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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: As donatarias d'Alemquer - Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado - -Author: João Pereira Franco Monteiro - -Contributor: Joaquim Pedro de Oliveira Martins - -Release Date: July 26, 2020 [EBook #62766] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER *** - - - - -Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet -Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team -at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned -images of public domain material from the Google Books -project.) - - - - - - - - - - -AS DONATARIAS DE ALEMQUER - -Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado - - - - - J. P. FRANCO MONTEIRO - - AS - DONATARIAS D’ALEMQUER - - _Historia das Rainhas de Portugal - e da sua casa e estado_ - - com uma carta-prefacio - - POR - OLIVEIRA MARTINS - - [Illustration] - - LISBOA - M. GOMES—EDITOR - LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS - _Rua Garrett (Chiado) 70-72_ - 1893 - - Typ. Castro Irmão - - - - -A MEU PAE - - - - -Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr. - -A sua muito obsequiosa deferencia reclama de mim umas palavras para -acompanhar perante o publico o livrinho com que V. Ex.ᵃ vem sentar praça -n’este batalhão das letras patrias, desmantelado como quasi tudo que é -portuguez. Ahi vae satisfeito o seu desejo. Não carecia d’este adminiculo -a sua obra, para ser acolhida por todos com a benevolencia devida aos -bons intuitos; e que o necessitasse, não era decerto eu o competente para -lhe assignar o passaporte da viagem. Estas linhas não são portanto mais -do que o agradecimento da sua nimia deferencia para commigo. - -Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a parte local d’elle está só no -titulo. É o que eu sinto. _As donatarias de Alemquer_ são as rainhas de -Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando por vezes os trabalhos de Figanière -e do sr. Benevides, escreveu uma serie de biographias summarias. É -excellente para provar a mão; e a maneira como deu conta do trabalho -prova serem estas paginas as primicias de um escriptor. - -Não desanime, portanto. É moço, e tem em si o que vale mais do que tudo: -a vocação, a quéda irresistivel para o estudo, e o dom de imprimir -fórma communicavel ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje e rumine. -Folheie e decifre muito papel velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade. -Desconfie dos planos geraes e syntheticos, atraz dos quaes muito boa -gente se deixa affogar pelo palavriado, julgando descobrir maravilhas. -O trabalho mais meritorio é nas letras o do cabouqueiro, por isso mesmo -que não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando rijo no chão, que -se encontram diamantes. - -Como vê, não o lisongeio. É o triste condão de quem chega á minha edade -poder fallar aos moços em nome da experiencia propria. Não me leve, pois, -a mal estas curtas observações, que eu não faria decerto se julgasse -serem tempo perdido. - -Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia que o publico ha de -apreciar, como é dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne - - - Seu - M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ - _Oliveira Martins_ - - -Casa de V. Ex.ᵃ - -25 de março - - - - -ADVERTENCIA - - -No seu principio, as _Donatarias_ foram uns simples artigos de -_dilletantismo_ litterario, não se concebendo ainda o plano d’um volume. - -Destinadas á publicação em periodico, accommodei-as ao pequeno espaço que -me dispensava um dos mais honrosos jornaes da capital; porém, estimulado -pelo favor e cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo o pensamento, -chegando emfim ao projecto de as colleccionar em separado. - -É o que faço hoje, não lhe alterando a fórma primitiva; corrigindo-as -em parte, mas não lhe transtornando o molde, por lealdade, talvez -exaggerada, ao meu primeiro pensamento. - -Tambem não quiz mudar de titulo, que parece de uma obra local—feição esta -que se encontra um tanto accentuada na primeira dynastia. - -Como vi a luz n’uma aldeia do concelho d’Alemquer, entendi que bem -proprio era o meu primeiro livro ser dedicado á terra que me foi berço. -Começa-se a amar a Patria amando os campos e as flores do nosso lar; é -ahi que desabrocha o sentimento civico, é ahi que se enraiza a adoração -por todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade de sentimentos, de -linguagem, d’aspirações e de crenças, que fórma o Paiz. - -Além d’isso, Alemquer desempenhou na Historia portugueza um papel -importante, embora hoje esteja reduzida ás suas tradições e ao movimento -industrial das fabricas, que actualmente lhe tornam conhecido o nome, -que, sem essa circumstancia, estaria de todo olvidado. - -Outr’ora capital da Casa das Rainhas, villa predilecta das soberanas, que -nas suas muralhas encontravam defeza leal, que nos seus montes e nos seus -vergeis buscavam o desenfado da vida cortezã, é justo que essas memorias -hoje sejam invocadas[1] por quem nasceu no seu termo, por quem viu ao -despontar da vida, as ruinas do velho castello que Affonso Henriques -tomou aos mussulmanos e que D. João I destruiu como padrão d’ingloriosas, -ainda que valentes recordações! - -Aconselharam-me que ampliasse o livro e o intitulasse—_A Casa das -Rainhas_; era mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro trabalho... -Reagi, conhecendo a justiça do conselho, pelos motivos que acima expuz, -despretenciosamente, sem outros calculos que não sejam os da lealdade do -sentimento. - -Procurei julgar os diversos personagens que menciono, conforme o meu -sentir os define. Na philosophia da Historia, o leitor me julgará, -porque quem escreve é um reu que tem de sujeitar-se ás impressões que -suggeriu aos cultos e até aos incultos. Ahi é que o historiador sobrepuja -o erudicto na manifestação da sua intellectualidade. Isto não é julgar-me -a mim proprio. Digo-o em geral, como regra assente. O erudicto busca, -trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos dos archivos o pergaminho -desejado. Não o impelle a sua philosophia, mas sim as suas aspirações; -porém, ao resolver do problema, nos mostra na critica do documento -achado, os dotes da sua intuição, revela-nos bem qual é a grandeza da -sua alma, qual a força do seu raciocinio. Entretanto, sem erudictos -não poderia haver philosophos; uns completam os outros, no ideal dos -que escrevem a Historia:—mostrar aos presentes, para sua licção e dos -futuros, o que foram os passados, o rigor dos seus defeitos e a suavidade -de suas virtudes. - -Alicerce da minha vida litteraria, as _Donatarias_ vêem a luz sem -pretenções, mas com o apoio favoravel d’um dos nossos primeiros -escriptores, que obsequiosamente, se promptificou a prefacial-as. -Agradeço-lh’o com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei das suas -palavras, como incentivo tenaz para o trabalho que mesmo que não traga -gloria, sempre traz proveito. - -Egualmente me confesso reconhecido aos srs. dr. Xavier da Cunha, -conservador da Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel da Costa -Basto, director do Archivo da Torre do Tombo, pelos bons serviços com que -me brindaram no decurso das minhas buscas investigadoras. - - _Franco Monteiro_ - -Cortegana, março de 1893. - - - - -A CASA DAS RAINHAS - -(NOTICIA SUMMARIA) - - -Para sustento de suas consortes costumavam os antigos reis doar-lhes o -rendimento de algumas villas, juncto a varias attribuições civis que -variavam conforme a confiança que o soberano depositava na esposa. - -Em 1188 Sancho I tencionou visitar a Palestina; na duvida de succumbir na -empreza, doára a sua mulher a rainha D. Dulce os rendimentos de Alemquer, -Terras do Vouga, do Porto e de Santa Maria; mas, retirada a idéa da -jornada, não se sabe se D. Dulce continuou a usufruir os bens testados, -ou se elles voltaram para a corôa. - -O sr. visconde de Figanière no seu explendido livro _Memorias das Rainhas -de Portugal_, pag. 63 e 64, quasi que affirma que esta senhora foi -donataria de Alemquer; Francisco da Fonseca Benevides nas _Rainhas de -Portugal_ (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) segue o mesmo caminho. Entretanto, são -simples conjecturas as opiniões dos dois illustres e sabios escriptores. -Que D. Dulce possuiu propriedades no termo de Alemquer, é innegavel;[2] -assim como possuiu na Beira varias fazendas ao sul do Mondego;[3] mas que -tivesse o senhorio d’esta villa, não é certo, embora com probabilidades. - -A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa de seu filho Affonso II; esta -princeza teve os senhorios de Torres Vedras, Obidos e Lafões, existindo -na Torre do Tombo um documento em que o herdeiro de D. Sancho regula a -applicação dos rendimentos de D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e -Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, e como da mulher de D. Affonso -II existem provas de haver casa propria, não nos parece fóra de razão -enumeral-a como a primeira _senhora_ (não _proprietaria_) de terras. - -De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia que viesse a possuir quaesquer -villas em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão teve Torres Novas, -Alemquer e Torres Vedras, que lhe foram doadas por seu esposo, D. Affonso -III, sendo-lhe mais tarde concedido o padroado d’estas villas. Santa -Izabel, mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote Abrantes, Obidos e Porto -de Moz, por carta d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.[4] Mais tarde -teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, Cintra, Ourem, Feira, Gaia, -Lamoso, Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte de Rio Livre, Portel e -Monte Alegre; sendo esta concessão ampliada com varias rendas em dinheiro -e com as villas de Leiria e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho de -1304)[5] e Athouguia (19 de outubro de 1307). Possuiu além d’isso os -reguengos de Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a Quinta de Fandega da -Fé, em Torres Vedras e a leziria d’Atalaya. - -Não ha documentos que affiancem que Izabel d’Aragão possuisse Torres -Vedras e Alemquer; no que diz respeito a esta segunda villa, o amor que -a rainha sempre lhe consagrou, leva-nos a suppor que de facto fosse sua -proprietaria. - -Depois de Santa Izabel apparece-nos D. Brites, esposa d’el-rei D. Affonso -IV. Esta soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha de Sancho IV de -Castella e da rainha D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro de 1309 -com o infante D. Affonso, que mais tarde, por morte de seu pae (7 de -janeiro de 1325), succedeu na corôa portugueza. - -Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz confirmou-lhe a doação que o marido lhe -havia feito (20 de outubro do mesmo anno) da villa de Vianna do Alemtejo, -com todos os poderes civis e criminaes. O mesmo seu sogro deu-lhe em -arrhas Evora, Villa Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo estas -duas ultimas trocadas por Cintra (26 de maio de 1334) com todos os seus -pertences. - -Teve varias herdades em Santarem, que pertenceram a Fernão Sanches; e -a leziria d’Atalaya (5 de novembro de 1337).[6] Em 7 de junho de 1357 -el-rei D. Pedro I, para lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê -de Torres Novas. D. Beatriz de Castella procurou imitar Santa Izabel -no exercicio da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos pios, -influiu por destruir o antagonismo entre Affonso XI de Castella e Affonso -IV de Portugal, e o resentimento de seu filho D. Pedro para com o pae, o -infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu esta rainha em Lisboa, e -jaz sepultada na sé da mesma cidade. - -D. Constança Manuel, primeira mulher de D. Pedro I, teve em arrhas as -villas de Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor Telles, esposa de -D. Fernando, foi presenteada por seu marido com Villa Viçosa, Almada, -Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, Torres Vedras, Obidos, Athouguia, -Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, Unhos, e Terras de Meréles. -Esta carta de arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro de 1372.[7] -Passados dois annos fez-se a troca de Villa Viçosa por Villa Real de -Traz-os-Montes, onde D. Leonor exerceu toda a jurisdicção. A 20 de março -de 1376 a seductora do mallogrado soberano de Portugal ainda teve artes -de adquirir Pinhel. - -D. Filippa de Lencastre, mulher de D. João I, dotou-se com as rendas da -Alfandega de Lisboa, da portagem e do paço da Madeira e com as villas de -Alemquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres Novas e Torres Vedras. - -D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas de seu marido trinta mil florins de -ouro de Aragão, e por hypotheca Santarem com todos os seus rendimentos. -Em 1453 D. Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra e Torres Vedras, -vindo mais tarde a possuir outras terras da rainha sua sogra. D. Isabel -de Lencastre, filha do grande infante D. Pedro, o das _Sete Partidas_, -foi donataria de todas as villas da sua predecessora. D. Leonor de -Lencastre, além d’estas mesmas villas, teve por doação de seu marido -D. João II as cidades de Silves e Faro e as villas de Aldeiagallega e -Aldeiagavinha, tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. Desde esta -epocha ficou constituida a _Casa e Estado das Senhoras Rainhas de -Portugal_.[8] - -Tinham as augustas esposas dos nossos soberanos a faculdade da nomeação -dos empregados do fisco, os recebedores das rendas, das patentes -d’officiaes, etc., ficando o senhorio eminente na posse da corôa. - -D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de julho de 1643) um _Tribunal da -Fazenda da Casa e Estado das Senhoras Rainhas_, que a administrou até que -o alvará de 25 de janeiro de 1770 transmittiu o seu governo para o Erario. - -Foi este o primeiro golpe na Casa das Rainhas, de todo extincta por -decreto de 9 d’agosto de 1833. - - - - -AS DONATARIAS DE ALEMQUER - - - - -D. Dulce - - -Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe no throno seu filho Sancho -I, que ao tempo contava trinta e um annos de edade. - -Achára traçadas as linhas da monarchia portugueza pela espada e pela -politica do pae, continuando a sua obra com a tomada de Silves, a -primeira tentativa da conquista do Algarve, mais tarde gloriosamente -seguida por seu neto Sancho II e só ultimada por Affonso III, graças ao -valor incomparavel de D. Paio Peres Correia. - -Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz e de D. Pedro, o _cru_, na -administração interna do paiz. Tendo outros horizontes que não só os da -guerra, tomou a hombros o povoar as praças e logares conquistados, em -proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia essa edade média -bulhenta, que vivia da conquista e tinha por unico objectivo a gloria da -cruz e o engrandecimento do territorio. - -Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o principe a D. Dulce de Aragão, -filha de D. Ramon Berenguer, decimo quinto conde de Barcelona e de D. -Petronilha, rainha do Aragão, filha de Ramiro, o _monge_. Longos e -abençoados foram os fructos d’este consorcio; D. Dulce deu á luz onze -filhos, entre os quaes trez filhas se elevaram aos altares. - -Depois de vinte e tres annos de casada, a rainha succumbiu em Coimbra -(primeiro de septembro de 1198), sendo sepultada em Santa Cruz. - -Apesar de não haver documentos que provem que esta princeza foi senhora -de Alemquer, auctores ha que a têem como tal, parecendo corroborar esta -opinião o facto de seus bens serem repartidos pelas filhas (D. Constança, -D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, D. Branca e D. Berenguella) e ser D. -Sancha possuidora da villa. - -Não nos embrenharemos na discussão d’este assumpto embora estejamos -convencidos do contrario (permitta-se-nos dizel-o), apesar do senhorio -de D. Sancho e da rainha possuir terras n’este concelho, segundo -julgamos, proximas á quinta da Condessa. - -No emtanto, como temos por nullo o nosso sentir, curvaremos a cabeça -ás baseadas affirmações dos mestres, mencionando-a como a primeira -donataria. - - - - -D. Sancha - - -Deve-se escrever com animo grato a biographia d’esta princeza. Sympathica -e boa, religiosa e casta, foi sem duvida um dos grandes premios que a -Providencia destinou ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica -das epochas medievaes, procurando com o cilicio a expiação da carne, que -nunca abandonára o pudor! - -Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, a sacrificada esposa d’Affonso -IX, de Leão, predilecta filha do rei _povoador_, a ella o paiz deve -relevantes serviços, porque foi ella a introductora dos franciscanos em -Portugal, que tantos sabios nos deram e tantos beneficios nos prestaram. - -D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção especial; fôra-lhe doada -pelo pae, que a enriquecêra com um paço, em que a santa senhora recebeu -os cinco martyres de Marrocos, e onde buscou, muitas vezes, a retirada -residencia, no alto monte, em que á vontade contemplava a maravilhosa -obra do Creador! - -D’este paço só resta a chamada _capella de Santa Sancha_, unica reliquia -d’uma das maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer. - -Lendo a historia, examinando a guerra um tanto justa que Affonso II -moveu ao feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem o pae, no seu -testamento, se houve d’um modo liberal de mais, vemos na resistencia de -D. Sancha, não a ambição do poder, nem da fortuna, que sempre desprezou, -mas, talvez, _visionariamente_, o amor á terra de quem ella se teria de -apartar, uma vez expulsa do seu senhorio. - -Estas guerras civis tomaram proporções que o rei, se unicamente -fosse dominado pelo desejo da concentração do poder, poderia evitar. -Excommungado pelo pontifice e perseguido pelo soberano de Leão, o -monarcha portuguez encaminhou a contenda para uma via diplomatica. -Enviado a Roma um embaixador, foi o pleito julgado por dois abbades de -Cistér, que condemnaram D. Affonso a uma multa extraordinaria, para -satisfazer as custas da peleja encetada por elle. - -Não se conformando com a sorte, foram os castellos entregues aos -templarios, como depositarios e administradores dos bens. O papa morreu; -rixas intestinas entre o clero e a corôa portugueza interromperam a -demanda, que ficou por decidir no reinado d’Affonso II, fallecido a 25 -de março de 1223. Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado e -valente, mas de todo infeliz. Este monarcha acabou o litigio com as irmãs -de seu pae, não só por conveniencias, mas por decencia. - -_Era uma vergonha_ a desharmonia da familia real; e o chefe, reprovando -no seu intimo a generosidade do avô, cedeu ás imposições do mundo... nem -parecia da edade média. - -Combinou-se que as donatarias prestassem homenagem ao soberano e -contribuissem com gente para a hoste real, obrigando-se o rei a -defender-lhes a propriedade. - -Como dissemos, D. Sancha residiu algumas vezes em Alemquer, até que, -movida do seu instincto religioso, professou no mosteiro de Cellas, onde -falleceu em 13 de março de 1229. Jaz em Lorvão. - -O senhorio da villa passou á irmã, _D. Thereza_, esposa do rei de Leão, -D. Affonso IX, de quem se separou por motivos de parentesco. Recolhida -a Portugal, fez-se monja em Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de -junho de 1250. - -No reinado de D. João V foram estas senhoras beatificadas pelo Papa -Clemente XI; os seus corpos trasladaram-se, com pompa digna do Salomão -portuguez, para o altar mór da egreja onde ambas jaziam. - -Depois d’estas princezas, passou Alemquer para o dominio das rainhas. -Só mais tarde D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, teve o -senhorio da villa por successão a sua mãe, D. Filippa, até que D. Leonor -d’Aragão, esposa de D. Duarte, tomou posse da terra que estava destinada -para joia preciosa do diadema brilhante das Soberanas de Portugal. - - - - -D. Beatriz de Gusmão - - -Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 de março de 1223. Subira ao -throno pela morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de março de 1211), de -quem foi herdeiro, conforme o direito de primogenitura. - -Ainda infante, casou com D. Urraca, filha de Affonso VIII, de Castella, e -de D. Leonor, filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.[9] - -D’este consorcio nasceram quatro filhos: Sancho, que herdou a corôa e foi -o segundo no nome; Affonso, que casou em França com Mathilde, Condessa de -Bolonha; Leonor, esposa de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. Fernando, o -_infante de Serpa_, desposado de D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór -de Castella. - -O Conde de Bolonha foi o primeiro principe que deu exemplo de perfidia -na corôa portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo alma dos magnates que -depozeram D. Sancho (1245), por não lhe servir as ambições, negando -a politica do avô, investira o poder depois de exilado o irmão, -conquistador valeroso, a quem a patria, mesmo depois de seiscentos annos, -só tem dispensado palavras vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra no -pantheon dos monarchas![10] - -Póde ser que nos ultimos tempos do seu governo D. Sancho cedesse á -amante a vontade de rei; póde ser—e foi—que o soberano, inebriado pelos -fascinadores olhares de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu povo; -mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, praças que tomou ao islamismo, -mereciam melhor recompensa que a proscripção e o exilio em Castella. - -Que tempos os medievaes! No castello de Coimbra, depois do osculo de -mais intenso amor; depois de mutuas juras de fidelidade, passadas as -scenas que tornam celestial o remanso do lár, um vulto de guerreiro -assoma á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla o marido, que -dorme, e, tão bella como perfida, lança-se nos braços de Raymundo Viegas -de Portocarrero, cavalga o fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo -do cavalleiro, que a roubára pela politica do infante bolonhez, penetra -os muros d’Ourem, onde esforços do apaixonado D. Sancho não conseguem -escalar! - -Abandonado pela mulher a quem confiára o seu coração, perseguido -pelo clero que o intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice, -refugiou-se em Toledo, onde falleceu aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida -a sua morte, o conde de Bolonha tomou o titulo de rei. Este soberano -para quem a historia só encontrou o cognome de _bolonhez_, apezar de -ter conseguido a libertação do Algarve, foi tão perfido com a condessa -Mathilde, como traidor ao irmão. - -Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, contrahiu segundas nupcias com -D. Beatriz de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de Castella, e de D. -Maria Guillen de Gusmão. - -Embora fosse o primeiro coito damnado que se sentou no throno, D. Brites -foi um anjo de paz como a sua successora, Santa Izabel. Ella serviu de -medianeira quando a guerra rebentou entre Castella e Portugal, e mais -tarde Affonso X, desthronado pelo herdeiro ambicioso, encontrou na filha -um thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio da desgraça. - -O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação d’Alemquer, em 1267.[11] A -estima de Affonso III demonstra a importancia que a villa então possuia, -pois é licito acreditar que a generosidade do rei condissesse com o amor -consagrado á esposa. Dezesete annos estivera Alemquer annexa á corôa, -encontrando na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, digna herdeira -de D. Dulce e de suas filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a terra -em si, embora as suas virtudes lhe servissem d’ornamento, materialmente -nada lucraria, se a rainha só cuidasse de receber as rendas, deixando no -olvido os beneficios com que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites -alcançára do esposo (28 de junho de 1277)[12] o padroado das egrejas e -capellas do seu senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, deu -principio á construcção da egreja de S. Francisco, onde outr’ora foram os -paços reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco martyres de Marrocos. - -Acanhado e pequeno o primitivo templo, começou-se a obra da nova egreja, -em 1280. Não a poude vêr concluida a rainha, que falleceu em 7 d’agosto -de 1300, e a egreja só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, seu -filho, el-rei D. Diniz, continuou, dignamente, o empenho da mãe, como o -attesta a seguinte inscripção: - - _Esta igreja fundou - A muy nobre rai(nh)a Dona - Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso - seu filho nobre - Rey de Port(ugal) comprido de vertude - Do(m) Denis_[13] - - - - -Santa Izabel - - -Tres annos após o fallecimento de Affonso III (16 de fevereiro de 1279), -seu filho, o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel de Aragão, filha -de D. Pedro, o _grande_, e de D. Constança de Napoles. O consorcio -realisou-se em 24 de julho de 1282, nascendo, passados oito annos, a -infanta D. Constança, desposada de Fernando IV, rei de Castella, e logo -depois (8 de fevereiro de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso IV, cuja -ambição tanto alanceou a rainha sua mãe. - -Exactamente como de D. Dulce, não existem documentos que provem o dominio -d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a sua residencia aqui, os seus -beneficios á terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos a contal-a -entre as donatarias, enchendo-nos de orgulho por possuirmos uma senhora -tão grande. - -Perseguida e intrigada, como todas as almas virtuosas e nobres, soube -impôr o seu vulto á calumnia, incutindo uma veneração no espirito do -marido, que a perfidia não conseguiu debellar. - -Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que -o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em -Alemquer, onde esteve algum tempo. - -Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera -hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira -depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali -surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora, -e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria, -onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes. - -Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos -paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas, -como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de -Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota, -com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora. - -Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia -instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais -antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos -com Deus... - -Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do -illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas -por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as -rainhas de Portugal.[14] - - - - -D. Constança - - -Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi -Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, _o cru_. - -Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua -primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; _o santo_, rei de -Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão. - -O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho, -oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu -territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e -França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do -castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis. - -Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D. -Constança no paiz de seu marido. - -Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou -o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15] - -Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre -todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração. -Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem, -ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito -de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido, -que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de -poder, mais á vontade, chamar sua áquella que _só_ amava!... - -Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e -lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor -louco, immenso, incomparavel! - -Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama -de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe -quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente -este amoroso idyllio. - -A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em -estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da -desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso -pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo -sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo -é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a -castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio! - -Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias, -folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua -existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito -uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os -portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade! - -Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como -o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa -que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus... - -D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua -fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego, -espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol, -defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste, -presenciar o espectaculo. - -Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos -a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a -politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu -ciume. - - - - -D. Leonor Telles - - -Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se -ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo -não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da -devassidão. - -Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel -impudico só o representou como comedia. - -Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro, -respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de -perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso. - -Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na -sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia. - -Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem -d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira. - -D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o -consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella, -guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II. - -Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra -Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter -rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em -Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas, -não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor -adultero. - -Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem. - -Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello -e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era -um costume. - -Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de -provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e -o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no -cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco -honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de -idyllios imaginarios. - -D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor, -e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar. - -Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a -honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se -recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre -soberano! - -Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração -sente.—Receava magoar a _honra_ d’aquella mulher. Poz de parte o receio; -mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a -irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle -amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D. -Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida -estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava, -mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem -entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim. - -Lisboa alvoraçou-se com a nova. - -Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro. -A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o -alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato. -Socegaram os animos. - -Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do -Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua -mulher. - -Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco, -e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus -pertences. - -Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor -Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em -Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em -D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre -d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique. - -Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados: -D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho -II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião -(coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma -mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á -perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada! - -O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana. - -O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios. -Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que -a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe -commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou; -assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com -inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do -povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria. - -O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro -de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos -d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de -todos os nossos monarchas. - -Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar -sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim! -Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de -ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou -uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel! - -Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia -da _privança_ do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de -D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o _valido_. Consumado este -acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na -fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio! - -D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento -com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de -varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em -Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos -sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro, -quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da -entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia. -No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou -nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido, -embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco. - -Houveram então valentes combates! - -Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas -esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo -para a causa de Portugal. - -Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao -prolongado sitio, vendo se assim se rendia. - -Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de -1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o _Defensor do Reino_ a -faltar aos compromissos tractados na capitulação. - -Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte -dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e -pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára. - -Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de -1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de -que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte. - - - - -SEGUNDA DYNASTIA - - - - -D. Filippa - - -Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se -para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e -fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a -nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava -contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar -dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor. -No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens -appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o -Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos -cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem -sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo -dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do -universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos _Lusiadas_; que -é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como -o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do -propheta. - -O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o -defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o -Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o -advogado soubéra dominar a legislação. - -Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica, -symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito -com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a -autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes -foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem -estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças -publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze, -como em vida lhes votou todo o seu amor! - -Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14 -d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança -politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant, -pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa, -filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer, -Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas. - -O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387), -debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que -adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz. - -Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior; -mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo, -certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com -o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o -pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido. - -D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre -existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano -illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona -de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez -sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na -nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher. - -Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu -em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava -Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei -de _boa memoria_, e de ter gerado em seu ventre - - ...........quem governasse, - Quem augmentasse a terra mais que d’antes, - Inclyta geração, altos Infantes. - - (LUSIADAS—canto IV, est. 50.) - - - - -D. Izabel de Lencastre - -(Duqueza de Borgonha) - - -Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o -valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de -honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o -martyr benjamim da familia. - -Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice; -D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem -de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador -das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de -Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D. -Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas -masmorras de Fez. - -Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz -folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi -o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento -generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito -damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso -se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio -com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença -da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que -chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus -successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: -em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente. - -Os outros filhos d’el-rei, _altos infantes_ que Camões cantou, foram -modelo de principes e modelo d’irmãos.[17] - -Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços -familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração -abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados -tambem pelas jaculatorias d’um povo. - -Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido, -dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a -familia as lagrimas e os soluços. - -Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo -ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D. -Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por -todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras -recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais -novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á -rainha a infanta sua filha. - -D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a -com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha -recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de -fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação. - -N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade -que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe -que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de -que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado. - -Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae. - -Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa -companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa -formalidade seria sagrada por todos os titulos. - -Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer. - -No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e -apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou -por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza -um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas _Sete Partidas_ quão -fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O -brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro -da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de _boa memoria_, -e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D. -Maria, a sympathica filha do _rei venturoso_, e em Camões, a expressão -mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura -angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de -Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente -mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram -os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor -de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, -os primeiros padrões da vassallagem do oceano á _gente ousada_ que lhe -rasgava o corpo virginal. - -Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os -pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430) -o duque de Borgonha, Filippe, o _bom_, conde de Flandres.[18] - -Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella -dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e -mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor -fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do -desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira. - -Bella aureola a da honra e a da gratidão! - -D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17 -de dezembro, de 1471. - -Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon. - - - - -D. Leonor d’Aragão - - -Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de -septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de -Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse -d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada _casa das rainhas_, -verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre, -mulher de D. João II. - -Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava -uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como -presagio do descanço eterno. - -O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas -o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da -virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz. - -As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos; -esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle, -vivos reflexos do espirito purissimo da mãe. - -Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas -como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura -da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado -por uma nuvem negra. - -Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da -virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando -os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o -amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração. - -Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma -caricia para lhe subjugar a vontade. - -Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o -anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio -que lhe transforme o lar em inferno intoleravel. - -Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que -embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de -contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os -maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura -inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis -peripecias a fallecer no exilio! - -Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se -limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se -do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento -desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da -dynastia d’Aviz. - -A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram -com todas as suas forças o objectivo da nova edade. - -Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. -Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida -pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos -amestrados já no valor da arte da guerra. - -Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei -e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do -paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. -Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da -influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa -companheira, teve a fraqueza de ceder. - -Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a -armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para -o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de -dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao -accrescimo do imperio. - -D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de -junho de 1443. - -Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar -ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava -no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a -pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em -cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha -um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o -homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a -expedição. Era o que lhe valia. - -Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o -cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19] -Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de -septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em -testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia -do reino a sua mulher. - -A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos -indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a -guerra civil. - -Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da -esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de -Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para -Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução -das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do -estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, -que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, -alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma -aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o -pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um -fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e -de esposa. - -Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o -conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada -submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, -em logar de anjo de paz. - -A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella -seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para -fatalidade da Patria. - -De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro -de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera -Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu -apaixonado esposo. - -Que a critica lhe seja leve. - - - - -D. Isabel de Lencastre - -(MULHER DE D. AFFONSO V) - - -A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos -tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do -desbragamento de Leonor Telles. - -D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos -interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos -posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres -filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas -grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o -leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios. - -Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um -defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo. - -Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o -monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços -prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente -da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham -destinado. - -Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo -reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do -infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do -movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho -o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o -protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo. - -Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então -de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a -calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua -ausencia as chammas fortaleceram-se. - -De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito -de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades -da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião, -santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao -filho a honra das donas e donzellas. - -Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar -os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus -corceis e batessem-se com elle... - -Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira -na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte -e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o -Avranches... - -Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos -pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que -seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não -ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não -commettêra. - -A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a -sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe, -nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de -tres damas que a elle deviam o sêr.