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-Project Gutenberg's As donatarias d'Alemquer, by João Pereira Franco Monteiro
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: As donatarias d'Alemquer
- Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
-
-Author: João Pereira Franco Monteiro
-
-Contributor: Joaquim Pedro de Oliveira Martins
-
-Release Date: July 26, 2020 [EBook #62766]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
-
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-
-Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet
-Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team
-at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned
-images of public domain material from the Google Books
-project.)
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-
-AS DONATARIAS DE ALEMQUER
-
-Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
-
-
-
-
- J. P. FRANCO MONTEIRO
-
- AS
- DONATARIAS D’ALEMQUER
-
- _Historia das Rainhas de Portugal
- e da sua casa e estado_
-
- com uma carta-prefacio
-
- POR
- OLIVEIRA MARTINS
-
- [Illustration]
-
- LISBOA
- M. GOMES—EDITOR
- LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
- _Rua Garrett (Chiado) 70-72_
- 1893
-
- Typ. Castro Irmão
-
-
-
-
-A MEU PAE
-
-
-
-
-Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.
-
-A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para
-acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça
-n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é
-portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo
-a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos
-bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para
-lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais
-do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo.
-
-Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no
-titulo. É o que eu sinto. _As donatarias de Alemquer_ são as rainhas de
-Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière
-e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É
-excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho
-prova serem estas paginas as primicias de um escriptor.
-
-Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo:
-a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir
-fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine.
-Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade.
-Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa
-gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas.
-O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo
-que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que
-se encontram diamantes.
-
-Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade
-poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois,
-a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse
-serem tempo perdido.
-
-Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de
-apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne
-
-
- Seu
- M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ
- _Oliveira Martins_
-
-
-Casa de V. Ex.ᵃ
-
-25 de março
-
-
-
-
-ADVERTENCIA
-
-
-No seu principio, as _Donatarias_ foram uns simples artigos de
-_dilletantismo_ litterario, não se concebendo ainda o plano d’um volume.
-
-Destinadas á publicação em periodico, accommodei-as ao pequeno espaço que
-me dispensava um dos mais honrosos jornaes da capital; porém, estimulado
-pelo favor e cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo o pensamento,
-chegando emfim ao projecto de as colleccionar em separado.
-
-É o que faço hoje, não lhe alterando a fórma primitiva; corrigindo-as
-em parte, mas não lhe transtornando o molde, por lealdade, talvez
-exaggerada, ao meu primeiro pensamento.
-
-Tambem não quiz mudar de titulo, que parece de uma obra local—feição esta
-que se encontra um tanto accentuada na primeira dynastia.
-
-Como vi a luz n’uma aldeia do concelho d’Alemquer, entendi que bem
-proprio era o meu primeiro livro ser dedicado á terra que me foi berço.
-Começa-se a amar a Patria amando os campos e as flores do nosso lar; é
-ahi que desabrocha o sentimento civico, é ahi que se enraiza a adoração
-por todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade de sentimentos, de
-linguagem, d’aspirações e de crenças, que fórma o Paiz.
-
-Além d’isso, Alemquer desempenhou na Historia portugueza um papel
-importante, embora hoje esteja reduzida ás suas tradições e ao movimento
-industrial das fabricas, que actualmente lhe tornam conhecido o nome,
-que, sem essa circumstancia, estaria de todo olvidado.
-
-Outr’ora capital da Casa das Rainhas, villa predilecta das soberanas, que
-nas suas muralhas encontravam defeza leal, que nos seus montes e nos seus
-vergeis buscavam o desenfado da vida cortezã, é justo que essas memorias
-hoje sejam invocadas[1] por quem nasceu no seu termo, por quem viu ao
-despontar da vida, as ruinas do velho castello que Affonso Henriques
-tomou aos mussulmanos e que D. João I destruiu como padrão d’ingloriosas,
-ainda que valentes recordações!
-
-Aconselharam-me que ampliasse o livro e o intitulasse—_A Casa das
-Rainhas_; era mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro trabalho...
-Reagi, conhecendo a justiça do conselho, pelos motivos que acima expuz,
-despretenciosamente, sem outros calculos que não sejam os da lealdade do
-sentimento.
-
-Procurei julgar os diversos personagens que menciono, conforme o meu
-sentir os define. Na philosophia da Historia, o leitor me julgará,
-porque quem escreve é um reu que tem de sujeitar-se ás impressões que
-suggeriu aos cultos e até aos incultos. Ahi é que o historiador sobrepuja
-o erudicto na manifestação da sua intellectualidade. Isto não é julgar-me
-a mim proprio. Digo-o em geral, como regra assente. O erudicto busca,
-trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos dos archivos o pergaminho
-desejado. Não o impelle a sua philosophia, mas sim as suas aspirações;
-porém, ao resolver do problema, nos mostra na critica do documento
-achado, os dotes da sua intuição, revela-nos bem qual é a grandeza da
-sua alma, qual a força do seu raciocinio. Entretanto, sem erudictos
-não poderia haver philosophos; uns completam os outros, no ideal dos
-que escrevem a Historia:—mostrar aos presentes, para sua licção e dos
-futuros, o que foram os passados, o rigor dos seus defeitos e a suavidade
-de suas virtudes.
-
-Alicerce da minha vida litteraria, as _Donatarias_ vêem a luz sem
-pretenções, mas com o apoio favoravel d’um dos nossos primeiros
-escriptores, que obsequiosamente, se promptificou a prefacial-as.
-Agradeço-lh’o com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei das suas
-palavras, como incentivo tenaz para o trabalho que mesmo que não traga
-gloria, sempre traz proveito.
-
-Egualmente me confesso reconhecido aos srs. dr. Xavier da Cunha,
-conservador da Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel da Costa
-Basto, director do Archivo da Torre do Tombo, pelos bons serviços com que
-me brindaram no decurso das minhas buscas investigadoras.
-
- _Franco Monteiro_
-
-Cortegana, março de 1893.
-
-
-
-
-A CASA DAS RAINHAS
-
-(NOTICIA SUMMARIA)
-
-
-Para sustento de suas consortes costumavam os antigos reis doar-lhes o
-rendimento de algumas villas, juncto a varias attribuições civis que
-variavam conforme a confiança que o soberano depositava na esposa.
-
-Em 1188 Sancho I tencionou visitar a Palestina; na duvida de succumbir na
-empreza, doára a sua mulher a rainha D. Dulce os rendimentos de Alemquer,
-Terras do Vouga, do Porto e de Santa Maria; mas, retirada a idéa da
-jornada, não se sabe se D. Dulce continuou a usufruir os bens testados,
-ou se elles voltaram para a corôa.
-
-O sr. visconde de Figanière no seu explendido livro _Memorias das Rainhas
-de Portugal_, pag. 63 e 64, quasi que affirma que esta senhora foi
-donataria de Alemquer; Francisco da Fonseca Benevides nas _Rainhas de
-Portugal_ (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) segue o mesmo caminho. Entretanto, são
-simples conjecturas as opiniões dos dois illustres e sabios escriptores.
-Que D. Dulce possuiu propriedades no termo de Alemquer, é innegavel;[2]
-assim como possuiu na Beira varias fazendas ao sul do Mondego;[3] mas que
-tivesse o senhorio d’esta villa, não é certo, embora com probabilidades.
-
-A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa de seu filho Affonso II; esta
-princeza teve os senhorios de Torres Vedras, Obidos e Lafões, existindo
-na Torre do Tombo um documento em que o herdeiro de D. Sancho regula a
-applicação dos rendimentos de D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e
-Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, e como da mulher de D. Affonso
-II existem provas de haver casa propria, não nos parece fóra de razão
-enumeral-a como a primeira _senhora_ (não _proprietaria_) de terras.
-
-De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia que viesse a possuir quaesquer
-villas em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão teve Torres Novas,
-Alemquer e Torres Vedras, que lhe foram doadas por seu esposo, D. Affonso
-III, sendo-lhe mais tarde concedido o padroado d’estas villas. Santa
-Izabel, mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote Abrantes, Obidos e Porto
-de Moz, por carta d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.[4] Mais tarde
-teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, Cintra, Ourem, Feira, Gaia,
-Lamoso, Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e
-Monte Alegre; sendo esta concessão ampliada com varias rendas em dinheiro
-e com as villas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho de
-1304)[5] e Athouguia (19 de outubro de 1307). Possuiu além d’isso os
-reguengos de Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a Quinta de Fandega da
-Fé, em Torres Vedras e a leziria d’Atalaya.
-
-Não ha documentos que affiancem que Izabel d’Aragão possuisse Torres
-Vedras e Alemquer; no que diz respeito a esta segunda villa, o amor que
-a rainha sempre lhe consagrou, leva-nos a suppor que de facto fosse sua
-proprietaria.
-
-Depois de Santa Izabel apparece-nos D. Brites, esposa d’el-rei D. Affonso
-IV. Esta soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha de Sancho IV de
-Castella e da rainha D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro de 1309
-com o infante D. Affonso, que mais tarde, por morte de seu pae (7 de
-janeiro de 1325), succedeu na corôa portugueza.
-
-Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz confirmou-lhe a doação que o marido lhe
-havia feito (20 de outubro do mesmo anno) da villa de Vianna do Alemtejo,
-com todos os poderes civis e criminaes. O mesmo seu sogro deu-lhe em
-arrhas Evora, Villa Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo estas
-duas ultimas trocadas por Cintra (26 de maio de 1334) com todos os seus
-pertences.
-
-Teve varias herdades em Santarem, que pertenceram a Fernão Sanches; e
-a leziria d’Atalaya (5 de novembro de 1337).[6] Em 7 de junho de 1357
-el-rei D. Pedro I, para lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê
-de Torres Novas. D. Beatriz de Castella procurou imitar Santa Izabel
-no exercicio da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos pios,
-influiu por destruir o antagonismo entre Affonso XI de Castella e Affonso
-IV de Portugal, e o resentimento de seu filho D. Pedro para com o pae, o
-infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu esta rainha em Lisboa, e
-jaz sepultada na sé da mesma cidade.
-
-D. Constança Manuel, primeira mulher de D. Pedro I, teve em arrhas as
-villas de Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor Telles, esposa de
-D. Fernando, foi presenteada por seu marido com Villa Viçosa, Almada,
-Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, Torres Vedras, Obidos, Athouguia,
-Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, Unhos, e Terras de Meréles.
-Esta carta de arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro de 1372.[7]
-Passados dois annos fez-se a troca de Villa Viçosa por Villa Real de
-Traz-os-Montes, onde D. Leonor exerceu toda a jurisdicção. A 20 de março
-de 1376 a seductora do mallogrado soberano de Portugal ainda teve artes
-de adquirir Pinhel.
-
-D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, dotou-se com as rendas da
-Alfandega de Lisboa, da portagem e do paço da Madeira e com as villas de
-Alemquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres Novas e Torres Vedras.
-
-D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas de seu marido trinta mil florins de
-ouro de Aragão, e por hypotheca Santarem com todos os seus rendimentos.
-Em 1453 D. Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra e Torres Vedras,
-vindo mais tarde a possuir outras terras da rainha sua sogra. D. Isabel
-de Lencastre, filha do grande infante D. Pedro, o das _Sete Partidas_,
-foi donataria de todas as villas da sua predecessora. D. Leonor de
-Lencastre, além d’estas mesmas villas, teve por doação de seu marido
-D. João II as cidades de Silves e Faro e as villas de Aldeiagallega e
-Aldeiagavinha, tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. Desde esta
-epocha ficou constituida a _Casa e Estado das Senhoras Rainhas de
-Portugal_.[8]
-
-Tinham as augustas esposas dos nossos soberanos a faculdade da nomeação
-dos empregados do fisco, os recebedores das rendas, das patentes
-d’officiaes, etc., ficando o senhorio eminente na posse da corôa.
-
-D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de julho de 1643) um _Tribunal da
-Fazenda da Casa e Estado das Senhoras Rainhas_, que a administrou até que
-o alvará de 25 de janeiro de 1770 transmittiu o seu governo para o Erario.
-
-Foi este o primeiro golpe na Casa das Rainhas, de todo extincta por
-decreto de 9 d’agosto de 1833.
-
-
-
-
-AS DONATARIAS DE ALEMQUER
-
-
-
-
-D. Dulce
-
-
-Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe no throno seu filho Sancho
-I, que ao tempo contava trinta e um annos de edade.
-
-Achára traçadas as linhas da monarchia portugueza pela espada e pela
-politica do pae, continuando a sua obra com a tomada de Silves, a
-primeira tentativa da conquista do Algarve, mais tarde gloriosamente
-seguida por seu neto Sancho II e só ultimada por Affonso III, graças ao
-valor incomparavel de D. Paio Peres Correia.
-
-Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz e de D. Pedro, o _cru_, na
-administração interna do paiz. Tendo outros horizontes que não só os da
-guerra, tomou a hombros o povoar as praças e logares conquistados, em
-proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia essa edade média
-bulhenta, que vivia da conquista e tinha por unico objectivo a gloria da
-cruz e o engrandecimento do territorio.
-
-Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o principe a D. Dulce de Aragão,
-filha de D. Ramon Berenguer, decimo quinto conde de Barcelona e de D.
-Petronilha, rainha do Aragão, filha de Ramiro, o _monge_. Longos e
-abençoados foram os fructos d’este consorcio; D. Dulce deu á luz onze
-filhos, entre os quaes trez filhas se elevaram aos altares.
-
-Depois de vinte e tres annos de casada, a rainha succumbiu em Coimbra
-(primeiro de septembro de 1198), sendo sepultada em Santa Cruz.
-
-Apesar de não haver documentos que provem que esta princeza foi senhora
-de Alemquer, auctores ha que a têem como tal, parecendo corroborar esta
-opinião o facto de seus bens serem repartidos pelas filhas (D. Constança,
-D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, D. Branca e D. Berenguella) e ser D.
-Sancha possuidora da villa.
-
-Não nos embrenharemos na discussão d’este assumpto embora estejamos
-convencidos do contrario (permitta-se-nos dizel-o), apesar do senhorio
-de D. Sancho e da rainha possuir terras n’este concelho, segundo
-julgamos, proximas á quinta da Condessa.
-
-No emtanto, como temos por nullo o nosso sentir, curvaremos a cabeça
-ás baseadas affirmações dos mestres, mencionando-a como a primeira
-donataria.
-
-
-
-
-D. Sancha
-
-
-Deve-se escrever com animo grato a biographia d’esta princeza. Sympathica
-e boa, religiosa e casta, foi sem duvida um dos grandes premios que a
-Providencia destinou ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica
-das epochas medievaes, procurando com o cilicio a expiação da carne, que
-nunca abandonára o pudor!
-
-Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, a sacrificada esposa d’Affonso
-IX, de Leão, predilecta filha do rei _povoador_, a ella o paiz deve
-relevantes serviços, porque foi ella a introductora dos franciscanos em
-Portugal, que tantos sabios nos deram e tantos beneficios nos prestaram.
-
-D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção especial; fôra-lhe doada
-pelo pae, que a enriquecêra com um paço, em que a santa senhora recebeu
-os cinco martyres de Marrocos, e onde buscou, muitas vezes, a retirada
-residencia, no alto monte, em que á vontade contemplava a maravilhosa
-obra do Creador!
-
-D’este paço só resta a chamada _capella de Santa Sancha_, unica reliquia
-d’uma das maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.
-
-Lendo a historia, examinando a guerra um tanto justa que Affonso II
-moveu ao feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem o pae, no seu
-testamento, se houve d’um modo liberal de mais, vemos na resistencia de
-D. Sancha, não a ambição do poder, nem da fortuna, que sempre desprezou,
-mas, talvez, _visionariamente_, o amor á terra de quem ella se teria de
-apartar, uma vez expulsa do seu senhorio.
-
-Estas guerras civis tomaram proporções que o rei, se unicamente
-fosse dominado pelo desejo da concentração do poder, poderia evitar.
-Excommungado pelo pontifice e perseguido pelo soberano de Leão, o
-monarcha portuguez encaminhou a contenda para uma via diplomatica.
-Enviado a Roma um embaixador, foi o pleito julgado por dois abbades de
-Cistér, que condemnaram D. Affonso a uma multa extraordinaria, para
-satisfazer as custas da peleja encetada por elle.
-
-Não se conformando com a sorte, foram os castellos entregues aos
-templarios, como depositarios e administradores dos bens. O papa morreu;
-rixas intestinas entre o clero e a corôa portugueza interromperam a
-demanda, que ficou por decidir no reinado d’Affonso II, fallecido a 25
-de março de 1223. Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado e
-valente, mas de todo infeliz. Este monarcha acabou o litigio com as irmãs
-de seu pae, não só por conveniencias, mas por decencia.
-
-_Era uma vergonha_ a desharmonia da familia real; e o chefe, reprovando
-no seu intimo a generosidade do avô, cedeu ás imposições do mundo... nem
-parecia da edade média.
-
-Combinou-se que as donatarias prestassem homenagem ao soberano e
-contribuissem com gente para a hoste real, obrigando-se o rei a
-defender-lhes a propriedade.
-
-Como dissemos, D. Sancha residiu algumas vezes em Alemquer, até que,
-movida do seu instincto religioso, professou no mosteiro de Cellas, onde
-falleceu em 13 de março de 1229. Jaz em Lorvão.
-
-O senhorio da villa passou á irmã, _D. Thereza_, esposa do rei de Leão,
-D. Affonso IX, de quem se separou por motivos de parentesco. Recolhida
-a Portugal, fez-se monja em Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de
-junho de 1250.
-
-No reinado de D. João V foram estas senhoras beatificadas pelo Papa
-Clemente XI; os seus corpos trasladaram-se, com pompa digna do Salomão
-portuguez, para o altar mór da egreja onde ambas jaziam.
-
-Depois d’estas princezas, passou Alemquer para o dominio das rainhas.
-Só mais tarde D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, teve o
-senhorio da villa por successão a sua mãe, D. Filippa, até que D. Leonor
-d’Aragão, esposa de D. Duarte, tomou posse da terra que estava destinada
-para joia preciosa do diadema brilhante das Soberanas de Portugal.
-
-
-
-
-D. Beatriz de Gusmão
-
-
-Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 de março de 1223. Subira ao
-throno pela morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de março de 1211), de
-quem foi herdeiro, conforme o direito de primogenitura.
-
-Ainda infante, casou com D. Urraca, filha de Affonso VIII, de Castella, e
-de D. Leonor, filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.[9]
-
-D’este consorcio nasceram quatro filhos: Sancho, que herdou a corôa e foi
-o segundo no nome; Affonso, que casou em França com Mathilde, Condessa de
-Bolonha; Leonor, esposa de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. Fernando, o
-_infante de Serpa_, desposado de D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór
-de Castella.
-
-O Conde de Bolonha foi o primeiro principe que deu exemplo de perfidia
-na corôa portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo alma dos magnates que
-depozeram D. Sancho (1245), por não lhe servir as ambições, negando
-a politica do avô, investira o poder depois de exilado o irmão,
-conquistador valeroso, a quem a patria, mesmo depois de seiscentos annos,
-só tem dispensado palavras vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra no
-pantheon dos monarchas![10]
-
-Póde ser que nos ultimos tempos do seu governo D. Sancho cedesse á
-amante a vontade de rei; póde ser—e foi—que o soberano, inebriado pelos
-fascinadores olhares de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu povo;
-mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, praças que tomou ao islamismo,
-mereciam melhor recompensa que a proscripção e o exilio em Castella.
-
-Que tempos os medievaes! No castello de Coimbra, depois do osculo de
-mais intenso amor; depois de mutuas juras de fidelidade, passadas as
-scenas que tornam celestial o remanso do lár, um vulto de guerreiro
-assoma á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla o marido, que
-dorme, e, tão bella como perfida, lança-se nos braços de Raymundo Viegas
-de Portocarrero, cavalga o fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo
-do cavalleiro, que a roubára pela politica do infante bolonhez, penetra
-os muros d’Ourem, onde esforços do apaixonado D. Sancho não conseguem
-escalar!
-
-Abandonado pela mulher a quem confiára o seu coração, perseguido
-pelo clero que o intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice,
-refugiou-se em Toledo, onde falleceu aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida
-a sua morte, o conde de Bolonha tomou o titulo de rei. Este soberano
-para quem a historia só encontrou o cognome de _bolonhez_, apezar de
-ter conseguido a libertação do Algarve, foi tão perfido com a condessa
-Mathilde, como traidor ao irmão.
-
-Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, contrahiu segundas nupcias com
-D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de Castella, e de D.
-Maria Guillen de Gusmão.
-
-Embora fosse o primeiro coito damnado que se sentou no throno, D. Brites
-foi um anjo de paz como a sua successora, Santa Izabel. Ella serviu de
-medianeira quando a guerra rebentou entre Castella e Portugal, e mais
-tarde Affonso X, desthronado pelo herdeiro ambicioso, encontrou na filha
-um thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio da desgraça.
-
-O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação d’Alemquer, em 1267.[11] A
-estima de Affonso III demonstra a importancia que a villa então possuia,
-pois é licito acreditar que a generosidade do rei condissesse com o amor
-consagrado á esposa. Dezesete annos estivera Alemquer annexa á corôa,
-encontrando na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, digna herdeira
-de D. Dulce e de suas filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a terra
-em si, embora as suas virtudes lhe servissem d’ornamento, materialmente
-nada lucraria, se a rainha só cuidasse de receber as rendas, deixando no
-olvido os beneficios com que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites
-alcançára do esposo (28 de junho de 1277)[12] o padroado das egrejas e
-capellas do seu senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, deu
-principio á construcção da egreja de S. Francisco, onde outr’ora foram os
-paços reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco martyres de Marrocos.
-
-Acanhado e pequeno o primitivo templo, começou-se a obra da nova egreja,
-em 1280. Não a poude vêr concluida a rainha, que falleceu em 7 d’agosto
-de 1300, e a egreja só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, seu
-filho, el-rei D. Diniz, continuou, dignamente, o empenho da mãe, como o
-attesta a seguinte inscripção:
-
- _Esta igreja fundou
- A muy nobre rai(nh)a Dona
- Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso
- seu filho nobre
- Rey de Port(ugal) comprido de vertude
- Do(m) Denis_[13]
-
-
-
-
-Santa Izabel
-
-
-Tres annos após o fallecimento de Affonso III (16 de fevereiro de 1279),
-seu filho, o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel de Aragão, filha
-de D. Pedro, o _grande_, e de D. Constança de Napoles. O consorcio
-realisou-se em 24 de julho de 1282, nascendo, passados oito annos, a
-infanta D. Constança, desposada de Fernando IV, rei de Castella, e logo
-depois (8 de fevereiro de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso IV, cuja
-ambição tanto alanceou a rainha sua mãe.
-
-Exactamente como de D. Dulce, não existem documentos que provem o dominio
-d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a sua residencia aqui, os seus
-beneficios á terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos a contal-a
-entre as donatarias, enchendo-nos de orgulho por possuirmos uma senhora
-tão grande.
-
-Perseguida e intrigada, como todas as almas virtuosas e nobres, soube
-impôr o seu vulto á calumnia, incutindo uma veneração no espirito do
-marido, que a perfidia não conseguiu debellar.
-
-Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que
-o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em
-Alemquer, onde esteve algum tempo.
-
-Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera
-hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira
-depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali
-surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora,
-e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria,
-onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes.
-
-Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos
-paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas,
-como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de
-Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota,
-com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora.
-
-Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia
-instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais
-antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos
-com Deus...
-
-Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do
-illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas
-por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as
-rainhas de Portugal.[14]
-
-
-
-
-D. Constança
-
-
-Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi
-Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, _o cru_.
-
-Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua
-primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; _o santo_, rei de
-Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão.
-
-O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho,
-oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu
-territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e
-França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do
-castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis.
-
-Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D.
-Constança no paiz de seu marido.
-
-Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou
-o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15]
-
-Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre
-todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração.
-Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem,
-ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito
-de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido,
-que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de
-poder, mais á vontade, chamar sua áquella que _só_ amava!...
-
-Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e
-lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor
-louco, immenso, incomparavel!
-
-Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama
-de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe
-quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente
-este amoroso idyllio.
-
-A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em
-estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da
-desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso
-pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo
-sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo
-é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a
-castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!
-
-Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias,
-folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua
-existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito
-uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os
-portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!
-
-Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como
-o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa
-que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...
-
-D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua
-fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego,
-espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol,
-defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste,
-presenciar o espectaculo.
-
-Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos
-a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a
-politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu
-ciume.
-
-
-
-
-D. Leonor Telles
-
-
-Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se
-ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo
-não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da
-devassidão.
-
-Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel
-impudico só o representou como comedia.
-
-Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro,
-respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de
-perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso.
-
-Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na
-sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia.
-
-Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem
-d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.
-
-D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o
-consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella,
-guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II.
-
-Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra
-Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter
-rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em
-Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas,
-não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor
-adultero.
-
-Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem.
-
-Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello
-e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era
-um costume.
-
-Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de
-provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e
-o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no
-cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco
-honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de
-idyllios imaginarios.
-
-D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor,
-e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.
-
-Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a
-honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se
-recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre
-soberano!
-
-Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração
-sente.—Receava magoar a _honra_ d’aquella mulher. Poz de parte o receio;
-mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a
-irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle
-amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D.
-Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida
-estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava,
-mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem
-entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.
-
-Lisboa alvoraçou-se com a nova.
-
-Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro.
-A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o
-alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato.
-Socegaram os animos.
-
-Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do
-Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua
-mulher.
-
-Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco,
-e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus
-pertences.
-
-Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor
-Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em
-Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em
-D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre
-d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.
-
-Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados:
-D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho
-II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião
-(coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma
-mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á
-perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!
-
-O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.
-
-O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios.
-Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que
-a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe
-commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou;
-assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com
-inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do
-povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.
-
-O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro
-de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos
-d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de
-todos os nossos monarchas.
-
-Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar
-sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim!
-Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de
-ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou
-uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!
-
-Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia
-da _privança_ do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de
-D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o _valido_. Consumado este
-acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na
-fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!
-
-D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento
-com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de
-varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em
-Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos
-sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro,
-quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da
-entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia.
-No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou
-nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido,
-embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.
-
-Houveram então valentes combates!
-
-Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas
-esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo
-para a causa de Portugal.
-
-Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao
-prolongado sitio, vendo se assim se rendia.
-
-Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de
-1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o _Defensor do Reino_ a
-faltar aos compromissos tractados na capitulação.
-
-Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte
-dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e
-pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.
-
-Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de
-1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de
-que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.
-
-
-
-
-SEGUNDA DYNASTIA
-
-
-
-
-D. Filippa
-
-
-Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se
-para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e
-fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a
-nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava
-contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar
-dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor.
-No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens
-appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o
-Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos
-cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem
-sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo
-dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do
-universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos _Lusiadas_; que
-é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como
-o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do
-propheta.
-
-O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o
-defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o
-Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o
-advogado soubéra dominar a legislação.
-
-Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica,
-symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito
-com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a
-autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes
-foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem
-estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças
-publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze,
-como em vida lhes votou todo o seu amor!
-
-Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14
-d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança
-politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant,
-pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa,
-filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer,
-Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.
-
-O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387),
-debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que
-adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.
-
-Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior;
-mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo,
-certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com
-o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o
-pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.
-
-D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre
-existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano
-illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona
-de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez
-sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na
-nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.
-
-Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu
-em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava
-Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei
-de _boa memoria_, e de ter gerado em seu ventre
-
- ...........quem governasse,
- Quem augmentasse a terra mais que d’antes,
- Inclyta geração, altos Infantes.
-
- (LUSIADAS—canto IV, est. 50.)
-
-
-
-
-D. Izabel de Lencastre
-
-(Duqueza de Borgonha)
-
-
-Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o
-valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de
-honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o
-martyr benjamim da familia.
-
-Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice;
-D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem
-de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador
-das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de
-Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D.
-Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas
-masmorras de Fez.
-
-Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz
-folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi
-o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento
-generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito
-damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso
-se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio
-com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença
-da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que
-chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus
-successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares:
-em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.
-
-Os outros filhos d’el-rei, _altos infantes_ que Camões cantou, foram
-modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]
-
-Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços
-familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração
-abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados
-tambem pelas jaculatorias d’um povo.
-
-Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido,
-dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a
-familia as lagrimas e os soluços.
-
-Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo
-ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D.
-Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por
-todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras
-recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais
-novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á
-rainha a infanta sua filha.
-
-D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a
-com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha
-recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de
-fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.
-
-N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade
-que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe
-que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de
-que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.
-
-Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.
-
-Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa
-companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa
-formalidade seria sagrada por todos os titulos.
-
-Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.
-
-No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e
-apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou
-por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza
-um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas _Sete Partidas_ quão
-fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O
-brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro
-da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de _boa memoria_,
-e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D.
-Maria, a sympathica filha do _rei venturoso_, e em Camões, a expressão
-mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura
-angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de
-Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente
-mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram
-os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor
-de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira,
-os primeiros padrões da vassallagem do oceano á _gente ousada_ que lhe
-rasgava o corpo virginal.
-
-Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os
-pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430)
-o duque de Borgonha, Filippe, o _bom_, conde de Flandres.[18]
-
-Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella
-dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e
-mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor
-fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do
-desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.
-
-Bella aureola a da honra e a da gratidão!
-
-D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17
-de dezembro, de 1471.
-
-Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.
-
-
-
-
-D. Leonor d’Aragão
-
-
-Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de
-septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de
-Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse
-d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada _casa das rainhas_,
-verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre,
-mulher de D. João II.
-
-Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava
-uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como
-presagio do descanço eterno.
-
-O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas
-o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da
-virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.
-
-As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos;
-esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle,
-vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.
-
-Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas
-como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura
-da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado
-por uma nuvem negra.
-
-Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da
-virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando
-os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o
-amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.
-
-Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma
-caricia para lhe subjugar a vontade.
-
-Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o
-anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio
-que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.
-
-Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que
-embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de
-contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os
-maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura
-inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis
-peripecias a fallecer no exilio!
-
-Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se
-limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se
-do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento
-desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da
-dynastia d’Aviz.
-
-A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram
-com todas as suas forças o objectivo da nova edade.
-
-Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino.
-Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida
-pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos
-amestrados já no valor da arte da guerra.
-
-Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei
-e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do
-paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D.
-Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da
-influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa
-companheira, teve a fraqueza de ceder.
-
-Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a
-armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para
-o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de
-dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao
-accrescimo do imperio.
-
-D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de
-junho de 1443.
-
-Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar
-ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava
-no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a
-pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em
-cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha
-um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o
-homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a
-expedição. Era o que lhe valia.
-
-Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o
-cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19]
-Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de
-septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em
-testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia
-do reino a sua mulher.
-
-A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos
-indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a
-guerra civil.
-
-Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da
-esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de
-Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para
-Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução
-das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do
-estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte,
-que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba,
-alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma
-aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o
-pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um
-fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e
-de esposa.
-
-Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o
-conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada
-submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças,
-em logar de anjo de paz.
-
-A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella
-seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para
-fatalidade da Patria.
-
-De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro
-de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera
-Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu
-apaixonado esposo.
-
-Que a critica lhe seja leve.
-
-
-
-
-D. Isabel de Lencastre
-
-(MULHER DE D. AFFONSO V)
-
-
-A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos
-tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do
-desbragamento de Leonor Telles.
-
-D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos
-interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos
-posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres
-filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas
-grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o
-leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.
-
-Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um
-defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.
-
-Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o
-monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços
-prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente
-da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham
-destinado.
-
-Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo
-reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do
-infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do
-movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho
-o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o
-protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.
-
-Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então
-de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a
-calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua
-ausencia as chammas fortaleceram-se.
-
-De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito
-de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades
-da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião,
-santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao
-filho a honra das donas e donzellas.
-
-Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar
-os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus
-corceis e batessem-se com elle...
-
-Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira
-na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte
-e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o
-Avranches...
-
-Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos
-pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que
-seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não
-ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não
-commettêra.
-
-A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a
-sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe,
-nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de
-tres damas que a elle deviam o sêr.[22]
-
-Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha
-divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que
-allumia um cadaver.
-
-Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o
-amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol
-das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com
-a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um
-filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?
-
-Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores
-da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de
-Alfarrobeira acharam-se frente a frente.
-
-Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do
-Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais
-segura.
-
-Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta
-arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre
-as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.
-
-Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os
-golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão,
-havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses
-D. Pedro.
-
-Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.
-
-De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto
-redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e
-quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.
-
-D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse
-estas palavras: _Fartar rapazes! vingar agora villanagem_.
-
-Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e
-despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.
-
-Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo
-depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande
-Morto, que esteve tres dias insepulto.
-
-Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete
-annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.
-
-Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace
-que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.
-
-O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a
-rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D.
-Leonor e a sua avó D. Filippa.
-
-Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais
-sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel
-esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.
-
-N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não
-foram infundadas.
-
-Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se
-rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado
-na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da
-Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]
-
-Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o
-futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a
-morte de seu avô.
-
-No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da
-catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo
-regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.
-
-Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da
-morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada
-pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com
-um terrivel vingador.
-
-Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa
-nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo
-martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.
-
-
-
-
-D. Leonor de Lencastre
-
-
-A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e
-ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o
-fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso
-V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.
-
-Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de
-seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D.
-Henrique.
-
-Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam
-o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.
-
-Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D.
-Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um
-estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem
-fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae,
-impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a
-Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e
-do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver
-do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura
-que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
-
-Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou
-a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de
-desenganos e de crueis penas do triste passado.
-
-Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas,
-que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em
-Cintra aos 28 de agosto de 1481.
-
-Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos
-tempos da vida do pae governava de facto o reino.
-
-N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do
-infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia
-vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto
-lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
-
-A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu
-(23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo
-contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
-
-Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em
-senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
-
-N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia,
-alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás
-punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
-
-Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com
-D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de
-Bragança.[25]
-
-Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna
-successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo
-bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no
-animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das
-suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.
-
-No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas
-continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a
-terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro
-chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o _Tormentoso cabo_,
-primeiro indicio da derrota da India.
-
-O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival
-de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente
-parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e
-filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os
-potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e
-do Occidente!
-
-Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria
-a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta
-felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito
-vingador do rei semeára no lar domestico.
-
-Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e
-audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.
-
-Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois;
-era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem
-altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte
-surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo
-conhecido.
-
-Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e
-com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).
-
-Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das
-lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja
-da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as
-Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da
-Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.
-
-No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus
-passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a
-grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.
-
-Jaz no convento da Madre Deus.
-
-Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar
-os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos,
-sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.
-
-Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico
-conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes
-vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.
-
-
-
-
-D. Leonor d’Austria
-
-
-D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge,
-mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como
-herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de
-Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.
-
-Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas
-maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este
-monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram
-acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da
-rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de
-Toledo.
-
-É esta a unica mancha do reinado de D. João II.
-
-Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu
-maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e
-ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador
-constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel,
-continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com
-sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu
-illustre predecessôr lhe permettiam tomar.
-
-Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano
-_venturoso_. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens
-que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois
-pela voracidade do ganho; mas _foi grande_ pela sua politica de ferro,
-pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a
-influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do
-continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia
-com que soube tratar a visinha Hespanha.
-
-Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista
-do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e
-herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia
-desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da
-Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação
-de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais
-alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois
-paizes.
-
-Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D.
-Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito
-de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a
-Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.
-
-Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se
-molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente
-extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos
-annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no
-pundonor.
-
-A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do
-primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas
-pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham
-sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II,
-foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis
-annos do seu reinado.
-
-De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do
-Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das
-Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra
-do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos
-portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o
-receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas
-dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a
-quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da
-riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico
-d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o
-gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.
-
-Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso
-d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força
-brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei
-subjugou o oceano e avassallou o Oriente.
-
-Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi
-convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos
-seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento
-de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem
-essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de
-Adão...
-
-João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas
-do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia;
-outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro
-e pela fortaleza do seu cerebro de politico.
-
-Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares,
-mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae
-extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do
-mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás
-luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas
-glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel,
-é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes
-tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade
-do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens,
-deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.
-
-Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos
-foi um campo d’aleivosias.[31]
-
-Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente
-assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte,
-costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento
-cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não
-havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam
-a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza
-se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia
-os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas
-de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro
-ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles
-tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.
-
-Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se
-assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas
-solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o
-rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India
-pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no
-poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de
-Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia,
-um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D.
-João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos
-embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os
-servidores leaes.
-
-De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois
-annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe
-D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa:
-D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D.
-Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico
-Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar
-Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal,
-bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal,
-arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com
-D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina,
-esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança
-o direito de successão por morte do cardeal rei.
-
-Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela
-mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de
-1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.
-
-Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella.
-Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e
-politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da
-esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de
-Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha
-senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e
-leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve,
-como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.
-
-Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do
-principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna _a louca_ e de Filippe
-I de Castella.
-
-Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores
-desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que
-destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de
-1518).
-
-No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação
-da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que
-fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D.
-Manuel.
-
-Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.
-
-Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de
-numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de
-dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a
-a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura
-protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.
-
-A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar
-Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia.
-Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.
-
-Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que
-só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em
-compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e
-honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento
-do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre
-mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto
-a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus
-soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a
-ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em
-breve.
-
-Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á
-partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de
-Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os
-seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de
-fevereiro de 1558.[36]
-
-Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos
-precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe
-o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.
-
-
-
-
-D. Catharina d’Austria
-
-
-Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D.
-João.
-
-Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu
-nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador
-Carlos V.
-
-Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho,
-casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.
-
-D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma
-feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o
-_Livro das Horas do Espirito Santo_, os _Psalmos certos para os finados_,
-o _Livro da Montaria_ e attribue-se-lhe tambem a _Côrte Imperial_; seus
-filhos, el-rei D. Duarte o auctor do _Leal Conselheiro_ e da _Arte de bem
-cavalgar em toda a sella_; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das
-_Horas de Confissão_ e do _Livro da virtuosa Bemfeitoria_, seguiram-lhe
-as honradas tradições.
-
-N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior
-brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede,
-Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André
-de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos
-estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa
-Universidade, transferida de vez para Coimbra.
-
-As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão
-(1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade
-de podermos estabelecer uma colonia em Macau.
-
-Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros
-o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial
-d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e
-D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das
-especiarias.
-
-A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional.
-Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do
-grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja
-dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao
-coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora
-maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.
-
-Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon
-da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do _Mar Tenebroso_, cujos
-segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a
-actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus
-tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia
-eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela
-Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D.
-Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes
-da familia real.
-
-Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.
-
-Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte
-estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes
-epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu
-nascer.
-
-Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha
-da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras,
-poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores
-cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja
-penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam
-todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela
-realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E
-hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito;
-que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do
-genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes
-do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação
-profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi
-descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que
-adquiriram a Bemaventurança eterna.
-
-Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D.
-João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões
-depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande
-arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor
-vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O
-mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua
-prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu
-um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao
-throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577).
-A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha,
-que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho
-d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas
-tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores
-attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de
-Damão e de Jafanapatão.
-
-Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando
-o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro
-de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique.
-Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era
-senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu
-testamento.
-
-Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que
-falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem.
-Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da
-sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim
-de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de
-poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no
-seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz
-nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da
-rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos,
-alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado,
-cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do
-heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam...
-
-Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa
-grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma
-pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais
-cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu
-paterno ninho.
-
-
-
-
-(O Interregno dos Filippes)
-
-
-Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava
-um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde
-o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em
-Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já
-não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media,
-como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.
-
-A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por
-essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade
-de outras eras.
-
-Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das
-Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as
-côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos
-para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores
-que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que
-administrassem o reino dada a sua morte.
-
-Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580),
-o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu
-cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa
-Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do
-infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta
-D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de
-Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o
-throno.
-
-Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como
-rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No
-meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo
-ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não
-faltou esta nota comica. Faltava, porém, o _veridictum_ dos governadores,
-depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a
-quem pertencia a corôa.
-
-No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de
-1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.
-
-Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada
-pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello
-de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de
-Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se
-debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da
-tranquillidade das delapidadas consciencias.
-
-N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas;
-Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.
-
-Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada
-em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção
-da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau
-grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a
-rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os
-mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.
-
-Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro
-que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a
-confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo
-para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota.
-Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os
-vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de
-longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou
-os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a
-
- _.........................vã cubiça_
- _d’esta vaidade a quem chamamos Fama._[38]
-
-Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a
-todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas
-do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta,
-calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço
-da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo
-representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D.
-Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do
-estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena
-africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma
-chronica immortal da fenecida grandeza.
-
-Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de
-reatar o passado ao futuro. Os _Luziadas_ tornaram-se o manual em que
-oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer
-da sua independencia.
-
-Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela
-infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese
-da autonomia portugueza, chorára pelo _ninho seu paterno_, e tambem por
-essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes
-versos:
-
- _Ah Nathercia cruel quem te desvia_
- _Esse cuidado teu do meu cuidado?_
- _Se tanto hei de penar desenganado,_
- _Enganado de ti viver queria._
- ....................................
-
-No coração do patriota reinava uma outra Nathercia, alimentando-se nas
-aras do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das gloriosas epochas que se
-tornaram a nossa razão de ser como paiz independente.
-
-
-
-
-QUARTA DYNASTIA
-
-
-
-
-D. Luiza de Gusmão
-
-
-Apesar dos apertados grilhões com que a politica de Castella nos algemou,
-cuidando assim extinguir o sentimento da independencia, a ideia da
-liberdade invadia o coração do povo portuguez.
-
-Formavam-se phantasias, julgava-se vêr nos elementos uma certeza
-prophetica da restauração. A Biblia e o Bandarra eram mananciaes com que
-os embusteiros exploravam a crença popular.
-
-De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal
-e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada
-carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero
-lenitivo aos seus pezares.
-
-Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura
-encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde
-em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim
-do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da
-usurpadora Hespanha.
-
-E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição
-é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza,
-que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso,
-valente e guerreiro da nação portugueza.
-
-Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria
-as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo
-augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na
-infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação
-da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende
-hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na
-alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos
-immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar
-da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra
-confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se
-expande a vida e a força por todo um paiz.
-
-Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos
-fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito
-aquelle celebre dito de D. João da Costa, _antes uma republica bem
-portugueza que um rei estrangeiro_, a independencia de Portugal, em nossa
-opinião, não ia ávante.
-
-Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor,
-que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como
-D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau,
-era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada
-em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso
-d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo,
-defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião
-desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará
-em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal
-como cavalheiresca.
-
-E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o
-paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do _direito_ como impulsor do
-brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro.
-
-E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia,
-é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a _seu rei natural_, e que
-esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os
-laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella
-e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas
-suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio
-hespanhol.
-
-As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe
-feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques.
-
-Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por
-consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel.
-
-D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou,
-transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno
-de Portugal.[39]
-
-D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos
-com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de
-Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor
-do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar,
-certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I;
-n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe
-corria nas veias.
-
-Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de
-Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o
-mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio
-(Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na
-posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos
-tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento
-de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de
-Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de
-Sandoval.
-
-A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a
-princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido
-a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena
-dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que
-descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel
-de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser
-simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638.
-
-Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o
-sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão
-estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro,
-arrastando na sua orbita esposo e vassallos. _Antes rainha uma hora que
-duqueza toda a vida_, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas
-hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse
-o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de
-Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella
-o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que
-impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte,
-a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha.
-Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão
-piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia.
-
-Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das
-Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de
-janeiro de 1643.[41]
-
-Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga
-prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se
-interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto,
-devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja
-hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo.
-
-Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do
-governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno
-em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde
-então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o
-filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem.
-
-Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de
-fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado
-no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha
-pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra.
-
-Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV,
-profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar
-junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam.
-
-Que a historia lhe seja severa como a morte, proferindo sem lisonja
-e sem odio a sentença que lhe dictarem os bons ou maus actos dos que
-exercerem o poder supremo.
-
-O juizo imparcial da realeza não póde melindrar ninguem, porque o
-magisterio d’um rei não é propriedade d’uma familia, mas é patrimonio
-d’um povo, que tem direito a devassar os tumulos dos que o regerem e
-procurar nas suas cinzas ou o merecimento que exige a exaltação dos
-benemeritos, ou o crime que obriga o esquecimento dos precitos. A
-Historia é o grande tribunal, onde reis e vassallos são julgados com
-a mesma egualdade e com o mesmo rigor. Ella despreza Affonso III para
-acclamar Martim de Freitas; lança o estigma da infamia sobre a memoria de
-Leonor Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa ignorada de Fernão
-Vasques, o artista humilde que em nome do povo soube zelar o decôro do
-throno. Assim, quando o historiador penetra os humbraes da crypta de S.
-Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, e toca por sua vez nos ataúdes
-de tantos personagens, esquece as corôas que adornam os seus tumulos e
-julga-os como juiz, que não indaga a qualidade do réu.
