br> +Ao peito que se abriu pela pressão;<br> +Depois pude escondel-a, e tenho-a morta<br> +No meu despedaçado coração.</p> +</blockquote> + +<p>Aproveitei o ensejo de dizer-lhe:</p> + +<p>—Para os que nunca deixaram de o lêr, +e o sabem comprehender, meu bom amigo, +não passa despercebido esse novo caudal +de sentimento que dá aos seus escriptos +mais recentes o encanto dolorido de uma +saudade vaga e vaporosa como um subtil +aroma que se derrama pelo ambiente da<span class="pn">{21}</span> +memoria... Pois bem, aproveite esta nova +phase do seu poderoso talento, as tintas +deliciosas que uma copiosa revivescencia +de sensibilidade põe n'este momento na +sua palheta de artista, e escreva um romance +de amor, sem preoccupações de enredo, +ouvindo-se a si proprio; condense +n'um livro, que deve sahir encantador, todas +essas fragrancias que se perdem no +silencio meditativo do seu espirito...</p> + +<p>—Não posso, respondeu Camillo, não +poderia arrancar sensações de mim proprio +sem um esforço fatigante. Um trabalho +d'essa ordem deixar-me-ia exhausto de forças. +Eu sentia os meus romances, e foram +muitos os que escrevi. Só d'aquella banca, +que ali está, sahiram cincoenta e dois.</p> + +<p>Conversavamos no escriptorio, que fica +no segundo andar. É uma sala vasta, luminosa: +tres ou quatro largas janellas abrem +sobre a quinta.</p> + +<p>N'este mesmo andar tem Camillo o seu +quarto de cama. A ramagem da <em>acacia do +Jorge</em> e a folhagem da trepadeira combinam-se +para coar atravez de esmeraldas +uma penumbra suave.</p> + +<p>No primeiro andar ha duas salas: a do<span class="pn">{22}</span> +bilhar em que se encontram retratos de familia; +o retrato de Herculano, e o de D. +Frei Bartholomeu dos Martyres, desenhado +pelo Jorge;—e a casa de jantar, cujas janellas +dão para o pateo, a que já tive occasião +de me referir, sem comtudo pagar o meu +feudo de gratidão, como devia, ao pecegueiro +frondoso cujos bellos maracotões eu +agradeci, ha annos, nas chronicas que por +esse tempo escrevia para o <em>Diario Illustrado</em>.</p> + +<p>Fica perto do predio, e á esquerda do +portão de entrada, o monumento que a proprietaria +d'esta agradavel vivenda ali mandara +erigir em honra de Castilho. Essa singela +pyramide de granito, sombreada de +copadas arvores, tenho-a aqui reproduzida, +diante de mim, tambem pelo lapis de Jorge.</p> + +<p>Foi penetrado de commovido respeito +que eu li a inscripção posta n'esse simples +monumento, tão eloquente na sua simplicidade:<span class="pn">{23}</span></p> + +<p> </p> + +<p class="centrado">ANTONIO<br> +FELICIANO<br> +DE<br> +CASTILHO<br> +PRINCIPE<br> +DA LYRA<br> +PORTUGUEZA<br> +ESTEVE<br> +N'ESTE LUGAR<br> +EM 15 DE JULHO<br> +DE 1866.<br> +MANDOU ERIGIR<br> +ANNA PLACIDO</p> + +<p>E na face que fica voltada para o muro:</p> + +<p class="centrado">COM<br> +OS SEUS<br> +DISCIPULOS<br> +THOMAZ RIBEIRO<br> +EUGENIO<br> +DE CASTILHO,<br> +J. C. VIEIRA DE CASTRO,<br> +C. C. BRANCO.</p> + +<p>Castilho assistiu á inauguração do seu +proprio monumento, e os filhos de Camillo,<span class="pn">{24}</span> +então duas crianças, offereceram ao poeta +venerando, em seu nome, a corôa poetica +que para essa commovente festa de familia +entretecera a lyra enthusiastica de Thomaz +Ribeiro:</p> + +<blockquote> +<p>Por entre cantos e flores<br> +chegaste, rei da poesia,<br> +como um clarão d'alegria<br> +jorrando em mansão d'amores.</p> + +<p>Onde ha rei, ha sceptro e solio!<br> +Rei, vimos trazer-te a c'rôa.