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+The Project Gutenberg eBook, Uma visita ao primeiro romancista portuguez
+em S. Miguel de Seide, by Alberto Pimentel
+
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+
+
+
+Title: Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide
+
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+
+
+Release Date: January 31, 2011 [eBook #35130]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-15
+
+
+***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK UMA VISITA AO PRIMEIRO ROMANCISTA
+PORTUGUEZ EM S. MIGUEL DE SEIDE***
+
+
+E-text prepared by Pedro Saborano
+
+
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+UMA VISITA
+
+AO
+
+PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ
+
+EM
+
+S. MIGUEL DE SEIDE
+
+
+
+
+
+
+
+PORTO
+LIVRARIA PORTUENSE DE LOPES & C.ª--EDITORES
+119--Rua do Almada--123
+1885
+
+PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA--BOMJARDIM, 181
+
+
+
+
+UMA VISITA
+
+AO
+
+PRIMEIRO ROMANCISTA PORTUGUEZ
+
+EM S. MIGUEL DE SEIDE
+
+
+Eram onze horas da manhã. Acabava, na egreja de Santo Thyrso, a _missa
+do dia_. Para o largo do mosteiro vinham sahindo os ranchos dos homens e
+das mulheres do campo; algumas senhoras, poucas. A manhã tinha estado
+fresca, segundo me disseram, mas eu perdi a manhã, pela simples razão de
+ter perdido a noite no arraial da Senhora das Dôres, na Trofa, aonde
+condescendentemente me deixei arrastar. Quando sahi de casa, seguido
+pelo criado que levava de redea a garrana, o sol descobria. A
+consciencia de não ter nascido fadado para cavallarias altas, obrigou-me
+a ir a pé até um sitio que julguei propicio para me lançar a cima do
+sellim sem grande concurso de publico.
+
+O criado dizia-me que não conhecia besta melhor do que a garrana.
+
+--Muito fiel! accrescentava elle, inspirando-me confiança, e descendo os
+estribos.
+
+Para além da ponte, cavalguei.
+
+Pareceu-me que effectivamente a garrana tinha apreciaveis prendas de
+caracter; entreguei-me á sua lealdade, e posso asseverar que não foi
+desmentida, durante todo o dia, por nenhum incidente desagradavel.
+
+É a besta mais honrada com que tenho lidado. O criado tinha razão.
+
+--A que horas estaremos em S. Miguel de Seide?--perguntei eu ao Bernardo
+do João de Deus, nome e alcunha do meu companheiro, para estabelecer
+dialogo, visto que a garrana não podia, por um erro da natureza,
+conversar comigo.
+
+--D'aqui a uma hora, n'este passo, respondeu elle. De Landim lá, é um
+instante.
+
+Landim! repeti eu mentalmente.
+
+Estava, pois, nos vastos dominios romanticos de Camillo, no proscenio
+florido das suas _Novellas do Minho_, uma das quaes se intitula _O
+cego de Landim_. Á minha direita ficava _Monte Cordova_, de cuja bruxa o
+eminente romancista escrevera a commovente historia.
+
+O sol descobrira de todo; os seus raios, como flechas de oiro, cahiam
+sobre os campos, doirando-os. O calor principiava a ser intenso.
+
+O criado ralhou comigo amoravelmente.
+
+Que se eu me tivesse levantado mais cedo, ponderava elle, não apanharia
+tamanha calma. E depois podia ser que eu não estivesse habituado.
+Finalmente, accrescentára que o sr. visconde, prevenido da minha visita,
+de certo me teria esperado para o almoço.
+
+Que me importava a mim a calma, por maior que fosse? Eu ia vêr, abraçar
+aquelle que sempre fora para mim o mais dedicado dos mestres, e o melhor
+dos amigos. O acaso que durante alguns annos nos juntara, separara-nos
+um dia: elle ficara quasi sempre no Minho; eu vivia em Lisboa. Havia já
+dez annos que nos não avistaramos. Por isso, ainda que se tornasse
+preciso um grande sacrificio, de boa vontade eu o teria feito para
+comprar a felicidade de estar alguns momentos em S. Miguel de Seide.
+
+O caminho não me sahira tão cruel como eu esperava. A breve trecho havia
+arvores que déssem sombra. Em torno de mim, para qualquer lado que
+lançasse os olhos, a vegetação era opulenta, feracissima. Os meus
+pulmões fortificavam-se com delicia n'um bom banho de oxygenio. E, por
+antithese, lembravam-me os saguões e as escadas dos predios da _baixa_,
+em Lisboa, onde se respira um ar mephitico, que asphyxia. De longe a
+longe, uma casa e um parreiral; os cachos pendentes da latada davam na
+vista ao criado, que observava:
+
+--Vão amadurecendo bem, graças a Deus!
+
+E tirava o chapeu, respeitosamente, em homenagem ao Creador dos homens e
+dos cachos.
+
+Um ou outro cão vinha ladrar-nos ao muro do quintal.
+
+Bernardo, todo embevecido na contemplação da _novidade_, dizia-me que
+reparasse nas _ramadas_, onde as travessas de madeira teem sido
+substituidas por fios de arame. Uma innovação recentemente
+introduzida no Minho.
+
+--Isto--o arame--observava o Bernardo, dura a vida de um homem.
+
+O calor ia apertando, mordendo. Eu, de quando em quando, aproveitava a
+sombra de uma arvore para accender um cigarro. A garrana, com uma grande
+deferencia pelas minhas commodidades e pelos meus vicios, esperava
+pachorrentamente que eu embrulhasse o cigarro e o accendesse. Eu, em
+compensação, para ser grato, sacudia-lhe as moscas com a ponta da
+vergasta. E não se pense que me custava pouco esta retribuição amavel da
+minha parte: as moscas, enxotadas da garrana, vinham para mim. Uma
+mordeu-me no pescoço com a mesma gana com que o teria feito á
+cavalgadura, em igual sitio.
