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-The Project Gutenberg EBook of Historias Brazileiras, by
-Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay and Sylvio Dinarte
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: Historias Brazileiras
-
-Author: Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay
- Sylvio Dinarte
-
-Release Date: June 29, 2020 [EBook #62525]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS ***
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-HISTORIAS BRASILEIRAS
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-OBRAS DE J. DE ALENCAR
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-
- O ERMITÃO DA GLORIA.—A ALMA DO LAZARO, 1 v. enc. 3$, br. 2$000
-
- O GARATUJA, chronicas dos tempos coloniaes, 1 v. in-8º enc.
- 3$, br. 2$000
-
- TIL, romance brasileiro. 4 v. enc. 6$, br. 4$000
-
- IRACEMA, lenda do Ceará, 2ª edição, 2 v. br. 2$, enc. 3$000
-
- VIUVINHA E OS CINCO MINUTOS, 2ª edição, 1 v. br. 2$, enc. 3$000
-
- O GUARANY, 3ª edição, 2 v. in-4º encadernados 10$000
-
- AS MINAS DE PRATA, rom. historico, complemento do precedente,
- 6 v. in-8º br. 12$, enc. 16$000
-
- O DEMONIO FAMILIAR, comedia em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 1$500
-
- A MÃI, drama em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 2$000
-
- VERSO E REVERSO, comedia em 2 actos, 2ª edição, 1 v. 1$000
-
- AS AZAS DE UM ANJO, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo,
- 2ª edição, 1 v. 2$000
-
- O GAUCHO, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, enc. 6$000
-
- PATA DA GAZELLA, romance brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000
- encadernado. 3$000
-
- O TRONCO DO IPÊ, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000,
- encadernado. 6$000
-
- SONHOS D’OIRO, romance brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br. 4$000
-
- DIVA, _perfil de mulher_, 2ª edição, 4 v. enc. 3$000
-
- LUCIOLA, _perfil de mulher_, 3ª edição 1 v. enc. 3$000
-
-
-BERNARDO GUIMARÃES
-
- O SEMINARISTA, romance brasileiro, 1 v., enc. 3$, br. 2$000
-
- LENDAS E ROMANCES. Uma Historia de Quilombólas, a Garganta do
- Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. enc. 3$, br. 2$000
-
- O GARIMPEIRO, romance, 1 v. enc. 3$, br. 2$000
-
- HISTORIAS E TRADIÇÕES da Provincia de Minas-Geraes: A Cabeça
- do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, 1 v. enc. 3$,
- br. 2$000
-
-
-
-
- HISTORIAS BRAZILEIRAS
-
- POR
- SYLVIO DINARTE
- (Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do
- Coração, Innocencia, etc.)
-
- [Illustration]
-
- RIO DE JANEIRO
- Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.
- 1874
-
-
-
-
-AO CAMARADA E AMIGO
-
-CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.
-
-OFFERECE
-
-O Autor.
-
-
-
-
-IERECÊ A GUANÁ
-
-EPISODIO
-
- Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,
- Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?
- ...
- Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...
- Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.
- Moi, je t’aime, comme je vis.
-
- VICTOR HUGO—_A Taitiana_ (Ballada).
-
- Savais-je s’il était des malheureux au monde?
- Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!
-
- CHAMFORT.
-
-
-IERECÊ A GUANÁ
-
-
-CAPITULO I
-
-Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho _Alpha_, sahindo da capital
-da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do
-presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a
-fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima
-para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca
-até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40
-legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande
-Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante
-barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de
-alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego
-d’aquella distante localidade.
-
-Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação
-de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio
-Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de
-importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno,
-nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul,
-havião podido lhe tirar.
-
-Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de
-exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de _cidade_,
-justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos
-em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito
-remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S.
-Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado,
-e Miranda do outro.
-
-A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com
-desvanecimento.
-
-Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do
-forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro
-á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em
-Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que
-fluctuavão as quinas do dominio legal.
-
-Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas
-do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa
-e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto
-para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres
-intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente
-trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de
-passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes
-até, alguns dos mais antigos moradores.
-
-Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas
-acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e
-Nioac.
-
-Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita
-ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se
-procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão
-aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade,
-mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos
-inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade.
-N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do
-que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de
-duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já
-aproveitado.
-
-Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente
-deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não
-fazia muitos mezes antes da chegada do _Alpha_, havião sido lançadas no
-lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de _forte_,
-as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem
-contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866
-vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem
-do districto para operar a sua concentração na fronteira.
-
-Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um
-vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas
-consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de
-ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca
-navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde
-havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860
-no _Jaurú_, que é de calado não pequeno.
-
-Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito
-inclinado para as transacções commerciaes e n’ellas desenvolvem o seu
-genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado.
-
-Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá
-e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva
-alegria.
-
-Por toda a parte a agitação era grande.
-
-Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com
-festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de
-se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia
-se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com
-extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o
-porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca.
-
-No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece,
-invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas
-da villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto
-lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo.
-
-Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para
-o _porto_, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de
-engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao
-Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n’esse tempo
-tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos
-paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida
-altaneria.
-
-Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por
-que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete
-brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e,
-na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e
-outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito
-á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do
-mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr’olho a vizinhos tão
-carrancudos e desagradaveis.
-
-N’essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez
-ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares
-da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica
-confinante.
-
-Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era despotico e que se
-achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se
-os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que
-accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o
-seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela
-politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por
-habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo,
-e queria viver em paz.
-
-Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas
-supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião
-providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do
-respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião
-já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado
-com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar
-os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez.
-
-Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo
-que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter
-militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que
-entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra,
-cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade
-e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda
-aquella zona.
-
-No _Alpha_ viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros,
-esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir
-observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga
-aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante,
-até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S.
-Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não
-tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar.
-
-Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no
-pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos,
-emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do
-movimento, percorrendo paizes uns após outros como _turista_ e á maneira
-de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez
-tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia.
-
-O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais
-naturaes.
-
-Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem
-para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres,
-onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião
-do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou
-peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada,
-monotona e estupida.
-
-—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá.
-
-E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade de continuar a
-viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n’uma tarde de calor
-intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso.
-
-Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro
-movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o
-desgosto que experimentou ao pôr pé em terra.
-
-—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra,
-onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao
-Sr. capitão de engenheiros Freitas....
-
-E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em
-Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar.
-
-—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10.
-
-Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um
-sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão.
-
-—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta,
-com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação
-com a maior satisfação e cordialidade.
-
-—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a
-confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo.
-
-—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como
-camarada.... Onde estão as suas cargas?
-
-—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou....
-
-—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro....
-
-—Pelo menos o meu nome é indispensavel....
-
-—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de
-recommendação nem sequer lembrou-se d’isso. É um cheque ao portador.... O
-senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.
-
-Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não
-sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem
-d’ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias
-de infancia.
-
-Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata
-familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre
-algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito
-estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se
-houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se
-em amigo de data mui remota.
-
-Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de
-Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a
-estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.
-
-—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre
-Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma
-cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o
-espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante
-e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de
-immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se
-por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem
-conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade;
-o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia,
-nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do
-Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de
-calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e
-de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d’aqui, mas
-afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima,
-não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me
-prende particularmente a Cuyabá....
-
-—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra?
-
-—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como
-fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem
-reter para sempre n’este canto do mundo.
-
-—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.
-
-—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das
-mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se
-não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não
-provar das extremidades d’aquelles dous peixes senão com muita reserva e
-cautela.
-
-Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de
-Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e
-meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor _Alpha_
-com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes
-de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para
-partir e muito satisfeito com tão breve retirada.
-
-—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda
-e Nioac....
-
-—Mas é cousa muito rapida e incommoda....
-
-—Não importa....
-
-—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e
-voltar a Corumbá.
-
-—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles.
-Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis
-aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate....
-
-—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?
-
-—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver;
-demais _aportuguezados_, já que não posso dizer _abrazileirados_. Em
-Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei _la
-nature chez elle_.
-
-—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não
-é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia
-adiante um passo....
-
-Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de
-Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas.
-
-Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes
-e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso
-que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas
-ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha,
-pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita
-commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos
-de quem está acostumado a viajar por terra.
-
-Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não
-raras vezes em vasta extensão, de _piripiris_, juncos que mergulhão
-as raizes n’agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores.
-Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela
-natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm
-os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando.
-
-Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada
-alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de
-seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda
-estende-se vistoso o cerrado: ha muito _umbú_ que embalsama os ares com a
-fragrancia de suas flôres, grande cópia de _jatahys_, de _piquís_, cujos
-fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de _mangabeiras_ que nos
-mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos
-pomos.
-
-O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma
-serrania, cuja vertente d’esse lado é muito suave e estendida.
-
-Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do _cerrado_ e deixa que
-a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte,
-e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco
-amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha
-tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando
-aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros
-escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso.
-
-O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o
-Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela
-mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes
-castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão
-os fracos mortaes.
-
-Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as
-terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os
-accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas
-extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um
-ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se
-mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de
-vegetação mais vigorosa.
-
-A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra
-solta e roliça que forra o chão.
-
-—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal
-para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a
-pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel!
-
-Depois do corrego de Eponadigo[1], o _cerrado_ fica mais fechado, de modo
-que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes
-arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o _jatahy_ e o
-_vinhatico_.
-
-O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que
-foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan.
-
-Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no
-pouso teve febre bastante violenta.
-
-—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha
-muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma
-homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois.
-
-Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de
-espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de _quina do
-campo_ que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito.
-
-Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade
-d’essa vez.
-
-Estavão então os dous viajantes no _Agaxi_[2], corrego que atravessa o
-aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão
-a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.
-
-Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe
-havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se
-reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que
-fizera durante todo o dia.
-
-—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar
-sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não
-ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais
-tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de
-quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas
-semanas, estou de volta a Miranda.
-
-—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?
-
-—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de
-saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha,
-é de prudencia regressar quanto antes.
-
-Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que
-de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de
-Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou
-tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo
-menos não veio com a costumada violencia.
-
-Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda
-especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento.
-
-—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao
-amigo para camarada, _ansim_ é que são as maleitas. Mas _vossuncê_ não
-_percisa_ para sarar ir até a _cidade_; fique uns pares de dias na aldêa
-e os ares de lá sacodem a _maldade_ do seu corpo.
-
-—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados
-de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da
-experiencia.
-
-Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a
-estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á
-direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com
-pouca distancia ao aldeamento dos indios.
-
-O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi
-regulares, formando o que se chama _potreiros_, denominação muito
-popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em
-dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas
-crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús.
-
-Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e
-socegada.
-
-—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida,
-exclamou Alberto.
-
-E, voltando-se para o camarada:
-
-—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa?
-
-—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito
-meu conhecido e que é _mandingueiro_.
-
-As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão
-n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle.
-Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de
-frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de
-porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido
-trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de
-importancia, capitão sem duvida ou então _padre_, que exerce as funcções
-de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador.
-
-Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior
-benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a
-presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima,
-tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de
-vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados
-de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo
-do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente
-a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de
-tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural
-de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios
-guanás e kinikináos.
-
-Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de
-feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão
-a Florindo e saudou-o com provas até de respeito.
-
-—_Unatiti?_[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e
-ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o
-enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca.
-
-O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle
-companheiro era _capitão_[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de
-sezões.
-
-—_Quixauó!_ exclamou Morevi, _carineti tchikiiti_.[6]
-
-Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute
-n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de
-uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais
-quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de
-meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas
-de um homem branco e artista de coração.
-
-A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro
-batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a
-sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça.
-
-Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que
-elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel.
-
-Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de
-vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço,
-então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito
-gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em
-seu idioma, outras em portuguez estropeado.
-
-—Este _lavrado_[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a
-Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um
-_nadinha_ estará batendo de volta.
-
-Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para
-lá do corrego.
-
-—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta!
-
-E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de
-orgulho.
-
-Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante.
-Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de
-carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois
-adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de
-Miranda na aldêa dos indios seus patricios.
-
-Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão
-_julata_ e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios,
-desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos
-idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que
-o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre
-apressado.
-
-Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo
-prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos
-e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos
-e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma
-rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira
-negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis
-de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem
-sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de
-cuidadosa attenção.
-
-A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado
-em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia
-entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor.
-
-O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella
-deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto
-das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe
-pairava na physionomia.
-
-A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou
-despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação,
-partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar
-que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle
-estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos
-labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.
-
-—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.
-
-—_Acó_, respondeo Morevi, _pae tchoronó-unó_, filha tambem: mãe só
-_koinukunó_.[9]
-
-—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.
-
-O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e
-tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que
-deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções.
-
-—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e
-gravidade. Hade lhe dar comida e roupa.
-
-Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na
-dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo
-que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.
-
-Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a
-ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido
-por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se
-completamente indifferente.
-
-Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito
-os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que
-a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade.
-
-
-CAPITULO II
-
-A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de
-todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro
-em que vivia.
-
-De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto
-e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns
-notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem.
-
-A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de
-fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos
-como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia,
-que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar.
-
-Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a
-aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que
-mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da
-gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi.
-
-Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com
-Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis
-procurava coordenar um ligeiro vocabulario.
-
-Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos
-elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços
-que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.
-
-Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.
-
-Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia
-completamente estranho ao casal.
-
-No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o
-lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de,
-com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos
-seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser
-de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle
-local.
-
-Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas
-de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão
-destinadas ao complacente Morevi.
-
-Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo
-nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que
-Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho
-da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por
-terminar e poder envergar aquella roupagem nova.
-
-Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa
-parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos
-hombros, repellida pela rebeldia dos seios.
-
-Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita
-brandura, tristeza e alguma curiosidade.
-
-A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior,
-a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo;
-depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o
-tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou
-agradar ao seu espirito.
-
-Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria,
-quando aquelle _portuguez_[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava
-com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e
-sempre novos penteados?!
-
-Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha
-entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas
-que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva
-diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute
-subir da terra para os céos?!
-
-N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza
-parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de
-Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó
-acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse
-aos ares as plangentes notas da aspera garganta.
-
-A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida
-e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e
-braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou
-de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida
-e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono
-prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver
-civilisado.
-
-Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os
-seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas
-pontas e atado pelas outras ao pescoço.
-
-O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente
-entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e
-todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa
-que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante
-pennacho.
-
-Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a
-bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané,
-logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não
-poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que
-ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom
-Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario
-frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de
-Sylvana.
-
-Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe
-ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo
-que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar.
-
-Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto,
-nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista.
-Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes,
-ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas,
-ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e
-custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de
-variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim
-mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso
-nunca visto de momices e caricias.
-
-Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela
-matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de
-chofre sobre elle com o fim de assultal-o.
-
-Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito
-que não sente cuidados.
-
-Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando
-muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir
-apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que
-os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para
-armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os
-vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de
-Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira
-larga.
-
-Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor,
-irresistivel.
-
-Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação
-possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os
-prisioneiros.
-
-Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz
-bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de
-querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a
-Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo.
-
-O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê
-seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os
-olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos
-os filhos da natureza.
-
-Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida
-que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave
-que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os
-progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer
-entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve
-dar fim áquella ligação passageira.
-
-O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do
-moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas
-raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas
-do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e
-fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e
-que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas.
-
-Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um
-gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do
-mancebo lhe havia de denunciar.
-
-As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de
-Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das
-mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo
-singular.
-
-—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro.
-
-—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.
-
-—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das _portuguezas_ tão alvas e
-bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda
-de bexigas.
-
-Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da
-comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua;
-respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha
-espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar
-a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na
-mulher a posição do seu camarada.
-
-—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta _dona_ parece mesmo, com sua
-licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da
-palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente.
-
-Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão
-calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára
-completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava.
-
-A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta
-virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão
-obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que
-acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de
-uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de
-areias prateadas.
-
-Ahi era o banho de Ierecê.
-
-Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com
-um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas
-barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto
-no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas,
-presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de
-urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um
-espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um
-chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e
-recuar, um couro sem pello estendido diante da porta.
-
-Erão as conferencias do feiticeiro com o _acauan_, especie de gavião
-pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o
-nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas
-podem os padres descortinar o futuro.
-
-De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente
-ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia
-com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia
-acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal
-os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar
-do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.
-
-Ahi começavão as revelações.
-
-Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com
-que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as
-descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser
-interrompido no melhor do somno.
-
-Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em
-dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a
-tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão
-sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não
-incommodar o _portuguez_.
-
-Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha
-cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas,
-mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e
-enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica
-tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu
-passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?!
-
-Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas
-tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando
-e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas
-repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das
-cordas do coração.
-
-Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor
-a quem o captivára.
-
- * * * * *
-
-Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e
-azulada.
-
-A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia
-desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a
-folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando
-vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas
-derrubadas por terra.
-
-Ierecê preparára uma sorpresa.
-
-Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para
-virem passar a noute no Hetagati.
-
-Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com
-a tradicional _julata_ que lhes deixava descobertos os seios pequenos
-e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das
-companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais
-altivo, physionomia mais expressiva e intelligente.
-
-Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro.
-
-A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe
-pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e
-medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e
-cedia o seu lugar a quem mais o merecia.
-
-A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a
-alegria de Ierecê.
-
-Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos
-sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido
-avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto,
-palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora
-satisfazer a sofreguidão do appetite.
-
-Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo
-ruido.
-
-Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca
-e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se
-deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as
-companheiras ião executar.
-
-Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma
-canção de andamento vivo.
-
-Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa
-disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente
-tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em
-grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de
-reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia
-a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava
-e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições
-voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas.
-
-Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo
-afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual
-Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito
-quando a gente estivesse a dormir.
-
-Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a
-funcção.
-
-Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa
-condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido.
-
-Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com
-mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco,
-cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar,
-tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar
-as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi.
-
-Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando
-para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao
-relento.
-
-De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os
-presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas,
-agulhas, e os restos do banquete da vespera.
-
-Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar
-até a aldêa.
-
-No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava
-mostras de perceber isso.
-
-—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos
-aqui?
-
-—Talvez um mez, não é?
-
-—Já lá vão dous, rectificou o soldado.
-
-Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta.
-
-—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!...
-Como é que não appareceo por cá?
-
-—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo
-Lalima. Fazia V. S. na _cidade_ e foi para lá em rumo certo.
-
-—Então de Nioac ha outro caminho que não este?
-
-—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais _arriba_. Ahi ha uma
-estrada que vai de parelha com o rio Miranda.
-
-—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É
-preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez....
-
-No dia seguinte o projecto de partida não se realisou.
-
-—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá
-para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão,
-diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá.
-Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.
-
-O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem.
-
-—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle
-mister.
-
-—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a _cidade_.
-
-A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a
-mesma resposta.
-
-Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um
-presentimento doloroso agitava-lhe a alma.
-
-Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por
-vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que
-não lhe permittião quietação.
-
-Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de
-Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa.
-
-Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.
-
-—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os
-outros com cuidados de sua pessoinha!
-
-Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.
-
-—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo
-de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar....
-Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim
-em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos.....
-E as febres?
-
-—Ha muito que já se forão....
-
-—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que
-soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos
-batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado
-á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas
-d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino?
-Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador
-da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá.
-
-Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno,
-physionomia amena e franca.
-
-—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem
-contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um
-optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde
-contar.
-
-Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João
-Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a
-venustade da india.
-
-—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto
-teve faro.
-
-—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle
-fallava com perfeição.
-
-—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os
-_paratudos_[13] já derão flôr cinco vezes.
-
-Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca
-á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento
-percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava
-n’este mundo só, acima de tudo.
-
-Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel,
-qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito.
-
-—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso....
-
-—Passei bem...
-
-—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos
-todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito,
-trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não;
-está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo
-que a data não póde ser muito antiga.
-
-Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe
-pelo rosto.
-
-—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro
-em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto
-abalado...
-
-—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua
-presença é indispensavel e quanto antes...
-
-—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir.
-
-Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe
-que a sua hora de morrer vinha chegando.
-
-Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio
-Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos,
-em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem
-abandonal-a de chofre...
-
-—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui
-anniquilado!... Fôra quasi um crime!...
-
-—De certo, porém...
-
-—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é
-máo...
-
-—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem
-depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois
-consolar-se-ha... é...
-
-—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas.
-
-Alberto nada replicou.
-
-—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para
-esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua
-subsistencia...
-
-—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que
-elle se incumbirá de tudo...
-
-—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu
-dispor para tudo quanto fôr do seu serviço....
-
-—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos
-sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda.
-
-—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa.
-No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma
-occasião d’essas...
-
-—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e
-no domingo estarei em Miranda.
-
-—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.
-
-—Infallivelmente...
-
-—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão
-descer em _igarité_ para Corumbá... viagem vagarosa e massante....
-
-—Não... eu partirei no _Alpha_, afiançou Alberto.
-
-De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.
-
-Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando
-vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia,
-tanta expressão que este ficou todo perturbado.
-
-—Que tem você? perguntou elle.
-
-—Nada, respondeu a india...
-
-—Você está doente?
-
-—O corpo não está, mas isto está ficando...
-
-E apontou para o coração, accrescentando.
-
-—E para sempre.
-
-Depois tornou-se silenciosa.
-
-Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se
-muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com
-o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella:
-nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos.
-Tinha os olhos seccos e brilhantes.
-
-A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o
-desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar
-frio da madrugada.
-
-Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente
-illuminado e ao longe ouvião-se os _quero-queros_ que gritavão nas matas
-do Aquidauána.
-
-O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande
-desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava.
-
-Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto.
-
-Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do
-moço e acordou-o.
-
-—Então, disse ella, _unái_[14] vai-se embóra?
-
-Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto
-quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta!
-
-—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede.
-
-—Forão aquelles homens máos que vierão buscar _unái_.
-
-—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.
-
-—E que será de Ierecê?
-
-Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.
-
-Estava vacillante.
-
-—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo
-ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa....
-
-—E _unái_, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade
-voltar?
-
-—Volto....
-
-Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.
-
-De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr
-havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces,
-traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos.
-
-Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas
-de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria.
-Parecia doente; teve um pouco de febre.
-
-Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir
-antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati.
-
-Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem.
-
-O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario
-desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de
-bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a
-pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores,
-espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e
-varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de
-riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior
-reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso.
-
-Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o
-montar a cavallo.
-
-Ierecê tinha se ausentado.
-
-O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um
-adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio
-á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino.
-
-Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n’uma das
-voltas vio Ierecê mais adiante sentada n’um tronco de arvore cahida e á
-sua espera.
-
-Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e
-deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula
-e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel
-apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que
-lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que
-devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão
-a abrir sulco fundo e devastador.
-
-—_Biónne_[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido.
-
-—_Pehehêvo_[16], respondeo ella, _pehehêvo_!
-
-Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar
-para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou
-rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta....
-deserta....
-
-Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo
-das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas.
-
-Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de
-Miranda.
-
-
-CAPITULO III
-
-Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor
-_Alpha_ estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto
-dispensar outra qualquer demora.
-
-—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino
-as instrucções relativas ao valle do Hetagati.
-
-A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado
-uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india,
-mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade.
-
-Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na
-manhã seguinte o vapor levantava ferro.
-
-Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa
-d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou
-um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho,
-prostrados de fadiga.
-
-Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza.
-
-Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o
-interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior
-espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores
-que podessem o censurar.
-
-O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no
-chão ao pé da porta.
-
-Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve
-animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção.
-
-—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho
-n’aquella contingencia.
-
-—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe
-uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes
-sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por
-transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais
-estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a
-para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo
-vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer
-irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados
-que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As
-suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em
-qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta!
-Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente
-com todas as suas ordens.
-
-Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém
-precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos
-aquelles dias passados.
-
-A final chegou a hora da partida.
-
-Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera
-concentrada para o navio que lhe roubava o amante.
-
-Parecia, comtudo, calma.
-
-Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a
-vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de
-saltar na canoinha que o ia levar ao _Alpha_ já sobre rodas no meio do
-rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e,
-retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi.
-
-Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da
-inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um
-paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de
-agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de
-sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos.
-
- * * * * *
-
-Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro
-recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de
-Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.
-
-Era de João Faustino.
-
-«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas.
-Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe.
-
-«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao
-Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao
-valle de Hetagati.
-
-«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella creatura.
-Quando assomei á porta do seu _rancho_[17], ella deo um grito de jubilo
-e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que
-estava deitada.
-
-«Sua magreza era extrema.
-
-«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da
-villa, tranquilla e resignada.
-
-«—_Unái_ volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração.
-
-«Julgei de caridade mentir.
-
-«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro.
-
-«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os
-seus olhos empanados ainda podérão fulgir.
-
-«Depois não disse mais palavra.
-
-«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão
-curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta
-não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma
-tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava
-as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o
-acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como
-medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova
-distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal.
-
-«—O _portuguez_, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella.
-
-«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.
-
-«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia
-querer sorrir.
-
-«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou,
-pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade
-conhecer.
-
-«—Alber...to... Al...ber...to!
-
-«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr
-tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e
-gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não
-perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração.
-
-«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede
-e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias
-antes pedira ao seu avô.
-
-«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.
-
-«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião
-do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a
-vida amado muito.»
-
- * * * * *
-
-Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de
-Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração.
-
-
-FIM DE IERECÊ A GUANÁ
-
-
-
-
-DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA
-
-PROVERBIO EM 1 ACTO
-
-
-PERSONAGENS
-
- Manoel Ribeiro, capitalista.
- D. Rita, mãe de
- Isabel.
- Antonio da Fonseca, tio de
- Miguel Faria.
- João de Siqueira.
- Alfredo Rocha, primo de Isabel.
- Ignacio Lemos, pae de
- Alberto Lemos.
- Um criado.
-
-A scena passa-se no Rio de Janeiro.
-
-Época—1871.
-
-
-DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA
-
-PROVERBIO
-
-
-ACTO UNICO
-
-
-SCENA I
-
-Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com
-tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao
-fundo.
-
-MANOEL RIBEIRO, FONSECA.
-
-RIBEIRO (_passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está
-sentado junto á mesa_).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se
-arranjar...
-
-FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta?
-
-RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei
-certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma:
-previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha
-mulher...
-
-FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz.
-
-RIBEIRO (_com simplicidade affectada_).—Sagacidade, não: alguma
-penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (_parando diante de Fonseca
-que se levanta_) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa
-da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma
-cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim
-de contas?
-
-FONSECA (_com calor_).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que
-se póde desejar mais?
-
-RIBEIRO (_levantando os hombros_).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A
-gloria?
-
-FONSECA (_com sorpreza_).—Que quer você com a gloria?
-
-RIBEIRO (_apressadamente_).—Sim... ter um nome celebre, conhecido...
-ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas...
-vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado...
-Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora,
-n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que
-tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro
-cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em
-cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha
-solemne para oitocentos e cincoenta professores (_com muito fogo_)
-hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é
-viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse
-simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu
-nascera:... entretanto...
-
-FONSECA.—Entretanto?
-
-RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação...
-Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de
-meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi
-extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o
-desgosto terião feito medrar como chamma devoradora...
-
-FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...
-
-RIBEIRO (_com ar desabusado e puchando o beiço_).—Eu poeta?... Aos
-cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já
-com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o
-poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das
-estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima
-das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de
-desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado
-(_parando de repente e com satisfação_). Sinceramente agrada-me esta
-descripção... fui feliz devéras. (_Mudando de tom_) Se o poeta fôr velho
-então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha
-inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as
-delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da
-salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente
-o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No
-juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não
-troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo...
-
-FONSECA.—De um Ribeiro... maganão!
-
-RIBEIRO (_sorrindo-se meio resignado_).—Que quer você? Não tenho outro
-meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não
-estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez
-nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos
-do que muitos versos na cachola. (_Rindo-se, approxima-se de Fonseca a
-piscar um olho_) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não
-é? Diga com franqueza...
-
-FONSECA.—De certo os encargos de familia...
-
-RIBEIRO (_abanando a cabeça com ar fino_).—Não é só por isso!.. É tambem
-por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz!
-
-FONSECA (_com repentino enthusiasmo_).—Que actividade!
-
-RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos...
-
-FONSECA (_encarecendo_).—Dentes excellentes!
-
-RIBEIRO.—É um moço que tem futuro...
-
-FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não
-diz uma palavra (_faz com as mãos gesto de quem pesa_) sem pesal-a
-cuidadosamente...
-
-RIBEIRO (_com certa hesitação_).—Mas elle... me parece...
-
-FONSECA (_com algum receio_).—O que?
-
-RIBEIRO.—Prosaico de mais...
-
-FONSECA (_arrebatado_).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso
-pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás
-avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha
-escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus
-bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais
-poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados.
-Assustei-me... Então... (_interrompe para assuar-se com estrondo_).
-
-RIBEIRO (_com interesse_).—Então?
-
-FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais...
-
-RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado.
-
-FONSECA (_com vivacidade e orgulho_).—Não era? Pois bem, dous dias
-depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei
-bastante. (_Com alguma ternura_) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um
-casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia...
-
-RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz...
-
-FONSECA (_influindo-se pouco a pouco_).—Que duvida! Um noivo d’aquella
-força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas
-do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e
-afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos
-filhos... Comprehende?... Não ha tempo.
-
-RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia...
-
-FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna...
-
-RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (_parando nas palavras_)
-alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa
-(_com gesto de quem dedilha_). É tão gracioso!
-
-FONSECA (_meio admirado_).—Pois quer mais arte do que a que elle tem?
-Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos
-agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no
-mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe
-asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos
-de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem
-gastador; sempre no meio termo...
-
-RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher...
-
-FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista.
-
-RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d’elle?
-
-FONSECA (_com segurança_).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu
-sobrinho...
-
-RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album...
-
-FONSECA.—Qual album!...
-
-RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo,
-entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua
-lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres...
-
-FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza,
-póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a
-gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a
-côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o
-Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?..
-Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta
-calma!... Hen? mal se percebe...
-
-RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o
-casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial...
-
-FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle
-o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho
-disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que
-fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (_com
-tom grave_) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a
-Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (_com ar funebre_) É á Europa!...
-
-RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso...
-
-FONSECA (_com imposição_).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem
-posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz
-de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos...
-
-RIBEIRO (_com ar de superioridade compassiva_).—Ah! isto fia-se mais
-fino! E a inspiração?
-
-FONSECA (_com resolução_).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe
-dou, Sr. Ribeiro...
-
-RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição
-indispensavel.
-
-FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé
-direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher...
-
-RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos.
-
-FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o
-acontecimento, não é?
-
-RIBEIRO (_com alguma pausa_).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca
-vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma
-cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a
-chorar... noivos audazes...
-
-FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro
-tempo... Ahi chega D. Rita...
-
-
-SCENA II
-
-RIBEIRO, FONSECA, D. RITA.
-
-FONSECA (_dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a
-mão_).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente...
-
-D. RITA (_estende-lhe a mão_).—Oh! Sr. Fonseca...
-
-FONSECA (_continuando no que ia dizendo_).—que a cumprimente n’este
-momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca...
-
-D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta
-effusão...
-
-FONSECA.—O seo marido que lh’o diga...
-
-D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é?
-
-FONSECA.—Para mim, excellente...
-
-D. RITA.—E hade agradar-me?
-
-FONSECA.—Estou que sim...
-
-D. RITA (_meio risonha_).—Então adivinho...
-
-FONSECA.—É...
-
-D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha...
-
-RIBEIRO (_intervindo_).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr.
-Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem
-concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel...
-
-D. RITA (_interrompendo-o_).—E você lhe respondeo...
-
-RIBEIRO.—O que você responderia.
-
-FONSECA (_voltando-se para D. Rita_).—Então?
-
-D. RITA (_sem hesitação e com simplicidade_).—Eu diria que sim! A que
-devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?...
-
-FONSECA.—Não soffre duvida...
-
-D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz?
-
-FONSECA (_para Ribeiro_).—Sim, quem?
-
-RIBEIRO.—Quem?
-
-OS TRES (_a um tempo_).—Miguel Faria!...
-
-D. RITA.—Tão amavel moço...
-
-RIBEIRO.—Boa figura...
-
-FONSECA (_com ar de importancia_).—E apatacado...
-
-D. RITA.—Um cavalheiro perfeito...
-
-RIBEIRO.—Previdente...
-
-FONSECA.—Em cafés não ha outro igual...
-
-RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas...
-
-D. RITA.—Accordo perfeito...
-
-RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (_hesitando_) de
-contrariedade... Estes casamentos assim...
-
-FONSECA (_com alguma impaciencia_).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas
-idéas?... (_voltando-se para D. Rita_).—Não entendo bem... O compadre
-pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como
-diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!...
-
-D. RITA (_offendida_).—Oh! Sr. Ribeiro!...
-
-RIBEIRO (_com alguma vivacidade_).—Não: o meu pensamento não é este...
-eu...
-
-FONSECA (_interrompendo-o_).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão
-feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as
-circumstancias desejaveis?
-
-RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se...
-
-D. RITA (_com indignação_).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!...
-
-RIBEIRO (_com ar conciliador e fallando com volubilidade_).—Não
-é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas,
-essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria
-eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando
-voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (_com fogo_)
-Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras,
-fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.»
-«O signal para appareceres na janella era assim (_assovia baixinho e
-prolongadamente_) Teu pae estava dormindo»...
-
-D. RITA (_procurando interrompel-o_).—Que historias, Sr. Ribeiro!
-
-RIBEIRO (_continuando_).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma
-escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu
-pucho; elle rasga-se»...
-
-D. RITA.—Mas isto é até indecente...
-
-FONSECA.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...
-
-D. RITA (_rindo-se_).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de
-reis!...
-
-RIBEIRO (_pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si_).—Não
-o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse
-estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não;
-mas quanto á alma posso exclamar como Nero (_batem palmas na porta do
-fundo.—Ribeiro muda de tom e alto_).—Quem é?... É sempre assim! Estava
-com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (_Novas
-palmas e fortes_) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre
-(_caminhando para a porta_) entre pelo amor de Deos!
-
-(_Alfredo Rocha entra_)
-
-
-SCENA III
-
-D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA.
-
-RIBEIRO (_olha admirado para Rocha que mostra-se espantado_).—Com a
-bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de
-visitas?... Porque não entrava?...
-
-ROCHA (_cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento_).—Sr.
-Fonseca... minha tia...
-
-D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...
-
-ROCHA (_com sentimentalismo como que comprimido a custo_).—Oh! essas
-palmas tem uma significação... sim, ellas têm...
-
-RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio
-de uma comparação (_voltando-se para Fonseca_) Que dizia eu, compadre?...
-
-FONSECA.—Você dizia... espere...
-
-RIBEIRO (_instando_).—Procure... procure...
-
-FONSECA (_deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no
-chão alguma cousa_).—Nada acho...
-
-RIBEIRO (_com um dedo na testa_).—Eu comparava-me... Qual!... Está
-perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas!
-
-FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu
-sobrinho... Este, sim, é poeta!...
-
-D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos...
-
-ROCHA (_com alguma enfatuação_).—Oh! isto é bondade!...
-
-RIBEIRO (_com tom dogmatico_).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle
-seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas...
-aquella...
-
-FONSECA (_interrompendo-o_).—Tambem foi acolhido com estrondo
-(_voltando-se para Rocha_) O senhor deve ter ganho muito, não é?
-
-ROCHA (_ironico e superior_).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha
-quem compre livros... As letras vegetão...
-
-RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever
-comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda,
-como para não dever favores...
-
-FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia...
-
-RIBEIRO (_com enfatuação_).—Fui ao livreiro e paguei logo tres
-mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito
-entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu
-dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria
-talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual
-faz como póde e entende... Entretanto...
-
-D. RITA (_interrompendo_).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá
-vêr porque não apparece Isabel... (_voltando-se para Fonseca_).—O senhor
-janta comnosco...
-
-FONSECA.—Já que é ordem...
-
-D. RITA (_para Rocha_).—De certo você tambem...
-
-ROCHA.—Com muito gosto...
-
-D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos
-a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de
-Petropolis... (_para Rocha_). Quer vir, Alfredo?
-
-ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido...
-
-D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.
-
-(_D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da
-esquerda_).
-
-
-SCENA IV
-
-RIBEIRO E ROCHA.
-
-RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer
-_toilette_ antes de ir para a mesa do jantar.
-
-ROCHA (_um pouco sombrio_).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!...
-
-RIBEIRO.—Cousa urgente?...
-
-ROCHA.—Urgentissima!
-
-RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje
-com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?
-
-ROCHA.—Gravissima...
-
-RIBEIRO.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos...
-
-(_Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado_).
-
-RIBEIRO.—Comece pois...
-
-ROCHA (_meio acanhado_).—Meu tio... convem recorrer... á sua
-benevolencia... antes de encetar esta conversa...
-
-RIBEIRO (_olhando para Rocha com alguma admiração_).—Você está
-perturbado... Que tem?
-
-ROCHA (_no mesmo tom_).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão
-grande... tão grande...
-
-RIBEIRO (_irresoluto_).—Di...nheiro?
-
-ROCHA (_com movimento energico de denegação_).—Não, Snr.!
-
-RIBEIRO (_mais expansivo_).—Então que é?
-
-ROCHA (_hesitando_).—É...
-
-RIBEIRO (_com curiosidade e chegando a cadeira_).—É?...
-
-ROCHA (_tomando subita resolução e ás pressas_).—É a mão de sua filha
-Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro,
-idolatro em segredo, dia e noute, a quem...
-
-RIBEIRO (_affastando um pouco a cadeira e tossindo_).—Hum! hum!
-
-ROCHA (_com anciedade_).—Então?... que diz?
-
-RIBEIRO (_encolhendo de vagar os hombros_).—Homem, eu não digo nada.
-
-ROCHA (_apressadamente_).—Então consente?... Oh! meu Deus!
-
-RIBEIRO.—Eu não disse isso...
-
-ROCHA (_abatido_).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...
-
-RIBEIRO.—Tambem não disse isso...
-
-ROCHA.—Então que foi que disse?...
-
-RIBEIRO.—Nada! (_tomando attitude de quem vai orar_) Alfredo, conversemos
-um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração
-devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e
-conceituado...
-
-ROCHA (_interrompendo-o_).—Mas...
-
-RIBEIRO (_gravemente_).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe
-dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a
-gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é?
-
-ROCHA.—É verdade... aspiro...
-
-RIBEIRO (_com gesto de imposição_).—Pois faz uma furiosa asneira...
-
-ROCHA (_levantando-se admirado_).—Como assim?...
-
-RIBEIRO (_levantando-se tambem_).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você
-(_pausado e com voz muito grave_) não deve casar! A sua vocação não lhe
-permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que
-quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao
-lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada,
-descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que
-resista a causas tão deleterias?...
-
-ROCHA.—Meu tio...
-
-RIBEIRO (_com volubilidade_).—Não me interrompa... Sei que hei de levar
-a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas
-do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de
-vezes nada!...
-
-ROCHA (_enfiado_).—O senhor quer caçoar...
-
-RIBEIRO (_enthusiasmando-se_).—Não consinto que me interrompa... Que fôra
-de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem
-prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que
-cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio,
-á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!...
-Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão
-só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões
-inextinguiveis!...
-
-ROCHA.—Mas... eu amo...
-
-RIBEIRO (_levantando a voz_).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos.
-Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi
-resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos
-arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é
-poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida;
-as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá
-talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer
-atroz!...
-
-ROCHA (_um tanto sombrio_).—Não posso crêr que o senhor queira se
-divertir á minha custa...
-
-RIBEIRO (_muito serio_).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade.
-Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem
-muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem
-produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente
-porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos,
-cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo
-sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?!
-Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de
-anormal... direi quasi de infernal!...
-
-ROCHA.—Ora, meu tio...
-
-RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego,
-bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (_Mudando repentinamente
-de tom_) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples
-hypothese... (_Voltando ao primeiro tom_) frequente a taverna, desça á
-mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra,
-seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá
-transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida
-que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome
-que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e,
-no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia
-desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ...
-eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!...
-
-ROCHA.—Não posso ouvil-o...
-
-RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um
-chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os
-dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio
-para a sua alma! E por cima quer casar?...
-
-ROCHA.—Mas sua filha?...
-
-RIBEIRO.—Minha filha? (_Com simplicidade_) Que tem? Você a accusará
-perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema,
-hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de
-exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas
-casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado
-nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você
-tambem se perca?
-
-ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma...
-
-RIBEIRO.—Como assim?
-
-ROCHA.—Não vejo uma razão...
-
-RIBEIRO.—Uma razão?
-
-ROCHA.—Sim... um motivo plausivel...
-
-RIBEIRO (_pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça_).—Pois
-elle existe e muito, muitissimo valioso...
-
-ROCHA (_com anciedade_).—Qual é?
-
-RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada...
-
-ROCHA (_com explosão_).—Mas a quem?... A quem?
-
-(_Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira_).
-
-RIBEIRO (_approximando-se de Rocha; á meia voz_).—O noivo é o Faria.
-
-(_Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados_).
-
-ROCHA (_chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento_).—Meu
-Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para
-hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte.
-
-
-SCENA V
-
-ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA.
-
-RIBEIRO (_adiantando-se para Faria_).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem
-vindo (_aperta-lhe as mãos_).
-
-FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu
-particular amigo Alves de Siqueira.
-
-RIBEIRO (_apertando-lhe a mão_).—Conheço-o já de vista. Tenho muito
-prazer em vêl-o em minha casa.
-
-SIQUEIRA (_inclinando-se_).—A honra é para mim.
-
-RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é...
-
-SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é
-summamente lisongeira...
-
-(_Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente_).
-
-RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha?
-
-FARIA (_com frieza e alguma sobranceria_).—Ainda não senhor; de nome...
-vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho...
-
-RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias...
-
-ROCHA. (_com ironia_).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos...
-
-RIBEIRO (_para Siqueira_).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu
-sobrinho (_Os dous cumprimentão-se seccamente_).—A proposito já sei que
-os senhores dous jantão commigo...
-
-SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade...
-Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio
-importante...
-
-RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo...
-Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (_com intenção_)
-principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma
-lauta refeição....
-
-SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me...
-
-RIBEIRO (_com expansão_).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua
-resignação!... Com um peixe! (_Dando um muchôcho_) Que peixe!... O primor
-dos mares!...
-
-FARIA (_com ar grave_).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio
-a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer
-demóra...
-
-RIBEIRO (_pressuroso_).—N’este caso, ouvil-o hei já e já...
-
-ROCHA.—Então eu me retiro...
-
-RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima...
-
-FARIA (_com vivacidade_).—Este senhor é primo de D. Isabel?
-
-(_Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia_.)
-
-RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...
-
-(_Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e
-volta logo para trocar novos olhares_.)
-
-
-SCENA VI
-
-RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA.
-
-RIBEIRO.—Sentemo-nos...
-
-(_Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres,
-depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia._)
-
-SIQUEIRA (_como que annunciando_).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar...
-
-FARIA (_após breve pausa_).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito
-de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai
-entender com o meu futuro (_parondo um pouco_). Meu tio sem duvida já lhe
-ha de ter vindo fallar...
-
-RIBEIRO.—Pois não... e...
-
-FARIA (_apressadamente_).—Devo contar com a sua benevolencia?
-
-RIBEIRO (_com ar fino_).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo
-isto... muito feliz!
-
-FARIA (_com fingida effusão_).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A
-minha estrella...
-
-SIQUEIRA (_interrompendo_).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em
-pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado...
-
-RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta
-circumspecção...
-
-FARIA (_com ar modesto_).—Oh! Sr. commendador!...
-
-RIBEIRO.—Tão bom senso...
-
-FARIA.—Sr. commendador!...
-
-RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima
-muito...
-
-FARIA.—E ella?... sua filha?...
-
-RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe
-fallei... mas é natural... nada mais natural...
-
-FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe
-inspiro, acho-me capaz de tudo. (_Com tom frio_) Liquidado este primeiro
-negocio (_emendando com rapidez a phrase_), decidido este primeiro
-assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo
-Siqueira á sua presença...
-
-SIQUEIRA (_tomando a palavra, com volubilidade_).—É cousa infallivel, Sr.
-commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista;
-Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a
-ambos deve merecer credito... não é?
-
-FARIA E RIBEIRO (_inclinando-se_).—De certo!...
-
-SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V.
-Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará
-uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres
-presentes, quarenta por cento...
-
-RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?...
-
-FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta
-contos e...
-
-RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande...
-
-FARIA.—Setenta contos?...
-
-RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!...
-
-FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança...
-digo até, certeza!...
-
-RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata?
-
-SIQUEIRA.—Trata-se do algodão...
-
-RIBEIRO.—Do algodão?...
-
-SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa
-consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café
-subio...
-
-RIBEIRO.—Sei perfeitamente...
-
-SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão...
-
-RIBEIRO.—Sei d’isto.
-
-SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por
-um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta
-contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que
-é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos _pences_, tem se
-feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me
-offerecem é de qualidade superior...
-
-RIBEIRO (_duvidoso_).—Era bom... reflectir... Assim...
-
-SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se...
-E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que
-entro, esses, sim, representão arrojo e segurança...
-
-RIBEIRO (_com enfatuação_).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim,
-não é meia pataca...
-
-SIQUEIRA (_com voz insinuante_).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo
-expeço o telegramma de compra...
-
-RIBEIRO (_voltando-se para Faria_).—Que diz, Sr. Faria?...
-
-FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente...
-Senão, reflexionemos um pouco...
-
-RIBEIRO (_approximando a sua cadeira da de Faria_).—Sim... sim,
-reflexionemos um pouco...
-
-FARIA.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para
-estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar
-á origem...
-
-RIBEIRO (_abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira_).—De certo...
-subamos á origem...
-
-FARIA (_com tom oratorio_).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem
-no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas...
-
-SIQUEIRA.—Diversas... não ha duvida.
-
-FARIA.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual
-é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França
-exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte,
-mas a luta armada impossivel por muitos annos. N’estas circumstancias o
-café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas
-pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi
-escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario
-ha muito café... e depreciado...
-
-RIBEIRO (_approximando mais a sua cadeira_).—Estou o seguindo com
-anciedade...
-
-FARIA (_batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a
-entrada em scena_).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural...
-Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da
-população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está
-sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo
-esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde
-ficou firme...
-
-RIBEIRO.—Perfeitamente.
-
-FARIA.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o
-seu ponto de equilibrio...
-
-RIBEIRO.—De certo, de equilibrio (_mechendo com os braços, imitando uma
-balança_) Isto é uma balança: o fiel marca sete...
-
-FARIA.—A sua comparação é justissima.
-
-RIBEIRO. (_com vivacidade_).—Então gostou?
-
-FARIA.—N’uma concha está o café, na outra...
-
-RIBEIRO (_com rapidez_).—O assucar...
-
-FARIA.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos
-de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da
-betteraba e até de couros velhos...
-
-RIBEIRO.—É verdade: equivoquei-me...
-
-FARIA.—O café desce: sóbe o algodão...
-
-SIQUEIRA (_intervindo_).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos
-contar com os seus setenta?
-
-RIBEIRO (_hesitando_).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o
-Lemos...
-
-SIQUEIRA.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d’isso é
-irresoluto o tal Sr. Lemos...
-
-RIBEIRO.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos
-que vê uma operação em globo...
-
-SIQUEIRA (_apressadamente_).—Como esta, Sr. Commendador, como esta...
-
-RIBEIRO (_vacillante_).—Não direi tanto...
-
-FARIA.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma...
-
-RIBEIRO (_decidindo-se de repente e levantando-se_).—Pois vá lá: o
-Lemos era incapaz. (_Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta
-com mostras de muito respeito_). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o
-negocio!... Escreva para Santos...
-
-SIQUEIRA (_dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de
-papel e escreve a lapis_).—É já e já... Ouça, Exm.: «Todo o algodão para
-Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!
-
-RIBEIRO.—Toque a campa.
-
-(_Siqueira bate n’um tympano_.)
-
-FARIA.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (_com fingida
-commoção_) que fará a minha eterna felicidade.
-
-SIQUEIRA (_para Faria_).—Então vem todo o algodão?
-
-FARIA.—Todo. Se mais houver, que mandem! (_Mudando de tom e voltando-se
-para Ribeiro_).—Sim, a minha felicidade...
-
-SIQUEIRA (_atalhando_).—E se o telegrapho estiver interrompido?