<br> +Tens maior côrte em Lisboa,<br> +não tens melhor capitolio.</p> + +<p>Somos de troncos robustos<br> +os loiros, os tenros gomos.<br> +Das flores surgirão pomos?<br> +Se Deus regar os arbustos!</p> + +<p>Porque és grande, hão de os vindoiros<br> +dar-te a sagração dos hymnos;<br> +porque és bom para os meninos,<br> +toma esta c'rôa de loiros.</p> + +<p>Nossa c'rôa e nossas flores<br> +guarda em saudosa memoria;—<br> +o monumento é da gloria;<br> +a c'rôa é só dos amores.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>Vaes partir! leva-a comtigo,<br> +e jura por teus carinhos<br> +que, em nós já sendo homenzinhos,<br> +serás nosso mestre e amigo.</p> +</blockquote> + +<p>Que de recordações melancolicas a inscripção +do monumento e os versos de Thomaz +Ribeiro fizeram accordar na minha +alma!</p> + +<p>Castilho, o poeta ali coroado n'aquella +apotheóse tão modesta e tão gloriosa, vi-o +eu descer ao seio da terra, que elle tanto +amava—no seu pantheismo intuitivo de cego +ariolo—ao cahir de uma tarde serena e +triste, no cemiterio dos Prazeres, em Lisboa.</p> + +<p>Rodrigues Cordeiro, com a voz entrecortada +de lagrimas e soluços, dissera-lhe, +em nome de todos aquelles que o amavam +como mestre e amigo, o extremo adeus. +Depois, a pedra do jazigo cerrou-se, a barreira +da eternidade ergueu-se.</p> + +<p>A noite descia lentamente.</p> + +<p>As crianças das escolas da capital, que +tinham ido acompanhar ao cemiterio o cadaver +d'aquelle que para ellas inventara o +<em>Methodo repentino</em>, d'aquelle que as ensinara +a gorgeiar o alphabeto—porque Castilho<span class="pn">{26}</span> +reconhecera que os pequenos precisam +ser educados como se foram passaros—as +crianças, dizia eu, tendo mais a intuição +do que a consciencia da perda enorme que +acabavam de soffrer, retiravam arregimentadas, +duas a duas, em longas filas, com +os olhos no chão, n'um silencio triste e +n'um passo cadenciado.</p> + +<p>Pouco tempo antes, e em mais de uma +noite, eu acompanhara Castilho ao camarote +n.º 19 do theatro de D. Maria durante +as representações do <em>Tartufo</em>. Logo que o +panno cahia, desciamos ao palco a passar +os intervallos no camarim do actor Santos, +que o visconde de Castilho muito apreciava. +Castilho, um morto! Santos, um cego! Estas +maguadas recordações travam-se no +meu espirito como os élos de uma cadeia +de saudades que o confrangem.</p> + +<p>Eugenio de Castilho nunca o vi; está +algemado ao leito ha muitos annos. Mas +correspondi-me com elle por intermedio de +seu pae, do Porto para Lisboa, quando +emprehendeu publicar um jornalsinho litterario, +que me parece ter-se chamado a <em>Folha +dos curiosos</em>, e me pedia versos que eu +lhe mandava, orgulhoso do pedido.<span class="pn">{27}</span></p> + +<p>Vieira do Castro, talvez o mais desgraçado +de todos, conheci-o pela primeira vez +no Porto, na sala da sociedade <em>Patria e +familia</em>, durante um sarau litterario em que +eu ousei, na sua presença, e na de todo +um auditorio muito selecto, recitar um pequeno +discurso que ahi corre impresso entre +a minha insignificante bagagem de escriptor.</p> + +<p>Elle habitava n'esse tempo o antigo mosteiro +de Moreira, a dois passos do Porto, +e publicava o opusculo <em>A Republica</em>. Era +casado e feliz. Chamava-se-lhe então o primeiro +orador portuguez, successor de José +Estevam. Tinha sido deputado, creio mesmo +que o era. Seria ministro de qualquer +pasta no dia seguinte. E quando todos esperavam +vel-o chegar aos conselhos da corôa, +vimol-o partir para o degredo, depois +de haver tropeçado no cadaver da esposa +que assassinara.