-
-E a Historia, para ser Historia, é necessario que não dobre a vara da
-justiça e que guie sempre os seus passos pelo pharol da imparcialidade,
-que rompe a nevoa do servilismo infame.
-
-
-
-
-D. Maria Francisca Izabel de Saboya
-
-
-Fallecido D. João IV, tomou as redeas do governo a rainha D. Luiza, a
-isso obrigada pelo testamento do rei e pela menoridade de seu filho
-Affonso VI. Os negocios do Estado não se alteraram em cousa alguma com a
-administração da rainha viuva; mudou-se simplesmente o nome do imperante,
-porque, como dissémos, D. Luiza foi sempre a vontade do marido; nem o
-padre Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. Domingos do Rozario, seu
-conselheiro privado, a dominaram alguma vez. Altiva e auctoritaria, ella
-attendel-os-hia em certas occasiões, mas nunca se escravisava á sua
-influencia.
-
-Embora nos campos da batalha o valor do nosso exercito levasse, por
-vezes, de vencida o arrogante castelhano, a regente, como astuta
-politica, entendeu que sem allianças que amparassem a corôa aos
-embates da fortuna, difficil seria a sustentação da independencia.
-A França e a Inglaterra eram o alvo dos sonhos dourados de D. Luiza;
-queria ella fisgar a amizade d’esses paizes com enlaces matrimoniaes
-que identificassem os seus interesses aos interesses de Portugal;
-seguia assim o procedimento de D. Manuel para com a visinha Hespanha,
-procedimento este, que, apesar de todas as rivalidades, sustentou o
-equilibrio da nossa tranquilla expansão ultramarina.
-
-N’este empenho, realisou-se em 1662 o casamento da infanta D. Catharina,
-irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.
-
-Tanger e Bombaim foram os penhores da amizade portugueza e o dote da
-noiva de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma pequena parte das
-colonias para ajudar o bom resultado da causa nacional; effeitos de
-necessidades que se impõem e que, por desconhecimento de razões só
-sabidas dos coévos, a Historia mais tarde aprecia um tanto injustamente.
-Se Luiza de Gusmão comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, a
-soberania da casa de Bragança, deve-se notar tambem que com a realeza da
-dynastia estava consubstanciada a independencia do paiz, que junto a
-Castella não era senhor do seu proprio torrão. E se mais tarde se tornou
-perniciosa a alliança de Portugal com a Inglaterra, ninguem tem direito a
-arguir a viuva de D. João IV, exigindo que, embora fosse politica sagaz,
-podesse prever factos tão posteriores e filhos de circumstancias que á
-epocha pessoa alguma saberia divisar no horisonte. A Historia deve ser
-justa e como tal abençoar D. Luiza, que trabalhou varonilmente pela causa
-da sua patria adoptiva; e mesmo que então a alliança ingleza fosse um
-erro, bastava considerar o objectivo que a iniciou, para o historiador
-absolver essa falta venial, praticada inconscientemente, filha da
-imperfeição da fraca humanidade.
-
-Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra nos tem sido traiçoeira,
-tambem a França então nos chamou a si e nos abandonou conforme lhe
-convinha. Luiz XIV favoreceu a guerra com Castella, unicamente para
-abater o poderio da Casa d’Austria; consentiu no enlace da filha do duque
-de Nemours com Affonso VI para avassalar este paiz á sua politica de
-ferro, para dar principio á sua ambição de dominio na peninsula, revelada
-por elle, mais tarde, no celebre dito de despedida a seu neto Filippe V:
-_Meu filho, já não ha Pyreneus_.
-
-Não foi o amor da justiça a causa do soccorro da França, mas o mesmo
-ideal de rapina que a Inglaterra levou ávante. E se esta soube vencer,
-não devemos esquecer aquella que da sua parte fez quanto poude para
-alcançar victoria.
-
-Afinal effectuou-se o casamento do rei de Portugal com a princeza Maria
-Francisca Izabel de Saboya, filha do principe Carlos de Saboya, duque
-de Nemours, e da princeza Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, de
-França. O contracto nupcial foi assignado em Paris aos 24 de fevereiro
-de 1666, sendo procurador de Affonso VI o marquez de Sande, Francisco
-de Mello e Torres, tronco da casa dos condes da Ponte, nosso ministro
-junto de Luiz XIV, e representantes da noiva o marechal duque d’Estrées
-e o bispo de Laon. Affonso VI era indifferente a todos os passos dos
-seus ministros para lhe arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia
-que lhe tolhêra na infancia a alma e o corpo, o monarcha entregava-se á
-pratica dos vicios mais vis, descia aos principios mais condemnaveis,
-desauthorisando-se perante o povo que, apesar d’isso, venerava o rei
-como symbolo do principio augusto a quem devia a livre existencia.
-
-Como contraste, o infante D. Pedro, irmão de Affonso VI, um galhardo
-rapaz, moreno, olhos e cabellos negros, typo peninsular, ardente, seduzia
-as mulheres á primeira vista e esgotava o amor em repetidos galanteios.
-Corpulento e robusto, cavalleiro e namorado, o infante attingia a méta do
-ideal das populações occidentaes; encarnára o amor da plebe e o amor das
-salas, dominava as massas com os golpes certos da sua farpa de toureiro
-e attrahia as damas dos salões aristocraticos com o faiscar dos seus
-olhos bellos e com a contemplação sedenta da sua estatuaria varonil.
-Tinha tudo—formosura, valentia, garbo, gentileza; mas não tinha corôa.
-Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava um impotente, quasi um doido.
-Para o principe subalterno a visão d’esse throno, que a elle, no seu
-entender, só devia competir, foi-lhe inoculada inconscientemente pela
-mãe, ao ver os desvarios do filho primogenito; e d’ahi a semente lançada
-em terreno fertil, desabrochou, cresceu e desprezou obstaculos que lhe
-atrophiassem o desenvolvimento precoce.
-
-Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as intenções do irmão, que não
-tinha ainda quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse força para
-erguer um throno e derrubar outro. Quando D. Pedro soube do casamento do
-rei, talvez visse n’esse facto o mallogro infallivel de todos os seus
-projectos. D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia continuar a dynastia,
-e então as pretensões do infante ficariam de todo nullas.
-
-Afinal alvoreceu o dia da chegada da rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa
-vestiu galas, quando a artilheria salvou a esquadra franceza. O coração
-de D. Pedro palpitava ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, uma por
-uma, as flores das suas sorridentes chimeras. Mal diria que nas naus de
-França se guardava o seu unico amor, o ente criminoso que o ajudaria
-a realisar o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, infante, côrte e
-auctoridades foram a bordo prestar homenagem á nova soberana. Tinham
-forçado D. Affonso a assim proceder. Não queria ir, entretido com a
-Calcanhares, expandindo as furias do seu genio violento que assassinava
-um desgraçado por entre beijos e caricias na sacrificada amante.
-
-Quando D. Maria Francisca viu pela primeira vez o homem que a politica
-lhe destinára, viu tambem a negação completa das suas aspirações.
-Aquelle homem o que tinha de bom era ser rei... o contrario do infante,
-que desde esse momento, com a sua figura peninsular, conquistou a alma
-da franceza, alma depravada, affeita aos costumes libertinos da côrte
-de Paris. Já possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha no caes da
-Junqueira, seguindo d’alli para a egreja de Santa Clara, onde o bispo
-de Targa abençoou o seu consorcio. Pouco depois adoeceu; D. Pedro
-visitava-a amiudadas vezes e n’essas continuas visitas o amor de ambos
-fundiu-se n’um só. Inconscientemente, levado pelo impulso do coração,
-o infante adquirira a grande influencia que carecia para se sentar no
-throno. A amante queria ser rainha, mas não com um rei como D. Affonso
-VI; elle queria ser amado, mas não da esposa do seu proprio irmão... Era
-indispensavel o anullar o matrimonio, para que o monarcha se mostrava
-inhabil, e era necessario tambem que se conservasse aquella mulher no
-seu pedestal, apartada de um marido que a desprezava e junto de um outro
-que a adorava do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. Maria Francisca
-recolheu-se ao convento da Esperança (21 de novembro de 1667) e d’ahi
-mandou ás auctoridades ecclesiasticas o seu libello de divorcio (11 de
-janeiro de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se então uma das mais
-vergonhosas scenas da Historia de Portugal. A franceza excedeu Leonor
-Telles no desbragamento publico. Teve um Andeiro que foi D. Pedro,
-mas não teve a sinceridade rude de o apresentar como tal. Fallava em
-_consciencia_ e queria o _veridictum_ dos canonistas.
-
-Jesus Christo era invocado por aquella mulher, não para a soccorrer nas
-tribulações do crime, mas para a julgar na justiça da causa; e os que
-representavam o Redemptor—diga-se desassombradamente, escreva-se com a
-imparcialidade que a Historia exige—deram a sua sentença como aprazia
-a dois infames, abençoaram o indigno conluio como causa sacratissima,
-merecedora dos applausos sacrosantos. Em seguida uma revolução de palacio
-desthronou Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando conta do governo
-seu irmão o infante D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de Lisboa (1 de
-janeiro de 1668) appoiando o procedimento revolucionario e a regencia do
-ambicioso principe. Poucos mezes depois (2 d’abril do mesmo anno), o
-regente e D. Maria Francisca uniam-se pelos laços do matrimonio, coroando
-com a lithurgia o seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.
-
-Cada um dos seus actos mais significativo e mais comico, mostrava bem
-claramente o estado de adeantada decomposição da sociedade portugueza,
-afogada ainda nos restos do grande naufragio das conquistas da India.
-
-No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um
-brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu,
-mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder
-heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço
-da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o
-rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo
-vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de
-Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia
-de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje
-glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem
-da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu
-a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo
-poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna
-consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento,
-perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no
-meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando
-elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse
-meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade
-mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança
-consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle
-era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão
-do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames
-que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo
-sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se
-desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram
-os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que
-lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de
-um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de
-tufão devastador á felicidade roubada.
-
-Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores.
-
-Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera
-esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.
-
-Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel
-de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas.
-
-
-
-
-D. Maria Sophia de Neuburg
-
-
-Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração
-de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo
-sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de
-que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que
-era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe
-o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a
-existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha
-liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de
-outras nupcias.
-
-Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte
-as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe
-aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á
-princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]
-
-Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro
-de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do
-Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do
-monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte
-assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu
-pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das
-soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu
-D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto;
-sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio
-das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava
-inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos.
-
-E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D.
-Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da
-primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na
-sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de
-D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca
-soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.
-
-Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a
-indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que
-era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado
-a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides
-domesticas.
-
-O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse
-de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o _victorioso_;
-sentia a nostalgia do triumpho, apesar de _pacifico_, como lhe chamava a
-Historia.
-
-Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e
-a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida
-de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias
-proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais
-cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual
-partilha nos fastos da realeza.
-
-Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de
-1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de
-Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz;
-mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha
-que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do
-imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica
-europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado
-pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo
-ardente da fama conquistada pela força das armas.
-
-Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março
-de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de
-partida para as suas operações.
-
-O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias,
-Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando
-Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o
-archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona,
-que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno.
-No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid,
-onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta
-epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e
-derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era
-na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos,
-contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia
-attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta
-illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo,
-succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi
-seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de
-1707.
-
-Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir
-a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter
-portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro,
-um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam
-pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos
-acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo.
-Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe
-atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo,
-attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.
-
-Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os
-infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa
-desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não
-levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica
-quando é licito e condemna quando é preverso.
-
-Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos,
-que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente
-o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda
-mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se
-no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta
-escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.
-
-Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe
-aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria,
-porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra
-lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o
-nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.
-
-Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de
-heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel
-que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua
-antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos
-seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque
-a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.
-
-Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante
-ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos
-d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das
-almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais
-radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por
-essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz
-no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam
-n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe
-encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha
-na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto
-como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]
-
-
-
-
-D. Marianna d’Austria
-
-
-Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o
-principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança
-não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria
-para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e
-desenvolvimento nacional.
-
-Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de
-Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht.
-Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados
-sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já
-imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão.
-Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do
-almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição
-dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado
-por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se
-desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46]
-
-De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado.
-
-O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem
-a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do
-mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com
-a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas
-minas do Brazil.
-
-Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio
-degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o
-exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não
-como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes
-dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as
-feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia,
-como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes
-antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros
-adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo
-inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos
-tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga
-rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação
-pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que
-se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a
-terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico
-desfecho teve logar no reinado seguinte.
-
-O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D.
-João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda
-ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno,
-attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em
-exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza,
-a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e
-ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão,
-que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana
-atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem,
-padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra,
-espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão
-e do luxo Cesar romano.
-
-Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que
-assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D.
-João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia,
-não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho
-de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os
-grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro.
-
-Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito
-da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de
-tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do
-agraciado.
-
-Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam
-a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de
-todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram
-possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador
-aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras
-licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas,
-as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de
-quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a
-causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter
-alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.
-
-Incontestavelmente o ultimo Cesar que se sentou no throno, não foi
-tyranno, nem tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve erros, porque
-viveu n’uma epocha de decomposição, vendo-se obrigado a seguil-a por
-natural tendencia, como homem do seu tempo, impellido pela voragem
-que o arrastava a um ponto que todos almejavam. Se assim não fosse,
-nunca conseguiria ser amado, porque nunca poderia adquirir o espirito
-portuguez. Ao menos não foi hypocrita; não procurou sequer occultar
-as leviandades das suas aventuras galantes, que passavam, como coisa
-naturalissima, que a ninguem melindrava, porque era commum... N’este
-quadro, que se não póde desenhar com côres estudadas, que sae natural,
-sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, está bem patente a
-decadencia precoce de uma sociedade perdida. Quando o historiador ama
-a sua terra, as flôres dos seus campos, o sol que allumia e o ceu que
-a domina, as tradições que a exaltam, todo esse conjuncto diverso, mas
-ligado entre si n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer
-a penna ao tocar este periodo, todo de ruinas, embora matizadas
-d’abundancia. Mas por entre a hecatombe lenta que devastava o meio
-social, não ha a lamentar a corrupção do paço; D. João V praticou
-sem duvida erros de homem, mas teve o lar purificado pela conducta
-irreprehensivel da esposa, allemã como a sua antecessora, e martyr como
-ella, não pela feia catadura d’um marido apaixonado pelo cadaver da
-eleita da sua alma, mas pelo procedimento do rei, que sem escrupulos de
-christão nem respeito pela dignidade real, escolhia concubinas onde quer
-que as paixões o arrastavam.
-
-Filha do imperador d’Austria, foi escolhida unicamente para inocular no
-sangue de Bragança o sangue aristocratico das mais nobres familias da
-Europa. De facto, desde a filha do Condestavel, as esposas dos duques
-não primavam pela nobreza do seu nascimento. Só D. Izabel de Lencastre,
-esposa de D. Fernando II, filha do infante D. Fernando, irmão de Affonso
-V; e D. Catharina, esposa de D. João I, como filha do infante D. Duarte,
-é que proporcionaram á casa de Bragança allianças mais conformes com
-a sua regia origem e viver realengo. As outras:—D. Beatriz Pereira,
-filha de Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha do conde Gijon,
-esposas do duque Affonso; D. Joanna de Castro, filha do senhor do
-Cadaval,[48] esposa do duque D. Fernando I; D. Leonor de Mendonça, filha
-do duque de Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, filha do Alcaide-mór
-d’Alvôr, esposas de D. Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do conde
-de Lemos, esposa de D. Theodosio I; D. Brites de Lencastre, filha do
-commendador-mór d’Aviz, segunda esposa do mesmo duque; D. Anna de
-Velasco, filha do duque de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. Luiza de
-Gusmão, filha do duque de Medina Sidonia, esposa de D. João II, depois
-rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia de Neubourg, filha do Eleitor
-Palatino do Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, não foram
-senhoras que aparentassem a casa reinante de Portugal com as familias
-soberanas do universo. N’este ponto, depois dos Bourbons, achava-se
-incontestavelmente os Habsburgs, cuja alliança era provavel, em vista
-dos soccorros prestados pelos nossos reis ao archiduque Carlos, na sua
-pretensão ao throno hespanhol. O movel, pois, d’este consorcio foi a
-nobreza da noiva, que juntava a esse predicado uma notavel cultura
-d’espirito e uma formosura digna de seduzir outro homem que não fosse tão
-voluvel como D. João V.
-
-O contracto assignou-se em Vienna, a 24 de junho de 1708, estipulando-se
-que a rainha seria dotada com cem mil escudos ou corôas de ouro de quatro
-placas de Flandres pelo imperador seu irmão e pelo rei de Portugal com a
-casa e estado das suas antecessoras.[49]
-
-A 13 de setembro do mesmo anno, saiu D. Marianna d’Austria, de Rotterdam,
-chegando a Lisboa a 27 de outubro, sendo os regios esposos abençoados
-n’esse mesmo dia.
-
-Quarenta e dois annos viveu em companhia de D. João V (27 de outubro de
-1708—31 de julho de 1750) não nos apontando a Historia uma unica falta
-que lhe maculasse a honra e o lar, que seu marido de todo abandonára.
-Muito devota, entregava-se á piedade, seguindo como D. Maria Sophia o
-caminho da virtude que converte em flôres os espinhos do viver terreno.
-Pouca ou nenhuma intervenção teve nos negocios publicos, limitando-se á
-vida domestica, até que falleceu em Belem, aos 14 de agosto de 1754,
-tendo nascido em Lintz a 7 de setembro de 1683. Sepultaram-n’a no
-mosteiro de S. João Nepomuceno, por ella fundado, onde se conservou o seu
-corpo até 1855, em que foi trasladado para S. Vicente de Fóra.
-
-É um exemplo de virtude austera que ahi descança e que a Historia abençoa
-como mulher que soube conservar-se no posto que lhe marcou o sexo e que
-comprehendeu a digna missão que lhe impoz a sorte nos seus inexplicaveis
-destinos.
-
-Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito para o pensador que se não
-limita a admirar os heroes cujo nome gigantesco assombra os humildes,
-cuja vida deslisou na sublime comprehensão da honestidade.
-
-A virtude que a enaltece, torna-a digna dos applausos dos posteros,
-erguendo-a do olvido e coroando-lhe a memoria da mais gloriosa corôa que
-a justiça do historiador póde depôr na fronte das que hoje são invocadas
-como exemplo do bem.
-
-
-
-
-D. Marianna Victoria de Bourbon
-
-
-Seguindo a politica de seus maiores, D. João V entendeu conveniente
-reatar os laços de antiga amizade com a visinha Hespanha; e como as
-allianças de familia se lhe figuravam mais vantajosas do que todos os
-tractados internacionaes, resolveu el-rei acceder aos desejos do monarcha
-castelhano, que manifestára ao nosso embaixador quanto anhelava que
-fossem seguidas, então, as reciprocas tradições dos dois paizes.[50]
-
-Assim se contractou a 7 de outubro de 1725 o casamento do principe D.
-José com a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon, filha de Filippe V e
-de Izabel Farnése. A 25 de dezembro de 1727, o marquez d’Abrantes fazia o
-seu pedido em fórma á côrte de Madrid, que foi secundado por outro que a
-6 de janeiro do anno seguinte o ministro hespanhol, marquez de Belvases,
-dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a mão da princeza D. Maria
-Barbara de Bragança para o principe das Asturias, D. Fernando de Bourbon.
-Um anno depois (19 de janeiro de 1729) encontraram-se as duas familias
-nas margens do Caia, onde se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros
-das corôas portugueza e castelhana.
-
-Como dote, recebeu D. Marianna Victoria quinhentos mil escudos do Sol,
-por parte d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a dar-lhe para os seus
-alfinetes o valor correspondente a oitenta mil pesos e um rendimento
-annual que equivalesse a vinte mil escudos do Sol.[51] Foram estes os
-bens da princeza, até ao fallecimento de D. Marianna d’Austria, que teve
-logar depois de seu marido subir ao throno com o titulo de D. José I.
-
-O reinado d’este soberano foi um dos mais notaveis da Historia de
-Portugal. Teve medidas que mostram o talento do ministro que as decretou,
-e teve barbaros sacrificios, que deshonram a memoria do homem que os
-commetteu e do vingador que as iniciou. Os juizos dos historiadores
-são geralmente oppostos quanto ao merito do personagem que foi senhor
-do animo de D. José. De facto, a individualidade do marquez de Pombal,
-Sebastião José de Carvalho e Mello, o grande heroe da situação, é tão
-complexa, abrange phases tão diversas, que do lado dos seus sequazes
-e dos seus inimigos teem surgido louvores demasiados e depreciações
-excessivas. Fidalgo de provincia, o seu valimento assombrava a
-aristocracia, acostumada a dirigir os destinos do paiz; se alguma vez a
-nobreza provinciana se ousava sentar nos conselhos da corôa, o applauso
-aristocratico tinha referendado a concessão regia. Pombal, porém, subiu
-ao maior fastigio do poder, elevou-se á grandeza, sem que o _veredictum_
-dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi toda a inveja das altas
-classes, que injustamente lhe chamavam plebeu, e todo o odio do ministro
-aos que se tinham por seus superiores.[52]
-
-Entretanto, Pombal não fundou uma escola democratica, porque saiu da
-craveira de fidalgo de provincia, ambicionando uma corôa de grande; e nos
-seus proprios casamentos, como nos de seus filhos, está bem demonstrado
-que o ministro não desadorava as proeminencias sociaes, e que talvez
-todo o seu odio selvagem não fosse só motivado pela emulação dos nobres,
-mas tambem pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam de ser os
-immediatos do soberano, seus companheiros na defeza do throno, de que
-tinham sido creadores e muitas vezes defensores nas suas mais perigosas
-crises. O exterminio dos Tavoras e do duque d’Aveiro, os capatazes da
-aristocracia, o foco d’onde se projectavam todas as iras contra elle,
-calcou-lhe a sepultura da arvore derribada pela sua erronea conducta
-desde o reinado anterior.
-
-Esta face do marquez de Pombal não é sympathica, nem attrahente; revela
-a baixeza e indica a velhacaria que elle possuiu no mais alto grau. O
-seguinte facto é bem significativo:
-
-Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis Mascarenhas, meirinho-mór do
-reino, brigadeiro de cavallaria, gentilhomem da real camara, muito
-privado de D. José, com quem se creára e com o qual sempre mantivera
-as melhores relações d’amisade.[53] Uma vez o conde advertiu el-rei
-de que não seria bom dar tanta confiança a Sebastião de Carvalho, que
-então principiava a dominar o animo do monarcha; este communicou-lhe
-em conversa o recado do fidalgo, o que foi sufficiente para o ministro
-se lhe ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor de Deus que o não
-desviasse da intimidade do soberano... Depois, seguro o valimento por
-fortes laços, o conde d’Obidos foi preso nos carceres da Junqueira, o
-theatro dos horrores, das vinganças e dos infames despeitos do marquez de
-Pombal.
-
-O terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755) veiu de todo convencer
-D. José do alto valor do seu predilecto. De facto, maior prova se não
-poderia exigir para experiencia da energia de um homem. Derribada a
-cidade, devoradas as ruinas pelo incendio, estimulados os malfeitores
-pela confusão da necropole, no meio da anarchia que se apoderou no animo
-de todos, o espirito do ministro manteve-se sobranceiro e forte, arcando
-com a violencia da natureza. Era na verdade um genio descommunal! não
-admirava que destruisse o passado, que abalasse as velhas tradições, como
-a catastrophe destruira os edificios e abalára a terra, se, perante a
-hecatombe, foi elle o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa ergue-se
-alinhada, symetrica, magestosa e soberba, como rindo-se do que fôra e
-applaudindo o castigo da sua antiga depravação... Depois d’isto, para
-o rei já não existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo da corôa
-repouso e do manto agasalho para o vento do remorso, impellido pela voz
-do dever, se é que essa voz se atreveu a fazer-se alguma vez ouvir da
-consciencia d’um homem como foi D. José.
-
-O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi por diante, de rei só teve a sua
-assignatura nos diplomas, alvarás, decretos, cartas regias e despachos de
-mercês. De resto, foi uma creança para quem Pombal fazia Tapadas para seu
-divertimento... Mais nada a Historia póde dizer d’elle.
-
-A reforma da pauta de commercio (1755), a companhia dos vinhos do Alto
-Douro (1756), o Erario e o Collegio dos Nobres (1761), a reforma da
-Universidade (1772), e a abolição da escravatura no continente (1773)
-são as principaes medidas da dictadura pombalina. Quem escrever a
-Historia com a imparcialidade devida, tem de se curvar á sabedoria d’esta
-legislação e applaudir, se não em absoluto, pelo menos em parte, estes
-actos do ministro, embora reprove o seu procedimento cruel, selvagem
-mesmo, para com a nobreza e para com o clero, os dois potentados que lhe
-disputavam a influencia e o poderio. Este era tão grande no animo do
-monarcha, quanto diminuto no espirito da rainha.
-
-D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela
-doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o
-poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara
-do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que
-exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja
-morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria
-I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu
-bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro
-demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de
-desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8
-de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o
-seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida,
-occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre
-Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi
-alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é
-que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é
-o grande estadista do seculo XVIII.
-
-Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do
-ministro, ambas tiveram um fim desgraçado.
-
-D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante,
-falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa
-viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha
-vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu
-no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816.
-
-Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a
-Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do
-vingador.
-
-Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a
-tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae,
-viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal.
-
-Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas
-uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino
-dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem
-o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo
-seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins.
-
- * * * * *
-
-Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de
-personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas,
-remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia,
-amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso,
-procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a
-independencia.
-
-O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia
-irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica,
-que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me
-visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a
-consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a
-penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios
-que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter
-exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa
-meditação.
-
-
-
-
-NOTAS E DOCUMENTOS
-
-
-O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão
-
-O Visconde de Figanière na sua obra _Memorias das Rainhas de Portugal_
-(D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima noticia que existe d’esta
-soberana é a doação de 300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe
-comprar uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia pertencer ão
-mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada de Torres de Vedras, 30 de
-julho de 1300, e a rainha falleceu oito dias depois, é licito suppor-se,
-como Figanière suppõe, que a morte teve logar na citada villa.
-
-Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu por mandado
-d’el-rei D. Sebastião, uma _Relaçam dos Reys e Raynhas que estam
-sepultados em Alcobaça_; n’ella se lê este notavel depoimento do mesmo
-frade, que diz respeito á segunda mulher d’Affonso III:
-
-«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia
-d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que ali a sepultáram, jaz
-mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada esta como aquelle
-dia que ali a puzeram, ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo
-do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser que o fosse ao
-tempo que ali a lançaram; como quer que seja, nam esta tão inteira,
-e fresca como o lançol; jaz enfeitada, e a cabeça apertada; tem huns
-cabellos castanhos que parece que foram formosos, mostra que foram
-cortados estando doente, porque estam em huma parte mais compridos
-que na outra, e estam mal cortados; tem hum lenço na cabeça sobre os
-cabellos assaz nouo; tem calçadas humas çapatas pretas apantufadas,
-como naquella hora que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao
-menos do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda mulher em seu
-tempo. Algus dizem que ella tinha hum rabo, e que vinha por parte da may,
-de huma casta que em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo
-lhe tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu por isso. O
-manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou nam, nam o acho escrito, nem
-menos que ella tivesse rabo mais que affirmaremme pessoas lidas nestas
-historias, que o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella
-agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre isso diligencias
-para saber a verdade disto. E desta maneira que tenho escripto jaz
-esperando sêr chamada. Prazerá ao Senhor que seja para gloria sua, porque
-esta Rainha fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui santa,
-e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»
-
-Fr. Francisco Brandão na _Monarchia Lusitana_ e Figanière na obra
-acima citada, concordam que a origem d’esta lenda provêm da rainha ter
-introduzido em Portugal a moda das cotas caudatas, ou de rabo.
-
-Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar popular, pois
-chegou a convencer os proprios reis, trasladamos para aqui o texto do
-padre examinador do cadaver de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono
-neto, enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou pelo reino
-contemplando os restos mortaes dos seus antecessores.
-
-
-Arrhas de D. Constança
-
-«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do Algarve a quantos
-esta carta virem Faço saber que eu querendo attendêr cumprir, e guardar
-aquello, que ante mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto,
-e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante Dom Pedro meu
-filho, e de Donna Constança filha desse Dom Joam, dó, e assino a essa
-Donna Constança a Cidade de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com
-todas sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças
-que as aja e pessua essa Donna Constança por sas arras, e donadio bem,
-e compridamente em toda sa vida asim como as melhor ouveram as Raynhas
-de Portugal e tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas,
-termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna Constança, para as
-aver, e possuir livremente no dito tempo como dito he, e demais conhosco
-e affirmo que a posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e
-couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta Donna Constança e
-por ella como uzofructuario até que ella per si ou per outrem filhe ou
-mande filhar a posse corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas
-sobredictas em testimonio desto mandei dar áa dita Donna Constança esta
-minha carta aberta, e sellada do meu sello. Dante em Lisboa sette dias de
-julho ElRey o mandou Pero Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta
-e outo annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das _Provas da Hist. genealogica da
-Casa Real_, pag. 285.)[54]
-
-O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo hoje as suas
-cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu Archeologico de Lisboa,
-estabelecido no Convento do Carmo, obra do Condestavel D. Nuno Alvares
-Pereira.
-
-É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D. Pedro I; D.
-Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam as cinzas á avidez
-dos profanos; Ignez de Castro, coroada depois de morta, repousando
-tranquillamente n’um mausoleu que photographava a grandeza do amor
-do seu principe, tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes dos
-vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres de Pedro I!...
-
-
-Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão
-
-Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento d’el-rei D.
-Duarte, que diz respeito á casa e estado de D. Leonor d’Aragão.
-
-«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo dito he, antre
-as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita Camera, q̃ tinha a
-Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as Villas de Alamquer, Cintra, Obidos,
-Alvayazere, Torres Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e
-Lugares e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha tinha em
-Camera, sejão feitas duas partes pelo dito Senhor Rey de Portugal (D.
-João I), ou por quem elle mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse,
-e escolhese para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira e
-aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera e aquella aja
-e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃ logo quando a Deus plazera,
-q̃ seja Raynha, q̃ per aquel mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem
-provizom algua, ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha a
-Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e molimentos, e
-proveitos della e admenistraçom della, de presente o dito Senhor Rey de
-Portugal faz a dita divisom em duas partes, convem a saber Torres Novas,
-e Torres Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer,
-Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e escolhe por sua parte as
-ditas Villas de Alamquer, Cintra e Obidos.»
-
- (Tomo II das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, por
- D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.)
-
-
-Contracto do casamento de D. Affonso V
-
-Dom Affonso etc. a quantos esta carta virem fazemos saber que confiando
-nós como por graça de Deus he celebrado matrimonio por palavras de
-presente segundo hordenaçam e mandamento da nossa madre a santa Igreja de
-Roma antre nos e a muy alta e muy excelente Princeza e muito esclarecida
-e muito virtuosa Senhora Raynha Dona Isabel minha muito amada e muito
-presada Esposa filha do illustre e magnifico Principe Infante Dom Pedro
-Duque de Coimbra e Senhor de monte mor nosso muyto amado e prezado padre
-e tyo curador e Regedor por nos em nossos Reynos e Senhorios, confirmando
-outro si como atee o prezente antre nos ella dita Senhora nunca foi feito
-algũ contracto sobre ou por razão do dito matrimonio porque ella fosse
-dotada de algũ dote que nos por ella ou outrem fosse dado ou promettido
-pera soportamento do carrego do dito matrimonio nem outro si fosse a
-ella dada provisão de alguas Terras ou villas que ouvesse por camera
-em sua vida nem outro si segurança de asentamento de certas rendas de
-dinheiros que ouvese em cada hũ anno em sua vida pera soportamento do
-seu Real estado, como todo esto sempre dantigamente ouverão as Rainhas
-que nos Tempos passados forão em estes Reynos nem porque outro si ajamos
-a ella promettidas alguas arras por honra de sua pessõa, no caso que o
-dito matrimonio aconteça sêr separado por fallecimento nosso, as quaes
-cousas per uzança geral guardada per todas as partes do mundo antre os
-Principes Cristãos de similhante estado specialmente em estes Reynos
-sempre forão costumados em similhante caso de se prometem de hua parte
-a outra, por ende querendo nos este provér como he rezãn considerando
-a cerca dello primeiramente o servisso de Deus y os muitos e grandes e
-extremados serviços que nos tempos passados com grande lealdade avemos
-recebido e ao presente recebemos em cada hũ dia, e ainda esperamos
-receber ao diante do dito Infante D. Pedro nosso Padre e Thio etc por
-conservação de nossa pessoa e exaltamento do nosso Real Estado, e bem a
-sy grande honra de nossos Reynos e Senhorios. Considerando outro si como
-a nosso Senhor Deus por sua santa mercê dotou a dita Senhora Rainha de
-muitas grandes e extremadas virtudes etc. por as quaes com grande rezão a
-devemos sobre todas sempre muy grandemente prezar e amar verdadeiramente
-de nosso proprio motu certa sciencia poder absolucto sem nos ella nem
-outrem em seu nome por sua parte esto requerer, louvamos, approvamos e
-confirmamos o dito matrimonio, asi antre nos e ella feito e celebrado
-por mandamento e dispensação de N. Senhor o Santo Padre Eugenio quarto,
-e este fazemos pelas razõens suso ditas e ainda pelos grandes dividos
-que entre nos e ella a Deus aprove serem, não embargantes de quaesquer
-Leys Imperiaes ou Ordenaçoens de nossos Reynos, ou qualquer uzança asi
-geral como special que a este em parte ou em todo seja contrario porque
-as rezoens suso ditas e cada hũa d’ellas nos constrangem naturalmente
-per o asi fazermos, e querendo outro si prover a ella dita Senhora
-Raynha acerca das terras e villas que as Raynhas d’estes Reynos nos
-tempos passados em ellas costumavam avêr por Cameras, por rezão de
-seus matrimonios e bem asy acerca do assentamento de certas rendas de
-dinheiro que por similhante guiza costumavam daver para soportamento de
-seus Reaes Estados e outorgamos queremos e mandamos que a dita Senhora
-Rainha haja por rezão do dito matrimonio em toda sua vida todolas terras
-e Villas que a Rainha D. Leonor minha muita amada e presada madre Senhora
-de louvada e gloriosa memoria, a que dê Deos o seu santo Paraiso ouve
-e pessuyo por causa do seu matrimonio depois que por a graça de Deos
-foi Rainha destos Reynos e em elles viveo as quaes Villas e terras nos
-queremos e mandamos que a dita Senhora Rainha haja em toda a sua vida
-em toda sua jurdição alta e baixa civel e crime méro mixto Imperio com
-todolos padroados das Igrejas que ha em as ditas terras que a nos de
-direito pertençem e bem asi todolas rendas e direitos Reaes, que as
-ditas Villas e terras renderẽ por qualquer guiza que seja e com todolas
-perogativas privilegios e graças e liberdades que a dita Senhora Raynha
-D. Leonor minha madre forão otrogadas em qualquer tempo do mundo e milhor
-se as ella milhor poder aver, e queremos que ella possa poer de sua mão
-em seu nome Ouvidor que ouça e desembargue todolos feitos das ditas
-Villas asi crimes como civeis, e bem asi tabelliaens os quaes se chamẽ
-seus e por sua auctoridade façam todolas escrituras pruvicas que a seus
-officios pertenção as quaes cousas o dito Ouvidor e tabeliaens faram asi
-e tão compridamente como costumarão de fazer os Ouvidores e tabelliaens
-das outras Raynhas que foram nos tempos passados em estes Reynos,
-specialmente no tempo da dita Senhora Raynha minha madre, depois que
-deles foi Raynha e bem asi queremos que posa hi poer de sua mão todolos
-outros Officiaes que ella entender que são compridouros para requerer
-arecadar todolos direitos que em elas aver posa, asim tão cumpridamente
-como nos o fazemos e fazer podemos nas nossas terras que se por nós e em
-nosso nome correm e quanto he ao asentamento e certas rendas de dinheiro
-que as Rainhas nos tempos passados acostumaram aver em estes Regnos pera
-suportamento de seus Reaes estados otorgamos queremos e mandamos, que a
-dita Senhora Rainha aja de nos, por acentamento em cada hu anno por toda
-sua vida hu milhão cento sesenta e cinco mil reis da moeda que agora
-corre comvem a saber, de trinta e cinco livras o real, por quanto fomos
-certo que o milhão e quinze mil reaes avia em asentamento a dita Senhora
-Rainha minha Madre por causa do seu Cazamento, e o cento e cincoenta mil
-lhe acrecentamos para seus vestidos de pano douro e de seda que a dita
-Senhora Raynha minha madre avia do thesouro do Senhor Rey meu Padre, os
-quaes dinheiros lhe já temos asentados dentro em esta Cidade na ciza
-dos panos, e querendo outro si prover a dita Senhora Raynha acerca das
-arras que similhantes Princezas e Senhoras em tal caso costumam de avêr
-por honra de suas pessoas, no caso de separação de seus matrimonios,
-outorgamos e queremos e mandamos que separado o dito matrimonio, por
-seu falecimento da vida d’este mundo, em tal caso seus herdeiros ajam
-de nos ou de nossos sucessores segundo o caso acontecêr, por arras e
-em nome de arras, vinte mil escudos douro da moeda ora corrente em
-estes nossos Reynos das quaes ela podera despuer a todo o tempo e como
-lhe aprouger e estes vinte mil escudos douro, queremos e mandamos que
-lhe sejam pagos pelas rendas das ditas Villas e acentamento que lhe
-asi ja temos posto, e asentado como dito he, as quaes rendas todas e
-acentamentos por falecimento da dita Senhora Rainha os officiaes que
-por elo foram postos averam asi tão cumpridamente como a dita Senhora
-Rainha em sua vida over e não serão dezapoderados delas por algu caso
-que acontecer posa athe serem cumpridamente pagados os ditos vinte mil
-escudos pera os entregarem a seus testamenteiros, ou a quem ela pera
-elo ordenar, pera os despender segundo a ordenação que ela dita Senhora
-Raynha em sua vida pera elo ordenar e despozer a toda sua vontade, as
-quaes couzas todas e cada hua delas prometemos e juramos por nossa Fee
-Real como Rey Catholico, por nos e por todos nossos successores que ao
-diante em qualquer tempo forem, de lhes guardar cumprir e manter, e de
-feito realmente cumpriremos e guardaremos e faremos conter e guardar, bem
-fiel e verdadeiramente a todo nosso cumprido poder cesante toda a arte,
-e mao engano e não daremos favor ajuda nem conselho a alguma pesoa de
-qualquer estado e condição preeminencia que seja, ainda que a nos seja
-muito conjunta em qualquer grao de devido e parentesco que ser posa, pera
-contra elo vir em parte ou em todo, de feito nem de direito em juizo nem
-fora delle, em puvrico nem escondido daqui em diante pera todo o sempre
-ja mais por algua cousa ou rezom, pasada presente ou futura de qualquer
-natura calidade ou condiçã que seja ou ser posa ainda que tal seja, que
-ao presente pelo entendimento dos homens não posa ser alcançada porque
-nosa tenção e vontade inteiramente he, que todalas ditas cousas lhe sejã
-cumpridas e guardadas em todo o tempo, asi tão cumpridamente como em
-esta nosa Carta he conthéudo, e prometemos ainda e juramos em nosa Fee,
-que nunca empetraremos nem pediremos beneficio de restituição outorgado
-per direito aos meores de vinte e cinco annos, pera desfazer alguns
-promitimentos, porque depois ao diante em algu tempo se achem lezos ou
-damnificados nem outro algu qualquer privilegio ou beneficio geral ou
-especial, outorgado aos menóres de vinte e cinco anos, ou aos Rex como
-pessoas puvricas e em direito priviligiadas porque nós de noso propio
-moto certa ciencia e poder asim ordinario como absolucto renunciamos
-todos os ditos privilegios e beneficio, e queremos e outorgamos e
-mandamos por nos e por todolos nosos sucessores, que ao diante forem,
-que nos nem eles nunca uzaremos de taes beneficios privilegios asi por
-direito outorgados ao menor de vinte e cinco annos, ou ao Rey ou como
-Rey, porque as couzas todas suso ditas e cada hua delas ja mais em algu
-tempo posão ser quebrantadas anuladas ou conronpidas ante as faremos
-sempre, todos manter conprir e guardar asi tão conpridamente como suso
-dito he declarado, e por maior firmeza de todo o suso dito, de noso moto
-proprio e certa ciencia, e poder absolucto asi como Rey suprimos qualquer
-falecimento de solemnidade de feito ou de direito asi geral como especial
-que em esta nosa carta faleça, por cujo falecimento em algu tempo ella
-posa ser retrautada casada e irritada, ou anichilada porque queremos e
-mandamos como dito he que tal falecimento ou falecimentos nem enbargantes
-esta nosa Carta com todalas cousas en ela contheudas, sempre em todo o
-tempo ja mais ser firme rata e valiosa asi como se os ditos falecimentos,
-ou cada hu deles em ela não ouvese e em testemunho deste lhe mandamos dar
-esta nosa Carta firmada de nosso verdadeiro sinal e aselada com noso
-selo de chumbo dante em a mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa seis
-dias de mayo João Gonçalves a fez anno do Senhor Jesu Christo 1447 annos.
-
- (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica_, pag 48; o
- original está na Torre do Tombo, gaveta 17, maço 1, n.ᵒ 12.)
-
-
-A descendencia do Infante D. Pedro
-
-Depois do desastre d’Alfarrobeira, a 10 de dezembro de 1449, D. Affonso
-V, dominado pelos infames promotores d’aquella tragedia, declarou
-criminosa a memoria de seu tio. Este acto, suggerido pelos ambiciosos
-que invejavam os bens do duque de Coimbra, explica-se pela necessidade
-de macular a memoria do Infante, para ser licito o confisco de sua casa,
-que, no caso contrario, passaria aos herdeiros, seus legitimos filhos.
-
-D. Antonio Caetano de Souza na _Historia Genealogica_ (tomo II, cap.
-II, pag. 76-77) faz a verdadeira apotheose de D. Pedro, condemnando
-asperamente o procedimento dos seus inimigos, _que não nomeia_.
-
-Quem conhece o escriptor cortezão de D. João V, deve ter em conta este
-facto, em vista do duque de Bragança e seu filho o conde d’Ourem terem
-sido promotores da catastrophe. Para mostrar a vehemencia, embora
-cortezã, do chronista, trasladamos um trecho da sua critica: «_chegando
-a tanto o odio dos mesmos, que lhe erão obrigados,[55] que aconselharão
-El-Rey o privasse da sepultura, que El-Rey seu pay lhe mandára lavrar
-no Mosteiro da Batalha; e assim sem distincção foy sepultado na Igreja
-d’Alverca como se fôra hum dos miseraveis, que perecerão n’aquelle dia,
-parecendo-lhes que d’este modo escurecião a sua memoria, ficando na das
-gentes abominada a de taes Conselheiros._»
-
-Não se pode dizer mais, quando o crime repugna e o decôro servil obriga
-o historiador a ser compassivo e benevolo. Bom seria que D. João V
-recommendasse ao erudito Souza, a verdadeira justiça, de que acolhesse
-a vangloria da mal disfarçada lisonja, que mais tarde, á luz da critica
-sensata e imparcial, desappareceria como o fumo afugentado pelo vento
-rijo da verdade. Esta é sempre a mesma, para conforto dos opprimidos das
-ambições, das invejas e vinganças torpes. Póde, como o sol offuscar-se um
-tanto, mas logo em seguida, desfeita a nuvem, vem brilhar n’um ceo azul
-e tranquillo. Deus, nos seus designios insondaveis, determinou que os
-homens, como D. Pedro, Duarte Pacheco, Affonso d’Albuquerque e Luiz de
-Camões, tivessem durante a vida o rigor da tormenta da escoria social.
-Louvado seja Elle! Quão maior é a tempestade, maior é a força da nau
-que lhe resiste. Os grandes vultos são como as penedias dos litoraes;
-açoutadas pela furia das ondas, afogadas pelo mar buliçoso, ao descer da
-maré, ao serenar dos elementos, apparecem brilhantes á luz do sol, com o
-seu tapete de algas e com os seus lagos salinos, provas evidentes da sua
-resistencia!
-
-Na mesma _Historia Genealogica_ vem enumerados os filhos do Infante, os
-seus feitos e o seu fim; mais accentuadamente, o sr. Oliveira Martins,
-na sua excellente obra _Os Filhos de D. João I_ (cap. XII, pag. 347-358)
-descreve a generosa prole, uma das mais conspicuas da dynastia d’Aviz.
-
-Notarei que de todos os seus filhos, quem teve descendencia foi D.