-
-FARIA (_mudando de tom_).—Está trabalhando... Ha pouco passei um
-telegramma. (_Voltando-se para Ribeiro_) Na verdade o amor que sinto por
-sua filha...
-
-(_Entra um criado_.)
-
-FARIA (_dirigindo-se para o criado e com tom imperativo_).—Entregue de
-minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador...
-
-(_O criado sahe_.)
-
-RIBEIRO.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de
-permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa
-antes de apparecer á mesa. (_Para Siqueira_) Como estava decidido, o
-senhor fica comnosco...
-
-SIQUEIRA.—Com summo gosto...
-
-RIBEIRO.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de
-algodão (_rindo-se_). Não gostárão?
-
-SIQUEIRA (_admirado_).—De que?
-
-RIBEIRO.—Do meu dito...
-
-SIQUEIRA (_rapidamente_).—Oh! muito... esteve excellente.
-
-RIBEIRO.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada
-forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é
-commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de
-volta.
-
-(_Ribeiro sahe pela porta da esquerda_.)
-
-
-SCENA VII
-
-SIQUEIRA E FARIA.
-
-(_Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e
-põe-se a folhear um album de retratos._)
-
-SIQUEIRA.—Emfim, está feito o negocio!
-
-FARIA (_soltando uma fumaça e com indifferença_).—Está, sim.
-
-SIQUEIRA (_parando defronte de Faria_).—Mas agora, muito seriamente, digo
-a você uma cousa...
-
-FARIA.—Que é que diz?
-
-SIQUEIRA.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os
-setenta contos d’este homem...
-
-FARIA.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta...
-
-SIQUEIRA.—Ora... mas...
-
-FARIA.—Deixe-se de mas... O negocio é bom.
-
-SIQUEIRA (_com anciedade_).—Você acha?
-
-FARIA (_indifferente_).—Acho...
-
-SIQUEIRA.—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...
-
-FARIA.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro
-sogro?
-
-SIQUEIRA.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de
-New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque
-soffrivel...
-
-FARIA.—É possivel...
-
-SIQUEIRA.—E então?
-
-FARIA.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio
-prevê... O mais é anomalia. (_Batendo n’uma folha do album_) Eis-aqui um
-facto. Estão n’este album dous retratos... um defronte do outro, como que
-a se namorarem...
-
-SIQUEIRA (_distrahido_).—De quem são?
-
-FARIA.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é
-possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o
-outro?
-
-SIQUEIRA.—Com effeito...
-
-FARIA.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella
-não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre
-de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas
-casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra...
-
-SIQUEIRA.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco
-a cabeça. Esta compra de algodão...
-
-FARIA.—Ora, deixe-se d’isso. (_Com desprezo_) Trinta contos!
-
-SIQUEIRA.—Sinceramente...
-
-FARIA.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das
-probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?...
-
-SIQUEIRA.—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.
-
-FARIA (_fechando o album com força e levantando-se_).—Pois eu... sou
-homem para a lucta... e...
-
-(_Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira_.)
-
-SIQUEIRA.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso...
-
-FARIA.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos
-feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o
-algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de
-Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei.
-
-SIQUEIRA.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...
-
-FARIA.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada
-mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural
-para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu
-amigo, tudo n’este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas
-quatro operações da arithmetica...
-
-SIQUEIRA.—Eu sempre conservo o meu medo...
-
-FARIA.—Você quer me ceder a sua parte?...
-
-SIQUEIRA (_apressadamente_).—Não, não! Afianço-lhe que estou
-perfeitamente tranquillo...
-
-FARIA.—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto mais que ahi vem gente.
-
-(_Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca_.)
-
-
-SCENA VIII
-
-SIQUEIRA, FARIA E RIBEIRO.
-
-RIBEIRO (_puchando os punhos da camisa_).—Estou prompto, promptinho...
-Creio que não me fiz esperar demais...
-
-FARIA.—Não, de certo.
-
-RIBEIRO.—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr.
-Siqueira verá que peixe!...
-
-SIQUEIRA.—V. Ex., porém, me disse que...
-
-RIBEIRO.—Minha excellencia não attinge á d’elle... Não ha môlho que me
-sirva. (_rindo-se_) Não gostou?
-
-SIQUEIRA.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe...
-
-RIBEIRO.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre
-Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está
-tardando. (_Ouve-se barulho fóra_). Estão subindo a escada: sem duvida é
-elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!
-
-
-SCENA IX
-
-SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO E LEMOS.
-
-LEMOS (_entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se
-n’uma cadeira_).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção!
-
-RIBEIRO.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar...
-
-LEMOS (_levantando-se precipitadamente_).—Bem se trata de jantar!... Não
-quero jantar... hoje ninguem deve jantar...
-
-RIBEIRO (_inquieto_).—Mas que ha? Você me assusta...
-
-LEMOS (_passeiando agitado_).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida
-forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d’aqui a pouco podemos,
-com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o
-que ha!
-
-RIBEIRO.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos
-prejuizo certo...
-
-FARIA.—É cousa infallivel!
-
-LEMOS (_reanimando-se_).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem
-doudo...
-
-SIQUEIRA.—Eu me abstinha...
-
-RIBEIRO.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos...
-
-FARIA.—Querem se apressar...
-
-LEMOS.—Talvez tenhão razão (_com acabrunhamento_). Aquellas saccas de
-café me esmagão. (_Reanimando-se_) Mas ao menos esperemos pelo vapor de
-New-York...
-
-FARIA.—Não ha que esperar...
-
-SIQUEIRA.—E para que esperar?
-
-RIBEIRO.—Esperar o que?
-
-LEMOS (_muito abatido_).—É verdade... é verdade...
-
-RIBEIRO (_com seccura e concertando a garganta_).—De modo que o Sr.
-Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e...
-
-LEMOS (_deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo_).—Tem razão...
-tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande...
-
-RIBEIRO (_com muita importancia_).—Isto não é o que mais me aborrece...
-É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o
-senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação
-grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em
-Santos consideravel...
-
-FARIA (_intervindo_).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira,
-acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao
-mercado.
-
-(_Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria._)
-
-
-SCENA X
-
-SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E FONSECA.
-
-FONSECA.—Impôr preço ao mercado? De que modo?
-
-FARIA.—Eu lhe explico.
-
-(_Vai para Fonseca e falla-lhe baixo._)
-
-LEMOS (_levantando os olhos para Ribeiro, abatido._)—Você salvou-nos, Sr.
-compadre...
-
-RIBEIRO.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o
-palpite...
-
-FONSECA (_alto_).—O negocio é excellente.
-
-SIQUEIRA.—Optimo... mas devéras, estou com medo...
-
-FONSECA.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca...
-
-SIQUEIRA (_irresoluto_).—Não... não quero... entretanto?
-
-FONSECA (_com superioridade_).—Então ceda-me tudo!
-
-SIQUEIRA.—Tudo?
-
-FONSECA.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?
-
-RIBEIRO.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo.
-
-FONSECA.—Então aceita?
-
-FARIA.—Você está com receios... você o da idéa... aceite...
-
-SIQUEIRA (_resolvendo-se_).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas
-palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança...
-
-FONSECA.—Quer que lhe dê uma clareza?
-
-SIQUEIRA.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.
-
-
-SCENA XI
-
-OS MESMOS, UM CRIADO.
-
-O CRIADO.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador.
-
-RIBEIRO (_apressadamente_).—Dê-m’a. (_Lê_) Meus senhores, o vapor
-americano está entrando. Falla-se em alta no algodão...
-
-SIQUEIRA (_com dôr_).—Oh! Faria!... Meu algodão...
-
-FONSECA (_com voz de triumpho_).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro
-sobre a venda!
-
-SIQUEIRA.—O senhor me mata!
-
-RIBEIRO (_para Lemos_).—Compadre, tem algodão que vender?
-
-LEMOS (_sempre sentado; lugubre_).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo
-todo. Arrebentarei!
-
-(_Ouve-se uma voz fóra gritar_: Meu pai! Meu pai! _barulho na escada_).
-
-RIBEIRO.—Que é isto?
-
-
-SCENA XII
-
-SIQUEIRA, FONSECA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.
-
-ALBERTO LEMOS (_vem offegante e mal póde fallar_). Meu pai... o vapor
-americano... alta no café... algodão desceo!
-
-LEMOS (_dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira_).—Café?!... Café?...
-
-ALBERTO.—Pede-se de toda a America do Norte.
-
-TODOS.—Impossivel!
-
-ALBERTO.—Leião! (_Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por
-todos com grande sofreguidão._)
-
-RIBEIRO.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão!
-
-LEMOS (_com voz de triumpho_).—Eu logo vi!
-
-FONSECA (_deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos_).—Em que
-tremedal me metti! Infame algodão!
-
-SIQUEIRA (_chegando-se para Fonseca_).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou
-certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim.
-
-(_Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente._)
-
-
-SCENA XIII
-
-FARIA, FONSECA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO.
-
-FONSECA (_levantando-se_).—Não! isto é horrivel!... D’esta feita... (_Com
-explosão_) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!...
-Anda, Faria! (_Sacode com força Faria, que parece estar meditando_). Diga
-alguma cousa... Você sempre tem idéas...
-
-FARIA (_meio abatido_).—Estou pensando...
-
-FONSECA (_irado_).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos
-factos... factos...
-
-RIBEIRO (_muito sêcco para Faria_).—É facto que o senhor, com suas
-historias... encalacrou-me (_Com gestos da scena anterior_). Equilibrio,
-alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em
-Santos o meu dinheiro (_Pesando nas palavras_) está ardendo... e...
-
-LEMOS (_interrompendo-o_).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá
-compensão tudo...
-
-RIBEIRO (_com altivez_).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente
-que calculos...
-
-FARIA (_como que acordando do lethargo_).—Um telegramma para Santos... um
-telegramma!
-
-FONSECA.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa!
-
-ALBERTO (_que tem estado a olhar para o interior da casa_).—É inutil:
-ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia
-certa...
-
-FONSECA.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...
-
-RIBEIRO.—Mais calma, meu amigo! Mais calma!
-
-FONSECA (_desabrido_).—Vá á breca com os seus conselhos (_Agarrando na
-cabeça com desespero_). Minhas perdas! (_De repente_) Ah! uma idéa.
-Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (_Para Faria,
-imperioso_) Você vai partir d’aqui a meia hora...
-
-FARIA.—Para onde?
-
-FONSECA.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo
-de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em
-Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d’aqui
-a dias...
-
-FARIA.—É uma idéa, mas...
-
-FONSECA.—Mas o que?
-
-FARIA.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...
-
-FONSECA.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar...
-Dous dias, ou pouco mais...
-
-RIBEIRO (_com a mão mettida dentro do bolso do collete_).—Perdôe-me: isto
-não. (_Com sorriso um pouco altivo_) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de
-tudo... (_Accentuando_) de tudo, os negocios...
-
-FONSECA.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (_Baixo_). Eu arranjo tudo; o
-casamento e o mais. (_Alto_) Vamos.
-
-FARIA (_um pouco acanhado_).—Então o Sr. commendador... consente?
-
-RIBEIRO.—Pois não... com muito gosto... por minha parte...
-
-FONSECA (_com alegria forçada_).—Ah! muito bem! depressa agora... A
-Santos! A Santos! (_Procura empurrar Faria_) livra-nos d’essa...
-
-FARIA (_com alguma resistencia_).—Deixe-me ao menos despedir-me...
-(_Estendendo a mão a Ribeiro_) Dê-me então suas ordens...
-
-RIBEIRO (_com frieza_).—Seja feliz... e avisado...
-
-FONSECA.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?
-
-LEMOS.—De certo...
-
-RIBEIRO (_sempre sêcco_).—É medida de segurança.
-
-
-SCENA XIV
-
-ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO, FONSECA E ROCHA.
-
-ROCHA (_ao entrar esbarra quasi com Faria_).—Oh! senhor!...
-
-FONSECA.—Adeos... adeos, vamos de sahida...
-
-ROCHA.—Boa viagem!
-
-(_Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas._)
-
-FARIA.—Oh! eu...
-
-FONSECA.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...
-
-(_Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca._)
-
-
-SCENA XV
-
-ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO E ROCHA.
-
-(_Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da
-casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com
-os braços cruzados sobre o peito._)
-
-ROCHA (_ironico e sombrio_).—Então o Sr. Faria se retira?
-
-RIBEIRO.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...
-
-ROCHA.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro?
-
-ALBERTO (_assustado_).—Hen?
-
-RIBEIRO.—Ora, Alfredo...
-
-ROCHA.—Consulte a sua consciencia, meu tio (_melodramaticamente_), e
-decida se elle é digno da noiva que lhe reservão...
-
-ALBERTO (_assustado sempre_).—Noiva?
-
-ROCHA (_continuando_).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer
-a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do
-mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de
-réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo
-a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel...
-
-ALBERTO.—Mas quem é essa?
-
-ROCHA (_arrebatado_).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim
-capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é
-emfim...
-
-RIBEIRO.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é
-noiva...
-
-ROCHA.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr...
-
-RIBEIRO (_meio zangado_).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na
-realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se
-pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo...
-(_Animando-se a pouco e pouco._) E com mil bombas! este procedimento
-desagrada-me solemnemente...
-
-LEMOS (_com a mão no queixo_).—E com toda a razão.
-
-RIBEIRO (_exaltado_).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N’um
-dia em que convido para jantar não pode haver motivos...
-
-ROCHA.—Justamente, justamente...
-
-RIBEIRO.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar
-assim... Desfaço tudo...
-
-ROCHA (_continuando no mesmo tom_).—Por uma questão pequenina de
-dinheiro! (_Com muito desprezo_) Oh! indigno metal! tão negro como as
-entranhas da terra em que vives!
-
-RIBEIRO.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei
-de dar a minha filha...
-
-ALBERTO (_intervindo_).—Por certo... É um coração secco...
-
-ROCHA.—Um ganhador...
-
-RIBEIRO.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que
-perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia
-pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.
-
-ROCHA. (_com exaltação_).—Oh! meu pai (_Aperta as mãos de Ribeiro._)
-
-ALBERTO (_admirado_).—Mas que é isto?
-
-ROCHA (_com affectação_).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se
-(_Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara._)
-
-RIBEIRO (_meio triste_).—A final os poetas tem sempre razão...
-
-
-SCENA XVI
-
-LEMOS, ALBERTO, ROCHA, RIBEIRO E D. RITA.
-
-D. RITA (_entrando pela porta da direita_).—Então, meus senhores, quando
-quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o
-compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?
-
-RIBEIRO.—Aqui estiveram ambos e partiram...
-
-D. RITA.—Mas voltam já...
-
-RIBEIRO (_seccamente_).—Não voltão tão cedo... partiram...
-
-D. RITA.—Para onde?...
-
-RIBEIRO.—Para Santos...
-
-D. RITA.—N’um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que
-houve?
-
-RIBEIRO.—Um negocio de algodão...
-
-D. RITA.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar...
-
-RIBEIRO (_com explosão_).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe
-digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha
-não casará nunca com o tal Faria. (_Com tom lugubre_) É excusado pedir
-ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com
-ninguem...
-
-D. RITA (_admirada_).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma.
-
-RIBEIRO.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui
-(_com resolução_) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do
-que o gallo... É excusado, senhora...
-
-D. RITA (_picada_).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo
-Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos...
-
-ROCHA (_adiantando-se_).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo...
-O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus
-conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora
-acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma
-pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente
-uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus
-prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje
-aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha
-sido quasi dada...
-
-RIBEIRO (_tossindo e cortando a palavra a Rocha_).—Isto é, o tio, o
-animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu...
-
-ROCHA.—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito procedimento e...
-
-D. RITA.—De certo, fez muito bem...
-
-ROCHA.—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...
-
-D. RITA.—Eu faria o mesmo...
-
-ROCHA.—E deo o dito por não dito...
-
-RIBEIRO (_com resolução_).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não
-dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer...
-
-LEMOS.—Perfeitamente, compadre...
-
-ALBERTO.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...
-
-LEMOS.—Extraordinario...
-
-ROCHA.—Inexplicavel...
-
-RIBEIRO (_com ar de dignidade offendida_).—Digão antes de tudo offensivo;
-mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?
-
-LEMOS.—Optimamente...
-
-D. RITA.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me
-ouvir...
-
-RIBEIRO.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um
-prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus
-setenta...
-
-(_Isabel apparece na porta da direita._)
-
-
-SCENA XVII
-
-LEMOS, ALBERTO, ROCHA, FARIA, D. RITA E ISABEL.
-
-ISABEL.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...
-
-ALBERTO (_adiantando-se para Isabel_).—Minha senhora... eu...
-
-ISABEL (_com acanhamento_).—Meu senhor...
-
-ROCHA (_precipitando-se_).—Oh! minha prima!...
-
-ISABEL (_adiantando-se_).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido.
-
-ROCHA.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito...
-
-RIBEIRO.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!...
-
-D. RITA.—Eu já estou commovida...
-
-RIBEIRO.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.
-
-ROCHA.—Que dia este!
-
-ALBERTO (_com sorpreza e dôr_).—Que é isto?
-
-ISABEL (_muito admirada_).—Eu, casar-me?
-
-RIBEIRO.—Sim... faço-lhe a vontade...
-
-ROCHA (_muito apressado_).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a
-adoro, a idolatro...
-
-RIBEIRO.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos
-vencem.
-
-ISABEL (_com constrangimento_).—Devéras eu... estimo muito o meu primo...
-admiro o seu talento... mas...
-
-ALBERTO (_chegando-se e em tom de supplica_).—Falle, D. Isabel... estou
-soffrendo como um desgraçado.
-
-RIBEIRO (_admirado_).—Então que é isto? Você diz que...
-
-ISABEL.—Eu... não amo a meu primo...
-
-TODOS.—Oh!
-
-(_Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o
-beiço, como pessoa que labora em grande duvida._)
-
-RIBEIRO.—Essa não está má! (_Para Isabel_) Então você de quem gosta?
-
-ISABEL (_enrubecendo_).—De ninguem, papae...
-
-ALBERTO (_com tom de supplica_).—D. Isabel...
-
-ROCHA (_implorando_).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime
-estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe
-ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia
-indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel,
-implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel...
-
-(_Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para
-que se adiante._)
-
-LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...
-
-RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...
-
-LEMOS (_apressadamente_).—É para meu filho... meu filho Alberto...
-
-D. RITA (_graciosa_).—É uma cousa muito possivel.
-
-RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...
-
-ISABEL (_intervindo com animação_).—Papae, eu não disse isto...
-
-RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto?
-
-ALBERTO (_sofrego_).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...
-
-ISABEL (_confusa_).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...
-
-RIBEIRO (_risonho_).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (_Para D. Rita_)
-E a senhora não me dizia nada!...
-
-D. RITA.—Eu de nada sabia...
-
-RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos
-o meu pleno consentimento.
-
-D. RITA.—Eu com a maior satisfação...
-
-ROCHA (_adiantando-se com ar sombrio e theatral_).—E eu? Que fazem de
-mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte
-no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?
-
-RIBEIRO (_puchando-o pela sobrecasaca_).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e
-vem comer o nosso peixe.
-
-ROCHA (_encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama_).—Não
-quero comer o seu peixe! (_Sahe arrebatadamente._)
-
-
-SCENA XVIII
-
-LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL.
-
-RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (_levantando os hombros_). Hão de vocês
-vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de
-contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...
-
-LEMOS.—Agrada-lhe menos...
-
-RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco
-o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas...
-Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos
-do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa
-e depressa... porque, como diz o proverbio: «_Da mão á boca se perde a
-sôpa._»
-
-(_Cahe o panno._)
-
-
-FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.
-
-
-
-
-CAMIRAN A KINIKINAO
-
-EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO
-
-
-CAMIRAN A KINIKINAO
-
-Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a
-morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.
-
-Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela
-consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a
-vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo
-inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que
-irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria
-nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que
-sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia
-á existencia de seu adorado filho.
-
-Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de
-resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia
-contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira,
-se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás
-caricias de branda aragem.
-
-Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a
-recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua
-choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára,
-mas dado de coração.
-
-N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa
-em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então
-assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos
-mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do
-inimigo.
-
-Tambem quem deixára de soffrer!
-
-A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da
-republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.
-
-O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem
-opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si
-toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.
-
-Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de
-cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia
-do tenente Antonio João na colonia de Dourados.
-
-Valente homem aquelle tenente!
-
-Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo
-como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e
-o patriotismo que lhe inflammavão o peito.
-
-Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha
-diante e ao redor de si a immensidade do deserto.
-
-Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente,
-não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma
-falla em que citou francez e até latim.
-
-O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se
-revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de
-Nioac.
-
-N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia
-e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o
-abandonarem.
-
-Elle ficaria.
-
-—Para que? perguntárão uns soldados.
-
-—Para morrer!
-
-Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.
-
-Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.
-
-Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira
-do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á
-intimação do invasor.
-
-No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar
-a redondeza, voltou a galope.
-
-A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.
-
-Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela
-palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas
-ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.
-
-Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião
-tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo
-maculavão a verdejante relva.
-
-—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.
-
-—Todos, respondêrão os onze.
-
-—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.
-
-—Ninguem! repetirão os onze.
-
-Era Leonidas no meio dos lacedemonios.
-
-De repente soou o clarim paraguayo.
-
-Um parlamentario se approximava.
-
-A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana
-de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre
-fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando
-elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial
-como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em
-corôa de gloria.
-
-Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior
-cortezia o enviado.
-
-A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como
-costumavão alinhar os generaes de Lopez.
-
-O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com
-tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:
-
-«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de
-protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.»
-
-E assignou com mão firme:
-
- «Antonio João da Silva.»
-
-Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois
-dissesse o mesmo.
-
-Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo
-o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os
-olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.
-
-Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava
-aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.
-
-—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.
-
-Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas,
-ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa
-repercussão.
-
-O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.
-
-—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.
-
-Raros obedecêrão á ordem.
-
-D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com
-ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas
-dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido.
-
-Parecia enrubescer de orgulho.
-
-Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.
-
-—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a
-nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como
-nos contárão.
-
-Outra vez repetirão isto.
-
-Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda
-seis legoas.
-
-Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel
-Barboza.
-
-Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de
-corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as
-vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.
-
-Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava
-transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante
-do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta
-soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do
-inimigo.
-
-Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar
-grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos,
-podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia
-mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.
-
-Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava
-terras brazileiras.
-
-Não caminhou muito.
-
-A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela
-mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.
-
-Era no dia 31 do Dezembro de 1864.
-
-Muita gente pensou que não veria o anno novo.
-
-No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou
-alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.
-
-Trocarão-se amabilidades antes das balas.
-
-Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.
-
-O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que
-sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de
-indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar
-os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu
-arrojo.
-
-Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que
-poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de
-caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda
-debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os
-habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou
-rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que
-mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão
-estrangeira.
-
-Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de
-combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha
-cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.
-
-Ah! se fôra Antonio João!
-
-Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava
-um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.
-
-A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia
-começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os
-paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria
-que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro
-José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e
-esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.
-
-Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho
-estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára
-mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o
-tronco.
-
-A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:
-
-—Os paraguayos estão passando o rio!
-
-Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.
-
-De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem
-direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.
-
-A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada
-qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando,
-tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral
-para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres
-de seus cavallos.
-
-Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de
-correr.
-
-De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.
-
-O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de
-modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe
-perguntou:
-
-—O seu cavallo _bombeou_?
-
-—Não póde mais comsigo...
-
-—Pois bem, então faça como eu; _fréche_ para aquelle capão que nós
-cahimos logo na mata do Nioac.
-
-—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...
-
-—Mas aqui é morte certa!
-
-O outro fez um gesto de pouco caso.
-
-—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.
-
-E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a
-sua arma e parou immovel no meio da estrada.
-
-Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros,
-apressou ainda mais a carreira que trazia.
-
-Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma
-espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia
-atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar
-o primeiro brasileiro.
-
-Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.
-
-Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de
-agonia.
-
-Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a
-esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e
-depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.
-
-Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta
-de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:
-
-«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di
-guera.—Ennero, 1—1865» (_sic_).
-
-Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos
-restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de
-espada.
-
-Era o craneo de Gabriel Barbosa.
-
-No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda
-povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.
-
-Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação
-tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos
-desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores
-da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos,
-kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos
-e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas
-e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para
-correrem a se metter em emboscadas.
-
-Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão
-duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão
-qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz
-de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem
-esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas
-e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz
-do seu affluente, o Aquidauána.
-
-No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações
-dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das
-discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem
-geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no
-sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e
-deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em
-peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.
-
-Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns
-seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a
-pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e
-em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.
-
-Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim
-que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que
-completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo,
-havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente
-armamento e cartuxame.
-
-O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de
-toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter
-para a republica.
-
-—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu
-territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.
-
-Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que
-declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a
-pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar
-de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena
-de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.
-
-Naturalmente ninguem se apresentou.
-
-Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no
-lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de
-privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas
-intrigas.
-
-Tudo era motivo para recriminações e queixumes.
-
-Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e
-querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão
-necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma
-vez vio-se desrespeitado.
-
-O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para
-muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á
-parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos
-paraguayos.
-
-Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco
-e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a
-miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos,
-estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder
-do inimigo.
-
-Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao
-invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres
-principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir,
-acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco
-de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.
-
-Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a
-igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os
-seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.
-
-Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei
-Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia
-passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus
-extremos, de sua adoração!
-
-As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio
-incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição,
-nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.
-
-Elle voava para a sua matriz.
-
-Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro
-sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos
-ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as
-imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.
-
-Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e
-elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle
-templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.
-
-A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.
-
-—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles.
-
-—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja
-exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para
-clamar vingança aos céos.
-
-Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido
-para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida
-escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em
-que n’ella havião entrado.
-
-Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles
-inesperados successos?
-
-Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da
-invasão paraguaya.
-
-Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão
-estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e
-meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N.
-E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes
-todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto
-de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem
-chamado Rio-Branco.
-
-Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou
-as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com
-o invasor. O _castelhano_ era por todas considerado de longas éras como
-inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as
-desgraças dos _portuguezes_; outras se separárão d’elles; outras, emfim,
-começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.
-
-Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população
-fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude
-infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa,
-ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz
-Barbosa, no Bonito.
-
-Voltemos, porém, aos kinikináos.
-
-Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada
-pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.
-
-—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos,
-Flavio Botelho.
-
-—Fujão todos.
-
-—Para onde?
-
-—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.
-
-Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico
-merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se
-diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com
-grande orgulho, assignada por D. Pedro I.
-
-N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente
-e tratou de dormir.
-
-A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um
-chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo
-possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.
-
-Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.
-
-Era o filho de Camiran.
-
-Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de
-cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes
-acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando
-energia.
-
-Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade
-dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas
-relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno
-as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua
-aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas,
-e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses
-dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir
-o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e,
-apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão,
-obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas
-medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.
-
-Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado
-de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação
-de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma
-garrafa de aguardente no fim de cada mez.
-
-Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se
-apressou em saber da verdade.
-
-Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio
-declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.
-
-Não havia recalcitrar.
-
-Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do
-trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.
-
-Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não
-podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande
-applauso do frade.
-
-Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a
-500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do
-contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do
-indio que substituira.
-
-Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de
-esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para
-offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o
-coração.
-
-Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu
-prestigio augmentou de um modo extraordinario.
-
-—Os _portuguezes_, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi
-imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são
-velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá
-chicotadas sem ser visto.
-
-Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, orgulho immenso, mas
-occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos
-seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle,
-nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou
-tecer-lhe elogios!
-
-A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo,
-do mais profundo enthusiasmo.
-
-Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; se alguem tinha
-commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran.
-
-Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e
-feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com
-o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.
-
-Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para
-a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou
-miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia.
-
-Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual
-a delicada carne da _jáo_, da _aracuan_, _jacutinga_ e _inambú_; mas o
-preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões.
-
-Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os
-alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião
-para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma _julata_ e ia deitar-se na rêde
-de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro.
-
-Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em
-torpor.
-
-As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes
-de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os
-brancos punhão sempre n’essas relações.
-
-—Cuidado com os _portuguezes_, dizia elle para os seus quando consultado;
-são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas
-gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar.
-
-Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de
-queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da
-villa, tão arbitraria quão subalterna.
-
-—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador,
-que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão
-maltratados pelos _portuguezes_.
-
-Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os
-kinikináos do que qualquer outro.
-
-Se não reagia, pelo menos protestava sempre.
-
-Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e
-elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a
-consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia.
-
-Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi.
-Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser
-mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio
-Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána,
-d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú.
-
-A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas
-sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação.
-
-Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do
-_nadô_, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira
-de couro que applicão de encontro á testa.
-
-Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á
-frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer.
-
-A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios
-em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se
-arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e
-familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que
-caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão.
-
-Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa
-occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e
-assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral.
-
-—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado
-da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada,
-cercado da familia em pranto.
-
-—Para Miranda, respondeu o indio.
-
-—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão
-bem a pé e depois de amanhã estou _batendo_ na villa. Fico para esconder
-o meu trem no mato.
-
-O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a
-familia do mineiro, com ella entrou em Miranda.
-
-A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia.
-
-Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que
-toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso
-armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir
-armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem.
-
-No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso
-de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar
-para o poder dos paraguayos.
-
-Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús,
-cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora
-e bala durante todo o tempo da occupação do districto.
-
-Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do
-Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais
-ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa
-aquellas alturas.
-
-A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado
-muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie
-de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que
-communicassem logo uns com os outros.
-
-Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento,
-quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais
-do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra
-caça, essa mesma comprada a peso de ouro!...
-
-Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á
-terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar
-assim um futuro melhor.
-
-Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos
-cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros
-que conhecerão a abundancia de cereaes.
-
-Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados
-que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males.
-O grão que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira
-maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas
-umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além
-das mais exageradas esperanças.
-
-Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho,
-colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de
-quarenta alqueires!
-
-A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é
-verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por
-mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná
-do céo.
-
-Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida
-de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de
-bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que
-acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra
-que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado.
-
-Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome
-de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e
-pouco regularisou-se o modo de viver.
-
-Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de
-gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se
-introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero
-que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de
-cabeças de criação.
-
-Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações
-de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se
-afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio,
-lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a
-protecção das autoridades.
-
-Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão
-a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião
-vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso
-praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás
-vezes justificadas.
-
-Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para
-lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles
-quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú.
-
-O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro
-desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue
-aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os
-pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado,
-onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos.
-
-Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da
-serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas,
-tangendo-as assim para os acampamentos.
-
-Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos
-inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores
-dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma
-até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos
-salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso.
-
-Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de
-bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali
-sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com
-alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo
-sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes,
-quando n’isso via vantagem.
-
-Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma
-ronda paraguaya.
-
-Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá
-reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á
-resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava
-por denso matagal de taquarissima.
-
-Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com
-os outros esperou a ronda n’um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro
-derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais
-soldados.
-
-A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não
-só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava.
-
-Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá
-todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do
-inimigo.
-
-Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo e formal ataque
-dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se
-pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n’esse
-successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de
-felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a
-alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber
-nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo
-espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos.
-
-Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros
-mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de
-emboscadas e estratagemas.
-
-Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava
-muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús,
-que abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas
-pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome
-de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á
-republica sob o titulo de Mbotetiû.
-
-As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo
-encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que
-n’elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais
-importante durante todo o periodo de occupação.
-
-Foi em Maio de 1866.
-
-No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána,
-existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito
-inclinados ás substancias assucaradas.
-
-Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e,
-convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o
-seu trabalho.
-
-Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono
-de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por
-casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda
-inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto
-do Souza, d’ahi a 6 legoas.
-
-Vierão perto de duzentos homens.
-
-Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.
-
-Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse,
-mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se
-defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d’elles.
-
-Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.
-
-Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.
-
-Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro
-atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de
-fazerem fogo.
-
-Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie,
-assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma
-duzia d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só
-varar troncos e cortar galhada.
-
-Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por
-uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a
-retroceder.
-
-Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para
-exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e
-crescente enthusiasmo dos seus commandados.
-
-Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos
-e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o
-valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar
-victoria.
-
-Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e
-o atirára sem vida no chão.
-
-Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a
-noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que
-tão caro lhes havia custádo.
-
-Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se
-uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na
-altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que
-ainda conservavão.
-
-A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão gritos
-agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças.
-
-A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de
-uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do
-morto.
-
-Estava anniquilada.
-
-Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não
-podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver.
-
-É n’um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no
-principio d’esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o
-merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do
-quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do
-desconhecido Pacalalá.
-
-O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo
-adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as
-correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.
-
-Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se
-arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado.
-
-Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição,
-mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20].
-
-Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos
-horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel.
-
-Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes,
-mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o
-que significava aquillo.
-
-O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não
-fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá.
-
-Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho
-á terra.
-
-Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa.
-
-Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria
-Domingas.
-
-Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as
-arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que
-o seu coração era o unico e immenso echo.
-
-Cahio desfallecida....
-
-Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.
-
-Depois se ergueo a muito custo.
-
-Não levára alimento algum.
-
-Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro
-morto.
-
-Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem
-forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que
-lhe preparára.
-
-Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos
-como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se
-todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal
-fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas
-mãos convulsas chamavão a terra para junto de si.
-
-A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres
-d’aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo
-deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho,
-mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles recebião, ião-se
-fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza!
-
-
-FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.
-
-
-
-
-O VIGARIO DAS DORES
-
-
-O VIGARIO DAS DORES
-
-O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das
-Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da
-estima e da consideração de todos os seus freguezes.
-
-Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter
-entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe
-longas e sérias meditações.
-
-N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se
-chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e
-que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de
-uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação.
-
-—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo
-com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o
-pallôr do crespusculo.
-
-Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi
-sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e
-amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e
-expressivo e testa larga abrindo em calva.
-
-Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe
-já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno.
-Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que,
-reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de
-paes ou de parente algum.
-
-Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por
-gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que
-seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens
-tomadas.
-
-Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos
-ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão
-passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se
-arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado.
-
-Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante
-para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia
-e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho
-dos pobres.
-
-Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o
-procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu
-espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a
-pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como
-desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual.
-
-Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração,
-havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e
-amigo do dever.
-
-Era elle mesmo.
-
-O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com
-satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos;
-repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si
-essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha
-necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do
-que a vontade, lhe havião imposto.
-
-Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado
-a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e
-retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando?
-Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia
-divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não
-erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes
-aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante
-da fé.
-
-O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na
-meditação dos textos sagrados.
-
-O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica
-tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o
-folego.
-
-Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande
-procrastinador do soffrimento—é que achava refugio.
-
-Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião
-os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que
-lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse
-d’essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos.
-
-Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que
-elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres
-inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta.
-
-Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as
-homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para
-a sua alma indomada senão indomavel.
-
-N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o
-em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre
-vencedor.
-
-D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi incerteza do futuro e
-pavor.
-
-O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava;
-era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas
-regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d’entre
-os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população
-e de seus superiores!...
-
-Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se
-profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças
-antes de se alistar na milicia de Deos.
-
-Foi com a vista de uma mulher.
-
-Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia
-não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no
-altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous
-olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor
-que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que
-fazia.
-
-Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os
-degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em
-que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito
-vacillante aquella fascinadora visão.
-
-Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja.
-
-Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos.
-
-Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao
-sopro gélido da prostituição.
-
-O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo
-confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado.
-
-Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua
-alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que
-travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de
-convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula,
-que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o,
-tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir.
-
-A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar,
-fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar
-com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o
-balsamo do bom conselho.
-
-O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição
-do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi
-dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida
-importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como
-abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente
-meticulosa.
-
-O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou
-uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua
-imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava
-ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a
-bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com
-poder sobrenatural.
-
-O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa
-tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo
-estremecião e a mente em fogo parecia um volcão.
-
-Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria.
-
-O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre.
-
-No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para
-elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e
-cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.
-
-Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não
-podia vencer o espirito das trevas.
-
-No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica.
-
-O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio
-Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada
-pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens.
-
-Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio.
-
-—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos.
-Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente.
-
-Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino
-á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e
-disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de
-Nossa Senhora do Ó.
-
-Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade
-e assenta n’uma cumiada d’onde se descortinão vastos horisontes. Para o
-sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da
-antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos
-e que parecem o portico do deserto.
-
-O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos
-se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando
-elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas.
-
-A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e
-por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi
-incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já
-não conhecia.
-
-As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria.
-Ora é o cerrote de Matto-Grosso d’onde a vista goza uma das mais lindas
-paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui
-é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado
-pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli
-são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a
-villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre
-verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo
-fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos
-encachoeirados e crystallinos.
-
-Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca
-do Imperador, tão celebre outr’or pelos seus crimes e disturbios. O
-seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada
-perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer
-em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas
-em densa matta de laranjaes e bananeiras.
-
-Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande
-que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná.
-
-Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha
-Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo
-agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha
-bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada,
-em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão
-ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita,
-levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos
-e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro.
-
-Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra.
-Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas
-palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto
-Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma
-vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no
-espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade.
-
-A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu
-nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas
-espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas:
-é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se
-erguem a muitas braças acima do nivel.
-
-Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o
-Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração
-pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de
-aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem
-póde dar ao corpo todo.
-
-A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras
-preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue
-mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para
-toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima,
-não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas
-como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca
-chegou a cultura.
-
-Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem
-poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade
-possa vir dar mais alento á esperança.
-
-Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus
-esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado
-pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da
-solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade
-daquellas opulentissimas e incultas zonas!
-
-A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que
-devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar
-os emissarios de um genio bondadoso e amigo.
-
-Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva
-e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto
-recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.
-
-Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.
-
-As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais
-urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros
-de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando
-raros.
-
-Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á
-capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das
-Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.
-
-Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e
-passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de
-recreio.
-
-A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a
-igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante
-e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de
-telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de
-velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e
-suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro.
-
-Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que
-vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes.
-
-Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada,
-e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo,
-sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.
-
-Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era
-a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma
-a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão
-para cahir no ouvido do confessor.
-
-Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida
-que lhe parecia sem mira e por demais longa.
-
-Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos
-possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda
-menos, tudo n’uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em
-ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.
-
-Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade
-de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do
-domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô,
-havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais
-que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os
-outros e assim romper-se a monotonia das semanas.
-
-Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais
-ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual,
-incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como
-podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias,
-chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno
-para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando
-o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se
-alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia.
-
-Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do
-Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão
-e actuão sobre as imaginações.
-
-Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle
-piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle
-não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi
-indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que
-abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta
-benefica, mas descurada.
-
-O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo
-presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte.
-
-Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela
-explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás
-praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem
-sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não
-precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão
-corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era
-ensinado.
-
-A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos;
-não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na
-carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas;
-não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e
-vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...
-
-Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e
-estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos,
-possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...
-
-Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de
-todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como
-se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir
-os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que
-equivaleria á sua exposição em pelourinho.
-
-Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de
-sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa,
-não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim
-grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do
-terror.
-
-Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á
-cathegoria official de quem as fazia.
-
-Esta certeza tinha elle.
-
-D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a
-cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para
-desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e
-notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em
-cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára
-pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á
-igreja.
-
-—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios
-olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural
-e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino
-até os seus corações.
-
-Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado
-sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que
-produz milagres espantosos.
-
-Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a
-monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras.
-
-O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o
-sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande
-necessidade de sua presença.
-
-—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão.
-
-Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno.
-
-Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas
-extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias
-em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela
-campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na
-luz crepuscular.
-
-E sempre a mesma cousa!
-
-Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia
-de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar
-incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite.
-
-Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a
-modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario.
-
-Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro
-formavam monotona orchestra.
-
-—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A
-virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não
-sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente.
-
-Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o
-casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse
-o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem
-dotadas de intelligencia e sentimento?
-
-Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles
-logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior
-seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da
-familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um
-subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio.
-
-Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre
-desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza,
-olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho.
-
-Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto
-intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia.
-
-Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre
-Monte, muito livre de culpa andava elle.
-
-O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica,
-podia-se o considerar gravemente doente.
-
-Uma nostalgia _sui generis_ o ralava noite e dia.
-
-Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de
-cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes
-desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára
-cuidadosamente no alto das paginas.
-
-Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de
-tratar da sua remoção para outra parochia.
-
-Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção.
-
-Para que?
-
-Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira
-o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia
-conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o
-assustára outr’ora?
-
-Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a
-relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no
-Rio de Janeiro.
-
-Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom
-do vigario uma causa de distracção.
-
-Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer
-a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar
-livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!
-
-O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de
-seu innocente desejo.
-
-Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.
-
-—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a
-gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes
-que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade
-o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo _até acá_. Mas o trem
-peza e fiz tenção de pincha-los na _beiradinha_ da estrada, se alguem não
-quizer ficar com eles...
-
-—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber
-essa carga?
-
-—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim,
-outros que morreu.
-
-—E o que contem as taes caixas?
-
-—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança.
-
-O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse:
-
-—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que
-fazendo um esforço penoso:
-
-—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda?
-
-—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba
-trazida por um tropeiro; _ansim_ ninguem poderá acertar d’onde sahiu da
-_primeira vez_.
-
-—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei
-aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no
-_Correio Official_ o que acontece.
-
-—Isto fica a seu cuidado.
-
-Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um
-animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a
-um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá.
-
-—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa
-Senhoria mande abrir este _trem_. O cupim póde ter dado nelle: dizem que
-é muito _caroavel_ do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso.
-
-O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim,
-suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava.
-
-Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar
-aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou
-não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso
-discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e
-contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica.
-
-Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos
-com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles
-sahir... um cupim!
-
-Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo.
-
-O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco
-foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o
-argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os
-sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel.
-
-No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo
-do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins
-houvessem já tudo devorado!
-
-Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre
-uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados,
-outros em brochura.
-
-Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com
-verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou
-verticalmente.
-
-Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma,
-proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para
-acabar com as dolorosas vacillações do vigario.
-
-Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que
-o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D.
-Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas
-em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China,
-e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles.
-
-Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o
-francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.
-
-O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe
-pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados
-quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D.
-Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e
-profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava
-de um modo desconhecido.
-
-Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros
-lhe terião deslumbrado as vistas.
-
-E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão
-no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões!
-
-O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe
-IV.
-
-Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua
-penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as
-preocupações e os desgostos que os assaltavão!
-
-O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim
-dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na
-lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.
-
-D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante
-os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por
-acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão.
-
-Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro.
-
-Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação
-cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás
-vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.
-
-Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras.
-
-O vigario cahiu gravemente doente.
-
-Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça
-em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no
-leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer
-forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o
-tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão
-no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.
-
-Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu
-auxilio de nada valia para o enfermo.
-
-O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias.
-
-Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que
-estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz.
-
-Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o
-cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo
-que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no
-azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.
-
-N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.
-
-De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto
-de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a
-todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios
-havião tumultuado em seu espirito?
-
-Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a
-sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos
-ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que.
-
-Mas não!
-
-A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura
-sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante
-d’ella e guial-a pelos espaços do infinito.
-
-Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz
-apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada.
-
-Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido,
-échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e
-quebrava-lhe toda a força.
-
-—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte.
-
-O silencio é que respondia.
-
-—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda.
-
-E sempre o silencio.
-
-Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por
-todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e
-velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras
-pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro.
-
-No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno
-profundo.
-
-Estava salvo!
-
-Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com
-hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas
-é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria
-d’aquella resurreição.
-
-Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre
-Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida.
-
-Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para
-elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo
-do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce
-parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada
-do peso do seu envoltorio terrestre.
-
-O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas,
-poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como
-sempre desejára ter sentido.
-
-N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os
-Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra
-adiada para depois de esgotados os romances.
-
-Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição de sacrificios
-immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes
-desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que
-deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a
-possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e
-uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e
-esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir
-a final!...
-
-O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.
-
-Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações
-indifferentes, já que não podia avivar n’ellas a fé que havião recebido
-dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo
-libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão
-a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a
-gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador,
-abrir os seus corações ao influxo da religião.
-
-Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta.
-A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais
-energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas
-frias da indifferença havião quasi abafado.
-
-Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á
-patria.
-
-Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser
-encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia.
-
-A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu
-vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e
-indomaveis Canoeiros.
-
-Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus
-costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve
-indifferentismo.
-
-Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra,
-mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões,
-que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir
-na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o
-sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.
-
-No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus
-freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle.
-
-Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros
-a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o
-dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas
-antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no
-correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro
-umas notas do Thesouro.
-
- * * * * *
-
-O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar
-e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum,
-frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar.
-
-Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia
-do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o
-intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus
-inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas
-mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje
-são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles,
-brasileiros.
-
-
-FIM DO VIGARIO DAS DÔRES
-
-
-
-
-JUCA, O TROPEIRO
-
-
-ADVERTENCIA
-
-A autoria da presente narração pertence mais a um ex-sargento de
-voluntarios de Minas, que nos disse haver conhecido de perto o personagem
-que n’ella figura, do que á nossa penna.
-
-O que fizémos foi desbastar o correr da historia de incidentes por demais
-longos, de innumeros termos familiares, e sobretudo de locuções chulas e
-sertanejas que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo comtudo
-reconhecido a originalidade e força de colorido d’essa linguagem, e
-desejando conservar ainda um que da ingenua, mas pitoresca expressão
-do narrador, resultou uma cousa esquesita, nem como era quando contada
-pelo ex-sargento, nem como devéra ser, sahida da mão de quem se atira a
-escrever para o publico.
-
-Batemos de arrependido nos peitos.
-
-
-JUCA, O TROPEIRO
-
-
-I
-
-Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas Geraes e tropeiro desde
-em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas
-tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto Grosso e trabalhar
-n’aquelles sertões brutos.
-
-Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no
-que não havia quem lhe posesse o pé adiante.
-
-Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um cururú, repinicar na
-viola ou contar historias, umas gaiatas que fazião estourar de riso,
-outras de bruxas e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada e
-sem vontade mais de pregar olho.
-
-Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era
-tão raro que bem poucos poderião dizer tel-o visto calado e amofinado.
-
-Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de
-lingoa que elle fazia bichas.
-
-Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um,
-por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso
-de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar a sobrecarga,
-acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, remexer pastos, arrumar no
-pouso as cargas, arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os ligaes
-por causa da chuva e da humidade, era elle mestre e tudo n’um sopro.
-Emquanto o diabo esfregava um olho, Juca Ventura já tinha feito muita
-cousa.
-
-E forte de saude que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões,
-cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando _pantános_ sem o
-menor medo de _maldades_. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas e
-beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o
-pulso a cirurgião nenhum, nem se quer para saber do que morria.
-
-Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, onze animaes gordos
-de encher o olho, e que se derreava na sella com o chicóte de couro crú
-apoiado na coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas estradas de
-Christo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si
-como se tivesse o rei na barriga.
-
-Debalde o vento levantava uma _polvadeira_ immensa que lhe avermelhava
-a camisa e lhe grudava o cabello ao casco da cabeça, debalde a chuva o
-molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e
-as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu genio
-brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente.
-
-Chegado que fosse ao pouso e não havia um só n’esses fundões de Goyaz
-e Matto Grosso que elle deixasse de conhecer como se em cada um
-d’elles houvéra nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao pouso e
-acommodados os seus animaes, se havia matalotagem farta, comia que mettia
-gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um somno
-gostoso como tudo.
-
-Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer barulho, por menor que
-fosse, o punha logo de pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e
-podia até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural vigilante.
-
-Tambem se era preciso, passava muito a gosto a noute em claro: e no dia
-seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvéra novidade.
-
-Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos a contar aos
-camaradas historias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e
-caterêtes?
-
-Nem havia conta.
-
-E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver
-pilhado a cochilar.
-
-Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não
-andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risótas, nem por
-isso era carrancudo e malcriado.
-
-Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de sobresalente para não
-parecer unhas de fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos
-companheiros da carreira.
-
-Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas
-ninguem o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa
-perna para o pagode.
-
-Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos
-povoados, quando chegava alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca
-Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas fallas de pura
-amisade.
-
-É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa maldizente que quer botar
-malicia em tudo, malicia que só existe no juizo enviezado e falso dos
-falladores.
-
-Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das villas e povoações,
-algumas até bem bonitas; mas era negocio de simples palavreado, e nenhuma
-d’ellas poderia com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, ou fazer
-alguma promessa.
-
-Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido.
-
-Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas novinhas que lhe
-mostravão agrado e sympathias; as velhas tambem lhe querião bem e quando
-elle cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem
-deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza.
-
-E a razão era uma.
