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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 44211 ***
+
+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
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+ Rita Farinha (Novembro 2013)
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+NOCTURNOS
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+D'esta edição tiraram-se mais _trinta exemplares_ que não entraram no
+mercado; sendo:
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+12 exemplares em papel Japão n.^{os} 1 a 12
+
+12 exemplares em papel Whatman n.^{os} 13 a 24
+
+6 exemplares em papel China n.^{os} 25 a 30
+
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+GONÇALVES CRESPO
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+NOCTURNOS
+
+
+
+LISBOA
+_18, Rua Oriental do Passeio_
+1882
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+_Direitos reservados_
+
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+LISBOA--Imprensa Nacional
+
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+A MINHA MULHER
+
+MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
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+ _A ti, ó boa e rara e fiel amiga,
+A mais sancta e a melhor das companheiras,
+A ti, ó flôr mimosa e alma antiga,
+--Doce Premio que ris ao meu cançaço--
+A ti, ó meu Conselho, estas ligeiras
+Folhas que ponho a medo em teu regaço._
+
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+CONFIDENZA
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+
+Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.
+ Mimosa e eburnea flôr,
+ Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...
+ Ouviste, meu amôr?
+
+Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço
+ Ficava-me a sorrir
+ Para os quadros que eu via em luminoso traço
+ Nas télas do porvir.
+
+Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,
+ Os que me lembram mais:
+ Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,
+ Os olhos teus leaes!
+
+Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,
+ Uma aurora de abril:
+ Da larga estrada á beira um campanario branco,
+ O céu profundo anil.
+
+De uma casa á janella uma creança loura,
+ Loura como um trigal:
+ Fiando á luz do sol que leve a sobredoura
+ De aureola ideal.
+
+Toda risos e festa a doce creatura
+ Olhava para mim,
+ E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!
+ Serei feliz emfim!»
+
+De um outro quadro então recordo-me saudoso,
+ E alongo os olhos meus
+ Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,
+ Que me cahiu dos céus!
+
+Fica ao longe da vil poeira das cidades
+ E do seu vão rumôr,
+ O palacio esquecido; ás horas das trindades,
+ Entremos nelle, flôr!
+
+Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,
+ E o oloroso pomar;
+ Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,
+ Comecemos a olhar.
+
+É vetusto o salão; em flaccida poltrona
+ Repoisa e scisma alguem:
+ Alguem que nos recorda a imagem da Madona,
+ Grave e sizuda mãe.
+
+D'esse alguem no regaço um anjo se reclina
+ Confiado e feliz,
+ Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina.
+ Falla, não sei que diz.
+
+É casta essa creança e pura entre as mais puras,
+ Que em sonhos vi jámais;
+ Tem o vago esplendôr das biblicas figuras
+ Dos antigos missaes.
+
+É moça e é menina: olhar nenhum ainda
+ De leve a maculou.
+ Dorme no seio della o amôr, a crença infinda
+ Que Deus lhe confiou.
+
+Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,
+ Ficamos a pensar
+ Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas
+ Que descobre esse olhar.
+
+Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,
+ Cego de tanta luz,
+ E que tremulo beije o tépido veludo
+ De seus pésinhos nús!
+
+E não córa, bem vês, a candida creança!
+ Antes meiga sorri,
+ E entre risos me diz, compondo a escura trança:
+ «Pensava agora em ti!
+
+«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava
+ «Na minha solidão!
+ «Vem os segredos vêr que para ti guardava
+ «Dentro do coração!»
+
+Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras,
+ No célico esplendor!
+ Maria, essa creança, ó flôr das primaveras,
+ Eras tu, meu amôr!
+
+
+
+
+O VELHINHO
+
+A J. Cesar Machado
+
+
+Aquelle que ali vae triste e cançado
+ E mais tremente que os juncaes do brejo.
+ Foi outrora o mais bello e o mais amado
+ Entre os moços do antigo logarejo.
+
+Nas fitas d'esse labio desmaiado
+ Quantas mulheres tremulas de pejo
+ Não sorveram os néctares do beijo
+ Dos trigaes sobre o leito perfumado!
+
+Hoje é velhinho, e falla dos francezes
+ Aos rapazes da eschola, e ás raparigas
+ Que não cançam de ouvil-o... As mais das vezes
+
+Sobre a ponte, sósinho, ouve as cantigas
+ Das que lavam no rio, e o olhar extende
+ Ao sol que ao longe na agonia esplende...
+
+
+
+
+ANIMAL BRAVIO
+
+A M^{elle} Eugenia Vizeu
+
+
+Preferiras um ramo caprichoso
+ De escolha rara e de um concerto fino,
+ Onde visses o cácto purpurino
+ E os nevados jasmins do Tormentoso.
+
+Em vez do ramo exotico e oloroso,
+ Casto recreio d'esse olhar divino,
+ Acceita, Eugenia, este animal felino,
+ Que o meu braço subjuga vigoroso.
+
+Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
+ Acode á minha voz, e ao meu aceno
+ Como um jaguar á voz de um saltimbanco...
+
+Vamos, sonêto! a prumo! ajoelhe, présto!
+ E á doce Eugenia, do sorriso honesto,
+ A fimbria oscule do vestido branco!
+
+
+
+
+AD AGROS
+
+
+Não tardes, flôr; a aldeia nos espera,
+ Chovem arômas dos folhudos ramos:
+ Suspensa do meu braço, eia! partamos!
+ Olha-nos Deus da crystallina esphera.
+
+Nas manhãs da passada primavera
+ Com que delícia ethérea nos amámos!
+ Iremos vêr os nomes que traçámos
+ No rude tronco em que se enlaça a hera.
+
+Não tardes, meu amôr, sei de um caminho,
+ Que sobe a encosta, e vae direito ao moinho,
+ Em cujas vélas bate o vento em cheio...
+
+Seguir-nos-hão as aves namoradas,
+ Que ao som das tuas infantis risadas
+ Modularão seu tremulo gorgeio...
+
+
+
+
+A NUVEM
+
+De Th. Gauthier
+
+
+As roupas deslaçando, entra no banho
+ A languida sultana enamorada:
+ Livre do pente, os hombros nús lhe beija
+ A longa e fina trança desatada.
+
+Atraz dos vidros o sultão a espreita;
+ E comsigo murmura: «como é bella!
+ «Ninguem a vê, ninguem! o negro eunucho
+ «Do harem na tôrre solitario vela!»
+
+--Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
+ Do sereno e alto azul illuminado:
+ --Vejo-lhe os seios nús, vejo-lhe o dorso,
+ --E o seu corpo de perolas colmado--
+
+Fez-se pallido Ahmehd bem como a lua,
+ E erguendo o seu kandjar de folha rara,
+ Desce, e apunhala a nua favorita...
+ Quanto á nuvem... no azul se dissipára...
+
+
+
+
+O JURAMENTO DO ARABE
+
+A Teixeira de Queiroz
+
+
+Baçús, mulher de Ali, pastôra de camêlas,
+ Viu de noute, ao fulgor das rútilas estrellas,
+ Wail, chefe minaz de barbara pujança,
+ Matar-lhe um animal. Baçús jurou vingança;
+ Corre, célere vôa, entra na tenda e conta
+ A um hospede de Ali a grave e inulta affronta.
+
+«Baçús, disse tranquillo o hospede gentil,
+ Vingar-te-hei com meu braço, eu matarei Wail.»
+
+Disse e cumpriu.
+
+ Foi esta a causa verdadeira
+ Da guerra pertinaz, horrivel, carniceira
+ Que as tribus dividiu. Na lucta fratricida
+ Omar, filho de Amrú, perdêra o alento e a vida.
+
+Amrú que lanças mil aos rudes prélios leva,
+ E que em sangue inimigo, irado, os odios céva,
+ Incansavel procura, e é sempre embalde, o vil
+ Matador de seu filho, o trêdo Muhalhil.
+
+Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
+ Recem-colhido em campo, o indomito guerreiro
+ Fallou severo assim:
+ «Escravo, attende, e escuta:
+ «Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta,
+ «Em que vive o traidôr Muhalhil, dize a verdade;
+ «Dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!»
+
+E o moço perguntou:
+ «É por Allah que o juras?»
+ --Juro, o chefe tornou--
+ «Sou o homem que procuras!
+ «Muhalhil é o meu nome, eu fui que espedacei
+ «A lança de teu filho, e aos pés o subjuguei!»
+
+E intrépido fitava o attonito inimigo.
+
+Amrú volveu:--És livre, Allah seja comtigo!
+
+
+
+
+NUM LEQUE
+
+
+Amar e ser amado, que ventura!
+ Não amar, sendo amado, é um triste horrôr:
+ Mas na vida ha uma noite mais escura,
+ É amar alguem que não nos tenha amôr!
+
+
+
+
+OLHOS DE JUDIA
+
+
+No transparente olhar das virgens da Allemanha
+ Nada um fluido subtil tam pleno de scismar,
+ Que a gente cuida ouvir uma sonata extranha
+ Num castello do Rheno em noites de luar.
+
+Flôr do Guadalquivir, gloria da ardente Hespanha,
+ Se dardejas, sorrindo, um teu lascivo olhar,
+ O crespo, o encapellado e procelloso mar
+ Dos desejos febris o coração nos banha.
+
+Nos teus olhos porém venusta semi-deia,
+ Como nas mutações de um rapido scenario,
+ Desdobram-se ante mim paizagens da Judeia...
+
+Vejo o louro Jesus vagueando solitario,
+ Vejo-o no Horto a chorar, ouço-lhe a voz na Ceia
+ E escuto-lhe o gemido extremo no Calvario.