[22] - -Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha -divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que -allumia um cadaver. - -Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o -amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol -das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com -a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um -filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça? - -Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores -da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de -Alfarrobeira acharam-se frente a frente. - -Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do -Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais -segura. - -Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta -arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre -as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina. - -Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os -golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão, -havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses -D. Pedro. - -Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei. - -De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto -redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e -quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios. - -D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse -estas palavras: _Fartar rapazes! vingar agora villanagem_. - -Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e -despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro. - -Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo -depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande -Morto, que esteve tres dias insepulto. - -Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete -annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos. - -Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace -que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo. - -O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a -rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D. -Leonor e a sua avó D. Filippa. - -Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais -sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel -esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos. - -N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não -foram infundadas. - -Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se -rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado -na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da -Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24] - -Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o -futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a -morte de seu avô. - -No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da -catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo -regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto. - -Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da -morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada -pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com -um terrivel vingador. - -Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa -nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo -martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos. - - - - -D. Leonor de Lencastre - - -A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e -ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o -fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso -V mostrou que não degenerára dos seus progenitores. - -Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de -seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D. -Henrique. - -Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam -o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição. - -Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. -Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um -estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem -fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, -impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a -Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e -do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver -do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura -que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha. - -Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou -a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de -desenganos e de crueis penas do triste passado. - -Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, -que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em -Cintra aos 28 de agosto de 1481. - -Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos -tempos da vida do pae governava de facto o reino. - -N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do -infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia -vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto -lavasse as mãos no sangue dos assassinos. - -A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu -(23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo -contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro. - -Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em -senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença. - -N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, -alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás -punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão. - -Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com -D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de -Bragança.[25] - -Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna -successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo -bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no -animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das -suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia. - -No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas -continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a -terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro -chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o _Tormentoso cabo_, -primeiro indicio da derrota da India. - -O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival -de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente -parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e -filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os -potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e -do Occidente! - -Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria -a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta -felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito -vingador do rei semeára no lar domestico. - -Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e -audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel. - -Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois; -era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem -altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte -surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo -conhecido. - -Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e -com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495). - -Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das -lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja -da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as -Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da -Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel. - -No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus -passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a -grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525. - -Jaz no convento da Madre Deus. - -Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar -os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos, -sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares. - -Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico -conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes -vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra. - - - - -D. Leonor d’Austria - - -D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge, -mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como -herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de -Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos. - -Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas -maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este -monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram -acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da -rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de -Toledo. - -É esta a unica mancha do reinado de D. João II. - -Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu -maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e -ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador -constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, -continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com -sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu -illustre predecessôr lhe permettiam tomar. - -Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano -_venturoso_. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens -que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois -pela voracidade do ganho; mas _foi grande_ pela sua politica de ferro, -pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a -influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do -continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia -com que soube tratar a visinha Hespanha. - -Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista -do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e -herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia -desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da -Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação -de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais -alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois -paizes. - -Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D. -Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito -de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a -Andaluzia, de que era Fronteiro Mór. - -Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se -molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente -extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos -annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no -pundonor. - -A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do -primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas -pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham -sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II, -foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis -annos do seu reinado. - -De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do -Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das -Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra -do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos -portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o -receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas -dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a -quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da -riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico -d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o -gengibre e a pimenta, monopolio da corôa. - -Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso -d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força -brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei -subjugou o oceano e avassallou o Oriente. - -Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi -convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos -seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento -de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem -essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de -Adão... - -João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas -do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia; -outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro -e pela fortaleza do seu cerebro de politico. - -Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares, -mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae -extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do -mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás -luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas -glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel, -é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes -tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade -do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens, -deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante. - -Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos -foi um campo d’aleivosias.[31] - -Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente -assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte, -costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento -cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não -havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam -a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza -se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia -os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas -de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro -ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles -tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre. - -Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se -assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas -solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o -rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India -pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no -poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de -Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia, -um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D. -João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos -embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os -servidores leaes. - -De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois -annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe -D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa: -D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D. -Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico -Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar -Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal, -bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, -arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com -D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina, -esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança -o direito de successão por morte do cardeal rei. - -Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela -mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de -1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia. - -Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella. -Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e -politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da -esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de -Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha -senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e -leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve, -como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam. - -Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do -principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna _a louca_ e de Filippe -I de Castella. - -Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores -desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que -destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de -1518). - -No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação -da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que -fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D. -Manuel. - -Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio. - -Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de -numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de -dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a -a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura -protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença. - -A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar -Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia. -Esse laço foi a viuva do rei de Portugal. - -Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que -só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em -compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e -honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento -do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre -mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto -a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus -soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a -ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em -breve. - -Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á -partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de -Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os -seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de -fevereiro de 1558.[36] - -Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos -precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe -o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe. - - - - -D. Catharina d’Austria - - -Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D. -João. - -Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu -nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador -Carlos V. - -Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho, -casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel. - -D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma -feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o -_Livro das Horas do Espirito Santo_, os _Psalmos certos para os finados_, -o _Livro da Montaria_ e attribue-se-lhe tambem a _Côrte Imperial_; seus -filhos, el-rei D. Duarte o auctor do _Leal Conselheiro_ e da _Arte de bem -cavalgar em toda a sella_; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das -_Horas de Confissão_ e do _Livro da virtuosa Bemfeitoria_, seguiram-lhe -as honradas tradições. - -N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior -brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede, -Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André -de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos -estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa -Universidade, transferida de vez para Coimbra. - -As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão -(1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade -de podermos estabelecer uma colonia em Macau. - -Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros -o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial -d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e -D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das -especiarias. - -A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional. -Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do -grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja -dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao -coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora -maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385. - -Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon -da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do _Mar Tenebroso_, cujos -segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a -actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus -tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia -eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela -Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D. -Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes -da familia real. - -Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz. - -Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte -estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes -epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu -nascer. - -Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha -da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras, -poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores -cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja -penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam -todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela -realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E -hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito; -que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do -genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes -do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação -profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi -descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que -adquiriram a Bemaventurança eterna. - -Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D. -João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões -depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande -arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor -vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O -mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua -prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu -um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao -throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577). -A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha, -que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho -d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas -tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores -attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de -Damão e de Jafanapatão. - -Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando -o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro -de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique. -Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era -senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu -testamento. - -Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que -falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem. -Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da -sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim -de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de -poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no -seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz -nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da -rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos, -alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado, -cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do -heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam... - -Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa -grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma -pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais -cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu -paterno ninho. - - - - -(O Interregno dos Filippes) - - -Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava -um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde -o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em -Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já -não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media, -como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença. - -A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por -essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade -de outras eras. - -Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das -Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as -côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos -para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores -que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que -administrassem o reino dada a sua morte. - -Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580), -o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu -cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa -Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do -infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta -D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de -Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o -throno. - -Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como -rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No -meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo -ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não -faltou esta nota comica. Faltava, porém, o _veridictum_ dos governadores, -depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a -quem pertencia a corôa. - -No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de -1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II. - -Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada -pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello -de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de -Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se -debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da -tranquillidade das delapidadas consciencias. - -N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas; -Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre. - -Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada -em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção -da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau -grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a -rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os -mares, rasgando-lhe altiva o verde anil. - -Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro -que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a -confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo -para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota. -Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os -vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de -longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou -os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a - - _.........................vã cubiça_ - _d’esta vaidade a quem chamamos Fama._[38] - -Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a -todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas -do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta, -calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço -da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo -representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D. -Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do -estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena -africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma -chronica immortal da fenecida grandeza. - -Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de -reatar o passado ao futuro. Os _Luziadas_ tornaram-se o manual em que -oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer -da sua independencia. - -Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela -infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese -da autonomia portugueza, chorára pelo _ninho seu paterno_, e tambem por -essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes -versos: - - _Ah Nathercia cruel quem te desvia_ - _Esse cuidado teu do meu cuidado?_ - _Se tanto hei de penar desenganado,_ - _Enganado de ti viver queria._ - .................................... - -No coração do patriota reinava uma outra Nathercia, alimentando-se nas -aras do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das gloriosas epochas que se -tornaram a nossa razão de ser como paiz independente. - - - - -QUARTA DYNASTIA - - - - -D. Luiza de Gusmão - - -Apesar dos apertados grilhões com que a politica de Castella nos algemou, -cuidando assim extinguir o sentimento da independencia, a ideia da -liberdade invadia o coração do povo portuguez. - -Formavam-se phantasias, julgava-se vêr nos elementos uma certeza -prophetica da restauração. A Biblia e o Bandarra eram mananciaes com que -os embusteiros exploravam a crença popular. - -De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal -e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada -carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero -lenitivo aos seus pezares. - -Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura -encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde -em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim -do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da -usurpadora Hespanha. - -E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição -é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza, -que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso, -valente e guerreiro da nação portugueza. - -Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria -as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo -augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na -infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação -da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende -hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na -alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos -immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar -da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra -confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se -expande a vida e a força por todo um paiz. - -Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos -fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito -aquelle celebre dito de D. João da Costa, _antes uma republica bem -portugueza que um rei estrangeiro_, a independencia de Portugal, em nossa -opinião, não ia ávante. - -Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor, -que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como -D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau, -era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada -em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso -d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo, -defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião -desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará -em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal -como cavalheiresca. - -E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o -paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do _direito_ como impulsor do -brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro. - -E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia, -é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a _seu rei natural_, e que -esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os -laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella -e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas -suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio -hespanhol. - -As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe -feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques. - -Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por -consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel. - -D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou, -transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno -de Portugal.[39] - -D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos -com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de -Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor -do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar, -certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I; -n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe -corria nas veias. - -Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de -Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o -mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio -(Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na -posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos -tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento -de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de -Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de -Sandoval. - -A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a -princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido -a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena -dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que -descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel -de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser -simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638. - -Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o -sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão -estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro, -arrastando na sua orbita esposo e vassallos. _Antes rainha uma hora que -duqueza toda a vida_, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas -hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse -o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de -Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella -o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que -impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte, -a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha. -Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão -piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia. - -Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das -Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de -janeiro de 1643.[41] - -Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga -prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se -interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto, -devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja -hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo. - -Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do -governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno -em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde -então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o -filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem. - -Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de -fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado -no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha -pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra. - -Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV, -profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar -junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam. - -Que a historia lhe seja severa como a morte, proferindo sem lisonja -e sem odio a sentença que lhe dictarem os bons ou maus actos dos que -exercerem o poder supremo. - -O juizo imparcial da realeza não póde melindrar ninguem, porque o -magisterio d’um rei não é propriedade d’uma familia, mas é patrimonio -d’um povo, que tem direito a devassar os tumulos dos que o regerem e -procurar nas suas cinzas ou o merecimento que exige a exaltação dos -benemeritos, ou o crime que obriga o esquecimento dos precitos. A -Historia é o grande tribunal, onde reis e vassallos são julgados com -a mesma egualdade e com o mesmo rigor. Ella despreza Affonso III para -acclamar Martim de Freitas; lança o estigma da infamia sobre a memoria de -Leonor Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa ignorada de Fernão -Vasques, o artista humilde que em nome do povo soube zelar o decôro do -throno. Assim, quando o historiador penetra os humbraes da crypta de S. -Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, e toca por sua vez nos ataúdes -de tantos personagens, esquece as corôas que adornam os seus tumulos e -julga-os como juiz, que não indaga a qualidade do réu. - -E a Historia, para ser Historia, é necessario que não dobre a vara da -justiça e que guie sempre os seus passos pelo pharol da imparcialidade, -que rompe a nevoa do servilismo infame. - - - - -D. Maria Francisca Izabel de Saboya - - -Fallecido D. João IV, tomou as redeas do governo a rainha D. Luiza, a -isso obrigada pelo testamento do rei e pela menoridade de seu filho -Affonso VI. Os negocios do Estado não se alteraram em cousa alguma com a -administração da rainha viuva; mudou-se simplesmente o nome do imperante, -porque, como dissémos, D. Luiza foi sempre a vontade do marido; nem o -padre Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. Domingos do Rozario, seu -conselheiro privado, a dominaram alguma vez. Altiva e auctoritaria, ella -attendel-os-hia em certas occasiões, mas nunca se escravisava á sua -influencia. - -Embora nos campos da batalha o valor do nosso exercito levasse, por -vezes, de vencida o arrogante castelhano, a regente, como astuta -politica, entendeu que sem allianças que amparassem a corôa aos -embates da fortuna, difficil seria a sustentação da independencia. -A França e a Inglaterra eram o alvo dos sonhos dourados de D. Luiza; -queria ella fisgar a amizade d’esses paizes com enlaces matrimoniaes -que identificassem os seus interesses aos interesses de Portugal; -seguia assim o procedimento de D. Manuel para com a visinha Hespanha, -procedimento este, que, apesar de todas as rivalidades, sustentou o -equilibrio da nossa tranquilla expansão ultramarina. - -N’este empenho, realisou-se em 1662 o casamento da infanta D. Catharina, -irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra. - -Tanger e Bombaim foram os penhores da amizade portugueza e o dote da -noiva de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma pequena parte das -colonias para ajudar o bom resultado da causa nacional; effeitos de -necessidades que se impõem e que, por desconhecimento de razões só -sabidas dos coévos, a Historia mais tarde aprecia um tanto injustamente. -Se Luiza de Gusmão comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, a -soberania da casa de Bragança, deve-se notar tambem que com a realeza da -dynastia estava consubstanciada a independencia do paiz, que junto a -Castella não era senhor do seu proprio torrão. E se mais tarde se tornou -perniciosa a alliança de Portugal com a Inglaterra, ninguem tem direito a -arguir a viuva de D. João IV, exigindo que, embora fosse politica sagaz, -podesse prever factos tão posteriores e filhos de circumstancias que á -epocha pessoa alguma saberia divisar no horisonte. A Historia deve ser -justa e como tal abençoar D. Luiza, que trabalhou varonilmente pela causa -da sua patria adoptiva; e mesmo que então a alliança ingleza fosse um -erro, bastava considerar o objectivo que a iniciou, para o historiador -absolver essa falta venial, praticada inconscientemente, filha da -imperfeição da fraca humanidade. - -Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra nos tem sido traiçoeira, -tambem a França então nos chamou a si e nos abandonou conforme lhe -convinha. Luiz XIV favoreceu a guerra com Castella, unicamente para -abater o poderio da Casa d’Austria; consentiu no enlace da filha do duque -de Nemours com Affonso VI para avassalar este paiz á sua politica de -ferro, para dar principio á sua ambição de dominio na peninsula, revelada -por elle, mais tarde, no celebre dito de despedida a seu neto Filippe V: -_Meu filho, já não ha Pyreneus_. - -Não foi o amor da justiça a causa do soccorro da França, mas o mesmo -ideal de rapina que a Inglaterra levou ávante. E se esta soube vencer, -não devemos esquecer aquella que da sua parte fez quanto poude para -alcançar victoria. - -Afinal effectuou-se o casamento do rei de Portugal com a princeza Maria -Francisca Izabel de Saboya, filha do principe Carlos de Saboya, duque -de Nemours, e da princeza Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, de -França. O contracto nupcial foi assignado em Paris aos 24 de fevereiro -de 1666, sendo procurador de Affonso VI o marquez de Sande, Francisco -de Mello e Torres, tronco da casa dos condes da Ponte, nosso ministro -junto de Luiz XIV, e representantes da noiva o marechal duque d’Estrées -e o bispo de Laon. Affonso VI era indifferente a todos os passos dos -seus ministros para lhe arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia -que lhe tolhêra na infancia a alma e o corpo, o monarcha entregava-se á -pratica dos vicios mais vis, descia aos principios mais condemnaveis, -desauthorisando-se perante o povo que, apesar d’isso, venerava o rei -como symbolo do principio augusto a quem devia a livre existencia. - -Como contraste, o infante D. Pedro, irmão de Affonso VI, um galhardo -rapaz, moreno, olhos e cabellos negros, typo peninsular, ardente, seduzia -as mulheres á primeira vista e esgotava o amor em repetidos galanteios. -Corpulento e robusto, cavalleiro e namorado, o infante attingia a méta do -ideal das populações occidentaes; encarnára o amor da plebe e o amor das -salas, dominava as massas com os golpes certos da sua farpa de toureiro -e attrahia as damas dos salões aristocraticos com o faiscar dos seus -olhos bellos e com a contemplação sedenta da sua estatuaria varonil. -Tinha tudo—formosura, valentia, garbo, gentileza; mas não tinha corôa. -Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava um impotente, quasi um doido. -Para o principe subalterno a visão d’esse throno, que a elle, no seu -entender, só devia competir, foi-lhe inoculada inconscientemente pela -mãe, ao ver os desvarios do filho primogenito; e d’ahi a semente lançada -em terreno fertil, desabrochou, cresceu e desprezou obstaculos que lhe -atrophiassem o desenvolvimento precoce. - -Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as intenções do irmão, que não -tinha ainda quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse força para -erguer um throno e derrubar outro. Quando D. Pedro soube do casamento do -rei, talvez visse n’esse facto o mallogro infallivel de todos os seus -projectos. D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia continuar a dynastia, -e então as pretensões do infante ficariam de todo nullas. - -Afinal alvoreceu o dia da chegada da rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa -vestiu galas, quando a artilheria salvou a esquadra franceza. O coração -de D. Pedro palpitava ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, uma por -uma, as flores das suas sorridentes chimeras. Mal diria que nas naus de -França se guardava o seu unico amor, o ente criminoso que o ajudaria -a realisar o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, infante, côrte e -auctoridades foram a bordo prestar homenagem á nova soberana. Tinham -forçado D. Affonso a assim proceder. Não queria ir, entretido com a -Calcanhares, expandindo as furias do seu genio violento que assassinava -um desgraçado por entre beijos e caricias na sacrificada amante. - -Quando D. Maria Francisca viu pela primeira vez o homem que a politica -lhe destinára, viu tambem a negação completa das suas aspirações. -Aquelle homem o que tinha de bom era ser rei... o contrario do infante, -que desde esse momento, com a sua figura peninsular, conquistou a alma -da franceza, alma depravada, affeita aos costumes libertinos da côrte -de Paris. Já possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha no caes da -Junqueira, seguindo d’alli para a egreja de Santa Clara, onde o bispo -de Targa abençoou o seu consorcio. Pouco depois adoeceu; D. Pedro -visitava-a amiudadas vezes e n’essas continuas visitas o amor de ambos -fundiu-se n’um só. Inconscientemente, levado pelo impulso do coração, -o infante adquirira a grande influencia que carecia para se sentar no -throno. A amante queria ser rainha, mas não com um rei como D. Affonso -VI; elle queria ser amado, mas não da esposa do seu proprio irmão... Era -indispensavel o anullar o matrimonio, para que o monarcha se mostrava -inhabil, e era necessario tambem que se conservasse aquella mulher no -seu pedestal, apartada de um marido que a desprezava e junto de um outro -que a adorava do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. Maria Francisca -recolheu-se ao convento da Esperança (21 de novembro de 1667) e d’ahi -mandou ás auctoridades ecclesiasticas o seu libello de divorcio (11 de -janeiro de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se então uma das mais -vergonhosas scenas da Historia de Portugal. A franceza excedeu Leonor -Telles no desbragamento publico. Teve um Andeiro que foi D. Pedro, -mas não teve a sinceridade rude de o apresentar como tal. Fallava em -_consciencia_ e queria o _veridictum_ dos canonistas. - -Jesus Christo era invocado por aquella mulher, não para a soccorrer nas -tribulações do crime, mas para a julgar na justiça da causa; e os que -representavam o Redemptor—diga-se desassombradamente, escreva-se com a -imparcialidade que a Historia exige—deram a sua sentença como aprazia -a dois infames, abençoaram o indigno conluio como causa sacratissima, -merecedora dos applausos sacrosantos. Em seguida uma revolução de palacio -desthronou Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando conta do governo -seu irmão o infante D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de Lisboa (1 de -janeiro de 1668) appoiando o procedimento revolucionario e a regencia do -ambicioso principe. Poucos mezes depois (2 d’abril do mesmo anno), o -regente e D. Maria Francisca uniam-se pelos laços do matrimonio, coroando -com a lithurgia o seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos. - -Cada um dos seus actos mais significativo e mais comico, mostrava bem -claramente o estado de adeantada decomposição da sociedade portugueza, -afogada ainda nos restos do grande naufragio das conquistas da India. - -No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um -brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu, -mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder -heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço -da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o -rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo -vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de -Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia -de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje -glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem -da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu -a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo -poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna -consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento, -perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no -meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando -elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse -meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade -mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança -consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle -era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão -do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames -que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo -sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se -desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram -os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que -lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de -um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de -tufão devastador á felicidade roubada. - -Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores. - -Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera -esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo. - -Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel -de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas. - - - - -D. Maria Sophia de Neuburg - - -Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração -de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo -sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de -que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que -era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe -o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a -existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha -liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de -outras nupcias. - -Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte -as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe -aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á -princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42] - -Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro -de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do -Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do -monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte -assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu -pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das -soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu -D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto; -sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio -das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava -inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos. - -E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D. -Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da -primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na -sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de -D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca -soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira. - -Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a -indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que -era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado -a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides -domesticas. - -O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse -de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o _victorioso_; -sentia a nostalgia do triumpho, apesar de _pacifico_, como lhe chamava a -Historia. - -Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e -a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida -de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias -proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais -cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual -partilha nos fastos da realeza. - -Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de -1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de -Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz; -mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha -que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do -imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica -europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado -pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo -ardente da fama conquistada pela força das armas. - -Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março -de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de -partida para as suas operações. - -O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias, -Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando -Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o -archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona, -que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno. -No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid, -onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta -epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e -derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era -na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos, -contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia -attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta -illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo, -succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi -seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de -1707. - -Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir -a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter -portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro, -um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam -pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos -acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo. -Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe -atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo, -attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal. - -Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os -infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa -desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não -levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica -quando é licito e condemna quando é preverso. - -Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos, -que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente -o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda -mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se -no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta -escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos. - -Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe -aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria, -porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra -lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o -nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria. - -Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de -heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel -que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua -antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos -seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque -a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado. - -Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante -ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos -d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das -almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais -radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por -essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz -no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam -n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe -encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha -na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto -como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45] - - - - -D. Marianna d’Austria - - -Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o -principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança -não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria -para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e -desenvolvimento nacional. - -Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de -Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht. -Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados -sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já -imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão. -Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do -almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição -dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado -por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se -desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46] - -De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado. - -O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem -a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do -mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com -a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas -minas do Brazil. - -Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio -degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o -exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não -como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes -dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as -feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia, -como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes -antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros -adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo -inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos -tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga -rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação -pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que -se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a -terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico -desfecho teve logar no reinado seguinte. - -O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D. -João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda -ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno, -attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em -exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza, -a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e -ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão, -que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana -atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem, -padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra, -espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão -e do luxo Cesar romano. - -Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que -assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D. -João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia, -não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho -de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os -grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro. - -Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito -da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de -tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do -agraciado. - -Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam -a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de -todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram -possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador -aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras -licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas, -as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de -quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a -causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter -alcançado o objectivo dos seus contemporaneos. - -Incontestavelmente o ultimo Cesar que se sentou no throno, não foi -tyranno, nem tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve erros, porque -viveu n’uma epocha de decomposição, vendo-se obrigado a seguil-a por -natural tendencia, como homem do seu tempo, impellido pela voragem -que o arrastava a um ponto que todos almejavam. Se assim não fosse, -nunca conseguiria ser amado, porque nunca poderia adquirir o espirito -portuguez. Ao menos não foi hypocrita; não procurou sequer occultar -as leviandades das suas aventuras galantes, que passavam, como coisa -naturalissima, que a ninguem melindrava, porque era commum... N’este -quadro, que se não póde desenhar com côres estudadas, que sae natural, -sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, está bem patente a -decadencia precoce de uma sociedade perdida. Quando o historiador ama -a sua terra, as flôres dos seus campos, o sol que allumia e o ceu que -a domina, as tradições que a exaltam, todo esse conjuncto diverso, mas -ligado entre si n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer -a penna ao tocar este periodo, todo de ruinas, embora matizadas -d’abundancia. Mas por entre a hecatombe lenta que devastava o meio -social, não ha a lamentar a corrupção do paço; D. João V praticou -sem duvida erros de homem, mas teve o lar purificado pela conducta -irreprehensivel da esposa, allemã como a sua antecessora, e martyr como -ella, não pela feia catadura d’um marido apaixonado pelo cadaver da -eleita da sua alma, mas pelo procedimento do rei, que sem escrupulos de -christão nem respeito pela dignidade real, escolhia concubinas onde quer -que as paixões o arrastavam. - -Filha do imperador d’Austria, foi escolhida unicamente para inocular no -sangue de Bragança o sangue aristocratico das mais nobres familias da -Europa. De facto, desde a filha do Condestavel, as esposas dos duques -não primavam pela nobreza do seu nascimento. Só D. Izabel de Lencastre, -esposa de D. Fernando II, filha do infante D. Fernando, irmão de Affonso -V; e D. Catharina, esposa de D. João I, como filha do infante D. Duarte, -é que proporcionaram á casa de Bragança allianças mais conformes com -a sua regia origem e viver realengo. As outras:—D. Beatriz Pereira, -filha de Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha do conde Gijon, -esposas do duque Affonso; D. Joanna de Castro, filha do senhor do -Cadaval,[48] esposa do duque D. Fernando I; D. Leonor de Mendonça, filha -do duque de Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, filha do Alcaide-mór -d’Alvôr, esposas de D. Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do conde -de Lemos, esposa de D. Theodosio I; D. Brites de Lencastre, filha do -commendador-mór d’Aviz, segunda esposa do mesmo duque; D. Anna de -Velasco, filha do duque de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. Luiza de -Gusmão, filha do duque de Medina Sidonia, esposa de D. João II, depois -rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia de Neubourg, filha do Eleitor -Palatino do Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, não foram -senhoras que aparentassem a casa reinante de Portugal com as familias -soberanas do universo. N’este ponto, depois dos Bourbons, achava-se -incontestavelmente os Habsburgs, cuja alliança era provavel, em vista -dos soccorros prestados pelos nossos reis ao archiduque Carlos, na sua -pretensão ao throno hespanhol. O movel, pois, d’este consorcio foi a -nobreza da noiva, que juntava a esse predicado uma notavel cultura -d’espirito e uma formosura digna de seduzir outro homem que não fosse tão -voluvel como D. João V. - -O contracto assignou-se em Vienna, a 24 de junho de 1708, estipulando-se -que a rainha seria dotada com cem mil escudos ou corôas de ouro de quatro -placas de Flandres pelo imperador seu irmão e pelo rei de Portugal com a -casa e estado das suas antecessoras.[49] - -A 13 de setembro do mesmo anno, saiu D. Marianna d’Austria, de Rotterdam, -chegando a Lisboa a 27 de outubro, sendo os regios esposos abençoados -n’esse mesmo dia. - -Quarenta e dois annos viveu em companhia de D. João V (27 de outubro de -1708—31 de julho de 1750) não nos apontando a Historia uma unica falta -que lhe maculasse a honra e o lar, que seu marido de todo abandonára. -Muito devota, entregava-se á piedade, seguindo como D. Maria Sophia o -caminho da virtude que converte em flôres os espinhos do viver terreno. -Pouca ou nenhuma intervenção teve nos negocios publicos, limitando-se á -vida domestica, até que falleceu em Belem, aos 14 de agosto de 1754, -tendo nascido em Lintz a 7 de setembro de 1683. Sepultaram-n’a no -mosteiro de S. João Nepomuceno, por ella fundado, onde se conservou o seu -corpo até 1855, em que foi trasladado para S. Vicente de Fóra. - -É um exemplo de virtude austera que ahi descança e que a Historia abençoa -como mulher que soube conservar-se no posto que lhe marcou o sexo e que -comprehendeu a digna missão que lhe impoz a sorte nos seus inexplicaveis -destinos. - -Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito para o pensador que se não -limita a admirar os heroes cujo nome gigantesco assombra os humildes, -cuja vida deslisou na sublime comprehensão da honestidade. - -A virtude que a enaltece, torna-a digna dos applausos dos posteros, -erguendo-a do olvido e coroando-lhe a memoria da mais gloriosa corôa que -a justiça do historiador póde depôr na fronte das que hoje são invocadas -como exemplo do bem. - - - - -D. Marianna Victoria de Bourbon - - -Seguindo a politica de seus maiores, D. João V entendeu conveniente -reatar os laços de antiga amizade com a visinha Hespanha; e como as -allianças de familia se lhe figuravam mais vantajosas do que todos os -tractados internacionaes, resolveu el-rei acceder aos desejos do monarcha -castelhano, que manifestára ao nosso embaixador quanto anhelava que -fossem seguidas, então, as reciprocas tradições dos dois paizes.[50] - -Assim se contractou a 7 de outubro de 1725 o casamento do principe D. -José com a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon, filha de Filippe V e -de Izabel Farnése. A 25 de dezembro de 1727, o marquez d’Abrantes fazia o -seu pedido em fórma á côrte de Madrid, que foi secundado por outro que a -6 de janeiro do anno seguinte o ministro hespanhol, marquez de Belvases, -dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a mão da princeza D. Maria -Barbara de Bragança para o principe das Asturias, D. Fernando de Bourbon. -Um anno depois (19 de janeiro de 1729) encontraram-se as duas familias -nas margens do Caia, onde se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros -das corôas portugueza e castelhana. - -Como dote, recebeu D. Marianna Victoria quinhentos mil escudos do Sol, -por parte d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a dar-lhe para os seus -alfinetes o valor correspondente a oitenta mil pesos e um rendimento -annual que equivalesse a vinte mil escudos do Sol.[51] Foram estes os -bens da princeza, até ao fallecimento de D. Marianna d’Austria, que teve -logar depois de seu marido subir ao throno com o titulo de D. José I. - -O reinado d’este soberano foi um dos mais notaveis da Historia de -Portugal. Teve medidas que mostram o talento do ministro que as decretou, -e teve barbaros sacrificios, que deshonram a memoria do homem que os -commetteu e do vingador que as iniciou. Os juizos dos historiadores -são geralmente oppostos quanto ao merito do personagem que foi senhor -do animo de D. José. De facto, a individualidade do marquez de Pombal, -Sebastião José de Carvalho e Mello, o grande heroe da situação, é tão -complexa, abrange phases tão diversas, que do lado dos seus sequazes -e dos seus inimigos teem surgido louvores demasiados e depreciações -excessivas. Fidalgo de provincia, o seu valimento assombrava a -aristocracia, acostumada a dirigir os destinos do paiz; se alguma vez a -nobreza provinciana se ousava sentar nos conselhos da corôa, o applauso -aristocratico tinha referendado a concessão regia. Pombal, porém, subiu -ao maior fastigio do poder, elevou-se á grandeza, sem que o _veredictum_ -dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi toda a inveja das altas -classes, que injustamente lhe chamavam plebeu, e todo o odio do ministro -aos que se tinham por seus superiores.[52] - -Entretanto, Pombal não fundou uma escola democratica, porque saiu da -craveira de fidalgo de provincia, ambicionando uma corôa de grande; e nos -seus proprios casamentos, como nos de seus filhos, está bem demonstrado -que o ministro não desadorava as proeminencias sociaes, e que talvez -todo o seu odio selvagem não fosse só motivado pela emulação dos nobres, -mas tambem pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam de ser os -immediatos do soberano, seus companheiros na defeza do throno, de que -tinham sido creadores e muitas vezes defensores nas suas mais perigosas -crises. O exterminio dos Tavoras e do duque d’Aveiro, os capatazes da -aristocracia, o foco d’onde se projectavam todas as iras contra elle, -calcou-lhe a sepultura da arvore derribada pela sua erronea conducta -desde o reinado anterior. - -Esta face do marquez de Pombal não é sympathica, nem attrahente; revela -a baixeza e indica a velhacaria que elle possuiu no mais alto grau. O -seguinte facto é bem significativo: - -Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis Mascarenhas, meirinho-mór do -reino, brigadeiro de cavallaria, gentilhomem da real camara, muito -privado de D. José, com quem se creára e com o qual sempre mantivera -as melhores relações d’amisade.[53] Uma vez o conde advertiu el-rei -de que não seria bom dar tanta confiança a Sebastião de Carvalho, que -então principiava a dominar o animo do monarcha; este communicou-lhe -em conversa o recado do fidalgo, o que foi sufficiente para o ministro -se lhe ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor de Deus que o não -desviasse da intimidade do soberano... Depois, seguro o valimento por -fortes laços, o conde d’Obidos foi preso nos carceres da Junqueira, o -theatro dos horrores, das vinganças e dos infames despeitos do marquez de -Pombal. - -O terramoto de Lisboa (1 de novembro de 1755) veiu de todo convencer -D. José do alto valor do seu predilecto. De facto, maior prova se não -poderia exigir para experiencia da energia de um homem. Derribada a -cidade, devoradas as ruinas pelo incendio, estimulados os malfeitores -pela confusão da necropole, no meio da anarchia que se apoderou no animo -de todos, o espirito do ministro manteve-se sobranceiro e forte, arcando -com a violencia da natureza. Era na verdade um genio descommunal! não -admirava que destruisse o passado, que abalasse as velhas tradições, como -a catastrophe destruira os edificios e abalára a terra, se, perante a -hecatombe, foi elle o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa ergue-se -alinhada, symetrica, magestosa e soberba, como rindo-se do que fôra e -applaudindo o castigo da sua antiga depravação... Depois d’isto, para -o rei já não existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo da corôa -repouso e do manto agasalho para o vento do remorso, impellido pela voz -do dever, se é que essa voz se atreveu a fazer-se alguma vez ouvir da -consciencia d’um homem como foi D. José. - -O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi por diante, de rei só teve a sua -assignatura nos diplomas, alvarás, decretos, cartas regias e despachos de -mercês. De resto, foi uma creança para quem Pombal fazia Tapadas para seu -divertimento... Mais nada a Historia póde dizer d’elle. - -A reforma da pauta de commercio (1755), a companhia dos vinhos do Alto -Douro (1756), o Erario e o Collegio dos Nobres (1761), a reforma da -Universidade (1772), e a abolição da escravatura no continente (1773) -são as principaes medidas da dictadura pombalina. Quem escrever a -Historia com a imparcialidade devida, tem de se curvar á sabedoria d’esta -legislação e applaudir, se não em absoluto, pelo menos em parte, estes -actos do ministro, embora reprove o seu procedimento cruel, selvagem -mesmo, para com a nobreza e para com o clero, os dois potentados que lhe -disputavam a influencia e o poderio. Este era tão grande no animo do -monarcha, quanto diminuto no espirito da rainha. - -D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando D. José se viu prostrado pela -doença e lhe entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas do governo, o -poderio do ministro foi descendo gradualmente. Mandado retirar da camara -do seu agonisante amo, dispensado das funcções de mordomo-mór, que -exercia, o marquez politicamente succumbiu tambem quando D. José, cuja -morte teve logar a 24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno D. Maria -I, começaram as represalias contra Pombal, para o que a viuva influiu -bastante perante sua filha. Conhecedor do novo terreno, o ministro -demittiu-se, recebeu a commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem de -desterro para a terra que lhe servia de titulo, onde falleceu aos 8 -de maio de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria de Bourbon foi o -seu unico acto politico que a Historia nos aponta. Durante a sua vida, -occupou-se unicamente na lide domestica e em conciliar as rixas entre -Portugal e Hespanha, que deram motivo á guerra de 1762-63. No mais, foi -alheia aos negocios do Estado, e só a perseguição ao marquez de Pombal é -que poderá tornar o seu nome pouco sympathico para muitos, cujo idolo é -o grande estadista do seculo XVIII. - -Notaremos que as duas pessoas que mais influiram no banimento do -ministro, ambas tiveram um fim desgraçado. - -D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, n’uma agonia cruciante, -falleceu no paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. D. Maria I, essa -viu-se doida e fugitiva em estranhos hemispherios. Ignorante de que tinha -vencido o primeiro soldado d’este seculo, a herdeira de D. José falleceu -no Rio de Janeiro, aos 20 de março de 1816. - -Apesar de todas as circumstancias, esta soberana, no que diz respeito a -Pombal, reconheceu os serviços do estadista, condemnando as demasias do -vingador. - -Aquella mulher, attribulada por tanto crime, junto a tanto beneficio; a -tanta compaixão pelos desgraçados e a tanto respeito pela memoria do pae, -viu-se nas trevas da loucura que foram fataes a ella e a Portugal. - -Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, ninguem o contesta. As medidas -uteis dos primeiros tempos do seu governo não mostram unicamente o tino -dos ministros (conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), mas tambem -o são criterio e boa vontade da rainha, tão desgraçada, quão digna, pelo -seu caracter, de mais prosperas venturas e de mais explendorosos fins. - - * * * * * - -Aqui termino o meu trabalho, não me querendo constituir em juiz de -personagens contemporaneos, aggravar feridas ainda mal saradas, -remexer muito episodio que já está olvidado. Comtudo, se algum dia, -amansadas mais as furias partidarias, alguem julgar util o meu concurso, -procurarei satisfazel-o, seguindo a mesma orientação—a imparcialidade e a -independencia. - -O que está feito obedece a um impulso natural, a uma tendencia -irresistivel para o estudo da Historia patria; não foi a politica, -que puz de parte, nem o interesse, que é nullo. Se assim fosse e me -visse obrigado a sacrificar o proprio sentir a inspirações alheias, a -consciencia vergar-me-hia hoje sob o peso do remorso de ter prostituido a -penna. Tal não aconteceu, e embora não conseguisse triumphos litterarios -que nunca se acastellaram na minha phantasia, sinto-me satisfeito de ter -exposto o que me domina o espirito, o fructo de longo estudo e de concisa -meditação. - - - - -NOTAS E DOCUMENTOS - - -O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão - -O Visconde de Figanière na sua obra _Memorias das Rainhas de Portugal_ -(D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima noticia que existe d’esta -soberana é a doação de 300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe -comprar uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia pertencer ão -mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada de Torres de Vedras, 30 de -julho de 1300, e a rainha falleceu oito dias depois, é licito suppor-se, -como Figanière suppõe, que a morte teve logar na citada villa. - -Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu por mandado -d’el-rei D. Sebastião, uma _Relaçam dos Reys e Raynhas que estam -sepultados em Alcobaça_; n’ella se lê este notavel depoimento do mesmo -frade, que diz respeito á segunda mulher d’Affonso III: - -«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o primeiro dia -d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que ali a sepultáram, jaz -mirrada segundo parece, a roupa com que foi sepultada esta como aquelle -dia que ali a puzeram, ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo -do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser que o fosse ao -tempo que ali a lançaram; como quer que seja, nam esta tão inteira, -e fresca como o lançol; jaz enfeitada, e a cabeça apertada; tem huns -cabellos castanhos que parece que foram formosos, mostra que foram -cortados estando doente, porque estam em huma parte mais compridos -que na outra, e estam mal cortados; tem hum lenço na cabeça sobre os -cabellos assaz nouo; tem calçadas humas çapatas pretas apantufadas, -como naquella hora que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao -menos do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda mulher em seu -tempo. Algus dizem que ella tinha hum rabo, e que vinha por parte da may, -de huma casta que em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo -lhe tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu por isso. O -manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou nam, nam o acho escrito, nem -menos que ella tivesse rabo mais que affirmaremme pessoas lidas nestas -historias, que o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella -agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre isso diligencias -para saber a verdade disto. E desta maneira que tenho escripto jaz -esperando sêr chamada. Prazerá ao Senhor que seja para gloria sua, porque -esta Rainha fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui santa, -e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.» - -Fr. Francisco Brandão na _Monarchia Lusitana_ e Figanière na obra -acima citada, concordam que a origem d’esta lenda provêm da rainha ter -introduzido em Portugal a moda das cotas caudatas, ou de rabo. - -Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar popular, pois -chegou a convencer os proprios reis, trasladamos para aqui o texto do -padre examinador do cadaver de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono -neto, enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou pelo reino -contemplando os restos mortaes dos seus antecessores. - - -Arrhas de D. Constança - -«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do Algarve a quantos -esta carta virem Faço saber que eu querendo attendêr cumprir, e guardar -aquello, que ante mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto, -e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante Dom Pedro meu -filho, e de Donna Constança filha desse Dom Joam, dó, e assino a essa -Donna Constança a Cidade de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com -todas sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças -que as aja e pessua essa Donna Constança por sas arras, e donadio bem, -e compridamente em toda sa vida asim como as melhor ouveram as Raynhas -de Portugal e tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas, -termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna Constança, para as -aver, e possuir livremente no dito tempo como dito he, e demais conhosco -e affirmo que a posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e -couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta Donna Constança e -por ella como uzofructuario até que ella per si ou per outrem filhe ou -mande filhar a posse corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas -sobredictas em testimonio desto mandei dar áa dita Donna Constança esta -minha carta aberta, e sellada do meu sello. Dante em Lisboa sette dias de -julho ElRey o mandou Pero Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta -e outo annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das _Provas da Hist. genealogica da -Casa Real_, pag. 285.)[54] - -O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo hoje as suas -cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu Archeologico de Lisboa, -estabelecido no Convento do Carmo, obra do Condestavel D. Nuno Alvares -Pereira. - -É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D. Pedro I; D. -Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam as cinzas á avidez -dos profanos; Ignez de Castro, coroada depois de morta, repousando -tranquillamente n’um mausoleu que photographava a grandeza do amor -do seu principe, tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes dos -vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres de Pedro I!... - - -Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão - -Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento d’el-rei D. -Duarte, que diz respeito á casa e estado de D. Leonor d’Aragão. - -«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo dito he, antre -as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita Camera, q̃ tinha a -Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as Villas de Alamquer, Cintra, Obidos, -Alvayazere, Torres Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e -Lugares e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha tinha em -Camera, sejão feitas duas partes pelo dito Senhor Rey de Portugal (D. -João I), ou por quem elle mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse, -e escolhese para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira e -aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera e aquella aja -e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃ logo quando a Deus plazera, -q̃ seja Raynha, q̃ per aquel mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem -provizom algua, ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha a -Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e molimentos, e -proveitos della e admenistraçom della, de presente o dito Senhor Rey de -Portugal faz a dita divisom em duas partes, convem a saber Torres Novas, -e Torres Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer, -Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e escolhe por sua parte as -ditas Villas de Alamquer, Cintra e Obidos.» - - (Tomo II das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, por - D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.) - - -Contracto do casamento de D. Affonso V - -Dom Affonso etc. a quantos esta carta virem fazemos saber que confiando -nós como por graça de Deus he celebrado matrimonio por palavras de -presente segundo hordenaçam e mandamento da nossa madre a santa Igreja de -Roma antre nos e a muy alta e muy excelente Princeza e muito esclarecida -e muito virtuosa Senhora Raynha Dona Isabel minha muito amada e muito -presada Esposa filha do illustre e magnifico Principe Infante Dom Pedro -Duque de Coimbra e Senhor de monte mor nosso muyto amado e prezado padre -e tyo curador e Regedor por nos em nossos Reynos e Senhorios, confirmando -outro si como atee o prezente antre nos ella dita Senhora nunca foi feito -algũ contracto sobre ou por razão do dito matrimonio porque ella fosse -dotada de algũ dote que nos por ella ou outrem fosse dado ou promettido -pera soportamento do carrego do dito matrimonio nem outro si fosse a -ella dada provisão de alguas Terras ou villas que ouvesse por camera -em sua vida nem outro si segurança de asentamento de certas rendas de -dinheiros que ouvese em cada hũ anno em sua vida pera soportamento do -seu Real estado, como todo esto sempre dantigamente ouverão as Rainhas -que nos Tempos passados forão em estes Reynos nem porque outro si ajamos -a ella promettidas alguas arras por honra de sua pessõa, no caso que o -dito matrimonio aconteça sêr separado por fallecimento nosso, as quaes -cousas per uzança geral guardada per todas as partes do mundo antre os -Principes Cristãos de similhante estado specialmente em estes Reynos -sempre forão costumados em similhante caso de se prometem de hua parte -a outra, por ende querendo nos este provér como he rezãn considerando -a cerca dello primeiramente o servisso de Deus y os muitos e grandes e -extremados serviços que nos tempos passados com grande lealdade avemos -recebido e ao presente recebemos em cada hũ dia, e ainda esperamos -receber ao diante do dito Infante D. Pedro nosso Padre e Thio etc por -conservação de nossa pessoa e exaltamento do nosso Real Estado, e bem a -sy grande honra de nossos Reynos e Senhorios. Considerando outro si como -a nosso Senhor Deus por sua santa mercê dotou a dita Senhora Rainha de -muitas grandes e extremadas virtudes etc. por as quaes com grande rezão a -devemos sobre todas sempre muy grandemente prezar e amar verdadeiramente -de nosso proprio motu certa sciencia poder absolucto sem nos ella nem -outrem em seu nome por sua parte esto requerer, louvamos, approvamos e -confirmamos o dito matrimonio, asi antre nos e ella feito e celebrado -por mandamento e dispensação de N. Senhor o Santo Padre Eugenio quarto, -e este fazemos pelas razõens suso ditas e ainda pelos grandes dividos -que entre nos e ella a Deus aprove serem, não embargantes de quaesquer -Leys Imperiaes ou Ordenaçoens de nossos Reynos, ou qualquer uzança asi -geral como special que a este em parte ou em todo seja contrario porque -as rezoens suso ditas e cada hũa d’ellas nos constrangem naturalmente -per o asi fazermos, e querendo outro si prover a ella dita Senhora -Raynha acerca das terras e villas que as Raynhas d’estes Reynos nos -tempos passados em ellas costumavam avêr por Cameras, por rezão de -seus matrimonios e bem asy acerca do assentamento de certas rendas de -dinheiro que por similhante guiza costumavam daver para soportamento de -seus Reaes Estados e outorgamos queremos e mandamos que a dita Senhora -Rainha haja por rezão do dito matrimonio em toda sua vida todolas terras -e Villas que a Rainha D. Leonor minha muita amada e presada madre Senhora -de louvada e gloriosa memoria, a que dê Deos o seu santo Paraiso ouve -e pessuyo por causa do seu matrimonio depois que por a graça de Deos -foi Rainha destos Reynos e em elles viveo as quaes Villas e terras nos -queremos e mandamos que a dita Senhora Rainha haja em toda a sua vida -em toda sua jurdição alta e baixa civel e crime méro mixto Imperio com -todolos padroados das Igrejas que ha em as ditas terras que a nos de -direito pertençem e bem asi todolas rendas e direitos Reaes, que as -ditas Villas e terras renderẽ por qualquer guiza que seja e com todolas -perogativas privilegios e graças e liberdades que a dita Senhora Raynha -D. Leonor minha madre forão otrogadas em qualquer tempo do mundo e milhor -se as ella milhor poder aver, e queremos que ella possa poer de sua mão -em seu nome Ouvidor que ouça e desembargue todolos feitos das ditas -Villas asi crimes como civeis, e bem asi tabelliaens os quaes se chamẽ -seus e por sua auctoridade façam todolas escrituras pruvicas que a seus -officios pertenção as quaes cousas o dito Ouvidor e tabeliaens faram asi -e tão compridamente como costumarão de fazer os Ouvidores e tabelliaens -das outras Raynhas que foram nos tempos passados em estes Reynos, -specialmente no tempo da dita Senhora Raynha minha madre, depois que -deles foi Raynha e bem asi queremos que posa hi poer de sua mão todolos -outros Officiaes que ella entender que são compridouros para requerer -arecadar todolos direitos que em elas aver posa, asim tão cumpridamente -como nos o fazemos e fazer podemos nas nossas terras que se por nós e em -nosso nome correm e quanto he ao asentamento e certas rendas de dinheiro -que as Rainhas nos tempos passados acostumaram aver em estes Regnos pera -suportamento de seus Reaes estados otorgamos queremos e mandamos, que a -dita Senhora Rainha aja de nos, por acentamento em cada hu anno por toda -sua vida hu milhão cento sesenta e cinco mil reis da moeda que agora -corre comvem a saber, de trinta e cinco livras o real, por quanto fomos -certo que o milhão e quinze mil reaes avia em asentamento a dita Senhora -Rainha minha Madre por causa do seu Cazamento, e o cento e cincoenta mil -lhe acrecentamos para seus vestidos de pano douro e de seda que a dita -Senhora Raynha minha madre avia do thesouro do Senhor Rey meu Padre, os -quaes dinheiros lhe já temos asentados dentro em esta Cidade na ciza -dos panos, e querendo outro si prover a dita Senhora Raynha acerca das -arras que similhantes Princezas e Senhoras em tal caso costumam de avêr -por honra de suas pessoas, no caso de separação de seus matrimonios, -outorgamos e queremos e mandamos que separado o dito matrimonio, por -seu falecimento da vida d’este mundo, em tal caso seus herdeiros ajam -de nos ou de nossos sucessores segundo o caso acontecêr, por arras e -em nome de arras, vinte mil escudos douro da moeda ora corrente em -estes nossos Reynos das quaes ela podera despuer a todo o tempo e como -lhe aprouger e estes vinte mil escudos douro, queremos e mandamos que -lhe sejam pagos pelas rendas das ditas Villas e acentamento que lhe -asi ja temos posto, e asentado como dito he, as quaes rendas todas e -acentamentos por falecimento da dita Senhora Rainha os officiaes que -por elo foram postos averam asi tão cumpridamente como a dita Senhora -Rainha em sua vida over e não serão dezapoderados delas por algu caso -que acontecer posa athe serem cumpridamente pagados os ditos vinte mil -escudos pera os entregarem a seus testamenteiros, ou a quem ela pera -elo ordenar, pera os despender segundo a ordenação que ela dita Senhora -Raynha em sua vida pera elo ordenar e despozer a toda sua vontade, as -quaes couzas todas e cada hua delas prometemos e juramos por nossa Fee -Real como Rey Catholico, por nos e por todos nossos successores que ao -diante em qualquer tempo forem, de lhes guardar cumprir e manter, e de -feito realmente cumpriremos e guardaremos e faremos conter e guardar, bem -fiel e verdadeiramente a todo nosso cumprido poder cesante toda a arte, -e mao engano e não daremos favor ajuda nem conselho a alguma pesoa de -qualquer estado e condição preeminencia que seja, ainda que a nos seja -muito conjunta em qualquer grao de devido e parentesco que ser posa, pera -contra elo vir em parte ou em todo, de feito nem de direito em juizo nem -fora delle, em puvrico nem escondido daqui em diante pera todo o sempre -ja mais por algua cousa ou rezom, pasada presente ou futura de qualquer -natura calidade ou condiçã que seja ou ser posa ainda que tal seja, que -ao presente pelo entendimento dos homens não posa ser alcançada porque -nosa tenção e vontade inteiramente he, que todalas ditas cousas lhe sejã -cumpridas e guardadas em todo o tempo, asi tão cumpridamente como em -esta nosa Carta he conthéudo, e prometemos ainda e juramos em nosa Fee, -que nunca empetraremos nem pediremos beneficio de restituição outorgado -per direito aos meores de vinte e cinco annos, pera desfazer alguns -promitimentos, porque depois ao diante em algu tempo se achem lezos ou -damnificados nem outro algu qualquer privilegio ou beneficio geral ou -especial, outorgado aos menóres de vinte e cinco anos, ou aos Rex como -pessoas puvricas e em direito priviligiadas porque nós de noso propio -moto certa ciencia e poder asim ordinario como absolucto renunciamos -todos os ditos privilegios e beneficio, e queremos e outorgamos e -mandamos por nos e por todolos nosos sucessores, que ao diante forem, -que nos nem eles nunca uzaremos de taes beneficios privilegios asi por -direito outorgados ao menor de vinte e cinco annos, ou ao Rey ou como -Rey, porque as couzas todas suso ditas e cada hua delas ja mais em algu -tempo posão ser quebrantadas anuladas ou conronpidas ante as faremos -sempre, todos manter conprir e guardar asi tão conpridamente como suso -dito he declarado, e por maior firmeza de todo o suso dito, de noso moto -proprio e certa ciencia, e poder absolucto asi como Rey suprimos qualquer -falecimento de solemnidade de feito ou de direito asi geral como especial -que em esta nosa carta faleça, por cujo falecimento em algu tempo ella -posa ser retrautada casada e irritada, ou anichilada porque queremos e -mandamos como dito he que tal falecimento ou falecimentos nem enbargantes -esta nosa Carta com todalas cousas en ela contheudas, sempre em todo o -tempo ja mais ser firme rata e valiosa asi como se os ditos falecimentos, -ou cada hu deles em ela não ouvese e em testemunho deste lhe mandamos dar -esta nosa Carta firmada de nosso verdadeiro sinal e aselada com noso -selo de chumbo dante em a mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa seis -dias de mayo João Gonçalves a fez anno do Senhor Jesu Christo 1447 annos. - - (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica_, pag 48; o - original está na Torre do Tombo, gaveta 17, maço 1, n.ᵒ 12.) - - -A descendencia do Infante D. Pedro - -Depois do desastre d’Alfarrobeira, a 10 de dezembro de 1449, D. Affonso -V, dominado pelos infames promotores d’aquella tragedia, declarou -criminosa a memoria de seu tio. Este acto, suggerido pelos ambiciosos -que invejavam os bens do duque de Coimbra, explica-se pela necessidade -de macular a memoria do Infante, para ser licito o confisco de sua casa, -que, no caso contrario, passaria aos herdeiros, seus legitimos filhos. - -D. Antonio Caetano de Souza na _Historia Genealogica_ (tomo II, cap. -II, pag. 76-77) faz a verdadeira apotheose de D. Pedro, condemnando -asperamente o procedimento dos seus inimigos, _que não nomeia_. - -Quem conhece o escriptor cortezão de D. João V, deve ter em conta este -facto, em vista do duque de Bragança e seu filho o conde d’Ourem terem -sido promotores da catastrophe. Para mostrar a vehemencia, embora -cortezã, do chronista, trasladamos um trecho da sua critica: «_chegando -a tanto o odio dos mesmos, que lhe erão obrigados,[55] que aconselharão -El-Rey o privasse da sepultura, que El-Rey seu pay lhe mandára lavrar -no Mosteiro da Batalha; e assim sem distincção foy sepultado na Igreja -d’Alverca como se fôra hum dos miseraveis, que perecerão n’aquelle dia, -parecendo-lhes que d’este modo escurecião a sua memoria, ficando na das -gentes abominada a de taes Conselheiros._» - -Não se pode dizer mais, quando o crime repugna e o decôro servil obriga -o historiador a ser compassivo e benevolo. Bom seria que D. João V -recommendasse ao erudito Souza, a verdadeira justiça, de que acolhesse -a vangloria da mal disfarçada lisonja, que mais tarde, á luz da critica -sensata e imparcial, desappareceria como o fumo afugentado pelo vento -rijo da verdade. Esta é sempre a mesma, para conforto dos opprimidos das -ambições, das invejas e vinganças torpes. Póde, como o sol offuscar-se um -tanto, mas logo em seguida, desfeita a nuvem, vem brilhar n’um ceo azul -e tranquillo. Deus, nos seus designios insondaveis, determinou que os -homens, como D. Pedro, Duarte Pacheco, Affonso d’Albuquerque e Luiz de -Camões, tivessem durante a vida o rigor da tormenta da escoria social. -Louvado seja Elle! Quão maior é a tempestade, maior é a força da nau -que lhe resiste. Os grandes vultos são como as penedias dos litoraes; -açoutadas pela furia das ondas, afogadas pelo mar buliçoso, ao descer da -maré, ao serenar dos elementos, apparecem brilhantes á luz do sol, com o -seu tapete de algas e com os seus lagos salinos, provas evidentes da sua -resistencia! - -Na mesma _Historia Genealogica_ vem enumerados os filhos do Infante, os -seus feitos e o seu fim; mais accentuadamente, o sr. Oliveira Martins, -na sua excellente obra _Os Filhos de D. João I_ (cap. XII, pag. 347-358) -descreve a generosa prole, uma das mais conspicuas da dynastia d’Aviz. - -Notarei que de todos os seus filhos, quem teve descendencia foi D. -Izabel, esposa de D. Affonso V e que logo na segunda geração, a linha -do Infante só foi continuada pela bastardia. D. João II, seu neto, teve -da rainha D. Leonor, sua mulher, um filho, D. Affonso, que morreu d’um -desastre e não deixou successão (veja-se pagina 67); com este infausto -acontecimento extinguiu-se a prole legitima de D. Pedro, que foi -continuada por D. Jorge, bastardo de D. João II, que recebeu o titulo de -duque de Coimbra, em memoria de seu illustre bisavô. Casou o principe D. -Jorge com D. Brites de Vilhena, filha do senhor D. Alvaro, irmão do duque -de Bragança D. Fernando II, e progenitor da casa de Cadaval.[56] - -D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista d’Alfarrobeira; -e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima immolada ás ambições do -irmão!... A grande arvore bragantina começava a dominar com suas raizes, -não só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia e o -sangue generoso do unico homem que ousára impedir os seus vôos quando se -alargavam para além dos limites da equidade e da justiça. - - -Affonso d’Albuquerque - -Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do Paraiso, entre Alhandra -e Villa Franca. Educou-se na côrte de D. Affonso V, que em 1480 o mandou -na esquadra contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489, D. -João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de defender a fortaleza -de Graciosa, junto a Larache. Em 1503 foi a primeira vez á India, a bordo -da nau _S. Thiago_, soffrendo grandes tormentas durante a viagem. A 25 de -janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a Lisboa, nos fins de julho do -mesmo anno. El-Rei D. Manuel, sciente do seu alto merito encarregou-o em -1506 de tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão da Cunha, -levando comsigo a nomeação de successor a D. Francisco d’Almeida. - -Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino quilate, diplomata -e guerreiro, soube levantar o nome portuguez nas remotas paragens, onde a -vontade regia o tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando -de o domar não só pela força das armas, mas tambem pelas exterioridades -do fausto; assim em Goa tratava-se como principe, habitando o palacio -do Sabayo e comendo ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e -por córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no terreiro -dançavam, durante as refeições. - -Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum dos maiores -vultos de toda a humanidade: a perseguição cruel dos invejosos, dos -pobres miseraveis que julgam poder desfazer o que a Providencia creou! -Albuquerque foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este infame -empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo Soares d’Albergaria, que D. -Manuel, na mesma occasião de demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão -de Cochim e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto ao -entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da _Flor do Mar_. Estava -doente e os padecimentos agravaram-se-lhe com a ingrata nova. - -Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando para aqui o que -d’ella refere o seu proprio filho, nos _Commentarios_: - -«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado outro governador, e -seus inimigos muito favorecidos d’el-rei, alevantou as mãos e deu graças -a Nosso Senhor e disse: - -«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com ElRei por amor dos homens, -bom é acabar. - -«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas que levavam para os -mercadores d’Ormuz, em que se dizia, que se não tinham dado a fortaleza -a Affonso d’Albuquerque, que lh’a não dessem, porque era vindo outro -governador, que faria tudo o que elles quizessem. - -«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza que se ficava -acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque queimar todas, e despediu os -mouros que se fossem e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu -testamento, em que se mandava enterrar na sua capella, que tinha feito em -Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma cédula, em que mandou que os -seus ossos, depois da carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras -palavras que houve por escusado escrever. E acabado isto escreveu uma -carta para D. Manuel, que dizia assim: - -«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou com um soluço que é -signal de morte. N’esses Reinos tenho um filho: peço a Vossa Alteza que -m’o faça grande, como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com -minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena de minha benção, -que vol-os requeira. E quanto ás cousas da India não digo nada, porque -ella fallará por si e por mim.» - -«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia ter em pé, pedindo -sempre a Nosso Senhor que o levasse a Goa e alli fizesse d’elle o que -fosse mais seu serviço. E sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou -que lhe fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre Affonso, -physico. E porque, com grande fraqueza que tinha, não comia nada, mandou -que lhe trouxessem um pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno -de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau surgir na barra, -sabbado de noute, quinze dias do mez de dezembro. Quando disseram a -Affonso d’Albuquerque que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas -graças a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle tanto -desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o vigario geral, que -era já vindo de terra, e Pero Dalpoem, secretario da India, que elle -deixou por seu testamento) abraçado com o crucifixo; e fallando sempre -disse ao vigario geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão -de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre muito devoto, -porque n’ella e n’aquella Cruz, que era similhante da em que Nosso Senhor -padecera, e nas suas Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E -mandou que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era commendador) -para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora antes da manhã, deu a alma a -Deus. E alli acabaram todos os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação -d’elles.» - -Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice; por essa -circumstancia demos a palavra ao chronista dos feitos do grande -portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de Albuquerque, a quem D. Manuel, -querendo recompensar os feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome. - -Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei de Portugal, Affonso -d’Albuquerque escreveu os _Commentarios_, obra chamada pelo Dr. Antonio -Ferreira, _uma nua e chã pintura_. Hoje ignora-se a certa paragem dos -restos do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este facto -demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento da Graça, em Lisboa, -onde o corpo estava depositado, na capella-mór da igreja, em sepultura -particular. Como alguem invejava o local e deu mais avultada quantia, os -frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque, sobre a -posse do tumulo. A estupidez (este é o termo) das justiças do seculo XVII -validaram a pretenção dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque -foram trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo se em -caixão documentado, ou confundidos á solta com as numerosas ossadas ahi -depositadas. Bom é que se estude este assumpto e que se procurem os -restos mortaes d’um dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de -todo o mundo civilisado. - - * * * * * - -A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo Soares -d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda a grandiosa obra -do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso e cruel. Os povos de -Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque esteve na capella de Nossa Senhora -da Serra, vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe -protecção para as aleivosias dos portuguezes. - - -A Infanta D. Maria - -Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de 1521, sendo filha -d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa D. Leonor d’Austria. Tinha -apenas dois annos quando sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio -de 1523) para junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e -desamparada, entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna Blasfet, -camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo dos cuidados maternaes, -até que D. João III veiu a desposar a princeza D. Catharina, irmã de sua -madrasta. A nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual como -ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas lettras, sciencias e -artes. - -Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia onde se juntavam -os artistas e litteratos, attrahidos não só pelo culto scientifico mas -tambem pela belleza imponente e pela figura magestosa da Augusta Senhora -que sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de mulher com -o tracto affavel para com todos, com a protecção e a estima ao abandonado -da fortuna, que tivesse talento como apanagio da Divindade. Viveu a -infanta no auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos -enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas (Anna e Luiza), -Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de Gil Vicente), Joanna Vaz, e -tantas outras que seguiram a derrota sublime do genio portuguez. - -Depois de ter sido requestada por varios principes da Europa; casamentos -estes que a politica e a avareza de seu irmão D. João III lhe veiu a -tolher, falleceu a Infanta D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos -antes da morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte -soneto: - - Que levas, cruel morte? Um claro dia; - A que horas o tomaste? Amanhecendo; - Entendes o que levas? Não entendo; - Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia. - - Seu corpo quem o goza? A terra fria; - Como ficou sua luz? Anoitecendo; - Lusitania que diz? Fica dizendo, - «Emfim não mereci Dona Maria.» - - Mataste quem a viu? Ja morto estava; - Que diz o seu amôr? Fallar não ousa; - E quem o faz calar? Minha vontade; - - Na morte que ficou? Saudade brava; - Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa, - Mas fica que chorar sua beldade. - - -Concerto entre D. Leonor d’Austria e sua irmã D. Catharina, sobre os bens -da Casa das Rainhas. - -Dom Joam per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves d’aquem -e d’alem mar em Africa Senhor de Guiné e da Conquista, navegaçãm, -commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India etc. A quantos esta -minha carta virem Faço saber que entre as cousas que foram capituladas -e assentadas no contracto do casamento de El-Rey meu Senhor e padre que -santa gloria haja com a Raynha Leonor sua mulher minha Senhora madre lhe -foi outorgado que o dito Senhor Rei meu padre lhe desse as Terras que -tinha a Senhora Raynha Dona Leonor sua irmã, minha tia que santa gloria -haja se vagassem logo em vagando com todo aquello que ella das ditas -terras entam possuya como compridamente he contheudo no dito contracto -de seu casamento e por fallecimento da dita Senhora Raynha minha tia -vieram á dita Senhora Raynha D. Leonor minha madre a Cidade de Silves, -Alvôr e Villas de Faram no Reyno do Algarve e as Villas de Obbidos, -Alamquer, Sintra e Aldea Gallega e Aldeia Gavinha com todos seus termos, -terras, direitos, rendas, fóros, tributos e pertenças e com todas as -suas jurdições civis e crimes méro mixto Império e com os Padroados das -Igrejas e dadas de tabelliaens e de todos os outros officios que eram -da dada e provimento da dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e por -quanto hora com minha autoridade e consentimento a dita Senhora Raynha -Dona Leonor minha madre se concertou com a Raynha minha sobre todas -muito amada e presada molher, sua Irmãa para lhe leixar e virem a ella -a dita Cidade de Silves e Villas e terras, rendas direitos jurdições -dadas d’officios Padroados das Igrejas e todas as outras cousas que -ella tinha e de direito por bem do dito seu contracto lhe pertencião -e como tudo tinha havia e possuia a dita Senhora Raynha Dona Leonor -minha tia por certa satisfaçam e paga que por isso lhe faz nos quatro -contos de maravedis que ella tinha em Castella do Emperador seu Irmão -segundo compridamente he contheudo e declarado no contracto de troca e -escambo e permudaçam que antre ellas foi feito com meu consentimento e -do dito Emperador seu Irmão pello que a elle nisso tocava fazer de cujas -provisões os treslados são postos de verbo a verbo no dito concerto -e contracto a Raynha minha sobre todas muito amada e presada molher -me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de doaçam e mercê -da dita Cidade Villas terras rendas e de todas as outras cousas que -á dita Raynha sua irmãa pertencem e havia davêr e visto por mim seu -requerimento pello muy grande amor que lhe tenho e desejo de em todas -suas cousas lhe comprazer, visto o dito contracto e concerto feito antre -ella e a dita Raynha Dona Leanor sua Irmãa minha Senhora madre tenho -por bem e lhe Faço pura e inrevogavel doação e graça para em todos os -dias da sua vida da dita Cidade de Silves, Alvôr, Villas de Faram, -Obbidos, Alamquer, Sintra, Aldeia Gallega e Aldeia Gavinha com todos -os seus termos terras direitos, fóros, e tributos e pertenças e com as -Alcayderias móres dos Castellos d’ellas, rendas e direitos que a ellas -pertencem e com todas as suas jurisdições civeis e crimes mero mixto -Império, resalvando para mim correição e alçada e com os Padroados das -Igrejas e dadas dos tabelliaens e de todos os outros officios que na -dita Cidade e Villas dava e de que provia a Senhora Raynha Dona Leonor -minha tia e com todas as outras cousas de qualquer genero e callidade -que sejam que ella nellas tinha havia e pessuya e melhor se ella com -direiro o melhor poder ter e haver e dello uzar e como todo de direito -pertence á dita Raynha Dona Leanôr minha Senhora e madre por bem do dito -seu contracto de casamento. Porem mando aos meus Corregedores Contadores -Almoxorifes Recebedores Juizes justiças officiaes e pessoas da dita -Cidade Villas e terras e aos Fidalgos, Cavalleiros, homens bons e povo -d’ellas e a quaesquer outros officiaes e pessoas a que esta minha carta -fôr mostrada e o conhecimento della pertencêr que dêm á dita Raynha minha -molher e a seu certo recado a posse da dita Cidade de Silves Alvôr e -Villas de Faram Obbidos Alamquer Sintra e Aldeagallega e Aldea Gavinha -com todos seus termos terras rendas direitos fóros tributos e pertenças -Alcayderias mores e com todas suas jurisdições civeis e crimes mero e -mixto Imperio resalvando para mim somente a correição e Alçada e com os -Padroados da Igreja dadas de Tabelliaens e de todos os outros officios -que dava e provia a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia e de todas -as outras cousas que ella nellas tinha havia recadava e possuya e lhe -leixem todo haver recadar e pessuir e dello usar por sy e por seus -officiaes e pessõas que para ello ordenar e fazer como em cousa sua -propria porque eu lhe faço assy de tudo doaçam e graça em sua vida como -dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto porque -assy he minha mercê e mando ãos dittos meus Contadores que esta carta -registem no livro dos proprios das comarcas para sempre se saber a forma -desta doação a qual mando assy mesmo aos Juizes da dita Cidade e Villas -que façam tresladar nos livros das Vereações Dada em a Cidade de Lisboa -a vinte e nove dias de Outubro Bartholomeu Fernandes a fez Anno de nosso -Senhor Jesus Christo de mil quinhentos vinte oito annos. - - (Tomo 2.ᵒ das _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, - pagina 425). A doação que D. João III fez a sua mulher, de toda - a Casa das Rainhas, copiamol-a na Torre do Tombo, collecção de - S. Vicente, vol. XX, fl.ᵃˢ 204, estando encorporada na doação - de D. Luiza de Gusmão, que adeante publicamos. Pouca differença - faz do Concerto, existindo, ainda assim, alguma troca de - palavras e data posterior. - - -Doação aa sñra Raynha D. Luiza da Jurisdição de suas terras, e da Caza de -sua fazenda e governo e despacho della. - -Dom Joam por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalem -mar, em Africa sñor da Guiné e da Conquista navegação comercio da Etiopia -Arabia Persia e da India etc. Faço saber aos q̃ esta minha carta virem -que a Raynha D. Luiza minha sobre todas muito amada e prezada molher me -enviou a prezentar as copias de hũa carta de doação e confirmação q̃ -pello sñor Rey Dom Joam o 3.