-
-É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para
-cá, em que elle viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança
-para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e houve até occasião
-em que deu de presente uns córtes de fazenda fina e algumas jardas de
-fita muito vistosa e larga.
-
-E depois não querião que fosse estimado!
-
-Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos conforme os seus
-merecimentos. Mas por estes mundos afóra não falta quem metta a catana
-nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual.
-
-E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a aza
-e a fazer pé de alferes pelos pousos, como se fôra algum rufião mal
-intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?
-
-Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á uma pessoa; e quando
-um homem de vergonha estima devéras uma mulher, esse amor não consente
-outro: é o unico na vida.
-
-Nem havia mais segredo.
-
-Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquella moça,
-que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já
-fallecido, havia morado n’uma esquina de becco, que ella era rapariga
-de truz, morena, mas corada, de muito proposito e composição e de quem
-lingoa nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena cousa.
-
-Quem é que não sabia d’isso?...
-
-Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula[21], senhora capaz de
-revirar com um peteléco o patife que quizesse vir se engraçar com a filha?
-
-Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza
-da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo,
-olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha
-como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de
-maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte,
-e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava
-para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites.
-
-E querem vêr?
-
-Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo
-perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas
-janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para
-um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda
-nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um
-beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça.
-
-Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula.
-
-Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou
-a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um
-brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva
-quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara.
-
-E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma
-vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas
-de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.
-
-Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita,
-bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de
-pôr agoa na boca.
-
-Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de
-consideração.
-
-D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era
-preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo
-para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que
-bem requestada.
-
-Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado
-em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem
-a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura,
-procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e
-confiança.
-
-—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.
-
-—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa gente sahem bons maridos.
-Depois ha tanto tempo que está na terra, que nem parece filho da outra
-banda.
-
-—Não quero este, murmurava a rapariga.
-
-—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz este por ser portuga. Mas
-porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca?
-
-—Ora, um socó... e depois zarôlho...
-
-—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica e ninguem dirá que seja
-moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de
-torcer o nariz, quando elle as procurar para casamento. Agora me diga o
-Mané Quetano, tambem é zarôlho? Rapaz tão bom, tão socegado e de familia
-limpa! O pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando ella não
-passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto como elle só...
-
-—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.
-
-D. Cula costumava então abanar a cabeça.
-
-—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta Deus Nosso Senhor
-Jesus Christo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender.
-Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para comer,
-são cousas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquillo que
-basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como á Maria do
-Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e,
-afinal, quando quiz casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou
-palma e capella em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque
-tem se visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue
-nas veias, só em pensar n’ellas.
-
-Babita rematava taes conversas que muito se repetião com este estrebilho:
-
-—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.
-
-Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cula se
-mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era
-boa; mas ella não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos
-outros.
-
-Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha.
-
-Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo aceiado e faceiro,
-passava por diante da janella e comprimentava com muito respeito as
-pessoas que lá estivessem: vio que elle cruzava por demais n’aquellas
-paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, mas por poderem
-as suas passadas dar na vista dos outros e trazer fallatorios.
-
-Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios de casorio, e a
-menina parecia estar se inclinando muito por elle.
-
-D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre
-as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda a prudencia,
-porque era pessoa de experiencia e bem sabia que com mulheres
-_enrabichadas_[22], não se deve apertar muito.
-
-—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta rua anda muito um sugeito
-que quer se engraçar com você.
-
-—Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de máo agouro á mãe.
-
-—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando
-um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher
-diante de Deus e dos homens, sem ter que se _avexar_ de ninguem, deve
-vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos
-outros....
-
-—Mas ninguem me anda _desinquietando_, interrompeu Babita meio arrufuda.
-
-—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida...
-
-E alto continuou:
-
-—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão
-na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são
-muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das
-mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma
-probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição,
-mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que.
-A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal:
-acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se
-cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia
-nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha
-de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do
-tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com
-a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma...
-
-Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia
-do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os
-olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de
-aroeira.
-
-A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se
-ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos.
-
-D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito
-carinho a testa da filha.
-
-—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se
-afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O
-peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado.
-
-—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem
-desconfia.
-
-—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da
-noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz
-é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer
-vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado
-não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos
-desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora
-Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae,
-que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá
-n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado
-nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas
-emfim nem todos podem dizer tanto...
-
-Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só
-sahio quando lhe faltou a respiração.
-
-Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir,
-uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na
-altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um
-pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de
-pouso a tropa de Juca Ventura.
-
-Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas
-para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.
-
-—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula.
-
-—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro.
-
-Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito
-cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era
-como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada,
-não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que
-mais?
-
-Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas
-de familia em dobadoura!
-
-D. Cula não disse á filha a verdade.
-
-Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito, mas não sem que ella
-lhe dissesse duas palavrinhas.
-
-—E então? perguntou a moça com receio.
-
-—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, quando vio que eu estava
-corrente com as suas passadas, mas, fallando com franqueza, não pude
-saber se elle quer bem ou não a você.
-
-—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza.
-
-—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de voltar, e saberemos então se
-é o que você julga d’elle, ou se não passa de um marióla que hei de pôr a
-tinir como aquelle filho do capitãosinho.
-
-N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se fallou
-n’aquella casa em Juca Ventura.
-
-A mocinha estava um pouco macambuzia: não chegava á janella e não queria
-sahir, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra.
-
-Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururú e
-abatido. Se cantava, era com uma vóz abafada que fazia ainda mais triste
-a solidão.
-
-Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula e o rosto da namorada
-não lhe sahião da memoria.
-
-Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma cousa sem conta, e se
-no serviço não afrôxava é porque só no trabalho achava algum consolo.
-
-E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:
-
- Babita, meu bem Babita,
- Babita do coração,
- Tem pena de minhas penas,
- Senão morro de paixão.
-
- Passarinho que tem aza
- Depressa vôa ao seu bem.
- Aza não tenho, nem tenho
- Quem me possa querer bem.
-
- Desgraçado do tropeiro,
- Minha sina é só gemer:
- Meu destino caminhar,
- Caminhar até morrer.
-
- Chaga viva em mim abrio
- Teu olhar, mulher querida.
- Mas de ti eu não me queixo,
- Pois adoro essa ferida.
-
- Tenhão os _rezes_ seus palacios
- Ouro e mais prata infinita,
- Eu só quero d’este mundo
- Ser querido de Babita.
-
- Mas, coitado, porque choro?
- Quem m’ouvir póde n’este ermo?
- Se o meu canto não tem écho,
- Meu tormento não tem termo.
-
- Ó rochedos, montes, valles
- Ó campinas tão floridas,
- Compaixão deveis sentir
- D’essas mágoas tão crescidas!...
-
-N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava o peito, de modo que
-todos sabião por quem ficára preso o tropeiro modelo.
-
-Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os seus males, e a viola
-chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir
-o cantor, cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.
-
- Ventura me chamão todos,
- Desgraça devem chamar.
- Pois aquella a quem adoro
- Não me quer _a mim_ amar.
-
- Sou tropeiro, não sou rico
- Casas não tenho, nem ouro;
- Mas no peito tenho honra,
- E não sou filho de mouro.
-
- No braço tenho _talento_[23]
- Na cara tenho vergonha,
- Não vivo de comer bichos
- No lôdo como cegonha.[24]
-
- Ai! se apaga em mim a vida!
- Sinto já que vou morrer.
- Mas não sei se chóre ou não
- Por agora perecer.
-
- Pois embóra eu _seje_ moço,
- Por effeito da paixão
- Com certeza hei de findar
- Nas funduras do sertão.
-
-N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o brazeiro se apagára, e já
-as barras do dia riscávão os lados do nascente, e elle ainda ficava de
-vióla na mão, tocando e verseando.
-
-Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo
-procurar vêr a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita.
-
-O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a
-patrulha.
-
-Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. Cula com um ar muito
-agradavel e cheio de riso.
-
-Ventura quiz voltar, não poude e parou.
-
-A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras,
-perguntando noticias da saude e da ultima viagem e mais outras cousas.
-
-Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez
-quando, conversa puchando conversa, D. Cula o convidou para descansar em
-sua casa.
-
-O moço no acto de se sentar já não estava muito em si, mas quando vio
-entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a
-cabeça.
-
-Não soube mais dizer uma palavra.
-
-Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado,
-vinha-lhe a comixão de fallar.
-
-Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim
-de sua visita, uma visita de medico, elle pedio a mão de Babita, que
-Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou
-algumas lagrimas e que consentio e poz-se a fallar muito e a contar casos
-e mais casos, dando de lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo,
-quanto mais a um namorado!
-
-Elle levantou-se cambaleando.
-
-Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...
-
-A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de
-Janeiro. Uns approvarão muito, outros acharão a cousa má, outros emfim
-nada disserão, no que fizerão melhor do que os que se mettião a abelhudos.
-
-Os que approvavão, mostravão que as idades dos noivos estavão muito
-combinadas e achavão direito que um pobre casasse com uma pobre e outras
-cousas mais.
-
-Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio de tropeiro era
-baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre
-separado. E a final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? Nas
-de um camarada de tropa...
-
-Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se na vida e nos
-interesses dos outros como melhor quizerem, mas por amor á verdade não
-digão que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!
-
-Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, olhos rasgados, côr
-morena, bigodes finos, boca bem feita, e barba sempre penteada? Não tinha
-elle cabellos cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso era do
-pó da estrada, e esse pó dava signal de que elle trabalhava para ganhar
-honradamente o pão de cada dia.
-
-Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem
-susto de qualidade nenhuma. A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se
-Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a ninguem. Graças aos
-céos, braços não lhe faltavão para sustentar a sua gente, e, se até então
-ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fóra
-tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.
-
-Agora o caso mudava de figura, e para prova é que elle tratou logo de
-preparar um montesinho de prata já com vista nos gastos dos papeis de
-casamento e tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella occasião.
-
-Emfim quer os moradores quizessem, quer não, Babita e Ventura erão
-noivos, tinhão já o sim de D. Cula, a unica que podia n’aquelle negocio
-serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio do Brasil
-que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes como se tivessem ganho o
-reino do céo.
-
-O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, quando o tropeiro voltasse
-de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava
-paga.
-
-No momento da despedida os noivos chorarão como dous perdidos; mas no
-coração lhes ficava a quentura da felicidade.
-
-D’ahi a tres mezes!...
-
-
-II
-
-No tempo marcado voltou Ventura mais _amorudo_ do que quando partira e
-com as mãos cheias de presentes. D. Cula ganhou um vestido de muito boa
-seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro.
-
-Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que entendia de ourives o
-disse, e o que sabia da boca d’elle era que nem palavra de Evangelho,
-pelo menos ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.
-
-Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando.
-Tinha cozido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do
-casamento, que a mulher do commandante superior da guarda nacional fez o
-favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimavel. Tambem
-a cousa parecia uma maravilha de feitio e assentada.
-
-Mas o que é o destino da gente!
-
-Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se n’uma dobadoura que
-ninguem na terra se lembrava de cousa igual. Uberaba tão socegadinha!
-Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões!
-
-Não se fallava senão em guerra!
-
-Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar que o Imperio do
-Brazil estava n’uma pendencia muito grossa com uma republica chamada
-do Paraguay, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente
-partia para fóra, que muitos ião por gosto, outros a páo e corda, que o
-recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavão disparando para
-os matos, mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e lhe perguntar
-quantos annos tinha, seguio socegado o seu caminho do interior, sem se
-occupar com as novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava
-n’este mundo.
-
-Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo reboliço.
-
-Parece que os negocios não ião bem. O governo da côrte tinha posto
-nos jornaes que todos devião combater, que a guarda nacional havia
-de marchar, que era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma
-lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.
-
-Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem!
-
-Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia
-buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá
-de cima que governão os outros ás vezes não pensão com juizo. Era uma
-exigencia por demais.
-
-Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de S. Paulo e de Ouro-Preto
-duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para
-os lados de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á força e onde
-estavão fazendo selvajarias sem conta nos brazileiros que cortava o
-coração só de ouvir fallar.
-
-Tudo isto não bastava.
-
-Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os
-guardas nacionaes ião ser reunidos, que muitos havião de seguir com a
-expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de historias
-capazes de assustar os mais valentes.
-
-As familias andavão com o coração na mão e com toda a razão, porque não
-tardou muito e ahi chegarão uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa
-e ensinar o manejo de arma.
-
-Então é que foi susto!
-
-No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanço.
-Juca Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos
-annos e podia ser chamado.
-
-—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se você tiver de marchar?
-
-—Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum socego.
-
-A mocinha perguntava abaixando a voz:
-
-—Então você deserta?
-
-—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de cousa nenhuma! Mas tenho
-certeza de que não vou. Não me chamão. Você verá...
-
-Esta certeza durou pouco tempo.
-
-Um bello dia o commandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um
-cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse n’aquella mesma hora ao
-palacio da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais quinze
-companheiros fez uma falla meio gaguejada em que disse que era preciso
-ir acabar com o inimigo, que os brazileiros nunca tinham sido vencidos,
-que a gente de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam de
-voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brazil contava com os seus
-filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao
-Imperador e á Constituição, no que foi acompanhado com muito barulho por
-outros homens de casaca reunidos a um lado da sala.
-
-Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?
-
-Porque é que aquelle commandante superior não marchava tambem para a
-guerra? Então só lá devião ir os pobres soldados para chuchar bala como
-terra em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas cheias a se
-deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas?
-
-Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, como diziam,
-então que todos se sacrificassem.
-
-O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos e mostrar boa
-vontade, supporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente
-para obedecer ao governo e mettido na tóca caladinho!...
-
-Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não disse patavina, e sem
-demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada
-que parecia uma cadeia.
-
-Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que
-todos os dias ouviam fallas e mais fallas do commandante d’aquelle
-deposito—um major de linha, mandado de proposito da côrte para ensinar
-recrutas.
-
-Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não havia influencia nenhuma.
-
-Juca Ventura só viu caras muito _jururús_.
-
-Quando Babita teve conhecimento do que succedêra ao noivo, cahiu n’um
-desmaio que poz D. Cula tonta; depois as duas choraram juntas até não
-terem mais lagrimas nos olhos.
-
-Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. Via-se bem que elle
-queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado.
-
-Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver
-se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na
-porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que
-passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada
-desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto,
-elle gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.
-
-Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo fallar
-n’uma guerra que houve no tempo de dantes em que elle com mais dois
-companheiros tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem de
-brincadeira e que cortaria pelo meio todos aquelles que quizessem sahir
-do quartel sem passe do senhor major.
-
-Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava o bigode com
-raiva e rangia os dentes como porco do matto.
-
-Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da
-historia, e não uns pobres moços socegados que tinham suas familias
-ou estavam em vesperas de formar casa. Fosse lá o _tres contra
-quatorze_[25], mas não uns guardas nacionaes que nunca haviam feito mal a
-ninguem.
-
-Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que ella não passou a
-ninguem, porque não gostava de metter o bedelho nos negocios geraes,
-entendendo com razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas
-e n’outras cousas, dizem por força desacertos.
-
-Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora podesse trocar lingua
-com Juca o tropeiro. Elle estava socegado, e entretanto bastante murcho,
-não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso.
-
-O recado que elle deu para Babita não acabava mais de comprido, mas em
-duas palavras queria dizer _amor para sempre_.
-
-Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e trancadinhos no que se
-chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma
-bandeira novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim muito rica e
-vistosa.
-
-Houve muita pancadaria de musica, muito foguete do ar, estouros de
-bombas, e fallatorios compridos e cheios de enthusiasmo.
-
-O commandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o
-contingente mineiro a guerra havia por força de acabar, que Uberaba ia
-dessa feita para a historia, que todos deviam marchar com a maior alegria
-e que aquelles que desertassem haviam de receber castigo de Deos e dos
-homens. Mas o espertalhão não prometteu dar o exemplo e tomar parte nos
-perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.
-
-Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, ambos com muito
-fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brazil, e
-morras ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.
-
-O cabo _tres contra quatorze_ já com algumas garrafas de cerveja no
-bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal
-barulho que semelhava não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos.
-Elle pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e que estava
-tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de
-lança e espada, para vêr como n’um instantinho os havia de cortar em
-pedaços miudos.
-
-Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de
-nomes, veiu jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os
-Santos Evangelhos em como havia de defender até a morte o Imperador e a
-Constitução e nunca desamparar o seu posto de honra.
-
-Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a verdade, n’esse
-momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam
-_sim, sim_, mas eram uns _sim_ muito chochinhos que em muitos parecia
-mais um soluço do que uma promessa que só Deos podia quebrar.
-
-Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia duzia de
-lanternas de papel—e o quartel ficou todo ás escuras, guardado por uma
-sentinella que chorava baixinho e pelos roncos de _tres contra quatorze_.
-
-O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos cópos deixou-se cahir
-na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a
-escapúla de algum medroso.
-
-Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio e trevas.
-
-Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados do fundo d’alma, pegou
-a dormir e a sonhar com Babita.
-
-De repente alguem o puxou por um braço.
-
-—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de somno.
-
-—Falle baixo, murmurou alguem.
-
-—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a voz.
-
-—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão
-baixinho que parecia um sopro.
-
-Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.
-
-—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar _vancê_ para abrir
-campo. Parece que o negocio vai ficando sério e que chegou a hora de cada
-um cuidar em si.
-
-Ventura respondeu com um gemido abafado.
-
-—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora...
-
-—Agora, o que?
-
-—Agora não posso.
-
-—E porque?
-
-—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e
-decididamente hei de ir por estas terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê
-coragem...
-
-Houve silencio no grupo.
-
-—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, _vancê_... não vá... dar
-parte de nós...
-
-—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual tome o rumo que quizer. Eu
-não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a
-defender o Brasil.
-
-E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro lado.
-
-De manhã vio-se que havião desertado quinze guardas nacionaes e que a
-sentinella do portão tinha tambem batido a linda plumagem.
-
-Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol claro, umas machinas
-exquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e
-acompanhados de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas de bois.
-
-Essa machinada vinha com muito barulho e pôz em reboliço todos os
-moradores.
-
-—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque nunca tinhão visto
-artilharias.
-
-Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas janellas da casa
-aquella procissão capaz de metter medo aos mais valentes e soube que
-aquelles canudos ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.
-
-—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo as mãos de admirada, que
-peccado atirar em christãos com bacamartes d’esses!
-
-Na noute da chegada da artilharia desertárão de pancada quarenta guardas
-nacionaes, e ninguem mais lhes poz o olho emcima.
-
-_Tres contra quatorze_ andava damnado e gritava, no meio da praça da
-matriz, que aquillo era uma pouca vergonha e que elle só com um cacete
-curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão
-medrosa e—com perdão da palavra—safada, assim dizia o cabo de esquadra.
-
-Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar
-no Cachimbo, a uma legua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz
-de influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão mais vinte
-dos aquartelados.
-
-Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.
-
-Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e
-deixar-se estar quietinho quando os mais abrião pernas e ião cuidar da
-vida! Quanta coragem para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos
-lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ella não podia
-mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil
-cousas e ditos de fazer sangrar o coração.
-
-Mas elle tinha jurado!
-
-Quando no quartel não restarão senão tres homens, o commandante superior,
-não se fiando n’elles, mandou trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa.
-Queria ao menos segurar bem esses ultimos.
-
-Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.
-
-Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e estava marcado o dia 4
-de Julho de 1865 para a partida de toda a expedição que devia se internar
-pelo sertão bravio á procura do inimigo.
-
-Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se do noivo que
-estava como um desgraçado galé encostado ás grades da cadêa.
-
-—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser
-_desinfeliz_ de uma vez!...
-
-—A culpa é de _vassuncê_, respondeu a moça soluçando.
-
-—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino...
-
-—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que _vassuncê_ faz mal...
-entretanto...
-
-—O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os
-tres choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade;
-mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a
-certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para
-me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao seu
-noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus
-Christo que, na batalha ou no descanço, não haverá uma só hora que eu
-deixe de pensar em quem tanto quero.
-
-E, voltando-se para D. Cula, acrescentou:
-
-—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece bem me vêrem chorar
-como se fosse um fracalhão. Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...
-
-Babita soluçava como uma criança.
-
-No dia seguinte, as forças da expedição abalaram do acampamento do
-Cachimbo.
-
-Foi uma cousa bonita.
-
-Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos bem fardados; o bronze
-das peças de artilharia faiscava aos raios do sol; as musicas tocavam o
-hymno nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de pôr surda uma
-pessoa.
-
-D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca Ventura e para isso
-caminharam a pé e de madrugadinha, ainda escurão, legua e meia, distancia
-da cidade ao acampamento.
-
-O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava
-mettido n’uma grande blusa militar e ás costas trazia uma mochila que
-havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais.
-
-Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos braços, disse-lhe a modo
-de consolo.
-
-—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro:
-estou rodeado de patricios e conheço bem o sertão. Não é isto que me
-assusta.
-
-E, com um suspiro, concluiu baixinho:
-
-—Ah! se eu não tivesse jurado!
-
-O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu de arma ao hombro e com
-passo dobrado.
-
-
-III
-
-Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de Matto-Grosso, fôra
-contar o que todos, desde o commandante das forças até o ultimo soldado,
-soffreram, e é cousa de encher livros e livros.
-
-Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome,
-que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquella gente, como se
-fizesse parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora apertando
-devéras, ora menos forte, mas ali prompta á toda a hora para apparecer,
-quando menos se cuidasse.
-
-Agora fallando com o coração na mão, foi preciso muita paciencia, muita
-confiança em Deos para não se desanimar de uma vez e querer antes
-morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 de
-Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma
-rapaziada toda limpa; officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e
-commandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Devéras
-fazia gosto servir n’esse corpo.
-
-Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excellente soldado,
-porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua
-obrigação Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como
-sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel.
-
-Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além delle ser pouco
-_imbicioneiro_, não se ageitava em riscar mappas do dia e relações de
-mostra.
-
-No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir os outros, do que
-por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita
-noiva: escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto houve correio,
-recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cula,
-mas do coração de Babita.
-
-Depressa, porém, desse gostinho devia se _desmamar_, porque não houve
-mais estafetas e até officiaes de posto graúdo ficárão seis e mais mezes
-sem poder receber uma só letra de suas familias, todas moradoras na Côrte
-do Rio de Janeiro, de muita consideração e apatacadas.
-
-Lá nos _pantános_ de Miranda, quando a expedição foi se metter no tijuco
-até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus.
-
-Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca
-mais sahiram.
-
-Morria _goyanada_ aos punhados, não que sejam mofinos de animo, pelo
-contrario no fogo são bons devéras, mas, fanadinhos de corpo, sahiam da
-fartura para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.
-
-Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas de alagadiços e
-tremedaes, que era mesmo um Mar de Hespanha, basta dizer que do Coxim
-sahiram mais de 3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco mais de
-dois mil, quasi todos agorentados.
-
-Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que se poupasse ao
-trabalho, mas porque era de seu natural resistir ás epidemias. Isso para
-o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar
-arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina era um grande.
-
-Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e nos acampamentos só
-se ouvia gritar: «Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai
-fazer aquillo.» E elle de boa vontade sempre, quando os companheiros
-estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu
-corpo, como de outros batalhões.
-
-O commandante de sua companhia, o Sr. capitão Juca Duarte, que morreo,
-coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados
-choravão quando o ião carregando no caixão, queria muito ao furriel,
-assim como o Sr. major Juca Borges, que depois veio a commandar o
-batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no
-Araguaya de Goyaz.
-
-Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e tambem
-um capitão, quasi criança, chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr.
-Tenente Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.
-
-Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O commandante Enéas era
-homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de
-máos tratos e injustiças.
-
-A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda onde soffreo muito de
-molestias exquisitas que levarão uma _machina_ de officiaes e soldados
-ao cemiterio; depois foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar
-bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; desceo ainda para o Apa
-e ahi entrou no Paraguay, assim com ares de quem queria engulir aquella
-terra toda.
-
-Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de Uberaba! Mais de dous
-annos...
-
-E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava uma ou outra, isso mesmo
-para a gente lá de cima, e sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que
-valem alguma cousa.
-
-Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, já não escrevia mais.
-Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas,
-quando muitas centenas de legoas separão os namorados?
-
-Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, quando ella se vio sem
-gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada da
-Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente
-ter saudades dos tempos de dantes.
-
-Que calamidades, meu Deos!
-
-Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar caro a muito castelhano de
-blusa vermelha o incommodo de vir os procurar tão longe, mas o cholera,
-mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o
-sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de
-quebrantar a coragem de um Roldão.
-
-Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem annos, e quem
-escapou d’aquella feita póde dizer que tomou passagem para a eternidade,
-mas não embarcou por ser afilhado da sorte.
-
-Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda achava occasião de dizer
-a sua gaitadasinha, mais já a sua prosa não alegrava a ninguem: tudo
-andava muito jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar voando
-por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquelle, aquelle outro
-e assombrando a todos.
-
-D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão deixar jogados no meio do
-campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cholera e
-de ferimentos.
-
-E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem surdos, e o coração
-batia, mas parecia pedra ou páo porque nada sentia.
-
-É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o
-vulto.
-
-Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição vinha rolando as
-suas miserias, caminhando quanto podia.
-
-Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava aquella tropa toda, lá se
-foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, e de nada lhes valêrão as divisas de
-ouro bem grossas que tinhão no braço.
-
-Era mesmo um _despotismo_ de morte, e nem se livrou quem estava já
-affeito a aquelles lugares malvados e de pestes e forão batendo a bota
-o pratico Francisco Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando
-os brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem tinha ainda cruzado,
-e d’onde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que
-paravão os ossos dos outros.
-
-Mas Deos foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em
-que a columna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre!
-
-Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre d’aqui, morre d’acolá,
-chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado,
-mas emfim ainda com vida e vontade de saber o que era passar um pouco
-melhorzinho do que naquella desgraça.
-
-Foi no Canuto.
-
-Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão lá para as suas tócas:
-nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que
-só uma força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade que todos,
-soldados e officiaes, trazião no corpo e na roupa.
-
-Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, disse n’uma ordem
-do dia que os inimigos estavão _anarchisados_[26] com a nossa retirada,
-que os batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia de fallar
-nos soldados de Matto-Grosso e um bando mais de cousas.
-
-Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia estar lendo toda
-aquella escripta, disse para os outros:
-
-—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou.
-
-E os outros se rirão, porque já estava passado o perigo, mas devéras o
-furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios
-de vida e _talento_[27] e, em menos de mez e meio, de lá voltarão só uns
-setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de
-ladrões do mato.
-
-Não, aquillo foi de mais!
-
-Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o batalhão para Cuyabá,
-d’ahi desceu para o Paraguay, ainda entrou em fogo, e foi acampar no
-Humaytá, que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era então uma
-barranca de rio.
-
-Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira de Uberaba, e, ha
-mais de quatro, não recebêra uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.
-
-Mas _porém_ o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só
-dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade
-em que morava a namorada.
-
-Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou.
-
-O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa;
-discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntario
-recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da Côrte.
-
-Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados e certas differenças de
-soldo, de uma assentada metteu no bolso trezentos mil réis do premio de
-voluntario da patria e setecentos e picos do resto.
-
-Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas da caixa do
-governo!
-
-Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fóra, e, por toda a
-parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o
-mais.
-
-Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa.
-
-Foi um dia grande aquelle!...
-
-Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, assim com modos de
-passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra,
-tonto de alegria e cantando como um maluco. A saude do tropeiro era
-sempre a mesma: pouca differença fazia no rosto, mas nas maneiras era
-mais compassado e orgulhoso.
-
-Tambem estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o
-habito da Rosa.
-
-Tinha honras de capitão!
-
-Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não perguntou noticias a
-ninguem.
-
-O coração lhe batia socegado e só o que queria era chegar, chegar
-depressa...
-
-Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de Julho de 1870 e
-frechou direitinho para a casa da noiva.
-
-Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no collo.
-
-Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um grito forte, levantou-se
-e correu para dentro como uma douda.
-
-Era Babita!
-
-
-IV
-
-Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.
-
-Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros.
-
-Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não
-estava:
-
-—Ó de casa, ó minha gente!
-
-Ninguem lhe respondeu.
-
-Elle então entrou na sala.
-
-Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma
-imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco
-annos passados.
-
-Ventura bateu palmas.
-
-Ninguem lhe respondeu ainda.
-
-Oh! Era caso de pensar.
-
-O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma
-na varanda: correu a casa toda, nada.
-
-Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás
-carreiras.
-
-Decididamente succedêra alguma novidade graúda.
-
-Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á
-forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar
-em mal.
-
-—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto.
-
-N’estas idéas sahio da casa.
-
-Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para
-apanhar um pouco de sombra.
-
-Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.
-
-—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a
-conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.
-
-Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella
-noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle
-mesmo não sabe.
-
-Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de
-Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como
-se fosse uma fogueira.
-
-Tudo estava perdido!
-
-Tudo!
-
-Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que
-vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua
-obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para
-enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia
-já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o
-pouco caso?!
-
-Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para
-ser degollado pelos paraguayos?
-
-De que lhe servia a vida?
-
-A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia
-de furacão.
-
-Que restava fazer?
-
-Nada... nada mais!
-
-E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de
-tirar despique do desprezo de uma mulher?
-
-Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem
-quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se
-desaffrontar.
-
-Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro!
-
-Com isso tudo a lhe ferver no sangue, _amontou_ Juca a cavallo e foi
-_sestear_ n’um rancho fóra da cidade.
-
-Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que
-se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da
-guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos.
-
-Mas para abraços não estava elle.
-
-Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.
-
-Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado
-na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão.
-Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal.
-
-Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas
-as pernas lhe tremião.
-
-Queria pisar firme e não podia.
-
-É que nunca fôra assassino e agora ia matar!
-
-Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da
-estrada pela affrontação em que vinha.
-
-O coração quasi que lhe saltava pela boca.
-
-Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar
-assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?
-
-E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia
-entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o
-peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião
-de festejar e até adular!...
-
-Mas não... O destino assim não quiz.
-
-Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se
-n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute
-fechasse.
-
-Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no
-nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de
-quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.
-
-Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu
-coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio
-havia de ferir a quem menos cuidava.
-
-Um barulho de passos lhe chamou a attenção.
-
-Era um homem branco, de meia idade e bem _limpo_[28], que tinha um ar
-sério e muita composição no andar.
-
-Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra.
-
-Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a
-pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada.
-
-A sua boca deu um uivo.
-
-—O emboaba!
-
-Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço,
-era um homem morto.
-
-E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca
-Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de
-si e de sangue frio.
-
-—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe
-quem eu sou?
-
-—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um
-matador.
-
-O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu
-proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco
-como cêra.
-
-—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser...
-
-—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim...
-
-—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão
-na minha cara.
-
-—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a
-mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu.
-
-A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração
-ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não
-apertava com força, segurava com firmeza.
-
-—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados
-nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo
-sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada
-ninguem mais póde ser acusado... Agora...
-
-E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito:
-
-—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança!
-
-O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo.
-
-Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e
-murmurando:
-
-—Eu nunca matei ninguem assim...
-
-—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero
-defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa
-como N. S. da Conceição...
-
-E como Ventura fizesse um gesto de raiva:
-
-—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita
-é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não
-se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu
-coração; foi fiel quanto poude á sua promessa.
-
-O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem
-diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito
-de Ventura.
-
-—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?
-
-—Não, respondeu com energia Chico Luiz.
-
-—Que aconteceu pois?
-
-—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare
-já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir
-dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu
-cabo de gente innocente!
-
-E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande.
-
-—Você me ouve? perguntou elle ainda.
-
-Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se
-decidindo.
-
-—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a
-garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão.
-
-—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para
-Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes.
-Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o
-seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia
-muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma
-cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a
-Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito
-a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha
-carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua
-alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu
-muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto
-e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter
-levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella.
-N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse;
-ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos
-quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita,
-para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se
-commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.
-
-E acrescentou:
-
-—Agora estou ás suas ordens.
-
-Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa
-por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que
-vinha chegando.
-
-As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na
-testa.
-
-Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar.
-
-—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a
-Babita. Foi você quem inventou a _embromação_ da minha morte.
-
-—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu
-estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois
-olhe para mim, e veja se sou capaz disso...
-
-Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez.
-
-O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do
-coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o
-peito...
-
-Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo
-havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres.
-
-Os dous homens estavão calados.
-
-De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:
-
-—Você me perdôa?
-
-Juca Ventura estremeceu todo.
-
-—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você,
-portuga de desgraças, me tomar a _minha_ noiva, me arrancar o coração,
-pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha
-alegria, quer tambem o meu perdão?...
-
-—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem
-de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da
-mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas
-que me pertence _a mim_. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de
-joelhos...
-
-—Não, não!
-
-—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu
-perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher,
-tem pena de meu filho!...
-
-E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca
-Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto,
-não uma baixeza ou medo, mas uma _menagem_ á desgraça do tropeiro.
-
-—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou
-pensar.
-
-E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.
-
-—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que...
-para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para
-nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora.
-
-E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da
-noite...
-
-No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de
-Uberaba.
-
-Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle,
-conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito.
-Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da
-velha.
-
-Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já
-fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa
-tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no
-coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte
-que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma
-desgraça feia.
-
-Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a
-fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não
-se admirava disso, porque tinha corrido a _rodella_ de sua morte, e mais
-isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia
-o que pensar se era disfarce ou não.
-
-Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se
-apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o
-abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do
-emboaba.
-
-Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de
-proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é
-preciso notar.
-
-Juca Ventura _desapeou_ meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas
-se adiantou a encontrar quem vinha entrando.
-
-—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o
-portuga estendendo a mão.
-
-O tropeiro mal a tocou.
-
-—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio.
-
-E accrescentou.
-
-—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della.
-
-Houve um silencio grande.
-
-Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro:
-
-—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão
-de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo.
-
-E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.
-
-Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e
-chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de
-misericordia.
-
-Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo
-sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho.
-
-—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada
-palavra.
-
-Ninguem lhe respondeu.
-
-—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu
-coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre.
-
-Babita deu um soluço de desespero.
-
-Ventura chegou-se para ella.
-
-Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:
-
-—E você é feliz?
-
-—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho.
-
-—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal...
-Adeos, adeos!
-
-As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais.
-
-Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou
-uma outra vez a mão.
-
- * * * * *
-
-Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro
-tempo, mas já não era o mesmo _de dantes_. Calado sempre, só achava gosto
-no trabalho.
-
-A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava
-amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com
-a vida d’elle.
-
-Uma vez, porém, sahio do sério.
-
-Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado,
-e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta
-pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo.
-
-Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura.
-
-Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando
-o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a
-gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por
-dentro.
-
- _Longes_ terras viajei
- Padeci muito na vida.
- E o Deus de compaixão
- Não me quer findar a lida.
-
- Faço força para ter
- Paciencia, meu senhor:
- Mas debalde aperto o peito
- Atravez rompe-me a dôr.
-
- Coração, meu coração,
- Á razão porque não cedes?
- Se não ha poder no mundo
- Que te dê o que tu pedes...
-
- Porque, pois, tanto affligir?
- Palpitar com violencia?
- O destino já fallou
- E foi falla sem clemencia.
-
- Golpes duros contra mim
- Desfechou sorte perjura,
- Mas, cruel, deixou-me o nome,
- Por chacóta, de Ventura.
-
- Sim, ventura hei de emfim ter
- Quando a morte apparecer.
- Sim, ventura sentirei,
- Quando me sentir morrer.
-
-
-FIM DE JUCA, O TROPEIRO.
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] Como em geral todas as denominações de lugares do districto de
-Miranda, é este nome de origem guaycurú e significa—_bando de trairas_.
-
-[2] Agaxi é corrupção da palavra _Euagaxigo_, que quer dizer—_bando de
-capivaras_.
-
-[3] Está muito bom?
-
-[4] Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro tribus em
-que se divide a nação chané: terenos, laianos kinikináos e guanás.
-
-[5] Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.
-
-[6] Coitado! Está doente de febres!
-
-[7] Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.
-
-[8] Estrella, em dialecto guaná.
-
-[9] Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era kinikináo.
-
-[10] Taquaral.
-
-[11] Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados portuguezes.
-
-[12] Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar as pessoas de
-importancia. Ás vezes dizem simplesmente: ó senhoria!
-
-[13] O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore que annualmente se
-cobre de flores grandes e amarellas. Os indios contão os annos pela época
-da florescencia.
-
-[14] Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento de muito respeito.
-
-[15] —Adeos.
-
-[16] —Adeos. A differença entre as duas palavras provém de que a primeira
-é a despedida de quem parte e a outra a saudação de quem fica.
-
-[17] Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada _rancho_.
-
-[18] Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso.
-
-[19] Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi salvo
-no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da batalha de
-Campo-Grande.
-
-[20] Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos,
-devido naturalmente á natureza eminentemente salina de todo o terreno do
-districto de Miranda e principalmente das margens do Aquidauána.
-
-[21] Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior.
-
-[22] Apaixonadas.
-
-[23] Talento em linguagem sertaneja é força, robustez.
-
-[24] Já se vê que a necessidade da rima é que levava o nosso cantor a
-esses disparates.
-
-[25] O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e tinha
-aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba a reunir-se
-ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se sempre com muita
-coragem e falleceu de cholera morbus em fins de maio de 1867. _Tres
-contra quatorze_ havia sido, pelo que contava elle, uma sua façanha
-praticada na guerra do Rio Grande do Sul, durante a luta dos _farrapos_.
-
-[26] Desmoralisados.
-
-[27] Fortaleza.
-
-[28] Vestido.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAG.
-
- Ierecê a Guaná. 11
-
- Da mão á boca se perde a sopa. 67
-
- Camiran a Kinikinao. 119
-
- O Vigario das Dôres. 155
-
- Juca, o Tropeiro. 183
-
-TYP. DE Pinheiro & C.ª RUA SETE DE SETEMBRO N. 157
-
-
-
-
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- The Project Gutenberg eBook of Historias Brasileiras, by Sylvio Dinarte.
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-<pre>
-
-The Project Gutenberg EBook of Historias Brazileiras, by
-Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay and Sylvio Dinarte
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
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-
-Title: Historias Brazileiras
-
-Author: Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay
- Sylvio Dinarte
-
-Release Date: June 29, 2020 [EBook #62525]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS ***
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-</pre>
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-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<h1>HISTORIAS BRASILEIRAS</h1>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p>
-
-<p class="center larger">OBRAS DE J. DE ALENCAR</p>
-
-<table summary="Obras de J. de Alencar">
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Ermitão da Gloria.—A Alma do Lazaro</span>,
- 1 v. enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Garatuja</span>, chronicas dos tempos
- coloniaes, 1 v. in-8º enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Til</span>, romance brasileiro. 4 v. enc.
- 6$, br.</td>
- <td class="tdpg">4$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Iracema</span>, lenda do Ceará, 2ª edição,
- 2 v. br. 2$, enc.</td>
- <td class="tdpg">3$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Viuvinha e os Cinco Minutos</span>, 2ª
- edição, 1 v. br. 2$, enc.</td>
- <td class="tdpg">3$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Guarany</span>, 3ª edição, 2 v. in-4º
- encadernados</td>
- <td class="tdpg">10$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">As Minas de Prata</span>, rom. historico,
- complemento do precedente, 6 v. in-8º br. 12$, enc.</td>
- <td class="tdpg">16$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Demonio Familiar</span>, comedia em 4
- actos, 2ª edição, 1 v.</td>
- <td class="tdpg">1$500</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">A Mãi</span>, drama em 4 actos, 2ª edição,
- 1 v.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Verso e Reverso</span>, comedia em 2
- actos, 2ª edição, 1 v.</td>
- <td class="tdpg">1$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">As Azas de um Anjo</span>, comedia em
- 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo, 2ª edição, 1 v.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Gaucho</span>, romance brasileiro, 2 v.
- in-8º br. 4$000, enc.</td>
- <td class="tdpg">6$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Pata da Gazella</span>, romance
- brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000 encadernado.</td>
- <td class="tdpg">3$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Tronco do Ipê</span>, romance
- brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, encadernado.</td>
- <td class="tdpg">6$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Sonhos d’oiro</span>, romance
- brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br.</td>
- <td class="tdpg">4$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Diva</span>, <i>perfil de mulher</i>,
- 2ª edição, 4 v. enc.</td>
- <td class="tdpg">3$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Luciola</span>, <i>perfil de mulher</i>,
- 3ª edição 1 v. enc.</td>
- <td class="tdpg">3$000</td>
- </tr>
-</table>
-
-<p class="center larger">BERNARDO GUIMARÃES</p>
-
-<table summary="Obras de Bernardo Guimarães">
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Seminarista</span>, romance brasileiro,
- 1 v., enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Lendas e Romances</span>. Uma Historia de
- Quilombólas, a Garganta do Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v.
- enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">O Garimpeiro</span>, romance, 1 v. enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
- <tr>
- <td><span class="smcap">Historias e Tradições</span> da Provincia de
- Minas-Geraes: A Cabeça do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira,
- 1 v. enc. 3$, br.</td>
- <td class="tdpg">2$000</td>
- </tr>
-</table>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage larger">HISTORIAS BRAZILEIRAS</p>
-
-<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br />
-<br />
-SYLVIO DINARTE<br />
-<br />
-<span class="smaller">(Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do<br />
-Coração, Innocencia, etc.)</span></p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 170px;">
-<img src="images/deco.jpg" width="170" height="25" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">RIO DE JANEIRO<br />
-<span class="smaller">Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.<br />
-1874</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p>
-
-<p class="dedication">AO CAMARADA E AMIGO<br />
-CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.<br />
-OFFERECE<br />
-O Autor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p>
-
-<h2 id="IERECE_A_GUANA">IERECÊ A GUANÁ<br />
-<span class="smaller">EPISODIO</span></h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,</div>
-<div class="verse">Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?</div>
-<div class="verse center">...</div>
-<div class="verse">Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...</div>
-<div class="verse">Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.</div>
-<div class="verse indent6">Moi, je t’aime, comme je vis.</div>
-<div class="verse right"><span class="smcap">Victor Hugo</span>—<i>A Taitiana</i> (Ballada).</div>
-</div>
-</div>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">Savais-je s’il était des malheureux au monde?</div>
-<div class="verse">Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!</div>
-<div class="verse right"><span class="smcap">Chamfort.</span></div>
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p>
-
-<h3>IERECÊ A GUANÁ</h3>
-
-<h4>CAPITULO I</h4>
-
-<p>Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho <i>Alpha</i>,
-sahindo da capital da provincia de Matto-Grosso,
-desceu para Corumbá, e, por ordem do presidente
-de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou
-a fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente
-foi cortando aguas acima para conhecer das condições
-de sua navegabilidade durante a estação secca
-até a villa de Miranda, a qual assenta na margem
-direita e a mais de 40 legoas do ponto em que o volumoso
-e revolto caudal faz barra no grande Paraguay.
-Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o
-fumegante barco atracar junto á barranca da povoação,
-alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando
-de modo nunca visto o costumado e natural
-socego d’aquella distante localidade.</p>
-
-<p>Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que,
-sob a denominação de districto de Miranda, se estende
-ao sul da provincia desde o rio Piquiry até o Apa e o<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span>
-Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de importancia
-que nem as febres endemicas em determinados
-periodos do anno, nem o desenvolvimento rapido de
-Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, havião podido
-lhe tirar.</p>
-
-<p>Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por
-um sentimento de exageração, não vião razões para
-lhe negar o pomposo titulo de <i>cidade</i>, justificado senão
-pelo estado de prosperidade que tinha então, ao
-menos em vista do engrandecimento que lhe podião
-garantir, em futuro não muito remoto, as suas relações,
-já de annos iniciadas, com as provincias de
-S. Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima,
-Brilhante e Nioac de um lado, e Miranda do outro.</p>
-
-<p>A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que
-erão repetidas com desvanecimento.</p>
-
-<p>Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre
-os destroços do forte Xeres, levantado em passadas
-éras pelos hespanhóes como paradeiro á influencia
-portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões,
-em Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido
-por outro em que fluctuavão as quinas do dominio
-legal.</p>
-
-<p>Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre
-e das promessas do futuro, varios e influentes partidarios
-contava a idéa, aliás justa e sensata, da necessidade
-de se mudar a séde da cabeça do districto para
-outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria
-das febres intermittentes que as enchentes e transbordamentos
-do rio annualmente trazião e que atacavão<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span>
-não só os recem-chegados e visitantes de passagem,
-como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás
-vezes até, alguns dos mais antigos moradores.</p>
-
-<p>Os lugares indigitados para essa mudança erão
-Pedra Branca, poucas legoas acima, e a Forquilha,
-ainda além e na confluencia dos rios Miranda e Nioac.</p>
-
-<p>Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do
-Paraguay, baixa e sujeita ás inundações e, conservando
-a regalia de desimpedida navegação, se procurassem
-as terras altas proximas á serra de Maracajú
-e que se ligão aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo
-progresso era já uma realidade, mais largos horizontes
-se abririão para a villa, libertando-a dos inconvenientes
-que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade.
-N’esse caso, nenhuma indicação reunia com
-fundado motivo mais adhesões do que a da Forquilha,
-bella e elevada planicie assente no entroncamento de
-duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas
-era facil e já aproveitado.</p>
-
-<p>Como que para difficultar, porém, a realisação de
-tão conveniente deslocamento e desanimar os mais
-ardentes propugnadores da medida, não fazia muitos
-mezes antes da chegada do <i>Alpha</i>, havião sido lançadas
-no lugar da antiga palissada a que devia a villa
-o appellido de <i>forte</i>, as bases de um grande quartel,
-edificação que, concluida, tornou-se sem contestação
-uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi
-em 1866 vandalicamente incendiada pelos paraguayos
-por occasião de se retirarem do districto para operar
-a sua concentração na fronteira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span></p>
-
-<p>Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo,
-o apparecimento de um vapor causava immenso
-contentamento no seio da população de Miranda pelas
-consequencias que necessariamente havia de produzir
-aquella viagem de ensaio, prova cabal de que o rio,
-ainda na vazante, prestava-se á franca navegação muito
-além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até
-onde havião subido os presidentes Delamare e Alencastro,
-este ultimo em 1860 no <i>Jaurú</i>, que é de calado
-não pequeno.</p>
-
-<p>Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos
-o espirito muito inclinado para as transacções commerciaes
-e n’ellas desenvolvem o seu genio naturalmente
-activo, e tão atilado quão desconfiado.</p>
-
-<p>Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos
-de negocio a Cuyabá e na previsão de lucros
-proveitosos entregavão-se á mais expansiva alegria.</p>
-
-<p>Por toda a parte a agitação era grande.</p>
-
-<p>Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes;
-o sino da matriz com festivos repiques parecia querer
-rachar de contente e o povo, depois de se ter agglomerado
-nas duas ruas convergentes á praça da igreja,
-havia se encaminhado todo para a margem do rio,
-tomando a estrada que, com extensão de quasi meia
-legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o
-porto—e que não passa de uma rampa mal cavada
-na barranca.</p>
-
-<p>No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta
-do Miranda desapparece, invadida pelas agoas que
-vêm então lamber o limiar das primeiras casas da<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span>
-villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida
-de chão um tanto lodoso e ensombrada por magnifico
-arvoredo.</p>
-
-<p>Entre os grupos dos que conversavão animadamente
-a caminharem para o <i>porto</i>, circulava tambem a noticia
-da vinda de dous officiaes de engenheiros, incumbidos,
-pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao
-Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que
-já n’esse tempo tinha soffrido senão insultos directos
-da parte dos nossos vizinhos paraguayos, pelo menos
-os effeitos de sua cada vez mais decidida altaneria.</p>
-
-<p>Estava ainda recente a desagradavel impressão do
-modo insolente por que um commandante do forte
-Bella Vista, no Apa, tratára o piquete brazileiro que
-fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe,
-e, na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem
-taes scenas e outras peiores, como em 1850—em
-que uma força estrangeira, sem respeito á linha
-divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia
-do mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir
-o sobr’olho a vizinhos tão carrancudos e desagradaveis.</p>
-
-<p>N’essa época, já proxima da invasão que o dictador
-do Paraguay Lopez ideava, raros erão, comtudo, aquelles
-que, nos mais chegados lugares da fronteira, suppuzessem
-possivel uma guerra provocada pela republica
-confinante.</p>
-
-<p>Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era
-despotico e que se achava militarisado com grande
-rigor de disciplina, mas ignoravão-se os innumeros
-recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-que accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo
-crença geral de que o seu affastamento systematico
-da communhão das nações era produzido pela politica
-tacanha e mal concebida dos directores de um povo,
-que, por habitos arreigados de obediencia e tranquillidade,
-era feliz a seu modo, e queria viver em paz.</p>
-
-<p>Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito
-publico com essas supposições quasi erigidas em
-certeza e com a convicção de que bastarião providencias
-de ordem secundaria para manter o Paraguay na
-orbita do respeito que nos era devido, intelligentes
-emissarios do dictador havião já percorrido de norte
-a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado com
-especialidade o territorio que mais de prompto teria
-de experimentar os effeitos do humor bellicoso e conquistador
-de Solano Lopez.</p>
-
-<p>Em todo o caso, apezar do socego de que gozava
-o districto, é certo que a chegada de dous profissionaes
-com aquella commissão de caracter militar indicava
-que o governo central, fiando-se nas boas relações
-que entre as duas nações parecia não deverem de tão
-cedo soffrer québra, cuidava comtudo de attender
-para as suas fronteiras, cuja tranquillidade e segurança
-influião directamente no desenvolvimento agricola
-de toda aquella zona.</p>
-
-<p>No <i>Alpha</i> viéra com effeito, não dous, mas um official
-de engenheiros, esse mesmo com incumbencia
-puramente civil, visto como só devia ir observar os
-progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho
-que liga aquella nascente colonia ao porto de Santa<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span>
-Rosalinda, no rio Brilhante, até onde já tinha subido
-um vapor partido de Itapúra, na provincia de S. Paulo.