+
+
+
+
+H. HEINE
+
+NUMEROS DO INTERMEZZO
+
+A M^{elle} Louìse de Almeida e Albuquerque
+
+
+
+
+I
+
+
+Rosas e lirios, pombas, sol radiante,
+ Tudo isso outrora, no fugaz passado,
+ Eu adorei constante.
+
+E d'esse amôr, que tive immaculado
+ Por lirios e aves e subtis perfumes,
+ Nem já me lembro, seductôra amante,
+ Fonte pura de amôr, que em ti resumes
+ A rosa, o lirio, a pomba e o sol radiante!
+
+
+
+
+II
+
+
+De um lirio branco no mimoso calix
+ Se eu a fosse depôr
+ A vaga essencia de meu peito, em breve
+ Escutáras no calice de neve
+ Uma canção de amôr.
+
+Canção divina relembrando as ancias,
+ E o languido tremôr
+ Daquelle beijo, em noite mysteriosa,
+ Que me deram teus labios côr de rosa,
+ Meu doce e casto amôr!
+
+
+
+
+III
+
+
+Á luz viva do claro sol radioso
+ O lóto inclina a fronte esmaecida,
+ E espera a noite pensativo e ancioso.
+
+Rompe a lua, e derrama a luz querida
+ Na corolla mimosa
+ Da pobre flôr que se abre enlanguecida.
+ Pobre flôr amorosa!
+
+Olhando o céu e a lua até parece
+ Que, em desmaios de amôr,
+ Treme, palpita, córa e desfallece
+
+ A scismadora e enamorada flôr!
+
+
+
+
+IV
+
+
+ Sobre os olhos formosos
+ Da minha doce amada
+Rimei canções que os astros decoraram;
+E embalsamei-lhe a bôcca perfumada
+ Em tercêtos graciosos.
+Innumeras estancias decantaram
+ Seu rôsto peregrino
+Que os jaspeados lirios escurece.
+ Que sonêto divino
+Eu rendilhára com subtis lavôres
+Sobre o seu coração... se ella o tivesse!
+
+
+
+
+V
+
+
+Pozeram-te no rôsto o aéreo véu nupcial.
+ Bem sei que te perdi, mas não te quero mal.
+
+Brilham do teu collar as pedras luminosas,
+ Mas no teu coração que noites luctuosas!
+
+Em sonhos eu desci, ó misera mulher,
+ Ás sombras da tua alma, e vi-te o padecer...
+
+Bem sei que te perdi, ó minha doce amada,
+ Mas não te quero mal, és muito desgraçada
+
+
+
+
+VI
+
+
+Sei-o; a tua vida é sem ventura,
+ É-nos commum esta funérea sorte.
+ Cáe sobre nós a mesma noite escura,
+ E isto não finda sem que chegue a morte.
+
+Se vejo nesse olhar um rir travêsso,
+ E em teu labio a insolencia costumada,
+ E o orgulho inflar teu coração... padeço,
+ E murmuro: «és como eu, tam desgraçada!»
+
+Bem sei que ris, mas o teu labio treme:
+ Nos teus olhos azues o pranto brilha:
+ Tens orgulho, e essa voz suspira e geme...
+ Como nós somos desgraçados, filha!
+
+
+
+
+VII
+
+
+ Se as flôres do balsedo
+Podessem ver meu peito alanceado,
+Como allivio ao meu aspero degredo,
+Mandar-me-hiam, das moitas do balsedo,
+De seus prantos o balsamo sagrado.
+
+ Se os rouxinoes da floresta
+Soubessem quanta dôr me rasga o seio,
+Para espancar a minha noite mésta,
+Mandar-me-hiam, das sombras da floresta,
+O seu mais terno e encantadôr gorgeio.
+
+ Se as estrellas do espaço
+Soubessem tudo quanto soffro em vida,
+Para embalar d'esta alma o vil cançaço,
+Mandar-me-hiam, dos concavos do espaço,
+Uma doce palavra condoída.
+
+ E essa que sabe tudo,
+O inferno e o horror da minha mocidade,
+É a dona das tranças de veludo,
+E das unhas rosadas... sabe tudo
+E apunhála-me a vida sem piedade!
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Não me sabes dizer, ó minha amada,
+ O motivo, a razão
+ Porque pendem a face desmaiada
+ As rosas para o chão?
+
+Não me sabes dizer porque, no meio
+ Do vasto prado em flôr,
+ Das violetas cáe no roxo seio
+ Um véu de lucto e dôr?
+
+Diz-me porque ouço a voz das cotovias
+ Hoje lugubre assim?
+ E porque exhalam mortes e agonias
+ As urnas do jasmim?
+
+Por que motivo o sol tam claro e puro
+ De crepes se vestiu?
+ Porque um sinistro pezadelo escuro
+ Sobre a terra cahiu?
+
+Bem sei eu porque vejo tudo triste
+ Sem luz e sem calôr...
+ É que tu, pomba branca, me fugiste
+ Meu amôr, meu amôr!
+
+
+
+
+IX
+
+
+Disseram-te de mim feios horrôres,
+ De imaginarias culpas me crivaram,
+ E sobre as minhas lastimaveis dôres
+ Um negro véu lançaram!
+
+Distenderam os labios sacudindo
+ Com grave e serio gesto a fronte, e ao cabo...
+ (E acreditaste-os tu, meu anjo lindo!)
+ Chamaram-me o Diabo!
+
+O que ha de mais escuro e de mais feio
+ Na minha vida, ignoram-no os sandeus,
+ Tam occulto este amôr vive em meu seio,
+ Ó luz dos olhos meus!
+
+
+
+
+X
+
+
+Naquella manhã ditosa
+ O sol mandava-nos beijos;
+ Do rouxinol os solfejos
+ Suspiravam na amplidão.
+
+Se me lembro, ai! se me lembro
+ D'esse amplexo demorado,
+ Com que tu, meu lirio amado,
+ Uniste-me ao coração!
+
+Grasnava o côrvo agoirento,
+ As sêccas folhas cahiam,
+ E uns tristes raios desciam
+ Da plumbea curva dos céus.
+
+Se me lembro, ai! se me lembro
+ Da fria e grave mesura
+ Que, naquella tarde escura,
+ Fizeste ao dizer-me--adeus!
+
+
+
+
+XI
+
+
+Fôste fiel, no caminho
+ Doloroso que eu seguia,
+ Déste-me alentos, carinho,
+ Meu consôlo fôste, e guia.
+
+Déste-me tudo, ó consorte,
+ Roupa branca e até dinheiro!
+ E ao partir para o extrangeiro
+ Compraste-me o passaporte!
+
+Deus t'o pague, meu amôr!
+ E um viver te dê tranquillo!
+ Mas que te não faça aquillo
+ Que tu me fizeste, flôr!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Emquanto eu andava viajando, a minha
+ Noiva gentil, o meu thesouro amado,
+ Julgando que eu tardava e que não vinha,
+ Fez á pressa o vestido de noivado,
+ E um dia, ao pé do altar, entrega anciosa
+ A um fôfo peralvilho a mão de esposa.
+
+Nada no mundo a minha amada eguala;
+ Nem eu sei a que a possa comparar!
+ Que doce é o aroma que o seu labio exhala!
+ Que gesto lindo! e que formoso olhar!
+ Suspende a queixa, coração trahido,
+ Deixaste o céu, do céu fôste banido!
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Quando morreres, filha, ao teu jazigo
+ Descerei taciturno e allucinado,
+ E abraçando esse corpo delicado,
+ No frio marmor dormirei comtigo.
+
+E tu muda, e tu fria, e tu gelada!
+ E eu nos meus braços a apertar-te ainda!
+ E nas sombras daquella noite infinda
+ Clamo, estremeço e morro, alma adorada!
+
+Os mortos, alta noute, pouco e pouco
+ Erguer-se-hão, ao luar, rindo e dançando;
+ E eu ficarei na sombra, ó sonho louco!
+ No teu seio de jaspe repoisando.
+
+E quando a hora chegue em que as trombêtas
+ Do Juizo Final se ouvirem todas,
+ Não surgirás, inveja das violetas,
+ Do escuro leito das eternas bôdas!
+
+
+
+
+XIV
+
+
+ Do Norte sobre um monte,
+ Alto frio e gelado,
+ Um pinheiro isolado
+Ergue entre o gêlo a merencoria fronte.
+
+Todo tremulo, o misero deseja
+ Ser a esbelta palmeira viridente
+ Que em terra adusta odeia a luz ardente
+ Que sobre ella o implacavel sol dardeja.
+
+
+
+
+XV
+
+
+Das minhas penas fiz canções aladas
+ De alegre geito e jovial feição.
+ Vi-as partir em doidas revoadas,
+ E vi-as procurar teu coração.
+
+Partem alegres, voltam lacrymosas,
+ Perdido o fresco riso ingenuo e lêdo,
+ Mas do que viram guardam, silenciosas,
+ O mais profundo e lugubre segredo.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Eu não posso esquecer, perdão, minha senhora,
+ --Estes laços de amôr custam a desatar--
+ Eu não posso esquecer, ó minha doce aurora,
+ Que subjuguei teu corpo e essa alma singular...
+
+Teu corpo, ai! o teu corpo esbelto, moço e branco,
+ Já foi meu, já foi meu... mas neste instante, flôr,
+ Da tua alma prescindo, e escuta, serei franco,
+ Basta-me a que possuo, ah! basta, meu amôr!
+
+Se um dia succeder, que esse teu seio trema
+ De novo juncto ao meu, hei-de insuflar-te, doudo,
+ Metade da minha alma, e então, gloria suprema!
+ De ambos nós, meu amôr, faremos um só todo...