-Izabel, esposa de D. Affonso V e que logo na segunda geração, a linha
-do Infante só foi continuada pela bastardia. D. João II, seu neto, teve
-da rainha D. Leonor, sua mulher, um filho, D. Affonso, que morreu d’um
-desastre e não deixou successão (veja-se pagina 67); com este infausto
-acontecimento extinguiu-se a prole legitima de D. Pedro, que foi
-continuada por D. Jorge, bastardo de D. João II, que recebeu o titulo de
-duque de Coimbra, em memoria de seu illustre bisavô. Casou o principe D.
-Jorge com D. Brites de Vilhena, filha do senhor D. Alvaro, irmão do duque
-de Bragança D. Fernando II, e progenitor da casa de Cadaval.[56]
-
-D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista d’Alfarrobeira;
-e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima immolada ás ambições do
-irmão!... A grande arvore bragantina começava a dominar com suas raizes,
-não só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia e o
-sangue generoso do unico homem que ousára impedir os seus vôos quando se
-alargavam para além dos limites da equidade e da justiça.
-
-
-Affonso d’Albuquerque
-
-Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do Paraiso, entre Alhandra
-e Villa Franca. Educou-se na côrte de D. Affonso V, que em 1480 o mandou
-na esquadra contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489, D.
-João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de defender a fortaleza
-de Graciosa, junto a Larache. Em 1503 foi a primeira vez á India, a bordo
-da nau _S. Thiago_, soffrendo grandes tormentas durante a viagem. A 25 de
-janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a Lisboa, nos fins de julho do
-mesmo anno. El-Rei D. Manuel, sciente do seu alto merito encarregou-o em
-1506 de tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão da Cunha,
-levando comsigo a nomeação de successor a D. Francisco d’Almeida.
-
-Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino quilate, diplomata
-e guerreiro, soube levantar o nome portuguez nas remotas paragens, onde a
-vontade regia o tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando
-de o domar não só pela força das armas, mas tambem pelas exterioridades
-do fausto; assim em Goa tratava-se como principe, habitando o palacio
-do Sabayo e comendo ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e
-por córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no terreiro
-dançavam, durante as refeições.
-
-Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum dos maiores
-vultos de toda a humanidade: a perseguição cruel dos invejosos, dos
-pobres miseraveis que julgam poder desfazer o que a Providencia creou!
-Albuquerque foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este infame
-empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo Soares d’Albergaria, que D.
-Manuel, na mesma occasião de demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão
-de Cochim e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto ao
-entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da _Flor do Mar_. Estava
-doente e os padecimentos agravaram-se-lhe com a ingrata nova.
-
-Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando para aqui o que
-d’ella refere o seu proprio filho, nos _Commentarios_:
-
-«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado outro governador, e
-seus inimigos muito favorecidos d’el-rei, alevantou as mãos e deu graças
-a Nosso Senhor e disse:
-
-«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com ElRei por amor dos homens,
-bom é acabar.
-
-«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas que levavam para os
-mercadores d’Ormuz, em que se dizia, que se não tinham dado a fortaleza
-a Affonso d’Albuquerque, que lh’a não dessem, porque era vindo outro
-governador, que faria tudo o que elles quizessem.
-
-«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza que se ficava
-acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque queimar todas, e despediu os
-mouros que se fossem e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu
-testamento, em que se mandava enterrar na sua capella, que tinha feito em
-Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma cédula, em que mandou que os
-seus ossos, depois da carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras
-palavras que houve por escusado escrever. E acabado isto escreveu uma
-carta para D. Manuel, que dizia assim:
-
-«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou com um soluço que é
-signal de morte. N’esses Reinos tenho um filho: peço a Vossa Alteza que
-m’o faça grande, como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com
-minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena de minha benção,
-que vol-os requeira. E quanto ás cousas da India não digo nada, porque
-ella fallará por si e por mim.»
-
-«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia ter em pé, pedindo
-sempre a Nosso Senhor que o levasse a Goa e alli fizesse d’elle o que
-fosse mais seu serviço. E sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou
-que lhe fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre Affonso,
-physico. E porque, com grande fraqueza que tinha, não comia nada, mandou
-que lhe trouxessem um pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno
-de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau surgir na barra,
-sabbado de noute, quinze dias do mez de dezembro. Quando disseram a
-Affonso d’Albuquerque que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas
-graças a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle tanto
-desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o vigario geral, que
-era já vindo de terra, e Pero Dalpoem, secretario da India, que elle
-deixou por seu testamento) abraçado com o crucifixo; e fallando sempre
-disse ao vigario geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão
-de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre muito devoto,
-porque n’ella e n’aquella Cruz, que era similhante da em que Nosso Senhor
-padecera, e nas suas Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E
-mandou que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era commendador)
-para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora antes da manhã, deu a alma a
-Deus. E alli acabaram todos os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação
-d’elles.»
-
-Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice; por essa
-circumstancia demos a palavra ao chronista dos feitos do grande
-portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de Albuquerque, a quem D. Manuel,
-querendo recompensar os feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome.
-
-Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei de Portugal, Affonso
-d’Albuquerque escreveu os _Commentarios_, obra chamada pelo Dr. Antonio
-Ferreira, _uma nua e chã pintura_. Hoje ignora-se a certa paragem dos
-restos do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este facto
-demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento da Graça, em Lisboa,
-onde o corpo estava depositado, na capella-mór da igreja, em sepultura
-particular. Como alguem invejava o local e deu mais avultada quantia, os
-frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque, sobre a
-posse do tumulo. A estupidez (este é o termo) das justiças do seculo XVII
-validaram a pretenção dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque
-foram trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo se em
-caixão documentado, ou confundidos á solta com as numerosas ossadas ahi
-depositadas. Bom é que se estude este assumpto e que se procurem os
-restos mortaes d’um dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de
-todo o mundo civilisado.
-
- * * * * *
-
-A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo Soares
-d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda a grandiosa obra
-do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso e cruel. Os povos de
-Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque esteve na capella de Nossa Senhora
-da Serra, vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe
-protecção para as aleivosias dos portuguezes.
-
-
-A Infanta D. Maria
-
-Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de 1521, sendo filha
-d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa D. Leonor d’Austria. Tinha
-apenas dois annos quando sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio
-de 1523) para junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e
-desamparada, entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna Blasfet,
-camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo dos cuidados maternaes,
-até que D. João III veiu a desposar a princeza D. Catharina, irmã de sua
-madrasta. A nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual como
-ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas lettras, sciencias e
-artes.
-
-Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia onde se juntavam
-os artistas e litteratos, attrahidos não só pelo culto scientifico mas
-tambem pela belleza imponente e pela figura magestosa da Augusta Senhora
-que sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de mulher com
-o tracto affavel para com todos, com a protecção e a estima ao abandonado
-da fortuna, que tivesse talento como apanagio da Divindade. Viveu a
-infanta no auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos
-enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas (Anna e Luiza),
-Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Joanna Vaz, e
-tantas outras que seguiram a derrota sublime do genio portuguez.
-
-Depois de ter sido requestada por varios principes da Europa; casamentos
-estes que a politica e a avareza de seu irmão D. João III lhe veiu a
-tolher, falleceu a Infanta D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos
-antes da morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte
-soneto:
-
- Que levas, cruel morte? Um claro dia;
- A que horas o tomaste? Amanhecendo;
- Entendes o que levas? Não entendo;
- Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia.
-
- Seu corpo quem o goza? A terra fria;
- Como ficou sua luz? Anoitecendo;
- Lusitania que diz? Fica dizendo,
- «Emfim não mereci Dona Maria.»
-
- Mataste quem a viu? Ja morto estava;
- Que diz o seu amôr? Fallar não ousa;
- E quem o faz calar? Minha vontade;
-
- Na morte que ficou? Saudade brava;
- Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa,
- Mas fica que chorar sua beldade.
-
-
-Concerto entre D. Leonor d’Austria e sua irmã D. Catharina, sobre os bens
-da Casa das Rainhas.
-
-Dom Joam per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves d’aquem
-e d’alem mar em Africa Senhor de Guiné e da Conquista, navegaçãm,
-commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India etc. A quantos esta
-minha carta virem Faço saber que entre as cousas que foram capituladas
-e assentadas no contracto do casamento de El-Rey meu Senhor e padre que
-santa gloria haja com a Raynha Leonor sua mulher minha Senhora madre lhe
-foi outorgado que o dito Senhor Rei meu padre lhe desse as Terras que
-tinha a Senhora Raynha Dona Leonor sua irmã, minha tia que santa gloria
-haja se vagassem logo em vagando com todo aquello que ella das ditas
-terras entam possuya como compridamente he contheudo no dito contracto
-de seu casamento e por fallecimento da dita Senhora Raynha minha tia
-vieram á dita Senhora Raynha D. Leonor minha madre a Cidade de Silves,
-Alvôr e Villas de Faram no Reyno do Algarve e as Villas de Obbidos,
-Alamquer, Sintra e Aldea Gallega e Aldeia Gavinha com todos seus termos,
-terras, direitos, rendas, fóros, tributos e pertenças e com todas as
-suas jurdições civis e crimes méro mixto Império e com os Padroados das
-Igrejas e dadas de tabelliaens e de todos os outros officios que eram
-da dada e provimento da dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e por
-quanto hora com minha autoridade e consentimento a dita Senhora Raynha
-Dona Leonor minha madre se concertou com a Raynha minha sobre todas
-muito amada e presada molher, sua Irmãa para lhe leixar e virem a ella
-a dita Cidade de Silves e Villas e terras, rendas direitos jurdições
-dadas d’officios Padroados das Igrejas e todas as outras cousas que
-ella tinha e de direito por bem do dito seu contracto lhe pertencião
-e como tudo tinha havia e possuia a dita Senhora Raynha Dona Leonor
-minha tia por certa satisfaçam e paga que por isso lhe faz nos quatro
-contos de maravedis que ella tinha em Castella do Emperador seu Irmão
-segundo compridamente he contheudo e declarado no contracto de troca e
-escambo e permudaçam que antre ellas foi feito com meu consentimento e
-do dito Emperador seu Irmão pello que a elle nisso tocava fazer de cujas
-provisões os treslados são postos de verbo a verbo no dito concerto
-e contracto a Raynha minha sobre todas muito amada e presada molher
-me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de doaçam e mercê
-da dita Cidade Villas terras rendas e de todas as outras cousas que
-á dita Raynha sua irmãa pertencem e havia davêr e visto por mim seu
-requerimento pello muy grande amor que lhe tenho e desejo de em todas
-suas cousas lhe comprazer, visto o dito contracto e concerto feito antre
-ella e a dita Raynha Dona Leanor sua Irmãa minha Senhora madre tenho
-por bem e lhe Faço pura e inrevogavel doação e graça para em todos os
-dias da sua vida da dita Cidade de Silves, Alvôr, Villas de Faram,
-Obbidos, Alamquer, Sintra, Aldeia Gallega e Aldeia Gavinha com todos
-os seus termos terras direitos, fóros, e tributos e pertenças e com as
-Alcayderias móres dos Castellos d’ellas, rendas e direitos que a ellas
-pertencem e com todas as suas jurisdições civeis e crimes mero mixto
-Império, resalvando para mim correição e alçada e com os Padroados das
-Igrejas e dadas dos tabelliaens e de todos os outros officios que na
-dita Cidade e Villas dava e de que provia a Senhora Raynha Dona Leonor
-minha tia e com todas as outras cousas de qualquer genero e callidade
-que sejam que ella nellas tinha havia e pessuya e melhor se ella com
-direiro o melhor poder ter e haver e dello uzar e como todo de direito
-pertence á dita Raynha Dona Leanôr minha Senhora e madre por bem do dito
-seu contracto de casamento. Porem mando aos meus Corregedores Contadores
-Almoxorifes Recebedores Juizes justiças officiaes e pessoas da dita
-Cidade Villas e terras e aos Fidalgos, Cavalleiros, homens bons e povo
-d’ellas e a quaesquer outros officiaes e pessoas a que esta minha carta
-fôr mostrada e o conhecimento della pertencêr que dêm á dita Raynha minha
-molher e a seu certo recado a posse da dita Cidade de Silves Alvôr e
-Villas de Faram Obbidos Alamquer Sintra e Aldeagallega e Aldea Gavinha
-com todos seus termos terras rendas direitos fóros tributos e pertenças
-Alcayderias mores e com todas suas jurisdições civeis e crimes mero e
-mixto Imperio resalvando para mim somente a correição e Alçada e com os
-Padroados da Igreja dadas de Tabelliaens e de todos os outros officios
-que dava e provia a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e de todas
-as outras cousas que ella nellas tinha havia recadava e possuya e lhe
-leixem todo haver recadar e pessuir e dello usar por sy e por seus
-officiaes e pessõas que para ello ordenar e fazer como em cousa sua
-propria porque eu lhe faço assy de tudo doaçam e graça em sua vida como
-dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto porque
-assy he minha mercê e mando ãos dittos meus Contadores que esta carta
-registem no livro dos proprios das comarcas para sempre se saber a forma
-desta doação a qual mando assy mesmo aos Juizes da dita Cidade e Villas
-que façam tresladar nos livros das Vereações Dada em a Cidade de Lisboa
-a vinte e nove dias de Outubro Bartholomeu Fernandes a fez Anno de nosso
-Senhor Jesus Christo de mil quinhentos vinte oito annos.
-
- (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_,
- pagina 425). A doação que D. João III fez a sua mulher, de toda
- a Casa das Rainhas, copiamol-a na Torre do Tombo, collecção de
- S. Vicente, vol. XX, fl.ᵃˢ 204, estando encorporada na doação
- de D. Luiza de Gusmão, que adeante publicamos. Pouca differença
- faz do Concerto, existindo, ainda assim, alguma troca de
- palavras e data posterior.
-
-
-Doação aa sñra Raynha D. Luiza da Jurisdição de suas terras, e da Caza de
-sua fazenda e governo e despacho della.
-
-Dom Joam por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalem
-mar, em Africa sñor da Guiné e da Conquista navegação comercio da Etiopia
-Arabia Persia e da India etc. Faço saber aos q̃ esta minha carta virem
-que a Raynha D. Luiza minha sobre todas muito amada e prezada molher me
-enviou a prezentar as copias de hũa carta de doação e confirmação q̃
-pello sñor Rey Dom Joam o 3.ᵒ foi outorgada á sñra Raynha D. Caterina
-sua molher das Terras chamada da Raynha com todas suas rendas direitos
-reaes, officios, Padroados, Alcayderias móres, jurisdições Ouvidor e
-Juizes de suas terras e mais faculdades passada no anno de mil quinhentos
-e vinte e nove, e de hũa provisão passada no anno de 1550 da jurisdição
-governo e administração de sua faz.ᵈᵃ Vedor Ouvidor e officiaes da Casa
-e despacho della, e sua Chancelleria, a que vinham as appellações e
-aggravos dos Contadores e Juizes dos direitos reaes, das quaes o theor é
-o seguinte:—Dom João por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves etc.
-
-[Sidenote: Doação de D. João III, da Caza das Rainhas a sua mulher D.
-Catharina d’Austria.]
-
-A todos quantos esta minha carta virem faço saber que entre as cousas
-que foram capituladas e assentadas no contracto do casamento d’ElRey
-meu sñor e Padre que santa gloria aja e a Raynha D. Leanor sua molher
-minha sñra e madre lhe foi outorgado que o dito sñor Rey meu padre sñor
-d’estas terras que tinha a sñra Raynha D. Leanor sua irmã minha tia q̃
-s.ᵗᵃ gloria aja se vagassem, logo em vagando com todo aquello q̃ ella
-das ditas terras entam possuia, como compridam.ᵗᵉ era conteudo no dito
-cõtrato de casamᵗᵒ que por falecimᵗᵒ da dita sñra Raynha minha tia vierão
-á dita sñra Raynha D. Leanor minha madre, a Cidade de Silves, Alvôr,
-villas de Faram no Reyno do Algarve, e as villas de Obidos Alanquer
-Sintra Aldea Gallega e Aldea Gavinha cõ todos seus termos terras direytos
-rendas foros tributos e pertenças e com todas suas jurisdições crimes e
-civeis mero e mixto imperio e com os Padroados das Igreijas e dadas de
-Tabaliaes e de todos os outros officios que eram da dada e provimᵗᵒ da
-ditta sñra Raynha D. Leanor minha tia e porqᵗᵒ hora com minha autoridade
-e consintimento a ditta sñra Raynha D. Leanor minha madre se consertou
-com a Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada molher sua irmaa para
-lhe leixar e virem a ella a ditta Cidade de Silves e villas e terras
-rendas direytos jurisdições dadas d’officios padroados das Igrejas e
-rendas e as outras cousas que ella tinha e de direito por bem do dito seu
-contracto lhe pertencião e como todas tinha e avia e possuhia a dita
-sñra Raynha D. Leanor minha tia por certa satisfação que paga que por
-isso lhe faz nos quatro contos de maravedis que ella tinha em Castella
-do emperador seu irmão, segundo compridamente he conteudo e declarado
-no Contracto de troca e escambo e permudação que entre ellas foi feito
-com meu consentimᵗᵒ e do dito emperador seu irmão pello q̃ a elle nisso
-tocava fazer, de cujas provisões os treslados sam postos de verbo no
-dito concerto e contracto, a Raynha minha sobre todas muito amada e
-prezada molher me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de
-doação e mercê da ditta cidade e villas e terras e rendas e de todas
-as outras cousas que a dita Raynha sua irmaa pertencem e avia de aver,
-e visto por mim seu requerimento pello mᵗᵒ grande amor que lhe tenho e
-desejo de em todas as suas cousas lhe aprazer visto o dito contrato e
-concerto feito entre ella e a dita Raynha D. Leonor sua irmaa minha sñra
-madre tenho por bem e lhe faço pura e irrevogavel doação e graça para
-em todos os dias de sua vida da dita Cidade de Silves Alvôr Villa de
-Faram Obidos Alamquer Sintra Aldea Gallega Aldea Gavinha com todos os
-seus termos e terras e foros tributos e pertenças e com as Alcayderias
-móres dos castellos dellas rendas e direytos q̃ a ellas pertence, e com
-todas suas jurisdições civeis e crimes mero e mixto imperio, resalvando
-para mim a Correição e alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de
-Tabaliaens e de todos os outros officios por suas cartas que na ditta
-Cidade e ditas villas dava e de que provia a sñra Raynha D. Leanor minha
-tia e quero e me praz que os juizes e tabeliães da ditta Cidade e villas
-e lugares e terras se chamem por ella assy como se chamavam pella ditta
-sñra Raynha D. Leanor minha tia o com todas as outras cousas de qualquer
-genero e qualidade que sejam q̃ ella nellas tinha e avia e possuhia e
-melhor se ella com dyreito o melhor poder ter e aver e dello uzar e como
-de dereyto pertence á ditta Raynha D. Leanor minha sñra madre por bem
-do ditto seu contracto de cazam.ᵗᵒ Porem mando aos meus Corregedores,
-Contadores Almxᵉˢ Recebedores Juizes Justiças officiaes e pessoas da
-dita cidade e Villas e Terras e aos fidalgos, cavalleyros, homês bons e
-Povo dellas e a quaesquer outros officiaes a quem esta minha carta for
-mostrada e o conhecimento della pertencer q̃ deem aa dita Raynha minha
-molher e a seu certo recado a posse da ditta Cidade de Silves, Alvôr,
-Villas de Farão, Obidos e Alemquer Sintra e Aldea Gallega, Aldea Gavinha
-com todos seus termos e terras rendas direytos foros tributos pertenças
-e Alcayderias mores e rendas dellas e com todas suas jurisdições civeis
-crimes mero e mixto imperio resalvando para mim somᵗᵉ a correição e
-Alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de Tabelliaes e de todos
-os outros officios que dava e provia a ditta sñra Raynha D. Leanor minha
-tia e de todas as outras cousas que ella nellas tinha e avia recadava
-e possuhia; e lhe leixem todo aver recadar e pussuhir e dello uzar por
-sy e por seus officiaes e pessoas que pera ello ordenar e fizer como em
-cousa sua propria, porq̃ eu lhe faço assy de tudo doação e graça em sua
-vida como dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto,
-porq̃ assy he minha m.ᶜᵉ E mando aos ditos meus Contadores que esta carta
-registem no livro dos proprios das Comarcas pera sempre se saber a forma
-desta doação aqual mando assy mesmo aos juizes da dita Cidade e villas
-q̃ fação tresladar nos livros das Vereações. Dada em a Cidade de Lisboa.
-«Bxᵐᵒⁿ frz a fez» a quatro do mes de Janʳᵒ anno de nosso sñor Jesu xpto
-de mil e quinhentos e vinte e nove annos.
-
-_E a outra carta do anno de mil e quinhentos e sincoenta tocante ao
-regimento e despacho da Caza e officiaes de sua faz.ᵈᵃ he a seguinte._
-Eu ElRey faço saber a vós Juizes e Vereadores e Povo da V.ᵃ de Alenquer
-q̃ por alguns resp.ᵗᵒˢ que moverão a Raynha minha sobre todas m.ᵒ amada
-e prezada molher, e pello assy sentir pera mais seu descanço ella ouve
-por bem e me pedio que eu provesse e mandasse prover de justiça as
-Cidades e Villas que ella ha em meus Reynos e assy provesse nella os
-officios de justiça quando vagarem como tudo me parecesse e he necessario
-pera bem serem regidas e governadas em justiça e ficando a ella as
-Alcayderias mores e padroados das Igrejas e direytos rendas q̃ ella ha
-e lhe pertencem nas ditas suas Cidades e Villas e de que ella esta em
-posse e a jurisdição dos ditos direitos e rendas e dadas dos officios da
-arrecadação da dita faz.ᵈᵃ que hora tem nas ditas Cidades e Villas ou
-ao diante lhe parecer que são necessarios com as appellações e aggravos
-dante os ditos officiaes de sua faz.ᵈᵃ pera ella e o Vedor de sua faz.ᵈᵃ
-e ouvidor dos feitos della sem a serca dello os Juizes Corregedores e
-pessoas dos meus Reynos q̃ eu puzesse, conhecerem das cauzas q̃ tocarem
-á dita sua faz.ᵈᵃ e arrecadação d’ella, nem minhas Relações e justiças
-poderem conhecer das dittas Appellações q̃ dante os dittos officiaes
-vierem, porq̃ delles conhecerá o dito seu Védor da fazenda e ouvidor
-dos feitos della, ou outros Dezembargadores q̃ ella ordenar como hora
-conhecem e assy se cumprão nas dittas Cidades e Villas seus mandados e os
-dos dittos seus officiaes da faz.ᵈᵃ, como hora se cumprem e passarão na
-forma q̃ hora passam, e por folgar de em tudo comprazer á dita sñra, me
-pras e hey por bem de mandar prover de justiça as dittas Cidades e Villas
-e dar os officios dellas emqᵒ o assy a dita sñra ouver por bem e q.ᵗᵒ ás
-jurisdições das cousas de sua fazᵈᵃ e dadas dos officios da recadação
-della q̃ hora ha ou ao diante lhe parecer q̃ sam necessarios ella proverá
-como ouver por bem e seus mandados e do vedor de sua fazenda e ouvidor
-dos feitos della e de todos os outros officiaes de sua fazᵈᵃ passaram da
-forma que ategóra passaram e se cumprirão em tudo como ategóra cumprirão
-e as Appellações que sahirem dante os officiaes de sua fazᵈᵃ sobre couzas
-della e arrecadação de seus direitos e rendas viram ao dito seu Vedor da
-fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della e se despacharam com os Dezʳᵉˢ q̃ ella
-ordenar como se hora faz, sem Cᵒʳ ou jusᵃˢ minhas nem minhas Relações
-conhecerem de cousa algũa que toque a sua fazᵈᵃ e arrecadação de seus
-direitos e rendas nem das appellações nem aggravos q̃ sahirem dos ditos
-officiaes de sua fazᵈᵃ porq̃ de tudo hão de conhecer só seu Vedor da
-fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della com os Dezʳᵉˢ que ella ordenar como
-assima dito he, e como eu hora mando q̃ o Cᵒʳ em essa Comarca va a essa
-Villa e entre nella a fazer Correição como e pela manᵃ que faz nos outros
-meus lugares da dita Comarca, volo notifico asy o mando que lhe obdeçaes,
-em tudo cumpraes seus mandados, este registareis no livro da Camera dessa
-Villa com outra carta que sobre o dito caso vos escreve a dita sñra para
-a todos ser notorio e se cumprirem em tudo.
-
-[Sidenote: Doação de D. João IV á rainha D. Luiza de Gusmão.]
-
-Pantaleão Rebello a fez em Lisboa a seis do mez de mayo de mil quinhentos
-e cincoenta.—Pedindo-me a dita Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e
-prezada mulher que porqᵗᵒ na Carta patente de Doação das ditas terras da
-Raynha q̃ para sua Camera Caza e estado por mim lhe fora outorgada, se
-continha que averia as dittas terras em sua vida com todas as rendas,
-direitos reaes, tributos, jurisdições, Alcayderias móres, offᵒˢ de
-justiça e sua fazᵈᵃ com os mais privilegios e prerogativas assy e da
-manʳᵃ que a sñra Raynha D. Caterina ultimamente as possuhira e estivera
-em posse e costume de uzar. O que tudo melhor cõstava das ditas cartas e
-provisão assima relatadas, hũa das terras rendas offᵒˢ e jurisdições,
-outra em q̃ se declara a jurisdição uzo e costume e modo do procedimento
-e despacho da Caza de sua fazᵈᵃ e offᵒˢ por ella creados q̃ nella andavam
-e de sua Chrᵃ e Contadores Juizes e Almoxᵉˢ da dita sua fazᵈᵃ, as quaes
-cousas senão achavam assi recopiladas em outra carta de doação, por serem
-mᵗᵒˢ e de diversos pontos particulares e em diversos tempos houvesse por
-bem de lhe conceder e confirmar as ditas cartas e provisão supprindo na
-primeira entre as terras nella declaradas as Villas das Caldas e salir
-do Porto que por as outras Prouvizões constava serem das sr.ᵃˢ Raynhas
-D. Leanor e D. Caterina e p.ᵃ em sua vida as possuirem excepto o que
-nellas ao Hospital das Caldas estava concedido para andarem todas nesta
-carta. E asy a provisão do q̃ toca á jurisdição e poder que por ella
-se declara que lhe compete em sua faz.ᵈᵃ E visto por mim o q̃ me assy
-enviou pedir e as ditas carta e provisão e pello m.ᵗᵒ amor que lhe tenho
-e por m.ᵒ desejar de em tudo o q̃ me requerer e pedir lhe comprazer como
-é razão e por lhe fazer graça e m.ᶜᵉ de minha certa sciencia e poder
-real e absoluto, hey por bem e me praz de lhe conceder e confirmar em
-sua vida as ditas terras cartas doações jurisdições e previlegios com
-tudo o mais nelles conteudo assy e da man.ʳᵃ que as dittas Raynhas, e
-ultimamente a dita Raynha D. Cn.ᵃ as tiveram e melhor, se melhor por
-elles lhe competir, com declaração q̃ onde na sobredita carta reservo
-para mi Correição e Alçada, quanto á Correição, se entende que a farão
-os Corregedores com sua auctoridade assy e na fórma e casos que nos he
-patente e em outras de regim.ᵗᵒ e jurisdição de seu ouvidor e off.ᵉᵐ,
-passada no dia da feitura desta he declarado. Pello que mando ao Regedor
-da Caza da Supplicação e g.ᵒʳ da Caza do Porto e minhas Relações e
-Tribunaes e aos meus Juizes e jus.ᶜᵃˢ que a fação guardar e registar
-nos livros das Relações Camaras e Correições e outro sy mando aos ditos
-Corregedores Contadores Juizes e Just.ᵃˢ Vereadores e da governança das
-ditas Cidad.ᵉˢ e V.ᵃˢ que dem á dita Raynha e a seu certo recado e pessoa
-que lhe aprouver mandar com sua provisão de procuração a posse dellas com
-todos seus termos, e terras rendas direytos foros tributos Alcayderias
-móres, com suas rendas e todas suas jurisdições civeis e crimes mero e
-mixto imperio na forma sobredita e q̃ na dita carta e regim.ᵗᵒ das terras
-e jurisdição mais largam.ᵗᵉ he declarado e nas mais q̃ por mi concedidas
-e confirmadas q̃ a dita snr.ᵃ Raynha D. Cn.ᵃ em sua vida teve e de q̃
-uzou e esteve de posse.
-
-E por firmeza de tudo o que dito he mandei dar esta m.ᵃ carta patente
-por mi assinada e passada pela m.ᵃ Cn.ᵃ Dada na Cidade de Lisboa aos
-dez dias do mez de janeiro Sotto mayor a fez........de mil seiscentos e
-quarenta e trez.
-
- (Archivo da Torre do Tombo—Collecção de S. Vicente, Volume XX,
- fl.ᵃˢ 204.)
-
-
-
-
-NOTAS
-
-
-[1] O sr. commendador Guilherme João Carlos Henriques, publicou ha
-annos um bem elaborado livro: _Alemquer e seu concelho_. É esta uma
-obra puramente _local_, que informa todas as particularidades que dizem
-respeito á villa e suas freguezias, bem como aos outros pontos ruraes.
-
-A Historia _local_ d’Alemquer está bem entregue ao sr. Guilherme
-Henriques e mesmo que haja alguem que se lembre hoje de escrevel-a, não
-fará mais do que ampliar o seu trabalho, ficando assim com a gloria
-incompleta. Não serei eu que sou seu amigo e que além d’isso, me prezo de
-ser leal, que lhe usurparei o logar; antes renovo aqui o pedido, que ha
-tempos fiz a sua ex.ᵃ, de uma segunda edição, augmentada, do seu livro, o
-que traria grande vantagem para os estudiosos e para os que prezam o bom
-nome da velha capital da Casa das Rainhas.
-
-Como sua ex.ᵃ verá pela Advertencia e pelo texto d’esta obra, a parte
-_local_ está só no titulo d’ella. A minha esphera d’acção é outra muito
-differente; sou e serei um cabouqueiro, como me recommenda Oliveira
-Martins, mas no campo da Historia ha numerosas minas de diamantes.
-
-Esta nota não é dirigida ao espirito intelligente e cavalheiresco de
-sua ex.ᵃ, mas uma simples prevenção contra os mal intencionados ou
-ignorantes, que queiram desvirtuar as acções de cada um.
-
-[2] Archivo Nacional da Torre do Tombo, inquirições de D. Diniz; Livro
-10, fl. 22 e 24 verso.
-
-[3] Figanière, obra citada, pag. 62.
-
-[4] Torre do Tombo, chancellaria de D. Diniz, livro 1.ᵒ fl. 41.
-
-[5] O original d’este documento encontrou-o Figanière no cartorio de
-Santa Clara, achando-se registado na chancellaria de D. Diniz, livro 3.ᵒ,
-fl. 33.
-
-[6] Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 46.
-
-[7] Torre do Tombo, chancellaria de D. Fernando, Livro 1.ᵒ, fl. 107.
-
-[8] Com o desenvolvimento do commercio nas conquistas, tiveram as Rainhas
-varias rendas sobre diversas mercadorias.
-
-[9] D. José Barbosa diz que o casamento de D. Affonso II se realisou em
-1201; mas Alexandre Herculano affirma que só teve logar nos fins de 1208,
-ou principios de 1209.
-
-[10] De todos os reis de Portugal, exceptuando os Filippes, os unicos que
-estão sepultados no estrangeiro, são dois bem desgraçados: D. Sancho II e
-D. Miguel I.
-
-[11] O diploma é datado de Elvas, 25 de fevereiro de 1267, e acha-se na
-Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 19.
-
-[12] Torre do Tombo, chancellaria de D. Affonso III, livro 1.ᵒ fl. 141.
-
-[13] D. José Barbosa, no _Catalogo das Rainhas de Portugal_, diz que a
-rainha D. Beatriz de Gusmão falleceu a 27 de outubro de 1303; porém, o
-sr. João Pedro da Costa Basto encontrou na Torre do Tombo a data acima
-indicada, que Figanière menciona na sua obra _Memorias das Rainhas de
-Portugal_, pag. 121. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[14] D. Izabel d’Aragão foi beatificada por Leão X a 15 de abril de 1516
-e canonisada por Urbano VIII a 25 de maio de 1625.
-
-[15] Não são concordes os historiadores quanto ao fallecimento de D.
-Constança. D. José Barbosa affirma que falleceu aos 13 de novembro de
-1345; mas o _Obituario de S. Bartholomeu_ diz que a morte teve logar no
-dia 27 de janeiro de 1349. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[16] D. Leonor Telles está sepultada no mosteiro de Nossa Senhora da
-Mercê de Valladolid.
-
-[17] El-rei D. João I teve além do duque de Bragança, D. Affonso, uma
-filha bastarda, que foi D. Beatriz, que casou em 1405 com Thomaz Fitz
-Alan, conde de Arundel, primo da rainha D. Filippa de Lencastre. A mãe
-d’estes filhos foi Ignez Pires, que depois foi commendadeira de Santos.
-
-[18] A 24 de julho de 1429, o senhor de Roubaix, como procurador do duque
-de Borgonha, recebia em Lisboa a infanta D. Isabel.
-
-[19] O infante D. Pedro despozára em 1428 D. Izabel, filha de Jayme II,
-d’Urgel, e da infanta D. Izabel de Aragão.
-
-[20] Veja-se _Notas e documentos_.
-
-[21] _Jarreteira_; assim se dizia no tempo.
-
-[22] Do casamento do infante D. Pedro com D. Izabel d’Urgel, houveram
-os seguintes filhos: D. Pedro, condestavel, poeta e Mestre de Aviz;
-D. Izabel, rainha de Portugal; D. Filippa, recolhida em Odivellas; D.
-Brites, mulher do duque Cléves, senhor de Ravensteyn; D. João, principe
-d’Antiochia; e D. Jayme, cardeal. Vid. _Notas e documentos_.
-
-[23] Assim o affirma D. José Barbosa, no seu _Catalogo_, tantas vezes
-citado, e o P.ᵉ Francisco de Santa Maria na _Chronica dos Conegos
-Seculares de S. João Evangelista_; porém, D. Antonio Caetano de Souza, na
-_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. 1.ᵒ, pag. 63, diz que o casamento
-de Affonso V teve logar em 1447, em vista do seu contracto que publicamos
-nas _Notas e documentos_. Por esse tractado se vê que o consorcio se
-realisou um anno antes do que lhe é marcado por Barbosa e pelo P.ᵉ
-Francisco de Santa Maria.
-
-[24] A catastrophe de Alfarrobeira deu-se a 20 de maio de 1449; ficando o
-corpo do infante trez dias insepulto, até que o recolheram para a egreja
-d’Alverca, sendo d’ahi mudado para o castello d’Abrantes, depois para
-o mosteiro de Santo Eloy e ultimamente para a Batalha. Vid. _Historia
-Genealogica da Casa Real_, por D. Antonio Caetano de Souza, tomo 2.ᵒ,
-cap. 2.ᵒ, pag. 77.
-
-[25] D. Leonor de Lencastre foi dotada pelo duque de Vizeu, D. Diogo,
-seu irmão, com a villa de Lagos e seu castello, direitos e rendas; mais
-tarde recebeu de seu marido a doação de Alemquer e d’outras villas, que
-el-rei D. Manuel lhe confirmou em 24 de março de 1496. Vid. as _Notas e
-documentos_.
-
-[26] Em 1495 imprimiu-se a _Vita Christi_; em 1505, os _Autos dos
-Apostolos_; em 1515, o _Boosco deleytoso_; e em 1518, o _Espelho de
-Christiania_.
-
-[27] Jaz sepultada no convento de Santa Izabel de Toledo.
-
-[28] O principe D. Miguel nasceu em Saragoça a 24 de agosto de 1498, e
-jaz sepultado na mesma cidade.
-
-[29] Vasco da Gama regressou da sua viagem em 29 de julho ou de agosto de
-1499.
-
-[30] Depois ordenou-se que seu filho Braz d’Albuquerque tomasse em sua
-honra o nome de Affonso. Foi este o auctor dos _Commentarios d’Affonso
-d’Albuquerque_.
-
-[31] Veja-se _Notas e documentos_.
-
-[32] A rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel, nasceu em Cordova,
-aos 29 de junho de 1482 e recebeu-se por procuração com o rei de
-Portugal a 24 de agosto de 1500 e por palavra de presente na epocha
-acima mencionada. Como não chegou a sobreviver a sua cunhada D. Leonor
-de Lencastre nunca possuiu a Casa das Rainhas, tendo por mercê especial
-de seu marido a cidade de Vizeu e a villa de Montemór-o-Novo. (vid.
-_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. V, pag. 229). Além d’estas terras,
-teve tambem o padroado da egreja de S. Pedro de Lordosa, varias tenças
-e a villa de Torres Vedras, que, como se verá nos _documentos_, não
-pertenceu á esposa de D. João II, como por lapso dissemos a paginas 6.
-
-[33] O sr. Luciano Cordeiro o demonstrou cabalmente no seu livro _A
-Segunda Duqueza_; bem como destroe a lenda dos amores de D. João III com
-a madrasta. Louvores sejam dados ao illustre escriptor.
-
-[34] D. Leonor d’Austria nasceu em Louvain a 15 de novembro de 1498.
-
-[35] Veja-se a excellente obra do conde de Villa Franca, _D. João I e a
-alliança ingleza_, pag. 281.
-
-A infanta D. Maria foi uma das mais sabias e virtuosas princezas do seu
-tempo, e um dos mais brilhantes vultos da Renascença em Portugal. Nas
-_Notas e documentos_ publicamos uns ligeiros traços biographicos d’esta
-senhora; bem como o soneto com que Camões celebrou a sua morte.
-
-[36] Está sepultada no Escurial.
-
-[37] Vid. D. José Barbosa, _Catalogo das rainhas de Portugal_. O
-casamento já se tinha realisado por procuração no Toro, a 11 de janeiro
-do mesmo anno. _Historia Genealogica_, livro 4.ᵒ, cap. 15.ᵒ, pag. 55.
-
-[38] _Lusiadas_, canto IV, est. 95.
-
-[39] El-Rei D. Manuel teve da rainha D. Maria, sua segunda mulher, além
-de outros filhos, o infante D. Duarte que nasceu em Lisboa, aos 7 de
-septembro de 1515 e casou em Villa Viçosa (terça feira, 24 de abril de
-1537) com D. Izabel de Bragança filha do duque D. Jayme e de D. Leonor
-de Mendóça, recebendo n’essa occasião o titulo de duque de Guimarães;
-d’este matrimonio houveram duas filhas: D. Catharina e D. Maria, que
-desposou o principe de Parma, Rainuncio. D. Catharina foi desde tenra
-edade destinada para mulher de seu primo o duque D. João I, realisando-se
-o consorcio aos 8 de dezembro de 1563. O seu filho primogenito foi D.
-Theodosio, mais tarde segundo do nome e pae d’el-rei D. João IV. D.
-Catharina falleceu a 15 de novembro de 1614, respeitada dos soberanos de
-todas as nações, tratada como egual pelas testas coroadas, recebendo o
-tratamento _d’Alteza_ e preparando o futuro poderoso da Casa de Bragança.
-Vid. _Hist. do Inf. D. Duarte_, do sr. José Ramos Coelho, tomo I, _Le
-Portugal et la maison de Bragança_, por A. A. Teixeira de Vasconcellos e
-_Historia Geneal. da Casa Real_, de D. Antonio C. de Souza, tomo 6.ᵒ.
-
-[40] Sr. José Ramos Coelho, pag. 46 da obra citada.
-
-[41] Torre do Tombo, collecção de S. Vicente, volumes XX, fl. 204. Vid.
-_Notas e documentos_.
-
-[42] A princeza D. Izabel, filha de D. Pedro II e de D. Maria Francisca
-Izabel de Saboya, nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669; sendo jurada
-herdeira da corôa, nas côrtes de 27 de janeiro de 1674. Esteve justo o
-seu casamento com o duque de Saboya, Victor Amadeu, seu primo; o qual
-recusou este enlace, allegando motivos de doença. Dizem a princeza
-se apaixonara de tal modo que repudiou os dois pretendentes que lhe
-solicitavam a mão: o grão-duque da Toscana e o duque de Parma; vindo a
-fallecer, solteira, aos 21 de outubro de 1690.
-
-[43] Serviram de procuradores de Portugal, o duque de Cadaval, o marquez
-de Niza, o marquez de Marialva, o Marquez de Gouvêa, o conde de Miranda e
-o secretario d’Estado, Pedro Vieira da Silva.
-
-[44] «Foy El-Rey D. Pedro de estatura agigantada, cor trigueira, olhos
-grandes, nariz aquilino, bocca grossa, & cabello preto. Teve forças
-extraordinarias, do que fazia provas admiraveis. Excedeo a todos os do
-seu tempo na sciencia de andar a cavallo & correr touros (sic). Era
-incançavel na frequencia com que ouvia aõs seus Vassallos, para o que não
-havia horas, nem tempo reservado.» (D. José Barbosa, _Elogio dos Reis de
-Portugal_, pag. 200).
-
-[45] D. Maria Sophia de Neuburgo está sepultada em S. Vicente de Fóra.
-
-[46] Na batalha de Matapan a 19 de julho de 1717 se distinguiram os
-nossos almirantes, conde do Rio Grande e conde de S. Vicente.
-
-[47] Tradições de familia que não vem a proposito aqui relatar, nos
-tornam devedores á memoria de D. João V.
-
-[48] Este senhor do Cadaval era D. João de Castro que foi casado com D.
-Leonor da Cunha, depois esposa do grande João das Regras. Do matrimonio
-do duque D. Fernando com D. Joanna de Castro, nasceram nove filhos; dos
-quaes um (D. Antonio) não sobreviveu. Entre os que vingaram, conta-se D.
-Alvaro que teve o tratamento de _Senhor_ e casou com D. Filippa de Mello,
-herdeira da casa dos condes d’Olivença. D. Alvaro é o progenitor dos
-duques de Cadaval.
-
-[49] Acha-se publicado do tomo 5.ᵒ das _Provas da Historia genealogica
-da Casa Real_, pag. 141. No mesmo tomo estão publicados os seguintes
-tractados de casamentos:—d’el-rei D. Affonso VI com a rainha D. Maria
-Francisca (pag. 10); de D. Pedro II com a rainha D. Maria Sophia de
-Neubourg (pag. 73).
-
-[50] Era então embaixador de Portugal em Madrid Antonio Guedes Pereira.
-
-[51] Veja o tractado do casamento de D. José publicado no tomo 5.ᵒ das
-_Provas da Historia genealogica da Casa Real_, pag. 316; e no _Fasto
-de Hymeneo, ou Historia Panegyrica dos desposorios dos Fidellissimos
-Reys de Portugal, nossos Senhores, D. Joseph I e D. Maria Anna Victoria
-de Bourbon_, por Fr. Joseph da Natividade, pregador geral da ordem dos
-Pregadores, na provincia de Portugal; pag. 18.
-
-[52] Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, na casa da rua
-Formosa, a 13 de maio de 1699 e foi filho de Manuel de Carvalho e Atayde,
-commendador na Ordem de Christo, Capitão de Cavallaria da côrte, senhor
-da Quinta da Granja, e de D. Thereza Luisa de Mendonça, filha de João
-d’Almada e Mello, commissario geral de cavallaria na Beira, alcaide-mór
-de Palmella, senhor e administrador do morgado dos Olivaes e do Souto
-d’El-Rei. Foi seu padrinho, seu avô paterno, Sebastião de Carvalho e
-Mello, Capitão de Cavallos, senhor dos morgados de Sernancelhe e da
-Quinta da Granja, padroeiro da egreja de N. Senhora das Mercês, onde jaz
-sepultado, tendo vivido 110 annos. Era, portanto, o marquez de Pombal
-fidalgo pelo lado paterno e materno, pertencendo á fidalguia de provincia
-(a não titular, que não tinha nenhum cargo superior na côrte), a que, ao
-tempo, pertenciam tambem a maior parte das familias que hoje formam a
-aristocracia portugueza. O titulo de conde d’Oeiras foi-lhe conferido em
-15 de julho de 1759 e o de marquez de Pombal a 16 de septembro de 1769.
-
-[53] El-Rei D. José tinha nascido a 6 de junho de 1714, e o conde
-d’Obidos a 20 de julho de 1699, tendo por consequencia mais quinze annos
-que o monarcha. Esta differença explica a phrase do fidalgo, quando
-Sebastião de Carvalho lhe veio pedir a sua protecção: _pois o menino é
-chocalheiro_?!
-
-[54] O original d’este documento encontra-se na torre do Tombo, liv. 5.ᵒ
-de D. Affonso IV, de afforamentos, doações etc., pag. 46 verso.
-
-[55] Diz-se geralmente que foi D. Affonso V quem concedeu o ducado de
-Bragança a seu tio o conde de Barcellos; é falsa, porém, tal affirmativa.
-A doação data de 1442, durante a regencia de D. Pedro, embora a carta só
-fosse requerida mezes depois do desastre d’Alfarrobeira.
-
-[56] O duque de Coimbra, D. Jorge, foi o progenitor da casa d’Aveiro,
-recebendo seu filho, D. João, o titulo de duque d’aquella localidade.