-Quanto ao companheiro com que esse official viéra de
-Cuyabá, não tinha posição alguma militar, nem trouxera
-encargo que desempenhar.</p>
-
-<p>Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por
-méra distracção. Homem no pleno vigor dos annos,
-e bastante rico para satisfazer os seus caprichos, emprehendera
-extensas viagens por simples distracção e
-pelo prazer do movimento, percorrendo paizes uns
-após outros como <i>turista</i> e á maneira de Victor Jacquemont,
-que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez
-tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior
-da Asia.</p>
-
-<p>O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda
-não era dos mais naturaes.</p>
-
-<p>Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de
-Janeiro, comprou passagem para Montevidéo, passou
-lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres, onde
-se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade
-pelo que dizião do Paraguay, subio até Assumpção,
-que, no fim de poucas horas, ficou peremptoriamente
-julgada e qualificada sem appellação de acanhada,
-monotona e estupida.</p>
-
-<p>—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me
-a ir até Cuyabá.</p>
-
-<p>E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade
-de continuar a viagem fluvial, sulcou rio acima
-o Paraguay e, n’uma tarde de calor intenso, foi desembarcar
-na capital de Matto-Grosso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<p>Arrepender-se logo do que acabava de executar era
-sempre o primeiro movimento do nosso viajante; por
-isso a elle mesmo não causou espanto o desgosto que
-experimentou ao pôr pé em terra.</p>
-
-<p>—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito,
-vir ter a uma terra, onde nem sequer ha
-hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem
-ao Sr. capitão de engenheiros Freitas....</p>
-
-<p>E procurando nos bolsos uma carta de recommendação
-de que se munira em Assumpção, sacou-a para
-lêr o sobrescripto e poder se orientar.</p>
-
-<p>—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo
-da Mandioca n. 10.</p>
-
-<p>Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta
-foi-lhe aberta por um sympathico moço, a propria
-pessoa a quem o recommendavão.</p>
-
-<p>—Poucas relações tenho, disse o official correndo
-os olhos pela carta, com quem me escreve, mas sinceramente
-acolho quem me traz a apresentação com
-a maior satisfação e cordialidade.</p>
-
-<p>—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo
-no rosto de Freitas a confirmação de suas palavras,
-me agrada sobremodo.</p>
-
-<p>—Pois então entre, e trate-me desde já senão como
-amigo, pelo menos como camarada.... Onde estão
-as suas cargas?</p>
-
-<p>—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem
-sou....</p>
-
-<p>—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um
-cavalheiro....</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p>
-
-<p>—Pelo menos o meu nome é indispensavel....</p>
-
-<p>—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais
-que a carta de recommendação nem sequer lembrou-se
-d’isso. É um cheque ao portador.... O senhor chama-se
-meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.</p>
-
-<p>Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel
-era que Alberto não sentisse desvanecerem-se as
-primeiras impressões de máo humor. Tambem d’ahi
-a pouco conversavão os dous como se o conhecimento
-datasse dos dias de infancia.</p>
-
-<p>Para o homem acostumado a viajar nada custa
-menos do que a immediata familiarisação. Qualquer
-com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre algum
-agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo
-companheiro muito estimado: outro com quem passe
-um dia inteiro é quasi um intimo, e se houver então
-uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se
-em amigo de data mui remota.</p>
-
-<p>Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se
-inseparavel de Julio Freitas, o qual por seu
-lado fazia todos os esforços para tornar a estada
-do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.</p>
-
-<p>—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações
-sobre Matto-Grosso, não é aborrecida, muito
-pelo contrario; mas é sempre uma cidade de provincia.
-O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem
-o espirito de quem chega e não conta deparar
-com povoação tão importante e, pode-se assim dizer
-sem exageração, tão civilisada no meio de immensos
-desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil,<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-vive-se por demais debaixo da influencia da côrte. Ha
-bonitas mulheres, bem conversadas; dão-se brilhantes
-bailes; ha tal ou qual sociabilidade; o commercio
-tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia,
-nem de espirito, mas só se sente verdadeira
-vida quando chega a mala do Rio de Janeiro. É o sol
-benefico que mandou um raiosinho de luz e de calor
-para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento
-de abandono e de desterro é que me fez sempre desejar
-ardentemente sahir d’aqui, mas afianço-lhe que
-o meu contentamento pela volta, que está muito
-proxima, não é de todo isento de certo aperto de
-coração.... e entretanto nada me prende particularmente
-a Cuyabá....</p>
-
-<p>—De modo que se houvesse algum liame, você
-não deixaria mais esta terra?</p>
-
-<p>—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa
-por ser perigosa, e, como fallo a pessoa novata, recommendo-lhe
-que fuja das causas que o podem reter
-para sempre n’este canto do mundo.</p>
-
-<p>—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.</p>
-
-<p>—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente
-na meiguice das mulheres, nas cabeças de pacús e
-caudas de pirapitangas. Trate, pois, se não quer encalhar
-em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e
-de não provar das extremidades d’aquelles dous peixes
-senão com muita reserva e cautela.</p>
-
-<p>Se houve e ha com effeito esse risco para quem
-se demora na capital de Matto-Grosso, Alberto soube<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span>
-tão bem resguardar-se, que quando, mez e meio
-depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque
-no vapor <i>Alpha</i> com destino á villa de Miranda e a
-sua digressão pelo districto, antes de seguir definitivamente
-para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para
-partir e muito satisfeito com tão breve retirada.</p>
-
-<p>—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu
-passeio ás terras de Miranda e Nioac....</p>
-
-<p>—Mas é cousa muito rapida e incommoda....</p>
-
-<p>—Não importa....</p>
-
-<p>—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa
-Rosalinda no Brilhante e voltar a Corumbá.</p>
-
-<p>—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os
-indios e estar com elles. Vir a Matto-Grosso e não
-conviver algumas semanas com os seus amaveis aborigenes,
-é falta imperdoavel em viajante de meu
-quilate....</p>
-
-<p>—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?</p>
-
-<p>—Estes não me servem. Estão já modificados pelo
-nosso modo de viver; demais <i>aportuguezados</i>, já que
-não posso dizer <i>abrazileirados</i>. Em Miranda encontrarei
-o que desejo e, mettido em alguma aldêa,
-pilharei <i>la nature chez elle</i>.</p>
-
-<p>—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar
-á anthropologia, não é? São estudos que agradão
-á muita gente, sem que por isso a sciencia adiante um
-passo....</p>
-
-<p>Eis explicada a razão por que se achava Alberto
-Monteiro na villa de Miranda e fazia tambem seus preparativos
-para uma viagem ás terras altas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<p>Partirão os dous moços por uma fria madrugada,
-montados em bons animaes e acompanhados de tres
-soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso que
-devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos
-em bruacas ás costas de um valente burro
-de carga, redes, uma barraca de campanha, pequenas
-malas contendo alguma roupa, erão condições para
-com muita commodidade alcançar o povoado de Nioac,
-aliás pouco distante aos olhos de quem está acostumado
-a viajar por terra.</p>
-
-<p>Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados,
-cobertos, não raras vezes em vasta extensão, de
-<i>piripiris</i>, juncos que mergulhão as raizes n’agoa ou
-no lodo e morrem na época dos grandes calores. Entretanto,
-logo ás primeiras legoas, verifica o viajante,
-já pela natureza da vegetação, já pelos córtes e margens
-elevadas em que correm os regatos, que o sólo vai
-gradualmente se levantando.</p>
-
-<p>Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da
-povoação, a estrada alarga e parece um caminho macadamisado,
-tamanha é a quantidade de seixinhos rolados
-que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda
-estende-se vistoso o cerrado: ha muito <i>umbú</i> que embalsama
-os ares com a fragrancia de suas flôres, grande
-cópia de <i>jatahys</i>, de <i>piquís</i>, cujos fructos amarello-avermelhados
-são tão bonitos, e de <i>mangabeiras</i> que
-nos mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos
-saborosos e rubicundos pomos.</p>
-
-<p>O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende
-como a lomba de uma serrania, cuja vertente d’esse
-lado é muito suave e estendida.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
-
-<p>Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do
-<i>cerrado</i> e deixa que a vista ganhe espaço para a esquerda.
-Então dilata-se o horizonte, e vêem-se campos
-ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco
-amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe,
-uma linha tortuosa e escura de matta indica um grande
-rio, e no fundo, emmoldurando aquella bella paisagem,
-ergue-se altanada serra, corôada de pincaros escalvados
-e talhados de um modo tão sorprendedor,
-quão grandioso.</p>
-
-<p>O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que
-serpêa a procurar o Mondego; a serra, a de Maracajú
-que em alguns pontos parece lavrada pela mão de
-caprichoso genio empenhado em imitar com proporções
-colossaes castellos, baluartes e outras construcções
-que tambem com pedra levantão os fracos mortaes.</p>
-
-<p>Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda,
-abatem-se as terras. Então, de um lado, para
-o Norte, melhor se accentuão os accidentes que esboçámos,
-e do outro, ao Sul, abrem-se campinas extensissimas
-sem outro córte mais na sua uniforme expansão
-do que um ou outro capão de matto em encontro
-pronunciado de declives, onde se mantenha com persistencia
-a humidade precisa para o desenvolvimento
-de vegetação mais vigorosa.</p>
-
-<p>A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de
-continuo na pedra solta e roliça que forra o chão.</p>
-
-<p>—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo
-as redeas ao animal para comtemplar com
-mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a pena<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span>
-vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!...
-admiravel!</p>
-
-<p>Depois do corrego de Eponadigo<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>, o <i>cerrado</i> fica
-mais fechado, de modo que o viajante caminha em
-aléa encoberta dos raios de sol por grandes arvores,
-algumas das quaes até são madeiras de lei, como o
-<i>jatahy</i> e o <i>vinhatico</i>.</p>
-
-<p>O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente,
-escandescida que foi pela reverberação dos campos
-desabrigados de Camapuan.</p>
-
-<p>Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se
-incommodado e no pouso teve febre bastante
-violenta.</p>
-
-<p>—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o
-accesso, para quem, ha muitos annos, não tem tido
-molestia. O que porém me acontece agora é uma homenagem
-devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos,
-pois.</p>
-
-<p>Na manhã seguinte, depois de uma noute calma,
-estava elle bem disposto de espirito, mas com o corpo
-alquebrado. Tomára uma beberagem de <i>quina do
-campo</i> que um dos soldados lhe havia preparado e
-transpirára muito.</p>
-
-<p>Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo,
-com muito mais intensidade d’essa vez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p>
-
-<p>Estavão então os dous viajantes no <i>Agaxi</i><a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>, corrego
-que atravessa o aldeamento dos kinikináos, a
-meia legoa para lá da estrada, e procurarão a sombra
-de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.</p>
-
-<p>Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar
-a rede que lhe havião promptamente armado.
-Á tarde, cahio em grande prostração e só se reanimou
-quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador
-que fizera durante todo o dia.</p>
-
-<p>—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente
-continuar a viajar sem incorrer na pécha de
-imprudente, tanto menos justificavel quanto não ha
-dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa
-de indios para mais tarde e volte amanhã mesmo para
-a villa. Com duas dóses de sulfato de quinina desapparecerão
-com certeza estes accessos, e eu, dentro em
-poucas semanas, estou de volta a Miranda.</p>
-
-<p>—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?</p>
-
-<p>—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica.
-Se você estivesse de saude, eu lhe proporia
-uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha,
-é de prudencia regressar quanto antes.</p>
-
-<p>Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou
-Alberto, que de manhã acompanhou Julio
-Freitas por um quarto de legoa na estrada de Nioac, e,
-lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span>
-onde esperou tranquillo pela hora do accesso que, se
-foi pontual como um inglez, pelo menos não veio com
-a costumada violencia.</p>
-
-<p>Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar,
-uma robustez toda especial que lhe parecerão prenuncio
-certo de total restabelecimento.</p>
-
-<p>—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado
-que Julio deixára ao amigo para camarada, <i>ansim</i> é
-que são as maleitas. Mas <i>vossuncê</i> não <i>percisa</i> para
-sarar ir até a <i>cidade</i>; fique uns pares de dias na aldêa
-e os ares de lá sacodem a <i>maldade</i> do seu corpo.</p>
-
-<p>—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até
-me entregue aos cuidados de algum velho kinikináo
-formado em medicina na escola da natureza e da experiencia.</p>
-
-<p>Com essa nova intenção montou o moço a cavallo
-e, em vez de tomar a estrada de Miranda e
-dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á
-direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo,
-levava com pouca distancia ao aldeamento dos
-indios.</p>
-
-<p>O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio
-em clareiras quasi regulares, formando o que se chama
-<i>potreiros</i>, denominação muito popularisada pela guerra
-do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em dimensões,
-era cortada a meio por um corrego encachoeirado,
-cujas agoas crystallinas acompanhava densa e
-dupla orla de buritys e taquarussús.</p>
-
-<p>Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação
-mais aprazivel e socegada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p>
-
-<p>—Que bello canto do mundo para a gente viver
-tranquilla e esquecida, exclamou Alberto.</p>
-
-<p>E, voltando-se para o camarada:</p>
-
-<p>—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são
-já da aldêa?</p>
-
-<p>—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o
-velho Morevi, kinikináo muito meu conhecido e que é
-<i>mandingueiro</i>.</p>
-
-<p>As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava
-o moço, assentavão n’uma elevação de terreno e
-dominavão todo aquelle restricto valle. Feitas de pouco
-e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares,
-de frente muito baixa e com uma fenda estreita no
-meio que lhes servia de porta. Diante da mais espaçosa
-d’ellas, um bambú, ornado de comprido trapo
-vermelho a ondular no tope, indicava a morada
-de algum indio de importancia, capitão sem duvida
-ou então <i>padre</i>, que exerce as funcções de sacerdote
-cumulativamente com as de medico e de prestigiador.</p>
-
-<p>Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos
-com a maior benevolencia por um idoso kinikináo
-que sentado á porta levantou-se com a presteza
-que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura
-para cima, tinha uma especie de saia que lhe descia
-aos calcanhares, toda ornada de vidrilhos e contas
-de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados
-de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas
-feitas com o succo do urucú e do genipapo, mas aquelles
-signaes, destinados principalmente a incutir terror
-nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de tijolo<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span>
-queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão
-natural de timidez e bondade que caracterisa em
-geral a physionomia dos indios guanás e kinikináos.</p>
-
-<p>Nem sequer parecia possuido da importancia que
-a sua posição de feiticeiro devêra lhe angariar, pois
-sem a menor hesitação estendeo a mão a Florindo e
-saudou-o com provas até de respeito.</p>
-
-<p>—<i>Unatiti?</i><a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> perguntou rindo-se e mostrando uns
-dentes alvissimos e ponteagudos, ao passo que duas
-linhas de urucú e genipapo, acompanhando o enrugamento
-da pelle, formavão dous circulos ao redor da
-boca.</p>
-
-<p>O soldado respondeo tambem em lingua chané<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>
-e explicou-lhe que aquelle companheiro era <i>capitão</i><a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a>
-e pretendia ir até a aldêa para curar-se de sezões.</p>
-
-<p>—<i>Quixauó!</i> exclamou Morevi, <i>carineti tchikiiti</i>.<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
-
-<p>Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto
-pousar ao menos uma noute n’aquelle bello lugar,
-pelo que encarregou Florindo de obter a posse de uma
-das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade,
-tanto mais quanto na occasião não tinha ella
-occupante. Na outra morava uma india de meia idade,<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as
-vistas de um homem branco e artista de coração.</p>
-
-<p>A installação fez-se com presteza. Depois de bem
-varrido o chão de barro batido, forão as ligeiras cargas
-do viajante depositadas a um canto e a sua rede suspensa
-ás traves mais grossas que servião de mourões
-á palhoça.</p>
-
-<p>Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade
-um punhado de sal, que elle embrulhou cautelosamente
-como preciosidade inestimavel.</p>
-
-<p>Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um
-vistoso collar de vidrilho e contas de ouro que devia
-lhe ornar o encarquilhado pescoço, então a sua gratidão
-não conheceo limites e despegou-lhe, depois de
-muito gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras
-quasi sem nexo, umas em seu idioma, outras em
-portuguez estropeado.</p>
-
-<p>—Este <i>lavrado</i><a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> não é para mim, disse elle
-afinal mais calmo a Florindo, é para a minha neta.
-Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um <i>nadinha</i> estará
-batendo de volta.</p>
-
-<p>Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada
-da clareira, para lá do corrego.</p>
-
-<p>—É Ierecê<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a>, exclamou Morevi apontando para
-aquelle lado, é a minha neta!</p>
-
-<p>E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice
-brilharão de orgulho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p>
-
-<p>Vinha se approximando uma mulher de altura regular
-e pórte elegante. Ao chegar á corrente abaixou-se
-e encheo vagarosamente uma vazilha de carregar agoa
-que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha.
-Depois adiantou-se sem acanhamento, acostumada
-como estava a vêr gente de Miranda na aldêa dos indios
-seus patricios.</p>
-
-<p>Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo,
-a que chamão <i>julata</i> e que, preso por volta muito
-apertada logo abaixo dos seios, desce até os calcanhares,
-e mostrava ter quando muito quinze annos
-idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas
-localidades em que o desenvolvimento da puberdade,
-já de per si precoce, é quasi sempre apressado.</p>
-
-<p>Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer
-parte do mundo prendido as vistas. Se a fronte era
-estreita, os olhos um tanto obliquos e as sobrancelhas
-pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos
-e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz
-tinha uma rectidão caucasica; os labios parecião tintos
-de carmim e a cabelleira negrejante, bem que aspera,
-espargia-se por um collo e seios admiraveis de contorno
-e de pureza. Para completar o typo de uma
-bella moça nem sequer lhe faltavão pés e mãos de uma
-pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa attenção.</p>
-
-<p>A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do
-chocolate desmaiado em leite, tão desmaiado que
-quando qualquer impressão mais viva ia entender-lhe
-com o coração, as suas faces se accendião vivas de
-rubor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span></p>
-
-<p>O que, porém, mais prompto e doce sobresalto
-causava em que para ella deitasse os olhos, era, em
-vez da apathia estampada geralmente no rosto das
-mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza
-que lhe pairava na physionomia.</p>
-
-<p>A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura,
-não passou despercebida do velho avô que com isso
-pareceo sentir viva satisfação, partilhada de resto
-pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar
-que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida
-para aquelle estrangeiro e sorrio-se para elle,
-deixando vêr no encrespar dos mimosos labios uns
-dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.</p>
-
-<p>—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.</p>
-
-<p>—<i>Acó</i>, respondeo Morevi, <i>pae tchoronó-unó</i>, filha
-tambem: mãe só <i>koinukunó</i>.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p>
-
-<p>—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.</p>
-
-<p>O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle
-juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico,
-de homem já alheio á paixão e que deixou á
-mocidade o direito de sentir aquellas commoções.</p>
-
-<p>—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou
-elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar
-comida e roupa.</p>
-
-<p>Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta,
-pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n’ella collocou<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span>
-a delicada mão da neta, ao passo que murmurava
-umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.</p>
-
-<p>Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia
-perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua
-gente, a aquelle homem desconhecido por um laço
-que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se
-completamente indifferente.</p>
-
-<p>Uma só cousa a occupava: era o collar de contas
-de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão
-de pontosinhos scintillantes como que a desferirem
-chispas, que lhe aguilhoavão docemente a
-feminil vaidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span></p>
-
-<h4>CAPITULO II</h4>
-
-<p>A primeira semana correo para Alberto alegre e
-animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se
-sentia como que retemperado pelo socego do retiro
-em que vivia.</p>
-
-<p>De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava
-quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo
-sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo
-tamanho, outros pela plumagem.</p>
-
-<p>A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com
-uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e
-jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci
-dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou
-a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante
-ao paladar.</p>
-
-<p>Apenas chegada a caça, a india a depennava com
-ésmero antes de entregal-a aos cuidados de Florindo
-que tomára a si o preparo da comida, no que mostrava
-algum talento bem que usasse, para os misteres<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-da cozinha, da gordura geralmente empregada em
-Matto-Grosso: a graxa de boi.</p>
-
-<p>Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto
-ia conversar com Morevi e tomar lições de lingoa
-chané, com cujas palavras mais notaveis procurava
-coordenar um ligeiro vocabulario.</p>
-
-<p>Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos,
-erão todos elles devidos ás indicações de
-Ierecê que se admirava muito dos esforços que aquelle
-branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.</p>
-
-<p>Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.</p>
-
-<p>Na choupana ao lado, o avô continuava em suas
-praticas de devoção e vivia completamente estranho
-ao casal.</p>
-
-<p>No fim da primeira semana de estada no Hetagati<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>—assim
-se chamava o lugar—foi o soldado Florindo
-despachado para a villa de Miranda, afim de, com a
-necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto,
-fructos seccos, conservas, diversos córtes de fazendas
-e tudo quanto podesse ser de mais immediata
-necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle
-local.</p>
-
-<p>Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas
-duas garrafas de agoardente de canna e varias
-braças de bom fumo goyano que erão destinadas ao
-complacente Morevi.</p>
-
-<p>Com a chegada de uma peça de chita franceza,
-Ierecê deixou o trajo nacional e primitivo e cobrio o<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span>
-esbelto corpo de um vestidinho que Alberto deo-se ao
-trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho
-da costureira, tão desageitada em seus movimentos,
-quão impaciente por terminar e poder envergar aquella
-roupagem nova.</p>
-
-<p>Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario,
-mais alta e vistosa parecia com a saia escorrida e a
-camisinha alva que lhe cahia dos hombros, repellida
-pela rebeldia dos seios.</p>
-
-<p>Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo
-a physionomia: muita brandura, tristeza e alguma
-curiosidade.</p>
-
-<p>A principio Ierecê considerára Alberto como um
-ente de natureza superior, a quem devia obediencia
-céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo;
-depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento
-ao vêl-o tão occupado de tudo quanto
-podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu
-espirito.</p>
-
-<p>Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho
-e alegria, quando aquelle <i>portuguez</i><a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a>, de
-fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia
-os abundantes cabellos, formando caprichosos
-e sempre novos penteados?!</p>
-
-<p>Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados
-e a boquinha entre-aberta de admiração, as
-narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span>
-tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a
-relva diante da choupana, vião o sol se esconder por
-detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!</p>
-
-<p>N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as
-sombras da natureza parece quererem tambem invadir.
-Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava
-com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado
-da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra
-o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas
-da aspera garganta.</p>
-
-<p>A sua faceirice natural e innocente era ajudada por
-intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos:
-assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas
-que costumava traçar com urucú e genipapo;
-deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os
-indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se
-emfim por merecer applauso pelo abandono prompto
-d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o
-modo de viver civilisado.</p>
-
-<p>Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou
-com modestia os seios, trazendo sempre diante
-do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e
-atado pelas outras ao pescoço.</p>
-
-<p>O que era bom e poetico, ella conservava; assim,
-frequentemente entretecia capellas e collares de flores
-para os cabellos e braços e todos os dias renovava a
-elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que,
-segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte
-como verdejante pennacho.</p>
-
-<p>Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois,<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-observando a bondade com que a tratava Alberto,
-arriscou algumas palavras em chané, logo após em
-portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a
-mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua
-lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente,
-por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho,
-perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do
-missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do
-baptismo e o nome christão de Sylvana.</p>
-
-<p>Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso
-capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo,
-só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca
-deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se
-deitar.</p>
-
-<p>Uma vez quebrada a barreira de constrangimento
-que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india
-o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então
-por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças
-felizes, ora ornava o interior da choupana de
-flores e de festões de folhas, ora contava historias de
-sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e custoso,
-ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com
-desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura
-de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente
-amuada para logo voltar ás boas com um
-excesso nunca visto de momices e caricias.</p>
-
-<p>Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de
-suas excursões pela matta, occultava-se Ierecê por
-traz de alguma arvore possante e cahia de chofre sobre
-elle com o fim de assultal-o.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p>
-
-<p>Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas,
-como solta um peito que não sente cuidados.</p>
-
-<p>Em começo, a india mal deixava os arredores da
-choupana, chegando quando muito até o ribeirão.
-Depois alongou os passeios, só com o fim de ir apanhar
-passaros que tivessem pennas mais formosas e
-brilhantes do que os que trazia o caçador. Com visgo
-natural que tirava da mangabeira para armar arapucas
-e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os
-vivos, e voltava, então, pulando de contente
-deposital-os nas mãos de Alberto depois de ligar-lhes
-as azas ao corpo por meio de uma embira larga.</p>
-
-<p>Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um
-arsinho seductor, irresistivel.</p>
-
-<p>Se havia prazer em prender os mimosos volateis,
-maior, sem comparação possivel, experimentava ella
-quando Alberto lhe pedia a liberdade para os prisioneiros.</p>
-
-<p>Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre
-á tarde, com luz bastante para que os passarinhos
-podessem ir buscar os seus pousos de querencia.
-Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um
-por um a Alberto, que era quem desatava o cordel
-que lhes impedia o vôo.</p>
-
-<p>O animalsinho disparava palpitante de medo com
-direcção á matta, e Ierecê seguia-o quanto podia
-com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os olhos
-carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso
-para com todos os filhos da natureza.</p>
-
-<p>Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span>
-a achar a vida que levava um tanto monotona,
-não podia eximir-se da satisfação suave que em todos
-produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar
-os progressos da paixão que accendêra no peito da
-indigena, sem querer entristecia-se e procurava arredar
-da lembrança a necessidade de em breve dar fim
-áquella ligação passageira.</p>
-
-<p>O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse
-sorrir ao espirito do moço, tratava ella, na medida
-de suas forças, de conseguir logo: plantas raras e
-curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos,
-conchas do rio e insectos, objectos emfim mais ou
-menos approximados pela côr e fórma a qualquer
-outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção
-e que immediatamente a ella servia de typo para as
-amorosas pesquizas.</p>
-
-<p>Então como se pagava de um olhar de agradecimento,
-de um sorriso, um gesto?! Seos olhos inquietos
-estudavão a impressão que a physionomia do
-mancebo lhe havia de denunciar.</p>
-
-<p>As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores
-do Rio de Janeiro excitavão-lhe vivamente
-a imaginação. A descripção do trajo das mulheres e
-da mudança continua das modas sobretudo a encantava
-de um modo singular.</p>
-
-<p>—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma
-vez com fundo suspiro.</p>
-
-<p>—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.</p>
-
-<p>—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das <i>portuguezas</i>
-tão alvas e bonitas. Eu nasci para o matto.<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas.</p>
-
-<p>Florindo dava-se muito bem com a india: ella o
-ajudava no preparo da comida; ia buscar fogo; corria
-a encher no ribeirão a bilha d’agua; respigava para a
-cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha espontaneidade
-que o soldado, apezar da fleugma natural,
-deixava-se levar a lhe querer muito bem, o que
-manifestava a Alberto, respeitando na mulher a posição
-do seu camarada.</p>
-
-<p>—Ó vossa senhoria,<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> dizia elle, esta <i>dona</i> parece
-mesmo, com sua licença, filha de feiticeiro. Nunca vi
-uma creatura, com perdão da palavra, de melhores
-modos. Prende deveras o coração da gente.</p>
-
-<p>Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz,
-pelo menos tão calmo. Nada lhe perturbava a paz do
-espirito, e como a saúde voltára completa, vivia sem
-consciencia exacta do tempo que passava.</p>
-
-<p>A paizagem que o cercava era restricta, mas amena.
-Densa cintura de matta virgem limitava logo o horizonte;
-em compensação, porém, os olhos erão obrigados
-a parar demoradamente nos grupos de buritys
-e taquarussús que acompanhavão o percurso do corrego
-e que mais se condensavão em torno de uma
-bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão
-sobre um fundo de areias prateadas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p>
-
-<p>Ahi era o banho de Ierecê.</p>
-
-<p>Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio
-do valle com um canto lugubre, cortado de notas
-agúdas e desafinadas. Para essas barulhentas vigilias
-é que se trajava do modo em que o encontrára
-Alberto no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda
-enfeitada de lentejoulas, presa á cintura por um talim
-bordado a contas de côr e corpo riscado de urucú e
-genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal
-erão um espanador grande de pennas de ema,
-ornado de desenhos caprichosos e um chocalho que
-sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar
-e recuar, um couro sem pello estendido diante da
-porta.</p>
-
-<p>Erão as conferencias do feiticeiro com o <i>acauan</i>,
-especie de gavião pequeno que solta guinchos finos,
-accentuando as syllabas que lhe derão o nome—a-ca-uán—passaro
-agoureiro no dizer dos indios e com
-cujas consultas podem os padres descortinar o futuro.</p>
-
-<p>De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada
-longa: de repente ouvia-se muito ao longe o
-grito do milhafre a que o velho respondia com voz de
-supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim
-parecia acontecer. Os pios vinhão se tornando cada
-vez mais distinctos e afinal os ares estrugião com um
-estridente hymno de triumpho em que o rouquejar
-do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.</p>
-
-<p>Ahi começavão as revelações.</p>
-
-<p>Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e
-pela perfeição com que era imitado o gritar do acauan,<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span>
-foi observar o velho e ouvir-lhe as descompassadas
-cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por
-ser interrompido no melhor do somno.</p>
-
-<p>Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos
-empregou, apoiados em dadivas e promessas, que
-nunca mais aquella grita dissonante perturbou a tranquillidade
-das noutes. Se continuarão as consultas ao
-acauan, forão sem duvida feitas com toda a modestia
-em voz muito baixinha, para não incommodar o
-<i>portuguez</i>.</p>
-
-<p>Em compensação, se, para socego dos ouvidos,
-calava-se Morevi, a netinha cantava melodias de sua
-nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas,
-mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava
-um somno doce e enervador. Ella cantava como
-cantão os passarinhos que para unica musica tem só
-duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta
-para o seu passatempo... mas assim mesmo não
-agrada tanto ouvil-os?!</p>
-
-<p>Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê
-cheia de alegria, mas tolhida de vexame, principiava toda
-a corar e a empallidecer, balbuciando e murmurando:
-depois, firmava a voz e desprendia do peito notas
-repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão
-como partidas das cordas do coração.</p>
-
-<p>Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e
-alçava preces de amor a quem o captivára.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia
-de luz branda e azulada.</p>
-
-<p>A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o
-ribeirão parecia desdobrar-se em laminas de prata.
-Pontos scintillantes corôavão a folhagem compacta das
-palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando vivamente,
-estendia pelo chão compridas sombras que
-semelhavão columnas derrubadas por terra.</p>
-
-<p>Ierecê preparára uma sorpresa.</p>
-
-<p>Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas
-indias kinikináos para virem passar a noute no
-Hetagati.</p>
-
-<p>Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas,
-vestidas com a tradicional <i>julata</i> que lhes deixava
-descobertos os seios pequenos e empinados. O typo
-era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das
-companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas.
-Tinha pórte mais altivo, physionomia mais expressiva
-e intelligente.</p>
-
-<p>Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se
-ao seu encontro.</p>
-
-<p>A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela
-mão a visitante que lhe pareceo mais bella, caminhou
-para o mancebo: então, entre risonha e medrosa, disse-lhe
-que d’ora avante se considerava vencida em formosura
-e cedia o seu lugar a quem mais o merecia.</p>
-
-<p>A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo
-e mais exaltou a alegria de Ierecê.</p>
-
-<p>Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem
-os seus individuos sempre dispostos para comer. Foi<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-por isso que, havendo Florindo sido avisado de antemão
-e preparado lauta refeição de porco do matto,
-palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas
-sem demora satisfazer a sofreguidão do
-appetite.</p>
-
-<p>Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se
-com grande e festivo ruido.</p>
-
-<p>Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana
-uma ramagem fresca e odorifera, sobre a qual estendeu
-um panno alvo, afim que Alberto se deitasse, e
-mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella
-e as companheiras ião executar.</p>
-
-<p>Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle
-de anta e entoou uma canção de andamento vivo.</p>
-
-<p>Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se
-puzerão em linha e n’essa disposição avançárão e
-recuárão diversas vezes com passo fingidamente tropego:
-depois, soltando as mãos, compozerão varias
-figuras ou em grupos de tres, ou correndo em circulo
-umas atraz das outras, antes de reformarem a linha
-primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e
-unia a sua voz á do rouquenho cantor para animar o
-dansado que se accelerava e mais calor e vivacidade
-tomava com os gestos elegantes e posições voluptuosas,
-quasi lubricas, das bailarinas.</p>
-
-<p>Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que
-peccava, não pelo afinado das vozes, mas pela falta
-absoluta de variedade, razão pela qual Florindo observou
-com graça que aquella musica havia de agradar
-muito quando a gente estivesse a dormir.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p>
-
-<p>Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo,
-Ierecê deo por finda a funcção.</p>
-
-<p>Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou
-caso de polidez e justa condescendencia mostrar-se
-plenamente satisfeito e divertido.</p>
-
-<p>Quem não cabia em si de contente era a guaná.
-Sem contestação dansára com mais graça do que as
-outras, provocando sempre os applausos do branco,
-cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender
-e a partilhar, tanto assim que não deixou
-ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar as
-visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute
-ao velho Morevi.</p>
-
-<p>Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens
-kinikináos e, puxando para fóra o couro que lhe
-servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao relento.</p>
-
-<p>De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se
-as indias, levando os presentes que mais podião lhes
-agradar: sal, chitas, espelhos, contas, agulhas, e
-os restos do banquete da vespera.</p>
-
-<p>Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho,
-mas não quiz chegar até a aldêa.</p>
-
-<p>No entretanto os dias e as semanas havião passado,
-e Alberto não dava mostras de perceber isso.</p>
-
-<p>—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo,
-quanto tempo faz que estamos aqui?</p>
-
-<p>—Talvez um mez, não é?</p>
-
-<p>—Já lá vão dous, rectificou o soldado.</p>
-
-<p>Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou
-ser exacta a conta.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span></p>
-
-<p>—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito
-deve estar de volta!... Como é que não appareceo
-por cá?</p>
-
-<p>—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac
-para Miranda pelo Lalima. Fazia V. S. na <i>cidade</i> e
-foi para lá em rumo certo.</p>
-
-<p>—Então de Nioac ha outro caminho que não este?</p>
-
-<p>—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas
-mais <i>arriba</i>. Ahi ha uma estrada que vai de parelha
-com o rio Miranda.</p>
-
-<p>—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar
-á minha espera. É preciso que eu chegue até a villa.
-Amanhã.... talvez....</p>
-
-<p>No dia seguinte o projecto de partida não se
-realisou.</p>
-
-<p>—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado.
-Você é quem seguirá para Miranda montado no meu
-animal. Entenda-se com o Sr. capitão, diga-lhe que
-estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada
-até cá. Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.</p>
-
-<p>O camarada, á noutinha, preparou uma passóca
-para a viagem.</p>
-
-<p>—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê
-vendo-o occupado n’aquelle mister.</p>
-
-<p>—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo
-até a <i>cidade</i>.</p>
-
-<p>A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a
-mesma pergunta e ouvio a mesma resposta.</p>
-
-<p>Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-de tristeza e um presentimento doloroso agitava-lhe
-a alma.</p>
-
-<p>Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita
-agitação, debalde foi por vezes pedir ás agoas do
-corrego refrigerio para o calor e o mal estar que não
-lhe permittião quietação.</p>
-
-<p>Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o
-apparecimento matutino de Julio Freitas a cavallo,
-acompanhado de um morador da villa.</p>
-
-<p>Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.</p>
-
-<p>—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido
-n’este lindo retiro e os outros com cuidados de sua
-pessoinha!</p>
-
-<p>Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.</p>
-
-<p>—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi
-uma semana, fiquei pasmo de não encontrar a você.
-Pedi noticias suas, não m’as souberão dar.... Então
-suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos
-kinikináos e vim em pessoa arrancal-o, morto ou
-vivo, de seus estudos anthropologicos..... E as
-febres?</p>
-
-<p>—Ha muito que já se forão....</p>
-
-<p>—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado
-com expansão. Que soberbos boritys! Você
-é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos
-batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa,
-sua senhoria, deitado á sombra dos taquarussús, deixava
-o tempo correr mansamente como as aguas
-d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que
-diz, Sr. João Faustino? Ah! deixe lhe dar o conhecimento<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-d’este amigo de Miranda. É um morador
-da villa, pessoa que estimo muito e que conheço
-desde Cuyabá.</p>
-
-<p>Alberto apertou a mão do apresentado, homem de
-meia idade, rosto moreno, physionomia amena e
-franca.</p>
-
-<p>—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me
-até cá, porque vem contractar uns indios para
-irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um
-optimo companheiro para a folia e para o perigo,
-homem com quem se póde contar.</p>
-
-<p>Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu
-amigo e a João Faustino, estes não poderão occultar
-a admiração que lhes causava a venustade da india.</p>
-
-<p>—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia
-voz. Palavra de honra, Alberto teve faro.</p>
-
-<p>—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê
-em lingua chané que elle fallava com perfeição.</p>
-
-<p>—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde
-que estou aqui, os <i>paratudos</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> já derão flôr cinco
-vezes.</p>
-
-<p>Se a india produzio aquella impressão de sorpresa,
-homenagem inequivoca á sua formosura,
-por seu turno recebeo um choque immenso. De momento
-percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar
-o ente a quem ella prezava n’este mundo só, acima
-de tudo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-<p>Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida
-ainda possivel, qualquer esperança que podesse affagar,
-fugio-lhe para logo do espirito.</p>
-
-<p>—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida
-tem sido um paraiso....</p>
-
-<p>—Passei bem...</p>
-
-<p>—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe.
-N’estes dias devemos todos partir de Miranda. Não sei
-se você quer ficar.... Ah! a proposito, trago-lhe uma
-carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!...
-Não; está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso
-chegou de Cuyabá, de modo que a data não póde ser
-muito antiga.</p>
-
-<p>Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e
-uma nuvem correo-lhe pelo rosto.</p>
-
-<p>—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios
-na Côrte. O banqueiro em que tenho algum dinheiro
-está, pelo que me escrevem, um tanto abalado...</p>
-
-<p>—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é
-de brinquedo! A sua presença é indispensavel e quanto
-antes...</p>
-
-<p>—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso
-partir.</p>
-
-<p>Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro
-d’alma parecia-lhe que a sua hora de morrer vinha
-chegando.</p>
-
-<p>Durante o dia Alberto, com algum constrangimento,
-confessou a Julio Freitas e a João Faustino que sentia
-bastante desgosto, quasi remorsos, em deixar Ierecê.<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span>
-Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem
-abandonal-a de chofre...</p>
-
-<p>—Entretanto, objectou Freitas com algum calor,
-você não póde ficar aqui anniquilado!... Fôra quasi
-um crime!...</p>
-
-<p>—De certo, porém...</p>
-
-<p>—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar
-a resolução é que é máo...</p>
-
-<p>—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se
-que os indios esquecem depressa. Ierecê poderá
-ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois
-consolar-se-ha... é...</p>
-
-<p>—É a lei universal, concluio philosophicamente
-Julio Freitas.</p>
-
-<p>Alberto nada replicou.</p>
-
-<p>—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem
-que olhasse para esta pobre creatura, lhe désse
-de vez em quando alguma cousa para a sua subsistencia...</p>
-
-<p>—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas.
-Ninguem melhor do que elle se incumbirá de
-tudo...</p>
-
-<p>—E com a maior satisfação, confirmou o outro.
-Estou completamente ao seu dispor para tudo quanto
-fôr do seu serviço....</p>
-
-<p>—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito
-os seus offerecimentos sinceros... Sobre o mais, conversaremos
-com vagar em Miranda.</p>
-
-<p>—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto
-amanhã para a villa. No fim de poucos dias parte de<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
-lá o vapor, e não podemos perder uma occasião
-d’essas...</p>
-
-<p>—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu
-ficarei mais uns dias, e no domingo estarei em Miranda.</p>
-
-<p>—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.</p>
-
-<p>—Infallivelmente...</p>
-
-<p>—Veja se vai perder o vapor... depois não teria
-outro remedio senão descer em <i>igarité</i> para Corumbá...
-viagem vagarosa e massante....</p>
-
-<p>—Não... eu partirei no <i>Alpha</i>, afiançou Alberto.</p>
-
-<p>De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.</p>
-
-<p>Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas
-novidades, mas, quando vio os visitantes partidos,
-olhou para Alberto com tamanha angustia, tanta expressão
-que este ficou todo perturbado.</p>
-
-<p>—Que tem você? perguntou elle.</p>
-
-<p>—Nada, respondeu a india...</p>
-
-<p>—Você está doente?</p>
-
-<p>—O corpo não está, mas isto está ficando...</p>
-
-<p>E apontou para o coração, accrescentando.</p>
-
-<p>—E para sempre.</p>
-
-<p>Depois tornou-se silenciosa.</p>
-
-<p>Á hora da refeição recusou comer e com a approximação
-da tarde tornou-se muito agitada. Ia e vinha
-do corrego para a choupana a passo lento e com o ar
-de completa distracção. Debalde Alberto procurou
-gracejar com ella: nem se quer um sorriso melancolico<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>
-desdobrou-lhe os labios contrahidos. Tinha os
-olhos seccos e brilhantes.</p>
-
-<p>A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais
-augmentou-lhe o desassocego: por vezes sahio para
-fóra da palhoça e respirou sofrega o ar frio da madrugada.</p>
-
-<p>Havia um luar tristonho de mingoante: o valle
-estava frôxamente illuminado e ao longe ouvião-se os
-<i>quero-queros</i> que gritavão nas matas do Aquidauána.</p>
-
-<p>O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A
-certeza de que uma grande desgraça estava imminente
-sobre a sua cabeça a acabrunhava.</p>
-
-<p>Voltou para a choupana e parou perto da rede em
-que dormia Alberto.</p>
-
-<p>Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou
-levemente no hombro do moço e acordou-o.</p>
-
-<p>—Então, disse ella, <i>unái</i><a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> vai-se embóra?</p>
-
-<p>Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio
-da noute, e entretanto quanto esforço assim mesmo
-lhe custára essa pergunta!</p>
-
-<p>—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto
-sentando-se na rede.</p>
-
-<p>—Forão aquelles homens máos que vierão buscar
-<i>unái</i>.</p>
-
-<p>—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.</p>
-
-<p>—E que será de Ierecê?</p>
-
-<p>Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p>
-
-<p>Estava vacillante.</p>
-
-<p>—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se
-lembrar de mim. Deixo ordem a João Faustino para
-que o seu avô tenha dinheiro e roupa....</p>
-
-<p>—E <i>unái</i>, perguntou ella, parando em cada palavra,
-nunca mais hade voltar?</p>
-
-<p>—Volto....</p>
-
-<p>Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.</p>
-
-<p>De manhã a sua physionomia estava toda alterada.
-A mão pesada da dôr havia pousado sobre o seu rosto
-e, tirando-lhe o colorido das faces, traçára circulos
-rôxeados ao redor dos olhos.</p>
-
-<p>Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e
-até ordens imperiosas de Alberto, ella nada comeu.
-Acocorada em um canto estava sombria. Parecia
-doente; teve um pouco de febre.</p>
-
-<p>Como tal situação tornava-se penosa para Alberto,
-decidio elle partir antes do dia em que pretendêra
-sahir do Hetagati.</p>
-
-<p>Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte
-fazia-se de viagem.</p>
-
-<p>O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto:
-pelo contrario desejou-lhe toda a sorte de felicidades
-pelo regresso e cobrio-o de bençãos quando soube que
-tudo quanto continha o rancho ao lado viria a pertencer-lhe
-desde logo. Com a posse de duas redes, alguns
-cobertores, espingardas, polvora e chumbo, pelles,
-facões, um par de tamancos e varias notas de papel-moeda,
-julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de riquezas
-inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
-o maior reconhecimento a quem se despedia
-por modo tão generoso.</p>
-
-<p>Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto,
-que Morevi deixou-o montar a cavallo.</p>
-
-<p>Ierecê tinha se ausentado.</p>
-
-<p>O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo,
-disse com os olhos um adeos eterno áquelle recanto e
-fazendo um gesto amigavel ao velho, partio á hora em
-que o sol ia quasi chegando ao pino.</p>
-
-<p>Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral,
-quando n’uma das voltas vio Ierecê mais adiante sentada
-n’um tronco de arvore cahida e á sua espera.</p>
-
-<p>Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr,
-mas não poude e deixou que o cavalleiro se approximasse
-mais. Então chegou-se tremula e, encostando
-a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel
-apertando de encontro aos labios a mão do seu
-amado, ao passo que lentamente lhe descia pelas faces
-uma lagrima, uma unica, mas de fogo que devorava
-para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente
-de vulcão a abrir sulco fundo e devastador.</p>
-
-<p>—<i>Biónne</i><a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a>, disse-lhe o moço sinceramente commovido.</p>
-
-<p>—<i>Pehehêvo</i><a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a>, respondeo ella, <i>pehehêvo</i>!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<p>Levantou então os olhos e contemplou ainda uma
-vez aquelle que ia deixar para nunca mais vêr; depois
-voltou as costas e com passo vagaroso tomou rumo de
-sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora
-deserta.... deserta....</p>
-
-<p>Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como
-india que era, o balsamo das lagrimas, esse orvalho
-das almas malferidas.</p>
-
-<p>Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous
-dias chegou á villa de Miranda.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p>
-
-<h4>CAPITULO III</h4>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p>
-
-<p>Julio Freitas se occupára activamente do regresso,
-e, como o vapor <i>Alpha</i> estivesse prompto para seguir
-viagem, veio a presença de Alberto dispensar outra
-qualquer demora.</p>
-
-<p>—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois
-de dar a João Faustino as instrucções relativas ao
-valle do Hetagati.</p>
-
-<p>A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito,
-como se houvera praticado uma acção má. Não era
-propriamente paixão o que sentia por aquella india,
-mas uma immensa commiseração acompanhada de
-verdadeira amizade.</p>
-
-<p>Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados
-da partida. Na manhã seguinte o vapor levantava
-ferro.</p>
-
-<p>Á tarde estava Alberto conversando com João
-Faustino á porta da casa d’este, uma das raras cobertas
-de telha, na rua da Matriz, quando avistou um<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span>
-velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se
-pelo caminho, prostrados de fadiga.</p>
-
-<p>Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de
-cansaço e de fraqueza.</p>
-
-<p>Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e
-leval-a para o interior da casa em que se achava foi
-o que fez Alberto com a maior espontaneidade, sem
-hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores
-que podessem o censurar.</p>
-
-<p>O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se
-cahir pesadamente no chão ao pé da porta.</p>
-
-<p>Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão
-mudada, que não teve animo. Ella tinha as faces encovadas
-e tremia de frio e emoção.</p>
-
-<p>—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço
-querendo tomar sério conselho n’aquella contingencia.</p>
-
-<p>—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha
-mostra dedicar-lhe uma affeição verdadeira,
-mas por isso ficará o Sr. retido n’estes sertões?
-E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha
-passado por transes d’esses, mulheres da mais alta
-sociedade e fortuna, quanto mais estas infelizes que
-se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a
-para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo
-e de continuo vexame. Além d’isso os encantos
-de Ierecê que agora podem parecer irresistiveis,
-perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados
-que sejão com as bellezas que a arte e a
-civilisação fazem realçar. As suas relações que aqui<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em qualquer
-outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo.