+
+
+
+
+XVII
+
+
+É domingo: o burguez deixa os asphaltos,
+ Dando o braço á burgueza;
+ Procura o campo, e, ao vêl-o, exclama aos saltos:
+ «Ó filha, que lindeza!»
+
+E pasma do verdôr febril, romantico,
+ Da múrmura floresta;
+ E a sua longa orelha absorve o cantico
+ Da passarada em festa.
+
+Eu que não saio, escondo a gelosia
+ Com negros cortinados,
+ E recebo a visita, em pleno dia,
+ Dos espectros amados.
+
+E aquelle Amôr que eu vi morrer outrora.
+ No meu quarto apparece!
+ Senta-se ao pé de mim, beija-me e chora,
+ E treme e desfallece!
+
+
+
+
+XVIII
+
+
+Rompia a manhã, rompia
+ Alegre como um trinado,
+ E eu ia triste e calado,
+ No meio d'essa alegria,
+ Por entre as flôres do prado...
+ Rompia a manhã, rompia...
+
+Vendo-me, as flôres do prado
+ Mais as rosas do silvedo
+ Cochicharam em segredo...
+ E erguendo os olhos, a medo,
+ Num tom de voz repassado
+ Da mais branda languidez:
+ «Como elle vae irritado,
+ «Os olhos fitos no chão!
+ «Perdôa por esta vez,
+ «Não ralhes com ella, não?»
+
+
+
+
+XIX
+
+
+Na tua face ardente e avelludada
+ Encandeia-se a luz do quente Estio,
+ Mas no teu coração, ó minha amada,
+ Habita o Inverno enregelado e frio.
+
+Mas quem assim te vê bella e formosa,
+ Verá mais tarde o Inverno tôrvo e feio
+ Nessa tua gentil face mimosa,
+ E o rubro Estio no teu branco seio!
+
+
+
+
+XX
+
+
+No momento do _adeus_ succede que os amantes
+ Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
+ Força, é força partir; a mão prende-se á mão,
+ E uma infinda tristesa inunda o coração.
+
+Para nós, meu amôr, nessa hora de agonia
+ Não houve o padecer que as almas excrucia:
+ Foi grave o nosso _adeus_ e frio, e só agora
+ É que a Dôr nos subjuga, e a Angustia nos devora.
+
+
+
+
+XXI
+
+
+Sonhei: de novo suspirava o vento
+ Das tilias sob a cupula odorante;
+ E como outrora ouvia o juramento
+ Do teu amôr constante.
+
+Que protestos de amôr nesse momento!
+ Mas na febre dos beijos que me deste,
+ Como para gravar teu juramento
+ Em meus dedos mordeste!
+
+Dona do riso alegre, ó meu tormento!
+ Dona de olhos azues, ó minha amada!
+ Já me bastava o doce juramento,
+ Foi de mais a dentada!
+
+
+
+
+XXII
+
+
+Chorei: sonhava e era comtigo, estavas
+ Morta num cemiterio, fria, fria...
+ E, ao despertar, senti que o pranto, em lavas,
+ De meus cançados olhos escorria.
+
+Chorei: sonhava e era comtigo, rosa;
+ Havias-me, sem dó, abandonado:
+ E, ao despertar da noite tormentosa,
+ Tinha o rôsto de lagrimas banhado.
+
+Chorei: sonhava, e era comtigo, ó linda!
+ Dizias-me, a sorrir, «como eu te adoro!»
+ Desperto, e logo numa angustia infinda,
+ Eis-me a chorar de novo e ainda choro!
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+ Batido do torvelinho
+ O bosque palpita ao açoite
+ Do vento outomnal; é noite.
+Monto a cavallo e metto-me a caminho.
+
+ E este inquieto pensamento,
+ E esta phantasia errante
+ Levaram-me nesse instante
+Ao teu virgineo e candido aposento.
+
+ Os cães ladram; nas sonoras
+ Escadas assoma gente,
+ E eu no marmore luzente
+Faço tinir as rútilas esporas.
+
+ No teu quarto da baunilha
+ Vôam cálidos arômas;
+ Tu dormes, soltas as cômas,
+E eu nos teus braços cáio, minha filha!
+
+ Soluça o vento magoado:
+ Diz um carvalho altaneiro:
+ «Cavalleiro, cavalleiro,
+«Suspende o teu sonhar allucinado!»
+
+
+
+
+XXIV
+
+
+Eu enterro as canções de amôr e o fel amargo
+ Do meu triste sonhar:
+ Quero um caixão profundo, immenso, vasto e largo;
+ Depressa, ide-o buscar!
+
+Um caixão formidando, um féretro-portento,
+ Que sobreexceda e vença
+ O pêzo sobrehumano e o enorme comprimento
+ Da ponte de Mayença.
+
+Trazei-m'o sem demora; eu hei-de enchêl-o em breve;
+ Vereis a promptidão.
+ De Heidelberg o tonel será pequeno e leve
+ Ao pé d'esse caixão.
+
+Doze gigantes quero, o aspecto feio e rudo,
+ E de um vigôr sem conta,
+ Que me façam lembrar Christovam, o membrudo,
+ Que em Colonia se aponta.
+
+Gigantes, balouçae o féretro luctuoso!
+ Vamos! agora, ao mar!
+ Cova maior existe? Abysmo assim grandioso
+ Difficil é de achar.
+
+Sabeis porque eu desejo um féretro assim largo,
+ De vastas dimensões?
+ É que enterro, infeliz, o amôr, o fel amargo
+ Das minhas illusões.
+
+
+
+
+O MINUÊTE
+
+Ao dr. Thomaz de Carvalho
+
+
+Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
+ Admira-se o lavôr do tecto de páu sancto.
+
+Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias:
+ Um enorme sophá: largas tapeçarias.
+
+O purpureo tapete aos olhos nos revela
+ Entre as garras de um tigre anciosa uma gazella.
+
+Retratos em redor: olhemos o primeiro:
+ No Tóro as mãos de Affonso o armaram cavalleiro.
+
+Era Arcebispo aquelle: esta foi açafata...
+ Que frescura sensual nos labios de escarlata!
+
+Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma:
+ Em finos caracóes, a loura e ondada côma:
+
+Collo robusto e nú: cabeça triumphante:
+ Consta que certo rei... passemos adeante!
+
+Este, que vês, morreu num africano areal
+ Por vingança cruel do aspero Pombal.
+
+D'esse olhar na expressão infinda e inenarravel
+ Desabrocha uma dôr profunda e inconsolavel.
+
+Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto,
+ Num extasis adora o pallido proscripto.
+
+O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
+ Tam cedo se desfez, ó misera e mesquinha!
+
+No burel escondeste o viço e a formusura,
+ E desmaiaste, flôr, no chão de uma clausura!...
+
+Repara nos desdens do fôfo conselheiro,
+ Que sorridente aspira a flôr de um jasmineiro!
+
+Em canones doutor: no Paço foi bemquisto:
+ Orna-lhe o peito a cruz de um habito de Christo.
+
+Esse outro combatendo ás portas de Bayona,
+ Como um bravo, alcançou a rútila dragôna.
+
+Vibra flammas do olhar; cabeça erecta e audaz;
+ Illumina-lhe o rôsto a gloria de um gilvaz.
+
+Assistímos, ao vêl-o, ás pugnas carniceiras,
+ E ouvimos o clangôr das musicas guerreiras...
+
+No antiquissimo espelho, á sombra das cortinas,
+ Reflecte-se o primôr de argenteas serpentinas.
+
+Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
+ Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.
+
+Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho,
+ Antiga partitura em velho pergaminho.
+
+Uma noite extendi a musica na estante,
+ E o cravo suspirou... naquelle mesmo instante
+
+Da eburnea pallidez doentia do teclado
+ Manso e manso evolou-se o arôma do passado.
+
+E vi descer do quadro a languida açafata
+ Que, ao discreto pallôr das lampadas de prata,
+
+A fimbria alevantando azul do seu vestido
+ O rôsto acerejado, o gesto commovido,
+
+A sorrir, deslisou graciosa no tapête,
+ Dançando airosamente o airoso minuête...
+
+
+
+
+O COVEIRO
+
+A Alberto Braga
+
+
+Elle entrou cabisbaixo e silencioso
+ Na immunda tasca, e foi sentar-se a um canto;
+ Deram-lhe vinho, recusou, o espanto
+ Cresceu no olhar do taberneiro oleoso.
+
+Elle era o mais antigo e o mais ruidoso
+ Dos freguezes da casa: ao obsceno canto
+ Ninguem prestava mais lascivo encanto
+ Ao som magoado de um violão choroso.
+
+Mas o velho sentára-se distante
+ Da alegre turba, a vista lacrymante
+ Mergulhada nas chammas do brazido...
+
+Disse um da roda: «espanta-me o coveiro!»
+ --Morreu-lhe ha pouco a filha...--distrahido
+ Volveu da bisca um contumaz parceiro.
+
+
+
+
+ADEUS!
+
+
+Uma vez, numa camara elegante,
+ De um contador no marmore de rosa,
+ Entre os mil nadas feminis que exhalam
+ Uns aromas subtis que nos embalam,
+ Vi uma concha pallida e graciosa.
+
+Sentira eu nella um som confuso e triste,
+ Como o dos sinos em remota aldeia;
+ Pobre concha! morria de saudade
+ Daquella vaga e triste immensidade
+ Do mar que chora na deserta areia.
+
+Olha, querida, como nessa concha,
+ Anda chorando em mim continuamente
+ Essa timida voz que tu soltaste,
+ Essa palavra ADEUS que murmuraste
+ Aos meus ouvidos languida e tremente!