</p> + +<p>O desgraçado assistira á sua propria +queda, que fôra das mais estrondosas em +que a curiosidade publica se tem cevado.</p> + +<p>O meu thema, as <em>Flores</em>, era um pretexto +para fallar do amor. Procurei provar, +com mais imaginação do que sciencia, que<span class="pn">{28}</span> +as flores se entendiam amorosamente como +as almas. As senhoras applaudiam. Os homens +sorriam. Vieira de Castro, sempre +poeta, abraçara-me. E eu, no dia seguinte, +dei uma pessima lição em botanica elementar +ao professor Almeida Pinto, do lyceu.</p> + +<p>Os filhos de Camillo foram <em>homenzinhos</em>, +segundo a phrase de Thomaz Ribeiro. +Hoje são homens. Mas Castilho já lhes +não alcançára o penujar do buço. E se elle +vivesse ainda, talvez que o melancolico +Jorge, concentrado e sonhador, entendesse +melhor do que ninguem, por os amigos silencios +da lua, em S. Miguel de Seide, alguma +trova do <em>Amor e melancolia</em> que o +poeta Castilho viesse de Lisboa ali recitar +n'aquellas sombras placidas que aprenderam +a venerar o seu nome em torno do monumento +singelo.</p> + +<p>Thomaz Ribeiro, o eloquente interprete +dos filhos de Camillo na aurea côrtesinha +litteraria que Castilho encontrara em S. +Miguel de Seide, é em 1885 como era 1866 +um poeta cuja inspiração roça as azas pela +lagoa sombria da politica sem afundar-se, +do mesmo modo que as andorinhas, pelas<span class="pn">{30}</span> +calmas da canicula, esvoaçam sobre a corrente +de um rio sem mergulhar.</p> + +<p>Logo que pôde desbragar-se de uma +pasta, respira em verso. N'este momento +está saboreando o goso da liberdade litteraria +no seu periodico <em>As Republicas</em>, em +que os relampagos da poesia rasgam luminosamente +o horisonte caliginoso do artigo de fundo. +Não contente de poetar elle proprio, +apadrinhou o alvitre de abrir <em>oiteiro</em> +semanal onde versejadores adventicios concorram +a glosar trovas populares, como +esta:</p> + +<blockquote> +<p>Vi-te sahir mar em fóra,<br> +Ceguei, olhando esse mar,<br> +Porque me disseste:—espera!<br> +Se não tinhas de voltar?</p> +</blockquote> + +<p>E o mais é que, pelo prestigio da sua +auctoridade, consegue tentar aquelles mesmos +que, na milicia de Apollo, estão relegados +a segunda reserva. Tentei-me eu, e +sou d'esses. Mas já que este livrinho é de +memorias para a velhice, fique mais esta +guardada no archivo da saudade:<span class="pn">{30}</span></p> + + +<blockquote> + +<p> <b>GLOSAS</b></p> + +<p>(A THOMAZ RIBEIRO)</p> + +<p>Vi-te sahir mar em fóra,<br> +E a saudade que eu senti<br> +Rasgou-me o peito n'ess'hora<br> +Em que chorava por ti.<br> +A ausencia tem tantas maguas,<br> +Tão soffrida heroecidade,<br> +Tanto resiste quem chora,<br> +Que eu puz os olhos nas aguas<br> +E, sem morrer de saudade,<br> +Vi-te sahir mar em fóra.</p> + +<p>Ceguei olhando esse mar<br> +Pleito de ondas e de abrolhos.<br> +Mas que importa a luz dos olhos,<br> +Se não tenho a quem olhar?...<br> +Tanto a vista me prenderam<br> +As ondas que tu sulcavas,<br> +Que os olhos escureceram<br> +No rumo em que navegavas.<br> +E assim por ti a chorar,<br> +Ceguei olhando esse mar.</p> + +<p>Porque me disseste: espera!<br> +Na hora extrema, derradeira,<br> +Se já veio a primavera,<br> +Se já floriu a amendoeira,<br> +E tu não voltaste ainda?!