-Parta! Escrever-lhe-hei de vez em quando,
-mostrando-lhe que cumpri exactamente com todas as
-suas ordens.</p>
-
-<p>Á noutinha a india comeo um pouco, depois de
-muito instada. O avô porém precipitou-se sobre a
-comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos
-aquelles dias passados.</p>
-
-<p>A final chegou a hora da partida.</p>
-
-<p>Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um
-olhar de cólera concentrada para o navio que lhe roubava
-o amante.</p>
-
-<p>Parecia, comtudo, calma.</p>
-
-<p>Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção
-da gente que acudira a vêr o embarque, occupava-se
-activamente de suas cargas; antes porém de saltar na
-canoinha que o ia levar ao <i>Alpha</i> já sobre rodas no
-meio do rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito
-rapidamente mas com força e, retendo a custo as lagrimas,
-depositou-a nos braços de Morevi.</p>
-
-<p>Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha
-das selvas e da inculta natureza desmaia, é que a dôr
-a esmagou com mão de ferro n’um paroxismo horrivel;
-é que o seu coração estalou n’uma contracção
-de agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou
-não chegada a hora de sahir d’aquelle corpo para ir
-buscar outro mundo, outros destinos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span></p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de
-Janeiro, Alberto Monteiro recebeo da mala de Cuyabá
-uma carta extensa que, datada da villa de Miranda,
-logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.</p>
-
-<p>Era de João Faustino.</p>
-
-<p>«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão
-infelizmente erroneas. Ierecê, a bella virgem do Agaxi,
-já não existe.</p>
-
-<p>«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade
-de chegar ao Lauiad e como o desvio da estrada
-era insignificante, fiz uma visita ao valle de
-Hetagati.</p>
-
-<p>«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte
-d’aquella bella creatura. Quando assomei á porta do
-seu <i>rancho</i><a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a>, ella deo um grito de jubilo e, reconhecendo-me
-logo, fez gesto de querer levantar-se da
-rêde em que estava deitada.</p>
-
-<p>«Sua magreza era extrema.</p>
-
-<p>«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella
-se mostrára, á sahida da villa, tranquilla e resignada.</p>
-
-<p>«—<i>Unái</i> volta? perguntou-me ella com anciedade
-que me cortou o coração.</p>
-
-<p>«Julgei de caridade mentir.</p>
-
-<p>«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do
-Rio de Janeiro.</p>
-
-<p>«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-labios, e os seus olhos empanados ainda podérão
-fulgir.</p>
-
-<p>«Depois não disse mais palavra.</p>
-
-<p>«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê
-áquelle estado em tão curto prazo. Contou-me então que
-desde a volta ao Hetagati, a sua neta não quizéra ou
-não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento.
-Uma tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda
-mas continua lhe minava as fontes da vida. Debalde,
-como feiticeiro, conferenciára elle com o acauán;
-debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas;
-debalde, como medico, chupára o lugar em que batia
-o coração para ir cuspir n’uma cova distante o terrivel
-mal—a nada cedêra a molestia mortal.</p>
-
-<p>«—O <i>portuguez</i>, disse-me em voz baixa Morevi, levou
-a alma d’ella.</p>
-
-<p>«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.</p>
-
-<p>«Estava como que adormecida, arfando um pouco.
-De vez em quando parecia querer sorrir.</p>
-
-<p>«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados,
-pedio agoa e expirou, pronunciando em voz, mais
-e mais baixa, um nome que o senhor hade conhecer.</p>
-
-<p>«—Alber...to... Al...ber...to!</p>
-
-<p>«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse
-ás expansões de dôr tumultuosa como usa a gente de
-sua nação, de modo que aquelles uivos e gritos selvaticos
-com que os chanés pranteão a morte dos parentes,
-não perturbarão o socego do valle em que tanto
-havia soffrido um coração.</p>
-
-<p>«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-bella mulher na rede e enterrei-o no chão do rancho,
-conforme ella desejára e poucos dias antes pedira ao
-seu avô.</p>
-
-<p>«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.</p>
-
-<p>«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo
-symbolo da religião do Deos, cujos labios sagrados
-perdoarão a aquelles que havião durante a vida amado
-muito.»</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje
-a recordação do amor de Ierecê ennuvia-lhe o espirito
-e constringe dolorosamente o seu coração.</p>
-
-<p class="fim">FIM DE IERECÊ A GUANÁ</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p>
-
-<h2 id="DA_MAO_A_BOCA_SE_PERDE_A_SOPA">DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA<br />
-<span class="smaller">PROVERBIO EM 1 ACTO</span></h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p>
-
-<h3>PERSONAGENS</h3>
-
-<ul>
-<li>Manoel Ribeiro, capitalista.</li>
-<li>D. Rita, mãe de</li>
-<li>Isabel.</li>
-<li>Antonio da Fonseca, tio de</li>
-<li>Miguel Faria.</li>
-<li>João de Siqueira.</li>
-<li>Alfredo Rocha, primo de Isabel.</li>
-<li>Ignacio Lemos, pae de</li>
-<li>Alberto Lemos.</li>
-<li>Um criado.</li>
-</ul>
-
-<p class="center">A scena passa-se no Rio de Janeiro.</p>
-
-<p class="center">Época—1871.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<h3>DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA<br />
-<span class="smaller">PROVERBIO</span></h3>
-
-<h4>ACTO UNICO</h4>
-
-<h5>SCENA I</h5>
-
-<p class="hanging">Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio,
-uma mesa com tapete de gosto. Nos consolos jarras com
-flôres. Portas lateraes e ao fundo.</p>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Manoel Ribeiro, Fonseca.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>passeia de um lado para outro, ao passo que
-Fonseca está sentado junto á mesa</i>).—É como lhe
-digo, meu amigo; tudo póde se arranjar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então não lhe desagrada a minha proposta?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a
-esperava... Combinei certas cousas... vi em você uns<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-ares. É que não sou nenhum palerma: previ que
-breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita,
-minha mulher...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Nós todos o conhecemos como homem
-sagaz.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com simplicidade affectada</i>).—Sagacidade,
-não: alguma penetração... e quer que lhe diga uma
-cousa? (<i>parando diante de Fonseca que se levanta</i>)
-essa penetração não se desenvolveu como devêra por
-causa da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia
-nascido para alguma cousa de grande n’este
-mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim de
-contas?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com calor</i>).—Oh! meu amigo, capitalista e
-muito forte!... Que se póde desejar mais?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando os hombros</i>).—Qual!... E a gloria,
-Snr. Fonseca? A gloria?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com sorpreza</i>).—Que quer você com a
-gloria?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apressadamente</i>).—Sim... ter um nome celebre,
-conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os
-nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado...
-sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado...
-Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra:
-eu quizéra agora, n’este momento, ter só uma côdea
-de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza
-de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro
-cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever
-um poema em cincoenta cantos ou um romance
-em trinta volumes... compôr uma marcha solemne<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span>
-para oitocentos e cincoenta professores (<i>com muito
-fogo</i>) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar
-cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não
-passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse
-simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo
-aquillo é que eu nascera:... entretanto...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Entretanto?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Desde os meus primeiros annos vi contrariada
-a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci
-na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a
-augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se
-foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente
-ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar
-como chamma devoradora...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar desabusado e puchando o beiço</i>).—Eu
-poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta
-de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado
-de tomar estado?!... Você então não conhece o
-poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias,
-namorador das estrellas, apaixonado louco de
-quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras
-da inquisição ou espetado n’uma bayoneta,
-choramigador de desgraças por que nunca passou... de
-cotovelo rôto e chapéo amassado (<i>parando de repente e
-com satisfação</i>). Sinceramente agrada-me esta descripção...
-fui feliz devéras. (<i>Mudando de tom</i>) Se o poeta
-fôr velho então é philosopho... ou calvo como um
-urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde...
-unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará
-da salvação da humanidade. Mas, no meio de
-tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas
-alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo
-dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o
-poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um
-principe... de um nababo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De um Ribeiro... maganão!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>sorrindo-se meio resignado</i>).—Que quer você?
-Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei
-a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado...
-não teria uma filha que é preciso dotar... Uma
-vez nestas condições é melhor... que eu possua algum
-dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola.
-(<i>Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho</i>)
-Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim,
-não é? Diga com franqueza...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De certo os encargos de familia...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>abanando a cabeça com ar fino</i>).—Não é só
-por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle
-seu sobrinho... Que rapaz feliz!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com repentino enthusiasmo</i>).—Que actividade!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa presença... bons cabellos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>encarecendo</i>).—Dentes excellentes!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É um moço que tem futuro...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Calculista, meu amigo! Não dá um
-passo sem pensar; não diz uma palavra (<i>faz com
-as mãos gesto de quem pesa</i>) sem pesal-a cuidadosamente...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com certa hesitação</i>).—Mas elle... me parece...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com algum receio</i>).—O que?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Prosaico de mais...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>arrebatado</i>).—Como prosaico! Diga realista...
-Um bom senso pratico que espanta... não
-vê as cousas senão como ellas são. Nada ás avéssas...
-nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da
-minha escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum
-a gerencia de meus bens, e tudo corre ás mil
-maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais poupada...
-o genero começou a baixar e eu tinha os armazens
-abarrotados. Assustei-me... Então... (<i>interrompe
-para assuar-se com estrondo</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com interesse</i>).—Então?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a
-comprar mais...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ó homem, era arriscado.</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com vivacidade e orgulho</i>).—Não era? Pois
-bem, dous dias depois subia o café e ahi vendemos
-com furia... Graças ao menino ganhei bastante. (<i>Com
-alguma ternura</i>) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um
-casamentão... Palavra de honra é um casamento de
-mão cheia...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Estou certo que minha filha ha de ser
-feliz...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>influindo-se pouco a pouco</i>).—Que duvida!
-Um noivo d’aquella força no movimento da praça!...
-Um olho tão firme nas subidas e descidas do café!...
-Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span>
-e afinal baronatos e talvez até a carta de conselho!
-Depois... poucos filhos... Comprehende?... Não ha
-tempo.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E isso é mais conforme á poesia...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões
-de fortuna...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É pena que o seu sobrinho não cultive
-(<i>parando nas palavras</i>) alguma arte... Olhe, se eu fosse
-moço ensaiava o piano ou então a harpa (<i>com gesto de
-quem dedilha</i>). É tão gracioso!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>meio admirado</i>).—Pois quer mais arte do
-que a que elle tem? Quer um teclado mais difficil de
-conhecer do que seja a opinião dos agiotas... do que o
-capricho dos homens da praça? Oh! se houver no
-mundo outro noivo como elle, certamente não ha
-tres... Não, isto lhe asseguro!... Muito brevemente
-elle terá de seu cento e cincoenta contos de réis...
-vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina...
-nem gastador; sempre no meio termo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Creio que elle agrada tambem á minha
-mulher...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Tenho toda a certeza. Não ha coração
-que lhe resista.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E minha filha? Que pensará d’elle?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com segurança</i>).—Não póde deixar de sympathisar
-muito com o meu sobrinho...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe
-um album...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Qual album!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Na sua posição não lhe ficava mal... Um<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
-moço, quasi um noivo, entra em toda a parte com
-um album debaixo do braço e com versos de sua
-lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás
-mulheres...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Não duvido; mas um homem como o
-Miguel, falle com franqueza, póde estar a namorar?
-Confessemos que é um periodo difficil esse em que a
-gente sente necessidade de casar, procura uma noiva
-e tem que lhe fazer a côrte. Quem tem algum tacto vai
-logo simplificando tudo... Não vê como o Miguel sahe-se
-d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua
-dignidade?.. Estou certissimo que elle ama a sua
-filha como um louco, mas quanta calma!... Hen? mal
-se percebe...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Na verdade. Acho-o até frio de mais...
-Eu não quizéra levar o casamento de minha filha,
-como se fôra um negocio commercial...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?!
-Nada. É preciso que falle o sentimento... E quer
-que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho disse-me
-com toda a convicção: se eu não casar com Isabel,
-hei de ter que fazer uma viagem á Europa para distrahir-me...
-Meça, Sr. Ribeiro, (<i>com tom grave</i>)
-o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem
-e não é a Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (<i>com
-ar funebre</i>) É á Europa!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Com effeito, se elle disse isso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com imposição</i>).—Disse e fal-o. É rapaz
-de resolução... Tambem posso lhe afiançar:
-sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span>
-capaz de garatujar n’um instante resmas de papel,
-enchendo-as de versos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar de superioridade compassiva</i>).—Ah!
-isto fia-se mais fino! E a inspiração?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com resolução</i>).—Queira elle e veremos...
-Oh! que marido eu lhe dou, Sr. Ribeiro...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Aceito-o para a minha filha... caso agrade,
-condição indispensavel.</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É do que ninguem duvída... Elle entra
-n’esta casa com o pé direito... Fará a felicidade de
-todos; a sua, a de sua mulher...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Basta que faça a de Isabel... É tudo
-quanto lhe pediremos.</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então, ao chegar sua senhora á sala,
-annuncia-se-lhe logo o acontecimento, não é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com alguma pausa</i>).—Sim... sim...
-mas confesso a você que nunca vi casamento com
-menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma
-cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a
-gritarem... filhas a chorar... noivos audazes...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso...
-São cousas de outro tempo... Ahi chega D.
-Rita...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA II</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro, Fonseca, D. Rita.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe
-a mão</i>).—Permitta, comadre, que eu a
-cumprimente...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>estende-lhe a mão</i>).—Oh! Sr. Fonseca...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>continuando no que ia dizendo</i>).—que a
-cumprimente n’este momento e de um modo especial...
-com mais effusão do que nunca...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto
-a razão d’esta effusão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—O seo marido que lh’o diga...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Meu marido?... Em todo o caso a noticia
-é boa, não é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Para mim, excellente...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—E hade agradar-me?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Estou que sim...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>meio risonha</i>).—Então adivinho...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—O pedido em casamento de minha filha...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>intervindo</i>).—É verdade. O nosso amigo e
-compadre, o Sr. Fonseca veio cá, e sem gravata nem
-luvas brancas, sem ceremonias, nem concertar a garganta,
-ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de
-Isabel...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>interrompendo-o</i>).—E você lhe respondeo...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—O que você responderia.</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>voltando-se para D. Rita</i>).—Então?</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>sem hesitação e com simplicidade</i>).—Eu diria
-que sim! A que devemos attender senão á felicidade
-de nossa Isabel?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Não soffre duvida...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—E quem poderá tornal-a feliz?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>para Ribeiro</i>).—Sim, quem?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Quem?</p>
-
-<p><span class="smcap">Os tres</span> (<i>a um tempo</i>).—Miguel Faria!...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Tão amavel moço...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa figura...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com ar de importancia</i>).—E apatacado...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Um cavalheiro perfeito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Previdente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Em cafés não ha outro igual...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então ha uma só voz a seu respeito, não
-é?... Tudo são rosas...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Accordo perfeito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Embora. Eu desejára algum motivo (<i>hesitando</i>)
-de contrariedade... Estes casamentos assim...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com alguma impaciencia</i>).—Ora, Sr. Ribeiro,
-sempre aquellas idéas?... (<i>voltando-se para
-D. Rita</i>).—Não entendo bem... O compadre pretende
-que... casamentos em que haja opposições... são...
-não sei como diga... mais poeticos... Paes a negarem,
-mães a gritarem!...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>offendida</i>).—Oh! Sr. Ribeiro!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com alguma vivacidade</i>).—Não: o meu
-pensamento não é este... eu...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Ora, venha cá... O
-senhor não foi tão feliz com a sua mulher?... E para
-esse enlace não concorrerão todos as circumstancias
-desejaveis?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes,
-se...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>com indignação</i>).—Oh! Sr. Ribeiro, esta
-é forte!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar conciliador e fallando com volubilidade</i>).—Não
-é isto que eu queria dizer... Mas,
-attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores
-a um consorcio gravão-se na memoria eternamente...
-São motivos de conversa para uma vida
-inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que
-fartão de recordações! (<i>com fogo</i>) Imaginem vocês dous
-esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras,
-fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me
-lembro, responde a mulher.» «O signal para appareceres
-na janella era assim (<i>assovia baixinho e prolongadamente</i>)
-Teu pae estava dormindo»...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>procurando interrompel-o</i>).—Que historias,
-Sr. Ribeiro!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>continuando</i>).—«Abriste a janella devagarsinho...
-Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu
-vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu pucho; elle
-rasga-se»...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Mas isto é até indecente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>rindo-se</i>).—Poeta!... Aos 50 annos e
-com dous mil contos de reis!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pausadamente, meio pensativo e como que
-fallando para si</i>).—Não o sou, devéras!... Mas que
-geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado
-em regra, só fallava em verso... Não me matarão
-o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar
-como Nero (<i>batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro
-muda de tom e alto</i>).—Quem é?... É sempre assim!
-Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem...
-e fica tudo perdido. (<i>Novas palmas e fortes</i>) Toda
-a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (<i>caminhando
-para a porta</i>) entre pelo amor de Deos!</p>
-
-<p>(<i>Alfredo Rocha entra</i>)</p>
-
-<h5>SCENA III</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">D. Rita, Fonseca, Ribeiro e Rocha.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>olha admirado para Rocha que mostra-se
-espantado</i>).—Com a bréca... era você? Que diabo fazia
-a bater palmas na porta da sala de visitas?...
-Porque não entrava?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>cumprimentando a Fonseca e D. Rita com
-algum acanhamento</i>).—Sr. Fonseca... minha tia...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com sentimentalismo como que comprimido a
-custo</i>).—Oh! essas palmas tem uma significação...
-sim, ellas têm...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—O certo é que vierão muito fóra de tempo...<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
-Cortarão-me o fio de uma comparação (<i>voltando-se
-para Fonseca</i>) Que dizia eu, compadre?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Você dizia... espere...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>instando</i>).—Procure... procure...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>deitando os olhos de um lado e d’outro como
-quem procura no chão alguma cousa</i>).—Nada acho...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com um dedo na testa</i>).—Eu comparava-me...
-Qual!... Está perdida... Adeos, idéa!...
-Malditas, malditas palmas!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Console-se... fica para outra vez...
-ajudado pelo seu sobrinho... Este, sim, é poeta!...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos
-versos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com alguma enfatuação</i>).—Oh! isto é bondade!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com tom dogmatico</i>).—Não, eu lhe digo com
-verdade, aquelle seu livro tem cousas recommendaveis...
-aquella ode sobre o Amazonas... aquella...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Tambem foi acolhido
-com estrondo (<i>voltando-se para Rocha</i>) O senhor deve
-ter ganho muito, não é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ironico e superior</i>).—Com a minha obra?...
-Qual! no Brazil não ha quem compre livros... As
-letras vegetão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser
-seu tio, julguei dever comprar um exemplar... Não
-o quiz gratis, não só para animar a venda, como para
-não dever favores...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Fez muito bem... No seu caso assim
-procedia...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com enfatuação</i>).—Fui ao livreiro e paguei
-logo tres mil reis... Sinceramente achei caro...
-um livrinho fininho muito entrelinhado, emfim era o
-preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu dinheiro...
-E não me arrependo... Ha trechos que
-applaudi... Eu faria talvez outra cousa... mais vasta,
-menos cortada... mas emfim cada qual faz como
-póde e entende... Entretanto...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>interrompendo</i>).—Entretanto os senhores
-permittirão que eu vá vêr porque não apparece Isabel...
-(<i>voltando-se para Fonseca</i>).—O senhor janta
-comnosco...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Já que é ordem...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>para Rocha</i>).—De certo você tambem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Com muito gosto...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim...
-Talvez lá encontremos a menina... Mostrar-lhes-hei
-umas lindas dhalias que me chegarão de
-Petropolis... (<i>para Rocha</i>). Quer vir, Alfredo?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com
-o seu marido...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.</p>
-
-<p>(<i>D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem
-pela porta da esquerda</i>).</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA IV</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro e Rocha.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então que novidades ha? Olhe que tenho
-ainda que fazer <i>toilette</i> antes de ir para a mesa do
-jantar.</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>um pouco sombrio</i>).—Preciso lhe fallar...
-e agora mesmo!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Cousa urgente?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Urgentissima!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Em todo o caso abrevie quanto puder...
-Tenho que apparecer hoje com algum esmero mais...
-Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Gravissima...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou
-todo ouvidos...</p>
-
-<p>(<i>Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e
-indica outra ao lado</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Comece pois...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>meio acanhado</i>).—Meu tio... convem recorrer...
-á sua benevolencia... antes de encetar esta
-conversa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>olhando para Rocha com alguma admiração</i>).—Você
-está perturbado... Que tem?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>no mesmo tom</i>).—Tambem o favor que lhe
-venho... pedir... é tão grande... tão grande...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>irresoluto</i>).—Di...nheiro?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com movimento energico de denegação</i>).—Não,
-Snr.!</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>mais expansivo</i>).—Então que é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>hesitando</i>).—É...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com curiosidade e chegando a cadeira</i>).—É?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>tomando subita resolução e ás pressas</i>).—É
-a mão de sua filha Isabel, a quem amo desde muitos
-annos como um louco, a quem adoro, idolatro em
-segredo, dia e noute, a quem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>affastando um pouco a cadeira e tossindo</i>).—Hum!
-hum!</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com anciedade</i>).—Então?... que diz?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>encolhendo de vagar os hombros</i>).—Homem,
-eu não digo nada.</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>apressadamente</i>).—Então consente?... Oh!
-meu Deus!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu não disse isso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>abatido</i>).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tambem não disse isso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então que foi que disse?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Nada! (<i>tomando attitude de quem vai
-orar</i>) Alfredo, conversemos um pouco... Você é meu
-sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração devida
-não só a meu parente, como a um homem de intelligencia
-e conceituado...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Mas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>gravemente</i>).—Deixe-me fallar... As palavras
-que vou lhe dirigir são conselhos de quem, prezando-o
-como parente, preza tambem a gloria de sua
-familia. Você pede a mão de minha filha, não é?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—É verdade... aspiro...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com gesto de imposição</i>).—Pois faz uma furiosa
-asneira...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>levantando-se admirado</i>).—Como assim?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando-se tambem</i>).—Em duas palavras
-lhe explico tudo. Você (<i>pausado e com voz muito grave</i>)
-não deve casar! A sua vocação não lhe permitte senão
-o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria!
-Que quer dizer um poeta casado, em riscos de ter
-duzia e meia de filhos, ao lado de uma mulher que vai
-envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, descabellada?!
-Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá
-inspiração que resista a causas tão deleterias?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Meu tio...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com volubilidade</i>).—Não me interrompa...
-Sei que hei de levar a convicção á sua alma... Supponha
-os grandes poetas presos pelas cadêas do matrimonio.
-Que teriamos em poesia?... Nada... nada...
-mil milhões de vezes nada!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>enfiado</i>).—O senhor quer caçoar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>enthusiasmando-se</i>).—Não consinto que me
-interrompa... Que fôra de Dante, de Petrarca, de
-Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem prosaicamente
-desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem
-tido que cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os,
-que leval-os a passeio, á escola!... Meus santos
-do paraiso, que pensões e que trabalhos!... Puramente
-a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão?
-Carpirão só os males da alma, d’essa alma que encheu
-os espaços com clarões inextinguiveis!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas... eu amo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando a voz</i>).—Perfeitamente! É o
-que todos nós queremos. Contrariamos o seu sentimento,
-machucamos o seu amor proprio, e d’ahi resultaráõ
-versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos
-arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim,
-como os faz quem é poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá,
-soffrerá muito, não ha duvida; as insomnias o
-perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite;
-terá talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de
-todo esse padecer atroz!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>um tanto sombrio</i>).—Não posso crêr que o
-senhor queira se divertir á minha custa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>muito serio</i>).—Juro que lhe fallo com toda
-a sinceridade. Fallo, como fallaria a um filho. Estas
-são as minhas idéas. Você tem muito talento, todos o
-reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem produzido
-senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?...
-Simplesmente porque é um moço serio, empregado
-publico, moderado nos seus gastos, cauteloso
-e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde
-o fogo sagrado da poesia alimentar-se em quem vive
-como o commum dos mortaes?! Não, não de certo!
-O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de anormal...
-direi quasi de infernal!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Ora, meu tio...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem...
-deixe tudo, emprego, bailes e theatros; caia na mais
-abjecta crapula (<i>Mudando repentinamente de tom</i>) Não
-lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span>
-simples hypothese... (<i>Voltando ao primeiro tom</i>) frequente
-a taverna, desça á mais completa miseria; seja,
-emfim, para resumir tudo em uma palavra, seja um
-miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá
-transfigurado... O máo vinho com que você se
-embriagar, a mulher perdida que abraçar em publico,
-as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome que
-lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo
-extranho, e, no momento da maior degradação, o seu
-coração vibrará com uma energia desconhecida...
-A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ...
-eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o
-ha de vingar!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Não posso ouvil-o...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que póde fazer uma intelligencia volcanica
-comprimida por um chapéo Chastel, sentindo os
-pés apertados em botins envernizados e os dedos entalados
-em luvas de Jouvin, como você está agora?...
-Que martyrio para a sua alma! E por cima quer
-casar?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas sua filha?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Minha filha? (<i>Com simplicidade</i>) Que
-tem? Você a accusará perante os seculos... a levará
-ao tribunal da posteridade. Que thema, hen?
-Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até
-eu sou capaz de exploral-a com vantagem... porque
-tambem nasci com aspirações... mas casárão-me
-cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme,
-mas o estado nunca me inspirou a menor idéa! Ora,
-eu mesmo, irei consentir que você tambem se perca?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Tudo quanto o senhor me disse não significa
-cousa alguma...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Como assim?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Não vejo uma razão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Uma razão?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Sim... um motivo plausivel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pondo as mãos para traz e abanando de vagar
-a cabeça</i>).—Pois elle existe e muito, muitissimo valioso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com anciedade</i>).—Qual é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—A mão de Isabel já está dada...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com explosão</i>).—Mas a quem?... A quem?</p>
-
-<p>(<i>Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel
-Faria e Siqueira</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando-se de Rocha; á meia voz</i>).—O
-noivo é o Faria.</p>
-
-<p>(<i>Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>chegando-se para a boca da scena; com muito
-abatimento</i>).—Meu Deus, quanto verso perdido, quanta
-rima n’agoa!... E eu que tinha para hoje um dythirambo!
-Lá se vai o dóte.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA V</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Rocha, Ribeiro, Faria e Siqueira.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>adiantando-se para Faria</i>).—Meu caro Sr.
-Faria, seja muito bem vindo (<i>aperta-lhe as mãos</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que
-eu lhe apresente o meu particular amigo Alves de Siqueira.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apertando-lhe a mão</i>).—Conheço-o já de
-vista. Tenho muito prazer em vêl-o em minha casa.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>inclinando-se</i>).—A honra é para mim.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Basta ser-me apresentado por quem é...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Isto me penhora muito; sei que a amizade
-de Faria me é summamente lisongeira...</p>
-
-<p>(<i>Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a
-frente</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo
-Rocha?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com frieza e alguma sobranceria</i>).—Ainda
-não senhor; de nome... vagamente... Creio que o
-senhor escreveu um livrinho...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Justamente, um livro de poesias...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span> (<i>com ironia</i>).—Sim... um livrinho pequenino
-de versinhos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>para Siqueira</i>).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira;
-Sr. Siqueira, meu sobrinho (<i>Os dous cumprimentão-se
-seccamente</i>).—A proposito já sei que os senhores
-dous jantão commigo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span>
-com demasiada bondade... Eu pedi ser apresentado
-para... como devia... tratar de um negocio importante...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ficará para depois do jantar... entre o
-café e o curaçáo... Com amigos do Sr. Faria, não cuido
-de negocios (<i>com intenção</i>) principalmente hoje...
-senão depois de nos termos assentado juntos a uma
-lauta refeição....</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Pois bem, resigno-me...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com expansão</i>).—Ah! muito bem! e verá
-como recompenso a sua resignação!... Com um
-peixe! (<i>Dando um muchôcho</i>) Que peixe!... O primor
-dos mares!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com ar grave</i>).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe
-que o negocio a que allude o meu amigo e
-que interessa tambem a mim, não póde soffrer demóra...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pressuroso</i>).—N’este caso, ouvil-o hei já
-e já...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então eu me retiro...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vá lá dentro conversar com a sua prima...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com vivacidade</i>).—Este senhor é primo de
-D. Isabel?</p>
-
-<p>(<i>Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia</i>.)</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...</p>
-
-<p>(<i>Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de
-Faria: desapparece e volta logo para trocar novos olhares</i>.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA VI</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro, Siqueira, Faria.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sentemo-nos...</p>
-
-<p>(<i>Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e
-sentão-se os tres, depois de se cumprimentarem com ar
-de gravidade e importancia.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>como que annunciando</i>).—O meu amigo
-o Sr. Faria vai fallar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>após breve pausa</i>).—Sr. Ribeiro, venho fallar
-a V. Ex. a respeito de dous negocios da mais alta
-importancia... O primeiro, sobretudo, vai entender
-com o meu futuro (<i>parondo um pouco</i>). Meu tio sem
-duvida já lhe ha de ter vindo fallar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois não... e...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>apressadamente</i>).—Devo contar com a sua
-benevolencia?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar fino</i>).—O senhor é um maganão feliz...
-Só lhe digo isto... muito feliz!</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com fingida effusão</i>).—Agora, sim, reconheço-me
-como tal... A minha estrella...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>interrompendo</i>).—Mas o seu merecimento,
-meu amigo? Tem-o em pouca conta?... Além d’isto
-tudo estava calculado...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É certo que o senhor soube ganhar todos
-os corações... Tanta circumspecção...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com ar modesto</i>).—Oh! Sr. commendador!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tão bom senso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Sr. commendador!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Não, senhor; não, senhor: faço justiça...
-A minha casa o estima muito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—E ella?... sua filha?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima...
-Ainda não lhe fallei... mas é natural...
-nada mais natural...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Perfeitamente... Agora que tenho certeza
-do sentimento que lhe inspiro, acho-me capaz de
-tudo. (<i>Com tom frio</i>) Liquidado este primeiro negocio
-(<i>emendando com rapidez a phrase</i>), decidido este
-primeiro assumpto, passaremos ao segundo, que traz
-particularmente o meu amigo Siqueira á sua presença...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>tomando a palavra, com volubilidade</i>).—É
-cousa infallivel, Sr. commendador; questão simplesmente
-de confiança. V. Ex. é capitalista; Faria já
-póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle,
-homem que a ambos deve merecer credito... não é?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria e Ribeiro</span> (<i>inclinando-se</i>).—De certo!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Assim, pois, procurei por intermedio de
-Faria vir fallar a V. Ex., que, podendo mover de
-prompto com grandes capitaes, encaminhará uma
-operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos,
-nós tres presentes, quarenta por cento...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Quarenta por cento... da noute para o
-dia?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Todos os calculos estão feitos... Concorra
-V. Ex. com setenta contos e...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas a somma... a somma é grande...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Setenta contos?...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra...
-setenta!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Na operação empato cincoenta contos...
-tal é a minha confiança... digo até, certeza!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas... afinal... de que se trata?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Trata-se do algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Do algodão?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu me explico... V. Ex. sabe que este
-genero teve uma baixa consideravel, quando acabou a
-guerra dos Estados-Unidos, e que o café subio...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sei perfeitamente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—A ultima guerra franco-prussiana trouxe
-a procura do algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sei d’isto.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E desde então vai alteando... Agora
-participão-me de Santos por um telegramma reservado
-balas de algodão, no valor de cento e cincoenta contos,
-a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York,
-que é esperado a todo o momento, dér o augmento
-de poucos <i>pences</i>, tem se feito uma bella operação...
-A colheita de lá foi má, e o algodão que me
-offerecem é de qualidade superior...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>duvidoso</i>).—Era bom... reflectir... Assim...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E o palpite?... Ha occasiões em que é
-necessario atirar-se... E demais que são setenta
-contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que entro,
-esses, sim, representão arrojo e segurança...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com enfatuação</i>).—De facto não é somma
-fabulosa... mas, emfim, não é meia pataca...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com voz insinuante</i>).—Se fecharmos o negocio,
-d’aqui mesmo expeço o telegramma de compra...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>voltando-se para Faria</i>).—Que diz, Sr. Faria?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a
-operação é excellente... Senão, reflexionemos um
-pouco...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando a sua cadeira da de Faria</i>).—Sim...
-sim, reflexionemos um pouco...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Tudo n’este mundo está subordinado a
-causas, de maneira que para estudar bem os effeitos
-nas suas menores consequencias é preciso remontar
-á origem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira</i>).—De
-certo... subamos á origem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com tom oratorio</i>).—Ora bem... Quaes são
-as causas que produzem no mundo as oscillações do
-movimento commercial?... Diversas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Diversas... não ha duvida.</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas qual a predominante?... Sem contestação
-a politica... Qual é hoje a face politica do
-globo? Paz em todos os Estados... A França exhausta...
-a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a
-parte, mas a luta armada impossivel por muitos annos.
-N’estas circumstancias o café, bebida excitante,
-tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas pedem
-trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos
-foi escassa; a do norte do Brazil não satisfez
-a expectação. Pelo contrario ha muito café... e
-depreciado...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando mais a sua cadeira</i>).—Estou
-o seguindo com anciedade...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>batendo compasso com a bengalinha que conservára
-em mão desde a entrada em scena</i>).—Depois,
-não nos esqueçamos de um facto natural... Cada genero
-tem um preço normal que representa a exacta necessidade
-da população consumidora. O progresso na
-ascensão justo e natural está sugeito a rigorosas apreciações
-estatisticas. O café por muito tempo esteve a
-tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a
-sete, onde ficou firme...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Perfeitamente.</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco
-do café... É o seu ponto de equilibrio...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—De certo, de equilibrio (<i>mechendo com os
-braços, imitando uma balança</i>) Isto é uma balança:
-o fiel marca sete...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—A sua comparação é justissima.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span> (<i>com vivacidade</i>).—Então gostou?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—N’uma concha está o café, na outra...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com rapidez</i>).—O assucar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não, o algodão. Nas nossas condições
-actuaes, são os dous typos de exportação. O assucar
-pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da betteraba
-e até de couros velhos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É verdade: equivoquei-me...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—O café desce: sóbe o algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>intervindo</i>).—V. Ex. vê como temos tudo
-calculado... Podemos contar com os seus setenta?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>hesitando</i>).—Talvez... se eu consultasse
-com o meu socio... o Lemos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto
-tino! Alem d’isso é irresoluto o tal Sr. Lemos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—De facto... elle não tem golpe de vista...
-esse lance de olhos que vê uma operação em globo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>apressadamente</i>).—Como esta, Sr. Commendador,
-como esta...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>vacillante</i>).—Não direi tanto...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—O que é necessario é passar quanto antes o
-telegramma...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>decidindo-se de repente e levantando-se</i>).—Pois
-vá lá: o Lemos era incapaz. (<i>Apresentando a
-mão aberta a Siqueira, que a aperta com mostras de
-muito respeito</i>). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o
-negocio!... Escreva para Santos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>dirige-se para a mesa, arranca da carteira
-uma folhinha de papel e escreve a lapis</i>).—É já e já...
-Ouça, Exm.: «Todo o algodão para Siqueira &amp; C.ª
-Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Toque a campa.</p>
-
-<p>(<i>Siqueira bate n’um tympano</i>.)</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto
-(<i>com fingida commoção</i>) que fará a minha eterna felicidade.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>para Faria</i>).—Então vem todo o algodão?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Todo. Se mais houver, que mandem! (<i>Mudando
-de tom e voltando-se para Ribeiro</i>).—Sim, a
-minha felicidade...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>atalhando</i>).—E se o telegrapho estiver interrompido?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>mudando de tom</i>).—Está trabalhando... Ha
-pouco passei um telegramma. (<i>Voltando-se para Ribeiro</i>)
-Na verdade o amor que sinto por sua filha...</p>
-
-<p>(<i>Entra um criado</i>.)</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>dirigindo-se para o criado e com tom imperativo</i>).—Entregue
-de minha parte ao Sr. Queiroz, o
-administrador...</p>
-
-<p>(<i>O criado sahe</i>.)</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos
-temos entendido, ha de permittir, com o seu amigo,
-que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa antes de
-apparecer á mesa. (<i>Para Siqueira</i>) Como estava decidido,
-o senhor fica comnosco...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Com summo gosto...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Verá que peixe!... Parece pescado em
-Santos! Vale o seu peso de algodão (<i>rindo-se</i>). Não
-gostárão?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>admirado</i>).—De que?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Do meu dito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>rapidamente</i>).—Oh! muito... esteve excellente.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça,
-mas graça natural, nada forçada... É como aprecio...
-Isto de repentes estudados de vespera não é commigo...
-Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e
-estou de volta.</p>
-
-<p>(<i>Ribeiro sahe pela porta da esquerda</i>.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA VII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Siqueira e Faria.</span></p>
-
-<p>(<i>Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende
-um charuto e põe-se a folhear um album de retratos.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Emfim, está feito o negocio!</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>soltando uma fumaça e com indifferença</i>).—Está,
-sim.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>parando defronte de Faria</i>).—Mas agora,
-muito seriamente, digo a você uma cousa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Que é que diz?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro...
-mas tambem os setenta contos d’este homem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você, medroso, só se lembra dos seus
-trinta...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Ora... mas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Deixe-se de mas... O negocio é bom.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com anciedade</i>).—Você acha?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>indifferente</i>).—Acho...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto
-disse ao meu futuro sogro?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos:
-se o vapor de New-York vier pedindo café e
-recusando algodão?... Levamos um baque soffrivel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—É possivel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E então?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo
-que um homem serio prevê... O mais é anomalia.
-(<i>Batendo n’uma folha do album</i>) Eis-aqui um facto. Estão
-n’este album dous retratos... um defronte do outro,
-como que a se namorarem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>distrahido</i>).—De quem são?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Um é o de minha noiva; o outro é o do
-tal primo, o poeta. Não é possivel que estes dous jovens
-photographados tenhão inclinação um para o
-outro?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Com effeito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas o que é provavel? É que a moça tenha
-considerado que ella não nasceo para casar com um
-rapaz muito rico de versos, mas pobre de dinheiro...
-Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas
-casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples
-bom senso mostra...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou
-assim... facilmente perco a cabeça. Esta compra de
-algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Ora, deixe-se d’isso. (<i>Com desprezo</i>) Trinta
-contos!</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Sinceramente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Se você se afflige quando navegamos no
-mar sereno das probabilidades... que fará quando o
-vento nos açoutar rijo?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>fechando o album com força e levantando-se</i>).—Pois
-eu... sou homem para a lucta... e...</p>
-
-<p>(<i>Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira</i>.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Está passado o telegramma... O algodão
-é nosso...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete
-de New-York e teremos feito um optimo negocio...
-E não póde tardar... De um lado ganho com o
-algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de
-café que vinha de Campinas. Sou um general previdente...
-De mim não se dirá que não cuidei.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Qual sorte! O descuido dos homens é que
-merece este nome, nada mais, nada menos. Infatuados,
-pueris, buscão uma explicação sobrenatural para
-a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me
-ajudado? Meu amigo, tudo n’este mundo cifra-se no
-esforço proprio, na iniciativa e nas quatro operações
-da arithmetica...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu sempre conservo o meu medo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você quer me ceder a sua parte?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>apressadamente</i>).—Não, não! Afianço-lhe
-que estou perfeitamente tranquillo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto
-mais que ahi vem gente.</p>
-
-<p>(<i>Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca</i>.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA VIII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria e Ribeiro.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>puchando os punhos da camisa</i>).—Estou
-prompto, promptinho... Creio que não me fiz esperar
-demais...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não, de certo.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos
-á mesa. O Sr. Siqueira verá que peixe!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—V. Ex., porém, me disse que...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Minha excellencia não attinge á d’elle...
-Não ha môlho que me sirva. (<i>rindo-se</i>) Não gostou?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Muito... mas gostarei ainda mais do
-peixe...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas
-falta-nos o compadre Ignacio... Quererá elle dar ponto
-hoje? Logo hoje! O certo é que está tardando. (<i>Ouve-se
-barulho fóra</i>). Estão subindo a escada: sem duvida
-é elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!</p>
-
-<h5>SCENA IX</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria, Ribeiro e Lemos.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>entra precipitadamente com ar de grande
-prostração e atira-se n’uma cadeira</i>).—Ai! não posso
-mais... morro de calor... que commoção!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que tem você?... Estava tardando...
-O jantar...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>levantando-se precipitadamente</i>).—Bem se
-trata de jantar!... Não quero jantar... hoje ninguem
-deve jantar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>inquieto</i>).—Mas que ha? Você me assusta...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>passeiando agitado</i>).—Que ha? É que acabo
-de comprar uma partida forte de café e recusar algodão.
-Que ha? É que d’aqui a pouco podemos, com a
-chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder
-ainda mais. É o que ha!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos
-bem aviados!... Temos prejuizo certo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—É cousa infallivel!</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>reanimando-se</i>).—Mas porque, homens de
-Deos? Vocês me pôem doudo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu me abstinha...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Por certo... mas em alguns falta o lance
-de olhos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Querem se apressar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Talvez tenhão razão (<i>com acabrunhamento</i>).
-Aquellas saccas de café me esmagão. (<i>Reanimando-se</i>)
-Mas ao menos esperemos pelo vapor de New-York...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não ha que esperar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E para que esperar?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Esperar o que?</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>muito abatido</i>).—É verdade... é verdade...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com seccura e concertando a garganta</i>).—De
-modo que o Sr. Lemos, sem me consultar, metteu-se
-a calculista e...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo</i>).—Tem<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-razão... tem razão... Compadre, o nosso
-prejuizo é grande...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com muita importancia</i>).—Isto não é o que
-mais me aborrece... É vêl-o assim arriscar-se sem
-prévio conselho meu... Olhe, emquanto o senhor fazia
-imprudencias, eu realizava com toda a calma uma
-operação grave, premeditada e de lucros certos. Fechei
-uma compra de algodão em Santos consideravel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>intervindo</i>).—É verdade, o Sr. commendador,
-eu e Siqueira, acabamos de telegraphar, e amanhã
-poderemos impôr o nosso preço ao mercado.</p>
-
-<p>(<i>Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de
-Faria.</i>)</p>
-
-<h5>SCENA X</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria, Ribeiro, Lemos e Fonseca.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Impôr preço ao mercado? De que modo?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Eu lhe explico.</p>
-
-<p>(<i>Vai para Fonseca e falla-lhe baixo.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>levantando os olhos para Ribeiro, abatido.</i>)—Você
-salvou-nos, Sr. compadre...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas
-vezes que faltava-lhe o palpite...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>alto</i>).—O negocio é excellente.</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Optimo... mas devéras, estou com
-medo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Pois, então, ceda-me metade do que lhe
-toca...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>irresoluto</i>).—Não... não quero... entretanto?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com superioridade</i>).—Então ceda-me tudo!</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Tudo?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste
-rasgo.</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então aceita?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você está com receios... você o da idéa...
-aceite...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>resolvendo-se</i>).—Pois vá lá... Eu me contento
-com pouco. Mas palavra, se o senhor ganhar...
-tem de me agradecer a lembrança...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Quer que lhe dê uma clareza?</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.</p>
-
-<h5>SCENA XI</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Os mesmos, um criado.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">O Criado.</span>—Esta carta urgentissima para o Sr.
-commendador.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apressadamente</i>).—Dê-m’a. (<i>Lê</i>) Meus senhores,
-o vapor americano está entrando. Falla-se em
-alta no algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com dôr</i>).—Oh! Faria!... Meu algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com voz de triumpho</i>).—Quer comprar a
-minha parte? 30% de lucro sobre a venda!</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—O senhor me mata!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>para Lemos</i>).—Compadre, tem algodão
-que vender?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>sempre sentado; lugubre</i>).—E o meu café!...
-O remedio é bebê-lo todo. Arrebentarei!</p>
-
-<p>(<i>Ouve-se uma voz fóra gritar</i>: Meu pai! Meu pai!
-<i>barulho na escada</i>).</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que é isto?</p>
-
-<h5>SCENA XII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Fonseca, Faria, Ribeiro, Lemos e Alberto.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto Lemos</span> (<i>vem offegante e mal póde fallar</i>).
-Meu pai... o vapor americano... alta no café... algodão
-desceo!</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira</i>).—Café?!...
-Café?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Pede-se de toda a America do Norte.</p>
-
-<p><span class="smcap">Todos.</span>—Impossivel!</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Leião! (<i>Entrega um boletim a Ribeiro, que
-é logo cercado por todos com grande sofreguidão.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É verdade! Mas... arredem-se um
-pouco... Os senhores me suffocão!</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>com voz de triumpho</i>).—Eu logo vi!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>deixando-se cahir na cadeira em que estivéra
-Lemos</i>).—Em que tremedal me metti! Infame algodão!</p>
-
-<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>chegando-se para Fonseca</i>).—Coragem, Sr.
-Fonseca!... Vou certificar-me das noticias. Não se
-esqueça de mim.</p>
-
-<p>(<i>Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente.</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA XIII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Faria, Fonseca, Ribeiro, Lemos e Alberto.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>levantando-se</i>).—Não! isto é horrivel!...
-D’esta feita... (<i>Com explosão</i>) Mas é preciso fazer alguma
-cousa... tomar providencias!... Anda, Faria!
-(<i>Sacode com força Faria, que parece estar meditando</i>).
-Diga alguma cousa... Você sempre tem idéas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>meio abatido</i>).—Estou pensando...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>irado</i>).—Qual pensando! Agora não é hora
-de pensar. Queremos factos... factos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>muito sêcco para Faria</i>).—É facto que o
-senhor, com suas historias... encalacrou-me (<i>Com gestos
-da scena anterior</i>). Equilibrio, alta... baixa... isto,
-aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em Santos
-o meu dinheiro (<i>Pesando nas palavras</i>) está ardendo...
-e...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Deixe isso... Os nossos
-lucros por cá compensão tudo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com altivez</i>).—Não me queixo da perda...
-deploro tão sómente que calculos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>como que acordando do lethargo</i>).—Um telegramma
-para Santos... um telegramma!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É verdade... um telegramma!...
-Um criado, depressa!</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>que tem estado a olhar para o interior da
-casa</i>).—É inutil: ha cinco minutos o telegrapho interrompeo
-as communicações... É noticia certa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mais calma, meu amigo! Mais calma!</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>desabrido</i>).—Vá á breca com os seus conselhos
-(<i>Agarrando na cabeça com desespero</i>). Minhas
-perdas! (<i>De repente</i>) Ah! uma idéa. Compadre, podemos
-remediar alguma cousa! Uma idéa! (<i>Para Faria,
-imperioso</i>) Você vai partir d’aqui a meia hora...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Para onde?</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas
-da tarde... ha tempo de sobra... Não deixe embarcar
-o algodão... Ao menos espere elle em Santos...
-Talvez deixando passar a primeira impressão na
-praça... d’aqui a dias...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—É uma idéa, mas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Mas o que?</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto
-você não voltar... Dous dias, ou pouco
-mais...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com a mão mettida dentro do bolso do collete</i>).—Perdôe-me:
-isto não. (<i>Com sorriso um pouco altivo</i>)
-Mas ninguem póde retêl-o... Antes de tudo... (<i>Accentuando</i>)
-de tudo, os negocios...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Você bem vê... vamos! Aviemos isto
-(<i>Baixo</i>). Eu arranjo tudo; o casamento e o mais. (<i>Alto</i>)
-Vamos.</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>um pouco acanhado</i>).—Então o Sr. commendador...
-consente?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois não... com muito gosto... por minha
-parte...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com alegria forçada</i>).—Ah! muito bem!<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-depressa agora... A Santos! A Santos! (<i>Procura empurrar
-Faria</i>) livra-nos d’essa...</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com alguma resistencia</i>).—Deixe-me ao menos
-despedir-me... (<i>Estendendo a mão a Ribeiro</i>) Dê-me
-então suas ordens...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com frieza</i>).—Seja feliz... e avisado...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—De certo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>sempre sêcco</i>).—É medida de segurança.</p>
-
-<h5>SCENA XIV</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Alberto, Lemos, Ribeiro, Fonseca e Rocha.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ao entrar esbarra quasi com Faria</i>).—Oh!
-senhor!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Adeos... adeos, vamos de sahida...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Boa viagem!</p>
-
-<p>(<i>Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Faria.</span>—Oh! eu...</p>
-
-<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...</p>
-
-<p>(<i>Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por
-Fonseca.</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p>
-
-<h5>SCENA XV</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Alberto, Lemos, Ribeiro e Rocha.</span></p>
-
-<p>(<i>Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por
-baixo das abas da casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha,
-de pé, no meio da scena, com os braços cruzados sobre
-o peito.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ironico e sombrio</i>).—Então o Sr. Faria se retira?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais
-bello thesouro?</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>assustado</i>).—Hen?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ora, Alfredo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Consulte a sua consciencia, meu tio (<i>melodramaticamente</i>),
-e decida se elle é digno da noiva que
-lhe reservão...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>assustado sempre</i>).—Noiva?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>continuando</i>).—Não, eu tambem sou parente...
-tenho que erguer a minha voz... Quer uma
-prova mais evidente da baixa ganancia... do mercantilismo
-do que a que acaba de ter?... Por uma questão
-de contos de réis... esse homem, que fingia um sentimento,
-esqueceo tudo e sobre tudo a sua noiva, anjo
-de innocencia, gemma de um valor inestimavel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Mas quem é essa?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>arrebatado</i>).—Oh! é um diamante de Golconda...