+
+
+
+
+CAMONEANA
+
+
+
+
+I
+
+NA EGREJA DAS CHAGAS
+
+
+Ao dr. A. A. de Carvalho Monteiro
+
+
+Proxima vinha a nobre Catharina
+ Da porta principal da egreja, quando
+ Seu olhar encontrou suave e brando
+ O olhar de um moço de presença fina.
+
+E, ao fulgôr d'esse olhar ardente, inclina
+ A dama o rôsto, timida, córando...
+ Arfa-lhe o niveo seio, palpitando,
+ Em doida e extranha commoção divina.
+
+Camões, que outro não era o moço, ardido,
+ Num gesto de galan desvanecido,
+ «Quem vos pudéra merecer!» murmura.
+
+E a dama, ao ouvil-o, languida sorria,
+ Pois que em todos os tempos a ouzadia
+ Ao amôr nunca trouxe desventura.
+
+
+
+
+II
+
+A LEITURA DOS LUSIADAS
+
+
+A Vicente Pindella
+
+
+Do moço rei defronte, esbelto e cavalleiro
+ Camões recita; a côrte, silenciosa
+ Ante a rubra explosão do cantico guerreiro,
+ Admira essa Epopeia enorme e prodigiosa.
+
+«... Ruge a electrica voz do Adamastôr furiosa;
+ «Nas amuradas canta o alegre marinheiro;
+ «Do Oceano á flôr scintilla a esteira luminosa
+ «Dos pesados galeões do Gama aventureiro.
+
+«Terra! grita o gageiro; e á praia melindana
+ «Desce douda e febril a gente lusitana
+ «Desfraldam-se os pendões ao claro céu do Oriente...»
+
+Da gloria ante o esplendôr o olhar d'El-Rey fulgura;
+ O Camara no emtanto, alma sombria e escura,
+ No rei os olhos crava, e ri felinamente.
+
+
+
+
+III
+
+ANNOS DEPOIS
+
+
+A Bernardo Pindella
+
+
+Juncto de um catre vil, grosseiro e feio,
+ Por uma noite de luar saudoso,
+ Camões, pendida a fronte sobre o seio,
+ Scisma embebido num pesar luctuoso...
+
+Eis que na rua um cantico amôroso
+ Subitaneo se ouviu da noite em meio:
+ Já se abrem as adufas com receio...
+ Noite de amôres! que trovar mimoso!
+
+Camões acorda, e á gelosia assôma,
+ E aquelle canto, como um antigo arôma,
+ Resuscita-lhe os risos do passado.
+
+Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
+ No azul viu perpassar, claro e distante,
+ De Natercia gentil, o vulto amado...
+
+
+
+
+ESPHYNGE
+
+Traducção de uns versos de Alexandre Dumas
+escriptos num leque
+em que estava pintada uma Esphynge
+
+
+Que me queres, Esphynge? O que procuras? diz-m'o:
+ Se do poeta o segredo intentas penetrar,
+ Desce dos annos meus ao tenebroso abysmo,
+ Verás o Amôr aos Vinte e aos Sessenta o Pesar.
+
+Sim, Pesar, não de haver lançado aos quatro ventos
+ Com prodiga loucura o verbo triumphante,
+ A ambição, o dinheiro, os risos e os tormentos,
+ E as auroras de abril que passam num instante!
+
+Mas Pesar de sentir dentro em meu peito agora,
+ Como accêso vulcão em gêlos sepultado,
+ Do juvenil desejo a flamma que devora,
+ E de não poder mais, amando, ser amado!
+
+
+
+
+A CEIA DE TIBERIO
+
+Ao dr. J. Frederico Laranjo
+
+
+Opulento é o festim: em todo o vasto imperio
+ Outro não houve egual. Caprêa a dissoluta,
+ O retiro de amôr do perfido Tiberio,
+
+Illuminada ri. Ao longe Roma escuta
+ O confuso rumôr da tenebrosa orgia:
+ Assim geme, assim ronca o mar em funda gruta.
+
+Fascina, attrae, seduz, e os olhos extasia
+ A imperial vivenda: a sala é deslumbrante:
+ Ouro e gêmmas sem fim confundem-se á porfia.
+
+Das lampadas rebrilha o lume coruscante;
+ Nos triclinios esplende a purpura escarlata,
+ A fina tartaruga e o sandalo odorante.
+
+Aos angulos da sala, em primorosa prata,
+ Erotico esculptor grupos fundiu lascivos,
+ Em cujos membros nús Volupia se retrata.
+
+Resaltam da parede os satyros esquivos
+ Sob o pampano alegre: as nymphas, em corêas,
+ Dançam na riba, em flôr, de arroios fugitivos.
+
+Em marmórea piscina enroscam-se as murêas,
+ Dos patricios de Roma o pabulo dilecto,
+ Vezes sem conto, escravo, ali rompeste as veias!
+
+Pendem verdes festões do primoroso tecto,
+ Pyrrheico ali pintára um matagal folhudo,
+ E um lago crystallino, encantador, discreto.
+
+Diana ao sol enxuga as tranças de veludo,
+ Acteon espreita ancioso, e, ó rapida alegria!
+ Aos poucos se transforma em cervo ramalhudo.
+
+Em Miléto foi tincta a azul tapeçaria,
+ Que nas mesas se extende e nos mosaicos dorme;
+ Dos velarios se escôa o arôma que inebria.
+
+A festa é no pendor: num áureo prato informe
+ Eis que entra um javali, formosas gaditanas
+ Dançam em derredor. Ulula a grita enorme.
+
+Jorra o vinho de Kós purpureas espadanas;
+ Dos convivas na fronte enlaça-se a verbena,
+ Preludiam no emtanto as frautas sicilianas.
+
+Adoudada suspira uma canção obscena:
+ Fervem beijos no ar, os seios pulam, crescem
+ E desnudam-se á luz, Tiberio assim o ordena.
+
+As matronas, ao vêr o duro gesto, obedecem,
+ E lá passam gentis, deslisam mansamente
+ Dos marmores á flôr; são nuas, endoudecem!
+
+Um retiario nervudo, e um gladiador valente
+ Combatem, são leões; o pallido vencido
+ Mistura o sangue rubro ao vinho rescendente.
+
+Ora Tiberio ri... Mas subito um gemido
+ Longo e triste chorou nos paços de Caprêa...
+ Indagam: talvez fosse o gladiador ferido...
+
+Nesse instante Jesus morria na Judeia!
+
+
+
+
+TRIO DE POETAS
+
+
+
+
+I
+
+JOÃO DE LEMOS
+
+
+Ao Visconde de Pindella
+
+
+Na cidade gentil do austero estudo
+ Sobranceira ao Mondego socegado,
+ Em cuja riba o sinceiral folhudo
+ De rouxinoes suspira gorgeiado,
+
+Fôste erguido no concavo do escudo
+ Pelos moços de outrora, e celebrado
+ Trovador, cavalleiro, e namorado...
+ Tempo de glorias! Como passa tudo!
+
+No emtanto ás vezes, na provincia, quando
+ A um dôce, honesto e feminino bando
+ Digo a LUA DE LONDRES, de repente
+
+Da infancia volvo á candida simpleza,
+ E ondulam na minh'alma vagamente
+ Tremulas notas de fugaz tristeza.
+
+
+
+
+II
+
+JOÃO DE DEUS
+
+A Anthero do Quental
+
+
+Sempre que o leio, sinto-me captivo
+ De um não sei quê, de infinda suavidade,
+ E entram commigo uns longes de saudade,
+ Que me deixam sizudo e pensativo.
+
+Sonho: quizéra, em triste soledade,
+ Viver das gentes apartado e esquivo,
+ E erguer-me a esse planeta primitivo
+ Onde resplenda a eterna mocidade.
+
+Já o seu nome é tão suave e brando,
+ Tão eufonico, meigo e delicado,
+ Que fica nos ouvidos suspirando...
+
+Diz a lenda que vive descuidado,
+ RAMOS tecendo, e FLORES emmoitando,
+ Da Chymera nos seios reclinado.
+
+
+
+
+III
+
+JOÃO PENHA
+
+
+A Augusto Sarmento
+
+
+Nervoso mestre, domadôr valente
+ Da Rima e do Sonêto portuguez,
+ Não te eguala a pericia de um chinez
+ Na pintura de um vaso transparente.
+
+Ha no teu verso a musica dolente
+ Da guitarra andaluza, e muita vez
+ Rompe em meio da extranha languidez
+ O silvo estriduloso da serpente.
+
+No VINHO E FEL traçaste o escuro drama
+ Em que soluça e ri, na extensa gamma,
+ Teu desgrenhado amôr, doido e fatal...
+
+Mas se do peito ancioso o dardo arrancas,
+ Teu canto exhala as alegrias francas
+ De uma rubra Kermesse colossal.
+
+
+
+
+CHYMERAS
+
+A meu tio João de Almeida e Albuquerque
+
+
+O mar já me tentou: aspirações fogosas
+ Fizeram-me idear phantasticas viagens;
+ Eu sonhava trazer de incognitas paragens
+ Noticias immortaes ás gentes curiosas.
+
+Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
+ Um palacio escondido em múrmuras folhagens,
+ Onde eu fosse occultar as candidas imagens
+ Das virgens que evoquei por noites silenciosas.
+
+Mas tudo isso passou: agora só me resta
+ Das chymeras que tive, uma visão modesta,
+ Um sonho encantador, de paz e de ventura.
+
+É simples; uma alcôva, um berço, um innocente,
+ E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
+ De um longo penteadôr na immaculada alvura...
+
+
+
+
+ODOR DI FEMINA
+
+A Alberto Pimentel
+
+
+Era austero e sizudo; não havia
+ Frade mais exemplar nesse convento;
+ No seu cavado rôsto macilento
+ Um poêma de lagrimas se lia.