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAGINAS
-
- Prefacio e advertencia VII a XV
-
- A Casa das Rainhas 1
-
- D. Dulce 9
-
- D. Sancha 13
-
- D. Beatriz de Gusmão 17
-
- Santa Izabel 23
-
- D. Constança 27
-
- D. Leonor Telles 31
-
- D. Filippa 39
-
- D. Izabel de Lencastre 43
-
- D. Leonor d’Aragão 49
-
- D. Izabel de Lencastre 55
-
- D. Leonor de Lencastre 63
-
- D. Leonor d’Austria 69
-
- D. Catharina d’Austria 81
-
- O interregno dos Filippes 89
-
- D. Luiza de Gusmão 95
-
- D. Maria Francisca Izabel de Saboya 105
-
- D. Maria Sophia de Neuburg 118
-
- D. Marianna d’Austria 124
-
- D. Marianna Victoria de Bourbon 135
-
- Notas e documentos 147 a 175
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of As donatarias d'Alemquer, by
-João Pereira Franco Monteiro
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
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- The Project Gutenberg eBook of As donatarias d’Alemquer, by J. P. Franco Monteiro.
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-Project Gutenberg's As donatarias d'Alemquer, by João Pereira Franco Monteiro
-
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-Title: As donatarias d'Alemquer
- Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
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-Author: João Pereira Franco Monteiro
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-Contributor: Joaquim Pedro de Oliveira Martins
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-Release Date: July 26, 2020 [EBook #62766]
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-Language: Portuguese
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-Character set encoding: UTF-8
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-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
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-Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet
-Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team
-at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned
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-</pre>
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-<p><span class="pagenum"><a name="Page_i" id="Page_i">[i]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage larger">AS DONATARIAS DE ALEMQUER</p>
-
-<p class="center">Historia das Rainhas de Portugal
-e da sua casa e estado</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_ii" id="Page_ii">[ii]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_iii" id="Page_iii">[iii]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage">J. P. FRANCO MONTEIRO</p>
-
-<p class="titlepage">AS<br />
-<span class="larger">DONATARIAS D’ALEMQUER</span></p>
-
-<p class="center"><i>Historia das Rainhas de Portugal<br />
-e da sua casa e estado</i></p>
-
-<p class="center">com uma carta-prefacio<br />
-<span class="smaller">POR</span><br />
-OLIVEIRA MARTINS</p>
-
-<div class="figcenter" style="width: 200px;">
-<img src="images/tp.jpg" width="200" height="200" alt="" />
-</div>
-
-<p class="titlepage">LISBOA<br />
-M. GOMES—<span class="smcap">Editor</span><br />
-<span class="smaller">LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS</span><br />
-<i>Rua Garrett (Chiado) 70-72</i><br />
-1893</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_iv" id="Page_iv">[iv]</a></span></p>
-
-<p class="titlepage smaller">Typ. Castro Irmão</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_v" id="Page_v">[v]</a></span></p>
-
-<p class="center larger"><span class="smcap">A meu Pae</span></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_vi" id="Page_vi">[vi]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_vii" id="Page_vii">[vii]</a></span></p>
-
-<p>Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.</p>
-
-<p class="tb">A sua muito obsequiosa deferencia reclama
-de mim umas palavras para acompanhar
-perante o publico o livrinho com que
-V. Ex.ᵃ vem sentar praça n’este batalhão
-das letras patrias, desmantelado como quasi
-tudo que é portuguez. Ahi vae satisfeito o
-seu desejo. Não carecia d’este adminiculo a
-sua obra, para ser acolhida por todos com
-a benevolencia devida aos bons intuitos; e
-que o necessitasse, não era decerto eu o
-competente para lhe assignar o passaporte
-da viagem. Estas linhas não são portanto
-mais do que o agradecimento da sua nimia
-deferencia para commigo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_viii" id="Page_viii">[viii]</a></span></p>
-
-<p>Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a
-parte local d’elle está só no titulo. É o que
-eu sinto. <i>As donatarias de Alemquer</i> são as
-rainhas de Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando
-por vezes os trabalhos de Figanière e do sr.
-Benevides, escreveu uma serie de biographias
-summarias. É excellente para provar
-a mão; e a maneira como deu conta do
-trabalho prova serem estas paginas as primicias
-de um escriptor.</p>
-
-<p>Não desanime, portanto. É moço, e tem
-em si o que vale mais do que tudo: a vocação,
-a quéda irresistivel para o estudo,
-e o dom de imprimir fórma communicavel
-ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje
-e rumine. Folheie e decifre muito papel
-velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade.
-Desconfie dos planos geraes e syntheticos,
-atraz dos quaes muito boa gente se deixa
-affogar pelo palavriado, julgando descobrir
-maravilhas. O trabalho mais meritorio é nas
-letras o do cabouqueiro, por isso mesmo que<span class="pagenum"><a name="Page_ix" id="Page_ix">[ix]</a></span>
-não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando
-rijo no chão, que se encontram
-diamantes.</p>
-
-<p>Como vê, não o lisongeio. É o triste condão
-de quem chega á minha edade poder
-fallar aos moços em nome da experiencia
-propria. Não me leve, pois, a mal estas curtas
-observações, que eu não faria decerto
-se julgasse serem tempo perdido.</p>
-
-<p>Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia
-que o publico ha de apreciar, como é
-dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne</p>
-
-<p class="center">Seu<br />
-M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ</p>
-
-<p class="right"><i>Oliveira Martins</i></p>
-
-<p class="smaller">Casa de V. Ex.ᵃ</p>
-
-<p class="smaller">25 de março</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_x" id="Page_x">[x]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_xi" id="Page_xi">[xi]</a></span></p>
-
-<h2 id="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</h2>
-
-<p>No seu principio, as <i>Donatarias</i> foram
-uns simples artigos de <i>dilletantismo</i> litterario,
-não se concebendo ainda o plano d’um
-volume.</p>
-
-<p>Destinadas á publicação em periodico,
-accommodei-as ao pequeno espaço que me
-dispensava um dos mais honrosos jornaes
-da capital; porém, estimulado pelo favor e
-cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo
-o pensamento, chegando emfim ao projecto
-de as colleccionar em separado.</p>
-
-<p>É o que faço hoje, não lhe alterando a
-fórma primitiva; corrigindo-as em parte,
-mas não lhe transtornando o molde, por
-lealdade, talvez exaggerada, ao meu primeiro
-pensamento.</p>
-
-<p>Tambem não quiz mudar de titulo, que
-parece de uma obra local—feição esta que
-se encontra um tanto accentuada na primeira
-dynastia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_xii" id="Page_xii">[xii]</a></span></p>
-
-<p>Como vi a luz n’uma aldeia do concelho
-d’Alemquer, entendi que bem proprio era
-o meu primeiro livro ser dedicado á terra
-que me foi berço. Começa-se a amar a Patria
-amando os campos e as flores do nosso
-lar; é ahi que desabrocha o sentimento civico,
-é ahi que se enraiza a adoração por
-todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade
-de sentimentos, de linguagem, d’aspirações
-e de crenças, que fórma o Paiz.</p>
-
-<p>Além d’isso, Alemquer desempenhou na
-Historia portugueza um papel importante,
-embora hoje esteja reduzida ás suas tradições
-e ao movimento industrial das fabricas,
-que actualmente lhe tornam conhecido
-o nome, que, sem essa circumstancia, estaria
-de todo olvidado.</p>
-
-<p>Outr’ora capital da Casa das Rainhas,
-villa predilecta das soberanas, que nas suas
-muralhas encontravam defeza leal, que
-nos seus montes e nos seus vergeis buscavam
-o desenfado da vida cortezã, é justo
-que essas memorias hoje sejam invocadas<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a><span class="pagenum"><a name="Page_xiii" id="Page_xiii">[xiii]</a></span>
-por quem nasceu no seu termo, por quem
-viu ao despontar da vida, as ruinas do velho
-castello que Affonso Henriques tomou
-aos mussulmanos e que D. João I destruiu
-como padrão d’ingloriosas, ainda que valentes
-recordações!</p>
-
-<p>Aconselharam-me que ampliasse o livro
-e o intitulasse—<i>A Casa das Rainhas</i>; era
-mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro
-trabalho... Reagi, conhecendo a justiça do
-conselho, pelos motivos que acima expuz,
-despretenciosamente, sem outros calculos
-que não sejam os da lealdade do sentimento.</p>
-
-<p>Procurei julgar os diversos personagens
-que menciono, conforme o meu sentir os define.
-Na philosophia da Historia, o leitor me<span class="pagenum"><a name="Page_xiv" id="Page_xiv">[xiv]</a></span>
-julgará, porque quem escreve é um reu que
-tem de sujeitar-se ás impressões que suggeriu
-aos cultos e até aos incultos. Ahi é
-que o historiador sobrepuja o erudicto na
-manifestação da sua intellectualidade. Isto
-não é julgar-me a mim proprio. Digo-o em
-geral, como regra assente. O erudicto busca,
-trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos
-dos archivos o pergaminho desejado. Não
-o impelle a sua philosophia, mas sim as
-suas aspirações; porém, ao resolver do problema,
-nos mostra na critica do documento
-achado, os dotes da sua intuição, revela-nos
-bem qual é a grandeza da sua alma,
-qual a força do seu raciocinio. Entretanto,
-sem erudictos não poderia haver philosophos;
-uns completam os outros, no ideal
-dos que escrevem a Historia:—mostrar aos
-presentes, para sua licção e dos futuros,
-o que foram os passados, o rigor dos seus
-defeitos e a suavidade de suas virtudes.</p>
-
-<p>Alicerce da minha vida litteraria, as <i>Donatarias</i>
-vêem a luz sem pretenções, mas
-com o apoio favoravel d’um dos nossos
-primeiros escriptores, que obsequiosamente,
-se promptificou a prefacial-as. Agradeço-lh’o
-com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei
-das suas palavras, como incentivo tenaz<span class="pagenum"><a name="Page_xv" id="Page_xv">[xv]</a></span>
-para o trabalho que mesmo que não traga
-gloria, sempre traz proveito.</p>
-
-<p>Egualmente me confesso reconhecido aos
-srs. dr. Xavier da Cunha, conservador da
-Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel
-da Costa Basto, director do Archivo
-da Torre do Tombo, pelos bons serviços
-com que me brindaram no decurso das minhas
-buscas investigadoras.</p>
-
-<p class="right"><i>Franco Monteiro</i></p>
-
-<p class="smaller">Cortegana, março de 1893.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p>
-
-<h2 id="A_CASA_DAS_RAINHAS">A CASA DAS RAINHAS<br />
-<span class="smaller">(NOTICIA SUMMARIA)</span></h2>
-
-<p>Para sustento de suas consortes costumavam
-os antigos reis doar-lhes o rendimento
-de algumas villas, juncto a varias
-attribuições civis que variavam conforme a
-confiança que o soberano depositava na esposa.</p>
-
-<p>Em 1188 Sancho I tencionou visitar a
-Palestina; na duvida de succumbir na empreza,
-doára a sua mulher a rainha D. Dulce
-os rendimentos de Alemquer, Terras do Vouga,
-do Porto e de Santa Maria; mas, retirada
-a idéa da jornada, não se sabe se
-D. Dulce continuou a usufruir os bens testados,
-ou se elles voltaram para a corôa.</p>
-
-<p>O sr. visconde de Figanière no seu explendido
-livro <i>Memorias das Rainhas de Portugal</i>,
-pag. 63 e 64, quasi que affirma que<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span>
-esta senhora foi donataria de Alemquer;
-Francisco da Fonseca Benevides nas <i>Rainhas
-de Portugal</i> (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104)
-segue o mesmo caminho. Entretanto, são
-simples conjecturas as opiniões dos dois illustres
-e sabios escriptores. Que D. Dulce
-possuiu propriedades no termo de Alemquer,
-é innegavel;<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> assim como possuiu na
-Beira varias fazendas ao sul do Mondego;<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a>
-mas que tivesse o senhorio d’esta villa, não
-é certo, embora com probabilidades.</p>
-
-<p>A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa
-de seu filho Affonso II; esta princeza teve
-os senhorios de Torres Vedras, Obidos e
-Lafões, existindo na Torre do Tombo um
-documento em que o herdeiro de D. Sancho
-regula a applicação dos rendimentos de
-D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e
-Obidos são vinculadas na casa das Rainhas,
-e como da mulher de D. Affonso II existem
-provas de haver casa propria, não nos
-parece fóra de razão enumeral-a como a
-primeira <i>senhora</i> (não <i>proprietaria</i>) de terras.</p>
-
-<p>De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia
-que viesse a possuir quaesquer villas<span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span>
-em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão
-teve Torres Novas, Alemquer e Torres Vedras,
-que lhe foram doadas por seu esposo,
-D. Affonso III, sendo-lhe mais tarde concedido
-o padroado d’estas villas. Santa Izabel,
-mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote
-Abrantes, Obidos e Porto de Moz, por carta
-d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Mais
-tarde teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte,
-Cintra, Ourem, Feira, Gaia, Lamoso,
-Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte
-de Rio Livre, Portel e Monte Alegre;
-sendo esta concessão ampliada com varias
-rendas em dinheiro e com as villas de Leiria
-e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho
-de 1304)<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> e Athouguia (19 de outubro de
-1307). Possuiu além d’isso os reguengos de
-Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a
-Quinta de Fandega da Fé, em Torres Vedras
-e a leziria d’Atalaya.</p>
-
-<p>Não ha documentos que affiancem que
-Izabel d’Aragão possuisse Torres Vedras e
-Alemquer; no que diz respeito a esta segunda
-villa, o amor que a rainha sempre<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span>
-lhe consagrou, leva-nos a suppor que de
-facto fosse sua proprietaria.</p>
-
-<p>Depois de Santa Izabel apparece-nos D.
-Brites, esposa d’el-rei D. Affonso IV. Esta
-soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha
-de Sancho IV de Castella e da rainha
-D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro
-de 1309 com o infante D. Affonso, que
-mais tarde, por morte de seu pae (7 de janeiro
-de 1325), succedeu na corôa portugueza.</p>
-
-<p>Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz
-confirmou-lhe a doação que o marido lhe
-havia feito (20 de outubro do mesmo anno)
-da villa de Vianna do Alemtejo, com todos
-os poderes civis e criminaes. O mesmo
-seu sogro deu-lhe em arrhas Evora, Villa
-Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo
-estas duas ultimas trocadas por Cintra (26
-de maio de 1334) com todos os seus pertences.</p>
-
-<p>Teve varias herdades em Santarem, que
-pertenceram a Fernão Sanches; e a leziria
-d’Atalaya (5 de novembro de 1337).<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> Em
-7 de junho de 1357 el-rei D. Pedro I, para
-lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span>
-de Torres Novas. D. Beatriz de Castella
-procurou imitar Santa Izabel no exercicio
-da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos
-pios, influiu por destruir o antagonismo
-entre Affonso XI de Castella e
-Affonso IV de Portugal, e o resentimento
-de seu filho D. Pedro para com o pae, o
-infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu
-esta rainha em Lisboa, e jaz sepultada
-na sé da mesma cidade.</p>
-
-<p>D. Constança Manuel, primeira mulher
-de D. Pedro I, teve em arrhas as villas de
-Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor
-Telles, esposa de D. Fernando, foi presenteada
-por seu marido com Villa Viçosa,
-Almada, Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem,
-Torres Vedras, Obidos, Athouguia,
-Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas,
-Unhos, e Terras de Meréles. Esta carta de
-arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro
-de 1372.<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> Passados dois annos fez-se a troca
-de Villa Viçosa por Villa Real de Traz-os-Montes,
-onde D. Leonor exerceu toda a
-jurisdicção. A 20 de março de 1376 a seductora
-do mallogrado soberano de Portugal
-ainda teve artes de adquirir Pinhel.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p>
-
-<p>D. Filippa de Lencastre, mulher de D.
-João I, dotou-se com as rendas da Alfandega
-de Lisboa, da portagem e do paço da
-Madeira e com as villas de Alemquer, Cintra,
-Obidos, Alvayazere, Torres Novas e
-Torres Vedras.</p>
-
-<p>D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas
-de seu marido trinta mil florins de ouro
-de Aragão, e por hypotheca Santarem com
-todos os seus rendimentos. Em 1453 D.
-Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra
-e Torres Vedras, vindo mais tarde a
-possuir outras terras da rainha sua sogra.
-D. Isabel de Lencastre, filha do grande infante
-D. Pedro, o das <i>Sete Partidas</i>, foi donataria
-de todas as villas da sua predecessora.
-D. Leonor de Lencastre, além d’estas
-mesmas villas, teve por doação de seu marido
-D. João II as cidades de Silves e Faro
-e as villas de Aldeiagallega e Aldeiagavinha,
-tendo tambem Caldas, de que foi fundadora.
-Desde esta epocha ficou constituida a
-<i>Casa e Estado das Senhoras Rainhas de
-Portugal</i>.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p>
-
-<p>Tinham as augustas esposas dos nossos<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span>
-soberanos a faculdade da nomeação dos
-empregados do fisco, os recebedores das
-rendas, das patentes d’officiaes, etc., ficando
-o senhorio eminente na posse da corôa.</p>
-
-<p>D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de
-julho de 1643) um <i>Tribunal da Fazenda da
-Casa e Estado das Senhoras Rainhas</i>, que
-a administrou até que o alvará de 25 de
-janeiro de 1770 transmittiu o seu governo
-para o Erario.</p>
-
-<p>Foi este o primeiro golpe na Casa das
-Rainhas, de todo extincta por decreto de
-9 d’agosto de 1833.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p>
-
-<h1>AS DONATARIAS DE ALEMQUER</h1>
-
-<h2 id="D_Dulce">D. Dulce</h2>
-
-<p>Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe
-no throno seu filho Sancho I, que
-ao tempo contava trinta e um annos de edade.</p>
-
-<p>Achára traçadas as linhas da monarchia
-portugueza pela espada e pela politica do pae,
-continuando a sua obra com a tomada de
-Silves, a primeira tentativa da conquista do
-Algarve, mais tarde gloriosamente seguida
-por seu neto Sancho II e só ultimada por
-Affonso III, graças ao valor incomparavel
-de D. Paio Peres Correia.</p>
-
-<p>Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz
-e de D. Pedro, o <i>cru</i>, na administração interna
-do paiz. Tendo outros horizontes que
-não só os da guerra, tomou a hombros o
-povoar as praças e logares conquistados, em<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span>
-proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia
-essa edade média bulhenta, que vivia
-da conquista e tinha por unico objectivo a
-gloria da cruz e o engrandecimento do territorio.</p>
-
-<p>Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o
-principe a D. Dulce de Aragão, filha de D.
-Ramon Berenguer, decimo quinto conde de
-Barcelona e de D. Petronilha, rainha do Aragão,
-filha de Ramiro, o <i>monge</i>. Longos e abençoados
-foram os fructos d’este consorcio; D.
-Dulce deu á luz onze filhos, entre os quaes
-trez filhas se elevaram aos altares.</p>
-
-<p>Depois de vinte e tres annos de casada,
-a rainha succumbiu em Coimbra (primeiro
-de septembro de 1198), sendo sepultada em
-Santa Cruz.</p>
-
-<p>Apesar de não haver documentos que provem
-que esta princeza foi senhora de Alemquer,
-auctores ha que a têem como tal, parecendo
-corroborar esta opinião o facto de
-seus bens serem repartidos pelas filhas (D.
-Constança, D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda,
-D. Branca e D. Berenguella) e ser D.
-Sancha possuidora da villa.</p>
-
-<p>Não nos embrenharemos na discussão
-d’este assumpto embora estejamos convencidos
-do contrario (permitta-se-nos dizel-o),<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span>
-apesar do senhorio de D. Sancho e da rainha
-possuir terras n’este concelho, segundo
-julgamos, proximas á quinta da Condessa.</p>
-
-<p>No emtanto, como temos por nullo o nosso
-sentir, curvaremos a cabeça ás baseadas affirmações
-dos mestres, mencionando-a como
-a primeira donataria.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Sancha">D. Sancha</h2>
-
-<p>Deve-se escrever com animo grato a biographia
-d’esta princeza. Sympathica e boa,
-religiosa e casta, foi sem duvida um dos
-grandes premios que a Providencia destinou
-ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica
-das epochas medievaes, procurando
-com o cilicio a expiação da carne, que
-nunca abandonára o pudor!</p>
-
-<p>Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza,
-a sacrificada esposa d’Affonso IX, de
-Leão, predilecta filha do rei <i>povoador</i>, a ella
-o paiz deve relevantes serviços, porque foi
-ella a introductora dos franciscanos em Portugal,
-que tantos sabios nos deram e tantos
-beneficios nos prestaram.</p>
-
-<p>D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção
-especial; fôra-lhe doada pelo pae, que
-a enriquecêra com um paço, em que a santa
-senhora recebeu os cinco martyres de Marrocos,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span>
-e onde buscou, muitas vezes, a retirada
-residencia, no alto monte, em que á
-vontade contemplava a maravilhosa obra do
-Creador!</p>
-
-<p>D’este paço só resta a chamada <i>capella
-de Santa Sancha</i>, unica reliquia d’uma das
-maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.</p>
-
-<p>Lendo a historia, examinando a guerra
-um tanto justa que Affonso II moveu ao
-feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem
-o pae, no seu testamento, se houve d’um
-modo liberal de mais, vemos na resistencia
-de D. Sancha, não a ambição do poder, nem
-da fortuna, que sempre desprezou, mas, talvez,
-<i>visionariamente</i>, o amor á terra de quem
-ella se teria de apartar, uma vez expulsa
-do seu senhorio.</p>
-
-<p>Estas guerras civis tomaram proporções
-que o rei, se unicamente fosse dominado pelo
-desejo da concentração do poder, poderia evitar.
-Excommungado pelo pontifice e perseguido
-pelo soberano de Leão, o monarcha
-portuguez encaminhou a contenda para uma
-via diplomatica. Enviado a Roma um embaixador,
-foi o pleito julgado por dois abbades
-de Cistér, que condemnaram D. Affonso a
-uma multa extraordinaria, para satisfazer as
-custas da peleja encetada por elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p>
-
-<p>Não se conformando com a sorte, foram
-os castellos entregues aos templarios, como
-depositarios e administradores dos bens. O
-papa morreu; rixas intestinas entre o clero
-e a corôa portugueza interromperam a demanda,
-que ficou por decidir no reinado
-d’Affonso II, fallecido a 25 de março de 1223.
-Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado
-e valente, mas de todo infeliz. Este
-monarcha acabou o litigio com as irmãs de
-seu pae, não só por conveniencias, mas por
-decencia.</p>
-
-<p><i>Era uma vergonha</i> a desharmonia da familia
-real; e o chefe, reprovando no seu intimo
-a generosidade do avô, cedeu ás imposições
-do mundo... nem parecia da edade
-média.</p>
-
-<p>Combinou-se que as donatarias prestassem
-homenagem ao soberano e contribuissem
-com gente para a hoste real, obrigando-se
-o rei a defender-lhes a propriedade.</p>
-
-<p>Como dissemos, D. Sancha residiu algumas
-vezes em Alemquer, até que, movida do seu
-instincto religioso, professou no mosteiro de
-Cellas, onde falleceu em 13 de março de 1229.
-Jaz em Lorvão.</p>
-
-<p>O senhorio da villa passou á irmã, <i>D. Thereza</i>,
-esposa do rei de Leão, D. Affonso IX,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span>
-de quem se separou por motivos de parentesco.
-Recolhida a Portugal, fez-se monja em
-Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de
-junho de 1250.</p>
-
-<p>No reinado de D. João V foram estas
-senhoras beatificadas pelo Papa Clemente XI;
-os seus corpos trasladaram-se, com pompa
-digna do Salomão portuguez, para o altar
-mór da egreja onde ambas jaziam.</p>
-
-<p>Depois d’estas princezas, passou Alemquer
-para o dominio das rainhas. Só mais tarde
-D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I,
-teve o senhorio da villa por successão a sua
-mãe, D. Filippa, até que D. Leonor d’Aragão,
-esposa de D. Duarte, tomou posse da
-terra que estava destinada para joia preciosa
-do diadema brilhante das Soberanas
-de Portugal.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Beatriz_de_Gusmao">D. Beatriz de Gusmão</h2>
-
-<p>Como fica dito, Affonso II falleceu em 25
-de março de 1223. Subira ao throno pela
-morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de
-março de 1211), de quem foi herdeiro, conforme
-o direito de primogenitura.</p>
-
-<p>Ainda infante, casou com D. Urraca, filha
-de Affonso VIII, de Castella, e de D. Leonor,
-filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p>
-
-<p>D’este consorcio nasceram quatro filhos:
-Sancho, que herdou a corôa e foi o segundo
-no nome; Affonso, que casou em França com
-Mathilde, Condessa de Bolonha; Leonor, esposa
-de Valdemaro III, de Dinamarca; e D.
-Fernando, o <i>infante de Serpa</i>, desposado de
-D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór de
-Castella.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p>
-
-<p>O Conde de Bolonha foi o primeiro principe
-que deu exemplo de perfidia na corôa
-portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo
-alma dos magnates que depozeram D. Sancho
-(1245), por não lhe servir as ambições,
-negando a politica do avô, investira o poder
-depois de exilado o irmão, conquistador valeroso,
-a quem a patria, mesmo depois de seiscentos
-annos, só tem dispensado palavras
-vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra
-no pantheon dos monarchas!<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a></p>
-
-<p>Póde ser que nos ultimos tempos do seu
-governo D. Sancho cedesse á amante a vontade
-de rei; póde ser—e foi—que o soberano,
-inebriado pelos fascinadores olhares
-de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu
-povo; mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte,
-praças que tomou ao islamismo, mereciam
-melhor recompensa que a proscripção
-e o exilio em Castella.</p>
-
-<p>Que tempos os medievaes! No castello de
-Coimbra, depois do osculo de mais intenso
-amor; depois de mutuas juras de fidelidade,
-passadas as scenas que tornam celestial o remanso
-do lár, um vulto de guerreiro assoma<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span>
-á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla
-o marido, que dorme, e, tão bella
-como perfida, lança-se nos braços de Raymundo
-Viegas de Portocarrero, cavalga o
-fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo
-do cavalleiro, que a roubára pela politica do
-infante bolonhez, penetra os muros d’Ourem,
-onde esforços do apaixonado D. Sancho não
-conseguem escalar!</p>
-
-<p>Abandonado pela mulher a quem confiára
-o seu coração, perseguido pelo clero que o
-intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice,
-refugiou-se em Toledo, onde falleceu
-aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida a sua
-morte, o conde de Bolonha tomou o titulo
-de rei. Este soberano para quem a historia
-só encontrou o cognome de <i>bolonhez</i>, apezar
-de ter conseguido a libertação do Algarve,
-foi tão perfido com a condessa Mathilde,
-como traidor ao irmão.</p>
-
-<p>Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253,
-contrahiu segundas nupcias com D. Beatriz
-de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de
-Castella, e de D. Maria Guillen de Gusmão.</p>
-
-<p>Embora fosse o primeiro coito damnado
-que se sentou no throno, D. Brites foi um
-anjo de paz como a sua successora, Santa
-Izabel. Ella serviu de medianeira quando a<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span>
-guerra rebentou entre Castella e Portugal,
-e mais tarde Affonso X, desthronado pelo
-herdeiro ambicioso, encontrou na filha um
-thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio
-da desgraça.</p>
-
-<p>O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação
-d’Alemquer, em 1267.<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> A estima de Affonso
-III demonstra a importancia que a villa
-então possuia, pois é licito acreditar que a
-generosidade do rei condissesse com o amor
-consagrado á esposa. Dezesete annos estivera
-Alemquer annexa á corôa, encontrando
-na mercê do monarcha uma donataria virtuosa,
-digna herdeira de D. Dulce e de suas
-filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a
-terra em si, embora as suas virtudes lhe servissem
-d’ornamento, materialmente nada lucraria,
-se a rainha só cuidasse de receber as
-rendas, deixando no olvido os beneficios com
-que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites
-alcançára do esposo (28 de junho de 1277)<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a>
-o padroado das egrejas e capellas do seu
-senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres,
-deu principio á construcção da egreja
-de S. Francisco, onde outr’ora foram os paços<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span>
-reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco
-martyres de Marrocos.</p>
-
-<p>Acanhado e pequeno o primitivo templo,
-começou-se a obra da nova egreja, em 1280.
-Não a poude vêr concluida a rainha, que
-falleceu em 7 d’agosto de 1300, e a egreja
-só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto,
-seu filho, el-rei D. Diniz, continuou,
-dignamente, o empenho da mãe, como o
-attesta a seguinte inscripção:</p>
-
-<p class="center"><i>Esta igreja fundou<br />
-A muy nobre rai(nh)a Dona<br />
-Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso<br />
-seu filho nobre<br />
-Rey de Port(ugal) comprido de vertude<br />
-Do(m) Denis</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p>
-
-<h2 id="Santa_Izabel">Santa Izabel</h2>
-
-<p>Tres annos após o fallecimento de Affonso
-III (16 de fevereiro de 1279), seu filho,
-o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel
-de Aragão, filha de D. Pedro, o <i>grande</i>,
-e de D. Constança de Napoles. O consorcio
-realisou-se em 24 de julho de 1282,
-nascendo, passados oito annos, a infanta
-D. Constança, desposada de Fernando IV,
-rei de Castella, e logo depois (8 de fevereiro
-de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso
-IV, cuja ambição tanto alanceou a rainha
-sua mãe.</p>
-
-<p>Exactamente como de D. Dulce, não existem
-documentos que provem o dominio
-d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a
-sua residencia aqui, os seus beneficios á
-terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos
-a contal-a entre as donatarias, enchendo-nos
-de orgulho por possuirmos uma senhora
-tão grande.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span></p>
-
-<p>Perseguida e intrigada, como todas as
-almas virtuosas e nobres, soube impôr o seu
-vulto á calumnia, incutindo uma veneração
-no espirito do marido, que a perfidia não
-conseguiu debellar.</p>
-
-<p>Convencido o rei de que sua mulher subsidiava
-o filho nas revoltas que o ciume
-e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel
-que se recolhesse em Alemquer, onde
-esteve algum tempo.</p>
-
-<p>Durante este desterro, a princeza mostrou-se
-digna da terra que lhe dera hospitalidade.
-Fixou residencia nos novos paços
-que Santa Sancha erigira depois de transformar
-os antigos em recolhimento da ordem
-seraphica. Ali surgiu-lhe á memoria
-as virtudes e os feitos da bemaventurada
-fundadora, e, ardendo-lhe o peito em caridade,
-transformou o palacio em albergaria,
-onde poisavam os forasteiros e se acoitavam
-os doentes.</p>
-
-<p>Não contente com isso, levantou a egreja
-do Espirito Santo, junto aos paços, creando-lhe
-duas festas annuaes e doando-a aos
-alemquerenses; mas, como o fogo da caridade
-a obrigava a ir mais além, instituiu
-na egreja de Santo Estevão umas mercieiras
-para subsidiar doze viuvas de boa nota,<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span>
-com obrigação de ouvirem missa diaria
-pela alma da fundadora.</p>
-
-<p>Abalados os restos da antiga piedade, em
-1834, acabou esta pia instituição, e a incuria,
-ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais
-antigo de Alemquer, edificando no seu logar
-uma escola primaria. Vamos com Deus...</p>
-
-<p>Temos por desnecessario descrever as virtudes
-domesticas da esposa do illustrado e
-sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas
-e apreciadas por todos, que não regateiam
-a Santa Izabel o logar proeminente
-entre as rainhas de Portugal.<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Constanca">D. Constança</h2>
-
-<p>Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de
-1336, e, quatro annos depois, foi Alemquer
-doada a D. Constança, malograda esposa de
-D. Pedro, <i>o cru</i>.</p>
-
-<p>Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena,
-D. João Manoel e de sua primeira
-esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando;
-<i>o santo</i>, rei de Castella, e neta materna
-de D. Jayme II d’Aragão.</p>
-
-<p>O monarcha castelhano, comprehendendo
-a politica do astuto visinho, oppoz-se á sahida
-da princeza, tolhendo-lhe a passagem
-pelo seu territorio. O portuguez declarou-lhe
-guerra, e, se não fossem Roma e França,
-esta contenda seria prolongada e inutil, porque
-o capricho do castelhano e as forças de
-Affonso IV eram indomaveis.</p>
-
-<p>Acabada a pendencia, graças á intervenção
-estrangeira, entrou D. Constança no
-paiz de seu marido.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p>
-
-<p>Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza,
-poucos annos depois, exhalou o ultimo
-suspiro, sendo sepultada em Santarem.<a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p>
-
-<p>Viera acompanhada de brilhante sequito
-de damas, resplandecendo entre todas a peregrina
-Ignez de Castro, a quem D. Pedro
-immolou o coração. Talvez que na morte
-da desgraçada senhora os olhos do esposo
-brilhassem, ao encontrarem-se com os da
-formosa Ignez! Talvez que a esposa, no
-leito de dôr, não sentisse ao seu lado o
-palpitar ancioso do coração do marido, que
-suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte
-o momento feliz de poder, mais á
-vontade, chamar sua áquella que <i>só</i> amava!...</p>
-
-<p>Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora
-da justiça soou tremenda e lugubre, quando
-a felicidade deslizava tranquilla por entre
-aquelle amor louco, immenso, incomparavel!</p>
-
-<p>Não se póde fixar quando começaram as
-relações de D. Pedro com a dama de sua
-mulher; o supposto casamento é datado de
-1354, tendo o principe quatro filhos. Um<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span>
-anno depois, a politica regia desfazia criminosamente
-este amoroso idyllio.</p>
-
-<p>A tragica morte de Ignez é de sobejo
-conhecida. Camões a cantou em estrophes
-immortaes, traduzidas em todas as linguas.
-O vulto da desventurada apparece-nos como
-visão, na adolescencia, quando o nosso pensamento
-começa a divisar um novo ideal,
-quando o peito anhela um novo sentir, e
-o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se
-para o céo é acompanhado de uma
-ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como
-a castidade d’um seraphim. Tal é o amor
-ao principio!</p>
-
-<p>Entrado no mundo, o homem, corrupto
-pela força das circumstancias, folheia o livro
-do passado, detem a vista sobre o começo
-da sua existencia viril e analysa esses
-ideaes crystallinos, sente no peito uma
-commoção triste, mas risonha, doce, mas
-dolorosa, que só nós, os portuguezes, sabemos
-bem definir—é a saudade!</p>
-
-<p>Não que a carne ainda retenha o mesmo
-prisma; a mulher desapparece como o meteóro,
-mas o que fica arreigado ao coração,
-é a innocencia bonançosa que torna o
-espirito, amante sim, mas ao abrigo de
-Deus...</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p>
-
-<p>D. Affonso IV escolheu epocha propicia
-(7 de janeiro de 1355) para a sua fatidica
-empresa. Estavam desfolhadas as arvores:
-caudaloso o Mondego, espelho d’aquella ternura
-sem egual; brancos os cumes dos
-montes; o sol, defendido pelos negros torreões
-de nuvens, não quiz, condoido e triste,
-presenciar o espectaculo.</p>
-
-<p>Dentro de seus paços, nos aposentos de
-uma fraca mulher, dois assassinos a apunhalavam
-com barbaridade sem parceiro na
-historia. Animava-os a politica do rei e o
-espirito da defunta Constança. Estava vingado
-o seu ciume.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Leonor_Telles">D. Leonor Telles</h2>
-
-<p>Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos
-desde que Affonso I se ligára á virtuosa
-Mafalda de Saboya (1146-1371), e
-n’este longo periodo não houve uma unica
-soberana que manchasse a purpura com o
-labéo da devassidão.</p>
-
-<p>Só D. Mecia destoára um pouco das suas
-predecessoras; no entanto o papel impudico
-só o representou como comedia.</p>
-
-<p>Foi preciso que no throno se sentasse o
-filho d’um monarcha justiceiro, respeitador
-do lar e da honra de seus vassallos, para
-que esse brazão de perto de trez seculos
-fosse eclypsado pelo desbragamento mais
-devasso.</p>
-
-<p>Pedro I espumava de raiva quando o thalamo
-era profanado. Constante na sua louca
-paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou
-a existencia.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p>
-
-<p>Via-a quando açoutava o salteador e
-quando queimava o adultero; a imagem d’ella
-fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.</p>
-
-<p>D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente
-opposto. Tratára o consorcio com
-D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar
-Castella, guerreando a posse d’aquella
-monarchia a Henrique II.</p>
-
-<p>Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu
-por esposa a outra Leonor, filha do
-seu rival. Tambem faltou a esta promessa.
-O caracter rijo do pae, herdára-o unicamente
-o bastardo; os outros bandearam-se em Castella,
-e o herdeiro, embora possuisse boas
-qualidades administrativas, não passou de
-um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz
-ao seu amor adultero.</p>
-
-<p>Ainda mulher alguma soubera impressionar
-verdadeiramente aquelle homem.</p>
-
-<p>Fôra frascario, mas amor propriamente
-dito jámais o perseguira. Era bello e era
-rei, e a lascivia, na edade media, não tinha
-os fóros de vicio—era um costume.</p>
-
-<p>Vira Leonor Telles quando o marido, cançado
-da monotona vida de provincia, partiu
-para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da
-realeza e o faustoso brilho da côrte. No peito<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span>
-do rei o coração ardia-lhe e no cerebro forjavam-se-lhe
-mil idéas pouco lisonjeiras
-para elle e pouco honrosas para o senhor
-de Pombeiro; mas não passou, ao principio,
-de idyllios imaginarios.</p>
-
-<p>D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns
-espias preversos em casos d’amor, e por
-mais que fizesse, o rei não deixava de a
-contemplar.</p>
-
-<p>Ella retrahia-se. Na sua alma damnada
-brotou o pensamento que a honestidade poderia
-servir de degrau para o throno. Talvez
-até se recostasse na fronte do esposo,
-para mais exasperar a paixão do pobre soberano!</p>
-
-<p>Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre
-a ha quando o coração sente.—Receava
-magoar a <i>honra</i> d’aquella mulher.
-Poz de parte o receio; mas, como ainda
-lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou
-com a irmã, chorou aos pés de Maria Telles,
-supplicou-lhe que advogasse aquelle amor
-louco, que o faria abandonar a corôa se
-preciso fosse. Movida D. Maria de tão instantes
-rogos, procurou convencer a irmã.
-Convencida estava ella ha muito, desde que
-farejára os olhares do rei. Não o amava,
-mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span>
-modo legitimo, bem entendido. Barregan
-d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.</p>
-
-<p>Lisboa alvoraçou-se com a nova.</p>
-
-<p>Todos, á uma, estranharam o procedimento
-do filho do saudoso D. Pedro. A cidade
-resolveu representar n’este sentido nomeando
-seu interprete o alfaiate Fernão
-Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser
-falso o boato. Socegaram os animos.</p>
-
-<p>Entretanto a côrte partiu para o norte
-do reino, e ao chegar a Leça do Bailio
-(1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em
-publico, como sua mulher.</p>
-
-<p>Desligára-a de João Lourenço da Cunha,
-pretextando motivos de parentesco, e no
-logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe
-doou Alemquer e seus pertences.</p>
-
-<p>Principia aqui a mais nojenta tragedia da
-historia de Portugal. Leonor Telles foi o
-Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára
-esta em Affonso Henriques, o valente
-fundador da nossa nacionalidade, acabára
-em D. Fernando, o fraco apaixonado
-de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre
-d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando
-Aljubarrota a Ourique.</p>
-
-<p>Germen da nova dynastia, teve fructos
-dignos de si e de seus passados: D. Duarte,<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span>
-sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota
-como Sancho II; D. João II, politico e justiceiro
-como D. Pedro I; e D. Sebastião (coincidencia
-notavel) amante da gloria, como D.
-Fernando o fôra de uma mulher, arrastou
-o paiz aos areaes da Africa, como este o
-arrastára á perdição infallivel, nas graças
-seductoras da sua amada!</p>
-
-<p>O decorrer dos seculos ainda não poude
-absolver os crimes d’esta soberana.</p>
-
-<p>O seu reinado é uma scena continua d’adulterios
-e de assassinios. Invejosa por natureza,
-convenceu seu cunhado, o Infante
-D. João, de que a mulher d’este (a D. Maria
-Telles que lhe approximára a corôa) lhe
-commettia infidelidade. Cioso, o principe
-matou-a. D. Leonor respirou; assim desfez
-o seu receio, porque temia a morte do marido
-e via com inveja que o throno seria
-occupado pela irmã e pelo infante, querido
-do povo, como filho d’esse rei de que elle
-conservava saudosa memoria.</p>
-
-<p>O susto que a movêra a mais uma infamia,
-realisou-se no dia 22 d’outubro de
-1383, epocha em que falleceu D. Fernando,
-aos trinta e oito annos d’existencia, talvez
-a mais amargurada e com certeza a mais
-vergonhosa de todos os nossos monarchas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p>
-
-<p>Depois da sua morte, a viuva assumiu
-a regencia, fazendo logo acclamar sua filha
-D. Beatriz, casada com D. João de Castella.
-Reinava emfim! Podia livremente fazer o
-que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas
-de ninguem; escusava de se valer dos seus
-dotes para obter uma vingança ou uma
-desforra. Ella era o poder supremo, grande,
-inegualavel!</p>
-
-<p>Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na
-mesma moeda. Toda a gente sabia da <i>privança</i>
-do Conde Andeiro; revoltaram-se e
-convidaram o bastardo de D. Pedro, o Mestre
-d’Aviz, para assassinar o <i>valido</i>. Consumado
-este acto, D. Leonor recolheu-se
-em Alemquer, fiada na lealdade do povo e
-na fortaleza das muralhas. Foi a primeira
-vez que se lembrou do seu senhorio!</p>
-
-<p>D. João mandou á villa dois embaixadores,
-a ver se negociava o casamento com
-a rainha. Recusada a proposta, o principe
-cercou-a; mas depois de varias refregas, veiu
-a noticia de que o rei de Castella já estava
-em Santarem, onde D. Leonor, temerosa,
-se refugiára. A maior parte dos sitiantes
-tinha abandonado o seu posto. Todos temiam
-o estrangeiro, quando os habitantes,
-lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span>
-da entrega do reino, que punham as
-suas vidas ao serviço da independencia. No
-emtanto, a força subjugou-lhes a vontade,
-e o castelhano penetrou nas muralhas, arvorando
-a sua bandeira. Sciente o Mestre
-do occorrido, embarca no Tejo com varias
-forças e vem-lhe pôr novo cerco.</p>
-
-<p>Houveram então valentes combates!</p>
-
-<p>Aquellas encostas foram um vasto campo
-de batalha; ali pereceram muitas esperanças,
-ali se fortaleceu muita valentia, ali se
-deu um grande passo para a causa de Portugal.</p>
-
-<p>Como a guarnição era valorosa, tiveram
-os do Mestre de recorrer ao prolongado sitio,
-vendo se assim se rendia.</p>
-
-<p>Foi o que aconteceu a 10 de dezembro
-de 1384. Mais tarde (janeiro de 1385), a
-traição de Vasco Pires de Camões obrigou
-o <i>Defensor do Reino</i> a faltar aos compromissos
-tractados na capitulação.</p>
-
-<p>Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra
-(1385), mandou demolir parte dos muros
-d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva
-de D. Fernando e pela fatal inclinação do
-Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.</p>
-
-<p>Leonor Telles falleceu encarcerada nas<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span>
-Tordesillas aos 27 d’abril de 1386,<a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> talvez
-arrependida das suas culpas e seguramente
-convencida de que o echo da maldade é
-aborrecido por todos e em toda a parte.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p>
-
-<p class="center larger">SEGUNDA DYNASTIA</p>
-
-<h2 id="D_Filippa">D. Filippa</h2>
-
-<p>Como dissemos, D. João de Castella transpozera
-a fronteira, preparando-se para cingir
-a corôa de Affonso Henriques. O paiz
-achava-se desunido e fraco, abatido pelo contagio
-da maldade que de tão alto o enervava;
-a nobreza, na maior parte, seguia o
-castelhano; só o povo se mostrava contrario
-ao usurpador e á rainha, que sempre
-odiára altivamente, apesar dos laços da
-forca apertados pelas bellas mas ferozes
-mãos de D. Leonor. No entanto, n’este
-cahos em que Portugal se encontrava, quatro
-homens appareceram destinados pela
-Providencia para a restauração da patria—o
-Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro
-Paes e Nuno Alvares—quatro vultos cujos
-nomes a historia gravou em letras de ouro
-e a arte na sua linguagem sublime esculpiu
-homericamente no mosteiro da Batalha,
-echo perpetuo dos vencedores d’Aljubarrota,<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span>
-padrão eterno de uma das maravilhas do
-universo, portal da gloria que Camões immortalisou
-nos <i>Lusiadas</i>; que é e será sempre
-o santuario do portuguez, romeiro patriota
-que, como o mahometano, pelo menos
-uma vez na vida, se prostra ante o tumulo
-do propheta.</p>
-
-<p>O Mestre d’Aviz foi o instrumento da
-independencia; João das Regras, o defensor
-da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz
-e prepotente; o Condestavel, o general
-habilissimo que soube vencer os exercitos,
-como o advogado soubéra dominar a legislação.</p>
-
-<p>Esta foi a gente que capitaneou a hoste
-popular, exaltada e patriotica, symbolo vivo
-de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando
-o direito com a melicia e a diplomacia,
-venceram o estrangeiro, conservaram a
-autonomia e encetaram o progresso no nosso
-torrão. A posteridade não lhes foi injusta—honra
-lhe seja—mas nos tempos de hoje,
-em que os chatins têem estatuas, elles dormem
-tranquillos nos seus tumulos, sem que
-nas praças publicas o povo, outrora soldado
-das suas fileiras, os venere no bronze, como
-em vida lhes votou todo o seu amor!</p>
-
-<p>Apezar da nossa decidida abnegação e de<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span>
-termos vencido o inimigo (14 d’agosto de
-1385), entendeu D. João I ser conveniente
-uma alliança politica; fôra ella tractada
-com o Duque de Lencastre, João de Gant,
-pretendente de Castella e consumado pelo
-casamento do rei com D. Filippa, filha do
-principe inglez, a qual recebeu em dote o
-senhorio de Alemquer, Cintra, Obidos, Torres
-Vedras e outras villas.</p>
-
-<p>O consorcio realisou-se na cidade do Porto
-(2 de fevereiro de 1387), debaixo das bençãos
-dos prelados e dos applausos dos populares,
-que adivinhavam uma nova éra
-para a corôa e para o paiz.</p>
-
-<p>Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa
-a scena do reinado anterior; mas se a mancha
-da impudicicia póde ser apagada na historia
-d’um povo, certamente a virtude que
-se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza
-com o desbragamento de Leonor Telles,
-compensou o interregno infame em que o
-pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.</p>
-
-<p>D. Filippa de Lencastre reatou os laços
-de honestidade que sempre existiram no throno.