-é um seraphim capaz de levar as almas ao
-paraizo só com o poder do seu olhar... é emfim...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Se falla de minha filha, declaro-lhe que
-ella ainda não é noiva...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia
-crêr...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>meio zangado</i>).—Ha pouco eu lhe disse
-muita cousa... Na realidade, pensei que poderia...
-mas... emfim... nem tudo... quanto se pensa, pode
-realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo...
-(<i>Animando-se a pouco e pouco.</i>) E com mil bombas!
-este procedimento desagrada-me solemnemente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>com a mão no queixo</i>).—E com toda a razão.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>exaltado</i>).—Razão tenho de sobra... É fazer
-pouco em mim. N’um dia em que convido para jantar
-não pode haver motivos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Justamente, justamente...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E depois do que tinhamos conversado...
-Oh! isto não ha de ficar assim... Desfaço tudo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>continuando no mesmo tom</i>).—Por uma
-questão pequenina de dinheiro! (<i>Com muito desprezo</i>)
-Oh! indigno metal! tão negro como as entranhas da
-terra em que vives!</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e
-amigo! Ao Faria nunca hei de dar a minha filha...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>intervindo</i>).—Por certo... É um coração
-secco...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Um ganhador...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante
-quantia que perdeu derrubou-lhe o edificio
-da hypocrisia... Aquella menina devia pertencer
-a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span> (<i>com exaltação</i>).—Oh! meu pai (<i>Aperta as
-mãos de Ribeiro.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>admirado</i>).—Mas que é isto?</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com affectação</i>).—É um quadro de familia...
-Veja e enterneça-se (<i>Abraça Ribeiro que não lhe mostra
-boa cara.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>meio triste</i>).—A final os poetas tem sempre
-razão...</p>
-
-<h5>SCENA XVI</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Rocha, Ribeiro e D. Rita.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>entrando pela porta da direita</i>).—Então,
-meus senhores, quando quizerem, faráõ o favor de
-entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o compadre
-Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Aqui estiveram ambos e partiram...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Mas voltam já...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>seccamente</i>).—Não voltão tão cedo...
-partiram...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Para onde?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Para Santos...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—N’um dia como o de hoje! Depois das
-promessas! Que foi? Que houve?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Um negocio de algodão...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Não ha negocio que podesse obrigal-os a
-se retirar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com explosão</i>).—Não sei, não sei, nada sei,
-mas o que lhe digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-filha, a sua, a nossa filha não casará nunca com
-o tal Faria. (<i>Com tom lugubre</i>) É excusado pedir ou
-chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o
-compadre, nem com ninguem...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>admirada</i>).—Expliquem-me o que houve...
-Estou pasma.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha
-vontade e aqui (<i>com resolução</i>) não é casa de Gonçalo,
-em que a gallinha cante mais do que o gallo...
-É excusado, senhora...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>picada</i>).—Mas quem lhe disse que eu morro
-de amores pelo Faria?... Minha filha, graças a Deos
-não precisa mendigar noivos...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>adiantando-se</i>).—Minha tia, em duas palavras
-lhe explico tudo... O tal pretendente á mão
-de minha adoravel prima metteo-se, e por seus conselhos
-metteo o tio, em uma compra de algodão em
-Santos. Agora acontece que o genero baixou, de modo
-que elle, sem consideração alguma pela bondade com
-que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente
-uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum
-remedio aos seus prejuizos... Não houve nada
-que o retivesse... nem a honra de jantar hoje aqui,
-nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto
-já lhe tinha sido quasi dada...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>tossindo e cortando a palavra a Rocha</i>).—Isto
-é, o tio, o animal do Fonseca, procurou, etc., etc.,
-e tal... mas eu...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito
-procedimento e...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—De certo, fez muito bem...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu faria o mesmo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—E deo o dito por não dito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com resolução</i>).—E se eu disse alguma
-cousa, dou o dito por não dito... Em dignidade ninguem
-me ha de vencer...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Perfeitamente, compadre...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Extraordinario...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Inexplicavel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar de dignidade offendida</i>).—Digão antes
-de tudo offensivo; mas eu soube manter-me na
-posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Optimamente...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo
-que o Sr. Fonseca ha de me ouvir...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a
-possibilidade de um prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe
-boa!... É verdade que os meus setenta...</p>
-
-<p>(<i>Isabel apparece na porta da direita.</i>)</p>
-
-<h5>SCENA XVII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Rocha, Faria, D. Rita e Isabel.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel.</span>—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>adiantando-se para Isabel</i>).—Minha senhora...
-eu...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>com acanhamento</i>).—Meu senhor...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>precipitando-se</i>).—Oh! minha prima!...</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>adiantando-se</i>).—Que tem, primo Alfredo?
-Acho-o commovido.</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—É de alegria... estou fóra de mim... commovido,
-sim, e muito...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Acabemos com isto, senão eu tambem
-passo a commover-me!...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu já estou commovida...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Que dia este!</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>com sorpreza e dôr</i>).—Que é isto?</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>muito admirada</i>).—Eu, casar-me?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim... faço-lhe a vontade...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>muito apressado</i>).—Emfim, posso dizer que
-a amo, Isabel... que a adoro, a idolatro...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E é com esses confeitos que os poetas nos
-dão batalha e nos vencem.</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>com constrangimento</i>).—Devéras eu... estimo
-muito o meu primo... admiro o seu talento... mas...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>chegando-se e em tom de supplica</i>).—Falle,
-D. Isabel... estou soffrendo como um desgraçado.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>admirado</i>).—Então que é isto? Você diz
-que...</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel.</span>—Eu... não amo a meu primo...</p>
-
-<p><span class="smcap">Todos.</span>—Oh!</p>
-
-<p>(<i>Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre:
-Ribeiro pucha o beiço, como pessoa que labora em grande
-duvida.</i>)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Essa não está má! (<i>Para Isabel</i>) Então
-você de quem gosta?</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>enrubecendo</i>).—De ninguem, papae...</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>com tom de supplica</i>).—D. Isabel...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>implorando</i>).—Oh! minha prima, que cruel
-momento! Por que crime estarei expiando tanta dôr!
-Os meus versos, os meus cantos devem já lhe ter dito
-quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando
-tudo parecia indicar o final de um soffrimento immenso,
-uma unica palavra sua, cruel, implacavel,
-veio me atirar em abysmo insondavel...</p>
-
-<p>(<i>Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae,
-empurra-o para que se adiante.</i>)</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão
-de sua filha...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Homem, é excellente! Até você é candidato?...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>apressadamente</i>).—É para meu filho... meu
-filho Alberto...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>graciosa</i>).—É uma cousa muito possivel.</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas ella diz que não quer ninguem: que
-hei de...</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>intervindo com animação</i>).—Papae, eu não
-disse isto...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então você aceita o Alberto?</p>
-
-<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>sofrego</i>).—D. Isabel... minha sorte depende
-da senhora...</p>
-
-<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>confusa</i>).—Se... papae... consentir... Querendo
-a mamãe...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>risonho</i>).—Ah! sonsinha, isto é namoro<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span>
-velho. (<i>Para D. Rita</i>) E a senhora não me dizia
-nada!...</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu de nada sabia...</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o
-caso dou com ambas as mãos o meu pleno consentimento.</p>
-
-<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu com a maior satisfação...</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>adiantando-se com ar sombrio e theatral</i>).—E
-eu? Que fazem de mim? De mim que entrei hoje aqui
-com um céo na alma, e saio com a morte no coração!...
-A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?</p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>puchando-o pela sobrecasaca</i>).—Ora, deixe-se
-d’isso, Alfredo, e vem comer o nosso peixe.</p>
-
-<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois
-exclama</i>).—Não quero comer o seu peixe! (<i>Sahe
-arrebatadamente.</i>)</p>
-
-<h5>SCENA XVIII</h5>
-
-<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Ribeiro, D. Rita e Isabel.</span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vai o pobresinho furioso (<i>levantando os
-hombros</i>). Hão de vocês vêr que versalhada sahe
-d’aquelles furores. O certo é que no fim de contas
-faz-se um casamento com quem ninguem contava...</p>
-
-<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Agrada-lhe menos...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p>
-
-<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Qual!... Está muito conforme com as minhas
-idéas... Não tróco o meu novo genro por uma
-duzia de Farias ou uma carregação de poetas... Agora
-todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos...
-Comeremos do tal peixe por quantos deixárão
-de lhe chupar as espinhas... Á mesa e depressa...
-porque, como diz o proverbio: «<i>Da mão á boca se
-perde a sôpa.</i>»</p>
-
-<p class="right">(<i>Cahe o panno.</i>)</p>
-
-<p class="fim">FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p>
-
-<h2 id="CAMIRAN_A_KINIKINAO">CAMIRAN A KINIKINAO<br />
-<span class="smaller">EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO</span></h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<h3>CAMIRAN A KINIKINAO</h3>
-
-<p>Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava
-os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado
-em acção de guerra pelos paraguayos.</p>
-
-<p>Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu
-corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma
-dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo
-era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o
-chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos
-do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante,
-a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos
-céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia
-ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto
-á lembrança algum facto que se prendia á existencia
-de seu adorado filho.</p>
-
-<p>Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um
-canto que mais tinha de resignação do que de desespero,
-contava como e quando elle havia contemplado<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira,
-se abrigára da chuva, contendêra com o furacão
-ou refrescára o corpo ás caricias de branda
-aragem.</p>
-
-<p>Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém,
-sem vexame para quem a recebia, por isso que todos
-á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana
-algum alimento escasso sem duvida, pois para
-todos escasseára, mas dado de coração.</p>
-
-<p>N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma
-dura provança. Expulsa em principios do anno de
-1865 pelo terror da invasão paraguaya que então
-assolára repentinamente o districto de Miranda, havia
-ella vagado longos mezes por matas e agruras antes
-de poder assentar arraiaes ao abrigo do inimigo.</p>
-
-<p>Tambem quem deixára de soffrer!</p>
-
-<p>A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel
-Resquin que, em nome da republica do Paraguay,
-levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.</p>
-
-<p>O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões
-paraguayos, sem opposição alguma á sua
-marcha de conquista, forão tangendo adiante de si
-toda a população tomada de sorpreza e possuida de
-immenso pavor.</p>
-
-<p>Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára
-de sua força de mais de cinco mil bayonetas uns seiscentos
-homens para irem abafar a resistencia do tenente
-Antonio João na colonia de Dourados.</p>
-
-<p>Valente homem aquelle tenente!</p>
-
-<p>Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-fronteira, morreo como um heróe, ao lado de onze
-companheiros em quem infundira a coragem e o patriotismo
-que lhe inflammavão o peito.</p>
-
-<p>Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado
-em sua palissada, tinha diante e ao redor de si a immensidade
-do deserto.</p>
-
-<p>Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava
-uma força imponente, não quiz desamparar o
-posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma falla
-em que citou francez e até latim.</p>
-
-<p>O homem tinha pretenções litterarias que afagava
-com certo orgulho, e se revelavão nos officios mensaes
-que costumava dirigir ao chefe militar de Nioac.</p>
-
-<p>N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se
-achava a colonia e a loucura da resistencia, e terminou
-dando a todos licença para o abandonarem.</p>
-
-<p>Elle ficaria.</p>
-
-<p>—Para que? perguntárão uns soldados.</p>
-
-<p>—Para morrer!</p>
-
-<p>Onze de seus commandados declarárão que ficarião
-tambem.</p>
-
-<p>Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos
-e até moços.</p>
-
-<p>Antonio João esperou então os inimigos da patria.
-Fez içar a bandeira do Brasil e preparou com esmero
-o officio com que havia de responder á intimação do
-invasor.</p>
-
-<p>No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira
-a cavallo a devassar a redondeza, voltou a galope.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
-
-<p>A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.</p>
-
-<p>Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os
-seus onze fieis pela palissada. Cada um tinha uma espingarda
-a Menié, duas clavinas carregadas ao lado
-e não lhes faltava nem munição, nem valor.</p>
-
-<p>Por todos os lados se abrião campos immensos,
-campos que já se ião tingindo de vermelho. Erão os
-paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo maculavão
-a verdejante relva.</p>
-
-<p>—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á
-sua gente.</p>
-
-<p>—Todos, respondêrão os onze.</p>
-
-<p>—Então amparem-se com Deos, porque ninguem
-se entrega.</p>
-
-<p>—Ninguem! repetirão os onze.</p>
-
-<p>Era Leonidas no meio dos lacedemonios.</p>
-
-<p>De repente soou o clarim paraguayo.</p>
-
-<p>Um parlamentario se approximava.</p>
-
-<p>A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do
-deserto. Parecia ufana de abrigar aquelles doze sublimes
-insensatos. Losango amarello sobre fundo verde;
-côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo,
-quando elle lhes deita o olhar de adeos no
-campo da batalha. A corôa imperial como que preparava-se
-para descer sobre aquellas cabeças, transformada
-em corôa de gloria.</p>
-
-<p>Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois,
-com a maior cortezia o enviado.</p>
-
-<p>A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes,
-como costumavão alinhar os generaes de Lopez.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p>
-
-<p>O commandante de Dourados rasgou em pedaços o
-officio que preparára com tanto cuidado e carinho, e a
-lapis traçou esta resposta:</p>
-
-<p>«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus
-companheiros servirá de protesto solemne contra a invasão
-do solo da minha patria.»</p>
-
-<p>E assignou com mão firme:</p>
-
-<p class="right">«Antonio João da Silva.»</p>
-
-<p>Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou
-brazileiro que ao depois dissesse o mesmo.</p>
-
-<p>Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em
-distancia cercou todo o campo. Para qualquer lado
-que os defensores de Dourados deitassem os olhos,
-virão um cordão vermelho que vinha se apertando.</p>
-
-<p>Na guarnição não houve alma que fraqueasse.
-Quanto mais se demorava aquelle ataque disproporcionado,
-mais crescia o enthusiasmo.</p>
-
-<p>—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio
-João.</p>
-
-<p>Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a
-um tempo as armas, ligeira detonação para aquellas
-vastidões, respondida por uma immensa repercussão.</p>
-
-<p>O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.</p>
-
-<p>—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos
-da agonia.</p>
-
-<p>Raros obedecêrão á ordem.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada,
-mas ella desceu com ufania como bandeira de victoria<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span>
-e, quando tocou o chão, uma das suas dobras foi
-se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião
-ennobrecido.</p>
-
-<p>Parecia enrubescer de orgulho.</p>
-
-<p>Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.</p>
-
-<p>—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver
-muitos d’esses, a nossa marcha por Matto-Grosso não
-será um simples passeio militar, como nos contárão.</p>
-
-<p>Outra vez repetirão isto.</p>
-
-<p>Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da
-colonia de Miranda seis legoas.</p>
-
-<p>Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi
-um paisano, Gabriel Barboza.</p>
-
-<p>Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem
-já feito, robusto de corpo e estimado. Devia
-se casar quando arrebentou a invasão e trocou as vestes
-de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos
-no céo se talhão.</p>
-
-<p>Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se
-que o Apa estava transposto e que Resquin vinha
-marchando para o Norte, o commandante do corpo
-de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e
-quarenta soldados, apenou alguns paisanos de boa
-vontade e marchou ao encontro do inimigo.</p>
-
-<p>Esse commandante gozava de bom nome e estava
-em condições de prestar grandes serviços. Bemquisto
-dos seus subordinados e respeitado por todos, podia
-ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou
-que servia mais para o socego da paz do que
-para as contingencias da guerra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p>
-
-<p>Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer
-a força que pisava terras brazileiras.</p>
-
-<p>Não caminhou muito.</p>
-
-<p>A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro
-lado, encoberta pela mata, estava a columna paraguaya;
-mais de cinco mil homens, já dissémos.</p>
-
-<p>Era no dia 31 do Dezembro de 1864.</p>
-
-<p>Muita gente pensou que não veria o anno novo.</p>
-
-<p>No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante
-paraguayo, mostrou alguma polidez: o brazileiro
-respondeu-lhe, apurando o tom.</p>
-
-<p>Trocarão-se amabilidades antes das balas.</p>
-
-<p>Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda
-estar a perder tempo.</p>
-
-<p>O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem
-de Nioac, para o que sobrára tempo, arregimentar
-toda a população valida e os centenares de indios que
-se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os
-e esperar os invasores nos angustos e emboscadas.
-Assim caro terião pago o seu arrojo.</p>
-
-<p>Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias,
-retirada que poderia ter produzido uma
-resistencia notavel, o commandante do corpo de caçadores
-a cavallo avançou imprudentemente, vio a
-sua tropa quasi toda debandada na volta para Nioac e,
-incutindo terror panico em todos os habitantes, foi atropelladamente
-para a villa de Miranda, d’onde tomou
-rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias
-de vacillação que mais concorrerão para destruir
-qualquer intenção de pôr peito á invasão estrangeira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span></p>
-
-<p>Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de
-certo n’um dia de combate havia de sustentar com
-dignidade a sua posição, mas não tinha cabeça para
-organisar a defeza de uma grande zona.</p>
-
-<p>Ah! se fôra Antonio João!</p>
-
-<p>Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os
-voluntarios. Montava um cavallo magro e trazia uma
-espingarda de dous canos de caçar onças.</p>
-
-<p>A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o
-tiroteio já havia começado. Na mata da margem esquerda
-do rio Feio estavão emboscados os paraguayos,
-na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria
-que havião posto pé em terra. Commandava-os
-um valente capitão, Pedro José Rufino, homem envelhecido
-nas fileiras, cheio de serviços e esquecido ha
-muito no fundo de Matto-Grosso.</p>
-
-<p>Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido
-de baeta vermelho estirado no chão immovel mostrava
-a certeza do fogo. Um cadaver rolára mesmo pela
-barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que
-mergulhava o tronco.</p>
-
-<p>A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:</p>
-
-<p>—Os paraguayos estão passando o rio!</p>
-
-<p>Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores
-deu signal de retirar.</p>
-
-<p>De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya
-estavão na margem direita e vinhão a redea solta sobre
-os brazileiros.</p>
-
-<p>A principio os nossos retrocederão rapidamente,
-mas guardando ainda cada qual o seu lugar na fileira;<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-depois a carreira foi-se accelerando, tornando-se
-vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada
-geral para se atirar nas matas, os outros mais fincavão
-as esporas nos ventres de seus cavallos.</p>
-
-<p>Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia;
-tratava-se de correr.</p>
-
-<p>De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura
-afrôxar.</p>
-
-<p>O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha
-bastante longe, de modo que um soldado, ao passar
-pelo mineiro, parou por um pouco e lhe perguntou:</p>
-
-<p>—O seu cavallo <i>bombeou</i>?</p>
-
-<p>—Não póde mais comsigo...</p>
-
-<p>—Pois bem, então faça como eu; <i>fréche</i> para aquelle
-capão que nós cahimos logo na mata do Nioac.</p>
-
-<p>—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr...
-Eu fico aqui...</p>
-
-<p>—Mas aqui é morte certa!</p>
-
-<p>O outro fez um gesto de pouco caso.</p>
-
-<p>—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas
-aos paraguayos.</p>
-
-<p>E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou
-com cuidado a sua arma e parou immovel no
-meio da estrada.</p>
-
-<p>Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára
-a dianteira aos outros, apressou ainda mais a
-carreira que trazia.</p>
-
-<p>Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão
-direita voltear uma espada voraz de sangue, e na esquerda
-mantinha as redeas frôxas. Ouvia atraz de si o<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-galopar dos companheiros e queria colher a gloria de
-matar o primeiro brasileiro.</p>
-
-<p>Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.</p>
-
-<p>Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando
-um grito de agonia.</p>
-
-<p>Um segundo teve igual destino e rolou ferido por
-certeira bala, mas já a esse tempo cinco ou seis outros
-se havião atirado sobre o brasileiro e depressa o prostrárão
-sem vida, todo golpeado e lanceado.</p>
-
-<p>Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande
-cruz lavrada e coberta de desenhos, na qual está gravada
-esta inscripção:</p>
-
-<p>«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama
-en agzion di guera.—Ennero, 1—1865» (<i>sic</i>).</p>
-
-<p>Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado,
-como homenagem aos restos de quem alli descansava,
-um craneo com dous grandes talhos de espada.</p>
-
-<p>Era o craneo de Gabriel Barbosa.</p>
-
-<p>No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em
-Nioac. Aquella linda povoação estava deserta e em
-poucos minutos ficou reduzida a cinzas.</p>
-
-<p>Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse
-dia, a perturbação tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada
-havião chegado os restos desordenados do 1º
-corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores
-da villa affluira para ella. A quantidade de indios
-terenos, laianos, kinikináos, guanás, guaycurús e até
-cadiuéos, que são, comtudo, perfidos e mal vistos, era
-consideravel, todos a pedirem em altos brados armas
-e munições de que estava repleto o deposito de artigos<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-bellicos, para correrem a se metter em emboscadas.</p>
-
-<p>Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa,
-e aconselhavão duas esperas excellentes no Lalima
-e no Laranjal; outros declaravão qualquer tentativa
-de lucta inutil e impossivel, e só esperavão
-pela voz de debandada; outros, emfim, e entre os
-mais notaveis da villa, já nem esperavão por aquelle
-signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas e
-igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para
-demandarem a foz do seu affluente, o Aquidauána.</p>
-
-<p>No meio da grita das mulheres, do chorar das
-crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos
-indios, dos conselhos desencontrados, das discussões
-calorosas, aquelles que devião tomar providencias para
-o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução
-immediata, quer no sentido de resistencia,
-quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e deixárão-se
-arrastar pelo movimento da população, que, a
-6 de Janeiro, em peso abandonou Miranda na mais
-extraordinaria confusão.</p>
-
-<p>Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos
-devessem se reunir. Uns seguirão em canôas a procurar
-refugio nas matas do rio; o maior numero, a pé,
-tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas
-vinte leguas, e em cujas brenhas tinhão tenção de
-se occultar.</p>
-
-<p>Os paraguayos porém vinhão marchando muito
-vagarosamente; tanto assim que só a 12 de Janeiro é
-que entrárão na villa, que achárão quasi que completamente<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão
-do povo, havião voltado e agarrado tudo quanto
-lhes approuve, principalmente armamento e cartuxame.</p>
-
-<p>O deposito continha, comtudo, ainda grande numero
-de armas e petrechos de toda a qualidade, que o
-inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter para a
-republica.</p>
-
-<p>—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão
-defender o seu territorio enchendo os cabides de
-espingardas e de lanças.</p>
-
-<p>Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin
-fez sahir um bando que declarou haver d’aquelle dia
-em diante passado todo o districto a pertencer á republica
-do Paraguay, debaixo do titulo de districto
-militar de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se
-ás suas casas sob pena de serem os recalcitrantes
-passados, sem appello, pelas armas.</p>
-
-<p>Naturalmente ninguem se apresentou.</p>
-
-<p>Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão
-então occultos no lugar chamado Salôbra, a duas leguas
-da villa, sujeitos a milhares de privações, e, o
-que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e
-pelas intrigas.</p>
-
-<p>Tudo era motivo para recriminações e queixumes.</p>
-
-<p>Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia,
-homem virtuoso e querido quer de brancos,
-quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão necessaria
-n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido,
-e mais de uma vez vio-se desrespeitado.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p>
-
-<p>O acampamento dos refugiados em pouco tempo
-tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas
-canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros,
-em pequeno numero, forão espontaneamente se
-apresentar aos paraguayos.</p>
-
-<p>Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho
-sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha
-desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo
-ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava
-de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos
-montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.</p>
-
-<p>Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de
-se entregar ao invasor e obter d’elle compaixão para
-todas aquellas victimas—mulheres principalmente e
-debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir,
-acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do
-alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar
-em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.</p>
-
-<p>Havia na villa uma razão que o attrahia com força
-irresistivel: era a igreja matriz que construira com
-grande trabalho, empregando n’ella os seus magros
-vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade
-dos freguezes.</p>
-
-<p>Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que
-fez logo frei Marianno, n’um estado de jubilo difficil
-de descrever. Quanto tempo havia passado longe
-d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de
-seus extremos, de sua adoração!</p>
-
-<p>As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas,
-por todos os lados signaes da destruição, nada o
-impressionava, nada lhe detinha os passos.</p>
-
-<p>Elle voava para a sua matriz.</p>
-
-<p>Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o
-caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos,
-os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado,
-o chão coberto de caliça e caibros, as imagens
-mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei
-Marianno.</p>
-
-<p>Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe
-da mente, e elle, transfigurado pelo desespero
-e pela indignação, no meio d’aquelle templo
-esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os
-paraguayos.</p>
-
-<p>A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os
-que o cercavão.</p>
-
-<p>—Forão os Mbaiás<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a>, gritou meio assombrado
-um d’elles.</p>
-
-<p>—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou
-o frade cuja exaltação não achou limites senão
-quando de todo lhe faltarão forças para clamar vingança
-aos céos.</p>
-
-<p>Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco
-depois foi transferido para Assumpção<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a>. João<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
-Faustino do Prado e Pacheco de Almeida escapárão
-de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia
-mesmo em que n’ella havião entrado.</p>
-
-<p>Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda
-durante todos aquelles inesperados successos?</p>
-
-<p>Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto
-por occasião da invasão paraguaya.</p>
-
-<p>Os terenos, em numero talvez superior a trez mil
-individuos, estavão estabelecidos no Naxedaxe, a seis
-legoas da villa, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldêa-Grande,
-a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas
-N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos,
-a meia legoa—estes todos da nação chané. Dos
-guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto de
-Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida
-e Nabileke, tambem chamado Rio-Branco.</p>
-
-<p>Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona,
-cada tribu manifestou as suas tendencias particulares.
-Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com o invasor. O
-<i>castelhano</i> era por todas considerado de longas éras
-como inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo,
-identificárão-se com as desgraças dos <i>portuguezes</i>; outras
-se separárão d’elles; outras, emfim, começárão a
-hostilisar a gente de um e outro lado.</p>
-
-<p>Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente
-com a população fugitiva; os terenos se isolárão, e os
-cadiuéos assumirão attitude infensa a qualquer branco,
-ora atacando os paraguayos na linha do Apa, ora assassinando
-familias inteiras, como aconteceu com a do
-infeliz Barbosa, no Bonito.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p>
-
-<p>Voltemos, porém, aos kinikináos.</p>
-
-<p>Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria
-passárão em debandada pelo Agaxi, a aldêa já estava
-sobresaltada.</p>
-
-<p>—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão
-dos kinikináos, Flavio Botelho.</p>
-
-<p>—Fujão todos.</p>
-
-<p>—Para onde?</p>
-
-<p>—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si,
-Deos por todos.</p>
-
-<p>Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo.
-Tinha um unico merecimento: ser pai de duas
-lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se diariamente
-sem respeito algum pela patente que possuia
-e mostrava com grande orgulho, assignada por
-D. Pedro I.</p>
-
-<p>N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma
-garrafa de aguardente e tratou de dormir.</p>
-
-<p>A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que
-nunca estavão faltos de um chefe, e, por tacito accordo,
-deixando, comtudo, as honras ao legitimo possuidor,
-tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.</p>
-
-<p>Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.</p>
-
-<p>Era o filho de Camiran.</p>
-
-<p>Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um
-soberbo indio, côr de cobre vermelho, com feições angulosas,
-maçãs do rosto salientes, dentes acerados,
-olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e
-denunciando energia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p>
-
-<p>Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito
-dos seus e a amizade dos brancos. Era elle quem tomava
-a peito as queixas da sua gente nas relações com
-os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei
-Marianno as irregularidades dos contractos ou os desmandos
-que se davão na sua aldêa. Pedia providencias
-n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas, e conseguia
-de vez em quando algum resultado, conforme os
-interesses dos seus e como era de justiça. Soubera até
-em varias occasiões franzir o sobrolho ás autoridades
-da povoação, dispostas sempre a abusar, e, apoiado na
-boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de
-rectidão, obteve que cessassem para os habitantes de
-seu aldeamento diversas medidas vexatorias a que
-estavão sujeitos os indios.</p>
-
-<p>Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo,
-avelhentado e onerado de familia, fizera com o juiz
-de paz de Miranda um contracto de locação de serviços
-por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e
-mais uma garrafa de aguardente no fim de cada
-mez.</p>
-
-<p>Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno,
-que se apressou em saber da verdade.</p>
-
-<p>Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado,
-e o indio declarou que o lavrára sem sugestões
-e de muito livre vontade.</p>
-
-<p>Não havia recalcitrar.</p>
-
-<p>Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz
-a substituição do trabalhador, ficando de pé a letra do
-contracto.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p>
-
-<p>Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como
-o tal juiz de paz não podia fazer negocio melhor, immediatamente
-aceitou a proposta, com grande applauso do frade.</p>
-
-<p>Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente
-trabalho a 500 réis diarios, esteve com toda
-a constancia dous mezes ás ordens do contractante, e
-sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do
-indio que substituira.</p>
-
-<p>Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro
-mil réis que deo de esmola para as obras da matriz, e
-levou as garrafas de aguardente para offertal-as a
-Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido
-o coração.</p>
-
-<p>Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho,
-em compensação o seu prestigio augmentou de um
-modo extraordinario.</p>
-
-<p>—Os <i>portuguezes</i>, dizião os velhos com aquelle sorriso
-quasi imperceptivel que os indios têm, não podem com
-Pacalalá. Elles são velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá
-é como o lagarto que dá chicotadas sem ser visto.</p>
-
-<p>Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho,
-orgulho immenso, mas occulto no ádito de sua alma.
-Não só por indole, como pelos costumes dos seus,
-nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia
-por elle, nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára,
-quanto mais beijal-o ou tecer-lhe elogios!</p>
-
-<p>A mais completa reserva cercava o seu amor maternal,
-repassado, com tudo, do mais profundo enthusiasmo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p>
-
-<p>Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella;
-se alguem tinha commodidade de vida na aldêa não
-excedia a que desfructava Camiran.</p>
-
-<p>Da roça de seu filho vinha abundante colheita de
-aboboras, milho, arroz e feijão; varias gallinhas cacarejavão
-diante de sua porta, e uma vacca com o bezerro
-ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.</p>
-
-<p>Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus
-trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou
-de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo
-assucarado da macaúba, que os indios chupão com
-delicia.</p>
-
-<p>Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer
-na refeição habitual a delicada carne da <i>jáo</i>, da
-<i>aracuan</i>, <i>jacutinga</i> e <i>inambú</i>; mas o preço da polvora
-e do chumbo tornava raras essas occasiões.</p>
-
-<p>Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem
-dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os.
-Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro
-habitual, embrulhava-se n’uma <i>julata</i> e ia deitar-se
-na rêde de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo
-de barro.</p>
-
-<p>Assim ficava longas horas, fitando um ponto no
-chão e com o espirito em torpor.</p>
-
-<p>As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento
-com os habitantes de Miranda; entretanto elle
-devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos
-punhão sempre n’essas relações.</p>
-
-<p>—Cuidado com os <i>portuguezes</i>, dizia elle para os
-seus quando consultado; são nossos iguaes e não<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-nossos amos. N’esta terra não deve haver duas gentes:
-uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem
-trabalhar.</p>
-
-<p>Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar
-as suas razões de queixa e com isso produzio
-algum abalo no animo de uma das autoridades da villa,
-tão arbitraria quão subalterna.</p>
-
-<p>—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar
-com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei
-que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos
-<i>portuguezes</i>.</p>
-
-<p>Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração
-entre os kinikináos do que qualquer outro.</p>
-
-<p>Se não reagia, pelo menos protestava sempre.</p>
-
-<p>Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança
-que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a
-commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração
-de sua tribu n’aquella difficil emergencia.</p>
-
-<p>Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono
-da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e
-velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais
-facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção
-de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto
-do Canuto, no rio Aquidauána, d’ahi a 8 leguas, para
-embrenhar-se depois na serra de Maracajú.</p>
-
-<p>A romaria partio; não sem alarido, imprecações
-e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita
-da mais completa desesperação.</p>
-
-<p>Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até,
-ou vergadas ao peso do <i>nadô</i>, grande rede de malhas<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span>
-em forma de saccos suspensa por uma tira de couro
-que applicão de encontro á testa.</p>
-
-<p>Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta
-homens validos e á frente d’elles marchou para Miranda
-a saber o que convinha fazer.</p>
-
-<p>A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de
-fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens
-montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados,
-crianças perdidas, mulheres desamparadas e
-familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros
-de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente
-ferrão.</p>
-
-<p>Toda a população estava em movimento e, cousa
-digna de reparo, n’essa occasião desastrosa, não se
-davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão
-faceis no meio da desordem geral.</p>
-
-<p>—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um
-mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois
-de carro estava parado ao meio da estrada, cercado
-da familia em pranto.</p>
-
-<p>—Para Miranda, respondeu o indio.</p>
-
-<p>—Pois então me levem a minha mulher e estas
-tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de
-amanhã estou <i>batendo</i> na villa. Fico para esconder o
-meu trem no mato.</p>
-
-<p>O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo
-sob sua protecção a familia do mineiro, com ella entrou
-em Miranda.</p>
-
-<p>A villa estava, como dissemos, entregue á maior
-anarchia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p>
-
-<p>Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções
-de resistir e que toda demora importava augmento
-de perigo: entretanto, como era preciso armar os
-seus e as autoridades não distribuião, nem querião
-distribuir armamento e munições, esperou que os
-moradores se retirassem.</p>
-
-<p>No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e
-um deposito immenso de artigos bellicos ficava
-entregue ao saque dos indios, antes de passar para o
-poder dos paraguayos.</p>
-
-<p>Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos,
-guanás, guaycurús, cadiuêos, beaquiéos e outros
-vião-se excellentes clavinas e muita polvora e bala durante
-todo o tempo da occupação do districto.</p>
-
-<p>Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se
-então para o porto do Canuto e capitaneando a
-tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais
-ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima
-chapada que corôa aquellas alturas.</p>
-
-<p>A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes,
-havião já chegado muitos fugitivos, entretanto
-como ella era coberta em toda a superficie de mato virgem
-e vigoroso, diversos nucleos forão se formando,
-sem que communicassem logo uns com os outros.</p>
-
-<p>Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas
-quanto soffrimento, quanto desespero, para toda
-aquella infeliz gente sem outro alimento mais do que
-palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e
-uma ou outra caça, essa mesma comprada a peso de
-ouro!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span></p>
-
-<p>Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas
-para entregar á terra as sementes que havião cuidadosamente
-trazido comsigo e preparar assim um futuro melhor.</p>
-
-<p>Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos
-todos os kinikináos cuidarão promptamente de roçar
-e de plantar, pelo que forão os primeiros que conhecerão
-a abundancia de cereaes.</p>
-
-<p>Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar
-os pobres refugiados que só de uma boa colheita
-podião esperar lenitivo para tantos males. O grão
-que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de
-uma maneira maravilhosa, e todos quantos galgarão
-a serra e se acoutarão em suas umbrosas dobras tiverão
-em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além
-das mais exageradas esperanças.</p>
-
-<p>Houve até um branco de Miranda que, plantando
-meio alqueire de milho, colheu mais de duzentos,
-e de uma quarta de feijão tirou perto de quarenta
-alqueires!</p>
-
-<p>A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira
-no mato, aberta é verdade com muito trabalho e
-a poder do machado muitas vezes manejado por mãos
-de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia
-cahir o maná do céo.</p>
-
-<p>Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira
-ahi estabelecida de mistura com indios kinikináos,
-guanás, terenos e laianos, gozasse de bastantes
-recursos para considerar de animo mais calmo
-as desgraças que acabavão de soffrer e poder com paciencia<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span>
-esperar pelo final da guerra que os paraguayos
-tão imprevista quão deslealmente havião encetado.</p>
-
-<p>Nos diversos lugares da serra em que havia moradores
-e que tomarão o nome de acampamentos, construirão-se
-ranchos vastos e commodos, e pouco e pouco
-regularisou-se o modo de viver.</p>
-
-<p>Para augmentar até aquella repentina prosperidade,
-veio um casal de gallinhas, trazido com muita cautela
-de Miranda por um indio, que lá se introduzio á
-noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande
-numero que anno e meio depois contavão-se alguns
-possuidores de centenares de cabeças de criação.</p>
-
-<p>Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a
-boa paz presidio as relações de todos, e em honra
-ao espirito da população de Matto-Grosso póde se
-afiançar que nenhuma scena de violencia, durante
-todo o tempo de exilio, lembrou que havião totalmente
-desapparecido o imperio das leis e a protecção
-das autoridades.</p>
-
-<p>Os indios, em numero décuplo dos brancos e que
-podião, como receiarão a principio muitos, libertar-se
-com estrondo da tutéla em que havião vivido,
-se ficárão um pouco mais altanados e independentes,
-nem por isso praticárão desmandos nem se aproveitarão
-das occasiões para reacções ás vezes justificadas.</p>
-
-<p>Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros
-ia attrahindo para lá os fugidos do districto,
-de modo que em fins de 1865 estavão elles quasi todos
-reunidos na chapada da serra de Maracajú.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p>
-
-<p>O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa
-de um lado, e de outro desde o Paraguay até os campos
-de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue aos paraguayos
-que rondavão sobretudo a área comprehendida
-entre os pontos do Souza, Espenidio, Forquilha,
-Nioac, Ariranha e Esbarrancado, onde mantiverão,
-até Agosto de 1866, importantes destacamentos.</p>
-
-<p>Por entre essas rondas passavão á noute os indios
-quando descião da serra para vir laçar rezes na planicie
-e ajoujal-as com outras mansas, tangendo-as assim
-para os acampamentos.</p>
-
-<p>Com essas expedições repetidas sempre com exito,
-apezar da vigilancia dos inimigos, abastecião-se de
-carne fresca e secca ao sol todos os moradores dos
-Morros, que então só se podião queixar da falta de
-sal, essa mesma até certo ponto minorada pela exploração
-dos barreiros e terrenos salitrosos, tão abundantes
-em todo o sul de Matto-Grosso.</p>
-
-<p>Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade
-na obtenção de bois para o córte. Era o mais
-ousado em descer á planicie, ficando ali sem receio
-dias inteiros a escolher as rezes que contava
-agarrar. Com alguns companheiros bem armados chegou
-a levar oito e mais animaes, tendo sempre a cautéla
-de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes,
-quando n’isso via vantagem.</p>
-
-<p>Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido
-de perto por uma ronda paraguaya.</p>
-
-<p>Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas,
-quando Pacalalá reconheceu que ião ser atacados. O<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span>
-lugar, porém, prestava-se á resistencia: era já na
-fralda da montanha e a trilha de subida serpeava por
-denso matagal de taquarissima.</p>
-
-<p>Destacando dous indios para continuarem a tanger
-o gado, Pacalalá com os outros esperou a ronda n’um
-angusto pedregoso, e de um tiro certeiro derrubou o
-paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos
-mais soldados.</p>
-
-<p>A ronda recuou precipitadamente, deixando como
-trophéos de victoria não só o cadaver do companheiro
-como o cavallo que montava.</p>
-
-<p>Grave agitação produzio nos acampamentos dos
-Morros a chegada de Pacalalá todo cheio de seu
-triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo
-do inimigo.</p>
-
-<p>Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo
-e formal ataque dos paraguayos, que, abandonando
-os seus ranchos e roçados, atirarão-se pelas
-matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario
-virão n’esse successo maior garantia para a sua segurança
-e cobrirão o vencedor de felicitações e elogios.
-Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a alegria
-selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha
-embeber nas carnes pisadas pelo arrastamento facões
-e espadas, e o corpo espicaçado, mutilado e já sem
-forma foi por fim atirado aos cães e corvos.</p>
-
-<p>Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se
-as descidas dos Morros mais frequentes e ousadas, e os
-paraguayos mais cautelosos e receiosos de emboscadas
-e estratagemas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p>
-
-<p>Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante
-umas 16 leguas e ficava muitos e muitos dias entretido
-em preparar e seccar os saborosos pacús, que
-abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado
-quanto vigiadas pelas rondas dos paraguayos as margens
-do caudal, a que davão o nome de Rio-Branco e
-que impunhão como divisa do novo districto annexado
-á republica sob o titulo de Mbotetiû.</p>
-
-<p>As temeridades do kinikináo devião necessariamente
-trazer um novo encontro e esse deu-se com
-proporções tão vastas em relação aos que n’elle se
-empenharão que póde ser considerado como o feito
-de guerra mais importante durante todo o periodo
-de occupação.</p>
-
-<p>Foi em Maio de 1866.</p>
-
-<p>No porto de D. Maria Domingas á margem direita
-do rio Aquiadauána, existia um extenso cannavial que
-era o objecto da cubiça dos indios muito inclinados ás
-substancias assucaradas.</p>
-
-<p>Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no
-proprio lugar e, convidando seis kinikináos e dez terenos,
-poude encetar com felicidade o seu trabalho.</p>
-
-<p>Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo
-natural abandono de medidas cautelosas quando nada
-parece dever prescrevel-as, ou por casualidade, forão
-os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda
-inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou
-pedir reforço ao posto do Souza, d’ahi a 6 legoas.</p>
-
-<p>Vierão perto de duzentos homens.</p>
-
-<p>Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p>
-
-<p>Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um,
-os incitasse, mostrasse-lhes a vantagem da posição e
-emfim a necessidade de se defenderem de quem por
-certo não daria quartel a nenhum d’elles.</p>
-
-<p>Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.</p>
-
-<p>Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.</p>
-
-<p>Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou
-cada companheiro atraz de arvores grossas e
-aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de fazerem
-fogo.</p>
-
-<p>Os paraguayos estavão a pouca distancia formados
-em linha na planicie, assim pois os primeiros tiros
-derrubarão de uma vez para mais de uma duzia
-d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas
-balas forão só varar troncos e cortar galhada.</p>
-
-<p>Os indios recuarão então, ganhando o interior da
-mata. Perseguidos por uma companhia de infantaria
-acolherão-na por modo tal que a obrigarão a retroceder.</p>
-
-<p>Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda
-parte se achava para exaltar o animo de cada combatente
-e melhor aproveitar os esforços e crescente enthusiasmo
-dos seus commandados.</p>
-
-<p>Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando
-os feridos e mortos e suppondo haver-se batido
-contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o valente,
-a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran,
-não poude cantar victoria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p>
-
-<p>Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o
-tocára no meio da testa e o atirára sem vida no chão.</p>
-
-<p>Essa morte, no fim do combate, encheu os indios
-de pavor e, quando a noute cahio, elles fugirão todos
-sem levar sequer uma das rapaduras que tão caro
-lhes havia custádo.</p>
-
-<p>Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos
-dos Morros, levantou-se uma grita immensa. As
-moças kinikináos cortarão logo os cabellos na altura
-das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e
-prata que ainda conservavão.</p>
-
-<p>A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão
-gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e
-crianças.</p>
-
-<p>A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem
-sequer podia, como é de uso entre os seus, guiar as
-lamentações e contar as proezas e virtudes do morto.</p>
-
-<p>Estava anniquilada.</p>
-
-<p>Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada
-ouvia. Não chorava, não podia chorar, mas desde
-aquelles momentos sentio que não podia mais viver.</p>
-
-<p>É n’um estado de quasi completo definhamento
-que encontramos Camiran no principio d’esta narração
-veridica em quasi todos os pontos e que terá o
-merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez,
-na historia do quanto soffrerão os refugiados de Miranda,
-e sobretudo nas façanhas do desconhecido Pacalalá.</p>
-
-<p>O combate do porto de Maria Domingas—que combate
-deve ser o qualificativo adequado áquelle encontro—fez
-com que, durante muitos mezes, cessasem as<span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span>
-correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.</p>
-
-<p>Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com
-coragem para se arriscar até o lugar em que havia
-valentemente guerreado.</p>
-
-<p>Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não
-soffrera decomposição, mas estava secco e mirrado
-como se fôra uma mumia<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a>.</p>
-
-<p>Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento
-kinikináo. Forão gritos horriveis, gemidos, ululações
-que se ouvião em distancia consideravel.</p>
-
-<p>Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e
-longos mezes, mergulhada na dôr que a ia matando,
-foi consultar um feiticeiro e saber o que significava
-aquillo.</p>
-
-<p>O nigromante declarou-lhe positivamente que
-aquelle corpo, emquanto não fosse enterrado, reteria
-em duro captiveiro a alma de Pacalalá.</p>
-
-<p>Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar
-o cadaver do filho á terra.</p>
-
-<p>Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da
-aldêa.</p>
-
-<p>Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o
-porto de D. Maria Domingas.</p>
-
-<p>Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe
-que a natureza toda, as arvores, os montes, os<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span>
-rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que o
-seu coração era o unico e immenso echo.</p>
-
-<p>Cahio desfallecida....</p>
-
-<p>Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.</p>
-
-<p>Depois se ergueo a muito custo.</p>
-
-<p>Não levára alimento algum.</p>
-
-<p>Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que
-devia deitar o guerreiro morto.</p>
-
-<p>Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um
-pouco o chão e já quasi sem forças suspendeu o cadaver
-ressicado e o estendeu no leito derradeiro que
-lhe preparára.</p>
-
-<p>Quando Camiran começou a empurrar a terra solta,
-os seus braços, finos como gomos de canniço, recusarão-se
-ao movimento; o seu corpo dobrou-se todo
-e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura
-mal fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados
-estremecimentos, as suas mãos convulsas
-chamavão a terra para junto de si.</p>
-
-<p>A noute envolveu no manto mysterioso das sombras
-as ultimas dôres d’aquelle coração, e quando o sol,
-na manhã seguinte, irrompeo deslumbrante, os seus
-raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, mas
-tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles
-recebião, ião-se fundir no gigantesco cadinho que se
-chama a natureza!</p>
-
-<p class="fim">FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span></p>
-
-<h2 id="O_VIGARIO_DAS_DORES">O VIGARIO DAS DORES</h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p>
-
-<h3>O VIGARIO DAS DORES</h3>
-
-<p>O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente
-chamada villa das Aboboras, na provincia de
-Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da estima
-e da consideração de todos os seus freguezes.</p>
-
-<p>Passava por ser homem de muitas letras, e raramente
-era visto sem ter entre mãos um livro que
-ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe longas
-e sérias meditações.</p>
-
-<p>N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o
-padre Monte—assim se chamava elle—no adro da
-modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e
-que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio
-fica no alto de uma collina, a cuja fralda se estendem
-as casas da povoação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p>
-
-<p>—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus,
-dizião as mulheres, seguindo com os olhos o clérigo
-em seu limitado passeio quanto lhes permittia o pallôr
-do crespusculo.</p>
-
-<p>Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia
-melancolica e quasi sombria havia logo colhido as
-affeições geraes pela doçura de trato e amenidade de
-palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar
-vivo e expressivo e testa larga abrindo em calva.</p>
-
-<p>Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas
-prematuras havião lhe já impresso na fronte os sulcos
-da preoccupação e do soffrimento interno. Fôra educado
-em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso
-que, reduzido pela orphandade á mais completa miseria,
-nunca tivéra amparo de paes ou de parente algum.</p>
-
-<p>Quando concluio o seu curso de latinidade e francez,
-abraçou, por gratidão áquelles que o havião socorrido
-e por não ter outra vida que seguir, a carreira
-ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de
-ordens tomadas.</p>
-
-<p>Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os
-seus livros classicos ou theologicos e cumprindo regularmente
-com os deveres de sua profissão passou
-alguns annos sem dar motivo algum para que os seus
-protectores se arrependessem do diminuto apoio que
-lhe havião dispensado.</p>
-
-<p>Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo,
-ganhava bastante para cobrir os reduzidos gastos que
-comsigo fazia, recusando com modestia e naturalidade<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho
-dos pobres.</p>
-
-<p>Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes
-de quem o procurasse, era o padre Monte um
-bello modelo de virtude christã. O seu espirito benevolo
-não admittia exagerações em materia religiosa,
-mas a pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que
-tentasse apontal-o como desprezador dos mais insignificantes
-preceitos do ritual.</p>
-
-<p>Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior
-tributo de veneração, havia alguem que conhecia uma
-falha profunda naquelle caracter honesto e amigo do
-dever.</p>
-
-<p>Era elle mesmo.</p>
-
-<p>O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que
-praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia
-a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal,
-como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si
-essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa
-que elle suppunha necessaria para bem cumprir com
-a missão que as circumstancias, mais do que a vontade,
-lhe havião imposto.</p>
-
-<p>Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da
-missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre
-si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a,
-sobre os versiculos que os labios ião machinalmente
-recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os
-braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que
-ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não
-erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza...<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span>
-Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração
-estremecem ao impulso gigante da fé.</p>
-
-<p>O padre Monte procurava debalde conforto na
-oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.</p>
-
-<p>O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito
-a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe
-constringião o peito a tirar-lhe o folego.</p>
-
-<p>Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e
-só no somno—o grande procrastinador do soffrimento—é
-que achava refugio.</p>
-
-<p>Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na
-sua mente se reproduzião os tormentos de Santo Antonio
-e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que lhe podesse
-lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe
-proporcionasse d’essas alegrias immensas que cercão
-os triumphos completos.</p>
-
-<p>Havia no imo do seu peito como que uma recordação
-vaga do mundo que elle não conhecia, como
-que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres inebriantes
-e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos
-de revolta.</p>
-
-<p>Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia
-o padre Monte as homenagens á sua virtude
-como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para a
-sua alma indomada senão indomavel.</p>
-
-<p>N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o
-peccado, odial-o em cada passo da vida e, abrindo lucta
-com elle, não sahir sempre vencedor.</p>
-
-<p>D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi
-incerteza do futuro e pavor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p>
-
-<p>O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia
-lhe retratava; era tão sómente aquelle que
-pautava o seu procedimento pelas restrictas regras que
-devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia
-d’entre os seus companheiros, quanto subira no conceito
-dos outros, da população e de seus superiores!...</p>
-
-<p>Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas
-horas arrependeo-se profunda e amargamente de não
-haver consultado o coração e as forças antes de se
-alistar na milicia de Deos.</p>
-
-<p>Foi com a vista de uma mulher.</p>
-
-<p>Estava elle dizendo missa com a severidade habitual
-e até n’aquelle dia não fôra assaltado das criminosas
-distracções. Ao voltar-se, porém, no altar para
-abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido
-por dous olhos cravados n’elle, olhos tão grandes,
-languidos e cheios de fervor que a vista se lhe turvou.