ᵒ foi outorgada á sñra Raynha D. Caterina -sua molher das Terras chamada da Raynha com todas suas rendas direitos -reaes, officios, Padroados, Alcayderias móres, jurisdições Ouvidor e -Juizes de suas terras e mais faculdades passada no anno de mil quinhentos -e vinte e nove, e de hũa provisão passada no anno de 1550 da jurisdição -governo e administração de sua faz.ᵈᵃ Vedor Ouvidor e officiaes da Casa -e despacho della, e sua Chancelleria, a que vinham as appellações e -aggravos dos Contadores e Juizes dos direitos reaes, das quaes o theor é -o seguinte:—Dom João por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves etc. - -[Sidenote: Doação de D. João III, da Caza das Rainhas a sua mulher D. -Catharina d’Austria.] - -A todos quantos esta minha carta virem faço saber que entre as cousas -que foram capituladas e assentadas no contracto do casamento d’ElRey -meu sñor e Padre que santa gloria aja e a Raynha D. Leanor sua molher -minha sñra e madre lhe foi outorgado que o dito sñor Rey meu padre sñor -d’estas terras que tinha a sñra Raynha D. Leanor sua irmã minha tia q̃ -s.ᵗᵃ gloria aja se vagassem, logo em vagando com todo aquello q̃ ella -das ditas terras entam possuia, como compridam.ᵗᵉ era conteudo no dito -cõtrato de casamᵗᵒ que por falecimᵗᵒ da dita sñra Raynha minha tia vierão -á dita sñra Raynha D. Leanor minha madre, a Cidade de Silves, Alvôr, -villas de Faram no Reyno do Algarve, e as villas de Obidos Alanquer -Sintra Aldea Gallega e Aldea Gavinha cõ todos seus termos terras direytos -rendas foros tributos e pertenças e com todas suas jurisdições crimes e -civeis mero e mixto imperio e com os Padroados das Igreijas e dadas de -Tabaliaes e de todos os outros officios que eram da dada e provimᵗᵒ da -ditta sñra Raynha D. Leanor minha tia e porqᵗᵒ hora com minha autoridade -e consintimento a ditta sñra Raynha D. Leanor minha madre se consertou -com a Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada molher sua irmaa para -lhe leixar e virem a ella a ditta Cidade de Silves e villas e terras -rendas direytos jurisdições dadas d’officios padroados das Igrejas e -rendas e as outras cousas que ella tinha e de direito por bem do dito seu -contracto lhe pertencião e como todas tinha e avia e possuhia a dita -sñra Raynha D. Leanor minha tia por certa satisfação que paga que por -isso lhe faz nos quatro contos de maravedis que ella tinha em Castella -do emperador seu irmão, segundo compridamente he conteudo e declarado -no Contracto de troca e escambo e permudação que entre ellas foi feito -com meu consentimᵗᵒ e do dito emperador seu irmão pello q̃ a elle nisso -tocava fazer, de cujas provisões os treslados sam postos de verbo no -dito concerto e contracto, a Raynha minha sobre todas muito amada e -prezada molher me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha carta de -doação e mercê da ditta cidade e villas e terras e rendas e de todas -as outras cousas que a dita Raynha sua irmaa pertencem e avia de aver, -e visto por mim seu requerimento pello mᵗᵒ grande amor que lhe tenho e -desejo de em todas as suas cousas lhe aprazer visto o dito contrato e -concerto feito entre ella e a dita Raynha D. Leonor sua irmaa minha sñra -madre tenho por bem e lhe faço pura e irrevogavel doação e graça para -em todos os dias de sua vida da dita Cidade de Silves Alvôr Villa de -Faram Obidos Alamquer Sintra Aldea Gallega Aldea Gavinha com todos os -seus termos e terras e foros tributos e pertenças e com as Alcayderias -móres dos castellos dellas rendas e direytos q̃ a ellas pertence, e com -todas suas jurisdições civeis e crimes mero e mixto imperio, resalvando -para mim a Correição e alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de -Tabaliaens e de todos os outros officios por suas cartas que na ditta -Cidade e ditas villas dava e de que provia a sñra Raynha D. Leanor minha -tia e quero e me praz que os juizes e tabeliães da ditta Cidade e villas -e lugares e terras se chamem por ella assy como se chamavam pella ditta -sñra Raynha D. Leanor minha tia o com todas as outras cousas de qualquer -genero e qualidade que sejam q̃ ella nellas tinha e avia e possuhia e -melhor se ella com dyreito o melhor poder ter e aver e dello uzar e como -de dereyto pertence á ditta Raynha D. Leanor minha sñra madre por bem -do ditto seu contracto de cazam.ᵗᵒ Porem mando aos meus Corregedores, -Contadores Almxᵉˢ Recebedores Juizes Justiças officiaes e pessoas da -dita cidade e Villas e Terras e aos fidalgos, cavalleyros, homês bons e -Povo dellas e a quaesquer outros officiaes a quem esta minha carta for -mostrada e o conhecimento della pertencer q̃ deem aa dita Raynha minha -molher e a seu certo recado a posse da ditta Cidade de Silves, Alvôr, -Villas de Farão, Obidos e Alemquer Sintra e Aldea Gallega, Aldea Gavinha -com todos seus termos e terras rendas direytos foros tributos pertenças -e Alcayderias mores e rendas dellas e com todas suas jurisdições civeis -crimes mero e mixto imperio resalvando para mim somᵗᵉ a correição e -Alçada e com os Padroados das Igrejas e dadas de Tabelliaes e de todos -os outros officios que dava e provia a ditta sñra Raynha D. Leanor minha -tia e de todas as outras cousas que ella nellas tinha e avia recadava -e possuhia; e lhe leixem todo aver recadar e pussuhir e dello uzar por -sy e por seus officiaes e pessoas que pera ello ordenar e fizer como em -cousa sua propria, porq̃ eu lhe faço assy de tudo doação e graça em sua -vida como dito he sem duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto, -porq̃ assy he minha m.ᶜᵉ E mando aos ditos meus Contadores que esta carta -registem no livro dos proprios das Comarcas pera sempre se saber a forma -desta doação aqual mando assy mesmo aos juizes da dita Cidade e villas -q̃ fação tresladar nos livros das Vereações. Dada em a Cidade de Lisboa. -«Bxᵐᵒⁿ frz a fez» a quatro do mes de Janʳᵒ anno de nosso sñor Jesu xpto -de mil e quinhentos e vinte e nove annos. - -_E a outra carta do anno de mil e quinhentos e sincoenta tocante ao -regimento e despacho da Caza e officiaes de sua faz.ᵈᵃ he a seguinte._ -Eu ElRey faço saber a vós Juizes e Vereadores e Povo da V.ᵃ de Alenquer -q̃ por alguns resp.ᵗᵒˢ que moverão a Raynha minha sobre todas m.ᵒ amada -e prezada molher, e pello assy sentir pera mais seu descanço ella ouve -por bem e me pedio que eu provesse e mandasse prover de justiça as -Cidades e Villas que ella ha em meus Reynos e assy provesse nella os -officios de justiça quando vagarem como tudo me parecesse e he necessario -pera bem serem regidas e governadas em justiça e ficando a ella as -Alcayderias mores e padroados das Igrejas e direytos rendas q̃ ella ha -e lhe pertencem nas ditas suas Cidades e Villas e de que ella esta em -posse e a jurisdição dos ditos direitos e rendas e dadas dos officios da -arrecadação da dita faz.ᵈᵃ que hora tem nas ditas Cidades e Villas ou -ao diante lhe parecer que são necessarios com as appellações e aggravos -dante os ditos officiaes de sua faz.ᵈᵃ pera ella e o Vedor de sua faz.ᵈᵃ -e ouvidor dos feitos della sem a serca dello os Juizes Corregedores e -pessoas dos meus Reynos q̃ eu puzesse, conhecerem das cauzas q̃ tocarem -á dita sua faz.ᵈᵃ e arrecadação d’ella, nem minhas Relações e justiças -poderem conhecer das dittas Appellações q̃ dante os dittos officiaes -vierem, porq̃ delles conhecerá o dito seu Védor da fazenda e ouvidor -dos feitos della, ou outros Dezembargadores q̃ ella ordenar como hora -conhecem e assy se cumprão nas dittas Cidades e Villas seus mandados e os -dos dittos seus officiaes da faz.ᵈᵃ, como hora se cumprem e passarão na -forma q̃ hora passam, e por folgar de em tudo comprazer á dita sñra, me -pras e hey por bem de mandar prover de justiça as dittas Cidades e Villas -e dar os officios dellas emqᵒ o assy a dita sñra ouver por bem e q.ᵗᵒ ás -jurisdições das cousas de sua fazᵈᵃ e dadas dos officios da recadação -della q̃ hora ha ou ao diante lhe parecer q̃ sam necessarios ella proverá -como ouver por bem e seus mandados e do vedor de sua fazenda e ouvidor -dos feitos della e de todos os outros officiaes de sua fazᵈᵃ passaram da -forma que ategóra passaram e se cumprirão em tudo como ategóra cumprirão -e as Appellações que sahirem dante os officiaes de sua fazᵈᵃ sobre couzas -della e arrecadação de seus direitos e rendas viram ao dito seu Vedor da -fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della e se despacharam com os Dezʳᵉˢ q̃ ella -ordenar como se hora faz, sem Cᵒʳ ou jusᵃˢ minhas nem minhas Relações -conhecerem de cousa algũa que toque a sua fazᵈᵃ e arrecadação de seus -direitos e rendas nem das appellações nem aggravos q̃ sahirem dos ditos -officiaes de sua fazᵈᵃ porq̃ de tudo hão de conhecer só seu Vedor da -fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della com os Dezʳᵉˢ que ella ordenar como -assima dito he, e como eu hora mando q̃ o Cᵒʳ em essa Comarca va a essa -Villa e entre nella a fazer Correição como e pela manᵃ que faz nos outros -meus lugares da dita Comarca, volo notifico asy o mando que lhe obdeçaes, -em tudo cumpraes seus mandados, este registareis no livro da Camera dessa -Villa com outra carta que sobre o dito caso vos escreve a dita sñra para -a todos ser notorio e se cumprirem em tudo. - -[Sidenote: Doação de D. João IV á rainha D. Luiza de Gusmão.] - -Pantaleão Rebello a fez em Lisboa a seis do mez de mayo de mil quinhentos -e cincoenta.—Pedindo-me a dita Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e -prezada mulher que porqᵗᵒ na Carta patente de Doação das ditas terras da -Raynha q̃ para sua Camera Caza e estado por mim lhe fora outorgada, se -continha que averia as dittas terras em sua vida com todas as rendas, -direitos reaes, tributos, jurisdições, Alcayderias móres, offᵒˢ de -justiça e sua fazᵈᵃ com os mais privilegios e prerogativas assy e da -manʳᵃ que a sñra Raynha D. Caterina ultimamente as possuhira e estivera -em posse e costume de uzar. O que tudo melhor cõstava das ditas cartas e -provisão assima relatadas, hũa das terras rendas offᵒˢ e jurisdições, -outra em q̃ se declara a jurisdição uzo e costume e modo do procedimento -e despacho da Caza de sua fazᵈᵃ e offᵒˢ por ella creados q̃ nella andavam -e de sua Chrᵃ e Contadores Juizes e Almoxᵉˢ da dita sua fazᵈᵃ, as quaes -cousas senão achavam assi recopiladas em outra carta de doação, por serem -mᵗᵒˢ e de diversos pontos particulares e em diversos tempos houvesse por -bem de lhe conceder e confirmar as ditas cartas e provisão supprindo na -primeira entre as terras nella declaradas as Villas das Caldas e salir -do Porto que por as outras Prouvizões constava serem das sr.ᵃˢ Raynhas -D. Leanor e D. Caterina e p.ᵃ em sua vida as possuirem excepto o que -nellas ao Hospital das Caldas estava concedido para andarem todas nesta -carta. E asy a provisão do q̃ toca á jurisdição e poder que por ella -se declara que lhe compete em sua faz.ᵈᵃ E visto por mim o q̃ me assy -enviou pedir e as ditas carta e provisão e pello m.ᵗᵒ amor que lhe tenho -e por m.ᵒ desejar de em tudo o q̃ me requerer e pedir lhe comprazer como -é razão e por lhe fazer graça e m.ᶜᵉ de minha certa sciencia e poder -real e absoluto, hey por bem e me praz de lhe conceder e confirmar em -sua vida as ditas terras cartas doações jurisdições e previlegios com -tudo o mais nelles conteudo assy e da man.ʳᵃ que as dittas Raynhas, e -ultimamente a dita Raynha D. Cn.ᵃ as tiveram e melhor, se melhor por -elles lhe competir, com declaração q̃ onde na sobredita carta reservo -para mi Correição e Alçada, quanto á Correição, se entende que a farão -os Corregedores com sua auctoridade assy e na fórma e casos que nos he -patente e em outras de regim.ᵗᵒ e jurisdição de seu ouvidor e off.ᵉᵐ, -passada no dia da feitura desta he declarado. Pello que mando ao Regedor -da Caza da Supplicação e g.ᵒʳ da Caza do Porto e minhas Relações e -Tribunaes e aos meus Juizes e jus.ᶜᵃˢ que a fação guardar e registar -nos livros das Relações Camaras e Correições e outro sy mando aos ditos -Corregedores Contadores Juizes e Just.ᵃˢ Vereadores e da governança das -ditas Cidad.ᵉˢ e V.ᵃˢ que dem á dita Raynha e a seu certo recado e pessoa -que lhe aprouver mandar com sua provisão de procuração a posse dellas com -todos seus termos, e terras rendas direytos foros tributos Alcayderias -móres, com suas rendas e todas suas jurisdições civeis e crimes mero e -mixto imperio na forma sobredita e q̃ na dita carta e regim.ᵗᵒ das terras -e jurisdição mais largam.ᵗᵉ he declarado e nas mais q̃ por mi concedidas -e confirmadas q̃ a dita snr.ᵃ Raynha D. Cn.ᵃ em sua vida teve e de q̃ -uzou e esteve de posse. - -E por firmeza de tudo o que dito he mandei dar esta m.ᵃ carta patente -por mi assinada e passada pela m.ᵃ Cn.ᵃ Dada na Cidade de Lisboa aos -dez dias do mez de janeiro Sotto mayor a fez........de mil seiscentos e -quarenta e trez. - - (Archivo da Torre do Tombo—Collecção de S. Vicente, Volume XX, - fl.ᵃˢ 204.) - - - - -NOTAS - - -[1] O sr. commendador Guilherme João Carlos Henriques, publicou ha -annos um bem elaborado livro: _Alemquer e seu concelho_. É esta uma -obra puramente _local_, que informa todas as particularidades que dizem -respeito á villa e suas freguezias, bem como aos outros pontos ruraes. - -A Historia _local_ d’Alemquer está bem entregue ao sr. Guilherme -Henriques e mesmo que haja alguem que se lembre hoje de escrevel-a, não -fará mais do que ampliar o seu trabalho, ficando assim com a gloria -incompleta. Não serei eu que sou seu amigo e que além d’isso, me prezo de -ser leal, que lhe usurparei o logar; antes renovo aqui o pedido, que ha -tempos fiz a sua ex.ᵃ, de uma segunda edição, augmentada, do seu livro, o -que traria grande vantagem para os estudiosos e para os que prezam o bom -nome da velha capital da Casa das Rainhas. - -Como sua ex.ᵃ verá pela Advertencia e pelo texto d’esta obra, a parte -_local_ está só no titulo d’ella. A minha esphera d’acção é outra muito -differente; sou e serei um cabouqueiro, como me recommenda Oliveira -Martins, mas no campo da Historia ha numerosas minas de diamantes. - -Esta nota não é dirigida ao espirito intelligente e cavalheiresco de -sua ex.ᵃ, mas uma simples prevenção contra os mal intencionados ou -ignorantes, que queiram desvirtuar as acções de cada um. - -[2] Archivo Nacional da Torre do Tombo, inquirições de D. Diniz; Livro -10, fl. 22 e 24 verso. - -[3] Figanière, obra citada, pag. 62. - -[4] Torre do Tombo, chancellaria de D. Diniz, livro 1.ᵒ fl. 41. - -[5] O original d’este documento encontrou-o Figanière no cartorio de -Santa Clara, achando-se registado na chancellaria de D. Diniz, livro 3.ᵒ, -fl. 33. - -[6] Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 46. - -[7] Torre do Tombo, chancellaria de D. Fernando, Livro 1.ᵒ, fl. 107. - -[8] Com o desenvolvimento do commercio nas conquistas, tiveram as Rainhas -varias rendas sobre diversas mercadorias. - -[9] D. José Barbosa diz que o casamento de D. Affonso II se realisou em -1201; mas Alexandre Herculano affirma que só teve logar nos fins de 1208, -ou principios de 1209. - -[10] De todos os reis de Portugal, exceptuando os Filippes, os unicos que -estão sepultados no estrangeiro, são dois bem desgraçados: D. Sancho II e -D. Miguel I. - -[11] O diploma é datado de Elvas, 25 de fevereiro de 1267, e acha-se na -Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 19. - -[12] Torre do Tombo, chancellaria de D. Affonso III, livro 1.ᵒ fl. 141. - -[13] D. José Barbosa, no _Catalogo das Rainhas de Portugal_, diz que a -rainha D. Beatriz de Gusmão falleceu a 27 de outubro de 1303; porém, o -sr. João Pedro da Costa Basto encontrou na Torre do Tombo a data acima -indicada, que Figanière menciona na sua obra _Memorias das Rainhas de -Portugal_, pag. 121. Vid. _Notas e documentos_. - -[14] D. Izabel d’Aragão foi beatificada por Leão X a 15 de abril de 1516 -e canonisada por Urbano VIII a 25 de maio de 1625. - -[15] Não são concordes os historiadores quanto ao fallecimento de D. -Constança. D. José Barbosa affirma que falleceu aos 13 de novembro de -1345; mas o _Obituario de S. Bartholomeu_ diz que a morte teve logar no -dia 27 de janeiro de 1349. Vid. _Notas e documentos_. - -[16] D. Leonor Telles está sepultada no mosteiro de Nossa Senhora da -Mercê de Valladolid. - -[17] El-rei D. João I teve além do duque de Bragança, D. Affonso, uma -filha bastarda, que foi D. Beatriz, que casou em 1405 com Thomaz Fitz -Alan, conde de Arundel, primo da rainha D. Filippa de Lencastre. A mãe -d’estes filhos foi Ignez Pires, que depois foi commendadeira de Santos. - -[18] A 24 de julho de 1429, o senhor de Roubaix, como procurador do duque -de Borgonha, recebia em Lisboa a infanta D. Isabel. - -[19] O infante D. Pedro despozára em 1428 D. Izabel, filha de Jayme II, -d’Urgel, e da infanta D. Izabel de Aragão. - -[20] Veja-se _Notas e documentos_. - -[21] _Jarreteira_; assim se dizia no tempo. - -[22] Do casamento do infante D. Pedro com D. Izabel d’Urgel, houveram -os seguintes filhos: D. Pedro, condestavel, poeta e Mestre de Aviz; -D. Izabel, rainha de Portugal; D. Filippa, recolhida em Odivellas; D. -Brites, mulher do duque Cléves, senhor de Ravensteyn; D. João, principe -d’Antiochia; e D. Jayme, cardeal. Vid. _Notas e documentos_. - -[23] Assim o affirma D. José Barbosa, no seu _Catalogo_, tantas vezes -citado, e o P.ᵉ Francisco de Santa Maria na _Chronica dos Conegos -Seculares de S. João Evangelista_; porém, D. Antonio Caetano de Souza, na -_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. 1.ᵒ, pag. 63, diz que o casamento -de Affonso V teve logar em 1447, em vista do seu contracto que publicamos -nas _Notas e documentos_. Por esse tractado se vê que o consorcio se -realisou um anno antes do que lhe é marcado por Barbosa e pelo P.ᵉ -Francisco de Santa Maria. - -[24] A catastrophe de Alfarrobeira deu-se a 20 de maio de 1449; ficando o -corpo do infante trez dias insepulto, até que o recolheram para a egreja -d’Alverca, sendo d’ahi mudado para o castello d’Abrantes, depois para -o mosteiro de Santo Eloy e ultimamente para a Batalha. Vid. _Historia -Genealogica da Casa Real_, por D. Antonio Caetano de Souza, tomo 2.ᵒ, -cap. 2.ᵒ, pag. 77. - -[25] D. Leonor de Lencastre foi dotada pelo duque de Vizeu, D. Diogo, -seu irmão, com a villa de Lagos e seu castello, direitos e rendas; mais -tarde recebeu de seu marido a doação de Alemquer e d’outras villas, que -el-rei D. Manuel lhe confirmou em 24 de março de 1496. Vid. as _Notas e -documentos_. - -[26] Em 1495 imprimiu-se a _Vita Christi_; em 1505, os _Autos dos -Apostolos_; em 1515, o _Boosco deleytoso_; e em 1518, o _Espelho de -Christiania_. - -[27] Jaz sepultada no convento de Santa Izabel de Toledo. - -[28] O principe D. Miguel nasceu em Saragoça a 24 de agosto de 1498, e -jaz sepultado na mesma cidade. - -[29] Vasco da Gama regressou da sua viagem em 29 de julho ou de agosto de -1499. - -[30] Depois ordenou-se que seu filho Braz d’Albuquerque tomasse em sua -honra o nome de Affonso. Foi este o auctor dos _Commentarios d’Affonso -d’Albuquerque_. - -[31] Veja-se _Notas e documentos_. - -[32] A rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel, nasceu em Cordova, -aos 29 de junho de 1482 e recebeu-se por procuração com o rei de -Portugal a 24 de agosto de 1500 e por palavra de presente na epocha -acima mencionada. Como não chegou a sobreviver a sua cunhada D. Leonor -de Lencastre nunca possuiu a Casa das Rainhas, tendo por mercê especial -de seu marido a cidade de Vizeu e a villa de Montemór-o-Novo. (vid. -_Historia Genealogica_, tomo 3.ᵒ, cap. V, pag. 229). Além d’estas terras, -teve tambem o padroado da egreja de S. Pedro de Lordosa, varias tenças -e a villa de Torres Vedras, que, como se verá nos _documentos_, não -pertenceu á esposa de D. João II, como por lapso dissemos a paginas 6. - -[33] O sr. Luciano Cordeiro o demonstrou cabalmente no seu livro _A -Segunda Duqueza_; bem como destroe a lenda dos amores de D. João III com -a madrasta. Louvores sejam dados ao illustre escriptor. - -[34] D. Leonor d’Austria nasceu em Louvain a 15 de novembro de 1498. - -[35] Veja-se a excellente obra do conde de Villa Franca, _D. João I e a -alliança ingleza_, pag. 281. - -A infanta D. Maria foi uma das mais sabias e virtuosas princezas do seu -tempo, e um dos mais brilhantes vultos da Renascença em Portugal. Nas -_Notas e documentos_ publicamos uns ligeiros traços biographicos d’esta -senhora; bem como o soneto com que Camões celebrou a sua morte. - -[36] Está sepultada no Escurial. - -[37] Vid. D. José Barbosa, _Catalogo das rainhas de Portugal_. O -casamento já se tinha realisado por procuração no Toro, a 11 de janeiro -do mesmo anno. _Historia Genealogica_, livro 4.ᵒ, cap. 15.ᵒ, pag. 55. - -[38] _Lusiadas_, canto IV, est. 95. - -[39] El-Rei D. Manuel teve da rainha D. Maria, sua segunda mulher, além -de outros filhos, o infante D. Duarte que nasceu em Lisboa, aos 7 de -septembro de 1515 e casou em Villa Viçosa (terça feira, 24 de abril de -1537) com D. Izabel de Bragança filha do duque D. Jayme e de D. Leonor -de Mendóça, recebendo n’essa occasião o titulo de duque de Guimarães; -d’este matrimonio houveram duas filhas: D. Catharina e D. Maria, que -desposou o principe de Parma, Rainuncio. D. Catharina foi desde tenra -edade destinada para mulher de seu primo o duque D. João I, realisando-se -o consorcio aos 8 de dezembro de 1563. O seu filho primogenito foi D. -Theodosio, mais tarde segundo do nome e pae d’el-rei D. João IV. D. -Catharina falleceu a 15 de novembro de 1614, respeitada dos soberanos de -todas as nações, tratada como egual pelas testas coroadas, recebendo o -tratamento _d’Alteza_ e preparando o futuro poderoso da Casa de Bragança. -Vid. _Hist. do Inf. D. Duarte_, do sr. José Ramos Coelho, tomo I, _Le -Portugal et la maison de Bragança_, por A. A. Teixeira de Vasconcellos e -_Historia Geneal. da Casa Real_, de D. Antonio C. de Souza, tomo 6.ᵒ. - -[40] Sr. José Ramos Coelho, pag. 46 da obra citada. - -[41] Torre do Tombo, collecção de S. Vicente, volumes XX, fl. 204. Vid. -_Notas e documentos_. - -[42] A princeza D. Izabel, filha de D. Pedro II e de D. Maria Francisca -Izabel de Saboya, nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669; sendo jurada -herdeira da corôa, nas côrtes de 27 de janeiro de 1674. Esteve justo o -seu casamento com o duque de Saboya, Victor Amadeu, seu primo; o qual -recusou este enlace, allegando motivos de doença. Dizem a princeza -se apaixonara de tal modo que repudiou os dois pretendentes que lhe -solicitavam a mão: o grão-duque da Toscana e o duque de Parma; vindo a -fallecer, solteira, aos 21 de outubro de 1690. - -[43] Serviram de procuradores de Portugal, o duque de Cadaval, o marquez -de Niza, o marquez de Marialva, o Marquez de Gouvêa, o conde de Miranda e -o secretario d’Estado, Pedro Vieira da Silva. - -[44] «Foy El-Rey D. Pedro de estatura agigantada, cor trigueira, olhos -grandes, nariz aquilino, bocca grossa, & cabello preto. Teve forças -extraordinarias, do que fazia provas admiraveis. Excedeo a todos os do -seu tempo na sciencia de andar a cavallo & correr touros (sic). Era -incançavel na frequencia com que ouvia aõs seus Vassallos, para o que não -havia horas, nem tempo reservado.» (D. José Barbosa, _Elogio dos Reis de -Portugal_, pag. 200). - -[45] D. Maria Sophia de Neuburgo está sepultada em S. Vicente de Fóra. - -[46] Na batalha de Matapan a 19 de julho de 1717 se distinguiram os -nossos almirantes, conde do Rio Grande e conde de S. Vicente. - -[47] Tradições de familia que não vem a proposito aqui relatar, nos -tornam devedores á memoria de D. João V. - -[48] Este senhor do Cadaval era D. João de Castro que foi casado com D. -Leonor da Cunha, depois esposa do grande João das Regras. Do matrimonio -do duque D. Fernando com D. Joanna de Castro, nasceram nove filhos; dos -quaes um (D. Antonio) não sobreviveu. Entre os que vingaram, conta-se D. -Alvaro que teve o tratamento de _Senhor_ e casou com D. Filippa de Mello, -herdeira da casa dos condes d’Olivença. D. Alvaro é o progenitor dos -duques de Cadaval. - -[49] Acha-se publicado do tomo 5.ᵒ das _Provas da Historia genealogica -da Casa Real_, pag. 141. No mesmo tomo estão publicados os seguintes -tractados de casamentos:—d’el-rei D. Affonso VI com a rainha D. Maria -Francisca (pag. 10); de D. Pedro II com a rainha D. Maria Sophia de -Neubourg (pag. 73). - -[50] Era então embaixador de Portugal em Madrid Antonio Guedes Pereira. - -[51] Veja o tractado do casamento de D. José publicado no tomo 5.ᵒ das -_Provas da Historia genealogica da Casa Real_, pag. 316; e no _Fasto -de Hymeneo, ou Historia Panegyrica dos desposorios dos Fidellissimos -Reys de Portugal, nossos Senhores, D. Joseph I e D. Maria Anna Victoria -de Bourbon_, por Fr. Joseph da Natividade, pregador geral da ordem dos -Pregadores, na provincia de Portugal; pag. 18. - -[52] Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, na casa da rua -Formosa, a 13 de maio de 1699 e foi filho de Manuel de Carvalho e Atayde, -commendador na Ordem de Christo, Capitão de Cavallaria da côrte, senhor -da Quinta da Granja, e de D. Thereza Luisa de Mendonça, filha de João -d’Almada e Mello, commissario geral de cavallaria na Beira, alcaide-mór -de Palmella, senhor e administrador do morgado dos Olivaes e do Souto -d’El-Rei. Foi seu padrinho, seu avô paterno, Sebastião de Carvalho e -Mello, Capitão de Cavallos, senhor dos morgados de Sernancelhe e da -Quinta da Granja, padroeiro da egreja de N. Senhora das Mercês, onde jaz -sepultado, tendo vivido 110 annos. Era, portanto, o marquez de Pombal -fidalgo pelo lado paterno e materno, pertencendo á fidalguia de provincia -(a não titular, que não tinha nenhum cargo superior na côrte), a que, ao -tempo, pertenciam tambem a maior parte das familias que hoje formam a -aristocracia portugueza. O titulo de conde d’Oeiras foi-lhe conferido em -15 de julho de 1759 e o de marquez de Pombal a 16 de septembro de 1769. - -[53] El-Rei D. José tinha nascido a 6 de junho de 1714, e o conde -d’Obidos a 20 de julho de 1699, tendo por consequencia mais quinze annos -que o monarcha. Esta differença explica a phrase do fidalgo, quando -Sebastião de Carvalho lhe veio pedir a sua protecção: _pois o menino é -chocalheiro_?! - -[54] O original d’este documento encontra-se na torre do Tombo, liv. 5.ᵒ -de D. Affonso IV, de afforamentos, doações etc., pag. 46 verso. - -[55] Diz-se geralmente que foi D. Affonso V quem concedeu o ducado de -Bragança a seu tio o conde de Barcellos; é falsa, porém, tal affirmativa. -A doação data de 1442, durante a regencia de D. Pedro, embora a carta só -fosse requerida mezes depois do desastre d’Alfarrobeira. - -[56] O duque de Coimbra, D. Jorge, foi o progenitor da casa d’Aveiro, -recebendo seu filho, D. João, o titulo de duque d’aquella localidade. - - - - -INDICE - - - PAGINAS - - Prefacio e advertencia VII a XV - - A Casa das Rainhas 1 - - D. Dulce 9 - - D. Sancha 13 - - D. Beatriz de Gusmão 17 - - Santa Izabel 23 - - D. Constança 27 - - D. Leonor Telles 31 - - D. Filippa 39 - - D. Izabel de Lencastre 43 - - D. Leonor d’Aragão 49 - - D. Izabel de Lencastre 55 - - D. Leonor de Lencastre 63 - - D. Leonor d’Austria 69 - - D. Catharina d’Austria 81 - - O interregno dos Filippes 89 - - D. Luiza de Gusmão 95 - - D. Maria Francisca Izabel de Saboya 105 - - D. Maria Sophia de Neuburg 118 - - D. Marianna d’Austria 124 - - D. Marianna Victoria de Bourbon 135 - - Notas e documentos 147 a 175 - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of As donatarias d'Alemquer, by -João Pereira Franco Monteiro - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER *** - -***** This file should be named 62766-0.txt or 62766-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/7/6/62766/ - -Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet -Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team -at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned -images of public domain material from the Google Books -project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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P. Franco Monteiro. - </title> - - <link rel="coverpage" href="images/cover.jpg" /> - -<style type="text/css"> - -a { - text-decoration: none; -} - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - -h1,h2,h3 { - text-align: center; - clear: both; -} - -hr { - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - clear: both; - width: 65%; - margin-left: 17.5%; - margin-right: 17.5%; -} - -p { - margin-top: 0.5em; - text-align: justify; - margin-bottom: 0.5em; - text-indent: 1em; -} - -table { - margin: 1em auto 1em auto; - max-width: 40em; - border-collapse: collapse; -} - -td { - padding-left: 2.25em; - padding-right: 0.25em; - vertical-align: top; - text-indent: -2em; -} - -.tdpg { - vertical-align: bottom; - text-align: right; - white-space: nowrap; -} - -.center { - text-align: center; - text-indent: 0em; -} - -.figcenter { - margin: 3em auto auto auto; - text-align: center; -} - -.footnotes { - margin-top: 1em; - border: dashed 1px; -} - -.footnote { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; - font-size: 0.9em; -} - -.footnote .label { - position: absolute; - right: 84%; - text-align: right; -} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: none; -} - -.larger { - font-size: 150%; -} - -.pagenum { - position: absolute; - right: 4%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; -} - -.poetry-container { - text-align: center; - margin: 1em; -} - -.poetry { - display: inline-block; - text-align: left; -} - -.poetry .stanza { - margin: 1em 0em 1em 0em; -} - -.poetry .verse { - text-indent: -3em; - padding-left: 3em; -} - -.sidenote { - width: 20%; - padding: 0.5em; - margin-left: 1em; - float: right; - clear: right; - font-size: smaller; - color: black; - background: #eeeeee; - border: dashed 1px; -} - -.right { - text-align: right; -} - -.smaller { - font-size: 80%; -} - -.smcap { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; -} - -.smcapuc { - font-variant: small-caps; - font-style: normal; - text-transform: lowercase; -} - -.tb { - margin-top: 2em; -} - -.titlepage { - text-align: center; - margin-top: 3em; - text-indent: 0em; -} - -@media handheld { - -img { - max-width: 100%; - width: auto; - height: auto; -} - -.poetry { - display: block; - margin-left: 1.5em; -} -} - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -Project Gutenberg's As donatarias d'Alemquer, by João Pereira Franco Monteiro - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most -other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: As donatarias d'Alemquer - Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado - -Author: João Pereira Franco Monteiro - -Contributor: Joaquim Pedro de Oliveira Martins - -Release Date: July 26, 2020 [EBook #62766] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER *** - - - - -Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet -Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team -at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned -images of public domain material from the Google Books -project.) - - - - - - -</pre> - - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_i" id="Page_i">[i]</a></span></p> - -<p class="titlepage larger">AS DONATARIAS DE ALEMQUER</p> - -<p class="center">Historia das Rainhas de Portugal -e da sua casa e estado</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_ii" id="Page_ii">[ii]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_iii" id="Page_iii">[iii]</a></span></p> - -<p class="titlepage">J. P. FRANCO MONTEIRO</p> - -<p class="titlepage">AS<br /> -<span class="larger">DONATARIAS D’ALEMQUER</span></p> - -<p class="center"><i>Historia das Rainhas de Portugal<br /> -e da sua casa e estado</i></p> - -<p class="center">com uma carta-prefacio<br /> -<span class="smaller">POR</span><br /> -OLIVEIRA MARTINS</p> - -<div class="figcenter" style="width: 200px;"> -<img src="images/tp.jpg" width="200" height="200" alt="" /> -</div> - -<p class="titlepage">LISBOA<br /> -M. GOMES—<span class="smcap">Editor</span><br /> -<span class="smaller">LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS</span><br /> -<i>Rua Garrett (Chiado) 70-72</i><br /> -1893</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_iv" id="Page_iv">[iv]</a></span></p> - -<p class="titlepage smaller">Typ. Castro Irmão</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_v" id="Page_v">[v]</a></span></p> - -<p class="center larger"><span class="smcap">A meu Pae</span></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_vi" id="Page_vi">[vi]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_vii" id="Page_vii">[vii]</a></span></p> - -<p>Ill.ᵐᵒ e Ex.ᵐᵒ Sr.</p> - -<p class="tb">A sua muito obsequiosa deferencia reclama -de mim umas palavras para acompanhar -perante o publico o livrinho com que -V. Ex.ᵃ vem sentar praça n’este batalhão -das letras patrias, desmantelado como quasi -tudo que é portuguez. Ahi vae satisfeito o -seu desejo. Não carecia d’este adminiculo a -sua obra, para ser acolhida por todos com -a benevolencia devida aos bons intuitos; e -que o necessitasse, não era decerto eu o -competente para lhe assignar o passaporte -da viagem. Estas linhas não são portanto -mais do que o agradecimento da sua nimia -deferencia para commigo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_viii" id="Page_viii">[viii]</a></span></p> - -<p>Algures diz V. Ex.ᵃ no seu livro que a -parte local d’elle está só no titulo. É o que -eu sinto. <i>As donatarias de Alemquer</i> são as -rainhas de Portugal a que V. Ex.ᵃ, ampliando -por vezes os trabalhos de Figanière e do sr. -Benevides, escreveu uma serie de biographias -summarias. É excellente para provar -a mão; e a maneira como deu conta do -trabalho prova serem estas paginas as primicias -de um escriptor.</p> - -<p>Não desanime, portanto. É moço, e tem -em si o que vale mais do que tudo: a vocação, -a quéda irresistivel para o estudo, -e o dom de imprimir fórma communicavel -ao seu pensamento. Trabalhe pois; moireje -e rumine. Folheie e decifre muito papel -velho. Deixe-se arrastar pela curiosidade. -Desconfie dos planos geraes e syntheticos, -atraz dos quaes muito boa gente se deixa -affogar pelo palavriado, julgando descobrir -maravilhas. O trabalho mais meritorio é nas -letras o do cabouqueiro, por isso mesmo que<span class="pagenum"><a name="Page_ix" id="Page_ix">[ix]</a></span> -não dá que fallar. É sómente, porém, esgaravatando -rijo no chão, que se encontram -diamantes.</p> - -<p>Como vê, não o lisongeio. É o triste condão -de quem chega á minha edade poder -fallar aos moços em nome da experiencia -propria. Não me leve, pois, a mal estas curtas -observações, que eu não faria decerto -se julgasse serem tempo perdido.</p> - -<p>Dando-lhe cordiaes parabens pela sua estreia -que o publico ha de apreciar, como é -dever, consinta V. Ex.ᵃ que me assigne</p> - -<p class="center">Seu<br /> -M.ᵗᵒ Obr.ᵒ V.ᵒʳ</p> - -<p class="right"><i>Oliveira Martins</i></p> - -<p class="smaller">Casa de V. Ex.ᵃ</p> - -<p class="smaller">25 de março</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_x" id="Page_x">[x]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_xi" id="Page_xi">[xi]</a></span></p> - -<h2 id="ADVERTENCIA">ADVERTENCIA</h2> - -<p>No seu principio, as <i>Donatarias</i> foram -uns simples artigos de <i>dilletantismo</i> litterario, -não se concebendo ainda o plano d’um -volume.</p> - -<p>Destinadas á publicação em periodico, -accommodei-as ao pequeno espaço que me -dispensava um dos mais honrosos jornaes -da capital; porém, estimulado pelo favor e -cortezia dos collegas, foi-se desenvolvendo -o pensamento, chegando emfim ao projecto -de as colleccionar em separado.</p> - -<p>É o que faço hoje, não lhe alterando a -fórma primitiva; corrigindo-as em parte, -mas não lhe transtornando o molde, por -lealdade, talvez exaggerada, ao meu primeiro -pensamento.</p> - -<p>Tambem não quiz mudar de titulo, que -parece de uma obra local—feição esta que -se encontra um tanto accentuada na primeira -dynastia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_xii" id="Page_xii">[xii]</a></span></p> - -<p>Como vi a luz n’uma aldeia do concelho -d’Alemquer, entendi que bem proprio era -o meu primeiro livro ser dedicado á terra -que me foi berço. Começa-se a amar a Patria -amando os campos e as flores do nosso -lar; é ahi que desabrocha o sentimento civico, -é ahi que se enraiza a adoração por -todo o conjuncto ligado n’uma homogeneidade -de sentimentos, de linguagem, d’aspirações -e de crenças, que fórma o Paiz.</p> - -<p>Além d’isso, Alemquer desempenhou na -Historia portugueza um papel importante, -embora hoje esteja reduzida ás suas tradições -e ao movimento industrial das fabricas, -que actualmente lhe tornam conhecido -o nome, que, sem essa circumstancia, estaria -de todo olvidado.</p> - -<p>Outr’ora capital da Casa das Rainhas, -villa predilecta das soberanas, que nas suas -muralhas encontravam defeza leal, que -nos seus montes e nos seus vergeis buscavam -o desenfado da vida cortezã, é justo -que essas memorias hoje sejam invocadas<a name="FNanchor_1" id="FNanchor_1"></a><a href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a><span class="pagenum"><a name="Page_xiii" id="Page_xiii">[xiii]</a></span> -por quem nasceu no seu termo, por quem -viu ao despontar da vida, as ruinas do velho -castello que Affonso Henriques tomou -aos mussulmanos e que D. João I destruiu -como padrão d’ingloriosas, ainda que valentes -recordações!</p> - -<p>Aconselharam-me que ampliasse o livro -e o intitulasse—<i>A Casa das Rainhas</i>; era -mais genérico, mais vasto e exigia ligeiro -trabalho... Reagi, conhecendo a justiça do -conselho, pelos motivos que acima expuz, -despretenciosamente, sem outros calculos -que não sejam os da lealdade do sentimento.</p> - -<p>Procurei julgar os diversos personagens -que menciono, conforme o meu sentir os define. -Na philosophia da Historia, o leitor me<span class="pagenum"><a name="Page_xiv" id="Page_xiv">[xiv]</a></span> -julgará, porque quem escreve é um reu que -tem de sujeitar-se ás impressões que suggeriu -aos cultos e até aos incultos. Ahi é -que o historiador sobrepuja o erudicto na -manifestação da sua intellectualidade. Isto -não é julgar-me a mim proprio. Digo-o em -geral, como regra assente. O erudicto busca, -trabalha, cansa-se a procurar nos escaninhos -dos archivos o pergaminho desejado. Não -o impelle a sua philosophia, mas sim as -suas aspirações; porém, ao resolver do problema, -nos mostra na critica do documento -achado, os dotes da sua intuição, revela-nos -bem qual é a grandeza da sua alma, -qual a força do seu raciocinio. Entretanto, -sem erudictos não poderia haver philosophos; -uns completam os outros, no ideal -dos que escrevem a Historia:—mostrar aos -presentes, para sua licção e dos futuros, -o que foram os passados, o rigor dos seus -defeitos e a suavidade de suas virtudes.</p> - -<p>Alicerce da minha vida litteraria, as <i>Donatarias</i> -vêem a luz sem pretenções, mas -com o apoio favoravel d’um dos nossos -primeiros escriptores, que obsequiosamente, -se promptificou a prefacial-as. Agradeço-lh’o -com legitimo orgulho; bem como servir-me-hei -das suas palavras, como incentivo tenaz<span class="pagenum"><a name="Page_xv" id="Page_xv">[xv]</a></span> -para o trabalho que mesmo que não traga -gloria, sempre traz proveito.</p> - -<p>Egualmente me confesso reconhecido aos -srs. dr. Xavier da Cunha, conservador da -Bibliotheca Publica de Lisboa, e José Manuel -da Costa Basto, director do Archivo -da Torre do Tombo, pelos bons serviços -com que me brindaram no decurso das minhas -buscas investigadoras.</p> - -<p class="right"><i>Franco Monteiro</i></p> - -<p class="smaller">Cortegana, março de 1893.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1">[1]</a></span></p> - -<h2 id="A_CASA_DAS_RAINHAS">A CASA DAS RAINHAS<br /> -<span class="smaller">(NOTICIA SUMMARIA)</span></h2> - -<p>Para sustento de suas consortes costumavam -os antigos reis doar-lhes o rendimento -de algumas villas, juncto a varias -attribuições civis que variavam conforme a -confiança que o soberano depositava na esposa.</p> - -<p>Em 1188 Sancho I tencionou visitar a -Palestina; na duvida de succumbir na empreza, -doára a sua mulher a rainha D. Dulce -os rendimentos de Alemquer, Terras do Vouga, -do Porto e de Santa Maria; mas, retirada -a idéa da jornada, não se sabe se -D. Dulce continuou a usufruir os bens testados, -ou se elles voltaram para a corôa.</p> - -<p>O sr. visconde de Figanière no seu explendido -livro <i>Memorias das Rainhas de Portugal</i>, -pag. 63 e 64, quasi que affirma que<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2">[2]</a></span> -esta senhora foi donataria de Alemquer; -Francisco da Fonseca Benevides nas <i>Rainhas -de Portugal</i> (1.ᵒ vol. pag. 36 e 104) -segue o mesmo caminho. Entretanto, são -simples conjecturas as opiniões dos dois illustres -e sabios escriptores. Que D. Dulce -possuiu propriedades no termo de Alemquer, -é innegavel;<a name="FNanchor_2" id="FNanchor_2"></a><a href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> assim como possuiu na -Beira varias fazendas ao sul do Mondego;<a name="FNanchor_3" id="FNanchor_3"></a><a href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> -mas que tivesse o senhorio d’esta villa, não -é certo, embora com probabilidades.</p> - -<p>A D. Dulce succedeu D. Urraca, esposa -de seu filho Affonso II; esta princeza teve -os senhorios de Torres Vedras, Obidos e -Lafões, existindo na Torre do Tombo um -documento em que o herdeiro de D. Sancho -regula a applicação dos rendimentos de -D. Urraca. Notamos que Torres Vedras e -Obidos são vinculadas na casa das Rainhas, -e como da mulher de D. Affonso II existem -provas de haver casa propria, não nos -parece fóra de razão enumeral-a como a -primeira <i>senhora</i> (não <i>proprietaria</i>) de terras.</p> - -<p>De D. Mecia Lopes de Haro não ha noticia -que viesse a possuir quaesquer villas<span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3">[3]</a></span> -em Portugal; porém D. Beatriz de Gusmão -teve Torres Novas, Alemquer e Torres Vedras, -que lhe foram doadas por seu esposo, -D. Affonso III, sendo-lhe mais tarde concedido -o padroado d’estas villas. Santa Izabel, -mulher del-rei D. Diniz, recebeu em dote -Abrantes, Obidos e Porto de Moz, por carta -d’arrhas dada em 24 d’abril de 1281.<a name="FNanchor_4" id="FNanchor_4"></a><a href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a> Mais -tarde teve os castellos de Villa Viçosa, Monforte, -Cintra, Ourem, Feira, Gaia, Lamoso, -Nobrega, Santo Estevão de Chaves, Monforte -de Rio Livre, Portel e Monte Alegre; -sendo esta concessão ampliada com varias -rendas em dinheiro e com as villas de Leiria -e Arruda (1300), Torres Novas (24 de junho -de 1304)<a name="FNanchor_5" id="FNanchor_5"></a><a href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a> e Athouguia (19 de outubro de -1307). Possuiu além d’isso os reguengos de -Rebordãos, de Gondomar, de Çodões; a -Quinta de Fandega da Fé, em Torres Vedras -e a leziria d’Atalaya.</p> - -<p>Não ha documentos que affiancem que -Izabel d’Aragão possuisse Torres Vedras e -Alemquer; no que diz respeito a esta segunda -villa, o amor que a rainha sempre<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4">[4]</a></span> -lhe consagrou, leva-nos a suppor que de -facto fosse sua proprietaria.</p> - -<p>Depois de Santa Izabel apparece-nos D. -Brites, esposa d’el-rei D. Affonso IV. Esta -soberana nasceu no Toro (1293), sendo filha -de Sancho IV de Castella e da rainha -D. Maria de Leão. Casou a 12 de septembro -de 1309 com o infante D. Affonso, que -mais tarde, por morte de seu pae (7 de janeiro -de 1325), succedeu na corôa portugueza.</p> - -<p>Em 23 d’outubro de 1321 D. Diniz -confirmou-lhe a doação que o marido lhe -havia feito (20 de outubro do mesmo anno) -da villa de Vianna do Alemtejo, com todos -os poderes civis e criminaes. O mesmo -seu sogro deu-lhe em arrhas Evora, Villa -Viçosa, Villa Real, Gaia e Villa Nova, sendo -estas duas ultimas trocadas por Cintra (26 -de maio de 1334) com todos os seus pertences.</p> - -<p>Teve varias herdades em Santarem, que -pertenceram a Fernão Sanches; e a leziria -d’Atalaya (5 de novembro de 1337).<a name="FNanchor_6" id="FNanchor_6"></a><a href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a> Em -7 de junho de 1357 el-rei D. Pedro I, para -lhe mostrar o seu amor filial, fez-lhe mercê<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5">[5]</a></span> -de Torres Novas. D. Beatriz de Castella -procurou imitar Santa Izabel no exercicio -da caridade; legou muitas rendas a estabelecimentos -pios, influiu por destruir o antagonismo -entre Affonso XI de Castella e -Affonso IV de Portugal, e o resentimento -de seu filho D. Pedro para com o pae, o -infame assassino de Ignez de Castro. Falleceu -esta rainha em Lisboa, e jaz sepultada -na sé da mesma cidade.</p> - -<p>D. Constança Manuel, primeira mulher -de D. Pedro I, teve em arrhas as villas de -Montemór-o-Novo, Alemquer e Vizeu. D. Leonor -Telles, esposa de D. Fernando, foi presenteada -por seu marido com Villa Viçosa, -Almada, Cintra, Alemquer, Abrantes, Sacavem, -Torres Vedras, Obidos, Athouguia, -Aveiro, reguengos de Sacavem, Frielas, -Unhos, e Terras de Meréles. Esta carta de -arrhas foi dada em Eixo, aos 5 de janeiro -de 1372.<a name="FNanchor_7" id="FNanchor_7"></a><a href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a> Passados dois annos fez-se a troca -de Villa Viçosa por Villa Real de Traz-os-Montes, -onde D. Leonor exerceu toda a -jurisdicção. A 20 de março de 1376 a seductora -do mallogrado soberano de Portugal -ainda teve artes de adquirir Pinhel.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6">[6]</a></span></p> - -<p>D. Filippa de Lencastre, mulher de D. -João I, dotou-se com as rendas da Alfandega -de Lisboa, da portagem e do paço da -Madeira e com as villas de Alemquer, Cintra, -Obidos, Alvayazere, Torres Novas e -Torres Vedras.</p> - -<p>D. Leonor d’Aragão recebeu em arrhas -de seu marido trinta mil florins de ouro -de Aragão, e por hypotheca Santarem com -todos os seus rendimentos. Em 1453 D. -Duarte doou a sua esposa Alvayazere, Cintra -e Torres Vedras, vindo mais tarde a -possuir outras terras da rainha sua sogra. -D. Isabel de Lencastre, filha do grande infante -D. Pedro, o das <i>Sete Partidas</i>, foi donataria -de todas as villas da sua predecessora. -D. Leonor de Lencastre, além d’estas -mesmas villas, teve por doação de seu marido -D. João II as cidades de Silves e Faro -e as villas de Aldeiagallega e Aldeiagavinha, -tendo tambem Caldas, de que foi fundadora. -Desde esta epocha ficou constituida a -<i>Casa e Estado das Senhoras Rainhas de -Portugal</i>.<a name="FNanchor_8" id="FNanchor_8"></a><a href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a></p> - -<p>Tinham as augustas esposas dos nossos<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7">[7]</a></span> -soberanos a faculdade da nomeação dos -empregados do fisco, os recebedores das -rendas, das patentes d’officiaes, etc., ficando -o senhorio eminente na posse da corôa.</p> - -<p>D. Luiza de Gusmão instituiu (16 de -julho de 1643) um <i>Tribunal da Fazenda da -Casa e Estado das Senhoras Rainhas</i>, que -a administrou até que o alvará de 25 de -janeiro de 1770 transmittiu o seu governo -para o Erario.</p> - -<p>Foi este o primeiro golpe na Casa das -Rainhas, de todo extincta por decreto de -9 d’agosto de 1833.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8">[8]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9">[9]</a></span></p> - -<h1>AS DONATARIAS DE ALEMQUER</h1> - -<h2 id="D_Dulce">D. Dulce</h2> - -<p>Morto Affonso Henriques, em 1185, succedeu-lhe -no throno seu filho Sancho I, que -ao tempo contava trinta e um annos de edade.</p> - -<p>Achára traçadas as linhas da monarchia -portugueza pela espada e pela politica do pae, -continuando a sua obra com a tomada de -Silves, a primeira tentativa da conquista do -Algarve, mais tarde gloriosamente seguida -por seu neto Sancho II e só ultimada por -Affonso III, graças ao valor incomparavel -de D. Paio Peres Correia.</p> - -<p>Sancho I foi digno predecessor de D. Diniz -e de D. Pedro, o <i>cru</i>, na administração interna -do paiz. Tendo outros horizontes que -não só os da guerra, tomou a hombros o -povoar as praças e logares conquistados, em<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10">[10]</a></span> -proteger a agricultura, tanto quanto lh’o permittia -essa edade média bulhenta, que vivia -da conquista e tinha por unico objectivo a -gloria da cruz e o engrandecimento do territorio.</p> - -<p>Ainda na vida do pae (1175), ligára-se o -principe a D. Dulce de Aragão, filha de D. -Ramon Berenguer, decimo quinto conde de -Barcelona e de D. Petronilha, rainha do Aragão, -filha de Ramiro, o <i>monge</i>. Longos e abençoados -foram os fructos d’este consorcio; D. -Dulce deu á luz onze filhos, entre os quaes -trez filhas se elevaram aos altares.</p> - -<p>Depois de vinte e tres annos de casada, -a rainha succumbiu em Coimbra (primeiro -de septembro de 1198), sendo sepultada em -Santa Cruz.</p> - -<p>Apesar de não haver documentos que provem -que esta princeza foi senhora de Alemquer, -auctores ha que a têem como tal, parecendo -corroborar esta opinião o facto de -seus bens serem repartidos pelas filhas (D. -Constança, D. Thereza, D. Sancha, D. Mafalda, -D. Branca e D. Berenguella) e ser D. -Sancha possuidora da villa.</p> - -<p>Não nos embrenharemos na discussão -d’este assumpto embora estejamos convencidos -do contrario (permitta-se-nos dizel-o),<span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11">[11]</a></span> -apesar do senhorio de D. Sancho e da rainha -possuir terras n’este concelho, segundo -julgamos, proximas á quinta da Condessa.</p> - -<p>No emtanto, como temos por nullo o nosso -sentir, curvaremos a cabeça ás baseadas affirmações -dos mestres, mencionando-a como -a primeira donataria.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12">[12]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13">[13]</a></span></p> - -<h2 id="D_Sancha">D. Sancha</h2> - -<p>Deve-se escrever com animo grato a biographia -d’esta princeza. Sympathica e boa, -religiosa e casta, foi sem duvida um dos -grandes premios que a Providencia destinou -ás virtudes da mãe. Possuia a piedade caracteristica -das epochas medievaes, procurando -com o cilicio a expiação da carne, que -nunca abandonára o pudor!</p> - -<p>Virgem, formosa como sua irmã D. Thereza, -a sacrificada esposa d’Affonso IX, de -Leão, predilecta filha do rei <i>povoador</i>, a ella -o paiz deve relevantes serviços, porque foi -ella a introductora dos franciscanos em Portugal, -que tantos sabios nos deram e tantos -beneficios nos prestaram.</p> - -<p>D. Sancha tinha por Alemquer uma predilecção -especial; fôra-lhe doada pelo pae, que -a enriquecêra com um paço, em que a santa -senhora recebeu os cinco martyres de Marrocos,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14">[14]</a></span> -e onde buscou, muitas vezes, a retirada -residencia, no alto monte, em que á -vontade contemplava a maravilhosa obra do -Creador!</p> - -<p>D’este paço só resta a chamada <i>capella -de Santa Sancha</i>, unica reliquia d’uma das -maiores bemfeitoras que tem tido Alemquer.</p> - -<p>Lendo a historia, examinando a guerra -um tanto justa que Affonso II moveu ao -feudalismo, e em especial ás irmãs, com quem -o pae, no seu testamento, se houve d’um -modo liberal de mais, vemos na resistencia -de D. Sancha, não a ambição do poder, nem -da fortuna, que sempre desprezou, mas, talvez, -<i>visionariamente</i>, o amor á terra de quem -ella se teria de apartar, uma vez expulsa -do seu senhorio.</p> - -<p>Estas guerras civis tomaram proporções -que o rei, se unicamente fosse dominado pelo -desejo da concentração do poder, poderia evitar. -Excommungado pelo pontifice e perseguido -pelo soberano de Leão, o monarcha -portuguez encaminhou a contenda para uma -via diplomatica. Enviado a Roma um embaixador, -foi o pleito julgado por dois abbades -de Cistér, que condemnaram D. Affonso a -uma multa extraordinaria, para satisfazer as -custas da peleja encetada por elle.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15">[15]</a></span></p> - -<p>Não se conformando com a sorte, foram -os castellos entregues aos templarios, como -depositarios e administradores dos bens. O -papa morreu; rixas intestinas entre o clero -e a corôa portugueza interromperam a demanda, -que ficou por decidir no reinado -d’Affonso II, fallecido a 25 de março de 1223. -Succedeu-lhe seu filho D. Sancho II, rei illustrado -e valente, mas de todo infeliz. Este -monarcha acabou o litigio com as irmãs de -seu pae, não só por conveniencias, mas por -decencia.</p> - -<p><i>Era uma vergonha</i> a desharmonia da familia -real; e o chefe, reprovando no seu intimo -a generosidade do avô, cedeu ás imposições -do mundo... nem parecia da edade -média.</p> - -<p>Combinou-se que as donatarias prestassem -homenagem ao soberano e contribuissem -com gente para a hoste real, obrigando-se -o rei a defender-lhes a propriedade.</p> - -<p>Como dissemos, D. Sancha residiu algumas -vezes em Alemquer, até que, movida do seu -instincto religioso, professou no mosteiro de -Cellas, onde falleceu em 13 de março de 1229. -Jaz em Lorvão.</p> - -<p>O senhorio da villa passou á irmã, <i>D. Thereza</i>, -esposa do rei de Leão, D. Affonso IX,<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16">[16]</a></span> -de quem se separou por motivos de parentesco. -Recolhida a Portugal, fez-se monja em -Lorvão, fallecendo n’este mosteiro a 17 de -junho de 1250.</p> - -<p>No reinado de D. João V foram estas -senhoras beatificadas pelo Papa Clemente XI; -os seus corpos trasladaram-se, com pompa -digna do Salomão portuguez, para o altar -mór da egreja onde ambas jaziam.</p> - -<p>Depois d’estas princezas, passou Alemquer -para o dominio das rainhas. Só mais tarde -D. Izabel de Lencastre, filha d’el-rei D. João I, -teve o senhorio da villa por successão a sua -mãe, D. Filippa, até que D. Leonor d’Aragão, -esposa de D. Duarte, tomou posse da -terra que estava destinada para joia preciosa -do diadema brilhante das Soberanas -de Portugal.