<br> +Se este mal era sem cura,<br> +Se tinha de ser infinda<br> +A dôr que me dilacera,<br> +A ausencia que me tortura,<br> +Porque me disseste: espera?!<span class="pn">{31}</span></p> + +<p>Se não tinhas de voltar,<br> +Melhor eu morresse alli;<br> +Que mais valia acabar,<br> +Que ter de viver sem ti.<br> +Não ha força que resista<br> +Á dôr que nunca descança.<br> +Tivesse eu perdido a vista,<br> +Mas não perdesse a esperança.<br> +Bem feliz acabaria<br> +Alli, á beira do mar,<br> +Se soubesse o que seria,<br> +Se não tinhas de voltar.</p> +</blockquote> + +<p>Ás quatro horas da tarde, a amabilissima +auctora da <em>Luz coada por ferros</em> perguntava-me +se eu, sacrificando os meus +habitos lisbonenses, seria capaz de jantar +áquella hora.</p> + +<p>—Em Seide, respondera Camillo, janta-se +sempre.</p> + +<p>Fomos para a meza, em cujo <em>plateau</em> +verdejavam as fructas mais escolhidas da +quinta, e em cujo ambiente os acipipes succolentos +de uma boa cosinha de provincia +punham os aromas de um excellente jantar.</p> + +<p>Camillo estivera silencioso durante alguns +momentos. Mas eu procurara envolvel-o +na conversação. Fallava-se dos seus +romances. É difficil escolher o melhor entre +os bons; mas eu pretendi negar a primasia +do <em>Romance de um homem rico</em>, por<span class="pn">{32}</span> +saber, desde muito tempo; que Camillo o +prefere ao <em>Amor de perdição</em>. Todos nós +desejavamos fazel-o interessar pelo assumpto. +Foi pois em defeza do <em>Amor de perdição</em> +que eu pugnei.</p> + +<p>—O <em>Amor de perdição</em>, observara finalmente +Camillo, tem lacunas que eu proprio +reconheci, e não quiz preencher. Disse-o +por essa occasião ao dr. Marcellino de +Mattos. Mas o meu proposito foi não alterar +a veracidade dos acontecimentos que +se encadeavam na dramatica biographia +de meu tio Simão Botelho. Escrevi sobre a +tradição, respeitando-a como um evangelho +de familia. No <em>Romance de um homem rico</em> +tive um ponto de vista artistico, planeei e +architectei, colori em vez de photographar. +Eis aqui a razão da minha preferencia dada +ao <em>Romance de hum homem</em> rico sobre o +<em>Amor de perdição</em>.</p> + +<p>Não me dispensei comtudo de recordar +a profunda impressão que este ultimo romance +produzira em todos os corações +moços d'aquelle tempo ou nos que pelo +amor rejuvenesciam. Desvelavam-se as noites +na febre da leitura, e reliam-se as paginas +mais sentimentaes nas horas de namorada<span class="pn">{33}</span> +tristeza. Cada qual pedia para si a corôa +de espinhos de Simão Botelho, de Thereza +ou de Marianna, a auréola da poesia +nas angustias do amor. Amar é soffrer. E +aquelle livro fallava pelos que soffriam. Se +a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema, +disse Goethe. Ora aquelle romance de Camillo +era o poema em que se fundiam as +dores de todas as almas excruciadas pelo +amor; era o romance de tres, e o poema +de todos.</p> + +<p>No recolhimento das Orphãs, a S. Lazaro, +uma das pobres meninas ali encarceradas +entre as grades de ferro que nos ultimos +annos foram sensatamente arrancadas, +lia o <em>Amor de perdição</em>, a occultas da regente, +entreabrindo a gaveta da sua cómmoda +apenas o bastante para alcançar com +a vista o espaço de uma pagina. Lia de pé, +e fechava com sobresalto a gaveta quando +sentia passos. O livro nunca foi surprehendido, +mas as lagrimas que a leitura originava, +muitas vezes o foram. A regente, D. +Maria das Dores, via chorosos os olhos da +menina, e perguntava-lhe porque chorava.