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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Historias Brazileiras - -Author: Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay - Sylvio Dinarte - -Release Date: June 29, 2020 [EBook #62525] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - - - - - -HISTORIAS BRASILEIRAS - - - - -OBRAS DE J. DE ALENCAR - - - O ERMITÃO DA GLORIA.—A ALMA DO LAZARO, 1 v. enc. 3$, br. 2$000 - - O GARATUJA, chronicas dos tempos coloniaes, 1 v. in-8º enc. - 3$, br. 2$000 - - TIL, romance brasileiro. 4 v. enc. 6$, br. 4$000 - - IRACEMA, lenda do Ceará, 2ª edição, 2 v. br. 2$, enc. 3$000 - - VIUVINHA E OS CINCO MINUTOS, 2ª edição, 1 v. br. 2$, enc. 3$000 - - O GUARANY, 3ª edição, 2 v. in-4º encadernados 10$000 - - AS MINAS DE PRATA, rom. historico, complemento do precedente, - 6 v. in-8º br. 12$, enc. 16$000 - - O DEMONIO FAMILIAR, comedia em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 1$500 - - A MÃI, drama em 4 actos, 2ª edição, 1 v. 2$000 - - VERSO E REVERSO, comedia em 2 actos, 2ª edição, 1 v. 1$000 - - AS AZAS DE UM ANJO, comedia em 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo, - 2ª edição, 1 v. 2$000 - - O GAUCHO, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, enc. 6$000 - - PATA DA GAZELLA, romance brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000 - encadernado. 3$000 - - O TRONCO DO IPÊ, romance brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, - encadernado. 6$000 - - SONHOS D’OIRO, romance brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br. 4$000 - - DIVA, _perfil de mulher_, 2ª edição, 4 v. enc. 3$000 - - LUCIOLA, _perfil de mulher_, 3ª edição 1 v. enc. 3$000 - - -BERNARDO GUIMARÃES - - O SEMINARISTA, romance brasileiro, 1 v., enc. 3$, br. 2$000 - - LENDAS E ROMANCES. Uma Historia de Quilombólas, a Garganta do - Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. enc. 3$, br. 2$000 - - O GARIMPEIRO, romance, 1 v. enc. 3$, br. 2$000 - - HISTORIAS E TRADIÇÕES da Provincia de Minas-Geraes: A Cabeça - do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, 1 v. enc. 3$, - br. 2$000 - - - - - HISTORIAS BRAZILEIRAS - - POR - SYLVIO DINARTE - (Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do - Coração, Innocencia, etc.) - - [Illustration] - - RIO DE JANEIRO - Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69. - 1874 - - - - -AO CAMARADA E AMIGO - -CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO. - -OFFERECE - -O Autor. - - - - -IERECÊ A GUANÁ - -EPISODIO - - Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère, - Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur? - ... - Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle... - Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle. - Moi, je t’aime, comme je vis. - - VICTOR HUGO—_A Taitiana_ (Ballada). - - Savais-je s’il était des malheureux au monde? - Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus! - - CHAMFORT. - - -IERECÊ A GUANÁ - - -CAPITULO I - -Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho _Alpha_, sahindo da capital -da provincia de Matto-Grosso, desceu para Corumbá, e, por ordem do -presidente de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou a -fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando aguas acima -para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação secca -até a villa de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40 -legoas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande -Paraguay. Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o fumegante -barco atracar junto á barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de -alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural socego -d’aquella distante localidade. - -Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, sob a denominação -de districto de Miranda, se estende ao sul da provincia desde o rio -Piquiry até o Apa e o Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de -importancia que nem as febres endemicas em determinados periodos do anno, -nem o desenvolvimento rapido de Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, -havião podido lhe tirar. - -Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por um sentimento de -exageração, não vião razões para lhe negar o pomposo titulo de _cidade_, -justificado senão pelo estado de prosperidade que tinha então, ao menos -em vista do engrandecimento que lhe podião garantir, em futuro não muito -remoto, as suas relações, já de annos iniciadas, com as provincias de S. -Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, Brilhante e Nioac de um lado, -e Miranda do outro. - -A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que erão repetidas com -desvanecimento. - -Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre os destroços do -forte Xeres, levantado em passadas éras pelos hespanhóes como paradeiro -á influencia portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, em -Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido por outro em que -fluctuavão as quinas do dominio legal. - -Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre e das promessas -do futuro, varios e influentes partidarios contava a idéa, aliás justa -e sensata, da necessidade de se mudar a séde da cabeça do districto -para outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria das febres -intermittentes que as enchentes e transbordamentos do rio annualmente -trazião e que atacavão não só os recem-chegados e visitantes de -passagem, como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás vezes -até, alguns dos mais antigos moradores. - -Os lugares indigitados para essa mudança erão Pedra Branca, poucas legoas -acima, e a Forquilha, ainda além e na confluencia dos rios Miranda e -Nioac. - -Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do Paraguay, baixa e sujeita -ás inundações e, conservando a regalia de desimpedida navegação, se -procurassem as terras altas proximas á serra de Maracajú e que se ligão -aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo progresso era já uma realidade, -mais largos horizontes se abririão para a villa, libertando-a dos -inconvenientes que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade. -N’esse caso, nenhuma indicação reunia com fundado motivo mais adhesões do -que a da Forquilha, bella e elevada planicie assente no entroncamento de -duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas era facil e já -aproveitado. - -Como que para difficultar, porém, a realisação de tão conveniente -deslocamento e desanimar os mais ardentes propugnadores da medida, não -fazia muitos mezes antes da chegada do _Alpha_, havião sido lançadas no -lugar da antiga palissada a que devia a villa o appellido de _forte_, -as bases de um grande quartel, edificação que, concluida, tornou-se sem -contestação uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi em 1866 -vandalicamente incendiada pelos paraguayos por occasião de se retirarem -do districto para operar a sua concentração na fronteira. - -Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, o apparecimento de um -vapor causava immenso contentamento no seio da população de Miranda pelas -consequencias que necessariamente havia de produzir aquella viagem de -ensaio, prova cabal de que o rio, ainda na vazante, prestava-se á franca -navegação muito além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até onde -havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, este ultimo em 1860 -no _Jaurú_, que é de calado não pequeno. - -Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos o espirito muito -inclinado para as transacções commerciaes e n’ellas desenvolvem o seu -genio naturalmente activo, e tão atilado quão desconfiado. - -Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos de negocio a Cuyabá -e na previsão de lucros proveitosos entregavão-se á mais expansiva -alegria. - -Por toda a parte a agitação era grande. - -Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; o sino da matriz com -festivos repiques parecia querer rachar de contente e o povo, depois de -se ter agglomerado nas duas ruas convergentes á praça da igreja, havia -se encaminhado todo para a margem do rio, tomando a estrada que, com -extensão de quasi meia legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o -porto—e que não passa de uma rampa mal cavada na barranca. - -No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta do Miranda desapparece, -invadida pelas agoas que vêm então lamber o limiar das primeiras casas -da villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida de chão um tanto -lodoso e ensombrada por magnifico arvoredo. - -Entre os grupos dos que conversavão animadamente a caminharem para -o _porto_, circulava tambem a noticia da vinda de dous officiaes de -engenheiros, incumbidos, pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao -Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que já n’esse tempo -tinha soffrido senão insultos directos da parte dos nossos vizinhos -paraguayos, pelo menos os effeitos de sua cada vez mais decidida -altaneria. - -Estava ainda recente a desagradavel impressão do modo insolente por -que um commandante do forte Bella Vista, no Apa, tratára o piquete -brazileiro que fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, e, -na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem taes scenas e -outras peiores, como em 1850—em que uma força estrangeira, sem respeito -á linha divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia do -mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir o sobr’olho a vizinhos tão -carrancudos e desagradaveis. - -N’essa época, já proxima da invasão que o dictador do Paraguay Lopez -ideava, raros erão, comtudo, aquelles que, nos mais chegados lugares -da fronteira, suppuzessem possivel uma guerra provocada pela republica -confinante. - -Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era despotico e que se -achava militarisado com grande rigor de disciplina, mas ignoravão-se -os innumeros recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis que -accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo crença geral de que o -seu affastamento systematico da communhão das nações era produzido pela -politica tacanha e mal concebida dos directores de um povo, que, por -habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, era feliz a seu modo, -e queria viver em paz. - -Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito publico com essas -supposições quasi erigidas em certeza e com a convicção de que bastarião -providencias de ordem secundaria para manter o Paraguay na orbita do -respeito que nos era devido, intelligentes emissarios do dictador havião -já percorrido de norte a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado -com especialidade o territorio que mais de prompto teria de experimentar -os effeitos do humor bellicoso e conquistador de Solano Lopez. - -Em todo o caso, apezar do socego de que gozava o districto, é certo -que a chegada de dous profissionaes com aquella commissão de caracter -militar indicava que o governo central, fiando-se nas boas relações que -entre as duas nações parecia não deverem de tão cedo soffrer québra, -cuidava comtudo de attender para as suas fronteiras, cuja tranquillidade -e segurança influião directamente no desenvolvimento agricola de toda -aquella zona. - -No _Alpha_ viéra com effeito, não dous, mas um official de engenheiros, -esse mesmo com incumbencia puramente civil, visto como só devia ir -observar os progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho que liga -aquella nascente colonia ao porto de Santa Rosalinda, no rio Brilhante, -até onde já tinha subido um vapor partido de Itapúra, na provincia de S. -Paulo. Quanto ao companheiro com que esse official viéra de Cuyabá, não -tinha posição alguma militar, nem trouxera encargo que desempenhar. - -Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por méra distracção. Homem no -pleno vigor dos annos, e bastante rico para satisfazer os seus caprichos, -emprehendera extensas viagens por simples distracção e pelo prazer do -movimento, percorrendo paizes uns após outros como _turista_ e á maneira -de Victor Jacquemont, que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez -tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior da Asia. - -O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda não era dos mais -naturaes. - -Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de Janeiro, comprou passagem -para Montevidéo, passou lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres, -onde se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade pelo que dizião -do Paraguay, subio até Assumpção, que, no fim de poucas horas, ficou -peremptoriamente julgada e qualificada sem appellação de acanhada, -monotona e estupida. - -—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me a ir até Cuyabá. - -E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade de continuar a -viagem fluvial, sulcou rio acima o Paraguay e, n’uma tarde de calor -intenso, foi desembarcar na capital de Matto-Grosso. - -Arrepender-se logo do que acabava de executar era sempre o primeiro -movimento do nosso viajante; por isso a elle mesmo não causou espanto o -desgosto que experimentou ao pôr pé em terra. - -—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, vir ter a uma terra, -onde nem sequer ha hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem ao -Sr. capitão de engenheiros Freitas.... - -E procurando nos bolsos uma carta de recommendação de que se munira em -Assumpção, sacou-a para lêr o sobrescripto e poder se orientar. - -—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo da Mandioca n. 10. - -Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta foi-lhe aberta por um -sympathico moço, a propria pessoa a quem o recommendavão. - -—Poucas relações tenho, disse o official correndo os olhos pela carta, -com quem me escreve, mas sinceramente acolho quem me traz a apresentação -com a maior satisfação e cordialidade. - -—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo no rosto de Freitas a -confirmação de suas palavras, me agrada sobremodo. - -—Pois então entre, e trate-me desde já senão como amigo, pelo menos como -camarada.... Onde estão as suas cargas? - -—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem sou.... - -—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um cavalheiro.... - -—Pelo menos o meu nome é indispensavel.... - -—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais que a carta de -recommendação nem sequer lembrou-se d’isso. É um cheque ao portador.... O -senhor chama-se meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome. - -Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel era que Alberto não -sentisse desvanecerem-se as primeiras impressões de máo humor. Tambem -d’ahi a pouco conversavão os dous como se o conhecimento datasse dos dias -de infancia. - -Para o homem acostumado a viajar nada custa menos do que a immediata -familiarisação. Qualquer com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre -algum agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo companheiro muito -estimado: outro com quem passe um dia inteiro é quasi um intimo, e se -houver então uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se -em amigo de data mui remota. - -Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se inseparavel de -Julio Freitas, o qual por seu lado fazia todos os esforços para tornar a -estada do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel. - -—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações sobre -Matto-Grosso, não é aborrecida, muito pelo contrario; mas é sempre uma -cidade de provincia. O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem o -espirito de quem chega e não conta deparar com povoação tão importante -e, pode-se assim dizer sem exageração, tão civilisada no meio de -immensos desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil, vive-se -por demais debaixo da influencia da côrte. Ha bonitas mulheres, bem -conversadas; dão-se brilhantes bailes; ha tal ou qual sociabilidade; -o commercio tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia, -nem de espirito, mas só se sente verdadeira vida quando chega a mala do -Rio de Janeiro. É o sol benefico que mandou um raiosinho de luz e de -calor para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento de abandono e -de desterro é que me fez sempre desejar ardentemente sahir d’aqui, mas -afianço-lhe que o meu contentamento pela volta, que está muito proxima, -não é de todo isento de certo aperto de coração.... e entretanto nada me -prende particularmente a Cuyabá.... - -—De modo que se houvesse algum liame, você não deixaria mais esta terra? - -—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa por ser perigosa, e, como -fallo a pessoa novata, recommendo-lhe que fuja das causas que o podem -reter para sempre n’este canto do mundo. - -—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se. - -—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente na meiguice das -mulheres, nas cabeças de pacús e caudas de pirapitangas. Trate, pois, se -não quer encalhar em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e de não -provar das extremidades d’aquelles dous peixes senão com muita reserva e -cautela. - -Se houve e ha com effeito esse risco para quem se demora na capital de -Matto-Grosso, Alberto soube tão bem resguardar-se, que quando, mez e -meio depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque no vapor _Alpha_ -com destino á villa de Miranda e a sua digressão pelo districto, antes -de seguir definitivamente para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para -partir e muito satisfeito com tão breve retirada. - -—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu passeio ás terras de Miranda -e Nioac.... - -—Mas é cousa muito rapida e incommoda.... - -—Não importa.... - -—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa Rosalinda no Brilhante e -voltar a Corumbá. - -—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os indios e estar com elles. -Vir a Matto-Grosso e não conviver algumas semanas com os seus amaveis -aborigenes, é falta imperdoavel em viajante de meu quilate.... - -—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás? - -—Estes não me servem. Estão já modificados pelo nosso modo de viver; -demais _aportuguezados_, já que não posso dizer _abrazileirados_. Em -Miranda encontrarei o que desejo e, mettido em alguma aldêa, pilharei _la -nature chez elle_. - -—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar á anthropologia, não -é? São estudos que agradão á muita gente, sem que por isso a sciencia -adiante um passo.... - -Eis explicada a razão por que se achava Alberto Monteiro na villa de -Miranda e fazia tambem seus preparativos para uma viagem ás terras altas. - -Partirão os dous moços por uma fria madrugada, montados em bons animaes -e acompanhados de tres soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso -que devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos em bruacas -ás costas de um valente burro de carga, redes, uma barraca de campanha, -pequenas malas contendo alguma roupa, erão condições para com muita -commodidade alcançar o povoado de Nioac, aliás pouco distante aos olhos -de quem está acostumado a viajar por terra. - -Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, cobertos, não -raras vezes em vasta extensão, de _piripiris_, juncos que mergulhão -as raizes n’agoa ou no lodo e morrem na época dos grandes calores. -Entretanto, logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, já pela -natureza da vegetação, já pelos córtes e margens elevadas em que correm -os regatos, que o sólo vai gradualmente se levantando. - -Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da povoação, a estrada -alarga e parece um caminho macadamisado, tamanha é a quantidade de -seixinhos rolados que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda -estende-se vistoso o cerrado: ha muito _umbú_ que embalsama os ares com a -fragrancia de suas flôres, grande cópia de _jatahys_, de _piquís_, cujos -fructos amarello-avermelhados são tão bonitos, e de _mangabeiras_ que nos -mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos saborosos e rubicundos -pomos. - -O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende como a lomba de uma -serrania, cuja vertente d’esse lado é muito suave e estendida. - -Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do _cerrado_ e deixa que -a vista ganhe espaço para a esquerda. Então dilata-se o horizonte, -e vêem-se campos ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco -amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, uma linha -tortuosa e escura de matta indica um grande rio, e no fundo, emmoldurando -aquella bella paisagem, ergue-se altanada serra, corôada de pincaros -escalvados e talhados de um modo tão sorprendedor, quão grandioso. - -O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que serpêa a procurar o -Mondego; a serra, a de Maracajú que em alguns pontos parece lavrada pela -mão de caprichoso genio empenhado em imitar com proporções colossaes -castellos, baluartes e outras construcções que tambem com pedra levantão -os fracos mortaes. - -Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, abatem-se as -terras. Então, de um lado, para o Norte, melhor se accentuão os -accidentes que esboçámos, e do outro, ao Sul, abrem-se campinas -extensissimas sem outro córte mais na sua uniforme expansão do que um -ou outro capão de matto em encontro pronunciado de declives, onde se -mantenha com persistencia a humidade precisa para o desenvolvimento de -vegetação mais vigorosa. - -A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de continuo na pedra -solta e roliça que forra o chão. - -—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo as redeas ao animal -para comtemplar com mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a -pena vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... admiravel! - -Depois do corrego de Eponadigo[1], o _cerrado_ fica mais fechado, de modo -que o viajante caminha em aléa encoberta dos raios de sol por grandes -arvores, algumas das quaes até são madeiras de lei, como o _jatahy_ e o -_vinhatico_. - -O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, escandescida que -foi pela reverberação dos campos desabrigados de Camapuan. - -Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se incommodado e no -pouso teve febre bastante violenta. - -—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o accesso, para quem, ha -muitos annos, não tem tido molestia. O que porém me acontece agora é uma -homenagem devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, pois. - -Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, estava elle bem disposto de -espirito, mas com o corpo alquebrado. Tomára uma beberagem de _quina do -campo_ que um dos soldados lhe havia preparado e transpirára muito. - -Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, com muito mais intensidade -d’essa vez. - -Estavão então os dous viajantes no _Agaxi_[2], corrego que atravessa o -aldeamento dos kinikináos, a meia legoa para lá da estrada, e procurarão -a sombra de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem. - -Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar a rede que lhe -havião promptamente armado. Á tarde, cahio em grande prostração e só se -reanimou quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador que -fizera durante todo o dia. - -—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente continuar a viajar -sem incorrer na pécha de imprudente, tanto menos justificavel quanto não -ha dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa de indios para mais -tarde e volte amanhã mesmo para a villa. Com duas dóses de sulfato de -quinina desapparecerão com certeza estes accessos, e eu, dentro em poucas -semanas, estou de volta a Miranda. - -—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento? - -—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. Se você estivesse de -saude, eu lhe proporia uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha, -é de prudencia regressar quanto antes. - -Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou Alberto, que -de manhã acompanhou Julio Freitas por um quarto de legoa na estrada de -Nioac, e, lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso onde esperou -tranquillo pela hora do accesso que, se foi pontual como um inglez, pelo -menos não veio com a costumada violencia. - -Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, uma robustez toda -especial que lhe parecerão prenuncio certo de total restabelecimento. - -—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado que Julio deixára ao -amigo para camarada, _ansim_ é que são as maleitas. Mas _vossuncê_ não -_percisa_ para sarar ir até a _cidade_; fique uns pares de dias na aldêa -e os ares de lá sacodem a _maldade_ do seu corpo. - -—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até me entregue aos cuidados -de algum velho kinikináo formado em medicina na escola da natureza e da -experiencia. - -Com essa nova intenção montou o moço a cavallo e, em vez de tomar a -estrada de Miranda e dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á -direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, levava com -pouca distancia ao aldeamento dos indios. - -O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio em clareiras quasi -regulares, formando o que se chama _potreiros_, denominação muito -popularisada pela guerra do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em -dimensões, era cortada a meio por um corrego encachoeirado, cujas agoas -crystallinas acompanhava densa e dupla orla de buritys e taquarussús. - -Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazivel e -socegada. - -—Que bello canto do mundo para a gente viver tranquilla e esquecida, -exclamou Alberto. - -E, voltando-se para o camarada: - -—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são já da aldêa? - -—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o velho Morevi, kinikináo muito -meu conhecido e que é _mandingueiro_. - -As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava o moço, assentavão -n’uma elevação de terreno e dominavão todo aquelle restricto valle. -Feitas de pouco e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, de -frente muito baixa e com uma fenda estreita no meio que lhes servia de -porta. Diante da mais espaçosa d’ellas, um bambú, ornado de comprido -trapo vermelho a ondular no tope, indicava a morada de algum indio de -importancia, capitão sem duvida ou então _padre_, que exerce as funcções -de sacerdote cumulativamente com as de medico e de prestigiador. - -Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos com a maior -benevolencia por um idoso kinikináo que sentado á porta levantou-se com a -presteza que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura para cima, -tinha uma especie de saia que lhe descia aos calcanhares, toda ornada de -vidrilhos e contas de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados -de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas feitas com o succo -do urucú e do genipapo, mas aquelles signaes, destinados principalmente -a incutir terror nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de -tijolo queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão natural -de timidez e bondade que caracterisa em geral a physionomia dos indios -guanás e kinikináos. - -Nem sequer parecia possuido da importancia que a sua posição de -feiticeiro devêra lhe angariar, pois sem a menor hesitação estendeo a mão -a Florindo e saudou-o com provas até de respeito. - -—_Unatiti?_[3] perguntou rindo-se e mostrando uns dentes alvissimos e -ponteagudos, ao passo que duas linhas de urucú e genipapo, acompanhando o -enrugamento da pelle, formavão dous circulos ao redor da boca. - -O soldado respondeo tambem em lingua chané[4] e explicou-lhe que aquelle -companheiro era _capitão_[5] e pretendia ir até a aldêa para curar-se de -sezões. - -—_Quixauó!_ exclamou Morevi, _carineti tchikiiti_.[6] - -Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto pousar ao menos uma noute -n’aquelle bello lugar, pelo que encarregou Florindo de obter a posse de -uma das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, tanto mais -quanto na occasião não tinha ella occupante. Na outra morava uma india de -meia idade, cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as vistas -de um homem branco e artista de coração. - -A installação fez-se com presteza. Depois de bem varrido o chão de barro -batido, forão as ligeiras cargas do viajante depositadas a um canto e a -sua rede suspensa ás traves mais grossas que servião de mourões á palhoça. - -Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade um punhado de sal, que -elle embrulhou cautelosamente como preciosidade inestimavel. - -Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um vistoso collar de -vidrilho e contas de ouro que devia lhe ornar o encarquilhado pescoço, -então a sua gratidão não conheceo limites e despegou-lhe, depois de muito -gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras quasi sem nexo, umas em -seu idioma, outras em portuguez estropeado. - -—Este _lavrado_[7] não é para mim, disse elle afinal mais calmo a -Florindo, é para a minha neta. Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um -_nadinha_ estará batendo de volta. - -Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada da clareira, para -lá do corrego. - -—É Ierecê[8], exclamou Morevi apontando para aquelle lado, é a minha neta! - -E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice brilharão de -orgulho. - -Vinha se approximando uma mulher de altura regular e pórte elegante. -Ao chegar á corrente abaixou-se e encheo vagarosamente uma vazilha de -carregar agoa que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. Depois -adiantou-se sem acanhamento, acostumada como estava a vêr gente de -Miranda na aldêa dos indios seus patricios. - -Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, a que chamão -_julata_ e que, preso por volta muito apertada logo abaixo dos seios, -desce até os calcanhares, e mostrava ter quando muito quinze annos -idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas localidades em que -o desenvolvimento da puberdade, já de per si precoce, é quasi sempre -apressado. - -Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer parte do mundo -prendido as vistas. Se a fronte era estreita, os olhos um tanto obliquos -e as sobrancelhas pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos -e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz tinha uma -rectidão caucasica; os labios parecião tintos de carmim e a cabelleira -negrejante, bem que aspera, espargia-se por um collo e seios admiraveis -de contorno e de pureza. Para completar o typo de uma bella moça nem -sequer lhe faltavão pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de -cuidadosa attenção. - -A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do chocolate desmaiado -em leite, tão desmaiado que quando qualquer impressão mais viva ia -entender-lhe com o coração, as suas faces se accendião vivas de rubor. - -O que, porém, mais prompto e doce sobresalto causava em que para ella -deitasse os olhos, era, em vez da apathia estampada geralmente no rosto -das mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza que lhe -pairava na physionomia. - -A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, não passou -despercebida do velho avô que com isso pareceo sentir viva satisfação, -partilhada de resto pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar -que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida para aquelle -estrangeiro e sorrio-se para elle, deixando vêr no encrespar dos mimosos -labios uns dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá. - -—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto. - -—_Acó_, respondeo Morevi, _pae tchoronó-unó_, filha tambem: mãe só -_koinukunó_.[9] - -—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade. - -O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle juizo enthusiastico e -tomou um ar benevolo e philosophico, de homem já alheio á paixão e que -deixou á mocidade o direito de sentir aquellas commoções. - -—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou elle com alguma pausa e -gravidade. Hade lhe dar comida e roupa. - -Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, pegou-lhe na -dextra e, abrindo-a, n’ella collocou a delicada mão da neta, ao passo -que murmurava umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados. - -Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia perfunctoria que a -ligava, segundo os costumes de sua gente, a aquelle homem desconhecido -por um laço que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se -completamente indifferente. - -Uma só cousa a occupava: era o collar de contas de ouro que no seu peito -os ultimos raios de sol illuminavão de pontosinhos scintillantes como que -a desferirem chispas, que lhe aguilhoavão docemente a feminil vaidade. - - -CAPITULO II - -A primeira semana correo para Alberto alegre e animada. Desapparecêra de -todo a febre, e elle se sentia como que retemperado pelo socego do retiro -em que vivia. - -De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava quando o sol ia alto -e que o calor apertava, trazendo sempre pesada enfiada de passaros, uns -notaveis pelo tamanho, outros pela plumagem. - -A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com uma cestinha de -fructas da terra, bananas, mamões e jaracatiás, ou outros mais incultos -como o mureci dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou a uvaia, -que, apezar do sabor agreste agradão bastante ao paladar. - -Apenas chegada a caça, a india a depennava com ésmero antes de entregal-a -aos cuidados de Florindo que tomára a si o preparo da comida, no que -mostrava algum talento bem que usasse, para os misteres da cozinha, da -gordura geralmente empregada em Matto-Grosso: a graxa de boi. - -Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto ia conversar com -Morevi e tomar lições de lingoa chané, com cujas palavras mais notaveis -procurava coordenar um ligeiro vocabulario. - -Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, erão todos -elles devidos ás indicações de Ierecê que se admirava muito dos esforços -que aquelle branco empregava para vir a fallar como se fôra indio. - -Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo. - -Na choupana ao lado, o avô continuava em suas praticas de devoção e vivia -completamente estranho ao casal. - -No fim da primeira semana de estada no Hetagati[10]—assim se chamava o -lugar—foi o soldado Florindo despachado para a villa de Miranda, afim de, -com a necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, fructos -seccos, conservas, diversos córtes de fazendas e tudo quanto podesse ser -de mais immediata necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle -local. - -Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas duas garrafas -de agoardente de canna e varias braças de bom fumo goyano que erão -destinadas ao complacente Morevi. - -Com a chegada de uma peça de chita franceza, Ierecê deixou o trajo -nacional e primitivo e cobrio o esbelto corpo de um vestidinho que -Alberto deo-se ao trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho -da costureira, tão desageitada em seus movimentos, quão impaciente por -terminar e poder envergar aquella roupagem nova. - -Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, mais alta e vistosa -parecia com a saia escorrida e a camisinha alva que lhe cahia dos -hombros, repellida pela rebeldia dos seios. - -Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo a physionomia: muita -brandura, tristeza e alguma curiosidade. - -A principio Ierecê considerára Alberto como um ente de natureza superior, -a quem devia obediencia céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; -depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento ao vêl-o -tão occupado de tudo quanto podesse lhe realçar a natural belleza ou -agradar ao seu espirito. - -Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho e alegria, -quando aquelle _portuguez_[11], de fronte alva e espaçosa, lhe arranjava -com singular paciencia os abundantes cabellos, formando caprichosos e -sempre novos penteados?! - -Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados e a boquinha -entre-aberta de admiração, as narrações, umas reaes, outras phantasticas -que elle á tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a relva -diante da choupana, vião o sol se esconder por detraz da matta e a noute -subir da terra para os céos?! - -N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as sombras da natureza -parece quererem tambem invadir. Entretanto era quando o coração de -Ierecê pulsava com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado da jaó -acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra o bacuráo atirasse -aos ares as plangentes notas da aspera garganta. - -A sua faceirice natural e innocente era ajudada por intelligencia vivida -e pela delicadeza de instinctos: assim para logo desterrou do rosto e -braços as pinturas que costumava traçar com urucú e genipapo; deixou -de cuspinhar, como fazem a cada momento os indios e de comer rapida -e vorazmente, empenhando-se emfim por merecer applauso pelo abandono -prompto d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o modo de viver -civilisado. - -Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou com modestia os -seios, trazendo sempre diante do peito um lenço preso á cintura por duas -pontas e atado pelas outras ao pescoço. - -O que era bom e poetico, ella conservava; assim, frequentemente -entretecia capellas e collares de flores para os cabellos e braços e -todos os dias renovava a elegante palma ou a folha de samambaia mimosa -que, segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte como verdejante -pennacho. - -Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois, observando a -bondade com que a tratava Alberto, arriscou algumas palavras em chané, -logo após em portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a mais não -poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua lingua, ora na outra, que -ella entendia perfeitamente, por isso que fôra criada na aldêa do Bom -Conselho, perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do missionario -frei Marianno de Bagnaia as aguas do baptismo e o nome christão de -Sylvana. - -Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso capuchinho lhe -ensinára na aula de catechismo, só conservára o signal da cruz, symbolo -que nunca deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se deitar. - -Uma vez quebrada a barreira de constrangimento que a separava de Alberto, -nasceo no espirito da india o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. -Então por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças felizes, -ora ornava o interior da choupana de flores e de festões de folhas, -ora contava historias de sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e -custoso, ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com desenhos de -variegadas côres para ser atada á cintura de quem a possuia, ora porfim -mostrava-se repentinamente amuada para logo voltar ás boas com um excesso -nunca visto de momices e caricias. - -Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de suas excursões pela -matta, occultava-se Ierecê por traz de alguma arvore possante e cahia de -chofre sobre elle com o fim de assultal-o. - -Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, como solta um peito -que não sente cuidados. - -Em começo, a india mal deixava os arredores da choupana, chegando quando -muito até o ribeirão. Depois alongou os passeios, só com o fim de ir -apanhar passaros que tivessem pennas mais formosas e brilhantes do que -os que trazia o caçador. Com visgo natural que tirava da mangabeira para -armar arapucas e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os -vivos, e voltava, então, pulando de contente deposital-os nas mãos de -Alberto depois de ligar-lhes as azas ao corpo por meio de uma embira -larga. - -Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um arsinho seductor, -irresistivel. - -Se havia prazer em prender os mimosos volateis, maior, sem comparação -possivel, experimentava ella quando Alberto lhe pedia a liberdade para os -prisioneiros. - -Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre á tarde, com luz -bastante para que os passarinhos podessem ir buscar os seus pousos de -querencia. Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um por um a -Alberto, que era quem desatava o cordel que lhes impedia o vôo. - -O animalsinho disparava palpitante de medo com direcção á matta, e Ierecê -seguia-o quanto podia com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os -olhos carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso para com todos -os filhos da natureza. - -Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse a achar a vida -que levava um tanto monotona, não podia eximir-se da satisfação suave -que em todos produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar os -progressos da paixão que accendêra no peito da indigena, sem querer -entristecia-se e procurava arredar da lembrança a necessidade de em breve -dar fim áquella ligação passageira. - -O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse sorrir ao espirito do -moço, tratava ella, na medida de suas forças, de conseguir logo: plantas -raras e curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, conchas -do rio e insectos, objectos emfim mais ou menos approximados pela côr e -fórma a qualquer outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção e -que immediatamente a ella servia de typo para as amorosas pesquizas. - -Então como se pagava de um olhar de agradecimento, de um sorriso, um -gesto?! Seos olhos inquietos estudavão a impressão que a physionomia do -mancebo lhe havia de denunciar. - -As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores do Rio de -Janeiro excitavão-lhe vivamente a imaginação. A descripção do trajo das -mulheres e da mudança continua das modas sobretudo a encantava de um modo -singular. - -—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma vez com fundo suspiro. - -—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço. - -—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das _portuguezas_ tão alvas e -bonitas. Eu nasci para o matto. Depois na cidade minha gente morre toda -de bexigas. - -Florindo dava-se muito bem com a india: ella o ajudava no preparo da -comida; ia buscar fogo; corria a encher no ribeirão a bilha d’agua; -respigava para a cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha -espontaneidade que o soldado, apezar da fleugma natural, deixava-se levar -a lhe querer muito bem, o que manifestava a Alberto, respeitando na -mulher a posição do seu camarada. - -—Ó vossa senhoria,[12] dizia elle, esta _dona_ parece mesmo, com sua -licença, filha de feiticeiro. Nunca vi uma creatura, com perdão da -palavra, de melhores modos. Prende deveras o coração da gente. - -Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, pelo menos tão -calmo. Nada lhe perturbava a paz do espirito, e como a saúde voltára -completa, vivia sem consciencia exacta do tempo que passava. - -A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. Densa cintura de matta -virgem limitava logo o horizonte; em compensação, porém, os olhos erão -obrigados a parar demoradamente nos grupos de buritys e taquarussús que -acompanhavão o percurso do corrego e que mais se condensavão em torno de -uma bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão sobre um fundo de -areias prateadas. - -Ahi era o banho de Ierecê. - -Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio do valle com -um canto lugubre, cortado de notas agúdas e desafinadas. Para essas -barulhentas vigilias é que se trajava do modo em que o encontrára Alberto -no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda enfeitada de lentejoulas, -presa á cintura por um talim bordado a contas de côr e corpo riscado de -urucú e genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal erão um -espanador grande de pennas de ema, ornado de desenhos caprichosos e um -chocalho que sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar e -recuar, um couro sem pello estendido diante da porta. - -Erão as conferencias do feiticeiro com o _acauan_, especie de gavião -pequeno que solta guinchos finos, accentuando as syllabas que lhe derão o -nome—a-ca-uán—passaro agoureiro no dizer dos indios e com cujas consultas -podem os padres descortinar o futuro. - -De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada longa: de repente -ouvia-se muito ao longe o grito do milhafre a que o velho respondia -com voz de supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim parecia -acontecer. Os pios vinhão se tornando cada vez mais distinctos e afinal -os ares estrugião com um estridente hymno de triumpho em que o rouquejar -do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho. - -Ahi começavão as revelações. - -Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e pela perfeição com -que era imitado o gritar do acauan, foi observar o velho e ouvir-lhe as -descompassadas cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por ser -interrompido no melhor do somno. - -Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos empregou, apoiados em -dadivas e promessas, que nunca mais aquella grita dissonante perturbou a -tranquillidade das noutes. Se continuarão as consultas ao acauan, forão -sem duvida feitas com toda a modestia em voz muito baixinha, para não -incommodar o _portuguez_. - -Em compensação, se, para socego dos ouvidos, calava-se Morevi, a netinha -cantava melodias de sua nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas, -mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava um somno doce e -enervador. Ella cantava como cantão os passarinhos que para unica musica -tem só duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta para o seu -passatempo... mas assim mesmo não agrada tanto ouvil-os?! - -Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê cheia de alegria, mas -tolhida de vexame, principiava toda a corar e a empallidecer, balbuciando -e murmurando: depois, firmava a voz e desprendia do peito notas -repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão como partidas das -cordas do coração. - -Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e alçava preces de amor -a quem o captivára. - - * * * * * - -Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia de luz branda e -azulada. - -A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o ribeirão parecia -desdobrar-se em laminas de prata. Pontos scintillantes corôavão a -folhagem compacta das palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando -vivamente, estendia pelo chão compridas sombras que semelhavão columnas -derrubadas por terra. - -Ierecê preparára uma sorpresa. - -Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas indias kinikináos para -virem passar a noute no Hetagati. - -Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, vestidas com -a tradicional _julata_ que lhes deixava descobertos os seios pequenos -e empinados. O typo era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das -companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. Tinha pórte mais -altivo, physionomia mais expressiva e intelligente. - -Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se ao seu encontro. - -A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela mão a visitante que lhe -pareceo mais bella, caminhou para o mancebo: então, entre risonha e -medrosa, disse-lhe que d’ora avante se considerava vencida em formosura e -cedia o seu lugar a quem mais o merecia. - -A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo e mais exaltou a -alegria de Ierecê. - -Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem os seus individuos -sempre dispostos para comer. Foi por isso que, havendo Florindo sido -avisado de antemão e preparado lauta refeição de porco do matto, -palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas sem demora -satisfazer a sofreguidão do appetite. - -Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se com grande e festivo -ruido. - -Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana uma ramagem fresca -e odorifera, sobre a qual estendeu um panno alvo, afim que Alberto se -deitasse, e mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella e as -companheiras ião executar. - -Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle de anta e entoou uma -canção de andamento vivo. - -Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se puzerão em linha e n’essa -disposição avançárão e recuárão diversas vezes com passo fingidamente -tropego: depois, soltando as mãos, compozerão varias figuras ou em -grupos de tres, ou correndo em circulo umas atraz das outras, antes de -reformarem a linha primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e unia -a sua voz á do rouquenho cantor para animar o dansado que se accelerava -e mais calor e vivacidade tomava com os gestos elegantes e posições -voluptuosas, quasi lubricas, das bailarinas. - -Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que peccava, não pelo -afinado das vozes, mas pela falta absoluta de variedade, razão pela qual -Florindo observou com graça que aquella musica havia de agradar muito -quando a gente estivesse a dormir. - -Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, Ierecê deo por finda a -funcção. - -Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou caso de polidez e justa -condescendencia mostrar-se plenamente satisfeito e divertido. - -Quem não cabia em si de contente era a guaná. Sem contestação dansára com -mais graça do que as outras, provocando sempre os applausos do branco, -cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender e a partilhar, -tanto assim que não deixou ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar -as visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute ao velho Morevi. - -Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens kinikináos e, puxando -para fóra o couro que lhe servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao -relento. - -De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se as indias, levando os -presentes que mais podião lhes agradar: sal, chitas, espelhos, contas, -agulhas, e os restos do banquete da vespera. - -Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, mas não quiz chegar -até a aldêa. - -No entretanto os dias e as semanas havião passado, e Alberto não dava -mostras de perceber isso. - -—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, quanto tempo faz que estamos -aqui? - -—Talvez um mez, não é? - -—Já lá vão dous, rectificou o soldado. - -Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou ser exacta a conta. - -—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito deve estar de volta!... -Como é que não appareceo por cá? - -—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac para Miranda pelo -Lalima. Fazia V. S. na _cidade_ e foi para lá em rumo certo. - -—Então de Nioac ha outro caminho que não este? - -—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas mais _arriba_. Ahi ha uma -estrada que vai de parelha com o rio Miranda. - -—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar á minha espera. É -preciso que eu chegue até a villa. Amanhã.... talvez.... - -No dia seguinte o projecto de partida não se realisou. - -—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. Você é quem seguirá -para Miranda montado no meu animal. Entenda-se com o Sr. capitão, -diga-lhe que estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada até cá. -Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos. - -O camarada, á noutinha, preparou uma passóca para a viagem. - -—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê vendo-o occupado n’aquelle -mister. - -—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo até a _cidade_. - -A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a mesma pergunta e ouvio a -mesma resposta. - -Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava de tristeza e um -presentimento doloroso agitava-lhe a alma. - -Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita agitação, debalde foi por -vezes pedir ás agoas do corrego refrigerio para o calor e o mal estar que -não lhe permittião quietação. - -Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o apparecimento matutino de -Julio Freitas a cavallo, acompanhado de um morador da villa. - -Elle deo grandes brados ao avistar Alberto. - -—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido n’este lindo retiro e os -outros com cuidados de sua pessoinha! - -Os dous amigos se abraçárão affectuosamente. - -—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi uma semana, fiquei pasmo -de não encontrar a você. Pedi noticias suas, não m’as souberão dar.... -Então suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos kinikináos e vim -em pessoa arrancal-o, morto ou vivo, de seus estudos anthropologicos..... -E as febres? - -—Ha muito que já se forão.... - -—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado com expansão. Que -soberbos boritys! Você é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos -batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, sua senhoria, deitado -á sombra dos taquarussús, deixava o tempo correr mansamente como as aguas -d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que diz, Sr. João Faustino? -Ah! deixe lhe dar o conhecimento d’este amigo de Miranda. É um morador -da villa, pessoa que estimo muito e que conheço desde Cuyabá. - -Alberto apertou a mão do apresentado, homem de meia idade, rosto moreno, -physionomia amena e franca. - -—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me até cá, porque vem -contractar uns indios para irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um -optimo companheiro para a folia e para o perigo, homem com quem se póde -contar. - -Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu amigo e a João -Faustino, estes não poderão occultar a admiração que lhes causava a -venustade da india. - -—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia voz. Palavra de honra, Alberto -teve faro. - -—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê em lingua chané que elle -fallava com perfeição. - -—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde que estou aqui, os -_paratudos_[13] já derão flôr cinco vezes. - -Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, homenagem inequivoca -á sua formosura, por seu turno recebeo um choque immenso. De momento -percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar o ente a quem ella prezava -n’este mundo só, acima de tudo. - -Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida ainda possivel, -qualquer esperança que podesse affagar, fugio-lhe para logo do espirito. - -—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida tem sido um paraiso.... - -—Passei bem... - -—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. N’estes dias devemos -todos partir de Miranda. Não sei se você quer ficar.... Ah! a proposito, -trago-lhe uma carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... Não; -está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso chegou de Cuyabá, de modo -que a data não póde ser muito antiga. - -Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e uma nuvem correo-lhe -pelo rosto. - -—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios na Côrte. O banqueiro -em que tenho algum dinheiro está, pelo que me escrevem, um tanto -abalado... - -—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é de brinquedo! A sua -presença é indispensavel e quanto antes... - -—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso partir. - -Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro d’alma parecia-lhe -que a sua hora de morrer vinha chegando. - -Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, confessou a Julio -Freitas e a João Faustino que sentia bastante desgosto, quasi remorsos, -em deixar Ierecê. Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem -abandonal-a de chofre... - -—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, você não póde ficar aqui -anniquilado!... Fôra quasi um crime!... - -—De certo, porém... - -—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar a resolução é que é -máo... - -—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se que os indios esquecem -depressa. Ierecê poderá ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois -consolar-se-ha... é... - -—É a lei universal, concluio philosophicamente Julio Freitas. - -Alberto nada replicou. - -—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem que olhasse para -esta pobre creatura, lhe désse de vez em quando alguma cousa para a sua -subsistencia... - -—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. Ninguem melhor do que -elle se incumbirá de tudo... - -—E com a maior satisfação, confirmou o outro. Estou completamente ao seu -dispor para tudo quanto fôr do seu serviço.... - -—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito os seus offerecimentos -sinceros... Sobre o mais, conversaremos com vagar em Miranda. - -—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto amanhã para a villa. -No fim de poucos dias parte de lá o vapor, e não podemos perder uma -occasião d’essas... - -—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu ficarei mais uns dias, e -no domingo estarei em Miranda. - -—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se. - -—Infallivelmente... - -—Veja se vai perder o vapor... depois não teria outro remedio senão -descer em _igarité_ para Corumbá... viagem vagarosa e massante.... - -—Não... eu partirei no _Alpha_, afiançou Alberto. - -De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão. - -Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas novidades, mas, quando -vio os visitantes partidos, olhou para Alberto com tamanha angustia, -tanta expressão que este ficou todo perturbado. - -—Que tem você? perguntou elle. - -—Nada, respondeu a india... - -—Você está doente? - -—O corpo não está, mas isto está ficando... - -E apontou para o coração, accrescentando. - -—E para sempre. - -Depois tornou-se silenciosa. - -Á hora da refeição recusou comer e com a approximação da tarde tornou-se -muito agitada. Ia e vinha do corrego para a choupana a passo lento e com -o ar de completa distracção. Debalde Alberto procurou gracejar com ella: -nem se quer um sorriso melancolico desdobrou-lhe os labios contrahidos. -Tinha os olhos seccos e brilhantes. - -A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais augmentou-lhe o -desassocego: por vezes sahio para fóra da palhoça e respirou sofrega o ar -frio da madrugada. - -Havia um luar tristonho de mingoante: o valle estava frôxamente -illuminado e ao longe ouvião-se os _quero-queros_ que gritavão nas matas -do Aquidauána. - -O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A certeza de que uma grande -desgraça estava imminente sobre a sua cabeça a acabrunhava. - -Voltou para a choupana e parou perto da rede em que dormia Alberto. - -Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou levemente no hombro do -moço e acordou-o. - -—Então, disse ella, _unái_[14] vai-se embóra? - -Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio da noute, e entretanto -quanto esforço assim mesmo lhe custára essa pergunta! - -—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto sentando-se na rede. - -—Forão aquelles homens máos que vierão buscar _unái_. - -—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio. - -—E que será de Ierecê? - -Alberto não poude de prompto acudir á interrogação. - -Estava vacillante. - -—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se lembrar de mim. Deixo -ordem a João Faustino para que o seu avô tenha dinheiro e roupa.... - -—E _unái_, perguntou ella, parando em cada palavra, nunca mais hade -voltar? - -—Volto.... - -Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente. - -De manhã a sua physionomia estava toda alterada. A mão pesada da dôr -havia pousado sobre o seu rosto e, tirando-lhe o colorido das faces, -traçára circulos rôxeados ao redor dos olhos. - -Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e até ordens imperiosas -de Alberto, ella nada comeu. Acocorada em um canto estava sombria. -Parecia doente; teve um pouco de febre. - -Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, decidio elle partir -antes do dia em que pretendêra sahir do Hetagati. - -Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte fazia-se de viagem. - -O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: pelo contrario -desejou-lhe toda a sorte de felicidades pelo regresso e cobrio-o de -bençãos quando soube que tudo quanto continha o rancho ao lado viria a -pertencer-lhe desde logo. Com a posse de duas redes, alguns cobertores, -espingardas, polvora e chumbo, pelles, facões, um par de tamancos e -varias notas de papel-moeda, julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de -riquezas inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente o maior -reconhecimento a quem se despedia por modo tão generoso. - -Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, que Morevi deixou-o -montar a cavallo. - -Ierecê tinha se ausentado. - -O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, disse com os olhos um -adeos eterno áquelle recanto e fazendo um gesto amigavel ao velho, partio -á hora em que o sol ia quasi chegando ao pino. - -Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, quando n’uma das -voltas vio Ierecê mais adiante sentada n’um tronco de arvore cahida e á -sua espera. - -Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, mas não poude e -deixou que o cavalleiro se approximasse mais. Então chegou-se tremula -e, encostando a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel -apertando de encontro aos labios a mão do seu amado, ao passo que -lentamente lhe descia pelas faces uma lagrima, uma unica, mas de fogo que -devorava para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente de vulcão -a abrir sulco fundo e devastador. - -—_Biónne_[15], disse-lhe o moço sinceramente commovido. - -—_Pehehêvo_[16], respondeo ella, _pehehêvo_! - -Levantou então os olhos e contemplou ainda uma vez aquelle que ia deixar -para nunca mais vêr; depois voltou as costas e com passo vagaroso tomou -rumo de sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora deserta.... -deserta.... - -Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como india que era, o balsamo -das lagrimas, esse orvalho das almas malferidas. - -Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous dias chegou á villa de -Miranda. - - -CAPITULO III - -Julio Freitas se occupára activamente do regresso, e, como o vapor -_Alpha_ estivesse prompto para seguir viagem, veio a presença de Alberto -dispensar outra qualquer demora. - -—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois de dar a João Faustino -as instrucções relativas ao valle do Hetagati. - -A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, como se houvera praticado -uma acção má. Não era propriamente paixão o que sentia por aquella india, -mas uma immensa commiseração acompanhada de verdadeira amizade. - -Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados da partida. Na -manhã seguinte o vapor levantava ferro. - -Á tarde estava Alberto conversando com João Faustino á porta da casa -d’este, uma das raras cobertas de telha, na rua da Matriz, quando avistou -um velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se pelo caminho, -prostrados de fadiga. - -Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de cansaço e de fraqueza. - -Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e leval-a para o -interior da casa em que se achava foi o que fez Alberto com a maior -espontaneidade, sem hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores -que podessem o censurar. - -O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se cahir pesadamente no -chão ao pé da porta. - -Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão mudada, que não teve -animo. Ella tinha as faces encovadas e tremia de frio e emoção. - -—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço querendo tomar sério conselho -n’aquella contingencia. - -—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha mostra dedicar-lhe -uma affeição verdadeira, mas por isso ficará o Sr. retido n’estes -sertões? E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha passado por -transes d’esses, mulheres da mais alta sociedade e fortuna, quanto mais -estas infelizes que se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a -para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo e de continuo -vexame. Além d’isso os encantos de Ierecê que agora podem parecer -irresistiveis, perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados -que sejão com as bellezas que a arte e a civilisação fazem realçar. As -suas relações que aqui erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em -qualquer outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. Parta! -Escrever-lhe-hei de vez em quando, mostrando-lhe que cumpri exactamente -com todas as suas ordens. - -Á noutinha a india comeo um pouco, depois de muito instada. O avô porém -precipitou-se sobre a comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos -aquelles dias passados. - -A final chegou a hora da partida. - -Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um olhar de cólera -concentrada para o navio que lhe roubava o amante. - -Parecia, comtudo, calma. - -Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção da gente que acudira a -vêr o embarque, occupava-se activamente de suas cargas; antes porém de -saltar na canoinha que o ia levar ao _Alpha_ já sobre rodas no meio do -rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito rapidamente mas com força e, -retendo a custo as lagrimas, depositou-a nos braços de Morevi. - -Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha das selvas e da -inculta natureza desmaia, é que a dôr a esmagou com mão de ferro n’um -paroxismo horrivel; é que o seu coração estalou n’uma contracção de -agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou não chegada a hora de -sahir d’aquelle corpo para ir buscar outro mundo, outros destinos. - - * * * * * - -Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de Janeiro, Alberto Monteiro -recebeo da mala de Cuyabá uma carta extensa que, datada da villa de -Miranda, logo ás primeiras linhas o abalou fortemente. - -Era de João Faustino. - -«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão infelizmente erroneas. -Ierecê, a bella virgem do Agaxi, já não existe. - -«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade de chegar ao -Lauiad e como o desvio da estrada era insignificante, fiz uma visita ao -valle de Hetagati. - -«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte d’aquella bella creatura. -Quando assomei á porta do seu _rancho_[17], ella deo um grito de jubilo -e, reconhecendo-me logo, fez gesto de querer levantar-se da rêde em que -estava deitada. - -«Sua magreza era extrema. - -«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella se mostrára, á sahida da -villa, tranquilla e resignada. - -«—_Unái_ volta? perguntou-me ella com anciedade que me cortou o coração. - -«Julgei de caridade mentir. - -«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do Rio de Janeiro. - -«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados labios, e os -seus olhos empanados ainda podérão fulgir. - -«Depois não disse mais palavra. - -«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê áquelle estado em tão -curto prazo. Contou-me então que desde a volta ao Hetagati, a sua neta -não quizéra ou não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. Uma -tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda mas continua lhe minava -as fontes da vida. Debalde, como feiticeiro, conferenciára elle com o -acauán; debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; debalde, como -medico, chupára o lugar em que batia o coração para ir cuspir n’uma cova -distante o terrivel mal—a nada cedêra a molestia mortal. - -«—O _portuguez_, disse-me em voz baixa Morevi, levou a alma d’ella. - -«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver. - -«Estava como que adormecida, arfando um pouco. De vez em quando parecia -querer sorrir. - -«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, pedio agoa e expirou, -pronunciando em voz, mais e mais baixa, um nome que o senhor hade -conhecer. - -«—Alber...to... Al...ber...to! - -«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse ás expansões de dôr -tumultuosa como usa a gente de sua nação, de modo que aquelles uivos e -gritos selvaticos com que os chanés pranteão a morte dos parentes, não -perturbarão o socego do valle em que tanto havia soffrido um coração. - -«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella bella mulher na rede -e enterrei-o no chão do rancho, conforme ella desejára e poucos dias -antes pedira ao seu avô. - -«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura. - -«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo symbolo da religião -do Deos, cujos labios sagrados perdoarão a aquelles que havião durante a -vida amado muito.» - - * * * * * - -Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje a recordação do amor de -Ierecê ennuvia-lhe o espirito e constringe dolorosamente o seu coração. - - -FIM DE IERECÊ A GUANÁ - - - - -DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA - -PROVERBIO EM 1 ACTO - - -PERSONAGENS - - Manoel Ribeiro, capitalista. - D. Rita, mãe de - Isabel. - Antonio da Fonseca, tio de - Miguel Faria. - João de Siqueira. - Alfredo Rocha, primo de Isabel. - Ignacio Lemos, pae de - Alberto Lemos. - Um criado. - -A scena passa-se no Rio de Janeiro. - -Época—1871. - - -DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA - -PROVERBIO - - -ACTO UNICO - - -SCENA I - -Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, uma mesa com -tapete de gosto. Nos consolos jarras com flôres. Portas lateraes e ao -fundo. - -MANOEL RIBEIRO, FONSECA. - -RIBEIRO (_passeia de um lado para outro, ao passo que Fonseca está -sentado junto á mesa_).—É como lhe digo, meu amigo; tudo póde se -arranjar... - -FONSECA.—Então não lhe desagrada a minha proposta? - -RIBEIRO.—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a esperava... Combinei -certas cousas... vi em você uns ares. É que não sou nenhum palerma: -previ que breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, minha -mulher... - -FONSECA.—Nós todos o conhecemos como homem sagaz. - -RIBEIRO (_com simplicidade affectada_).—Sagacidade, não: alguma -penetração... e quer que lhe diga uma cousa? (_parando diante de Fonseca -que se levanta_) essa penetração não se desenvolveu como devêra por causa -da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia nascido para alguma -cousa de grande n’este mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim -de contas? - -FONSECA (_com calor_).—Oh! meu amigo, capitalista e muito forte!... Que -se póde desejar mais? - -RIBEIRO (_levantando os hombros_).—Qual!... E a gloria, Snr. Fonseca? A -gloria? - -FONSECA (_com sorpreza_).—Que quer você com a gloria? - -RIBEIRO (_apressadamente_).—Sim... ter um nome celebre, conhecido... -ouvir a boca da fama apregoar os nossos triumphos, nossas façanhas... -vêr-se apontado... sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... -Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: eu quizéra agora, -n’este momento, ter só uma côdea de pão duro que roer, comtanto que -tivesse a certeza de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro -cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever um poema em -cincoenta cantos ou um romance em trinta volumes... compôr uma marcha -solemne para oitocentos e cincoenta professores (_com muito fogo_) -hen? Que satisfação!... Como se deve ficar cheio!... Isso sim... isso é -viver. Tudo o mais não passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse -simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo aquillo é que eu -nascera:... entretanto... - -FONSECA.—Entretanto? - -RIBEIRO.—Desde os meus primeiros annos vi contrariada a minha vocação... -Nasci na opulencia, cresci na riqueza, fui obrigado a cuidar de -meus bens, a augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se foi -extinguindo o fogo sagrado que em minha mente ardia, e que a miseria e o -desgosto terião feito medrar como chamma devoradora... - -FONSECA.—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais... - -RIBEIRO (_com ar desabusado e puchando o beiço_).—Eu poeta?... Aos -cincoenta annos... depois de trinta de casado e bem casado?!... Já -com uma filha em estado de tomar estado?!... Você então não conhece o -poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, namorador das -estrellas, apaixonado louco de quanta mulher encontre, versejador em cima -das fogueiras da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, choramigador de -desgraças por que nunca passou... de cotovelo rôto e chapéo amassado -(_parando de repente e com satisfação_). Sinceramente agrada-me esta -descripção... fui feliz devéras. (_Mudando de tom_) Se o poeta fôr velho -então é philosopho... ou calvo como um urubú, ou possuidor de guedelha -inculta e rebelde... unhas compridas, olhar desvairado, cantará as -delicias da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará da -salvação da humanidade. Mas, no meio de tudo isso, como a gente sente -o coração bater! Quantas alegrias, quantas doçuras nas privações... No -juizo dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o poeta não -troca as suas illusões pela fortuna de um principe... de um nababo... - -FONSECA.—De um Ribeiro... maganão! - -RIBEIRO (_sorrindo-se meio resignado_).—Que quer você? Não tenho outro -meio de me celebrisar... Custei a consolar-me... custei!... Tambem não -estaria casado... não teria uma filha que é preciso dotar... Uma vez -nestas condições é melhor... que eu possua algum dinheiro nos bolsos -do que muitos versos na cachola. (_Rindo-se, approxima-se de Fonseca a -piscar um olho_) Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, não -é? Diga com franqueza... - -FONSECA.—De certo os encargos de familia... - -RIBEIRO (_abanando a cabeça com ar fino_).—Não é só por isso!.. É tambem -por aquelle maganão... aquelle seu sobrinho... Que rapaz feliz! - -FONSECA (_com repentino enthusiasmo_).—Que actividade! - -RIBEIRO.—Boa presença... bons cabellos... - -FONSECA (_encarecendo_).—Dentes excellentes! - -RIBEIRO.—É um moço que tem futuro... - -FONSECA.—Calculista, meu amigo! Não dá um passo sem pensar; não -diz uma palavra (_faz com as mãos gesto de quem pesa_) sem pesal-a -cuidadosamente... - -RIBEIRO (_com certa hesitação_).—Mas elle... me parece... - -FONSECA (_com algum receio_).—O que? - -RIBEIRO.—Prosaico de mais... - -FONSECA (_arrebatado_).—Como prosaico! Diga realista... Um bom senso -pratico que espanta... não vê as cousas senão como ellas são. Nada ás -avéssas... nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da minha -escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum a gerencia de meus -bens, e tudo corre ás mil maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais -poupada... o genero começou a baixar e eu tinha os armazens abarrotados. -Assustei-me... Então... (_interrompe para assuar-se com estrondo_). - -RIBEIRO (_com interesse_).—Então? - -FONSECA.—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a comprar mais... - -RIBEIRO.—Ó homem, era arriscado. - -FONSECA (_com vivacidade e orgulho_).—Não era? Pois bem, dous dias -depois subia o café e ahi vendemos com furia... Graças ao menino ganhei -bastante. (_Com alguma ternura_) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um -casamentão... Palavra de honra é um casamento de mão cheia... - -RIBEIRO.