+
+Confundiu-nos! o diabo da mosca!
+
+O Bernardo pedira licença para despir a jaqueta. Já não podia aguental-a
+com o calor. Ás vezes tirava o chapeu, e limpava-se. A sua cara escorria
+ressumbrações de suor. Não obstante, o Bernardo acompanhava a garrana
+com o seu passo largo e firme, de caminheiro intrépido e
+experimentado. Eu disse-lhe que sentia haver-lhe dado incommodo em
+dois dias consecutivos, porque na vespera fôra elle de Santo Thyrso a
+Seide, por ordem minha, com uma carta para o visconde de Correia
+Botelho, a fim de me certificar de que o encontraria no dia seguinte.
+
+--Isto não é nada, respondeu o Bernardo. Pelo S. Thiago fui ao Porto e
+vim, no mesmo dia.
+
+E com o corpo lançado para diante, meneiando os braços n'uma oscillação
+de pendulo, continuava a acompanhar intrepidamente a garrana, não suando
+menos do que ella.
+
+Elle ia-me nomeando os sitios por que passavamos:
+
+--Isto aqui é a Fonte da Gallega.
+
+E mais adiante:
+
+--Isto aqui é a egreja da Lama. Uma freguezia pequenita.
+
+Eu perguntava:
+
+--Landim ainda fica muito longe?
+
+--Não, senhor; é ali adeante.
+
+E, para me distrair, por conhecer que eu tinha pressa de chegar, armava
+conversa:
+
+--Hontem, quando vim trazer a carta ao sr. visconde, topei perto de
+Landim uma grande bicha.
+
+--Uma cobra?
+
+--Pois é mesmo. Tomava toda a largura da estrada. Eu não gosto de
+encontrar aquellas bichas. Não trazia nada comigo, por isso parei para a
+deixar passar.
+
+--Ella viu-o?
+
+--Ella viu-me, mas foi-se andando. Enfiou por entre umas pedras da
+parede, e desappareceu.
+
+E após um breve silencio:
+
+--Estes bichinhos, disséra o Bernardo apontando para o chão, onde um
+formigueiro enorme mourejava, não são tão maldosos. A bem dizer, tirante
+a alma, fel-os Deus mais amigos do trabalho do que alguns homens.
+
+Parei a garrana, e olhei.
+
+Era uma alluvião de formigas que punha uma nodoa preta e ondulante á
+orla da valeta.
+
+Ainda na vespera, estando eu junto á estação de Vizella, á espera do
+comboio que devia descer de Guimarães, tinha sido impressionado por uma
+d'estas obscuras scenas de realismo campestre em que os pequenos
+insectos avultam na grandeza da sua humildade... Fôra tambem uma formiga
+o protogonista silencioso d'esse rapido drama, em que eu figurei de
+comparsa e em que fiquei pensando o bastante para extrahir d'elle o
+elevado ensinamento, que agradeci á natureza, visto que tendo de esperar
+alguns momentos, julguei que nada poderia haver ali que os occupasse
+utilmente.
+
+E emquanto o comboio não chegava, uma serie de pensamentos imprevistos
+fôra alinhando-se metricamente no meu espirito e acolchetando-se,
+pensamento a pensamento, pela attracção mysteriosa da consonancia.
+
+Esses versos, que só teem o merito unico da espontaneidade casual,
+inspirados e principiados junto á estação de Vizella, eram horas depois
+concluidos, postoque não limados. Como recordação da minha viagem ao
+Minho, cujo fim principal fôra a visita á quinta de S. Miguel de Seide,
+tomo a liberdade de offerecel-os á sr.ª D. Anna Augusto Placido, como
+rustica oblata deposta por um romeiro sincero no altar da amizade
+antiga. Intitulam-se:
+
+ *A FORMIGA*
+
+ Oh! que grande cobardia
+ Esta em que eu ia cahindo!
+ Pobre formiga, fugia!
+ Com que pressa ia fugindo
+ Toda cheia de canseira,
+ Por haver roubado da eira
+ De loiro trigo um só bago!
+ E eu de entretido que ia
+ Por um triz que a não esmago!
+
+ Sem querer, era cobarde.
+ Mas juro por minha fé
+ Que passava mal a tarde
+ Se lhe tenho posto o pé.
+
+ Que a formiga é tão activa.
+ Tão mansa e laboriosa,
+ Do seu trabalho captiva,
+ Do seu viver cuidadosa!
+ Passa e não deixa um vestigio!
+ Não mancha as folhas da rosa!
+ Chega mesmo a ser prodigio
+ Que um tão pequenino insecto
+ Que se arrasta aos pés da gente,
+ Trabalhe tão diligente,
+ Tão delicado e discreto!
+
+ Ha insectos bem maiores
+ Que vivem na mandriice,
+ São panreas, são mandriões,
+ E dizem co'os seus botões
+ Que o trabalhar é tolice.
+
+ A cigarra é cantadeira,
+ Não faz nada a descuidosa.
+ Por mais que a gente a condemne.
+ Até o bom Lafontaine
+ Lá lhe chamou preguiçosa.
+ Nem assim se envergonhou!
+ Vive inda entregue á cantiga!
+ Canta, cantará, cantou...
+ E talvez até que diga
+ Vendo a formiga cansada,
+ Tão activa e carregada:
+ «Ora a tola da formiga!»
+
+ Mas a formiga, coitada!
+ Tão pequenita, que até
+ De qualquer criança o pé
+ A deixa logo esmagada,
+ Vae lidando a sua lida,
+ Soffrendo a sua canseira:
+ Aqui vence uma barreira
+ --Alguma hervinha mimosa!--
+ Ali transpõe um barranco,
+ Uma montanha altrerosa,
+ --Qualquer seixosito branco!