</p> + +<p>—É que estou triste, respondia a educanda.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>Mas as tristezas dava-lh'as a leitura fortuita +do romance de Camillo.</p> + +<p>Favorecia-me na apologia do <em>Amor de +perdição</em> o voto auctorisado da intelligente +e illustrada dona da casa, que depois nos +recordou a belleza do romance <em>O Esqueleto</em>. +Eu citei por minha vez <em>A agulha em +palheiro</em>, e a <em>Sereia</em>, romance que tem +para mim um valor especial, porque reune +para a minha saudade os nomes de Camillo +Castello Branco e José Gomes Monteiro. +O primeiro capitulo é baseado sobre um +artigo de Monteiro ácerca do antigo theatro +lyrico do Porto, no Corpo da Guarda.</p> + +<p>Accresce que o meu exemplar da <em>Sereia</em> +tem uma historia curiosa. Na capa, sobre +o titulo, ha uma pequena mancha de tinta, +que tomou a forma caprichosa de um polygono +estrellado. Um dia, sem que eu soubesse +como, desappareceu-me da estante; +foram baldados todos os esforços para encontral-o +no meu escriptorio. Querendo preencher +a falta da <em>Sereia</em> na collecção das +obras de Camillo, resolvi-me a comprar um +novo exemplar. Mas a suspeita de ter sido +roubado, fazia com que eu relanceasse a +vista por todos os romances portuguezes<span class="pn">{34}</span> +que encontrava á venda nas lojas de livros +em segunda mão.</p> + +<p>Passaram mezes, e um dia, n'uma d'essas +lojas, na rua Augusta, encontrei um +exemplar da Sereia. Tirei-o da estante: era +o meu! Na capa amarella, sobre o titulo, o +polygono estrellado, o borrão! Perguntei +quanto custava. Trezentos reis, respondeu +o alfarrabista. Paguei sem discutir. Depois +de ter pago, perguntei-lhe:</p> + +<p>—Lembra-se de quem lhe vendeu este +livro?</p> + +<p>O alfarrabista quedou-se a evocar as +suas recordações.</p> + +<p>Mas devo suppôr que não poude lembrar-se.</p> + +<p>Depois de jantar, viemos sentar-nos nos +bancos do pateo. A tarde estava serena; as +folhas das arvores immoveis. O visconde +de Correia Botelho, fumando o seu charuto, +conversava animado. Lembrei-lhe que +fosse passar o inverno em Lisboa, entre os +muitos amigos e admiradores que ali tem. +O clima, menos rigoroso que o do norte, +deve convir aos seus padecimentos. Camillo +não repelliu o alvitre. Mas o projecto de +viagem ficou para segunda leitura, quando<span class="pn">{35}</span> +eu voltasse a Seide para despedir-me. Comprometti-me +gostosamente a fazel-o, e espero +cumprir.</p> + +<p>A tarde declinava n'uma suavidade dormente. +Os passaros cantavam no arvoredo +da quinta, n'uma festa de lyrismo primitivo. +Junto ao monumento de Castilho condensava-se +uma sombra silenciosa, como +se as aves não poisassem n'aquelle recinto +senão para chorar o poeta que as cantara.</p> + +<p>Eram horas de partir. Os meus amaveis +hospedeiros, e os seus hospedes, vieram +acompanhar-me ao portão da quinta. O +visconde procurara apoio no meu braço, +ao passo que a sr.ª D. Anna Placido colhia +para mim algumas flores do seu jardim,—recordação +inestimavel da minha visita a +Seide.</p> + +<p>Fóra do portão esperavam respeitosamente +o Bernardo do João de Deus e a +garrana. Ambos pareciam satisfeitos: elle +porque trazia mais vinho verde no estomago, +ella porque tinha menos moscas +no pescoço. As moscas do Minho já eu +disse que são formidaveis, porque lhes +senti, por endosso da garrana, a dolorosa +ferroada. O vinho verde de S. Miguel de<span class="pn">{36}</span> +Seide é de se lhe tirar o chapeu, mesmo +para que o chapeu não caia da cabeça caso +a gente se tenha desmandado nas libações. +É excellente e, por ser encorpado, deve +trepar:—pelo menos, o Bernardo do João +de Deus foi d'esta opinião.