—Estou certo que minha filha ha de ser feliz... - -FONSECA (_influindo-se pouco a pouco_).—Que duvida! Um noivo d’aquella -força no movimento da praça!... Um olho tão firme nas subidas e descidas -do café!... Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas, e -afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! Depois... poucos -filhos... Comprehende?... Não ha tempo. - -RIBEIRO.—E isso é mais conforme á poesia... - -FONSECA.—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões de fortuna... - -RIBEIRO.—É pena que o seu sobrinho não cultive (_parando nas palavras_) -alguma arte... Olhe, se eu fosse moço ensaiava o piano ou então a harpa -(_com gesto de quem dedilha_). É tão gracioso! - -FONSECA (_meio admirado_).—Pois quer mais arte do que a que elle tem? -Quer um teclado mais difficil de conhecer do que seja a opinião dos -agiotas... do que o capricho dos homens da praça? Oh! se houver no -mundo outro noivo como elle, certamente não ha tres... Não, isto lhe -asseguro!... Muito brevemente elle terá de seu cento e cincoenta contos -de réis... vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... nem -gastador; sempre no meio termo... - -RIBEIRO.—Creio que elle agrada tambem á minha mulher... - -FONSECA.—Tenho toda a certeza. Não ha coração que lhe resista. - -RIBEIRO.—E minha filha? Que pensará d’elle? - -FONSECA (_com segurança_).—Não póde deixar de sympathisar muito com o meu -sobrinho... - -RIBEIRO.—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe um album... - -FONSECA.—Qual album!... - -RIBEIRO.—Na sua posição não lhe ficava mal... Um moço, quasi um noivo, -entra em toda a parte com um album debaixo do braço e com versos de sua -lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás mulheres... - -FONSECA.—Não duvido; mas um homem como o Miguel, falle com franqueza, -póde estar a namorar? Confessemos que é um periodo difficil esse em que a -gente sente necessidade de casar, procura uma noiva e tem que lhe fazer a -côrte. Quem tem algum tacto vai logo simplificando tudo... Não vê como o -Miguel sahe-se d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua dignidade?.. -Estou certissimo que elle ama a sua filha como um louco, mas quanta -calma!... Hen? mal se percebe... - -RIBEIRO.—Na verdade. Acho-o até frio de mais... Eu não quizéra levar o -casamento de minha filha, como se fôra um negocio commercial... - -FONSECA.—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! Nada. É preciso que falle -o sentimento... E quer que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho -disse-me com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, hei de ter que -fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... Meça, Sr. Ribeiro, (_com -tom grave_) o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem e não é a -Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (_com ar funebre_) É á Europa!... - -RIBEIRO.—Com effeito, se elle disse isso... - -FONSECA (_com imposição_).—Disse e fal-o. É rapaz de resolução... Tambem -posso lhe afiançar: sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é capaz -de garatujar n’um instante resmas de papel, enchendo-as de versos... - -RIBEIRO (_com ar de superioridade compassiva_).—Ah! isto fia-se mais -fino! E a inspiração? - -FONSECA (_com resolução_).—Queira elle e veremos... Oh! que marido eu lhe -dou, Sr. Ribeiro... - -RIBEIRO.—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, condição -indispensavel. - -FONSECA.—É do que ninguem duvída... Elle entra n’esta casa com o pé -direito... Fará a felicidade de todos; a sua, a de sua mulher... - -RIBEIRO.—Basta que faça a de Isabel... É tudo quanto lhe pediremos. - -FONSECA.—Então, ao chegar sua senhora á sala, annuncia-se-lhe logo o -acontecimento, não é? - -RIBEIRO (_com alguma pausa_).—Sim... sim... mas confesso a você que nunca -vi casamento com menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma -cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a gritarem... filhas a -chorar... noivos audazes... - -FONSECA.—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... São cousas de outro -tempo... Ahi chega D. Rita... - - -SCENA II - -RIBEIRO, FONSECA, D. RITA. - -FONSECA (_dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe a -mão_).—Permitta, comadre, que eu a cumprimente... - -D. RITA (_estende-lhe a mão_).—Oh! Sr. Fonseca... - -FONSECA (_continuando no que ia dizendo_).—que a cumprimente n’este -momento e de um modo especial... com mais effusão do que nunca... - -D. RITA.—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto a razão d’esta -effusão... - -FONSECA.—O seo marido que lh’o diga... - -D. RITA.—Meu marido?... Em todo o caso a noticia é boa, não é? - -FONSECA.—Para mim, excellente... - -D. RITA.—E hade agradar-me? - -FONSECA.—Estou que sim... - -D. RITA (_meio risonha_).—Então adivinho... - -FONSECA.—É... - -D. RITA.—O pedido em casamento de minha filha... - -RIBEIRO (_intervindo_).—É verdade. O nosso amigo e compadre, o Sr. -Fonseca veio cá, e sem gravata nem luvas brancas, sem ceremonias, nem -concertar a garganta, ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de Isabel... - -D. RITA (_interrompendo-o_).—E você lhe respondeo... - -RIBEIRO.—O que você responderia. - -FONSECA (_voltando-se para D. Rita_).—Então? - -D. RITA (_sem hesitação e com simplicidade_).—Eu diria que sim! A que -devemos attender senão á felicidade de nossa Isabel?... - -FONSECA.—Não soffre duvida... - -D. RITA.—E quem poderá tornal-a feliz? - -FONSECA (_para Ribeiro_).—Sim, quem? - -RIBEIRO.—Quem? - -OS TRES (_a um tempo_).—Miguel Faria!... - -D. RITA.—Tão amavel moço... - -RIBEIRO.—Boa figura... - -FONSECA (_com ar de importancia_).—E apatacado... - -D. RITA.—Um cavalheiro perfeito... - -RIBEIRO.—Previdente... - -FONSECA.—Em cafés não ha outro igual... - -RIBEIRO.—Então ha uma só voz a seu respeito, não é?... Tudo são rosas... - -D. RITA.—Accordo perfeito... - -RIBEIRO.—Embora. Eu desejára algum motivo (_hesitando_) de -contrariedade... Estes casamentos assim... - -FONSECA (_com alguma impaciencia_).—Ora, Sr. Ribeiro, sempre aquellas -idéas?... (_voltando-se para D. Rita_).—Não entendo bem... O compadre -pretende que... casamentos em que haja opposições... são... não sei como -diga... mais poeticos... Paes a negarem, mães a gritarem!... - -D. RITA (_offendida_).—Oh! Sr. Ribeiro!... - -RIBEIRO (_com alguma vivacidade_).—Não: o meu pensamento não é este... -eu... - -FONSECA (_interrompendo-o_).—Ora, venha cá... O senhor não foi tão -feliz com a sua mulher?... E para esse enlace não concorrerão todos as -circumstancias desejaveis? - -RIBEIRO.—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, se... - -D. RITA (_com indignação_).—Oh! Sr. Ribeiro, esta é forte!... - -RIBEIRO (_com ar conciliador e fallando com volubilidade_).—Não -é isto que eu queria dizer... Mas, attendão bem... Essas luctas, -essas difficuldades anteriores a um consorcio gravão-se na memoria -eternamente... São motivos de conversa para uma vida inteira... E quando -voltarem os anniversarios! Que fartão de recordações! (_com fogo_) -Imaginem vocês dous esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras, -fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me lembro, responde a mulher.» -«O signal para appareceres na janella era assim (_assovia baixinho e -prolongadamente_) Teu pae estava dormindo»... - -D. RITA (_procurando interrompel-o_).—Que historias, Sr. Ribeiro! - -RIBEIRO (_continuando_).—«Abriste a janella devagarsinho... Eu puz uma -escada... Hi! que medos! Teu vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu -pucho; elle rasga-se»... - -D. RITA.—Mas isto é até indecente... - -FONSECA.—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla... - -D. RITA (_rindo-se_).—Poeta!... Aos 50 annos e com dous mil contos de -reis!... - -RIBEIRO (_pausadamente, meio pensativo e como que fallando para si_).—Não -o sou, devéras!... Mas que geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse -estudado em regra, só fallava em verso... Não me matarão o corpo... não; -mas quanto á alma posso exclamar como Nero (_batem palmas na porta do -fundo.—Ribeiro muda de tom e alto_).—Quem é?... É sempre assim! Estava -com uma idéa bonita, zás, me interrompem... e fica tudo perdido. (_Novas -palmas e fortes_) Toda a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre -(_caminhando para a porta_) entre pelo amor de Deos! - -(_Alfredo Rocha entra_) - - -SCENA III - -D. RITA, FONSECA, RIBEIRO E ROCHA. - -RIBEIRO (_olha admirado para Rocha que mostra-se espantado_).—Com a -bréca... era você? Que diabo fazia a bater palmas na porta da sala de -visitas?... Porque não entrava?... - -ROCHA (_cumprimentando a Fonseca e D. Rita com algum acanhamento_).—Sr. -Fonseca... minha tia... - -D. RITA.—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão... - -ROCHA (_com sentimentalismo como que comprimido a custo_).—Oh! essas -palmas tem uma significação... sim, ellas têm... - -RIBEIRO.—O certo é que vierão muito fóra de tempo... Cortarão-me o fio -de uma comparação (_voltando-se para Fonseca_) Que dizia eu, compadre?... - -FONSECA.—Você dizia... espere... - -RIBEIRO (_instando_).—Procure... procure... - -FONSECA (_deitando os olhos de um lado e d’outro como quem procura no -chão alguma cousa_).—Nada acho... - -RIBEIRO (_com um dedo na testa_).—Eu comparava-me... Qual!... Está -perdida... Adeos, idéa!... Malditas, malditas palmas! - -FONSECA.—Console-se... fica para outra vez... ajudado pelo seu -sobrinho... Este, sim, é poeta!... - -D. RITA.—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos versos... - -ROCHA (_com alguma enfatuação_).—Oh! isto é bondade!... - -RIBEIRO (_com tom dogmatico_).—Não, eu lhe digo com verdade, aquelle -seu livro tem cousas recommendaveis... aquella ode sobre o Amazonas... -aquella... - -FONSECA (_interrompendo-o_).—Tambem foi acolhido com estrondo -(_voltando-se para Rocha_) O senhor deve ter ganho muito, não é? - -ROCHA (_ironico e superior_).—Com a minha obra?... Qual! no Brazil não ha -quem compre livros... As letras vegetão... - -RIBEIRO.—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser seu tio, julguei dever -comprar um exemplar... Não o quiz gratis, não só para animar a venda, -como para não dever favores... - -FONSECA.—Fez muito bem... No seu caso assim procedia... - -RIBEIRO (_com enfatuação_).—Fui ao livreiro e paguei logo tres -mil reis... Sinceramente achei caro... um livrinho fininho muito -entrelinhado, emfim era o preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu -dinheiro... E não me arrependo... Ha trechos que applaudi... Eu faria -talvez outra cousa... mais vasta, menos cortada... mas emfim cada qual -faz como póde e entende... Entretanto... - -D. RITA (_interrompendo_).—Entretanto os senhores permittirão que eu vá -vêr porque não apparece Isabel... (_voltando-se para Fonseca_).—O senhor -janta comnosco... - -FONSECA.—Já que é ordem... - -D. RITA (_para Rocha_).—De certo você tambem... - -ROCHA.—Com muito gosto... - -D. RITA.—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... Talvez lá encontremos -a menina... Mostrar-lhes-hei umas lindas dhalias que me chegarão de -Petropolis... (_para Rocha_). Quer vir, Alfredo? - -ROCHA.—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com o seu marido... - -D. RITA.—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço. - -(_D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem pela porta da -esquerda_). - - -SCENA IV - -RIBEIRO E ROCHA. - -RIBEIRO.—Então que novidades ha? Olhe que tenho ainda que fazer -_toilette_ antes de ir para a mesa do jantar. - -ROCHA (_um pouco sombrio_).—Preciso lhe fallar... e agora mesmo!... - -RIBEIRO.—Cousa urgente?... - -ROCHA.—Urgentissima! - -RIBEIRO.—Em todo o caso abrevie quanto puder... Tenho que apparecer hoje -com algum esmero mais... Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave? - -ROCHA.—Gravissima... - -RIBEIRO.—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou todo ouvidos... - -(_Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e indica outra ao lado_). - -RIBEIRO.—Comece pois... - -ROCHA (_meio acanhado_).—Meu tio... convem recorrer... á sua -benevolencia... antes de encetar esta conversa... - -RIBEIRO (_olhando para Rocha com alguma admiração_).—Você está -perturbado... Que tem? - -ROCHA (_no mesmo tom_).—Tambem o favor que lhe venho... pedir... é tão -grande... tão grande... - -RIBEIRO (_irresoluto_).—Di...nheiro? - -ROCHA (_com movimento energico de denegação_).—Não, Snr.! - -RIBEIRO (_mais expansivo_).—Então que é? - -ROCHA (_hesitando_).—É... - -RIBEIRO (_com curiosidade e chegando a cadeira_).—É?... - -ROCHA (_tomando subita resolução e ás pressas_).—É a mão de sua filha -Isabel, a quem amo desde muitos annos como um louco, a quem adoro, -idolatro em segredo, dia e noute, a quem... - -RIBEIRO (_affastando um pouco a cadeira e tossindo_).—Hum! hum! - -ROCHA (_com anciedade_).—Então?... que diz? - -RIBEIRO (_encolhendo de vagar os hombros_).—Homem, eu não digo nada. - -ROCHA (_apressadamente_).—Então consente?... Oh! meu Deus! - -RIBEIRO.—Eu não disse isso... - -ROCHA (_abatido_).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de... - -RIBEIRO.—Tambem não disse isso... - -ROCHA.—Então que foi que disse?... - -RIBEIRO.—Nada! (_tomando attitude de quem vai orar_) Alfredo, conversemos -um pouco... Você é meu sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração -devida não só a meu parente, como a um homem de intelligencia e -conceituado... - -ROCHA (_interrompendo-o_).—Mas... - -RIBEIRO (_gravemente_).—Deixe-me fallar... As palavras que vou lhe -dirigir são conselhos de quem, prezando-o como parente, preza tambem a -gloria de sua familia. Você pede a mão de minha filha, não é? - -ROCHA.—É verdade... aspiro... - -RIBEIRO (_com gesto de imposição_).—Pois faz uma furiosa asneira... - -ROCHA (_levantando-se admirado_).—Como assim?... - -RIBEIRO (_levantando-se tambem_).—Em duas palavras lhe explico tudo. Você -(_pausado e com voz muito grave_) não deve casar! A sua vocação não lhe -permitte senão o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! Que -quer dizer um poeta casado, em riscos de ter duzia e meia de filhos, ao -lado de uma mulher que vai envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, -descabellada?! Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá inspiração que -resista a causas tão deleterias?... - -ROCHA.—Meu tio... - -RIBEIRO (_com volubilidade_).—Não me interrompa... Sei que hei de levar -a convicção á sua alma... Supponha os grandes poetas presos pelas cadêas -do matrimonio. Que teriamos em poesia?... Nada... nada... mil milhões de -vezes nada!... - -ROCHA (_enfiado_).—O senhor quer caçoar... - -RIBEIRO (_enthusiasmando-se_).—Não consinto que me interrompa... Que fôra -de Dante, de Petrarca, de Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem -prosaicamente desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem tido que -cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, que leval-os a passeio, -á escola!... Meus santos do paraiso, que pensões e que trabalhos!... -Puramente a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? Carpirão -só os males da alma, d’essa alma que encheu os espaços com clarões -inextinguiveis!... - -ROCHA.—Mas... eu amo... - -RIBEIRO (_levantando a voz_).—Perfeitamente! É o que todos nós queremos. -Contrariamos o seu sentimento, machucamos o seu amor proprio, e d’ahi -resultaráõ versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos -arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, como os faz quem é -poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, soffrerá muito, não ha duvida; -as insomnias o perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; terá -talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de todo esse padecer -atroz!... - -ROCHA (_um tanto sombrio_).—Não posso crêr que o senhor queira se -divertir á minha custa... - -RIBEIRO (_muito serio_).—Juro que lhe fallo com toda a sinceridade. -Fallo, como fallaria a um filho. Estas são as minhas idéas. Você tem -muito talento, todos o reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem -produzido senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... Simplesmente -porque é um moço serio, empregado publico, moderado nos seus gastos, -cauteloso e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde o fogo -sagrado da poesia alimentar-se em quem vive como o commum dos mortaes?! -Não, não de certo! O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de -anormal... direi quasi de infernal!... - -ROCHA.—Ora, meu tio... - -RIBEIRO.—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... deixe tudo, emprego, -bailes e theatros; caia na mais abjecta crapula (_Mudando repentinamente -de tom_) Não lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma simples -hypothese... (_Voltando ao primeiro tom_) frequente a taverna, desça á -mais completa miseria; seja, emfim, para resumir tudo em uma palavra, -seja um miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá -transfigurado... O máo vinho com que você se embriagar, a mulher perdida -que abraçar em publico, as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome -que lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo extranho, e, -no momento da maior degradação, o seu coração vibrará com uma energia -desconhecida... A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ... -eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o ha de vingar!... - -ROCHA.—Não posso ouvil-o... - -RIBEIRO.—Que póde fazer uma intelligencia volcanica comprimida por um -chapéo Chastel, sentindo os pés apertados em botins envernizados e os -dedos entalados em luvas de Jouvin, como você está agora?... Que martyrio -para a sua alma! E por cima quer casar?... - -ROCHA.—Mas sua filha?... - -RIBEIRO.—Minha filha? (_Com simplicidade_) Que tem? Você a accusará -perante os seculos... a levará ao tribunal da posteridade. Que thema, -hen? Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até eu sou capaz de -exploral-a com vantagem... porque tambem nasci com aspirações... mas -casárão-me cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, mas o estado -nunca me inspirou a menor idéa! Ora, eu mesmo, irei consentir que você -tambem se perca? - -ROCHA.—Tudo quanto o senhor me disse não significa cousa alguma... - -RIBEIRO.—Como assim? - -ROCHA.—Não vejo uma razão... - -RIBEIRO.—Uma razão? - -ROCHA.—Sim... um motivo plausivel... - -RIBEIRO (_pondo as mãos para traz e abanando de vagar a cabeça_).—Pois -elle existe e muito, muitissimo valioso... - -ROCHA (_com anciedade_).—Qual é? - -RIBEIRO.—A mão de Isabel já está dada... - -ROCHA (_com explosão_).—Mas a quem?... A quem? - -(_Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel Faria e Siqueira_). - -RIBEIRO (_approximando-se de Rocha; á meia voz_).—O noivo é o Faria. - -(_Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados_). - -ROCHA (_chegando-se para a boca da scena; com muito abatimento_).—Meu -Deus, quanto verso perdido, quanta rima n’agoa!... E eu que tinha para -hoje um dythirambo! Lá se vai o dóte. - - -SCENA V - -ROCHA, RIBEIRO, FARIA E SIQUEIRA. - -RIBEIRO (_adiantando-se para Faria_).—Meu caro Sr. Faria, seja muito bem -vindo (_aperta-lhe as mãos_). - -FARIA.—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que eu lhe apresente o meu -particular amigo Alves de Siqueira. - -RIBEIRO (_apertando-lhe a mão_).—Conheço-o já de vista. Tenho muito -prazer em vêl-o em minha casa. - -SIQUEIRA (_inclinando-se_).—A honra é para mim. - -RIBEIRO.—Basta ser-me apresentado por quem é... - -SIQUEIRA.—Isto me penhora muito; sei que a amizade de Faria me é -summamente lisongeira... - -(_Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a frente_). - -RIBEIRO.—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo Rocha? - -FARIA (_com frieza e alguma sobranceria_).—Ainda não senhor; de nome... -vagamente... Creio que o senhor escreveu um livrinho... - -RIBEIRO.—Justamente, um livro de poesias... - -ROCHA. (_com ironia_).—Sim... um livrinho pequenino de versinhos... - -RIBEIRO (_para Siqueira_).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; Sr. Siqueira, meu -sobrinho (_Os dous cumprimentão-se seccamente_).—A proposito já sei que -os senhores dous jantão commigo... - -SIQUEIRA.—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me com demasiada bondade... -Eu pedi ser apresentado para... como devia... tratar de um negocio -importante... - -RIBEIRO.—Ficará para depois do jantar... entre o café e o curaçáo... -Com amigos do Sr. Faria, não cuido de negocios (_com intenção_) -principalmente hoje... senão depois de nos termos assentado juntos a uma -lauta refeição.... - -SIQUEIRA.—Pois bem, resigno-me... - -RIBEIRO (_com expansão_).—Ah! muito bem! e verá como recompenso a sua -resignação!... Com um peixe! (_Dando um muchôcho_) Que peixe!... O primor -dos mares!... - -FARIA (_com ar grave_).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe que o negocio -a que allude o meu amigo e que interessa tambem a mim, não póde soffrer -demóra... - -RIBEIRO (_pressuroso_).—N’este caso, ouvil-o hei já e já... - -ROCHA.—Então eu me retiro... - -RIBEIRO.—Vá lá dentro conversar com a sua prima... - -FARIA (_com vivacidade_).—Este senhor é primo de D. Isabel? - -(_Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia_.) - -RIBEIRO.—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho... - -(_Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de Faria: desapparece e -volta logo para trocar novos olhares_.) - - -SCENA VI - -RIBEIRO, SIQUEIRA, FARIA. - -RIBEIRO.—Sentemo-nos... - -(_Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e sentão-se os tres, -depois de se cumprimentarem com ar de gravidade e importancia._) - -SIQUEIRA (_como que annunciando_).—O meu amigo o Sr. Faria vai fallar... - -FARIA (_após breve pausa_).—Sr. Ribeiro, venho fallar a V. Ex. a respeito -de dous negocios da mais alta importancia... O primeiro, sobretudo, vai -entender com o meu futuro (_parondo um pouco_). Meu tio sem duvida já lhe -ha de ter vindo fallar... - -RIBEIRO.—Pois não... e... - -FARIA (_apressadamente_).—Devo contar com a sua benevolencia? - -RIBEIRO (_com ar fino_).—O senhor é um maganão feliz... Só lhe digo -isto... muito feliz! - -FARIA (_com fingida effusão_).—Agora, sim, reconheço-me como tal... A -minha estrella... - -SIQUEIRA (_interrompendo_).—Mas o seu merecimento, meu amigo? Tem-o em -pouca conta?... Além d’isto tudo estava calculado... - -RIBEIRO.—É certo que o senhor soube ganhar todos os corações... Tanta -circumspecção... - -FARIA (_com ar modesto_).—Oh! Sr. commendador!... - -RIBEIRO.—Tão bom senso... - -FARIA.—Sr. commendador!... - -RIBEIRO.—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... A minha casa o estima -muito... - -FARIA.—E ella?... sua filha?... - -RIBEIRO.—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... Ainda não lhe -fallei... mas é natural... nada mais natural... - -FARIA.—Perfeitamente... Agora que tenho certeza do sentimento que lhe -inspiro, acho-me capaz de tudo. (_Com tom frio_) Liquidado este primeiro -negocio (_emendando com rapidez a phrase_), decidido este primeiro -assumpto, passaremos ao segundo, que traz particularmente o meu amigo -Siqueira á sua presença... - -SIQUEIRA (_tomando a palavra, com volubilidade_).—É cousa infallivel, Sr. -commendador; questão simplesmente de confiança. V. Ex. é capitalista; -Faria já póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, homem que a -ambos deve merecer credito... não é? - -FARIA E RIBEIRO (_inclinando-se_).—De certo!... - -SIQUEIRA.—Assim, pois, procurei por intermedio de Faria vir fallar a V. -Ex., que, podendo mover de prompto com grandes capitaes, encaminhará -uma operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, nós tres -presentes, quarenta por cento... - -RIBEIRO.—Quarenta por cento... da noute para o dia?... - -FARIA.—Todos os calculos estão feitos... Concorra V. Ex. com setenta -contos e... - -RIBEIRO.—Mas a somma... a somma é grande... - -FARIA.—Setenta contos?... - -RIBEIRO.—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... setenta!... - -FARIA.—Na operação empato cincoenta contos... tal é a minha confiança... -digo até, certeza!... - -RIBEIRO.—Mas... afinal... de que se trata? - -SIQUEIRA.—Trata-se do algodão... - -RIBEIRO.—Do algodão?... - -SIQUEIRA.—Eu me explico... V. Ex. sabe que este genero teve uma baixa -consideravel, quando acabou a guerra dos Estados-Unidos, e que o café -subio... - -RIBEIRO.—Sei perfeitamente... - -SIQUEIRA.—A ultima guerra franco-prussiana trouxe a procura do algodão... - -RIBEIRO.—Sei d’isto. - -SIQUEIRA.—E desde então vai alteando... Agora participão-me de Santos por -um telegramma reservado balas de algodão, no valor de cento e cincoenta -contos, a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, que -é esperado a todo o momento, dér o augmento de poucos _pences_, tem se -feito uma bella operação... A colheita de lá foi má, e o algodão que me -offerecem é de qualidade superior... - -RIBEIRO (_duvidoso_).—Era bom... reflectir... Assim... - -SIQUEIRA.—E o palpite?... Ha occasiões em que é necessario atirar-se... -E demais que são setenta contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que -entro, esses, sim, representão arrojo e segurança... - -RIBEIRO (_com enfatuação_).—De facto não é somma fabulosa... mas, emfim, -não é meia pataca... - -SIQUEIRA (_com voz insinuante_).—Se fecharmos o negocio, d’aqui mesmo -expeço o telegramma de compra... - -RIBEIRO (_voltando-se para Faria_).—Que diz, Sr. Faria?... - -FARIA.—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a operação é excellente... -Senão, reflexionemos um pouco... - -RIBEIRO (_approximando a sua cadeira da de Faria_).—Sim... sim, -reflexionemos um pouco... - -FARIA.—Tudo n’este mundo está subordinado a causas, de maneira que para -estudar bem os effeitos nas suas menores consequencias é preciso remontar -á origem... - -RIBEIRO (_abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira_).—De certo... -subamos á origem... - -FARIA (_com tom oratorio_).—Ora bem... Quaes são as causas que produzem -no mundo as oscillações do movimento commercial?... Diversas... - -SIQUEIRA.—Diversas... não ha duvida. - -FARIA.—Mas qual a predominante?... Sem contestação a politica... Qual -é hoje a face politica do globo? Paz em todos os Estados... A França -exhausta... a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a parte, -mas a luta armada impossivel por muitos annos. N’estas circumstancias o -café, bebida excitante, tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas -pedem trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos foi -escassa; a do norte do Brazil não satisfez a expectação. Pelo contrario -ha muito café... e depreciado... - -RIBEIRO (_approximando mais a sua cadeira_).—Estou o seguindo com -anciedade... - -FARIA (_batendo compasso com a bengalinha que conservára em mão desde a -entrada em scena_).—Depois, não nos esqueçamos de um facto natural... -Cada genero tem um preço normal que representa a exacta necessidade da -população consumidora. O progresso na ascensão justo e natural está -sugeito a rigorosas apreciações estatisticas. O café por muito tempo -esteve a tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a sete, onde -ficou firme... - -RIBEIRO.—Perfeitamente. - -FARIA.—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco do café... É o -seu ponto de equilibrio... - -RIBEIRO.—De certo, de equilibrio (_mechendo com os braços, imitando uma -balança_) Isto é uma balança: o fiel marca sete... - -FARIA.—A sua comparação é justissima. - -RIBEIRO. (_com vivacidade_).—Então gostou? - -FARIA.—N’uma concha está o café, na outra... - -RIBEIRO (_com rapidez_).—O assucar... - -FARIA.—Não, o algodão. Nas nossas condições actuaes, são os dous typos -de exportação. O assucar pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da -betteraba e até de couros velhos... - -RIBEIRO.—É verdade: equivoquei-me... - -FARIA.—O café desce: sóbe o algodão... - -SIQUEIRA (_intervindo_).—V. Ex. vê como temos tudo calculado... Podemos -contar com os seus setenta? - -RIBEIRO (_hesitando_).—Talvez... se eu consultasse com o meu socio... o -Lemos... - -SIQUEIRA.—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto tino! Alem d’isso é -irresoluto o tal Sr. Lemos... - -RIBEIRO.—De facto... elle não tem golpe de vista... esse lance de olhos -que vê uma operação em globo... - -SIQUEIRA (_apressadamente_).—Como esta, Sr. Commendador, como esta... - -RIBEIRO (_vacillante_).—Não direi tanto... - -FARIA.—O que é necessario é passar quanto antes o telegramma... - -RIBEIRO (_decidindo-se de repente e levantando-se_).—Pois vá lá: o -Lemos era incapaz. (_Apresentando a mão aberta a Siqueira, que a aperta -com mostras de muito respeito_). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o -negocio!... Escreva para Santos... - -SIQUEIRA (_dirige-se para a mesa, arranca da carteira uma folhinha de -papel e escreve a lapis_).—É já e já... Ouça, Exm.: «Todo o algodão para -Siqueira & C.ª Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado! - -RIBEIRO.—Toque a campa. - -(_Siqueira bate n’um tympano_.) - -FARIA.—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto (_com fingida -commoção_) que fará a minha eterna felicidade. - -SIQUEIRA (_para Faria_).—Então vem todo o algodão? - -FARIA.—Todo. Se mais houver, que mandem! (_Mudando de tom e voltando-se -para Ribeiro_).—Sim, a minha felicidade... - -SIQUEIRA (_atalhando_).—E se o telegrapho estiver interrompido? - -FARIA (_mudando de tom_).—Está trabalhando... Ha pouco passei um -telegramma. (_Voltando-se para Ribeiro_) Na verdade o amor que sinto por -sua filha... - -(_Entra um criado_.) - -FARIA (_dirigindo-se para o criado e com tom imperativo_).—Entregue de -minha parte ao Sr. Queiroz, o administrador... - -(_O criado sahe_.) - -RIBEIRO.—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos temos entendido, ha de -permittir, com o seu amigo, que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa -antes de apparecer á mesa. (_Para Siqueira_) Como estava decidido, o -senhor fica comnosco... - -SIQUEIRA.—Com summo gosto... - -RIBEIRO.—Verá que peixe!... Parece pescado em Santos! Vale o seu peso de -algodão (_rindo-se_). Não gostárão? - -SIQUEIRA (_admirado_).—De que? - -RIBEIRO.—Do meu dito... - -SIQUEIRA (_rapidamente_).—Oh! muito... esteve excellente. - -RIBEIRO.—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, mas graça natural, nada -forçada... É como aprecio... Isto de repentes estudados de vespera não é -commigo... Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e estou de -volta. - -(_Ribeiro sahe pela porta da esquerda_.) - - -SCENA VII - -SIQUEIRA E FARIA. - -(_Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende um charuto e -põe-se a folhear um album de retratos._) - -SIQUEIRA.—Emfim, está feito o negocio! - -FARIA (_soltando uma fumaça e com indifferença_).—Está, sim. - -SIQUEIRA (_parando defronte de Faria_).—Mas agora, muito seriamente, digo -a você uma cousa... - -FARIA.—Que é que diz? - -SIQUEIRA.—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... mas tambem os -setenta contos d’este homem... - -FARIA.—Você, medroso, só se lembra dos seus trinta... - -SIQUEIRA.—Ora... mas... - -FARIA.—Deixe-se de mas... O negocio é bom. - -SIQUEIRA (_com anciedade_).—Você acha? - -FARIA (_indifferente_).—Acho... - -SIQUEIRA.—Mas d’onde lhe vem esta segurança?... - -FARIA.—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto disse ao meu futuro -sogro? - -SIQUEIRA.—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: se o vapor de -New-York vier pedindo café e recusando algodão?... Levamos um baque -soffrivel... - -FARIA.—É possivel... - -SIQUEIRA.—E então? - -FARIA.—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo que um homem serio -prevê... O mais é anomalia. (_Batendo n’uma folha do album_) Eis-aqui um -facto. Estão n’este album dous retratos... um defronte do outro, como que -a se namorarem... - -SIQUEIRA (_distrahido_).—De quem são? - -FARIA.—Um é o de minha noiva; o outro é o do tal primo, o poeta. Não é -possivel que estes dous jovens photographados tenhão inclinação um para o -outro? - -SIQUEIRA.—Com effeito... - -FARIA.—Mas o que é provavel? É que a moça tenha considerado que ella -não nasceo para casar com um rapaz muito rico de versos, mas pobre -de dinheiro... Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas -casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples bom senso mostra... - -SIQUEIRA.—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou assim... facilmente perco -a cabeça. Esta compra de algodão... - -FARIA.—Ora, deixe-se d’isso. (_Com desprezo_) Trinta contos! - -SIQUEIRA.—Sinceramente... - -FARIA.—Se você se afflige quando navegamos no mar sereno das -probabilidades... que fará quando o vento nos açoutar rijo?... - -SIQUEIRA.—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom. - -FARIA (_fechando o album com força e levantando-se_).—Pois eu... sou -homem para a lucta... e... - -(_Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira_.) - -SIQUEIRA.—Está passado o telegramma... O algodão é nosso... - -FARIA.—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete de New-York e teremos -feito um optimo negocio... E não póde tardar... De um lado ganho com o -algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de café que vinha de -Campinas. Sou um general previdente... De mim não se dirá que não cuidei. - -SIQUEIRA.—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa... - -FARIA.—Qual sorte! O descuido dos homens é que merece este nome, nada -mais, nada menos. Infatuados, pueris, buscão uma explicação sobrenatural -para a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me ajudado? Meu -amigo, tudo n’este mundo cifra-se no esforço proprio, na iniciativa e nas -quatro operações da arithmetica... - -SIQUEIRA.—Eu sempre conservo o meu medo... - -FARIA.—Você quer me ceder a sua parte?... - -SIQUEIRA (_apressadamente_).—Não, não! Afianço-lhe que estou -perfeitamente tranquillo... - -FARIA.—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto mais que ahi vem gente. - -(_Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca_.) - - -SCENA VIII - -SIQUEIRA, FARIA E RIBEIRO. - -RIBEIRO (_puchando os punhos da camisa_).—Estou prompto, promptinho... -Creio que não me fiz esperar demais... - -FARIA.—Não, de certo. - -RIBEIRO.—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos á mesa. O Sr. -Siqueira verá que peixe!... - -SIQUEIRA.—V. Ex., porém, me disse que... - -RIBEIRO.—Minha excellencia não attinge á d’elle... Não ha môlho que me -sirva. (_rindo-se_) Não gostou? - -SIQUEIRA.—Muito... mas gostarei ainda mais do peixe... - -RIBEIRO.—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas falta-nos o compadre -Ignacio... Quererá elle dar ponto hoje? Logo hoje! O certo é que está -tardando. (_Ouve-se barulho fóra_). Estão subindo a escada: sem duvida é -elle... Deos permitta que não venha muito nervoso! - - -SCENA IX - -SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO E LEMOS. - -LEMOS (_entra precipitadamente com ar de grande prostração e atira-se -n’uma cadeira_).—Ai! não posso mais... morro de calor... que commoção! - -RIBEIRO.—Que tem você?... Estava tardando... O jantar... - -LEMOS (_levantando-se precipitadamente_).—Bem se trata de jantar!... Não -quero jantar... hoje ninguem deve jantar... - -RIBEIRO (_inquieto_).—Mas que ha? Você me assusta... - -LEMOS (_passeiando agitado_).—Que ha? É que acabo de comprar uma partida -forte de café e recusar algodão. Que ha? É que d’aqui a pouco podemos, -com a chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder ainda mais. É o -que ha! - -RIBEIRO.—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos bem aviados!... Temos -prejuizo certo... - -FARIA.—É cousa infallivel! - -LEMOS (_reanimando-se_).—Mas porque, homens de Deos? Vocês me pôem -doudo... - -SIQUEIRA.—Eu me abstinha... - -RIBEIRO.—Por certo... mas em alguns falta o lance de olhos... - -FARIA.—Querem se apressar... - -LEMOS.—Talvez tenhão razão (_com acabrunhamento_). Aquellas saccas de -café me esmagão. (_Reanimando-se_) Mas ao menos esperemos pelo vapor de -New-York... - -FARIA.—Não ha que esperar... - -SIQUEIRA.—E para que esperar? - -RIBEIRO.—Esperar o que? - -LEMOS (_muito abatido_).—É verdade... é verdade... - -RIBEIRO (_com seccura e concertando a garganta_).—De modo que o Sr. -Lemos, sem me consultar, metteu-se a calculista e... - -LEMOS (_deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo_).—Tem razão... -tem razão... Compadre, o nosso prejuizo é grande... - -RIBEIRO (_com muita importancia_).—Isto não é o que mais me aborrece... -É vêl-o assim arriscar-se sem prévio conselho meu... Olhe, emquanto o -senhor fazia imprudencias, eu realizava com toda a calma uma operação -grave, premeditada e de lucros certos. Fechei uma compra de algodão em -Santos consideravel... - -FARIA (_intervindo_).—É verdade, o Sr. commendador, eu e Siqueira, -acabamos de telegraphar, e amanhã poderemos impôr o nosso preço ao -mercado. - -(_Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de Faria._) - - -SCENA X - -SIQUEIRA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E FONSECA. - -FONSECA.—Impôr preço ao mercado? De que modo? - -FARIA.—Eu lhe explico. - -(_Vai para Fonseca e falla-lhe baixo._) - -LEMOS (_levantando os olhos para Ribeiro, abatido._)—Você salvou-nos, Sr. -compadre... - -RIBEIRO.—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas vezes que faltava-lhe o -palpite... - -FONSECA (_alto_).—O negocio é excellente. - -SIQUEIRA.—Optimo... mas devéras, estou com medo... - -FONSECA.—Pois, então, ceda-me metade do que lhe toca... - -SIQUEIRA (_irresoluto_).—Não... não quero... entretanto? - -FONSECA (_com superioridade_).—Então ceda-me tudo! - -SIQUEIRA.—Tudo? - -FONSECA.—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita? - -RIBEIRO.—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste rasgo. - -FONSECA.—Então aceita? - -FARIA.—Você está com receios... você o da idéa... aceite... - -SIQUEIRA (_resolvendo-se_).—Pois vá lá... Eu me contento com pouco. Mas -palavra, se o senhor ganhar... tem de me agradecer a lembrança... - -FONSECA.—Quer que lhe dê uma clareza? - -SIQUEIRA.—Não, senhor, a sua palavra vale ouro. - - -SCENA XI - -OS MESMOS, UM CRIADO. - -O CRIADO.—Esta carta urgentissima para o Sr. commendador. - -RIBEIRO (_apressadamente_).—Dê-m’a. (_Lê_) Meus senhores, o vapor -americano está entrando. Falla-se em alta no algodão... - -SIQUEIRA (_com dôr_).—Oh! Faria!... Meu algodão... - -FONSECA (_com voz de triumpho_).—Quer comprar a minha parte? 30% de lucro -sobre a venda! - -SIQUEIRA.—O senhor me mata! - -RIBEIRO (_para Lemos_).—Compadre, tem algodão que vender? - -LEMOS (_sempre sentado; lugubre_).—E o meu café!... O remedio é bebê-lo -todo. Arrebentarei! - -(_Ouve-se uma voz fóra gritar_: Meu pai! Meu pai! _barulho na escada_). - -RIBEIRO.—Que é isto? - - -SCENA XII - -SIQUEIRA, FONSECA, FARIA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO. - -ALBERTO LEMOS (_vem offegante e mal póde fallar_). Meu pai... o vapor -americano... alta no café... algodão desceo! - -LEMOS (_dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira_).—Café?!... Café?... - -ALBERTO.—Pede-se de toda a America do Norte. - -TODOS.—Impossivel! - -ALBERTO.—Leião! (_Entrega um boletim a Ribeiro, que é logo cercado por -todos com grande sofreguidão._) - -RIBEIRO.—É verdade! Mas... arredem-se um pouco... Os senhores me suffocão! - -LEMOS (_com voz de triumpho_).—Eu logo vi! - -FONSECA (_deixando-se cahir na cadeira em que estivéra Lemos_).—Em que -tremedal me metti! Infame algodão! - -SIQUEIRA (_chegando-se para Fonseca_).—Coragem, Sr. Fonseca!... Vou -certificar-me das noticias. Não se esqueça de mim. - -(_Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente._) - - -SCENA XIII - -FARIA, FONSECA, RIBEIRO, LEMOS E ALBERTO. - -FONSECA (_levantando-se_).—Não! isto é horrivel!... D’esta feita... (_Com -explosão_) Mas é preciso fazer alguma cousa... tomar providencias!... -Anda, Faria! (_Sacode com força Faria, que parece estar meditando_). Diga -alguma cousa... Você sempre tem idéas... - -FARIA (_meio abatido_).—Estou pensando... - -FONSECA (_irado_).—Qual pensando! Agora não é hora de pensar. Queremos -factos... factos... - -RIBEIRO (_muito sêcco para Faria_).—É facto que o senhor, com suas -historias... encalacrou-me (_Com gestos da scena anterior_). Equilibrio, -alta... baixa... isto, aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em -Santos o meu dinheiro (_Pesando nas palavras_) está ardendo... e... - -LEMOS (_interrompendo-o_).—Deixe isso... Os nossos lucros por cá -compensão tudo... - -RIBEIRO (_com altivez_).—Não me queixo da perda... deploro tão sómente -que calculos... - -FARIA (_como que acordando do lethargo_).—Um telegramma para Santos... um -telegramma! - -FONSECA.—É verdade... um telegramma!... Um criado, depressa! - -ALBERTO (_que tem estado a olhar para o interior da casa_).—É inutil: -ha cinco minutos o telegrapho interrompeo as communicações... É noticia -certa... - -FONSECA.—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!... - -RIBEIRO.—Mais calma, meu amigo! Mais calma! - -FONSECA (_desabrido_).—Vá á breca com os seus conselhos (_Agarrando na -cabeça com desespero_). Minhas perdas! (_De repente_) Ah! uma idéa. -Compadre, podemos remediar alguma cousa! Uma idéa! (_Para Faria, -imperioso_) Você vai partir d’aqui a meia hora... - -FARIA.—Para onde? - -FONSECA.—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas da tarde... ha tempo -de sobra... Não deixe embarcar o algodão... Ao menos espere elle em -Santos... Talvez deixando passar a primeira impressão na praça... d’aqui -a dias... - -FARIA.—É uma idéa, mas... - -FONSECA.—Mas o que? - -FARIA.—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?... - -FONSECA.—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto você não voltar... -Dous dias, ou pouco mais... - -RIBEIRO (_com a mão mettida dentro do bolso do collete_).—Perdôe-me: isto -não. (_Com sorriso um pouco altivo_) Mas ninguem póde retêl-o... Antes de -tudo... (_Accentuando_) de tudo, os negocios... - -FONSECA.—Você bem vê... vamos! Aviemos isto (_Baixo_). Eu arranjo tudo; o -casamento e o mais. (_Alto_) Vamos. - -FARIA (_um pouco acanhado_).—Então o Sr. commendador... consente? - -RIBEIRO.—Pois não... com muito gosto... por minha parte... - -FONSECA (_com alegria forçada_).—Ah! muito bem! depressa agora... A -Santos! A Santos! (_Procura empurrar Faria_) livra-nos d’essa... - -FARIA (_com alguma resistencia_).—Deixe-me ao menos despedir-me... -(_Estendendo a mão a Ribeiro_) Dê-me então suas ordens... - -RIBEIRO (_com frieza_).—Seja feliz... e avisado... - -FONSECA.—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente? - -LEMOS.—De certo... - -RIBEIRO (_sempre sêcco_).—É medida de segurança. - - -SCENA XIV - -ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO, FONSECA E ROCHA. - -ROCHA (_ao entrar esbarra quasi com Faria_).—Oh! senhor!... - -FONSECA.—Adeos... adeos, vamos de sahida... - -ROCHA.—Boa viagem! - -(_Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas._) - -FARIA.—Oh! eu... - -FONSECA.—Vamos... vamos... não ha tempo a perder... - -(_Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por Fonseca._) - - -SCENA XV - -ALBERTO, LEMOS, RIBEIRO E ROCHA. - -(_Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por baixo das abas da -casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, de pé, no meio da scena, com -os braços cruzados sobre o peito._) - -ROCHA (_ironico e sombrio_).—Então o Sr. Faria se retira? - -RIBEIRO.—Parece... tem que ir a Santos... Negocios... - -ROCHA.—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais bello thesouro? - -ALBERTO (_assustado_).—Hen? - -RIBEIRO.—Ora, Alfredo... - -ROCHA.—Consulte a sua consciencia, meu tio (_melodramaticamente_), e -decida se elle é digno da noiva que lhe reservão... - -ALBERTO (_assustado sempre_).—Noiva? - -ROCHA (_continuando_).—Não, eu tambem sou parente... tenho que erguer -a minha voz... Quer uma prova mais evidente da baixa ganancia... do -mercantilismo do que a que acaba de ter?... Por uma questão de contos de -réis... esse homem, que fingia um sentimento, esqueceo tudo e sobre tudo -a sua noiva, anjo de innocencia, gemma de um valor inestimavel... - -ALBERTO.—Mas quem é essa? - -ROCHA (_arrebatado_).—Oh! é um diamante de Golconda... é um seraphim -capaz de levar as almas ao paraizo só com o poder do seu olhar... é -emfim... - -RIBEIRO.—Se falla de minha filha, declaro-lhe que ella ainda não é -noiva... - -ROCHA.—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia crêr... - -RIBEIRO (_meio zangado_).—Ha pouco eu lhe disse muita cousa... Na -realidade, pensei que poderia... mas... emfim... nem tudo... quanto se -pensa, pode realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo... -(_Animando-se a pouco e pouco._) E com mil bombas! este procedimento -desagrada-me solemnemente... - -LEMOS (_com a mão no queixo_).—E com toda a razão. - -RIBEIRO (_exaltado_).—Razão tenho de sobra... É fazer pouco em mim. N’um -dia em que convido para jantar não pode haver motivos... - -ROCHA.—Justamente, justamente... - -RIBEIRO.—E depois do que tinhamos conversado... Oh! isto não ha de ficar -assim... Desfaço tudo... - -ROCHA (_continuando no mesmo tom_).—Por uma questão pequenina de -dinheiro! (_Com muito desprezo_) Oh! indigno metal! tão negro como as -entranhas da terra em que vives! - -RIBEIRO.—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e amigo! Ao Faria nunca hei -de dar a minha filha... - -ALBERTO (_intervindo_).—Por certo... É um coração secco... - -ROCHA.—Um ganhador... - -RIBEIRO.—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante quantia que -perdeu derrubou-lhe o edificio da hypocrisia... Aquella menina devia -pertencer a quem a merecesse pela elevação de sentimentos. - -ROCHA. (_com exaltação_).—Oh! meu pai (_Aperta as mãos de Ribeiro._) - -ALBERTO (_admirado_).—Mas que é isto? - -ROCHA (_com affectação_).—É um quadro de familia... Veja e enterneça-se -(_Abraça Ribeiro que não lhe mostra boa cara._) - -RIBEIRO (_meio triste_).—A final os poetas tem sempre razão... - - -SCENA XVI - -LEMOS, ALBERTO, ROCHA, RIBEIRO E D. RITA. - -D. RITA (_entrando pela porta da direita_).—Então, meus senhores, quando -quizerem, faráõ o favor de entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o -compadre Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou? - -RIBEIRO.—Aqui estiveram ambos e partiram... - -D. RITA.—Mas voltam já... - -RIBEIRO (_seccamente_).—Não voltão tão cedo... partiram... - -D. RITA.—Para onde?... - -RIBEIRO.—Para Santos... - -D. RITA.—N’um dia como o de hoje! Depois das promessas! Que foi? Que -houve? - -RIBEIRO.—Um negocio de algodão... - -D. RITA.—Não ha negocio que podesse obrigal-os a se retirar... - -RIBEIRO (_com explosão_).—Não sei, não sei, nada sei, mas o que lhe -digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha filha, a sua, a nossa filha -não casará nunca com o tal Faria. (_Com tom lugubre_) É excusado pedir -ou chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o compadre, nem com -ninguem... - -D. RITA (_admirada_).—Expliquem-me o que houve... Estou pasma. - -RIBEIRO.—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha vontade e aqui -(_com resolução_) não é casa de Gonçalo, em que a gallinha cante mais do -que o gallo... É excusado, senhora... - -D. RITA (_picada_).—Mas quem lhe disse que eu morro de amores pelo -Faria?... Minha filha, graças a Deos não precisa mendigar noivos... - -ROCHA (_adiantando-se_).—Minha tia, em duas palavras lhe explico tudo... -O tal pretendente á mão de minha adoravel prima metteo-se, e por seus -conselhos metteo o tio, em uma compra de algodão em Santos. Agora -acontece que o genero baixou, de modo que elle, sem consideração alguma -pela bondade com que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente -uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum remedio aos seus -prejuizos... Não houve nada que o retivesse... nem a honra de jantar hoje -aqui, nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto já lhe tinha -sido quasi dada... - -RIBEIRO (_tossindo e cortando a palavra a Rocha_).—Isto é, o tio, o -animal do Fonseca, procurou, etc., etc., e tal... mas eu... - -ROCHA.—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito procedimento e... - -D. RITA.—De certo, fez muito bem... - -ROCHA.—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma... - -D. RITA.—Eu faria o mesmo... - -ROCHA.—E deo o dito por não dito... - -RIBEIRO (_com resolução_).—E se eu disse alguma cousa, dou o dito por não -dito... Em dignidade ninguem me ha de vencer... - -LEMOS.—Perfeitamente, compadre... - -ALBERTO.—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel... - -LEMOS.—Extraordinario... - -ROCHA.—Inexplicavel... - -RIBEIRO (_com ar de dignidade offendida_).—Digão antes de tudo offensivo; -mas eu soube manter-me na posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos? - -LEMOS.—Optimamente... - -D. RITA.—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo que o Sr. Fonseca ha de me -ouvir... - -RIBEIRO.—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a possibilidade de um -prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe boa!... É verdade que os meus -setenta... - -(_Isabel apparece na porta da direita._) - - -SCENA XVII - -LEMOS, ALBERTO, ROCHA, FARIA, D. RITA E ISABEL. - -ISABEL.—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar... - -ALBERTO (_adiantando-se para Isabel_).—Minha senhora... eu... - -ISABEL (_com acanhamento_).—Meu senhor... - -ROCHA (_precipitando-se_).—Oh! minha prima!... - -ISABEL (_adiantando-se_).—Que tem, primo Alfredo? Acho-o commovido. - -ROCHA.—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, sim, e muito... - -RIBEIRO.—Acabemos com isto, senão eu tambem passo a commover-me!... - -D. RITA.—Eu já estou commovida... - -RIBEIRO.—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa. - -ROCHA.—Que dia este! - -ALBERTO (_com sorpreza e dôr_).—Que é isto? - -ISABEL (_muito admirada_).—Eu, casar-me? - -RIBEIRO.—Sim... faço-lhe a vontade... - -ROCHA (_muito apressado_).—Emfim, posso dizer que a amo, Isabel... que a -adoro, a idolatro... - -RIBEIRO.—E é com esses confeitos que os poetas nos dão batalha e nos -vencem. - -ISABEL (_com constrangimento_).—Devéras eu... estimo muito o meu primo... -admiro o seu talento... mas... - -ALBERTO (_chegando-se e em tom de supplica_).—Falle, D. Isabel... estou -soffrendo como um desgraçado. - -RIBEIRO (_admirado_).—Então que é isto? Você diz que... - -ISABEL.—Eu... não amo a meu primo... - -TODOS.—Oh! - -(_Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: Ribeiro pucha o -beiço, como pessoa que labora em grande duvida._) - -RIBEIRO.—Essa não está má! (_Para Isabel_) Então você de quem gosta? - -ISABEL (_enrubecendo_).—De ninguem, papae... - -ALBERTO (_com tom de supplica_).—D. Isabel... - -ROCHA (_implorando_).—Oh! minha prima, que cruel momento! Por que crime -estarei expiando tanta dôr! Os meus versos, os meus cantos devem já lhe -ter dito quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando tudo parecia -indicar o final de um soffrimento immenso, uma unica palavra sua, cruel, -implacavel, veio me atirar em abysmo insondavel... - -(_Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para -que se adiante._) - -LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha... - -RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?... - -LEMOS (_apressadamente_).—É para meu filho... meu filho Alberto... - -D. RITA (_graciosa_).—É uma cousa muito possivel. - -RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de... - -ISABEL (_intervindo com animação_).—Papae, eu não disse isto... - -RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto? - -ALBERTO (_sofrego_).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora... - -ISABEL (_confusa_).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe... - -RIBEIRO (_risonho_).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (_Para D. Rita_) -E a senhora não me dizia nada!... - -D. RITA.—Eu de nada sabia... - -RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos -o meu pleno consentimento. - -D. RITA.—Eu com a maior satisfação... - -ROCHA (_adiantando-se com ar sombrio e theatral_).—E eu? Que fazem de -mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte -no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino? - -RIBEIRO (_puchando-o pela sobrecasaca_).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e -vem comer o nosso peixe. - -ROCHA (_encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama_).—Não -quero comer o seu peixe! (_Sahe arrebatadamente._) - - -SCENA XVIII - -LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL. - -RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (_levantando os hombros_). Hão de vocês -vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de -contas faz-se um casamento com quem ninguem contava... - -LEMOS.—Agrada-lhe menos... - -RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco -o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas... -Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos -do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa -e depressa... porque, como diz o proverbio: «_Da mão á boca se perde a -sôpa._» - -(_Cahe o panno._) - - -FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA. - - - - -CAMIRAN A KINIKINAO - -EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO - - -CAMIRAN A KINIKINAO - -Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a -morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos. - -Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela -consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a -vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo -inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que -irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria -nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que -sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia -á existencia de seu adorado filho. - -Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de -resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia -contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, -se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás -caricias de branda aragem. - -Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a -recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua -choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára, -mas dado de coração. - -N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa -em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então -assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos -mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do -inimigo. - -Tambem quem deixára de soffrer! - -A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da -republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil. - -O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem -opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si -toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor. - -Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de -cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia -do tenente Antonio João na colonia de Dourados. - -Valente homem aquelle tenente! - -Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo -como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e -o patriotismo que lhe inflammavão o peito. - -Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha -diante e ao redor de si a immensidade do deserto. - -Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente, -não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma -falla em que citou francez e até latim. - -O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se -revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de -Nioac. - -N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia -e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o -abandonarem. - -Elle ficaria. - -—Para que? perguntárão uns soldados. - -—Para morrer! - -Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem. - -Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços. - -Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira -do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á -intimação do invasor. - -No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar -a redondeza, voltou a galope. - -A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo. - -Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela -palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas -ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor. - -Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião -tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo -maculavão a verdejante relva. - -—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente. - -—Todos, respondêrão os onze. - -—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega. - -—Ninguem! repetirão os onze. - -Era Leonidas no meio dos lacedemonios. - -De repente soou o clarim paraguayo. - -Um parlamentario se approximava. - -A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana -de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre -fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando -elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial -como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em -corôa de gloria. - -Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior -cortezia o enviado. - -A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como -costumavão alinhar os generaes de Lopez. - -O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com -tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta: - -«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de -protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.» - -E assignou com mão firme: - - «Antonio João da Silva.» - -Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois -dissesse o mesmo. - -Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo -o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os -olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando. - -Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava -aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo. - -—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João. - -Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas, -ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa -repercussão. - -O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente. - -—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia. - -Raros obedecêrão á ordem. - -D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com -ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas -dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido. - -Parecia enrubescer de orgulho. - -Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João. - -—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a -nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como -nos contárão. - -Outra vez repetirão isto. - -Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda -seis legoas. - -Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel -Barboza. - -Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de -corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as -vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão. - -Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava -transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante -do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta -soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do -inimigo. - -Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar -grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos, -podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia -mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra. - -Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava -terras brazileiras. - -Não caminhou muito. - -A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela -mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos. - -Era no dia 31 do Dezembro de 1864. - -Muita gente pensou que não veria o anno novo. - -No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou -alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom. - -Trocarão-se amabilidades antes das balas. - -Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo. - -O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que -sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de -indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar -os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu -arrojo. - -Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que -poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de -caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda -debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os -habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou -rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que -mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão -estrangeira. - -Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de -combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha -cabeça para organisar a defeza de uma grande zona. - -Ah! se fôra Antonio João! - -Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava -um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças. - -A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia -começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os -paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria -que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro -José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e -esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso. - -Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho -estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára -mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o -tronco. - -A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito: - -—Os paraguayos estão passando o rio! - -Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar. - -De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem -direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros. - -A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada -qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando, -tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral -para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres -de seus cavallos. - -Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de -correr. - -De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar. - -O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de -modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe -perguntou: - -—O seu cavallo _bombeou_? - -—Não póde mais comsigo... - -—Pois bem, então faça como eu; _fréche_ para aquelle capão que nós -cahimos logo na mata do Nioac. - -—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui... - -—Mas aqui é morte certa! - -O outro fez um gesto de pouco caso. - -—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos. - -E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a -sua arma e parou immovel no meio da estrada. - -Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros, -apressou ainda mais a carreira que trazia. - -Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma -espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia -atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar -o primeiro brasileiro. - -Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma. - -Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de -agonia. - -Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a -esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e -depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado. - -Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta -de desenhos, na qual está gravada esta inscripção: - -«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di -guera.—Ennero, 1—1865» (_sic_). - -Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos -restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de -espada. - -Era o craneo de Gabriel Barbosa. - -No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda -povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas. - -Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação -tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos -desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores -da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos, -kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos -e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas -e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para -correrem a se metter em emboscadas. - -Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão -duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão -qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz -de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem -esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas -e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz -do seu affluente, o Aquidauána. - -No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações -dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das -discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem -geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no -sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e -deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em -peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão. - -Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns -seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a -pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e -em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar. - -Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim -que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que -completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo, -havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente -armamento e cartuxame. - -O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de -toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter -para a republica. - -—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu -territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças. - -Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que -declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a -pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar -de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena -de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas. - -Naturalmente ninguem se apresentou. - -Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no -lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de -privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas -intrigas. - -Tudo era motivo para recriminações e queixumes. - -Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e -querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão -necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma -vez vio-se desrespeitado. - -O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para -muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á -parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos -paraguayos. - -Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco -e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a -miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos, -estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder -do inimigo. - -Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao -invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres -principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, -acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco -de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865. - -Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a -igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os -seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes. - -Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei -Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia -passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus -extremos, de sua adoração! - -As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio -incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição, -nada o impressionava, nada lhe detinha os passos. - -Elle voava para a sua matriz. - -Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro -sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos -ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as -imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno. - -Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e -elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle -templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos. - -A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão. - -—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles. - -—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja -exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para -clamar vingança aos céos. - -Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido -para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida -escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em -que n’ella havião entrado. - -Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles -inesperados successos? - -Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da -invasão paraguaya. - -Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão -estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e -meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N. -E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes -todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto -de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem -chamado Rio-Branco. - -Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou -as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com -o invasor. O _castelhano_ era por todas considerado de longas éras como -inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as -desgraças dos _portuguezes_; outras se separárão d’elles; outras, emfim, -começárão a hostilisar a gente de um e outro lado. - -Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população -fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude -infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa, -ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz -Barbosa, no Bonito. - -Voltemos, porém, aos kinikináos. - -Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada -pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada. - -—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos, -Flavio Botelho. - -—Fujão todos. - -—Para onde? - -—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos. - -Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico -merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se -diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com -grande orgulho, assignada por D. Pedro I. - -N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente -e tratou de dormir. - -A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um -chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo -possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir. - -Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá. - -Era o filho de Camiran. - -Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de -cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes -acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando -energia. - -Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade -dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas -relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno -as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua -aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas, -e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses -dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir -o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e, -apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão, -obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas -medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios. - -Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado -de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação -de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma -garrafa de aguardente no fim de cada mez. - -Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se -apressou em saber da verdade. - -Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio -declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade. - -Não havia recalcitrar. - -Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do -trabalhador, ficando de pé a letra do contracto. - -Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como o tal juiz de paz não -podia fazer negocio melhor, immediatamente aceitou a proposta, com grande -applauso do frade. - -Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente trabalho a -500 réis diarios, esteve com toda a constancia dous mezes ás ordens do -contractante, e sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do -indio que substituira. - -Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro mil réis que deo de -esmola para as obras da matriz, e levou as garrafas de aguardente para -offertal-as a Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido o -coração. - -Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, em compensação o seu -prestigio augmentou de um modo extraordinario. - -—Os _portuguezes_, dizião os velhos com aquelle sorriso quasi -imperceptivel que os indios têm, não podem com Pacalalá. Elles são -velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá é como o lagarto que dá -chicotadas sem ser visto. - -Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, orgulho immenso, mas -occulto no ádito de sua alma. Não só por indole, como pelos costumes dos -seus, nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia por elle, -nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, quanto mais beijal-o ou -tecer-lhe elogios! - -A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, repassado, com tudo, -do mais profundo enthusiasmo. - -Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; se alguem tinha -commodidade de vida na aldêa não excedia a que desfructava Camiran. - -Da roça de seu filho vinha abundante colheita de aboboras, milho, arroz e -feijão; varias gallinhas cacarejavão diante de sua porta, e uma vacca com -o bezerro ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar. - -Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus trabalhos sem trazer para -a mãi um cesto de carás ou de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou -miolo assucarado da macaúba, que os indios chupão com delicia. - -Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer na refeição habitual -a delicada carne da _jáo_, da _aracuan_, _jacutinga_ e _inambú_; mas o -preço da polvora e do chumbo tornava raras essas occasiões. - -Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem dizer palavra, tomava os -alimentos e corria a preparal-os. Elle tirava as calças que lhe servião -para o gyro habitual, embrulhava-se n’uma _julata_ e ia deitar-se na rêde -de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo de barro. - -Assim ficava longas horas, fitando um ponto no chão e com o espirito em -torpor. - -As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento com os habitantes -de Miranda; entretanto elle devéras se affligia da má fé e dobrez que os -brancos punhão sempre n’essas relações. - -—Cuidado com os _portuguezes_, dizia elle para os seus quando consultado; -são nossos iguaes e não nossos amos. N’esta terra não deve haver duas -gentes: uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem trabalhar. - -Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar as suas razões de -queixa e com isso produzio algum abalo no animo de uma das autoridades da -villa, tão arbitraria quão subalterna. - -—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar com o Imperador, -que é o capitão grande. Eu sei que elle não quer que os indios sejão -maltratados pelos _portuguezes_. - -Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração entre os -kinikináos do que qualquer outro. - -Se não reagia, pelo menos protestava sempre. - -Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança que inspirava, e -elle não hesitou em aceitar a commissão que lhe impunhão o respeito e a -consideração de sua tribu n’aquella difficil emergencia. - -Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono da aldêa do Agaxi. -Separou mulheres, crianças e velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser -mais facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção de Flavio -Botelho, que devia dirigir-se ao porto do Canuto, no rio Aquidauána, -d’ahi a 8 leguas, para embrenhar-se depois na serra de Maracajú. - -A romaria partio; não sem alarido, imprecações e gemidos. As velhas -sobretudo levantavão uma grita da mais completa desesperação. - -Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, ou vergadas ao peso do -_nadô_, grande rede de malhas em forma de saccos suspensa por uma tira -de couro que applicão de encontro á testa. - -Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta homens validos e á -frente d’elles marchou para Miranda a saber o que convinha fazer. - -A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de fugitivos, indios -em grupos, outros isolados, homens montados a correrem, velhos a se -arrastarem de cançados, crianças perdidas, mulheres desamparadas e -familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros de bois, que -caminhavão aguilhoados por impaciente ferrão. - -Toda a população estava em movimento e, cousa digna de reparo, n’essa -occasião desastrosa, não se davão factos de violencias, roubos e -assassinatos, tão faceis no meio da desordem geral. - -—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um mineiro, que desanimado -da morosidade dos seus bois de carro estava parado ao meio da estrada, -cercado da familia em pranto. - -—Para Miranda, respondeu o indio. - -—Pois então me levem a minha mulher e estas tres crianças. Todas andão -bem a pé e depois de amanhã estou _batendo_ na villa. Fico para esconder -o meu trem no mato. - -O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo sob sua protecção a -familia do mineiro, com ella entrou em Miranda. - -A villa estava, como dissemos, entregue á maior anarchia. - -Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções de resistir e que -toda demora importava augmento de perigo: entretanto, como era preciso -armar os seus e as autoridades não distribuião, nem querião distribuir -armamento e munições, esperou que os moradores se retirassem. - -No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e um deposito immenso -de artigos bellicos ficava entregue ao saque dos indios, antes de passar -para o poder dos paraguayos. - -Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, guanás, guaycurús, -cadiuêos, beaquiéos e outros vião-se excellentes clavinas e muita polvora -e bala durante todo o tempo da occupação do districto. - -Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se então para o porto do -Canuto e capitaneando a tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais -ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima chapada que corôa -aquellas alturas. - -A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, havião já chegado -muitos fugitivos, entretanto como ella era coberta em toda a superficie -de mato virgem e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, sem que -communicassem logo uns com os outros. - -Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas quanto soffrimento, -quanto desespero, para toda aquella infeliz gente sem outro alimento mais -do que palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e uma ou outra -caça, essa mesma comprada a peso de ouro!... - -Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas para entregar á -terra as sementes que havião cuidadosamente trazido comsigo e preparar -assim um futuro melhor. - -Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos todos os kinikináos -cuidarão promptamente de roçar e de plantar, pelo que forão os primeiros -que conhecerão a abundancia de cereaes. - -Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar os pobres refugiados -que só de uma boa colheita podião esperar lenitivo para tantos males. -O grão que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de uma maneira -maravilhosa, e todos quantos galgarão a serra e se acoutarão em suas -umbrosas dobras tiverão em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além -das mais exageradas esperanças. - -Houve até um branco de Miranda que, plantando meio alqueire de milho, -colheu mais de duzentos, e de uma quarta de feijão tirou perto de -quarenta alqueires! - -A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira no mato, aberta é -verdade com muito trabalho e a poder do machado muitas vezes manejado por -mãos de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia cahir o maná -do céo. - -Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira ahi estabelecida -de mistura com indios kinikináos, guanás, terenos e laianos, gozasse de -bastantes recursos para considerar de animo mais calmo as desgraças que -acabavão de soffrer e poder com paciencia esperar pelo final da guerra -que os paraguayos tão imprevista quão deslealmente havião encetado. - -Nos diversos lugares da serra em que havia moradores e que tomarão o nome -de acampamentos, construirão-se ranchos vastos e commodos, e pouco e -pouco regularisou-se o modo de viver. - -Para augmentar até aquella repentina prosperidade, veio um casal de -gallinhas, trazido com muita cautela de Miranda por um indio, que lá se -introduzio á noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande numero -que anno e meio depois contavão-se alguns possuidores de centenares de -cabeças de criação. - -Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a boa paz presidio as relações -de todos, e em honra ao espirito da população de Matto-Grosso póde se -afiançar que nenhuma scena de violencia, durante todo o tempo de exilio, -lembrou que havião totalmente desapparecido o imperio das leis e a -protecção das autoridades. - -Os indios, em numero décuplo dos brancos e que podião, como receiarão -a principio muitos, libertar-se com estrondo da tutéla em que havião -vivido, se ficárão um pouco mais altanados e independentes, nem por isso -praticárão desmandos nem se aproveitarão das occasiões para reacções ás -vezes justificadas. - -Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros ia attrahindo para -lá os fugidos do districto, de modo que em fins de 1865 estavão elles -quasi todos reunidos na chapada da serra de Maracajú. - -O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa de um lado, e de outro -desde o Paraguay até os campos de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue -aos paraguayos que rondavão sobretudo a área comprehendida entre os -pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, Nioac, Ariranha e Esbarrancado, -onde mantiverão, até Agosto de 1866, importantes destacamentos. - -Por entre essas rondas passavão á noute os indios quando descião da -serra para vir laçar rezes na planicie e ajoujal-as com outras mansas, -tangendo-as assim para os acampamentos. - -Com essas expedições repetidas sempre com exito, apezar da vigilancia dos -inimigos, abastecião-se de carne fresca e secca ao sol todos os moradores -dos Morros, que então só se podião queixar da falta de sal, essa mesma -até certo ponto minorada pela exploração dos barreiros e terrenos -salitrosos, tão abundantes em todo o sul de Matto-Grosso. - -Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade na obtenção de -bois para o córte. Era o mais ousado em descer á planicie, ficando ali -sem receio dias inteiros a escolher as rezes que contava agarrar. Com -alguns companheiros bem armados chegou a levar oito e mais animaes, tendo -sempre a cautéla de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes, -quando n’isso via vantagem. - -Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido de perto por uma -ronda paraguaya. - -Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, quando Pacalalá -reconheceu que ião ser atacados. O lugar, porém, prestava-se á -resistencia: era já na fralda da montanha e a trilha de subida serpeava -por denso matagal de taquarissima. - -Destacando dous indios para continuarem a tanger o gado, Pacalalá com -os outros esperou a ronda n’um angusto pedregoso, e de um tiro certeiro -derrubou o paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos mais -soldados. - -A ronda recuou precipitadamente, deixando como trophéos de victoria não -só o cadaver do companheiro como o cavallo que montava. - -Grave agitação produzio nos acampamentos dos Morros a chegada de Pacalalá -todo cheio de seu triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo do -inimigo. - -Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo e formal ataque -dos paraguayos, que, abandonando os seus ranchos e roçados, atirarão-se -pelas matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario virão n’esse -successo maior garantia para a sua segurança e cobrirão o vencedor de -felicitações e elogios. Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a -alegria selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha embeber -nas carnes pisadas pelo arrastamento facões e espadas, e o corpo -espicaçado, mutilado e já sem forma foi por fim atirado aos cães e corvos. - -Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se as descidas dos Morros -mais frequentes e ousadas, e os paraguayos mais cautelosos e receiosos de -emboscadas e estratagemas. - -Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante umas 16 leguas e ficava -muitos e muitos dias entretido em preparar e seccar os saborosos pacús, -que abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado quanto vigiadas -pelas rondas dos paraguayos as margens do caudal, a que davão o nome -de Rio-Branco e que impunhão como divisa do novo districto annexado á -republica sob o titulo de Mbotetiû. - -As temeridades do kinikináo devião necessariamente trazer um novo -encontro e esse deu-se com proporções tão vastas em relação aos que -n’elle se empenharão que póde ser considerado como o feito de guerra mais -importante durante todo o periodo de occupação. - -Foi em Maio de 1866. - -No porto de D. Maria Domingas á margem direita do rio Aquiadauána, -existia um extenso cannavial que era o objecto da cubiça dos indios muito -inclinados ás substancias assucaradas. - -Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no proprio lugar e, -convidando seis kinikináos e dez terenos, poude encetar com felicidade o -seu trabalho. - -Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo natural abandono -de medidas cautelosas quando nada parece dever prescrevel-as, ou por -casualidade, forão os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda -inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou pedir reforço ao posto -do Souza, d’ahi a 6 legoas. - -Vierão perto de duzentos homens. - -Os indios, quando se virão cercados, desanimarão. - -Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, os incitasse, -mostrasse-lhes a vantagem da posição e emfim a necessidade de se -defenderem de quem por certo não daria quartel a nenhum d’elles. - -Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza. - -Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros. - -Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou cada companheiro -atraz de arvores grossas e aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de -fazerem fogo. - -Os paraguayos estavão a pouca distancia formados em linha na planicie, -assim pois os primeiros tiros derrubarão de uma vez para mais de uma -duzia d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas balas forão só -varar troncos e cortar galhada. - -Os indios recuarão então, ganhando o interior da mata. Perseguidos por -uma companhia de infantaria acolherão-na por modo tal que a obrigarão a -retroceder. - -Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda parte se achava para -exaltar o animo de cada combatente e melhor aproveitar os esforços e -crescente enthusiasmo dos seus commandados. - -Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando os feridos e mortos -e suppondo haver-se batido contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o -valente, a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, não poude cantar -victoria. - -Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o tocára no meio da testa e -o atirára sem vida no chão. - -Essa morte, no fim do combate, encheu os indios de pavor e, quando a -noute cahio, elles fugirão todos sem levar sequer uma das rapaduras que -tão caro lhes havia custádo. - -Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos dos Morros, levantou-se -uma grita immensa. As moças kinikináos cortarão logo os cabellos na -altura das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e prata que -ainda conservavão. - -A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão gritos -agudissimos, soltos pelo mulherio e crianças. - -A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem sequer podia, como é de -uso entre os seus, guiar as lamentações e contar as proezas e virtudes do -morto. - -Estava anniquilada. - -Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada ouvia. Não chorava, não -podia chorar, mas desde aquelles momentos sentio que não podia mais viver. - -É n’um estado de quasi completo definhamento que encontramos Camiran no -principio d’esta narração veridica em quasi todos os pontos e que terá o -merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, na historia do -quanto soffrerão os refugiados de Miranda, e sobretudo nas façanhas do -desconhecido Pacalalá. - -O combate do porto de Maria Domingas—que combate deve ser o qualificativo -adequado áquelle encontro—fez com que, durante muitos mezes, cessasem as -correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána. - -Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com coragem para se -arriscar até o lugar em que havia valentemente guerreado. - -Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não soffrera decomposição, -mas estava secco e mirrado como se fôra uma mumia[20]. - -Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento kinikináo. Forão gritos -horriveis, gemidos, ululações que se ouvião em distancia consideravel. - -Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e longos mezes, -mergulhada na dôr que a ia matando, foi consultar um feiticeiro e saber o -que significava aquillo. - -O nigromante declarou-lhe positivamente que aquelle corpo, emquanto não -fosse enterrado, reteria em duro captiveiro a alma de Pacalalá. - -Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar o cadaver do filho -á terra. - -Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da aldêa. - -Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o porto de D. Maria -Domingas. - -Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe que a natureza toda, as -arvores, os montes, os rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que -o seu coração era o unico e immenso echo. - -Cahio desfallecida.... - -Quantas horas ficou assim, ninguem sabe. - -Depois se ergueo a muito custo. - -Não levára alimento algum. - -Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que devia deitar o guerreiro -morto. - -Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um pouco o chão e já quasi sem -forças suspendeu o cadaver ressicado e o estendeu no leito derradeiro que -lhe preparára. - -Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, os seus braços, finos -como gomos de canniço, recusarão-se ao movimento; o seu corpo dobrou-se -todo e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura mal -fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados estremecimentos, as suas -mãos convulsas chamavão a terra para junto de si. - -A noute envolveu no manto mysterioso das sombras as ultimas dôres -d’aquelle coração, e quando o sol, na manhã seguinte, irrompeo -deslumbrante, os seus raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, -mas tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles recebião, ião-se -fundir no gigantesco cadinho que se chama a natureza! - - -FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO. - - - - -O VIGARIO DAS DORES - - -O VIGARIO DAS DORES - -O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente chamada villa das -Aboboras, na provincia de Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da -estima e da consideração de todos os seus freguezes. - -Passava por ser homem de muitas letras, e raramente era visto sem ter -entre mãos um livro que ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe -longas e sérias meditações. - -N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o padre Monte—assim se -chamava elle—no adro da modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e -que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio fica no alto de -uma collina, a cuja fralda se estendem as casas da povoação. - -—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, dizião as mulheres, seguindo -com os olhos o clérigo em seu limitado passeio quanto lhes permittia o -pallôr do crespusculo. - -Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia melancolica e quasi -sombria havia logo colhido as affeições geraes pela doçura de trato e -amenidade de palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar vivo e -expressivo e testa larga abrindo em calva. - -Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas prematuras havião lhe -já impresso na fronte os sulcos da preoccupação e do soffrimento interno. -Fôra educado em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso que, -reduzido pela orphandade á mais completa miseria, nunca tivéra amparo de -paes ou de parente algum. - -Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, abraçou, por -gratidão áquelles que o havião socorrido e por não ter outra vida que -seguir, a carreira ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de ordens -tomadas. - -Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os seus livros classicos -ou theologicos e cumprindo regularmente com os deveres de sua profissão -passou alguns annos sem dar motivo algum para que os seus protectores se -arrependessem do diminuto apoio que lhe havião dispensado. - -Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, ganhava bastante -para cobrir os reduzidos gastos que comsigo fazia, recusando com modestia -e naturalidade de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho -dos pobres. - -Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes de quem o -procurasse, era o padre Monte um bello modelo de virtude christã. O seu -espirito benevolo não admittia exagerações em materia religiosa, mas a -pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que tentasse apontal-o como -desprezador dos mais insignificantes preceitos do ritual. - -Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior tributo de veneração, -havia alguem que conhecia uma falha profunda naquelle caracter honesto e -amigo do dever. - -Era elle mesmo. - -O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que praticava o bem com -satisfação e alegria; conhecia a nobreza natural de seus sentimentos; -repellia o mal, como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si -essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa que elle suppunha -necessaria para bem cumprir com a missão que as circumstancias, mais do -que a vontade, lhe havião imposto. - -Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da missa, não era obrigado -a fazer um esforço sobre si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e -retel-a, sobre os versiculos que os labios ião machinalmente recitando? -Quantas vezes não sentio elle frôxos os braços, quando erguia a hostia -divina ou o calix que ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não -erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza... Faltavão-lhes -aquellas fibras que irradiadas do coração estremecem ao impulso gigante -da fé. - -O padre Monte procurava debalde conforto na oração, no estudo e na -meditação dos textos sagrados. - -O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito a duvida, tunica -tremenda, cilicio de dôres que lhe constringião o peito a tirar-lhe o -folego. - -Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e só no somno—o grande -procrastinador do soffrimento—é que achava refugio. - -Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na sua mente se reproduzião -os tormentos de Santo Antonio e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que -lhe podesse lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe proporcionasse -d’essas alegrias immensas que cercão os triumphos completos. - -Havia no imo do seu peito como que uma recordação vaga do mundo que -elle não conhecia, como que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres -inebriantes e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos de revolta. - -Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia o padre Monte as -homenagens á sua virtude como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para -a sua alma indomada senão indomavel. - -N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o peccado, odial-o -em cada passo da vida e, abrindo lucta com elle, não sahir sempre -vencedor. - -D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi incerteza do futuro e -pavor. - -O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia lhe retratava; -era tão sómente aquelle que pautava o seu procedimento pelas restrictas -regras que devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia d’entre -os seus companheiros, quanto subira no conceito dos outros, da população -e de seus superiores!... - -Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas horas arrependeo-se -profunda e amargamente de não haver consultado o coração e as forças -antes de se alistar na milicia de Deos. - -Foi com a vista de uma mulher. - -Estava elle dizendo missa com a severidade habitual e até n’aquelle dia -não fôra assaltado das criminosas distracções. Ao voltar-se, porém, no -altar para abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido por dous -olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, languidos e cheios de fervor -que a vista se lhe turvou. Desde aquelle momento não soube mais o que -fazia. - -Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração e tropego desceu os -degráos do altar. Nem sequer se ajoelhou como despedida ao lugar em -que havia sacrificado; nem sequer podia orar para affastar do espirito -vacillante aquella fascinadora visão. - -Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao adro da igreja. - -Levantava-se então a possuidora daquelles olhos perigosos. - -Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas de sua belleza ao -sopro gélido da prostituição. - -O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror. Pedio logo -confissão a um velho sacerdote e aos pés d’elle abrio o coração macerado. - -Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou os padecimentos de sua -alma timorata; as duvidas que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que -travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, de fé viva, de -convicção, e desfeito em lagrimas revelou a sua ultima e grave macula, -que parecia aos seus olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o, -tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia fugir. - -A querer dar consolo áquelle espirito malferido e podel-o fortificar, -fôra necessario se identificar com elle para então de sangue frio arcar -com cada um de seus terrores e em cada angustia levar com delicadeza o -balsamo do bom conselho. - -O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse tacto, a intuição -do argumento amoroso que se insinua e não se impõe. A sua pratica foi -dialectica e não convincente; demais elle pareceo não dar a devida -importancia a todos aquelles factos intimos, e tratou-os senão como -abusões, pelo menos como trerores de uma consciencia exageradamente -meticulosa. - -O padre Monte levantou-se do confessionario ainda mais afflicto. Passou -uma noite horrivel, ora entregue aos remorsos cruentos que a sua -imaginação alimentára, ora possuido do influxo demoniaco que lhe soprava -ao ouvido o peccado com todos os seus gozos. Então via distinctamente a -bella Samaritana cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião com -poder sobrenatural. - -O seu passado de pureza levantava-se todo para protestar contra essa -tentação, mas não havia resistir: todos os musculos de seu corpo -estremecião e a mente em fogo parecia um volcão. - -Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a noute estava sombria. - -O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo em febre. - -No momento porém de pôr a mão sobre a chave e empurrar a porta, que para -elle ia abrir-se no caminho do crime, sentio as pernas lhe faltarem e -cahio desmaiado profundamente no chão da soleira. - -Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu anjo da guarda, que já não -podia vencer o espirito das trevas. - -No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução heroica. - -O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a parochia das Dôres do Rio -Verde, sertão pouco povoado e ao sul daquella provincia tão bem dotada -pela natureza, quão mal aproveitada pelos homens. - -Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade a conseguio. - -—No deserto, pensava o padre, heide domar esses movimentos revoltos. -Ficarei como a rocha que se não vive, pelo menos não sente. - -Justamente estava a partir uma tropa carregada de sal com destino -á capital de Goyaz. Monte sahio de S. Paulo por uma tarde amena e -disse-lhe o adeos ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro de -Nossa Senhora do Ó. - -Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica a 2 leguas da cidade -e assenta n’uma cumiada d’onde se descortinão vastos horisontes. Para o -sul avistão-se as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da -antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos accidentados, incultos -e que parecem o portico do deserto. - -O padre Monte olhou largo tempo para as bandas da cidade, e os seus olhos -se arrazarão de lagrimas que ainda cahião como que inconscientes, quando -elle ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que leva a Campinas. - -A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto occidental de Minas e -por parte de Goyaz, servio-lhe de agradavel diversão e pouco e pouco foi -incutindo em seu espirito uma tranquillidade que desde muitos annos já -não conhecia. - -As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma variedade extraordinaria. -Ora é o cerrote de Matto-Grosso d’onde a vista goza uma das mais lindas -paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar de pousada. Aqui -é o campo das Cruzes, logo ao sahir de Mogiguassú, como que destinado -pela natureza para uma gigantesca cidade, tão plano e vasto é elle; alli -são as aguas puras e borbulhantes dos ribeirões; mais diante fica a -villa da Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama miuda e sempre -verde; durante leguas inteiras é a vista de cerrados ennegrecidos pelo -fogo, ou então de campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos -encachoeirados e crystallinos. - -Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se a cidade da Franca -do Imperador, tão celebre outr’or pelos seus crimes e disturbios. O -seu aspecto de longe é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada -perfeitamente nivelada de uma elevada collina, cujas fraldas vem morrer -em campo limpo. A sopé corre um ribeirão, e as casas parecem encravadas -em densa matta de laranjaes e bananeiras. - -Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, riscado pelo rio Grande -que já ahi vai tomando apparencia do imponente Paraná. - -Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão sertão da Farinha -Podre e que hoje constitue as comarcas do Prata e Paraná: um angulo -agudo, cujos lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi na linha -bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de altos e baixos, regada, -em todos os seus pontos, de agua nunca turvada, a qual brota de um chão -ferreo e poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua Direita, -levantão-se então nuvens de pó amarello que se agarra a todos os objectos -e dá uma côr nova á camisa já matizada e barrenta do tropeiro. - -Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: a vegetação é outra. -Amiudão-se os grupos de magestosos boritys, essas bellas e melancolicas -palmeiras que desde então acompanhão o viajante até o fundo de Matto -Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, palmeiras que, uma -vez vistas, não podem ser confundidas com alguma outra e que deixão, no -espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma verdadeira saudade. - -A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que justifica o seu -nome indigena—largo e claro.—É largo e claro no estado normal; aguas -espraiadas e limpidas; aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas: -é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba as margens que se -erguem a muitas braças acima do nivel. - -Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas arterias collossaes, o -Araguaya e o Tocantins, como se fôra o coração do Brasil; mas coração -pelo amor e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza de -aspirações, pela cordura e sinceridade, não pela força que não tem, nem -póde dar ao corpo todo. - -A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, diamantes, pedras -preciosas, capazes de offuscar os thesouros da Persia e da India; possue -mineraes riquissimos que alimentarião industrias possantes, campos para -toda a especie de actividade humana, e entretanto é pobre, é pauperrima, -não como o avaro que morre de fome acocorado sobre os seus milhões, mas -como essas intelligencias ricas que nada produzem porque para ellas nunca -chegou a cultura. - -Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é só no futuro, e ninguem -poderá ainda dizer quando hade raiar o dia em que um começo de realidade -possa vir dar mais alento á esperança. - -Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados porque os seus -esforços, quando nada consigão, serão um legado precioso que, augmentado -pelos annos, rasgará, por entre todas as difficuldades das distancias, da -solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, caminho á prosperidade -daquellas opulentissimas e incultas zonas! - -A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa princeza da fabula que -devia dormir seculos inteiros até que do fatidico somno a viessem acordar -os emissarios de um genio bondadoso e amigo. - -Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O sybilar da locomotiva -e a letra telegraphica sacudirão a bella adormecida que poderá de prompto -recompensar a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis. - -Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado. - -As suas posses são pequenas; nem sequer tira de si com que cobrir as mais -urgentes despezas, mas em compensação guarda no intimo esses thesouros -de hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já vão se tornando -raros. - -Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, o padre Monte chegou á -capital da provincia e fez, um mez depois, a sua entrada na villa das -Dôres do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia. - -Nos primeiros dias de installação, passou o tempo em inspecções e -passeios. O processo de occupação era breve e limitados os pontos de -recreio. - -A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro em cujo alto está a -igreja, consta de uma rua unica e tortuosa, larga aqui, estreita adiante -e com casinholas cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de -telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta se não cahisse de -velha, annunciando ser ahi a camara municipal, mas está tão esburacada e -suja que ninguem lhe daria outra denominação que não a de pardieiro. - -Estrada para passeio só ha a geral; fita larga barreada ou areenta que -vai se desdobrando por sobre campos quasi uniformes em seus accidentes. - -Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir desde então de morada, -e acalmada aquella agitação que acompanha todo o estabelecimento novo, -sentio-se o padre Monte tomado de uma immensa melancolia. - -Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha pouco agradaveis. Não era -a lembrança daquella mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma -a uma as paginas do innocente segredo que não lhe sahíra do peito senão -para cahir no ouvido do confessor. - -Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o peso da vida, de uma vida -que lhe parecia sem mira e por demais longa. - -Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os mais restrictos -possivel: dizer missa aos domingos, baptisar raras vezes, casar ainda -menos, tudo n’uma igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em -ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro. - -Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se pela amenidade -de costumes e uniformidade de habitos; mas, uma vez ouvida a missa do -domingo, não se occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô, -havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem lá ião, tanto mais -que era um ponto de reunião para trocarem algumas palavras uns com os -outros e assim romper-se a monotonia das semanas. - -Um outro sacerdote mais dominador do que o padre Monte, ou mais -ambicioso, teria procurado reagir contra essa apathia espiritual, -incutindo nos seus freguezes algum fervor, reconstruindo o templo como -podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no seio das familias, -chamando promptamente as crianças ao baptismo, fazendo viagens em torno -para prégar e avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando -o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua exigencia e energia. Se -alguma cousa, porém, faltava ao novo vigario era justamente a energia. - -Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem o interior do -Brasil: é pela violencia com que sacodem as naturezas apathicas do sertão -e actuão sobre as imaginações. - -Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma cousa naquelle -piedoso sentido, mas desanimou logo. Era preciso travar lucta, e elle -não tinha bastante firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi -indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás superstições que -abafavão-lhe a religião como a má herva tira o alento e vida á planta -benefica, mas descurada. - -O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão e que logo -presentio lhe damnificassem o proprio espirito, já por si inerte. - -Nas primeiras missas que celebrou procurou na linguagem a mais singela -explicar o Evangelho, mas notou no seu auditorio, desacostumado ás -praticas, certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. Ninguem -sahio de seu lugar: todos tinhão os olhos postos no pregador, mas não -precisava ser observador fino para reconhecer que, se alli estavão -corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias ao que lhes era -ensinado. - -A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; não suscitava remorsos; -não penetrava no intimo das consciencias como o ferro do cirurgião na -carne viva do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e torpezas; -não profligava; não mostrava o Creador como um Deos carrancudo e -vingador; por isso ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se... - -Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem virulenta e -estropeada estivesse fallando!... Todos ficarião aterrados, cabisbaixos, -possuidos de suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!... - -Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, saberia de -todos os mexericos para, armado do poder da bisbilhotice, rasgar, como -se diz vulgarmente, o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir -os peccadores com allusões tão directas a uma determinada pessoa que -equivaleria á sua exposição em pelourinho. - -Para isso não servia de certo o padre Monte. Além da natural altivez de -sentimento que o arredava de intrometter-se no jogo calunioso de aldêa, -não poderia nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, para assim -grangear a attenção dos que o ouvião e dominar o seu rebanho por meio do -terror. - -Tambem as suas praticas não erão seguidas senão por consideração á -cathegoria official de quem as fazia. - -Esta certeza tinha elle. - -D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos depois da sua chegada, a -cessação completa de explicação do Evangelho no meio da missa. Para -desencargo de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, e -notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão ouvir, acocoradas em -cantos e com ar de estupida contemplação. O resto dos freguezes calculára -pouco mais ou menos o momento em que entrava a missa para então ir ter á -igreja. - -—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se aos seus proprios -olhos, fazer milagres, tocar-se esta gente insensivel pelo sobrenatural -e, traspassando a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo divino -até os seus corações. - -Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao desacoroçoado -sacerdote; era a força de vontade, essa alavanca inquebrantavel que -produz milagres espantosos. - -Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava nem podia perturbar a -monotonia da vida que se vivia na villa das Aboboras. - -O vigario cada vez mais se desapegára das suas ovelhas que, respeitando-o -sinceramente, nunca o procuravão comtudo, nem mostravão ter grande -necessidade de sua presença. - -—O nosso padre é um santo homem, dizião na villa, mas é um exquisitão. - -Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos vastos em torno. - -Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente para aquellas -extensões, e sem presentir, era sorprehendido pela escuridão! Havia dias -em que, á tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se pela -campina alongada, se esbatião umas nas outras até se fundirem todas na -luz crepuscular. - -E sempre a mesma cousa! - -Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça das queimadas, então subia -de ponto a tristeza do painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar -incinerado uniformava todos os aspectos, até que de repente cahia a noite. - -Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel voltava o vigario para a -modesta vivenda e á luz de uma vela de sebo lia o seu breviario. - -Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com um coachar sonóro -formavam monotona orchestra. - -—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude não é a atonia. A -virtude é a resistencia ao mal que solicita. Aqui nada me instiga, e não -sei desempenhar o meu dever. Sou bom sem merecimento e inutilmente. - -Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja permitisse ao padre o -casamento, não teria elle uma familia regular, em cujo seio se cultivasse -o respeito á religião e que serviria de norma para as outras menos bem -dotadas de intelligencia e sentimento? - -Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente naquelles -logares, em que o isolamento faz medrar com tanta força o egoismo, maior -seria o abandono dos interesses de todos em prol da commodidade da -familia. Elle não seria mais do que um funccionario publico que teria um -subsidio mensal para cumprir um determinado exercicio. - -Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas o padre -desappareceria. O pastor teria que obedecer á imposição da natureza, -olhando mais para umas ovelhas do que para todo o resto do rebanho. - -Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma agitação, esse desgosto -intimo servião-lhe de castigo moral pelo pouco que conseguia. - -Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de caracter do padre -Monte, muito livre de culpa andava elle. - -O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, sem molestia physica, -podia-se o considerar gravemente doente. - -Uma nostalgia _sui generis_ o ralava noite e dia. - -Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os sabia de -cór e salteado e nos sermões do padre Antonio Vieira, alguns volumes -desirmanados, contára até as letras de cada lauda, o que anotára -cuidadosamente no alto das paginas. - -Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio Verde—teve a velleidade de -tratar da sua remoção para outra parochia. - -Esta intenção o animou por algumas horas, mas logo depois veio a reacção. - -Para que? - -Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de torpôr que impedira -o choque da duvida, obstára á invasão talvez da descrença? Não havia -conseguido o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que tanto o -assustára outr’ora? - -Em lugar de pedir transferencia, escreveu para Goyaz, remettendo a -relação de uns livros que o seu correspondente deveria mandar comprar no -Rio de Janeiro. - -Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles tornou-se para o bom -do vigario uma causa de distracção. - -Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia dever-lhe trazer -a noticia da proxima chegada de sua encommenda, mas se é difficil levar -livros á Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde! - -O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente possivel, a satisfação de -seu innocente desejo. - -Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo. - -—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a meio o chapéo e coçando a -gaforina, saberá Vossa Senhoria que tenho na minha carga uns dous pacótes -que deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. Não achei na cidade -o cujo e não tendo onde deixa-los, vim os trazendo _até acá_. Mas o trem -peza e fiz tenção de pincha-los na _beiradinha_ da estrada, se alguem não -quizer ficar com eles... - -—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o senhor que devia receber -essa carga? - -—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio de Janeiro, nhor-sim, -outros que morreu. - -—E o que contem as taes caixas? - -—Parece que são livros da gente ler... eu cá não sei com segurança. - -O vigário corou de emoção e com alguma pressa disse: - -—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... E depois, como que -fazendo um esforço penoso: - -—Mas não será melhor que você faça a entrega a quem enviou a encommenda? - -—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi a carga que vinha de Uberaba -trazida por um tropeiro; _ansim_ ninguem poderá acertar d’onde sahiu da -_primeira vez_. - -—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, eu acommodarei -aqueles caixotes e escreverei para Goyaz, afim que se annuncie no -_Correio Official_ o que acontece. - -—Isto fica a seu cuidado. - -Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que faziam a carga de um -animal. Por cima delles estava escripto a palavra livros, com endereço a -um senhor Estulano da Silva, em Cuyabá. - -—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes no chão, que Vossa -Senhoria mande abrir este _trem_. O cupim póde ter dado nelle: dizem que -é muito _caroavel_ do papel escrevinhado na machina. Eu não entendo disso. - -O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. Praticando assim, -suppunha mais desculpaveis os projectos que intimamente affagava. - -Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto a contemplar -aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem poderia pensar. Abri-los ou -não, tal era o problema que se agitava em sua mente, ponto controverso -discutido no fôro da consciencia com mais minucia e argumentos pró e -contra, do que qualquer questão theologica nas luctas da escolástica. - -Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos caixotes enigmaticos -com o queixo apoiado em uma das mãos, quando viu de dentro de um delles -sahir... um cupim! - -Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um tèrmes causou tanto abalo. - -O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação que pouco e pouco -foi se transmudando em quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o -argumento Achilles, uma razão irrespondivel para quanto antes levantar os -sellos que guardavam o deposito e salval-o de perda infallivel. - -No momento do vigario dar a primeira martellada para despregar o tampo -do caixote, um pensamento sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins -houvessem já tudo devorado! - -Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos maravilhados do padre -uma boa porção de livros, uns grossos, outros finos, uns encadernados, -outros em brochura. - -Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente e, com -verdadeiros affagos, levando-os para cima de uma mesa, onde os collocou -verticalmente. - -Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem duvida alguma, -proceder a um simples reconhecimento e providencialmente servira para -acabar com as dolorosas vacillações do vigario. - -Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite do que nunca, que -o padre Monte passou revista ás obras. Havia dous volumes grossos: D. -Quixote de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de Alexandre Dumas -em portuguez; varios folhetos, uma historia das Missões na India e China, -e Os Novissimos do homem de S. Francisco de Salles. - -Apezar de alguma difficuldade em comprehender a principio correntemente o -francez, naquella mesma noite ficou encetada a obra prima de Cervantes. - -O padre Monte nunca havia lido romances; por isso semelhante livro lhe -pareceu extraordinario. Aquelles episodios multiplos e tão variados -quão curiosos, aquelle estylo simples mas valente, aquelles typos de D. -Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas tão philosophicos e -profundos na essencia, tudo o encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava -de um modo desconhecido. - -Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca mais bellos thesouros -lhe terião deslumbrado as vistas. - -E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas sonoras que echoavão -no seu quarto, deshabituado de semelhantes expansões! - -O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava o conceito de Philippe -IV. - -Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! Pela magia de sua -penna, quantos ainda poderão sorrir, quantos por momentos esquecérão as -preocupações e os desgostos que os assaltavão! - -O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra por letra, para assim -dizer. Fez como o gastronomo que beberrica um saboroso liquor e na -lentidão com que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre. - -D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro inseparavel durante -os passeios; o consolador daquellas afflicções d’outr’ora quando por -acaso querião voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia da solidão. - -Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do destemido Mosqueteiro. - -Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado pela imaginação -cambiante de Dumas e devorou paginas com tanta precipitação que era ás -vezes obrigado a tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa. - -Um acontecimento imprevisto veiu interromper aquellas leituras. - -O vigario cahiu gravemente doente. - -Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. Voltou com a cabeça -em fogo e, durante a noite inteira ardeu em febre intensa. Esmagado no -leito por um quebrantamento geral e abrazado em sede, não teve nem sequer -forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, de modo que supportou o -tormento feroz de Tantalo, até que pela manhã, penetrando o seu sacristão -no quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados. - -Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado e tão nullo que o seu -auxilio de nada valia para o enfermo. - -O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns dias. - -Apezar de visitado por todos os moradores da villa, pode se dizer que -estava em abandono. Á noite quando não delirava, tinha uma obsessão atroz. - -Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, contemplava-o -cara a cara: e um silencio lugubre reinava por toda a parte, ao passo -que a véla de cebo consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada no -azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada. - -N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração. - -De que modo iria elle comparecer perante o Eterno Julgador? Que acto -de sua vida apresentaria para contrapôr a todas as suas vacillações, a -todas as falhas de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios -havião tumultuado em seu espirito? - -Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento completo! Então a -sua vida inutil e mal preenchida, se apagaria como a d’esses animaculos -ephemeros, que nascem e morrem sem se saber para o que. - -Mas não! - -A morte se lhe afigurava como um genio alado, de gesto severo e figura -sombria, que só esperava pelo desprendimento da alma para voar adiante -d’ella e guial-a pelos espaços do infinito. - -Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se um clarão, cuja luz -apezar da distancia incommensuravel, não podia ser fitada. - -Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, indefinido, -échoava uma musica suave, mas que abalava a coragem a mais indomita e -quebrava-lhe toda a força. - -—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á morte. - -O silencio é que respondia. - -—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava elle ainda. - -E sempre o silencio. - -Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, acima, abaixo, por -todos os lados, almas e mais almas que subião, subião, umas rapidas e -velozes, como anciosas de chegarem e desferindo faiscas de luz, outras -pesada e penosamente, deixando após si um sulco escuro, quasi negro. - -No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como que acordou de um sonno -profundo. - -Estava salvo! - -Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha que ella compuzéra com -hervas do campo e diariamente fazia quasi á força o doente tomar, mas -é de crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar a si a gloria -d’aquella resurreição. - -Em todo o caso começou uma longa convalescença, durante a qual o padre -Monte—quem o disséra!—sentio o prazer ineffavel de voltar á vida. - -Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações são sempre para -elevar-se. Assim, pois, quando vai-se despenhando o corpo pelo abysmo -do aniquilamento e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser doce -parar de repente e subir tudo quanto acabára de rolar, bem que aggravada -do peso do seu envoltorio terrestre. - -O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e as mãos tremulas, -poude dizer missa, elle experimentou uma uncção nova, indizivel e como -sempre desejára ter sentido. - -N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da China e India e os -Novissimos do homem de S. Francisco de Salles, livros, cuja leitura fôra -adiada para depois de esgotados os romances. - -Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição de sacrificios -immensos, modestos, perdidos no meio das selvas e montanhas de paizes -desconhecidos! Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores que -deixavão todas as regalias de cidadãos, de homens, davão de mão a toda a -possibilidade de gozo, de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e -uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, cheios de ardor e -esperanças no resultado que todos os esforços reunidos havião de produzir -a final!... - -O padre Monte foi se penetrando de uma idéa. - -Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito de populações -indifferentes, já que não podia avivar n’ellas a fé que havião recebido -dos antepassados, e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo -libertada de todas as superstições e quasi gentillismos com que no sertão -a cercão a ignorancia e as tradições oraes, ao menos devia procurar a -gente indigena, os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador, -abrir os seus corações ao influxo da religião. - -Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria a massa bruta. -A outros mais valentes na palavra, mais felizes, mais inspirados, mais -energicos e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado que as cinzas -frias da indifferença havião quasi abafado. - -Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util á sua consciencia e á -patria. - -Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para Goyaz pedindo ser -encarregado de uma missão entre os indios bravios da provincia. - -A resposta foi prompta, e a villa soube que em breve partiria o seu -vigario com destino ás margens do Tocantins a cathequisar os selvaticos e -indomaveis Canoeiros. - -Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho, severo em seus -costumes, sério e affavel, mas, força é confessar, em geral houve -indifferentismo. - -Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que o padre Monte fizéra, -mas umas velhas lembráram que elle nunca fôra muito amigo de procissões, -que consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não quizéra permittir -na casa de um caróla umas festas religiosas e reprehendera severamente o -sachristão por haver vendido uns bentinhos de seu louvor. - -No dia da partida, pois, quando o padre Monte se despedia de seus -freguezes, houve uma só pessoa sinceramente sensibilisada: era elle. - -Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo entrega dos livros -a um conhecido seu a quem recommendou procurar dar-lhes direcção para o -dono, guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros do homem. Mas -antes calculára mais ou menos o preço que poderião ter custado e poz no -correio uma carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando dentro -umas notas do Thesouro. - - * * * * * - -O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, o melhor para viajar -e chegou com saude ao Vão do Paraná: depois, sem acompanhamento algum, -frechou com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam atravessar. - -Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de annos, não ha noticia -do fim que levou: entretanto não se deve desesperar ver ainda voltar o -intrepido missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus -inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem vagarião pelas -mattas como féras indomadas, fugindo do contacto d’aquelles que hoje -são os seus compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como elles, -brasileiros. - - -FIM DO VIGARIO DAS DÔRES - - - - -JUCA, O TROPEIRO - - -ADVERTENCIA - -A autoria da presente narração pertence mais a um ex-sargento de -voluntarios de Minas, que nos disse haver conhecido de perto o personagem -que n’ella figura, do que á nossa penna. - -O que fizémos foi desbastar o correr da historia de incidentes por demais -longos, de innumeros termos familiares, e sobretudo de locuções chulas e -sertanejas que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo comtudo -reconhecido a originalidade e força de colorido d’essa linguagem, e -desejando conservar ainda um que da ingenua, mas pitoresca expressão -do narrador, resultou uma cousa esquesita, nem como era quando contada -pelo ex-sargento, nem como devéra ser, sahida da mão de quem se atira a -escrever para o publico. - -Batemos de arrependido nos peitos. - - -JUCA, O TROPEIRO - - -I - -Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas Geraes e tropeiro desde -em menino, era um companheirão, alegre e estimado, como nenhum outro nas -tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto Grosso e trabalhar -n’aquelles sertões brutos. - -Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar uma boa prosa, no -que não havia quem lhe posesse o pé adiante. - -Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um cururú, repinicar na -viola ou contar historias, umas gaiatas que fazião estourar de riso, -outras de bruxas e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada e -sem vontade mais de pregar olho. - -Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava o serviço, mas isso era -tão raro que bem poucos poderião dizer tel-o visto calado e amofinado. - -Não havia capataz que o não desejasse em sua tropa, porque não era só de -lingoa que elle fazia bichas. - -Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho grosso, não se contava um, -por mais pintado que fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso -de atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar a sobrecarga, -acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, remexer pastos, arrumar no -pouso as cargas, arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os ligaes -por causa da chuva e da humidade, era elle mestre e tudo n’um sopro. -Emquanto o diabo esfregava um olho, Juca Ventura já tinha feito muita -cousa. - -E forte de saude que parecia de ferro. Zombava das maleitas e sezões, -cortando por todo o tempo rios cheios e cruzando _pantános_ sem o -menor medo de _maldades_. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas e -beberagens, e dizia com gabolice que chegaria ao fim da vida sem dar o -pulso a cirurgião nenhum, nem se quer para saber do que morria. - -Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, onze animaes gordos -de encher o olho, e que se derreava na sella com o chicóte de couro crú -apoiado na coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas estradas de -Christo, cantando alto e afinado, contente como um ricaço e cheio de si -como se tivesse o rei na barriga. - -Debalde o vento levantava uma _polvadeira_ immensa que lhe avermelhava -a camisa e lhe grudava o cabello ao casco da cabeça, debalde a chuva o -molhava até os ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e -as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um nadinha, o seu genio -brincador, nem fazia parar a sua força de trabalho e expediente. - -Chegado que fosse ao pouso e não havia um só n’esses fundões de Goyaz -e Matto Grosso que elle deixasse de conhecer como se em cada um -d’elles houvéra nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao pouso e -acommodados os seus animaes, se havia matalotagem farta, comia que mettia -gosto, se não havia, lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um somno -gostoso como tudo. - -Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer barulho, por menor que -fosse, o punha logo de pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e -podia até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural vigilante. - -Tambem se era preciso, passava muito a gosto a noute em claro: e no dia -seguinte estava lépido e bem disposto, como se não houvéra novidade. - -Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos a contar aos -camaradas historias do sertão ou a fazer gemer a viola em cantorias e -caterêtes? - -Nem havia conta. - -E com tal não padecia o serviço: nem capataz nenhum se gabava de o haver -pilhado a cochilar. - -Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se ao respeito e se não -andava com os chefes e superiores a mostrar os dentes em risótas, nem por -isso era carrancudo e malcriado. - -Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de sobresalente para não -parecer unhas de fome e mofino quando tinha de pagar a pinga aos -companheiros da carreira. - -Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas de estouro; mas -ninguem o podia alcunhar de enjoado, porque nos dias de mareta era boa -perna para o pagode. - -Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim que as raparigas dos -povoados, quando chegava alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca -Ventura, pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas fallas de pura -amisade. - -É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa maldizente que quer botar -malicia em tudo, malicia que só existe no juizo enviezado e falso dos -falladores. - -Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das villas e povoações, -algumas até bem bonitas; mas era negocio de simples palavreado, e nenhuma -d’ellas poderia com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, ou fazer -alguma promessa. - -Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como um perdido. - -Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas novinhas que lhe -mostravão agrado e sympathias; as velhas tambem lhe querião bem e quando -elle cruzava por diante de qualquer casa da estrada, não havia quem -deixasse de o saudar com boas maneiras e franqueza. - -E a razão era uma. - -É que não se passava uma viagem ou do sertão para o mar ou de lá para -cá, em que elle viesse de mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança -para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e houve até occasião -em que deu de presente uns córtes de fazenda fina e algumas jardas de -fita muito vistosa e larga. - -E depois não querião que fosse estimado! - -Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos conforme os seus -merecimentos. Mas por estes mundos afóra não falta quem metta a catana -nos mais sem ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas até igual. - -E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos a arrastar a aza -e a fazer pé de alferes pelos pousos, como se fôra algum rufião mal -intencionado que botasse a perder as coitadinhas sem experiencia? - -Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á uma pessoa; e quando -um homem de vergonha estima devéras uma mulher, esse amor não consente -outro: é o unico na vida. - -Nem havia mais segredo. - -Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é que morava aquella moça, -que se chamava Balbina do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já -fallecido, havia morado n’uma esquina de becco, que ella era rapariga -de truz, morena, mas corada, de muito proposito e composição e de quem -lingoa nenhuma tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena cousa. - -Quem é que não sabia d’isso?... - -Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula[21], senhora capaz de -revirar com um peteléco o patife que quizesse vir se engraçar com a filha? - -Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha cabellos pretos como aza -da graúna e tão compridos que passavão alem do quadril talvez um palmo, -olhos que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, boquinha -como se acabasse de comer pitangas, fosse dizer que a sua cintura era de -maribondo, o seu andar engraçado e faceiro como andar de moça da côrte, -e havia de ter que fazer com a velha, boa pessoa no trato quando estava -para conversas, mas zangada de uma vez nos dias de seus azeites. - -E querem vêr? - -Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma janella e D. Cula cozendo -perto de outra, por detraz da rotula fechada, porque a casa tinha duas -janellas e uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão para -um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho de um capitão da guarda -nacional e, tirando-se de seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um -beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado a carinha da moça. - -Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como uma çuçuarana foi D. Cula. - -Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo de vassoura, escancarou -a porta e cahio de pauladas no costado do engraçado que não foi um -brinquedo. Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a sóva -quando o páo se quebrou e por cima levou elle com os pedaços na cara. - -E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia rota, acompanhado de uma -vaia de conta que lhe passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas -de tropa que assistirão áquelle merecido castigo. - -Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou de dizer graçolas a Babita, -bem que todos os dias ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de -pôr agoa na boca. - -Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de tábua a tres pessoas de -consideração. - -D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, mostrando que era -preciso tomar estado, que ella nem sempre havia de estar n’este mundo -para dar-lhe amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada do que -bem requestada. - -Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que estava já arranjado -em seus negocios, tanto assim que tinha sociedade com o Tinôco, de quem -a principio fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura, -procedêra sempre como pessoa de bem que merece dos outros amizade e -confiança. - -—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba. - -—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa gente sahem bons maridos. -Depois ha tanto tempo que está na terra, que nem parece filho da outra -banda. - -—Não quero este, murmurava a rapariga. - -—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz este por ser portuga. Mas -porque disse não ao João Grande, lá da Casa Branca? - -—Ora, um socó... e depois zarôlho... - -—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica e ninguem dirá que seja -moço feio de todo. Outras mais pintadas do que você, Babita, não hão de -torcer o nariz, quando elle as procurar para casamento. Agora me diga o -Mané Quetano, tambem é zarôlho? Rapaz tão bom, tão socegado e de familia -limpa! O pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando ella não -passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto como elle só... - -—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó. - -D. Cula costumava então abanar a cabeça. - -—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta Deus Nosso Senhor -Jesus Christo, que você não tire de tudo isso motivos de se arrepender. -Querer fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para comer, -são cousas que não vão juntas. Cada um deve pedir a Deus aquillo que -basta para a sua posição. Não vá depois lhe acontecer como á Maria do -Frajado, a coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada e, -afinal, quando quiz casar, já não achou com quem. Morreu velha e levou -palma e capella em cima do caixão. E não foi das mais infelizes, porque -tem se visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga de sangue -nas veias, só em pensar n’ellas. - -Babita rematava taes conversas que muito se repetião com este estrebilho: - -—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar. - -Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento na casa, D. Cula se -mostrou meio carrancuda. O rapaz tinha modos direitos e a sua fama era -boa; mas ella não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos -outros. - -Fez cara de poucos amigos e observou de parte a filha. - -Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo aceiado e faceiro, -passava por diante da janella e comprimentava com muito respeito as -pessoas que lá estivessem: vio que elle cruzava por demais n’aquellas -paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, mas por poderem -as suas passadas dar na vista dos outros e trazer fallatorios. - -Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios de casorio, e a -menina parecia estar se inclinando muito por elle. - -D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos o tropeiro por entre -as frestas da rótula, chamou-a a contas, mas com toda a prudencia, -porque era pessoa de experiencia e bem sabia que com mulheres -_enrabichadas_[22], não se deve apertar muito. - -—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta rua anda muito um sugeito -que quer se engraçar com você. - -—Eu não sei, respondeu Babita com susto que pareceu de máo agouro á mãe. - -—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá ainda tenho bons olhos. Quando -um moço gosta sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de mulher -diante de Deus e dos homens, sem ter que se _avexar_ de ninguem, deve -vir com sinceridades e não fazendo modos de inquietar o descanso dos -outros.... - -—Mas ninguem me anda _desinquietando_, interrompeu Babita meio arrufuda. - -—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está mordida... - -E alto continuou: - -—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já que estou com a mão -na massa, quero lhe dar alguns conselhos. Os homens, minha filha, são -muito enganadores e do que menos se importam é da honra e do socego das -mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, revirão o coração de uma -probresinha e, quando não a atirão de uma vez no caminho da perdição, -mettem na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei mais o que. -A cousa começa sempre por brincadeira: a gente olha sem pensar em mal: -acha graça no namôro e depois, minha cara, quando menos se cuida sente-se -cá dentro no peito uma afflicção, um tormento que não pára nem de dia -nem de noute. Então se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha -de fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, menos a vista do -tentador. E elle a se rir e como cobra traiçoeira esperando de longe com -a boca aberta, que a rãsinha se chegue por si mesma... - -Babita durante todo esse sermão em que a mãe contava talvez uma historia -do que outr’ora se havia dado com ella, estava sem saber onde pôr os -olhos, toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que nem bagas de -aroeira. - -A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um pranto de chôro, atirou-se -ao collo da mãe, escondendo a cara com as mãos. - -D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario beijou com muito -carinho a testa da filha. - -—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era como dantes. Mas não se -afflija. Aquelle moço tem bom nome, e eu vou me entender com elle. O -peior era você querer esconder que o seu coração já tinha acordado. - -—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... foi... Mas ninguem -desconfia. - -—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente está desprevenida e da -noute para o dia fica-se outra e presa para toda a vida. O tal rapaz -é tropeiro: não digo que seja bom officio, mas tambem não é de fazer -vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre merecedor. Nós por nosso lado -não somos filhos de capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos -desejar é que seja de familia limpa, porque graças á Nossa Senhora -Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso Senhor, você conheceu o seu pae, -que Deus lhe dê a gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá -n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, tudo assentado -nos livros do Revm. Vigario; d’ahi para cima não posso dizer mais, mas -emfim nem todos podem dizer tanto... - -Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de palavreado, d’onde só -sahio quando lhe faltou a respiração. - -Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou na sua manta de sahir, -uma manta côr de fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na -altura dos hombros umas especies de dragonas de retroz preto, fincou um -pente alto no cocuruto da cabeça, e lá foi ter ao rancho onde estava de -pouso a tropa de Juca Ventura. - -Justamente tinha este de madrugadinha partido com o seu lóte de bestas -para esperar os companheiros d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz. - -—E quando estará de volta? perguntou meio descorada D. Cula. - -—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, respondeu um outro tropeiro. - -Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no seu espirito -cousas bem tristes. Havia sido o que ella suppunha: o tal sujeito era -como os outros. E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada, -não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem podia dizer o que -mais? - -Malditos homens que vem bolir por maldade com as mocinhas e pôr as casas -de familia em dobadoura! - -D. Cula não disse á filha a verdade. - -Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito, mas não sem que ella -lhe dissesse duas palavrinhas. - -—E então? perguntou a moça com receio. - -—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, quando vio que eu estava -corrente com as suas passadas, mas, fallando com franqueza, não pude -saber se elle quer bem ou não a você. - -—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando logo fogo. Tenho toda certeza. - -—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de voltar, e saberemos então se -é o que você julga d’elle, ou se não passa de um marióla que hei de pôr a -tinir como aquelle filho do capitãosinho. - -N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas semanas não se fallou -n’aquella casa em Juca Ventura. - -A mocinha estava um pouco macambuzia: não chegava á janella e não queria -sahir, mas comia com vontade e não parecia começar a ficar magra. - -Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu caminho, jururú e -abatido. Se cantava, era com uma vóz abafada que fazia ainda mais triste -a solidão. - -Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula e o rosto da namorada -não lhe sahião da memoria. - -Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma cousa sem conta, e se -no serviço não afrôxava é porque só no trabalho achava algum consolo. - -E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê: - - Babita, meu bem Babita, - Babita do coração, - Tem pena de minhas penas, - Senão morro de paixão. - - Passarinho que tem aza - Depressa vôa ao seu bem. - Aza não tenho, nem tenho - Quem me possa querer bem. - - Desgraçado do tropeiro, - Minha sina é só gemer: - Meu destino caminhar, - Caminhar até morrer. - - Chaga viva em mim abrio - Teu olhar, mulher querida. - Mas de ti eu não me queixo, - Pois adoro essa ferida. - - Tenhão os _rezes_ seus palacios - Ouro e mais prata infinita, - Eu só quero d’este mundo - Ser querido de Babita. - - Mas, coitado, porque choro? - Quem m’ouvir póde n’este ermo? - Se o meu canto não tem écho, - Meu tormento não tem termo. - - Ó rochedos, montes, valles - Ó campinas tão floridas, - Compaixão deveis sentir - D’essas mágoas tão crescidas!... - -N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava o peito, de modo que -todos sabião por quem ficára preso o tropeiro modelo. - -Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os seus males, e a viola -chorava nos dedos do namorado. Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir -o cantor, cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar. - - Ventura me chamão todos, - Desgraça devem chamar. - Pois aquella a quem adoro - Não me quer _a mim_ amar. - - Sou tropeiro, não sou rico - Casas não tenho, nem ouro; - Mas no peito tenho honra, - E não sou filho de mouro. - - No braço tenho _talento_[23] - Na cara tenho vergonha, - Não vivo de comer bichos - No lôdo como cegonha.