+
+Uma vez que na extensa livraria
+ Folheava o triste um livro pardacento,
+ Viram-no desmaiar, cahir do assento,
+ Convulso, e tôrvo sobre a lágea fria.
+
+De que morrêra o venerando frade?
+ Em vão busco as origens da verdade,
+ Ninguem m'a disse, explique-a quem pudér.
+
+Consta que um bibliophilo comprára
+ O livro estranho e que, ao abril-o, achára
+ Uns dourados cabellos de mulher...
+
+
+
+
+EM CAMINHO DA GUILHOTINA
+
+Á Senhora Condessa de Sabugoza
+
+
+A _viuva Capet_ vae ser guilhotinada.
+
+ Ora naquelle dia o povo de Pariz
+ Formidavel, brutal, colerico, feliz,
+ Erguera-se ao primeiro alvôr da madrugada.
+
+No caminho traçado ao funebre cortejo
+ O povo redemoinha;
+ Que todos sentem n'alma o tragico desejo
+ De ver como Sansão degolla uma rainha.
+
+Da carreta em redor ondeiam os soldados;
+ De cima dos telhados
+ Da rua, dos portaes, dos muros, dos balcões
+ Chovem sobre a rainha as vis imprecações.
+
+Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa
+ Olha tranquillamente
+ Para o revolto mar da plebe tumultuosa.
+
+E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo
+ Anceia por ouvir o grito convulsivo
+ E o derradeiro arranco
+ D'essa mulher, e ri abominavelmente,
+ Um homem só, o algoz, vae triste e reverente.
+
+Póde nascer ao pé da forca um lirio branco.
+
+A carreta parou. Desce a rainha. Nisto
+ Viram-se uns braços nús
+ Erguerem para o ar, á flôr da multidão,
+ Uma loura creança, alegre como a luz,
+ Suave como o Christo,
+ A quem talvez faltando em casa a enxerga e o pão,
+ A mãe quizera dar aquella distracção.
+
+No primeiro degráu da escura guilhotina
+ A rainha de França
+ Ergueu o olhar e viu essa gentil creança
+ Levar a mão á flôr da bôcca pequenina,
+ E atirar-lhe, a sorrir, um beijo doce e honesto...
+
+E ella que fôra audaz, heroica e resoluta,
+ E ouvira, com desdem, da plebe a injuria bruta,
+ Ante a esmola infantil, graciosa, d'esse gesto,
+ Chorou.
+ «Chorou, emfim! A infame succumbiu!»
+ De entre o povo uma voz selvatica rugiu.
+
+
+
+
+A VIUVA
+
+Á Senhora D. Margarida Street
+
+
+Fóra de portas vive. É silenciosa
+ A modesta vivenda em que ella habita,
+ Ali correu-lhe a vida bonançosa,
+ Ali golpeou-lhe os seios a desdíta.
+
+Raro de quando em quando uma visita
+ Novas lhe traz da vida tumultuosa,
+ E ella sorrindo a furto, descuidosa,
+ No azul os olhos em silencio fita.
+
+Sósinha e triste a pallida viuva,
+ Por essas noites de invernia e chuva,
+ A um honesto e feminil labor se entrega.
+
+E, alta noite, levanta, em dôr sepulta,
+ O olhar, que fixa, e demorado prega
+ No eterno Ausente que num quadro avulta.
+
+
+
+
+FLÔR DO PANTANO
+
+A Bulhão Pato
+
+
+É pequenina e séria,
+ E tem o gesto grave
+ Da filha de um burgrave,
+ A candida Valeria.
+
+Não ha flôr mais suave,
+ De essencia mais ethérea,
+ E abriu-lhe a vida a chave
+ Do Vicio e da Miseria!
+
+Na sua loura côma
+ Nunca passou o arôma
+ Dos beijos maternaes.
+
+Ó credula Ignorancia,
+ Esconde áquella infancia
+ O nome vil dos paes!
+
+
+
+
+A RESPOSTA DO INQUISIDÔR
+
+A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque
+
+
+I
+
+A sala em que medita El-Rey é silenciosa,
+ Apainelada e fria, o largo reposteiro
+ Ondula brandamente á aragem preguiçosa.
+
+II
+
+Á cathedra real um Christo sobranceiro
+ Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado
+ Exhala sobre o seio o alento derradeiro.
+
+III
+
+El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,
+ O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra,
+ Vibra irrequieta luz, parece allucinado.
+
+IV
+
+Nisto á porta assomou a calva fronte austera
+ De um velho, e logo atraz um pagem que murmura:
+ «Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza espera!»
+
+V
+
+Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura:
+ Mãos dispostas em cruz no largo peito ancioso,
+ E humilhada a cerviz na ascetica postura.
+
+VI
+
+E comtudo esse frade humilde e respeitoso,
+ De olhos fitos no chão, tão fragil como um vime,
+ Na presença de um rei, de um Cesar poderoso,
+
+VII
+
+É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime
+ O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos crentes;
+ Flagella a sombra e o amôr, condemna a luz, e o crime!
+
+VIII
+
+Quando elle vae passando, as timoratas gentes
+ Benzem-se com pavôr e param de improviso
+ As canções juvenis nas aleas rescendentes.
+
+IX
+
+Nunca nos labios seus florira o alegre riso,
+ Tem cem annos, jamais beijára uma creança,
+ E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!
+
+X
+
+Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França
+ Paira como o sinistro espirito do Mal,
+ O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.
+
+XI
+
+Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,
+ E a Hespanha pôde ver com assombroso espanto
+ Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.
+
+XII
+
+E Philippe dizia ao monge no entretanto:
+ «Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr,
+ «Tu que fallas com Deus e és padre, e és bom, e és sancto
+
+XIII
+
+«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr!
+ «Ah! diz'-me, cardeal, se é um vil, se é um precito
+ «O rei que é justo e mata o filho que é traidôr...»
+
+XIV
+
+E mais não disse o rei, tôrvo, sombrio e afflicto.
+ No emtanto o inquisidôr erguendo imperturbavel
+ O seu hediondo olhar das lageas de granito,
+
+XV
+
+Assim tornou com voz vibrante e formidavel:
+ --Ó principe, e apontava o livido Jesus,
+ --Para acalmar dos céus a colera implacavel
+
+XVI
+
+--O Eterno fez morrer seu filho numa cruz!--
+
+
+
+
+FERVET AMOR
+
+Ao dr. Antonio Candido
+
+
+Dá para a cêrca a estreita e humilde cella
+ D'essa que os seus abandonou, trocando
+ O calôr da familia ameno e brando
+ Pelo claustro que o sangue esfria e gela.
+
+Nos florões manuelinos da janella
+ Papeiam aves o seu ninho armando,
+ Veêm-se ao longe os trigos ondulando...
+ Maio sorri na pradaria bella.
+
+Zumbe o insecto na flôr do rosmaninho:
+ Nas giéstas pousa a abelha ébria de gôso:
+ Zunem bezouros e palpita o ninho.
+
+E a freira scisma e córa, ao vêr, ancioso,
+ Do seu cátre virgineo sobre o linho
+ Um par de borboletas amoroso.
+
+
+
+
+NA ALDEIA
+
+A Christovam Ayres
+
+
+Duas horas da tarde. Um sol ardente
+ Nos côlmos dardejando, e nos eirados.
+ Sobreleva aos sussurros abafados
+ O grito das bigornas estridente.
+
+A taberna é vazia; mansamente
+ Treme o loureiro nos humbraes pintados;
+ Zumbem á porta insectos variegados
+ Envolvidos do sol na luz tremente.
+
+Fia á soleira uma velhinha: o filho
+ No céu mal acordou da aurora o brilho,
+ Sahiu para os cançaços da lavoura.
+
+A nóra lava na ribeira, e os netos
+ Ao longe correm semi-nús, inquietos,
+ No mar ondeante da seára loura.
+
+
+
+
+ESTUDANTINA
+
+
+Acorda, minha Thereza,
+ Descerra a janella tua!
+ Espalha-se a luz da lua
+ Pela poetica deveza...
+ Entre os sinceiros da margem
+ Murmura o claro Mondego,
+ A noite corre em socêgo...
+ Acorda, minha Thereza!
+
+Não dorme quem tem amôres,
+ E o teu postigo é cerrado!
+ Deixa o leito perfumado,
+ E o travesseiro de flôres,
+ Se queres que eu acredite,
+ Ó minha pallida amiga,
+ Nas palavras da cantiga:
+ «Não dorme quem tem amôres!»
+
+Por isso eu vélo cantando,
+ E esta guitarra suspira,
+ E o meu coração delira
+ Mal vem a lua apontando...
+ É que, á noite, lirio branco,
+ Os astros guardam segredo
+ Dos beijos dados a medo...
+ Por isso eu vélo cantando...
+
+Quero vêr-te, como outrora
+ Nesse postigo inclinada,
+ Conversando enamorada
+ Até ao raiar da aurora...
+ Um lenço posto no liso
+ Dos teus hombros jaspeados,
+ Os cabellos destrançados...
+ Quero vêr-te como outrora.
+
+Não te assustes, Julieta,
+ Que a manhã te encontre ainda
+ Bebendo a canção infinda
+ Que soluça o teu poeta.
+ Cantará de entre os loureiros
+ Uma alegre cotovia,
+ Mal venha rompendo o dia...
+ Não te assustes, Julieta!
+
+Mas dorme a branca Thereza,
+ Cerrada a janella sua;
+ Espalha-se a luz da lua
+ Pela poetica deveza...
+ Entre os sinceiros da margem,
+ Murmura e corre o Mondego,
+ Que tristeza e que socêgo!