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17">[17]</a></span></p> - -<h2 id="D_Beatriz_de_Gusmao">D. Beatriz de Gusmão</h2> - -<p>Como fica dito, Affonso II falleceu em 25 -de março de 1223. Subira ao throno pela -morte de seu pae, o rei D. Sancho (27 de -março de 1211), de quem foi herdeiro, conforme -o direito de primogenitura.</p> - -<p>Ainda infante, casou com D. Urraca, filha -de Affonso VIII, de Castella, e de D. Leonor, -filha de Henrique II, rei d’Inglaterra.<a name="FNanchor_9" id="FNanchor_9"></a><a href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a></p> - -<p>D’este consorcio nasceram quatro filhos: -Sancho, que herdou a corôa e foi o segundo -no nome; Affonso, que casou em França com -Mathilde, Condessa de Bolonha; Leonor, esposa -de Valdemaro III, de Dinamarca; e D. -Fernando, o <i>infante de Serpa</i>, desposado de -D. Sancha de Lara, filha do Alferes-mór de -Castella.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18">[18]</a></span></p> - -<p>O Conde de Bolonha foi o primeiro principe -que deu exemplo de perfidia na corôa -portugueza. Instrumento e ao mesmo tempo -alma dos magnates que depozeram D. Sancho -(1245), por não lhe servir as ambições, -negando a politica do avô, investira o poder -depois de exilado o irmão, conquistador valeroso, -a quem a patria, mesmo depois de seiscentos -annos, só tem dispensado palavras -vãs, recusando-lhe quatro palmos de terra -no pantheon dos monarchas!<a name="FNanchor_10" id="FNanchor_10"></a><a href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a></p> - -<p>Póde ser que nos ultimos tempos do seu -governo D. Sancho cedesse á amante a vontade -de rei; póde ser—e foi—que o soberano, -inebriado pelos fascinadores olhares -de Mecia, olvidasse a justiça e o bem do seu -povo; mas Juromenha, Serpa, Aljezur e Ayamonte, -praças que tomou ao islamismo, mereciam -melhor recompensa que a proscripção -e o exilio em Castella.</p> - -<p>Que tempos os medievaes! No castello de -Coimbra, depois do osculo de mais intenso -amor; depois de mutuas juras de fidelidade, -passadas as scenas que tornam celestial o remanso -do lár, um vulto de guerreiro assoma<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19">[19]</a></span> -á camara real. Approxima-se D. Mecia, contempla -o marido, que dorme, e, tão bella -como perfida, lança-se nos braços de Raymundo -Viegas de Portocarrero, cavalga o -fogoso corcel do raptor, e amparada no corpo -do cavalleiro, que a roubára pela politica do -infante bolonhez, penetra os muros d’Ourem, -onde esforços do apaixonado D. Sancho não -conseguem escalar!</p> - -<p>Abandonado pela mulher a quem confiára -o seu coração, perseguido pelo clero que o -intrigava na Curia, deposto pelo proprio Pontifice, -refugiou-se em Toledo, onde falleceu -aos 4 de janeiro de 1248. Conhecida a sua -morte, o conde de Bolonha tomou o titulo -de rei. Este soberano para quem a historia -só encontrou o cognome de <i>bolonhez</i>, apezar -de ter conseguido a libertação do Algarve, -foi tão perfido com a condessa Mathilde, -como traidor ao irmão.</p> - -<p>Desprezada a esposa, Affonso III, em 1253, -contrahiu segundas nupcias com D. Beatriz -de Gusmão, filha bastarda d’Affonso X, de -Castella, e de D. Maria Guillen de Gusmão.</p> - -<p>Embora fosse o primeiro coito damnado -que se sentou no throno, D. Brites foi um -anjo de paz como a sua successora, Santa -Izabel. Ella serviu de medianeira quando a<span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20">[20]</a></span> -guerra rebentou entre Castella e Portugal, -e mais tarde Affonso X, desthronado pelo -herdeiro ambicioso, encontrou na filha um -thesouro de virtudes, unico lenitivo no meio -da desgraça.</p> - -<p>O marido, que a idolatrava, fez-lhe doação -d’Alemquer, em 1267.<a name="FNanchor_11" id="FNanchor_11"></a><a href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> A estima de Affonso -III demonstra a importancia que a villa -então possuia, pois é licito acreditar que a -generosidade do rei condissesse com o amor -consagrado á esposa. Dezesete annos estivera -Alemquer annexa á corôa, encontrando -na mercê do monarcha uma donataria virtuosa, -digna herdeira de D. Dulce e de suas -filhas, D. Sancha e D. Thereza. Mas para a -terra em si, embora as suas virtudes lhe servissem -d’ornamento, materialmente nada lucraria, -se a rainha só cuidasse de receber as -rendas, deixando no olvido os beneficios com -que a poderia dotar. Não foi assim; D. Brites -alcançára do esposo (28 de junho de 1277)<a name="FNanchor_12" id="FNanchor_12"></a><a href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> -o padroado das egrejas e capellas do seu -senhorio, e, conscia do cumprimento dos deveres, -deu principio á construcção da egreja -de S. Francisco, onde outr’ora foram os paços<span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21">[21]</a></span> -reaes, em que Santa Sancha recebeu os cinco -martyres de Marrocos.</p> - -<p>Acanhado e pequeno o primitivo templo, -começou-se a obra da nova egreja, em 1280. -Não a poude vêr concluida a rainha, que -falleceu em 7 d’agosto de 1300, e a egreja -só foi sagrada cinco annos depois. No emtanto, -seu filho, el-rei D. Diniz, continuou, -dignamente, o empenho da mãe, como o -attesta a seguinte inscripção:</p> - -<p class="center"><i>Esta igreja fundou<br /> -A muy nobre rai(nh)a Dona<br /> -Beatr(ix) e acabou a o muy jostiçoso<br /> -seu filho nobre<br /> -Rey de Port(ugal) comprido de vertude<br /> -Do(m) Denis</i><a name="FNanchor_13" id="FNanchor_13"></a><a href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22">[22]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23">[23]</a></span></p> - -<h2 id="Santa_Izabel">Santa Izabel</h2> - -<p>Tres annos após o fallecimento de Affonso -III (16 de fevereiro de 1279), seu filho, -o rei D. Diniz, tomou por esposa a D. Izabel -de Aragão, filha de D. Pedro, o <i>grande</i>, -e de D. Constança de Napoles. O consorcio -realisou-se em 24 de julho de 1282, -nascendo, passados oito annos, a infanta -D. Constança, desposada de Fernando IV, -rei de Castella, e logo depois (8 de fevereiro -de 1291) viu a luz o herdeiro, Affonso -IV, cuja ambição tanto alanceou a rainha -sua mãe.</p> - -<p>Exactamente como de D. Dulce, não existem -documentos que provem o dominio -d’esta senhora na villa d’Alemquer; mas a -sua residencia aqui, os seus beneficios á -terra que foi apanagio das rainhas, leva-nos -a contal-a entre as donatarias, enchendo-nos -de orgulho por possuirmos uma senhora -tão grande.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24">[24]</a></span></p> - -<p>Perseguida e intrigada, como todas as -almas virtuosas e nobres, soube impôr o seu -vulto á calumnia, incutindo uma veneração -no espirito do marido, que a perfidia não -conseguiu debellar.</p> - -<p>Convencido o rei de que sua mulher subsidiava -o filho nas revoltas que o ciume -e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel -que se recolhesse em Alemquer, onde -esteve algum tempo.</p> - -<p>Durante este desterro, a princeza mostrou-se -digna da terra que lhe dera hospitalidade. -Fixou residencia nos novos paços -que Santa Sancha erigira depois de transformar -os antigos em recolhimento da ordem -seraphica. Ali surgiu-lhe á memoria -as virtudes e os feitos da bemaventurada -fundadora, e, ardendo-lhe o peito em caridade, -transformou o palacio em albergaria, -onde poisavam os forasteiros e se acoitavam -os doentes.</p> - -<p>Não contente com isso, levantou a egreja -do Espirito Santo, junto aos paços, creando-lhe -duas festas annuaes e doando-a aos -alemquerenses; mas, como o fogo da caridade -a obrigava a ir mais além, instituiu -na egreja de Santo Estevão umas mercieiras -para subsidiar doze viuvas de boa nota,<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25">[25]</a></span> -com obrigação de ouvirem missa diaria -pela alma da fundadora.</p> - -<p>Abalados os restos da antiga piedade, em -1834, acabou esta pia instituição, e a incuria, -ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais -antigo de Alemquer, edificando no seu logar -uma escola primaria. Vamos com Deus...</p> - -<p>Temos por desnecessario descrever as virtudes -domesticas da esposa do illustrado e -sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas -e apreciadas por todos, que não regateiam -a Santa Izabel o logar proeminente -entre as rainhas de Portugal.<a name="FNanchor_14" id="FNanchor_14"></a><a href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a></p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26">[26]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27">[27]</a></span></p> - -<h2 id="D_Constanca">D. Constança</h2> - -<p>Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de -1336, e, quatro annos depois, foi Alemquer -doada a D. Constança, malograda esposa de -D. Pedro, <i>o cru</i>.</p> - -<p>Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, -D. João Manoel e de sua primeira -esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; -<i>o santo</i>, rei de Castella, e neta materna -de D. Jayme II d’Aragão.</p> - -<p>O monarcha castelhano, comprehendendo -a politica do astuto visinho, oppoz-se á sahida -da princeza, tolhendo-lhe a passagem -pelo seu territorio. O portuguez declarou-lhe -guerra, e, se não fossem Roma e França, -esta contenda seria prolongada e inutil, porque -o capricho do castelhano e as forças de -Affonso IV eram indomaveis.</p> - -<p>Acabada a pendencia, graças á intervenção -estrangeira, entrou D. Constança no -paiz de seu marido.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28">[28]</a></span></p> - -<p>Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, -poucos annos depois, exhalou o ultimo -suspiro, sendo sepultada em Santarem.<a name="FNanchor_15" id="FNanchor_15"></a><a href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p> - -<p>Viera acompanhada de brilhante sequito -de damas, resplandecendo entre todas a peregrina -Ignez de Castro, a quem D. Pedro -immolou o coração. Talvez que na morte -da desgraçada senhora os olhos do esposo -brilhassem, ao encontrarem-se com os da -formosa Ignez! Talvez que a esposa, no -leito de dôr, não sentisse ao seu lado o -palpitar ancioso do coração do marido, que -suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte -o momento feliz de poder, mais á -vontade, chamar sua áquella que <i>só</i> amava!...</p> - -<p>Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora -da justiça soou tremenda e lugubre, quando -a felicidade deslizava tranquilla por entre -aquelle amor louco, immenso, incomparavel!</p> - -<p>Não se póde fixar quando começaram as -relações de D. Pedro com a dama de sua -mulher; o supposto casamento é datado de -1354, tendo o principe quatro filhos. Um<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29">[29]</a></span> -anno depois, a politica regia desfazia criminosamente -este amoroso idyllio.</p> - -<p>A tragica morte de Ignez é de sobejo -conhecida. Camões a cantou em estrophes -immortaes, traduzidas em todas as linguas. -O vulto da desventurada apparece-nos como -visão, na adolescencia, quando o nosso pensamento -começa a divisar um novo ideal, -quando o peito anhela um novo sentir, e -o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se -para o céo é acompanhado de uma -ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como -a castidade d’um seraphim. Tal é o amor -ao principio!</p> - -<p>Entrado no mundo, o homem, corrupto -pela força das circumstancias, folheia o livro -do passado, detem a vista sobre o começo -da sua existencia viril e analysa esses -ideaes crystallinos, sente no peito uma -commoção triste, mas risonha, doce, mas -dolorosa, que só nós, os portuguezes, sabemos -bem definir—é a saudade!</p> - -<p>Não que a carne ainda retenha o mesmo -prisma; a mulher desapparece como o meteóro, -mas o que fica arreigado ao coração, -é a innocencia bonançosa que torna o -espirito, amante sim, mas ao abrigo de -Deus...</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30">[30]</a></span></p> - -<p>D. Affonso IV escolheu epocha propicia -(7 de janeiro de 1355) para a sua fatidica -empresa. Estavam desfolhadas as arvores: -caudaloso o Mondego, espelho d’aquella ternura -sem egual; brancos os cumes dos -montes; o sol, defendido pelos negros torreões -de nuvens, não quiz, condoido e triste, -presenciar o espectaculo.</p> - -<p>Dentro de seus paços, nos aposentos de -uma fraca mulher, dois assassinos a apunhalavam -com barbaridade sem parceiro na -historia. Animava-os a politica do rei e o -espirito da defunta Constança. Estava vingado -o seu ciume.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31">[31]</a></span></p> - -<h2 id="D_Leonor_Telles">D. Leonor Telles</h2> - -<p>Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos -desde que Affonso I se ligára á virtuosa -Mafalda de Saboya (1146-1371), e -n’este longo periodo não houve uma unica -soberana que manchasse a purpura com o -labéo da devassidão.</p> - -<p>Só D. Mecia destoára um pouco das suas -predecessoras; no entanto o papel impudico -só o representou como comedia.</p> - -<p>Foi preciso que no throno se sentasse o -filho d’um monarcha justiceiro, respeitador -do lar e da honra de seus vassallos, para -que esse brazão de perto de trez seculos -fosse eclypsado pelo desbragamento mais -devasso.</p> - -<p>Pedro I espumava de raiva quando o thalamo -era profanado. Constante na sua louca -paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou -a existencia.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32">[32]</a></span></p> - -<p>Via-a quando açoutava o salteador e -quando queimava o adultero; a imagem d’ella -fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.</p> - -<p>D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente -opposto. Tratára o consorcio com -D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar -Castella, guerreando a posse d’aquella -monarchia a Henrique II.</p> - -<p>Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu -por esposa a outra Leonor, filha do -seu rival. Tambem faltou a esta promessa. -O caracter rijo do pae, herdára-o unicamente -o bastardo; os outros bandearam-se em Castella, -e o herdeiro, embora possuisse boas -qualidades administrativas, não passou de -um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz -ao seu amor adultero.</p> - -<p>Ainda mulher alguma soubera impressionar -verdadeiramente aquelle homem.</p> - -<p>Fôra frascario, mas amor propriamente -dito jámais o perseguira. Era bello e era -rei, e a lascivia, na edade media, não tinha -os fóros de vicio—era um costume.</p> - -<p>Vira Leonor Telles quando o marido, cançado -da monotona vida de provincia, partiu -para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da -realeza e o faustoso brilho da côrte. No peito<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33">[33]</a></span> -do rei o coração ardia-lhe e no cerebro forjavam-se-lhe -mil idéas pouco lisonjeiras -para elle e pouco honrosas para o senhor -de Pombeiro; mas não passou, ao principio, -de idyllios imaginarios.</p> - -<p>D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns -espias preversos em casos d’amor, e por -mais que fizesse, o rei não deixava de a -contemplar.</p> - -<p>Ella retrahia-se. Na sua alma damnada -brotou o pensamento que a honestidade poderia -servir de degrau para o throno. Talvez -até se recostasse na fronte do esposo, -para mais exasperar a paixão do pobre soberano!</p> - -<p>Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre -a ha quando o coração sente.—Receava -magoar a <i>honra</i> d’aquella mulher. -Poz de parte o receio; mas, como ainda -lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou -com a irmã, chorou aos pés de Maria Telles, -supplicou-lhe que advogasse aquelle amor -louco, que o faria abandonar a corôa se -preciso fosse. Movida D. Maria de tão instantes -rogos, procurou convencer a irmã. -Convencida estava ella ha muito, desde que -farejára os olhares do rei. Não o amava, -mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34">[34]</a></span> -modo legitimo, bem entendido. Barregan -d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.</p> - -<p>Lisboa alvoraçou-se com a nova.</p> - -<p>Todos, á uma, estranharam o procedimento -do filho do saudoso D. Pedro. A cidade -resolveu representar n’este sentido nomeando -seu interprete o alfaiate Fernão -Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser -falso o boato. Socegaram os animos.</p> - -<p>Entretanto a côrte partiu para o norte -do reino, e ao chegar a Leça do Bailio -(1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em -publico, como sua mulher.</p> - -<p>Desligára-a de João Lourenço da Cunha, -pretextando motivos de parentesco, e no -logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe -doou Alemquer e seus pertences.</p> - -<p>Principia aqui a mais nojenta tragedia da -historia de Portugal. Leonor Telles foi o -Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára -esta em Affonso Henriques, o valente -fundador da nossa nacionalidade, acabára -em D. Fernando, o fraco apaixonado -de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre -d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando -Aljubarrota a Ourique.</p> - -<p>Germen da nova dynastia, teve fructos -dignos de si e de seus passados: D. Duarte,<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35">[35]</a></span> -sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota -como Sancho II; D. João II, politico e justiceiro -como D. Pedro I; e D. Sebastião (coincidencia -notavel) amante da gloria, como D. -Fernando o fôra de uma mulher, arrastou -o paiz aos areaes da Africa, como este o -arrastára á perdição infallivel, nas graças -seductoras da sua amada!</p> - -<p>O decorrer dos seculos ainda não poude -absolver os crimes d’esta soberana.</p> - -<p>O seu reinado é uma scena continua d’adulterios -e de assassinios. Invejosa por natureza, -convenceu seu cunhado, o Infante -D. João, de que a mulher d’este (a D. Maria -Telles que lhe approximára a corôa) lhe -commettia infidelidade. Cioso, o principe -matou-a. D. Leonor respirou; assim desfez -o seu receio, porque temia a morte do marido -e via com inveja que o throno seria -occupado pela irmã e pelo infante, querido -do povo, como filho d’esse rei de que elle -conservava saudosa memoria.</p> - -<p>O susto que a movêra a mais uma infamia, -realisou-se no dia 22 d’outubro de -1383, epocha em que falleceu D. Fernando, -aos trinta e oito annos d’existencia, talvez -a mais amargurada e com certeza a mais -vergonhosa de todos os nossos monarchas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36">[36]</a></span></p> - -<p>Depois da sua morte, a viuva assumiu -a regencia, fazendo logo acclamar sua filha -D. Beatriz, casada com D. João de Castella. -Reinava emfim! Podia livremente fazer o -que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas -de ninguem; escusava de se valer dos seus -dotes para obter uma vingança ou uma -desforra. Ella era o poder supremo, grande, -inegualavel!</p> - -<p>Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na -mesma moeda. Toda a gente sabia da <i>privança</i> -do Conde Andeiro; revoltaram-se e -convidaram o bastardo de D. Pedro, o Mestre -d’Aviz, para assassinar o <i>valido</i>. Consumado -este acto, D. Leonor recolheu-se -em Alemquer, fiada na lealdade do povo e -na fortaleza das muralhas. Foi a primeira -vez que se lembrou do seu senhorio!</p> - -<p>D. João mandou á villa dois embaixadores, -a ver se negociava o casamento com -a rainha. Recusada a proposta, o principe -cercou-a; mas depois de varias refregas, veiu -a noticia de que o rei de Castella já estava -em Santarem, onde D. Leonor, temerosa, -se refugiára. A maior parte dos sitiantes -tinha abandonado o seu posto. Todos temiam -o estrangeiro, quando os habitantes, -lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37">[37]</a></span> -da entrega do reino, que punham as -suas vidas ao serviço da independencia. No -emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, -e o castelhano penetrou nas muralhas, arvorando -a sua bandeira. Sciente o Mestre -do occorrido, embarca no Tejo com varias -forças e vem-lhe pôr novo cerco.</p> - -<p>Houveram então valentes combates!</p> - -<p>Aquellas encostas foram um vasto campo -de batalha; ali pereceram muitas esperanças, -ali se fortaleceu muita valentia, ali se -deu um grande passo para a causa de Portugal.</p> - -<p>Como a guarnição era valorosa, tiveram -os do Mestre de recorrer ao prolongado sitio, -vendo se assim se rendia.</p> - -<p>Foi o que aconteceu a 10 de dezembro -de 1384. Mais tarde (janeiro de 1385), a -traição de Vasco Pires de Camões obrigou -o <i>Defensor do Reino</i> a faltar aos compromissos -tractados na capitulação.</p> - -<p>Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra -(1385), mandou demolir parte dos muros -d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva -de D. Fernando e pela fatal inclinação do -Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.</p> - -<p>Leonor Telles falleceu encarcerada nas<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38">[38]</a></span> -Tordesillas aos 27 d’abril de 1386,<a name="FNanchor_16" id="FNanchor_16"></a><a href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> talvez -arrependida das suas culpas e seguramente -convencida de que o echo da maldade é -aborrecido por todos e em toda a parte.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39">[39]</a></span></p> - -<p class="center larger">SEGUNDA DYNASTIA</p> - -<h2 id="D_Filippa">D. Filippa</h2> - -<p>Como dissemos, D. João de Castella transpozera -a fronteira, preparando-se para cingir -a corôa de Affonso Henriques. O paiz -achava-se desunido e fraco, abatido pelo contagio -da maldade que de tão alto o enervava; -a nobreza, na maior parte, seguia o -castelhano; só o povo se mostrava contrario -ao usurpador e á rainha, que sempre -odiára altivamente, apesar dos laços da -forca apertados pelas bellas mas ferozes -mãos de D. Leonor. No entanto, n’este -cahos em que Portugal se encontrava, quatro -homens appareceram destinados pela -Providencia para a restauração da patria—o -Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro -Paes e Nuno Alvares—quatro vultos cujos -nomes a historia gravou em letras de ouro -e a arte na sua linguagem sublime esculpiu -homericamente no mosteiro da Batalha, -echo perpetuo dos vencedores d’Aljubarrota,<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40">[40]</a></span> -padrão eterno de uma das maravilhas do -universo, portal da gloria que Camões immortalisou -nos <i>Lusiadas</i>; que é e será sempre -o santuario do portuguez, romeiro patriota -que, como o mahometano, pelo menos -uma vez na vida, se prostra ante o tumulo -do propheta.</p> - -<p>O Mestre d’Aviz foi o instrumento da -independencia; João das Regras, o defensor -da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz -e prepotente; o Condestavel, o general -habilissimo que soube vencer os exercitos, -como o advogado soubéra dominar a legislação.</p> - -<p>Esta foi a gente que capitaneou a hoste -popular, exaltada e patriotica, symbolo vivo -de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando -o direito com a melicia e a diplomacia, -venceram o estrangeiro, conservaram a -autonomia e encetaram o progresso no nosso -torrão. A posteridade não lhes foi injusta—honra -lhe seja—mas nos tempos de hoje, -em que os chatins têem estatuas, elles dormem -tranquillos nos seus tumulos, sem que -nas praças publicas o povo, outrora soldado -das suas fileiras, os venere no bronze, como -em vida lhes votou todo o seu amor!</p> - -<p>Apezar da nossa decidida abnegação e de<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41">[41]</a></span> -termos vencido o inimigo (14 d’agosto de -1385), entendeu D. João I ser conveniente -uma alliança politica; fôra ella tractada -com o Duque de Lencastre, João de Gant, -pretendente de Castella e consumado pelo -casamento do rei com D. Filippa, filha do -principe inglez, a qual recebeu em dote o -senhorio de Alemquer, Cintra, Obidos, Torres -Vedras e outras villas.</p> - -<p>O consorcio realisou-se na cidade do Porto -(2 de fevereiro de 1387), debaixo das bençãos -dos prelados e dos applausos dos populares, -que adivinhavam uma nova éra -para a corôa e para o paiz.</p> - -<p>Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa -a scena do reinado anterior; mas se a mancha -da impudicicia póde ser apagada na historia -d’um povo, certamente a virtude que -se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza -com o desbragamento de Leonor Telles, -compensou o interregno infame em que o -pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.</p> - -<p>D. Filippa de Lencastre reatou os laços -de honestidade que sempre existiram no throno. -Mãe de heroes, que soube crear, esposa -d’um soberano illustre, que sempre allumiou -com o facho da virtude; rainha, mas dona<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42">[42]</a></span> -de casa, sem se intrometter na politica, como -desastradamente depois fez sua nora Leonor -d’Aragão, ella é o symbolo do que ha -de mais grandioso na nossa historia e do -que ha de mais nobre n’uma mulher.</p> - -<p>Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento -da nossa monarchia succumbiu -em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um -ataque de peste que assolava Lisboa; depois -de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira -do rei de <i>boa memoria</i>, e de ter -gerado em seu ventre</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse">...........quem governasse,</div> -<div class="verse">Quem augmentasse a terra mais que d’antes,</div> -<div class="verse">Inclyta geração, altos Infantes.</div> -<div class="verse right">(<span class="smcap">Lusiadas</span>—canto <span class="smcapuc">IV</span>, est. 50.)</div> -</div> -</div> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43">[43]</a></span></p> - -<h2 id="D_Izabel_de_Lencastre">D. Izabel de Lencastre<br /> -<span class="smaller">(Duqueza de Borgonha)</span></h2> - -<p>Não ha ninguem por menos lido na historia, -que desconheça as virtudes e o valor -dos filhos de D. João I. Cada um de -per si constitue uma epopeia de honra e -de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, -até D. Fernando, o martyr benjamim -da familia.</p> - -<p>Foram oito os legitimos: D. Branca e -D. Affonso, fallecidos na meninice; D. Duarte, -successor; D. Pedro, duque de Coimbra, -regente do reino, homem de sciencia, e -homem politico; D. Henrique, duque de -Vizeu, iniciador das descobertas, perante o -que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de -Borgonha; D. João, o condestavel, modelo -de impoluta dignidade; e D. Fernando, que -morreu sacrificado pela Patria e pela sorte -da guerra nas masmorras de Fez.</p> - -<p>Havia mais um bastardo, filho não do rei -circumspecto, mas do rapaz folgazão, que<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44">[44]</a></span> -cevava a mocidade nas camponezas dos -seus feudos. Foi o producto da perfeita -carnalidade animal, livre de todo o sentimento -generoso que Jesus Christo abençoou -nas bodas de Canaan. Filho de coito damnado, -sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa -origem; por isso se refugiou nas suas terras, -lá no norte, que obtivera por consorcio -com a filha unigenita do Santo Condestavel. -Evitava assim a presença da madrasta, -cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia -que chicoteavam o crime da sua existencia. -Mais tarde, em varios de seus successores, -brotou a semente generosa do -Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: em D. -Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.</p> - -<p>Os outros filhos d’el-rei, <i>altos infantes</i> que -Camões cantou, foram modelo de principes -e modelo d’irmãos.<a name="FNanchor_17" id="FNanchor_17"></a><a href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a></p> - -<p>Nunca a fraternidade foi seguida com -mais fervor, nunca os laços familiares predominaram -mais, dentro do lar, do que -n’esta geração abençoada, dignissimo producto<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45">[45]</a></span> -de dois esposos redemptores, abençoados -tambem pelas jaculatorias d’um -povo.</p> - -<p>Devia ser commovente o passamento de -D. Filippa, rodeada do marido, dos filhos, -da filha, do enteado e da criadagem que -fraternisava com a familia as lagrimas e os -soluços.</p> - -<p>Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. -Pedro e D. Henrique; pedindo ao primogenito -que a sua espada fosse a espada da -justiça, a D. Pedro a defeza das donas e -donzellas, e a D. Henrique o zelo por todos -os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; -feitas outras recommendações, dados conselhos -tendentes á união e á obediencia dos -mais novos aos mais velhos, se chegou Brites -Gonçalves de Moura a lembrar á rainha -a infanta sua filha.</p> - -<p>D. Izabel chorava a um canto o desenlace -proximo; a mãe olhou-a com meiguice, -e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que -se tinha recommendado ao herdeiro a felicidade -de seus vassallos, escusava de fallar -n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.</p> - -<p>N’este momento, no peito de D. Pedro -pulsou mais uma vez a generosidade que -sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46">[46]</a></span> -D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem -el-rei para a esposa lhe pedir que as -terras de que era possuidora se dessem á -filha, emquanto não tomasse estado.</p> - -<p>Approvada a proposta, sahiu D. Henrique -a procurar o pae.</p> - -<p>Não tardou D. João I, e ali, perante o -leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou -a sympathica doação, que mesmo -sem essa formalidade seria sagrada por todos -os titulos.</p> - -<p>Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.</p> - -<p>No emtanto, cumpria cazal-a como D. -Filippa deixava recommendado; e apezar do -atrazo material da epocha, a fama dos infantes -portuguezes soou por toda a terra. -D. Pedro, de todos os filhos de D. João I -com certeza um dos mais preclaros, deixava -espalhado pelas <i>Sete Partidas</i> quão -fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa -na côrte de Lisboa. O brutalismo da -Edade-Media desapparecera em Aljubarrota -e o espirito claro da Renascença, (que -teve a sua aurora na esposa do rei de <i>boa -memoria</i>, e em Nun’alvares, o candido guerreiro; -e o seu occaso na infanta D. Maria, -a sympathica filha do <i>rei venturoso</i>, e em<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47">[47]</a></span> -Camões, a expressão mais pura da nossa -nacionalidade) expandia-se illuminado pela -figura angelica da rainha que soubera calcar, -sepultando-o de vez, o impudor de Leonor -Telles. Entreabria-se uma nova era, -tendo por promotores a gente mais valorosa -que nasceu n’esta terra. Ceuta, a -Madeira e os Açores foram os alicerces das -emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe -do vencedor de Castella, e o baptismo -dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, -os primeiros padrões da vassallagem -do oceano á <i>gente ousada</i> que lhe rasgava -o corpo virginal.</p> - -<p>Com todo este conjuncto de sublimes -predicados, não escasseavam os pretendentes; -assim D. Izabel desposou em Bruges -(10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha, -Filippe, o <i>bom</i>, conde de Flandres.<a name="FNanchor_18" id="FNanchor_18"></a><a href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a></p> - -<p>Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu -o lar domestico com aquella dignidade -perante a qual o decorrer dos seculos -se curva respeitoso; e mais tarde soube -desempenhar com abnegação sublime os -deveres do amor fraternal, requerendo a<span class="pagenum"><a name="Page_48" id="Page_48">[48]</a></span> -seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os -filhos do desventurado infante D. Pedro, -morto em Alfarrobeira.</p> - -<p>Bella aureola a da honra e a da gratidão!</p> - -<p>D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de -fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro, -de 1471.</p> - -<p>Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_49" id="Page_49">[49]</a></span></p> - -<h2 id="D_Leonor_dAragao">D. Leonor d’Aragão</h2> - -<p>Cinco annos antes da morte de seu pae -(14 d’agosto de 1433—22 de septembro de -1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, -filha de Fernando I d’Aragão. Esta -princeza succedeu á rainha sua sogra na -posse d’Alemquer e d’outras terras que -formavam a chamada <i>casa das rainhas</i>, verdadeiramente -constituida no tempo da sympathica -Leonor de Lencastre, mulher de D. -João II.</p> - -<p>Começavam a desapparecer os soldados -da independencia. A morte ceifava uns e -outros; a acção do tempo curvava-lhes a -fronte varonil, como presagio do descanço -eterno.</p> - -<p>O rei já não era o mesmo homem d’antes: -o mocetão galhardo e forte, mas o -velho experimentado e prudente, o companheiro -de vinte e oito annos da virtuosa -D. Filippa, que lhe reformára o espirito e -o paiz.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_50" id="Page_50">[50]</a></span></p> - -<p>As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos -pelo vento rijo dos annos; esse campo -deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, -sabios como elle, vivos reflexos do espirito -purissimo da mãe.</p> - -<p>Em D. Duarte talvez esse sentimento -influisse com primazia. Almas ternas como -a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva -de alento. Sem a candura da mulher a alma -do poeta é um jardim sem flores, um -sol radiante toldado por uma nuvem negra.</p> - -<p>Tinha trinta e sete annos quando o casaram; -estava na força da virilidade, retida -pelo celibato. O espirito queria expandir-se, -e quando os olhos viram pela primeira vez -a gentil aragoneza, formosa e meiga, o -amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe -o coração.</p> - -<p>Leonor desde o dia das nupcias dominou -de facto o marido. Bastava uma caricia -para lhe subjugar a vontade.</p> - -<p>Desgraçado do homem que encontra uma -mulher d’estas, se em vez de ser o anjo -que faça da familia a ante camara celestial, -se converte em demonio que lhe transforme -o lar em inferno intoleravel.</p> - -<p>Era ella a segunda Leonor que se sentava -no throno, notando-se que embora<span class="pagenum"><a name="Page_51" id="Page_51">[51]</a></span> -fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, -tem um ponto de contacto com a sua pouco -illustre predecessora. Ambas escravisaram -os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; -ambas, devido á loucura inteiramente -opposta uma á outra, vieram depois de -desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!</p> - -<p>Senhora do animo do esposo, tomou sobre -si as redeas do governo. Não se limitou -a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi -mais além; affastou-se do trilho que a natureza -impoz á mulher, trazendo com o -seu procedimento desastrosas desgraças que -offuscam um tanto os brilhantes feitos da -dynastia d’Aviz.</p> - -<p>A Renascença abrira novos horisontes, e -os filhos de D. João I apoiaram com todas -as suas forças o objectivo da nova edade.</p> - -<p>Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique -lançára para o imperio ultramarino. Desejava -proseguir na sua ideia, continuar a -ultima façanha emprehendida pelo pae; -vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, -cioso dos primogenitos amestrados já no -valor da arte da guerra.</p> - -<p>Queriam a conquista de Tanger. Houve -debates n’este ponto. O rei e D. Pedro -oppozeram-se, em vista do pessimo estado<span class="pagenum"><a name="Page_52" id="Page_52">[52]</a></span> -economico do paiz. Demais, não havia gente -com que guarnecer as praças tomadas. D. -Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se -para D. Leonor, certo da influencia -d’esta perante o marido, que, movido -pelas ternuras da formosa companheira, -teve a fraqueza de ceder.</p> - -<p>Partiram, levando seis mil homens, lançando-se -mão, para guarnecer a armada, dos -mais pesados tributos. Dada a batalha, a -sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão -sobrepujava o Evangelho, devido á -imprudencia de dois principes que talvez -mais attendessem á dilatação da fé do que -ao accrescimo do imperio.</p> - -<p>D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo -morreu em Fez aos cinco de junho -de 1443.</p> - -<p>Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; -mas não foi á côrte fallar ao rei. -Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece -que o segurava no seu ninho de Sagres. -Por seu lado, D. Duarte sentia o -remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa -consolava-o, mas o pobre homem, em cada -caricia d’ella via a causa da sua ruina e -da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era -D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro,<span class="pagenum"><a name="Page_53" id="Page_53">[53]</a></span> -o homem de senso, justo e prudente, -que previra a derrota e condemnára -a expedição. Era o que lhe valia.</p> - -<p>Tal preferencia azedou ainda mais o -animo de D. Leonor para com o cunhado, -esposo de uma princeza da casa d’Urgel, -rival da de Aragão.<a name="FNanchor_19" id="FNanchor_19"></a><a href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a> Mais tarde esse antagonismo -teve os seus effeitos quando aos -9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em -Thomar, tendo declarado em testamento -que, na menoridade do filho (Affonso V) -entregava a regencia do reino a sua mulher.</p> - -<p>A nova sublevou Lisboa como outrora -acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam -D. Pedro como regente. Principiava -a desharmonia, quasi a guerra civil.</p> - -<p>Alemquer desempenhou um papel importante -n’esta questão, como na da esposa -de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, -onde o duque de Coimbra a procurou -para se entender com ella. D. Leonor veiu -para Alemquer, onde já na vida do marido -residira algumas vezes. A resolução das -côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro -a tomar parte no leme do estado; mas<span class="pagenum"><a name="Page_54" id="Page_54">[54]</a></span> -este voto do paiz não foi acceite pela -viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar -a familia a humilhar-se ao cunhado. -A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto -rei, possuia de todo aquella alma -aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, -se o marido tivesse o pratico conhecimento -do mundo como D. João I, D. -Leonor seria em tudo um fiel setellite da -veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, -de mãe e de esposa.</p> - -<p>Mas dos encantos de que a natureza a -dotou tinha ella todo o conhecimento, e -a influencia da vaidade de si mesma, juncta -á desastrada submissão do rei, converteram-n’a -em promotora de lamentaveis desgraças, -em logar de anjo de paz.</p> - -<p>A historia, julgando-a, tem tambem de -julgar D. Duarte, que sem ella seria um -grande rei. Estas duas almas perverteram-se -uma á outra, para fatalidade da Patria.</p> - -<p>De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio -onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. -O seu corpo não ficou em terra estranha, -como o da adultera Leonor Telles; actualmente -jaz no mosteiro da Batalha, ao pé -do de seu apaixonado esposo.</p> - -<p>Que a critica lhe seja leve.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_55" id="Page_55">[55]</a></span></p> - -<h2 id="D_Isabel_de_Lencastre">D. Isabel de Lencastre<br /> -<span class="smaller">(MULHER DE D. AFFONSO V)</span></h2> - -<p>A intriga campeava outra vez na côrte -portugueza; tinha-se volvido aos tempos -passados, á epocha fatal, marcada na Historia -com a nodoa negra do desbragamento -de Leonor Telles.</p> - -<p>D. João I fôra então o eleito do povo -para a defeza dos legitimos interesses do -paiz; agora n’esta scena, pallida sombra -dos acontecimentos posteriores, a vontade -popular elegeu tambem um dos seus mais -illustres filhos, o qual, estadista como era, -conhecedor do mundo pelas suas grandes -viagens e pela sua vasta erudição, soube -guiar proveitosamente o leme do Estado, -não obstante os obstaculos suggeridos pelos -contrarios.</p> - -<p>Sabio como D. Duarte, apesar de lhe -não carecer o animo, tambem teve um defeito -que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_56" id="Page_56">[56]</a></span></p> - -<p>Chegado á maioridade de Affonso V, D. -Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha -não o acceitou; pois, apesar de moço, teve -em conta os serviços prestados por seu tio, -que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente -da terna companheira que as -côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham -destinado.</p> - -<p>Este procedimento generoso, que bem -agourava a prosperidade do novo reinado, -accendeu a labareda amortecida na alma -damnada dos parciaes do infante. Perdel-o, -acabar-lhe com a raça generosa,<a name="FNanchor_20" id="FNanchor_20"></a><a href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a> era o fito -do movimento, que teve por chefes o duque -de Bragança, D. Affonso; seu filho o -conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, -D. Pedro de Noronha; e o protonotario -apostolico Vasco Pereira de Berredo.</p> - -<p>Combinado o trama, trataram de conquistar -o fraco espirito do rei, então de dezeseis -annos. Baldados foram os esforços de -D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se -da côrte a ver se o fogo se extinguia, -mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.</p> - -<p>De Ceuta viera o conde d’Avranches D.<span class="pagenum"><a name="Page_57" id="Page_57">[57]</a></span> -Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á -ponta da lança tomar a sua defeza. O infante -e o conde, confrades da santa ordem -da Garrotêa,<a name="FNanchor_21" id="FNanchor_21"></a><a href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a> tinham a Cavallaria como -uma religião, santificada por D. Filippa, no -leito da morte, quando recommendava ao -filho a honra das donas e donzellas.</p> - -<p>Era a Cavallaria o unico tribunal admittido -por Alvaro Vaz, para julgar os actos -da regencia. Viessem a campo os detractores, -montados em seus corceis e batessem-se -com elle...</p> - -<p>Os outros preferiam as devassas tiradas -por ordem régia; tinham a mentira na mão, -achavam quem jurasse ter o regente envenenado -seu irmão D. Duarte e sua cunhada -D. Leonor, mas não encontravam quem se -medisse com o Avranches...</p> - -<p>Como homem prudente, D. Pedro quiz -valer-se da filha que soluçava aos pés do -esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso -redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse -perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se -não ao soberano, mas aos inimigos; -seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_58" id="Page_58">[58]</a></span></p> - -<p>A Cavallaria aconselhava-lhe a morte -honrada e não a vida humilhante; a sciencia -ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o -espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes, -apontava ao cavalleiro e ao philosopho -a honra de tres damas que a elle deviam o -sêr.<a name="FNanchor_22" id="FNanchor_22"></a><a href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a></p> - -<p>Desgraçado do homem que vem ao mundo -como pensador; para esse a scentelha -divina do talento é chamma que illumina -sim, mas como o tocheiro que allumia um -cadaver.</p> - -<p>Alvaro Vaz, durante estas hesitações, -fôra para Coimbra acompanhar o amigo. -Decidiram partir e, á força d’armas, pedir -aos detractores o rol das culpas. D. Pedro -esse o que queria era desabafar com o -sobrinho, com a meiga creança que outrora -lhe sorria nos joelhos, como se fosse um -filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque -não defender sua justiça?</p> - -<p>Foram em bellico apparato. Logo na -côrte roncaram os primeiros rumores da<span class="pagenum"><a name="Page_59" id="Page_59">[59]</a></span> -expedição. O rei partiu tambem ao som de -guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira -acharam-se frente a frente.</p> - -<p>Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista -diplomatica; mas aos parciaes do Infante -o que convinha era um combate; -cousa mais simples e talvez mais segura.</p> - -<p>Começaram varias refregas, méras expansões -da soldadesca; uma setta arremessada -ao acaso foi bater na tenda real. Já -não havia duvidas sobre as tenções do Infante... -Podia, sem escrupulos, dar-se a -carnificina.</p> - -<p>Os pelouros das bombardas cruzavam-se -nos ares com as flechas e com os golpes -de montante; craneos esmigalhados pelos -projectis juncavam o chão, havia heroes -que abriam caminho com a espada ensanguentada, -e entre esses D. Pedro.</p> - -<p>Que queria elle? A Historia não o diz. -Talvez fallar ao rei.</p> - -<p>De repente um pelouro prostra-o por -terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de -energia. Ao chegar junto do corpo do infante -ajoelhou, e quando depunha o osculo -na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.</p> - -<p>D. Alvaro olhou-os de frente; de braço<span class="pagenum"><a name="Page_60" id="Page_60">[60]</a></span> -estendido para a morte, disse estas palavras: -<i>Fartar rapazes! vingar agora villanagem</i>.</p> - -<p>Uma turba de settas choveu sobre elle; -a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se -do mundo. Era o ultimo cavalleiro.</p> - -<p>Destruidos os dois baluartes da honra, -findou a batalha, começando logo depois o -saque, não dos despojos dos vencidos, mas -dos bens do Grande Morto, que esteve tres -dias insepulto.</p> - -<p>Principia aqui a agonia da existencia de -D. Izabel, joven de dezesete annos, com um -coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.</p> - -<p>Seu pae, julgando amparal-a dignamente, -casou-a com o sobrinho; enlace que as -côrtes de Torres Vedras approvaram com -enthusiasmo.</p> - -<p>O consorcio realisou-se em 1447, ou em -6 de maio de 1448,<a name="FNanchor_23" id="FNanchor_23"></a><a href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a> tendo a rainha sido -dotada com todas as villas que pertenceram<span class="pagenum"><a name="Page_61" id="Page_61">[61]</a></span> -a sua sogra D. Leonor e a sua avó -D. Filippa.</p> - -<p>Entre as nossas soberanas, D. Izabel de -Lencastre é uma das mais sympathicas; -basta para lhe dar jus a este titulo a sua -qualidade de fiel esposa do homem que -assassinára seu pae e que era o pae de -seus filhos.</p> - -<p>N’estes, porém, a excelsa princeza depôz -todas as suas esperanças que não foram -infundadas.</p> - -<p>Tendo tido um filho varão (3 de maio -de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse -a memoria de D. Pedro e que o -seu corpo, então depositado na egreja de -Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no -Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I -e de D. Filippa.<a name="FNanchor_24" id="FNanchor_24"></a><a href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></p> - -<p>Essa creancinha que ella, mãe extremosa, -acalentava, era D. João II, o futuro Grande -Rei que, com barbara, mas bem merecida -justiça, vingaria a morte de seu avô.</p> - -<p>No emtanto, os odios ainda não estavam<span class="pagenum"><a name="Page_62" id="Page_62">[62]</a></span> -extinctos e os promotores da catastrophe -da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação -do antigo regente, decidiram pôr termo -á vida da filha, causadora de tal desgosto.</p> - -<p>Apezar de não ser ponto averiguado, é -tradição seguida, que a causa da morte -d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi -a peçonha ministrada pelos inimigos de seu -pae, terriveis feras que depararam mais -tarde com um terrivel vingador.</p> - -<p>Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande -epopeia de pedra da nossa nacionalidade. -A Historia presta-lhe o culto da santificação -pelo martyrio que enaltece as almas -na perpetuidade dos seculos.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_63" id="Page_63">[63]</a></span></p> - -<h2 id="D_Leonor_de_Lencastre">D. Leonor de Lencastre</h2> - -<p>A Historia retrata-nos Affonso V como -um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos -que se tem sentado no throno portuguez. -Filho de D. Duarte o fraco mas sabio -rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel -rainha, Affonso V mostrou que não -degenerára dos seus progenitores.</p> - -<p>Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu -no augmento da bibliotheca de seu pae, e -continuou as emprezas africanas conforme -os desejos de D. Henrique.</p> - -<p>Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla -(1463) são monumentos que attestam o patriotismo -que lhe adornava a alma, áparte -a volubilidade e a ambição.</p> - -<p>Talvez fosse esta que o levasse a consentir -na morte do regente D. Pedro; póde -ser que mesmo afastado da côrte, o rei -visse em seu tio um estorvo para dar largas<span class="pagenum"><a name="Page_64" id="Page_64">[64]</a></span> -á sua absoluta vontade. De facto, aquelle -homem fleugmatico, methodico, grande em -tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe -involuntariamente. Não obstante -a sua pouca edade, a Historia não o póde -absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira -e do condemnavel procedimento de -ter durante tres dias insepulto o cadaver -do mallogrado infante e de o privar, por espaço -de annos, da sepultura que D. João I -lhe destinára no Mosteiro da Batalha.</p> - -<p>Uma guerra injusta alvoreceu com o seu -reinado; outra lhe terminou a existencia, -crivando de desgostos o desgraçado monarcha, -cheio de desenganos e de crueis penas -do triste passado.</p> - -<p>Velho aos quarenta e nove annos, desanimado -de todo pela sorte das armas, que -lhe refreavam os vôos, abatido no Toro -(1476), Affonso V falleceu em Cintra aos -28 de agosto de 1481.</p> - -<p>Logo depois subiu ao throno seu filho D. -João II, que já nos ultimos tempos da vida -do pae governava de facto o reino.</p> - -<p>N’este principe depozera as suas esperanças, -nas horas amargosas do infortunio, -a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia -cabia vingar a memoria do avô,<span class="pagenum"><a name="Page_65" id="Page_65">[65]</a></span> -memoria de todo rehabilitada quando o neto -lavasse as mãos no sangue dos assassinos.</p> - -<p>A morte do duque de Bragança (21 de -junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 -d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados -por braço herculeo contra o poder descommunal -que assassinára D. Pedro.</p> - -<p>Consummada a vingança e consolidado o -cesarismo, o rei converteu-se em senhor, -apoiado no poder absoluto, uma das más -feições da Renascença.</p> - -<p>N’este empenho, D. João II sacrificou os -proprios membros da familia, alanceando o -coração da esposa que vira aos pés do marido -morto ás punhaladas, o cadaver do -louco e desgraçado irmão.</p> - -<p>Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro -de 1471), o pae casára-o com D. Leonor -de Lencastre, filha do infante D. Fernando -e D. Izabel de Bragança.<a name="FNanchor_25" id="FNanchor_25"></a><a href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></p> - -<p>Toda a generosidade da raça d’Aviz -actuou n’esta princeza, digna successora de -D. Filippa; todas as virtudes domesticas, -todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos<span class="pagenum"><a name="Page_66" id="Page_66">[66]</a></span> -das sciencias tiveram o seu culto -no animo generoso de D. Leonor, que, para -não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, -tambem teve o martyrio a crucificar-lhe -a existencia.</p> - -<p>No cerebro do marido desenrolava-se o -imperio do mundo; as descobertas continuavam-se -e o nome portuguez dilatava-se -triumphante por toda a terra; Diogo Cão -descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso -d’Aveiro chegára á Guiné (1486) -e Bartholomeu Dias dobrou o <i>Tormentoso -cabo</i>, primeiro indicio da derrota da India.</p> - -<p>O commercio desenvolvia-se activamente, -tornando Lisboa quasi rival de Veneza. Um -futuro brilhante como o fulgor de uma joia -naturalmente parecia sorrir ao principe D. -Affonso, esposo da herdeira de Castella e -filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle -se haviam de reunir todos os potentados -da peninsula e dos Dois Mundos, todas as -riquezas do Oriente e do Occidente!</p> - -<p>Havia de ser o primeiro monarcha do -universo! na sua fronte repousaria a corôa -que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. -O sonho d’esta felicidade plausivel florescia -perante os espinhos que o espirito -vingador do rei semeára no lar domestico.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_67" id="Page_67">[67]</a></span></p> - -<p>Apezar de mortificada, D. Leonor via no -marido o soberano illustrado e audaz, que -preparava para o filho um futuro inegualavel.</p> - -<p>Essa creança era o espirito de conciliação -que existia entre os dois; era o élo que os -ligava ao commum interesse do povo. Mas -como a nuvem altaneira trepa a grimpa -dos montes e esconde o sol radioso, a morte -surgiu a derribar o arbusto que alargava as -suas raizes por todo o sólo conhecido.</p> - -<p>Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), -o sonho idealista desappareceu e com elle -a existencia do rei (25 de outubro de 1495).</p> - -<p>Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á -caridade e ao desenvolvimento das lettras -e artes; introduziu a imprensa em Portugal;<a name="FNanchor_26" id="FNanchor_26"></a><a href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> -fundou a Egreja da Merceana, no termo de -Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, -as Misericordias, e deu principio á construcção -das capellas imperfeitas da Batalha, mais -tarde mandada suspender por seu irmão el-rei -D. Manuel.</p> - -<p>No reinado d’este soberano, a rainha recebeu -o lenitivo de todos os seus passados<span class="pagenum"><a name="Page_68" id="Page_68">[68]</a></span> -desgostos; viu o auge da prosperidade da -patria, deixando-a grande e feliz quando -falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de -1525.