-Mãe de heroes, que soube crear, esposa
-d’um soberano illustre, que sempre allumiou
-com o facho da virtude; rainha, mas dona<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span>
-de casa, sem se intrometter na politica, como
-desastradamente depois fez sua nora Leonor
-d’Aragão, ella é o symbolo do que ha
-de mais grandioso na nossa historia e do
-que ha de mais nobre n’uma mulher.</p>
-
-<p>Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento
-da nossa monarchia succumbiu
-em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um
-ataque de peste que assolava Lisboa; depois
-de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira
-do rei de <i>boa memoria</i>, e de ter
-gerado em seu ventre</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse">...........quem governasse,</div>
-<div class="verse">Quem augmentasse a terra mais que d’antes,</div>
-<div class="verse">Inclyta geração, altos Infantes.</div>
-<div class="verse right">(<span class="smcap">Lusiadas</span>—canto <span class="smcapuc">IV</span>, est. 50.)</div>
-</div>
-</div>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Izabel_de_Lencastre">D. Izabel de Lencastre<br />
-<span class="smaller">(Duqueza de Borgonha)</span></h2>
-
-<p>Não ha ninguem por menos lido na historia,
-que desconheça as virtudes e o valor
-dos filhos de D. João I. Cada um de
-per si constitue uma epopeia de honra e
-de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito,
-até D. Fernando, o martyr benjamim
-da familia.</p>
-
-<p>Foram oito os legitimos: D. Branca e
-D. Affonso, fallecidos na meninice; D. Duarte,
-successor; D. Pedro, duque de Coimbra,
-regente do reino, homem de sciencia, e
-homem politico; D. Henrique, duque de
-Vizeu, iniciador das descobertas, perante o
-que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de
-Borgonha; D. João, o condestavel, modelo
-de impoluta dignidade; e D. Fernando, que
-morreu sacrificado pela Patria e pela sorte
-da guerra nas masmorras de Fez.</p>
-
-<p>Havia mais um bastardo, filho não do rei
-circumspecto, mas do rapaz folgazão, que<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span>
-cevava a mocidade nas camponezas dos
-seus feudos. Foi o producto da perfeita
-carnalidade animal, livre de todo o sentimento
-generoso que Jesus Christo abençoou
-nas bodas de Canaan. Filho de coito damnado,
-sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa
-origem; por isso se refugiou nas suas terras,
-lá no norte, que obtivera por consorcio
-com a filha unigenita do Santo Condestavel.
-Evitava assim a presença da madrasta,
-cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia
-que chicoteavam o crime da sua existencia.
-Mais tarde, em varios de seus successores,
-brotou a semente generosa do
-Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: em D.
-Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.</p>
-
-<p>Os outros filhos d’el-rei, <i>altos infantes</i> que
-Camões cantou, foram modelo de principes
-e modelo d’irmãos.<a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p>
-
-<p>Nunca a fraternidade foi seguida com
-mais fervor, nunca os laços familiares predominaram
-mais, dentro do lar, do que
-n’esta geração abençoada, dignissimo producto<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span>
-de dois esposos redemptores, abençoados
-tambem pelas jaculatorias d’um
-povo.</p>
-
-<p>Devia ser commovente o passamento de
-D. Filippa, rodeada do marido, dos filhos,
-da filha, do enteado e da criadagem que
-fraternisava com a familia as lagrimas e os
-soluços.</p>
-
-<p>Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D.
-Pedro e D. Henrique; pedindo ao primogenito
-que a sua espada fosse a espada da
-justiça, a D. Pedro a defeza das donas e
-donzellas, e a D. Henrique o zelo por todos
-os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino;
-feitas outras recommendações, dados conselhos
-tendentes á união e á obediencia dos
-mais novos aos mais velhos, se chegou Brites
-Gonçalves de Moura a lembrar á rainha
-a infanta sua filha.</p>
-
-<p>D. Izabel chorava a um canto o desenlace
-proximo; a mãe olhou-a com meiguice,
-e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que
-se tinha recommendado ao herdeiro a felicidade
-de seus vassallos, escusava de fallar
-n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.</p>
-
-<p>N’este momento, no peito de D. Pedro
-pulsou mais uma vez a generosidade que
-sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span>
-D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem
-el-rei para a esposa lhe pedir que as
-terras de que era possuidora se dessem á
-filha, emquanto não tomasse estado.</p>
-
-<p>Approvada a proposta, sahiu D. Henrique
-a procurar o pae.</p>
-
-<p>Não tardou D. João I, e ali, perante o
-leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou
-a sympathica doação, que mesmo
-sem essa formalidade seria sagrada por todos
-os titulos.</p>
-
-<p>Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.</p>
-
-<p>No emtanto, cumpria cazal-a como D.
-Filippa deixava recommendado; e apezar do
-atrazo material da epocha, a fama dos infantes
-portuguezes soou por toda a terra.
-D. Pedro, de todos os filhos de D. João I
-com certeza um dos mais preclaros, deixava
-espalhado pelas <i>Sete Partidas</i> quão
-fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa
-na côrte de Lisboa. O brutalismo da
-Edade-Media desapparecera em Aljubarrota
-e o espirito claro da Renascença, (que
-teve a sua aurora na esposa do rei de <i>boa
-memoria</i>, e em Nun’alvares, o candido guerreiro;
-e o seu occaso na infanta D. Maria,
-a sympathica filha do <i>rei venturoso</i>, e em<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span>
-Camões, a expressão mais pura da nossa
-nacionalidade) expandia-se illuminado pela
-figura angelica da rainha que soubera calcar,
-sepultando-o de vez, o impudor de Leonor
-Telles. Entreabria-se uma nova era,
-tendo por promotores a gente mais valorosa
-que nasceu n’esta terra. Ceuta, a
-Madeira e os Açores foram os alicerces das
-emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe
-do vencedor de Castella, e o baptismo
-dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira,
-os primeiros padrões da vassallagem
-do oceano á <i>gente ousada</i> que lhe rasgava
-o corpo virginal.</p>
-
-<p>Com todo este conjuncto de sublimes
-predicados, não escasseavam os pretendentes;
-assim D. Izabel desposou em Bruges
-(10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha,
-Filippe, o <i>bom</i>, conde de Flandres.<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a></p>
-
-<p>Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu
-o lar domestico com aquella dignidade
-perante a qual o decorrer dos seculos
-se curva respeitoso; e mais tarde soube
-desempenhar com abnegação sublime os
-deveres do amor fraternal, requerendo a<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span>
-seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os
-filhos do desventurado infante D. Pedro,
-morto em Alfarrobeira.</p>
-
-<p>Bella aureola a da honra e a da gratidão!</p>
-
-<p>D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de
-fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro,
-de 1471.</p>
-
-<p>Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Leonor_dAragao">D. Leonor d’Aragão</h2>
-
-<p>Cinco annos antes da morte de seu pae
-(14 d’agosto de 1433—22 de septembro de
-1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor,
-filha de Fernando I d’Aragão. Esta
-princeza succedeu á rainha sua sogra na
-posse d’Alemquer e d’outras terras que
-formavam a chamada <i>casa das rainhas</i>, verdadeiramente
-constituida no tempo da sympathica
-Leonor de Lencastre, mulher de D.
-João II.</p>
-
-<p>Começavam a desapparecer os soldados
-da independencia. A morte ceifava uns e
-outros; a acção do tempo curvava-lhes a
-fronte varonil, como presagio do descanço
-eterno.</p>
-
-<p>O rei já não era o mesmo homem d’antes:
-o mocetão galhardo e forte, mas o
-velho experimentado e prudente, o companheiro
-de vinte e oito annos da virtuosa
-D. Filippa, que lhe reformára o espirito e
-o paiz.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p>
-
-<p>As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos
-pelo vento rijo dos annos; esse campo
-deixava-o elle aos rapazes, aos filhos,
-sabios como elle, vivos reflexos do espirito
-purissimo da mãe.</p>
-
-<p>Em D. Duarte talvez esse sentimento
-influisse com primazia. Almas ternas como
-a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva
-de alento. Sem a candura da mulher a alma
-do poeta é um jardim sem flores, um
-sol radiante toldado por uma nuvem negra.</p>
-
-<p>Tinha trinta e sete annos quando o casaram;
-estava na força da virilidade, retida
-pelo celibato. O espirito queria expandir-se,
-e quando os olhos viram pela primeira vez
-a gentil aragoneza, formosa e meiga, o
-amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe
-o coração.</p>
-
-<p>Leonor desde o dia das nupcias dominou
-de facto o marido. Bastava uma caricia
-para lhe subjugar a vontade.</p>
-
-<p>Desgraçado do homem que encontra uma
-mulher d’estas, se em vez de ser o anjo
-que faça da familia a ante camara celestial,
-se converte em demonio que lhe transforme
-o lar em inferno intoleravel.</p>
-
-<p>Era ella a segunda Leonor que se sentava
-no throno, notando-se que embora<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span>
-fosse o symbolo vivo da honra e do pudor,
-tem um ponto de contacto com a sua pouco
-illustre predecessora. Ambas escravisaram
-os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo;
-ambas, devido á loucura inteiramente
-opposta uma á outra, vieram depois de
-desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!</p>
-
-<p>Senhora do animo do esposo, tomou sobre
-si as redeas do governo. Não se limitou
-a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi
-mais além; affastou-se do trilho que a natureza
-impoz á mulher, trazendo com o
-seu procedimento desastrosas desgraças que
-offuscam um tanto os brilhantes feitos da
-dynastia d’Aviz.</p>
-
-<p>A Renascença abrira novos horisontes, e
-os filhos de D. João I apoiaram com todas
-as suas forças o objectivo da nova edade.</p>
-
-<p>Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique
-lançára para o imperio ultramarino. Desejava
-proseguir na sua ideia, continuar a
-ultima façanha emprehendida pelo pae;
-vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando,
-cioso dos primogenitos amestrados já no
-valor da arte da guerra.</p>
-
-<p>Queriam a conquista de Tanger. Houve
-debates n’este ponto. O rei e D. Pedro
-oppozeram-se, em vista do pessimo estado<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span>
-economico do paiz. Demais, não havia gente
-com que guarnecer as praças tomadas. D.
-Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se
-para D. Leonor, certo da influencia
-d’esta perante o marido, que, movido
-pelas ternuras da formosa companheira,
-teve a fraqueza de ceder.</p>
-
-<p>Partiram, levando seis mil homens, lançando-se
-mão, para guarnecer a armada, dos
-mais pesados tributos. Dada a batalha, a
-sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão
-sobrepujava o Evangelho, devido á
-imprudencia de dois principes que talvez
-mais attendessem á dilatação da fé do que
-ao accrescimo do imperio.</p>
-
-<p>D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo
-morreu em Fez aos cinco de junho
-de 1443.</p>
-
-<p>Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal;
-mas não foi á côrte fallar ao rei.
-Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece
-que o segurava no seu ninho de Sagres.
-Por seu lado, D. Duarte sentia o
-remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa
-consolava-o, mas o pobre homem, em cada
-caricia d’ella via a causa da sua ruina e
-da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era
-D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro,<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span>
-o homem de senso, justo e prudente,
-que previra a derrota e condemnára
-a expedição. Era o que lhe valia.</p>
-
-<p>Tal preferencia azedou ainda mais o
-animo de D. Leonor para com o cunhado,
-esposo de uma princeza da casa d’Urgel,
-rival da de Aragão.<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> Mais tarde esse antagonismo
-teve os seus effeitos quando aos
-9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em
-Thomar, tendo declarado em testamento
-que, na menoridade do filho (Affonso V)
-entregava a regencia do reino a sua mulher.</p>
-
-<p>A nova sublevou Lisboa como outrora
-acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam
-D. Pedro como regente. Principiava
-a desharmonia, quasi a guerra civil.</p>
-
-<p>Alemquer desempenhou um papel importante
-n’esta questão, como na da esposa
-de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem,
-onde o duque de Coimbra a procurou
-para se entender com ella. D. Leonor veiu
-para Alemquer, onde já na vida do marido
-residira algumas vezes. A resolução das
-côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro
-a tomar parte no leme do estado; mas<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span>
-este voto do paiz não foi acceite pela
-viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar
-a familia a humilhar-se ao cunhado.
-A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto
-rei, possuia de todo aquella alma
-aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa,
-se o marido tivesse o pratico conhecimento
-do mundo como D. João I, D.
-Leonor seria em tudo um fiel setellite da
-veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha,
-de mãe e de esposa.</p>
-
-<p>Mas dos encantos de que a natureza a
-dotou tinha ella todo o conhecimento, e
-a influencia da vaidade de si mesma, juncta
-á desastrada submissão do rei, converteram-n’a
-em promotora de lamentaveis desgraças,
-em logar de anjo de paz.</p>
-
-<p>A historia, julgando-a, tem tambem de
-julgar D. Duarte, que sem ella seria um
-grande rei. Estas duas almas perverteram-se
-uma á outra, para fatalidade da Patria.</p>
-
-<p>De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio
-onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445.
-O seu corpo não ficou em terra estranha,
-como o da adultera Leonor Telles; actualmente
-jaz no mosteiro da Batalha, ao pé
-do de seu apaixonado esposo.</p>
-
-<p>Que a critica lhe seja leve.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Isabel_de_Lencastre">D. Isabel de Lencastre<br />
-<span class="smaller">(MULHER DE D. AFFONSO V)</span></h2>
-
-<p>A intriga campeava outra vez na côrte
-portugueza; tinha-se volvido aos tempos
-passados, á epocha fatal, marcada na Historia
-com a nodoa negra do desbragamento
-de Leonor Telles.</p>
-
-<p>D. João I fôra então o eleito do povo
-para a defeza dos legitimos interesses do
-paiz; agora n’esta scena, pallida sombra
-dos acontecimentos posteriores, a vontade
-popular elegeu tambem um dos seus mais
-illustres filhos, o qual, estadista como era,
-conhecedor do mundo pelas suas grandes
-viagens e pela sua vasta erudição, soube
-guiar proveitosamente o leme do Estado,
-não obstante os obstaculos suggeridos pelos
-contrarios.</p>
-
-<p>Sabio como D. Duarte, apesar de lhe
-não carecer o animo, tambem teve um defeito
-que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p>
-
-<p>Chegado á maioridade de Affonso V, D.
-Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha
-não o acceitou; pois, apesar de moço, teve
-em conta os serviços prestados por seu tio,
-que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente
-da terna companheira que as
-côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham
-destinado.</p>
-
-<p>Este procedimento generoso, que bem
-agourava a prosperidade do novo reinado,
-accendeu a labareda amortecida na alma
-damnada dos parciaes do infante. Perdel-o,
-acabar-lhe com a raça generosa,<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a> era o fito
-do movimento, que teve por chefes o duque
-de Bragança, D. Affonso; seu filho o
-conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa,
-D. Pedro de Noronha; e o protonotario
-apostolico Vasco Pereira de Berredo.</p>
-
-<p>Combinado o trama, trataram de conquistar
-o fraco espirito do rei, então de dezeseis
-annos. Baldados foram os esforços de
-D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se
-da côrte a ver se o fogo se extinguia,
-mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.</p>
-
-<p>De Ceuta viera o conde d’Avranches D.<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span>
-Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á
-ponta da lança tomar a sua defeza. O infante
-e o conde, confrades da santa ordem
-da Garrotêa,<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> tinham a Cavallaria como
-uma religião, santificada por D. Filippa, no
-leito da morte, quando recommendava ao
-filho a honra das donas e donzellas.</p>
-
-<p>Era a Cavallaria o unico tribunal admittido
-por Alvaro Vaz, para julgar os actos
-da regencia. Viessem a campo os detractores,
-montados em seus corceis e batessem-se
-com elle...</p>
-
-<p>Os outros preferiam as devassas tiradas
-por ordem régia; tinham a mentira na mão,
-achavam quem jurasse ter o regente envenenado
-seu irmão D. Duarte e sua cunhada
-D. Leonor, mas não encontravam quem se
-medisse com o Avranches...</p>
-
-<p>Como homem prudente, D. Pedro quiz
-valer-se da filha que soluçava aos pés do
-esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso
-redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse
-perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se
-não ao soberano, mas aos inimigos;
-seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p>
-
-<p>A Cavallaria aconselhava-lhe a morte
-honrada e não a vida humilhante; a sciencia
-ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o
-espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes,
-apontava ao cavalleiro e ao philosopho
-a honra de tres damas que a elle deviam o
-sêr.<a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a></p>
-
-<p>Desgraçado do homem que vem ao mundo
-como pensador; para esse a scentelha
-divina do talento é chamma que illumina
-sim, mas como o tocheiro que allumia um
-cadaver.</p>
-
-<p>Alvaro Vaz, durante estas hesitações,
-fôra para Coimbra acompanhar o amigo.
-Decidiram partir e, á força d’armas, pedir
-aos detractores o rol das culpas. D. Pedro
-esse o que queria era desabafar com o
-sobrinho, com a meiga creança que outrora
-lhe sorria nos joelhos, como se fosse um
-filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque
-não defender sua justiça?</p>
-
-<p>Foram em bellico apparato. Logo na
-côrte roncaram os primeiros rumores da<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span>
-expedição. O rei partiu tambem ao som de
-guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira
-acharam-se frente a frente.</p>
-
-<p>Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista
-diplomatica; mas aos parciaes do Infante
-o que convinha era um combate;
-cousa mais simples e talvez mais segura.</p>
-
-<p>Começaram varias refregas, méras expansões
-da soldadesca; uma setta arremessada
-ao acaso foi bater na tenda real. Já
-não havia duvidas sobre as tenções do Infante...
-Podia, sem escrupulos, dar-se a
-carnificina.</p>
-
-<p>Os pelouros das bombardas cruzavam-se
-nos ares com as flechas e com os golpes
-de montante; craneos esmigalhados pelos
-projectis juncavam o chão, havia heroes
-que abriam caminho com a espada ensanguentada,
-e entre esses D. Pedro.</p>
-
-<p>Que queria elle? A Historia não o diz.
-Talvez fallar ao rei.</p>
-
-<p>De repente um pelouro prostra-o por
-terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de
-energia. Ao chegar junto do corpo do infante
-ajoelhou, e quando depunha o osculo
-na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.</p>
-
-<p>D. Alvaro olhou-os de frente; de braço<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span>
-estendido para a morte, disse estas palavras:
-<i>Fartar rapazes! vingar agora villanagem</i>.</p>
-
-<p>Uma turba de settas choveu sobre elle;
-a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se
-do mundo. Era o ultimo cavalleiro.</p>
-
-<p>Destruidos os dois baluartes da honra,
-findou a batalha, começando logo depois o
-saque, não dos despojos dos vencidos, mas
-dos bens do Grande Morto, que esteve tres
-dias insepulto.</p>
-
-<p>Principia aqui a agonia da existencia de
-D. Izabel, joven de dezesete annos, com um
-coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.</p>
-
-<p>Seu pae, julgando amparal-a dignamente,
-casou-a com o sobrinho; enlace que as
-côrtes de Torres Vedras approvaram com
-enthusiasmo.</p>
-
-<p>O consorcio realisou-se em 1447, ou em
-6 de maio de 1448,<a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> tendo a rainha sido
-dotada com todas as villas que pertenceram<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span>
-a sua sogra D. Leonor e a sua avó
-D. Filippa.</p>
-
-<p>Entre as nossas soberanas, D. Izabel de
-Lencastre é uma das mais sympathicas;
-basta para lhe dar jus a este titulo a sua
-qualidade de fiel esposa do homem que
-assassinára seu pae e que era o pae de
-seus filhos.</p>
-
-<p>N’estes, porém, a excelsa princeza depôz
-todas as suas esperanças que não foram
-infundadas.</p>
-
-<p>Tendo tido um filho varão (3 de maio
-de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse
-a memoria de D. Pedro e que o
-seu corpo, então depositado na egreja de
-Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no
-Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I
-e de D. Filippa.<a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p>
-
-<p>Essa creancinha que ella, mãe extremosa,
-acalentava, era D. João II, o futuro Grande
-Rei que, com barbara, mas bem merecida
-justiça, vingaria a morte de seu avô.</p>
-
-<p>No emtanto, os odios ainda não estavam<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span>
-extinctos e os promotores da catastrophe
-da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação
-do antigo regente, decidiram pôr termo
-á vida da filha, causadora de tal desgosto.</p>
-
-<p>Apezar de não ser ponto averiguado, é
-tradição seguida, que a causa da morte
-d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi
-a peçonha ministrada pelos inimigos de seu
-pae, terriveis feras que depararam mais
-tarde com um terrivel vingador.</p>
-
-<p>Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande
-epopeia de pedra da nossa nacionalidade.
-A Historia presta-lhe o culto da santificação
-pelo martyrio que enaltece as almas
-na perpetuidade dos seculos.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Leonor_de_Lencastre">D. Leonor de Lencastre</h2>
-
-<p>A Historia retrata-nos Affonso V como
-um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos
-que se tem sentado no throno portuguez.
-Filho de D. Duarte o fraco mas sabio
-rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel
-rainha, Affonso V mostrou que não
-degenerára dos seus progenitores.</p>
-
-<p>Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu
-no augmento da bibliotheca de seu pae, e
-continuou as emprezas africanas conforme
-os desejos de D. Henrique.</p>
-
-<p>Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla
-(1463) são monumentos que attestam o patriotismo
-que lhe adornava a alma, áparte
-a volubilidade e a ambição.</p>
-
-<p>Talvez fosse esta que o levasse a consentir
-na morte do regente D. Pedro; póde
-ser que mesmo afastado da côrte, o rei
-visse em seu tio um estorvo para dar largas<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span>
-á sua absoluta vontade. De facto, aquelle
-homem fleugmatico, methodico, grande em
-tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe
-involuntariamente. Não obstante
-a sua pouca edade, a Historia não o póde
-absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira
-e do condemnavel procedimento de
-ter durante tres dias insepulto o cadaver
-do mallogrado infante e de o privar, por espaço
-de annos, da sepultura que D. João I
-lhe destinára no Mosteiro da Batalha.</p>
-
-<p>Uma guerra injusta alvoreceu com o seu
-reinado; outra lhe terminou a existencia,
-crivando de desgostos o desgraçado monarcha,
-cheio de desenganos e de crueis penas
-do triste passado.</p>
-
-<p>Velho aos quarenta e nove annos, desanimado
-de todo pela sorte das armas, que
-lhe refreavam os vôos, abatido no Toro
-(1476), Affonso V falleceu em Cintra aos
-28 de agosto de 1481.</p>
-
-<p>Logo depois subiu ao throno seu filho D.
-João II, que já nos ultimos tempos da vida
-do pae governava de facto o reino.</p>
-
-<p>N’este principe depozera as suas esperanças,
-nas horas amargosas do infortunio,
-a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia
-cabia vingar a memoria do avô,<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span>
-memoria de todo rehabilitada quando o neto
-lavasse as mãos no sangue dos assassinos.</p>
-
-<p>A morte do duque de Bragança (21 de
-junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23
-d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados
-por braço herculeo contra o poder descommunal
-que assassinára D. Pedro.</p>
-
-<p>Consummada a vingança e consolidado o
-cesarismo, o rei converteu-se em senhor,
-apoiado no poder absoluto, uma das más
-feições da Renascença.</p>
-
-<p>N’este empenho, D. João II sacrificou os
-proprios membros da familia, alanceando o
-coração da esposa que vira aos pés do marido
-morto ás punhaladas, o cadaver do
-louco e desgraçado irmão.</p>
-
-<p>Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro
-de 1471), o pae casára-o com D. Leonor
-de Lencastre, filha do infante D. Fernando
-e D. Izabel de Bragança.<a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></p>
-
-<p>Toda a generosidade da raça d’Aviz
-actuou n’esta princeza, digna successora de
-D. Filippa; todas as virtudes domesticas,
-todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span>
-das sciencias tiveram o seu culto
-no animo generoso de D. Leonor, que, para
-não desmentir o destino fatal das suas predecessoras,
-tambem teve o martyrio a crucificar-lhe
-a existencia.</p>
-
-<p>No cerebro do marido desenrolava-se o
-imperio do mundo; as descobertas continuavam-se
-e o nome portuguez dilatava-se
-triumphante por toda a terra; Diogo Cão
-descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso
-d’Aveiro chegára á Guiné (1486)
-e Bartholomeu Dias dobrou o <i>Tormentoso
-cabo</i>, primeiro indicio da derrota da India.</p>
-
-<p>O commercio desenvolvia-se activamente,
-tornando Lisboa quasi rival de Veneza. Um
-futuro brilhante como o fulgor de uma joia
-naturalmente parecia sorrir ao principe D.
-Affonso, esposo da herdeira de Castella e
-filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle
-se haviam de reunir todos os potentados
-da peninsula e dos Dois Mundos, todas as
-riquezas do Oriente e do Occidente!</p>
-
-<p>Havia de ser o primeiro monarcha do
-universo! na sua fronte repousaria a corôa
-que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria.
-O sonho d’esta felicidade plausivel florescia
-perante os espinhos que o espirito
-vingador do rei semeára no lar domestico.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p>
-
-<p>Apezar de mortificada, D. Leonor via no
-marido o soberano illustrado e audaz, que
-preparava para o filho um futuro inegualavel.</p>
-
-<p>Essa creança era o espirito de conciliação
-que existia entre os dois; era o élo que os
-ligava ao commum interesse do povo. Mas
-como a nuvem altaneira trepa a grimpa
-dos montes e esconde o sol radioso, a morte
-surgiu a derribar o arbusto que alargava as
-suas raizes por todo o sólo conhecido.</p>
-
-<p>Morto D. Affonso (13 de julho de 1491),
-o sonho idealista desappareceu e com elle
-a existencia do rei (25 de outubro de 1495).</p>
-
-<p>Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á
-caridade e ao desenvolvimento das lettras
-e artes; introduziu a imprensa em Portugal;<a name="FNanchor_26" id="FNanchor_26"></a><a href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a>
-fundou a Egreja da Merceana, no termo de
-Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha,
-as Misericordias, e deu principio á construcção
-das capellas imperfeitas da Batalha, mais
-tarde mandada suspender por seu irmão el-rei
-D. Manuel.</p>
-
-<p>No reinado d’este soberano, a rainha recebeu
-o lenitivo de todos os seus passados<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span>
-desgostos; viu o auge da prosperidade da
-patria, deixando-a grande e feliz quando
-falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de
-1525.</p>
-
-<p>Jaz no convento da Madre Deus.</p>
-
-<p>Quem fôr ao mais eloquente monumento
-da nossa nacionalidade, quem visitar os
-athaudes de D. João I, de D. Filippa e de
-seus illustres filhos, sentirá que na crypta
-murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.</p>
-
-<p>Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se
-d’aquelle épico conjuncto de tumulos,
-onde dormem o somno eterno os mais
-brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro
-progresso que existiu n’esta terra.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Leonor_dAustria">D. Leonor d’Austria</h2>
-
-<p>D. João II, apezar do grande amor que
-consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde
-duque de Coimbra, cedeu á luz da razão,
-indicando como herdeiro da corôa o duque
-de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado
-duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de
-quem já nos occupámos.</p>
-
-<p>Como grande rei, o neto do infante D.
-Pedro continuou as descobertas maritimas;
-no entanto é licito ao historiador notar a
-hesitação d’este monarcha em acolher os
-serviços de Christovão Colombo, serviços
-que foram acceites por Fernando e Izabel
-de Castella, graças ao lucido espirito da
-rainha, predisposto pelo immortal Pedro
-Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.</p>
-
-<p>É esta a unica mancha do reinado de
-D. João II.</p>
-
-<p>Nem a morte do duque de Bragança<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span>
-nem o assassinato do duque de Vizeu maculam
-a memoria do rei, que se viu obrigado
-a recorrer ao cutello e ao punhal
-para extinguir as desintelligencias do feudalismo
-perturbador constante da paz interna
-dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel,
-continuou-lhe a obra grandiosa, porém
-com politica e astucia e não com sangue
-e cadaveres, attitude esta que os golpes
-fundos e radicaes do seu illustre predecessôr
-lhe permettiam tomar.</p>
-
-<p>Um tanto injusta a Historia, designa D.
-Manuel simplesmente como soberano <i>venturoso</i>.
-D. Manuel foi feliz pelo acaso de
-successão, pelos homens que encontrou e
-por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas
-depois pela voracidade do ganho;
-mas <i>foi grande</i> pela sua politica de ferro,
-pelo seu espirito conciliador e pela attenção
-que, não obstante a influencia das preciosidades
-da India, sempre dispensou ao
-bem estar do continente: bastando para
-lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia
-com que soube tratar a visinha Hespanha.</p>
-
-<p>Perdidas as esperanças de cingir a corôa
-de toda a peninsula, em vista do fallecimento
-da rainha D. Izabel, viuva do principe<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span>
-D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos
-(24 d’agosto de 1498),<a name="FNanchor_27" id="FNanchor_27"></a><a href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> com quem se
-havia desposado, e do unico fructo do seu
-matrimonio, o principe D. Miguel da Paz
-(20 de junho de 1500),<a name="FNanchor_28" id="FNanchor_28"></a><a href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> o rei portuguez
-entendeu que a continuação de allianças com
-a nossa rival no poderio ultramarino era
-materia do mais alto alcance para a estabilidade
-das pacificas relações entre os dois
-paizes.</p>
-
-<p>Tratára elle o casamento do sobrinho
-predilecto, o duque de Bragança D. Jayme
-com Leonor de Mendóça, filha do duque
-de Medina Sidonia no intuito de procrear
-amizade com o poderoso hespanhol, senhor
-de quasi toda a Andaluzia, de que era
-Fronteiro Mór.</p>
-
-<p>Não pensava o rei, nos seus planos de
-diplomata, que o coração não se molda ao
-capricho dos politicos e que a desgraçada
-creança, inteiramente extranha aos tramas
-das conveniencias sociaes, seria, volvidos
-poucos annos, victima da justa vingança
-do marido, offendido na sua honra e no
-pundonor.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p>
-
-<p>A deploravel catastrophe de 2 de novembro
-de 1512, em que o treçado do primeiro
-senhor do reino assassinava a esposa adultera,
-e as mallogradas pretenções á successão do
-throno de Castella, pretenções que já tinham
-sido alimentadas por seu tio D. Affonso V
-e por seu primo D. João II, foram os
-unicos desgostos que D. Manuel experimentou
-nos vinte e seis annos do seu reinado.</p>
-
-<p>De resto a fortuna bafejava o pavilhão
-das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo
-(sabbado 8 de julho de 1497)<a name="FNanchor_29" id="FNanchor_29"></a><a href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> no intuito
-de achar o caminho das Indias, dobrando
-o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem
-descobriu a Terra do Natal, Moçambique,
-Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel
-alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente
-defronte do Calecut, onde a principio o receberam
-com enthusiasmo, que mais tarde
-esfriou em vista das intrigas dos mercadores
-musulmanos, os quaes adivinhavam no
-altivo estrangeiro a quéda da sua influencia
-commercial. Abriam-se de par em par
-as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se
-o monarcha mais poderoso e mais
-rico d’então. Não tardariam as perolas, os<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span>
-rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre
-e a pimenta, monopolio da corôa.</p>
-
-<p>Não tardariam as victorias de D. Francisco
-d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque.
-E coberto de louros, incensado em
-fumo, precedido da força brutal das armas
-e do genio épico dos grandes capitães, o
-nome do rei subjugou o oceano e avassallou
-o Oriente.</p>
-
-<p>Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao
-pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida
-em capital do projectado imperio que
-o grande capitão, nos seus planos de estadista,
-pretendeu fundar. Era necessario um
-cruzamento de raças: casassem os portuguezes
-com as mulheres da India; alijassem
-essas ideias puritanas, lembrando-se
-que toda a humanidade vinha de Adão...</p>
-
-<p>João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque
-são as figuras mais valiosas do reinado
-d’Aviz. Um pela sua eloquencia que
-produziu uma autonomia; outro pela sua
-candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso
-de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro
-de politico.</p>
-
-<p>Os dois primeiros morreram honrados no
-seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico
-asceta, na solidão de um mosteiro.<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span>
-João das Regras, pae extremoso, no seio
-da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se
-do mundo a ingratidão real, remedeada
-já tarde,<a name="FNanchor_30" id="FNanchor_30"></a><a href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> e o seu corpo affeito ás
-luctas em prol da patria, levado aos hombros
-dos companheiros das suas glorias, com
-a barba branca, comprida e magestosa
-como a do Condestavel, é o retrato prophetico
-do futuro do emporio portuguez,
-cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada
-ambição do lucro, a sensualidade
-do Oriente, em que os soldados eram sultões
-e as casernas harens, deitaram por terra,
-como o vento do deserto abate a palmeira
-verdejante.</p>
-
-<p>Albuquerque foi a personificação da lealdade,
-e a India nas nossas mãos foi um
-campo d’aleivosias.<a name="FNanchor_31" id="FNanchor_31"></a><a href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a></p>
-
-<p>Mancha negra que ennodôa a Historia,
-o dominio portuguez no Oriente assemelha-se
-á impudica figura de Leonor Telles.
-Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças.
-Com o pensamento na riqueza, o sentimento
-cavalheiresco afastava-se do soldado<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span>
-convertido em mercador. Já não havia essa
-simplicidade de outras eras. Sedas, joias e
-alfaias jorravam a olhos vistos, sem que
-ninguem sentisse que entre a descommunal
-riqueza se ia lavrando a sentença de morte
-de uma nação. O sensualismo entorpecia
-os espiritos, aconselhando os estofos perfumados
-dos salões com portas de ebano, paredes
-de damasco e pregaria de ouro á
-rudeza do marinheiro ou á espada do militar.
-Riqueza e gozo era o ideal de todos,
-n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão
-risonha e cujo fundo é tão funebre.</p>
-
-<p>Na metropole, D. Manuel, como feitor
-n’esta immensa fazenda, via-se assaltado
-pela multidão de operarios que não pediam
-trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja
-mordia os feitos dos benemeritos e o rei
-deixava-se vencer por falsos conselheiros que
-vindos da India pintavam-lhe com negras
-côres as obras dos grandes homens. Feliz
-no poderio e na familia, casado em segundas
-nupcias com D. Maria de Castella,<a name="FNanchor_32" id="FNanchor_32"></a><a href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> irmã<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span>
-de sua primeira esposa, pae de numerosa
-descendencia, um tanto illustre, é certo,
-mas bem longe de ser um arremedo da de
-D. João I, o poderoso rajah da Europa,
-cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes
-aventureiros, maculando o seu nome
-na ingratidão para com os servidores leaes.</p>
-
-<p>De novo casára em Alcacer do Sal (30
-d’outubro de 1500) e passados dois annos
-a successão do throno estava assegurada
-pelo nascimento do principe D. João. Além
-d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia
-da corôa: D. Izabel, esposa do imperador
-Carlos V; D. Brites, duqueza de
-Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto
-e discipulo do grande mathematico
-Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda,
-que casou com D. Guiomar Coutinho,
-herdeira do conde de Marialva; D. Affonso,
-que foi cardeal, bispo de varias dioceses e
-arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal,
-arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque
-de Guimarães, casado com D. Izabel
-de Bragança, filha do duque D. Jayme e<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span>
-pae de D. Catharina, esposa de seu primo
-o duque D. João I, d’onde proveio á casa
-de Bragança o direito de successão por
-morte do cardeal rei.</p>
-
-<p>Extremoso chefe de familia, sem ter
-amante nem bastardo, doido pela mulher
-que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a
-(7 de março de 1517), volvidos dezesete
-annos de íntima convivencia.</p>
-
-<p>Estava vago o logar que assegurava a
-Portugal a amizade de Castella. Cumpria
-prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como
-homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se
-d’esta missão. Viuvo e saudoso da
-esposa que perdêra, o filho do infante D.
-Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado
-á corôa por um acaso feliz, raro na
-Historia, o monarcha senhor de meio mundo,
-o rei de vassallos tão illustres quão sabios
-e leaes, determina um bello dia abdicar
-no primogenito e ir-se ao Algarve, como
-Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de
-Islam.</p>
-
-<p>Porém, o piedoso intento só se realisaria
-consummado o matrimonio do principe
-com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna
-<i>a louca</i> e de Filippe I de Castella.</p>
-
-<p>Recusada a proposta de D. João, que<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span>
-se achava embeiçado em amores desiguaes,<a name="FNanchor_33" id="FNanchor_33"></a><a href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a>
-D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando
-a princeza que destinára ao filho.
-O consorcio realisou-se no Crato (24 de
-novembro de 1518).</p>
-
-<p>No contracto lavrado a 16 de julho do
-mesmo anno ficou tratada a dotação da
-nova soberana, que entraria na posse da
-Caza das Rainhas logo que fallecesse D.
-Leonor de Lencastre, viuva de D. João II
-e irmã d’el-rei D. Manuel.</p>
-
-<p>Leonor d’Austria tambem tem a fronte
-aureolada pelos louros do martyrio.</p>
-
-<p>Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a
-com um homem edoso, pae de numerosa
-descendencia; e mais tarde, depois
-da morte d’esse rei (13 de dezembro de
-1521) que a não amava, nem por ella era
-amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada,
-a gloriosa infanta D. Maria, a futura
-protectora das lettras, o penultimo lampejo
-da Renascença.</p>
-
-<p>A politica endurece o coração dos soberanos.
-Carlos V queria fisgar Francisco I,<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span>
-mas precisava d’um laço que o prendesse
-á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do
-rei de Portugal.</p>
-
-<p>Casada com o soberano francez, D. Leonor
-teve de abandonar a filha, que só viu
-trinta e quatro annos depois! Se foi cruel
-o seu martyrio, em compensação, o ente
-que de longe abençoava, soube exaltar a
-sua memoria e honrar o nome de quem
-lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento
-do seu paiz. A sciencia d’estes
-factos seria um lenitivo para a pobre mãe,
-que, não obstante a distancia, lhe dirigia
-os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe
-n’este mundo um premio digno
-dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove
-annos de edade (1498-1558)<a name="FNanchor_34" id="FNanchor_34"></a><a href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> teve a ventura
-de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua
-vida, a qual terminou em breve.</p>
-
-<p>Conforme o juramento que os habitantes
-de Lisboa lhe exigiram á partida,<a name="FNanchor_35" id="FNanchor_35"></a><a href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> a infanta
-D. Maria deixou sua mãe nos territorios<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span>
-de Hespanha e regressou á sua patria; porém,
-Leonor d’Austria tinha os seus dias
-contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela,
-aos 25 de fevereiro de 1558.<a name="FNanchor_36" id="FNanchor_36"></a><a href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a></p>
-
-<p>Os dois thronos em que se assentou foram
-para esta princeza dois tumulos precoces:
-um matou-lhe a mocidade algemada
-á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello
-predicado do coração da mulher—o amor
-de mãe.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Catharina_dAustria">D. Catharina d’Austria</h2>
-
-<p>Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as
-redeas do governo o principe D. João.</p>
-
-<p>Quatro annos depois de subir ao throno,
-o monarcha portuguez contrahiu nupcias
-com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta
-e do imperador Carlos V.</p>
-
-<p>Continuava assim a politica do pae, assegurando
-o poderoso visinho, casado tambem
-em 1526 com a nossa princeza D.
-Izabel.</p>
-
-<p>D. João III lidou sinceramente pelo progresso
-das lettras. É esta uma feição caracteristica
-da dynastia de Aviz. O seu fundador
-escreveu o <i>Livro das Horas do Espirito
-Santo</i>, os <i>Psalmos certos para os finados</i>,
-o <i>Livro da Montaria</i> e attribue-se-lhe
-tambem a <i>Côrte Imperial</i>; seus filhos, el-rei
-D. Duarte o auctor do <i>Leal Conselheiro</i> e
-da <i>Arte de bem cavalgar em toda a sella</i>;
-D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span>
-das <i>Horas de Confissão</i> e do <i>Livro da virtuosa
-Bemfeitoria</i>, seguiram-lhe as honradas
-tradições.</p>
-
-<p>N’este reinado, porém, a litteratura portugueza
-attingiu o maior brilho; n’elle floresceram
-João de Barros, Fernão Lopes de
-Cantanhede, Damião de Goes, o doutor Antonio
-Ferreira, Diogo Bernardes e André de
-Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes
-reformas nos estudos, importando-se
-mestres do estrangeiro para ensinarem na
-nossa Universidade, transferida de vez para
-Coimbra.</p>
-
-<p>As descobertas e as conquistas progrediam
-tambem; chegou-se ao Japão (1542)
-e entabolaram-se relações com os chinezes,
-obtendo-se a faculdade de podermos estabelecer
-uma colonia em Macau.</p>
-
-<p>Na India, D. João de Castro, outra figura
-respeitavel, tomou a hombros o continuar
-a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia
-o manancial d’iniquidades parecendo
-animado pelo espirito do grande capitão.
-Elle e D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo
-dos nossos feitos brilhantes no paiz das especiarias.</p>
-
-<p>A arte tambem teve o seu culto n’esta
-nova phase da vida nacional. Belem é o<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span>
-monumento que a piedade de D. Manoel levantou
-em memoria do grande feito de Vasco
-da Gama. Não obstante ser magestosa, a
-egreja dos Jeronymos não possue a solemnidade
-da Batalha; no entanto falla ao coração
-do patriota como symbolo d’um passado
-glorioso, que, embora maculado mais
-tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia
-de 1385.</p>
-
-<p>Aberto o novo periodo das conquistas,
-Belem converteu-se em pantheon da Casa
-d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do <i>Mar
-Tenebroso</i>, cujos segredos a audacia do infante
-D. Henrique, a astucia de D. João II
-e a actividade de D. Manoel desvendaram
-para sempre. Os marmores dos seus tumulos
-são bafejados pela maresia do Tejo, que
-lhes prende a existencia eterna á vida terrestre.
-Ali, guardados em sarcophagos cinzelados
-pela Arte da Renascença, n’uma
-crypta impregnada de ares salinos, descançam
-D. Manoel, D. João III, D. Sebastião
-(?), D. Henrique e todos os principes da familia
-real.</p>
-
-<p>Hoje Belem parece destinado a mausoléu
-das grandes glorias do paiz.</p>
-
-<p>Bom é que debaixo do mesmo tecto,
-n’uma fraternidade que a morte estreita,<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span>
-durmam o somno eterno, reis e vassallos
-que nas differentes epochas da historia lidaram
-pelo engrandecimento do torrão que
-os viu nascer.</p>
-
-<p>Bom é que junto dos ultimos descendentes
-d’Aviz, raça illustre, filha da vontade
-popular, levantada pela eloquencia de João
-das Regras, poetas, cuja musa é o breviario
-do sacerdocio da Patria; navegadores
-cuja afoiteza é o testemunho da virilidade
-d’um povo; historiadores cuja penna justiceira
-serve de modelo á critica dos vindoiros,
-se confundam todos em amplo abraço,
-coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes
-pela realeza do talento que levanta os humildes
-á altura de semi-deuses. E hoje, que
-o pensamento estende as suas raizes pelas
-regiões do Infinito; que a justiça depõe as
-palmas do martyrio sobre a memoria das
-victimas do genio, bom é que o patriota
-ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes
-do throno, do talento e da aventura,
-e, recolhido em si n’uma meditação profunda,
-contemplando aquella téla sublime, invoque
-os manes dos que ahi descançam,
-como os fieis do Christianismo levantam as
-suas preces aos que adquiriram a Bemaventurança
-eterna.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p>
-
-<p>Junto de seus maiores, tambem ahi está
-o principe D. João, filho de D. João III,
-um desvelado cultor das lettras, vulto illustre
-em que Camões depoz todas as suas
-esperanças. Começava a faltar a seiva á
-grande arvore plantada em 1385; estava
-fraca e abatida pela ausencia do calor vital,
-quando os vermes da corrupção lhe
-tragavam as ultimas raizes. O mallogrado
-infante casára em Elvas (fins de novembro
-de 1552)<a name="FNanchor_37" id="FNanchor_37"></a><a href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> com sua prima D. Joanna, filha
-do imperador Carlos V; d’este matrimonio
-nasceu um filho posthumo, D. Sebastião (20
-de janeiro de 1554), que subiu ao throno
-logo depois do fallecimento do avô (Lisboa,
-11 de julho de 1577). A regencia do reino
-ficou entregue a D. Catharina, avó do joven
-monarcha, que tomou a serio os encargos
-da realeza. Presidindo ao Conselho d’Estado,
-a rainha não só recommendava a boa venda
-da pimenta, mas tambem o augmento do
-territorio colonial. Angola mereceu-lhe as
-maiores attenções e as conquistas da India
-desenvolveram-se com as tomadas de Damão
-e de Jafanapatão.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p>
-
-<p>Não obstante estes progressos, D. Catharina
-vivia desgostosa, suspirando o descanço
-da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa
-(23 de dezembro de 1562) e ahi entregou
-o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique.