+
+ Corre risco de afogar-se
+ No oceano temeroso
+ De qualquer gota de orvalho!
+ Eu, quando a vejo arrastar-se
+ No seu lidar canseiroso,
+ Bemdigo n'ella o Trabalho.
+
+ E escuto uma voz amiga
+ Que me diz, vendo-a passar:
+ «Tu és irmão da formiga
+ «Na condição do lidar.»
+
+ O mundo é vasto, é enorme
+ E os grandes formam-n'o todo!
+ O rico descansa e dorme
+ Tendo delicias a rodo.
+ D'esta rêde de grandeza
+ Só rompe o espesso tecido
+ O pobre que na pobreza
+ Fôr do mais pobre doído.
+
+ Lida a formiga, trabalha
+ E á força de trabalhar
+ Consegue que a dura malha
+ Ceda para ella passar.
+
+ «O que tu tens feito é isto.
+ --Diz da consciencia a voz sã,
+ Sempre sincera e amiga--
+ «Deixa passar a formiga,
+ «Que a formiga é tua irmã.»
+
+ «Grande gloria o vencel-a
+ «Quando co'um bago de trigo
+ «Vae passando carregada!
+ «Vaidade! havia de tel-a
+ «O grande que te esmagasse
+ «Na tua lide suada!»
+
+ Deixae que a formiga passe
+ Evitando o mar-orvalho
+ E a cordilheira-pedrinha.
+ A formiga é o Trabalho...
+ Poupai-a, se ella caminha.
+
+ Sem querer, era cobarde,
+ Mas juro por minha fé
+ Que passava mal a tarde
+ Se lhe tenho posto o pé.
+
+Mais adiante ouvimos o estrondo de morteiros ao longe.
+
+O Bernardo explicou:
+
+--É alguma romariasita em Villa Nova (Famalicão).
+
+Passado o Pinheiro Torto, avistamos, finalmente, as torres do mosteiro
+de Landim.
+
+--Ainda bem! disse eu.
+
+--D'aqui a Seide é um pulo.
+
+--Desconfio sempre, objectei, da rapidez dos pulos que os senhores dão
+cá pela provincia.
+
+--Não, senhor. Estamos aqui, estamos lá.
+
+--Que tempo?
+
+--Um quarto de hora, quando muito.
+
+No topo de uma calçada, das Mesuras se chama ella, levanta-se o mosteiro
+de Landim. Eu não podia perder tempo a vêr a egreja; mas disse-me depois
+Camillo que nada tinha de notavel.
+
+Ao passarmos n'um vasto carvalhal sombrio, o Bernardo do João de
+Deus explicou:
+
+--Aqui, pela senhora das Candeias, a dois de fevereiro, faz-se um
+mercado que mette gente em barda. E todo esse povoleo vae cahir além
+n'aquella venda a comer e a beber.
+
+Olhei. Á porta de uma taberna, sentados á sombra de uma ramada, quatro
+homens conversavam na sorna placidez dos ocios domingueiros. É a _Casa
+Havaneza_ do sitio--com menos tabaco, mas talvez com mais animação: a
+venda do José Maria, successor do Fanha.
+
+Que fresca e encantadora graça a d'um grupo de crianças, todas ellas
+loiras e sujas, que brincavam a uma sombra, á beira da estrada, no sitio
+das Campas! Se as lavassem, se as penteassem, ficariam mais fidalgas;
+mais bellas e graciosas, não.
+
+O calculo do Bernardo fôra excedido no duplo. Tinha passado cêrca de
+meia hora, quando elle me disse:
+
+--O senhor vê aquellas casas? Pois a quinta de Seide fica logo ao pé.
+
+Senti precipitar-se no meu coração uma onda de sangue; era a commoção da
+alegria.
+
+Desembocamos, finalmente, n'um largo sobre o qual abre o portão azul da
+quinta de S. Miguel de Seide. O arvoredo espreita para fóra por cima do
+muro. Ladeámos a casa, de dois andares, pintada de amarello, e entramos
+pela porta de serviço, onde um criado me esperava.
+
+Passei ao vasto pateo, que vi de relance, para subir a escada de pedra,
+que uma trepadeira de cachos brancos enflora, e uma copada acacia
+assombreia.
+
+Esta acacia tem uma historia triste. Fora plantada pelo melancolico
+Jorge, o filho mais velho de Camillo, que eu ainda conheci ao collo da
+ama, e que momentos depois ia vêr.
+
+Haverá pouco mais de um mez que todos os jornaes do paiz reproduziram
+duas quadras de Camillo, as quaes foram publicadas na _Alvorada_,
+periodico litterario de Villa Nova de Famalicão. N'essas duas bellas
+estrophes, que se devem considerar como morbida phantasia de um espirito
+desalentado, ha uma referencia maviosa a esta frondosa acacia que o
+Jorge plantára aos oito annos de idade:
+
+ Á porta do sepulcro, ainda volto a face
+ Para vêr-te chorar, ó mãe do filho amado,
+ Que vê como n'um sonho, a scena do trespasse...
+ Sorver-lhe o eterno abysmo o pae idolatrado.
+
+ Talvez que elle, _a sonhar_, te diga: «Mãe, não chore,
+ Que o pae ha de voltar»... Quem sabe se virei?!
+ Quando a Acacia do Jorge ainda outra vez inflore
+ Chamae-me, que eu de abril nas auras voltarei.
+
+O visconde de Correia Botelho, ouvindo a minha voz, viera receber-me,
+acompanhado pelo sr. Espinho, seu hospede, á porta da casa do bilhar.
+
+--É uma visita posthuma! dissera elle, abrindo para mim os braços
+affectuosamente.