</p> - -<p>Jaz no convento da Madre Deus.</p> - -<p>Quem fôr ao mais eloquente monumento -da nossa nacionalidade, quem visitar os -athaudes de D. João I, de D. Filippa e de -seus illustres filhos, sentirá que na crypta -murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.</p> - -<p>Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se -d’aquelle épico conjuncto de tumulos, -onde dormem o somno eterno os mais -brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro -progresso que existiu n’esta terra.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_69" id="Page_69">[69]</a></span></p> - -<h2 id="D_Leonor_dAustria">D. Leonor d’Austria</h2> - -<p>D. João II, apezar do grande amor que -consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde -duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, -indicando como herdeiro da corôa o duque -de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado -duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de -quem já nos occupámos.</p> - -<p>Como grande rei, o neto do infante D. -Pedro continuou as descobertas maritimas; -no entanto é licito ao historiador notar a -hesitação d’este monarcha em acolher os -serviços de Christovão Colombo, serviços -que foram acceites por Fernando e Izabel -de Castella, graças ao lucido espirito da -rainha, predisposto pelo immortal Pedro -Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.</p> - -<p>É esta a unica mancha do reinado de -D. João II.</p> - -<p>Nem a morte do duque de Bragança<span class="pagenum"><a name="Page_70" id="Page_70">[70]</a></span> -nem o assassinato do duque de Vizeu maculam -a memoria do rei, que se viu obrigado -a recorrer ao cutello e ao punhal -para extinguir as desintelligencias do feudalismo -perturbador constante da paz interna -dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, -continuou-lhe a obra grandiosa, porém -com politica e astucia e não com sangue -e cadaveres, attitude esta que os golpes -fundos e radicaes do seu illustre predecessôr -lhe permettiam tomar.</p> - -<p>Um tanto injusta a Historia, designa D. -Manuel simplesmente como soberano <i>venturoso</i>. -D. Manuel foi feliz pelo acaso de -successão, pelos homens que encontrou e -por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas -depois pela voracidade do ganho; -mas <i>foi grande</i> pela sua politica de ferro, -pelo seu espirito conciliador e pela attenção -que, não obstante a influencia das preciosidades -da India, sempre dispensou ao -bem estar do continente: bastando para -lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia -com que soube tratar a visinha Hespanha.</p> - -<p>Perdidas as esperanças de cingir a corôa -de toda a peninsula, em vista do fallecimento -da rainha D. Izabel, viuva do principe<span class="pagenum"><a name="Page_71" id="Page_71">[71]</a></span> -D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos -(24 d’agosto de 1498),<a name="FNanchor_27" id="FNanchor_27"></a><a href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a> com quem se -havia desposado, e do unico fructo do seu -matrimonio, o principe D. Miguel da Paz -(20 de junho de 1500),<a name="FNanchor_28" id="FNanchor_28"></a><a href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a> o rei portuguez -entendeu que a continuação de allianças com -a nossa rival no poderio ultramarino era -materia do mais alto alcance para a estabilidade -das pacificas relações entre os dois -paizes.</p> - -<p>Tratára elle o casamento do sobrinho -predilecto, o duque de Bragança D. Jayme -com Leonor de Mendóça, filha do duque -de Medina Sidonia no intuito de procrear -amizade com o poderoso hespanhol, senhor -de quasi toda a Andaluzia, de que era -Fronteiro Mór.</p> - -<p>Não pensava o rei, nos seus planos de -diplomata, que o coração não se molda ao -capricho dos politicos e que a desgraçada -creança, inteiramente extranha aos tramas -das conveniencias sociaes, seria, volvidos -poucos annos, victima da justa vingança -do marido, offendido na sua honra e no -pundonor.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_72" id="Page_72">[72]</a></span></p> - -<p>A deploravel catastrophe de 2 de novembro -de 1512, em que o treçado do primeiro -senhor do reino assassinava a esposa adultera, -e as mallogradas pretenções á successão do -throno de Castella, pretenções que já tinham -sido alimentadas por seu tio D. Affonso V -e por seu primo D. João II, foram os -unicos desgostos que D. Manuel experimentou -nos vinte e seis annos do seu reinado.</p> - -<p>De resto a fortuna bafejava o pavilhão -das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo -(sabbado 8 de julho de 1497)<a name="FNanchor_29" id="FNanchor_29"></a><a href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a> no intuito -de achar o caminho das Indias, dobrando -o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem -descobriu a Terra do Natal, Moçambique, -Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel -alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente -defronte do Calecut, onde a principio o receberam -com enthusiasmo, que mais tarde -esfriou em vista das intrigas dos mercadores -musulmanos, os quaes adivinhavam no -altivo estrangeiro a quéda da sua influencia -commercial. Abriam-se de par em par -as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se -o monarcha mais poderoso e mais -rico d’então. Não tardariam as perolas, os<span class="pagenum"><a name="Page_73" id="Page_73">[73]</a></span> -rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre -e a pimenta, monopolio da corôa.</p> - -<p>Não tardariam as victorias de D. Francisco -d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque. -E coberto de louros, incensado em -fumo, precedido da força brutal das armas -e do genio épico dos grandes capitães, o -nome do rei subjugou o oceano e avassallou -o Oriente.</p> - -<p>Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao -pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida -em capital do projectado imperio que -o grande capitão, nos seus planos de estadista, -pretendeu fundar. Era necessario um -cruzamento de raças: casassem os portuguezes -com as mulheres da India; alijassem -essas ideias puritanas, lembrando-se -que toda a humanidade vinha de Adão...</p> - -<p>João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque -são as figuras mais valiosas do reinado -d’Aviz. Um pela sua eloquencia que -produziu uma autonomia; outro pela sua -candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso -de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro -de politico.</p> - -<p>Os dois primeiros morreram honrados no -seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico -asceta, na solidão de um mosteiro.<span class="pagenum"><a name="Page_74" id="Page_74">[74]</a></span> -João das Regras, pae extremoso, no seio -da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se -do mundo a ingratidão real, remedeada -já tarde,<a name="FNanchor_30" id="FNanchor_30"></a><a href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a> e o seu corpo affeito ás -luctas em prol da patria, levado aos hombros -dos companheiros das suas glorias, com -a barba branca, comprida e magestosa -como a do Condestavel, é o retrato prophetico -do futuro do emporio portuguez, -cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada -ambição do lucro, a sensualidade -do Oriente, em que os soldados eram sultões -e as casernas harens, deitaram por terra, -como o vento do deserto abate a palmeira -verdejante.</p> - -<p>Albuquerque foi a personificação da lealdade, -e a India nas nossas mãos foi um -campo d’aleivosias.<a name="FNanchor_31" id="FNanchor_31"></a><a href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a></p> - -<p>Mancha negra que ennodôa a Historia, -o dominio portuguez no Oriente assemelha-se -á impudica figura de Leonor Telles. -Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças. -Com o pensamento na riqueza, o sentimento -cavalheiresco afastava-se do soldado<span class="pagenum"><a name="Page_75" id="Page_75">[75]</a></span> -convertido em mercador. Já não havia essa -simplicidade de outras eras. Sedas, joias e -alfaias jorravam a olhos vistos, sem que -ninguem sentisse que entre a descommunal -riqueza se ia lavrando a sentença de morte -de uma nação. O sensualismo entorpecia -os espiritos, aconselhando os estofos perfumados -dos salões com portas de ebano, paredes -de damasco e pregaria de ouro á -rudeza do marinheiro ou á espada do militar. -Riqueza e gozo era o ideal de todos, -n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão -risonha e cujo fundo é tão funebre.</p> - -<p>Na metropole, D. Manuel, como feitor -n’esta immensa fazenda, via-se assaltado -pela multidão de operarios que não pediam -trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja -mordia os feitos dos benemeritos e o rei -deixava-se vencer por falsos conselheiros que -vindos da India pintavam-lhe com negras -côres as obras dos grandes homens. Feliz -no poderio e na familia, casado em segundas -nupcias com D. Maria de Castella,<a name="FNanchor_32" id="FNanchor_32"></a><a href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> irmã<span class="pagenum"><a name="Page_76" id="Page_76">[76]</a></span> -de sua primeira esposa, pae de numerosa -descendencia, um tanto illustre, é certo, -mas bem longe de ser um arremedo da de -D. João I, o poderoso rajah da Europa, -cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes -aventureiros, maculando o seu nome -na ingratidão para com os servidores leaes.</p> - -<p>De novo casára em Alcacer do Sal (30 -d’outubro de 1500) e passados dois annos -a successão do throno estava assegurada -pelo nascimento do principe D. João. Além -d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia -da corôa: D. Izabel, esposa do imperador -Carlos V; D. Brites, duqueza de -Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto -e discipulo do grande mathematico -Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, -que casou com D. Guiomar Coutinho, -herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, -que foi cardeal, bispo de varias dioceses e -arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, -arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque -de Guimarães, casado com D. Izabel -de Bragança, filha do duque D. Jayme e<span class="pagenum"><a name="Page_77" id="Page_77">[77]</a></span> -pae de D. Catharina, esposa de seu primo -o duque D. João I, d’onde proveio á casa -de Bragança o direito de successão por -morte do cardeal rei.</p> - -<p>Extremoso chefe de familia, sem ter -amante nem bastardo, doido pela mulher -que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a -(7 de março de 1517), volvidos dezesete -annos de íntima convivencia.</p> - -<p>Estava vago o logar que assegurava a -Portugal a amizade de Castella. Cumpria -prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como -homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se -d’esta missão. Viuvo e saudoso da -esposa que perdêra, o filho do infante D. -Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado -á corôa por um acaso feliz, raro na -Historia, o monarcha senhor de meio mundo, -o rei de vassallos tão illustres quão sabios -e leaes, determina um bello dia abdicar -no primogenito e ir-se ao Algarve, como -Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de -Islam.</p> - -<p>Porém, o piedoso intento só se realisaria -consummado o matrimonio do principe -com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna -<i>a louca</i> e de Filippe I de Castella.</p> - -<p>Recusada a proposta de D. João, que<span class="pagenum"><a name="Page_78" id="Page_78">[78]</a></span> -se achava embeiçado em amores desiguaes,<a name="FNanchor_33" id="FNanchor_33"></a><a href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> -D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando -a princeza que destinára ao filho. -O consorcio realisou-se no Crato (24 de -novembro de 1518).</p> - -<p>No contracto lavrado a 16 de julho do -mesmo anno ficou tratada a dotação da -nova soberana, que entraria na posse da -Caza das Rainhas logo que fallecesse D. -Leonor de Lencastre, viuva de D. João II -e irmã d’el-rei D. Manuel.</p> - -<p>Leonor d’Austria tambem tem a fronte -aureolada pelos louros do martyrio.</p> - -<p>Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a -com um homem edoso, pae de numerosa -descendencia; e mais tarde, depois -da morte d’esse rei (13 de dezembro de -1521) que a não amava, nem por ella era -amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada, -a gloriosa infanta D. Maria, a futura -protectora das lettras, o penultimo lampejo -da Renascença.</p> - -<p>A politica endurece o coração dos soberanos. -Carlos V queria fisgar Francisco I,<span class="pagenum"><a name="Page_79" id="Page_79">[79]</a></span> -mas precisava d’um laço que o prendesse -á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do -rei de Portugal.</p> - -<p>Casada com o soberano francez, D. Leonor -teve de abandonar a filha, que só viu -trinta e quatro annos depois! Se foi cruel -o seu martyrio, em compensação, o ente -que de longe abençoava, soube exaltar a -sua memoria e honrar o nome de quem -lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento -do seu paiz. A sciencia d’estes -factos seria um lenitivo para a pobre mãe, -que, não obstante a distancia, lhe dirigia -os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe -n’este mundo um premio digno -dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove -annos de edade (1498-1558)<a name="FNanchor_34" id="FNanchor_34"></a><a href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a> teve a ventura -de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua -vida, a qual terminou em breve.</p> - -<p>Conforme o juramento que os habitantes -de Lisboa lhe exigiram á partida,<a name="FNanchor_35" id="FNanchor_35"></a><a href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a> a infanta -D. Maria deixou sua mãe nos territorios<span class="pagenum"><a name="Page_80" id="Page_80">[80]</a></span> -de Hespanha e regressou á sua patria; porém, -Leonor d’Austria tinha os seus dias -contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, -aos 25 de fevereiro de 1558.<a name="FNanchor_36" id="FNanchor_36"></a><a href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a></p> - -<p>Os dois thronos em que se assentou foram -para esta princeza dois tumulos precoces: -um matou-lhe a mocidade algemada -á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello -predicado do coração da mulher—o amor -de mãe.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_81" id="Page_81">[81]</a></span></p> - -<h2 id="D_Catharina_dAustria">D. Catharina d’Austria</h2> - -<p>Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as -redeas do governo o principe D. João.</p> - -<p>Quatro annos depois de subir ao throno, -o monarcha portuguez contrahiu nupcias -com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta -e do imperador Carlos V.</p> - -<p>Continuava assim a politica do pae, assegurando -o poderoso visinho, casado tambem -em 1526 com a nossa princeza D. -Izabel.</p> - -<p>D. João III lidou sinceramente pelo progresso -das lettras. É esta uma feição caracteristica -da dynastia de Aviz. O seu fundador -escreveu o <i>Livro das Horas do Espirito -Santo</i>, os <i>Psalmos certos para os finados</i>, -o <i>Livro da Montaria</i> e attribue-se-lhe -tambem a <i>Côrte Imperial</i>; seus filhos, el-rei -D. Duarte o auctor do <i>Leal Conselheiro</i> e -da <i>Arte de bem cavalgar em toda a sella</i>; -D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor<span class="pagenum"><a name="Page_82" id="Page_82">[82]</a></span> -das <i>Horas de Confissão</i> e do <i>Livro da virtuosa -Bemfeitoria</i>, seguiram-lhe as honradas -tradições.</p> - -<p>N’este reinado, porém, a litteratura portugueza -attingiu o maior brilho; n’elle floresceram -João de Barros, Fernão Lopes de -Cantanhede, Damião de Goes, o doutor Antonio -Ferreira, Diogo Bernardes e André de -Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes -reformas nos estudos, importando-se -mestres do estrangeiro para ensinarem na -nossa Universidade, transferida de vez para -Coimbra.</p> - -<p>As descobertas e as conquistas progrediam -tambem; chegou-se ao Japão (1542) -e entabolaram-se relações com os chinezes, -obtendo-se a faculdade de podermos estabelecer -uma colonia em Macau.</p> - -<p>Na India, D. João de Castro, outra figura -respeitavel, tomou a hombros o continuar -a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia -o manancial d’iniquidades parecendo -animado pelo espirito do grande capitão. -Elle e D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo -dos nossos feitos brilhantes no paiz das especiarias.</p> - -<p>A arte tambem teve o seu culto n’esta -nova phase da vida nacional. Belem é o<span class="pagenum"><a name="Page_83" id="Page_83">[83]</a></span> -monumento que a piedade de D. Manoel levantou -em memoria do grande feito de Vasco -da Gama. Não obstante ser magestosa, a -egreja dos Jeronymos não possue a solemnidade -da Batalha; no entanto falla ao coração -do patriota como symbolo d’um passado -glorioso, que, embora maculado mais -tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia -de 1385.</p> - -<p>Aberto o novo periodo das conquistas, -Belem converteu-se em pantheon da Casa -d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do <i>Mar -Tenebroso</i>, cujos segredos a audacia do infante -D. Henrique, a astucia de D. João II -e a actividade de D. Manoel desvendaram -para sempre. Os marmores dos seus tumulos -são bafejados pela maresia do Tejo, que -lhes prende a existencia eterna á vida terrestre. -Ali, guardados em sarcophagos cinzelados -pela Arte da Renascença, n’uma -crypta impregnada de ares salinos, descançam -D. Manoel, D. João III, D. Sebastião -(?), D. Henrique e todos os principes da familia -real.</p> - -<p>Hoje Belem parece destinado a mausoléu -das grandes glorias do paiz.</p> - -<p>Bom é que debaixo do mesmo tecto, -n’uma fraternidade que a morte estreita,<span class="pagenum"><a name="Page_84" id="Page_84">[84]</a></span> -durmam o somno eterno, reis e vassallos -que nas differentes epochas da historia lidaram -pelo engrandecimento do torrão que -os viu nascer.</p> - -<p>Bom é que junto dos ultimos descendentes -d’Aviz, raça illustre, filha da vontade -popular, levantada pela eloquencia de João -das Regras, poetas, cuja musa é o breviario -do sacerdocio da Patria; navegadores -cuja afoiteza é o testemunho da virilidade -d’um povo; historiadores cuja penna justiceira -serve de modelo á critica dos vindoiros, -se confundam todos em amplo abraço, -coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes -pela realeza do talento que levanta os humildes -á altura de semi-deuses. E hoje, que -o pensamento estende as suas raizes pelas -regiões do Infinito; que a justiça depõe as -palmas do martyrio sobre a memoria das -victimas do genio, bom é que o patriota -ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes -do throno, do talento e da aventura, -e, recolhido em si n’uma meditação profunda, -contemplando aquella téla sublime, invoque -os manes dos que ahi descançam, -como os fieis do Christianismo levantam as -suas preces aos que adquiriram a Bemaventurança -eterna.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_85" id="Page_85">[85]</a></span></p> - -<p>Junto de seus maiores, tambem ahi está -o principe D. João, filho de D. João III, -um desvelado cultor das lettras, vulto illustre -em que Camões depoz todas as suas -esperanças. Começava a faltar a seiva á -grande arvore plantada em 1385; estava -fraca e abatida pela ausencia do calor vital, -quando os vermes da corrupção lhe -tragavam as ultimas raizes. O mallogrado -infante casára em Elvas (fins de novembro -de 1552)<a name="FNanchor_37" id="FNanchor_37"></a><a href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a> com sua prima D. Joanna, filha -do imperador Carlos V; d’este matrimonio -nasceu um filho posthumo, D. Sebastião (20 -de janeiro de 1554), que subiu ao throno -logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, -11 de julho de 1577). A regencia do reino -ficou entregue a D. Catharina, avó do joven -monarcha, que tomou a serio os encargos -da realeza. Presidindo ao Conselho d’Estado, -a rainha não só recommendava a boa venda -da pimenta, mas tambem o augmento do -territorio colonial. Angola mereceu-lhe as -maiores attenções e as conquistas da India -desenvolveram-se com as tomadas de Damão -e de Jafanapatão.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_86" id="Page_86">[86]</a></span></p> - -<p>Não obstante estes progressos, D. Catharina -vivia desgostosa, suspirando o descanço -da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa -(23 de dezembro de 1562) e ahi entregou -o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique. -Alcançada a almejada tranquillidade, -residiu em varias terras de que era senhora, -e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes -menciona no seu testamento.</p> - -<p>Tendo setenta e um annos, terminou a -existencia d’esta princeza, que falleceu em -Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a -em Belem. Mezes depois (22 -de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico -penhor da sua independencia. Catharina de -Austria succumbiu antes do tragico fim de -Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, -uma verde esperança de poetica illusão -lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez -que moribunda, no seu delirio abençoasse -o neto, vendo-o triumphante, implantando -a Cruz nas mesquitas de Mahomet, -realisando o sonho da Edade Média, desviado -da rotina da Renascença. Catholica -extreme, a fé, que fortalece os fracos, alental-a-hia -na sua duvida sorridente. Deus havia -de ajudar o cruzado, cujo escudo era o -baluarte do Evangelho! havia de erguer o<span class="pagenum"><a name="Page_87" id="Page_87">[87]</a></span> -braço do heroe que fincava as Quinas no -territorio do Islam...</p> - -<p>Este sonho mystico de Catharina agonisante -é o ultimo traço da nossa grandeza -épica. Camões tambem o alimentou com a -mesma fé e com a mesma pureza de uma -alma gigantesca illudida na sua candura, -que recebeu a mais cruel das decepções: o -desfolhar das suas esperanças e a perda do -seu paterno ninho.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_88" id="Page_88">[88]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_89" id="Page_89">[89]</a></span></p> - -<h2 id="O_Interregno_dos_Filippes">(O Interregno dos Filippes)</h2> - -<p>Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento -da independencia que animava um -povo já consciente do seu existir, já apegado -ao seu lar, unido desde o Minho ao -Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o -paiz succumbiu em Alcacerquibir. Houveram -ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, -mas já não circulava aquelle sangue -generoso e bom, tão forte na Edade Media, -como valente e fidalgo no alvorecer da -Renascença.</p> - -<p>A India inundára-nos de ouro e sugava-nos -as forças vitaes. Extenuado por essa -amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos -com a virilidade de outras eras.</p> - -<p>Tudo estava podre. Até os proprios que -tinham exaltado a bandeira das Quinas se -deixaram arrastar pela corrente da corrupção. -Reunidas as côrtes em Lisboa (de junho -de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos -para que o cardeal-rei escolhesse<span class="pagenum"><a name="Page_90" id="Page_90">[90]</a></span> -d’entre elles cinco governadores que indicassem -a quem de direito, no futuro, pertencia -o throno e que administrassem o -reino dada a sua morte.</p> - -<p>Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, -31 de janeiro de 1580), o Prior -do Crato, D. Antonio, bastardo do infante -D. Luiz, pretendeu cingir a corôa, allegando -um supposto casamento de seu pae com -a famosa Violante Gomes; Rainuncio, principe -de Parma, filho de D. Maria e neto -do infante D. Duarte; Manuel Felisberto, -duque de Saboya, filho da infanta D. Brites; -Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, -duqueza de Bragança, filha do infante -D. Duarte, concorreram tambem a disputar -o throno.</p> - -<p>Até Catharina de Médicis se lembrou de -ser rainha de Portugal, dando como rasão -uma ideada descendencia d’Affonso III e -da condessa Mathilde! No meio dos successivos -desastres, por entre tantas vilanias -tecidas pelo ouro de Castella, espalhado -largamente por D. Christovam de Moura, -não faltou esta nota comica. Faltava, porém, -o <i>veridictum</i> dos governadores, depositarios -da realeza, juizes irrevogaveis que haviam -de sentencear a quem pertencia a corôa.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_91" id="Page_91">[91]</a></span></p> - -<p>No desempenho d’esta missão partiram -para Badajoz, onde a 7 d’agosto de 1580 -assignaram um alvará, conferindo a dignidade -real a Filippe II.</p> - -<p>Note-se, no entanto, que a entrega da -Patria ao hespanhol foi recusada pelo Arcebispo -de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e -por D. João Tello de Menezes. Os outros -(D. Francisco de Sá e Menezes, D. João -de Mascarenhas—o defensor de Diu!—e -Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se debaixo -do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, -sem embargo da tranquillidade das delapidadas -consciencias.</p> - -<p>N’este desabar do edificio, desmantelou-se -tambem a Casa das Rainhas; Alemquer -serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres -de Portalegre.</p> - -<p>Achava-se, pois, desfeita a grande obra -de Affonso Henriques, consolidada em 1385; -e Portugal era uma nacionalidade morta, -abatida pela extincção da grande dynastia -que levou a sua fama aos confins do mundo. -Era uma nau grandiosa, equipada brilhantemente, -veloz como o vento e segura -como a rocha, que atravessava o oceano -em toda a sua vastidão, que sulcava os -mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_92" id="Page_92">[92]</a></span></p> - -<p>Uma vez descobriu no horisonte um -forte almejado, um cachopo traiçoeiro que -lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia -que a fortalecia, com a confiança na sua -força, com a lembrança do seu valor, inclina -o rumo para o precipicio, que julga o -digno remate da sua proficua derrota. Acompanham-n’a -as alegrias, desfraldam-se alegres -em seus mastros os vistosos pavilhões; -sonhos dourados adormecem a tripulação, e, -ao cabo de longa viagem pela campina maritima, -o fado que outrora lhe proporcionou -os louros, a arrasta agora para o iman -da perdição, para a</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse"><i>.........................vã cubiça</i></div> -<div class="verse"><i>d’esta vaidade a quem chamamos Fama.</i><a name="FNanchor_38" id="FNanchor_38"></a><a href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a></div> -</div> -</div> - -<p>Tudo soffria as consequencias do mesmo -genio audacioso que presidira a todas as -nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota -até ás descobertas do mar, vasta -arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir -vingou Ceuta, calcada aos pés do venerando -roble d’Aviz. A Africa assim como foi -berço da nobre epopeia portugueza, tambem<span class="pagenum"><a name="Page_93" id="Page_93">[93]</a></span> -foi seu tumulo, devorando o ultimo -representante de D. João I. Não lhe satisfez -o martyrio do infante D. Fernando; -foi-lhe preciso aguilhoar um povo que -ousára abater o vôo do estandarte mussulmano; -e esse povo, estrangulado pela raiva -da hyena africana, legava ao universo, a -cujos destinos soubera presidir, uma chronica -immortal da fenecida grandeza.</p> - -<p>Camões e o seu poema foram os elos, -que, abatidos os grilhões, haviam de reatar -o passado ao futuro. Os <i>Luziadas</i> tornaram-se -o manual em que oravam os crentes -e os esperançosos; os que tinham por -amante o alvorecer da sua independencia.</p> - -<p>Nos sessenta annos de captiveiro, quantas -lagrimas derramadas pela infidelidade -dos traidores! Tantas como as que o vate -sublime, synthese da autonomia portugueza, -chorára pelo <i>ninho seu paterno</i>, e tambem -por essa outra amante, a eleita da sua -alma, cuja ingratidão lhe dictou estes versos:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="verse"><i>Ah Nathercia cruel quem te desvia</i></div> -<div class="verse"><i>Esse cuidado teu do meu cuidado?</i></div> -<div class="verse"><i>Se tanto hei de penar desenganado,</i></div> -<div class="verse"><i>Enganado de ti viver queria.</i></div> -<div class="verse">....................................</div> -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_94" id="Page_94">[94]</a></span></p> - -<p>No coração do patriota reinava uma -outra Nathercia, alimentando-se nas aras -do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das -gloriosas epochas que se tornaram a nossa -razão de ser como paiz independente.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_95" id="Page_95">[95]</a></span></p> - -<p class="center larger">QUARTA DYNASTIA</p> - -<h2 id="D_Luiza_de_Gusmao">D. Luiza de Gusmão</h2> - -<p>Apesar dos apertados grilhões com que -a politica de Castella nos algemou, cuidando -assim extinguir o sentimento da independencia, -a ideia da liberdade invadia o coração -do povo portuguez.</p> - -<p>Formavam-se phantasias, julgava-se vêr -nos elementos uma certeza prophetica da -restauração. A Biblia e o Bandarra eram -mananciaes com que os embusteiros exploravam -a crença popular.</p> - -<p>De facto, a grande creança visionaria, a -massa rude, com a sua alma leal e supersticiosa, -impossibilitada de outro meio que aliviasse -a pesada carga estrangeira, procurava<span class="pagenum"><a name="Page_96" id="Page_96">[96]</a></span> -nos dominios da phantasia um ephemero -lenitivo aos seus pezares.</p> - -<p>Para ella o ideal começou em D. Sebastião, -uma especie de moura encantada, recolhida -em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, -d’onde em momento opportuno, -marcado no ceu com signaes temiveis, como -os do fim do mundo, viria erguer o escudo -lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da -usurpadora Hespanha.</p> - -<p>E a phantasia, só a phantasia, é que consolava -o povo, só a superstição é que lhe -allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a -grande empreza, que recordou n’aquelles -tempos de provecta decadencia o genio audacioso, -valente e guerreiro da nação portugueza.</p> - -<p>Ella ainda cortejava o vencedor, quando, -arrogante e soberbo, percorria as ruas da -capital; ainda se curvava quando ouvia nomear -o rei o symbolo augusto que lhe fundára -a nacionalidade e que combatêra a seu -lado, na infancia da monarchia, pela defeza -dos seus interesses, pela consolidação da sua -existencia e da sua liberdade; mas n’este -acto não se deprehende hypocrisia, fraqueza -ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera -na alma popular o sentimento da realeza,<span class="pagenum"><a name="Page_97" id="Page_97">[97]</a></span> -com que foi creada desde tempos immemoriaes. -Não era uma abdicação perante o hespanhol, -era o invocar da alma leal para um -principio que lhe gerára a Patria e que soubéra -confundir-se com ella, tornando-se o -coração d’um grande corpo, d’onde se expande -a vida e a força por todo um paiz.</p> - -<p>Se o duque de Bragança não quizesse -annuir ás repetidas instancias dos fidalgos, -e se em vista da recusa do principe se levasse -a effeito aquelle celebre dito de D. João -da Costa, <i>antes uma republica bem portugueza -que um rei estrangeiro</i>, a independencia de -Portugal, em nossa opinião, não ia ávante.</p> - -<p>Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe -o objecto d’esse amor, que, embora -ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse -traiçoeiro como D. Henrique, fosse efeminado -como D. Fernando, fosse bom ou fosse -mau, era o possuidor do espirito do povo, -era o pae da independencia, gerada em Ourique -e emancipada, feita homem e consciente -no campo glorioso d’Aljubarrota. Acclamou -a monarchia, João das Regras, um filho do -povo, defenderam-n’a elles em todas as suas -crises, abraçaram-n’a como religião desde o -seu principio e sempre essa ideia innata ao -seu existir palpitará em seu peito, como<span class="pagenum"><a name="Page_98" id="Page_98">[98]</a></span> -orgão que a natureza addicionou á sua alma -tão leal como cavalheiresca.</p> - -<p>E como a realeza era o symbolo da autonomia, -por isso Castella vigiava o paço de -Villa Viçosa temendo-se unicamente do <i>direito</i> -como impulsor do brado heroico que -havia de alijar para sempre o dominio -estrangeiro.</p> - -<p>E não conhecia a Hespanha o fraco animo -do duque de Bragança? Conhecia, é certo, -mas tambem conhecia o amor do povo a -<i>seu rei natural</i>, e que esse mesmo, egoista -e fraco, era quem se poderia atrever a romper -os laços da usurpação. Para Villa Viçosa -convergiam as attenções de Castella e as -esperanças do paiz, a valente terra portugueza, -que alimentava nas suas entranhas -um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente -o dominio hespanhol.</p> - -<p>As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, -decidiram o primeiro principe feudal de -todas as nações latinas a cingir a corôa -d’Affonso Henriques.</p> - -<p>Elle era neto de D. Catharina, filho do -infante D. Duarte, e por consequencia o -unico representante portuguez d’el-rei D. -Manuel.</p> - -<p>D. Catharina, a gloriosa princeza a quem<span class="pagenum"><a name="Page_99" id="Page_99">[99]</a></span> -a Hespanha sempre respeitou, transmittiu -pelo seu casamento á casa de Bragança os -direitos ao throno de Portugal.<a name="FNanchor_39" id="FNanchor_39"></a><a href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p> - -<p>D. Theodosio, seu digno filho, guardou a -representação d’esses direitos com immaculada -fidelidade, hombreando altivamente -com Filippe III (II de Portugal) e obrigando -o monarcha a descobrir-se perante o -legitimo senhor do paiz a que vinha apossar-se.<a name="FNanchor_40" id="FNanchor_40"></a><a href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a> -Se D. Theodosio chegasse a reinar, -certamente a historia lhe tributaria hoje -egual homenagem á de D. João I; n’elle -actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo -sangue generoso lhe corria nas veias.</p> - -<p>Do casamento de D. Theodosio com D. -Anna de Velasco, filha do duque de Frias,<span class="pagenum"><a name="Page_100" id="Page_100">[100]</a></span> -houveram quatro filhos: D. João, duque de -Barcellos, D. Duarte, o mallogrado infante, -D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. -Theodosio (Villa Viçosa, 20 de novembro de -1630), entrou o duque de Barcellos na posse -do vasto e poderoso Estado de Bragança, -cuja capital, decorridos tres annos (12 de -janeiro de 1633), se alegrava com o casamento -de D. João II com sua prima D. Luiza -de Gusmão, filha do duque de Medina-Sidonia, -D. João Manuel Peres de Gusmão e da -duqueza D. Joanna de Sandoval.</p> - -<p>A velhaca politica d’Olivares fizera este -enlace na esperança que a princeza, como -hespanhola por nascimento, advogasse junto -do marido a causa da sua terra natal; porém -D. Luiza tinha a consciencia plena dos seus -deveres para não se dominar pela vontade -do ministro, que descançado na influencia -da esposa de D. João e na crueldade de -Miguel de Vasconcellos, nem sequer suspeitava -que alguma vez deixasse de ser simples -gemido dos afflictos prisioneiros o heroico -brado de 1638.</p> - -<p>Soou finalmente a hora da independencia -(1 de dezembro de 1640). Era o sol da -nossa epica grandeza que raiava por entre -as nuvens da oppressão estrangeira. Luiza<span class="pagenum"><a name="Page_101" id="Page_101">[101]</a></span> -de Gusmão foi o primeiro satellite do grande -astro, arrastando na sua orbita esposo e -vassallos. <i>Antes rainha uma hora que duqueza -toda a vida</i>, disse ella quando D. João -lhe patenteou as suas hesitações. Espirito -superior, não consentia que ninguem sobrepujasse -o poderio adquirido logo que ligou -os seus destinos aos do duque de Bragança. -No throno foi a mesma cousa: dominava -sempre o marido, era ella o rei, o poder -que influia em todos os negocios do Estado, -o braço que impediu a libertação do tão -grande como desgraçado infante D. Duarte, -a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe -a confiança do monarcha. Tambem a -Historia só lhe nota este defeito, porque de -resto ella foi tão piedosa, como honesta, -respeitavel e dedicada mãe de familia.</p> - -<p>Depois do dominio castelhano, D. Luiza -tomou posse dos bens da casa das Rainhas, -sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado -em Lisboa aos 10 de janeiro de 1643.<a name="FNanchor_41" id="FNanchor_41"></a><a href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></p> - -<p>Os negocios do Estado em que o seu espirito -ambicioso, a sua larga prudencia e -sabio conselho a obrigaram a tomar parte,<span class="pagenum"><a name="Page_102" id="Page_102">[102]</a></span> -obstou a que se interessasse particularmente -pelas terras de que era senhora; no emtanto, -devem ellas vangloriar-se de tão alta -princeza, cuja energia, cuja hombridade e -independencia tanto favoreceu a causa do -seu paiz adoptivo.</p> - -<p>Morto D. João IV (6 de novembro de -1656), a rainha tomou as redeas do governo -em nome de seu filho desventurado D. Affonso -VI, até 1662, anno em que este monarcha -se investiu de auctoridade real. D. -Luiza desde então dedicou-se á piedade, curtindo -os amargos desgostos que lhe dava o -filho, que descia aos ultimos limites a que -póde descer um homem.</p> - -<p>Quatro annos durou esta turbulenta existencia -que teve o seu fim a 27 de fevereiro -de 1666, epocha em que falleceu, sendo o -seu corpo sepultado no convento do Grillo, -e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado -ha pouco para o pantheon real de S. Vicente -de Fóra.</p> - -<p>Decorridos mais de dois seculos, as cinzas -da esposa de D. João IV, profanadas por -mão ambiciosa como ella fôra em vida, -vieram repousar junto do tumulo do marido -e dos dois filhos que lhe succederam.</p> - -<p>Que a historia lhe seja severa como a<span class="pagenum"><a name="Page_103" id="Page_103">[103]</a></span> -morte, proferindo sem lisonja e sem odio -a sentença que lhe dictarem os bons ou -maus actos dos que exercerem o poder supremo.</p> - -<p>O juizo imparcial da realeza não póde -melindrar ninguem, porque o magisterio -d’um rei não é propriedade d’uma familia, -mas é patrimonio d’um povo, que tem direito -a devassar os tumulos dos que o regerem -e procurar nas suas cinzas ou o merecimento -que exige a exaltação dos benemeritos, -ou o crime que obriga o esquecimento -dos precitos. A Historia é o grande -tribunal, onde reis e vassallos são julgados -com a mesma egualdade e com o mesmo -rigor. Ella despreza Affonso III para acclamar -Martim de Freitas; lança o estigma -da infamia sobre a memoria de Leonor -Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa -ignorada de Fernão Vasques, o artista humilde -que em nome do povo soube zelar o -decôro do throno. Assim, quando o historiador -penetra os humbraes da crypta de -S. Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, -e toca por sua vez nos ataúdes de -tantos personagens, esquece as corôas que -adornam os seus tumulos e julga-os como -juiz, que não indaga a qualidade do réu.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_104" id="Page_104">[104]</a></span></p> - -<p>E a Historia, para ser Historia, é necessario -que não dobre a vara da justiça e que -guie sempre os seus passos pelo pharol da -imparcialidade, que rompe a nevoa do servilismo -infame.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_105" id="Page_105">[105]</a></span></p> - -<h2 id="D_Maria_Francisca_Izabel_de_Saboya">D. Maria Francisca Izabel de Saboya</h2> - -<p>Fallecido D. João IV, tomou as redeas -do governo a rainha D. Luiza, a isso obrigada -pelo testamento do rei e pela menoridade -de seu filho Affonso VI. Os negocios -do Estado não se alteraram em cousa alguma -com a administração da rainha viuva; -mudou-se simplesmente o nome do imperante, -porque, como dissémos, D. Luiza foi -sempre a vontade do marido; nem o padre -Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. -Domingos do Rozario, seu conselheiro privado, -a dominaram alguma vez. Altiva e -auctoritaria, ella attendel-os-hia em certas -occasiões, mas nunca se escravisava á sua -influencia.</p> - -<p>Embora nos campos da batalha o valor -do nosso exercito levasse, por vezes, de -vencida o arrogante castelhano, a regente, -como astuta politica, entendeu que sem allianças -que amparassem a corôa aos embates<span class="pagenum"><a name="Page_106" id="Page_106">[106]</a></span> -da fortuna, difficil seria a sustentação -da independencia. A França e a Inglaterra -eram o alvo dos sonhos dourados de D. -Luiza; queria ella fisgar a amizade d’esses -paizes com enlaces matrimoniaes que identificassem -os seus interesses aos interesses -de Portugal; seguia assim o procedimento -de D. Manuel para com a visinha Hespanha, -procedimento este, que, apesar de todas as -rivalidades, sustentou o equilibrio da nossa -tranquilla expansão ultramarina.</p> - -<p>N’este empenho, realisou-se em 1662 -o casamento da infanta D. Catharina, -irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.</p> - -<p>Tanger e Bombaim foram os penhores -da amizade portugueza e o dote da noiva -de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma -pequena parte das colonias para ajudar o -bom resultado da causa nacional; effeitos -de necessidades que se impõem e que, por -desconhecimento de razões só sabidas dos -coévos, a Historia mais tarde aprecia um -tanto injustamente. Se Luiza de Gusmão -comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, -a soberania da casa de Bragança, deve-se -notar tambem que com a realeza da -dynastia estava consubstanciada a independencia<span class="pagenum"><a name="Page_107" id="Page_107">[107]</a></span> -do paiz, que junto a Castella não -era senhor do seu proprio torrão. E se mais -tarde se tornou perniciosa a alliança de -Portugal com a Inglaterra, ninguem tem -direito a arguir a viuva de D. João IV, -exigindo que, embora fosse politica sagaz, -podesse prever factos tão posteriores e filhos -de circumstancias que á epocha pessoa -alguma saberia divisar no horisonte. A Historia -deve ser justa e como tal abençoar D. -Luiza, que trabalhou varonilmente pela -causa da sua patria adoptiva; e mesmo que -então a alliança ingleza fosse um erro, bastava -considerar o objectivo que a iniciou, -para o historiador absolver essa falta venial, -praticada inconscientemente, filha da -imperfeição da fraca humanidade.</p> - -<p>Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra -nos tem sido traiçoeira, tambem a -França então nos chamou a si e nos abandonou -conforme lhe convinha. Luiz XIV -favoreceu a guerra com Castella, unicamente -para abater o poderio da Casa d’Austria; -consentiu no enlace da filha do duque de -Nemours com Affonso VI para avassalar -este paiz á sua politica de ferro, para dar -principio á sua ambição de dominio na peninsula, -revelada por elle, mais tarde, no<span class="pagenum"><a name="Page_108" id="Page_108">[108]</a></span> -celebre dito de despedida a seu neto Filippe -V: <i>Meu filho, já não ha Pyreneus</i>.</p> - -<p>Não foi o amor da justiça a causa do -soccorro da França, mas o mesmo ideal de -rapina que a Inglaterra levou ávante. E se -esta soube vencer, não devemos esquecer -aquella que da sua parte fez quanto poude -para alcançar victoria.</p> - -<p>Afinal effectuou-se o casamento do rei -de Portugal com a princeza Maria Francisca -Izabel de Saboya, filha do principe Carlos -de Saboya, duque de Nemours, e da princeza -Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, -de França. O contracto nupcial foi assignado -em Paris aos 24 de fevereiro de 1666, -sendo procurador de Affonso VI o marquez -de Sande, Francisco de Mello e Torres, tronco -da casa dos condes da Ponte, nosso ministro -junto de Luiz XIV, e representantes da -noiva o marechal duque d’Estrées e o bispo -de Laon. Affonso VI era indifferente a todos -os passos dos seus ministros para lhe -arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia -que lhe tolhêra na infancia a alma -e o corpo, o monarcha entregava-se á pratica -dos vicios mais vis, descia aos principios -mais condemnaveis, desauthorisando-se -perante o povo que, apesar d’isso, venerava<span class="pagenum"><a name="Page_109" id="Page_109">[109]</a></span> -o rei como symbolo do principio augusto -a quem devia a livre existencia.</p> - -<p>Como contraste, o infante D. Pedro, irmão -de Affonso VI, um galhardo rapaz, moreno, -olhos e cabellos negros, typo peninsular, -ardente, seduzia as mulheres á primeira -vista e esgotava o amor em repetidos galanteios. -Corpulento e robusto, cavalleiro e -namorado, o infante attingia a méta do ideal -das populações occidentaes; encarnára o amor -da plebe e o amor das salas, dominava as -massas com os golpes certos da sua farpa -de toureiro e attrahia as damas dos salões -aristocraticos com o faiscar dos seus olhos -bellos e com a contemplação sedenta da sua -estatuaria varonil. Tinha tudo—formosura, -valentia, garbo, gentileza; mas não tinha -corôa. Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava -um impotente, quasi um doido. -Para o principe subalterno a visão d’esse -throno, que a elle, no seu entender, só devia -competir, foi-lhe inoculada inconscientemente -pela mãe, ao ver os desvarios do -filho primogenito; e d’ahi a semente lançada -em terreno fertil, desabrochou, cresceu -e desprezou obstaculos que lhe atrophiassem -o desenvolvimento precoce.</p> - -<p>Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as<span class="pagenum"><a name="Page_110" id="Page_110">[110]</a></span> -intenções do irmão, que não tinha ainda -quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse -força para erguer um throno e derrubar -outro. Quando D. Pedro soube do casamento -do rei, talvez visse n’esse facto o -mallogro infallivel de todos os seus projectos. -D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia -continuar a dynastia, e então as pretensões -do infante ficariam de todo nullas.</p> - -<p>Afinal alvoreceu o dia da chegada da -rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa vestiu -galas, quando a artilheria salvou a esquadra -franceza. O coração de D. Pedro palpitava -ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, -uma por uma, as flores das suas sorridentes -chimeras. Mal diria que nas naus -de França se guardava o seu unico amor, -o ente criminoso que o ajudaria a realisar -o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, -infante, côrte e auctoridades foram a bordo -prestar homenagem á nova soberana. Tinham -forçado D. Affonso a assim proceder. Não -queria ir, entretido com a Calcanhares, expandindo -as furias do seu genio violento -que assassinava um desgraçado por entre -beijos e caricias na sacrificada amante.</p> - -<p>Quando D. Maria Francisca viu pela primeira -vez o homem que a politica lhe destinára,<span class="pagenum"><a name="Page_111" id="Page_111">[111]</a></span> -viu tambem a negação completa das -suas aspirações. Aquelle homem o que tinha -de bom era ser rei... o contrario do infante, -que desde esse momento, com a sua -figura peninsular, conquistou a alma da -franceza, alma depravada, affeita aos costumes -libertinos da côrte de Paris. Já -possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha -no caes da Junqueira, seguindo d’alli para -a egreja de Santa Clara, onde o bispo de -Targa abençoou o seu consorcio. Pouco -depois adoeceu; D. Pedro visitava-a amiudadas -vezes e n’essas continuas visitas o -amor de ambos fundiu-se n’um só. Inconscientemente, -levado pelo impulso do coração, -o infante adquirira a grande influencia -que carecia para se sentar no throno. A -amante queria ser rainha, mas não com -um rei como D. Affonso VI; elle queria ser -amado, mas não da esposa do seu proprio -irmão... Era indispensavel o anullar o -matrimonio, para que o monarcha se mostrava -inhabil, e era necessario tambem que -se conservasse aquella mulher no seu pedestal, -apartada de um marido que a desprezava -e junto de um outro que a adorava -do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. -Maria Francisca recolheu-se ao convento<span class="pagenum"><a name="Page_112" id="Page_112">[112]</a></span> -da Esperança (21 de novembro de 1667) -e d’ahi mandou ás auctoridades ecclesiasticas -o seu libello de divorcio (11 de janeiro -de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se -então uma das mais vergonhosas scenas da -Historia de Portugal. A franceza excedeu -Leonor Telles no desbragamento publico. -Teve um Andeiro que foi D. Pedro, mas -não teve a sinceridade rude de o apresentar -como tal. Fallava em <i>consciencia</i> e queria -o <i>veridictum</i> dos canonistas.</p> - -<p>Jesus Christo era invocado por aquella -mulher, não para a soccorrer nas tribulações -do crime, mas para a julgar na justiça -da causa; e os que representavam o Redemptor—diga-se -desassombradamente, escreva-se -com a imparcialidade que a Historia -exige—deram a sua sentença como -aprazia a dois infames, abençoaram o indigno -conluio como causa sacratissima, merecedora -dos applausos sacrosantos. Em seguida -uma revolução de palacio desthronou -Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando -conta do governo seu irmão o infante -D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de -Lisboa (1 de janeiro de 1668) appoiando o -procedimento revolucionario e a regencia -do ambicioso principe. Poucos mezes depois<span class="pagenum"><a name="Page_113" id="Page_113">[113]</a></span> -(2 d’abril do mesmo anno), o regente e D. -Maria Francisca uniam-se pelos laços do -matrimonio, coroando com a lithurgia o -seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.</p> - -<p>Cada um dos seus actos mais significativo -e mais comico, mostrava bem claramente -o estado de adeantada decomposição -da sociedade portugueza, afogada ainda nos -restos do grande naufragio das conquistas -da India.</p> - -<p>No tempo de D. Fernando, que fez da -côrte um harem e do reino um brinquedo -de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, -rejuvenesceu, mostrou-se forte e viril, epico -mesmo; agora, estimulado pelo proceder -heroico de 1640, não teve força para reagir -contra os tramas do paço da Ribeira; -cortejava, submisso, o regente e lamentava, -condoido, o rei... Não houve um Fernão -Vasques que intercedesse por Affonso VI, -pelo vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, -de Castello Rodrigo e de Montes Claros, -deposto em nome da Patria que seu -irmão mais tarde havia de arruinar n’um -tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu -nome é hoje glorificado á luz da Historia, -porque teve a leal amizade de um homem<span class="pagenum"><a name="Page_114" id="Page_114">[114]</a></span> -da estatura de Castello Melhor. No coração -d’esse homem sempre existiu a soberania -de Affonso VI; sendo mais valioso o seu -imperio que o summo poder do infante, -atordoado pelo remorso e azorragado pela -voz da indigna consciencia. Recluso em Cintra, -sujeito aos limites do seu aposento, -perseguido da desgraça que purifica as almas, -a razão filtrou-se-lhe no meio do infortunio. -Deu depois provas de innegavel -lucidez. E quando elle lançasse os olhos -sobre os amores da mulher e do irmão e -os visse meigos, risonhos, estreitando-se em -amplo abraço, n’uma felicidade mahometana, -celestial, havia de sorrir ferozmente, -com o riso da vingança consoladora, porque -veria a imagem d’um pobre, encarcerado, -como elle era, percorrer as salas da regia -vivenda e como punhal brandido pela mão -do remorso, rasgar a tela d’uma apparente -ventura. É que por mais infames que sejam -as almas, sempre a consciencia como -a percursora do castigo sem fim, as atormenta -com a lembrança horripilante de -crimes que se desejariam esquecer. Esta -convicção e a lealdade de Castello Melhor -foram os unicos lenitivos que Affonso VI -encontrou na desgraça, foram anjos que lhe<span class="pagenum"><a name="Page_115" id="Page_115">[115]</a></span> -afagavam a vida, segredando-lhe que não -era indigno de ser rei de um grande vassalo -que resurgira um reino, e que a sua memoria -servia de tufão devastador á felicidade -roubada.</p> - -<p>Felizes dos opprimidos quando têem a -consciencia que são oppressores.</p> - -<p>Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de -setembro de 1683; a sua adultera esposa -não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.</p> - -<p>Quatro mezes depois (27 de dezembro), -succumbiu D. Maria Francisca Izabel de Saboya, -sendo sepultada nas Francezinhas.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_116" id="Page_116">[116]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_117" id="Page_117">[117]</a></span></p> - -<h2 id="D_Maria_Sophia_de_Neuburg">D. Maria Sophia de Neuburg</h2> - -<p>Depois da morte de D. Maria Francisca, -a tristeza apossou-se do coração de D. Pedro -II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe -a consciencia, vendo sempre o espectro -do irmão apontar-lhe do outro mundo -o negro trama de que fôra o protagonista. -Resava, orava, esmolava os desgraçados de -que era rei; mas ao depor o obulo na mão -do esfarrapado mendigo accudia-lhe o vulto -de Affonso VI, que elle apeára do throno, -transformando-lhe a existencia ainda em -mais cruel que a do pobre, porque esse ao -menos tinha liberdade. Entregue, como estava, -ás suas dôres, D. Pedro não cuidava -de outras nupcias.</p> - -<p>Foram precisas para o arrancar á dorida -memoria da sua fallecida consorte as instancias -de Innocencio XI e as supplicas dos -amigos: todos á uma lhe aconselhavam novo -casamento, evitando-se assim que a corôa<span class="pagenum"><a name="Page_118" id="Page_118">[118]</a></span> -passasse á princeza D. Izabel, o que traria -sérias complicações politicas.