+ Ai! dorme, dorme, Thereza!
+
+
+
+
+AS ONDINAS
+
+H. HEINE
+
+Ao Visconde de Castilho II
+
+
+Na praia tranquilla murmuram sonoras
+ As ondas do mar.
+ E, ao dôce das aguas murmúrio palreiro,
+ Na areia dormita gentil cavalleiro
+ Á luz do luar.
+
+As bellas ondinas emergem das grutas
+ De vivo coral,
+ Accórrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
+ O moço que julgam devéras dormindo
+ No argenteo areal.
+
+Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
+ As mãos de setim.
+ E aquella, com gesto divino, gracioso,
+ Nos ares levanta do joven formoso
+ O aureo telim.
+
+Ess'outra, que lavas, que fogo não vibram
+ Seus olhos de anil!
+ Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
+ Nos copos brilhantes se apoia azougada,
+ Travessa e gentil.
+
+A quarta, saltando, retouça, lasciva,
+ Do moço em redor;
+ Suspira mansinho, de manso murmúra:
+ «Podésse eu em vida gosar a ventura
+ Do teu fino amôr!»
+
+A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
+ Num sonho feliz,
+ E a sexta, com tremula e dôce esquivança,
+ Perfuma-lhe a bôcca, formosa creança!
+ Com beijos subtis...
+
+E o moço, fingindo que dorme tranquillo,
+ Não quer acordar.
+ E deixa que o abracem as bellas Ondinas,
+ E languido gosa caricias divinas
+ Á luz do luar...
+
+
+
+
+NO JOGO DAS CANNAS
+
+A Camillo Castello Branco
+
+
+Em garbosos corceis da Arabia cavalgando
+ Entram na larga arêna os próceres luzidos;
+ Corusca a pedraria, e esplendem, fluctuando,
+ Dos cocáres a pluma e a sêda dos vestidos.
+
+A quadrilha gentil dos Tavoras ardidos,
+ Com os lacaios da Tôrre um prélio simulando,
+ Terça galhardamente; o apparatoso bando
+ Deixa os olhos da turba em extase embebidos.
+
+Nas janellas do paço é toda a fidalguia:
+ Que jocundo prazer, que risos, que alegria!
+ Espectaculo augusto, e nobre, e singular!
+
+O sexto Affonso applaude: emtanto, maliciosa,
+ Maria de Nemours, sorrindo, a incestuosa!
+ No cunhado, subtil, poisa o lascivo olhar...
+
+
+
+
+NUNCA EU TE LÊSSE, BALLADA!
+
+
+Suspende a dura sentença
+ Que de teus labios ouvi.
+ E ergue do chão os quebrados
+ Teus negros olhos magoados,
+ Quando me acerco de ti.
+
+Ergueste-os, encantadôra!
+ Mas antes do teu perdão,
+ Attende-me, e ouve, senhora,
+ Com todo o teu coração.
+
+Escuta:
+ «A um rei namorado
+ «Sincera e fiel amante,
+ «Ao morrer, tinha deixado,
+ «De antigo affecto em penhor,
+ «Cinzelada taça de ouro
+ «Do mais subido valor.
+
+«O rei preferia a tudo
+ «Aquella doce lembrança
+ «Que lhe trazia os arômas
+ «De umas fluctuantes cômas,
+ «E de uns labios de veludo,
+ «Que elle beijára em creança.
+
+«Toda a vez que elle bebia
+ «Por esse vaso sagrado,
+ «Uma extatica alegria
+ «Como flôr ideal sorria
+ «No seu turvo olhar cançado.
+
+«Um dia sentiu-se o pobre
+ «Mais triste, velho e abatido,
+ «Abraçou-se commovido
+ «Á taça, o tremulo amante:
+
+«E as lagrimas, uma a uma,
+ «Deslisaram nesse instante
+ «Nos rudes flócos de espuma
+ «Da longa barba fluctuante.
+
+«Naquella hora de agonia,
+ «Chamou seus filhos e herdeiro,
+ «Deu-lhes tudo o que possuia,
+ «Ouro, palacios, riquezas,
+ «O seu castello roqueiro,
+ «E as suas largas devezas.
+
+«Dividiu tudo, contente;
+ «A taça guardou sómente.
+
+«Sentindo fugir-lhe a vida,
+ «Manda o triste convidar
+ «Seus pares, filhos e herdeiro
+ «Para um festim derradeiro
+ «No castello sobranceiro
+ «Ás verdes aguas do mar...
+
+«Em meio da festa, o velho
+ «Ergueu a taça e, sorrindo,
+ «Embebido o olhar no infindo,
+ «Um frouxo canto soltou...
+
+«E mal o canto findára,
+ «No leito da onda amara
+ «A taça de ouro lançou...»
+
+Eram profundos ciumes
+ Os d'esse rei namorado,
+ Que não fosse alguem beber
+ Por esse vaso sagrado,
+ E viesse a conhecer
+ Os cariciosos perfumes
+ Que o tinham embriagado...
+
+Hontem, á tarde, beijando-a
+ De teu labio a viva rosa,
+ Lembrou-me a historia singela
+ D'essa ballada amorosa;
+ E dentro em mim de repente
+ Tam extranha dôr senti,
+ Que num impeto demente
+ De teu labio humido e ardente
+ Com tôrvo aspecto fugi!
+
+Lembrou-me, cabeça louca!
+ Que se eu acaso morresse,
+ Talvez um outro sorvesse
+ Os beijos da tua bôcca...
+
+E no azul indefinido,
+ Ó minha piedosa anémona!
+ Cuidei ouvir o gemido
+ Da moribunda Desdemona...
+
+Ai, desavisado amôr!
+ Perdôa, sombra adorada!
+ Nunca eu te avistasse, flôr!
+ Nunca eu te lêsse, ballada!
+
+
+
+
+A NEGRA
+
+Ao dr. A. A. da Fonseca Pinto
+
+
+Teus olhos, ó robusta creatura,
+ Ó filha tropical!
+ Relembram os pavôres de uma escura
+ Floresta virginal.
+
+És negra sim, mas que formosos dentes,
+ Que perolas sem par
+ Eu vejo e admiro em rubidos crescentes
+ Se te escuto fallar!
+
+Teu corpo é forte, elastico, nervoso.
+ Que doce a ondulação
+ Do teu andar, que lembra o andar gracioso
+ Das onças do sertão!
+
+As languidas sinhás, gentis, mimosas,
+ Desprezam tua côr,
+ Mas invejam-te as formas gloriosas
+ E o olhar provocadôr.
+
+Mas andas triste, inquieta e distrahida;
+ Foges dos cafesaes,
+ E no escuro das mattas, escondida,
+ Soltas magoados ais...
+
+Nas esteiras, á noite, o corpo estiras
+ E, com ancias sem fim,
+ Levas aos seios nús, beijas e aspiras
+ Um candido jasmim...
+
+Amas a lua que embranquece os mattos,
+ Ó negra jurity!
+ A flôr da laranjeira, e os niveos cáctos
+ E tens horrôr de ti!...
+
+Amas tudo o que lembre o _branco_, o rosto
+ Que viste por teu mal,
+Um dia que sahias, ao sol pôsto,
+ De um verde taquaral...
+
+
+
+
+MATER DOLOROSA
+
+A Rangel de Lima
+
+
+Quando se fez ao largo a nave escura
+ Na praia essa mulher ficou chorando,
+ No doloroso aspecto figurando
+ A lacrymosa estatua da amargura.
+
+Dos céus a curva era tranquilla e pura:
+ Das gementes alcyones o bando
+ Via-se ao longe, em circulos, voando
+ Dos mares sobre a cérula planura.
+
+Nas ondas se atufára o sol radioso,
+ E a lua succedêra, astro mavioso,
+ De alvôr banhando os alcantis das fragas...
+
+E aquella pobre mãe, não dando conta
+ Que o sol morrêra, e que o luar desponta,
+ A vista embebe na amplidão das vagas...
+
+
+
+
+AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY
+
+A M. Pinheiro Chagas
+
+
+I
+
+O principe morrêra, e logo os cortezãos,
+ Em prantos derredor do mortuario leito,
+ Erguem a voz em grita aos ceus levando as mãos.
+
+II
+
+El-Rey, João segundo, a fronte sobre o peito,
+ Contempla dos brandões á luz ensanguentada
+ O filho, e a dôr lhe avinca o grave e duro aspeito.
+
+III
+
+E eis que, a um gesto do rei, a turba consternada
+ A pouco e pouco sáe, reina o silencio, apenas
+ Cortado pelo uivar longinquo da nortada.
+
+IV
+
+Sobre o filho curvado, immerso em cruas penas,
+ Aquelle rei sinistro, energico e tigrino,
+ Tinha na frouxa voz modulações serenas.
+
+V
+
+E o filho inerte e mudo! então num desatino
+ Deixou-se El-Rey caír, ao acaso, num escabêllo
+ E quedou-se a pensar no seu atroz destino.
+
+VI
+
+Um enorme, um confuso e bronzeo pesadêlo
+ Caíu-lhe sobre o enfêrmo espirito enluctado,
+ E o suor inundou-lhe as barbas e o cabello.
+
+VII
+
+Talvez que o triste visse, em sonho allucinado,
+ Do duque de Vizeu o espectro vingativo
+ Apontando-lhe, a rir, o Infante inanimado.
+
+VIII
+
+E escutasse a feroz imprecação que altivo
+ No cadafalso, outróra, o duque de Bragança
+ Ás faces lhe cuspiu com gesto convulsivo.
+
+IX
+
+Subito ergue-se o rei, e para o leito avança,
+ E uma lagrima então, embalde reprimida,
+ Das barbas lhe cahiu no rosto da creança...