+
+Dei-me pressa em protestar contra esta phrase devida ao desalento de um
+trabalhador infatigavel, que ha mezes se acha condemnado á inercia por
+um deploravel accidente que lhe nublou os olhos já cansados de uma
+diuturna applicação.
+
+Para os que amam o trabalho, os ocios forçados são cansativos e
+molestos. Pareceu-me ser esta a maior enfermidade de Camillo
+actualmente. Se elle podesse trabalhar, escrever um dos seus bellos
+romances em quinze dias, como tantas vezes fizera, se conseguisse
+por esse meio arrancar-se á intuscepção meditativa em que o seu espirito
+se concentra, tel-o-iamos de novo forte na sua fraqueza, robusto no seu
+cansaço.
+
+Mas uma pertinaz nebrina teima em ennevoar-lhe a visão; é de esperar
+porém que a medicina consiga debellar este incommodo e restituir o
+eminente romancista á sua banca do trabalho, que lá está saudosa no
+escriptorio de Seide, recordando a quem a vê que nem menos de cincoenta
+e dois romances foram escriptos ali.
+
+Ao lado de Camillo, compartindo os seus soffrimentos com uma dedicação
+heroica, acompanhando-o com uma solicitude extremosa de carinhos,
+destaca o vulto esculptural d'essa intelligente e formosa senhora que
+tão bem soube comprehender a grande alma de Camillo nas sublimes
+melancolias dos seus dias nublados e nas vibrantes alegrias dos seus
+dias ridentes.
+
+Jorge, o filho mais velho de Camillo, é um espirito dado a vagas
+tristezas; mas atravez de um véo de lagrimas, que ás vezes lhe marejam
+nos olhos e nas palavras, descobre-se um talento omnimodo, rico
+especialmente de aptidões artisticas. Jorge é poeta, é prosador, é
+musico e desenhista. Eu devo-lhe a amabilidade de me ter offerecido
+muitos dos esboços que enchem a sua pasta; alguns d'elles teem subido
+valor, porque são o retrato a _crayon_ dos personagens creados por seu
+pae no _Eusebio Macario_: o _Fistula_, o _Barão do Rabaçal_, o _Abbade
+de S. Thiago de Faya_, a _Troncha_, o proprio _Eusebio_.
+
+Nuno, o viuvo, tem vinte annos: é o pae da innocente criança cuja
+prematura morte deixou aberto no coração do visconde de Correia Botelho
+o vácuo profundo da saudade.
+
+Camillo fallara-me da sua querida netinha--a candida flôr que durara o
+que duram as rosas, apenas uma aurora.
+
+--Aqui estou, dissera Camillo, na solidão da aldeia, rodeado de arvores
+melancolicas, e de pensamentos tão melancólicos como as arvores. É
+notavel, acrescentara, a febre de saudade com que o meu espirito vae,
+pelo passado dentro, á procura de pessoas que são já mortas, e com as
+quaes aliaz eu tive ligeiras relações litterarias ou pessoaes. É
+revolvendo memorias que o meu espirito trabalha e descansa... Tudo
+isto faz profundamente triste esta casa, onde prematuramente se apagou o
+unico raio de sol que podia rarefazer as trevas.
+
+É ainda ao periodico _Alvorada_ que eu vou procurar estancias
+lacrimaveis do avô saudoso e angustiado. Duas quadras--tambem duas
+quadras--de uma belleza peregrina, que só a saudade de um anjo póde
+inspirar:
+
+ Parecia dormitar: tinha morrido.
+ Pedi que a não levassem no caixão;
+ Que a deixassem mirrar e desfazer-se
+ Como a flor se desfaz sem podridão.
+
+ Teimaram em levar-m'a, e eu cingi-a
+ Ao peito que se abriu pela pressão;
+ Depois pude escondel-a, e tenho-a morta
+ No meu despedaçado coração.
+
+Aproveitei o ensejo de dizer-lhe:
+
+--Para os que nunca deixaram de o lêr, e o sabem comprehender, meu bom
+amigo, não passa despercebido esse novo caudal de sentimento que dá aos
+seus escriptos mais recentes o encanto dolorido de uma saudade vaga e
+vaporosa como um subtil aroma que se derrama pelo ambiente da
+memoria... Pois bem, aproveite esta nova phase do seu poderoso talento,
+as tintas deliciosas que uma copiosa revivescencia de sensibilidade põe
+n'este momento na sua palheta de artista, e escreva um romance de amor,
+sem preoccupações de enredo, ouvindo-se a si proprio; condense n'um
+livro, que deve sahir encantador, todas essas fragrancias que se perdem
+no silencio meditativo do seu espirito...
+
+--Não posso, respondeu Camillo, não poderia arrancar sensações de mim
+proprio sem um esforço fatigante. Um trabalho d'essa ordem deixar-me-ia
+exhausto de forças. Eu sentia os meus romances, e foram muitos os que
+escrevi. Só d'aquella banca, que ali está, sahiram cincoenta e dois.
+
+Conversavamos no escriptorio, que fica no segundo andar. É uma sala
+vasta, luminosa: tres ou quatro largas janellas abrem sobre a quinta.
+
+N'este mesmo andar tem Camillo o seu quarto de cama. A ramagem da
+_acacia do Jorge_ e a folhagem da trepadeira combinam-se para coar
+atravez de esmeraldas uma penumbra suave.
+
+No primeiro andar ha duas salas: a do bilhar em que se encontram
+retratos de familia; o retrato de Herculano, e o de D. Frei Bartholomeu
+dos Martyres, desenhado pelo Jorge;--e a casa de jantar, cujas janellas
+dão para o pateo, a que já tive occasião de me referir, sem comtudo
+pagar o meu feudo de gratidão, como devia, ao pecegueiro frondoso cujos
+bellos maracotões eu agradeci, ha annos, nas chronicas que por esse
+tempo escrevia para o _Diario Illustrado_.