<a name="FNanchor_42" id="FNanchor_42"></a><a href="#Footnote_42" class="fnanchor">[42]</a></p> - -<p>Resolvido o sensato plano, partiu o conde -de Villar Maior (8 de dezembro de 1686) -para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor -Palatino do Rheno, pae da princeza Maria -Sophia de Neuburg, á qual a escolha do -monarcha designára para nova rainha. A 22 -de maio do anno seguinte assignou-se o contracto, -estipulando-se que a noiva fosse dotada -por seu pae com cem mil florins e -pelo rei de Portugal com a casa e estado -das soberanas suas predecessoras. Realisado -o consorcio (2 de junho) seguiu D. Maria -Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou -a 11 d’agosto; sendo, n’essa mesma -tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, -no meio das acclamações enthusiasticas -d’um povo que, fóra da capella, saudava -inconscientemente uma mãe carinhosa -de todos os seus subditos.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_119" id="Page_119">[119]</a></span></p> - -<p>E na verdade, d’esta vez os applausos -não foram lançados em vão. D. Maria Sophia, -como D. Filippa de Lencastre, compensou -as leviandades da primeira mulher -de seu marido. Reinou, mas não governou, -conservou-se na sua esphera, dedicando-se -á educação dos filhos e em adquirir o amor -de D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança -da primeira consorte, nunca soube -apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.</p> - -<p>Para quem fosse menos beneficiada da -conformidade imposta pelo dever, a indifferença -régia seria pezarosa; porém, a princeza -soube mostrar que era allemã: o seu -temperamento, frio como o norte, não era -inclinado a paixões; conformou-se com a -sorte, limitando-se unicamente ás lides domesticas.</p> - -<p>O rei, ao que parece, desejava ser um -heroe e talvez mesmo se convencesse de -que o era. Queria a fronte aureolada, como -o irmão, o <i>victorioso</i>; sentia a nostalgia do -triumpho, apesar de <i>pacifico</i>, como lhe chamava -a Historia.</p> - -<p>Terminada a guerra da independencia, -desapparecêra o campo dos louros, e a paz -firmada com Castella (13 de fevereiro de<span class="pagenum"><a name="Page_120" id="Page_120">[120]</a></span> -1668)<a name="FNanchor_43" id="FNanchor_43"></a><a href="#Footnote_43" class="fnanchor">[43]</a> ainda na vida de D. Affonso veiu -cortar quaesquer probabilidades de adquirir -glorias proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha -por si a quéda d’um throno; de mais -cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, -ficando sujeito a desigual partilha nos fastos -da realeza.</p> - -<p>Vago o throno de Castella pela morte de -Carlos II (1 de novembro de 1700) foi acclamado -rei o duque d’Anjou, neto de Luiz -XIV, com o nome de Filippe V; D. Pedro -reconheceu-lhe a soberania, continuando assim -a paz; mas a influencia franceza assombrava -a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha -que, além d’isso, pretendia a corôa -para o archiduque Carlos, filho do imperador -Leopoldo I. Portugal mudou de rumo -e acompanhou a politica europeia na sua -opposição ao francez; D. Pedro procedeu -assim obrigado pela Inglaterra, que o amarrára -no tractado de Methwen, e pelo desejo -ardente da fama conquistada pela força -das armas.</p> - -<p>Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque -chegou a Lisboa (7 de março de<span class="pagenum"><a name="Page_121" id="Page_121">[121]</a></span> -1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza -e fez d’aqui o ponto de partida para as suas -operações.</p> - -<p>O nosso exercito, tendo á sua frente o -principe e o conde das Galveias, Diniz de -Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, -e tomando Salvaterra, Valença e Albuquerque, -retirou para Lisboa, d’onde o -archiduque saiu outra vez (24 de junho de -1705) com destino a Barcelona, que depois -d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro -do mesmo anno. No seguinte, em 2 -de junho, o marquez das Minas penetrava em -Madrid, onde fez acclamar o austriaco com -o nome de Carlos III. Até esta epocha o -destino parecia secundar, á custa de pesados -sacrificios e derrotas internas, os marciaes -desejos de D. Pedro II; o successo era na -apparencia prospero e o rei zeloso do seu -nome e pouco dos povos, contente de si, só -tinha que se queixar do nenhum repouso da -consciencia attribulada, porque no mais tudo -lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta illusão -acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, -gasto, moribundo, succumbiu (9 de dezembro -de 1706), cinco mezes após a victoria, que -foi seguida pela retirada do marquez, batido -por Berwick a 25 de abril de 1707.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_122" id="Page_122">[122]</a></span></p> - -<p>Hoje é licito analysar os feitos e acções -do homem que ousou possuir a estima d’um -povo. De facto, foi a personificação do caracter -portuguez—aventureiro, valente, viril, -com uns longes de justiceiro, um arremedo -do seu homonymo<a name="FNanchor_44" id="FNanchor_44"></a><a href="#Footnote_44" class="fnanchor">[44]</a>—; e se as suas -virtudes não brilharam pela quantidade, o -seu feitio compensou-lhe a falta perante os -coévos acostumados a venerarem o rei, sem -examinarem o merito do individuo. Entretanto, -os soffrimentos que a Historia nos -aponta e que lhe atormentaram os ultimos -dias, se não conseguem absolvel-o de todo, -attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.</p> - -<p>Moralmente foi um grande desgraçado, e a -compaixão a que têem jus os infelizes é uma -das faces sympathicas que o pincel do historiador -ousa desenhar na téla da verdade. -Teve o amor d’uma mulher, mas este facto -não levanta o caracter de nenhum dos dois -amantes, porque o amor santifica quando é -licito e condemna quando é preverso.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_123" id="Page_123">[123]</a></span></p> - -<p>Teve a fidelidade de uma resignada martyr -que nunca lhe viu sorrisos, que foi possuida -pela força da politica; e esta virtude -se directamente o não exalta, reflecte-lhe, -comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda -mereceu a pósse de uma honesta esposa! -Compassiva foi a Providencia, se no recondito -d’aquella alma não existia algum merito -que, qual violeta escondida por entre -as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.</p> - -<p>Maria Sophia não lhe proporcionou dias -felizes, porque o remorso lhe aniquilava -toda a felicidade; não lhe partilhou os dias -de gloria, porque a morte a veiu colher -(4 de agosto de 1699) antes que a guerra -lhe trouxesse os triumphos militares; mas -hoje ajuda-lhe a rehabilitar o nome, o nome -que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.</p> - -<p>Triste e só, viveu deixando na Historia -não a reputação faustosa de heroica soberana, -ou de astuta politica, mas a de mulher -respeitavel que soube purificar o lar extinguindo-lhe -as manchas do rasto da sua antecessora. -O diadema não lhe serviu de cruz, -porque no cumprimento dos seus deveres -encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo<span class="pagenum"><a name="Page_124" id="Page_124">[124]</a></span> -de ambições, porque a corôa que o seu ideal -almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.</p> - -<p>Que lhe importava o olhar melancholico -do verdugo de Affonso VI, amante ainda -do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava -isso, se nos filhos d’esse homem -que a não podia amar, se na prece quotidiana -ao esposo das almas santificadas pela -resignação existia um amor mais bello, mais -radiante que todo o idyllio de um amor -terreno? E as lagrimas, sêccas por essa philosophia -santa, nunca lhe sulcaram o rosto -sympathico. Foi feliz no meio do seu infortunio. -Abençoada creatura cujas ambições -não existiam n’este mundo. Bemdita -a sua fé que lhe impediu o martyrio, que -lhe encaminhou os passos para a senda -do dever. Por isso a Historia ajoelha na -lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide -um epitaphio modesto como a sua existencia, -mas venerando como a sua memoria.<a name="FNanchor_45" id="FNanchor_45"></a><a href="#Footnote_45" class="fnanchor">[45]</a></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_125" id="Page_125">[125]</a></span></p> - -<h2 id="D_Marianna_dAustria">D. Marianna d’Austria</h2> - -<p>Depois do fallecimento de D. Pedro II, -subiu ao throno seu filho o principe D. João, -que ao tempo contava dezesete annos -d’edade. A herança não era coroada pela -paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria -para dirigir o leme do Estado ao ponto -que mais influisse ao progresso e desenvolvimento -nacional.</p> - -<p>Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se -na guerra de Hespanha, só -concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado -de Ultrecht. Ahi, Portugal não recebeu -a minima compensação dos seus pesados -sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido -como rei, e o archiduque, já imperador -d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, -Napoles e Milão. Depois da contenda tivemos<span class="pagenum"><a name="Page_126" id="Page_126">[126]</a></span> -de libertar o Rio de Janeiro da occupação -do almirante francez Duguay Trouin, -e mais tarde (1716-1717) a perseguição dos -turcos, em soccorro do papa Clemente XI, -que o havia sollicitado por intermedio da -rainha D. Marianna d’Austria, com quem -D. João V se desposára no dia 27 de outubro -de 1708.<a name="FNanchor_46" id="FNanchor_46"></a><a href="#Footnote_46" class="fnanchor">[46]</a></p> - -<p>De resto, um longo periodo de paz envolveu -sempre este reinado.</p> - -<p>O rei tinha a preoccupação do fausto e -da magnificencia; entendia que sem a ostentação -requintada da realeza, a corôa seria -um mytho indigno do mais plebeu dos -seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi -coherente com a de D. Manuel desde o diluvio -do ouro da India, agora substituido -pelas minas do Brazil.</p> - -<p>Acabára a Asia, mas ficára a America -para farto manancial do genio degenerado -e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo -tinha o rei o exemplo de Luiz XIV, -seu mestre e seu espelho; havia de ser -grande, não como alguns dos seus pacatos -avós, bons homens e bons guerreiros, paes<span class="pagenum"><a name="Page_127" id="Page_127">[127]</a></span> -dos povos que militavam a seu lado no -campo da batalha, e que, saradas as feridas -da refrega, lhe vinham administrar justiça, -de aldeia em aldeia, como bons pastores, -zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, -das virtudes antigas só existia a memoria; -rei e fidalgos dormiam sobre os louros -adquiridos pelos antepassados, não cuidando -de outros novos; ferindo inconscientemente -a virilidade da sua existencia, que pouco -resistiu aos tombos das evoluções sociaes. -Começava a pragmatica, acabando-se a antiga -rudeza nacional; extremavam-se as classes, -vedando-se ao povo nobilitação pelo -proprio merito; e um odio profundo entre -a aristocracia cortezã, que se alimentava -dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, -que lavrava a terra com o proletario, -veiu accender o facho da discordia, cujo -tragico desfecho teve logar no reinado seguinte.</p> - -<p>O caminho que o historiador tem a seguir -quando vier a lume a época de D. João V -não é plano e florido, mas accidentado como -serra espinhosa; ainda ha muitos para quem -o filho de D. Pedro II, visto como homem -moderno, attinge proporções épicas; para -nós, aliás interessados naturalmente em<span class="pagenum"><a name="Page_128" id="Page_128">[128]</a></span> -exaltar o monarcha,<a name="FNanchor_47" id="FNanchor_47"></a><a href="#Footnote_47" class="fnanchor">[47]</a> não vemos n’elle um -unico reflexo de grandeza, a não ser na -sua intelligencia e no zelo que dispensou -ás lettras e ás artes, não como sabio ou -artista, que nunca foi, mas como Salomão, -que pretendeu ser. Os seus monumentos -são attestados mudos da leviana atmosphera -em que nasceram; não enthusiasmam -como a Batalha e Belem, padrões que definem -uma consagração historica; são molles -de pedra, espelhos de provecta decadencia—o -crusamento do incenso do altar -christão e do luxo Cesar romano.</p> - -<p>Mafra é um collosso, onde está escripto -o diagnostico da enfermidade que assolava -o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no -absolutismo de que D. João V se fizera prototypo. -De resto, a sua causa, ôcca e sem -historia, não lhe proporciona interesse, nem -cunho nacional; é um simples capricho de -monarcha gastador, convicto que a trombeta -da Fama só apregoa os grandes feitos -quando eccôa em montanhas de ouro.</p> - -<p>Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, -pouco zeloso do erario e muito da<span class="pagenum"><a name="Page_129" id="Page_129">[129]</a></span> -bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria -estão cheios de tenças, em que o -motivo era a vontade regia e não o mérito -pessoal do agraciado.</p> - -<p>Diga-se, no emtanto, que os thesouros -espalhados pelo rei, não afogavam a ira do -povo, que o adorava, porque via n’elle a -personificação de todos os seus defeitos e -de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram -possuir a estima dos subditos como -D. João V. Foi um galanteador aventuroso -e audaz, porque entreviveu n’uma epocha -de aventuras licenciosas e ninguem tem direito -a criticar-lhe as faltas domesticas, as -traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o -elle dos vassallos, de quem não seria -rei, se não os avantajasse. Toda a sua -grandeza, toda a causa da sua superioridade -está em ter comprehendido a sua epocha, -em ter alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.</p> - -<p>Incontestavelmente o ultimo Cesar que -se sentou no throno, não foi tyranno, nem -tomou ligeiramente o officio de reinar. Teve -erros, porque viveu n’uma epocha de decomposição, -vendo-se obrigado a seguil-a -por natural tendencia, como homem do seu -tempo, impellido pela voragem que o arrastava<span class="pagenum"><a name="Page_130" id="Page_130">[130]</a></span> -a um ponto que todos almejavam. -Se assim não fosse, nunca conseguiria ser -amado, porque nunca poderia adquirir o espirito -portuguez. Ao menos não foi hypocrita; -não procurou sequer occultar as leviandades -das suas aventuras galantes, que -passavam, como coisa naturalissima, que -a ninguem melindrava, porque era commum... -N’este quadro, que se não póde -desenhar com côres estudadas, que sae natural, -sem atavios que lhe falsifiquem a authenticidade, -está bem patente a decadencia -precoce de uma sociedade perdida. Quando -o historiador ama a sua terra, as flôres dos -seus campos, o sol que allumia e o ceu que -a domina, as tradições que a exaltam, todo -esse conjuncto diverso, mas ligado entre si -n’uma cadeia cujo elo é a Patria, sente desfallecer -a penna ao tocar este periodo, todo -de ruinas, embora matizadas d’abundancia. -Mas por entre a hecatombe lenta que devastava -o meio social, não ha a lamentar -a corrupção do paço; D. João V praticou -sem duvida erros de homem, mas teve o -lar purificado pela conducta irreprehensivel -da esposa, allemã como a sua antecessora, -e martyr como ella, não pela feia catadura -d’um marido apaixonado pelo cadaver da<span class="pagenum"><a name="Page_131" id="Page_131">[131]</a></span> -eleita da sua alma, mas pelo procedimento do -rei, que sem escrupulos de christão nem respeito -pela dignidade real, escolhia concubinas -onde quer que as paixões o arrastavam.</p> - -<p>Filha do imperador d’Austria, foi escolhida -unicamente para inocular no sangue -de Bragança o sangue aristocratico das mais -nobres familias da Europa. De facto, desde -a filha do Condestavel, as esposas dos duques -não primavam pela nobreza do seu -nascimento. Só D. Izabel de Lencastre, esposa -de D. Fernando II, filha do infante D. -Fernando, irmão de Affonso V; e D. Catharina, -esposa de D. João I, como filha do -infante D. Duarte, é que proporcionaram á -casa de Bragança allianças mais conformes -com a sua regia origem e viver realengo. -As outras:—D. Beatriz Pereira, filha de -Nun’Alvares, D. Constança de Noronha, filha -do conde Gijon, esposas do duque Affonso; -D. Joanna de Castro, filha do senhor -do Cadaval,<a name="FNanchor_48" id="FNanchor_48"></a><a href="#Footnote_48" class="fnanchor">[48]</a> esposa do duque D. Fernando I;<span class="pagenum"><a name="Page_132" id="Page_132">[132]</a></span> -D. Leonor de Mendonça, filha do duque de -Medina Sidonia, D. Joanna de Mendonça, -filha do Alcaide-mór d’Alvôr, esposas de D. -Jayme I; D. Izabel de Lencastre, filha do -conde de Lemos, esposa de D. Theodosio I; -D. Brites de Lencastre, filha do commendador-mór -d’Aviz, segunda esposa do mesmo -duque; D. Anna de Velasco, filha do duque -de Frias, esposa de D. Theodosio II; D. -Luiza de Gusmão, filha do duque de Medina -Sidonia, esposa de D. João II, depois -rei D. João IV; e mesmo D. Maria Sophia -de Neubourg, filha do Eleitor Palatino do -Rheno, segunda esposa d’el-rei D. Pedro II, -não foram senhoras que aparentassem a -casa reinante de Portugal com as familias -soberanas do universo. N’este ponto, depois -dos Bourbons, achava-se incontestavelmente -os Habsburgs, cuja alliança era provavel, -em vista dos soccorros prestados pelos nossos -reis ao archiduque Carlos, na sua pretensão -ao throno hespanhol. O movel, pois, -d’este consorcio foi a nobreza da noiva, que -juntava a esse predicado uma notavel cultura -d’espirito e uma formosura digna de -seduzir outro homem que não fosse tão voluvel -como D. João V.</p> - -<p>O contracto assignou-se em Vienna, a 24<span class="pagenum"><a name="Page_133" id="Page_133">[133]</a></span> -de junho de 1708, estipulando-se que a rainha -seria dotada com cem mil escudos ou -corôas de ouro de quatro placas de Flandres -pelo imperador seu irmão e pelo rei -de Portugal com a casa e estado das suas -antecessoras.<a name="FNanchor_49" id="FNanchor_49"></a><a href="#Footnote_49" class="fnanchor">[49]</a></p> - -<p>A 13 de setembro do mesmo anno, saiu -D. Marianna d’Austria, de Rotterdam, chegando -a Lisboa a 27 de outubro, sendo os -regios esposos abençoados n’esse mesmo -dia.</p> - -<p>Quarenta e dois annos viveu em companhia -de D. João V (27 de outubro de 1708—31 -de julho de 1750) não nos apontando -a Historia uma unica falta que lhe maculasse -a honra e o lar, que seu marido de -todo abandonára. Muito devota, entregava-se -á piedade, seguindo como D. Maria -Sophia o caminho da virtude que converte -em flôres os espinhos do viver terreno. Pouca -ou nenhuma intervenção teve nos negocios -publicos, limitando-se á vida domestica, até -que falleceu em Belem, aos 14 de agosto<span class="pagenum"><a name="Page_134" id="Page_134">[134]</a></span> -de 1754, tendo nascido em Lintz a 7 de -setembro de 1683. Sepultaram-n’a no mosteiro -de S. João Nepomuceno, por ella fundado, -onde se conservou o seu corpo até -1855, em que foi trasladado para S. Vicente -de Fóra.</p> - -<p>É um exemplo de virtude austera que -ahi descança e que a Historia abençoa como -mulher que soube conservar-se no posto -que lhe marcou o sexo e que comprehendeu -a digna missão que lhe impoz a sorte -nos seus inexplicaveis destinos.</p> - -<p>Este pouco que ha a dizer d’ella, é muito -para o pensador que se não limita a admirar -os heroes cujo nome gigantesco assombra -os humildes, cuja vida deslisou na -sublime comprehensão da honestidade.</p> - -<p>A virtude que a enaltece, torna-a digna -dos applausos dos posteros, erguendo-a do -olvido e coroando-lhe a memoria da mais -gloriosa corôa que a justiça do historiador -póde depôr na fronte das que hoje são invocadas -como exemplo do bem.</p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_135" id="Page_135">[135]</a></span></p> - -<h2 id="D_Marianna_Victoria_de_Bourbon">D. Marianna Victoria de Bourbon</h2> - -<p>Seguindo a politica de seus maiores, D. -João V entendeu conveniente reatar os laços -de antiga amizade com a visinha Hespanha; -e como as allianças de familia se -lhe figuravam mais vantajosas do que todos -os tractados internacionaes, resolveu -el-rei acceder aos desejos do monarcha castelhano, -que manifestára ao nosso embaixador -quanto anhelava que fossem seguidas, -então, as reciprocas tradições dos dois paizes.<a name="FNanchor_50" id="FNanchor_50"></a><a href="#Footnote_50" class="fnanchor">[50]</a></p> - -<p>Assim se contractou a 7 de outubro de -1725 o casamento do principe D. José com -a infanta D. Marianna Victoria de Bourbon,<span class="pagenum"><a name="Page_136" id="Page_136">[136]</a></span> -filha de Filippe V e de Izabel Farnése. A -25 de dezembro de 1727, o marquez -d’Abrantes fazia o seu pedido em fórma á -côrte de Madrid, que foi secundado por -outro que a 6 de janeiro do anno seguinte -o ministro hespanhol, marquez de Belvases, -dirigiu ao rei de Portugal, sollicitando a -mão da princeza D. Maria Barbara de Bragança -para o principe das Asturias, D. -Fernando de Bourbon. Um anno depois -(19 de janeiro de 1729) encontraram-se as -duas familias nas margens do Caia, onde -se procedeu á entrega das noivas dos herdeiros -das corôas portugueza e castelhana.</p> - -<p>Como dote, recebeu D. Marianna Victoria -quinhentos mil escudos do Sol, por parte -d’el-rei seu pae; obrigando-se D. João V a -dar-lhe para os seus alfinetes o valor correspondente -a oitenta mil pesos e um rendimento -annual que equivalesse a vinte mil -escudos do Sol.<a name="FNanchor_51" id="FNanchor_51"></a><a href="#Footnote_51" class="fnanchor">[51]</a> Foram estes os bens da -princeza, até ao fallecimento de D. Marianna -d’Austria, que teve logar depois de seu<span class="pagenum"><a name="Page_137" id="Page_137">[137]</a></span> -marido subir ao throno com o titulo de -D. José I.</p> - -<p>O reinado d’este soberano foi um dos -mais notaveis da Historia de Portugal. Teve -medidas que mostram o talento do ministro -que as decretou, e teve barbaros sacrificios, -que deshonram a memoria do homem -que os commetteu e do vingador que as -iniciou. Os juizos dos historiadores são geralmente -oppostos quanto ao merito do personagem -que foi senhor do animo de D. -José. De facto, a individualidade do marquez -de Pombal, Sebastião José de Carvalho -e Mello, o grande heroe da situação, -é tão complexa, abrange phases tão diversas, -que do lado dos seus sequazes e dos -seus inimigos teem surgido louvores demasiados -e depreciações excessivas. Fidalgo -de provincia, o seu valimento assombrava -a aristocracia, acostumada a dirigir os destinos -do paiz; se alguma vez a nobreza -provinciana se ousava sentar nos conselhos -da corôa, o applauso aristocratico tinha referendado -a concessão regia. Pombal, porém, -subiu ao maior fastigio do poder, -elevou-se á grandeza, sem que o <i>veredictum</i> -dos cortezãos validasse a honraria. D’ahi -toda a inveja das altas classes, que injustamente<span class="pagenum"><a name="Page_138" id="Page_138">[138]</a></span> -lhe chamavam plebeu, e todo o -odio do ministro aos que se tinham por -seus superiores.<a name="FNanchor_52" id="FNanchor_52"></a><a href="#Footnote_52" class="fnanchor">[52]</a></p> - -<p>Entretanto, Pombal não fundou uma escola -democratica, porque saiu da craveira -de fidalgo de provincia, ambicionando uma -corôa de grande; e nos seus proprios casamentos, -como nos de seus filhos, está bem -demonstrado que o ministro não desadorava -as proeminencias sociaes, e que talvez todo -o seu odio selvagem não fosse só motivado -pela emulação dos nobres, mas tambem -pelo seu proprio ciume d’esses que se vangloriavam -de ser os immediatos do soberano, -seus companheiros na defeza do throno, -de que tinham sido creadores e muitas -vezes defensores nas suas mais perigosas<span class="pagenum"><a name="Page_139" id="Page_139">[139]</a></span> -crises. O exterminio dos Tavoras e do duque -d’Aveiro, os capatazes da aristocracia, -o foco d’onde se projectavam todas as iras -contra elle, calcou-lhe a sepultura da arvore -derribada pela sua erronea conducta desde -o reinado anterior.</p> - -<p>Esta face do marquez de Pombal não é -sympathica, nem attrahente; revela a baixeza -e indica a velhacaria que elle possuiu -no mais alto grau. O seguinte facto é bem -significativo:</p> - -<p>Era o conde d’Obidos, D. Manuel d’Assis -Mascarenhas, meirinho-mór do reino, brigadeiro -de cavallaria, gentilhomem da real -camara, muito privado de D. José, com -quem se creára e com o qual sempre mantivera -as melhores relações d’amisade.<a name="FNanchor_53" id="FNanchor_53"></a><a href="#Footnote_53" class="fnanchor">[53]</a> Uma -vez o conde advertiu el-rei de que não -seria bom dar tanta confiança a Sebastião -de Carvalho, que então principiava a dominar -o animo do monarcha; este communicou-lhe -em conversa o recado do fidalgo, -o que foi sufficiente para o ministro se lhe<span class="pagenum"><a name="Page_140" id="Page_140">[140]</a></span> -ir ajoelhar aos pés, pedindo-lhe pelo amor -de Deus que o não desviasse da intimidade -do soberano... Depois, seguro o valimento -por fortes laços, o conde d’Obidos foi preso -nos carceres da Junqueira, o theatro dos -horrores, das vinganças e dos infames despeitos -do marquez de Pombal.</p> - -<p>O terramoto de Lisboa (1 de novembro -de 1755) veiu de todo convencer D. José -do alto valor do seu predilecto. De facto, -maior prova se não poderia exigir para -experiencia da energia de um homem. Derribada -a cidade, devoradas as ruinas pelo -incendio, estimulados os malfeitores pela -confusão da necropole, no meio da anarchia -que se apoderou no animo de todos, o espirito -do ministro manteve-se sobranceiro -e forte, arcando com a violencia da natureza. -Era na verdade um genio descommunal! -não admirava que destruisse o passado, -que abalasse as velhas tradições, como a -catastrophe destruira os edificios e abalára -a terra, se, perante a hecatombe, foi elle -o unico que lhe resistiu de frente. E Lisboa -ergue-se alinhada, symetrica, magestosa -e soberba, como rindo-se do que fôra e -applaudindo o castigo da sua antiga depravação... -Depois d’isto, para o rei já não<span class="pagenum"><a name="Page_141" id="Page_141">[141]</a></span> -existiam duvidas; adormeceu tranquillo, fazendo -da corôa repouso e do manto agasalho -para o vento do remorso, impellido pela -voz do dever, se é que essa voz se atreveu -a fazer-se alguma vez ouvir da consciencia -d’um homem como foi D. José.</p> - -<p>O sceptro entregou-o ao ministro. D’ahi -por diante, de rei só teve a sua assignatura -nos diplomas, alvarás, decretos, cartas -regias e despachos de mercês. De resto, -foi uma creança para quem Pombal fazia -Tapadas para seu divertimento... Mais -nada a Historia póde dizer d’elle.</p> - -<p>A reforma da pauta de commercio (1755), -a companhia dos vinhos do Alto Douro -(1756), o Erario e o Collegio dos Nobres -(1761), a reforma da Universidade (1772), -e a abolição da escravatura no continente -(1773) são as principaes medidas da dictadura -pombalina. Quem escrever a Historia -com a imparcialidade devida, tem de se -curvar á sabedoria d’esta legislação e applaudir, -se não em absoluto, pelo menos -em parte, estes actos do ministro, embora -reprove o seu procedimento cruel, selvagem -mesmo, para com a nobreza e para com o -clero, os dois potentados que lhe disputavam -a influencia e o poderio. Este era tão grande<span class="pagenum"><a name="Page_142" id="Page_142">[142]</a></span> -no animo do monarcha, quanto diminuto no -espirito da rainha.</p> - -<p>D. Marianna de Bourbon odiava-o e quando -D. José se viu prostrado pela doença e lhe -entregou (29 de dezembro de 1776) as redeas -do governo, o poderio do ministro foi -descendo gradualmente. Mandado retirar da -camara do seu agonisante amo, dispensado -das funcções de mordomo-mór, que exercia, -o marquez politicamente succumbiu tambem -quando D. José, cuja morte teve logar a -24 de fevereiro de 1777. Subindo ao throno -D. Maria I, começaram as represalias contra -Pombal, para o que a viuva influiu bastante -perante sua filha. Conhecedor do novo -terreno, o ministro demittiu-se, recebeu a -commenda de S. Thiago de Lanhoso, e ordem -de desterro para a terra que lhe servia -de titulo, onde falleceu aos 8 de maio -de 1782. Este acto de D. Marianna Victoria -de Bourbon foi o seu unico acto politico -que a Historia nos aponta. Durante a -sua vida, occupou-se unicamente na lide domestica -e em conciliar as rixas entre Portugal -e Hespanha, que deram motivo á -guerra de 1762-63. No mais, foi alheia aos -negocios do Estado, e só a perseguição ao -marquez de Pombal é que poderá tornar o<span class="pagenum"><a name="Page_143" id="Page_143">[143]</a></span> -seu nome pouco sympathico para muitos, -cujo idolo é o grande estadista do seculo -XVIII.</p> - -<p>Notaremos que as duas pessoas que mais -influiram no banimento do ministro, ambas -tiveram um fim desgraçado.</p> - -<p>D. Marianna de Bourbon, inchada, hydropica, -n’uma agonia cruciante, falleceu no -paço d’Ajuda, em 15 de janeiro de 1781. -D. Maria I, essa viu-se doida e fugitiva em -estranhos hemispherios. Ignorante de que -tinha vencido o primeiro soldado d’este seculo, -a herdeira de D. José falleceu no Rio -de Janeiro, aos 20 de março de 1816.</p> - -<p>Apesar de todas as circumstancias, esta -soberana, no que diz respeito a Pombal, reconheceu -os serviços do estadista, condemnando -as demasias do vingador.</p> - -<p>Aquella mulher, attribulada por tanto -crime, junto a tanto beneficio; a tanta compaixão -pelos desgraçados e a tanto respeito -pela memoria do pae, viu-se nas trevas da -loucura que foram fataes a ella e a Portugal.</p> - -<p>Que D. Maria I tomou a serio o seu cargo, -ninguem o contesta. As medidas uteis -dos primeiros tempos do seu governo não -mostram unicamente o tino dos ministros<span class="pagenum"><a name="Page_144" id="Page_144">[144]</a></span> -(conde da Barca e Martinho de Mello e Castro), -mas tambem o são criterio e boa vontade -da rainha, tão desgraçada, quão digna, -pelo seu caracter, de mais prosperas venturas -e de mais explendorosos fins.</p> - -<p class="tb">Aqui termino o meu trabalho, não me -querendo constituir em juiz de personagens -contemporaneos, aggravar feridas ainda mal -saradas, remexer muito episodio que já está -olvidado. Comtudo, se algum dia, amansadas -mais as furias partidarias, alguem julgar -util o meu concurso, procurarei satisfazel-o, -seguindo a mesma orientação—a -imparcialidade e a independencia.</p> - -<p>O que está feito obedece a um impulso -natural, a uma tendencia irresistivel para o -estudo da Historia patria; não foi a politica, -que puz de parte, nem o interesse, que é -nullo. Se assim fosse e me visse obrigado -a sacrificar o proprio sentir a inspirações -alheias, a consciencia vergar-me-hia hoje sob -o peso do remorso de ter prostituido a penna.<span class="pagenum"><a name="Page_145" id="Page_145">[145]</a></span> -Tal não aconteceu, e embora não conseguisse -triumphos litterarios que nunca se -acastellaram na minha phantasia, sinto-me -satisfeito de ter exposto o que me domina -o espirito, o fructo de longo estudo e de -concisa meditação.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_146" id="Page_146">[146]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_147" id="Page_147">[147]</a></span></p> - -<h2 id="NOTAS_E_DOCUMENTOS">NOTAS E DOCUMENTOS</h2> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_148" id="Page_148">[148]</a></span></p> - -<hr /> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_149" id="Page_149">[149]</a></span></p> - -<h3>O fallecimento de D. Beatriz de Gusmão</h3> - -<p>O Visconde de Figanière na sua obra <i>Memorias das Rainhas -de Portugal</i> (D. Theresa—Santa Izabel) diz que a ultima -noticia que existe d’esta soberana é a doação de -300 libras, á sua creada Maria Nunes, para lhe comprar -uma herdade que por morte da dita Maria Nunes devia -pertencer ão mosteiro d’Almoster. Como esta carta é datada -de Torres de Vedras, 30 de julho de 1300, e a rainha -falleceu oito dias depois, é licito suppor-se, como Figanière -suppõe, que a morte teve logar na citada villa.</p> - -<p>Frei Antonio de Falla, da ordem dos pregadores, escreveu -por mandado d’el-rei D. Sebastião, uma <i>Relaçam dos -Reys e Raynhas que estam sepultados em Alcobaça</i>; n’ella -se lê este notavel depoimento do mesmo frade, que diz respeito -á segunda mulher d’Affonso III:</p> - -<p>«Eu a vi na Era mil e quinhentos e sessenta e nove, o -primeiro dia d’Agosto, e jaz inteira como aquella hora que -ali a sepultáram, jaz mirrada segundo parece, a roupa -com que foi sepultada esta como aquelle dia que ali a puzeram, -ao menos o lançol, que a colcha que tem debaixo -do lançol estava algum tanto damnificada, e ja pode ser -que o fosse ao tempo que ali a lançaram; como quer que -seja, nam esta tão inteira, e fresca como o lançol; jaz enfeitada, -e a cabeça apertada; tem huns cabellos castanhos -que parece que foram formosos, mostra que foram cortados -estando doente, porque estam em huma parte mais<span class="pagenum"><a name="Page_150" id="Page_150">[150]</a></span> -compridos que na outra, e estam mal cortados; tem hum -lenço na cabeça sobre os cabellos assaz nouo; tem calçadas -humas çapatas pretas apantufadas, como naquella hora -que lhas calçaram, do pé ainda estam quasi justos ao menos -do comprimento; finalmente ella parece ser reuerenda -mulher em seu tempo. Algus dizem que ella tinha hum -rabo, e que vinha por parte da may, de huma casta que -em Castella naciam com rabos. Dizem que S. Bernardo lhe -tirou este rabo, e mostrão hum manto que ella lhe deu -por isso. O manto eu o vi, mas se foi dado por isso, ou -nam, nam o acho escrito, nem menos que ella tivesse rabo -mais que affirmaremme pessoas lidas nestas historias, que -o lêram, que se chamava a Raynha rabuda: ao menos ella -agora nam tem sinal disto, porque não faltou fazer sobre -isso diligencias para saber a verdade disto. E desta maneira -que tenho escripto jaz esperando sêr chamada. Prazerá -ao Senhor que seja para gloria sua, porque esta Rainha -fez n’este Reino muito boas obras, e teue fama de mui -santa, e deuota, e affeiçoada á Religiam Christã.»</p> - -<p>Fr. Francisco Brandão na <i>Monarchia Lusitana</i> e Figanière -na obra acima citada, concordam que a origem d’esta -lenda provêm da rainha ter introduzido em Portugal a -moda das cotas caudatas, ou de rabo.</p> - -<p>Unicamente pelo comico da crença que se não pode chamar -popular, pois chegou a convencer os proprios reis, -trasladamos para aqui o texto do padre examinador do cadaver -de D. Beatriz, quando D. Sebastião, seu nono neto, -enthusiasmado e possuido da gloria que o perdeu, andou -pelo reino contemplando os restos mortaes dos seus antecessores.</p> - -<h3>Arrhas de D. Constança</h3> - -<p>«Dom Affonso pela graça de Deos Rey de Portugal e do -Algarve a quantos esta carta virem Faço saber que eu<span class="pagenum"><a name="Page_151" id="Page_151">[151]</a></span> -querendo attendêr cumprir, e guardar aquello, que ante -mim, e Dom Joam filho do Infante Dom Manoel he posto, -e outorgado, e firmado em rezom do casamento de Infante -Dom Pedro meu filho, e de Donna Constança filha desse -Dom Joam, dó, e assino a essa Donna Constança a Cidade -de Vizeu e Monte mayor o novo e Alanquer com todas -sas Aldeas, e termos, rendas, jurdiçõens, direitos, e pertenças -que as aja e pessua essa Donna Constança por sas -arras, e donadio bem, e compridamente em toda sa vida -asim como as melhor ouveram as Raynhas de Portugal e -tiro de mim a posse que ei das dittas Cidades, e Villas, -termos, e couzas sobreditas, e ponhoa na dita Donna -Constança, para as aver, e possuir livremente no dito -tempo como dito he, e demais conhosco e affirmo que a -posse e tença que ora hei das ditas Cidades e Villas e -couzas sobreditas que os ei e tenho em nome da ditta -Donna Constança e por ella como uzofructuario até que -ella per si ou per outrem filhe ou mande filhar a posse -corporal da dita Cidade, Villas, e termos, e couzas sobredictas -em testimonio desto mandei dar áa dita Donna -Constança esta minha carta aberta, e sellada do meu sello. -Dante em Lisboa sette dias de julho ElRey o mandou Pero -Esteves a fez era de mil e trezentos e settenta e outo -annos ElRey o vio.» (Tomo 1.ᵒ das <i>Provas da Hist. genealogica -da Casa Real</i>, pag. 285.)<a name="FNanchor_54" id="FNanchor_54"></a><a href="#Footnote_54" class="fnanchor">[54]</a></p> - -<p>O tumulo de D. Constança foi profanado, não existindo -hoje as suas cinzas. O sarcophago encontra-se no Museu -Archeologico de Lisboa, estabelecido no Convento do Carmo, -obra do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira.</p> - -<p>É digna de notar-se a sorte das duas mulheres de D. -Pedro I; D. Constança, violado o sepulchro, nem lhe escaparam -as cinzas á avidez dos profanos; Ignez de Castro, coroada -depois de morta, repousando tranquillamente n’um mausoleu<span class="pagenum"><a name="Page_152" id="Page_152">[152]</a></span> -que photographava a grandeza do amor do seu principe, -tambem padeceu em 1810 as consequencias ferozes -dos vandalos do seculo XIX. Triste sorte a das mulheres -de Pedro I!...</p> - -<h3>Dote de D. Filippa e de D. Leonor d’Aragão</h3> - -<p>Extrahimos para aqui uma parte do Contracto do casamento -d’el-rei D. Duarte, que diz respeito á casa e estado -de D. Leonor d’Aragão.</p> - -<p>«Item porq̃ em hu dos Capitulos de suso ditos ja segundo -dito he, antre as ditas partes firmadas, se contem q̃ da dita -Camera, q̃ tinha a Senhora Rainha D. Felipa, q̃ são as -Villas de Alamquer, Cintra, Obidos, Alvayazere, Torres -Novas, Torres Vedras e outras quaesquer Villas e Lugares -e erdamentos e rendas della, q̃ a dita Senhora Raynha -tinha em Camera, sejão feitas duas partes pelo dito -Senhor Rey de Portugal (D. João I), ou por quem elle -mandar, e asim feitas, a dita Infante houvesse, e escolhese -para si, qualquer parte dellas, qual ella mais queira -e aquella parte q̃ ella escolhera, lhe seja dada em Camera -e aquella aja e tenha tanto quanto Senhora Infante, e q̃ -logo quando a Deus plazera, q̃ seja Raynha, q̃ per aquel -mesmo feito, sem aver outra doaçom, nem provizom algua, -ouvese inteiramente a dita Camera, q̃ avia e tinha -a Senhora Raynha D. Fellipa e leve para si as rendas e -molimentos, e proveitos della e admenistraçom della, de -presente o dito Senhor Rey de Portugal faz a dita divisom -em duas partes, convem a saber Torres Novas, e Torres -Vedras e Alvayazere, por uma parte, e a outra parte Alamquer, -Cintra e Obidos e a dita Senhora Infante toma e -escolhe por sua parte as ditas Villas de Alamquer, Cintra -e Obidos.»</p> - -<p>(Tomo II das <i>Provas da Historia Genealogica da Casa -Real</i>, por D. Ant.ᵒ C. de Souza, pag. 523.)</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_153" id="Page_153">[153]</a></span></p> - -<h3>Contracto do casamento de D. Affonso V</h3> - -<p>Dom Affonso etc. a quantos esta carta virem fazemos -saber que confiando nós como por graça de Deus he celebrado -matrimonio por palavras de presente segundo hordenaçam -e mandamento da nossa madre a santa Igreja de -Roma antre nos e a muy alta e muy excelente Princeza -e muito esclarecida e muito virtuosa Senhora Raynha Dona -Isabel minha muito amada e muito presada Esposa filha -do illustre e magnifico Principe Infante Dom Pedro Duque -de Coimbra e Senhor de monte mor nosso muyto amado -e prezado padre e tyo curador e Regedor por nos em -nossos Reynos e Senhorios, confirmando outro si como -atee o prezente antre nos ella dita Senhora nunca foi -feito algũ contracto sobre ou por razão do dito matrimonio -porque ella fosse dotada de algũ dote que nos por ella -ou outrem fosse dado ou promettido pera soportamento do -carrego do dito matrimonio nem outro si fosse a ella dada -provisão de alguas Terras ou villas que ouvesse por -camera em sua vida nem outro si segurança de asentamento -de certas rendas de dinheiros que ouvese em cada hũ -anno em sua vida pera soportamento do seu Real estado, -como todo esto sempre dantigamente ouverão as Rainhas -que nos Tempos passados forão em estes Reynos nem -porque outro si ajamos a ella promettidas alguas arras -por honra de sua pessõa, no caso que o dito matrimonio -aconteça sêr separado por fallecimento nosso, as quaes -cousas per uzança geral guardada per todas as partes -do mundo antre os Principes Cristãos de similhante estado -specialmente em estes Reynos sempre forão costumados -em similhante caso de se prometem de hua parte a -outra, por ende querendo nos este provér como he rezãn considerando -a cerca dello primeiramente o servisso de Deus -y os muitos e grandes e extremados serviços que nos -tempos passados com grande lealdade avemos recebido e<span class="pagenum"><a name="Page_154" id="Page_154">[154]</a></span> -ao presente recebemos em cada hũ dia, e ainda esperamos -receber ao diante do dito Infante D. Pedro nosso Padre e -Thio etc por conservação de nossa pessoa e exaltamento -do nosso Real Estado, e bem a sy grande honra de nossos -Reynos e Senhorios. Considerando outro si como a nosso -Senhor Deus por sua santa mercê dotou a dita Senhora -Rainha de muitas grandes e extremadas virtudes etc. por -as quaes com grande rezão a devemos sobre todas sempre -muy grandemente prezar e amar verdadeiramente de nosso -proprio motu certa sciencia poder absolucto sem nos ella -nem outrem em seu nome por sua parte esto requerer, -louvamos, approvamos e confirmamos o dito matrimonio, -asi antre nos e ella feito e celebrado por mandamento e dispensação -de N. Senhor o Santo Padre Eugenio quarto, e -este fazemos pelas razõens suso ditas e ainda pelos grandes -dividos que entre nos e ella a Deus aprove serem, não -embargantes de quaesquer Leys Imperiaes ou Ordenaçoens -de nossos Reynos, ou qualquer uzança asi geral como -special que a este em parte ou em todo seja contrario -porque as rezoens suso ditas e cada hũa d’ellas nos constrangem -naturalmente per o asi fazermos, e querendo outro -si prover a ella dita Senhora Raynha acerca das terras e -villas que as Raynhas d’estes Reynos nos tempos passados -em ellas costumavam avêr por Cameras, por rezão de seus -matrimonios e bem asy acerca do assentamento de certas -rendas de dinheiro que por similhante guiza costumavam -daver para soportamento de seus Reaes Estados e outorgamos -queremos e mandamos que a dita Senhora Rainha haja -por rezão do dito matrimonio em toda sua vida todolas -terras e Villas que a Rainha D. Leonor minha muita amada -e presada madre Senhora de louvada e gloriosa memoria, -a que dê Deos o seu santo Paraiso ouve e pessuyo por -causa do seu matrimonio depois que por a graça de Deos -foi Rainha destos Reynos e em elles viveo as quaes Villas -e terras nos queremos e mandamos que a dita Senhora -Rainha haja em toda a sua vida em toda sua jurdição alta -e baixa civel e crime méro mixto Imperio com todolos<span class="pagenum"><a name="Page_155" id="Page_155">[155]</a></span> -padroados das Igrejas que ha em as ditas terras que a nos -de direito pertençem e bem asi todolas rendas e direitos -Reaes, que as ditas Villas e terras renderẽ por qualquer -guiza que seja e com todolas perogativas privilegios e graças -e liberdades que a dita Senhora Raynha D. Leonor -minha madre forão otrogadas em qualquer tempo do mundo -e milhor se as ella milhor poder aver, e queremos que -ella possa poer de sua mão em seu nome Ouvidor que ouça -e desembargue todolos feitos das ditas Villas asi crimes como -civeis, e bem asi tabelliaens os quaes se chamẽ seus e -por sua auctoridade façam todolas escrituras pruvicas que -a seus officios pertenção as quaes cousas o dito Ouvidor e -tabeliaens faram asi e tão compridamente como costumarão -de fazer os Ouvidores e tabelliaens das outras Raynhas -que foram nos tempos passados em estes Reynos, specialmente -no tempo da dita Senhora Raynha minha madre, -depois que deles foi Raynha e bem asi queremos que posa -hi poer de sua mão todolos outros Officiaes que ella entender -que são compridouros para requerer arecadar todolos -direitos que em elas aver posa, asim tão cumpridamente -como nos o fazemos e fazer podemos nas nossas terras -que se por nós e em nosso nome correm e quanto he ao -asentamento e certas rendas de dinheiro que as Rainhas -nos tempos passados acostumaram aver em estes Regnos -pera suportamento de seus Reaes estados otorgamos queremos -e mandamos, que a dita Senhora Rainha aja de nos, -por acentamento em cada hu anno por toda sua vida hu -milhão cento sesenta e cinco mil reis da moeda que agora -corre comvem a saber, de trinta e cinco livras o real, -por quanto fomos certo que o milhão e quinze mil reaes -avia em asentamento a dita Senhora Rainha minha Madre -por causa do seu Cazamento, e o cento e cincoenta mil -lhe acrecentamos para seus vestidos de pano douro e de -seda que a dita Senhora Raynha minha madre avia do -thesouro do Senhor Rey meu Padre, os quaes dinheiros -lhe já temos asentados dentro em esta Cidade na ciza dos -panos, e querendo outro si prover a dita Senhora Raynha<span class="pagenum"><a name="Page_156" id="Page_156">[156]</a></span> -acerca das arras que similhantes Princezas e Senhoras em -tal caso costumam de avêr por honra de suas pessoas, no -caso de separação de seus matrimonios, outorgamos e queremos -e mandamos que separado o dito matrimonio, por -seu falecimento da vida d’este mundo, em tal caso seus -herdeiros ajam de nos ou de nossos sucessores segundo o -caso acontecêr, por arras e em nome de arras, vinte mil escudos -douro da moeda ora corrente em estes nossos Reynos -das quaes ela podera despuer a todo o tempo e como lhe -aprouger e estes vinte mil escudos douro, queremos e mandamos -que lhe sejam pagos pelas rendas das ditas Villas -e acentamento que lhe asi ja temos posto, e asentado como -dito he, as quaes rendas todas e acentamentos por falecimento -da dita Senhora Rainha os officiaes que por elo foram -postos averam asi tão cumpridamente como a dita -Senhora Rainha em sua vida over e não serão dezapoderados -delas por algu caso que acontecer posa athe serem -cumpridamente pagados os ditos vinte mil escudos pera -os entregarem a seus testamenteiros, ou a quem ela pera -elo ordenar, pera os despender segundo a ordenação que -ela dita Senhora Raynha em sua vida pera elo ordenar e -despozer a toda sua vontade, as quaes couzas todas e cada -hua delas prometemos e juramos por nossa Fee Real -como Rey Catholico, por nos e por todos nossos successores -que ao diante em qualquer tempo forem, de lhes -guardar cumprir e manter, e de feito realmente cumpriremos -e guardaremos e faremos conter e guardar, bem -fiel e verdadeiramente a todo nosso cumprido poder cesante -toda a arte, e mao engano e não daremos favor ajuda -nem conselho a alguma pesoa de qualquer estado e condição -preeminencia que seja, ainda que a nos seja muito -conjunta em qualquer grao de devido e parentesco que -ser posa, pera contra elo vir em parte ou em todo, de -feito nem de direito em juizo nem fora delle, em puvrico -nem escondido daqui em diante pera todo o sempre ja -mais por algua cousa ou rezom, pasada presente ou futura -de qualquer natura calidade ou condiçã que seja<span class="pagenum"><a name="Page_157" id="Page_157">[157]</a></span> -ou ser posa ainda que tal seja, que ao presente pelo entendimento -dos homens não posa ser alcançada porque -nosa tenção e vontade inteiramente he, que todalas ditas -cousas lhe sejã cumpridas e guardadas em todo o tempo, -asi tão cumpridamente como em esta nosa Carta he -conthéudo, e prometemos ainda e juramos em nosa Fee, -que nunca empetraremos nem pediremos beneficio de restituição -outorgado per direito aos meores de vinte e cinco -annos, pera desfazer alguns promitimentos, porque depois -ao diante em algu tempo se achem lezos ou damnificados -nem outro algu qualquer privilegio ou beneficio geral ou -especial, outorgado aos menóres de vinte e cinco anos, -ou aos Rex como pessoas puvricas e em direito priviligiadas -porque nós de noso propio moto certa ciencia e -poder asim ordinario como absolucto renunciamos todos -os ditos privilegios e beneficio, e queremos e outorgamos -e mandamos por nos e por todolos nosos sucessores, que -ao diante forem, que nos nem eles nunca uzaremos de -taes beneficios privilegios asi por direito outorgados ao -menor de vinte e cinco annos, ou ao Rey ou como Rey, -porque as couzas todas suso ditas e cada hua delas ja -mais em algu tempo posão ser quebrantadas anuladas ou -conronpidas ante as faremos sempre, todos manter conprir -e guardar asi tão conpridamente como suso dito he -declarado, e por maior firmeza de todo o suso dito, de -noso moto proprio e certa ciencia, e poder absolucto asi -como Rey suprimos qualquer falecimento de solemnidade -de feito ou de direito asi geral como especial que em esta -nosa carta faleça, por cujo falecimento em algu tempo -ella posa ser retrautada casada e irritada, ou anichilada -porque queremos e mandamos como dito he que tal falecimento -ou falecimentos nem enbargantes esta nosa Carta -com todalas cousas en ela contheudas, sempre em todo o -tempo ja mais ser firme rata e valiosa asi como se os -ditos falecimentos, ou cada hu deles em ela não ouvese -e em testemunho deste lhe mandamos dar esta nosa Carta -firmada de nosso verdadeiro sinal e aselada com noso<span class="pagenum"><a name="Page_158" id="Page_158">[158]</a></span> -selo de chumbo dante em a mui nobre e sempre leal cidade -de Lisboa seis dias de mayo João Gonçalves a fez -anno do Senhor Jesu Christo 1447 annos.</p> - -<p>(Tomo 2.ᵒ das <i>Provas da Historia Genealogica</i>, pag 48; -o original está na Torre do Tombo, gaveta 17, maço 1, -n.ᵒ 12.)</p> - -<h3>A descendencia do Infante D. Pedro</h3> - -<p>Depois do desastre d’Alfarrobeira, a 10 de dezembro de -1449, D. Affonso V, dominado pelos infames promotores -d’aquella tragedia, declarou criminosa a memoria de seu -tio. Este acto, suggerido pelos ambiciosos que invejavam -os bens do duque de Coimbra, explica-se pela necessidade -de macular a memoria do Infante, para ser licito o confisco -de sua casa, que, no caso contrario, passaria aos herdeiros, -seus legitimos filhos.</p> - -<p>D. Antonio Caetano de Souza na <i>Historia Genealogica</i> -(tomo II, cap. II, pag. 76-77) faz a verdadeira apotheose -de D. Pedro, condemnando asperamente o procedimento dos -seus inimigos, <i>que não nomeia</i>.</p> - -<p>Quem conhece o escriptor cortezão de D. João V, deve -ter em conta este facto, em vista do duque de Bragança -e seu filho o conde d’Ourem terem sido promotores da catastrophe. -Para mostrar a vehemencia, embora cortezã, do -chronista, trasladamos um trecho da sua critica: «<i>chegando -a tanto o odio dos mesmos, que lhe erão obrigados,<a name="FNanchor_55" id="FNanchor_55"></a><a href="#Footnote_55" class="fnanchor">[55]</a> -que aconselharão El-Rey o privasse da sepultura, que El-Rey<span class="pagenum"><a name="Page_159" id="Page_159">[159]</a></span> -seu pay lhe mandára lavrar no Mosteiro da Batalha; -e assim sem distincção foy sepultado na Igreja d’Alverca -como se fôra hum dos miseraveis, que perecerão n’aquelle -dia, parecendo-lhes que d’este modo escurecião a sua memoria, -ficando na das gentes abominada a de taes Conselheiros.</i>»</p> - -<p>Não se pode dizer mais, quando o crime repugna e o -decôro servil obriga o historiador a ser compassivo e benevolo. -Bom seria que D. João V recommendasse ao erudito -Souza, a verdadeira justiça, de que acolhesse a vangloria -da mal disfarçada lisonja, que mais tarde, á luz da -critica sensata e imparcial, desappareceria como o fumo -afugentado pelo vento rijo da verdade. Esta é sempre a -mesma, para conforto dos opprimidos das ambições, das -invejas e vinganças torpes. Póde, como o sol offuscar-se -um tanto, mas logo em seguida, desfeita a nuvem, vem -brilhar n’um ceo azul e tranquillo. Deus, nos seus designios -insondaveis, determinou que os homens, como D. Pedro, -Duarte Pacheco, Affonso d’Albuquerque e Luiz de Camões, -tivessem durante a vida o rigor da tormenta da escoria -social. Louvado seja Elle! Quão maior é a tempestade, -maior é a força da nau que lhe resiste. Os grandes -vultos são como as penedias dos litoraes; açoutadas pela -furia das ondas, afogadas pelo mar buliçoso, ao descer da -maré, ao serenar dos elementos, apparecem brilhantes á -luz do sol, com o seu tapete de algas e com os seus lagos -salinos, provas evidentes da sua resistencia!</p> - -<p>Na mesma <i>Historia Genealogica</i> vem enumerados os -filhos do Infante, os seus feitos e o seu fim; mais accentuadamente, -o sr. Oliveira Martins, na sua excellente obra -<i>Os Filhos de D. João I</i> (cap. XII, pag. 347-358) descreve -a generosa prole, uma das mais conspicuas da dynastia -d’Aviz.</p> - -<p>Notarei que de todos os seus filhos, quem teve descendencia -foi D. Izabel, esposa de D. Affonso V e que logo -na segunda geração, a linha do Infante só foi continuada -pela bastardia. D. João II, seu neto, teve da rainha D.<span class="pagenum"><a name="Page_160" id="Page_160">[160]</a></span> -Leonor, sua mulher, um filho, D. Affonso, que morreu -d’um desastre e não deixou successão (veja-se pagina 67); -com este infausto acontecimento extinguiu-se a prole legitima -de D. Pedro, que foi continuada por D. Jorge, bastardo -de D. João II, que recebeu o titulo de duque de Coimbra, -em memoria de seu illustre bisavô. Casou o principe -D. Jorge com D. Brites de Vilhena, filha do senhor D. Alvaro, -irmão do duque de Bragança D. Fernando II, e progenitor -da casa de Cadaval.<a name="FNanchor_56" id="FNanchor_56"></a><a href="#Footnote_56" class="fnanchor">[56]</a></p> - -<p>D. Brites era bisneta do duque D. Affonso, o protogonista -d’Alfarrobeira; e D. Jorge, bisneto de D. Pedro, a pobre victima -immolada ás ambições do irmão!... A grande arvore -bragantina começava a dominar com suas raizes, não -só o proprio throno que depois foi seu; mas tambem a familia -e o sangue generoso do unico homem que ousára -impedir os seus vôos quando se alargavam para além dos -limites da equidade e da justiça.</p> - -<h3>Affonso d’Albuquerque</h3> - -<p>Nasceu este grande homem, em 1453, na Quinta do -Paraiso, entre Alhandra e Villa Franca. Educou-se na côrte -de D. Affonso V, que em 1480 o mandou na esquadra -contra os turcos, em soccorro do Rei de Napoles. Em 1489, -D. João II, de quem era estribeiro-mór, encarregou-o de -defender a fortaleza de Graciosa, junto a Larache. Em -1503 foi a primeira vez á India, a bordo da nau <i>S. -Thiago</i>, soffrendo grandes tormentas durante a viagem. -A 25 de janeiro de 1504 sahiu de Cananor, chegando a -Lisboa, nos fins de julho do mesmo anno. El-Rei D. Manuel, -sciente do seu alto merito encarregou-o em 1506 de -tomar Ormuz; seguiu Albuquerque na armada de Tristão<span class="pagenum"><a name="Page_161" id="Page_161">[161]</a></span> -da Cunha, levando comsigo a nomeação de successor a -D. Francisco d’Almeida.