</p> + +<p>Antes de montar, pedi a Camillo que se +não risse da minha impericia de cavalleiro.</p> + +<p>—Quem lhe dera essa garrana no Chiado! +dissera jovialmente Camillo.</p> + +<p>—Piedade! exclamei eu sobre o sellim.</p> + +<p>A garrana, comprehendendo melhor as +minhas intenções do que as minhas esporas, +partiu.</p> + +<p>Eu parti com ella, e o Bernardo do João +de Deus na alheta de ambos.</p> + +<p>Em Landim, na venda do José Maria, +conversavam os mesmos quatro homens.</p> + +<p>De algumas casas subia placidamente o +fumo do lar accêso para a ceia. Em outras, +ouvia-se fallar mulheres, chorar crianças. +Alguma cabeça loira, sentindo os passos +da garrana, vinha espreitar á janella.</p> + +<p>Pouco adiante das Campas, dois bois +corpulentos, largamente armados, pastavam +em liberdade, com o ar de estarem já +bem fartos de pascigo.<span class="pn">{38}</span></p> + +<p>Á medida que nos aproximavamos de +Santo Thyrso, iamos encontrando os ranchos +dos romeiros que voltavam do arraial +da Trofa. A viola minhota, chuleira e folgasã, +cadenciava a caminhada n'um andamento +militar, como os rufos de um tambor +regulam o passo largo e unisono dos +soldados de um destacamento em marcha. +O tocador, pendida a cabeça sobre o peito, +sacudia a mão direita fortemente pelas cordas, +n'um repenicado estridulo. O caminho +de ferro de Bougado alliviara os romeiros +da fadiga da jornada. Iam frescos +como se tivessem bebido menos e descansado +mais.</p> + +<p>Que diriam os benedictinos de Santo +Thyrso se podessem resuscitar, e, debruçados +no muro da cêrca, vissem desenrolar-se +por sobre o arvoredo fronteiro a +pluma ondulante do fumo da locomotiva?!</p> + +<p>Elles viveram ali entrincheirados entre +a villa, que engrandeciam, e o rio, que os +deliciava. De um lado, as moçoilas carnudas +e carnaes; do outro, os rouxinoes devaneiadores +da beira d'agua. De portas a +dentro, a cosinha e o coro. Tudo aquillo<span class="pn">{39}</span> +era d'elles, os frades, senhores suzeranos +das localidades que povoavam,—directa e +indirectamente. O caminho de ferro é um +invasor audacioso, que passa esmagando e +rompendo. Os frades, se agora podessem +ouvir-lhe o silvo triumphal, gritariam <em>á d'el-rei</em> +contra o progresso, apitariam contra a +machina a vapor.</p> + +<p>No relogio dos destinos humanos ha +uma hora providencialmente marcada para +tudo o que principia e acaba. De modo +que, por uma sabia organisação superior á +nossa intelligencia, tudo principia e acaba +quando deve principiar e acabar. Ao frade +que comboyava as almas para o ceu, succedeu +opportunamente a locomotora que +passa comboyando passageiros para Guimarães. +Deus é grande!</p> + +<p>Era noite fechada quando entrei em +Santo Thyrso. Valeu-me a escuridão ao +desprimor da gineta. Não havia espectadores, +e a garrana alargava o passo, contente +de se vêr perto de casa. Apeei, entregando +a chibata ao Bernardo do João de Deus, +que me perguntou:</p> + +<p>—E que tal, a garrana? Não dizia eu +que era segura?<span class="pn">{40}</span></p> + +<p>—Mais seguro do que isto, respondi, +só o Banco de Portugal.</p> + +<p>Elle não entendeu; por isso, riu.