-Alcançada a almejada tranquillidade,
-residiu em varias terras de que era senhora,
-e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes
-menciona no seu testamento.</p>
-
-<p>Tendo setenta e um annos, terminou a
-existencia d’esta princeza, que falleceu em
-Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a
-em Belem. Mezes depois (22
-de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico
-penhor da sua independencia. Catharina de
-Austria succumbiu antes do tragico fim de
-Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura,
-uma verde esperança de poetica illusão
-lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez
-que moribunda, no seu delirio abençoasse
-o neto, vendo-o triumphante, implantando
-a Cruz nas mesquitas de Mahomet,
-realisando o sonho da Edade Média, desviado
-da rotina da Renascença. Catholica
-extreme, a fé, que fortalece os fracos, alental-a-hia
-na sua duvida sorridente. Deus havia
-de ajudar o cruzado, cujo escudo era o
-baluarte do Evangelho! havia de erguer o<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span>
-braço do heroe que fincava as Quinas no
-territorio do Islam...</p>
-
-<p>Este sonho mystico de Catharina agonisante
-é o ultimo traço da nossa grandeza
-épica. Camões tambem o alimentou com a
-mesma fé e com a mesma pureza de uma
-alma gigantesca illudida na sua candura,
-que recebeu a mais cruel das decepções: o
-desfolhar das suas esperanças e a perda do
-seu paterno ninho.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p>
-
-<h2 id="O_Interregno_dos_Filippes">(O Interregno dos Filippes)</h2>
-
-<p>Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento
-da independencia que animava um
-povo já consciente do seu existir, já apegado
-ao seu lar, unido desde o Minho ao
-Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o
-paiz succumbiu em Alcacerquibir. Houveram
-ensaios para um arremedo d’Aljubarrota,
-mas já não circulava aquelle sangue
-generoso e bom, tão forte na Edade Media,
-como valente e fidalgo no alvorecer da
-Renascença.</p>
-
-<p>A India inundára-nos de ouro e sugava-nos
-as forças vitaes. Extenuado por essa
-amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos
-com a virilidade de outras eras.</p>
-
-<p>Tudo estava podre. Até os proprios que
-tinham exaltado a bandeira das Quinas se
-deixaram arrastar pela corrente da corrupção.
-Reunidas as côrtes em Lisboa (de junho
-de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos
-para que o cardeal-rei escolhesse<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span>
-d’entre elles cinco governadores que indicassem
-a quem de direito, no futuro, pertencia
-o throno e que administrassem o
-reino dada a sua morte.</p>
-
-<p>Realisado o funebre acontecimento (Almeirim,
-31 de janeiro de 1580), o Prior
-do Crato, D. Antonio, bastardo do infante
-D. Luiz, pretendeu cingir a corôa, allegando
-um supposto casamento de seu pae com
-a famosa Violante Gomes; Rainuncio, principe
-de Parma, filho de D. Maria e neto
-do infante D. Duarte; Manuel Felisberto,
-duque de Saboya, filho da infanta D. Brites;
-Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina,
-duqueza de Bragança, filha do infante
-D. Duarte, concorreram tambem a disputar
-o throno.</p>
-
-<p>Até Catharina de Médicis se lembrou de
-ser rainha de Portugal, dando como rasão
-uma ideada descendencia d’Affonso III e
-da condessa Mathilde! No meio dos successivos
-desastres, por entre tantas vilanias
-tecidas pelo ouro de Castella, espalhado
-largamente por D. Christovam de Moura,
-não faltou esta nota comica. Faltava, porém,
-o <i>veridictum</i> dos governadores, depositarios
-da realeza, juizes irrevogaveis que haviam
-de sentencear a quem pertencia a corôa.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p>
-
-<p>No desempenho d’esta missão partiram
-para Badajoz, onde a 7 d’agosto de 1580
-assignaram um alvará, conferindo a dignidade
-real a Filippe II.</p>
-
-<p>Note-se, no entanto, que a entrega da
-Patria ao hespanhol foi recusada pelo Arcebispo
-de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e
-por D. João Tello de Menezes. Os outros
-(D. Francisco de Sá e Menezes, D. João
-de Mascarenhas—o defensor de Diu!—e
-Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se debaixo
-do manto castelhano, cuja sombra fortalecia,
-sem embargo da tranquillidade das delapidadas
-consciencias.</p>
-
-<p>N’este desabar do edificio, desmantelou-se
-tambem a Casa das Rainhas; Alemquer
-serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres
-de Portalegre.</p>
-
-<p>Achava-se, pois, desfeita a grande obra
-de Affonso Henriques, consolidada em 1385;
-e Portugal era uma nacionalidade morta,
-abatida pela extincção da grande dynastia
-que levou a sua fama aos confins do mundo.
-Era uma nau grandiosa, equipada brilhantemente,
-veloz como o vento e segura
-como a rocha, que atravessava o oceano
-em toda a sua vastidão, que sulcava os
-mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p>
-
-<p>Uma vez descobriu no horisonte um
-forte almejado, um cachopo traiçoeiro que
-lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia
-que a fortalecia, com a confiança na sua
-força, com a lembrança do seu valor, inclina
-o rumo para o precipicio, que julga o
-digno remate da sua proficua derrota. Acompanham-n’a
-as alegrias, desfraldam-se alegres
-em seus mastros os vistosos pavilhões;
-sonhos dourados adormecem a tripulação, e,
-ao cabo de longa viagem pela campina maritima,
-o fado que outrora lhe proporcionou
-os louros, a arrasta agora para o iman
-da perdição, para a</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse"><i>.........................vã cubiça</i></div>
-<div class="verse"><i>d’esta vaidade a quem chamamos Fama.</i><a name="FNanchor_38" id="FNanchor_38"></a><a href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></div>
-</div>
-</div>
-
-<p>Tudo soffria as consequencias do mesmo
-genio audacioso que presidira a todas as
-nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota
-até ás descobertas do mar, vasta
-arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir
-vingou Ceuta, calcada aos pés do venerando
-roble d’Aviz. A Africa assim como foi
-berço da nobre epopeia portugueza, tambem<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span>
-foi seu tumulo, devorando o ultimo
-representante de D. João I. Não lhe satisfez
-o martyrio do infante D. Fernando;
-foi-lhe preciso aguilhoar um povo que
-ousára abater o vôo do estandarte mussulmano;
-e esse povo, estrangulado pela raiva
-da hyena africana, legava ao universo, a
-cujos destinos soubera presidir, uma chronica
-immortal da fenecida grandeza.</p>
-
-<p>Camões e o seu poema foram os elos,
-que, abatidos os grilhões, haviam de reatar
-o passado ao futuro. Os <i>Luziadas</i> tornaram-se
-o manual em que oravam os crentes
-e os esperançosos; os que tinham por
-amante o alvorecer da sua independencia.</p>
-
-<p>Nos sessenta annos de captiveiro, quantas
-lagrimas derramadas pela infidelidade
-dos traidores! Tantas como as que o vate
-sublime, synthese da autonomia portugueza,
-chorára pelo <i>ninho seu paterno</i>, e tambem
-por essa outra amante, a eleita da sua
-alma, cuja ingratidão lhe dictou estes versos:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="verse"><i>Ah Nathercia cruel quem te desvia</i></div>
-<div class="verse"><i>Esse cuidado teu do meu cuidado?</i></div>
-<div class="verse"><i>Se tanto hei de penar desenganado,</i></div>
-<div class="verse"><i>Enganado de ti viver queria.</i></div>
-<div class="verse">....................................</div>
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p>
-
-<p>No coração do patriota reinava uma
-outra Nathercia, alimentando-se nas aras
-do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das
-gloriosas epochas que se tornaram a nossa
-razão de ser como paiz independente.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p>
-
-<p class="center larger">QUARTA DYNASTIA</p>
-
-<h2 id="D_Luiza_de_Gusmao">D. Luiza de Gusmão</h2>
-
-<p>Apesar dos apertados grilhões com que
-a politica de Castella nos algemou, cuidando
-assim extinguir o sentimento da independencia,
-a ideia da liberdade invadia o coração
-do povo portuguez.</p>
-
-<p>Formavam-se phantasias, julgava-se vêr
-nos elementos uma certeza prophetica da
-restauração. A Biblia e o Bandarra eram
-mananciaes com que os embusteiros exploravam
-a crença popular.</p>
-
-<p>De facto, a grande creança visionaria, a
-massa rude, com a sua alma leal e supersticiosa,
-impossibilitada de outro meio que aliviasse
-a pesada carga estrangeira, procurava<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span>
-nos dominios da phantasia um ephemero
-lenitivo aos seus pezares.</p>
-
-<p>Para ella o ideal começou em D. Sebastião,
-uma especie de moura encantada, recolhida
-em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural,
-d’onde em momento opportuno,
-marcado no ceu com signaes temiveis, como
-os do fim do mundo, viria erguer o escudo
-lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da
-usurpadora Hespanha.</p>
-
-<p>E a phantasia, só a phantasia, é que consolava
-o povo, só a superstição é que lhe
-allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a
-grande empreza, que recordou n’aquelles
-tempos de provecta decadencia o genio audacioso,
-valente e guerreiro da nação portugueza.</p>
-
-<p>Ella ainda cortejava o vencedor, quando,
-arrogante e soberbo, percorria as ruas da
-capital; ainda se curvava quando ouvia nomear
-o rei o symbolo augusto que lhe fundára
-a nacionalidade e que combatêra a seu
-lado, na infancia da monarchia, pela defeza
-dos seus interesses, pela consolidação da sua
-existencia e da sua liberdade; mas n’este
-acto não se deprehende hypocrisia, fraqueza
-ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera
-na alma popular o sentimento da realeza,<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span>
-com que foi creada desde tempos immemoriaes.
-Não era uma abdicação perante o hespanhol,
-era o invocar da alma leal para um
-principio que lhe gerára a Patria e que soubéra
-confundir-se com ella, tornando-se o
-coração d’um grande corpo, d’onde se expande
-a vida e a força por todo um paiz.</p>
-
-<p>Se o duque de Bragança não quizesse
-annuir ás repetidas instancias dos fidalgos,
-e se em vista da recusa do principe se levasse
-a effeito aquelle celebre dito de D. João
-da Costa, <i>antes uma republica bem portugueza
-que um rei estrangeiro</i>, a independencia de
-Portugal, em nossa opinião, não ia ávante.</p>
-
-<p>Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe
-o objecto d’esse amor, que, embora
-ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse
-traiçoeiro como D. Henrique, fosse efeminado
-como D. Fernando, fosse bom ou fosse
-mau, era o possuidor do espirito do povo,
-era o pae da independencia, gerada em Ourique
-e emancipada, feita homem e consciente
-no campo glorioso d’Aljubarrota. Acclamou
-a monarchia, João das Regras, um filho do
-povo, defenderam-n’a elles em todas as suas
-crises, abraçaram-n’a como religião desde o
-seu principio e sempre essa ideia innata ao
-seu existir palpitará em seu peito, como<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span>
-orgão que a natureza addicionou á sua alma
-tão leal como cavalheiresca.</p>
-
-<p>E como a realeza era o symbolo da autonomia,
-por isso Castella vigiava o paço de
-Villa Viçosa temendo-se unicamente do <i>direito</i>
-como impulsor do brado heroico que
-havia de alijar para sempre o dominio
-estrangeiro.</p>
-
-<p>E não conhecia a Hespanha o fraco animo
-do duque de Bragança? Conhecia, é certo,
-mas tambem conhecia o amor do povo a
-<i>seu rei natural</i>, e que esse mesmo, egoista
-e fraco, era quem se poderia atrever a romper
-os laços da usurpação. Para Villa Viçosa
-convergiam as attenções de Castella e as
-esperanças do paiz, a valente terra portugueza,
-que alimentava nas suas entranhas
-um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente
-o dominio hespanhol.</p>
-
-<p>As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos,
-decidiram o primeiro principe feudal de
-todas as nações latinas a cingir a corôa
-d’Affonso Henriques.</p>
-
-<p>Elle era neto de D. Catharina, filho do
-infante D. Duarte, e por consequencia o
-unico representante portuguez d’el-rei D.
-Manuel.</p>
-
-<p>D. Catharina, a gloriosa princeza a quem<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span>
-a Hespanha sempre respeitou, transmittiu
-pelo seu casamento á casa de Bragança os
-direitos ao throno de Portugal.<a name="FNanchor_39" id="FNanchor_39"></a><a href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p>
-
-<p>D. Theodosio, seu digno filho, guardou a
-representação d’esses direitos com immaculada
-fidelidade, hombreando altivamente
-com Filippe III (II de Portugal) e obrigando
-o monarcha a descobrir-se perante o
-legitimo senhor do paiz a que vinha apossar-se.<a name="FNanchor_40" id="FNanchor_40"></a><a href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a>
-Se D. Theodosio chegasse a reinar,
-certamente a historia lhe tributaria hoje
-egual homenagem á de D. João I; n’elle
-actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo
-sangue generoso lhe corria nas veias.</p>
-
-<p>Do casamento de D. Theodosio com D.
-Anna de Velasco, filha do duque de Frias,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span>
-houveram quatro filhos: D. João, duque de
-Barcellos, D. Duarte, o mallogrado infante,
-D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D.
-Theodosio (Villa Viçosa, 20 de novembro de
-1630), entrou o duque de Barcellos na posse
-do vasto e poderoso Estado de Bragança,
-cuja capital, decorridos tres annos (12 de
-janeiro de 1633), se alegrava com o casamento
-de D. João II com sua prima D. Luiza
-de Gusmão, filha do duque de Medina-Sidonia,
-D. João Manuel Peres de Gusmão e da
-duqueza D. Joanna de Sandoval.</p>
-
-<p>A velhaca politica d’Olivares fizera este
-enlace na esperança que a princeza, como
-hespanhola por nascimento, advogasse junto
-do marido a causa da sua terra natal; porém
-D. Luiza tinha a consciencia plena dos seus
-deveres para não se dominar pela vontade
-do ministro, que descançado na influencia
-da esposa de D. João e na crueldade de
-Miguel de Vasconcellos, nem sequer suspeitava
-que alguma vez deixasse de ser simples
-gemido dos afflictos prisioneiros o heroico
-brado de 1638.</p>
-
-<p>Soou finalmente a hora da independencia
-(1 de dezembro de 1640). Era o sol da
-nossa epica grandeza que raiava por entre
-as nuvens da oppressão estrangeira. Luiza<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span>
-de Gusmão foi o primeiro satellite do grande
-astro, arrastando na sua orbita esposo e
-vassallos. <i>Antes rainha uma hora que duqueza
-toda a vida</i>, disse ella quando D. João
-lhe patenteou as suas hesitações. Espirito
-superior, não consentia que ninguem sobrepujasse
-o poderio adquirido logo que ligou
-os seus destinos aos do duque de Bragança.
-No throno foi a mesma cousa: dominava
-sempre o marido, era ella o rei, o poder
-que influia em todos os negocios do Estado,
-o braço que impediu a libertação do tão
-grande como desgraçado infante D. Duarte,
-a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe
-a confiança do monarcha. Tambem a
-Historia só lhe nota este defeito, porque de
-resto ella foi tão piedosa, como honesta,
-respeitavel e dedicada mãe de familia.</p>
-
-<p>Depois do dominio castelhano, D. Luiza
-tomou posse dos bens da casa das Rainhas,
-sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado
-em Lisboa aos 10 de janeiro de 1643.<a name="FNanchor_41" id="FNanchor_41"></a><a href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></p>
-
-<p>Os negocios do Estado em que o seu espirito
-ambicioso, a sua larga prudencia e
-sabio conselho a obrigaram a tomar parte,<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span>
-obstou a que se interessasse particularmente
-pelas terras de que era senhora; no emtanto,
-devem ellas vangloriar-se de tão alta
-princeza, cuja energia, cuja hombridade e
-independencia tanto favoreceu a causa do
-seu paiz adoptivo.</p>
-
-<p>Morto D. João IV (6 de novembro de
-1656), a rainha tomou as redeas do governo
-em nome de seu filho desventurado D. Affonso
-VI, até 1662, anno em que este monarcha
-se investiu de auctoridade real. D.
-Luiza desde então dedicou-se á piedade, curtindo
-os amargos desgostos que lhe dava o
-filho, que descia aos ultimos limites a que
-póde descer um homem.</p>
-
-<p>Quatro annos durou esta turbulenta existencia
-que teve o seu fim a 27 de fevereiro
-de 1666, epocha em que falleceu, sendo o
-seu corpo sepultado no convento do Grillo,
-e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado
-ha pouco para o pantheon real de S. Vicente
-de Fóra.</p>
-
-<p>Decorridos mais de dois seculos, as cinzas
-da esposa de D. João IV, profanadas por
-mão ambiciosa como ella fôra em vida,
-vieram repousar junto do tumulo do marido
-e dos dois filhos que lhe succederam.</p>
-
-<p>Que a historia lhe seja severa como a<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span>
-morte, proferindo sem lisonja e sem odio
-a sentença que lhe dictarem os bons ou
-maus actos dos que exercerem o poder supremo.</p>
-
-<p>O juizo imparcial da realeza não póde
-melindrar ninguem, porque o magisterio
-d’um rei não é propriedade d’uma familia,
-mas é patrimonio d’um povo, que tem direito
-a devassar os tumulos dos que o regerem
-e procurar nas suas cinzas ou o merecimento
-que exige a exaltação dos benemeritos,
-ou o crime que obriga o esquecimento
-dos precitos. A Historia é o grande
-tribunal, onde reis e vassallos são julgados
-com a mesma egualdade e com o mesmo
-rigor. Ella despreza Affonso III para acclamar
-Martim de Freitas; lança o estigma
-da infamia sobre a memoria de Leonor
-Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa
-ignorada de Fernão Vasques, o artista humilde
-que em nome do povo soube zelar o
-decôro do throno. Assim, quando o historiador
-penetra os humbraes da crypta de
-S. Vicente, ajoelha no marmore do pavimento,
-e toca por sua vez nos ataúdes de
-tantos personagens, esquece as corôas que
-adornam os seus tumulos e julga-os como
-juiz, que não indaga a qualidade do réu.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p>
-
-<p>E a Historia, para ser Historia, é necessario
-que não dobre a vara da justiça e que
-guie sempre os seus passos pelo pharol da
-imparcialidade, que rompe a nevoa do servilismo
-infame.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Maria_Francisca_Izabel_de_Saboya">D. Maria Francisca Izabel de Saboya</h2>
-
-<p>Fallecido D. João IV, tomou as redeas
-do governo a rainha D. Luiza, a isso obrigada
-pelo testamento do rei e pela menoridade
-de seu filho Affonso VI. Os negocios
-do Estado não se alteraram em cousa alguma
-com a administração da rainha viuva;
-mudou-se simplesmente o nome do imperante,
-porque, como dissémos, D. Luiza foi
-sempre a vontade do marido; nem o padre
-Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr.
-Domingos do Rozario, seu conselheiro privado,
-a dominaram alguma vez. Altiva e
-auctoritaria, ella attendel-os-hia em certas
-occasiões, mas nunca se escravisava á sua
-influencia.</p>
-
-<p>Embora nos campos da batalha o valor
-do nosso exercito levasse, por vezes, de
-vencida o arrogante castelhano, a regente,
-como astuta politica, entendeu que sem allianças
-que amparassem a corôa aos embates<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span>
-da fortuna, difficil seria a sustentação
-da independencia. A França e a Inglaterra
-eram o alvo dos sonhos dourados de D.
-Luiza; queria ella fisgar a amizade d’esses
-paizes com enlaces matrimoniaes que identificassem
-os seus interesses aos interesses
-de Portugal; seguia assim o procedimento
-de D. Manuel para com a visinha Hespanha,
-procedimento este, que, apesar de todas as
-rivalidades, sustentou o equilibrio da nossa
-tranquilla expansão ultramarina.</p>
-
-<p>N’este empenho, realisou-se em 1662
-o casamento da infanta D. Catharina,
-irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.</p>
-
-<p>Tanger e Bombaim foram os penhores
-da amizade portugueza e o dote da noiva
-de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma
-pequena parte das colonias para ajudar o
-bom resultado da causa nacional; effeitos
-de necessidades que se impõem e que, por
-desconhecimento de razões só sabidas dos
-coévos, a Historia mais tarde aprecia um
-tanto injustamente. Se Luiza de Gusmão
-comprou, com a entrega d’aquellas duas praças,
-a soberania da casa de Bragança, deve-se
-notar tambem que com a realeza da
-dynastia estava consubstanciada a independencia<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span>
-do paiz, que junto a Castella não
-era senhor do seu proprio torrão. E se mais
-tarde se tornou perniciosa a alliança de
-Portugal com a Inglaterra, ninguem tem
-direito a arguir a viuva de D. João IV,
-exigindo que, embora fosse politica sagaz,
-podesse prever factos tão posteriores e filhos
-de circumstancias que á epocha pessoa
-alguma saberia divisar no horisonte. A Historia
-deve ser justa e como tal abençoar D.
-Luiza, que trabalhou varonilmente pela
-causa da sua patria adoptiva; e mesmo que
-então a alliança ingleza fosse um erro, bastava
-considerar o objectivo que a iniciou,
-para o historiador absolver essa falta venial,
-praticada inconscientemente, filha da
-imperfeição da fraca humanidade.</p>
-
-<p>Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra
-nos tem sido traiçoeira, tambem a
-França então nos chamou a si e nos abandonou
-conforme lhe convinha. Luiz XIV
-favoreceu a guerra com Castella, unicamente
-para abater o poderio da Casa d’Austria;
-consentiu no enlace da filha do duque de
-Nemours com Affonso VI para avassalar
-este paiz á sua politica de ferro, para dar
-principio á sua ambição de dominio na peninsula,
-revelada por elle, mais tarde, no<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span>
-celebre dito de despedida a seu neto Filippe
-V: <i>Meu filho, já não ha Pyreneus</i>.</p>
-
-<p>Não foi o amor da justiça a causa do
-soccorro da França, mas o mesmo ideal de
-rapina que a Inglaterra levou ávante. E se
-esta soube vencer, não devemos esquecer
-aquella que da sua parte fez quanto poude
-para alcançar victoria.</p>
-
-<p>Afinal effectuou-se o casamento do rei
-de Portugal com a princeza Maria Francisca
-Izabel de Saboya, filha do principe Carlos
-de Saboya, duque de Nemours, e da princeza
-Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV,
-de França. O contracto nupcial foi assignado
-em Paris aos 24 de fevereiro de 1666,
-sendo procurador de Affonso VI o marquez
-de Sande, Francisco de Mello e Torres, tronco
-da casa dos condes da Ponte, nosso ministro
-junto de Luiz XIV, e representantes da
-noiva o marechal duque d’Estrées e o bispo
-de Laon. Affonso VI era indifferente a todos
-os passos dos seus ministros para lhe
-arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia
-que lhe tolhêra na infancia a alma
-e o corpo, o monarcha entregava-se á pratica
-dos vicios mais vis, descia aos principios
-mais condemnaveis, desauthorisando-se
-perante o povo que, apesar d’isso, venerava<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span>
-o rei como symbolo do principio augusto
-a quem devia a livre existencia.</p>
-
-<p>Como contraste, o infante D. Pedro, irmão
-de Affonso VI, um galhardo rapaz, moreno,
-olhos e cabellos negros, typo peninsular,
-ardente, seduzia as mulheres á primeira
-vista e esgotava o amor em repetidos galanteios.
-Corpulento e robusto, cavalleiro e
-namorado, o infante attingia a méta do ideal
-das populações occidentaes; encarnára o amor
-da plebe e o amor das salas, dominava as
-massas com os golpes certos da sua farpa
-de toureiro e attrahia as damas dos salões
-aristocraticos com o faiscar dos seus olhos
-bellos e com a contemplação sedenta da sua
-estatuaria varonil. Tinha tudo—formosura,
-valentia, garbo, gentileza; mas não tinha
-corôa. Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava
-um impotente, quasi um doido.
-Para o principe subalterno a visão d’esse
-throno, que a elle, no seu entender, só devia
-competir, foi-lhe inoculada inconscientemente
-pela mãe, ao ver os desvarios do
-filho primogenito; e d’ahi a semente lançada
-em terreno fertil, desabrochou, cresceu
-e desprezou obstaculos que lhe atrophiassem
-o desenvolvimento precoce.</p>
-
-<p>Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span>
-intenções do irmão, que não tinha ainda
-quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse
-força para erguer um throno e derrubar
-outro. Quando D. Pedro soube do casamento
-do rei, talvez visse n’esse facto o
-mallogro infallivel de todos os seus projectos.
-D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia
-continuar a dynastia, e então as pretensões
-do infante ficariam de todo nullas.</p>
-
-<p>Afinal alvoreceu o dia da chegada da
-rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa vestiu
-galas, quando a artilheria salvou a esquadra
-franceza. O coração de D. Pedro palpitava
-ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se,
-uma por uma, as flores das suas sorridentes
-chimeras. Mal diria que nas naus
-de França se guardava o seu unico amor,
-o ente criminoso que o ajudaria a realisar
-o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei,
-infante, côrte e auctoridades foram a bordo
-prestar homenagem á nova soberana. Tinham
-forçado D. Affonso a assim proceder. Não
-queria ir, entretido com a Calcanhares, expandindo
-as furias do seu genio violento
-que assassinava um desgraçado por entre
-beijos e caricias na sacrificada amante.</p>
-
-<p>Quando D. Maria Francisca viu pela primeira
-vez o homem que a politica lhe destinára,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span>
-viu tambem a negação completa das
-suas aspirações. Aquelle homem o que tinha
-de bom era ser rei... o contrario do infante,
-que desde esse momento, com a sua
-figura peninsular, conquistou a alma da
-franceza, alma depravada, affeita aos costumes
-libertinos da côrte de Paris. Já
-possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha
-no caes da Junqueira, seguindo d’alli para
-a egreja de Santa Clara, onde o bispo de
-Targa abençoou o seu consorcio. Pouco
-depois adoeceu; D. Pedro visitava-a amiudadas
-vezes e n’essas continuas visitas o
-amor de ambos fundiu-se n’um só. Inconscientemente,
-levado pelo impulso do coração,
-o infante adquirira a grande influencia
-que carecia para se sentar no throno. A
-amante queria ser rainha, mas não com
-um rei como D. Affonso VI; elle queria ser
-amado, mas não da esposa do seu proprio
-irmão... Era indispensavel o anullar o
-matrimonio, para que o monarcha se mostrava
-inhabil, e era necessario tambem que
-se conservasse aquella mulher no seu pedestal,
-apartada de um marido que a desprezava
-e junto de um outro que a adorava
-do intimo da alma... Tudo foi uma comedia.
-Maria Francisca recolheu-se ao convento<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span>
-da Esperança (21 de novembro de 1667)
-e d’ahi mandou ás auctoridades ecclesiasticas
-o seu libello de divorcio (11 de janeiro
-de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se
-então uma das mais vergonhosas scenas da
-Historia de Portugal. A franceza excedeu
-Leonor Telles no desbragamento publico.
-Teve um Andeiro que foi D. Pedro, mas
-não teve a sinceridade rude de o apresentar
-como tal. Fallava em <i>consciencia</i> e queria
-o <i>veridictum</i> dos canonistas.</p>
-
-<p>Jesus Christo era invocado por aquella
-mulher, não para a soccorrer nas tribulações
-do crime, mas para a julgar na justiça
-da causa; e os que representavam o Redemptor—diga-se
-desassombradamente, escreva-se
-com a imparcialidade que a Historia
-exige—deram a sua sentença como
-aprazia a dois infames, abençoaram o indigno
-conluio como causa sacratissima, merecedora
-dos applausos sacrosantos. Em seguida
-uma revolução de palacio desthronou
-Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando
-conta do governo seu irmão o infante
-D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de
-Lisboa (1 de janeiro de 1668) appoiando o
-procedimento revolucionario e a regencia
-do ambicioso principe. Poucos mezes depois<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span>
-(2 d’abril do mesmo anno), o regente e D.
-Maria Francisca uniam-se pelos laços do
-matrimonio, coroando com a lithurgia o
-seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.</p>
-
-<p>Cada um dos seus actos mais significativo
-e mais comico, mostrava bem claramente
-o estado de adeantada decomposição
-da sociedade portugueza, afogada ainda nos
-restos do grande naufragio das conquistas
-da India.</p>
-
-<p>No tempo de D. Fernando, que fez da
-côrte um harem e do reino um brinquedo
-de Leonor Telles, o povo, depois de 1385,
-rejuvenesceu, mostrou-se forte e viril, epico
-mesmo; agora, estimulado pelo proceder
-heroico de 1640, não teve força para reagir
-contra os tramas do paço da Ribeira;
-cortejava, submisso, o regente e lamentava,
-condoido, o rei... Não houve um Fernão
-Vasques que intercedesse por Affonso VI,
-pelo vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial,
-de Castello Rodrigo e de Montes Claros,
-deposto em nome da Patria que seu
-irmão mais tarde havia de arruinar n’um
-tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu
-nome é hoje glorificado á luz da Historia,
-porque teve a leal amizade de um homem<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span>
-da estatura de Castello Melhor. No coração
-d’esse homem sempre existiu a soberania
-de Affonso VI; sendo mais valioso o seu
-imperio que o summo poder do infante,
-atordoado pelo remorso e azorragado pela
-voz da indigna consciencia. Recluso em Cintra,
-sujeito aos limites do seu aposento,
-perseguido da desgraça que purifica as almas,
-a razão filtrou-se-lhe no meio do infortunio.
-Deu depois provas de innegavel
-lucidez. E quando elle lançasse os olhos
-sobre os amores da mulher e do irmão e
-os visse meigos, risonhos, estreitando-se em
-amplo abraço, n’uma felicidade mahometana,
-celestial, havia de sorrir ferozmente,
-com o riso da vingança consoladora, porque
-veria a imagem d’um pobre, encarcerado,
-como elle era, percorrer as salas da regia
-vivenda e como punhal brandido pela mão
-do remorso, rasgar a tela d’uma apparente
-ventura. É que por mais infames que sejam
-as almas, sempre a consciencia como
-a percursora do castigo sem fim, as atormenta
-com a lembrança horripilante de
-crimes que se desejariam esquecer. Esta
-convicção e a lealdade de Castello Melhor
-foram os unicos lenitivos que Affonso VI
-encontrou na desgraça, foram anjos que lhe<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span>
-afagavam a vida, segredando-lhe que não
-era indigno de ser rei de um grande vassalo
-que resurgira um reino, e que a sua memoria
-servia de tufão devastador á felicidade
-roubada.</p>
-
-<p>Felizes dos opprimidos quando têem a
-consciencia que são oppressores.</p>
-
-<p>Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de
-setembro de 1683; a sua adultera esposa
-não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.</p>
-
-<p>Quatro mezes depois (27 de dezembro),
-succumbiu D. Maria Francisca Izabel de Saboya,
-sendo sepultada nas Francezinhas.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Maria_Sophia_de_Neuburg">D. Maria Sophia de Neuburg</h2>
-
-<p>Depois da morte de D. Maria Francisca,
-a tristeza apossou-se do coração de D. Pedro
-II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe
-a consciencia, vendo sempre o espectro
-do irmão apontar-lhe do outro mundo
-o negro trama de que fôra o protagonista.
-Resava, orava, esmolava os desgraçados de
-que era rei; mas ao depor o obulo na mão
-do esfarrapado mendigo accudia-lhe o vulto
-de Affonso VI, que elle apeára do throno,
-transformando-lhe a existencia ainda em
-mais cruel que a do pobre, porque esse ao
-menos tinha liberdade. Entregue, como estava,
-ás suas dôres, D. Pedro não cuidava
-de outras nupcias.</p>
-
-<p>Foram precisas para o arrancar á dorida
-memoria da sua fallecida consorte as instancias
-de Innocencio XI e as supplicas dos
-amigos: todos á uma lhe aconselhavam novo
-casamento, evitando-se assim que a corôa<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span>
-passasse á princeza D. Izabel, o que traria
-sérias complicações politicas.<a name="FNanchor_42" id="FNanchor_42"></a><a href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a></p>
-
-<p>Resolvido o sensato plano, partiu o conde
-de Villar Maior (8 de dezembro de 1686)
-para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor
-Palatino do Rheno, pae da princeza Maria
-Sophia de Neuburg, á qual a escolha do
-monarcha designára para nova rainha. A 22
-de maio do anno seguinte assignou-se o contracto,
-estipulando-se que a noiva fosse dotada
-por seu pae com cem mil florins e
-pelo rei de Portugal com a casa e estado
-das soberanas suas predecessoras. Realisado
-o consorcio (2 de junho) seguiu D. Maria
-Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou
-a 11 d’agosto; sendo, n’essa mesma
-tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo,
-no meio das acclamações enthusiasticas
-d’um povo que, fóra da capella, saudava
-inconscientemente uma mãe carinhosa
-de todos os seus subditos.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p>
-
-<p>E na verdade, d’esta vez os applausos
-não foram lançados em vão. D. Maria Sophia,
-como D. Filippa de Lencastre, compensou
-as leviandades da primeira mulher
-de seu marido. Reinou, mas não governou,
-conservou-se na sua esphera, dedicando-se
-á educação dos filhos e em adquirir o amor
-de D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança
-da primeira consorte, nunca soube
-apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.</p>
-
-<p>Para quem fosse menos beneficiada da
-conformidade imposta pelo dever, a indifferença
-régia seria pezarosa; porém, a princeza
-soube mostrar que era allemã: o seu
-temperamento, frio como o norte, não era
-inclinado a paixões; conformou-se com a
-sorte, limitando-se unicamente ás lides domesticas.</p>
-
-<p>O rei, ao que parece, desejava ser um
-heroe e talvez mesmo se convencesse de
-que o era. Queria a fronte aureolada, como
-o irmão, o <i>victorioso</i>; sentia a nostalgia do
-triumpho, apesar de <i>pacifico</i>, como lhe chamava
-a Historia.</p>
-
-<p>Terminada a guerra da independencia,
-desapparecêra o campo dos louros, e a paz
-firmada com Castella (13 de fevereiro de<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span>
-1668)<a name="FNanchor_43" id="FNanchor_43"></a><a href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a> ainda na vida de D. Affonso veiu
-cortar quaesquer probabilidades de adquirir
-glorias proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha
-por si a quéda d’um throno; de mais
-cousa alguma a posteridade fallaria d’elle,
-ficando sujeito a desigual partilha nos fastos
-da realeza.</p>
-
-<p>Vago o throno de Castella pela morte de
-Carlos II (1 de novembro de 1700) foi acclamado
-rei o duque d’Anjou, neto de Luiz
-XIV, com o nome de Filippe V; D. Pedro
-reconheceu-lhe a soberania, continuando assim
-a paz; mas a influencia franceza assombrava
-a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha
-que, além d’isso, pretendia a corôa
-para o archiduque Carlos, filho do imperador
-Leopoldo I. Portugal mudou de rumo
-e acompanhou a politica europeia na sua
-opposição ao francez; D. Pedro procedeu
-assim obrigado pela Inglaterra, que o amarrára
-no tractado de Methwen, e pelo desejo
-ardente da fama conquistada pela força
-das armas.</p>
-
-<p>Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque
-chegou a Lisboa (7 de março de<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span>
-1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza
-e fez d’aqui o ponto de partida para as suas
-operações.</p>
-
-<p>O nosso exercito, tendo á sua frente o
-principe e o conde das Galveias, Diniz de
-Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol,
-e tomando Salvaterra, Valença e Albuquerque,
-retirou para Lisboa, d’onde o
-archiduque saiu outra vez (24 de junho de
-1705) com destino a Barcelona, que depois
-d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro
-do mesmo anno. No seguinte, em 2
-de junho, o marquez das Minas penetrava em
-Madrid, onde fez acclamar o austriaco com
-o nome de Carlos III. Até esta epocha o
-destino parecia secundar, á custa de pesados
-sacrificios e derrotas internas, os marciaes
-desejos de D. Pedro II; o successo era na
-apparencia prospero e o rei zeloso do seu
-nome e pouco dos povos, contente de si, só
-tinha que se queixar do nenhum repouso da
-consciencia attribulada, porque no mais tudo
-lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta illusão
-acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente,
-gasto, moribundo, succumbiu (9 de dezembro
-de 1706), cinco mezes após a victoria, que
-foi seguida pela retirada do marquez, batido
-por Berwick a 25 de abril de 1707.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p>
-
-<p>Hoje é licito analysar os feitos e acções
-do homem que ousou possuir a estima d’um
-povo. De facto, foi a personificação do caracter
-portuguez—aventureiro, valente, viril,
-com uns longes de justiceiro, um arremedo
-do seu homonymo<a name="FNanchor_44" id="FNanchor_44"></a><a href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a>—; e se as suas
-virtudes não brilharam pela quantidade, o
-seu feitio compensou-lhe a falta perante os
-coévos acostumados a venerarem o rei, sem
-examinarem o merito do individuo. Entretanto,
-os soffrimentos que a Historia nos
-aponta e que lhe atormentaram os ultimos
-dias, se não conseguem absolvel-o de todo,
-attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.</p>
-
-<p>Moralmente foi um grande desgraçado, e a
-compaixão a que têem jus os infelizes é uma
-das faces sympathicas que o pincel do historiador
-ousa desenhar na téla da verdade.
-Teve o amor d’uma mulher, mas este facto
-não levanta o caracter de nenhum dos dois
-amantes, porque o amor santifica quando é
-licito e condemna quando é preverso.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p>
-
-<p>Teve a fidelidade de uma resignada martyr
-que nunca lhe viu sorrisos, que foi possuida
-pela força da politica; e esta virtude
-se directamente o não exalta, reflecte-lhe,
-comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda
-mereceu a pósse de uma honesta esposa!
-Compassiva foi a Providencia, se no recondito
-d’aquella alma não existia algum merito
-que, qual violeta escondida por entre
-as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.</p>
-
-<p>Maria Sophia não lhe proporcionou dias
-felizes, porque o remorso lhe aniquilava
-toda a felicidade; não lhe partilhou os dias
-de gloria, porque a morte a veiu colher
-(4 de agosto de 1699) antes que a guerra
-lhe trouxesse os triumphos militares; mas
-hoje ajuda-lhe a rehabilitar o nome, o nome
-que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.</p>
-
-<p>Triste e só, viveu deixando na Historia
-não a reputação faustosa de heroica soberana,
-ou de astuta politica, mas a de mulher
-respeitavel que soube purificar o lar extinguindo-lhe
-as manchas do rasto da sua antecessora.
-O diadema não lhe serviu de cruz,
-porque no cumprimento dos seus deveres
-encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span>
-de ambições, porque a corôa que o seu ideal
-almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.</p>
-
-<p>Que lhe importava o olhar melancholico
-do verdugo de Affonso VI, amante ainda
-do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava
-isso, se nos filhos d’esse homem
-que a não podia amar, se na prece quotidiana
-ao esposo das almas santificadas pela
-resignação existia um amor mais bello, mais
-radiante que todo o idyllio de um amor
-terreno? E as lagrimas, sêccas por essa philosophia
-santa, nunca lhe sulcaram o rosto
-sympathico. Foi feliz no meio do seu infortunio.
-Abençoada creatura cujas ambições
-não existiam n’este mundo. Bemdita
-a sua fé que lhe impediu o martyrio, que
-lhe encaminhou os passos para a senda
-do dever. Por isso a Historia ajoelha na
-lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide
-um epitaphio modesto como a sua existencia,
-mas venerando como a sua memoria.<a name="FNanchor_45" id="FNanchor_45"></a><a href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Marianna_dAustria">D. Marianna d’Austria</h2>
-
-<p>Depois do fallecimento de D. Pedro II,
-subiu ao throno seu filho o principe D. João,
-que ao tempo contava dezesete annos
-d’edade. A herança não era coroada pela
-paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria
-para dirigir o leme do Estado ao ponto
-que mais influisse ao progresso e desenvolvimento
-nacional.</p>
-
-<p>Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se
-na guerra de Hespanha, só
-concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado
-de Ultrecht. Ahi, Portugal não recebeu
-a minima compensação dos seus pesados
-sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido
-como rei, e o archiduque, já imperador
-d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos,
-Napoles e Milão. Depois da contenda tivemos<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span>
-de libertar o Rio de Janeiro da occupação
-do almirante francez Duguay Trouin,
-e mais tarde (1716-1717) a perseguição dos
-turcos, em soccorro do papa Clemente XI,
-que o havia sollicitado por intermedio da
-rainha D. Marianna d’Austria, com quem
-D. João V se desposára no dia 27 de outubro
-de 1708.<a name="FNanchor_46" id="FNanchor_46"></a><a href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a></p>
-
-<p>De resto, um longo periodo de paz envolveu
-sempre este reinado.</p>
-
-<p>O rei tinha a preoccupação do fausto e
-da magnificencia; entendia que sem a ostentação
-requintada da realeza, a corôa seria
-um mytho indigno do mais plebeu dos
-seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi
-coherente com a de D. Manuel desde o diluvio
-do ouro da India, agora substituido
-pelas minas do Brazil.</p>
-
-<p>Acabára a Asia, mas ficára a America
-para farto manancial do genio degenerado
-e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo
-tinha o rei o exemplo de Luiz XIV,
-seu mestre e seu espelho; havia de ser
-grande, não como alguns dos seus pacatos
-avós, bons homens e bons guerreiros, paes<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span>
-dos povos que militavam a seu lado no
-campo da batalha, e que, saradas as feridas
-da refrega, lhe vinham administrar justiça,
-de aldeia em aldeia, como bons pastores,
-zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca,
-das virtudes antigas só existia a memoria;
-rei e fidalgos dormiam sobre os louros
-adquiridos pelos antepassados, não cuidando
-de outros novos; ferindo inconscientemente
-a virilidade da sua existencia, que pouco
-resistiu aos tombos das evoluções sociaes.
-Começava a pragmatica, acabando-se a antiga
-rudeza nacional; extremavam-se as classes,
-vedando-se ao povo nobilitação pelo
-proprio merito; e um odio profundo entre
-a aristocracia cortezã, que se alimentava
-dos bens da corôa, e a nobreza de provincia,
-que lavrava a terra com o proletario,
-veiu accender o facho da discordia, cujo
-tragico desfecho teve logar no reinado seguinte.</p>
-
-<p>O caminho que o historiador tem a seguir
-quando vier a lume a época de D. João V
-não é plano e florido, mas accidentado como
-serra espinhosa; ainda ha muitos para quem
-o filho de D. Pedro II, visto como homem
-moderno, attinge proporções épicas; para
-nós, aliás interessados naturalmente em<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span>
-exaltar o monarcha,<a name="FNanchor_47" id="FNanchor_47"></a><a href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a> não vemos n’elle um
-unico reflexo de grandeza, a não ser na
-sua intelligencia e no zelo que dispensou
-ás lettras e ás artes, não como sabio ou
-artista, que nunca foi, mas como Salomão,
-que pretendeu ser. Os seus monumentos
-são attestados mudos da leviana atmosphera
-em que nasceram; não enthusiasmam
-como a Batalha e Belem, padrões que definem
-uma consagração historica; são molles
-de pedra, espelhos de provecta decadencia—o
-crusamento do incenso do altar
-christão e do luxo Cesar romano.</p>
-
-<p>Mafra é um collosso, onde está escripto
-o diagnostico da enfermidade que assolava
-o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no
-absolutismo de que D. João V se fizera prototypo.