+
+Fica perto do predio, e á esquerda do portão de entrada, o monumento que
+a proprietaria d'esta agradavel vivenda ali mandara erigir em honra de
+Castilho. Essa singela pyramide de granito, sombreada de copadas
+arvores, tenho-a aqui reproduzida, diante de mim, tambem pelo lapis de
+Jorge.
+
+Foi penetrado de commovido respeito que eu li a inscripção posta n'esse
+simples monumento, tão eloquente na sua simplicidade:
+
+
+
+ ANTONIO
+ FELICIANO
+ DE
+ CASTILHO
+ PRINCIPE
+ DA LYRA
+ PORTUGUEZA
+ ESTEVE
+ N'ESTE LUGAR
+ EM 15 DE JULHO
+ DE 1866.
+ MANDOU ERIGIR
+ ANNA PLACIDO
+
+E na face que fica voltada para o muro:
+
+ COM
+ OS SEUS
+ DISCIPULOS
+ THOMAZ RIBEIRO
+ EUGENIO
+ DE CASTILHO,
+ J. C. VIEIRA DE CASTRO,
+ C. C. BRANCO.
+
+Castilho assistiu á inauguração do seu proprio monumento, e os filhos de
+Camillo, então duas crianças, offereceram ao poeta venerando, em seu
+nome, a corôa poetica que para essa commovente festa de familia
+entretecera a lyra enthusiastica de Thomaz Ribeiro:
+
+ Por entre cantos e flores
+ chegaste, rei da poesia,
+ como um clarão d'alegria
+ jorrando em mansão d'amores.
+
+ Onde ha rei, ha sceptro e solio!
+ Rei, vimos trazer-te a c'rôa.
+ Tens maior côrte em Lisboa,
+ não tens melhor capitolio.
+
+ Somos de troncos robustos
+ os loiros, os tenros gomos.
+ Das flores surgirão pomos?
+ Se Deus regar os arbustos!
+
+ Porque és grande, hão de os vindoiros
+ dar-te a sagração dos hymnos;
+ porque és bom para os meninos,
+ toma esta c'rôa de loiros.
+
+ Nossa c'rôa e nossas flores
+ guarda em saudosa memoria;--
+ o monumento é da gloria;
+ a c'rôa é só dos amores.
+
+ Vaes partir! leva-a comtigo,
+ e jura por teus carinhos
+ que, em nós já sendo homenzinhos,
+ serás nosso mestre e amigo.
+
+Que de recordações melancolicas a inscripção do monumento e os versos de
+Thomaz Ribeiro fizeram accordar na minha alma!
+
+Castilho, o poeta ali coroado n'aquella apotheóse tão modesta e tão
+gloriosa, vi-o eu descer ao seio da terra, que elle tanto amava--no seu
+pantheismo intuitivo de cego ariolo--ao cahir de uma tarde serena e
+triste, no cemiterio dos Prazeres, em Lisboa.
+
+Rodrigues Cordeiro, com a voz entrecortada de lagrimas e soluços,
+dissera-lhe, em nome de todos aquelles que o amavam como mestre e amigo,
+o extremo adeus. Depois, a pedra do jazigo cerrou-se, a barreira da
+eternidade ergueu-se.
+
+A noite descia lentamente.
+
+As crianças das escolas da capital, que tinham ido acompanhar ao
+cemiterio o cadaver d'aquelle que para ellas inventara o _Methodo
+repentino_, d'aquelle que as ensinara a gorgeiar o alphabeto--porque
+Castilho reconhecera que os pequenos precisam ser educados como se
+foram passaros--as crianças, dizia eu, tendo mais a intuição do que a
+consciencia da perda enorme que acabavam de soffrer, retiravam
+arregimentadas, duas a duas, em longas filas, com os olhos no chão, n'um
+silencio triste e n'um passo cadenciado.
+
+Pouco tempo antes, e em mais de uma noite, eu acompanhara Castilho ao
+camarote n.º 19 do theatro de D. Maria durante as representações do
+_Tartufo_. Logo que o panno cahia, desciamos ao palco a passar os
+intervallos no camarim do actor Santos, que o visconde de Castilho muito
+apreciava. Castilho, um morto! Santos, um cego! Estas maguadas
+recordações travam-se no meu espirito como os élos de uma cadeia de
+saudades que o confrangem.
+
+Eugenio de Castilho nunca o vi; está algemado ao leito ha muitos annos.
+Mas correspondi-me com elle por intermedio de seu pae, do Porto para
+Lisboa, quando emprehendeu publicar um jornalsinho litterario, que me
+parece ter-se chamado a _Folha dos curiosos_, e me pedia versos que eu
+lhe mandava, orgulhoso do pedido.
+
+Vieira do Castro, talvez o mais desgraçado de todos, conheci-o pela
+primeira vez no Porto, na sala da sociedade _Patria e familia_, durante
+um sarau litterario em que eu ousei, na sua presença, e na de todo um
+auditorio muito selecto, recitar um pequeno discurso que ahi corre
+impresso entre a minha insignificante bagagem de escriptor.
+
+Elle habitava n'esse tempo o antigo mosteiro de Moreira, a dois passos
+do Porto, e publicava o opusculo _A Republica_. Era casado e feliz.
+Chamava-se-lhe então o primeiro orador portuguez, successor de José
+Estevam. Tinha sido deputado, creio mesmo que o era. Seria ministro de
+qualquer pasta no dia seguinte. E quando todos esperavam vel-o chegar
+aos conselhos da corôa, vimol-o partir para o degredo, depois de haver
+tropeçado no cadaver da esposa que assassinara.