[24] - - Ai! se apaga em mim a vida! - Sinto já que vou morrer. - Mas não sei se chóre ou não - Por agora perecer. - - Pois embóra eu _seje_ moço, - Por effeito da paixão - Com certeza hei de findar - Nas funduras do sertão. - -N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o brazeiro se apagára, e já -as barras do dia riscávão os lados do nascente, e elle ainda ficava de -vióla na mão, tocando e verseando. - -Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou em Uberaba, foi logo -procurar vêr a quem lhe tinha inspirado tanta quadrinha bonita. - -O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se a ronda com a -patrulha. - -Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. Cula com um ar muito -agradavel e cheio de riso. - -Ventura quiz voltar, não poude e parou. - -A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado com muito boas maneiras, -perguntando noticias da saude e da ultima viagem e mais outras cousas. - -Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou passado de uma vez -quando, conversa puchando conversa, D. Cula o convidou para descansar em -sua casa. - -O moço no acto de se sentar já não estava muito em si, mas quando vio -entrar na sala a rapariga por quem suspirava tanto, perdeu de todo a -cabeça. - -Não soube mais dizer uma palavra. - -Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria ficar calado, -vinha-lhe a comixão de fallar. - -Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer pasmado. Foi que no fim -de sua visita, uma visita de medico, elle pedio a mão de Babita, que -Babita ficou muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita chorou -algumas lagrimas e que consentio e poz-se a fallar muito e a contar casos -e mais casos, dando de lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo, -quanto mais a um namorado! - -Elle levantou-se cambaleando. - -Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!... - -A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade chegada do Rio de -Janeiro. Uns approvarão muito, outros acharão a cousa má, outros emfim -nada disserão, no que fizerão melhor do que os que se mettião a abelhudos. - -Os que approvavão, mostravão que as idades dos noivos estavão muito -combinadas e achavão direito que um pobre casasse com uma pobre e outras -cousas mais. - -Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio de tropeiro era -baixo e por demais andejo, sendo assim o casal obrigado a viver sempre -separado. E a final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? Nas -de um camarada de tropa... - -Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se na vida e nos -interesses dos outros como melhor quizerem, mas por amor á verdade não -digão que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca! - -Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, olhos rasgados, côr -morena, bigodes finos, boca bem feita, e barba sempre penteada? Não tinha -elle cabellos cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso era do -pó da estrada, e esse pó dava signal de que elle trabalhava para ganhar -honradamente o pão de cada dia. - -Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua pobreza, mas não tivessem -susto de qualidade nenhuma. A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se -Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a ninguem. Graças aos -céos, braços não lhe faltavão para sustentar a sua gente, e, se até então -ainda não tinha ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava fóra -tudo que ganhava e não fazia conta do futuro. - -Agora o caso mudava de figura, e para prova é que elle tratou logo de -preparar um montesinho de prata já com vista nos gastos dos papeis de -casamento e tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella occasião. - -Emfim quer os moradores quizessem, quer não, Babita e Ventura erão -noivos, tinhão já o sim de D. Cula, a unica que podia n’aquelle negocio -serrar de cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio do Brasil -que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes como se tivessem ganho o -reino do céo. - -O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, quando o tropeiro voltasse -de uma viagem que tinha de fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava -paga. - -No momento da despedida os noivos chorarão como dous perdidos; mas no -coração lhes ficava a quentura da felicidade. - -D’ahi a tres mezes!... - - -II - -No tempo marcado voltou Ventura mais _amorudo_ do que quando partira e -com as mãos cheias de presentes. D. Cula ganhou um vestido de muito boa -seda e Babita uma joia de ouro verdadeiro. - -Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que entendia de ourives o -disse, e o que sabia da boca d’elle era que nem palavra de Evangelho, -pelo menos ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras. - -Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou de mãos abanando. -Tinha cozido todo o seu enxoval e arranjado com os dedinhos o vestido do -casamento, que a mulher do commandante superior da guarda nacional fez o -favor de cortar e acertar, porque era uma senhora muito estimavel. Tambem -a cousa parecia uma maravilha de feitio e assentada. - -Mas o que é o destino da gente! - -Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se n’uma dobadoura que -ninguem na terra se lembrava de cousa igual. Uberaba tão socegadinha! -Longe de tudo e de todos no meio de seus sertões! - -Não se fallava senão em guerra! - -Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar que o Imperio do -Brazil estava n’uma pendencia muito grossa com uma republica chamada -do Paraguay, que havia muito fogo de parte a parte, gente e mais gente -partia para fóra, que muitos ião por gosto, outros a páo e corda, que o -recrutamento roncava feio e forte e os rapazes andavão disparando para -os matos, mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e lhe perguntar -quantos annos tinha, seguio socegado o seu caminho do interior, sem se -occupar com as novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava -n’este mundo. - -Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, o mesmo reboliço. - -Parece que os negocios não ião bem. O governo da côrte tinha posto -nos jornaes que todos devião combater, que a guarda nacional havia -de marchar, que era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma -lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios. - -Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. Imaginem! - -Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, mas onde é que se ia -buscar tanto povo de uma vez para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá -de cima que governão os outros ás vezes não pensão com juizo. Era uma -exigencia por demais. - -Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de S. Paulo e de Ouro-Preto -duas forças grandes para se juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para -os lados de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á força e onde -estavão fazendo selvajarias sem conta nos brazileiros que cortava o -coração só de ouvir fallar. - -Tudo isto não bastava. - -Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se na cidade que os -guardas nacionaes ião ser reunidos, que muitos havião de seguir com a -expedição, que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de historias -capazes de assustar os mais valentes. - -As familias andavão com o coração na mão e com toda a razão, porque não -tardou muito e ahi chegarão uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa -e ensinar o manejo de arma. - -Então é que foi susto! - -No meio de todo esse barulho, Babita não tinha um momento de descanço. -Juca Ventura era guarda nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos -annos e podia ser chamado. - -—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se você tiver de marchar? - -—Não marcho, não, respondia o tropeiro para lhe dar algum socego. - -A mocinha perguntava abaixando a voz: - -—Então você deserta? - -—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de cousa nenhuma! Mas tenho -certeza de que não vou. Não me chamão. Você verá... - -Esta certeza durou pouco tempo. - -Um bello dia o commandante superior da guarda nacional mandou-lhe por um -cabo de esquadra aviso, ordenando que chegasse n’aquella mesma hora ao -palacio da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais quinze -companheiros fez uma falla meio gaguejada em que disse que era preciso -ir acabar com o inimigo, que os brazileiros nunca tinham sido vencidos, -que a gente de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam de -voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que o Brazil contava com os seus -filhos, etc., etc., e depois de toda essa perlenga acabou dando vivas ao -Imperador e á Constituição, no que foi acompanhado com muito barulho por -outros homens de casaca reunidos a um lado da sala. - -Mas ahi é que cabia bem uma pergunta? - -Porque é que aquelle commandante superior não marchava tambem para a -guerra? Então só lá devião ir os pobres soldados para chuchar bala como -terra em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas cheias a se -deixarem ficar muito a gosto e só enchendo as bochechas com patriotadas? - -Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, como diziam, -então que todos se sacrificassem. - -O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos e mostrar boa -vontade, supporta tudo com cara alegre, não assim a empurrar-se gente -para obedecer ao governo e mettido na tóca caladinho!... - -Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não disse patavina, e sem -demora foi mandado para o quartel, uma casa de paredes altas e vigiada -que parecia uma cadeia. - -Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios assarapantados que -todos os dias ouviam fallas e mais fallas do commandante d’aquelle -deposito—um major de linha, mandado de proposito da côrte para ensinar -recrutas. - -Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não havia influencia nenhuma. - -Juca Ventura só viu caras muito _jururús_. - -Quando Babita teve conhecimento do que succedêra ao noivo, cahiu n’um -desmaio que poz D. Cula tonta; depois as duas choraram juntas até não -terem mais lagrimas nos olhos. - -Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. Via-se bem que elle -queria se fazer de forte, mas que estava por seu lado desanimado. - -Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi ao quartel para ver -se trocava alguma palavra com o rapaz, mas não pôde entrar, porque na -porta estava um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido que -passeava como um rei, de um lado para outro, segurando na mão uma espada -desembainhada. Quando a boa da velha foi se chegando para mais perto, -elle gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem. - -Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira o cabo fallar -n’uma guerra que houve no tempo de dantes em que elle com mais dois -companheiros tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem de -brincadeira e que cortaria pelo meio todos aquelles que quizessem sahir -do quartel sem passe do senhor major. - -Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava o bigode com -raiva e rangia os dentes como porco do matto. - -Homens assim é que deviam ir para a guerra, já que gostavam tanto da -historia, e não uns pobres moços socegados que tinham suas familias -ou estavam em vesperas de formar casa. Fosse lá o _tres contra -quatorze_[25], mas não uns guardas nacionaes que nunca haviam feito mal a -ninguem. - -Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que ella não passou a -ninguem, porque não gostava de metter o bedelho nos negocios geraes, -entendendo com razão que as mulheres, quando se atiram a discursar nestas -e n’outras cousas, dizem por força desacertos. - -Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora podesse trocar lingua -com Juca o tropeiro. Elle estava socegado, e entretanto bastante murcho, -não que o dissesse, mas pela cara logo se via isso. - -O recado que elle deu para Babita não acabava mais de comprido, mas em -duas palavras queria dizer _amor para sempre_. - -Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e trancadinhos no que se -chamava quartel e que já continha uns centos de pessoas, receberam uma -bandeira novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim muito rica e -vistosa. - -Houve muita pancadaria de musica, muito foguete do ar, estouros de -bombas, e fallatorios compridos e cheios de enthusiasmo. - -O commandante superior tomou novamente a palavra e disse que com o -contingente mineiro a guerra havia por força de acabar, que Uberaba ia -dessa feita para a historia, que todos deviam marchar com a maior alegria -e que aquelles que desertassem haviam de receber castigo de Deos e dos -homens. Mas o espertalhão não prometteu dar o exemplo e tomar parte nos -perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino. - -Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, ambos com muito -fogo, e no fim do seu palavreado, todos romperam em vivas ao Brazil, e -morras ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo. - -O cabo _tres contra quatorze_ já com algumas garrafas de cerveja no -bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos e fazia com os dentes tal -barulho que semelhava não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos. -Elle pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e que estava -tremendo de susto, que fosse buscar oito ou dez castelhanos, armados de -lança e espada, para vêr como n’um instantinho os havia de cortar em -pedaços miudos. - -Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado por uma lista de -nomes, veiu jurar por baixo da bandeira e com a mão aberta sobre os -Santos Evangelhos em como havia de defender até a morte o Imperador e a -Constitução e nunca desamparar o seu posto de honra. - -Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a verdade, n’esse -momento o coração lhe tremeu dentro do peito. Os companheiros diziam -_sim, sim_, mas eram uns _sim_ muito chochinhos que em muitos parecia -mais um soluço do que uma promessa que só Deos podia quebrar. - -Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia duzia de -lanternas de papel—e o quartel ficou todo ás escuras, guardado por uma -sentinella que chorava baixinho e pelos roncos de _tres contra quatorze_. - -O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos cópos deixou-se cahir -na porta estirado a fio comprido, como que para impedir com o seu corpo a -escapúla de algum medroso. - -Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio e trevas. - -Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados do fundo d’alma, pegou -a dormir e a sonhar com Babita. - -De repente alguem o puxou por um braço. - -—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda tonto de somno. - -—Falle baixo, murmurou alguem. - -—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a voz. - -—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo tempo cinco ou seis mas tão -baixinho que parecia um sopro. - -Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba. - -—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar _vancê_ para abrir -campo. Parece que o negocio vai ficando sério e que chegou a hora de cada -um cuidar em si. - -Ventura respondeu com um gemido abafado. - -—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas agora... - -—Agora, o que? - -—Agora não posso. - -—E porque? - -—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no livro sagrado, e -decididamente hei de ir por estas terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê -coragem... - -Houve silencio no grupo. - -—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, _vancê_... não vá... dar -parte de nós... - -—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual tome o rumo que quizer. Eu -não jurei que havia de guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a -defender o Brasil. - -E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro lado. - -De manhã vio-se que havião desertado quinze guardas nacionaes e que a -sentinella do portão tinha tambem batido a linda plumagem. - -Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol claro, umas machinas -exquisitas, canos feitos de bronze, assentes em grandes rodas e -acompanhados de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas de bois. - -Essa machinada vinha com muito barulho e pôz em reboliço todos os -moradores. - -—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque nunca tinhão visto -artilharias. - -Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas janellas da casa -aquella procissão capaz de metter medo aos mais valentes e soube que -aquelles canudos ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos. - -—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo as mãos de admirada, que -peccado atirar em christãos com bacamartes d’esses! - -Na noute da chegada da artilharia desertárão de pancada quarenta guardas -nacionaes, e ninguem mais lhes poz o olho emcima. - -_Tres contra quatorze_ andava damnado e gritava, no meio da praça da -matriz, que aquillo era uma pouca vergonha e que elle só com um cacete -curto era bastante para dar conta de todos os moradores de uma cidade tão -medrosa e—com perdão da palavra—safada, assim dizia o cabo de esquadra. - -Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada mineira que foi acampar -no Cachimbo, a uma legua de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz -de influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão mais vinte -dos aquartelados. - -Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros. - -Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza do exemplo e -deixar-se estar quietinho quando os mais abrião pernas e ião cuidar da -vida! Quanta coragem para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos -lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, que ella não podia -mais viver assim e era noiva de um ingrato, e não sei o que mais, e mil -cousas e ditos de fazer sangrar o coração. - -Mas elle tinha jurado! - -Quando no quartel não restarão senão tres homens, o commandante superior, -não se fiando n’elles, mandou trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa. -Queria ao menos segurar bem esses ultimos. - -Ventura baixou a cabeça e lá foi indo. - -Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e estava marcado o dia 4 -de Julho de 1865 para a partida de toda a expedição que devia se internar -pelo sertão bravio á procura do inimigo. - -Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se do noivo que -estava como um desgraçado galé encostado ás grades da cadêa. - -—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe na mão, isto é que é ser -_desinfeliz_ de uma vez!... - -—A culpa é de _vassuncê_, respondeu a moça soluçando. - -—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... Foi destino... - -—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que _vassuncê_ faz mal... -entretanto... - -—O que devemos fazer, disse o coitado depois de uma pausa em que todos os -tres choravam, é não perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade; -mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de voltar com toda a -certeza, e então seremos felizes para sempre... Tenho o meu amor para -me salvar. Agora, Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao seu -noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas de Nosso Senhor Jesus -Christo que, na batalha ou no descanço, não haverá uma só hora que eu -deixe de pensar em quem tanto quero. - -E, voltando-se para D. Cula, acrescentou: - -—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece bem me vêrem chorar -como se fosse um fracalhão. Tenham fé no que digo: eu hei de voltar... - -Babita soluçava como uma criança. - -No dia seguinte, as forças da expedição abalaram do acampamento do -Cachimbo. - -Foi uma cousa bonita. - -Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos bem fardados; o bronze -das peças de artilharia faiscava aos raios do sol; as musicas tocavam o -hymno nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de pôr surda uma -pessoa. - -D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca Ventura e para isso -caminharam a pé e de madrugadinha, ainda escurão, legua e meia, distancia -da cidade ao acampamento. - -O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, já estava -mettido n’uma grande blusa militar e ás costas trazia uma mochila que -havia de ter bom peso, além da espingarda e do mais. - -Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos braços, disse-lhe a modo -de consolo. - -—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me no batalhão mineiro: -estou rodeado de patricios e conheço bem o sertão. Não é isto que me -assusta. - -E, com um suspiro, concluiu baixinho: - -—Ah! se eu não tivesse jurado! - -O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu de arma ao hombro e com -passo dobrado. - - -III - -Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de Matto-Grosso, fôra -contar o que todos, desde o commandante das forças até o ultimo soldado, -soffreram, e é cousa de encher livros e livros. - -Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se a padecer de fome, -que desde então acompanhou sempre e sempre toda aquella gente, como se -fizesse parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora apertando -devéras, ora menos forte, mas ali prompta á toda a hora para apparecer, -quando menos se cuidasse. - -Agora fallando com o coração na mão, foi preciso muita paciencia, muita -confiança em Deos para não se desanimar de uma vez e querer antes -morrer do que aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 de -Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao resto da expedição. Era uma -rapaziada toda limpa; officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e -commandante meio zangado mas justiceiro e cheio de disciplina. Devéras -fazia gosto servir n’esse corpo. - -Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; foi excellente soldado, -porque, antes de tudo, era um homem que queria sempre cumprir com a sua -obrigação Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra e como -sabia ler e escrever corrente, no Coxim, passou a furriel. - -Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além delle ser pouco -_imbicioneiro_, não se ageitava em riscar mappas do dia e relações de -mostra. - -No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir os outros, do que -por gosto de galhofa. Na verdade não se esquecia um minuto de sua bonita -noiva: escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto houve correio, -recebia, lá de vez em vez, respostas muito amorudas do punho de D. Cula, -mas do coração de Babita. - -Depressa, porém, desse gostinho devia se _desmamar_, porque não houve -mais estafetas e até officiaes de posto graúdo ficárão seis e mais mezes -sem poder receber uma só letra de suas familias, todas moradoras na Côrte -do Rio de Janeiro, de muita consideração e apatacadas. - -Lá nos _pantános_ de Miranda, quando a expedição foi se metter no tijuco -até o pescoço é que houve dias da gente duvidar da bondade de Deus. - -Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no lodo que de lá nunca -mais sahiram. - -Morria _goyanada_ aos punhados, não que sejam mofinos de animo, pelo -contrario no fogo são bons devéras, mas, fanadinhos de corpo, sahiam da -fartura para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza. - -Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas de alagadiços e -tremedaes, que era mesmo um Mar de Hespanha, basta dizer que do Coxim -sahiram mais de 3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco mais de -dois mil, quasi todos agorentados. - -Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que se poupasse ao -trabalho, mas porque era de seu natural resistir ás epidemias. Isso para -o serviço foi sempre dos melhores e de machado em punho para derrubar -arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina era um grande. - -Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e nos acampamentos só -se ouvia gritar: «Furriel Ventura, vai fazer isto. Furriel Ventura, vai -fazer aquillo.» E elle de boa vontade sempre, quando os companheiros -estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, não só do seu -corpo, como de outros batalhões. - -O commandante de sua companhia, o Sr. capitão Juca Duarte, que morreo, -coitado, em Miranda todo inchado, moço tão bom que até os soldados -choravão quando o ião carregando no caixão, queria muito ao furriel, -assim como o Sr. major Juca Borges, que depois veio a commandar o -batalhão e era muito valente e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no -Araguaya de Goyaz. - -Era um homem muito alegre esse major e tratava bem os soldados, e tambem -um capitão, quasi criança, chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr. -Tenente Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos. - -Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O commandante Enéas era -homem sério e meio carrancudo, mas não deixava perecer a sua gente de -máos tratos e injustiças. - -A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda onde soffreo muito de -molestias exquisitas que levarão uma _machina_ de officiaes e soldados -ao cemiterio; depois foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar -bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; desceo ainda para o Apa -e ahi entrou no Paraguay, assim com ares de quem queria engulir aquella -terra toda. - -Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de Uberaba! Mais de dous -annos... - -E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava uma ou outra, isso mesmo -para a gente lá de cima, e sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que -valem alguma cousa. - -Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, já não escrevia mais. -Que é de papel para no fundo de sertões brutos estar riscando finezas, -quando muitas centenas de legoas separão os namorados? - -Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, quando ella se vio sem -gado nem mantimentos e teve que recuar de um lugar chamado Invernada da -Laguna, parece que tudo quanto é desgraça se juntou para fazer a gente -ter saudades dos tempos de dantes. - -Que calamidades, meu Deos! - -Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar caro a muito castelhano de -blusa vermelha o incommodo de vir os procurar tão longe, mas o cholera, -mas a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, os aguaceiros, o -sol de rachar, os rios todos cheios, a falta de caminhos, cruz! era de -quebrantar a coragem de um Roldão. - -Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma vez em cem annos, e quem -escapou d’aquella feita póde dizer que tomou passagem para a eternidade, -mas não embarcou por ser afilhado da sorte. - -Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda achava occasião de dizer -a sua gaitadasinha, mais já a sua prosa não alegrava a ninguem: tudo -andava muito jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar voando -por cima da cabeça da gente, matando este, matando aquelle, aquelle outro -e assombrando a todos. - -D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão deixar jogados no meio do -campo como carniça mais de duzentos companheiros a morrerem de cholera e -de ferimentos. - -E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem surdos, e o coração -batia, mas parecia pedra ou páo porque nada sentia. - -É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só tratava de salvar o -vulto. - -Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição vinha rolando as -suas miserias, caminhando quanto podia. - -Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava aquella tropa toda, lá se -foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, e de nada lhes valêrão as divisas de -ouro bem grossas que tinhão no braço. - -Era mesmo um _despotismo_ de morte, e nem se livrou quem estava já -affeito a aquelles lugares malvados e de pestes e forão batendo a bota -o pratico Francisco Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando -os brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem tinha ainda cruzado, -e d’onde não havia de escapar um só ao menos para vir contar onde é que -paravão os ossos dos outros. - -Mas Deos foi servido mandar que morressem, um no dia, o outro na hora em -que a columna pisou terreno conhecido. Olhe que foi um milagre! - -Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre d’aqui, morre d’acolá, -chegou-se a salvamento, tudo muito porco, muito magro e esfarrapado, -mas emfim ainda com vida e vontade de saber o que era passar um pouco -melhorzinho do que naquella desgraça. - -Foi no Canuto. - -Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão lá para as suas tócas: -nós então, fizemos acampamento perto de um rio grande, o Aquidauana, que -só uma força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade que todos, -soldados e officiaes, trazião no corpo e na roupa. - -Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, disse n’uma ordem -do dia que os inimigos estavão _anarchisados_[26] com a nossa retirada, -que os batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia de fallar -nos soldados de Matto-Grosso e um bando mais de cousas. - -Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia estar lendo toda -aquella escripta, disse para os outros: - -—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou. - -E os outros se rirão, porque já estava passado o perigo, mas devéras o -furriel tinha razão. Mais de mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios -de vida e _talento_[27] e, em menos de mez e meio, de lá voltarão só uns -setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados que parecia uma tropa de -ladrões do mato. - -Não, aquillo foi de mais! - -Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o batalhão para Cuyabá, -d’ahi desceu para o Paraguay, ainda entrou em fogo, e foi acampar no -Humaytá, que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era então uma -barranca de rio. - -Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira de Uberaba, e, ha -mais de quatro, não recebêra uma cartinha de Babita, uma noticia se quer. - -Mas _porém_ o rapaz era de palavra e não houve, neste tempo todo, um só -dia, uma só hora, em que o seu pensamento não fizesse viagem até a cidade -em que morava a namorada. - -Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a guerra acabou. - -O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: houve muita festa; -discursos como terra, gritaria, e, o que valia mais, cada voluntario -recebeu uma boa bolada de cobres na pagadoria da Côrte. - -Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados e certas differenças de -soldo, de uma assentada metteu no bolso trezentos mil réis do premio de -voluntario da patria e setecentos e picos do resto. - -Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas da caixa do -governo! - -Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz de Fóra, e, por toda a -parte onde passava havia muito discurso, havia festa a valer e tudo o -mais. - -Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar o rumo de sua casa. - -Foi um dia grande aquelle!... - -Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, assim com modos de -passarinho que achou a porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra, -tonto de alegria e cantando como um maluco. A saude do tropeiro era -sempre a mesma: pouca differença fazia no rosto, mas nas maneiras era -mais compassado e orgulhoso. - -Tambem estava com o peito cheio de medalhas de campanha e ganhara até o -habito da Rosa. - -Tinha honras de capitão! - -Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não perguntou noticias a -ninguem. - -O coração lhe batia socegado e só o que queria era chegar, chegar -depressa... - -Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, a 15 de Julho de 1870 e -frechou direitinho para a casa da noiva. - -Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha no collo. - -Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um grito forte, levantou-se -e correu para dentro como uma douda. - -Era Babita! - - -IV - -Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado. - -Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos escuros. - -Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria parecer alegre, mas não -estava: - -—Ó de casa, ó minha gente! - -Ninguem lhe respondeu. - -Elle então entrou na sala. - -Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, o mesmo sofá velho, uma -imagem do Menino Jesus entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco -annos passados. - -Ventura bateu palmas. - -Ninguem lhe respondeu ainda. - -Oh! Era caso de pensar. - -O nosso homem assarampatado empurrou a porta do interior... nem viv’alma -na varanda: correu a casa toda, nada. - -Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado gente que havia fugido ás -carreiras. - -Decididamente succedêra alguma novidade graúda. - -Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia que nem um condemnado á -forca, mas como não era precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar -em mal. - -—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou elle, e tomasse um susto. - -N’estas idéas sahio da casa. - -Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava rente com as casas para -apanhar um pouco de sombra. - -Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula. - -—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o cujo, por isso não a -conheço, mas sei que a filha d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba. - -Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito que lhe deu aquella -noticia, ou como não cahio no chão morto para todo o sempre, é o que elle -mesmo não sabe. - -Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do que todos os de -Mato-Grosso e por cima uma vergonha tão grande que a sua cara ardia como -se fosse uma fogueira. - -Tudo estava perdido! - -Tudo! - -Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella mulher, elle que -vinha cheio de amor, limpo de miserias, depois de ter dado conta de sua -obrigação, elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas para -enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o lugar que lhe pertencia -já tomado, e em vez de um coração para o affagar e estimar, a traição e o -pouco caso?! - -Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros nos campos do Apa para -ser degollado pelos paraguayos? - -De que lhe servia a vida? - -A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa velha de taipa em dia -de furacão. - -Que restava fazer? - -Nada... nada mais! - -E vingar-se?... porque é que o valente que vinha da guerra não havia de -tirar despique do desprezo de uma mulher? - -Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo e o coração a quem -quizesse; mas elle o bravo de 17º. de voluntarios de Minas precisava se -desaffrontar. - -Tremessem os desalmados que havião brincado com a honra do tropeiro! - -Com isso tudo a lhe ferver no sangue, _amontou_ Juca a cavallo e foi -_sestear_ n’um rancho fóra da cidade. - -Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, senão é de crer que -se fizessem em Uberaba alguns festejos e que o commandante superior da -guarda nacional o viesse abraçar á vista de todos. - -Mas para abraços não estava elle. - -Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo. - -Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, com o queixo encostado -na mão, estava carrancudo como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão. -Na cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada e um facão-punhal. - -Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, Juca sahio do rancho, mas -as pernas lhe tremião. - -Queria pisar firme e não podia. - -É que nunca fôra assassino e agora ia matar! - -Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve que se sentar á beira da -estrada pela affrontação em que vinha. - -O coração quasi que lhe saltava pela boca. - -Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle homem para você o tratar -assim? Pois não póde haver uma só mulher no mundo que tenha fidelidade? - -E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de matador, quando podia -entrar no lugar de seu nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o -peito em que estava escripta a sua historia de soldado! E todos o havião -de festejar e até adular!... - -Mas não... O destino assim não quiz. - -Apparecião as primeiras casas da cidade quando o pobre coitado sentou-se -n’um matacão de barro duro a um lado da estrada, á espera que a noute -fechasse. - -Do sol já só se via uma beiradinha e estava um calor de rachar. Lá no -nascente umas nuvens côr de chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de -quando em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas. - -Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava que assim estava o seu -coração, faiscando, faiscando, mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio -havia de ferir a quem menos cuidava. - -Um barulho de passos lhe chamou a attenção. - -Era um homem branco, de meia idade e bem _limpo_[28], que tinha um ar -sério e muita composição no andar. - -Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, como que virou-se em pedra. - -Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, sacou da cintura a -pistola e pulou para a frente do outro como uma onça pintada. - -A sua boca deu um uivo. - -—O emboaba! - -Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo lhe agarrado no braço, -era um homem morto. - -E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons pares de minutos: Juca -Ventura com olhos de engolir um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de -si e de sangue frio. - -—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com o braço preso, você sabe -quem eu sou? - -—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um soldado brasileiro, não é um -matador. - -O modo por que estas palavras cahirão da boca de Chico Luiz e o seu -proposito fizerão um abalo tão forte no voluntario que elle ficou branco -como cêra. - -—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas agora vou ser... - -—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra você fazia assim... - -—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. Todos... porque cuspirão -na minha cara. - -—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, isso eu reconheço: mas a -mais ninguem, ouvio? O unico culpado sou eu. - -A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro como que sentia o coração -ficar frio. Quiz puchar pelo braço, mas a mão do portuguez se não -apertava com força, segurava com firmeza. - -—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e com os olhos prégados -nos do seu inimigo, eu vim até cá ter com você, sem armas, sem um páo -sequer, e lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada -ninguem mais póde ser acusado... Agora... - -E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou o peito: - -—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua vingança! - -O modo era de quem estava preparado para morrer n’aquelle instante mesmo. - -Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns passos, como que vexado e -murmurando: - -—Eu nunca matei ninguem assim... - -—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita muito depressa, eu quero -defender não a mim, mas a uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa -como N. S. da Conceição... - -E como Ventura fizesse um gesto de raiva: - -—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha salvação eterna, Babita -é innocente; Babita resistio quanto poude a este casamento, Babita não -se esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas as lagrimas do seu -coração; foi fiel quanto poude á sua promessa. - -O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas fallava como quem -diz a verdade. Cada um de seus ditos era uma punhalada em cheio no peito -de Ventura. - -—Mas então, bramio elle, ella foi enganada? - -—Não, respondeu com energia Chico Luiz. - -—Que aconteceu pois? - -—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu coração; se não, dispare -já esta garrucha que está engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir -dia em que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: Sua mão deu -cabo de gente innocente! - -E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo uma cousa muito grande. - -—Você me ouve? perguntou elle ainda. - -Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle homem estava se -decidindo. - -—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido e pondo ao cinto a -garrucha depois de ter abaixado de vagarinho o cão. - -—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. Você partio para -Mato-Grosso e só houve noticia certa de sua pessoa por uns seis mezes. -Depois passarão-se annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o -seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de um e de outro, escrevia -muita carta, punha tudo no correio e a chorar dia e noute que era uma -cousa por demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, a -Uberaba um soldado do 17º de voluntarios que disse que conhecia muito -a você, que você tinha morrido ha mais de um anno e até elle tinha -carregado o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa por sua -alma, e Babita esteve entre a vida e a morte um mez inteiro. Correu -muito tempo. N’isso chegou outro soldado que tambem deu a você por morto -e enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que eu, apezar de ter -levado de táboa já uma vez, me apresentei de novo para casar com ella. -N’esse tempo D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse; -ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias ia lá; fiz muitos -quartos quando a minha sogra ficou a sahir d’este mundo. Então Babita, -para obedecer, eu sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se -commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade. - -E acrescentou: - -—Agora estou ás suas ordens. - -Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no tempo em que um gato passa -por cima de um brazeiro, estava calado e mais sombrio do que a noute que -vinha chegando. - -As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que formavão uma só linha na -testa. - -Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria poder não acreditar. - -—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, vocês todos enganárão a -Babita. Foi você quem inventou a _embromação_ da minha morte. - -—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! Caia ella no inferno se eu -estiver mentindo. A cidade inteira ouviu aquelles soldados... E depois -olhe para mim, e veja se sou capaz disso... - -Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou o portuguez. - -O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção entrou no fundo do -coração do tropeiro: mas elle ficou mudo com a cabeça cahida sobre o -peito... - -Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de todo é que no céo -havia umas nuvensinhas vermelhas que aos poucos ião perdendo as côres. - -Os dous homens estavão calados. - -De repente Chico Luiz disse com voz muite suave: - -—Você me perdôa? - -Juca Ventura estremeceu todo. - -—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de amargura, não bastou a você, -portuga de desgraças, me tomar a _minha_ noiva, me arrancar o coração, -pisar com pé de chumbo na minha felicidade, matar para sempre a minha -alegria, quer tambem o meu perdão?... - -—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem de honra, é homem -de bem, eu tambem sou. Da conversa de hoje é que vai sahir o futuro da -mulher que nós dois amamos, da mulher que ainda ama a você, Ventura, mas -que me pertence _a mim_. Eu fallo aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de -joelhos... - -—Não, não! - -—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, ou que você me dê o seu -perdão. Nossa Senhora abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher, -tem pena de meu filho!... - -E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos aos pés de Juca -Ventura, mas com tanta dignidade que ninguem havia de vêr n’aquelle acto, -não uma baixeza ou medo, mas uma _menagem_ á desgraça do tropeiro. - -—Levante-se, homem, disse em fim com muita pausa Ventura... Eu... vou -pensar. - -E depois de novo silencio, acrescentou com esforço. - -—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... é signal que... -para mim... o passado, passado. Se... eu não fôr lá... é que parti para -nunca... mais ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui mora. - -E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, na escuridão da -noite... - -No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua entrada na cidade de -Uberaba. - -Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que todos olhavão para elle, -conhecia que era a pura verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito. -Parecião encarar alguem que sahia da cova para fazer cousas do arco da -velha. - -Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. Muitas velhas já -fazião cruzes pelo que ia succeder sem falta, e alguns que muito a tôa -tinhão raiva do portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá no -coração sentião certa alegria, apezar de estarem a dizer por toda a parte -que o delegado de policia devia estar alerta se não quizesse vêr uma -desgraça feia. - -Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de queixo cabido. Começou a -fallar que já sabia desde muito que a Babita tinha se casado, mas que não -se admirava disso, porque tinha corrido a _rodella_ de sua morte, e mais -isto e mais aquillo e tanta cousa com socego tão grande que não se sabia -o que pensar se era disfarce ou não. - -Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel ter-se -apresentado, como militar, ás autoridades que o receberão muito bem, o -abraçárão e o fizerão sentar, foi elle com sol alto parar á porta do -emboaba. - -Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, e nem de -proposito, a casa estava cheia de freguezia que nada lhe comprava, é -preciso notar. - -Juca Ventura _desapeou_ meio branco. O outro ficou um tanto amarello, mas -se adiantou a encontrar quem vinha entrando. - -—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o traz a esta casa, disse o -portuga estendendo a mão. - -O tropeiro mal a tocou. - -—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e muito serio. - -E accrescentou. - -—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha della. - -Houve um silencio grande. - -Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para dentro: - -—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A minha sogra e mulher hão -de vêr com gosto um conhecido antigo e amigo. - -E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho. - -Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado Babita, a bella e -chorada Babita, com o filhinho no collo, como se fosse bandeira de -misericordia. - -Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas mulheres, que de tudo -sabião, tinhão os olhos pregados no chão e choravão sem fazer barulho. - -—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro parando em cada -palavra. - -Ninguem lhe respondeu. - -—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a vocês todos... No meu -coração só guardo uma cousa: é tristeza para sempre. - -Babita deu um soluço de desespero. - -Ventura chegou-se para ella. - -Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou: - -—E você é feliz? - -—Chico... Luiz... é... o... pae de meu filho. - -—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não fiquem me querendo mal... -Adeos, adeos! - -As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até não poder mais. - -Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do portuguez, lhe apertou -uma outra vez a mão. - - * * * * * - -Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar o emprego do outro -tempo, mas já não era o mesmo _de dantes_. Calado sempre, só achava gosto -no trabalho. - -A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia festas e mostrava -amizade. Não se mettia com pessoa alguma, nem queria que se mettessem com -a vida d’elle. - -Uma vez, porém, sahio do sério. - -Desafiado por um camarada, que tanto tinha de forte como de malcriado, -e que se lembrou de fallar da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta -pancada que por pouco não o mandou para o outro mundo. - -Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher com Juca Ventura. - -Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar alto quando vai tocando -o seu lóte de bestas, mas essas mesmas cantorias são tão tristes que a -gente vê bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando por -dentro. - - _Longes_ terras viajei - Padeci muito na vida. - E o Deus de compaixão - Não me quer findar a lida. - - Faço força para ter - Paciencia, meu senhor: - Mas debalde aperto o peito - Atravez rompe-me a dôr. - - Coração, meu coração, - Á razão porque não cedes? - Se não ha poder no mundo - Que te dê o que tu pedes... - - Porque, pois, tanto affligir? - Palpitar com violencia? - O destino já fallou - E foi falla sem clemencia. - - Golpes duros contra mim - Desfechou sorte perjura, - Mas, cruel, deixou-me o nome, - Por chacóta, de Ventura. - - Sim, ventura hei de emfim ter - Quando a morte apparecer. - Sim, ventura sentirei, - Quando me sentir morrer. - - -FIM DE JUCA, O TROPEIRO. - - - - -NOTAS - - -[1] Como em geral todas as denominações de lugares do districto de -Miranda, é este nome de origem guaycurú e significa—_bando de trairas_. - -[2] Agaxi é corrupção da palavra _Euagaxigo_, que quer dizer—_bando de -capivaras_. - -[3] Está muito bom? - -[4] Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro tribus em -que se divide a nação chané: terenos, laianos kinikináos e guanás. - -[5] Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil. - -[6] Coitado! Está doente de febres! - -[7] Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro. - -[8] Estrella, em dialecto guaná. - -[9] Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era kinikináo. - -[10] Taquaral. - -[11] Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados portuguezes. - -[12] Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar as pessoas de -importancia. Ás vezes dizem simplesmente: ó senhoria! - -[13] O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore que annualmente se -cobre de flores grandes e amarellas. Os indios contão os annos pela época -da florescencia. - -[14] Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento de muito respeito. - -[15] —Adeos. - -[16] —Adeos. A differença entre as duas palavras provém de que a primeira -é a despedida de quem parte e a outra a saudação de quem fica. - -[17] Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada _rancho_. - -[18] Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso. - -[19] Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi salvo -no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da batalha de -Campo-Grande. - -[20] Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos, -devido naturalmente á natureza eminentemente salina de todo o terreno do -districto de Miranda e principalmente das margens do Aquidauána. - -[21] Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior. - -[22] Apaixonadas. - -[23] Talento em linguagem sertaneja é força, robustez. - -[24] Já se vê que a necessidade da rima é que levava o nosso cantor a -esses disparates. - -[25] O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e tinha -aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba a reunir-se -ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se sempre com muita -coragem e falleceu de cholera morbus em fins de maio de 1867. _Tres -contra quatorze_ havia sido, pelo que contava elle, uma sua façanha -praticada na guerra do Rio Grande do Sul, durante a luta dos _farrapos_. - -[26] Desmoralisados. - -[27] Fortaleza. - -[28] Vestido. - - - - -INDICE - - - PAG. - - Ierecê a Guaná. 11 - - Da mão á boca se perde a sopa. 67 - - Camiran a Kinikinao. 119 - - O Vigario das Dôres. 155 - - Juca, o Tropeiro. 183 - -TYP. DE Pinheiro & C.ª RUA SETE DE SETEMBRO N. 157 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Historias Brazileiras, by -Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay and Sylvio Dinarte - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS *** - -***** This file should be named 62525-0.txt or 62525-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/5/2/62525/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: Historias Brazileiras - -Author: Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay - Sylvio Dinarte - -Release Date: June 29, 2020 [EBook #62525] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS *** - - - - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<h1>HISTORIAS BRASILEIRAS</h1> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span></p> - -<p class="center larger">OBRAS DE J. DE ALENCAR</p> - -<table summary="Obras de J. de Alencar"> - <tr> - <td><span class="smcap">O Ermitão da Gloria.—A Alma do Lazaro</span>, - 1 v. enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Garatuja</span>, chronicas dos tempos - coloniaes, 1 v. in-8º enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Til</span>, romance brasileiro. 4 v. enc. - 6$, br.</td> - <td class="tdpg">4$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Iracema</span>, lenda do Ceará, 2ª edição, - 2 v. br. 2$, enc.</td> - <td class="tdpg">3$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Viuvinha e os Cinco Minutos</span>, 2ª - edição, 1 v. br. 2$, enc.</td> - <td class="tdpg">3$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Guarany</span>, 3ª edição, 2 v. in-4º - encadernados</td> - <td class="tdpg">10$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">As Minas de Prata</span>, rom. historico, - complemento do precedente, 6 v. in-8º br. 12$, enc.</td> - <td class="tdpg">16$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Demonio Familiar</span>, comedia em 4 - actos, 2ª edição, 1 v.</td> - <td class="tdpg">1$500</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">A Mãi</span>, drama em 4 actos, 2ª edição, - 1 v.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Verso e Reverso</span>, comedia em 2 - actos, 2ª edição, 1 v.</td> - <td class="tdpg">1$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">As Azas de um Anjo</span>, comedia em - 1 prologo, 4 actos e 1 epilogo, 2ª edição, 1 v.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Gaucho</span>, romance brasileiro, 2 v. - in-8º br. 4$000, enc.</td> - <td class="tdpg">6$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Pata da Gazella</span>, romance - brazileiro, 1 v. in-8º br. 2$000 encadernado.</td> - <td class="tdpg">3$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Tronco do Ipê</span>, romance - brasileiro, 2 v. in-8º br. 4$000, encadernado.</td> - <td class="tdpg">6$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Sonhos d’oiro</span>, romance - brasileiro, 2 v. in-8º enc. 6$, br.</td> - <td class="tdpg">4$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Diva</span>, <i>perfil de mulher</i>, - 2ª edição, 4 v. enc.</td> - <td class="tdpg">3$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Luciola</span>, <i>perfil de mulher</i>, - 3ª edição 1 v. enc.</td> - <td class="tdpg">3$000</td> - </tr> -</table> - -<p class="center larger">BERNARDO GUIMARÃES</p> - -<table summary="Obras de Bernardo Guimarães"> - <tr> - <td><span class="smcap">O Seminarista</span>, romance brasileiro, - 1 v., enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Lendas e Romances</span>. Uma Historia de - Quilombólas, a Garganta do Inferno, a Dansa dos Ossos, 1 v. - enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">O Garimpeiro</span>, romance, 1 v. enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> - <tr> - <td><span class="smcap">Historias e Tradições</span> da Provincia de - Minas-Geraes: A Cabeça do Tira-Dentes: A Filha do Fazendeiro, Jupira, - 1 v. enc. 3$, br.</td> - <td class="tdpg">2$000</td> - </tr> -</table> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span></p> - -<p class="titlepage larger">HISTORIAS BRAZILEIRAS</p> - -<p class="titlepage"><span class="smaller">POR</span><br /> -<br /> -SYLVIO DINARTE<br /> -<br /> -<span class="smaller">(Autor da Mocidade de Trajano, Lagrimas do<br /> -Coração, Innocencia, etc.)</span></p> - -<div class="figcenter" style="width: 170px;"> -<img src="images/deco.jpg" width="170" height="25" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">RIO DE JANEIRO<br /> -<span class="smaller">Editor—B. L. GARNIER—rua do Ouvidor n. 69.<br /> -1874</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span></p> - -<p class="dedication">AO CAMARADA E AMIGO<br /> -CAPITÃO ANTONIO FLORENCIO PEREIRA DO LAGO.<br /> -OFFERECE<br /> -O Autor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span></p> - -<h2 id="IERECE_A_GUANA">IERECÊ A GUANÁ<br /> -<span class="smaller">EPISODIO</span></h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Pourquoi quitter notre île? En ton île étrangère,</div> -<div class="verse">Les cieux sont-ils plus beaux? A-t’on moins de douleur?</div> -<div class="verse center">...</div> -<div class="verse">Reste, ó jeune étranger! Reste, et je serai belle...</div> -<div class="verse">Mais tu n’aimes qu’un temps, comme notre hirondelle.</div> -<div class="verse indent6">Moi, je t’aime, comme je vis.</div> -<div class="verse right"><span class="smcap">Victor Hugo</span>—<i>A Taitiana</i> (Ballada).</div> -</div> -</div> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">Savais-je s’il était des malheureux au monde?</div> -<div class="verse">Ah! Combien je le sens, quand tu ne m’aimes plus!</div> -<div class="verse right"><span class="smcap">Chamfort.</span></div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span></p> - -<h3>IERECÊ A GUANÁ</h3> - -<h4>CAPITULO I</h4> - -<p>Em meiados do anno de 1861, o vaporsinho <i>Alpha</i>, -sahindo da capital da provincia de Matto-Grosso, -desceu para Corumbá, e, por ordem do presidente -de então, o coronel Antonio Pedro de Alencastro, demandou -a fóz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente -foi cortando aguas acima para conhecer das condições -de sua navegabilidade durante a estação secca -até a villa de Miranda, a qual assenta na margem -direita e a mais de 40 legoas do ponto em que o volumoso -e revolto caudal faz barra no grande Paraguay. -Cumprida a commissão sem grande estorvo, poude o -fumegante barco atracar junto á barranca da povoação, -alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando -de modo nunca visto o costumado e natural -socego d’aquella distante localidade.</p> - -<p>Nucleo mais povoado de toda a immensa zona que, -sob a denominação de districto de Miranda, se estende -ao sul da provincia desde o rio Piquiry até o Apa e o<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span> -Paraná, n’esse tempo gozava a villa de fóros de importancia -que nem as febres endemicas em determinados -periodos do anno, nem o desenvolvimento rapido de -Nioac, situado a 25 legoas mais ao sul, havião podido -lhe tirar.</p> - -<p>Tambem os seus habitantes, deixando-se levar por -um sentimento de exageração, não vião razões para -lhe negar o pomposo titulo de <i>cidade</i>, justificado senão -pelo estado de prosperidade que tinha então, ao -menos em vista do engrandecimento que lhe podião -garantir, em futuro não muito remoto, as suas relações, -já de annos iniciadas, com as provincias de -S. Paulo e Paraná por meio dos rios Ivinheima, -Brilhante e Nioac de um lado, e Miranda do outro.</p> - -<p>A villa tinha, além d’isso, tradições historicas que -erão repetidas com desvanecimento.</p> - -<p>Pelo que dizião, os seus alicerces descansavão sobre -os destroços do forte Xeres, levantado em passadas -éras pelos hespanhóes como paradeiro á influencia -portugueza consolidada, no centro d’aquelles sertões, -em Camapuan e que, arrazado em 1580, foi substituido -por outro em que fluctuavão as quinas do dominio -legal.</p> - -<p>Entretanto, apezar d’esse passado tal ou qual illustre -e das promessas do futuro, varios e influentes partidarios -contava a idéa, aliás justa e sensata, da necessidade -de se mudar a séde da cabeça do districto para -outro qualquer ponto menos exposto á acção deleteria -das febres intermittentes que as enchentes e transbordamentos -do rio annualmente trazião e que atacavão<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span> -não só os recem-chegados e visitantes de passagem, -como muitos dos que podião se suppôr acclimados e, ás -vezes até, alguns dos mais antigos moradores.</p> - -<p>Os lugares indigitados para essa mudança erão -Pedra Branca, poucas legoas acima, e a Forquilha, -ainda além e na confluencia dos rios Miranda e Nioac.</p> - -<p>Com effeito, quanto mais se fugisse da costa do -Paraguay, baixa e sujeita ás inundações e, conservando -a regalia de desimpedida navegação, se procurassem -as terras altas proximas á serra de Maracajú -e que se ligão aos ubertosos campos de Vaccaria, cujo -progresso era já uma realidade, mais largos horizontes -se abririão para a villa, libertando-a dos inconvenientes -que lhe davão a reputação de reconhecida insalubridade. -N’esse caso, nenhuma indicação reunia com -fundado motivo mais adhesões do que a da Forquilha, -bella e elevada planicie assente no entroncamento de -duas correntes, cujo accesso á canôas grandes e carregadas -era facil e já aproveitado.</p> - -<p>Como que para difficultar, porém, a realisação de -tão conveniente deslocamento e desanimar os mais -ardentes propugnadores da medida, não fazia muitos -mezes antes da chegada do <i>Alpha</i>, havião sido lançadas -no lugar da antiga palissada a que devia a villa -o appellido de <i>forte</i>, as bases de um grande quartel, -edificação que, concluida, tornou-se sem contestação -uma obra notavel n’aquelles afastados termos e foi -em 1866 vandalicamente incendiada pelos paraguayos -por occasião de se retirarem do districto para operar -a sua concentração na fronteira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span></p> - -<p>Voltando, no entretanto, ao que diziamos em começo, -o apparecimento de um vapor causava immenso -contentamento no seio da população de Miranda pelas -consequencias que necessariamente havia de produzir -aquella viagem de ensaio, prova cabal de que o rio, -ainda na vazante, prestava-se á franca navegação muito -além da bôca do seu confluente o Aquidauana, até -onde havião subido os presidentes Delamare e Alencastro, -este ultimo em 1860 no <i>Jaurú</i>, que é de calado -não pequeno.</p> - -<p>Os filhos da provincia de Matto-Grosso têm todos -o espirito muito inclinado para as transacções commerciaes -e n’ellas desenvolvem o seu genio naturalmente -activo, e tão atilado quão desconfiado.</p> - -<p>Tambem muitos já fallavão de ir buscar carregamentos -de negocio a Cuyabá e na previsão de lucros -proveitosos entregavão-se á mais expansiva alegria.</p> - -<p>Por toda a parte a agitação era grande.</p> - -<p>Nos ares atroavão de continuo innumeros foguetes; -o sino da matriz com festivos repiques parecia querer -rachar de contente e o povo, depois de se ter agglomerado -nas duas ruas convergentes á praça da igreja, -havia se encaminhado todo para a margem do rio, -tomando a estrada que, com extensão de quasi meia -legoa, vai ter ao lugar emphaticamente chamado—o -porto—e que não passa de uma rampa mal cavada -na barranca.</p> - -<p>No tempo das cheias, essa estrada aberta na matta -do Miranda desapparece, invadida pelas agoas que -vêm então lamber o limiar das primeiras casas da<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span> -villa, mas n’aquella occasião era uma larga avenida -de chão um tanto lodoso e ensombrada por magnifico -arvoredo.</p> - -<p>Entre os grupos dos que conversavão animadamente -a caminharem para o <i>porto</i>, circulava tambem a noticia -da vinda de dous officiaes de engenheiros, incumbidos, -pelo que se dizia, de ir até Nioac e mesmo ao -Apa, afim de verificarem qual o estado da fronteira que -já n’esse tempo tinha soffrido senão insultos directos -da parte dos nossos vizinhos paraguayos, pelo menos -os effeitos de sua cada vez mais decidida altaneria.</p> - -<p>Estava ainda recente a desagradavel impressão do -modo insolente por que um commandante do forte -Bella Vista, no Apa, tratára o piquete brazileiro que -fôra, como era de praxe, rondar a região limitrophe, -e, na opinião de todos, convinha, para que não se repetissem -taes scenas e outras peiores, como em 1850—em -que uma força estrangeira, sem respeito á linha -divisoria, pisou terras nossas para aprisionar a familia -do mineiro Gabriel Lopes—começar tambem a franzir -o sobr’olho a vizinhos tão carrancudos e desagradaveis.</p> - -<p>N’essa época, já proxima da invasão que o dictador -do Paraguay Lopez ideava, raros erão, comtudo, aquelles -que, nos mais chegados lugares da fronteira, suppuzessem -possivel uma guerra provocada pela republica -confinante.</p> - -<p>Sabia-se que o regimen d’aquelle paiz singular era -despotico e que se achava militarisado com grande -rigor de disciplina, mas ignoravão-se os innumeros -recursos de que dispunha e os aprestos formidaveis<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -que accumulava com tenções hostis ao Brazil, havendo -crença geral de que o seu affastamento systematico -da communhão das nações era produzido pela politica -tacanha e mal concebida dos directores de um povo, -que, por habitos arreigados de obediencia e tranquillidade, -era feliz a seu modo, e queria viver em paz.</p> - -<p>Ao passo que de nosso lado se tranquillisava o espirito -publico com essas supposições quasi erigidas em -certeza e com a convicção de que bastarião providencias -de ordem secundaria para manter o Paraguay na -orbita do respeito que nos era devido, intelligentes -emissarios do dictador havião já percorrido de norte -a sul toda a provincia de Matto-Grosso e estudado com -especialidade o territorio que mais de prompto teria -de experimentar os effeitos do humor bellicoso e conquistador -de Solano Lopez.</p> - -<p>Em todo o caso, apezar do socego de que gozava -o districto, é certo que a chegada de dous profissionaes -com aquella commissão de caracter militar indicava -que o governo central, fiando-se nas boas relações -que entre as duas nações parecia não deverem de tão -cedo soffrer québra, cuidava comtudo de attender -para as suas fronteiras, cuja tranquillidade e segurança -influião directamente no desenvolvimento agricola -de toda aquella zona.</p> - -<p>No <i>Alpha</i> viéra com effeito, não dous, mas um official -de engenheiros, esse mesmo com incumbencia -puramente civil, visto como só devia ir observar os -progressos de Nioac e levantar o traçado do caminho -que liga aquella nascente colonia ao porto de Santa<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span> -Rosalinda, no rio Brilhante, até onde já tinha subido -um vapor partido de Itapúra, na provincia de S. Paulo. -Quanto ao companheiro com que esse official viéra de -Cuyabá, não tinha posição alguma militar, nem trouxera -encargo que desempenhar.</p> - -<p>Chamava-se este Alberto Monteiro e viajava por -méra distracção. Homem no pleno vigor dos annos, -e bastante rico para satisfazer os seus caprichos, emprehendera -extensas viagens por simples distracção e -pelo prazer do movimento, percorrendo paizes uns -após outros como <i>turista</i> e á maneira de Victor Jacquemont, -que, a pretexto de estudar a flora do Thibet, fez -tão curiosas e engraçadas peregrinações pelo interior -da Asia.</p> - -<p>O modo por que elle viéra ter ao districto de Miranda -não era dos mais naturaes.</p> - -<p>Achando-se n’um bello dia aborrecido do Rio de -Janeiro, comprou passagem para Montevidéo, passou -lá um mez, transportou-se para Buenos-Ayres, onde -se demorou algumas semanas e, tomado de curiosidade -pelo que dizião do Paraguay, subio até Assumpção, -que, no fim de poucas horas, ficou peremptoriamente -julgada e qualificada sem appellação de acanhada, -monotona e estupida.</p> - -<p>—Estar em Assumpção, pensou Alberto, obriga-me -a ir até Cuyabá.</p> - -<p>E, firmando n’este argumento contestavel a necessidade -de continuar a viagem fluvial, sulcou rio acima -o Paraguay e, n’uma tarde de calor intenso, foi desembarcar -na capital de Matto-Grosso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<p>Arrepender-se logo do que acabava de executar era -sempre o primeiro movimento do nosso viajante; por -isso a elle mesmo não causou espanto o desgosto que -experimentou ao pôr pé em terra.</p> - -<p>—Que idéa estrambotica, exclamou elle com despeito, -vir ter a uma terra, onde nem sequer ha -hoteis!... Não ha remedio senão ir pedir hospedagem -ao Sr. capitão de engenheiros Freitas....</p> - -<p>E procurando nos bolsos uma carta de recommendação -de que se munira em Assumpção, sacou-a para -lêr o sobrescripto e poder se orientar.</p> - -<p>—Julio Freitas de Miranda, murmurou elle, largo -da Mandioca n. 10.</p> - -<p>Minutos depois batia á casa indicada, cuja porta -foi-lhe aberta por um sympathico moço, a propria -pessoa a quem o recommendavão.</p> - -<p>—Poucas relações tenho, disse o official correndo -os olhos pela carta, com quem me escreve, mas sinceramente -acolho quem me traz a apresentação com -a maior satisfação e cordialidade.</p> - -<p>—E esta sua franqueza, replicou Alberto, lendo -no rosto de Freitas a confirmação de suas palavras, -me agrada sobremodo.</p> - -<p>—Pois então entre, e trate-me desde já senão como -amigo, pelo menos como camarada.... Onde estão -as suas cargas?</p> - -<p>—No porto.... Devo comtudo lhe dizer quem -sou....</p> - -<p>—Não ha mister. Pelo seu ar vê-se logo que é um -cavalheiro....</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span></p> - -<p>—Pelo menos o meu nome é indispensavel....</p> - -<p>—Ah! respondeu o outro sorrindo-se, tanto mais -que a carta de recommendação nem sequer lembrou-se -d’isso. É um cheque ao portador.... O senhor chama-se -meu hospede, até que eu lhe saiba outro nome.</p> - -<p>Com acolhimento tão franco e espontaneo, impossivel -era que Alberto não sentisse desvanecerem-se as -primeiras impressões de máo humor. Tambem d’ahi -a pouco conversavão os dous como se o conhecimento -datasse dos dias de infancia.</p> - -<p>Para o homem acostumado a viajar nada custa -menos do que a immediata familiarisação. Qualquer -com quem elle esteja uma hora e que lhe mostre algum -agrado no rosto e tratamento, constitue-se logo -companheiro muito estimado: outro com quem passe -um dia inteiro é quasi um intimo, e se houver então -uma semana de convivencia, o recem-conhecido transforma-se -em amigo de data mui remota.</p> - -<p>Eis por que Alberto Monteiro em pouco tempo tornou-se -inseparavel de Julio Freitas, o qual por seu -lado fazia todos os esforços para tornar a estada -do novo amigo em Cuyabá a mais agradavel possivel.</p> - -<p>—Esta cidade, dizia Julio ao terminar umas considerações -sobre Matto-Grosso, não é aborrecida, muito -pelo contrario; mas é sempre uma cidade de provincia. -O seu aspecto vasto e a sua animação sorprendem -o espirito de quem chega e não conta deparar -com povoação tão importante e, pode-se assim dizer -sem exageração, tão civilisada no meio de immensos -desertos, mas aqui, como aliás em quasi todo o Brazil,<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -vive-se por demais debaixo da influencia da côrte. Ha -bonitas mulheres, bem conversadas; dão-se brilhantes -bailes; ha tal ou qual sociabilidade; o commercio -tem alguma actividade; não ha falta nem de intelligencia, -nem de espirito, mas só se sente verdadeira -vida quando chega a mala do Rio de Janeiro. É o sol -benefico que mandou um raiosinho de luz e de calor -para o seu quasi esquecido planeta. Este sentimento -de abandono e de desterro é que me fez sempre desejar -ardentemente sahir d’aqui, mas afianço-lhe que -o meu contentamento pela volta, que está muito -proxima, não é de todo isento de certo aperto de -coração.... e entretanto nada me prende particularmente -a Cuyabá....</p> - -<p>—De modo que se houvesse algum liame, você -não deixaria mais esta terra?</p> - -<p>—Com toda a certeza! Por isso é que ella passa -por ser perigosa, e, como fallo a pessoa novata, recommendo-lhe -que fuja das causas que o podem reter -para sempre n’este canto do mundo.</p> - -<p>—Mas quaes são ellas? perguntou Alberto sorrindo-se.</p> - -<p>—Dizem todos que ellas se encerrão principalmente -na meiguice das mulheres, nas cabeças de pacús e -caudas de pirapitangas. Trate, pois, se não quer encalhar -em Cuyabá, de olhar pouco para o sexo fragil e -de não provar das extremidades d’aquelles dous peixes -senão com muita reserva e cautela.</p> - -<p>Se houve e ha com effeito esse risco para quem -se demora na capital de Matto-Grosso, Alberto soube<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span> -tão bem resguardar-se, que quando, mez e meio -depois, Julio Freitas annunciou-lhe o seu embarque -no vapor <i>Alpha</i> com destino á villa de Miranda e a -sua digressão pelo districto, antes de seguir definitivamente -para o Rio de Janeiro, achou-se prompto para -partir e muito satisfeito com tão breve retirada.</p> - -<p>—E sabe que mais? Quero acompanhal-o no seu -passeio ás terras de Miranda e Nioac....</p> - -<p>—Mas é cousa muito rapida e incommoda....</p> - -<p>—Não importa....</p> - -<p>—Gastarei pouco mais de mez para ir até Santa -Rosalinda no Brilhante e voltar a Corumbá.</p> - -<p>—Assim mesmo tenho tempo de sobra para vêr os -indios e estar com elles. Vir a Matto-Grosso e não -conviver algumas semanas com os seus amaveis aborigenes, -é falta imperdoavel em viajante de meu -quilate....</p> - -<p>—Você não vê todos os dias Cayapós e Guanás?</p> - -<p>—Estes não me servem. Estão já modificados pelo -nosso modo de viver; demais <i>aportuguezados</i>, já que -não posso dizer <i>abrazileirados</i>. Em Miranda encontrarei -o que desejo e, mettido em alguma aldêa, -pilharei <i>la nature chez elle</i>.</p> - -<p>—Você, disse Julio sorrindo-se, vai se dedicar -á anthropologia, não é? São estudos que agradão -á muita gente, sem que por isso a sciencia adiante um -passo....</p> - -<p>Eis explicada a razão por que se achava Alberto -Monteiro na villa de Miranda e fazia tambem seus preparativos -para uma viagem ás terras altas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<p>Partirão os dous moços por uma fria madrugada, -montados em bons animaes e acompanhados de tres -soldados do corpo de cavallaria de Matto-Grosso que -devião lhes servir de camaradas. Boa porção de mantimentos -em bruacas ás costas de um valente burro -de carga, redes, uma barraca de campanha, pequenas -malas contendo alguma roupa, erão condições para -com muita commodidade alcançar o povoado de Nioac, -aliás pouco distante aos olhos de quem está acostumado -a viajar por terra.</p> - -<p>Os arredores da villa de Miranda são baixos e apaulados, -cobertos, não raras vezes em vasta extensão, de -<i>piripiris</i>, juncos que mergulhão as raizes n’agoa ou -no lodo e morrem na época dos grandes calores. Entretanto, -logo ás primeiras legoas, verifica o viajante, -já pela natureza da vegetação, já pelos córtes e margens -elevadas em que correm os regatos, que o sólo vai -gradualmente se levantando.</p> - -<p>Passado o corrego de Betemigo, a duas legoas da -povoação, a estrada alarga e parece um caminho macadamisado, -tamanha é a quantidade de seixinhos rolados -que lhe salpicão o leito. De uma e outra banda -estende-se vistoso o cerrado: ha muito <i>umbú</i> que embalsama -os ares com a fragrancia de suas flôres, grande -cópia de <i>jatahys</i>, de <i>piquís</i>, cujos fructos amarello-avermelhados -são tão bonitos, e de <i>mangabeiras</i> que -nos mezes de Dezembro e Janeiro vergão ao peso dos -saborosos e rubicundos pomos.</p> - -<p>O terreno vai sendo cada vez mais alto e ascende -como a lomba de uma serrania, cuja vertente d’esse -lado é muito suave e estendida.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> - -<p>Ás vezes repentina quebrada rompe a monotonia do -<i>cerrado</i> e deixa que a vista ganhe espaço para a esquerda. -Então dilata-se o horizonte, e vêem-se campos -ondeados, que sóbem como gradis de um gigantesco -amphitheatro até a fita da estrada: em baixo, ao longe, -uma linha tortuosa e escura de matta indica um grande -rio, e no fundo, emmoldurando aquella bella paisagem, -ergue-se altanada serra, corôada de pincaros escalvados -e talhados de um modo tão sorprendedor, -quão grandioso.