-De resto, a sua causa, ôcca e sem
-historia, não lhe proporciona interesse, nem
-cunho nacional; é um simples capricho de
-monarcha gastador, convicto que a trombeta
-da Fama só apregoa os grandes feitos
-quando eccôa em montanhas de ouro.</p>
-
-<p>Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas,
-pouco zeloso do erario e muito da<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span>
-bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria
-estão cheios de tenças, em que o
-motivo era a vontade regia e não o mérito
-pessoal do agraciado.</p>
-
-<p>Diga-se, no emtanto, que os thesouros
-espalhados pelo rei, não afogavam a ira do
-povo, que o adorava, porque via n’elle a
-personificação de todos os seus defeitos e
-de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram
-possuir a estima dos subditos como
-D. João V. Foi um galanteador aventuroso
-e audaz, porque entreviveu n’uma epocha
-de aventuras licenciosas e ninguem tem direito
-a criticar-lhe as faltas domesticas, as
-traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o
-elle dos vassallos, de quem não seria
-rei, se não os avantajasse. Toda a sua
-grandeza, toda a causa da sua superioridade
-está em ter comprehendido a sua epocha,
-em ter alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.</p>
-
-<p>Incontestavelmente o ultimo Cesar que
-se sentou no throno, não foi tyranno, nem
-tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve
-erros, porque viveu n’uma epocha de decomposição,
-vendo-se obrigado a seguil-a
-por natural tendencia, como homem do seu
-tempo, impellido pela voragem que o arrastava<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span>
-a um ponto que todos almejavam.
-Se assim não fosse, nunca conseguiria ser
-amado, porque nunca poderia adquirir o espirito
-portuguez. Ao menos não foi hypocrita;
-não procurou sequer occultar as leviandades
-das suas aventuras galantes, que
-passavam, como coisa naturalissima, que
-a ninguem melindrava, porque era commum...
-N’este quadro, que se não póde
-desenhar com côres estudadas, que sae natural,
-sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade,
-está bem patente a decadencia
-precoce de uma sociedade perdida. Quando
-o historiador ama a sua terra, as flôres dos
-seus campos, o sol que allumia e o ceu que
-a domina, as tradições que a exaltam, todo
-esse conjuncto diverso, mas ligado entre si
-n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer
-a penna ao tocar este periodo, todo
-de ruinas, embora matizadas d’abundancia.
-Mas por entre a hecatombe lenta que devastava
-o meio social, não ha a lamentar
-a corrupção do paço; D. João V praticou
-sem duvida erros de homem, mas teve o
-lar purificado pela conducta irreprehensivel
-da esposa, allemã como a sua antecessora,
-e martyr como ella, não pela feia catadura
-d’um marido apaixonado pelo cadaver da<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span>
-eleita da sua alma, mas pelo procedimento do
-rei, que sem escrupulos de christão nem respeito
-pela dignidade real, escolhia concubinas
-onde quer que as paixões o arrastavam.</p>
-
-<p>Filha do imperador d’Austria, foi escolhida
-unicamente para inocular no sangue
-de Bragança o sangue aristocratico das mais
-nobres familias da Europa. De facto, desde
-a filha do Condestavel, as esposas dos duques
-não primavam pela nobreza do seu
-nascimento. Só D. Izabel de Lencastre, esposa
-de D. Fernando II, filha do infante D.
-Fernando, irmão de Affonso V; e D. Catharina,
-esposa de D. João I, como filha do
-infante D. Duarte, é que proporcionaram á
-casa de Bragança allianças mais conformes
-com a sua regia origem e viver realengo.
-As outras:—D. Beatriz Pereira, filha de
-Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha
-do conde Gijon, esposas do duque Affonso;
-D. Joanna de Castro, filha do senhor
-do Cadaval,<a name="FNanchor_48" id="FNanchor_48"></a><a href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a> esposa do duque D. Fernando I;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span>
-D. Leonor de Mendonça, filha do duque de
-Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça,
-filha do Alcaide-mór d’Alvôr, esposas de D.
-Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do
-conde de Lemos, esposa de D. Theodosio I;
-D. Brites de Lencastre, filha do commendador-mór
-d’Aviz, segunda esposa do mesmo
-duque; D. Anna de Velasco, filha do duque
-de Frias, esposa de D. Theodosio II; D.
-Luiza de Gusmão, filha do duque de Medina
-Sidonia, esposa de D. João II, depois
-rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia
-de Neubourg, filha do Eleitor Palatino do
-Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II,
-não foram senhoras que aparentassem a
-casa reinante de Portugal com as familias
-soberanas do universo. N’este ponto, depois
-dos Bourbons, achava-se incontestavelmente
-os Habsburgs, cuja alliança era provavel,
-em vista dos soccorros prestados pelos nossos
-reis ao archiduque Carlos, na sua pretensão
-ao throno hespanhol. O movel, pois,
-d’este consorcio foi a nobreza da noiva, que
-juntava a esse predicado uma notavel cultura
-d’espirito e uma formosura digna de
-seduzir outro homem que não fosse tão voluvel
-como D. João V.</p>
-
-<p>O contracto assignou-se em Vienna, a 24<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span>
-de junho de 1708, estipulando-se que a rainha
-seria dotada com cem mil escudos ou
-corôas de ouro de quatro placas de Flandres
-pelo imperador seu irmão e pelo rei
-de Portugal com a casa e estado das suas
-antecessoras.<a name="FNanchor_49" id="FNanchor_49"></a><a href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a></p>
-
-<p>A 13 de setembro do mesmo anno, saiu
-D. Marianna d’Austria, de Rotterdam, chegando
-a Lisboa a 27 de outubro, sendo os
-regios esposos abençoados n’esse mesmo
-dia.</p>
-
-<p>Quarenta e dois annos viveu em companhia
-de D. João V (27 de outubro de 1708—31
-de julho de 1750) não nos apontando
-a Historia uma unica falta que lhe maculasse
-a honra e o lar, que seu marido de
-todo abandonára. Muito devota, entregava-se
-á piedade, seguindo como D. Maria
-Sophia o caminho da virtude que converte
-em flôres os espinhos do viver terreno. Pouca
-ou nenhuma intervenção teve nos negocios
-publicos, limitando-se á vida domestica, até
-que falleceu em Belem, aos 14 de agosto<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span>
-de 1754, tendo nascido em Lintz a 7 de
-setembro de 1683. Sepultaram-n’a no mosteiro
-de S. João Nepomuceno, por ella fundado,
-onde se conservou o seu corpo até
-1855, em que foi trasladado para S. Vicente
-de Fóra.</p>
-
-<p>É um exemplo de virtude austera que
-ahi descança e que a Historia abençoa como
-mulher que soube conservar-se no posto
-que lhe marcou o sexo e que comprehendeu
-a digna missão que lhe impoz a sorte
-nos seus inexplicaveis destinos.</p>
-
-<p>Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito
-para o pensador que se não limita a admirar
-os heroes cujo nome gigantesco assombra
-os humildes, cuja vida deslisou na
-sublime comprehensão da honestidade.</p>
-
-<p>A virtude que a enaltece, torna-a digna
-dos applausos dos posteros, erguendo-a do
-olvido e coroando-lhe a memoria da mais
-gloriosa corôa que a justiça do historiador
-póde depôr na fronte das que hoje são invocadas
-como exemplo do bem.</p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p>
-
-<h2 id="D_Marianna_Victoria_de_Bourbon">D. Marianna Victoria de Bourbon</h2>
-
-<p>Seguindo a politica de seus maiores, D.
-João V entendeu conveniente reatar os laços
-de antiga amizade com a visinha Hespanha;
-e como as allianças de familia se
-lhe figuravam mais vantajosas do que todos
-os tractados internacionaes, resolveu
-el-rei acceder aos desejos do monarcha castelhano,
-que manifestára ao nosso embaixador
-quanto anhelava que fossem seguidas,
-então, as reciprocas tradições dos dois paizes.<a name="FNanchor_50" id="FNanchor_50"></a><a href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a></p>
-
-<p>Assim se contractou a 7 de outubro de
-1725 o casamento do principe D. José com
-a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon,<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span>
-filha de Filippe V e de Izabel Farnése. A
-25 de dezembro de 1727, o marquez
-d’Abrantes fazia o seu pedido em fórma á
-côrte de Madrid, que foi secundado por
-outro que a 6 de janeiro do anno seguinte
-o ministro hespanhol, marquez de Belvases,
-dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a
-mão da princeza D. Maria Barbara de Bragança
-para o principe das Asturias, D.
-Fernando de Bourbon. Um anno depois
-(19 de janeiro de 1729) encontraram-se as
-duas familias nas margens do Caia, onde
-se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros
-das corôas portugueza e castelhana.</p>
-
-<p>Como dote, recebeu D. Marianna Victoria
-quinhentos mil escudos do Sol, por parte
-d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a
-dar-lhe para os seus alfinetes o valor correspondente
-a oitenta mil pesos e um rendimento
-annual que equivalesse a vinte mil
-escudos do Sol.<a name="FNanchor_51" id="FNanchor_51"></a><a href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a> Foram estes os bens da
-princeza, até ao fallecimento de D. Marianna
-d’Austria, que teve logar depois de seu<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span>
-marido subir ao throno com o titulo de
-D. José I.</p>
-
-<p>O reinado d’este soberano foi um dos
-mais notaveis da Historia de Portugal. Teve
-medidas que mostram o talento do ministro
-que as decretou, e teve barbaros sacrificios,
-que deshonram a memoria do homem
-que os commetteu e do vingador que as
-iniciou. Os juizos dos historiadores são geralmente
-oppostos quanto ao merito do personagem
-que foi senhor do animo de D.
-José. De facto, a individualidade do marquez
-de Pombal, Sebastião José de Carvalho
-e Mello, o grande heroe da situação,
-é tão complexa, abrange phases tão diversas,
-que do lado dos seus sequazes e dos
-seus inimigos teem surgido louvores demasiados
-e depreciações excessivas. Fidalgo
-de provincia, o seu valimento assombrava
-a aristocracia, acostumada a dirigir os destinos
-do paiz; se alguma vez a nobreza
-provinciana se ousava sentar nos conselhos
-da corôa, o applauso aristocratico tinha referendado
-a concessão regia. Pombal, porém,
-subiu ao maior fastigio do poder,
-elevou-se á grandeza, sem que o <i>veredictum</i>
-dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi
-toda a inveja das altas classes, que injustamente<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span>
-lhe chamavam plebeu, e todo o
-odio do ministro aos que se tinham por
-seus superiores.<a name="FNanchor_52" id="FNanchor_52"></a><a href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p>
-
-<p>Entretanto, Pombal não fundou uma escola
-democratica, porque saiu da craveira
-de fidalgo de provincia, ambicionando uma
-corôa de grande; e nos seus proprios casamentos,
-como nos de seus filhos, está bem
-demonstrado que o ministro não desadorava
-as proeminencias sociaes, e que talvez todo
-o seu odio selvagem não fosse só motivado
-pela emulação dos nobres, mas tambem
-pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam
-de ser os immediatos do soberano,
-seus companheiros na defeza do throno,
-de que tinham sido creadores e muitas
-vezes defensores nas suas mais perigosas<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span>
-crises. O exterminio dos Tavoras e do duque
-d’Aveiro, os capatazes da aristocracia,
-o foco d’onde se projectavam todas as iras
-contra elle, calcou-lhe a sepultura da arvore
-derribada pela sua erronea conducta desde
-o reinado anterior.</p>
-
-<p>Esta face do marquez de Pombal não é
-sympathica, nem attrahente; revela a baixeza
-e indica a velhacaria que elle possuiu
-no mais alto grau. O seguinte facto é bem
-significativo:</p>
-
-<p>Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis
-Mascarenhas, meirinho-mór do reino, brigadeiro
-de cavallaria, gentilhomem da real
-camara, muito privado de D. José, com
-quem se creára e com o qual sempre mantivera
-as melhores relações d’amisade.<a name="FNanchor_53" id="FNanchor_53"></a><a href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a> Uma
-vez o conde advertiu el-rei de que não
-seria bom dar tanta confiança a Sebastião
-de Carvalho, que então principiava a dominar
-o animo do monarcha; este communicou-lhe
-em conversa o recado do fidalgo,
-o que foi sufficiente para o ministro se lhe<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span>
-ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor
-de Deus que o não desviasse da intimidade
-do soberano... Depois, seguro o valimento
-por fortes laços, o conde d’Obidos foi preso
-nos carceres da Junqueira, o theatro dos
-horrores, das vinganças e dos infames despeitos
-do marquez de Pombal.</p>
-
-<p>O terramoto de Lisboa (1 de novembro
-de 1755) veiu de todo convencer D. José
-do alto valor do seu predilecto. De facto,
-maior prova se não poderia exigir para
-experiencia da energia de um homem. Derribada
-a cidade, devoradas as ruinas pelo
-incendio, estimulados os malfeitores pela
-confusão da necropole, no meio da anarchia
-que se apoderou no animo de todos, o espirito
-do ministro manteve-se sobranceiro
-e forte, arcando com a violencia da natureza.
-Era na verdade um genio descommunal!
-não admirava que destruisse o passado,
-que abalasse as velhas tradições, como a
-catastrophe destruira os edificios e abalára
-a terra, se, perante a hecatombe, foi elle
-o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa
-ergue-se alinhada, symetrica, magestosa
-e soberba, como rindo-se do que fôra e
-applaudindo o castigo da sua antiga depravação...
-Depois d’isto, para o rei já não<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span>
-existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo
-da corôa repouso e do manto agasalho
-para o vento do remorso, impellido pela
-voz do dever, se é que essa voz se atreveu
-a fazer-se alguma vez ouvir da consciencia
-d’um homem como foi D. José.</p>
-
-<p>O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi
-por diante, de rei só teve a sua assignatura
-nos diplomas, alvarás, decretos, cartas
-regias e despachos de mercês. De resto,
-foi uma creança para quem Pombal fazia
-Tapadas para seu divertimento... Mais
-nada a Historia póde dizer d’elle.</p>
-
-<p>A reforma da pauta de commercio (1755),
-a companhia dos vinhos do Alto Douro
-(1756), o Erario e o Collegio dos Nobres
-(1761), a reforma da Universidade (1772),
-e a abolição da escravatura no continente
-(1773) são as principaes medidas da dictadura
-pombalina. Quem escrever a Historia
-com a imparcialidade devida, tem de se
-curvar á sabedoria d’esta legislação e applaudir,
-se não em absoluto, pelo menos
-em parte, estes actos do ministro, embora
-reprove o seu procedimento cruel, selvagem
-mesmo, para com a nobreza e para com o
-clero, os dois potentados que lhe disputavam
-a influencia e o poderio. Este era tão grande<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span>
-no animo do monarcha, quanto diminuto no
-espirito da rainha.</p>
-
-<p>D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando
-D. José se viu prostrado pela doença e lhe
-entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas
-do governo, o poderio do ministro foi
-descendo gradualmente. Mandado retirar da
-camara do seu agonisante amo, dispensado
-das funcções de mordomo-mór, que exercia,
-o marquez politicamente succumbiu tambem
-quando D. José, cuja morte teve logar a
-24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno
-D. Maria I, começaram as represalias contra
-Pombal, para o que a viuva influiu bastante
-perante sua filha. Conhecedor do novo
-terreno, o ministro demittiu-se, recebeu a
-commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem
-de desterro para a terra que lhe servia
-de titulo, onde falleceu aos 8 de maio
-de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria
-de Bourbon foi o seu unico acto politico
-que a Historia nos aponta. Durante a
-sua vida, occupou-se unicamente na lide domestica
-e em conciliar as rixas entre Portugal
-e Hespanha, que deram motivo á
-guerra de 1762-63. No mais, foi alheia aos
-negocios do Estado, e só a perseguição ao
-marquez de Pombal é que poderá tornar o<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span>
-seu nome pouco sympathico para muitos,
-cujo idolo é o grande estadista do seculo
-XVIII.</p>
-
-<p>Notaremos que as duas pessoas que mais
-influiram no banimento do ministro, ambas
-tiveram um fim desgraçado.</p>
-
-<p>D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica,
-n’uma agonia cruciante, falleceu no
-paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781.
-D. Maria I, essa viu-se doida e fugitiva em
-estranhos hemispherios. Ignorante de que
-tinha vencido o primeiro soldado d’este seculo,
-a herdeira de D. José falleceu no Rio
-de Janeiro, aos 20 de março de 1816.</p>
-
-<p>Apesar de todas as circumstancias, esta
-soberana, no que diz respeito a Pombal, reconheceu
-os serviços do estadista, condemnando
-as demasias do vingador.</p>
-
-<p>Aquella mulher, attribulada por tanto
-crime, junto a tanto beneficio; a tanta compaixão
-pelos desgraçados e a tanto respeito
-pela memoria do pae, viu-se nas trevas da
-loucura que foram fataes a ella e a Portugal.</p>
-
-<p>Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo,
-ninguem o contesta. As medidas uteis
-dos primeiros tempos do seu governo não
-mostram unicamente o tino dos ministros<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span>
-(conde da Barca e Martinho de Mello e Castro),
-mas tambem o são criterio e boa vontade
-da rainha, tão desgraçada, quão digna,
-pelo seu caracter, de mais prosperas venturas
-e de mais explendorosos fins.</p>
-
-<p class="tb">Aqui termino o meu trabalho, não me
-querendo constituir em juiz de personagens
-contemporaneos, aggravar feridas ainda mal
-saradas, remexer muito episodio que já está
-olvidado. Comtudo, se algum dia, amansadas
-mais as furias partidarias, alguem julgar
-util o meu concurso, procurarei satisfazel-o,
-seguindo a mesma orientação—a
-imparcialidade e a independencia.</p>
-
-<p>O que está feito obedece a um impulso
-natural, a uma tendencia irresistivel para o
-estudo da Historia patria; não foi a politica,
-que puz de parte, nem o interesse, que é
-nullo. Se assim fosse e me visse obrigado
-a sacrificar o proprio sentir a inspirações
-alheias, a consciencia vergar-me-hia hoje sob
-o peso do remorso de ter prostituido a penna.<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span>
-Tal não aconteceu, e embora não conseguisse
-triumphos litterarios que nunca se
-acastellaram na minha phantasia, sinto-me
-satisfeito de ter exposto o que me domina
-o espirito, o fructo de longo estudo e de
-concisa meditação.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p>
-
-<h2 id="NOTAS_E_DOCUMENTOS">NOTAS E DOCUMENTOS</h2>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p>
-
-<hr />
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p>
-
-<h3>O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão</h3>
-
-<p>O Visconde de Figanière na sua obra <i>Memorias das Rainhas
-de Portugal</i> (D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima
-noticia que existe d’esta soberana é a doação de
-300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe comprar
-uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia
-pertencer ão mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada
-de Torres de Vedras, 30 de julho de 1300, e a rainha
-falleceu oito dias depois, é licito suppor-se, como Figanière
-suppõe, que a morte teve logar na citada villa.</p>
-
-<p>Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu
-por mandado d’el-rei D. Sebastião, uma <i>Relaçam dos
-Reys e Raynhas que estam sepultados em Alcobaça</i>; n’ella
-se lê este notavel depoimento do mesmo frade, que diz respeito
-á segunda mulher d’Affonso III:</p>
-
-<p>«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o
-primeiro dia d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que
-ali a sepultáram, jaz mirrada segundo parece, a roupa
-com que foi sepultada esta como aquelle dia que ali a puzeram,
-ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo
-do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser
-que o fosse ao tempo que ali a lançaram; como quer que
-seja, nam esta tão inteira, e fresca como o lançol; jaz enfeitada,
-e a cabeça apertada; tem huns cabellos castanhos
-que parece que foram formosos, mostra que foram cortados
-estando doente, porque estam em huma parte mais<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span>
-compridos que na outra, e estam mal cortados; tem hum
-lenço na cabeça sobre os cabellos assaz nouo; tem calçadas
-humas çapatas pretas apantufadas, como naquella hora
-que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao menos
-do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda
-mulher em seu tempo. Algus dizem que ella tinha hum
-rabo, e que vinha por parte da may, de huma casta que
-em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo lhe
-tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu
-por isso. O manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou
-nam, nam o acho escrito, nem menos que ella tivesse rabo
-mais que affirmaremme pessoas lidas nestas historias, que
-o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella
-agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre
-isso diligencias para saber a verdade disto. E desta maneira
-que tenho escripto jaz esperando sêr chamada. Prazerá
-ao Senhor que seja para gloria sua, porque esta Rainha
-fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui
-santa, e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»</p>
-
-<p>Fr. Francisco Brandão na <i>Monarchia Lusitana</i> e Figanière
-na obra acima citada, concordam que a origem d’esta
-lenda provêm da rainha ter introduzido em Portugal a
-moda das cotas caudatas, ou de rabo.</p>
-
-<p>Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar
-popular, pois chegou a convencer os proprios reis,
-trasladamos para aqui o texto do padre examinador do cadaver
-de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono neto,
-enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou
-pelo reino contemplando os restos mortaes dos seus antecessores.</p>
-
-<h3>Arrhas de D. Constança</h3>
-
-<p>«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do
-Algarve a quantos esta carta virem Faço saber que eu<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span>
-querendo attendêr cumprir, e guardar aquello, que ante
-mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto,
-e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante
-Dom Pedro meu filho, e de Donna Constança filha desse
-Dom Joam, dó, e assino a essa Donna Constança a Cidade
-de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com todas
-sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças
-que as aja e pessua essa Donna Constança por sas
-arras, e donadio bem, e compridamente em toda sa vida
-asim como as melhor ouveram as Raynhas de Portugal e
-tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas,
-termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna
-Constança, para as aver, e possuir livremente no dito
-tempo como dito he, e demais conhosco e affirmo que a
-posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e
-couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta
-Donna Constança e por ella como uzofructuario até que
-ella per si ou per outrem filhe ou mande filhar a posse
-corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas sobredictas
-em testimonio desto mandei dar áa dita Donna
-Constança esta minha carta aberta, e sellada do meu sello.
-Dante em Lisboa sette dias de julho ElRey o mandou Pero
-Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta e outo
-annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das <i>Provas da Hist. genealogica
-da Casa Real</i>, pag. 285.)<a name="FNanchor_54" id="FNanchor_54"></a><a href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a></p>
-
-<p>O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo
-hoje as suas cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu
-Archeologico de Lisboa, estabelecido no Convento do Carmo,
-obra do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira.</p>
-
-<p>É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D.
-Pedro I; D. Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam
-as cinzas á avidez dos profanos; Ignez de Castro, coroada
-depois de morta, repousando tranquillamente n’um mausoleu<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span>
-que photographava a grandeza do amor do seu principe,
-tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes
-dos vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres
-de Pedro I!...</p>
-
-<h3>Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão</h3>
-
-<p>Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento
-d’el-rei D. Duarte, que diz respeito á casa e estado
-de D. Leonor d’Aragão.</p>
-
-<p>«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo
-dito he, antre as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita
-Camera, q̃ tinha a Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as
-Villas de Alamquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres
-Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e Lugares
-e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha
-tinha em Camera, sejão feitas duas partes pelo dito
-Senhor Rey de Portugal (D. João I), ou por quem elle
-mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse, e escolhese
-para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira
-e aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera
-e aquella aja e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃
-logo quando a Deus plazera, q̃ seja Raynha, q̃ per aquel
-mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem provizom algua,
-ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha
-a Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e
-molimentos, e proveitos della e admenistraçom della, de
-presente o dito Senhor Rey de Portugal faz a dita divisom
-em duas partes, convem a saber Torres Novas, e Torres
-Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer,
-Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e
-escolhe por sua parte as ditas Villas de Alamquer, Cintra
-e Obidos.»</p>
-
-<p>(Tomo II das <i>Provas da Historia Genealogica da Casa
-Real</i>, por D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.)</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p>
-
-<h3>Contracto do casamento de D. Affonso V</h3>
-
-<p>Dom Affonso etc. a quantos esta carta virem fazemos
-saber que confiando nós como por graça de Deus he celebrado
-matrimonio por palavras de presente segundo hordenaçam
-e mandamento da nossa madre a santa Igreja de
-Roma antre nos e a muy alta e muy excelente Princeza
-e muito esclarecida e muito virtuosa Senhora Raynha Dona
-Isabel minha muito amada e muito presada Esposa filha
-do illustre e magnifico Principe Infante Dom Pedro Duque
-de Coimbra e Senhor de monte mor nosso muyto amado
-e prezado padre e tyo curador e Regedor por nos em
-nossos Reynos e Senhorios, confirmando outro si como
-atee o prezente antre nos ella dita Senhora nunca foi
-feito algũ contracto sobre ou por razão do dito matrimonio
-porque ella fosse dotada de algũ dote que nos por ella
-ou outrem fosse dado ou promettido pera soportamento do
-carrego do dito matrimonio nem outro si fosse a ella dada
-provisão de alguas Terras ou villas que ouvesse por
-camera em sua vida nem outro si segurança de asentamento
-de certas rendas de dinheiros que ouvese em cada hũ
-anno em sua vida pera soportamento do seu Real estado,
-como todo esto sempre dantigamente ouverão as Rainhas
-que nos Tempos passados forão em estes Reynos nem
-porque outro si ajamos a ella promettidas alguas arras
-por honra de sua pessõa, no caso que o dito matrimonio
-aconteça sêr separado por fallecimento nosso, as quaes
-cousas per uzança geral guardada per todas as partes
-do mundo antre os Principes Cristãos de similhante estado
-specialmente em estes Reynos sempre forão costumados
-em similhante caso de se prometem de hua parte a
-outra, por ende querendo nos este provér como he rezãn considerando
-a cerca dello primeiramente o servisso de Deus
-y os muitos e grandes e extremados serviços que nos
-tempos passados com grande lealdade avemos recebido e<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span>
-ao presente recebemos em cada hũ dia, e ainda esperamos
-receber ao diante do dito Infante D. Pedro nosso Padre e
-Thio etc por conservação de nossa pessoa e exaltamento
-do nosso Real Estado, e bem a sy grande honra de nossos
-Reynos e Senhorios. Considerando outro si como a nosso
-Senhor Deus por sua santa mercê dotou a dita Senhora
-Rainha de muitas grandes e extremadas virtudes etc. por
-as quaes com grande rezão a devemos sobre todas sempre
-muy grandemente prezar e amar verdadeiramente de nosso
-proprio motu certa sciencia poder absolucto sem nos ella
-nem outrem em seu nome por sua parte esto requerer,
-louvamos, approvamos e confirmamos o dito matrimonio,
-asi antre nos e ella feito e celebrado por mandamento e dispensação
-de N. Senhor o Santo Padre Eugenio quarto, e
-este fazemos pelas razõens suso ditas e ainda pelos grandes
-dividos que entre nos e ella a Deus aprove serem, não
-embargantes de quaesquer Leys Imperiaes ou Ordenaçoens
-de nossos Reynos, ou qualquer uzança asi geral como
-special que a este em parte ou em todo seja contrario
-porque as rezoens suso ditas e cada hũa d’ellas nos constrangem
-naturalmente per o asi fazermos, e querendo outro
-si prover a ella dita Senhora Raynha acerca das terras e
-villas que as Raynhas d’estes Reynos nos tempos passados
-em ellas costumavam avêr por Cameras, por rezão de seus
-matrimonios e bem asy acerca do assentamento de certas
-rendas de dinheiro que por similhante guiza costumavam
-daver para soportamento de seus Reaes Estados e outorgamos
-queremos e mandamos que a dita Senhora Rainha haja
-por rezão do dito matrimonio em toda sua vida todolas
-terras e Villas que a Rainha D. Leonor minha muita amada
-e presada madre Senhora de louvada e gloriosa memoria,
-a que dê Deos o seu santo Paraiso ouve e pessuyo por
-causa do seu matrimonio depois que por a graça de Deos
-foi Rainha destos Reynos e em elles viveo as quaes Villas
-e terras nos queremos e mandamos que a dita Senhora
-Rainha haja em toda a sua vida em toda sua jurdição alta
-e baixa civel e crime méro mixto Imperio com todolos<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span>
-padroados das Igrejas que ha em as ditas terras que a nos
-de direito pertençem e bem asi todolas rendas e direitos
-Reaes, que as ditas Villas e terras renderẽ por qualquer
-guiza que seja e com todolas perogativas privilegios e graças
-e liberdades que a dita Senhora Raynha D. Leonor
-minha madre forão otrogadas em qualquer tempo do mundo
-e milhor se as ella milhor poder aver, e queremos que
-ella possa poer de sua mão em seu nome Ouvidor que ouça
-e desembargue todolos feitos das ditas Villas asi crimes como
-civeis, e bem asi tabelliaens os quaes se chamẽ seus e
-por sua auctoridade façam todolas escrituras pruvicas que
-a seus officios pertenção as quaes cousas o dito Ouvidor e
-tabeliaens faram asi e tão compridamente como costumarão
-de fazer os Ouvidores e tabelliaens das outras Raynhas
-que foram nos tempos passados em estes Reynos, specialmente
-no tempo da dita Senhora Raynha minha madre,
-depois que deles foi Raynha e bem asi queremos que posa
-hi poer de sua mão todolos outros Officiaes que ella entender
-que são compridouros para requerer arecadar todolos
-direitos que em elas aver posa, asim tão cumpridamente
-como nos o fazemos e fazer podemos nas nossas terras
-que se por nós e em nosso nome correm e quanto he ao
-asentamento e certas rendas de dinheiro que as Rainhas
-nos tempos passados acostumaram aver em estes Regnos
-pera suportamento de seus Reaes estados otorgamos queremos
-e mandamos, que a dita Senhora Rainha aja de nos,
-por acentamento em cada hu anno por toda sua vida hu
-milhão cento sesenta e cinco mil reis da moeda que agora
-corre comvem a saber, de trinta e cinco livras o real,
-por quanto fomos certo que o milhão e quinze mil reaes
-avia em asentamento a dita Senhora Rainha minha Madre
-por causa do seu Cazamento, e o cento e cincoenta mil
-lhe acrecentamos para seus vestidos de pano douro e de
-seda que a dita Senhora Raynha minha madre avia do
-thesouro do Senhor Rey meu Padre, os quaes dinheiros
-lhe já temos asentados dentro em esta Cidade na ciza dos
-panos, e querendo outro si prover a dita Senhora Raynha<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span>
-acerca das arras que similhantes Princezas e Senhoras em
-tal caso costumam de avêr por honra de suas pessoas, no
-caso de separação de seus matrimonios, outorgamos e queremos
-e mandamos que separado o dito matrimonio, por
-seu falecimento da vida d’este mundo, em tal caso seus
-herdeiros ajam de nos ou de nossos sucessores segundo o
-caso acontecêr, por arras e em nome de arras, vinte mil escudos
-douro da moeda ora corrente em estes nossos Reynos
-das quaes ela podera despuer a todo o tempo e como lhe
-aprouger e estes vinte mil escudos douro, queremos e mandamos
-que lhe sejam pagos pelas rendas das ditas Villas
-e acentamento que lhe asi ja temos posto, e asentado como
-dito he, as quaes rendas todas e acentamentos por falecimento
-da dita Senhora Rainha os officiaes que por elo foram
-postos averam asi tão cumpridamente como a dita
-Senhora Rainha em sua vida over e não serão dezapoderados
-delas por algu caso que acontecer posa athe serem
-cumpridamente pagados os ditos vinte mil escudos pera
-os entregarem a seus testamenteiros, ou a quem ela pera
-elo ordenar, pera os despender segundo a ordenação que
-ela dita Senhora Raynha em sua vida pera elo ordenar e
-despozer a toda sua vontade, as quaes couzas todas e cada
-hua delas prometemos e juramos por nossa Fee Real
-como Rey Catholico, por nos e por todos nossos successores
-que ao diante em qualquer tempo forem, de lhes
-guardar cumprir e manter, e de feito realmente cumpriremos
-e guardaremos e faremos conter e guardar, bem
-fiel e verdadeiramente a todo nosso cumprido poder cesante
-toda a arte, e mao engano e não daremos favor ajuda
-nem conselho a alguma pesoa de qualquer estado e condição
-preeminencia que seja, ainda que a nos seja muito
-conjunta em qualquer grao de devido e parentesco que
-ser posa, pera contra elo vir em parte ou em todo, de
-feito nem de direito em juizo nem fora delle, em puvrico
-nem escondido daqui em diante pera todo o sempre ja
-mais por algua cousa ou rezom, pasada presente ou futura
-de qualquer natura calidade ou condiçã que seja<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span>
-ou ser posa ainda que tal seja, que ao presente pelo entendimento
-dos homens não posa ser alcançada porque
-nosa tenção e vontade inteiramente he, que todalas ditas
-cousas lhe sejã cumpridas e guardadas em todo o tempo,
-asi tão cumpridamente como em esta nosa Carta he
-conthéudo, e prometemos ainda e juramos em nosa Fee,
-que nunca empetraremos nem pediremos beneficio de restituição
-outorgado per direito aos meores de vinte e cinco
-annos, pera desfazer alguns promitimentos, porque depois
-ao diante em algu tempo se achem lezos ou damnificados
-nem outro algu qualquer privilegio ou beneficio geral ou
-especial, outorgado aos menóres de vinte e cinco anos,
-ou aos Rex como pessoas puvricas e em direito priviligiadas
-porque nós de noso propio moto certa ciencia e
-poder asim ordinario como absolucto renunciamos todos
-os ditos privilegios e beneficio, e queremos e outorgamos
-e mandamos por nos e por todolos nosos sucessores, que
-ao diante forem, que nos nem eles nunca uzaremos de
-taes beneficios privilegios asi por direito outorgados ao
-menor de vinte e cinco annos, ou ao Rey ou como Rey,
-porque as couzas todas suso ditas e cada hua delas ja
-mais em algu tempo posão ser quebrantadas anuladas ou
-conronpidas ante as faremos sempre, todos manter conprir
-e guardar asi tão conpridamente como suso dito he
-declarado, e por maior firmeza de todo o suso dito, de
-noso moto proprio e certa ciencia, e poder absolucto asi
-como Rey suprimos qualquer falecimento de solemnidade
-de feito ou de direito asi geral como especial que em esta
-nosa carta faleça, por cujo falecimento em algu tempo
-ella posa ser retrautada casada e irritada, ou anichilada
-porque queremos e mandamos como dito he que tal falecimento
-ou falecimentos nem enbargantes esta nosa Carta
-com todalas cousas en ela contheudas, sempre em todo o
-tempo ja mais ser firme rata e valiosa asi como se os
-ditos falecimentos, ou cada hu deles em ela não ouvese
-e em testemunho deste lhe mandamos dar esta nosa Carta
-firmada de nosso verdadeiro sinal e aselada com noso<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span>
-selo de chumbo dante em a mui nobre e sempre leal cidade
-de Lisboa seis dias de mayo João Gonçalves a fez
-anno do Senhor Jesu Christo 1447 annos.</p>
-
-<p>(Tomo 2.ᵒ das <i>Provas da Historia Genealogica</i>, pag 48;
-o original está na Torre do Tombo, gaveta 17, maço 1,
-n.ᵒ 12.)</p>
-
-<h3>A descendencia do Infante D. Pedro</h3>
-
-<p>Depois do desastre d’Alfarrobeira, a 10 de dezembro de
-1449, D. Affonso V, dominado pelos infames promotores
-d’aquella tragedia, declarou criminosa a memoria de seu
-tio. Este acto, suggerido pelos ambiciosos que invejavam
-os bens do duque de Coimbra, explica-se pela necessidade
-de macular a memoria do Infante, para ser licito o confisco
-de sua casa, que, no caso contrario, passaria aos herdeiros,
-seus legitimos filhos.</p>
-
-<p>D. Antonio Caetano de Souza na <i>Historia Genealogica</i>
-(tomo II, cap. II, pag. 76-77) faz a verdadeira apotheose
-de D. Pedro, condemnando asperamente o procedimento dos
-seus inimigos, <i>que não nomeia</i>.</p>
-
-<p>Quem conhece o escriptor cortezão de D. João V, deve
-ter em conta este facto, em vista do duque de Bragança
-e seu filho o conde d’Ourem terem sido promotores da catastrophe.
-Para mostrar a vehemencia, embora cortezã, do
-chronista, trasladamos um trecho da sua critica: «<i>chegando
-a tanto o odio dos mesmos, que lhe erão obrigados,<a name="FNanchor_55" id="FNanchor_55"></a><a href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a>
-que aconselharão El-Rey o privasse da sepultura, que El-Rey<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span>
-seu pay lhe mandára lavrar no Mosteiro da Batalha;
-e assim sem distincção foy sepultado na Igreja d’Alverca
-como se fôra hum dos miseraveis, que perecerão n’aquelle
-dia, parecendo-lhes que d’este modo escurecião a sua memoria,
-ficando na das gentes abominada a de taes Conselheiros.</i>»</p>
-
-<p>Não se pode dizer mais, quando o crime repugna e o
-decôro servil obriga o historiador a ser compassivo e benevolo.
-Bom seria que D. João V recommendasse ao erudito
-Souza, a verdadeira justiça, de que acolhesse a vangloria
-da mal disfarçada lisonja, que mais tarde, á luz da
-critica sensata e imparcial, desappareceria como o fumo
-afugentado pelo vento rijo da verdade. Esta é sempre a
-mesma, para conforto dos opprimidos das ambições, das
-invejas e vinganças torpes. Póde, como o sol offuscar-se
-um tanto, mas logo em seguida, desfeita a nuvem, vem
-brilhar n’um ceo azul e tranquillo. Deus, nos seus designios
-insondaveis, determinou que os homens, como D. Pedro,
-Duarte Pacheco, Affonso d’Albuquerque e Luiz de Camões,
-tivessem durante a vida o rigor da tormenta da escoria
-social. Louvado seja Elle! Quão maior é a tempestade,
-maior é a força da nau que lhe resiste. Os grandes
-vultos são como as penedias dos litoraes; açoutadas pela
-furia das ondas, afogadas pelo mar buliçoso, ao descer da
-maré, ao serenar dos elementos, apparecem brilhantes á
-luz do sol, com o seu tapete de algas e com os seus lagos
-salinos, provas evidentes da sua resistencia!</p>
-
-<p>Na mesma <i>Historia Genealogica</i> vem enumerados os
-filhos do Infante, os seus feitos e o seu fim; mais accentuadamente,
-o sr. Oliveira Martins, na sua excellente obra
-<i>Os Filhos de D. João I</i> (cap. XII, pag. 347-358) descreve
-a generosa prole, uma das mais conspicuas da dynastia
-d’Aviz.</p>
-
-<p>Notarei que de todos os seus filhos, quem teve descendencia
-foi D. Izabel, esposa de D. Affonso V e que logo
-na segunda geração, a linha do Infante só foi continuada
-pela bastardia. D. João II, seu neto, teve da rainha D.<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span>
-Leonor, sua mulher, um filho, D. Affonso, que morreu
-d’um desastre e não deixou successão (veja-se pagina 67);
-com este infausto acontecimento extinguiu-se a prole legitima
-de D. Pedro, que foi continuada por D. Jorge, bastardo
-de D. João II, que recebeu o titulo de duque de Coimbra,
-em memoria de seu illustre bisavô. Casou o principe
-D. Jorge com D. Brites de Vilhena, filha do senhor D. Alvaro,
-irmão do duque de Bragança D. Fernando II, e progenitor
-da casa de Cadaval.<a name="FNanchor_56" id="FNanchor_56"></a><a href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p>
-
-<p>D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista
-d’Alfarrobeira; e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima
-immolada ás ambições do irmão!... A grande arvore
-bragantina começava a dominar com suas raizes, não
-só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia
-e o sangue generoso do unico homem que ousára
-impedir os seus vôos quando se alargavam para além dos
-limites da equidade e da justiça.</p>
-
-<h3>Affonso d’Albuquerque</h3>
-
-<p>Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do
-Paraiso, entre Alhandra e Villa Franca. Educou-se na côrte
-de D. Affonso V, que em 1480 o mandou na esquadra
-contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489,
-D. João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de
-defender a fortaleza de Graciosa, junto a Larache. Em
-1503 foi a primeira vez á India, a bordo da nau <i>S.
-Thiago</i>, soffrendo grandes tormentas durante a viagem.