+
+O desgraçado assistira á sua propria queda, que fôra das mais
+estrondosas em que a curiosidade publica se tem cevado.
+
+O meu thema, as _Flores_, era um pretexto para fallar do amor. Procurei
+provar, com mais imaginação do que sciencia, que as flores se
+entendiam amorosamente como as almas. As senhoras applaudiam. Os homens
+sorriam. Vieira de Castro, sempre poeta, abraçara-me. E eu, no dia
+seguinte, dei uma pessima lição em botanica elementar ao professor
+Almeida Pinto, do lyceu.
+
+Os filhos de Camillo foram _homenzinhos_, segundo a phrase de Thomaz
+Ribeiro. Hoje são homens. Mas Castilho já lhes não alcançára o penujar
+do buço. E se elle vivesse ainda, talvez que o melancolico Jorge,
+concentrado e sonhador, entendesse melhor do que ninguem, por os amigos
+silencios da lua, em S. Miguel de Seide, alguma trova do _Amor e
+melancolia_ que o poeta Castilho viesse de Lisboa ali recitar n'aquellas
+sombras placidas que aprenderam a venerar o seu nome em torno do
+monumento singelo.
+
+Thomaz Ribeiro, o eloquente interprete dos filhos de Camillo na aurea
+côrtesinha litteraria que Castilho encontrara em S. Miguel de Seide, é
+em 1885 como era 1866 um poeta cuja inspiração roça as azas pela lagoa
+sombria da politica sem afundar-se, do mesmo modo que as andorinhas,
+pelas calmas da canicula, esvoaçam sobre a corrente de um rio sem
+mergulhar.
+
+Logo que pôde desbragar-se de uma pasta, respira em verso. N'este
+momento está saboreando o goso da liberdade litteraria no seu periodico
+_As Republicas_, em que os relampagos da poesia rasgam luminosamente o
+horisonte caliginoso do artigo de fundo. Não contente de poetar elle
+proprio, apadrinhou o alvitre de abrir _oiteiro_ semanal onde
+versejadores adventicios concorram a glosar trovas populares, como esta:
+
+ Vi-te sahir mar em fóra,
+ Ceguei, olhando esse mar,
+ Porque me disseste:--espera!
+ Se não tinhas de voltar?
+
+E o mais é que, pelo prestigio da sua auctoridade, consegue tentar
+aquelles mesmos que, na milicia de Apollo, estão relegados a segunda
+reserva. Tentei-me eu, e sou d'esses. Mas já que este livrinho é de
+memorias para a velhice, fique mais esta guardada no archivo da saudade:
+
+ *GLOSAS*
+
+ (A THOMAZ RIBEIRO)
+
+ Vi-te sahir mar em fóra,
+ E a saudade que eu senti
+ Rasgou-me o peito n'ess'hora
+ Em que chorava por ti.
+ A ausencia tem tantas maguas,
+ Tão soffrida heroecidade,
+ Tanto resiste quem chora,
+ Que eu puz os olhos nas aguas
+ E, sem morrer de saudade,
+ Vi-te sahir mar em fóra.
+
+ Ceguei olhando esse mar
+ Pleito de ondas e de abrolhos.
+ Mas que importa a luz dos olhos,
+ Se não tenho a quem olhar?...
+ Tanto a vista me prenderam
+ As ondas que tu sulcavas,
+ Que os olhos escureceram
+ No rumo em que navegavas.
+ E assim por ti a chorar,
+ Ceguei olhando esse mar.
+
+ Porque me disseste: espera!
+ Na hora extrema, derradeira,
+ Se já veio a primavera,
+ Se já floriu a amendoeira,
+ E tu não voltaste ainda?!
+ Se este mal era sem cura,
+ Se tinha de ser infinda
+ A dôr que me dilacera,
+ A ausencia que me tortura,
+ Porque me disseste: espera?!
+
+ Se não tinhas de voltar,
+ Melhor eu morresse alli;
+ Que mais valia acabar,
+ Que ter de viver sem ti.
+ Não ha força que resista
+ Á dôr que nunca descança.
+ Tivesse eu perdido a vista,
+ Mas não perdesse a esperança.
+ Bem feliz acabaria
+ Alli, á beira do mar,
+ Se soubesse o que seria,
+ Se não tinhas de voltar.
+
+Ás quatro horas da tarde, a amabilissima auctora da _Luz coada por
+ferros_ perguntava-me se eu, sacrificando os meus habitos lisbonenses,
+seria capaz de jantar áquella hora.
+
+--Em Seide, respondera Camillo, janta-se sempre.
+
+Fomos para a meza, em cujo _plateau_ verdejavam as fructas mais
+escolhidas da quinta, e em cujo ambiente os acipipes succolentos de uma
+boa cosinha de provincia punham os aromas de um excellente jantar.
+
+Camillo estivera silencioso durante alguns momentos. Mas eu procurara
+envolvel-o na conversação. Fallava-se dos seus romances. É difficil
+escolher o melhor entre os bons; mas eu pretendi negar a primasia do
+_Romance de um homem rico_, por saber, desde muito tempo; que
+Camillo o prefere ao _Amor de perdição_. Todos nós desejavamos fazel-o
+interessar pelo assumpto. Foi pois em defeza do _Amor de perdição_ que
+eu pugnei.
+
+--O _Amor de perdição_, observara finalmente Camillo, tem lacunas que eu
+proprio reconheci, e não quiz preencher. Disse-o por essa occasião ao
+dr. Marcellino de Mattos. Mas o meu proposito foi não alterar a
+veracidade dos acontecimentos que se encadeavam na dramatica biographia
+de meu tio Simão Botelho. Escrevi sobre a tradição, respeitando-a como
+um evangelho de familia. No _Romance de um homem rico_ tive um ponto de
+vista artistico, planeei e architectei, colori em vez de photographar.