</p> - -<p>O caudal é o limpido e correntoso Aquidauana que -serpêa a procurar o Mondego; a serra, a de Maracajú -que em alguns pontos parece lavrada pela mão de -caprichoso genio empenhado em imitar com proporções -colossaes castellos, baluartes e outras construcções -que tambem com pedra levantão os fracos mortaes.</p> - -<p>Ha trechos do caminho em que, á direita e á esquerda, -abatem-se as terras. Então, de um lado, para -o Norte, melhor se accentuão os accidentes que esboçámos, -e do outro, ao Sul, abrem-se campinas extensissimas -sem outro córte mais na sua uniforme expansão -do que um ou outro capão de matto em encontro -pronunciado de declives, onde se mantenha com persistencia -a humidade precisa para o desenvolvimento -de vegetação mais vigorosa.</p> - -<p>A estrada é secca, e as patas dos animaes batem de -continuo na pedra solta e roliça que forra o chão.</p> - -<p>—Devéras, exclamava amiudadamente Alberto colhendo -as redeas ao animal para comtemplar com -mais demora aquellas lindas perspectivas, vale a pena<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span> -vir até cá só por ver tudo isto! É soberbo!... -admiravel!</p> - -<p>Depois do corrego de Eponadigo<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a>, o <i>cerrado</i> fica -mais fechado, de modo que o viajante caminha em -aléa encoberta dos raios de sol por grandes arvores, -algumas das quaes até são madeiras de lei, como o -<i>jatahy</i> e o <i>vinhatico</i>.</p> - -<p>O ar alli é puro, e a brisa sopra constante e quente, -escandescida que foi pela reverberação dos campos -desabrigados de Camapuan.</p> - -<p>Em meio do segundo dia de viagem, Alberto sentio-se -incommodado e no pouso teve febre bastante -violenta.</p> - -<p>—Eis uma novidade, disse elle a tiritar com o -accesso, para quem, ha muitos annos, não tem tido -molestia. O que porém me acontece agora é uma homenagem -devida ao malefico clima de Miranda. Resignemo-nos, -pois.</p> - -<p>Na manhã seguinte, depois de uma noute calma, -estava elle bem disposto de espirito, mas com o corpo -alquebrado. Tomára uma beberagem de <i>quina do -campo</i> que um dos soldados lhe havia preparado e -transpirára muito.</p> - -<p>Á mesma hora da vespera, a febre reappareceo, -com muito mais intensidade d’essa vez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span></p> - -<p>Estavão então os dous viajantes no <i>Agaxi</i><a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>, corrego -que atravessa o aldeamento dos kinikináos, a -meia legoa para lá da estrada, e procurarão a sombra -de um grande grupo de palmeiras buritys para descansarem.</p> - -<p>Alberto delirava um pouco e tremia a ponto de balançar -a rede que lhe havião promptamente armado. -Á tarde, cahio em grande prostração e só se reanimou -quando o frescor da noute veio suavisar o calor abrazador -que fizera durante todo o dia.</p> - -<p>—Você, disse-lhe Julio Freitas, não póde decididamente -continuar a viajar sem incorrer na pécha de -imprudente, tanto menos justificavel quanto não ha -dever que o obrigue a proseguir. Deixe a sua idéa -de indios para mais tarde e volte amanhã mesmo para -a villa. Com duas dóses de sulfato de quinina desapparecerão -com certeza estes accessos, e eu, dentro em -poucas semanas, estou de volta a Miranda.</p> - -<p>—Mas não ha, a pequena distancia d’aqui, um aldeamento?</p> - -<p>—Sim, de kinikináos, gente muito mansa e sympathica. -Se você estivesse de saude, eu lhe proporia -uma visita ao Agaxi, mas no estado em que se acha, -é de prudencia regressar quanto antes.</p> - -<p>Com esse alvitre, depois de reluctar um pouco, concordou -Alberto, que de manhã acompanhou Julio -Freitas por um quarto de legoa na estrada de Nioac, e, -lhe dando então apertado abraço, voltou ao pouso<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span> -onde esperou tranquillo pela hora do accesso que, se -foi pontual como um inglez, pelo menos não veio com -a costumada violencia.</p> - -<p>Ao cessar a febre, experimentou elle um bem estar, -uma robustez toda especial que lhe parecerão prenuncio -certo de total restabelecimento.</p> - -<p>—Não se fie n’isso, lhe disse Florindo, o soldado -que Julio deixára ao amigo para camarada, <i>ansim</i> é -que são as maleitas. Mas <i>vossuncê</i> não <i>percisa</i> para -sarar ir até a <i>cidade</i>; fique uns pares de dias na aldêa -e os ares de lá sacodem a <i>maldade</i> do seu corpo.</p> - -<p>—Applaudo a idéa, replicou Alberto. Talvez até -me entregue aos cuidados de algum velho kinikináo -formado em medicina na escola da natureza e da experiencia.</p> - -<p>Com essa nova intenção montou o moço a cavallo -e, em vez de tomar a estrada de Miranda e -dar o rosto ao sol que descambava já, enveredou á -direita por uma trilha batida que, segundo dizia Florindo, -levava com pouca distancia ao aldeamento dos -indios.</p> - -<p>O matto foi se tornando mais fechado, depois abrio -em clareiras quasi regulares, formando o que se chama -<i>potreiros</i>, denominação muito popularisada pela guerra -do Paraguay. Uma d’essas abertas, maior em dimensões, -era cortada a meio por um corrego encachoeirado, -cujas agoas crystallinas acompanhava densa e -dupla orla de buritys e taquarussús.</p> - -<p>Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação -mais aprazivel e socegada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p> - -<p>—Que bello canto do mundo para a gente viver -tranquilla e esquecida, exclamou Alberto.</p> - -<p>E, voltando-se para o camarada:</p> - -<p>—Aquellas casas que vejo ali, perguntou elle, são -já da aldêa?</p> - -<p>—Nhôr-não, respondeo Florindo: aqui móra o -velho Morevi, kinikináo muito meu conhecido e que é -<i>mandingueiro</i>.</p> - -<p>As tres casinhas, ou melhor choupanas, de que fallava -o moço, assentavão n’uma elevação de terreno e -dominavão todo aquelle restricto valle. Feitas de pouco -e cobertas de palmas de carandá, erão rectangulares, -de frente muito baixa e com uma fenda estreita no -meio que lhes servia de porta. Diante da mais espaçosa -d’ellas, um bambú, ornado de comprido trapo -vermelho a ondular no tope, indicava a morada -de algum indio de importancia, capitão sem duvida -ou então <i>padre</i>, que exerce as funcções de sacerdote -cumulativamente com as de medico e de prestigiador.</p> - -<p>Os viajantes se adiantarão sem demora e forão recebidos -com a maior benevolencia por um idoso kinikináo -que sentado á porta levantou-se com a presteza -que lhe permittião as cansadas juntas. Nú da cintura -para cima, tinha uma especie de saia que lhe descia -aos calcanhares, toda ornada de vidrilhos e contas -de côr. O rosto, pescoço e tronco estavão sarapintados -de desenhos e cortados de linhas vermelhas e pretas -feitas com o succo do urucú e do genipapo, mas aquelles -signaes, destinados principalmente a incutir terror -nos que o fitassem, se conseguião disfarçar a côr de tijolo<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span> -queimado da pelle, nem de leve modificavão a expressão -natural de timidez e bondade que caracterisa em -geral a physionomia dos indios guanás e kinikináos.</p> - -<p>Nem sequer parecia possuido da importancia que -a sua posição de feiticeiro devêra lhe angariar, pois -sem a menor hesitação estendeo a mão a Florindo e -saudou-o com provas até de respeito.</p> - -<p>—<i>Unatiti?</i><a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> perguntou rindo-se e mostrando uns -dentes alvissimos e ponteagudos, ao passo que duas -linhas de urucú e genipapo, acompanhando o enrugamento -da pelle, formavão dous circulos ao redor da -boca.</p> - -<p>O soldado respondeo tambem em lingua chané<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> -e explicou-lhe que aquelle companheiro era <i>capitão</i><a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> -e pretendia ir até a aldêa para curar-se de sezões.</p> - -<p>—<i>Quixauó!</i> exclamou Morevi, <i>carineti tchikiiti</i>.<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p> - -<p>Como a tarde vinha já descendo, decidio Alberto -pousar ao menos uma noute n’aquelle bello lugar, -pelo que encarregou Florindo de obter a posse de uma -das choupanas o que se conseguio sem a menor difficuldade, -tanto mais quanto na occasião não tinha ella -occupante. Na outra morava uma india de meia idade,<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -cujos filhinhos robustos e gentis podião attrahir as -vistas de um homem branco e artista de coração.</p> - -<p>A installação fez-se com presteza. Depois de bem -varrido o chão de barro batido, forão as ligeiras cargas -do viajante depositadas a um canto e a sua rede suspensa -ás traves mais grossas que servião de mourões -á palhoça.</p> - -<p>Morevi recebeo logo em paga de sua amabilidade -um punhado de sal, que elle embrulhou cautelosamente -como preciosidade inestimavel.</p> - -<p>Mas quando ao sal já recolhido addiccionou-se um -vistoso collar de vidrilho e contas de ouro que devia -lhe ornar o encarquilhado pescoço, então a sua gratidão -não conheceo limites e despegou-lhe, depois de -muito gesto comico, a lingoa n’uma catadupa de palavras -quasi sem nexo, umas em seu idioma, outras em -portuguez estropeado.</p> - -<p>—Este <i>lavrado</i><a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> não é para mim, disse elle -afinal mais calmo a Florindo, é para a minha neta. -Ella foi á aldêa grande e d’aqui a um <i>nadinha</i> estará -batendo de volta.</p> - -<p>Pouco depois, com effeito, appareceo alguem á entrada -da clareira, para lá do corrego.</p> - -<p>—É Ierecê<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a>, exclamou Morevi apontando para -aquelle lado, é a minha neta!</p> - -<p>E os seus olhos já apagados pelas sombras da velhice -brilharão de orgulho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p> - -<p>Vinha se approximando uma mulher de altura regular -e pórte elegante. Ao chegar á corrente abaixou-se -e encheo vagarosamente uma vazilha de carregar agoa -que trazia á cabeça, assente em volumosa rodilha. -Depois adiantou-se sem acanhamento, acostumada -como estava a vêr gente de Miranda na aldêa dos indios -seus patricios.</p> - -<p>Trazia todo o corpo embrulhado n’um panno alvissimo, -a que chamão <i>julata</i> e que, preso por volta muito -apertada logo abaixo dos seios, desce até os calcanhares, -e mostrava ter quando muito quinze annos -idade da plenitude de mocidade e belleza n’aquellas -localidades em que o desenvolvimento da puberdade, -já de per si precoce, é quasi sempre apressado.</p> - -<p>Seo rosto de formosura singular houvera em qualquer -parte do mundo prendido as vistas. Se a fronte era -estreita, os olhos um tanto obliquos e as sobrancelhas -pouco arqueadas, em compensação os cilios compridos -e bastos fazião realçar o brilho dos negros iris; o nariz -tinha uma rectidão caucasica; os labios parecião tintos -de carmim e a cabelleira negrejante, bem que aspera, -espargia-se por um collo e seios admiraveis de contorno -e de pureza. Para completar o typo de uma -bella moça nem sequer lhe faltavão pés e mãos de uma -pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa attenção.</p> - -<p>A tez, muito lisa e fina, na côr approximava-se á do -chocolate desmaiado em leite, tão desmaiado que -quando qualquer impressão mais viva ia entender-lhe -com o coração, as suas faces se accendião vivas de -rubor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span></p> - -<p>O que, porém, mais prompto e doce sobresalto -causava em que para ella deitasse os olhos, era, em -vez da apathia estampada geralmente no rosto das -mulheres de sua raça, a expressão de meiguice e tristeza -que lhe pairava na physionomia.</p> - -<p>A admiração de Alberto, ao vêr tão formosa creatura, -não passou despercebida do velho avô que com isso -pareceo sentir viva satisfação, partilhada de resto -pela neta, quando ella cingio o pescoço com o collar -que lhe havião dado. Olhou então curiosa e agradecida -para aquelle estrangeiro e sorrio-se para elle, -deixando vêr no encrespar dos mimosos labios uns -dentesinhos alvos e agudos, como dentes de maracaiá.</p> - -<p>—Sua neta é kinikináo? perguntou Alberto.</p> - -<p>—<i>Acó</i>, respondeo Morevi, <i>pae tchoronó-unó</i>, filha -tambem: mãe só <i>koinukunó</i>.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p> - -<p>—É muito bonita! exclamou o moço com sinceridade.</p> - -<p>O velho abanou a cabeça para confirmar aquelle -juizo enthusiastico e tomou um ar benevolo e philosophico, -de homem já alheio á paixão e que deixou á -mocidade o direito de sentir aquellas commoções.</p> - -<p>—Você quer Ierecê para sua mulher? perguntou -elle com alguma pausa e gravidade. Hade lhe dar -comida e roupa.</p> - -<p>Alberto vacillou, mas Morevi, sem esperar pela resposta, -pegou-lhe na dextra e, abrindo-a, n’ella collocou<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span> -a delicada mão da neta, ao passo que murmurava -umas palavras cabalisticas, com os olhos meio cerrados.</p> - -<p>Ierecê não fôra consultada e durante a ceremonia -perfunctoria que a ligava, segundo os costumes de sua -gente, a aquelle homem desconhecido por um laço -que não ella, mas só elle, podia romper, mostrou-se -completamente indifferente.</p> - -<p>Uma só cousa a occupava: era o collar de contas -de ouro que no seu peito os ultimos raios de sol illuminavão -de pontosinhos scintillantes como que a desferirem -chispas, que lhe aguilhoavão docemente a -feminil vaidade.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span></p> - -<h4>CAPITULO II</h4> - -<p>A primeira semana correo para Alberto alegre e -animada. Desapparecêra de todo a febre, e elle se -sentia como que retemperado pelo socego do retiro -em que vivia.</p> - -<p>De manhã muito cedo sahia para a caça e só voltava -quando o sol ia alto e que o calor apertava, trazendo -sempre pesada enfiada de passaros, uns notaveis pelo -tamanho, outros pela plumagem.</p> - -<p>A essa hora, Ierecê tinha por costume esperal-o com -uma cestinha de fructas da terra, bananas, mamões e -jaracatiás, ou outros mais incultos como o mureci -dos cerrados, a marmelada do campo, a guabiroba ou -a uvaia, que, apezar do sabor agreste agradão bastante -ao paladar.</p> - -<p>Apenas chegada a caça, a india a depennava com -ésmero antes de entregal-a aos cuidados de Florindo -que tomára a si o preparo da comida, no que mostrava -algum talento bem que usasse, para os misteres<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -da cozinha, da gordura geralmente empregada em -Matto-Grosso: a graxa de boi.</p> - -<p>Á tarde, depois de abundante e sã refeição, Alberto -ia conversar com Morevi e tomar lições de lingoa -chané, com cujas palavras mais notaveis procurava -coordenar um ligeiro vocabulario.</p> - -<p>Se, entretanto, o principiante mostrava alguns progressos, -erão todos elles devidos ás indicações de -Ierecê que se admirava muito dos esforços que aquelle -branco empregava para vir a fallar como se fôra indio.</p> - -<p>Ella parecia um tanto triste, indifferente sobretudo.</p> - -<p>Na choupana ao lado, o avô continuava em suas -praticas de devoção e vivia completamente estranho -ao casal.</p> - -<p>No fim da primeira semana de estada no Hetagati<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a>—assim -se chamava o lugar—foi o soldado Florindo -despachado para a villa de Miranda, afim de, com a -necessaria discrição, ir buscar alguns meios de conforto, -fructos seccos, conservas, diversos córtes de fazendas -e tudo quanto podesse ser de mais immediata -necessidade para a estada e alguma demora n’aquelle -local.</p> - -<p>Entre os objectos encommendados, não forão esquecidas -duas garrafas de agoardente de canna e varias -braças de bom fumo goyano que erão destinadas ao -complacente Morevi.</p> - -<p>Com a chegada de uma peça de chita franceza, -Ierecê deixou o trajo nacional e primitivo e cobrio o<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span> -esbelto corpo de um vestidinho que Alberto deo-se ao -trabalho de cortar e preparar, dirigindo o trabalho -da costureira, tão desageitada em seus movimentos, -quão impaciente por terminar e poder envergar aquella -roupagem nova.</p> - -<p>Não perdeo ella, com isso, em graça; pelo contrario, -mais alta e vistosa parecia com a saia escorrida e a -camisinha alva que lhe cahia dos hombros, repellida -pela rebeldia dos seios.</p> - -<p>Seo genio era a realisação fiel do que exprimia logo -a physionomia: muita brandura, tristeza e alguma -curiosidade.</p> - -<p>A principio Ierecê considerára Alberto como um -ente de natureza superior, a quem devia obediencia -céga, emquanto lhe servisse de méro passatempo; -depois foi-se possuindo de admiração e sobretudo reconhecimento -ao vêl-o tão occupado de tudo quanto -podesse lhe realçar a natural belleza ou agradar ao seu -espirito.</p> - -<p>Como ella se contemplava ao espelho, radiante de orgulho -e alegria, quando aquelle <i>portuguez</i><a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a>, de -fronte alva e espaçosa, lhe arranjava com singular paciencia -os abundantes cabellos, formando caprichosos -e sempre novos penteados?!</p> - -<p>Como ouvia attenta, com os bellos olhos arregalados -e a boquinha entre-aberta de admiração, as -narrações, umas reaes, outras phantasticas que elle á<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span> -tarde lhe contava, quando, deitados ambos sobre a -relva diante da choupana, vião o sol se esconder por -detraz da matta e a noute subir da terra para os céos?!</p> - -<p>N’essa hora, tudo é tristeza para a alma que as -sombras da natureza parece quererem tambem invadir. -Entretanto era quando o coração de Ierecê pulsava -com mais segurança e calma, embóra o pio aterrado -da jaó acordasse melancolicos os échos da floresta, embóra -o bacuráo atirasse aos ares as plangentes notas -da aspera garganta.</p> - -<p>A sua faceirice natural e innocente era ajudada por -intelligencia vivida e pela delicadeza de instinctos: -assim para logo desterrou do rosto e braços as pinturas -que costumava traçar com urucú e genipapo; -deixou de cuspinhar, como fazem a cada momento os -indios e de comer rapida e vorazmente, empenhando-se -emfim por merecer applauso pelo abandono prompto -d’este ou d’aquelle habito menos conforme com o -modo de viver civilisado.</p> - -<p>Além d’isso, apenas foi avisada por Alberto, occultou -com modestia os seios, trazendo sempre diante -do peito um lenço preso á cintura por duas pontas e -atado pelas outras ao pescoço.</p> - -<p>O que era bom e poetico, ella conservava; assim, -frequentemente entretecia capellas e collares de flores -para os cabellos e braços e todos os dias renovava a -elegante palma ou a folha de samambaia mimosa que, -segura por delgado cordão, lhe acariciava a fronte -como verdejante pennacho.</p> - -<p>Em principio Ierecê a custo sahia do silencio: depois,<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -observando a bondade com que a tratava Alberto, -arriscou algumas palavras em chané, logo após em -portuguez, e não tardou muito que ficasse garrula a -mais não poder, papagueando o dia inteiro, ora em sua -lingua, ora na outra, que ella entendia perfeitamente, -por isso que fôra criada na aldêa do Bom Conselho, -perto de Albuquerque, onde recebêra das mãos do -missionario frei Marianno de Bagnaia as aguas do -baptismo e o nome christão de Sylvana.</p> - -<p>Das praticas e orações religiosas que aquelle virtuoso -capuchinho lhe ensinára na aula de catechismo, -só conservára o signal da cruz, symbolo que nunca -deixava de fazer pela manhã ou á noute, quando ia se -deitar.</p> - -<p>Uma vez quebrada a barreira de constrangimento -que a separava de Alberto, nasceo no espirito da india -o desejo de tornar-se agradavel e bemquista. Então -por uma combinação de cuidados graciosos e lembranças -felizes, ora ornava o interior da choupana de -flores e de festões de folhas, ora contava historias de -sua tribu, n’um portuguez muito atravessado e custoso, -ora trabalhava com afinco em tecer uma faixa com -desenhos de variegadas côres para ser atada á cintura -de quem a possuia, ora porfim mostrava-se repentinamente -amuada para logo voltar ás boas com um -excesso nunca visto de momices e caricias.</p> - -<p>Não raras vezes, ao esperar o moço que voltava de -suas excursões pela matta, occultava-se Ierecê por -traz de alguma arvore possante e cahia de chofre sobre -elle com o fim de assultal-o.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span></p> - -<p>Erão então gargalhadas francas, sonoras, argentinas, -como solta um peito que não sente cuidados.</p> - -<p>Em começo, a india mal deixava os arredores da -choupana, chegando quando muito até o ribeirão. -Depois alongou os passeios, só com o fim de ir apanhar -passaros que tivessem pennas mais formosas e -brilhantes do que os que trazia o caçador. Com visgo -natural que tirava da mangabeira para armar arapucas -e com bagas de succo inebriante, conseguia ella agarral-os -vivos, e voltava, então, pulando de contente -deposital-os nas mãos de Alberto depois de ligar-lhes -as azas ao corpo por meio de uma embira larga.</p> - -<p>Era de vêr-se o seo ar de importancia e ufania, um -arsinho seductor, irresistivel.</p> - -<p>Se havia prazer em prender os mimosos volateis, -maior, sem comparação possivel, experimentava ella -quando Alberto lhe pedia a liberdade para os prisioneiros.</p> - -<p>Soltal-os era uma festa que se fazia quasi sempre -á tarde, com luz bastante para que os passarinhos -podessem ir buscar os seus pousos de querencia. -Ierecê os ia beijando com carinho, ao passal-os um -por um a Alberto, que era quem desatava o cordel -que lhes impedia o vôo.</p> - -<p>O animalsinho disparava palpitante de medo com -direcção á matta, e Ierecê seguia-o quanto podia -com a vista, descansando, ao volver a cabeça, os olhos -carregados de amor n’aquelle mancebo tão bondadoso -para com todos os filhos da natureza.</p> - -<p>Os dias correrão rapidos, e, bem que Alberto começasse<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span> -a achar a vida que levava um tanto monotona, -não podia eximir-se da satisfação suave que em todos -produz a extrema quietação. Entretanto, ao observar -os progressos da paixão que accendêra no peito da -indigena, sem querer entristecia-se e procurava arredar -da lembrança a necessidade de em breve dar fim -áquella ligação passageira.</p> - -<p>O amor de Ierecê era inventivo. Tudo quanto podesse -sorrir ao espirito do moço, tratava ella, na medida -de suas forças, de conseguir logo: plantas raras e -curiosas, ou que lhe parecião tal; mineraes coloridos, -conchas do rio e insectos, objectos emfim mais ou -menos approximados pela côr e fórma a qualquer -outro que Alberto houvesse fitado com mais attenção -e que immediatamente a ella servia de typo para as -amorosas pesquizas.</p> - -<p>Então como se pagava de um olhar de agradecimento, -de um sorriso, um gesto?! Seos olhos inquietos -estudavão a impressão que a physionomia do -mancebo lhe havia de denunciar.</p> - -<p>As narrações que Alberto fazia da vida e dos esplendores -do Rio de Janeiro excitavão-lhe vivamente -a imaginação. A descripção do trajo das mulheres e -da mudança continua das modas sobretudo a encantava -de um modo singular.</p> - -<p>—Ah! se eu tivesse tudo aquillo! disse ella uma -vez com fundo suspiro.</p> - -<p>—Você quer ir para lá? perguntou-lhe o moço.</p> - -<p>—Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das <i>portuguezas</i> -tão alvas e bonitas. Eu nasci para o matto.<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas.</p> - -<p>Florindo dava-se muito bem com a india: ella o -ajudava no preparo da comida; ia buscar fogo; corria -a encher no ribeirão a bilha d’agua; respigava para a -cozinha gravetos bem seccos, tudo com tamanha espontaneidade -que o soldado, apezar da fleugma natural, -deixava-se levar a lhe querer muito bem, o que -manifestava a Alberto, respeitando na mulher a posição -do seu camarada.</p> - -<p>—Ó vossa senhoria,<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> dizia elle, esta <i>dona</i> parece -mesmo, com sua licença, filha de feiticeiro. Nunca vi -uma creatura, com perdão da palavra, de melhores -modos. Prende deveras o coração da gente.</p> - -<p>Alberto Monteiro jamais se sentira, senão tão feliz, -pelo menos tão calmo. Nada lhe perturbava a paz do -espirito, e como a saúde voltára completa, vivia sem -consciencia exacta do tempo que passava.</p> - -<p>A paizagem que o cercava era restricta, mas amena. -Densa cintura de matta virgem limitava logo o horizonte; -em compensação, porém, os olhos erão obrigados -a parar demoradamente nos grupos de buritys -e taquarussús que acompanhavão o percurso do corrego -e que mais se condensavão em torno de uma -bacia larga e natural em que as agoas se espraiavão -sobre um fundo de areias prateadas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span></p> - -<p>Ahi era o banho de Ierecê.</p> - -<p>Ás vezes, alta noute, o velho Morevi rompia o silencio -do valle com um canto lugubre, cortado de notas -agúdas e desafinadas. Para essas barulhentas vigilias -é que se trajava do modo em que o encontrára -Alberto no dia de sua chegada a Hetagati: sáia toda -enfeitada de lentejoulas, presa á cintura por um talim -bordado a contas de côr e corpo riscado de urucú e -genipapo. Os complementos de sua vestimenta sacerdotal -erão um espanador grande de pennas de ema, -ornado de desenhos caprichosos e um chocalho que -sacudia pausadamente, ao passo que percorria, a avançar -e recuar, um couro sem pello estendido diante da -porta.</p> - -<p>Erão as conferencias do feiticeiro com o <i>acauan</i>, -especie de gavião pequeno que solta guinchos finos, -accentuando as syllabas que lhe derão o nome—a-ca-uán—passaro -agoureiro no dizer dos indios e com -cujas consultas podem os padres descortinar o futuro.</p> - -<p>De madrugada, o canto de Morevi soffria uma parada -longa: de repente ouvia-se muito ao longe o -grito do milhafre a que o velho respondia com voz de -supplica afim de chamal-o para mais perto. Assim -parecia acontecer. Os pios vinhão se tornando cada -vez mais distinctos e afinal os ares estrugião com um -estridente hymno de triumpho em que o rouquejar -do velho casava-se com o vozear do passaro adivinho.</p> - -<p>Ahi começavão as revelações.</p> - -<p>Alberto, a principio, pela singularidade da cousa e -pela perfeição com que era imitado o gritar do acauan,<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span> -foi observar o velho e ouvir-lhe as descompassadas -cantigas; entretanto, ao depois, ficava impaciente por -ser interrompido no melhor do somno.</p> - -<p>Ierecê, então, foi ter com o avô e taes argumentos -empregou, apoiados em dadivas e promessas, que -nunca mais aquella grita dissonante perturbou a tranquillidade -das noutes. Se continuarão as consultas ao -acauan, forão sem duvida feitas com toda a modestia -em voz muito baixinha, para não incommodar o -<i>portuguez</i>.</p> - -<p>Em compensação, se, para socego dos ouvidos, -calava-se Morevi, a netinha cantava melodias de sua -nação, sempre no mesmo tom e com as mesmas notas, -mas com voz tão suave e pura, que ouvil-a conciliava -um somno doce e enervador. Ella cantava como -cantão os passarinhos que para unica musica tem só -duas ou tres modulações que Deos lhes poz na garganta -para o seu passatempo... mas assim mesmo não -agrada tanto ouvil-os?!</p> - -<p>Quando Alberto lhe pedia alguma canção, Ierecê -cheia de alegria, mas tolhida de vexame, principiava toda -a corar e a empallidecer, balbuciando e murmurando: -depois, firmava a voz e desprendia do peito notas -repassadas de uma ternura indizivel e que vibravão -como partidas das cordas do coração.</p> - -<p>Era, com effeito, o pobre coração que estremecia e -alçava preces de amor a quem o captivára.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Uma noute, o luar era brilhante: tudo resplandecia -de luz branda e azulada.</p> - -<p>A matta, ao redor, formava uma linha escura, e o -ribeirão parecia desdobrar-se em laminas de prata. -Pontos scintillantes corôavão a folhagem compacta das -palmeiras, por entre cujos troncos a luz, coando vivamente, -estendia pelo chão compridas sombras que -semelhavão columnas derrubadas por terra.</p> - -<p>Ierecê preparára uma sorpresa.</p> - -<p>Fôra, de manhã, á aldêa do Agaxi convidar diversas -indias kinikináos para virem passar a noute no -Hetagati.</p> - -<p>Á hora aprazada, chegarão de facto seis bellas raparigas, -vestidas com a tradicional <i>julata</i> que lhes deixava -descobertos os seios pequenos e empinados. O typo -era o mesmo que o de Ierecê; mas esta, no meio das -companheiras, parecia uma deusa cercada de nymphas. -Tinha pórte mais altivo, physionomia mais expressiva -e intelligente.</p> - -<p>Alberto, ao vêr chegar o gentil bando, adiantou-se -ao seu encontro.</p> - -<p>A guaná o mostrou com orgulho, e, tomando pela -mão a visitante que lhe pareceo mais bella, caminhou -para o mancebo: então, entre risonha e medrosa, disse-lhe -que d’ora avante se considerava vencida em formosura -e cedia o seu lugar a quem mais o merecia.</p> - -<p>A recusa immediata não mostrou offender a kinikináo -e mais exaltou a alegria de Ierecê.</p> - -<p>Um dos caracteristicos das raças selvaticas é estarem -os seus individuos sempre dispostos para comer. Foi<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -por isso que, havendo Florindo sido avisado de antemão -e preparado lauta refeição de porco do matto, -palmito amargoso e pirão de milho, poderão as recem-chegadas -sem demora satisfazer a sofreguidão do -appetite.</p> - -<p>Acabada a ceia, forão todas ao corrego e banharão-se -com grande e festivo ruido.</p> - -<p>Já então havia Ierecê espalhado diante da choupana -uma ramagem fresca e odorifera, sobre a qual estendeu -um panno alvo, afim que Alberto se deitasse, e -mais a gosto podesse assistir aos dansados que ella -e as companheiras ião executar.</p> - -<p>Morevi deo o signal batendo n’um tambor de pelle -de anta e entoou uma canção de andamento vivo.</p> - -<p>Ao ouvirem as primeiras pancadas, as indias se -puzerão em linha e n’essa disposição avançárão e -recuárão diversas vezes com passo fingidamente tropego: -depois, soltando as mãos, compozerão varias -figuras ou em grupos de tres, ou correndo em circulo -umas atraz das outras, antes de reformarem a linha -primitiva. De vez em quando uma d’ellas parava e -unia a sua voz á do rouquenho cantor para animar o -dansado que se accelerava e mais calor e vivacidade -tomava com os gestos elegantes e posições voluptuosas, -quasi lubricas, das bailarinas.</p> - -<p>Depois da dansa, cantarão todas juntas um côro, que -peccava, não pelo afinado das vozes, mas pela falta -absoluta de variedade, razão pela qual Florindo observou -com graça que aquella musica havia de agradar -muito quando a gente estivesse a dormir.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span></p> - -<p>Á hora em que o cruzeiro vai virando no céo, -Ierecê deo por finda a funcção.</p> - -<p>Alberto se distrahira mediocremente, mas julgou -caso de polidez e justa condescendencia mostrar-se -plenamente satisfeito e divertido.</p> - -<p>Quem não cabia em si de contente era a guaná. -Sem contestação dansára com mais graça do que as -outras, provocando sempre os applausos do branco, -cujos sentimentos de delicadeza começava a comprehender -e a partilhar, tanto assim que não deixou -ninguem vir dormir na sua choupana e foi levar as -visitantes a fazerem companhia pelo resto da noute -ao velho Morevi.</p> - -<p>Este não teve remedio senão ceder lugar ás jovens -kinikináos e, puxando para fóra o couro que lhe -servia de leito, dormio sem mais ceremonia ao relento.</p> - -<p>De manhã, antes que o sol rompesse, retirárão-se -as indias, levando os presentes que mais podião lhes -agradar: sal, chitas, espelhos, contas, agulhas, e -os restos do banquete da vespera.</p> - -<p>Ierecê foi acompanhal-as até certo ponto do caminho, -mas não quiz chegar até a aldêa.</p> - -<p>No entretanto os dias e as semanas havião passado, -e Alberto não dava mostras de perceber isso.</p> - -<p>—Sabe V. S., perguntou-lhe um dia Florindo, -quanto tempo faz que estamos aqui?</p> - -<p>—Talvez um mez, não é?</p> - -<p>—Já lá vão dous, rectificou o soldado.</p> - -<p>Foi com verdadeiro espanto que Alberto verificou -ser exacta a conta.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span></p> - -<p>—Mas então, disse elle, Julio Freitas ha muito -deve estar de volta!... Como é que não appareceo -por cá?</p> - -<p>—É que o Sr. capitão frechou direitinho de Nioac -para Miranda pelo Lalima. Fazia V. S. na <i>cidade</i> e -foi para lá em rumo certo.</p> - -<p>—Então de Nioac ha outro caminho que não este?</p> - -<p>—De Nioac, nhôr-não. Da Forquilha, dez legoas -mais <i>arriba</i>. Ahi ha uma estrada que vai de parelha -com o rio Miranda.</p> - -<p>—O que você diz é certo. Julio Freitas deve estar -á minha espera. É preciso que eu chegue até a villa. -Amanhã.... talvez....</p> - -<p>No dia seguinte o projecto de partida não se -realisou.</p> - -<p>—Não irei eu mesmo, disse Alberto para o soldado. -Você é quem seguirá para Miranda montado no meu -animal. Entenda-se com o Sr. capitão, diga-lhe que -estou de saúde e peça que, se poder, dê uma chegada -até cá. Se não, eu lá estarei n’estes dias proximos.</p> - -<p>O camarada, á noutinha, preparou uma passóca -para a viagem.</p> - -<p>—Quem é que vai embóra? perguntou-lhe Ierecê -vendo-o occupado n’aquelle mister.</p> - -<p>—Eu, respondeo Florindo, tenho que dar um pulo -até a <i>cidade</i>.</p> - -<p>A india ficou sobresaltada; muitas vezes fez a -mesma pergunta e ouvio a mesma resposta.</p> - -<p>Sem saber ainda pelo que, o seu coração se apertava<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -de tristeza e um presentimento doloroso agitava-lhe -a alma.</p> - -<p>Tambem mal poude dormir e, abrazada de insolita -agitação, debalde foi por vezes pedir ás agoas do -corrego refrigerio para o calor e o mal estar que não -lhe permittião quietação.</p> - -<p>Uma cousa impedio a partida de Florindo: foi o -apparecimento matutino de Julio Freitas a cavallo, -acompanhado de um morador da villa.</p> - -<p>Elle deo grandes brados ao avistar Alberto.</p> - -<p>—Então, Sr. anachoreta das duzias, escondido -n’este lindo retiro e os outros com cuidados de sua -pessoinha!</p> - -<p>Os dous amigos se abraçárão affectuosamente.</p> - -<p>—Quando cheguei a Miranda, disse Julio, ha quasi -uma semana, fiquei pasmo de não encontrar a você. -Pedi noticias suas, não m’as souberão dar.... Então -suspeitei que podesse ter dado fundo na aldêa dos -kinikináos e vim em pessoa arrancal-o, morto ou -vivo, de seus estudos anthropologicos..... E as -febres?</p> - -<p>—Ha muito que já se forão....</p> - -<p>—Mas tudo aqui é lindo! exclamou o recem-chegado -com expansão. Que soberbos boritys! Você -é um verdadeiro artista. Emquanto eu corria campos -batidos de um sol abrazador e caminhava sem tregoa, -sua senhoria, deitado á sombra dos taquarussús, deixava -o tempo correr mansamente como as aguas -d’aquelle bello corrego! Não ha vida melhor. Que -diz, Sr. João Faustino? Ah! deixe lhe dar o conhecimento<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -d’este amigo de Miranda. É um morador -da villa, pessoa que estimo muito e que conheço -desde Cuyabá.</p> - -<p>Alberto apertou a mão do apresentado, homem de -meia idade, rosto moreno, physionomia amena e -franca.</p> - -<p>—O Sr. Faustino, continuou Julio, acompanhou-me -até cá, porque vem contractar uns indios para -irem trabalhar na sua fazenda do Rodrigo. É um -optimo companheiro para a folia e para o perigo, -homem com quem se póde contar.</p> - -<p>Quando ao almoço Alberto apresentou Ierecê ao seu -amigo e a João Faustino, estes não poderão occultar -a admiração que lhes causava a venustade da india.</p> - -<p>—É uma bella mulher! murmurou Julio a meia -voz. Palavra de honra, Alberto teve faro.</p> - -<p>—Você é da aldêa? perguntou Faustino a Ierecê -em lingua chané que elle fallava com perfeição.</p> - -<p>—Não, respondeo ella, sou de Albuquerque: desde -que estou aqui, os <i>paratudos</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a> já derão flôr cinco -vezes.</p> - -<p>Se a india produzio aquella impressão de sorpresa, -homenagem inequivoca á sua formosura, -por seu turno recebeo um choque immenso. De momento -percebeo que aquelles homens vinhão lhe roubar -o ente a quem ella prezava n’este mundo só, acima -de tudo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - -<p>Poz-se attenta a ouvir a conversa, e qualquer duvida -ainda possivel, qualquer esperança que podesse affagar, -fugio-lhe para logo do espirito.</p> - -<p>—Então, Alberto, dizia Julio Freitas, a sua vida -tem sido um paraiso....</p> - -<p>—Passei bem...</p> - -<p>—Pois, meu amigo, não ha bem que não se acabe. -N’estes dias devemos todos partir de Miranda. Não sei -se você quer ficar.... Ah! a proposito, trago-lhe uma -carta do Rio de Janeiro.... Quer vêr que a perdi!... -Não; está aqui: fui pescal-a na mala que por acaso -chegou de Cuyabá, de modo que a data não póde ser -muito antiga.</p> - -<p>Alberto abrio a carta que lhe passára o amigo, e -uma nuvem correo-lhe pelo rosto.</p> - -<p>—Tenho más noticias, disse elle, dos meus negocios -na Côrte. O banqueiro em que tenho algum dinheiro -está, pelo que me escrevem, um tanto abalado...</p> - -<p>—Com mil bombas! exclamou Julio, o caso não é -de brinquedo! A sua presença é indispensavel e quanto -antes...</p> - -<p>—Sim, concordou Alberto distrahidamente, preciso -partir.</p> - -<p>Ierecê ouvira tudo com rosto impassivel, mas dentro -d’alma parecia-lhe que a sua hora de morrer vinha -chegando.</p> - -<p>Durante o dia Alberto, com algum constrangimento, -confessou a Julio Freitas e a João Faustino que sentia -bastante desgosto, quasi remorsos, em deixar Ierecê.<span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span> -Leval-a, era impossivel, elle bem via, mas tambem -abandonal-a de chofre...</p> - -<p>—Entretanto, objectou Freitas com algum calor, -você não póde ficar aqui anniquilado!... Fôra quasi -um crime!...</p> - -<p>—De certo, porém...</p> - -<p>—São cousas que acontecem todo os dias... Demorar -a resolução é que é máo...</p> - -<p>—Depois, ponderou João Faustino, convém lembrar-se -que os indios esquecem depressa. Ierecê poderá -ficar sentida uma semana, duas, se tanto; depois -consolar-se-ha... é...</p> - -<p>—É a lei universal, concluio philosophicamente -Julio Freitas.</p> - -<p>Alberto nada replicou.</p> - -<p>—Se eu tivesse, disse elle por fim, ao menos alguem -que olhasse para esta pobre creatura, lhe désse -de vez em quando alguma cousa para a sua subsistencia...</p> - -<p>—Pois aqui está o João Faustino, respondeu Freitas. -Ninguem melhor do que elle se incumbirá de -tudo...</p> - -<p>—E com a maior satisfação, confirmou o outro. -Estou completamente ao seu dispor para tudo quanto -fôr do seu serviço....</p> - -<p>—Obrigado... agradeço a sua boa vontade e aceito -os seus offerecimentos sinceros... Sobre o mais, conversaremos -com vagar em Miranda.</p> - -<p>—Em todo o caso, annunciou Julio Freitas, volto -amanhã para a villa. No fim de poucos dias parte de<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> -lá o vapor, e não podemos perder uma occasião -d’essas...</p> - -<p>—Pois bem, concordou Alberto, partão vocês, eu -ficarei mais uns dias, e no domingo estarei em Miranda.</p> - -<p>—Sem falta? perguntou João Faustino sorrindo-se.</p> - -<p>—Infallivelmente...</p> - -<p>—Veja se vai perder o vapor... depois não teria -outro remedio senão descer em <i>igarité</i> para Corumbá... -viagem vagarosa e massante....</p> - -<p>—Não... eu partirei no <i>Alpha</i>, afiançou Alberto.</p> - -<p>De manhã Julio de Freitas e Faustino se despedirão.</p> - -<p>Ierecê mostrou-se completamente alheia áquellas -novidades, mas, quando vio os visitantes partidos, -olhou para Alberto com tamanha angustia, tanta expressão -que este ficou todo perturbado.</p> - -<p>—Que tem você? perguntou elle.</p> - -<p>—Nada, respondeu a india...</p> - -<p>—Você está doente?</p> - -<p>—O corpo não está, mas isto está ficando...</p> - -<p>E apontou para o coração, accrescentando.</p> - -<p>—E para sempre.</p> - -<p>Depois tornou-se silenciosa.</p> - -<p>Á hora da refeição recusou comer e com a approximação -da tarde tornou-se muito agitada. Ia e vinha -do corrego para a choupana a passo lento e com o ar -de completa distracção. Debalde Alberto procurou -gracejar com ella: nem se quer um sorriso melancolico<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span> -desdobrou-lhe os labios contrahidos. Tinha os -olhos seccos e brilhantes.</p> - -<p>A noute não lhe trouxe lenitivo: pelo contrario mais -augmentou-lhe o desassocego: por vezes sahio para -fóra da palhoça e respirou sofrega o ar frio da madrugada.</p> - -<p>Havia um luar tristonho de mingoante: o valle -estava frôxamente illuminado e ao longe ouvião-se os -<i>quero-queros</i> que gritavão nas matas do Aquidauána.</p> - -<p>O coração de Ierecê confrangeo-se ainda mais. A -certeza de que uma grande desgraça estava imminente -sobre a sua cabeça a acabrunhava.</p> - -<p>Voltou para a choupana e parou perto da rede em -que dormia Alberto.</p> - -<p>Ahi ficou por largo tempo perplexa; depois tocou -levemente no hombro do moço e acordou-o.</p> - -<p>—Então, disse ella, <i>unái</i><a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> vai-se embóra?</p> - -<p>Sua voz era tão fraca que mal se ouvia no silencio -da noute, e entretanto quanto esforço assim mesmo -lhe custára essa pergunta!</p> - -<p>—Preciso partir, Ierecê, respondeu-lhe Alberto -sentando-se na rede.</p> - -<p>—Forão aquelles homens máos que vierão buscar -<i>unái</i>.</p> - -<p>—Não. Eu devia mesmo ir para o Rio.</p> - -<p>—E que será de Ierecê?</p> - -<p>Alberto não poude de prompto acudir á interrogação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span></p> - -<p>Estava vacillante.</p> - -<p>—Ierecê, disse a final, ficará aqui. Hade sempre se -lembrar de mim. Deixo ordem a João Faustino para -que o seu avô tenha dinheiro e roupa....</p> - -<p>—E <i>unái</i>, perguntou ella, parando em cada palavra, -nunca mais hade voltar?</p> - -<p>—Volto....</p> - -<p>Ierecê abanou a cabeça e suspirou profundamente.</p> - -<p>De manhã a sua physionomia estava toda alterada. -A mão pesada da dôr havia pousado sobre o seu rosto -e, tirando-lhe o colorido das faces, traçára circulos -rôxeados ao redor dos olhos.</p> - -<p>Durante todo o seguinte dia, apezar das rogativas e -até ordens imperiosas de Alberto, ella nada comeu. -Acocorada em um canto estava sombria. Parecia -doente; teve um pouco de febre.</p> - -<p>Como tal situação tornava-se penosa para Alberto, -decidio elle partir antes do dia em que pretendêra -sahir do Hetagati.</p> - -<p>Communicou, pois, a Morevi que na manhã seguinte -fazia-se de viagem.</p> - -<p>O velho não mostrou o menor abalo nem desgosto: -pelo contrario desejou-lhe toda a sorte de felicidades -pelo regresso e cobrio-o de bençãos quando soube que -tudo quanto continha o rancho ao lado viria a pertencer-lhe -desde logo. Com a posse de duas redes, alguns -cobertores, espingardas, polvora e chumbo, pelles, -facões, um par de tamancos e varias notas de papel-moeda, -julgou-se o estimavel feiticeiro senhor de riquezas -inexgotaveis e na obrigação de manifestar ruidosamente<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> -o maior reconhecimento a quem se despedia -por modo tão generoso.</p> - -<p>Não foi sem beijar repetidas vezes a mão de Alberto, -que Morevi deixou-o montar a cavallo.</p> - -<p>Ierecê tinha se ausentado.</p> - -<p>O mancebo, depois de despachar o camarada Florindo, -disse com os olhos um adeos eterno áquelle recanto e -fazendo um gesto amigavel ao velho, partio á hora em -que o sol ia quasi chegando ao pino.</p> - -<p>Seguia elle pela trilha que levava á estrada geral, -quando n’uma das voltas vio Ierecê mais adiante sentada -n’um tronco de arvore cahida e á sua espera.</p> - -<p>Ella levantou-se empallidecendo muito; quiz correr, -mas não poude e deixou que o cavalleiro se approximasse -mais. Então chegou-se tremula e, encostando -a cabeça á côxa de Alberto, ficou por um pouco immovel -apertando de encontro aos labios a mão do seu -amado, ao passo que lentamente lhe descia pelas faces -uma lagrima, uma unica, mas de fogo que devorava -para sempre a alegria do seu rosto, como lava ardente -de vulcão a abrir sulco fundo e devastador.</p> - -<p>—<i>Biónne</i><a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a>, disse-lhe o moço sinceramente commovido.</p> - -<p>—<i>Pehehêvo</i><a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a>, respondeo ella, <i>pehehêvo</i>!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<p>Levantou então os olhos e contemplou ainda uma -vez aquelle que ia deixar para nunca mais vêr; depois -voltou as costas e com passo vagaroso tomou rumo de -sua choupana tão cheia de seducções ha dias, agora -deserta.... deserta....</p> - -<p>Para a sua dôr immensa, nem sequer tinha, como -india que era, o balsamo das lagrimas, esse orvalho -das almas malferidas.</p> - -<p>Alberto tocou o cavallo com energia. D’ahi a dous -dias chegou á villa de Miranda.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p> - -<h4>CAPITULO III</h4> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span></p> - -<p>Julio Freitas se occupára activamente do regresso, -e, como o vapor <i>Alpha</i> estivesse prompto para seguir -viagem, veio a presença de Alberto dispensar outra -qualquer demora.</p> - -<p>—Quanto mais depressa melhor, pensava elle depois -de dar a João Faustino as instrucções relativas ao -valle do Hetagati.</p> - -<p>A lembrança de Ierecê opprimia-lhe o espirito, -como se houvera praticado uma acção má. Não era -propriamente paixão o que sentia por aquella india, -mas uma immensa commiseração acompanhada de -verdadeira amizade.</p> - -<p>Tres dias se passarão na villa empregados nos cuidados -da partida. Na manhã seguinte o vapor levantava -ferro.</p> - -<p>Á tarde estava Alberto conversando com João -Faustino á porta da casa d’este, uma das raras cobertas -de telha, na rua da Matriz, quando avistou um<span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span> -velho e uma mulher que vinhão quasi a arrastar-se -pelo caminho, prostrados de fadiga.</p> - -<p>Erão Morevi e Ierecê, cobertos de pó, arfando de -cansaço e de fraqueza.</p> - -<p>Correr ao encontro da infeliz rapariga, abraçal-a e -leval-a para o interior da casa em que se achava foi -o que fez Alberto com a maior espontaneidade, sem -hesitação nem vexame, apezar de haver espectadores -que podessem o censurar.</p> - -<p>O velho, banhado de suor, anniquilado, deixára-se -cahir pesadamente no chão ao pé da porta.</p> - -<p>Alberto quiz ralhar com Ierecê, mas achou-a tão -mudada, que não teve animo. Ella tinha as faces encovadas -e tremia de frio e emoção.</p> - -<p>—Que farei, Sr. Faustino? perguntou o moço -querendo tomar sério conselho n’aquella contingencia.</p> - -<p>—Parta, disse-lhe este com firmeza. Esta coitadinha -mostra dedicar-lhe uma affeição verdadeira, -mas por isso ficará o Sr. retido n’estes sertões? -E por quanto tempo? Não ha rapariga que não tenha -passado por transes d’esses, mulheres da mais alta -sociedade e fortuna, quanto mais estas infelizes que -se apegão logo a quem as trata com carinho. Leval-a -para o Rio de Janeiro fôra para o Sr. causa de incommodo -e de continuo vexame. Além d’isso os encantos -de Ierecê que agora podem parecer irresistiveis, -perderão muito, caso não se offusquem de todo, comparados -que sejão com as bellezas que a arte e a -civilisação fazem realçar. As suas relações que aqui<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -erão muito licitas e naturaes tornar-se-ião em qualquer -outra parte impossiveis e motivo justo de escandalo. -Parta! Escrever-lhe-hei de vez em quando, -mostrando-lhe que cumpri exactamente com todas as -suas ordens.</p> - -<p>Á noutinha a india comeo um pouco, depois de -muito instada. O avô porém precipitou-se sobre a -comida e devorou-a como se houvesse jejuado todos -aquelles dias passados.</p> - -<p>A final chegou a hora da partida.</p> - -<p>Ierecê foi até o porto de rio Miranda e deitou um -olhar de cólera concentrada para o navio que lhe roubava -o amante.</p> - -<p>Parecia, comtudo, calma.</p> - -<p>Alberto, não querendo chamar sobre si a attenção -da gente que acudira a vêr o embarque, occupava-se -activamente de suas cargas; antes porém de saltar na -canoinha que o ia levar ao <i>Alpha</i> já sobre rodas no -meio do rio, chegou-se a Ierecê, apertou-a ao peito -rapidamente mas com força e, retendo a custo as lagrimas, -depositou-a nos braços de Morevi.</p> - -<p>Ella tinha perdido os sentidos, e quando uma filha -das selvas e da inculta natureza desmaia, é que a dôr -a esmagou com mão de ferro n’um paroxismo horrivel; -é que o seu coração estalou n’uma contracção -de agonia e a sua alma entrou em duvida se era ou -não chegada a hora de sahir d’aquelle corpo para ir -buscar outro mundo, outros destinos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span></p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Cinco mezes depois de sua chegada ao Rio de -Janeiro, Alberto Monteiro recebeo da mala de Cuyabá -uma carta extensa que, datada da villa de Miranda, -logo ás primeiras linhas o abalou fortemente.</p> - -<p>Era de João Faustino.</p> - -<p>«Meu amigo, dizia elle, as minhas previsões forão -infelizmente erroneas. Ierecê, a bella virgem do Agaxi, -já não existe.</p> - -<p>«Pouco tempo depois d’ella sahir d’aqui, tive necessidade -de chegar ao Lauiad e como o desvio da estrada -era insignificante, fiz uma visita ao valle de -Hetagati.</p> - -<p>«Nem de proposito. Vinha eu assistir á morte -d’aquella bella creatura. Quando assomei á porta do -seu <i>rancho</i><a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a>, ella deo um grito de jubilo e, reconhecendo-me -logo, fez gesto de querer levantar-se da -rêde em que estava deitada.</p> - -<p>«Sua magreza era extrema.</p> - -<p>«Fiquei tanto mais sorprehendido, quanto ella -se mostrára, á sahida da villa, tranquilla e resignada.</p> - -<p>«—<i>Unái</i> volta? perguntou-me ella com anciedade -que me cortou o coração.</p> - -<p>«Julgei de caridade mentir.</p> - -<p>«—Elle me mandou dizer que já tinha partido do -Rio de Janeiro.</p> - -<p>«Um sorriso melancolico entreabio-lhe os esbranquiçados<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -labios, e os seus olhos empanados ainda podérão -fulgir.</p> - -<p>«Depois não disse mais palavra.</p> - -<p>«Perguntei ao velho Morevi como chegára Ierecê -áquelle estado em tão curto prazo. Contou-me então que -desde a volta ao Hetagati, a sua neta não quizéra ou -não pudéra mais nem dormir nem tomar alimento. -Uma tristeza sombria a acabrunhava, e febre surda -mas continua lhe minava as fontes da vida. Debalde, -como feiticeiro, conferenciára elle com o acauán; -debalde, como sacerdote, cantára noutes seguidas; -debalde, como medico, chupára o lugar em que batia -o coração para ir cuspir n’uma cova distante o terrivel -mal—a nada cedêra a molestia mortal.</p> - -<p>«—O <i>portuguez</i>, disse-me em voz baixa Morevi, levou -a alma d’ella.</p> - -<p>«Observei Ierecê: poucas horas tinha que viver.</p> - -<p>«Estava como que adormecida, arfando um pouco. -De vez em quando parecia querer sorrir.</p> - -<p>«Ao meio dia abrio de repente uns olhos espantados, -pedio agoa e expirou, pronunciando em voz, mais -e mais baixa, um nome que o senhor hade conhecer.</p> - -<p>«—Alber...to... Al...ber...to!</p> - -<p>«Vendo-a morta, prohibi que Morevi se entregasse -ás expansões de dôr tumultuosa como usa a gente de -sua nação, de modo que aquelles uivos e gritos selvaticos -com que os chanés pranteão a morte dos parentes, -não perturbarão o socego do valle em que tanto -havia soffrido um coração.</p> - -<p>«Antes de chegar a noute, enrolei o corpo d’aquella<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -bella mulher na rede e enterrei-o no chão do rancho, -conforme ella desejára e poucos dias antes pedira ao -seu avô.</p> - -<p>«Fiz uma cruz e finquei-a á cabeceira da sepultura.</p> - -<p>«Ierecê tinha o direito de descansar amparada pelo -symbolo da religião do Deos, cujos labios sagrados -perdoarão a aquelles que havião durante a vida amado -muito.»</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Alberto Monteiro chorou largo tempo, e ainda hoje -a recordação do amor de Ierecê ennuvia-lhe o espirito -e constringe dolorosamente o seu coração.</p> - -<p class="fim">FIM DE IERECÊ A GUANÁ</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p> - -<h2 id="DA_MAO_A_BOCA_SE_PERDE_A_SOPA">DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA<br /> -<span class="smaller">PROVERBIO EM 1 ACTO</span></h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span></p> - -<h3>PERSONAGENS</h3> - -<ul> -<li>Manoel Ribeiro, capitalista.</li> -<li>D. Rita, mãe de</li> -<li>Isabel.</li> -<li>Antonio da Fonseca, tio de</li> -<li>Miguel Faria.</li> -<li>João de Siqueira.</li> -<li>Alfredo Rocha, primo de Isabel.</li> -<li>Ignacio Lemos, pae de</li> -<li>Alberto Lemos.</li> -<li>Um criado.</li> -</ul> - -<p class="center">A scena passa-se no Rio de Janeiro.</p> - -<p class="center">Época—1871.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<h3>DA MÃO A BOCA SE PERDE A SOPA<br /> -<span class="smaller">PROVERBIO</span></h3> - -<h4>ACTO UNICO</h4> - -<h5>SCENA I</h5> - -<p class="hanging">Sala de visitas de Manoel Ribeiro: mobilia rica. No meio, -uma mesa com tapete de gosto. Nos consolos jarras com -flôres. Portas lateraes e ao fundo.</p> - -<p class="center"><span class="smcap">Manoel Ribeiro, Fonseca.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>passeia de um lado para outro, ao passo que -Fonseca está sentado junto á mesa</i>).—É como lhe -digo, meu amigo; tudo póde se arranjar...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então não lhe desagrada a minha proposta?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sinceramente, não. Eu, além d’isso, já a -esperava... Combinei certas cousas... vi em você uns<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -ares. É que não sou nenhum palerma: previ que -breve teriamos que fallar a respeito e preveni D. Rita, -minha mulher...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Nós todos o conhecemos como homem -sagaz.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com simplicidade affectada</i>).—Sagacidade, -não: alguma penetração... e quer que lhe diga uma -cousa? (<i>parando diante de Fonseca que se levanta</i>) -essa penetração não se desenvolveu como devêra por -causa da educação que meus paes me derão. Oh! eu havia -nascido para alguma cousa de grande n’este -mundo... e que consegui afinal?... Que sou no fim de -contas?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com calor</i>).—Oh! meu amigo, capitalista e -muito forte!... Que se póde desejar mais?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando os hombros</i>).—Qual!... E a gloria, -Snr. Fonseca? A gloria?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com sorpreza</i>).—Que quer você com a -gloria?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apressadamente</i>).—Sim... ter um nome celebre, -conhecido... ouvir a boca da fama apregoar os -nossos triumphos, nossas façanhas... vêr-se apontado... -sentir o nosso amor proprio docemente lisongeado... -Então tudo isso de nada vale? Olhe, palavra de honra: -eu quizéra agora, n’este momento, ter só uma côdea -de pão duro que roer, comtanto que tivesse a certeza -de que o nome de Manoel Ribeiro enchia os quatro -cantos do universo... Pintar um quadro immenso... escrever -um poema em cincoenta cantos ou um romance -em trinta volumes... compôr uma marcha solemne<span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span> -para oitocentos e cincoenta professores (<i>com muito -fogo</i>) hen? Que satisfação!... Como se deve ficar -cheio!... Isso sim... isso é viver. Tudo o mais não -passa de um penoso vegetar, como se a gente fosse -simplesmente um páo de ipé ou de peroba... Para tudo -aquillo é que eu nascera:... entretanto...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Entretanto?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Desde os meus primeiros annos vi contrariada -a minha vocação... Nasci na opulencia, cresci -na riqueza, fui obrigado a cuidar de meus bens, a -augmental-os, e com esses cuidados materiaes lá se -foi extinguindo o fogo sagrado que em minha mente -ardia, e que a miseria e o desgosto terião feito medrar -como chamma devoradora...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Eu o acho, Sr. Ribeiro, poeta de mais...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar desabusado e puchando o beiço</i>).—Eu -poeta?... Aos cincoenta annos... depois de trinta -de casado e bem casado?!... Já com uma filha em estado -de tomar estado?!... Você então não conhece o -poeta!... Poeta é um moço pallido, macerado de vigilias, -namorador das estrellas, apaixonado louco de -quanta mulher encontre, versejador em cima das fogueiras -da inquisição ou espetado n’uma bayoneta, -choramigador de desgraças por que nunca passou... de -cotovelo rôto e chapéo amassado (<i>parando de repente e -com satisfação</i>). Sinceramente agrada-me esta descripção... -fui feliz devéras. (<i>Mudando de tom</i>) Se o poeta -fôr velho então é philosopho... ou calvo como um -urubú, ou possuidor de guedelha inculta e rebelde... -unhas compridas, olhar desvairado, cantará as delicias<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -da mocidade, que outr’ora lhe parecêra atroz, e desesperará -da salvação da humanidade. Mas, no meio de -tudo isso, como a gente sente o coração bater! Quantas -alegrias, quantas doçuras nas privações... No juizo -dos outros não passa de um infeliz... mas no intimo o -poeta não troca as suas illusões pela fortuna de um -principe... de um nababo...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De um Ribeiro... maganão!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>sorrindo-se meio resignado</i>).—Que quer você? -Não tenho outro meio de me celebrisar... Custei -a consolar-me... custei!... Tambem não estaria casado... -não teria uma filha que é preciso dotar... Uma -vez nestas condições é melhor... que eu possua algum -dinheiro nos bolsos do que muitos versos na cachola. -(<i>Rindo-se, approxima-se de Fonseca a piscar um olho</i>) -Que diz, Snr. Fonseca? O senhor pensa tambem assim, -não é? Diga com franqueza...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De certo os encargos de familia...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>abanando a cabeça com ar fino</i>).—Não é só -por isso!.. É tambem por aquelle maganão... aquelle -seu sobrinho... Que rapaz feliz!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com repentino enthusiasmo</i>).—Que actividade!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa presença... bons cabellos...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>encarecendo</i>).—Dentes excellentes!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É um moço que tem futuro...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Calculista, meu amigo! Não dá um -passo sem pensar; não diz uma palavra (<i>faz com -as mãos gesto de quem pesa</i>) sem pesal-a cuidadosamente...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com certa hesitação</i>).—Mas elle... me parece...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com algum receio</i>).—O que?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Prosaico de mais...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>arrebatado</i>).—Como prosaico! Diga realista... -Um bom senso pratico que espanta... não -vê as cousas senão como ellas são. Nada ás avéssas... -nada de miragens... Pão pão, queijo queijo... É da -minha escola... Por isso entreguei-lhe sem receio algum -a gerencia de meus bens, e tudo corre ás mil -maravilhas... A minha casa de cafés foi a mais poupada... -o genero começou a baixar e eu tinha os armazens -abarrotados. Assustei-me... Então... (<i>interrompe -para assuar-se com estrondo</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com interesse</i>).—Então?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—O Miguel tranquillisou-me e pôz-se a -comprar mais...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ó homem, era arriscado.</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com vivacidade e orgulho</i>).—Não era? Pois -bem, dous dias depois subia o café e ahi vendemos -com furia... Graças ao menino ganhei bastante. (<i>Com -alguma ternura</i>) Ah! Snr. Ribeiro, o senhor faz um -casamentão... Palavra de honra é um casamento de -mão cheia...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Estou certo que minha filha ha de ser -feliz...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>influindo-se pouco a pouco</i>).—Que duvida! -Um noivo d’aquella força no movimento da praça!... -Um olho tão firme nas subidas e descidas do café!... -Que significa isso senão riquezas, sedas, commendas,<span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span> -e afinal baronatos e talvez até a carta de conselho! -Depois... poucos filhos... Comprehende?... Não ha -tempo.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E isso é mais conforme á poesia...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—De certo! E mesmo impedem-se subdivisões -de fortuna...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É pena que o seu sobrinho não cultive -(<i>parando nas palavras</i>) alguma arte... Olhe, se eu fosse -moço ensaiava o piano ou então a harpa (<i>com gesto de -quem dedilha</i>). É tão gracioso!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>meio admirado</i>).—Pois quer mais arte do -que a que elle tem? Quer um teclado mais difficil de -conhecer do que seja a opinião dos agiotas... do que o -capricho dos homens da praça? Oh! se houver no -mundo outro noivo como elle, certamente não ha -tres... Não, isto lhe asseguro!... Muito brevemente -elle terá de seu cento e cincoenta contos de réis... -vinte e oito annos.... e um juizo!... Não é sovina... -nem gastador; sempre no meio termo...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Creio que elle agrada tambem á minha -mulher...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Tenho toda a certeza. Não ha coração -que lhe resista.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E minha filha? Que pensará d’elle?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com segurança</i>).—Não póde deixar de sympathisar -muito com o meu sobrinho...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Elle não se lembrou ainda de offertar-lhe -um album...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Qual album!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Na sua posição não lhe ficava mal... Um<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> -moço, quasi um noivo, entra em toda a parte com -um album debaixo do braço e com versos de sua -lavra ou de algum amigo... Isto agrada sempre ás -mulheres...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Não duvido; mas um homem como o -Miguel, falle com franqueza, póde estar a namorar? -Confessemos que é um periodo difficil esse em que a -gente sente necessidade de casar, procura uma noiva -e tem que lhe fazer a côrte. Quem tem algum tacto vai -logo simplificando tudo... Não vê como o Miguel sahe-se -d’esse passo? Observou a sua reserva, a sua -dignidade?.. Estou certissimo que elle ama a sua -filha como um louco, mas quanta calma!... Hen? mal -se percebe...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Na verdade. Acho-o até frio de mais... -Eu não quizéra levar o casamento de minha filha, -como se fôra um negocio commercial...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Mas quem pensa em tal, Santo Deos?! -Nada. É preciso que falle o sentimento... E quer -que lhe dê uma prova? Ha dias o meu sobrinho disse-me -com toda a convicção: se eu não casar com Isabel, -hei de ter que fazer uma viagem á Europa para distrahir-me... -Meça, Sr. Ribeiro, (<i>com tom grave</i>) -o sacrificio! Um homem tão occupado! uma viagem -e não é a Juiz de Fóra ou a Theresopolis. Qual! (<i>com -ar funebre</i>) É á Europa!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Com effeito, se elle disse isso...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com imposição</i>).—Disse e fal-o. É rapaz -de resolução... Tambem posso lhe afiançar: -sabendo elle que você gosta tanto de poesia, é<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span> -capaz de garatujar n’um instante resmas de papel, -enchendo-as de versos...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar de superioridade compassiva</i>).—Ah! -isto fia-se mais fino! E a inspiração?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com resolução</i>).—Queira elle e veremos... -Oh! que marido eu lhe dou, Sr. Ribeiro...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Aceito-o para a minha filha... caso agrade, -condição indispensavel.</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É do que ninguem duvída... Elle entra -n’esta casa com o pé direito... Fará a felicidade de -todos; a sua, a de sua mulher...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Basta que faça a de Isabel... É tudo -quanto lhe pediremos.</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então, ao chegar sua senhora á sala, -annuncia-se-lhe logo o acontecimento, não é?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com alguma pausa</i>).—Sim... sim... -mas confesso a você que nunca vi casamento com -menos estorvo... Não gosta d’esses em que ha alguma -cousa de imprevisto?... Paes a negarem... mães a -gritarem... filhas a chorar... noivos audazes...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Ora, pelo amor de Deos, deixe-se disso... -São cousas de outro tempo... Ahi chega D. -Rita...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span></p> - -<h5>SCENA II</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro, Fonseca, D. Rita.</span></p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>dirigindo-se ao encontro de D. Rita e estendendo-lhe -a mão</i>).—Permitta, comadre, que eu a -cumprimente...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>estende-lhe a mão</i>).—Oh! Sr. Fonseca...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>continuando no que ia dizendo</i>).—que a -cumprimente n’este momento e de um modo especial... -com mais effusão do que nunca...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Aceito os seus cumprimentos, mas pergunto -a razão d’esta effusão...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—O seo marido que lh’o diga...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Meu marido?... Em todo o caso a noticia -é boa, não é?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Para mim, excellente...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—E hade agradar-me?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Estou que sim...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>meio risonha</i>).—Então adivinho...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—O pedido em casamento de minha filha...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>intervindo</i>).—É verdade. O nosso amigo e -compadre, o Sr. Fonseca veio cá, e sem gravata nem -luvas brancas, sem ceremonias, nem concertar a garganta, -ou empertigar o corpo, pedio-me a mão de -Isabel...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>interrompendo-o</i>).—E você lhe respondeo...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—O que você responderia.</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>voltando-se para D. Rita</i>).—Então?</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>sem hesitação e com simplicidade</i>).—Eu diria -que sim! A que devemos attender senão á felicidade -de nossa Isabel?...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Não soffre duvida...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—E quem poderá tornal-a feliz?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>para Ribeiro</i>).—Sim, quem?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Quem?</p> - -<p><span class="smcap">Os tres</span> (<i>a um tempo</i>).—Miguel Faria!...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Tão amavel moço...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa figura...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com ar de importancia</i>).—E apatacado...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Um cavalheiro perfeito...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Previdente...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Em cafés não ha outro igual...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então ha uma só voz a seu respeito, não -é?... Tudo são rosas...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Accordo perfeito...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Embora. Eu desejára algum motivo (<i>hesitando</i>) -de contrariedade... Estes casamentos assim...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com alguma impaciencia</i>).—Ora, Sr. Ribeiro, -sempre aquellas idéas?... (<i>voltando-se para -D. Rita</i>).—Não entendo bem... O compadre pretende -que... casamentos em que haja opposições... são... -não sei como diga... mais poeticos... Paes a negarem, -mães a gritarem!...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>offendida</i>).—Oh! Sr. Ribeiro!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com alguma vivacidade</i>).—Não: o meu -pensamento não é este... eu...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Ora, venha cá... O -senhor não foi tão feliz com a sua mulher?... E para -esse enlace não concorrerão todos as circumstancias -desejaveis?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Talvez houvessemos sido ainda mais felizes, -se...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>com indignação</i>).—Oh! Sr. Ribeiro, esta -é forte!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar conciliador e fallando com volubilidade</i>).—Não -é isto que eu queria dizer... Mas, -attendão bem... Essas luctas, essas difficuldades anteriores -a um consorcio gravão-se na memoria eternamente... -São motivos de conversa para uma vida -inteira... E quando voltarem os anniversarios! Que -fartão de recordações! (<i>com fogo</i>) Imaginem vocês dous -esposos, 25 annos depois de um rapto. «Tu te lembras, -fulana?» pergunta o marido. «Oh! se me -lembro, responde a mulher.» «O signal para appareceres -na janella era assim (<i>assovia baixinho e prolongadamente</i>) -Teu pae estava dormindo»...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>procurando interrompel-o</i>).—Que historias, -Sr. Ribeiro!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>continuando</i>).—«Abriste a janella devagarsinho... -Eu puz uma escada... Hi! que medos! Teu -vestido agarrou n’um varão de ferro... Eu pucho; elle -rasga-se»...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Mas isto é até indecente...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Deixe ir... n’elle é o poeta que falla...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>rindo-se</i>).—Poeta!... Aos 50 annos e -com dous mil contos de reis!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pausadamente, meio pensativo e como que -fallando para si</i>).—Não o sou, devéras!... Mas que -geito eu tinha!... Parece-me que se houvesse estudado -em regra, só fallava em verso... Não me matarão -o corpo... não; mas quanto á alma posso exclamar -como Nero (<i>batem palmas na porta do fundo.—Ribeiro -muda de tom e alto</i>).—Quem é?... É sempre assim! -Estava com uma idéa bonita, zás, me interrompem... -e fica tudo perdido. (<i>Novas palmas e fortes</i>) Toda -a minha vida foi assim... Mas, quem é? Entre (<i>caminhando -para a porta</i>) entre pelo amor de Deos!</p> - -<p>(<i>Alfredo Rocha entra</i>)</p> - -<h5>SCENA III</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">D. Rita, Fonseca, Ribeiro e Rocha.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>olha admirado para Rocha que mostra-se -espantado</i>).—Com a bréca... era você? Que diabo fazia -a bater palmas na porta da sala de visitas?... -Porque não entrava?...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>cumprimentando a Fonseca e D. Rita com -algum acanhamento</i>).—Sr. Fonseca... minha tia...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—As suas palmas, Alfredo, nos assustárão...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com sentimentalismo como que comprimido a -custo</i>).—Oh! essas palmas tem uma significação... -sim, ellas têm...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—O certo é que vierão muito fóra de tempo...<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> -Cortarão-me o fio de uma comparação (<i>voltando-se -para Fonseca</i>) Que dizia eu, compadre?...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Você dizia... espere...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>instando</i>).—Procure... procure...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>deitando os olhos de um lado e d’outro como -quem procura no chão alguma cousa</i>).—Nada acho...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com um dedo na testa</i>).—Eu comparava-me... -Qual!... Está perdida... Adeos, idéa!... -Malditas, malditas palmas!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Console-se... fica para outra vez... -ajudado pelo seu sobrinho... Este, sim, é poeta!...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Com effeito o Alfredo faz bem bonitos -versos...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com alguma enfatuação</i>).—Oh! isto é bondade!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com tom dogmatico</i>).—Não, eu lhe digo com -verdade, aquelle seu livro tem cousas recommendaveis... -aquella ode sobre o Amazonas... aquella...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Tambem foi acolhido -com estrondo (<i>voltando-se para Rocha</i>) O senhor deve -ter ganho muito, não é?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ironico e superior</i>).—Com a minha obra?... -Qual! no Brazil não ha quem compre livros... As -letras vegetão...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tem toda a razão... Eu, apezar de ser -seu tio, julguei dever comprar um exemplar... Não -o quiz gratis, não só para animar a venda, como para -não dever favores...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Fez muito bem... No seu caso assim -procedia...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com enfatuação</i>).—Fui ao livreiro e paguei -logo tres mil reis... Sinceramente achei caro... -um livrinho fininho muito entrelinhado, emfim era o -preço e sem a minima reflexão lá deixei o meu dinheiro... -E não me arrependo... Ha trechos que -applaudi... Eu faria talvez outra cousa... mais vasta, -menos cortada... mas emfim cada qual faz como -póde e entende... Entretanto...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>interrompendo</i>).—Entretanto os senhores -permittirão que eu vá vêr porque não apparece Isabel... -(<i>voltando-se para Fonseca</i>).—O senhor janta -comnosco...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Já que é ordem...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>para Rocha</i>).—De certo você tambem...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Com muito gosto...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Pois, então, entrem. Vamos até o jardim... -Talvez lá encontremos a menina... Mostrar-lhes-hei -umas lindas dhalias que me chegarão de -Petropolis... (<i>para Rocha</i>). Quer vir, Alfredo?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Desculpe-me minha tia, preciso fallar com -o seu marido...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Sr. Fonseca, me dê então o seu braço.</p> - -<p>(<i>D. Rita e Fonseca sahem de braço dado e a conversarem -pela porta da esquerda</i>).</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span></p> - -<h5>SCENA IV</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro e Rocha.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então que novidades ha? Olhe que tenho -ainda que fazer <i>toilette</i> antes de ir para a mesa do -jantar.