-Desde aquelle momento não soube mais o que fazia.</p>
-
-<p>Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração
-e tropego desceu os degráos do altar. Nem sequer se
-ajoelhou como despedida ao lugar em que havia sacrificado;
-nem sequer podia orar para affastar do espirito
-vacillante aquella fascinadora visão.</p>
-
-<p>Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao
-adro da igreja.</p>
-
-<p>Levantava-se então a possuidora daquelles olhos
-perigosos.</p>
-
-<p>Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas
-de sua belleza ao sopro gélido da prostituição.</p>
-
-<p>O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror.<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-Pedio logo confissão a um velho sacerdote e aos pés
-d’elle abrio o coração macerado.</p>
-
-<p>Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou
-os padecimentos de sua alma timorata; as duvidas
-que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que
-travára com a vacillação; o desejo ardente de crença,
-de fé viva, de convicção, e desfeito em lagrimas revelou
-a sua ultima e grave macula, que parecia aos seus
-olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o,
-tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia
-fugir.</p>
-
-<p>A querer dar consolo áquelle espirito malferido e
-podel-o fortificar, fôra necessario se identificar
-com elle para então de sangue frio arcar com cada
-um de seus terrores e em cada angustia levar com
-delicadeza o balsamo do bom conselho.</p>
-
-<p>O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse
-tacto, a intuição do argumento amoroso que se insinua
-e não se impõe. A sua pratica foi dialectica e
-não convincente; demais elle pareceo não dar a devida
-importancia a todos aquelles factos intimos, e
-tratou-os senão como abusões, pelo menos como trerores
-de uma consciencia exageradamente meticulosa.</p>
-
-<p>O padre Monte levantou-se do confessionario ainda
-mais afflicto. Passou uma noite horrivel, ora entregue
-aos remorsos cruentos que a sua imaginação alimentára,
-ora possuido do influxo demoniaco que lhe
-soprava ao ouvido o peccado com todos os seus
-gozos. Então via distinctamente a bella Samaritana<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião
-com poder sobrenatural.</p>
-
-<p>O seu passado de pureza levantava-se todo para
-protestar contra essa tentação, mas não havia resistir:
-todos os musculos de seu corpo estremecião e a
-mente em fogo parecia um volcão.</p>
-
-<p>Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a
-noute estava sombria.</p>
-
-<p>O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo
-em febre.</p>
-
-<p>No momento porém de pôr a mão sobre a chave
-e empurrar a porta, que para elle ia abrir-se no caminho
-do crime, sentio as pernas lhe faltarem e
-cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.</p>
-
-<p>Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu
-anjo da guarda, que já não podia vencer o espirito das
-trevas.</p>
-
-<p>No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução
-heroica.</p>
-
-<p>O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a
-parochia das Dôres do Rio Verde, sertão pouco povoado
-e ao sul daquella provincia tão bem dotada pela
-natureza, quão mal aproveitada pelos homens.</p>
-
-<p>Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade
-a conseguio.</p>
-
-<p>—No deserto, pensava o padre, heide domar esses
-movimentos revoltos. Ficarei como a rocha que se
-não vive, pelo menos não sente.</p>
-
-<p>Justamente estava a partir uma tropa carregada de
-sal com destino á capital de Goyaz. Monte sahio de<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span>
-S. Paulo por uma tarde amena e disse-lhe o adeos
-ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro
-de Nossa Senhora do Ó.</p>
-
-<p>Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica
-a 2 leguas da cidade e assenta n’uma cumiada d’onde
-se descortinão vastos horisontes. Para o sul avistão-se
-as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da
-antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos
-accidentados, incultos e que parecem o portico do
-deserto.</p>
-
-<p>O padre Monte olhou largo tempo para as bandas
-da cidade, e os seus olhos se arrazarão de lagrimas
-que ainda cahião como que inconscientes, quando elle
-ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que
-leva a Campinas.</p>
-
-<p>A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto
-occidental de Minas e por parte de Goyaz, servio-lhe
-de agradavel diversão e pouco e pouco foi incutindo
-em seu espirito uma tranquillidade que desde
-muitos annos já não conhecia.</p>
-
-<p>As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma
-variedade extraordinaria. Ora é o cerrote de Matto-Grosso
-d’onde a vista goza uma das mais lindas
-paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar
-de pousada. Aqui é o campo das Cruzes, logo
-ao sahir de Mogiguassú, como que destinado pela
-natureza para uma gigantesca cidade, tão plano
-e vasto é elle; alli são as aguas puras e borbulhantes
-dos ribeirões; mais diante fica a villa da
-Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-miuda e sempre verde; durante leguas inteiras é a
-vista de cerrados ennegrecidos pelo fogo, ou então de
-campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos
-encachoeirados e crystallinos.</p>
-
-<p>Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se
-a cidade da Franca do Imperador, tão celebre outr’or
-pelos seus crimes e disturbios. O seu aspecto de longe
-é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada perfeitamente
-nivelada de uma elevada collina, cujas
-fraldas vem morrer em campo limpo. A sopé corre
-um ribeirão, e as casas parecem encravadas em densa
-matta de laranjaes e bananeiras.</p>
-
-<p>Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo,
-riscado pelo rio Grande que já ahi vai tomando apparencia
-do imponente Paraná.</p>
-
-<p>Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão
-sertão da Farinha Podre e que hoje constitue as comarcas
-do Prata e Paraná: um angulo agudo, cujos
-lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi
-na linha bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de
-altos e baixos, regada, em todos os seus pontos, de
-agua nunca turvada, a qual brota de um chão ferreo e
-poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua
-Direita, levantão-se então nuvens de pó amarello que
-se agarra a todos os objectos e dá uma côr nova á
-camisa já matizada e barrenta do tropeiro.</p>
-
-<p>Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos:
-a vegetação é outra. Amiudão-se os grupos de magestosos
-boritys, essas bellas e melancolicas palmeiras que
-desde então acompanhão o viajante até o fundo de<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span>
-Matto Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay,
-palmeiras que, uma vez vistas, não podem ser
-confundidas com alguma outra e que deixão, no
-espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma
-verdadeira saudade.</p>
-
-<p>A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que
-justifica o seu nome indigena—largo e claro.—É largo
-e claro no estado normal; aguas espraiadas e limpidas;
-aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas:
-é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba
-as margens que se erguem a muitas braças
-acima do nivel.</p>
-
-<p>Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas
-arterias collossaes, o Araguaya e o Tocantins, como
-se fôra o coração do Brasil; mas coração pelo amor
-e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza
-de aspirações, pela cordura e sinceridade,
-não pela força que não tem, nem póde dar ao
-corpo todo.</p>
-
-<p>A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão,
-diamantes, pedras preciosas, capazes de offuscar os
-thesouros da Persia e da India; possue mineraes riquissimos
-que alimentarião industrias possantes, campos
-para toda a especie de actividade humana, e entretanto
-é pobre, é pauperrima, não como o avaro que morre de
-fome acocorado sobre os seus milhões, mas como
-essas intelligencias ricas que nada produzem porque
-para ellas nunca chegou a cultura.</p>
-
-<p>Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é
-só no futuro, e ninguem poderá ainda dizer quando<span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span>
-hade raiar o dia em que um começo de realidade
-possa vir dar mais alento á esperança.</p>
-
-<p>Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados
-porque os seus esforços, quando nada consigão, serão
-um legado precioso que, augmentado pelos annos, rasgará,
-por entre todas as difficuldades das distancias,
-da solidão, da má vontade, do torpor e da descrença,
-caminho á prosperidade daquellas opulentissimas e
-incultas zonas!</p>
-
-<p>A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa
-princeza da fabula que devia dormir seculos inteiros
-até que do fatidico somno a viessem acordar os
-emissarios de um genio bondadoso e amigo.</p>
-
-<p>Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O
-sybilar da locomotiva e a letra telegraphica sacudirão a
-bella adormecida que poderá de prompto recompensar
-a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.</p>
-
-<p>Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.</p>
-
-<p>As suas posses são pequenas; nem sequer tira de
-si com que cobrir as mais urgentes despezas, mas em
-compensação guarda no intimo esses thesouros de
-hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já
-vão se tornando raros.</p>
-
-<p>Depois de viagem sempre agradavel mas demorada,
-o padre Monte chegou á capital da provincia e
-fez, um mez depois, a sua entrada na villa das Dôres
-do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.</p>
-
-<p>Nos primeiros dias de installação, passou o tempo<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span>
-em inspecções e passeios. O processo de occupação
-era breve e limitados os pontos de recreio.</p>
-
-<p>A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro
-em cujo alto está a igreja, consta de uma rua unica e
-tortuosa, larga aqui, estreita adiante e com casinholas
-cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de
-telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta
-se não cahisse de velha, annunciando ser ahi a
-camara municipal, mas está tão esburacada e suja que
-ninguem lhe daria outra denominação que não a de
-pardieiro.</p>
-
-<p>Estrada para passeio só ha a geral; fita larga
-barreada ou areenta que vai se desdobrando por sobre
-campos quasi uniformes em seus accidentes.</p>
-
-<p>Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir
-desde então de morada, e acalmada aquella agitação
-que acompanha todo o estabelecimento novo, sentio-se
-o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.</p>
-
-<p>Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha
-pouco agradaveis. Não era a lembrança daquella
-mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma
-a uma as paginas do innocente segredo que não lhe
-sahíra do peito senão para cahir no ouvido do confessor.</p>
-
-<p>Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o
-peso da vida, de uma vida que lhe parecia sem mira e
-por demais longa.</p>
-
-<p>Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os
-mais restrictos possivel: dizer missa aos domingos,
-baptisar raras vezes, casar ainda menos, tudo n’uma<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span>
-igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em
-ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.</p>
-
-<p>Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se
-pela amenidade de costumes e uniformidade de habitos;
-mas, uma vez ouvida a missa do domingo, não se
-occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô,
-havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem
-lá ião, tanto mais que era um ponto de reunião para
-trocarem algumas palavras uns com os outros e
-assim romper-se a monotonia das semanas.</p>
-
-<p>Um outro sacerdote mais dominador do que o padre
-Monte, ou mais ambicioso, teria procurado reagir
-contra essa apathia espiritual, incutindo nos seus freguezes
-algum fervor, reconstruindo o templo como
-podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no
-seio das familias, chamando promptamente as crianças
-ao baptismo, fazendo viagens em torno para prégar e
-avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando
-o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua
-exigencia e energia. Se alguma cousa, porém, faltava
-ao novo vigario era justamente a energia.</p>
-
-<p>Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem
-o interior do Brasil: é pela violencia com que
-sacodem as naturezas apathicas do sertão e actuão
-sobre as imaginações.</p>
-
-<p>Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma
-cousa naquelle piedoso sentido, mas desanimou
-logo. Era preciso travar lucta, e elle não tinha bastante
-firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi
-indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span>
-superstições que abafavão-lhe a religião como a má
-herva tira o alento e vida á planta benefica, mas descurada.</p>
-
-<p>O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão
-e que logo presentio lhe damnificassem o proprio
-espirito, já por si inerte.</p>
-
-<p>Nas primeiras missas que celebrou procurou na
-linguagem a mais singela explicar o Evangelho, mas
-notou no seu auditorio, desacostumado ás praticas,
-certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção.
-Ninguem sahio de seu lugar: todos tinhão os
-olhos postos no pregador, mas não precisava ser
-observador fino para reconhecer que, se alli estavão
-corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias
-ao que lhes era ensinado.</p>
-
-<p>A palavra do vigario não echoava; não ameaçava;
-não suscitava remorsos; não penetrava no intimo das
-consciencias como o ferro do cirurgião na carne viva
-do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e
-torpezas; não profligava; não mostrava o Creador
-como um Deos carrancudo e vingador; por isso
-ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...</p>
-
-<p>Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem
-virulenta e estropeada estivesse fallando!...
-Todos ficarião aterrados, cabisbaixos, possuidos de
-suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...</p>
-
-<p>Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado,
-saberia de todos os mexericos para, armado do
-poder da bisbilhotice, rasgar, como se diz vulgarmente,
-o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir os<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-peccadores com allusões tão directas a uma determinada
-pessoa que equivaleria á sua exposição em pelourinho.</p>
-
-<p>Para isso não servia de certo o padre Monte. Além
-da natural altivez de sentimento que o arredava de
-intrometter-se no jogo calunioso de aldêa, não poderia
-nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas,
-para assim grangear a attenção dos que o ouvião e
-dominar o seu rebanho por meio do terror.</p>
-
-<p>Tambem as suas praticas não erão seguidas senão
-por consideração á cathegoria official de quem as
-fazia.</p>
-
-<p>Esta certeza tinha elle.</p>
-
-<p>D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos
-depois da sua chegada, a cessação completa de explicação
-do Evangelho no meio da missa. Para desencargo
-de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar,
-e notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão
-ouvir, acocoradas em cantos e com ar de estupida
-contemplação. O resto dos freguezes calculára pouco
-mais ou menos o momento em que entrava a missa
-para então ir ter á igreja.</p>
-
-<p>—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se
-aos seus proprios olhos, fazer milagres, tocar-se
-esta gente insensivel pelo sobrenatural e, traspassando
-a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo
-divino até os seus corações.</p>
-
-<p>Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao
-desacoroçoado sacerdote; era a força de vontade, essa
-alavanca inquebrantavel que produz milagres espantosos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p>
-
-<p>Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava
-nem podia perturbar a monotonia da vida que se vivia
-na villa das Aboboras.</p>
-
-<p>O vigario cada vez mais se desapegára das suas
-ovelhas que, respeitando-o sinceramente, nunca o
-procuravão comtudo, nem mostravão ter grande necessidade
-de sua presença.</p>
-
-<p>—O nosso padre é um santo homem, dizião na
-villa, mas é um exquisitão.</p>
-
-<p>Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos
-vastos em torno.</p>
-
-<p>Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente
-para aquellas extensões, e sem presentir, era sorprehendido
-pela escuridão! Havia dias em que, á
-tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se
-pela campina alongada, se esbatião umas nas
-outras até se fundirem todas na luz crepuscular.</p>
-
-<p>E sempre a mesma cousa!</p>
-
-<p>Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça
-das queimadas, então subia de ponto a tristeza do
-painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar incinerado
-uniformava todos os aspectos, até que de repente
-cahia a noite.</p>
-
-<p>Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel
-voltava o vigario para a modesta vivenda e á luz de
-uma vela de sebo lia o seu breviario.</p>
-
-<p>Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com
-um coachar sonóro formavam monotona orchestra.</p>
-
-<p>—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude
-não é a atonia. A virtude é a resistencia ao mal<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span>
-que solicita. Aqui nada me instiga, e não sei desempenhar
-o meu dever. Sou bom sem merecimento e
-inutilmente.</p>
-
-<p>Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja
-permitisse ao padre o casamento, não teria elle uma
-familia regular, em cujo seio se cultivasse o respeito á
-religião e que serviria de norma para as outras menos
-bem dotadas de intelligencia e sentimento?</p>
-
-<p>Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente
-naquelles logares, em que o isolamento faz
-medrar com tanta força o egoismo, maior seria o
-abandono dos interesses de todos em prol da commodidade
-da familia. Elle não seria mais do que um
-funccionario publico que teria um subsidio mensal
-para cumprir um determinado exercicio.</p>
-
-<p>Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas
-o padre desappareceria. O pastor teria que obedecer á
-imposição da natureza, olhando mais para umas
-ovelhas do que para todo o resto do rebanho.</p>
-
-<p>Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma
-agitação, esse desgosto intimo servião-lhe de castigo
-moral pelo pouco que conseguia.</p>
-
-<p>Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de
-caracter do padre Monte, muito livre de culpa andava
-elle.</p>
-
-<p>O deserto como que lhe pesava nos hombros, e,
-sem molestia physica, podia-se o considerar gravemente
-doente.</p>
-
-<p>Uma nostalgia <i>sui generis</i> o ralava noite e dia.</p>
-
-<p>Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span>
-sabia de cór e salteado e nos sermões
-do padre Antonio Vieira, alguns volumes desirmanados,
-contára até as letras de cada lauda, o que anotára
-cuidadosamente no alto das paginas.</p>
-
-<p>Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio
-Verde—teve a velleidade de tratar da sua remoção
-para outra parochia.</p>
-
-<p>Esta intenção o animou por algumas horas, mas
-logo depois veio a reacção.</p>
-
-<p>Para que?</p>
-
-<p>Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de
-torpôr que impedira o choque da duvida, obstára á
-invasão talvez da descrença? Não havia conseguido
-o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que
-tanto o assustára outr’ora?</p>
-
-<p>Em lugar de pedir transferencia, escreveu para
-Goyaz, remettendo a relação de uns livros que o seu correspondente
-deveria mandar comprar no Rio de
-Janeiro.</p>
-
-<p>Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles
-tornou-se para o bom do vigario uma causa de distracção.</p>
-
-<p>Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia
-dever-lhe trazer a noticia da proxima chegada
-de sua encommenda, mas se é difficil levar livros á
-Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!</p>
-
-<p>O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente
-possivel, a satisfação de seu innocente desejo.</p>
-
-<p>Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.</p>
-
-<p>—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-meio o chapéo e coçando a gaforina, saberá Vossa Senhoria
-que tenho na minha carga uns dous pacótes que
-deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá.
-Não achei na cidade o cujo e não tendo onde deixa-los,
-vim os trazendo <i>até acá</i>. Mas o trem peza e fiz tenção
-de pincha-los na <i>beiradinha</i> da estrada, se alguem não
-quizer ficar com eles...</p>
-
-<p>—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o
-senhor que devia receber essa carga?</p>
-
-<p>—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio
-de Janeiro, nhor-sim, outros que morreu.</p>
-
-<p>—E o que contem as taes caixas?</p>
-
-<p>—Parece que são livros da gente ler... eu cá não
-sei com segurança.</p>
-
-<p>O vigário corou de emoção e com alguma pressa
-disse:</p>
-
-<p>—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei...
-E depois, como que fazendo um esforço penoso:</p>
-
-<p>—Mas não será melhor que você faça a entrega a
-quem enviou a encommenda?</p>
-
-<p>—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi
-a carga que vinha de Uberaba trazida por um tropeiro;
-<i>ansim</i> ninguem poderá acertar d’onde sahiu da <i>primeira
-vez</i>.</p>
-
-<p>—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio,
-eu acommodarei aqueles caixotes e escreverei
-para Goyaz, afim que se annuncie no <i>Correio Official</i>
-o que acontece.</p>
-
-<p>—Isto fica a seu cuidado.</p>
-
-<p>Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span>
-faziam a carga de um animal. Por cima delles estava
-escripto a palavra livros, com endereço a um senhor
-Estulano da Silva, em Cuyabá.</p>
-
-<p>—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes
-no chão, que Vossa Senhoria mande abrir este <i>trem</i>.
-O cupim póde ter dado nelle: dizem que é muito <i>caroavel</i>
-do papel escrevinhado na machina. Eu não
-entendo disso.</p>
-
-<p>O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto.
-Praticando assim, suppunha mais desculpaveis
-os projectos que intimamente affagava.</p>
-
-<p>Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto
-a contemplar aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem
-poderia pensar. Abri-los ou não, tal era o problema
-que se agitava em sua mente, ponto controverso
-discutido no fôro da consciencia com mais minucia
-e argumentos pró e contra, do que qualquer questão
-theologica nas luctas da escolástica.</p>
-
-<p>Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos
-caixotes enigmaticos com o queixo apoiado em uma
-das mãos, quando viu de dentro de um delles sahir...
-um cupim!</p>
-
-<p>Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um
-tèrmes causou tanto abalo.</p>
-
-<p>O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação
-que pouco e pouco foi se transmudando em
-quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o argumento
-Achilles, uma razão irrespondivel para quanto
-antes levantar os sellos que guardavam o deposito e
-salval-o de perda infallivel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p>
-
-<p>No momento do vigario dar a primeira martellada
-para despregar o tampo do caixote, um pensamento
-sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins houvessem
-já tudo devorado!</p>
-
-<p>Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos
-maravilhados do padre uma boa porção de livros, uns
-grossos, outros finos, uns encadernados, outros em
-brochura.</p>
-
-<p>Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente
-e, com verdadeiros affagos, levando-os para
-cima de uma mesa, onde os collocou verticalmente.</p>
-
-<p>Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem
-duvida alguma, proceder a um simples reconhecimento
-e providencialmente servira para acabar com as dolorosas
-vacillações do vigario.</p>
-
-<p>Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite
-do que nunca, que o padre Monte passou revista
-ás obras. Havia dous volumes grossos: D. Quixote
-de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de
-Alexandre Dumas em portuguez; varios folhetos,
-uma historia das Missões na India e China, e Os Novissimos
-do homem de S. Francisco de Salles.</p>
-
-<p>Apezar de alguma difficuldade em comprehender a
-principio correntemente o francez, naquella mesma
-noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.</p>
-
-<p>O padre Monte nunca havia lido romances; por isso
-semelhante livro lhe pareceu extraordinario. Aquelles
-episodios multiplos e tão variados quão curiosos, aquelle
-estylo simples mas valente, aquelles typos de D.
-Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-tão philosophicos e profundos na essencia, tudo o
-encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava de um
-modo desconhecido.</p>
-
-<p>Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca
-mais bellos thesouros lhe terião deslumbrado as vistas.</p>
-
-<p>E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas
-sonoras que echoavão no seu quarto, deshabituado
-de semelhantes expansões!</p>
-
-<p>O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava
-o conceito de Philippe IV.</p>
-
-<p>Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre!
-Pela magia de sua penna, quantos ainda poderão sorrir,
-quantos por momentos esquecérão as preocupações
-e os desgostos que os assaltavão!</p>
-
-<p>O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra
-por letra, para assim dizer. Fez como o gastronomo
-que beberrica um saboroso liquor e na lentidão com
-que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.</p>
-
-<p>D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro
-inseparavel durante os passeios; o consolador
-daquellas afflicções d’outr’ora quando por acaso querião
-voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia
-da solidão.</p>
-
-<p>Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do
-destemido Mosqueteiro.</p>
-
-<p>Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado
-pela imaginação cambiante de Dumas e devorou paginas
-com tanta precipitação que era ás vezes obrigado a
-tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p>
-
-<p>Um acontecimento imprevisto veiu interromper
-aquellas leituras.</p>
-
-<p>O vigario cahiu gravemente doente.</p>
-
-<p>Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa.
-Voltou com a cabeça em fogo e, durante a noite inteira
-ardeu em febre intensa. Esmagado no leito por um quebrantamento
-geral e abrazado em sede, não teve nem
-sequer forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua,
-de modo que supportou o tormento feroz de Tantalo,
-até que pela manhã, penetrando o seu sacristão no
-quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.</p>
-
-<p>Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado
-e tão nullo que o seu auxilio de nada valia para o enfermo.</p>
-
-<p>O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns
-dias.</p>
-
-<p>Apezar de visitado por todos os moradores da villa,
-pode se dizer que estava em abandono. Á noite quando
-não delirava, tinha uma obsessão atroz.</p>
-
-<p>Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito,
-contemplava-o cara a cara: e um silencio lugubre reinava
-por toda a parte, ao passo que a véla de cebo
-consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada
-no azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.</p>
-
-<p>N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.</p>
-
-<p>De que modo iria elle comparecer perante o Eterno
-Julgador? Que acto de sua vida apresentaria para
-contrapôr a todas as suas vacillações, a todas as falhas
-de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios
-havião tumultuado em seu espirito?</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p>
-
-<p>Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento
-completo! Então a sua vida inutil e mal preenchida,
-se apagaria como a d’esses animaculos ephemeros,
-que nascem e morrem sem se saber para o que.</p>
-
-<p>Mas não!</p>
-
-<p>A morte se lhe afigurava como um genio alado, de
-gesto severo e figura sombria, que só esperava pelo
-desprendimento da alma para voar adiante d’ella e
-guial-a pelos espaços do infinito.</p>
-
-<p>Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se
-um clarão, cuja luz apezar da distancia incommensuravel,
-não podia ser fitada.</p>
-
-<p>Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado,
-indefinido, échoava uma musica suave, mas que abalava
-a coragem a mais indomita e quebrava-lhe toda a
-força.</p>
-
-<p>—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á
-morte.</p>
-
-<p>O silencio é que respondia.</p>
-
-<p>—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava
-elle ainda.</p>
-
-<p>E sempre o silencio.</p>
-
-<p>Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda,
-acima, abaixo, por todos os lados, almas e mais
-almas que subião, subião, umas rapidas e velozes,
-como anciosas de chegarem e desferindo faiscas
-de luz, outras pesada e penosamente, deixando após si
-um sulco escuro, quasi negro.</p>
-
-<p>No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como
-que acordou de um sonno profundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p>
-
-<p>Estava salvo!</p>
-
-<p>Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha
-que ella compuzéra com hervas do campo e diariamente
-fazia quasi á força o doente tomar, mas é de
-crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar
-a si a gloria d’aquella resurreição.</p>
-
-<p>Em todo o caso começou uma longa convalescença,
-durante a qual o padre Monte—quem o disséra!—sentio
-o prazer ineffavel de voltar á vida.</p>
-
-<p>Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações
-são sempre para elevar-se. Assim, pois, quando vai-se
-despenhando o corpo pelo abysmo do aniquilamento
-e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser
-doce parar de repente e subir tudo quanto acabára de
-rolar, bem que aggravada do peso do seu envoltorio
-terrestre.</p>
-
-<p>O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e
-as mãos tremulas, poude dizer missa, elle experimentou
-uma uncção nova, indizivel e como sempre desejára
-ter sentido.</p>
-
-<p>N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da
-China e India e os Novissimos do homem de S. Francisco
-de Salles, livros, cuja leitura fôra adiada para
-depois de esgotados os romances.</p>
-
-<p>Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição
-de sacrificios immensos, modestos, perdidos
-no meio das selvas e montanhas de paizes desconhecidos!
-Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores
-que deixavão todas as regalias de cidadãos, de
-homens, davão de mão a toda a possibilidade de gozo,<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span>
-de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e
-uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor,
-cheios de ardor e esperanças no resultado que todos
-os esforços reunidos havião de produzir a final!...</p>
-
-<p>O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.</p>
-
-<p>Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito
-de populações indifferentes, já que não podia avivar
-n’ellas a fé que havião recebido dos antepassados,
-e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo libertada
-de todas as superstições e quasi gentillismos
-com que no sertão a cercão a ignorancia e as tradições
-oraes, ao menos devia procurar a gente indigena,
-os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador,
-abrir os seus corações ao influxo da religião.</p>
-
-<p>Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria
-a massa bruta. A outros mais valentes na
-palavra, mais felizes, mais inspirados, mais energicos
-e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado
-que as cinzas frias da indifferença havião quasi abafado.</p>
-
-<p>Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util
-á sua consciencia e á patria.</p>
-
-<p>Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para
-Goyaz pedindo ser encarregado de uma missão entre
-os indios bravios da provincia.</p>
-
-<p>A resposta foi prompta, e a villa soube que em
-breve partiria o seu vigario com destino ás margens
-do Tocantins a cathequisar os selvaticos e indomaveis
-Canoeiros.</p>
-
-<p>Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho,<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span>
-severo em seus costumes, sério e affavel, mas,
-força é confessar, em geral houve indifferentismo.</p>
-
-<p>Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que
-o padre Monte fizéra, mas umas velhas lembráram
-que elle nunca fôra muito amigo de procissões, que
-consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não
-quizéra permittir na casa de um caróla umas festas
-religiosas e reprehendera severamente o sachristão
-por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.</p>
-
-<p>No dia da partida, pois, quando o padre Monte se
-despedia de seus freguezes, houve uma só pessoa
-sinceramente sensibilisada: era elle.</p>
-
-<p>Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo
-entrega dos livros a um conhecido seu a quem
-recommendou procurar dar-lhes direcção para o dono,
-guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros
-do homem. Mas antes calculára mais ou menos o
-preço que poderião ter custado e poz no correio uma
-carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando
-dentro umas notas do Thesouro.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco,
-o melhor para viajar e chegou com saude ao Vão do
-Paraná: depois, sem acompanhamento algum, frechou
-com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam
-atravessar.</p>
-
-<p>Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de
-annos, não ha noticia do fim que levou: entretanto
-não se deve desesperar ver ainda voltar o intrepido<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span>
-missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus
-inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem
-vagarião pelas mattas como féras indomadas,
-fugindo do contacto d’aquelles que hoje são os seus
-compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como
-elles, brasileiros.</p>
-
-<p class="fim">FIM DO VIGARIO DAS DÔRES</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span></p>
-
-<h2 id="JUCA_O_TROPEIRO">JUCA, O TROPEIRO</h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span></p>
-
-<h3>ADVERTENCIA</h3>
-
-<p>A autoria da presente narração pertence mais a um
-ex-sargento de voluntarios de Minas, que nos disse
-haver conhecido de perto o personagem que n’ella figura,
-do que á nossa penna.</p>
-
-<p>O que fizémos foi desbastar o correr da historia de
-incidentes por demais longos, de innumeros termos
-familiares, e sobretudo de locuções chulas e sertanejas
-que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo
-comtudo reconhecido a originalidade e força de colorido
-d’essa linguagem, e desejando conservar ainda
-um que da ingenua, mas pitoresca expressão do narrador,
-resultou uma cousa esquesita, nem como era
-quando contada pelo ex-sargento, nem como devéra
-ser, sahida da mão de quem se atira a escrever para
-o publico.</p>
-
-<p>Batemos de arrependido nos peitos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p>
-
-<h3>JUCA, O TROPEIRO</h3>
-
-<h4>I</h4>
-
-<p>Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas
-Geraes e tropeiro desde em menino, era um companheirão,
-alegre e estimado, como nenhum outro nas
-tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto
-Grosso e trabalhar n’aquelles sertões brutos.</p>
-
-<p>Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar
-uma boa prosa, no que não havia quem lhe
-posesse o pé adiante.</p>
-
-<p>Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um
-cururú, repinicar na viola ou contar historias, umas
-gaiatas que fazião estourar de riso, outras de bruxas
-e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada
-e sem vontade mais de pregar olho.</p>
-
-<p>Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava
-o serviço, mas isso era tão raro que bem poucos poderião
-dizer tel-o visto calado e amofinado.</p>
-
-<p>Não havia capataz que o não desejasse em sua
-tropa, porque não era só de lingoa que elle fazia bichas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p>
-
-<p>Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho
-grosso, não se contava um, por mais pintado que
-fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso de
-atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar
-a sobrecarga, acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os,
-remexer pastos, arrumar no pouso as cargas,
-arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os
-ligaes por causa da chuva e da humidade, era elle
-mestre e tudo n’um sopro. Emquanto o diabo esfregava
-um olho, Juca Ventura já tinha feito muita
-cousa.</p>
-
-<p>E forte de saude que parecia de ferro. Zombava
-das maleitas e sezões, cortando por todo o tempo rios
-cheios e cruzando <i>pantános</i> sem o menor medo de
-<i>maldades</i>. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas
-e beberagens, e dizia com gabolice que chegaria
-ao fim da vida sem dar o pulso a cirurgião nenhum,
-nem se quer para saber do que morria.</p>
-
-<p>Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas,
-onze animaes gordos de encher o olho, e que se derreava
-na sella com o chicóte de couro crú apoiado na
-coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas
-estradas de Christo, cantando alto e afinado, contente
-como um ricaço e cheio de si como se tivesse o
-rei na barriga.</p>
-
-<p>Debalde o vento levantava uma <i>polvadeira</i> immensa
-que lhe avermelhava a camisa e lhe grudava o cabello
-ao casco da cabeça, debalde a chuva o molhava até os
-ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e
-as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um<span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span>
-nadinha, o seu genio brincador, nem fazia parar a sua
-força de trabalho e expediente.</p>
-
-<p>Chegado que fosse ao pouso e não havia um só
-n’esses fundões de Goyaz e Matto Grosso que elle deixasse
-de conhecer como se em cada um d’elles houvéra
-nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao
-pouso e acommodados os seus animaes, se havia matalotagem
-farta, comia que mettia gosto, se não havia,
-lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um
-somno gostoso como tudo.</p>
-
-<p>Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer
-barulho, por menor que fosse, o punha logo de
-pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e podia
-até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural
-vigilante.</p>
-
-<p>Tambem se era preciso, passava muito a gosto a
-noute em claro: e no dia seguinte estava lépido e
-bem disposto, como se não houvéra novidade.</p>
-
-<p>Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos
-a contar aos camaradas historias do sertão ou a fazer
-gemer a viola em cantorias e caterêtes?</p>
-
-<p>Nem havia conta.</p>
-
-<p>E com tal não padecia o serviço: nem capataz
-nenhum se gabava de o haver pilhado a cochilar.</p>
-
-<p>Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se
-ao respeito e se não andava com os chefes e superiores
-a mostrar os dentes em risótas, nem por isso era carrancudo
-e malcriado.</p>
-
-<p>Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de
-sobresalente para não parecer unhas de fome e mofino<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span>
-quando tinha de pagar a pinga aos companheiros
-da carreira.</p>
-
-<p>Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas
-de estouro; mas ninguem o podia alcunhar de
-enjoado, porque nos dias de mareta era boa perna
-para o pagode.</p>
-
-<p>Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim
-que as raparigas dos povoados, quando chegava
-alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca Ventura,
-pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas
-fallas de pura amisade.</p>
-
-<p>É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa
-maldizente que quer botar malicia em tudo, malicia
-que só existe no juizo enviezado e falso dos falladores.</p>
-
-<p>Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das
-villas e povoações, algumas até bem bonitas; mas era
-negocio de simples palavreado, e nenhuma d’ellas poderia
-com verdade dizer que o ouvira fallar de amor,
-ou fazer alguma promessa.</p>
-
-<p>Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como
-um perdido.</p>
-
-<p>Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas
-novinhas que lhe mostravão agrado e sympathias; as
-velhas tambem lhe querião bem e quando elle cruzava
-por diante de qualquer casa da estrada, não
-havia quem deixasse de o saudar com boas maneiras e
-franqueza.</p>
-
-<p>E a razão era uma.</p>
-
-<p>É que não se passava uma viagem ou do sertão<span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span>
-para o mar ou de lá para cá, em que elle viesse de
-mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança
-para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e
-houve até occasião em que deu de presente uns córtes
-de fazenda fina e algumas jardas de fita muito vistosa
-e larga.</p>
-
-<p>E depois não querião que fosse estimado!</p>
-
-<p>Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos
-conforme os seus merecimentos. Mas por estes mundos
-afóra não falta quem metta a catana nos mais sem
-ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas
-até igual.</p>
-
-<p>E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos
-a arrastar a aza e a fazer pé de alferes pelos pousos,
-como se fôra algum rufião mal intencionado que
-botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?</p>
-
-<p>Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á
-uma pessoa; e quando um homem de vergonha estima
-devéras uma mulher, esse amor não consente outro:
-é o unico na vida.</p>
-
-<p>Nem havia mais segredo.</p>
-
-<p>Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é
-que morava aquella moça, que se chamava Balbina
-do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já fallecido,
-havia morado n’uma esquina de becco, que ella
-era rapariga de truz, morena, mas corada, de muito
-proposito e composição e de quem lingoa nenhuma
-tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena
-cousa.</p>
-
-<p>Quem é que não sabia d’isso?...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p>
-
-<p>Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a>,
-senhora capaz de revirar com um peteléco o patife
-que quizesse vir se engraçar com a filha?</p>
-
-<p>Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha
-cabellos pretos como aza da graúna e tão compridos
-que passavão alem do quadril talvez um palmo, olhos
-que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno,
-boquinha como se acabasse de comer pitangas,
-fosse dizer que a sua cintura era de maribondo, o
-seu andar engraçado e faceiro como andar de moça
-da côrte, e havia de ter que fazer com a velha, boa
-pessoa no trato quando estava para conversas, mas
-zangada de uma vez nos dias de seus azeites.</p>
-
-<p>E querem vêr?</p>
-
-<p>Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma
-janella e D. Cula cozendo perto de outra, por detraz
-da rotula fechada, porque a casa tinha duas janellas e
-uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão
-para um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho
-de um capitão da guarda nacional e, tirando-se de
-seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um
-beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado
-a carinha da moça.</p>
-
-<p>Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como
-uma çuçuarana foi D. Cula.</p>
-
-<p>Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo
-de vassoura, escancarou a porta e cahio de pauladas
-no costado do engraçado que não foi um brinquedo.<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span>
-Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a
-sóva quando o páo se quebrou e por cima levou elle
-com os pedaços na cara.</p>
-
-<p>E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia
-rota, acompanhado de uma vaia de conta que lhe
-passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas
-de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.</p>
-
-<p>Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou
-de dizer graçolas a Babita, bem que todos os dias
-ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de
-pôr agoa na boca.</p>
-
-<p>Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de
-tábua a tres pessoas de consideração.</p>
-
-<p>D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento,
-mostrando que era preciso tomar estado, que ella
-nem sempre havia de estar n’este mundo para dar-lhe
-amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada
-do que bem requestada.</p>
-
-<p>Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que
-estava já arranjado em seus negocios, tanto assim que
-tinha sociedade com o Tinôco, de quem a principio
-fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura,
-procedêra sempre como pessoa de bem que merece
-dos outros amizade e confiança.</p>
-
-<p>—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.</p>
-
-<p>—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa
-gente sahem bons maridos. Depois ha tanto tempo
-que está na terra, que nem parece filho da outra
-banda.</p>
-
-<p>—Não quero este, murmurava a rapariga.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p>
-
-<p>—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz
-este por ser portuga. Mas porque disse não ao João
-Grande, lá da Casa Branca?</p>
-
-<p>—Ora, um socó... e depois zarôlho...</p>
-
-<p>—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica
-e ninguem dirá que seja moço feio de todo. Outras
-mais pintadas do que você, Babita, não hão de torcer
-o nariz, quando elle as procurar para casamento.
-Agora me diga o Mané Quetano, tambem é zarôlho?
-Rapaz tão bom, tão socegado e de familia limpa! O
-pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando
-ella não passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto
-como elle só...</p>
-
-<p>—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.</p>
-
-<p>D. Cula costumava então abanar a cabeça.</p>
-
-<p>—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta
-Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que você não
-tire de tudo isso motivos de se arrepender. Querer
-fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para
-comer, são cousas que não vão juntas. Cada um deve
-pedir a Deus aquillo que basta para a sua posição. Não
-vá depois lhe acontecer como á Maria do Frajado, a
-coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada
-e, afinal, quando quiz casar, já não achou com
-quem. Morreu velha e levou palma e capella em cima
-do caixão. E não foi das mais infelizes, porque tem se
-visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga
-de sangue nas veias, só em pensar n’ellas.</p>
-
-<p>Babita rematava taes conversas que muito se repetião
-com este estrebilho:</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p>
-
-<p>—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.</p>
-
-<p>Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento
-na casa, D. Cula se mostrou meio carrancuda. O rapaz
-tinha modos direitos e a sua fama era boa; mas ella
-não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos
-outros.</p>
-
-<p>Fez cara de poucos amigos e observou de parte a
-filha.</p>
-
-<p>Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo
-aceiado e faceiro, passava por diante da janella e comprimentava
-com muito respeito as pessoas que lá estivessem:
-vio que elle cruzava por demais n’aquellas
-paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro,
-mas por poderem as suas passadas dar na vista dos
-outros e trazer fallatorios.</p>
-
-<p>Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios
-de casorio, e a menina parecia estar se inclinando
-muito por elle.</p>
-
-<p>D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos
-o tropeiro por entre as frestas da rótula, chamou-a
-a contas, mas com toda a prudencia, porque era pessoa
-de experiencia e bem sabia que com mulheres
-<i>enrabichadas</i><a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a>, não se deve apertar muito.</p>
-
-<p>—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta
-rua anda muito um sugeito que quer se engraçar com
-você.</p>
-
-<p>—Eu não sei, respondeu Babita com susto que
-pareceu de máo agouro á mãe.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p>
-
-<p>—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá
-ainda tenho bons olhos. Quando um moço gosta
-sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de
-mulher diante de Deus e dos homens, sem ter que
-se <i>avexar</i> de ninguem, deve vir com sinceridades e não
-fazendo modos de inquietar o descanso dos outros....</p>
-
-<p>—Mas ninguem me anda <i>desinquietando</i>, interrompeu
-Babita meio arrufuda.</p>
-
-<p>—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está
-mordida...</p>
-
-<p>E alto continuou:</p>
-
-<p>—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já
-que estou com a mão na massa, quero lhe dar alguns
-conselhos. Os homens, minha filha, são muito enganadores
-e do que menos se importam é da honra e do
-socego das mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto,
-revirão o coração de uma probresinha e, quando não
-a atirão de uma vez no caminho da perdição, mettem
-na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei
-mais o que. A cousa começa sempre por brincadeira: a
-gente olha sem pensar em mal: acha graça no namôro
-e depois, minha cara, quando menos se cuida
-sente-se cá dentro no peito uma afflicção, um tormento
-que não pára nem de dia nem de noute. Então
-se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha de
-fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto,
-menos a vista do tentador. E elle a se rir e como cobra
-traiçoeira esperando de longe com a boca aberta,
-que a rãsinha se chegue por si mesma...</p>
-
-<p>Babita durante todo esse sermão em que a mãe<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span>
-contava talvez uma historia do que outr’ora se havia
-dado com ella, estava sem saber onde pôr os olhos,
-toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que
-nem bagas de aroeira.</p>
-
-<p>A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um
-pranto de chôro, atirou-se ao collo da mãe, escondendo
-a cara com as mãos.</p>
-
-<p>D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario
-beijou com muito carinho a testa da filha.</p>
-
-<p>—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era
-como dantes. Mas não se afflija. Aquelle moço tem
-bom nome, e eu vou me entender com elle. O peior
-era você querer esconder que o seu coração já tinha
-acordado.</p>
-
-<p>—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como...
-foi... Mas ninguem desconfia.</p>
-
-<p>—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente
-está desprevenida e da noute para o dia fica-se outra
-e presa para toda a vida. O tal rapaz é tropeiro: não
-digo que seja bom officio, mas tambem não é de
-fazer vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre
-merecedor. Nós por nosso lado não somos filhos de
-capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos
-desejar é que seja de familia limpa, porque graças á
-Nossa Senhora Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso
-Senhor, você conheceu o seu pae, que Deus lhe dê a
-gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá
-n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade,
-tudo assentado nos livros do Revm. Vigario;<span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span>
-d’ahi para cima não posso dizer mais, mas emfim nem
-todos podem dizer tanto...</p>
-
-<p>Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de
-palavreado, d’onde só sahio quando lhe faltou a respiração.</p>
-
-<p>Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou
-na sua manta de sahir, uma manta côr de
-fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na
-altura dos hombros umas especies de dragonas de
-retroz preto, fincou um pente alto no cocuruto da cabeça,
-e lá foi ter ao rancho onde estava de pouso a
-tropa de Juca Ventura.</p>
-
-<p>Justamente tinha este de madrugadinha partido
-com o seu lóte de bestas para esperar os companheiros
-d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.</p>
-
-<p>—E quando estará de volta? perguntou meio descorada
-D. Cula.</p>
-
-<p>—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas,
-respondeu um outro tropeiro.</p>
-
-<p>Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no
-seu espirito cousas bem tristes. Havia sido
-o que ella suppunha: o tal sujeito era como os outros.
-E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada,
-não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem
-podia dizer o que mais?</p>
-
-<p>Malditos homens que vem bolir por maldade com
-as mocinhas e pôr as casas de familia em dobadoura!</p>
-
-<p>D. Cula não disse á filha a verdade.</p>
-
-<p>Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito,<span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span>
-mas não sem que ella lhe dissesse duas palavrinhas.</p>
-
-<p>—E então? perguntou a moça com receio.</p>
-
-<p>—Então elle ficou muito admirado e meio corrido,
-quando vio que eu estava corrente com as suas
-passadas, mas, fallando com franqueza, não pude
-saber se elle quer bem ou não a você.</p>
-
-<p>—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando
-logo fogo. Tenho toda certeza.</p>
-
-<p>—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de
-voltar, e saberemos então se é o que você julga d’elle,
-ou se não passa de um marióla que hei de pôr a tinir
-como aquelle filho do capitãosinho.</p>
-
-<p>N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas
-semanas não se fallou n’aquella casa em Juca Ventura.</p>
-
-<p>A mocinha estava um pouco macambuzia: não
-chegava á janella e não queria sahir, mas comia com
-vontade e não parecia começar a ficar magra.</p>
-
-<p>Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu
-caminho, jururú e abatido. Se cantava, era com uma
-vóz abafada que fazia ainda mais triste a solidão.</p>
-
-<p>Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula
-e o rosto da namorada não lhe sahião da memoria.</p>
-
-<p>Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma
-cousa sem conta, e se no serviço não afrôxava é porque
-só no trabalho achava algum consolo.</p>
-
-<p>E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Babita, meu bem Babita,</div>
-<div class="verse">Babita do coração,</div>
-<div class="verse">Tem pena de minhas penas,</div>
-<div class="verse">Senão morro de paixão.</div><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Passarinho que tem aza</div>
-<div class="verse">Depressa vôa ao seu bem.</div>
-<div class="verse">Aza não tenho, nem tenho</div>
-<div class="verse">Quem me possa querer bem.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Desgraçado do tropeiro,</div>
-<div class="verse">Minha sina é só gemer:</div>
-<div class="verse">Meu destino caminhar,</div>
-<div class="verse">Caminhar até morrer.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Chaga viva em mim abrio</div>
-<div class="verse">Teu olhar, mulher querida.</div>
-<div class="verse">Mas de ti eu não me queixo,</div>
-<div class="verse">Pois adoro essa ferida.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Tenhão os <i>rezes</i> seus palacios</div>
-<div class="verse">Ouro e mais prata infinita,</div>
-<div class="verse">Eu só quero d’este mundo</div>
-<div class="verse">Ser querido de Babita.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Mas, coitado, porque choro?</div>
-<div class="verse">Quem m’ouvir póde n’este ermo?</div>
-<div class="verse">Se o meu canto não tem écho,</div>
-<div class="verse">Meu tormento não tem termo.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ó rochedos, montes, valles</div>
-<div class="verse">Ó campinas tão floridas,</div>
-<div class="verse">Compaixão deveis sentir</div>
-<div class="verse">D’essas mágoas tão crescidas!...</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span>
-o peito, de modo que todos sabião por quem ficára
-preso o tropeiro modelo.</p>
-
-<p>Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os
-seus males, e a viola chorava nos dedos do namorado.
-Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir o cantor,
-cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ventura me chamão todos,</div>
-<div class="verse">Desgraça devem chamar.</div>
-<div class="verse">Pois aquella a quem adoro</div>
-<div class="verse">Não me quer <i>a mim</i> amar.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Sou tropeiro, não sou rico</div>
-<div class="verse">Casas não tenho, nem ouro;</div>
-<div class="verse">Mas no peito tenho honra,</div>
-<div class="verse">E não sou filho de mouro.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">No braço tenho <i>talento</i><a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a></div>
-<div class="verse">Na cara tenho vergonha,</div>
-<div class="verse">Não vivo de comer bichos</div>
-<div class="verse">No lôdo como cegonha.<a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Ai! se apaga em mim a vida!</div>
-<div class="verse">Sinto já que vou morrer.</div>
-<div class="verse">Mas não sei se chóre ou não</div>
-<div class="verse">Por agora perecer.</div><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Pois embóra eu <i>seje</i> moço,</div>
-<div class="verse">Por effeito da paixão</div>
-<div class="verse">Com certeza hei de findar</div>
-<div class="verse">Nas funduras do sertão.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p>N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o
-brazeiro se apagára, e já as barras do dia riscávão os
-lados do nascente, e elle ainda ficava de vióla na mão,
-tocando e verseando.</p>
-
-<p>Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou
-em Uberaba, foi logo procurar vêr a quem lhe tinha
-inspirado tanta quadrinha bonita.</p>
-
-<p>O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se
-a ronda com a patrulha.</p>
-
-<p>Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D.