+Eis aqui a razão da minha preferencia dada ao _Romance de hum homem_
+rico sobre o _Amor de perdição_.
+
+Não me dispensei comtudo de recordar a profunda impressão que este
+ultimo romance produzira em todos os corações moços d'aquelle tempo ou
+nos que pelo amor rejuvenesciam. Desvelavam-se as noites na febre da
+leitura, e reliam-se as paginas mais sentimentaes nas horas de
+namorada tristeza. Cada qual pedia para si a corôa de espinhos de
+Simão Botelho, de Thereza ou de Marianna, a auréola da poesia nas
+angustias do amor. Amar é soffrer. E aquelle livro fallava pelos que
+soffriam. Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema, disse Goethe.
+Ora aquelle romance de Camillo era o poema em que se fundiam as dores de
+todas as almas excruciadas pelo amor; era o romance de tres, e o poema
+de todos.
+
+No recolhimento das Orphãs, a S. Lazaro, uma das pobres meninas ali
+encarceradas entre as grades de ferro que nos ultimos annos foram
+sensatamente arrancadas, lia o _Amor de perdição_, a occultas da
+regente, entreabrindo a gaveta da sua cómmoda apenas o bastante para
+alcançar com a vista o espaço de uma pagina. Lia de pé, e fechava com
+sobresalto a gaveta quando sentia passos. O livro nunca foi
+surprehendido, mas as lagrimas que a leitura originava, muitas vezes o
+foram. A regente, D. Maria das Dores, via chorosos os olhos da menina, e
+perguntava-lhe porque chorava.
+
+--É que estou triste, respondia a educanda.
+
+Mas as tristezas dava-lh'as a leitura fortuita do romance de Camillo.
+
+Favorecia-me na apologia do _Amor de perdição_ o voto auctorisado da
+intelligente e illustrada dona da casa, que depois nos recordou a
+belleza do romance _O Esqueleto_. Eu citei por minha vez _A agulha em
+palheiro_, e a _Sereia_, romance que tem para mim um valor especial,
+porque reune para a minha saudade os nomes de Camillo Castello Branco e
+José Gomes Monteiro. O primeiro capitulo é baseado sobre um artigo de
+Monteiro ácerca do antigo theatro lyrico do Porto, no Corpo da Guarda.
+
+Accresce que o meu exemplar da _Sereia_ tem uma historia curiosa. Na
+capa, sobre o titulo, ha uma pequena mancha de tinta, que tomou a forma
+caprichosa de um polygono estrellado. Um dia, sem que eu soubesse como,
+desappareceu-me da estante; foram baldados todos os esforços para
+encontral-o no meu escriptorio. Querendo preencher a falta da _Sereia_
+na collecção das obras de Camillo, resolvi-me a comprar um novo
+exemplar. Mas a suspeita de ter sido roubado, fazia com que eu
+relanceasse a vista por todos os romances portuguezes que encontrava
+á venda nas lojas de livros em segunda mão.
+
+Passaram mezes, e um dia, n'uma d'essas lojas, na rua Augusta, encontrei
+um exemplar da Sereia. Tirei-o da estante: era o meu! Na capa amarella,
+sobre o titulo, o polygono estrellado, o borrão! Perguntei quanto
+custava. Trezentos reis, respondeu o alfarrabista. Paguei sem discutir.
+Depois de ter pago, perguntei-lhe:
+
+--Lembra-se de quem lhe vendeu este livro?
+
+O alfarrabista quedou-se a evocar as suas recordações.
+
+Mas devo suppôr que não poude lembrar-se.
+
+Depois de jantar, viemos sentar-nos nos bancos do pateo. A tarde estava
+serena; as folhas das arvores immoveis. O visconde de Correia Botelho,
+fumando o seu charuto, conversava animado. Lembrei-lhe que fosse passar
+o inverno em Lisboa, entre os muitos amigos e admiradores que ali tem. O
+clima, menos rigoroso que o do norte, deve convir aos seus padecimentos.
+Camillo não repelliu o alvitre. Mas o projecto de viagem ficou para
+segunda leitura, quando eu voltasse a Seide para despedir-me.
+Comprometti-me gostosamente a fazel-o, e espero cumprir.
+
+A tarde declinava n'uma suavidade dormente. Os passaros cantavam no
+arvoredo da quinta, n'uma festa de lyrismo primitivo. Junto ao monumento
+de Castilho condensava-se uma sombra silenciosa, como se as aves não
+poisassem n'aquelle recinto senão para chorar o poeta que as cantara.
+
+Eram horas de partir. Os meus amaveis hospedeiros, e os seus hospedes,
+vieram acompanhar-me ao portão da quinta. O visconde procurara apoio no
+meu braço, ao passo que a sr.ª D. Anna Placido colhia para mim algumas
+flores do seu jardim,--recordação inestimavel da minha visita a Seide.
+
+Fóra do portão esperavam respeitosamente o Bernardo do João de Deus e a
+garrana. Ambos pareciam satisfeitos: elle porque trazia mais vinho verde
+no estomago, ella porque tinha menos moscas no pescoço. As moscas do
+Minho já eu disse que são formidaveis, porque lhes senti, por endosso da
+garrana, a dolorosa ferroada. O vinho verde de S. Miguel de Seide é
+de se lhe tirar o chapeu, mesmo para que o chapeu não caia da cabeça
+caso a gente se tenha desmandado nas libações. É excellente e, por ser
+encorpado, deve trepar:--pelo menos, o Bernardo do João de Deus foi
+d'esta opinião.
+
+Antes de montar, pedi a Camillo que se não risse da minha impericia de
+cavalleiro.
+
+--Quem lhe dera essa garrana no Chiado! dissera jovialmente Camillo.