+
+X
+
+A vez primeira foi que El-Rey chorou em vida.
+
+
+
+
+O CURA SANCTA CRUZ
+
+CONTO DE A. DAUDET
+
+Ao dr. Sousa Martins
+
+
+O implacavel carlista, o Cura Sancta Cruz,
+ Que em nome do seu rei, e em nome de Jesus,
+ Da Navarra febril leva do sul ao norte
+ O odio, a perseguição, o incendio, o estrago, a morte.
+
+Nessa clara manhã risonha do Natal,
+ Tendo sobre o uniforme a veste clerical,
+ Na montanha, ao ar livre, á luz do sol, diz missa
+ Á guerrilha que o escuta extatica e submissa.
+
+Como um rebanho vil, a um lado, os prisioneiros
+ Ouvem-no, a tiritar, cheios de um medo atroz:
+ Olham-se mutuamente os tôrvos companheiros,
+ E murmuram: «meu Deus, o que será de nós?»
+
+Porque emfim toda a vez que o sanguinario Cura
+ Se volta, e o _oremus_ diz, segundo o ritual,
+ Da sacra vestimenta avultam na brancura
+ De pistolas um jogo e a fórma de um punhal.
+
+Quando afinal chegou o instante, a occasião
+ Em que a missa termina, o Cura, erguendo um braço,
+ Grave traçou no ar e na mudez do espaço
+ O clemente signal da paz e do perdão.
+
+A missa terminára.
+
+ O Cura nesse dia
+Como sentisse n'alma uns raios de alegria,
+ De bondade e de amor, foi-se direito ao bando
+ Dos captivos, e assim fallou circumvagando
+ A vista em derredor: «_Hermanos, viva Dios!_
+
+«Corre ahi que sou máu, fanatico e feroz...
+ «Pois em breve ides ver como se engana, quem
+ «Diz que eu sou o anti-Christo e que abomino o bem.
+ «Como é dia de festa e é dia de Natal,
+ «Dou-vos a liberdade, e não vos quero mal!
+
+«Mas haveis de primeiro, e isto, prompto e sem custo
+ «De joelhos beijar o pavilhão augusto
+ «De El-Rey nosso senhor...»
+ E mandou desfraldar
+ O carlista pendão, branco como o luar...
+
+Todos logo á porfia atiram-se por terra
+ E um grito: Viva El-Rey! echoou de serra em serra.
+
+No emtanto um prisioneiro, um moço imberbe ainda,
+ Firme ficou de pé, e olhava com infinda
+ Expressão de desdem a extranha vilania...
+ Braços postos em cruz, e intrepido sorria.
+
+«E tu?» surprezo disse e transtornado o Cura.
+ --Padre, volveu-lhe o esbelto joven, com brandura,
+ --Mata-me! aqui me tens! rio-me d'esse panno!
+ --Ao teu rei não me curvo... Eu sou republicano...--
+
+O Cura um acêno fez; formou-se um pelotão:
+ «Vamos! inda uma vez, viva D. Carlos!»
+
+ --Não!--
+
+E havia nessa voz tamanha heroicidade
+ E uma energia tal, que uns longes de piedade
+ Scintillaram no olhar do tôrvo guerrilheiro.
+
+«Muito bem, morrerás: mas dize-me primeiro,
+ «O que desejas tu? Queres beber, fumar?...
+
+--Padre, se vou morrer, quero-me confessar...
+ «Ouvir-te-hei!» disse o Cura, e, ao acaso, num granito
+ Assentou-se.
+
+ O captivo, olhos no chão, contrito
+ Os joelhos dobrou... Nesse fugaz instante
+ Elle viu, elle viu, num sonho lacrymante,
+ A sua infancia, o lar, o tecto de seus paes,
+ Os choupos do seu rio, os placidos casáes:
+ Viu a noiva gentil, a egreja, os arvoredos
+ E os parentes e irmãos, socios de seus brinquedos.
+
+Ah! quem póde esquecer o seu paiz natal!
+Ah! quem póde esquecer a benção maternal!
+
+Em distancia a guerrilha os dous observa... Então
+ Emquanto o padre escuta attento o prisioneiro,
+ Subito uma descarga estoira na amplidão.
+ Tremem a serra e o val, treme o desfiladeiro.
+
+«Ás armas! o inimigo!» a sentinella brada.
+ De golpe ergue-se o Cura, e á jóldra amotinada
+ Vôa, dá ordens, clama, emquanto as balas chovem.
+Nisto viu que inda estava ajoelhado o joven!
+Pára.
+ «Que fazes tu?» indaga em tom severo
+ --Padre, diz a creança, a absolvição espero--
+
+E em meio da febril convulsão da batalha,
+ Emquanto rompe e rasga os ares a metralha,
+ Viu-se o Cura depois de abençoar, ligeiro,
+ A fronte juvenil do heroico prisioneiro,
+ Pegar de uma clavina, e dando um passo ao lado,
+ Varar tranquillamente o craneo do soldado.
+
+
+
+
+A VENDA DOS BOIS
+
+Ao dr. J. de Vasconcellos Gusmão
+
+
+I
+
+O velho entrára triste: ao pé, juncto do lar,
+ Estava a companheira, absôrta, a meditar.
+
+--Mulher, a fé perdi, fallei a toda a gente,
+ E ninguem me valeu!--E ella com voz tremente:
+ «Dize-me, e o brazileiro?»
+ --Esse foi o primeiro.
+
+--Batí, fui ter com elle á casa do jantar.
+ Expliquei-lhe ao que vinha... entrou a gracejar:
+ «Com que então você quer _livrar_ o seu rapaz?...
+ «Visinho, tão mal faz!
+ «Deixe-me ir cada qual á sorte e ao seu destino!
+ «Seu filho é um mocetão valente e muito digno
+ «De servir o paiz...»
+
+ --E descascava um fructo...
+ --Desatei a chorar... «--Homem não seja bruto!
+ A farda não é morte...»
+ --E disse mais e mais
+ --Cousas de quem não sabe a dôr de uns tristes paes!
+
+E emquanto o velho punha a vista lacrymosa
+ Nos brazidos, a voz da mãe afflicta e anciosa
+ Perguntou: «e o prior?»
+ --Negou, negou tambem!--
+ A angustiada mãe
+ Retorcia o avental com mão febril, ardente.
+
+No silencio da noite então distinctamente,
+ Um profundo mugido,
+ Triste como um gemido,
+ Longo e longo chorou no lugubre aposento...
+
+ Entreolharam-se os dois...
+Nisto acóde á mulher um estranho pensamento...
+ «Temos ainda os bois!
+ Vendamol-os!» E ria...
+ O entristecido olhar
+ Do velho lavrador de lagrymas nublou-se.
+ E entrou a suspirar:
+ --Vender os infelizes!
+ --Uns pobres animaes, a quem só mingoa a fala
+ --Para serem Christãos! Parece que me estala
+ --No peito o coração... Vender os infelizes!...
+ --Pois seja assim, mulher! Farei o que tu dizes...
+
+
+II
+
+ Vinha rompendo a aurora
+ Risonha, virginal, feliz como um noivado,
+ Das aves á compita o tremulo trinado
+ Entre as balsas gorgeava. Era em descanço a nóra.
+
+No emtanto o lavrador, tremente e vacillante
+ Como um ladrão nocturno, ou como um namorado,
+ Abriu, de par em par, as portas do curral.
+ Subito nesse instante
+ Volveram para a entrada os bois o olhar leal,
+ Bondoso, humano e franco.
+
+ Que festiva alegria
+ O frequente menear das caudas traduzia
+ Resvalando em seu forte e musculoso flanco!
+
+ O velho antigamente
+ Tinha sempre, ao chegar, uma palavra amiga,
+ Um dicto, uma cantiga,
+ A que sempre um mugido alegre respondia.
+ Mas naquella manhã, silenciosamente,
+ Fatal como o dever
+ O velho foi buscar, a um canto, uma correia,
+ E lançou-a a tremer
+ Dos anafados bois ás pontas recurvadas.
+
+E sahiram os tres.
+ Nos concavos da aldeia
+ Choviam as canções das aves namoradas.
+
+
+III
+
+No cáes ha o moirejar das fabricas ruidoso;
+ Feroz e discordante
+ Juncta-se á voz humana o arfar estrepitante
+ Dos valentes pulmões das machinas inglezas.
+
+ Em novellos, ancioso,
+ Golpham as chaminés o denso e o escuro fumo
+ Que ascende e toma o rumo
+ Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.
+
+Como um cetáceo ingente, encarvoado e feio
+ Um enorme Vapôr
+ De outros avulta em meio.
+ Em seu largo convez a marinhagem canta
+ E na faina febril as ancoras levanta.
+
+Naquella espessa náu, um velho, um lavradôr
+ Entre a faina do cáes, fita o dolente olhar...
+ É que ali dentro vão os bois, o seu amôr...
+ E áquella magoa intensa
+ E inenarravel dôr
+ Responde a descuidosa e gelida indifferença
+ Dos Homens, e dos Céus, e do profundo Mar...
+
+
+
+
+AO RABEQUISTA
+EUGENIO DEGREMONT
+
+Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1876
+no theatro de S. João do Porto
+
+
+Vêde-o! É tão creança! ó mães, olhae-o!
+ Como é vivo o fulgor e ardente o raio
+ Que vibra nesse olhar!
+ Faz gosto vel-o assim tão pequenino
+ Enlevado nos sons do violino
+ A sonhar, a sonhar...
+
+E ao passo que a sua alma vae sonhando,
+ Vão-se ante nossos olhos desdobrando
+ Quadros a mil e mil.