</p> + +<p>E eu recolhi-me com as gratas recordações +d'esse dia agradabilissimo que passei +na quinta de S. Miguel de Seide, sob o +tecto hospitaleiro do primeiro romancista +portuguez, entre pessoas queridas, e memorias +saudosas de que tanto haviamos +fallado.</p> + +<p>Santo Thyrso, 21 de agosto de 1885.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><em>Alberto Pimentel.</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p class="centrado">LIVRARIA PORTUENSE E PAPELARIA</p> + +<p class="centrado">DE</p> + +<p class="centrado">LOPES & C.ª <small>SUCCESSORES DE</small> CLAVEL & C.ª</p> + +<p class="centrado">EDITORES</p> + +<p class="centrado"><em>119—RUA DO ALMADA—123</em></p> + +<p class="centrado">PORTO</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">Alberto Pimentel</p> + +<p class="centrado">(NO PRELO)</p> + +<p><strong>Senhor D. Miguel I</strong>—a sua vida e o seu tempo.</p> + +<p><strong>Rainha sem reino</strong>—estudo historico do seculo <small>XV</small>.</p> + +<strong>Idylios dos reis</strong>—poema. + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">Julio Lourenço Pinto</p> + +<p><strong>Esthetica naturalista</strong>—estudos criticos, 1 volume nitidamente impresso em magnifico papel, 700 réis.</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">Ernesto Pinto d'Almeida</p> + +<p><strong>O Sonho de Camões</strong>—poema posthumo, edição de luxo. +Não desmentindo em nada a gloria e o merecimento litterario +do fallecido poeta portuense Ernesto Pinto d'Almeida, +antes vem agora este poema dar-nos uma medida +maior do seu estro poetico, 1 volume nitidamente impresso, +300 réis.</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">Narciso José de Moraes</p> + +<p><strong>Manual de citações camoneanas</strong>—indicador utilissimo dos melhores conceitos e aphorismos do sublime cantor, Luiz +de Camões, indispensavel ao estudante e ao novel escriptor +portuguez, 1 volume, 200 réis.</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">Alberto Correia</p> + +<p><strong>Trémulos</strong>—um livro de primorosos versos, com o retrato +do auctor, edição de luxo, 1 volume brochado, 500 réis. (Envia-se franco de porte pelo correio).</p> + +<hr style="width: 25%;"> + +<p class="centrado">J. Leite de Vasconcellos</p> + +<p><strong>Balladas do Occidente</strong>—um volume brochado, 500 réis.</p> + +<hr> + +<p class="centrado">Preço... 200 réis</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<hr class="full"> +<p>***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK UMA VISITA AO PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ EM S. MIGUEL DE SEIDE***</p> +<p>******* This file should be named 35130-h.txt or 35130-h.zip *******</p> +<p>This and all associated files of various formats will be found in:<br> +<a href="http://www.gutenberg.org/dirs/3/5/1/3/35130">http://www.gutenberg.org/3/5/1/3/35130</a></p> +<p>Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed.</p> + +<p>Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://www.gutenberg.org/about/contact + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://www.gutenberg.org/fundraising/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Each eBook is in a subdirectory of the same number as the eBook's +eBook number, often in several formats including plain vanilla ASCII, +compressed (zipped), HTML and others. + +Corrected EDITIONS of our eBooks replace the old file and take over +the old filename and etext number. 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