</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>um pouco sombrio</i>).—Preciso lhe fallar... -e agora mesmo!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Cousa urgente?...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Urgentissima!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Em todo o caso abrevie quanto puder... -Tenho que apparecer hoje com algum esmero mais... -Logo saberá a razão... Devéras é cousa grave?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Gravissima...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Á vista d’isto... sentemo-nos... Sou -todo ouvidos...</p> - -<p>(<i>Rocha apresenta uma cadeira: Ribeiro senta-se e -indica outra ao lado</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Comece pois...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>meio acanhado</i>).—Meu tio... convem recorrer... -á sua benevolencia... antes de encetar esta -conversa...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>olhando para Rocha com alguma admiração</i>).—Você -está perturbado... Que tem?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>no mesmo tom</i>).—Tambem o favor que lhe -venho... pedir... é tão grande... tão grande...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>irresoluto</i>).—Di...nheiro?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com movimento energico de denegação</i>).—Não, -Snr.!</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>mais expansivo</i>).—Então que é?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>hesitando</i>).—É...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com curiosidade e chegando a cadeira</i>).—É?...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>tomando subita resolução e ás pressas</i>).—É -a mão de sua filha Isabel, a quem amo desde muitos -annos como um louco, a quem adoro, idolatro em -segredo, dia e noute, a quem...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>affastando um pouco a cadeira e tossindo</i>).—Hum! -hum!</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com anciedade</i>).—Então?... que diz?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>encolhendo de vagar os hombros</i>).—Homem, -eu não digo nada.</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>apressadamente</i>).—Então consente?... Oh! -meu Deus!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu não disse isso...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>abatido</i>).—Nega-m’a pois, oh!... hei-de...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tambem não disse isso...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então que foi que disse?...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Nada! (<i>tomando attitude de quem vai -orar</i>) Alfredo, conversemos um pouco... Você é meu -sobrinho e tenho de tratal-o com a consideração devida -não só a meu parente, como a um homem de intelligencia -e conceituado...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Mas...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>gravemente</i>).—Deixe-me fallar... As palavras -que vou lhe dirigir são conselhos de quem, prezando-o -como parente, preza tambem a gloria de sua -familia. Você pede a mão de minha filha, não é?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—É verdade... aspiro...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com gesto de imposição</i>).—Pois faz uma furiosa -asneira...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>levantando-se admirado</i>).—Como assim?...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando-se tambem</i>).—Em duas palavras -lhe explico tudo. Você (<i>pausado e com voz muito grave</i>) -não deve casar! A sua vocação não lhe permitte senão -o celibato... Veja bem. Eu lhe aceno com a gloria! -Que quer dizer um poeta casado, em riscos de ter -duzia e meia de filhos, ao lado de uma mulher que vai -envelhecendo... ficando rabujenta, desdentada, descabellada?! -Meu Deos, que cousa horrivel!... Haverá -inspiração que resista a causas tão deleterias?...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Meu tio...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com volubilidade</i>).—Não me interrompa... -Sei que hei de levar a convicção á sua alma... Supponha -os grandes poetas presos pelas cadêas do matrimonio. -Que teriamos em poesia?... Nada... nada... -mil milhões de vezes nada!...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>enfiado</i>).—O senhor quer caçoar...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>enthusiasmando-se</i>).—Não consinto que me -interrompa... Que fôra de Dante, de Petrarca, de -Tasso, de Camões e tantos outros, se tivessem prosaicamente -desposado a dama de seus pensares?... Se tivessem -tido que cuidar no sustento dos filhos, que vestil-os, -que leval-os a passeio, á escola!... Meus santos -do paraiso, que pensões e que trabalhos!... Puramente -a vida material... Em lugar d’isso, que fizerão? -Carpirão só os males da alma, d’essa alma que encheu -os espaços com clarões inextinguiveis!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas... eu amo...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>levantando a voz</i>).—Perfeitamente! É o -que todos nós queremos. Contrariamos o seu sentimento, -machucamos o seu amor proprio, e d’ahi resultaráõ -versos sonoros, repassados de fel e de ironia, versos -arrebatadores, versos byronianos, versos, emfim, -como os faz quem é poeta... e poeta infeliz... Você soffrerá, -soffrerá muito, não ha duvida; as insomnias o -perseguiráõ, estou certo d’isto; perderá o appetite; -terá talvez dispepsias crueis... mas que livro depois de -todo esse padecer atroz!...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>um tanto sombrio</i>).—Não posso crêr que o -senhor queira se divertir á minha custa...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>muito serio</i>).—Juro que lhe fallo com toda -a sinceridade. Fallo, como fallaria a um filho. Estas -são as minhas idéas. Você tem muito talento, todos o -reconhecem... Mas sabe porque até agora não tem produzido -senão livrinhos de pouco folego, quasi ethicos?... -Simplesmente porque é um moço serio, empregado -publico, moderado nos seus gastos, cauteloso -e homem de sociedade... Que diabo! Porventura póde -o fogo sagrado da poesia alimentar-se em quem vive -como o commum dos mortaes?! Não, não de certo! -O éstro tem alguma cousa de extraordinario, de anormal... -direi quasi de infernal!...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Ora, meu tio...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ponha-se você a gastar tudo quanto tem... -deixe tudo, emprego, bailes e theatros; caia na mais -abjecta crapula (<i>Mudando repentinamente de tom</i>) Não -lhe dou estes conselhos, Deos me defenda: é uma<span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span> -simples hypothese... (<i>Voltando ao primeiro tom</i>) frequente -a taverna, desça á mais completa miseria; seja, -emfim, para resumir tudo em uma palavra, seja um -miseravel, e no excesso, nos desmandos, você se sentirá -transfigurado... O máo vinho com que você se -embriagar, a mulher perdida que abraçar em publico, -as convenções sociaes que calcar aos pés, a fome que -lhe roer as entranhas, tudo ha de exaltal-o de modo -extranho, e, no momento da maior degradação, o seu -coração vibrará com uma energia desconhecida... -A sociedade lamentará a sua sorte... todos o evitaráõ... -eu mesmo, quem sabe?... mas a posteridade o -ha de vingar!...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Não posso ouvil-o...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que póde fazer uma intelligencia volcanica -comprimida por um chapéo Chastel, sentindo os -pés apertados em botins envernizados e os dedos entalados -em luvas de Jouvin, como você está agora?... -Que martyrio para a sua alma! E por cima quer -casar?...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas sua filha?...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Minha filha? (<i>Com simplicidade</i>) Que -tem? Você a accusará perante os seculos... a levará -ao tribunal da posteridade. Que thema, hen? -Assumpto um pouco batido, mas que mina! Até -eu sou capaz de exploral-a com vantagem... porque -tambem nasci com aspirações... mas casárão-me -cedo de mais... Não tive motivos de arrependerme, -mas o estado nunca me inspirou a menor idéa! Ora, -eu mesmo, irei consentir que você tambem se perca?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Tudo quanto o senhor me disse não significa -cousa alguma...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Como assim?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Não vejo uma razão...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Uma razão?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Sim... um motivo plausivel...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pondo as mãos para traz e abanando de vagar -a cabeça</i>).—Pois elle existe e muito, muitissimo valioso...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com anciedade</i>).—Qual é?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—A mão de Isabel já está dada...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com explosão</i>).—Mas a quem?... A quem?</p> - -<p>(<i>Ouvem-se passos fóra, e apparecem á porta Miguel -Faria e Siqueira</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando-se de Rocha; á meia voz</i>).—O -noivo é o Faria.</p> - -<p>(<i>Ribeiro vai para o fundo, ao encontro dos recem-chegados</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>chegando-se para a boca da scena; com muito -abatimento</i>).—Meu Deus, quanto verso perdido, quanta -rima n’agoa!... E eu que tinha para hoje um dythirambo! -Lá se vai o dóte.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span></p> - -<h5>SCENA V</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Rocha, Ribeiro, Faria e Siqueira.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>adiantando-se para Faria</i>).—Meu caro Sr. -Faria, seja muito bem vindo (<i>aperta-lhe as mãos</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Antes de tudo, permitta, Sr. Ribeiro, que -eu lhe apresente o meu particular amigo Alves de Siqueira.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apertando-lhe a mão</i>).—Conheço-o já de -vista. Tenho muito prazer em vêl-o em minha casa.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>inclinando-se</i>).—A honra é para mim.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Basta ser-me apresentado por quem é...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Isto me penhora muito; sei que a amizade -de Faria me é summamente lisongeira...</p> - -<p>(<i>Rocha está junto á mesa: os outros chegão-se para a -frente</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sr. Faria, conhece o meu sobrinho Alfredo -Rocha?</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com frieza e alguma sobranceria</i>).—Ainda -não senhor; de nome... vagamente... Creio que o -senhor escreveu um livrinho...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Justamente, um livro de poesias...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span> (<i>com ironia</i>).—Sim... um livrinho pequenino -de versinhos...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>para Siqueira</i>).—Meu sobrinho, Sr. Siqueira; -Sr. Siqueira, meu sobrinho (<i>Os dous cumprimentão-se -seccamente</i>).—A proposito já sei que os senhores -dous jantão commigo...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Oh! Sr. Commendador, V. Ex. trata-me<span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span> -com demasiada bondade... Eu pedi ser apresentado -para... como devia... tratar de um negocio importante...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ficará para depois do jantar... entre o -café e o curaçáo... Com amigos do Sr. Faria, não cuido -de negocios (<i>com intenção</i>) principalmente hoje... -senão depois de nos termos assentado juntos a uma -lauta refeição....</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Pois bem, resigno-me...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com expansão</i>).—Ah! muito bem! e verá -como recompenso a sua resignação!... Com um -peixe! (<i>Dando um muchôcho</i>) Que peixe!... O primor -dos mares!...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com ar grave</i>).—Entretanto Sr. Ribeiro, pondero-lhe -que o negocio a que allude o meu amigo e -que interessa tambem a mim, não póde soffrer demóra...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>pressuroso</i>).—N’este caso, ouvil-o hei já -e já...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então eu me retiro...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vá lá dentro conversar com a sua prima...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com vivacidade</i>).—Este senhor é primo de -D. Isabel?</p> - -<p>(<i>Faria e Rocha olhão um para o outro com arrogancia</i>.)</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Boa pergunta!... Se é meu sobrinho...</p> - -<p>(<i>Rocha sahe devagar, contestando sempre o olhar de -Faria: desapparece e volta logo para trocar novos olhares</i>.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p> - -<h5>SCENA VI</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Ribeiro, Siqueira, Faria.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sentemo-nos...</p> - -<p>(<i>Convida Siqueira e Faria para tomarem cadeiras e -sentão-se os tres, depois de se cumprimentarem com ar -de gravidade e importancia.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>como que annunciando</i>).—O meu amigo -o Sr. Faria vai fallar...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>após breve pausa</i>).—Sr. Ribeiro, venho fallar -a V. Ex. a respeito de dous negocios da mais alta -importancia... O primeiro, sobretudo, vai entender -com o meu futuro (<i>parondo um pouco</i>). Meu tio sem -duvida já lhe ha de ter vindo fallar...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois não... e...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>apressadamente</i>).—Devo contar com a sua -benevolencia?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar fino</i>).—O senhor é um maganão feliz... -Só lhe digo isto... muito feliz!</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com fingida effusão</i>).—Agora, sim, reconheço-me -como tal... A minha estrella...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>interrompendo</i>).—Mas o seu merecimento, -meu amigo? Tem-o em pouca conta?... Além d’isto -tudo estava calculado...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É certo que o senhor soube ganhar todos -os corações... Tanta circumspecção...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com ar modesto</i>).—Oh! Sr. commendador!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tão bom senso...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Sr. commendador!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Não, senhor; não, senhor: faço justiça... -A minha casa o estima muito...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—E ella?... sua filha?...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Homem... sem duvida ha de ficar contentissima... -Ainda não lhe fallei... mas é natural... -nada mais natural...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Perfeitamente... Agora que tenho certeza -do sentimento que lhe inspiro, acho-me capaz de -tudo. (<i>Com tom frio</i>) Liquidado este primeiro negocio -(<i>emendando com rapidez a phrase</i>), decidido este -primeiro assumpto, passaremos ao segundo, que traz -particularmente o meu amigo Siqueira á sua presença...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>tomando a palavra, com volubilidade</i>).—É -cousa infallivel, Sr. commendador; questão simplesmente -de confiança. V. Ex. é capitalista; Faria já -póde ser chamado seu genro; eu sou amigo d’elle, -homem que a ambos deve merecer credito... não é?</p> - -<p><span class="smcap">Faria e Ribeiro</span> (<i>inclinando-se</i>).—De certo!...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Assim, pois, procurei por intermedio de -Faria vir fallar a V. Ex., que, podendo mover de -prompto com grandes capitaes, encaminhará uma -operação segura, na qual da noute para o dia ganharemos, -nós tres presentes, quarenta por cento...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Quarenta por cento... da noute para o -dia?...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Todos os calculos estão feitos... Concorra -V. Ex. com setenta contos e...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas a somma... a somma é grande...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Setenta contos?...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Caspite!... Não é cousa de atirar fóra... -setenta!...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Na operação empato cincoenta contos... -tal é a minha confiança... digo até, certeza!...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas... afinal... de que se trata?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Trata-se do algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Do algodão?...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu me explico... V. Ex. sabe que este -genero teve uma baixa consideravel, quando acabou a -guerra dos Estados-Unidos, e que o café subio...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sei perfeitamente...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—A ultima guerra franco-prussiana trouxe -a procura do algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sei d’isto.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E desde então vai alteando... Agora -participão-me de Santos por um telegramma reservado -balas de algodão, no valor de cento e cincoenta contos, -a preço inferior... Se d’aqui a horas o paquete de New-York, -que é esperado a todo o momento, dér o augmento -de poucos <i>pences</i>, tem se feito uma bella operação... -A colheita de lá foi má, e o algodão que me -offerecem é de qualidade superior...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>duvidoso</i>).—Era bom... reflectir... Assim...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E o palpite?... Ha occasiões em que é -necessario atirar-se... E demais que são setenta -contos para V. Ex.?... Trinta contos, com que entro, -esses, sim, representão arrojo e segurança...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com enfatuação</i>).—De facto não é somma -fabulosa... mas, emfim, não é meia pataca...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com voz insinuante</i>).—Se fecharmos o negocio, -d’aqui mesmo expeço o telegramma de compra...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>voltando-se para Faria</i>).—Que diz, Sr. Faria?...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Tanto quanto é dado ao homem prevêr, a -operação é excellente... Senão, reflexionemos um -pouco...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando a sua cadeira da de Faria</i>).—Sim... -sim, reflexionemos um pouco...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Tudo n’este mundo está subordinado a -causas, de maneira que para estudar bem os effeitos -nas suas menores consequencias é preciso remontar -á origem...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>abanando a cabeça e voltando-se para Siqueira</i>).—De -certo... subamos á origem...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com tom oratorio</i>).—Ora bem... Quaes são -as causas que produzem no mundo as oscillações do -movimento commercial?... Diversas...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Diversas... não ha duvida.</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas qual a predominante?... Sem contestação -a politica... Qual é hoje a face politica do -globo? Paz em todos os Estados... A França exhausta... -a Allemanha triumphante... desconfianças por toda a -parte, mas a luta armada impossivel por muitos annos. -N’estas circumstancias o café, bebida excitante, -tende a descer... O algodão sóbe; as fabricas pedem -trabalho... A colheita do Egypto falhou; a dos Estados-Unidos -foi escassa; a do norte do Brazil não satisfez -a expectação. Pelo contrario ha muito café... e -depreciado...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>approximando mais a sua cadeira</i>).—Estou -o seguindo com anciedade...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>batendo compasso com a bengalinha que conservára -em mão desde a entrada em scena</i>).—Depois, -não nos esqueçamos de um facto natural... Cada genero -tem um preço normal que representa a exacta necessidade -da população consumidora. O progresso na -ascensão justo e natural está sugeito a rigorosas apreciações -estatisticas. O café por muito tempo esteve a -tres mil reis por arroba; depois passou a cinco e a -sete, onde ficou firme...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Perfeitamente.</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Sete é, pois, para assim dizer, o valor intrinseco -do café... É o seu ponto de equilibrio...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—De certo, de equilibrio (<i>mechendo com os -braços, imitando uma balança</i>) Isto é uma balança: -o fiel marca sete...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—A sua comparação é justissima.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span> (<i>com vivacidade</i>).—Então gostou?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—N’uma concha está o café, na outra...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com rapidez</i>).—O assucar...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não, o algodão. Nas nossas condições -actuaes, são os dous typos de exportação. O assucar -pertence agora ao mundo inteiro: tirão-no da betteraba -e até de couros velhos...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É verdade: equivoquei-me...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—O café desce: sóbe o algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>intervindo</i>).—V. Ex. vê como temos tudo -calculado... Podemos contar com os seus setenta?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>hesitando</i>).—Talvez... se eu consultasse -com o meu socio... o Lemos...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Qual seu socio!... V. Ex. tem tanto -tino! Alem d’isso é irresoluto o tal Sr. Lemos...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—De facto... elle não tem golpe de vista... -esse lance de olhos que vê uma operação em globo...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>apressadamente</i>).—Como esta, Sr. Commendador, -como esta...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>vacillante</i>).—Não direi tanto...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—O que é necessario é passar quanto antes o -telegramma...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>decidindo-se de repente e levantando-se</i>).—Pois -vá lá: o Lemos era incapaz. (<i>Apresentando a -mão aberta a Siqueira, que a aperta com mostras de -muito respeito</i>). Toque, Sr. Siqueira; está fechado o -negocio!... Escreva para Santos...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>dirige-se para a mesa, arranca da carteira -uma folhinha de papel e escreve a lapis</i>).—É já e já... -Ouça, Exm.: «Todo o algodão para Siqueira & C.ª -Embarque no primeiro vapor.» Agora um criado!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Toque a campa.</p> - -<p>(<i>Siqueira bate n’um tympano</i>.)</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Resolvido este ponto, voltemos ao assumpto -(<i>com fingida commoção</i>) que fará a minha eterna felicidade.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>para Faria</i>).—Então vem todo o algodão?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Todo. Se mais houver, que mandem! (<i>Mudando -de tom e voltando-se para Ribeiro</i>).—Sim, a -minha felicidade...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>atalhando</i>).—E se o telegrapho estiver interrompido?</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>mudando de tom</i>).—Está trabalhando... Ha -pouco passei um telegramma. (<i>Voltando-se para Ribeiro</i>) -Na verdade o amor que sinto por sua filha...</p> - -<p>(<i>Entra um criado</i>.)</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>dirigindo-se para o criado e com tom imperativo</i>).—Entregue -de minha parte ao Sr. Queiroz, o -administrador...</p> - -<p>(<i>O criado sahe</i>.)</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim, senhor, Sr. Faria; agora, que nos -temos entendido, ha de permittir, com o seu amigo, -que eu vá cuidar um pouco de minha pessoa antes de -apparecer á mesa. (<i>Para Siqueira</i>) Como estava decidido, -o senhor fica comnosco...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Com summo gosto...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Verá que peixe!... Parece pescado em -Santos! Vale o seu peso de algodão (<i>rindo-se</i>). Não -gostárão?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>admirado</i>).—De que?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Do meu dito...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>rapidamente</i>).—Oh! muito... esteve excellente.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu sou assim... Ás vezes tenho graça, -mas graça natural, nada forçada... É como aprecio... -Isto de repentes estudados de vespera não é commigo... -Meus senhores, até já... Uns minutos tão sómente, e -estou de volta.</p> - -<p>(<i>Ribeiro sahe pela porta da esquerda</i>.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span></p> - -<h5>SCENA VII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Siqueira e Faria.</span></p> - -<p>(<i>Siqueira passeia pela sala; Faria está sentado, accende -um charuto e põe-se a folhear um album de retratos.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Emfim, está feito o negocio!</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>soltando uma fumaça e com indifferença</i>).—Está, -sim.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>parando defronte de Faria</i>).—Mas agora, -muito seriamente, digo a você uma cousa...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Que é que diz?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Estou com medo. Não é só o meu dinheiro... -mas tambem os setenta contos d’este homem...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você, medroso, só se lembra dos seus -trinta...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Ora... mas...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Deixe-se de mas... O negocio é bom.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com anciedade</i>).—Você acha?</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>indifferente</i>).—Acho...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Mas d’onde lhe vem esta segurança?...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Quererá você que eu lhe repita tudo quanto -disse ao meu futuro sogro?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, de certo! Mas, emfim, vamos e venhamos: -se o vapor de New-York vier pedindo café e -recusando algodão?... Levamos um baque soffrivel...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—É possivel...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E então?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas não é provavel, e só é provavel aquillo -que um homem serio prevê... O mais é anomalia. -(<i>Batendo n’uma folha do album</i>) Eis-aqui um facto. Estão -n’este album dous retratos... um defronte do outro, -como que a se namorarem...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>distrahido</i>).—De quem são?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Um é o de minha noiva; o outro é o do -tal primo, o poeta. Não é possivel que estes dous jovens -photographados tenhão inclinação um para o -outro?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Com effeito...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Mas o que é provavel? É que a moça tenha -considerado que ella não nasceo para casar com um -rapaz muito rico de versos, mas pobre de dinheiro... -Ella poderá deixar-se namorar, namoral-o mesmo, mas -casar-se... fia-se mais fino... Isto é o que o simples -bom senso mostra...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Admiro o seu sangue frio. Eu não sou -assim... facilmente perco a cabeça. Esta compra de -algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Ora, deixe-se d’isso. (<i>Com desprezo</i>) Trinta -contos!</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Sinceramente...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Se você se afflige quando navegamos no -mar sereno das probabilidades... que fará quando o -vento nos açoutar rijo?...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Oh! Faria, nem fallar n’isso é bom.</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>fechando o album com força e levantando-se</i>).—Pois -eu... sou homem para a lucta... e...</p> - -<p>(<i>Um criado entra e entrega uma carta a Siqueira</i>.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Está passado o telegramma... O algodão -é nosso...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Ás mil maravilhas... Chegue agora o paquete -de New-York e teremos feito um optimo negocio... -E não póde tardar... De um lado ganho com o -algodão, do outro desfaço-me de um carregamento de -café que vinha de Campinas. Sou um general previdente... -De mim não se dirá que não cuidei.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, de certo; mas a sorte é tão caprichosa...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Qual sorte! O descuido dos homens é que -merece este nome, nada mais, nada menos. Infatuados, -pueris, buscão uma explicação sobrenatural para -a sua desidia. Porque é que o destino tem sempre me -ajudado? Meu amigo, tudo n’este mundo cifra-se no -esforço proprio, na iniciativa e nas quatro operações -da arithmetica...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu sempre conservo o meu medo...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você quer me ceder a sua parte?...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>apressadamente</i>).—Não, não! Afianço-lhe -que estou perfeitamente tranquillo...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Pois então não fallemos mais n’isso, tanto -mais que ahi vem gente.</p> - -<p>(<i>Ribeiro apparece na porta da esquerda. Vem de casaca</i>.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span></p> - -<h5>SCENA VIII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria e Ribeiro.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>puchando os punhos da camisa</i>).—Estou -prompto, promptinho... Creio que não me fiz esperar -demais...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não, de certo.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Perfeitamente!... D’aqui a pouco estaremos -á mesa. O Sr. Siqueira verá que peixe!...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—V. Ex., porém, me disse que...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Minha excellencia não attinge á d’elle... -Não ha môlho que me sirva. (<i>rindo-se</i>) Não gostou?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Muito... mas gostarei ainda mais do -peixe...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim, senhor; teve tambem espirito. Mas -falta-nos o compadre Ignacio... Quererá elle dar ponto -hoje? Logo hoje! O certo é que está tardando. (<i>Ouve-se -barulho fóra</i>). Estão subindo a escada: sem duvida -é elle... Deos permitta que não venha muito nervoso!</p> - -<h5>SCENA IX</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria, Ribeiro e Lemos.</span></p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>entra precipitadamente com ar de grande -prostração e atira-se n’uma cadeira</i>).—Ai! não posso -mais... morro de calor... que commoção!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que tem você?... Estava tardando... -O jantar...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>levantando-se precipitadamente</i>).—Bem se -trata de jantar!... Não quero jantar... hoje ninguem -deve jantar...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>inquieto</i>).—Mas que ha? Você me assusta...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>passeiando agitado</i>).—Que ha? É que acabo -de comprar uma partida forte de café e recusar algodão. -Que ha? É que d’aqui a pouco podemos, com a -chegada do vapor americano, ganhar muito ou perder -ainda mais. É o que ha!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Comprou café?... Recusou algodão? Estamos -bem aviados!... Temos prejuizo certo...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—É cousa infallivel!</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>reanimando-se</i>).—Mas porque, homens de -Deos? Vocês me pôem doudo...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Eu me abstinha...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Por certo... mas em alguns falta o lance -de olhos...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Querem se apressar...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Talvez tenhão razão (<i>com acabrunhamento</i>). -Aquellas saccas de café me esmagão. (<i>Reanimando-se</i>) -Mas ao menos esperemos pelo vapor de New-York...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Não ha que esperar...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—E para que esperar?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Esperar o que?</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>muito abatido</i>).—É verdade... é verdade...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com seccura e concertando a garganta</i>).—De -modo que o Sr. Lemos, sem me consultar, metteu-se -a calculista e...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>deixando-se cahir sentado e no maior desconsolo</i>).—Tem<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -razão... tem razão... Compadre, o nosso -prejuizo é grande...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com muita importancia</i>).—Isto não é o que -mais me aborrece... É vêl-o assim arriscar-se sem -prévio conselho meu... Olhe, emquanto o senhor fazia -imprudencias, eu realizava com toda a calma uma -operação grave, premeditada e de lucros certos. Fechei -uma compra de algodão em Santos consideravel...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>intervindo</i>).—É verdade, o Sr. commendador, -eu e Siqueira, acabamos de telegraphar, e amanhã -poderemos impôr o nosso preço ao mercado.</p> - -<p>(<i>Fonseca entra e ouve as ultimas palavras de -Faria.</i>)</p> - -<h5>SCENA X</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Faria, Ribeiro, Lemos e Fonseca.</span></p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Impôr preço ao mercado? De que modo?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Eu lhe explico.</p> - -<p>(<i>Vai para Fonseca e falla-lhe baixo.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>levantando os olhos para Ribeiro, abatido.</i>)—Você -salvou-nos, Sr. compadre...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É sempre assim... Eu já lhe disse muitas -vezes que faltava-lhe o palpite...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>alto</i>).—O negocio é excellente.</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Optimo... mas devéras, estou com -medo...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Pois, então, ceda-me metade do que lhe -toca...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>irresoluto</i>).—Não... não quero... entretanto?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com superioridade</i>).—Então ceda-me tudo!</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Tudo?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Sim, tudo com 20% de lucro. Aceita?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Bonito, bonito, Sr. Fonseca, gosto deste -rasgo.</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Então aceita?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Você está com receios... você o da idéa... -aceite...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>resolvendo-se</i>).—Pois vá lá... Eu me contento -com pouco. Mas palavra, se o senhor ganhar... -tem de me agradecer a lembrança...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Quer que lhe dê uma clareza?</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—Não, senhor, a sua palavra vale ouro.</p> - -<h5>SCENA XI</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Os mesmos, um criado.</span></p> - -<p><span class="smcap">O Criado.</span>—Esta carta urgentissima para o Sr. -commendador.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>apressadamente</i>).—Dê-m’a. (<i>Lê</i>) Meus senhores, -o vapor americano está entrando. Falla-se em -alta no algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>com dôr</i>).—Oh! Faria!... Meu algodão...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com voz de triumpho</i>).—Quer comprar a -minha parte? 30% de lucro sobre a venda!</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira.</span>—O senhor me mata!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>para Lemos</i>).—Compadre, tem algodão -que vender?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>sempre sentado; lugubre</i>).—E o meu café!... -O remedio é bebê-lo todo. Arrebentarei!</p> - -<p>(<i>Ouve-se uma voz fóra gritar</i>: Meu pai! Meu pai! -<i>barulho na escada</i>).</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Que é isto?</p> - -<h5>SCENA XII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Siqueira, Fonseca, Faria, Ribeiro, Lemos e Alberto.</span></p> - -<p><span class="smcap">Alberto Lemos</span> (<i>vem offegante e mal póde fallar</i>). -Meu pai... o vapor americano... alta no café... algodão -desceo!</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>dá um grito de espanto e ergue-se da cadeira</i>).—Café?!... -Café?...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Pede-se de toda a America do Norte.</p> - -<p><span class="smcap">Todos.</span>—Impossivel!</p> - -<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Leião! (<i>Entrega um boletim a Ribeiro, que -é logo cercado por todos com grande sofreguidão.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—É verdade! Mas... arredem-se um -pouco... Os senhores me suffocão!</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>com voz de triumpho</i>).—Eu logo vi!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>deixando-se cahir na cadeira em que estivéra -Lemos</i>).—Em que tremedal me metti! Infame algodão!</p> - -<p><span class="smcap">Siqueira</span> (<i>chegando-se para Fonseca</i>).—Coragem, Sr. -Fonseca!... Vou certificar-me das noticias. Não se -esqueça de mim.</p> - -<p>(<i>Toma o seu chapéo e sahe arrebatadamente.</i>)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p> - -<h5>SCENA XIII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Faria, Fonseca, Ribeiro, Lemos e Alberto.</span></p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>levantando-se</i>).—Não! isto é horrivel!... -D’esta feita... (<i>Com explosão</i>) Mas é preciso fazer alguma -cousa... tomar providencias!... Anda, Faria! -(<i>Sacode com força Faria, que parece estar meditando</i>). -Diga alguma cousa... Você sempre tem idéas...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>meio abatido</i>).—Estou pensando...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>irado</i>).—Qual pensando! Agora não é hora -de pensar. Queremos factos... factos...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>muito sêcco para Faria</i>).—É facto que o -senhor, com suas historias... encalacrou-me (<i>Com gestos -da scena anterior</i>). Equilibrio, alta... baixa... isto, -aquillo e aquillo outro, o certo é que agora em Santos -o meu dinheiro (<i>Pesando nas palavras</i>) está ardendo... -e...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>interrompendo-o</i>).—Deixe isso... Os nossos -lucros por cá compensão tudo...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com altivez</i>).—Não me queixo da perda... -deploro tão sómente que calculos...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>como que acordando do lethargo</i>).—Um telegramma -para Santos... um telegramma!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—É verdade... um telegramma!... -Um criado, depressa!</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>que tem estado a olhar para o interior da -casa</i>).—É inutil: ha cinco minutos o telegrapho interrompeo -as communicações... É noticia certa...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Meu Deos! Meu Deos! Tudo nos acabrunha!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mais calma, meu amigo! Mais calma!</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>desabrido</i>).—Vá á breca com os seus conselhos -(<i>Agarrando na cabeça com desespero</i>). Minhas -perdas! (<i>De repente</i>) Ah! uma idéa. Compadre, podemos -remediar alguma cousa! Uma idéa! (<i>Para Faria, -imperioso</i>) Você vai partir d’aqui a meia hora...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Para onde?</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Para Santos... O vapor sahe ás 5 horas -da tarde... ha tempo de sobra... Não deixe embarcar -o algodão... Ao menos espere elle em Santos... -Talvez deixando passar a primeira impressão na -praça... d’aqui a dias...</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—É uma idéa, mas...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Mas o que?</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—E o Sr. Ribeiro?... O jantar?... O nosso?...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Fica tudo adiado... ninguem come emquanto -você não voltar... Dous dias, ou pouco -mais...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com a mão mettida dentro do bolso do collete</i>).—Perdôe-me: -isto não. (<i>Com sorriso um pouco altivo</i>) -Mas ninguem póde retêl-o... Antes de tudo... (<i>Accentuando</i>) -de tudo, os negocios...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Você bem vê... vamos! Aviemos isto -(<i>Baixo</i>). Eu arranjo tudo; o casamento e o mais. (<i>Alto</i>) -Vamos.</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>um pouco acanhado</i>).—Então o Sr. commendador... -consente?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois não... com muito gosto... por minha -parte...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca</span> (<i>com alegria forçada</i>).—Ah! muito bem!<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -depressa agora... A Santos! A Santos! (<i>Procura empurrar -Faria</i>) livra-nos d’essa...</p> - -<p><span class="smcap">Faria</span> (<i>com alguma resistencia</i>).—Deixe-me ao menos -despedir-me... (<i>Estendendo a mão a Ribeiro</i>) Dê-me -então suas ordens...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com frieza</i>).—Seja feliz... e avisado...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Eu vou pôl-o a bordo... Não achão prudente?</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—De certo...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>sempre sêcco</i>).—É medida de segurança.</p> - -<h5>SCENA XIV</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Alberto, Lemos, Ribeiro, Fonseca e Rocha.</span></p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ao entrar esbarra quasi com Faria</i>).—Oh! -senhor!...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Adeos... adeos, vamos de sahida...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Boa viagem!</p> - -<p>(<i>Faria estende-lhe a mão: o outro volta-lhe as costas.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Faria.</span>—Oh! eu...</p> - -<p><span class="smcap">Fonseca.</span>—Vamos... vamos... não ha tempo a perder...</p> - -<p>(<i>Faria encolhe os hombros e sahe quasi empurrado por -Fonseca.</i>)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span></p> - -<h5>SCENA XV</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Alberto, Lemos, Ribeiro e Rocha.</span></p> - -<p>(<i>Ribeiro passeia de um lado para outro com as mãos por -baixo das abas da casaca: Lemos conversa com o filho; Rocha, -de pé, no meio da scena, com os braços cruzados sobre -o peito.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>ironico e sombrio</i>).—Então o Sr. Faria se retira?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Parece... tem que ir a Santos... Negocios...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—E é a elle que o senhor vai dar o seu mais -bello thesouro?</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>assustado</i>).—Hen?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Ora, Alfredo...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Consulte a sua consciencia, meu tio (<i>melodramaticamente</i>), -e decida se elle é digno da noiva que -lhe reservão...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>assustado sempre</i>).—Noiva?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>continuando</i>).—Não, eu tambem sou parente... -tenho que erguer a minha voz... Quer uma -prova mais evidente da baixa ganancia... do mercantilismo -do que a que acaba de ter?... Por uma questão -de contos de réis... esse homem, que fingia um sentimento, -esqueceo tudo e sobre tudo a sua noiva, anjo -de innocencia, gemma de um valor inestimavel...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Mas quem é essa?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>arrebatado</i>).—Oh! é um diamante de Golconda... -é um seraphim capaz de levar as almas ao -paraizo só com o poder do seu olhar... é emfim...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Se falla de minha filha, declaro-lhe que -ella ainda não é noiva...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Mas o que o senhor me disse ha pouco fazia -crêr...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>meio zangado</i>).—Ha pouco eu lhe disse -muita cousa... Na realidade, pensei que poderia... -mas... emfim... nem tudo... quanto se pensa, pode -realisar-se... Ahi é que está o cunho do talento reflexivo... -(<i>Animando-se a pouco e pouco.</i>) E com mil bombas! -este procedimento desagrada-me solemnemente...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>com a mão no queixo</i>).—E com toda a razão.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>exaltado</i>).—Razão tenho de sobra... É fazer -pouco em mim. N’um dia em que convido para jantar -não pode haver motivos...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Justamente, justamente...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E depois do que tinhamos conversado... -Oh! isto não ha de ficar assim... Desfaço tudo...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>continuando no mesmo tom</i>).—Por uma -questão pequenina de dinheiro! (<i>Com muito desprezo</i>) -Oh! indigno metal! tão negro como as entranhas da -terra em que vives!</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Tem razão, tem razão, meu sobrinho e -amigo! Ao Faria nunca hei de dar a minha filha...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>intervindo</i>).—Por certo... É um coração -secco...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Um ganhador...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Felizmente foi desmascarado... Uma insignificante -quantia que perdeu derrubou-lhe o edificio -da hypocrisia... Aquella menina devia pertencer -a quem a merecesse pela elevação de sentimentos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span> (<i>com exaltação</i>).—Oh! meu pai (<i>Aperta as -mãos de Ribeiro.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>admirado</i>).—Mas que é isto?</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>com affectação</i>).—É um quadro de familia... -Veja e enterneça-se (<i>Abraça Ribeiro que não lhe mostra -boa cara.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>meio triste</i>).—A final os poetas tem sempre -razão...</p> - -<h5>SCENA XVI</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Rocha, Ribeiro e D. Rita.</span></p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>entrando pela porta da direita</i>).—Então, -meus senhores, quando quizerem, faráõ o favor de -entrar. O jantar nos espera. Mas onde está o compadre -Fonseca? O Sr. Faria ainda não chegou?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Aqui estiveram ambos e partiram...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Mas voltam já...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>seccamente</i>).—Não voltão tão cedo... -partiram...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Para onde?...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Para Santos...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—N’um dia como o de hoje! Depois das -promessas! Que foi? Que houve?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Um negocio de algodão...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Não ha negocio que podesse obrigal-os a -se retirar...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com explosão</i>).—Não sei, não sei, nada sei, -mas o que lhe digo, Sra. D. Rita Ribeiro, é que a minha<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -filha, a sua, a nossa filha não casará nunca com -o tal Faria. (<i>Com tom lugubre</i>) É excusado pedir ou -chorar. Ella não casa nem com o Faria, nem com o -compadre, nem com ninguem...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>admirada</i>).—Expliquem-me o que houve... -Estou pasma.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Eu nada lhe explico... já manifestei a minha -vontade e aqui (<i>com resolução</i>) não é casa de Gonçalo, -em que a gallinha cante mais do que o gallo... -É excusado, senhora...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>picada</i>).—Mas quem lhe disse que eu morro -de amores pelo Faria?... Minha filha, graças a Deos -não precisa mendigar noivos...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>adiantando-se</i>).—Minha tia, em duas palavras -lhe explico tudo... O tal pretendente á mão -de minha adoravel prima metteo-se, e por seus conselhos -metteo o tio, em uma compra de algodão em -Santos. Agora acontece que o genero baixou, de modo -que elle, sem consideração alguma pela bondade com -que o tratava o Sr. Ribeiro, arranjou inopinadamente -uma viagem para Santos, afim de vêr se podia dar algum -remedio aos seus prejuizos... Não houve nada -que o retivesse... nem a honra de jantar hoje aqui, -nem a perspectiva de estar com Isabel, que entretanto -já lhe tinha sido quasi dada...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>tossindo e cortando a palavra a Rocha</i>).—Isto -é, o tio, o animal do Fonseca, procurou, etc., etc., -e tal... mas eu...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Então o meu tio offendeo-se d’aquelle insolito -procedimento e...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—De certo, fez muito bem...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Comprehendeo com a sua nobreza d’alma...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu faria o mesmo...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—E deo o dito por não dito...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com resolução</i>).—E se eu disse alguma -cousa, dou o dito por não dito... Em dignidade ninguem -me ha de vencer...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Perfeitamente, compadre...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto.</span>—Aquelle modo de proceder foi indesculpavel...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Extraordinario...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Inexplicavel...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>com ar de dignidade offendida</i>).—Digão antes -de tudo offensivo; mas eu soube manter-me na -posição que me convinha... Não acha, Sr. Lemos?</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Optimamente...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Agora comprehendo tudo, e só lhe digo -que o Sr. Fonseca ha de me ouvir...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pobre Fonseca! Ficou anniquilado com a -possibilidade de um prejuizosinho... O Siqueira prégou-lhe -boa!... É verdade que os meus setenta...</p> - -<p>(<i>Isabel apparece na porta da direita.</i>)</p> - -<h5>SCENA XVII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Rocha, Faria, D. Rita e Isabel.</span></p> - -<p><span class="smcap">Isabel.</span>—Porque tanta demora, mamãe?... O jantar...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>adiantando-se para Isabel</i>).—Minha senhora... -eu...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>com acanhamento</i>).—Meu senhor...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>precipitando-se</i>).—Oh! minha prima!...</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>adiantando-se</i>).—Que tem, primo Alfredo? -Acho-o commovido.</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—É de alegria... estou fóra de mim... commovido, -sim, e muito...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Acabemos com isto, senão eu tambem -passo a commover-me!...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu já estou commovida...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vamos lá... casem-se, casem-se depressa.</p> - -<p><span class="smcap">Rocha.</span>—Que dia este!</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>com sorpreza e dôr</i>).—Que é isto?</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>muito admirada</i>).—Eu, casar-me?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Sim... faço-lhe a vontade...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>muito apressado</i>).—Emfim, posso dizer que -a amo, Isabel... que a adoro, a idolatro...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—E é com esses confeitos que os poetas nos -dão batalha e nos vencem.</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>com constrangimento</i>).—Devéras eu... estimo -muito o meu primo... admiro o seu talento... mas...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>chegando-se e em tom de supplica</i>).—Falle, -D. Isabel... estou soffrendo como um desgraçado.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>admirado</i>).—Então que é isto? Você diz -que...</p> - -<p><span class="smcap">Isabel.</span>—Eu... não amo a meu primo...</p> - -<p><span class="smcap">Todos.</span>—Oh!</p> - -<p>(<i>Olhão-se uns para os outros: Alberto está muito alegre: -Ribeiro pucha o beiço, como pessoa que labora em grande -duvida.</i>)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Essa não está má! (<i>Para Isabel</i>) Então -você de quem gosta?</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>enrubecendo</i>).—De ninguem, papae...</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>com tom de supplica</i>).—D. Isabel...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>implorando</i>).—Oh! minha prima, que cruel -momento! Por que crime estarei expiando tanta dôr! -Os meus versos, os meus cantos devem já lhe ter dito -quanto amor lhe consagro, e entretanto... quando -tudo parecia indicar o final de um soffrimento immenso, -uma unica palavra sua, cruel, implacavel, -veio me atirar em abysmo insondavel...</p> - -<p>(<i>Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, -empurra-o para que se adiante.</i>)</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão -de sua filha...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Homem, é excellente! Até você é candidato?...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos</span> (<i>apressadamente</i>).—É para meu filho... meu -filho Alberto...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita</span> (<i>graciosa</i>).—É uma cousa muito possivel.</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Mas ella diz que não quer ninguem: que -hei de...</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>intervindo com animação</i>).—Papae, eu não -disse isto...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Então você aceita o Alberto?</p> - -<p><span class="smcap">Alberto</span> (<i>sofrego</i>).—D. Isabel... minha sorte depende -da senhora...</p> - -<p><span class="smcap">Isabel</span> (<i>confusa</i>).—Se... papae... consentir... Querendo -a mamãe...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>risonho</i>).—Ah! sonsinha, isto é namoro<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span> -velho. (<i>Para D. Rita</i>) E a senhora não me dizia -nada!...</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu de nada sabia...</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o -caso dou com ambas as mãos o meu pleno consentimento.</p> - -<p><span class="smcap">D. Rita.</span>—Eu com a maior satisfação...</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>adiantando-se com ar sombrio e theatral</i>).—E -eu? Que fazem de mim? De mim que entrei hoje aqui -com um céo na alma, e saio com a morte no coração!... -A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?</p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro</span> (<i>puchando-o pela sobrecasaca</i>).—Ora, deixe-se -d’isso, Alfredo, e vem comer o nosso peixe.</p> - -<p><span class="smcap">Rocha</span> (<i>encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois -exclama</i>).—Não quero comer o seu peixe! (<i>Sahe -arrebatadamente.</i>)</p> - -<h5>SCENA XVIII</h5> - -<p class="center"><span class="smcap">Lemos, Alberto, Ribeiro, D. Rita e Isabel.</span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Vai o pobresinho furioso (<i>levantando os -hombros</i>). Hão de vocês vêr que versalhada sahe -d’aquelles furores. O certo é que no fim de contas -faz-se um casamento com quem ninguem contava...</p> - -<p><span class="smcap">Lemos.</span>—Agrada-lhe menos...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span></p> - -<p><span class="smcap">Ribeiro.</span>—Qual!... Está muito conforme com as minhas -idéas... Não tróco o meu novo genro por uma -duzia de Farias ou uma carregação de poetas... Agora -todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... -Comeremos do tal peixe por quantos deixárão -de lhe chupar as espinhas... Á mesa e depressa... -porque, como diz o proverbio: «<i>Da mão á boca se -perde a sôpa.</i>»</p> - -<p class="right">(<i>Cahe o panno.</i>)</p> - -<p class="fim">FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p> - -<h2 id="CAMIRAN_A_KINIKINAO">CAMIRAN A KINIKINAO<br /> -<span class="smaller">EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO</span></h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<h3>CAMIRAN A KINIKINAO</h3> - -<p>Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava -os dias a prantear a morte de um filho unico, baleado -em acção de guerra pelos paraguayos.</p> - -<p>Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu -corpo mirrado pela consumpção mostrava que uma -dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a vida. Tudo -era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o -chumbo inimigo havia feito cahir para sempre nos campos -do Aquidauana. O sol que irrompia deslumbrante, -a lua que despontava serena, a nuvem que corria nos -céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia -ou a brisa que sussurrava, trazião-lhe de prompto -á lembrança algum facto que se prendia á existencia -de seu adorado filho.</p> - -<p>Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um -canto que mais tinha de resignação do que de desespero, -contava como e quando elle havia contemplado<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira, -se abrigára da chuva, contendêra com o furacão -ou refrescára o corpo ás caricias de branda -aragem.</p> - -<p>Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, -sem vexame para quem a recebia, por isso que todos -á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua choupana -algum alimento escasso sem duvida, pois para -todos escasseára, mas dado de coração.</p> - -<p>N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma -dura provança. Expulsa em principios do anno de -1865 pelo terror da invasão paraguaya que então -assolára repentinamente o districto de Miranda, havia -ella vagado longos mezes por matas e agruras antes -de poder assentar arraiaes ao abrigo do inimigo.</p> - -<p>Tambem quem deixára de soffrer!</p> - -<p>A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel -Resquin que, em nome da republica do Paraguay, -levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.</p> - -<p>O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões -paraguayos, sem opposição alguma á sua -marcha de conquista, forão tangendo adiante de si -toda a população tomada de sorpreza e possuida de -immenso pavor.</p> - -<p>Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára -de sua força de mais de cinco mil bayonetas uns seiscentos -homens para irem abafar a resistencia do tenente -Antonio João na colonia de Dourados.</p> - -<p>Valente homem aquelle tenente!</p> - -<p>Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -fronteira, morreo como um heróe, ao lado de onze -companheiros em quem infundira a coragem e o patriotismo -que lhe inflammavão o peito.</p> - -<p>Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado -em sua palissada, tinha diante e ao redor de si a immensidade -do deserto.</p> - -<p>Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava -uma força imponente, não quiz desamparar o -posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma falla -em que citou francez e até latim.</p> - -<p>O homem tinha pretenções litterarias que afagava -com certo orgulho, e se revelavão nos officios mensaes -que costumava dirigir ao chefe militar de Nioac.</p> - -<p>N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se -achava a colonia e a loucura da resistencia, e terminou -dando a todos licença para o abandonarem.</p> - -<p>Elle ficaria.</p> - -<p>—Para que? perguntárão uns soldados.</p> - -<p>—Para morrer!</p> - -<p>Onze de seus commandados declarárão que ficarião -tambem.</p> - -<p>Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos -e até moços.</p> - -<p>Antonio João esperou então os inimigos da patria. -Fez içar a bandeira do Brasil e preparou com esmero -o officio com que havia de responder á intimação do -invasor.</p> - -<p>No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira -a cavallo a devassar a redondeza, voltou a galope.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> - -<p>A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.</p> - -<p>Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os -seus onze fieis pela palissada. Cada um tinha uma espingarda -a Menié, duas clavinas carregadas ao lado -e não lhes faltava nem munição, nem valor.</p> - -<p>Por todos os lados se abrião campos immensos, -campos que já se ião tingindo de vermelho. Erão os -paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo maculavão -a verdejante relva.</p> - -<p>—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á -sua gente.</p> - -<p>—Todos, respondêrão os onze.</p> - -<p>—Então amparem-se com Deos, porque ninguem -se entrega.</p> - -<p>—Ninguem! repetirão os onze.</p> - -<p>Era Leonidas no meio dos lacedemonios.</p> - -<p>De repente soou o clarim paraguayo.</p> - -<p>Um parlamentario se approximava.</p> - -<p>A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do -deserto. Parecia ufana de abrigar aquelles doze sublimes -insensatos. Losango amarello sobre fundo verde; -côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, -quando elle lhes deita o olhar de adeos no -campo da batalha. A corôa imperial como que preparava-se -para descer sobre aquellas cabeças, transformada -em corôa de gloria.</p> - -<p>Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, -com a maior cortezia o enviado.</p> - -<p>A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, -como costumavão alinhar os generaes de Lopez.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p> - -<p>O commandante de Dourados rasgou em pedaços o -officio que preparára com tanto cuidado e carinho, e a -lapis traçou esta resposta:</p> - -<p>«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus -companheiros servirá de protesto solemne contra a invasão -do solo da minha patria.»</p> - -<p>E assignou com mão firme:</p> - -<p class="right">«Antonio João da Silva.»</p> - -<p>Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou -brazileiro que ao depois dissesse o mesmo.</p> - -<p>Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em -distancia cercou todo o campo. Para qualquer lado -que os defensores de Dourados deitassem os olhos, -virão um cordão vermelho que vinha se apertando.</p> - -<p>Na guarnição não houve alma que fraqueasse. -Quanto mais se demorava aquelle ataque disproporcionado, -mais crescia o enthusiasmo.</p> - -<p>—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio -João.</p> - -<p>Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a -um tempo as armas, ligeira detonação para aquellas -vastidões, respondida por uma immensa repercussão.</p> - -<p>O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.</p> - -<p>—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos -da agonia.</p> - -<p>Raros obedecêrão á ordem.</p> - -<p>D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, -mas ella desceu com ufania como bandeira de victoria<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span> -e, quando tocou o chão, uma das suas dobras foi -se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião -ennobrecido.</p> - -<p>Parecia enrubescer de orgulho.</p> - -<p>Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.</p> - -<p>—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver -muitos d’esses, a nossa marcha por Matto-Grosso não -será um simples passeio militar, como nos contárão.</p> - -<p>Outra vez repetirão isto.</p> - -<p>Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da -colonia de Miranda seis legoas.</p> - -<p>Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi -um paisano, Gabriel Barboza.</p> - -<p>Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem -já feito, robusto de corpo e estimado. Devia -se casar quando arrebentou a invasão e trocou as vestes -de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos -no céo se talhão.</p> - -<p>Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se -que o Apa estava transposto e que Resquin vinha -marchando para o Norte, o commandante do corpo -de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e -quarenta soldados, apenou alguns paisanos de boa -vontade e marchou ao encontro do inimigo.</p> - -<p>Esse commandante gozava de bom nome e estava -em condições de prestar grandes serviços. Bemquisto -dos seus subordinados e respeitado por todos, podia -ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou -que servia mais para o socego da paz do que -para as contingencias da guerra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p> - -<p>Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer -a força que pisava terras brazileiras.</p> - -<p>Não caminhou muito.</p> - -<p>A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro -lado, encoberta pela mata, estava a columna paraguaya; -mais de cinco mil homens, já dissémos.</p> - -<p>Era no dia 31 do Dezembro de 1864.</p> - -<p>Muita gente pensou que não veria o anno novo.</p> - -<p>No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante -paraguayo, mostrou alguma polidez: o brazileiro -respondeu-lhe, apurando o tom.</p> - -<p>Trocarão-se amabilidades antes das balas.</p> - -<p>Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda -estar a perder tempo.</p> - -<p>O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem -de Nioac, para o que sobrára tempo, arregimentar -toda a população valida e os centenares de indios que -se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os -e esperar os invasores nos angustos e emboscadas. -Assim caro terião pago o seu arrojo.</p> - -<p>Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, -retirada que poderia ter produzido uma -resistencia notavel, o commandante do corpo de caçadores -a cavallo avançou imprudentemente, vio a -sua tropa quasi toda debandada na volta para Nioac e, -incutindo terror panico em todos os habitantes, foi atropelladamente -para a villa de Miranda, d’onde tomou -rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias -de vacillação que mais concorrerão para destruir -qualquer intenção de pôr peito á invasão estrangeira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span></p> - -<p>Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de -certo n’um dia de combate havia de sustentar com -dignidade a sua posição, mas não tinha cabeça para -organisar a defeza de uma grande zona.</p> - -<p>Ah! se fôra Antonio João!</p> - -<p>Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os -voluntarios. Montava um cavallo magro e trazia uma -espingarda de dous canos de caçar onças.</p> - -<p>A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o -tiroteio já havia começado. Na mata da margem esquerda -do rio Feio estavão emboscados os paraguayos, -na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria -que havião posto pé em terra. Commandava-os -um valente capitão, Pedro José Rufino, homem envelhecido -nas fileiras, cheio de serviços e esquecido ha -muito no fundo de Matto-Grosso.</p> - -<p>Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido -de baeta vermelho estirado no chão immovel mostrava -a certeza do fogo. Um cadaver rolára mesmo pela -barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que -mergulhava o tronco.</p> - -<p>A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:</p> - -<p>—Os paraguayos estão passando o rio!</p> - -<p>Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores -deu signal de retirar.</p> - -<p>De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya -estavão na margem direita e vinhão a redea solta sobre -os brazileiros.</p> - -<p>A principio os nossos retrocederão rapidamente, -mas guardando ainda cada qual o seu lugar na fileira;<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -depois a carreira foi-se accelerando, tornando-se -vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada -geral para se atirar nas matas, os outros mais fincavão -as esporas nos ventres de seus cavallos.</p> - -<p>Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; -tratava-se de correr.</p> - -<p>De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura -afrôxar.</p> - -<p>O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha -bastante longe, de modo que um soldado, ao passar -pelo mineiro, parou por um pouco e lhe perguntou:</p> - -<p>—O seu cavallo <i>bombeou</i>?</p> - -<p>—Não póde mais comsigo...</p> - -<p>—Pois bem, então faça como eu; <i>fréche</i> para aquelle -capão que nós cahimos logo na mata do Nioac.</p> - -<p>—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... -Eu fico aqui...</p> - -<p>—Mas aqui é morte certa!</p> - -<p>O outro fez um gesto de pouco caso.</p> - -<p>—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas -aos paraguayos.</p> - -<p>E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou -com cuidado a sua arma e parou immovel no -meio da estrada.</p> - -<p>Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára -a dianteira aos outros, apressou ainda mais a -carreira que trazia.</p> - -<p>Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão -direita voltear uma espada voraz de sangue, e na esquerda -mantinha as redeas frôxas. Ouvia atraz de si o<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -galopar dos companheiros e queria colher a gloria de -matar o primeiro brasileiro.</p> - -<p>Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.</p> - -<p>Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando -um grito de agonia.</p> - -<p>Um segundo teve igual destino e rolou ferido por -certeira bala, mas já a esse tempo cinco ou seis outros -se havião atirado sobre o brasileiro e depressa o prostrárão -sem vida, todo golpeado e lanceado.</p> - -<p>Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande -cruz lavrada e coberta de desenhos, na qual está gravada -esta inscripção:</p> - -<p>«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama -en agzion di guera.—Ennero, 1—1865» (<i>sic</i>).</p> - -<p>Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, -como homenagem aos restos de quem alli descansava, -um craneo com dous grandes talhos de espada.</p> - -<p>Era o craneo de Gabriel Barbosa.</p> - -<p>No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em -Nioac. Aquella linda povoação estava deserta e em -poucos minutos ficou reduzida a cinzas.</p> - -<p>Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse -dia, a perturbação tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada -havião chegado os restos desordenados do 1º -corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores -da villa affluira para ella. A quantidade de indios -terenos, laianos, kinikináos, guanás, guaycurús e até -cadiuéos, que são, comtudo, perfidos e mal vistos, era -consideravel, todos a pedirem em altos brados armas -e munições de que estava repleto o deposito de artigos<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -bellicos, para correrem a se metter em emboscadas.</p> - -<p>Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, -e aconselhavão duas esperas excellentes no Lalima -e no Laranjal; outros declaravão qualquer tentativa -de lucta inutil e impossivel, e só esperavão -pela voz de debandada; outros, emfim, e entre os -mais notaveis da villa, já nem esperavão por aquelle -signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas e -igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para -demandarem a foz do seu affluente, o Aquidauána.</p> - -<p>No meio da grita das mulheres, do chorar das -crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos -indios, dos conselhos desencontrados, das discussões -calorosas, aquelles que devião tomar providencias para -o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução -immediata, quer no sentido de resistencia, -quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e deixárão-se -arrastar pelo movimento da população, que, a -6 de Janeiro, em peso abandonou Miranda na mais -extraordinaria confusão.</p> - -<p>Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos -devessem se reunir. Uns seguirão em canôas a procurar -refugio nas matas do rio; o maior numero, a pé, -tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas -vinte leguas, e em cujas brenhas tinhão tenção de -se occultar.</p> - -<p>Os paraguayos porém vinhão marchando muito -vagarosamente; tanto assim que só a 12 de Janeiro é -que entrárão na villa, que achárão quasi que completamente<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão -do povo, havião voltado e agarrado tudo quanto -lhes approuve, principalmente armamento e cartuxame.</p> - -<p>O deposito continha, comtudo, ainda grande numero -de armas e petrechos de toda a qualidade, que o -inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter para a -republica.</p> - -<p>—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão -defender o seu territorio enchendo os cabides de -espingardas e de lanças.</p> - -<p>Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin -fez sahir um bando que declarou haver d’aquelle dia -em diante passado todo o districto a pertencer á republica -do Paraguay, debaixo do titulo de districto -militar de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se -ás suas casas sob pena de serem os recalcitrantes -passados, sem appello, pelas armas.</p> - -<p>Naturalmente ninguem se apresentou.</p> - -<p>Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão -então occultos no lugar chamado Salôbra, a duas leguas -da villa, sujeitos a milhares de privações, e, o -que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e -pelas intrigas.</p> - -<p>Tudo era motivo para recriminações e queixumes.