</p> - -<p>Grande espirito, possuidor de um talento do mais fino -quilate, diplomata e guerreiro, soube levantar o nome -portuguez nas remotas paragens, onde a vontade regia o -tinha collocado. Comprehendeu o genio oriental, tratando -de o domar não só pela força das armas, mas tambem -pelas exterioridades do fausto; assim em Goa tratava-se -como principe, habitando o palacio do Sabayo e comendo -ao som de musicas, acompanhado pelos fidalgos e por -córos de bailadeiras, vestidas com luxo asiatico, que no -terreiro dançavam, durante as refeições.</p> - -<p>Para nada lhe faltar na grandeza, teve a sorte commum -dos maiores vultos de toda a humanidade: a perseguição -cruel dos invejosos, dos pobres miseraveis que julgam -poder desfazer o que a Providencia creou! Albuquerque -foi calumniado e perseguido, destinguindo-se n’este -infame empenho Diogo Mendes de Vasconcellos e Lopo -Soares d’Albergaria, que D. Manuel, na mesma occasião de -demittir o heroe, nomeava o primeiro capitão de Cochim -e o segundo governador da India. Albuquerque soube isto -ao entrar a barra de Goa, vindo de Ormuz, a bordo da -<i>Flor do Mar</i>. Estava doente e os padecimentos agravaram-se-lhe -com a ingrata nova.</p> - -<p>Não queremos nós descrever a sua morte, trasladando -para aqui o que d’ella refere o seu proprio filho, nos -<i>Commentarios</i>:</p> - -<p>«Affonso d’Albuquerque como soube que era chegado -outro governador, e seus inimigos muito favorecidos d’el-rei, -alevantou as mãos e deu graças a Nosso Senhor e disse:</p> - -<p>«—Mal com os homens por amor d’ElRei e mal com -ElRei por amor dos homens, bom é acabar.</p> - -<p>«Dito isto, mandou tomar aos mouros todas as cartas -que levavam para os mercadores d’Ormuz, em que se -dizia, que se não tinham dado a fortaleza a Affonso d’Albuquerque, -que lh’a não dessem, porque era vindo outro -governador, que faria tudo o que elles quizessem.</p> - -<p><span class="pagenum"><a name="Page_162" id="Page_162">[162]</a></span></p> - -<p>«E porque estas novas não dessem torvação á fortaleza -que se ficava acabando, mandou-as Affonso d’Albuquerque -queimar todas, e despediu os mouros que se fossem -e ficou só com o secretario. E tendo já feito seu testamento, -em que se mandava enterrar na sua capella, que -tinha feito em Goa, que elle ganhára aos mouros, fez uma -cédula, em que mandou que os seus ossos, depois da -carne gastada, se trouxessem a Portugal e outras palavras -que houve por escusado escrever. E acabado isto -escreveu uma carta para D. Manuel, que dizia assim:</p> - -<p>«—Senhor, quando esta escrevo a Vossa Alteza estou -com um soluço que é signal de morte. N’esses Reinos -tenho um filho: peço a Vossa Alteza que m’o faça grande, -como meus serviços merecem, que lhe tenho feito com -minha serviçal condição; porque a elle mando sobre pena -de minha benção, que vol-os requeira. E quanto ás -cousas da India não digo nada, porque ella fallará por si -e por mim.»</p> - -<p>«E n’este tempo estava já tão fraco, que se nem podia -ter em pé, pedindo sempre a Nosso Senhor que o levasse -a Goa e alli fizesse d’elle o que fosse mais seu serviço. E -sendo tres ou quatro leguas da barra, mandou que lhe -fossem chamar Fr. Domingos, vigario geral, e mestre -Affonso, physico. E porque, com grande fraqueza que -tinha, não comia nada, mandou que lhe trouxessem um -pouco de vinho vermelho, do que viera aquelle anno -de Portugal. Partido o bergantim para Goa, foi a nau -surgir na barra, sabbado de noute, quinze dias do mez -de dezembro. Quando disseram a Affonso d’Albuquerque -que estava alli, alevantou as mãos e deu muitas graças -a Nosso Senhor de lhe fazer aquella mercê, que elle -tanto desejava. E esteve assim toda aquella noite (com o -vigario geral, que era já vindo de terra, e Pero Dalpoem, -secretario da India, que elle deixou por seu testamento) -abraçado com o crucifixo; e fallando sempre disse ao vigario -geral que era seu confessor:—que lhe rezasse a paixão -de Nosso Senhor, feita por S. João, de que fora sempre<span class="pagenum"><a name="Page_163" id="Page_163">[163]</a></span> -muito devoto, porque n’ella e n’aquella Cruz, que era -similhante da em que Nosso Senhor padecera, e nas suas -Chagas levava toda a esperança da sua salvação. E mandou -que lhe vestissem o habito de S. Thiago (de que era -commendador) para morrer n’elle; e ao domingo, uma hora -antes da manhã, deu a alma a Deus. E alli acabaram todos -os seus trabalhos, sem vêr nenhuma satisfação d’elles.»</p> - -<p>Esta simples descripção encantou-nos desde a meninice; -por essa circumstancia demos a palavra ao chronista dos -feitos do grande portuguez. Foi elle o seu filho, Braz de -Albuquerque, a quem D. Manuel, querendo recompensar os -feitos do heroe, ordenou que lhe tomasse o nome.</p> - -<p>Baseado nos documentos que seu pae enviava a El-Rei -de Portugal, Affonso d’Albuquerque escreveu os <i>Commentarios</i>, -obra chamada pelo Dr. Antonio Ferreira, <i>uma nua -e chã pintura</i>. Hoje ignora-se a certa paragem dos restos -do primeiro vulto da nossa epopeia ultramarina. Este -facto demonstra o vandalismo brutal dos frades do convento -da Graça, em Lisboa, onde o corpo estava depositado, na -capella-mór da igreja, em sepultura particular. Como alguem -invejava o local e deu mais avultada quantia, os -frades intentaram uma demanda com os herdeiros d’Albuquerque, -sobre a posse do tumulo. A estupidez (este é o -termo) das justiças do seculo XVII validaram a pretenção -dos Gracianos e os ossos de Affonso d’Albuquerque foram -trasladados para o carneiro do Capitulo, não se sabendo -se em caixão documentado, ou confundidos á solta com -as numerosas ossadas ahi depositadas. Bom é que se estude -este assumpto e que se procurem os restos mortaes d’um -dos maiores homens não só de Portugal, mas tambem de -todo o mundo civilisado.</p> - -<p class="tb">A Affonso d’Albuquerque succedeu, como dissemos, Lopo -Soares d’Albergaria, que tomou a hombros o aniquilar toda<span class="pagenum"><a name="Page_164" id="Page_164">[164]</a></span> -a grandiosa obra do seu antecessor. Era antipathico, orgulhoso -e cruel. Os povos de Goa, emquanto o corpo d’Albuquerque -esteve na capella de Nossa Senhora da Serra, -vinham junto d’elle offerecer-lhe donativos e supplicar-lhe -protecção para as aleivosias dos portuguezes.</p> - -<h3>A Infanta D. Maria</h3> - -<p>Nasceu esta princeza, em Lisboa, aos 8 de junho de -1521, sendo filha d’El-Rei D. Manuel e de sua terceira esposa -D. Leonor d’Austria. Tinha apenas dois annos quando -sua mãe, já viuva, saiu de Portugal (maio de 1523) para -junto de seu irmão o imperador Carlos V; estava só e desamparada, -entregue unicamente aos cuidados de D. Joanna -Blasfet, camareira-mór, que lhe proporcionou um arremedo -dos cuidados maternaes, até que D. João III veiu a desposar -a princeza D. Catharina, irmã de sua madrasta. A -nova rainha tomou conta da educação de D. Maria, a qual -como ia crescendo ia patenteando todo o seu amor pelas -lettras, sciencias e artes.</p> - -<p>Os seus paços sumptuosissimos converteram-se em academia -onde se juntavam os artistas e litteratos, attrahidos -não só pelo culto scientifico mas tambem pela belleza imponente -e pela figura magestosa da Augusta Senhora que -sabia conciliar a sua dignidade real e os seus deveres de -mulher com o tracto affavel para com todos, com a protecção -e a estima ao abandonado da fortuna, que tivesse -talento como apanagio da Divindade. Viveu a infanta no -auge das nossas glorias litterarias, como sol que a todos -enthusiasmava; deu vida á mulher, acolhendo as Sigéas -(Anna e Luiza), Publia Hortensia, Paula Vicente (filha de -Gil Vicente), Joanna Vaz, e tantas outras que seguiram a -derrota sublime do genio portuguez.</p> - -<p>Depois de ter sido requestada por varios principes da -Europa; casamentos estes que a politica e a avareza de<span class="pagenum"><a name="Page_165" id="Page_165">[165]</a></span> -seu irmão D. João III lhe veiu a tolher, falleceu a Infanta -D. Maria, aos 10 d’outubro de 1577, tres annos antes da -morte do grande Luiz de Camões que lhe consagrou o seguinte -soneto:</p> - -<div class="poetry-container"> -<div class="poetry"> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Que levas, cruel morte? Um claro dia;</div> -<div class="verse">A que horas o tomaste? Amanhecendo;</div> -<div class="verse">Entendes o que levas? Não entendo;</div> -<div class="verse">Pois quem t’o fez levar? Quem o entendia.</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Seu corpo quem o goza? A terra fria;</div> -<div class="verse">Como ficou sua luz? Anoitecendo;</div> -<div class="verse">Lusitania que diz? Fica dizendo,</div> -<div class="verse">«Emfim não mereci Dona Maria.»</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Mataste quem a viu? Ja morto estava;</div> -<div class="verse">Que diz o seu amôr? Fallar não ousa;</div> -<div class="verse">E quem o faz calar? Minha vontade;</div> -</div> -<div class="stanza"> -<div class="verse">Na morte que ficou? Saudade brava;</div> -<div class="verse">Que fica lá que vêr? Nenhuma coisa,</div> -<div class="verse">Mas fica que chorar sua beldade.</div> -</div> -</div> -</div> - -<h3>Concerto entre D. Leonor d’Austria e sua -irmã D. Catharina, sobre os bens da Casa -das Rainhas.</h3> - -<p>Dom Joam per graça de Deos Rey de Portugal e dos -Algarves d’aquem e d’alem mar em Africa Senhor de Guiné -e da Conquista, navegaçãm, commercio da Ethiopia, Arabia, -Persia e da India etc. A quantos esta minha carta -virem Faço saber que entre as cousas que foram capituladas -e assentadas no contracto do casamento de El-Rey -meu Senhor e padre que santa gloria haja com a Raynha -Leonor sua mulher minha Senhora madre lhe foi outorgado<span class="pagenum"><a name="Page_166" id="Page_166">[166]</a></span> -que o dito Senhor Rei meu padre lhe desse as Terras -que tinha a Senhora Raynha Dona Leonor sua irmã, minha -tia que santa gloria haja se vagassem logo em vagando -com todo aquello que ella das ditas terras entam possuya -como compridamente he contheudo no dito contracto de -seu casamento e por fallecimento da dita Senhora Raynha -minha tia vieram á dita Senhora Raynha D. Leonor minha -madre a Cidade de Silves, Alvôr e Villas de Faram no -Reyno do Algarve e as Villas de Obbidos, Alamquer, Sintra -e Aldea Gallega e Aldeia Gavinha com todos seus termos, -terras, direitos, rendas, fóros, tributos e pertenças -e com todas as suas jurdições civis e crimes méro mixto -Império e com os Padroados das Igrejas e dadas de tabelliaens -e de todos os outros officios que eram da dada e -provimento da dita Senhora Raynha Dona Leonor minha -tia e por quanto hora com minha autoridade e consentimento -a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha madre -se concertou com a Raynha minha sobre todas muito -amada e presada molher, sua Irmãa para lhe leixar e virem -a ella a dita Cidade de Silves e Villas e terras, rendas -direitos jurdições dadas d’officios Padroados das -Igrejas e todas as outras cousas que ella tinha e de direito -por bem do dito seu contracto lhe pertencião e como -tudo tinha havia e possuia a dita Senhora Raynha Dona -Leonor minha tia por certa satisfaçam e paga que por -isso lhe faz nos quatro contos de maravedis que ella tinha -em Castella do Emperador seu Irmão segundo compridamente -he contheudo e declarado no contracto de troca e -escambo e permudaçam que antre ellas foi feito com meu -consentimento e do dito Emperador seu Irmão pello que -a elle nisso tocava fazer de cujas provisões os treslados -são postos de verbo a verbo no dito concerto e contracto -a Raynha minha sobre todas muito amada e presada molher -me pedio por mercê que lhe mandasse dar minha -carta de doaçam e mercê da dita Cidade Villas terras rendas -e de todas as outras cousas que á dita Raynha sua -irmãa pertencem e havia davêr e visto por mim seu requerimento<span class="pagenum"><a name="Page_167" id="Page_167">[167]</a></span> -pello muy grande amor que lhe tenho e desejo -de em todas suas cousas lhe comprazer, visto o dito -contracto e concerto feito antre ella e a dita Raynha Dona -Leanor sua Irmãa minha Senhora madre tenho por bem e -lhe Faço pura e inrevogavel doação e graça para em todos -os dias da sua vida da dita Cidade de Silves, Alvôr, -Villas de Faram, Obbidos, Alamquer, Sintra, Aldeia Gallega -e Aldeia Gavinha com todos os seus termos terras direitos, -fóros, e tributos e pertenças e com as Alcayderias -móres dos Castellos d’ellas, rendas e direitos que a ellas -pertencem e com todas as suas jurisdições civeis e crimes -mero mixto Império, resalvando para mim correição e alçada -e com os Padroados das Igrejas e dadas dos tabelliaens -e de todos os outros officios que na dita Cidade e -Villas dava e de que provia a Senhora Raynha Dona Leonor -minha tia e com todas as outras cousas de qualquer genero -e callidade que sejam que ella nellas tinha havia e -pessuya e melhor se ella com direiro o melhor poder ter -e haver e dello uzar e como todo de direito pertence á dita -Raynha Dona Leanôr minha Senhora e madre por bem do -dito seu contracto de casamento. Porem mando aos meus -Corregedores Contadores Almoxorifes Recebedores Juizes -justiças officiaes e pessoas da dita Cidade Villas e terras -e aos Fidalgos, Cavalleiros, homens bons e povo d’ellas e -a quaesquer outros officiaes e pessoas a que esta minha -carta fôr mostrada e o conhecimento della pertencêr que -dêm á dita Raynha minha molher e a seu certo recado a -posse da dita Cidade de Silves Alvôr e Villas de Faram Obbidos -Alamquer Sintra e Aldeagallega e Aldea Gavinha com -todos seus termos terras rendas direitos fóros tributos e -pertenças Alcayderias mores e com todas suas jurisdições -civeis e crimes mero e mixto Imperio resalvando para mim -somente a correição e Alçada e com os Padroados da Igreja -dadas de Tabelliaens e de todos os outros officios que dava -e provia a dita Senhora Raynha Dona Leonor minha tia -e de todas as outras cousas que ella nellas tinha havia -recadava e possuya e lhe leixem todo haver recadar e pessuir<span class="pagenum"><a name="Page_168" id="Page_168">[168]</a></span> -e dello usar por sy e por seus officiaes e pessõas que -para ello ordenar e fazer como em cousa sua propria porque -eu lhe faço assy de tudo doaçam e graça em sua vida -como dito he sem duvida nem embargo algum que a ello -lhe seja posto porque assy he minha mercê e mando ãos -dittos meus Contadores que esta carta registem no livro -dos proprios das comarcas para sempre se saber a forma -desta doação a qual mando assy mesmo aos Juizes da dita -Cidade e Villas que façam tresladar nos livros das Vereações -Dada em a Cidade de Lisboa a vinte e nove dias de -Outubro Bartholomeu Fernandes a fez Anno de nosso Senhor -Jesus Christo de mil quinhentos vinte oito annos.</p> - -<p>(Tomo 2.ᵒ das <i>Provas da Historia Genealogica da Casa -Real</i>, pagina 425). A doação que D. João III fez a sua -mulher, de toda a Casa das Rainhas, copiamol-a na Torre -do Tombo, collecção de S. Vicente, vol. XX, fl.ᵃˢ 204, -estando encorporada na doação de D. Luiza de Gusmão, -que adeante publicamos. Pouca differença faz do Concerto, -existindo, ainda assim, alguma troca de palavras e data -posterior.</p> - -<h3>Doação aa sñra Raynha D. Luiza da Jurisdição -de suas terras, e da Caza de -sua fazenda e governo e despacho della.</h3> - -<p>Dom Joam por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves -daquem e dalem mar, em Africa sñor da Guiné e -da Conquista navegação comercio da Etiopia Arabia Persia e -da India etc. Faço saber aos q̃ esta minha carta virem -que a Raynha D. Luiza minha sobre todas muito amada -e prezada molher me enviou a prezentar as copias de hũa -carta de doação e confirmação q̃ pello sñor Rey Dom Joam -o 3.ᵒ foi outorgada á sñra Raynha D. Caterina sua molher<span class="pagenum"><a name="Page_169" id="Page_169">[169]</a></span> -das Terras chamada da Raynha com todas suas rendas -direitos reaes, officios, Padroados, Alcayderias móres, -jurisdições Ouvidor e Juizes de suas terras e mais faculdades -passada no anno de mil quinhentos e vinte e nove, -e de hũa provisão passada no anno de 1550 da jurisdição -governo e administração de sua faz.ᵈᵃ Vedor Ouvidor e officiaes -da Casa e despacho della, e sua Chancelleria, a -que vinham as appellações e aggravos dos Contadores e -Juizes dos direitos reaes, das quaes o theor é o seguinte:—Dom -João por graça de Ds̃ Rey de Portugal e dos Algarves -etc.</p> - -<div class="sidenote">Doação -de D. João -III, da Caza -das Rainhas -a sua mulher -D. Catharina -d’Austria.</div> - -<p>A todos quantos esta minha carta virem faço -saber que entre as cousas que foram capituladas e assentadas -no contracto do casamento d’ElRey meu sñor e Padre -que santa gloria aja e a Raynha D. Leanor sua molher -minha sñra e madre lhe foi outorgado que o dito -sñor Rey meu padre sñor d’estas terras que tinha a sñra -Raynha D. Leanor sua irmã minha tia q̃ s.ᵗᵃ gloria aja se -vagassem, logo em vagando com todo aquello q̃ ella das -ditas terras entam possuia, como compridam.ᵗᵉ era conteudo -no dito cõtrato de casamᵗᵒ que por falecimᵗᵒ da dita -sñra Raynha minha tia vierão á dita sñra Raynha D. Leanor -minha madre, a Cidade de Silves, Alvôr, villas de -Faram no Reyno do Algarve, e as villas de Obidos Alanquer -Sintra Aldea Gallega e Aldea Gavinha cõ todos seus -termos terras direytos rendas foros tributos e pertenças e -com todas suas jurisdições crimes e civeis mero e mixto -imperio e com os Padroados das Igreijas e dadas de Tabaliaes -e de todos os outros officios que eram da dada e -provimᵗᵒ da ditta sñra Raynha D. Leanor minha tia e porqᵗᵒ -hora com minha autoridade e consintimento a ditta -sñra Raynha D. Leanor minha madre se consertou com a -Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada molher -sua irmaa para lhe leixar e virem a ella a ditta Cidade -de Silves e villas e terras rendas direytos jurisdições dadas -d’officios padroados das Igrejas e rendas e as outras cousas -que ella tinha e de direito por bem do dito seu contracto -lhe pertencião e como todas tinha e avia e possuhia a<span class="pagenum"><a name="Page_170" id="Page_170">[170]</a></span> -dita sñra Raynha D. Leanor minha tia por certa satisfação -que paga que por isso lhe faz nos quatro contos de maravedis -que ella tinha em Castella do emperador seu irmão, -segundo compridamente he conteudo e declarado no -Contracto de troca e escambo e permudação que entre -ellas foi feito com meu consentimᵗᵒ e do dito emperador -seu irmão pello q̃ a elle nisso tocava fazer, de cujas provisões -os treslados sam postos de verbo no dito concerto -e contracto, a Raynha minha sobre todas muito amada e -prezada molher me pedio por mercê que lhe mandasse -dar minha carta de doação e mercê da ditta cidade e villas -e terras e rendas e de todas as outras cousas que a -dita Raynha sua irmaa pertencem e avia de aver, e visto -por mim seu requerimento pello mᵗᵒ grande amor que lhe -tenho e desejo de em todas as suas cousas lhe aprazer -visto o dito contrato e concerto feito entre ella e a dita -Raynha D. Leonor sua irmaa minha sñra madre tenho por -bem e lhe faço pura e irrevogavel doação e graça para -em todos os dias de sua vida da dita Cidade de Silves -Alvôr Villa de Faram Obidos Alamquer Sintra Aldea Gallega -Aldea Gavinha com todos os seus termos e terras e -foros tributos e pertenças e com as Alcayderias móres dos -castellos dellas rendas e direytos q̃ a ellas pertence, e com -todas suas jurisdições civeis e crimes mero e mixto imperio, -resalvando para mim a Correição e alçada e com -os Padroados das Igrejas e dadas de Tabaliaens e de todos -os outros officios por suas cartas que na ditta Cidade -e ditas villas dava e de que provia a sñra Raynha D. -Leanor minha tia e quero e me praz que os juizes e tabeliães -da ditta Cidade e villas e lugares e terras se chamem -por ella assy como se chamavam pella ditta sñra -Raynha D. Leanor minha tia o com todas as outras cousas -de qualquer genero e qualidade que sejam q̃ ella nellas -tinha e avia e possuhia e melhor se ella com dyreito o -melhor poder ter e aver e dello uzar e como de dereyto -pertence á ditta Raynha D. Leanor minha sñra madre por -bem do ditto seu contracto de cazam.ᵗᵒ Porem mando aos<span class="pagenum"><a name="Page_171" id="Page_171">[171]</a></span> -meus Corregedores, Contadores Almxᵉˢ Recebedores Juizes -Justiças officiaes e pessoas da dita cidade e Villas e Terras -e aos fidalgos, cavalleyros, homês bons e Povo dellas -e a quaesquer outros officiaes a quem esta minha carta -for mostrada e o conhecimento della pertencer q̃ deem -aa dita Raynha minha molher e a seu certo recado a -posse da ditta Cidade de Silves, Alvôr, Villas de Farão, -Obidos e Alemquer Sintra e Aldea Gallega, Aldea Gavinha -com todos seus termos e terras rendas direytos foros tributos -pertenças e Alcayderias mores e rendas dellas e -com todas suas jurisdições civeis crimes mero e mixto -imperio resalvando para mim somᵗᵉ a correição e Alçada -e com os Padroados das Igrejas e dadas de Tabelliaes e -de todos os outros officios que dava e provia a ditta sñra -Raynha D. Leanor minha tia e de todas as outras cousas -que ella nellas tinha e avia recadava e possuhia; e lhe -leixem todo aver recadar e pussuhir e dello uzar por sy -e por seus officiaes e pessoas que pera ello ordenar e fizer -como em cousa sua propria, porq̃ eu lhe faço assy -de tudo doação e graça em sua vida como dito he sem -duvida nem embargo algum que a ello lhe seja posto, -porq̃ assy he minha m.ᶜᵉ E mando aos ditos meus Contadores -que esta carta registem no livro dos proprios das -Comarcas pera sempre se saber a forma desta doação aqual -mando assy mesmo aos juizes da dita Cidade e villas q̃ -fação tresladar nos livros das Vereações. Dada em a Cidade -de Lisboa. «Bxᵐᵒⁿ frz a fez» a quatro do mes de Janʳᵒ -anno de nosso sñor Jesu xpto de mil e quinhentos e vinte -e nove annos.</p> - -<p><i>E a outra carta do anno de mil e quinhentos e sincoenta -tocante ao regimento e despacho da Caza e officiaes -de sua faz.ᵈᵃ he a seguinte.</i> Eu ElRey faço saber a -vós Juizes e Vereadores e Povo da V.ᵃ de Alenquer q̃ por -alguns resp.ᵗᵒˢ que moverão a Raynha minha sobre todas -m.ᵒ amada e prezada molher, e pello assy sentir pera -mais seu descanço ella ouve por bem e me pedio que eu -provesse e mandasse prover de justiça as Cidades e Villas<span class="pagenum"><a name="Page_172" id="Page_172">[172]</a></span> -que ella ha em meus Reynos e assy provesse nella os -officios de justiça quando vagarem como tudo me parecesse -e he necessario pera bem serem regidas e governadas -em justiça e ficando a ella as Alcayderias mores e -padroados das Igrejas e direytos rendas q̃ ella ha e lhe -pertencem nas ditas suas Cidades e Villas e de que ella -esta em posse e a jurisdição dos ditos direitos e rendas -e dadas dos officios da arrecadação da dita faz.ᵈᵃ que -hora tem nas ditas Cidades e Villas ou ao diante lhe -parecer que são necessarios com as appellações e aggravos -dante os ditos officiaes de sua faz.ᵈᵃ pera ella e o -Vedor de sua faz.ᵈᵃ e ouvidor dos feitos della sem a -serca dello os Juizes Corregedores e pessoas dos meus -Reynos q̃ eu puzesse, conhecerem das cauzas q̃ tocarem -á dita sua faz.ᵈᵃ e arrecadação d’ella, nem minhas Relações -e justiças poderem conhecer das dittas Appellações -q̃ dante os dittos officiaes vierem, porq̃ delles conhecerá -o dito seu Védor da fazenda e ouvidor dos feitos della, -ou outros Dezembargadores q̃ ella ordenar como hora -conhecem e assy se cumprão nas dittas Cidades e Villas -seus mandados e os dos dittos seus officiaes da faz.ᵈᵃ, -como hora se cumprem e passarão na forma q̃ hora -passam, e por folgar de em tudo comprazer á dita sñra, -me pras e hey por bem de mandar prover de justiça as -dittas Cidades e Villas e dar os officios dellas emqᵒ o -assy a dita sñra ouver por bem e q.ᵗᵒ ás jurisdições das -cousas de sua fazᵈᵃ e dadas dos officios da recadação -della q̃ hora ha ou ao diante lhe parecer q̃ sam necessarios -ella proverá como ouver por bem e seus mandados -e do vedor de sua fazenda e ouvidor dos feitos della -e de todos os outros officiaes de sua fazᵈᵃ passaram da -forma que ategóra passaram e se cumprirão em tudo -como ategóra cumprirão e as Appellações que sahirem -dante os officiaes de sua fazᵈᵃ sobre couzas della e arrecadação -de seus direitos e rendas viram ao dito seu Vedor -da fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della e se despacharam -com os Dezʳᵉˢ q̃ ella ordenar como se hora faz, sem Cᵒʳ ou<span class="pagenum"><a name="Page_173" id="Page_173">[173]</a></span> -jusᵃˢ minhas nem minhas Relações conhecerem de cousa -algũa que toque a sua fazᵈᵃ e arrecadação de seus direitos -e rendas nem das appellações nem aggravos q̃ sahirem -dos ditos officiaes de sua fazᵈᵃ porq̃ de tudo hão de -conhecer só seu Vedor da fazᵈᵃ e ouvidor dos feitos della -com os Dezʳᵉˢ que ella ordenar como assima dito he, e -como eu hora mando q̃ o Cᵒʳ em essa Comarca va a essa -Villa e entre nella a fazer Correição como e pela manᵃ -que faz nos outros meus lugares da dita Comarca, volo -notifico asy o mando que lhe obdeçaes, em tudo cumpraes -seus mandados, este registareis no livro da Camera dessa -Villa com outra carta que sobre o dito caso vos escreve -a dita sñra para a todos ser notorio e se cumprirem em -tudo.</p> - -<div class="sidenote">Doação -de D. João -IV á rainha -D. Luiza de -Gusmão.</div> - -<p>Pantaleão Rebello a fez em Lisboa a seis do mez -de mayo de mil quinhentos e cincoenta.—Pedindo-me -a dita Raynha minha sobre todas mᵗᵒ amada e prezada -mulher que porqᵗᵒ na Carta patente de Doação das ditas -terras da Raynha q̃ para sua Camera Caza e estado por -mim lhe fora outorgada, se continha que averia as dittas -terras em sua vida com todas as rendas, direitos reaes, -tributos, jurisdições, Alcayderias móres, offᵒˢ de justiça e -sua fazᵈᵃ com os mais privilegios e prerogativas assy e -da manʳᵃ que a sñra Raynha D. Caterina ultimamente -as possuhira e estivera em posse e costume de uzar. -O que tudo melhor cõstava das ditas cartas e provisão -assima relatadas, hũa das terras rendas offᵒˢ e jurisdições, -outra em q̃ se declara a jurisdição uzo e costume -e modo do procedimento e despacho da Caza de -sua fazᵈᵃ e offᵒˢ por ella creados q̃ nella andavam e de -sua Chrᵃ e Contadores Juizes e Almoxᵉˢ da dita sua -fazᵈᵃ, as quaes cousas senão achavam assi recopiladas -em outra carta de doação, por serem mᵗᵒˢ e de diversos -pontos particulares e em diversos tempos houvesse -por bem de lhe conceder e confirmar as ditas cartas e provisão -supprindo na primeira entre as terras nella declaradas -as Villas das Caldas e salir do Porto que por as outras -Prouvizões constava serem das sr.ᵃˢ Raynhas D. Leanor<span class="pagenum"><a name="Page_174" id="Page_174">[174]</a></span> -e D. Caterina e p.ᵃ em sua vida as possuirem excepto -o que nellas ao Hospital das Caldas estava concedido -para andarem todas nesta carta. E asy a provisão do q̃ -toca á jurisdição e poder que por ella se declara que lhe -compete em sua faz.ᵈᵃ E visto por mim o q̃ me assy enviou -pedir e as ditas carta e provisão e pello m.ᵗᵒ amor -que lhe tenho e por m.ᵒ desejar de em tudo o q̃ me requerer -e pedir lhe comprazer como é razão e por lhe fazer -graça e m.ᶜᵉ de minha certa sciencia e poder real e -absoluto, hey por bem e me praz de lhe conceder e confirmar -em sua vida as ditas terras cartas doações jurisdições -e previlegios com tudo o mais nelles conteudo assy -e da man.ʳᵃ que as dittas Raynhas, e ultimamente a dita -Raynha D. Cn.ᵃ as tiveram e melhor, se melhor por elles -lhe competir, com declaração q̃ onde na sobredita carta -reservo para mi Correição e Alçada, quanto á Correição, -se entende que a farão os Corregedores com sua auctoridade -assy e na fórma e casos que nos he patente e em outras -de regim.ᵗᵒ e jurisdição de seu ouvidor e off.ᵉᵐ, passada -no dia da feitura desta he declarado. Pello que mando ao -Regedor da Caza da Supplicação e g.ᵒʳ da Caza do Porto -e minhas Relações e Tribunaes e aos meus Juizes e jus.ᶜᵃˢ -que a fação guardar e registar nos livros das Relações Camaras -e Correições e outro sy mando aos ditos Corregedores -Contadores Juizes e Just.ᵃˢ Vereadores e da governança -das ditas Cidad.ᵉˢ e V.ᵃˢ que dem á dita Raynha e a -seu certo recado e pessoa que lhe aprouver mandar com -sua provisão de procuração a posse dellas com todos -seus termos, e terras rendas direytos foros tributos Alcayderias -móres, com suas rendas e todas suas jurisdições -civeis e crimes mero e mixto imperio na forma sobredita -e q̃ na dita carta e regim.ᵗᵒ das terras e jurisdição mais largam.ᵗᵉ -he declarado e nas mais q̃ por mi concedidas e confirmadas -q̃ a dita snr.ᵃ Raynha D. Cn.ᵃ em sua vida teve -e de q̃ uzou e esteve de posse.</p> - -<p>E por firmeza de tudo o que dito he mandei dar esta m.ᵃ -carta patente por mi assinada e passada pela m.ᵃ Cn.ᵃ<span class="pagenum"><a name="Page_175" id="Page_175">[175]</a></span> -Dada na Cidade de Lisboa aos dez dias do mez de janeiro -Sotto mayor a fez........de mil seiscentos e quarenta -e trez.</p> - -<p>(Archivo da Torre do Tombo—Collecção de S. Vicente, -Volume XX, fl.ᵃˢ 204.)</p> - -<hr /> - -<div class="footnotes"> - -<h2>NOTAS</h2> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1" id="Footnote_1"></a><a href="#FNanchor_1"><span class="label">[1]</span></a> O sr. commendador Guilherme João Carlos Henriques, publicou -ha annos um bem elaborado livro: <i>Alemquer e seu concelho</i>. É esta -uma obra puramente <i>local</i>, que informa todas as particularidades -que dizem respeito á villa e suas freguezias, bem como aos outros -pontos ruraes.</p> - -<p>A Historia <i>local</i> d’Alemquer está bem entregue ao sr. Guilherme -Henriques e mesmo que haja alguem que se lembre hoje de escrevel-a, -não fará mais do que ampliar o seu trabalho, ficando assim -com a gloria incompleta. Não serei eu que sou seu amigo e que -além d’isso, me prezo de ser leal, que lhe usurparei o logar; antes -renovo aqui o pedido, que ha tempos fiz a sua ex.ᵃ, de uma segunda -edição, augmentada, do seu livro, o que traria grande vantagem para -os estudiosos e para os que prezam o bom nome da velha capital da -Casa das Rainhas.</p> - -<p>Como sua ex.ᵃ verá pela Advertencia e pelo texto d’esta obra, a -parte <i>local</i> está só no titulo d’ella. A minha esphera d’acção é outra -muito differente; sou e serei um cabouqueiro, como me recommenda -Oliveira Martins, mas no campo da Historia ha numerosas minas -de diamantes.</p> - -<p>Esta nota não é dirigida ao espirito intelligente e cavalheiresco -de sua ex.ᵃ, mas uma simples prevenção contra os mal intencionados -ou ignorantes, que queiram desvirtuar as acções de cada um.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2" id="Footnote_2"></a><a href="#FNanchor_2"><span class="label">[2]</span></a> Archivo Nacional da Torre do Tombo, inquirições de D. Diniz; -Livro 10, fl. 22 e 24 verso.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3" id="Footnote_3"></a><a href="#FNanchor_3"><span class="label">[3]</span></a> Figanière, obra citada, pag. 62.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4" id="Footnote_4"></a><a href="#FNanchor_4"><span class="label">[4]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Diniz, livro 1.ᵒ fl. 41.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5" id="Footnote_5"></a><a href="#FNanchor_5"><span class="label">[5]</span></a> O original d’este documento encontrou-o Figanière no cartorio -de Santa Clara, achando-se registado na chancellaria de D. Diniz, -livro 3.ᵒ, fl. 33.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_6" id="Footnote_6"></a><a href="#FNanchor_6"><span class="label">[6]</span></a> Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 46.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_7" id="Footnote_7"></a><a href="#FNanchor_7"><span class="label">[7]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Fernando, Livro 1.ᵒ, fl. 107.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_8" id="Footnote_8"></a><a href="#FNanchor_8"><span class="label">[8]</span></a> Com o desenvolvimento do commercio nas conquistas, tiveram -as Rainhas varias rendas sobre diversas mercadorias.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_9" id="Footnote_9"></a><a href="#FNanchor_9"><span class="label">[9]</span></a> D. José Barbosa diz que o casamento de D. Affonso II se realisou -em 1201; mas Alexandre Herculano affirma que só teve logar -nos fins de 1208, ou principios de 1209.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_10" id="Footnote_10"></a><a href="#FNanchor_10"><span class="label">[10]</span></a> De todos os reis de Portugal, exceptuando os Filippes, os unicos -que estão sepultados no estrangeiro, são dois bem desgraçados: -D. Sancho II e D. Miguel I.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_11" id="Footnote_11"></a><a href="#FNanchor_11"><span class="label">[11]</span></a> O diploma é datado de Elvas, 25 de fevereiro de 1267, e acha-se -na Torre do Tombo, gaveta 13, maço 9, n.ᵒ 19.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_12" id="Footnote_12"></a><a href="#FNanchor_12"><span class="label">[12]</span></a> Torre do Tombo, chancellaria de D. Affonso III, livro 1.ᵒ fl. 141.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_13" id="Footnote_13"></a><a href="#FNanchor_13"><span class="label">[13]</span></a> D. José Barbosa, no <i>Catalogo das Rainhas de Portugal</i>, diz que a -rainha D. Beatriz de Gusmão falleceu a 27 de outubro de 1303; porém, -o sr. João Pedro da Costa Basto encontrou na Torre do Tombo -a data acima indicada, que Figanière menciona na sua obra <i>Memorias -das Rainhas de Portugal</i>, pag. 121. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_14" id="Footnote_14"></a><a href="#FNanchor_14"><span class="label">[14]</span></a> D. Izabel d’Aragão foi beatificada por Leão X a 15 de abril de -1516 e canonisada por Urbano VIII a 25 de maio de 1625.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_15" id="Footnote_15"></a><a href="#FNanchor_15"><span class="label">[15]</span></a> Não são concordes os historiadores quanto ao fallecimento de D. -Constança. D. José Barbosa affirma que falleceu aos 13 de novembro -de 1345; mas o <i>Obituario de S. Bartholomeu</i> diz que a morte teve -logar no dia 27 de janeiro de 1349. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_16" id="Footnote_16"></a><a href="#FNanchor_16"><span class="label">[16]</span></a> D. Leonor Telles está sepultada no mosteiro de Nossa Senhora -da Mercê de Valladolid.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_17" id="Footnote_17"></a><a href="#FNanchor_17"><span class="label">[17]</span></a> El-rei D. João I teve além do duque de Bragança, D. Affonso, -uma filha bastarda, que foi D. Beatriz, que casou em 1405 com Thomaz -Fitz Alan, conde de Arundel, primo da rainha D. Filippa de -Lencastre. A mãe d’estes filhos foi Ignez Pires, que depois foi commendadeira -de Santos.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_18" id="Footnote_18"></a><a href="#FNanchor_18"><span class="label">[18]</span></a> A 24 de julho de 1429, o senhor de Roubaix, como procurador -do duque de Borgonha, recebia em Lisboa a infanta D. Isabel.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_19" id="Footnote_19"></a><a href="#FNanchor_19"><span class="label">[19]</span></a> O infante D. Pedro despozára em 1428 D. Izabel, filha de -Jayme II, d’Urgel, e da infanta D. Izabel de Aragão.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_20" id="Footnote_20"></a><a href="#FNanchor_20"><span class="label">[20]</span></a> Veja-se <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_21" id="Footnote_21"></a><a href="#FNanchor_21"><span class="label">[21]</span></a> <i>Jarreteira</i>; assim se dizia no tempo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_22" id="Footnote_22"></a><a href="#FNanchor_22"><span class="label">[22]</span></a> Do casamento do infante D. Pedro com D. Izabel d’Urgel, houveram -os seguintes filhos: D. Pedro, condestavel, poeta e Mestre de -Aviz; D. Izabel, rainha de Portugal; D. Filippa, recolhida em Odivellas; -D. Brites, mulher do duque Cléves, senhor de Ravensteyn; -D. João, principe d’Antiochia; e D. Jayme, cardeal. Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_23" id="Footnote_23"></a><a href="#FNanchor_23"><span class="label">[23]</span></a> Assim o affirma D. José Barbosa, no seu <i>Catalogo</i>, tantas vezes -citado, e o P.ᵉ Francisco de Santa Maria na <i>Chronica dos Conegos -Seculares de S. João Evangelista</i>; porém, D. Antonio Caetano de Souza, -na <i>Historia Genealogica</i>, tomo 3.ᵒ, cap. 1.ᵒ, pag. 63, diz que o -casamento de Affonso V teve logar em 1447, em vista do seu contracto -que publicamos nas <i>Notas e documentos</i>. Por esse tractado se -vê que o consorcio se realisou um anno antes do que lhe é marcado -por Barbosa e pelo P.ᵉ Francisco de Santa Maria.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_24" id="Footnote_24"></a><a href="#FNanchor_24"><span class="label">[24]</span></a> A catastrophe de Alfarrobeira deu-se a 20 de maio de 1449; ficando -o corpo do infante trez dias insepulto, até que o recolheram -para a egreja d’Alverca, sendo d’ahi mudado para o castello d’Abrantes, -depois para o mosteiro de Santo Eloy e ultimamente para a Batalha. -Vid. <i>Historia Genealogica da Casa Real</i>, por D. Antonio Caetano -de Souza, tomo 2.ᵒ, cap. 2.ᵒ, pag. 77.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_25" id="Footnote_25"></a><a href="#FNanchor_25"><span class="label">[25]</span></a> D. Leonor de Lencastre foi dotada pelo duque de Vizeu, D. Diogo, -seu irmão, com a villa de Lagos e seu castello, direitos e rendas; -mais tarde recebeu de seu marido a doação de Alemquer e d’outras -villas, que el-rei D. Manuel lhe confirmou em 24 de março de 1496. -Vid. as <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_26" id="Footnote_26"></a><a href="#FNanchor_26"><span class="label">[26]</span></a> Em 1495 imprimiu-se a <i>Vita Christi</i>; em 1505, os <i>Autos dos Apostolos</i>; -em 1515, o <i>Boosco deleytoso</i>; e em 1518, o <i>Espelho de Christiania</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_27" id="Footnote_27"></a><a href="#FNanchor_27"><span class="label">[27]</span></a> Jaz sepultada no convento de Santa Izabel de Toledo.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_28" id="Footnote_28"></a><a href="#FNanchor_28"><span class="label">[28]</span></a> O principe D. Miguel nasceu em Saragoça a 24 de agosto de -1498, e jaz sepultado na mesma cidade.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_29" id="Footnote_29"></a><a href="#FNanchor_29"><span class="label">[29]</span></a> Vasco da Gama regressou da sua viagem em 29 de julho ou de -agosto de 1499.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_30" id="Footnote_30"></a><a href="#FNanchor_30"><span class="label">[30]</span></a> Depois ordenou-se que seu filho Braz d’Albuquerque tomasse em -sua honra o nome de Affonso. Foi este o auctor dos <i>Commentarios -d’Affonso d’Albuquerque</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_31" id="Footnote_31"></a><a href="#FNanchor_31"><span class="label">[31]</span></a> Veja-se <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_32" id="Footnote_32"></a><a href="#FNanchor_32"><span class="label">[32]</span></a> A rainha D. Maria, segunda esposa de D. Manuel, nasceu em -Cordova, aos 29 de junho de 1482 e recebeu-se por procuração com -o rei de Portugal a 24 de agosto de 1500 e por palavra de presente -na epocha acima mencionada. Como não chegou a sobreviver a sua -cunhada D. Leonor de Lencastre nunca possuiu a Casa das Rainhas, -tendo por mercê especial de seu marido a cidade de Vizeu e a villa -de Montemór-o-Novo. (vid. <i>Historia Genealogica</i>, tomo 3.ᵒ, cap. V, -pag. 229). Além d’estas terras, teve tambem o padroado da egreja -de S. Pedro de Lordosa, varias tenças e a villa de Torres Vedras, que, -como se verá nos <i>documentos</i>, não pertenceu á esposa de D. João II, -como por lapso dissemos a paginas 6.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_33" id="Footnote_33"></a><a href="#FNanchor_33"><span class="label">[33]</span></a> O sr. Luciano Cordeiro o demonstrou cabalmente no seu livro -<i>A Segunda Duqueza</i>; bem como destroe a lenda dos amores de D. -João III com a madrasta. Louvores sejam dados ao illustre escriptor.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_34" id="Footnote_34"></a><a href="#FNanchor_34"><span class="label">[34]</span></a> D. Leonor d’Austria nasceu em Louvain a 15 de novembro de 1498.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_35" id="Footnote_35"></a><a href="#FNanchor_35"><span class="label">[35]</span></a> Veja-se a excellente obra do conde de Villa Franca, <i>D. João I e -a alliança ingleza</i>, pag. 281.</p> - -<p>A infanta D. Maria foi uma das mais sabias e virtuosas princezas -do seu tempo, e um dos mais brilhantes vultos da Renascença em Portugal. -Nas <i>Notas e documentos</i> publicamos uns ligeiros traços biographicos -d’esta senhora; bem como o soneto com que Camões celebrou a -sua morte.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_36" id="Footnote_36"></a><a href="#FNanchor_36"><span class="label">[36]</span></a> Está sepultada no Escurial.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_37" id="Footnote_37"></a><a href="#FNanchor_37"><span class="label">[37]</span></a> Vid. D. José Barbosa, <i>Catalogo das rainhas de Portugal</i>. O casamento -já se tinha realisado por procuração no Toro, a 11 de janeiro -do mesmo anno. <i>Historia Genealogica</i>, livro 4.ᵒ, cap. 15.ᵒ, pag. 55.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_38" id="Footnote_38"></a><a href="#FNanchor_38"><span class="label">[38]</span></a> <i>Lusiadas</i>, canto IV, est. 95.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_39" id="Footnote_39"></a><a href="#FNanchor_39"><span class="label">[39]</span></a> El-Rei D. Manuel teve da rainha D. Maria, sua segunda mulher, -além de outros filhos, o infante D. Duarte que nasceu em Lisboa, aos -7 de septembro de 1515 e casou em Villa Viçosa (terça feira, 24 de -abril de 1537) com D. Izabel de Bragança filha do duque D. Jayme e -de D. Leonor de Mendóça, recebendo n’essa occasião o titulo de duque -de Guimarães; d’este matrimonio houveram duas filhas: D. Catharina -e D. Maria, que desposou o principe de Parma, Rainuncio. D. Catharina -foi desde tenra edade destinada para mulher de seu primo o duque -D. João I, realisando-se o consorcio aos 8 de dezembro de 1563. -O seu filho primogenito foi D. Theodosio, mais tarde segundo do nome -e pae d’el-rei D. João IV. D. Catharina falleceu a 15 de novembro de -1614, respeitada dos soberanos de todas as nações, tratada como egual -pelas testas coroadas, recebendo o tratamento <i>d’Alteza</i> e preparando o -futuro poderoso da Casa de Bragança. Vid. <i>Hist. do Inf. D. Duarte</i>, do -sr. José Ramos Coelho, tomo I, <i>Le Portugal et la maison de Bragança</i>, -por A. A. Teixeira de Vasconcellos e <i>Historia Geneal. da Casa Real</i>, -de D. Antonio C. de Souza, tomo 6.ᵒ.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_40" id="Footnote_40"></a><a href="#FNanchor_40"><span class="label">[40]</span></a> Sr. José Ramos Coelho, pag. 46 da obra citada.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_41" id="Footnote_41"></a><a href="#FNanchor_41"><span class="label">[41]</span></a> Torre do Tombo, collecção de S. Vicente, volumes XX, fl. 204. -Vid. <i>Notas e documentos</i>.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_42" id="Footnote_42"></a><a href="#FNanchor_42"><span class="label">[42]</span></a> A princeza D. Izabel, filha de D. Pedro II e de D. Maria Francisca -Izabel de Saboya, nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669; -sendo jurada herdeira da corôa, nas côrtes de 27 de janeiro de 1674. -Esteve justo o seu casamento com o duque de Saboya, Victor Amadeu, -seu primo; o qual recusou este enlace, allegando motivos de -doença. Dizem a princeza se apaixonara de tal modo que repudiou -os dois pretendentes que lhe solicitavam a mão: o grão-duque da -Toscana e o duque de Parma; vindo a fallecer, solteira, aos 21 de -outubro de 1690.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_43" id="Footnote_43"></a><a href="#FNanchor_43"><span class="label">[43]</span></a> Serviram de procuradores de Portugal, o duque de Cadaval, o -marquez de Niza, o marquez de Marialva, o Marquez de Gouvêa, o -conde de Miranda e o secretario d’Estado, Pedro Vieira da Silva.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_44" id="Footnote_44"></a><a href="#FNanchor_44"><span class="label">[44]</span></a> «Foy El-Rey D. Pedro de estatura agigantada, cor trigueira, olhos -grandes, nariz aquilino, bocca grossa, & cabello preto. Teve forças -extraordinarias, do que fazia provas admiraveis. Excedeo a todos -os do seu tempo na sciencia de andar a cavallo & correr touros (sic). -Era incançavel na frequencia com que ouvia aõs seus Vassallos, para -o que não havia horas, nem tempo reservado.» (D. José Barbosa, <i>Elogio -dos Reis de Portugal</i>, pag. 200).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_45" id="Footnote_45"></a><a href="#FNanchor_45"><span class="label">[45]</span></a> D. Maria Sophia de Neuburgo está sepultada em S. Vicente de -Fóra.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_46" id="Footnote_46"></a><a href="#FNanchor_46"><span class="label">[46]</span></a> Na batalha de Matapan a 19 de julho de 1717 se distinguiram -os nossos almirantes, conde do Rio Grande e conde de S. Vicente.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_47" id="Footnote_47"></a><a href="#FNanchor_47"><span class="label">[47]</span></a> Tradições de familia que não vem a proposito aqui relatar, nos -tornam devedores á memoria de D. João V.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_48" id="Footnote_48"></a><a href="#FNanchor_48"><span class="label">[48]</span></a> Este senhor do Cadaval era D. João de Castro que foi casado com -D. Leonor da Cunha, depois esposa do grande João das Regras. Do -matrimonio do duque D. Fernando com D. Joanna de Castro, nasceram -nove filhos; dos quaes um (D. Antonio) não sobreviveu. Entre os -que vingaram, conta-se D. Alvaro que teve o tratamento de <i>Senhor</i> e -casou com D. Filippa de Mello, herdeira da casa dos condes d’Olivença. -D. Alvaro é o progenitor dos duques de Cadaval.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_49" id="Footnote_49"></a><a href="#FNanchor_49"><span class="label">[49]</span></a> Acha-se publicado do tomo 5.ᵒ das <i>Provas da Historia genealogica -da Casa Real</i>, pag. 141. No mesmo tomo estão publicados os seguintes -tractados de casamentos:—d’el-rei D. Affonso VI com a rainha D. -Maria Francisca (pag. 10); de D. Pedro II com a rainha D. Maria -Sophia de Neubourg (pag. 73).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_50" id="Footnote_50"></a><a href="#FNanchor_50"><span class="label">[50]</span></a> Era então embaixador de Portugal em Madrid Antonio Guedes -Pereira.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_51" id="Footnote_51"></a><a href="#FNanchor_51"><span class="label">[51]</span></a> Veja o tractado do casamento de D. José publicado no tomo 5.ᵒ -das <i>Provas da Historia genealogica da Casa Real</i>, pag. 316; e no <i>Fasto -de Hymeneo, ou Historia Panegyrica dos desposorios dos Fidellissimos -Reys de Portugal, nossos Senhores, D. Joseph I e D. Maria Anna Victoria -de Bourbon</i>, por Fr. Joseph da Natividade, pregador geral da -ordem dos Pregadores, na provincia de Portugal; pag. 18.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_52" id="Footnote_52"></a><a href="#FNanchor_52"><span class="label">[52]</span></a> Sebastião José de Carvalho e Mello nasceu em Lisboa, na casa -da rua Formosa, a 13 de maio de 1699 e foi filho de Manuel de Carvalho -e Atayde, commendador na Ordem de Christo, Capitão de Cavallaria -da côrte, senhor da Quinta da Granja, e de D. Thereza Luisa -de Mendonça, filha de João d’Almada e Mello, commissario geral -de cavallaria na Beira, alcaide-mór de Palmella, senhor e administrador -do morgado dos Olivaes e do Souto d’El-Rei. Foi seu padrinho, -seu avô paterno, Sebastião de Carvalho e Mello, Capitão de Cavallos, -senhor dos morgados de Sernancelhe e da Quinta da Granja, padroeiro -da egreja de N. Senhora das Mercês, onde jaz sepultado, tendo vivido -110 annos. Era, portanto, o marquez de Pombal fidalgo pelo lado -paterno e materno, pertencendo á fidalguia de provincia (a não titular, -que não tinha nenhum cargo superior na côrte), a que, ao -tempo, pertenciam tambem a maior parte das familias que hoje formam -a aristocracia portugueza. O titulo de conde d’Oeiras foi-lhe -conferido em 15 de julho de 1759 e o de marquez de Pombal a 16 -de septembro de 1769.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_53" id="Footnote_53"></a><a href="#FNanchor_53"><span class="label">[53]</span></a> El-Rei D. José tinha nascido a 6 de junho de 1714, e o conde -d’Obidos a 20 de julho de 1699, tendo por consequencia mais quinze -annos que o monarcha. Esta differença explica a phrase do fidalgo, -quando Sebastião de Carvalho lhe veio pedir a sua protecção: <i>pois o -menino é chocalheiro</i>?!</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_54" id="Footnote_54"></a><a href="#FNanchor_54"><span class="label">[54]</span></a> O original d’este documento encontra-se na torre do Tombo, liv. -5.ᵒ de D. Affonso IV, de afforamentos, doações etc., pag. 46 verso.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_55" id="Footnote_55"></a><a href="#FNanchor_55"><span class="label">[55]</span></a> Diz-se geralmente que foi D. Affonso V quem concedeu o ducado de -Bragança a seu tio o conde de Barcellos; é falsa, porém, tal affirmativa. -A doação data de 1442, durante a regencia de D. Pedro, -embora a carta só fosse requerida mezes depois do desastre d’Alfarrobeira.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_56" id="Footnote_56"></a><a href="#FNanchor_56"><span class="label">[56]</span></a> O duque de Coimbra, D. Jorge, foi o progenitor da casa d’Aveiro, -recebendo seu filho, D. João, o titulo de duque d’aquella localidade.</p> - -</div> - -</div> - -<hr /> - -<h2>INDICE</h2> - -<table summary="Indice"> - <tr> - <td></td> - <td class="tdpg"><span class="smcap">Paginas</span></td> - </tr> - <tr> - <td>Prefacio e advertencia</td> - <td class="tdpg"><a href="#ADVERTENCIA"><span class="smcapuc">VII</span> - a <span class="smcapuc">XV</span></a></td> - </tr> - <tr> - <td>A Casa das Rainhas</td> - <td class="tdpg"><a href="#A_CASA_DAS_RAINHAS">1</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Dulce</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Dulce">9</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Sancha</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Sancha">13</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Beatriz de Gusmão</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Beatriz_de_Gusmao">17</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Santa Izabel</td> - <td class="tdpg"><a href="#Santa_Izabel">23</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Constança</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Constanca">27</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Leonor Telles</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_Telles">31</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Filippa</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Filippa">39</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Izabel de Lencastre</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Izabel_de_Lencastre">43</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Leonor d’Aragão</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_dAragao">49</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Izabel de Lencastre</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Isabel_de_Lencastre">55</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Leonor de Lencastre</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_de_Lencastre">63</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Leonor d’Austria</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Leonor_dAustria">69</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Catharina d’Austria</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Catharina_dAustria">81</a></td> - </tr> - <tr> - <td>O interregno dos Filippes</td> - <td class="tdpg"><a href="#O_Interregno_dos_Filippes">89</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Luiza de Gusmão</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Luiza_de_Gusmao">95</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Maria Francisca Izabel de Saboya</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Maria_Francisca_Izabel_de_Saboya">105</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Maria Sophia de Neuburg</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Maria_Sophia_de_Neuburg">118</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Marianna d’Austria</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Marianna_dAustria">124</a></td> - </tr> - <tr> - <td>D. Marianna Victoria de Bourbon</td> - <td class="tdpg"><a href="#D_Marianna_Victoria_de_Bourbon">135</a></td> - </tr> - <tr> - <td>Notas e documentos</td> - <td class="tdpg"><a href="#NOTAS_E_DOCUMENTOS">147 a 175</a></td> - </tr> -</table> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of As donatarias d'Alemquer, by -João Pereira Franco Monteiro - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS DONATARIAS D'ALEMQUER *** - -***** This file should be named 62766-h.htm or 62766-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/2/7/6/62766/ - -Produced by Pedro Saborano, Illustration from The Internet -Archive (TIA) and the Online Distributed Proofreading Team -at https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned -images of public domain material from the Google Books -project.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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