-A 25 de janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a
-Lisboa, nos fins de julho do mesmo anno. El-Rei D. Manuel,
-sciente do seu alto merito encarregou-o em 1506 de
-tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span>
-da Cunha, levando comsigo a nomeação de successor a
-D. Francisco d’Almeida.</p>
-
-<p>Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino
-quilate, diplomata e guerreiro, soube levantar o nome
-portuguez nas remotas paragens, onde a vontade regia o
-tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando
-de o domar não só pela força das armas, mas tambem
-pelas exterioridades do fausto; assim em Goa tratava-se
-como principe, habitando o palacio do Sabayo e comendo
-ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e por
-córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no
-terreiro dançavam, durante as refeições.</p>
-
-<p>Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum
-dos maiores vultos de toda a humanidade: a perseguição
-cruel dos invejosos, dos pobres miseraveis que julgam
-poder desfazer o que a Providencia creou! Albuquerque
-foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este
-infame empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo
-Soares d’Albergaria, que D. Manuel, na mesma occasião de
-demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão de Cochim
-e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto
-ao entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da
-<i>Flor do Mar</i>. Estava doente e os padecimentos agravaram-se-lhe
-com a ingrata nova.</p>
-
-<p>Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando
-para aqui o que d’ella refere o seu proprio filho, nos
-<i>Commentarios</i>:</p>
-
-<p>«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado
-outro governador, e seus inimigos muito favorecidos d’el-rei,
-alevantou as mãos e deu graças a Nosso Senhor e disse:</p>
-
-<p>«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com
-ElRei por amor dos homens, bom é acabar.</p>
-
-<p>«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas
-que levavam para os mercadores d’Ormuz, em que se
-dizia, que se não tinham dado a fortaleza a Affonso d’Albuquerque,
-que lh’a não dessem, porque era vindo outro
-governador, que faria tudo o que elles quizessem.</p>
-
-<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p>
-
-<p>«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza
-que se ficava acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque
-queimar todas, e despediu os mouros que se fossem
-e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu testamento,
-em que se mandava enterrar na sua capella, que
-tinha feito em Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma
-cédula, em que mandou que os seus ossos, depois da
-carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras palavras
-que houve por escusado escrever. E acabado isto
-escreveu uma carta para D. Manuel, que dizia assim:</p>
-
-<p>«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou
-com um soluço que é signal de morte. N’esses Reinos
-tenho um filho: peço a Vossa Alteza que m’o faça grande,
-como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com
-minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena
-de minha benção, que vol-os requeira. E quanto ás
-cousas da India não digo nada, porque ella fallará por si
-e por mim.»</p>
-
-<p>«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia
-ter em pé, pedindo sempre a Nosso Senhor que o levasse
-a Goa e alli fizesse d’elle o que fosse mais seu serviço. E
-sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou que lhe
-fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre
-Affonso, physico. E porque, com grande fraqueza que
-tinha, não comia nada, mandou que lhe trouxessem um
-pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno
-de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau
-surgir na barra, sabbado de noute, quinze dias do mez
-de dezembro. Quando disseram a Affonso d’Albuquerque
-que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas graças
-a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle
-tanto desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o
-vigario geral, que era já vindo de terra, e Pero Dalpoem,
-secretario da India, que elle deixou por seu testamento)
-abraçado com o crucifixo; e fallando sempre disse ao vigario
-geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão
-de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre<span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span>
-muito devoto, porque n’ella e n’aquella Cruz, que era
-similhante da em que Nosso Senhor padecera, e nas suas
-Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E mandou
-que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era
-commendador) para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora
-antes da manhã, deu a alma a Deus. E alli acabaram todos
-os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação d’elles.»</p>
-
-<p>Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice;
-por essa circumstancia demos a palavra ao chronista dos
-feitos do grande portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de
-Albuquerque, a quem D. Manuel, querendo recompensar os
-feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome.</p>
-
-<p>Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei
-de Portugal, Affonso d’Albuquerque escreveu os <i>Commentarios</i>,
-obra chamada pelo Dr. Antonio Ferreira, <i>uma nua
-e chã pintura</i>. Hoje ignora-se a certa paragem dos restos
-do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este
-facto demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento
-da Graça, em Lisboa, onde o corpo estava depositado, na
-capella-mór da igreja, em sepultura particular. Como alguem
-invejava o local e deu mais avultada quantia, os
-frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque,
-sobre a posse do tumulo. A estupidez (este é o
-termo) das justiças do seculo XVII validaram a pretenção
-dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque foram
-trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo
-se em caixão documentado, ou confundidos á solta com
-as numerosas ossadas ahi depositadas. Bom é que se estude
-este assumpto e que se procurem os restos mortaes d’um
-dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de
-todo o mundo civilisado.</p>
-
-<p class="tb">A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo
-Soares d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span>
-a grandiosa obra do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso
-e cruel. Os povos de Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque
-esteve na capella de Nossa Senhora da Serra,
-vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe
-protecção para as aleivosias dos portuguezes.</p>
-
-<h3>A Infanta D. Maria</h3>
-
-<p>Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de
-1521, sendo filha d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa
-D. Leonor d’Austria. Tinha apenas dois annos quando
-sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio de 1523) para
-junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e desamparada,
-entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna
-Blasfet, camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo
-dos cuidados maternaes, até que D. João III veiu a desposar
-a princeza D. Catharina, irmã de sua madrasta. A
-nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual
-como ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas
-lettras, sciencias e artes.</p>
-
-<p>Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia
-onde se juntavam os artistas e litteratos, attrahidos
-não só pelo culto scientifico mas tambem pela belleza imponente
-e pela figura magestosa da Augusta Senhora que
-sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de
-mulher com o tracto affavel para com todos, com a protecção
-e a estima ao abandonado da fortuna, que tivesse
-talento como apanagio da Divindade. Viveu a infanta no
-auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos
-enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas
-(Anna e Luiza), Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de
-Gil Vicente), Joanna Vaz, e tantas outras que seguiram a
-derrota sublime do genio portuguez.</p>
-
-<p>Depois de ter sido requestada por varios principes da
-Europa; casamentos estes que a politica e a avareza de<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span>
-seu irmão D. João III lhe veiu a tolher, falleceu a Infanta
-D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos antes da
-morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte
-soneto:</p>
-
-<div class="poetry-container">
-<div class="poetry">
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Que levas, cruel morte? Um claro dia;</div>
-<div class="verse">A que horas o tomaste? Amanhecendo;</div>
-<div class="verse">Entendes o que levas? Não entendo;</div>
-<div class="verse">Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia.</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Seu corpo quem o goza? A terra fria;</div>
-<div class="verse">Como ficou sua luz? Anoitecendo;</div>
-<div class="verse">Lusitania que diz? Fica dizendo,</div>
-<div class="verse">«Emfim não mereci Dona Maria.»</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Mataste quem a viu? Ja morto estava;</div>
-<div class="verse">Que diz o seu amôr? Fallar não ousa;</div>
-<div class="verse">E quem o faz calar? Minha vontade;</div>
-</div>
-<div class="stanza">
-<div class="verse">Na morte que ficou? Saudade brava;</div>
-<div class="verse">Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa,</div>
-<div class="verse">Mas fica que chorar sua beldade.</div>
-</div>
-</div>
-</div>
-
-<h3>Concerto entre D. Leonor d’Austria e sua
-irmã D. Catharina, sobre os bens da Casa
-das Rainhas.</h3>
-
-<p>Dom Joam per graça de Deos Rey de Portugal e dos
-Algarves d’aquem e d’alem mar em Africa Senhor de Guiné
-e da Conquista, navegaçãm, commercio da Ethiopia, Arabia,
-Persia e da India etc. A quantos esta minha carta
-virem Faço saber que entre as cousas que foram capituladas
-e assentadas no contracto do casamento de El-Rey
-meu Senhor e padre que santa gloria haja com a Raynha
-Leonor sua mulher minha Senhora madre lhe foi outorgado<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span>
-que o dito Senhor Rei meu padre lhe desse as Terras
-que tinha a Senhora Raynha Dona Leonor sua irmã, minha
-tia que santa gloria haja se vagassem logo em vagando
-com todo aquello que ella das ditas terras entam possuya
-como compridamente he contheudo no dito contracto de
-seu casamento e por fallecimento da dita Senhora Raynha
-minha tia vieram á dita Senhora Raynha D. Leonor minha
-madre a Cidade de Silves, Alvôr e Villas de Faram no
-Reyno do Algarve e as Villas de Obbidos, Alamquer, Sintra
-e Aldea Gallega e Aldeia Gavinha com todos seus termos,
-terras, direitos, rendas, fóros, tributos e pertenças
-e com todas as suas jurdições civis e crimes méro mixto
-Império e com os Padroados das Igrejas e dadas de tabelliaens
-e de todos os outros officios que eram da dada e
-provimento da dita Senhora Raynha Dona Leonor minha
-tia e por quanto hora com minha autoridade e consentimento
-a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha madre
-se concertou com a Raynha minha sobre todas muito
-amada e presada molher, sua Irmãa para lhe leixar e virem
-a ella a dita Cidade de Silves e Villas e terras, rendas
-direitos jurdições dadas d’officios Padroados das
-Igrejas e todas as outras cousas que ella tinha e de direito
-por bem do dito seu contracto lhe pertencião e como
-tudo tinha havia e possuia a dita Senhora Raynha Dona
-Leonor minha tia por certa satisfaçam e paga que por
-isso lhe faz nos quatro contos de maravedis que ella tinha
-em Castella do Emperador seu Irmão segundo compridamente
-he contheudo e declarado no contracto de troca e
-escambo e permudaçam que antre ellas foi feito com meu
-consentimento e do dito Emperador seu Irmão pello que
-a elle nisso tocava fazer de cujas provisões os treslados
-são postos de verbo a verbo no dito concerto e contracto
-a Raynha minha sobre todas muito amada e presada molher
-me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha
-carta de doaçam e mercê da dita Cidade Villas terras rendas
-e de todas as outras cousas que á dita Raynha sua
-irmãa pertencem e havia davêr e visto por mim seu requerimento<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span>
-pello muy grande amor que lhe tenho e desejo
-de em todas suas cousas lhe comprazer, visto o dito
-contracto e concerto feito antre ella e a dita Raynha Dona
-Leanor sua Irmãa minha Senhora madre tenho por bem e
-lhe Faço pura e inrevogavel doação e graça para em todos
-os dias da sua vida da dita Cidade de Silves, Alvôr,
-Villas de Faram, Obbidos, Alamquer, Sintra, Aldeia Gallega
-e Aldeia Gavinha com todos os seus termos terras direitos,
-fóros, e tributos e pertenças e com as Alcayderias
-móres dos Castellos d’ellas, rendas e direitos que a ellas
-pertencem e com todas as suas jurisdições civeis e crimes
-mero mixto Império, resalvando para mim correição e alçada
-e com os Padroados das Igrejas e dadas dos tabelliaens
-e de todos os outros officios que na dita Cidade e
-Villas dava e de que provia a Senhora Raynha Dona Leonor
-minha tia e com todas as outras cousas de qualquer genero
-e callidade que sejam que ella nellas tinha havia e
-pessuya e melhor se ella com direiro o melhor poder ter
-e haver e dello uzar e como todo de direito pertence á dita
-Raynha Dona Leanôr minha Senhora e madre por bem do
-dito seu contracto de casamento. Porem mando aos meus
-Corregedores Contadores Almoxorifes Recebedores Juizes
-justiças officiaes e pessoas da dita Cidade Villas e terras
-e aos Fidalgos, Cavalleiros, homens bons e povo d’ellas e
-a quaesquer outros officiaes e pessoas a que esta minha
-carta fôr mostrada e o conhecimento della pertencêr que
-dêm á dita Raynha minha molher e a seu certo recado a
-posse da dita Cidade de Silves Alvôr e Villas de Faram Obbidos
-Alamquer Sintra e Aldeagallega e Aldea Gavinha com
-todos seus termos terras rendas direitos fóros tributos e
-pertenças Alcayderias mores e com todas suas jurisdições
-civeis e crimes mero e mixto Imperio resalvando para mim
-somente a correição e Alçada e com os Padroados da Igreja
-dadas de Tabelliaens e de todos os outros officios que dava
-e provia a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia
-e de todas as outras cousas que ella nellas tinha havia
-recadava e possuya e lhe leixem todo haver recadar e pessuir<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span>
-e dello usar por sy e por seus officiaes e pessõas que
-para ello ordenar e fazer como em cousa sua propria porque
-eu lhe faço assy de tudo doaçam e graça em sua vida
-como dito he sem duvida nem embargo algum que a ello
-lhe seja posto porque assy he minha mercê e mando ãos
-dittos meus Contadores que esta carta registem no livro
-dos proprios das comarcas para sempre se saber a forma
-desta doação a qual mando assy mesmo aos Juizes da dita
-Cidade e Villas que façam tresladar nos livros das Vereações
-Dada em a Cidade de Lisboa a vinte e nove dias de
-Outubro Bartholomeu Fernandes a fez Anno de nosso Senhor
-Jesus Christo de mil quinhentos vinte oito annos.</p>
-
-<p>(Tomo 2.ᵒ das <i>Provas da Historia Genealogica da Casa
-Real</i>, pagina 425). A doação que D. João III fez a sua
-mulher, de toda a Casa das Rainhas, copiamol-a na Torre
-do Tombo, collecção de S. Vicente, vol. XX, fl.ᵃˢ 204,
-estando encorporada na doação de D. Luiza de Gusmão,
-que adeante publicamos. Pouca differença faz do Concerto,
-existindo, ainda assim, alguma troca de palavras e data
-posterior.</p>
-
-<h3>Doação aa sñra Raynha D. Luiza da Jurisdição
-de suas terras, e da Caza de
-sua fazenda e governo e despacho della.</h3>
-
-<p>Dom Joam por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves
-daquem e dalem mar, em Africa sñor da Guiné e
-da Conquista navegação comercio da Etiopia Arabia Persia e
-da India etc. Faço saber aos q̃ esta minha carta virem
-que a Raynha D. Luiza minha sobre todas muito amada
-e prezada molher me enviou a prezentar as copias de hũa
-carta de doação e confirmação q̃ pello sñor Rey Dom Joam
-o 3.ᵒ foi outorgada á sñra Raynha D. Caterina sua molher<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span>
-das Terras chamada da Raynha com todas suas rendas
-direitos reaes, officios, Padroados, Alcayderias móres,
-jurisdições Ouvidor e Juizes de suas terras e mais faculdades
-passada no anno de mil quinhentos e vinte e nove,
-e de hũa provisão passada no anno de 1550 da jurisdição
-governo e administração de sua faz.ᵈᵃ Vedor Ouvidor e officiaes
-da Casa e despacho della, e sua Chancelleria, a
-que vinham as appellações e aggravos dos Contadores e
-Juizes dos direitos reaes, das quaes o theor é o seguinte:—Dom
-João por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves
-etc.</p>
-
-<div class="sidenote">Doação
-de D. João
-III, da Caza
-das Rainhas
-a sua mulher
-D. Catharina
-d’Austria.</div>
-
-<p>A todos quantos esta minha carta virem faço
-saber que entre as cousas que foram capituladas e assentadas
-no contracto do casamento d’ElRey meu sñor e Padre
-que santa gloria aja e a Raynha D. Leanor sua molher
-minha sñra e madre lhe foi outorgado que o dito
-sñor Rey meu padre sñor d’estas terras que tinha a sñra
-Raynha D. Leanor sua irmã minha tia q̃ s.ᵗᵃ gloria aja se
-vagassem, logo em vagando com todo aquello q̃ ella das
-ditas terras entam possuia, como compridam.ᵗᵉ era conteudo
-no dito cõtrato de casamᵗᵒ que por falecimᵗᵒ da dita
-sñra Raynha minha tia vierão á dita sñra Raynha D. Leanor
-minha madre, a Cidade de Silves, Alvôr, villas de
-Faram no Reyno do Algarve, e as villas de Obidos Alanquer
-Sintra Aldea Gallega e Aldea Gavinha cõ todos seus
-termos terras direytos rendas foros tributos e pertenças e
-com todas suas jurisdições crimes e civeis mero e mixto
-imperio e com os Padroados das Igreijas e dadas de Tabaliaes
-e de todos os outros officios que eram da dada e
-provimᵗᵒ da ditta sñra Raynha D. Leanor minha tia e porqᵗᵒ
-hora com minha autoridade e consintimento a ditta
-sñra Raynha D. Leanor minha madre se consertou com a
-Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada molher
-sua irmaa para lhe leixar e virem a ella a ditta Cidade
-de Silves e villas e terras rendas direytos jurisdições dadas
-d’officios padroados das Igrejas e rendas e as outras cousas
-que ella tinha e de direito por bem do dito seu contracto
-lhe pertencião e como todas tinha e avia e possuhia a<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span>
-dita sñra Raynha D. Leanor minha tia por certa satisfação
-que paga que por isso lhe faz nos quatro contos de maravedis
-que ella tinha em Castella do emperador seu irmão,
-segundo compridamente he conteudo e declarado no
-Contracto de troca e escambo e permudação que entre
-ellas foi feito com meu consentimᵗᵒ e do dito emperador
-seu irmão pello q̃ a elle nisso tocava fazer, de cujas provisões
-os treslados sam postos de verbo no dito concerto
-e contracto, a Raynha minha sobre todas muito amada e
-prezada molher me pedio por mercê que lhe mandasse
-dar minha carta de doação e mercê da ditta cidade e villas
-e terras e rendas e de todas as outras cousas que a
-dita Raynha sua irmaa pertencem e avia de aver, e visto
-por mim seu requerimento pello mᵗᵒ grande amor que lhe
-tenho e desejo de em todas as suas cousas lhe aprazer
-visto o dito contrato e concerto feito entre ella e a dita
-Raynha D. Leonor sua irmaa minha sñra madre tenho por
-bem e lhe faço pura e irrevogavel doação e graça para
-em todos os dias de sua vida da dita Cidade de Silves
-Alvôr Villa de Faram Obidos Alamquer Sintra Aldea Gallega
-Aldea Gavinha com todos os seus termos e terras e
-foros tributos e pertenças e com as Alcayderias móres dos
-castellos dellas rendas e direytos q̃ a ellas pertence, e com
-todas suas jurisdições civeis e crimes mero e mixto imperio,
-resalvando para mim a Correição e alçada e com
-os Padroados das Igrejas e dadas de Tabaliaens e de todos
-os outros officios por suas cartas que na ditta Cidade
-e ditas villas dava e de que provia a sñra Raynha D.
-Leanor minha tia e quero e me praz que os juizes e tabeliães
-da ditta Cidade e villas e lugares e terras se chamem
-por ella assy como se chamavam pella ditta sñra
-Raynha D. Leanor minha tia o com todas as outras cousas
-de qualquer genero e qualidade que sejam q̃ ella nellas
-tinha e avia e possuhia e melhor se ella com dyreito o
-melhor poder ter e aver e dello uzar e como de dereyto
-pertence á ditta Raynha D. Leanor minha sñra madre por
-bem do ditto seu contracto de cazam.ᵗᵒ Porem mando aos<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span>
-meus Corregedores, Contadores Almxᵉˢ Recebedores Juizes
-Justiças officiaes e pessoas da dita cidade e Villas e Terras
-e aos fidalgos, cavalleyros, homês bons e Povo dellas
-e a quaesquer outros officiaes a quem esta minha carta
-for mostrada e o conhecimento della pertencer q̃ deem
-aa dita Raynha minha molher e a seu certo recado a
-posse da ditta Cidade de Silves, Alvôr, Villas de Farão,
-Obidos e Alemquer Sintra e Aldea Gallega, Aldea Gavinha
-com todos seus termos e terras rendas direytos foros tributos
-pertenças e Alcayderias mores e rendas dellas e
-com todas suas jurisdições civeis crimes mero e mixto
-imperio resalvando para mim somᵗᵉ a correição e Alçada
-e com os Padroados das Igrejas e dadas de Tabelliaes e
-de todos os outros officios que dava e provia a ditta sñra
-Raynha D. Leanor minha tia e de todas as outras cousas
-que ella nellas tinha e avia recadava e possuhia; e lhe
-leixem todo aver recadar e pussuhir e dello uzar por sy
-e por seus officiaes e pessoas que pera ello ordenar e fizer
-como em cousa sua propria, porq̃ eu lhe faço assy
-de tudo doação e graça em sua vida como dito he sem
-duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto,
-porq̃ assy he minha m.ᶜᵉ E mando aos ditos meus Contadores
-que esta carta registem no livro dos proprios das
-Comarcas pera sempre se saber a forma desta doação aqual
-mando assy mesmo aos juizes da dita Cidade e villas q̃
-fação tresladar nos livros das Vereações. Dada em a Cidade
-de Lisboa. «Bxᵐᵒⁿ frz a fez» a quatro do mes de Janʳᵒ
-anno de nosso sñor Jesu xpto de mil e quinhentos e vinte
-e nove annos.</p>
-
-<p><i>E a outra carta do anno de mil e quinhentos e sincoenta
-tocante ao regimento e despacho da Caza e officiaes
-de sua faz.ᵈᵃ he a seguinte.</i> Eu ElRey faço saber a
-vós Juizes e Vereadores e Povo da V.ᵃ de Alenquer q̃ por
-alguns resp.ᵗᵒˢ que moverão a Raynha minha sobre todas
-m.ᵒ amada e prezada molher, e pello assy sentir pera
-mais seu descanço ella ouve por bem e me pedio que eu
-provesse e mandasse prover de justiça as Cidades e Villas<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span>
-que ella ha em meus Reynos e assy provesse nella os
-officios de justiça quando vagarem como tudo me parecesse
-e he necessario pera bem serem regidas e governadas
-em justiça e ficando a ella as Alcayderias mores e
-padroados das Igrejas e direytos rendas q̃ ella ha e lhe
-pertencem nas ditas suas Cidades e Villas e de que ella
-esta em posse e a jurisdição dos ditos direitos e rendas
-e dadas dos officios da arrecadação da dita faz.ᵈᵃ que
-hora tem nas ditas Cidades e Villas ou ao diante lhe
-parecer que são necessarios com as appellações e aggravos
-dante os ditos officiaes de sua faz.ᵈᵃ pera ella e o
-Vedor de sua faz.ᵈᵃ e ouvidor dos feitos della sem a
-serca dello os Juizes Corregedores e pessoas dos meus
-Reynos q̃ eu puzesse, conhecerem das cauzas q̃ tocarem
-á dita sua faz.ᵈᵃ e arrecadação d’ella, nem minhas Relações
-e justiças poderem conhecer das dittas Appellações
-q̃ dante os dittos officiaes vierem, porq̃ delles conhecerá
-o dito seu Védor da fazenda e ouvidor dos feitos della,
-ou outros Dezembargadores q̃ ella ordenar como hora
-conhecem e assy se cumprão nas dittas Cidades e Villas
-seus mandados e os dos dittos seus officiaes da faz.ᵈᵃ,
-como hora se cumprem e passarão na forma q̃ hora
-passam, e por folgar de em tudo comprazer á dita sñra,
-me pras e hey por bem de mandar prover de justiça as
-dittas Cidades e Villas e dar os officios dellas emqᵒ o
-assy a dita sñra ouver por bem e q.ᵗᵒ ás jurisdições das
-cousas de sua fazᵈᵃ e dadas dos officios da recadação
-della q̃ hora ha ou ao diante lhe parecer q̃ sam necessarios
-ella proverá como ouver por bem e seus mandados
-e do vedor de sua fazenda e ouvidor dos feitos della
-e de todos os outros officiaes de sua fazᵈᵃ passaram da
-forma que ategóra passaram e se cumprirão em tudo
-como ategóra cumprirão e as Appellações que sahirem
-dante os officiaes de sua fazᵈᵃ sobre couzas della e arrecadação
-de seus direitos e rendas viram ao dito seu Vedor
-da fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della e se despacharam
-com os Dezʳᵉˢ q̃ ella ordenar como se hora faz, sem Cᵒʳ ou<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span>
-jusᵃˢ minhas nem minhas Relações conhecerem de cousa
-algũa que toque a sua fazᵈᵃ e arrecadação de seus direitos
-e rendas nem das appellações nem aggravos q̃ sahirem
-dos ditos officiaes de sua fazᵈᵃ porq̃ de tudo hão de
-conhecer só seu Vedor da fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della
-com os Dezʳᵉˢ que ella ordenar como assima dito he, e
-como eu hora mando q̃ o Cᵒʳ em essa Comarca va a essa
-Villa e entre nella a fazer Correição como e pela manᵃ
-que faz nos outros meus lugares da dita Comarca, volo
-notifico asy o mando que lhe obdeçaes, em tudo cumpraes
-seus mandados, este registareis no livro da Camera dessa
-Villa com outra carta que sobre o dito caso vos escreve
-a dita sñra para a todos ser notorio e se cumprirem em
-tudo.</p>
-
-<div class="sidenote">Doação
-de D. João
-IV á rainha
-D. Luiza de
-Gusmão.</div>
-
-<p>Pantaleão Rebello a fez em Lisboa a seis do mez
-de mayo de mil quinhentos e cincoenta.—Pedindo-me
-a dita Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada
-mulher que porqᵗᵒ na Carta patente de Doação das ditas
-terras da Raynha q̃ para sua Camera Caza e estado por
-mim lhe fora outorgada, se continha que averia as dittas
-terras em sua vida com todas as rendas, direitos reaes,
-tributos, jurisdições, Alcayderias móres, offᵒˢ de justiça e
-sua fazᵈᵃ com os mais privilegios e prerogativas assy e
-da manʳᵃ que a sñra Raynha D. Caterina ultimamente
-as possuhira e estivera em posse e costume de uzar.
-O que tudo melhor cõstava das ditas cartas e provisão
-assima relatadas, hũa das terras rendas offᵒˢ e jurisdições,
-outra em q̃ se declara a jurisdição uzo e costume
-e modo do procedimento e despacho da Caza de
-sua fazᵈᵃ e offᵒˢ por ella creados q̃ nella andavam e de
-sua Chrᵃ e Contadores Juizes e Almoxᵉˢ da dita sua
-fazᵈᵃ, as quaes cousas senão achavam assi recopiladas
-em outra carta de doação, por serem mᵗᵒˢ e de diversos
-pontos particulares e em diversos tempos houvesse
-por bem de lhe conceder e confirmar as ditas cartas e provisão
-supprindo na primeira entre as terras nella declaradas
-as Villas das Caldas e salir do Porto que por as outras
-Prouvizões constava serem das sr.ᵃˢ Raynhas D. Leanor<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span>
-e D. Caterina e p.ᵃ em sua vida as possuirem excepto
-o que nellas ao Hospital das Caldas estava concedido
-para andarem todas nesta carta. E asy a provisão do q̃
-toca á jurisdição e poder que por ella se declara que lhe
-compete em sua faz.ᵈᵃ E visto por mim o q̃ me assy enviou
-pedir e as ditas carta e provisão e pello m.ᵗᵒ amor
-que lhe tenho e por m.ᵒ desejar de em tudo o q̃ me requerer
-e pedir lhe comprazer como é razão e por lhe fazer
-graça e m.ᶜᵉ de minha certa sciencia e poder real e
-absoluto, hey por bem e me praz de lhe conceder e confirmar
-em sua vida as ditas terras cartas doações jurisdições
-e previlegios com tudo o mais nelles conteudo assy
-e da man.ʳᵃ que as dittas Raynhas, e ultimamente a dita
-Raynha D. Cn.ᵃ as tiveram e melhor, se melhor por elles
-lhe competir, com declaração q̃ onde na sobredita carta
-reservo para mi Correição e Alçada, quanto á Correição,
-se entende que a farão os Corregedores com sua auctoridade
-assy e na fórma e casos que nos he patente e em outras
-de regim.ᵗᵒ e jurisdição de seu ouvidor e off.ᵉᵐ, passada
-no dia da feitura desta he declarado. Pello que mando ao
-Regedor da Caza da Supplicação e g.ᵒʳ da Caza do Porto
-e minhas Relações e Tribunaes e aos meus Juizes e jus.ᶜᵃˢ
-que a fação guardar e registar nos livros das Relações Camaras
-e Correições e outro sy mando aos ditos Corregedores
-Contadores Juizes e Just.ᵃˢ Vereadores e da governança
-das ditas Cidad.ᵉˢ e V.ᵃˢ que dem á dita Raynha e a
-seu certo recado e pessoa que lhe aprouver mandar com
-sua provisão de procuração a posse dellas com todos
-seus termos, e terras rendas direytos foros tributos Alcayderias
-móres, com suas rendas e todas suas jurisdições
-civeis e crimes mero e mixto imperio na forma sobredita
-e q̃ na dita carta e regim.ᵗᵒ das terras e jurisdição mais largam.ᵗᵉ
-he declarado e nas mais q̃ por mi concedidas e confirmadas
-q̃ a dita snr.ᵃ Raynha D. Cn.ᵃ em sua vida teve
-e de q̃ uzou e esteve de posse.</p>
-
-<p>E por firmeza de tudo o que dito he mandei dar esta m.ᵃ
-carta patente por mi assinada e passada pela m.ᵃ Cn.ᵃ<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span>
-Dada na Cidade de Lisboa aos dez dias do mez de janeiro
-Sotto mayor a fez........de mil seiscentos e quarenta
-e trez.</p>
-
-<p>(Archivo da Torre do Tombo—Collecção de S. Vicente,
-Volume XX, fl.ᵃˢ 204.)</p>
-
-<hr />
-
-<div class="footnotes">
-
-<h2>NOTAS</h2>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> O sr. commendador Guilherme João Carlos Henriques, publicou
-ha annos um bem elaborado livro: <i>Alemquer e seu concelho</i>. É esta
-uma obra puramente <i>local</i>, que informa todas as particularidades
-que dizem respeito á villa e suas freguezias, bem como aos outros
-pontos ruraes.</p>
-
-<p>A Historia <i>local</i> d’Alemquer está bem entregue ao sr. Guilherme
-Henriques e mesmo que haja alguem que se lembre hoje de escrevel-a,
-não fará mais do que ampliar o seu trabalho, ficando assim
-com a gloria incompleta. Não serei eu que sou seu amigo e que
-além d’isso, me prezo de ser leal, que lhe usurparei o logar; antes
-renovo aqui o pedido, que ha tempos fiz a sua ex.ᵃ, de uma segunda
-edição, augmentada, do seu livro, o que traria grande vantagem para
-os estudiosos e para os que prezam o bom nome da velha capital da
-Casa das Rainhas.</p>
-
-<p>Como sua ex.ᵃ verá pela Advertencia e pelo texto d’esta obra, a
-parte <i>local</i> está só no titulo d’ella. A minha esphera d’acção é outra
-muito differente; sou e serei um cabouqueiro, como me recommenda
-Oliveira Martins, mas no campo da Historia ha numerosas minas
-de diamantes.</p>
-
-<p>Esta nota não é dirigida ao espirito intelligente e cavalheiresco
-de sua ex.ᵃ, mas uma simples prevenção contra os mal intencionados
-ou ignorantes, que queiram desvirtuar as acções de cada um.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Archivo Nacional da Torre do Tombo, inquirições de D. Diniz;
-Livro 10, fl. 22 e 24 verso.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Figanière, obra citada, pag. 62.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Diniz, livro 1.ᵒ fl. 41.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> O original d’este documento encontrou-o Figanière no cartorio
-de Santa Clara, achando-se registado na chancellaria de D. Diniz,
-livro 3.ᵒ, fl. 33.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 46.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Fernando, Livro 1.ᵒ, fl. 107.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Com o desenvolvimento do commercio nas conquistas, tiveram
-as Rainhas varias rendas sobre diversas mercadorias.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> D. José Barbosa diz que o casamento de D. Affonso II se realisou
-em 1201; mas Alexandre Herculano affirma que só teve logar
-nos fins de 1208, ou principios de 1209.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> De todos os reis de Portugal, exceptuando os Filippes, os unicos
-que estão sepultados no estrangeiro, são dois bem desgraçados:
-D. Sancho II e D. Miguel I.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> O diploma é datado de Elvas, 25 de fevereiro de 1267, e acha-se
-na Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 19.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Affonso III, livro 1.ᵒ fl. 141.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> D. José Barbosa, no <i>Catalogo das Rainhas de Portugal</i>, diz que a
-rainha D. Beatriz de Gusmão falleceu a 27 de outubro de 1303; porém,
-o sr. João Pedro da Costa Basto encontrou na Torre do Tombo
-a data acima indicada, que Figanière menciona na sua obra <i>Memorias
-das Rainhas de Portugal</i>, pag. 121. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> D. Izabel d’Aragão foi beatificada por Leão X a 15 de abril de
-1516 e canonisada por Urbano VIII a 25 de maio de 1625.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> Não são concordes os historiadores quanto ao fallecimento de D.
-Constança. D. José Barbosa affirma que falleceu aos 13 de novembro
-de 1345; mas o <i>Obituario de S. Bartholomeu</i> diz que a morte teve
-logar no dia 27 de janeiro de 1349. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> D. Leonor Telles está sepultada no mosteiro de Nossa Senhora
-da Mercê de Valladolid.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> El-rei D. João I teve além do duque de Bragança, D. Affonso,
-uma filha bastarda, que foi D. Beatriz, que casou em 1405 com Thomaz
-Fitz Alan, conde de Arundel, primo da rainha D. Filippa de
-Lencastre. A mãe d’estes filhos foi Ignez Pires, que depois foi commendadeira
-de Santos.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> A 24 de julho de 1429, o senhor de Roubaix, como procurador
-do duque de Borgonha, recebia em Lisboa a infanta D. Isabel.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> O infante D. Pedro despozára em 1428 D. Izabel, filha de
-Jayme II, d’Urgel, e da infanta D. Izabel de Aragão.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Veja-se <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> <i>Jarreteira</i>; assim se dizia no tempo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> Do casamento do infante D. Pedro com D. Izabel d’Urgel, houveram
-os seguintes filhos: D. Pedro, condestavel, poeta e Mestre de
-Aviz; D. Izabel, rainha de Portugal; D. Filippa, recolhida em Odivellas;
-D. Brites, mulher do duque Cléves, senhor de Ravensteyn;
-D. João, principe d’Antiochia; e D. Jayme, cardeal. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Assim o affirma D. José Barbosa, no seu <i>Catalogo</i>, tantas vezes
-citado, e o P.ᵉ Francisco de Santa Maria na <i>Chronica dos Conegos
-Seculares de S. João Evangelista</i>; porém, D. Antonio Caetano de Souza,
-na <i>Historia Genealogica</i>, tomo 3.ᵒ, cap. 1.ᵒ, pag. 63, diz que o
-casamento de Affonso V teve logar em 1447, em vista do seu contracto
-que publicamos nas <i>Notas e documentos</i>. Por esse tractado se
-vê que o consorcio se realisou um anno antes do que lhe é marcado
-por Barbosa e pelo P.ᵉ Francisco de Santa Maria.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> A catastrophe de Alfarrobeira deu-se a 20 de maio de 1449; ficando
-o corpo do infante trez dias insepulto, até que o recolheram
-para a egreja d’Alverca, sendo d’ahi mudado para o castello d’Abrantes,
-depois para o mosteiro de Santo Eloy e ultimamente para a Batalha.
-Vid. <i>Historia Genealogica da Casa Real</i>, por D. Antonio Caetano
-de Souza, tomo 2.ᵒ, cap. 2.ᵒ, pag. 77.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> D. Leonor de Lencastre foi dotada pelo duque de Vizeu, D. Diogo,
-seu irmão, com a villa de Lagos e seu castello, direitos e rendas;
-mais tarde recebeu de seu marido a doação de Alemquer e d’outras
-villas, que el-rei D. Manuel lhe confirmou em 24 de março de 1496.
-Vid. as <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_26" id="Footnote_26"></a><a href="#FNanchor_26"><span class="label">[26]</span></a> Em 1495 imprimiu-se a <i>Vita Christi</i>; em 1505, os <i>Autos dos Apostolos</i>;
-em 1515, o <i>Boosco deleytoso</i>; e em 1518, o <i>Espelho de Christiania</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_27" id="Footnote_27"></a><a href="#FNanchor_27"><span class="label">[27]</span></a> Jaz sepultada no convento de Santa Izabel de Toledo.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_28" id="Footnote_28"></a><a href="#FNanchor_28"><span class="label">[28]</span></a> O principe D. Miguel nasceu em Saragoça a 24 de agosto de
-1498, e jaz sepultado na mesma cidade.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_29" id="Footnote_29"></a><a href="#FNanchor_29"><span class="label">[29]</span></a> Vasco da Gama regressou da sua viagem em 29 de julho ou de
-agosto de 1499.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_30" id="Footnote_30"></a><a href="#FNanchor_30"><span class="label">[30]</span></a> Depois ordenou-se que seu filho Braz d’Albuquerque tomasse em
-sua honra o nome de Affonso. Foi este o auctor dos <i>Commentarios
-d’Affonso d’Albuquerque</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_31" id="Footnote_31"></a><a href="#FNanchor_31"><span class="label">[31]</span></a> Veja-se <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_32" id="Footnote_32"></a><a href="#FNanchor_32"><span class="label">[32]</span></a> A rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel, nasceu em
-Cordova, aos 29 de junho de 1482 e recebeu-se por procuração com
-o rei de Portugal a 24 de agosto de 1500 e por palavra de presente
-na epocha acima mencionada. Como não chegou a sobreviver a sua
-cunhada D. Leonor de Lencastre nunca possuiu a Casa das Rainhas,
-tendo por mercê especial de seu marido a cidade de Vizeu e a villa
-de Montemór-o-Novo. (vid. <i>Historia Genealogica</i>, tomo 3.ᵒ, cap. V,
-pag. 229). Além d’estas terras, teve tambem o padroado da egreja
-de S. Pedro de Lordosa, varias tenças e a villa de Torres Vedras, que,
-como se verá nos <i>documentos</i>, não pertenceu á esposa de D. João II,
-como por lapso dissemos a paginas 6.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_33" id="Footnote_33"></a><a href="#FNanchor_33"><span class="label">[33]</span></a> O sr. Luciano Cordeiro o demonstrou cabalmente no seu livro
-<i>A Segunda Duqueza</i>; bem como destroe a lenda dos amores de D.
-João III com a madrasta. Louvores sejam dados ao illustre escriptor.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_34" id="Footnote_34"></a><a href="#FNanchor_34"><span class="label">[34]</span></a> D. Leonor d’Austria nasceu em Louvain a 15 de novembro de 1498.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_35" id="Footnote_35"></a><a href="#FNanchor_35"><span class="label">[35]</span></a> Veja-se a excellente obra do conde de Villa Franca, <i>D. João I e
-a alliança ingleza</i>, pag. 281.</p>
-
-<p>A infanta D. Maria foi uma das mais sabias e virtuosas princezas
-do seu tempo, e um dos mais brilhantes vultos da Renascença em Portugal.
-Nas <i>Notas e documentos</i> publicamos uns ligeiros traços biographicos
-d’esta senhora; bem como o soneto com que Camões celebrou a
-sua morte.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_36" id="Footnote_36"></a><a href="#FNanchor_36"><span class="label">[36]</span></a> Está sepultada no Escurial.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_37" id="Footnote_37"></a><a href="#FNanchor_37"><span class="label">[37]</span></a> Vid. D. José Barbosa, <i>Catalogo das rainhas de Portugal</i>. O casamento
-já se tinha realisado por procuração no Toro, a 11 de janeiro
-do mesmo anno. <i>Historia Genealogica</i>, livro 4.ᵒ, cap. 15.ᵒ, pag. 55.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_38" id="Footnote_38"></a><a href="#FNanchor_38"><span class="label">[38]</span></a> <i>Lusiadas</i>, canto IV, est. 95.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_39" id="Footnote_39"></a><a href="#FNanchor_39"><span class="label">[39]</span></a> El-Rei D. Manuel teve da rainha D. Maria, sua segunda mulher,
-além de outros filhos, o infante D. Duarte que nasceu em Lisboa, aos
-7 de septembro de 1515 e casou em Villa Viçosa (terça feira, 24 de
-abril de 1537) com D. Izabel de Bragança filha do duque D. Jayme e
-de D. Leonor de Mendóça, recebendo n’essa occasião o titulo de duque
-de Guimarães; d’este matrimonio houveram duas filhas: D. Catharina
-e D. Maria, que desposou o principe de Parma, Rainuncio. D. Catharina
-foi desde tenra edade destinada para mulher de seu primo o duque
-D. João I, realisando-se o consorcio aos 8 de dezembro de 1563.
-O seu filho primogenito foi D. Theodosio, mais tarde segundo do nome
-e pae d’el-rei D. João IV. D. Catharina falleceu a 15 de novembro de
-1614, respeitada dos soberanos de todas as nações, tratada como egual
-pelas testas coroadas, recebendo o tratamento <i>d’Alteza</i> e preparando o
-futuro poderoso da Casa de Bragança. Vid. <i>Hist. do Inf. D. Duarte</i>, do
-sr. José Ramos Coelho, tomo I, <i>Le Portugal et la maison de Bragança</i>,
-por A. A. Teixeira de Vasconcellos e <i>Historia Geneal. da Casa Real</i>,
-de D. Antonio C. de Souza, tomo 6.ᵒ.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_40" id="Footnote_40"></a><a href="#FNanchor_40"><span class="label">[40]</span></a> Sr. José Ramos Coelho, pag. 46 da obra citada.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_41" id="Footnote_41"></a><a href="#FNanchor_41"><span class="label">[41]</span></a> Torre do Tombo, collecção de S. Vicente, volumes XX, fl. 204.
-Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_42" id="Footnote_42"></a><a href="#FNanchor_42"><span class="label">[42]</span></a> A princeza D. Izabel, filha de D. Pedro II e de D. Maria Francisca
-Izabel de Saboya, nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669;
-sendo jurada herdeira da corôa, nas côrtes de 27 de janeiro de 1674.
-Esteve justo o seu casamento com o duque de Saboya, Victor Amadeu,
-seu primo; o qual recusou este enlace, allegando motivos de
-doença. Dizem a princeza se apaixonara de tal modo que repudiou
-os dois pretendentes que lhe solicitavam a mão: o grão-duque da
-Toscana e o duque de Parma; vindo a fallecer, solteira, aos 21 de
-outubro de 1690.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_43" id="Footnote_43"></a><a href="#FNanchor_43"><span class="label">[43]</span></a> Serviram de procuradores de Portugal, o duque de Cadaval, o
-marquez de Niza, o marquez de Marialva, o Marquez de Gouvêa, o
-conde de Miranda e o secretario d’Estado, Pedro Vieira da Silva.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_44" id="Footnote_44"></a><a href="#FNanchor_44"><span class="label">[44]</span></a> «Foy El-Rey D. Pedro de estatura agigantada, cor trigueira, olhos
-grandes, nariz aquilino, bocca grossa, &amp; cabello preto. Teve forças
-extraordinarias, do que fazia provas admiraveis. Excedeo a todos
-os do seu tempo na sciencia de andar a cavallo &amp; correr touros (sic).
-Era incançavel na frequencia com que ouvia aõs seus Vassallos, para
-o que não havia horas, nem tempo reservado.» (D. José Barbosa, <i>Elogio
-dos Reis de Portugal</i>, pag. 200).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_45" id="Footnote_45"></a><a href="#FNanchor_45"><span class="label">[45]</span></a> D. Maria Sophia de Neuburgo está sepultada em S. Vicente de
-Fóra.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_46" id="Footnote_46"></a><a href="#FNanchor_46"><span class="label">[46]</span></a> Na batalha de Matapan a 19 de julho de 1717 se distinguiram
-os nossos almirantes, conde do Rio Grande e conde de S. Vicente.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_47" id="Footnote_47"></a><a href="#FNanchor_47"><span class="label">[47]</span></a> Tradições de familia que não vem a proposito aqui relatar, nos
-tornam devedores á memoria de D. João V.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_48" id="Footnote_48"></a><a href="#FNanchor_48"><span class="label">[48]</span></a> Este senhor do Cadaval era D. João de Castro que foi casado com
-D. Leonor da Cunha, depois esposa do grande João das Regras. Do
-matrimonio do duque D. Fernando com D. Joanna de Castro, nasceram
-nove filhos; dos quaes um (D. Antonio) não sobreviveu. Entre os
-que vingaram, conta-se D. Alvaro que teve o tratamento de <i>Senhor</i> e
-casou com D. Filippa de Mello, herdeira da casa dos condes d’Olivença.
-D. Alvaro é o progenitor dos duques de Cadaval.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_49" id="Footnote_49"></a><a href="#FNanchor_49"><span class="label">[49]</span></a> Acha-se publicado do tomo 5.ᵒ das <i>Provas da Historia genealogica
-da Casa Real</i>, pag. 141. No mesmo tomo estão publicados os seguintes
-tractados de casamentos:—d’el-rei D. Affonso VI com a rainha D.
-Maria Francisca (pag. 10); de D. Pedro II com a rainha D. Maria
-Sophia de Neubourg (pag. 73).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_50" id="Footnote_50"></a><a href="#FNanchor_50"><span class="label">[50]</span></a> Era então embaixador de Portugal em Madrid Antonio Guedes
-Pereira.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_51" id="Footnote_51"></a><a href="#FNanchor_51"><span class="label">[51]</span></a> Veja o tractado do casamento de D. José publicado no tomo 5.ᵒ
-das <i>Provas da Historia genealogica da Casa Real</i>, pag. 316; e no <i>Fasto
-de Hymeneo, ou Historia Panegyrica dos desposorios dos Fidellissimos
-Reys de Portugal, nossos Senhores, D. Joseph I e D. Maria Anna Victoria
-de Bourbon</i>, por Fr. Joseph da Natividade, pregador geral da
-ordem dos Pregadores, na provincia de Portugal; pag. 18.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_52" id="Footnote_52"></a><a href="#FNanchor_52"><span class="label">[52]</span></a> Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, na casa
-da rua Formosa, a 13 de maio de 1699 e foi filho de Manuel de Carvalho
-e Atayde, commendador na Ordem de Christo, Capitão de Cavallaria
-da côrte, senhor da Quinta da Granja, e de D. Thereza Luisa
-de Mendonça, filha de João d’Almada e Mello, commissario geral
-de cavallaria na Beira, alcaide-mór de Palmella, senhor e administrador
-do morgado dos Olivaes e do Souto d’El-Rei. Foi seu padrinho,
-seu avô paterno, Sebastião de Carvalho e Mello, Capitão de Cavallos,
-senhor dos morgados de Sernancelhe e da Quinta da Granja, padroeiro
-da egreja de N. Senhora das Mercês, onde jaz sepultado, tendo vivido
-110 annos. Era, portanto, o marquez de Pombal fidalgo pelo lado
-paterno e materno, pertencendo á fidalguia de provincia (a não titular,
-que não tinha nenhum cargo superior na côrte), a que, ao
-tempo, pertenciam tambem a maior parte das familias que hoje formam
-a aristocracia portugueza. O titulo de conde d’Oeiras foi-lhe
-conferido em 15 de julho de 1759 e o de marquez de Pombal a 16
-de septembro de 1769.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_53" id="Footnote_53"></a><a href="#FNanchor_53"><span class="label">[53]</span></a> El-Rei D. José tinha nascido a 6 de junho de 1714, e o conde
-d’Obidos a 20 de julho de 1699, tendo por consequencia mais quinze
-annos que o monarcha. Esta differença explica a phrase do fidalgo,
-quando Sebastião de Carvalho lhe veio pedir a sua protecção: <i>pois o
-menino é chocalheiro</i>?!</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_54" id="Footnote_54"></a><a href="#FNanchor_54"><span class="label">[54]</span></a> O original d’este documento encontra-se na torre do Tombo, liv.
-5.ᵒ de D. Affonso IV, de afforamentos, doações etc., pag. 46 verso.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_55" id="Footnote_55"></a><a href="#FNanchor_55"><span class="label">[55]</span></a> Diz-se geralmente que foi D. Affonso V quem concedeu o ducado de
-Bragança a seu tio o conde de Barcellos; é falsa, porém, tal affirmativa.
-A doação data de 1442, durante a regencia de D. Pedro,
-embora a carta só fosse requerida mezes depois do desastre d’Alfarrobeira.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_56" id="Footnote_56"></a><a href="#FNanchor_56"><span class="label">[56]</span></a> O duque de Coimbra, D. Jorge, foi o progenitor da casa d’Aveiro,
-recebendo seu filho, D. João, o titulo de duque d’aquella localidade.</p>
-
-</div>
-
-</div>
-
-<hr />
-
-<h2>INDICE</h2>
-
-<table summary="Indice">
- <tr>
- <td></td>
- <td class="tdpg"><span class="smcap">Paginas</span></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Prefacio e advertencia</td>
- <td class="tdpg"><a href="#ADVERTENCIA"><span class="smcapuc">VII</span>
- a <span class="smcapuc">XV</span></a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>A Casa das Rainhas</td>
- <td class="tdpg"><a href="#A_CASA_DAS_RAINHAS">1</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Dulce</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Dulce">9</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Sancha</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Sancha">13</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Beatriz de Gusmão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Beatriz_de_Gusmao">17</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Santa Izabel</td>
- <td class="tdpg"><a href="#Santa_Izabel">23</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Constança</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Constanca">27</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Leonor Telles</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_Telles">31</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Filippa</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Filippa">39</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Izabel de Lencastre</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Izabel_de_Lencastre">43</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Leonor d’Aragão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_dAragao">49</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Izabel de Lencastre</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Isabel_de_Lencastre">55</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Leonor de Lencastre</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_de_Lencastre">63</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Leonor d’Austria</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_dAustria">69</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Catharina d’Austria</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Catharina_dAustria">81</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>O interregno dos Filippes</td>
- <td class="tdpg"><a href="#O_Interregno_dos_Filippes">89</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Luiza de Gusmão</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Luiza_de_Gusmao">95</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Maria Francisca Izabel de Saboya</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Maria_Francisca_Izabel_de_Saboya">105</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Maria Sophia de Neuburg</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Maria_Sophia_de_Neuburg">118</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Marianna d’Austria</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Marianna_dAustria">124</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>D. Marianna Victoria de Bourbon</td>
- <td class="tdpg"><a href="#D_Marianna_Victoria_de_Bourbon">135</a></td>
- </tr>
- <tr>
- <td>Notas e documentos</td>
- <td class="tdpg"><a href="#NOTAS_E_DOCUMENTOS">147 a 175</a></td>
- </tr>
-</table>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of As donatarias d'Alemquer, by
-João Pereira Franco Monteiro
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER ***
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-OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
-LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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-1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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-1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
-
-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
-
-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
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-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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