</p> - -<p>Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, -homem virtuoso e querido quer de brancos, -quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão necessaria -n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, -e mais de uma vez vio-se desrespeitado.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span></p> - -<p>O acampamento dos refugiados em pouco tempo -tornou-se intoleravel para muitos: uns tocárão as suas -canôas para ir mais longe fazer rancho á parte; outros, -em pequeno numero, forão espontaneamente se -apresentar aos paraguayos.</p> - -<p>Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho -sentia-se fraco e acabrunhado diante de tamanha -desgraça, e as suas lagrimas corrião a miudo -ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava -de filhos, estarião soffrendo, esparsos pelos -montes, ou sem duvida cahidos em poder do inimigo.</p> - -<p>Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de -se entregar ao invasor e obter d’elle compaixão para -todas aquellas victimas—mulheres principalmente e -debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir, -acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do -alferes João Pacheco de Almeida, se apresentar -em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.</p> - -<p>Havia na villa uma razão que o attrahia com força -irresistivel: era a igreja matriz que construira com -grande trabalho, empregando n’ella os seus magros -vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade -dos freguezes.</p> - -<p>Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que -fez logo frei Marianno, n’um estado de jubilo difficil -de descrever. Quanto tempo havia passado longe -d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de -seus extremos, de sua adoração!</p> - -<p>As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -derrubadas, a meio incendiadas, ruas atravancadas, -por todos os lados signaes da destruição, nada o -impressionava, nada lhe detinha os passos.</p> - -<p>Elle voava para a sua matriz.</p> - -<p>Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o -caracter de negro sacrilegio. As torres sem os sinos, -os altares despidos dos santos ornatos, o tecto esburacado, -o chão coberto de caliça e caibros, as imagens -mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei -Marianno.</p> - -<p>Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe -da mente, e elle, transfigurado pelo desespero -e pela indignação, no meio d’aquelle templo -esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os -paraguayos.</p> - -<p>A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os -que o cercavão.</p> - -<p>—Forão os Mbaiás<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a>, gritou meio assombrado -um d’elles.</p> - -<p>—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou -o frade cuja exaltação não achou limites senão -quando de todo lhe faltarão forças para clamar vingança -aos céos.</p> - -<p>Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco -depois foi transferido para Assumpção<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a>. João<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> -Faustino do Prado e Pacheco de Almeida escapárão -de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia -mesmo em que n’ella havião entrado.</p> - -<p>Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda -durante todos aquelles inesperados successos?</p> - -<p>Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto -por occasião da invasão paraguaya.</p> - -<p>Os terenos, em numero talvez superior a trez mil -individuos, estavão estabelecidos no Naxedaxe, a seis -legoas da villa, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldêa-Grande, -a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas -N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, -a meia legoa—estes todos da nação chané. Dos -guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto de -Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida -e Nabileke, tambem chamado Rio-Branco.</p> - -<p>Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, -cada tribu manifestou as suas tendencias particulares. -Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com o invasor. O -<i>castelhano</i> era por todas considerado de longas éras -como inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, -identificárão-se com as desgraças dos <i>portuguezes</i>; outras -se separárão d’elles; outras, emfim, começárão a -hostilisar a gente de um e outro lado.</p> - -<p>Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente -com a população fugitiva; os terenos se isolárão, e os -cadiuéos assumirão attitude infensa a qualquer branco, -ora atacando os paraguayos na linha do Apa, ora assassinando -familias inteiras, como aconteceu com a do -infeliz Barbosa, no Bonito.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span></p> - -<p>Voltemos, porém, aos kinikináos.</p> - -<p>Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria -passárão em debandada pelo Agaxi, a aldêa já estava -sobresaltada.</p> - -<p>—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão -dos kinikináos, Flavio Botelho.</p> - -<p>—Fujão todos.</p> - -<p>—Para onde?</p> - -<p>—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, -Deos por todos.</p> - -<p>Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. -Tinha um unico merecimento: ser pai de duas -lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se diariamente -sem respeito algum pela patente que possuia -e mostrava com grande orgulho, assignada por -D. Pedro I.</p> - -<p>N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma -garrafa de aguardente e tratou de dormir.</p> - -<p>A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que -nunca estavão faltos de um chefe, e, por tacito accordo, -deixando, comtudo, as honras ao legitimo possuidor, -tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.</p> - -<p>Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.</p> - -<p>Era o filho de Camiran.</p> - -<p>Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um -soberbo indio, côr de cobre vermelho, com feições angulosas, -maçãs do rosto salientes, dentes acerados, -olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e -denunciando energia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p> - -<p>Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito -dos seus e a amizade dos brancos. Era elle quem tomava -a peito as queixas da sua gente nas relações com -os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei -Marianno as irregularidades dos contractos ou os desmandos -que se davão na sua aldêa. Pedia providencias -n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas, e conseguia -de vez em quando algum resultado, conforme os -interesses dos seus e como era de justiça. Soubera até -em varias occasiões franzir o sobrolho ás autoridades -da povoação, dispostas sempre a abusar, e, apoiado na -boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de -rectidão, obteve que cessassem para os habitantes de -seu aldeamento diversas medidas vexatorias a que -estavão sujeitos os indios.</p> - -<p>Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, -avelhentado e onerado de familia, fizera com o juiz -de paz de Miranda um contracto de locação de serviços -por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e -mais uma garrafa de aguardente no fim de cada -mez.</p> - -<p>Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, -que se apressou em saber da verdade.</p> - -<p>Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, -e o indio declarou que o lavrára sem sugestões -e de muito livre vontade.</p> - -<p>Não havia recalcitrar.</p> - -<p>Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz -a substituição do trabalhador, ficando de pé a letra do -contracto.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span></p> - -<p>Era um moço que tomava o lugar do velho, e, como -o tal juiz de paz não podia fazer negocio melhor, immediatamente -aceitou a proposta, com grande applauso do frade.</p> - -<p>Pacalalá, que podia, como costumava, arranjar facilmente -trabalho a 500 réis diarios, esteve com toda -a constancia dous mezes ás ordens do contractante, e -sem duvida alguma fez serviço triplo ou quadruplo do -indio que substituira.</p> - -<p>Findo o tempo convencionado, elle recebeo os quatro -mil réis que deo de esmola para as obras da matriz, e -levou as garrafas de aguardente para offertal-as a -Flavio Botelho, cuja filha mais bella lhe havia prendido -o coração.</p> - -<p>Em todo caso, se perdera dous mezes de trabalho, -em compensação o seu prestigio augmentou de um -modo extraordinario.</p> - -<p>—Os <i>portuguezes</i>, dizião os velhos com aquelle sorriso -quasi imperceptivel que os indios têm, não podem com -Pacalalá. Elles são velhacos como a jaguatirica, mas Pacalalá -é como o lagarto que dá chicotadas sem ser visto.</p> - -<p>Camiran tinha orgulho em ser mãi d’aquelle filho, -orgulho immenso, mas occulto no ádito de sua alma. -Não só por indole, como pelos costumes dos seus, -nunca deixára transparecer a affeição intensa que sentia -por elle, nunca corrêra ao seu encontro ou o abraçára, -quanto mais beijal-o ou tecer-lhe elogios!</p> - -<p>A mais completa reserva cercava o seu amor maternal, -repassado, com tudo, do mais profundo enthusiasmo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span></p> - -<p>Se havia cabana bem construida, forte, era a d’ella; -se alguem tinha commodidade de vida na aldêa não -excedia a que desfructava Camiran.</p> - -<p>Da roça de seu filho vinha abundante colheita de -aboboras, milho, arroz e feijão; varias gallinhas cacarejavão -diante de sua porta, e uma vacca com o bezerro -ao lado dava-lhe pela manhã leite a fartar.</p> - -<p>Não havia dia em que Pacalalá voltasse dos seus -trabalhos sem trazer para a mãi um cesto de carás ou -de raizes de aipim, alguma fructa saborosa ou miolo -assucarado da macaúba, que os indios chupão com -delicia.</p> - -<p>Ás vezes a caçada diligente do rapaz fazia apparecer -na refeição habitual a delicada carne da <i>jáo</i>, da -<i>aracuan</i>, <i>jacutinga</i> e <i>inambú</i>; mas o preço da polvora -e do chumbo tornava raras essas occasiões.</p> - -<p>Quando Pacalalá vinha do roçado, Camiran, sem -dizer palavra, tomava os alimentos e corria a preparal-os. -Elle tirava as calças que lhe servião para o gyro -habitual, embrulhava-se n’uma <i>julata</i> e ia deitar-se -na rêde de tiras de couro, a fumar n’um grande cachimbo -de barro.</p> - -<p>Assim ficava longas horas, fitando um ponto no -chão e com o espirito em torpor.</p> - -<p>As idéas de Pacalalá propendião para o congraçamento -com os habitantes de Miranda; entretanto elle -devéras se affligia da má fé e dobrez que os brancos -punhão sempre n’essas relações.</p> - -<p>—Cuidado com os <i>portuguezes</i>, dizia elle para os -seus quando consultado; são nossos iguaes e não<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -nossos amos. N’esta terra não deve haver duas gentes: -uma que mande e outra que trabalhe. Todos devem -trabalhar.</p> - -<p>Uma vez ameaçou até vir ao Rio de Janeiro apresentar -as suas razões de queixa e com isso produzio -algum abalo no animo de uma das autoridades da villa, -tão arbitraria quão subalterna.</p> - -<p>—Se nos atormentarem muito, irei até a côrte fallar -com o Imperador, que é o capitão grande. Eu sei -que elle não quer que os indios sejão maltratados pelos -<i>portuguezes</i>.</p> - -<p>Já se vê que Pacalalá tinha direito a mais consideração -entre os kinikináos do que qualquer outro.</p> - -<p>Se não reagia, pelo menos protestava sempre.</p> - -<p>Era, porém, chegada a occasião de justificar a confiança -que inspirava, e elle não hesitou em aceitar a -commissão que lhe impunhão o respeito e a consideração -de sua tribu n’aquella difficil emergencia.</p> - -<p>Sem perda de tempo, Pacalalá ordenou o abandono -da aldêa do Agaxi. Separou mulheres, crianças e -velhos, carregou-os de tudo quanto podia ser mais -facilmente transportado e entregou esse grupo á direcção -de Flavio Botelho, que devia dirigir-se ao porto -do Canuto, no rio Aquidauána, d’ahi a 8 leguas, para -embrenhar-se depois na serra de Maracajú.</p> - -<p>A romaria partio; não sem alarido, imprecações -e gemidos. As velhas sobretudo levantavão uma grita -da mais completa desesperação.</p> - -<p>Ião levando á cabeça enormes trôxas, moveis até, -ou vergadas ao peso do <i>nadô</i>, grande rede de malhas<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span> -em forma de saccos suspensa por uma tira de couro -que applicão de encontro á testa.</p> - -<p>Depois de deserta a aldêa, Pacalalá reunio trinta -homens validos e á frente d’elles marchou para Miranda -a saber o que convinha fazer.</p> - -<p>A estrada do Agaxi para a villa estava cheia de -fugitivos, indios em grupos, outros isolados, homens -montados a correrem, velhos a se arrastarem de cançados, -crianças perdidas, mulheres desamparadas e -familias inteiras, umas a pé, outras mettidas em carros -de bois, que caminhavão aguilhoados por impaciente -ferrão.</p> - -<p>Toda a população estava em movimento e, cousa -digna de reparo, n’essa occasião desastrosa, não se -davão factos de violencias, roubos e assassinatos, tão -faceis no meio da desordem geral.</p> - -<p>—Para onde vão vocês? perguntou a Pacalalá um -mineiro, que desanimado da morosidade dos seus bois -de carro estava parado ao meio da estrada, cercado -da familia em pranto.</p> - -<p>—Para Miranda, respondeu o indio.</p> - -<p>—Pois então me levem a minha mulher e estas -tres crianças. Todas andão bem a pé e depois de -amanhã estou <i>batendo</i> na villa. Fico para esconder o -meu trem no mato.</p> - -<p>O kinikináo aceitou a incumbencia e, acolhendo -sob sua protecção a familia do mineiro, com ella entrou -em Miranda.</p> - -<p>A villa estava, como dissemos, entregue á maior -anarchia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span></p> - -<p>Pacalalá comprehendeu logo que não havia tenções -de resistir e que toda demora importava augmento -de perigo: entretanto, como era preciso armar os -seus e as autoridades não distribuião, nem querião -distribuir armamento e munições, esperou que os -moradores se retirassem.</p> - -<p>No dia 8 de Janeiro não havia mais um só habitante, e -um deposito immenso de artigos bellicos ficava -entregue ao saque dos indios, antes de passar para o -poder dos paraguayos.</p> - -<p>Eis porque nas mãos de terenos, kinikináos, laianos, -guanás, guaycurús, cadiuêos, beaquiéos e outros -vião-se excellentes clavinas e muita polvora e bala durante -todo o tempo da occupação do districto.</p> - -<p>Com a sua gente municiada, Pacalalá dirigio-se -então para o porto do Canuto e capitaneando a -tribu subio a serra de Maracajú pelo lado o mais -ingreme e foi estabelecer acampamento na bellissima -chapada que corôa aquellas alturas.</p> - -<p>A esse mesmo planalto, mas por caminhos differentes, -havião já chegado muitos fugitivos, entretanto -como ella era coberta em toda a superficie de mato virgem -e vigoroso, diversos nucleos forão se formando, -sem que communicassem logo uns com os outros.</p> - -<p>Estava-se ahi livre da perseguição paraguaya, mas -quanto soffrimento, quanto desespero, para toda -aquella infeliz gente sem outro alimento mais do que -palmitos, côcos, fructos da mata, mel de abelhas e -uma ou outra caça, essa mesma comprada a peso de -ouro!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span></p> - -<p>Os que tinhão iniciativa tratarão logo de derrubadas -para entregar á terra as sementes que havião cuidadosamente -trazido comsigo e preparar assim um futuro melhor.</p> - -<p>Entre esses achou-se Pacalalá, por cujos conselhos -todos os kinikináos cuidarão promptamente de roçar -e de plantar, pelo que forão os primeiros que conhecerão -a abundancia de cereaes.</p> - -<p>Na verdade a terra como que pareceu querer ajudar -os pobres refugiados que só de uma boa colheita -podião esperar lenitivo para tantos males. O grão -que n’ella cahio achou-se em breve multiplicado de -uma maneira maravilhosa, e todos quantos galgarão -a serra e se acoutarão em suas umbrosas dobras tiverão -em pouco tempo mantimentos de sobra, muito além -das mais exageradas esperanças.</p> - -<p>Houve até um branco de Miranda que, plantando -meio alqueire de milho, colheu mais de duzentos, -e de uma quarta de feijão tirou perto de quarenta -alqueires!</p> - -<p>A uberdade do sólo era espantosa. Qualquer clareira -no mato, aberta é verdade com muito trabalho e -a poder do machado muitas vezes manejado por mãos -de mulheres e crianças, tornava-se ponto em que parecia -cahir o maná do céo.</p> - -<p>Tambem não tardou muito que toda a colonia brazileira -ahi estabelecida de mistura com indios kinikináos, -guanás, terenos e laianos, gozasse de bastantes -recursos para considerar de animo mais calmo -as desgraças que acabavão de soffrer e poder com paciencia<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span> -esperar pelo final da guerra que os paraguayos -tão imprevista quão deslealmente havião encetado.</p> - -<p>Nos diversos lugares da serra em que havia moradores -e que tomarão o nome de acampamentos, construirão-se -ranchos vastos e commodos, e pouco e pouco -regularisou-se o modo de viver.</p> - -<p>Para augmentar até aquella repentina prosperidade, -veio um casal de gallinhas, trazido com muita cautela -de Miranda por um indio, que lá se introduzio á -noute, dar uma producção vigorosa e em tão grande -numero que anno e meio depois contavão-se alguns -possuidores de centenares de cabeças de criação.</p> - -<p>Nos Morros—assim se ficou chamando o lugar—a -boa paz presidio as relações de todos, e em honra -ao espirito da população de Matto-Grosso póde se -afiançar que nenhuma scena de violencia, durante -todo o tempo de exilio, lembrou que havião totalmente -desapparecido o imperio das leis e a protecção -das autoridades.</p> - -<p>Os indios, em numero décuplo dos brancos e que -podião, como receiarão a principio muitos, libertar-se -com estrondo da tutéla em que havião vivido, -se ficárão um pouco mais altanados e independentes, -nem por isso praticárão desmandos nem se aproveitarão -das occasiões para reacções ás vezes justificadas.</p> - -<p>Entretanto a nomeada da fartura existente nos Morros -ia attrahindo para lá os fugidos do districto, -de modo que em fins de 1865 estavão elles quasi todos -reunidos na chapada da serra de Maracajú.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span></p> - -<p>O paiz, desde os pantanáes do Cochim até o rio Apa -de um lado, e de outro desde o Paraguay até os campos -de Camapuan e Vaccaria, ficára entregue aos paraguayos -que rondavão sobretudo a área comprehendida -entre os pontos do Souza, Espenidio, Forquilha, -Nioac, Ariranha e Esbarrancado, onde mantiverão, -até Agosto de 1866, importantes destacamentos.</p> - -<p>Por entre essas rondas passavão á noute os indios -quando descião da serra para vir laçar rezes na planicie -e ajoujal-as com outras mansas, tangendo-as assim -para os acampamentos.</p> - -<p>Com essas expedições repetidas sempre com exito, -apezar da vigilancia dos inimigos, abastecião-se de -carne fresca e secca ao sol todos os moradores dos -Morros, que então só se podião queixar da falta de -sal, essa mesma até certo ponto minorada pela exploração -dos barreiros e terrenos salitrosos, tão abundantes -em todo o sul de Matto-Grosso.</p> - -<p>Pacalalá tinha-se formado uma verdadeira especialidade -na obtenção de bois para o córte. Era o mais -ousado em descer á planicie, ficando ali sem receio -dias inteiros a escolher as rezes que contava -agarrar. Com alguns companheiros bem armados chegou -a levar oito e mais animaes, tendo sempre a cautéla -de esconder as suas pégadas ou de deixal-as apparentes, -quando n’isso via vantagem.</p> - -<p>Uma vez porém, em principios de 1866 foi perseguido -de perto por uma ronda paraguaya.</p> - -<p>Seis kinikináos tocavão umas rezes emcambulhadas, -quando Pacalalá reconheceu que ião ser atacados. O<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span> -lugar, porém, prestava-se á resistencia: era já na -fralda da montanha e a trilha de subida serpeava por -denso matagal de taquarissima.</p> - -<p>Destacando dous indios para continuarem a tanger -o gado, Pacalalá com os outros esperou a ronda n’um -angusto pedregoso, e de um tiro certeiro derrubou o -paraguayo que vinha abrindo caminho na frente dos -mais soldados.</p> - -<p>A ronda recuou precipitadamente, deixando como -trophéos de victoria não só o cadaver do companheiro -como o cavallo que montava.</p> - -<p>Grave agitação produzio nos acampamentos dos -Morros a chegada de Pacalalá todo cheio de seu -triumpho e trazendo atado á cauda do animal o corpo -do inimigo.</p> - -<p>Uns possuirão-se de pavor tal, cuidando n’um proximo -e formal ataque dos paraguayos, que, abandonando -os seus ranchos e roçados, atirarão-se pelas -matas a procurar novo refugio: outros, pelo contrario -virão n’esse successo maior garantia para a sua segurança -e cobrirão o vencedor de felicitações e elogios. -Sobre o cadaver do paraguayo, exercitou-se a alegria -selvatica de todos os indios: cada qual á porfia vinha -embeber nas carnes pisadas pelo arrastamento facões -e espadas, e o corpo espicaçado, mutilado e já sem -forma foi por fim atirado aos cães e corvos.</p> - -<p>Como consequencia d’aquelle encontro tornarão-se -as descidas dos Morros mais frequentes e ousadas, e os -paraguayos mais cautelosos e receiosos de emboscadas -e estratagemas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span></p> - -<p>Pacalalá ia já pescar no rio Aquiadauána distante -umas 16 leguas e ficava muitos e muitos dias entretido -em preparar e seccar os saborosos pacús, que -abundão n’aquelle rio. Era isso tanto mais arriscado -quanto vigiadas pelas rondas dos paraguayos as margens -do caudal, a que davão o nome de Rio-Branco e -que impunhão como divisa do novo districto annexado -á republica sob o titulo de Mbotetiû.</p> - -<p>As temeridades do kinikináo devião necessariamente -trazer um novo encontro e esse deu-se com -proporções tão vastas em relação aos que n’elle se -empenharão que póde ser considerado como o feito -de guerra mais importante durante todo o periodo -de occupação.</p> - -<p>Foi em Maio de 1866.</p> - -<p>No porto de D. Maria Domingas á margem direita -do rio Aquiadauána, existia um extenso cannavial que -era o objecto da cubiça dos indios muito inclinados ás -substancias assucaradas.</p> - -<p>Pacalalá formou o projecto de ir fazer rapaduras no -proprio lugar e, convidando seis kinikináos e dez terenos, -poude encetar com felicidade o seu trabalho.</p> - -<p>Passarão-se alguns dias sem novidade, mas ou pelo -natural abandono de medidas cautelosas quando nada -parece dever prescrevel-as, ou por casualidade, forão -os indios, sem o saberem, presentidos por uma ronda -inimiga, que rodeou em distancia a mata e mandou -pedir reforço ao posto do Souza, d’ahi a 6 legoas.</p> - -<p>Vierão perto de duzentos homens.</p> - -<p>Os indios, quando se virão cercados, desanimarão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p> - -<p>Foi necessario que Pacalalá, correndo de um em um, -os incitasse, mostrasse-lhes a vantagem da posição e -emfim a necessidade de se defenderem de quem por -certo não daria quartel a nenhum d’elles.</p> - -<p>Armas não lhes faltavão, nem munições nem dextreza.</p> - -<p>Cumpria, pois, não fraquear e não desperdiçar tiros.</p> - -<p>Avançando então para a orla da mata, Pacalalá collocou -cada companheiro atraz de arvores grossas e -aconselhou-lhes pegar bem a pontaria antes de fazerem -fogo.</p> - -<p>Os paraguayos estavão a pouca distancia formados -em linha na planicie, assim pois os primeiros tiros -derrubarão de uma vez para mais de uma duzia -d’elles. Responderão com uma descarga geral, cujas -balas forão só varar troncos e cortar galhada.</p> - -<p>Os indios recuarão então, ganhando o interior da -mata. Perseguidos por uma companhia de infantaria -acolherão-na por modo tal que a obrigarão a retroceder.</p> - -<p>Pacalalá multiplicára-se durante a acção: em toda -parte se achava para exaltar o animo de cada combatente -e melhor aproveitar os esforços e crescente enthusiasmo -dos seus commandados.</p> - -<p>Mas, quando o inimigo se retirou aterrado, levando -os feridos e mortos e suppondo haver-se batido -contra uma tribu de endiabrados, Pacalalá, o valente, -a gloria dos kinikináos, o orgulho de Camiran, -não poude cantar victoria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p> - -<p>Ao passar de uma arvore para outra, uma bala o -tocára no meio da testa e o atirára sem vida no chão.</p> - -<p>Essa morte, no fim do combate, encheu os indios -de pavor e, quando a noute cahio, elles fugirão todos -sem levar sequer uma das rapaduras que tão caro -lhes havia custádo.</p> - -<p>Apenas chegou a infausta noticia aos aldeamentos -dos Morros, levantou-se uma grita immensa. As -moças kinikináos cortarão logo os cabellos na altura -das orelhas e tirarão de si qualquer enfeite de ouro e -prata que ainda conservavão.</p> - -<p>A choupana de Camiran foi invadida e n’ella se erguerão -gritos agudissimos, soltos pelo mulherio e -crianças.</p> - -<p>A desgraçada mãe parecia esmagada pela dôr. Nem -sequer podia, como é de uso entre os seus, guiar as -lamentações e contar as proezas e virtudes do morto.</p> - -<p>Estava anniquilada.</p> - -<p>Com a cabeça pensa sobre o peito, nada via, nada -ouvia. Não chorava, não podia chorar, mas desde -aquelles momentos sentio que não podia mais viver.</p> - -<p>É n’um estado de quasi completo definhamento -que encontramos Camiran no principio d’esta narração -veridica em quasi todos os pontos e que terá o -merecimento de fallar, pela primeira e talvez unica vez, -na historia do quanto soffrerão os refugiados de Miranda, -e sobretudo nas façanhas do desconhecido Pacalalá.</p> - -<p>O combate do porto de Maria Domingas—que combate -deve ser o qualificativo adequado áquelle encontro—fez -com que, durante muitos mezes, cessasem as<span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span> -correrias dos indios até as planicies e mata do Aquidauána.</p> - -<p>Afinal recomeçarão ellas, e um terena achou-se com -coragem para se arriscar até o lugar em que havia -valentemente guerreado.</p> - -<p>Trouxe a noticia de que o cadaver de Pacalalá não -soffrera decomposição, mas estava secco e mirrado -como se fôra uma mumia<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a>.</p> - -<p>Com isso novamente alvorotou-se o aldeamento -kinikináo. Forão gritos horriveis, gemidos, ululações -que se ouvião em distancia consideravel.</p> - -<p>Camiran, que passara todo aquelle tempo, longos e -longos mezes, mergulhada na dôr que a ia matando, -foi consultar um feiticeiro e saber o que significava -aquillo.</p> - -<p>O nigromante declarou-lhe positivamente que -aquelle corpo, emquanto não fosse enterrado, reteria -em duro captiveiro a alma de Pacalalá.</p> - -<p>Então Camiran tomou inabalavel resolução: ir entregar -o cadaver do filho á terra.</p> - -<p>Sem dizer nada a ninguem, desappareceu da -aldêa.</p> - -<p>Caminhou ou melhor arrastou o debil corpo até o -porto de D. Maria Domingas.</p> - -<p>Quando avistou aquelle cadaver amado, pareceo-lhe -que a natureza toda, as arvores, os montes, os<span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span> -rios, soltavão um brado unisono de agonia, e que o -seu coração era o unico e immenso echo.</p> - -<p>Cahio desfallecida....</p> - -<p>Quantas horas ficou assim, ninguem sabe.</p> - -<p>Depois se ergueo a muito custo.</p> - -<p>Não levára alimento algum.</p> - -<p>Nem tão pouco ferro com que abrir a cóva em que -devia deitar o guerreiro morto.</p> - -<p>Com um páo e mais ainda com as unhas cavou um -pouco o chão e já quasi sem forças suspendeu o cadaver -ressicado e o estendeu no leito derradeiro que -lhe preparára.</p> - -<p>Quando Camiran começou a empurrar a terra solta, -os seus braços, finos como gomos de canniço, recusarão-se -ao movimento; o seu corpo dobrou-se todo -e ella, inerte, moribunda, cahio sobre aquella sepultura -mal fechada. Ainda nos derradeiros e desacordados -estremecimentos, as suas mãos convulsas -chamavão a terra para junto de si.</p> - -<p>A noute envolveu no manto mysterioso das sombras -as ultimas dôres d’aquelle coração, e quando o sol, -na manhã seguinte, irrompeo deslumbrante, os seus -raios não alumiarão mais a mãe ao lado do filho, mas -tão somente dous cadaveres que, ao calor que d’elles -recebião, ião-se fundir no gigantesco cadinho que se -chama a natureza!</p> - -<p class="fim">FIM DE CAMIRAN A KINIKINÁO.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span></p> - -<h2 id="O_VIGARIO_DAS_DORES">O VIGARIO DAS DORES</h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p> - -<h3>O VIGARIO DAS DORES</h3> - -<p>O vigario da villa das Dôres do Rio-Verde, vulgarmente -chamada villa das Aboboras, na provincia de -Goyaz, era um padre respeitado e que gozava da estima -e da consideração de todos os seus freguezes.</p> - -<p>Passava por ser homem de muitas letras, e raramente -era visto sem ter entre mãos um livro que -ora lia com attenção, ora parecia provocar-lhe longas -e sérias meditações.</p> - -<p>N’essas occasiões, quasi sempre á tarde, passeava o -padre Monte—assim se chamava elle—no adro da -modesta igrejinha que serve de matriz á villa, e -que se projecta no azul do céo, pois o sagrado edificio -fica no alto de uma collina, a cuja fralda se estendem -as casas da povoação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span></p> - -<p>—Ahi está o nosso vigario pensando em Deus, -dizião as mulheres, seguindo com os olhos o clérigo -em seu limitado passeio quanto lhes permittia o pallôr -do crespusculo.</p> - -<p>Elle chegára de pouco á villa e apezar da physionomia -melancolica e quasi sombria havia logo colhido as -affeições geraes pela doçura de trato e amenidade de -palavra. Era homem alto, pallido de rosto, com olhar -vivo e expressivo e testa larga abrindo em calva.</p> - -<p>Teria quando muito trinta e tres annos, mas rugas -prematuras havião lhe já impresso na fronte os sulcos -da preoccupação e do soffrimento interno. Fôra educado -em S. Paulo pela caridade de uns padres, por isso -que, reduzido pela orphandade á mais completa miseria, -nunca tivéra amparo de paes ou de parente algum.</p> - -<p>Quando concluio o seu curso de latinidade e francez, -abraçou, por gratidão áquelles que o havião socorrido -e por não ter outra vida que seguir, a carreira -ecclesiastica e sem commoção alguma achou-se de -ordens tomadas.</p> - -<p>Sentira gosto pelo estudo e, manuseando sempre os -seus livros classicos ou theologicos e cumprindo regularmente -com os deveres de sua profissão passou -alguns annos sem dar motivo algum para que os seus -protectores se arrependessem do diminuto apoio que -lhe havião dispensado.</p> - -<p>Coadjutor de uma das igrejas parochiaes de S. Paulo, -ganhava bastante para cobrir os reduzidos gastos que -comsigo fazia, recusando com modestia e naturalidade<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -de seus proventos tudo quanto podesse sahir do bolsinho -dos pobres.</p> - -<p>Sempre prompto para acudir ás necessidades espirituaes -de quem o procurasse, era o padre Monte um -bello modelo de virtude christã. O seu espirito benevolo -não admittia exagerações em materia religiosa, -mas a pratica de uma vida sã desafiava a qualquer que -tentasse apontal-o como desprezador dos mais insignificantes -preceitos do ritual.</p> - -<p>Entretanto, ao passo que todos lhe pagavão o maior -tributo de veneração, havia alguem que conhecia uma -falha profunda naquelle caracter honesto e amigo do -dever.</p> - -<p>Era elle mesmo.</p> - -<p>O padre Monte sabia, e tinha consciencia, de que -praticava o bem com satisfação e alegria; conhecia -a nobreza natural de seus sentimentos; repellia o mal, -como o herminho foge do lôdo, mas não sentia em si -essa uncção, esse fogo sagrado, essa crença immensa -que elle suppunha necessaria para bem cumprir com -a missão que as circumstancias, mais do que a vontade, -lhe havião imposto.</p> - -<p>Quantas vezes, ao celebrar o santo sacrificio da -missa, não era obrigado a fazer um esforço sobre -si para chamar a attenção que lhe ia fugindo e retel-a, -sobre os versiculos que os labios ião machinalmente -recitando? Quantas vezes não sentio elle frôxos os -braços, quando erguia a hostia divina ou o calix que -ia receber o corpo e sangue do Senhor! De certo não -erão elles o devido sustentaculo para tanta grandeza...<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span> -Faltavão-lhes aquellas fibras que irradiadas do coração -estremecem ao impulso gigante da fé.</p> - -<p>O padre Monte procurava debalde conforto na -oração, no estudo e na meditação dos textos sagrados.</p> - -<p>O anjo das trevas fazia penetrar até no seu espirito -a duvida, tunica tremenda, cilicio de dôres que lhe -constringião o peito a tirar-lhe o folego.</p> - -<p>Então de seus olhos rompião lagrimas ardentes, e -só no somno—o grande procrastinador do soffrimento—é -que achava refugio.</p> - -<p>Não houve uma unica d’essas occasiões, em que na -sua mente se reproduzião os tormentos de Santo Antonio -e S. Jeronymo no fundo da Thebaida, que lhe podesse -lembrar uma victoria completa sobre si, e lhe -proporcionasse d’essas alegrias immensas que cercão -os triumphos completos.</p> - -<p>Havia no imo do seu peito como que uma recordação -vaga do mundo que elle não conhecia, como -que um desgosto em vêr-se arredado de prazeres inebriantes -e idéados, uma aspiração inquieta, uns fermentos -de revolta.</p> - -<p>Odiando a hypocrisia, fugindo da dissimulação, recebia -o padre Monte as homenagens á sua virtude -como outros tantos sarcasmos, castigo cruel para a -sua alma indomada senão indomavel.</p> - -<p>N’essa disposição de espirito, facil era vêr em tudo o -peccado, odial-o em cada passo da vida e, abrindo lucta -com elle, não sahir sempre vencedor.</p> - -<p>D’ahi terrores sem fim, macerações, lagrimas: d’ahi -incerteza do futuro e pavor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span></p> - -<p>O padre Monte quizéra ser o clerigo que a sua consciencia -lhe retratava; era tão sómente aquelle que -pautava o seu procedimento pelas restrictas regras que -devêra seguir, e assim mesmo quanto já se distinguia -d’entre os seus companheiros, quanto subira no conceito -dos outros, da população e de seus superiores!...</p> - -<p>Um dia elle suppôz-se perdido e durante algumas -horas arrependeo-se profunda e amargamente de não -haver consultado o coração e as forças antes de se -alistar na milicia de Deos.</p> - -<p>Foi com a vista de uma mulher.</p> - -<p>Estava elle dizendo missa com a severidade habitual -e até n’aquelle dia não fôra assaltado das criminosas -distracções. Ao voltar-se, porém, no altar para -abençoar o povo sentio um abalo immenso, produzido -por dous olhos cravados n’elle, olhos tão grandes, -languidos e cheios de fervor que a vista se lhe turvou. -Desde aquelle momento não soube mais o que fazia.</p> - -<p>Suas mãos tremião; o sangue affluio-lhe ao coração -e tropego desceu os degráos do altar. Nem sequer se -ajoelhou como despedida ao lugar em que havia sacrificado; -nem sequer podia orar para affastar do espirito -vacillante aquella fascinadora visão.</p> - -<p>Despio ás pressas as vestes sacerdotaes e voltou ao -adro da igreja.</p> - -<p>Levantava-se então a possuidora daquelles olhos -perigosos.</p> - -<p>Era uma d’essas infelizes que desfolhão as corollas -de sua belleza ao sopro gélido da prostituição.</p> - -<p>O padre Monte voltou á sachristia possuido de terror.<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -Pedio logo confissão a um velho sacerdote e aos pés -d’elle abrio o coração macerado.</p> - -<p>Fallou; contou tudo quanto soffrera; descortinou -os padecimentos de sua alma timorata; as duvidas -que lhe assaltavão a intelligencia; a luta que -travára com a vacillação; o desejo ardente de crença, -de fé viva, de convicção, e desfeito em lagrimas revelou -a sua ultima e grave macula, que parecia aos seus -olhos ir cada vez mais crescendo para devoral-o, -tragal-o como abysmo insondavel e a que não podia -fugir.</p> - -<p>A querer dar consolo áquelle espirito malferido e -podel-o fortificar, fôra necessario se identificar -com elle para então de sangue frio arcar com cada -um de seus terrores e em cada angustia levar com -delicadeza o balsamo do bom conselho.</p> - -<p>O velho padre era intelligente, mas faltou-lhe esse -tacto, a intuição do argumento amoroso que se insinua -e não se impõe. A sua pratica foi dialectica e -não convincente; demais elle pareceo não dar a devida -importancia a todos aquelles factos intimos, e -tratou-os senão como abusões, pelo menos como trerores -de uma consciencia exageradamente meticulosa.</p> - -<p>O padre Monte levantou-se do confessionario ainda -mais afflicto. Passou uma noite horrivel, ora entregue -aos remorsos cruentos que a sua imaginação alimentára, -ora possuido do influxo demoniaco que lhe -soprava ao ouvido o peccado com todos os seus -gozos. Então via distinctamente a bella Samaritana<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -cujos olhos, queimando-lhe o peito, o attrahião -com poder sobrenatural.</p> - -<p>O seu passado de pureza levantava-se todo para -protestar contra essa tentação, mas não havia resistir: -todos os musculos de seu corpo estremecião e a -mente em fogo parecia um volcão.</p> - -<p>Era uma hora da madrugada. Ventava frio e a -noute estava sombria.</p> - -<p>O padre Monte vestio-se apressadamente ardendo -em febre.</p> - -<p>No momento porém de pôr a mão sobre a chave -e empurrar a porta, que para elle ia abrir-se no caminho -do crime, sentio as pernas lhe faltarem e -cahio desmaiado profundamente no chão da soleira.</p> - -<p>Fôra sem duvida tocado pelo dedo irado do seu -anjo da guarda, que já não podia vencer o espirito das -trevas.</p> - -<p>No dia seguinte o padre Monte tomou uma resolução -heroica.</p> - -<p>O bispo de Goyaz precisava de um vigario para a -parochia das Dôres do Rio Verde, sertão pouco povoado -e ao sul daquella provincia tão bem dotada pela -natureza, quão mal aproveitada pelos homens.</p> - -<p>Elle apresentou-se candidato á vigararia e sem difficuldade -a conseguio.</p> - -<p>—No deserto, pensava o padre, heide domar esses -movimentos revoltos. Ficarei como a rocha que se -não vive, pelo menos não sente.</p> - -<p>Justamente estava a partir uma tropa carregada de -sal com destino á capital de Goyaz. Monte sahio de<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span> -S. Paulo por uma tarde amena e disse-lhe o adeos -ultimo—ultimo tinha elle certeza!—do alto do outeiro -de Nossa Senhora do Ó.</p> - -<p>Essa capella, motivo das romarias dos devotos, fica -a 2 leguas da cidade e assenta n’uma cumiada d’onde -se descortinão vastos horisontes. Para o sul avistão-se -as torres das igrejas e algum edificio mais elevado da -antiga Piratininga; para o norte só se veêm campos -accidentados, incultos e que parecem o portico do -deserto.</p> - -<p>O padre Monte olhou largo tempo para as bandas -da cidade, e os seus olhos se arrazarão de lagrimas -que ainda cahião como que inconscientes, quando elle -ha muito caminhava pela estrada larga e barrenta que -leva a Campinas.</p> - -<p>A viagem pelas provincias de S. Paulo, pelo canto -occidental de Minas e por parte de Goyaz, servio-lhe -de agradavel diversão e pouco e pouco foi incutindo -em seu espirito uma tranquillidade que desde -muitos annos já não conhecia.</p> - -<p>As bonitas perspectivas multiplicão-se com uma -variedade extraordinaria. Ora é o cerrote de Matto-Grosso -d’onde a vista goza uma das mais lindas -paisagens, ora são os encantos proprios de cada lugar -de pousada. Aqui é o campo das Cruzes, logo -ao sahir de Mogiguassú, como que destinado pela -natureza para uma gigantesca cidade, tão plano -e vasto é elle; alli são as aguas puras e borbulhantes -dos ribeirões; mais diante fica a villa da -Casa Branca, mimosa e faceira, cercada de grama<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -miuda e sempre verde; durante leguas inteiras é a -vista de cerrados ennegrecidos pelo fogo, ou então de -campinas desabrigadas mas todas abundantes em corregos -encachoeirados e crystallinos.</p> - -<p>Como atalaia principal do norte de S. Paulo, alteia-se -a cidade da Franca do Imperador, tão celebre outr’or -pelos seus crimes e disturbios. O seu aspecto de longe -é o mais agradavel possivel, pois corôa a chapada perfeitamente -nivelada de uma elevada collina, cujas -fraldas vem morrer em campo limpo. A sopé corre -um ribeirão, e as casas parecem encravadas em densa -matta de laranjaes e bananeiras.</p> - -<p>Algumas leguas adiante está o limite de S. Paulo, -riscado pelo rio Grande que já ahi vai tomando apparencia -do imponente Paraná.</p> - -<p>Depois entra-se em Minas-Geraes, no que chamavão -sertão da Farinha Podre e que hoje constitue as comarcas -do Prata e Paraná: um angulo agudo, cujos -lados são os dous rios Grande e Paranahyba. Quasi -na linha bissectriz fica a cidade de Uberaba, cheia de -altos e baixos, regada, em todos os seus pontos, de -agua nunca turvada, a qual brota de um chão ferreo e -poroso. Quando as tropas de animaes entrão pela rua -Direita, levantão-se então nuvens de pó amarello que -se agarra a todos os objectos e dá uma côr nova á -camisa já matizada e barrenta do tropeiro.</p> - -<p>Depois de Uberaba, muda a apparencia dos campos: -a vegetação é outra. Amiudão-se os grupos de magestosos -boritys, essas bellas e melancolicas palmeiras que -desde então acompanhão o viajante até o fundo de<span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span> -Matto Grosso e só o abandonão na fronteira do Paraguay, -palmeiras que, uma vez vistas, não podem ser -confundidas com alguma outra e que deixão, no -espirito de quem se acostumou a admiral-as, uma -verdadeira saudade.</p> - -<p>A divisa de Minas Geraes é o rio Paranahyba, que -justifica o seu nome indigena—largo e claro.—É largo -e claro no estado normal; aguas espraiadas e limpidas; -aqui translucidas, alli verdejantes ou azuladas: -é immenso e revolto no tempo das enchentes e assoberba -as margens que se erguem a muitas braças -acima do nivel.</p> - -<p>Penetra-se então em Goyaz que de si irradia duas -arterias collossaes, o Araguaya e o Tocantins, como -se fôra o coração do Brasil; mas coração pelo amor -e affeição que dedica á patria commum, pela singeleza -de aspirações, pela cordura e sinceridade, -não pela força que não tem, nem póde dar ao -corpo todo.</p> - -<p>A provincia de Goyaz contém em si ouro em profusão, -diamantes, pedras preciosas, capazes de offuscar os -thesouros da Persia e da India; possue mineraes riquissimos -que alimentarião industrias possantes, campos -para toda a especie de actividade humana, e entretanto -é pobre, é pauperrima, não como o avaro que morre de -fome acocorado sobre os seus milhões, mas como -essas intelligencias ricas que nada produzem porque -para ellas nunca chegou a cultura.</p> - -<p>Tudo parece lhe augurar um futuro risonho, mas é -só no futuro, e ninguem poderá ainda dizer quando<span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span> -hade raiar o dia em que um começo de realidade -possa vir dar mais alento á esperança.</p> - -<p>Abençoados aquelles que não desanimão, abençoados -porque os seus esforços, quando nada consigão, serão -um legado precioso que, augmentado pelos annos, rasgará, -por entre todas as difficuldades das distancias, -da solidão, da má vontade, do torpor e da descrença, -caminho á prosperidade daquellas opulentissimas e -incultas zonas!</p> - -<p>A provincia de Goyaz parece-se com aquella formosa -princeza da fabula que devia dormir seculos inteiros -até que do fatidico somno a viessem acordar os -emissarios de um genio bondadoso e amigo.</p> - -<p>Esses emissarios serão o vapor e a electricidade. O -sybilar da locomotiva e a letra telegraphica sacudirão a -bella adormecida que poderá de prompto recompensar -a quem a chamar á vida com riquezas inestimaveis.</p> - -<p>Por emquanto Goyaz desfructa socego não perturbado.</p> - -<p>As suas posses são pequenas; nem sequer tira de -si com que cobrir as mais urgentes despezas, mas em -compensação guarda no intimo esses thesouros de -hospitalidade e lhaneza que até no proprio Brasil já -vão se tornando raros.</p> - -<p>Depois de viagem sempre agradavel mas demorada, -o padre Monte chegou á capital da provincia e -fez, um mez depois, a sua entrada na villa das Dôres -do Rio Verde, tomando logo conta da vigararia.</p> - -<p>Nos primeiros dias de installação, passou o tempo<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span> -em inspecções e passeios. O processo de occupação -era breve e limitados os pontos de recreio.</p> - -<p>A villa, edificada na primeira dobra de um outeiro -em cujo alto está a igreja, consta de uma rua unica e -tortuosa, larga aqui, estreita adiante e com casinholas -cobertas de sapé de um e de outro lado. Uma unica de -telha tem á porta uma taboleta que parecêra gangenta -se não cahisse de velha, annunciando ser ahi a -camara municipal, mas está tão esburacada e suja que -ninguem lhe daria outra denominação que não a de -pardieiro.</p> - -<p>Estrada para passeio só ha a geral; fita larga -barreada ou areenta que vai se desdobrando por sobre -campos quasi uniformes em seus accidentes.</p> - -<p>Uma vez de posse da choupana que devia lhe servir -desde então de morada, e acalmada aquella agitação -que acompanha todo o estabelecimento novo, sentio-se -o padre Monte tomado de uma immensa melancolia.</p> - -<p>Não erão recordações de S. Paulo; elle as tinha -pouco agradaveis. Não era a lembrança daquella -mulher; os ventos do sertão havião desfolhado uma -a uma as paginas do innocente segredo que não lhe -sahíra do peito senão para cahir no ouvido do confessor.</p> - -<p>Era o sentimento do vacuo, e mais do que isso o -peso da vida, de uma vida que lhe parecia sem mira e -por demais longa.</p> - -<p>Os seus deveres, para assim dizer officiaes, erão os -mais restrictos possivel: dizer missa aos domingos, -baptisar raras vezes, casar ainda menos, tudo n’uma<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span> -igrejinha, mais capella do que outra cousa, quasi em -ruinas e para cuja reparação não havia dinheiro.</p> - -<p>Os habitantes da villa e dos arredores distinguião-se -pela amenidade de costumes e uniformidade de habitos; -mas, uma vez ouvida a missa do domingo, não se -occupavão mais de religião. O pae, o avô, o bisavô, -havião ido á igreja no dia do descanso: elles tambem -lá ião, tanto mais que era um ponto de reunião para -trocarem algumas palavras uns com os outros e -assim romper-se a monotonia das semanas.</p> - -<p>Um outro sacerdote mais dominador do que o padre -Monte, ou mais ambicioso, teria procurado reagir -contra essa apathia espiritual, incutindo nos seus freguezes -algum fervor, reconstruindo o templo como -podesse, fiscalisando os casamentos, provocando-os no -seio das familias, chamando promptamente as crianças -ao baptismo, fazendo viagens em torno para prégar e -avivar a fé, avigorando a vontade dos fracos, quebrando -o torpôr moral de todos e impondo-se pela sua -exigencia e energia. Se alguma cousa, porém, faltava -ao novo vigario era justamente a energia.</p> - -<p>Nisso é que está a força dos capuchinhos que percorrem -o interior do Brasil: é pela violencia com que -sacodem as naturezas apathicas do sertão e actuão -sobre as imaginações.</p> - -<p>Conscienciosamente o padre Monte tentou fazer alguma -cousa naquelle piedoso sentido, mas desanimou -logo. Era preciso travar lucta, e elle não tinha bastante -firmeza para fallar com efficacia a um povo quasi -indifferente á verdadeira doutrina, e entregue ás<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span> -superstições que abafavão-lhe a religião como a má -herva tira o alento e vida á planta benefica, mas descurada.</p> - -<p>O vigario teve até medo de que as trevas que o rodeavão -e que logo presentio lhe damnificassem o proprio -espirito, já por si inerte.</p> - -<p>Nas primeiras missas que celebrou procurou na -linguagem a mais singela explicar o Evangelho, mas -notou no seu auditorio, desacostumado ás praticas, -certa sorpreza que com pouco se tornou em desatenção. -Ninguem sahio de seu lugar: todos tinhão os -olhos postos no pregador, mas não precisava ser -observador fino para reconhecer que, se alli estavão -corpos, as almas conservavão-se perfeitamente alheias -ao que lhes era ensinado.</p> - -<p>A palavra do vigario não echoava; não ameaçava; -não suscitava remorsos; não penetrava no intimo das -consciencias como o ferro do cirurgião na carne viva -do paciente; não assoalhava miserias, escandalos e -torpezas; não profligava; não mostrava o Creador -como um Deos carrancudo e vingador; por isso -ninguem o ouvia para estremecer e arrepender-se...</p> - -<p>Ah! se fôra um capuchinho italiano que em linguagem -virulenta e estropeada estivesse fallando!... -Todos ficarião aterrados, cabisbaixos, possuidos de -suas palavras e pensos á sua boca cheia de ameaças!...</p> - -<p>Mas tambem esse andaria a par das intrigas do povoado, -saberia de todos os mexericos para, armado do -poder da bisbilhotice, rasgar, como se diz vulgarmente, -o capote aos delinquentes ou pelo menos zurzir os<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -peccadores com allusões tão directas a uma determinada -pessoa que equivaleria á sua exposição em pelourinho.</p> - -<p>Para isso não servia de certo o padre Monte. Além -da natural altivez de sentimento que o arredava de -intrometter-se no jogo calunioso de aldêa, não poderia -nunca, do alto do pulpito, individualisar faltas, -para assim grangear a attenção dos que o ouvião e -dominar o seu rebanho por meio do terror.</p> - -<p>Tambem as suas praticas não erão seguidas senão -por consideração á cathegoria official de quem as -fazia.</p> - -<p>Esta certeza tinha elle.</p> - -<p>D’ahi um desanimo immenso e, alguns domingos -depois da sua chegada, a cessação completa de explicação -do Evangelho no meio da missa. Para desencargo -de consciencia elle a fazia antes de começar a celebrar, -e notava que só algumas velhas devotas é que o vinhão -ouvir, acocoradas em cantos e com ar de estupida -contemplação. O resto dos freguezes calculára pouco -mais ou menos o momento em que entrava a missa -para então ir ter á igreja.</p> - -<p>—Fôra preciso, dizia o padre Monte para desculpar-se -aos seus proprios olhos, fazer milagres, tocar-se -esta gente insensivel pelo sobrenatural e, traspassando -a dura epiderme, penetrar com o auxilio do influxo -divino até os seus corações.</p> - -<p>Não; não era a força thaumamturgica que faltava ao -desacoroçoado sacerdote; era a força de vontade, essa -alavanca inquebrantavel que produz milagres espantosos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span></p> - -<p>Entretanto os mezes iam passando e nada perturbava -nem podia perturbar a monotonia da vida que se vivia -na villa das Aboboras.</p> - -<p>O vigario cada vez mais se desapegára das suas -ovelhas que, respeitando-o sinceramente, nunca o -procuravão comtudo, nem mostravão ter grande necessidade -de sua presença.</p> - -<p>—O nosso padre é um santo homem, dizião na -villa, mas é um exquisitão.</p> - -<p>Já dissemos que a igreja domina a povoação e campos -vastos em torno.</p> - -<p>Quantas vezes ficava o padre Monte olhando vagamente -para aquellas extensões, e sem presentir, era sorprehendido -pela escuridão! Havia dias em que, á -tarde, estudava as gradações de côres que, estendendo-se -pela campina alongada, se esbatião umas nas -outras até se fundirem todas na luz crepuscular.</p> - -<p>E sempre a mesma cousa!</p> - -<p>Quando a atmosphera estava nublada pela fumaça -das queimadas, então subia de ponto a tristeza do -painel. Não havia mais aquelles matizes: o ar incinerado -uniformava todos os aspectos, até que de repente -cahia a noite.</p> - -<p>Com a alma retrahida por um pezar inexplicavel -voltava o vigario para a modesta vivenda e á luz de -uma vela de sebo lia o seu breviario.</p> - -<p>Fóra os grilos chiava estridulos, e os sapos com -um coachar sonóro formavam monotona orchestra.</p> - -<p>—Estou preenchendo tempo, dizia o padre; a virtude -não é a atonia. A virtude é a resistencia ao mal<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span> -que solicita. Aqui nada me instiga, e não sei desempenhar -o meu dever. Sou bom sem merecimento e -inutilmente.</p> - -<p>Ás vezes uma idéa fixa o atormentava. Se a igreja -permitisse ao padre o casamento, não teria elle uma -familia regular, em cujo seio se cultivasse o respeito á -religião e que serviria de norma para as outras menos -bem dotadas de intelligencia e sentimento?</p> - -<p>Mas onde estaria então o sacrificio de vida? Justamente -naquelles logares, em que o isolamento faz -medrar com tanta força o egoismo, maior seria o -abandono dos interesses de todos em prol da commodidade -da familia. Elle não seria mais do que um -funccionario publico que teria um subsidio mensal -para cumprir um determinado exercicio.</p> - -<p>Haveria talvez no sertão mais uma familia feliz, mas -o padre desappareceria. O pastor teria que obedecer á -imposição da natureza, olhando mais para umas -ovelhas do que para todo o resto do rebanho.</p> - -<p>Muito não fazia elle, mas pelo menos essa mesma -agitação, esse desgosto intimo servião-lhe de castigo -moral pelo pouco que conseguia.</p> - -<p>Se isso, com effeito, podia desculpar as falhas de -caracter do padre Monte, muito livre de culpa andava -elle.</p> - -<p>O deserto como que lhe pesava nos hombros, e, -sem molestia physica, podia-se o considerar gravemente -doente.</p> - -<p>Uma nostalgia <i>sui generis</i> o ralava noite e dia.</p> - -<p>Os livros que tinha—um Horacio e um Virgilio truncados—os<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span> -sabia de cór e salteado e nos sermões -do padre Antonio Vieira, alguns volumes desirmanados, -contára até as letras de cada lauda, o que anotára -cuidadosamente no alto das paginas.</p> - -<p>Um dia—já fazia anno e meio que chegára ao Rio -Verde—teve a velleidade de tratar da sua remoção -para outra parochia.</p> - -<p>Esta intenção o animou por algumas horas, mas -logo depois veio a reacção.</p> - -<p>Para que?</p> - -<p>Não havia elle já quasi revestido aquella couraça de -torpôr que impedira o choque da duvida, obstára á -invasão talvez da descrença? Não havia conseguido -o arrefecimento daquella ebulição de espirito, que -tanto o assustára outr’ora?</p> - -<p>Em lugar de pedir transferencia, escreveu para -Goyaz, remettendo a relação de uns livros que o seu correspondente -deveria mandar comprar no Rio de -Janeiro.</p> - -<p>Nunca lh’os enviarão; entretanto esperar por elles -tornou-se para o bom do vigario uma causa de distracção.</p> - -<p>Cada carta que recebia—e raras erão as cartas—parecia -dever-lhe trazer a noticia da proxima chegada -de sua encommenda, mas se é difficil levar livros á -Goyaz, quanto mais á villa das Dôres do Rio Verde!</p> - -<p>O acaso proporcionou-lhe, o mais inopinadamente -possivel, a satisfação de seu innocente desejo.</p> - -<p>Um tropeiro, vindo de Cuyabá, foi procura-lo.</p> - -<p>—Senhor vigario, disse-lhe o homem tirando a<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -meio o chapéo e coçando a gaforina, saberá Vossa Senhoria -que tenho na minha carga uns dous pacótes que -deviam ter ficado na mão de um sujeito de Cuyabá. -Não achei na cidade o cujo e não tendo onde deixa-los, -vim os trazendo <i>até acá</i>. Mas o trem peza e fiz tenção -de pincha-los na <i>beiradinha</i> da estrada, se alguem não -quizer ficar com eles...</p> - -<p>—Mas, filho, retorquiu o padre, que fim levou o -senhor que devia receber essa carga?</p> - -<p>—Uns me contaram que voltou para a côrte do Rio -de Janeiro, nhor-sim, outros que morreu.</p> - -<p>—E o que contem as taes caixas?</p> - -<p>—Parece que são livros da gente ler... eu cá não -sei com segurança.</p> - -<p>O vigário corou de emoção e com alguma pressa -disse:</p> - -<p>—Pois bem, pois bem, traga... eu os guardarei... -E depois, como que fazendo um esforço penoso:</p> - -<p>—Mas não será melhor que você faça a entrega a -quem enviou a encommenda?</p> - -<p>—Nhôr-não. Em Sant’Ana do Paranahyba recebi -a carga que vinha de Uberaba trazida por um tropeiro; -<i>ansim</i> ninguem poderá acertar d’onde sahiu da <i>primeira -vez</i>.</p> - -<p>—Então, concluiu o padre com um suspiro de allivio, -eu acommodarei aqueles caixotes e escreverei -para Goyaz, afim que se annuncie no <i>Correio Official</i> -o que acontece.</p> - -<p>—Isto fica a seu cuidado.</p> - -<p>Á tarde o tropeiro trouxe dois fardosinhos que<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span> -faziam a carga de um animal. Por cima delles estava -escripto a palavra livros, com endereço a um senhor -Estulano da Silva, em Cuyabá.</p> - -<p>—Será bom, avisou o homem ao depôr os caixotes -no chão, que Vossa Senhoria mande abrir este <i>trem</i>. -O cupim póde ter dado nelle: dizem que é muito <i>caroavel</i> -do papel escrevinhado na machina. Eu não -entendo disso.</p> - -<p>O padre Monte julgou dever pagar o importe do carreto. -Praticando assim, suppunha mais desculpaveis -os projectos que intimamente affagava.</p> - -<p>Quantas horas do dia ficou o nosso vigario irresoluto -a contemplar aquelles dous volumes mysteriosos, ninguem -poderia pensar. Abri-los ou não, tal era o problema -que se agitava em sua mente, ponto controverso -discutido no fôro da consciencia com mais minucia -e argumentos pró e contra, do que qualquer questão -theologica nas luctas da escolástica.</p> - -<p>Um dia, pela manhã, estava elle parado diante dos -caixotes enigmaticos com o queixo apoiado em uma -das mãos, quando viu de dentro de um delles sahir... -um cupim!</p> - -<p>Nunca nos fastos mais remotos da entomologia um -tèrmes causou tanto abalo.</p> - -<p>O padre Monte contemplou aquelle insecto com indignação -que pouco e pouco foi se transmudando em -quasi gratidão. Na verdade a sua presença era o argumento -Achilles, uma razão irrespondivel para quanto -antes levantar os sellos que guardavam o deposito e -salval-o de perda infallivel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span></p> - -<p>No momento do vigario dar a primeira martellada -para despregar o tampo do caixote, um pensamento -sombrio turvou-lhe as vistas. E se os cupins houvessem -já tudo devorado!</p> - -<p>Em fim saltáram os prégos e patenteou-se aos olhos -maravilhados do padre uma boa porção de livros, uns -grossos, outros finos, uns encadernados, outros em -brochura.</p> - -<p>Sem querer ainda ver os titulos, foi os tirando amorosamente -e, com verdadeiros affagos, levando-os para -cima de uma mesa, onde os collocou verticalmente.</p> - -<p>Estavão intactos do bicho. Aquelle cupim viéra, sem -duvida alguma, proceder a um simples reconhecimento -e providencialmente servira para acabar com as dolorosas -vacillações do vigario.</p> - -<p>Foi só á tarde, depois de ter jantado com mais appetite -do que nunca, que o padre Monte passou revista -ás obras. Havia dous volumes grossos: D. Quixote -de la Mancha, em francez; os Tres Mosqueteiros de -Alexandre Dumas em portuguez; varios folhetos, -uma historia das Missões na India e China, e Os Novissimos -do homem de S. Francisco de Salles.</p> - -<p>Apezar de alguma difficuldade em comprehender a -principio correntemente o francez, naquella mesma -noite ficou encetada a obra prima de Cervantes.</p> - -<p>O padre Monte nunca havia lido romances; por isso -semelhante livro lhe pareceu extraordinario. Aquelles -episodios multiplos e tão variados quão curiosos, aquelle -estylo simples mas valente, aquelles typos de D. -Quixote e de Sancho, tão ridiculos na apparencia mas<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -tão philosophicos e profundos na essencia, tudo o -encantava, tudo o sorprehendia, o enlevava de um -modo desconhecido.</p> - -<p>Se lhe houvessem dado a lampada de Aladino, nunca -mais bellos thesouros lhe terião deslumbrado as vistas.</p> - -<p>E a alegria franca que elle sentia, as gargalhadas -sonoras que echoavão no seu quarto, deshabituado -de semelhantes expansões!</p> - -<p>O padre Monte, no sertão do Rio Verde, justificava -o conceito de Philippe IV.</p> - -<p>Bemdito o grande Cervantes, immortal para sempre! -Pela magia de sua penna, quantos ainda poderão sorrir, -quantos por momentos esquecérão as preocupações -e os desgostos que os assaltavão!</p> - -<p>O vigario leu pausadamente o precioso livro, letra -por letra, para assim dizer. Fez como o gastronomo -que beberrica um saboroso liquor e na lentidão com -que o sorve, maior aroma e vigor n’elle descobre.</p> - -<p>D. Quixote consumiu muitos mezes: era o companheiro -inseparavel durante os passeios; o consolador -daquellas afflicções d’outr’ora quando por acaso querião -voltar; o balsamo para a tristeza e consciencia -da solidão.</p> - -<p>Depois do cavalleiro da Mancha, veio a vez do -destemido Mosqueteiro.</p> - -<p>Esse livro, o padre Monte leu n’um apice, arrastado -pela imaginação cambiante de Dumas e devorou paginas -com tanta precipitação que era ás vezes obrigado a -tornar a lêl-as para seguir o fio da embrulhada epopéa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span></p> - -<p>Um acontecimento imprevisto veiu interromper -aquellas leituras.</p> - -<p>O vigario cahiu gravemente doente.</p> - -<p>Uma tarde sahira a passeio pelos arredores da villa. -Voltou com a cabeça em fogo e, durante a noite inteira -ardeu em febre intensa. Esmagado no leito por um quebrantamento -geral e abrazado em sede, não teve nem -sequer forças para se arrastar a buscar a bilha d’agua, -de modo que supportou o tormento feroz de Tantalo, -até que pela manhã, penetrando o seu sacristão no -quarto, poude humedecer os labios seccos e grétados.</p> - -<p>Esse sacristão era um negro velho, meio apatetado -e tão nullo que o seu auxilio de nada valia para o enfermo.</p> - -<p>O padre Monte ficou entre a vida e a morte alguns -dias.</p> - -<p>Apezar de visitado por todos os moradores da villa, -pode se dizer que estava em abandono. Á noite quando -não delirava, tinha uma obsessão atroz.</p> - -<p>Parecia-lhe que a morte, sentada á cabeceira do leito, -contemplava-o cara a cara: e um silencio lugubre reinava -por toda a parte, ao passo que a véla de cebo -consumida até a base bruxoleava com luz esverdeada -no azinhavrado castiçal de cobre em que era fincada.</p> - -<p>N’essas occasiões o vigario sentia frio no coração.</p> - -<p>De que modo iria elle comparecer perante o Eterno -Julgador? Que acto de sua vida apresentaria para -contrapôr a todas as suas vacillações, a todas as falhas -de animo, ás duvidas que até sobre questões de principios -havião tumultuado em seu espirito?</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_176" id="Page_176">[176]</a></span></p> - -<p>Oh! como lhe fôra grato poder crer no aniquillamento -completo! Então a sua vida inutil e mal preenchida, -se apagaria como a d’esses animaculos ephemeros, -que nascem e morrem sem se saber para o que.</p> - -<p>Mas não!</p> - -<p>A morte se lhe afigurava como um genio alado, de -gesto severo e figura sombria, que só esperava pelo -desprendimento da alma para voar adiante d’ella e -guial-a pelos espaços do infinito.</p> - -<p>Ao longe, muito ao longe, quem sabe onde, via-se -um clarão, cuja luz apezar da distancia incommensuravel, -não podia ser fitada.</p> - -<p>Alli ficava o throno do Senhor e no ether illimitado, -indefinido, échoava uma musica suave, mas que abalava -a coragem a mais indomita e quebrava-lhe toda a -força.</p> - -<p>—Que clarão é aquelle? perguntava o vigario á -morte.</p> - -<p>O silencio é que respondia.</p> - -<p>—D’onde partem essas melodias estranhas? indagava -elle ainda.</p> - -<p>E sempre o silencio.</p> - -<p>Voavão, comtudo, sem cessar, á direita e á esquerda, -acima, abaixo, por todos os lados, almas e mais -almas que subião, subião, umas rapidas e velozes, -como anciosas de chegarem e desferindo faiscas -de luz, outras pesada e penosamente, deixando após si -um sulco escuro, quasi negro.</p> - -<p>No fim de muitos dias, o vigario das Dôres como -que acordou de um sonno profundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_177" id="Page_177">[177]</a></span></p> - -<p>Estava salvo!</p> - -<p>Uma devota attribuio as melhores a uma mésinha -que ella compuzéra com hervas do campo e diariamente -fazia quasi á força o doente tomar, mas é de -crêr que a natureza, só e unicamente, podia chamar -a si a gloria d’aquella resurreição.</p> - -<p>Em todo o caso começou uma longa convalescença, -durante a qual o padre Monte—quem o disséra!—sentio -o prazer ineffavel de voltar á vida.</p> - -<p>Esse prazer é predicado da alma, cujas aspirações -são sempre para elevar-se. Assim, pois, quando vai-se -despenhando o corpo pelo abysmo do aniquilamento -e arrastrando-a comsigo, á ella deve de certo ser -doce parar de repente e subir tudo quanto acabára de -rolar, bem que aggravada do peso do seu envoltorio -terrestre.</p> - -<p>O dia em que o vigario, com as pernas ainda fracas e -as mãos tremulas, poude dizer missa, elle experimentou -uma uncção nova, indizivel e como sempre desejára -ter sentido.</p> - -<p>N’essa disposição foi que começou a lêr as Missões da -China e India e os Novissimos do homem de S. Francisco -de Salles, livros, cuja leitura fôra adiada para -depois de esgotados os romances.</p> - -<p>Oh! como elle se retemperou n’aquella singela exposição -de sacrificios immensos, modestos, perdidos -no meio das selvas e montanhas de paizes desconhecidos! -Alli sim, alli havia fé! Erão phalanges de pregadores -que deixavão todas as regalias de cidadãos, de -homens, davão de mão a toda a possibilidade de gozo,<span class="pagenum"><a name="Page_178" id="Page_178">[178]</a></span> -de commodidade, de riquezas e glorias mundanas e -uns depois dos outros trabalhavão na obra do Senhor, -cheios de ardor e esperanças no resultado que todos -os esforços reunidos havião de produzir a final!...</p> - -<p>O padre Monte foi se penetrando de uma idéa.</p> - -<p>Já que era frôxo e incapaz em bem dirigir o espirito -de populações indifferentes, já que não podia avivar -n’ellas a fé que havião recebido dos antepassados, -e ensinar-lhes a verdadeira doutrina de Christo libertada -de todas as superstições e quasi gentillismos -com que no sertão a cercão a ignorancia e as tradições -oraes, ao menos devia procurar a gente indigena, -os filhos das selvas e fallando-lhes em Deus Salvador, -abrir os seus corações ao influxo da religião.</p> - -<p>Faria como o professor de primeiras letras. Desbastaria -a massa bruta. A outros mais valentes na -palavra, mais felizes, mais inspirados, mais energicos -e bem dotados, competia reanimar o fogo sagrado -que as cinzas frias da indifferença havião quasi abafado.</p> - -<p>Elle, iria acender esse fogo, sendo a um tempo util -á sua consciencia e á patria.</p> - -<p>Reanimado, já outro, escreveu o padre Monte para -Goyaz pedindo ser encarregado de uma missão entre -os indios bravios da provincia.</p> - -<p>A resposta foi prompta, e a villa soube que em -breve partiria o seu vigario com destino ás margens -do Tocantins a cathequisar os selvaticos e indomaveis -Canoeiros.</p> - -<p>Alguns sentirão devéras a retirada d’aquelle parocho,<span class="pagenum"><a name="Page_179" id="Page_179">[179]</a></span> -severo em seus costumes, sério e affavel, mas, -força é confessar, em geral houve indifferentismo.</p> - -<p>Não se podia ao certo mostrar o menor aggravo que -o padre Monte fizéra, mas umas velhas lembráram -que elle nunca fôra muito amigo de procissões, que -consentira o enterro de um cigano no cemiterio, não -quizéra permittir na casa de um caróla umas festas -religiosas e reprehendera severamente o sachristão -por haver vendido uns bentinhos de seu louvor.</p> - -<p>No dia da partida, pois, quando o padre Monte se -despedia de seus freguezes, houve uma só pessoa -sinceramente sensibilisada: era elle.</p> - -<p>Um mez depois entrava na cidade de Goyaz e, fazendo -entrega dos livros a um conhecido seu a quem -recommendou procurar dar-lhes direcção para o dono, -guardou só comsigo As Missões e os Fins Derradeiros -do homem. Mas antes calculára mais ou menos o -preço que poderião ter custado e poz no correio uma -carta endereçada ao Sr. Estulano da Silva, levando -dentro umas notas do Thesouro.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O padre Monte seguio para o Norte no tempo secco, -o melhor para viajar e chegou com saude ao Vão do -Paraná: depois, sem acompanhamento algum, frechou -com resolução para as mattas que os Canoeiros costumam -atravessar.</p> - -<p>Até o presente, e, já lá vão uns bons pares de -annos, não ha noticia do fim que levou: entretanto -não se deve desesperar ver ainda voltar o intrepido<span class="pagenum"><a name="Page_180" id="Page_180">[180]</a></span> -missionario, trazendo para o gremio da civilização tribus -inteiras de indios que sem a sua dedicação e coragem -vagarião pelas mattas como féras indomadas, -fugindo do contacto d’aquelles que hoje são os seus -compatriotas, são filhos da mesma terra, são, como -elles, brasileiros.</p> - -<p class="fim">FIM DO VIGARIO DAS DÔRES</p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_181" id="Page_181">[181]</a></span></p> - -<h2 id="JUCA_O_TROPEIRO">JUCA, O TROPEIRO</h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_182" id="Page_182">[182]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_183" id="Page_183">[183]</a></span></p> - -<h3>ADVERTENCIA</h3> - -<p>A autoria da presente narração pertence mais a um -ex-sargento de voluntarios de Minas, que nos disse -haver conhecido de perto o personagem que n’ella figura, -do que á nossa penna.</p> - -<p>O que fizémos foi desbastar o correr da historia de -incidentes por demais longos, de innumeros termos -familiares, e sobretudo de locuções chulas e sertanejas -que podião por vezes parecer inconvenientes. Havendo -comtudo reconhecido a originalidade e força de colorido -d’essa linguagem, e desejando conservar ainda -um que da ingenua, mas pitoresca expressão do narrador, -resultou uma cousa esquesita, nem como era -quando contada pelo ex-sargento, nem como devéra -ser, sahida da mão de quem se atira a escrever para -o publico.</p> - -<p>Batemos de arrependido nos peitos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_184" id="Page_184">[184]</a></span></p> - -<hr class="chap" /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_185" id="Page_185">[185]</a></span></p> - -<h3>JUCA, O TROPEIRO</h3> - -<h4>I</h4> - -<p>Devéras, camaradas, Juca Ventura, filho de Minas -Geraes e tropeiro desde em menino, era um companheirão, -alegre e estimado, como nenhum outro nas -tropas que costumam botar cargas para Goyaz e Matto -Grosso e trabalhar n’aquelles sertões brutos.</p> - -<p>Noute e dia estava prompto para rir, folgar e sustentar -uma boa prosa, no que não havia quem lhe -posesse o pé adiante.</p> - -<p>Ninguem sabia como elle cantar chulas, armar um -cururú, repinicar na viola ou contar historias, umas -gaiatas que fazião estourar de riso, outras de bruxas -e mandingueiros que deixavão a gente toda arripiada -e sem vontade mais de pregar olho.</p> - -<p>Uma só cousa o aborrecia. Era quando lhe faltava -o serviço, mas isso era tão raro que bem poucos poderião -dizer tel-o visto calado e amofinado.</p> - -<p>Não havia capataz que o não desejasse em sua -tropa, porque não era só de lingoa que elle fazia bichas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_186" id="Page_186">[186]</a></span></p> - -<p>Não, senhor. Quando chegava a hora de trabalho -grosso, não se contava um, por mais pintado que -fosse, que deitasse mais barro á parede. Lá isso de -atalhar uma cangalha, de lidar com volumes, arrôxar -a sobrecarga, acolheirar animaes ou pêal-os, sangral-os, -remexer pastos, arrumar no pouso as cargas, -arranjal-as nos ranchos bem cobertinhas com os -ligaes por causa da chuva e da humidade, era elle -mestre e tudo n’um sopro. Emquanto o diabo esfregava -um olho, Juca Ventura já tinha feito muita -cousa.</p> - -<p>E forte de saude que parecia de ferro. Zombava -das maleitas e sezões, cortando por todo o tempo rios -cheios e cruzando <i>pantános</i> sem o menor medo de -<i>maldades</i>. Nunca se lembrára de ter tomado mesinhas -e beberagens, e dizia com gabolice que chegaria -ao fim da vida sem dar o pulso a cirurgião nenhum, -nem se quer para saber do que morria.</p> - -<p>Tambem quando elle ia atraz do seu lóte de bestas, -onze animaes gordos de encher o olho, e que se derreava -na sella com o chicóte de couro crú apoiado na -coxa, abria o peito á inspiração e lá ia por essas -estradas de Christo, cantando alto e afinado, contente -como um ricaço e cheio de si como se tivesse o -rei na barriga.</p> - -<p>Debalde o vento levantava uma <i>polvadeira</i> immensa -que lhe avermelhava a camisa e lhe grudava o cabello -ao casco da cabeça, debalde a chuva o molhava até os -ossos, debalde o sol parecia querer lhe assar a cara e -as mãos e derreter o chão, nada mudava, nem um<span class="pagenum"><a name="Page_187" id="Page_187">[187]</a></span> -nadinha, o seu genio brincador, nem fazia parar a sua -força de trabalho e expediente.</p> - -<p>Chegado que fosse ao pouso e não havia um só -n’esses fundões de Goyaz e Matto Grosso que elle deixasse -de conhecer como se em cada um d’elles houvéra -nascido e lá passado annos inteiros—chegado ao -pouso e acommodados os seus animaes, se havia matalotagem -farta, comia que mettia gosto, se não havia, -lá tomava uns bochechos d’agoa e ferrava n’um -somno gostoso como tudo.</p> - -<p>Mas ninguem se fiasse muito n’esse somno. Qualquer -barulho, por menor que fosse, o punha logo de -pé: n’isso vencia o cachorro mais desconfiado e podia -até dar sóta e basto a ganços, que são bichos de natural -vigilante.</p> - -<p>Tambem se era preciso, passava muito a gosto a -noute em claro: e no dia seguinte estava lépido e -bem disposto, como se não houvéra novidade.</p> - -<p>Quantas vezes tinha elle deixado de fechar os olhos -a contar aos camaradas historias do sertão ou a fazer -gemer a viola em cantorias e caterêtes?</p> - -<p>Nem havia conta.</p> - -<p>E com tal não padecia o serviço: nem capataz -nenhum se gabava de o haver pilhado a cochilar.</p> - -<p>Não era rapaz de brigas e mexericos: sabia dar-se -ao respeito e se não andava com os chefes e superiores -a mostrar os dentes em risótas, nem por isso era carrancudo -e malcriado.</p> - -<p>Na sua guaiáca havia sempre alguma pratinha de -sobresalente para não parecer unhas de fome e mofino<span class="pagenum"><a name="Page_188" id="Page_188">[188]</a></span> -quando tinha de pagar a pinga aos companheiros -da carreira.</p> - -<p>Nunca se mettia em pandegas grossas, nem em jogatinas -de estouro; mas ninguem o podia alcunhar de -enjoado, porque nos dias de mareta era boa perna -para o pagode.</p> - -<p>Engraçado e farçola n’isso fazia figas, tanto assim -que as raparigas dos povoados, quando chegava -alguma tropa, ião perguntar noticias de Juca Ventura, -pelo que não faltava quem levasse a mal aquellas -fallas de pura amisade.</p> - -<p>É porque n’este mundo de Deus ha muita lingoa -maldizente que quer botar malicia em tudo, malicia -que só existe no juizo enviezado e falso dos falladores.</p> - -<p>Juca Ventura, é certo, brincava com as moças das -villas e povoações, algumas até bem bonitas; mas era -negocio de simples palavreado, e nenhuma d’ellas poderia -com verdade dizer que o ouvira fallar de amor, -ou fazer alguma promessa.</p> - -<p>Não, senhor! Quem tal dissesse, mentiria como -um perdido.</p> - -<p>Se o tropeiro era estimado, não erão só raparigas -novinhas que lhe mostravão agrado e sympathias; as -velhas tambem lhe querião bem e quando elle cruzava -por diante de qualquer casa da estrada, não -havia quem deixasse de o saudar com boas maneiras e -franqueza.</p> - -<p>E a razão era uma.</p> - -<p>É que não se passava uma viagem ou do sertão<span class="pagenum"><a name="Page_189" id="Page_189">[189]</a></span> -para o mar ou de lá para cá, em que elle viesse de -mãos abanando. Sempre trazia alguma lembrança -para as suas conhecidas, ora uma cousa, ora outra, e -houve até occasião em que deu de presente uns córtes -de fazenda fina e algumas jardas de fita muito vistosa -e larga.</p> - -<p>E depois não querião que fosse estimado!