+
+--Piedade! exclamei eu sobre o sellim.
+
+A garrana, comprehendendo melhor as minhas intenções do que as minhas
+esporas, partiu.
+
+Eu parti com ella, e o Bernardo do João de Deus na alheta de ambos.
+
+Em Landim, na venda do José Maria, conversavam os mesmos quatro homens.
+
+De algumas casas subia placidamente o fumo do lar accêso para a ceia. Em
+outras, ouvia-se fallar mulheres, chorar crianças. Alguma cabeça loira,
+sentindo os passos da garrana, vinha espreitar á janella.
+
+Pouco adiante das Campas, dois bois corpulentos, largamente armados,
+pastavam em liberdade, com o ar de estarem já bem fartos de pascigo.
+
+Á medida que nos aproximavamos de Santo Thyrso, iamos encontrando os
+ranchos dos romeiros que voltavam do arraial da Trofa. A viola minhota,
+chuleira e folgasã, cadenciava a caminhada n'um andamento militar, como
+os rufos de um tambor regulam o passo largo e unisono dos soldados de um
+destacamento em marcha. O tocador, pendida a cabeça sobre o peito,
+sacudia a mão direita fortemente pelas cordas, n'um repenicado
+estridulo. O caminho de ferro de Bougado alliviara os romeiros da fadiga
+da jornada. Iam frescos como se tivessem bebido menos e descansado mais.
+
+Que diriam os benedictinos de Santo Thyrso se podessem resuscitar, e,
+debruçados no muro da cêrca, vissem desenrolar-se por sobre o arvoredo
+fronteiro a pluma ondulante do fumo da locomotiva?!
+
+Elles viveram ali entrincheirados entre a villa, que engrandeciam, e o
+rio, que os deliciava. De um lado, as moçoilas carnudas e carnaes; do
+outro, os rouxinoes devaneiadores da beira d'agua. De portas a dentro, a
+cosinha e o coro. Tudo aquillo era d'elles, os frades, senhores
+suzeranos das localidades que povoavam,--directa e indirectamente. O
+caminho de ferro é um invasor audacioso, que passa esmagando e rompendo.
+Os frades, se agora podessem ouvir-lhe o silvo triumphal, gritariam _á
+d'el-rei_ contra o progresso, apitariam contra a machina a vapor.
+
+No relogio dos destinos humanos ha uma hora providencialmente marcada
+para tudo o que principia e acaba. De modo que, por uma sabia
+organisação superior á nossa intelligencia, tudo principia e acaba
+quando deve principiar e acabar. Ao frade que comboyava as almas para o
+ceu, succedeu opportunamente a locomotora que passa comboyando
+passageiros para Guimarães. Deus é grande!
+
+Era noite fechada quando entrei em Santo Thyrso. Valeu-me a escuridão ao
+desprimor da gineta. Não havia espectadores, e a garrana alargava o
+passo, contente de se vêr perto de casa. Apeei, entregando a chibata ao
+Bernardo do João de Deus, que me perguntou:
+
+--E que tal, a garrana? Não dizia eu que era segura?
+
+--Mais seguro do que isto, respondi, só o Banco de Portugal.
+
+Elle não entendeu; por isso, riu.
+
+E eu recolhi-me com as gratas recordações d'esse dia agradabilissimo que
+passei na quinta de S. Miguel de Seide, sob o tecto hospitaleiro do
+primeiro romancista portuguez, entre pessoas queridas, e memorias
+saudosas de que tanto haviamos fallado.
+
+Santo Thyrso, 21 de agosto de 1885.
+
+
+ _Alberto Pimentel._
+
+
+
+
+LIVRARIA PORTUENSE E PAPELARIA
+
+DE
+
+LOPES & C.ª SUCCESSORES DE CLAVEL & C.ª
+
+EDITORES
+
+_119--RUA DO ALMADA--123_
+
+PORTO
+
+ * * * * *
+
+Alberto Pimentel
+
+(NO PRELO)
+
+*Senhor D. Miguel I*--a sua vida e o seu tempo.
+
+*Rainha sem reino*--estudo historico do seculo XV.
+
+*Idylios dos reis*--poema.
+
+ * * * * *
+
+Julio Lourenço Pinto
+
+*Esthetica naturalista*--estudos criticos, 1 volume nitidamente impresso
+em magnifico papel, 700 réis.
+
+ * * * * *
+
+Ernesto Pinto d'Almeida
+
+*O Sonho de Camões*--poema posthumo, edição de luxo. Não desmentindo em
+nada a gloria e o merecimento litterario do fallecido poeta portuense
+Ernesto Pinto d'Almeida, antes vem agora este poema dar-nos uma medida
+maior do seu estro poetico, 1 volume nitidamente impresso, 300 réis.
+
+ * * * * *
+
+Narciso José de Moraes
+
+*Manual de citações camoneanas*--indicador utilissimo dos melhores
+conceitos e aphorismos do sublime cantor, Luiz de Camões, indispensavel
+ao estudante e ao novel escriptor portuguez, 1 volume, 200 réis.
+
+ * * * * *
+
+Alberto Correia
+
+*Trémulos*--um livro de primorosos versos, com o retrato do auctor,
+edição de luxo, 1 volume brochado, 500 réis. (Envia-se franco de porte
+pelo correio).
+
+ * * * * *
+
+J. Leite de Vasconcellos
+
+*Balladas do Occidente*--um volume brochado, 500 réis.
+
+ * * * * *
+
+Preço... 200 réis
+
+
+
+***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK UMA VISITA AO PRIMEIRO ROMANCISTA
+PORTUGUEZ EM S. MIGUEL DE SEIDE***
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+PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://www.gutenberg.org/about/contact
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://www.gutenberg.org/fundraising/donate
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit:
+http://www.gutenberg.org/fundraising/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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