-Cula com um ar muito agradavel e cheio de riso.</p>
-
-<p>Ventura quiz voltar, não poude e parou.</p>
-
-<p>A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado
-com muito boas maneiras, perguntando noticias da
-saude e da ultima viagem e mais outras cousas.</p>
-
-<p>Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou
-passado de uma vez quando, conversa puchando conversa,
-D. Cula o convidou para descansar em sua casa.</p>
-
-<p>O moço no acto de se sentar já não estava muito
-em si, mas quando vio entrar na sala a rapariga por
-quem suspirava tanto, perdeu de todo a cabeça.</p>
-
-<p>Não soube mais dizer uma palavra.</p>
-
-<p>Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria
-ficar calado, vinha-lhe a comixão de fallar.</p>
-
-<p>Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span>
-pasmado. Foi que no fim de sua visita, uma visita de
-medico, elle pedio a mão de Babita, que Babita ficou
-muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita
-chorou algumas lagrimas e que consentio e poz-se a
-fallar muito e a contar casos e mais casos, dando de
-lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo,
-quanto mais a um namorado!</p>
-
-<p>Elle levantou-se cambaleando.</p>
-
-<p>Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...</p>
-
-<p>A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade
-chegada do Rio de Janeiro. Uns approvarão
-muito, outros acharão a cousa má, outros emfim
-nada disserão, no que fizerão melhor do que os que
-se mettião a abelhudos.</p>
-
-<p>Os que approvavão, mostravão que as idades dos
-noivos estavão muito combinadas e achavão direito
-que um pobre casasse com uma pobre e outras cousas
-mais.</p>
-
-<p>Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio
-de tropeiro era baixo e por demais andejo, sendo
-assim o casal obrigado a viver sempre separado. E a
-final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida?
-Nas de um camarada de tropa...</p>
-
-<p>Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se
-na vida e nos interesses dos outros como
-melhor quizerem, mas por amor á verdade não digão
-que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!</p>
-
-<p>Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos,
-olhos rasgados, côr morena, bigodes finos, boca bem
-feita, e barba sempre penteada? Não tinha elle cabellos<span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span>
-cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso
-era do pó da estrada, e esse pó dava signal de que
-elle trabalhava para ganhar honradamente o pão
-de cada dia.</p>
-
-<p>Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua
-pobreza, mas não tivessem susto de qualidade nenhuma.
-A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se
-Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a
-ninguem. Graças aos céos, braços não lhe faltavão para
-sustentar a sua gente, e, se até então ainda não tinha
-ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava
-fóra tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.</p>
-
-<p>Agora o caso mudava de figura, e para prova é que
-elle tratou logo de preparar um montesinho de prata
-já com vista nos gastos dos papeis de casamento e
-tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella
-occasião.</p>
-
-<p>Emfim quer os moradores quizessem, quer não,
-Babita e Ventura erão noivos, tinhão já o sim de D.
-Cula, a unica que podia n’aquelle negocio serrar de
-cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio
-do Brasil que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes
-como se tivessem ganho o reino do céo.</p>
-
-<p>O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes,
-quando o tropeiro voltasse de uma viagem que tinha de
-fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava paga.</p>
-
-<p>No momento da despedida os noivos chorarão como
-dous perdidos; mas no coração lhes ficava a quentura
-da felicidade.</p>
-
-<p>D’ahi a tres mezes!...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p>
-
-<h4>II</h4>
-
-<p>No tempo marcado voltou Ventura mais <i>amorudo</i>
-do que quando partira e com as mãos cheias de presentes.
-D. Cula ganhou um vestido de muito boa seda
-e Babita uma joia de ouro verdadeiro.</p>
-
-<p>Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que
-entendia de ourives o disse, e o que sabia da boca
-d’elle era que nem palavra de Evangelho, pelo menos
-ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.</p>
-
-<p>Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou
-de mãos abanando. Tinha cozido todo o seu enxoval
-e arranjado com os dedinhos o vestido do casamento,
-que a mulher do commandante superior da guarda
-nacional fez o favor de cortar e acertar, porque era
-uma senhora muito estimavel. Tambem a cousa parecia
-uma maravilha de feitio e assentada.</p>
-
-<p>Mas o que é o destino da gente!</p>
-
-<p>Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se
-n’uma dobadoura que ninguem na terra se lembrava
-de cousa igual. Uberaba tão socegadinha! Longe de
-tudo e de todos no meio de seus sertões!</p>
-
-<p>Não se fallava senão em guerra!</p>
-
-<p>Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar
-que o Imperio do Brazil estava n’uma pendencia
-muito grossa com uma republica chamada do Paraguay,
-que havia muito fogo de parte a parte, gente e
-mais gente partia para fóra, que muitos ião por gosto,
-outros a páo e corda, que o recrutamento roncava feio<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span>
-e forte e os rapazes andavão disparando para os matos,
-mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e
-lhe perguntar quantos annos tinha, seguio socegado
-o seu caminho do interior, sem se occupar com as
-novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava
-n’este mundo.</p>
-
-<p>Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução,
-o mesmo reboliço.</p>
-
-<p>Parece que os negocios não ião bem. O governo da
-côrte tinha posto nos jornaes que todos devião combater,
-que a guarda nacional havia de marchar, que
-era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma
-lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.</p>
-
-<p>Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados.
-Imaginem!</p>
-
-<p>Ora Minas é muito grande e tem bastante gente,
-mas onde é que se ia buscar tanto povo de uma vez
-para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá de
-cima que governão os outros ás vezes não pensão
-com juizo. Era uma exigencia por demais.</p>
-
-<p>Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de
-S. Paulo e de Ouro-Preto duas forças grandes para se
-juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para os lados
-de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á
-força e onde estavão fazendo selvajarias sem conta
-nos brazileiros que cortava o coração só de ouvir
-fallar.</p>
-
-<p>Tudo isto não bastava.</p>
-
-<p>Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se<span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span>
-na cidade que os guardas nacionaes ião ser reunidos,
-que muitos havião de seguir com a expedição,
-que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de
-historias capazes de assustar os mais valentes.</p>
-
-<p>As familias andavão com o coração na mão e com
-toda a razão, porque não tardou muito e ahi chegarão
-uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa e ensinar
-o manejo de arma.</p>
-
-<p>Então é que foi susto!</p>
-
-<p>No meio de todo esse barulho, Babita não tinha
-um momento de descanço. Juca Ventura era guarda
-nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos annos e
-podia ser chamado.</p>
-
-<p>—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se
-você tiver de marchar?</p>
-
-<p>—Não marcho, não, respondia o tropeiro para
-lhe dar algum socego.</p>
-
-<p>A mocinha perguntava abaixando a voz:</p>
-
-<p>—Então você deserta?</p>
-
-<p>—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de
-cousa nenhuma! Mas tenho certeza de que não vou.
-Não me chamão. Você verá...</p>
-
-<p>Esta certeza durou pouco tempo.</p>
-
-<p>Um bello dia o commandante superior da guarda nacional
-mandou-lhe por um cabo de esquadra aviso, ordenando
-que chegasse n’aquella mesma hora ao palacio
-da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais
-quinze companheiros fez uma falla meio gaguejada em
-que disse que era preciso ir acabar com o inimigo, que
-os brazileiros nunca tinham sido vencidos, que a gente<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span>
-de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam
-de voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que
-o Brazil contava com os seus filhos, etc., etc., e depois
-de toda essa perlenga acabou dando vivas ao Imperador
-e á Constituição, no que foi acompanhado com
-muito barulho por outros homens de casaca reunidos
-a um lado da sala.</p>
-
-<p>Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?</p>
-
-<p>Porque é que aquelle commandante superior não
-marchava tambem para a guerra? Então só lá devião
-ir os pobres soldados para chuchar bala como terra
-em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas
-cheias a se deixarem ficar muito a gosto e só enchendo
-as bochechas com patriotadas?</p>
-
-<p>Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade,
-como diziam, então que todos se sacrificassem.</p>
-
-<p>O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos
-e mostrar boa vontade, supporta tudo com cara
-alegre, não assim a empurrar-se gente para obedecer
-ao governo e mettido na tóca caladinho!...</p>
-
-<p>Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não
-disse patavina, e sem demora foi mandado para o
-quartel, uma casa de paredes altas e vigiada que parecia
-uma cadeia.</p>
-
-<p>Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios
-assarapantados que todos os dias ouviam fallas e mais
-fallas do commandante d’aquelle deposito—um major de
-linha, mandado de proposito da côrte para ensinar
-recrutas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span></p>
-
-<p>Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não
-havia influencia nenhuma.</p>
-
-<p>Juca Ventura só viu caras muito <i>jururús</i>.</p>
-
-<p>Quando Babita teve conhecimento do que succedêra
-ao noivo, cahiu n’um desmaio que poz D. Cula tonta;
-depois as duas choraram juntas até não terem mais
-lagrimas nos olhos.</p>
-
-<p>Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres.
-Via-se bem que elle queria se fazer de forte, mas que
-estava por seu lado desanimado.</p>
-
-<p>Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi
-ao quartel para ver se trocava alguma palavra com o
-rapaz, mas não pôde entrar, porque na porta estava
-um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido
-que passeava como um rei, de um lado para outro,
-segurando na mão uma espada desembainhada. Quando
-a boa da velha foi se chegando para mais perto, elle
-gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.</p>
-
-<p>Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira
-o cabo fallar n’uma guerra que houve no tempo
-de dantes em que elle com mais dois companheiros
-tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem
-de brincadeira e que cortaria pelo meio todos
-aquelles que quizessem sahir do quartel sem passe do
-senhor major.</p>
-
-<p>Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava
-o bigode com raiva e rangia os dentes como
-porco do matto.</p>
-
-<p>Homens assim é que deviam ir para a guerra, já<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span>
-que gostavam tanto da historia, e não uns pobres
-moços socegados que tinham suas familias ou estavam
-em vesperas de formar casa. Fosse lá o <i>tres contra
-quatorze</i><a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a>, mas não uns guardas nacionaes que nunca
-haviam feito mal a ninguem.</p>
-
-<p>Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que
-ella não passou a ninguem, porque não gostava de
-metter o bedelho nos negocios geraes, entendendo com
-razão que as mulheres, quando se atiram a discursar
-nestas e n’outras cousas, dizem por força desacertos.</p>
-
-<p>Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora
-podesse trocar lingua com Juca o tropeiro. Elle estava
-socegado, e entretanto bastante murcho, não que o
-dissesse, mas pela cara logo se via isso.</p>
-
-<p>O recado que elle deu para Babita não acabava
-mais de comprido, mas em duas palavras queria dizer
-<i>amor para sempre</i>.</p>
-
-<p>Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e
-trancadinhos no que se chamava quartel e que já continha
-uns centos de pessoas, receberam uma bandeira
-novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim
-muito rica e vistosa.</p>
-
-<p>Houve muita pancadaria de musica, muito foguete<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span>
-do ar, estouros de bombas, e fallatorios compridos e
-cheios de enthusiasmo.</p>
-
-<p>O commandante superior tomou novamente a palavra
-e disse que com o contingente mineiro a guerra havia
-por força de acabar, que Uberaba ia dessa feita
-para a historia, que todos deviam marchar com a
-maior alegria e que aquelles que desertassem haviam
-de receber castigo de Deos e dos homens. Mas o espertalhão
-não prometteu dar o exemplo e tomar parte
-nos perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.</p>
-
-<p>Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião,
-ambos com muito fogo, e no fim do seu palavreado,
-todos romperam em vivas ao Brazil, e morras
-ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.</p>
-
-<p>O cabo <i>tres contra quatorze</i> já com algumas garrafas
-de cerveja no bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos
-e fazia com os dentes tal barulho que semelhava
-não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos. Elle
-pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e
-que estava tremendo de susto, que fosse buscar oito
-ou dez castelhanos, armados de lança e espada, para
-vêr como n’um instantinho os havia de cortar em
-pedaços miudos.</p>
-
-<p>Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado
-por uma lista de nomes, veiu jurar por baixo da
-bandeira e com a mão aberta sobre os Santos Evangelhos
-em como havia de defender até a morte o Imperador
-e a Constitução e nunca desamparar o seu posto de
-honra.</p>
-
-<p>Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span>
-verdade, n’esse momento o coração lhe tremeu dentro
-do peito. Os companheiros diziam <i>sim, sim</i>, mas eram
-uns <i>sim</i> muito chochinhos que em muitos parecia mais
-um soluço do que uma promessa que só Deos podia
-quebrar.</p>
-
-<p>Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia
-duzia de lanternas de papel—e o quartel
-ficou todo ás escuras, guardado por uma sentinella
-que chorava baixinho e pelos roncos de <i>tres contra
-quatorze</i>.</p>
-
-<p>O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos
-cópos deixou-se cahir na porta estirado a fio comprido,
-como que para impedir com o seu corpo a escapúla de
-algum medroso.</p>
-
-<p>Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio
-e trevas.</p>
-
-<p>Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados
-do fundo d’alma, pegou a dormir e a sonhar com
-Babita.</p>
-
-<p>De repente alguem o puxou por um braço.</p>
-
-<p>—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda
-tonto de somno.</p>
-
-<p>—Falle baixo, murmurou alguem.</p>
-
-<p>—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a
-voz.</p>
-
-<p>—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo
-tempo cinco ou seis mas tão baixinho que parecia um
-sopro.</p>
-
-<p>Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p>
-
-<p>—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar
-<i>vancê</i> para abrir campo. Parece que o negocio
-vai ficando sério e que chegou a hora de cada um
-cuidar em si.</p>
-
-<p>Ventura respondeu com um gemido abafado.</p>
-
-<p>—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas
-agora...</p>
-
-<p>—Agora, o que?</p>
-
-<p>—Agora não posso.</p>
-
-<p>—E porque?</p>
-
-<p>—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no
-livro sagrado, e decididamente hei de ir por estas
-terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê coragem...</p>
-
-<p>Houve silencio no grupo.</p>
-
-<p>—Mas... então, disse com hesitação um d’elles,
-<i>vancê</i>... não vá... dar parte de nós...</p>
-
-<p>—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual
-tome o rumo que quizer. Eu não jurei que havia de
-guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a defender
-o Brasil.</p>
-
-<p>E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro
-lado.</p>
-
-<p>De manhã vio-se que havião desertado quinze
-guardas nacionaes e que a sentinella do portão tinha
-tambem batido a linda plumagem.</p>
-
-<p>Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol
-claro, umas machinas exquisitas, canos feitos de
-bronze, assentes em grandes rodas e acompanhados
-de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas
-de bois.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span></p>
-
-<p>Essa machinada vinha com muito barulho e
-pôz em reboliço todos os moradores.</p>
-
-<p>—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque
-nunca tinhão visto artilharias.</p>
-
-<p>Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas
-janellas da casa aquella procissão capaz de metter
-medo aos mais valentes e soube que aquelles canudos
-ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.</p>
-
-<p>—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo
-as mãos de admirada, que peccado atirar em christãos
-com bacamartes d’esses!</p>
-
-<p>Na noute da chegada da artilharia desertárão de
-pancada quarenta guardas nacionaes, e ninguem mais
-lhes poz o olho emcima.</p>
-
-<p><i>Tres contra quatorze</i> andava damnado e gritava, no
-meio da praça da matriz, que aquillo era uma pouca
-vergonha e que elle só com um cacete curto era bastante
-para dar conta de todos os moradores de uma
-cidade tão medrosa e—com perdão da palavra—safada,
-assim dizia o cabo de esquadra.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada
-mineira que foi acampar no Cachimbo, a uma legua
-de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz de
-influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão
-mais vinte dos aquartelados.</p>
-
-<p>Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.</p>
-
-<p>Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza
-do exemplo e deixar-se estar quietinho quando os
-mais abrião pernas e ião cuidar da vida! Quanta coragem
-para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span>
-lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo,
-que ella não podia mais viver assim e era noiva de um
-ingrato, e não sei o que mais, e mil cousas e ditos
-de fazer sangrar o coração.</p>
-
-<p>Mas elle tinha jurado!</p>
-
-<p>Quando no quartel não restarão senão tres homens,
-o commandante superior, não se fiando n’elles, mandou
-trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa.
-Queria ao menos segurar bem esses ultimos.</p>
-
-<p>Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.</p>
-
-<p>Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e
-estava marcado o dia 4 de Julho de 1865 para a partida
-de toda a expedição que devia se internar pelo sertão
-bravio á procura do inimigo.</p>
-
-<p>Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se
-do noivo que estava como um desgraçado
-galé encostado ás grades da cadêa.</p>
-
-<p>—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe
-na mão, isto é que é ser <i>desinfeliz</i> de uma vez!...</p>
-
-<p>—A culpa é de <i>vassuncê</i>, respondeu a moça soluçando.</p>
-
-<p>—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!...
-Foi destino...</p>
-
-<p>—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que
-<i>vassuncê</i> faz mal... entretanto...</p>
-
-<p>—O que devemos fazer, disse o coitado depois de
-uma pausa em que todos os tres choravam, é não
-perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade;
-mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de
-voltar com toda a certeza, e então seremos felizes para<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span>
-sempre... Tenho o meu amor para me salvar. Agora,
-Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao
-seu noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas
-de Nosso Senhor Jesus Christo que, na batalha ou no
-descanço, não haverá uma só hora que eu deixe de
-pensar em quem tanto quero.</p>
-
-<p>E, voltando-se para D. Cula, acrescentou:</p>
-
-<p>—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece
-bem me vêrem chorar como se fosse um fracalhão.
-Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...</p>
-
-<p>Babita soluçava como uma criança.</p>
-
-<p>No dia seguinte, as forças da expedição abalaram
-do acampamento do Cachimbo.</p>
-
-<p>Foi uma cousa bonita.</p>
-
-<p>Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos
-bem fardados; o bronze das peças de artilharia faiscava
-aos raios do sol; as musicas tocavam o hymno
-nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de
-pôr surda uma pessoa.</p>
-
-<p>D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca
-Ventura e para isso caminharam a pé e de madrugadinha,
-ainda escurão, legua e meia, distancia da cidade
-ao acampamento.</p>
-
-<p>O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira,
-já estava mettido n’uma grande blusa militar
-e ás costas trazia uma mochila que havia de ter bom
-peso, além da espingarda e do mais.</p>
-
-<p>Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos
-braços, disse-lhe a modo de consolo.</p>
-
-<p>—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me<span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span>
-no batalhão mineiro: estou rodeado de patricios
-e conheço bem o sertão. Não é isto que me assusta.</p>
-
-<p>E, com um suspiro, concluiu baixinho:</p>
-
-<p>—Ah! se eu não tivesse jurado!</p>
-
-<p>O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu
-de arma ao hombro e com passo dobrado.</p>
-
-<h4>III</h4>
-
-<p>Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de
-Matto-Grosso, fôra contar o que todos, desde o commandante
-das forças até o ultimo soldado, soffreram,
-e é cousa de encher livros e livros.</p>
-
-<p>Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se
-a padecer de fome, que desde então acompanhou
-sempre e sempre toda aquella gente, como se fizesse
-parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora
-apertando devéras, ora menos forte, mas ali prompta
-á toda a hora para apparecer, quando menos se cuidasse.</p>
-
-<p>Agora fallando com o coração na mão, foi preciso
-muita paciencia, muita confiança em Deos para não se
-desanimar de uma vez e querer antes morrer do que
-aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17
-de Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao
-resto da expedição. Era uma rapaziada toda limpa;
-officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e commandante<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span>
-meio zangado mas justiceiro e cheio de
-disciplina. Devéras fazia gosto servir n’esse corpo.</p>
-
-<p>Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa;
-foi excellente soldado, porque, antes de tudo, era um
-homem que queria sempre cumprir com a sua obrigação
-Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra
-e como sabia ler e escrever corrente, no Coxim,
-passou a furriel.</p>
-
-<p>Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além
-delle ser pouco <i>imbicioneiro</i>, não se ageitava em riscar
-mappas do dia e relações de mostra.</p>
-
-<p>No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir
-os outros, do que por gosto de galhofa. Na verdade
-não se esquecia um minuto de sua bonita noiva:
-escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto
-houve correio, recebia, lá de vez em vez, respostas
-muito amorudas do punho de D. Cula, mas do coração
-de Babita.</p>
-
-<p>Depressa, porém, desse gostinho devia se <i>desmamar</i>,
-porque não houve mais estafetas e até officiaes de
-posto graúdo ficárão seis e mais mezes sem poder receber
-uma só letra de suas familias, todas moradoras
-na Côrte do Rio de Janeiro, de muita consideração e
-apatacadas.</p>
-
-<p>Lá nos <i>pantános</i> de Miranda, quando a expedição foi
-se metter no tijuco até o pescoço é que houve dias
-da gente duvidar da bondade de Deus.</p>
-
-<p>Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no
-lodo que de lá nunca mais sahiram.</p>
-
-<p>Morria <i>goyanada</i> aos punhados, não que sejam mofinos<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span>
-de animo, pelo contrario no fogo são bons devéras,
-mas, fanadinhos de corpo, sahiam da fartura
-para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.</p>
-
-<p>Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas
-de alagadiços e tremedaes, que era mesmo um Mar de
-Hespanha, basta dizer que do Coxim sahiram mais de
-3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco
-mais de dois mil, quasi todos agorentados.</p>
-
-<p>Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que
-se poupasse ao trabalho, mas porque era de seu natural
-resistir ás epidemias. Isso para o serviço foi
-sempre dos melhores e de machado em punho para
-derrubar arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina
-era um grande.</p>
-
-<p>Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e
-nos acampamentos só se ouvia gritar: «Furriel Ventura,
-vai fazer isto. Furriel Ventura, vai fazer aquillo.» E
-elle de boa vontade sempre, quando os companheiros
-estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores,
-não só do seu corpo, como de outros batalhões.</p>
-
-<p>O commandante de sua companhia, o Sr. capitão
-Juca Duarte, que morreo, coitado, em Miranda todo
-inchado, moço tão bom que até os soldados choravão
-quando o ião carregando no caixão, queria muito ao
-furriel, assim como o Sr. major Juca Borges, que
-depois veio a commandar o batalhão e era muito valente
-e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no Araguaya
-de Goyaz.</p>
-
-<p>Era um homem muito alegre esse major e tratava<span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span>
-bem os soldados, e tambem um capitão, quasi criança,
-chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr. Tenente
-Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.</p>
-
-<p>Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O
-commandante Enéas era homem sério e meio carrancudo,
-mas não deixava perecer a sua gente de máos
-tratos e injustiças.</p>
-
-<p>A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda
-onde soffreo muito de molestias exquisitas que levarão
-uma <i>machina</i> de officiaes e soldados ao cemiterio; depois
-foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar
-bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda;
-desceo ainda para o Apa e ahi entrou no Paraguay,
-assim com ares de quem queria engulir aquella terra
-toda.</p>
-
-<p>Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de
-Uberaba! Mais de dous annos...</p>
-
-<p>E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava
-uma ou outra, isso mesmo para a gente lá de cima, e
-sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que valem
-alguma cousa.</p>
-
-<p>Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade,
-já não escrevia mais. Que é de papel para no fundo
-de sertões brutos estar riscando finezas, quando
-muitas centenas de legoas separão os namorados?</p>
-
-<p>Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa,
-quando ella se vio sem gado nem mantimentos e teve
-que recuar de um lugar chamado Invernada da Laguna,
-parece que tudo quanto é desgraça se juntou para
-fazer a gente ter saudades dos tempos de dantes.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span></p>
-
-<p>Que calamidades, meu Deos!</p>
-
-<p>Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar
-caro a muito castelhano de blusa vermelha o incommodo
-de vir os procurar tão longe, mas o cholera, mas
-a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas,
-os aguaceiros, o sol de rachar, os rios todos cheios, a
-falta de caminhos, cruz! era de quebrantar a coragem
-de um Roldão.</p>
-
-<p>Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma
-vez em cem annos, e quem escapou d’aquella feita póde
-dizer que tomou passagem para a eternidade, mas
-não embarcou por ser afilhado da sorte.</p>
-
-<p>Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda
-achava occasião de dizer a sua gaitadasinha, mais já a
-sua prosa não alegrava a ninguem: tudo andava muito
-jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar
-voando por cima da cabeça da gente, matando este,
-matando aquelle, aquelle outro e assombrando a todos.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão
-deixar jogados no meio do campo como carniça mais
-de duzentos companheiros a morrerem de cholera e de
-ferimentos.</p>
-
-<p>E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem
-surdos, e o coração batia, mas parecia pedra ou páo
-porque nada sentia.</p>
-
-<p>É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só
-tratava de salvar o vulto.</p>
-
-<p>Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição
-vinha rolando as suas miserias, caminhando
-quanto podia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p>
-
-<p>Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava
-aquella tropa toda, lá se foi o Sr. tenente-coronel Juvencio,
-e de nada lhes valêrão as divisas de ouro bem
-grossas que tinhão no braço.</p>
-
-<p>Era mesmo um <i>despotismo</i> de morte, e nem se livrou
-quem estava já affeito a aquelles lugares malvados e
-de pestes e forão batendo a bota o pratico Francisco
-Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando os
-brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem
-tinha ainda cruzado, e d’onde não havia de escapar
-um só ao menos para vir contar onde é que paravão os
-ossos dos outros.</p>
-
-<p>Mas Deos foi servido mandar que morressem, um
-no dia, o outro na hora em que a columna pisou terreno
-conhecido. Olhe que foi um milagre!</p>
-
-<p>Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre
-d’aqui, morre d’acolá, chegou-se a salvamento, tudo
-muito porco, muito magro e esfarrapado, mas emfim
-ainda com vida e vontade de saber o que era
-passar um pouco melhorzinho do que naquella desgraça.</p>
-
-<p>Foi no Canuto.</p>
-
-<p>Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão
-lá para as suas tócas: nós então, fizemos acampamento
-perto de um rio grande, o Aquidauana, que só uma
-força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade
-que todos, soldados e officiaes, trazião no corpo e na
-roupa.</p>
-
-<p>Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando,
-disse n’uma ordem do dia que os inimigos estavão<span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span>
-<i>anarchisados</i><a name="FNanchor_26" id="FNanchor_26"></a><a href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> com a nossa retirada, que os
-batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia
-de fallar nos soldados de Matto-Grosso e um bando
-mais de cousas.</p>
-
-<p>Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia
-estar lendo toda aquella escripta, disse para os
-outros:</p>
-
-<p>—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal
-chegou.</p>
-
-<p>E os outros se rirão, porque já estava passado o
-perigo, mas devéras o furriel tinha razão. Mais de
-mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios de vida
-e <i>talento</i><a name="FNanchor_27" id="FNanchor_27"></a><a href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> e, em menos de mez e meio, de lá voltarão
-só uns setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados
-que parecia uma tropa de ladrões do mato.</p>
-
-<p>Não, aquillo foi de mais!</p>
-
-<p>Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o
-batalhão para Cuyabá, d’ahi desceu para o Paraguay,
-ainda entrou em fogo, e foi acampar no Humaytá,
-que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era
-então uma barranca de rio.</p>
-
-<p>Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira
-de Uberaba, e, ha mais de quatro, não recebêra
-uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.</p>
-
-<p>Mas <i>porém</i> o rapaz era de palavra e não houve, neste
-tempo todo, um só dia, uma só hora, em que o seu
-pensamento não fizesse viagem até a cidade em que
-morava a namorada.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span></p>
-
-<p>Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a
-guerra acabou.</p>
-
-<p>O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro:
-houve muita festa; discursos como terra, gritaria, e,
-o que valia mais, cada voluntario recebeu uma boa
-bolada de cobres na pagadoria da Côrte.</p>
-
-<p>Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados
-e certas differenças de soldo, de uma assentada metteu
-no bolso trezentos mil réis do premio de voluntario
-da patria e setecentos e picos do resto.</p>
-
-<p>Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas
-da caixa do governo!</p>
-
-<p>Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz
-de Fóra, e, por toda a parte onde passava havia muito
-discurso, havia festa a valer e tudo o mais.</p>
-
-<p>Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar
-o rumo de sua casa.</p>
-
-<p>Foi um dia grande aquelle!...</p>
-
-<p>Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba,
-assim com modos de passarinho que achou a
-porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra, tonto
-de alegria e cantando como um maluco. A saude
-do tropeiro era sempre a mesma: pouca differença
-fazia no rosto, mas nas maneiras era mais compassado
-e orgulhoso.</p>
-
-<p>Tambem estava com o peito cheio de medalhas de
-campanha e ganhara até o habito da Rosa.</p>
-
-<p>Tinha honras de capitão!</p>
-
-<p>Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não
-perguntou noticias a ninguem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p>
-
-<p>O coração lhe batia socegado e só o que queria era
-chegar, chegar depressa...</p>
-
-<p>Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba,
-a 15 de Julho de 1870 e frechou direitinho para a casa
-da noiva.</p>
-
-<p>Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha
-no collo.</p>
-
-<p>Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um
-grito forte, levantou-se e correu para dentro como uma
-douda.</p>
-
-<p>Era Babita!</p>
-
-<h4>IV</h4>
-
-<p>Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.</p>
-
-<p>Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos
-escuros.</p>
-
-<p>Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria
-parecer alegre, mas não estava:</p>
-
-<p>—Ó de casa, ó minha gente!</p>
-
-<p>Ninguem lhe respondeu.</p>
-
-<p>Elle então entrou na sala.</p>
-
-<p>Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras,
-o mesmo sofá velho, uma imagem do Menino Jesus
-entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco
-annos passados.</p>
-
-<p>Ventura bateu palmas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span></p>
-
-<p>Ninguem lhe respondeu ainda.</p>
-
-<p>Oh! Era caso de pensar.</p>
-
-<p>O nosso homem assarampatado empurrou a porta
-do interior... nem viv’alma na varanda: correu a casa
-toda, nada.</p>
-
-<p>Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado
-gente que havia fugido ás carreiras.</p>
-
-<p>Decididamente succedêra alguma novidade graúda.</p>
-
-<p>Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia
-que nem um condemnado á forca, mas como não era
-precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar em
-mal.</p>
-
-<p>—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou
-elle, e tomasse um susto.</p>
-
-<p>N’estas idéas sahio da casa.</p>
-
-<p>Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava
-rente com as casas para apanhar um pouco de sombra.</p>
-
-<p>Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.</p>
-
-<p>—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o
-cujo, por isso não a conheço, mas sei que a filha
-d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.</p>
-
-<p>Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito
-que lhe deu aquella noticia, ou como não cahio no
-chão morto para todo o sempre, é o que elle mesmo
-não sabe.</p>
-
-<p>Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do
-que todos os de Mato-Grosso e por cima uma vergonha
-tão grande que a sua cara ardia como se fosse uma
-fogueira.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p>
-
-<p>Tudo estava perdido!</p>
-
-<p>Tudo!</p>
-
-<p>Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella
-mulher, elle que vinha cheio de amor, limpo de
-miserias, depois de ter dado conta de sua obrigação,
-elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas
-para enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o
-lugar que lhe pertencia já tomado, e em vez de um
-coração para o affagar e estimar, a traição e o pouco
-caso?!</p>
-
-<p>Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros
-nos campos do Apa para ser degollado pelos paraguayos?</p>
-
-<p>De que lhe servia a vida?</p>
-
-<p>A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa
-velha de taipa em dia de furacão.</p>
-
-<p>Que restava fazer?</p>
-
-<p>Nada... nada mais!</p>
-
-<p>E vingar-se?... porque é que o valente que vinha
-da guerra não havia de tirar despique do desprezo
-de uma mulher?</p>
-
-<p>Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo
-e o coração a quem quizesse; mas elle o bravo de 17º.
-de voluntarios de Minas precisava se desaffrontar.</p>
-
-<p>Tremessem os desalmados que havião brincado
-com a honra do tropeiro!</p>
-
-<p>Com isso tudo a lhe ferver no sangue, <i>amontou</i>
-Juca a cavallo e foi <i>sestear</i> n’um rancho fóra da cidade.</p>
-
-<p>Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle,
-senão é de crer que se fizessem em Uberaba alguns<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span>
-festejos e que o commandante superior da guarda nacional
-o viesse abraçar á vista de todos.</p>
-
-<p>Mas para abraços não estava elle.</p>
-
-<p>Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.</p>
-
-<p>Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas,
-com o queixo encostado na mão, estava carrancudo
-como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão. Na
-cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada
-e um facão-punhal.</p>
-
-<p>Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande,
-Juca sahio do rancho, mas as pernas lhe tremião.</p>
-
-<p>Queria pisar firme e não podia.</p>
-
-<p>É que nunca fôra assassino e agora ia matar!</p>
-
-<p>Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve
-que se sentar á beira da estrada pela affrontação em
-que vinha.</p>
-
-<p>O coração quasi que lhe saltava pela boca.</p>
-
-<p>Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle
-homem para você o tratar assim? Pois não póde haver
-uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?</p>
-
-<p>E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de
-matador, quando podia entrar no lugar de seu
-nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o
-peito em que estava escripta a sua historia de soldado!
-E todos o havião de festejar e até adular!...</p>
-
-<p>Mas não... O destino assim não quiz.</p>
-
-<p>Apparecião as primeiras casas da cidade quando o
-pobre coitado sentou-se n’um matacão de barro duro
-a um lado da estrada, á espera que a noute fechasse.</p>
-
-<p>Do sol já só se via uma beiradinha e estava um<span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span>
-calor de rachar. Lá no nascente umas nuvens côr de
-chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de quando
-em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.</p>
-
-<p>Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava
-que assim estava o seu coração, faiscando, faiscando,
-mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio havia de
-ferir a quem menos cuidava.</p>
-
-<p>Um barulho de passos lhe chamou a attenção.</p>
-
-<p>Era um homem branco, de meia idade e bem <i>limpo</i><a name="FNanchor_28" id="FNanchor_28"></a><a href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a>,
-que tinha um ar sério e muita composição no
-andar.</p>
-
-<p>Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima,
-como que virou-se em pedra.</p>
-
-<p>Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura,
-sacou da cintura a pistola e pulou para a frente do
-outro como uma onça pintada.</p>
-
-<p>A sua boca deu um uivo.</p>
-
-<p>—O emboaba!</p>
-
-<p>Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo
-lhe agarrado no braço, era um homem morto.</p>
-
-<p>E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons
-pares de minutos: Juca Ventura com olhos de engolir
-um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de si
-e de sangue frio.</p>
-
-<p>—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com
-o braço preso, você sabe quem eu sou?</p>
-
-<p>—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um
-soldado brasileiro, não é um matador.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p>
-
-<p>O modo por que estas palavras cahirão da boca de
-Chico Luiz e o seu proposito fizerão um abalo tão
-forte no voluntario que elle ficou branco como cêra.</p>
-
-<p>—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas
-agora vou ser...</p>
-
-<p>—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra
-você fazia assim...</p>
-
-<p>—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros.
-Todos... porque cuspirão na minha cara.</p>
-
-<p>—Juca Ventura, você tem o direito de me matar,
-isso eu reconheço: mas a mais ninguem, ouvio? O
-unico culpado sou eu.</p>
-
-<p>A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro
-como que sentia o coração ficar frio. Quiz puchar
-pelo braço, mas a mão do portuguez se não apertava
-com força, segurava com firmeza.</p>
-
-<p>—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e
-com os olhos prégados nos do seu inimigo, eu vim até
-cá ter com você, sem armas, sem um páo sequer, e
-lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada
-ninguem mais póde ser acusado... Agora...</p>
-
-<p>E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou
-o peito:</p>
-
-<p>—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua
-vingança!</p>
-
-<p>O modo era de quem estava preparado para morrer
-n’aquelle instante mesmo.</p>
-
-<p>Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns
-passos, como que vexado e murmurando:</p>
-
-<p>—Eu nunca matei ninguem assim...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span></p>
-
-<p>—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita
-muito depressa, eu quero defender não a mim, mas a
-uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa como
-N. S. da Conceição...</p>
-
-<p>E como Ventura fizesse um gesto de raiva:</p>
-
-<p>—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha
-salvação eterna, Babita é innocente; Babita resistio
-quanto poude a este casamento, Babita não se
-esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas
-as lagrimas do seu coração; foi fiel quanto poude á
-sua promessa.</p>
-
-<p>O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas
-fallava como quem diz a verdade. Cada um de seus
-ditos era uma punhalada em cheio no peito de Ventura.</p>
-
-<p>—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?</p>
-
-<p>—Não, respondeu com energia Chico Luiz.</p>
-
-<p>—Que aconteceu pois?</p>
-
-<p>—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu
-coração; se não, dispare já esta garrucha que está
-engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir dia em
-que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar:
-Sua mão deu cabo de gente innocente!</p>
-
-<p>E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo
-uma cousa muito grande.</p>
-
-<p>—Você me ouve? perguntou elle ainda.</p>
-
-<p>Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle
-homem estava se decidindo.</p>
-
-<p>—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido
-e pondo ao cinto a garrucha depois de ter abaixado
-de vagarinho o cão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span></p>
-
-<p>—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro.
-Você partio para Mato-Grosso e só houve noticia certa
-de sua pessoa por uns seis mezes. Depois passarão-se
-annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o
-seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de
-um e de outro, escrevia muita carta, punha tudo no
-correio e a chorar dia e noute que era uma cousa por
-demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado,
-a Uberaba um soldado do 17º de voluntarios
-que disse que conhecia muito a você, que você tinha
-morrido ha mais de um anno e até elle tinha carregado
-o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa
-por sua alma, e Babita esteve entre a vida e a morte
-um mez inteiro. Correu muito tempo. N’isso chegou
-outro soldado que tambem deu a você por morto e
-enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que
-eu, apezar de ter levado de táboa já uma vez, me
-apresentei de novo para casar com ella. N’esse tempo
-D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse;
-ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias
-ia lá; fiz muitos quartos quando a minha sogra ficou a
-sahir d’este mundo. Então Babita, para obedecer, eu
-sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se
-commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.</p>
-
-<p>E acrescentou:</p>
-
-<p>—Agora estou ás suas ordens.</p>
-
-<p>Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no
-tempo em que um gato passa por cima de um brazeiro,
-estava calado e mais sombrio do que a noute que
-vinha chegando.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p>
-
-<p>As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que
-formavão uma só linha na testa.</p>
-
-<p>Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria
-poder não acreditar.</p>
-
-<p>—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando,
-vocês todos enganárão a Babita. Foi você quem inventou
-a <i>embromação</i> da minha morte.</p>
-
-<p>—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não!
-Caia ella no inferno se eu estiver mentindo. A cidade
-inteira ouviu aquelles soldados... E depois olhe para
-mim, e veja se sou capaz disso...</p>
-
-<p>Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou
-o portuguez.</p>
-
-<p>O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção
-entrou no fundo do coração do tropeiro: mas elle ficou
-mudo com a cabeça cahida sobre o peito...</p>
-
-<p>Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de
-todo é que no céo havia umas nuvensinhas vermelhas
-que aos poucos ião perdendo as côres.</p>
-
-<p>Os dous homens estavão calados.</p>
-
-<p>De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:</p>
-
-<p>—Você me perdôa?</p>
-
-<p>Juca Ventura estremeceu todo.</p>
-
-<p>—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de
-amargura, não bastou a você, portuga de desgraças,
-me tomar a <i>minha</i> noiva, me arrancar o coração, pisar
-com pé de chumbo na minha felicidade, matar
-para sempre a minha alegria, quer tambem o meu
-perdão?...</p>
-
-<p>—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span>
-de honra, é homem de bem, eu tambem sou. Da
-conversa de hoje é que vai sahir o futuro da mulher
-que nós dois amamos, da mulher que ainda ama
-a você, Ventura, mas que me pertence <i>a mim</i>. Eu fallo
-aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de joelhos...</p>
-
-<p>—Não, não!</p>
-
-<p>—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão,
-ou que você me dê o seu perdão. Nossa Senhora
-abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher,
-tem pena de meu filho!...</p>
-
-<p>E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos
-aos pés de Juca Ventura, mas com tanta dignidade
-que ninguem havia de vêr n’aquelle acto, não uma
-baixeza ou medo, mas uma <i>menagem</i> á desgraça do
-tropeiro.</p>
-
-<p>—Levante-se, homem, disse em fim com muita
-pausa Ventura... Eu... vou pensar.</p>
-
-<p>E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.</p>
-
-<p>—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então...
-é signal que... para mim... o passado, passado.
-Se... eu não fôr lá... é que parti para nunca... mais
-ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui
-mora.</p>
-
-<p>E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra,
-na escuridão da noite...</p>
-
-<p>No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua
-entrada na cidade de Uberaba.</p>
-
-<p>Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que
-todos olhavão para elle, conhecia que era a pura
-verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito. Parecião<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span>
-encarar alguem que sahia da cova para fazer
-cousas do arco da velha.</p>
-
-<p>Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços.
-Muitas velhas já fazião cruzes pelo que ia succeder
-sem falta, e alguns que muito a tôa tinhão raiva do
-portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá
-no coração sentião certa alegria, apezar de estarem a
-dizer por toda a parte que o delegado de policia devia
-estar alerta se não quizesse vêr uma desgraça feia.</p>
-
-<p>Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de
-queixo cabido. Começou a fallar que já sabia desde
-muito que a Babita tinha se casado, mas que não se
-admirava disso, porque tinha corrido a <i>rodella</i> de sua
-morte, e mais isto e mais aquillo e tanta cousa com
-socego tão grande que não se sabia o que pensar se
-era disfarce ou não.</p>
-
-<p>Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel
-ter-se apresentado, como militar, ás autoridades
-que o receberão muito bem, o abraçárão e o fizerão
-sentar, foi elle com sol alto parar á porta do emboaba.</p>
-
-<p>Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio,
-e nem de proposito, a casa estava cheia de freguezia
-que nada lhe comprava, é preciso notar.</p>
-
-<p>Juca Ventura <i>desapeou</i> meio branco. O outro ficou
-um tanto amarello, mas se adiantou a encontrar quem
-vinha entrando.</p>
-
-<p>—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o
-traz a esta casa, disse o portuga estendendo a mão.</p>
-
-<p>O tropeiro mal a tocou.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span></p>
-
-<p>—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e
-muito serio.</p>
-
-<p>E accrescentou.</p>
-
-<p>—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha
-della.</p>
-
-<p>Houve um silencio grande.</p>
-
-<p>Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para
-dentro:</p>
-
-<p>—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A
-minha sogra e mulher hão de vêr com gosto um conhecido
-antigo e amigo.</p>
-
-<p>E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.</p>
-
-<p>Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado
-Babita, a bella e chorada Babita, com o filhinho no
-collo, como se fosse bandeira de misericordia.</p>
-
-<p>Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas
-mulheres, que de tudo sabião, tinhão os olhos pregados
-no chão e choravão sem fazer barulho.</p>
-
-<p>—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro
-parando em cada palavra.</p>
-
-<p>Ninguem lhe respondeu.</p>
-
-<p>—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a
-vocês todos... No meu coração só guardo uma cousa:
-é tristeza para sempre.</p>
-
-<p>Babita deu um soluço de desespero.</p>
-
-<p>Ventura chegou-se para ella.</p>
-
-<p>Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:</p>
-
-<p>—E você é feliz?</p>
-
-<p>—Chico... Luiz... é... o... pae de meu
-filho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p>
-
-<p>—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não
-fiquem me querendo mal... Adeos, adeos!</p>
-
-<p>As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até
-não poder mais.</p>
-
-<p>Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do
-portuguez, lhe apertou uma outra vez a mão.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar
-o emprego do outro tempo, mas já não era o
-mesmo <i>de dantes</i>. Calado sempre, só achava gosto
-no trabalho.</p>
-
-<p>A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia
-festas e mostrava amizade. Não se mettia com pessoa
-alguma, nem queria que se mettessem com a vida
-d’elle.</p>
-
-<p>Uma vez, porém, sahio do sério.</p>
-
-<p>Desafiado por um camarada, que tanto tinha de
-forte como de malcriado, e que se lembrou de fallar
-da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta pancada
-que por pouco não o mandou para o outro mundo.</p>
-
-<p>Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher
-com Juca Ventura.</p>
-
-<p>Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar
-alto quando vai tocando o seu lóte de bestas, mas
-essas mesmas cantorias são tão tristes que a gente vê<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span>
-bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando
-por dentro.</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse"><i>Longes</i> terras viajei</div>
-<div class="verse">Padeci muito na vida.</div>
-<div class="verse">E o Deus de compaixão</div>
-<div class="verse">Não me quer findar a lida.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Faço força para ter</div>
-<div class="verse">Paciencia, meu senhor:</div>
-<div class="verse">Mas debalde aperto o peito</div>
-<div class="verse">Atravez rompe-me a dôr.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Coração, meu coração,</div>
-<div class="verse">Á razão porque não cedes?</div>
-<div class="verse">Se não ha poder no mundo</div>
-<div class="verse">Que te dê o que tu pedes...</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Porque, pois, tanto affligir?</div>
-<div class="verse">Palpitar com violencia?</div>
-<div class="verse">O destino já fallou</div>
-<div class="verse">E foi falla sem clemencia.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Golpes duros contra mim</div>
-<div class="verse">Desfechou sorte perjura,</div>
-<div class="verse">Mas, cruel, deixou-me o nome,</div>
-<div class="verse">Por chacóta, de Ventura.</div><span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Sim, ventura hei de emfim ter</div>
-<div class="verse">Quando a morte apparecer.</div>
-<div class="verse">Sim, ventura sentirei,</div>
-<div class="verse">Quando me sentir morrer.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<p class="fim">FIM DE JUCA, O TROPEIRO.</p>
-
-<hr class="chap" />
-
-<div class="footnotes">
-
-<h2>NOTAS</h2>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Como em geral todas as denominações de lugares
-do districto de Miranda, é este nome de origem guaycurú e
-significa—<i>bando de trairas</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Agaxi é corrupção da palavra <i>Euagaxigo</i>, que quer
-dizer—<i>bando de capivaras</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Está muito bom?</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro
-tribus em que se divide a nação chané: terenos, laianos
-kinikináos e guanás.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Coitado! Está doente de febres!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Estrella, em dialecto guaná.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era
-kinikináo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> Taquaral.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados
-portuguezes.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar
-as pessoas de importancia. Ás vezes dizem simplesmente:
-ó senhoria!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore
-que annualmente se cobre de flores grandes e amarellas. Os
-indios contão os annos pela época da florescencia.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento
-de muito respeito.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> —Adeos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> —Adeos. A differença entre as duas palavras provém
-de que a primeira é a despedida de quem parte e a outra
-a saudação de quem fica.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada
-<i>rancho</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi
-salvo no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da
-batalha de Campo-Grande.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos,
-devido naturalmente á natureza eminentemente salina de
-todo o terreno do districto de Miranda e principalmente das
-margens do Aquidauána.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> Apaixonadas.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Talento em linguagem sertaneja é força, robustez.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> Já se vê que a necessidade da rima é que levava
-o nosso cantor a esses disparates.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e
-tinha aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba
-a reunir-se ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se
-sempre com muita coragem e falleceu de cholera morbus em fins
-de maio de 1867. <i>Tres contra quatorze</i> havia sido, pelo que
-contava elle, uma sua façanha praticada na guerra do Rio Grande
-do Sul, durante a luta dos <i>farrapos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_26" id="Footnote_26"></a><a href="#FNanchor_26"><span class="label">[26]</span></a> Desmoralisados.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_27" id="Footnote_27"></a><a href="#FNanchor_27"><span class="label">[27]</span></a> Fortaleza.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_28" id="Footnote_28"></a><a href="#FNanchor_28"><span class="label">[28]</span></a> Vestido.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr class="chap" />
-
-<h2>INDICE</h2>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td></td>
- <td class="tdpg smaller">PAG.</td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Ierecê a Guaná.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#IERECE_A_GUANA">11</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Da mão á boca se perde a sopa.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#DA_MAO_A_BOCA_SE_PERDE_A_SOPA">67</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Camiran a Kinikinao.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#CAMIRAN_A_KINIKINAO">119</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>O Vigario das Dôres.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#O_VIGARIO_DAS_DORES">155</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Juca, o Tropeiro.</td>
- <td class="tdpg"><a href="#JUCA_O_TROPEIRO">183</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-<p class="center smaller"><span class="smcapuc">TYP. DE</span> Pinheiro &amp; C.ª <span class="smcapuc">RUA SETE DE SETEMBRO N. 157</span></p>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Historias Brazileiras, by
-Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay and Sylvio Dinarte
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS ***
-
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-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
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-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
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