+ A rabeca suspira? Assim amenas
+ São na longinqua roça as cantilenas
+ Das moças do Brazil.
+
+Vibra rispidos sons? E logo ouvimos
+ Curvar o vento da floresta os cimos
+ Com ruidoso fragôr...
+ E uivam pintadas onças e as araras
+ Roçam, fugindo, as tremulas taquaras,
+ E crocita o condôr.
+
+Enterrados nas humidas pastagens
+ Mugem raivosos bufalos selvagens,
+ E por entre os sarçaes
+ Pula a panthera; os jacarés astutos
+ Choram, fingindo lacrymosos lutos
+ Nos fulvos areaes.
+
+Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
+ São os negros soltando as lastimosas
+ Canções do seu paiz;
+ Sem familia, sem patria, sem amôres,
+ Ninguem mitiga o fel daquellas dôres,
+ Triste raça infeliz!
+
+Agora, como em namorado anceio,
+ Sae da rabeca um languido gorgeio
+ Que enleva o coração.
+ E a saudade repinta-nos ao vivo
+ Dos sabiás o cantico lascivo
+ Nas sombras do sertão.
+
+Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
+ Com meu olhar de prantos não enxuto,
+ Ó creança gentil,
+ Que em vez de perseguir as borboletas
+ Vens batalhar no meio dos atletas
+ E honrar o teu Brazil!
+
+Não presumas, porém, prodigio das creanças!
+ Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
+ É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
+ A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em vão.
+
+Pois que! tu cuidarás, creança, porventura
+ Que sem luctar, soffrer, sem horridos tormentos
+ O artista poderia erguer aos quatro ventos
+ A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?
+
+Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista,
+ Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal!
+ Para o profundo azul estende a larga vista.
+ Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!
+
+
+
+
+AS VELHAS NEGRAS
+
+A M.^{me} Aline de Gusmão
+
+
+As velhas negras, coitadas,
+ Ao longe estam assentadas
+ Do batuque folgasão.
+ Pulam creoulas faceiras
+ Em derredor das fogueiras
+ E das pipas de alcatrão.
+
+Na floresta rumorosa
+ Esparge a lua formosa
+ A clara luz tropical.
+ Tremeluzem pyrilampos
+ No verde-escuro dos campos
+ E nos concavos do val.
+
+Que noite de paz! que noite!
+ Não se ouve o estalar do açoite,
+ Nem as pragas do feitor!
+ E as pobres negras, coitadas,
+ Pendem as frontes cançadas
+ Num lethargico torpôr!
+
+E scismam: outrora, e d'antes
+ Havia tambem descantes,
+ E o tempo era tam feliz!
+ Ai! que profunda saudade
+ Da vida, da mocidade
+ Nas mattas do seu paiz!
+
+E ante o seu olhar vazio
+ De esperanças, frio, frio
+ Como um véu de viuvez,
+ Resurge e chora o passado
+ --Pobre ninho abandonado
+ Que a neve alagou, desfez...--
+
+E pensam nos seus amôres
+ Ephemeros como as flôres
+ Que o sol queima no sertão...
+ Os filhos, quando crescidos,
+ Foram levados, vendidos,
+ E ninguem sabe onde estão.
+
+Conheceram muito dono:
+ Embalaram tanto somno
+ De tanta sinhá gentil!
+ Foram mucambas amadas,
+ E agora inuteis, curvadas,
+ Numa velhice imbecil!
+
+No emtanto o luar de prata
+ Envolve a collina e a matta
+ E os cafesáes em redor!
+ E os negros, mostrando os dentes,
+ Saltam lepidos, contentes,
+ No batuque estrugidor.
+
+No espaçoso e amplo terreiro
+ A filha do Fazendeiro,
+ A sinhá sentimental,
+ Ouve um primo recem-vindo,
+ Que lhe narra o poema infindo
+ Das noites de Portugal.
+
+E ella avista, entre sorrisos,
+ De uns longinquos paraisos
+ A tentadôra visão...
+ No emtanto as velhas, coitadas,
+ Scismam ao longe assentadas
+ Do batuque folgasão...
+
+
+
+
+O RELOGIO
+
+No album de Eduardo Burnay
+
+
+Eburneo é o mostradôr: as horas são de prata,
+ Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
+ Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
+ Nella o esmalte produz um quadro delicioso.
+
+Rapara: eis um salão: casquilho malicioso
+ Das festas cortesãs o mimo a flôr, a nata,
+ Juncto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
+ Uma fidalga o escuta ebria de amôr e gôso.
+
+Rasga-se ampla a janella: ao longe o olhar descobre
+ O correcto jardim e o parque extenso e nobre.
+ As nuvens no alto céu fluctuam como espumas,
+
+Da paizagem no fundo, em lago transparente,
+ Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
+ Um cysne á luz do sol estende as niveas plumas.
+
+
+
+
+A MORTE DE D. QUICHOTE
+
+Ao Conde de Sabugosa
+
+
+Rôto o escudo, sem lança, a cóta escalavrada,
+ Sósinho, abandonado e á tôa como um cego,
+ Do crepusculo á luz dolente e immaculada
+ Entra na sua aldeia o altivo heroe Manchego.
+
+O tenue fumo sáe do côlmo das herdades,
+ Riem ao pé da fonte as frescas raparigas,
+ E á clara vibração sonora das trindades
+ Junctam-se brandamente as vozes e as cantigas.
+
+E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte,
+ Que andára pelo mundo a combater os máus,
+ Defendendo a Mulher, desafiando a Morte,
+ Do paterno casal sentou-se nos degráus.
+
+Nos joelhos fincando o cotovêlo agudo
+ E no punho cerrado a fronte reclinando,
+ Quedou-se largo espaço, illacrymavel, mudo,
+ Para o inutil passado os olhos alongando...
+
+E ali, na dôce paz da sua alegre aldeia,
+ Sentiu que o avassallava uma tristeza infinda,
+ Quando esta voz se ouviu: «morreu-te a Dulcinêa,
+ Missionario do Bem, tua missão é finda!»
+
+E elle a ouvir e a scismar! A trefega sobrinha
+ Beija-o, falla-lhe, ri, abraça-o, mas o Heróe
+ Dest'arte lhe volveu «A morte se avisinha,
+ Levae-me para o leito!» E ouvil-o pena e dóe.
+
+Do leito á cabeceira o Bacharel e o Cura
+ Tentam resuscitar-lhe os sonhos e as chymeras;
+ Pintam-lhe o negro Mal triumphante, ó amargura!
+ O fraco aos pés do forte, o bom lançado ás féras...
+
+Contam-lhe o frio horror dos carceres sem luz.
+ Que nas tôrres feudaes pompeava o velho Crime.
+ Que os crescentes do Islam tinham vencido a Cruz,
+ Que a Injustiça era a Lei... Então feroz, sublime.
+
+Inquieto, semi-nú, sinistro, o cavalleiro
+ Bradou como um trovão: «Enverguem-me a loriga!
+ «Sellem-me o Rocinante, ó Sancho, ó escudeiro,
+ «Traze-me a lança, présto! e a minha espada amiga!»
+
+Tinha em brazas o olhar, e truculento o aspeito,
+ E vibrava em redôr a imaginaria lança...
+ Logo depois cahiu do respaldar do leito,
+ Morto: tendo no labio um riso de creança!
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+A minha mulher 1
+Confidenza 3
+O velhinho 8
+Animal bravio 10
+Ad agros 12
+A nuvem 14
+O juramento do arabe 16
+Num leque 19
+Olhos de Judia 20
+Numeros do Intermezzo:
+ I 24
+ II 25
+ III 26
+ IV 28
+ V 29
+ VI 30
+ VII 32
+ VIII 34
+ IX 36
+ X 38
+ XI 40
+ XII 42
+ XIII 44
+ XIV 46
+ XV 47
+ XVI 48
+ XVII 50
+ XVIII 52
+ XIX 54
+ XX 55
+ XXI 56
+ XXII 58
+ XXIII 60
+ XXIV 62
+O minuête 65
+O coveiro 70
+Adeus! 72
+Camoneana:
+ A egreja das Chagas 76
+ A leitura dos Lusiadas 78
+ Annos depois 80
+Esphynge 83
+A ceia de Tiberio 85
+Trio de poetas:
+ João de Lemos 90
+ João de Deus 92
+ João Penha 94
+Chymeras 97
+Odor di femina 99
+Em caminho da guilhotina 101
+A viuva 104
+Flôr do pantano 106
+A resposta do inquisidôr 108
+Fervet amor 112
+Na aldeia 114
+Estudantina 116
+As Ondinas 119
+No jogo das cannas 122
+Nunca eu te lêsse, ballada 124
+A negra 129
+Mater dolorosa 132
+As primeiras lagrimas de El-Rey 134
+O Cura Sancta Cruz 137
+A venda dos bois 142
+Ao rabequista Eugenio Degremont 147
+As velhas negras 151
+O relogio 155
+A morte de D. Quichote 157
+
+
+
+
+TERMINOU-SE A IMPRESSÃO
+
+NOS PRELOS DA
+
+IMPRENSA NACIONAL DE LISBOA
+
+a 6 de março de 1882
+
+[Figura]
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+
+_18, Rua Oriental do Passeio_
+LISBOA
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+
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+Lista de erros corrigidos
+
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+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
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+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+ |#pág. 30 | V | VI |
+ |#pág. 50 | XVI | XVII |
+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+
+Identificámos a duplicação de títulos em numeração romana.
+Rectificámos mantendo a ordenação crescente, nomeadamente nos casos
+referidos acima.
+
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+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nocturnos, by Gonçalves Crespo
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 44211 ***