</p> - -<p>Fizessem os invejosos como elle: tratassem a todos -conforme os seus merecimentos. Mas por estes mundos -afóra não falta quem metta a catana nos mais sem -ter meios de praticar, já não se quer melhor, mas -até igual.</p> - -<p>E porque havia Juca Ventura de andar pelos caminhos -a arrastar a aza e a fazer pé de alferes pelos pousos, -como se fôra algum rufião mal intencionado que -botasse a perder as coitadinhas sem experiencia?</p> - -<p>Nada, Juca o tropeiro havia já dado o coração á -uma pessoa; e quando um homem de vergonha estima -devéras uma mulher, esse amor não consente outro: -é o unico na vida.</p> - -<p>Nem havia mais segredo.</p> - -<p>Só não sabia quem não queria, que em Uberaba é -que morava aquella moça, que se chamava Balbina -do Canto, porque o pai, sapateiro de officio e já fallecido, -havia morado n’uma esquina de becco, que ella -era rapariga de truz, morena, mas corada, de muito -proposito e composição e de quem lingoa nenhuma -tinha tido a pouca vergonha de dizer a mais pequena -cousa.</p> - -<p>Quem é que não sabia d’isso?...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_190" id="Page_190">[190]</a></span></p> - -<p>Quem é que não conhecia a mãe d’ella, D. Cula<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a>, -senhora capaz de revirar com um peteléco o patife -que quizesse vir se engraçar com a filha?</p> - -<p>Fosse lá algum mariola dizer que a Babita tinha -cabellos pretos como aza da graúna e tão compridos -que passavão alem do quadril talvez um palmo, olhos -que mechião com a gente só no revirado, nariz pequeno, -boquinha como se acabasse de comer pitangas, -fosse dizer que a sua cintura era de maribondo, o -seu andar engraçado e faceiro como andar de moça -da côrte, e havia de ter que fazer com a velha, boa -pessoa no trato quando estava para conversas, mas -zangada de uma vez nos dias de seus azeites.</p> - -<p>E querem vêr?</p> - -<p>Uma tarde, a menina estava tomando fresco n’uma -janella e D. Cula cozendo perto de outra, por detraz -da rotula fechada, porque a casa tinha duas janellas e -uma porta, por signal que tão juntinhas que não davão -para um portão largo. N’isto passa um mocinho, filho -de um capitão da guarda nacional e, tirando-se de -seus cuidados, pedio, nem mais nem menos, um -beijinho ao jambo corado—assim chamou o desavergonhado -a carinha da moça.</p> - -<p>Babita recuou toda vexada, mas quem pulou como -uma çuçuarana foi D. Cula.</p> - -<p>Sem pensar no que fazia, passou a mão n’um cabo -de vassoura, escancarou a porta e cahio de pauladas -no costado do engraçado que não foi um brinquedo.<span class="pagenum"><a name="Page_191" id="Page_191">[191]</a></span> -Em vão o moço quiz fugir, em vão resistir; só parou a -sóva quando o páo se quebrou e por cima levou elle -com os pedaços na cara.</p> - -<p>E lá se foi o gaiato sem chapéo e com a nizia -rota, acompanhado de uma vaia de conta que lhe -passárão uns meninos da vizinhança e tres camaradas -de tropa que assistirão áquelle merecido castigo.</p> - -<p>Tambem depois d’esse, ninguem mais se lembrou -de dizer graçolas a Babita, bem que todos os dias -ella fosse tomando cada vez mais corpo e ficando de -pôr agoa na boca.</p> - -<p>Tinha n’esse tempo dezesete annos, e já déra de -tábua a tres pessoas de consideração.</p> - -<p>D. Cula lhe fallára com verdade e muito assento, -mostrando que era preciso tomar estado, que ella -nem sempre havia de estar n’este mundo para dar-lhe -amparo, que emfim mais valia uma rapariga mal casada -do que bem requestada.</p> - -<p>Porque não havia ella de aceitar o Chico Luiz, que -estava já arranjado em seus negocios, tanto assim que -tinha sociedade com o Tinôco, de quem a principio -fôra caixeiro? Homem de meia idade, mas de boa figura, -procedêra sempre como pessoa de bem que merece -dos outros amizade e confiança.</p> - -<p>—Mas, mamãe, objectava Babita, elle é emboaba.</p> - -<p>—E que tem isso, filha de minha alma? D’essa -gente sahem bons maridos. Depois ha tanto tempo -que está na terra, que nem parece filho da outra -banda.</p> - -<p>—Não quero este, murmurava a rapariga.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_192" id="Page_192">[192]</a></span></p> - -<p>—Pois bem, continuava D. Cula, você não quiz -este por ser portuga. Mas porque disse não ao João -Grande, lá da Casa Branca?</p> - -<p>—Ora, um socó... e depois zarôlho...</p> - -<p>—Zarôlho, sim, mas é apatacado. O pae tem botica -e ninguem dirá que seja moço feio de todo. Outras -mais pintadas do que você, Babita, não hão de torcer -o nariz, quando elle as procurar para casamento. -Agora me diga o Mané Quetano, tambem é zarôlho? -Rapaz tão bom, tão socegado e de familia limpa! O -pae, que Deus haja, era aqui n’esta cidade, quando -ella não passava de villa, um graúdo, um tutú. Esperto -como elle só...</p> - -<p>—Então o filho não sahio ao pae... é um bocó.</p> - -<p>D. Cula costumava então abanar a cabeça.</p> - -<p>—Minha filha, dizia ella sentenciosamente, permitta -Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que você não -tire de tudo isso motivos de se arrepender. Querer -fazer boca de ouro e ter feijão preto e carne secca para -comer, são cousas que não vão juntas. Cada um deve -pedir a Deus aquillo que basta para a sua posição. Não -vá depois lhe acontecer como á Maria do Frajado, a -coitada, que do meu tempo andou se fazendo de enjoada -e, afinal, quando quiz casar, já não achou com -quem. Morreu velha e levou palma e capella em cima -do caixão. E não foi das mais infelizes, porque tem se -visto muitas cousas que fazem a gente ficar sem pinga -de sangue nas veias, só em pensar n’ellas.</p> - -<p>Babita rematava taes conversas que muito se repetião -com este estrebilho:</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_193" id="Page_193">[193]</a></span></p> - -<p>—Deixe estar, mamãesinha, eu hei de me casar.</p> - -<p>Quando Juca Ventura procurou travar conhecimento -na casa, D. Cula se mostrou meio carrancuda. O rapaz -tinha modos direitos e a sua fama era boa; mas ella -não era mulher de se fiar em apparencias e na voz dos -outros.</p> - -<p>Fez cara de poucos amigos e observou de parte a -filha.</p> - -<p>Vio que Babita corava de cada vez que o moço, todo -aceiado e faceiro, passava por diante da janella e comprimentava -com muito respeito as pessoas que lá estivessem: -vio que elle cruzava por demais n’aquellas -paragens, e ficou aborrecida, não por ser elle tropeiro, -mas por poderem as suas passadas dar na vista dos -outros e trazer fallatorios.</p> - -<p>Juca Ventura não vinha francamente tocar em negocios -de casorio, e a menina parecia estar se inclinando -muito por elle.</p> - -<p>D. Cula, pilhando-a uma vez a seguir com os olhos -o tropeiro por entre as frestas da rótula, chamou-a -a contas, mas com toda a prudencia, porque era pessoa -de experiencia e bem sabia que com mulheres -<i>enrabichadas</i><a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a>, não se deve apertar muito.</p> - -<p>—Vem cá, filha, disse ella, parece que por esta -rua anda muito um sugeito que quer se engraçar com -você.</p> - -<p>—Eu não sei, respondeu Babita com susto que -pareceu de máo agouro á mãe.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_194" id="Page_194">[194]</a></span></p> - -<p>—Ah! estou que você não reparou, mas eu cá -ainda tenho bons olhos. Quando um moço gosta -sériamente de uma rapariga que lhe póde servir de -mulher diante de Deus e dos homens, sem ter que -se <i>avexar</i> de ninguem, deve vir com sinceridades e não -fazendo modos de inquietar o descanso dos outros....</p> - -<p>—Mas ninguem me anda <i>desinquietando</i>, interrompeu -Babita meio arrufuda.</p> - -<p>—Máo, pensou lá comsigo D. Cula, a menina está -mordida...</p> - -<p>E alto continuou:</p> - -<p>—Eu não me refiro a você: fallo no geral... e, já -que estou com a mão na massa, quero lhe dar alguns -conselhos. Os homens, minha filha, são muito enganadores -e do que menos se importam é da honra e do -socego das mulheres. Deitão uns olhos de peixe morto, -revirão o coração de uma probresinha e, quando não -a atirão de uma vez no caminho da perdição, mettem -na boca do mundo que ella é assim, é assada e não sei -mais o que. A cousa começa sempre por brincadeira: a -gente olha sem pensar em mal: acha graça no namôro -e depois, minha cara, quando menos se cuida -sente-se cá dentro no peito uma afflicção, um tormento -que não pára nem de dia nem de noute. Então -se a mulher não tiver juizo, não sabe mais o que ha de -fazer. Tudo é soffrimento tudo é enjôo e desgosto, -menos a vista do tentador. E elle a se rir e como cobra -traiçoeira esperando de longe com a boca aberta, -que a rãsinha se chegue por si mesma...</p> - -<p>Babita durante todo esse sermão em que a mãe<span class="pagenum"><a name="Page_195" id="Page_195">[195]</a></span> -contava talvez uma historia do que outr’ora se havia -dado com ella, estava sem saber onde pôr os olhos, -toda vendida e com as maçãs do rosto vermelhas que -nem bagas de aroeira.</p> - -<p>A final, sem dizer palavra, mas abrindo n’um -pranto de chôro, atirou-se ao collo da mãe, escondendo -a cara com as mãos.</p> - -<p>D. Cula não mostrou a menor admiração: pelo contrario -beijou com muito carinho a testa da filha.</p> - -<p>—Eu bem sabia, disse ella, que você já não era -como dantes. Mas não se afflija. Aquelle moço tem -bom nome, e eu vou me entender com elle. O peior -era você querer esconder que o seu coração já tinha -acordado.</p> - -<p>—Mamãe, balbuciou Babita, não... sei... como... -foi... Mas ninguem desconfia.</p> - -<p>—É sempre assim, secundou D. Cula. A gente -está desprevenida e da noute para o dia fica-se outra -e presa para toda a vida. O tal rapaz é tropeiro: não -digo que seja bom officio, mas tambem não é de -fazer vergonha a ninguem. Quem trabalha é sempre -merecedor. Nós por nosso lado não somos filhos de -capitão-mór, nem de juizes de fóra; o que podemos -desejar é que seja de familia limpa, porque graças á -Nossa Senhora Santissima, e a S. Joaquim avô de Nosso -Senhor, você conheceu o seu pae, que Deus lhe dê a -gloria, e nós dous, elle, hoje no reino do céo e eu cá -n’este valle de lagrimas, tambem tivemos esta felicidade, -tudo assentado nos livros do Revm. Vigario;<span class="pagenum"><a name="Page_196" id="Page_196">[196]</a></span> -d’ahi para cima não posso dizer mais, mas emfim nem -todos podem dizer tanto...</p> - -<p>Foi então que D. Cula se metteu n’um sipoal de -palavreado, d’onde só sahio quando lhe faltou a respiração.</p> - -<p>Em todo o caso, ella no dia seguinte se embrulhou -na sua manta de sahir, uma manta côr de -fundo de garrafa que lhe ia até os pés e que tinha na -altura dos hombros umas especies de dragonas de -retroz preto, fincou um pente alto no cocuruto da cabeça, -e lá foi ter ao rancho onde estava de pouso a -tropa de Juca Ventura.</p> - -<p>Justamente tinha este de madrugadinha partido -com o seu lóte de bestas para esperar os companheiros -d’ahi a vinte legoas no caminho de Goyaz.</p> - -<p>—E quando estará de volta? perguntou meio descorada -D. Cula.</p> - -<p>—Quem sabe se d’aqui a dous pares de semanas, -respondeu um outro tropeiro.</p> - -<p>Ao voltar para a casa, a coitada da mãe ia remechendo no -seu espirito cousas bem tristes. Havia sido -o que ella suppunha: o tal sujeito era como os outros. -E a sua Babita, a Babita do seu coração, já enamorada, -não ia soffrer, se magoar, ficar magra e doente, e quem -podia dizer o que mais?</p> - -<p>Malditos homens que vem bolir por maldade com -as mocinhas e pôr as casas de familia em dobadoura!</p> - -<p>D. Cula não disse á filha a verdade.</p> - -<p>Contou que Juca Ventura tinha partido, com effeito,<span class="pagenum"><a name="Page_197" id="Page_197">[197]</a></span> -mas não sem que ella lhe dissesse duas palavrinhas.</p> - -<p>—E então? perguntou a moça com receio.</p> - -<p>—Então elle ficou muito admirado e meio corrido, -quando vio que eu estava corrente com as suas -passadas, mas, fallando com franqueza, não pude -saber se elle quer bem ou não a você.</p> - -<p>—Quer, mamãe, quer! exclamou Babita pegando -logo fogo. Tenho toda certeza.</p> - -<p>—É bom não pensar assim... Emfim elle ha de -voltar, e saberemos então se é o que você julga d’elle, -ou se não passa de um marióla que hei de pôr a tinir -como aquelle filho do capitãosinho.</p> - -<p>N’isto parou a conversa, e durante muitas e muitas -semanas não se fallou n’aquella casa em Juca Ventura.</p> - -<p>A mocinha estava um pouco macambuzia: não -chegava á janella e não queria sahir, mas comia com -vontade e não parecia começar a ficar magra.</p> - -<p>Durante este tempo, o nosso tropeiro seguia o seu -caminho, jururú e abatido. Se cantava, era com uma -vóz abafada que fazia ainda mais triste a solidão.</p> - -<p>Estava apaixonado ás direitas, e a casa de D. Cula -e o rosto da namorada não lhe sahião da memoria.</p> - -<p>Quantos suspiros lhe rebentavam do peito! Era uma -cousa sem conta, e se no serviço não afrôxava é porque -só no trabalho achava algum consolo.</p> - -<p>E lá ia cantando, improvisando na toada do cateretê:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Babita, meu bem Babita,</div> -<div class="verse">Babita do coração,</div> -<div class="verse">Tem pena de minhas penas,</div> -<div class="verse">Senão morro de paixão.</div><span class="pagenum"><a name="Page_198" id="Page_198">[198]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Passarinho que tem aza</div> -<div class="verse">Depressa vôa ao seu bem.</div> -<div class="verse">Aza não tenho, nem tenho</div> -<div class="verse">Quem me possa querer bem.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Desgraçado do tropeiro,</div> -<div class="verse">Minha sina é só gemer:</div> -<div class="verse">Meu destino caminhar,</div> -<div class="verse">Caminhar até morrer.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Chaga viva em mim abrio</div> -<div class="verse">Teu olhar, mulher querida.</div> -<div class="verse">Mas de ti eu não me queixo,</div> -<div class="verse">Pois adoro essa ferida.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Tenhão os <i>rezes</i> seus palacios</div> -<div class="verse">Ouro e mais prata infinita,</div> -<div class="verse">Eu só quero d’este mundo</div> -<div class="verse">Ser querido de Babita.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Mas, coitado, porque choro?</div> -<div class="verse">Quem m’ouvir póde n’este ermo?</div> -<div class="verse">Se o meu canto não tem écho,</div> -<div class="verse">Meu tormento não tem termo.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ó rochedos, montes, valles</div> -<div class="verse">Ó campinas tão floridas,</div> -<div class="verse">Compaixão deveis sentir</div> -<div class="verse">D’essas mágoas tão crescidas!...</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>N’essa versalhada é que Juca Ventura desaffogava<span class="pagenum"><a name="Page_199" id="Page_199">[199]</a></span> -o peito, de modo que todos sabião por quem ficára -preso o tropeiro modelo.</p> - -<p>Á noute, ao redor da fogueira, elle espantava os -seus males, e a viola chorava nos dedos do namorado. -Os companheiros ficavão caladinhos a ouvir o cantor, -cuja vóz ia longe que era cousa de pasmar.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ventura me chamão todos,</div> -<div class="verse">Desgraça devem chamar.</div> -<div class="verse">Pois aquella a quem adoro</div> -<div class="verse">Não me quer <i>a mim</i> amar.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Sou tropeiro, não sou rico</div> -<div class="verse">Casas não tenho, nem ouro;</div> -<div class="verse">Mas no peito tenho honra,</div> -<div class="verse">E não sou filho de mouro.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">No braço tenho <i>talento</i><a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a></div> -<div class="verse">Na cara tenho vergonha,</div> -<div class="verse">Não vivo de comer bichos</div> -<div class="verse">No lôdo como cegonha.<a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Ai! se apaga em mim a vida!</div> -<div class="verse">Sinto já que vou morrer.</div> -<div class="verse">Mas não sei se chóre ou não</div> -<div class="verse">Por agora perecer.</div><span class="pagenum"><a name="Page_200" id="Page_200">[200]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Pois embóra eu <i>seje</i> moço,</div> -<div class="verse">Por effeito da paixão</div> -<div class="verse">Com certeza hei de findar</div> -<div class="verse">Nas funduras do sertão.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p>N’estas cantigas passava Ventura a noute e já o -brazeiro se apagára, e já as barras do dia riscávão os -lados do nascente, e elle ainda ficava de vióla na mão, -tocando e verseando.</p> - -<p>Tambem a primeira cousa que fez, quando se apeou -em Uberaba, foi logo procurar vêr a quem lhe tinha -inspirado tanta quadrinha bonita.</p> - -<p>O caso foi que, como geralmente se diz, encontrou-se -a ronda com a patrulha.</p> - -<p>Mal elle apontava na rua, sahio-lhe pela frente D. -Cula com um ar muito agradavel e cheio de riso.</p> - -<p>Ventura quiz voltar, não poude e parou.</p> - -<p>A esse tempo já a mãe de Babita o tinha saudado -com muito boas maneiras, perguntando noticias da -saude e da ultima viagem e mais outras cousas.</p> - -<p>Ventura ia respondendo meio engasgado, mas ficou -passado de uma vez quando, conversa puchando conversa, -D. Cula o convidou para descansar em sua casa.</p> - -<p>O moço no acto de se sentar já não estava muito -em si, mas quando vio entrar na sala a rapariga por -quem suspirava tanto, perdeu de todo a cabeça.</p> - -<p>Não soube mais dizer uma palavra.</p> - -<p>Se queria fallar, sentia um nó na garganta; se queria -ficar calado, vinha-lhe a comixão de fallar.</p> - -<p>Então passou-se uma cousa de deixar a qualquer<span class="pagenum"><a name="Page_201" id="Page_201">[201]</a></span> -pasmado. Foi que no fim de sua visita, uma visita de -medico, elle pedio a mão de Babita, que Babita ficou -muito corada, mas disse sim, que a mãe de Babita -chorou algumas lagrimas e que consentio e poz-se a -fallar muito e a contar casos e mais casos, dando de -lingoa que era de pôr tonto a um homem de juizo, -quanto mais a um namorado!</p> - -<p>Elle levantou-se cambaleando.</p> - -<p>Era noivo da rapariga mais bonita de Uberaba!...</p> - -<p>A noticia correu logo a cidade, como se fosse novidade -chegada do Rio de Janeiro. Uns approvarão -muito, outros acharão a cousa má, outros emfim -nada disserão, no que fizerão melhor do que os que -se mettião a abelhudos.</p> - -<p>Os que approvavão, mostravão que as idades dos -noivos estavão muito combinadas e achavão direito -que um pobre casasse com uma pobre e outras cousas -mais.</p> - -<p>Os que empurravão, a tesoura, dizião que o officio -de tropeiro era baixo e por demais andejo, sendo -assim o casal obrigado a viver sempre separado. E a -final em que mãos ia cahir uma menina tão bem parecida? -Nas de um camarada de tropa...</p> - -<p>Alto lá, minha gente! Fallem quanto puderem, intromettão-se -na vida e nos interesses dos outros como -melhor quizerem, mas por amor á verdade não digão -que o noivo não merecia a noiva. Isto nunca!</p> - -<p>Não era Ventura um rapaz sacudido, de 25 annos, -olhos rasgados, côr morena, bigodes finos, boca bem -feita, e barba sempre penteada? Não tinha elle cabellos<span class="pagenum"><a name="Page_202" id="Page_202">[202]</a></span> -cheios de anneis? Erão grossos, é certo, mais isso -era do pó da estrada, e esse pó dava signal de que -elle trabalhava para ganhar honradamente o pão -de cada dia.</p> - -<p>Fallassem, uns por bem, outros por mal, de sua -pobreza, mas não tivessem susto de qualidade nenhuma. -A sua familia, sua sogra, mulher e filhos, se -Deus lh’os mandasse, nunca havião de ser pesados a -ninguem. Graças aos céos, braços não lhe faltavão para -sustentar a sua gente, e, se até então ainda não tinha -ajuntado bom dinheiro, é que como solteiro botava -fóra tudo que ganhava e não fazia conta do futuro.</p> - -<p>Agora o caso mudava de figura, e para prova é que -elle tratou logo de preparar um montesinho de prata -já com vista nos gastos dos papeis de casamento e -tudo o mais, além dos presentes que se dão n’aquella -occasião.</p> - -<p>Emfim quer os moradores quizessem, quer não, -Babita e Ventura erão noivos, tinhão já o sim de D. -Cula, a unica que podia n’aquelle negocio serrar de -cima, e com o favor de Deus e das leis d’este Imperio -do Brasil que S. M. D. Pedro I nos deu, estavão contentes -como se tivessem ganho o reino do céo.</p> - -<p>O casorio ficou marcado para d’ahi a 3 mezes, -quando o tropeiro voltasse de uma viagem que tinha de -fazer até a cidade de S. Paulo e que já estava paga.</p> - -<p>No momento da despedida os noivos chorarão como -dous perdidos; mas no coração lhes ficava a quentura -da felicidade.</p> - -<p>D’ahi a tres mezes!...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_203" id="Page_203">[203]</a></span></p> - -<h4>II</h4> - -<p>No tempo marcado voltou Ventura mais <i>amorudo</i> -do que quando partira e com as mãos cheias de presentes. -D. Cula ganhou um vestido de muito boa seda -e Babita uma joia de ouro verdadeiro.</p> - -<p>Sim, senhor! não era falsificado. O boticario que -entendia de ourives o disse, e o que sabia da boca -d’elle era que nem palavra de Evangelho, pelo menos -ninguem o tinha pilhado ainda em mentiras.</p> - -<p>Emquanto o noivo estava viajando, Babita não ficou -de mãos abanando. Tinha cozido todo o seu enxoval -e arranjado com os dedinhos o vestido do casamento, -que a mulher do commandante superior da guarda -nacional fez o favor de cortar e acertar, porque era -uma senhora muito estimavel. Tambem a cousa parecia -uma maravilha de feitio e assentada.</p> - -<p>Mas o que é o destino da gente!</p> - -<p>Foi senão quando por este tempo Uberaba poz-se -n’uma dobadoura que ninguem na terra se lembrava -de cousa igual. Uberaba tão socegadinha! Longe de -tudo e de todos no meio de seus sertões!</p> - -<p>Não se fallava senão em guerra!</p> - -<p>Juca Ventura desde S. Paulo viéra ouvindo contar -que o Imperio do Brazil estava n’uma pendencia -muito grossa com uma republica chamada do Paraguay, -que havia muito fogo de parte a parte, gente e -mais gente partia para fóra, que muitos ião por gosto, -outros a páo e corda, que o recrutamento roncava feio<span class="pagenum"><a name="Page_204" id="Page_204">[204]</a></span> -e forte e os rapazes andavão disparando para os matos, -mas como ninguem veio mexer com a vida d’elle e -lhe perguntar quantos annos tinha, seguio socegado -o seu caminho do interior, sem se occupar com as -novidades, a vir se casar, unica cousa que lhe importava -n’este mundo.</p> - -<p>Eis que encontra na sua cidade a mesma revolução, -o mesmo reboliço.</p> - -<p>Parece que os negocios não ião bem. O governo da -côrte tinha posto nos jornaes que todos devião combater, -que a guarda nacional havia de marchar, que -era a occasião da gente mostrar a sua coragem e uma -lenga-lenga muito grande, tudo para levantar voluntarios.</p> - -<p>Minas Geraes, só Minas devia dar seis mil soldados. -Imaginem!</p> - -<p>Ora Minas é muito grande e tem bastante gente, -mas onde é que se ia buscar tanto povo de uma vez -para pôr de arma ao hombro! Esses homens lá de -cima que governão os outros ás vezes não pensão -com juizo. Era uma exigencia por demais.</p> - -<p>Alem d’isto todos sabião que tinhão marchado de -S. Paulo e de Ouro-Preto duas forças grandes para se -juntarem em Uberaba, e d’ahi seguirem para os lados -de Mato-Grosso, que os inimigos tinhão tomado á -força e onde estavão fazendo selvajarias sem conta -nos brazileiros que cortava o coração só de ouvir -fallar.</p> - -<p>Tudo isto não bastava.</p> - -<p>Dous dias depois da chegada de Ventura, espalhou-se<span class="pagenum"><a name="Page_205" id="Page_205">[205]</a></span> -na cidade que os guardas nacionaes ião ser reunidos, -que muitos havião de seguir com a expedição, -que quem desertasse era logo fuzilado e um bando de -historias capazes de assustar os mais valentes.</p> - -<p>As familias andavão com o coração na mão e com -toda a razão, porque não tardou muito e ahi chegarão -uns officiaes de 1.ª linha para juntar tropa e ensinar -o manejo de arma.</p> - -<p>Então é que foi susto!</p> - -<p>No meio de todo esse barulho, Babita não tinha -um momento de descanço. Juca Ventura era guarda -nacional, ainda solteiro: estava na flôr dos annos e -podia ser chamado.</p> - -<p>—Ah! meu Deus, dizia ella toda em pranto, e se -você tiver de marchar?</p> - -<p>—Não marcho, não, respondia o tropeiro para -lhe dar algum socego.</p> - -<p>A mocinha perguntava abaixando a voz:</p> - -<p>—Então você deserta?</p> - -<p>—Isso nunca! retrucava Juca, nunca fugi de -cousa nenhuma! Mas tenho certeza de que não vou. -Não me chamão. Você verá...</p> - -<p>Esta certeza durou pouco tempo.</p> - -<p>Um bello dia o commandante superior da guarda nacional -mandou-lhe por um cabo de esquadra aviso, ordenando -que chegasse n’aquella mesma hora ao palacio -da camara municipal, e ahi, não só a elle, como a mais -quinze companheiros fez uma falla meio gaguejada em -que disse que era preciso ir acabar com o inimigo, que -os brazileiros nunca tinham sido vencidos, que a gente<span class="pagenum"><a name="Page_206" id="Page_206">[206]</a></span> -de Uberaba ia ganhar um nome illustre, que todos haviam -de voltar com vida e bom dinheiro no bolso, que -o Brazil contava com os seus filhos, etc., etc., e depois -de toda essa perlenga acabou dando vivas ao Imperador -e á Constituição, no que foi acompanhado com -muito barulho por outros homens de casaca reunidos -a um lado da sala.</p> - -<p>Mas ahi é que cabia bem uma pergunta?</p> - -<p>Porque é que aquelle commandante superior não -marchava tambem para a guerra? Então só lá devião -ir os pobres soldados para chuchar bala como terra -em pó, e os coroneis e mais officiaes de dragonas -cheias a se deixarem ficar muito a gosto e só enchendo -as bochechas com patriotadas?</p> - -<p>Nada: isso era máo, devéras. Se havia essa necessidade, -como diziam, então que todos se sacrificassem.</p> - -<p>O pequeno quando vê o grande sahir de seus commodos -e mostrar boa vontade, supporta tudo com cara -alegre, não assim a empurrar-se gente para obedecer -ao governo e mettido na tóca caladinho!...</p> - -<p>Assim tambem pensava Juca Ventura, mas elle não -disse patavina, e sem demora foi mandado para o -quartel, uma casa de paredes altas e vigiada que parecia -uma cadeia.</p> - -<p>Ali já estavão reunidos uns sessenta homens meios -assarapantados que todos os dias ouviam fallas e mais -fallas do commandante d’aquelle deposito—um major de -linha, mandado de proposito da côrte para ensinar -recrutas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_207" id="Page_207">[207]</a></span></p> - -<p>Mas o major debalde punha os bófes de fóra: não -havia influencia nenhuma.</p> - -<p>Juca Ventura só viu caras muito <i>jururús</i>.</p> - -<p>Quando Babita teve conhecimento do que succedêra -ao noivo, cahiu n’um desmaio que poz D. Cula tonta; -depois as duas choraram juntas até não terem mais -lagrimas nos olhos.</p> - -<p>Uma carta do coitado ainda mais aggravou as dôres. -Via-se bem que elle queria se fazer de forte, mas que -estava por seu lado desanimado.</p> - -<p>Então D. Cula poz o seu capote comprido e lá se foi -ao quartel para ver se trocava alguma palavra com o -rapaz, mas não pôde entrar, porque na porta estava -um cabo de esquadra de olho arregalado e muito atrevido -que passeava como um rei, de um lado para outro, -segurando na mão uma espada desembainhada. Quando -a boa da velha foi se chegando para mais perto, elle -gritou—Passe de largo!—com uma voz de lobis-homem.</p> - -<p>Isto contou ella á filha, mas não lhe disse que ouvira -o cabo fallar n’uma guerra que houve no tempo -de dantes em que elle com mais dois companheiros -tinha destroçado quatorze castelhanos, que não era homem -de brincadeira e que cortaria pelo meio todos -aquelles que quizessem sahir do quartel sem passe do -senhor major.</p> - -<p>Foi o que elle prometteu fazer e quando fallava alisava -o bigode com raiva e rangia os dentes como -porco do matto.</p> - -<p>Homens assim é que deviam ir para a guerra, já<span class="pagenum"><a name="Page_208" id="Page_208">[208]</a></span> -que gostavam tanto da historia, e não uns pobres -moços socegados que tinham suas familias ou estavam -em vesperas de formar casa. Fosse lá o <i>tres contra -quatorze</i><a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a>, mas não uns guardas nacionaes que nunca -haviam feito mal a ninguem.</p> - -<p>Eram estas as reflexões de D. Cula, reflexões, que -ella não passou a ninguem, porque não gostava de -metter o bedelho nos negocios geraes, entendendo com -razão que as mulheres, quando se atiram a discursar -nestas e n’outras cousas, dizem por força desacertos.</p> - -<p>Passou-se um bom par de dias até que a boa senhora -podesse trocar lingua com Juca o tropeiro. Elle estava -socegado, e entretanto bastante murcho, não que o -dissesse, mas pela cara logo se via isso.</p> - -<p>O recado que elle deu para Babita não acabava -mais de comprido, mas em duas palavras queria dizer -<i>amor para sempre</i>.</p> - -<p>Por esse tempo os guardas nacionaes fechados e -trancadinhos no que se chamava quartel e que já continha -uns centos de pessoas, receberam uma bandeira -novinha em folha, toda bordada a ouro, cousa em fim -muito rica e vistosa.</p> - -<p>Houve muita pancadaria de musica, muito foguete<span class="pagenum"><a name="Page_209" id="Page_209">[209]</a></span> -do ar, estouros de bombas, e fallatorios compridos e -cheios de enthusiasmo.</p> - -<p>O commandante superior tomou novamente a palavra -e disse que com o contingente mineiro a guerra havia -por força de acabar, que Uberaba ia dessa feita -para a historia, que todos deviam marchar com a -maior alegria e que aquelles que desertassem haviam -de receber castigo de Deos e dos homens. Mas o espertalhão -não prometteu dar o exemplo e tomar parte -nos perigos e honrarias. Isto fiava-se mais fino.</p> - -<p>Fallaram em seguida o major de 1.ª linha e o cirurgião, -ambos com muito fogo, e no fim do seu palavreado, -todos romperam em vivas ao Brazil, e morras -ao Paraguay, que a casa parecia querer vir abaixo.</p> - -<p>O cabo <i>tres contra quatorze</i> já com algumas garrafas -de cerveja no bucho, esbugalhava uns olhos muito graúdos -e fazia com os dentes tal barulho que semelhava -não um caitetú, mas uma vara inteira de porcos. Elle -pedia a um recruta, vindo na vespera da Bagagem e -que estava tremendo de susto, que fosse buscar oito -ou dez castelhanos, armados de lança e espada, para -vêr como n’um instantinho os havia de cortar em -pedaços miudos.</p> - -<p>Acabados os discursos, cada guarda nacional, chamado -por uma lista de nomes, veiu jurar por baixo da -bandeira e com a mão aberta sobre os Santos Evangelhos -em como havia de defender até a morte o Imperador -e a Constitução e nunca desamparar o seu posto de -honra.</p> - -<p>Quem disse o juramento foi Juca Ventura e, a fallar a<span class="pagenum"><a name="Page_210" id="Page_210">[210]</a></span> -verdade, n’esse momento o coração lhe tremeu dentro -do peito. Os companheiros diziam <i>sim, sim</i>, mas eram -uns <i>sim</i> muito chochinhos que em muitos parecia mais -um soluço do que uma promessa que só Deos podia -quebrar.</p> - -<p>Depois retirarão-se os convidados; apagou-se a illuminação—meia -duzia de lanternas de papel—e o quartel -ficou todo ás escuras, guardado por uma sentinella -que chorava baixinho e pelos roncos de <i>tres contra -quatorze</i>.</p> - -<p>O valente cabo de esquadra ao entornar os ultimos -cópos deixou-se cahir na porta estirado a fio comprido, -como que para impedir com o seu corpo a escapúla de -algum medroso.</p> - -<p>Na grande sala que servia de tarimba tudo era silencio -e trevas.</p> - -<p>Juca Ventura, depois de dar um suspiros arrancados -do fundo d’alma, pegou a dormir e a sonhar com -Babita.</p> - -<p>De repente alguem o puxou por um braço.</p> - -<p>—Que ha de novo? perguntou o mineiro ainda -tonto de somno.</p> - -<p>—Falle baixo, murmurou alguem.</p> - -<p>—Mas o que ha? replicou o outro abaixando a -voz.</p> - -<p>—Somos nós, responderão quasi que ao mesmo -tempo cinco ou seis mas tão baixinho que parecia um -sopro.</p> - -<p>Erão alguns guardas nacionaes, todos filhos de Uberaba.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_211" id="Page_211">[211]</a></span></p> - -<p>—Juca, continuou um d’elles, nós viemos convidar -<i>vancê</i> para abrir campo. Parece que o negocio -vai ficando sério e que chegou a hora de cada um -cuidar em si.</p> - -<p>Ventura respondeu com um gemido abafado.</p> - -<p>—Ah! rapazes, minha intenção era essa, mas -agora...</p> - -<p>—Agora, o que?</p> - -<p>—Agora não posso.</p> - -<p>—E porque?</p> - -<p>—A sorte não quiz. Jurei com a mão posta no -livro sagrado, e decididamente hei de ir por estas -terras afóra. Deos Nosso Senhor me dê coragem...</p> - -<p>Houve silencio no grupo.</p> - -<p>—Mas... então, disse com hesitação um d’elles, -<i>vancê</i>... não vá... dar parte de nós...</p> - -<p>—Deos me livre! respondeo Ventura. Cada qual -tome o rumo que quizer. Eu não jurei que havia de -guardar os outros, mas só de levar o meu vulto a defender -o Brasil.</p> - -<p>E, cobrindo a cabeça, voltou-se para para o outro -lado.</p> - -<p>De manhã vio-se que havião desertado quinze -guardas nacionaes e que a sentinella do portão tinha -tambem batido a linda plumagem.</p> - -<p>Mas eis que na cidade entrárão n’um dia de sol -claro, umas machinas exquisitas, canos feitos de -bronze, assentes em grandes rodas e acompanhados -de um trem pesado, tudo puchado por muitas juntas -de bois.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_212" id="Page_212">[212]</a></span></p> - -<p>Essa machinada vinha com muito barulho e -pôz em reboliço todos os moradores.</p> - -<p>—Que é isto? Que não é? perguntavão elles porque -nunca tinhão visto artilharias.</p> - -<p>Babita com os olhos razos d’agua, vio passar pelas -janellas da casa aquella procissão capaz de metter -medo aos mais valentes e soube que aquelles canudos -ião para Matto-Grosso para fazer fogo nos paraguayos.</p> - -<p>—Meus Santos do Paraiso, exclamou D. Cula pondo -as mãos de admirada, que peccado atirar em christãos -com bacamartes d’esses!</p> - -<p>Na noute da chegada da artilharia desertárão de -pancada quarenta guardas nacionaes, e ninguem mais -lhes poz o olho emcima.</p> - -<p><i>Tres contra quatorze</i> andava damnado e gritava, no -meio da praça da matriz, que aquillo era uma pouca -vergonha e que elle só com um cacete curto era bastante -para dar conta de todos os moradores de uma -cidade tão medrosa e—com perdão da palavra—safada, -assim dizia o cabo de esquadra.</p> - -<p>Pouco tempo depois chegou de Ouro Preto a brigada -mineira que foi acampar no Cachimbo, a uma legua -de Uberaba, brigada luzida, linda mesmo e capaz de -influir a preás do campo... mas qual!... de noute fugirão -mais vinte dos aquartelados.</p> - -<p>Só ficarão Juca Ventura e dous companheiros.</p> - -<p>Ah! Quanto custára a tropeiro resistir à correnteza -do exemplo e deixar-se estar quietinho quando os -mais abrião pernas e ião cuidar da vida! Quanta coragem -para dizer «não» á Babita que todos os dias, todos<span class="pagenum"><a name="Page_213" id="Page_213">[213]</a></span> -lhe mandava recados que fugisse, que não fosse tolo, -que ella não podia mais viver assim e era noiva de um -ingrato, e não sei o que mais, e mil cousas e ditos -de fazer sangrar o coração.</p> - -<p>Mas elle tinha jurado!</p> - -<p>Quando no quartel não restarão senão tres homens, -o commandante superior, não se fiando n’elles, mandou -trancafial-os sem crime nem culpa na cadêa. -Queria ao menos segurar bem esses ultimos.</p> - -<p>Ventura baixou a cabeça e lá foi indo.</p> - -<p>Já então havião chegado umas forças de S. Paulo e -estava marcado o dia 4 de Julho de 1865 para a partida -de toda a expedição que devia se internar pelo sertão -bravio á procura do inimigo.</p> - -<p>Na vespera d’aquelle dia terrivel, Babita veiu despedir-se -do noivo que estava como um desgraçado -galé encostado ás grades da cadêa.</p> - -<p>—Ah! minha amada, disse Ventura pegando-lhe -na mão, isto é que é ser <i>desinfeliz</i> de uma vez!...</p> - -<p>—A culpa é de <i>vassuncê</i>, respondeu a moça soluçando.</p> - -<p>—Mas se eu puz a mão no livro sagrado e jurei!... -Foi destino...</p> - -<p>—Eu não posso, interrompeu D. Cula, dizer que -<i>vassuncê</i> faz mal... entretanto...</p> - -<p>—O que devemos fazer, disse o coitado depois de -uma pausa em que todos os tres choravam, é não -perder a coragem... Eu vou para a guerra, é verdade; -mas isso não quer dizer que já esteja defunto. Hei de -voltar com toda a certeza, e então seremos felizes para<span class="pagenum"><a name="Page_214" id="Page_214">[214]</a></span> -sempre... Tenho o meu amor para me salvar. Agora, -Babita, eu lhe peço uma cousa: seja sempre fiel ao -seu noivo. Quanto a mim lhe juro pelas sete chagas -de Nosso Senhor Jesus Christo que, na batalha ou no -descanço, não haverá uma só hora que eu deixe de -pensar em quem tanto quero.</p> - -<p>E, voltando-se para D. Cula, acrescentou:</p> - -<p>—Agora a senhora leve a sua filha, porque não parece -bem me vêrem chorar como se fosse um fracalhão. -Tenham fé no que digo: eu hei de voltar...</p> - -<p>Babita soluçava como uma criança.</p> - -<p>No dia seguinte, as forças da expedição abalaram -do acampamento do Cachimbo.</p> - -<p>Foi uma cousa bonita.</p> - -<p>Os batalhões estavam unidos uns aos outros, todos -bem fardados; o bronze das peças de artilharia faiscava -aos raios do sol; as musicas tocavam o hymno -nacional, e as cornetas faziam uma charamellada de -pôr surda uma pessoa.</p> - -<p>D. Cula e sua filha tinham ido dizer adeus a Juca -Ventura e para isso caminharam a pé e de madrugadinha, -ainda escurão, legua e meia, distancia da cidade -ao acampamento.</p> - -<p>O tropeiro, pobrezinho, em lugar de sua roupa costumeira, -já estava mettido n’uma grande blusa militar -e ás costas trazia uma mochila que havia de ter bom -peso, além da espingarda e do mais.</p> - -<p>Quando elle apertou pela ultima vez Babita nos -braços, disse-lhe a modo de consolo.</p> - -<p>—Não sou assim mesmo dos mais caiporas. Botaram-me<span class="pagenum"><a name="Page_215" id="Page_215">[215]</a></span> -no batalhão mineiro: estou rodeado de patricios -e conheço bem o sertão. Não é isto que me assusta.</p> - -<p>E, com um suspiro, concluiu baixinho:</p> - -<p>—Ah! se eu não tivesse jurado!</p> - -<p>O signal de marcha soou, e Juca Ventura partiu -de arma ao hombro e com passo dobrado.</p> - -<h4>III</h4> - -<p>Contar tudo o que o tropeiro soffreu na expedição de -Matto-Grosso, fôra contar o que todos, desde o commandante -das forças até o ultimo soldado, soffreram, -e é cousa de encher livros e livros.</p> - -<p>Basta dizer que mal se entrou no sertão, começou-se -a padecer de fome, que desde então acompanhou -sempre e sempre toda aquella gente, como se fizesse -parte da bagagem, e fosse cousa indispensavel, ora -apertando devéras, ora menos forte, mas ali prompta -á toda a hora para apparecer, quando menos se cuidasse.</p> - -<p>Agora fallando com o coração na mão, foi preciso -muita paciencia, muita confiança em Deos para não se -desanimar de uma vez e querer antes morrer do que -aturar tanta calamidade. Sem gabolice, o batalhão 17 -de Voluntarios de Minas, é que dava o exemplo ao -resto da expedição. Era uma rapaziada toda limpa; -officiaes muito bons, amigos de seus soldados, e commandante<span class="pagenum"><a name="Page_216" id="Page_216">[216]</a></span> -meio zangado mas justiceiro e cheio de -disciplina. Devéras fazia gosto servir n’esse corpo.</p> - -<p>Juca Ventura tinha sido bom camarada de tropa; -foi excellente soldado, porque, antes de tudo, era um -homem que queria sempre cumprir com a sua obrigação -Logo na sahida de Uberaba foi feito cabo de esquadra -e como sabia ler e escrever corrente, no Coxim, -passou a furriel.</p> - -<p>Por um pouco mais chegava a sargento, mas, além -delle ser pouco <i>imbicioneiro</i>, não se ageitava em riscar -mappas do dia e relações de mostra.</p> - -<p>No que era mestre, era em gaiatar, mais para distrahir -os outros, do que por gosto de galhofa. Na verdade -não se esquecia um minuto de sua bonita noiva: -escrevia a ella cartas muito compridas e, emquanto -houve correio, recebia, lá de vez em vez, respostas -muito amorudas do punho de D. Cula, mas do coração -de Babita.</p> - -<p>Depressa, porém, desse gostinho devia se <i>desmamar</i>, -porque não houve mais estafetas e até officiaes de -posto graúdo ficárão seis e mais mezes sem poder receber -uma só letra de suas familias, todas moradoras -na Côrte do Rio de Janeiro, de muita consideração e -apatacadas.</p> - -<p>Lá nos <i>pantános</i> de Miranda, quando a expedição foi -se metter no tijuco até o pescoço é que houve dias -da gente duvidar da bondade de Deus.</p> - -<p>Cruz! Foi o diabo. Christãos ficaram atolados no -lodo que de lá nunca mais sahiram.</p> - -<p>Morria <i>goyanada</i> aos punhados, não que sejam mofinos<span class="pagenum"><a name="Page_217" id="Page_217">[217]</a></span> -de animo, pelo contrario no fogo são bons devéras, -mas, fanadinhos de corpo, sahiam da fartura -para cahir na miseria, e isto lhes dava na fraqueza.</p> - -<p>Para mostrar o que foi aquella travessia, 50 leguas -de alagadiços e tremedaes, que era mesmo um Mar de -Hespanha, basta dizer que do Coxim sahiram mais de -3,000 homens sadios e ao Tabôco só chegárão pouco -mais de dois mil, quasi todos agorentados.</p> - -<p>Juca Ventura não tivera a menor molestia, não que -se poupasse ao trabalho, mas porque era de seu natural -resistir ás epidemias. Isso para o serviço foi -sempre dos melhores e de machado em punho para -derrubar arvores e fazer pontes ou de fouce para a faxina -era um grande.</p> - -<p>Tambem os officiaes o tinhão em muita estimação e -nos acampamentos só se ouvia gritar: «Furriel Ventura, -vai fazer isto. Furriel Ventura, vai fazer aquillo.» E -elle de boa vontade sempre, quando os companheiros -estavão quebrados de cansaço, obedecia aos seus superiores, -não só do seu corpo, como de outros batalhões.</p> - -<p>O commandante de sua companhia, o Sr. capitão -Juca Duarte, que morreo, coitado, em Miranda todo -inchado, moço tão bom que até os soldados choravão -quando o ião carregando no caixão, queria muito ao -furriel, assim como o Sr. major Juca Borges, que -depois veio a commandar o batalhão e era muito valente -e, segundo a gazeta, se afogou ha pouco no Araguaya -de Goyaz.</p> - -<p>Era um homem muito alegre esse major e tratava<span class="pagenum"><a name="Page_218" id="Page_218">[218]</a></span> -bem os soldados, e tambem um capitão, quasi criança, -chamado Sr. capitão Enoch, e mais o Sr. Tenente -Tobias, Sr. tenente Raymundo e outros muitos.</p> - -<p>Por isso fazia gosto servir n’aquelle batalhão. O -commandante Enéas era homem sério e meio carrancudo, -mas não deixava perecer a sua gente de máos -tratos e injustiças.</p> - -<p>A força de Matto-Grosso entrou na villa de Miranda -onde soffreo muito de molestias exquisitas que levarão -uma <i>machina</i> de officiaes e soldados ao cemiterio; depois -foi para Nioac, que outros chamão Anhuac, e é lugar -bonito e sadio; desceo para a colonia de Miranda; -desceo ainda para o Apa e ahi entrou no Paraguay, -assim com ares de quem queria engulir aquella terra -toda.</p> - -<p>Quanto tempo já se tinha passado desde a sahida de -Uberaba! Mais de dous annos...</p> - -<p>E carta de Babita, nem sombra. Tambem só chegava -uma ou outra, isso mesmo para a gente lá de cima, e -sahida do Rio de Janeiro e outras cidades que valem -alguma cousa.</p> - -<p>Ventura não desanimava, mas, para fallar a verdade, -já não escrevia mais. Que é de papel para no fundo -de sertões brutos estar riscando finezas, quando -muitas centenas de legoas separão os namorados?</p> - -<p>Se a expedição tinha soffrido para chegar ao Apa, -quando ella se vio sem gado nem mantimentos e teve -que recuar de um lugar chamado Invernada da Laguna, -parece que tudo quanto é desgraça se juntou para -fazer a gente ter saudades dos tempos de dantes.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_219" id="Page_219">[219]</a></span></p> - -<p>Que calamidades, meu Deos!</p> - -<p>Inimigo era o menos, e Juca Ventura fez pagar -caro a muito castelhano de blusa vermelha o incommodo -de vir os procurar tão longe, mas o cholera, mas -a fome, mas o fogo na macega do campo, as chuvas, -os aguaceiros, o sol de rachar, os rios todos cheios, a -falta de caminhos, cruz! era de quebrantar a coragem -de um Roldão.</p> - -<p>Tanto soffrimento ao mesmo tempo só se vê uma -vez em cem annos, e quem escapou d’aquella feita póde -dizer que tomou passagem para a eternidade, mas -não embarcou por ser afilhado da sorte.</p> - -<p>Juca Ventura nos dias de maior desespero ainda -achava occasião de dizer a sua gaitadasinha, mais já a -sua prosa não alegrava a ninguem: tudo andava muito -jururú e murcho, porque se via quasi a morte estar -voando por cima da cabeça da gente, matando este, -matando aquelle, aquelle outro e assombrando a todos.</p> - -<p>D’ahi a pouco até nem houve outro remedio senão -deixar jogados no meio do campo como carniça mais -de duzentos companheiros a morrerem de cholera e de -ferimentos.</p> - -<p>E os ouvidos ouvião aquelles gritos sem ficarem -surdos, e o coração batia, mas parecia pedra ou páo -porque nada sentia.</p> - -<p>É que n’aquella hora cada qual cuidava em si e só -tratava de salvar o vulto.</p> - -<p>Os bons e fortes se encostavão aos bons, e a expedição -vinha rolando as suas miserias, caminhando -quanto podia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_220" id="Page_220">[220]</a></span></p> - -<p>Lá se foi o Sr. coronel Camisão que commandava -aquella tropa toda, lá se foi o Sr. tenente-coronel Juvencio, -e de nada lhes valêrão as divisas de ouro bem -grossas que tinhão no braço.</p> - -<p>Era mesmo um <i>despotismo</i> de morte, e nem se livrou -quem estava já affeito a aquelles lugares malvados e -de pestes e forão batendo a bota o pratico Francisco -Lopes e o filho d’elle, por signal que ião deixando os -brasileiros no sertão que ninguem conhecia, nem -tinha ainda cruzado, e d’onde não havia de escapar -um só ao menos para vir contar onde é que paravão os -ossos dos outros.</p> - -<p>Mas Deos foi servido mandar que morressem, um -no dia, o outro na hora em que a columna pisou terreno -conhecido. Olhe que foi um milagre!</p> - -<p>Afinal, depois de toda aquella barulhada, morre -d’aqui, morre d’acolá, chegou-se a salvamento, tudo -muito porco, muito magro e esfarrapado, mas emfim -ainda com vida e vontade de saber o que era -passar um pouco melhorzinho do que naquella desgraça.</p> - -<p>Foi no Canuto.</p> - -<p>Os paraguayos nos deixarão de cansados e voltarão -lá para as suas tócas: nós então, fizemos acampamento -perto de um rio grande, o Aquidauana, que só uma -força assim de agoa é que podia acabar com a sugidade -que todos, soldados e officiaes, trazião no corpo e na -roupa.</p> - -<p>Ahi o major José Thomaz, que tinha tomado o commando, -disse n’uma ordem do dia que os inimigos estavão<span class="pagenum"><a name="Page_221" id="Page_221">[221]</a></span> -<i>anarchisados</i><a name="FNanchor_26" id="FNanchor_26"></a><a href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> com a nossa retirada, que os -batalhões tinhão feito maravilha e que a historia havia -de fallar nos soldados de Matto-Grosso e um bando -mais de cousas.</p> - -<p>Quando Juca Ventura ouvio o sargento da companhia -estar lendo toda aquella escripta, disse para os -outros:</p> - -<p>—Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal -chegou.</p> - -<p>E os outros se rirão, porque já estava passado o -perigo, mas devéras o furriel tinha razão. Mais de -mil e seiscentos homens forão ao Apa cheios de vida -e <i>talento</i><a name="FNanchor_27" id="FNanchor_27"></a><a href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> e, em menos de mez e meio, de lá voltarão -só uns setecentos, cobertos de bicharia e esfarrapados -que parecia uma tropa de ladrões do mato.</p> - -<p>Não, aquillo foi de mais!</p> - -<p>Depois d’essas passadas, Juca Ventura foi com o -batalhão para Cuyabá, d’ahi desceu para o Paraguay, -ainda entrou em fogo, e foi acampar no Humaytá, -que outr’ora fez barulho no mundo, mas que era -então uma barranca de rio.</p> - -<p>Cinco annos lá se tinhão ido depois que elle sahira -de Uberaba, e, ha mais de quatro, não recebêra -uma cartinha de Babita, uma noticia se quer.</p> - -<p>Mas <i>porém</i> o rapaz era de palavra e não houve, neste -tempo todo, um só dia, uma só hora, em que o seu -pensamento não fizesse viagem até a cidade em que -morava a namorada.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_222" id="Page_222">[222]</a></span></p> - -<p>Afinal, como tudo tem um fim neste mundo, a -guerra acabou.</p> - -<p>O batalhão n. 17 voltou para o Rio de Janeiro: -houve muita festa; discursos como terra, gritaria, e, -o que valia mais, cada voluntario recebeu uma boa -bolada de cobres na pagadoria da Côrte.</p> - -<p>Juca Ventura que tinha uns fardamentos atrazados -e certas differenças de soldo, de uma assentada metteu -no bolso trezentos mil réis do premio de voluntario -da patria e setecentos e picos do resto.</p> - -<p>Mais de um conto de réis em notas, sahidas fresquinhas -da caixa do governo!</p> - -<p>Então o batalhão seguiu para Ouro Preto por Juiz -de Fóra, e, por toda a parte onde passava havia muito -discurso, havia festa a valer e tudo o mais.</p> - -<p>Um dia, emfim, cada um teve licença de tomar -o rumo de sua casa.</p> - -<p>Foi um dia grande aquelle!...</p> - -<p>Juca Ventura montou a cavallo para voltar a Uberaba, -assim com modos de passarinho que achou a -porta da gaiola aberta e lá vai pelos ares afóra, tonto -de alegria e cantando como um maluco. A saude -do tropeiro era sempre a mesma: pouca differença -fazia no rosto, mas nas maneiras era mais compassado -e orgulhoso.</p> - -<p>Tambem estava com o peito cheio de medalhas de -campanha e ganhara até o habito da Rosa.</p> - -<p>Tinha honras de capitão!</p> - -<p>Oh! como elle foi rapido por aquellas estradas! Não -perguntou noticias a ninguem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_223" id="Page_223">[223]</a></span></p> - -<p>O coração lhe batia socegado e só o que queria era -chegar, chegar depressa...</p> - -<p>Foi n’um dia de sol bonito que entrou em Uberaba, -a 15 de Julho de 1870 e frechou direitinho para a casa -da noiva.</p> - -<p>Á porta, estava sentada uma mulher com uma criancinha -no collo.</p> - -<p>Quando Juca Ventura parou defronte, ella deu um -grito forte, levantou-se e correu para dentro como uma -douda.</p> - -<p>Era Babita!</p> - -<h4>IV</h4> - -<p>Juca Ventura apeou do cavallo tremulo e assombrado.</p> - -<p>Sem saber pelo que, suava frio e estava com os olhos -escuros.</p> - -<p>Mas fazendo-se de forte, gritou como quem queria -parecer alegre, mas não estava:</p> - -<p>—Ó de casa, ó minha gente!</p> - -<p>Ninguem lhe respondeu.</p> - -<p>Elle então entrou na sala.</p> - -<p>Nada estava mudado: erão as mesmas cadeiras, -o mesmo sofá velho, uma imagem do Menino Jesus -entre dous vasinhos com flôres, tudo como ha cinco -annos passados.</p> - -<p>Ventura bateu palmas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_224" id="Page_224">[224]</a></span></p> - -<p>Ninguem lhe respondeu ainda.</p> - -<p>Oh! Era caso de pensar.</p> - -<p>O nosso homem assarampatado empurrou a porta -do interior... nem viv’alma na varanda: correu a casa -toda, nada.</p> - -<p>Mas estava claro que alli ha pouco tinha estado -gente que havia fugido ás carreiras.</p> - -<p>Decididamente succedêra alguma novidade graúda.</p> - -<p>Juca Ventura sentio a boca lhe amargar. Padecia -que nem um condemnado á forca, mas como não era -precipitado em seus juizos, não quiz logo cuidar em -mal.</p> - -<p>—Talvez Babita não me conhecesse logo, pensou -elle, e tomasse um susto.</p> - -<p>N’estas idéas sahio da casa.</p> - -<p>Lá fóra fazia um sol valente. Um sugeito passava -rente com as casas para apanhar um pouco de sombra.</p> - -<p>Juca perguntou-lhe se conhecia D. Cula.</p> - -<p>—Cheguei de pouco da Formiga, lhe respondeu o -cujo, por isso não a conheço, mas sei que a filha -d’ella é casada com o Chico Luiz, o Emboaba.</p> - -<p>Como Juca Ventura não saltou ás guélas do sugeito -que lhe deu aquella noticia, ou como não cahio no -chão morto para todo o sempre, é o que elle mesmo -não sabe.</p> - -<p>Sentia mil soffrimentos, maiores a um tempo do -que todos os de Mato-Grosso e por cima uma vergonha -tão grande que a sua cara ardia como se fosse uma -fogueira.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_225" id="Page_225">[225]</a></span></p> - -<p>Tudo estava perdido!</p> - -<p>Tudo!</p> - -<p>Elle que só tinha vivido com a lembrança d’aquella -mulher, elle que vinha cheio de amor, limpo de -miserias, depois de ter dado conta de sua obrigação, -elle que tinha ganho as suas medalhas, as suas fitas -para enfeitar a sua noiva, e agora vinha encontrar o -lugar que lhe pertencia já tomado, e em vez de um -coração para o affagar e estimar, a traição e o pouco -caso?!</p> - -<p>Ah! porque a sórte não o atirou como tantos outros -nos campos do Apa para ser degollado pelos paraguayos?</p> - -<p>De que lhe servia a vida?</p> - -<p>A sua felicidade cahia toda em pedaços, como casa -velha de taipa em dia de furacão.</p> - -<p>Que restava fazer?</p> - -<p>Nada... nada mais!</p> - -<p>E vingar-se?... porque é que o valente que vinha -da guerra não havia de tirar despique do desprezo -de uma mulher?</p> - -<p>Isso lá, não. Babita podia dispôr de si, dar o corpo -e o coração a quem quizesse; mas elle o bravo de 17º. -de voluntarios de Minas precisava se desaffrontar.</p> - -<p>Tremessem os desalmados que havião brincado -com a honra do tropeiro!</p> - -<p>Com isso tudo a lhe ferver no sangue, <i>amontou</i> -Juca a cavallo e foi <i>sestear</i> n’um rancho fóra da cidade.</p> - -<p>Não se tinha espalhado a noticia da chegada d’elle, -senão é de crer que se fizessem em Uberaba alguns<span class="pagenum"><a name="Page_226" id="Page_226">[226]</a></span> -festejos e que o commandante superior da guarda nacional -o viesse abraçar á vista de todos.</p> - -<p>Mas para abraços não estava elle.</p> - -<p>Parecia uma onça que acaba de cahir n’um fojo.</p> - -<p>Não tocou no prato que lhe puzerão na mesa, mas, -com o queixo encostado na mão, estava carrancudo -como um tigre preto, e os seus olhos faiscavão. Na -cintura tinha uma garrucha de dous canos carregada -e um facão-punhal.</p> - -<p>Quando o sol vinha cahindo, vermelho e grande, -Juca sahio do rancho, mas as pernas lhe tremião.</p> - -<p>Queria pisar firme e não podia.</p> - -<p>É que nunca fôra assassino e agora ia matar!</p> - -<p>Caminhou a pé para a cidade e muitas vezes teve -que se sentar á beira da estrada pela affrontação em -que vinha.</p> - -<p>O coração quasi que lhe saltava pela boca.</p> - -<p>Ah! Babita! Babita! Que lhe tinha feito aquelle -homem para você o tratar assim? Pois não póde haver -uma só mulher no mundo que tenha fidelidade?</p> - -<p>E o certo é que lá ia Juca Ventura, já com ares de -matador, quando podia entrar no lugar de seu -nascimento, de cabeça bem levantada e estufando o -peito em que estava escripta a sua historia de soldado! -E todos o havião de festejar e até adular!...</p> - -<p>Mas não... O destino assim não quiz.</p> - -<p>Apparecião as primeiras casas da cidade quando o -pobre coitado sentou-se n’um matacão de barro duro -a um lado da estrada, á espera que a noute fechasse.</p> - -<p>Do sol já só se via uma beiradinha e estava um<span class="pagenum"><a name="Page_227" id="Page_227">[227]</a></span> -calor de rachar. Lá no nascente umas nuvens côr de -chumbo parecião estar ameaçando a terra, e de quando -em quando um relampago fuzilava no meio d’ellas.</p> - -<p>Juca Ventura olhava para aquelle lado e pensava -que assim estava o seu coração, faiscando, faiscando, -mas que tambem d’ahi a bocadinho um raio havia de -ferir a quem menos cuidava.</p> - -<p>Um barulho de passos lhe chamou a attenção.</p> - -<p>Era um homem branco, de meia idade e bem <i>limpo</i><a name="FNanchor_28" id="FNanchor_28"></a><a href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a>, -que tinha um ar sério e muita composição no -andar.</p> - -<p>Quando Juca Ventura lhe poz os olhos em cima, -como que virou-se em pedra.</p> - -<p>Depois fez um esforço grande sacudindo a tontura, -sacou da cintura a pistola e pulou para a frente do -outro como uma onça pintada.</p> - -<p>A sua boca deu um uivo.</p> - -<p>—O emboaba!</p> - -<p>Se Chico Luiz, pois era elle, não tivesse a tempo -lhe agarrado no braço, era um homem morto.</p> - -<p>E ficarão os dous, um olhando para o outro, bons -pares de minutos: Juca Ventura com olhos de engolir -um christão vivo, Chico Luiz muito senhor de si -e de sangue frio.</p> - -<p>—Portuga do diabo, gritou Ventura sempre com -o braço preso, você sabe quem eu sou?</p> - -<p>—Sei, respondeu o emboaba muito sereno, é um -soldado brasileiro, não é um matador.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_228" id="Page_228">[228]</a></span></p> - -<p>O modo por que estas palavras cahirão da boca de -Chico Luiz e o seu proposito fizerão um abalo tão -forte no voluntario que elle ficou branco como cêra.</p> - -<p>—Sim, retrucou elle, nunca fui assassino, mas -agora vou ser...</p> - -<p>—Ao menos deixe eu me defender. Na guerra -você fazia assim...</p> - -<p>—Não; todos vocês hão de morrer como cachorros. -Todos... porque cuspirão na minha cara.</p> - -<p>—Juca Ventura, você tem o direito de me matar, -isso eu reconheço: mas a mais ninguem, ouvio? O -unico culpado sou eu.</p> - -<p>A cada palavra que Chico Luiz dizia, o tropeiro -como que sentia o coração ficar frio. Quiz puchar -pelo braço, mas a mão do portuguez se não apertava -com força, segurava com firmeza.</p> - -<p>—Sim, continuou elle parando a todo instantinho e -com os olhos prégados nos do seu inimigo, eu vim até -cá ter com você, sem armas, sem um páo sequer, e -lhe dizer atire em mim, porque n’esta historia desgraçada -ninguem mais póde ser acusado... Agora...</p> - -<p>E, de repente soltando o braço de Ventura, apresentou -o peito:</p> - -<p>—Aqui estou, disse, faça fogo. Execute a sua -vingança!</p> - -<p>O modo era de quem estava preparado para morrer -n’aquelle instante mesmo.</p> - -<p>Juca levantou a pistola, mas depois recuou uns -passos, como que vexado e murmurando:</p> - -<p>—Eu nunca matei ninguem assim...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_229" id="Page_229">[229]</a></span></p> - -<p>—Pois bem, secundou Chico Luiz d’essa feita -muito depressa, eu quero defender não a mim, mas a -uma pessoa que em tudo isto tem tanta culpa como -N. S. da Conceição...</p> - -<p>E como Ventura fizesse um gesto de raiva:</p> - -<p>—Sim, exclamou elle com força, eu juro pela minha -salvação eterna, Babita é innocente; Babita resistio -quanto poude a este casamento, Babita não se -esqueceu um só momento de seu noivo; chorou todas -as lagrimas do seu coração; foi fiel quanto poude á -sua promessa.</p> - -<p>O portuguez fallava com sotaque lá da sua terra, mas -fallava como quem diz a verdade. Cada um de seus -ditos era uma punhalada em cheio no peito de Ventura.</p> - -<p>—Mas então, bramio elle, ella foi enganada?</p> - -<p>—Não, respondeu com energia Chico Luiz.</p> - -<p>—Que aconteceu pois?</p> - -<p>—Se você quizer me ouvir, eu lhe abrirei o meu -coração; se não, dispare já esta garrucha que está -engatilhada, mas tenha certeza que ha de vir dia em -que o sangue que hoje cahir se levantará a gritar: -Sua mão deu cabo de gente innocente!</p> - -<p>E a voz de Chico Luiz ficou de quem estava pedindo -uma cousa muito grande.</p> - -<p>—Você me ouve? perguntou elle ainda.</p> - -<p>Houve um silencio de metter medo. A sórte d’aquelle -homem estava se decidindo.</p> - -<p>—Falle, disse por fim Juca Ventura muito abatido -e pondo ao cinto a garrucha depois de ter abaixado -de vagarinho o cão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_230" id="Page_230">[230]</a></span></p> - -<p>—Eu direi poucas palavras, começou logo o outro. -Você partio para Mato-Grosso e só houve noticia certa -de sua pessoa por uns seis mezes. Depois passarão-se -annos inteiros, e ninguem sabia onde parava e qual o -seu fim. Babita, coitada, perguntava, indagava de -um e de outro, escrevia muita carta, punha tudo no -correio e a chorar dia e noute que era uma cousa por -demais. No fim de tres annos chegou, parece que desertado, -a Uberaba um soldado do 17º de voluntarios -que disse que conhecia muito a você, que você tinha -morrido ha mais de um anno e até elle tinha carregado -o seu caixão. Nós todos então fomos ouvir uma missa -por sua alma, e Babita esteve entre a vida e a morte -um mez inteiro. Correu muito tempo. N’isso chegou -outro soldado que tambem deu a você por morto e -enterrado. Já ninguem tinha duvida. Foi então que -eu, apezar de ter levado de táboa já uma vez, me -apresentei de novo para casar com ella. N’esse tempo -D. Cula estava de cama; pedia muito a filha que aceitasse; -ella resistio, resistio, eu instei; todos os dias -ia lá; fiz muitos quartos quando a minha sogra ficou a -sahir d’este mundo. Então Babita, para obedecer, eu -sei bem, a quem todos já fazião na cova, casou-se -commigo haverá uns dez mezes. Esta é a verdade.</p> - -<p>E acrescentou:</p> - -<p>—Agora estou ás suas ordens.</p> - -<p>Juca Ventura, emquanto Chico Luiz fallava no -tempo em que um gato passa por cima de um brazeiro, -estava calado e mais sombrio do que a noute que -vinha chegando.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_231" id="Page_231">[231]</a></span></p> - -<p>As suas sobrancelhas estavão tão apertadas que -formavão uma só linha na testa.</p> - -<p>Elle via que tudo aquillo era certo, mas queria -poder não acreditar.</p> - -<p>—Ah! já sei, retrucou elle como que chasqueando, -vocês todos enganárão a Babita. Foi você quem inventou -a <i>embromação</i> da minha morte.</p> - -<p>—Pela alma de minha mãi eu lhe juro que não! -Caia ella no inferno se eu estiver mentindo. A cidade -inteira ouviu aquelles soldados... E depois olhe para -mim, e veja se sou capaz disso...</p> - -<p>Sem querer, Juca Ventura levantou os olhos e fitou -o portuguez.</p> - -<p>O seu ar tinha tanta sinceridade que a convicção -entrou no fundo do coração do tropeiro: mas elle ficou -mudo com a cabeça cahida sobre o peito...</p> - -<p>Já era quasi noite fechada, e se não escurecêra de -todo é que no céo havia umas nuvensinhas vermelhas -que aos poucos ião perdendo as côres.</p> - -<p>Os dous homens estavão calados.</p> - -<p>De repente Chico Luiz disse com voz muite suave:</p> - -<p>—Você me perdôa?</p> - -<p>Juca Ventura estremeceu todo.</p> - -<p>—Ah! exclamou elle com a boca encrespada de -amargura, não bastou a você, portuga de desgraças, -me tomar a <i>minha</i> noiva, me arrancar o coração, pisar -com pé de chumbo na minha felicidade, matar -para sempre a minha alegria, quer tambem o meu -perdão?...</p> - -<p>—Quero, atalhou Chico Luiz com força. Você é homem<span class="pagenum"><a name="Page_232" id="Page_232">[232]</a></span> -de honra, é homem de bem, eu tambem sou. Da -conversa de hoje é que vai sahir o futuro da mulher -que nós dois amamos, da mulher que ainda ama -a você, Ventura, mas que me pertence <i>a mim</i>. Eu fallo -aos seus sentimentos. Aqui lhe peço de joelhos...</p> - -<p>—Não, não!</p> - -<p>—Perdão, perdão. Eu quero ou morrer de sua mão, -ou que você me dê o seu perdão. Nossa Senhora -abrande o seu coração... Tem pena de minha mulher, -tem pena de meu filho!...</p> - -<p>E Chico Luiz, no meio da estrada, se atirou de joelhos -aos pés de Juca Ventura, mas com tanta dignidade -que ninguem havia de vêr n’aquelle acto, não uma -baixeza ou medo, mas uma <i>menagem</i> á desgraça do -tropeiro.</p> - -<p>—Levante-se, homem, disse em fim com muita -pausa Ventura... Eu... vou pensar.</p> - -<p>E depois de novo silencio, acrescentou com esforço.</p> - -<p>—Se... amanhã eu... apparecer na... sua casa... então... -é signal que... para mim... o passado, passado. -Se... eu não fôr lá... é que parti para nunca... mais -ouvir fallar... em Uberaba... e na gente que aqui -mora.</p> - -<p>E acenando com a mão, sumiu-se, sem dizer mai-palavra, -na escuridão da noite...</p> - -<p>No dia seguinte Juca Ventura fez ás claras a sua -entrada na cidade de Uberaba.</p> - -<p>Isso foi um alarma nunca visto e pelo ar com que -todos olhavão para elle, conhecia que era a pura -verdade tudo o que Chico Luiz lhe tinha dito. Parecião<span class="pagenum"><a name="Page_233" id="Page_233">[233]</a></span> -encarar alguem que sahia da cova para fazer -cousas do arco da velha.</p> - -<p>Tudo botava uns ólhos arregalados, e espantadiços. -Muitas velhas já fazião cruzes pelo que ia succeder -sem falta, e alguns que muito a tôa tinhão raiva do -portuguez, só porque os negocios lhe corrião bem, lá -no coração sentião certa alegria, apezar de estarem a -dizer por toda a parte que o delegado de policia devia -estar alerta se não quizesse vêr uma desgraça feia.</p> - -<p>Os modos de Ventura pozerão os bibilhoteiros de -queixo cabido. Começou a fallar que já sabia desde -muito que a Babita tinha se casado, mas que não se -admirava disso, porque tinha corrido a <i>rodella</i> de sua -morte, e mais isto e mais aquillo e tanta cousa com -socego tão grande que não se sabia o que pensar se -era disfarce ou não.</p> - -<p>Mais ainda cresceo o espanto, quando, depois do furriel -ter-se apresentado, como militar, ás autoridades -que o receberão muito bem, o abraçárão e o fizerão -sentar, foi elle com sol alto parar á porta do emboaba.</p> - -<p>Chico Luiz estava então no balcão de sua loja de negocio, -e nem de proposito, a casa estava cheia de freguezia -que nada lhe comprava, é preciso notar.</p> - -<p>Juca Ventura <i>desapeou</i> meio branco. O outro ficou -um tanto amarello, mas se adiantou a encontrar quem -vinha entrando.</p> - -<p>—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo que o -traz a esta casa, disse o portuga estendendo a mão.</p> - -<p>O tropeiro mal a tocou.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_234" id="Page_234">[234]</a></span></p> - -<p>—Para sempre seja louvado, respondeu pausado e -muito serio.</p> - -<p>E accrescentou.</p> - -<p>—Eu venho visitar a sua familia, D. Cula e a filha -della.</p> - -<p>Houve um silencio grande.</p> - -<p>Chico Luiz desviou o corpo, e apontando para -dentro:</p> - -<p>—Póde entrar, disse. Esta casa lhe pertence. A -minha sogra e mulher hão de vêr com gosto um conhecido -antigo e amigo.</p> - -<p>E deixou que Juca Ventura entrasse sósinho.</p> - -<p>Na salinha junto á loja estavão D. Cula e ao lado -Babita, a bella e chorada Babita, com o filhinho no -collo, como se fosse bandeira de misericordia.</p> - -<p>Ventura ficou de pé, branco como cêra. As duas -mulheres, que de tudo sabião, tinhão os olhos pregados -no chão e choravão sem fazer barulho.</p> - -<p>—Bons... dias... minhas... senhoras, saudou o tropeiro -parando em cada palavra.</p> - -<p>Ninguem lhe respondeu.</p> - -<p>—D. Cula, disse de repente Ventura, eu perdôo a -vocês todos... No meu coração só guardo uma cousa: -é tristeza para sempre.</p> - -<p>Babita deu um soluço de desespero.</p> - -<p>Ventura chegou-se para ella.</p> - -<p>Baixinho, mas com muita doçura lhe perguntou:</p> - -<p>—E você é feliz?</p> - -<p>—Chico... Luiz... é... o... pae de meu -filho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_235" id="Page_235">[235]</a></span></p> - -<p>—Babita, D. Cula, disse por fim o tropeiro, não -fiquem me querendo mal... Adeos, adeos!</p> - -<p>As duas coitadas abaixarão a cabeça e chorarão até -não poder mais.</p> - -<p>Já então Juca havia sahido e, ao despedir-se do -portuguez, lhe apertou uma outra vez a mão.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Dous mezes depois o tropeiro tinha tornado a tomar -o emprego do outro tempo, mas já não era o -mesmo <i>de dantes</i>. Calado sempre, só achava gosto -no trabalho.</p> - -<p>A ninguem mais contava historias, a ninguem fazia -festas e mostrava amizade. Não se mettia com pessoa -alguma, nem queria que se mettessem com a vida -d’elle.</p> - -<p>Uma vez, porém, sahio do sério.</p> - -<p>Desafiado por um camarada, que tanto tinha de -forte como de malcriado, e que se lembrou de fallar -da Babita, foi acima d’elle e lhe deu tanta pancada -que por pouco não o mandou para o outro mundo.</p> - -<p>Desde esse dia, não ha quem se lembre de mecher -com Juca Ventura.</p> - -<p>Uma só cousa ainda lhe agrada um tanto: é cantar -alto quando vai tocando o seu lóte de bestas, mas -essas mesmas cantorias são tão tristes que a gente vê<span class="pagenum"><a name="Page_236" id="Page_236">[236]</a></span> -bem claro que alguma cousa o está consumindo e minando -por dentro.</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse"><i>Longes</i> terras viajei</div> -<div class="verse">Padeci muito na vida.</div> -<div class="verse">E o Deus de compaixão</div> -<div class="verse">Não me quer findar a lida.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Faço força para ter</div> -<div class="verse">Paciencia, meu senhor:</div> -<div class="verse">Mas debalde aperto o peito</div> -<div class="verse">Atravez rompe-me a dôr.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Coração, meu coração,</div> -<div class="verse">Á razão porque não cedes?</div> -<div class="verse">Se não ha poder no mundo</div> -<div class="verse">Que te dê o que tu pedes...</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Porque, pois, tanto affligir?</div> -<div class="verse">Palpitar com violencia?</div> -<div class="verse">O destino já fallou</div> -<div class="verse">E foi falla sem clemencia.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Golpes duros contra mim</div> -<div class="verse">Desfechou sorte perjura,</div> -<div class="verse">Mas, cruel, deixou-me o nome,</div> -<div class="verse">Por chacóta, de Ventura.</div><span class="pagenum"><a name="Page_237" id="Page_237">[237]</a></span> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Sim, ventura hei de emfim ter</div> -<div class="verse">Quando a morte apparecer.</div> -<div class="verse">Sim, ventura sentirei,</div> -<div class="verse">Quando me sentir morrer.</div> -</div> -</div> -</div> - -<p class="fim">FIM DE JUCA, O TROPEIRO.</p> - -<hr class="chap" /> - -<div class="footnotes"> - -<h2>NOTAS</h2> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> Como em geral todas as denominações de lugares -do districto de Miranda, é este nome de origem guaycurú e -significa—<i>bando de trairas</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Agaxi é corrupção da palavra <i>Euagaxigo</i>, que quer -dizer—<i>bando de capivaras</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Está muito bom?</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Esta lingoa serve com ligeiras alterações para as quatro -tribus em que se divide a nação chané: terenos, laianos -kinikináos e guanás.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> Titulo de respeito entre todos os indios do Brasil.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Coitado! Está doente de febres!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Em Matto-Grosso chama-se lavrado a enfeites de ouro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Estrella, em dialecto guaná.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> Não. A filha do guaná é guaná. A mãe é que era -kinikináo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> Taquaral.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> Em Matto-Grosso todos os que não são indios são chamados -portuguezes.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Em Matto Grosso é um modo muito usual de interpellar -as pessoas de importancia. Ás vezes dizem simplesmente: -ó senhoria!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> O paratudo, no districto de Miranda, é uma arvore -que annualmente se cobre de flores grandes e amarellas. Os -indios contão os annos pela época da florescencia.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> Quer dizer—senhor. Entre os indios é um tratamento -de muito respeito.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> —Adeos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> —Adeos. A differença entre as duas palavras provém -de que a primeira é a despedida de quem parte e a outra -a saudação de quem fica.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> Em Matto-Grosso toda a casa de palha é chamada -<i>rancho</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> Nome geral que os paraguayos dão aos indios de Matto-Grosso.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> Frei Marianno esteve sempre em rigoroso carcere e só foi -salvo no dia 12 de Agosto de 1869 pelos brazileiros depois da -batalha de Campo-Grande.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Deu-se este facto com diversos cadaveres, indios e paraguayos, -devido naturalmente á natureza eminentemente salina de -todo o terreno do districto de Miranda e principalmente das -margens do Aquidauána.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> Diminutivo familiar de Clotilde em todo o interior.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> Apaixonadas.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Talento em linguagem sertaneja é força, robustez.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> Já se vê que a necessidade da rima é que levava -o nosso cantor a esses disparates.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> O cabo de esquadra de que se trata existiu com effeito e -tinha aquelle honroso e singular appellido. Mandado de Uberaba -a reunir-se ás forças expedicionarias de Matto Grosso, portou-se -sempre com muita coragem e falleceu de cholera morbus em fins -de maio de 1867. <i>Tres contra quatorze</i> havia sido, pelo que -contava elle, uma sua façanha praticada na guerra do Rio Grande -do Sul, durante a luta dos <i>farrapos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_26" id="Footnote_26"></a><a href="#FNanchor_26"><span class="label">[26]</span></a> Desmoralisados.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_27" id="Footnote_27"></a><a href="#FNanchor_27"><span class="label">[27]</span></a> Fortaleza.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_28" id="Footnote_28"></a><a href="#FNanchor_28"><span class="label">[28]</span></a> Vestido.</p> - -</div> - -</div> - -<hr class="chap" /> - -<h2>INDICE</h2> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td></td> - <td class="tdpg smaller">PAG.</td> - </tr> - <tr> - <td>Ierecê a Guaná.</td> - <td class="tdpg"><a href="#IERECE_A_GUANA">11</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Da mão á boca se perde a sopa.</td> - <td class="tdpg"><a href="#DA_MAO_A_BOCA_SE_PERDE_A_SOPA">67</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Camiran a Kinikinao.</td> - <td class="tdpg"><a href="#CAMIRAN_A_KINIKINAO">119</a></td> - </tr> - <tr> - <td>O Vigario das Dôres.</td> - <td class="tdpg"><a href="#O_VIGARIO_DAS_DORES">155</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Juca, o Tropeiro.</td> - <td class="tdpg"><a href="#JUCA_O_TROPEIRO">183</a></td> - </tr> -</table> - -<p class="center smaller"><span class="smcapuc">TYP. DE</span> Pinheiro & C.ª <span class="smcapuc">RUA SETE DE SETEMBRO N. 157</span></p> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Historias Brazileiras, by -Alfredo Maria Adriano d'Escragno Taunay and Sylvio Dinarte - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS BRAZILEIRAS *** - -***** This file should be named 62525-h.htm or 62525-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/5/2/62525/ - -Produced by Rita Farinha and the Online Distributed -Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was -produced from scanned images of public domain material -from the Google Books project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. 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